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A CONSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO: uma análise das publicações de Arnaldo Jabor no jornal O Globo

A CONSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO: uma análise das publicações de Arnaldo Jabor no jornal O Globo

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Natália Talita de Almeida Marcelino
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04/22/2013

Natália Talita de Almeida Marcelino

A COSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO: uma análise das publicações de Arnaldo Jabor no jornal O Globo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)2010

Natália Talita de Almeida Marcelino

A COSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO: uma análise das publicações de Arnaldo Jabor no jornal O Globo

Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social do Departamento de Ciência da Comunicação do Centro Universitário de Belo Horizonte - UNIBH, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientação: Prof. Juarez Guimarães Dias.

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Dedico esta monografia a minha mãe, que sempre me incentiva e é tão presente em todos os momentos da minha vida.

Agradeço em primeiro lugar a Deus que me deu forças e condições para estudar durante esses quatro anos. Sou muito grata também a minha família: mãe pelo amor incondicional, ao meu pai que de acordo com suas possibilidades ajudou para minha formação e ao meu irmão, Gustavo, que é sinônimo de amizade e alegria. Eles são meu porto seguro! Agradeço, enfim, ao meu noivo, Leandro, que faz parte da minha vida antes mesmo do início dessa caminhada, sempre me ajudando e mostrando que sou capaz. Com certeza ele tem participação nesta conquista.

RESUMO Esta pesquisa aborda as características do texto opinativo nas publicações do jornalista Arnaldo Jabor no jornal O Globo. O trabalho se baseia em temas centrais como jornalismo, jornalismo opinativo, censura, opinião, opinião pública, enunciado e persuasão para verificar como Jabor consegue articular seus texto e se colocar como formador de opinião na sociedade moderna. O objetivo é compreender de que forma os recursos da língua podem ser usados nos textos opinativos, perceber quando eles são aplicados, o efeito que criam na narrativa e como podem tornar um discurso em discurso persuasivo. Palavras-chave: jornalismo, jornalismo opinativo, discurso e linguagem.

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 07 2 O ESPAÇO DA OPINIÃO NO JORNALISMO ......................................................... 09 2.1 A construção do texto opinativo e sua relação com a notícia ....................................... 14 2.2 A importância do jornalismo opinativo para sociedade ................................................ 19 2.3 O texto opinativo no jornalismo brasileiro .................................................................... 22 3 OS ELEMENTOS PRESENTES NO DISCURSO ...................................................... 24 3.1 A cena enunciativa no texto ........................................................................................... 24 3.1.1 Ethos ..................................................................................................................... 27 3.2 Recursos de escrita ......................................................................................................... 28 3.2.1 As vozes do texto .................................................................................................. 28 3.2.2 Estratégias da ironia .............................................................................................. 30 3.2.3 Persuasão .............................................................................................................. 32 4 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO DE ARNALDO JABOR .................. 37 4.1 Metodologia ................................................................................................................... 37 4.2 Descrição do objeto ................................................................................................. 38 4.3 Os acontecimentos que mereceram opinião .................................................................. 39 4.4 A opinião construída por Jabor ...................................................................................... 42 4.5 As técnicas do discurso de Jabor ................................................................................... 47 5 CONCLUSÃO ................................................................................................................. 56 REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 58 ANEXOS ............................................................................................................................ 59

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1 INTRODUÇÃO A necessidade do homem de saber sobre os acontecimentos que o rodeia e envolve vai além de simplesmente ter acesso ao que acontece. Requer, na verdade, um esclarecimento, uma interpretação e outro tipo de percepção sobre o ocorrido. Por isso os fatos que se tornam públicos e geram impacto na sociedade ganham, em sua maioria, as partes destinadas às opiniões nos jornais. Para estudar a construção desta forma de perceber os fatos esta pesquisa pretende analisar as opiniões de Arnaldo Jabor publicadas às terças-feiras no jornal O Globo. Para isso foram selecionados oito textos do primeiro semestre de 2009 em que o jornalista apresenta os fatos e discorre sobre os mesmos. Nesses textos tem-se o intuito de verificar as características do jornalismo opinativo, as técnicas usadas na construção dos mesmos e como podem influenciar na maneira do leitor perceber os acontecimentos. O jornalista Arnaldo Jabor foi escolhido por ser um profissional que dedica sua carreira para a construção de textos sobre assuntos relevantes para a sociedade e por fazer isso de forma bem articulada. Além de ser um formador de opinião, o jornalista conta com um veículo de comunicação – O Globo – muito forte no Brasil. O periódico, que é considerado hoje com um dos maiores do país, foi fundado em julho de 1925 e por meio dele Roberto Marinho obteve ascensão econômica e política para criar as Organizações Globo. Para entender como esse jornalista constrói seus textos optamos fundamentar esta pesquisa em duas áreas do conhecimento: jornalismo opinativo e recursos da escrita. Nos dois capítulos iniciais serão analisadas as características e especificidades de cada uma dessas áreas e, posteriormente, a relação que têm com o objeto de estudo. No primeiro capítulo iremos entender como e onde iniciou a atividade jornalística em si, a importância que tinha para a sociedade da época e de que forma aconteceu o desenvolvimento do jornalismo. Além disso, procuramos esclarecer os motivos que levaram ao surgimento do jornalismo opinativo, o papel que a censura teve durante a definição deste viés da atividade e quais filtros e critérios influenciam na construção do texto opinativo. Ainda nesta etapa abordamos sobre os conceitos de opinião, opinião pública, opinião do

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público e a relação que existe entre o leitor/receptor e o jornalista: o entendimento destes se torna necessário para nos ajudar a mostrar a relevância que o jornalismo opinativo tem dentro de uma sociedade. Para completar o estudo desta área achamos pertinente falar também sobre o jornalismo opinativo no Brasil, a respeito da divisão de gêneros e a característica de cada um. Já no segundo capítulo esta pesquisa trata sobre os recursos da escrita, e para estruturar os conceitos que serão apresentados consideramos importante aprofundarmos primeiramente no que concerne o enunciado, discurso e enunciação. Com esses definidos iremos mostrar como o texto articula-se em torno de questões como temática, tempo, espaço, personagens e narrador. E é por causa dessa estrutura textual que acreditamos ser pertinente em nossa pesquisa o estudo do ethos, a técnica da polifonia, vozes do texto, ironia e persuasão. Acreditamos que com esses conceitos bem esclarecidos se torna possível a análise dos oitos textos do jornalista do O Globo. Contudo, antes de verificarmos a aplicação dessas teorias na prática achamos pertinente explicarmos primeiro o assunto tratado em cada publicação selecionada. Assim, teremos o entendimento tanto da parte teórica quanto da temática do objeto para fundamentar nossa pesquisa. 9 2 O ESPAÇO DA OPINIÃO NO JORNALISMO O segundo capítulo deste estudo aborda o jornalismo opinativo e suas especificidades. Contudo, antes de aprofundar no tema proposto, faz-se necessário entender um pouco, por meio da história do jornalismo, os motivos pelos quais surgiu o texto jornalístico opinativo. O jornalismo teve início na sociedade européia como uma atividade informal. Segundo Kunczik (2001), eram as pessoas comuns que transmitiam e comentavam os acontecimentos do dia em praça pública. Para Lage (1987) além das declarações pessoais, as informações também vinham por meio de decretos, através das proclamações feitas pelos padres nas Igrejas, exortações. Porém, com a intensificação do comércio entre a Europa e o Oriente a maneira de divulgar os acontecimentos começou a modificar-se. As embarcações que chegavam do Oriente desembarcavam suas mercadorias na costa oriental da Itália e ali, de acordo com Lage (1987), iniciaram as cidades-empórios, que recebiam do exterior técnicas, até então desconhecidas, e informações. As pessoas que chegavam de viagem contavam aos conterrâneos os acontecimentos de outra parte do mundo e ensinavam técnicas artesanais que tinham aprendido. Com isso houve uma expansão da atividade artesanal e um aumento na alfabetização entre a população. A partir do momento que as pessoas já podiam ler e escrever não era mais preciso que outras lessem para elas notícias, cartas e avisos em voz alta. De acordo com Lage (1987) esses documentos começaram a ser reproduzidos em maior quantidade por diversas pessoas e afixados nos muros das cidades. As notícias que chegavam ao conhecimento público eram ordenadas pelos banqueiros e comerciantes. Assim, a língua italiana se propagou e atingiu a universalidade literária, com nomes renomados como o de Dante Alighieri, o maior poeta da literatura italiana, Francesco Petrarca, intelectual e poeta italiano, responsável pela criação do soneto (poema com 14 versos) e Giovanni Boccacio, autor do Deccameron que pronunciava a obra de Dante.

Entretanto, em meados do século 15, os comerciantes europeus começaram a alterar a rota entre a Europa e a Ásia passando pelo norte do continente, através da Alemanha. Nessa época surgiu a tecnologia gráfica, oriunda do oriente, e, segundo Lage (1987) foi impressa por Gutenberg a primeira Bíblia, em 1452. 10 Os avanços nos equipamentos e mecanismos foram estimulados ainda mais com a colonização do continente americano. Além da mão-de-obra escrava, chegava até a Europa muito ouro e prata, novas técnicas de artesanato, mais histórias para serem contadas e divulgadas pelas pessoas que tinham sido alfabetizadas. Lage (1987) afirma que nesta época o latim já era considerado língua culta, dominada somente pelos padres e eruditos. Para Lage (1987) foi nesse cenário que surgiu a profissionalização do jornalismo, com os primeiros periódicos. De acordo com Kunczik (2001) os pioneiros foram os jornais alemães Aviso e Relation, e Lage (1987) pontua que os mesmos circularam na cidade de Bremen, localizada no norte da Alemanha. De acordo com Lage (1987), tempos mais tarde o jornalismo se propagou pela Europa com periódicos sendo publicados em várias cidades como Frankfurt, Basiléia, Hamburgo, Amsterdã e Antuérpia. As primeiras publicações feitas nos jornais tinham caráter informativo, eram mensagens sobre novas expedições, guerras, descobertas de novas terras em outros continentes. Contudo, Lage (1987) afirma que a burguesia passou a usar os jornais como um meio de influenciar as pessoas e abrir caminhos rumo ao poder. Com isso a Igreja e o Estado instauram a censura, a fim de controlar o que os jornais veiculavam. Na verdade, esse controle sobre a divulgação de opiniões e pensamentos foi instaurado pela Igreja Católica, que sempre teve uma influência muito forte na política, desde a época da inquisição. As pessoas que tentavam criar alguma forma de pensamento, ao se mostrarem formadores de opinião e que pudessem de alguma modo prejudicar as ideologias pregadas pela Igreja, eram julgadas e às vezes condenadas à morte.
Logo depois que Gutenberg inventou a máquina de imprimir com tipos móveis, institucionalizaram-se as medidas de censura, especialmente devido à publicação de folhetos anticlericais ou de outros materiais críticos. Em 1482, a Igreja católica emitiu os primeiros editais de censura, em Wurzburg e na Basiléia. Em 1487, o papa decretou que ninguém podia publicar nada sem a censura da Cúria romana (a corte papal) ou seu representante. (KUNCZIK, 2001, p.24)

A censura era praticada não só pela Igreja, mas também pelo Estado absolutista. Kunczik (2001) considera que a declaração de 1784 do rei da Prússia, Frederico II, mostrou claramente esse controle. O documento proibia que um indivíduo comum divulgasse qualquer notícia sobre a corte e seus membros, leis e decretos expedidos pelas autoridades, porque acreditava 11 que quem não participava do clero não tinha conhecimento suficiente para falar sobre o mesmo. Considerando esse cenário, o jornalismo restringia-se às publicações clandestinas ou simplesmente à propaganda governamental. Assim, Melo (1985) afirma que verdadeiro jornalismo só começou a existir quando a burguesia assumiu o poder da sociedade e culminou com o término da censura prévia. O fim da censura foi uma conquista difícil de ser alcançada, de acordo com Kunczik (2001). O primeiro e mais importante movimento para se chegar à liberdade de imprensa foi um

projeto de lei que defendia, ainda em 1649 na Inglaterra pelo Partido Leveller, que para um governo atuar com justiça era preciso considerar as opiniões da sociedade, e isso só poderia acontecer se houvesse liberdade de imprensa. Entretanto, Kunczik (2001) considera que essa liberdade teve início realmente na Inglaterra em 1695, quando não foi mais renovada a “Lei de Autorização”. Para Melo (1985), entretanto, só a suspensão dessa lei não foi suficiente para intensificar a atividade jornalística, porque ainda havia um obstáculo a ser superado: o imposto do timbre. Para cada exemplar de jornal publicado tinha-se que pagar uma taxa, que garantia à classe rica o monopólio das informações, porque os editores comuns não tinham condições financeiras para sustentar um jornal. Desta forma, a classe pobre e sem influência na sociedade ficava afastada da vida política. Para Melo (1985) a liberdade de imprensa deu-se definitivamente no final do século 18, na França, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Kunczik (2001) também faz referência a esse documento e aponta como mais relevante o artigo 11, que estabelecia a livre divulgação de idéias e opiniões como sendo um direito de qualquer cidadão, independente da situação socioeconômica que ocupava. Lage (1987) pontua que a Revolução Industrial também contribuiu para acabar com a censura e expõe três pontos que comprovam a influência do movimento. Primeiro, os donos dos jornais percebiam que o número de leitores estava aumentando e cada vez mais tinham-se pessoas alfabetizadas, que normalmente serviam de porta-vozes para seus conhecidos que não sabiam ler. Quando um indivíduo lê para o outro é normal também explicar o acontecimento, 12 de acordo com suas opiniões e entendimentos. Desta forma, Lage (1987) evidencia que as pessoas alfabetizadas eram um público muito importante, já que faziam o papel de formadores de opinião. Outro aspecto foi a Revolução Industrial. Ela contribui para o fim da censura ao facilitar a modernização dos jornais, que passaram-se a adquirir novas máquinas e a adotar medidas capitalistas dentro das empresas jornalísticas. Com isso, a produção do jornal aumentou e seu custo foi reduzido, pois já não era mais possível um jornalista autônomo, que escrevia seus exemplares com tipos móveis e prensa manual, concorrer com os jornais impressos dentro de padrões mais avançados. Por fim, tem-se a publicidade que foi introduzida nos periódicos para sustentar os custos editoriais. Além das notícias os jornais traziam anúncios de bens de consumo, tornando-se uma ferramenta para estimular as vendas e viabilizar o crescimento das relações comerciais. Os jornais se acabaram transformando em um meio muito valorizado pelos empresários de comunicação. Favorecidos pela liberdade de expressão, Melo (1985) pontua que os diversos grupos sociais da época usavam os jornais como palco para os debates de suas ideologias e opiniões. Beltrão

(1980) percebe esse momento do jornalismo como fundamental para intensificar o jornalismo opinativo.
Foram os movimentos sociais e a efervescência política provocados na Europa pela Revolução Burguesa que restauraram o prestígio e como que recriaram a imprensa de opinião. O público reclamava uma orientação e os impressos foram convertidos em agentes de luta, adotando, propagando e defendendo determinados princípios e ideologias e combatendo os opositores. Foi a época áurea da polêmica. (BELTRÃO, 1980, p.35).

Assim, começou-se a aumentar as atividades jornalísticas e foram aparecendo cada vez mais jornais. Naquela época, o investimento inicial para montar uma redação não era muito oneroso, então a veiculação das notícias tornava-se mais freqüente. Melo (1985) lembra que as opiniões eram características marcantes nos periódicos desse momento do jornalismo. No entanto, a burguesia, com receio dessa forma de transmitir os acontecimentos, logo instaurou normas para dificultar a atividade jornalística opinativa. A imprensa foi então 13 submetida a limites, ou seja, publicava os acontecimentos, mas poupava-se os comentários. Para Melo (1985) a burguesia trabalhava com a censura a posteriori, aplicava punições nos jornais que, segundo a análise dessa classe, estivessem transgredindo os limites políticos. Os acontecimentos da Europa começaram a refletir no Brasil. Em 1825, tinha em circulação o Diário de Pernambuco, uns dos primeiros periódicos da América Latina. Segundo Beltrão (1980), a repercussão deu-se quando dom Pedro I exigiu medidas que regulassem a liberdade de imprensa, visto que, na percepção dele, estava excedendo os limites e veiculando comentários maldosos e difamadores. Quem ultrapasse os limites estabelecidos pelo imperador podia ser punido com multa e, até mesmo, vir a ser preso. A exigência do imperador era baseada na lei de liberdade de imprensa da Constituição Política Portuguesa, de 1821. Porém, no Brasil a forma de julgar os jornalistas que supostamente cometiam excessos era diferente da exercida em Portugal. De acordo com Carvalho (1996), a lei portuguesa garantia um tribunal somente para as questões da imprensa, já no Brasil o julgamento era feito pelo júri. Esta lei, estabelecida por dom Pedro I, julgava como responsáveis pelas publicações todas as pessoas envolvidas no processo de produção de um jornal (autor, tradutor e impressor). Dessa forma, expressar opiniões tornou-se arriscado e abriu-se espaço para publicações com caráter mais informativo. Contudo, as opiniões não desapareceram dos jornais ecléticos, apenas eram publicadas em espaços menores. Beltrão (1980) observa que os editores de jornais desse tipo não deixaram de mostrar o que pensavam, porque entendiam a opinião como um dever, assim como é a informação. Melo (1985) esclarece que, mesmo sendo uma prática polêmica, os jornais da França continuaram criando debates, emitindo opiniões. Já o jornalismo praticado na Inglaterra era mais cauteloso e se restringiu às notícias, deixando a subjetividade para raros os casos. Como os jornais da época adotaram – cada um à sua maneira – dois modelos (informar e opinar) de publicar os acontecimentos, Melo (1985) considera pertinente explicar as questões profissionais e políticas que levaram a classificação do jornalismo como opinativo e informativo: 14
Profissional no sentido contemporâneo, significando o limite em que o jornalista se move, circulando entre o dever de informar (registrando honestamente o que observa) e o poder de opinar; que constitui uma concessão que lhe é facultada ou não pela instituição em que atua. Político no sentido histórico: ontem, o editor

burlando a vigilância do Estado (...), hoje, desviando a atenção do público leitor em relação às matérias que aparecem como informativa (news), mas na prática possuem vieses ou conotações (MELO, 1985, p. 16).

Carvalho (1996) afirma que no Brasil somente no final do século 19 e início do século 20 que os jornalista tiveram realmente liberdade para emitir suas opiniões. De acordo com Carvalho (1996) a virada de século trouxe para o país novas tendências para cultura, tecnologia e para literatura de forma geral. Os jornalistas tiveram um papel fundamental para essa evolução.
(...) a imprensa, em franco processo de difusão, influenciou o gosto literário, que, cada vez mais, competia com as novas formas de comunicação, moldando, conseqüentemente, o perfil do novo intelectual, cuja principal atividade passou a ser o jornalismo. (...) Por intermédio das publicações periódicas, os intelectuais puderam exercer suas funções como formadores de opinião. Nos jornais e nas revistas, nos magazines de luxo, a atuação deles era intensa, através dos editoriais, das crônicas, das poesias, dos folhetins. (CARVALHO, 1996, p.4)

Existem mais propostas de classificações dentro do jornalismo, feitas por outros estudiosos, como por exemplo, o jornalismo interpretativo que, segundo Beltrão (1980), explora as causas e conseqüências dos acontecimentos; jornalismo de entretenimento, que para Fraser Bond, citado por Melo (1985), serve para comentar os aspectos engraçados da vida comum. Porém, para Melo (1985) essas outras categorizações do jornalismo podem, perfeitamente, se encaixar em jornalismo opinativo ou informativo, por isso ele considera somente as duas citadas. 2.1 A construção do texto opinativo e sua relação com a notícia O texto opinativo é um viés do jornalismo diferente do padrão formal da maioria das notícias informativas, que obedecem ao modelo norte-americano (chamado lead) que procura responder no primeiro parágrafo cinco perguntas: o quê? como? onde? quando? por quê?. Pelo contrário, a escrita opinativa é mais solta, visto que o autor tem a possibilidade de humanizar o texto e, de acordo com Rey (2002), acrescentar liberdade de ação ao que é construído. Para redigir um texto opinativo o jornalista, segundo Beltrão (1980), precisa dominar a informação: ter noção de seu alcance, suas causas e conseqüências. Além disso, é necessário que saiba o que realmente importa ao público. De acordo com Wolf (1995) a sociedade em si 15 já produz um amontoado de acontecimentos, mas os órgãos de informação têm o dever de selecionar o que vai ser levado ao conhecimento do público. Esse processo de seleção dos fatos pode parecer simples, entretanto é uma atividade complexa.
O objectivo (sic) de seleccionar (sic) tornou-se mais difícil devido a uma característica posterior dos acontecimentos. Cada um deles pode exigir ser único, fruto de uma conjunção que transformaram um acontecimento neste acontecimento particular. Do ponto de vista de informação, é impossível aceitar essa pretensão quanto a todos os acontecimentos. (WOLF, 1995, p. 188).

Assim, o jornalista formula opinião a respeito dos acontecimentos que foram selecionados para ter visibilidade na sociedade. Além disso, é desejável que o profissional da redação saiba o perfil do público para o qual escreve e ter informações sobre a empresa jornalística concorrente. Wolf (1995) então relaciona as seguintes premissas substantivas de notícias para construir um

texto atrativo para o leitor: grau e nível hierárquico das pessoas envolvidas no acontecimento, políticos, personalidades, representantes religiosos; impacto sobre a nação, assuntos que podem influenciar na vida de todas as pessoas de um país, como decisões políticas; quantidade de indivíduos envolvidos no fato, acidentes que envolvem muitas pessoas (como queda de avião, batida de ônibus), ou até mesmo acidentes provenientes da natureza, que causam estragos significativos (terremotos, furacões, enchentes); importância e significatividade do ocorrido no que diz respeito à evolução futura de uma determinada situação, como, por exemplo, as eleições para eleger o presidente de um país. Em relação à qualidade do produto noticioso, Wolf (1995) ressalta que o mesmo deve ser acessível para o jornalista, isto é, ter estrutura para ser coberto pela imprensa. Neste caso existe uma especificidade para cada meio. Para televisão, por exemplo, um acontecimento interessante tem que ter imagens suficientes para fazer parte de uma matéria; no rádio o que importa são as declarações (sonoras) dos envolvidos e/ou especialistas; já no imprenso o importante, além do texto bem estruturado, são as fotos. Sendo possível para cobertura jornalística o fato deve também ser atual, oferecer condições aos repórteres de transmiti-lo com brevidade, já que o tempo é um aspecto muito valorizado 16 no jornalismo, principalmente na televisão. Além do mais, ser de qualidade, ter clareza de linguagem, opiniões e pontos de vistas diversos de pessoas entendidas do assunto em questão, ser apresentado de maneira didática e transmitir ação, que Wolf (1995) denomina, respectivamente, como ritmo e ação da notícia. Por fim, tem-se o valor/notícia chamado de equilíbrio, que se refere à igualdade que os meios de comunicação devem tentar tratar os acontecimentos de uma forma geral, por isso os jornais possuem diversas editorias, para gerar o equilíbrio e atender às expectativas do público. Sobre a concorrência existente entre as empresas jornalísticas, Wolf (1995) explica que muitos assuntos veiculados por um jornal entram na lista de acontecimentos noticiosos porque o outro jornal vai falar do mesmo. Outra situação que pode acontecer entre os jornais é o chamado “furo”, quando um jornal é detentor de uma notícia exclusiva que o seu concorrente não tem. Então, para se chegar numa definição do que vai ser publicado toma-se como base as publicações de alguns jornais. É importante ressaltar que nem sempre todos os critérios de noticiabilidade vão ser usados pelos jornalistas. Wolf (1995) pondera que os critérios estabelecidos para classificar um acontecimento como notícia são flexíveis e variáveis. Desta forma, quando um fato é pertinente de publicação isso é definido com ponderações e avaliações que vão de acordo com as especificidades do processo produtivo de cada meio e leva em consideração também a cultura onde esse está inserido. Para Beltrão (1980), além dos critérios de noticiabilidade o jornalista deve respeitar em seu texto opinativo as normas éticas da profissão. Essas determinam, de forma geral, o compromisso com a verdade, o respeito às fontes e a construção de textos sem nem um indício de discriminação, seja em relação à raça, religião, opção sexual. Ressalta ainda que o jornalista deve assistir à informação, isto é, acompanhar seus desdobramentos e saber sobre tudo o que se refere a ela para manter o receptor bem informado. Sá (2001) considera que um discurso desse gênero deve ter sempre uma ancoragem na realidade. Já Rey (2002) acentua que a opinião se distancia da atividade de informar, porque

não tem que ser precisa e concisa, pelo contrário, deve basear-se na perspectiva do autor. Considerando as diferenças existentes entre a informação e a opinião, é pertinente afirmar que 17 a característica principal do texto opinativo é a subjetividade. Desta forma, a opinião veiculada pelo jornal pode influenciar o leitor.
Ela é que valoriza e engrandece a atividade profissional, pois, quando expressa com honestidade e dignidade, com reta intenção de orientar o leitor, sem tergiversar ou violentar a sacralidade das ocorrências, se torna fator importante na opção da comunidade pelo mais seguro caminho à obtenção do bem-estar e da harmonia do corpo social. (BELTRÃO, 1980, p.14).

Melo (1985) também acredita que a opinião veiculada pelos jornais influencia o receptor, mas para esse autor isso não se dá de forma tão persuasiva e instrumentalizadora, já que o leitor é um indivíduo capaz de receber uma informação e interpretá-la de diversas formas. Além de compreender como o texto opinativo interfere nas conclusões do leitor a respeito de um determinado assunto, Rey (2002) considera importante esquematizar a estrutura que esse tipo de texto deve ter. Assim, estabelece que na introdução o autor deve expor a idéia principal do texto, afim de informar o leitor o assunto abordado. Depois pode ser feito o desenvolvimento, em que os fatos são apresentados, seguidos das análises sobre os mesmos. Para encerrar, conclui o raciocínio com a reafirmação da idéia inicial. Assim como qualquer outro tipo de texto, o de caráter opinativo necessita de um meio para ser veiculado e, geralmente, as idéias defendidas pelo jornalista opinante estão de acordo com a opinião da empresa em que trabalha. Melo (1985) considera primeiro o processo de filtro por onde as mensagens passam e qual o espaço que vão ter no jornal, para depois definir a estrutura do texto.
A seleção da informação a ser divulgada através dos veículos jornalísticos é o principal instrumento de que dispõe a instituição (empresa) para expressar a sua opinião. É através da seleção que se aplica na prática a linha editorial. A seleção significa, portanto, a ótica através da qual a empresa jornalística vê o mundo. Essa visão decorre do que se decide publicar em cada edição privilegiando certos assuntos, destacando determinados personagens, obscurecendo alguns e ainda omitindo diversos. (MELO, 1985, p. 59)

Beltrão (1980) também leva em conta o controle pelo qual a opinião passa antes de ser veiculada pelos jornais. Dois fatores são relevantes, segundo ele, para decidir o que vai ser excluído e o que pode ser publicado no jornal: a conveniência e a oportunidade. 18 A conveniência refere-se aos interesses de todos os indivíduos que podem ser atingidos por uma publicação feita em um jornal. Esse autor aponta o primeiro interesse como sendo o do próprio jornalista que vai escrever a matéria: o profissional pode se recusar a elaborar um texto que é contra seus princípios morais, questões que envolvem assuntos sigilosos que teve conhecimento através de seus relacionamentos pessoais. Deontologicamente, o jornalista não é obrigado a comentar assuntos que não estão de acordo com suas convicções filosóficas. Do mesmo modo, um jornalista evangélico não precisa cumprir uma pauta que fala sobre desvio de dinheiro na igreja que participa, por exemplo. O segundo interesse é o da empresa jornalística. Por ser uma organização que depende de

vários grupos com influência no campo econômico, político e social, um jornal muitas vezes é tendencioso – positivamente ou negativamente – sobre um determinado assunto. Beltrão (1980) ressalta que isso é um fator natural na imprensa, já que um veículo de comunicação compartilha interesses comuns com a classe dominante e, até mesmo, com o Estado. Há também o interesse de um núcleo social:
A moderação com que os jornais criticam a contravenção do jogo, especialmente do chamado jogo de bicho, em atenção à conveniência de núcleos importantes da comunidade que da sua prática extraem seu meio de vida é um exemplo, sobretudo em áreas metropolitanas onde há falta de emprego para mão-de-obra não especializada, desse tipo de supressão. (BELTRÃO, 1980 p.42).

Por fim, tem-se o interesse da sociedade em si. Nesse caso é comum que os jornais não informem e nem comentem sobre suicídio, questões relacionadas ao uso de drogas, questões pessoais de pessoas públicas. Entretanto, Beltrão (1980) deixa claro que isso não quer dizer que o público não tenha acesso a acontecimentos desse tipo. Mas, de qualquer forma, a imprensa deve ter uma conduta de acordo com bom senso, considerando a moral e ética que regem a atividade jornalística. A oportunidade, o outro elemento que influencia no conteúdo do jornal, está relacionada ao momento adequado que um assunto deve ser levado ao conhecimento do público. Para Beltrão (1980) há acontecimentos que podem ser verídicos, mas o jornalista deve ter a sensibilidade de saber quando pode falar sobre o ocorrido. Para esse autor, o jornalista pode aguardar para publicar uma matéria, se a mesma for provocar revolta popular e colocar em 19 risco a segurança e bem estar da sociedade. No entanto, ele ressalta que a supressão deve ser temporária. Melo (1985) acredita que existe um controle, por parte da instituição jornalística, sobre as matérias dos jornais, porém ressalta que isso se dá de forma amigável entre patrões e empregados, uma ação coletiva que é comum no jornalismo. É importante salientar que o jornalismo opinativo tem seus gêneros específicos (crônica, editorial, carta, artigo etc.), conforme serão apresentados no decorrer deste estudo, e cada um deles uma forma particular de se produzir. 2.2 A importância do jornalismo opinativo para sociedade A compreensão da relevância dessa especialidade do jornalismo dentro de uma coletividade se dá através do entendimento de conceitos como opinião, opinião pública e da relação entre o leitor e o jornal. Também se faz necessário analisar a forma como esses conceitos se relacionam entre si e como atingem o público. Beltrão (1980) pondera que a opinião é um fenômeno que pode ser individual ou social. E assim, define-a como “função psicológica, pela qual o ser humano, informado de idéias, fatos ou situações conflitantes, exprime a respeito seu juízo” (BELTRÃO, 1980, p. 14). Para expressar opinião sobre um fato é essencial que o opinante saiba informações sobre o objeto em questão e, se o mesmo estiver relacionado à coletividade, é necessário que seja de caráter questionável. Assuntos relacionados à religião, por exemplo, Beltrão (1980) acredita que não deve emitir opinião quem não faz parte da crença da qual se fala. Outro ponto que Beltrão (1980) salienta é sobre a abertura que um tema deve ter para ser discutido dentro de uma determinada sociedade. Por mais que a opinião seja um ato individual ela vai gerar conseqüências dentro de um grupo. Um assunto pode ser colocado em questão em uma coletividade e por ela ser tratado com naturalidade, já esse mesmo tema pode ser um

tabu para outro grupo. Os assuntos considerados tabus variam de acordo com cada sociedade, isso é construído pela tradição, costumes e normas de condutas que vão sendo estabelecidas com o tempo pelos cidadãos que vivem em conjunto. 20 Como a opinião se desenvolve dentro de um grupo, é comum ter uma opinião dominante, isso acontece quando vários indivíduos compartilham do mesmo juízo que um indivíduo faz sobre um determinado fato. Porém, para Beltrão (1980) as opiniões podem ser instáveis se levar em consideração que a própria sociedade/grupo está sujeito a mudanças dos seus conceitos. Beltrão (1980) diferencia opinião do público, ou seja, da maioria, de opinião pública. Assim, considera que a opinião do público está relacionada com o maior número de pessoas que pensam da mesma forma sobre um acontecimento. “Por ser popularidade, a opinião do público é coisa passageira, é algo que se está fazendo circunstancialmente e que dura o tempo que dura o motivo ocasional que a determina.” (BELTRÃO, 1980, p. 24). Já a opinião pública não precisa ter base quantitativa, e sim ser fundamentada na história e ter a capacidade de influenciar na opinião do público, o que geralmente acontece. Segundo Beltrão (1980) isso se dá porque a opinião pública é estável, ou seja, fundamentada em um passado, com implicações no presente e pressupõe conseqüências no futuro. Tendo a opinião pública definida, Beltrão (1980) relaciona quatro características sobre este conceito: consciência histórica coletiva, que tem a ver com os fatos marcantes ocorridos dentro de uma sociedade, relembrados tanto pelo conhecimento racional como pelo conhecimento emocional; ocorrência de interesse público atual, em que o acontecimento deve estar relacionado a um número maior de pessoas que saibam do ocorrido no presente ou, até mesmo, de um caso que tem seu desenvolvimento atualizado; confronto com o sistema de valores vigente ocorre quando um objeto esta à margem dos valores de uma especificidade eé analisado pelos entendidos da área; por fim, o julgamento de categorias sociais à base de uma compreensão objetiva, que se refere à composição do público e do que este tem como princípios/valores. O jornalista, assim como políticos, economistas, pessoas e organizações que interferem na vida de uma sociedade, tem de estar atento à opinião pública, tanto como ele influencia-a como é influenciado por ela. Para o profissional de jornalismo o acesso à opinião pública pode se dar de forma prática. 21
Usam os método empíricos, permitindo-se sondar a opinião dos leitores um pouco a grosso modo, mas com a precisão suficiente para não jogar a partida de uma empresa jornalística, sem ter as cartas na mão. As curvas de assinaturas e de compras por número, a comparação dos distintos lugares de venda segundo as regiões e ainda os bairros, a quantidade e qualidade de cartas do leitor ao diretor, embora não sirvam para um estudo metódico do mercado permitem controlar os movimentos da opinião, ao menos do público que os leitores formam. (BELTRÃO, 1980, p. 30).

Devido ao público heterogêneo e, às vezes, incalculável que uma instituição jornalística atinge, a pesquisa da opinião pública é o meio mais preciso para se ter retorno de como o produto jornalístico está sendo aceito entre os leitores e assim nortear as mudanças que podem

ser feitas, ou não, na linha editorial do jornal. Para Beltrão (1980) essa relação entre o leitor e o jornal acontece naturalmente, considerando que o público não é passivo. Quando não está de acordo com a opinião do jornal ou observa que algo foi informado de forma errada ou incompleta, não se intimida e escrever para a redação fazendo suas observações e dando suas opiniões. Mas, para que essa participação do leitor seja de fato válida, o autor ressalta que o mesmo deve conhecer o jornal para o qual envia a sugestão e é pertinente fazer isso de forma educada e fundamentada. Diante dos conceitos expostos compreende-se que uma opinião – emitida por um indivíduo ou instituição – quando se torna de conhecimento público por meio de um jornal, influencia um grupo e, conseqüentemente, impacta a opinião pública.
Pela exposição dos caracteres da opinião, como fenômeno individual e como fenômeno social, de logo deduzimos a importância do seu exercício, por parte do jornalista. Opinar para ele, não é apenas um direito, mas um dever, pois, de ofício, está incluído entre os que fazem profissão de opinar. Ainda mais: é sua função captar, em qualquer tempo, aquele objeto importante sobre o qual a sociedade exige uma definição. (BELTRÃO, 1980, p. 18).

Assim, o jornalista, por ser um formador de opinião, deve ter consciência da relevância que seu texto/pensamento tem para sociedade. Afinal, muitas vezes, é a partir das publicações dos jornais que se fundamentam os debates públicos. 22 2.3 O texto opinativo no jornalismo brasileiro A compreensão sobre o jornalismo opinativo praticado no Brasil sugere, em primeiro lugar, uma análise das influências que o jornalismo em si sofreu para se constituir como é atualmente. Para Melo (1985), o jornalismo brasileiro tem influências do jornalismo praticado nos principais países europeus, como Portugal, Itália, Alemanha e Espanha. Contudo, ele considera que o jornalismo dos Estados Unidos foi o modelo mais adotado no Brasil, devido à presença constante nas agências de notícias e pela tecnologia que oferecem. Além dessa análise, faz-se necessário também estabelecer a classificação dos gêneros opinativos brasileiros para, posteriormente, apontar as peculiaridades presentes nos textos opinativos do Brasil. Melo (1985) divide o jornalismo opinativo em: editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta. Cada um desses gêneros pode ser agrupado de acordo com a estrutura narrativa, a autoria e a angulagem. Em relação à autoria Melo (1985) aponta o comentário, o artigo, a resenha, a coluna, a crônica, a caricatura e a carta, como textos de autoria explícita. Já o editorial não tem uma autoria única, considerando-se que emite a opinião da empresa jornalística como um todo. Sobre a estrutura tem-se os textos construídos de acordo com a atualidade, por exemplo, o comentário, o editorial, a coluna e a caricatura, diferentemente da resenha, do artigo, da crônica e da carta, que podem se estruturar sobre acontecimentos passados ou atemporais. E, por fim, a angulagem, que aproxima a resenha e o artigo, devido ao “critério de competência dos autores na busca dos valores inerentes aos fatos que analisam” (MELO, 1985, p. 49); a carta tem uma angulação de observação, já que trata intimamente com o receptor; já a crônica e a coluna são produzidas com a visão da comunidade a que a empresa jornalística se refere.

Com os gêneros do jornalismo opinativo definidos é possível expor as particularidades desse tipo de jornalismo no Brasil. De todos os tipos de textos acima citados o mais importante, segundo os estudiosos, é a crônica, porque de acordo com Sá (2001) a literatura brasileira iniciou-se com esse gênero, que tem como objetivo registrar o circunstancial. O primeiro texto nesse formato é do século 16, quando Pedro Vaz de Caminha enviou uma carta a Portugal descrevendo os mínimos detalhes dos acontecimentos da então Terra de Vera Cruz. O relato de Caminha foi extenso, estratégia não utilizada pelos cronistas dos dias atuais, 23 que usam uma narrativa mais curta. Além desse aspecto, Sá (2001) defende que a crônica é a junção de jornalismo e literatura, um texto em que o autor tem mais liberdade ao escrever, utilizando linguagem coloquial e discorrendo superficialmente sobre o assunto em questão. A caricatura é outro gênero que reflete bem o estilo brasileiro, ao contrário da imprensa norte e hispano-americana que não a usa para ilustrar o editorial, mas sim para ironizar os acontecimentos do cotidiano em um estilo bem satírico, segundo Melo (1985). As características aqui propostas não devem ser tidas como regras gerais, porque os textos podem ter aspectos específicos de acordo com a região em que são construídos, ainda mais no Brasil que é um país continente. Além disso, “a provisoriedade (sic), a efemeridade, a caducidade precoce são variáveis que desafiam cotidianamente o jornalismo no âmbito profissional.” (MELO, 1985, p. 134). Assim, o jornalista pode construir textos que se encaixam tanto nos gêneros do jornalismo opinativo quanto atendam as premissas do jornalismo em geral. Contudo, como a característica básica do opinativo é a subjetividade, o jornalista que se dedica a esse tipo de texto tem a liberdade de criar o seu próprio estilo de escrita. 24 3 OS ELEMENTOS PRESENTES NO DISCURSO 3.1 A cena enunciativa do texto A construção de um texto exige do autor conhecimento de diversas áreas do saber. Além do domínio lingüístico é necessário também obedecer as normas gramaticais, compreender a cultura do meio em que se encontra e entender quais recursos podem ser utilizados para se criar uma obra textual atrativa. Muitos são os métodos usados nos textos até que o mesmo seja consumido pelo leitor. Por isso, este capítulo vai focalizar-se nos conceitos relacionados à apresentação do texto, as maneiras como o autor pode se posicionar no decorrer da escrita, as técnicas utilizadas para acrescentar à obra credibilidade e como pode-se tentar influenciar, ou até mesmo convencer, o leitor sobre determinada ideia. Para fundamentar o raciocínio é pertinente entender o sentido de enunciado, que vai além da ideia de que unidades lexicais em seqüência podem transmitir algum significado. De acordo com Maingueneau (2004) para se construir um enunciado é preciso estabelecer um lugar no qual um sujeito se dirige a outro(s), em um momento determinado. Além disso, é necessário que o receptor, indivíduo que vai ler ou ter acesso ao texto de alguma forma tenha conhecimento do contexto sobre o qual o emissor, pessoa que o constrói o texto em si, se refere para poder formular uma interpretação. Porém, o emissor deve considerar que o receptor nem sempre vai interpretar o enunciado da maneira como ele espera, pode ser que o que ele pretende passar não seja percebido pelo leitor, da mesma forma que as expectativas do autor possam ser superadas e o próprio leitor

recriar outras formas de interpretações a serem tiradas do mesmo texto. Assim, pode-se dizer que uma enunciação é assimétrica.
A pessoa que interpreta o enunciado reconstrói seu sentido a partir de indicações presentes no enunciado produzido, mas nada garante que o que ela reconstrói coincida com as representações do enunciador. Compreender um enunciado não é somente referir-se a uma gramática e a um dicionário, é mobilizar saberes muito diversos, fazer hipóteses, raciocinar, construindo um contexto que não é um dado preestabelecido e estável. (MAINGUENEAU, 2004, p. 20).

25 Já para Koch (1996) um emissor ao produzir um enunciado tem o objetivo de transmitir várias intenções, ou seja, mostrar para o leitor sua perspectiva de pensamento sobre o assunto em questão, o que multiplica também as possibilidades de interpretação. Considerando a importância das intenções para o enunciado, Koch (1996) pondera que para compreendê-lo realmente é preciso primeiro apreender as intenções do emissor. A intenção sustenta um enunciado, por isso é pertinente defini-la como uma atividade que é desenvolvida pelas pessoas que participam de um discurso, como se essas estivessem em um jogo de representações. Esse, por sua vez, pode ser ou não real e presente na sociedade. Para ajudar na compreensão do conceito de enunciado é importante também tratar do conceito de discurso. Segundo Orlandi (2002) o discurso está relacionado com os sentidos que são construídos na relação entre os sujeitos que fazem parte de um enunciado. Já para Maigueneau (2004) o termo tem a ver com as modificações com que se cria a linguagem.
Em grande parte, essa modificação resulta da influência de diversas correntes das ciências humanas reunidas freqüentemente sob a etiqueta da pragmática. Mais que uma doutrina, a pragmática constitui, com efeito, uma certa maneira de apreender a comunicação verbal. Ao utilizar o termo “discurso”, é a esse modo de apreensão que se remete implicitamente. (MAINGUENEAU, 2004, p. 52)

O discurso possui características específicas e, de acordo com Maingueneau (2004), a mais relevante refere-se à organização estabelecida fora da frase, ou seja, para existir é necessário que se constitua em uma unidade completa, transmita um significado. Outro aspecto ressaltado por esse autor é o do norteamento que o discurso recebe por quem o emite. Assim, o emissor controla o que transmite, construindo a mensagem de maneira linear e, quando preciso, retomando ou avançando no que for pertinente para o entendimento do que diz. Emitir uma mensagem verbal a outrem corresponde uma ação interativa em que o enunciado se situa entre o eu - você, mesmo que as pessoas não estejam no mesmo espaço físico. Desta forma, sempre existe uma troca, explícita ou implícita, entre os indivíduos envolvidos no enunciado. Maingueneau (2004) denomina este fenômeno também como dialogismo e ressalta que para ele ocorrer os enunciadores podem ser tanto reais quanto virtuais. Como a enunciação ocorre entre dois sujeitos e eles interagem entre si, tornando-se parceiros do discurso Maingueneau (2004) estabelece que, ao invés de destinatário e emissor, esses 26 podem ser denominados coenunciadores. Porém, cada um é responsável pelo discurso que emite. Há expressões que podem, todavia, transferir a responsabilidade do discurso para outro sujeito, como “de acordo com”, “segundo”, “ele disse que”. Maingueneau (2004) defende a idéia de que o discurso tem a ver com o contexto, na medida

em que aquele contribui para defini-lo. Assim, ele descarta a idéia de que o discurso tem que se encaixar dentro do contexto como algo preestabelecido. Portanto, para compreender um discurso é preciso relacioná-lo a outros. Esse autor considera que todo enunciado carrega consigo valores pragmáticos, ou seja, úteis, que são estabelecidos de acordo com a cultura onde o mesmo é transmitido. Assim, os contextos que envolvem o discurso influenciam na sua interpretação. Porém o autor ressalta que o termo contexto não se refere somente a um meio geral, pelo contrário, ele propõe três classificações. O ambiente físico da enunciação, ou contexto situacional, está relacionado ao lugar em si que o enunciado é transmitido. Já o termo contexto refere-se à totalidade de uma obra escrita ou oral em que o discurso está inserido, por exemplo: o contexto de uma editoria é o jornal que vai, de alguma forma, de encontro com a ideologia da empresa jornalística. Por fim, tem-se os saberes anteriores, ou seja, o conhecimento da cultura propriamente dita. Não adiantaria, por exemplo, tentar inserir na imprensa brasileira artigos defendendo a liberdade no uso de drogas, já que a cultura do próprio país não vai de encontro a essa ideologia. Maingueneau (2004) pondera que existem leis que regem os discursos. Para isso determina uma categorização. A primeira é a lei da pertinência, que se refere ao interesse que o discurso deve estimular no destinatário, proporcionando-o informações novas, que modifique a maneira de perceber os fatos em questão. Para que isso ocorra é desejável que o enunciado esteja inserido em um contexto. Já a lei da informatividade está relacionada às informações novas que o leitor vai adquirir após interpretar o texto. Por outro lado, a lei da exaustividade deve ser usada para levar ao receptor todas as informações pertinentes para a compreensão do tema do texto. Dessa forma, o autor deve, segundo Maingueneau (2004), transmitir a informação máxima, tem a ver com a lei da pertinência, em que é necessário informar o máximo de detalhes que 27 realmente são relevantes para o entendimento do texto, visto que aspectos desnecessários podem ser deixados de fora. Tem-se também a lei da modalidade, que diz respeito à clareza com a qual o discurso deve ser transmitido e economia, no sentido de fazer essa transmissão da forma mais direta possível. 3.1.1 Ethos Como apresentado anteriormente, um enunciado para existir precisa de sujeitos, tempo, lugar, isto é, um cenário. A cena que pode se desenvolver nesse cenário precisa da voz de uma pessoa que tenha distanciamento do texto para sustentá-lo. Essa voz é a que conduz o leitor por seu meio, envolvendo-o no discurso. Tal fenômeno é denominado por Maingueneau (2004) como ethos.
São traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importa sua sinceridade) para causar boa impressão: são ares que assume ao se apresentar. (...) O orador enuncia uma informação, e ao mesmo tempo diz: eu sou isto, eu não sou aquilo. (MAINGUENEAU, 2004, p. 98).

Assim, o orador por meio do ethos pode descrever o seu próprio caráter, seja positivo ou negativo, mas de forma discreta. Esse recurso pode ser percebido em discursos judiciários, enunciados orais e até mesmo escritos. Esse último ainda transmite, de acordo com Maingueneau (2004), um tom de autoridade ao que é apresentado. Para Amossy (2006) o autor do discurso não precisa falar explicitamente de si próprio para

demonstrar o seu ethos, mas sim deixar isso transparecer sutilmente através do seu estilo de escrita, suas crenças e convicções. Por isso os leitores muitas vezes sabem quem é o autor de um determinado texto sem mesmo consultar os créditos. Considerando esta identidade construída entre o leitor e autor pode-se dizer que o ethos é muito relevante em um discurso. Contudo, Amossy (2006) ressalta que a imagem do ethos não é estabelecida como se fosse um artifício, algo pré-determinado, visto que sua construção se dá ao longo do tempo e as trocas existentes entre os indivíduos de uma sociedade são fundamentais para criar suas especificidades. No discurso escrito a subjetividade do enunciador pode ser apresentada através de personagens, que Maingueneau (2004) dá o nome de fiador. Assim, o enunciador oferece 28 indícios psicológicos e físicos para que o leitor construa seu próprio fiador dentro de um determinado ethos (estereótipo). Esse personagem tem o caráter fundamentado nos valores difundidos pela própria sociedade, através dos meios culturais, como cinema, fotografia, literatura. As características estereotipadas podem tanto positivas quanto negativas, que vai depender da imagem que o enunciador pretende passar do seu ethos. Quando o leitor se identifica com o ethos apresentado pelo enunciador se consolida a persuasão do discurso. “O poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente especificados.” (MAINGUENEAU, 2004, p. 99). E é a partir dessa conquista que os autores estabelecem suas características próprias, conquistando a fidelidade dos leitores. 3.2 Recursos de escrita 3.2.1 As vozes do texto Em um discurso escrito o autor pode falar por si próprio ou fazer uso de uma técnica para introduzir outras vozes ao texto, técnica chamada de polifonia, cujo termo foi apresentado por Mikhail Bakhtin após a análise da literatura romanesca de Dostoievski. Para Koch (1996) a polifonia pode ser definida como a inserção de outros enunciadores e/ou personagens no decorrer do discurso. Maingueneau (2004) ainda completa que essa técnica é aplicada na lingüística para estudar os enunciados que são compostos por várias vozes, apresentadas simultaneamente. Após a definição do termo faz-se necessário compreender como ele pode ser utilizado pelo autor e como ele é denominado de acordo com a posição que adota no discurso. Segundo Maingueneau (1996) em um texto pode existir o sujeito falante, que se refere à pessoa que literalmente escreveu o enunciado e o locutor, que adquire a responsabilidade do ato de linguagem. Então, considera que um discurso pode ser divido em dois: discurso citante, que seria emitido pelo sujeito falante e o discurso citado, que procede do locutor. Koch (1996) também faz distinção entres os tipos de locutores, que ela determina como L e L‟, presentes no discurso. Para se ter a polifonia é necessário que L e L‟ sejam indivíduos 29 diferentes, se apresentem de forma distinta para que o leitor saiba distinguir quem está falando em determinado momento. O enunciado polifônico pode ser construído usando diversos fenômenos discursivos, que Koch (1996) apresenta-os como: pressuposição, negação, o uso da forma verbal futuro do pretérito, emprego de expressões do tipo “parece que” e utilização de certos operadores argumentativos.

A pressuposição está relacionada ao uso de um discurso que se refere a um assunto que já é de conhecimento público: para isso deve-se empregar orações adverbiais, orações explicativas ou aposto. A negação pode ser utilizada em discurso polifônico levando-se em conta que o enunciado afirmativo já é de conhecimento do leitor. Uma expressão que Koch (1996) cita como exemplo desse fenômeno é “pelo contrário”. O uso do futuro do pretérito oferece ao autor do texto um distanciamento sobre o que é dito. Já a expressão “parece que” tem a mesma função do tempo verbal citado anteriormente. Por fim, a utilização do operador argumentativo “se” é entendida pela autora como uma técnica condicionante. Para Maingueneau (2004) além da polifonia existem outras formas para o enunciador mostrar que não é responsável pelo que é transmitido. A primeira forma consiste no comentário que o próprio enunciador faz sobre o seu texto, geralmente colocado entre vírgulas e aplicando expressões como “felizmente”, “talvez”, “de alguma forma” etc. Essa técnica é denominada por Maingueneau (2004) como discurso segundo. A outra maneira de compor mais vozes no discurso sem usar a polifonia é por meio do discurso relatado, isto é, do discurso direto e indireto. O discurso direto pode ser aplicado para representar exatamente as palavras do enunciador citado, mas Maingueneau (2004) também considera que pode se referir a enunciações futuras ou até mesmo imaginárias. Essa técnica de escrita, de acordo com esse autor, pretende sustentar o discurso com mais autenticidade, quando relata exatamente o que foi dito por outro enunciador; criar um distanciamento ao que está sendo incluído no texto, seja por discordar com o que é proposto pelo emissor ou por aceitar o pensamento por ele proposto. Nesta última situação usa o discurso relatado por perceber que a idéia do autor citado é tão bem desenvolvida que é preferível colocar exatamente suas palavras; para transmitir objetividade e seriedade, 30 acrescentar ao texto característica espontânea e, por fim, demonstrar oposição entre um “nós” e “você”. O leitor deve ser informado, de alguma forma, que outro enunciador vai ser inserido no texto. Maingueneau (2004) acredita que é necessário usar elementos tipográficos (travessão, dois pontos, aspas etc) ou indicar um ato de falar por meio de verbos (esclarecer, afirmar, declarar, acreditar) que sugerem a enunciação. Todos estes podem vir no início, meio ou final do discurso citado. Outro recurso para introduzir a fala do enunciado citado no texto é por meio do discurso indireto, em que o autor apenas expõe o pensamento, a ideia, de outro indivíduo. Por isso a imprensa em geral adota o discurso direto, que possibilita colocar exatamente a fala de outro enunciador e dar mais credibilidade ao texto. Assim como Koch (1996) e Maingueneau (2004), Orlandi (2002) considera que existe num texto o locutor, que se estabelece como “eu” no discurso e o enunciador, que apresenta a perspectiva que esse “eu” estabelece. Porém, Orlandi (2002) pondera que o discurso, independente de ter um enunciador explícito ou não, deve ter coerência, obedecer às normas textuais, clareza, e isso é de responsabilidade de seu autor.

O intuito dessas exigências é fazer com que o autor seja visível e deixe claras suas intenções ao formular um discurso. De acordo com Orlandi (2002) quem produz um texto tem que ser capaz de representar uma multiplicidade de personagens, mas ao mesmo tempo se mostrar como responsável pelo que constrói, zelando pela coerência do que é transmitido. 3.2.2 Estratégias da ironia Para entender que sentido a ironia pode trazer ao texto é importante, em primeiro lugar, conceituá-la. Então, de acordo com Maingueneau (1996), a ironia corresponde a um discurso que fala o contrário do que realmente pretende-se expor, isso pode acontecer de maneira humorística ou séria. A forma como a ironia vai ser construída e percebida depende do contexto em que o discurso estiver inserido. Maingueneau (1996) afirma que a ironia pode muitas vezes ser percebida como uma antífrase. 31 Considerando o significado de ironia, ele esclarece que quando esse recurso é utilizado criase um distanciamento entre o que o autor transmite e o que ele realmente pensa. Assim, o discurso volta a ter um sentido polifônico. Na enunciação irônica tem-se um personagem, por meio do qual o autor expõe paradoxalmente suas ideias. Porém, a voz incluída no discurso por meio da ironia se estabelece de forma discreta e por isso, às vezes, é difícil de identificar esse recurso no texto; para percebê-lo é necessário ter conhecimento do contexto em que está inserido.
Na medida em que a ironia constitui uma estratégia de decifração indireta imposta ao destinatário, ela não poderia se contentar com sinais exageradamente evidentes que a fariam “cair” no explícito. Isto explica que muito freqüentemente não é possível determinar univocamente se um texto é irônico ou não, já que não são claros os índices de um distanciamento. (...) Em conseqüência, fora do contexto, a ironia dificilmente é perceptível. (MAINGUENEAU, 1996, p. 96-97).

Maingueneau (1996) ressalta que a ironia é utilizada num discurso de forma direta, ou seja, não é preciso usar a citação. Assim, esse recurso pode se encaixar na polifonia ou na enunciação paradoxal, em que o autor invalida a própria enunciação. Essas estratégias são denominadas pelo autor como conotação autonímica, que consiste em subverter o efeito normal do contraponto entre uso e menção. Já para Ferraz (1987) a ironia é um conceito que ainda está em evolução, não podendo desta forma receber uma denominação satisfatória. De forma geral, ela considera ironia como algo que é ao contrário do que se pretende dizer; mas, na realidade, diz muito mais do que está expresso, transmite uma visão crítica do mundo. Assim, o termo ironia vai além de uma prática cognitiva, pois pode ser considerado também numa prática persuasiva.
Essa prática persuasiva seria o lado argumentativo do método. É como “arte” de persuasão, estimulando em nós convicções e opiniões, que a ironia, enquanto figura, revela um estilo, uma atitude, um tom, que persegue o objetivo de não só movere, mas vencer, ou melhor, convencer. E convencer de que até na contradição há uma compatibilidade possível. (FERRAZ, 1987, p. 18).

Para Ferraz (1987) essa estratégia da escrita começou a ser usada no final do século 18 na literatura, quando se percebeu que o autor de uma obra poderia se apresentar não só dentro da 32 mesma, mas se estabelecer na linguagem que é formadora de um universo. Assim, a ironia garante o seu espaço dentro da literatura. Para que a ironia se estabeleça é preciso, segundo Ferraz (1987), que se tenha uma estrutura comunicativa, com um emissor, uma mensagem e um receptor. E para que a mensagem irônica do emissor seja compreendida pelo receptor, Ferraz (1987) pondera que os dois

indivíduos devem ter noção do contexto. Porém, o sentido de contexto usado por Ferraz (1987) é mais amplo do que o apresentado por Maingueneau (1996), que considera a existência de dois tipos: o restrito e o lato. O primeiro refere-se às palavras em si que são usadas nas frases ou nas ações dos indivíduos, isto é, tem a ver com a mensagem propriamente dita. Já o contexto lato é tão importante quando o primeiro, mas está envolvido com as convenções estabelecidas entre o emissor e receptor, que podem ser culturais, religiosas, doutrinárias, lingüísticas. Ferraz (1987) ainda considera que os dois tipos de contexto estão sempre interligados, assim não há como perceber um se não se observar o outro. A diferenciação que Ferraz (1987) acredita existir é na ênfase que é dada à ironia a cada indivíduo participante da estrutura da comunicação. “Ora é a intenção de E (emissor) que sobressai, ora é a função de vítima da mensagem (M) que é posta em realce, ora é a percepção que o destinatário (R) tem em M ou da intenção de E que resume o efeito irônico.” (FERRAZ, 1987, p. 25). No que tange a perceber a ironia em um texto, a autora ressalta que tanto o emissor quanto o destinatário, estando dentro dos mesmos contextos, são capazes de perceber o que é explícito e o que fica subtendido dentro de uma mensagem. Esse recurso pode ser utilizado em textos com maior ou menor clareza. Por isso Ferraz (1987) considera que em um único discurso pode-se encontrar graus diferentes de ironia. 3.2.3 Persuasão A técnica de ressaltar uma ideia contrária do que realmente pretende-se passar é deixada para a ironia. Quando se trata de persuasão a estratégia usada pode ser de outra natureza. O 33 discurso deve ser alinhado, afinal é por meio dele que o emissor pode conseguir influenciar na forma de pensar do receptor. É necessário compreender a questão histórica do termo persuasão para depois entender como ele é usado nos textos atuais. De acordo com Citelli (1997) esse conceito surgiu nos discursos usados pelos gregos na Grécia clássica, que tinham a preocupação de se expressarem de maneira admirável e convincente para demonstrar detentores do poder, isto é, do conhecimento. O autor pontua que nesse intuito foi criada a retórica, uma disciplina para ensinar como as pessoas poderiam utilizar a linguagem para se posicionar bem na sociedade. O objetivo era “mostrar o modo de construir as palavras visando a convencer o receptor acerca de dada verdade” (CITELLI, 1997, p. 8). Foi Aristóteles que mais se dedicou ao estudo dessa técnica. Segundo o autor, o pensador grego entendia a retórica como uma ciência que se dedicava a detectar nas artes em geral (medicina, geometria, física, aritmética, entre outras) mecanismos que poderiam ser usados para transmitir a dimensão da verdade sobre aquela área. Entretanto, essa disciplina não possuía a pretensão de determinar o que era ou não verdade, mas sim de

mostrar como um discurso pode ser dito para convencer os outros. Assim, Aristóteles determina que a retórica não se dedica a um objeto único, já que podia ser aplicada a qualquer discurso presente na sociedade, isto é, todas as áreas poderiam ser submetidas a ela. Citelli (1987) mostra que a obra literária Arte retórica, de Aristóteles, propõe várias técnicas para a construção do discurso persuasivo. De acordo com o autor há, inclusive, um esquema pré-determinado de como o texto deve ser montado, que ordem deve seguir e quais recursos podem ser aplicados para o emissor transmitir ao receptor uma mensagem persuasiva. O modelo consiste no exórdio, narração, provas e peroração Na primeira parte, exórdio, faz-se uma introdução do tema que vai ser explorado e, pontua Citelli (1987), é nesse momento que o autor deve cativar o leitor/ouvinte. O início do discurso deve ser bem atrativo, afim de que o receptor tenha vontade e curiosidade de chegar à conclusão do texto. No desenvolvimento, também chamado por Aristóteles de narração, é desejável que o assunto seja explorado na medida suficiente para que o receptor fique bem informado. Entretanto, não se deve confundir qualidade de informação com quantidade, por isso o responsável pela construção do discurso deve perceber, ter a sensibilidade, do que 34 realmente é necessário ser transmitido. Caso isso seja negligenciado o texto pode ficar cansativo, com dados que não fazem diferença para o entendimento do que está sendo dito. Para o discurso persuasivo pode-se considerar que a parte principal é as provas. Trata-se de mostrar por meio de dados, argumentos, explicações detalhadas, todas as ideias que foram propostas durante a narração. Citelli (1997) percebe que é assim que vai ser fundamentado o caráter principal do texto – a persuasão – e o meio pelo qual o leitor pode aceitar o que o discurso pretende passar. Para fechar o raciocínio persuasivo tem-se a peroração, que é a última chance que o autor do discurso tem para convencer o receptor. Nesta etapa do texto é importante ressaltar as principais idéias abordadas e provocar no destinatário da mensagem alguma reflexão sobre o que foi exposto. Com a estrutura do texto persuasivo definida é necessário conceituar a ação praticada pelo autor do mesmo: “persuadir, antes de mais nada, é sinônimo de submeter, daí sua vertente autoritária. Quem persuade leva o outro à aceitação de uma dada idéia.” (CITELLI, 1997, p. 13). Citelli (1997) lembra que a disciplina retórica com o passar dos anos foi perdendo a relevância no interior dos textos persuasivos e no final do século 19 chegou a ser associada aos recursos utilizados para proporcionar aos textos apenas embelezamento. Sugere dessa forma que a retórica é aplicada para enfeitar o discurso e, assim, encobrir o vazio das ideias que o mesmo deseja transmitir; isso pode ser percebido quando se tem em um texto frases feitas, carregadas de adjetivação. Contudo, no século 20 a retórica renasce no campo da lingüística. Citelli (1997) considera que as pesquisas sobre as figuras de linguagem e as técnicas de argumentação são fundamentais para reativar esse conceito. “Reaparece aquele tópico que deseja estudar a organização discursiva a fim de apreender os procedimentos que permitem ligar a adesão de um ponto de vista àquelas idéias que lhes são apresentadas.” (CITELLI, 1997, p. 17). A persuasão pode ser encontrada em diversos textos, mas nem sempre todos terão a mesma intensidade persuasiva. Por isso, Citelli (997) define três níveis de intensidade do discurso persuasivo, assim chama-os de raciocínio apodítico, raciocínio implícito e raciocínio retórico. 35 Quando um discurso é fundamentado no modo imperativo do verbo, ou seja, que exprime

uma ordem, um pedido, ou até mesmo, uma recomendação, tem-se, segundo Citelli (1997), o raciocínio apodítico. Nesse caso o discurso é construído de forma tão acertada que não deixa o receptor ter margens de dúvidas sobre o que está sendo dito. E a pessoa que recebe o discurso pode interpretá-lo como uma verdade, mesmo que não seja. Esse tipo de discurso é muito utilizado em publicidades que impõe os resultados que os produtos e/ou serviços podem trazer. O raciocínio implícito, como o próprio nome indica, é dotado de intenções persuasivas utilizadas com sutileza. Os discursos que fazem uso desse raciocínio transparecem para o receptor a ideia, ilusória, de escolha. Todavia, exalta o caminho que o receptor deve escolher. Para ilustrar vale a pena explorar o exemplo usado por Citelli (1997): “Você poderia comprar várias marcas de sabão em pó. Mas há uma que lava mais branco” (CITELLI, 1997, p.19). O último raciocínio proposto por Citelli (1997) é o retórico, estruturado não só no discurso lingüístico em si, mas também no discurso sentimental. Ou seja, tem o objetivo de persuadir o receptor por meio do envolvimento emocional. O mesmo pode ser percebido, por exemplo, em discursos de políticos que apóiam outros candidatos. Nesse caso, em específico, o discurso busca colocar em evidência as dificuldades enfrentadas pelo tal candidato para chegar naquela posição, se o mesmo for oriundo de uma família de poder aquisitivo menor explora essa característica também, assim envolve o eleitor até convencê-lo de que aquele é o melhor político para ocupar o cargo público. Já para Wolf (2002) o discurso persuasivo pode ser transmitido com maior ou menor grau de persuasão, mas quem define isso é o próprio receptor. O autor considera que o envolvimento do receptor no assunto em questão norteia como o discurso deve ser estruturado. Para Wolf (2002) quanto maior for o conhecimento do receptor pelo assunto mais implícitas devem ser as técnicas persuasivas, por outro lado se o indivíduo não dominar o tema tratado é necessário explicitar esse tipo de discurso. “A influência e a persuasão não são indiferenciadas e constantes, nem se justificam apenas pelo facto (sic) de ter havido transmissão de uma mensagem; exigem que se esteja atento ao próprio público e às suas características psicológicas” (WOLF, 2002, p.46) 36 Assim como qualquer outro tipo de discurso, o persuasivo depende da palavra em si para existir. Por isso, Citelli (1997) propõe algumas ideias sobre o signo lingüístico e a relação que este pode ter com a persuasão. Além disso, ressalta como a sociedade contribui para que esses dois conceitos (signo e persuasão) se interajam. Em primeiro lugar o autor explica que o signo pode ser percebido de duas maneiras, através do significante e do significado. Antes de discorrer sobre como esses termos se fazem presentes no dia-a-dia das pessoas é fundamental classificá-los. Então, de acordo com Citelli (1997), o significante tem a ver com a característica própria do signo, ou seja, a palavra em si, sem nenhuma ideia de sentido/valor. Assim pode-se perceber o signo quando ouve-se uma

palavra sendo pronunciada, quando lê-se um texto. Já o significado está relacionado com o conceito que a palavra carrega consigo, a idéia que formula-se quando escuta um discurso, a interpretação que é criada. A sociedade é o lugar onde o signo se torna realidade, o meio pelo qual consegue ser compreendido. A compreensão do significante e do significado de um signo é construída com base na cultura que rege a sociedade. É nela que se cria a convenção que livro se chama livro, que este objeto leva à ideia de conhecimento, educação, desenvolvimento. É importante esclarecer que essa convencionalidade varia de acordo com cada cultura. No catolicismo, por exemplo, um pedaço de pão e um cálice de vinho tinto têm o significado de Corpo e Sangue de Cristo, respectivamente; pode ser que no Islamismo os mesmos alimentos não representem nada disso. Diante do apresentado, pode-se compreender que o discurso persuasivo para se instituir necessita de uma complexa interação entre significante, significado e convenções. Além disso, “o modo de articulá-lo, organizá-lo, poderá determinar as direções que o discurso irá tomar, inclusive do seu maior ou menor grau de persuasão.” (CITELLI, 1997, p. 26). Para realmente influenciar o receptor precisa-se comprovar as ideias que defende. Assim, o leitor é convencido pelas propostas do discurso por meio dos fatos, não há o que se questionar considerando que tudo o que o emissor propõe é fundamentado em algo concreto. Caso o leitor concorde com as ideias transmitidas está consumada a persuasão. 37 4. A CONSTRUÇÃO DO TEXTO OPINATIVO DE ARNALDO JABOR Este estudo pretende analisar alguns textos do jornalista Arnaldo Jabor publicados às terçasfeiras no Segundo Caderno do jornal O Globo. As publicações escolhidas têm como tema predominante assuntos relacionados à Política, tanto brasileira quanto estrangeira, em que o autor expõe os acontecimentos e comenta-os de acordo com a sua percepção. Contudo, esta pesquisa não tem o objetivo de abordar a olítica e sim a estrutura e especificidades dos textos produzidos pelo jornalista em questão. 4.1 Metodologia A análise que se pretende fazer consiste em verificar as características do jornalismo opinativo presentes nos textos de Jabor, de que forma ele utiliza as técnicas desse gênero jornalístico para poder mostrar sua opinião e quais recursos da própria escrita são aplicados para tentar envolver o leitor. Para isso será levado em consideração tanto o modo como ele constrói seu discurso quanto à forma que representa o ethos. Tem-se o intuito também de perceber quando a polifonia aparece nas publicações do jornalista, assim como os efeitos que esse recurso cria no texto. As obras textuais de Arnaldo Jabor sobre os acontecimentos sócio-políticos têm, a princípio, características que sugerem um tom irônico quando relata e opina os fatos. Considerando essa premissa no seu estilo de escrever é pertinente verificar se isso realmente ocorre, quando percebesse o recurso no texto e procurar discorrer sobre as possíveis formas de interpretação por parte dos leitores. Todas essas técnicas de construção de discurso podem ser usadas com o

objetivo de influenciar o receptor, por isso também será verificado como a persuasão faz parte das ideias propostas por Jabor. Os textos selecionados para a análise correspondem ao primeiro semestre de 2009. Este período foi escolhido devido aos escândalos que ocorreram na política brasileira, como desvio de verbas, e a ênfase dada pela imprensa à política norte-americana, que naquela época tinha acabado de eleger o presidente Barack Obama. Os assuntos dessa natureza são freqüentes nos textos de Arnaldo Jabor e suscetíveis de perceber as características que este estudo se propõe verificar. O mesmo pretende-se trabalhar por meio da análise qualitativa, considerando que essa será fundamenta em aspetos da análise de discurso. 38 Para isso, as publicações selecionadas1 são: O bem que Bush nos fez - Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda (27/01/09); Como mudar o coração americano? - Moram na alma americana vícios difíceis de curar (10/02/09); O Brasil virou um grande PMDB Estamos anestesiados diante da vida política do país (17/02/09); No Brasil, o perigo está no “bem” (10/03-09); “O PMDB é uma bela flor em nossa terra” - A imprensa não vê o encanto de nossas tradições (24/03/09); A vergonha pode nos levar a sabedoria - A paralisia política do país nos ensina muito (31/03/09); Carta aberta aos jornalistas brasileiros - Um congressista fala dos recentes escândalos (21/04/09); Nada prova mais nada - Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices (02/06/09). 4.2 Descrição do objeto Para compreender as características textuais do trabalho de Arnaldo Jabor é pertinente discorrer também sobre este profissional e o jornal pelo qual veicula suas ideias. Jabor nasceu em 12 de dezembro de 1940, começou sua carreira na área da produção cinematográfica e se destacou no cinema brasileiro na década de 1970 e 1980. Entre os trabalhos pode-se destacar os curtas-metragens O Circo (1965), Os saltimbancos (1972), a direção do primeiro longametragem com o documentário Opinião Pública (1967), a produção do Pindorama (1970). Na década de 1980 os filmes de Arnaldo Jabor têm mais a ver com a relação amorosa entre homens e mulheres, que pode ser percebido nas obras Eu Te Amo (1980) e Eu Sei que Vou Te Amar (1984). Apesar de trabalhar como cineasta e jornalista, Jabor tem a formação acadêmica em Direito pela Universidade Católica PUC do Rio de Janeiro. Em meados dos anos 1990 o cineasta teve a oportunidade de participar ativamente da imprensa brasileira e foi nesta época que estreou como colunista do jornal O Globo onde trabalha até hoje O periódico que veicula os textos de Jabor é um dos mais tradicionais do país. O Globo foi

fundado em 29 de julho de 1925 e por meio dele que Roberto Marinho obteve ascensão econômica e política para criar as outras empresas (TV Globo, Rádio Globo, Editora Globo, etc) que atualmente formam as Organizações Globo. O jornal está entre os maiores do Brasil,
1

Os textos analisados nesta pesquisa foram enviados pela assessória do próprio Arnaldo Jabor por email em arquivo no formato World (.docx), no dia 15/09/09. Todos eles podem ser consultados na integra no Anexo desta pesquisa, sendo que estão organizados de acordo com as datas de publicação do jornal O Globo. Para tornar a referência aos textos didática os mesmos serão mencionados, respectivamente, como A1, A2, A3, assim sucessivamente.

39 com uma tiragem diária de 257 mil exemplares, de acordo com Instituto Verificador de Circulação (IVC) 2. No O Globo os textos do jornalista são publicados no Segundo Caderno, que reúne assuntos relacionados à cultura, como cinema, teatro, livros, opiniões dos críticos em geral, que além de estarem presentes nos textos são percebidas também por meio das charges. Compõem também o caderno assuntos ligados ao entretenimento, como horóscopo, resumos de novelas. Devido às pesquisas3 realizadas pelo próprio jornal é possível traçar o perfil do leitor do Segundo Caderno: a maioria das pessoas que lêem essa parte do O Globo pertence à classe social B (55%), seguido por 30% da classe A e 14% da C; as mulheres se interessam mais pelo caderno do que os homens, sendo 55% e 45%, respectivamente; boa parte dos leitores tem curso superior (65%); em relação à idade o público é bem variado: sendo 23% com sessenta anos ou mais, 20% estão entre 20 e 29 anos, 19% têm de 40 a 49 anos, 18% de 30 a 39 anos, 14% correspondem as pessoas com 50 a 59 anos e, por fim, os 7% que se refere aos leitores mais jovens de 10 à 19 anos. Ainda de acordo com as pesquisas o Segundo Caderno tem ao todo 810 mil leitores, sendo que 83% acreditam que as publicações de jornais e revistas têm influência sobre a opinião pública. Por isso é pertinente verificar como Arnaldo Jabor pode ajudar na construção da opinião do leitor sobre os assuntos comentados. 4.3 Os acontecimentos que mereceram opinião O estudo sobre as especificidades de cada texto do jornalista Arnaldo Jabor será construído de acordo com duas categorias de análise: os aspectos do jornalismo opinativo presentes nos textos e os recursos de linguagem que os compõem. Desta forma, pretende-se classificar os tipos de texto opinativo que foram selecionados e perceber como o autor utiliza cada recurso de linguagem para fundamentar sua opinião. Entretanto, antes do aprofundamento nesses aspectos é pertinente compreender a temática e o contexto de cada texto escolhido para que o objeto esteja mais claro quando for analisado.
do site da Associação Brasileira de Imprensa, consultado no dia 16/05/2010, às 14h50min, disponível em <http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=3476> 3 Informações consultadas no dia 16/05/2010, 15h30min horas, disponíveis em <https://www.infoglobo.com.br/Anuncie/ProdutosDetalhe.aspx?IdProduto=67>
2 Informação

40 Em O bem que Bush nos fez - Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda (A1), publicado dia 27 de janeiro de 2009, no jornal O Globo, Arnaldo Jabor comenta a transição da presidência norte-americana. Para isso, o jornalista pontua sobre alguns

acontecimentos ocorridos durante os oito anos do mandato de Geroge W. Bush, expresidente norte-americano, como o ataque terrorista ao World Trade Center (2001), o furacão Katrina (2007), a crise econômica mundial que teve no último trimestre de 2008. Além dos fatos em si, Jabor comenta a conduta de Bush em cada um dos casos e os desafios que o presidente eleito, Barack Obama, pode enfrentar durante seu mandato. Ainda sobre a influência dos acontecimentos políticos nos Estados Unidos, Arnaldo Jabor escreve Como mudar o coração americano? - Moram na alma americana vícios difíceis de curar (A2). A temática central deste texto refere-se ao racismo contra os negros que existe na sociedade americana. O assunto é pertinente para época, afinal os EUA tinham acabado de eleger Brack Obama como presidente, o primeiro negro a ocupar esse cargo no país. Contudo, Jabor constrói o texto de acordo com suas impressões pessoais sobre os EUA dos anos 1950 para depois relacioná-las com a atualidade política vivida pelos americanos e as mudanças que seriam necessárias para, de acordo com ele, melhorar a cultura desta sociedade. Na semana seguinte ao texto sobre o racismo americano, Arnaldo Jabor fala sobre a política brasileira, em O Brasil virou um grande PMDB - Estamos anestesiados diante da vida política do país (A3). Para comentar sua insatisfação com o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva, o jornalista constrói o seu texto baseado na entrevista que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) concedeu à revista Veja daquela mesma semana. Na entrevista o senador fala sobre o cenário político brasileiro e sua decepção com os outros políticos que, segundo ele, só têm interesse em ocupar cargos públicos para benefícios próprios. De acordo com os comentários de Jabor percebe-se que ele compartilha das mesmas idéias do senador. No texto publicado em 10 de março de 2009, Brasil, o perigo está no “bem” (A4), a temática refere-se às atitudes de representantes de instituições em relação aos acontecimentos violentos da sociedade atual. Arnaldo Jabor escreveu o texto após o Bispo da Igreja Católica, José Ribeiro Sobrinho, excomungar a família e os médicos que fizeram o aborto de uma menina de nove anos vítima de estupro. Além desse caso, o jornalista comenta as atitudes do Papa Bento 16 para com os casos de pedofilia que vem acontecendo dentro da Igreja Católica, 41 acontecimentos políticos que para ele prejudicam a sociedade, enfim propõe reflexões sobre a questão do que é o bem e o que é o mal hoje em dia. Já em “O PMDB é uma bela flor em nossa terra” - A imprensa não vê o encanto de nossas tradições (A5), publicado em 24 de março de 2010, Arnaldo Jabor discorre, de uma forma geral, sobre a desigualdade entre ricos e pobres. Para tratar essa temática o jornalista destaca, segundo sua perspectiva, como os políticos brasileiros, representado neste texto pelo senador José Sarney, convivem com essa situação. O senador foi escolhido para ser protagonista desse

texto, possivelmente, porque em fevereiro de 2009 foi eleito presidente do Senado brasileiro, firmando assim a aliança política entre PT-PMDB. Os acordos políticos entre os partidos PT e PMDB continuaram a fazer parte da pauta de Jabor e na semana seguinte, dia 31 de março, ele publicou no O Globo mais um texto relacionado ao assunto: A vergonha pode nos levar a sabedoria - A paralisia política do país nos ensina muito (A6). Contudo, desta vez não falou da diferença nas condições de vida entre os riscos e pobre, mas criticou o governo e o próprio Lula. Para o jornalista a calmaria que se percebia no Brasil, um dos países menos afetados pela crise econômica mundial da época, estava relacionada com o atraso que a economia e política brasileira estão em relação a outros países. As críticas ao governo federal não se limitaram apenas ao texto anteriormente apresentado, mas também fizeram parte de Carta aberta aos jornalistas brasileiros - Um congressista fala dos recentes escândalos (A7). Nesta publicação em formato de carta, o colunista do O Globo comenta os acontecimentos do primeiro trimestre do ano passado que foram descobertos na política brasileira, como: notas fiscais falsas, cargos públicos desnecessários, desvios de verbas, uso do dinheiro público por parte dos políticos e dos parentes dos mesmos. E, de acordo com o jornalista, tudo isso acontecia com a concessão do presidente Lula, já que ele sempre aceita tudo. Por fim, tem-se o texto Nada prova mais nada - Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices (A8), de 2 de junho de 2009, em que a temática também refere-se ao uso indevido do dinheiro público. Desta vez, Arnaldo Jabor trata sobre o desconhecimento, que para ele, os políticos fingem ter a respeito dos escândalos em que estão direta ou indiretamente envolvidos. 42 4.4 A opinião construída por Jabor O Jornalismo desde o seu surgimento nas sociedades européias como, segundo Kunczik (2001), uma atividade informal, passou por várias mudanças para se constituir o que é atualmente. Entretanto, há duas características que são imutáveis para a atividade: abordar os assuntos de interesse do público e transmitir fatos verídicos ou que nestes sejam fundamentados. Afinal, as informações produzidas dentro de uma redação são para serem consumidas pelas pessoas e estas têm necessidade de saber o que realmente acontece no mundo. No jornalismo opinativo essas duas características também são pertinentes. Desta forma, é necessário verificar como podem ser percebidas nos textos de Arnaldo Jabor. No que concerne abordar temas de interesses do público tem-se quatro premissas proposta por Wolf (1995): grau e nível hierárquico das pessoas envolvidas no acontecimento, impacto sobre a nação, quantidade de indivíduos envolvidos no fato e importância e significatividade do ocorrido. Os oito textos selecionados para ser objeto desse estudo obedecem a essas premissas. Em O bem que Bush nos fez - Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda (A1) e

Como mudar o coração americano? - Moram na alma americana vícios difíceis de curar (A2), Arnaldo Jabor fala sobre dois políticos, Bush e Obama, que governou e governa, respectivamente, a nação mais potente e influente do mundo, os Estados Unidos. No caso de Bush as decisões políticas por ele tomadas causaram um impacto negativo no país, conforme observa Arnaldo Jabor.
No entanto, Bush teve um papel importante às portas do século 21: ele nos mostrou com clareza didática a indecência do pensamento reacionário - revelou-nos a maquete, a sínteses de todos seus vícios e sua sinistra coerência, sem um desvio de sua meta de erros: guerra, ecologia, corrupção, num país recebido com 500 bilhões de superávit e abandonado com 1 trilhão e meio de déficit (A1, p.60)

Já se tratando de Barack Obama, como ainda não tinha completado nem a metade do mandato e era cedo para fazer uma análise total do seu desempenho no governo, havia indícios de que 43 ele poderia fazer melhor do que Bush. Um desses indícios é o fato do presidente americano ter recebido em outubro do ano passado o prêmio Nobel da Paz, considerando os seus esforços para diminuir o estoque de armas nucleares e aumentar a paz mundial, a começar pelo Oriente Médio que, no governo Bush, viveu em guerra. Além do impacto que as atitudes desses presidentes causam para a nação que governam há impactos também nos outros países do mundo, considerando a relevância dos EUA no cenário mundial; com isso, o número de pessoas envolvidas nos assuntos desta temática abordada por Jabor nos dois textos é incalculável e de grande importância. Nos textos relacionados à política brasileira as premissas propostas por Wolf (1995) para atrair o leitor também podem ser confirmadas. Observando os textos: O Brasil virou um grande PMDB - Estamos anestesiados diante da vida política do país (A3); “O PMDB é uma bela flor em nossa terra” - A imprensa não vê o encanto de nossas tradições (A5); A vergonha pode nos levar a sabedoria - A paralisia política do país nos ensina muito (A6); Carta aberta aos jornalistas brasileiros - Um congressista fala dos recentes escândalos (A7); Nada prova mais nada - Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplice (A8); pode se afirmar que todos esses tratam de pessoas hierarquicamente importantes na política brasileira, como, por exemplo, o próprio presidente do país, Luis Inácio Lula da Silva, o presidente do Senado, José Sarney, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, a pré-candidata do PT à presidência do país em 2010, Dilma Rousseff. Em O Brasil virou um grande PMDB - Estamos anestesiados diante da vida política do país (A3) o próprio Arnaldo Jabor ressalta a importância do assunto para a sociedade, já que o texto comenta o fato de um senador assumir publicamente que existem políticos corruptos e isso, conseqüentemente, prejudica os brasileiros que deixam de ter a qualidade em serviços básicos, como saúde, educação, moradia, alimentação.
Era preciso que um homem de estatura política abrisse a boca finalmente, neste país com a oposição acovardada diante do Ibope de Lula. (...) O gesto de Jarbas é importante justamente por ser intempestivo, romanticamente bruto, direto, sem

interesses e vaselinas. (...) Lula tem a espantosa destreza de nos dar a impressão de que “tudo vai bem”, de que qualquer critica é contra ele ou o Brasil. Como disse Jarbas em sua entrevista, o governo do PT “deixou a ética de lado e não fez reformas essenciais, nem nada para a infra-estrutura e o PAC não passa de um amontoado de projetos velhos reunidos em pacote eleitoreiro” (...) e o Bolsa Família, que é o maior programa oficial de compra de votos do mundo, não tem compromisso algum com a educação ou com a formação de quadros para o trabalho”. (A3, p.63)

44 As decisões tomadas por todos esses políticos têm, ou tiveram, impacto direto ou indireto na vida de todos os brasileiros e por isso parece relevante Jabor comentar sobre suas ações políticas. Em No Brasil, o perigo está no “bem” (A4) são citados também os presidentes Lula e Bush, o ex-presidente dos Estados Unidos. Porém, é pertinente separá-lo dos textos que abordam especificamente de política porque este trata de outro tipo de pessoa hierarquicamente importante: o papa Bento 16. Arnaldo Jabor comenta o apoio que o maior representante da Igreja Católica deu à excomunhão do Bispo José Ribeiro Sobrinho, aos pais da menina de noves anos que fez aborto, após ser vítima de estupro, e aos médicos que aceitaram fazer o procedimento. Além desse acontecimento, o texto fala sobre a maneira evasiva com que o papa tratou os casos de pedofilia na Igreja Católica.
Isso me lembra outro prelado idiota que uma vez excomungou um juiz que autorizou o aborto de um feto descerebrado e falou sobre o estupro: “os filhos de mulheres estupradas devem nascer e serem educados pela igreja, como órfãos infelicitados”. Talvez fosse essa a pior desgraça, o sinistro destino para uma criança: “Quem é você?” “Eu sou o filho do Moto-Boy assassino, educado pelo arcebispo Jose Ribeiro Sobrinho”. É espantoso o descompasso da Igreja Católica com os tempos atuais, justamente quando a História está de novo tão cruel, quando nós precisamos tanto de doçura, tolerância, que não é dada por este papa Bento 16, de olhos frios e inquisitoriais. Ele foi vacilante com o bispo maluco que negou o holocausto, como sendo um lero lero de judeus, foi evasivo com os pedófilos religiosos da América, é contra os anticoncepcionais, contra as homossexuais, contra tudo. (A4, p.65)

A temática de uma forma geral (aborto, pedofilia) é relevante e causa grande impacto na sociedade, tanto brasileira quanto internacional, por se tratar de agressões contra crianças e perceber que a Igreja Católica, uma instituição tão influente, não toma atitudes mais severas para punir e excomungar práticas de pedofilia oriundas de seu próprio sistema. A atualidade é outra característica que Wolf (1995) coloca como pertinente para um texto do periódico ser atrativo para o leitor. Assim como os textos de Arnaldo Jabor seguiram os critérios de importância de um fato eles também obedeceram à atualidade. Os textos relacionados aos acontecimentos na política norte-americana foram construídos em janeiro e fevereiro de 2009, sendo que Barack Obama tomou posse da presidência dos EUA em 20 de janeiro do mesmo ano. Aqueles ligados à política brasileira foram escritos em fevereiro, março, abril e junho de 2009, período que corresponde às descobertas de escândalos e 45 mudanças no Senado brasileiro. Já o acontecimento relacionado à excomungação do Bispo sobre o aborto feito na menina de nove anos aconteceu dia 4 de março de 2009 (quartafeira); como Arnaldo Jabor publica seus textos no jornal O Globo somente às terças-feiras, ele comentou o fato na semana seguinte, dia 10 de março. Conforme verificado, os textos de Jabor veiculados pelo jornal carioca parecem ser de interesse do público e pode-se afirmar também que sempre emitem opinião a respeito de um determinado assunto, por isso categorizado dentro do jornalismo opinativo. Porém, dentro dessa especificidade do jornalismo existem as classificações dos textos, que, segundo Melo

(1985), são estabelecidas de acordo com estrutura narrativa, a autoria e a angulagem. Desta forma, é necessário verificar como os textos opinativos do Arnaldo Jabor podem ser classificados. Em relação à autoria pode-se excluir a hipótese de denominar os textos de Jabor como editorial, já que esse tipo refere-se à opinião da empresa jornalística como um todo. No caso do objeto em questão a autoria é única e explícita, considerando que o jornalista não conta com a colaboração de outro autor e sempre é identificado em sua coluna do jornal carioca. Assim, restam ainda as categorias de comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta. Sobre a estrutura narrativa a diferenciação é feita considerando a atualidade do assunto a ser tratado no texto. De acordo com Melo (1985) existem narrativas que não precisam ter o compromisso com os acontecimentos factuais, podendo estar relacionados com fatos antigos ou até mesmo atemporais, como: resenha, crônica, carta. Por outro lado a coluna, a caricatura, o editorial e o artigo são fundamentados em assuntos recentes. Como verificado, os textos de Jabor selecionados para ser objeto desse estudo são ancorados em acontecimentos da atualidade, assim restam as opções de coluna, caricatura e artigo. O objeto empírico desse estudo é constituído somente por publicações estruturadas em textos, sem a presença de desenhos, ilustrações ou representações gráficas. Assim, o gênero caricatura do jornalismo opinativo não se encaixa nas características do objeto e pode ser descartado como uma hipótese de classificação do trabalho de Jabor. Desta forma, restam os tipos: coluna e artigo. Porém, o aspecto relacionado à angulagem é crucial para distinguir os dois tipos. De acordo com Melo (1985) o texto tipo coluna é produzido com a visão da 46 comunidade a que a empresa jornalística se refere e o artigo, por sua vez, é construído de acordo com os critérios de competência selecionados pelo próprio autor. Com as análise e eliminações feitas pode-se afirmar que os textos de Jabor publicados no O Globo são classificados dentro do jornalismo opinativo como artigos. Apesar do texto Carta aberta aos jornalistas brasileiros - Um congressista fala dos recentes escândalos (A7) ser denominado pelo próprio autor como uma carta o mesmo não atende a todas as premissas das características propostas por Melo (1985) dentro do jornalismo opinativo. Para ser classificado como tal o texto deveria adotar uma angulação de observação, tratar intimamente com o receptor, como acontece, por exemplo, nas cartas dos leitores enviadas à redação de um jornal. No entanto, o texto não é feito exclusivamente para os jornalistas brasileiros, mas recebe este nome com a finalidade de criar um cenário na narrativa para a construção do ethos, que será analisado mais à frente neste trabalho. Mesmo que haja diferenciação entre os tipos de textos opinativos eles têm a subjetividade como aspecto em comum. E é por meio desse aspecto que o autor consegue transmitir suas impressões pessoais, opiniões, questionamentos e propostas de novas formas de perceber o assunto em questão. Como pode ser percebido neste trecho do artigo O bem que Bush nos fez - Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda.
Mas, o papel delegado a Obama é árduo – querem que aja como os protagonistas dos filmes-catastrofes, onde sempre um herói individual vence ET´s e comunistas.

Creio que ele fará muitas coisas, mas não o suficiente para impedir o re-surgimento de uma nova bolha de burrice. Logo que seus limites de poder apareçam, aos poucos, a saudade da caretice, do atraso, da estupidez voltará. (A1, p.60)

Neste trecho Jabor transmite a forma como percebe o desempenho político do ex-presidente Bush ao dizer que o trabalho do atual presidente dos Estados Unidos vai ser árduo. Com a intenção de deixar claro para o leitor como ele enxerga o futuro de Obama, o jornalista faz analogia aos filmes em que um único indivíduo é responsável por salvar as pessoas do perigo. Entretanto, o autor deste artigo demonstra que por mais que o novo presidente norteamericano se esforce não vai conseguir impedir os atos errôneos da sociedade americana, chamada por ele de “bolha de burrice”. Para Beltrão (1980) a opinião, mesmo que seja individual/subjetiva, gera conseqüências dentro da sociedade em que é emitida, considerando que é possível a opinião de um indivíduo 47 ser compartilhada por outros e se tornar opinião dominante. Além disso, existe a opinião pública que, segundo o autor, precisa estar relacionada com os fatos marcantes ocorridos dentro de uma sociedade, que estes sejam de interesse público atual, estejam em confronto com o sistema de valores vigente e sejam possíveis de receberem julgados pela sociedade. Nos artigos de Arnaldo Jabor perceber-se cada aspecto deste da opinião pública. Em todos eles são retratados acontecimentos marcantes na sociedade em que aconteceram e, conseqüentemente, podem despertar o interesse dos leitores. Os assuntos discorridos pelo jornalista (aborto, corrupção, negligência política) têm a ver com temáticas polêmicas e que transgridem os valores da sociedade brasileira, onde seus textos são publicados, sendo assim sujeitos a julgamento. 4.5 As técnicas do discurso de Jabor Para que uma opinião individual consiga influenciar a opinião pública e se tornar dominante em uma sociedade é preciso que o leitor/receptor tenha acesso a dados, argumentos e pontos de vistas bem fundamentos que possam levá-lo a compartilhar a mesma idéia de quem emite o juízo de valor sobre determinado fato. O discurso com essa capacidade é constituído por técnicas; no caso dos artigos de Arnaldo Jabor as técnicas que serão analisadas consistem em persuasão, ironia, polifonia e construção do ethos. Citelli (1997) afirma que a persuasão está relacionada com idéia de fazer um indivíduo observar determinado fato/acontecimento sob a mesma perspectiva de quem o analisa. Mas para que isso realmente aconteça o texto persuasivo precisa contextualizar o leitor sobre o assunto tratado, ser desenvolvido com base em provas – essa é a parte mais importante – e ter uma conclusão que seja capaz de levar o leitor a uma reflexão sobre o fato que foi abordado. Os textos de Jabor não seguem necessariamente essa ordem, mas vão ao longo da narrativa atendendo a todas as premissas. Em O bem que Bush nos fez - Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda (A1), o primeiro parágrafo relata o fato histórico do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos EUA, que é o ponto de partida para Jabor desenvolver o texto. No decorrer da escrita o jornalista apresenta os fatos e suas opiniões sobre os mesmo; é quando se tem o ápice da persuasão, com orações afirmativas. 48
O tempo foi detido pelos facínoras que tomaram o poder em 2000. Sua missão era, conscientemente, deter o avanço da humanidade, evitar a liberdade em nome dela

mesma, evitar o incognoscível, evitar as surpresas sociais e científicas, evitar o mistério dinâmico da vida social. E isso foi conseguido. Até chegarmos a esta pletora de erros, a este lamaçal político e econômico. Claro que Bush não é o único culpado pela recessão atual, mas seu governo desregulado ajudou muito o caos. (A1, p. 60)

Neste trecho pode-se observar que Jabor apresenta, de acordo com suas impressões pessoais, quais objetivos Bush tinha quando assumiu a presidência dos EUA (deter o avanço da humanidade, a liberdade, novas descobertas) e logo depois afirma, por meio da oração “e isso foi conseguido”, que os mesmo foram alcançados. Para acrescentar mais um ponto de vista sobre o governo do ex-presidente americano o jornalista deixa explícito, na última oração do trecho acima, que o político colaborou para a crise financeira na qual o país se envolveu desde o final de 2008. O verbo no modo imperativo é outra técnica usada em um discurso persuasivo. Segundo Citelli (1980) com o verbo nesse modo não há margem para o leitor duvidar do que está sendo dito, já que transmite idéia de ordem. Porém, no objeto analisado não foi percebido o uso de verbos dessa forma, o autor dos textos explora mesmo são as orações afirmativas, como as que estão evidenciadas no trecho abaixo.
O ataque às torres foi um alívio para os imbecis. Puderam berrar, lívidos de certezas: “Viram? A razão na existe!”. Ali começaram os sete anos de erros que mudaram o mundo. Bush passou a reagir como uma cobaia aos comandos de Bin Laden e como um cachorrinho amestrado às ordens do “grande Satã” Dick Cheney – este sim, a síntese perfeita da direita criminal. Esses tempos nos ilustraram muito: o Mal existe sim. (A1, p.59 – grifos nossos).

Na conclusão do texto o jornalista retoma aos pontos marcantes da história política dos EUA, com o objetivo de relembrar e envolver o leitor, e na última oração propõe uma reflexão sobre o futuro do país.
A direita americana era difusa, muitas vezes disfarçada de patriotismo, de integridade. Clinton quase foi “impichado” porque papou a Mônica Lewinski. Bush destruiu um país e lesionou o Ocidente para sempre e ninguém cogita de punição. Foi preciso o Bush ser um imbecil para os americanos terem saudade da inteligência. Bush nos fez bem; errou tanto que virou progresso. Espero que não seja tarde demais para Obama. (A1, p.60)

No texto Como mudar o coração americano? - Moram na alma americana vícios difíceis de curar (A2), a persuasão é apresentada de forma diferente. Arnaldo Jabor conta, a partir de 49 uma experiência pessoal, detalhes sobre o preconceito que os americanos têm contra os negros e, desta forma, vai mostrando para o leitor como estes eram/ são tratados nos país.
Só uma coisa estava fora da ordem: os negros. Era outra América dentro da cidade. No ônibus amarelo do colégio, eu via meus colegas louros, ruivos e brutos berrando contra os negros que passavam: “Hey, “nigger”, por que teu nariz é tão chato? Hey, “nigger”, por que teu cabelo é pichaim?” Os negros passavam, de cabeça baixa, o rosto torcido de humilhação, num ódio sufocado e inútil. Amontoavam-se no fundo dos ônibus, em pé, mesmo com os carros vazios (A2, p. 61)

A associação do preconceito dos norte-americanos como o atual presidente pode ser percebida, de forma implícita, desde o início do texto, afinal é evidente que Barack Obama é negro. Entretanto, Jabor deixa isso explícito somente no final do texto, provando para o leitor

que aquela sociedade vai precisar mudar muito seus conceitos sobre a raça das pessoas, já que agora tem um líder negro.
Em um de seus discursos, Obama disse que os americanos precisavam se “reeducar” em relação ao resto do mundo. Outro dia, li a mesma coisa em um livro extraordinário: “The Limits of Power” de Andrew Bacevich, texto que pauta intelectuais hoje nos USA, incluindo o Obama. Andrew nos mostra que há uma estrutura psico-social quase “genética” que tem se ser reformada no país, para que alguma mudança real se faça, para além da euforia da esperança. Ele nos mostra que a idéia de sacrificar-se pelo conjunto, de se contentar com pouco, de consumir menos é impenetrável nos corações americanos. Se Obama não conseguir, a estupidez e ignorância voltarão com o “totalitarismo da maioria”. E ai, a barra pesará. (A2, p. 62).

Na publicação do dia 17 de fevereiro, O Brasil virou um grande PMDB - Estamos anestesiados diante da vida política do país (A3), o jornalista situa o leitor sobre o que vai fundamentar seu artigo – a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos – e por meio das colocações do próprio político consegue provar que os brasileiros não têm muito que fazer para mudar a política brasileira, já que um dos que fazem parte dela confessa que a maioria é corrupta e não está preocupado com a sociedade.
De dentro de casa, Jarbas berrou: “O PMDB é corrupto!” e mostrou como este partido nos manipula, sob o guarda-chuva do marketing populista de Lula. (...) Mas sua explosão é legítima e incontestável, vinda de um dos fundadores do PMDB, depois transformado nesta anomalia comandada pelo Sarney que é o líder sereno e hábil da manutenção do atraso em nossas vidas. (A3, p. 63)

50 Apesar das denúncias do senador Jarbas Vasconcelos, o atual governo brasileiro tem alto índice de aceitação popular com 83%, segundo a pesquisa4 do IBOPE realizada dia 7 de dezembro de 2009. Para justificar as criticas ao governo, apesar da maioria dos brasileiros estarem satisfeitos com o presidente Lula, Jabor ressalta os pontos negativos do governo, como cargos públicos desnecessários, os gastos excessivos, as mordomias dos políticos e familiares, baixa taxa de investimento.
A única revolução que deveria ser feita no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios, um Estado que só tem para investir 0,9 do PIB. A tentativa de modernização que FHC tentou foi renegada pelo governo do PT. Lula fortaleceu o patrimonialismo das velhas oligarquias e o PAC é uma reforma cosmética, como a plástica da Dilma, que ele quer eleger para voltar depois, em 2014. O único projeto do governo é o próprio Lula. Em cima dos 84% de aprovação popular, nada o comove. Só se comove consigo mesmo. (A3, p. 64)

Na conclusão pode-se observar a reflexão que Arnaldo Jabor sugere para o leitor sobre a política brasileira. Técnica que corresponde ao encerramento de textos persuasivos, de acordo com Citelli (1997). “Agora...tentem explicar este quadro que Jarbas sintetiza com a clara luz de sua entrevista para um pobre homem analfabeto que descola 150 reais por mês do Bolsa Família...Vivemos um grande auto-engano.” (A3 p.64) Em No Brasil, o perigo está no “bem”(A4) a persuasão se dá por meio dos fatos em si. Nesse texto Jabor trata de um assunto que chocou a sociedade brasileira e a postura que a Igreja Católica tem com os casos de pedofilia.
Lá do fundo da Idade Média o arcebispo de Olinda e Recife, Jose Ribeiro Sobrinho excomungou uma família e os médicos que fizeram um aborto em uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos (...) Isso me lembra outro prelado idiota que uma vez excomungou um juiz que autorizou o aborto de um feto descerebrado e falou sobre o estupro: “os filhos de mulheres estupradas devem nascer e serem educados pela igreja, como órfãos infelicitados” (A4, p.65)

Ao falar sobre os acontecimentos políticos, o jornalista pode persuadir o leitor porque discorre a respeito da aliança política entre dois partidos que eram até então rivais (PT e PMDB).
Aliou-se ao PMDB - o mal da hora -, na sua maioria filhos do pior patrimonialismo nordestino, essa pasta feita de bigodes, cabelos pintados, focinhos vorazes, 4 Informação do site do IBOPE, consultado no dia 04/06/2010, às 12h20min, disponível em http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=5&proj=PortalIBOPE&pub=T&db=cal d b&comp=IBOPE+Inteligência&docid=2CAD63F775DEB1B283257685006D1EA6

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gargalhadas boçais e salivantes, inimigos antigos se beijando. Pode até ser que isso possa ser um bem a longo prazo alertando-nos para o obvio: é preciso reformar a política no país. Como se sentem, diante desta aliança, os intelectuais que tanto apoiaram o PT, os bondosos de carteirinha, os cafetões da miséria, os santos oportunistas? Pela lógica “revolucionária” eles não justificavam todas as sacanagens pela utopia de um futuro, por uma pureza maior herdada do socialismo? (A4, p.65)

No texto A vergonha pode nos levar a sabedoria - A paralisia política do país nos ensina muito (A6) o colunista do jornal O Globo propõe no início idéias que vão contra o atual governo brasileiro, como: “A sensação é de paralisia com agitação, falsos tremores febris, acontecimentos irrelevantes que parecem importantes, bobagens que enchem os noticiários e que se esvaem. Isto cria a impressão de que algo se movimenta, quando tudo está parado” (A6 p.69). Logo depois, fornece para o leitor dados que comprovam essas premissas.
De repente, Lula sente que tem de ir além do marketing e berra: “Precisamos fazer alguma coisa! Vamos fazer um milhão de casas!” E aí...se defronta com milhares de cascas de banana que ele ignorou nos últimos 7 anos: burocracia, cargos técnicos invadidos por clientelismo político, falta de grana para investir, pois gastou com funcionários públicos quatro vezes mais do que diz que vai gastar com o milhão de casas: 128 bilhões com gastos de custeio e funcionários (as casas custariam 33 bilhões) (...)Não abriu caminho para o crescimento e agora quer crescer? Como fazer isso com 0,9 do PIB para investimentos? (A6, p.69)

A persuasão também pode ser construída por meio de outra técnica: a ironia. De acordo com Maingueneau (1996), essa técnica permitir o autor mostrar o contrário do que realmente pretende-se expor. Assim, Ferraz (1987) entende que o emissor transmite para seu leitor uma visão crítica do mundo. As obras literárias de Arnaldo Jabor sobre política e sociedade têm, de uma forma geral, um tom irônico; contudo, nos três textos que ainda restam para ser analisados esse recurso da linguagem é aplicado de forma mais explícita. Em “O PMDB é uma bela flor em nossa terra” - A imprensa não vê o encanto de nossas tradições (A5) existem, além da ironia, outras técnicas do discurso, mas que serão analisadas posteriormente. Agora vale amostrar a maneira como Jabor utiliza o tom irônico para tentar persuadir o leitor. Como apresentado nos artigos acima, o jornalista considera o PMBD um mal para a política do país e critica a aliança desse partido com o PT. Mas, nos trechos a seguir ele propõe, ironicamente, o contrário.
O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. (...) Não pense que meu peito se confrange diante da palavra „corrupção‟ no PMDB; não há corrupção entre nós; é apenas a continuação de um processo histórico. (...) a doce aliança PT-PMDB, que permite que o papis evolua, como bem disse nossa candidata em campanha (até segunda ordem) Dilma. (A5, p.67)

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As palavras belas, doce aliança, acentuam ainda mais a ironia e permite que o leitor interprete a intenção contrária que o jornalista pretende passar. Nesse texto Jabor mostra a grande diferença econômica que existe entre os políticos brasileiros e a sociedade comum, uma forma de provar que a corrupção praticada pelos políticos proporciona luxos fora da realidade da maioria dos brasileiros, como moto e roupas importadas.
Quando eu faço uma piscina azul em minha casa no sertão, ela brilha como um retângulo de esperança em meio à seca. Não é arrogância, mas solidez. Não é crueldade, pois é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola porque alguém vive feliz em cima. Eu acrescento ordem ao mundo com minhas motocicletas no agreste, eu sei da beleza de passear de Harley Davidson com minha mulher oxigenada e rechonchuda (chamo-a de minha „potrinha‟), com um belo abrigo Vuitton, para que nossa passagem cause um “Ohhh!” nos “bóias-frias” das lavouras. (A5, p.67)

Na conclusão o jornalista deixa, mais uma vez, uma reflexão para o leitor “O orgulhoso político ajeitou o jaquetão e se encaminhou de fronte alta para o salão azul do Senado. Era feliz.” (A5, p.68). Quando ele relata que o político era feliz permite que o leitor pense, após ler o texto na íntegra, que toda riqueza e felicidade conquistada por esse senador é oriunda dos cofres públicos, dinheiro que poderia ser usado para melhorar as condições de vida da população, mas na verdade destina-se a sustentar os luxos dos políticos. Assim, Jabor convence o leitor sobre as acusações de corrupção que ocorrem na política. No artigo Carta aberta aos jornalistas brasileiros - Um congressista fala dos recentes escândalos (A7) a ironia esta presente até mesmo na estrutura do texto, já que Jabor cria um personagem fictício, um político que remete a carta assumindo todas as condutas anti-éticas que comete na vida pública, como por exemplo, os desvios de verbas, favores públicos, mentiras para benefício próprio.
Vocês não sabem o que é a mente de um deputado. Nós somos escolhidos entre os mais espertos dentre os mais rombudos e boçais. A estupidez nos fornece uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacospuxados. Nós somos fabricados entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões. Nós somos a covardia, a mentira, a ignorância. (A7, p.71)

Durante todo esse texto a ironia é utilizada, já que mostra um político assumindo tudo de errado que faz no cargo público, enquanto na verdade os políticos sempre negam as acusações 53 que lhe são feitas. E na assinatura desta carta Arnaldo Jabor recorre a ironia mais uma vez, mostrando para o leitor que o remetente não é único, ou seja, não é apenas um corrupto, mas que são muitos: “Cordialmente, Fulano, Beltrano e Sicrano. Diretor Geral do Atraso, o Diretor do Departamento do Baixo Clero e o Diretor Geral de Negócios Escusos...”. (A7, p.72) As reticências dão idéia de que a lista de assinaturas ainda continua. Em Nada prova mais nada - Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices (A8) a estrutura adotada por Jabor foi diferente do texto acima. Dessa vez ele constrói o artigo em forma de entrevista/diálogo entre um jornalista e um político que, assim como os políticos que realmente estão no congresso brasileiro, finge não saber de nada do que está sendo acusado e para todas as provas de mau uso do dinheiro público tem uma justificativa barata.

- O senhor não reconhece sua assinatura neste cheque de 20 milhões, enviado para a conta do governador? - Não. A assinatura parece minha, sei que o teste grafológico em Campinas prova que esta assinatura é minha, mas... não é. Quem me garante que o grafólogo não é comprado por meus concorrentes? Minha empresa constrói os viadutos, aeroportos, represas do estado do meu querido governador, mas se ele me delega as obras, é por amizade... Ele é meu amigo! O senhor é um frio jornalista... não sabe o que é o amor... - Como o senhor passou de uma casinha alugada e um Volks há nove anos, para ser dono desse império de negócios? Sua súbita riqueza coincide com a eleição e a reeleição do seu amigo governador. Como explica o aumento de 37.000 por cento em seu patrimônio? - Trabalho duro e sorte, meu filho... - Um operário teria de trabalhar 3.300 anos, sem comer e sem gastar, para ganhar o que o senhor acumulou em 9 anos. Como é possível? - Sei lá... por que tenho de lhe dar satisfações? - Imprensa... o senhor está sendo acusado... (A8, p.73)

A ironia pode ser percebida em todas as respostas do personagem político. Dessa forma, Jabor mostra para o leitor como ele percebe a conduta dos políticos no Brasil e, por meio do absurdo que propõe como resposta para o político, tenta convencer o leitor sobre a opinião dele. A persuasão pode ser consolidada também por meio de outra técnica, denominada por Maingueneau (1996) como ethos. Esse modo de construir o discurso requer do autor do texto a construção de um cenário, assim como Arnaldo Jabor propõe nos seus artigos, mas principalmente nos três últimos textos apresentados. Ele cria os sujeitos (político e jornalista), coloca-os em uma situação/lugar (Senado, escrevendo uma carta, participando de uma 54 entrevista) e sustenta a cena enunciativa por meio de uma voz. Essa voz é aplicada no discurso com certo distanciamento de quem (Arnaldo Jabor) realmente fala no artigo, para isso usa-se os personagens. O caráter dos personagens é fundamentado nos valores que a própria sociedade difunde. Então, quando Jabor propõe que o político que vai fazer parte da sua cena enunciativa agirá de forma suspeita, deixando transparecer para o leitor que não é uma pessoa confiável, o que na verdade é a maneira como a sociedade enxerga os políticos. Como no trecho abaixo que associa, de forma implícita, aos políticos as características de ladrão, pessoas interesseiras, desonestos.
O dinheiro que arrecadamos, na relação entre a coisa pública e privada, sempre nos pertenceu. Ou você acha que haveria obras e progresso sem esta simbiose? Não há casamento sem interesse. É belo e progressista o interesse político. A honestidade alardeada é hipocrisia. (A5, p.67)

Da mesma forma, pode-se dizer do perfil atribuído ao personagem do jornalista no texto Nada prova mais nada - Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices (A8), que representa um profissional disposto a desmascarar o político corrupto, mostrar a verdade para a sociedade. Isso é verificável na atividade jornalística e é possível afirmar que o próprio Arnaldo Jabor deseja transmitir essa imagem de si mesmo para o público, por meio de personagem que se esforça para mostrar aos brasileiros como são os políticos deste país.
- Sei lá... por que tenho de lhe dar satisfações? - Imprensa... o senhor está sendo acusado... - Estou me lixando para a Imprensa, dane-se a opinião publica. Mas, afinal de contas, você quer provar o quê, rapaz?

- A verdade! - Mas, o que é a “verdade”? Ah..quer saber? Tudo bem, porra, vou desabafar...Vou lhe dizer, senhor jornalista. Vocês pensam que vivem no mundo da “verdade”, essa abstração moral, jurídica?... Pois saiba que “o fabuloso está no comércio”, como escreveu Paul Valery. Pensa o quê, porra? Sou culto... Olhe bem para mim. A verdade sou eu! Eu estou no lugar da verdade, entre o poder e o comércio! Este país foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Não foi feito com frases feitas, não... Há uma dialética fina entre dinheiro público e a cobiça privada, há uma grandeza insuspeitada na apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias, qualquer canalzinho de esgoto tem grande poder fertilizador. A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de “roubalheira”, eu chamo de “progresso”, um progresso português, nada da frieza anglo-saxônica; trata-se do excremento como motor da história... São Paulo foi construída com esse combustível, os prédios repousam sobre estes fundamentos... Brasília foi feita de lindas ladroagens... Tudo que é belo e bom nasceu da merda... Essa é a verdade do Brasil, que vocês querem condenar, falando estas bobagens sobre moralidade. O resto é ilusão. (A8, p.73)

55 Por isso que o autor, por meio do ethos, transmite suas crenças, opiniões, sem realmente falar tudo por ele próprio, ele passa suas idéias por meio dos personagens que cria. Essa técnica permite que o leitor seja ainda convencido sobre o que está lendo e quando se identifica com a forma de construção do discurso do autor está consolidada a persuasão. Por fim, tem-se a técnica da polifonia que de certa forma está presente no ethos, no entanto, não precisa de um cenário enunciativo para ser utilizada. Ela quando aplicada também cria um distanciamento do texto e assim sugere para o leitor que existem duas ou mais vozes presentes no discurso.
É mais que uma entrevista - é um manifesto do “eu-sozinho”, um ato histórico (se é que ainda sobra algo “histórico” na política morna de hoje) (A3, p.63).

A oração entre parênteses é uma forma de se aplicar a polifonia, o jornalista interage com o leitor simultaneamente por meio de duas vozes, a que está corrente no texto e o comentário que inclui entre parênteses. Arnaldo Jabor ainda utiliza os parênteses para explicitar a entrada de outra fala no meio do discurso, porém normalmente essa técnica é utilizada de forma mais sutil. 56 5 CONCLUSÃO O objetivo desta pesquisa foi perceber as características do jornalismo opinativo, assim como algumas técnicas de escrita que podem fazer parte na construção desse tipo de texto. Para isso foram selecionadas como objeto oito publicações do jornalista Arnaldo Jabor feitas no jornal O Globo no primeiro semestre de 2009. A análise dos textos do jornalista teve como fundamento dois campos: o jornalismo opinativo e recursos de escrita e do discurso. Procuramos ao longo do trabalho entender como e porque surgiu a especificidade opinativa dentro do jornalismo. Por meio do que nos foi apresentado pelos autores Kunczik (2001) e Lage (1987) é possível afirmar que o jornalismo surgiu devido à necessidade do homem saber sobre os acontecimentos alheios, mas que, de certa forma, interferem na vida particular de cada um. Percebemos que no início a atividade jornalística acontecia de forma precária,

contudo com a evolução da própria humanidade e dos processos industriais tornou-se reconhecida. A opinião surgiu, então, juntamente com esse crescimento da atividade jornalística, quando ocorreu também o advento da burguesia que usava os jornais como meio de emitir opinião sobre os fatos e para tentar influenciar pessoas. Devido às leis de censura, que minimizaram no início do século 20, o jornalismo opinativo perdeu forças e começou a dividir espaço com o jornalismo informativo; mas, mesmo com espaço reduzido nos jornais podemos observar que as opiniões continuam sendo veiculadas. Os textos fundamentados em opinião têm, da mesma forma que outros fatos meramente informativos, de obedecer os critérios de noticiabilidade propostos por Wolf (1995). Por outro lado, entendemos que os jornalistas que os escreve devem respeitar as questões éticas e ter noção do impacto que suas formas de pensar, suas subjetividades, podem causar na sociedade, conforme pontuado por Beltrão (1980). Sobre a responsabilidade da função de escrever do jornalista também podemos encontrar questões no terceiro capítulo desta pesquisa. Nessa parte do estudo percebemos que o texto exige do profissional domínio pela linguagem e conhecimento da cultura na qual constrói seu discurso. Além disso, o jornalista precisa se posicionar dentro do texto para estruturar uma relação entre ele e o leitor que permita emitir o enunciado que se pretende. E para que esse 57 enunciado seja transmitido entendemos que é preciso criar um cenário com sujeitos, tempo e lugar, ou seja, instaurar o ethos proposto por Maingueneau (2004), onde o jornalista vai mostrar seus pensamentos, seu caráter e suas opiniões sobre os acontecimentos. Para a construção do texto opinativo observamos que os recursos da polifonia – quando há mais de uma voz presente no discurso – e da ironia – quando o autor do texto fala o contrário do que realmente acredita – são essenciais para fundamentar a persuasão do jornalista. Entendemos, por meio de Citelli (1997), que a persuasão consiste em convencer o outro sobre uma determinada ideia e para atingir esse objetivo o jornalista precisa basear sua opinião com orações afirmativas sobre fatos concretos e, se possível, usar verbos no modo imperativo. Ao analisarmos os oito textos de Arnaldo Jabor podemos perceber que o jornalista tem conhecimento e domínio sobre o que escreve, já que é capaz de apresentar os fatos e emitir sobre eles suas próprias conclusões. Outro aspecto que podemos observar refere-se ao discurso persuasivo utilizado pelo colunista do jornal O Globo. Em todos os textos estudados percebemos que são construídos com o intuito de persuadir o leitor, considerando que os fatos são apresentados e logo em seguida são justificados. Além disso, Jabor utiliza com freqüência os recursos da ironia e polifonia. O único aspecto persuasivo que não conseguimos encontrar no objeto de pesquisa foi o uso dos verbos no modo imperativo, mas que não prejudicou a persuasão do discurso de Arnaldo Jabor. Podemos afirmar também que as publicações selecionadas atendem as premissas do jornalismo opinativo, porque abordam os acontecimentos de acordo com as impressões pessoais do autor e tratam sobre fatos e pessoas que têm grande importância para sociedade

norte-americana, no caso dos presidentes dos EUA, e para a sociedade brasileira, quando se referem aos políticos do Brasil. Com a execução desta pesquisa podemos perceber que o objetivo de detectar as características do jornalismo opinativo e observar como as técnicas do discurso podem ser utilizadas na construção de textos opinativos e persuasivos, foi alcançado. Além disso, esta pesquisa permitiu que percebêssemos como o jornalista Arnaldo Jabor pode ser considerado um formador de opinião e influenciar na maneira como os brasileiros percebem os fatos da política e da sociedade em si. Assim, acreditamos que este trabalho é relevante na área da comunicação por mostrar a complexidade que envolve a função de opinar. 58 REFERÊNCIAS AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. Disponível em <http://www.americanas.com.br/produtos/manuais/833282.pdf> . Acesso em 20/04/2010 BELTRÃO, Luiz. Jornalismo Opinativo. Porto Alegre: Sulina, 1980. CARVALHO, Kátia. Imprensa e informação no Brasil, século xix. Disponível em revista.ibict.br/index.php/ciinf/article/download/469/428 . Acesso em 20/04/2010 CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 11ª edição. São Paulo: Ática, 1997. FERRAZ, Maria de Lourdes A. Lisboa: IN-CM, 1987. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Argumentação e Linguagem. São Paulo: Cortez, 1996 KUNCZIK, Michael. Conceitos de Jornalismo: Norte e Sul. São Paulo: EDUSP, 1997 LAGE, Nilson. A estrutura da notícia. 2ª edição. São Paulo: Ática, 1987 MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996 MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2004 MELO, José Marques. A opinião no jornalismo brasileiro. Coleção meios de comunicação social, v. 24, 1985 ORLANDI, Eni Pulcinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. São Paulo: Pontes, 2002 REY, Luiz Roberto Saviani. Jornalismo Opinativo: dilema ou questão de dimensão e conteúdo? Disponível em: http://www.puc-campinas.edu.br/centros/clc/jornalismo/revista/Jornv5n2/jorn04.pdf. Acesso em 20/03/2010 SÁ, Jorge de. A crônica. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2001 WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 4ª edição. Lisboa: Presença, 1995 WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 7ª edição. Lisboa: Presença, 2002 59 ANEXO 1 O BEM QUE BUSH NOS FEZ – Depois de oito anos de estupidez, a sensatez voltou à moda (27/01/09) A imagem mais pavorosa de 2001 não foi a queda das torres do 11 de setembro; foi a cara do Bush quando o assessor avisou-o do ataque dos aviões, na escola em que lia a história de um patinho para alunos do jardim da infância. O trêmulo assessor segredou em sua orelha: “Destruíram o WTC!” A cara de Bush apagou. Não levou susto, não teve medo, nada. Sua

cabeça se deletou como um robô desligado. Bin Laden tinha atingido seu objetivo principal: a mente do Bush. Naquele instante, começava a Era da Estupidez - a estupidez fanática do islamita cooptou a estupidez fanática do reacionarismo americano. O ataque às torres foi um alívio para os imbecis. Puderam berrar, lívidos de certezas: “Viram? A razão na existe!”. Ali começaram os sete anos de erros que mudaram o mundo. Bush passou a reagir como uma cobaia aos comandos de Bin Laden e como um cachorrinho amestrado às ordens do “grande Satã” Dick Cheney – este sim, a síntese perfeita da direita criminal. Esses tempos nos ilustraram muito: o Mal existe sim. Não o “mal” psicótico de um Hitler, Stalin ou Pol Pot, mas o mal da burrice, um mal boçal, para alem da esperteza corrupta da gang de Cheney. Claro que houve grandes negócios para as Halliburtons da vida, para a indústria de armas, mas tudo boiava também na volúpia deliciosa da irracionalidade. Os reacionários estavam angustiados com a complexidade que surgira com a queda da URSS, do Muro; tinha acabado o ralo maniqueísmo binário de socialismo contra capitalismo. O mundo não teria mais dois ângulos; o poder seria multipolar. Ou seja, democracia e modernização se revelaram inevitáveis – tudo que a direita fundamentalista odeia, exatamente como o Oriente dos islamitas. Os fundamentalistas de lá e de cá têm ódio à diferença, pânico de não controlar a inexplicável circularidade da vida, negam a existência do mundo psíquico, massacram e matam justamente por não aceitarem a finitude, exorcizam a morte pela banalização da violência e se agarram na fé contra todas as evidencias - quanto maior a obviedade do não, mas a fé do sim. (Os fieis esmagados sob o teto da igreja Renascer, vão continuar crendo no casal de marginais que os controlam e roubam seus dízimos). Não acreditamos mais na Historia dialética, em que a tese e a antítese levem a uma síntese, nem que haja uma evolução para uma finalidade, uma futura harmonia. A história vaga como bêbada pelo planeta; mas, talvez haja uma lei histórica sim, uma lei de alternância, uma necessidade quase física dos povos de mergulhar na irracionalidade e depois voltar para outro lado. Creio que há um desejo profundo, instintivo, de negar a inteligência e de se refocilar no excremento da estupidez. É quase uma vingança animalizada contra o tédio da civilização e contra a fugacidade da democracia. Sabemos que a corrupção e a voracidade capitalista criaram a sujeira que temos visto desde 2001; mas, como explicar a ausência de qualquer intelectual no gabinete de Bush, a não ser o Dr. Fantástico Karl Rove, teórico de uma perversão política pornográfica? Bush declarou ao Bob Woodward que invadiu o Iraque sem consultar ninguém, nem seu papaizão. “Consultei o Pai Superior!” – respondeu, exatamente como Alá mandou seus guerreiros destruir o Ocidente. Como explicar a passividade de Bush diante do furacão Katrina, a não ser pelo racismo e pelo horror à incomodas tragédias? Como explicar a mentira deliberada ao povo para invadirem o Iraque, senão pela volúpia ancestral da guerra e do domínio? Só a camisa-de-força segura essa gente. 60 O tempo foi detido pelos facínoras que tomaram o poder em 2000. Sua missão era, conscientemente, deter o avanço da humanidade, evitar a liberdade em nome dela mesma,

evitar o incognoscível, evitar as surpresas sociais e cientificas, evitar o mistério dinâmico da vida social. E isso foi conseguido. Até chegarmos a esta pletora de erros, a este lamaçal político e econômico. Claro que Bush não é o único culpado pela recessão atual, mas seu governo desregulado ajudou muito o caos. E esta fome de imbecilidade cresceu e explodiu. E há uma rima entre esta crise e a chegada de Obama que encarna nossa fome de sensatez e eficiência. Mas, o papel delegado a Obama é árduo – querem que aja como os protagonistas dos filmes-catastrofes, onde sempre um herói individual vence ET´s e comunistas. Creio que ele fará muitas coisas, mas não o suficiente para impedir o re-surgimento de uma nova bolha de burrice. Logo que seus limites de poder apareçam, aos poucos, a saudade da caretice, do atraso, da estupidez voltará. No entanto, Bush teve um papel importante às portas do século 21: ele nos mostrou com clareza didática a indecência do pensamento reacionário - revelou-nos a maquete, a sínteses de todos seus vícios e sua sinistra coerência, sem um desvio de sua meta de erros: guerra, ecologia, corrupção, num país recebido com 500 bilhões de superávit e abandonado com 1 trilhao e meio de déficit. Bush desmascarou seus direitistas. Antes dele, a América jamais teria eleito um presidente como Obama, negro e intelectual. A direita americana era difusa, muitas vezes disfarçada de patriotismo, de integridade. Clinton quase foi “impichado” porque papou a Mônica Lewinski. Bush destruiu um país e lesionou o Ocidente para sempre e ninguém cogita de punição. Foi preciso o Bush ser um imbecil para os americanos terem saudade da inteligência. Bush nos fez bem; errou tanto que virou progresso. Espero que não seja tarde demais para Obama. 61 ANEXO 2 COMO MUDAR O CORAÇÃO AMERICANO? Moram na alma americana vícios difíceis de curar (10/02/09) A chegada do Obama me faz lembrar com espanto da América que conheci no final dos anos 50. Meu pai, da Aeronáutica, chefiou uma missão na Flórida, comprando aviões da Segunda Guerra para treinamento no Brasil e fomos morar na cidade de St. Augustine, a mais antiga do país, fundada por Ponce de Leon, um espanhol maluco que achou que descobrira ali a Fonte da Juventude. A cidade era igual aquela do “Truman Show” ou do “Back to the Future”. As ruas, pessoas, os comportamentos, tudo parecia programado por uma máquina social obsessiva. A vida era padronizada: abraços gritados, roupas iguais, torcidas histéricas no baseball, finais felizes, alegrias obrigatórias, imensa fé no país. Tudo era um carrossel de certezas absolutas em direção a um futuro garantido. Só uma coisa estava fora da ordem: os negros. Era outra América dentro da cidade. No ônibus amarelo do colégio, eu via meus colegas louros, ruivos e brutos berrando contra os negros que passavam: “Hey, “nigger”, por que teu nariz é tão chato? Hey, “nigger”, por que teu cabelo é pichaim?” Os negros passavam, de cabeça baixa, o rosto torcido de humilhação, num ódio sufocado e inútil. Amontoavam-se no fundo dos ônibus, em pé, mesmo com os carros vazios e

moravam num bairro de madeira e terra, perto do porto onde os barcos de camarão fediam. Aquela injustiça me espantava pela ausência de compaixão, eu que vinha de babás negras me beijando, eu que amava as mulatas cariocas que já povoavam meus sonhos de 15 anos. Os negros eram moldados pelo sofrimento e exclusão, disformes, obesos deprimidos, frágeis mulheres engelhadas, todos trêmulos e esfarrapados. Na época da “integração racial” esses negros foram espancados pela ousadia de se banhar em piscinas públicas, onde os brancos jogavam ácido para queimá-los. Obama é uma grande mudança, mas, penso, o que fazer com as raízes fundas da ignorância e da paranóia? Eu tinha medo era dos brancos. Eu era um “nerd” comprido e meio bobo e me chocava com as botas de cowboy marchetadas de estrelas de prata, as facas de mola de onde a lâmina pulava, os casacos de couro que vestiam a chamada “juventude transviada”, a rebeldia reacionária e “republicana” dos anos de Eisenhower. Vi brigas de ferozes galalaus se arrebentando até o sangue no focinho e o desmaio - o sagrado ritual da cultura da porrada dos caubóis. Elvis Presley rebolava na TV e James Dean, morto, ainda estava presente nos gestos e roupas. Havia intolerância entre os próprios brancos: eram os fortes contra os fracos, as meninas bonitas contra as feias, as sérias contra as “galinhas”. As rivalidades eram vingativas e duras. As “galinhas” eram comidas e desprezadas nos “drive-ins”, dentro dos carros envenenados e depois cuspidas para a humilhação coletiva. Eu, turista tropical, era um tipo misterioso: tímido, fraco, não era muito “legível” para eles. Mas, os machões me poupavam pela habilidade que eu tinha de dar-lhes “cola” em “spelling”, soletrando palavras de raiz latina que, para eles, eram enigmas. Não havia espaço para dúvidas naquela cidade, mas eu sentia que aquela solidez de certezas, se rompida, provocaria um desastre. Bem ou mal, eu navegava naquela cultura obsessiva, e consegui namorar 62 Melinda Mills, loura pálida filha de um ex-marine que tinha estado no Rio muitos anos antes e que me mostrou um cartão postal do Mangue, onde ele, certamente, conhecera a Zona e as polacas. Melinda era também frágil e boba, com beijos molhados no cinema onde assistimos “An Affair to Remember”. CHOQUE E MEDO Até que um dia, chegou a noticia terrível. Tinha subido aos céus o satélite russo, o “Sputnik”, girando como uma bola de basquete em órbita da Terra. O pânico foi indescritível. Desde 49, quando a Guerra Fria começou , com a explosão da bomba H soviética, superando a liderança dos destruidores de Hiroshima, os americanos esperavam outra catástrofe; era visível. Em minutos, a cidade parecia um campo de refugiados, de perdedores, com cabeças inchadas, humilhados pelos comunistas invasores. No colégio, começaram “fire drills” incessantes, alarmes evacuando os alunos para porões e abrigos anti-atômicos. O então senador Lyndon Jonhson berrou: “Brevemente estarão jogando bombas atômicas sobre nós, como pedras

caindo do céu...” No alto, o satélite Sputnik humilhava os americanos, com seus “bip bips”- ameaçadoras gargalhadas do espaço. A partir desse dia, lá em baixo, na cidadezinha da Flórida, eu mudei. Não para mim, mas para os outros. Os colegas porradeiros me investigaram com perguntas: “Que você acha? Teu país gosta dos russos?” Eu tremia e escondia minha vaga admiração juvenil pelo socialismo. Eles me olhavam desconfiados: brasileiro, latino, sabe-se lá? Depois disso, não me pediam mais cola de palavras, mal me olhavam. O pai de Melinda, putanheiro do Mangue, mal me cumprimentou de sua poltrona esfiapada. Melinda ficou mais pálida e nosso namoro definhou. Nestes dias eu vi o “choque e pavor” da América profunda, um prenuncio do horror de 2001, que Bush e sua gang estimularam para transformar o mudar o mundo numa aldeia evangélica reprimida. Em um de seus discursos, Obama disse que os americanos precisavam se “re-educar” em relação ao resto do mundo. Outro dia, li a mesma coisa em um livro extraordinário : “The Limits of Power” de Andrew Bacevich, texto que pauta intelectuais hoje nos USA, incluindo o Obama. Andrew nos mostra que há uma estrutura psico-social quase “genética” que tem se ser reformada no país, para que alguma mudança real se faça, para além da euforia da esperança. Ele nos mostra que a idéia de sacrificar-se pelo conjunto, de se contentar com pouco, de consumir menos é impenetrável nos corações americanos. Se Obama não conseguir, a estupidez e ignorância voltarão com o “totalitarismo da maioria”. E ai, a barra pesará. 63 ANEXO 3 O BRASIL VIROU UM GRANDE PMDB Estamos anestesiados diante da vida política do país (17/02/09) A entrevista de Jarbas Vasconcelos na revista “Veja” desta semana é uma rara ilha de verdade neste mar de mentiras em que naufragamos. Precisávamos dessas palavras indignadas que denunciam a rede de mediocridade política e de desagregação de poderes que assola o país, do Congresso ao Executivo. De dentro de casa, Jarbas berrou: “O PMDB é corrupto!” e mostrou como este partido nos manipula, sob o guarda-chuva do marketing populista de Lula. O que Jarbas Vasconcelos atacou já era voz corrente entre jornalistas, inclusive o pobre diabo que vos fala. Mas sua explosão é legítima e incontestável, vinda de um dos fundadores do PMDB, depois transformado nesta anomalia comandada pelo Sarney que é o líder sereno e hábil da manutenção do atraso em nossas vidas. Duvidam? Vão a S. Luis para entender o que fez esse homem com seu jaquetão impecável há quarenta anos no poder daquele estado. Jarbas aponta: “a moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador Sarney, (...) que vai transformar o país em um grande Maranhão”. Mais que um partido, o PMDB atual é o sintoma alarmante de nossa doença secular. Era preciso que um homem de estatura política abrisse a boca finalmente, neste país com a oposição acovardada diante do Ibope de Lula. Estamos aceitando a paralisia mental que se

instalou no país, sob a demagogia oportunista deste governo. O gesto de Jarbas é importante justamente por ser intempestivo, romanticamente bruto, direto, sem interesses e vaselinas. É mais que uma entrevista - é um manifesto do “eu-sozinho”, um ato histórico (se é que ainda sobra algo “histórico” na política morna de hoje). E não se trata de um artigo de denuncia “moral” ou de clamor por “pureza”; é um retrato de como alianças espúrias e a corrupção “revolucionária” deformaram a própria cara da política brasileira. Com suas alianças e negaças, o Governo do PT desmoralizou o escândalo! Lula revalidou os velhos vícios do país, abrindo as portas para corruptos e clientelistas, em nome de uma “governabilidade” que nada governa, impedido pela conveniência e interesses de seus “aliados”. É como ser apoiado por uma máfia para combater o mal das máfias. Jarbas não tem medo de ser chamado de reacionário pelo povão ou pelos intelectuais que ainda vivem com o conceito de “esquerda” entranhado em seus cérebros, como um tumor inoperável. Essa palavra “esquerda” ainda é o ópio dos intelectuais e “santifica” qualquer discurso oportunista. Na mitologia brasileira, Lula continua o símbolo do “povo” que chegou ao poder. A origem quase “cristã” desse mito de “operário salvador”, de um Getulio do ABC, lhe dá uma aura intocável. Poucos têm coragem de desmentir esse dogma, como a virgindade de Nossa Senhora. A última vez que vimos verdades nuas foi quando Roberto Jefferson, legitimado por sua carteirinha de espertalhão, botou os bolchevistas malucos para correr. Depois disso, chegou o lulo-sindicalismo, ou o peleguismo desconstrutivo, que empregou mais de 100 mil e aumentou os gastos federais de custeio em 128 por cento. O lulismo esvazia nossa indignação, nossa vontade de crítica, de oposição. Para ser contra o quê, se ele é “a favor” de tudo, dependendo de com quem esta falando - banqueiros ou desvalidos? Ele põe qualquer chapéu - é ecumênico, todas as religiões podem adorá-lo. Ele ostenta uma arrogância “simpática” e carismática que nos anestesia e que, na mídia, cria uma 64 sensação de “normalidade” sinistra, mas que, para quem tem olhos, parece a calmaria de uma tempestade que virá para o próximo governante. Herdeiro da sensata organização macroeconômica de FHC que, graças a Deus, o Palocci manteve (apesar dos ataques bolchevistas dos Dirceus da vida), Lula surfou seis anos na bolha bendita da economia internacional, mas não aproveitou para fazer coisa alguma nova ou reformista. Lula tem a espantosa destreza de nos dar a impressão de que “tudo vai bem”, de que qualquer critica é contra ele ou o Brasil. Como disse Jarbas em sua entrevista, o governo do PT “deixou a ética de lado e não fez reformas essenciais, nem nada para a infra-estrutura e o PAC não passa de um amontoado de projetos velhos reunidos em pacote eleitoreiro” (...) e o Bolsa Família, que é o maior programa oficial de compra de votos do mundo, não tem compromisso algum com a educação ou com a formação de quadros para o trabalho”. A única revolução que deveria ser feita no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios, um Estado que só tem para investir 0,9 do PIB. A tentativa de modernização que FHC tentou foi renegada pelo governo do PT. Lula fortaleceu o patrimonialismo das velhas oligarquias e o PAC é uma reforma cosmética, como a plástica da Dilma, que ele quer eleger para voltar depois, em 2014. O único projeto do governo é o próprio Lula. Em cima dos 84% de aprovação popular, nada o comove. Só se comove consigo mesmo. Lula se apropriou de nossa tradicional “cordialidade”

corrupta para esvaziar resistências. Assim, ele revitalizou o PMDB - o partido que vai decidir nosso futuro! Hoje, não temos nem governo nem oposição – apenas um teatro em que protagonistas e figurantes são o PMDB. E no meio disso tudo: o Lula ,um messias sem programa, messias de si mesmo. 84% do povo apóiam um governo que acha progressista e renovador, quando na verdade é ultra-conservador e regressista. Nem o PT ele poupou para “conservar” a si mesmo. O PMDB é sua tropa de choque, seu “taliban” molenga e malandro. Agora...tentem explicar este quadro que Jarbas sintetiza com a clara luz de sua entrevista para um pobre homem analfabeto que descola 150 reais por mês do Bolsa Família...vivemos um grande auto-engano. 65 ANEXO 4 NO BRASIL, O PERIGO ESTÁ NO “BEM” (10/03/09) Lá do fundo da Idade Média o arcebispo de Olinda e Recife, Jose Ribeiro Sobrinho excomungou uma família e os médicos que fizeram um aborto em uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos. E o estranho ser togado de arcebispo ainda boquejou: “A Lei de Deus está acima da Lei dos Homens.” Ou seja, a Santa Joana D´Arc foi queimada viva pela lei de Deus. A inquisição foi Lei de Deus, com as milhares de horrendas torturas feitas sob as bênçãos de um Deus cruel? Espantosamente, o Vaticano, nos últimos dias, apoiou a decisão deste arcebispo medieval de Olinda e Recife. Isso me lembra outro prelado idiota que uma vez excomungou um juiz que autorizou o aborto de um feto descerebrado e falou sobre o estupro: “os filhos de mulheres estupradas devem nascer e serem educados pela igreja, como órfãos infelicitados”. Talvez fosse essa a pior desgraça, o sinistro destino para uma criança: “Quem é você?” “Eu sou o filho do Moto-Boy assassino, educado pelo arcebispo Jose Ribeiro Sobrinho”. É espantoso o descompasso da Igreja Católica com os tempos atuais, justamente quando a História está de novo tão cruel, quando nós precisamos tanto de doçura, tolerância, que não é dada por este papa Bento 16, de olhos frios e inquisitoriais. Ele foi vacilante com o bispo maluco que negou o holocausto, como sendo um lero lero de judeus, foi evasivo com os pedófilos religiosos da América, é contra os anticoncepcionais, contra as homossexuais, contra tudo. Daí o sucesso dos canalhas que inventaram os Bancos de Dízimos e os supermercados da Fé. No mundo inteiro há uma reviravolta ética, um maniqueísmo ao avesso, um cinismo que nos habitua ao inaceitável. Bush, a besta quadrada do apocalipse, jogou o mundo no caos, em nome de Deus. Enquanto isso, em nosso mundinho brasileiro, na aliança do governo Lula com os mais nefastos canalhas, vemos uma inversão do mal em bem. O bem do Brasil (leia-se Lula) tem de passar pela aliança com os escroques para atingir um bem futuro de uma sociedade mais justa (leia-se 2010). Aliou-se ao PMDB - o mal da hora -, na sua maioria filhos do pior patrimonialismo nordestino, essa pasta feita de bigodes, cabelos pintados, focinhos vorazes , gargalhadas boçais e salivantes, inimigos antigos se beijando. Pode até ser que isso

possa ser um bem a longo prazo alertando-nos para o obvio: é preciso reformar a política no país. Como se sentem, diante desta aliança, os intelectuais que tanto apoiaram o PT, os bondosos de carteirinha, os cafetões da miséria, os santos oportunistas? Pela lógica “revolucionária” eles não justificavam todas as sacanagens pela utopia de um futuro, por uma pureza maior herdada do socialismo? Na época da Guerra Fria era mole. Contra todas as evidencias (Hungria em 56, Praga em 68) o mal era o capitalismo, e o bem o socialismo. Agora, com a crise, está de volta este simplismo criminoso. Aquele picareta exibicionista do Slavoj Zizek já está inventando um stalinismo renovado, como vereda para a verdade luminosa. Tentamos inventar um mal separado do bem, mas está tudo misturado. E esta bolha maldita que enriqueceu o mundo em 10 anos e depois derrubou tudo? O bem financeiro virou o mal? Está difícil entender. Durante a ditadura, éramos o “bem”. O mal eram os milicos. Acabou a dita e as “vitimas” (dela) pilharam o Estado. O bem está virando um luxo e o mal é quase uma necessidade social. Sem participar um pouco do mal, não 66 conseguimos viver. Como ser feliz olhando as crianças famintas? Temos de fechar os olhos. A felicidade é uma virtude excludente. Ser feliz é não ver. O mal está virando um mecanismo de defesa. Quem é o mal: o assaltante faminto ou o assaltado rico? Ou nenhum dos dois? Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? O que é o bem hoje? É lamentar tristemente uma impotência, é um negror melancolico? O Mal é sempre o outro. Ninguém diz, de fronte alta: “Eu sou o mal!” Ou: “Muito prazer, Demônio de Almeida”. Até o homem-bomba se acha o bem, pois sua missão é destruir a modernidade, e para a razão da tecno-ciência eles são o mal porque incompreensíveis. O mal no mundo hoje é o “incompreensível”. Nem um “bem” tradicional se sustenta mais, vejam o arcebispo excomungante e o papa burocrático. Todo pensamento aspira à totalidade. O bem é um desejo de harmonia, de Uno, de totalidade ou o bem é suportar heroicamente o incontrolável, a falta de esperança, a impotência „democrática‟? Hoje, com a queda das utopias, a razão tenta se adaptar ao absurdo pós moderno. Mas, ao denunciar o Mal, vivemos dele. Eu mesmo ganho a vida denunciando o que acho “mal”. Quem controla o mal? A verdade é que o mal está entranhado na matéria profunda do mundo. A verdade é que fomos construídos nessa dialética louca entre tragédia e harmonia, entre guerra e paz e isso é incontrolável. Muitas vezes na historia o “bem” foi devastador. Nietzsche escreveu em sua obsessão de libertar o homem: “Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos.” (in Gaia Ciência). No Brasil, o mal não é épico, como falou Nietzsche, referindo-se, claro, a solidez estúpida da metafísica e da religião. No Brasil, o que nos assola é o pequeno mal, enquistado nos estamentos, nos aparelhos sutis do estado, nos seculares dogmas jurídicos, nos crimes que são

lei. O mal aqui está nos pequenos psicopatas que, quietinhos, nos roem a vida. O mal do Brasil não esta na infinita crueldade dos torturadores ou das elites sangrentas; está mais na sua cordialidade. Aqui, o perigo é o Bem. 67 ANEXO 5 O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA TERRA A imprensa não vê o encanto de nossas tradições (24/03/09) O senador chegou e me botou o dedo na cara: “Vocês, jornalistas que infestam o país, agora só falam do PMDB, da corrupção no Congresso. Vocês fervilham como formigas em cima de instituições que não conhecem. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. Vocês se esquecem de nossas tradições e atribuem malignidade à pequenas ações inocentes, hábitos incrustados em nossa alma como a cana, o latifúndio, como nossos bigodes que vocês chamam de „bregas‟, nossos jaquetões e gravatas zebradas, a tristeza conformada no rosto de nossas esposas, as alegres tradições “country”, os churrascos eufóricos, as ancas de amantes risonhas, as jóias de ouro tilintando em pescoços e pulsos, a viril antipatia de nossos chefes políticos. Nisto tudo vocês deviam ver que alguma coisa sólida e cultural existe neste Brasil e que isto é belo. Quando eu faço uma piscina azul em minha casa no sertão, ela brilha como um retângulo de esperança em meio à seca. Não é arrogância, mas solidez. Não é crueldade, pois é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola porque alguém vive feliz em cima. Eu acrescento ordem ao mundo com minhas motocicletas no agreste, eu sei da beleza de passear de Harley Davidson com minha mulher oxigenada e rechonchuda (chamo-a de minha „potrinha‟), com um belo abrigo Vuitton, para que nossa passagem cause um “Ohhh!” nos “bóias-frias” das lavouras. Sei que há orgulho nisso, mas grande é meu prazer do “pudê” herdado, o prazer de ver o fantasma de meu avô entre os canaviais flamejantes, de ver as mãos magras agarrando os chapéus - homens humildes e curvados quando eu passo. Esses belos instantes servem de bálsamo contra tantos que acham que o Brasil piorou. Muita coisa melhorou, sim. Vejam minha lancha ancorada no Iate Clube, vejam as parabólicas em meu teto de fazenda, vejam os gritos alegres de meus filhos no carro japonês rolando na poeira da fazenda, o rubro Mitsubishi entre vacas magras, o jatinho pousando entre caveiras de burro. Não pense que meu peito se confrange diante da palavra „corrupção‟ no PMDB; não há corrupção entre nós; é apenas a continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos, na relação entre a coisa pública e privada, sempre nos pertenceu. Ou você acha que haveria obras e progresso sem esta simbiose? Não há casamento sem interesse. É belo e progressista o interesse político. A honestidade alardeada é hipocrisia. Este Jarbas (não o nosso Barbalho, mas o Vasconcelos) está sabotando uma secular dinâmica política para se promover...Vaidade pura...Ele está prejudicando a doce aliança PT-PMDB, que permite que o papis evolua, como bem disse nossa candidata em campanha (até segunda ordem) Dilma. Reclamam dos 181 diretores, mas esquecem que eles formam um pelotão cordial de amigos fiéis. Admire a beleza superior deste imenso patrimônio espiritual que nós possuímos no

Partido, feito de favores, amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. É legítimo que eles queiram incluir mais e mais os bens do país como uma prótese de suas vidas privadas, coroadas pelo êxito. Sem enriquecer, para quê fazer política? Nossos peitos estão felizes em nossas camisas de seda que vieram de Miami; há um progresso enorme em nossas famílias, mas os pessimistas só olham para as costelas dos famintos. 68 Querem o quê? Que fiquemos magros também, que dividamos nossas conquistas com os que nada têm, querem socializar a miséria? Ademais, é impossível salvá-los. São 40 milhões de pobres, chocados em quatro séculos de tradições. A única solução é virar os olhos para a beleza do poder no campo e na cidade: a alegria de sermos senhores feudais sobre cidades inteiras, a volúpia de ver os fulgurantes escritórios, a hábil tessitura de negócios fiscais, a grande arte dos lucros fabulosos, a sensação épica na hora da propina, as mandíbulas salivando a cada grande negócio. Tudo isso é belo! Quem disse que o mundo é para mudar? Isto é herança protestante de frios anglo-saxões. Será que vocês não vêem, jornalistazinho petulante, que vocês, profissionais do pessimismo, são cegos para outras formas de beleza? O encanto dos shoppings de luxo, as paisagens urbanas vistas através do “blindex”, as velozes paixões dos cartões de crédito, o eufórico alarido dos restaurantes, os roncos de jet-skis no mar, os gemidos das amantes nos lençóis de cetim, os jatos prateados, a euforia dos almoços de conchavos e “troca-trocas”, tudo isto que doura o nosso progresso? Por que só olhar para o fracasso dos famintos? Esta crise mundial da economia vai se avolumar. Estou me lixando...pois quando o país definhar, continuaremos a ver o que havia de natural e belo em nossas vidas, o que era a continuidade da ordem do mundo. E, a cada catástrofe (como vocês chamam), adaptaremos (com incrível habilidade) nossa felicidade para os novos tempos. Sempre estaremos bem em qualquer governo, progredindo, honrando nosso passado de donatários. E quando aumentarem as invasões e convulsões sociais, com os inevitáveis extermínios em massa, as esterilizações obrigatórias, as fogueiras de favelas, vocês verão que isso é natural, que isso é o “survival for the fittest” - (“sobrevivência do mais forte”, como bem traduziu meu filho de Harvard...). E quando a argentinização, venezuelização ou mesmo a bolivianização do Brasil se fizer, iremos naturalmente para o Exterior, com nossas fortunas (que já estão lá) e ainda sentiremos no peito o orgulho de ver a sobrevivência de nossa tradição colonial portuguesa. Nós nos ufanamos deste Brasil que se manteve tão sólido e parado no tempo – graças a nós, sem modéstia!” O orgulhoso político ajeitou o jaquetão e se encaminhou de fronte alta para o salão azul do Senado. Era feliz. 69 ANEXO 6 A VERGONHA PODE NOS LEVAR A SABEDORIA A paralisia política do país nos ensina muito (31/03/09) Outro dia escrevi uma frase não totalmente idiota. Cito-me: “Há alguma coisa não-acontecendo no Brasil que me apavora!” A sensação é de paralisia com agitação, falsos tremores febris, acontecimentos irrelevantes que parecem importantes, bobagens que enchem os noticiários e que se esvaem. Isto cria a impressão de que algo se movimenta, quando tudo está parado. Este governo desmoraliza os fatos. Eles são soterrados por uma presença excessiva do governo em tudo - Lula o dia todo

na TV, criando uma cortina de fumaça virtual sobre o que não é feito. De repente, Lula sente que tem de ir além do marketing e berra: “Precisamos fazer alguma coisa! Vamos fazer um milhão de casas!” E aí...se defronta com milhares de cascas de banana que ele ignorou nos últimos 7 anos: burocracia, cargos técnicos invadidos por clientelismo político, falta de grana para investir, pois gastou com funcionários públicos quatro vezes mais do que diz que vai gastar com o milhão de casas: 128 bilhões com gastos de custeio e funcionários (as casas custariam 33 bilhões) . Este milhão de casas (quem dera que fosse possível…) vai esbarrar em tudo o que o governo Lula deixou de fazer: simplificação de burocracias, privatizações necessárias, concessões públicas urgentes e reformas em geral. Não abriu caminho para o crescimento e agora quer crescer? Como fazer isso com 0,9 do PIB para investimentos? Depois de tanto getulismo tardio, agora vai ser difícil bancar um JK pós – moderno, com um Estado quebrado. A grande doença histórica que nos infecciona há séculos piorou com o regime de vulgarização de alianças políticas que Lula promoveu esses anos todos. O senado e o PMDB são o grande sintoma deste vexame. Esta doença se espalha a partir do topo da pirâmide de poder. Lula era a esperança do velho populismo e dava um rosto operário concreto aos ideólogos. Controlado pelos comandados de Dirceu, acabou eleito pela habilidade realista de um publicitário. Depois, com a intervenção salvadora de Jefferson, Lula ficou livre para criar essa doutrina que hoje se derrama sobre todos os aparelhos do Estado. Este sórdido “aliancismo” que tudo permite faz a roubalheira ser vista como um mal necessário e inevitável (“ôba!”), o que permite o assalto sistemático à República com a consciência tranqüila, sem medo de punição. O governo desmoralizou o escândalo. O lulo-sindicalismo também herdou uma vaga idéia de “futuro” que habita a ideologia dos comunas oportunistas e cria uma desvalorização do “aqui e agora”, como se o “presente” fosse algo desprezível. Assim, tudo fica parado no ar, nada sai do papel. As promessas e os anúncios bastam; a realização é supérflua. Tudo que tinha de ser reformado, não o será, pois “reforma” repugna pelegos “revolucionários” que ainda pululam no Executivo, restos de uma doença infantil esquerdista. Não só nada avança, como o que antes funcionava está quebrando. Há uma falência múltipla dos órgãos públicos. Esta doença grave é dissimulada pela figura de Lula, com seu carisma de operário guerreiro que fascina o mundo. A estratégia de “mídia em vez de ação” e mais os fragmentos deixados pelos bolchevistas que saíram cria uma virose que se espalha de forma letal pelo corpo de nossa democracia representativa, frágil casca retórica em cima de nosso velho patrimonialismo resistente. 70 E tudo isso é agravado por uma espantosa incapacidade administrativa. A idéia de “competência” é vista com desconfiança, inclusive teoricamente, porque a competência técnica pode “encobrir um desvio neo-liberal, de direita”. “Administrar” é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar, coisa de capitalistas. Essa ambiguidade paralisou processos e projetos, com exceção das regras “macro” que FHC

deixou, em que Lula, por instinto, não mexe. A isso, claro, soma-se seu caráter preguiçoso e deslumbrado que se declina por todos os escalões do Estado. Além de não saber o que fazer, a atitude de se colocar acima da política cotidiana desqualifica a própria política, como sendo coisa menor, o que é uma “sopa-no- mel” para corruptos e vagabundos. Outro aspecto interessante em nosso “karma” de país sem projeto é que, por um lado, lucramos muito com a onda boa da economia mundial (a fase da “bolha bendita”), o que deu base de marketing para o sucesso de Lula no Ibope. Mais interessante ainda é vermos que nosso sistema bancário voraz e egoísta, nosso crédito mixuruca nos preservou um pouco, até agora, da crise financeira internacional. O atraso nos ajudou. E mais tragicômico ainda: isto permite a Lula se gabar de uma economia “protegida”, quando é apenas atrasada. Pela ausência de programas, resta aos donos atuais do poder manter comprado o apoio das “massas”, com bolsas-família e aumentar gastos públicos com fins eleitorais para 2010. E o próximo governo (mesmo se Dilma) que se dane.É isso ai. Tudo o que o governo anterior introduziu e que poderia nos fazer avançar foi paralisado. Estamos diante de um grave retrocesso histórico, que parece calmaria. Mas. E a tempestade? A única vantagem dessas alianças espúrias é nos revelar, por tabela, o horror de nossa degradação. Por desgraça ou sorte, estamos vendo a bruta voracidade da política brasileira. Talvez esta vergonha seja boa a longo prazo. Estamos desmascarados. Em nome de uma governabilidade criou-se uma rede de alianças que impede qualquer governabilidade. Ver a cara de nossa tragédia burlesca talvez seja o começo de alguma sabedoria. 71 ANEXO 7 CARTA ABERTA AOS JORNALISTAS BRASILEIROS Um congressista fala dos recentes escândalos (21/04/09) Prezados jornalistas, Escrevo estas mal traçadas linhas porque não suporto mais ver vocês perdendo tempo ao criticar o Senado e a Câmara. Está na hora de alguém (no caso, eu) mostrar como vocês são ingênuos, esquemáticos e (por que não dizê-lo?) burros. Ficam reclamando nos jornais e TV que os parlamentares têm verbas sem fim, dezenas de assessores, notas fiscais falsas, aviões para as amantes, roubalheiras com empreiteiras e outras minúcias. Vocês jornalistas não entenderam ainda que o mundo de um deputado ou senador é diferente do mundo humano? Vocês não sabem o que é a mente de um deputado. Nós somos escolhidos entre os mais espertos dentre os mais rombudos e boçais. A estupidez nos fornece uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos-puxados. Nós somos fabricados entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões. Nós somos a covardia, a mentira, a ignorância. Nós somos a torta escultura feita de palha e barro, de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos. Para nós, “interesse nacional” não existe. Querem o quê? Que pensemos no interesse de um „grande Outro‟ que não conhecemos? Ora, poupemnos! Isso não existe dentro deste Congresso - só na imaginação de um ou outro parlamentar intelectual, que se sente aqui como donzela em puteiro. Estamos aqui para lucrar; se não, qual

a vantagem da política? Somos uma frente natural contra o „progresso‟. Defendemos o atraso e a lentidão em todas as siglas, do DEM ao PT e, principalmente, no delicioso paraíso de pecados do PMDB, todos unidos contra o tal “interesse nacional”. Nós temos um tempo diferente do vosso. Sabemos que os brasileiros vivem angustiados, com sensação de urgência. Problema deles: apressadinhos comem cru. Este termo “urgência” quer nos transformar em servidores da sociedade civil. Ela é que nos serve. Que nos interessa a pressa nacional? Nosso conceito de tempo é outro. É doce morar lentamente dentro dessas cúpulas redondas, não apenas para maracutaias tão “coisas nossas” - é um vago sentimento de poesia brasileira. Queremos saber se nosso curralzinho está satisfeito conosco. Temos o direito de viver nosso mandato com mansidão, pastoreando nossos eleitores, sentindo o frisson dos ternos novos, dos bigodes pintados, das amantes nos contracheques, das imunidades para humilhar garçons e policiais. Detestamos que nos obriguem a „governar‟. Não é preguiça - porque gastamos mil horas em comissões e conchavos - é por amor ao fixo, ao eterno. E preciso confessá-lo: nós temos a fantasia sexual de „sermos‟ a sociedade. Será que vocês não entenderam ainda que nada nos dobrará? Que nós não combinamos bem com estas cúpulas futuristas do Niemeyer, pois só pensamos em preservar o passado? Futuro para nós é mais grana no bolso e mais “pudê”, sempre. Será que vocês não sacaram ainda que nós não estamos na Câmara de Londres, nem na França ou USA? Nossa única „democracia‟ é um vago amor pelos amigos, uma poética queda para a camaradagem, a troca de favores, sempre com gestos risonhos, abraçando-nos pela barriga, na doce pederastia de uma sociedade secreta. Vocês não imaginam a delícia de serem chamados de “canalhas”, o prazer de sentir-se superior a xingamentos, superior à ridícula moralidade de classe média. Nossa única moralidade é vingar-nos de inimigos, cobrar lealdade dos corruptores ativos, exigir pagamentos de propina em dia. Vocês não conhecem a ventura de chegar em casa, com os 72 filhinhos vendo TV, com a grana quentinha no bolso - uma propina gorda de empreiteira. Vocês não sabem o que é bom... Me dá muito prazer também, escribazinhos de jornal e tagarelas da TV, me dá grande volúpia rir de vossos rostos retorcidos, no afinco de achar o adjetivo que poderia nos desmascarar...Nada nos atinge. Vocês são uns rancorosos...têm inveja de nossos privilégios e imunidades, tem inveja de nosso cinismo, de nossa invulnerabilidade. Às vezes, até acho que fazemos um desafio proposital ao desejo golpista de muitos, para ver até onde os defensores de uma nova ditadura aguentarão nossa falta de vergonha. Por vezes, alguns fracotes têm uns “frissons” de responsabilidade, uns discursos mais acesos, mas tudo se dilui na molenga rotina dos quóruns, nas piadas dos saguões, nas coxas de uma secretária que passa . O Lula já entendeu tudo...ele é mais inteligente que vocês. Ele sacou que não adianta nos contestar. Por isso, ele nos usa gostosamente para seus fins pessoais...Grande Lula! Que bem

que ele nos fez...Lula nos fez florescer como nunca antes neste país, desde Cabral...nós nos refazemos como rabo de lagarto; vejam o Renan, líder do PMDB, vejam Collor, Roriz, Lobões, Maluf, todos regidos pelo grande timoneiro do atraso, o eterno Sarney. Ouso mesmo dizer que estamos até defendendo uma cultura! O país não se governa apenas por novos slogans da moda; um país são séculos de hábitos e cacoetes sagrados. Vocês sabem o que é a beleza do clientelismo? Sabe o que são séculos de formação ibérica, onde um amigo vale mais que a dura impessoalidade dos cruéis saxões? A amizade é mais importante que esta bobagem de interesse nacional! O que vocês chamam de irresponsabilidade e corrupção do Congresso é a resistência da originalidade brasileira, é a preservação generosa do imaginário nacional! Há em nós a defesa de 400 anos de patrimonialismo! E tem mais: tentem esculachar o Congresso...cuidado! Sereis chamados de “fascistas”, de amigos da ditadura...a democracia é para nós apenas um pretexto para a zorra absoluta. Ha ha há!!! Que ironia: nós somos o símbolo da liberdade! Ha ha ha.....!!! Vocês me dão pena...acham que podem nos atingir...somos eternos. Desistam logo, idiotas...! Cordialmente, Fulano, Beltrano e Sicrano. Diretor geral do Atraso, o diretor do Departamento do Baixo clero e o diretor geral de negócios escusos... 73 ANEXO 8 NADA PROVA MAIS NADA Em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices (02/06/09) - Não. - Como “não”? Eu ainda não lhe perguntei nada... - Mas, é “não” mesmo. - O senhor não reconhece sua assinatura neste cheque de 20 milhões, enviado para a conta do governador? - Não. A assinatura parece minha, sei que o teste grafológico em Campinas prova que esta assinatura é minha, mas... não é. Quem me garante que o grafólogo não é comprado por meus concorrentes? Minha empresa constrói os viadutos, aeroportos, represas do estado do meu querido governador, mas se ele me delega as obras, é por amizade... Ele é meu amigo! O senhor é um frio jornalista... não sabe o que é o amor... - Tudo bem, mas o cheque é de sua empresa... Está aqui o nome, número do banco... - Não é da minha empresa... - O senhor não é dono da CAG (Construtores Associados Gurupi)? - Não me lembro... - Mas, o senhor esqueceu o nome de sua empresa? - Esta é apenas uma subsidiária que já fez parte da “holding” e não faz mais; ela só existe em nome de D. Silvaneide, viúva de meu ex-sócio que já tinha saído do grupo quando, em circunstâncias misteriosas, apareceu assassinado no Motel Crazy Love e, mesmo antes de morrer, que Deus o tenha, ele tinha transformado a CAG em duas sub-ramificações com sede em Miami, a ASS & HOLE Inc. e a COCK & DICK participações. Por isso, dizer se este

cheque é meu...é tão difícil quanto decifrar um código genético.... - Como o senhor passou de uma casinha alugada e um Volks há nove anos, para ser dono desse império de negócios? Sua súbita riqueza coincide com a eleição e a re-eleição do seu amigo governador. Como explica o aumento de 37.000 por cento em seu patrimônio? - Trabalho duro e sorte, meu filho... - Um operário teria de trabalhar 3.300 anos, sem comer e sem gastar, para ganhar o que o senhor acumulou em 9 anos. Como é possível? - Sei lá... por que tenho de lhe dar satisfações? - Imprensa... o senhor está sendo acusado... - Estou me lixando para a Imprensa, dane-se a opinião publica. Mas, afinal de contas, você quer provar o quê, rapaz? - A verdade! - Mas, o que é a “verdade”? Ah..quer saber? Tudo bem, porra, vou desabafar...Vou lhe dizer, senhor jornalista. Vocês pensam que vivem no mundo da “verdade”, essa abstração moral, jurídica?... Pois saiba que “o fabuloso está no comércio”, como escreveu Paul Valery. Pensa o quê, porra? Sou culto... Olhe bem para mim. A verdade sou eu! Eu estou no lugar da verdade, entre o poder e o comércio! Este país foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Não foi feito com frases feitas, não... Há uma dialética fina entre dinheiro público e a cobiça privada, há uma grandeza insuspeitada na apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias, qualquer canalzinho de esgoto tem grande poder fertilizador. A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de “roubalheira”, eu chamo de “progresso”, um progresso português, nada da frieza anglo-saxônica; trata-se do excremento como motor da história... São Paulo foi construída com esse combustível, os 74 prédios repousam sobre estes fundamentos... Brasília foi feita de lindas ladroagens... Tudo que é belo e bom nasceu da merda... Essa é a verdade do Brasil, que vocês querem condenar, falando estas bobagens sobre moralidade. O resto é ilusão. - Mas... e o interesse público, o império da lei? - Corta esses resíduos iluministas.... Os que vocês chamam de corruptos, são os melhores homens do país... Empreendedores, grandes “espadas” imaginosos, poetas dos trambiques, carunchos da lei vivendo nas brechas dos códigos, homens que produzem o novo, contra a pasmaceira do bom-mocismo nacional.... - O senhor acha normal um banqueiro dar dinheiro para o mensalão e ser o xodó dos tribunais? - Vocês não entendem que comprar deputado é uma obrigação empresarial? É a mercadoria mais barata...Acusam a mim e outros e não percebem que um golpe isolado só serve para dissimular um roubo muito mais geral, que é justamente o crime da “normalidade”. A ingenuidade de vossas denúncias apenas dá uma sensação de “transparência” ao povo... Mas, no fundo, vocês absolvem as grandes quadrilhas; o roubo legal, normal, permitido em lei, ninguém denúncia.... Quanto mais vocês criticam a exceção, mais legitimam a regra....Veja: só de INSS nós empresários devemos cerca de 100 bilhões... A indústria das liminares nos protege... o FGTS, quem recolhe?... E o imposto de renda? Metade dos bancos não paga... E vocês, românticos, bobos, atacando uma malandragenzinha isolada...

- Mas, doutor... (o repórter já hesitava, varado de dúvidas, trêmulo) há provas concretas contra o senhor... O vídeo em que o senhor compra aquele senador... com diálogos, gargalhadas, entregando uma mala preta... Tudo filmado... Foi ao ar na TV! Como o senhor explica aquela cena gravada?... - Já expliquei. Ensaio. Eu estava ensaiando uma peça de teatro para meus funcionários na festa de fim de ano... Aquele senador que conversa comigo, quer ser ator... Acho ele até meio veado... Mas é teatro... Quando ele diz: “Aqui está a grana, na mala preta!” e eu respondo: “Ôba, oh admirável mundo novo, o dinheiro é a mola da vida!” - eu estou citando Shakespeare... É arte, entende? (falando baixo para evitar o gravador: “Tudo pode ser negado... ah ah... é só dizer „não‟ ”.) - Então, o senhor não fez nada? - Não. - E essas provas cabais, definitivas?... - Olha, meu filho, provas não provam mais nada. Sabe por quê? Eis a minha mais profunda verdade: Eu não sou eu! Eu é um outro.... - E como é seu nome então? - Não me lembro. - E como é então o nome do “outro”? - Não sei. Meu filho, desista; nós não existimos. “A vida é a ilusão dos sentidos”, como disse... - Quem? - Um filosofo do Maranhão...um com bigode.. - Qual é o nome dele? - Não me lembro...ele já morreu há muito tempo, mas não sabe ainda...

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