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Alguns discos não necessitam de palavra alguma para defini-los. Imagine
então alguém se atrever a não só defini-los, mas também criar um enredo
sobre a magia que os discos possuem. Essa é a proposta da MOJO Books,
que acredita que bons discos, boa música, podem render mais do que
aqueles doces acordes que penetram na mente; podem se transformar
num trabalho literário que brinque com todos os segredos escondidos nas
 escalas e nas letras.

Mojo working. Escritores oriundos dos mais diferentes lugares, com influên-
cias e estilos únicos, aceitaram esta árdua tarefa: escolher um disco e
vertê-lo para a mais pura literatura contemporânea.

Danilo Corci
organizador

ANDRÉA
DEL FUEGO
VOLUME 34
BLADE RUNNER
vangelis

recontado por ANDRÉA DEL FUEGO

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VOLUME 34
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vangelis
MOJO BOOKS é a divisão literária da revista Speculum


edição Danilo Corci e Ricardo Giassetti


direção de arte e capa Delfin
revisão Camila Werner

Julho de 2007

ANDRÉA
DEL FUEGO
1.

Não amanhece há dois dias.


Também não dormi pra diminuir a espera, a atmosfera tem
o soluto do petróleo. O sol não mais divide o período em dia e
noite. Não vemos a divisa do tempo, o globo permanece coberto
pela poeira. Andamos com guarda-chuva pra guardar-nos das
cinzas. O nome do problema é resistência.
Cem mil homens não acreditam que um ato se desdobra em 
dois como célula-tronco, em qualquer tecido do mundo. Os cem
quiseram evitar o mergulho do submarino, não querem que ma-
rinheiros façam o oceano comer a poeira do ar. O projeto inclui
despejar no mar outra poeira, sintética e de moléculas anãs. A
tal absorveria o hidrogênio da água e a deixaria tão leve que seu
corpo se transferiria da bacia dos oceanos para o céu, choveria de
trás pra frente. O sol secaria a umidade aérea, o sal iria junto e ele
mesmo clarearia o cinza, e sim, o submarino faria amanhecer.
Os cem mil homens resistem, querem proteger peixes e
algas. Não trocam o dia pelo ômega três, seis ou nove. O sal ma- BLADE RUNNER
rinho retém água, ao se aproximar do calor da estrela, se faria
concorrente e ganharia pelo tamanho, menor e forte, cristalino
e constante. O sal é que faz a substância de uma célula ter per-
missão para entrar em outra. Guarda os líquidos em recipientes
honestos, tem autorização porque zela o excesso.
Meu trabalho no submarino é simples: cuidar da comida e
de alguns termômetros. Como enlatado, bateria ovos em neve se
pudéssemos abrigar meia-dúzia de zigotos.

ANDRÉA
DEL FUEGO
2.

Corta. Não gosto do tema. Não me meta num submarino por


não poder dar-me outro transporte. Eu mudo o passado em re-
lação ao futuro, sem a menor culpa de amputar a linha do tempo.
Entreguei a você, caro autor, um começo, meio e fim. Espero ter-
me feito claro. Não entro em submarino.

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3.

Dentro do submarino, relógios que medem a pressão assu-


miam o diagnóstico. Em algumas horas, estaríamos sem oxigênio
mas não morreríamos pela falta dele, e sim pelo aumento da
gravidade, seríamos achatados por toneladas, pela força que
derrubou a maçã de Newton. Faço pouco pra mudar a situação.
Não comunico aos tripulantes, a tempo de não salvarem-se todos.
 Não é suicídio. Sou assassino, mas isso não me exclui.

ANDRÉA
DEL FUEGO
4.

Pare. Percebo que voltar a me escrever dentro de um sub-


marino, me dará mais fôlego. O ambiente está hostil, pessoas
percebendo a finitude do corpo, bebendo goela abaixo um líquido
grosso, um petróleo chegando ao fim, que a terra regurgitou rumo
ao céu. Feito catarro espesso que não desce pelo ralo, porque a
grade entre a cuba e o cano é uma trama estreita. Reconheço,
volte-me para o submarino. 

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5.

A força gravitacional não é seletiva e, nesse caso, o marinheiro


mais jovem percebeu a física e flagrou-me abrindo uma lata de
atum, enquanto eu fingia não sentir o peso sobre o corpo. Ele
mesmo foi averiguar e equalizar os valores na cabine. Diminuir
o desconforto. Fingi não ser comigo, dei a entender que a lata
não cedia ao meu impulso de fome, eu tinha uma preocupação
10 primitiva e aí justificada. O marinheiro tirou o agasalho de lã que
vestia. A oitenta metros abaixo do nível do mar, o frio é polar.
Olhou-me com desdém, falou com alguém pelo rádio comunica-
dor. Passei o atum pela fatia branca de pão, o óleo pingou no piso
de metal. Desceu o marinheiro mais velho, deu-me um tapa no
rosto, o atum se hidratou de novo, no suco oleoso que escapou
dele, no chão.

ANDRÉA
DEL FUEGO
6.

Prefiro que não entrem mulheres no submarino. O amor é


claustrofóbico, gera ânsia de futuro e eis nossa tragédia, não
saber que tudo acontece a um só tempo, na mesma lâmina exami-
nada pelo escritor. Faço de tuas mãos o meu binóculo, deixe-me
olhar para trás, ou escapo de seu domínio.

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7.

Apanhei a fatia de pão, sem o atum, e mastiguei. O perfume do


pescado ao menos me recordava uma boa refeição, e mantive-me
onde estava. O marinheiro mais velho subiu. No submarino há
três andares. No mais alto, fica o comando, a alta patente. Aqui
fico eu, controlando números e agora sem a confiança antes depo-
sitada, preso ao terceiro andar, junto aos mantimentos, remédios
12 e maquinário. Deixam-me nas tripas do peixe, numa ingenuidade
materna. Pensam que posso ser controlado, que apenas saí do
juízo pelo peso da missão, o zelo do Estado que nos botou em
andança em mar profundo e escuro. Estando abaixo da linha do
horizonte, é melhor não se acertar com as mesmas referências, as
usuais. Aqui o horizonte fica em cima, não em frente. A diferença
é que eu sou um dos resistentes. Infiltrado e confuso.

ANDRÉA
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8.

Conserve esse ritmo, vejo que posso revelar a ambiência


soturna, um homem enlatado com uma missão clandestina
dentro da missão maior. Apenas peço que me descreva fisica-
mente, não me limite ao que penso, o retrato psicológico é uma
pele ingrata, esconde as manchas solares da infância. Meu rosto
sim, se dá à verdade.
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9.

Minha cara é a cara do meu pai, o marinheiro mais velho.


Insistiu com o alto comando que ter um filho a bordo lhe daria
segurança. Que mesmo numa ação de aborto, caso sumíssemos
pelas calçadas dos polvos, manteria a ordem e a lei pelos povos
que lhe deram a patente. O petróleo está no céu. As nuvens
formam cadeias que imantam a coragem, sair de casa é voltar
14 depois com o medo nu. O céu chumbo absorve as melaninas,
serotoninas, e a gripe seca abala pernas, membros superiores e
abdomens. Meu rosto é grosseiro, marcado por erupções de pus
que ainda inflamam. Nariz largo, cor branco-avermelhado. Sou
descendente de pastores. Ascendente de Netuno.

ANDRÉA
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10.

Não me bote matando o pai, a cena seria estúpida. Todo pai


é morto, o amor de causa e efeito, ligado às correntes físicas
e lunares. Há fórmulas que representam, numa fração, toda a
cadeia hereditária. É menor do que se supõe, a corrente não se
desfaz, ela é mais fina que o elastano. A perturbação se estende e
continuamente se aproxima. Deixo em suas mãos o que virá, não
como voto de confiança, porque não sou seu pai, escritor. 15

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11.

O marinheiro mais novo é estrangeiro. Tem a trajetória torta,


nascido em região de serras, criado na cidade imperial, transfe-
rido para as zonas baixas, convocado pela marinha. O problema
é mundial, o marinheiro mais novo está no mar. Tem menos de
vinte anos. Não guarda segredos, não teve alma feminina que
afundasse, diante dele, uma caixa fechada pro interior de um
16 maleiro. Segredo que não pousa nela, a caixa é o jeito de repartir
uma herança antiga, esmeraldas falsas. O marinheiro mais novo
faz o que pedem, bate punheta às terças, tem duas avós, não co-
nheceu automóveis. Já nasceu das lâmpadas solares, esfriou-se
nas bacias do Mediterrâneo e agora me dedura. Não o tenho em
baixa conta, o outro nunca me foi o retorno ou um jeito melhor,
mas a saída, aquele que vê as caspas nas minhas costas.

ANDRÉA
DEL FUEGO
12.

Vejo que o sentimentalismo é evocado. Gostaria, autor,


que você não desprezasse meu discernimento. Não guardo
lembranças polvilhadas por um confeiteiro. Lembro ainda que
meu caráter é fixo, e que se me demoro em ditar as linhas gerais
dessa história, é porque o encontro vacilante e desconfiado de
minha presença.
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13.

A mensagem chega da central, o submarino deve avançar


em sentido oeste. Moléculas anãs estão dentro de cápsulas de
gelatina. Serão lançadas ao térreo do mar, na bacia mais antiga
do planeta, desenhada pela queda de um meteoro quando aqui
a atmosfera era tal como é hoje, densa. No passado, a densidade
se explicava pelos gases, pelas substâncias voláteis e não pelas
18 de agora, teimosas. Antes eram de fora, hoje a atmosfera saiu do
próprio centro, é um vômito de bebê que cospe o primeiro ali-
mento sem ainda os dentes terem nascido. As coordenadas foram
revisadas, o rumo corrigido. A velha bacia é vizinha de um vulcão
marinho, antigo castelo de bactérias vingativas e sexuadas.

ANDRÉA
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14.

Não entendo porque escreveu meu destino no sentido


contrário ao que se espera de uma boa pena. Espanta-me que
não mande o submarino para o sul, onde há minas escondidas,
esconderijos, emboscada do país estrangeiro, sabotagem da
própria nação. Você está encapsulado, autor. É você a molécula
anã que será despejada de seu conforto, lançada à escuridão da
saga, sem nenhuma forma parecida com a sua. Chamou-me, e eu 19
vim. Sabia que não seria fácil dobrar seu raciocínio lógico. Ande,
avance comigo!

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15.

O nome do submarino é Iara. Nome frágil, mas eu sou mais.


Atenção, comando quinze! Missão em contagem regressiva em
dois minutos. Cápsulas preparadas, propulsor ligado, Iara em
atenção, nível um, câmbio. O marinheiro mais velho desceu,
perguntou se eu tinha fome, que nos armários do segundo andar
havia barras de chocolate amargo. A frase afetiva era um código
20 treinado por nós dois antes da viagem. Respondi que dispensava
o chocolate, o sal é que assusta a fome. Apertei o botão maior,
os demais, menores, piscavam no painel. Pelo visor externo,
assistimos a um chuvisco branco salpicar a escuridão. O farol do
submarino atingia um muro ornado com plantas dançarinas.

ANDRÉA
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16.

Temo não controlar você, autor. Minha ausência o faria me-


díocre, a criação é rasa quando descanso a voz. Deixe que eu te
perturbe, abra a rosa pineal, de vez e por todas. Há sacrifícios
menores, esse é um deles. Olhe para o teclado, desfoque. As letras
e os sinais são naipes, os quadradinhos as cartas, embaralhe-as.
Tire uma, a terceira, da direita pra esquerda.
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17.

O muro era sinal de civilização. Alto, continha ruas em seus


domínios, pensou o marinheiro mais velho. Só um muro velho,
pensou o marinheiro mais novo. O submarino ergue-se graus
acima do muro, era preciso perscrutar. As moléculas anãs pene-
travam o chão úmido, lodo com dez metros de profundidade. A
lama se soltava da grande jarra, como que servida ao copo ce-
22 leste. Abria-se na terra a cutícula elementar, amaciavam texturas
hostis, a maciez da vida submarina a descolaria do recipiente,
a missão se cumpriria. A civilização era um cemitério, o farol
pintava de branco curvas em mármore, mulheres com cabelos
ao vento, vestidos de voile, esculpidas.

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18.

Desculpe-me a franqueza, a resistência não fez bem ao seu


texto. Fecha de propósito as torneiras do encanto, dos contos
fantásticos, renega a alegoria, única linguagem inteligível por
sinapses do seu tipo. O realismo é limítrofe. Adio a obra, não é
possível obsediar máquinas, ainda que seus vetores sejam de vivo
raciocínio. Não há céu petróleo, marinheiro, nem eu.
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FIM

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sobre O MÚSICO

Evángelos Odysséas Papathanassíu, mais conhecido como Van-


gelis (Vólos, 29 de Março de 1943) é um músico grego de renome inter-
nacional nos estilos neo classico, progressivo, eletrônica e ambiente.
Suas composições mais conhecidas são o tema vencedor do Oscar
24 de 1981, com o filme Carruagens de Fogo, a trilha sonora do clássico
Blade Runner, e mais recentemente, do filme bibliográfico sobre a
vida de Cristóvão Colombo, 1492 - A Conquista do Paraíso, com a
música instrumental “Conquest of Paradise”. Entre suas composições,
há o tema da Copa do Mundo de 2002.

ANDRÉA
DEL FUEGO
CRÉDITOS ORIGINAIS

BLADE RUNNER - VANGELIS


Design e Fotografia por Stathis Zalidis
Lançado em 1 de maio de 1982
Selo: Atlantic Records 25
Produzido por Vangelis

Para mais informações sobre o músico, visite:


www.vangelisworld.com

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Sobre A autorA

Andréa del Fuego é escritora, autora dos livros de contos Minto


enquanto posso, Nego tudo e Engano seu. Este último foi contempla-
do por um prêmio-bolsa da Secretaria do Estado da Cultura. Lançará
26 em 2008 o romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal. Mantém
o blog www.delfuego.zip.net.

ANDRÉA
DEL FUEGO
Atribuição: Uso Não-Comercial
Compatilhamento pela mesma licença 2.5 Brasil

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VANGELIS
PLAYLIST ORIGINAL DO ÁLBUM

1. Main Titles
2. Blush Response
3. Wait For Me
4. Rachel’s Song
5. Love Theme
6. One More Kiss, Dear
7. Blade Runner Blues
28 8. Memories Of Green
9. Tales Of The Future
10. Damask Rose
11. Blade Runner (End Titles)
12. Tears In Rain

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