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Vinícius Bittencourt - Falando francamente

Vinícius Bittencourt - Falando francamente

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Vinícius Bittencourt
FRANC ENTE
EDiÇÃO DO AUTOR
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Copyright © 1 ª Edição 1999 by Vinícius Bittencourt
Amarilclo
Revisão gráfica: Romeu Caridade Cotta
Editoração e fotolitos: Copiset Ltda. (copíset@clube.interlink.com.br)
Direitos desta edição reservados por:
Vinícius Bittencourt
Rua Dionísio Rosendo, 155, Sala 301, Ed. Renata
Te!.: 223-7266 - Vitória (ES)
À Ingratidão que liberta; que extingue
preocupações com a sorte dos ingratos; que reduz
nosso sofrimento com as dores alheias.
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Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenoménica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem ...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
Augusto 60S Anjos
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"Odeio este meu livro. Odeio-o de todo coração. Deu-
me essa pobre coisa que é a glória, mas deu-me também
muitas misérias. Por sua causa conheci a prisão e o desterro,
a traição dos amigos, a má-fé dos adversários, o egoísmo e a
maldade dos Dele nasceu a que
na
um um
, um livre que com os ou-
tros do que com os seus". Assim iniciou Malaparte o prefácio
para a reedição de "Tecnica deI Colpo di Stato", livro que o
incompatibilizou com o Fascismo.
Ao publicar, porém, numa época de ebulição política,
um livro que alertava sobre os métodos mais eficazes de usur-
pação do poder, é óbvio que o genial autor de "Kaputf' e "La
Pelle" não podia ignorar que sofreria retaliações. Mesmo em
tempos normais, a prudência recomenda a hipocrisia como
norma de conduta. Isto porque, como escreveu Kalil Gibran:
"Se falássemos a verdade durante cinco minutos, perdería-
mos nossos amigos; durante dez minutos, seríamos banidos;
durante quinze minutos, seríamos enforcados". A franqueza é
um ultraje ao pudor, como a nudez humana em praça pública.
Ao falar francamente sobre Deus, as religiões, os
governos, a justiça e a família, sei que me arrisco a ser difa-
mado pelos que lucram com alguma dessas entidades ou ins-
tituições e pelos que acreditam sinceramente em sua existên-
cia ou pureza. Muito mais cômodo e vantajoso, ainda que avil-
tante, seria louvar as tradições e crendices, como fazem os
escritores convencionais e os que exploram a mitomania. Sei
que mil amigos é pouco e um inimigo é demais. Portanto, ao
emitir opinião sobre monstros sagrados, não tenho a intenção
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de acirrar contra mim a ira dos intolerantes, nem desviar de
sua rota espiritual os que preferem estagnar. .
Sigo apenas uma das lições de Shakespeare, que,
no "Hamlet", atribuiu a Polonius a seguinte advertência ao fi-
lho que partia: "Isto acima de tudo, fiel a ti mesmo". Res-
guarda-me também o fato de ser este um ensaios
só pode interessar pessoas de cultura superior, acostuma-
das a avaliar sem preconceitos o mérito das idéias. Ademais,
como provam a indicação autores e os trechos transcri-
tos, quase todos os temas livro foram abordados, com
conclusões análogas, por filósofos e escritores de prestígio
universal. Os argumentos que não se arrimam em preceden-
tes famosos são de fácil intuição e acolhimento.
Somente um tolo pOde pretender, com suas idéias,
reformar a sociedade. Segundo Ruy, a evolução social é "la-
boriosa e como as . Os costu-
sem que
natu , transformacões.
Os fatos precedem e determinam as idéias. Enquanto os fatos
permanecerem inalterados, não há necessidade alguma de
patrulhar o pensamento. Sobretudo com relacão ao culto de
divindades, porque este jamais será erradicado. Até mesmo
quando a ciência descobrir a origem do Universo, ainda have-
rá quem acredite em deuses e duendes.
O que realmente me intriga é não saber, com certe-
za, o motivo que me induz a escrever. A literatura, mormente a
erudita, é uma arte falida. Os leitores são cada vez mais raros.
A receptividade das idéias impressas é insignificante em con-
fronto com o ópio colorido da televisão. Além disso, a esta
altura da vida, nem mesmo a "pobre coisa" a que Malaparte
aludiu, pode me interessar. Os elogios nada significam, por-
que, como Erasmo observou, Homero cantou as Virgílio,
o mosquito; Glauco, a injustiça; Favorino, as sezões; e Lucia-
no, o burro. Não me interessando a glória e não havendo pão
à espera deste livro, só posso atribuir a sua à minha
incapacidade de digerir embustes ou
Sabendo que já
nas o a e julgando, como a
10
teridade é uma tolice, estou certo de que "Falando Francamen-
te" não foi redigido para agradar a primeira, nem para ensejar
elogios futuros. Minha conclusão, ainda que provisional, é a de
que obedeci instintivamente a uma injunção do meu amor pró-
prio, que me obrigou a dizer que a mitologia social não conse-
guiu me seduzir ou cooptar. Minha insurreição, porém, não é
excêntrica, caprichosa ou gratuita, porque está amparada em
argumentos incontestáveis, já esgrimidos por pensadores re-
nomados. Nada mais fiz, portanto, do que vulgarizar conceitos
que os eruditos não ignoram.
Meu niilismo não envolve, traduz ou reflete um desa-
gravo, porque, excetuada a angústia pelas dores alheias, a
vida sempre me tratou com benevolência. No âmbito profissi-
onal, convivi com juízes honestos e colegas generosos. No
relacionamento social, conheci pessoas bondosas e sacerdo-
tes que acreditavam realmente nas que difundiam.
,as me
alcançado por qualquer tragédia. o egoísmo como
uma injunção da Natureza e a maldade como uma doença,
não consigo odiar meus semelhantes. Posso, pois, sem res-
sentimentos, dizer o que penso da humanidade.
Além de "Falando Francamente", o livro reproduz trinta
artigos de minha autoria, quase todos publicados pela imprensa.
Esses artigos abordam questões permanentes, de índole filosó-
fica, cujo debate aproveita a todos os leitores. Neles não se dis-
cute o sexo dos anjos, não há politiquice, questiúnculas em torno
de taxas, problemas de trânsito e melhorias urbanas, como se vê
diariamente nos jornais. Em seu conjunto, o livro é uma fonte de
indagação e um estímulo ao raciocínio. Sobre cada um dos te-
mas abordados, o leitor poderá pesquisar em jazidas mais pro-
missoras, construindo a sua própria doutrina e prevenindo-se
contra desvios ideológicos ou erros de julgamento.
As distonias ou contradições que forem percebidas
entre a argumentação de alguns artigos e a de "Falando F ~ a n ­
camente", devem ser debitadas à própria índole das publlca-
Ao livro - se destina a um
, ao menos em sua parte literária,
a fim que os mitôma-
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nos não fiquem revoltados. Além disso, o tempo decorrido entre
as datas de publicação daqueles artigos e as da redação do
estudo em apreço, serviu para depurar minhas e possibi-
litar a escolha de palavras que melhor traduzissem meu pensa-
mento. outro lado, há e üonceitos no
rial jornalístico e na análise. Isto, porém, demonstra minha ad-
miração pelos autores e mrrtha incapacidade de encontrar ou
produzir mais certeiras e convincentes.
Para não incidir no vício dos escritores que costu-
mam partir do nada, percorrer o vácuo e chegar a lugar ne-
nhum, abordei apenas questões relevantes e sintetizei argu-
mentos, a fim de não confundir ou entediar o leitor. Em torno
dos assuntos aflorados já existe, na literatura mundial, uma
imensidão de livros que poderiam ainda ser infinitamente mul-
os temas crendice, política e
que
, é uma
e os podem O excesso
indicia a mendacidade ou a insegurança do expositor. Mor-
mente quando o assunto é controverso ou de alta indagação,
impõe-se o máximo de clareza e objetividade. Esta foi a nor-
ma que adotei ao falar francamente sobre temas cuja ilação
dominante envergonha a humanidade.
Embora a ignorância seja um estado de graça que
possibilita aceitar passivamente as injustiças sociais e atribuir
ao destino os infortúnios, o fato é que a dignidade exige a
ilustração, para que o homem não se confunda com os outros
animais. Com sua inteligência, infinitamente superior, o ho-
mem conseguiu efetuar, no âmbito da tecnologia, avanços
espantosos. Entre inúmeras realizações, conseguiu desinte-
grar o átomo, reproduzir animais em laboratório e conversar
com outra pessoa situada no espaço, fora do campo de gravi-
tação de nosso planeta. Não se justifica, pois, que, no mundo
espiritual, ele permaneça nas trevas, submisso a preconcei-
tos e crendices que aviltam sua existência.
O Autor
12
As conclusões desta análise poderão provocar rea-
ções virulentas ou simplesmente atrair contra mim a antipatia
dos que não toleram contestação. Minhas convicções, toda-
via, impelem-me a arrostar com as conseqüências deste pro-
nunciamento, cuja recon que
a
ou me a as
que serão comentadas a seguir. O fato de não professar qual-
quer religião e não estar vinculado a corporação alguma, pos-
sibilita-me apreciar livremente os temas que logo serão abor-
dados com sinceridade e franqueza. Ainda que possam desa-
gradar a muitos, ninguém negará que minhas conclusões cons-
tituem um estímulo e um desafio à meditação.
Sei que a Lua não é a mesma coisa para um astrôno-
mo, um camponês, um poetayu um menino. Se julgasse, pois,
que minha visão do mundo e minha interpretação da vida fos-
sem iguais à visão e interpretação de meus semelhantes, é
óbvio que não me animaria a encetar este trabalho. Seria cho-
ver no molhado, matar o reão morto ou arrombar uma porta
aberta. Poucos, todavia, são os que puderam estudar, e insig-
nificante é o número dos que indagam sobre sua própria ori-
gem, seu psiquismo, suas relações sociais e sobre o mundo
em que vivem. A imensa maioria submete-se às injunções da
crendice e à lavagem cerebral da mídia, absorvendo concep-
ções errôneas e abdicando de raciocinar. A verdade, porém,
deve ser dita para todos, ainda que poucos se interessem em
mudar de opinião ou corrigir suas próprias erronias. .
Apesar de minha descrença na lucidez da humamda-
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li
de, sempre ouvi com interesse a opinião de qualquer pessoa,
porque, como dizia Churchill, uma das coisas mais surpreen-
dentes é que, às vezes, os tolos estão certos. Não me censu-
ro pelos erros que cometi ao longo de minha vida, porque
aprendi com Schopenhauer que tudo que acontece, acontece
necessariamente. Fossem, menos compulsórias as
circunstâncias que ensejaram meus equívocos, nada haveria
em meu passado que eu devesse lamentar. Por isso, basta a
lembrança dos fatores que ocasionaram meus tropeços, para
que eu reconheça a impossibilidade de haver procedido de
modo diverso. Como Espinosa lecionou, o livre arbítrio resu-
me-se na ignorância das causas que o determinam.
No decurso desta análise e sobretudo em seu térmi-
no, ficará bastante claro que embora a ignorância seja humi-
lhante, a opção pela sabedoria não é recomendável. Como reza
quem aumenta sua
há como fugir
ma. a na ou
pelo excesso de luz, que, penetrando nas coisas, nas pessoas
e nas idéias, reflete um mundo sem adornos. Quem busca a
sabedoria está renunciando a tudo que encanta a vida dos ig-
norantes. Reputará como fúteis ou ridículas as festas e soleni-
dades. Sentirá repugnância por tudo que as multidões aplau-
dem. Considerará com extrema reserva as relações amorosas.
Não participará jamais como figurante no teatro da vida, onde
será sempre um espectador descrente e taciturno. Encontrará
satisfação apenas nas verdades que confirma 06 descobre.
Nasci em Salvador, numa época em que o Brasil era
ainda um país feudal e aquela cidade vivia das glórias de ter
sido a capital da Colônia. No âmbito cultural, todavia, ela con-
servava seu anterior prestígio, embora em tudo mais estives-
se em fragorosa decadência. Em minha juventude, a socieda-
de que ali existia era uma das mais sórdidas do planeta. Sua
população era composta de mulatos pernósticos, brancos ar-
ruinados, e de descendentes de escravos africanos. Sobre ela,
uma casta de ociosos que vivia de sinecuras,
transações imobiliárias, agiotagem e especulações
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ras, exercia um poder comparável ao da nobreza, nos idos do
Império. Ao povo, para sobreviver, só restava bajular aquela
casta de sibaritas. Ali vigorava o princípio: ''Manda quem pode
e obedece quem tem juízo".
Para aquela corja de velhacos e suas famílias tradicio-
nais, que nada produziam, é que estavam reservadas as
coisas da vida. Habitavam mansões, tinham apartamentos em
Paris e Copacabana, desfilavam em automóveis de luxo, na-
turalmente importados, porque no Brasil ainda não se fabrica-
vam veículos motorizados. Até mesmo querosene e lâmpa-
das elétricas vinham do exterior. Como o poder econômico
determina o poder político, aqueles plutocratas elegiam os go-
vernantes, distribuíam cargos e comandavam a opinião públi-
ca , nela implantando uma filosofia de subserviência e de de-
voção incondicional. Submetido a um permanente aviltamen-
to, o povo percebia a sua própria e
A e
e debochava
Ninguém, com cultura e espírito crítico, po:
deria contemplar com indiferença a torpe situação local, onde
imperava a mais escandalosa inve-rsão de valores. Nas Facul-
dades os filhos da classe dominante tinham aprovação ga-
enquanto os do povo dificilmente conseguiam ingres-
sar. As moças mais bonitas também pertenciam àqueles privi-
legiados. Na consciência do povo estava tão enraizada a con-
vicção de sua vassalagem, que ele nada reivindicava, acei-
tando com naturalidade todas as preteriçôes e abusos. Não
foi sem razão, portanto, que Salvador produziu os mais ferre-
nhos comunistas que existiram no país. Cedo compreendi que
não poderia permanecer naquela pocilga. Ainda resisti, por
algum tempo. Finalmente, porém, saí para não mais voltar.
Em Salvador, como disse Vargas Vila da terra onde
nasceu, o amor era de má qualidade e difícil. Como na época
a função social da mulher limitava-se à procriação e aos afa-
zeres domésticos, as mães preparavam as filhas para casa-
mentos visando lucrar com esse expediente, ou,
quando libertar-se do ânus de mantê-Ias. Envolviam as
filhas em um manto de preconceitos que as isolava do mundo
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exterior, impedindo ou dificultando seu relacionamento com
os jovens de sua preferência. Por isso, além de raras, as mo-
ças bonitas eram inacessíveis, fúteis e pretensiosas. Eram
bonecas oferecidas em aos rebentos ou velhotes da
dominante. era o casamen-
tos de conveniência. As que nada conseguiam, tornavam-se
crentes ou devotas e dedicavam-se a falar mal da vida alheia.
Não posso que devo àquela cidade e
à época em que nasci a minha propensão para os livros. À
cidade, porque, em sua decadência, só lhe restava cultuar a
memória dos literatos que havia produzido. A lembrança de
Ruy Barbosa e Castro Alves era um estímulo permanente para
a juventude, sobretudo porque não havia como escapar à
mendicância senão através da cultural.
a
todas as frustrações. A e os romances de
e espada eram dois entorpecentes que eles consumiam com
avidez. Flutuando nas nuvens, os jovens sonhavam, ignoran-
do as mazelas do convívio social.
Esse amor aos livros compensou os acessos de vômi-
to provocados pelo ambiente latrinário em que fui compelido a
viver em minha juventude. Os livros enriqueceram-me por den-
tro, fazendo-me desprezar o mundo exterior. Embora a sabe-
doria seja fonte de decepções e angústia, SChopenhauer justi-
ficou sua opção pela cultura ao declarar que a Filosofia nada
lhe dera, mas o livrara de muita coisa. A ignorância, ao contrá-
rio, é a origem das grandes catástrofes da humanidade. Com a
sabedoria, o homem não necessita buscar nos outros o que já
tem em si mesmo, e liberta-se da convivência social, que é,
sem dúvida, a causa de muitos infortúnios. Em razão da sua
vacuidade interior, o ignorante não suporta a solidão. Necessi-
tando de companhia, expõe-se a relacionamentos deletérios.
É bem de ver que escrevo sobre Salvador apenas para
indicar os fatores ambientais que atuaram em meu espírito,
determinando, em parte, minha atual postura com relação a
meus semelhantes. Em um mundo que avança para a elimina-
16
ção de fronteiras, onde os países tendem a desaparecer em
função do império global das empresas multinacionais, seria
ridículo depreciar esta ou aquela Para mim, Salvador
vale tanto como Paris ou cubata africana. Os
as e as me
empolgam as idéias e os As mais
mundo podem deslumbrar os arquitetos e os turistas, mas não
respondem a indagações O me é a
espécie humana. Obviamente, e outros benfeitores va-
Iem mais do que os monumentos erguidos em seu louvor.
Ao contrário do poeta que cantou sua "infância queri-
da, que os anos não trazem mais", lembro-me com tristeza da
primeira etapa de minha vida. Assim como Nietzsche admitiu
, e Trotsky em sua , eu
os obriga a a sua como
Schopenhauer advertiu, só a dor é positiva. Como esta prevale-
ce sobre o prazer, esquecemos a alegria e só lembramos o
sofrimento. A experiência, alertando o homem a não repetir os
erros do passado, é também um antídoto contra o influxo do
saudosismo. Como deduziu Kierkegaard, aprendemos com o
passado, mas devemos viver olhando para o futuro.
Procurando interpretar a humanidade e não apenas
os indivíduos, acostumei-me a desprezar os fatos e pessoas.
Por isso, não mencionarei nomes nesta análise, nem aludirei
a eventos que não estejam estritamente vinculados teorias
respectivas. Meu escopo é revelar minha apreciação geral
sobre a humanidade. Para tanto, não necessito relatar minhas
andanças, à minha atividade profissional, nem
observar no convívio com meus semelhantes. Tam-
bém preciso narrar o que vi em meus contatos com a
miséria, com o serviço público, com os meios de comunica-
ção, com as leis e com tudo que influencia ou determina a
conduta humana. As pessoas individualmente e os fatos em
particular não cabem em um resumo de conclusões teóricas,
relativas a mitos e instituições.
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Nunca acreditei que pudesse viver até o fim deste
milênio. Quando olho para o passado e lembro-me das pes-
soas de minha geração, vejo um desfile de cadáveres. Perce-
bo, ademais, que o próprio mundo de minha juventude tam-
bém morreu. Na época em que nasci não.havia cinema fala-
do, aviação comercial, penicilina, televisão, nuclear,
computador, astronave, transplante de órgãos, pílula anticon-
cepcional, clonagem, ciência genética e tantos outros recur-
sos que alteraram profundamente a vida humana e o relacio-
namento social. Como disseram Marx e Engels, o moinho a
vento cria uma sociedade e o cavalo-vapor outra diversa. A
revolução sexual e a liberação da mulher eliminaram precon-
ceitos que, durante a minha juventude, morbidizavam as rela-
ções amorosas e fomentavam o crime passional.
No âmbito cultural, a transformação foi verdadeira-
o advento
exclusivamente propaganda.
Sobretudo na música e na literatura, comprova-se o sucesso
de profissionais da mais baixa categoria. Indivíduos que nun-
ca estudaram música e não têm voz alguma, são impingidos
como cantores e seus discos vendem-se aos milhões. Escri-
tores vazios, que discorrem sobre temas banais, são os úni-
cos que não dão prejuízo às editoras. Com a imensidão da
ignorância atual, a televisão fabrica bonifrates que o público
aplaude inconscientemente. Para os artistas, seja qual for o
seu virtuosismo, não existe mais qualquer possibilidade de êxito
sem o ostensivo patrocínio ou a colaboração da mídia.
Aliás, quando ainda não existia rádio ou televisão
assim escreveu Thomas Jefferson: "Quem nunca lê
está melhor informado do que aquele que lê, quem
nada sabe está mais perto da que
a mente cheia de erros e invencionices". A mídía eletrônica e a
propaganda são as maiores calamidades da atual. Ca-
valgando a ignorância, o
tumes, os
lodo e o
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bria o consumidor e extrai dos governos as verbas que deve-
riam ser aplicadas em benefícios sociais. Em tributo à propa-
ganda, o dinheiro que deveria fazer é gasto em anunciar que
já se fez ou pretende fazer. É notória também a coação que a
mídia exerce sobre as autoridades, cujas passaram
a depender expectativa de elogios ou
Tudo mudou, mas o'homem é sempre o mesmo. No
mundo ideologias é o Midas da putrefação. O que ele toca,
logo apodrece. Basta ver o que ocorreu com as idéias genero-
sas do Cristianismo, da Revolução Francesa e da Revolução
Soviética. Na política, na religião, na distribuição da justiça, na
administração pública ou em outra qualquer missão, o homem
tudo subverte. Sobre ele atuam poderosamente os sete peca-
dos capitais, de seus
tra se m , na ,
ou simplesmente difamados. É clássica a conclusão de Lord
Acton, no sentido de que todo poder corrompe, e o poder ab-
soluto corrompe absolutamente.
A Revolução Francesa acenava com a liberdade, a
igualdade e a fraternidade. Mas descambou na corrupção do
Diretório e desaguou na tirania de Bonaparte. A Soviética pro-
metia acabar com o antagonismo de classes e a exploração do
homem pelo homem. Intensificou, porém, esse antagonismo e
essa exploração, errando uma nova classe de privilegiados, a
dos funcionários do Partido Comunista, que passou a escravi-
zar o resto da população. O Cristianismo pregava a humildade,
o ascetismo e a caridade. Os fariseus, todavia, apropriaram-se
da doutrina do profeta e continuaram a viver como antes, cultuan-
do a hipocrisia e explorando a humanidade. Por isso, Nietzsche
observou que: "O Evangelho morreu na cruz". E como disse
'Ruy: "O que ficou é uma simbólica sem alma e sem
pasto à credulidade das classes ignorantes e manto ao ceptI-
cismo dissimulado e da minoria
confirmar as regras
de Le Bon: "Nos
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ç
grupos humanos a média da moral é constante". Há sempre,
em todos eles, patifes e benfeitores. O número, porém, dos
últimos, é tão insignificante que não modifica o conceito do
grupo. No homem, o egoísmo é inato e raramente
ou
é um animal e, como todos os outros, luta por
sua sobrevivência. Busca instintivamente uma vida de confor-
to e luxúria pode ser com o sacrifício de
seus semelhantes. A simples dos poli-
ciais e judiciários evidencia que a maldade humana precisa
ser submetida a permanente vigilância.
Nenhum animal é mais perigoso do que o homem.
Nenhuma outra espécie tem o seu poder destrutivo. O animal
selvagem contenta-se em matar homem
mata
an sua
as ou nas em paz,
ocorrem nas metrópoles. Esgrimindo a perfídia e outros meios
de trapacear, o homem busca ascender em todas as comu-
nas, para comer o pão com o suor do rosto alheio e desfrutar
de todos os prazeres. Ludibriando eleitores, explorando a cren-
dice religiosa ou simplesmente fraudando compromissos, o
homem esbulha os frutos do trabalho individual ou coletivo.
Como disse Ghandí, a Terra tem bastante para a ne-
cessidade do homem, IT],aS não para a sua cupidez. O que se
gasta em material bélico e em futilidades, daria para alimentar
bilhões de indivíduos e erradicar todas as doenças. Aplicada
na produção, a fortuna dilapidada em aviões de , bom-
bardeiros, mísseis, canhões, metralhadoras, torpedos, cruza-
dores e submarinos, daria de sobra para garantir alimentação
a toda a humanidade. O que se desperdiça em festejos ridícu-
los, automóveis de luxo e jóias inúteis, bastaria para financiar
pesquisas científicas que eliminariam as causas de todas as
enfermidades. A simples conduta individual, orientada no sen-
tido do bem comum, determinaria uma revisão total dos con-
ceitos de moralidade que denigrem a nossa espécie. isso,
porém, é absolutamente incompatível com a vocação do ho-
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mem, como os fatos comprovam em demasia.
As mesmas atrocidades cometidas em épocas re-
motas, continuam sendo praticadas, em proporções maiores,
pelos povos mais civilizados. O massacre foi um
em com o
judeus consumado em época recente. Por a parte, os
religiosos ou' políticos têm produzido milhões de víti-
mas. A própria existência, rotineira e pacífica populações
urbanas, é diariamente conturbada pela de homicí-
dios, assaltos, estupros, latrocínios e seqüestros. A todo ins-
tante o homem exibe e comprova a sua índole predatória. Por
isso, segundo Bertrand Russell, há mais sucesso em promo-
ver o ódio do que a concórdia. E para Maquiavel, é mais segu-
vampirismo ou
se a e
tudo o pelas N se , exemplo, julgar
a Igreja Católica pelos mártires do Cristianismo, nem os ho-
mens pelos benfeitores. Essas exceções servem apenas para
confirmar a regra de que o homem, como disse Hobbes, é ?
lobo do homem. A História da Civilização, como observou GI-
bbon é a história dos grandes crimes da humanidade. Milhões
de já sucumbiram em guerras inúteis. Outros milh?es
morreram e continuam morrendo de fome, por falta de solIda-
riedade dos que comem à tripa forra. A maldade é uma
tante na conduta humana. Essa maldição jamais será exorcI-
zada. Nenhuma campanha educacional será capaz de erradi-
car o egoísmo, porque ele é inerente à natureza humana. .
Aceita essa premissa, que reputo fundamental, sera
fácil deduzir que a humanidade jamais sairá do pântano em
que chafurda. Basta ver que todas as idéias redentoras, ?apa-
zes de sublimar as relações humanas, são logo apropna?as
por demagogos e estelionatários que as subvertem e
Iam em funcão de seus interesses. A industrialização da fe e de
tudo o mai; que serve de isca para pescar evidencia
índole utilitária do homem e seu propósito ineqUlvOCO d: .doml-
nar e explorar seus semelhantes. Acenando com as deliCias do
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paraíso ou ameaçando com as torturas do inferno, o homem
cavalga os outros e locupleta-se com os dízimos ou doações
da crendice. Hasteando abandeira das transformações sociais
e prometendo indenizar os espoliados, o demagogo alcança o
poder político, para nele enriquecer e praticar abusos.
Sempre fui extremamente sensível às dores do mun-
do e encarei com repugnância os atos de violência ou grosse-
ria. Não podendo, porém, socorrer os aflitos, nem impedir os
arroubos da prepotência, preferi afastar-me das pessoas, para
que seu sofrimento ou brutalidade não contaminassem meu
psiquismo e enlutassem minha existência. Para não sofrer
dores alheias e não conviver com a tragédia humana, optei
pelo bloqueio de minha afetividade, só admitindo relaciona-
mentos que não implicassem em aderência ou
timental.
intuir ou
mos mesma na é nos
confundíamos. O mundo para mim passou a ser um jardim
zoológico onde convivem, sem vigilância efetiva, animais do-
mésticos e predadores.
Ao andar pelas ruas, não vejo pessoas. Vejo animais
de todas as espécies, que só adquirem personalidade após
isolados dos grupos em trânsito. Enquanto permanecem reu-
nidos, são para mim rebanhos de bovinos, matilhas de cães,
bandos de carneiros ou de porcos. Antes de dialogar com qual-
quer transeunte, não consigo distinguir a que espécie biológi-
ca ele pertence. Só através da palavra é que posso saber se
algum deles é da espécie humana. O que distingue o homem
dos outros animais é a superioridade de sua inteligência.
e/e, por sua ignorância ou estupidez, permanece no mesmo
nível dos outros seres animados, não pode pretender uma clas-
sificação diversa. Os seres que transitam pelas ruas, seduzi-
dos pelas atrações mundanas e robotizados pela televisão,
devem ser encarados como os outros animais, porque os
superam em inteligência ou raciocínio.
Ainda com ao
do um romance de Pitígrilli
22
sentia pena e socorria alguém, ensejava ao beneficiado a opor-
tunidade de demonstrar-/he ingratidão, para que pudesse, sem
remorso, livrar-se do sentimento de piedade. De fato, nada
melhor para libertar-nos de dependências sentimentais do que
possibiiitar ao necessitado, ao amigo ou à pessoa amada a
oportunidade de o seu o homem ido-
so, aliás, nem mesmo é necessário percorrer as etapas que
levam do benefício à ingratidão. lembrar-se de aconte-
cimentos análogos para antecipar o se a
guarda. O bloqueio, portanto, é o único recurso disponível para
quem não deseja colecionar decepções. Quando, porém, as
súplicas do apelante vulnerarem esse bloqueio, o apelado verá
que, realmente, só a ingratidão liberta.
Embora houvesse dedicado grande parte de minha
e das
me 00
inimigos, a maior punição é deixá-los conviver com sua peço-
nha. O crime contra a liberdade sexual expulsa o prazer, ine-
. rente à participação espontânea da fêmea cobiçada. O crime
contra o patrimônio não me aliciou, porque as coisas materi-
ais não me fascinam e sempre foram mínimas as minhas ne-
cessidades. Entretanto, como Hamlet também admitiu, sem-
pre tive mais crimes em minha mente do que imaginação para
concebê-los, ou tempo para executá-los. Jamais tive, porém,
como ocorreu com ele, motivação para cometê-los. Nada devo,
pois, no particular, porque o pensamento não imposto.
A elaboração de um tratado geral sobre a estupidez
humana é tarefa irrealizável. Para não imitar aqueles que já
abordaram esse tema e se perderam em sua vastidão oceâni-
ca, devo restringir-me a uma rápida incursão na mitologia so-
cial, emitindo alguns conceitos sobre a crença em
deuses, nos governos e na justiça. Lateralmente, apreciarei
também a influência da mídia e dos preconceitos na mentali-
dade a acaba
por contra os seus próprios
que merecem porque já se
23
ti
C
ti
(
(
r
E
I
\
mem não é confiável. Como dizem os curdos, o lobo é suspei-
to, mesmo quando dorme com fome. O que importa, pois, é
estudar as causas que aluam em seu psiquismo, a fim
preender as que o tornam destrutivo.
for considerado que ninguém
so foi e que a Terra é uma
será óbvia a conclusão que a idéia da Deus foi
concebida para suprir essa ignorância. O argumento de que
nada sem um criador não convence de que um Deus
haja criado o Universo, porque implica na dedução de que algo
anterior houvesse criado o Deus que criou o Universo. Por ou-
tro lado, se esse
os os os a as
ças os sinistros e mazelas, bem como a própria índole do ho-
mem, escorraçam as deduções da crendice.
Um Deus que produz seres venenosos como a cobra
e o escorpião e que condena os animais à imolação recípro-
ca, não pode, de modo algum, ser considerado um ente bon-
doso. Um Deus que permite o nascimento de crianças mon-
golóides, cegas ou xifópagas, e que enche o corpo humano
de vírus, micróbios e células cancerígenas, tem de ser, sem
dúvida, um ente cruel ou impiedoso. Basta pensar nas cozi-
nhas particulares ou dos restaurantes, na vivência dos ani-
mais nas selvas, nos rios ou nos mares, para compreender
que o mundo é um matadouro, onde os mais fracos são a
todo instante, devorados pelos mais fortes. O homem,
de sua imperfeição e maldade, concebeu a idéia de justiça e,
ao menos em tese, condena os morticínios. O Deus, porém,
que tantos adoram, instituiu a carnificina como condição fun-
damentai para a sobrevivência.
Deus é produto da ignorância, da fraqueza e da co-
vardia. Da ignorância, porque o homem nada sabe sobre sua
origem ou sobre a razão de sua existência. Da fraqueza, por-
24
que, desde que nasce, o homem está sujeito a doenças, a
acidentes e a uma infinidade de perigos que o impelem a bus-
car a proteção de uma divindade. Da covardia, porque o te-
mor de um eventual castigo o força a bajular essa potência
invis esses podem a
uma crendice que não se arrima em qualquer princípio razoá-
vel. Os livros religiosos e as pregações respectivas estão ei-
vados de contradições, incoerências e que não re-
sistem à mais superficial análise. Somente uma
inelutável de deixar-se iludir, pode forçar alguém a acreditar
nas fábulas que os religiosos propalam.
Mesmo assim, todo mundo reza e se ajoelha em sub-
missão a um ente imaginário. toda parte erguem-se tem-
plos de
foi
na realidade, partidos políticos, hegemônícas
já foram e continuam sendo deflagradas, com o sacrifício de
muitas vidas. Os crimes cometidos pelas facções religiosas
são os mais abomináveis da história da humanidade. O Teo-
cali, os rituais de magia negra e a incineração em praça públi-
ca são símbolos da crueldade religiosa. Também execrável,
ainda que incruenta, é a doutrinação com que os industriais
da crendice conseguem estupidificar as multidões.
/Tão poderosa é a compulsão da crendice que, quan-
do um indivíduo consegue escapar de um acidente mortal,
logo abre a boca para dizer que Deus o salvou. Não lhe passa
pela cabeça que se Deus existisse e fosse onisciente, onipre-
sente, onipotente e de infinita bondade, teria evitado o aciden-
te. São comuns os desastres de veículos que transportam ro-
meiros, e templos já desabaram sobre devotos, no exato mo-
mento em que oravam ou pediam a proteção divina. Em todos
esses casos, os sobreviventes agradecem a Deus pelo
mento. Demonstrando claramente que não confia na proteçao
de Deus, o Papa atual, que já foi vítima de atentado homicida,
prefere exibir-se no interior de um carro blindado. A qualquer
objeção, todavia, responderá o crente que não nos cabe inda-
25
ti
C
ti
r
t
~
ii
(
(
gar sobre a conduta de Deus e seus insondáveis desígnios.
Enquanto isso, iludindo a todos, fazendo espuma e
vendendo fumaça, uma legião de parasitas e vampiros, tra-
vestidos de sacerdotes, pastores, adivinhos e curandeiros,
forjando milagres e ameaçando com as chamas do inferno
vão sugando dízimos e imbecilizando o povo em geral. D u r a n ~
os mil anos Idade Média, as religiões conseguiram man-
ter a Europa na mais completa ignorância. Foi a época das
pestes, atribuídas à malfcia demônio, e a das Cruzadas,
instituídas a pretexto de libertar o Santo Sepulcro, mas, na
realidade, convocadas para a matança de maometanos e a
pilhagem de suas riquezas. A cupidez, a crueldade e a hipocri-
sia são, conjunta ou isoladamente, as características marcan-
tes de todas as seitas religiosas. O que a elas realmente inte-
ressa é o poder total sobre a e a fortuna dos beatos.
Uma
a
uma interminável entre um Deus que tudo pode e
um ser inferior que o afronta e consegue sobreviver eternamen-
te. Inconcebível também é a admissão de que um Deus, de
infinita bondade, possa tolerar que seus filhos sejam atormen-
tados por um ente maligno que ele, em sua onipotência, pode-
ria destruir. Não há dúvida de que a Teogonia, a Teologia e a
Demonologia, imposturas que até hoje confundem o espírito
humano, são, como Mencken disse da Metafísica, "tentativas
de provar o inacreditável, apelando para o incompreensível."
Somente a ingenuidade pode justificar a crença nos fantasmas
com que as religiões poluem a mente dos devotos.
Alega-se que as religiões civilizam os povos, abran-
dando sua índole agressiva e fazendo-os proceder bondosa-
mente, pelo temor do castigo divino. Não é isso, porém, o que
a História da Civilização tem demonstrado. As guerras religio-
sas já dizimaram populações inteiras. A doçura exibida pelos
crentes e devotos em suas relações públicas é contrastada
pela crueldade com que costumam seus dependentes.
A intolerância, alimentada por
queia o súcubos
26
tomando-os receptivos às incubações do misticismo e imper-
meáveis ou opacos para as noções de piedade, solidariedade
e amor ao próximo. Os crentes entendem que, cumpridas suas
obrigações rituais, podem praticar, contra seus semelhantes,
qualquer indignidade.
Uma simples com de com
a indumentária do Papa evidencia que, para reinar sobre a
estupidez humana, não é necessário, nem mesmo, velar pela
aparência. Para o povo é perfeitamente admissível que a pre-
gação da humildade seja feita por quem mora em palácios e
usa vestes suntuosas. É possível também inculcar como sa-
grado um livro sobre o qual assim escreveu Thomas Paine:
"Quando lemos as histórias obscenas, as libertinagens volu-
tuosas, as cruéis e traiçoeiras execuções, as vinganças impi-
edosas, que enchem mais da metade Bíblia, pensamos
que
con-
tribuem e . O povo
quer ser iludido. Os padres e os pastores suprem essa carên-
cia, fornecendo imposturas.
A história das religiões demonstra claramente que,
como também disse aquele pensador: "Todas as Igrejas, se-
jam elas maometanas, judias ou cristãs, me parecem meras
invenções humanas, estabelecidas para amedrontrar e escra-
vizar a humanidade e açambarcar as riquezas e o poder". Nada,
porém, absolutamente nada, conseguirá jamais erradicar do
espírito humano os estigmas da crendice. Na Rússia, onde os
cultos religiosos foram, por mais de setenta anos, cerceados
ou proibidos, as igrejas renascem agora em seu máximo es-
plendor. A crendice, como o uso das drogas estupefacientes,
é uma dependência da qual poucos se libertam. Entretanto,
melhor seria se os crentes, abolindo e dispensando os
profetas, uma religião de princípios morais que os
obrigasse a proceder com dignidade em suas relações.
vez de esbanjar dinheiro em celebrações religio-
de Natal, quando fortunas são
de iluminações feéricas,
mais compatível com
27
t
(
t
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a doutrina cristã socorrer as crianças abandonadas, os famin-
tos e os que padecem ou morrem por falta de remédios e assis-
tência hospitalar. Nada, aliás, exibe melhor a índole bovina do
povo em geral do que o espetáculo
casas nos
É, um estouro pela crendi-
ce, pelo egoísmo familiar, pelo senso imitação e pela propa-
ganda. No dia Natal é comum o de Inimigos se
abraçam, mas a inimizade Tudo é falso, artificioso e
cerebrino, como o próprio Natal - dia do nascimento Jesus -
que nem os historiadores sabem em que data ocorreu.
Para que as pessoas vivam como consta que Jesus
viveu, exprobrando a hipocrisia e praticando a caridade, a
~ crença em deuses é absolutamente que
seu
mas.
ta e a a cu/tua,
mais úteis à convivência social e à sublimação do espírito do
que a verborréia mendaz dos padres e dos pastores. Como
o próprio Jesus teria dito, nenhum valor moral tem a esmola
oferecida com ostentação, nem, como se deduz desse prin-
cípio, a abstenção do mal para evitar o castigo divino ou a
prática do bem para a obtenção de crédito no paraíso. A reli-
gião única e verdadeira, a religião do humanitarismo, dis-
pensa deuses, templos e oráculos.
Se, como disse Bernard Shaw, a democracia é um
sistema que não nos permite ter um governo melhor do que
merecemos, é claro que, nesse regime, não se deve reclamar
dos crimes e dos abusos dos governantes e sim do próprio
povo que os elege. Sendo a política, em toda parte, um este-
lionato multitudinário, o sucesso dos candidatos a cargos ele-
tivos depende sempre do nível moral e intelectual dos povos
que eles pretendem empulhar. No estelionato a colaboração
da vítima é sempre indispensável. Seja por ingenuidade, ig-
norância, ou cupidez, a vítima colabora com o estelionatário,
possibilitando o êxito de suas artimanhas. Tudo, portanto,
28
pende da receptividade dos eleitores aos apelos da demago-
gia. Os prejuízos decorrentes de uma péssima escolha,
devem, pois, ser debitados à cobiça ou à estupidez do povo.
A prática estelionato tem, sobre as a
garantia e a
natário ingressa na política porque, ao defraudar os cofres
públicos, a única penalidade a que se arrisca é a deser
guido ladrar dos que não conseguirem das fal-
catruas. Como, todavia, nem de pão vive o homem, há os
que, além do enriquecimento ilícito, buscam na política a sa-
tisfacão dos mais variados interesses. O egoísmo, porém,
encO'berto pela bandeira do humanitarismo, é sempre a moti-
vação suprema. Como ocorre com as corporações religiosas
que exploram a em os
políticos
acesso ao
a éa
Hoje, quando a m eletrônica a lavagem cere-
bral dos povos e os manipula como fantoches, não mais per-
guntaria Chamfort de quantos tolos se precisa para formar a
opinião pública. Atualmente, ele procuraria saber quais são os
índices de audiência do rádio e da televisão. Poucas pessoas
raciocinam. As demais, preferem delegar essa prerrogativa aos
locutores de rádio e de televisão que, por sua vez, veiculam o
que seus patrões determinam. E estes procedem de acordo
com os interesses de seus acionistas, anunciantes ou Manci-
adores. Às pessoas que não abdicaram do direito de racioci-
nar, só resta o isolamento. Só assim poderão encarar com
desprezo a humanidade e criar um mundo interior, invulnerá-
vel à poluição eletrônica e às cretinices de seus semelhantes.
Outro ídolo de pés de barro que ainda consegue im-
pressionar os ingênuos é a justiça. Apesarde sua vulnerabilida-
de, de seus caprichos e prevaricações, a justiça ainda man.tém
algum prestígio, induzindo os povos a acreditar que ela eXiste.
O homem, como ente real e palpável, não suporta o nada. Onde
percebe o vazio, ele o preenche com sua imaginação, a fim, de
lidar com coisas concretas. Exatamente p ~ r ser o mais temlvel
29
30
assassino. Mas afirmar que nunca serei condenado como la-
drão ou assassino seria presunção", Os crimes judiciários cos-
tumam ser justificados pela traição das provas, pelo livre con-
vencimento ou outra qualquer circunstância que assegure im-
punidade a seus autores. crimes não são sequer de-
nunciados, porque a judiciária, em parte, é
um dinossauro que a prudência aconselha a não desafiar.
Entretanto, disse Ruy que: "Os piores de todos os crimes, os
que mais atacam a moral pública e depõem contra a civil
ção de um povo, são as violências contra a lei pelos a quem
ela incumbiu de sua guarda".
No âmbito da justiça civil, dizem os árabes que quem
ganha fica sem camisa e quem perde fica nu. Para os chine-
ses, vencer uma demanda judicial é ganhar uma galinha e
perder uma vaca. ndo Ambroise Bierce, uma judi-
ciai é uma
homem é ser um
nho e não somente um patrono legal, o inocente corre o ris-
co de ser condenado. Como a Rainha da Inglaterra, a lei rei-
na, mas os juízes é que governam. A sorte dos acusados
depende até mesmo da simples distribuição dos processos,
porque há juízes que tendem a condenar e outros a absol-
ver. Há também os que detestam crimes banais e são tole-
rantes com crimes gravíssimos.
Na loteria forense, portanto, o destino dos acusados
dê'pende da índole dos julgadores. E no processo criminal a
vitória é sempre negativa, porque consiste apenas em não
perder a liberdade. Perde-se, porém, os anéis, para salvar os
dedos. Em todo o mundo os anais judiciários registram deci-
sões que nenhum sistema lógico poderia justificar. Os livros
de jurisprudência transcrevem, às vezes na mesma página,
ementas de arestos antagônicos que, como dizem os france-
ses, uivam de susto por se encontrarem juntas. O tráfico de
influência comanda as decisões mais importantes dos órgãos
judiciários. mesmo as leis atualmente ditadas ~ e l o s
À toda denúncia, veraz ou caluniosa,
pela mídia eletrônica, segue-se
31
logo uma lei absurda. Quem comanda atualmente a ordem
jurídicaé a televisão.
Os ju modo geral, temem a publicidade
tíva. Mas, quando o noticiário os favorece, não
tir ao apelo
buem, aos caprichos da mídia. aliás, é
o que acontece em todos os setores da administração pública.
O livro, do e de . das
teses, foi banido ópio eletrônico que, com suas imagens
coloridas, fascina os olhos e bloqueia o raciocínio. Sabendo
que a televisão a lavagem cerebral das multidões e que o
povo não tem capacidade de distinguir alguma, os funcio-
nários não se arriscam a enfrentar a opinião pública. Até mes-
mo por comodismo,
o um j outro
homem faria rebentar de riso se não fosse tão trágico. Embo-
ra as leis tentem coibir o arbítrio judicial, há sempre como ilu-
dir os seus ditames. Por isso, dizem os italianos que feita a lei
começa a trapaça. O desvio de finalidade, pois, é inerente aos
órgãos judiciários, como também ocorre com todos aqueles
que têm o poder de decidir sobre o patrimônio, a liberdade e a
vida dos cidadãos. A hipótese de substituição dos juízes por
computadores não solucionaria o eterno problema dos capri-
chos, das prevaricações e das erronias, porque nem sempre
será um funcionário zeloso e imparcial o encarregado de ma-
nipular os dados que conduzam ao julgamento. Ademais, os
fatores subjetivos, de suma importância nos casos criminais,
não podem ser computados.
Considerada a célula mãe da sociedade, a família
burguesa é uma instituição que tem sido indevidamente reve-
renciada. Ao contrário, porém, de constituírem células do teci-
do social, as famílias burguesas são núcleos de egoísmo que
se antagonizam e concorrem ferozmente na luta por vanta-
gens e privilégios. Sua característica fundamental é a cupidez
32
com que promovem o nepotismo e abocanham frutos do tra-
balho coletivo. Tais famílias só se interligam para aumentar os
tentáculos com que tencionam novas ou
assegurar a posse dos privilégios já usurpados.
to, núcleos que
como Marx e Engels advertiram, sob a condição de que a fa-
mília proletária não possa existir. Como ocorre com as cance-
rígenas, o conceito de célula, atribuído à fam , só
seria admissível no âmbito da Oncologia.
Consta que quando disseram a Jesus que sua e
seus irmãos queriam vê-lo, ele apontou para seus discípulos
e exclamou: "Minha mãe, meus irmãos, são os que ouvem a
minha palavra e a praticam". Sua família, pois, não era com-
posta de seus parentes e sim todos aqueles
manam e
nea. Assim construída, a verdadeira família deixará de ser um
núcleo de interesses mesquinhos e poderá expandir-se, vin-
culando pessoas de descendência heteróclita. As afeições
recíprocas e não o parentesco, devem ser consideradas como
os verdadeiros laços de família.
Para perpetuar as espécies, a Natureza impõe às fê-
meas o ónus de procriar. Entre os animais, ainda que selva-
gens, percebe-se o zelo com que elas alimentam e protegem
sua prole. Vendo nos filhos a continuidade de sua própria vida,
a fêmea obedece ao instinto de conservação, cumprindo rigo-
rosamente os encargos da maternidade. Na espécie
ocorre o mesmo fenómeno. Nesta, segundo Schopenhauer, ate
a atracão sexual é determinada em funcão do filho que pode
ser g;rado. Instintivamente, os buscam
um com o outro, as suas imperfeições anatómicas, para nao
transmiti-Ias ao ente a ser concebido. Por isso é que os opostos
se atraem. Como a espécie humana adora fantasias, chama-
mos de amor sensual o que, na realidade, é um ditame da Na-
tureza. Na mente humana, porém, como Nietzsche observou, o
fato é secundário. O que prevalece é a versão do fato.
33
Se não resultasse de uma injunção da Natureza, o
ato de conceber um filho deveria ser considerado como uma
leviandade, porque a transmissão da vida não é, de modo al-
gum, uma ação bondosa. Com ela, impõe-se ao herdeiro uma
infinidade de tormentos cuja incidência é possível prever ou
antecipar. eventuais ou íquicas,
bem como os prováveis fracassos na luta pela vida, deveriam
alertar os genitores de que a procriação é um salto no escuro.
Além de submeter a mulher a graves e deformar-lhe
para sempre o corpo, a maternidade responde ainda pelo trá-
gico espetáculo da infância abandonada, doentia, faminta e
analfabeta que, conforme nosso índice de moralidade, con-
templamos com tristeza, revolta ou indiferença. A decantada
função maternal, portanto, costuma transformar o ventre da
mulher em uma Caixa Pandora.
o instinto
humana, , a tendência é
causa de desequilíbrio social e fator de criminalidade. A ânsia
de procriar produz uma legião de famintos e rebeldes que
ameaçam a tranqüilidade das comunas. Embora a Natureza,
como disse Bacon, só possa ser dominada por quem a obe-
dece, o fato é que a ciência fornece vários meios de controle
da natalidade. Nenhum filósofo, porém, conseguirá jamais
convencer as mães de que seus filhos não são as maravilhas
que elas supõem. E basta esta circunstância para demonstrar
que o impulso maternal concorre também para inutilizar a pro-
le com que se empenha em superlotar o mundo.
Razão, pois, tinha Lyndon Johnson quando declarou
que cinco dólares aplicados no controle da natalidade valem
mais do que cem dólares investidos no cresdmento econômi-
coo Os padres, todavia, condenam os métodos anticoncepcio-
nais e fazem cruzadas contra o aborto. Com isso, agravam a
miséria das famílias proletárias e enchem as ruas peque-
nos mendigos que, já na criminali-
Evidenciando que sua
os ao seu domínio, os
34
do para que todas as pessoas, sentindo-se em culpa, neces-
sitem de penitências e absolvições. Sabendo que o apelo se-
xual é irresistível, exploram essa fatalidade. Na época das In-
dulgências, eles só perdoavam alguns relacionamentos ou atos
sexuaig--a troco de dinheiro.
Embora não mais, como na Idade
impor seus preconceitos a ferro e fogo, o fato é que, apesar
de suas incoerências e contradições, os padres ainda influen-
ciam muita gente. Dizem eles, por exemplo, que defendem a
vida quando combatem o aborto e os anticoncepcionais. En-
tretanto, adotam o celibato e pregam a castidade para pode-
rem debitar aos leigos o pecado da luxúria. Aviltam, portanto,
uma função naturalíssima, para que o povo os admire e se
submeta à sua autoridade. Só os tolos, porém, e os hipócritas,
aplaudem essa moral la, que, se por todos
cida, . Uma
em os
que,
,a é, como as
virtudes, um vício disfarçado. Para ele, ser casto é ser horren-
do, porque a castidade é um crime contra a Natureza.
Para Nietzsche, toda ação determinada pelo instinto
vital encontra no prazer a prova de sua legitimidade. Disso de-
duzia que a pregação da castidade, por ser contrária àquele
instinto, é uma agressão à Natureza. Acrescentava que des-
prezar o ato sexual, considerá-lo indecente, pecaminoso ou
impuro, é um atentado contra a essência da vida.
o padre reina com a invenção do pecado, porque a Invocaçao
da moral é o melhor artifício para levar a humanidade pelo na-
riz. Para Pitigrilli, à mulher que ninguém deseja, resta o
de ser moralista. O mesmo ocorre com os eunucos mentais ou
fisiológicos. Os hipócritas aplaudem os preconceitos relativos à
sexualidade, porque deles se servem para infamar a reputa-
ção alheia. Só a velhacaria, porém, pode pretender que a hu-
manidade considere imoral a sua própria origem. .
Realmente, instituir o comportamento sexual como In-
dice de é uma . É um obsceno que
revela a protérvía censores e a ingenuidade dos que se
preocupam com a maledicência ou se submetem a essa torpe
35
ti
c
ti .
avaliação. O simples fato de sermos, todos nós, produtos de
relações sexuais, deveria bastar para que ninguém admitisse a
infamação do ato que nos originou. A conjunção camal entre
um homem e uma mulher que obedecem a uma atração recí-
proca é um ato natural, instintivo e com-
ou um parceiros, a cópula consen-
tida é absolutamente incensurável. As fábulas do pecado origi-
nai e virgindade de Maria, concebidas a cas-
tidade e denegrir o ato sexual, são patranhas que devem ser
escarnecidas ou simplesmente ignoradas.
O preço que a humanidade pagou e continua pagan-
do pelos preconceitos relativos à sexualidade é verdadeira-
mente incalculável. São incontáveis as vidas arruinadas pela
condenação do amor livre. Em holocausto a essa
o sua e submetido
aos efeitos deletérios da castração psicológica. O ato sexual,
porém, não deveria jamais ser censurado, porque nele não há
impureza alguma. Qualquer reprovação em torno da conduta
sexual é fruto da malícia, da hipocrisia e da torpeza dos cen-
sores. Estes é que - por poluírem a mente das pessoas e
infelicitarem gerações - deveriam ser execrados e punidos.
Um estigma cuja origem os próprios portadores msis-
tem em ignorar, é o da pederastia. Alegando que o homosse-
xualismo é opcional, o pederasta passivo assume uma culpa
que cabe exclusivamente à Natureza. O homem normal, toda-
via, não pode jamais conceber que outro renuncie voluntaria-
mente à sua masculinidade. A pederastia é determinada por
compulsão fisiológica, de origem hormonal e genética. O pe-
derasta passivo pertence a uma espécie intermédia e não
necessita justificar sua conduta, porque ela é comandada pela
Natureza. Se os invertidos reconhecessem sua própria ano-
malia, não pretendessem criar um mundo à sua imagem, e
agissem como agem os deficientes físicos, sem complexos
de culpa ou superioridade, seriam certamente respeitados. O
36
que macula a sua reputação é a crença de que eles optaram
livremente pela inversão sexual.
Em vez disso, se entregam ao deboche e, na
ativos, ' verdadeiros de-
ículo. como
Zweig retratou, os homossexuais viviam esmagados pelos
preconceitos e adotavam uma postura . de humi-
lhacão. É claro que nenhuma dessas e . A
porque consiste em um exíbici<?ni:mo torpe e
vagante. A outra porque importa na adn:lssao culpa
tente, uma vez que ninguém é censuravel por
involuntária. A hostilidade contra ospederastas passIvos eqUi-
vale às manifestações racistas que, ainda hoje, envergonham
A se justifica os
o ' ser
do que a mulher. A própria sabedoria a ela se
não é indispensável. É possível viver feliz em plena Ignorancla.
A agnosia, aliás, é a condição principal para que .0 homem al-
cance a felicidade. A mulher, porém, é a fonte da Vida. Sem ela,
o mundo seria intolerável. Só os homossexuais ou os mental-
mente castrados, como os anacoretas, poderiam sup<?rtar
existência sem o fascínio que emana da mulher desejada.
da que não possa tê-Ia em seus braços, o v;bra
e vitaliza-se com a simples esperança de um dia conqUista-Ia.
E se isso ocorre, nada no mundo é comparável a essa recom-
pensa pelas angústias de sua expectativa. escreveu Var-
gas Vila, a mulher nua é a mulher amada. Nao Importa, como
versejou Stecchetti, se é casta ou pecadora.
Por isso, sempre me revoltei contra o desapreço com
que se encara a função socia! das putas. Sei que essa
ra resultou, como Schopenhauer esclareceu, do corporatiVIS-
mo das mães e dos pais de família que precisavam
suas filhas. Na época em que as mulheres estavam exclUldas
das profissões rendosas, era necessária a união de todas para
que o homem só pudesse consegui-Ias através do casamen-
37
to. Quando, pois, alguma entregava-se sem exigir matrimó-
nio, a corporação sentia-se prejudicada em seu monopólio
sexual e hostilizava a infratora. Hoje, porém, quando os antibi-
óticos e a pílula anticoncepcionallíbertaram as mulheres, quan-
do elas competem com os homens em todas as atividades
não mais se justifica a conduta que depreciam as
res que optam pela prostituição ou a ela são compelidas.
Quando, numa zona boêmia, um jovem tentou es-
conder-se de disse-lhe o severo censor romano que
melhor seria ali permanecer, pois de outro modo estaria
pondo em risco a integridade sexual das moças de família.
função social que as putas exercem, ou seja, a de pre-
servar a tranqüilidade das famílias, não deveria ser esqueci-
da pelos seus beneficiários. Muitos estupros e casamentos
temerários são evitados porque suprem uma
da de que a normais. As
servem a , en-
carecer os prostibulares e degradar uma classe que
todos deveriam proteger e respeitar, porque sem ela estari-
am condenados à frustração, a convolar casamentos incon-
venientes ou ao onanismo.
Sim, porque todos os homens devem às prostitutas o
que não teriam conseguido sem sua colaboração. Muitos se
iniciaram sexualmente nos bordéis. Outros livraram-se de psi-
coses recorrendo a essas clínicas de desafogo. Casamentos
ainda perduram porque os maridos podem, de vez em quan-
do, livrar-se da monotonia conjugal em leitos estranhos. Ade-
mais, além de ser a mais barata, a mulher paga não tem ciú-
mes, não atormenta o homem, não o enche de filhos, não pede
pensão ou alimentos, nem comete adultérios porque a nin-
guém pertence. Só a ingratidão e a hipocrisia podem explicar
a hostilidade com que muitos se comportam com relação a
essa classe benemérita. Assim compreendendo, sempre tra-
tei com extrema cortesia essas mulheres e, quanto à sua re-
muneração, sempre entendi que dinheiro puta é sagrado.
Em sua profissão, as putas mais honestas
as moças família, porque exigem homem
38
gamento pelo serviço que lhe prestam. As vestais familiares,
porém, concentram no homem suas ambições e pretendem
que ele satisfaça todos os seus caprichos. Atuam como o ic-
nêumone, cujas larvas devoram os tecidos do seu hospedei-
ro. Mantêm permanente vigilância sobre a conduta do homem
e só aprovam as ações que a beneficiam. Condenam tudo
que não as favoreça ou concorra para libertar o prisioneiro.
Em suma, para concederem o que as putas vendem ao preço
de mercado, as moças de família simulam ingenuidade e pu-
reza, iludem o homem com promessas de amor eterno e o
exploram a mais não poder. Para Don Juan, porém, que as
conhecia, elas eram "santas na igreja e macacas na cama".
As sociedades primitivas não conheceram o casamen-
to. Enquanto o trabalho mulheres foi mais importante do
homens, a do
antes se a como a e a
rapina, começaram a produzir mais do que elas, essa relação
fqi envesada. Eles passaram a ter tantas mulheres, quantas
pudessem sustentar. O casamento monogâmico foi estabele-
cido para vincular dinastias, acumular património e preservar
o direito de herança. No passado, as mulheres sem dote não
conseguiam casamento. A vulgarização do matrimónio decor-
reu do senso de imitação, uma vez que os pobres, deslumbra-
dos pela vivência dos ricos, procuram copiar seus hábitos e
costumes. Não tendo, porém, os mesmos recursos, logo per-
cebem que caíram numa arapuca e anseiam pela evasão.
Reza um aforismo que não se pode odiar o homem
que se conhece. Isto porque o conhecimento do caráter de
um "indivíduo e dos fatores que nele atuam, explica e justifica
a sua conduta. No casamento, porém, essa regra é invertida.
Os cónjuges, quanto mais se conhecem, mais se odeiam.
fatalidade decorre da perda gradual e constante das calonas
. passionais que determinaram o casamento e das decepções
recíprocas. A frustração é o estado inevitável a que o
matrimônio, porque o tempo a fantasia. Como disse
Vargas Vila, o casamento é o encontro dois desgostosos e
39
t
c
t

t
o túmulo do amor. Nada mais estúpido, portanto, do que acre-
ditar que os anos de convivência reforçam os laços conjugais
e a estima entre os cônjuges. O casamento é uma instituição
anacrônica, destinada à a infinidade de
que ocorrem na
Nos idos fluentes, mesmo para as mulheres o
casamento é um péssimo negócio. Influenciadas por psi copa-
lésbicas e pederastas, o feminismo e assu-
mem a chefia conjugal, delegando aos atribuições
incompatíveis com a masculinidade. Com essa postura, só
conseguem parceiros que as exploram a troco de uma sub-
serviência vergonhosa. A esposa sai para trabalhar e o marido
fica em casa, fazendo serviços domésticos e assistindo televi-
relacionamento conduz
o
como um com inclusive com
adultérios, desde que sejam lucrativos. Em ablação ao casa-
mento, a mulher paga um tributo que não precisaria pagar se
continuasse solteira.
Como disse Chamfort, a felicidade é muito difícil de
ser achada em nós mesmos e impossível de ser encontrada
alhures. A solidão, portanto, é o único recurso de que dispomos
para alcançá-Ia. Se a felicidade consistisse na ausência da dor,
física ou moral, a morte seria a melhor solução. Pelo suicídio,
porém, o que se consegue é apenas escapar das mazelas da
vida e das torpezas da convivência social. Como nada existe
após a morte, a não ser a transformação da matéria, tornada
inerte e insensível, o suicidio conduz apenas à paz eterna.
anestesia, total e irreversível, é melhor do que a dor, a angústia
e a repugnância. Mas, morto o cérebro, a matéria orgânica re-
gride ao nada espiritual, servindo apenas para transplante, au-
las de anatomia ou para adubar a terra.
Sendo o homem, porém, como disse Aristóteles, um
animal político, só encontrará a felicidade na solidão se dispu-
ser de uma riqueza interior capaz de suprir a exclusão do meio
40
circundante. Como isso raramente ocorre, pode-se afirmar que
a solidão é um estado negativo. Imuniza o indivíduo contra o
contágio social, mas suprime eventuais . . " _ Para o
homem comum, a verdadeira da felicidade e a lIusao. Sem
a valorização
duos ele não encontrará em si mesmo
tejar 'sua existência. Sem a ele será um animal como
qualquer outro, preocupado em não morrer de
Despidos de fantasias, os fatos, as e .os seus.semelhan-
tes serão sempre aquilo que são, em sua tnste realidade.
Exatamente por isso, consta dos Evangelhos que Je-
sus teria dito: "Bem-aventurados os pobres de espírito, por-
que deles é o reino dos céus". A realidade é cruel,
a unlca
a
que
nce
reconheceu a a ver-
dade. Creio que a humanidade precisa dela. po-
rém mais ainda da mentira que a adula, consola, da - lhe
ilimitadas. Sem a mentira a humanidade viveria
em desespero e pereceria de angústia". A espiritualidade, como
disse Augusto dos Anjos, é que "faz da .uma urna de
perfume". Sem embargo, pois, de tudo que fOI aCima argumen-
tado sobre os mitos e instituições que governam os povos, o
fato é que, sem eles, o homem igno,!-ante
Como a galinha, que entre um grao de milho e un;
diamante preferirá aquele, o homem sem ilusões desprezara
os mitos e verá em seus semelhantes apenas os concorren-
tes com os quais deve contender, em obediêncía à lei ,de sele-
ção natural. Como disse Vargas Vila, amar a mulher e amar o
sonho que dela faz o coração. O mesmo ocorre co:n tudo o
mais. Todas as paixões gravitam em torno de fantasias que o
espírito humano concebe e desenvolve, na ânsia de
uma existência, que, desnuda, seria simplesmente animales-
ca. Quando o êxito não traz dinheiro, o ânimo de
qualquer atividade, inclusive a intelectual, é também Ilusono.
Nem mesmo a humildade, sincera ou encenada provo-
car admiração, escapa a essa tendência. Disse Socrates a
41
í '
I
t
c
t
r
t
"Através dos buracos de tua roupa, vejo a tua jac-
tancla. Ha orgulho demais em tua humildade",
O segredo da felicidade consiste em acreditar em
nos padres, nos pastores, no amor, nos políticos, na
Justiça e em todos os mitos que envolvem e dominam as mul-
qualquer o
regozijar-se. Para Nietzsche, acreditar no nada é mais confor-
tável do que em nada Ainda que a causa
todas as da huma , a ignorância é um
?e que deve ser conservado para que o homem possa
Iludir-se e sentir-se feliz;·As científicas e as
ções filosóficas, tendentes a exorcizar os mitos que
a só poderão conduzir o indivíduo a um estágio
de angustIa e desespero. Em sua fragilidade e covardia o ho-
mem acreditar em
judiciárias,
ao amor ,d
se não a imaginação o homem feliz nos bra-
ços de uma empregada como nos braços de uma duquesa.
Na mente exaltada de Don Quixote, a labrega Dulcinéa fulgu-
como uma deidade. No deserto, a miragem anima os que
estao exaustos e sedentos. No mundo real, o valor das coisas
é ao custo de sua reprodução. No mundo ideal, porém,
as cOisas o que imaginamos valer. O sentimento, pois,
de prosperidade, êxito ou de realização, depende do v5i1or
que pessoas atribuem . suas posses ou suas conquis-
tas. Disse um poeta que é impossível alcançar a felicidade
porque nunca a pomos onde nós estamos. Mas se ad-
missível uma impossibilidade relativa, evidente
porque só os intelectuais colocam a felicidade além de
alcance. Os ignaros, como as crianças, a felicida-
. de em sua própria singeleza.
Como disse Montaigne, viver ver tudo e
seu oposto. O egoísmo, porém, é uma constante na conduta
humana. Ainda
de,
do o
42
não redime as atrocidades do fanatismo. Para tolerar a huma-
nidade, o único recurso é ignorar suas mazelas. A meta a ser
alcançada é o paraíso dos tolos a que Milton aludiu. aestrada
a percorrer é a valorização dos costumes, futilidades e das
imposturas que fascinam os ignorantes. É preciso não indagar
jamais a causa ou a mundanos, nem
pretender que o homem proceda com abnegação e honestida-
de. Na vida, como nos presídios, é perigoso e inútil afrontar o
regulamento. Ao prisioneiro resta obedecer, resignar-
se com a condenação e esperar o término da pena.
É necessário também não cultivar o ódio, porque, como
escreveu Dale Carnegie: "Quando odiamos nossos inimigos,
estamos dando-lhes poder sobre nós, sobre nosso sono, nosso
apetite, nossa ínea, nossa saúde e nossa felici-
dade. quanto nos es-
como
modo geral, os homens não devem ser tratados como mere-
cem, porque, como inquiriu Shakespeare pela boca do Hamlet,
se assim procedêssemos: "Who should escape whípping?".
Embora visse "tudo e seu oposto" - mas não conhecendo o
leitor - Montaigne também concluiu que: "Não existe homem
algum que não mereça a forca, dez vezes na vida, se forem
submetidos à lei todos os seus pensamentos e ações".
Embora meus órgãos vitais ainda estejam funcionan-
do satisfatoriamente, sinto que já se aproxima o fim de minha
existência. Nesses longos anos de convivência com os livros
e com meus semelhantes, não pude, infelizmente, convencer-
me da existência de Deus, nem da pureza das instituições
que muitos veneram. Minha estudo e o hábito
de meditar, privaram-me das emoções e alegrias que encan-
tam a vida. Isso, porém, permite que eu dela me despeça sem
que ' através
O
de minha existência, eu
,
esse venábulo, porque o mundo e meus
43
t
mentos permaneceriam inalterados. Aceitaria, porém, o pro-
cesso de esvaziamento cerebral sugerido por Krishnamurtí, a
fim de que meu raciocínio fosse igualado ao daqueles
por sua ignorância, podem a felicidade.
os mitos ocupar em meu cérebro o es-
paço atualmente entulhado de prevenções, eu concordaria em
rejuvenescer. Mas, para ultimar esse acordo, estabeleceria a
condição de ser imunizado contra o vício de perquirir e inter-
pretar. Somente protegido pela ignorância e sem risco de per-
der esse escudo eu poderia aceitar o prolongamento de mi-
nha vida. Se a vontade, como Schopenhauer lecionou, é uma
força cega e imutável, o mesmo não ocorre com a representa-
ção. Como um calidoscópio, a representação produz imagens
múltiplas e coloridas. o cérebro isento
, no amor,
eem
nova uma sucessão eventos em-
polgantes, capazes de compensar as tristezas da atual.
Mas, se Deus existisse e fosse justo, como propalam
seus idólatras, o melhor seria a morte imediata, porque, sem
dúvida, eu seria hospedado em uma suíte do paraíso. De fato,
fazendo um inventário de minha vida, verifico que meu crédito
justifica um processo de beatificação. Em minha atividade pro-
fissional impedi que muitas famílias fossem arruinadas ou des-
truídas e consegui devolver inúmeros braços ao trabalho. Im-
pedi, em muitos casos, o triunfo da iniqüidade. Embora não fi-
zesse milagres, como, aliás, nenhum santo fez, espalhei bene-
fícios por toda parte. Quanto à justiça terrena, se algum tribu-
nal me julgasse culpado, eu teria o direito de proceder como
Sócrates que, intimado a optar pela pena de morte ou a de
multa, assim respondeu a seus julgadores: "Considerando mt-
nha idade, minha pobreza e os serviços que já prestei, quero
ser condenado a comer de graça no Pritaneu, pelo resto de
minha vida".
44
Emenda, dispõe que em os pro-
cessos Criminais o tem direito a um julgamento público
e rápido, por um Júri imparcial, no distrito onde o crime ocorreu.
A Constituição do Império do Brasil (1824) estabele-
ceu que o Poder Judiciário composto de juízes e jura-
dos, mas confiou à lei ordinária a delimitação de sua compe-
tência. A Constituição (1891) restringiu-se a
manter a instituição 1934 também manteve o
Júri "com a que a lei lhe der". A
de 1 determinar que fos-
votações,
ceu J nos crimes
a vida. A 1967 manteve o Júri, sua sobera-
nia e competência. No mesmo sentido a Emenda n°1, de 1969.
Finalmente, a atual a de 1946. .
O Júri brasileiro diverge imensamente do
Nos Unidos, todos os crimes de sua
cia. O processo é instruído perante os jurados. O
rio do réu e a inquirição das testemunhas procedidos dlre-
45
t .
tamente pelas partes. Os jurados não respondem a quesitos.
Decidem apenas se o réu é culpado ou inocente. Se o réu
quiser renunciar ao direito de ser julgado pelo Júri, basta ante-
cipar-se ao veredicto, confessando a sua culpa, em audiência
prévia. Somente nesse caso é que será julgado pelo juiz. Não
há incomunicabilidade entre os jurados e não se deci-
são por maioria. Na velha Inglaterra, o rei Alfredo mandou
enforcar o juiz Cadwíne que impôs a pena capital a um réu
condenado por maioria de votos e não por unanimidade.
Em nosso Pa , o Júri só tem competência para jul-
gar os crimes dolosos contra a vida, que são, grosso modo, os
praticados voluntariamente. Ademais, só lhe compete julgar o
homicídio, o infanticídio, a indução, a instigação ou o auxílio
ao suicídio, e o aborto. Os outros crimes, ou seja, virtualmen-
te todos os previstos nas penais, do
juiz singular. do
se
Júri e é
As testemunhas inquiridas através do juízo Os jurados res-
pondem a quesitos relativos às teses apresentadas pela acu-
sação e pela defesa. O Júri, entre nós, só assiste aos deba-
tes, embora possa inquirir as testemunhas que eventualmen-
te sejam convocadas.
Em defesa do Tribunal do Júri, sempre ameaçado de
extinção em épocas de tirania, Ruy assim alertou: "Sentido,
senhores. Quando o tribunal popular cair, é a parede mestra
da que ruirá. Pela brecha hiante varará o tropel desa-
tinado, e os mais altos tribunais vacilarão no trono de sUa
superioridade". Só os países do terceiro mundo admitem o
juiz singular, com poderes de decidir sobre crimes graves. Nas
nações realmente democráticas, o juiz togado apenas instrui
processos e só julga contravenções e delitos menores. Os cri-
mes mais graves são de competência do Tribunal do Júri. Aqui,
o juiz singular pode, sem assistência alguma, irrogar penas
de até trinta anos de reclusão, ou prender o réu a pretexto de
conveniências da instrução, da ordem pública, ou da e
eventual aplicação da lei, mantendo-o "provisoriamente" en-
por tempo indefinido.
46
A Constituição dos Estados Unidos, em sua Quinta
Emenda, dispõe que ninguém será julgado uma vez
pelo mesmo crime. No Brasil, a.
a soberania dos veredictos, a lei ordlnana admite que o reu
seja julgado duas vezes pelo mesmo Sendo essa norma
evidentemente inconstitucional, é obvIo que a do
Júri vem sendo usurpada pelos tribunais togados. De tudo,
porém, que nos humilha em o
lamentável é a sobrevivência do JUIZ singular, com o Inadmis-
sível poder de julgar crimes gravíssimos e aplicar penas equi-
valentes ao confisco de vidas humanas. . .
Por isso, em meu livro "O Criminalista" ,diz o mestre
ao aluno: "Um povo que permite a um indivíduo julgar a
e condená-lo até mesmo a uma pena de trinta anos de pnsao,
demonstra claramente seu hu-
é
o
a ser pelo Júri,
com recurso a outros tribunais. Um homem armado com a lei
penal, se for desonesto ou prepotente, é mais perigoso do
que uma quadrilha de malfeitores".
47
As artes plásticas ou visuais e ou audi-
tivas. As plásticas são a pintura, a escultura e a arquitetura. As
fonéticas são a música e a literatura. A oratória é ramo da
literatura e em eloqüência e retórica. A eloqüência
convencer. A
sável à ascensão social. Todos os que se distingui-
ram naquela época eram oradores admiráveis. Por toda parte
havia escolas de oratória. E os fazedores de discursos, os
logógrafos, eram mais prestigiados do que os fantasmas que
redigem para os demagogos atuais.
Todos os indíviduos, exceto os mudos, são oradores
em potencial. Basta que tenham razoável cultura, persistên-
cia e determinação. Demóstenes era inculto, gago, e tinha voz
fraca, antes de iniciar a carreira que o tornaria o maior dos
oradores gregos. Para não sair de casa e ficar estudando, ras-
pava a cabeça e fazia a barba pela metade. Para corrigir a
gagueira e a insuficiência vocal, colocava pedrinhas na boca
e discursava nas praias, tentando suplantar com a voz o baru-
lho das ondas. Aprende-se a falar em público como se apren-
de a representar no teatro, na televisão e no cinema. O pró-
prio Demóstenes, vaiado em suas primeiras apresentações,
foi depois instruído pelo ator Sátiro, que lhe ensinou a mímica
teatral e a usar devidamente as cordas vocais.
Ainda que a oratória, na Grécia e em Roma, fosse
uma arma temível nos confrontos políticos, como provam a
"Oração da Coroa", de Demóstenes contra Felipe, e as "Cati-
49
de. contra Catilina, a arte de falar em público
estava tao difundida que os contemporâneos a encaravam com
espirito esp?rtívo. Ésquines, por exemplo, intentou querela
contra Demostenes e acabou banido. Exilou-se em Rhodes
onde fundou uma escola de oratória. Numa de suas aulas:
empc:lgou os alunos recitando o discurso proferira contra
.os discípulos alegaram que, com tal
acusaçao, ele nao podia ter perdido a causa, o mestre argu-
que eles assim falavam porque ouviram o leão
rugindo. Consta, aliás, que Demóstenes sempre lhe enviava
algum numerário para auxiliá-lo em sua manutenção.
Cícero, o mais famoso orador romano, era de família
abastada e estudou com os melhores professores. Em Rho-
des: foi aluno de Apolônio de Mólon que, quando de sua des-
pedIda, confessou que chorava porque C iria
a da , última Cí-
ser, ao mesmo
seus a ver-
. mentir. como Demóstenes, redigia os pró-
pnos discursos e os decorava integralmente. Outros, porém,
para os redatores. Isócrates, renomado logógrafo,
Justificando o fato de não ser também, como seus clientes um
bom orad?r, dizia de si mesmo que era como a pedra de ;mo-
lar, que nao corta, mas serve para afiar muitas lâminas.
. Ce:ta feita, quando Demóstenes discursava, um dos
ouvIntes o Interrompeu dizendo que seus discursos cheira-
vam a de lamparina, com isso insinuando que ele pas-
sava as nOItes decorando os textos. Demóstenes respondeu
que preparava seus discursos porque prezava o povo de Ate-
nas, e que se a lamparina do aparteante não testemunhava
seus esforços, deveria assistir a cenas escabrosas. A célebre
de Milon, escrita por Cícero, não foi pronunciada. Co-
agido pelo militar montado por Pompeu no dia do jul-
gamento, Clcero acovardou-se, falou de improviso e Milon foi
banido. Posteriormente, em Marselha, respondendo a Cícero
que lhe enviara uma cópia do discurso Milon
dizendo-lhe que se aquela defesa '
não condenado.
50
A memorização dos discursos é necessária, porque
ninguém pode improvisar com êxito na oratória. Para Henri
Robefi, a nascente não brota sem que o orador haja previa-
mente acumulado uma riqueza de vocabulário; idéias e ima-
gens, que saca da memória quando discursa. Para a im-
é o resultado um trabalho acumula-
ção. Por isso, dizia Mark Twain que, em média, gastava três
semanas para preparar um improviso. Grandes oradores como
Cremieux e Ferri, decoravam seus discursos passeando, o
primeiro pelas margens do Sena e o segundo pelas do Arno. A
arte e a ciência não têm caminhos para príncipes. Gênio é
trabalho ou, como disse Edison, um por cento de inspiração e
noventa e nove por cento de transpiração. Para Andrew Car-
negie, o preço da perfeição é a prática constante.
O fator, porém, que contra os que pre-
e nas discus-
uma , para
a cura dessa deficiência é desprezar o auditório. Consta que
famoso ator, vítima dessa inibição, costumava chegar ao tea-
tro lamentando-se da triste sina de ter de representar perante
uma platéia composta de analfabetos, absolutamente
zes de valorizar a sua arte. Só entrava no palco quando Ja
estava totalmente convencido da ignorância dos espectado-
res. O melhor exemplo, todavia, dessa postura, é o de Fócion,
que, em Atenas, ao ser estrepitosamente aplaudido quando
discursava em um comício, perguntou a um de seus assesso-
res: "Terei dito uma tolice?"
51
Como tudo que existe, o crime não tem geração es-
pontânea. É uma doença do corpo social, como as que agri-
dem o corpo humano. Mais do que ao criminalista, compete
ao psiquiatra o estudo das causas endógenas do crime. As
por-
concorrem
a a
rural , a televisão, o lixo cultural importado, a
riqueza, o consumismo, a procriação irresponsável, a igno-
rância, o uso das drogas e o abuso do álcool, a ociosidade, a
desconfiança na justiça, a falta de policiamento, a impunidade
e a contaminação carcerária.
Embora cada um desse fatores possa ensejar muitas
monografias, é fácil explicar, em poucas palavras, a trágica
influência que eles exercem. Quanto à corrupção política, é
,/
certo que todo povo tem o Governo que merece. Mas a con-
duta dos políticos influencia a do povo, que, quando a impro-
bidade éa regra, tende a seguir o exemplo dos governantes.
A inversão de valores, fonte de frustração e revolta, é causa,
até mesmo , de atos de terrorismo. A invasão das cidades
pelos egressos do campo vem criando bolsões de pobreza
onde proliferam, em razão do desemprego ou dos salários de
fome, os agentes do narcotráfico e os réus de latrocínio.
A televisão, com seu noticiário escandaloso, sua la-
vagem cerebral e suas infames novelas onde tudo se faz para
subverter os costumes, é talvez o fator criminológico mais
degradante da época atual. Seu ópio colorido estimula a ocio-
sidade, rouba o tempo ao trabalho, escorraça os livros, estu-
53
pidifica os pais de .família e aliena a juventude. O lixo cultural
importado, sobretudo a música e o cinema americanos, aque-
la histérica e alucinógena, e este vazio de espiritualidade, po-
rém referto de "exterminadores", "punks" , "rambos" e "robo-
cops", equivalem a um rolo que esmaga a auto-
censura e instintos
A ostentação dos ricos, com a acintosa divulgação
de seus regabofes e vagabundagens planetárias, é um convi-
te aos seqüestradores, e uma àqueles que não
tem ao apelo brutal do consumismo. Como poucos podem,
como Sócrates, visitar as lojas para ver quantas coisas exis-
tem, das quais não precisam, é claro que muitos sofrem a
influência deletéria do consumismo, e que alguns buscam a
satisfação das necessidades artificiais através de crimes con-
tra o patrimônio. A procriação
como
,a o e o con-
sumo de drogas, dispensam, como causas do crime, qualquer
esclarecimento. A desconfiança na justiça induz o lesado ou
ofendido a optar pelos recursos mais práticos do Direito Natu-
ral. Quanto à falta de policiamento e à impunidade, é óbvio
que a inoperância policial e a ineficácia dos meios repressivos
estimulam a ação predatória dos malfeitores. A contaminação
carcerária é foco de criminalidade, porque, como os tribunais
já reconhecem e proclamam, nossas prisões são escolas pri-
márias, secundárias e superiores d6 crime. A .:'Falange Ver-
melha" confirma esse entendimento.
Colaboram, portanto, na etiologia do crime, além da
própria índole do delinqüente, inúmeros fatores cuja elimina-
ção é impossível em qualquer sociedade, seja qual for o seu
estágio de civilização. O homem, por sua inteligência, é o mais
perigoso dos animais. E a vida comunitária, com seus apelos
e antagonismos, será sempre um laboratório do crime. Já di-
zia La Bruyére que: "Todo nosso mal advém de não podermos
ser sós; do jogo, do luxo, da do vinho, da sexuali-
dade, da maledicência, inveja, do
mento de nós mesmos e de
54
A história da pena, em geral, é a de sua própria abo-
lição. Não obstante, a pena de morte sempre existiu e ainda
sobrevive em muitos países. Jesus vaticinou (Mateus, 26.52)
que morreria pela espada quem com a espada matasse. Para
Jerônimo, Agostinho e Tomás de Aquino, a aplicação da pena
capital médico que, salvar o nis-
mo,
um se o ao ao me-
nos por parte da justiça, o que ele fe'z à sua vítima jamais fhe
acontecerá. Esgrimem também com a clássica advertência de
Alphonse Karr aos assassinos, no sentido de que, se dese-
jam a abolição da pena capital, devem deixar de aplicá-Ia em
suas vítimas. Entendem ainda que a audácia dos maus não
deve exceder à coragem dos bons. Ademais, impedindo que
os assassinos voltem a matar, a pena de morte seria, na rea-
lidade, um autêntico salva-vidas.
Os antagonistas pretendem que a pena de morte é
ineficaz, porque nos países onde foi abolida não teria havido
aumento da criminalidade. Dizem que a vida humana é obra
de Deus e que só a ele cabe extingui-Ia. Argumentam que o
espetácuio da aplicação da pena capital concorre para em-
brutecer a sociedade. Ponderam também que a execução do
condenado torna impossível a reparação de eventual erro ju-
diciário. Os que não acreditam na justiça afirmam, com c o ~ ­
vicção alarmante, que, se houvesse pena de morte no BraSil,
só os desvalidos
, esses argumentos, favoráveis
morte, que podem ser refutados com
55
outros não menos convincentes, o fato é que ignoram o Direi-
to Penal aqueles que pretendem agravar as penas em função
exclusiva da natureza dos delitos. Desde o advento da
que a
retribuição do mal pelo mal foi, há muito, substituído pelo de
""'Toe,,,, contra a periculosidade do delinqüente. O crime é uma
periculosidade e um indício que o criminoso
repetirá sua maléfica. A portanto, destina-se a inter-
romper a aíividade criminosa e a reeducar o de1tflqüente.
O criminoso não é segregado pelo que fez, mas por-
que sua liberdade é um risco social. Se houvesse certeza de
que ele hão voltaria a delinqüir, sua prisão seria inútil. A gravi-
do um sintoma
a Em suma,
o que importa na avaliação da pena aplicável é a personalida-
de do delinqüente e não o crime cometido.
A pena de morte, se aqui fosse legalizada, deveria
destinar-se aos profissionais do homicídio. Aos pistoleiros,
aos sicários, àqueles que, mediante.paga, extinguem vidas
humanas. Não deveria, jamais, alcançar o delínqüente primá-
rio, mesmo haja cometido um daqueles crimes que a
cegueira jurídica de nossos legisladores classificou como he-
diondos. A espécie criminal é secundária, acessória, adiáfora.
Basta ver que o mais grave de todos os crimes, ou seja, o
matricídio, pode ser cometido até mesmo por piedade, como
ocorre na eutanásia. Não há crime hediondo. Existem, sim,
legisladores, leis e criminosos hediondos.
No Brasil, todavia, a discussão em torno da pena de
morte é um devaneio. Uma abstração da realidade ontológi-
ca. Uma incursão pueril no mundo encantado do faz-de-con-
ta. Isto porque, sem lei e sem entraves processuais, a pena
de morte vem sendo aplicada em todos os recantos do País,
por policiais, sicários e justiceiros. Na Baixada Fluminense,
por exemplo, mata-se mais do que se matou na Guerra do
56
Golfo. A função da lei penal é amparar a norma de cultura. Se
esta, porém, aprova que se justiça pelas m.?os
se a sociedade consegue conviver com tal sistema, nao ha
necessidade alguma de legalização da pena de morte.
a a
a
57
EVER DO ADVOGADO
Respondendo à consulta de um criminalista que in-
dagava se devia aceitar o patrocínio da defesa de um adver-
sário político, acusado de homicídio, escreveu Ruy Barbosa
uma carta magistral, onde sustentou que: "Ante a deontologia
forense não há acusado, embora o fulmine a mais terrível das
o acabrunhem, que
Quanto ao
88, que:
autoridade, nem de incorrer em impopularidade, deterá o
advogado no cumprimento de suas tarefas e deveres H. Ainda
hoje, entretanto, há quem não entenda por que os advogados
assumem, sem constrangimento, a defesa de acusados que a
opinião pública já condenou antecipadamente.
O criminalista, todavia, não pode preocupar-se com a
sociedade, porque só tem deveres para com seus patrocina-
dos. Do c o n t r ~ o , a defesa criminal só seria admissível quando
os interesses do réu não colidissem com os da comuna, e isto
só ocorre quando ele é inocente. Nada podendo esperar da
coletívidade, porque com ela se acha, como representante dos
réus, em conflito permanente, não deve o criminalista afligir-se
com o que dele pensem, nem temer a impopularidade. Se
agir de outro modo, estará servindo a dois senhores e sacrifica-
rá forçosamente um em favor do outro. o criminalista neces-
sitar de motivação filosófica, bastará lembrar-se de que, segun-
do Hegel, toda sociedade é a síntese de seus próprios antago-
Quem a afronta concorre aperfeiçoá-Ia.
argüiu lachaud em sua Trop-
pmann, abominável que trucidara uma família in-
59
teira (o casal, um adolescente de dezesseis anos, e quatro
meninos, o mais velho de treze e uma criancinha de dois), os
que "confundem,
e
bam por querer que se
com tantas vítimas, aca-
, de
mesmo ocorre
não indig-
no tratamento. Ninguém ousaria censurar um médico que
socorresse, com sua ciência, o pior dos criminosos. Não é
função do médico, nem do advogado, facilitar a eliminação
dos inimigos públicos.
um
, sem a este lícito a
texto de constituir um risco social a liberdade daquele que o
chamou. Para o criminalista não há culpado nem inocente.
Apenas alguém que caiu ou está prestes a cair nas malhas da
justiça. O advogado que julga o réu, usurpa as atribuições do
juiz e do tribunal. Evidencia alarmante ignorância de sua mis-
são e estorva a dialética, evertendo o sistema racional de in-
dagação da verdade, onde a acusação é a tese, a defesa a
antítese e o juízo a-síntese.
O criminalista não tem direito de sentir aversão algu-
ma pelo acusado, seja qual for o crime por ele cometido. O
repúdio à causa em razão exclusiva da gravidade do delito é
prova de cegueira jurídica, pusilanimidade e hipocrisia. Porque
os sãos não precisam de médico e sim os doentes, Jesus não
veio cuidar de justos e sim de pecadores. Simples cireneu, o
criminalista apenas ajuda o acusado a carregar a sua cruz. Se
o médico não pode, sequer na véspera da execução, recusar
tratamento ao condenado à pena de morte, não pode também
o advogado, a pretexto algum, descumprir sua missão. O de-
fensor é a voz do acusado. A ele cumpre fazer o que o próprio
réu faria, se estivesse habifitado a defender-se. E quanto mais
60
grave for o crime - disse Ruy - mais necessita o acusado de
assistência e defesa.
A recusa patrocínio em
meou da
da natureza do cri-
constitui imperdoá-
vel socorro. , a
confissão do acusado, porque seu dever é defendê-lo em qual-
quer circunstância. Para tanto, basta-lhe indagar quais os
tos ou que podem ser utilizados
, assegurar justiça ao povo, o Estado não
necessita do ou da omissão dos advogados. Muito
menos ainda, da traição daqueles a quem os acusados confi-
aram seu destino. Polvo gigantesco, o Estado possui tentácu-
los poderosos, capazes de sugar dos réus até mesmo o âni-
ao com e com-
os
corno
absoluto direito de com se a
ainda quando a condenação seja inevitável, há sempre ~ q ~ e
fazer em defesa do acusado. Além de velar pela observancla
do devido processo legal, cabe ao advogado denuncia.r con-
trafações, impugnar o falso testemunho e as provas I I ~ g a ~ ­
mente obtidas, bem como apurar e expor a eventual contrIbUI-
ção da vítima para o delito, e recorrer, quando a pena exceda
os limites razoáveis. Consciente da indispensabilidade de
sua função, uma vez que sem defensor não pode haver pro-
cesso, o criminalista deve ignorar a opinião pública, mormen-
te porque, hoje em dia, ela já não é pública e nem mesmo
opinião. É apenas o que a mídia impinge.
61
o JUDICIÁRIO
Na história da criminalidade, os erros mais famosos
foram os consumados no "Caso do Correio de Lyon" e no "Caso
Dreyfus", ocorridos na França, em 1796 e 1894, respectiva-
mente. No primeiro, o comerciante Lesurques foi reconheci-
do por oito testemunhas como o chefe dos ladrões que assal-
uma diligência, matando o
vultosa
o e
durante () assalto, usara uma peruca loura, igual à cabeleira
natural de Lesurques, com quem fora confundido. Após a re-
tratação das testemunhas, Dubosq também foi executado.
No outro, que provocou acirrados debates em vários
países, tendo sido Ruy Barbosa um dos primeiros a censurar
o julgado, o Capitão Dreyfus, do Exército Francês, foi conde-
nado à degradação militar e à prisão perpétua na Ilha do Dia-
bo, sob a acusação de haver fornecido documentos militares
a uma potência estrangeira. No caso, a prova era uma carta ./
que os peritos atestaram haver sido grafada pelo punho do
acusado. Posteriormente, comprovou-se que o documento fora
escrito pelo Capitão Esterhazy, que acabou ficando impune,
porque o tribunal militar jamais reconheceu o erro. Este caso
motivou a célebre campanha de Zola, que concorreu para a
cassação da sentença por um tribunal civil.
Embora não mereça perdão a impenitência do tribu-
nal militar, que, no "Caso Dreyfus", perseverou na injustiça, o
fato é como no "Caso do Correio de Lyon", o erro
judiciário foi determinado pela prova e não incapacidade
dos ju No primeiro, a prova testemunhal era esmagadora
63
e no outro a perícia era conclusiva. Só decidindo contrÇl a pro-
va é que se poderia, antes da retratação das testemunhas e
da invalidação perícia, absolver os O erro judiciá-
rio é produto muitos a começar pelo inquérito
que, um
prova e conduzir o em qualquer isso,
na maioria dos casos, quem condena ou absolve é a polícia.
Mas, o erro judiciário vírtu-
Às vezes, somente errando é poss justiça. Isto
ocorre, por exemplo, quando os autos foram forjados, com as
provas ajustadas para induzirem o juiz a uma decisão iníqua,
única e inevitável, e este, sem se render ao clamor das pro-
vas, pois soube resistir à tentação de ler o processo, conse-
proferir uma C',",'"TC.'''''''
ração da ignorância, quando somente o erro autêntico pode
impedir ou reparar uma injustiça. Na ciência jurídica, como em
tudo o mais, não se deve colaboração alguma. Nem
mesmo a de um imbecil. Como dizia Churchill, uma das gran-
é que, vezes, os certos.
Nada ilustra melhor as vantagens uma justiça re-
lativa do que a anedota - creditada à imaginação de Rabelais
_ do juiz que ao sentenciar substituía o o código e a
jurisprudência por uma onde guardava feijões pretos e
marrons, em igual quantidade. Conforme a cor do feijão que
retirava da sacola, absolvia ou condenava. E as sentenças
eram exatíssimas. Somente no fim da vida suas decisões tor-
naram-se absurdas e começaram a ser reformadas. Isso por-
que, com a velhice e o enfraquecimento da ele já não
a GAUCU
65
o CRIME PASSIONAL
A paixão é uma emoção que perdura. É um estado
psico-morboso, uma força anímica incoercível, uma energia
sentimental incontrolável, uma irreprimível monomania afeti-
va. Kant comparou a emoção à enxurrada que desmorona um
dique e a paixão à torrente que mina seus alicerces. Como
Proteu e Vixnu, os deuses caràs, as paixões, quan-
to ao seu podem ser quantos os sentimen-
manos: m
(Shylock),
vin), etc. Portanto, matar por fanatismo religioso, partidário ou
clubista, é também crime passional. Obviamente, as paixões
podem ser construtivas ou destrutivas. Quando se fala, po-
rém, em crime passional, pensa-se logo no homicídio por pai-
xão amorosa.
Segundo a fórmula de Abrahamsen, o crime é direta-
mente proporcional à soma da tendência com a situação e
inversamente proporcional à resistência do indivíduo. Quando
a tendência predomina, é a situação que o produz. No crime
passional, a tendência prepondera, porque a paixão, além de
reforçá-Ia, debilita a resistência e cria situações favoráveis à
eclosão de atos desvairados. Por outro lado, o motivo deter-
minante de um crime é o antecedente psíquico da ação, a
força interna que transforma a vontade em ato, ou, como o
define Schopenhauer, a causalidade vista do interior. No ho-
micídio passional, o motivo é a própria paixão que, hipertrofian- .
do as forças impelentes e debilitando as frenadoras, desequi-
libra o psiquismo do indivíduo e o precipita no delito.
Como uma arma engatilhada, o passional dispara ao
mais leve atrito. Os fatores todavia, não devem ser
67
confundidos com o motivo determinante, porque este é endó-
geno e reside na própria passionalidade do indivíduo. Nenhum
I, no mundo culto,
a
psiquiátrica, o imuniza contra as
dimana autocen-
sura, de perda irreparável, em suma, do remorso
provocado pela morte da vítima.
Como tudo influi no com
remotas, a
a bucólica e a literatura sentimental, concorriam
poderosamente para sublimar as vinculações amorosas. Hoje,
entretanto, na era da tecnologia, da televisão, dos amores
descartáveis, das relações sem compromisso, o crime passio-
nal está, cada vez mais, desaparecendo. Se o medo da A ~ d s
não ressuscitar os poetas e o romantismo, o crime passional
só será encontrado, doravante, nos museus de criminologia.
Com a revolução dos costumes, a falência dos valo-
res tradicionais, a permissividade e a massificação, é claro
que o crime passional, cujos fundamentos são a auto-estima
e o culto da personalidade, tende a desaparecer. Em vez do
crime motivado por injunções espirituais, teremos somente o
crime util . O ânimo de lucro é o princípio e o fim na soci-
edade consumista, que pode perder tempo com questões
de honra, sentimentos e preconceitos O amor atual não con-
duz à tragédia. Quando o marido moderno, avançado, pro-
g , encontra um rival em sua cama, não cerra os pu-
nhos, brande o punhal ou saca o revólver. Limita-se a inquirir,
como o Conde de Artois, em situação análoga: "Como, se-
nhor, sem a isso estar obrigado?!" Aliás, os franceses não
ciúmes de suas esposas. das amantes.
68
Hoje, quando o romantismo já desapareceu até mes-
mo literatura, quando a poesia perdeu a rima e a música a
harmonia, quando as homem e mulher são es-
piritualmente ' o crime
é um a
Tribunal do Júri. Mellusi ("Do amor ao delito") e ("O
micídio-suicídio"), relembram muitas tragédias motivadas pelo
amor. I Y em o mesmo
muto o amor"),
sentimento afetivo. Atualmente,
homens e o machismo mui o crime
sua raridade, não interessa ao criminalista.
queólogos.
69
o SUIcíDIO
o nosso Código Penal não incrimina o suicídio. Pune
apenas quem induz, instiga ou auxilia alguém a suicidar-se.
Entretanto, o suicídio já foi crime, punido com o confisco dos
bens do morto, a degradação e o sepultamento em estrada
pública. O cadáver do autocida era atravessado por um pau ou
suspenso pelos pés e arrastado pelas ruas com o rosto voltado
velha infame,
os
fossem postos na cruz e abandonados às aves de rapina. Na
Idade Média, o Direito Canônico equiparou o suicídio ao homi-
cídio, passando então, os juízes, a processar cadáveres.
Exaltando o martírio a ponto de considerá-lo como
um passaporte para o reino dos céus, o Cristianismo, em seus
primórdios, não reprovava o suicídio. Somente no Século IV,
através de Agostinho, foi que a Igreja começou a pregar contra
o suicídio, incluindo-o no preceito: "não matarás". Nos Concí-
lios de Arles (452), Orleans (533), Praga (563) e Toledo (693), a
Igreja costurou sua doutrina oposta ao suicídio, inclusive reedi-
tando as sanções abomináveis do direito primitivo. Estribando-
se na fábula do suicídio de Judas, que, segundo Renan ("Ori-
gens do Cristianismo"), os fatos não confirmam, a Igreja pas-
sou a estigmatizar o suicida como uma sentinela que abandona
o posto e, conseqüentemente, como um covarde e traidor.
Enquanto era frágil e perseguida, a Igreja estimulou
o martírio. Quando, porém, superou a fase de seita subversi-
va e assumiu o poder, adotou uma ideologia domi-
nante, a combater. as incredulídade ou
ateísmo, e concebendo o suicídio como uma demonstração
71
, os toda os SUICI-
dios por motivação amorosa estão rareando, mas ainda ocor-
rem. Em compensação, há quem se suicide até por brincadei-
ra, como no caso da roleta russa.
Sócrates e Jesus foram suicidas indiretos. O primei-
ro, após condenado a sofrer, entre as penas cominadas, a
que ele mesmo escolhesse, afrontou os juízes ao declarar que
desejava, pelo resto da vida, ser alimentado no Pritaneu, res-
taucante do Estado, onde hóspedes oficiais e outros privilegi-
ados comiam de graça. Por isso, impuseram-lhe a cicuta.
Quanto a 'Jesus (João 10.17 e 18), é eloqüente sua assertiva
de que daria a vida para tornar a tomá-Ia e que ninguém a
tiraria, senão ele mesmo. Certo de que seria crucificado, che-
gou a pedir ao Pai (Mateus 26,39) que afastasse o cálice de
amargura. Como Filho de Deus, ele tudo antevia. Como Filho
do Homem, não podia ignorar que sua pregação revolucioná-
ria equivalia a um autocídio.
Os animais também se suicidam. Os lemingues, por
exemplo, que habitam as montanhas da Noruega, merecem
respeito, admiração e reverências. Eles são mamíferos roedo-
res, do tamanho de um rato, cauda curta, quase sem ore-
72
lhas, unhas típicas dos escavadores, pêlo
preta. Nutrem-se de musgo, ervas e liquens. Tem otlma prevI-
são do tempo atmosférico e emigram conforme as
-Mas procriam com irresponsabilidade. Quando as colô-
se tornam populosas e há escassez
alimentos, os lemingues reúnem-se em legiões abnegadas que
descem para as praias e precipitam-se nos mares. essa
ação altruísta, consegttem manter o equilíbrio entre o ahmentQ
restante e os consumidores que permanecem nas montanhas.
Na conjuntura atual, quando o brasileiro não pode
mais acreditar em coisa alguma, e muito menos ainda no al-
truísmo dos lemingues políticos, marajás e empreiteiros, por-
que estes, de barriga cheia, jamais se atirarão nos
o suicídio é uma questao maxl-
caras
brasileiros uma psicológica para o suicíd
voo Depois do Plano Funaro, do Plano Collor e desse .último
com que se pretende debelar a inflação estimulando as
tações, promovendo o desemprego e aumentando o defiCit
público, só através do suicídio será possível escapar do flage-
lo que nos aguarda.
73
A FOME EA LEI
o iate "La Mignonnete", tripulado pelo capitão Dud-
ley, o piloto Stephens, o marinheiro Brooks e o grumete Par-
ker (de dezessete anos), navegava de Southampton à Austra-
lia, quando, no dia 15 de julho de 1884, naufragou a 1600
milhas do Cabo da Boa Esperança, refugiando-se os tripulan-
tes em um bote. Após dezoito dias à deriva, acossados pela
fome, o capitão e o piloto mataram o
gio, os e
Inglaterra. O Tribunal de Londres condenou Dudley e
à morte e impôs pena mais branda ao marinheiro Brooks, que
também comera do cadáver, mas não participara do homicí-
dio. A Rainha, porém, comutou para seis meses de prisão a
pena de morte.
Em 1888, numa região da Sibéria, Procópio Kalenine
estabelecera um acampamento à margem de um riacho, jun-
tamente com seus irmãos Nikita, Davi e Maria, esta uma me-
nina de onze anos de idade. Durante algum témpo, consegui-
ram viver do produto da pesca, que, entretanto, com a chega-
da do inverno e o congelamento do riacho, veio a faltar com-
pletamente. Davi saiu a procura de um lugar mais favorável,
deixando os outros no acampamento. Sentindo-se morrer de
fome, Procópio matou a irmãzinha, comendo-lhe as carnes,
em companhia dê Nikita. Salvos mais tarde, Procópio confes-
sou o fato e foi condenado a treze anos e meio de trabalhos
forçados. Nikita foi absolvido porque não participara do fratri-
cídio, embora houvesse também se alimentado com a carne
da irmã sacrificada.
Júlio ("De Bello Gallíco"), comenta que os gau-
75
leses preferiam recorrer ao canibalismo a ceder ao cerco dos
romanos. Giuseppe FlávIo ("Guerra Degli Ebrel'), relata que
durante o cerco de por Tito, uma judia matou e co-
meu um filho. França; a partir 1030, houve uma
o homem e os meni-
nos, carne era O canibalismo, que,
início, parecera abominável, integrou-se aos costumes. Uma
mulher rica habitualmente de carne humana. Um
comerciante acumulou gr;ande quantidade dessa iguaria que
salgou para vender.
em
o filho, a
o , e ao outra
soa, temendo ser assassinado e comido. Em lugares como
Mainz o povo saqueava os cemitérios, violava as tumbas es-
calava patíbulos e levavá 'Os mortos para comê-los. ar-
redores de Coburgo bandos de assassinos que mo-
ravam em cavernas e casas abandonadas, de onde saíam
para matar e comer semelhantes. Em Landau, nessa
época (1634 a 1638), também se roubavam cadáveres das
fossas para comê-los. Uma mulher matou o própno filho, o
salgou e o deglutiu com avidez.
Relata Ferri CEI Homicida") que os selvagens austra-
lianos, quando famintos, chegavam a desenterrar cadáveres
para comê-los. "Depois cte dias de sepultura - diziam a
um missionário - um cad?ver é ainda um alimento possível".
Quando faltavam cadávéres, matavam uma mulher ou um
menino que esquartejavám e comiam. Cunningham encon-
trou um pescoço humano um saco de um dos australianos
que o seguiam. Em Taiti, chamava-se de "estação para comer
gente" o. de falta de alimentos. Nas Ilhas Fídji, um
eXIbIa os ossos de centenas de vítimas humanas que o
paI devorara no curso de sua vida. Sturt conta que viu um
76
australiano esmagar com uma pedra a cabeça de um filho
enfermo e o devorar, depois de assado. Também ali as mulhe-
res comiam freqüentemente os filhos mortos.
Quanto ao Direito, que na índia as Leis
Manu o matasse um seme-
lhante nutrir-se com seu cadáver. Na , as
das" justificavam o guardião do castelo que, para não se ren-
der pela fome ao cerco do inimigo, comesse o próprio filho.
Atualmente, em todos os povos cultos, entende-se que a ne-
cessidade dispensa a lei. O nosso Código Penal dispõe que
não há crime quando o agente pratica o fato para salvar de
perigo atual, que não provocou por sua nem
de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cUJo sacnflclo,
. Portanto, por
o mesrno ao
Mas, como a dor, que a doença, a é a .
que nos previne contra a inanição e a morte.
consigam comer o pão com o suor do rosto alheio, o fato e
que,sem a fome, a preguiça inutilizaria a humanida.de.
ou o medo da fome é que extrai do homem a sua mdqlencla,
transformando-o em um trabalhador infatigável. A fome é a
própria vida a exigir nutrição. Por isso, quando não é atendi-
da, expulsa os sentimentos de humanidade, deixando prepon-
derar os instintos ferozes que coagem o homem a comer seus
semelhantes, inclusive os próprios filhos. Este, porém, é o preço
que ela cobra pelo estímulo e pelas energias que fornece, para
livrá-lo da ociosidade.
77
o CASO COLLOR
A Constituição Federal, em seu artigo 85, parágrafo
único, dispõe que os crimes de responsabilidade do Presiden-
te da República: "serão definidos em lei especial, que estabe-
lecerá as normas de processo e julgamento". Transcorridos
mais de'"quatro anos da data em que foi promulgada a Consti-
tuição (5/10/1988), o Congresso Nacional não se dignou de
elaborar essa lei que os
as normas
data, atravessa o uma ou
de vácuo legislativo, de ausência de lei, substantiva ou pro-
cessual, no que tange aos crimes de responsabilidade do Pre-
sidente da República.
Durante esses quatro anos, nossos representantes
no Congresso Nacional visitaram muitos países, discursaram
bastante, participaram de incontáveis tertúlias e banquetes,
ficando, por falta de tempo, impossibilitados de proceder como
os Pais da República, que, obedecendo ao artigo 54, da Cons-
tituição de 1891, logo produziram a Lei nO 30, de 8/1/1892,
sobre os crimes de responsabilidade, hoje apenas aludidos
em norma programática, cuja eficácia depende de complemen-
tação legislativa. Portanto, não havendo lei posterior à Consti-
tuição de 1988, que defina os crimes de responsabilidade do
Presidente da República e estabeleça as normas do respecti-
vo processo, é claro que não se pode, juridicamente, vindicar
o impeachment.
A Lei 1079 de 10/4/1950, com a qual se pretende su-
prir a do Congresso, foi evidentemente revogada pela
Constituição, porque já quando preceituou que os
crimes responsabilidade do da República: "se-
79
rão definidos em lei especial, que estabelecerá, as normas
do processo e julgamento". Para a sobrevivência daquela lei,
a dos modo
o tempo
coonestar um
princípios nu/tum
À míngua legislação o impeachment,
ram um estranho "roteiro" com dispositivos da Canstituição,
da revogada Lei 1079, do Código de Processo Penal, dos
Regimentos Internos do Senado e da Câmara dos Deputa-
dos, e mesmo Civil, tremem
um ucasse que, sumariamente, resolvesse o assunto. Se o
caso é político, deve ser resolvido com as armas da política,
sem comprometer, com a aprovação uma mixórdia, a repu-
tação da justiça.
Quanto à hipótese de crime comum, para a qual exis-
tem leis em vigor (Código Penal e Código de Processo Penal),
convém observar que o artigo 86, parágrafo 4°, da Constitui-
ção Federal, dispõe que: "O Presidente da República, na vi-
gência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por
atos estranhos ao exercício de suas funções". Como ninguém
conseguiu, até o momento, indicar ato algum do Presidente
da República, relativo suas , de ser enqua-
drado nas leis penais, é claro que também não será juridica-
mente possível processá-lo por crime comum. Os crimes de
p.revaricação e corrupção passiva, de que tanto se fala,
como qualquer outro, a indicação dos atos que os
constituem. O de fiscal, único até eviden-
te, é estranho ao exercício da função pública.
, ' O que se imputa ao Presidente afastado é uma gota
d agua no oceano de corrupção que afoga o País. Se a devas-
80
sa a que ele foi submetido se estendesse aos Governadores e
Prefeitos, poucos escapariam à guilhotina. O Brasil é, sabida-
mente, o paraíso dos políticos e dos empreiteiros. A corrupção
está generalizada. indiciá-Ia, basta ver que o dinheiro
nas à
soma dos proventos legais de todos os pleiteados, e
que os governantes, de modo geral, não se preocupam com o
reajuste de seus vencimentos, quase aos
de funcionários subalternos. Há, como Ruy, nesses
os submarinos, esqualos de engolir, com uma golfa-
da só, um fornecimento inteiro. Do contrário, , não se en-
tenderia por que um país tão rico vive na miséria.
O débito imperdoável de Collor não é o que se apu-
da e a desmoralização
pelo
ou
tes o cidadão seu dinheiro no
bancos para não ser roubado pelo Governo. Naquele ato
é que o Presidente deveria ter sido afastado, como
com a Ministra inglesa que queria aumentar impostos. E nao
se alegue que o dinheiro dos investidores, poupadores e cor-
rentistas foi devolvido. Além da inadmissível desvalorização
dos ativos, restou a perda da credibilidade do sistema bancá-
rio, que jamais será restaurada. Ademais, nos crimes contra o
patrimônio, a devolução dá coisa não extingue a punibilidade.
81
A IA JULGAR
A pretensão de julgar é inerente ao espírito humano.
Nem mesmo Jesus, com sua advertência de que não deve-
mos julgar para não sermos julgados, conseguiu coibir essa
trágica mania. Sem que conheça a etiologia das ações e rea-
ções, sem que conheça sequer a si mesmo, o homem julga
diariamente seus . Impelido por essa tendência,
já j mesmo seres inanimados. Plutarco refere
julgar os
cesso, julgamento e condenação das coisas
homicídio. Em 480 A.C., Xerxes I, rei dos persas, mandou chi-
batear as águas revoltas do Egeu, porque haviam destruído a
ponte de embarcações por ele montada para que suas tropas
atravessassem o Helesponto, hoje estreito de Dardanelos.
No Egito, a arma utilizada na prática de homicídio era
condenada a perecer com o assassino. Em 1591,0 sino da
Igreja de. Uglitsh, na Rússia, foi condenado à proscrição por-
que dera o sinal de início de uma rebelião sufocada. Em um
vilarejo da Tcheco-Eslováquia, já neste século, uma cruz foi
condenada à fogueira, por ofensa aos sentimentos de uma
facção católica. Quanto aos animais, consta da Bíblia (Levíti-
co, 20.15 e 16), que: "Se um homem tiver comércio com um
animal, será punido de morte, e matareis também o animal.
Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir
com ele, será morta juntamente com o animal". Também no
Êxodo, 20.28-32, está prevista a lapidação do boi que chifrar
homem, mulher, ou . Até mesmo se a vítima fosse um
escravo, o boi àquela punição.
Em 1386, no burgo , na Normandia, uma
83
porca foi executada pelo carrasco, num patíbulo armado em
praça pública, porque devorara o rosto e um braço de um re-
Em um porco foi enforcado
matara um 1499,
à
1530, ainda em
Autun,
o devido , com as do con-
traditório e da ampla , foram eles patrocinados pelo
advogado Bartolomeu Chassanée, que argüiu a nulidade da
eimpugnou decreto revelia, alegando a impossibi-
lidade de comparecimento dos réus, porque faltavam pontes
de acesso ao do ju e
.A
em 1 um autos
em Portugal. Na Revolução Francesa (1789), foi
Julgado e condenado um papagaio que gritava: "Viva o Rei". A
ave acabou sendo vingada, porque seu juiz, Joseph Lébon
foi guilhotinado em 1795. Na Itália, em 1865, foi
por injúria outro papagaio, ensinado pelo dono a insultar um
Há também noticia de um outro papagaio, supliciado
na Austria porque ameaçava o regime, repetindo uma frase
subversiva. Em 1864, em Leeds, na Inglaterra, foi processado
pelo Tribunal do Júri, sendo julgado "culpado" e a seguir exe-
cutado, um galo que ferira gravemente uma crianca. Em 1894
o Tribunal de mira, nos Estados Unidos, teria processado
condenado um macaco. Em 1926, em Píckville, também nos
Estados Unidos, um cão que mordera um rapaz foi executado
na cadeira elétrica.
Dessa obsessão de julgar e punir, não escaparam os
"crimes" ocorridos entre animais. Na Pérsia, as leis de Zoro-
puniam com mutilações crescentes, em ordem à reinci-
os animais que lesionassem seus semelhantes. Na
Frederico /I condenou à morte um de seus melhores
falcoes de caça, que matara uma águia. processos, jul-
84
gamentos e condenações não são invencionice.s. São fc:tos
históricos, atestados por juristas da alta categona de Flonan,
Filangieri, Ferri, Alimena, , Manzini, Tissot,
Maurach, e Von Hippel, as do
to e a humano, no
campo da criminalidade. também chegaram à
de que entre alguns animais da mesma espécie existem os
sentimentos de nociva, da pu
e do arrependimento.
Hoje, tudo isso parece uma fábula. No futuro,
via, parecerá também inacreditável o nosso
julgar e punir. Como vaticinou o grande penahsta LUIS JI
nez de Asúa, a Criminologia absorverá o Direito Penal. As
ju
menos no
em normais. Do
conduta ou não se arriscaria a sofrer as conseqüências dolo-
rosas da repressão penal. Certamente porque não acreditava
na justiça e talvez já vislumbrasse os tempos futur?s, quando
os nosocômios substituirão os juízos criminais, fOI que Flau-
bert ironizou: "Um homem julgando outro, faria chorar de hor-
ror, se não fizesse rebentar de riso".
85
A LEI DE GRESHAM
Quando as moedas tinham valor intrínseco, isto é,
valiam pela quantidade e qualidade do ouro ou da prata em
que eram cunhadas, algumas desgastavam - se na circula-
ção, outras eram limadas por seus possuidores e outras, nas
sucessivas cunhagens, passavam a conter ouro ou prata de
inferior qualidade, embora mantivessem o mesmo valor nomi-
nal. quem e de me-
as
ção a moeda boa, cujo valor real passara a o valor de
troca. Nessa praxe, arrima-se a Lei de Gresham, segundo a
qual: "Em todo país onde circulam duas moedas, a moeda má
expulsa a boa."
Esse fenômeno, aparentemente paradoxal, não ocorre
apenas no campo das finanças. Verifica-se em quase todos
os ramos da atividade humana. Sobretudo no serviço público,
nas artes e, às vezes, até mesmo no. restrito e severo âmbito
da ciência. Nesses, porém, gexpulsão da moeda boa não re-
sulta de sua retenção ou entesouramento. É conseqüência do
poder de expansão da moeda má, que, como os gases, mo-
nopoliza o direito de preencher todos os espaços. Consoante
a lei de Boyle-Mariotte: "A densidade de um gás, a temperatu-
ra constante, está na razão direta da pressão que suporta".
Portanto, quando não é represado, não é contido, não sofre
pressão alguma, o gás expande-se por toda parte.
É o que acontece atualmente, quando a incultura já
demoliu as que continham a moeda má. No serviço
público, contemplar as figuras têm exercido
o cargo Presidente da República. É claro sempre hou-
87
ve e haverá moeda boa para ocupar todos os lugares. Mas,
com sua fúria expansionista, não sendo contida por
ou alguma, a moeda
no cer-
a política é a indústria mais
Por isso, indivíduos que
en-
é repulsivo o que acontece com a música
e a literatura. música vocal, os sopradores microfone
expulsaram a voz. orquestrada, os roqueiros baniram a
harmonia, substituindo-a por uma convulsão histérica que alu-
a
como os o nu.
Na prosa, uma tolice como "O Analista de Bagé" aproxima-se
da centésima edição. E os romances americanos, os mais
vazios do mundo, porque fogem dos teoremas como o diabo
da cruz, abarrotam as livrarias.
Na televisão, o lixo invade os melhores espaços. Os
horários mais cômodos destinam-se a novelas alienantes,
que subvertem as normas de cultura. Nelas, como verberou
o Cardeal Lucas Moreira Neves, em--1ldmirável artigo publi-
cado no "Jornal do Brasil", cultua-se a violência, o deboche,
a pornografia, o adultério, oincesto, a esperteza, o io-
nato e tudo que degrada a espécie humana. Em quase
das, os filhos afrontam os pais, cuja autoridade falece com-
pletamente. Numa delas, o pai expulsou de casa a filha que
se iniciava na prostituição, mas, quando ela prosperou nos
lupanares, passou a adorá-Ia e a viver de seus proventos.
Os filmes culturais ou de melhor qualidade só são exibidos
quando não há mais tempo para assisti-los.
Os verdadeiros músicos e cantores dificilmente apa-
recem na televisão. Em seu lugar, cercados de cocotas que
desmaiam ou fingem desmaiar (por dinheiro, sugestão ou re-
88
flexo condicionado), desfilam os fabricados pela mídia. Tudo
agora é mistificação e propaganda. Acabou-se a era dos valo-
res autênticos. Mais opressiva do que o Irmão George ou Bíg
Brother, que, na crítica Orwell aos regimes vigi-
o a
valores tradicionais e introduz na mente do povo a
sa de suas cretinices. Locutores - que falam sobre tudo, sem
entender de alguma - impõem normas conduta, in-
duzindo os vídeotas a insultar ou agredir os que discordam de
suas charlatanices.
Como se , de muitas áreas a Lei de Gresham es-
corraça Darwin e sua lei da seleção natural, bem como Nietzs-
che e sua teoria do super-homem. Mormente no serviço públi-
co, não ecoa a advertência Ruy:" competência que
se
para se distribuírern, como librés, a idos e a
rantes e nulos, a comensais e parásitos, é um valor de cultura,
um valor de produção, um valor de riqueza, que se subtrai ao
tesouro geral da humanidade. São atos de esperdício, dila pi-
dação e loucura, com cada um dos quais ninguém sabe quan-
to vai perder a nação e o gênero humano".
89
A FELICIDADE R DECRETO
Talvez porque Deus, apenas com palavras, criou o
mundo em sete dias, há entre nós uma tendência generaliza-
da para acreditar que se possa resolver com leis ou decretos
os problemas nacionais. Já se pretendeu, por exemplo, elimi-
nar a inflação com o congelamento de preços e o confisco da
poupança, quando é sabido que nenhum país, em tempo al-
oferta e
que em
tas, os da Revolução Francesa e da Revolução Soviética, que
dispunham do concurso sumário da guilhotina e do fuzilamen-
to, não conseguiram tabelar preços. Aos decretos respectivos
seguiram-se a ocultação de mercadorias, o desabastecimen-
to e o câmbio negro.
Na França e na União Soviética, durante aquelas re-
voluções, a fome foi a resposta dos camponeses, porque, seja
qual for a ameaça, o homem não produz para vender com
prejuízo. A inflação, seja decorrente da escassez de mercado-
rias ou do excesso de moeda em circulação, só se combate
com o aumento da produção e o saneamento das finanças
públicas. O aumento da produção e o combate ao déficit pú-
blico, porém, importariam numa opção amarga pelo trabalho
e pela austeridade. Talvez por isso, não se tem notícia, em
nosso País, de medida alguma tendente a aumentar a produ-
ção e reduzir as despesas públicas. Cuida-se apenas de criar
impostos para cobrir o rombo do erário e conseqüentemente
aumentar a inflação, porque, como é óbvio, os novos encar-
aos usuários e consumidores.
Enquanto perdurarem os do Go-
91
verno e a devoção do povo ao culto do lazer, não será redu-
zida a inflação. No serviço público, continuam imperando a
corru , o devorismo, as mordomias, o nepotismo, o em-
o desperd e a ineficiência.
o é man ho.
comprova-se , pelo turismo,
remunerada. Um olhar
os sítios que pro-
os proplcloS ao como Ipanema, ,
Frio, Búzios, Guarapari, Porto uro e outros. Para o
brasileiro a glória consiste em produzir. Consiste em fin-
tar a maldição bíblica que o obrigaria a comer o pão com o
suor do próprio rosto.
que
Quando ocorre um crime, ainda que de índole passional, mas
que, em razão da notoriedade da vítima ou do acusado, a mí-
dia entende de explorar, surgem logo sugestões de reforma
das leis e até mesmo de institutos seculares e universais, cuja
abolição faria regredir o Direito Penal aos in-fólios da Idade
Média. Ignorando que o crime é apenas um sintoma de peri-
culosidade, os reformistas confundem o criminoso com o deli-
to, forcejando pelo agravamento das penas e pela supressão
dos direitos de defesa.
Desde o advento, porém, da Escola Positiva, que, há
um século, revolucionou a ciência penal, o crime é fator se-
cundário, acessório,adiáforo, em comparação com o seu mo-
tivo e a índole do criminoso. A razão, aliás, é claríssima. Matar
a própria mãe é o mais abominável dos delitos. Sólon recu-
sou-se a incluir o matricídio nas leis atenienses, porque não
acreditava que alguém o pudesse cometer. Entretanto, o filho
que mata a mãe para livrá-la de sofrimentos atrozes e irreme-
diáveis, pratica uma ação meritória. Também o tolo ou imaturo
que:. influenciado por outrem, participa de um assalto, de um
sequestro, de uma curra ou do tráfico de entorpecentes, não
92
pode merecer a mesma pena atribuível ao incubo de sua ação
delituosa. A lei tem de ser feita para o homem, porque o ho-
mem foi feito para a lei.
Só remediando as causas é que se pode reduzir a
a ou No Brasil, as
causas principais do crime a corrupção , a inver-
de valores, o êxodo rural, a televisão, o lixo cultural impor-
tado, a , o consumismo, a procriação
irresponsável, o abandono menores, a ignorância, a ocio-
sidade, o abuso do álcool e outras drogas, o desemprego, o
subemprego, a desconfiança na justiça, a falta policiamen-
to, a impunidade e a contaminação carcerária. Enquanto não
forem removidas essas causas, não haverá redução da cri mi-
. A hedionda (8072, de 25/7/1990), editada para
não
na
A
em parte, a criminalidade, é o policiamento ostensivo, diurno
e noturno, em todos os bairros. Mas a longo prazo e para efe-
tiva redução da criminalidade, é necessário atacar as causas
do crime acima indicadas. O agravamento das penas não
de modo algum, para solucionar o problema. Já
alertava Beccaria, há mais de dois séculos, que a pena deve
ser a mínima possível, porém de aplicação rápida e inevitável,
porque o criminoso não teme a gravidade da pena e sim a
presteza de sua aplicação e inexorabilidade. Assim c?mo os
velhos alquimistas se perderam na busca da pedra fIlosofai,
também se perderão os novos utopistas que esperam resol-
ver, com leis ou decretos, os problemas gravíssimos da infla-
ção e da criminalidade.
93
A ADVOCACIA CRIMINAL
Em todas as profissões, o começo é sempre difícil e
desanimante. Em nenhuma, porém, o noviciado é tão perigo-
so como na advocacia criminal. Os que tentam exercê-la tro-
peçam a todo instante nos abusos de autoridade, nas ciladas
policiais, na concorrência desleal, nas traições da clientela,
nas d mídia, nas judiciárias e, sobretu-
dos que confundem o
~ s como
a contra
porque, como Hill lamentou: "Nas calmas planícies da hesita-
ção repousam os ossos dos milhões sem conta que ao primeiro
alvorecer da vitória descansaram e descansando morreram".
Entre todos os sapos que tem de engolir, o que mais
repugna ao estômago do noviço é a incompreensão do vulgo
sobre a missão do defensor. Para Ruy, todavia, o advogado
"foi o primeiro homem que, com a influência da razão e da
palavra, defendeu seu semelhante contra a injustiça, a violên-
cia e a fraude". Depois que Jesus disse que não veio cuidar
de justos e sim de pecadores, não mais seria admissível qual-
quer confusão entre o acusado e seu defensor. Não há como
se possa confundir o médico com o enfermo. Quem, por igno-
rância ou malícia, deprecia o advogado criminal, costuma
mudar de opinião quando ele mesmo, um filho, um parente ou
um amigo, culpado ou inocente, é encerrado em um cárcere
imundo e superlotado, onde impera a lei do cão.
A missão do advogado é em defesa de seu
constituinte, tudo aquilo que faria se tivesse a mesma
e o mesmo O advogado que julga o réu,
recusando seu patrocínio em da índole do acusado ou
95
da gravidade do delito, usurpa as funções do juiz e do tribunal.
Revela inaptidão para a advocacia e o sistema
nal , a
facínora cuja sobrevivência é uma
Ao , e ao
incolumidade públ
É claro que se não houvesse doença, o médico
inútil. O mesmo com o criminalista, se os direitos
não fossem violados. Advocatus, Vocatus ad, "chamado a so-
correr", assim definiu Carnelutti a função do criminalista. Mas,
e
ascender na profissão, o iniciante exerce um admirável sacer-
dócio, sublimado ademais pelas animosidades e perfídias que
tem de enfrentar, inclusive no seio de sua própria classe.
Seja, porém, neófito ou renomado, não pode o crimi-
nalista recusar seu patrocínio a quem o solicita, porque, como
Ruy advertiu, "o último dos criminosos tem o mais absoluto
direito de que com ele se observe alei". Não deve também
preocupar-se com a opinião pública ou temer a impopularida-
de. Do contrário, estará servindo a dois senhores e sacrificará
um em favor do outro. Para ele, não deve haver culpado ou
inocente. Apenas alguém que caiu ou está a cair nas
malhas da justiça. Se necessitar de motivação filosófica para
optar pelo acusado, bastará de que, segundo He-
gel, toda sociedade é a síntese de seus próprios antagonis-
mos. Quem a afronta concorre para aperfeiçoá-Ia. Sem
dadores não há equilíbrio ecológico.
Todo mundo sabe ou devia saber que não pode exis-
tir processo judicial sem a interferência de advogado. Por in-
junção dos princípios constitucionais do contraditório e da
ampla defesa, os atos instrutórios praticados em sua ausên-
96
cia não têm valor jurídico, porque a verdade só pode ser al-
cançada através do debate entre a acusação e a defe.:a. Mas
a acusacão não prende nem condena, e a defesa nao solta
nem Quem prende, solta, condena ou absolve é o
É sandice, que ou ou
advogado vem saltando marginais. Além disso, a "De-
claração dos Direitos do Homem e do Cidadão':'
há mais de dois todo homem é presumidamente inO-
cente enquanto não for condenado.
Por tudo isso, não se pode censurar quem postula
pela liberdade. O habeas corpus é inerente à Sua
impetração é facultada a qualquer do povo e nao uma prerro-
gativa dos advogados. Aliás, a Constituição Federal, em seu
, inciso I, dispõe a de
a de
porq'ue a comunicação, pura e simples, uma prisão
ilegal, importaria na imediata soltura do paciente. Em vez de
censurar os que defendem os excluídos, é dever de
leigos ou advogados, aplaudir aqueles que, esgrimindo a lei,
lutam pelos Direitos Humanos.
97
o FRACASSO DO CO
Os mais importantes acontecimentos da história da
humanidade foram o advento do Cristianismo, a Revolução
Francesa e a Revolução Soviética. O Cristianismo pregava a
humildade, a caridade, o altruísmo. A Revolução Francesa
acenava com liberdade, igualdade, fraternidade. A Soviética
pretendia acabar com a exploração do homem pelo homem. A
do teria
por seu
turno, se houvesse a a
Revolução SO\.4ética. Aliás, a simples obediência ao Decálo-
go, que precedeu o Cristianismo, teria dispensado todas as
revoluções, porque, para a inexistência de conflitos, bastaria
que o homem amasse o próximo como a si mesmo.
A humildade, porém, preconizada pelo Cristianismo,
logo converteu-se em templos faraônicos, nas riquezas do
Vaticano,na postura majestática dos príncipes da batina e na
pompa Iitt;Jrgica. A caridade exibiu-se nos antros de tortura da
Inquisição e nas fogueiras que incineraram os contestadores,
como Huss, Savonarola e Giordano Bruno, e as bruxas, como
Joana D'Arc. O altruísmo transformou-se em cupidez, como
atestam o dízimo, as indulgências e o confisco dos bens dos
hereges. A própria ideologia cristã, como disse Ruy ("O Papa
e o Concílio"), foi reduzida pelas distorções clericais "a uma
simbólica sem alma e sem verdade, pasto à credulidade das
classes ignorantes e manto ao ceticismo dissimulado e calcu-
lista da minoria ilustrada".
A Revolução Francesa, que, como Saturno, devorou
seus próprios filhos, passou pela breve ditadura do "Incorrup-
tível", mas logo chafurdou na pornéia do Diretório e naufragou
99
na tirania bonapartista. Pretendia erradicar a nobreza e seus
privilégios, mas só conseguiu colocar um imperador no lugar
do rei, instituir o capitalismo e restaurar, depois de muito san-
derramado, a própria monarquia. sua igualdade e fra-
restou. E a foi a ex-
ploração do homem pelo homem. Como observaram Marx e
("Manifesto Comunista"), ao o feudalismo, o
"substituiu a exploração envolta em ilusões religi-
osas e políticas, pela exploração d cínica e brutal".
A Revolução Soviética suprimiu a propriedade priva-
da e encampou os meios de produção, a fim que, elimina-
dos os patrões, ninguém pudesse se apropriar da mais valia,
ou seja, da parcela de trabalho não pago que representa o
tudo
ma, a
nhados pela burguesia, pelo clero ou pela própria nobreza.
Para essa classe dominante, como também ocorre com a clas-
se capitalista, é que estavam reservados os prazeres da vida.
"Dachas" suntuosas, belas secretárias e férias na Criméia.
Essa contrafação foi logo denunciada por Trotsky ("A
Revolução Traída"), e a seguir por Djilas ("A Nova Classe") e
Orwell ("A Revolução dos Bichos"). Em qualquer regime. seja
ele qual for, uma classe parasitária, talvez a pior delas, é por-
tanto inextinguíve(a dos sinecuristas, nepotes e outros rufiões
do erário. Dizer, pois, que o Comunismo fracassou, equivale a
admitir que o mesmo ocorreu com o Cristianismo. É óbvio en-
tretanto, que o mérito das ideologias não se confunde c ~ m a
sua eventual impraticabilidade. A observância da doutrina cris-
tã pressupõe sublimação espiritual, e a da ideologia comunista
um desprendimento que não se pode esperar do homem co-
mum. Ambas são incompatíveis com a natureza humana.
Seguir ou imitar o Cristo em sua humildade em seu
altruísmo, em sua castidade, em seu a m o ~ aos pobres, em
sua bondade, não é vocação do homem. Até mesmo no seio
da Igreja, somente Francisco, renunciando ao conforto e bei-
janqo o leproso, conseguiu reavivar a trilha do Nazareno. A
100
vaidade, a luxúria e o egoísmo são os lemas das sociedades
pretéritas, atuais e futuras. Quanto ao Comunismo, basta lem-
brar que, segundo a Bíblia, o trabalho foi imposto ao homem
como castigo inexorável. O único meio, portanto, de que o
maldição é aos
seus semelhantes, tarefa que executa em qualquer regime,
mormente no comunista, onde a classe dominante tem poder
vida e morte sobre o povo em
As religiões e os partidos políticos criações hu-
manas. E o homem é o Midas da putrilagem. O que ele toca,
logo apodrece. Por mais belas e generosas que sejam as re-
formas sociais, propostas ou tentadas, nenhuma resistirá à
índole predatória do homem, cujo egoísmo jamais será sacia-
livrar-se do trabalho e explorar, em função do seu
seus os
históricos que, abstraída a origem divina e
da a sua efetiva entronização como Rei dos Judeus, podería-
mos, a seguir, visualizá-lo como um Papa, cercado de luxo e
riqueza, indiferente às mazelas da humanidade.
101
A GUILHOTINA
Máquina idealizada e construída para decapitar se-
res humanos, a guilhotina tornou-se famosa na Revolução
Francesa, quando decepou as cabeças de um rei, de uma
rainha, de integrantes da nobreza e de inúmeros políticos.
Embora deva seu nome ao médico José Inácio Guillotin, que,
como deputado à Assembléia Constituinte, propôs em 1789 a
humanitário da
te em duas traves verticais com e
uma lâmina afiada que, na execução, cai sobre a nuca do con-
denado. Após experiências em cadáveres humanos e animais
vivos, foi adotada a lâmina oblíqua, que superou em eficácia a
horizontal e a semi-circular.
Acostumado a espetáculos empolgantes, como o da
execução de Damiens, que, por tentativa de homicídio contra
Luís XV, teve a mão direita calcinada, carnes arrancadas e
após desmembrado foi incinerado em praça pública, o povo
não aplaudiu a guilhotiíÍa, cuja atuação era singela, rápida e
monótona. Houve também especulação em torno do suposto
benefício que representaria para os condenados o novo mé-
todo de matar. Sustentou-se que a cabeça separada do corpo
continuava viva por algum tempo. Alguém disse que ao picar
a língua de um guilhotinado o rosto indicou uma °sensação
dolorosa. Um médico declarou que ao efetuar a transfusão de
sangue numa cabeça guilhotinada, os lábios moveram-se como
se q cabeça quisesse falar.
Sem culpa da guilhotina e sim do próprio paciente,
não foi fácil decapitar Luís XVI. Protestando inocência, o mo-
narca travou luta com os ajudantes do carrasco e, mes;"
103
mo depois de subjugado, não colaborou com a máquina por-
que seu pescoço era muito grosso e não pôde ser fixado com
A lâmina mutilou o queixo e a parte inferior
que ficou pendente do corpo e
du XV,
minutos, o momento da execução. Chorou,
receu à Nação todos os seus bens em troca
o povo, humilde. consegui-
ram prender seu que a lâmina implacável
cortasse a
Mas, como sentenciou Montaigne sobre a conduta
humana, basta viver para que se veja tudo e seu oposto. En-
tre as cenas de desespero ou covardia, não faltaram as de
ou
ser
a tu ao
redor patíbulo. Eloqüente também foi o desafio de Danton
que, avançando para a guilhotina antes que a limpassem do
da vítima que o precedera, perguntou ao carrasco:
Que diferença faz um pouco de sangue em tua máquina?". E
recomendou: "Não te esqueças de mostrar ao povo a minha
cabeça. Não é todos os dias que se vêem semelhantes".
Os fatores que determinaram a Revolução Francesa
no ,Brasil, j?aís riquíssimo que os polí-
tiCOS, os empreiteiros e a elite funcional conseguiram reduzir à
de devedor insolvente, de pátria da desesperança,
da Inflaçao, do desemprego, da corrupção e da delinqüência.
Em vez ?e cortar suas despesas e incentivar a produção, úni-
cas medidas capazes de estabilizar a moeda, o governo emite
para financiar a corrupção, a incompe-
tencla e a oCIosidade. Enquanto isso, o flagelo secular da seca
contínua inalterável. Os trabalhadores vivem na
Os menores permanecem abandonados. Os hospi-
falidos. Os cárceres superlotados. E a injustiça so-
clallmpera por toda parte.
. Um país que já foi de imigração e que devia ser o
celeiro do mundo, t'loje exporta mão de obra clandestina e
104
importa alimentos. Um país que necessita de trabalho, é o
paraíso dos feriadões, da aposentadoria precoce e da filoso-
fia do Nele, os expulsos do campo engrossam as fave-
las e as hostes da criminalidade. Não era muito diferente a
na França, quando a guilhotina foi
entronizada. A terra pertencia ao clero e à a
mantinham improdutiva. Os cargos públicos eram hereditá-
rios, doados ou vendidos. Os impostos escorchantes. As
ses ociosas banqueteavam-se, enquanto o povo fome.
Os escândalos financeiros ocorriam com freqüência. O povo
odiava seus governantes.
Tudo no Brasil clama por uma transformação radical.
O plebiscito para a escolha entre a monarquia parlamentar, o
parlamentarismo e o presidencialismo, é uma questão bizanti-
o povo. A
rem os nossa ruína. O que se é
que, graças à tolerância infinita do povo brasileiro, o agrava-
mento da miséria nacional não produza um estado de revolta'
análogo ao do povo francês em 1789, de modo que, repudia-
das como ilusivas ou ineptas as fórmulas do plebiscito, não se
venha a optar por uma solução de desespero, da qual Bona-
parte se aproveite.
105
A OPINIÃO PÚ
Uma das faltas atribuídas a Danton, no Tribunal Revo-
lucionário, durante o simulacro de julgamento que precedeu sua
execução na guilhotina, foi a de haver dito que: "A opinião públi-
ca é uma meretriz e a posteridade uma tolice". Com a palavra
cassada, enojado da política e do sangue que antes derrama-
ra, como Ministro da Justiça e criador mesmo Tribunal que o
Mas, a
o a a a
ton confirmou sua insopitável repugnância opinião pública,
gritando para seu companheiro de infortúnio: "Cala-te! Espe-
ras, acaso, comover essa vil canalha?"
O desprezo pela opinião pública é uma constante
entre os homens cultos. A crônica da velha Grécia relata que
Fócion, notável orador, surpreendido por frenéticos aplausos
quando discursava em um comício, indagou de seus asses-
sores se havia dito uma besteira. Na França, já neste século,
o escritor e político Aicard, que traduzira do latim para o fran-
cês uma obra de Catulo, também falava em um comício quan-
do um dos presentes, que não gostara da tradução, assim o
invectivou: "Você assassinou Catulo!". Imediatamente, sem
perceberem a metáfora, outros da platéia gritaram: "Assassi-
no!" ,"Assassino!", com tamanha indignação que o orador a
custo conseguiu sair do local onde o tumulto se generalizara.
Não foi Pilatos e sim o povo , insuflado pelos fari-
seus, quem exigiu a crucificação de Jesus. Com dois expedi-
o da flagelação e o da proposta de troca por Barrabás,
o romano tentou salvar o Nazareno. Por le Bon, Sighele
e outros sustentam que a incubação pertinaz pode conduzir o
107
povo a reações teratológicas. Os anais forenses registram inú-
meros erros judiciários, decorrentes da popular. En-
tre Araceli é paradigma. boato
que,
mesmo, no Rio
nal, imputado a primários e de
sendo alvo de tanto alarido que o Poder Judiciário se
ma a cumprir a lei, ordenando, como de direito, que os réus se
defendam em liberdade. Grupos de pressão, portando faixas
e cartazes, o
e
nunca leu um
contra o sistema jurídico em vigor, clamando adoção da
pena de morte e pela regressão do Direito Penal aos idos te-
nebrosos da Idade Média.
Coando o mosquito e engolindo o camelo, aqueles
manifestantes - atores e videotas - fingem ignorar que na
Baixada Fluminense mata-se mais do que se matou na Guer-
ra dO Golfo e que o Rio de Janeiro é a cidade mais violenta do
n:un?o. Ali a criminalidade, a corrupção e o deboche atingiram
nlvelS que nenhuma outra comuna suportaria. Mesmo assim,
como cegos discutindo cores, ousam atribuir ao Código Penal
a sua própria culpa, afirmando que ele está obsoleto anacrô-
nico, defasado, e exigindo o agravamento das penas'. Preten-
dem também acabar com o livramento condicional, que é o
estímulo básico para a recuperação do condenado. Em suma,
querem transportar para o mundo as novelas em que
atuam ou a que assistem.
Nos Estados Unidos, que adotam uma variante da
sentença indeterminada, ou aquela cujos efeitos só ces-
sam o preso está recuperado, há limites de tempo em
que, ate mesmo o condenado à prisão perpétua, pode obter o
108
livramento condicional. Aliás, sobre o assunto, vale lembrar
que Carlos Luís, futuro Napoleão III, ao ser condenado à pri-
são perpétua em razão de um golpe militar fracassado, per-
guntou quanto tempo durava a perpetuidade na Obvia-
o a mas, sobretudo, as
condições em que é cumprida. exem-
plo, o preso freqüenta escolas, tem direito a alimentação sau-
dável, tratamento e dentário, e é de
fato reeducado para voltar ao convívio
No Brasil, o preso é arremessado em cubículos su-
perlotados, onde impera a lei do cão. Quem entra analfabeto,
sai analfabeto ao quadrado. Quem entra com saúde sai morto
ou infectado. A alimentação repugna até mesmo à vista e ao
olfato. próprios tribunais já declararam que, em nosso País,
e
a os
deles podem compreender. Quem pensa em agravamento ?e
penas, devia antes, como estudioso, pesquisador ou analIs-
ta, passar um dia e uma noite nesses porões do inferno.
109
o DIREITO DE MORRER
Em 1924, chamada a Paris por seu amante, o escri-
tor Juan Zinowsky, que padecia de câncer e tuberculose, a
jovem e bela Stanislawa Uminska, atriz polaca, atendendo a
angustiosos apelos do enfermo, que não suportava mais o
martírio, valeu-se de um momento em que ele estava aneste-
siado e o matou com um tiro de revólver, sendo depois absol-
vida pelo Tribunal do Júri. O próprio promotor, prevendo a ab-
solvição, pediu aos que não aplaudissem o resulta-
do do entronizarem a
por
provocando outros análogos e o debate em tor-
no das implicações jurídicas da morte caridosa.
Naquele fecundo ensaio, relata também o sumo mes-
tre espanhol o caso de uma menina de 13 anos de idade,
mordida por um cão raivoso e transportada à cidade de Cór-
doba (Argentina), onde, em 1934, foi examinada por médicos
que atestaram a impossibilidade de salvá-Ia. A enferma grita-
va, ameaçava, investia contra todos e implorava que a matas-
sem. Os familiares também exoravam a compaixão dos médi-
cos, suplicando-lhes que aplicassem uma injeção letal na doen-
. te, que parecia possuída pelo demónio. "E quando a pobre
enferma, num de seus acessos, caiu ao solo, como se fosse
uma fera enfurecida, alguém atirou sobre ela uma colcha, apro-
veitando-se, então, um médico, para aplicar-lhe uma injeção
generosa que a fez dormir para sempre".
A palavra eutanásia, composta de duas gregas: eu
(bem) + thanatos (morte), foi criada por Bacon, no Século XVII,
para definir a supressão de uma vida atormentada por incurá-
vel e dolorosa agonia. A eutanásia, isto boa morte, homíci-
dio caritativo ou consiste, portanto, em matar
111
um enfermo, a seu pedido ou por convicção sincera e fundada
de que a morte poderá livrá-lo de padecimentos e
irremediáveis. A é objeto de e interminável
, até mesmo entre os
O
o
O estudo da confunde-se com o do suicí-
dio, porque apenas acrescenta a o auxílio mate-
rial do executor e, eventualmente, a falta de consentimento.
Embora para Nietzsche a idéia do suicídio seja um lenitivo,
sem sem uma
, em sua
como se com os
ta que na França, no reinado de Luíz XIV, o corpo do suicida
era arrastado pelas ruas e atirado em um monturo. Os bens
eram confiscados. Os nobres eram degradados e seus caste-
los demolidos. Somente com a Revolução de 1789, foi que se
descriminou o autocídio.
Atualmente, em países cultos, os defensores do di-
reito de morrer insistem pela legalização da eutanásia, advo-
gando sua aplicação, livre e indolor, em clínicas habilitadas.
Em 1935,. foi em Londres a "Exif' ou "The Voluntary
Euthanas/a Society'; na França, Claude Guillon propôs, em
1975, a criação do "Comitê Morte Doce", e Michel Landa fun-
d?u, 1980, a "Associação pelo Direito de Morrer com Dlg-
(ADMD). Em Amsterdã foi instituída, em 1973, a "As-
sociação Holandesa em Favor da Eutanásia Voluntária". Ali o
Pieter Admiraal dá entrevistas aos órgãos publicitá-
riOS, d? mundo inteiro, admitindo que pratica livremente a eu-
tanasla. Nos Estados Unidos, o médico Jack Kevorkian man-
construir e vem operando, nas barbas da justiça a "Má-
qUina do Suicídio". Em suma, por toda parte, há não se
conforme com as leis que incriminam a eutanásia.
112
No Brasil, a defesa do executor da eutanásia não
pode esgrimir a coação moral irresistível, porque os tribu-
nais togados; com manifesta erronia e sistemática impeni-
tência, não admitem que a coação possa emanar própria
vítima. isso, o se a tese
homicidio privilegiado, em do motivo de
valor moral que impeliu o agente a praticar a ação incrimina-
da. Com essa porém, lograva-se a
ção de um a um terço da pena cominada ao homicidio
simples. Hoje, todavia, a defesa dispõe da inexig
de outra conduta, causa supralegal de
que o Superior Tribunal de Justiça já declarou ser plenamen-
te cabível em casos de homicídio.
a vez o
motivo torpe ou os
uma situação de fato que, se existisse, tornaria inculpável o seu
procedimento. Este risco, todavia, como ocorre co.n: ? prete,xto
de legítima defesa, o erro provocado e outros artlflclOS analo-
gos, é inerente a todas as descriminantes e causas de exclu-
são de pena. A maior ou menor dificuldade, porém, de compro:-
vação do fato, é estranha à eficácia dos institutos jurídicos. E
questão independente, que se resolve com as perícias, o teste-
munho e os princípios gerais da lógica probatória. /'
113
o ETERNO RETORN
Que acharias - pergunta Nietzsche - de um demónio
que te dissesse: "Terás de viver um número infinito de vezes a
vida que estás levando. É preciso que cada dor e cada ale-
gria, cada pensamento e cada suspiro renovem-se na mesma
seqüência. A ampulheta da vida será sempre virada, e tu com
cairias joelho e,
o demónio que
um e ouvi
divina!". Esta é a idéia do eterno retorno que para muitos
invocaria o suplício de Sísifo, embora em outros, naqueles em
que o instinto de conservação embota o raciocínio, pudesse
despertar uma sublime expectativa.
Mais cruel, todavia, do que esse demónio imaginado
pelo filósofo, é o demónio da AIOS que impõe aos indivíduos
desta geração a mesma vida que levavam os da geração pas-
saga. Depois de, a duras penas, libertarem-se dos preconcei-
tos e do sentimentalismo, as pessoas desta geração sentem-
se subitamente compelidas a regredir aos idos puritanos da
era romântica. Não mais promiscuidade, permissividade ou
irresponsabilidade. Adeus aos amores descartáveis, à sensu-
alidade desenfreada, à libertinagem, aos alucinógenos e à his-
teria acústica que se convencionou chamar de música moder-
na. O mal do século ameaça com a pena de morte a quem
não aceitar aquele retorno. E não dá aos ameaçados espe-
rança alguma de revogar essa terrível cominação.
era romântica foi, em parte, e mantida
por dois demónios: o das doenças venéreas e o da
indesejada. O primeiro foi exorcizado pela penicilina e o
115
outro pela pílula anticoncepcional. Mas, durante séculos, difi-
cultaram o relacionamento sexual, impondo a monogamia, o
Nos do lo
o tema principal da
moças que,
o suicídio ou se trans-
do lodo", como escreveu Vila, o
admirável artífice prosa lírica.
Os sobreviventes da época romântica lembram-se de
que, em seu tempo, a fornicação com a prometida era sacrilé-
gio. Os enamorados viviam em ebriez idílica, sonhando acor-
a contra ído com
mulher já deflorada, se o marido ignorasse tal circunstância.
As relações amorosas entre homem e mulher eram regidas
por preconceitos imbatíveis, compromissos irrevogáveis, e até
por injunções religiosas que associavam ao ato genésico a
noção expiatória do pecado original.
Como é o fato, e não qualquer discurso, que antece-
de e origina a idéia, foram a penicilina e a pílula que desenca-
dearam a reVólução sexual, cuja extinção o demônio da AIOS
vem de determinar. Livre das doenças venéreas e da concep-
ção indesejada, a humanidade abandonou o amor sentimen-
tal e entregou-se ao hedonismo, evertendo os costumes e rom-
pendo seus vínculos com o passado. Dessa repulsa às tradi-
ções, surgiram os rebeldes sem causa, a contracultura, a toxi-
comania, a procriação irresponsável, a "música" alucinógena,
a "poesia" sem rima, a literatura vazia, a contestação sistemá-
tica, o feminismo dos homens, o machismo das mulheres, a
proliferação do homossexualismo, e tudo o mais que caracte-
riza este "admirável mundo novo".
Com a vãlta do romantismo, a mulher esculturada
pelas academias de ginástica será fatalmente suplantada pela
116
"camélia pálida" de Castro Alves ou pela "moça das pernas
finas" que o toureiro de Blasco Ibánez amou por toda a vida.
a ser a arte e a ciência da harmonia. A
a vacuidade e fonte
e a ser, como
é hoje, uma contrafação cabotina, dissonante e pretensiosa.
O homem usará bolsa ou brincos, nem vergonha
sua masculinidade. A mulher
obrigará o homem a
O condom, camisa-de,...vênus ou simplesmente
misinha", não impedirá a propagação da AI porque tam-
bém não impediu a difusão das doenças venéreas. es-
cudo sempre existiu. Antes da utilização do látex, aliás cente-
,0
não renunciará ao ato sexual por dispor
Se não for descoberta uma vacina ou a cura da síndrome, o
HIV poderá até mesmo suprimir a maldição do eterno retorno,
transformando o mundo em uma Aidslândia, habitada por ca-
micases, onanistas e abstêmios.
117
IGN RÂNCIA
o flagelo da humanidade não é a peste, a guerra, a
fome, a idolatria, o fanatismo, a corrupção ou o crime. O flage-
lo da humanidade é a ignorância. Sem ela, essas calamida-
des não existiriam ou seriam drasticamente reduzidas. Ape-
sar disso, o homem foge dos livros como o diabo da cruz.
Reencarnando os da
e
gos esco-
las, professores, nem motivação para estudar. Por toda
alastra-se a ignorância. E nela se cevam os políticos, os cu-
randeiros, os pastores de almas, os publicitários, a mídia ele-
trânica, a corrupção e o crime.
A peste não existe onde há saneamento básico, as-
sepsia, higiene. Na Idade Média, entretanto, a peste era atri-
buída a sortilégios e combatida com exorcismos. Em vez de
matar os micróbios, cuja existência desconheciam, nossos
antepassados matavam as feiticeiras. A guerra sê'ria evitável
se os povos' não fossem ignorantes. Como disse Frederico, O
Grande, se os soldados raciocinassem,abandonariam o co-
mandante na primeira esquina. A fome não ocorre onde não
há latifúndios improdutivos ou explosão demográfica. O fana-
tismo desaparece quando a sabedoria arranca a máscara dos
ídolos ou sacode seus pés barro. A corrupção elimina-se
com a vigilância, a efetiva aplicação das leis e a transparência
dos atos administrativos.
Excetuadas as causas psiquiátricas, o violen-
to é, sempre, produto ignorância. ver onde
ele mais ocorre e seus autores. O crime
119
tual também, porque sem a simplicidade da vítima o estelio-
nato prospera. Além de ser uma
, a ignorância ainda
exigindo o
uta.
a (Mat.12
serve para expulsar o demónio.
A mídia eletrónica é a principal aliada, difusora e
neficiária da ignorância. Acabou-se a era dos valores autênti-
cos. As preferências e rejeições dependem agora do que im-
a
ornamento.
importado e
rão as marcas dos figurinistas mais famosos. Desde que haja
lucro na supressão de valores antigos e na criação de outros,
a publicidade efetuará sua substituição. Por isso, é lugar co-
mum a assertiva de Paolo Ligeri de que a propaganda é a arte
de explorar a estupidez humana.
Eloqüente demonstração de ignorância coletiva ocor-
reu durante o Plano Funaro e repete-se atualmente através
da impenitência cóm "que se pretende tabelar os preços dáS
mercadorias. Todos, entretanto, deveriam saber que nenhum
Governo, nem mesmo o mais sanguinário, como o da Revo-
lução ou o da Revolução Soviética, conseguiu ta-
belar preços. A guilhotina e o fuzilamento não impediram a
sonegação, o desabastecimento e a proliferação do câmbio
negro. Na Rússia, os camponeses que esconderam o trigo
foram desapossados e fuzilados. Ninguém mais se animou a
plan!ar. A fome espraiou-se e a política agrária foi modifica-
da. E elementar que não se combate a inflacão com decre-
tos, ameaças e punições. >
A supervalorização do real determinará o encareci-
mento dos produtos nacionais e o barateamento dos estran-
120
geiros. Haverá queda das exportações e incremento das im-
portações. Com as inevitáveis para acudir ao sorve-
douro das subvencionar os preços da gasolina e
públicas, bem como pagar aumentos ao funcionalismo,
o Ira como as rosas de
tudo, exceto da redução despesas, única providência ca-
de estabilizar a moeda. O real reprisa entre nós o filme
os argentinos q.o peso mais do
o dólar. As mercadorias importadas substitu as
as fábricas faliram, o desemprego aumentou e o custo de vida
tornou-se insuportável.
Nada se cura ou concerta sem a eliminação cau-
sas da doença ou do erro. A causa da inflação brasileira não
é o nome nem a cara . É o déficit público,
suma,
Nacional, um mais do um i-
tar de avião supersónico. No Brasil há funcionários inativos
que ganham mais do que o Presidente dos Estados Unidos.
Nenhum plano de estabilização económica terá êxito sem a
prévia oclusão do tonel das Dana ides das despesas públi-
cas. Sem o equilíbrio das finanças, o real seguirá o curso do
cruzeiro, porque não se debela inflação com a simples mu-
dança do nome e da cor da moeda.
121
AS LEIS H DION
Para os antigos criminalistas, o Direito Penal era a
ciência que associava o crime como fato à pena como sua
legítima conseqüência. Ignorava-se, enlão, o criminoso, e con-
siderava-se a pena como um castigo proporcional ao delito.
Com o advento, porém, da Escola Positiva, que concebeu o
crime como um fenômeno natural e social, a
essa
criminoso a nqüir, a
o delinqüente seja submetido a tratamento que elimine sua
agressividade. A pena, portanto, destina-se a interromper a
ativídade predatória do criminoso e a submetê-lo a um regime
que promova sua recuperação.
O crime, como ente jurídico, é composto de sete ele-
mentos. Desses, um apenas o define ou classifica. Essa defi-
nição ou tipicidade, não tem caráter valorativo e pouco signi-
fica para justificar o agravamento das penas. Os fatores que
importam na avaliação do crime, como fenômeno social, são
o seu motivo e a periculosidade do delínqüente. O dispositi-
vo legal que define o crime é secundário. Qualquer avaliação
que nele se estribe será fonte de injustiças e erronias, porque
não é o crime que se pune e sim o criminoso. Concluir, portan-
to, que este ou aquele crime é hediondo, abstraídos o seu
motivo e a índole do delinqüente, é ignorar os ensinamentos
da ciência penal e fazer regredir a nossa cultura jurídica aos
in-fólios da Idade Média.
Basta ver que não pode existir
bível do que o matricídio. Entretanto se
pria para livrá-Ia sofrimentos
mais inconce-
mata a pró-
que outro
123
modo não podia evitar, terá praticado uma ação caridosa e
não juridicamente condenado porque a eutanásia está
amparada "inexigibilidade outra conduta", causa su-
de dolo ou cu . O mesmo ocorre com
o em
e motivo, considerando o crime como
mero sintoma de periculosidade.
As 8.072, 25/7/1990, e 8.930, de 6/9/1994,
agravando penas e impondo o cárcere durante o processo,
seja qual for o acusado, duas aberrações que confir-
ou
que se
contente em imputar homicídio simples. Como a denúncia
rege o processo enquanto dura a instrução, é claro que esse
monstrengo ressuscitou a prisão preventiva obrigatória e en-
tronizou o Ministério Público como senhor de baraço e cutelo
da liberdade dos cidadãos.
Em todas as épocas, em todas as comunas, os ante-
cedentes ilibados sempre foram um troféu de honra para os
cidadãos. A vida imaculada e a utilidade social do indivíduo
sempre lhe garantiram consideração, respeito e solidarieda-
de. Para as leis hediondas, todavia, nenhuma diferença existe
entre o homem de honra e o bandido. Ambos passam a ser
tratados de igual modo. Se forem presos em flagrante e de-
nunciados por homicídio, com as infalíveis qualificadoras, se-
rão arremessados na mesma pocilga, onde aguardarão o jul-
gamento. Por mais humano e culto que seja o juiz, não poderá
estabelecer distinção alguma entre o benemérito e o preda-
dor, porque onde a lei não distingue não pode o intérprete
distinguir, e porque, como diz Soler, a pior lei é mais imperati-
va do que a melhor doutrina.
Mas como tudo, até o lixo, tem utilidade, essas leis
124
hediondas servem para confirmar que o Congresso Nacional
não tem para cumprir sua missão. Aliás, sempre
foi assim. Nenhum dos Códigos vigentes é produto ativida-
de parlamentar. Quando o
é o mesmo
que, devendo ser uma carta princípios, como o Decálogo,
numa infinidade de dispositivos, em sua maioria
nta,nrr"" ou cabíveis . A
Constituição Americana, vigente
apenas 32 artigos. nossa, promulgada há um lustro, tem
245 e já devia, a teor suas disposições ter sido
submetida à revisão.
É dever indeclinável do Congresso Nacional resistir
do
ao
como a atual, a opinião pública é pública
nem opinião, e sim o que a mídia impinge, a expedição de leis
para atender a sugestões espúrias é mais que um crime. Em-
bora as negociatas, os banquetes, a logorréia, as mordomias
e o turismo remunerado usurpem o tempo dos parlamentares,
não seria demais exigir que eles se lembrassem de que, como
o sábado (Marcos 2:27), a lei deve ser feita para o homem,
porque o homem não foi feito para a lei.
/'
125
INTOLE elA
Quando lhe perguntavam o nome, uma menina ame-
ricana respondia: "Mary Don'f', isto é, "Mary Não", ou' com a
necessária amplitude: "Mary Não Faça Isto ou Aquilo". Em sua
inocência, ela assim retratava a intolerância do meio em que
vivia e a tendência repressora dos que, esquecendo seus pró-
defeitos, pretendem criar um mundo à sua imagem. In-
no seu sobrenome a petulân-
a
e como se
vados, as mais absurdas mendacidades.
a passividade com que os americanos aceitam imposições
extravagantes. Aliás, não seriam eles os reis da propaganda
se seu mercado interno não fosse tão receptivo.
Em 1923 o mundo gargalhou com o "Júri do Maca-
co", encenado por violação do "Anti-Evolution Bílr, uma lei
promulgada pelo Estado do Tennessee, que incriminava o
ensino da teoria de Darwin nas escolas públicas. Um profes-
sor foi condenado, mas a repercussão do julgamento humi-
lhou o povo americano. Em 1932, após o seqüestro e morte
do filho do herói nacional Lindbergh, uma onda de passiona-
lismo e revolta percorreu os Estados Unidos, provocando a
edição de leis que cominavam a pena de morte pelo crime de
seqüestro. O resultado óbvio foi a eliminação sistemática dos
raptados, porque, já estando sujeitos à pena de morte pelo
simples seqüestro, os raptores não hesitavam em assassinar
os seqüestrados para não serem por estes reconhecidos.
Em 191 através da Décima Oitava Emenda Consti-
tucional e do Act" expedido logo a o purita-
nismo conseguiu impor o regime da , em cuja vigên-
127
cia foram proibidos a fabricação, o transporte e a venda de
bebidas alcoólicas no território americano. Como resultado
. monumental o poder.
O crime públi-
-em
, foi a
com a proibição. O crime
intolerância, até hoje sobrevive.
Como não podia deixar de ocorrer, é também dos
Estados Unidos que dimana a histeria atual contra o tabagis-
mo. é
e , é o pela contamina-
ambiental. Submetendo ainda os que chegam da rua, em
dias de calor, a uma queda repentina da temperatura, provoca
pneumonias. Embora seja a refrigeração artificial nociva à
saúde, prefere-se esconder este fato atrás da figura dolorosa
do "fumante passivo", uma cretinice inventada para discrimi-
nar os fumantes, fomentar discórdia entre as pessoas e armar
a prepotência dos que tenham alguma parcela de autoridade.
/' Arvorando-se em protetora da humanidade a ínto-
inventa estatísticas horripilantes, que
mllhoes de tabagistas morrendo ou são passíveis de
doenças tenebrosas. Ignora que Disraeli, aludindo a cálcu-
reais e não simplesmente fabulados, dizia que existem
tres classes d,e mentira: a mentira simples, a supermentira e
a estatística. E velha a praxe. Nos anos 40, as fábricas nacio-
nais de refrigerantes e meias de seda, alarmadas com a con-
corrência, financiaram propaganda que atribuía o câncer à
Coca e.aos tecidos de nylon. Os que se deixam apavo-
rar com tais Invencionices imitam o jovem que furou um olho
para ir para a guerra, mas acabou dispensado do servi-
ço militar porque tinha pés chatos.
128
É claro que os fabricantes de cigarros poderiam re-
verter a situacão atual. Poderiam, por exemplo, interessar os
médicos e meios de comunicação a divulgar, com
que o fumo, como redutor do o remédio
a
maioria dos problemas e a
a elegância, bastaria essa simples declaração para in-
a postura que, com implicância, agridem
os oplnloes que os sa-
bem fabricar estabeleceriam confusão suficiente para ilidir a
campanha o tabagismo. De qualquer forma,
não esquecer que "verboten" (proibido) era a palavra mais pro-
nunciada na Alemanha nazista.
A flor cheira melhor do
mas urn
é como lixo cultural os
tam. Não se entende, ademais, a não ser por desmesurada
hipocondria, que num país como o Brasil, onde
fome ou por falta de assistência médica e de -remedlos, haja
quem, com o monóxido de carbono poluindo ruas e invadindo
lares, se preocupe com o tabagismo. De modo geral, quem pre-
tende restringir direitos e impor os abusos de sua intolerância,
costuma agir como os que, segundo Jesus (MaL 23:25), limpa-
vam o exterior do copo, mas deixavam dentro a imundície.
129
HIPOCRISIA
Na admirável pregação Jesus de Nazaré, os tópi-
cos mais contundentes são os relativos à hipocrisia, como os
que censuram os escribas e fariseus por devorarem as casas
das viúvas e se justificarem com longas orações; gostarem
das saudações nas praças, de usar vestes talares, dos pri-
e porque sobrecarregavam
erarn como os
cem belos, mas por dentro estão cheios imund re-
torsão, os escribas e fariseus crucificaram o rebelde e apropria-
ram-se de sua doutrina. Mantiveram, porém, a conduta cen-
surada, continuando, até hoje, a difundir a hipocrisia.
Inúmeras são as manifestações de farisaísmo que
logram aprovação majoritária, deixando estarrecido quem exa-
mina suas premissas para não ser empulhado pelas conclu-
sões. Veja-se, por exemplo, o que acontece com os ecologis-
tas. Nunca plantaram uma árvore: mas fazem estardalhaço
se o lavrador desmata a terra para poder cultivá-Ia. Jamais
criaram um animal, mas pedem cadeia para quem mata um
tatu, ainda que o bicho esteja devastando plantações. Em
outras áreas, a conduta é a mesma. O Governo deixa o povo
morrer à míngua de remédios e assistência médica, mas cla-
ma, com extremo cinismo, que fumar prejudica a saúde. Auto-
riza o tráfego suicida dos motoqueiros, mas impõe o cinto de
segurança nos veículos menos perigosos.
Na história dos povos, na crônica das
e na Literatura, a
social pontificam aqueles que pregam Platão e praticam Epi-
curo. Na História Civilização, Fouché é paradigma. No
o tipo é o Tartufo, comédia Quanto
turpar os fatos e provocar a indignação dos tolos, impelindo-
os a condenar até mesmo o que os favorece, reside na mons-
é como sem-
pre fica das calúnias mais absurdas. Mas é claro que para a
prática de mutilações não seria necessário um expediente tão
oneroso e complicado. Aqui mesmo, para não falar na África e
na Ásia, órgãos anatômicos podem ser extraídos a preços mais
baixos e sem burocracia.
Num país como o nosso, onde o êxodo rural e a pa-
ternidade irresponsável enchem as metrópoles de crianças
abandonadas, famintas e corrompidas, sujeitas a abusos de
todas as espécies, inclusive ao extermínio, somente a mais
abominável hipocrisia pode insurgir-se contra o auxílio que vem
de fora. Cumpridas as formalidades legais, que não são pou-
cas, não há como se possa condenar o fato de serem os me-
nores resgatados da miséria e preservados do contágio crimi-
nal para viverem com famílias idôneas, em país desenvolvido.
Certamente porque incapazes de ajudar seus semelhan-
tes é que os hipócritas não admitem possa alguém, sem outra
compensação além espiritual, assumir encargos que
só assumiriam com ânimo de lucro.
. Infelizmente essas adoções, verdadeiros prêmios de
lotena para os adotados, são gotc:s d'água na fogueira da mi-
132
serabilidade infantil. Como disse o Barão de Itararé: "O pro-
blema dos menores é um dos maiores". Não há solução a
O futuro, porém, ser menos se
do êxodo rural e se
a
qualquer providência
ou decretos não alteram a
devem os , antes
-..r,="n"""" contribuir com dinheiro
não sejam pela injustiça
as
, a abandonar, ceder
ou vender os filhos.
Embora afirme-se que as lágrimas do crocodilo
são derramadas por compaixão de suas vítimas e sim porque,
Plínio que os
ver
oposta era a na os
transeuntes, insultando-os a mais não poder, até que os acos,--
sados atirassem moedas para livrarem-se da perseguição. E
óbvio que essas condutas são ambas deselegantes. Mas não
há dúvida de que, por não implicar em aleivosia, traição ou
perfídia, a dos mendigos é a menos reprovável. Nela, quando
nada, não há cinismo, falsidade ou hipocrisia.
133
OPOD DAS
Ao contrario de Sócrates, que só visitava as lojas de
comércio para ver quantas coisas existiam, das quais ele não
precisava, as pessoas, de modo geral, escravizam-se ao con-
sumismo. Como escreveram Marx e Engels, no Manifesto
Comunista, as mercadorias são os canhões que derrubam as
muralhas da Não, pois, no mundo atual, necessida-
de
os com seus as
empresas multinacionais passem a governar o país importa-
dor. Os costumes e até o idioma deste país são rapidamente
adulterados, como ocorre no Brasil, onde, a todo passo, so-
mos assaltados por palavras ou expressões alienígenas.
Entretanto, para viver confortavelmente, o homem
precisa de muito pouco. Desde que tenha boa saúde, física e
mental, o homem pode dispensar quase tudo que se fabrica. A
própria culinária, que os peritos buscam sofisticar, é perfeita-
mente dispensável, porque, como adverte a sabedoria popu-
lar, a fome é a melhor das cozinheiras. A propaganda, a inve-
ja, a vaidade e o senso de imitação é que estabelecem a de-
pendência do homem com as coisas materiais. Mesmo no
âmbito da sensualidade, a idéia é que valoriza os parceiros.
Como escreveu Samuel Johnson: "Se não fosse a imagina-
ção, o homem estaria tão felíz nos braços de uma empregada
como nos braços de uma duquesa". Na mente exaltada de
Don Quixote, a rústica Dulcinéa era uma beldade.
Invejamos a vida que levavam os príncipes do
do. tinham as hoje julgamos
indispensáveis. Não dispunham da eletricidade e, conseqüen-
135
temente, de qualquer aparelhos que dela dependem. Não
tinham
forto, a
No
rico do mundo é nada, mesmo porque,
como dizia Epicuro, "a riqueza não consiste em grandes pos-
ses, mas em poucas necessidades". Na mesma rota singrava o
raciocínio de Thoreau, para quem "um homem é rico na pro-
número de coisas que pode dispensar".
O poder das coisas, todavia, exerce-se sobre todo o
mundo e está presente na História da Civilização, através de
inúmeros episódios que confirmam a sua . Os
do mar, como eram chamados os piratas ingleses, patrocina-
dos I, impu e títulos
de nobreza que levavam a coroa.
escândalos que a Revolução Francesa foi o
"Colar da Rainha", alto um bajulador havia
encomendado em nome de Antonieta, numa em
~ , ~ e as finanças realeza estavam em bancarrota. Hoje as
JOlas estão saindo de Mas não é porque a futilida-
de esteja diminuindo. É porque os mais
sos e não há em parte alguma.
Já disseram que a diferença entre o adulto e a crian-
ça é que os brinquedos daquele caros. O menino
136
contenta-se com pouco. O adulto, porém, comete crimes para
conseguir os seus brinquedos. Muitos excluídos pela pobreza
apodrecem nas cadeias porque precisavam de um automó-
vel, uma televisão ou qualquer outro brinquedo, mesmo ao
sua assim
amargurados e invejando os que tudo . Sua vida
loca-se de seus limites ambientais para gravitar em torno das
que podem E essa
também um sentimento inferioridade que os deprime e
miiha em sua própria casa. Quando as coisas faltam, as
ções de parentesco, inclusive as conjugais, ou
teridram-se.
O próprio Jesus, cuja filosofia os crentes desvalori-
zam com o mito divindade, já contra o consu-
e ao
Adestrando sua inteligência através do estudo e da medita-
ção, o homem terá dentro de si mesmo tudo de que necessita,
excetuadas, obviamente, as coisas verdadeiramente indispen-
sáveis, como a alimentação, vestl,lário, remédios e um recan-
to para morar. O mais é prescindível, como foi nos séculos
que antecederam a era industrial. Como reza a fábula, o ho-
mem feliz não tinha camisa.
/'
137
./
OAPE TÂNATOS
Por sua complexidade, as causas do suicídio não
podem ser equacionadas ou expressas numa fórmula gerai.
Fenômeno dependente conjugação de fatores endógenos
e exógenos, o suicídio é um enigma que a mente humana não
consegue desvendar. A crença de que ele resulta da perda do
instinto por Schopenhauer, para
as condições
é ,o
pulo ou ciúme da própria angústia impõe ao suicida o uso
uma máscara sorridente que engana o observador. É o que
também diz o nosso Raimundo Correia, em seu "Mal Secre-
to", ao versejar sobre as delusões da máscara da face.
Em sua obra clássica sobre o suicídio, afirma Durkheim
que a decisão fatal "eclode e produz seus efeitos com um ver-
dadeiro automatismo, sem que a preceda antecedente inte-
lectual algum". Pessoas que obtiveram grande êxito na vida,
suicidaram-se sem motivo aparente. Ernst Hemingway, por
exemplo, acordou cedo, após sono tranqüilo, colocou na boca
os dois canos de uma espingarda e acionou os gatilhos. Nada
dissera à sua mulher, que pernoitara com ele e ainda dormia.
Não deixou sequer um bilhete, embora fosse um escritor fa-
moso. A crôníca das mortes violentas registra uma infinidade
de tragédias semelhantes, onde a ausência ou ignorância da
motivação sugere que o suicídio é um ato irracional e conse-
qüentemente imprevisível.
Também Jack London, sem motivo razoável, suíci-
aos quarenta anos quando seus livros de
aventuras eram os vendidos no mundo. Há quem se suí-
139
cide até por desafio ou brincadeira, como no caso da roleta
russa. as curiosidades, conta-se que um cadete inglês
já estar cansado de e
ao tédio, são
se
psicológicas.
o amor Ii-
os e mulheres, em momentos extre-
ma angústia, contemplam o suicídio. Para Nietzsche, a idéia do
suicídio é consoladora porque acena com um recurso disponí-
a
unca
morto". a e as
paixões, os budistas levam uma existência que equivale a um
permanente suicídio. Até as crianças se matam. E os animais
também. Os lemingues, pequenos roedores que habitam as
escarpas da Noruega, livram-se da vida atirando-se nas ondas
do mar, quando há escassez de alimentos.
Em todo o mundo, o suicídio é um evento que só es-
tarrece os nubívagos. Nas grandes cidades, os jornais noti-
ciam, diariamente, a ocorrência de suicídios. Em Londres, re-
centemente, alguns escolares suicidaram-se porque não tole-
ravam a hostilidade de seus colegas. Aqui em Vitória, a im-
prensa informa que mais duas pessoas se atiraram da tercei-
ra ponte. E já se perdeu a conta das que se jogaram de apar-
tamentos. Por bravata, os japoneses pilotavam torpedos e,
por questões de honra, praticavam o haraquiri. No Sudeste
Asiático, os bonzos incineram-se em praça pública. Quem
~ b . u s a do álcool e das drogas, exerce profissão perigosa, par-
ticipa de competições de alto risco ou afronta tiranias imbatí-
veis, é, sem dúvida, um suicida em potencial.
. A: atração do abismo é mais poderosa do que pode-
mos Imaginar. Não são somente os lemingues que praticam o
140
suicídio coletlvo, nem a ameaça da fome é a causa principal
fenômeno. A crendice também suas vítimas. Na
Guiana Inglesa, suicidaram-se o Jim Jones e seu
nho de novecentos adeptos.
por uma
re, Goethe, D'Annunzio,
raram esse tema em obras admiráveis. Para D' Annunzio, o
amor que conduz à
quandb a vida é uma tortura, o
vida é uma infâmia, o suicídio é um
o altar do sacrifício das mais
A ânsia de libertar-se das dores do mundo constitui,
nos idos fluentes, uma necessidade que a tecnologia busca
Já a nascer. É a eva-
construir e vem a
nem mesmo o sábio, está isento de optar pelo suicídio, por-
que, como reza o Eclesiastes, "quem aumenta sua sabedoria
aumenta sua tristeza". Como na vida, segundo Schopenhauer,
o filósofo do pessimismo, "só a dor é positiva", é perfeitamen-
te natural que muitas pessoas encarem a morte como uma
doce e definitiva anestesia.
141
A NTE
Virgil Gheorghiu, o festejado autor de "A Vigésima
Quinta Hora", escreveu em "A Espiã", outro de seus roman-
ces, que: "Em nossa época, os povos civilizados estão absor-
vidos por coisas muito sérias: a poluição dos mares, dos oce-
anos, dos rios e da atmosfera. Estão de tal modo preocupa-
dos com a perigosa poluição do físico não têm
mas, a
poluição do espírito. O cérebro contaminado. senti-
mentos estão contaminados". Nas páginas seguintes, o autor
argumenta, com fatos irrefutáveis, que os Estados Unidos são
os maiores poluidores espirituais da humanidade.
Não é difícil concordar com tese tão certeira. Basta
ler o que ele escreve sobre os "hippies", os "funks", o "rock
and roll", as danças simiesca§, a música alucinógena, a pro-
miscuidade, a toxicomania, em suma, sobre a"anímal·way of
Me", em que chafurda a1uventude americana. Se acrescen-
tarmos-a essa degradação o "Klu-Klux-Klan", a Lei de Lynch,
a seita de Jim Jones, o culto da violência, os filmes de "kung
fu", a contracultura, a apologia do homossexualismo, o êxito
espetacular de monstrengos como Michael Jackson, a hostili-
dade aos latino-americanos, a discriminação racial, as torpe-
zas da mídia e as cruzadas da hipocrisia, chegaremos à con-
clusão de que precisamos levantar uma barreira intransponí-
vel contra a invasão do lixo cultural americano.
Estados Unidos são um país de comerciantes,
inventores e financistas. Aos americanos, nativos
ou importados, o mundo deve o material de que
143
hoje desfruta. Empolgados, porém, com suas realizações téc-
os americanos James Bumham,
Até
o nosso idioma,
e absolutamente
A linguagem do brasileiro hoje poluída por uma
infinidade vocábulos e expressões anglo-americanas que
servem apenas para evidenciar alienação ou pedantismo. "Sho-
vez
ern
em vez em vez de
sa. "Stand" em vez de Posto. "Up to date" em vez de simples-
Atual. como Ruy censurou na época em que o
Idioma portugues estava eivado de galicismos, o nosso ver-
disp,ensa, por sua versatilidade e riqueza, a importa-
çao de vocabulos ou expressões alienígenas.
O povo americano é programado pela televisão que
o submete a uma lavagem cerebral implacável. É também o
maior consumidor de drogas do planetá: Se o tráfico de coca-
ína para os Estados Unidos fosse interrompido, a Colômbia
abriria falência. A campanha prioritária televisão america-
na não todavia, contra o narcotismo, porque dos traficantes
não se pode exigir indenizações. É contra o tabagismo, por-
que o patrimônio das fábricas de cigarros está ao alcance dos
tribunafs. Nessa empreitada, só não disseram ainda que os fu-
respondem pela perfuração da camada de ozônio. Mas
Ja descobriram nada menos de quatro mil e setecentos vene-
nos em um simples cigarro e conseguiram criar, para atrair adep-
tos e fomentar discórdias, a figura rídicula do fumante passivo.
. o tabagismo, mas não ousam proibir a
fabncaçao de cigarros, porque a Lei Seca, relativa ao alcoolis-
144
mo, foi de trágicas conseqüências. Impõem o do cin!o de
segurança, mas não param de vender moto?lcletas .. os
maiores exportadores mundiais de pornografia, mas Ja Impu-
taram ao Presidente Clinton, a um Juiz Suprema e a
e anos de idade o cretiníssimo delito
assédio sexual. Em suma, pregam e
Como ali tudo se com indenizações, transformaram
numa . O advogado, nos Estados Uni-
dos a debitar a ou àquele produto, a ou
conduta humana, uma carrada de males hipotéticos que pos-
sibilitem judiciárias.
O pior de tudo isso é que nós, herdeiros ?e .uma cul-
tura superior, estamos importando barbaris:nos e os
americanos em praticam e divulgam. Ate mes-
mo em nosso a e o
o
escapa à poluição com os _ U
cam nossas tradições. É necessária uma reaçao contra os que,
abusando aqui da liberdade de imprens,,:, propagan.da
dos costumes americanos. Em tecnologia e nqueza matenal,
os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo. Mas
em cultura, costumes e vivência espiritual, não há como se possa
digerir seus preconceitos, sandices e mazelas.
145
'0 ÓPIO ELETRÔNICO
Em excelente artigo intitulado "J'accuse!", publicado
no "Jornal do Brasil, edição de 13/1/1993, escreveu o Arcebis-
po Primaz, Dom Lucas Moreira Neves: "Acuso a TV brasileira
de ser demolidora dos mais autênticos valores morais, sejam
eles pessoais ou sociais, familiares, éticos, religiosos ou espi-
rituais. Demolidora, porque não somente zomba deles, mas
do telespectador e propõe, em seu
a e dos
familiares - amor, fidelidade, respeito mútuo, reali-
zada quotidianamente, sobretudo nas telenovelas. Em lugar
disso, o deboche, a dissolução, o adultério, o incesto".
Aduziu o sábio sacerdote, em sua santa indignação,
que as telenovelas incutem na juventude uma concepção inde-
corosa da vida e que, com seus "programas da mais baixa ca-
tegoria moral", o objetivo da televisão brasileira é "imbecilizar" o
povo, criando "uma geração de debilóides". Por sua admirável
concisão e pelas verdades que esgrime, esse artigo deveria ter
sido publicado em todos os jomais do País e discutido em to-
das as escolas, porque, na época atual, a grande inimiga da
cultura, da sabedoria e dos costumes é a mídia eietrônica. Com
seu ópio colorido, a televisão instila a preguiça mental, afastan-
do dos livros os videotas e eliminando até mesmo a conversa-
ção e o relacionamento entre os membros de uma família.
Espalhando seus tentáculos por todos os rincões, a
televisão vai raptando a mente do homem comum, da juventu-
de e donas de casa, em todos inoculando uma filosofia
cuja concorre para subverter os costumes e
as famílias. Depois de telenovelas, cuja
147
temática é sempre a promiscuidade, os jovens não mais obe-
decem à hierarquia familiar ou aceitam normas de conduta.
Por seu de casa e o chefe da família descobrem
não tem os
a encarar um ao outro com
com a miragem da do/ce vita, os
repudiam o trabalho e com um
se por de cem
capítulos, evidencia que as telenovelas produzem dependên-
psíquica e êstimulam a ociosidade. Explorando o mundo
inefável do faz-de-conta, o "paraíso dos tolos" de falàva
Milton, a televisão inverte valores e entorpece multidões, tor-
os
a ser O que hoje
cüra. No âmbito do Direito, provocam a expedição de leis extra-
vagantes, ridículas, inaplicáveis ou contrárias à ordem jurídica.
Houvesse em nosso País um órgão realmente dedica-
do a velar pela cultura e pela mentalidade do povo, a televisão
teria sido obrigada a conter-se nos limites da conveniência so-
cial. Não teria permitido que ela difundisse, entre nós, a histeria
acústica americana - rotulada de música moderna - nem o cul-
to da violência e do homossexualismo. Teria preservado nos-
sas tradições e impedido a exploração sensacionalista de atos
criminosos, cuja divulgação implica, como adverte a Psicologia
Judiciária, numa reação em cadeia. Exemplos
fenômeno são as mutilações penianas que, em sua safra atual,
começaram em Vitória e já se repetem em outras O
mesmo ocorre com os seqüestros e outros delitos.
De todas as mazelas, porém, que a televisão inocula
em seus dependentes, a mais ruinosa é a preguiça mental.
Quem se habitua a olhar figuras em movimento e simplesmen-
te ouvir o som de palavras, não se animará jamais a concen-
trar-se na leitura de um livro. Será sempre, como uma esponja,
mero recipiente do que lhe encherem a cabeça, porque, abdí-
148
cando do raciocínio, não terá condições ou
I S á robotizado a ponto de suas Oplnloes
em programas de auditório ou nos comentan-
, d sua a
os petulantes locutores e. ,.
criando um mundo Ilusono,
mes pilotando a volição e a
, Sendo a ignorância a fonte todos os males e o
. aue a deste
livro o portal e.. . .
vulgaridade da televisão em SUlCldlO
viciados naquele entorpecente - pior. os outros,
q
ue seus efeitos são direcionados - destinam-se a servir I e
f t
de telenove as
massa de manobra para-quem e e ua,
e programas ímbecilizantes, a sua lavagem A
perniciosa a morte o IVro- ,
149
o FILHO DO HOMEM
A biografia de Jesus está envolta nas brumas do mis-
ticismo, da fabulação e da mendacidade. De tudo que se dis-
se e escreveu sobre o venerável profeta, os únicos fatos indu-
bitáveis são o batismo, a atividade revolucionária, o julgamen-
to e a crucificação. Até mesmo a data e o local de seu nasci-
mento não merecem aceitação unânime. A dúvida contamina
porque
a
milagrosa, é nasceu
Era filho de Maria e pai ignorado, uma vez que José, marido e
protetor de sua mãe, vivia em castidade, mantendo com ela
uma relação paternal.
Para os habitantes da Galiléia, região paupérrima
onde a família de Jesus era radicada, o único meio de ascen-
são social era a exploração da crendice. Não confiando em
soluções terrenas, capazes de suprimir a miséria ou erradicar
as doenças endêmicas, e obrigado ainda a pagar tributos ao
invasor romano, o povo acreditava apenas no socorro divino.
De suas tradições, aliás, constava que um Messias, um enyia-
do de Deus, chegaria a qualquer momento para redimir o povo
judaico. Dos escribas e fariseus, serviçais do domina.dOr ro-
mano, o povo nada podia esperar, a não ser o agravamento
de sua penúria. Somente de Deus viria a salvação.
Ao que tudo indica, Jesus foi, desde criança, prepa-
rado por seus familiares para exercer a missão de profeta.
Embora os Evangelhos não sejam confiáveis, deles consta
que, aos doze anos de idade, Jesus já assombrava os sacer-
dotes oficiais com seus conhecimentos das leis sagradas.
Durante um longo período que a mitologia cristã pretende ocul-
151
tar, Jesus esteve internado em Qumran, comunidade situada
numa çlas margens do Mar Morto, onde estudou com os es-
a viver em rigoroso ascetismo. O mesmo
por obra e
não podiam procriar. A era,
portanto, a única de salvar a . João
Batista foi o primeiro a internar-se em Qumran, de onde se
afastou para anunciar que um enviado de Deus estava pres-
tes a surgir. Seguindo.a praxe dos ele vivia em celi-
a seus
na cerimônia do que ele era o o
esperado, tanto assim que teria o condão de batizar com o
Espirito Santo. Embora negando essa condição, para não ser
acusado de blasfêmia, Jesus sempre se conduziu como se
fosse um arauto de Deus na terra. Segundo os Evangelhos,
ele acenava com o socorro divino, pregava a humildade, a
renúncia, a caridade, a abnegação e tudo que correspondia
aos anseios dos pobres e dos doentes. Tal doutrina ameaça-
va os privilégios dos fariseus, que cultivavam a hipocrisia e
chafurdavam na corrupção. Por sua conduta revolucionária é
que Jesus foi crucificado.
Não foram os fariseus, todavia, que praticaram con-
tra Jesus a maior ofensa. Foram seus próprios seguidores, ao
lhe atribuírem a divindade. Como Filho do Homem, um
herói e mártir da eterna luta dos oprimidos contra os opresso-
res. A fidelidade aos seus princípios e a admirável resignação
com que suportou as injúrias e os suplícios, garantiriam para
ele uma situação incomparável na história da humanidade.
Como Filho de Deus, porém, a sua postura foi decepcionante,
como escarneceram os ímpios que o desafiaram a descer da
cruz. Sua ressurreição, após inumado, é uma fábula propalada
152
or duas mulheres que foram ver o sepulcro e o acharam
p Para os industriais da crendice, entretanto, mdls
o Filho Deus. Do contrano,
que . t"
poderiam explorar sua imagem. estehona anos
aram a humildade a usar
a viver em palácios como os
moveram cruzadas rapina, incineraram
caram a
e do mito imortalidade, . os
as
' chamas do inferno. Difundiram a estupidez e
. . na
manter o mundo ocidental, por vanos
ignorância. E até hoje, como chacais,.
ver do Justo. Por sua causa, como disse Nietzsche: O Evan-
morreu na
153
DíZIMOS DA C N E
A grande maioria da população mundial, composta
de budistas, maometanos, judeus ortodoxos, ateus, agnósti-
cos, , não admite a origem divina de Jesus nem acredita
em seus milagres. Ele mesmo jamais afirmou que era o Mes-
sias ou o Cristo (o Ungido), e a todos estendia (MaL 23:9) a
sua origem declarou-se apenas o
os vínculos terrenos
o
mortos enterrarem os mortos. E
sua mãe e seus irmãos estavam presentes e queriam vê-lo,
estendeu a mão para os discípulos e disse (Mat. 12:49): "Eis
aqui minha mãe e meus irmãos".
Quanto aos milagres, argumentam os incrédulos que,
aqui e alhures, magos e curandeiros restituem a luz a cegos,
a mobilidade a paralíticos e até mesmo a vida a supostos de-
funtos. Creditam esse imaginário poder à sugestionabilidade
dos -Pacientes e, com relação aos ressuscitados, à súbita ces-
sação de períodos de coma ou catalepsia. Alegam também
que os quatro Evangelhos, fonte única ou principal. de infor-
mação sobre a vida de Jesus, estão refertos de fabulações e
não poderiam retratar com exatídão os eventos de sua ativi-
dade messiânica, porque foram escritos entre trinta e sessen-
ta anos após a crucificação. Declaram que, sobre essa vida
extraordinária, apenas três fatos são irrefutáveis: o batismo, o
julgamento e a crucificação.
com a
Filho
Quem ,a
é a concordar
foi, sem dúvida, um
para ficar apenas
não foi o
. Nascido
155
em regiã? agreste, no seio de um povo pobre e espolia-
do, nao podena Jesus - cujo nome, da gre-
ou Josua,
necer insensível à
vam a e a
o infortúnio
e
na exploração da humanidade. Com os dízimos da crendice
ergueram templos em nome de jesus e continuaram vivendo
através dos séculos, como viviam na época em que o
caram. Fingindo adorá-lo, industrializaram sua herança.
Como disse Ruy, no monumental prefácio de "O Papa
fundaram seitas e igrejas: "Em cujo seio a reli-
glao do Cristo soçobrou, deixando apenas à superfície. e ain-
da assim sacrilegar1"f'ente. ulteradas, as feições ostensivas,
o vocabulário e o rito. O que ficou é uma simbólica sem alma
sem verdade, pasto à credulidade supersticiosa
Ignorantes e manto ao cepticismo dissimulado e
minoria ilustrada". Explorando a debilidade
mem, sua ignorância, seu fascínio pelo sobrenatu
necessidade patológica de ser iludido, os e
apossaram-se do símbolo da cruz - santificado pelo martírio
do Justo - e continuaram exercendo o poder .
Na Idade Média, esse poder era absoluto.
va reis e incinerava em pública os contestavam o
mandato divino dos sacerdotes ou simplesmente
carne .. na sexta-feira. As Cruzadas, institu
156
ção do Santo Sepulcro, foram na realidade expedições mima-
res destinadas ao saque, à matança de muçulmanos e a as-
segurar, sem pagamento tributos, o
A
Como ocorre com as
Cristianismo foi abocanhado e em fonte de
desprendimento que o Nazareno exigia de seuS discipulos foi
ao oblívio que as pudessem acumular a
, com
, ser
Jesus (Mal. 24:11) advertiu: "Surgirão e.
narão a muitos". Por tudo isso é que (Luc. 9:58): "o Filho do
Homem não tem onde reclinar a cabeça", e a ironia popular usa
a palavra Cristo para adjetivar a vítima de um logro, de uma
perseguição, ou alguém punido por crime que outrem cometeu.
157
o BORDÃO DOS EXTENUADOS
Quem contempla a miséria humana e a de todos os
seres que vivem na crosta terrestre é induzido a concluir, com
Walter Lippmam, que: "O maior problema da Teologia é recon-
ciliar a bondade infinita de Deus com sua onipotência". Isto
porque, aduz aquele pensador: "Nada deixa o homem comum
mais perplexo do que o espetáculo de tantos sofrimentos com-
e a carn
condicionada à imolação recíproca, o homem comum a
inquirir porque Deus, que tudo criou, tudo sabe, tudo vê e tudo
pode, não socorre, com sua infinita bondade, as vítimas de
tantos sacrifícios.
Considerando a omissão de Deus em socorrer os
desgraçados e o fato de que nenhuma desgraça ocorre sem
que ele permita, foi que Stendhal, em frase que Nietzsche la-
mentou não ser de sua própria autoria, concluiu que: "A única
desculpa de Deus é não existir". E Jules Renard, abonjando
essa mesma questão, ponderou: "Não sei se Deus existe, mas
seria melhor para sua reputação que não existisse". Existindo
porém ou não existindo, Deus tem sido uma mina de ouro e
poder para uma infinidade de seitas e religiões. Sobre elas,
disse Thomas Paine: "Todas as igrejas, sejam elas judias, cris-
tãs ou maometanas, me parecem meras invenções humanas,
estabelecidas para amedrontar e escravizar a humanidade e
açambarcar as riquezas e o poder".
teólogos tentam explicar com a fábula do Paraíso
o de Deus pelo nosso infortúnio, argumentando que
o homem imune aos sofrimentos se co-
159
metido o pecado original. É óbvio, porém, que sem tal pecado
- meio natural de se extingui-
a
Explorando a ignorância e a
homem, inúmeros profetas, místicos e
os povos e cometeram impunemente os crimes mais abomi-
náveis. As guerras religiosas, os sacrifícios do Teocali as fo-
gueiras da Inquisição, as matanças das Cruzadas, o
poder dos sacerdotes e sua espantosa criminalidade. Por isso,
lamentou o cristão Heywood: "Quanto mais perto da igreja,
mais longe de Deus".
Como escreveu Montaigne: "O homem é um louco
varrido; não pode fazer um verme, entretanto deuses
dúzias". Esta, porém, é a conseqüência de sua igno-
rância e fraqueza. Perdido em um mundo
nhece, não sabendo de onde veio e vai, tendo certa
apenas a morte inevitável, o homem precisa acreditar mes-
mo no nada, porque deixaria de existir, como entidade
tual, se em nada acreditasse. Para ele, como disse Schope-
nhauer, o mundo é apenas vontade e Incapaz
de suprimir a vontade, dominado pelo instinto de conservação,
o homem aceita facilmente a idéia da imortalidade da alma e
entrega jubilosamente a bolsa, a consciência e a liberdade a
quem lhe prometer um passaporte para o paraíso celestial.
As lições atribuídas a Jesus pelos Evangelhos,
160
. d Renan, meio século após a r:'0rte
tos e dIvulgados: °ara domesticar o barbarismo, mtro-
do profeta, contnbulram P 'dade em um mundo
f ntos e can .
duzindo os sen sentimentos, todavia, incompatl-
cruel e incomov1vel. homem, repercutiram na-
com a
na
queles que. rédulos sua
tão Temendo o Inferno, os c fingindo acreditar, acobertaram
. Não obstante,
suas com o inerte,
dendo corrigir a ue o homem continuas-
de
·lxando com sua mflnlta bonda e, q d h em"
, . bbes' "o lobo o om .
se sendo, como disse Ho t . que Deus existe, porque
Argumentam.as eo _ poderia existir. Esquecem,
o Universo nao a teor
uma vez ,
sem um
to essa .. \ a
, - futuro imprevlsl
ve
, .
ficos é que , ém ue se Deus existe e e
do Universo. !=- P?r_
10
atos benévolos, por-
onipotente, nao adianta sua opção pela iniqüi9ade.
que as d.o mundo ada aceitam sem comprovaçao -
Para os agnostlcoS - que n . ue nele buscam se am-
D
ó aproveita aos q - d
crença em eus s d Nietzsche: "o bordao os
mar, como se ele fosse, segun o
extenuados" .
iNO!
Prefácio ................................. .
Falando Francamente.. .................................................. 13
O Tribunal do Júri................................... .................... .... 45
A Oratória....................... ............................... ................ 49
As Causas do Crime............. ......... ................................ 53
A Pena de Morte......... .......... ................. ......................... 55
O Dever do Advogado..................................................... 59
O Erro Judiciário ......... ........... ....... ..... ...................... ....... 63
O Crime Passional ................................................. .
O Suicídio .............................. .
A Fome e 3 Lei .................................. ..
O Caso Collor ..................................... ..
A Mania de Julgar ...................................................... .
67
71
75
79
83
1\ Lei de Gresham ...... ...... ....... ... ............... ................ 87
A Felicidade por Decreto ................................. 91
AAdvocacia C r i m i n ~ ... ....... ..................................... 95
O Fracasso do Cornunismo .......................................... 99
AGuilhotina ................................................................. 103
A Opinião Pública ......................................................... ,· ..... 07
O Direito de Morrer........ ................ ....... .................... .... 111
O Eterno Retorno.......................... .... ............................ 115
A Ignorância .................................................................. 119
As Leis Hediondas ....................................................... 123
A Intolerância ............................................................. ~ 127
A Hipocrisia .............................................................. . 131
O Poder das Coisas .... .' .............................................. . 135
O Apelo de Tânatos ...................................................... .. 139
A Poluição da Mente .................................................... . 143
O Ópio Eletrônico .......................................................... . 147
O Filho do Homem .................................................. . 1..51
Os Dízimos da CreRdicé ........................................... . :155
O Bordão dos Extenuados ................ .. ....................... . 159
16-:

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