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A arquitetura do classicismo e a catedral de Saint Paul

A arquitetura classicista pertence ao século XVII. Suas origens remontam à


estética e ao ambiente filosófico do renascimento, no ininterrupto processo de
secularização da sociedade ocidental. Do século XIV ao XVII, o ocidente absorveu
a invenção da imprensa (século XV), a reforma protestante (século XVI),
descobertas científicas e geográficas, acontecimentos que configuraram um
cenário para ascenderem, na França e na Inglaterra, o racionalismo e o
classicismo vinculados à ciência e à politica. Irreversivelmente, o “sujeito
determinado” do medievo cedia lugar ao “sujeito do racionalismo”.

Bertrand Russel, in “História do Pensamento Ocidental” (2001), sintetiza os


fatos do renascimento ao século XVII. Situa a evolução da consciência
transcendental do sujeito do medievo à autonomia no mundo moderno como
autonomia da razão1. Do sujeito grego ao romano, as discussões filosóficas
mantiveram-se nos temas humanos existenciais ou cotidianos. Na idade média
percebeu-se a imersão do espírito no tema “revelação divina”. O renascimento
resgatou a discussão dos temas clássicos. No século XV, o humanismo foi o
“movimento de sábios e pensadores’. No XVII, com Descartes, a razão
apriorística2, aclara uma consciência inerente ao homem. Dante Alighieri (1260-
1321), in “A Divina Comédia”, apresentara o aristotelismo na retrospectiva da
riqueza cultural grega. Libertara o sujeito do ambiente histórico restrito do
medievo. A língua vulgar deu acesso aos leigos à literatura. O mundo antigo saiu
do ambiente encapsulado da idade média para o conhecimento comum.

Do renascimento o classicismo herdou a técnica construtiva transmutada. A


construção da cúpula da catedral de Florença (1420), por Filippo Brunelleschi
(1377-1446), foi marco da arquitetura renascentista. Transformou o modo
construtivo, porque previamente concebida como modelo para ser executada. De

1
Russel, p. 240
2
A razão, em Descartes, estabelece-se em autonomia diante da metafísica escolástica, que a
antecedeu. Com Hegel, a razão expressa claramente ser heterônoma em relação à História.
base octogonal, a cúpula não usou andaimes, teve uma estrutura autoportante. A
pioneira idealização trazia à construção o arquiteto como “profissional especifico
do projeto”, antes trabalho coletivo e corporativo de reativação do emprego do
desenho perspectivo”3.

Na catedral de Saint Paul, o classicismo emprega a cúpula em lugar da


abóbada ogival gótica. Luz, espacialidade, técnica construtiva e papel do arquiteto
evoluem do gótico ao renascimento. O caráter do sujeito se desprende do
misticismo medieval, assume o pensamento do humanismo no ambiente da vida
moderna, otimista com o futuro e religando-se ao conhecimento laico da
antigüidade clássica.

Na Inglaterra o humanismo foi contemporâneo à reforma protestante, criando


um bem panorama distinto4. A reforma luterana pôs fim à hegemonia cristã
ocidental. Na arquitetura de igrejas inglesas, o classicismo absorveu a dualidade
catolicismo/protestantismo, resultando em Saint Paul, exemplo de igreja moderna 5.
A reforma protestante inglesa deu-se à época do renascimento inglês. Não
absorvida pela Igreja Católica, subdividiu-se em igrejas nacionais. O
protestantismo retomou Santo Agostinho, que na escolástica havia sido
substituído pelo tomismo.

“Ao colocar o destino do homem inteiramente nas mãos de


Deus, a teologia agostiniana parecia implicar que as funções
de uma Igreja organizada eram relativamente
desnecessárias. Por certo nenhum pecador podia confiar
nas ministrações dos padres para aumentar as suas
possibilidades de salvação, uma vez que aqueles que
deviam ser salvos já tinham sido ‘eleitos’ por Deus”.6

3
Frank Svensson depoimento oral. maio 2003.
4
Russel. p. 240.
5
Moderno aqui denota mesmo sentido do conceito de moderno empregado no século 5, para
separar o passado pagão do presente cristão, conforme define Habermas em seu artigo A
Modernidade, um Projeto Incompleto. O termo moderno também é atribuído ao momento de
afirmação do humanismo, no Renascimento, e com a racionalidade cartesiana. Ibidem. p. 20
6
Jan Gympel afirma: “Com efeito, a Inglaterra já tinha passado, em 1642-49, pela sua revolução
burguesa e concomitante guerra civil, a decapitação do rei, a abolição da monarquia e a
introdução, em 1653, de uma constituição escrita, enquanto a França rumava ainda para o apogeu
do absolutismo (...).Gympel. p. 61. Ver Burns. Vol. 1. p. 379
Fundamentado em Santo Agostinho, o protestantismo recusou o clero como
mediador homem x Deus. Instaurou a noção de sacerdócio universal: “todo
homem se acha em contato direto com Deus; Cristo não precisa de vigários”7. O
cidadão comum se aproximaria do domínio do clero, da religião e do
“conhecimento” ao se inventar a imprensa (século XV). “A Bíblia”, traduzida do
latim para línguas nacionais, faziam-no conhecer outras doutrinas sociopolíticas e
religiosas8. A reforma protestante e a imprensa forjaram o pensamento político,
associaram-no à religião e difundiram-no na produção literária.

“Uma das conseqüências da Reforma foi a religião ter se


tornado mais abertamente uma questão política, muitas
vezes apoiada numa base nacional, como na Inglaterra.
Evidentemente, isso nunca poderia acontecer enquanto
prevalecesse uma religião universal.”9

Língua e religião saíram do domínio católico, ligaram-se a idéias


nacionalistas fortalecidas pelo Estado, que interferiu eficazmente nas instituições
eclesiásticas. Na Inglaterra, a doutrina protestante firmou-se como religião, e a
reforma limitou o absolutismo político10. Isto fez o barroco não se desenvolver na
mesma intensidade da França. Na Inglaterra, o classicismo desdobra-se do
renascimento inglês e não imerge na Academia como os franceses Claude
Perrault (1613-88) e Françoise Blondel (1618-86). Na Inglaterra, Christopher Wren
(1632-1723) representou o classicismo.

A reforma protestante lança doutrinas independentes da filosofia e da


teologia, passíveis do processo de secularização. Como na Grécia e em Roma, a
filosofia se une ao pensamento matemático de Renée Descartes (1596-1650). A
razão autônoma, cartesiana, inicia-se na separação fé/razão, em Guilherme de
Ockham (1280-1349), que propõe ser Deus entidade inacessível pela razão.
Razão e fé separadas, Ockham beneficia o empirismo negando o sistema
ontológico geral em que o “ser” se explica universalmente, à Platão e à Aristóteles.
7
Russel. p. 240
8
Russel. p. 243
9
Em Russel há mais aspectos que caracterizam a tendência nacionalista da Inglaterra: “a
independência relativa de Roma, desde o período da Alta idade media; a monarquia em sua
intenção de tomar parte das nomeações episcopais. p. 256.
10
Burns. Vol. 1. p. 401
Contra o idealismo do escocês Duns Scotto (c.1270-1308), Ockham defendeu a
lógica-instrumento do raciocínio, não a lógica-fim (a verdade). “Ele era
completamente antimetafísico”, via Russel, “defendia que teologia era questão de
fé”, postura que dois séculos depois liberou a astronomia e Copérnico para
observar e propor.

O sujeito moderno viria a ser contradito: Copérnico e o sistema heliocêntrico


(1543) diziam que o sujeito orbitava num universo descentrado da Terra. O
conflito, entendeu Russel, passava a “afligir a imaginação dos
filósofos”11.Desprendida da tutela divina, a consciência seria dona de si, e o sujeito
se ampararia nas verdades de duvidar, no ceticismo do cogito cartesiano “Penso;
logo, existo” levaria o sujeito a duvidar, deduzir, raciocinar. A essas atitudes
Russel credita confiança ao sujeito moderno,“que assume o centro do palco”·12.
Depois de Copérnico, Galileu utilizaria o telescópio para contrariar concepções
aristotélicas, e a escolástica tardia condenaria este instrumento de observação13.

A teoria geral da dinâmica de Isaac Newton (1642-1727) concluiu o sistema


iniciado por Kepler e Copérnico, que subtraía de Deus a força motora, princípio
metafísico do movimento do mundo. Newton determinou os princípios de uma lei
da gravitação universal que consistiu numa lógica mecânica para o movimento dos
corpos. O espírito moderno do século XVII permitiu receber a teoria em termos
físicos, não em metafísicos. A matemática facultou demonstrar a dinâmica e com a
física separou-se da metafísica: “Daí em diante a matemática e a física avançaram
a passos largos”14. Newton destacou-se ao propor teorias que modificaram a
compreensão da estrutura do mundo, matematicamente derivadas de Pitágoras e
Platão, renascidas dois séculos antes, no humanismo.

“A ressurreição da ciência (no século XVII) se baseia direta e


conscientemente na tradição pitagórica do Renascimento”. 15

11
Russel p. 243.
12
Idem.
13
Ibidem.
14
Russel. p 269.
15
Russel. p. 262
A filosofia do renascimento contribuiu para secularizar a
consciência consolidada no século XVII. A secularização extraiu da matemática o
substrato para ver o mundo da ordenação lógico-científica aberta à compreensão
de físicos e matemáticos. O motor do mundo eram os fenômenos da natureza. A
noção de infinito pertencia à matemática. Em Descartes a matemática é razão
inata16. Convencionou-se o pensamento racionalista como o fundador da filosofia
moderna17.

“Ainda que a razão seja um componente básico de todas as


manifestações da filosofia ocidental, no pensamento
moderno adquire característica e importância inusitadas.
Pois, enquanto na Antiguidade é considerada propriedade
inteligível da natureza, e na Idade Media, uma luz cedida por
Deus ao homem para que bem a utilize, na filosofia moderna
a “razão”é determinada como uma faculdade autônoma, que
possui finalidade própria”.18

O exercício da razão pertence ao sujeito, e o “real” torna-se cognoscível


pela “dedução”, implicando o aparato intelectual sobre o sensorial. Com o cogito
cartesiano estabelece-se a consciência moderna da razão autônoma. A
matemática expressa o pensamento cartesiano: “Only mathematics, Descartes
feels, is certain, so all must be based on mathematics19. A razão se distingue da
razão na antigüidade (propriedade da natureza), no medievo (cessão divina) e no
renascimento (naturalista). Na Idade Moderna é subjetiva, antropológica e
autônoma. Subjetiva porque opera por meio do sujeito; antropológica em distinção
ao caráter naturalista do renascimento; autônoma por instrumentar o
conhecimento e ser-lhe faculdade inerente.

“A importância conferida à razão por Descartes e pelos


cartesianos seus seguidores é um modo de racionalizar a

16
Em oposição a Thomas Hobbes (1588-1679), para quem a razão é “adquirida” temporalmente e
na prática.Russel. p. 275.
17
A corrente filosófica do racionalismo será objeto de item específico do capítulo 5, de tal modo
que interessa-nos, por ora, introduzir o caráter autônomo que a razão adquire, segundo a História
da filosofia.
18
Bastos, p. 77.
19
in J. J. O'Connor e E. F. Robertson. 1997. http://www-groups.dcs.st-
and.ac.uk/~history/Mathematics/Descartes.html
Realidade. Por conseguinte, o racionalismo vai também
consignar à realidade, um lastro metafísico, de cunho
racional”.20

Isso se repete na noção de belo. Como na filosofia, a arquitetura do


classicismo inglês se mostrará infusa dessa matematização da estrutura do
mundo, delineando o ambiente secular que contagia o sujeito moderno, a
arquitetura e a catedral.

20
Bastos. p. 78