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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO

V MESTRADO EM ESTUDOS AFRICANOS

O Senegal nas rotas lusíadas

Contributo para o estudo da presença da Língua Portuguesa na África Ocidental a partir do século XV

Dissertação apresentada por Maria de Lurdes Pires Gomes Martins Reis Leitão

Orientadora:

Professora Doutora Elvira Mea

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto

2007

INTRODUÇÃO

“… e o que se mostrava no mapa mundy, quanto ao desta costa, nom era verdade, ca o nom pintavam senom a aventura; mas esto que agora he posto nas cartas, foe cousa vista por olho, segundo já tendes ouvido” Gomes Eanes de Zurara 1

A partir da Literatura de Viagens 2 sobre os Descobrimentos Portugueses na Costa Ocidental de África, tentamos conhecer melhor as movimentações dos navegadores portugueses naqueles novos lugares e o relacionamento que estabeleceram com povos tão diferentes cuja existência se desconhecia. Todos os temas abordados, as referências feitas por esses viajantes, testemunhas oculares da época, podem ser pistas para compreender os povos africanos, os seus modos de vida, os seus interesses, as suas acções, porque falam “de cousa vista por olho” 3 . Por outro lado, aspectos da geografia dos lugares descritos podem também contribuir para explicar comportamentos e acrescentar dados para a construção da História desses povos; é a face visível que consideramos assemelhar-se à da época pré-colonial e pós-colonial, e que poderá ajudar a explicar movimentos dos grupos e dos reinos que ali viviam. Gostaríamos de contribuir, principalmente através de textos ou registos dos portugueses da época das Descobertas, para trazer não só conhecimento sobre as realidades observadas pelos portugueses, verificar como foram interpretadas por eles, mas também identificar condicionalismos da natureza sobre a acção do homem, investigar sobre os reinos africanos existentes, procurar compreender as vivências e as acções humanas, num espaço muito extenso, com características geográficas e especificidades climáticas muito distintas das da Europa. Por isso, é importante também descobrir a humanidade africana, os seus modos de vida, os seus contactos, as suas mudanças e os seus interesses, as marcas culturais que deixaram, e eventualmente, identificar aspectos culturais que permaneceram até aos nossos dias e que os exploradores portugueses teriam encontrado.

1 G. E. de ZURARA (1453); vide ZURARA, Gomes Eanes de, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (Introdução pelo Visconde de Santarém), publicada por J. P. Aillaud, Paris, 1841, Cap. LXXVIII,

“Das legoas que estas caravellas do Iffante forom a allem do cabo, e doutras cousas místicas”, pp. 371-

372

2 Ao longo deste estudo, e como fizemos na nota supra, a indicação de um autor seguida de data constitui uma referência à data de produção do referido texto

3 G. E. de ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. LXXVIII, pp. 371-372

Neste sentido, procuramos dados sobre a relação destes povos com os portugueses e com a Língua Portuguesa. Queremos recolher vestígios do passado que possam explicar o interesse crescente do Senegal e dos senegaleses pela Cultura e Língua Portuguesas, na actualidade. Esse interesse terá origem nas memórias de um passado remoto? Terá outras causas, na época presente? Ou haverá uma confluência das consequências do passado e dos interesses actuais do país? Com o nosso estudo, pretendemos captar principalmente elementos que se relacionem com os territórios do Senegal e a zona circundante que faz fronteira com a Gâmbia, a Mauritânia, o Mali, a Guiné-Bissau e a República da Guiné (Conacri), embora não existisse esta divisão territorial em países, nem quando os portugueses descobriram o continente africano nem mais tarde. Ou seja, na nossa análise sobre o passado, devemos integrar os dados no contexto de toda a África Ocidental (Guiné, no século XV). Depois da Conferência de Berlim de 1884, a organização do território criou contextos e perspectivas específicas. Ainda assim, hoje, como há quinhentos anos, esta região apresenta determinados traços geográficos e culturais que devem ser realçados para compreender como foi condicionada pela natureza a fixação de múltiplos grupos humanos, com características muito específicas nos seus modos de vida, e conhecer também os interesses e as necessidades que moveram as suas acções ao longo dos tempos, antes e depois da colonização. O Senegal é um Estado no litoral do Oeste africano. Com uma superfície de 196722 km²; o seu relevo é plano e pouco elevado. Muitos planaltos se estendem a perder de vista, mas as altitudes são sempre inferiores a 130 metros. Perto da fronteira da Guiné, no Sudeste, encontra-se o ponto mais elevado do país, nas montanhas do Fouta Djalon (581m). No Noroeste, os planaltos ultrapassam ligeiramente os 100 metros e a sua altitude baixa progressivamente de Leste para Oeste, não ultrapassando os 20 metros no Ferlo ocidental, no Siné-Saloum e na Casamansa. Também se encontram dunas fixas que se estendem na região de Cayor e de Jalofo. Devido à escassez e à irregularidade das chuvas, o Senegal é atingido frequentemente por períodos de seca que provocam consequências dramáticas sobre o equilíbrio ecológico e sobre as actividades humanas. O clima, a exploração agrícola contínua e as más escolhas de produtos a cultivar causaram uma grave erosão dos solos, já de si pouco variados, excepto na região de Dacar, no litoral. Predominam os solos arenosos, mais fáceis de trabalhar, e os solos argilosos, mais compactos e mais difíceis de cultivar.

O rio Senegal estende-se ao longo de 1700 km, do Fouta Djalon, na República

da Guiné (Conacri), a Saint-Louis, percorrendo o território senegalês de Sul a Norte e delimitando as fronteiras deste com o Mali e a Mauritânia. Este rio foi ocupado pelo mar há 5500 anos, construindo um delta ao longo dos tempos, cujas correntes fluviais são constituídas por areia muito fina com solos muito salgados, a Oeste de Richard Toll. Este rio favoreceu a penetração colonial no Sudão, sendo hoje factor de desenvolvimento e de integração regional, possuindo um vasto potencial de aproveitamento agrícola, através dos projectos de irrigação desenvolvidos pela Organização para a Valorização do Rio Senegal, na qual participam a República da Guiné (Conacri), a Mauritânia, o Mali e o Senegal. É corrente 4 dizer-se que o nome do

país provém da expressão “sunugal”que significa “a minha piroga”; isso explica a importância atribuída ao rio que se transfere para a designação do próprio país. No Senegal correm ainda outros três rios importantes: o Casamansa, o Gâmbia e

o Saloum. As regiões da Casamansa e do Siné-Saloum, nomes que advêm dos rios que as atravessam, são regularmente submersas pelas marés. A Gâmbia é um pequeno Estado de 11295 km², um enclave no território senegalês que acompanha o rio do mesmo nome, não tendo nenhuma das suas margens mais de 30 km de largura.

A península do Cabo Verde apresenta um relevo de colinas e de planaltos, com

solos pedregosos; ao longo da costa Norte, encontram-se dunas litorais que isolaram os lagos, testemunhos da última submersão marítima. Esta área apresenta um relevo vulcânico: os montes das Mamelles elevam-se em Dacar a 105 metros de altitude e são

o que resta de um planalto antigo de origem vulcânica. Os pequenos planaltos do Cabo

Manuel, em Dacar, e da ilha de Goreé constituem-se de lavas e todos estes relevos formam uma costa rochosa. As costas Sul e Oeste da península são, aliás, geralmente acidentadas, com falésias. Referimos ainda, pela proximidade geográfica, a existência do rio Níger. Verdadeira espinha dorsal do território maliano, tem suscitado muito interesse dos

geógrafos e dos historiadores. Os mistérios ligados à orientação, à nascente, ao estuário

e às cidades próximas do maior rio da África ocidental (4200 km desde a nascente, na

República da Guiné, até à foz na Nigéria) só foram esclarecidos por vários exploradores

4 A. D. BOILAT (1853); vide BOILAT, Abbé David, Esquisses Sénégalaises, Karthala, Paris, 1984. Esta ideia, profundamente enraizada, é, ainda assim, contestada por autores como Etienne Smith; vide SMITH, Etienne, “La nation «par le côté» - le récit des cousinages au Sénégal", in Cahiers d’études africaines, parentés, plaisanteries et politique, 184, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, 2006

nos séculos XVIII e XIX. Este rio é parcialmente navegável em território maliano, especialmente no delta interior que se forma a partir de Ségou. O delta vivo cobre uma superfície de 30000km² e estende-se numa imensa planície com os seus múltiplos braços que formam um mar interior. As águas do Níger alimentam numerosos lagos, fazendo a ligação entre a zona de savana e a desértica. Sendo fonte de vida para numerosos pastores e agricultores, este rio testemunha a presença de civilizações e de impérios africanos. Ainda no Mali, encontramos o deserto do Sara que cobre metade da superfície do país, a Norte de Tombuctu e de Gao. As dunas dominam. Só alguns oásis e poços escavados pelo homem permitem aos raros habitantes viver ali da pastorícia e do comércio do sal. Os dias tórridos, as noites frias e as tempestades de areia tornam a vida quase impossível no deserto. Mas é na Mauritânia que se sente a omnipresença desta força poderosa do deserto do Sara, como se fosse um grande oceano de areia. Neste país de 1030700km², o único curso de água importante é o Senegal que, por esse motivo, é simplesmente chamado “o rio”. Toda a produção agrícola se concentra na orla do rio que, no final do “hivernage”, a estação das chuvas, chega a atingir 20 km de largura perto do seu estuário. Na estação seca, o rio encontra-se abaixo do nível do oceano e este último tem tendência a penetrar profundamente no interior das terras. O rigor extremo do clima desértico é temperado apenas no Sul, durante a estação das chuvas, e na orla costeira. A Mauritânia é pois, naturalmente, um país com baixa densidade populacional, praticamente nula a Leste de Nouakchott. Ao longo dos tempos, a situação de finisterra do Senegal terá proporcionado a fixação de vários grupos humanos e de vagas migratórias sucessivas de povos, de origens diversas, vindos principalmente do Norte e do Leste. No rio Senegal terão passado os mais antigos e importantes fluxos migratórios da sub-região: grupos negros do Sara, outros mestiços berberes que terão fugido para o Sul mais húmido e populações sudanesas autóctones ou vindas do Leste. Estes encontros dariam azo a conflitos e ter- se-iam constituído grupos, até compor a originalidade étnica senegalesa actual. Contudo, a informação histórica sobre a África Ocidental e sobre os territórios do Senegal é, em geral, escassa e encontra-se muito dispersa. Por outro lado, as relações culturais entre Portugal e o Senegal também não têm sido muito visíveis. É frequente encontrar entre os senegaleses (povo, estudantes e professores) pouca informação, ou ideias infundadas, e expectativas irrealistas relativamente aos portugueses e a Portugal. Visto como um dos países da Europa, Portugal é considerado pelos senegaleses como

um país onde se vive bem. Se se falar do passado, por um lado pensam erradamente, por exemplo, que os portugueses foram os responsáveis pelo início da escravatura em África; por outro lado tendem a valorizar demorada e excessivamente certas ocorrências, causas e consequências da Guerra Colonial nos países lusófonos africanos. Generalizaram ideias sobre esses contextos, expressas demasiadas vezes, sem fundamento e sem contexto ou tempo definidos, causando-nos alguma estranheza por reflectirem um certo desconhecimento de realidades portuguesas do presente e do passado. Ao mesmo tempo, os senegaleses manifestam surpreendentemente enormes simpatias pelos Portugueses, reconhecem com frequência os falantes de Língua Portuguesa e vêem Portugal, ou a Europa, como um paraíso dourado, para onde muitos desejam emigrar em busca de melhores condições de vida. De facto, o contacto directo com este povo, durante alguns anos, permitiu-nos identificar não só indícios de uma enorme falta de informação sobre a História e a Cultura portuguesas, mas sobretudo um interesse particular pela Língua Portuguesa e, em geral, uma afabilidade inesperada para com os portugueses. Desde logo, esse convívio proporcionou-nos uma reflexão privilegiada sobre a presença e as marcas portuguesas que possam permanecer neste povo, independentemente da sobreposição da influência francófona. Foi crescendo a nossa curiosidade sobre várias constatações e evoluímos para um interesse mais sério com o objectivo de responder às nossas questões, dúvidas e perplexidades, neste domínio da influência portuguesa sobre a cultura senegalesa. Por conseguinte, julgamos ser de grande importância aprofundarmos o nosso conhecimento sobre o Senegal, com pesquisas e dados históricos sobre assuntos acerca dos quais existe, por vezes, uma certa visão distorcida ou mesmo falsa, que paira sobre o o passado e o presente português nestes espaços. Até porque novos dados poderão levar-nos a descobrir ligações importantes, desejáveis e úteis para o futuro da difusão da Língua e da Cultura Portuguesas no Senegal. Na verdade, o que nos causou maior admiração foi, sem dúvida, o interesse crescente pela Língua Portuguesa no Senegal. Surgiam-nos impressões contraditórias sobre os objectivos a alcançar com a instituição do ensino do Português. Que motivações teriam os estudantes que frequentam os Cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar? Por isso, inquirimos os estudantes, e os resultados desse processo foram clarificadores, em alguns pontos, sobre as características actuais da cultura senegalesa. Ao mesmo tempo, encontrámos respostas objectivas sobre a ligação dos senegaleses à Cultura e à Língua Portuguesas.

1. A LÍNGUA PORTUGUESA COMO INSTRUMENTO PARA A CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA DE ÁFRICA: O CASO DO SENEGAL

O passado de África continua a suscitar a curiosidade de muitos estudiosos. Ao longo dos tempos, os mistérios que envolvem este continente têm despertado interesses múltiplos e até divergentes. Após as Descobertas dos portugueses, outros europeus se deslocaram para esses mesmos lugares, seguindo os passos dos primeiros navegadores que passaram por aqueles mares, querendo obter as famosas riquezas ali existentes. Por que razão os interesses de vários países europeus coincidiriam, ao mesmo tempo, nos mesmos lugares até então desconhecidos? Foi talvez um momento de grande euforia quando se soube que, no continente africano (à época, designado por Etiópia, sob a influência dos estudiosos da Antiguidade Clássica), tinham sido encontradas as riquezas e as rotas do ouro de que se falava na Europa. Por um lado, a África pré-colonial carece de documentos escritos que nos transmitam informações e testemunhos da época. Não foram ainda identificadas as fontes concretas, escritas ou outras, que teriam apoiado as expedições lusas no século XV. Os conhecimentos anteriores seriam insuficientes para orientar os navegadores para as regiões posteriormente descobertas pelos portugueses porque não se fundamentavam num conhecimento adquirido pela experiência, que trouxe a “clara certidom da verdade” (Fernão Lopes), sendo “a madre de todas as cousas” 5 (Duarte Pacheco Pereira). De acordo com a História, e entre muitos autores que desenvolvem esta ideia, Óscar Lopes apresenta uma explicação fundamentada e especialmente minuciosa para o sentido da aventura portuguesa quatrocentista:

5 ALBUQUERQUE, Luís de, Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, Col. Fórum da História, Publicações Europa-América, 5ª ed., Mem-Martins, 2001, pp. 292, ”Não é menos importante salientar que a prática de uma navegação astronómica, bem como a necessidade de serem observadas as condições físicas da atmosfera e dos mares ajudou a criar o clima propício para o surto de um experimentalismo que veio a dar no decurso do século XVI alguns dos frutos mais sazonados da ciência portuguesa. Nem sempre a invocação da experiência na pena de Duarte Pacheco Pereira exprimirá já um convívio interrogador com os fenómenos do mundo físico, se bem que nalguns passos inegavelmente o acuse; meio século antes, Azurara empregava expressões idênticas a algumas das usadas no Esmeraldo de situ orbis, mas num sentido simplesmente literário. (…) ou quando D. João de Castro procurava uma explicação para a anomalia que notara no desvio da agulha e afastava uma peça de artilharia que lhe estava próxima que supôs ser (e era) a responsável pelo caso, ou , ainda, quando este mesmo navegador mandava lançar fardos de palha às águas da foz de um rio para assim reconhecer a orientação das correntes superficiais nelas criadas, é irrecusável que estavam a considerar a experiência como “madre de todas as coisas” (palavras de Duarte Pacheco Pereira), num sentido positivo, e não retórico.”

“…diz respeito a uma importante conotação que liga a palavra experiência à palavra perigo, que parece não lhe ser etimologicamente afim mas que o é do ponto de

vista paragramático e conotativo, e isto já em latim: um saber de experiência feito não é simplesmente aquilo a que Bertrand Russell deu a designação inglesa de knowledge

by acquaintance. A experiência relacionada com a prática náutica quatrocentista já se

não reduz a uma sedimentação passiva: o ver claramente visto que encontraremos enfatizado em Camões não constitui um simples ver (…) trata-se do saber resultante de

um risco (perigo) que se correu, sob as condições de uma metodologia náutica, cosmográfica e cartográfica afinal tão complexa como a metodologia de um laboratório de experimentação mecânica.” 6 Fomos investigar, procurando apoio em conhecimentos de vários documentos,

narrativas, roteiros e literatura de viagens, em estudos e dados da Literatura, também da Geografia, da Economia e da História. É nosso desejo recorrer, sempre que possível, a documentos escritos em Língua Portuguesa, como contributo para a construção da História de África, para estudar e avaliar a influência dos portugueses e da Língua Portuguesa nos povos que viviam na África Ocidental, com quem os navegadores contactaram pela primeira vez. Interessam- nos especialmente os territórios e os nativos do actual Senegal, como vimos. Assim, no que diz respeito a Portugal, o nosso interesse incide principalmente sobre o momento e

a época em que o Estado Português empreendeu assumidamente viagens de

Descobrimentos, no século XV, ou seja, a partir de 1415, data oficial do início destas aventuras marítimas. Mas incide igualmente sobre a permanência de portugueses nesses territórios ao longo dos séculos, assistindo às várias evoluções que foram ocorrendo junto dos indígenas e a relação de continuidade dos portugueses com África. De acordo com um estudo de História Moderna 7 , as fontes documentais escritas em Língua Portuguesa, sobre as Viagens do Senegal à Serra Leoa (1453-1508), na primeira fase das Descobertas, são as seguintes:

- Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?);

- Este liuto he de rotear…, de um português anónimo (1480-1485?);

6 LOPES, Óscar, A busca de sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Ed. Caminho, Lisboa, 1994, pp.

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7 HORTA, José da Silva, “A Representação do Africano na Literatura de Viagens, do Senegal à Serra Leoa (1453-1508)”, in “Mare Liberum”, nº 2, 1991

- “…certos capítulos das prouincias do titulo real…”, de Valentim Fernandes

(1502);

- Da viagem de Dom Francisco viso rey…, de Mayr /Valentim Fernandes (1505-

1506);

- Crónica da Guiné [versão da], de Valentim Fernandes (1506);

- Descripçam de Cepta por sua costa…, de Valentim Fernandes (1506-1507);

- Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508).

Destes textos, apenas três tiveram um redactor português que coincide com o autor: Gomes Eanes de Zurara, Português Anónimo e Duarte Pacheco Pereira. Não podendo ter acesso a todas estas fontes escritas em Português, quisémos

assegurar, contudo, a informação das fontes mais conhecidas e mais importantes para a História dos Descobrimentos portugueses, para reunir mais informação, de acordo com as referências do mesmo estudo. Assim, referem-se ainda os seguintes textos, um escrito em italiano e os outros dois em Latim, cujos informadores foram portugueses:

- Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do

italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?);

- De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim

(1484-1496);

- De inuentione Africae…, do alemão Jerónimo Monetário, escrito em Latim

(1495?).

De todas estas fontes escritas, sobre os Descobrimentos e várias viagens promovidas pelo Estado Português naquele período de tempo, consultámos com maior

preocupação e regularidade, não só por razões de maior acessibilidade mas também pelo seu significado e importância histórica, as que a seguir se indicam:

- Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?);

- Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?);

- De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim

(1484-1496);

- Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508).

Explorámos também a informação dada por viajantes que, à época, estavam

declaradamente ao serviço do Infante D. Henrique e do Estado Português:

- Carta, Usodimare, (1455);

- Viagens de Luís de Cadamosto (1463-1465?).

Além destes, acrescentamos outros títulos, que não figuram naquele estudo, referentes a uma época mais tardia, que nos permitiram observar a evolução da presença e da influência portuguesas até aos finais do século XVII, de entre os quais analisámos com maior atenção a “Discripção da Costa de Guine e Situação de todos os Portos e Rios della, e Roteyro para se Poderem Navegar todos seus Rios”, de Francisco de Lemos Coelho, um relato, escrito na ilha de Santiago de Cabo Verde, em 1684, redigido por um capitão português, sobre a sua própria vivência nestes lugares, ao longo de mais de duas décadas. Continua a ser necessário consultar as fontes escritas, mas também é indispensável desenvolver métodos e realizar estudos científicos sobre as marcas arqueológicas que existem. Devem investigar-se os vestígios visíveis e analisar-se as culturas hoje existentes, transmitidas sobretudo pela tradição oral. A recolha de dados é muito importante para África, para se compreender e se conhecer melhor, sob pena de se perderem irremediável e rapidamente, conhecidas as influências perturbadoras da globalização, hoje idênticas em todo o mundo, questionando as especificidaddes culturais dos povos. A transmissão oral da História tem imensas limitações, sabemos que aquilo que não se regista, por escrito ou por outra forma material, ou se perde ou se transforma. Diz o povo, em língua portuguesa, que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”. Sabemos que é verdade, pois conhecemos esses fenómenos pela nossa própria experiência do quotidiano, que não difere das outras culturas, nem da africana; por muito que se queiram defender as memórias da cultura de transmissão oral, nunca se poderá aprofundar o conhecimento do passado se não se recorrer a outras fontes e a outros métodos para a recolha de dados. Muita informação se perdeu com o passar dos tempos. Nem os próprios africanos podem garantir ou afirmar toda a história do passado das gerações anteriores. A História de África continua por detrás de uma enorme e densa obscuridade.

1.1. Perspectiva Histórica da Senegâmbia

Embora percorrendo, como pioneiros europeus, toda a costa ocidental africana, os portugueses concentraram as suas actividades na faixa a Sul do Cabo Verde – onde se encontra a actual capital, Dacar. Esta área é designada por Senegâmbia e pertenceu, durante séculos, ao Estado do Gabú e pequenos reinos a ele ligados.

A compreensão da evolução política do reino do Gabú, das suas relações com os vizinhos – e, em particular, com o Fouta – e do conflito entre o animismo autóctone e a islamização exógena, são importantes para a análise do quadro geopolítico encontrado pelos portugueses e da sua evolução até à situação política, étnica, linguística e cultural actuais.

Fundado no século IV pelos berberes, o império do Gana 8 tornar-se-ia um

território próspero ao longo dos séculos, graças ao comércio transariano dos escravos, do sal e do ouro. Estendia-se do Senegal ao Níger, passando pelo Sul da Mauritânia. Koumbi Saleh seria a capital, situada ao Sul da Mauritânia actual, uma cidade florescente. Parece que o Gana animista manifestava uma grande tolerância para com os muçulmanos, dado que a sua capital tinha uma dúzia de mesquitas. Audaghost (hoje Tegdaoust), outra cidade da Mauritânia, era também uma cidade de caravanas próspera.

O ouro do Gana era trocado por tecidos, armas, vidraria e cerâmica com o mundo

muçulmano, por intermédio dos berberes, donos de dromedários. Contudo, o crescimento económico provocou a reacção dos berberes nómadas que se aliaram aos almorávidas, tomaram e queimaram Audaghost (1054) e lançaram a “jihad” - guerra santa – contra o Gana animista. O Império do Gana sobreviveria até ao século XIII, antes de ser anexado ao Império do Mali. Uma das principais consequências para a região foi a conversão ao Islão da maior parte da população. Os antepassados dos sérères, jalofos, toucouleurs e peuls estariam implantados

entre o Tagant e o Adrar (ou seja, na actual Mauritânia) e participariam na intensa actividade do reino de Tekrour, a Ocidente do império do Gana, em ambas as margens

do troço médio do rio Senegal (correspondendo, grosso modo, à Mauritânia e à actual

área do Fouta Toro, ou seja, a margem esquerda do Senegal médio), que se tornou um grande eixo do comércio transariano de escravos, de ouro e de sal. As primeiras referências ao Tekrour surgem em crónicas árabes do século IX, e terá sido fundado pelos peuls vindos do Norte. Em conflito com o Gana, terá abraçado a causa dos almorávidas (1040) e terá sido o primeiro reino subsariano a converter-se ao Islão. Mais tarde, viria a cair sob o domínio do império do Mali, mas sempre conservando um estatuto particular, em grande parte devido ao respeito que detinham os toucouleurs

8 “Ghana” significa “chefe de guerra dotado de um poder sobrenatural” em língua mande. Contudo, o rei era designado Kaya Magan (rei do ouro) e o reinado era o Wagadu.

junto dos outros povos, por terem sido os primeiros a islamizar-se. Mais tarde, a sua importância viria a diminuir com a emergência do Jalofo e do Cayor.

Mapa 1: O Senegal pré-colonial do séc. XV ao séc XVIII 9

Mapa 1: O Senegal pré-colonial do séc. XV ao séc XVIII 9 O Cayor era um

O Cayor era um pequeno reino situado entre a foz do rio Senegal e a península do Cabo-Verde. Quando Cadamosto 10 menciona a sua existência, em 1450, o Cayor está dependente do reino do Jalofo; mas, no final do século XVI, aproveitando a queda do império Songai 11 , o chefe Detye Fu-Ndiogu proclamou-se rei do Cayor que, situado na

9 « Les Atlas de l’Afrique, Sénégal », Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed. Paris, 2000

10 L. de CADAMOSTO e P. de SINTRA (1463-1465?); vide CADAMOSTO, Luís de, Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1988, pp. 116 e ss

11 No século XVI, estendia-se do Senegal até à curva do Níger e desapareceu neste século. O povo Songai vivia nas duas margens do rio Níger, povo do Níger e do Mali.

costa, foi o primeiro a beneficiar das relações comerciais com os europeus que ali procuravam peles, ouro, marfim e escravos capturados nas regiões limítrofes. Apesar de

tentativas diversas, nunca conseguiu anexar o Baol, a Sul, e teve relações difíceis com os vizinhos, tendo sofrido uma derrota severa pelos lébous de Dacar, no Século XVII. Aliás, no final desse século, o Cayor estava preso entre dois vizinhos poderosos: os franceses, a Norte (Saint-Louis) e a Sul (Dacar) e os toucouleurs do Fouta Toro que promoviam a guerra santa - tendo já previamente derrotado a dinastia diananké do Jalofo – e que acabaram por invadir e converter os seus habitantes. Em 1886, com a morte do seu chefe Lat Dior, da responsabilidade dos franceses, o reino do Cayor desapareceu.

O Jalofo nasceu da vontade de separação do Tekrour por Ndiadiane Ndiaye, no

final do século XIV, para estender os seus domínios na direcção do Sudoeste, englobando pequenos domínios como o Walo, o Cayor, o Baol e o Sine Saloum. A sociedade era dominada pelo rei (“bour”), seguindo-se-lhe os nobres, os homens livres, as gentes de casta (ferreiros, tecelães, “griots” – trovadores) e os escravos. Estes eram rapidamente integrados na sociedade por via de casamentos e adopções. A sucessão era, matrilinear e o reino foi por vezes dirigido por princesas (“linguères”). A desagregação

do Jalofo começou com a secessão do Cayor, em 1566, seguindo-se-lhe outros reinos vassalos e o estabelecimento dos franceses na foz e na costa do Senegal. O Jalofo deu origem aos wolofs, a maior etnia do Senegal actual.

O Mali, pequeno Estado malinké, existiria desde o século XI. Muito ligados à

sua cultura e ao animismo, os malinkés viveram muito tempo da caça e da agricultura. Mas a extensão da escravatura árabe provocava êxodos muito importantes de populações, em particular do reino do Gana. Conta-se que Soundjata, o herói lendário cantado pelos “griots” malinkés, após a conquista de Kirina, em meados do século XIII, estendera o seu império pela conquista, ordenara prospecções auríferas e criara, em cada região, forças militares para fazer reinar a ordem, a segurança e a justiça. De campo de captura privilegiado para os esclavagistas, o Mali tornar-se-ia um Estado respeitado por todos. O império ocuparia, nessa altura, uma área compreendida entre o Atlântico e a embocadura do Níger. O comércio transariano apresentaria um crescimento prodigioso. Assim, expandia-se uma civilização cujas principais cidades eram Niani, Kansala, Tombuctu, Oualata, Djenné e Gao. A partir do século XIV, várias revoltas terão eclodido sucessivamente, até à queda do império, em meados do século XVII.

Por outro lado, parece que também os lugares, os vestígios pré-históricos e os dados fornecidos pela tradição oral permitem pensar que o povoamento do território do Senegal, em épocas anteriores à chegada dos europeus, se efectuou a partir do Norte e do Leste com a chegada de muitas vagas migratórias. As últimas grandes migrações terão sido as dos jalofos, dos mandingas, dos peuls e dos sérères, pertencendo todos a um grupo designado Bafour 12 , cuja expansão em vários ramos parece estar correlacionada com a pressão almorávida. Assim, a História do Senegal pré-colonial caracteriza-se pela existência de reinos e de Estados que foram progressivamente divididos ou desintegrados. Alguns pesquisadores incluem as populações da Senegâmbia no grupo de línguas atlântico-ocidental, por oposição ao grupo “sudanês” (peuls, toucouleurs, wolofs…). Grande parte dos povos do grupo atlântico-ocidental (bainouks, balantas, beafadas, papel, para o grupo atlântico, e bassaris, koniaguis, badiarankés, pajadinkas para o grupo continental, no interior) têm estruturas matrilineares (ao contrário dos povos “sudaneses”) e terão sido os primitivos e responsáveis da civilização megalítica de que subsistem testemunhos no Siné-Saloum. Os bainouks são, aliás, considerados os “mestres do solo” pelas outras etnias e, à data das invasões mandingas, seriam os únicos com reinos constituídos ou, pelo menos, com capacidade de resistência. Também os balantas e os diolas seriam anteriores aos demais povos, na Casamansa. De facto, o Pakao, o Djassi, o Boudhié, o Balmadou eram territórios povoados por bainouks e balantas. 13 No século XIX, os bainouks da Baixa Casamansa terão sido em grande parte assimilados pelos malinkés (mandingas). Quanto aos balantas, os residentes da margem direita do rio Geba, ter-se-ão integralmente diluído nos mandingas, enquanto que os da margem esquerda terão permanecido irredutíveis e atacavam mesmo os primeiros. Os mandingas, em geral, teriam já uma ocupação antiga (anterior ao século XIII e confirmada pelas conquistas de Tiramaghan, às ordens do mítico Soundjata, por volta de 1240) da área entre a península do Cabo Verde e a Gâmbia, de acordo com as tradições wolof, lébou ou sérère. Contudo, esses mandingas seriam oriundos do país

12 THIAM, Iba Der, “Préhistoire et histoire”, in Les Atlas de l’Afrique, Sénégal, Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed., Paris, 2000

13 NIANE, Djibril Tamsir, Histoire des Mandingues de l’Ouest, Karthala-Arsan, Paris, 1989, pp. 119

Soninké (no Sudeste do actual Senegal e no Sudoeste do Mali), como atesta a presença dos patrónimos Diafounou ou Wagadou, nas linhagens nobres. Em termos gerais, o Gabú terá conhecido quatro fases históricas:

1. Um período pré-mandinga, das origens ao Século XIII, testemunhada pelas

tradições sérères e wolofs, a Norte, e pelas badiarankés e bainouks, a Sul.

2. O período maliano, de 1240 ao desaparecimento do império, no século XVII,

durante o qual é constituído o Gabú e criada uma capital, Kansala (hoje desaparecida).

3. O Gabú independente cujo apogeu ocorreu no século XVIII, com o tráfico

negreiro (1650-1790).

4. O declínio e queda, entre 1790 e 1867.

Mapa 2: O Gabú no séc. XVIII 14

entre 1790 e 1867. Mapa 2: O Gabú no séc. XVIII 1 4 A história do

A história do povoamento do Senegal é também a do relacionamento entre o Fouta e o Gabú e, em particular, dos seus conflitos que, mais do que religiosos (o Fouta é sobretudo representado pelos peuls muçulmanos), foram de luta política pelo domínio da sub-região: atraídos pela prosperidade do Gabú, obtida através do tráfico negreiro, o reino teocrático do Fouta Djalon procurou dominar os pequenos reinos costeiros de Baga e Nalou (Rios Pongo e Nunes) e sentiram-se atraídos pelas praças de Bissau,

14 D. T. NIANE, Op. Cit.

Cacheu, da Gâmbia e de Seju (actual Sédhiou, na Casamansa). A queda de Kansala e a derrota do Gabú teve, como primeira grande consequência, a islamização da região; logo de seguida, ocorreram as conquistas coloniais, com efectiva ocupação dos territórios. O contacto entre os mandingas (incluindo socés, soninkés e malinkés) e as populações da Senegâmbia é antigo e difícil de determinar. As tradições orais do Siné dão unanimemente conta da presença, no local, de populações mandingas 15 quando os sérères chegaram do Fouta Toro (nos Séculos XI-XII, provavelmente no rescaldo das guerras religiosas entre muçulmanos e animistas desencadeadas pelos almorávidas nas províncias ocidentais do Gana) 16 e distinguem esse povoamento mais antigo de outro, mais recente, ao tempo do reino do Mali. Os sérères rechaçaram ou assimilaram aqueles mandingas e constituíram-se como “guélowars” (a aristocracia local). A vaga “maliana”, a partir do século XIII, é mais facilmente reconhecível pelo facto de as famílias provenientes do Wagadou (“império do Gana”, em Soninké) terem conservado o nome do seu país de origem, uma prática corrente na África ocidental, como refere Djibril Niane que assinala, também, o hábito mandinga de chamar os estrangeiros pelo nome dos seus países. 17 A origem da migração do General Tiramaghan 18 , com uma comitiva de cerca de cem mil pessoas, está ainda por explicar, mas uma tradição oral refere que se terá devido à recusa daquele de acompanhar o “mansa” (rei) Soundjata 19 na conversão ao Islamismo, o que justificaria o facto de os mandingas daquela região se manterem animistas até ao princípio do século XX, apesar da pressão peul. As áreas conquistadas por Tiramaghan, a Sul, adquiriram o nome de Gabú. Os efeitos desta campanha nas nomenclaturas são interessantes: à medida que os exércitos chegavam a localidades, certas famílias ficavam ali estabelecidas, geralmente por decisão do próprio Tiramaghan; assim, a Norte, o patrónimo “Sylla” (do General sarakholé Lamine Sylla) foi integrado pelos wolofs, enquanto que, no outro extremo, a

15 Chamados de “Socés” no Sine e no Jalofo

16 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17

17 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17

18 Terá ocorrido por volta de 1250; vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13, e NANTET, Bernard, Dictionnaire de l’Afrique, Histoire Civilisation Actualité, Larousse, Paris, 2006, « Mali (Empire du)».

19 Soundjata foi o mais notável rei do Mali. De acordo com a lenda, os animistas que fugiam dos almorávidas foram recolhidos pelo rei do Sosso que, no entanto, tentou matar os doze príncipes do reino do Mali. Apenas sobreviveu Soundjata que conseguiria, mais tarde, unir os chefes de clãs malinkés através da admiração pelas suas façanhas, liderar as conquistas dos reinos do Gana e do Sosso e reformar profundamente o ordenamento político-social da África ocidental. Vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13 e ss, e B. NANTET, Op. Cit., « Mali (Empire du)»

Sul do rio Gâmbia, instalou as famílias Keita e Diatta que viriam, por vezes, a juntar aos seus nomes o patrónimo Manjang. Por volta de 1450, dois séculos após a expedição de Tiramaghan, as províncias ocidentais tinham um claro domínio mandinga. O povoamento malinké era denso ao longo dos rios Gâmbia e Casamansa, até aos confins do Fouta Djalon. Assim, a maior parte dos povos da Alta e Média Casamansa – baïnouks, balantas, badiarankés, etc – poderia considerar-se mandinga. De resto, os navegadores portugueses incluíam todos os povos da Casamansa, incluindo os diolas, na categoria dos mandingas. Contudo, os mandingas não impuseram a sua língua, embora os chefes diolas a utilizassem para fins comerciais. A chegada dos portugueses foi um acontecimento maior na História da região; num primeiro momento atribulada, com notórias dificuldades de comunicação, desconfiança e violência, rapidamente a relação com os autóctones melhorou, quando estes perceberam que os portugueses procuravam, sobretudo, comerciar. Um conjunto de circunstâncias auxiliou o rápido estabelecimento de relações comerciais profícuas: em 1433 os tuaregs conquistaram Tombuctou e expulsaram a guarnição malinké; de 1462 a 1492 os songai revoltaram-se, conquistaram a área meridional do Níger, até ao delta interior e conquistaram Djenné; os malinkés viram, assim, cortado o acesso às pistas sarianas mas tinham ainda o controlo das regiões auríferas de Bouré e Bambouk; ainda tentaram reanimar a pista ocidental com destino a Sidjilmassa, em Marrocos (passando pela feitoria portuguesa de Ouadane 20 ), mas esta cidade estava em declínio após a deslocação para o Cairo do eixo comercial do mundo muçulmano. É neste contexto que se ouve falar, por volta de 1445, da chegada de uns brancos em navios gigantes; e quando, em 1456, Diogo Gomes subiu o rio Gâmbia 21 , tendo já estabelecido boas relações com os autóctones, foi recebido pelo rei do Bintang e fez a paz com o “mansa” do Niomi, o Manding-Mansa (rei dos mandingas) deu ordem aos mercadores das margens do Níger para dirigirem as suas caravanas para Oeste. Os portugueses tornaram-se rapidamente familiares de todo o universo mandinga, com uma predilecção pelas regiões da Casamansa, Cacheu e Rio Grande. Grandes caravanas partiam do Manding, para viagens que podiam durar quatro a seis meses, atravessavam

20 Ouadane integra um triângulo de três cidades históricas do Leste da Mauritânia, com Atar e Chinguetti. Era a feitoria portuguesa mais afastada da costa Atlântica e a localidade, inscrita como Património Mundial da UNESCO, foi restaurada entre 2004 e 2006 com apoio financeiro do Estado português.

21 D. T. NIANE, Op. Cit., cita Diogo Gomes de Sintra, neste contexto

o Diarra, o Bambouk e encontravam os portugueses no Cantor ou no Woulli. Este comércio permitia ao Manding-Mansa e à sua corte receberem directamente produtos manufacturados europeus, a um preço dez vezes inferior ao praticado pelos intermediários árabes. Do seu lado, os portugueses recebiam o ouro maliano praticamente na fonte, dispensando a mediação onerosa dos árabes. No início, o ouro seria o bem mais procurado pelos portugueses, seguindo-se-lhe as especiarias e, apenas em terceiro lugar, os escravos. 22 Os “mansa” e os “farins” – chefes locais - da Gâmbia e da Casamansa foram, na verdade, os grandes beneficiários do comércio com os portugueses, cabendo apenas ao Manding-Mansa o rendimento dos direitos sobre o comércio do ouro. Ao contrário dos flups e dos balantas que se mostraram muito reticentes ao contacto com os portugueses, os vizinhos kassangas entregaram-se ao comércio e mesmo a uma certa ocidentalização, patente no fausto da corte do rei Massa Tamba 23 , conquistador do reino dos bainouks, que trocava um bom cavalo por dez a quinze negros. 24 Ora, segundo o mesmo autor, Massa Tamba disporia de uma cavalaria de cinco mil cavalos… Os portugueses fixaram-se em número significativo na Casamansa, no Cacheu e no Rio Grande, sendo a sua principal base Toubaboudaga, próxima de Brikama (na actual Gâmbia), a capital de Massa Tamba. Contudo, no Século XVI, a base principal dos portugueses era o arquipélago de Cabo Verde. O desenvolvimento do comércio com os portugueses e a dinamização das feiras situadas nas rotas para a costa aceleraram o movimento migratório para Ocidente iniciado pelos malinkés; por sua vez, o comércio de escravos tornou-se a principal actividade comercial entre europeus e soberanos da costa, os quais tiveram tendência para se libertarem da vassalagem ao Manding Mansa, emancipando-se. Os malinkés misturaram-se com as populações locais (bassaris e bainouks, essencialmente, mas não só) e souberam beneficiar do costume local de transmissão da herança do tio aos sobrinhos, filhos da irmã. Para tal, adoptavam também o nome do clã materno e tornavam-se, deste modo, donos legítimos do Gabú; deste modo, nomes malinkés foram sendo substituídos por outros: Traoré (clã de Tiramaghan) deu lugar a

22 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 31

23 Massa Tamba chegou mesmo a criar uma aldeia para brancos, junto à capital Brikama, em 1580, vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 32

24 A. DONELHA (1625); vide DONELHA, André, Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e do Cabo Verde, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1977, pp. 166 e nota 286, pp. 311

Sane e Mané, Keita (clã de Mansa Wali, filho de Soundjata que acompanhou Tiramaghan) foi substituído por Sagna e Mandjan, etc. Contudo, os mandingas que chegaram mais tarde – sobretudo os muçulmanos, que não adoptaram o regime familiar local – guardaram os nomes originais (Cissé, Touré, Diané, Diaby, Dabo, Souaré). Os muçulmanos não faziam parte da comitiva de Tiramaghan mas, na sua crónica, André Donelha já refere o seu grande número. A data de chegada dos pastores peuls à Senegâmbia também não está rigorosamente determinada: terão vindo na comitiva de Tiramaghan, ou antes? Sabemos apenas que os dois povos viviam juntos no Wagadou e no Manding, ao tempo de Soundjata. Em regra, os peuls acampavam ao lado das aldeias de agricultores, beneficiando do pasto das terras em pousio e estrumando-as; respeitavam as autoridades locais e não tinham ambições políticas; esta seria uma regra geral de comportamento, que os levava a ser bem aceites pelos agricultores. Contudo, nos Séculos XV e XVI os peuls transformar-se-iam em ferozes guerreiros, pondo em risco o Império do Mali e as províncias da Senegâmbia. Ignora-se o motivo pelo qual, em 1460, os peuls invadiram as províncias ocidentais, embora se acredite 25 que tenha a ver com os conflitos no delta interior do Níger entre os mandingas, os songai e os tuaregs. André Donelha refere um rei dos Fulos muito belicoso que saiu da cidade de Fouta e decidiu conquistar grande parte da Guiné”. Este rei, Dulo (ou Diallo) Demba atravessou o rio Senegal, vindo de Leste, penetrou no Jalofo onde derrotou os wolofs em diversas batalhas e atingiu a Gâmbia. Os malinkés não contiveram esta investida dos peuls que atravessaram o Gabú, atingiram o Rio Grande e chegaram às portas do reino Beafada, cujos reis os detiveram. Não obstante, os peuls, animistas como as populações autóctones, integraram-se facilmente com estas. O primeiro grande chefe dos peuls foi Tenguella Diadié Bah que, contornando o Gabú pelo Leste, atravessou o rio Senegal com o seu exército e, com o apoio dos bambaras, empreendeu a conquista do Bambouk e do reino de Diarra. O Manding Mansa, Mahmoud II, solicitou a ajuda militar de D. João II 26 que enviou uma embaixada a Niani, em 1490, chefiada por Pêro de Évora e Gonçalo Eanes. Contudo, embora a comitiva presenteasse o Manding Mansa, com ofertas dignas de um grande soberano, Portugal não deu apoio militar, eventualmente porque cedo se apercebera de

25 LY-TALL, Madina, L’Empire du Mali, N.E.A, Dakar / Abidjan, 1977, pp. 48

26 BARROS, João de, Décadas da Ásia, public. Hernâni Cidade, Agência das Colónias, Lisboa, 1945, e M. LY-TALL, Op. Cit., citados por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 57

que o poder do Mansa era mais simbólico do que real 27 . O perigo acabaria por ser afastado graças aos songhai – também atraídos pelo comércio atlântico – que derrotaram Tenguella Bah, em Diarra, em 1512. Uma nova investida, em 1535, liderada por Koly Tenguella (filho de Tenguella Diadié Bah e que talvez tenha ficado para a História como o maior chefe peul), daria origem a um novo pedido de apoio de Mansa Mahmoud III, neto de Mahmoud II, a Portugal que, novamente, enviou uma embaixada mas não deu qualquer apoio militar. Das movimentações de Koly Tenguella ficou, entre outros aspectos, o patrónimo Bâ na Casamansa, na Gâmbia e na Guiné. Em 1625, o Manding Mansa detinha ainda um poder quase lendário mas emergia, na costa, o reino do Gabú, cujo Governador, ou Farim Cabo, se tornou o “Gabou mansa-ba, senhor de todos os reis Mandingas e dos Jalofos, Berbecins e de diversos reis estabelecidos do lado Norte” 28 . É provável que este domínio chegasse ao Siné até ao século XVII, quando as províncias gambianas se emanciparam do Gabú. No século XVIII, parece que o Mansa-ba dispunha de um grande corpo de fuzileiros bem armados, porquanto, observador não só dos conflitos que opunham brancos portugueses, franceses e ingleses, mas também das incursões esporádicas de holandeses e dinamarqueses, estava ciente de que só com uma forte organização poderia tirar proveito do comércio com os europeus. O Mansa-ba seria o mais importante fornecedor de escravos cujo efectivo rondava, anualmente, três a cinco mil. No final do século XVI, o Gabú tornara-se um Estado guerreiro e uma área de passagem das caravanas. Ao longo das pistas para a costa surgiram numerosas aldeias de mercadores, os morocounda, termo que vem do facto de lidarem com comerciantes “mouros” (muçulmanos malinkés ou sarakholés). Os diolas eram os maiores mercadores, tinham entrepostos seguros nas aldeias, onde pernoitavam e deixavam os seus feridos, e formavam sociedades familiares: os parentes, dispersos pelas aldeias, comunicavam entre si através de mensageiros. As mercadorias eram transportadas em pequenas etapas até aos portos e esta forma de agir contribuía certamente para reforçar os fortes laços que uniam os clãs diolas entre si. Os diolas estavam presentes em todo o Gabú e, a partir de certa altura, eram apenas concorrenciados, seriamente, pelos lançados. As feiras, que os diolas animavam, tinham por vezes uma dimensão apreciável, como o mercado semanal de Cacheu, entre

27 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 61

28 A. DONELHA, Op. Cit., pp. 121, citado por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 75

Novembro e Junho, ao qual acorreriam sete a oito mil pessoas para trocarem mercadorias locais e portuguesas. No final do Século XVII, o domínio português na Casamansa era já posto em questão pelos franceses e ingleses; contudo, se estes conseguiram dominar as águas gambianas, havia fortes resistências a Sul. As feitorias de Bissau, Cacheu e Farim eram palco de constantes transações. E os beafadas de Cacheu preferiram, a dado momento, os franceses aos portugueses, enquanto os diolas, malinkés e sarakholés mantiveram as suas relações, vendendo ferro e algodão. No século XVIII, os grumetes (filhos de portugueses e africanas) povoavam todos os rios, formando uma classe sócio-profissional de comerciantes. 29 Misturados com as populações locais e partilhando os seus hábitos, vivendo em condições de grande insalubridade, formaram uma sociedade intermediária e o Português, combinado com as línguas locais, deu origem ao crioulo. Os diolas, que, como vimos, eram os rivais dos lançados, aprenderam a falar Português, Francês ou Inglês. Até à queda do reino do Gabú, o animismo permaneceu a sua crença oficial. Por oposição ao “moro” (mouro), chamava-se soninké ao malinké que pratica o culto tradicional e bebe vinho. Mas, no século XIX, os muçulmanos eram já muitos e procuravam libertar-se da autoridade dos que bebiam vinho. Por fim, a queda de Kansala, em 1867, marcou o fim do reino do Gabú e trouxe a destruição das florestas sagradas e a islamização generalizada dos gabounkés, o que levou, também, à transmissão do poder dos nobres (“nianthio”, em Mandinga), de pais para filhos e não de tios para sobrinhos. Em 1725 os peuls fundaram o Estado muçulmano do Fouta Djalon. A infiltração peul nas montanhas, propícias à pastorícia transumante, começara provavelmente no século XIII e intensificara-se no século XVII. No início do século XVIII, os peuls eram já suficientemente numerosos para conspirarem contra os chefes djalonkés animistas que derrotaram finalmente em Talansan, em 1730. Os vencedores peuls organizaram um novo poder, reduzindo os anteriores senhores à escravatura. Os chefes religiosos que tinham dirigido a insurreição tornaram-se os novos chefes das províncias. Deu-se, assim, uma alteração radical no quadro geopolítico regional, o aparecimento de um Estado muçulmano no seio dos vizinhos animistas. Contudo, a situação não seria bem aceite pelos djalonkés que passaram a organizar acções de guerrilha contra as aldeias

29 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 95-96

peuls e a aristocracia guerreira dos “marabouts” durante quase toda a segunda metade do século XVIII. Entre 1784 e 1789, todo o Fouta foi assolado por uma guerra violenta, resultante de um levantamento de animistas, com um exército tão vasto que certas tradições chegam a estimá-lo composto por quatrocentos mil homens (o que é certamente um exagero mas transmite uma noção da sua dimensão), que reagiram às campanhas dos “almany” (chefes dos peuls) Karamoko Alfa (contra o Gabú e Konkodougou) e Ibrahima Sory Maoudo (para Leste), demasiado destrutivas e frequentes contra as suas aldeias. Os animistas (incluindo peuls não islamizados), conduzidos por Koné Bouréma Sidibé quase exterminaram os muçulmanos mas, confiantes na vitória definitiva, não perseguiram nem capturaram Sory Maoudo que conseguiu reunir tropas e contra-atacar Kondé Bouréma em plena estação das chuvas, vencendo-o. O Fouta estava salvo, e os peuls prepararam um exército forte, condição de sobrevivência necessária do Estado muçulmano rodeado por vizinhos animistas. No final do século XVIII, o Fouta Toro torna-se também um reino teocrático, com a vitória dos torodbés, tal como o Boundou e o Fouta Djalon. E, se a aristocracia demonstra o seu apego às práticas religiosas tradicionais, as massas camponesas acentuam a sua conversão ao Islão. Os Estados gabounké e peul apresentavam semelhanças, sendo ambos federações de provínicas autónomas e, tal como os primeiros, os peuls limitaram-se a dotar-se de um poder central forte. Mas os gabounkés permaneceram, em geral, camponeses misturados com os autóctones bainouks, diolas e beafadas, adoptando inclusive os nomes destes. Ao contrário dos mandingas, os peuls, que permaneceram pastores transumantes durante muito tempo, acabaram também por se sedentarizar em aldeias “foulasso” ou “foulacounda”, mas ocuparam as terras dos autóctones (djalonkés, bagas e sares) e reduziram estes povos à escravatura. Ainda assim, com o tempo, os peuls acabaram por se miscigenar com os autóctones, procurando impor, contudo, a sua língua, o pulaar, e a sua cultura; e se, num primeiro tempo, concederam o estatuto de homens livres aos vencidos islamizados, os peuls acabaram por travar a conversão 30 , optando por manter os autóctones nas suas crenças tradicionais e na situação de escravatura. No início do século XIX, o Estado peul consolida-se através de uma sociedade fortemente hirarquizada, dominada por uma aristocracia de “marabouts” guerreiros; em

30 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 130

cada província (“diwal”) as “paróquias” (“missidé”) organizam em seu redor um conjunto de territórios e aldeias (“roundé” e “foulasso”). Os vencidos eram cerca de três quartos da população mas não tinham quaisquer direitos políticos; os peuls pobres e os convertidos podiam deslocar-se entre “missidés”, mas os djalonkés, quais servos da gleba, não podiam sair dos “roundés”. Os aristocratas distinguiam-se em dois estratos, os guerreiros e os letrados – estes eram particularmente numerosos em Labé, na actual República da Guiné (Conacri). O almany era eleito por um colégio de letrados e de chefes de guerra das nove províncias 31 , residia em Timbo, era simultaneamente chefe religioso e temporal da confederação e dirigia pessoalmente a djihad fora do Fouta. Por último, dois clãs, os Alfaya e os Soriya, alternavam no poder de dois em dois anos, uma prática aparentemente copiada aos gabounkés 32 . Entre 1799 e 1870 o Fouta viveu um período estável, embora Estados animistas como Solima, Sankaran e Tamba o tenham atacado regularmente e, sobretudo, apesar de algumas dificuldades internas como a oposição dos muçulmanos ortodoxos da confraria Kadiryia 33 aos almany do Fouta e de Timbo. Este núcleo de resistência (a sua capital, Boketo, só foi conquistada e destruída em 1884) na estrada entre Timbo e a actual Freetown, terá levado os almany a intensificarem as suas campanhas a Norte, contra o Gabú que dominava o território entre a Gambia e o Rio Nunes.

O Fouta Djalon desempenhava um papel relevante na vida económica da sub-

região da Guiné-Gâmbia, enquanto centro de comércio de gado, de cereais, de algodão e

de mel, e mercado de escravos. Os ingleses (em Freetown), os franceses (junto aos rios Nunes e Pongo) e os portugueses (há muito estabelecidos nos estuários dos rios Grande

e Casamansa) competiam na atracção das caravanas que provinham do Fouta.

A partir de 1830, os franceses e ingleses passam a ter o objectivo de levar o

trabalho a África, já que não era mais possível trazer mão-de-obra, por causa da industrialização que deixava de requerer aquela de modo tão intensivo. Assim, iniciaram uma nova política agrícola, distribuindo sementes de amendoim e de algodão,

o que dinamizou de novo o comércio.

31 As nove províncias eram Timbo, Fodé Hadji, Kébali, Labé, Kolladé, Koin, Timbi, Fougoumba e Bhuria

32 D. T. NIANE, Op. Cit., pp 131

33 Confraria ainda hoje presente na África ocidental, fundada no Iraque por Abd al-Qadir al-Jilani, no século XII, com vista a converter os povos ao verdadeiro islamismo. Vide THORAVAL, Yves, L’ABCdaire de l’Islam, Ed. Flammarion, Paris, 2003, pp. 49, e BARRY, Boubacar, La Sénégambie du XVe au XIXe Siècle, L’Harmattan, 1988

Por volta de 1840, o Gabú está em crise: os franceses estabelecem-se na Casamansa, o Fouta Djalon tem, em Sédhiou, um porto de escoamento para as suas mercadorias, dispensando as caravanas de seguirem até à Gambia e os almany esforçam-se por controlar as pistas de caravanas que atravessam o Gabú. Em 1845, subiu ao trono o mansa-ba Dianké Wali, o último rei dos gabounkés. Com Wali, o Gabú conheceria um sobressalto de poder e de reorganização que culminaria com o ataque a Manda e a destruição integral desta cidade peul. Desde o final do Século XVIII nenhum exército gabounké tinha conseguido passar o Koliba e guerrear no Fouta. Mas em 1849, o novo almany Oumar, desejoso de vingar a incursão de Manda, proclamou a guerra santa e mobilizou um exército de seis mil homens, incluindo uma numerosa cavalaria de mais de três mil cavalos. A batalha de Bérékolon concluiu-se ao fim de cinco dias com a vitória peul, mas estes, consideravelmente enfraquecidos, retornaram ao Fouta com menos de metade dos efectivos. Em 1850, o Gabú, que perdera o mito da invencibilidade, sofre com as incursões peuls, com as sublevações dos muçulmanos e com a implantação cada vez mais forte dos europeus na Senegâmbia. Kansala já não controlava, por exemplo, as províncias do rio Geba, na actual Guiné-Bissau, nem as vias para Cacheu e Farim. O reino era ainda grande, mas encontrava-se dividido pelas guerras e minado por dentro, não pelo peul mas pelo muçulmano malinké, aliado natural do Fouta. Do seu lado, as provínicas malinkés da margem Norte do rio Gambia separaram- se do Gabounké, embora sendo consideradas territórios de Tiramaghan 34 . Assim, nos séculos XVII e XVIII, os reinos do Badibou, do Niani e do Wouli teriam uma grande autonomia. Os reis de Niomi vigiam com severidade o acesso ao Gâmbia, não hesitando em recorrer à força, a única prática respeitada pelos mercadores. Contudo, o reino declina no final do século XVIII e as rivalidades exacerbam-se. Ao contrário, o Saloum vive nesse tempo um período de expansão, impõe-se, ganha um acesso directo ao Gâmbia e entra no comércio de escravos. Os muçulmanos são cada vez em maior número na área do Gâmbia, tomam consciência da sua força e tentam mesmo ingerir-se nos assuntos do Estado. Em consequência da pressão muçulmana, o Niani divide-se em dois reinos, no início do século XIX, o Alto e o Baixo Niani, cujos princípes se guerreiam. Entretanto,

34 Segundo Djibril Tamsir Niane, esses territórios terão sido, na verdade, domínio de expansão de tropas não comandadas por Tiramaghan, seriam posteriores à invasão deste. Subsiste, no entanto, um grande desconhecimento em relação a todo este período

os peuls e os jalofos, atraídos pelo comércio de escravos, fundaram diversas aldeias, entregaram-se à cultura de amendoim e colocaram-se sob a protecção dos milicianos dos negociantes, com os quais lidam directamente. Por fim, um chefe religioso (um marabout) toucouleur, Maba Diakhou-Ba, decidiu levantar armas em nome do Islão e impor-se ao Niani e ao Badibou 35 .

 

O

reino do Wouli, o mais extenso dos gambianos, também não escapou aos

efeitos

do comércio de escravos. Os ingleses mantinham pelo menos desde o século

XVIII

feitorias em Fatatenda e Yarboutenda que se tornaram pólos de atracção de

malinkés e de sarakolés. Os soninkés governavam sem trabalhar, desprezavam ostensivamente os muçulmanos o que, também aqui, acabou por provocar a revolta destes contra a aristocracia tradicional, ociosa e parasitária. Por volta de 1850, os franceses tinham conseguido tornar Sédhiou uma praça comercial mais importante do que as de Ziguinchor e de Cacheu, controladas pelos portugueses, mas a influência portuguesa estava ainda bem presente sob forma do crioulo: «En 1849, le nouveau résident Emmanuel Bertrand-Bocandé nous a laissé de fort riches Notes sur la Guinée Portugaise ou Sénégambie méridionale. Ayant appris le

créole portugais et le malinké, il avait une grande expérience des pays mandingues» 36 . Ou seja, as duas línguas francas nos territórios mandingas eram o malinké, naturalmente, e o crioulo do Português.

A desagregação lenta do reino do Gabú foi explorada pelos franceses que, a

pouco e pouco, foram considerando território seu, áreas da Casamansa (Boudhié em

1849, seguida das aldeias de Patiabor, Bajari e Bunu), não sem resistências locais:

soninkés, primeiro, e balantas, depois, opuseram forte resistência às forças muçulmanas

aliadas dos franceses. Em 1854 os franceses aproveitaram incidentes com balantas para

conquistar a margem esquerda do Casamansa, entre Binako e Bambanjon. Perante estes

acontecimentos, Kansala já não tinha, de facto, qualquer autoridade ou força para reagir, tanto mais que os residentes franceses apoiavam, secretamente, os peuls do Fouta

Djalon contra o poder animista.

Nos anos 1860, precipita-se a queda do Gabú, com sucessivas deserções de “nianthios” num contexto em que a guerra com o Fouta se tornara palco de complexas alianças e traições, mais ditadas por motivos políticos e económicos do que religiosos.

35 I. D. THIAM, Op. Cit.

36 D. T. NIANE, Op. Cit., pp 174

A terrível batalha de Kansala (dita pelos mandingas “Guerra da exterminação da raça gabounké”), em 1867, ditou a derrota definitiva do Gabú, a destruição da capital pelo próprio mansa Dianké Wali e a morte da grande maioria da sua aristocracia perante um exército peul de trinta e dois mil homens, dos quais doze mil cavaleiros, todos de branco vestidos e usando o nome de Mamadou (Maomé). Com a conquista de Kansala, parece estar-se perante o início do domínio peul e da islamização. Contudo, a conquista colonial sobreveio pouco depois, com Portugal, a França e o Reino Unido a partilharem entre si os reinos gambianos e do Gabú. No final do século XVIII e no início do século XIX, o Fouta Djalon tornara-se um dos centros mais importantes da cultura islâmica na África ocidental, mas o papel principal foi muitas vezes desempenhado não por peuls, mas por diakhandés e sarakolés. Os peuls tinham centros corânicos reputados em Touba (na actual Guiné Conacri 37 ), Sombili, Koula, Daralabé e Dow Sare e recorreram ao alfabeto árabe para escrever o pulaar que se tornou, deste modo, escrita e veículo de difusão cultural e literária. Os letrados peuls escreviam tanto em pulaar como em árabe e, em Timbo ou em Labé, o Estado subvencionava os membros da classe que podiam, assim, viver exclusivamente para estudar. A escola corânica era obrigatória para todas as crianças filhas de pais livres; nela se cultivava o amor pelo bem mas, também, o ódio do animismo e o desprezo por todos os descrentes. Mais tarde, gerou-se uma tendência para um culto de superioridade sobre outras raças negras (tratadas de “balébés” – os negros 38 ). Uma das grandes confrarias do Senegal é a dos Mouridas, fundada por Amadou Bamba M’Backé, um marabout (chefe religioso) toucouleur falecido em 1927. Após ter feito os seus estudos junto de Cheikh Sidiya, membro eminente da grande confraria Qadiriyya ou Khadrya (ainda muito presente na sub-região e a terceira mais importante no Senegal), criou a sua própria confraria, por alegada inspiração do anjo Gabriel. O mouridismo, virado inicialmente para os jalofos, preconiza que o trabalho manual é tão importante para o discípulo (“talibé”) como a oração e esses ensinamentos são transmitidos nas “daaras” (escolas corânicas). O centro da confraria é Touba, uma cidade fundada por Amadou Bamba em 1886, a 60 km a Leste de Djourbel.

37 A cidade guineense de Touba foi o mais pujante centro de difusão corânica na sub-região, no século XIX, sob a condução das chefias religiosas Khadrya; não confundir com a cidade senegalesa de Touba, sede da confraria mourida. 38 D. T. NIANE, Op. Cit., pp 136

A outra grande confraria (não se sabe, em bom rigor, qual delas é a que tem mais adeptos) é a Tidjane, fundada em 1737 por Sidi Ahmed Al Tidjani, em fés, Marrocos. A Tidjania é uma confraria sufi 39 que visa uma ascenção individual pela purificação do indivíduo; repousa no ensino religioso tradicional da “sunna” (feitos e gestos do Profeta Maomé), da recitação de excertos do Corão e de textos da própria confraria. A Tidjania (também presente na Guiné-Bissau) foi difundida no Senegal e no vale do Níger pelo conquistador Toucouleur El-Hadj Omar Tall durante a guerra santa contra os animistas (1856). O seu sucessor, El-Hadj Malick Sy compreendeu a supremacia dos colonizadores e adoptou uma via pacífica. A sede da confraria é em Tivaouane, a cerca de 40 km a Norte de Thiès, na estrada que liga esta importante cidade com Saint-Louis. Os tidjanes têm um comportamento mais discreto do que os mouridas e, tal como estes, realizam uma grande peregrinação anual. No caso dos tidjanes, trata-se do Gamou que corresponde ao Maoloud, comemoração do nascimento do Profeta. Para os mouridas, é o Magal, comemorando o dia do regresso do exílio e da visão profética do fundador da confraria. Os limites administrativos da colónia francesa do Senegal foram estabelecidos em 1904, após a criação da África Ocidental Francesa (1895) e da deslocação da capital de Saint-Louis para Dacar (1902). Avançam então obras públicas e a conquista agrícola do Leste, comandada, no terreno, pelos marabouts mouridas. Em 1945, dois deputados, Lamine Guèye e Léopold Senghor, têm assento na Assembleia Constituinte francesa. A actividade política acompanha-se da criação de partidos políticos distintos dos da metrópole. Associados na Federação do Mali em Janeiro de 1959, o Sudão e o Senegal pedem a independência que obtêm no quadro unitário, no dia 4 de Abril de 1960. Porém, a Federação não resiste e, a 20 de Agosto de 1960, a Assembleia senegalesa proclama a independência do país. Desde então, o país evoluiu para um regime pluripartidário, sob a batuta do primeiro Presidente, Léopold Senghor que, após 20 anos no poder, se tornou o primeiro Chefe de Estado a dele sair antes do término de um mandato. Seguiu-se-lhe o também socialista Abdou Diouf, de 1980 a 2000, ano em que, a 19 de Março, o liberal Abdoulaye Wade ganhou as eleições presidenciais, em nome da “alternância”.

39 O Sufismo, corrente mística do Islão, nascida no século VIII, opõe-se ao Islão legalista e privilegia a apropriação pessoal da verdade corânica. Esta “maleabilidade”, contrária à do chiismo ou do sunismo, poderá justificar a sua popularidade na África ocidental, porquanto permite uma melhor adaptação às práticas animistas enraizadas. Ainda hoje, são raros os chiitas e os sunitas num país fortemente islamizado como o Senegal.

1.2. A presença portuguesa

Primeira razão do Infante

“E porque o dicto Senhor [Infante] quis disto saber a verdade, parecendo-lhe

que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber

como nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou ele contra aquelas partes seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e d’el- Rei D. Eduarte seu senhor e irmão que aquele tempo reinava. E esta até que foi a primeira razão de seu movimento.” 40

e vendo outrossim

Foi esta razão do Infante que levou a Língua Portuguesa para África, e depois para todos os continentes; ainda que não esteja escrito, o facto é que os Descobrimentos marítimos tiveram como consequência directa e inabalável a transferência do código linguístico português para terras novas. E tal como noutros países africanos, a Língua Portuguesa deixou as suas marcas na costa ocidental de África, nomeadamente no Senegal. Naqueles territórios, por onde passaram, os descobridores lusos registaram o que viram e o que lhes aconteceu em contacto com a natureza e com as novas gentes, e passaram a comunicar com eles. Mas, falando línguas diferentes, parece-nos que os estrangeiros e os autóctones levaram tempo para aprender a língua do outro, e não comunicariam pela linguagem verbal, desde o início. Então, como se justifica ou se explica a seguinte afirmação? “Aos negros todos trate com boas palavras e não se engane, cuidando que não entendem o portuguez (sic) por que o não fallão: pois os mais delles o entendem bastantemente.” 41 Parece que a presença portuguesa foi tão intensa, desde meados do século XV, que permitiu a aprendizagem da língua portuguesa pelos nativos, como informa este capitão português, Francisco de Lemos Coelho, que passou mais de vinte anos da sua

40 G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, “ no qual se mostram cinquo razoões porque o senhor iffante foe movido de mandar buscar as terras de Guynea”, pp. 44-49. 41 F. L. COELHO (1684); vide COELHO, Francisco de Lemos, Duas Descrições Seiscentistas da Guiné, (Manuscritos Inéditos Publicados com Introdução e Anotações Históricas de Damião Peres) Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1990, pp. 114

vida nos territórios correspondentes ao actual Senegal. Em meados do século XVII, data desta afirmação, apesar da presença dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, os indígenas africanos não só reconheciam como compreendiam bem o Português, antes de conhecerem a influência francófona nos territórios do actual Senegal, colonizado pela França, depois de muitas rivalidades e conflitos com os outros europeus que ali se fixavam. Após a descoberta destes territórios, parece que os portugueses se distribuíam pela região de forma algo indeterminada ou desordenada. A partir do século XVI, outros europeus se fixaram nesses mesmos territórios e impuseram a ocupação daqueles espaços; logo iam construindo fortalezas, com grandes exércitos, para protegerem o seu comércio e manterem os seus interesses em diversas áreas, como observaremos mais à frente.

Por isso, torna-se necessário conhecer melhor a acção dos portugueses e falar dos antecedentes das Descobertas, para um entendimento mais correcto da evolução das investidas dos portugueses até alcançarem aqueles espaços e compreender o grau de influência que tiveram junto daqueles reinos africanos. Por estas alturas, no século XV, os nautas portugueses manifestavam já o conhecimento de técnicas de navegação das mais avançadas da Europa. Empreendendo viagens marítimas cada vez mais frequentes e mais afastadas da costa portuguesa, enriqueciam-se de um saber que os manteve na linha da frente dos Descobrimentos marítimos e terrestres sobre o continente africano:

“Todo o movimento de expansão marítima supõe igualmente um mínimo de condições orgânicas gerais, ou seja, um ambiente económico internacional que solicite aquele esforço, e particulares, isto é, um conjunto de aptidões específicas em determinado povo ou grupo social que lhe permitam levá-lo a cabo.” 42 Portugal era já no século XIV, uma nação consolidada, que conquistara as condições que fundamentam a expansão lusa. Os portugueses sempre se inclinaram para os trabalhos do mar, dada a situação geográfica do país. Estando também rodeados por Estados poderosos e rivais, a Norte, a Sul e a Oriente, a expansão para o oceano era determinada não só por circunstâncias geográficas mas também políticas, económicas e religiosas:

42 J. CORTESÃO (1931-1934); vide CORTESÃO, Jaime, História da Expansão Portuguesa, INCM, vol. IV, 1993, pp. 14

“Todo o movimento da expansão geográfica obedece antes de mais às necessidades da procura e do transporte dos produtos. Que outras coisas de carácter espiritual possam somar-se a estas, e em geral apareçam fundidas com elas, não é menos verdade; mas na base de todos os descobrimentos geográficos, de carácter perdurável, encontram-se as razões económicas. Trata-se de uma regra sem excepção, cuja plena validade pode estudar-se na história de todos os povos navegadores, desde os cretenses e os tartéssios até aos holandeses e aos ingleses.” 43 De facto, a experiência acumulada ao longo de alguns séculos, pelo menos desde o início da nacionalidade, contribuiu para impulsionar as descobertas do século XV e muitos homens corajosos puseram a sua vida em perigo ao serviço da nação. As Cruzadas 44 permitiam não só a experiência do contacto com outros povos, inclusivamente com o mundo islâmico, mas também o conhecimento da Terra Santa onde os portugueses podem ter obtido muitas informações sobre as características do

Oriente, das Índias, do comércio, das riquezas, das especiarias dali provenientes, e mesmo ouvir falar de um reino cristão, como o do Preste João das Índias, isolado entre muitos reinos árabes infiéis, e entre os turcos que também ameaçavam a Europa, que dominavam aquelas regiões ao longo de toda a Idade Média.

A Reconquista cristã, em toda a Península Ibérica, colocou Portugal em contacto

privilegiado com os muçulmanos e essa experiência e o conhecimento directo do

inimigo da fé cristã acabou por ter repercussões positivas na expansão portuguesa do século XV. A luta contra os Mouros foi um investimento no futuro, ou seja, logo no início das Descobertas avançaram com conhecimento de causa sobre os muçulmanos.

O desenvolvimento da marinha de guerra e a protecção da marinha mercante por

parte dos monarcas portugueses contribuiu naturalmente para o domínio dos mares, para as aventuras no oceano Atlântico e no Índico.

43 J. CORTESÂO (1931-1934); Op. Cit., pp. 14

44 Nova Enciclopédia Larousse, 1994, Vol. 7: Cruzadas, Dá-se o nome de “cruzadas” às expedições militares empreendidas pela Europa cristã entre os sécs. XI e XIII, sob o impulso do papado, no intuito socorrer os cristãos do Oriente, reconquistar o Santo Sepulcro (local do túmulo de Cristo) aos Turcos muçulmanos, e mais tarde, para defender os Estados fundados pelos cruzados na Síria e na Palestina. Graças a um fortesurto demográfico, o Ocidente inverteu no séc. XI o movimento que fazia dele uma cidadela cercada, submetida às incursões de sarracenos, Escandinavos e Húngaros. Pouco depois do início da Reconquista Ibérica e da instalação na Itália Meridional, as cruzadas manifestaram esse novo dinamismo. (…) Para além do nascimento de Estados latinos no Oriente, as cruzadas tiveram como consequência a criação das ordens religiosas e militares (Hospitalários, Templários, cavaleiros Teutónicos) e a multiplicação dos contactos entre o Oriente (muçulmano e bizantino) e o Ocidente. Contudo, não modificaram profundamente as correntes comerciais nem o intercâmbio cultural.”

Estavam portanto reunidas as condições essenciais para os portugueses garantirem o sucesso desta empresa dos Descobrimentos, estímulo (luta contra o infiel), experiência (conhecimento do mundo árabe e muçulmano), conhecimento técnico (técnicas de navegação avançadas, desenvolvidas ao longo de vários séculos no Oceano Atlântico). A crise económica do século XIV, assim como a pestilência, que se estenderam por toda a Europa, despoletaram a necessidade urgente e o desejo de encontrar equilíbrios e soluções, alternativas, novas riquezas para restituir a estabilidade e o nível de vida a que a Europa já se habituara. Em Portugal, faziam-se sentir com mais acuidade as dificuldades na aquisição de determinados produtos, estando mais afastado das rotas comerciais vindas do Oriente, controladas pelos árabes, depois pelos comerciantes da península itálica, e a partir daí distribuídas para o interior da Europa. Para ter acesso a esses produtos, os comerciantes portugueses ou iam buscá-los directamente pelo Mediterrâneo, comprando-os a intermediários, portanto mais caros, ou então esperavam pela sua distribuição por toda a Europa, adquirindo-os tardiamente nas nossas costas, pelas rotas da Flandres, com custos mais elevados também. Portugal tentou e conseguiu sair deste ciclo vicioso de dependências dos produtos exóticos e deliciosos do Oriente, além de que tinha notícias sobre a existência de ouro em África, tão perto do Algarve. Além disso, em terra de pescadores, estes desde sempre se aventuraram ou se arriscaram no alto mar, por questões de sobrevivência, para o seu sustento; navegar é, pois, uma actividade muito antiga, tradicional e necessária para os portugueses, que marcará sempre a cultura lusitana. A coragem destes homens, não podendo ser ignorada, associava-se a uma experiência marítima muito arreigada e que foi naturalmente posta ao serviço da nação, com os fidalgos da coroa e a gente da câmara do Infante, escolhidos e coordenados para penetrar em territórios nunca vistos e imprevisíveis. Desde o tempo do conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso Henriques 45 , primeiro rei de Portugal, no século XII, preparavam-se embarcações para lutar contra os ataques dos mouros, havendo notícia de combates navais. Essas galés serviam também para espiar os movimentos da armada castelhana na costa. No tempo de D. Sancho I, foi

45 ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal desde os tempos pré-históricos a 1580, Vol. I, Bertrand Editora, Lisboa, 2003, pp. 229

muito importante a existência de navios na conquista de Silves. Mais tarde, D. Afonso

III foi o primeiro monarca a preocupar-se com a construção de uma marinha de guerra.

D. Dinis fez grandes inovações na marinha, chamando homens experimentados para

formar os marinheiros portugueses. E os progressos deste rei permitiram a D. Afonso IV

obter permissão do papa Bento XII para fazer guerra aos infiéis. No reinado de D.

Fernando, construíram-se muitos navios, tendo o rei concedido privilégios aos que

comprassem navios estrangeiros ou que os construíssem nos estaleiros portugueses.

D. João I, depois de confirmar a independência nacional, iniciou as conquistas

de além-mar, a Expansão marítima e a obra dos Descobrimentos:

“Em 1415, portanto decorridos apenas quatro anos sobre a assinatura da paz

com Castela, o rei de Portugal, à frente de uma enorme expedição militar (19.000

combatentes, 1700 marinheiros, 200 navios), conquistou a importante cidade de Ceuta,

no Norte de África. Este facto é considerado como o ponto de partida da polítca oficial

da expansão ultramarina.” 46

Inspirado pelos valores de cavalaria, D João I quis revitalizar, tradições através

dos seus filhos 47 , entre os quais se distinguiram D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, D

Fernando. Desejando que fossem armados cavaleiros, quis organizar grandes torneios,

mas os infantes preferiam mostrar as suas qualidades e conquistar aquela dignidade em

situações concretas de guerra para defender o reino:

“Não consentiu a morte tantos anos Que de Herói tão ditoso se lograsse Portugal, mas os coros soberanos Do Céu supremo quis que povoasse. Mas, pera defensão dos Lusitanos, Deixou, Quem o levou, quem governasse E aumentasse a terra mais que dantes:

Ínclita geração, altos Infantes.

Não foi do Rei Duarte tão ditoso

46 SARAIVA, José Hermano, História concisa de Portugal, Publicações Europa-América, Col. Saber, 7ª ed., Mem-Martins, 1981, pp. 122 47 F. ALMEIDA, Op. Cit., pp 275, “ Os filhos de D.João I, além de deixarem grandes exemplos de virtudes religiosas, morais e cívicas, tiveram alta cultura intelectual, prova de que não houve menor cuidado em formar-lhes a inteligência do que em educar-lhes a vontade. Diversos factos provam que os infantes eram muito estudiosos e ilustrados. Em carta dirigida a seu irmão D. Duarte, quando este subiu ao trono, dizia o Infante D. Pedro: “ E como quer, Senhor, que visse muitos Livros com singulares doctrinas aos Reys e Príncipes, quaes deveem seer, e vós delles tenhaaes muytos “ etc. [vide Pina, Rui de, Crónica de El-Rei D.Duarte, cap IV], (…) D. Duarte possuía uma livraria relativamente numerosa e selecta.”

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assi vai alternando o tempo iroso

O bem co mal, o gosto co a tristeza.

Quem viu sempre um estado deleitoso? Ou quem viu em Fortuna haver firmeza? Pois inda neste Reino e neste Rei Não usou ela tanto desta lei?

Viu ser cativo o santo irmão Fernando (Que a tão altas empresas aspirava), Que, por salvar o povo miserando Cercado, ao Sarraceno se entregava. Só por amor da pátria está passando

A vida, de senhora feita escrava,

Por não se dar por ele a forte Ceita. Mais o pubrico bem, que o seu, respeita. 48

A conquista de Ceuta foi uma oportunidade para a concretização desses desejos

do rei e significava expulsar os mouros, como acontecera na reconquista do território

português, dois séculos antes. Fizeram-se os preparativos para a conquista de Ceuta,

oficialmente o ponto de partida das aventuras portuguesas em África:

“Ceuta era um importante centro comercial terrestre e marítimo; situava-se

numa região agricolamente rica e num bom porto estratégico, que dominava o estreito

de Gibraltar. Podia servir de base para novas conquistas e, além do prestígio que um

tal feito representava para o rei, proporcionava-lhe ocupação para muitos nobres, cuja

profissão eram as armas.” 49

E, apesar do falecimento da rainha D. Filipa de Lencastre, a 18 de Julho de 1415,

D. João I não desistiu desse projecto. No dia 25 de Julho, partiu da praia do Restelo, o

que prova a importância desta empresa e a forte convicção do rei. 50 E, além do esforço

continuado dos monarcas portugueses, significava retomar a tradição nacional de defesa

e de expansão da civilização Cristã contra o Islão. Levar o Cristianismo para terras

africanas era um desejo de todos e um compromisso antigo com a Santa Sé. Sabe-se

igualmente que o infante D. Henrique estava, desde muito cedo, empenhado em fazer o

reconhecimento da costa ocidental de África, como relata Diogo Gomes de Sintra,

48 L. V. CAMÕES (1572); vide CAMÕES, Luís Vaz de, Os Lusíadas, Porto Editora, Lisboa, 1982, Canto IV, est. 50, 51,52, pp. 175 e 176

49 J. H. SARAIVA, Op. Cit., pp. 122

50 F. ALMEIDA, Op. Cit., pp. 267

almoxarife desta localidade, um dos homens da casa do Infante, enviado em expedições nos mares da incógnita Guiné:

No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do reino de Portugal, D. João de Castro

(que era capitão da armada feita pelo Infante Dom Henrique, filho de D. João I, rei de Portugal, e irmão da duquesa da Borgonha, mãe de Carlos, Infante esse que sempre cuidou em manter fidalgos de boa estirpe e mandá-los às suas custas saber de regiões estranhas), D. João de Castro, navegando pelo mar Atlântico, tomou pela força uma

Ao voltar, deparou com fortíssimas ondulações

marítimas a que os portugueses chamam correntes (

capitão voltou a Portugal no meio das maiores dificuldades e deu conta ao Senhor Infante do que acima se descreve.” 51 Podem acompanhar-se as consequências das acções do Infante, de acordo com os avanços que a pouco e pouco os exploradores lhe anunciavam, que se iam fazendo no oceano Atlântico; é possível apreciar uma certa continuidade dos planos do Infante, e as reacções, as alterações, as adaptações imediatas ao conhecimento que os corajosos navegadores transmitiam no regresso das aventuras:

“Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante D. Henrique um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas Canárias, sem se afastar da costa, com a intenção de saber o motivo de tamanhas correntes de mar.” 52 Há razões para acreditar que, no século XIV, já se conhecia o arquipélago da Madeira e algumas ilhas dos Açores. Além disso, a verdade é que muitos estrangeiros viajaram até Portugal ao longo do século XIV para trabalhar em múltiplos ofícios, alguns deles convidados pelos sucessivos monarcas; e no século XV muitos oferecerem os seus serviços ao Infante, na empresa dos Descobrimentos. Entre outros, de variadas nacionalidades, os genoveses Cadamosto e Usodimare colocaram-se ao serviço da Coroa Portuguesa:

“Tendo eu ficado no Cabo S. Vicente pelo modo sobredito, o dito Senhor mostrou haver grande prazer com a minha ficada e fui dele mui bem recebido; e depois de muitos e muitos dias mandou armar-me uma caravela com o lote de cerca de 90 tonéis da qual era patrão um Vicente Dias, natural de Lagos, que é um lugar próximo do Cabo de S. Vicente 16 milhas. E fornecida de todas as coisas necessárias para a

parte de uma ilha dita Grã-Canária (

Foi assim que o sobredito

)

)

51 D. G. SINTRA (1484-1496); vide SINTRA, Diogo Gomes de, Descobrimento Primeiro da Guiné, (Edição crítica de Aires A. Nascimento), Ed. Colibri, Lisboa, 2002, pp. 51

52 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53

nossa viagem, em nome de Deus e em boa hora, partimos do sobredito Cabo S. Vicente

no dia 22 de Março de 1455,

E também uma carta de Antoniotto Usodimare (de 12 de Dezembro de 1455), assinala a presença deste aventureiro e comerciante genovês em Portugal, precisamente no mesmo ano:

“E o Senhor Rei, vendo o que se passava, queria excluir-me de tal empresa, mas graças aos rogos do tal secretário, concordou em que eu vá a essas partes com esse secretário. Por isso, em nome de Deus volto a fretar uma caravela na qual seguirei, e levarei um carregamento dos servidores do Senhor Infante, e espero com o negócio equilibrar todo o meu futuro”. 54 Portanto, é certo também que Sagres se tornou num centro de cultura da arte náutica e um centro de contactos privilegiados, conhecido por toda a Europa, onde se concentraram muitos estrangeiros. Muitos acalentavam a esperança de participar nas aventuras dos portugueses, por necessidade, por curiosidade ou por ambição, esperando enriquecerem tal como outros viajantes; significa que, desde muito cedo, estas viagens cumpriram os objectivos económicos de Portugal. Várias fontes nos informam sobre a grande actividade marítima dos portugueses. Uma dessas fontes é a narrativa de Diogo Gomes de Sintra, reveladora do estado de espírito que animou muitos dos que participaram nas primeiras descobertas. Confirma que os portugueses se embrenharam no oceano Atlântico, desfazendo muitas lendas medievais sobre o Mar Tenebroso, misterioso e povoado de monstros, assustando os que ousassem avançar mais além. Dos perigos do mar os portugueses tinham já um claro conhecimento e a experiência necessária para se lançarem no mundo incógnito. Este projecto, para o qual contribuíram vários reis, surge como uma necessidade mas também uma nova aventura para o país, surgindo a figura do Infante D. Henrique como o mais veemente impulsionador dessa grande empresa dos Descobrimentos:

(…) bem-aventurado é o Infante D. Anrique que o glorioso Deus, pera se isto comprir, escolheu; e, assi, são bem-aventurados os Reis de Portugal que suas vezes sobcederam, e em tanto lograram a glória, riquezas e honra destas conquistas e comércio, com paz e acrecentamento, enquanto, com caridade e aspereza, servindo

53

53 L. CADAMOSTO e P. SINTRA (1463-1465?); Op. Cit., pp. 89 e 90

54 Portugaliae Monumenta Africana”, vol. I, in Mare Liberum, INCM, 1993

Nosso Senhor, delas bem usaram. A qual navegação começou o Infante, por serviço de Deus, do cabo de Não pera diante.” 55 . E não só pelo que acima se transcreve. Mais impressionante se torna a sua acção, se considerarmos a seguinte afirmação do cronista Gomes Eanes de Zurara, a primeira razão do Infante enunciada no começo deste nosso capítulo e que fundamenta a intencionalidade da sua acção:

“E porque o dicto senhor quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber, nenhuns (…) e vendo outrossim como nenhum outro príncipe se trabalhava disso (…)”. 56 Pressupõe que outros príncipes poderiam interessar-se pela sua causa, mas a convicção e os fundamentos do Infante eram mais fortes e a sua vontade foi determinante. Diogo Gomes de Sintra parece acompanhar de muito perto as intenções do Infante e as evoluções dos acontecimentos:

Nesse tempo, recebeu o Infante Dom Henrique graça, privilégio e Cartas do Sumo Pontífice, que então era Eugénio IV, de que nenhum príncipe, rei ou senhor

algum ousaria ir às partes da Guiné sem licença sua e do rei de Portugal, sob pena de excomunhão.” 57 Na edição crítica de Aires A. Nascimento, que temos consultado 58 , esclarece-se que “na realidade, a Bula de concessão é de Nicolau V e data de 1454; o Papa Eugénio

IV

é anterior (1431-1447).” Contudo, os factos estão correctos, o que pode significar

um

erro de memória do informador, navegador e homem muito próximo do Infante e da

Coroa portuguesa, que pode ter feito este registo muito tempo depois de ocorrerem estas

situações. Esta notícia repete-se mais tarde, por volta de 1508, com Duarte Pacheco Pereira, em Esmeraldo de Situ Orbis; retoma esta linha de raciocínio, baseando-se ou não nas nossas fontes, ou noutros testemunhos à época mais acessíveis. Com grande naturalidade revela que o Infante não só concebeu um projecto para Portugal, tendo-o

transmitido a vários reinos, acreditando talvez que seria útil e necessária a ajuda de outros reis para tão importante empresa. Ao que parece, os europeus não acreditaram

nas suas informações e declinaram qualquer interesse:

55 D. P. PEREIRA (1505-1508); vide PEREIRA, Duarte Pacheco, Esmeraldo de Situ Orbis, (Introdução e Anotações Históricas de Damião Peres), Academia Portuguesa de História, 3ª ed, Lisboa, 1988, pp.79

56 G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

57 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65

58 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit.

“ E tanto que a estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por ele sabida a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a tôdolos reis cristãos que o ajudassem a este descobrimento e conquista por serviço de Nosso Senhor, e todo o proveito igualmente lograssem, o que eles não quiseram fazer; mas, havendo isto por vaidade, lhe renunciaram seu dirieto. Pelo qual o Infante mandou ao Santo Padre, o Papa Eugénio IV, Fernão Lopes de Azevedo, fidalgo de sua casa e do Conselho de El- Rei D. Afonso o Quinto, comendador-mor da Ordem de Cristo; o qual apresentando ao Sumo Pontífice a embaixada do Infante e renunciação dos ditos Reis, lhe foi outorgado tudo o que pediu.” 59 Ainda de acordo com Zurara, o Infante teria várias razões para o descobrimento e a conquista de novas terras, entre elas, as mais evidentes seriam: conhecer a costa africana para além das ilhas Canárias; procurar outros povos cristãos; desenvolver relações comerciais; defender-se contra os mouros, conhecendo melhor o seu poder naqueles territórios; procurar aliados cristãos contra os mouros; difundir a fé cristã. O Infante D. Henrique era um homem privilegiado, se considerarmos que se encontrava numa posição de maior acessibilidade a todo o tipo de informação que circulasse no país ou no estrangeiro. Com certeza, a proximidade à Coroa, a sua posição social e a sua formação permitir-lhe-iam o acesso mais facilitado a várias fontes, às informações dos autores da Antiguidade ou de fontes medievais, como por exemplo O Livro de Marco Polo. Desconhecem-se ainda as fontes concretas de informação do Infante mas aquelas e o contexto económico das rotas comerciais, à época, já poderiam permitir-lhe projectar o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, de onde vinham há muito as especiarias para a Europa, pelas rotas do mar Vermelho; buscava também as informações que, desde o século XII, circulavam na Europa, acerca do reino cristão do Preste João das Índias, com grande probabilidade conhecido dos comerciantes árabes que controlavam o comércio no Oriente e que, por razões comerciais, obviamente contactavam com os comerciantes europeus, venezianos e genoveses, intermediários daquelas mercadorias. Acreditava-se que aquele rei cristão poderia ser um aliado dos cristãos e de Portugal, contra os muçulmanos que eram por aqueles considerados como uma ameaça. Mas as informações sobre a localização deste reino eram contraditórias. Sabia-se da existência deste reino contudo as informações seriam confusas. Assim, ao longo de

59 D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 79

muitos anos, os portugueses procuraram a localização e o auxílio do reino do Preste João da Etiópia 60 :

“Das Alagoas do rio Nilo de que, neste capítulo acima, falamos, temos sabido que delas um grande braço corre, por meo da Etiópia Inferior, contra oucidente, o qual, segundo a ordem do caminho que traz das longas terras de que vem, dizem os Etiópios 61 que o rio de Çanagá é; porque de tôdolos rios desta região da Etiópia os quais por muitos anos cada dia praticamos, sabemos certo que este é o maior, segundo se mais largamente dirá no capítulo que adiante vier, que do rio de Çanagá falar.” 62 Sabe-se que o Infante D. Henrique orientava esta empresa dos Descobrimentos e parece que antecedia as descobertas por informações concretas, objectivos e cálculos em vários domínios, além de uma complexa preparação das viagens; escolhia-se o comandante da expedição, pensava-se no número de naus e de marinheiros, a quantidade de mantimentos e de água para o tempo de viagem previsto, ao que se juntavam técnicas e instrumentos de navegação, etc. Eram investimentos consideráveis para um país com poucos recursos e que, à época, vivia em crise económica. Os resultados que conhecemos sobre estas expedições indicam que não eram concretizadas ao acaso, decorriam de estudos de várias fontes escritas, da parte do Infante, do rei D. Duarte, de contactos múltiplos e variados com o exterior. Eram acções pensadas, estudadas, aplicadas com ponderação e prudência, ou não teria sido tão rápida e eficaz a descoberta dos lugares desconhecidos e imprevisíveis. E, de facto, é inegável que se revelaram muito perigosos em determinadas etapas destas aventuras marítimas. A costa ocidental africana foi a primeira etapa dos Descobrimentos. Teve a força do primeiro impacto, sobre os intervenientes directos e depois sobre o mundo; uma acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades que os marinheiros portugueses

46 L. ALBUQUERQUE, Op. Cit., pp.174, “ A ideia de uma extensa Etiópia é confirmada em Santo

Isidoro. Nas Etimologias, depois de nos dizer que os Etiópios são negros porque “ o queima a proximidade do Sol”, situa a região numa larga faixa transversal da África, que de modo nenhum se pode identificar com a Etiópia de hoje. O texto de Santo Isidoro diz assim: A Etiópia na parte ocidental é montanhosa, arenosa no meio e ao oriente deserta. Estende-se desde o monte Atlas até aos limites do Egipto, ao meio-dia tem o oceano e por setentrião o Nilo. O Nilo aqui referido não podia deixar de ser o

rio dos Negros de Solino e Nunchul de Mela, isto é, o Senegal dos navegadores portugueses. Mas o texto

é ainda mais afirmativo, quando acrescenta: Há duas Etiópias: uma que está próxima da saída do Sol, e

outra que está no ocaso, junto da Mauritânia. Conclui-se, portanto, que uma tradição geográfica estabelecida desde os primeiros séculos da era cristã

dava o nome de Etiópia a uma larga região que se estendia do Atlântico à contracosta; os seus limites setentrionais seriam, de ocidente para nascente, a Mauritânia (prolongada até ao rio dos Negros), a Núbia

e o Egipto.”

47 Os habitantes da Etiópia são os guinéus, no século XV.

62 D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 25

tiveram que compreender. Para um marinheiro da Idade Média que, ao longo da vida, ouviu falar de histórias aterradoras sobre o Mar Tenebroso e o fim do mundo, esta linha da costa significava um perigo iminente, uma ameaça de morte. Seria de ânimo leve que, ainda hoje, um homem comum viajaria numa nave em direcção à Lua ou a Marte? E, além deste obstáculo psicológico que os navegadores tiveram de vencer, com muita ousadia e coragem, a verdade é que, souberam depois, aquele mar era de facto muito perigoso, muito agitado, com muitas correntes marítimas e ventos que dificultavam grandemente a navegação, exigindo conhecimentos avançados sobre as técnicas de navegar, sobre os ventos e as marés, etc. Por outro lado, a necessidade de encontrar alternativas económicas para resolver os problemas do país, os objectivos de ir sempre cada vez mais longe e difundir a fé cristã, eram motivos tradicionais e suficientes para iluminar o espírito destes marinheiros portugueses que se orgulhavam de combater em defesa da nação. Eram homens nobres e homens do povo, despertos para as coisas novas, para a aventura, para arriscar, orientados para recolher e registar todas as informações sobre os lugares que ninguém conhecia. Muitas naus portuguesas seguiram na direcção da costa africana por volta de 1420 e 1430. O Cabo Não já era conhecido no século XIV e ultrapassar o mais assustador - o Cabo Bojador -, a apenas sessenta léguas além do outro cabo, já era com grande probabilidade a principal preocupação do Infante D. Henrique. Gil Eanes, enviado pelo Infante, conseguiu dobrar o grande obstáculo do Cabo Bojador em 1434, constatando que o mundo se alargava a partir dali, muito ao contrário do que se esperava. E, tendo ultrapassado este cabo intimidatório, as descobertas sucederam-se a um ritmo mais rápido. No ano seguinte, o mesmo Gil Eanes e Afonso Gonçalves Baldaia chegaram ao Rio do Ouro, encontrando o ouro, essa enorme riqueza de que havia notícia na Europa. Então, estas viagens começaram, naturalmente, a chamar a atenção de um maior número de pessoas e de nações, mais interessados nos proveitos que delas poderiam obter. Facilmente podemos deduzir que múltiplas informações sobre as Descobertas dos portugueses se espalharam, desordenadamente, sobretudo pelos outros países europeus e pelo continente africano, na segunda metade do século. Multiplicaram-se as expedições até 1450. O Cabo Branco foi atingido por Nuno Tristão em 1441 e talvez este tenha sido o primeiro navegador a chegar ao Senegal, ao rio Gambia e ao Saloum. Em 1444, Dinis Dias descobriu o Cabo Verde e o Cabo dos Mastros que se situam no território da República do Senegal. E, em menos de trinta

anos, os portugueses tinham descoberto e baptizado muitos novos lugares. Este ritmo acelerado das Descobertas atesta, uma vez mais, a orientação dos marinheiros para executar um plano, estando dispostos a ir a toda a parte para conseguir notícias novas para o Infante, sobre os lugares e as gentes que encontrassem, cujas culturas desconheciam completamente. Portanto, não se pode afirmar que houvesse certo tipo de premeditações da parte dos portugueses, por exemplo em relação à exploração dos indígenas destes lugares. É necessário separar os antecedentes das Descobertas e as suas consequências directas em novos contextos económicos e culturais. O facto é que os projectos marítimos do Infante e da Coroa portuguesa alcançaram prestígio, o reconhecimento e o privilégio papal para continuar a empresa dos Descobrimentos e a divulgação da fé cristã. Passados alguns anos, as recentes Descobertas eram reconhecidas e valorizadas:

o mesmo papa Nicolau V, em 8 de Janeiro de 1455, pela bula Romanus Pontifex, declara que as terras já descobertas ou a descobrir pertenciam ao rei de Portugal e aos seus sucessores a título perpétuo, proibindo que alguém nelas penetrasse sem autorização daquele monarca e reconhecendo o monopólio comercial dos portugueses nesses territórios, incorrendo em pena de excomunhão quem nelas exercesse comércio sem autorização dos monarcas portugueses. Pela bula Inter Caetera, de 13 de Março de 1456, o papa Calisto III concede ao prior-mor da Ordem de Cristo 63 [Infante D. Henrique] a jurisdição espiritual nas terras portuguesas do ultramar, dando-lhe o poder de instituir benefícios eclesiásticos.64 Na verdade, as conquistas que os monarcas empreenderam na costa africana foram legitimadas pela Santa Sé, e esse reconhecimento foi também uma conquista dos portugueses; sendo, desde a sua fundação, uma nação profundamente lutadora e religiosa, sempre os reis procuraram legitimar as suas conquistas, junto da Santa Sé, para vê-las reconhecidas internacionalmente. De facto, a 18 de Junho de 1452, pela bula Dum Diversis, Nicolau V concedeu aos reis de Portugal a autorização e a liberdade de

63 Nova Enciclopédia Larousse, 1994, vol 7: Ordem de Cristo “Ordem que herdou em Portugal, os bens e muitos dos membros da Ordem dos Templários, extinta pelo Papa Clemente V a instâncias de Filipe, o Belo, que cobiçava as suas riquezas. Fundada por D. Dinis, foi aprovada (1319) por João XXII, que lhe atribuiu a regra de S. Bento. A sua sede transferiu-se (1357) de Castro Marim para Tomar. Teve um papel notável no empreendimento dos Descobrimentos (descoberta, conquista e evangelização de novas terras), sendo seu administrador o infante D. Henrique. Com D. Manuel (que a chefiou desde 1484), a ordem ficou dependente da Coroa. A Ordem de Cristo foi secularizada em 1789, extinta em 1910 e restabelecida em 1918 para premiar altos serviços militares ou civis.”

64 J. C. MAGALHÃES, 1990, pp. 43

adquirir os domínios dos muçulmanos e de possuir os seus bens, num contexto de combate aos infiéis, incitando-os a propagar o cristianismo (e originando o direito de padroado concedido pelos papas a Portugal, também no Oriente). Sabe-se que o Infante D. Henrique, sendo o orientador desta empresa dos Descobrimentos, tinha o apoio da Coroa portuguesa. Frequentemente se regista o desejo dos próprios navegadores de levarem ao Infante boas novas e provas sobre os lugares descobertos – por exemplo flores, papagaios, pessoas negras. E o espanto com as novas realidades não se esgotou em cada viagem; pelo contrário, foi-se expandindo e a curiosidade também:

Sem mentir, digo que vi uma grande parte do mundo, mas nunca vi coisa semelhante a esta.65 E, a par da surpresa dos navegadores portugueses, também o Infante reagia às novidades:

Ao ouvir isto, o Infante Dom Henrique incitou-o a ir saber daquelas terras por mar para estabelecer comércio com elas e para garantir casa aos seus nobres. O dito cavaleiro voltou a ter com o senhor Infante e deu-lhe conhecimento de ter encontrado um mar sereno, mas cum contínuo vento rijo de aquilão e enorme quantidade de peixe nas costas de tal mar. O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e por capitão deu-lhe o copeiro de sua casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia.66 O interesse do Infante é observável em vários momentos desta narrativa, embora deva depreender-se que estas iniciativas precisam de um certo tempo de preparação, meses e até anos, se considerarmos alguns períodos de paragem por outros motivos políticos nacionais. Não era tudo imediatamente estabelecido, outros interesses se intercalavam e condicionavam os avanços nas acções marítimas; e, ainda assim, o ritmo das descobertas foi rápido, orientado pela lucidez deste homem determinado e atento às mudanças:

“Por outra parte, depois da chegada do senhor Infante da armada com o rei Afonso, depois do cerco e tomada da cidade de Alcácer, trouxe à memória ao senhor Infante o que me dissera o rei Nomimans quanto a mandar-lhe tudo o que lhe encomendara.

65 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 65

66 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53

Isso tudo fez o Infante e mandou para ali um sacerdote parente do Cardeal, o abade de Souto da Casa, para ficar com aquele rei e instruí-lo na fé. Além disso, mandou com ele um moço da sua câmara, de nome João Delgado. Era isto no ano de 1458.” 67 Ainda na mesma linha de raciocínio, o espanto dos marinheiros portugueses manifestava-se naturalmente em relação a tudo o que viam, até a existência de redes de pesca, feitas à maneira dos africanos, que denunciavam sem dúvida a presença humana. E transportavam para Portugal essas surpresas visíveis, causando forte impressão junto do Infante:

Chegaram à costa do mar que toma o nome de Rio do Ouro, onde acharam muitas redes feitas com cascas de árvores, porque naquele lugar há imensa actividade de pesca. Admirou ele [o senhor Infante] as redes que traziam com eles feitas pelos homens daquela terra.68 Compreensivelmente, este mesmo espírito se manifestou em relação às pessoas que encontraram naqueles lugares:

E vendo eles que nada aproveitavam, regressaram a Portugal e deram novas de tudo ao senhor Infante. Com isso o senhor Infante ficou muito satisfeito, pois tinham encontrado rasto de gente.69 Parece-nos que perante as diferenças encontradas nos nativos etiópios, os navegadores pioneiros nesta aventura não hesitaram em mostrar as diferenças humanas daquelas gentes ao senhor Infante, o príncipe D. Henrique que organizava todas estas expedições marítimas:

Ordenou-lhes que fossem até ao Rio do Ouro e que, se encontrassem gente, fizessem tratado de paz com ela. Assim foram até ao Rio do Ouro; de noite foram com batéis até à costa e ao alvorecer viram uma gente que vinha tirar água a um poço. Cheios de satisfação, saltaram em terra com as suas armas e apanharam treze

E voltaram a Portugal, a ter com o

homens e mulheres, enquanto o resto fugia. (

senhor Infante que muito se alegrou em sua companhia. Por esses teve início o conhecimento daquela região. ( )

)

67 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 86

68 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 55

69 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57

O senhor Infante ficou a saber por eles o caminho para chegar a Tambucutu. Disseram-lhe muitas mentiras.70

Assim, o Infante D. Henrique ia recebendo novos dados sobre os novos lugares.

E

das viagens da Descoberta traziam-se desta forma muitas informações concretas, que

o

Infante aproveitava e adequava aos seus objectivos em vários domínios. Eram

investimentos consideráveis para um país que, à época, como em toda a Europa, vivia dificuldades económicas e transformações sociais irreversíveis, como a falência do feudalismo e as necessidades crescentes de rendimento por parte das classes senhoriais que provocavam a ineficiência deste modo de produção. Também devido às rudimentares técnicas de produção utilizadas nos trabalhos agrícolas, tornaram-se insuportáveis as exigências dos senhores aos servos; como consequência das miseráveis condições de vida dos trabalhadores, emergiu a burguesia e criaram-se novas oportunidades sociais. Portanto, estas expedições não eram concretizadas ao acaso, não poderiam expor-se ao fracasso e perder tudo, embora fossem sempre um risco, como qualquer investimento. Tal como nos nossos dias, investir era difícil e inseguro, exigindo adquirir certo tipo de informações e de condições estratégicas. Com tempo para um certo amadurecimento, faziam-se estudos de várias fontes escritas, mantinham-se e promoviam-se contactos diversos com o exterior. Eram acções e investimentos que levaram à descoberta de uma tão grande extensão de lugares imprevisíveis, em que muitos pereceram. Neste contexto da Natureza, da navegação e do armamento, muitas coisas não se podiam prever, por desconhecimento, e haveria muitas outras que eventualmente nos ocorrem, designadamente: a especificidade dos perigos a que se expunham naqueles mares e terras nunca antes visitados; distância a percorrer até àqueles lugares; espaço e duração das viagens; dificuldades que teriam de enfrentar na resolução de novos problemas náuticos, climáticos ou outros; número de marinheiros; clima adverso; doenças; tipo de alimentação no mar e noutros lugares; receptividade (amigável ou hostil) das gentes que encontrassem; adequação do armamento que possuíam para a defesa e o ataque. Um século depois, ainda está bem viva a memória das vidas que se perderam nestas expedições marítimas, que Luís Vaz de Camões, n’ Os Lusíadas, não deixa cair

70 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57-59

no esquecimento e situa-nos, em vários momentos da epopeia, nesse contexto do perigo

e das incertezas, tanto no mar como em terra:

No mar, tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida; Na terra, tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?” 71 Apesar de tudo, os portugueses partiram intencionalmente de Portugal para descobrir novos mundos; e pela primeira vez na História mundial, contornaram o continente africano, chegaram à Índia por via marítima e viram o Brasil. A descoberta da costa ocidental africana foi a vivência de toda uma realidade nova, diferente e estranha. Foi uma acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades que os marinheiros, portugueses e estrangeiros, ao serviço do Infante D. Henrique, tiveram de compreender, foram postos à prova para algo que nunca tinham visto, ouvido ou sentido. Caminhando para o desconhecido, os navegadores partiam de Lagos, no Algarve, ou do Restelo, em Lisboa, ao serviço da Coroa portuguesa ou do Infante D. Henrique que orientavam este projecto de Estado, virados para a conquista do Oceano

Atlântico, além do estreito de Gibraltar e do Norte de África, já sobejamente conhecidos

e explorados pelos povos do Mediterrâneo.

Como se prepararam para o desconhecido? Que experiência tinham para se lançarem em aventuras no mar “Oceano”? Que marinheiros se colocavam nestas

expedições?

Diogo Gomes aponta-nos muitos dos primeiros navegadores e caracteriza-os, o que nos permite identificar as classes sociais, a posição social dos navegadores escolhidos para comandar as expedições e desbravar os caminhos ocultos:

No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do Reino de Portugal, D. João de

) navegando pelo

Castro (que era capitão da armada feita pelo Infante D. Henrique Mar Atlântico, ( )

72

71 L. V. CAMÕES (1572), Op. Cit., Canto I, est. 106

Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante Dom Henrique um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas Canárias.73 No início da expansão, logo os fidalgos da corte eram chamados a cumprir esta grande responsabilidade, como uma missão de guerra ou de paz, e nem sempre bem sucedida, vendo-se de repente e frequentemente em grandes dificuldades que os obrigavam a regressar ao reino. As escolhas dos comandos das tripulações para estas viagens incidiam naturalmente sobre nobres cavaleiros e sobre aqueles que, com certeza, o Infante já conhecia bastante bem, confiando-lhes altas responsabilidades como a de comandar viagens que representavam muitas dificuldades, que exigiam experiência de navegação e de vida; daí que muitos deles tivessem já uma idade avançada. Mas, por outro lado, colocava também homens jovens, capazes, da sua confiança, mais fortes e resistentes, acautelando assim outros imprevistos, partilhando as virtudes de todos os que lhe estavam mais próximos e que aceitassem esses desafios da aventura marítima, pelo prestígio da nação:

O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e por capitão deu-lhes o copeiro de sua Casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia. Com ele mandou dois moços fidalgos com dois cavalos ( )” “Imediatamente, o senhor Infante fez uma armada de duas caravelas e mandou por capitão-mor um cavaleiro já de idade que se chamava Nuno Tristão; por capitão em outra caravela ia Antão Gonçalves, muito moço, que depois teve o castelo de Tomar, com outros moços da câmara do senhor Infante75 Estes homens, com experiências de vida diferentes, tinham contudo o denominador comum de alguma proximidade ao príncipe, ao Infante D. Henrique, que também não deixava de os premiar, de os recompensar pela coragem e valentia demonstradas. Portanto, muitos alcançaram grande prestígio no reino em consequência das suas acções nas Descobertas, tal como este Antão Gonçalves, por exemplo. São homens e navegadores portugueses, com estas características, que atingem o rio Senegal e o Cabo Verde, onde ainda hoje é considerado e homenageado o primeiro

74

72 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 51

73 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53

74 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53-54

75 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 57

navegador português que ali desembarcou, Dinis Dias, embora se pense que Nuno Tristão terá sido o primeiro a chegar a estes sítios:

Depois o senhor Infante expediu caravelas: numa ia alguém da sua própria

Casa, de nome Gonçalo de Sintra, e noutra um certo Dinis Dias; e queria que fossem além do lugar chamado Pedra da Galé, para ver se mais longe poderiam apanhar ou

descobrir mais línguas (

A partir do momento em que fizeram o reconhecimento desta região, as viagens passaram a ter não só o objectivo da descoberta desses lugares, mas também a descoberta de novas áreas e rotas de mercado com os indígenas, o que obrigava a uma maior eficácia da comunicação com os nativos – “descobrir mais línguas” - para obter as informações necessárias sobre os produtos, os interesses dos intervenientes e dos intermediários. Para isso, procuraram formas para desenvolver as trocas comerciais mas também para as facilitar, passando pela necessidade de criar uma maior proximidade. Assim, foi provavelmente quando descobriram um lugar onde afluíam periodicamente, de forma sustentável, muitos comerciantes africanos para transaccionarem os seus géneros, que em Portugal se decidiu construir uma fortaleza, para se instalarem definitivamente e com maior segurança nesses circuitos comerciais, também para defender o território contra os infiéis e instruir os nativos na fé cristã. Era também um lugar aprazível, na ilha de Arguim, na actual Mauritânia:

)

76

Mais além chegaram a um lugar que agora tem o nome de Arguim. ( )

A ilha tem muitos lugares onde nasce água doce na areia. Por causa disso, o senhor Infante mandou depois fazer aí uma fortaleza.

Pôs aí gente segura de cristãos com um sacerdote de nome Polono, da vila de

Esta

fortaleza foi construída no ano de 1445.77 Foi o lugar escolhido preferencialmente pelos navegadores, pelas condições mais favoráveis que oferecia à presença humana, ficando a meio caminho entre o que conheciam (que não ia além da Serra Leoa) e Portugal. Parece representar, assim, uma estratégia para abranger e controlar melhor a totalidade dos territórios descobertos, geridos unicamente pelos portugueses, naquela altura. Estas motivações podem justificar o facto de os portugueses não terem uma presença mais forte no Cabo Verde,

Lagos, o qual foi o primeiro que celebrou os ofícios divinos na Guiné (

).

76 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59

77 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59 e 61

no actual Senegal, desde que conheceram aqueles lugares, tendo-se adaptado às circunstâncias que encontraram, e traçando sempre os seus objectivos em consonância com aquilo que iam descobrindo, num processo de causa/ efeito. Muito cedo, montaram essa estratégia que, à época, e naquele ponto das aventuras era mais benéfico e seguro instalarem-se em Arguim do que no Cabo Verde, que acabavam de conhecer. Estando já bastante distante do reino, as viagens até ao Cabo Verde eram necessariamente mais penosas e dispendiosas do que a partir de Arguim, tanto para Norte como para Sul:

De novo o senhor Infante fez uma armada de quatro caravelas. Os capitães:

Gil Eanes de Vilalobos, cavaleiro; Lançarote, almoxarife do Rei em Lagos; Nuno Tristão e Gonçalo Afonso de Sintra. E houve muitos homens de nobreza que foram a Arguim ( )Deste modo, talvez possamos compreender mais facilmente por que motivos os piratas e os outros europeus se introduziram rapidamente nos territórios do actual Senegal, dado que as orientações dos portugueses se desviaram, mais para Norte e, mais tarde, situaram-se também mais a Sul, nos territórios da actual Guiné-Bissau e outros circundantes; isto também porque, tendo sido os primeiros a chegar ao continente africano, procuraram a zona onde o comércio era mais intenso e onde os nativos eram menos agressivos, pois, nas primeiras viagens ao Cabo Verde há notícia de tripulações dizimadas, quase por completo, pelos negros que atiravam setas envenenadas ou que atacavam de surpresa e de forma traiçoeira os visitantes que se aproximassem de terra, como veremos mais adiante:

Depois de o senhor Infante ter sabido notícias tão horrendas mandou uma caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão o já referido Nuno Tristão que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres. De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde.79 É muito importante a atitude do Infante e dos navegadores perante os indígenas. Enquanto transportava largos investimentos para as expedições marítimas, igualmente ia sabendo de acontecimentos nefastos junto dos navegadores que comprometia nestas viagens; não seria muito agradável perder as tripulações, ou as embarcações, ou desviarem-se e não concretizarem os seus objectivos:

78

78 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 61

79 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

Ao ouvir contar as notícias desagradáveis da morte dos seus cristãos, o senhor Infante ficou muito triste. Andava então pelo seu paço um certo fidalgo do Reino da Suécia que viera a Portugal para ser armado cavaleiro além-mar, em África; era seu nome Abelhart. Desejando ele ver terras estranhas e principalmente as da Guiné, rogava ao senhor Infante que o mandasse a tais paragens; anuiu o senhor Infante ao seu pedido e deu-lhe uma caravela armada com alguns nobres da sua corte.80 Se considerarmos os contextos de “notícias desagradáveis”, torna-se mais compreensível que o Infante recebesse, de bom grado, a ajuda de outros príncipes ou de estrangeiros destemidos, impressionados com estas aventuras inovadoras, como este fidalgo da Suécia. Por outro lado, não hesitava e continuava a armar caravelas para novas viagens, com recurso a homens próximos da sua câmara ou do próprio rei:

Não muito tempo depois, o senhor Infante armou uma caravela de Lagos que tomava o nome de Picanço e fez seguidamente Diogo Gomes capitão dela. Armou também outras duas caravelas para irem além. Fez de Diogo Gomes o capitão-mor destas caravelas e numa das outras ficou como capitão João Gonçalves Ribeiro, criado do Infante, enquanto na outra ficava Nuno Fernandes Baía, escudeiro do mesmo Infante. E mandou-lhes que fossem além o mais que pudessem.81 Neste caso, trata-se da experiência do navegador português, cujo manuscrito temos vindo a consultar. Refira-se que, apesar da polémica que existe acerca da origem deste texto, partilhamos a posição apresentada por Aires A. Nascimento que atribui a autoria desse documento a Diogo Gomes de Sintra. Trata-se das informações recolhidas por um português, que passou de forma marcante pelos territórios descobertos, inclusivamente pelo território actual do Senegal. Para nós, tem grande valor a experiência de uma testemunha ocular, de um navegador que teve contacto directo com as novas realidades e com as novas gentes. Ainda que nos pareça que muitos destes dados tenham sido escritos ou registados muito posteriormente aos acontecimentos ou que possam ter sido adulterados ao longo dos tempos por algum possuidor do documento, a verdade é que está aqui presente a cultura dos Descobrimentos que se conhece e aceita em outros textos sobre as Descobertas.

80 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69

81 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69 e 71

Diogo Gomes empreendeu viagens ao serviço do Infante e do rei D. Afonso V, teve várias oportunidades para aprofundar os seus conhecimentos na região do Senegal, que nos interessa especificamente:

Dois anos depois, porém, o rei Dom Afonso armou uma grande caravela, em que me mandou por capitão. Levava eu dez cavalos comigo e fui à terra dos Barbacins

O rei deu-me poder sobre as costas do mar, de tal modo que todas as caravelas

que encontrasse em terra da Guiné ficassem sob minha jurisdição ou domínio (já que ele sabia que ali havia caravelas que levavam espadas e armas para os mouros), ordenando-me que as trouxesse sob prisão até ele em Portugal82 Reflecte-se até uma querela entre Diogo Gomes de Sintra e o genovês António de Noli, acerca do descobrimento das ilhas de Cabo Verde, por ambos afirmarem ter sido os primeiros a pôr o pé naquele arquipélago, precisamente na sequência desta viagem ao Cabo Verde, em que se cruzaram e navegaram lado a lado; a descoberta tem sido atribuída ao genovês, mas a questão ainda não parece estar cabalmente esclarecida:

Com a ajuda de Deus em doze dias cheguei aos Barbacins e achei ali duas

caravelas, a saber, uma em que ia Gonçalo Ferreira, criado da Casa do senhor Infante, homem morador no Porto, cidade de Portugal, que transportava cavalos para ali. Na outra caravela estava como capitão o mercador genovês António de Noli, que também transportava cavalos.83 Partiam as naus com tripulações diminutas, inicialmente nem todos arriscavam o seu futuro nestas aventuras, principalmente sem saberem se tirariam algum proveito disso; por outro lado, o país não tinha muitos recursos e o investimento nestas viagens era exigente e elevado; por isso, tudo era pensado, calculado com peso e medida, diante de muitas incertezas sobre o que iriam encontrar e/ou ganhar. Outras dificuldades havia como, por exemplo, os mantimentos que não se podiam conservar com segurança, com facilidade, durante tempo incerto, em quantidades que de todo não podiam prever de forma exacta se seriam as necessárias, as suficientes ou as melhores para lhes permitirem resistir aos perigos ocultos em situações imprevisíveis. Estas fragilidades, à partida, revelam também a enorme força do projecto do Infante D. Henrique e do Estado português, que não se detiveram perante os obstáculos, porque tinham objectivos firmes, inquestionáveis, e que muitos até transformaram na

). (

82 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 89

83 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 90

oportunidade para encontrar uma vida melhor. O povo vivia numa grande pobreza; era necessário lutar e arriscar para sobreviver. O Estado procurava soluções, tomava a iniciativa para resolver problemas do país, buscava novas riquezas (metais preciosos, especiarias da Índia, e outros produtos de difícil acesso em mercados longínquos), novos caminhos e mais curtos para os mesmos produtos que poderiam obter, na fonte, a mais baixos preços; teriam um mercado mais lucrativo, sem concorrência, e acederiam a esses produtos que há muito escasseavam na Europa. E, na sequência do espírito cavaleiresco medieval, muitos nobres estavam dispostos a travar batalhas contra os infiéis ou conquistar novos lugares pelo prestígio d’El-Rei de Portugal.

1.3. Os indígenas da Guiné

Segunda razão do Infante

“E a segunda foi porque considerou que, achando-se em aquelas terras alguma povoação de Cristãos, ou alguns taes portos em que sem perigo pudessem navegar, que se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadarias, que se haveriam de bom mercado, segundo razão, pois com eles não tratavam outras pessoas destas partes, nem doutras nenhumas que sabidas fossem; e que isso mesmo levariam para lá das que em estes reinos houvesse, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturaes.” 84

Efectivamente, os portugueses vieram a desvendar mistérios que existiam desde a Antiguidade Clássica, que os autores greco-latinos tinham difundido com base em ideias fantasiosas sobre o Mar Tenebroso e sobre o litoral do continente africano, sem contudo o terem visto, sem viverem a experiência do contacto com as realidades que descreviam com tanto pormenor. Mas também existiam muitas lendas do conhecimento do povo, e basta observar algumas das mais antigas representações do Mundo, para termos a percepção destas influências até ao século XV:

Num primeiro grupo, que teve muita aceitação nos meios religiosos, devem ser reunidos os pequenos diagramas circulares onde é corrente a representação esquemática do mundo conhecido, de acordo com os textos bíblicos. ( )

84 G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

Num segundo grupo deveremos juntar todos os planisférios e mapas, de nítida filiação nos esquemas anteriores e na geografia erudita do cristianismo, onde se anotam as representações, quase sempre imprecisas e profundamente erradas, de países e acidentes mais conhecidos. Num último grupo, de origem mais recente, terão de ser reunidos todos os

documentos cartográficos subsidiários das cartas náuticas, por terem sido desenhados por cartógrafos que também eram autores destas ou que delas se serviram ao traçar a representação do mundo que então se sabia ser habitado pelo homem.” 85 De tal modo, que até à Idade Média, essas lendas intocadas resistiram, convenceram, assustavam e dissuadiam muitos da exploração daqueles espaços. Entre muitos documentos, apresentamos um exemplo, sobre lugares ainda próximos de Portugal, citado pelo mesmo autor, Luís de Albuquerque, na mesma obra:

“Item. Está, pois, a ilha Canária, dita Canária pela grande quantidade de cães que estão nela, muito grandes e fortes. Diz Plínio, mestre de mapas-mundo, que nas ilhas Afortunadas há uma ilha onde crescem todos os bens do mundo, e sem semear e

Por este motivo acreditam os pagãos das

Índias que, quando morrem, vão as suas almas para aquelas ilhas e vivem por todo o tempo do odor daqueles frutos e eles crêem que é o seu paraíso; mas para dizer a verdade, isto é fábula.” 86 Ainda gostaríamos de apresentar outra referência ao texto de um dos autores mais influentes em Portugal e Espanha, à época, Pompónio Mela:

No seu pequeno tratado de Geografia, Pompónio Mela não se limitou a localizar as regiões do Mundo e a descrevê-las: acrescentou aos dados estritamente geográficos indicações sobre a fauna, usos e costumes desses países; e é neste aspecto que o livrinho se afasta muito da realidade, pois dá tal crédito a fantasias que o seu autor é muito justamente apontado como um dos pioneiros desta literatura de maravilhas.87 Refira-se também o mais conhecido texto de John de Mandeville, dentro da literatura deste género:

“O autor, imputando ao seu personagem uma longa viagem que nunca fez, meteu na história dessas fingidas andanças pelo Mundo tudo quanto pôde encontrar de

sem plantar crescem todos os frutos. [

]

85 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 110-111

86 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 120

87 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 134

mais extraordinário na então já vasta bibliografia dessa geografia fantástica; e os romances de cavalaria, dando aqui e além umas pinceladas romanescas, ajudaram a compor os ingredientes de que saiu essa obra que é muito justamente considerada como uma das maiores mistificações que a história da geografia regista. Aparecem neste livro: as montanhas que vão para além das nuvens e dão sombra com oitenta e seis milhas de extensão; a torre de Babilónia, morada de dragões, serpentes e outros animais venenosos que não consentiam a aproximação de visitantes; o “ paraíso terreal”, situado na mais alta montanha da Terra, tão alta que tocava a Lua; e todos os lugares-comuns que os seus antecessores tinham laboriosamente inventado – a Fénix, as trevas perpétuas no Norte da China, as riquezas incríveis na mesma China e do Egipto, etc. O que singulariza Mandeville é, porém, o poder de convicção com que redige as maiores patranhas, conferindo-lhes um tom de autenticidade que elas não possuíam noutros autores (…).)88 Há ainda a considerar a grande difusão na Europa do Livro de Marco Polo:

O Livro de Marco Polo difundiu-se por toda a Europa e é muito de aceitar que tenha entrado em Portugal na bagagem do infante D. Pedro, quando ele em 1428 regressou da sua jornada pelas “sete partidas”, como nos diz Valentim Fernandes no intróito da edição em língua portuguesa que do texto nos deu. Porém, em relação ao “plano da Índia”, Marco Polo apenas poderia ter sido um dos factores auxiliares que contribuíram para o seu desabrochar; só mais tarde, tal como o foi para Colombo, teria servido de meio de informação, o que, de resto, a edição portuguesa do princípio do século XVI claramente denuncia.89 Sobre estas maravilhas que se contavam, também se pronuncia Diogo Gomes de Sintra, contrariando Ptolemeu, um dos grandes mestres antigos da Geografia que influenciou a Idade Média e a Renascença. Contudo, há que ter em conta que a obra deste autor só foi traduzida, vertida para Latim no século XV, o que inviabiliza seguramente a sua grande influência nos Descobrimentos portugueses:

Estas coisas que aqui se escrevem damo-las com a devida vénia do ilustríssimo Ptolemeu, que muito de bom escreveu acerca da divisão do mundo, mas nesta parte enganou-se. Escreveu, com efeito, que o mundo se dividia em três partes: uma povoada

88 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 138

89 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 130

que ficava a meio do mundo; a setentrional, segundo escreveu, não era povoada devido

ao frio excessivo; escreveu também que a parte equinocial do meridião era também

desabitada por causa do calor excessivo. Descobrimos que tudo era diferente.90

Na verdade, ao contrário do que sucedera com as descobertas das ilhas da

Madeira e dos Açores, que posteriormente vieram a ser povoadas pelo reino de

Portugal, havia gente muito diferente e estranha na costa da Guiné, nunca antes visitada:

“Na viagem, passaram além do cabo de Tofia e acharam uma terra despovoada

e arenosa, como a anterior, sem vegetação nem àrvores. Indo mais além depararam

com uma terra cheia de àrvores, nomeadamente palmeiras, e saíram a terra. A sua

gente era toda negra.” 91

No primeiro contacto, considerar o impacto da novidade é fundamental para

compreender os acontecimentos e, parece-nos, não se pode sequer esquecer ou

desvalorizar este aspecto, sob pena de se distorcerem os factos. Ao conhecerem os

habitantes destas terras, colocavam-se novas situações à presença dos portugueses nos

territórios da costa ocidental africana, onde tem início uma História comum, europeia e

africana, incluindo os territórios do actual Senegal que queremos observar.

Como poderíamos caracterizar estes contactos pioneiros? Que importância e que

influência têm no futuro destes povos?

O contexto da situação de comunicação era novo para os visitantes e para os

nativos. As gentes e os lugares, à primeira vista, apresentavam características distintas.

Os estrangeiros surgiram de repente, vindos do mar, navegando, eram brancos e

maioritariamente homens (há poucas notícias sobre mulheres que embarcassem nestas

primeiras expedições de exploração marítima). Camões, mais de um século depois

destes acontecimentos, não deixa de recordar esse contexto da dor dos marinheiros, na

hora da partida para aquelas viagens incertas; lembra-nos esses dramas humanos da

separação das famílias e dos amigos:

“A gente da cidade, aquele dia, (uns por amigos, outros por parentes, Outros por ver somente) concorria, Saudosos na vista e descontentes. E nós, co a virtuosa companhia De mil religiosos diligentes,

90 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65

91 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

Em procissão solene, a Deus orando, Pera os batéis viemos caminhando.

Em tão longo caminho e duvidoso Por perdidos as gentes nos julgavam, As mulheres cum choro piadoso,

Os homens com suspiros que arrancavam. Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso Amor mais desconfia, acrecentavam

A desesperação e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo.

) (

Qual em cabelo: “ Ó doce e amado esposo, Sem quem não quis Amor que viver possa, Porque is aventurar ao mar iroso Essa vida que é minha e não é vossa? Como, por um caminho duvidoso, Vos esquece a afeição tão doce nossa? Nosso amor, nosso vão contentamento, Quereis que com as velas leve o vento?”

) (

Nós outros, sem a vista alevantarmos

Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado, Por nos não magoarmos, ou mudarmos Do propósito firme começado, Determinei de assi nos embarcarmos, Sem o despedimento costumado, Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.” 92

Naturalmente, estas experiências vividas pelos portugueses nestas viagens

estavam fora do alcance dos africanos a Sul do Sara. Os autóctones daqueles sítios

longínquos, integrados numa paisagem específica, apresentavam aspectos humanos,

alguns semelhantes e outros diferentes; tinham a pele negra, eram homens, mulheres e

crianças. Também as indumentárias terão impressionado uns e outros, dentro das suas

referências culturais, e terão ultrapassado o horizonte de expectativa de ambos os lados,

com certeza. As modas eram outras. As experiências sobre o mundo também divergiam,

só de ver e de olhar:

92 L. V. CAMÕES (1572); Op. Cit., Canto IV, est. 88-93

“As caravelas, indo além de Cabo Verde, ou seja, em direcção ao polo antárctico, descobriram uma terra desabitada. Avançando mais além descobriram uma grande praia e chegaram a ela com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra.” 93 Para os exploradores portugueses, o calor, a flora e a fauna causariam sensações novas e estranhas aos sentidos, não só pelo que havia de diferente mas também pelas semelhanças que encontravam na terra e nos seres. O mundo estendia-se aos seus olhos com aspectos novos que apreenderam dentro das suas referências culturais e que, quase inadvertidamente, foram transplantadas por eles próprios para estes sítios e em contacto com estas gentes distintas. Afinal, não se cruzaram com monstros marinhos nem o mar entrou em ebulição, nem sabiam desta gente negra. Facilmente concluíram que o senhor Infante tinha razão para querer que atravessassem aquele mar “Oceano”, para ir “mais além”; estava portanto bem informado e muito melhor do que quaisquer outros príncipes da Europa. Tinham diante dos olhos a prova de todas as expectativas do Infante e logo isso lhes servia de novo estímulo psicológico para continuar a participar nesta grande e corajosa empresa dos Descobrimentos, um projecto que só traria prestígio a estes aventureiros, ao Infante e à Coroa portuguesa. Renovava-se o estímulo com a descoberta seguinte e entusiasmavam-se com a possibilidade de trazer as novidades a Portugal, juntamente com as provas que pudessem encontrar, tudo o que estivesse ao seu alcance. Renovava- se a confiança no futuro. Houve entendimento entre os portugueses e os nativos daquelas terras? Como estabeleceram o contacto? Como comunicaram? Diogo Gomes de Sintra conta vários episódios cujas consequências dependiam ou da capacidade de comunicar dos estrangeiros ou da receptividade dos indígenas:

“ Os cristãos faziam-lhes sinais de paz, mas eles não entenderam. Mandaram- lhes os cristãos mercadorias que tinham trazido com eles a terra, mas eles receberam- nas sem se disporem a falar. Os cristãos bem teriam podido apanhar alguns, mas não ousavam fazê-lo pois o senhor Infante tinha-lhes mandado que não lhes fizessem nada de mal e assim eles lhes fizeram.” 94

93 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

94 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

Em primeiro lugar, os navegadores ao serviço do Infante não ousariam quebrar as suas orientações e as instruções que recebiam seriam de um rigor extremo, sendo inquestionável a admiração pelo príncipe. Mas a adaptação dos navegadores não foi fácil, com certza, e nem todos teriam saúde que resistisse àquelas mudanças climáticas fortes e repentinas. Perante aqueles homens novos, era necessário comunicar. As mercadorias, objectivas e concretas, apresentadas directamente, seriam um sinal dos interesses dos estrangeiros em trocar os seus produtos, levaria à acção idêntica da parte dos que ali viviam, mas a comunicação verbal seria impossível por desconhecerem a língua uns dos outros. Portanto, uma característica comum aos visitantes e aos autóctones seria a própria capacidade, desejo e necessidade de comunicar 95 ; além da prática da utilização de um turgimão / língua, teriam de recorrer a formas não verbais de comunicação e os conteúdos das mensagens seriam de uma enorme simplicidade, seriam sinais humanos gestuais, universais, muito óbvios, concretos, para se entenderem; esses aspectos humanos universais devem ter sido a base da comunicação entre os indígenas e os visitantes portugueses. Diríamos que esses conteúdos universais deveriam abranger tudo aquilo de que um ser humano precisa para viver em contacto com uma determinada comunidade e com a natureza. Apesar das diferenças humanas encontradas (no início, a cor da pele, a indumentária, a expressão verbal), houve um reconhecimento mútuo e imediato de seres humanos, homens e mulheres. Mas a curiosidade e a criatividade humanas, de ambos os lados, não pararam na observação do que lhes era estranho. Desde os primeiros encontros, esta identificação psicológica existiria, o que de certa forma contribuiria para aproximar estes grupos humanos de origens e culturas distintas. Sem falarem a mesma língua, os primeiros contactos entre os portugueses e os guinéus, basear-se-iam num conhecimento intrínseco dos aspectos humanos universais, o que nem sempre foi pacífico. Eram contactos que ofereciam dificuldade, à partida, e portanto desenvolviam- se resistências de ambas as partes; seriam lentos e complicados, cansativos e a precisar de uma enorme paciência e dedicação. Teriam de criar as condições para uma atmosfera de confiança entre os interlocutores, sob pena de não se entenderem e de não conseguirem os objectivos a que se propunham. Seria contudo raro este tipo de relação

95 CARVALHO, José G. Herculano de, Teoria da Linguagem, Natureza do Fenómeno Linguístico e a Análise das Línguas, Coimbra Editora, vol I, 6ª Ed, Coimbra, 1983, pp. 11-54

calma e pacífica. Muitas vezes, os indígenas atacaram imediatamente, com as suas setas envenenadas, aqueles que consideravam como invasores ou inimigos. Por outro lado, os visitantes tinham de aceitar os termos do negócio impostos por aquelas gentes. Além de ficarem impressionados com a nova paisagem, os navegadores portugueses foram surpreendidos por estas habilidades dos negros que apareciam e desapareciam repentinamente debaixo do seu olhar e não esperavam, com certeza, a recepção daquela gente do reino de Beseguiche:

Avançando mais além, descobriram uma grande praia e chegaram a ela

com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra. O senhor daquela gente, de nome Beseguiche, era homem malvado e traiçoeiro e todos os seus vizinhos o odiavam pela sua extrema malvadez; atirou ele setas

envenenadas aos cristãos e ficaram alguns cristãso feridos e imediatamente morreram

Não tendo entrado em terra, regressaram eles ao rio Cenega, onde

encontraram as outras caravelas suas e assim todos regressaram a Portugal.96 Estas “notícias horrendas” chegavam ao senhor Infante que mudava de estratégia consoante os acontecimentos relatados pelos navegadores, que experimentavam situações novas como esta e se sujeitavam a perder a vida nestas aventuras junto de povos e de culturas desconhecidos. Não perdendo o entusiasmo, o Infante de novo mandou uma caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão Nuno Tristão que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres:

do veneno (

(

)

)

De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde avançando para além, até uma terra de homens malvados a que dão o nome de Sereres. Encontraram muitos deles na praia do mar com arcos e setas envenenadas e não quiseram eles falar com os cristãos.97 Não parece ter sido fácil desembarcar nestas terras dos Cenegas, muito menos comunicar com eles, pois em cada etapa que os portugueses venciam, acontecia uma surpresa indesejável, no mar ou em terra:

Avançando para além, navegaram para terra de Barbacins e descobriram um pequeno rio que agora tem o nome de rio Nuno Tristão. Indo além depararam com muitos negros dessa terra em almadias dentro do rio e fora dele no mar. Com setas

96 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

97 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

envenenadas mataram eles todos estes cristãos, tomaram a caravela, puxaram-na para dentro do rio e fizeram-na em pedaços. Eu, Diogo Gomes, muito tempo depois, tive uma âncora do rei dos negros que me fez presente dela.” 98 Encontraram muita resistência dos indígenas ao longo da costa africana que descobriram. Estes primeiros passos dos portugueses em terras de Cenega não foram fáceis, foi necessário negociar, fazer contratos de paz e colocaram-se outras questões como a necessidade de comunicar de forma eficaz. Apesar de levarem os “língua” como intérpretes para falar com as gentes negras, estas revelaram-se agressivas e mantinham a distância contra os invasores dos seus territórios, atacavam frequentemente as embarcações portuguesas, demonstrando assim que estavam habituados a contextos de guerra, com técnicas específicas para afugentar os inimigos. E os navegadores tiveram de se proteger destes ataques, tendo sido obrigados várias vezes a regressar a Portugal.

1.4. O comércio no Cabo Verde

Terceira Razão do Infante