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Anpocs2003

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Ocupando e comprando para construir o território

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estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre

Marcelo Piedrafita Iglesias

GT POVOS INDÍGENAS Tema: "INICIATIVAS E ESTRATÉGIAS INDÍGENAS" (coordenado pelos Prof. Dr. João Pacheco de Oliveira e John Manuel Monteiro)

XXVII ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 21 a 25 de outubro de 2003 Caxambu, Minas Gerais

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Ocupando e comprando para construir o território: estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre
Marcelo Piedrafita Iglesias1 Introdução Há hoje três terras indígenas (TIs) reconhecidas pelo governo federal para o povo Kaxinawá2 no Município de Jordão, no Estado do Acre3. Incidem nestas terras dez seringais nativos, distribuídos de forma contígua ao longo do rio Jordão e do alto rio Tarauacá, com extensão total de 107.482 ha. Esta situação difere daquela vigente em 1991, quando, após quatorze anos da sua primeira identificação pela Funai, encerrava-se o processo de regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão, situada à época no Município de Tarauacá. Neste texto serão analisados os principais processos de redefinição territorial e de reorganização política e econômica protagonizados pelos Kaxinawá do Município de Jordão desde início dos anos 1990. Para tal, serão focadas diversas mobilizações das famílias e lideranças Kaxinawá, bem como da Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ), para a conquista, a garantia, o uso produtivo e a regularização de quatro novos seringais, incorporados ao território a partir de 1990, que envolveram, em diferentes contextos, órgãos de governo, instituições e grupos de atores das arenas local, estadual, regional, nacional e internacional. Serão também explicitadas as inter-relações e determinações mútuas que existiram entre estas mobilizações e as deliberações oriundas de diferentes órgãos e instâncias do Estado brasileiro pelos quais trafegou (e continua a trafegar) o processo de regularização administrativa das duas terras indígenas Kaxinawá através da quais essa ampliação territorial foi oficialmente reconhecida. Essas mobilizações, bem como a participação dos Kaxinawá no campo intersocietário atualmente configurado no Município de Jordão, serão contextualizadas no bojo de outras transformações territoriais, políticas e econômicas que ganharam força como resultado da profunda crise instalada na economia da borracha nos anos 1990, da criação desse município em 1993, da constituição do aparato administrativo do poder público municipal, do realinhamento das forças políticas, tradicionais e emergentes, na sociedade

Doutorando em Antropologia Social no PPGAS-Museu Nacional-UFRJ; Pesquisador do Laboratório de Pesquisas em Cultura, Etnicidade e Desenvolvimento (LACED/MN/UFRJ). E-mail: marcelo@piedrafita.eti.br ¹ Os Kaxinawá (gente do morcego) se autodenominam Huni Kui (gente verdadeira) e falam o hãtxa kui (língua verdadeira), da família Pano. Pouco mais de 4.000, os Kaxinawá estão distribuídos em doze terras indígenas no Estado do Acre, nos rios Breu, Jordão, Tarauacá, Murú, Humaitá, Envira e Purus. Em final de 2000, havia 17 aldeias Kaxinawá no alto rio Purus, em território peruano. A maior população indígena do Acre, os Kaxinawá hoje constituem 43% dos índios do estado. Do total dos Kaxinawá, cerca de 70% habitam dez terras indígenas na bacia do rio Tarauacá. ² A TI Kaxinawá do Rio Jordão foi identificada em 1977, reidentificada em 1982, aprovada pelo Grupo Interministerial criado pelo Decreto Nº 88.118/83 e delimitada em 1984, demarcada fisicamente no ano seguinte, registrada em Cartório de Imóveis e no Serviço de Patrimônio da União em 1988 e homologada pelo Presidente da República em 1991, com área de 87.293 ha. As TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kaxinawá do Seringal Independência foram identificadas em março de 1994 pelo GT PP 1.204/93. A primeira tem extensão de 8.726 ha, foi delimitada em 1998, fisicamente demarcada e desintrusada em 2000, homologada em 2001 e registrada na Secretaria de Patrimônio da União e no cartório de Tarauacá em início do ano seguinte. A segunda tem 11.463 ha e é composta pelos seringais Independência e Altamira, comprados pela Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ) em 1993-94.

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jordaniense a partir da configuração de um campo político-partidário que reflete interesses locais e extralocais, da criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá, do surgimento de instâncias de representação política dos seringueiros e agricultores (o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Associação da Reserva Extrativista), de conflitos envolvendo grupos de "índios isolados" nas cabeceiras dos rios Tarauacá e Jordão, da regularização pela Funai para esses índios da TI Alto Tarauacá, limítrofe à TI Kaxinawá do Rio Jordão, assim como de várias políticas e programas dos governos federal, estadual e municipal na área de jurisdição do município. Um breve sobrevôo histórico Até 1977, ano em que a Funai identificou a TI Kaxinawá do Rio Jordão, os Kaxinawá controlavam e concebiam o pequeno seringal Fortaleza como seu território, encravado no meio de outros dez seringais nativos, distribuídos em ambas margens desse rio, à época movimentados por gerentes e patrões ligados a um mesmo arrendatário. Era na sede do Fortaleza e em suas cinco colocações, que somavam 27 estradas de seringa, onde 144 Kaxinawá, distribuídos em 19 casas, viviam e trabalhavam sob a chefia de Sueiro Sales Cerqueira. O restante dos Kaxinawá, 239 pessoas, estava disperso em 38 casas nos seringais Revisão, Transual, Sorocaba, Bom Jardim e Bonfim (Aquino, 1977). O Fortaleza passara ao controle de Sueiro na segunda metade dos anos 1940, após a morte de sua madrinha de fogueira, a piauiense Marcolina do Forno. Os Kaxinawá já trabalhavam neste seringal para Marcolina, viúva de Joaquim Rogério, fazia pelo menos duas décadas, antes chefiados pelo pai de Sueiro, Chico Curumim, que, por sua vez, trabalhara com Felizardo Cerqueira, famoso mateiro cearense, que nas décadas de 1900-20 teve contribuição decisiva para a incorporação dos Kaxinawá à empresa seringalista nos rios Tarauacá e Jordão (Aquino, 1977; Aquino & Iglesias, 1994; Iglesias, 1992, 1996). Através do barracão do Fortaleza, Sueiro permaneceu, por três décadas, atrelado a redes de aviamento atualizadas por sucessivos proprietários e arrendatários dos seringais do rio Jordão, bem como por comerciantes e regatões sediados na Vila Jordão, junto aos quais trocava mercadorias por borracha, couros, peles de fantasia, criações domésticas e gêneros agrícolas produzidos pelos seus parentes e fregueses Kaxinawá. A posse do Fortaleza, e depois do seringal Sorocaba, chefiado por Nicolau Sales, irmão de Sueiro, foi importante para que as famílias Kaxinawá que ali moravam lograssem uma coesão que, diferente do que acontecia em outros seringais controlados por patrões brancos, em muito contribuiu para a manutenção, em uma situação histórica adversa, de importantes formas de sua organização social e cultural. Antes da chegada da Funai, a construção dessa noção particular de território, centrada no Fortaleza, o "seringal de caboclo", e no Sorocaba, era condicionada, portanto, por correlações de forças inerentes a um padrão de dominação que os Kaxinawá viviam fazia três décadas nos seringais do rio Jordão, parte de uma situação histórica mais longa, por eles categorizada como "o tempo do cativeiro", instaurada com a implantação da empresa seringalista na região e os primeiros contatos, ainda na década de 1900, marcados pelas "correrias" patrocinadas pelos caucheiros peruanos, exploradores de seringais e por sucessivos patrões.

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A quase secular existência do seringal enquanto matriz de organização espacial, econômica e política no rio Jordão veio condicionar as propostas formuladas pelos Kaxinawá em diferentes contextos institucionalizados de demandas e redefinições territoriais. Inauguradas com a identificação de sua terra pela Funai em 1977, estas propostas ganharam diferentes formas nas décadas seguintes, em conjunturas diversas, relacionadas com à situação econômica e política na região do Alto Tarauacá, com sucessivas mudanças nos procedimentos de regularização das terras indígenas no país, com as formas próprias pelas quais o órgão indigenista ganhou configuração e interveio em nível local e com programas do governo federal, alguns em conjunto com a cooperação internacional, que favoreceram o avanço do reconhecimento das terras indígenas no Estado do Acre. Essa projeção territorial particular, tendo o seringal como matriz, embasou também os processos de mobilização e de reorganização política, econômica e cultural protagonizados pelos Kaxinawá na gradual construção de uma nova situação histórica, por eles denominada “o tempo dos direitos”. As mobilizações empreendidas, de meados dos anos 1970 até fins dos 1980, para a desnaturalização da identidade genérica de "caboclo", a demarcação e o reconhecimento local de sua terra indígena, a estruturação de sua cooperativa, a retirada dos patrões e seringueiros brancos, o uso produtivo dos seis seringais de sua terra, a abolição do pagamento da renda das estradas de seringa, a abertura de espaços para a comercialização mais autônoma da borracha e a compra das mercadorias necessárias ao abastecimento das cantinas nos seringais, a capacitação de professores bilíngües e agentes de saúde e a participação no movimento indígena regional, resultaram em rupturas e reordenamentos na situação histórica que predominara no rio Jordão durante décadas e, portanto, nas relações até então travadas com os patrões, comerciantes e demais grupos da sociedade que gravitavam ao redor da Vila Jordão e da cidade de Tarauacá (Aquino, 1977, 1991; Iglesias, 1992, 1993, 1996; Aquino & Iglesias, 1994). Novos territórios Kaxinawá Em 1988, as lideranças Kaxinawá fundaram e legalizaram a ASKARJ, canal de representação política através da qual continuaram participando das várias instâncias do movimento indígena no Acre e têm se relacionado diretamente com órgãos governamentais, ongs, agências da cooperação internacional e empresas. Têm, assim, estabelecido parcerias institucionais e implementado programas que vêm viabilizando a capacitação continuada de professores bilíngües, agentes de saúde e agentes agroflorestais, bem como a canalização de recursos para "projetos", voltados para o fortalecimento institucional da associação, a manutenção e diversificação do extrativismo e do artesanato, a abertura de novas alternativas econômicas e a gestão e vigilância de seu território. Entre 1990-94, os Kaxinawá iniciaram a redefinição dos limites do território que controlavam efetivamente fazia uma década, circunscrito aos seis seringais da TI Kaxinawá do Rio Jordão, cujo processo de regularização encerrou-se em 1991. Através de mobilizações locais, bem como da representação política exercida por lideranças e pela ASKARJ, ocuparam e passaram a controlar mais quatro seringais, 22.450 ha, limítrofes à terra regularizada.

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Em 1990, grupos familiares Kaxinawá ocuparam os seringais Nova Empresa e São Joaquim, no baixo curso do rio Jordão, que fazia anos se encontravam “sem patrão”. Com recursos do Projeto de Implantação da Reserva Extrativista do Alto Juruá e Desenvolvimento Comunitário das Áreas Indígenas Circunvizinhas, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 1990-92, as lideranças Kaxinawá instalaram o "Astro Luminoso", sede central da cooperativa, no Nova Empresa e estabeleceram acordos comerciais e de uso das colocações e estradas de seringa com as poucas famílias de seringueiros brancos que ali habitavam. Essas iniciativas gradualmente construíram no Município de Jordão um consenso entre autoridades, proprietários, comerciantes, patrões e seringueiros a respeito dos legítimos direitos dos Kaxinawá sobre os dois seringais recém ocupados (Iglesias, 1993, 1996). O Nova Empresa e o São Joaquim somam dez colocações e 55 estradas de seringa. Além de ocupar boa parte das colocações que estavam “vadiando”, famílias Kaxinawá abriram novos locais de moradia em ambas as margens do rio. Em final de 1991, o grupo familiar extenso do cacique Getúlio Sales Tenê mudouse para o Nova Empresa. Nos anos de 1992-93, marcando o ocaso do Astro Luminoso, foi em sua casa que funcionou uma nova sede centralizada da cooperativa, parcialmente financiada com recursos levantados pela ASKARJ junto à World Wildlife Fund (WWF-US) para a implementação do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. Nesta mesma época, várias outras famílias Kaxinawá chegaram ao Nova Empresa e São Joaquim, parte das quais chefiadas por velhos aposentados, que passaram a se beneficiar da maior proximidade da sede do Município de Jordão para mensalmente receberem seus vencimentos do INSS. Em 1993-94, a ASKARJ comprou os seringais Independência e Altamira, situados no alto rio Tarauacá, a quatro horas de subida de barco da sede do Município de Jordão, que fazem fundos com o Boa Esperança e o São Joaquim, seringais localizados nas duas terras Kaxinawá na margem direita do baixo curso do rio Jordão. Os seringais comprados têm 11.463 ha, 13 colocações e 48 estradas, e são fartos em igarapés, lagos, praias, peixes e caça. Sua ocupação foi iniciada em fins de 1993, com a chegada de oito famílias extensas, em torno de 60 pessoas. Outras chegaram nos anos seguintes, algumas vindas dos seringais recém ocupados no baixo Jordão. Nas sedes do Independência e Altamira, assim como em outros locais nas margens do rio Tarauacá, construíram casas, plantaram roçados de terra firme e de praia, começaram a cortar seringa e a criar animais domésticos. Em março de 1994, a população Kaxinawá nestes dois seringais era de 97 pessoas (Aquino, 1995), tendo aumentado para 138 quatro anos e meio depois, segundo levantamento realizado pelos professores bilíngües sob encomenda da ASKARJ. Em documento enviado em novembro de 1993 ao Departamento de Identificação e Delimitação, da Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai, a ASKARJ reivindicou a inclusão dos seringais Nova Empresa, São Joaquim, Independência e Altamira nos trabalhos de identificação que seriam realizados no primeiro semestre do ano seguinte pelo Grupo Técnico (GT) PP 1.204/93, no âmbito de convênio firmado pelo órgão indigenista, a Embaixada da Suíça e a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre). Em abril de 1994, logo após a passagem deste GT pelo rio Jordão, os missionários, um casal de americanos e outro de brasileiros, das Novas Tribos do Brasil abandonaram definitivamente o Nova Empresa,

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Após onze anos de sua lei de criação. em hectares. consulta à Diretoria de Geociências. Até há pouco. sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1993. algumas com partes incidentes nos Municípios de Feijó e Marechal 4 Este fato permite pensar que não só as terras indígenas estão sujeitas a alterações ao longo do tempo.000 ha. publicada no Diário Oficial da União de 11/10/20024. todavia. Através da Lei 1. Tecnologia e Meio Ambiente do Estado do Acre (SECTMA). nº 5 de 10 de outubro de 2002. incorporou um trecho de floresta situado além dos divisores de água dos rios Tarauacá e Envira. paradoxalmente. Para tentar sanear esta dúvida. após a realização de plebiscitos de consulta às populações locais. 28% de sua extensão correspondiam a terras indígenas. ato legal que. do Decreto Nº 1. é a menor das três antes previstas.onde haviam permanecido por onze anos. Os dados produzidos pelo Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Acre em 1999 refletem esta dúvida: mantiveram os limites previstos na lei.500 ha.034 foram alterados pela Lei nº 1. que os limites municipais estabelecidos pela Lei nº 1. indicavam uma área de 559. em janeiro de 1996. O Município de Jordão e outras dimensões territoriais Em 1992.775 e da Portaria Nº 14.876 ha. com a sede da missão situada logo abaixo do igarapé Bonfim. À época. não havia. Dados divulgados pela Comissão Especial para Criação de Novos Municípios e pela Secretaria de Estado de Ciência. A Diretoria informou. em 1991. além de outras duas no Município de Tarauacá: Kaxinawá da Praia do Carapanã (Iglesias. foram emancipados dez novos municípios no Estado do Acre. foi criado o Município de Jordão. o Município de Jordão. realizei. Informou. que a extensão municipal é de 542. apontaram uma extensão de 669. a 9 de janeiro de 2003. em função de ações e atos administrativos oriundas de diferentes órgãos de governo (nesta caso. de 1996. os antropólogos desse GT apresentaram ao DEID/DAF propostas para a delimitação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. consenso nos dados oficiais a respeito da real extensão do Município de Jordão. em diferentes etapas de regularização. 1996). do IBGE. mas conservaram a extensão municipal em 669. área que consta na Resolução da Presidência do IBGE. O mapa que serviu de base para este novo cálculo. num novo marco jurídico instaurado pela promulgação. de 9 de dezembro de 1992. 1996). mas sua extensão. desmembrado do Município de Tarauacá. Estudos formulados pela SECTMA em 1991 informavam que apenas 0. permanece desconhecido pelos governos municipal e estadual. que normatizaram novo procedimento administrativo de regularização das terras indígenas no Brasil. federal e estadual). assim. Teve início. 6 . em setembro de 2002. 1995) e Kampa do Seringal Primavera (Aquino. reitero.500 ha. a saber: Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. limite intermunicipal estabelecido em sua lei de criação. 1995).034.2% da área do município fora alterada por ação antrópica. usados para fundamentar a criação do Município. 1996) e Kaxinawá do Seringal Independência (Aquino. ainda. Nos anos de 1995-96. limite da TI Kaxinawá do Rio Jordão (Iglesias. o reconhecimento oficial dos processos de ampliação territorial protagonizados pelos Kaxinawá no Jordão a partir de 1990. nos níveis estadual e municipal. tem área plotada no mapa bastante superior àquela com a qual foi criado. de 28 de abril de 1992. Após a primeira eleição municipal realizada em outubro desse ano. Dados do IBGE.069.

pela família Melo. estas transferências representaram. Em início dos anos 1990. desde então. com intenção de ampliar a sede municipal. com área registrada de 3. 7 . as herdeiras de Munir Bissat colocaram à venda dois importantes seringais no alto rio Tarauacá.6 36. Município de Jordão TI Kaxinawá do Rio Jordão TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão TI Kaxinawá do Seringal Independência TI Alto Tarauacá 5 TI Jamináwa Arara do Rio Bagé 6 TI Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu 7 Reserva Extrativista do Alto Tarauacá8 Seringal São João (Prefeitura Municipal) Área Municipal Restante Extensão (ha) 542.0 16. declarada em abril de 2001. cujos membros lograram se eleger em 1992 para a Prefeitura e a Presidência da Câmara dos Vereadores locais na primeira eleição após a criação do Município. Junto com os processos de ampliação protagonizados pelos Kaxinawá. em parte sobreposta às TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá.600 ha e sua outra parte fica no Município de Feijó.277 ha e sua outra parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo. as terras Kaxinawá no alto Tarauacá e no baixo Jordão.876 ha para o Município de Jordão. a outra tradicional proprietária de seringais nessa região e dona da principal casa comercial da sede do Jordão. levando-se em conta a extensão total de 542. As mobilizações dos Kaxinawá para a ampliação de seu território. com a compra dos dois seringais no alto rio Tarauacá e a regularização da terra indígena no baixo rio Jordão. O São João extrema com o perímetro urbano do município. Conforme pode ser visto no quadro abaixo. a redefinição da extensão da TI Alto Tarauacá destinada aos índios isolados. após a criação em fins dos anos 1970 da TI Kaxinawá do Rio Jordão.6 0. incidindo nos Municípios de Jordão e Feijó. com área de 139. como proprietários de terras. 164/91”.517 3. mas permaneceram à margem dos cargos políticos e administrativos a partir de 1996.Thaumaturgo.650 ha. Das mesmas herdeiras de Bissat.726 11. 7 A extensão total desta TI é de 31. houve significativas mudanças na propriedade de importantes seringais na região do alto Tarauacá.1 20.439 % 100.2%. na segunda metade dos anos 1990. em novembro de 1993. de 17 de dezembro de 1991. os Farias.470 ha. a Prefeitura Municipal adquiriu o seringal São João.7 0.1 1.7 2.199 ha e o sua outra parte incide no Município de Tarauacá.242 100. ainda.9 Fontes: Anexos do “OF/SECTMA/Nº. DEID/DAF. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá.6 18. os divisores de águas dos rios Murú e Jaminauá e. a terra Jordão-Envira. a proporção ocupada atualmente por terras indígenas é de 43. processo que se consolidaria. registrada no Cartório de Imóveis de Tarauacá. Na primeira metade dos anos 1990. a segunda mudança de monta na estrutura fundiária nesta região. O Iracema foi adquirido. A extensão total desta TI é de 28. foi arrecadada. arrendatários e comerciantes.976 3. 8 A extensão total da Resex é de 151. com as possibilidades abertas pela participação de seus membros na política partidária e na administração pública municipais. Por outro lado. a Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. mas se alteraria.293 8.6 2. contribuíram para marcar a decadência de uma das duas tradicionais famílias locais. em 1993.876 87.750 14.470 200.463 112. vieram a alterar significativamente a proporção da extensão municipal ocupada por terras indígenas. sem destinação claramente definida. CNPT-Ibama 5 6 A extensão total desta TI é de 142. Também parte do patrimônio da União.926 ha e sua maior parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo.

O Parque é limítrofe às TIs Mamoadate e Alto Rio Purus.435 8. destinado à conservação integral da biodiversidade.041 1. reconhecidos pelo governo federal no Estado do Acre integram o Corredor Ecológico Oeste-Amazônico.É importante destacar.380. 22% da superfície do estado. que encontram-se hoje em diferentes etapas de seus respectivos processos de regularização (Aquino & Iglesias.758 ha.087. com área de 695 mil ha. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. extremam como a Floresta Nacional do Macauã.978 1. por sua vez.193 2. que.414 População 699 9. 2001a.570 77.160 976. A criação do Parque Estadual do Chandless consolidará um corredor contínuo de 33 áreas reservadas pelos governos federal e estadual. ainda.400. No Vale do Juruá outro mosaico é constituído por 19 terras indígenas. Iglesias.385 843. A inserção das terras Kaxinawá e do Município de Jordão numa dimensão territorial mais ampla.514 4. abrangem 3.933. decretada em 1998 com 173. seringueiros e agricultores. e são ocupadas por pouco mais de 15. com 750. as TIs Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate. 1999. contíguas à TI Alto Rio Purus e à Floresta Nacional do Macauã9.4% a proporção das terras da jurisdição do Município de Jordão reservadas pelo governo federal com distintas finalidades. de uso direto e de proteção integral. que ambos mosaicos de terras indígenas e unidades de conservação.128 26. Nas últimas duas décadas. deve levar em conta.500 15. ao longo de toda a fronteira internacional do Acre com o Peru. agricultores e índios.600 ha. castanheiros. 8 .642 Alto Juruá Estes dois mosaicos de terras reservadas nos Vales do Acre-Purus e do Alto Juruá são. por sua vez. do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PP-G7).012 3.500 86. 9 Está hoje em processo final de criação em parte destas terras arrecadadas o Parque Estadual do Chandless. com extensão total de 6. Vales AcrePurus Terras Reservadas Terras Indígenas Reserva Extrativista Estação Ecológica Projetos de Assentamento Extrativista Subtotal Terras Indígenas Reservas Extrativistas Parque Nacional Subtotal Total Quantidade 2 1 1 2 6 19 3 1 23 29 Municípios 2 7 1 3 7 6 3 5 8 15 Extensão (há) 392.748 1. à Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema. três reservas extrativistas e o Parque Nacional da Serra do Divisor.000 1. por fim. regional. a Reserva Extrativista Chico Mendes. cabe contextualizar a inserção territorial do Município de Jordão numa dimensão mais ampla.794 ha.438 4.532. 2001b). Por fim.000 índios.470.532.815 11.978 ha.475 ha. que em novembro de 2000. a Estação Ecológica Rio Acre e os Projetos de Assentamento Extrativista Santa Quitéria e Remanso formam um corredor contínuo de 1. No Vale do Acre-Purus. ganharam configuração no Estado do Acre dois mosaicos de terras contínuas reservadas pelo governo federal com variadas destinações. regional e estadual.574. 10% da superfície do estado.500 seringueiros. com 21. distribuído por sete municípios. Estas 23 terras contíguas. no âmbito do “Projeto Corredores Ecológicos”.283 ha (40% do território acreano). e ocupado por pouco mais de 11. e à Floresta Nacional São Francisco. ligados por terras arrecadadas pela União. distribuídas por oito municípios. ampliou-se para 62. à pesquisa científica e ao ecoturismo.

277 962. pois até então acreditava-se que os isolados viviam no Alto Juruá peruano e entravam nos altos rios no Acre apenas durante o verão. ver Aquino. os grupos de índios isolados aproveitaram esta conjuntura para ampliar seus territórios de habitação e uso de recursos naturais. 2001a. da Funai. Entre 1996-98. e José Carlos dos Reis Meirelles sobrevoaram o alto rio Tarauacá e comprovaram a existência de malocas entre os rios Envira. Chefe do DEII. "caboclos brabos" e "arredios".383 84. com extensão total de 962.000 232. a proposta de criação das TIs Xinane e Alto Tarauacá.000 142. Município Terra Indígena Jaminauá/Envira Kampa e Isolados do Rio Envira Feijó Kaxinawá do Rio Humaitá Kulina do Rio Envira Xinane Alto Tarauacá Kaxinawá do Rio Jordão Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu 8 Povo Madijá (Kulina) Ashaninka Ashaninka Isolados Kaxinawá Madijá (Kulina) Isolados Isolados Kaxinawá Kaxinawá Ashaninka Pop 40 52 230 ? 255 235 ? ? 920 365 60 2. Aquino & Iglesias.712 Situação Jurídica Declarada/ Demarcada Regularizada Regularizada Regularizada A identificar Declarada Regularizada Homologada Jordão Marechal Taumaturgo Totais = 3 Devido ao acirramento nos cabeceiras dos rios Jordão. Pelo número de malocas. sobre a expansão mais recente dos territórios dos isolados e suas conseqüências para os atuais padrões de ocupação das terras Kaxinawá e a configuração territorial do Município de Jordão. os sertanistas estimaram que ali vivam entre 600 e mil índios. os seringueiros acreanos e os índios isolados.157 Extensão (há) 82. 1996. 1999. ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas proximidades. a crise na economia da borracha e a desarticulação das cooperativas indígenas e dos últimos barracões dos patrões seringalistas levaram a um quase total esvaziamento dos seringais mais às cabeceiras dos rios e das colocações de centro na floresta. com mortes de ambos os lados. Tarauacá e Envira dos conflitos entre os Kaxinawá. seringais próximos e a cidade de Tarauacá. constituem territórios de moradia e perambulação de populações de índios ainda sem contato sistemático.293 31. Sidney Possuelo. Ashaninka e seringueiros. ver Iglesias. os Ashaninka.712 ha. Humaitá e Tarauacá.795 127. Em março de 1998.600 87. talvez a maior população de isolados na Amazônia brasileira. assim como conflitos armados. Neste mesmo ano. como durante o "tempo das correrias". o Departamento de Índios Isolados (DEII). Nos rios Envira. a morte de três pessoas pelos isolados motivou migrações de dezenas de famílias de seringueiros para a sede do Município de Jordão. quase um século de existência da empresa seringalista e após a criação das terras indígenas nessa região10. fato que suscitou surpresa. 10 Sobre as relações dos brancos e dos Kaxinawá com os "isolados" ao longo do século XX e após a criação da TI Kaxinawá do Rio Jordão. no alto rio Tarauacá. Pereira Neto. em gabinete. Na última década. denominados na região de "índios brabos". 9 . 1996. Saques às casas dos Kaxinawá. oito terras indígenas contíguas já reconhecidas pelo governo federal. 1987. ambas foram interditadas para "fins de estudos e definição". elaborou. 2001b. Tarauacá e Jordão.a) Os índios isolados e a TI Alto Tarauacá No Vale do Alto Juruá acreano.364 175. continuaram freqüentes. em 1987.

seu sobrinho. com o objetivo de fortalecer as ações da Frente de Proteção Etno-Ambiental Rio Envira e proteger os A Polícia Federal insatrou processo criminal para apurar o assassinato do índio na TI Alto Tarauacá e diligência foi realizada pela PF e a Funai em agosto de 2000. no Município de Jordão. A respeito desta diligência e seus desdobramentos no Município de Jordão. Na ocasião. faz limites com as TIs Kampa e Isolados do Rio Envira e Kaxinawá do Rio Humaitá e seringais do alto rio Murú. por exemplo. pouco dias antes da visita do Prefeito do Jordão à Funai. à época vereador.000 ha. Em junho de 1998. Dados os conflitos com as famílias que viviam nos seringais do alto rio Tarauacá. por co-autoria e ocultação de cadáver. chefiou uma expedição de caçadores. a TI Kaxinawá do Rio Jordão e o seringal Iracema. ver Iglesias. O processo estava pronto para ser encaminhado à Justiça Federal em novembro de 2001. foi assinado. Francisco Alves de Morais Filho (Chico do Maranhoto). Com extensão proposta de 142. flechando a escola do seringal Seretama e obrigando os últimos moradores a abandonarem suas casas e colocações11. da família Melo. sem que a Funai realizasse estudos para sua identificação e delimitação. Governo do Estado do Acre e Prefeitura Municipal de Feijó. dos limites propostos para esta terra indígena. Auton Farias. por homicídio. o que acabou não acontecendo. foram levantadas benfeitorias de boa-fé de 53 famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. todavia. no âmbito do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL/ PPG7).600 ha. que incluiu sua castração e enterro em cova rasa. por ocultação de cadáver e. 2002b. Dézio Oliveira e Francisco Sampaio da Silva. Aprovado pelo Despacho Nº 18.500 ha. a Presidência da Funai. 1999) teve seu resumo (Pereira Neto & Aquino. em Rio Branco. A 20 abril de 2001. Conflitos entre isolados e famílias de seringueiros.600 ha. entre a Presidência da Funai. que ampliou a extensão da terra indígena para 132. com requintes de crueldade. Parentes do índio assassinado revidaram. a Portaria nº 369. no Município de Feijó. de 18 de abril de 2000. com 142. determinou sua demarcação física. à imprensa de Rio Branco. e comprovada a existência das malocas. grupo técnico da Funai-Incra. com extensão de 52. e com a fronteira internacional Brasil-Peru. locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros" do órgão. a 21 de maio de 1998. assinada pelo Ministro da Justiça. abrindo prazo de 90 dias para contestação. e abriu a possibilidade da indenização das benfeitorias de boa-fé das famílias de seringueiros e agricultores acreanos cadastradas pelo grupo técnico Funai/Incra três anos antes. A ação pedia a condenação de cinco indiciados: José Lourenço da Silva (Trubado). coordenado pelo antropólogo Antônio Pereira Neto. realizou os trabalhos de identificação e delimitação da TI Alto Tarauacá. continuaram ocorrendo com freqüência no Alto Tarauacá. como parte do ritual de regularização de terras indígenas no Brasil. de posse permanente dos índios isolados. que encontrou um grupo de três índios e matou um. segundo declarou à época o superintendente da PF no Acre. declarou a TI Alto Tarauacá. sobrinho do atual prefeito do Jordão e à época vereador. Auton Farias. moradores da sede municipal. Turiano Farias. 11 10 . recebeu cópia desses documentos em visita feita à Administração Executiva Regional da Funai em Rio Branco (AER-RBR) em junho de 2000. por eventuais interessados. 2000b. Após mais de um ano e meio de negociações. a 5 de abril de 2001. o Convênio Nº 001/2001.A TI Alto Tarauacá permaneceu interditada de 1987 a 1998. publicou portaria de “restrição ao direito de ingresso. ainda. o relatório de identificação e delimitação (Pereira Neto. O Prefeito Municipal de Jordão. Ney Ferreira de Sousa. 2000) publicado no Diário Oficial da União de 20 de abril e no Diário Oficial do Estado do Acre de 15 de junho. no seringal Oriente. 2000c. Em início junho de 2000. do Presidente da Funai.

por outro lado. foi licitada a 12 de setembro. que logrou fazer a primeira foto de um índio nessa região. Prevista para acontecer em 2001. mesmo com recursos alocados para este fim e depois de Comissão de Sindicância da Funai ter. onde estava configurada grave crise social. pouco antes da demarcação. A liberação de parte dos recursos para o início da execução do convênio acabou não acontecendo no segundo semestre de 2001. o convênio previa a estruturação de um posto de vigilância na foz do Rio D'Ouro. no âmbito da Concorrência Nº 3/2001. tendo em vista a falta de moradias. A demarcação teve início na segunda quinzena de fevereiro de 2002. quando a quase totalidade já se encontrava morando na sede do município. a indenização das benfeitorias dos ocupantes não-índios acabou não sendo realizada nesse ano. 2001a. A demarcação física desta terra. era objetivo do convênio que a Funai tivesse condições efetivas para estabelecer presença permanente também no alto rio Tarauacá. sim. sem que houvesse qualquer acompanhamento de funcionários da Funai. Com duração de dois anos. prevista no âmbito do PPTAL para o segundo semestre de 2001. em outubro. A existência de índios isolados no Município de Jordão introduz. bem como dos conflitos armados entre índios e seringueiros. impedindo o final do procedimento demarcatório e a homologação dessa terra indígena.101. tendo o governo estadual prometido honrar seus compromissos ao longo de 2002. Estas começaram a ser indenizadas em janeiro de 2002. tendo sido declarada vencedora a empresa Engetop Topografia Ltda. elaborado e publicado no Diário Oficial da União parecer atestando a boa fé das benfeitorias de 52 famílias. mas. Para tal. para impedir a continuidade das invasões nesta parte do território dos índios isolados por madeireiros e caçadores advindos da sede do Município de Jordão e de seus arredores.945 ha. Entregues no segundo semestre desse ano ao Departamento de Demarcação. O governador Jorge Viana tomou esta decisão após visitar as instalações da Frente e sobrevoar as malocas. Alto Tarauacá e Xinane. Contígua à fronteira internacional com o Brasil. na TI Alto Tarauacá.índios isolados que vivem nas TIs Kampa e Isolados do Envira. acompanhado de técnicos da Funai e do Ministério do Meio Ambiente e de uma equipe da Revista Época. o então Presidente Alberto Fujimori assinou o Decreto Supremo Nº 030/2000AG. não foi iniciada qualquer ação da Frente no Município de Jordão e os poucos recursos liberados acabaram empregados na manutenção da reduzida equipe da sede da Frente na TI Kampa e Isolados do Rio Envira. o que tampouco aconteceu. Seguindo a atual orientação do DEII. garantir-lhes a exclusividade no uso dos recursos naturais dos territórios que habitam naquelas terras indígenas. a atuação da Frente não visava promover o contato com os grupos de isolados. faixa de proteção ambiental com 5. como previsto. situada nos Departamentos de Ucayali e Madre de Dios. em Brasília. 2001b). criando a Zona Reservada Alto Purus. antes da demarcação física. Por esta razão. publicada na edição de Natal do ano 2000. A 7 de julho de 2000. as peças técnicas ainda não foram analisadas tecnicamente. bem como a contratação de pessoal e compra de material e equipamentos para as duas bases da Frente. oportunidades de trabalho e inclusive espaço para criar as cabeças de gado que alguns poucos trouxeram do seringal. este trecho de 11 . a necessidade de pensar esta situação à luz da fronteira internacional Brasil-Peru e das ações que o governo peruano e a organizações indígenas que atuam nesse país têm tomado para a criação de "zona reservadas" e "reservas territoriais" destinadas a essas populações indígenas "isoladas" (Iglesias.

esta ultima situada nas cabeceiras dos rios Yurua e Huacapahtea. atestavam seu mapa e seu memorial descritivo e rezava o consenso entre a população e lideranças dessa Reserva e as autoridades de Jordão e Marechal Thaumaturgo. mas manteve a área limítrofe à fronteira internacional coincidente com o Município de Jordão e Feijó. conforme. foi lavrado no Cartório de Tarauacá auto de penhora e depósito incidindo sobre ambos seringais. abrangendo partes dos Municípios de Jordão e Tarauacá. uma área de 506 mil ha. têm sido invadidas por madeireiros. fazendo referência à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. e criadas por Resolución Directoral Regional em 1997. já à época. Massapê e Duas Nações foram desapropriados pelo Ibama. no Município de Marechal Thaumaturgo. O dono do Nova Empresa e do São Joaquim.724. contígua ao lado oeste do Município de Jordão. nos limites norte das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. empresário paulista que. em cumprimento a carta precatória em que figurava como credor o Banco do Brasil e como devedores a Alcobrás e outros. Boa Vista. reconhece a necessidade da tomada de medidas para proteger o direito ao livre trânsito e aos "usos tradicionais" das populações indígenas "en aislamiento voluntario" que têm "territórios ancestrais" nessa região. deixou de honrar dívidas oriundas de financiamentos feitos junto ao Banco do Brasil para a implantação da Álcool Brasileiro S. estão situados no Município de Jordão. no trecho que coincide com os limites sul das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. A Zona Reservada é destinada à conservação da biodiversidade. Por não terem reconhecimento respaldo na legislação federal do país vizinho. Kaxinawá do Rio Jordão e Kampa e Isolados do Rio Envira.florestas se estende. nas bacias do rio Jordão e do alto rio Tarauacá. extremando com o Município de Jordão. vendera em 1987 essas propriedade a José Alves Pereira Neto. entre as cabeceiras do rios Acre e Amônia. passou a tramitar no CNPT-Ibama processo para a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. bem como palco de enfrentamentos violentos entre índios isolados e moradores locais. Altevir Leal. fora da Reserva do Alto Juruá. com as TIs Alto Tarauacá. ex-senador biônico pela Arena e maior proprietário de seringais no Município de Tarauacá na década de 1970. coincidindo com os limites das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e do Baixo Rio Jordão. Ambas foram propostas e sustentadas tecnicamente pela organização indígena Asociación Interétnica de Desarrollo de la Amazonia Peruana (AIDESEP). na nomeação de depositário particular para os imóveis. no Município de Senador Guiomard. os seringais Nova Empresa. no conjunto dos seringais incidentes na Reserva Extrativista do Alto Juruá.263 ha. portanto. ainda. todavia. Reivindicações feitas desde 1988 pelo Conselho Nacional dos Seringueiros e pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais de Tarauacá 12 . Em janeiro de 20002. o Decreto Supremo 001-2002-AG reduziu a extensão da Zona Reservada Alto Purus para 2. A Zona Reservada Alto Purus veio a incluir duas Reservas Territoriales destinadas a populações de índios isolados no Departamento de Ucayali: Alto Purus e Murunahua.A (Alcobrás). traficantes e missionários. Em fevereiro de 1992. extremando com o Município de Jordão. Cabe lembrar que esses dois seringais se encontravam ocupados pelos Kaxinawá desde final de 1990 e que o Nova Empresa fora desapropriado pelo Ibama em janeiro de 1992. em território peruano. Seu decreto de criação. Esses quatro seringais. todavia. anos depois. Em início de 1996. b) A Reserva Extrativista do Alto Tarauacá Em janeiro de 1992. resultando.

e outras duas reservas extrativistas: Alto Juruá. O corte da seringa deixou de ser. Duas Nações e Massapê. Os últimos patrões abandonaram os seringais da reserva. portanto.080 pessoas. com a ida de nova equipe com a incumbência de elaborar proposta para fundamentar a criação da reserva. o Presidente da República. de 26 de julho de 1911. pela Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá (ASAREAT) pleiteavam. e Riozinho da Liberdade. Valparaíso. legitimavam a ocupação e a pretensão dos Kaxinawá de verem os seringais Nova Empresa e São Joaquim reconhecidos como terra indígena. A Reserva foi criada. Gregório. A população de seringueiros e agricultores que ali vivia em início de 1998 era de 1. Grupos familiares com maiores recursos deram início a pequenas criações de gado. É na área dos fundos destas reservas e terras indígenas que emanam alguns dos principais afluentes da margem direita do alto rio Juruá e da margem esquerda do rio Tarauacá. Nesta nova conjuntura. com extensão de 151. em pedaços ou mangas das estradas. A intensificação das atividades agrícolas de terra firme e da criação de pequenos animais domésticos foi a estratégia buscada pela maioria das famílias para tentar garantir sua subsistência e vender excedentes junto a pequenos comerciantes do Jordão e a marreteiros de Tarauacá. Os trabalhos preliminares para a criação da reserva extrativista foram iniciados pelo CNPT-Ibama em setembro e outubro de 1996 (Iglesias. além do Boa Vista. decretada em 1990. atividade central na combinação de atividades produtivas implementadas ao longo do ciclo anual. Tabocal. Essas reivindicações. como resultado do abandono pelo governo federal das políticas de preços e garantia de mercado para a borracha do seringal nativo. A forte desarticulação da atividade gumífera no alto Tarauacá teve como resultado intensas migrações de dezenas de famílias de seringueiros para as sedes dos Municípios de Jordão e Tarauacá e suas proximidades. Riozinho da Liberdade. distribuídas em 133 colocações de sete seringais situados na margem esquerda do baixo rio Jordão e do rio Tarauacá. criara a Reserva Florestal do Território do Acre. Bagé. Processos semelhantes aos constatados nas terras indígenas Kaxinawá ocorreram na área da Reserva Extrativista ao longo dos anos 1990. Tiveram prosseguimento nos meses de dezembro/97 e janeiro/98. Cruzeiro do Vale. 181 famílias. Esta relevância já fora reconhecida pelo governo em início do século passado. Na circunvizinhança desta Reserva há hoje quatro terras indígenas. Ouro Preto e Nazaré). abrindo campos e ampliando as pastagens nos arredores 13 . para a maioria das famílias. em parte coincidente com a atual área da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. apesar de ser retomada. quando. quando havia preço e mercado para a borracha. os moradores deixaram de pagar renda das estradas de seringa e passaram a se considerar donos de suas colocações.199 ha. Hermes da Fonseca.e. em processo de criação. 1998a).843. Houve um aumento significativo da densidade da ocupação na margem do rio Tarauacá e o progressivo abandono das colocações de centro. Esta região é de extrema importância para a preservação da rica biodiversidade existente no Alto Juruá. através do Decreto Nº 8. 1997). São Salvador e Primavera. todas regularizadas. já desapropriados. Oriente e parte do Primavera. deixando de atualizar as redes de aviamento através dos quais os seringueiros vendiam sua produção de borracha e compravam as mercadorias necessárias à vida na floresta. por decreto presidencial. a saber: Tejo. que acabou formalizada em outubro (Iglesias. a inclusão na área da Reserva dos seringais Alagoas (abrangendo Restauração. a 8 de novembro de 2000. a partir de 1997.

comerciantes. Com a intermediação do Conselho Nacional dos Seringueiros. Estas atividades predatórias. teve início um gradual processo de organização das famílias de seringueiros e agricultores que moram nos seringais incidentes na Reserva. com o objetivo de fortalecer a Associação. vendeu cerca de nove toneladas de borracha a duas empresas. barrancos e terras firmes em ambas as margens do rio Tarauacá. como fruto das mobilizações de parte dos moradores. políticos e proprietários de seringais empreenderam retiradas ilegais e predatórias de madeira de lei. (BASA). de maneira a alargar sua representatividade e 14 . da ASAREAT e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. diminuíram posteriormente. com o qual manteve abastecidos com mercadorias básicas alguns entrepostos de compra da borracha produzida pelas famílias da Reserva e de seringais vizinhos. Nos seringais mais próximos à sede do Jordão. Em 2001. no âmbito do Programa de Subvenção Econômica aos Seringueiros Produtores de Borracha Natural Bruta. Ganharam monta também as caçadas e pescarias com fins comerciais. comuns até pouco tempo. A partir de 1999. entre 1997-98. e financiar a produção de borracha de algumas famílias. através do Banco da Amazônia S. junto com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o Tribunal de Justiça do Acre. tendo comercializado. aprovou projeto junto à Secretaria de Coordenação da Amazônia/MMA. em especial daquelas do seringal Alagoas e arredores. as estratégias produtivas postas em prática pelos grupos familiares ganharam cada vez maior relação com as alternativas de comércio e a demanda por serviços na cidade. mais conhecida como Lei Chico Mendes. Dada a proximidade das colocações recém abertas na margem do rio. Em função do agravamento da crise da borracha. como parte do Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia.de suas casas. dando condições para seu enraizamento e a construção de maior capacidade gerencial. que resultou na documentação de muitos chefes de família. deu início ao cadastramento de moradores da Reserva para viabilizar a obtenção de recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex).A. organizou. uma edição do Projeto Cidadão. importante desafio atual da ASAREAT continua sendo o de capitanear processos continuados de informação e discussão em todos os seringais do Alto Tarauacá. Assinou convênio com o governo estadual para fortalecer os sistemas de transporte e de comunicação. tornaram-se comuns os conflitos e “questões” entre vizinhos. assim como pelos próprios moradores. causados por invasões de criações domésticas (porcos e gado) nos roçados de terra firme e de praia. já em curso. em 2000. especialmente no sistema de diária para a Prefeitura e comerciantes locais. Com a criação da ASAREAT e sua legalização. Em março desse ano. não dispunham de meios para a compra de arame farpado e o cercamento dos campos. Em janeiro de 2000. que procuravam novas alternativas de inserção na economia local. com a aquisição de dois barcos motorizados e dois aparelhos de radiofonia. Contou também com recursos do subsídio estadual. o que dificultou um maior aproveitamento de praias. inclusive nos seringais da reserva. Na maioria dos casos. contudo. recebeu recursos do Programa Amazônia Solidária e constituiu um capital de giro inicial. incentivadas por regatões e levadas a cabo por moradores da cidade de Tarauacá e do Jordão. brancos e Kaxinawá. a Associação logrou acessar os primeiros recursos de programas governamentais. especialmente cedro e mogno. Além da representação política dos moradores e do apoio à produção e comercialização da borracha. na sede do Município de Jordão. quase vinte. Em 1999. no tradicional Novenário de São Sebastião.

resultou na morte de um isolado. representantes da ASKARJ e vereadores indígenas. Com o progressivo esvaziamento do alto rio Jordão. O uso das cabeceiras do rio Jordão pelos Kaxinawá tem sido gradualmente restrito desde meados dos anos 1980. na elaboração coletiva dos Planos de Uso e de Desenvolvimento da reserva. composta por 249 famílias. e o medo de possíveis enfrentamentos e de conviver com sua presença nas proximidades das casas. os professores bilíngües realizaram novo censo. Recenseamento feito pela ASKARJ em início de 1992 revelou a existência de 1. após duas incursões dos "isolados" no Bondoso.287 Kaxinawá nas três terras. o Novo Segredo chegou a ser habitado por 125 pessoas. Por outro lado. Os roubos dos “brabos”. com a vinda de famílias da aldeia Independência. os Kaxinawá constituíam pouco mais de um terço da população total do município. nos anos 1990. no médio curso do rio. Em fins de 1998. distribuídas em dez seringais. A população Kaxinawá mais que triplicou nos últimos 25 anos. às vezes em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jordão. a família extensa dos Sereno abandonou este seringal. área de florestas que constitui cerca de 30% da extensão da TI Kaxinawá do Rio Jordão e abriga grande número de colocações e estradas de seringa desocupadas e fartos territórios de caça e de pesca. Neste mesmo ano. provocaram intensas migrações dos Kaxinawá rumo ao baixo curso do rio Jordão. os diretores dessa instância de representação dos seringueiros e agricultores da Reserva. têm procurado firmar estratégias comuns com as lideranças Kaxinawá. Ocupação e uso do novo território Kaxinawá Os dez seringais atualmente habitados e ocupados produtivamente pelos Kaxinawá.482 ha contínuos de florestas e abrangem 20% da área total do Município de Jordão. dois Kaxinawá foram baleados pelos “Jaminawa”. Com a retirada dos patrões e seringueiros brancos. com vistas à eleição de representantes dos "povos da floresta" para a Câmara dos Vereadores local e ao delineamento de projetos que venham a resultar no reconhecimento de suas respectivas terras e em benefícios concretos para os moradores da reserva e das terras indígenas. que viviam em 14 aldeias e 171 casas. conforme exige a legislação. interessadas em ter maior fartura de caça e retomar a produção de borracha através da produção de lâminas de couro vegetal. como os Kaxinawá se referem aos isolados em português. a partir de 1998. distribuídos em três terras indígenas. contra as 55 que ali moravam em final de 1998. 15 . que servirão para a regulamentação das formas de uso e preservação dos recursos naturais e para definição de programas voltados ao desenvolvimento à melhoria das condições de educação. índios isolados. seringal mais às cabeceiras do rio Jordão. passaram a saquear casas de famílias Kaxinawá. Os Kaxinawá têm sido impossibilitados de aproveitar ricos recursos naturais do Novo Segredo. saúde. Em meados da década de 1980.se legitimar como instrumento de organização local. que só tornou a ser povoado em início de 2000. como represália. cujas malocas ficam situadas no Brasil e no Peru. os isolados chegaram a saquear casas dos seringais Bondoso e Belo Monte. confronto armado no Novo Segredo. À época. por exemplo. transporte e comunicação. Nos anos seguintes. resultante do processo de reconhecimento oficial da terra indígena. criado em 1998. Em 1988.015 Kaxinawá distribuídos em oito seringais do rio Jordão. têm extensão de 107. que indicou uma população de 1. bem como avançar. como estes índios são denominados em hãtxa kui.

principais fontes de proteína animal na dieta cotidiana. resultou no surgimento de novas "aldeias". Em final de 1998.Nos anos 1990. dificultando a navegabilidade dos rios e privando as caças e peixes de fontes naturais de alimentação. em ritmo lento. a produção de borracha. Principal atividade voltada para comércio durante quase setenta anos. Um dos principais foi a profunda crise na economia da borracha desde meados dos anos 1980. Desde então. esta proporção já alcançava os 70%. levou ao comprometimento da cobertura florestal e da proteção natural das margens. mais fartas em caça. em 1996. em certas aldeias. estes quatro seringais abrigavam 589 índios. contando também com financiamentos do Banco da Amazônia S. a desestruturação da cooperativa. numa relativa escassez de espécies florestais usadas na construção de casas e canoas e na confecção de outros instrumentos de uso cotidiano. em trechos de florestas bem mais escassos de peixes e caças grandes. Esta crise combinou. esta cifra alcançava os 80%. as "freguesias". junto com a progressiva desnaturalização da matriz espacial do seringal. ligadas por laços de parentesco. Em 1992. associado a renovadas estratégias políticas. e preferiu se concentrar nas margens do rio Jordão. afinidade e vizinhança. econômicas e territoriais destas famílias extensas nas novas aldeias. antes usadas para a moradia e o corte da seringa. com o esvaziamento das colocações de centro e o desmonte das antigas sedes. com uma situação marcada pela ausência de canalização pela ASKARJ de recursos externos advindos de "projetos". principalmente em seu baixo curso. que chegaram a um total de 25 neste ano. na forma de lâminas de couro vegetal. no baixo curso do rio Jordão. O estilhaçamento do antigo sistema de poder político centrado em torno das "lideranças" e das cantinas.A. com 892 índios. resultaram num intenso processo de rearranjo das alianças familiares. e do sistema de poder político a ela associado. através de parceria comercial assinada pela ASKARJ com a empresa Couro Vegetal da Amazônia S. a partir de 1993. A concentração das aldeias ao longo do rio Jordão tem resultando no uso mais intensivo dos trechos de florestas e capoeiras situadas em suas margens. formadas por números variáveis de famílias extensas.A. mais próximo à sede do Município de Jordão. Nova Empresa e São Joaquim. Outros fatores contribuíram decisivamente para os intensos processos de reordenamento territorial e de redistribuição populacional dos Kaxinawá na última década. Se somados às famílias que neste mesma época moravam nos seringais Independência e Altamira. no rio Tarauacá. Resultou ainda. A partir de 1994. Três Fazendas e Independência. onde não foi totalmente abandonada. além de outras dez que se reagruparam em torno e nas proximidades das antigas sedes dos seringais. Bondoso. também próximos à sede do município. a grande maioria das famílias extensas Kaxinawá optou por abandonar as colocações nos centros da floresta. Em apenas três aldeias. que antes acumulavam o cargo de "cantineiros" e centralizavam redes de aviamento em relação às demais famílias extensas. foram abertas onze novas aldeias. quase três dezenas de famílias se mudaram para os seringais Alto do Bode. assumiu peso bastante reduzido no conjunto de estratégias produtivas das famílias extensas. que viviam e produziam borracha nos seringais das três terras indígenas. No quadro configurado com o aprofundamento da crise da economia da borracha. a produção continua. no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex). à época quase 60% dos Kaxinawá. e redundou na desarticulação da cooperativa e no redimensionamento do poder das "lideranças". 16 . somado aos fluxos migratórios rumo ao baixo curso do rio Jordão. Em várias aldeias. em seu baixo curso. Boa Esperança.

permitindo a compra de gêneros básicos necessários à subsistência de redes extensas de parentes. O decreto de homologação foi publicado no Diário Oficial da União a 2 de maio de 2001. desde novembro de 1993. Dessas famílias. os moradores continuaram ocupando estradas de seringa e cultivando as melhores terras firmes do seringal São Joaquim. distribuídos por cinco colocações e uma "colônia" situadas nos dois seringais da terra indígena. preferiu intensificar a diversificada agricultura de terra firme e de praia. 17 . são hoje as principais fontes de renda de considerável parte das famílias Kaxinawá. onde cortavam seringa. atividade que colocou dificuldades adicionais aos plantios nas praias. onde as redes comerciais são controladas por poucos comerciantes e marreteiros. ocupavam periodicamente outras duas colocações de centro no São Joaquim. é que muitas famílias Kaxinawá tem procurado garantir sua subsistência e encontrar alternativas para se inserir na restrita economia do Município de Jordão. A comercialização das criações domésticas e de produtos agrícolas. colônias e pomares. resultou numa série de negociações e conflitos entre famílias Kaxinawá e esses moradores. seis famílias de seringueiros e agricultores. no âmbito do PPTAL. estaduais e municipais. Limites e Conflitos com os "ocupantes não índios" no baixo rio Jordão O processo de regularização da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão se estendeu por oito anos e cinco meses. a caça. o então Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto homologando sua demarcação física. envolvendo os proventos do INSS dos velhos aposentados. à época já desapropriado pelo Ibama. quando da assinatura do convênio Funai. a pesca e a coleta. e agentes de saúde). com suas lojas sortidas de mercadorias. ocorrida de março a setembro de 2000. plantavam e caçavam. A demora no avanço do processo de regularização. Embaixada da Suíça e CPI-Acre. aliada à criação de animais domésticos. e principalmente o recebimento das aposentadorias e salários de funcionários públicos (professores. junto com o preenchimento dos Laudos de Vistoria e Avaliação de Benfeitorias. De 1994 a 2000. as famílias Kaxinawá se mobilizavam para ocupar os seringais Nova Empresa e São Joaquim. Foi registrada no Cartório de Imóveis do Município de Tarauacá em 2 de janeiro de 2002 e na Secretaria de Patrimônio da União a 14 de março. A chegada de várias famílias Kaxinawá implicou na necessidade de estabelecer novos acordos com os "ocupantes não índios" que ali viviam enquanto não chegava a indenização de suas benfeitorias. mas moravam com suas famílias extensas na margem esquerda do rio Jordão. que em muito tem permitido que esses "patrões" estejam enricando. Alegando que apenas aguardavam a indenização para abandonarem suas colocações. enquanto os trâmites administrativos se desenrolavam na burocracia da Funai. assim. Através desta nova combinação das atividades produtivas realizadas ao longo do ciclo anual. fora.A maior parte das famílias extensas. e principalmente da indenização das benfeitorias. A 30 de abril de 2001. em especial ao cultivo do amendoim. São freqüentes as queixas quanto à falta de mercado para a produção agrícola e as criações domésticas. portanto. no seringal Boa Vista. inclusive pequenos rebanhos bovinos. apontou 29 ocupantes. conciliada com os plantios nos terreiros. da terra identificada. aos baixos preços pagos por esses produtos e aos altos preços das mercadorias nos comércios da sede municipal. solteiros. apenas três mantinham residência fixa no Nova Empresa e São Joaquim. Os demais ocupantes. O censo feito em março de 1994 pelos membros do GT de identificação. como à restauração de formas de endividamento com os comerciantes no Jordão. por sua vez.

e geravam freqüentes reclamações das famílias Kaxinawá da aldeia São Joaquim. inclusive no seringal Independência e Altamira. porque moradores da sede municipal e do seringal São João colocavam mangas na foz do rio. de propriedade da ASKARJ. 2000d. 18 . Em fins de 1997. Este solicitou ao vereador Kaxinawá Noberto Sales Tenê que aconselhasse seus parentes a interromper essas pescarias. Parte destas pescarias era para subsistência. Comunicou-lhe. 2002b). acabou por cercou seu campo com arame. o peixe era vendido. que passou a ter grande demanda devido ao crescente processo de urbanização. A partir de 1998. reclamavam das pescarias coletivas com tingui feitas pelas famílias Kaxinawá nos poços e tronqueiras ali existentes. Os ocupantes. em seus roçados de terra firme e de praia. A demarcação física e seu "acompanhamento" A demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. estes moradores também subiam o rio Jordão para mariscar de tarrafa e de mergulho nas cachoeiras. em muitos casos. desenharam novo cenário nessa situação de conflito vigente nos seis anos anteriores. o que não ocorreu. ao abrir possibilidades efetivas para o usufruto exclusivo dos recursos naturais pelas famílias Kaxinawá e o engendramento de novos acordos com os moradores vizinhos do seringal Boa Vista. não subiam o rio. o principal criador do Boa Vista. se queixaram ao então Vice-Prefeito do Jordão. Os Kaxinawá defendiam essas pescarias como parte de sua tradição. que.obrigando os Kaxinawá a plantar seus roçados em terrenos alagadiços e de igapós. outra “questão” envolvia as pescarias. Estas queixas se estendiam também às freqüentes invasões feitas pelo gado. Por outro lado. muitas vezes interessados em vender carne de caça. bem como outras famílias do seringal Boa Vista. brancos e índios. na sede municipal. Todos no baixo Jordão. poços e tronqueiras. se queixavam de que as piracemas. Isto também continuou sendo feito por moradores da sede do Município de Jordão. evitando novas invasões nos roçados dos Kaxinawá. fresco e salgado. Como resultado destes conflitos e queixas. mas. os ocupantes insistiam em caçar com cachorro nas matas dos fundos do seringal São Joaquim. ainda. Turiano Farias. Além disso. as lideranças Kaxinawá do alto Tarauacá e do baixo Jordão. caso as denúncias prosseguissem. diziam que se viam obrigados a usar esta alternativa para pescar. Francisco Alves de Moraes (Maranhoto). encaminharia carta à Funai e ao Ibama cobrando providências. argumentando que eram esporádicas e usavam pouco tingui. sem comprometer o estoque de peixes no baixo Jordão. bastante reduzidas. que prejudicavam a durabilidade da macaxeira e dos demais legumes e frutíferas (Iglesias. Apesar dos vários avisos feitos pelos chefes de família Kaxinawá. visto que os moradores do Boa Vista e da sede do município invadiam as matas da terra indígena. e a indenização das benfeitorias dos ocupantes não índios. antigo proprietário do seringal Boa Vista. ocorrida de março a setembro de 2000. em agosto. No baixo Jordão. 1998a. mobilizaram-se com maior sucesso para empatar a entrada de caçadores nestas duas terras. matando e espantando as caças. A criação de gado feita em dois campos não cercados no seringal Boa Vista impossibilitava o aproveitamento das poucas praias boas existentes no baixo curso do rio. chegando a invadir colocações localizadas nas águas do alto Tarauacá. durante os meses do verão. com apoio dos agentes agroflorestais.

com extensão total de 192. Estavam presentes 32 Kaxinawá. através do Edital de Tomada de Preços FUNAI/CEL/Nº01/99. 12 Esta instrumentalização. foi introduzida no edital de licitação das demarcações cláusula obrigando a empresa a realizar duas "assembléias" na aldeia principal da terra indígena. de Rio Branco. o PPTAL procurou motivar a "participação indígena" no acompanhamento destas seis demarcações. uma no início e outra no fim da demarcação. ocasiões vistas como indispensáveis para garantir a participação indígena. em Feijó.777 ha. aposentados e outros chefes de família. as TIs Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. entre fevereiro e abril. quando foram realizadas duas viagens às cinco terras. assessoria antropológica e instrumentalização com informações e recursos financeiros. vista como etapa crucial para potencializar e qualificar a participação indígena. de abril de 1999 a junho de 2000. no Município de Tarauacá.Em 2000. na casa do cacique Getúlio Sales Tenê. e de mim. foi viabilizada pela assessoria deste antropólogo. além do responsável técnico da Asserplan. a TI Kulina do Igarapé do Pau. feitas por essas duas empresas de agrimensura contratadas pela Funai12. e os Postos Indígenas nas sedes dos municípios. agentes agroflorestais. assinado pelo PPTAL e a Associação Agro-Extrativista Poyanawa do Barão e Ipiranga (AAPBI). consultor ad-hoc contratado pelo PPTAL. Em quatro outras terras. Na etapa de "preparação das demarcações". Cachoeira. Kaxinawá da Praia do Carapanã e Kampa do Igarapé Primavera. a participação indígena foi discutida com lideranças e chefes de família em reuniões nas aldeias. um total de cinco meses de campo. lideranças. garantissem a correta materialização e a sinalização dos limites e gerassem subsídios para futuras ações de vigilância de suas terras. no Município de Marechal Thaumaturgo. Lima. que a comunidade indique seus representantes. 2002). um por equipe da empresa. Na primeira etapa. Morada Nova. 2002a) Com apoio institucional e logístico. e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. o PPTAL viabilizou a demarcação de seis terras indígenas em cinco municípios do Alto Juruá acreano. dividida em três blocos: no Bloco I. 2000a. do Bloco VI (Iglesias. Bambu. pelo Contrato de Prestação de Serviços Nº 99/025. Via a AER-RBR. para acompanhar a demarcação e fazer a interlocução junto aos representantes desta. com intermediação do PNUD. a parceria esteve formalizada. não caracterizando. Esta atividade coincidiu com a realização da "primeira reunião" nestas cinco terras. e no Bloco VI. no Município de Mâncio Lima. 2002a). etapa que o edital passou a exigir das empresas de engenharia antes da chegada dos topógrafos e suas turmas de peões13. A licitação destas demarcações aconteceu em setembro de 1999. A primeira reunião na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão foi realizada no dia 13 de março de 2000. Está prevista. para implementação do projeto "Acompanhamento e Consolidação da Demarcação Física da TI Poyanawa" (Iglesias. na aldeia Nova Empresa. 13 Em 1999. das aldeias Nova Empresa. no Bloco III. na primeira assembléia. São Joaquim.. 2000a. o PPTAL viabilizou a instrumentalização das comunidades Kaxinawá e Ashaninka. professores. O custo dos representantes indígenas corre por conta da empresa. foi declarada vencedora para os serviços dos Blocos I e III e a Pórtico Engenharia Ltda. fiscalizassem os trabalhos da Asserplan. para que acompanhassem as demarcações. 2000d. a TI Poyanawa. 19 . que atuarão em convênio com o PPTAL e contarão com recursos próprios para este fim". No caso Poyanawa. de Manaus. todavia. Além dos representantes indígenas indicados. o PPTAL repassou recursos financeiros para a aquisição de materiais de consumo a serem usados pelas comunidades no acompanhamento das demarcações. A Asserplan-Engenharia e Consultoria Ltda. Torre da Lua. agentes de saúde. A empresa pode propor na assembléia a contratação de mão de obra indígena. Luiz Takao Arashiro.. acompanhei as primeiras reuniões nas terras indígenas a serem demarcadas pela Asserplan (Iglesias. contratado como consultor ad hoc do PPTAL de janeiro a dezembro de 2000. o edital estipula que "os trabalhos de demarcação poderão a qualquer momento ser acompanhados e vistoriados por equipes indígenas. remuneração.

Surpresos com estes detalhes de ordem legal. O principal foco de discussão esteve centrado no erro cometido pelo Departamento de Demarcação (DED/ DAF) na elaboração do edital de tomada de preços e. além de outro cometido pelo DED na licitação da TI Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. E levantaram a possibilidade. a Funai afirmava que a legislação não permitia a regularização. à Coordenação Técnica do PPTAL e à Cooperação Técnica Alemã (GTZ). 2002a). pois este trecho seria contígua a outra terra indígena. da Prefeitura. para corrigir este erro. o entendimento do DED neste momento foi de que era necessária a abertura de picada somente no limite da terra indígena com o seringal São João. 2000d. A empresa defendia que o acréscimo de 25% sobre o valor original. Na hora de reconhecer esses dois seringais como terra indígena. durante a demarcação da Reserva Extrativista do Alto Juruá. Os Kaxinawá. teto máximo estabelecido por lei para a modificação de serviços licitados. como com os seringais Independência e Altamira. em 1996 e 1997. seria suficiente para realizar os dois trechos não orçados (Iglesias. nos limites da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão com o seringal São João. ainda em Brasília. após realizar os cálculos dos serviços extras que deveriam ser efetuados em função de erros cometidos por seus técnicos na licitação das TIs Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. todavia. Somente em abril. reivindicaram. e depois à Asserplan. pela Procuradoria Jurídica da Funai. na divisão de águas entre os rios Tarauacá e Jordão. Após reconhecer o erro. da ASKARJ. eu já percebera este erro e comunicara-o ao DED/DAF. feita no âmbito do Projeto Reservas Extrativistas. o DED. a completa demarcação de sua terra. não seria suficiente para cobrir os custos com os serviços extras a serem realizados nos rios Jordão e Breu. E ameaçava não completar os serviços no baixo rio Jordão caso o valor do termo aditivo ao contrato não superasse esse limite legal14. Mas. portanto. na contratação dos serviços da demarcação. os Kaxinawá exigiram. parte também deste bloco. primeiro. O representante da empresa chegou a cogitar que. que defendia a impossibilidade do órgão reconhecer como terra indígena os seringais comprados pela ASKARJ. E exigiram também a demarcação de todo o limite da terra da divisão na margem direita. na hora de pagar o serviço topográfico para a completa demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. a equipe poderia abrir a picada não prevista do outro lado do rio. por sua vez. já materializado pela Pórtico em 1998. onde a invasão de caçadores era constante e a materialização do limite com o seringal da Prefeitura era desejado. caso isto não 14 A ironia nesta proposta inicial do DED era que a reivindicação dos Kaxinawá para a criação e regularização da TI Kaxinawá do Seringal Independência tinha sido obstaculizada por dois pareceres elaborados. Para tal. A empresa. nesta "primeira reunião". num primeiro momento. também do PP-G7. as lideranças presentes fizeram questão de incluir que o PPTAL destinasse os recursos necessários à completa demarcação de sua terra. Além destas demandas.Os entendimentos entre o responsável técnico da empresa e os Kaxinawá não foram simples. teto máximo estabelecido na legislação. o DED cogitou. e a DAF e o PPTAL acabaram consentindo. já em Rio Branco. na ata que resultou dessa reunião. não concordaram com esta proposta. portanto. alegando que a picada da Reserva invadira parte dos fundos de sua terra e cortara colocações e estradas de seringa. Antes de minha viagem ao Acre. que não era necessário a abrir a parte da picada que faz limite com seringal Independência. O edital não previu a abertura de qualquer picada na margem direita do baixo rio Jordão. ao invés de tornar a abrir este trecho. tanto no trecho com o seringal São João. e com os seringais Independência e Altamira. a abertura de nova picada nas terras da divisão da margem esquerda do baixo Jordão. acabou por deliberar que um termo aditivo com um acréscimo de 25% sobre o preço inicial. pois não tinham certeza se a Funai um dia os reconheceria e demarcaria como terra indígena. pleiteava a assinatura de um termo aditivo ao contrato e o acréscimo do valor estipulado para o serviço. 20 . mas não no limite com o seringal Independência.

no início do trabalho e remontava ao erro cometido pelo DED na licitação e às conversas tidas com o representante da Asserplan na primeira reunião. Conforme decidido na primeira reunião. um meloso e um cozinheiro). na demarcação da Reserva. em certos trechos. Assim como já fizera na primeira reunião 21 . junto com seu filho mais velho. passando pelas clareiras e picadas previamente abertas pela equipe da empresa e registrando os pontos para a posterior elaboração do memorial descritivo. Lima. e composta por outros sete membros (dois operadores de motoserra. a picada foi feita linhas retas. enquanto realizava esse mesmo serviço em outras terras que estavam sendo simultaneamente demarcadas pela empresa. sem a presença do operador de satélite e sem rastrear de ante mão todos os pontos geodésicos. Visto que a demarcação começou pouco mais de uma semana após a primeira reunião. 2000a. Ali. na margem esquerda e Jordão-Tarauacá. variaram entre dez e vinte metros do lombo da terra. empicando o traçado da terra da divisão. Foram abertas duas clareiras. no limite adjacente à Reserva Extrativista do Alto Juruá. os Kaxinawá tornaram a constatar que a picada aberta dois anos antes. O operador de GPS se fez presente depois. a picada foi traçada com três metros de largura. Contra o desejo de Getúlio. parte das estradas de seringa da colocação Centro do Meio. chefiada pelo topógrafo Dacildo de Menezes da Silva (que. rolando. iniciou os trabalhos no baixo rio Jordão a 21 de março. colocados os marcos testemunhas e assentadas sete placas indicativas. os chefes de família Kaxinawá decidiram acompanhar os serviços antes de acessar os recursos destinados pelo PPTAL para este fim. durante toda a demarcação. penetrara na terra indígena em trechos extensos. inclusive. 2002]). acumulando-o com a coordenação da equipe indígena de acompanhamento. que coordenava. O topógrafo informou a Getúlio que recebera ordens da empresa para demarcar apenas o limite adjacente ao seringal São João. com distâncias que. o cacique Getúlio Sales Tenê desempenhou o papel de representante oficial da comunidade junto à única equipe da empresa. Na margem esquerda do rio Jordão. na direita) e a garantir a integridade das colocações estradas de seringa em ambos lados da picada. Cinco Kaxinawá foram contratados pelo topógrafo para integrar a equipe da empresa: um terçadeiro e um carregador de bateria. e dois guias e um carregador. Durante todo o trabalho. da própria comunidade completar o serviço restante. A equipe da Asserplan. além de já pouco visível.acontecesse. paralisada pelos índios em função de divergências entre o memorial descritivo e os reais limites da terra indígena [Iglesias. entrando com a mão de obra e a alimentação. como técnico da mesma empresa participara da demarcação da TI Kaxinawá do Rio Jordão em 1985). mas não ao seringal Independência. em duas oportunidades. serviço previsto na licitação. em rápidas passagens. em certos trechos. um terçadeiro. Os trabalhadores da empresa seguiam atrás. todavia. visto se tratar de limite entre uma terra indígena e uma unidade de conservação. dois "balizas". ficando a cargo da empresa disponibilizar o topógrafo e um operador de motoserra. no manual de normas técnicas para demarcações e no contrato assinado com a Funai. fazendo as medições e abrindo as picadas na mata bruta. A discussão começara. que defendia a abertura da picada ao longo das linhas da divisão. Na margem direita foi que se configurou o desentendimento mais sério entre o Getúlio e o topógrafo Dacildo (que um mês antes tivera a demarcação da TI Poyanawa. Joselino Sales Banê. de forma a preservar os limites tradicionais entre os seringais das diferentes bacias hidrográficas (Jordão-Tejo. Getúlio e Joselino foram à frente da equipe da empresa.

Getúlio não concordou. que não haviam ficado prontos à época do início dos trabalhos. argumentou. No limite entre a terra indígena e o seringal São João. das três terras Kaxinawá do Município de Jordão. Francisco Colombo. foram abertas duas clareias. que haviam descido à sede municipal a 22 . até a cabeceira do igarapé João Ferro. feita por técnico da Funai. resultado. Na minha passagem por Brasília. O topógrafo alegou que. mas não teve jeito: a demarcação foi paralisada. a dissensão cresceu. incumbiu-me. de realizar uma reunião com as comunidades Kaxinawá do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. da TI Kaxinawá do Rio Jordão. conforme as reivindicações dos Kaxinawá. agora com três metros de largura. caso a Funai e a Asserplan assim decidissem. Dacildo pareceu se conformar e a obra foi iniciada também na margem direita do rio Jordão. por ocasião do retorno da empresa para colocação dos marcos geodésicos de fibra de vidro. no limite com o seringal Independência. professores. nova exigência das demarcações no âmbito do PPTAL. Getúlio conseguiu convencer o topógrafo que a picada. com o resultado já materializado da demarcação. a abertura e medição da picada no trecho entre as cabeceiras destes dois igarapés. portanto. em fins de junho. ao invés de prosseguir no rumo do último ponto plotado no memorial descritivo da delimitação. conforme havia sido solicitado pela própria Asserplan. Contou com a presença de cerca de 50 lideranças. Neste ponto. Faltava. homens e mulheres. agentes agroflorestais. conforme estabelece a legislação. mas o mapa anexo. confeccionado sobre dados repassadas pela Asserplan. Percebi incongruências entre o mapa. como demandavam os Kaxinawá. era melhor nem começarem. indicava que a picada chegara apenas à cabeceira do igarapé João Ferro. ou não. aproveitando minha ida à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão durante a segunda etapa da consultoria ao PPTAL. e o relatório da fiscalização. de observações realizadas num sobrevôo. onde foram aberta uma clareira. a demarcação poderia ser concluída. deveria ser levada até as cabeceiras do igarapé Batista. para encostar no limite demarcado. Getúlio tornou a argumentar que se assim fosse. agentes de saúde. O relatório da fiscalização dava ciência que a demarcação alcançara as cabeceiras do igarapé Batista. Neste momento. de forma que todas as águas do baixo rio Jordão e as áreas mais ricas em caça estivessem incluídas. A partir de então. sem que o fiscal ali tivesse pisado ou conversado com as lideranças Kaxinawá que haviam feito o acompanhamento. ao longo da terra da divisão. Diante destas incongruências que apontei. na confluência dos igarapés Batista e João ferro. assentados os marcos testemunha e colocadas duas placas indicativas. em 1985. pois todo o perímetro da terra deveria ficar totalmente demarcado. recebi do DED o relatório de fiscalização técnica da demarcação. diferentemente. bem como um croqui dos serviços realizados pela Asserplan. de maneira a incluir todos os igarapés que colocam suas águas na margem direita do rio. bem como chefes de famílias. Dacildo anunciou que não prosseguiria. o Chefe do DED. para dirimir as dúvidas se o traçado exigido por Getúlio implicara em prejuízos para os moradores do Independência e para saber se estavam de acordo. insistindo que tinha alcançado as cabeceiras do igarapé Batista. as picadas foram abertas com seis metros de largura. Esta reunião aconteceu na sede do Município de Jordão a 10 de agosto.com o representante da Asserplan. elaborado pelo Departamento com base nas informações do fiscal. O topógrafo concordou e a picada começou a ser aberta. por sinal. assentados os marcos de testemunha e colocada uma placa indicativa. portanto.

Foi esclarecido que este traçado da demarcação não causaria qualquer intrusão nos fundos do seringal Independência ou do seringal Iracema. Por solicitação do Chefe do DED. assinada por 33 lideranças Kaxinawá. fez com que este limite coincidisse com a da terra indígena já regularizada e materializou corretamente os limites dos seringais do baixo rio Jordão com os seringais 23 .convite do governo do estado para participarem do Fórum "Orçamento Participativo-Jordão. a comunidade do baixo rio Jordão. até encontrar o limite já demarcado da TI Kaxinawá do Rio Jordão. As mobilizações e o acompanhamento atento das lideranças Kaxinawá permitiram. corrigir erros cometidos pela Funai na licitação e na contratação da demarcação. de maneira a incluir todos os igarapés cujas águas colocam no rio Jordão. fizera reunião na Asserplan para expor a representantes da empresa as reivindicações dos Kaxinawá e deixar cópia da ata da reunião recém realizada no Jordão. Resultados 2000 e Propostas para 2001". para ser entregue ao DED e ao PPTAL. a picada deveria seguir até as cabeceiras do igarapé Batista.700 para 8. fossem reconhecidos e regularizados como terra indígena. críticas dos doadores e frustrações da Funai. por fim. GTZ e principalmente das comunidades locais. como exigiam os Kaxinawá desde a primeira reunião. aproveitando o retorno da empresa para a colocação dos marcos de fibra de vidro. em campo. bem como as áreas mais ricas em caça. Reiterou que. exprefeito e proprietário desse seringal adjacente. se colocou à disposição da equipe da empresa para. seis meses após o início da demarcação. fosse realizada a demarcação do trecho da linha do divisor entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. e que a demarcação física de seus limites fosse viabilizada no âmbito do PPTAL. qualquer possibilidade de conflitos entre as comunidades Kaxinawá ou destas com o Hilário Melo.726 ha. para encerrar a demarcação. As decisões tomadas nesta reunião tornaram a ser discutidas em visitas que realizei logo à continuação às aldeias do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. em ambas as margens do rio Jordão. que poderiam ter visto sua terra demarcada em desacordo com seus anseios. garantiu a inclusão de todos os igarapés e das áreas de caça nela existentes. de forma que ficasse correta e definitivamente fechado todo o perímetro da terra indígena. a 13 de março. as lideranças reivindicaram. Para tal. em minha passagem por Rio Branco. uma nova equipe da Asserplan se fez presente ao rio Jordão. não havendo. evitando problemas que talvez levassem meses para serem resolvidos em intrincados trâmites burocráticos. que os seringais Independência e Altamira. A ata que resultou desta reunião. para colocar os marcos geodésicos nas clareiras previamente abertas e concluir a abertura e a sinalização da picada entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. Este documento foi entregue por mim ao DED e ao PPTAL em final de agosto. feitas as alterações decorrentes da recente demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. de propriedade da ASKARJ. realizar esta empreitada. PPTAL. de forma conjunta. O documento cobrou que a Funai tomasse providências para que. Esta nova mobilização dos Kaxinawá resultou na ampliação desta terra de 7. novos desembolsos de recursos. reafirmou a decisão tomada na primeira reunião com a empresa. conforme os limites estipulados no relatório de identificação e delimitação entregue ao DEID/DAF em novembro de 1995. liderada por Getúlio Sales. Em setembro de 2000. de que todo o perímetro da terra indígena deveria ser demarcado. Aproveitando esta reunião. assim.

então Presidente da ASKARJ. 2000b. a indenização. coordenadora da comissão pagadora instituída pela Portaria 753/PRES. De um lado. na preparação e avaliação da demarcação física de seis terras indígenas no Vale do Juruá. que a diligência poderia trazer para os interesses dos Kaxinawá e o resultado da campanha política em pleno curso. bem como com as Reservas Extrativistas do Alto Juruá e do Alto Tarauacá. em junho. ocorreu em um clima carregado no município. realizamos visita à sede da AER-RBR. que há seis anos aguardavam que a Funai indenizasse suas benfeitorias. Siã aproveitou para alertar sobre desdobramentos. o discurso do candidato à prefeito pelo PPB. as criações domésticas seriam mortas. Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Conversamos sobre o assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá e a diligência que a Funai e a PF estavam prestes a realizar na sede municipal e nessa terra indígena. chefiada pelo vereador Auton Farias (PPB). Afirmavam que Siã colocaria uma família Kaxinawá no terreiro de cada família de brancos. em que invariavelmente batiam na tecla de que. achamos importante contextualizar com dados locais o momento em que estas atividades estariam sendo realizadas. logrando com surpreendente eficácia. estava em pleno andamento tensa campanha para as eleições municipais de outubro. o militar Fernando Amim de Moura.Independência e Altamira. “os caboclos tomariam conta de todo o município”. sobrinho do Prefeito Turiano Farias. ao longo de toda a campanha. junto com Siã Kaxinawá. fato que ganhara ampla repercussão na imprensa de Rio Branco. elaborado pelo Departamento Fundiário (DEF/ DAF) em 1999. onde nos reunimos com o Administrador Antônio Pereira Neto e Vânia Albano Lucena. assassinara um índio isolado no seringal Oriente. vinham promovendo vários comícios e festas nos seringais. criteriosa divulgação do início das demarcações fora feita junto à famílias de ocupantes nas TIs Kaxinawá da Praia do Carapanã. nas quais Siã Kaxinawá. por uma comissão pagadora da Funai em agosto de 2000. Turiano Farias e seu vice. os roçados invadidos e mulheres desrespeitadas. Ao invés de ressaltar os benefícios trazidos por sua administração ou apresentar seus planos para um novo mandato. Foram mostrados documentos e as portarias declaratórias das terras e debatido o "Plano de Indenização e Remoção de Não-Índios em Terras Indígenas". de 31 de julho. Apesar de ambos reconhecermos que a indenização e a diligência não deveriam em nenhum momento estarem condicionadas pela dinâmica da política partidária municipal. que pleiteava a reeleição. De outro. pois. A indenização dos ocupantes e a desintrusão da terra indígena A indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. positivos e negativos. Com as lideranças Kaxinawá e Ashaninka. discutimos com essas famílias de seringueiros e agricultores novos cenários e acordos que deveriam ganhar forma com a demarcação. 2000c e 2001a). Estes alertas eram cruciais. colocar farta lenha na fogueira do preconceito latente entre boa parte da população branca do município. na TI Alto Tarauacá. concorria. De retorno do Município de Jordão. o seringal da Prefeitura. com chances de sucesso. 2002b). ao cargo de Prefeito pela segunda vez (Iglesias. Usavam como exemplos a recente demarcação das TIs Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio 24 . nas duas etapas de minha consultoria ao PPTAL. os prazos da desocupação e o usufruto exclusivo pelos índios dos recursos de suas terras (Iglesias. a 23 de agosto. assumira tom monocórdico. uma turma de caçadores. caso Siã fosse eleito. No primeiro semestre de 2000.

no Município de Jordão. e por dois agentes da Superintendência da Polícia Federal no Acre: José de Brito Lira Júnior e Marcelo Ferreira Fonseca. foi realizada a indenização na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. como mandante do crime. onde o corpo foi desenterrado e levado a Cruzeiro do Sul. Na sede do Município de Jordão. mas não pelo cacique Getúlio Sales Tenê. com a presença de várias autoridades e cerca de 50 moradores do Jordão. A comissão pagadora esteve composta por três servidores da AER-RBR: a Chefe do Setor de Atividades Produtivas. Apesar de reconhecermos a urgente necessidade da Funai tomar providências para a condenação dos culpados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. Adauto Peres. semear desinformações sobre a veracidade da pretensão da Funai de criar esta terra indígena e da indenização dos ocupantes ali cadastrados pelo grupo técnico Funai-Incra em 1998. a obrigatoriedade de pagar em mãos as indenizações nas TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kampa do Igarapé Primavera. acompanhada por lideranças Kaxinawá da aldeia São Joaquim. na TI Alto Tarauacá. de onde os ocupantes teriam de sair após a indenização de suas benfeitorias. integrantes da comissão pagadora. chegou ao Jordão um helicóptero da Força Aérea Brasileira trazendo um delegado e um escrivão da PF e dois peritos do Instituto Médico Legal. Neste interim. aconteceram de 26 de agosto a 6 de setembro. cuja casa não foi alcançada. castrado e enterrado em cova rasa. e a "perseguição" que estava em curso pelo governo federal contra os " brancos" nos Municípios de Jordão e Tarauacá. feita pelas equipes da Funai e da PF. por conta do rio seco. candidato à reeleição e sobrinho do Prefeito. haviam resultado no assassinato de três brancos (não se sabe quantos índios isolados) e em intensa migração das famílias de seringueiros e agricultores para a sede municipal e seringais próximos.63 às seis famílias. Além de uma reunião. Esta preocupação tinha razão de ser pelo clima pesado no ambiente político local. estiveram marcadas por seu envolvimento na diligência. que tornaram ao Oriente. viagem esta que foi acompanhada pela coordenadora da comissão pagadora. as atividades de indenização com as da diligência. Turiano e seu vice deixavam subentendida a ligação dos Kaxinawá e da candidatura de Siã com os conflitos armados nos seringais da TI Alto Tarauacá. as demais atividades estiveram diretamente relacionados aos objetivos da diligência: a coleta de depoimentos dos suspeitos e testemunhas. e as reações dos ocupantes e das autoridades de Tarauacá e Jordão à demarcação das três terras indígenas nesses municípios. a 26 de agosto. inclusive às que já haviam se retirado da terra indígena. Por outro lado. Vânia Albano de Lucena. Pouco depois. 25 . que. nos quatro anos anteriores. e a viagem. e a diligência para a apuração da morte do índio isolado. ao seringal Oriente e ao local onde foi encontrado o corpo do índio assassinado. Os trabalhos de campo nos Municípios de Jordão e Tarauacá. na Câmara de Vereadores. as atividades dos membros da Funai. segundo alegaram os integrantes da comissão pagadora.Jordão. na qual foi comunicado que seria realizada a indenização dos ocupantes da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. e se mudado para a sede do Jordão e a cidade de Tarauacá. com viagem prevista para o seringal Oriente. mostramos preocupação com a decisão de fazer coincidir. Foi pago um total de R$ 20. o técnico em indigenismo Lacy Ferreira Lessa e o Chefe do Posto Indígena Tarauacá. de 27 a 30. prazo extremamente exíguo quando levados em conta os deslocamentos necessários para chegar às terras indígenas. Procuravam.491. o envolvimento do vereador Auton Dourado de Farias. ainda.

Para essas famílias. e se encarregaram de amplamente divulgar na vizinhança e na sede do município no dia da votação. 26 . que não esquecessem seu nome. apenas zelar pela tranqüilidade destas atividades. no caso da PF e a Funai receberem qualquer reclamação por parte das lideranças Ashaninka. prazo após o qual as benfeitorias indenizadas ficariam para a população Kaxinawá. mediadas pelos membros da comissão. criterioso trabalho junto a cada chefe de família. em Rio Branco. Em várias oportunidades. felizmente. Duas lideranças Ashaninka. recebera denúncias a respeito de caçadas ilegais e invasões na terra indígena. da forma como foi levada a cabo pela Funai. cabendo aos agentes da PF. que formalizou o recebimento do dinheiro e a data acordada para a desocupação do imóvel. a respectiva indenização e a assinatura do recibo de quitação. As negociações e os acordos foram fruto de tensas discussões entre as lideranças e os ocupantes. De Brito chegou a dar um tiro de revólver para o chão no terreiro da casa de uma das famílias. José de Brito Lira Júnior. esta ação.207. os contatos e a costura de acordos. A costura dos acordos em relação a estes prazos foi tema de intensas discussões entre os ocupantes. candidato da Frente Popular do Jordão. a conclusão de mais uma importante etapa da regularização dessas duas terras. "de Brito". é obrigação dos funcionários da Funai. acabou não acontecendo. as lideranças Kaxinawá e os membros da comissão. com as demarcações. Turiano Luiz e Armando Manoel. a indenização dos ocupantes e sua desintrusão. bem depois do levantamento de 1994. Com relação à eleição no Município de Jordão. vista como personalização da Funai e do governo federal. segundo a coordenadora da comissão. portanto. Discussões mais ásperas aconteceram apenas com o ocupante Francisco da Silva Silveira (Chagas Brás) a respeito do reduzido valor de sua indenização e de um motor de farinhada que ganhara da Prefeitura em 2000. Repetiu. O resultado mais evidente da truculência que marcou esta passagem da comissão pagadora. Mas. com a explicação dos objetivos da viagem. é legítimo afirmar que mais “votos dos brancos” não foram dados a Siã Kaxinawá. num total de R$ 24. Os depoimentos de vários ocupantes desta terra indígena foram unânimes em apontar a truculência e o desrespeito que marcaram as ações do agente da PF. o abuso da autoridade por parte do agente da PF e uma clara inversão dos papéis e atribuições que caberiam aos membros da comissão pagadora. já que foram. dentre os quais. veio a confirmar as ameaças de “perseguição” e invasão por parte dos índios pregadas pelo candidato do PPB e seu vice durante toda a campanha. foi uma grande revolta dos ocupantes e vizinhos da terra indígena Ashaninka.21. em várias ocasiões. como reação de várias famílias de moradores dos seringais e do município à violência que marcou a indenização na TI Kampa do Igarapé Primavera. usar de respeito ao se relacionar com os brancos durante os trabalhos de indenização. acompanharam as atividades da comissão. que teve lugar poucos dias depois. e que a coordenadora acreditava deveria também ficar para os índios. pois voltaria a estes locais para matar os cachorros e prender os chefes de família. logrou-se. Ficou claro. Mesmo com percalços. o que. A indenização das seis famílias ocupantes na TI Kampa do Igarapé Primavera. neste episódio. e isto foi motivo de grande alegria para as famílias e lideranças Ashaninka e Kaxinawá. a situação que viveram.Houve. ao chegar em suas casas. supostamente capacitados para tal. prejudicou outro desfecho possível para as eleições municipais no Município de Jordão. o agente teria afirmado que. foi realizada logo à continuação. Segundo previsto.

como entreposto comercial de apoio à atividade gumífera na região do alto Tarauacá. com mil metros quadrados. A partir de 1993. bem como aprofundar a cidadania e direitos arduamente conquistados nas duas décadas anteriores. a foz do rio Jordão serviu. cargo ocupado por membros das principais famílias de seringalistas e comerciantes locais. esta passou a ser distrito do Município de Tarauacá. a administração do primeiro prefeito eleito. posto de saúde. Câmara dos Vereadores. um posto fiscal e uma guarnição. almoxarifado. cantina escolar. dentre os quais. Com a criação do Departamento do Alto Tarauacá. Ali começaram a funcionar uma escola. 1999). como indivíduos. escola. nos arredores do perímetro urbano da sede do município recém criado e instalado. casa do motor. A Ata da Sessão de Instalação da Vila Jordão explicita que “posteriormente será adquirido maiores áreas de terras. A Vila Jordão foi oficialmente instalada. lavanderia (sem água). Thaumaturgo de Azevedo. 27 . o Prefeito do Departamento do Alto Juruá. que ganharam maior número com a chegada de comerciantes de origem árabe nos anos 1920-30. Neste período. 1998a. Os Kaxinawá e "o Jordão" Outra dimensão crucial para compreender o atual momento vivido pelos Kaxinawá. creche. das redes elétrica e hidráulica e. a Foz do Jordão passou. por falta de espaços físicos. hospital (em construção). houve um Sub-Prefeito na Vila. a Vila contou os serviços de profissionais de diferentes ofícios e funcionários públicos. material de trabalho e profissionais capacitados e bem remunerados. A Vila fora demarcada nos moldes do Decreto N° 209. famílias extensas. em 1957. peladeira de arroz. do governo e da sociedade civil local (Aquino & Iglesias. um delegado e um escrivão de polícia. Desde início do século passado. juiz de paz e oficiais do Corpo da Guarda. Hilário de Holanda Melo. e algumas das perspectivas que se configuram para os próximos anos. é o campo intersocietário constituído na sede do Município de Jordão. Manaus e Belém. esta inaugurada apenas em 2000. de 12 de dezembro do ano anterior. O funcionamento de muitos órgãos públicos. a ser denominada Villa Jordão. o que aconteceu só em 1993. associação e povo etnicamente diferenciado. delegacia. de um depósito de água e de uma usina geradora de energia. caso necessite para o desenvolvimento da Vila”(sic). principalmente os que deveriam prestar serviços de atendimento à população. mantendo-as articulada às redes de aviamento de casas comerciais de Tarauacá. Em 1905. com outros grupos de atores e instituições. com a construção de calçadas. arena de múltiplas formas de relacionamento dos Kaxinawá. O censo do IBGE em 1996 indicou as seguintes: escola estadual. deu início à urbanização da sede do município. em 1913. Em certos períodos. Iglesias. recursos financeiros. contudo. ali instalou a sede da Oitava Circunscrição de Paz. foi de início precário. 1997. além de algumas casas comerciais. casa do gerador e olaria. Prefeitura Municipal. por sua localização estratégica. Com a instalação da Vila Jordão. ainda. quando a Prefeitura Municipal comprou o seringal São João.processo pelo qual os Kaxinawá também procuravam construir novas modalidades de cultura e atuação política. Apesar das diferentes conjunturas configuradas na economia gumífera na região. foi o comércio de borracha e de mercadorias que movimentou os seringais e as casas comerciais do Jordão por décadas. Este processo incluiu também a constituição de um conjunto de repartições públicas da administração municipal.

duas igrejas. ganhando salário mínimo por mês (poucos são "Soldados da Borracha"). da qual 86% permaneciam na área rural. onde grupos familiares chefiados por aposentados construíram mais de quarenta casas para seu uso e de suas famílias nos períodos de permanência na cidade. uma serraria. uma padaria e um lanche. No Novenário de São Sebastião. em meu entender. eram 1. por exemplo. atualizam formas de sociabilidade próprias. dentre as quais. À época. a católica e a Assembléia de Deus. Em 1999. prédios públicos. Ao longo de 2000. Levantamento do censo na área urbana do município em 1996 revelou a existência de 123 casas de residência. a Prefeitura doou um terreno nas adjacências da sede municipal. Em final de 1998. seis casas de comércio. o censo demográfico do IBGE estimou a população do município em 4. A Prefeitura proibiu. habitavam na sede do município. e no seu "bairro". todavia. à maior visibilidade que muitas famílias ganharam ao se instalarem na sede municipal e na beira dos principais rios. O aumento da população no período seguinte devese.213 pessoas no Município de Jordão. em final de 1991. 26 pessoas.973. cerca de 30% da população total do município. Em 2000. Este acentuado decréscimo teve como razão principal o êxodo de famílias de seringueiros para a cidade e seringais de Tarauacá. mas não há por ora qualquer tendência indicando que este processo ganhará maior monta num futuro próximo. além de 38 unidades não residenciais. portanto. Levando em conta que a imensa maioria é aposentada pelo INSS. a população total do Jordão decresceu 16% até o ano de 1991 e 38% até 1996. Os mais de 70 aposentados Kaxinawá contribuem significativamente para a oxigenação da economia local. oficina de motores. Dados do censo de 1996 do IBGE indicaram uma população de 3. costumam participar da procissão e das desobrigas feitas pelo padre alemão da Paróquia de São José. chegou a 548 cinco anos depois e a 863 em 2000. Nos anos 1990. A população da área urbana. constatou-se uma constante e intensa migração rumo à sede do Jordão e a seringais e colônias próximos.261 Kaxinawá que habitavam nas três terras indígenas. de 28 . outras poucas famílias Kaxinawá se mudaram para a sede do Jordão. Nas datas de recebimento das aposentadorias. 127 pessoas em 1991. a desarticulação das relações de aviamento nos barracões dos seringais e uma maior sujeição dos seringueiros junto aos regatões. 23 de uso ocasional. bem como a um maior rigor nos levantamentos realizados pelos recenseadores contratados pelo IBGE. estes recursos representaram pouco mais de 14% do total do Fundo de Participação do Município e 7% das transferências constitucionais (FPM e Fundef) recebidos pela Prefeitura. dada a crise instalada na economia da região. ocasiões em que fazem suas compras nos comércios locais. a Prefeitura deu à "rua" defronte a este bairro o nome de Sueiro Sales. das quais 81% vivendo na zona rural. grande quantidade de famílias extensas Kaxinawá desce à sede do município. num sítio comprado pelo então vereador Kaxinawá Noberto Sales. em janeiro. os aposentados Kaxinawá injetam ali hoje cerca de 17 mil reais todos os meses. Tomando como base os dados do censo de 1980. apenas cinco famílias indígenas. após terem saído dos centros. 37 vagas.Dados do Escritório Estadual do IBGE. que os Kaxinawá ali plantassem.454 pessoas. das quais 98% viviam na "zona rural". indicaram uma população de 4. participam de festas. Em 1994. Mais recentemente. outras 16 em construção pela Prefeitura. com a falta de preço e mercado para a borracha. As famílias Kaxinawá têm hoje relevante papel na vida econômica do município. em homenagem ao velho chefe Kaxinawá falecido dois anos antes.

ocasiões privilegiadas são as esporádicas reuniões promovidas pela ASKARJ. dentre os quais acesso à documentação. Estes somaram-se a outros seis professores da rede estadual que desde 1983 fazem sua formação nos cursos oferecidos anualmente pelo Projeto "Uma Experiência de Autoria dos Índios do Acre". foram notificados 508 casos de malária. 1998b. fazer valer outros direitos reconhecidos em legislação e procurar acessar recursos de ações e programas promovidos por secretarias do governo municipal. o descompromisso das autoridades em relação aos agentes de saúde indígenas. reconhecidos pela Secretaria de Estado de Educação. 29 . além dos três contratados pelo estado. oito Kaxinawá foram contratados como professores desde 1993. que causaram várias mortes nos últimos anos. que somavam 180 crianças em final de 1998. Com a implantação do sistema educacional municipal. em setembro de 2001. agentes de saúde e agentes agroflorestais. 1998c). professores. Há hoje seis professores formados em nível médio. catapora. em função das precárias condições da rede de saneamento básico. a Fundação Nacional de Saúde estabeleceu. a falta de médicos e profissionais capacitados para entender as concepções indígenas de saúde e doença. No âmbito do programa de Distritos Sanitários Especiais Indígenas. convênio com a União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas (UNI) para repassar recursos à Prefeitura (hoje na ordem de 30 mil mensais) com a perspectiva da implantação de serviços diferenciados para a população indígena.Tarauacá. realizadas no auge da estação seca dos rios). Outros 150 crianças Kaxinawá estudavam na rede de seis escolas estaduais. coqueluche e malária. que realizaram sua formação em cursos da CPI-Acre. inclusive entre os Kaxinawá. levando-as para as aldeias quando para ali retornam (Iglesias. surgido muitos casos de febre tifóide e salmonelose. dada a precariedade dos serviços municipais de prevenção e atendimento. Por outro lado. do Setor de Educação da CPI-Acre. pouco alteraram a situação. rubéola. a constituição de uma equipe permanente de saúde e o trabalho em parceria com os agentes indígenas de saúde em formação pela UNI. Importante mobilização dos professores tem sido no sentido de conseguir contratação e a construção de escolas nas terras indígenas. outros trabalham ainda sem salário. entre os Kaxinawá e os brancos. que contraem estas doenças durante suas visitas e durante os períodos de maior concentração na sede urbana (em especial nas eleições. além dos casos crônicos de hepatites. freqüentadas especialmente pelas lideranças. A sede do município tornou-se local para acessar outras formas de benefícios individuais e familiares. As periódicas descidas "ao município" constituem hoje o principal momento para o encontro de parentes e famílias que habitam nas várias aldeias das três terras indígenas. com seu abastecimento de material e merenda escolar para os alunos. na esperança de serem contratados. 654 de febre tifóide. a discriminação sofrida pelos pacientes índios que procuram atendimento no posto no Jordão e o aparecimento de freqüentes surtos de sarampo. e as exigências de qualificação introduzidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. 106 de hepatites. Estas medidas. Afora estes momentos. e realizadas na sede municipal ou em alguma aldeia nas terras indígenas. tem. mesmo urgentes. Dada a precariedade dos cursos de formação promovidos pela secretaria municipal de educação. Apenas em 1991. de abastecimento de água e da coleta de lixo na sede municipal. 42 de rubéola e 91 de sarampo no Município. vários dos professores municipais passaram a partir de fins dos anos 1990 a freqüentar os cursos de formação da CPI-Acre em Rio Branco.

ainda não acabada. que sejam garantidos. em parceria com a Comunidade Ativa. e em especial dos índios e seringueiros. O governo do estado apoiou a implementação de alguns ações locais de saúde e em 1998 iniciou uma série de obras na sede municipal. 30 . antes de abandonarem seus cargos alegando falta de condições de trabalho. É fundamental que essas famílias possam atualizar formas tradicionais de ocupação territorial. inclusive a ASKARJ. do Plano de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (PDLIS) do Município de Jordão. O plano de desenvolvimento para o município deve favorecer condições para que as famílias de seringueiros e agricultores possam permanecer vivendo na floresta. por falta de candidatos às vagas. É importante. com tímidas ações na ampliação e calçamento de ruas e na extensão da rede de distribuição de água encanada. até a chegada. estas ações pontuais não tiveram continuidade ou engendraram planos e ações de médio prazo. Viabilizou também a construção nos fundos do perímetro urbano de uma nova pista de pouso. professores e agentes de saúde Kaxinawá. a Prefeitura Municipal de Jordão não aventou a possibilidade de envolver outros setores da sociedade local para a elaboração de um plano de desenvolvimento adequado às potencialidades e especificidades do município. lideranças. que concentraram suas atividades na sede municipal e não procuraram envolver agentes de saúde indígenas.5 mil. pois têm ficado sob administração do Prefeito. apesar de ter acontecido de forma sistemática todos os meses. Estas são medidas de fundamental importância para vitalizar a economia do Município de Jordão e adequar seu desenvolvimento à sua vocação histórica e às potencialidades ali existentes. e da discussão dos orçamentos participativos. para substituir a velha pista de grama. de médico contratado pela Secretaria de Estado de Saúde para atender toda a população. planejamento ou execução. Assim como com os da saúde para os índios. As atividades produtivas dos grupos familiares em suas colocações. Até o presente. em 2000-2001. Apesar de aberto concurso para a contratação dois odontológos. Apesar de terem envolvido autoridades e representantes de diferentes grupos de interesse. UNI e Prefeitura. com base nas colocações. na cidade. nos seringais. com mil metros de extensão em terra batida. alegando a falta de apoio por parte das autoridades municipais. e estratégias econômicas que permitam subsistência farta e alternativas reais de comercialização. com previsão de asfaltamento. podem resultar numa oferta significativa de alimentos para venda na sede do município. ainda. ameaçou largar o cargo. que permitissem a efetiva participação destes grupos. construída em 1977 com a participação de mão de obra Kaxinawá. dois meses depois. combinadas com o uso e preservação dos recursos naturais da floresta. urbana e da floresta. a Prefeitura tem centralizado os recursos de convênios com o governo estadual e outras agências federais em obras na sede municipal. de 600 metros. em fins de 1999. dois enfermeiros e um médico. profissional que. do governo federal.O modelo de repasse de recursos à Prefeitura para o atendimento à população indígena. ao invés de incentivá-las a migrar para a sede municipal ou seus arredores. a equipe do convênio Funasa. além de garantir sua subsistência e melhores condições de saúde e de vida. em sua definição. na maioria das vezes por práticos. com construção da escola estadual. serviços básicos e fontes de emprego e. de um ginásio e de um escritório de representação. O governo estadual procurou tomar esta iniciativa por ocasião da elaboração. não tem surtido os efeitos esperados. acabou composta por dois enfermeiros e um auxiliar. este com salário previsto de R$ 5. O atendimento aos Kaxinawá voltou a ser realizado no posto de saúde do município. em abril de 2003.

oportunidades de estudo para as crianças. tendo sido já maior nos dois primeiros pleitos. Melo era importante comerciante da Vila Jordão. partidário. apoiando suas mobilizações e reivindicações. por ocasião das primeiras mobilizações para o reconhecimento da terra indígena e a estruturação da cooperativa. 333 Kaxinawá tinham título de eleitor. Quatro anos depois. as primeiras eleições no novo município colocaram frente à frente representantes das duas principais famílias de comerciantes e seringalistas do município: Hilário Melo. estadual e federal dessem condições para o fortalecimento da ASKARJ. em função da dificuldade de acesso à documentação enfrentada à época pelos seringueiros brancos. Nesta época. bem como uma eficiente rede de transporte pública para deslocamento de passageiros e doentes e para o escoamento e a comercialização das produções no Jordão e em Tarauacá. preferindo apregoar contra o reconhecimento das novas terras indígenas. nos projetos políticos e nos procedimentos cotidianos dos membros das tradicionais famílias de comerciantes e políticos locais. no qual os Kaxinawá tem participado cada vez mais ativamente (Iglesias. com professores capacitados e bem remunerados. Isto. viram na política oportunidade de redimensionar a matéria prima de sua ascendência local. tinham ocorrido novidades no quadro político local. 2000c). através de suas próprias formas de organização e representação política. irmão de Turiano. é crucial que os governos municipal. financeiros e técnicos. face à crise já configurada na economia da borracha. sustentara seguidos conflitos com os Kaxinawá em fins dos anos 1970. Mas. pelo PFL. atendimento básico de saúde. pelo PMDB. na reserva extrativista e demais seringais do município. Em 1992. A existência das terras indígenas Kaxinawá. junto a quem a cooperativa e alguns chefes das principais famílias extensas Kaxinawá lograram abrir canais para vender sua borracha e comprar mercadorias. permitem perspectivas de relacionamento das populações locais com diferentes órgãos do governo federal. A política local e os "tempos da política" A criação do Município de Jordão levou à configuração de um novo campo político. bem como legitimando suas negociações para a obtenção. merenda escolar e material didático. vistas como entraves ao desenvolvimento econômico do município. A proporção dos votos indígenas é hoje de aproximadamente 20% dos total dos votos. Em final de 1998. esta é uma visão bastante diferente daquela ainda arraigada na mentalidade. de educação e de saúde. Os candidatos praticamente dividiram por igual os votos dos eleitores brancos. 2000b. 1998a. estes optaram por dificultar os processos de fortalecimento político das organizações dos Kaxinawá e seringueiros. Os Kaxinawá não lançaram candidatos próprios. logo após o plebiscito realizado para deliberar sobre a criação do município. em parte. a criação da Reserva Extrativista e a atuação das associações e do sindicato. da ASAREAT e do Sindicato local. Carlos Farias. que permitam a implementação de ações econômicas. mas decidiram o pleito a favor de Melo. nas terras indígenas. Por temor de partilharem os espaços institucionais e políticos que controlam há muitos anos. junto a órgãos dos governos federal e estadual e outras agências. Neste sentido. que. na segunda eleição desde a criação do município. e Turiano Farias. Os Kaxinawá tiveram papel importante na estruturação de diretórios locais do Partido 31 . porque o ex-arrendatário dos seringais do rio Jordão. de recursos. bem como da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá.

a reboque de decisões do Tribunal de Contas do Estado e da Justiça Federal por processos judiciais que resultaram de desvio de recursos públicos em sua administração anterior em Tarauacá. todavia. nos seringais e terras indígenas. na sede municipal. O prefeito não estabeleceu residência fixa no município. o vice-prefeito Turiano Farias transformou a Prefeitura em feudo familiar e de seus correligionários políticos. inclusive com ameaças e agressões físicas contra aqueles que ousaram fazer-lhe oposição. merenda e fardas. Os Kaxinawá. com 217 votos. à falta de material escolar. corrupção e tentativas de cooptação de vereadores da oposição. O destino do recursos era decidido na Representação do Município de Jordão. apesar da falta de experiência política e parlamentar. que teve Siã Kaxinawá. Os Kaxinawá fizeram novamente valer seu peso eleitoral. Pontualidade no pagamento dos servidores e vagas de trabalho na diária passaram a ser direitos apenas dos correligionários. Na Câmara. o Presidente da ASKARJ. devido ao atraso dos salários dos professores e das merendeiras e. ainda. Os serviços prestados nas escolas públicas. e o PMDB. algo em torno de 30% do total do eleitorado. o prefeito 32 . que consumia boa parte do orçamento. Siã obteve 277 votos. pelo PV. Após assumir. Apesar da honesta administração tocada por Melo. que viabilizou a implantação inicial do município. Por não contar com os dois terços necessários em certas votações. como resultado da desconfiança e preconceito suscitados pela candidatura de Siã. dois do PFL e um do PMDB. Em 1997-98. Nos seringais. Esperidião Menezes Júnior.Verde e do Partidos dos Trabalhadores. todavia. visto pela maior parte dos brancos como “o caboclo” e “o candidato dos caboclos”. dos quais apenas um era Kaxinawá. votação que permitiu “puxar” outros três candidatos da legenda da Frente: dois do PT e um do PCdoB. com a forte diminuição das oportunidades de trabalho para os diaristas e a falta de compromisso da Prefeitura com o pagamento dos aposentados na sede municipal. com óbvias melhorias nos serviços públicos de educação e saúde. Havia amplo descontentamento com o atraso dos salários dos servidores públicos. Os primeiros anos do novo governo foram marcados por denúncias de favorecimento político. a Frente Popular do Jordão. enfrentaram. que passaram a formar o bloco de sustentação do prefeito. montada na cidade de Tarauacá. com Turiano Farias como vice pelo PPB. Os partidos tradicionais tornaram a polarizar suas candidaturas: o PFL lançou Sebastião Aragão. então vice-prefeito. procuraram desempenhar uma série de trabalhos em benefício das camadas mais necessitadas da população. Júnior foi cassado em agosto de 1998. fatores que contribuíram para agravar a crise na economia e no comércio local. como presidente até 2001. estes partidos constituíram uma terceira força na política local. A câmara ficou composta ainda por dois vereadores do PPB. A Frente perdeu a prefeitura. Junto com o PCdoB. vinham também se deteriorando. as principais queixas das famílias de seringueiros e agricultores estavam centradas na ausência de serviços básicos. Tendo ficado em terceiro lugar. e lançaram as candidaturas de Siã a prefeito e de meia dúzia de vereadores. ponto alto da administração anterior. canalizando cerca de 60 votos entre os brancos. principalmente de saúde. cerrada oposição do bloco de sustentação do prefeito. o PMDB saiu vitorioso das urnas. elegeram o vereador mais votado. As mesmas queixas persistiram nos seringais e na cidade. os quatro vereadores da Frente. Noberto Sales Tenê. ex-prefeito de Tarauacá.

ambos do PT. quando da eleição para a escolha da nova diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais no Jordão. de forma a ampliar aqueles obtidos quatro anos antes. se coligaram. contudo. do PFL. algo que não ocorrera em 1996. Esta quebra ficou patente em 1999. tendo a frente as lideranças das várias aldeias. o ex-prefeito Hilário Melo. a Frente logrou conquistar a presidência da Câmara para os anos de 1999-2000. em nível estadual. com a filiação ao PMDB de um dos vereadores eleitos pelo PT. do PPB. “Em defesa dos povos da floresta”. candidato imbatível na preferência popular após quatro anos da administração PMDB-PPB. adversários nas eleições municipais anteriores. essa direção queria o lançamento de apenas dois índios candidatos. De novo. do PV. os partidos reeditaram e registraram a Frente Popular do Jordão para as eleições municipais de 2000. para garantir que parte dos votos dos Kaxinawá servisse para puxar outros candidatos brancos. em várias oportunidades. Um único candidato Kaxinawá. visto que o PFL e o PPB. Esta iniciativa foi contestada pela nova direção do partido no município. nos seringais do médio e alto Tarauacá e na sede municipal. Mesmo sabedora da importância do voto indígena para a eleição de uma bancada numerosa. projetos pessoais dos representantes do PT e PCdoB. foi uma resposta a esse desafio. sob as orientações dos dirigentes do partido em Tarauacá. Prevaleceram. seu principal desafio era canalizar os votos de boa parte dos eleitores brancos. não abriu de concorrer à reeleição. professor municipal. tiveram ampla repercussão na imprensa de Rio Branco e exigiram a intervenção das direções estaduais de ambos partidos. passou a receber críticas de seu povo. o que conseguiram em final de 1998. lançaram quatro nomes a vereador pelo PT. A Frente lançou uma chapa com quinze candidatos: quatro índios e onze brancos. com os nomes de Siã Kaxinawá a prefeito e Francisco Rufo Figueira da Silva a vice. devido a desavenças surgidas em torno de sua gestão à frente da ASKARJ. a um isolamento do vereador Kaxinawá Noberto Sales. Esta ruptura levou. As discordâncias entre as lideranças locais desses partidos sobre a convocação e o resultado da eleição culminaram com a invasão da sede do sindicato pelos filiados ao PCdoB. Sua candidatura contou desde o início com o total apoio das lideranças e do povo Kaxinawá. A escolha da chapa majoritária tornou a evidenciar o racha e a candidatura de um vice-prefeito do PCdoB acabou abortada. Os Kaxinawá. A chapa lançada foi a mesma das eleições de 1996. Logo após a cassação do prefeito Júnior. Elias Paulino. A campanha de Siã concentrou-se entre a população branca do município. a adesão de um dos vereadores da Frente. formada em grande parte por moradores da sede municipal e da Reserva Extrativista. em decisões tomadas coletivamente. no Movimento Democrático Acreano (MDA). Turiano Farias. antes presidido pelo PCdoB. Os Kaxinawá não concordaram e fizeram prevalecer sua posição. foi convidado pelo prefeito e lançou sua candidatura a vereador pelo PMDB. passos importantes nesta direção tinham sido dados. que não via resultados concretos de sua atuação parlamentar. Atendendo às diretrizes do gabinete do governador e das direções estaduais do PT e PCdoB. O slogan da nova campanha. com o 33 . ainda. que. A “direita” também teve processo complicado para a definição de seu único candidato.e seu bloco tentaram. inclsuive alguns dos quadros de sua Associação. por sua vez. desejosas de reeditar a Frente nas próximas eleições municipais. o que desagradou seu desafeto político. Mas. que levaram a nova ruptura na bancada que prevalecera nos dois anos anteriores.

um dos acusados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. Estes votos vieram principalmente dos seringais da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá.início do processo de criação da Reserva Extrativista. a fundação da ASAREAT. por sua vez. concentraram suas campanhas nas aldeias das três terras indígenas. ocorrida poucas semanas antes. que prometeram atuar como bancada unida. todos do PT. teve 22 votos. mobilizar suas redes familiares extensas. em reuniões e festas. que desceram em peso à sede municipal. os cinco Kaxinawá candidatos a vereador tiveram um total de 380 votos. não se reelegeu. da grande maioria dos servidores públicos lotados no Jordão e de várias famílias que ao votarem externaram reação à truculência da PF e da Funai na indenização das benfeitorias dos ocupantes das terras indígenas Kaxinawá e Ashaninka. Turiano Farias. Os cinco candidatos a vereador montaram espaços próprios para receber e alimentar seus eleitores. que perdera as eleições de 1996. tio de sua esposa.078 votos. com 1. Auton Farias. capitalizou votos de tradicionais eleitores dos partidos de direita. iniciativas que haviam contado com uma efetiva participação de Siã. a terceira e a oitava melhores votações: Sivaldo Barbosa Sereno. também Kaxinawá. procurando. com a presença de Siã. Dado que. 34 . por sua vez. ficando com a primeira. que concorreu pelo PMDB. um deles para o terceiro mandato. um do PFL. e a consolidação do PT no município. todos novatos na política. Três vereadores Kaxinawá lograram se eleger pelo PT. Mas. A campanha da Frente contou com o apoio do governo do estado e de representantes de sua base de sustentação no congresso. de seu grupo familiar extenso. Além dos três Kaxinawá. Durante uma semana. os candidatos. Houve alto índice de renovação na Câmara: apenas dois vereadores se reelegeram. Sivaldo Barbosa Sereno foi eleito Presidente da Câmara para o biênio 2001-02. o kupixawa construído no bairro Kaxinawá foi palco de reuniões diárias. Siã obteve 818 votos. que demonstraram grande crescimento de sua aceitação pelos brancos e descontentamento de muitos com os rumos tomados pelo governo municipal nos anos anteriores. para apresentar propostas de trabalho. a Câmara ficou composta por três vereadores do PMDB. Um dos vereadores eleitos em 1992. somados. Virgulino Rodrigues Sales e João Sales da Rosa. O primeiro suplente da Frente é Francisco Sabino. os que não queriam votar no "candidato dos caboclos". um do PPB e um PCdoB. voltou à Câmara. Elias Paulino. e não se elegeu. da senadora Marina Silva e do deputado federal Nilson Mourão. pode se calcular que cerca de 438 votos foram dados à candidatura de Siã por eleitores brancos. pois constituem o bloco de oposição ao prefeito. Os Kaxinawá candidatos a vereador. lideranças e representantes das famílias extensas. que aproveitou os votos da Frente Popular. Um avanço importante nesta eleição foi a crescente mobilização das famílias extensas Kaxinawá. O candidato do PPB foi reeleito. o trabalho dos três novos vereadores indígenas do partido. ficando com 20 votos. no seringal Alagoas. através de visitas ao município do governador Jorge Viana. 57% do total dos votos válidos no município. tecer acordos de apoio e planejar estratégias para o dia da votação. não tem sido simples na busca de trazer benefícios concretos para seu povo e as famílias extensas que os apoiaram. nas quais foram discutidas estratégias para os dias finais da campanha e o dia da votação. mas também passou a compor o bloco de sustentação do prefeito.

que foi financiado pelo Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia. Autodemarcação dos seringais Independência e Altamira Na parte final deste texto. Conjunturas e possibilidades De início. que contou com 107 participantes das várias aldeias. tocado pela Secretaria de Coordenação da Amazônia. A assembléia serviu. agências humanitárias internacionais e a própria prefeitura municipal.Feita a avaliação dos resultados da eleição. a aquisição de imóveis por uma associação indígena. definida para os meses de agosto e setembro daquele ano. recorrências constatadas ao compará-lo com outros momentos da conquista e garantia das duas terras indígenas já regularizadas no rio Jordão. os Kaxinawá passaram a procurar meios para fortalecer a ASKARJ. através de transação de compra e venda. teve lugar a sexta assembléia geral da ASKARJ. Ainda nesse ano. me parece no Brasil. pelo povo que representa jurídica e politicamente. como alternativa para a incorporação de uma nova extensão de terras contígua ao território já controlado. com órgãos dos governos federal e estadual. bem como a internalização de novos recursos e benefícios para as aldeias das três terras indígenas. projetos e recursos para tentar garantir a vigilância e o uso sustentado desse território.5 milhões referentes à taxa de lavratura de escrituras públicas. José Ribamar Coelho de Moura e sua esposa Jamila Amin de Moura a 2 de junho de 1993. empresas. Serão apontados aspectos originais deste processo. Em 2001 foi concluída a nova sede da Associação na sede municipal. pretendo tecer uma série de análises e comentários sobre a recente demarcação dos seringais Independência e Altamira. a US$ 35 . para o planejamento dos trabalhos a serem realizados pelas lideranças e pelos agentes agroflorestais durante a autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. ainda. mediante o pagamento de Cr$ 150 milhões. de subsistência e comercialização. Foi escolhida uma nova diretoria da ASKARJ e definida pauta a ser priorizada para o fortalecimento institucional da ASKARJ. registrada em cartório. que coincidiu com o fechamento daquela que desde 1994 funcionava na cidade de Tarauacá. Em abril. do Ministério do Meio Ambiente. feita no 2º Cartório de Notas da Comarca de Rio Branco. centradas na continuidade da produção de lâminas de couro vegetal e do adensamento agroflorestal dos terreiros e roçados. promovida pelos Kaxinawá e a ASKARJ entre junho e setembro de 2001. ao negociar. Os seringais Independência e Altamira foram adquiridos pela ASKARJ de seus antigos proprietários. na retomada da produção de pranchas de borracha e no incremento da quantidade e qualidade da produção de artesanato tradicionalmente feito pelas mulheres. Estas transações importaram num montante equivalente. a melhoria dos programas de educação e saúde e a busca de novas alternativas econômicas. à época. a ASKARJ delineou o projeto Retomada da Produção Tradicional de Borracha. na forma de terra indígenas reconhecidas pelo governo federal. e mais Cr$ 12. como parte dos processos de consolidação da ampliação territorial iniciada na primeira metade dos anos 1990 e de busca de reconhecimento oficial como terra indígena. ongs. Foram então compradas a metade e mais 5 partes da outra metade desses seringais. bem como subsídios que esta situação apresenta quando se discute hoje novas alternativas para a regularização de terras indígenas no Brasil. é novidade.

intensas negociações das lideranças locais e dos representantes da ASKARJ junto às famílias de seringueiros e agricultores que ali moravam. De outro lado. em reconhecimento por sua luta em prol dos direitos territoriais e políticos dos índios e seringueiros do Alto Juruá. Esta não chegou a ser consultada quando. do tipo "ong estrangeira usa associação indígena para comprar terras na Amazônia". isto ocorreu numa conjuntura em que outras redefinições territoriais importantes começavam a se concretizar em nível local. fazendo uso de parte dos recursos do Prêmio Reebok de Direitos Humanos. José Ribamar Coelho de Moura. com a criação do Município de Jordão. aos proprietários dos seringais vizinhos e às 36 . em 1994. A primeira reação do representante da WWF responsável pelo projeto foi fortemente negativa. a compra do seringal São João pela Prefeitura Municipal e a incorporação de outros seringais ao patrimônio do governo federal. comerciante e patrão com o qual o velho chefe Sueiro Cerqueira Sales trabalhara nas décadas de 1950-70. Os recursos para a compra dos seringais Independência e Altamira. resolveram aproveitar uma oportunidade única. Capitalizando um momento favorável da ASKARJ. alegando que a direção da instituição temia as repercussões que poderiam advir.150. financiado com outros fins pela ong World Wildlife Fund (WWF-USA). oriundos do Prêmio. ao comprar outros seringais de proprietários em dificuldades financeiras e sem intenções de voltar a morar na floresta ou de se envolver no comércio de borracha e mercadorias. Após uma série de negociações. ao ocupar seringais que se encontravam sem patrão e ao propor acordos comerciais aos seringueiros que à época não contavam com qualquer assistência de seus antigos patrões. a ASKARJ recebeu a oferta de venda feita pelo então proprietário. foi também efetivada com outra parte de recursos do Prêmio Reebok. que dispunha de recursos de projetos. seria reinvestido nos objetivos originais do projeto. Por outro lado. com ênfase na estruturação da sede da ASKARJ recém comprada na cidade de Tarauacá. a venda de importantes seringais no alto Tarauacá. advieram do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. em início do ano. 1995). a ASKARJ comprou. que acabaram gerando sobreposições das ações de diferentes órgãos do governo federal sobre o seringal Nova Empresa. denominada “Colônia Altamira”. Ambas estratégias demandaram.300. Assim.7. Presidente da Associação. A compra da Colônia Altamira. no baixo rio Jordão. por Cr$ 2 milhões. ganho em 1993 por Siã Kaxinawá. O caráter inovador da estratégia implementada pelas lideranças e a ASKARJ para viabilizar a ampliação do território controlado pelos Kaxinawá ganha realce também ao levar-se em conta que essas compras foram levadas a cabo pouco tempo após a conclusão da regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão e da ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. A ASKARJ. ofereceu reembolsar o dinheiro investido. além de sua implementação pelas famílias Kaxinawá. a fonte dos recursos utilizados para viabilizar esta aquisição constituiu outro fator de inovação. a última sexta parte da metade dos seringais. equivalentes a US$ 1. as lideranças Kaxinawá resolveram. ficou por fim definido que igual montante de recursos. primeiro. em junho de 1993. filha do proprietário anterior do seringal (Aquino. se antecipar. reivindicado pelos Kaxinawá como parte de seu novo território. da herdeira Raimunda de Andrade Pessoa. e numa conjuntura em que tornava-se cada vez mais claro o aprofundamento da crise na economia da borracha. A 23 de maio de 1994. todavia. através de desapropriações promovidas pelo Ibama e da penhora executada pelo Banco do Brasil.

com o argumento que. à propriedade dos seringais e ao seu uso pelos Kaxinawá. Diferentemente. obrigações do governo federal. Conforme diziam os Kaxinawá. No caso dos seringais Independência e Altamira. ao assegurar aos Kaxinawá o usufruto exclusivo dos recursos naturais. buscar alternativas para o reconhecimento e a regularização destes como terra indígena. que resultaram numa gradual legitimação de ambas as ações protagonizadas pelos Kaxinawá durante a redefinição de seu território anterior. bem coletivo dos Kaxinawá. através da Funai.204/93. que não disporia de receita própria para fazer frente a esta obrigação. toda a originalidade da iniciativa. Na visão das lideranças. determinou que o GT PP 1. a demarcação física da terra e a indenização das benfeitorias dos antigos moradores. pois desobrigaria a ASKARJ a anualmente arcar com custos relativos ao pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR). seriam "desperdiçados". a Presidência do órgão. que não configuravam uma terra tradicionalmente ocupada. Em final de 1993. que em breve faria várias 37 . colocando riscos reais. junto à Funai. pois este procedimento legal impediria que os seringais pudessem. era desejável por diversas razões. O imbróglio jurídico Outro conjunto relevante de questões está relacionado aos posicionamentos jurídicos assumidos por diferentes instâncias da Funai face a esta inovadora demanda apresentada pela ASKARJ.775/96. atendendo a uma recomendação do DEID/DAF. da ASKARJ e de seus assessores foi de que a regularização desses seringais pela Funai como terra indígena. que os seringais haviam sido comprados pela ASKARJ de seus legítimos proprietários. no futuro. ser objeto de nova transação imobiliária. em tese com todas as benfeitorias ali existentes. pois obrigaria ao governo federal. as quais tinham sido cadastradas quando dos trabalhos de identificação realizados pela Funai e o Incra em março de 1994. neste caso específico. a ASKARJ procurou prontamente fazer gestões para. com sua incorporação ao patrimônio da União e sua retirada do mercado de terras. ao garantir sua demarcação física e indenizar as benfeitorias de boa fé das dez famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. com a ocupação dos seringais ocupados e comprados. por outro.autoridades do Município de Jordão. como estipulado pela Constituição Federal e pelo Decreto 1. por um lado. a médio prazo. para o patrimônio da União. Por que da regularização como terra indígena? Iniciado o processo de ampliação territorial. eles poderiam ser vendidos. todavia. não constituiriam. ao transferir-se um patrimônio particular da ASKARJ. assim como os recursos investidos na compra. Isto poderia causar de ordem legal à Associação. dado. esta era providência indispensável a um correto eqüacionamento dessa questão com os moradores brancos e à futura garantia e vigilância desta terra. Segundo. a cumprir suas atribuições legais após seu reconhecimento como terra indígena. a visão das lideranças. atendendo a uma demanda feita pela ASSKARJ. do mesmo jeito que esses seringais foram comprados. à época. a adequação desta estratégia foi posta em questionamento por muitos. em especial funcionários da Funai em Brasília e Rio Branco. uma vez ocorrido o reconhecimento oficial dos seringais como terra indígena. Terceiro. ao assentar as bases para um relacionamento mais harmônico entre índios e brancos e ao livrar a ASKARJ de anualmente pagar o ITR à Receita Federal. e. Na visão daqueles mesmos críticos. Primeiro.

em 1996 e 1997. a seu ver. o relatório de identificação e delimitação recomendou sua regularização como "terra de domínio indígena". a seguir. a especificidade de cada um destes processos inovadores postos em prática pela ASKARJ. que.. Ao propor esta solução. devido à estranheza que inicialmente causou à nova direção do Departamento.identificações de terras indígenas no Estado do Acre. § 6. Em duas oportunidades. Através deste ato. que instituíra novo procedimento para a regularização das terras indígenas no país. 15 A este respeito. em 1994. o artigo 231. também se deslocasse aos seringais Independência e Nova Empresa para "realizar levantamento da ocupação indígena". Cabe apontar que o relatório da TI Kaxinawá do Seringal Independência foi apresentado ao DEID em novembro de 1995. hoje. a chefia do DEID sugeriu ao GT que propusesse a criação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. portanto. como previsto nos Artigos 17 e 32 da Lei 6. no entender do Coordenador. a proposta inicialmente defendida pela ASKARJ. que era a de legitimar esta expansão através da redefinição dos limites da TI Kaxinawá do Rio Jordão. seis meses após a promulgação do Decreto 1. a Presidência da Funai reconheceu uma situação de fato. quando. o memorando defendia que fosse ouvida a Procuradoria Geral do órgão. após uma década e meia de tramitação. assim.001/73 (Estatuto do Índio). consultar Rios. deveria explicitar que o imóvel ficava destinado à posse permanente da comunidade Kaxinawá. antropólogo Walter Coutinho Jr. em junho de 1996. o DEID confrontou. relativa ao reconhecimento dos seringais Independência e Altamira como terra indígena. não podendo ser objeto de arrendamento ou qualquer outro ato legal que pudesse restringir o usufruto exclusivo dos recursos naturais pela comunidade e o seu pleno exercício da posse. justificando a adequação de regularização dessa terra indígena. com adequação. o DEID/DAF encaminhou o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral da Funai. o Processo Funai/BSB/2325/96 acabou sendo protocolado apenas em julho de 1996. colocaram em rota de colisão o DEID/DAF e a Procuradoria Geral a respeito do encaminhamento mais adequado para a demanda da ASKARJ e a forma proposta no relatório de identificação para atendê-la. Em relação à indenização das benfeitorias dos ocupantes. são discutidas novas alternativas para o reconhecimento e a regularização de terras indígenas no país15. Para atender a reivindicação da ASKARJ. 2002 e Mendes. cuja regularização fora concluída em 1991. visto que. Vale a pena retomar brevemente essas diferentes visões. 2001. Já na fase de elaboração dos relatórios de identificação e delimitação.775/96. esta solicitação foi formalizada em memorando do então coordenador de Delimitação e Análise do DEID. Esta proposta do GT gerou diferentes entendimentos dentro da Funai. Na primeira. configurada pelos diferentes processos de ampliação territorial recém protagonizados pelos Kaxinawá e pela demanda formalizada pela ASKARJ. 2001. preservando. mas. solicitando que se manifestasse a respeito do reconhecimento dominial dessa terra. com sua demarcação e registro em cartório como terra de domínio indígena. da Constituição previa este tipo de ato apenas em casos de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. as lideranças e as famílias Kaxinawá para a ampliação de seu território anterior. Este registro. 38 .

O que não poderia se fazer. Esta Informação foi aprovada pela Procuradora Geral Interina.775/96. da ASKARJ e. a Procuradora acrescentou que. violentar ou transfigurar esse título de propriedade por interferência indébita. Em seu entender. caso o objetivo final fosse evitar o eventual arrendamento da terra ou sua futura venda por diretores da Associação. uma sociedade civil. que devolveu o processo à DAF. solicitava a sugestão de dispositivo jurídico que viesse a garantir. ao declarar a terra como de domínio indígena. tendo em visto que os estatutos da ASKARJ poderiam ser alterados em outra situação após aquela em que se faria constar a impossibilidade do arrendamento ou da alienação do imóvel. a União poderia assumir todos os encargos da demarcação. para efeito de proteção. Neste novo memorando. Em junho de 1997. em termos legais. considerou "írrito". entendeu que. demarcação física dos limites e indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios. da comunidade Kaxinawá. Milton Cintra de Paula. e por outras disposições expressas tanto na Constituição Federal como no art. para que essa terra passasse a gozar dos mesmos direitos conferidos às de ocupação tradicional indígena. ainda que indígena. Por outro lado. Lêda Bandeira. tornando nulo o título de propriedade.. solicitando nova análise. este coloca que não vislumbrava alternativa para assegurar esta proteção. que dessem base à proposta de criação de uma terra indígena. Em seu sumário despacho. dispor sobre a coisa alheia. dando-lhe o mesmo tratamento a estas destinado. o mais indicado seria fazer constar estas proibições no estatuto da ASKARJ. de outros atos legais para tornar-se de pleno direito. prescindindo. mesmo que o este viesse a ser reconhecido exclusivamente como terra de domínio da Associação. encaminhada à Procuradora Geral Interina. sem outra recomendação para seu posterior encaminhamento. incorporando-a ao patrimônio da União. seria necessária a realização de estudos de cunho antropológico. Na Informação nº278/PG/97. Este parecer contou com a aprovação da Procuradora Geral da Funai. após assim deliberado pelo voto de seus associados. 39 . o então Diretor Substituto de Assuntos Fundiários. Apenas neste caso. o disposto no artigo 231 da Constituição federal não se aplicaria ao caso. Milton Cintra de Paula. Ana Maria de Carvalho Moreira. era. Walter Coutinho Jr. contudo. ou seja. 32 do Estatuto do Índio. Com base em seu parecer anterior. não asseguraria a proteção desta terra. a inalienabilidade do imóvel. tornou a afirmar que o ato administrativo de reconhecimento da terra de domínio indígena não teria efeito jurídico nenhum e nem incluiria os seringais comprados dentre as terras indígenas de domínio da União. sendo a terra de propriedade de uma associação. um possível ato administrativo de reconhecimento da terra indígena. pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. que deliberou pela devolução do processo à DAF. propriedade de pessoa jurídica de direito privado. a 19 de agosto. devidamente registrado em cartório em nome da ASKARJ. ou seja. tornou a enviar o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral. contra os interesses da comunidade. conforme previsto na Constituição e na legislação infraconstitucional. assinado pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. já pleno. sem validade. Para isto. ou seja. o domínio se constituíra pelo próprio título de aquisição do seringal. considerando que a proposta feita no Parecer nº 012/96.O Parecer nº 012/96 da Procuradoria Geral da Funai. sem que fosse ferido o título de domínio indígena do qual a ASKARJ já era detentora. por extensão. nos moldes estabelecidos pela Constituição e o Decreto 1. portanto.

as listagens de terras indígenas produzidas pela DAF e a lista de terras prioritárias para regularização com recursos do PPTAL16. a ASKARJ solicita apoio da assessoria jurídica da Funai para "realizar uma nova matrícula dos seringais Independência e Altamira nos Cartórios de Registro de Imóveis de Rio Branco e Tarauacá. redigido pela ASKARJ e a CPI-Acre. do início do recente processo de autodemarcação. Desde então. Neste novo registro. a Informação Nº 020/DEID/99. ato que não foi tomado até hoje no caso da TI Kaxinawá do Seringal Independência. Para tentar encaminhar esta posição. desde 1996. ou averbação ao registro anterior. A falta de qualquer manifestação por parte da Funai nos dois anos seguintes motivou. 40 . bem como a transferência da propriedade destes da ASKARJ para o povo Kaxinawá do Município de Jordão. ou de qualquer ato jurídico que restrinja o pleno exercício da mencionada posse. É interessante notar. assinada pelo Presidente da ASKARJ. mesmo quando a TI Kaxinawá do Seringal Independência integrava. A 20 de junho de 2001. o antropólogo do DEID/DAF. estas terras deveriam permanecer fora do lista de prioridades até o momento em que a Funai providenciasse à Coordenação do PPTAL informações adicionais que justificassem sua reinclusão. Roque de Barros Laraia. e de várias gestões das lideranças Kaxinawá junto à AER-RBR. este tema foi retomado. em carta enviada ao Administrador da AER-RBR. da lista de terras prioritárias para identificação no âmbito do Projeto.325/96 fosse encaminhado à AER-RBR para que o Administrador prestasse assessoria jurídica à ASKARJ para registrar em cartório esta transferência da propriedade dos seringais para o povo Kaxinawá do Jordão.O fato é que conjunto de documentos elaborado pela Procuradoria Geral da Funai em 1996-97 acabaram por obstaculizar o início do processo de regularização dos dois seringais como terra indígena. passou a ser contemplado o registro em cartório da alteração dos estatutos da ASKARJ. onde eles foram anteriormente registrados. logo antes. encaminhou ao Diretor da DAF. portanto. em nome do nosso povo. que coordenara os trabalhos de campo realizados pelo GT PP 1. Esta posição passou a constar de documentos resultantes de assembléias e reuniões promovidas pela ASKARJ. especialista em assuntos indígenas. previa a aplicação de parte dos recursos na contratação da consultoria de advogado. em novembro de 1999. a TI Kaxinawá do Seringal Independência. À época. quando. cabendo à nossa comunidade indígena o usufruto exclusivo de suas riquezas naturais e todas as utilidades neles existentes". que orientasse a Associação na realização destes trâmites. A exclusão destas da listagem do PPTAL foi à época justificada pela representante do Banco Mundial por não haver informação disponível para permitir a operacionalização de seus planos de regularização. para fundamentar a assinatura do convênio. dentre as quais. sugerindo que o processo Nº 22. após receber ofício assinado por Judith Lisansky. por parte da ASKARJ e das lideranças Kaxinawá. por fim. explicitando a impossibilidade da alienação futura destes seringais. que o projeto original da autodemarcação. abrissem novas alternativas para lograr o reconhecimento oficial e a regularização destes seringais como terra indígena. vistos como alternativa que pudesse fazer avançar o reconhecimento e regularização dos 16 Esta última situação mudou apenas em final de 1999. respeitando a legislação do país. Nesta carta. Por isto. Terri Valle de Aquino. nenhuma providência neste sentido acabou sendo tomada pela DAF. a Coordenação do PPTAL retirou dez terras indígenas. do Banco Mundial.204/93 e redigira o relatório de identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. um conjunto de discussões visando encontrar meios que. deverá constar que esses dois imóveis destinam-se à posse permanente da comunidade Kaxinawá de Jordão e não poderão ser objeto de arrendamento.

bem como dos contornos particulares que assumiu no caso dos seringais comprados pela ASKARJ. destinada a assegurar a posse permanente dos índios à referida terra e ao usufruto exclusivo dessas terras pela comunidade indígena beneficiada. em Brasília. Devido a cortes no montante dos recursos originalmente destinados ao projeto. segundo Rios. reflete sobre formas de aquisição de terras indígenas. 27). Se essa situação aparece no texto mais referenciada àquela vivida hoje por muitas populações indígenas nas regiões Nordeste. de preferência sem a intervenção do Estado. têm necessidade de ampliar seus territórios. será beneficiada com a doação ou qualquer outra forma de transferência de domínio" (ibid). parece bastante útil e atual neste momento. social e cultural. ou de pressões econômicas surgidas desde o reconhecimento oficial de suas terras. em função de crescimento demográfico acelerado. pg. De acordo com o Procurador. em junho de 2001. Aurélio Virgílio Veiga Rios. em diversas oportunidades. Segundo Rios. de forma pacífica. parece também adequar-se com precisão ao caso de várias populações na Amazônia. Segundo Rios. que podem vir a abrir novas alternativas jurídicas para a regularização de terras para os índios. é "garantir que as novas demandas ou pressões econômicas ou sociais possam ser resolvidas. em forma de propriedade reservada. para além dos procedimentos oficiais já vigentes. Novas alternativas para regularização de terras indígenas no Brasil? A recuperação desta questão de ordem jurídica. mas sim "garantir a destinação do imóvel adquirido à posse permanente da comunidade indígena que. com a boa vontade da Funai em disponibilizar a assessoria solicitada em mais de uma ocasião. o essencial nesta compra de terras pelos próprios índios. inclusive à ampliação protagonizada pelos Kaxinawá com a compra dos seringais Independência e Altamira. o essencial não é. ao final. Em auspicioso artigo publicado na Revista Brasil Indígena. 26). diminuindo-se o custo político e financeiro do procedimento de demarcação de terras indígenas" (ibid. sem engendrar conflitos com os demais grupos de atores da sociedade envolvente. Em seu artigo. Sudeste e Sul. para viabilizar sua reprodução física. esta atividade acabou não sendo realizada. dando-se prioridade às ações de campo e contando. formalizou que desejava transferir a propriedade dos seringais Independência e do Altamira para o povo Kaxinawá do 41 . Neste tipo de aquisição. Rios (2001) reflete sobre o caso de comunidades indígenas que. em função das modificações pelas quais passou sua inserção no Município de Jordão nos últimos dez anos e as formas de aproveitamento do território que controlavam anteriormente. o Procurador Regional da República. pg. mais uma vez. quem compra a terra. da Funai. ou a fonte dos recursos utilizados.seringais como terra indígena. Ora. uma das alternativas para viabilizar que essas comunidades tenham acesso a novas terras contíguas às já reconhecidas oficialmente. mesmo com terras já reconhecidas pela Funai. sem qualquer embaraço" (ibid. ou mesmo por algum particular interessado em contribuir com os projetos indígenas de futuro. é a compra de propriedades pelas próprias comunidades ou organizações indígenas. não previsto quando do início da regularização. de forma a garantir seu crescimento populacional e sua reprodução econômica. este parece ser o mesmo objetivo da ASKARJ quando. a aquisição direta deve ser seguida da "transferência de domínio sobre as terras em questão para a comunidade beneficiada ou para a União Federal. direito previsto a qualquer cidadão na Constituição Federal.

parte do patrimônio da União. Em outra direção. tendo em vista tratarem-se de terras ocupadas por uma população indígena. mesmo que estas não sejam parte do patrimônio da União? Estas são algumas questões que permanecem hoje. a Associação devia à Receita Federal. a União não poderia assumir o ônus da execução destas atividades. conforme alertou a segunda informação da própria Procuradoria Geral da Funai. ou seriam obrigados a desocupá-los. pois comprada e inserida no mercado de terras. foi se dando aos poucos. é importante apontar que modificações significativas aconteceram em nível local desde 1995. algo em torno de quatro mil reais. Descartada a necessidade. de forma pacífica. Segundo informações do Presidente da ASKARJ. ironicamente. mesmo quando isto implicaria em abrir mão do domínio legalmente constituído sobre esses imóveis. com recursos de outras fontes. comunidade que ela legitimamente representa. ou seja. comprados em seu nome e registrados em cartório. numa decisão extrema. propôs a regularização dos seringais como terra indígena. transformando-os em terra indígena.775/96. caso a União. da comunidade Kaxinawá. solicitar da Receita que não mais fosse cobrado o imposto. uma terra de ocupação tradicional indígena. por não se tratarem de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. com base nas demandas das lideranças Kaxinawá e da ASKARJ. é possível afirmar que estes dois seringais também constituem hoje. e. dentre outras coisas. estando hoje os seringais unicamente ocupados e utilizados pela comunidade indígena. poderia no futuro vir a colocar obstáculos de ordem legal para este mesmo domínio. quem passaria a ser o responsável legal desta propriedade perante a Receita? Este ato isentaria as famílias Kaxinawá que ali vivem de pagar anualmente o ITR? Caberia à Funai e ao Incra.Município de Jordão. para as quais a ASKARJ e as lideranças 42 . num segundo momento à União. da demarcação física e da indenização de benfeitorias de ocupantes não índios. fico a me perguntar? Teriam os Kaxinawá direito de permanecer nesses seringais. decorridos quase oito anos de sua compra. por isso. O que aconteceria então. como forma de obrigar a Funai a realizar sua demarcação e a indenização dos ocupantes não índios que ali viviam. sobre ela incide o pagamento de ITR. em caso afirmativo. decidisse incorporá-los a seu patrimônio e dar-lhes outra destinação? Com a mera transferência da propriedade dos seringais da ASKARJ para o povo Kaxinawá. apesar destes seringais serem já de domínio da ASKARJ e. por absoluta falta de recursos próprios para arcar com esta obrigação. portanto. A retirada dos ocupantes não índios que ali viviam antes da passagem do GT da Funai. sua não regularização como terra indígena. quando o Relatório de Identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. em início de 2002. Pelo fato de ser uma propriedade particular. conforme prevê a Constituição Federal e o Decreto 1. em 1994. podendo inclusive vir a ser reconhecida e regularizada pelo procedimento administrativo usual vigente no país. O progressivo acúmulo deste débito poderá futuramente acarretar que estas propriedades sejam. A (auto)demarcação dos limites desses seringais acabou sendo realizada pelo próprios Kaxinawá. Por outro lado. ao longo de sete anos. incorporadas ao patrimônio da União e que a ASKARJ venha a ser considerada como inadimplente e impossibilitada de acessar recursos oficiais e de programas tocados pelo governo federal. Outro ponto a ser atentado é que. Parte da argumentação da Procuradoria Geral da Funai deixava implícita que. não haveria praticamente nenhum custo atualmente para a União reconhecer e regularizar estes seringais como terra indígena.

e garantir seu usufruto exclusivo sobre os recursos naturais ali existentes. em Brasília e em Rio Branco. torna-se claro que processos de autodemarcação e de ativa participação em demarcações não constituem novidade para os Kaxinawá. em muitos momentos. os Kaxinawá. seguindo as terras do divisão que separam as águas deste rio das bacias dos rios Tarauacá e Tejo. Nesse movimento. para coroar este processo. Em 1980. marcar este fato publicamente. por falta de recursos próprios para contratar uma assessoria jurídica adequada. e dado o descompromisso demonstrado pela Funai. chefiados por Sueiro Cerqueira Sales e seu filho Getúlio Sales Tenê. Constâncias Serão tecidos agora alguns comentários sobre aspectos mais sociais e políticos do processo de autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. a mobilizações protagonizadas pelos Kaxinawá em outros momentos importantes da conquista e da regularização de suas outras duas terras. na qual foi declarada vencedora a empresa Serviços Técnicos de Agrimensura e Geodésia Ltda. com grande importância para a garantia dos atuais limites de seu território. a demarcação foi paralisada definitivamente pelas lideranças Kaxinawá que acompanhavam a equipe da empresa. Se. estradas de 43 . onde haviam identificado grande quantidade de seringas virgens e lugar que acabou se tornando moradia da família extensa de Getúlio de 1983 a 1991. em distintos contextos de sua história recente. enfrentaram ameaças dos patrões e de seringueiros brancos quando resolveram incluir um trecho de florestas situado nas cabeceiras do igarapé Jardim. seu reconhecimento como terra indígena. foram feitas seguidas tentativas de consegui-la. Foram tirados piques nos limites em ambas margens do rio Jordão. Na margem esquerda do rio Jordão. que incluía as colocações Dispensa. esta autodemarcação constituiu um processo inovador. junto à qual. demarcaram o seringal Fortaleza. os Kaxinawá. que os puseram em prática. que então coordenava um survey exploratório promovido pela Funai na região. após a primeira passagem do antropólogo Terri Valle de Aquino pelo rio Jordão. por outro. A demarcação do Fortaleza aconteceu com recursos dos próprios Kaxinawá. perante as autoridades e os demais grupos da sociedade de Jordão. por um lado. com variadas formas. que Sueiro recebera de sua madrinha e controlava fazia cerca de três décadas. Esta autodemarcação foi feita como resposta às pressões dos proprietários dos seringais vizinhos. pois a picada ameaçava deixar de fora várias colocações.parecem não ter. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um passo tomado pelos Kaxinawá no sentido de materializar os limites de uma terra que legalmente e de fato já lhes pertence. Papagaio e Duas Nações. na visão da ASKARJ e dos Kaxinawá do Município de Jordão. elencando algumas constâncias em relação a outros momentos de mobilização empreendidos pelos Kaxinawá para a conquista de suas terras nos últimos 25 anos. evitando a continuidade das invasões patrocinadas por caçadores e pescadores. que. respostas precisas. falta ainda. a Funai abriu licitação pública nacional para a demarcação física da TI Kaxinawá do Rio Jordão. ela deve ser referenciada. patrões e comerciantes da Vila Jordão e Tarauacá. após a passagem da Funai. liderados por Getúlio. Pouco após seu início. para o qual facilitaram e desoneraram o quanto puderam as obrigações que acreditavam caber ao governo federal neste processo. Mas. vislumbraram a chance real de uma ação do governo para reconhecer uma terra indígena no rio Jordão. (SETAG). Em 1975. mais uma vez.

serão destacadas novidades que caracterizaram a recente autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. os Kaxinawá organizaram turmas em cada um dos seis seringais e abriram piques em todos os limites da terra indígena. custeada com recursos da própria cooperativa. órgãos governamentais e ongs de apoio. Na autodemarcação. Somente após o término desta empreitada. Ali. ao apontar alternativas que podem resultar no barateamento do custo das demarcações e permitir redirecionar parte dos recursos para garantir maiores investimentos no fortalecimento institucional das organizações e das comunidades e em seus projetos coletivos de gestão e vigilância territorial. conforme os limites estabelecidos na nova portaria declaratória publicada quatro meses antes. que acabar de ser demarcada.seringa. cansados de exigirem a demarcação de sua terra. responsáveis pela abertura inicial dos piques ao longo do perímetro desses dois seringais. que conciliou o trabalho de dois velhos mateiros. comunicaram ao Ministério da Reforma Agrária e ao Presidente da Funai que iniciariam a demarcação de sua terra por conta própria. Do valor total da demarcação. Nesta ocasião. com exceção do trecho adjacente à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Tejo e Breu. 1991. assinada por Gerson da Silva Alves. 1994). durante o planejamento e a execução. Em 1985. dinheiro este que foi reinvestido no movimento comercial da cooperativa (Aquino. como reconhecimento por seu trabalho. 1992. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira incluiu uma série de ações inovadoras. que ganhara licitação pública nacional aberta pela Funai no âmbito do Plano de Proteção ao Meio Ambiente e às Comunidades Indígenas (PMACI). com a medição e sinalização das picadas. novo ator social nas 44 . e cumpriu as exigências técnicas inerentes à obra de engenharia. ao longo das terras da divisão com os rios Tarauacá. além de agentes agroflorestais de todas as aldeias das três terras do Município de Jordão. piques de caça e outros importantes recursos naturais. a fonte dos recursos financeiros e a intensa participação indígena em sua execução. com as atividades de 17 agentes agroflorestais indígenas. e para a cooperação internacional. 5% foram devolvidos pela Asserplan às lideranças Kaxinawá. chegou no rio Jordão. Do Senado ao seringal. No rio Jordão. foi novamente um dos pontos altos. Iglesias. foi que a Asserplan. as lideranças preferiram não ver sua terra demarcada de maneira que em implicaria em prejuízos permanentes à integridade de seu território. à época respondendo pela Presidência da Funai. ao mobilizar. Conseguiram autorização. e de volta à Funai em Brasília A título de conclusão. a intensa participação dos Kaxinawá. no Acre e no Brasil. roçados. fazendo uso de recursos levantados com a venda de parte da produção de borracha da cooperativa. para iniciar a demarcação. 1996. Getúlio e Siã foram à Brasília. que oferecem subsídios de valor para os movimentos indígenas. devido a erros na base cartográfica do Radam e nas coordenadas geográficas e no mapa do memorial descritivo elaborados pela Funai. levando-se em conta o arranjo institucional que a viabilizou. lideranças e chefes de família locais. Aquino & Iglesias.

que reconheceu a categoria de agente agroflorestal indígena. o dono do Iracema. a CPI-Acre e a UNI assinaram declaração de compromisso. no âmbito do Plano de Gestão Ambiental Integrada (PGAI). Turiano Farias. palmeiras e caça. aprovou o traçado do limite aberto entre os seringais Altamira e São João. Habitadas por 5. Outra forma de perenização dos túneis abertos foi o plantio de "marcos verdes". algumas das quais são consideradas pelos Kaxinawá como portadoras de fortes espíritos. ricas em frutos. foram confeccionadas 18 placas padrão Funai. da SCA/MMA e do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC). ainda. estas terras têm extensão agregada de 1. que a CPI-Acre dispõe em Rio Branco. bem como alternativa pouco adequada. com desenhos de kenê. atendendo antiga demanda dos próprios agentes. três das quais no seringal Independência. ainda. usada nas demarcações convencionais.526 ha. Yawanawá. Desde 1996. além de quatro oficinas itinerantes em terras indígenas. nos limites naturais e em ambas as margens do rio Tarauacá. em pouco o tempo. após chegar acompanhado com uma equipe de policiais militares armados. Em iniciativa conjunta com a AER-RBR. Ashaninka e Apurinã. Shawãdawa. Como resultado da combinação destes conhecimentos. e discutidas com os técnicos da CPI durante a formatação da proposta da ASKARJ e com as lideranças. além de outros três "ajudantes". realizado durante a demarcação. realizado em Rio Branco em abril de 2001. cuja formação têm sido realizada pelo Setor de Agricultura e Meio Ambiente da CPI-Acre nos últimos seis anos17. Nesta declaração. que. o livre trânsito por dentro da picada. foram realizados sete cursos de capacitação de agentes agroflorestais no Centro de Formação dos Povos da Floresta. Manchineri. prescindindo da derrubada das grandes árvores. caminhos bem roçados com três metros de largura. nas linhas da divisão. por sua vez. foram abertos "túneis verdes". Foi convocado. 2001). No II Encontro das Culturas Indígenas do Acre e Sul do Amazonas. têm sido direcionados para apoiar este projeto inovador de gestão ambiental em terras indígenas da Amazônia brasileira. ganharam inspiração naquelas realizadas no acompanhamento da demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. 2000d). por baixo da mata. padrões gráficos tradicionais usados pelos Kaxinawá em diferentes manifestações artesanais e nas pinturas corporais. que impedem. ao longo de um trabalho que durou dez dias e envolveu pouco mais de 50 pessoas. Nas três terras Kaxinawá do Município de Jordão. o governo estadual. o governo assumiu. compromisso de assegurar recursos orçamentários para garantir a continuidade da formação dos agentes e de encontrar mecanismos legais para viabilizar a remuneração dos seus serviços ambientais. 17 45 . 2000a). palmeiras e palheiras. Este tipo túnel foi preferido à picada de seis metros. A sinalização nas picadas foi feita com tinta em árvores grossas. percebida pelos Kaxinawá como fonte de destruição indesejada em áreas de floresta densa. distribuídas nos túneis. Recursos do Projeto Demonstrativo (PD/A). de propriedade da Prefeitura. Katukina. ambos ocorridos no ano anterior no âmbito do PPTAL. utilizando mudas de diversas espécies de frutas. Durante a demarcação. foram convidados o Prefeito Municipal. há quinze agentes. em nível local e face à população urbana e às autoridades do município. foi posto em prática diversificado leque de ações destinado a dar visibilidade e divulgação à demarcação e aos limites da terra. Para tal. face ao processo de rápido crescimento de matos com espinho.aldeias Kaxinawá. de outro lado. bem como no projeto de acompanhamento e consolidação da demarcação da TI Poyanawa (Iglesias.327. Outras atividades mobilizadas na autodemarcação. do movimento indígena e da CPI-Acre.400 índios Kaxinawá. sociais e de vigilância (Aquino & Iglesias. Há hoje 56 agentes agroflorestais em atuação em 15 terras indígenas do Acre e do Sul do Amazonas. e continuada durante oficina de capacitação para os agentes agroflorestais promovida pela CPIAcre no seringal Independência logo após o encerramento do trabalho. agentes agroflorestais e demais chefes de família Kaxinawá durante o planejamento dos trabalhos locais.

coordenado por Vincent Carelli. produzido pelos professores bilíngües. da mesma forma. bem como junto a órgãos governamentais. bem como junto às autoridades presentes à cerimônia de encerramento. de planejamento e avaliação. produzida em agosto de 2002 pela CPI-Acre a pedido do SubPrograma Projetos Demonstrativos (PDA-PPG7). além da ASKARJ. avalizou o traçado da picada aberta entre seu seringal e o Independência. Discriminação Racial. ongs. por sua vez. videomaker com larga experiência em documentários de seu povo e dos seringueiros do Alto Juruá. forró e ayahuasca. Nº 3). a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e o Setor de Educação da CPI. bem como por Adalberto Domingos. Esta origem de recursos orçamentários para a implementação de ações propostas e implementadas diretamente por organizações indígenas constituiu importante novidade no Estado do Acre. que têm servido como material para a elaboração de publicações para a divulgação deste processo entre os próprios Kaxinawá. Este teve lugar em Rio Branco em maio de 2001. registraram em seus diários a produção e o plantio de mudas ao longo das picadas. envolvendo órgãos dos governos federal e estadual. bem como o material didático "Índios no Acre. na África do Sul. Por outro lado. Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância. Concorrida reunião foi realizada na sede do Jordão. do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC) e da SCA/MMA. permitiu a alocação de recursos de emenda ao orçamento da União para esta atividade. a publicação "Implantação de tecnologias de manejo agroflorestal em terras indígenas do Acre" (Série Experiência PDA. e publicado pelo Ministério da Educação em final de 2002. coordenado pelo grupo de mulheres indígenas. o movimento indígena e um público mais amplo18. A execução do Projeto. este projeto também contemplou recursos para a organização de assembléia no seringal Boa Vista. que aprendeu a usar o vídeo nas oficinas do projeto Vídeo nas Aldeias. Uma emenda parlamentar apresentada pelo Doutor Júlio Eduardo (PV-Ac) em dezembro de 2000. professor Kaxinawá da TI Alto Rio Purus. no período de três meses em que exerceu a suplência da Senadora Marina Silva (PT-Ac). Maru. além de reuniões.Hilário Melo. realizadas junto a lideranças. Outro ponto que merece destaque foi a complexa articulação institucional que tornou possível a canalização de recursos para a autodemarcação. que louvou a iniciativa e. autor da emenda parlamentar que originou os recursos utilizados nos trabalhos. 46 . camisetas. Outro processo importante ao longo de toda a demarcação foi o registro das atividades realizadas. foram confeccionados materiais de divulgação da demarcação. constitui outra forma de registro. participaram dos trabalhos. tornou necessária a costura de amplas articulações institucionais. História e Organização". de mariri. como instância preparatória para a III Conferência Mundial contra o Racismo. com representantes de vários órgãos dos governos federal. bem como do I Encontro de Mulheres Lideranças Indígenas da Amazônia. ocupado desde 1997 por famílias Jaminawa que antes perambulavam e mendigavam em Rio Branco e outras cidades do Vale do Alto Acre. Um conjunto amplo de entrevistas. bonés e posters. no âmbito do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre"19. acontecida em setembro em Durban. A autodemarcação foi encerrada com uma cerimônia que contou com a presença de lideranças e agentes agroflorestais das três terras. 19 Fruto do diálogo estabelecido por Júlio Eduardo com o movimento indígena e com as ongs indigenistas logo após assumir no Senado. dentre os quais. mateiros e agentes agroflorestais que. estadual e municipal. contando. Filmagens em vídeo foram feitas por Siã Kaxinawá. talvez no Brasil. nos cursos da CPI-Acre. e organizações indígenas e indigenistas. aconteceram várias festas. Os recursos da 18 Por exemplo. os agentes agroflorestais. ligado à UNI. e de representantes da AERRBR. como é praxe em suas atividades. de diferentes formas. Para distribuição entre os Kaxinawá. Nos seringais Independência e Altamira. além do Senador Júlio Eduardo.

confeccionando as placas indicativas e recrutando o técnico em agrimensura da Funai de Manaus. Após a realização dos cálculos. foi necessário que. bem como os processos inovadores postos em prática pelos Kaxinawá para a materialização dos limites demarcados. o trabalho dos agentes agroflorestais. necessários à confecção dos mapas e memoriais descritivos definitivos. 7 pontos geodésicos. suscitaram impasse para que o Departamento considerasse válida a autodemarcação. Para a autodemarcação. processamentos e a elaboração do memorial descritivo e do mapa. até a quebra de seu equipamento de GPS. depois aceitas. através de rastreamento de satélites. a GETEC realizou. A não conclusão dos trabalhos de campo pelo técnico da Funai. retornou-as à empresa com recomendações para ajustes finais. para que este disponibilizasse novos recursos para a finalização dos trabalhos topográficos. em março de 2002. com a realização de uma oficina itinerante no seringal Independência e a compra das mudas plantadas nos limites. Comunicado. liberando o indigenista Antônio Luiz Batista de Macêdo para acompanhar o deslancho do trabalho. Seguindo as determinações previstas no "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". Através de uma parceria da Secretaria Executiva de Hidrovias e Aerovias com a Secretaria de Ciência. após analisá-las. assinou convênio com Conselho Nacional dos Seringueiros e o IMAC. GETEC Topografia Ltda. Ainda em março. pela AER-RBR. bem como fornecido e implantado 10 marcos geodésicos. para realizar esta atividade. exigiu a apresentação dos resultados dos trabalhos de agrimensura. o atual Chefe da 47 . sua reticência em apresentar os dados parcialmente produzidos com vistas à elaboração dos mapas e do memorial descritivo. Lourenço Araújo Costa. as peças técnicas foram entregues à SECTMA em dezembro. conforme atestam documentos do DEM. a CPI-Acre. que deveriam atender às normas constantes do "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". O governo estadual entrou também com pequena contrapartida. desta vez junto ao IMAC. que integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre. com novo acompanhamento das lideranças locais. via a SCA. financiado pelo BNDES. com recursos oriundos do convênio. o IMAC decidiu pela contratação de uma empresa de agrimensura. durante viagem ao Estado do Acre no mês de agosto de 2003.emenda foram repassados para o MMA. que. apoiou. as peças foram repassadas ao DEM/DAF. 7 marcos azimutes. Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA). A AER-RBR deu apoio institucional aos trabalhos. da Funai. tendo determinado.. necessários à produção do mapa e do memorial descritivo que seriam entregues à Funai em Brasília para tentar reiniciar o processo de reconhecimento desses seringais como terra indígena. medido 33 km de linhas secas. que. os trabalhos de campo durante o mês de setembro de 2002. órgão responsável pela prestação de contas dos recursos recebidos através do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre". do término da autodemarcação. que. 35 marcos de apoio e 7 placas indicativas padrão Funai. 7 marcos testemunha. o DEM/DAF. que fora fundamental na formatação da parte que no Projeto cabia aos Kaxinawá. órgão de governo responsável no estado pela concatenação das ações previstas junto às populações indígenas. os recursos para custear essa contratação foram canalizados do Projeto de Desenvolvimento das Populações Indígenas. novas gestões foram então iniciadas pela ASKARJ e pela AER-RBR. sediada em Rio Branco. Após quase um semestre de demora. realizou a medição das picadas e a determinação dos pontos geodésicos nas clareiras e limites. Através da AER-RBR. Face à impossibilidade de formalizar as peças técnicas com os dados já disponíveis.

foram então entregues ao DEM. etapa necessária ao envio de uma equipe para fiscalizar in loco os trabalhos realizados por essa empresa nos seringais Independência e Altamira. Manoel Francisco Colombo. o Governo estadual e o PPTAL possam encontrar em breve alternativas adequadas e também inovadoras para assegurar a plena regularização destes dois últimos seringais como terra indígena. Por outro lado. esses seringais virão ser reconhecidos como "terra de domínio indígena" ou como "área reservada". Devido ao alegado acúmulo de atribuições com as demarcações em curso no âmbito do PPTAL. órgãos governamentais. a Funai. os Kaxinawá apresentaram e implementaram soluções inovadoras e de sucesso para a regularização de suas terras.0001/73. uma vez aprovados os trabalhos. categoria prevista no Capítulo III da Lei 6. das lideranças e da ASKARJ assumiu diferenciadas formas. desde as primeiras mobilizações para o reconhecimento oficial e a regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão. Nos últimos 25 anos. este envolvimento das famílias. Setembro de 2003 48 . o Chefe do DEM. porque não dizer. a formação de professores bilíngües e agentes de saúde. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um importante passo da mobilização do povo Kaxinawá do Município de Jordão para a consolidação e garantia de seu atual território. ainda não conseguiu liberar um técnico para analisar a adequação dos ajustes feitos pela GETEC nas peças técnicas. em nível local e através de diálogos e negociações com famílias de seringueiros. Terri Valle de Aquino. no presente e no novo milênio que acaba de começar. com a ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. hoje regularizados como a TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. está hoje em discussão na DAF se. e. que serviram de modelo para outros povos indígenas no Acre e no sul do Amazonas. Rio de Janeiro. a fundação da ASKARJ e. que levou em mãos. no atual contexto. Alguns destes processos ganharam forma com a criação da cooperativa.Coordenação Geral de Identificação e Delimitação (CGID/DAF). Em muitos destes momentos. e a compra dos seringais Independência e do Altamira. desde início dos anos 1990. o movimento indígena. É de esperar. Os documentos. ongs de apoio e a cooperação internacional. que a ASKARJ. os poderes locais. no Brasil. fosse pessoalmente à sede da empresa para ali ficar sabendo que as peças haviam sido entregues fazia tempo à SECTMA. de forma que os Kaxinawá tenham condições concretas para garantir seu atual território e melhores condições de vida.

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