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A Linguagem do Inconsciente

por Liz Greene


(extraído do livro "Relacionamentos")

"Todos nós, no fim das contas, temos de aceitar as conseqüências de nossas opções. As opções nunca
são tão símples quanto parecem. Mesmo a mais sábia das pessoas faz más opções, e são exatamente
esses "erros", com toda a dor de suas conseqüências, que nos permitem adquirir alguma sabedoria.
O astrólogo ou psicólogo, que responde "sim" ou "não" às perguntas dos clientes, é um presunçoso e um
tolo perigoso, pois ninguém pode optar no lugar do outro. E cada opção, por mais clara que aparente ser,
engloba uma teia de associações e nuanças que, em última análise, se se souber examinar e investigar
corretamente, pode iluminar seu significado mais profundo...
É muito mais fácil culpar os pais por nossos problemas psicológicos, esquecendo conscientemente, que
o poder que eles têm deriva do que é projetado neles; é mais fácil sair de um relacionamento ou de um
casamento porque a monogamia está "fora de moda", ou porque o parceiro obviamente é uma besta
totalmente responsável pela trapalhada. O reconhecimento da elemento de projeção é uma carga que
muitos de nós não deseja assumir, pois se realmente assumimos essa carga, nem um só incidente - nem
uma só discussão, disposição de ânimo, ataque de raiva, suspeita secreta ou explosão de ressentimento
- pode passar sem o reconhecimento das próprias motivações. E também é preciso conversar sobre
muita coisa, o que implica um tipo de confiança que não estamos acostumados a ter em nossos
semelhantes, porque não confiamos em nós próprios. Não somos apenas completamente não educados
nessa forma de olhar para dentro; também somos sujeitos a uma certa apatia, uma inércia que recusa o
esforço de aprender a ver, preferindo o refúgio da inconsciência.
É preciso ter coragem de sofrer a morte das ilusões e a dissolução das projeções. É preciso ter coragem
de errar. É preciso ter coragem de ser vulnerável, de ser inferior, de ser suficientemente magnânimo para
permitir o fracasso dos outros, porque todo mundo está sujeito a eles; e é preciso ter a coragem de sofrer
(e infligir ) dor e orgulho ferido, também, às vezes, como um ego totalmente (machucado e magoado)
que precisa ser sacudido para sair de sua autocomplacência. É preciso conservar o senso de humor. E é
preciso estar disposto a aceitar o elemento da conivência inconsciente em todas as situações, por mais
que pareçam ser a culpa de outra pessoa, pois nas raízes mais profundas de nosso ser, somos todos
uma psique, e a mesma correnteza da vida nos impregna a todos.
Em cada um de nós existe o santo, o mártir, o assassino, o ladrão, o artista, o estuprador, o professor, o
curador, o deus e o demônio. Os indivíduos são diferentes, mas a psique coletiva dá origem a todos nós.
É preciso reconhecer tanto a pequenez como a grandeza do SELF pessoal em todas as questões de
opção.
Entretanto, há espaço, em cada um de nós, para a criança negligenciada, a criança cheia de
potencialidades, que eternamente condenamos e reprimimos porque não se ajusta à nossa auto-imagem
e às imagens das pessoas à nossa volta. Valorizar a criança permite que nos valorizemos a nós mesmos
como pessoas inteiras, e só podemos nos valorizar enquanto pessoas inteiras. Precisamos nos educar
para olhar através do egoísmo, da voracidade, da dependência, do ciúme, da possessividade e da
vontade de poder e discernir as necessidades e energias que os governam; é essa discriminação
modesta e não-dogmática, que vai nos capacitar a transmutar o desajeitado e feio em algo vulnerável e
precioso.
Todos nós, em resumo, precisamos nos tornar alquimistas, e o trabalho da transmutação é sinônimo de
aprender a amar. O mandamento de Cristo é amar o próximo como a si mesmo. mas se você não se
amar, o que vai ser capaz de fazer ao seu próximo, escorando-se no farisaísmo do seu próprio
julgamento.
Mas enquanto é fácil se identificar com o herói, é um pouco mais difícil reconhecer que o inimigo, o
feiticeiro, o dragão, a bruxa e a madrasta malvada, assim como a amada, são figuras que existem
autonomamente e exercem poder dentro da nossa própria psique.
Não é fácil viver com a própria inferioridade, admiti-la, dar-lhe um santuário, alimentá-la e valorizá-la por
si mesma. Todos nós ficamos terrivelmente embaraçados ao exibi-la mesmo para aqueles que amamos.
E depois precisamos arranjar desculpas esfarrapadas quando, em vingança, o que deserdamos
reinvidica sua herança e executamos atos de violência contra os outros. Encarar o lado secreto e
transexual da própria Natureza, iniciar o longo trabalho para libertá-lo e redimi-lo, também requer
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coragem. Preferimos deixar que um parceiro o vivencie por nós, de modo que, se ocorrer algum tipo de
fracasso, será responsabilidade de outra pessoa.
Vivendo através e além do horóscopo do nascimento, está o indivíduo, que - no que diz respeito à
consciência que desenvolve - não está limitado pelo seu Mapa Astrológico. Quem quer que tente
diagnosticar problemas de relacionamento a partir da suposta incompatibilidade de signos vai ficar
completamente desapontado. Porque, no fim, não é possível fugir do fato de que metade do
relacionamento é sua própria criação e precisa ser investigado e manejado através do reconhecimento
de sua própria Natureza, consciente e inconsciente - assim como o reconhecimento das motivações
operando nele quando executa qualquer ato ou toma qualquer decisão importante. Se um indivíduo quer
conhecer e experimentar o outro, precisa primeiro se conhecer e experimentar-se, e, para tanto, como
nos dizem os contos de fadas, é preciso iniciar uma saga, uma jornada, durante a qual vai se deparar
com os habitantes desconhecidos de seu próprio mundo interior, em estranhas formas e disfarces. E é
preciso chegar à percepção de que eles não são criação do ego, mas participam, com o ego, da
totalidade psíquica - e, nessa totalidade, o ego desempenha o papel de redentor amoroso e do servo dos
deuses, não do ditador ou do escravo.
O verdadeiro terapeuta ou conselheiro é o processo de viver; é somente vivendo a própria vida com
lealdade em relação ao SELF total, que se pode aprender a compreendê-la e tomar o conhecimento -
quer na linguagem psicológica ou astrológica - realmente seu. Na época oportuna, no entanto, alguns
indivíduos podem se beneficiar com a orientação, o aconselhamento ou a participação de experiência
grupal; é só o medo e o orgulho sem sentido que nos convencem de que deveríamos ser sempre
capazes de nos enxergar e nos ajudar calados e sozinhos. Muitos de nós também podem se beneficiar
muito com a compreensão da astrologia, mas existem numerosas formas expressar o que o mapa
simboliza, e nem todos entendem os mesmos símbolos. Acontece que, antes de a pessoa chegar a
qualquer compreensão verdadeira, ela precisa tentar muitas coisas, vaguear por muito tempo na
escuridão, sendo guiada somente por uma vaga intuição.
Nos momentos de maior necessidade, a psique inconsciente oferece ao consciente seus próprios
símbolos de inteireza e do próximo estágio da jornada; se não quisermos viajar às cegas, precisamos
aprender a ler esses símbolos em nossos sonhos e fantasias, assim como no horóscopo. É no reino dos
símbolos, dos sonhos, dos mitos e contos de fadas, no domínio da sombra, no reino do filho idiota e do
parceiro interior aprisionado que precisamos viajar, traçando nosso mapa enquanto caminhamos.
"O amor é uma força do destino cujo poder alcança desde o céu até o inferno" - JUNG
Mesmo a mais distorcida das projeções, se tiver o poder de impulsionar o indivíduo a se tornar maior do
que era - a lutar, aspirar, crescer, tentar alcançar o outro -, abriga em algum lugar, o demônio do amor.
Embora precisemos introjetá-las, as projeções também devem ser respeitadas, pois são emanações de
nossa alma. Não é errado projetar. Pelo contrário, é muito provável que sejamos projeções do SELF. É
só quando nos recusamos a reconhecer nossas projeções que somos culpáveis. O conteúdo de uma
projeção é um aspecto, uma parte inseparável, da própria essência do indivíduo.
Não se trata de superar as ilusões infantis. Trata-se de aprender a viver tanto no mundo interior como no
exterior, reconhecendo a linguagem de ambos - e que eles, e nós, fazemos parte da mesma totalidade.
LIZ GREENE - 1977
"Ai do homem que vê apenas a máscara. Ai do homem que vê apenas o que está escondido atrás dela.
Somente o homem que tem a verdadeira visão vê ao mesmo tempo, e num símples relance, a bela
máscara e a horrível face por trás dela. Feliz o homem, que por trás de sua fronte, cria essa máscara e
essa face numa síntese ainda desconhecida da Natureza. Somente ele pode tocar com dignidade e
graça a flauta dupla da vida e da morte"
NIKO KAZANTZAKIS - 1963