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BIOLETIM

Revista de Divulgação Científica dos Alunos de Biologia — Ano 1, Número 1, Março a Julho de 1993

Neste número entrevista com o Ministro da


Ciência e Tecnologia José Israel Vargas
BIOLETIM Ano 1, Número 1, março a julho de 1993

Entrevista com o Ministro da C & T: Israel Vargas 8


Entrevistadores: André Mantovani, Gilson Iack Ximenes e Rodrigo Bisaggio
Entrevista exclusiva ao BIOLETIM, concedida em janeiro de 1993.
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho/UFRJ

Metalotioneínas de Algas: Aspectos de Interesse 11


Luciana P.L.S. Andrade
Departamento de Biofísica Nuclear
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho/UFRJ

Cianobactérias: Uma Visão Atual 13


Renato J. R. Molica
Núcleo de Pesquisa de Produtos Naturais
UFRJ

Dinâmica da Humificação: Estudos Preliminares 16


Andréa Callipo
Departamento de Ecologia
Instituto de Biologia/UFRJ

A Família Gobiidae 19
Ricardo Zaluar
Departamento de Biologia Marinha
Instituto de Biologia/UFRJ

Educação Científica: Uma Análise Crítica 22


Richard Sachsse e Gilson Iack Ximenes
Departamento de Zoologia
Instituto de Biologia/UFRJ

SEÇÕES

EDITORIAL 2 DEPOIS DO DIPLOMA 5


EXPEDIENTE 2 CÓDIGO DE ÉTICA DO BIÓLOGO 6
CARTAS 3 PONTO DE VISTA 26
O QUE ESTÃO FAZENDO 4 GLOSSÁRIO 28
CAPA

Tricoma sobre nervura


Coruja buraqueira Inseto sobre folha,
da epiderme abaxial
(Speotyto cunicularia), Jardim Botânico do Rio
da lâmina foliar de
Praia de Boracéia, São de Janeiro. Fotografado
Pothomorphe umbellata.
Sebastião, SP. Fotografa- por Roberta Gamboa
Fotografado por Heitor
da por Henrique Rajão (Programação Visual/
Monteiro Duarte
(Instituto de Biologia/ Faculdade da Cidade)
(Instituto de Biologia/
UFRJ) em 1992. em 1992.
UFRJ) em 1992.

Paisagem matinal do Eletroforese em gel


Alto Xingu. Fotografada desnaturante de proteí-
Trypanosoma cruzi na
por Helmut Sick, retirada nas marcadas radioativa-
forma amastigota. Márcia
do livro “Tucani. Unter mente. Fotografado por
de Marval (Instituto de
Tieren und Indianern Bernardo Monteiro
Biofísica Carlos Chagas
Zentralbrasiliens bei der (Instituto de Biofísica
Filho/UFRJ) em 1992.
ersten Durchquerung Carlos Chagas Filho/
von SO nach NW”, 1957. UFRJ) em 1992.

Feixe vascular do Hyla albomarginata,


Astyanax sp., Carmo, RJ.
pecíolo de Pothomorphe Picinguaba, SP.
Fotografado por Dário
umbellata. Fotografado Fotografado por
Armin Halboth.
por Heitor Monteiro Lohengrin Dias
(Instituto de Biologia/
Duarte (Instituto de Fernandes (Instituto de
UFRJ) em 1989.
Biologia/UFRJ) em 1992. Biologia/UFRJ) em 1992.

BIOLETIM
Revista de Divulgação Científica dos Alunos de Biologia

Editor-chefe: Ricardo Prado Schneider


Editores: André Mantovani, Bernardo Monteiro, Fábio Gouveia, Gilson Iack Ximenes, Marília Zaluar, Mílton
Osório de Moraes, Rodrigo da Cunha Bisaggio, Stevens Kastrup Rehen.
Produção Gráfica: Roberta Gamboa.
Finalização das ilustrações: Ricardo Borges Hippert.
Elaboração dos Ícones : André Mantovani e Roberta Gamboa.
Diagramação: Ricardo Prado Schneider.
Impressão dos Originais: Cláudio Prates.
Digitalização das Fotos da Capa: Jardim Didático do IB/UFRJ e Rede de Ensino e Pesquisa do CFCH/UFRJ.
Reprodução: Serviço Industrial Gráfico da UFRJ.
Apoio: Instituto de Biologia da UFRJ e Decania do CCS/UFRJ.

2 BIOLETIM Ano I Nº 1
EDITORIAL

O contato direto do estudante de graduação com sempre o mínimo, independente das condições
os laboratórios de pesquisa permite um aprendizado financeiras.
mais completo em relação ao que futuramente Provavelmente a maioria dos pesquisadores deve
poderá ser sua área de trabalho. Considerando que concordar que a segurança é prioritária. Se ainda
esse é um momento de formação para o iniciante, é trabalhamos muitas vezes sem luvas, fora de capelas,
de suma importância a orientação deste para se obter sem jalecos, se muitos laboratórios não possuem
futuramente um bom profissional. Sendo assim, deve óculos de proteção, não têm instalações para
ser dada grande atenção à passagem de noções chuveiros e pouco ou nenhum treinamento para
básicas para a correta manipulação de reagentes, casos de acidente, fica clara a necessidade de
organismos e até mesmo instrumentos. Um método mudanças urgentes na postura e nos hábitos dos
não é correto apenas por levar a bons resultados, pesquisadores. Essa mudança de atitude obviamente
mas também por ser seguro. Lamentavelmente vemos envolve mais do que um redirecionamento de verbas.
que esta atenção nem sempre é dada ao aluno, o É necessário, antes de tudo, que se implante um
que é inaceitável. Isto acontece muitas vezes por programa de educação.
falta de condições financeiras, informação ou mesmo Entre os pesquisadores temos um tipo incomum de
negligência. trabalhador: aquele que normalmente prefere assu-
Com as verbas tão escassas para pesquisa, muitas mir riscos, que não lhe deveriam ser impostos, ao
vezes o cientista brasileiro improvisa seus métodos invés de cruzar os braços. O pesquisador freqüente-
de trabalho para atingir seus objetivos. Nessas mente é pressionado pelos prazos das teses de pós-
situações, é compreensível que o pesquisador utilize graduação e pela necessidade de uma alta produti-
técnicas alternativas mesmo que estas não permitam vidade para obtenção de recursos. Mas não se pode
resultados tão satisfatórios. A falta de dinheiro pode deixar que as condições atípicas de trabalho que
ser uma justificativa para se utilizar métodos menos temos se tornem um padrão de conduta para aqueles
eficientes. No entanto, o risco de acidentes deve ser que estão iniciando sua carreira científica.

CARTAS
Infelizmente, o exemplo do computador aprafuliano não
O Computador Aprafuliano é real. Porém, nasceu da criatividade de um estudioso em
Ricardo Prado Schneider busca de um modelo palpável, concreto, ou ao menos
Departamento de Genética potencialmente concreto, que permitisse explicar didati-
Instituto de Biologia/UFRJ camente o funcionamento dos componentes mais funda-
mentais de um moderno computador .
No BIOLETIM 9 foi publicado um artigo de minha auto- A estória foi tratada pelo autor como se fosse uma des-
ria intitulado “O Computador Aprafuliano”, no qual pre- coberta científica, apenas como uma brincadeira de 1º de
tendi ressaltar a importância da criatividade, mostrando abril (“April fool day”, em inglês), mês em que foi publi-
através de um exemplo, tirado de um artigo da Scientific cado o artigo.
American (“The Aprafulian Computer”), como estas qua- Assim como o exemplo, hipotético, do Computador
lidades poderiam levar a realizações fantásticas, mesmo Aprafuliano, existem muitos outros exemplos, reais, da
na ausência de condições ideais (no caso tecnológicas). inventividade e da criatividade humanas.

março a julho de 1993 3


O QUE ESTÃO FAZENDO

Laboratório de Ecologia de Vertebrados


Departamento de Ecologia O Laboratório de Ecologia de Vertebrados vem, há algum tempo, desenvolvendo o pro-
Instituto de Biologia/UFRJ jeto “Mamíferos do Leste do Brasil”. Seus principais objetivos são estudar a composição
da mastofauna nos diversos compartimentos da paisagem desta área, particularmente da
Marcelo Weksler região sudeste, comparar esta composição e a diversidade nos sistemas estudados, ava-
liar o papel desempenhado pelos sistemas na distribuição e conservação destes animais
e determinar os parâmetros bionômicos básicos de espécies selecionadas. Além disto,
tenta-se levantar hipóteses sobre a distribuição potencial de alguns dos taxa em estudo
e compreender o processo de especiação destes taxa.
Assim, trabalha-se basicamente em três linhas de pesquisa; a primeira consiste em deter-
minar elementos do habitat e da comunidade nas localidades de coleta. A segunda estu-
da os parâmetros bionômicos das espécies, com experimentos de balanço hídrico, pre-
ferência alimentar e estratégia reprodutiva. Finalmente, é feito o estudo da variação das
espécies e de sua distribuição geográfica, assim como de sua taxonomia. O trabalho se
concentra nos pequenos mamíferos, principalmente nos roedores e nos marsupiais.

Laboratório de Ecologia de Solos


Departamento de Ecologia O Laboratório de Ecologia de Solos tem como principais objetivos o estudo dos proces-
Instituto de Biologia/UFRJ sos de humificação em solos de ecossistemas tropicais e a análise dos fatores que influ-
enciam e determinam estes processos. Dentre esses fatores está a ação da fauna edáfica
Luís C. M. de Oliveira na liberação de compostos orgânicos provenientes do material vegetal.
Basicamente são quatro áreas de estudo: Restinga de Maricá; Ilha Cardosa, também em
Maricá, possuindo uma característica de transição entre a restinga e a Mata Atlântica; Mata
Atlântica em Linhares (Reserva da Companhia do Vale do Rio Doce, ES) e plantações de
Acacia sp. e Eucaliptus sp., também na Reserva da CVRD.
Outra linha de pesquisa será implantada a partir de outubro e abordará o papel dos térmitas
(cupins) em solos tropicais e sua ação no reprocessamento da matéria orgânica. A interação
entre as várias linhas de pesquisa possibilitará, futuramente, uma compreensão maior
dos processos que ocorrem ao nível do solo, os quais são pouco estudados nas regiões
tropicais e principalmente no Brasil.

Laboratório de Metabolismo Macromolecular


Depto. de Biofís. Molecular O laboratório vem desenvolvendo pesquisa de mecanismos de controle da expressão
IBCCF/UFRJ gênica em Trypanosoma cruzi (protozoário parasita responsável pela Doença de Cha-
gas), usando técnicas de biologia molecular. Os genes de proteínas do citoesqueleto como
Bernardo Monteiro actina e tubulina têm sido abordados em trabalhos que procuram descrever as estruturas
dos genes, sua organização e seus mecanismos de regulação. Este estudo é particular-
mente interessante em T. cruzi por permitir um melhor entendimento do processo de
diferenciação, no qual o citoesqueleto exerce papel fundamental.
Paralelamente têm sido estudados os genes de estresse (este nome deve-se ao fato de
que as proteínas codificadas por estes têm sua taxa de síntese aumentada em resposta a
diversas situações de estresse). A síntese de tais proteínas é freqüentemente induzida
por choques térmicos durante o ciclo do T. cruzi que envolve passagem de um hospe-
deiro invertebrado (temperatura ambiente) para um vertebrado (37oC). Além disso, estas
proteínas são importantes antígenos reconhecidos pelo soro de pacientes chagásicos.

4 BIOLETIM Ano I Nº 1
DEPOIS DO DIPLOMA

Especialização em Bacteriologia Mestrado em Biotecnologia


Instituto de Microbiologia Instituto de Biotecnologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro Universidade de Caxias do Sul

Inscrição: outubro e novembro de 1993. Vagas: 10 Inscrição: até 30 de julho de 1993.


Seleção: janeiro de 1994. Critério: Prova dissertativa em Áreas de concentração: Biotecnologia de fermentações
bacteriologia, entrevista e análise de currículo. (enobiotecnologia e enzimologia) e Biotecnologia agrícola
Início: março de 1994. Duração: 3 meses. (controle biológico e biotecnologia vegetal).
Informações:
Coordenação do Curso de Mestrado em Biotecnologia

Especialização em Virologia Caixa Postal 1352


95001-950 — Caxias do Sul, RS
Instituto de Microbiologia Tel: (054) 222-4133 r.149 FAX: (054) 222-8223
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Inscrição: outubro e novembro de 1993. Vagas: 10 39º Congresso Nacional de Genética


Seleção: janeiro de 1994. Critério: Prova dissertativa em 8 a 11 de setembro de 1993
virologia, entrevista e análise de currículo. Informações: Yatyo Yonenaga Yassuda (secretária da SBG)
Início: março de 1994. Duração: 3 meses. Departamento de Biologia – Instituto de Biociências/USP
Caixa Postal 11.461 — CEP 05422-970 — São Paulo, SP
Tel: (011) 813-6944 r.7574 FAX: (011) 815-4272

Mestrado em Microbiologia XVIII Congresso Brasileiro de Imunologia


Instituto de Microbiologia 19 a 23 de setembro de 1993
Universidade Federal do Rio de Janeiro Informações: Secretaria Científica da SBI
Rua Botucatu, 862, 8ª andar
04023-062 — São Paulo, SP
Inscrição: outubro e novembro de 1993. Vagas: até 20
Tel: (011) 571-9548 FAX: (011) 549-2127
Seleção: janeiro de 1994. Critério: Prova de múltipla es-
colha em microbiologia, prova dissertativa na área de
concentração, entrevista e análise de currículo. VIII Reunião Anual da Federação de
Início: março de 1994. Duração: 3 anos. Sociedades de Biologia Experimental
25 a 28 de agostode 1993
Informações: FESBE
Avenida Lineu Prestes, 1524, ICB I, sala 1
Doutorado em Microbiologia 05508-900 — São Paulo, SP
Tel: (011) 814-8266 FAX: (011) 212-7216
Instituto de Microbiologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Encontro Nacional de Estudos sobre o Meio
Inscrição: qualquer época do ano. Vagas: indefinidas. Ambiente 4 a 8 de outubro de 1993
Seleção: qualquer época do ano. Critério: Carta de aceite Informações: Depto. de Geografia/ICHS, Bl. A (antigo CCS)
de orientador credenciado, diploma de mestrado, publi- Avenida Fernando Correa da Costa, s/n
78060-900 — Cuiabá, MT
cação em revista de corpo editorial rígido, entrevista e
Tel: (065) 315-8481 FAX: (065) 361-1119
análise de currículo.

Responsável pela seção DEPOIS DO DIPLOMA:


Informações: Ronald Marques dos Santos,
Secretaria de Pós-Graduação do Instituto de Microbiologia Laboratório de Neurobiologia da Retina–IBCCF
Centro de Ciências da Saúde — Bloco I — UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, CCS, Bloco G
21941 — Rio de Janeiro, RJ Cidade Universitária – Ilha do Fundão
Tel: (021) 590-9522 r.259 FAX: (021) 270-8793 21949-900 — Rio de Janeiro, RJ

março a julho de 1993 5


CÓDIGO DE ÉTICA DO BIÓLOGO

O código de ética aqui reproduzido foi aprovado pelo mínimas para o exercício da profissão ou não remu-
Conselho Federal de Biologia, em junho de 1992. É nerar condignamente;
importante que aqueles que atuarão em Biologia o §III. Requerer desagravo público, através do Conse-
conheçam, uma vez que ele regulará sua atuação lho Regional de sua região, quando atingido no
profissional. exercício de sua profissão.

Capítulo III: dos Deveres Profissionais


I. O presente Código contém as normas éticas que devem
Art. 6º São deveres profissionais do Biólogo:
ser seguidas pelos Biólogos no exercício de sua profissão.
§I. Cumprir e fazer cumprir este Código.
§II. Manter-se em permanente aprimoramento téc-
II. Para o exercício da profissão de Biólogo, é obrigatório
nico e científico, de forma a assegurar a eficácia e
o registro no Conselho Regional de Biologia da respectiva
qualidade do seu trabalho e uma efetiva contribui-
jurisdição e o cumprimento das obrigações para com o
ção para o progresso da Ciência e melhoria da qua-
mesmo.
lidade de vida em todas as suas formas e manifesta-
ções.
III. Pessoas jurídicas de direito público e privado que
§III. Exercer a sua atividade profissional com dedi-
exerçam as atividades na área biológica estão sujeitas às
cação e honestidade, somente assumindo responsa-
normas deste Código.
bilidades para as quais esteja capacitado, não se
associando a empreendimento ou atividade que não
IV. A fiscalização do cumprimento das normas estabele-
se coadune com os princípios de ética deste Código
cidas neste Código é atribuição dos Conselhos Regionais
e não praticando nem permitindo a prática de atos
e Federal de Biologia com a cooperação dos Biólogos.
que comprometam a dignidade profissional.
§IV. Contribuir para o progresso das Ciências Bioló-
gicas e para as melhorias das condições gerais de
Capítulo I: dos Princípios Fundamentais vida, intercambiando os conhecimentos adquiridos
Art. 1º Toda a atividade de Biólogo deverá sempre através de suas pesquisas e de sua vivência profissi-
consagrar respeito à vida, em todas as suas formas e onal.
manifestações, e à qualidade do meio ambiente. §V. Contribuir para a edificação da comunidade atra-
Art. 2º O conhecimento, a capacidade e a experiência vés da divulgação de informações cientificamente
de Biólogo deverá ser instrumento de utilização per- corretas sobre assuntos de sua especialidade,
manente para assegurar a defesa do bem comum e notadamente aqueles que envolvem riscos à sua
garantir a manutenção da qualidade de vida dos pro- saúde, à vida ou ao meio ambiente.
cessos vitais. §VI. Responder pelos conceitos ou opiniões que
Art. 3º O Biólogo terá como compromisso permanen- emitir e pelos atos que praticar no exercício profis-
te a geração, aplicação, transferência e divulgação de sional.
conhecimento sobre as Ciências Biológicas. §VII. Não ser conivente com empreendimentos ou
Art. 4º O Biólogo, no exercício de sua profissão, ob- atividades que possam levar a riscos, efetivos ou
servará nas suas responsabilidades, direitos e deveres, potenciais, de prejuízos sociais, de danos à saúde
os princípios estabelecidos na Declaração Universal dos ou danos ao meio ambiente, denunciando o fato
Direitos Humanos. formalmente ao CRB de sua Região, que se incum-
birá de julgar o seu mérito e decidir sobre a sua di-
vulgação.
Capítulo II: dos Direitos §VIII. Exercer a profissão com ampla autonomia, sem
Art. 5º São direitos do Biólogo : renunciar à liberdade profissional, rejeitando restri-
§I. Exercer sua atividade profissional sem sofrer qual- ções ou imposições prejudiciais à eficácia e corre-
quer tipo de discriminação, restrição ou coerção; ção ao trabalho.
§II. Suspender suas atividades, individual ou coleti- §IX. Prestigiar as associações profissionais ou cien-
vamente, quando o empregador ou tomador de ser- tíficas que tenham por finalidade:
viços para o qual trabalha não oferecer condições a. defender a dignidade e os direitos profissionais

6 BIOLETIM Ano I Nº 1
dos Biólogos; fissionais que estejam no exercício legal da profis-
b. difundir a Biologia como ciência e profissão; são.
c. congregar a comunidade científica e a atuar na §VI. Agenciar, aliciar ou desviar, por qualquer meio,
política científica; para empresas ou instituições de qualquer nature-
d. defender a preservação e a melhoria da quali- za, conhecimentos ou clientes de outras entidades.
dade de vida. Art. 9º O Biólogo não será conivente com qualquer
§X. Exigir justa remuneração pela prestação de ser- profissional em erros, omissões, faltas éticas ou delitos
viços profissionais segundo padrões usualmente cometidos por este na prestação de serviços profissio-
aceitos pela entidade competente da categoria. nais.
§XI. Representar ao Conselho de sua Região os ca- Art. 10 O Biólogo empenhar-se-á, perante outros pro-
sos de exercício ilegal da profissão e de infração a fissionais e em relacionamento com eles, em respeitar
este Código. e defender os conceitos e padrões metodológicos das
§XII. Colaborar e atender às convocações feitas pe- Ciências Biológicas.
los CRBs e pelo CFB.
§XIII. Não se prevalecer de cargo de direção, de
Capítulo V: das Disposições Gerais
chefia ou da condição de empregador para desres-
peitar a dignidade de subordinado ou induzir ao Art. 11 Caberá aos Biólogos docentes e orientadores
descumprimento deste Código de Ética. esclarecer, informar e orientar os estudantes de Biolo-
§XIV. Manter sigilo profissional de suas pesquisas gia a observar os princípios e normas contidos neste
sempre que esta condição for exigida, devendo, Código de Ética.
quando houver riscos efetivos ou potenciais de pre- Art. 12 O Biólogo procurará contribuir para o aperfei-
juízos sociais, de danos à saúde ou de danos ao meio çoamento dos cursos de formação dos profissionais de
ambiente, denunciar o fato formalmente ao CRB de Biologia.
sua Região, que se incumbirá de julgar seu mérito e Art. 13 O Biólogo não usará de função diretiva para
decidir sobre sua divulgação. locupletamento ilícito próprio ou de outrem.
Art. 14 É vedado ao biólogo qualquer ato que tenha
como fim precípuo a prática de tortura ou outras for-
Capítulo IV: das Relações Profissionais mas de procedimentos degradantes, desumanos ou
Art. 7º O Biólogo, como pessoa física ou como repre- cruéis.
sentante legal da pessoa jurídica prestadora de servi- Art. 15 Nas relações com os Conselhos de Biologia, o
ços em Biologia recusará emprego ou tarefa em subs- Biólogo deverá:
tituição a Biólogo exonerado, demitido ou afastado por §I. Cumprir atos e resoluções deles emanados.
ter-se negado à prática de ato lesivo à integridade dos §II. Fornecer, sempre que solicitado, informações
padrões técnico-científicos da Biologia ou por defen- fidedignas a respeito do exercício profissional.
der a dignidade do exercício da profissão ou os princí- Art. 16 É vedado ao biólogo valer-se de título acadê-
pios e normas deste código. mico ou especialidade que não possa comprovar.
Art. 8º Nas relações entre biólogos e entre estes e ou- Art. 17 Constitui falta grave interferir ou permitir a in-
tros profissionais, o Biólogo não deverá: terferência na fidedignidade de dados ou instrumentos
§I. Prejudicar, direta ou indiretamente, a reputação ou de técnicas utilizadas em pesquisa com o fim de
ou atividade de outro Biólogo ou outros profissio- mascarar, adulterar ou falsificar resultados científicos.
nais, ressalvando o dispositivo no Art. 9º deste Có- Art. 18 As dúvidas na interpretação e os casos omissos
digo de Ética. deste Código serão resolvidos pelos Conselhos Regio-
§II. Interpor-se entre Biólogos ou outros profissio- nais de Biologia, “ad referendum” do Conselho Fede-
nais e seus clientes quando sua intervenção não for ral.
expressamente solicitada. Parágrafo único – Compete ao Conselho Federal de
§III. Apropriar-se indevidamente, no todo ou em par- Biologia incorporar a este Código as decisões refe-
te, de projetos, idéias, dados ou conclusões de Bió- ridas no “caput” deste Artigo.
logos ou de outros profissionais, devidamente pu- Art. 19 O presente Código de Ética poderá ser altera-
blicados ou comprovadamente divulgados. do pelo Conselho Federal de Biologia por iniciativa
§IV. Publicar em seu nome trabalho do qual não te- própria ou da categoria, ouvidos os Conselhos Regio-
nha participado ou atribuir-se autoria de trabalho nais.
realizado por seus subordinados, colaboradores ou Art. 20 Os infratores das disposições deste Código estão
outros profissionais, mesmo se executado sob sua sujeitos às penalidades previstas no art. 25 da Lei 6.684,
orientação. de 3 de setembro de 1979, sem prejuízo de outras
§V. Alterar ou permitir que sejam alterados laudos, cominações legais aplicáveis.
perícias ou relatórios técnicos assinados por pro-

março a julho de 1993 7


Entrevista com o Ministro
da Ciência e Tecnologia,
José Israel Vargas
ENTREVISTA

Entrevistadores: André Mantovani, Gílson Iack e Rodrigo Bisaggio.

Em janeiro deste ano, o Ministro da Ciência e Tecnologia do governo Itamar Franco esteve no Instituto
de Biofísica da UFRJ. Depois de ter visitado alguns laboratórios e se reunido por mais de duas horas
com pesquisadores, o ministro concedeu uma entrevista exclusiva ao BIOLETIM. Nesta entrevista o
ministro fala sobre o orçamento científico, a situação da pesquisa nacional e os planos para seu ministério.

Mineiro de Paracatu, José Israel Vargas é o ministro da e de outro setor não têm: da excitação, do interesse, do
Ciência e Tecnologia do governo Itamar Franco. Forma- desafio e da beleza que é a criação científica. Quer dizer,
do em Química pela Universidade Federal de Minas Ge- sem ter ilusão, o jovem cientista ou estudante de ciência,
rais em 1952, posteriormente doutorou-se em Física na paga o preço por esse privilégio; o que realmente é um
Universidade de Cambridge. Além de dirigir a Academia privilégio. Eu olhando para trás na minha própria carreira,
Brasileira de Ciências, Vargas é membro da Academia Eu- lembro que no meu tempo não havia pós-graduação. Você
ropéia de Ciências, Letras e Artes, da Academia de Ciên- se formava e ia ser monitor, ou qualquer coisa desse tipo,
cias do Terceiro Mundo, da Diretoria do Clube Internaci- em geral gratuito, e que nos supletivos… bom, o mundo
onal de Moscou. De 1981 a 1988 presidiu o Conselho Exe- mudou muito não é? Não está mais assim, mas a gente se
cutivo da UNESCO e foi vice-presidente do Comitê Acessor submetia no sentido de poder desfrutar deste privilégio.
do Instituto de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimen- Possivelmente a gente estava supervalorizando o que seria
to das Nações Unidas de 1980 a 1985. o cientista, o que viria a ser o cientista, ou o seu próprio
futuro, mas era assim. Agora, o que fazer? Eu acredito que
BIOLETIM – A bolsa científica representa uma forma de
ajuda que não é capaz de garantir aos estudantes a segu-
rança necessária para o desenvolvimento de seus traba- “...é preciso que se abra um espaço maior
lhos. Entretanto, é exigido dos estudantes de pós-gradu-
ação dedicação exclusiva. Face a esse fato, e também a à Ciência na TVE. Para que os cientistas
constantes desistências de pesquisadores que, diante de falem, não de política, mas do seu próprio
tamanhas dificuldades, são obrigados a buscar outras
fontes de renda, quais as providências para solucionar tais trabalho, do desafio, da paixão e do
problemas? interesse que o trabalho científico tem.”
ISRAEL VARGAS – Bom, em primeiro lugar a bolsa não é
um emprego. É um recurso transitório para, de alguma haja solução. Depende do maior reconhecimento da
maneira, preparar ou especializar o estudante, pois este própria sociedade e de seu sistema de valores. E eu estou
ainda é um estudante, para a vida profissional de lutando por isso, e acho que um papel importante nessa
pesquisador. No sistema social que nos vivemos, uma tarefa cabe aos meios de comunicação. Hoje eu fui visitar
sociedade do tipo, vamos dizer assim, subdesenvolvida, o doutor Roberto Marinho. Eu fui fazer uma palestra para
em que o esquema de valores não contempla privilégios os jornalistas de ciências, que estão fazendo curso aí na
para atividade de criação ou pesquisa, é evidente que o UFRJ. Logo que assumi o Ministério fui procurar o Ministro
que se paga ao jovem pesquisador bolsista não é da Educação: é preciso que se abra um espaço maior à
equivalente ao que ganha um profissional. Isto é Ciência na TVE. Para que os cientistas falem não de
interpretado como, pelo menos na minha geração, uma política, mas do seu próprio trabalho, do desafio, da paixão
parte do sacerdócio, digo, o chamado sacrifício que o e do interesse que o trabalho científico tem. Agora, à
jovem cientista faz para, de um outro lado, desfrutar do medida que a sociedade não se apercebe disso, nós não
privilégio que os outros colegas seus da mesma geração teremos o reconhecimento que é traduzido por maiores

8 BIOLETIM Ano I Nº 1
salários, tanto para vocês quanto para os cientistas em nós, que pensam que esta situação precisa mudar.
geral. Veja o seguinte, nós temos hoje no nível dos
institutos de pesquisa, inclusive do CNPq, o topo da BIOLETIM – Existe algum plano do Ministério ou Con-
carreira ganhando na ordem de 700 a 800 dólares. gresso em considerar tempo vigente de bolsa como tem-
Qualquer um deles estaria ganhando 3, 4, 5.000 dólares po de serviço?
fora do Brasil como salário mensal. Isto reflete
profundamente a deformação dentro da nossa sociedade. ISRAEL VARGAS – Que eu saiba, não. Mas eu acho que
não haveria impedimento. Mas é um problema complica-
do porque ... (pausa) ... no momento em que a bolsa for
considerada, por exemplo, como vínculo empregatício,
“...o problema não é só dos cientistas, é da violará o caráter essencial da bolsa que é a sua transitori-
atividade intelectual e criativa como um edade. (pausa). Mas eu acho que é examinável. E algo
que possa… bom, desde que se crie uma exceção ao vín-
todo. Evidentemente o governo, e eu que culo empregatício.
no caso o represento, se preocupa
BIOLETIM – Até porque formar um cientista é uma coisa
enormemente com isso...” demorada.

ISRAEL VARGAS - É, excessivamente demorada. Esse é


BIOLETIM – Mas estando o senhor consciente das péssi- um outro problema. Não é normal que se leve mais de
mas condições de trabalho que nós temos hoje... dois anos para mestrado e nem normal que se leve mais
de quatro anos para o doutorado. Isto é uma deformação
ISRAEL VARGAS – Péssimas não, péssimas não! Bases do sistema brasileiro que precisa ser corrigida. Porque as
satisfatórias não se observam. pessoas têm que começar a sua vida profissional mais
cedo. Os cientistas por todas as suas razões e inclusive
BIOLETIM – ... das difíceis condições de trabalho que o por causa da própria criatividade, que se manifesta sem-
cientista brasileiro enfrenta, até mesmo de sobrevivência, pre mais cedo.
e, como o senhor mesmo falou, da disparidade que exis-
te entre o salário de um cientista em “topo de carreira”
aqui e lá fora, qual o papel do governo para promover “Não é normal que se leve mais de dois
uma modificação?
anos para mestrado e mais de quatro anos
ISRAEL VARGAS – O papel do governo ... para o doutorado. Isto é uma deformação
BIOLETIM – Desculpe, a nossa preocupação não é so- do sistema brasileiro que precisa ser
mente com o salário, mas com o estímulo à ciência. corrigida.”
ISRAEL VARGAS – Eu sei, é o estímulo, o reconhecimen-
to. O que o governo pode fazer? É isso. Eu estou BIOLETIM – Ministro, em que pé está no Congresso a
solicitando à TVE um maior espaço aos cientistas. A Aca- regulamentação da profissão de pesquisador no país?
demia de Ciências está fornecendo à TVE, por exemplo,
o nome de vinte cientistas para que eles participem dos ISRAEL VARGAS – Não há regulamentação da profissão
diversos programas da TVE, oferecendo o lado da ciên- do pesquisador. Há um projeto de lei que cria a carreira
cia, o lado ou a visão do cientista. Não há solução a curto de pesquisador. Esse projeto de lei está pronto e foi objeto
prazo, compreende? O governo não pode arbitrariamen- de discussão de mais de 30 instituições envolvidas com
te decidir: muito bem, a partir de hoje o cientista vai ga- pesquisa e desenvolvimento. Eu já o enviei à Presidência
nhar tanto quanto no exterior. Porque nós temos aí uma da República, que deverá possivelmente incluir esse
cadeia infeliz de situações que são insustentáveis, que de projeto para haver uma grande discussão no dia 21 de
outro lado você vê uma cidade como o Rio de Janeiro que janeiro de 1993 sobre a isonomia, sobre a estrutura de
paga a um professor primário menos que a um gari. En- carreira do serviço público federal, e nessa discussão vai-
tão, o problema não é só dos cientistas, é da atividade -se examinar o problema da carreira do pesquisador. Existe
intelectual e criativa como um todo. Evidentemente o um projeto de lei.
governo, e eu que no caso o represento, se preocupa
enormemente com isso. A única coisa que eu posso fazer BIOLETIM – Diante da atual situação político-econômica
é falar, é propor medidas, projetos de lei que possam do país, quais as expectativas do orçamento científico para
mudar essa situação e apoiar aqueles que pensam como o ano de 1993?

março a julho de 1993 9


ISRAEL VARGAS – A proposta orçamentária oficial leira é bom sempre. A melhor pesquisa brasileira é pro-
obedece ao mesmo teto do ano passado. Existem emendas duto de cooperação internacional, ao longo de muitos
do Congresso Nacional que dobram praticamente o valor anos, particularmente aqui neste instituto que teve mui-
do teto. Eu estou lutando para que esses recursos sejam tos pesquisadores estrangeiros. A Universidade de São
aumentados e que esta emenda venha a ser aprovada. É Paulo praticamente foi fundada, formada por pesquisado-
pouco provável que seja aceita na totalidade, quer dizer, res estrangeiros jovens, que se revelaram mais tarde
seus custos correspondentes. Mas se for aprovada, grandes cientistas. Na Matemática, na Antropologia, na
digamos, metade desta emenda, teríamos um orçamento Física e etc. Isso é essencial, não existe ciência nacional,
em torno de 1 bilhão de dólares. Dá para conservar e a ciência ou é internacional ou não é ciência. Daí o meu
ajudar um pouco o existente, terminar coisas, nenhuma interesse que na próxima sessão legislativa se apresente
atividade nova. Então nós estamos numa situação de a emenda constitucional. A Constituição brasileira atual
profunda crise, econômica e social, e a ciência não pode discrimina o cientista estrangeiro, proíbe este de ter qual-
estar ausente disso. Nós estamos com 12 anos de recessão quer posto de emprego ou direção no serviço público
e não há recursos para expandir muito. E mesmo que brasileiro, o que é um absurdo.
houvesse, é difícil de absorver, não é? Você não pode
absorver esses recursos num contexto de crise social tão BIOLETIM – Na sua opinião, a vinda desses pesquisado-
grande como o que estamos vivendo. res de alguma forma poderia vir a afetar a oferta de em-
pregos?
BIOLETIM – Como o senhor vê o problema da evasão de
vários pesquisadores do país para o exterior? ISRAEL VARGAS – Acho que não podemos ter uma ati-
tude corporativa. Eu acho que nós precisamos da presen-
ISRAEL VARGAS – Vejo muito mal. Não posso ver muito ça de cientistas estrangeiros. Quanto mais melhor. Por-
bem. Apenas é preciso lembrar que esse tipo de movi- que a ciência é um instrumento de desenvolvimento. Na
mento é muito menor no Brasil do que na maioria dos medida que houver desenvolvimento, vai haver mais em-
países em desenvolvimento. Esta é uma questão crônica. prego também. O que parece ser uma desvantagem, é uma
desvantagem transitória.

“...estamos com 12 anos de recessão e não BIOLETIM – Como o senhor vê a importância de uma
pesquisa básica num país de Terceiro Mundo?
há recursos para expandir muito. E
mesmo que houvesse, é difícil de absorver, ISRAEL VARGAS – É a mesma que a de um país de
Primeiro Mundo. É fundamentalmente importante, pois ela,
não é? É difícil absorver recursos num a pesquisa científica, é uma parte da cultura. Veja, então,
contexto de crise social tão grande...” se eu disser: sou contra a pesquisa básica, é como ser
contra a música, contra as artes, contra a cultura em si.
Agora, a ciência tem um acréscimo adicional ao sistema
O caso da Argentina, o caso da Índia e de diversos outros de valores: nos últimos 400, 500 anos ficou claro não só
países. Mas de qualquer maneira é preocupante. que ela é útil, como ela é a mola propulsora da sociedade
como um todo. Além disso, não há diferença entre
BIOLETIM – Por que o país não cria incentivos para esti- pesquisa básica e pesquisa aplicada. Não há ninguém
mular a permanência deles aqui? capaz de estabelecer uma fronteira nítida nisso. Há pessoas
mais inclinadas para o aplicado, pela inserção no mercado,
ISRAEL VARGAS – Mas tem criado, sobretudo existe uma na economia; e outras que estão mais preocupadas com
bolsa de retorno. O cientista brasileiro ou o estudante que o desenvolvimento do conhecimento da natureza, seu
foi treinado no exterior têm sua bolsa de retorno, cujo “turn funcionamento. Mas jamais haverá uma divisão rígida
over”, cujo prazo que transcorre entre o retorno e o em- nisso.
prego tem sido bastante curto, é de seis meses. Eu tenho
acompanhado isso. BIOLETIM – Ministro, nós íamos perguntar ao senhor
quanto à existência ou não de um programa, uma articu-
BIOLETIM – Algumas faculdades vêm proporcionando a lação para aproximar o povo da ciência, mas creio que o
vinda de pesquisadores estrangeiros para lecionarem em senhor já respondeu isso no começo.
suas instituições. O senhor vê tal fato como uma forma
de estimular o nivelamento da pesquisa nacional com a ISRAEL VARGAS – É importante, vital e indispensável esta
pesquisa estrangeira? aproximação. Eu estava contando aqui que nós devíamos
ambicionar talvez ser tão populares quanto os astrólogos.
ISRAEL VARGAS – Ah, sim, claro. Para a pesquisa brasi- Não seria mau!

10 BIOLETIM Ano I Nº 1
Metalotioneínas de Algas:
Aspectos de Interesse
O QUE É

Luciana P.L.S. Andrade

Laboratório de Radioisótopos Eduardo Penna Franca


Departamento de Biofísica Nuclear
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

As metalotioneínas são polipeptídeos de baixo peso com Cd. Assim atribuiu-se à classe II função detoxificante
molecular ricos em aminoácidos de cisteína, que para estes 2 íons. Karin (1985) entretanto, não acredita
complexam íons metálicos em grupamentos tiólicos. numa função detoxificante primordial, e sim num papel
Primeiramente isoladas do córtex renal de eqüinos na homeostase do Zn na alga, o que levaria a um controle
(Margoshoes & Vallee, 1957), estas moléculas foram de concentrações elevadas do metal através de sua
seqüenciadas (Kagi & Vallee, 1960) e chamadas complexação nos grupamentos tiólicos. Tanto as classes
metalotioneínas por se tratar de proteínas ricas em enxofre I como II são produtos diretos de genes.
complexando Cd, Zn e Cu. Passou-se então a observar que A classe III engloba polipeptídeos sintetizados sem moldes
a síntese destes compostos costumava ser induzida na de RNAm, ou seja, apenas as enzimas que participam de
presença de concentrações elevadas de metais. A partir sua síntese são codificadas geneticamente. Estes
daí sua ocorrência foi confirmada em vários organismos polipeptídeos são encontrados nas algas eucarióticas, na
provenientes de regiões poluídas com metais. levedura Schysosacharomices pombe e em vegetais
Um fator comum entre as metalotioneínas de diferentes superiores (Robinson, 1989). São também conhecidos
organismos é a abundância de seqüências Cys-Xaa-Cys, como fitoquelatinas ou cadistinas, por terem sido a
onde Xaa é qualquer outro aminoácido (Kagi & Kogima, princípio encontrados complexando íons Cd. Mais tarde,
1987). encontrou-se compostos desta classe complexando
também íons Cu.
METALOTIONEÍNAS: CLASSES E FUNÇÕES As metalotioneínas da classe III constituem-se de unidades
As metalotioneínas podem ser divididas em três classes repetidas de (gama-glutamilcisteinil) glicina, um composto
gerais segundo Fowler et al. (1987). Na classe I estão também conhecido como glutation. Sua síntese ocorre
aquelas primeiras isoladas do córtex renal de eqüinos. por alongamento da cadeia e acredita-se que as enzimas
Proteínas desta classe são bastante conhecidas e atribui- envolvidas são gama-glutamilcisteína sintetase e GSH-
se a elas a função detoxificante de Zn e Cd. sintetase. A classe III existe em 2 formas, uma contendo
A classe II refere-se às proteínas encontradas apenas em enxofre ácido-lábil na forma S 2-, que possui grande
procariotos até o momento. Elas não apresentam afinidade com íons Cd e outra sem S2-, com afinidade com
homologia de seqüência de aminoácidos com qualquer íons Cu. Acredita-se, assim, que sua função seja detoxificar
das metalotioneínas já conhecidas como as da classe I, mas Cd e Cu. É interessante ressaltar que, embora os complexos
possuem igualmente uma grande quantidade do metálicos tenham sido identificados apenas com Cd e Cu,
aminoácido cisteína. As metalotioneínas da classe II foram os compostos da classe III também têm sua síntese
isoladas inicialmente da cianobactéria Synechococcus estimulada na presença de concentrações elevadas de Pb,
TX20, após exposição da mesma a concentrações elevadas Hg e Ag. Devido a sua semelhança com o glutation e ao
de Zn (Olafson et al., 1988). Por espectroscopia foi fato de existirem nas células em nível basal, mesmo
observada a presença de agregados tiol-metálicos, nos quando os organismos estão sob concentrações baixas dos
quais se encontrava o Zn. Estes agregados, por sua vez, metais, acredita-se que seu papel primordial seja participar
apresentavam-se semelhantes àqueles das metalotioneínas da síntese protéica através da redução do SO42- à forma
de mamíferos. Observou-se também, que esta classe é assimilatória S2- (Robinson, 1989).
composta de 6 cadeias longas de resíduos alifáticos e 2
de resíduos aromáticos, o que lhe confere um certo caráter CONTAMINAÇÃO POR METAIS E MICROALGAS
hidrofóbico. Um pouco mais tarde, Synechococcus foi Atualmente, vários ambientes encontram-se poluídos por
cultivada em presença de Cd e Cu, tendo-se detectado a concentrações elevadas de metais, em função prin-
síntese das metalotioneínas apenas naquelas cultivadas cipalmente de atividades industriais. Em geral essa

março a julho de 1993 11


contaminação atinge corpos d’água, não só por despejos pode ou não produzir compostos detoxificantes para
diretos de algumas indústrias, como por carreamento dos diferentes metais, com maior ou menor especificidade.
metais com as águas da chuva, por exemplo. Somam-se a Pode-se, então, concluir que muito há a ser feito com
estes, os metais naturais em solos que são lixiviados. Só metalotioneínas, no sentido de melhoria das condições de
no estado do Rio de Janeiro, pelo menos 3 ambientes vida nos ambientes aquáticos contaminados.
aquáticos conhecidos e de extrema importância para a
população já se encontram com níveis altos de metais: Baía BIBLIOGRAFIA:
de Sepetiba, Baía de Guanabara e Rio Paraíba do Sul. FOWLER, B.A.; HILDEBRAND, C.E.; KOGIMA, Y. &
A cadeia alimentar nos corpos d’água tem como base as WEBB, M. 1987. In: Kagi, J.H.R. & Kogima, Y.
microalgas. Em alguns de seus processos metabólicos (editores), Metallothionein II. Birkhauser Verlag,
(fotossíntese, cadeia respiratória), estes organismos 19-22.
necessitam de íons metálicos que agem como cofatores KAGI, J.H.R. & VALLEE, B.L. 1960. Journal of
enzimáticos. Desta forma as microalgas tendem a Biological Chemistry, 235:3460-3465.
incorporar os metais presentes na água às suas células. KAGI, J.H.R. & KOGIMA, Y. 1987. In: Kagi, J.H.R. &
Os íons metálicos podem então ser transferidos aos de- Kogima, Y (editores), Metallothionein II. Birkhauser
mais níveis tróficos, atingindo o homem. O problema surge Verlag, 25-61.
nos ambientes contaminados, onde as concentrações finais KARIN, M. 1985. Cell, 41:9-10.
dos metais podem ser mais altas do que aquelas permitidas KAWAGUCHI, S. & MAITA, Y. 1990. Bulletin of
pelos órgãos internacionais de controle da saúde humana. Environment Contamination Toxicology, 45:893-
899.
ASPECTOS DE INTERESSE DAS METALOTIONEÍNAS MARGOSHOES, M. & VALLEE, B.L. 1957. Journal of
Entre as microalgas, existem as sensíveis e as resistentes American Chemistry Society, 79:4813.
a níveis altos de metais. As resistentes sobrevivem nas OLAFSON, R.W.; McCUBBIN, W.D. & KAY, C.M. 1988.
águas contaminadas por possuírem mecanismos Biochemical Journal, 251:691-699.
detoxificantes. Entre estes mecanismos está a produção ROBINSON, N. J. 1989. Journal of Applied Phycology,
das metalotioneínas, capazes de complexar o metal em 1: 5-18.
excesso, deixando-o inerte ao metabolismo. ROBINSON, N.J.; RATLIFF, R.L.; ANDERSON, P.J.;
Microalgas crescem bem em condições de cultivo DELHAIZE, E.; BERGER, J.M. & JACKSON, P.J.
controladas em meios de cultura inorgânicos, ou seja, de 1988. Plant Science, 56:197-204.
forma relativamente barata. Já foi sugerido utilizá-las como
depuradoras de ambientes aquáticos (Robinson, 1989). No
caso da contaminação proveniente de indústrias
metalúrgicas por exemplo, os despejos poderiam passar
por tanques de cultivo de espécies capazes de sintetizar
uma grande quantidade de proteínas detoxificantes antes
de serem lançados ao ambiente. Mais tarde, as microalgas
poderiam ser coletadas e o metal extraído e recuperado
para a própria indústria. Iniciativas deste tipo, levariam à
diminuição da concentração dos poluentes metálicos em
muitos ambientes.
Neste sentido, uma série de estudos sobre função,
caracterização estrutural e biossíntese de metalotioneínas
produzidas por microalgas vêm sendo desenvolvidos. Até
mesmo o isolamento de um gene de metalotioneína da
cianobactéria Synechococcus (clones PCC6301 e PCC7942)
já foi realizado e a produção da proteína em vetor de
expressão E. coli, conseguida (Robinson, 1989). Ainda
recentemente, mais um polipeptídeo da classe III
detoxificante para Cd, encontrado na diatomácea
Phaeodactylum tricornutum, foi seqüenciado (Kawaguchi
& Maita, 1990). Genes para metalotioneínas podem ser
isolados de algas ou até produzidos sinteticamente
(Robinson et al., 1988). Tais genes podem ser inseridos
em espécies de bom crescimento e manutenção em cultivo,
conferindo-lhes resistência a poluentes metálicos
(Robinson, 1989). Cada espécie de microalga estudada

12 BIOLETIM Ano I Nº 1
Cianobactérias:
Uma Visão Atual
O QUE É

Renato J. R. Molica

Laboratório de Cultivo e Fisiologia de Microalgas


Núcleo de Pesquisa de Produtos Naturais
Centro de Ciências da Saúde
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Divisão Cyanophyta, classe Cyanophyceae, algas azuis ou Spirulina (figura 1), que chega a ter entre 50 e 60% do
cianofíceas, são organismos procariotos, considerados seu peso seco composto por proteínas, é também uma
algas por possuírem clorofila a e liberarem oxigênio livre importante fonte de vitamina B12 e seus lipídeos são
durante a fotossíntese , diferindo de bactérias formados por ácidos graxos insaturados, como o ácido
fotossintetizantes. A divisão Cyanophyta contém espécies gama linoléico, que são importantes precursores de
unicelulares, filamentosas ou coloniais. moléculas biologicamente ativas.
O caráter primitivo da organização celular das ciano- Novas cepas de Spirulina têm sido testadas objetivando
bactérias lhes confere algumas vantagens (em relação à encontrar outras com maiores taxas de crescimento,
sua utilização pelo homem) sobre os vegetais superiores: produção de proteínas, produção de pigmentos e
• essencialmente toda a alga pode servir como alimento, resistência à fotoinibição.
pois somente pequenas partes não são digeríveis; Algumas cianobactérias, principalmente as filamentosas,
• em condições apropriadas, mais de 50% do seu peso fixam o nitrogênio atmosférico em compostos que podem
seco é composto por proteínas, o que é muito superior ser aproveitados por vegetais superiores (destacando-se
ao encontrado nas partes comestíveis de um vegetal a amônia). Esta fixação, que pode ser feita tanto por células
superior; livres no ambiente ou em simbiose com outros organismos,
• como não existe uma diferenciação morfológica das ocorre em estruturas especializadas denominadas
células vegetativas (exceção para as fixadoras de nitrogênio heterocistos (figuras 2, 3 e 5). Campos alagados, que não
que têm heterocisto), cada célula contém os pigmentos recebem fertilizantes químicos onde se tem cultivado arroz
necessários para a fotossíntese e o material formado é por longos anos, têm a sua fertilidade atribuída às
armazenado na própria célula. cianobactérias. Os gêneros Anabaena e Nostoc (figuras 2
Nos últimos anos, com os conhecimentos adquiridos e 3, respectivamente) são exemplos de cianobactérias
através de estudos fisiológicos, as cianobactérias têm fixadoras de nitrogênio.
demostrado inúmeras possibilidades de utilização da sua O grande problema para o uso da amônia, formada pela
biomassa para fins bastante diversos, dos quais destacam- fixação do nitrogênio livre, é que ela é logo assimilada
se: pela própria alga através da enzima glutamato sintetase
• produção de biomassa como fonte de alimento e/ou (GS), não sendo comum a sua excreção para o ambiente,
proteína; a não ser no caso de morte da célula.
• produção de compostos nitrogenados (amônia e Algumas alternativas foram pesquisadas para que ocorresse
aminoácidos), sendo a amônia usada como biofertilizante; uma liberação natural desta amônia para o ambiente, tais
• produção de pigmentos. como: a utilização de análogos ao glutamato, que inibem
Algumas cianobactérias, devido a sua composição química a ação da enzima GS e a obtenção de cepas mutantes que
(como é o caso do gênero Spirulina), têm um grande tivessem uma capacidade reduzida de assimilação de
potencial como fonte de alimento para o homem e animais. amônia (mutante para GS), sem no entanto comprometer

Figura 1 — Parte do tricoma helicoidal de Spirulina platensis. Reproduzido de Richmond, 1989.

março a julho de 1993 13


(a)
(b)

(b)

Figura 5 — Filamento de Aphanizomena flos-aquae com


heterocisto (a) e acineto (b). Reproduzido de Bicudo,
1970.
(a) o metabolismo da célula.
Uma outra fonte de pesquisa em cianobactérias é a
otimização da obtenção de ficobiliproteínas, através de
cultivos em massa de algumas espécies. Ficobiliproteínas
Figura 2 — Anabaena circinalis uma cianobactéria estão sendo utilizadas como pigmento natural para
filamentosa com heterocistos (a) e acineto (b). Reprodu- cosméticos e alimentos. Dentre as ficobiliproteínas,
zido de Bicudo, 1970. ficocianina, que é um pigmento acessório das reações
fotossintéticas, tem um valor de mercado muito alto
(aproximadamente 100 mil dólares a grama de ficocianina
pura) e, além disso, ela vem mostrando uma intensa
atividade fotodinâmica em células neoplásicas.
Apesar do alto grau de aplicação de sua biomassa, algumas
espécies de cianobactérias podem produzir toxinas. As
espécies Anabaena flos-aquae, Microcystis aeruginosa
(figura 4) e Aphanizomena flos-aquae (figura 5) são alguns
(a) exemplos. Os mecanismos que agem no controle da
toxicidade não são conhecidos.
Nos últimos anos, o aumento de nutrientes (principalmente
nitratos e fosfatos) em corpos d’água, devido ao despejo
de rejeitos humanos e agrícolas, tem proporcionado o
surgimento de “blooms” de cianobactérias. Muito destes
“blooms” são formados por cepas tóxicas e têm causado
casos de envenenamento animal, e mesmo humano, em
várias partes do mundo.
Figura 3 — Porção do talo de Nostoc sp. mostrando al- Existem dois tipos básicos de toxinas descritas na literatura:
guns tricomas imersos na matriz gelatinosa e heterocistos hepatotoxinas e neurotoxinas.
(a). Reproduzido de Bicudo, 1970. Hepatotoxinas são hepta ou pentapeptídeos que agem,
preferencialmente, nas células do fígado. Quando
administradas intraperitonialmente, em animais de
laboratório, podem levá-los à morte em 30 minutos a 2
horas, numa concentração de 50 µg/kg de peso.
Microcystis aeruginosa é uma das espécies que produzem
hepatotoxinas.
As neurotoxinas agem bloqueando receptores neuro-
musculares, levando o animal à morte por paralisia respi-
ratória. Algumas espécies, como por exemplo, Anabaena
flos-aquae, produzem alcalóides que têm ação
neurotóxica.
A necessidade do entendimento dos mecanismos
fisiológicos, bioquímicos e genéticos envolvidos na
produção de toxinas, se deve ao fato de que muitos dos
reservatórios de água que abastecem as grandes cidades,
Figura 4 — Colônia de Microcystis aeruginosa imersa em apresentam características ambientais ideais para o
uma matriz gelatinosa (mucilagem). Reproduzido de surgimento de “blooms” de cianobactérias: alta intensidade
Bold, 1985. luminosa, concentração elevada de nutrientes, temperatura

14 BIOLETIM Ano I Nº 1
da água entre 15–30°C e pouco movimento de água. BICUDO, C.E.M. & BICUDO, R.M.T. 1970. Algas de Águas
“Blooms” de cepas tóxicas em reservatórios de Continentais Brasileiras. Fundação Brasileira para o
abastecimento têm sido relatados na literatura. Desenvolvimento do Ensino de Ciências, Universidade
Além disso, trabalhos mais recentes mostram que de São Paulo. 228 pp.
microcistina, uma hepatotoxina, pode promover o BOLD, H.C. & WYNNE, M.J. 1985. Introduction to the
surgimento de tumores hepáticos. Algae. Prentice Hall, 2nd edition. 720 pp.
Muitas outras pesquisas estão sendo desenvolvidas com CARMICHAEL, W.W. 1992. Cyanobacteria Secondary
cianobactérias, que incluem: obtenção de estimulantes de Metabolites – The Cyanotoxins. Journal of Applied
crescimento vegetal e animal, produção de antibióticos, Bacteriology. 72:445-459.
estudos de bioenergética, obtenção de enzimas de CASTILLO, J. & BERGER, C. 1983. Documentos Técnicos
restrição, etc. Isto deixa clara a grande variedade de y Cientificos. Las Microalgas y sus Principales
trabalhos que podem ser desenvolvidos com estes Aplicaciones. Revista Latinoamericana de Acquicultura
organismos. 16:1-42.
A maioria dos resultados obtidos até hoje com CATÁLOGO SIGMA. 1992. Biochemicals Organic
cianobactérias são de espécies e/ou cepas de países Compounds for Research and Diagnostic Reagents.
temperados. Desta forma, as nossas espécies podem ter GALLON, J.R. & CHAPLIN, A.E. 1988. Nitrogen Fixation In:
respostas diferentes a diversos parâmetros fisiológicos, Rogers, L.J. & Gallon, J.R. (editores), Biochemistry of the
bioquímicos e genéticos já descritos na literatura. Como Algae and Cyanobacteria. Clarendon Press, pp. 147-173.
no Brasil muito pouco foi feito, as cianobactérias se tornam KERBY, N.W. & STEWART, W.D.P. 1988. The Biotech-
um importante campo de estudo. nology of Microalgae and Cyanobacteria. In:
Rogers, L.J. & Gallon, J.R. (editores), Biochemistry
BIBLIOGRAFIA of the Algae and Cyanobacteria. Clarendon Press,
BEYRUTH, Z., SANT’ANNA, C.L., AZEVEDO, M.T.P., pp. 319-334.
CARVALHO, M.C. & PEREIRA, H.A.S.L. 1992. RICHMOND, A. 1989. Spirulina. In: Borowitzka. M.A. &
Toxic Algae in Freshwaters of São Paulo. In: Borowitzka, L.J. (editores), Micro-algal Biotecnology.
Cordeiro-Marino, M., Azevedo, M.T.P, Sant’ana, Great Britain at the University Press, pp. 85-118.
C.L., Tomita, N.Y. & Plastino, E.M. (editores), WHITTON, B.A. & CARR, N.G. 1982. Cyanobacteria:
Algae and Enviroment: A General Approach. Current Perspectives. In: Carr, N.G. & Whitton, B.A.
Sociedade Brasileira de Ficologia, Companhia de (editores), The Biology of Cyanobacteria. Botanical
Tecnologia de Saneamento Ambiental, São Paulo, Monographs, volume 19, Blackwell Scientific
pp. 53-64. Publications, pp. 1-9.

março a julho de 1993 15


Dinâmica da Humificação:
Estudos Preliminares
COMO É

Andréa Callipo

Laboratório de Ecologia de Solos


Departamento de Ecologia
Instituto de Biologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O húmus representa uma zona de transição onde ocorre O papel desempenhado pelos vegetais é definido pela
a incorporação da matéria orgânica fresca ao solo, na qual capacidade de produzir uma quantidade de material or-
distingue-se um horizonte inteiramente orgânico: o “litter”, gânico superior ao que pode ser consumido pelos herbí-
e uma camada semi-orgânica: o horizonte A1 (Toutain, voros. A maior parte da biomassa produzida se destina à
1981). mineralização pelo subsistema decompositor.
O estudo da gênese e do funcionamento de um tipo de Em ecossistemas florestais, supõe-se que os aportes aére-
húmus pressupõe um conhecimento, o mais completo os (folhas, galhos, flores e frutos) superem os aportes
possível, de suas características morfológicas, bem como radiculares. Contrariamente, em ecossistemas herbáceos
das relações interativas entre a fração mineral e os com- como nas savanas, os aportes radiculares representam
ponentes biológicos e orgânicos. Segundo Lavelle (1984), quase o dobro da necromassa de aportes aéreos.
existem três grupos principais de organismos no solo: A composição química do material foliar pode determi-
plantas, representadas por suas raízes e folhas acumula- nar a modalidade de decomposição e o tipo de húmus
das na superfície; microorganismos, principalmente bac- (Garay e Silva, 1992). Existem trabalhos que relacionam a
térias e fungos; e invertebrados. composição inicial do material foliar com os tipos de
As características químicas da rocha-mãe e o pedoclima húmus e com a velocidade de decomposição. Toutain
são condições fundamentais para instalação de um tipo (1981) descreve as características bioquímicas de uma folha
de húmus e do seu perfeito funcionamento. A presença de Fagus sp relacionando-as ao processo de decomposi-
de certos elementos (cátions, íons metálicos e etc.) no solo ção. Numa primeira etapa ocorre lixiviação e mineralização
impede a percolação de uma grande parte da matéria dos hidrossolúveis facilmente degradáveis. Posteriormente
orgânica solúvel. A formação de complexos argilo- as folhas de Fagus adquirem uma coloração castanha
húmicos, responsáveis por uma forte agregação e uma boa devido à formação de produtos escuros intracelulares
aeração do solo, é dependente da presença de argilas e provenientes do contato dos compostos fenólicos
bases de troca (Ca3+, Mg3+, Na+, K+), como também de vacuolares, taninos, com os compostos protéicos do
condições pedoclimáticas de umidade e temperatura. citoplasma. Os produtos fenólicos vacuolares, assim como
A insolubilização da matéria orgânica, quando em conta- a lignina estrutural, são muito estáveis e dificilmente
to com minerais, e a formação de complexos argilo- biodegradáveis.
húmicos criam condições específicas favorecendo a ativi- A relação carbono/nitrogênio é usada como um indicador
dade de alguns organismos humificadores,como
oligoquetas e fungos basidiomicetos. Os solos com
baixa quantidade de argila e ausência de agregados apre- Camada L Camada L
sentam características opostas, abrigando uma fauna mais Camada F
resistente, como oligoquetas enquitreiras e colêmbolas Camada F
(Toutain, 1981). A pobreza de alguns solos tropicais é Camada H
conseqüência da pequena quantidade de argilas e da baixa Dejetos de Dejetos de
capacidade de troca das mesmas, aumentada pela ação Oligoquetos mesofauna
de intensas lixiviações e altas temperaturas (Lavelle, 1984). com grãos
Os ecossistemas tropicais apresentam taxas de produtivi- minerais
dade primária elevadas, pouca reserva de nutrientes no MULL MODER
solo e possuem altas concentrações na biomassa vegetal,
evidenciando um mecanismo eficiente de reciclagem dos Figura 1—Representação esquemática de dois tipos clás-
nutrientes (Golley et al, 1975 apud Lavelle, 1984). sicos de húmus. Segundo Babel (1971), modificado.

16 BIOLETIM Ano I Nº 1
global da velocidade de decomposição. Porém, esta facilita a ação do outro.
mascara a relação entre a fração orgânica de difícil decom- Segundo Lebrun (1987) a fragmentação contribui para a
posição e o nitrogênio disponível aos microorganismos decomposição, promovendo aumento da lixiviação por
para mineralização, inicialmente da própria matéria colocar em solução compostos liberados pelo rompimento
orgânica e depois dos compostos nitrogenados. Uma alta de estruturas celulares; aumento das superfícies atacáveis
relação C/N, representando altos valores de carbono pelos microorganismos; e promovendo a associação de
orgânico associados às baixas concentrações de nitrogênio, materiais orgânicos e minerais, o que contribui para a for-
implica em folhas mais ricas em compostos fenólicos. Uma mação de húmus. A degradação bioquímica, fruto da ati-
grande quantidade de compostos fenólicos resulta em vidade de microorganismos e da ação de enzimas do tubo
folhas de difícil degradação e conseqüentemente uma lenta digestivo de animais, tem como conseqüência um aumento
decomposição. Garay e Silva (1992) mostraram que numa da interface fragmentação-lixiviação, por romper macro-
mata de restinga com predominância de mirtáceas, com moléculas carbonadas e protéicas; uma ação prolongada
grande quantidade de compostos fenólicos e alta relação de todos os efeitos já citados devido a uma sucessão de
C/N, ocorre um acúmulo de matéria orgânica superficial espécies microbianas e animais.
devido à baixa velocidade de decomposição. Observando a figura 2 temos um exemplo do comporta-
As transformações ocorridas no material vegetal após sua mento trófico dos microorganismos e fauna edáfica. É
queda ao solo definem um perfil com camadas importante ressaltar que não se pode fixar os níveis
holorgânicas e um horizonte semi-orgânico. Pela obser- tróficos, já que os organismos edáficos podem atuar em
vação do horizonte holorgânico pode-se definir três tipos vários destes.
de camadas (Toutain, 1987) : Os animais, bactérias e fungos que alimentam-se de restos
• L: folhiço fresco com folhas praticamente inteiras, ligei- vegetais são chamados saprótrofos (Figura 2a). Os recursos
ramente colonizadas por fungos; utilizados por estes podem encontrar-se nos mais diferentes
• F: restos foliares fragmentados, com matéria orgânica estágios de decomposição. Os que se alimentam de recursos
fina em proporção de 10 a 70% do total; pouco alterados têm em geral maior atividade na quebra de
• H: formada pela concentração de substâncias residuais dissacarídeos e oligossacarídeos do que na quebra de
orgânicas (polímeros fenólicos e lignina dificilmente celulose, lipídios e proteínas. Alguns animais possuem ação
biodegradáveis) que persistem e se estocam, com propor- enzimática que pode ser creditada a associações com
ção maior que 70% do total de matéria orgânica fina, simbiontes, facilitando sua ação decompositora.
entremeada por raízes.
O horizonte semi-orgânico (A1) é constituído de matéria
orgânica, que diminui com o aumento de profundidade e Coleópteros Pseudoescorpiões
de material mineral. (c) Quilópodos
A primeira distinção para os tipos de húmus data de 1887,
onde Müller sugere o termo mull (Garay e Silva, 1992;
Toutain, 1981) ao húmus com uma grande produtividade Hymenópteros
Colembolos
vegetal, solos ricos e aerados, com alta atividade de Coleópteros
Rotíferos Moluscos
oligoquetos; em oposição ao húmus coprógeno de solos
florestais pobres com acúmulo de matéria orgânica super- (b)
Oligoquetas
ficial. Ácaros Enquitreiras
Considerando as características comuns de funcionamen-
Nematódeos Moluscos
to pode-se distinguir dois tipos básicos de húmus em meio
Nematódeos
ácido : mull e moder. De acordo com a figura 1 o húmus
mull mostra uma grande descontinuidade entre as folhas
inteiras e o horizonte orgânico mineral (A1) subjacente. Bactérias Isópodos
Já no tipo moder a fragmentação se faz lenta e progressi- Matéria orgânica Diplopodos
vamente, de modo que a continuidade ao horizonte A1 é (a)
assegurada pela presença de uma camada de matéria or- Fungos Dípteros Ácaros
gânica amorfa, sustentada por abundantes raízes finas
(camada H). Figura 2—Simplificação do esquema trófico de organis-
Os microorganismos e os invertebrados edáficos atuam mos edáficos. (a) A matéria orgânica que cai ao solo é
na decomposição tanto pelo processo de fragmentação decomposta por alguns animais, fungos e bactérias. (b)
quanto por degradação bioquímica (transformação de Os animais que se alimentam de fungos e bactérias con-
compostos orgânicos complexos em moléculas menores seguem um maior aproveitamento dos nutrientes,
e mais simples, por reações enzimáticas). Estes processos garantindo um valor nutricional elevado. (c) Os predado-
ocorrem simultaneamente, assim como a lixiviação, de res tem um controle geral do sistema, influenciando
forma que a atuação de um dos processos sobre o recurso indiretamente a velocidade de decomposição.

março a julho de 1993 17


As bactérias formam colônias que atuam na superfície do humificadores é induzida pelas características físico-quí-
recurso,sugerindo que quanto menor a partícula maior será micas da rocha-mãe. Segundo Toutain (1981) os solos ar-
a sua atividade decompositora. As colônias bacterianas po- gilosos abrigam oligoquetos; os meios ácidos e arenosos
dem ser encontradas vivendo livremente ou em simbiose com grandes quantidades de ferro e argila criam condi-
no tubo digestivo dos animais. ções favoráveis à instalação dos fungos da podridão bran-
Os fungos apresentam uma forte aderência ao recurso e ca (Basidiomicetos). Quando as condições são diferen-
são dotados de hifas diferenciadas capazes de perfurar tes, instalam-se animais menos exigentes como as
células e separar fisicamente conjuntos de macromoléculas. oligoquetas enquitreiras ou microartrópodos.
Esta capacidade aliada ao fato de que possuem um am- Garay e Silva (1992) ressaltam a importância da umidade
plo espectro de atividade enzimática garante aos fungos e de condições climáticas para colonização da fauna. Em
uma grande eficiência no processo de decomposição. mata tropical com húmus tipo mull mas com baixa preci-
A microfagia, ingestão de bactérias e fungos por alguns pitação, como na Mata Alta de Tabuleiros (ES) não
animais, garante um teor nutricional elevado, já que os ocorrem oligoquetos anécicos, sendo estes substituídos
microorganismos apresentam relações carbono/nutrientes pelos térmitas (Garay et al.,1992).
mais viáveis metabolicamente (Figura 2b). A ação dos O estudo do funcionamento do subsistema de decompo-
micrófagos previne a senescência das colônias bacterianas sição em ecossistemas naturais e principalmente a com-
e fúngicas e libera vários minerais que estavam preensão de sua importância podem limitar ação
imobilizados nos microorganismos, colocando-os à antrópica, não apenas impedindo a destruição do ambi-
disposição das plantas. ente como também ajudando a restaurá-lo. Através do
Os predadores regulam a comunidade decompositora atra- favorecimento de certo tipo de atividade biológica, por
vés do controle das populações de saprótrofos e mi- intervenções mecânicas ou químicas, pode-se causar a
crófagos, controlando indiretamente a velocidade da de- passagem de um tipo de humificação a outro, aumentan-
composição (Figura 2c). As aranhas, os pseudo-escorpi- do a produtividade do ecossistema. A reativação biológi-
ões, escorpiões e quilópodos são reconhecidos como pre- ca dos ecossistemas proporciona meios para utilizar os
dadores, enquanto coleópteros e ácaros podem se ali- rendimentos de áreas cultivadas e possibilita a recupera-
mentar também de detritos quando há escassez de pre- ção de áreas degradadas através de manejo florestal.
sas.
Os coprófagos são os animais que se alimentam predo- BIBLIOGRAFIA
minantemente de fezes, que são o resultado da fragmen- BABEL, U. 1971. Gliederung und Beschreibung des Humus
tação e de algumas alterações químicas do material origi- Profils Mitteleuropäschen Waldern. Geoderma 5:297-324.
nal, permitindo o aumento da relação superfície/volume DINDAL, D.L. Ecology of Compost - a public involvement
e um conseqüente ataque por fungos e bactérias (figura project. New York State Council of Environment Advers
3). Alguns cupins criam fungos sobre suas fezes, & State University College of Forestry at Syracuse
garantindo uma fonte alimentar mais nutritiva do que a University. State University of New York Ed., 12p.
utilização exclusiva do “litter”. DINDAL, D.L. 1977. Biology of Oribatids Mites. State
A presença e a atividade dos diversos organismos University of New York Ed.
GARAY, I., KINDEL, A., CALLIPO, A., BARROS, M.E.O. &
JESUS. No prelo. Formas de Húmus em Ecossistemas de
Isópodos Floresta Costeira Intertropical. I-A Mata Atlântica de Ta-
buleiros. Anais do Simpósio de Estrutura, Funcionamento
Queda de
e Manejo de Ecossistemas. Universidade Federal do Rio
folhas
de Janeiro.
GARAY, I. & SILVA, B.A.O. No prelo. Húmus Florestais: Sín-
tese e Diagnóstico das Interrelações Vegetação/Solo. Anais
Fungos
do Simpósio de Estrutura, Funcionamento e Manejo de
Ecossistemas. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
LAVELLE, P. 1984. The Soil System in the Humid Tropics.
Biology International 9:2-17.
Matéria orgânica LEBRUN, P. 1987. Quelquer Reflexions sur les Rôles
em decomposição Exercès pas la faune edaphique. Revue Écologique de
Biologie du Sol 24(4):495-502.
Figura 3—O “litter”, colonizado por microorganismos, é in- TOUTAIN, F. 1981. Les Humus Forestiers - structures et modes
gerido pelos artrópodos, fragmentado e digerido quimica- de fonctionnement. Revue Forestière Française 33(3):449-477.
mente, o material não decomposto é eliminado nas fezes, TOUTAIN, F. 1987. Les litières: Siège de systèmes intéractifs
sendo atacado novamente por microorganismos; levando a et moteur de ces intéractions. . Revue Écologique de
um enriquecimento nutricional a cada passagem pelo ciclo. Biologie du Sol 24(3):231-242.

18 BIOLETIM Ano I Nº 1
A Família
Gobiidae
O QUE É

Ricardo Zaluar

Laboratório de Ictiologia
Departamento de Biologia Marinha
Instituto de Biologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Composta por aproximadamente 1500 espécies, a família alimentam-se quase que exclusivamente de ectoparasitas
Gobiidae (ordem Perciformes) é considerada a mais de outros peixes, já tendo sido relatado um caso onde o
diversificada das famílias de peixes tropicais marinhos do hospedeiro visitado era um polvo (Johnson, 1987).
mundo, além de possuir vários representantes em ambi- Os gobídeos, em geral, são peixes pequenos; de fato, o
entes estuarinos e dulcícolas (Burgess, Axelrod & menor vertebrado já registrado na natureza é um gobídeo
Hunziker III, 1990). das Filipinas que atinge a maturidade sexual com 6 mm
Esse numeroso grupo de peixes está amplamente distri- de comprimento padrão (Randall, 1983), porém exis-
buído pelo globo e invadiu praticamente todos os ambi- tem exceções, tais como Gobioides broussonnetii (ou pei-
entes aquáticos existentes: representantes de uma espé- xe-dragão, figura 1b), ocorrente em todo o Atlântico tro-
cie da família (figura 1a) já foram encontrados no mar a pical oeste, e que atinge 600 mm de comprimento padrão
mais de 180m de profundidade (Hastings & Bortone, 1981) (Menezes & Figueiredo, 1985).
e de outra (Awaous tajasica) em rios encahoeirados (W. Alguns autores consideram o gênero Gobioides como
Costa, comunicação pessoal). São freqüentemente os pei- pertencente à família Gobioididae. Utilizo neste trabalho,
xes mais numerosos em ambientes dulcícolas de ilhas oce- para fins de simplificação, a classificação utilizada por
ânicas (Nelson, 1977), o que provavelmente está relacio- Menezes & Figueiredo (1985).
nado ao fato de serem, em alguns destes casos, espécies São peixes que dificilmente são aproveitados como ali-
dulcícolas que se reproduzem no mar. Além disso, os
gobídeos podem ser encontrados em costões rochosos,
lajes, fundo marinho arenoso, fundo marinho lodoso, re-
cifes de coral, poças de maré, canais ligando lagoas ao
mar, em lagoas, manguezais, rios de água barrenta e fun-
do lodoso e em rios de águas claras e fundo de cascalho.
Algumas espécies dessa família apresentam uma tolerân-
cia incomum a variações bruscas de salinidade, ocorrendo
(a)
em mais de um tipo de ambiente. Este é o caso de
Bathygobius soporator (ou emboré), espécie encontrada
em costões rochosos, poças de maré, canais, lagoas e
manguezais dos dois lados do Atlântico e no Pacífico tro-
pical leste, já tendo havido relatos de sua ocorrência em (b)
rios de fundo lodoso (Randall, 1983). Porém, o exemplo
mais incrível de adaptação ambiental em Gobiidae vem
dos oceanos Índico e Pacífico: algumas espécies apresen-
tam a capacidade de permanecer fora da água por consi-
deráveis períodos de tempo (algumas delas chegando a
subir em árvores), só retornando ao meio aquático para
umedecer suas câmaras branquiais (Burgess, Axelrod & (c)
Hunziker III, 1990).
A maioria das espécies é carnívora e vive em contato direto Figura 1 — (a) Chriolepis vespa apud Hastings & Bortone,
com o substrato. Em algumas outras, os indivíduos 1981. (b) Gobioides broussonnetii apud Menezes &
permanecem suspensos na coluna d’água. As espécies do Figueiredo, 1985. (c) Gobionellus stomatus apud Starks,
gênero Elacatinus apresentam dieta marcadamente restrita: 1913. Obs: As figuras encontram-se fora de escala.

março a julho de 1993 19


mento, ainda que, em certas regiões do Brasil, as formas
de maior tamanho sejam utilizadas como isca para peixes
de grande porte (Menezes & Figueiredo, 1985).
A característica morfológica mais marcante do grupo é a
presença de uma ventosa formada pela união de suas
nadadeiras pélvicas. Além disso, os gobídeos não
possuem linha lateral e, na maioria das espécies, a
bexiga natatória está ausente. O corpo é comprimido
posteriormente e pode ser escamado, parcialmente
escamado ou totalmente desprovido de escamas. Os olhos Brasil (endêmicas)
estão usualmente próximos um do outro no topo da
cabeça, que pode ser deprimida ou arredondada. Em
algumas espécies há dimorfismo sexual evidente, os Caribe
(endêmicas)
machos adultos apresentando cabeça mais larga, boca
maior e colorido mais intenso do que as fêmeas, além de
prolongamentos nos espinhos dorsais. Algumas espécies Restantes
(principalmente as marinhas) possuem colorido intenso
e são amplamente utilizadas em aquariofilia.
Seguindo sugestão de meu orientador, iniciei um estudo
com vistas à elaboração de uma monografia de bachare-
lado sobre esse que para mim representava um grupo
quase que totalmente desconhecido. Aos poucos, através
da literatura disponível, foi ficando evidente uma grande
diferença existente entre o número de espécies da família
registrado no Caribe e o número de espécies da família,
até o momento, registrado no Brasil: das 242 espécies
conhecidas nas Américas, 115 ocorrem no Caribe e 38 no
Brasil. Vinte e nove espécies ocorrem em ambas as regiões.
Das espécies que ocorrem no Brasil, apenas nove são
endêmicas (ex: Gobionellus stomatus — figura 1c) e,
dessas, algumas possuem status taxonômico incerto. Já
no Caribe, são conhecidas 86 espécies endêmicas e todas
possuem status taxonômico acima de qualquer suspeita.
Além disso, esse é um número que vem crescendo rapi-
damente, pois é grande o número de descrições de novas Figura 2 — Gráfico comparando o número de espécies
espécies caribenhas publicadas a cada ano. endêmicas do Caribe com o número de espécies endê-
Duas hipóteses podem ser, então, elaboradas: 1) essa di- micas do Brasil. Notar o contraste entre a extensão do li-
ferença é conseqüência de fatores naturais ou 2) o grau toral brasileiro e o reduzido grau de endemismo aqui
de diferença é ilusório e produzido pelo fato de ser o encontrado.
Caribe mais estudado do que o Brasil.
Mesmo sendo possível que essa diferença se explique por
fenômenos naturais, três evidências apontam no sentido a pena evidenciar a reduzida extensão do trecho amostrado
da segunda hipótese: em primeiro lugar está a grande em relação à dimensão do litoral brasileiro, o que sugere
diferença existente no número de publicações relativas às que outras espécies permanecem sem registro por defici-
duas regiões. De todas as espécies de gobídeos do Atlân- ência de amostragem.
tico ocidental, poucas foram descritas a partir de material Em terceiro está o contraste entre a extensão do litoral e
coletado no Brasil, e apenas uma foi descrita por ictiólogos das bacias hidrográficas brasileiras e o número de espéci-
brasileiros (Awaous travassosi — Pinto, 1960), tendo to- es registrado para o Brasil: dizer que no Brasil ocorrem
das as outras sido (inclusive aquelas endêmicas do Bra- 38 espécies de gobídeos é dizer que, num país com 8000
sil) descritas por estrangeiros. km de litoral e uma grande diversidade de ambientes
Em segundo lugar está o registro de duas ocorrências aquáticos, se conhecem apenas 38 espécies daquela que
novas relatadas para o litoral brasileiro (Zaluar, 1992): é a maior família de peixes tropicais marinhos do mundo.
Coryphopterus trhix e Gobionellus saepepallens, ambas Assim sendo, não é difícil de se imaginar que com o uso
antes conhecidas apenas no Caribe. Esses novos registros de técnicas de coleta mais sofisticadas (tais como arrastos
foram assinalados durante mergulhos livres em pontos de profundidade e mergulho autônomo), venham a ser
localizados entre Parati, RJ e Guarapari, ES (figura 3). Vale registradas para a ictiofauna brasileira várias outras espé-

20 BIOLETIM Ano I Nº 1
cies da família Gobiidae. Isto é bastante provável com
relação às regiões Norte e Nordeste (aparentemente as
menos amostradas) e locais de difícil acesso como ilhas,
lajes ou recifes de coral afastados da costa.

BIBLIOGRAFIA:
BURGESS, W.E., H.R. AXELROD & R. E. HUNZIKER III.
1990. Dr. Burgess’s Atlas of Marine Aquarium Fishes.
TFH Publications. 768 pp.
HASTINGS, P.A. & BORTONE S.A. 1981. Chriolepis vespa,
a new species of gobiid fish from the north-eastern Gulf
of Mexico. Proceedings of the Biological Society
Washington, 94(2):427-436.
JOHNSON, W.S. 1982. A record of cleaning symbiosis
involving Gobiosoma sp. and a large Caribbean octopus.
1. Rio São Roque, Parati, RJ Copeia, 1982 (3):712-714.
2. Praia de Conceição do Jacareí, RJ MENEZES, N.A. & FIGUEIREDO J.L. 1985. Manual de peixes
3. Ilha de Palmas, Baía da Ilha Grande, RJ marinhos do sudeste do Brasil. V—Teleostei (4). Museu
4. Ilha de Urupira, Praia de Grumari, RJ de Zoologia da Universidade de São Paulo. 105 pp.
5. Canal da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ
6. Praia Vermelha, Rio de Janeiro, RJ
NELSON, J.S. 1977. Fishes of the world. John Wiley. 416
7. Costão da Urca, Rio de Janeiro, RJ pp.
8. Canal de Ponta Negra, RJ RANDALL, J.E. 1983. Caribbean reef fishes. TFH
9. Lagoa de Saquarema, RJ Publications. 359 pp
10. Costões rochosos de Arraial do Cabo, RJ STARKS, E.C. 1913. The fishes of the Stanford Expedition
11. Costões rochosos e poças de maré de Búzios, RJ
12. Lagoa e manguezal, Iriri, ES
to Brazil. Leland Stanford Junior University Publications.
13. Poças de maré em Anchieta, ES 77pp + 15 pls.
14. Canal de Guarapari, ES ZALUAR, R. 1992. Distribuição, habitat, hábitos e sistemá-
tica dos peixes da família Gobiidae (Perciformes:
Figura 3 — Mapa com os pontos de coleta e observação Gobioidei) do sudeste do Brasil, com o registro de duas
visitados pelo autor utilizados na elaboração de uma ocorrências novas. Monografia de Bacharelado, UFRJ.
monografia de bacharelado. III + 61 pp, 21 figs.

março a julho de 1993 21


Educação Científica:
Uma Análise Crítica
INCERTAE SEDIS

Richard Sachsse e Gilson Iack Ximenes

Laboratório de Herpetologia
Departamento de Zoologia
Instituto de Biologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Quais as implicações do ensino na compreensão da não parecem se embaraçar por estarem mal informados.
Ciência? Qual a verdadeira natureza do ensino em Quando alguém expressa interesse no desenvolvimento
Ciência? Dar ênfase ao conteúdo ou ao processo de científico, freqüentemente o tem dirigido para o exótico
formação de conhecimento? O que vem a ser “ensinar” um ou o bizarro. Ainda mais alarmante é a disposição geral
conhecimento crítico? Nos corredores universitários são do público em aceitar os exageros irresponsáveis dos
freqüentes os queixumes com relação ao currículo de meios de comunicação.
graduação. É lugar-comum que o rápido desenvolvimento Não há dúvida de que a percepção do público para a
científico e os assuntos em evidência exijam contínuas ciência é apavorante. Quem é responsável pela atordoante
atualizações do currículo, raramente contempladas ignorância em relação à ciência demonstrada pelo cidadão
pela tradição da estrutura educacional. Igualmente médio? Uma explicação em moda é que os jornais servem
importante, mas nunca abordada, é a própria maneira à ciência de forma incipiente. É certo que o tratamento
de se ensinar Ciência. O texto aqui exposto é uma tradução dado pela imprensa à ciência seja insatisfatório, mas isso
de fragmentos de um artigo apresentado no início de um está obviamente distante de ser uma resposta conclusiva.
projeto da American Society of Zoologists (AMZ), e mais Também é correto que os avanços científicos nos anos
11 organizações científicas norte-americanas, sobre o recentes ocorreram tão rapidamente que a maioria das
ensino de Biologia nos Estados Unidos. “Science as a way pessoas não podem acompanhar o intenso fluxo de novas
of knowing” ocupou essas organizações entre 1983 e 1989, descobertas. A produção ativa de novos conhecimentos
com reuniões anuais durante o congresso da AMZ. Foram perturba nossa serenidade. Na verdade, os novos e um
discutidas, a cada ano, uma das áreas de conhecimento tanto quanto assustadores poderes da ciência con-
da Biologia (Biologia Evolutiva, Ecologia Humana, temporânea suscitam preocupações e suspeitas. Os perigos
Genética, Biologia do Desenvolvimento, Forma e Função, da energia nuclear e os riscos amplamente exaltados da
Biologia Celular e Molecular e Neurobiologia e pesquisa com DNA recombinante têm tendido a debilitar
Comportamento). O objetivo principal foi agrupar um a confiança do público na ciência. Para muitas pessoas, a
conjunto de propostas que expusessem as falhas do ensino ciência tem se tornado uma “força desumanizante” em
nessas áreas e apontassem soluções que pudessem ser nossa sociedade. Pode ser que as pessoas estejam se
repassadas ao corpo de professores universitários e de 2º rebelando não tanto contra a ciência, mas sim contra um
Grau (“High School”). Pretendia-se, assim, alterar suas mundo que percebem como insensível à valores
perspectivas no ensino de Biologia. A análise de E. Peter “humanos”. Tal rebelião pode ser parte de uma tendência
Volpe (The shame of science education. American mais ampla de antiintelectualismo. Contudo, nossas
Zoologist, 24(2):433-441. 1984) retrata especificamente a universidades precisam assumir um papel proeminente no
problemática norte-americana, com peculiaridades que contrabalanceamento ou, ao menos, na neutralização das
não dizem respeito à realidade brasileira (e foram atitudes anticientíficas.
excluídas dessa tradução). Não obstante, aborda questões Tragicamente, o maior culpado pelo triste estado da
que sensibilizam alunos e professores universitários da compreensão científica pela sociedade é o próprio sistema
área de ciências, como as indagações acima formuladas. educacional. Educação em ciências é pateticamente
deficiente. Muitos estudantes deixam nossas salas de aula
incapazes de refletir cuidadosamente sobre uma
“A opinião pública continua ingênua e desfamiliarizada a informação científica. Todavia, nossos estudantes
respeito dos limites e das realizações científicas. A vasta encontrar-se-ão brevemente dentro daquele segmento da
maioria dos indivíduos de nossa sociedade conhecem sociedade cujas opiniões são mais influentes na formação
pouco sobre ciência e, ao menos consciente ou claramente, da resposta pública aos desenvolvimentos científicos. É

22 BIOLETIM Ano I Nº 1
importante que nossos estudantes estejam preparados para culo XX e o outro no século XIII. A posição resultante desta
avaliar evidências desapaixonadamente. Por que a situação é tanto dolorosa quanto embaraçosa. Alguns es-
educação científica apresenta um aspecto tão triste? Tal tudantes tentam uma reconciliação ou fusão das duas ide-
situação deve ser analisada em seus diversos aspectos. ologias : naturalista e mística. Para muitos estudantes, a
[...] convicção mística é avassaladora e basal, prevalecendo
Uma das principais queixas dos professores universitários sobre qualquer consideração da ciência objetiva. De fato,
é que os calouros não apresentam um conhecimento os estudantes são atraídos pelo oculto, o sobrenatural e o
básico mínimo, quando não são praticamente ignorantes. paranormal. É como se almejassem aprender os segredos
O ensino da Ciência para estudantes desprovidos de de suas “almas psíquicas”. Os estudantes procuram livros,
requintes intelectuais e, além disso, desinteressados é um revistas e cassetes que lidem com assuntos que vão des-
empreendimento difícil. Quando entram nas universidades de astrologia à feitiçaria. O ocultismo foi promovido pe-
os estudantes têm uma noção vaga e ingênua sobre los meios de comunicação populares. Mesmo que as cren-
evolução. Consideram-na como algo ocorrido num ças ocultas ou ilusórias não sejam objetivamente susten-
passado remoto. Sabem que tem algo a ver com táveis, muitos estudantes endossam, sem qualquer críti-
dinossauros, rochas e o proverbial “elo perdido”, estão ca, o fantástico. Aparentemente, a necessidade de reter
familiarizados com clichês tais como “luta pela existência” crenças irracionais satisfaz necessidades pessoais que
e “sobrevivência do mais apto”. No entanto, após um ano parecem ser negadas pela ciência e pela tecnologia con-
de matérias básicas introdutórias ao curso de Biologia (ou temporâneas.
por causa de tal exposição), a média dos estudantes está Há uma importante lição a ser aprendida: a ciência
ainda descrente de que a espécie humana é simplesmente evidentemente não é vista como um meio de alcançar uma
um episódio incidental e fortuito na longa história da vida. compreensão mais profunda de nós mesmos e de nosso
Os estudantes podem reconhecer que a história de Adão próprio ambiente. A ciência, ao contrário do ocultismo,
e Eva é um mito, mas a evolução darwinista representa não é compreendida intuitivamente pelos estudantes.
um golpe violento em suas auto-estimas. É inconcebível Ciência é, no máximo, uma metodologia técnica árida, com
para muitos deles que os seres humanos não sejam o único seus hábitos antissépticos e de análise restrita. Ela é fria e
clímax do universo. A ciência diminui o interesse por nosso impessoal. O estudo da ciência está alienado da vida do
destino final. Se nós somos simplesmente uma espécie estudante. A característica agonizante da educação
animal, como podemos ter uma alma imortal destinada científica atual é o grande abismo entre os estudos e a
para a felicidade (ou punição) eterna? vida. O desafio da educação em ciências é expor os
[...] estudantes a uma aprendizagem de experiências que
A evolução darwinista rouba ostensivamente a vida tornem a perspectiva científica parte de suas vidas. O
humana do seu mistério e melancolia. Um dos mais desafio é oferecer ao estudante um currículo no qual o
dolorosos desapontamentos para a mente poética ou conhecimento e a vivência possam ser integrados. Os
romântica é a noção de que a vida pode não ser eterna. estudantes precisam vivenciar o aprendizado. Mudanças
Um sentimento predominante é que a ciência oprime a na habilidade de julgamento ocorrem quando o estudante
beleza e a emoção de tudo o que ela toca. Os notáveis vivência eventos.
avanços realizados pela tecnologia são vistos como A insensibilidade ou indiferença dos estudantes para com
satisfazendo unicamente nossas necessidades materiais - a ciência é um reflexo de nosso currículo tradicional com
desde o controle da energia a vapor e elétrica ao sua ênfase em um aprendizado passivo. O papel
desenvolvimento de antibióticos e vacinas. Muito tradicional dos estudantes é o de um anotador passivo e
raramente são as realizações científicas concebidas como de um regurgitador de fatos. A partir do jardim de infância,
meios que habilitem homens e mulheres a terem uma visão a maioria dos estudantes é exposta a um modelo de
mais “humana” de seus companheiros. aprendizagem no qual o professor decide qual informação
A evolução darwinista oferece um novo meio de observar o estudante deve aprender, como deve ser aprendido, em
a natureza e a vida. Contudo, nossos estudantes não que seqüência e a que passo. A característica suprema que
apreciam as implicações potencialmente profundas do identifica um currículo centrado no professor é que o
Darwinismo para o desenvolvimento de uma visão ampla estudante não é responsável por sua própria educação.
da natureza humana. Os estudantes assimilaram, O dever do estudante é copiar um fluxo constante de
entretanto, os preceitos da filosofia e das belas-artes, da palavras de uma aula formal e repetir a informação quando
música e da literatura - todas as quais têm fortes elementos comandado. Os estudantes estão tão preocupados em
de intuição religiosa ou de comunhão mística. As transcrever as informações “evangélicas” das aulas que eles
disciplinas da área de Humanas - mas nunca as ciências - raramente têm tempo de refletir sobre as informações e
são aquelas que aguçam a sensibilidade dos estudantes. formular questões. As recompensas ao estudante de um
Essas disciplinas são aquelas que expressam interesse pelo currículo centrado no professor são geralmente
indivíduo humano. superficiais, uma vez que a motivação está baseada nas
Os calouros universitários se mantêm com um pé no sé- notas e não no desejo pessoal de realizações.

março a julho de 1993 23


Deixe-nos considerar todas as implicações de um currículo problemas do dia-a-dia. Ironicamente, é dado ao estudante
centrado no professor. A vasta maioria dos estudantes que um problema a ser resolvido após ele ter sido munido de
se tornará calouros da faculdade de Biologia — cerca de fatos. Mas isto é o contrário do que ocorre na vida real.
7/8 — nunca entrará em uma sala de aula de Biologia Diariamente deparamos com muitos problemas. O apren-
depois de formados. Além disso, muito freqüentemente, dizado ocorre quando trabalhamos direcionados para a
o graduando das profissões liberais está exposto a sua compreensão e resolução. Assim, no processo de
disciplinas introdutórias, enciclopédicas e altamente aprendizagem diário, o problema é encontrado no prin-
factuais de Biologia. Esse tipo de disciplina é uma intro- cípio. Na educação de nossos estudantes, não deveria o
dução, para o graduando de ciências biológicas, às cadeiras problema lhes ser exposto primeiramente?
avançadas, as quais os estudantes de cursos não científicos O uso de uma instrução baseada em problemas nos for-
nunca farão. Raramente o estudante experimenta a nece um rico veículo para tornar nossos estudantes parti-
excitação intelectual envolvida na busca pelo cipantes ativos no processo de aprendizagem. É infrutífe-
conhecimento, ou sente o fervor nos questionamentos ro ter um vasto estoque de informações sem um método
científicos. Está ausente dos processos de aprendizado de ordená-las. O corpo de conhecimentos factuais em
qualquer investigação participativa pelos estudantes. O ciência passa a ter significado quando é utilizado na reso-
papel passivo dos estudantes se contrasta agudamente com lução de problemas. Os estudantes adquirem conhecimen-
o papel ativo dos professores. As atividades dos to através destes. A suposição da aprendizagem seqüencial
professores promovem a aprendizagem destes e não dos é desafiada pela abordagem da resolução de problemas.
estudantes. Ostensivamente, os professores nutrem os Em biologia evolutiva, por exemplo, não é necessário se
estudantes de informações que são apresentadas numa conhecer as evidências da evolução antes que se possa
forma final acabada, e não revelam seus esforços criativos enfrentar um problema relacionado com seus mecanismos.
pessoais para a preparação do material na sua forma final. Na aprendizagem baseada em problemas é apresentado
Os professores nutrem os alunos com refeições prontas; ao estudante um problema desconhecido. Ele precisa
eles geralmente não os convidam para a cozinha de modo buscar informações relevantes, formular uma hipótese
a conhecer os ingredientes cruciais e os diversos passos consistente com as observações, deduzir predições a partir
para se preparar a refeição final apresentada aos estudantes da mesma e, subseqüentemente, aceitar, rejeitar ou
na sala de jantar. Nós deveríamos estar habilitados a modificar a hipótese de acordo com o grau de realização
imaginar um programa instrucional calcado no preceito das predições. Este modelo de aprendizado tem sido
de tornarmos disponível aos nossos estudantes a perícia diversamente definido como resolução de problemas,
na aprendizagem que nós possuímos mas que eles ainda pensamento crítico, pensamento reflexivo, descoberta e
não adquiriram. indagação. O modo de indagação é aquele do estilo
Processos de avaliação são necessários para se estimar o hipotético-dedutivo de raciocínio, que é a pedra angular
progresso e a competência do estudante. Infelizmente, as da investigação científica. A aprendizagem por este método
avaliações são usualmente realizadas por uma abordagem tem um objetivo educacional importante: o
equivocada: exames estereotipados, padronizados e não desenvolvimento do hábito do pensamento científico,
educativos. Para os estudantes, o passado escolar tornou caracterizado pela objetividade, mentalidade aberta,
a educação equivalente a exames do tipo objetivo, e as ceticismo e prontidão para suspender um julgamento em
faculdades reforçam essa visão. Os membros da faculda- caso de evidências insuficientes. Tem sido minha
de permanecem complacentes em sua ignorância no que experiência que os estudantes, quando a eles é dada
diz respeito aos perigos dos exames padronizados. O oportunidade, formulam hipóteses de modo bastante
exame padrão do tipo de multipla escolha geralmente trata natural. Na verdade, o problema prático não é tanto a
como importante apenas a recordação da informação. É formulação das hipóteses quanto o é o de colocá-las à
importante dizer que os exames objetivos não testam pro- prova. Como Charles Darwin uma vez assinalou, os
priamente a competência em ciências. Exames do tipo estudantes têm de aprender a ser cautelosos em seus
múltipla escolha glorificam fatos; na verdade, apenas um envolvimentos emocionais com suas hipóteses mais caras.
especialista num dado assunto pode responder muitas Darwin escreveu em sua autobiografia: “Eu tenho
questões triviais desses testes. A maior parte dos educa- firmemente me esforçado em manter minha mente aberta
dores esclarecidos afirma que um exame padronizado de modo a abandonar qualquer hipótese, por mais
mede apenas o quanto um aluno estudou para o exame. estimada que seja (e eu não posso resistir em formular
Podemos nos perguntar: há alguma característica compen- uma para cada tópico), tão logo os fatos estejam se
satória num currículo centrado no professor? Presumi- mostrando opostos a esta. Na verdade, eu não tenho tido
velmente, o objetivo principal nesse tipo de currículo é nenhuma escolha senão agir desta maneira (...)” (vol. I
transmitir um corpo organizado de conhecimento. Supõe- pp. 103-104. F. Darwin (ed.) 1888. The life and letters of
-se, uma vez que um estudante tenha acumulado um Charles Darwin. 3 vols. John Murray, London).
grande corpo de conhecimentos, que ele esteja prepara- Uma das maneiras mais efetivas de implementação do
do para aplicar esse conhecimento de modo a solucionar método de aprendizagem baseado em problemas é

24 BIOLETIM Ano I Nº 1
organizar os estudantes em pequenos grupos de discussão. habilidade prática necessária para guiar e facilitar a dis-
O potencial dos grupos de aprendizagem na educação cussão, assim como planejar e preparar material de apren-
superior não foi ainda percebido. Pode-se argumentar dizagem baseado em problemas. Os recursos à aprendi-
efetivamente que os grupos de aprendizagem devem ser zagem envolvem uma série de técnicas audiovisuais e
o principal, senão exclusivo, processo em um curso de abordagens educacionais que incluem a aprendizagem
faculdade, e não um suplemento ao método de ensino programada. O orientador encoraja e estimula a discus-
usual. Para assegurar a participação ativa por todos os são, mas não dirige ou domina o grupo. A iniciativa para
membros, os grupos de ensino devem ser pequenos - a aprendizagem permanece nas mãos dos estudantes. Os
aproximadamente de 5 a 6 membros. O estudante dirige procedimentos não possuem final em aberto, nem as dis-
ao problema toda a sua experiência educacional prévia. cussões são sem quaisquer restrições. As sessões de gru-
Os membros dos grupos aprendem em conjunto e com po são cuidadosamente planejadas, com objetivos e ativi-
as experiências de cada componente do grupo, dades explícitos.
beneficiando-se de seus diferentes embasamentos. O [...]
grupo desenvolve um senso de responsabilidade pelo Tanto para os estudantes quanto para os professores, os
progresso do aprendizado de cada membro, e os grupos de aprendizado são estimulantes e vigorosos. É
estudantes aprendem a estabelecer reciprocamente uma meu ponto de vista pessoal que a filosofia básica e o
interação cândida e acurada. O processo é freqüentemente método estejam corretos, embora um programa de
difícil porque ele representa um forte contraste ao sistema aprendizagem em grupo seja difícil de implementar,
educacional competitivo estabelecido, ao qual a maioria particularmente com um grande número de calouros em
dos estudantes foi exposta. O tom do grupo deve ser grandes universidades. [...] Nosso atual sistema educacional
aberto e gentil, a atitude deve ser cooperativa e básico em ciência é fútil — ele é bastante autoritário, e
mutuamente estimulante. As interações pessoais muito inclinado na direção da aprendizagem passiva, por
tipicamente realçam os pontos fortes, os pontos fracos e demais desassociado da vida dos estudantes e
os preconceitos dos estudantes, alargando a sua visão de extremamente impessoal. O que é urgentemente
si mesmos e sua capacidade de terem a mente aberta, necessário é um programa educacional no qual os
senão de cultivarem uma mente crítica. estudantes tornem-se interessados a conhecer ativamente,
Embora o professor no encargo destes pequenos grupos ao invés de acreditarem passivamente. Deve ser permitido
seja um “expert” ou um especialista em algum ramo da aos estudantes aprender, e não serem forçados a aprender.
ciência, o seu papel é principalmente o de um “generalista” [...]”
e “facilitador”. O membro do corpo docente
(freqüentemente referidos como orientadores) precisa ter

março a julho de 1993 25


PONTO DE VISTA

O BIOLETIM apresenta a seção Ponto de Vista. Este espaço ra.


é reservado a resenhas feitas por estudantes e pesquisado- “Mas o preço mudou.”
res de Biologia. Aqui poderão ser publicados comentários “Obviamente.”
a textos de ciência, filosofia, ou qualquer assunto que possa “Dois sacos de ouro.”
ser do interesse de biólogos. Esperamos que esta oportuni- “O quê?!”
dade estimule a boa leitura de livros e o desenvolvimento “Dois sacos de ouro para os seis volumes restantes do
do hábito e da capacidade de criticar as obras publicadas. conhecimento e da sabedoria. É pegar ou largar.”
O Ponto de Vista não se propõe a ser o catálogo crítico e “Nos parece”, disse o povo da cidade, “que você não pode
explicativo de todos livros, o que seria impossível. Poderí- ser muito sábia ou com grande conhecimento, ou você
amos até tentar nos aproximar desse catálogo, porém, mais perceberia que não se pode andar por aí quadruplicando
interessante do que isso é valorizarmos a riqueza extraí- um preço já absurdamente caro demais, em um mercado
da de cada obra cuidadosamente lida, o que certamente de consumo. Se este é o tipo de conhecimento e sabedo-
vale mais que a leitura apressada e desconcentrada de toda ria que você está tentando vender, então, francamente,
uma biblioteca. pode ficar com ele.”
“Vocês os querem ou não?”
“Não.”
“Muito bem, então gostaria de pedir-lhes um pouquinho
Vasculhando as Cinzas de madeira...”
Antônio Solé-Cava Ela construiu mais uma fogueira, queimou três dos livros
Departamento de Genética remanescentes na frente deles, e então foi-se embora pela
Instituto de Biologia/UFRJ planície.
Àquela noite uma ou duas pessoas curiosas da cidade
Há muito tempo atrás existia uma cidade — não importa foram de mansinho na fogueira e reviraram as cinzas para
onde era ou como se chamava — ela era uma cidade prós- ver se eles podiam salvar uma página ou duas, mas o fogo
pera, no meio de uma grande planície. Um verão, enquan- tinha sido feito de maneira cuidadosa, e a velha tinha
to o povo da cidade estava ocupado, sendo próspero e garantido que nenhum pedaço restasse. Não havia nada.
trabalhador, uma velha mendiga, com um ar estranho, Outro inverno veio, a cidade teve poucos problemas com
chegou aos portões da cidade carregando doze livros fome e doenças, mas os negócios foram bons, e eles
grandes, que ela desejava vender-lhes. Ela disse que os estavam razoavelmente bem financeiramente no verão
livros continham todo o conhecimento e toda a sabedo- seguinte, quando, mais uma vez, a velha apareceu.
ria do mundo, e que ela os oferecia à cidade em troca de “Você chegou cedo este ano”, eles lhe disseram.
um simples saco de ouro. “Menos coisas pra carregar”, ela explicou, mostrando a eles
O povo da cidade pensou que a idéia era ridícula. Eles os três livros que ela ainda estava carregando. “Um quar-
disseram à velha que ela obviamente não tinha a mínima to de todo o conhecimento e sabedoria do mundo. Vocês
idéia do valor do ouro, e que provavelmente a melhor o querem?”
coisa que ela podia fazer era ir-se embora de lá. “Qual é o preço?”
Ela então concordou, mas primeiro disse que ia destruir “Quatro sacos de ouro.”
metade dos livros na frente deles. Ela construiu uma pe- “Você está completamente louca, velha mulher. Além de
quena fogueira, queimou seis livros de todo o conheci- tudo, nossa economia está atravessando uma fase difícil
mento e toda a sabedoria na frente do povo da cidade e no momento. Sacos de ouro estão completamente fora de
foi embora. negociação.”
O inverno veio e foi-se, um inverno duro, mas a cidade “Madeira, por favor.”
conseguiu florescer através dele e então, no verão seguinte, “Espere um momento,” disse o povo da cidade, “isto não
a velha mulher apareceu de novo. está fazendo bem a ninguém. Nós temos pensado sobre
“Oh, você de novo!” disse o povo da cidade. “Como vão tudo isto, e nós chegamos inclusive a formar um peque-
o conhecimento e a sabedoria?” no comitê para dar uma olhada nesses seus livros. Deixe-
“Seis livros”, ela disse, “só sobraram seis. Metade de todo nos avaliar seu conteúdo por alguns meses, para vermos
o conhecimento e sabedoria do mundo. Mais uma vez eu se eles têm algum valor para nós, e quando você voltar
estou disposta a vendê-los a vocês.” no ano que vem talvez possamos fazer-lhe uma oferta. Mas
“É mesmo?” disseram as pessoas da cidade, de brincadei- não pense que vamos poder pagar muito...”

26 BIOLETIM Ano I Nº 1
A velha mulher balançou a cabeça. “Não”, ela disse. “Tra- são feitos no mundo todo para tentar salvar espécies
gam-me a madeira.” ameaçadas de extinção. Na ilha de Maurícius (onde os
“A madeira não vai ser de graça pra você desta vez.” Holandeses extinguiram por esporte, no século XVII, o
“Não tem problema”, disse a mulher, com pouco caso. “Os Dodô), existe um projeto norte-americano para preserva-
livros devem queimar muito bem sozinhos.” ção de várias espécies indígenas. Uma delas é o pombo-
Dizendo assim, ela rasgou as páginas de dois dos livros, rosa, do qual só existem algumas dezenas. Depois de anos
e então usou-as para queimar o que restava deles. Ela de tentativas de cruzá-los em cativeiro, 20 casais foram
então foi embora rapidamente através da planície, e dei- soltos no seu local original, para tentar restabelecer sua
xou o povo da cidade atravessar mais um ano. população natural. O custo estimado do projeto, tendo em
Ela voltou no fim da primavera. conta o investimento na sua manutenção e pesquisa, era
“Só sobrou um”, ela disse, colocando-o no chão em fren- de cerca de 2.000 dólares por pombo. Em um mês todos
te a ela. “Portanto desta vez eu pude trazer minha própria haviam sido mortos por caçadores locais, por curiosida-
madeira.” de e por sua raridade. O ultimo pé de café de uma espé-
“Quanto?” disse o povo da cidade. cie de Maurícius (Ramus mania) foi encontrado por aci-
“Dezesseis sacos de ouro.” dente em 1981 (a espécie até então era considerada
“Mas nós só tínhamos planejado o gasto de oito.” extinta). Ele estava crescendo ao lado de uma auto-estra-
“É pegar ou largar.” da, e foi imediatamente cercado para evitar que alguém o
“Espere um momento.” usasse como lenha. Bastou ele ser cercado para que as
O povo da cidade se reuniu rapidamente, e voltou meia pessoas pensassem “–Ah, esta espécie deve ser importan-
hora mais tarde. te”, e começaram a tirar pedaços dela. A isto o projeto
“Dezesseis sacos de ouro é tudo o que temos”, eles im- conservacionista do governo colocou mais grades em volta
ploraram. “Os tempos estão difíceis. Você tem de nos da árvore, o que provocou ainda mais a curiosidade pre-
deixar algum dinheiro de reserva.” datória das pessoas. O negócio todo escalou de tal ma-
A velha mulher simplesmente ficou cantarolando uma neira que hoje em dia aquela árvore vive no centro de
musiquinha enquanto começava a fazer a fogueira. uma cerca de múltiplas camadas de vários metros de diâ-
“Tudo bem!” eles gritaram finalmente, no que as portas metro, com um guarda ao seu lado 24 horas por dia.
da cidade foram abertas e duas carroças, cada uma com A enciclopédia perde seus livros rapidamente. Extinção é
oito sacos de ouro, foram trazidas, “mas esperamos que pra sempre, e se tivermos de esperar a perda para desco-
esse livro seja realmente bom.” brirmos a importância, talvez estejamos fazendo como o
“Obrigada.” Disse a velha mulher. “E vocês deveriam ter povo daquela cidade, que poderia ter tudo por uma fra-
visto o resto dos livros.” ção do que pagaram por uma fração.
Ela saiu com as carroças e o ouro através da planície, e
deixou o povo da cidade prá trás, para que vivessem da
maneira que pudessem com o dozeavo restante de todo
o conhecimento e sabedoria que já haviam existido no
mundo.”
Este texto foi extraído do livro “Last Chance to See”, de
Douglas Adams e Mark Carwardine (Pan Books, 1991). Ele
é uma alegoria clara do que temos feito (enquanto espé-
cie) com o nosso meio ambiente e as outras espécies que
vivem nele. Se preservar um Parque Nacional custa algum
dinheiro, tentar recuperar as populações das espécies que
lá existiam depois delas quase estarem dizimadas custa
muito (mas muito) mais. Esta enciclopédia que continua-
mos a queimar antes mesmo de saber o seu tamanho,
contém informações fundamentais para nosso próprio
desenvolvimento. Quem diria que um dia as curiosas
bactérias que vivem em fontes hidrotermais seriam fun-
damentais para o desenvolvimento da técnica de amplifi-
cação de DNA mais usada atualmente nos laboratórios de
engenharia genética? Ou que de algumas espécies de
margaridas e de anelídeos pudessem ser extraídos e
comercializados inseticidas potentes e menos tóxicos para
os vertebrados do que os até então existentes? Como aque-
les que vasculham as cinzas, alguns governantes têm per-
cebido que algo está se perdendo , e projetos milionários

março a julho de 1993 27


GLOSSÁRIO

Ambiente estuarino: tipo de ambiente caracterizado por Húmus: considera-se húmus num sentido estrito apenas
possuir águas salobras e normalmente formado na fron- à matéria orgânica sem sinais visíveis de estruturas ma-
teira entre ambientes marinhos e dulcícolas. São consi- croscópicas vegetais - matéria orgânica amorfa.
derados estuários as lagoas, os canais e os manguezais. Invertebrados edáficos: grupo de invertebrados que vivem
Ambientes dulcícolas: correspondem aos ambientes parte ou toda vida no solo. Por exemplo: nematódeos,
aquáticos caracterizados por baixa salinidade: rios, oligoquetas, isópodas, aracnídeos, insetos e miriápodos.
riachos, córregos, charcos, poças temporárias e lagos. Lignina: substância orgânica de elevado conteúdo de car-
Basidiomicetos: grupo de fungos com hifas septadas e bono, que se deposita nas paredes celulares vegetais,
esporos produzidos sexuadamente. Em certas formas conferindo a tais células grande rigidez.
agrupam-se em corpos frutíferos altamente organiza- Linha lateral: sistema de órgãos sensitivos compostos por
dos como nos cogumelos. pequenos receptores mecânicos dispostos em canais
Bexiga natatória: órgão responsável pelo equilíbrio hi- presentes na cabeça e em um canal estendendo-se la-
drostático de alguns peixes e formado por uma câma- teralmente ao longo do corpo de algumas espécies de
ra de ar localizada internamente no animal. peixes.
Bloom: Crescimento intenso de organismos. Lixiviação: processo abiótico em que a matéria orgânica
Cianobactéria: organismo unicelular procarioto fotossin- solúvel é removida pela ação da água.
tetizante; microalga verde-azulada procariota que jun- Mergulho autônomo: aquele no qual o mergulhador dis-
tamente com outras microalgas faz parte do primeiro põe de equipamento de respiração artificial (exemplos:
nível trófico nos ambientes aquáticos. garrafa de ar comprimido e compressor).,
Colêmbolas: ordem de insetos ápteros de tamanho re- Mergulho livre: (ou mergulho em apnéia) aquele no qual
duzido que saltam por uma extensão brusca dos apên- o mergulhador não dispõe de equipamento de respi-
dices abdominais ração artificial.
Comprimento padrão: é a medida mais utilizada em Metalotioneína: proteína com grande afinidade por íons
ictiologia e corresponde à distância compreendida entre metálicos; proteína com grupamentos de enxofre nos
a extremidade anterior do focinho e a extremidade quais são complexados os íons metálicos.
posterior da placa hipural (estrutura óssea que sustenta Moder: tipo de húmus com decomposição lenta e progres-
os raios da nadadeira caudal). siva; apresentando continuidade morfológica entre as
Diatomácea: organismo unicelular eucarioto fotossinte- camadas de folhas pouco decompostas e o horizonte
tizante; microalga parda presente em grande quantida- orgânico-mineral, através da camada orgânica H .
de nos ambientes marinhos. Nadadeiras pélvicas: nadadeiras pares de posição ventral
Enquitreiras: família de oligoquetas com espermatecas e originadas na cintura pélvica, presentes na grande
anteriores aos testículos, separadas por um intervalo de maioria dos peixes.
cinco segmentos. Geralmente de pequeno tamanho e Oligoquetas: classe de anelídeos que inclui as minhocas.
de grande resistência a condições desfavoráveis. Dulcícolas e terrestres; sem parapódios; hermafroditas,
Espécie endêmica: diz-se de uma espécie com distribui- com fecundação interna.
ção restrita a uma determinada região. Pedoclima: derivado do grego “pédon”, que significa solo;
Fotoinibição: Fenômeno causado por altas intensidades representando as condições microclimáticas do solo.
luminosas. É comum a todos os organismos fotossinte- Percolação: movimento de descida da água, entre as par-
tizantes produtores de oxigênio. Tem como conseqü- tículas do solo.
ência a paralisação do processo fotossintético. Status taxonômico: é a categoria taxonômica ocupada
Fotossíntese: Processo através do qual alguns organis- por um taxon (nome que designa um determinado
mos (plantas, algas e certas bactérias) sintetizam com- grupo de organismos). Quando um taxon é transferido
postos orgânicos a partir de matéria-prima inorgânica de uma categoria taxonômica para outra (ex: de espécie
na presença de luz solar. para subespécie), diz-se que ele mudou de status.
Fragmentação: processo em que há redução do tamanho Tanino: grupo de derivados fenólicos, de difícil degra-
do recurso e que pode ocorrer biótica ou abioticamente. dação. - substância amorfa, fortemente adstringente, de
Glutation: tripeptídeo dos animais superiores importan- ampla distribuição entre as plantas.
te na homeostase do enxofre, garantindo à célula a ma- Térmitas ou isópteras: ordem de insetos sociais que
nutenção de suas funções. vivem em colônias com desenvolvido sistema de castas.
Holorgânicas: totalmente orgânicas Popularmente conhecidos como cupins.

28 BIOLETIM Ano I Nº 1
B I O
L E T I M
VOC E
E SCR EVE
E A
GEN T E
P U B L I CA
O BIOLETIM É O MAIS NOVO ESPAÇO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA PARA ALUNOS DE GRADUAÇÃO
E MESTRADO EM BIOLOGIA E ÁREAS AFINS.
É UMA REVISTA FEITA POR ALUNOS, ONDE VOCÊ PODE PUBLICAR ARTIGOS, EXPOR IDÉIAS E
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