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15-O MISTÉRIO DO PERFECCIONISMO-24/Setembro/2004

Já dizia o meu “xará”, Marco Aurélio, o estóico Imperador filósofo romano, que “a pessoa
comum é exigente com os outros, enquanto que o instruído, é mais exigente consigo
mesmo.” Esses, é o que chamamos de “perfeccionistas”, ou seja, aqueles que exigem a
perfeição em tudo que fazem. Mas, por que tais indivíduos tornam-se obcecados em fazer
tudo de maneira impecável, isto é, isento de defeito?
Qual é o mistério dessa postura tão radical com referência às suas ações no dia a dia?
O termo “perfeição" significa o resultado de algo que atingiu o mais alto grau numa escala
de valores. Sem falhas ou erros. Em outras palavras, diz-se que a pessoa dotada de maior
capacidade de assimilação mais apurada, tende a fazer as coisas com maior qualidade, ou
seja, à medida que atinge um grau apurado naquilo que faz, essa pessoa procura aprimorar
ainda mais as tarefas que desempenha. O prazer pela perfeição fica gradativo, isto é, para
ele, o trabalho sempre poderá melhorar. Surge, então, o decantado senso de perfeccionismo.
Por isso, o perfeccionista sempre estará mais preocupado com a autocrítica do que com a
crítica alheia. Se falhar, acredita que seus princípios foram aviltados e a frustração advém
com a carga toda. O problema será superar esse “imperdoável” erro de percurso.
Eis o lapso que deve ser evitado. É compreensível que todos sejamos exigentes para com o
trabalho que fazemos cotidianamente, mas temos que evitar a obsessão desenfreada, sob
pena de demonstrarmos nossa maior imperfeição: a capacidade de não aceitar a derrota.
O fato é que, queiramos ou não, devemos acatar o velho ditado, “errar é humano”. Afinal,
quem é perfeito neste planeta Terra? Assim, deve-se ter consciência que, apesar de o erro
jamais ser voluntário, este há de acontecer. Por sinal, é através dele que alcançamos a
percepção que apontará o caminho correto, independente do grau de complexidade da
tarefa. Eis o fascínio de todo o "perfeccionista" que se preza: querer acertar sempre, mas ter
a consciência de que o erro poderá acontecer, sem, contudo, ser derrotista.
Em outras palavras, ser perfeito é tentar atingir a qualidade plena, aprimorando-se não
somente através dos erros, mas, principalmente, através dos acertos.
E a cada degrau transposto, melhor será o resultado, tanto para si próprio, como para os
outros. Aqui, vislumbramos o misterioso caminho da evolução humana, rumo à perfeição.
Dessa forma, o “perfeccionista” terá certeza de que ser perfeccionista não é ser perfeito na
acepção da palavra, é buscar a perfeição em tudo que se faz, independente da sua limitação,
porém cônscio de que está oferecendo o máximo de sua potencialidade.
Mesmo com o sucesso decorrente da sua frenética busca pela perfeição, o indivíduo terá
que se imunizar contra a vaidade. A lisonja em demasia poderá “amaciar” demais o seu ego
e isto poderá virar contra si. Pensando que sabe tudo e faz tudo bem-feito, ele poderá cair se
afogar nos louros que colheu e o seu progresso certamente será interrompido, ou retardará.
As qualidades, sim, têm que ser mostradas e divulgadas, mas sempre com a devida
parcimônia, sem faltar com o respeito àquele menos dotado de argumentos para trabalhar
melhor. Afinal, um dia, todos alcançarão o mesmo objetivo. Uns antes, outros depois, mas
todos atingirão o seu ápice. Em suma, não se deve esquecer que “quanto mais alta a escada,
maior a queda”. A humildade é o equilíbrio que necessitamos para não despencarmos. Não
em excesso, mas com racionalidade e sobriedade. Todos dependem de todos para evoluir,
logo, ninguém é melhor do que ninguém. Este é o mistério que tem que ser desvendado.
Exija de você, mas acate as suas limitações. Se errar, corrija o erro em tempo. Se acertar,
veja porque acertou e aprimore o seu acerto. Aprimorando seus atos visando a perfeição é
salutar. Querer ser o primeiro sempre, também é saudável. Todavia, isto deve ser feito com
método e sensibilidade. Este é o caminho para decifrarmos o mistério do perfeccionismo!