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O BARROCO BRASILEIRO

Profª Vivian Trombini

Revisão:

São três as condições para a existência de uma literatura nacional: a presença de escritores
que produzam continuamente, a possibilidade de publicação e circulação das obras literárias e um
público que leia regularmente as obras produzidas. Quando essas três condições são atendidas,
começa a funcionar o que denominamos sistema literário.
Essas condições ainda não eram atendidas durante o período colonial visto que o Brasil do
século XVII ainda era um vasto território inexplorado. Apenas os centros urbanos mais importantes,
como Salvador e Recife, apresentavam alguma organização. Por isso, os poucos escritores que
existiam estavam separados por quilômetros de matas começando a ser exploradas. As obras que
escreviam raramente eram publicadas, o que dificultava sua circulação.

Em 1601 surgiu o poema épico Prosopopéia, escrito por Bento Teixeira. Esse texto costuma
ser considerado o marco inicial da literatura barroca brasileira, embora não possua lá grandes
qualidades literárias.

Nesse momento, o Brasil era o grande celeiro da cana-de-açúcar. Os colonos portugueses


que vinham para cá estavam interessados na exploração e no enriquecimento rápido. Poucos entre
eles sabiam ler e escrever. Entretanto, aos poucos foi surgindo na colônia um grupo de pessoas cuja
formação intelectual acontecia em Portugal – geralmente advogados, religiosos ou homens de letras,
na maioria filhos de comerciantes ricos ou de fidalgos instalados no Brasil. Essa elite foi responsável
pelo nascimento de uma literatura brasileira, inicialmente frágil, presa a modelos lusitanos e sem um
público consumidor ativo e influente.
A realidade brasileira era então muito diferente da portuguesa. Tratava-se de um centro de
comércio, de exploração da cana-de-açúcar; de uma realidade de violência, em que se escravizava
o negro e se perseguia o índio. Não se via aqui o refinamento da aristocracia européia, que, como
público consumidor, apreciava e estimulava a boa arte.
Apesar disso, os modelos literários portugueses chegaram ao Brasil, e o Barroco, cujas
origens se confundem com as da nossa própria literatura, deu seus primeiros passos. Não havia
sentimento de grupo ou de coletividade: a literatura produzida em meio ao espírito de aventura e de
ganância da mentalidade colonialista foi fruto de esforços individuais. Aqueles que escreviam
encontraram na literatura um instrumento para criticar e combater essa mentalidade, para moralizar
a população por meio de princípios de religião ou, ainda, para dar vazão a sentimentos pessoais
profundos.
O Barroco no Brasil ganhou impulso entre 1720 e 1750, quando foram fundadas várias
academias literárias por todo o país. Nas artes plásticas, esse desenvolvimento só aconteceu no
século XVIII, quando, em decorrência da descoberta do ouro em Minas Gerais, construíram-se
igrejas de estilo barroco no país.

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Padre Antônio Vieira (1608-1697):

Nasceu em Lisboa, mas ainda menino veio com os pais para a Bahia, onde estudou no
colégio dos jesuítas. Ordenado em 1634, começou a carreira de pregador.
No século XVII, em meio às disputas entre católicos e protestantes, o sermão, discurso
religioso sobre alguma verdade da doutrina cristã, tornou-se uma importante arma para divulgar os
valores da Igreja romana.
Os sermões escritos pelo Padre Antonio Vieira ficaram famosos pela argumentação
engenhosa e pela retórica perfeita. O domínio incomum das palavras garantiu ao jovem jesuíta
entrada nas cortes mais importantes da Europa e influência junto ao rei de Portugal, Dom João VI.
A defesa dos cristãos-novos, judeus convertidos ao catolicismo, fez com que Vieira fosse
julgado e condenado pela Inquisição. Permaneceu preso por dois anos, impedido de pregar. Seu
grande prestígio como orador acabou lhe garantindo o perdão do Papa. De volta ao Brasil, fez
questão de editar todos os seus 207 sermões. Morreu aos 89 anos deixando um legado da arte de
escrever aos seus contemporâneos.

Características:
Se esse caráter magnífico do grande escritor que Vieira é fica logo evidente, para ler Vieira
com criticidade, e com aquele olhar clínico que consegue identificar os recursos que esse artista usa,
é preciso de um pouco de treino e o conhecimento dessas ferramentos do seu estilo.
Os recursos estéticos e estilísticos usados por Vieira em seus sermões estão sempre a
serviço do seu estilo conceptista (quevedista). O que Vieira quer, quando os usa, é buscar a
clareza da idéia, mesmo quando seu pensamento chega quase a formar paradoxos.

Conceptismo ou quevedismo - valorização do conteúdo/conceito, jogo de idéias através do raciocínio


lógico. Há o uso da parábola com finalidade mística e religiosa.
"Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem
espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver
por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos."

E qual a diferença entre estéticos e estilísticos? Os estéticos são os que buscam os efeitos
de beleza do texto, são as figuras de linguagem e outros tipos de manipulação linguística. Os
recursos estilísticos são elementos típicos da composição de um autor que não atingem,
necessariamente, o efeito estético, mas que são tão presentes no conjunto da obra do indivíduo
que, através deles, temos dica da autoria de determinado texto.
Os principais recursos estéticos usados por Vieira são a comparação, a metáfora, a antítese
e o trocadilho.
Comparação e metáfora são figuras de linguagem muito confundidas pela maioria. Para
saber quando é uma e quando é outra é só procurar palavras e expressões de teor comparativo.
Se houverem termos que explicitam comparações (como, tal qual, tal como, assim como)
comparação; se não, metáfora. Então, o que há de mais relevante nelas é lembrar que Vieira
costuma usar elementos da natureza ou do cotidiano comum das pessoas na construção dessas
imagens. Ele quer ser acessível, quer ser compreendido por qualquer pessoa. Assim, as imagens
comuns, a que qualquer homem, por mais humilde que seja sua condição social, são as que mais
significado vão trazer para o seu público. Por isso o céu, o mar, os peixes, as árvores, o ato de
semear, as abelhas, o ato de se olhar ao espelho são imagens usadas por Vieira: qualquer homem
do século XVII vai compreendê-las e assimilá-las, compreendendo e assimilando, por extensão, o
conteúdo de sua mensagem.
Alegoria é um recurso estilístico em que se faz uma metáfora para ações e sentimentos
humanos através de uma narrativa curta. As parábolas bíblicas são alegorias. Em todas elas o
pregador conta uma história que representa um comportamento humano e depois avalia a história,
mostrando o que significa cada um de seus símbolos. É exatamente isso que alegoria é: uma
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narrativa metafórica (tem que ter a união de mais de um símbolo para se mostrar esse
comportamento, como na alegoria do ver-se ao espelho = ver-se a si mesmo, do Sermão da
Sexagésima), que tem sua simbologia explicada. Uma metáfora vem sozinha e não tem explicação
no texto (senão acaba com a mágica da metáfora de nos deixar imaginar o que o autor quer dizer e
o discurso torna-se pobre)
Antítese é um contraste dos elementos opostos. Vieira gosta muito de unir a antítese, um
recurso estético, à reiteração (ou repetição), um recurso estilístico. No caso da antítese, como a
oposição é de atributos de seres diferentes, ou de um mesmo ser, mas que só existem nele em
momentos diferentes, esse contraste de opostos da antítese é perfeitamente aceitável do ponto de
vista lógico, racional. Racionalmente compreendemos que uma pessoa pode ser muito boa aluna de
Matemática e péssima em Português; compreendemos que uma pessoa esteja triste pela manhã e
feliz à tarde; ou que um atleta que ganha medalha de prata chora, enquanto o que ganha a medalha
de ouro, ri. Racionalmente essas coisas são perfeitamente compreensíveis.
Já o Paradoxo, que Vieira também usa, embora com bem menos frequência, é
incompreensível do ponto de vista lógico, racional. Isso porque os elementos opostos convivem
no mesmo ser, ao mesmo tempo. Uma sensação ser ao mesmo tempo azeda e doce, boa e ruim,
alegre e triste racionalmente não são explicáveis. Emocionalmente nós compreendemos muito bem
que o atleta de ouro chora copiosamente, feliz e triste, porque avalia as dificuldades e perdas no
caminho e essas duas emoções se manifestam na mistura de reações que emocionam todos que
estão perto.
O trocadilho consiste num jogo com palavras que têm mesma forma (pelo menos mesma
sonoridade), mas sentidos diferentes. Além do trocadilho, Vieira gosta também de demonstrar a
sutil diferença que expressões sinônimas têm. Aqui a forma das palavras não é igual, mas se você
achava que elas significam a mesma coisa, está redondamente enganado – pelo menos é o que ele
vai acabar nos convencendo. Paço x passo é um exemplo de trocadilho; semeador x o que semeia é
esse segundo uso (que não tem nome) recorrente no estilo de Vieira.
Além da alegoria, da reiteração e da diferenciação dos quase sinônimos há a pergunta
retórica.
A tal da pergunta retórica é uma forma de condução argumentativa de um texto de caráter
dissertativo. Ela está presente não só nos sermões de Vieira, mas pode aparecer em qualquer texto
de caráter opinativo e, principalmente, persuasivo. Quando faz uma pergunta retórica, o autor
elabora um questionamento que ele mesmo responde no texto, como uma forma de conduzir o
raciocínio e rebater possíveis contra-argumentos.

Montagem argumentativa de um sermão:

Para persuadir sua platéia, Vieira combinava trechos marcados pela formalidade com outros
dominados pela oralidade e pela descontração. Havia também uma preocupação em manter uma
“amarração” constante entre a parte e o todo. Outra de suas marcas estilísticas foi o uso insistente
do paralelismo (repetição de estruturas sintáticas).
As metáforas e as analogias ajudavam os fiéis a compreender as passagens mais obscuras
da doutrina católica. Para demonstrar, por meio de exemplos, o ponto de vista que defendia, Vieira
utilizou, com grande efeito, passagens do Antigo e do Novo Testamento.
Embora religioso, Vieira nunca restringiu sua atuação à pregação religiosa. Sempre pôs seus
sermões a serviço das causas políticas que abraçava e defendia e, por isso, se indispôs com muita
gente: com os pequenos comerciantes, com os colonos que escravizavam e até com a Inquisição.
Valendo-se do púlpito, o grande padre pregou a índios, brancos e negros, a brasileiros,
africanos e portugueses, a dominadores e dominados. Suas ideias políticas foram postas em prática
por meio da catequese, da defesa do índio e do domínio português sobre a colônia por ocasião da
invasão holandesa.
O sermão barroco devia demonstrar uma posição moral por meio de uma imagem que,
associada a um fato ou a uma citação da bíblia, pudesse ser um símbolo da posição a ser defendida.

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Argumentos baseados na observação da realidade, em verdades históricas, em princípios
éticos ou filosóficos deviam ser evitados. A agudeza e o engenho só se manifestavam caso o autor
da argumentação fosse capaz de ilustrar por meio de imagens e metáforas o tema do sermão. Vieira
era uma mestre nesse processo.

Os passos da argumentação:
A estrutura consagrada para os sermões no século XVII envolvia quatro passos, em que se
percebia a preocupação com as ideias que marcaram a corrente conceptista do Barroco.:
Exórdio: o orador começa a expor o plano a que vai submeter-se as ideias que vai defender.
Invocação: o orador pede auxílio divino para expor suas ideias.
Confirmação: desenvolvimento e exposição do tema, realçado com alegorias, sentenças e
exemplos.
Peroração: conclusão; o orador, recapitulando tudo o que foi dito, termina com um desfecho
vibrante para impressionar os fieis e estimulá-los a seguirem os ensinamentos bíblicos
apresentados.

O SERMÃO DA SEXAGÉSIMA
No Sermão da sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, ele pretende
responder a uma pergunta básica: por que não faz fruto a palavra de Deus? Com sua argumentação,
o jesuíta tenta convencer os fiéis de que a culpa é dos pregadores, que, em lugar de desenvolverem
uma argumentação consistente, preocupam-se em enfeitar a linguagem, tornando o texto
incompreensível.
No trecho a seguir, Vieira usa a imagem da árvore como símbolo do conceito que procura
demonstrar: o sermão precisa desenvolver um único tema (uma só matéria), que deve estar em seu
inicio e ao qual deve retornar o pregador ao concluir sua argumentação.

[...] Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-
de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede.
Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser
o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco,
porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são
diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos,
senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta
árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo,
há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos,
há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado
em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos,
não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é
sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não
há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o
proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos;
mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do
Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é
muito que se não faça fruto com eles.

Sentenças: frases que contém um pensamento de ordem geral e de valor moral; provérbios, máximas.
Maravalhas: aparas ou lascas de madeira:
Verças: folhas de couve. Em sentido figurado: palavreado pobre de ideias, oco.
Seminare semen: em latim, semear a semente.

Observe, no esquema a seguir, como funciona a metáfora da árvore para representar o


sermão.

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Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus.
Considerado a maior das obras de Vieira, o Sermão da Sexagésima é uma verdadeira aula
de como escrever para atingir os fiéis e conseguir sua conversão. É um texto basilar na literatura em
língua portuguesa.
Em O Sermão da Sexagésima, Vieira expôs o método que adotava nos seus sermões:
1. Definir a matéria.
2. Reparti-la.
3. Confirmá-la com a Escritura.
4. Confirmá-la com a razão.
5. Amplificá-la, dando exemplos e respondendo às objeções, aos "argumentos contrários".
6. Tirar uma conclusão e persuadir, exortar.

Como todo sermão efetuado para um rito católico, o Sermão da Sexagésima parte do
comentário da passagem bíblica escolhida para o dia: a parábola do semeador, resumida na máxima
Semen est verbum Dei (A semente é a palavra de Deus. Lucas 8, 11 ). A partir dela, Vieira começa
a apresentar o assunto escolhido para a reflexão naquele dia: o papel do pregador na sociedade
setecentista. Esta apresentação é feita em um longo exórdio — ou intróito, ou, ainda, introdução,
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na qual, primeiro, Vieira destaca o início da parábola (Saiu o pregador a semear a palavra de Deus),
ligando-o à realidade do momento, na qual muitos evangelistas não saem de suas pátrias para
evangelizar os gentios e entre os que saem a evangelizar, muitos retornam à Europa por desistirem
do trabalho diante das dificuldades. Essas dificuldades são o gancho para uma segunda reflexão,
ainda introdutória, a respeito do trabalho do pregador: porque é que, mesmo havendo tantos
evangelizadores espalhados pelo mundo, tão pouco efeito tem o trabalho por eles exercido?
Com estas duas primeiras reflexões, Vieira apresenta a temática central do texto: o papel do
pregador na evangelização do mundo. Encerra-se então o exórdio e tem-se início a confirmação
(desenvolvimento argumentativo). Nela, primeiro o autor estabelece uma série de hipóteses, as
quais vai descartando, com argumentos baseados em citações bíblicas. Com ele, Vieira assinala
irrefutavalmente que sua tese (que é culpa do pregador a ineficácia de seu trabalho) é verdadeira. A
partir de então, ele conduz sua plateia para que ela compreenda quais são os erros dos pregadores
e como eles devem se portar para redimi-los. Esse elemento é de extrema importância no sermão,
pois o grande objetivo deste texto é justamente conseguir a modificação do comportamento do
ouvinte.
De acordo com Vieira, o pregador exerce seu trabalho através de cinco atributos seus: “a
pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz“. Isto significa que o pregador exerce seu trabalho
através do exemplo pessoal que ele é para seu público; através do conhecimento que tem do mundo
e das leis divinas; dos sermões em si, em toda sua confecção, desde a escolha do assunto até a sua
estruturação; do estilo que usa para confeccioná-los; e da maneira como se expressa oralmente no
momento em que professa o sermão. Cada um destes elementos é examinado cuidadosamente pelo
autor, que mantém o uso constante das citações, das perguntas retóricas e da reiteração em todo
texto.
Seguindo a mesma linha de raciocínio usada antes, Vieira então verifica cada um destes
elementos, assinalando sua importância e descartando aquele que não é, efetivamente, o culpado
pelo fracasso da evangelização. Assim, embora o pregador deva fazer da sua vida um exemplo para
os fiéis, não é esse o fatal impedimento para a evangelização dos ouvintes, o que Vieira comprova
com base num exemplo bíblico: Jonas, cuja vida desregrada não poderia servir de exemplo a
nenhuma audiência, com um único sermão consegue evangelizar todo um reino gentio. Embora o
estilo usado nos púlpitos da época seja condenável, por ser rebuscado e ininteligível (no que Vieira
faz uma severa crítica aos autores cultistas), também não é ele a causa principal do fracasso, visto
que há grande fundamento dos sermões destes pregadores nos grandes conhecedores em teologia
— o que, a meu ver, é das minimizações feitas por Vieira, a menos eficiente de todas. Vieira ainda
descarta a possibilidade da falta de domíno da matéria, isto é, da falta de domínio de como deve ser
produzido um sermão, apesar de demarcar como deve ser um sermão e que são muitos os sermões
que não seguem os procedimentos por ele apontados (neste trecho, a metalinguagem, ou seja, a
reflexão sobre o ato de escrever ou discursar, alcança um elemento máximo na obra, pois o autor
dedica-se a uma descrição minuciosa de como deve ser confeccionado o texto pelo sermonista).
Também não é a falta de conhecimento empírico (vivenciado pessoalmente pelo pregador) a causa
fatal para o problema levantado — embora a importância deste conhecimento seja ressaltada, Vieira
afirma que São João Batista pregava aquilo que havia sido vivido pelo profeta Isaías, sem ter, ele
mesmo, vivenciado aquelas experiências e que o mesmo ocorreu com outros grandes santos e
pregadores. Por fim, a forma de expressão oral também não é considerada a causa maior da pouca
frutificação do trabalho de evangelização da época. Vieira assinala que biblicamente havia dois
estilos de expressão: um exaltado, pautado no brado, no grito, e outro contido, moderado, sendo
ambos igualmente eficientes.
Descartados os elementos levantados nas hipóteses (a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo,
a voz), Vieira assinala agora a tese verdadeira: “as palavras dos pregadores são palavras, mas não
são palavras de Deus“. A sutil diferença entre os elementos palavras de Deus × a palavra de Deus é
desenvolvida e a tese agora toda composta (A evangelização tem pouco fruto porque os pregadores
não semeiam a palavra de Deus) é finalmente explicada: os evangelizadores têm usado a palavra de
Deus de acordo com as conveniências humanas, e não no sentido “sentido em que Deus as disse“.
Sendo assim e retomando-se a máxima de Lucas (A semente é a palavra de Deus) é impossível que
se frutifique a fé cristã porque não é ela que está sendo lançada ao mundo.

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Assumida plenamente a tese, Vieira inicia a peroração (conclusão) do texto. Ele critica
ferozmente os pregadores que assim procedem, acusando-os de transformarem a igreja num teatro
e o sermão numa comédia e de buscarem a fama e o prestígio do mundo. Em sua condenação,
chega a comparar os evangelizadores a médicos: se os médicos não se preocupam se o paciente
gosta ou não do remédio, conquanto esse remédio cure-lhe os males do corpo e o salve da doença,
também assim deve agir o pregador, que é um médico de almas. Ele não deve se preocupar com as
convenções políticas e sociais, mas sim com o seguir fielmente a doutrina tal qual ela é. Vieira
arremata este raciocínio mencionando uma situação ocorrida em Portugal, quando da discussão a
respeito de quem, entre dois grandes pregadores da época, seria o melhor. Sem reproduzir os
nomes (provavelmente sabidos pela plateia) Vieira afirma que a questão, cujos votos estavam
empatados, fora definida pela seguinte declaração de um dos debatedores de maior autoridade:
“Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre
experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio
muito descontente de mim.“
Como declaração final, que deve ter arrepiado completamente os ouvintes da Capela Real de
Lisboa de raiva ou de admiração pela grande habilidade do sermonista, Vieira recomenda:
Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a
palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos
todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as
invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem
se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra
de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et
fecit fructum centuplum.]

TEXTO PARA ANÁLISE:

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte
do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um
sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de
concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para
um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego,
não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.
Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar
um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é
necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a
graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por
meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles
devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no
Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se
logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os
espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as
aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse
por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela
desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja
o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do
sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente
da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira,
ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por
falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol
para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos
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corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus
dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará?
Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et
non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.
Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é
por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes,
mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não
fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus,
ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas
afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas
secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et
natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que
caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito
fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou,
mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores
ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as
pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que
há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar
galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas:
O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o
sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de
entendimentos agudos.
Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos
mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa
aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se
despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A
vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis
silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de
entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da
divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.
Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras
antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do
que semeava. É tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre
espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras.
Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende
confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora
resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos
espinhos o coroem.
Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe
fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos
espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos
alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos
ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem
por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por conseqüência clara, que fica por parte do
pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores.
Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? - Por culpa nossa.
(VIEIRA, Pe. Antonio. Sermão da Sexagésima. in: Sermões - Problemas sociais e políticos do Brasil. São Paulo: Cultrix)

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1) Logo no 1º parágrafo do texto, Vieira apresenta a na forma de pergunta o tema a ser desenvolvido:
Por que a palavra de Deus faz pouco fruto? Como é comum em sermões, o orador faz várias
perguntas e ele mesmo responde, como meio de conduzir o raciocínio de seu ouvinte. Que possíveis
causas Vieira atribui ao pouco fruto da palavra de Deus, isto é, ao fato de a pregação religiosa não
fazer efeito nos ouvintes?

2) Vieira costuma desenvolver seus sermões por meio de raciocínios complexos e lógicos, em que faz
uso frequente de metáforas, comparações e alegorias. Nesse sermão, por exemplo, ele constrói
correspondências alegóricas, que podem ser assim esquematizadas:

Sempre é necessário:

Para converter uma alma  pregador – com a doutrina, persuadindo


 ouvinte – com o entendimento, percebendo
 Deus – com a graça, iluminando

Para um homem se ver  olhos


 espelho
 luz

Releia o primeiro parágrafo do texto e estabeleça as relações: A quem correspondem os elementos olhos,
espelho e luz?

3) Na busca de identificar o responsável pelo pouco fruto da palavra de Deus, o autor de imediato
inocenta a Deus. Que argumento ele utiliza para isso?

4) Sendo Deus inocentado, a culpa passa a ser ou do pregador ou dos ouvintes. Valendo-se da alegoria
do trigo, o autor afirma que, se a semente não vinga, quando semeada, tal fato não advém da
qualidade da semente, mas dos espinhos e das pedras do solo. Traduza o significado dos elementos
que participam dessa alegoria:
a) semente
b) espinhos
c) pedras

5) No final do texto, chega-se a conclusão sobre a atribuição da responsabilidade pelo pouco efeito da
palavra de Deus.
a) Qual é essa conclusão?
b) Por que pode-se afirmar que esse sermão é um exercício de metalinguagem?

6) Qual das duas tendências estéticas encontradas no Barroco – o cultismo e o conceptismo – predomina
nesse sermão de Vieira? Por quê?

7) (UFOP) Sobre o Sermão da Sexagésima, de Antônio Vieira, é incorreto dizer que:

a) obedece rigorosamente às regras mais fundamentais da retórica para o púlpito, não descuidando de
qualquer detalhe.
b) pode ser definido como “uma profissão de fé oratória”, uma vez que aí ele expõe claramente os princípios
de sua arte de pregar.
c) jamais se rende ao cultismo predominante na época, uma vez que o critica de forma precisa e clara.
d) combina de modo bastante feliz as regras clássicas de um discurso pagão aos princípios religiosos da
doutrina cristã.
e) utiliza uma parábola do Evangelho de São Mateus como uma metáfora que se desdobra em inúmeras
variações.

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8) (UFOP) Considerando o texto do Sermão da Sexagésima, de Antônio Vieira, é incorreto afirmar que:
a) é um discurso oratório no qual se percebem com nitidez o exórdio, o desenvolvimento e a peroração.
b) em seu exórdio, o orador é bastante simples, indo diretamente ao tema do sermão sem maiores
circunlóquios.
c) em seu desenvolvimento, o sermão apresenta um perfeito equilíbrio entre narração e argumentação.
d) sua argumentação não dispensa procedimentos conceptistas tais como o silogismo, o paradoxo e o
exemplo.
e) Vieira se exime de induzir os seus ouvintes, fazendo com que o sermão perca muito de sua eficácia.

9) Leia, atentamente, o texto abaixo e, a seguir, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

“Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de três princípios: ou da parte do pregador, ou
da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver
três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o
entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si
mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta
de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister
espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro de si e ver-
se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho.”
(VIEIRA, Padre Antônio. Os melhores sermões. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999, p.21.)

01) No início do texto, que é parte do Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real, em 1655, o narrador
revela que a palavra de Deus não frutifica na terra porque os ouvintes (os homens) nunca prestam a atenção
devida aos ensinamentos divinos, desobedecendo-lhes sempre.
02) Em seus Sermões, Padre Antônio Vieira procurou adequar o texto bíblico à realidade da época: o século
XVII.
04) O narrador aponta no texto que, para uma alma se converter, são necessárias três coisas: olhos, espelho
e luz, que correspondem ao ouvinte (o entendimento), ao pregador (a doutrina) e a Deus (a graça).
08) Na frase “Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos”, o narrador sugere que a busca pela
palavra divina seja feita com base no conhecimento humano.
16) No final do texto acima, o narrador recomenda que o homem deve converter a sua alma olhando para
dentro de si mesmo, avaliando as suas atitudes.

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