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ERRO de TIPO.doc Fernando Capez

ERRO de TIPO.doc Fernando Capez

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ERRO DE TIPO CONCEITO – é um erro que incide sobre um dado da realidade, da vida real, concreta.

Assim, para que um erro incidente sobre um dado da realidade seja considerado erro de tipo, é preciso que a situação sobre a qual incidir o erro esteja descrita num tipo penal como elementar ou circunstância. A denominação “erro de tipo” deve-se ao fato de que o equívoco do agente incide sobre um dado da realidade que se encontra descrito em um tipo penal. Assim, estamos diante de um erro de tipo quando o agente erra, por desconhecimento ou falso conhecimento, sobre os elementos objetivos do tipo, sejam eles descritivos ou normativos; ou seja, o agente não conhece todos os elementos a que, de acordo com o respectivo tipo legal de crime, se deveria estender o dolo. OBS: 1) Erro de tipo x erro de direito – embora o tipo esteja previsto em lei, o erro de tipo não é um erro de direito. Ao contrário, ele incide sobre a realidade, ou seja, sobre situações do mundo concreto. As pessoas, ao agirem, não cometem enganos sobre tipos, como se os estivessem lendo antes de praticar os mais comezinhos atos. Os equívocos incidem sobre a realidade vivida e sentida no dia-adia. Quando essa realidade, seja situação fática, seja jurídica, estiver descrita no tipo, haverá o chamado erro de tipo. Assim, este incide sobre situação de fato ou jurídica, e não sobre o texto legal (até porque não se escusa o desconhecimento ou mal conhecimento da lei). Exemplo: o agente vai caçar em área permitida, olha para uma pessoa pensando ser um animal bravio, atira e mata. O erro não foi “de direito”, mas sobre a situação fática (confundiu uma pessoa com um animal). O fato, porém, sobre o qual incidiu o equívoco está descrito como elementar no tipo de homicídio (matar alguém – pessoa humana). Assim, em razão de erro de fato, o sujeito pensou que estava cometendo um irrelevante penal (caçar em área permitida) quando, na verdade, praticava um homicídio. 2) Erro de tipo x erro de fato – o erro de tipo também não se confunde com erro de fato. Erro de fato é o erro do agente que recai puramente sobre situação fática; já o erro de tipo recai não só sobre os requisitos ou elementos fático-descritivos do tipo (que para serem reconhecidos não precisam de nenhum juízo de valor – ex.: filho, gestante, mulher, etc.), como também sobre requisitos jurídico-normativos do tipo (que para serem conhecidos necessitam de juízo de valor – ex.: coisa alheia, documento público, mulher honesta, etc.). Assim, o erro de tipo pode recair sobre situação jurídica, o que o torna inconfundível e muito mais amplo que o erro de fato. ESPÉCIES – (i) Erro de tipo essencial – é o que incide sobre elementares e circunstâncias do tipo penal. Com o advento da teoria finalista da ação e a comprovação de que o dolo integra a conduta, chegou-se à conclusão de que a vontade do agente deve abranger todos os elementos constitutivos do tipo. Desejar, portanto, a prática de um crime nada mais é do que ter a consciência e a vontade de realizar todos os elementos que compõem o tipo legal. Nessa linha, o erro de tipo essencial ou impede o agente de saber que está praticando o crime, quando o equívoco incide sobre elementar, ou de perceber a existência de uma circunstância. Daí o nome erro essencial: incide sobre situação de tal importância para o tipo que, se o erro não existisse, o agente não teria cometido o crime, ou pelo menos não naquelas circunstâncias. Assim, a característica do erro de tipo essencial é que ele impede o agente de compreender o caráter criminoso do fato ou de conhecer a circunstância. O erro de tipo essencial comporta três subespécies: a. Erro incidente sobre elementar de tipo incriminador – o equívoco incide sobre uma realidade que está descrita como elementar de um tipo incriminador (ex.: caçador atira em bailarino supondo ser uma gazela, pessoa pega caneta de outrem pensando ser sua, etc.). A conseqüência deste erro de tipo é que ele sempre

na descriminante putativa por erro de tipo o agente se equivoca sobre uma situação de fato. porque o sujeito na verdade nunca sabe que está cometendo um crime. ignora-se apenas a circunstância. etc. Se o erro incidir sobre circunstância. b) o estado de necessidade putativo. mas apenas na imaginação do agente (putativo = imaginário).: estado de necessidade. Descriminante putativa por erro de tipo . etc. Erro incidente sobre circunstância – nesta hipótese. não havendo estado de necessidade que justificasse a atitude. e não erro incidente sobre circunstância c. sendo portanto acessória e tendo por objetivo apenas influir na pena. Assim. Não há erro sobre a situação de fato. O dolo não pode ser excluído porque o engano incide sobre a culpabilidade e não sobre a conduta. sem configurar infração penal (trata-se das causas de exclusão da ilicitude). se o erro for evitável. 21 CP e são as mesmas do erro de proibição direto ou propriamente dito. ii. que não será reconhecida. Conseqüências – encontram-se no art. Ele supõe que está diante da causa que exclui o crime porque avalia equivocadamente a norma: pensa que esta permite. e desta forma inescusável. Por outro lado. quando na verdade ela proíbe. Há duas espécies de descriminante putativa: i. tripulante de helicóptero em pane atira o companheiro do .). e portanto exclui a culpa. Assim. eventual erro quanto à idade da vítima será erro incidente sobre elementar do tipo incriminador. OBS: Idade da vítima nos crimes contra os costumes praticados com violência ou grave ameaça – o fato da vítima contar com menos de 14 anos. diz-se que é escusável. imaginando a ocorrência de uma causa de exclusão da ilicitude (ex. Quando o tipo admitir a modalidade culposa. Não há qualquer engano acerca da realidade. o erro incide sobre uma situação não tão importante. ele só não sabia da existência da circunstância agravante ou atenuante. para fins de reconhecimento de violência presumida nos crimes contra os costumes. b. Putativo é aquilo que não existe na realidade. porquanto descrita pela lei como circunstância de um tipo penal. o agente terá cometido crime doloso mas não responderá por ele. pois de qualquer forma o resultado era querido pelo agente. Se o erro for inevitável. imagina que age certo. mesmo que seja uma circunstância atenuante do delito. legítima defesa. Erro incidente sobre elementar de tipo permissivo ou DESCRIMINANTE PUTATIVA POR ERRO DE TIPO – tipo permissivo é aquele que permite a realização de um fato típico. verificando-se depois que tudo se passou no raso.) (ex. responderá pelo crime doloso com pena diminuída de 1/6 a 1/3.exclui o dolo. quando na verdade está errado. atentado violento ao pudor. supõe que o injusto é justo. não é circunstância mas sim elementar. há que se indagar se o erro era evitável ou inevitável. ele não exclui o dolo. Se o erro for inevitável. Assim. c) o exercício regular de direito putativo. o agente será responsabilizado pela modalidade culposa. se evitável.: estupro. a descriminante putativa compreende: a) a legítima defesa putativa. para salvar-se. Descriminante putativa por erro de proibição – o agente tem perfeita noção de tudo o que está ocorrendo. pois guarda relação com a violência. que é elementar dos crimes contra os costumes praticados com violência ou grave ameaça (ex. retira a bóia de outro náufrago que acaba morrendo.: pessoa após naufrágio pensa que está em alto mar e.

que é reconhecida apenas em razão de uma extensão do conceito. não exclui nada e o agente responde por crime doloso tentado ou consumado. Se o erro não podia ser vencido. b. nem mesmo com emprego de cautela. A culpa nesta hipótese é a denominada culpa imprópria ou por extensão ou assimilação. por desconhecer a existência de elementar.aparelho pensando que só há um pára-quedas. evitável. seja o erro evitável. Formas . etc. reconhece-se a tentativa de crime culposo (nos exemplos dados. uma vez que estava presente a intenção de praticar o verbo. Na verdade. se a vítima sobrevive. A conseqüência deste erro é que. Erro essencial que recai sobre elementar – sempre exclui o dolo. o fato é que ela mais se parece com o dolo. a saber: a. que não poderia ter sido evitado nem mesmo com o emprego de uma diligência mediana. Erro essencial escusável que recai sobre elementar – sempre exclui o dolo e a culpa. inevitável. pessoa assiste filme de terror e um parente seu aproxima-se vestido de monstro para assustá-la e é morto pelo expectador do filme de terror. com diferentes efeitos jurídicos: a. Conseqüências – do fato do erro essencial ser escusável ou inescusável. responderá o agente pela modalidade culposa. quando na verdade há dois. jamais poderia querer praticá-lo. seja inevitável. Se o agente não sabia que estava cometendo o crime. exclui o dolo. OBS: Vítima sobrevive na hipótese de descriminante putativa por erro de tipo – nos exemplos dados. 2ª Posição – a descriminante putativa por erro de tipo não é erro de tipo. por questões de política criminal. se a conduta for evitável (erro inescusável). tentativa de homicídio culposo). Erro essencial inescusável – é aquele indesculpável. nos exemplos dados). Conseqüências – 1ª Posição – a conseqüência este erro de tipo é a mesma do erro incidente sobre elementar de tipo incriminador. Erro essencial escusável – é aquele desculpável. exclui a culpabilidade. pois apesar do agente agir na maioria das vezes com imprudência na avaliação incorreta da realidade. ou seja. não existindo o estado de necessidade apto a justificar a conduta. pois todo erro essencial o exclui. vencível. mas não a . decorrem diferentes efeitos jurídicos. bem como do fato de recair sobre elementar e circunstância. apesar de ser condenado por crime doloso. quando inevitável. Este erro não exclui o dolo ou a culpa. b. se evitável.). de atingir o resultado (matar. c. o que revela erro quanto a excludente de legítima defesa. Neste último caso. por isso a sua denominação correta deve ser apenas “descriminante putativa”. Erro essencial inescusável que recai sobre elementar – sempre exclui o dolo. que pensava tratar-se de um ataque contra a sua pessoa. invencível. que poderia ter sido evitado se o agente empregasse mediana prudência. tampouco o fato típico.o erro de tipo essencial pode ser escusável ou inescusável. não se pode dizer que o agente procedeu de forma culposa. mas caso haja previsão da modalidade culposa. que é a única hipótese aceita pela doutrina de crime culposo tentado. excluirá a culpa apenas se a conduta tiver sido inevitável (erro escusável). trata-se de um erro “sui generis” e não um erro de tipo. aplica-se a pena do crime culposo (tentado ou não).

Se o erro poderia ter sido evitado com um mínimo de cuidado. Erro na execução ou ABERRATIO ICTUS – “aberratio” significa erro. mas realiza o crime de forma desastrada. que olha um desconhecido e o confunde com a pessoa que quer atingir. o agente atinge quem ele queria. acaba atingindo também um terceiro inocente. c. etc. como o agente sabe perfeitamente que está cometendo um crime. somando-se as penas. etc. o agente responderá por crime culposo. Conseqüência – a conseqüência jurídica é a mesma do erro sobre a pessoa. Erro sobre a pessoa – é o erro na representação mental do agente. OBS: 1) Legítima defesa – se o agente estava em legítima defesa. errando o alvo e atingindo vítima diversa (ex.). Como este erro não impede a apreciação do caráter criminoso do fato. Há cinco sub-espécies de erro de tipo acidental: a. “ictus” significa execução. é irrelevante indagar sobre a evitabilidade do erro. pois os resultados diversos derivam de desígnios autônomos. desvio da trajetória de projétil. Com resultado único ou unidade simples – ocorre quando o agente. deixando de se reconhecer a atenuante. Com resultado duplo ou unidade complexa – nesta hipótese. a menos que haja excesso culposo na legítima defesa. impondo-se a pena do crime mais grave. Assim. agravante ou qualificadora.: erro de pontaria. Erro de tipo acidental – é um erro que incide sobre um dado irrelevante da figura típica. por erro na execução. Conseqüência – o agente responde pelo crime de qualquer jeito pois seu erro não o impediu de saber que cometia um ilícito (ex. esta excludente de antijuridicidade também é reconhecida em face dos terceiros atingidos. aumentada de 1/6 até a metade – o aumento varia de acordo com o número de vítimas atingidas por erro). o sujeito pensa que “A” é “B” (ex. acaba atingindo outra por erro na execução do crime. Conseqüência – neste caso. mas. Erro essencial que recai sobre circunstância – quando o erro incidir sobre a circunstância. a conseqüência será inexoravelmente a exclusão do crime. Tal erro é absolutamente irrelevante. Vale frisar que . se o fato for punido sob a forma culposa. desvio. Pode ser: i. isto é. o agente por ele responde como se não houvesse o erro. nessa espécie de erro acidental. pois todo erro de tipo essencial exclui o dolo. O agente não se confunde quanto à pessoa que pretende atingir. d.). 2) Dolo eventual quanto aos terceiros inocentes – se o agente agir com dolo eventual quanto aos terceiros inocentes. responderá pelo crime doloso em concurso formal imperfeito. ele sempre a excluirá. Conseqüência – levam-se em consideração as características da pessoa que o agente queria atingir na tipificação do crime e aplicação da pena. não havendo forma culposa no tipo. não se pode dizer que o agente não se houve com um mínimo de culpa. golpe. b.: quer matar enteado mas acaba matando por engano seu colega de escola. e. Erro sobre o objeto – o erro sobre o objeto é o erro sobre a coisa.(ii) culpa. etc. o agente responde por crime doloso com relação ao primeiro resultado e crime culposo no que toca ao segundo resultado (aplica-se a regra do concurso formal. na medida em que não traz qualquer conseqüência jurídica. pretendendo atingir determinada pessoa. de sorte que o agente não responderá por crime algum.: quer furtar saco de arroz mas furta saco de cebola – responde pelo furto de qualquer jeito. portanto é um erro que não traz qualquer conseqüência para o direito penal. ii.). ou seja. Quando o tipo não admitir a culpa. Em outras palavras. levam-se em consideração as características da pessoa que o agente queria atingir na tipificação do crime e aplicação da pena.

. isto é. Como se pode afirmar ter havido “erro na execução” quando o agente quis atingir todas as vítimas? Assim. somente se cogita do aberratio ictus com unidade complexa quando os terceiros forem atingidos por culpa. por erro. não se poderá falar em aberratio ictus.quando houver dolo eventual com relação a terceiros.

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