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Para facilitar seus estudos:

 Leia atentamente os módulos e se achar necessário responda


NO CADERNO as atividades propostas. Elas não são
obrigatórias.

 Consulte o dicionário sempre que não souber o significado das


palavras. Se necessário, utilize o volume da biblioteca.

 Se você tiver dúvidas com a matéria, consulte uma das


professoras na sala de História.

IMPORTANTE:

NÃO ESCREVA NA APOSTILA, POIS ELA SERÁ


TROCADA POR OUTRA.

A TROCA SÓ SERÁ FEITA SE A APOSTILA ESTIVER EM


PERFEITO ESTADO.
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A COLÔNIA EM CRISE
- SÉCULO XVIII -

Caro aluno, neste módulo você estudará o processo que provocou o fim do
sistema colonial aqui no Brasil e o que desencadeou à independência do Brasil.

Para isso, é
necessário estudar em
linhas gerais, a situação
européia e a crise do
Antigo Regime.

Ah! Você estudará também como foi o Primeiro Reinado, isto é, o governo
de D. Pedro I aqui no Brasil e os fatores que levaram a sua renúncia.

Então, para você entender o que


provocou o fim do sistema colonial é
necessário saber o que estava acontecendo
na Europa nesse período...

Em meados do século XVIII, surgiram


NOVAS IDÉIAS.

E essas novas idéias vão mudar a vida


de muita gente...
...inclusive, as colônias vão dar um basta a toda
exploração sofrida durante mais de três séculos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A SITUAÇÃO EUROPÉIA

• A CRISE DO ANTIGO REGIME

A partir de meados do Antigo Regime - era o:


século XVIII, com a evolução do
• Absolutismo - poder absoluto dos reis;
capitalismo, que passou de • Mercantilismo - economia dos reis e
comercial a industrial, e as • Sociedade Estamental - onde o lugar da
chamadas revoluções burguesas pessoa na sociedade era determinado pelo
(Revolução Industrial, Revolução nascimento.
• E também os privilégios da nobreza e do
Americana e Revolução Francesa)
clero.
foram colocados em xeque o
Antigo Regime, e o sistema
colonial, abrindo caminho para a Independência das colônias latino-americanas,
incluindo o Brasil.
Verificou-se nesta época, uma transformação importante na economia
mundial. Ao mesmo tempo da Revolução Industrial, operou-se a substituição
gradativa do capitalismo comercial pelo capitalismo industrial.

Mas como assim???


E O QUE ISSO SIGNIFICOU?

Veja bem, antes dessa época, quem possuía o capital (qualquer riqueza capaz
de dar renda e que se emprega para obter nova produção) eram os ricos
comerciantes. A indústria estava na fase do artesanato: o pequeno produtor
independente, o artesão, vendia seus produtos diretamente ao consumidor ou ao
grande comerciante que lhe fornecia a matéria-prima.
Com a Revolução Industrial, estabeleceram-se as grandes fábricas,
concentrando-se muitos trabalhadores, simples assalariados, dirigidos por um patrão,
dono da fábrica e do dinheiro, isto é, do capital. Para o capitalismo industrial, que
passou a dominar cada vez mais a economia, não interessava o monopólio
comercial.
Os industriais queriam o comércio livre, para poderem comprar a matéria-
prima de quem quisessem e venderem seus produtos nos mercados que
possibilitassem maiores lucros.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Ao mercantilismo opunha-se, portanto, o LIBERALISMO, denominação
dada ao conjunto de idéias contrárias à intervenção do Estado na economia e
favorável à livre iniciativa. O capitalismo industrial voltou-se contra todos os
monopólios. Espanha e Portugal resistiram o quanto puderam, já que, sem o
monopólio comercial sobre suas colônias, seus impérios não teriam sustentação.
Portugal, em particular, vivia apenas como simples intermediário do
comércio entre as suas colônias e os países europeus: levava os produtos do Brasil
para os mercados consumidores e trazia para cá as mercadorias necessárias ao
consumo da população.
Saiba que a manutenção desse monopólio só era possível mediante a
imposição de sérias restrições às atividades econômicas da colônia, impedindo
que fossem produzidas aqui as mercadorias vendidas pelos comerciantes
portugueses.
Não é preciso dizer o quanto essas medidas restritivas dificultavam o
desenvolvimento da colônia, além de criar inúmeros problemas.
Os fornecedores portugueses atendiam muito mal às necessidades da
população, facilitando com isso a expansão do contrabando.
Seria preciso mudar esse estado de coisas, cortar as amarras que forçavam o
Brasil a produzir para exportar, de acordo com os interesses da metrópole, em vez de
procurar atender às próprias necessidades.

Agora, conheça os TRÊS FATORES importantíssimos, que


provocaram a crise do sistema colonial na 2ª metade do século
XVIII e que marcaram a transição da Idade Moderna
para a Idade Contemporânea.

1) Revolução Industrial

Por volta da metade do século XVIII, especialmente na


Inglaterra, começaram a surgir as primeiras fábricas. A máquina a
vapor tinha sido uma invenção sensacional: sozinha, ela fazia o
trabalho de muitos homens, com a vantagem adicional de não
raciocinar nem reivindicar...
A burguesia esfregava as mãos de contentamento por causa
dos lucros. Enquanto isso, o proletariado (os trabalhadores
assalariados) rebentava o corpo horas a fio na fábrica, em troca de
míseros salários.

Por que a Inglaterra foi a pioneira (a primeira)


na Revolução Industrial?
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Em primeiro lugar, porque desde o século XVII, com a Revolução de 1640-
1689, a burguesia ocupava o poder. Isso quer dizer que o governo britânico fazia de
tudo para dar força aos negócios da burguesia.
A destruição do feudalismo tinha criado um enorme bando de pessoas
famintas e sem terra. Totalmente “livres” para optar entre trabalhar como
desgraçados numa indústria ou morrer de fome desempregados.
Os capitalistas chamam isso de “liberdade de escolha”.
Em segundo lugar, foi o enriquecimento de sua burguesia. Durante séculos
ela veio investindo e aumentando seu poder econômico. Foi a fase da chamada
acumulação primitiva de capital.

Como foi que a burguesia conseguiu crescer tanto a ponto de se lançar


para a conquista do mundo?
Trabalho? Esperteza? Sorte?

Na verdade, a origem da riqueza burguesa está ligada ao tráfico de


escravos, à exploração colonial, à pirataria, à expulsão dos camponeses de suas
terras, ao roubo e assassinato de milhões de indígenas, à miséria das famílias
endividadas, à ruína dos artesãos, às sangrentas guerras motivadas por
ambições econômicas.

Ainda bem que tudo isso é coisa do passado!


Você não acha?

Muitos outros fatores facilitaram a


O ILUMINISMO - propunha o fim do
Revolução Industrial inglesa. poder absoluto dos reis, o fim do
O espírito científico e racional do privilégios da nobreza e do clero -
Iluminismo, os investimentos em tecnologia, que eram características do Antigo
Regime, e defendia entre outras idéias,
as reservas de carvão, a poderosa marinha o liberalismo econômico (liberdade
mercante etc. para os negócios) e a igualdade
perante a lei.
Disso tudo resultou uma enorme
produção de mercadorias, com a consolidação do sistema capitalista. É evidente
que a Inglaterra buscou vender seus produtos no mundo inteiro. Estava lançada a
corrida pela disputa dos mercados mundiais.

Agora responda em seu caderno:


1) Como se deu a acumulação de riquezas pela burguesia?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

SER OU NÃO SER LIBERAL...

A Revolução Industrial e o triunfo do capitalismo contribuíram para mudar


o que muitos homens europeus pensavam sobre a economia e a política. Os
ideais do Liberalismo estavam vencendo.
O Liberalismo econômico foi brilhantemente defendido por Adam Smith
(1723-1790). Antes dele, os fisiocratas, economistas do Iluminismo francês, já
haviam defendido idéias semelhantes. Acontece que os fisiocratas achavam que
só a agricultura seria uma atividade produtiva. Ora Adam Smith já vivia numa
sociedade em que as fábricas nasciam uma atrás da outra. É claro que ele vai
reconhecer o valor do trabalho e se apaixonar pela indústria.
O objetivo de Adam Smith era mostrar que o mercantilismo tinha deixado
de favorecer os negócios. Ele dizia que a economia funciona muito melhor
quando o Estado não se intromete nela. Os empresários deveriam ter liberdade
total, assim a economia cresceria muito mais com o vale-tudo bem capitalista.
O liberalismo político já vinha sendo defendido pelos iluministas
franceses e por ingleses, como o filósofo John Locke (1632-1704). Eles
combatiam o absolutismo e pregavam uma sociedade em que estariam
garantidos os direitos de propriedade privada (para quem a possuísse, é claro!),
de liberdade individual e de igualdade jurídica (a mesma lei valeria para todos).

Para eles, o governo seria limitado pela Constituição e escolhido pelos


cidadãos, embora muitos liberais achassem que o direito de voto só deveria ser
dado aos que tivessem certa quantidade mínima de bens...
Como se vê, os liberais defendiam os interesses da burguesia da época.
Mas também é verdade que as liberdades democráticas eram uma importante
conquista do povo em geral. É por isso que muitas revoluções populares, nos
séculos XVIII e XIX, vão conter idéias liberais.

2) Revolução Americana

Em 1776, os Estados Unidos da América libertaram-se do domínio inglês.


Na Declaração de Independência foram estabelecidos a igualdade perante a lei, a
função dos governos de garantir os direitos dos governados e o princípio segundo o
qual o poder dos governos depende do consentimento dos governados.
A forma de governo adotada foi a republicana do tipo presidencialista,
com divisão e independência dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A
partir de então, outras colônias americanas começaram a lutar para libertar-se das
metrópoles. A independência dos Estados Unidos, despertou os sentimentos
emancipacionistas de todas as colônias americanas. Sua revolução vitoriosa diante
da poderosa metrópole inglesa, seu regime republicano diante de um mundo ainda
monárquico e sua constituição liberal, contrastando com o absolutismo europeu de
“direito divino”, fascinaram os colonos da América Latina.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
3) Revolução Francesa

O Antigo Regime na França parecia uma panela


de pressão pronta para explodir. Reis e nobres, morando
em palácios luxuosíssimos, eram sustentados por milhões
de camponeses famintos e esfarrapados. A burguesia, por
sua vez, exigia ter voz no governo. Para piorar a situação,
os cofres reais estavam vazios. Os gastos irresponsáveis
tinham raspado todo o dinheiro do fundo.
O assunto nas festas da nobreza era como
aumentar os impostos. O assunto no almoço do
camponês, quando havia o que comer, era como
triturar um nobre...
O rei Luís XVI ainda tentou contornar a situação.
Mas, a partir de 1789, a rebelião estourava em todo o país
e o rei foi para a guilhotina. Em Paris, os trabalhadores
pegaram em armas e garantiram a segurança dos
deputados que elaboraram a Constituição de 1791 e a
célebre Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, inspirada nos iluministas. O ILUMINISMO - propunha o fim do
Foram abolidos os privilégios feudais, e poder absoluto dos reis, o fim dos
no lugar do absolutismo implantou-se uma privilégios da nobreza e do clero -
que era características do Antigo
monarquia constitucional. Regime, e defendia entre outras
A Revolução Francesa também idéias, o liberalismo econômico
influenciou movimentos contra o colonialismo (liberdade para os negócios) e a
e os privilégios dos nobres em várias partes do igualdade perante a lei.
mundo, inclusive no Brasil.

Os iluministas acreditavam que só um tirano tentaria resolver problemas sociais


através da violência. Por isso, eles defendiam a educação como o grande caminho da
mudança.
Assim, as crianças deveriam aprender a amar a liberdade e a justiça, e teriam
uma sólida formação científica.
A tortura e a pena de morte seriam abolidas. As prisões visariam a reeducação
do criminoso.
A tolerância seria cultivada: não se perseguiria ninguém por suas próprias idéias
religiosas ou políticas.

Agora, pense...
Será que essas idéias seriam válidas hoje? Será que o Brasil
atual deixaria um iluminista satisfeito?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
• A CRISE DO SISTEMA COLONIAL

No final do século XVIII e comecinho do XIX as contradições entre Colônia


e Metrópole tinham se tornado insuportáveis. Era a crise do antigo sistema
colonial.

Para entender melhor a crise do sistema


colonial, é necessário voltar sua atenção
para as colônias aqui da AMÉRICA.

As colônias tinham seu próprio modo de ser, isto é, sua estrutura econômica e
social possuía autonomia. Não eram meros suplementos das metrópoles. A Colônia
“funcionava” do seu jeito, e o que aconteceu dentro dela, estruturalmente, explica a
crise do sistema colonial.

Mas o que será que aconteceu na


estrutura, dentro das colônias!?

É que as colônias tinham crescido. Sua


produção econômica, sua população, as
comunicações, tudo se desenvolvia.
Elas cresceram tanto que o sistema
colonial estava se tornando uma barreira que
impedia novos crescimentos. E tanto a elite
colonial como as camadas médias e populares
queriam crescer.
É como usar o nosso casaco de
infância. Ele era bonito e esquentava. Mas a
gente cresce e engorda. O casaco passa a
apertar e até a sufocar. É preciso tirar o casaco.
Assim, é fácil perceber que o casaco era o sistema colonial e que o strip-
tease seria a independência.

E como as colônias da América receberam as


mudanças ocorridas na Europa?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Bem, você não pode esquecer da Revolução Industrial, pois a Inglaterra
lançava "olhos gulosos" para os mercados consumidores que a América poderia
oferecer. Por outro lado, o pessoal das colônias também queriam comprar barato dos
ingleses, sem a intermediação da Metrópole.

Então, está na cara que a Inglaterra daria a maior


força para as independências, não é mesmo?

Assim, por um motivo ou outro, as colônias queriam a independência e o


recheio intelectual viria do Iluminismo e O ILUMINISMO - propunha o fim do poder
do Liberalismo. absoluto dos reis, o fim do privilégios da
nobreza e do clero - que eram
As elites liam tudo o que era características do Antigo Regime, e
novidade na Europa. Mandavam seus defendia entre outras idéias, o liberalismo
econômico (liberdade para os negócios) e
filhos para as universidades européias, e
a igualdade perante a lei.
eles voltavam falando de liberdade.
Nas treze colônias inglesas (atual Estados Unidos), o movimento de
independência teve características democráticas.
Mas, na América Latina, as elites eram muito poderosas e conseguiram
evitar uma participação mais profunda do povo.
Isso significa dizer que, aqui, as idéias do Iluminismo e do Liberalismo
foram filtradas pelas elites, ou seja, as elites só pegaram o que lhes interessava.
A parte democrática foi posta de lado, como idéia inventada por
estrangeiros inimigos da pátria...
Saiba que no começo do século XIX, a maioria das colônias se tornaram
independentes.

Nesta época, um novo domínio, mais sutil e oculto, estava


nascendo: o do capital inglês.

Agora responda em seu caderno:

2) A crise do sistema colonial provocou à independência das colônias


americanas? Elas ficaram realmente livres?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

E como será que foi a crise do


sistema colonial aqui
no Brasil??

Ao longo do tempo, o funcionamento do sistema colonial acabou gerando


uma contradição inevitável entre a metrópole e a colônia, que se expressava na
rivalidade:
desenvolver a colônia X explorar a colônia

Em outras palavras: não era possível continuar explorando a colônia sem


desenvolvê-la. Em contrapartida, ao se desenvolver a colônia poderia criar
condições para lutar pelo fim da exploração da metrópole.
Assim, ao mesmo tempo em que incentivava o desenvolvimento da colônia, a
metrópole tomava medidas para contê-lo, procurando para isso, controlar a elite
colonial.
Para controlar o desenvolvimento do Brasil (colônia), Portugal (metrópole)
adotou medidas como:
• Proibição, em 1751, do ofício de ourives (pessoa que dá forma ao ouro - faz
anéis, colares etc.), na região de Minas Gerais, para evitar o extravio de ouro. Em
1766, a medida foi estendida para Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.
• Proibição, em 1785, de todas as manufaturas têxteis (produção caseira de
tecidos), com exceção daquelas que produziam panos grosseiros de algodão,
destinados à vestimenta dos escravos ou à confecção de sacos. A medida tinha
como objetivo concentrar a mão-de-obra disponível na colônia essencialmente
em duas atividades: a agricultura exportadora e a extração de minérios. Os
tecidos e outras manufaturas usados pelos colonos teriam de ser importados
(comprados de outro país), através do comércio metropolitano.
• Proibição, até 1795, da instalação de indústria de ferro, obrigando os colonos a
importar (comprar) da Europa as ferramentas de que necessitavam.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O conflito de interesses entre colônia e metrópole agravou-se com o tempo,


gerando tensões que acabaram em rebeliões.

Agora você estudará em linhas gerais, duas rebeliões ou revoltas


ocorridas nesse período:

♦ A Conjuração ou Inconfidência Mineira;


♦ A Conjuração Baiana.

A palavra “Inconfidência” significa, segundo o Dicionário Aurélio, falta de


fidelidade, traição. No contexto do movimento ocorrido em Minas Gerais, podemos
questionar: Traição contra quem?
Contra o governo opressor que impunha a cobrança forçada de impostos
(“derrama”). Os que lutaram, principalmente Tiradentes, foram fiéis aos seus
ideais de liberdade. Por isso, o mais correto é dizermos Conjuração (conspiração
contra uma autoridade estabelecida). No caso os mineiros conspiraram contra o
domínio português.
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, tinha tudo para ser
contestador: era pobre, oprimido, inteligente e esclarecido. Deu duro na vida para
sobreviver: guiou mulas, procurou lugares de mineração, trabalhou com a enxada na
terra.
Cheio de imaginação, projetou um sistema de canalização de água
para o Rio de Janeiro. Mas não foi aprovado pelo governo. Era militar, mas
nunca fora promovido porque não possuía padrinho. Aprendeu francês e leu os
Enciclopedistas: tudo tinha a ver com ele.

Luta contra a tirania, liberdade e igualdade, esses sim eram os ideais de um


homem digno! É isso aí: pobre, digno e revolucionário.

No final do século XVIII, a situação estava preta em Minas Gerais. A ameaça


do governador, visconde de Barbacena, de cobrar à força os impostos atrasados, a
famosa "derrama", apavorava todo mundo. Não se podia mais aceitar a exploração
colonial. Era preciso lutar pela independência.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os "grandes" da região resolveram conspirar. Eram os latifundiários
(grandes fazendeiros), padres, militares de alta patente e os homens enriquecidos
com o ouro. Nomes famosos, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da
Costa e o cônego Luiz Vieira, ricos e intelectuais. Vários tinham estudado em
Portugal (Coimbra) ou na França, onde absorveram idéias iluministas.
Os conjurados (conspiradores) mineiros tinham projetos para o novo país.
A capital seria São João Del Rei, enquanto Vila Rica seria um centro universitário.
Criariam manufaturas (fábricas que utilizavam o trabalho manual) de pólvora, ferro
e tecidos.
Os nobres teriam de usar os tecidos nacionais. O governo, pela inspiração
dos Estados Unidos, deveria ser republicano. Mas o problema da escravidão ficou
em aberto.
Os conjurados eram donos de escravos e a maioria achava que “ainda não
era o momento de acabar com a escravidão”. O problema é que essa elite (ricos)
não tinham o menor contato com o povo.

O único vínculo era através de Tiradentes, este sim,


agitador entusiasmado e idealista. Nas ruas, estradas, bordéis
e tavernas, entre copos de cachaça e olhares sedutores das
mineiras, lá estava ele, ardente, atrevido e falador.

Um traidor, o coronel Silvério dos Reis, e mais dois oficiais,


para terem suas dívidas perdoadas, deduraram seus
companheiros de conspiração.
As autoridades agiram rápido e foi todo mundo em cana.

Pela primeira vez, os riquinhos sentiram na pele as pancadas da vida. O mau


caratismo proliferou: um acusava o outro, para se livrar da responsabilidade.
Choravam, implorando perdão. Um dos poucos com atitude digna foi Tiradentes.
Assumiu tudo de peito aberto, para alívio de seus acovardados cúmplices. O
julgamento foi uma encenação.
Primeiro, anunciaram a execução de vários. Depois que eles esvaziaram os
intestinos descontrolados e choramingaram feito crianças mimadas, as autoridades
mostraram o perdão da Rainha D. Maria. Em vez de morte, o degredo (expulsão do
Brasil) para a África.
Apenas Tiradentes seria executado. Por quê? O governo português sabia
que ele não era o principal líder, pois não era rico nem tinha curso universitário.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Claro que teve um papel importante, porque era o grande agitador junto ao
povo comum. Mas, um homem comum como ele, jamais seria aceito como líder
pelos ricos membros da elite colonial.

As autoridades portuguesas sabiam disso. Sabiam também que Tiradentes


estava querendo bancar o mártir, assumindo toda a culpa.

Por que então ele foi o único


executado?

Porque Tiradentes era o único pobre do grupo. Enforcaram-no para dar


exemplo para o povão. “Que nunca mais ninguém se atreva a se rebelar!”
O corpo de Tiradentes foi cortado em vários pedaços. A cabeça, decepada,
exibida em público, como exemplo da força do poder Real.
“Ninguém nunca mais ousará se revoltar no Brasil".
Porém, numa noite, apesar da vigilância dos soldados, a cabeça foi roubada e
nunca mais apareceu! Através do gesto simples e abusado, o povo dava seu recado
insubmisso às autoridades coloniais.

− Agora responda em seu caderno:


3) Relendo o texto sobre a Conjuração
Mineira, por que somente
Tiradentes foi executado?

Quase dez anos depois dos acontecimentos de Minas Gerais, surgiu um


movimento revolucionário na Bahia. Diferentemente da Conjuração Mineira, que foi
organizada pela elite colonial, a Conjuração Baiana, também conhecida como
Revolta dos Alfaiates, contou com a participação de pessoas das camadas sociais
mais humildes. Eram alfaiates, soldados, mulatos, negros livres e escravos
inconformados com a fome e a miséria.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os objetivos desse movimento estavam mais voltados às aspirações do povo,
pois reivindicava reformas contra as injustiças sociais e raciais da época.
Alguns homens ricos e cultos que participavam da Conjuração Baiana
recuaram quando perceberam seu alcance verdadeiramente popular.

Em Salvador na Bahia, na
manhã de 12 de agosto de 1798, há
uma aglomeração em torno do
pelourinho...

Ah! Era um cartaz que botaram


e, como quase ninguém sabia escrever, alguém o lê em voz alta.

Todos são iguais e


têm o mesmo direito à liberdade,
igualdade e fraternidade.

Era uma chamada para os baianos repetirem o que os jacobinos (grupo


formado por deputados, burgueses e intelectuais) estavam fazendo na França - uma
revolução onde “cada um, soldado e cidadão, independente de serem negros,
pardos, marginalizados e abandonados, todos seriam iguais, não haveria
diferença, só haveria liberdade, igualdade e fraternidade”.

Não havia somente um folheto para ser arrancado por algum riquinho que
passava por ali, havia muitos outros.
O projeto dos rebeldes baianos continha uma série de medidas importantes,
tais como:

• Romper com a dominação portuguesa e proclamar uma república


democrática.
• Abolir a escravidão do negro.
• Aumentar a remuneração dos soldados.
• Abrir os portos brasileiros aos navios de todas as nações.
• Melhorar as condições gerais de vida do povo.

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Assim, os revolucionários desejavam não somente romper com a
dominação colonial portuguesa, mas também modificar a ordem social interna do
Brasil, que se baseava no trabalho
A maçonaria era, na época, uma
escravo. organização secreta de ajuda mútua.
Os latifundiários exigiram Cada maçom deveria dar uma força
providências. As autoridades começaram a para um irmão maçom em
agir contra o movimento e contra as idéias. dificuldades.
Mas por onde começar? Geralmente os maçons eram
comerciantes, donos de oficinas de
artesanato, intelectuais e profissionais
Pela maçonaria: a loja Cavaleiros liberais.
da Luz difundia idéias iluministas. Mas era Isso ajuda a explicar o empenho
só ela? Não, era só uma ponta. Havia outra: da maçonaria em divulgar os ideais
Cipriano Barata, o médico dos pobres, o iluministas (liberdade e autonomia).
revolucionário de todas as revoluções.
Mais ainda? Sim, o O ILUMINISMO - propunha o fim do poder absoluto
dos reis, o fim dos privilégios da nobreza e do clero -
núcleo de revolucionários que eram características do Antigo Regime, e defendia
era composto por negros entre outras idéias, o liberalismo econômico (liberdade
e mulatos pobres, esses para os negócios) e a igualdade perante a lei.
sim, os mais perigosos.
Começou a repressão. Mais de cem pessoas na cadeia, a tortura. Os
trabalhadores portam-se com honra e altivez. Um deles, arrebentado pelas pancadas,
declarou, diante do irritado governador, que repartiria as fortunas dos ricos entre os
que nada tinham.
A resposta da Coroa: enforcamento de vários rebeldes.
Pedaços de corpos mutilados foram pendurados como carne de boi num
açougue. A lição para que o povo nunca mais fosse insolente.

Será que conseguiriam calar a multidão?

Bem, agora, antes de continuar estudando o


que acontecia aqui no Brasil é necessário
você saber qual era a situação européia no
início do século XIX, certo?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Como você já estudou, a Revolução Francesa ocasionou à derrubada do
governo absolutista de Luís XVI, sendo guilhotinado em 1793, na França. A vitória
da França provocou a ira de vários países europeus, que também eram absolutistas e
que tentavam combater o perigoso exemplo francês.
Em meio a essas guerras, surgiu um líder militar e político, que aproveitou
das dificuldades internas e do ataque internacional,
para assumir o governo francês com um golpe de
Estado, em 1799.
Quem foi esse líder?
Ora, era o baixinho Napoleão Bonaparte.
Após tomar o poder em seu país, Napoleão foi
vencendo a maioria dos inimigos e fazendo da França
uma potência no continente europeu.
Esse crescimento do poder francês não agradou
em nada a Inglaterra, maior centro capitalista e
industrial do período, e para superá-la, Napoleão
buscou o confronto direto, mas acabou derrotado pela
superioridade naval dos ingleses.
Como a França não conseguiu vencer militarmente a Inglaterra, tentou usar
uma outra estratégia. Napoleão resolveu isolar economicamente a Inglaterra. Como
assim?
Caro aluno, para isolar a Inglaterra, que é uma ilha, Napoleão decretou o
Bloqueio Continental em 1806, ou seja, os países do continente europeu não
poderiam comprar nem vender seus pr odutos para a Inglaterra.
A finalidade era sufocar os ingleses, impedindo que comprassem ou
vendessem para algum país europeu: “Quem comerciar com a Inglaterra, eu
invado!” disse Napoleão, e ele não estava brincando.

Portugal estava numa enrascada. Se atendesse às


ordens de Bonaparte, os ingleses invadiriam o Brasil.
Ficando com os ingleses, sofreria a vingança francesa.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Dom João, príncipe-regente (sua mãe, D.Maria,
tinha ficado louca), bem que tentou enrolar os dois
lados, fazendo promessas hora para um, hora para outro.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Fingia que dava uma dura nos ingleses, fechando os portos, mas por debaixo
dos panos, negociava alternativas com seus aliados. Pouco adiantou. Napoleão
pressionou e D.João, covarde, prendeu os ingleses residentes em Lisboa. Só que a
invasão francesa já estava em curso.
O pavor tomou conta da nobreza. Os ingleses propuseram um acordo:
escoltariam os navios portugueses levando o rei e os nobres em segurança até o
Brasil, mas D. João teria de se comprometer a seguir as cláusulas de um pacto
secreto que abriria os portos brasileiros.
Apesar da idéia de transferência não ser uma novidade, os portugueses foram
pegos de surpresa pelo ataque francês. Então escoltados pelos ingleses, cerca de 15
mil nobres se acotovelaram nos navios. Não sem antes saquear o ouro das igrejas e
do tesouro nacional. O povo que enfrentasse os invasores sozinhos!

Agora responda em seu caderno:


4) Identifique o motivo da vinda da família real para o Brasil.

Chegando ao Brasil, D. João tratou logo de agradar os ingleses: decretou a


Abertura do Portos (1808). Os ingleses e outros países amigos agora poderiam
comerciar diretamente com o Brasil. Isto é muito importante, pois praticamente
significava O FIM DO PACTO COLONIAL.
O Brasil só se separou politicamente de Portugal em 1822, mas a principal
característica da colonização, o monopólio, estava extinto desde 1808.

Em 1810, D. João assinou os Tratados do Comércio, Navegação e Amizade


com a Inglaterra. Pois esses Tratados de 1810 eram escandalosamente a favor dos
britânicos. Quando as mercadorias chegavam ao Brasil, tinham de pagar um imposto
alfandegário de 15% sobre seu valor. Agora compare as taxas aduaneiras que os
outros países pagavam (em porcentagem):
Viu!? Os ingleses pagavam
Estrangeiros 24 % menos impostos que os
portugueses!
Portugueses 16% Haveria alguma dúvida sobre
quem estava começando a
mandar por aqui?
Ingleses 15%

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Os livros escolares tradicionais falam que o “Brasil ficou independente


em 1822”. Como se o país mudasse de repente, sem mais nem menos.
Imagine que você saiba tudo o que aconteceu no Brasil e no mundo no dia 7
de Setembro de 1822, quando D.Pedro deu o grito do Ipiranga. Você conseguiria
explicar o por quê de o Brasil ter ficado independente? Claro que não! Porque a
independência do Brasil não foi causada pelo que aconteceu naquele dia, mas pelo o
que vinha mudando nas estruturas da sociedade brasileira colonial, mais ou menos
do período que vai de 1808 a 1822 - que levou à Independência.

Para entendermos a independência do Brasil temos de olhar para a


história do Brasil, para o longo processo de sua formação. Temos de entender
o que era a estrutura colonial, como ela foi se tornando contraditória e o que
vinha acontecendo no Brasil e no mundo, especialmente na Europa dos tempos
napoleônicos e no Brasil com D. João.

Quando chegou ao Brasil, D. João VI anulou o Alvará de 1785, de D. Maria,


que proibia manufaturas na Colônia. Ele tinha resolvido apoiar o desenvolvimento
industrial no Brasil. Realmente, até que apareceram algumas pequenas metalúrgicas
e manufaturas de tecidos nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Porém, foram
muito poucas.
Era difícil. Para começar, um país com tantos escravos e pobres não poderia
ter um crescimento industrial espetacular. A grande barreira veio, porém, com a
Abertura dos Portos e os Tratados de 1810. A partir daí, os produtos manufaturados
ingleses entraram facilmente no Brasil e faziam uma concorrência devastadora.
Como você poderia, por exemplo, abrir uma fábrica de chapéus, se os
ingleses na frente de todo mundo na Revolução Industrial, tinham condições de
vendê-los aqui com melhor qualidade e mais baratos?
Quem passasse no porto do Rio de Janeiro iria ver uma
enorme confusão.
Vinham para o Brasil, importados, coisas como pianos
austríacos, cerveja holandesa, licores e medicamentos
franceses, bonecas alemãs, azeite, bacalhau e vinho
portugueses, chá da Índia, pimenta, enxofre e azeite de dendê
africanos, queijos suíços e, principalmente, mercadorias
inglesas: tecidos de algodão, lã e linho, porcelanas, objetos de
metal e ferramentas, armas, sapatos, chumbo, cobre e etc. etc.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
É óbvio que o Brasil estava sendo CURIOSIDADE
amarrado à economia inglesa. Através do O Brasil ficou entulhado de
Rio de Janeiro, inclusive, os ingleses mercadorias britânicas de todos os
exportavam boa parte de seus produtos tipos.
para o resto do Brasil e para a América do Tinha até coisas incríveis, tais
Sul. como 'carteiras de dinheiro porta-
notas' (quando aqui só tinha
Com a balança comercial moedas...), patins para esquiar na neve
desfavorável, o Brasil pagava seus déficits de nosso inverno (?!) e talvez, quem
com dinheiro emprestado dos banqueiros sabe, até penicos de luxo, que tocavam
europeus. música quando o sujeito sentava...

Perceba que, desde aquela época, os capitalistas internacionais ganham à


custa de nossa dívida externa!

Agora responda em seu caderno:


5) O que provocou a balança desfavorável no comércio entre Inglaterra e
Brasil? Como saldávamos as dívidas?

Marajá é aquele funcionário público que, ao contrário dos outros, não


trabalha e recebe uma grana alta todo mês. No Brasil, o número deles
cresceu muito no regime militar após 1964. Entretanto já existiam há muito
tempo.
Quando os 15 mil nobres portugueses desembarcaram no Brasil, havia
um problema: o que fazer com eles? Eram um bando de parasitas ociosos. O
jeito foi arrumar-lhes empregos públicos. Para isso, foram criados cargos de
vários tipos, onde os “dito-cujos” não serviam para absolutamente nada.
Muitas coisas irritavam os brasileiros Com a chegada da nobreza, as
autoridades colocavam uma placa escrita P.R. (Príncipe Regente) nas ruas
das melhores casas. Isso queria dizer que o dono tinha de abandoná-la,
porque agora iria ser residência de um nobre português.
Os cariocas, como sempre ironizaram: P.R. queria dizer “Prédio
Roubado” ou, então, “Ponha-se na Rua”!
Os mais altos cargos da burocracia foram reservados para os nobres
portugueses. Os latifundiários brasileiros, que esperavam regalias,
começaram a se irritar.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Com a fuga da corte para o Brasil, Portugal ficou sob o domínio francês.
Durante 7 anos, o povo português lutou contra a ocupação. Em 1814, com a
expulsão dos franceses, Portugal passou a ser governado por um inglês. Por que
será?
Em 1815, as potências européias se reuniram no Congresso de Viena, que
visava colocar alguns soberanos (reis) no trono de seus países e restaurar o
absolutismo. Em Portugal isso não aconteceu, pois a família real estava aqui no
Brasil. Os reis europeus pressionaram D. João para que voltasse para a Europa.
Não querendo ceder a essas pressões, D. João transformou o Brasil em
Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves. Teoricamente essa lei favoreceu o
Brasil, pois como Reino Unido, subiu de uma condição de inferioridade (colônia) e
ficou unido a Portugal. Na prática, contudo, os portugueses continuaram dominando
o Brasil. D. Maria I (“a louca”) faleceu em 1816. O príncipe-regente tornou-se rei,
com o título de D. João VI.

O Rio de Janeiro cresceu bastante depois da vinda da Corte. Esse crescimento


não foi apenas por causa do número de indivíduos desembarcados, mas também por
causa da nova função da cidade.
Era um ponto de encontro de militares, de negociantes, de nobres e de todos
os tipos de poderosos.
Um papel destacado teve o Banco do Brasil, criado por D. João, em 1808.
Sua principal função não era promover o desenvolvimento econômico, mas captar
recursos para pagar as despesas do Estado. Mesmo assim, ele permitiu a ampliação
dos créditos (empréstimos) para fazendeiros e comerciantes.
Temos de ver a presença da Corte no Rio de Janeiro com posição crítica.
Sem dúvida a cidade cresceu, foi reformada, passou a ter o aspecto de uma cidade
européia.
Mas será que o povo trabalhador foi beneficiado?

D. João criou:
• A Biblioteca Real (hoje é a Biblioteca Nacional, uma das maiores do
mundo; fica no centro do Rio de Janeiro;
• O Museu Nacional, lá na Quinta da Boa Vista;
• O “belíssimo” Jardim Botânico;
• A Academia Militar;
• A Escola de Medicina.
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A chegada da Corte Real provocou excitação na aristocracia rural


brasileira. Nossas classes dominantes sempre foram “bajuladoras” dos
valores estrangeiros.
Conta-se que naquela viagem da Corte para o Brasil, os piolhos,
bichos democráticos por não distinguirem cabeças, infestaram os nobres.
No desembarque, estavam ali nossos aristocratas, vestidos à européia,
com paletós, luvas e casacos debaixo do sol tropical. Foi quando
desceram as damas portuguesas de crânio pelado. As brasileiras ricas
tiveram desmaios e gritos histéricos. “Vejam: é a última moda na Europa!”
E correram para se raspar também...
Será que hoje é tão diferente? É só verificar o pessoal usando
roupas com mensagens do tipo “I am an idiot” ou I♥ ♥NY...

Por que, além de biblioteca e museus, não se procurou alfabetizar a


população?
Daí, dá para pensar na minoria privilegiada que os freqüentava. O
Jardim Botânico procurou selecionar espécies vegetais que poderiam ser
aproveitadas nas fazendas escravistas, além de servir de bucólico
passeio para a aristocracia. Os médicos seriam para atender os pobres?
Fábrica de pólvora para usar as balas contra o povo?
A cultura popular era perseguida. Os batuques dos negros, por
exemplo, podiam ser proibidos porque, diziam que incitavam à revolta.
E os índios? No início do século XIX, a maioria deles estava
exterminada. Porém, havia tribos no Interior.
O que fez D. João? Autorizou o retorno das guerras justas, ou seja,
permitiu a escravização dos índios.

Em 1817, o rei enviou suas tropas


para a colônia espanhola, vizinha do Rio
Grande do Sul e atual território do Uruguai, que estava lutando para conseguir sua
independência. As ordens eram de invadir e dominar essas terras, com o objetivo de
ampliar o território brasileiro e garantir acesso ao rio da Prata.
Depois de muita luta, a região foi anexada ao Brasil com o nome de Província
Cisplatina, isto é, província que está antes do rio da Prata.

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Os moradores de Pernambuco
conspiravam para conseguir a
independência do Brasil. Os participantes dessa rebelião eram padres, militares e
civis, como juizes, comerciantes e proprietários de terras.
Os grandes proprietários rurais pernambucanos queriam resolver seus
problemas econômicos, decorrentes da diminuição das exportações de açúcar e
algodão.
Queriam também assumir o poder político, se não de todo o país, pelo menos
de sua região. As pessoas das camadas sociais populares queriam melhorar sua
condição de vida e desejavam igualdade de direitos. Havia até mesmo os que
defendiam o fim da escravidão.
Os participantes do movimento foram denunciados e o governador da
capitania mandou prendê-los antes dos planos estarem prontos. Os conspiradores
militares resistiram à prisão, provocando tumultos que deram início à revolta
popular conhecida como Revolução Pernambucana, em 1817.
O governador da Capitania fugiu para o Rio de Janeiro e uma junta
revolucionária tomou o poder, organizando o governo provisório, que proclamou a
República.
Os revoltosos conseguiram o apoio de várias capitanias do Nordeste.
D. João VI enviou tropas, que logo conseguiram recuperar o controle sobre todas as
capitanias participantes do movimento. A repressão foi violenta e a maioria dos
revoltosos, executada.

Em 1820, a população da cidade portuguesa do Porto,


influenciada por idéias liberais, fez uma revolução com o objetivo
de estabelecer um governo constitucional. O rei, ao perceber que havia
perdido o poder absoluto, ficou com medo de perder também o trono.
Em abril de 1821, atendendo às exigências dos revolucionários
portugueses, voltou com sua corte para Portugal, deixando no Brasil, como
príncipe regente, seu filho D. Pedro.
A própria revolução do Porto tinha uma contradição: ela era
liberal para os portugueses e conservadora para o Brasil. Liberal, porque buscava o
fim do absolutismo português, conservadora, porque tentou recolonizar o Brasil.
Mas os brasileiros já tinham provado o gostinho da liberdade e não iam perdê-la. A
independência era questão de tempo.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Dizem que, pouco antes da partida, pai e filho, rei e príncipe, tiveram uma
conversa de homem para homem.
Pedrinho imaginou que seria sobre mulheres e algumas verdades da vida, mas
seu pai logo o interrompeu, mostrando que o assunto era outro. O velho D. João
estava sacando que o Brasil iria acabar se separando e por isso, preocupado, falou
para o filho algo do tipo: “Pedrinho, fique esperto e segura essa bocada!”
Bem, talvez não tenha sido bem assim. A História oficial conta que
D. João VI teria falado um tanto diferente, algo como: “Pedro, se o Brasil se separar
de Portugal, que antes seja para ti, que és meu filho e hás de me respeitar, do que
para qualquer um desses aventureiros.”
De qualquer forma o que vale é o núcleo da idéia. D. João estava
percebendo que o medo dos latifundiários (grandes fazendeiros) de um movimento
popular pela independência (que o preconceito real denominava “aventureiros”)
poderia dar oportunidade para D. Pedro se conservar no poder.
Era isso mesmo. A presença da Corte no Rio de Janeiro tinha criado uma
máquina de administração e domínio, de que as classes dominantes queriam se
aproveitar. Não precisava mudar muita coisa. Bastava um ajuste aqui, outro lá, e
arrumar a pecinha: D. Pedro.
O príncipe D. Pedrinho gostou da idéia. Ele era um típico filhinho-de-papai,
reacionário (conservador) até a medula. Não via com bons olhos o governo liberal
em Lisboa. Formado na ideologia absolutista, pensou que aqui governaria sozinho.
A gente pega os livros tradicionais e lê que D. Pedro foi o “herói da
Independência”. É como se, de repente, ele tivesse
feito o caridoso favor de nos emancipar, é como se
não fosse pela vontade dele não teria havido
Independência.

Bolas, aconteceu o contrário! As classes


dominantes na Colônia tinham um medo danado da
revolta popular. Então, a saída era a separação, mas
tranqüila, sem alterar muito. Daí os latifundiários
terem escolhido o príncipe português para ficar na
frente da emancipação em relação a Portugal.
O príncipe D. Pedro foi, então, simplesmente
um instrumento usado pelas classes dominantes. Ele
foi manobrado pelos brasileiros, sem sentir que
estava sendo empurrado.

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Agora responda em seu caderno:


6) Releia o texto: “A família real foi embora” e destaque o trecho que você
achou mais interessante.

...e como eram os


PARTIDOS POLÍTICOS
nessa época?

Naquela época, não existiam partidos políticos como hoje, isto é, com sede,
direção escolhida, programa, concorrendo às eleições, etc.
Os partidos eram grupos de pessoas com interesses e idéias mais ou menos
parecidos.
• O Partido Português não tinha só portugueses. O que acontecia é que havia os
comerciantes interessados no retorno do Pacto Colonial. Junto deles estavam os
militares portugueses e alguns funcionários da Coroa. Para eles, a independência
nunca poderia ocorrer.
• O Partido Brasileiro tinha brasileiros e até portugueses. A diferença não estava
no local de nascimento, mas sim na situação social. Ali estavam os homens mais
ricos da Colônia: latifundiários, altos funcionários da burocracia estatal e
comerciantes ligados ao comércio inglês ou francês e traficantes de escravos.
Evidentemente, queriam o fim das restrições coloniais, mas democracia não
constava no seu dicionário. Seu líder era José Bonifácio de Andrada e Silva.
• Os radicais eram um pequeno grupo com influência nos setores médios urbanos:
pequenos comerciantes, advogados, padres, professores, farmacêuticos,
funcionários públicos do baixo escalão, alfaiates, estudantes, ourives etc. Eles
vinham da longa tradição de revoltas anticoloniais e republicanas. Para eles, a
independência do Brasil deveria ter algo parecido com a Independência dos EUA
ou a Revolução Francesa, com garantia de liberdades individuais.

A grande maioria do povo brasileiro não participava


diretamente dessas movimentações políticas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Escravos ou lavradores pobres, submetidos aos latifundiários, morando no
campo e sem qualquer informação sobre o que acontecia na cidade, permaneciam
passivos diante dessas movimentações.

D. Pedro tinha apoio dos brasileiros (o Partido Brasileiro) e, naquele


momento, de alguns dos radicais de Gonçalves Lêdo, que procuravam atrair o
príncipe para suas posições. Com esse apoio, sentia-se capaz de peitar as instituições
arrogantes e recolonizadoras das Cortes.
O governo português deu ordens para que D. Pedro retornasse a Lisboa. Uma
multidão foi para as ruas do Rio de Janeiro e pediu para ele desafiar a ordem
recebida. Ouvindo os conselhos de seus poderosos assessores, respondeu que
aceitava a “solicitação” do Senado e da Câmara do Rio de Janeiro. No dia 9 de
janeiro de 1822 disse:
“...se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação,
diga ao povo que fico.”
Você já ouviu esta frase antes, não é mesmo?
Esse é o famoso Dia do Fico.
Uma semana depois, D. Pedro nomeou um ministério que tinha à frente um
brasileiro: José Bonifácio de Andrada e Silva. Em fevereiro, D. Pedro convocava o
Conselho de Procuradores Gerais das Províncias do Brasil. A idéia era preparar a
união de todas as províncias (Estados), para impedir a fragmentação política
(separação).
Perceba uma sutileza: D. Pedro estava claramente armando a
independência, devagar e sem alarde, com um detalhezinho à toa, que era a
total ausência de participação popular.
Os radicais queriam que a união viesse através de uma Assembléia eleita
pelo povo, mas José Bonifácio, D. Pedro e os brasileiros manobraram contra isso.
Os livros escolares apresentam a independência como uma simples luta
entre Colônia e Metrópole. Porém, atrás disso estava o combate entre o autoritário
e elitista Partido Brasileiro e o democrático grupo radical, que, na verdade,
representavam distintas classes sociais.
Em maio de 1822, decretou-se o Cumpra-se. Os decretos das Cortes
portuguesas só valeriam se tivessem autorização do príncipe. Mais um passo no
caminho da Independência.
Em junho, D. Pedro convocou eleições para uma Assembléia Constituinte.
Os radicais queriam eleições diretas e direito de voto para todos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
E os conservadores (brasileiros), liderados por José Bonifácio que,
inicialmente, era contra a Constituinte (houve até quem contasse que ele teria dito:
“Hei de enforcar esses constitucionais na Praça da Constituição”), fizeram seus
pontos de vista prevalecerem: voto indireto e proibido aos que recebessem salário
(com algumas exceções, como os administradores de fazenda).
Em setembro de 1822 as Cortes Portuguesas enviaram, então, um ultimato:
“Voltai imediatamente!”
Não havia outra saída, D. Pedro estava viajando para São Paulo, quando fez a
pose para a foto. Era o dia 7 de setembro do ano de 1822. Deu o famoso berro:
Independência ou Morte! De preferência, independência para as elites, morte só
para o povo.
Em outubro seria aclamado e, em dezembro coroado imperador.

MAS, PORQUE SERÁ QUE O


POVO NÃO FOI CONSULTADO!?

O Brasil estava politicamente independente.


Mas essa independência tinha sido uma mudança
conservadora, OU SEJA, o Brasil permanecia
dominado pelos grandes proprietários escravistas e
pelos grandes comerciantes.
Certamente não éramos mais uma colônia.
Portugal estava fora e comercializávamos com quem
queríamos. Só que, agora, quem exercia muita pressão
sobre a gente (sem nos colonizar) era a Inglaterra.
Nos invadia com suas mercadorias
industrializadas e, assim, praticamente impedia nosso
desenvolvimento fabril, ou seja, a abertura de
manufaturas ( fábricas).
Emprestava dinheiro a juros altos e nos explorava com a dívida externa.
(Parece que já vimos esse filme, não é mesmo?) Em relação à Europa que se
industrializava, o Brasil se reduzia a um mero exportador agrícola.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Essa relação com a Inglaterra capitalista e industrial, note bem, certamente
era diferente da antiga relação com Portugal feudal e mercantilista.
Todavia, é preciso que você perceba um ponto que os livros escolares omitem
(escondem) com freqüência: ela não era resultado exclusivo do poder da Inglaterra.
A situação do Brasil atendia diretamente às elites nacionais, ou seja, os
poderosos daquela época.

 O Vulcão e o Trono

Pense um pouco: não é


meio esquisito que o primeiro
governante do Brasil
independente tenha sido
D. Pedro I ?
Puxa, ele era português.
Mais ainda, era um príncipe
português.
Mais e mais ainda, era um
príncipe português, filho do rei da
Portugal e herdeiro direto do
trono em Lisboa!
O que acontecia é que as
elites brasileiras tinham pavor de
uma revolta popular.
O fantasma da Revolução Francesa, com o povão pegando em armas e
exigindo direitos democráticos, rondava todo o mundo ocidental, incluindo as
colônias na América. Para se livrar da Metrópole seria preciso derrubar o governo
colonial. Mas haveria o risco da instabilidade, do esvaziamento do poder, da
agitação das ruas.
Como evitar? Era preciso resolver a equação política: como romper com
Lisboa sem derrubar o governo na Colônia, evitando o descontrole da multidão?
Resposta: mantendo o príncipe português.
O Dr. Raymundo Faro, em sua obra "Os Donos do Poder", disse que no
Brasil as elites enxergavam o povo como um vulcão prestes a explodir.
A política, para as classes superiores, consistir-se-ia em evitar a erupção
desse vulcão popular.
Foi o que levou D. Pedro a sentar-se no trono verde-amarelo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

 Quem realmente faz a História?

Os livros tradicionais de História estão sempre falando de nomes de reis,


generais, milionários e outros figurões. Ficamos com uma impressão de que, para
poder participar das mudanças na sociedade, é preciso ser alguém muito especial.
Por essa visão, as pessoas comuns (e somos a maioria!) devem se resignar a
ficar quietas e caladas.
Nas escolas perguntam assim: “Quem fez a independência do Brasil?”
Resposta: D. Pedro I. “Quem libertou os escravos?” Resposta: Princesa Isabel.
“Quem descobriu o Brasil?” Resposta: Pedro Alvares Cabral. É como se alguns
poucos heróis, sozinhos e por vontade própria, pudessem mudar o curso da
História.

Uma andorinha só não faz verão. Um sujeito só não faz a História. Quem
faz a História são as classes sociais em luta por seus interesses econômicos,
ideológicos e políticos.
Leia o poema do dramaturgo (autor de teatro) alemão do século XX,
chamado Bertold Brecht, na página seguinte.
Dá para você perceber como ele critica a História Tradicional, a que só fala
dos reis, dos césares, dos generais, dos ricos?
Com ironia, Brecht pergunta
pelo povo trabalhador, pelos pedreiros
da muralha da China, pelos escravos
de Atlântida, pelo cozinheiro de Júlio
César, o general de Roma.
A maioria das pessoas não
percebe o quanto a escola dá uma
educação política.
Se o homem comum do povo,
como eu e você, achar que a História
é feita somente pelos grandes
homens, acaba convencido de que ele
e o povo, gente simples e comum, que
tem conta a pagar, dor-de-barriga e
calças velhas, são incapazes de
mudar a sociedade.

Vão abaixar a cabeça e aceitar


qualquer exploração,
como cordeirinhos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Imagine operários trabalhando numa fábrica. Um calor infernal, o
encarregado exigindo mais eficiência e produção, um barulho ensurdecedor, a
ameaça de serem despedidos, a cansaço, o salário miserável, a fome. Como se livrar
da opressão?
Se acreditam na lição que aprenderam na escola, que a Princesa Isabel
libertou os escravos, então nunca irão lutar pelos seus direitos.
Aprenderam a não acreditar nas suas forças, na capacidade de união de seus
companheiros. Supõem que suas vidas só irão melhorar quando aparecer algum
figurão para socorrê-los, quem sabe um novo patrão bem bonzinho!
Minha gente, direitos nunca são doados. Ninguém dá direitos a outros de mão
beijada. Direitos não vem através da caridade.
Os poderosos só abrem mão de seus privilégios, depois de terem sido
derrotados. O direito é sempre conquistado. E conquista envolve luta.
O povo trabalhador conquista seus direitos quando, unido e organizado, luta
para arrancá-los das classes dominantes.
Essa conversa de que quem faz a História são os heróis não é encontrada só
na escola. Na televisão, nas histórias em quadrinhos, vemos aos montes os
“salvadores dos oprimidos-coitadinhos”.
Sempre a mesma idéia: “o povo é fraco, é incapaz, é ignorante...”.
D. Pedro não foi o autor da Independência do Brasil. Ele era apenas a pecinha
de uma grande máquina, controlada pelos grandes latifundiários (fazendeiros) e
apoiada pela Inglaterra.
Se, em alguns momentos, ele assumiu um papel importante, e até de
liderança, foi porque tinha o apoio de poderosos grupos.

...e o povo?!

Ah! ...o povo não aparece nos livros didáticos tradicionais...

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ


Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída?
Quem a reconstruiu tantas vezes?
Em que casas da Lima dourada moravam os operários?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de Arcos do Triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogaram gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar os tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.


Sozinho?
César derrubou os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.


Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.
Bertold Brecht

Agora responda em seu caderno:


7) Refletindo sobre o texto acima, quem são os verdadeiros heróis na História do
Brasil?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Com a independência o Brasil acabava de se tornar um Estado, isto é, país


livre e com organização própria. O Estado Brasileiro nascia com um governo
monárquico. Seu nome passou a ser Império do Brasil.
Quando surge um novo Estado, junto com ele surgem também algumas
necessidades. É preciso organizar a coleta de impostos para o Estado ter dinheiro
para pagar, por exemplo, os funcionários públicos. Até 1822, os funcionários
públicos, trabalhavam em instituições organizadas pelo governo português. Para
garantir nossa independência, o Estado Brasileiro precisava organizar as forças
armadas, pois nas províncias da Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Cisplatina havia
tropas portuguesas dispostas a lutar contra a separação de Portugal.
D. Pedro I recorreu a estrangeiros para organizar as forçar armadas
brasileiras. Contratou alguns militares europeus que já tinham colaborado nas lutas
de independência das colônias espanholas. O almirante escocês lorde Cochrane, foi
o primeiro chefe da Marinha brasileira. Sob o seu comando, a Marinha brasileira
conseguiu dominar as tropas portuguesas que ainda resistiam à independência na
Bahia, Maranhão, Piauí e Pará.
As tropas brasileiras que dominavam a Província Cisplatina renderam-se ao
cerco que lorde Cochrane fez a Montevidéu. A situação dessa província, no entanto
não foi resolvida definitivamente. Colonizada pelos espanhóis e dominadas por
tropas portuguesas enviadas por D. João em 1817, como você já viu. A província
Cisplatina tinha pouca coisa em comum com o Brasil. Seus habitantes desejavam se
tornar livres e logo em seguida começaram uma guerra de independência.
É importante, para um país, estar bem relacionado com os outros. Isso traz
segurança política e possibilidades comerciais.
Logo que proclamou a Independência, o novo governo brasileiro buscou o
reconhecimento oficial de diversos países.
O primeiro deles foram os Estados Unidos (1824). Eles tinham medo que
uma intervenção européia no continente ameaçasse sua própria integridade nacional.
Quanto mais independências houvesse na América, mais seguros os Estados Unidos
se sentiriam. Por isso formularam a Doutrina Monroe: “América para os
Americanos”, ou seja: “europeus, não se metam!” O chato é que no século XX a
doutrina Monroe passou a significar “América para os norte-americanos”.
Os ingleses estavam numa posição parecida com a do sujeito que tem vontade
de continuar com a amante, mas não quer se separar da esposa: desejava
comercializar com o Brasil, sem perder a aliança com Portugal. Bem, em muitas
ocasiões, o dinheiro resolve boa parte dos problemas, não é mesmo?
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O Brasil, além de outras exigências cumpridas, pagou a Portugal uma
indenização de dois milhões de libras esterlinas.
...E como é que arrumamos dinheiro para pagar a conta?
Pedindo emprestado aos banqueiros ingleses. E será que Portugal ficou com
essa grana toda? Claro que não! Portugal devia aos ingleses e teve de pagar.
Adivinha quanto? Isso mesmo: cerca de dois milhões de libras esterlinas...
Conclusão: os ingleses acabaram emprestando para eles mesmos e nós é que
pagamos os juros! É algo parecido com o marido que paga o motel do amante de sua
esposa...
Uma vez que Portugal, depois que o Brasil cumpriu suas exigências, tinha
aceitado a Independência brasileira (em 1825), os outros países passaram a nos
reconhecer diplomaticamente.
Os ingleses como sempre, fizeram exigências. Uma delas, bem pesada, era a
renovação dos ultrafavoráveis tratados de 1810. Foi então, assinado o Tratado de
1827 (que durou até 1844), que cobrava uma tarifa alfandegária de apenas 15% para
seus produtos (tal como nos tratados de 1810, no tempo de D. João, lembra-se?).
Enquanto os ingleses nos entulhavam de manufaturados, nem sempre
importavam muita coisa do Brasil, já que boa parte dos tipos de nossos produtos
exportados eram encontrados nas colônias britânicas.
Veio um trem de concessões favoráveis às potências estrangeiras, quando em
1828, o governo brasileiro estabeleceu tarifas de 15% para todo mundo. O Brasil
estava se tornando um esposo que sustentava todos os amantes de sua mulher.

Um governo antidemocrático
O Brasil é um país que na sua história tem mais eleições pra “Rainha da
Primavera” e “Gata Verão” do que para escolha de governo. Nenhum
trabalhador votou em D. Pedro. Ele foi selecionado pelos homens mais ricos
do país e deveria governar em favor deles. O Estado tinha como principais
tarefas garantir a propriedade e os privilégios e reprimir revoltas populares.
Portanto, o governo de D. Pedro nada teve de democrático. Pelo
contrário, foi um período em que cresceram as oposições e ele respondeu com
repressão. O psiu de silêncio foi feito com a espada e o canhão. É assim que o
ex-professor da Universidade de Brasília, Hamilton M. Monteiro o caracteriza:
“A História do Brasil, de 1821 a 1831, é a história da violência das forças
conservadoras, prendendo, banindo do país e condenando à morte os líderes
populares e democráticos: é a história das devassas por delito de opinião, da
censura à imprensa, da suspensão das garantias individuais e da instalação
das tais odiosas comissões militares.”

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Assim que foi proclamada a Independência, parecia uma lua-de-mel do


Imperador com quase todo o Brasil:

D. Pedro I Portugueses Brasileiros Radicais


+ + +

Podemos perguntar o porquê de o Partido Português, composto por


comerciantes, burocratas e militares que se beneficiavam com o Pacto Colonial, ter
apoiado D. Pedro. É que eles raciocinavam mais ou menos assim: “Se a derrota foi
inevitável, relaxe e aproveite”. Sua esperança estava em poder influenciar o
imperador (que era herdeiro do trono português!) e apoiar um reforço de seus
poderes, para, em troca serem beneficiados. É quando se chocam com o Partido
Brasileiro.
Os brasileiros desejavam um poder executivo forte nas mãos do imperador,
mas queriam exercer uma vigilância direta por meio do poder legislativo: pelo sim
pelo não, atacaram os portugueses, pois temiam sua aproximação com o imperador.
Temos, então, uma briga que apareceu na Assembléia Constituinte de 1823 e
seguiu cada vez mais aguda:

XBrasileiros Portugueses
Certos limites Poderes totais
ao Imperador ao Imperador

Os latifundiários não estavam unidos. Um setor apoiava a centralização da


administração e do poder político em torno do imperador: eram os beneficiados por
estar na região onde se colocava o poder, ou seja, os latifundiários do Sudeste,
particularmente ligados ao porto do Rio de Janeiro, os comerciantes e os burocratas.
Esse ponto é importante frisar: a vinda da família real para o Brasil
significara o fim do monopólio colonial dos portugueses. Mas havia uma nova
forma de monopólio, através do papel de controle econômico-administrativo do Rio
de Janeiro.
É como se o Rio e o Sudeste fossem a nova metrópole. Esses novos
interesses do grupo de latifundiários-burocratas-comerciantes do Rio de Janeiro
constituíram o Partido Brasileiro. Com isso, os latifundiários das províncias
distantes, no Nordeste e Sul, protestaram. Temos aí o conflito.
O liberalismo político brasileiro era peculiar. Para os latifundiários, ser liberal
era querer a liberdade econômica e a soberania nacional. Nada a ver com
democracia, nem com direitos para o povo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os autores de livros didáticos, e até mesmo alguns historiadores respeitáveis,
costumam se “embananar” com o tal “liberalismo brasileiro” da época.
Fica difícil dizer quem era liberal e quem era conservador. É que liberal não
era sinônimo de democrata. Além disso, nós não podemos cair na armadilha do
vocabulário da época, que fazia com que a palavra liberal fosse usada sem precisão.
É o caso dos radicais. Assim como, ainda hoje, basta uma pessoa não admitir
certas injustiças para que lhe acusem de ser comunista (o que acaba sendo um elogio
aos comunistas), na época eram chamadas de radicais pessoas dos mais diferentes
tipos.
Ora, como é possível que um radical como José Clemente Pereira tinha se
tornado ministro de Pedro I?

Eram a favor da
centralização do poder
(beneficiados com o Queriam maior
controle do Rio sobre as autonomia para as
demais províncias). Províncias.

Esses radicais representavam os setores médios urbanos e, evidentemente,


queriam ampliação dos direitos políticos. Mas não pensavam igual, Gonçalves Ledo,
por exemplo, que era filho de comerciante abastado, aceitava a monarquia
constitucional, o que é bem diferente de democratas realmente radicais, republicanos
e a favor do voto popular, como o grande baiano Cipriano Barata.
José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos líderes do Partido Brasileiro, tinha
posições contraditórias. De um lado, combatia a extrema direita, os corcundas
(“portugueses”), pois estes queriam poderes quase ilimitados para o imperador.
Contra os liberais, entretanto, mostrou toda a sua face repressora e reacionária.
Desde que se tornou ministro de D. Pedro, criou cargos de polícia com finalidade
exclusiva de mandar violar correspondência; autorizou a expulsão, do Rio de
Janeiro, de cidadãos acusados de “tramar contra a ordem pública”; estabeleceu
rígida censura sobre a imprensa; deu ordem para prender os radicais.
A grande maioria do povo brasileiro da época vivia na zona rural. Escravos
ou livres, eram trabalhadores pobres, analfabetos, distantes das informações e
desorganizados. Desconheciam a vida política das cidades, a agitação dos radicais,
os ataques dos jornais de oposição, as conversas inflamadas nas esquinas e nas
mercearias. Com a sabedoria do caboclo, desconfiavam de que as mudanças na
Corte sempre acabavam em prejuízo dos pobres.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O povo não era apático ou desinteressado.
Os brasileiros pobres sempre lutaram contra as classes opressoras.
Ao contrário do que dizem, não somos de “índole pacífica”.
Nossa história está cheia de rebeliões populares, guerrilhas, motins, protestos,
saques e outras táticas de defesa.

O que não havia era a forma usual de fazer política. Existia uma participação
política popular importante, embora subterrânea e algo inconsciente.

Os movimentos quilombolas eram altamente políticos, pois contestavam a


ordem social baseada no trabalho escravo e no domínio de classe dos proprietários
das terras. O que acontece é que, obviamente, não havia um Partido dos Quilombos
concorrendo às eleições ou a candidatura de Ganga-Zumba à presidência da
República.

D. Pedro I, ao ouvir falar do povo, sentia vontade de pôr a mão no seu


chicote. Só que se mostrou uma peça incapaz de fazer funcionar bem uma máquina
atormentada por tantas contradições: conservadores X liberais, “portugueses” X
“brasileiros”, Sudeste X Províncias distantes do Rio, anti-democratas X radicais,
senhores X escravos, classes ricas X camadas populares.
Autoritário, aproximou-se cada vez mais do grupo “português”, assustando os
que temiam a recolonização:

D. Pedro I “Portugueses”

“Absolutistas”

Brasileiros Radicais

“Liberais”

A partir daí, ele perdeu o apoio do principal grupo que o sustentava, os


latifundiários e os grandes comerciantes do Rio de Janeiro. Sem força, caiu em
1831.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A primeira Constituição que o Brasil teve era


muito antidemocrática. E foi a que mais tempo durou...
A Assembléia Constituinte tinha sido convocada
por D. Pedro, e se reuniu em 1823. Na abertura dos
trabalhos, o imperador fez um longo discurso, dizendo
que defenderia a Constituição caso “ela fosse digna do
Brasil e de mim”.
Sentiu a cara-de-pau do moço? Ele se julgava no
mesmo nível de importância do Brasil inteiro. Mais
ainda, pois completou: “...espero que a Constituição que façais mereça minha
imperial aceitação...”
Esse “Brasil” de que ele falava era apenas a minoria dos ricos e
abastados que ali estavam representados na Assembléia. Como eles tinham
interesses divergentes, logo surgiram conflitos.
Primeiro, porque hostilizavam-se os portugueses residentes no Brasil. Nos
discursos da Assembléia Constituinte, eram comuns palavras como estas: “Falemos
claro; é quase impossível que um português possa amar de coração uma situação que
implica a ruína de sua pátria de origem.”
O Partido Português se defendia, aproximando-se do Imperador e apoiava
suas pretensões autoritárias.
Temos aí um segundo motivo para o conflito. O deputado Antonio Carlos de
Andrada e Silva (irmão de José Bonifácio) tinha elaborado um projeto de
Constituição em que se propunha a limitação dos poderes do imperador.
Não que fosse uma proposta democrática (voltada para o povo), pois queria
um poder executivo forte e direito de voto limitado aos cidadãos com renda superior
ao equivalente a 150 alqueires de mandioca. Daí, o povo, sem direitos eleitorais,
apelidou-a de Constituição da Mandioca.
Acontecia que D. Pedro I não estava disposto a aceitar limitações ao seu
poder. Ele era muito autoritário. E como tinha o apoio dos portugueses e de alguns
setores latifundiários, não teve conversa: mandou as tropas fecharem a Constituinte.
D. Pedro fez como tantas vezes aqui e em outros lugares: acabou com a
liberdade, sob o pretexto de preservá-la. Prometendo uma nova Constituição,
“duplamente liberal”.
Em alguns dias, um Conselho de Estado, um bando de figurões reacionários
nomeados por ele, preparou o texto, que foi outorgado, isto é, imposto sem
discussão. Sua cara-de-pau chegou ao ponto de ele jurar obedecer a essa
Constituição (“Eu juro que me obedeço! Eu me amo! Eu me adoro!”).
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A Constituição de 1824 tinha uma casquinha que seguia alguns princípios


liberais. Entretanto, o miolo era basicamente autoritário. Mas não chegava a ser
absolutista, como dizem alguns livros, pois em monarquias absolutista não existiam
Constituições.
Para começar, o voto era censitário, isso quer dizer que só podia votar quem
tivesse uma renda, de no mínimo 100 mil réis anuais e fosse maior de 25 anos. Para
piorar, o voto era indireto. Isso quer dizer que o eleitor não votava diretamente nos
deputados e senadores: ele apenas escolhia os votantes.
Só podia ser votante quem tivesse uma renda mínima de 200 mil réis anuais.
Esses votantes é que podiam escolher quem seria deputado e senador. Estava claro
que o povo trabalhador ficava fora das eleições.
O Poder Legislativo (faz as leis) era formado pela Assembléia Geral do
Império, composta pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Num flagrante
desrespeito à lei, o imperador só permitiu que a Assembléia funcionasse partir de
1826.
O Poder Judiciário tinha os juizes dos tribunais nomeados pelo imperador.
O Poder Executivo tinha como chefe o imperador e era exercido pelos
ministros, que ele nomeava sem dar satisfações ao povo nem à Assembléia.

Era a moda trazida de Paris, era um quarto poder inventado por um pensador
reacionário (contrário à liberdade), chamado Benjamim Constant. O Poder
Moderador dava poderes discricionários, (quase ilimitados) ao imperador, que,
assim, tinha uma autoridade indiscutível sobre os outros poderes: podia nomear e
demitir ministros, fechar a Assembléia Geral, demitir juizes do Supremo Tribunal e
convocar tropas a hora que quisesse sem prestar contas a ninguém.
O poder estava totalmente centralizado. Isso quer dizer que os governadores
das Províncias eram nomeados pelo imperador e todas as decisões importantes sobre
as Províncias do Norte, do Nordeste ou do Sul não eram tomadas pelos de lá, mas
pelos do Rio de Janeiro. Os impostos pagos pelas províncias ficavam na capital.
Assim, o Rio de Janeiro e as províncias próximas eram as principais beneficiadas.
Foi uma verdadeira ditadura do Sudeste sobre o resto do Brasil.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A Igreja Católica foi
oficializada. Através do
padroado, os bispos
passaram a ser pagos pelo
governo, que também os
nomeava.
As instruções do papa
só valeriam no Brasil caso
contassem com a
autorização do imperador.
Como se vê, a Igreja
era aliada do poder
estabelecido, “desobedecer
às autoridades era contrariar
a vontade de Deus”.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Agora responda em seu caderno:


8) O maior sinal da anti-democracia foi o poder Moderador.
Explique o por quê?

A Constituição foi mal recebida em quase todo o Brasil. No Nordeste,


organizou-se uma revolta, que recebeu o nome de Confederação do Equador.
Saiba que teve esse nome devido à proximidade à linha imaginária do
Equador, que divide o globo terrestre nos hemisférios norte e sul.
A Confederação seria um país republicano, com as províncias integrantes
relativamente autônomas, e em comum teriam a mesma Constituição e a política
externa.
Esse movimento teve início em Pernambuco, em junho de 1824, com a
participação dos atuais estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, que se
aliaram aos pernambucanos.
Muitas das idéias e dos participantes desse movimento eram os mesmos da
Insurreição Pernambucana de 1817 (que já estudamos!).
A Confederação do Equador contou com grande participação popular e das
camadas médias.
Os grandes proprietários, que inicialmente participaram desse movimento,
saíram dele quando se colocou a proposta de libertação dos escravos.
O governo central reagiu rápida e violentamente: dominou a revolta e
mandou prender muitos de seus participantes. Vários foram enforcados. O líder
intelectual da revolta, frei Caneca, foi fuzilado.

Agora responda em seu caderno:


9) O povo recebeu pacificamente a nova Constituição? Cite um exemplo de
seu descontentamento.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Depois das guerras napoleônicas na Europa, a situação


econômica do Brasil ficou feia. Os baixos preços internacionais e a concorrência
externa abalaram nossas principais exportações ( açúcar, algodão, etc.)
O único produto em ascensão era o café. A partir da década seguinte, foi o
mais importante do país, reforçando o domínio do Sudeste, que naquela época era
seu maior produtor.
Nossa balança comercial era negativa (importações maiores do que
exportações). Os ingleses nos empanturravam de produtos manufaturados,
aproveitando-se que os tratados de 1810 foram renovados em 1827.
Sem dinheiro, o governo apelou para os empréstimos dos banqueiros
ingleses, que nos sugavam através dos juros. Em Londres (capital da Inglaterra), os
capitalistas sambavam de felicidade.
A inflação cresceu e o Branco do Brasil simplesmente faliu, em 1829. É
verdade que antes de se mandar para Portugal, D. João VI fez uma limpeza em seus
cofres. Mas o governo de D. Pedro I continuara gastando sem controle, até quebrar.
E no controle do Banco estavam justamente elementos portugueses, a se enriquecer
de forma safada com negociatas ( armações com o governo).
Se a situação econômica já estava enrolada para quem era rico, imagine para
quem era pobre. A raiva contra a incompetência de D. Pedro crescia. Aí ele apareceu
dizendo que iria tomar uma medida drástica contra a falta de dinheiro público: iria
gastar mais dinheiro ainda. Numa guerra.
D. João VI, no Brasil, dera ordem para invadir o Uruguai, chamado então de
Província Cisplatina.
Os uruguaios nada tinham a ver com os brasileiros. Afinal, eram uma ex-
colônia da Espanha. A partir de 1825, liderados por Lavalleja, os patriotas uruguaios
iniciaram sua guerra pela libertação nacional. D. Pedro gostava de tirar uma onda de
“libertador”, lá para a turma dele, pois, na verdade quis manter o Uruguai submetido
e para isso enviou tropas brasileiras para lá.
A Argentina também se intrometia. O país de Maradona sonhava em se unir
ao Uruguai.
Os ingleses completavam a festa. Não queriam que os dois maiores países da
América do Sul controlassem a entrada do rio da Prata. Preferiam que por ali
houvesse um “miniestado”, mais fácil de vigiar. Era o caso do Uruguai, que, com o
apoio inglês, obteve a independência, em 1828.
Nessa guerra contra Argentina-Uruguai, o Brasil perdeu muitas vidas. A
dívida pública aumentou enormemente. O prestígio de D. Pedro caia a olhos vistos.
A única desculpa que ele poderia dar seria: “Calma pessoal, que em 1950 a Copa do
Mundo vai ser no Maracanã e aí a gente vai à forra contra o Uruguai.”
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

D. Pedro foi posto no trono pelos latifundiários, que


tinham nele uma pecinha conveniente para a máquina estatal funcionar.
Mas a pecinha começou a dar defeito e provocar insatisfação.
Estouraram revoltas e fortaleceu-se a oposição liberal. Quando os
latifundiários do Sudeste tiraram seu apoio, ele não tinha mais como se manter.
É importante notar que os problemas do Primeiro Reinado não estavam nas
trapalhadas do imperador. Eles se localizavam na incapacidade daquele tipo de
Estado em superar as graves contradições sociais. Os latifundiários precisavam de
tranqüilidade para dominar. Não se tratava simplesmente de colocar um novo
homem no trono (embora a incompetência de D. Pedro I, por si só, justificasse), mas
de construir uma nova ordem política.

Vamos, então, fazer uma listinha das coisas que desagradavam:


• O autoritarismo do Governo contra as aspirações liberais. É bom saber
que o banho de sangue que D. Pedro I promoveu na repressão à
Confederação do Equador e o fechamento da Constituinte pegaram muito
mal para a sua imagem.
• A crise econômica não só não foi resolvida, como piorou com
empréstimos externos e uma guerra estúpida na Cisplatina.
• A aproximação constante de D. Pedro com os portugueses levantava a
suspeita de que o Brasil poderia ser recolonizado.

Você se lembra de D. João VI? Pois é, o gordo reinava em


Portugal. Comia sem parar. Comeu tanto que um dia ...Bum!! Explodiu.
E morreu.
O herdeiro do trono seria seu filho, D. Pedro, mas pegaria mal se
ele assumisse, pois já tinha a bocada do Brasil. Então, abriu mão em favor
de sua filha, Maria da Glória.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A menina ainda era criança. Queria mesmo era brincar de boneca. Enquanto
não era adulta, quem governaria Portugal seria o regente D. Miguel, irmão
de D. Pedro.
Quando Maria da Glória tivesse mais idade, ela se casaria com o tio D.
Miguel. (Não se espante, essa embrulhada de casamento entre parentes era comum
na nobreza européia.)
D. Miguel não estava a fim de ser papagaio de pirata, nem marido de rainha.
Apoiado pela Áustria absolutista, usurpou o trono, em 1828. A Inglaterra, que
apoiava o outro lado, foi ao Brasil reclamar.
D. Pedro I vivia dando voltinhas na sala e roendo unhas. Preocupava-se
mais com a sucessão portuguesa do que com o Brasil. Como se fosse dono de tudo.
Por causa disso, os latifundiários preocupavam-se com D. Pedro, cada vez
mais perto de Portugal. Não dava mais para conciliar o irreconciliável. A batalha
entre brasileiros e portugueses deveria ser decidida puxando-se o tapete dos pés
do imperador.
Para isso, os latifundiários não hesitariam em sacudir as massas urbanas e
deixar certo espaço para os radicais. Os jornais da oposição castigavam o imperador.
Os radicais promoviam minicomícios e agitações.
Um jornalista, muito bom de ataque, sarcástico, popular entre os estudantes,
chamado Líbero Badaró, foi assassinado por gente ligada a D. Pedro. Nenhuma
punição aos criminosos. O ódio popular crescia.
O imperador resolveu visitar cidades mineiras, para ver se melhorava sua
popularidade. Comeu queijos, beijou crianças e prometeu melhorias. Não adiantou.
Nenhum “uai” de apoio.
Na volta para o Rio de Janeiro as ruas estavam cheias de gente. A maioria
do povo vaiava D. Pedro. Os portugueses ricos, apelidados de pés-de-chumbo, puxa-
sacos, começaram a agredir violentamente os manifestantes. Teve início a famosa
pancadaria da noite das garrafadas.
No dia seguinte, noticiaram que a culpa era do povo. A multidão, os
soldados, os ricos e os políticos, todos exigiam a queda de D. Pedro I. Arrogante
como sempre, ele dizia que só estava indo embora porque queria. Mas que foi, foi.
Em 7 de Abril de 1831, ele abdicava (renunciava ao poder) e partia para Lisboa.
Lá em Portugal, acredite se quiser, foi coroado rei D. Pedro IV. No fundo
era o que ele queria.

Agora responda em seu caderno:


10) Identifique os fatores que geraram descontentamento entre os
latifundiários e que levaram à abdicação de D. Pedro I.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O PERÍODO REGENCIAL - (1831 a 1840)

Você já estudou que quando D. Pedro I abdicou (renunciou), em 7 de abril de


1831, o herdeiro, seu filho D. Pedro de Alcântara, tinha apenas cinco anos.
De acordo com a Constituição de 1824, ele só poderia assumir o trono
quando atingisse a maioridade, aos 18 anos.

A Constituição também determinava que, no caso de o monarca não poder


assumir o governo, este deveria ser exercido por uma Regência Trina, isto é, o
governo deveria ser exercido por de três pessoas, eleitas pelo poder Legislativo.
O período da Regência no Brasil Regência é um governo
começou em abril de 1831 e terminou em provisório, estabelecido quando o
chefe de Estado está, por algum
julho de 1840. motivo, impossibilitado de
Antes de começarmos a estudar esse governar.
período da História do Brasil, precisamos A Regência acontece
entender o que é regência e por que principalmente quando o
governante é um monarca (rei).
aconteceu.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Enquanto Pedrinho não tinha tamanho para receber a coroa, o Brasil foi
governado pelos regentes. Eles eram os chefes do poder executivo. Nessa época o
Brasil viveu uma espécie de minirepública espremida entre os reinados de Pedro I e
Pedro II (coroado em 1840).
Inicialmente, os regentes eram escolhidos pela Assembléia Geral do Império.
Depois, pelo voto direto e censitário (só votava quem tinha muito dinheiro!).
Esse foi um período muito turbulento. Estouraram várias revoltas contra o
governo central. Motins, rebeliões e guerra civil como Cabanagem, a Balaiada e a
Revolução Farroupilha.
Brasileiros enfrentaram brasileiros com espadas e pistolas. Como você vê, é
uma grande mentira essa conversa de que no Brasil as coisas sempre foram ajeitadas
pacificamente. Na verdade, nossa história é cheia de violências.

Agora responda em seu caderno:

11) Atualmente, na sua opinião, qual é o motivo para tanta violência?

Por que os brasileiros se


sentem brasileiros? Em outras
palavras, por que o Brasil, desse
tamanho todo, com tanta gente, é
um país único?
Por que não se dividiu em
uma porção de países de língua
portuguesa, tal como ocorreu na
América espanhola?
Não sei se você já pensou
nisso. O fato de nós brasileiros
falarmos o mesmo idioma e de
termos ligações culturais, ajuda a
nos unir.
Mas isso não obriga
ninguém de Santa Catarina, de
Minas Gerais, de Goiás e do Ceará
a pertencer ao mesmo país, não é
mesmo? O que fez então o Brasil
ser o Brasil?
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Hoje, é fácil responder. Todos nós nos sentimos brasileiros. Compartilhamos
dos mesmos ideais, acreditamos numa porção de coisas em comum, e só um boboca
não percebe que unidos somos muito mais poderosos. Em um mundo que busca a
unificação econômica, é uma maravilha que o Rio Grande do Sul tenha a ver com
Pernambuco, que o Espírito Santo esteja ligado ao Pará, que o Mato Grosso do Sul
se relacione com a Bahia, não é mesmo? Mas, e no passado? Como foi montada essa
união?
Quando falamos de Brasil esquecemos que os brasileiros são muito diferentes
uns dos outros e que nem sempre têm a mesma situação e as mesmas necessidades.
É que o tal de Brasil está dividido em classes sociais. O conceito de classe
existe justamente para entendermos os conflitos entre os diversos grupos da
sociedade.

Será que o Brasil dos ricos é o


mesmo dos pobres?

Na época da independência, os brasileiros se uniram contra um


inimigo comum a todas as classes: a exploração colonial. E depois, como manter
unido um país dividido em ricos proprietários de terras e homens livres e escravos?
Um jeito de preservar a união é através da democracia, que dá oportunidade
para os desfavorecidos transformarem a sociedade em proveito de todos. O outro, é
mantendo os privilégios da minoria. Neste caso, muitas vezes a união só pode
ser garantida através da violência.
A Independência do Brasil era vista pelos latifundiários e
grandes comerciantes como o caminho para manter seus privilégios. Isso
significa que os escravos, os trabalhadores livres e as camadas
médias urbanas continuariam submetidos.

Todavia, para esses desfavorecidos a Independência teria de ser outra coisa. E


foram à luta por seus direitos.
A visão tradicional separa rigidamente os períodos históricos. É como se cada
um ficasse numa gaveta isolada da outra, e você aluno, fica com a falsa impressão
de que o Período Regencial não tem nada a ver com a Independência. Engano!

Assim, saiba que todas as contradições que estremeceram o Primeiro Reinado


explodiram na Regência.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O que estava em jogo era se as camadas oprimidas conquistariam direitos ou
se as classes proprietárias assegurariam sua hegemonia (supremacia), se o Sudeste
mandaria sobre o resto do Brasil ou não, se o país seria democrático ou autoritário.
Esses conflitos foram abertos, diretos, crus e brutais. A classe dominante não
hesitou em lançar mão das maiores atrocidades e infâmias para sustentar e perpetuar
seus privilégios.
Se nossa história é violenta, é porque os privilégios muitas vezes são
mantidos pela violência. E aí o povo responde com violência à violência...

 Em primeiro lugar, havia os grandes proprietários (latifundiários e grandes


comerciantes) do nordeste e do sul. Eles eram federalistas, ou seja, eram contra
o unitarismo, contra o poder central forte que subordinava as Províncias ao
Sudeste - federalismo significava: maior autonomia provincial, descentralização
do poder, direito das províncias de fazer leis para elas mesmas, de mandar
menos dinheiro de impostos para o Rio de Janeiro.
 Em segundo lugar, as camadas médias urbanas não podiam votar, porque não
eram ricas. (O voto era censitário, lembra-se?). Por isso, muitos dos pequenos
comerciantes, professores, jornalistas, sapateiros, estudantes, padeiros,
advogados, alfaiates e até soldados, tornaram-se democratas radicais.
Acreditavam que o federalismo garantiria maior liberdade para todos. Queriam
modificar a Constituição, ampliando o direito de voto.
 Em terceiro lugar, estava a massa do povo miserável, faminto e sofrido.
Escravos, camponeses pobres, vaqueiros, biscateiros uma enorme massa de
deserdados que não queria saber de blá-blá-blá parlamentar: queria um governo
direto a favor deles. Não sabiam direito o que queriam, a não ser a idéia básica
de obter pedaços de terra para trabalhar e viver por conta própria. Mas sabiam
perfeitamente o que não queriam: o domínio dos latifundiários, o desprezo pelo
povo humilde. Por isso no Período Regencial, houve diversas revoltas populares,
como a Balaiada, a Sabinada e a Cabanagem.

Perceba que, ao longo de nossa história, as classes dominantes têm respondido


com a Enrolada, Marmelada e a Sacanagem, não é mesmo?

Agora responda em seu caderno:

12) Explique o que era o federalismo e o unitarismo.


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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Cada um desses grupos sociais, insatisfeitos ou não, se


associava a um partido político. Não eram exatamente partidos como
nós entendemos hoje. Afinal, esses partidos não levavam muito a sério
a idéia de chegar ao poder por meio de eleições. O país nem tinha
democracia para tanto.
Os restauradores (caramurus) ligavam-se à Sociedade
Conservadora da Constituição Brasileira. Eram os antigos portugueses (embora a
maioria tenha partido com D. Pedro I) e o pessoal ligado aos irmãos Andrada e
Silva.
Eram os mais retrógrados (contrários ao progresso). Contrários a qualquer
reforma, exigiam um governo autoritário, para dar fim ao que eles chamavam de
"anarquia". Diziam que não, mas sonhavam com o retorno de D. Pedro I. (Daí o
nome de restauradores). Todavia, o imperador faleceu em 1834. Os caramurus
aderiram então ao lado dos moderados.
Os liberais moderados (chimangos) eram formados por representantes dos
grandes proprietários, principalmente os do Sudeste. Controlavam o governo e
defendiam que o poder central mantivesse alguma força.
Tinham o apelido bem apropriado de chimangos, que no Sul é o nome de
certas aves de rapina. Esses abutres formavam a Sociedade Defensora da Liberdade
e da Independência Nacional e, no princípio, não tinham idéia precisa acerca das
reformas e divergiam entre si quanto ao alcance delas e o meio de fazê-las.
Afinal, se consideravam liberais, mas tinham um medo danado quando essas
liberdades atingiam as camadas profundas do povo trabalhador. No Brasil, tal como
na Europa, liberal e democrata eram coisas diferentes.
Politicamente à esquerda, estavam os liberais exaltados, exatamente os que
promoviam revoltas contra o governo. Eram, antes de tudo, federalistas, isto é, a
favor da descentralização do poder, da autonomia provincial. Entretanto, embora
com ideal comum de oposição federalista, havia desde liberais ortodoxos (os
farroupilhas) até os exaltadíssimos jurujubas.
Ou seja, um pedaço estava ligado ao latifundiários do Norte, Nordeste e do
Sul, que eram federalistas para lhes reforçar o poder local, o qual exerciam
diretamente.
Esses membros da elite geralmente tinham horror à democracia. Para
conseguir seus objetivos, tiveram que se ligar aos grupos médios urbanos, esses,
sim, muitos deles democratas e até republicanos.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

DIVISÃO POLÍTICA DA REGÊNCIA


Partidos Principais apoios Objetivos
Irmãos Andrada,
Retorno de D. Pedro I ao
Restaurador portugueses trono do Brasil.
Aceitavam apenas uma
Grandes proprietários
Liberal Moderado pequena centralização.
ligados ao Sudeste
Controlavam o governo.
Federalismo. Alguns
Grandes proprietários
radicais queriam também
Liberal Exaltado desvinculados do
sufrágio universal e até
Sudeste, camadas médias
mesmo a República.

Quando D. Pedro foi embora, em 1831, era preciso eleger logo os regentes.
Mas a Assembléia Geral do império estava de férias... Agora adivinha: o que é que
aconteceu!?
Os deputados e
senadores pararam o
descanso e arrumaram
logo as malas para o Rio
de Janeiro, ou acharam
melhor ficar curtindo a
vida mansa?
Não fique achando
que todos os políticos são
iguais.
Quem, hoje em
dia, pensa que o ideal é
fechar o Congresso e botar deputados e senadores na cadeia é a extrema direita, os
fascistas e nazistas, os reacionários empedernidos. Gente safada que despreza os
direitos do povo.
É claro que grande parte dos políticos atuais não faz nada pela população
trabalhadora, pois eles são representantes das classes dominantes.
São ricaços ou patrocinados por ricaços. O que não quer dizer que não haja
políticos progressistas, realmente sérios e empenhados em fazer algo para melhorar
a vida da gente. Por enquanto, são poucos, mas existem.

48
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O que não pode acontecer é fechar o Congresso, pois aí nem esses poucos
políticos ao lado do povo poderiam atuar. Não haveria essa importante oposição aos
desmandos dos poderosos.
Esse negócio de que "eleição não serve para nada" e "político é tudo igual" é
coisa de fascistão. Não embarque nessa! A história do Brasil mostra que todas as
ditaduras só favoreceram às classes privilegiadas.
Bem, os políticos do Império, quase todos, representavam os interesses dos
grandes proprietários. Assim guiaram a Regência.
Primeiro, elegeram uma Regência Trina Provisória.
Algumas semanas depois, com a rapaziada de volta ao Rio de Janeiro, foi
eleita a Regência Trina Permanente, cuja escalação era: Costa Carvalho (baiano,
mas com carreira política em São Paulo), o maranhense Bráulio Muniz e o
brigadeiro Francisco Lima e Silva, militar durão que tinha reprimido a Confederação
do Equador. Esse trio governou de 1831 a 1835. Depois disso, a Regência passou a
ser una, ou seja, só uma pessoa governaria.
Os liberais moderados e os exaltados fizeram um acordo para anular
politicamente os restauradores, que desejavam a volta de D. Pedro I.
Desse acordo, surgiu a idéia de promover uma pequena descentralização do
poder. Era uma forma de diminuir a indignação dos exaltados e das províncias
distantes do Sudeste com o centralismo exagerado da Constituição de 1824.
Essa descentralização aconteceu após três medidas importantes: a criação da
Guarda Nacional, o Código de Processo Criminal, o Ato Adicional de 1834.

A gente só entende uma delas quando relaciona com as outras.

 GUARDA NACIONAL

Foram os moderados, que se organizavam na Sociedade Defensora da


Liberdade e da Independência - espécie de clube de cavalheiros reacionários
(contrários à liberdade) onde bebiam, jogavam cartas, falavam de mulheres e
planejavam ações contra o povo, que sugeriram a criação de uma guarda nacional.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
As modernas técnicas de disciplina militar ainda não estavam desenvolvidas
no Brasil. Por causa disso, muitos soldados, sargentos e até oficiais conseguiam
raciocinar por conta própria, mesmo que não tivessem autorização de um superior
para isso.
Daí as agitações dos exaltados fazerem muitos adeptos no Exército, que
começou a achar que, sendo também parte do povo, deveria defendê-lo em vez de
atacá-lo em favor dos ricos.
Além disso, grande parte dos oficiais do exército era formada por estrangeiros
(mercenários) e portugueses. Eles tinham sido fiéis cumpridores das ordens
autoritárias de D. Pedro I. Isso assustava as elites dominantes.
O principal era que os latifundiários não podiam aceitar os quartéis aderindo
às manifestações populares.

...e então, qual foi o


jeito que deram?

Assim, trataram de diminuir a força do Exército, cortando os gastos,


mandando embora praças e oficiais, em suma,
enfraquecendo-o e humilhando-o.
Esse esvaziamento teve exatamente a ver com a
primeira das medidas que nós citamos: a criação, em 1831,
pelo ministro da Justiça, Feijó, da Guarda Nacional.
Ela tornou-se quase tão importante quanto o Exército.
Mas não era qualquer pé rapado que poderia fazer parte
dela. O direito de andar armado e fazer injustiça com as
próprias mãos seria para uns poucos.
Só entrava na Guarda Nacional quem tivesse um bom
nível de renda. Trocando em miúdos: era o povo
desarmado que teria de agüentar os bem-de-vida da Guarda Nacional.
Ela se revelou um eficaz instrumento repressor. Já em 1831 e no ano
seguinte, no Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia, acabava com motins exaltados.
No comando dos destacamentos da Guarda Nacional estavam os fazendeiros, com o
posto de Coronel.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
É por isso que ainda hoje no interior, chamam os fazendeiros de coronéis.
Porque no passado eles realmente foram coronéis, da Guarda Nacional. Assim, os
grandes proprietários passaram a comandar diretamente seu bando de homens
armados. As ordens vinham diretamente das fazendas, dos locais, e não do poder
central (regente).

E Então! Reparou por que era uma medida


descentralizadora?

Agora responda em seu caderno:


13) A criação da Guarda Nacional garantiu a segurança do povo ou favoreceu
apenas os ricos? Justifique.

Bem, saiba que a Guarda Nacional era nacionalmente subordinada ao


Ministro da Justiça, mas localmente ela obedecia ao juiz de paz. Aí é que entra a
segunda medida:

 O CÓDIGO DE PROCESSO CRIMINAL DE 1832

O código de Processo Criminal de 1832, que criava esse


cargo de juiz de paz. Ele era eleito por voto censitário, o que
praticamente significava sua nomeação pelos latifundiários do
distrito.
Tinha um poder enorme, podendo prender qualquer um
que achasse "suspeito". Mistura de juiz e delegado, ao mesmo
tempo. Sob suas ordens, estavam os inspetores de quarteirão,
que vigiavam e espionavam todo mundo.
Em 1834, depois do acordo entre moderados e
exaltados, votou-se o:

 ATO ADICIONAL À CONSTITUIÇÃO.


Era a terceira medida de que falamos. Os livros didáticos tradicionais não
costumam colocar que a força do Ato Adicional só fica bem percebida quando
combinada às duas outras medidas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Com ele, criavam-se as Assembléias Provinciais, espécie de Câmara de
Deputados estaduais com direito de votar leis sobre assuntos diversos a respeito de
administração, receita e despesas, cargos públicos, questões jurídicas etc.
Era mais um passo na descentralização, embora não total, porque o presidente
da Província continuava sendo nomeado pelo poder central. Tavares Bastos o
chamava de pequena centralização, pois o local ficava submetido ao provincial.
Além disso, o Ato Adicional de 1834
transformou a Regência Trina em Una,
reforçando o Poder Executivo sobre o
Legislativo. Isso em contradição com a
autonomia provincial.
Uma novidade muito importante: o
regente passou a ser eleito com voto direto e
secreto, embora censitário, é claro.
Também foi extinto o Conselho de
Estado, formado por um grupo de pessoas
nomeadas pelo imperador para lhe dar palpites
quando solicitado. Geralmente, o palpite era
sobre política e bem distante dos gemidos do
povo sem sorte. Mas foi mantido o senado
vitalício, um reduto conservador (os senadores
tinham sido escolhidos por D. Pedro, lembra?)
Boa parte dos historiadores ressalta que
tais mudanças deram considerável autonomia
administrativa às Províncias, numa espécie de
concessão aos federalistas e de tentativa de
esvaziar as reivindicações dos exaltados.
Isso irritou políticos mais reacionários,
como o ex-liberal e agora regressista Bernardo
Pereira de Vasconcellos, que teria chamado o
Ato Adicional de código da "anarquia".
Todavia, as concessões à autonomia
provincial eram limitadas.
Não se deve se misturar bebida
alcoólica porque isso faz passar mais mal
ainda. Pois o Ato Adicional de 1834 misturava
unitarismo com federalismo.
Confusão danada, dor de cabeça,
estômago embrulhado. Na verdade, o que se
instalava era um aprofundamento da divisão
Centro X Províncias.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A contradição tornou-se mais aguda, e o resultado foi a
instabilidade política:
o país balançava mais do que um bêbado.

Irritados, os prejudicados foram à luta. Rebeliões atrás de rebeliões. Para


reprimi-las, em nome da unidade nacional, o sangue brasileiro irrigaria a terra pátria.
Os liberais moderados tinham usado os exaltados para pressionar D. Pedro I.
Depois da abdicação, jogaram os jurujubas para escanteio. Em Niterói, Jurujuba é
nome de praia. Pois é, os jurujubas (exaltados) morreram na praia: botaram o povo
na rua para escorraçar D. Pedro I mas não ficaram com o poder.
O problema é que para derrubar o imperador, os liberais tinham estimulado as
massas a ir para rua. E essas massas não queriam que as coisas terminassem em
pizza. Para os liberais conservadores, elas tinham se tornado um monstro
incontrolável. Nas províncias distantes do Sudeste, os liberais exaltados
empurravam o povo contra o poder central. E o resultado foi um período intenso de
revoltas sociais.

Em 1823, apenas 1 ano após a independência, a economia já apresentava


sinais da crise que se estenderia até cerca de 1850. As raízes já vinham desde o
período da vinda da família real em 1808. A abertura dos portos, se por um lado
favoreceu o progresso econômico, por outro abalou nossas finanças. A liberdade de
importação, o contato com o estrangeiro e a presença da Corte ( o rei, a sua família e
os seus "conselheiros"), criaram novos hábitos, fazendo crescer as despesas da
colônia.
Para agravar a situação, somou-se a grande concorrência internacional aos
novos produtos tropicais (cana-de-açúcar, arroz, algodão, fumo etc.).
Para agravar ainda mais, D. João VI limpou os cofres públicos e o Banco do
Brasil, levando para Portugal até os diamantes ali depositados. Iniciávamos nossa
vida independente sem reservas monetárias e enfrentando forte concorrência
internacional às nossas exportações. Além disso, iam para o exterior nossas poucas
moedas de ouro e prata para o pagamento das importações.
Só esses fatores seriam suficientes para explicar a crise financeira. No
entanto, outros elementos foram adicionados: as despesas com a indenização a
Portugal, o preço do reconhecimento de nossa independência pelos países europeus
e a desastrosa política de D. Pedro I, levando o país a dispendiosas (caras) questões
externas (Guerra da Cisplatina e o envolvimento na sucessão do trono português),
além de seus exagerados gastos pessoais.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Para cobrir tantos gastos, os impostos eram insuficientes, pois, além de nosso
mercado interno ser pequeno e pobre, o sistema de arrecadação de impostos era
deficiente para um território tão grande e pouco habitado como o Brasil.
As necessidades sempre urgentes de dinheiro tornaram constantes os
empréstimos externos, feitos principalmente, junto à Inglaterra. Desta forma, o
Brasil aumentava ainda mais a sua dependência em relação aos poderosos ingleses.
Os empréstimos eram obtidos em condições vantajosas apenas para a
Inglaterra, e representavam alívio apenas momentâneo, pois eram utilizados, em sua
maior parte, para pagar despesas internas e não para incentivar qualquer atividade
produtiva.
Tudo o que era arrecadado em impostos estava comprometido com a dívida
externa. Pouco restava para as despesas gerais do governo e para investimentos
públicos; e se o dinheiro era insuficiente... faziam-se novos empréstimos.
Será que você já viu este filme!?
Sem capacidade de investir, o governo não tinha como promover o
desenvolvimento de nossas lavouras ou estimular nossas debilitadas indústrias.
Para solucionar essa grave situação econômica, o governo tinha poucas
alternativas: não podia aumentar as tarifas aduaneiras (impostos sobre os produtos
vindos de outros países), pois essas estavam fixadas por tratados internacionais;
taxar as exportações era impraticável, pois significaria diminuir os lucros dos
grandes latifundiários e comerciantes, além de encarecer os nossos produtos no
mercado externo; aumentar os impostos internos afetaria a já empobrecida
população urbana.
Restava uma única saída: encontrar novos produtos de exportação em cuja
produção entrasse como fator básico a terra. A terra era o único fator básico de
produção abundante no país. Em meio a essa crise econômica, o café foi-se
afirmando e se constituindo na nova fonte de riqueza do Brasil.
No campo social, o povo das cidades e do campo levava uma vida miserável.
Os alimentos eram caros. A riqueza e o poder estavam nas mãos dos grandes
fazendeiros e comerciantes. Muitas pessoas achavam que os portugueses que
dominavam o comércio eram os grandes culpados pelos problemas do país.

Os poderosos acusavam os revoltosos de separar


as províncias do Brasil...
Mas o que os revoltosos queriam era separar as províncias da
opressão dos poderosos.

Esse foi um dos fatores que levaram às revoltas neste período.


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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Agora você estudará as principais revoltas do período: Cabanagem, Balaiada,
Sabinada e Revolução Farroupilha.

Observe no mapa abaixo a localização das principais revoltas do período regencial.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A CABANAGEM
(1834-1840)

A Cabanagem foi uma grande


revolta popular, que explodiu na província
do Pará. Dela participaram pessoas vindas
da camadas mais pobres da sociedade.
Os cabanos, assim chamados por
morarem em cabanas à beira dos rios, eram
negros, índios e mestiços, que trabalhavam
na extração de produtos da floresta. Trabalhavam muito, e viviam na miséria.
Porque os frutos do seu trabalho iam quase todos para os latifundiários e para os
grandes comerciantes que dominavam a província. Em todos os cantos, os pobres
sussurravam entre os dentes: "terra para o povo, liberdade e igualdade".
Analfabetos, não tinham a revolução francesa na cabeça. Mas certamente a
tinham no coração. A revolta dos cabanos representava uma tentativa de modificar
a situação de injustiça social do qual eram vítimas. Para isso, era necessário tomar o
poder da província.
A princípio, os
cabanos foram apoiados
por fazendeiros do Pará
descontentes com a
política do governo
imperial e com a falta de
autonomia da província.
Os fazendeiros
desejavam mandar
livremente no Pará e
exportar, sem barreiras,
os produtos da região
(cacau, madeira, ervas
aromáticas, peles, etc.).
No início do século XXI ainda há fazendeiro
Entretanto, não demorou que manda assassinar trabalhadores rurais
muito para que se afastassem do desobedientes. Tal como na cabanagem, há
movimento, pois não concordavam mais de um século.
com os objetivos da rebelião.
Os cabanos pretendiam acabar com a escravidão, distribuir terras para o povo
e matar os exploradores.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Um dos líderes do movimento foi o padre Batista Campos, que costumava
benzer os pedaços de pau utilizados como armas pelos pobres. A Cabanagem teve
muitos outros líderes populares, conhecidos apenas pelos seus apelidos: Domingos
Onça, Negro Patriota, Mãe da Chuva, João do Mato, entre outros. Para eles, não
houve estátuas, nem praças ou nomes de escolas. Muitos não tiveram sequer direito
a uma sepultura. Porque sua luta apavorava os ricos.
Em janeiro de 1835, as tropas dos cabanos conquistaram a cidade de Belém
(capital da província) e mataram várias autoridades do governo, inclusive o
presidente da província.
Os cabanos tomaram o poder, mas tiveram grande dificuldade em governar.
Faltava-lhes organização, havia muita briga entre os líderes do movimento e a
rebelião foi traída várias vezes. Tudo isso facilitou a violenta repressão comandada
pelas tropas enviadas pelo governo central do Rio de Janeiro.
Segundo o historiador Caio Prado Jr., a Cabanagem foi o único movimento
regencial "em que as camadas mais inferiores da população conseguiram ocupar o
poder de toda uma Província com certa estabilidade".
Os cabanos só foram completamente liquidados em 1840, após muitos
combates. Calcula-se que mais de 30 mil cabanos morreram, e os sobreviventes
foram presos e escravizados.

A BALAIADA
(1838-1841)
A Balaiada foi uma revolta popular
que explodiu na província do Maranhão.
Nessa época, o Maranhão
atravessava grave crise econômica.
Sua principal riqueza, o algodão,
vinha perdendo preço e mercados no
exterior, devido à forte concorrência do
algodão produzido nos Estados Unidos,
mais barato e de melhor qualidade. As conseqüências dos problemas econômicos do
Maranhão recaíam sobre a população pobre, uma multidão formada por vaqueiros,
sertanejos e escravos.
Cansada de tantos sofrimentos, essa multidão queria lutar contra as injustiças
sociais, a miséria, a fome, a escravidão e os maus-tratos. Além disso, a insatisfação
política reinava entre a classe média maranhense da cidade, representada pelo grupo
dos bem-te-vis. Esse grupo iniciou a revolta contra os grandes fazendeiros
conservadores do Maranhão, contando com a participação explosiva dos sertanejos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os principais líderes populares da Balaiada foram: Manuel Francisco dos
Anjos, fazedor de balaios - daí o nome da revolta; Cosme Bento das Chagas,
ex-escravo que liderava um quilombo e Raimundo Gomes, um vaqueiro.
Apesar de desorganizados, os rebeldes balaios conseguiram conquistar a
cidade de Caxias, uma das mais importantes do Maranhão. Mas os objetivos dos
líderes populares não eram muito claros.
O poder foi entregue aos bem-te-vis, que então já passavam a se preocupar
em conter a rebelião dos sertanejos.
Para combater a revolta dos balaios, o governo enviou tropas comandadas
pelo coronel Luís Alves de Lima e Silva, mais tarde conhecido como
Duque de Caxias. Nessa altura dos acontecimentos, os bem-te-vis já haviam
definitivamente abandonado os sertanejos e passado a apoiar as tropas
governamentais. O combate aos balaios foi duro e violento. A perseguição só
terminou em 1841, quando já haviam morrido cerca de 12 mil sertanejos e escravos.

A Balaiada não tinha uma organização


consistente nem um projeto político definido. Não
foi um movimento único, mas um conjunto de
ações que receberam o mesmo nome.

A SABINADA
(1837-1838)

Em 1837, estourou na Bahia


uma rebelião liderada pelo médico
Francisco Sabino Álvares da Rocha
Vieira, por isso conhecida como
Sabinada.
Seu objetivo principal era
formar uma república baiana,
enquanto o príncipe Pedro de
Alcântara fosse menor de idade e não pudesse assumir o poder.
Com o apoio de parte do exército baiano, os sabinos conseguiram tomar o
poder em Salvador, no dia 7 de novembro de 1837. Mas o movimento não empolgou
a população, e as tropas imperiais, ajudadas pelos fazendeiros, logo começaram a
combater a rebelião com fúria e violência.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Inúmeras casas de Salvador foram incendiadas, e muitos revoltosos foram


queimados vivos. Mais de mil pessoas morreram na luta. Em março de 1838, a
rebelião estava totalmente esmagada.
Apesar da violenta repressão, os principais líderes do movimento não foram
mortos. O médico Francisco Sabino, por exemplo, foi preso e degredado para o
Mato Grosso.

Agora responda em seu caderno:


14) Por que será que é só o povo que é violentamente reprimido e morto
nestas revoltas?

A SABINADA foi uma rebelião comandada por homens


cultos da classe média da cidade de Salvador. Não teve a
participação dos pobres nem obteve o apoio dos ricos
fazendeiros.
Não havia entre os líderes do movimento a vontade
efetiva de mudar a situação social dos baianos. Ou seja,
mesmo se a revolução vingasse, os ricos continuariam na
abundância, e os pobres na miséria.

A REVOLUÇÃO FARROUPILHA
(1835-1845)

A Revolução Farroupilha, também


chamada de Guerra dos Farrapos, explodiu em
1835 no Rio Grande do Sul e foi a mais longa
revolta brasileira.
Entre suas causas estavam os problemas
econômicos das classes dominantes gaúchas.
No século XIX, aqueles vastos pampas verdejantes (planícies do sul) eram
importantes fornecedores de charque (carne seca salgada), couro e sebo.
Boa parte da produção era voltada para o mercado interno brasileiro,
especialmente o Sudeste. Comida de gente pobre, de escravos e até de quem estava

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
por cima da carne-seca. Nas estâncias (fazendas), trabalhavam homens livres (os
peões) e escravos.
Apesar de muito bem de vida, os estancieiros gaúchos não estavam satisfeitos
com o governo da Regência. Porque o charque argentino e uruguaio entrava no
Brasil sem pagar nenhuma tarifa alfandegária especial, fazendo uma concorrência
danosa aos interesses dos latifundiários riograndenses.
E, ao contrário, a importação de sal, tão necessário para salgar a carne na
fabricação do charque, pagava altas taxas alfandegárias.

A pecuária do Sul produzia para o mercado interno.


Isso ia contra a tendência geral da economia do país,
voltada para o mercado externo.

Os latifundiários queriam protecionismo alfandegário, pagar menos impostos


ao governo central (uma gorda fatia do Rio Grande do Sul tinha de ir para o Rio de
Janeiro) e maior autonomia para a Província.

O governo não quis ceder e o conflito foi inevitável. Em 1835, as tropas


rebeldes ocuparam Porto Alegre.
Esse movimento nada teve de popular. Se as camadas oprimidas, peões ou
escravos, participaram, foi para servir “de massa de manobra” em mais uma
prolongada campanha militar, lutando por interesses que não eram seus e em nome
de idéias e princípios cujo significado não podiam alcançar.
Em 1835, Bento Gonçalves comandou as tropas farroupilhas que dominaram
Porto Alegre, capital da província. O governo central reagiu com firmeza, mas não
teve forças suficientes para derrubar os farroupilhas. A rebelião expandiu-se e, em
1836, foi fundada a República Rio-Grandense, também chamada de República de
Piratini, e em 1839, a República Juliana, em Santa Catarina.
A Revolução Farroupilha começou a ser contida a partir de 1842, através da
ação militar de Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias). Além da ação
militar, Caxias procurou fazer acordos com os líderes farroupilhas.
No dia 1º de março de 1845, já durante o Segundo Reinado, foi feito um
acordo de paz entre as tropas imperiais, comandadas por Caxias, e as forças
farroupilhas. Os rebeldes assinaram a paz, mas em troca, exigiram que:

♦ os revoltosos não fossem punidos, mas recebessem a anistia do governo;

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
♦ os soldados e oficiais do exército farroupilha passassem a fazer parte do
exército imperial, com os mesmos postos militares;
♦ os escravos fugitivos que haviam lutado ao lado dos farroupilhas tivessem
garantido o seu direito à liberdade.

A Revolução Farroupilha não foi uma revolta das


populações pobres. Foram os ricos estancieiros (fazendeiros)
que lutaram por seus interesses econômicos e políticos.

O povo só participou do movimento como massa de


manobra, sob o controle dos grandes fazendeiros. Não existia
entre os líderes farroupilhas o desejo de acabar com as
injustiças sociais e a miséria da maioria da população.

Queriam apenas garantir o lucro das grandes fazendas


pecuárias, além de aumentar a liberdade administrativa e o
poder político que possuíam na região.

Especialmente no Rio Grande do Sul, há um endeusamento da


Revolução Farroupilha. Os historiadores tradicionais e oficiais a vêem
como "uma luta de grandes heróis desinteressados, que buscavam a
liberdade".
Vimos que não foi bem assim. Não se trata de dizer que os
gaúchos são mentirosos ou covardes (suas classes dominantes
podem sê-lo, mas certamente não o povo trabalhador), mas de
resgatar a verdade.
Ora, para que serve esta lenda de que a Revolução Farroupilha
foi um maravilhoso movimento democrático? Só serve para que as
classes dominantes convençam as pessoas de que seu poder é
"legítimo", porque teria origem nas "tradições democráticas gaúchas
desde o tempo farroupilha".
Tantas revoltas sufocadas em sangue, leva cada um de
nós a se questionar...
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Estudando as revoltas regenciais, muita gente pode cair no


pessimismo e pensar: "Não adianta lutar, porque sempre seremos
derrotados!" Aí desiste e aceita tudo passivamente.
Será, então, que o povo nunca vence? Vamos sempre apanhar, como
na Balaiada e na Cabanagem?
Calma. Na verdade, muitas das lutas do passado foram vitoriosas. Pelo
menos em parte. Um de seus grandes momentos foi, por exemplo, a vitória do
movimento pelo fim da escravidão. Os trabalhadores brasileiros de hoje
podem não ter muitos direitos, mas certamente já ganharam alguns. Porque
lutaram e tem lutado para conquistá-los.
A liberdade e a democracia não são coisas ocas. Na prática, são elas
que dão mais condições ao povo de lutar e se organizar.
Estudando História nós podemos aprender com os movimentos
passados, mesmo os que não tiveram sucesso. Aprendemos que o passado
poderia ter sido diferente e o presente sempre nos oferece uma escolha.

Apesar dos protestos, a verdade é que o governo central ia ficando cada vez
mais forte. É fácil explicar: desde 1827, o café já era o segundo produto de
exploração do Brasil e por volta de 1835 alcançou o primeiro lugar, botando o
açúcar na vice-liderança.
Ora, as províncias cafeeiras ficavam no Sudeste, exatamente onde estava o
poder central e a cidade do Rio de Janeiro, capital do Império e senhora controladora
dos monopólios econômicos no Reino.
Para conter as revoltas, você já viu: usaram a violência. Aldeias incendiadas,
pelotões de fuzilamentos, camponeses assassinados em massa.

62
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os liberais exaltados foram sendo suprimidos pela maneira habitual que as
classes dominantes empregam para esmagar a oposição: perseguições,
encarceramento, execuções, banimento.
Triste ironia da história: a maior parte dos jornalistas, padres e artesãos presos
ou enforcados tinham sido ativos militantes da independência.
Com violência, as classes dominantes asseguravam a unidade do Brasil e a
obediência ao governo do Rio de Janeiro.

No fim só sobrou mesmo o grupo moderado, que se dividiu em dois partidos:


o Progressista e o Regressista.

Nessa altura do campeonato...


...e a POLÍTICA,
como vai ????

As medidas descentralizadoras tinham gerado graves problemas políticos:


elas não ameaçavam despedaçar o Brasil em vários países diferentes? Como
enfrentar as revoltas federalistas?
Como é que um regente único e, portanto, vindo de uma única região,
poderia ser aceito por todas as províncias e regiões?
Os progressistas achavam que a descentralização concedida era uma boa.
descentralização controlada, já que eles estavam longe do federalismo exaltado,
sem falar que nem queriam ouvir conversa sobre democracia. Já os regressistas
achavam que era preciso trazer de volta a supercentralização.

Como diziam na época, era preciso "parar o carro da revolução". As


manifestações liberais eram chamadas de "anarquia".

Recentralizar o poder era a garantia contra as revoltas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O regente Antônio Diogo Feijó governou de 1835 a 1837. Pertencia ao grupo


progressista, mas na verdade era bem reacionário. Tinha sido o criador da Guarda
Nacional (1831) e era um padre que apoiava, o casamento do clero, e por isso não
era bem visto pelo Papa.
Além dos problemas com a Igreja, com os ministros, que ele trocava mais do
que mudava de batina, Feijó foi perdendo o apoio dos latifundiários do Sudeste, que
cada vez mais exigiam o refortalecimento do poder central para combater as revoltas
provinciais.
Achavam que o regente não estava controlando as rebeliões com a devida
energia (a maioria delas só seriam esmagadas pouco depois, no final da Regência).
Diante da oposição, teve de renunciar.

Quem assumiu a Regência foi o regressista Pedro de Araújo Lima. Criou um


ministério de incompetentes, que davam a si mesmos o apelido de ministérios das
capacidades.
As providências recentralizadoras foram sendo tomadas. A Assembléia Geral,
seguindo a orientação conservadora, aprovou a Lei Interpretativa de
1840, tirando muito da autonomia das
Assembléias Provinciais.
Por exemplo, certas leis provinciais
poderiam ser anuladas pela Assembléia
Geral do Império.
No ano seguinte, restabeleceu-se o
odiado Conselho de Estado, com os figurões
tomando chá, batendo papo sobre corrida de
cavalos e mulheres interessantes e dando palpites para o imperador a respeito de
como desgraçar a vida da população.
Com a Reforma do Código Criminal de 1841 os juizes de paz perderam seus
amplos poderes. Quem mandava mesmo passava a ser o chefe de polícia, nomeado
pelo ministro da justiça, um para cada capital de província.

64
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Nos municípios, delegados e subdelegados, tinham até alguns poderes de
juizes.
Em 1850, a Guarda Nacional também seria subordinada totalmente ao
Ministério da Justiça. Era a reação agindo. O Sudeste enriquecido pelo café
reassumia o comando.
Todas as providências para esmagar as revoltas e fortalecer o poder central
foram tomadas.
Na verdade, os políticos progressistas achavam que só havia uma maneira de
acabar com a falta de autoridade do governo central e preservar a unidade territorial
do império.

É o que você estudará agora, vamos lá?

Era só transferir o poder para D. Pedro de


Alcântara e acabar com o período regencial. Mas
o jovem príncipe tinha só 14 anos. Era menor de
idade.
A Assembléia Nacional, entretanto, tinha
poderes para antecipar a maioridade de D. Pedro.
Foi, então, fundado o Clube da Maioridade,
organização política cujo objetivo era lutar pela
antecipação da maioridade do príncipe.
A tese do Clube da Maioridade teve o
apoio das classes dominantes e uniu políticos
progressistas e parte dos regressistas.
A elite política acreditava que a figura de um imperador com fortes poderes
seria essencial para liquidar as revoltas provinciais e, desse modo, restabelecer a
ordem social que interessava aos grandes proprietários de terra e senhores de
escravos.
Em 1840, a Assembléia Nacional aprovou a antecipação da idade do príncipe
Pedro de Alcântara. Era a vitória do Clube da Maioridade.
Assim, o jovem Pedro foi aclamado imperador, com o título de D. Pedro II,
em 23 de julho de 1840. Iniciava-se o Segundo Reinado, período que durou quase
meio século (1840 a 1889).
65
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A maioridade nas ruas

O Golpe da Maioridade não foi apenas uma campanha restrita


aos círculos políticos convencionais. Ela ganhou as ruas e empolgou a
população, grande parte da qual via na figura do jovem príncipe a
possibilidade de restabelecer a paz e manter a unidade nacional.
Pelas cidades, grupos de populares entoavam cantigas em apoio ao
novo imperador:

"Queremos Pedro II.


Embora não tenha idade,
A nação dispensa a lei,
E viva a maioridade."

Mas nem todos eram otimistas em relação ao jovem


governante. Na boca dos opositores, as cantigas ganhavam ares
poucos lisonjeiros:

"Quem põe governança


Na mão de criança,
Põe geringonça
No papo da onça."

Agora responda em seu caderno:


15) Para esmagar as revoltas e fortalecer o poder central, qual foi a solução
encontrada por progressistas e regressistas?

66
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O SEGUNDO REINADO
Bem, você acabou de estudar o
Período Regencial. Aprendeu que as
revoltas, os conflitos políticos e sociais
botavam fogo no país.
Aprendeu também que o menino
Pedro de Alcântara, filho de D. Pedro I, só
poderia assumir o governo ao atingir a
maioridade, ou seja, 18 anos.
Mas, os representantes do Partido
Liberal resolveram antecipá-la e deram o
“golpe da maioridade”, isto é, articularam-
se para modificar a Constituição, declarando
Pedro de Alcântara maior de idade no dia 23
de julho de 1840. No ano seguinte, com 14
anos, foi coroado imperador, recebendo o
título de D. Pedro II.
Com a coroação de D. Pedro II em
1840, iniciou no Brasil o SEGUNDO
REINADO - que se estendeu até 1.889 com a
Com apenas 14 anos, D. Pedro II Proclamação da República.
tornou-se imperador do Brasil.
O governo de D. Pedro II durou 50
anos, sendo o mais extenso de toda a história do Brasil independente. Nesse período
o país passou por profundas transformações, com a consolidação do café como
principal riqueza nacional e um primeiro surto industrial.
Apesar de todo o progresso econômico, o Segundo Reinado seria marcado
por vários conflitos com países vizinhos no sul do continente. O maior deles, a
Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1870.

Bem, antes de continuar este


assunto, você dará um rolêzinho
pelo mundo da época, para
saber o que estava acontecendo.
Vamos nessa?

67
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

A SITUAÇÃO MUNDIAL
No final do século XIX, a indústria conheceu importantes mudanças
tecnológicas, que alguns historiadores chamam de Segunda Revolução Industrial.

Observe algumas mudanças tecnológicas desse período.

Segunda
Primeira Revolução Industrial
Revolução Industrial
Começo Por volta de 1760 Final do século XIX
Tecnologia Máquina a vapor Motor diesel, à gasolina e elétrico

Principais Tecido, Petroquímica, siderurgia (aço) e


Indústrias objetos de ferro máquinas pesadas
(motores, navios, locomotivas)

Saiba que nessa fase, a


economia capitalista entrou num CAPITALISMO - Regime econômico baseado
na:
período de grande crescimento,
tanto na Europa como nos Estados  propriedade privada dos meios de
produção e distribuição;
Unidos.  na livre concorrência entre as
empresas;
Esse crescimento  na procura do lucro pelo empresário;
refletiu-se na  no trabalho livre;
 na existência de um mercado
ampliação do comércio mundial consumidor e na exploração dos
e no enorme acúmulo de capitais trabalhadores pelos capitalistas.
entre os empresários Portanto, para que exista capitalismo é
necessário que exista capital, mercado
das grandes potências. consumidor e trabalho livre.

Para você ter uma idéia, aproximadamente 80% do capital mundial


concentrou-se em POUCAS NAÇÕES RICAS como:

68
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Como ocorreu a concentração econômica nesses países?
A concorrência entre empresas capitalistas transformou-se numa verdadeira
batalha de preços. Nessa batalha, as empresas mais poderosas foram vencendo as
mais fracas.

Nessa “luta” de negócios, as empresas vencedoras foram concentrando


capitais e dominando a produção de alguns setores.
Monopólio Surgiram, então, os monopólios industriais, que
Industrial: privilégio
eliminavam a concorrência e podiam fixar preços em busca
exclusivo de um
grupo de empresas. de maiores lucros. Esses monopólios industriais eram
representados pelo cartel, pela holding e pelo truste, novas
formas de organização das empresas que perduram até os dias de hoje.

CARTEL – GRUPO DE GRANDES EMPRESAS QUE


ESTABELECEM ENTRE SI UM ACORDO COM O
OBJETIVO DE CONTROLAR OS PREÇOS OU O
MERCADO DE UM DETERMINADO SETOR.

HOLDING – NASCE DA ASSOCIAÇÃO DE DIVERSAS


EMPRESAS SOB A DIREÇÃO DE UMA EMPRESA
CENTRAL, QUE DETÉM O CONTROLE E A MAIORIA
DAS AÇÕES DE SUAS ASSOCIADAS.

TRUSTE – FUSÃO DE DIVERSAS EMPRESAS DO


MESMO RAMO NUMA ÚNICA, QUE PASSA A DOMINAR
TODAS AS FASES DA PRODUÇÃO: DA OBTENÇÃO DA
MATÉRIA-PRIMA ATÉ A
COMERCIALIZAÇÃO DO PRODUTO.
Caricatura da época satirizando os trustes.

69
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O processo de concentração econômica também se desenvolveu no setor
financeiro. Os grandes bancos associaram-se às grandes indústrias para financiar
seus inventos e participar dos lucros de seus projetos.

Assim, temos a fusão (união) do...

...marcando essa nova fase do capitalismo, conhecido como


CAPITALISMO FINANCEIRO E MONOPOLISTA
e caracterizado por:
 Grande aumento da produção industrial, que acabou gerando
a necessidade de ampliação dos mercados consumidores;
 Enorme acúmulo de capitais, que acabou gerando a busca de novos
projetos para investimentos lucrativos.

Com a grande produção os mercados europeus não conseguiam consumir


tudo o que os monopólios produziam.

ESSA NÃO...
...PROBLEMAS!

Mercadorias encalhadas...
Diminuição da produção...

Desemprego... Vieram as crises...

Como sair da crise? A solução do capitalismo para expandir a produção


industrial e investir os capitais acumulados foi conquistar novos mercados.

70
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Surgia assim o...


...Imperialismo no século XIX
O alvo dessa expansão foi as
nações pobres, que ainda não tinham O IMPERIALISMO consiste na
dominação econômica (com reflexos
atingido o desenvolvimento políticos e culturais) de um país sobre outro.
industrial. O objetivo do Durante o séc. XIX, por exemplo,
neocolonialismo (novo colonialismo) empresas inglesas investiram grandes somas
de capital destinadas à construção de
era a repartição econômica e política ferrovias e ao aperfeiçoamento de serviços
do mundo. públicos, como transporte urbano e
iluminação a gás, em países como o Brasil.
As potências européias
Já o NEOCOLONIALISMO significa a
adotaram essa política principalmente dominação total de um país sobre outro. A
na África, mas estenderam-na maioria dos países africanos e asiáticos
também à Ásia e à América Latina. foram vítimas do neocolonialismo, pois seus
territórios foram conquistados e submetidos
O neocolonialismo era no plano econômico, político, administrativo,
diferente do velho colonialismo militar e cultural.
mercantilista do séc. XVI ocorrido na
América e Ásia - voltado aos interesses do capital comercial que era obter
especiarias, metais preciosos e produtos caros que pudessem ser vendidos no
mercado europeu.
O neocolonialismo (séc. XIX e início do XX) foi fruto do capitalismo
industrial, ou seja, nessa época, os países industrializados procuravam encontrar
territórios ricos em matérias-primas para abastecer sua economia e novas regiões
para investir o capital excedente, além da busca pela expansão do mercado
consumidor para produtos industrializados. E mais, as colônias tinham que atender
aos problemas de crescimento populacional da Europa, e o fornecimento de mão-de-
obra numerosa e barata.

...mas, como será que os europeus


justificaram essa dominação?

 Do ponto de vista ideológico, justificava-se a expansão em razão da


obrigação moral que os homens brancos tinham de levar a civilização a todo o
mundo. Este seria o “fardo do homem branco”, uma verdadeira missão
civilizadora: tinham por obrigação difundir o progresso pelo mundo, ou seja,
caberia às nações da Europa difundir seus hábitos, costumes e tradições entre povos
“atrasados e primitivos”.
Obviamente, não se perguntavam aos habitantes da África e Ásia se eles
aceitavam tal “civilização”. Crentes em sua superioridade moral, os europeus
impunham seus valores pela força das armas: era a “diplomacia do canhão”.

71
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
 Do ponto de vista prático, as potências imperialistas
exerciam o domínio político sobre os territórios conquistados
por meio da administração direta ou por acordo com as elites
locais. Dos dois modos obtinha-se a exploração econômica que
era o objetivo final da colonização.
Assim, criou-se o “mito da superioridade da civilização
industrial européia”, tendo por base elementos como:
 O europeu estava destinado a levar o progresso técnico-
científico (Revolução Industrial) e os “bons costumes”
aos povos não europeus.
 A “raça branca” é superior às outras (esse argumento
está contido em teorias raciais da época).
 As nações cristãs tinham o dever de levar o cristianismo
a todos os povos que viviam mergulhados na “superstição” e na “barbárie”.
Valendo-se desses argumentos elitistas e racistas, as grandes potências
industriais exploraram, violentaram e mataram milhões de nativos da África a da
Ásia, enquanto dividiam entre si as riquezas desses vastos continentes.
Em uma improvisada escola da
Argélia, dois professores
franceses ditam lições a
crianças e adultos árabes, em
1860. Na foto, a frase escrita
na lousa aconselha em
língua francesa:
"Meus filhos, amai a FRANÇA,
vossa nova pátria".

Na verdade esse “conselho”


era uma imposição,
já que a população nativa
não tinha escolha.

Utilizando a violência, os países


imperialistas impuseram seu domínio
econômico sobre o mundo.
Assassinaram..., pilharam... e
exploraram...

Os capitalistas europeus
enriqueceram
a custa da miséria e do sofrimento de
milhões de africanos, asiáticos
e latino-americanos.

72
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Entre o século XV e início do XIX, a África foi vista pelos europeus
somente como um grande empório, isto é, um A Ásia foi disputada pelas
grande centro de comércio de escravos e potências européias,
especiarias (pimenta, plantas, animais raros e Japão e Estados Unidos.
marfim), mas, com o extraordinário avanço do
capitalismo, os magnatas europeus passaram a encarar a África como um
vastíssimo mercado consumidor de produtos industrializados e
fornecedor de matéria-prima.
Nessa mesma época descobriu-se que as terras africanas
eram ricas em pedras preciosas, principalmente diamantes.
A divulgação dessa notícia fez com que essas terras
passassem a ser vista como uma área onde investimentos em
mineração, portos e estradas
...e como ficou o Continente
dessem lucros extraordinários. Africano após a repartição entre
as potências européias?

O Continente Africano começou a ser explorado pelos europeus no século


XV, quando os portugueses alcançaram e dominaram vários pontos do seu litoral.
De lá arrancaram ouro, marfim e principalmente escravos para as colônias
americanas.
Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, os europeus conheceram e
exploraram o litoral e as desembocaduras dos rios, mas o interior do Continente
continuou inacessível e inexplorado até o século XIX.
Foi então que a África se tornou alvo de disputas entre a Inglaterra, a França,
a Bélgica, a Alemanha e a Itália.
Acordos e conferências internacionais evitaram um confronto direto entre os
vários países envolvidos na Partilha da África. Em compensação, a ocupação dos
territórios africanos se fez sempre com extrema violência e resultou numa
exploração sem limites. Praticamente todo o Continente foi dominado pelos países
europeus.

73
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A partilha da África ocorre a partir de 1870, quando a Alemanha e a Itália
entraram em disputa com a Inglaterra e a França pela conquista de territórios.

Ocupação
britânica
é a mesma coisa
que Império da
Inglaterra.

Em 1885, quando a
ocupação já se achava num
estágio avançado, as
potências européias se
reuniram na Conferência de
Berlim, convocada pelo
primeiro-ministro alemão
Bismarck, a fim de
oficializar a partilha da
A fome, o principal
problema de muitos
África.
países africanos, é uma Essa conferência
das heranças do
imperialismo europeu. determinou que, para tornar-
se dono de um território
africano tinha que ocupá-lo efetivamente.

74
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Assim, as nações se armaram para conquistar novos territórios e enfrentar
ameaças das potências concorrentes. Após a partilha ocorreram movimentos de
resistência. Muitas manifestações foram reprimidas com violência pelos
colonizadores. A partilha foi feita de maneira arbitrária, não respeitando as
características étnicas e culturais de cada povo, o que provocou e ainda provoca
muitos dos conflitos atuais no continente africano. A colonização suprimiu as
estruturas tradicionais locais e deixou um vazio cultural de difícil reversão.

Também foram exploradas as rivalidades entre os próprios grupos


africanos para facilitar a dominação.
Em longo prazo, essa “missão IMPORTANTE
civilizadora” deixou uma herança de fome,
destruição, miséria, divisões e guerras tribais e Os conflitos gerados pelos
estagnação econômica entre os povos africanos, interesses colonialistas do
século XIX e início do XX
que até hoje sofrem as conseqüências daquela levaram a I Guerra Mundial.
dominação. A maioria esmagadora dos países
pobres da atualidade foi ex-colônia e, com certeza,
estiveram submetidos à expansão imperialista do século XIX, e quase todos os
países capitalistas desenvolvidos da atualidade foram nações imperialistas no
passado.
PARA REFLETIR
Talvez, as teorias racistas já existiam antes da colonização, antes do imperialismo,
mas tinham pouca repercussão.
Na região africana, o imperialismo deu-lhes substância e vida, e propagou-as em
definitivo pelo mundo.

75
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Você sabia que as teorias racistas e


imperialistas foram aplicadas até na
própria Europa?

Não? Então fique por dentro!

Em 1933, HITLER foi eleito primeiro-ministro na Alemanha. Através


de um "golpe" tornou-se ditador e segundo suas idéias, o povo alemão era
"superior aos demais" e tinha por isso, o direito de predominar sobre o resto da
humanidade. Para isso, era necessário manter a pureza da raça ariana (alemã) e
combater a influência dos judeus que eram vistos como um fator de corrupção do
povo alemão. E mais, reunir todos os alemães espalhados pela Europa num só
"Reich" (Império) e construir a GRANDE ALEMANHA, ocupando assim, outros
países.
Proclamando o poder total de uma de uma raça superior,
sobre outros europeus...
...em 1935 iniciou-se a perseguição aos judeus que foram considerados
como "raça inferior", perderam o direito ao voto, perderam os empregos públicos e
tiveram suas propriedades destruídas.
Perseguidos por Hitler foram expulsos da comunidade alemã e mandados
para os "campos de concentração", onde morreram cerca de 5 a 6 milhões de
judeus.
Sobre este assunto, você estudará mais a frente.

...e como se deu o


Imperialismo na América Latina?

Bem, como você já estudou, a dominação imperialista na África e Ásia se deu


por meio da ocupação dos territórios, certo? O mesmo não ocorreu na América
Latina.
76
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Para entender esse processo, vale Ao longo de todo o séc. XIX,


recordar que, nos termos do pacto colonial,
França, Inglaterra e Estados Unidos
estabelecido na época da colonização no
século XVI, a economia das colônias foidisputaram entre si a dominação
definida como complementar à das econômica e política sobre a América
metrópoles. Assim, cabia às colônias
cultivar produtos tropicais de larga Latina, que representava fonte de matérias-
primas e mercado para seus produtos
aceitação no mercado europeu ou oferecer
metais preciosos que promovessem o
rápido enriquecimento da metrópole. industriais. E mais, interferiram nas
disputas políticas internas dos países
vizinhos ao Brasil (ex-colônias espanholas), nas quais se revezavam ditaduras de
caudilhos (caudilhos eram chefes locais que impunham a ordem através da força).
No Brasil ainda era a Monarquia, certo?
Para as elites coloniais, era cômodo e interessante ceder à dominação
econômica dos países capitalistas industrializados, sobretudo da Inglaterra, que
fornecia artigos de alta qualidade em troca dos produtos primários vendidos. Nessas,
condições, os países latino-americanos não se
Dessa forma, mesmo
lançaram ao desenvolvimento econômico, autônomo e sendo politicamente
auto-sustentado, como aconteceu nos Estados Unidos. independentes, os países
Ao contrário, para consolidar os novos governos após da América Latina
passaram a manter com as
a independência no início do séc. XIX, viram-se nações industrializadas
obrigados a recorrer ao capital estrangeiro. uma relação de
dependência econômica.
Nessa época, a penetração do capital
imperialista se dava por duas vias: empréstimos aos governos e os investimentos
diretos de capital, principalmente em mineração, operações financeiras, comércio
de exportação e importação, transporte (ferrovias), companhias de navegação e
serviços públicos urbanos. Assim, a invasão de novos produtos, a modernização
urbana e a mudança nos hábitos e costumes caracterizaram a entrada da América
Latina na esfera do capitalismo internacional.
Fica fácil você imaginar então que a iluminação a gás, as ruas
pavimentadas, a arquitetura, os teatros, as ferrovias, os bondes e as vestimentas
européias, deram um “ar de progresso” às nações latino-americanas, não é
mesmo?
No entanto, conservavam sua velha estrutura econômica, isto é, enquanto os
países industrializados se firmavam como potências européias, os países da América
Latina, incluindo o Brasil, continuavam agrícolas, com mão-de-obra escrava,
exportadores de alimentos e de matérias-primas.
Não se esqueça que esse tipo de relação só foi
possível manter, devido à aprovação ou até o apoio
e a colaboração explícita de algumas elites latino-americanas.

77
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Na verdade, a expansão imperialista dos Estados Unidos, tinha começado a
muitos anos antes - na Ásia. Em 1844, os Estados Unidos conseguiram assinar um
tratado comercial com a China; dez anos depois, forçaram o Japão a abrir seus
portos ao comércio americano. Nessa mesma época, conquistaram inúmeras ilhas do
Pacífico.
Como ocorreu na Índia e na China, a entrada de produtos americanos
arruinou a nascente manufatura e o antigo artesanato japonês. Os samurais
(guerreiros de origem nobre, possuidores de pequenos feudos) lideraram a reação
contra os estrangeiros e com o apoio dos camponeses e da população das cidades,
restauraram o poder do Imperador Mitsuhito - conhecida como era Meiji (mei, em
japonês, quer dizer "luz").
Em pouco tempo o Japão se tornou uma nova potência capitalista. E, como
os países do Ocidente, empenhou-se em ampliar sua dominação imperialista sobre a
Ásia.

O capitalismo transforma tudo em


mercadoria, inclusive os seres
humanos, suas emoções e fantasias.

...mas, e os ESTADOS
UNIDOS?
Quando começaram a se impor
por aqui?

A partir de 1870, os Estados Unidos começaram a se impor por aqui, tendo por base
a Doutrina Monroe “a América para os americanos”.

78
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Mas, como assim?


É que na Ásia, os Estados Unidos implantou a política de “portas abertas”,
isto é, todas as potências deveriam ter os mesmos direitos de exploração comercial e
financeira naquela região. Já para a América Latina, seguiram a política
“a América para os americanos”, isto é, de “portas fechadas” para qualquer
potência, exceto para os Estados Unidos – era o...
...IMPERIALISMO NORTE – AMERICANO AQUI
Essa era na verdade uma advertência aos países europeus
para que não interferissem nos assuntos do continente americano.
Saiba que na América Central (grande produtora de
banana), a hegemonia (poder) dos Estados Unidos ocorre desde o
início do séc. XIX. Este intervém na região, para garantir
concessões territoriais a monopólios agrícolas norte-americanos.
Em 1846, como resultado da guerra contra os Estados
Unidos, o México perde quase metade do seu território
(Califórnia, Arizona, Novo México, Utah, Nevada e parte do Colorado passam ao
domínio norte-americano).
A guerra pela independência de Cuba (América Central), iniciada em 1895,
serve de pretexto para a intervenção norte-americana e para o desencadeamento da
guerra entre os Estados Unidos e a Espanha. Cuba conquista a independência em
1902, sob a tutela dos Estados Unidos. Como resultado da derrota espanhola, em
1898, Porto Rico passa ao domínio norte-americano. Em 1903, por imposição da
frota naval norte-americana, o Panamá separa-se da Colômbia e concede aos
Estados Unidos a soberania sobre a Zona do
Canal do Panamá.

79
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Após 1909, o imperialismo americano foi substituindo a força militar


pela força do dinheiro.
Em vez do “porrete”, utilizou a “diplomacia do dólar” para comprar os
favores dos políticos latino-americanos.
Foi assim que as elites financeiras e industriais norte-americanas
alcançaram as facilidades econômicas que desejavam nos países da América
Latina, em prejuízo de suas populações.

1 – Explique porque o neocolonialismo foi fruto do capitalismo industrial.


2 – Identifique conseqüências atuais da missão civilizadora sobre os povos
africanos.
3 – Qual o significado da política "a América para os americanos" do
século XIX?

80
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Bem, até aqui, você estudou em linhas gerais a


situação mundial da época, certo?

Como você já estudou, nosso país passava por um quadro de instabilidade


social, política e econômica. A posse de D. Pedro II como imperador do Brasil
representava para grande parte da população e dos políticos uma esperança de
estabilidade. Afinal, estabelecia-se o princípio pelo qual tinha se organizado o
Estado Brasileiro: o da centralização do poder na figura do imperador.
Os grupos dominantes puderam, então, construir uma ordem política e social
estável, baseada na supremacia do imperador sobre todos os outros poderes do
Estado, na grande propriedade rural monocultura e no trabalho escravo.
A principal garantia material dessa estabilidade era a prosperidade
econômica, assegurada pela expansão de um novo produto de exportação: O CAFÉ.

1 – O CAFÉ É O NOVO REI


 A supremacia do café
O café foi introduzido no Brasil por volta de 1727. A
princípio, era um produto sem valor comercial, uma bebida
destinada apenas ao consumo local.
Entretanto, a partir do início do século XIX, o hábito de
beber café tornou-se popular na Europa e nos Estados Unidos. O
número de consumidores internacionais de café crescia
rapidamente.

81
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Plantar café não exigia investimentos tão grandes quanto os exigidos num
engenho (que precisava de um equipamento caro). Geralmente, bastava derrubar a
mata, aproveitar a madeira e tocar fogo no resto.
Os grandes lucros Em seguida plantavam as mudas. Ninguém
gerados pela exportação do café usava ferramentas sofisticadas. Depois de
permitiram a recuperação plantado, o cuidado não era muito. Capinava
econômica do Brasil, cujas
finanças estavam abaladas para tirar as ervas daninhas e entre as fileiras de
desde a época da pés plantavam milhos e feijão.
independência, devido a O Sudeste tinha o clima (chuvas regulares)
empréstimos externos e à queda
nas exportações agrícolas.
e o solo ideais e, mais ainda, as condições
econômicas ideais para a cafeicultura.
Lembre-se que desde o século XVII, São Paulo expandia a produção
açucareira e isso fez surgir uma importante base econômica: capital para investir,
estradas, mercados. O Porto de Santos, antes de ser do café, foi do açúcar,
portanto, o dinamismo econômico da região favoreceu a expansão do café.
Com todos esses
recursos, o Brasil se tornou em
pouco tempo o principal
produtor mundial de café.
E foi pelo fato de poder
investir, que os latifundiários da
região aplicaram no café. A
partir de 1837, o café já era o
principal produto de exportação
do Brasil. Graças ao café, o
saldo da balança comercial
brasileira passou a ser positivo a
partir de 1861. Isso quer dizer
que se exportava (vendia) mais
do que se importava
Embarque do café no Porto de Santos. (comprava). Era dinheiro de
fora (libras esterlinas, a moeda
inglesa) entrando aqui (para o bolso dos latifundiários, é claro!).
Exportava-se café principalmente para os EUA, Inglaterra, França e
Alemanha.
As primeiras fazendas de café apareceram no fim do século XVIII, em São
Gonçalo no Estado do Rio de Janeiro. Em 1889 (ano da proclamação da República)
São Paulo já ultrapassava a produção do Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o café foi plantado inicialmente no litoral norte – VALE DO
PARAÍBA – e sem nenhuma preocupação ecológica. Os solos foram se desgastando
e a produtividade caiu.
82
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Na segunda metade de século XIX, o café expandiu-se em direção ao oeste


paulista, encontrando um tipo de solo extremamente favorável ao seu
desenvolvimento: a terra roxa.
Nessa marcha para o oeste, o café destacou-se em várias cidades paulistas,
como: Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto, Araraquara e São José do Rio Preto.

Os cafeicultores tornaram-se a classe social mais influente da sociedade


brasileira, passando a interferir na vida econômica e política do país.

Observe no mapa abaixo a expansão do café.

 A questão do tráfico negreiro


O Brasil, desde 1810, sofria pressões inglesas para extinguir o tráfico
negreiro, mas este continuava a acontecer. Proclamada a independência do Brasil, a
Inglaterra fez nova investida.
Em 1826, D. Pedro I comprometeu-se a eliminar inteiramente o tráfico de
escravos em 3 anos, mas o acordo não foi cumprido, e com a sua abdicação, os
latifundiários (grandes proprietários de terras e de escravos) subiram ao poder –
83
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
eram os regentes – mas a lei não foi respeitada. A importação de negros continuou,
sob proteção das próprias autoridades, pois o café estava se expandindo pelo Vale do
Paraíba, utilizando mão-de-obra escrava.
A Marinha Inglesa tudo fez para pressionar os
A abolição
traficantes e assim, cresceram as tensões entre o Brasil e a do tráfico de
Inglaterra. escravos exigia,
A Inglaterra decidiu então agir por conta própria e em 8 portanto, uma
de agosto de 1845, o Parlamento Inglês aprovou a Lei solução problema
para o
da
Bill Aberdeen, segundo o qual, dava direito à Inglaterra de falta de mão-de-
apreender qualquer embarcação usada no tráfico de negros e obra.
fazer julgar os infratores pela justiça inglesa.
O “Bill Aberdeen” constituía inclusive, um desrespeito à soberania
brasileira, pois os ingleses não hesitavam em operar A extinção do tráfico
em águas territoriais do Império, e os protestos do negreiro era questão
Brasil não foram levados em consideração. Para o internacional desde o início
do século XIX.
governo brasileiro, o problema do tráfico tornou-se Para as indústrias
uma questão de honra. inglesas interessava o fim
Após 5 anos de tensões, foi promulgada em da escravidão, pois
ampliaria o mercado
4 de setembro de 1850, a Lei Euzébio de Queirós, consumidor, elevando,
que extinguia definitivamente o tráfico negreiro. Mas portanto seus lucros.
ainda registraram-se entradas de negros no Brasil até
1856.

O que permitiu o cumprimento da Lei Euzébio de Queirós?

As condições internas do comércio negreiro se modificaram muito – pois os


preços dos escravos subiram a níveis tão altos que o traficante os vendia a crédito,
cobrando juros altíssimos. Com isso, muitos proprietários acabavam entregando suas
terras ao traficante para saldar suas dívidas. Por isso, o governo não teve grandes
dificuldades em fazer executar a Lei Euzébio de Queirós.

 Mão-de-obra escrava e livre


Os latifundiários
De início os latifundiários (grandes proprietários de queriam resolver o
terras) apelaram para o tráfico interno. As lavouras problema de mão-
de-obra sem mexer
nordestinas, que apresentavam sinais de decadência, na estrutura
começaram a vender seus escravos para o Sul cafeeiro. fundiária brasileira.
Somente na década de 1850, a Bahia, por exemplo, enviou
mais de 12 mil escravos para os cafezais do Vale do Paraíba.

84
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Essa solução era deficiente e temporária, pois, além do seu enorme preço, os
escravos não sobreviviam por muito tempo, obrigando à constante reposição.

A solução encontrada foi incentivar a vinda de imigrantes estrangeiros


para cá, sendo o maior atrativo a doação de terras aos mesmos, pois permitiria a
formação de núcleos coloniais de pequenos proprietários (foi o que ocorreu no Rio
Grande de Sul e, mais tarde, em Santa Além disso, o Brasil precisava torna-se
Catarina). um país de brancos, como as nações
Assim, em novembro de 1808, européias: a França, a Inglaterra, a
o príncipe regente promulgou o decreto Alemanha, a Itália. Por isso o governo
incentivou a vinda de imigrantes europeus.
de “doação de terras” aos Esse decreto dizia que o Brasil estava
estrangeiros, assegurando a aberto para a livre entrada de pessoas que
propriedade territorial e isso tivessem saúde e fossem capazes de
continuou no governo imperial trabalhar, “com exceção dos nativos da
Ásia e da África”.
brasileiro. O governo brasileiro não queria saber
Mas essas medidas do governo de orientais e de negros.
brasileiro não eram bem vistas pelos
latifundiários. Estes afirmavam que o Brasil precisava de braços para a grande
lavoura e não de povoadores, não sendo justo conceder terras a estrangeiros e
dificultar sua aquisição pelos brasileiros. Todavia, esses grandes proprietários
recusavam-se a admitir uma divisão de terras entre os brasileiros.

Perceba a contradição... é até irônica, não é mesmo?

Em 1840, em sua fazenda de Ibicaba (Limeira/SP), o senador Nicolau de


Campos Vergueiro teve uma iniciativa pioneira. Inaugurou no Brasil o “regime de
parceria”.
Pelo “regime de parceria”, os imigrantes tinham a viagem paga até a
fazenda; lhes era dado algum dinheiro e mantimentos até que eles pudessem
sustentar-se pelo próprio trabalho, comprometendo-se a cultivar, colher e beneficiar
o produto (café) e, após a venda, metade do lucro seria do colono. Só que, a metade
do lucro do café, quase nunca lhe chegava as mãos, pois eram descontadas todas as
despesas que o fazendeiro assumiu com sua contratação (viagem, transporte,
sustento e mantimentos etc.). Por essas e outras razões o regime de parceria
fracassou.
Em 1808, o decreto de doação de terras não estava mais em vigor e em
1850, os barões-do-café haviam conseguido a aprovação da Lei de Terras que
permitia a aquisição de terras devolutas (desocupadas) somente através da compra e
que o imigrante deveria permanecer por 3 anos na fazenda de café, só então poderia
deixá-la e comprar sua própria terra, portanto, o imigrante teria que vir como
trabalhador assalariado e, de certa forma, ficaria preso à fazenda de café.

85
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Veja que essa lei permitia aos latifundiários monopolizar o trabalhador
imigrante, uma vez que o mesmo precisaria trabalhar muito e acumular muito
dinheiro para ter condições de adquirir suas próprias terras.
Saiba que foi no Oeste Paulista que se operaram as primeiras e decisivas
mudanças na estrutura de produção da economia brasileira.
Enquanto o Vale do Paraíba, apesar de sua preponderância, permanecia
preso ao escravismo e às técnicas rudimentares, o O trabalhador assalariado
Oeste Paulista iniciava a utilização da mão-de- consolidou-se no país a partir
obra livre, introduzia a mecanização no de 1870, concentrando-se,
beneficiamento do café. inicialmente, nos cafezais
do Oeste Paulista.
O centro do poder político e econômico
Nas demais regiões, o
(antes no Nordeste), transferiu-se para o Centro-Sul, trabalho escravo continuou a
pois o café ultrapassou o açúcar nas exportações ser amplamente utilizado.
brasileiras e os cafeicultores passaram a
desempenhar um papel de destaque na Foram bastante significativas as
administração dos negócios públicos, muitas inovações no sistema de
assim, definiu-se uma nova aristocracia trabalho e na sociedade brasileira na
área cafeeira do Oeste Paulista, mas,
rural: a dos fazendeiros de café, em grande parte do Brasil ainda
conhecidos também como Barões do café permanecia o uso da
em substituição à dos antigos senhores de mão-de-obra escrava.
engenho. Até quase o final do século XIX,
O café também foi o principal ESCRAVO e TRABALHADOR LIVRE
responsável pelo crescimento do nosso ASSALARIADO coexistiram de forma
mercado interno, principalmente com a CONTRADITÓRIA e DESARMÔNICA.
introdução do trabalho assalariado. As atividades ligadas direta ou indiretamente a
esse produto acabaram contribuindo para a expansão dos serviços urbanos e, por
conseguinte, para o crescimento das cidades, dinamizando o processo de
urbanização - o “café trouxe riquezas e cidades”.

 O alvorecer da indústria: a
era Mauá CURIOSIDADE:
Popularmente, os trabalhadores que
varrem as ruas são chamados de garys,
Um viajante que visitasse o Rio de certo?
Janeiro, no início do século XIX, e depois Você sabe porquê?
retornasse na metade do mesmo século, É que nessa época, no Rio de Janeiro, a
ficaria surpreso com as novidades. A cidade limpeza urbana passou a ser feita pela
firma Aleixo Gary, que tinha empregados
crescia, as ruas passaram a ter luz de lampião – os lixeiros, logo apelidados de garys –
a gás em vez do velho lampião fedorento a aí a moda pegou...
óleo de baleia, apareceram os bondes
puxados por burros, lojas e mais lojas.

86
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Havia menos “tigres”, que eram os escravos que pegavam os dejetos (lixo e
“tudo aquilo que se jogava dos penicos”) e jogavam na praia.
Firmas inglesas instalavam tubos de esgoto e encanamentos: maravilhas das
maravilhas iriam surgir nas casas ricas, a privada e o chuveiro! Nasceram fábricas,
bancos, companhias de seguro e ferrovias, empresas capitalistas.
Desde 1850, uma linha regular de navios a vapor ligava a capital do Império:
Rio de Janeiro a Londres (capital da Inglaterra), trazendo notícias quentinhas da
Europa: a elite brasileira conseguia se sentir mais europeizada, mais civilizada.
Era a modernidade chegando de mansinho na capital do Império. Esse
quadro de mudanças no Rio de Janeiro, lá pela metade do século XIX, caracterizou
a chamada Era Mauá - refere ao mais importante empresário capitalista da época,
o BARÃO DE MAUÁ – que dedicou-se com firme propósito, a criar no Brasil a
infra-estrutura que faltava à produção
Em quase todos os anos, o Brasil
nacional. teve déficit na Balança Comercial, ou
seja, o país importava (comprava)
Como foi possível essa gestação da mais do que exportava (vendia).
industrialização brasileira? Para cobrir os saldos negativos, o
governo imperial resolveu cobrar mais
impostos sobre importação de
As possibilidades que o país oferecia mercadorias - era a Tarifa Alves
haviam aumentado depois da decretação da Branco - de 1823 a 1844.
Tarifa Alves Branco em 1844 e da Lei O fato é que a tarifa encareceu os
produtos importados (comprados) da
Euzébio de Queirós em 1850, que liberara Inglaterra. Estava aí a chance para se
capital, pois, com essa lei, os brasileiros desenvolver uma indústria nacional e
responsáveis pelo tráfico, não podiam mais vender produtos nacionais com
preços menores que os importados.
lucrar no comércio de seres humanos.
Você retomará este assunto no módulo 8, por enquanto, basta você perceber
que o fim do tráfico de escravos fez “sobrar” capital.

Assim, por que não investir parte desse capital em negócios como bancos,
fábricas ou estradas de ferro? E mais, o desenvolvimento do café também provocou
o aumento da circulação de capitais e alguns fazendeiros investiram em outros
setores como bancos, estradas de ferro, comércio etc.
Mas, apesar dos esforços de Mauá, suas iniciativas não chegaram a implantar
uma industrialização efetiva, devido à insuficiência de nosso mercado interno, à
dependência econômica do Brasil e aos interesses imediatistas dos latifundiários,
que não hesitavam em aprovar leis e decretos prejudiciais ao desenvolvimento
industrial. A economia brasileira tomava rumos cada vez mais favoráveis aos
cafeicultores e a política do governo imperial variava conforme as pressões. Assim,
em 1860, as tarifas Alves Branco foram alteradas para satisfazer às exigências da
aristocracia agrária e as exigências dos grandes comerciantes ingleses.

87
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os portos reabriram a penetração de manufaturas e alimentos estrangeiros.
Com a concorrência dos produtos ingleses, baixou o custo de vida, favorecendo os
cafeicultores, mas prejudicando nossa frágil estrutura industrial.

O Barão de Mauá
Nascido no Rio Grande do Sul em 1813, perdeu o pai aos 5 anos de idade.
Começou a trabalhar como engraxador de botas e depois, como
modesto guarda-livros na loja de um comerciante escocês no Rio de Janeiro.
Anos depois, aos 27 anos, ficou sócio do patrão e viajou para a Inglaterra.
Voltou de lá encantado com o que viu: as máquinas as fábricas, as
fundições. Afastou-se do antigo patrão e, em 1848, comprou uma pequena
fundição em Niterói. Os anos passaram e, em 1854, inaugurou na capital do Império –
Rio de Janeiro, a primeira ferrovia brasileira – seus trilhos foram percorridos pela
primeira locomotiva brasileira, apelidada “Baronesa” em homenagem à sua esposa. Esse
feito levou o imperador D. Pedro II a conceder-lhe o título de barão de Mauá, pelo qual
ficaria conhecido.
O fato é que os negócios de Mauá não puderam de desenvolver com as
mudanças, ficou endividado por sucessivos empréstimos. E, não podendo pagar suas
dívidas, foi vendendo seus bens ou os entregou aos credores. Assim, numerosas
empresas suas passaram para as mãos de ingleses e norte-americanos. Além disso,
algumas empresas sofreram sabotagem, tais como “misteriosos” incêndios.
A concorrência inglesa, novamente forte por causa da renovação das facilidades
alfandegárias, fez o serviço principal. Mauá faliu.
Irineu Evangelista de Souza, o engraxador de botas que, depois de ser o homem
mais rico do Brasil, morreu pobre como tinha nascido. Faleceu em 21 de outubro de
1889, em Petrópolis.
A contribuição desse pioneiro residiu no fato de ter possibilitado
a modernização do país.

Somente no final do ano de 1870 o processo industrial tomou rumo definitivo


e seguro, configurando o que se convencionou chamar de...

Os fatores que estimularam as atividades industriais no final do Império foram:


 A produção algodoeira dos Estados Unidos entrou em colapso, devido a
Guerra de Secessão (1861-1865), estimulando o plantio e as exportações de
algodão no Brasil. Como efeito colateral do conflito, houve um surto de
crescimento da indústria têxtil brasileira.
 A Guerra do Paraguai (1864 a 1870), que reanimou a fabricação de
produtos químicos, de instrumentos náuticos etc.
 A queda dos preços de certos gêneros agrícolas (açúcar, por exemplo),

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
 desviando para a indústria os capitais antes empregados nesses setores.
 A união dos industriais para defender seus interesses e impor seus objetivos.

Note que o primeiro surto industrial brasileiro deveu-se, portanto, muito


mais a fatores externos e à iniciativa particular do que ao incentivo governamental.

A Guerra do Paraguai levou o Exército e a


Marinha brasileira a comprar mais das nossas indústrias,
que a essa altura começava a diversificar sua produção.
Só para se ter idéia, muitos dos navios utilizados por nossa
Marinha de guerra nos conflitos, foram adquiridos no estaleiro
do barão de Mauá.
Foi iniciativa de Mauá, a instalação do telégrafo submarino em 1872, ligando o
Brasil à Europa, o que permitiria acompanhar diariamente as oscilações dos preços
nos mercados internacionais.

Conheça os outros produtos agrícolas exportados (vendidos) pelo Brasil que


também foram importantes na época:

 Borracha – extraída na Amazônia no final do século XIX..


 Fumo (tabaco) – produzido na Bahia.
 Cacau – também produzido na Bahia.
 Erva-mate – produzida no Sul.

4 – Como a Lei de Terras de 1850 beneficiou os grandes fazendeiros do


café?

5 – De que maneira a economia cafeeira contribuiu para o desenvolvimento


urbano?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
...e como era a política interna no Segundo Reinado?
2 – A POLÍTICA INTERNA DO SEGUNDO REINADO

Para fazendeiros e comerciantes, a


subida de D. Pedro II ao trono representava a
manutenção de seus privilégios políticos e
econômicos, num ambiente de tranqüilidade
social. Acreditavam que o imperador com sua
autoridade liquidaria as rebeliões provinciais,
submetendo os revoltosos e descontentes.
O imperador exercia o poder apoiado
pela mesma minoria de ricos, aqueles que
possuíam 95% das propriedades do país. Por
isso, diziam os versos de uma trova popular:
ao lado...

• Os primeiros anos

Os partidos políticos que


dominaram a vida política do Segundo
Reinado foram o Partido Liberal e o
Partido Conservador.
Esses partidos não tinham
grandes divergências ideológicas. Era
freqüente a passagem de políticos de
um partido para o outro, ambos
representando os interesses dos
grandes proprietários de terra e
escravos. Em questões importantes,
capazes de alterar a estrutura social e
econômica do país, estavam sempre de
acordo.
A capacidade do imperador de entregar – ou não
Concordavam por exemplo, em – o poder a um dos partidos é perfeitamente
manter quase a totalidade da percebida nesta charge da época.
população afastada das decisões
políticas. Devido à exigência de renda, apenas 1% da população brasileira tinha
direito de votar e receber voto.
Embora não tivessem grandes divergências, disputavam com unhas e dentes
as eleições para a Câmara dos Deputados. Eram movidos por disputa pessoal e
ambição de poder, para poderem usufruir as vantagens que o cargo lhes
proporcionava.
90
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

• Violência e fraudes nas eleições

Após assumir o poder, D. Pedro II escolheu para o seu primeiro ministério


políticos do Partido Liberal, que tinham lutado pela antecipação de sua maioridade.
Como participavam do ministério os
irmãos Andrada e os irmãos MINISTÉRIO DO IMPÉRIO
Cavalcanti, ele ficou conhecido como VENDAS A DINHEIRO

Ministério dos Irmãos.


A Violência e a Marcadas
fraude não as eleições para
aconteceram somente
nas eleições de 13 de
a nova Câmara
outubro de 1840. dos Deputados,
Quase todas as a disputa
eleições posteriores
foram marcadas pela política entre
fraude e por muitas candidatos
outras “cacetadas”.
liberais e
conservadores
tomou conta do país.
No dia da eleição (13 de outubro de 1840), A troca de favores e a compra de
cargos públicos e as honrarias
bandos de capangas contratados pelos liberais foram algumas das manifestações
invadiram os locais de votação, distribuindo de corrupção características do
período imperial.
cacetadas e ameaçando de morte os adversários
políticos. Na charge, D. Pedro II assiste, de
Além disso, houve fraudes na contagem braços cruzados, à venda de títulos
de nobreza, enquanto o BRASIL,
dos votos, com a substituição de urnas simbolizado por um índio de
verdadeiras por outras contendo votos falsos. Os joelhos, esconde o rosto,
envergonhado.
liberais venceram na base da fraude e da
violência. Por isso, essas eleições ficaram conhecidas como eleições do cacete.
Os membros do Partido
Conservador reagiram, exigindo A Constituição de
que o imperador anulasse o 1824 estabelecia que
para ser votante era
resultado das eleições. D. Pedro necessário ser
II, influenciado pelos homem, brasileiro,
maior de 25 anos e
conservadores, resolveu possuir uma renda
dissolver a Câmara e convocar anual de pelo menos
novas eleições. Realizaram-se 100 mil réis. Mesmo
permitindo o voto dos
eleições, e os conservadores, analfabetos, apenas
usando os mesmos métodos dos 13% dos brasileiros
liberais (fraudes e violências), livres podiam votar
(não contavam os
conseguiram formar a maioria escravos ou ex-
na Câmara, afastando seus escravos).
adversários – os liberais.

91
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Em São Paulo e Minas Gerais políticos do Partido Liberal revoltaram-se
contra a anulação das eleições e com suas saídas do poder – são as Revoltas
Liberais de 1842. Os líderes dos liberais eram o Brigadeiro Tobias de Aguiar e
Diogo Antonio Feijó (em São Paulo) e Teófilo Otoni (em Minas Gerais).
O governo imperial, por meio das tropas comandadas por Luís Alves de Lima
e Silva, sufocou essa revolta liberal e prendeu os líderes do movimento. Só em
1844 esses líderes foram anistiados (perdoados).

• Parlamentarismo no Brasil

Em 1847, foi criado o


cargo de presidente do
Conselho de Ministros. Esse
presidente (primeiro-
ministro) seria o chefe do
ministério e encarregado se
organizar o Gabinete de
governo.
A criação do cargo de
presidente do Conselho de
Ministros assinala a
introdução do
Parlamentarismo no império.
Realizada a eleição, D.
Parlamentarismo às avessas
Pedro II nomeava um líder
Nos sistemas parlamentaristas europeus, o poder
político do partido vencedor legislativo tem força efetiva no comando da nação. Mas
para o cargo de primeiro- no Brasil isso não ocorreu.
ministro. D. Pedro II, devido ao poder moderador,
Esse líder formava o subordinava todos os demais poderes do Estado. Por
isso, o parlamentarismo brasileiro foi chamado de
Gabinete ministerial que, em “parlamentarismo às avessas”.
seguida, era apresentado à Na Inglaterra, que adotava o parlamentarismo, dizia-
Câmara dos Deputados em se entre os ingleses que: o rei reina, mas não governa.
busca de um voto de No Brasil, o centro de poder político continuava sendo
confiança, que deveria ser o imperador. Entre os brasileiros, dizia-se que...
dado pela maioria ...o rei reina, ri e rói.
parlamentar. Obtida a
Reina sobre o Estado, ri do parlamento
aprovação da Câmara, o e rói o povo.
Gabinete assumia suas
funções de governo.
Caso não fosse aprovado, cabia a D. Pedro II, titular do poder moderador,
demitir o Gabinete ou dissolver a Câmara para convocar novas eleições.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Parlamentarismo & Presidencialismo


Em geral, liberais e
conservadores intercalaram-se
O Parlamento é a câmara que reúne os no poder. Mas houve um
representantes eleitos pelos cidadãos.
período em que decidiram
Nosso sistema atual de governo é o
PRESIDENCIALISMO – o chefe de governo é o governar juntos, através de
presidente da república, eleito diretamente pela acordos políticos.
população. Ele é o chefe do poder executivo e Foi a chamada era da
divide os poderes com o Legislativo (Congresso
Nacional) e o Judiciário (Tribunais e Juízes).
conciliação (1853 – 1868),
No PARLAMENTARISMO, o chefe de governo
concretizada a partir da não
é o primeiro-ministro. Neste caso o povo não o existência de diferenças
elege diretamente. As pessoas votam é para ideológicas fundamentais entre
escolher os membros do parlamento. esses dois partidos.

• Revolução Praieira – a revolta liberal em Pernambuco

A Revolução Praieira foi à última grande revolta interna ocorrida no


império, em 1848. A economia de Pernambuco baseava-se na produção de cana-de-
açúcar para o mercado externo, e quase todos os engenhos da região pertenciam a
algumas poucas famílias ricas, que, pelo poder econômico, dominavam a política de
Pernambuco. O comércio, a segunda fonte de riqueza de Pernambuco, estava
concentrado nas mãos de portugueses. Assim, o poder político e econômico de
Pernambuco eram controlados pela aristocracia rural e pelos A partir de 1848, a
comerciantes portugueses. aristocracia rural
A população das cidades, que representava a camada passava a ser
“senhora absoluta”
média da sociedade, e o povo em geral viviam em dos destinos
permanentes dificuldades econômicas. políticos do país.
O Partido da Praia, constituído por liberais Obteve-se a
pacificação que
pernambucanos, combatia essa desigualdade da sociedade. tanto se desejava, e
Os praieiros apoiavam o presidente de Pernambuco, a maioria
Antonio P. Chichorro da Gama, homem não comprometido da população estava
definitivamente
com os donos de engenho e comerciantes, mas foi nomeado afastada da disputa
um conservador, representante da elite dominante, para pelo poder.
substituí-lo no governo. Os praieiros recusaram-se a aceitar
a nova autoridade e organizaram uma revolta, que eclodiu no dia 7 de novembro de
1848 – era a Revolução Praieira. Os praieiros divulgaram seus planos num
documento chamado “manifesto ao mundo”.
O programa político dos praieiros era liberal e democrático, mas não
tocava na questão da escravidão. Com a derrota dos praieiros, chegava ao fim o
ciclo de revoltas populares que acompanharam e sucederam o movimento de
independência do Brasil.

93
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

3 – A POLÍTICA EXTERNA DO SEGUNDO REINADO

Importantes acontecimentos marcaram as relações externas do Brasil durante


o Segundo Reinado.
Com a Questão Christie brigamos com a Inglaterra e, assim, rompemos
relações diplomáticas com a mais poderosa nação da época.
Já, para preservar interesses econômicos e políticos na região platina –
Questão Platina, o império marchou contra o Uruguai e a Argentina.
Por fim, o Brasil envolveu-se no mais longo e sangrento conflito já ocorrido
na América do Sul: a Guerra do Paraguai.

 A QUESTÃO CHRISTIE

Com o desenvolvimento do capitalismo industrial, a Inglaterra tinha


interesses em acabar com a escravidão negra no Brasil. Esse seu interesse
justificava-se porque:
 os escravos não recebiam salários e, portanto, não participavam do mercado
consumidor;
 o dinheiro gasto na compra de escravos pelos fazendeiros poderia ser
empregado na compra de produtos industrializados.
Para reconhecer a independência do Brasil, os ingleses pressionaram o
governo e conseguiram que fosse aprovada, em 1831, uma lei que declarava livres
todos os escravos importados pelo Brasil a partir daquela data. Mas essa lei não foi
cumprida, pois contrariava os interesses dos fazendeiros, donos de escravos. A lei
foi criada “para inglês ver”.
Em 1845, para agir contra os traficantes de escravos, a Inglaterra aprovou
uma lei – lei Bill Aberdeen, que autorizava sua marinha a atacar navios negreiros.
Cumprindo essa lei, a marinha inglesa invadiu portos brasileiros para caçar navios
negreiros e prender traficantes de escravos, sob protesto do governo brasileiro.
As pressões inglesas contribuíram para que o governo brasileiro promulgasse,
em 1850, a lei Euzébio de Queirós, proibindo o tráfico negreiro a partir daquela
data e autorizando a expulsão dos traficantes de escravos do país, mas, aqueles
escravos que já estavam aqui, permaneciam escravos.

Veja então que, com a Lei Euzébio de Queirós, “não chegavam”


novos escravos em navios,
mas a escravidão interna continuava.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Após a extinção do tráfico negreiro, a Inglaterra continuou suas pressões e


passaram a exigir o cumprimento da lei de 1831, isto é, que todos os escravos
importados ilegalmente desde aquela data fossem libertados. O embaixador inglês
no Brasil, William Christie denunciava com insistência o descumprimento dessa
lei.
Como se não bastasse esse impasse, dois acidentes geraram a Questão
Christie:
 O furto, por ladrões desconhecidos, da carga do navio inglês “Príncipe de
Gales”, que havia naufragado próximo às costas de Rio Grande do Sul em
1861.
 A prisão de 3 oficiais da Marinha inglesa, que estavam andando com trajes
civis pelas ruas do Rio de Janeiro, embriagados, provocando desordem. Isso
se deu em 1862.
Indignado com os acontecimentos, William Christie exigiu do governo
brasileiro uma elevada
indenização (3.200 libras)
pela carga do navio e a
punição dos policiais
brasileiros que prenderam
os oficiais ingleses. Não
sendo atendido, ordenou
à marinha inglesa que
aprisionasse os navios
mercantes brasileiros.
Em face do
agravamento dos
problemas, essas questões
foram submetidas ao
Charge da época,
arbitramento internacional do rei da Bélgica. representando a marinha
Antecipadamente, D. Pedro II resolveu pagar a inglesa no aprisionamento dos
indenização referente à carga do navio, restando ao navios mercantes brasileiros.

arbitramento internacional, apenas a violência da Inglaterra ao aprisionar navios


brasileiros e as demais exigências de Christie.
O rei da Bélgica pronunciou-se favorável ao Brasil, restando à Inglaterra
desculpar-se por violar o território brasileiro, mas esta recusou-se em pedir
desculpas oficiais, levando D. Pedro II a romper relações diplomáticas com a
Inglaterra. Somente em 1865 o governo inglês apresentou desculpas oficiais a
D. Pedro II.
O desfecho da Questão Christie afirmou a soberania nacional brasileira e
essa foi reconhecida formalmente por uma grande potência, a Inglaterra.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

 A QUESTÃO PLATINA

Durante muitos anos, o estudo da política externa brasileira no Segundo


Reinado resumiu-se unicamente a dois aspectos: o militar e o diplomático. No
primeiro, descreviam-se minuciosamente as guerras de que o país participava. No
segundo, apresentavam-se as negociações realizadas pela nossa diplomacia,
principalmente aquelas ligadas às guerras externas e ao estabelecimento das
fronteiras com os países vizinhos.
Em ambos os casos a conclusão era a mesma: O Brasil, uma nação pacífica,
não tinha quaisquer ambições territoriais em relação a seus vizinhos, contra os quais,
aliás, jamais praticara qualquer tipo de agressão; pelo contrário, a agressão partia
dos países vizinhos, que só então recebiam a resposta de nossas tropas,
restabelecendo-se, assim, a ordem, a paz, e a justiça!
É claro que essa é uma visão distorcida da realidade, apresentando o Brasil
sempre como país bom, o mocinho dos filmes de bang-bang, enquanto os outros,
principalmente a Argentina, o Uruguai e o Paraguai – são os maus, os “bandidos”.
Assim, podemos afirmar que os fundamentos principais de nossa política
externa foram:
a) A manutenção de uma política de acomodação aos interesses da
Inglaterra.
b) Constantes choques políticos e militares com os países platinos
(Argentina, Uruguai e Paraguai).

a) A acomodação aos interesses ingleses

Durante todo o século XIX, a política externa brasileira teve de se acomodar


aos interesses da Inglaterra. Tal acomodação, que variava conforme as
circunstâncias, resultava de nossa dependência econômica em relação aos ingleses,
na época os únicos fornecedores de empréstimos ao Brasil, os principais
fornecedores de produtos importados e os maiores compradores de nossas
exportações.
Nesse contexto, a maioria das Fica clara, portanto, uma situação que
medidas adotadas pelo governo brasileiro muitas pessoas se recusam a
no campo da política externa – e às vezes enxergar: A DEPENDÊNCIA
também na política interna – devia-se ECONÔMICA CAUSA FATALMENTE A
submeter aos interesses da Inglaterra, DEPENDÊNCIA POLÍTICA, impedindo
uma nação de ser senhora de seus
evitando desagradar ao nosso poderoso, próprios destinos.
exigente e geralmente incômodo aliado.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
b) Choques políticos e militares com os
países platinos
Durante o século XIX, todas as
operações militares e guerras externas
realizadas pelo Brasil, se concentraram, sem
exceção, na área platina, envolvendo a
Argentina, o Uruguai e o Paraguai.
Uma série de fatores justifica tal
concentração, de modo algum casual.
Entre eles podemos destacar, em ordem
crescente de importância os seguintes:
1 - As demais fronteiras do Brasil eram
praticamente desabitadas, separadas do resto
do país por extensas florestas quase
impenetráveis, sem qualquer importância
econômica.
♦ 2 - Na região platina, durante o período
colonial, ocorreu uma longa disputa
territorial entre Portugal e Espanha, ainda
não resolvida quando as colônias da região tornaram-se independentes. Por isso o
Brasil herdou as ambições e interesses de Portugal naquela área, enquanto a
Argentina herdou as ambições espanholas.
3 - Os rios da Bacia Platina (rios Paraná, Paraguai e Uruguai e a junção de
todos eles, o rio da Prata) eram bastante importantes econômica e militarmente,
pois por eles escoava quase toda a produção da Argentina, do Uruguai, do Paraguai
e das províncias brasileiras de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa
Catarina.
Pelos motivos que você já viu, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai tinham
o máximo interesse em controlar a rede fluvial platina, interesse esse compartilhado
pelas principais potências estrangeiras: Estados Unidos, França e, principalmente,
Inglaterra. O governo inglês visando proteger seu imenso interesse econômico na
região do rio da Prata, procurou sempre atingir dois objetivos fundamentais:
 Total liberdade de comércio e navegação nos rios da bacia platina.
 Tentativa de evitar que o Brasil ou a Argentina se fortalecesse o suficiente
para controlar política ou economicamente o rio da Prata.

Desse modo, o mercado interno dos países da região foi sempre abastecido
com produtos da indústria inglesa e todas as guerras ocorridas entre os países
latinos, a influência inglesa foi sempre importante e, às vezes, decisiva.

97
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Finalmente, é importante você ainda lembrar que as ex-colônias espanholas,
assim como o Brasil, eram países recém-independentes, com Estados Nacionais
ainda em formação e cuja unidade territorial (particularmente nos casos do Brasil e
da Argentina) via-se constantemente ameaçada por Províncias que pretendiam se
separar do país a que pertenciam, quer seja para se unirem a um outro país, quer
seja para se transformarem em nações independentes.
Por esse motivo, um dos aspectos mais importantes dos conflitos platinos
era este: para que um país da região de fortalecesse, era preciso enfraquecer ou
mesmo destruir o vizinho. Portanto, o fortalecimento econômico ou político de
qualquer país da região passava a ameaçar a segurança dos demais.

O Brasil, que na década de 1840 foi o principal aliado do Paraguai, acabou


por destruí-lo 20 anos mais tarde. O Uruguai foi sucessivamente inimigo e aliado de
cada um dos outros países da área. Os mais constantes inimigos dos brasileiros no
Prata foram os argentinos; apesar disso, Brasil e Argentina aliaram-se para
destruir o Paraguai.
Tais mudanças confirmam o que você aprendeu acima: para enfraquecer
um vizinho perigoso, qualquer arma é válida, inclusive a aliança com antigos
inimigos. E qual é o vizinho perigoso?
É aquele que em qualquer momento esteja se fortalecendo...

Agora você estudará a maior guerra em que o Brasil se envolveu até hoje...

 A GUERRA DO PARAGUAI (1864 – 1870)

Entre novembro de 1864 e março de 1870, o Paraguai enfrentou a Tríplice


Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), na mais longa e sangrenta guerra na
América do Sul, com conseqüências que influenciaram decisivamente a história dos
países envolvidos.

 As origens da Guerra do Paraguai


A maior das guerras que a América Latina conheceu no século XIX foi a
Guerra do Paraguai (1864-1870). E uma das mais vergonhosas. Hoje em dia, quando
alguém fala do Paraguai, geralmente lembra do que? Provavelmente do contrabando,
a miséria e do atraso. E só. Essa é a visão que se tem. Enxergamos os paraguaios
com o preconceito parecido com que os EUA nos encaram.

98
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Se um viajante estrangeiro percorresse a América do Sul no século XIX,
perceberia que todos os países eram muito parecidos. A economia, agrária,
dominada pelo latifúndio exportador; mercados nacionais inundados pela Inglaterra,
governos nas mãos de uma elite de fazendeiros egoístas e corruptos.
Toda a América Latina...?

Não! Existia uma única e honrosa exceção. Isso


mesmo era o Paraguai.
O Paraguai era um país bem diferente dos seus
irmãos vizinhos. Lá não havia aquele domínio absoluto do
latifúndio. Em 1823 foi realizado o primeiro esboço de
reforma agrária da América do Sul. Muitas famílias
camponesas foram autorizadas a utilizar as terras do
Estado, pagando aluguel. As técnicas agrícolas eram
primitivas, mas o acesso camponês a terra diminuiu a
quantidade de pobres no país.
Governado desde 1862, por Francisco Solano
López, o Paraguai conheceu um grande apoio do Estado à
educação – na charge se lê: erradicamos o analfabetismo em 1840.
Quase todas as crianças iam
à escola e o Estado pagava os
melhores alunos para estudar nas
universidades européias. Voltavam
de lá engenheiros, químicos,
geólogos, agrônomos e
professores. Engenheiros e
professores estrangeiros foram
pagos a peso de ouro para trabalhar
e ensinar em Assunção.
Havia uma grande virtude
no Paraguai, que acabou sendo
também sua desgraça: era o único
país da América Latina que não
estava completamente penetrado
pelo capital inglês.
Vinha daí uma parte de sua
força econômica. Tarifas
alfandegárias altas protegiam o
país da concorrência externa. Com isso, estavam dando os primeiros passos
para a industrialização. Isso mesmo, o Paraguai começou a desenvolver suas
próprias fábricas, metalúrgicas, fundições e ferrovias.

99
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Os vizinhos do Paraguai, Brasil e Argentina não olhavam com bons olhos
aquele país abusado que ousava representar um papel que não lhe tinha sido
oferecido.
É claro que o Paraguai não era nenhum paraíso na Terra. Solano López
fortalecia a economia do seu país, mas também armou um exército poderoso e
encomendou um moderno navio encouraçado – repare só – nos estaleiros ingleses!
Sonhava com um
grande país, com território
tão grande que talvez
alcançasse o mar, assim a
saída para o oceano
tornaria livre o comércio
paraguaio.

Acompanhe pelo
mapa: as exportações
(vendas) e as importações
(compras) paraguaias
eram bloqueadas em
Buenos Aires (Argentina)
e em Montevidéu
(Uruguai). O grande Paraguai
sonhado por
As taxas pagas Solano.
pelos comerciantes do
Paraguai em Buenos Aires e em Montevidéu, representavam grave bloqueio à
economia Paraguaia.
As ambições de Solano López se chocariam com os interesses da Inglaterra,
pois, com o desenvolvimento econômico do Paraguai, a economia inglesa corria o
risco de diminuir o comércio na América do Sul, que era abastecida, cada vez mais,
pelos produtos do Paraguai.

toda a população brasileira que vivia em Mato Grosso, no


séc. XIX dependia muito do Rio Paraguai, porque não havia
estradas ligando as Províncias ao resto do Brasil.
O Rio Paraguai era, pois, um importante caminho para abastecer de
mercadorias a população brasileira que vivia em Mato Grosso.
Procurando um pretexto para a guerra, o Brasil enviou, para Mato Grosso, o
navio Marquês de Olinda, cheio de armas e de munições. Considerando tal fato um
ato de agressão ao Paraguai, Solano prendeu o navio e proibiu a navegação de
navios brasileiros no Rio Paraguai.

100
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Diante do ato de
Solano, considerado uma
agressão ao Brasil, D. Pedro II
declarou guerra ao Paraguai.
A Inglaterra então
apóia seus aliados Argentina,
Brasil e Uruguai para realizar
a guerra. López sabia que a
coisa iria esquentar na região.
Por isso agiu com rapidez.
Em 1864, ocupou o Mato
Grosso com milhares de
soldados. O Brasil foi
apanhado de surpresa e pouco
pôde fazer para defender a Na charge, D. Pedro II justifica a declaração de
região distante da capital. guerra ao Paraguai, manipulado pela Inglaterra.
López imaginava o A Inglaterra e representada pela rainha Victória que
seguinte: que o Uruguai e a ocupava o trono na época.
Argentina não iriam se aliar ao
Brasil, pois tinha feito alianças com o Paraguai. O resultado que esperava era de que
a Guerra com o Brasil não fosse tão longe e que D. que Pedro II teria que negociar
as fronteiras numa situação de inferioridade e assim, o Paraguai sairia como uma
potência reconhecida na
região platina.
Mas López estava
errado. Uruguai e
Argentina se aliaram ao
Brasil e mais, a Inglaterra
apóia seus aliados para
realizar a guerra.

Diante disso, López


resolveu jogar todas as
cartas numa decisão
arriscada. Atacou também
a Argentina e o Rio Como disse o jornal argentino
Grande do Sul. A reação La América em 1866:
“O tratado é secreto, só a vergonha é pública!”
foi imediata.
Em 1865 foi constituída a Tríplice Aliança, que reunia as forças militares do
Brasil, da Argentina e do Uruguai - no início, as cláusulas do acordo eram
secretas, mas incluíam pontos como a tomada de extensos territórios do Paraguai.

101
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
 O genocídio latino – americano
Foi uma guerra difícil, durante os 6 anos de guerra. Os soldados paraguaios
estavam muito bem treinados e armados – no início da guerra eram 64 mil soldados.
Nós tínhamos muito mais um “bando armado” do que um verdadeiro exército – a
maioria deles eram os “voluntários da pátria”.
OS VOLUNTÁRIOS
Para as forças aliadas, foi um verdadeiro inferno DA PÁTRIA...
de fogo, sangue e mortes. A resistência guarani
...estavam longe de ser
(paraguaios) era terrível, e cada vitória custaria muito patriotas apresentando-
caro. Com o apoio da Inglaterra, a marinha brasileira se espontaneamente
muito mais bem equipada, impediu que os paraguaios para “defender a
Pátria”. A maioria
avançassem. absoluta dos soldados
O grande general foi Luís Alves de Lima e Silva, o eram escravos negros
futuro Duque de Caxias. Ele reorganizou o exército, deu- e brancos pobres,
recrutados à força para
lhe disciplina, combateu a corrupção, conseguiu armas e o conflito. Os negros
equipamentos e traçou inteligentes estratégias. Caxias, vestiam a farda com a
comandando a Tríplice Aliança, liderou vitória atrás de promessa de se libertar
vitória. depois do conflito.

Os brasileiros vingavam-se brutalmente das derrotas sofridas no começo.


Quase não se faziam prisioneiros: o paraguaio que se rendia era imediatamente
degolado. Poços de água foram envenenados, um verdadeiro crime de guerra. Os
brasileiros incendiavam aldeias, demoliam escolas, fuzilavam em massa.
O fato é que em 1869 as tropas da Aliança eram vitoriosas em Assunção,
capital paraguaia. Solano López tinha fugido com os poucos soldados que restavam.
O velho Caxias mandou então uma carta para o Imperador D. Pedro II dizendo que
não tinha cabimento permanecer naquela guerra.
O Paraguai já estava derrotado. Continuar as batalhas seria cometer um
massacre. “É preciso acabar com esta guerra maldita na qual o inimigo já está
vencido e não faz sentido humilhá-lo”, disse Caxias. Previa o pior e caiu fora.
Mas a guerra continuou. Agora, o comando das tropas brasileiras (no final,
quase não havia mais argentinos) estava nas mãos dos detestado Conde D’Eu. A
selvageria não teria limites. Esse francês metido a esperto era o marido da princesa
Isabel.
Não precisava entender nada de batalhas: tinha a assessoria dos generais
brasileiros. Todo mundo sabia do desprezo que ele tinha pelos brasileiros. Você
pode imaginar então as atrocidades que organizou contra os soldados paraguaios.

O povo paraguaio lutou com todas as suas forças.

O nosso lado, colega, é que não foi muito legal. Pois os exércitos aliados,
comandados pelo Conde D’Eu, fizeram o diabo. Foi a fase mais selvagem da guerra.
102
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
As tropas brasileiras torturaram prisioneiros e violaram mocinhas. Vilas
inteiras foram executadas. Doentes eram perfurados a baioneta no leito dos
hospitais. Meninas paraguaias de 12 ou 14 anos eram presas e enviadas como
prostitutas aos bordéis do Rio de Janeiro. Sua virgindade era comprada a ouro pelos
barões de império! O próprio Conde D’Eu tinha ligações com o meretrício do Rio -
Gigolô imperial.
Ao chegar em Assunção (capital do Paraguai), os exércitos aliados tinham
quebrado as fábricas e jogaram as máquinas nos rios. Eis o crime do país: quis ter
uma economia independente dos interesses poderosos. Pagou caro pela ousadia.
López foi perseguido até os confins do Paraguai. Não teve direito à clemência
que os chefes de Estado costumam receber: foi morto com golpes de lança e um tiro
de fuzil nas costas. Suas últimas palavras foram: “Muero por mi pátria” - morro por
minha pátria.

 As conseqüências da Guerra do Paraguai


Não foi uma guerra. Foi um genocídio. Mais da metade dos homens adultos
do Paraguai foram mortos na guerra. Não se faziam prisioneiros: a ordem era matar
todos os paraguaios, sem dó nem piedade. Uma quantidade enorme de mulheres
perdeu a vida no conflito. Mas como, se elas não participaram do teatro de
operações bélicas? Você pode imaginar então: os soldados brasileiros e argentinos
entrando na
cidade, agarrando
as mulheres
jovens, estuprando
seguidas vezes,
espancando, se
divertindo com a
dor delas, e, no
fim, dando um tiro
de misericórdia.
O Paraguai
foi arrasado.
A economia
estava totalmente Família paraguaia após a guerra. Além dos fortes traços indígenas
– grande parte do povo paraguaio era de origem guarani. Esta velha
quebrada. Não é foto mostra o aspecto miserável das pessoas e a ausência de
exagero dizer que até homens adultos: a grande maioria morrera durante a guerra.
hoje a situação difícil do Paraguai tem muito a ver com as desgraças daquela
“guerra maldita”, como dizia Caxias.
Mas a dizimação da população paraguaia foi à conseqüência mais trágica da
guerra. Quando esta começou, havia no Paraguai aproximadamente 800 mil
habitantes; quando terminou, restavam 200 mil. Morreram 75% da população total e
90% da população masculina.
103
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Além de tudo isso, os paraguaios tiveram de pagar uma enorme dívida de


guerra, que só foi perdoada pelo Brasil no governo de Getúlio Vargas em 1942,
quando houve empenho de reaproximar os dois países.
As conseqüências da guerra não foram boas também para o Brasil, que, com
50 mil mortos e um gasto de milhões de libras, viu-se obrigado a aumentar sua
dívida externa. Obteve, é claro, parte do território paraguaio, que sempre
ambicionou, mas isso não compensou o custo da guerra.
A conseqüência mais importante da guerra foi, para nós, o fortalecimento do
exército, agora transformado numa verdadeira instituição com espírito de
corporação e ideologia definida. A partir daí, os militares adquiriram condições de
participar da política nacional. Além disso, os militares voltaram com duas idéias
revolucionárias na cabeça: o abolicionismo e o republicanismo e, por isso,
rapidamente entraram em choque com a monarquia, que representava apenas os
interesses da aristocracia rural e da alta burocracia.
A Inglaterra foi a verdadeira vencedora da guerra. Emprestou milhões de
libras ao Brasil e à Argentina, assumindo o completo controle financeiro dos dois
países. Apoderou-se das melhores riquezas do Paraguai e destruiu, para sempre, o
“exemplo maligno” que o mesmo dava a seus vizinhos, como o único país
verdadeiramente independente da América Latina.

6 – Identifique o interesse da Inglaterra em apoiar a guerra contra o Paraguai.


Explique.

Logo após a Guerra do Paraguai, fundou-se em 1870 o Partido Republicano


e que tendo à frente o exército, 18 anos mais tarde derrubou a
Monarquia. Assim, em 1889, foi Proclamada a República no Brasil, mas
esse é assunto para logo mais...

104
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Nesta parte, você estudará os acontecimentos que levaram ao golpe


republicano em 1889.

Bem, no módulo anterior você


aprendeu que a guerra do Paraguai Você sabe o que é República?
fortaleceu o exército brasileiro e o República é a forma de governo em
transformou numa verdadeira que o supremo poder é exercido
instituição militar. Isso fez com que os temporariamente, por um ou mais
militares adquirissem condições de cidadãos eleitos pelo povo.
participar da política nacional.
Além disso, os militares voltaram da guerra, com duas idéias revolucionárias
na cabeça: o abolicionismo e o republicanismo (assuntos que você verá neste
módulo) e, por isso, rapidamente entraram em choque com a monarquia, que
representava apenas os interesses da aristocracia rural e da alta burguesia.
Muitas mudanças econômicas e até sociais aconteceram no Brasil
durante todo o século XIX, mas, politicamente, nada mudou.
O Brasil permaneceu dominado pelos velhos proprietários rurais,
permaneceu a centralização política e as eleições continuaram censitárias.
Isso fez com que parte da população brasileira ficasse descontente com
D. Pedro II, gerando conflitos contra o governo.

Esse período que você vai estudar, que vai desde a


Proclamação da República em 1889 até 1930, ficou conhecido como
REPÚBLICA VELHA.

Mas, antes de continuar


este assunto, é necessário que
você dê uma “olhadinha” no que
estava acontecendo no
mundo da época.

Vamos lá?

105
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Você aprendeu no que na


segunda metade do século XIX, o
capitalismo industrial ganhou
forças, surgiram os monopólios
internacionais e formaram-se os
grandes impérios coloniais na Ásia
e África – era a expansão do
capitalismo.

Então, a economia passou a


ser dominada por empresas
gigantescas que não só tinham
exterminado a maioria dos concorrentes como Charge mostrando a
concorrência capitalista.
passaram a controlar junto com outras companhias do
mesmo porte, setores inteiros do mercado - eram os
monopólios.

A fase de desenvolvimento que o capitalismo entrou


permanece até os dias de hoje.

A burguesia ligada às
indústrias e aos bancos foi a
grande beneficiária do
desenvolvimento industrial.
Enquanto isso, os
milhares de trabalhadores
viviam em condições
miseráveis. A jornada de
trabalho estendia-se até por 14
horas, com rápidos intervalos
para refeições. As moradias dos
trabalhadores eram cortiços
imundos, sem água, luz ou
esgotos. Fome, doença, alcoolismo, prostituição e mendicância eram normais entre
os trabalhadores.
Nos países industrializados formou-se uma camada média entre a burguesia
e a classe trabalhadora, formada por lojistas, donos de hospedarias, pequenos
empregadores, funcionários comerciais e bancários.

106
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Não é difícil imaginar que não existia leis que protegessem esses operários.
Para tentar contornar a difícil situação, os próprios trabalhadores se uniram
fundando associações para atender seus interesses.
Na Inglaterra, por volta de 1824, os operários conquistaram o direito de livre
associação. Formaram-se os “trade unions”, que representavam a primeira tentativa
de organização dos trabalhadores.
Diante dessa situação de exploração, numerosos pensadores passaram a
propor tentativas de solucionar os problemas da classe operária. Uma dessas idéias
ficou conhecida como SOCIALISMO.
As Idéias socialistas espalharam-se por toda a Europa e defendiam a
igualdade social.
Socialismo Comunismo
Como exemplo
de pensadores da época, No século XIX, o termo socialismo,
temos Karl Marx e passou a indicar um conjunto de doutrinas e
Friedrich Engels. teorias políticas e econômicas que tinha por
objetivo transformar a sociedade.
Suas idéias
O comunismo seria o estágio final do
deram início ao
chamado socialismo socialismo. Aconteceria quando a sociedade
científico ou marxismo. tivesse alcançado uma maturidade social. Tanto
As idéias o socialismo como o comunismo, defende a idéia
marxistas surgiram com de uma igualdade social, na qual a propriedade
a publicação do é coletiva, tudo é de todos: todos trabalham e
“Manifesto Comunista” repartem POR IGUAL o que foi produzido.
(1848) e de “O Capital” No comunismo não existe Estado. O
(publicado a partir de comunismo só seria alcançado quando não
1867). existisse mais qualquer forma de repressão,
todos seriam livres e iguais.

Agora responda em seu caderno:


7) O atual sistema econômico do Brasil é o capitalismo. Nesse sistema, qual é
classe social mais favorecida: a burguesia ou a classe trabalhadora? Justifique a
sua resposta.

107
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Para Marx, a questão social de exploração dos trabalhadores só seria
solucionada através de uma ação revolucionária e da instauração de uma sociedade
comunista.

Você estudou o IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO, certo!


Aprendeu que os Estados Unidos, através da política "a América para os
americanos", impôs seu domínio no Continente Americano.
Agora você relembrará uma medida imposta pelos Estados Unidos: a política
do “BIG STICK”.

...política do “BIG STICK”!


O que é isso mesmo??

A política do “Big Stick” (grande porrete) do presidente Theodore


Roosevelt (1901 – 1908), estabelecia que os Estados Unidos deveria exercer
“um poder de polícia internacional”, especialmente nos países onde houvesse
investimentos norte-americanos. Com isso, a missão de seu país era
“americanizar o mundo”. Na verdade era uma justificativa para a expansão
comercial e a penetração financeira dos grandes grupos capitalistas norte-
americanos na América do Sul e América Central.

Assim, toda vez que um governo da


América Central prejudicava os interesses de grandes empresas
norte-americanas, as tropas dos
Estados Unidos não queriam conversa, invadiam o pobre país,
derrubavam o governo e colocavam um pessoal
de confiança no lugar.

108
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A História se repete...
... o tempo passou e essa história não mudou!
Ainda hoje, os Estados Unidos controlam os países
pobres e aqueles
que não se enquadram aos interesses
norte-americanos.

Você sabe o que é a ALCA?

É mais um exemplo de domínio dos Estados Unidos sobre outros países. ALCA
- Área de Livre Comércio das Américas – é um acordo que os Estados Unidos está
querendo fazer com o Brasil até 2005.
Esse acordo, caso seja feito, trará graves conseqüências para o povo
brasileiro. Conforme as normas desse acordo, os serviços públicos como telefone, luz e
água, passam a ser controlados pela ALCA, que poderá abrir “concorrência pública”
para as empresas estrangeiras no fornecimento desses serviços à revelia dos próprios
governos, que não poderão dar preferência a empresas fornecedoras locais.
Como conseqüência desse acordo, também haverá um aumento do desemprego
e o fim dos direitos trabalhistas como: 13º salário, licença maternidade, aposentadoria e
outros direitos conquistados.
A biodiversidade da Amazônia será controlada pelas empresas americanas,
esses são alguns, entre outros prejuízos para o povo brasileiro(...)
Jornal da APEOESP, nº 259, p.4 , julho/agosto - 2002.

LIBERALISMO ECONÔMICO?
NACIONALISMO?

O QUE É ISSO?

109
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O liberalismo é um sistema que defende a idéia de liberdade


econômica, política e religiosa.

♦ No plano político, o liberalismo combatia o poder absoluto, isto é, o poder


centralizado nas mãos dos reis, defendendo a idéia da livre escolha do governo
através de eleições e o fim de todos os privilégios sociais e políticos.
♦ No plano econômico, os liberais exigiam a liberdade dos empresários e dos
contratos de trabalho. Adam Smith, foi considerado o fundador da ciência
econômica, para ele, o homem é sempre impulsionado por um interesse pessoal,
egoísta, sequer pensando na sociedade.
♦ Quanto à questão religiosa, o Estado estava completamente separado da Igreja
(em outros tempos, a Igreja e o Estado, andavam de “mãos dadas”), assim, cada
cidadão poderia praticar livremente sua crença religiosa.
É importante que você saiba que grande parte da burguesia era de liberais
que não aceitavam a plena democracia. Para eles, o voto deveria ser censitário, isto
é, só poderia votar quem tivesse certa renda em dinheiro, ou seja: a classe pobre não
participaria da vida política do país.
Já os liberais democratas, principalmente os intelectuais e os profissionais
liberais (médicos, jornalistas, professores, etc.), defendiam o voto universal
masculino, somente os homens poderiam votar.

Esses liberais estavam preocupados com a


liberdade do povo ou com seus próprios
interesses?

É claro que é com seus interesses,


principalmente econômicos.

Então, os LIBERAIS defendiam a liberdade econômica, política e


religiosa, portanto, seus interesse pessoais.
Ao mesmo tempo, um outro grupo, os NACIONALISTAS pretendiam
agrupar sob um mesmo Estado os povos de raízes culturais semelhantes.

110
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Isso provoca, no início do século XX, um clima de enorme tensão e


rivalidade entre as grandes potências européias, como por exemplo,
Alemanha e França.

Muitos fatores contribuíram para essa situação conflituosa, destacando-se


entre eles:
 Disputa colonial – buscando novos mercados para a venda de seus produtos, os
países industrializados entravam em choque na disputa por colônias na África e
Ásia.
 Concorrência econômica – cada um dos grandes países industrializados
dificultava a expansão econômica do país concorrente. Essa briga econômica foi
especialmente intensa entre Inglaterra e Alemanha.
 Disputa nacionalista – em diversas regiões da Europa surgiram movimentos
nacionalistas que pretendiam, como você leu acima, agrupar sob um mesmo
Estado os povos de raízes culturais semelhantes. Assim, o nacionalismo provoca
um desejo de expansão territorial.

MOVIMENTOS NACIONALISTAS

Os interesses da Alemanha, Rússia e França.

Entre os principais movimentos nacionalistas que se desenvolveram na


Europa no início do século XX, destacam-se:
 Pan-eslavismo – buscava a união de todos os povos eslavos da Europa
oriental, era liderado pela Rússia.

 Pangermanismo – buscava anexar à Alemanha os territórios ocupados por


povos germânicos da Europa central, era liderado pela Alemanha.

 Revanchismo francês – visava vingar a derrota francesa para a Alemanha em


1870 e recuperar os territórios da Alsácia-Lorena (região rica em minério de
ferro e carvão, que a França foi obrigada a ceder aos Alemães pela derrota na
guerra Franco-Prussiana).

111
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Você verá que esses movimentos nacionalistas contribuíram


também para o início da Primeira Guerra Mundial.

O princípio das nacionalidades transformou o mapa político


europeu, envolvendo cerca de 60 milhões de indivíduos: thecos,
italianos, alemães, poloneses, sérvios, búlgaros, gregos, romenos,
finlandeses, dinamarqueses e outros.

Que situação complicada!

Será que essa história vai


acabar em guerra???

Por que será que acontecem as guerras?


Você já parou para pensar nisso? Parece difícil explicar uma irracionalidade
tão estúpida, não é mesmo?
No entanto, um dos mais sangrentos conflitos militares de toda a
história, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), teve uma causa básica simples:

A burguesia tinha como grande objetivo dominar


territórios e mercados cada vez maiores.

Em tempo...
O clima de rivalidade entre os países
deu origem à chamada PAZ ARMADA. Na Inglaterra, na França e
nos Estados Unidos, surgiram
Como o risco de guerra era bastante Associações pacifistas, apoiadas
grande, as principais potências iniciaram uma por homens de negócios como
Carnegie e Nobel, que criaram o
corrida armamentista, isto é, trataram de Prêmio da Paz.
aperfeiçoar/estimular a produção de armas e Mas os sentimentos
de fortalecer/aumentar o contingente militar. humanitários desses grupos não
Assim, de 1871 à 1914, a Europa mudaram a situação do conflito
viveu em estado de vigilância permanente. mundial.

112
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A França não confiava na Alemanha, pois perdera para ela a Alsácia-Lorena
em 1870; a Austrália e a Rússia disputavam interesses nos países balcânicos;
Inglaterra e Alemanha competiam economicamente.
Durante a paz armada, o clima de tensão levou as grandes potências a
firmar tratados de aliança. O objetivo desses tratados era somar forças para
enfrentar a potência rival.
Depois de muitas negociações e tratados, passaram a existir na Europa, em
1907, dois blocos distintos:
 TRÍPLICE ALIANÇA – formada pela Alemanha, Áustria e Itália.
 TRÍPLICE ENTENTE – formada pela Inglaterra, França e Rússia.
A aliança original entre os países de cada bloco sofreu alterações. Conforme
seus interesses imediatos, alguns países mudaram de lado. Exemplo disso foi a
Itália, que, em 1915 (após o início da guerra), passou para o Lado da Entente por ter
recebido a promessa de compensações territoriais.
As tensões entre os dois blocos foram ficando insuportáveis. Qualquer
incidente serviria de estopim para deflagrar a guerra.
Veja então que só faltava riscar o fósforo para acender o barril de pólvora.

E foi isso que aconteceu quando o herdeiro do trono austríaco o arquiduque


Francisco Ferdinando resolveu visitar a cidade de Saravejo, capital da Bósnia, em
carro aberto no meio da multidão, em 28 de junho de 1914.
A visita do herdeiro tinha objetivos políticos: pretendia mostrar o domínio
austríaco nessa região. Não deu “outra”, o arquiduque e sua esposa foram
assassinados a tiros por um estudante sérvio, pertencente à organização secreta
nacionalista Unidade ou Morte, que tinha apoio do governo sérvio, ligado por sua
vez, à Rússia.
Nas circunstâncias históricas da época, o assassinato serviu para uma reação
militar da Áustria contra a Sérvia. Então, devido a política de alianças, outros países
envolveram-se no conflito, numa verdadeira reação em cadeia.
A partir daí, foi como um dominó, durante quatro anos, a Europa foi
envolvida pelo maior conflito da História, que atingiu direta ou indiretamente a
economia de muitos países e o equilíbrio mundial.

113
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Deflagrada a guerra, os blocos rivais ficaram assim constituídos:


 Alemanha, Império Austro-Húngaro, Turquia e Bulgária;
 França, Inglaterra, Rússia, Bélgica, Sérvia, Japão, Itália, Portugal, Romênia,
Estados Unidos, Brasil e Grécia.

Veja os acontecimentos que se Soldados em trincheiras na


seguiram à invasão da Sérvia pelo Primeira Guerra Mundial - 1916
exército austríaco:
• 28 de julho – a Áustria declara guerra
à Sérvia;
• 29 de julho – em apoio à Sérvia, a
Rússia mobiliza seus exércitos contra
a Áustria e a Alemanha;
• 1º de agosto – a Alemanha declara
guerra à Rússia e, posteriormente, à
França;
• 4 de agosto – para a França, os
exércitos alemão e austríaco invadem
a Bélgica (neutra);
• 5 de agosto – a Inglaterra declara
guerra à Alemanha.

"(...) Quando veio a I GUERRA MUNDIAL, deflagrada pelas ambições e


contradições da Europa (...), sofremos as conseqüências (...).”
“Nem todas as conseqüências a rigor foram más. As nossas exportações
subiram e houve aqui um surto de expansão industrial, decorrente da
impossibilidade de importarmos artigos da Europa incendiada, cuja indústria estava
concentrada na produção bélica.
Um mal terrível como a guerra, resultou para nós, ainda que
temporariamente, um bem à nossa prosperidade comercial e industrial. Só que, com
a volta da paz, perdemos as condições de competir com produtos estrangeiros aqui
vendidos e, na ausência de uma política nacional de firme proteção à nossa indústria,
voltamos a retroceder.

114
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Mas houve também conseqüências más da guerra. A pior delas foi a epidemia
da chamada 'gripe espanhola', que matou mais gente, no mundo inteiro, do que os
próprios combates, e que, no Brasil, ceifou 15.000 vidas.
A gripe era provocada e propagada como tradicionalmente acontecia
durante ou depois das guerras, pelas más condições de higiene nos países em
guerra e pelo natural enfraquecimento da população, civil e militar, em regime de
esforço excessivo e alimentação deficiente.(...)
A guerra de 1914-1918 não atingiu o Brasil somente nos planos econômicos e
da saúde pública: acabamos envolvidos nela pelo torpedeamento de navios nossos,
no Atlântico por submarinos alemães, tendo sido afundados os navios brasileiros
Paraná, Tijuca, Lapa, Macau e Ácari. Assim, o presidente Venceslau Brás
declarou guerra à Alemanha em 26 de outubro de 1917.
Não mandamos tropas para a Europa. Enviamos um corpo de voluntários
aviadores, uma missão médica e uma esquadra de seis navios a fim de cooperar com
os aliados”.
Extraído: “O Brasil na Primeira Guerra”, Editora Abril, São Paulo – 1971, p. 28.

Até janeiro de 1917, os Estados


SAIBA MAIS
Unidos haviam se mantido numa
posição de neutralidade. Enquanto as potências européias
concentravam seus esforços na guerra...
Mas muito lhe interessava que
...os Estados Unidos aproveitava para
os Aliados vencessem a guerra, pois ocupar e suprir outros mercados mundiais,
desde o início do conflito, tinha na Ásia e na América Latina.
fornecido armas e outras mercadorias, Arrasada pela guerra, a Europa, no final do
além de vultosos empréstimos à conflito, era um grande mercado
Inglaterra e à França. dependente das exportações
norte-americanas.
A derrota desses países
colocaria em risco o pagamento das dívidas. Essa atitude mudou em 6 de abril de
1917, quando a marinha alemã, utilizando seus submarinos, afundou navios de
países tidos como neutros, alegando que transportavam alimentos para os inimigos.
Foi o caso, por exemplo, do afundamento dos navios americanos Lusitânia e
Arábia e também do navio brasileiro Paraná.
A entrada dos Estados Unidos na guerra foi um fator decisivo para o
fortalecimento dos Aliados e levou, finalmente, os países que apoiavam a Alemanha
a se renderem.

115
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
A partir de 1918, a Alemanha foi perdendo fôlego, ficando isolada e sem
condições de sustentar a guerra. Em 11 de novembro de 1918, acabou assinando um
acordo de paz em situação bastante desvantajosa.

O TRATADO DE VERSALHES

Após a rendição alemã, no período de 1919 a 1920, realizou-se no palácio de


Versalhes, na França, uma série de conferências com a participação de 27 nações
vencedoras da guerra.
Lideradas pelos representantes dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França,
essas nações estabeleceram um conjunto de decisões conhecido como Tratado de
Versalhes, impondo duras penalidades à Alemanha, dentre elas:
 restituir a região da Alsácia-Lorena à França;
 ceder outras regiões à Bélgica, à Dinamarca e à Polônia;
 entregar quase todos os seus navios mercantes à França, à Inglaterra e à
Bélgica;
 pagar uma enorme indenização em dinheiro aos países vencedores:
 reduzir o poderio militar de seus exércitos, sendo proibida de possuir aviação
militar.

A guerra entre esses blocos durou cerca de quatro anos. Os combates


terrestres deixaram grande número de mortos em função das novas armas
utilizadas: metralhadoras, lança-chamas, projéteis explosivos. Além disso, pela
primeira vez, o avião e o submarino foram empregados como recursos
militares.
O conjunto de decisões impostas à Alemanha provocou, em pouco
tempo, uma intensa reação das forças políticas que se organizavam no país.
Os alemães consideravam injustas, vingativas e humilhantes as
condições do Tratado de Versalhes. O desejo de mudar essas condições
desempenhou importante papel entre as causas da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945).

Agora responda em seu caderno:

8) Com a guerra, as exportações no Brasil aumentaram e houve um surto de


expansão comercial. E quando terminou a guerra, a prosperidade comercial e
industrial continuou? Justifique a sua resposta.
9) Quais foram as más conseqüências da guerra para o nosso país?

116
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Bem, em linhas gerais, você estudou a situação mundial até o fim da
Primeira Guerra Mundial em 1918, já no século XX.

Agora, para continuar, é necessário você voltar um pouquinho


na História - na segunda metade do século XIX,
para saber o que acontecia aqui.

Bem, relembrando! Enquanto as principais potências européias


disputavam acirradamente territórios na África e Ásia, o Brasil vivia
o período do SEGUNDO REINADO, sob o governo de D. Pedro II.

Você já estudou que após a Guerra do Paraguai, os militares voltaram com


duas idéias revolucionárias - a abolição e a República, certo! E são essas novas
idéias que, somadas aos descontentamentos de vários setores da sociedade da época,
dará início ao sistema de governo Republicano no Brasil.
Saiba também que durante todo o século XIX, muitas mudanças econômicas
e até sociais aconteceram no Brasil, mas, POLITICAMENTE, nada mudou.
Permanecia a dominação dos velhos proprietários rurais, a centralização política e
as eleições censitárias, ou seja, as eleições pouco tinham a ver com a vontade do
povo. Na realidade a opinião era do partido que estivesse no poder.
Isso provoca descontentamento da população com o governo de D. Pedro II,
gerando conflitos conhecidos como:
• a questão religiosa;
• a questão militar;
• a questão abolicionista (idéias da abolição dos escravos).

Esses conflitos vão dar início a um movimento contra a monarquia: o


movimento republicano.

117
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

O PARTIDO REPUBLICANO

Em 1869, o Partido Liberal Radical lançou um manifesto no qual


propunha: descentralização política, extinção do Poder Moderador, da Guarda
Nacional e do Conselho de Estado, o ensino livre, Senado temporário e eletivo,
a eleição dos presidentes de províncias, a extensão do voto a todos os
cidadãos e a abolição da escravidão.
O programa dos radicais apresentava teses tão arrojadas para a época
que, em breve, o grupo evoluiu para o republicanismo.
Os clubes republicanos ganharam adeptos nas cidades como:
profissionais liberais, comerciantes e lavradores empobrecidos que haviam se
deslocado para as cidades e os grandes proprietários de café, das regiões de
maior produtividade como o Oeste Paulista.
As teses defendidas pelo Manifesto Republicano de 1870 eram as
mesmas do programa liberal radical, incluindo, logicamente, o fim do regime
monárquico e a implantação da República. Havia uma única exceção: a
abolição da escravidão. Os republicanos nem pensaram nessa questão. Assim
não corriam riscos de serem mal vistos pelos latifundiários escravistas - e
essa posição acabaria por favorecê-los.

A Convenção Republicana de Itu em 1873, deu origem ao Partido


Republicano Paulista.

118
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Saiba que a crise do império


É importante observar que os
brasileiro resultou de fatores
econômicos, sociais e políticos cafeicultores do vale do Paraíba,
que, juntos, levaram diversos possuíam um comportamento muito
setores da sociedade ligado às antigas tradições coloniais,
(parte do exército, fazendeiros do ao esquema patriarcal e escravista.
oeste paulista, representantes das Agora, os grandes fazendeiros
classes médias urbanas) a paulistas, ao contrário, possuíam seus
uma mesma conclusão: a próprios esquemas de comercialização
monarquia estava superada.
do café. Não viviam nas fazendas;
A crise do império foi tinham suas residências em mansões de
marcada por uma série de questões várias cidades, principalmente de São
que favoreceram a proclamação da Paulo, possuindo valores muito mais
república. urbanos que rurais.

ABOLICIONISMO OU ESCRAVISMO?

No período de 1871 a
1888, não faltaram leis para
mudar a situação de
escravidão no Brasil, uma
delas é a Lei Eusébio de
Queirós – 1850, que
acabava com a entrada de
escravos no Brasil.
Contribuiu para a
diminuição da mão-de-obra
nas lavouras.
Afinal, em razão das
precárias condições de vida
do negro, a sua mortalidade
superava, em muito, o
índice de natalidade. Praticamente, não havia aumento da população escrava no país.

119
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Ao iniciar a década de 1860, diante da crescente redução do número de
escravos e da conseqüente elevação de seu preço, muitos latifundiários já optavam
pela utilização de mão-de-obra livre. Outros desfaziam de seus escravos, vendendo-
os para as produtivas lavouras do Sul cafeeiro.
Além disso, observavam-se cada vez mais vantagens econômicas do trabalho
livre, em virtude de sua maior produtividade e dos menores riscos de investimento.
Durante a Guerra do Paraguai, como você estudou no módulo 7, em troca da
liberdade, muitos negros lutaram ao lado dos brancos, mostrando grande bravura.
Internacionalmente, a imagem do Brasil era bastante negativa, pois, em 1870, era o
único país independente da América a manter a escravidão.

Por que o governo não aboliu a


escravidão já na década de 1870?

Por um motivo muito simples,


Saiba que no fim da Guerra do Paraguai a maioria dos homens que compunha
(1870), nossos soldados e oficiais
regressaram ao país com uma nova
nosso governo (gabinete, Senado e
mentalidade. Câmara), era latifundiários
escravistas, proprietários dos
Afinal, haviam passado seis anos lutando lucrativos cafezais do vale do
ao lado de nações republicanas e não- Paraíba, onde utilizavam mão-de-
escravistas (Uruguai e Argentina). Muitos obra escrava.
militares brasileiros começaram a se
mostrar simpáticos ao ideal abolicionista Não lhes interessava,
e republicano. portanto, acabar com o regime de
trabalho que eles exploravam.
Para complicar ainda a situação, os anos 1870 se iniciavam sob um panorama
político crítico: os liberais
estavam divididos sobre a
abolição e o Partido Republicano
se organizava.
Era necessário, portanto,
adotar uma medida urgente que
apaziguasse os ânimos
oposicionistas.
Nesse contexto, foi
promulgada em 28 de setembro de
1871, pelo Gabinete conservador
do visconde do Rio Branco,
a Lei do Ventre Livre.

120
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Era na verdade, uma lei conciliatória e paliativa, ou seja, uma lei para “tapar
o sol com a peneira”. Foi uma maneira de acalmar os ânimos dos oposicionistas.
Segundo essa lei, todos os escravos nascidos a partir daquela data seriam
considerados livres. Até 8 anos ficaria sob a autoridade do proprietário da mãe e, a
partir dessa idade, o senhor poderia libertá-lo (recebendo do governo uma
indenização em dinheiro) ou utilizar-se de seus serviços até 21 anos.
Note que a condição do negro não melhorou em nada. Se fosse libertado, para
onde iria uma criança de apenas 8 anos de idade, sem ter onde morar?
E se ficasse, continuaria escravo, pois seria o período em que o ser humano é
bastante produtivo, beneficiando apenas o senhor de escravos.
É importante você saber que a campanha abolicionista crescia em todas as
províncias. Muitos militantes promoviam fugas de escravos ou recolhiam em
esconderijos os negros fugitivos. Organizavam-se comissões a fim de recolher
fundos para comprar a liberdade dos cativos.
A oposição ao governo escravista aumentava e ganhava adeptos junto ao
clero, aos estudantes, aos militares, aos fazendeiros emancipacionistas e à imprensa.
O governo se encontrava mais uma vez diante da necessidade de promover nova
“concessão” aos oposicionistas.
Em 1884, o primeiro ministro Manuel Dantas apresentou um projeto de
emancipação (Projeto Dantas) ao Parlamento.
As discussões que se Lei do Sexagenário, artigo 10º, parágrafos 10
seguiram foram as mais violentas e 11.
que ocorreram e provocaram a queda
do Ministério. O projeto foi criticado §10. São libertos os escravos de 60
e recebeu modificações no Gabinete anos de idade, completos antes e
depois da data em entrar em
seguinte, sendo finalmente execução esta Lei. Ficando,
sancionado (aprovado) no governo porém, obrigados, a título de
do barão de Cotegipe, em 1885. indenização pela sua alforria, a
Era a Lei do Sexagenário. prestar serviço aos seus ex-
senhores pelo espaço de três
A lei ainda previa o pagamento de anos.
uma indenização aos proprietários de
escravos sexagenários pela sua §11. Os que forem maiores de 60 anos
libertação. e menores de 65, não estarão
Na verdade, a Lei do sujeitos aos serviços de
Sexagenário, também era para “tapar indenização, qualquer que seja o
tempo que tenham prestado com
o sol com a peneira”. relação ao prazo acima
O governo só estava declarado.
interessado em protelar por mais
tempo o problema do escravismo.

121
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Afinal, o número de escravos que conseguia atingir 60 anos era insignificante
(os escravos, devido aos maus tratos, morriam antes de atingir essa idade) e a sua
libertação não prejudicaria a “vida nacional”.
No final de 1886, os abolicionistas conseguiram uma vitória significativa: foi
revogado dos estatutos brasileiros o uso do açoite como castigo para os escravos.
Sem a ameaça do castigo, o escravo sentia-se encorajado a lutar por sua liberdade
através de fugas e revoltas.
A partir de 1887, cresceu o número de escravos fugitivos, e muitas fazendas
viram-se, de repente, desprovidas de mão-de-obra. A polícia não conseguia atender a
todos os pedidos de busca feitos pelos fazendeiros.
O governo A situação do negro
convocou o Exército
para caçar os negros Com a Abolição, a alegria tomou conta dos
fugitivos; este por sua negros e dos abolicionistas. A festa prolongou-se por
vez manifestou-se vários dias. Mas rapidamente os negros tiveram de
contra essa enfrentar a dura realidade: tinham a liberdade, mas
determinação recusando não tinham terra, nem profissão, nem ajuda do
governo.
a condição de
“capitães-do-mato”, O governo era dos brancos, dos ricos fazendeiros
pois eram favoráveis a que queriam um novo Brasil em que os negros fossem
abolição. coisa do passado. Tinham dado a sua contribuição como
escravos. Agora deviam ser esquecidos.
No dia 11 de
maio de 1888, chegou O Brasil precisava torna-se um país de brancos,
ao Senado o projeto do como as nações européias: a França, a Inglaterra, a
primeiro-ministro João Alemanha, a Itália. Por isso o governo incentivou a
vinda de imigrantes europeus.
Alfredo, em que se
propunha a abolição Esse decreto de 1890, dizia que o Brasil estava
total e incondicional da aberto para a livre entrada de pessoas que tivessem
escravidão sem saúde e fossem capazes de trabalhar, “com exceção dos
nativos da Ásia e da África”. O governo brasileiro não
indenização.
queria saber de orientais e de negros.
Apesar das
violentas discussões, o AINDA HOJE, UM SÉCULO APÓS A
projeto acabou sendo ABOLIÇÃO, A MARGINALIDADE DOS NEGROS
aprovado. No dia 13 de É UM FATO: SÃO POUCOS OS QUE CHEGAM
maio ele foi assinado À UNIVERSIDADE.
pela princesa Isabel -
era a Lei Áurea, 1888.

122
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Mas o que será que


aconteceu a esses homens do
governo?
Se eram favoráveis a
escravidão, porque aprovaram
o projeto?

Simplesmente porque a escravatura já estava desmoronando; o número de


escravos diminuíra tanto, que já não se justificava a permanência da escravidão.
Mesmo aqueles que eram contra a libertação dos escravos viam a abolição como
única saída para um problema que se arrastava desde 1810.

 A Questão Abolicionista

Você já sabe, que vários fatores contribuíram para a queda da Monarquia.


Certo? Pois bem, o abolicionismo foi um desses fatores.
Os senhores de escravos, principalmente do Vale do Paraíba e da baixada
Fluminense, não se conformavam com a abolição da escravidão e com o fato de não
terem sido indenizados pelo governo. Sentiram-se abandonados pela monarquia e
acabaram também por abandoná-la. Passaram a apoiar a causa republicana.

 A Questão Religiosa: Igreja Católica contra o governo

É outra questão que


contribuiu para o fim da Pelo Regime de Padroado, a Igreja
Monarquia. subordinava-se ao Estado. Nenhuma ordem do
Pois é, desde o período papa poderia vigorar no Brasil, sem que fosse
colonial a Igreja Católica era aprovada pelo imperador.
uma instituição subordinada Cabia ao Estado Português nomear
ao Estado, isto é, funcionava bispos, remunerar o clero e recolher os tributos
de acordo com os interesses (dízimos) dos fiéis da Igreja. Por outro lado, o
do governo imperial. A esse Estado se comprometia a assegurar e preservar a
sistema denominamos de presença da Igreja nas terras descobertas.
regime de padroado.

123
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Em 1872, porém, D. Vidal (bispo de Olinda) e D. Macedo (bispo de Belém),
resolveram seguir as ordens do papa Pio IX, punindo irmandades religiosas que
apoiavam os maçons. D. Pedro II, influenciado pela maçonaria interviu na questão,
solicitando aos bispos que suspendessem as punições. Como estes se recusaram a
obedecer ao imperador, foram condicionados a quatro anos de prisão.
Em 1875, os bispos receberam o perdão imperial e foram colocados em
liberdade. Contudo, o império foi perdendo a simpatia da Igreja Católica.

 A Questão Militar: O fim da tirania imperial

A chamada Questão Militar esteve, de início, vinculada ao problema da


escravidão. Conforme você já estudou, a Guerra do Paraguai, colocando lado a lado
soldados brancos e negros, contribuiu para difundir o ideal abolicionista no Exército.
Além disso, vitoriosos na guerra, os militares brasileiros foram recebidos
como heróis e logo se mostraram dispostos a participar, de forma ativa, da vida
política nacional. Mas as velhas instituições monárquicas não estavam preparadas
para enfrentar o novo comportamento do Exército nacional.
Os ideais republicanos, divulgados por homens como coronel Benjamim
Constant, professor da Escola Militar do Rio de Janeiro, contagiaram os militares.
Foi em meio a essa situação que surgiu em 1884 a questão militar,
provocada pela revolta dos oficiais de alta patente (como o marechal Deodoro da
Fonseca) contra as punições ao tenente-coronel Antônio Sena Madureira, favorável
à abolição dos escravos e ao coronel Ernesto Augusto da Cunha Matos, que
denunciou a corrupção política de sua época.

Tentando melhorar a situação, o imperador nomeou, em junho de 1889, um


novo Gabinete. Chefiado pelo liberal visconde de Ouro Preto, para organizar uma
série de reformas políticas. Os planos de Ouro Preto, porém ficaram no papel, pois
quase ninguém acreditava na possibilidade de reformular a Monarquia.

A oposição de tantos setores da sociedade à Monarquia,


tornou possível o tranqüilo golpe político que
implantou a República no Brasil.

124
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
O governo imperial, percebendo, embora tardiamente, a difícil situação em
que se encontrava com o isolamento da monarquia, apresentou à Câmara dos
Deputados um programa de reformas políticas, contendo itens como:
• Liberdade de fé religiosa;
• Liberdade de ensino e seu aperfeiçoamento;
• Autonomia para as províncias;
• Mandato temporário para os Senadores.
Entretanto as reformas chegaram tarde demais. Em 15 de novembro de 1889,
o Marechal Deodoro da Fonseca assumiu o comando das tropas revoltadas,
ocupando o quartel-general do Rio de Janeiro.
O gabinete imperial foi deposto. O Visconde de Ouro Preto (chefe do
gabinete) e Candido de Oliveira (ministro da justiça), foram presos. Na noite do dia
15, formou-se o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil.
D. Pedro II, que estava em Petrópolis durante esses acontecimentos, recebeu,
no dia seguinte, um respeitoso documento do novo governo, solicitando que se
retirasse do país juntamente com a sua família.
É importante você saber que a Proclamação da República em 15 de
novembro de 1889, foi preparada lentamente, através de mudanças sociais e
econômicas verificadas no Brasil desde 1850 como: instalação de ferrovias,
modernização na fabricação do açúcar, aumento de indústrias, expansão da
cafeicultura, adoção da mão-de-obra assalariada, imigração européia, formação do
mercado interno e surgimento de novos grupos sociais.
No entanto, essas transformações não haviam sido acompanhadas de
mudanças na estrutura política. Esta continuava excessivamente centralizada nas
mãos de um pequeno grupo.
Eram necessárias medidas que favorecessem os novos interesses:
descentralização político-administrativa, estímulo à imigração, incentivo à produção
industrial e melhora da estrutura urbana etc.

A Questão Social, Religiosa e Militar deixou claro os desajustes entre as


instituições políticas e os novos interesses emergentes. Assim, é através do
Exército, dos cafeicultores paulistas e das camadas médias urbanas que se
tornou possível a República. A grande maioria da população brasileira, entretanto,
ficou alheia ao movimento, que se limitou no início, a um golpe militar (tomada do
poder por militares).

125
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Agora responda em seu caderno:

10) Os negros se tornaram realmente livres depois da Lei Áurea, 1888?


Justifique sua resposta.

Bem, você já estudou que a Monarquia


chegou ao fim, certo?
Agora estudará como nasceu a República
aqui no Brasil. Vamos lá?

O Brasil mudou a forma de governo sem revolucionar a sociedade.


Trocamos de bandeira, separamos a Igreja do Estado, fizemos uma nova
Constituição.
Tudo isso caro aluno, foi feito no clima de ordem que interessava à classe
dominante.

Desse modo mantinha-se o povo em sua pobreza


e a elite (os ricos) em sua exploração.

Proclamada a República, os cinco primeiros anos que se seguiram


(1889 a 1894) ficaram conhecidos tradicionalmente como “A República da
Espada” por terem assumido dois militares do Exército no poder presidencial
(marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto).
Mas a presença de militares não excluiu os civis. Os cafeicultores paulistas
também participaram desse período inicial da República brasileira. A união de civis
e militares era, contudo, frágil e temporária.

126
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Esses dois segmentos da sociedade representaram interesses diversos e
possuíam opiniões divergentes quanto aos objetivos do regime recém-instalado. Isso
explica a instabilidade política que marcou esse período, no qual foram
constantes os confrontos entre forças tão diferentes. Por outro lado, foi liquidada
qualquer ameaça da restauração da ordem monárquica.
A República da Espada, representou uma fase de transição entre o
centralismo do Império e o federalismo, que inspirou o movimento de 1889. Aos
poucos, e em meio a choques políticos e sociais, o novo regime foi se adaptando às
necessidades prementes (urgentes) do Brasil provocadas pelas transformações
sociais e econômicas ocorridas a partir de 1850.

Na noite de 15 de novembro de 1889, veja bem, formou-se o governo


provisório da República, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que deixara
de ser monarquista somente nas vésperas do golpe republicano. Logo no começo,
esse novo governo revelou seu caráter conservador.
Saiba que entre as primeiras providências tomadas pelo governo provisório,
destacaram-se:
 Federalismo – as províncias brasileiras foram transformadas em Estados
membros da Federação, obtendo maior autonomia administrativa em relação ao
governo federal, cuja sede recebeu o nome de Distrito Federal;
 Distrito Federal – Situado no Rio de Janeiro, o Distrito Federal era a capital da
República;

 Separação entre a Igreja e o Estado – Era o fim do padroado (consulte a


caixa de texto da página 21). A Igreja passa a ser independente. O catolicismo
deixou de ser a religião oficial do Estado. Curioso é saber que, em função disso,
foram criados o registro civil de nascimento e o casamento civil. Antes só
havia certidão de batismo e os noivos casavam-se só na Igreja;
 Grande naturalização - Todos os estrangeiros residentes no Brasil seriam
legalmente considerados cidadãos brasileiros;
 Bandeira da República - Uma nova bandeira nacional foi criada para substituir a
antiga bandeira do Império. O “Ordem e Progresso”, foi sugerido pelo Ministro
da Guerra, Benjamin Constant. O lema tem sua origem no positivismo do
filósofo francês Augusto Comte (1798 - 1857), que pregava o amor por
princípio, a ordem por base e o progresso por fim.
127
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

 Assembléia Constituinte - Convocação de uma Assembléia Nacional


Constituinte para elaborar a primeira Constituição da República.

O brasileiro ORDEM E PROGRESSO


da bandeira nacional foi escrito por um
francês, August Comte.
Este Lema positivista combina
autoritarismo com modernidade e quer
dizer, mais ou menos, que o Brasil só
melhora se não houver “desordens”
provocadas pela democracia ou pelas
revoluções populares.

As idéias positivistas de Augusto Comte tiveram grande


influência sobre os militares do Brasil, Comte tinha entusiasmo
pelo desenvolvimento das máquinas, da tecnologia, da
industrialização. Para ele tudo representava o progresso da
humanidade.
O positivismo confiava no capitalismo industrial. E tinha
grande fé na evolução das ciências.
Nossos militares positivistas queriam ser soldados cidadãos,
ditando o rumo para um novo desenvolvimento do país. Defendiam
"a modernização da sociedade através da ampliação dos
conhecimentos técnicos, do crescimento da indústria, da expansão
das comunicações”.
Fausto Boris, História do Brasil, SP., EDUSP, 1994, p. 246.

128
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Houve uma medida de grande


impacto na economia brasileira, que na INFLAÇÃO:
Um dos fatores mais
verdade, era uma reforma financeira
importantes para a estabilidade
executada pelo Ministro da Fazenda, econômica de um país é o equilíbrio
Rui Barbosa, a partir de janeiro de entre a quantidade de moeda
1890. circulante e o que é produzido no
O objetivo de Rui Barbosa era país.
incentivar o crescimento econômico Quando o governo emite
muito dinheiro, sem que a produção
nacional, principalmente o
interna aumente, ocorre um
desenvolvimento da indústria. desequilíbrio.
Para isso, permitiu grande As pessoas têm mais dinheiro
emissão de dinheiro por bancos para gastar, mas a quantidade de
espalhados pelo país (Bahia, Rio de produtos existentes é menor.
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Resultado: com muito dinheiro e
Sul). pequena produção, os preços sobem
gerando a INFLAÇÃO.
Saiba que essas emissões tinham
como finalidade aumentar a moeda em circulação para, por exemplo, facilitar o
crédito na implantação nas novas indústrias.
Se você está pensando que essa história não iria acabar bem, acertou, o
dinheiro emitido foi além das necessidades e imagine só qual foi a conseqüência de
tudo isso!? Foi uma grande inflação
ENCILHAMENTO – colocação dos com o aumento generalizado dos preços.
arreios em cavalos. A reforma de O dinheiro fácil gerado pelas
Rui Barbosa foi assim chamada emissões bancárias incentivou a criação
porque a agitação econômica da Bolsa de "empresas fantasmas", que surgiam
de Valores do Rio de Janeiro, nesse apenas para obter crédito dos bancos.
período, lembrava o barulho do A Bolsa de Valores do Rio de
Jóquei Clube, onde se encilhavam os Janeiro foi tomada por grande agitação e
cavalos. especulação financeira – foi o
encilhamento - primeira crise
financeira na república. A desorganização econômica atingiu um ponto
insuportável.

129
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

Os cafeicultores protestavam contra a reforma financeira de


Rui Barbosa, pois não lhes interessava uma política que desse mais
importância à indústria do que ao café.

Além disso, no próprio ministério, muitos colegas também criticavam a


reforma. Pressionado, Rui Barbosa demitiu-se do cargo em janeiro de 1891.

E como era a nossa


Primeira Constituição da República?

A Constituição promulgada em 24 de fevereiro de 1891 foi inspirada


no modelo liberal americano. Após a revisão do projeto de Rui Barbosa, ele foi
encaminhado ao Congresso que introduziu poucas modificações no texto, uma delas
foi a redução do mandato presidencial de 6 anos para 4 anos.
Por ser inspirada no modelo americano, denominava nosso país de: Estados
Unidos do Brasil. Assim, os Estados Unidos do Brasil era constituído de vinte
estados autônomos do ponto de vista econômico e administrativo. O regime era
republicano e presidencialista. O
presidente, o vice-presidente, os deputados e Sufrágio universal - é o direito
senadores eram eleitos diretamente por sufrágio de votar concedido aos
cidadãos,
(voto) universal masculino.
salvo exceções específicas.
O presidente seria eleito para um mandato Distingue-se do "voto censitário"
de 4 anos, não podendo ser reeleito para os porque neste somente votam
quatro anos seguinte. Podia nomear ou exonerar cidadãos com o mínimo de
seu Ministério, sancionar leis e deliberações do renda estipulado pela lei.
Senado e da Câmara.
Quanto a formação dos três poderes:
O presidente, o vice-presidente e os ministros compunham o Poder
Executivo.
O Poder Legislativo, era exercido pelo Congresso Nacional - era composto
pelo Senado e pela Câmara dos Deputados.
O Poder Judiciário tinha como órgão máximo o Supremo Tribunal Federal e
era composto pelos juízes federais.

130
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Quanto aos deveres dos ESTADOS:
 eleger seu governante chamado na época de "Presidente do Estado";
 eleger uma Assembléia Legislativa, que faria a Constituição Estadual;
 organizar-se administrativamente, provendo as necessidades públicas;
 aprovar seu Código Eleitoral e Judiciário;
 organizar um corpo policial-militar e manter escolas.
O Estado também possuía liberdade para contrair empréstimos no Exterior,
decretar impostos sobre exportações, imóveis, indústrias, profissões e a transmissão
de propriedade. No entanto, essa autonomia não superava a força do governo
federal, que recebia as melhores fontes de renda pública, tinha o direito de mobilizar
os corpos policiais dos estados, controlar os selos e correios, taxar as importações,
manter e estabelecer a ordem interna e garantir a execução das leis federais.

Quanto aos direitos dos cidadãos:


A Constituição de 1891 era liberal. Eram considerados aptos para votar todos
os brasileiros do sexo masculino, maiores de 21 anos (tanto natos como
naturalizados), com exceção dos mendigos, analfabetos, religiosos e soldados. O
voto era aberto, o que permitiu inúmeras fraudes eleitorais no decorrer da
República Velha.
A Constituição garantia aos cidadãos os direitos da liberdade individual,
pensamento, locomoção, imprensa, culto, associações etc. O casamento civil era o
único reconhecido legalmente.
A cidade do Rio de Janeiro, que no império constituía o Município Neutro,
passou a ser o Distrito Federal.

Depois de promulgada a Constituição, o Congresso Constituinte foi


transformado em Congresso Nacional.

Você sabe a diferença entre uma Constituição Promulgada e uma


Outorgada?

A Constituição Promulgada é elaborada pela Assembléia


Constituinte e aprovada pelo Congresso Nacional. É o caso da
Constituição de 1988 – que é a nossa atual Constituição. Ela é discutida,
debatida e não é imposta.

A Constituição Outorgada é aprovada somente pelo Poder


Executivo. Como exemplo podemos citar a Constituição de 1824, que foi
aprovada somente pelo imperador (poder executivo). Dessa forma é
uma constituição imposta.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

É o que você verá a seguir. Vamos lá???

Bem, após elaborar a Constituição de 1891, a Assembléia Constituinte foi


transformada em Congresso Nacional. Pois é, e nessa condição deveria eleger os
primeiro presidente e vice-presidente da República.
O marechal Deodoro da Fonseca era candidato à presidência e tinha apoio de
muitos militares. Porém, os poderosos fazendeiros de café, representantes da elite
econômica do país, receavam o autoritarismo de Deodoro, e muitos o
responsabilizavam pela crise econômica do encilhamento.
Nessas primeiras eleições, a oligarquia Oligarquia - "Poder de
cafeeira de São Paulo, apresentou seus candidatos. alguns", ou seja, é o
Prudente de Morais para presidente e o marechal governo centralizado nas
Floriano Peixoto para vice-presidente. Os setores mãos de algumas poucas
militares insistiram na candidatura de Deodoro da pessoas pertencentes à
Fonseca para presidente e do almirante Eduardo mesma classe social ou
Wandenkolk para vice-presidente. mesmo grupo político.
Deodoro perdia apoio político entre os civis. Restava-lhe contudo, o
importante apoio de seus colegas de farda (militares). Dos 63 senadores presentes à
Constituinte, dez eram militares. O Exército estaria ao lado de Deodoro e ele
pretendia ser eleito e continuar na presidência da República. Ele venceu as eleições
para presidente, em 1891 com pequena vantagem de 32 votos sobre Prudente de
Morais. Os congressistas, buscando uma medida conciliatória, fundaram duas
chapas, elegendo Deodoro presidente e Floriano vice.
Saiba que, embora tivesse vencido a eleição, Deodoro não contava com
suficiente apoio político para governar com tranqüilidade.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Sofria oposição da oligarquia cafeeira, que dispunha de diversos
representantes no Congresso Nacional.
Por não conseguir conviver politicamente com o Congresso nem com o
Senado e a Câmara Federal, estes procuraram restringir seus poderes presidenciais,
através de um projeto de lei, mas este foi vetado por Deodoro.
Porém, o Senado, ignorando a
ESTADO DE SÍTIO - Em estado
proibição de Deodoro, rediscutiu o
projeto, visando aprová-lo à revelia (sem de sítio, o presidente adquiria,
temporariamente, amplos poderes,
conhecimento) do presidente.
Irritado, o marechal ordenou o podendo governar através de
fechamento do Congresso e decretou o decretos-leis, suspender as
estado de sítio na Capital e em Niterói, a liberdades individuais, intervir nos
3 de novembro de 1891. Estados e fechar o Congresso e as
Com pouco mais de oito meses de Assembléias Estaduais.
governo constitucional, a República chegara a um impasse. Além da crise política, o
país ainda sofria uma profunda degeneração econômica. O golpe de 3 de novembro
de Deodoro desgastou sua imagem de chefe político, afastando-o dos grupos
militares que o apoiavam.
Vários militares, desiludidos com o autoritarismo do presidente, aprovavam a
idéia de derrubá-lo e substituí-lo por seu vice-presidente. O marechal Floriano
Peixoto, não se posicionava nem a favor nem contra Deodoro, mas também não
desestimulava a oposição.
Deodoro precisou ausentar-se do poder por motivo de saúde, e os seus
ministros expediram ordem de prisão contra militares e civis. Com isso, os militares
do Rio de Janeiro se rebelaram contra o governo, além disso, no Sul, aconteciam
vários conflitos locais, contribuindo para diminuir a autoridade de Deodoro.
Desgastado politicamente, Deodoro decidiu renunciar, passando o cargo para
o vice-presidente, Floriano Peixoto - em 20 de novembro de 1891.

Inicialmente parecendo ser liberal, Floriano Peixoto reabriu o Congresso


Nacional e suspendeu as medidas repressoras de Deodoro. Mas esse liberalismo
chegaria ao fim "rapidinho"...
O "Marechal de Ferro" (esse era o apelido de Floriano), logo mostraria o
motivo de tal apelido. Apoiado por boa parte dos militares e pelos cafeicultores que
viam nele um instrumento capaz de consolidar o novo regime, enfrentou as revoltas

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
oposicionistas com energia. Floriano, não foi nada democrático: prendia quem fosse
contra seu sistema de governo, podia ser político, militar ou jornalista.
Quando o Congresso começou a questionar a legalidade da repressão, ele
respondeu: "vão discutindo, que eu vou prendendo".

Saiba que não bastaram a mudança do regime político e a


promulgação da Constituição para resolver os problemas
acumulados desde o tempo da colônia e do Império.
Havia muitas diferenças entre as várias regiões,
agora divididos em estados.

Agora você estudará as revoltas ocorridas no governo de Floriano Peixoto.

 A revolta da Armada (1893-1894)

Saiba que no dia 31 de março de 1892, treze generais enviaram ao presidente


uma carta manifesto, exigindo a convocação de novas eleições presidenciais.
A carta dizia que essa era a única maneira de restabelecer a tranqüilidade
interna da nação e o prestígio internacional do país já que o país estava passando por
uma crise, onde não faltavam descontentes.
Ao receber o documento, Floriano reagiu energicamente: puniu os militares
afastando-os das Forças Armadas. Mesmo assim, as reações contra o seu governo
continuaram. Pessoas ligadas ao movimento rebelde, agiram em terra cortando fios
telegráficos e articulando uma greve na Estrada de Ferro Central do Brasil.
Diante desses acontecimentos, o presidente Floriano agiu com rapidez:
destacou corpos policiais para defender pontos estratégicos do litoral e cortar a
ligação entre os revoltosos do mar e os da terra.
Foi decretado estado de sítio para a Capital Federal e Niterói (10 de setembro
de 1893). Toda essa mobilização permitiu ao presidente o controle da situação em
terra. Os navios rebeldes, na baía de Guanabara, bombardearam a Capital e Niterói,
apavorando a população e alarmando o governo e as embaixadas sediadas no Rio de
Janeiro.
Em fins de setembro de 1893, o ministro do Exterior da Inglaterra conseguia
adesão de Portugal, França, Itália, Holanda e Estados Unidos e a concordância do
governo brasileiro e dos rebeldes para assinatura do "acordo de 5 de outubro".

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Segundo este, os adversários só poderiam bombardear-se sob as vistas da
esquadra estrangeira, a quem competia observar as provocações e as agressões,
evitando que a cidade fosse atingida.

Você quer saber o fim dessa história?


Pois bem, em novembro de 1893, um almirante chamado Saldanha da
Gama aderiu a Revolta da Armada lançando um manifesto em que deixou
transparecer sua tendência monarquista.
Isso serviu de argumento para Floriano declarar que a revolta tinha por
objetivo a volta da Monarquia.
O governo brasileiro comprou alguns navios dos Estados Unidos e
contratou mercenários.
Os navios estavam em situação precária e por causa disso a força naval
legalista foi apelidada pelos rebeldes de "Esquadra de papelão".
Em março de 1894, os navios comprados chegaram ao Rio de Janeiro, e o
governo, a fim de prevenir a população para que tivesse tempo de sair da
cidade, espalhou cartazes informando que em 48 horas atacaria os revoltosos.
Mas o duelo não chegou a ocorrer, pois Saldanha da Gama, pediu asilo
político a dois navios de guerra portugueses e foi isso concedido a todos os
rebeldes.
O presidente Floriano exigiu que o governo português entregasse os
refugiados. Durante uma semana, os dois governos discutiram o caso, sem
chegar a nenhuma solução. No dia 18 de março, uma corveta portuguesa
levantou âncora levando os asilados para o rio da Prata. Quando a embarcação
chegou a Montevidéu, os exilados fugiram para se unir aos revoltosos da
Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul.

 Revolução Federalista (1893)

Ainda em 1893, no Rio Grande do Sul, aconteceu um violento conflito entre


dois partidos políticos:
• Partido Republicano Rio Grandense (PRR) - defendia a forma de
governo republicana e o sistema presidencialista e tinha o apoio político
de Floriano Peixoto. Mantinha aliança com o chefe do governo gaúcho
Júlio de Castilhos. O apelido dos republicanos era pica-paus.
• Partido Federalista - esse partido apoiava a forma de governo
republicana, mas defendia o parlamentarismo ( lembre-se que no sistema
parlamentarista, o chefe de governo é o Primeiro Ministro). Os
federalistas eram liderados por Silveira Martins e contavam com muitos

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
partidários entre os tradicionais estancieiros gaúchos. Os federalistas
eram apelidados de maragatos.
Como você leu na página anterior os federalistas uniram-se aos rebeldes da
Armada, no Rio de Janeiro, e ameaçavam atacar o Estado de São Paulo.
A Revolução Federalista transformou-se numa luta sangrenta, provocando a
morte de aproximadamente 10 mil pessoas.
Teve fim somente em 1895, já no governo de Prudente de Morais, sucessor
de Floriano Peixoto.

O Presidente Prudente de Morais foi o primeiro


Você sabia? presidente civil da História do Brasil.
O presidente Prudente
de Morais é nosso
conterrâneo. Pois é,
ele era paulista de Itu! Prudente de Morais, o candidato civil da
burguesia cafeeira paulista, venceu as eleições. Ele
era um republicano, mas a
classe social que ele
representava e que o sustentava
no poder era dos cafeicultores.
As oligarquias, formadas
pelos grandes proprietários
rurais assumiam o controle
completo da nação.

Será que para o povo mudou muita coisa a saída de um


presidente militar
e a entrada de um presidente civil republicano?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3
Você verá que não. Foram muitos os problemas enfrentados durante o seu
governo, entre eles a Revolta de Canudos.
Com a burguesia cafeeira paulista no poder, terminava o período da
República da Espada e iniciava-se a República Oligárquica...

...mas esse é assunto para a apostila 5.

Agora responda em seu caderno:

11) Explique o motivo do descontentamento dos cafeicultores frente a


reforma econômica de Rui Barbosa.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

BIBLIOGRAFIA

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de Estado da Educação – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas –
São Paulo – 2ª Ed. – 1992.

♦ Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio. Apresentação dos


Temas Transversais – Ministério da Educação e do Desporto – Secretaria da
Educação – Brasília – 1997.

. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica da América. São Paulo, Editora Nova
Geração, 1998.
. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica: Moderna e Contemporânea. Ensino
Médio. São Paulo, Editora Nova Geração, 1998.

. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica do Brasil. Ensino Médio. São Paulo,
Editora Nova Geração, 1998.
. COTRIM, Gilberto. História Global – Brasil e Geral – vol. Único. São Paulo,
Editora Saraiva, 1999.
. BOULOS JÚNIOR, Alfredo. História Geral: Antiga e Medieval – vol. 1.
São Paulo, FTD, 1997.
. ARRUDA, José Jobson e PILLETTI, Nelson. Toda a História, Ensino Médio.
São Paulo, Editora Ática, 1999.
. VESENTINI, J. William. Sociedade e Espaço - Geografia Geral e do
Brasil, Ensino Médio. São Paulo, Editora Ática, 1997.
. PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ensino Médio. São Paulo, Editora Ática,
2001.
. PEDRO, Antonio e LIMA, Lizânias de S. História Geral – Compacto para o
Vestibular. Editora FTD, 1999.

. CD-Rom ALMANAQUE ABRIL 2001 – BRASIL e MUNDO, Editora Abril,


multimídia.
. ORDOÑEZ, Marlene e QUEVEDO, Júlio. História, Editora IBEP, 1998.
. CD-ROM CLIPART, Brasil 500 anos, Editora Ondas, 2000.
. JOBSON, José Arruda. História Total. Vol.3 e 4. São Paulo, Editora Ática, 2001.
. DIVALTE, Garcia Figueira. Novo Ensino Médio, volume único – com questões
do ENEM. Editora Ática, 2002.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - APOSTILA 3

ESTA APOSTILA FOI ELABORADA PELA


EQUIPE DE HISTÓRIA DO CEESVO
CENTRO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO SUPLETIVA
DE VOTORANTIM

PROFESSORAS: DENICE NUNES DE SOUZA


MEIRE DA SILVA OMENA DE SOUZA
ZILPA LAURIANO DE CAMPOS

COORDENAÇÃO: NEIVA APARECIDA FERRAZ NUNES

DIREÇÃO:

ELISABETE MARINONI GOMES


MARIA ISABEL R. DE C. KUPPER

VOTORANTIM, 2003.
(Revisão 2007)

OBSERVAÇÃO

MATERIAL ELABORADO PARA USO


EXCLUSIVO DO CEESVO,
SENDO PROIBIDA A SUA COMERCIALIZAÇÃO.

APOIO

PREFEITURA MUNICIPAL DE VOTORANTIM

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