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Dissertação Ministério Público - versão final

Dissertação Ministério Público - versão final

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De acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 127, o Ministério
Público é uma “instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais
e individuais indisponíveis”
.40

Em termos gerais, sua missão institucional é a fiscalização
da efetividade das leis e a promoção das medidas necessárias para garantir o cumprimento
da Constituição, cobrando, para tanto, providências dos poderes públicos. Embora tais
atividades estatais digam respeito a quaisquer dos três Poderes do Estado (Executivo,
Legislativo e Judiciário), somente no caso do Ministério Público correspondem a funções
típicas, especializadas e definidoras da instituição. É por conta dessa missão institucional,
de auxiliar na busca por efetivação do interesse público, que os operadores do direito
comumente se referem ao Ministério Público como um “defensor da sociedade”.
De mais a mais, o artigo 129 da Constituição de 1988 estabeleceu como funções
competentes ao Ministério Público:

“I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei;
II - zelar pelo efetivo respeito dos poderes públicos e dos serviços de relevância pública
aos direitos assegurados na Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua
garantia;
III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio
Público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos;

39

Para além das ressalvas apontadas acima, no capítulo 2 encontra-se uma crítica ao conceito de
“voluntarismo político” formulado por Arantes.

40

A qualificação “instituição permanente” diz respeito à consideração de que indivíduos e coletividades
tendem a depender do Ministério Público para a efetivação de direitos tidos como irrenunciáveis.

36

IV - promover a ação de inconstitucionalidade ou representação para fins de intervenção
da União e dos Estados, nos casos previstos na Constituição;
V - defender judicialmente os direitos e interesses das populações indígenas;
VI - expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua competência,
requisitando informações e documentos para instruí-los, na forma da lei complementar
respectiva;
VII - exercer o controle externo da atividade policial, na forma da lei complementar
mencionada no artigo anterior;
VIII - requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial, indicando
os fundamentos jurídicos de suas manifestações processuais;
IX - exercer outras funções que lhe forem conferidas, desde que compatíveis com sua
finalidade, sendo-lhe vedada a representação judicial e a consultoria jurídica de entidades
públicas.”

Em virtude do federalismo brasileiro, sua configuração institucional abrange o
Ministério Público da União (que compreende o Ministério Público Federal, o do Trabalho,
o Militar e o do Distrito Federal e Territórios) e o dos Estados.41

Na estrutura do Ministério
Público da União (MPU) atuam, no 1º Grau de Julgamento (1ª Instância), os procuradores
da República, cujas funções são desempenhadas perante os juízes federais (Justiça Federal);
e, no 2º Grau ou Grau de Recurso (2ª Instância), caso a matéria a ser julgada seja federal, os
procuradores regionais da República, sendo o processo encaminhado ao Tribunal Regional
Federal (TRF). Já no Ministério Público Estadual (MPE) atuam, em 1ª Instância, os
promotores de justiça, perante os juízes de Direito. Já em 2ª Instância, são os procuradores
de justiça que, caso a matéria a ser julgada seja estadual, exercem função junto aos
Tribunais de Justiça Estaduais (TJEs) e nas Câmaras Cíveis e Criminais, onde estão os
Desembargadores.

Para o cumprimento de suas atribuições, o Ministério Público goza de relativa
autonomia funcional, estrutural e diretiva. Percebe-se o caráter excepcional de seu
posicionamento funcional na estrutura do Estado brasileiro já em sua localização no interior
da Constituição Federal, onde aparece no capítulo “Das Funções Essenciais à Justiça” não

41

Ver na Constituição Federal os Arts. 109 (sobre a competência dos juízes federais), 125 (sobre a
competência dos juízes dos estados) e 128, incisos I e II (sobre a configuração institucional do Ministério
Público).

37

subordinado ou vinculado a quaisquer dos três Poderes. Essa característica é essencial para
a “defesa da sociedade”, considerando-se que tal tarefa pode significar – e o que de fato
ocorre em muitas circunstâncias – se opor a ações dos Poderes Executivo, Legislativo ou
Judiciário.

A autonomia funcional manifesta-se também no fato de que os membros do
Ministério Público gozam de garantias constitucionais de vitaliciedade, inamovibilidade e
irredutibilidade de vencimentos. A vitaliciedade garante aos mesmos que a perda do cargo
somente pode ocorrer após sentença judicial transitada em julgado. Já em virtude da
inamovibilidade, os promotores e procuradores não podem ser removidos de seu cargo ou
função, salvo em caso de comprovado interesse público, sendo-lhes assegurada ampla
defesa. Por fim, a irredutibilidade de vencimentos impossibilita reduções salariais, exceto
por meio de alterações constitucionais.42
Assim sendo, frente às referidas garantias constitucionais (complementadas pelas
leis orgânicas do Ministério Público), é possível afirmar que, a rigor, inexistem relações de
subordinação entre os membros do Parquet, resumindo-se os vínculos hierárquicos a
questões meramente administrativas.43

Nesse caso, a atuação dos promotores e
procuradores é autônoma mesmo perante os órgãos da própria instituição, estando
efetivamente limitada apenas pelo cumprimento da Constituição e do conjunto das leis
(Mazzilli, 1996).

Em contrapartida à autonomia funcional, os membros do Ministério Público têm
determinadas vedações, tais como: recebimento de honorários, percentagens ou custas
processuais; exercício da advocacia; participação em sociedade comercial; e restrições para
o exercício de outras funções públicas (salvo uma de magistério) ou de atividades político-
partidárias.44

É interessante perceber que a autonomia funcional estabelecida na Constituição
Federal – tanto em seu aspecto institucional, marcando a autonomia em relação aos demais
Poderes de Estado, quanto em relação ao exercício interno das atribuições ministeriais, que

42

Ver Art. 128, § 5º, inciso I da Constituição Federal.

43

Isso não quer dizer que as instâncias superiores do Ministério Público não possuam formas de disciplinar e
de orientar as práticas desenvolvidas pelos profissionais da instituição, como, por exemplo, através da
emissão de resoluções.

44

Ver Art. 128, § 5º, inciso II da Constituição Federal. Como dissemos, as vedações foram facultativas para
os membros do Ministério Público que ingressaram na instituição num período anterior à Constituição de
1988.

38

marca a independência dos promotores e procuradores em relação à hierarquia superior do
Ministério Público – relaciona-se com o que se convencionou chamar “Princípio do
Promotor Natural”. O “Princípio do Promotor Natural” constitui-se de regras que estipulam
qual promotor (ou procurador, no caso do Ministério Público Federal) atuará em qual
hipótese. Tais regras, pré-estabelecidas em lei, compreendem não apenas as atribuições do
Ministério Público como também a forma como os procedimentos institucionalizados no
Parquet devem ser distribuídos para um órgão interno específico e, dentro deste, para
algum promotor / procurador. Busca-se, com isso, garantir uma atuação institucional livre
de interferências políticas, isto é, que nenhuma autoridade poderá escolher um promotor ou
procurador específico para conduzir um processo ou procedimento investigatório a cargo
do Ministério Público (Carneiro, 1989).45
Com vistas a conciliar o “Princípio do Promotor Natural” com os princípios da
unidade e indivisibilidade do Ministério Público (art. 127, § 1º) ou, em outras palavras, para
mitigar o problema do isolamento e individualismo na atuação dos promotores e
procuradores, procurou-se amalgamar as atividades dos mesmos através da construção de
órgãos específicos. A origem desses órgãos remonta ao discurso reformista da década de
1970, o qual vinculava as aspirações por novas atribuições à necessidade de independência
institucional do Ministério Público e de um modelo organizacional de coordenação e
planejamento, cuja meta seria favorecer a produção de resultados na defesa dos interesses
sociais (Maciel, 2002: 107 et seq.). No Ministério Público Federal, as Câmaras de
Coordenação e Revisão46

procuram desempenhar esse papel, assessorando as

45

Dessa forma, o “promotor natural” contribuiu para extinguir do sistema jurídico brasileiro a figura do
“promotor de exceção”. O artigo 5º da Constituição, em seus incisos XXXVII e LIII, estabelece,
respectivamente, que “não haverá juízo ou tribunal de exceção” e “ninguém será processado nem
sentenciado senão pela autoridade competente”
.

46

O Art. 2º da Resolução nº 40 do Conselho Superior do Ministério Público Federal estabelece que “as
Câmaras de Coordenação e Revisão são organizadas por matéria e distribuídas pelos seguintes setores:
Ordem Jurídica
1ª Câmara - matéria constitucional e infraconstitucional;
2ª Câmara - matéria criminal e controle externo da atividade policial;
Bens e Pessoas
3ª Câmara - consumidor e ordem econômica;
4ª Câmara - meio ambiente e patrimônio cultural;
5ª Câmara - patrimônio público e social;
6ª Câmara - comunidades indígenas e minorias.”

39

Subprocuradorias-Gerais da República, as Procuradorias Regionais da República47

e as

Procuradorias da República presentes em todos Estados.48

Dentre elas, a 4a

Câmara de
Coordenação e Revisão possui o papel de coordenar, integrar e revisar as ações
institucionais em defesa do meio ambiente e do patrimônio cultural e, para tanto, dispõe de
uma equipe constituída de analistas periciais, especializados em diversas áreas
(Antropologia, Arqueologia, Arquitetura, Biblioteconomia, Biologia, Direito, Engenharia
Florestal, Engenharia Sanitária e Geologia), que atuam na realização de perícias, de exames
necessários às atividades institucionais e na avaliação dos procedimentos dos procuradores
da República.49

Já a autonomia estrutural do Ministério Público diz respeito às possibilidades de
iniciativa legislativa em matérias orçamentárias e administrativas. A iniciativa legislativa
orçamental consiste na capacidade da instituição em elaborar suas propostas relativas a
orçamento, devendo apenas se manter dentro dos limites estabelecidos na lei de diretrizes
orçamentárias. A iniciativa legislativa administrativa, por outro lado, refere-se às
possibilidades autônomas de organização. Para tanto, a Constituição de 1988 dotou os
procuradores-gerais, da União e dos Estados – cargos superiores da instituição – da
faculdade de propor ao Poder Legislativo projetos que estabeleçam a organização, os
cargos e serviços auxiliares, as atribuições, as políticas remuneratórias, os planos de
carreira e o estatuto dos Ministérios Públicos.50

Sendo assim, para além de deter um quadro
administrativo próprio, o atual Ministério Público brasileiro detém a prerrogativa de
produzi-lo e modificá-lo.

47

Assim como as Câmaras de Coordenação e Revisão, órgãos como as Sub-Procuradorias-Gerais (em
Brasília) e as Procuradorias Regionais da República (que possuem sede em Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio
de Janeiro e São Paulo) também têm a função de favorecer ação coordenada entre as Procuradorias da
República e entre os procuradores da República.

48

Da mesma forma, o Ministério Público Estadual possui órgãos com a função de promover auxílio técnico e
ações coordenadas entre os promotores de justiça. Exemplo disso são os Centros de Apoio Operacional
(CAOP), que se dividem por cada uma das especialidades de atuação dos promotores; os Centros Regionais
de Apoio Administrativo e Institucional; e o Grupo de Apoio Técnico Especializado (GATE), que possui um
quadro técnico capaz de realizar análises periciais.

49

A 4ª Câmara é responsável por atividades como homologar Termos de Ajustamento de Conduta, avaliar
pedidos de arquivamento dos Inquéritos Civis, realizar análises periciais, avaliar análises periciais feitas por
outros órgãos, avaliar Estudos de Impacto Ambiental etc. Além disso, seus representantes promovem Grupos
de Trabalhos (com temas como transgênicos, licenciamento de grandes empreendimentos, fauna, flora, águas,
ordenamento urbano), seminários e uma revista eletrônica.

50

Ver Art. 127, § 2° e § 3º; Art. 128, § 5º da Constituição Federal.

40

Por último, mas não menos importante, o aspecto diretivo da autonomia do
Ministério Público reside na forma como é escolhida a direção da instituição. No caso do
Ministério Público da União, o procurador-geral da República é nomeado pelo Presidente
da República após aprovação de um dos integrantes da carreira pela maioria absoluta dos
membros do Senado Federal. Assim, a chefia é escolhida a partir de mecanismos que
envolvem os Poderes Executivo e Legislativo, além de refletir a lógica do plano de carreira
dentro do próprio Parquet. Já no Ministério Público dos Estados e do Distrito Federal, o
procurador-geral de justiça é nomeado pelo Governador a partir de uma lista tríplice
formulada pelos membros da instituição. Nesse caso, a participação da instituição na
escolha de sua cúpula dirigente é “passiva” no que diz respeito ao plano federal, uma vez
que são os Poderes Executivo e Legislativo que decidem quem deve ocupar o cargo,
devendo apenas respeitar a necessidade de eleger um dos membros da instituição; e “ativa”
no plano estadual, uma vez que a corporação compartilha da escolha com o Governador
através da formulação de uma lista tríplice. De qualquer forma, as possibilidades de
subserviência a algum dos Poderes de Estado são em alguma medida limitadas pelo fato de
não caber a apenas um deles isoladamente a escolha de quem deve ocupar os cargos de
chefia dentro do Ministério Público.51
Em suma, a junção da autonomia estrutural, com a diretiva e, principalmente, com a
funcional tem por resultado uma situação inédita de independência em relação aos Poderes
do Estado se comparada com os formatos apresentados pela instituição em outros países ou
na história constitucional brasileira (Lopes, 2000). Ademais, constitui ponto fundamental
para pensarmos a especificidade da atuação do atual Ministério Público brasileiro.
Ainda hoje há divergências entre os teóricos do direito acerca do posicionamento do
Ministério Público na estrutura do Estado após assumir esse “novo” perfil. A tendência de
configurá-lo como “Quarto Poder” tem sido abandonada em favor de concepções que o
definem como instituição estatal independente e autônoma, com carreira, administração e
orçamento próprios.52

Por outro lado, promotores e procuradores vêm ressaltando a

51

A destituição dos cargos de chefia depende, no plano federal, de iniciativa do Presidente da República,
devendo ser precedida de autorização do Senado Federal, e, no estadual, da constituição de maioria absoluta
no Poder Legislativo correspondente. Ver Art. 128, § 1°, § 2º, § 3º e § 4º da Constituição Federal.

52

As proposições – de dentro e fora da corporação – no sentido de tornar o Ministério Público um Quarto
Poder de Estado jamais foram majoritárias, embora, ao longo do século XX, tenham estado presentes junto a
argumentos, de cunho liberal, em defesa da independência funcional do Parquet brasileiro. A opção

41

identidade ambígua do Ministério Público e o fato de que a instituição é uma organização
mais próxima à sociedade civil do que do Estado propriamente dito, na medida em que está
livre de compromissos governamentais e que possui o papel de fiscalizador dos Poderes
estatais e de defensor de interesses coletivos, constituindo assim um elo entre “a voz da
sociedade” e o Poder Judiciário. Nas palavras de um procurador da República entrevistado
no decorrer da pesquisa: “Eu acho que o MP tem uma crise de identidade. O MP não sabe
ainda se ele é Estado ou se ele é militante”
.
Enquanto “defensor da sociedade”, a legitimidade de atuação do Ministério Público
resume-se ao resguardo de direitos e interesses de grupos e/ou coletividades, sejam eles
determináveis ou não. O que significa que a viabilidade de sua atuação nos litígios depende
do envolvimento dos direitos e interesses metaindividuais, sendo-lhe vedada, a rigor, a
possibilidade de representação em defesa de causas individuais. Ante a ausência de
legitimidade para a atuação do Ministério Público, resta ao cidadão litigar ação judicial por
conta própria. Todavia, como dissemos acima, após a aprovação do Código de Defesa do
Consumidor (Lei nº 8.078), em 1990, as atribuições da instituição estenderam-se para a
defesa dos direitos individuais homogêneos nas situações – e somente nelas – em que se
caracterize “relevância social”53

e mereçam a proteção pública, como nos casos daqueles
que são classificados juridicamente como “incapazes” (crianças, adolescentes, deficientes,
populações indígenas e quilombolas etc.).
As atividades do Ministério Público podem ser judiciais e extrajudiciais,
desenvolvendo-se nas áreas da tutela coletiva, criminal e custos legis (fiscal da lei). À área
da tutela coletiva cabe a proteção do meio ambiente e patrimônio cultural; do patrimônio
público e social; da ordem econômica e consumidores; das crianças, adolescentes, idosos e
portadores de deficiência; das comunidades indígenas e de outros interesses difusos e
coletivos.54

A atuação na área criminal é responsável, dentre outras coisas, pela promoção

dominante se deu no sentido de configurar o Ministério Público apenas como um órgão de Estado
independente dos demais Poderes, considerando-se que um Quarto Poder implicaria em exercício direto da
fiscalização (independentemente de provocações externas) e promoção imediata de medidas de adequação à
lei (ao invés de realizá-las por intermédio dos Poderes competes). Ver Lopes, 2000: cap. 3.

53

São considerados de “relevância social” tanto os interesses que assumem caráter difuso ou coletivo, quanto
os interesses individuais cuja indisponibilidade tende a pôr em risco toda a sociedade, como aqueles relativos
à integridade corporal e à preservação da vida.

54

Para tanto, na Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro (do Ministério Público Federal), a
área da tutela coletiva está dividida em diferentes ofícios, de acordo com a natureza dos direitos e interesses

42

da Ação Penal Pública e pelo exercício do controle externo da atividade policial. Já as
atividades na área de custos legis referem-se à intervenção obrigatória do Ministério
Público como “fiscal da lei” em ações judiciais. Nesse sentido, o Ministério Público deve
ser ouvido nos processos mesmo que não esteja envolvido nos mesmos.
Daqui em diante destinaremos algumas linhas para tratar de especificidades a
respeito do Ministério Público Federal e de sua atuação na tutela do meio ambiente.
O Ministério Público Federal tem unidades sediadas nas capitais de todos os estados
do país e, em alguns destes, há ainda unidades em outros municípios. Seguindo essa lógica,
a Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro está sediada na cidade do Rio de
Janeiro, mas há ainda as Procuradorias da República nos municípios de Angra dos Reis,
Campos dos Goytacazes, Itaperuna, Niterói, Nova Friburgo, Petrópolis, Resende, São João
do Meriti, São Pedro d’Aldeia e Volta Redonda.
Em termos gerais, a atuação do Ministério Público Federal difere da atuação do
Ministério Público Estadual pelo fato de o primeiro concentrar-se na defesa dos
patrimônios, serviços e interesses da União e dos interesses metaindividuais e individuais
indisponíveis em face da atuação da mesma, enquanto que o último tem competências
correlatas na esfera estadual e municipal.
Diante de uma notícia de descumprimento da legislação ambiental, cabe ao
Ministério Público conduzir um processo investigativo, fiscalizar a atuação dos órgãos
públicos e propor aos infratores medidas de adequação à lei. O exercício de suas funções
pode ter origem ou em uma provocação, através do encaminhamento de uma
“representação” por parte de agentes externos, ou em iniciativa própria dos procuradores da
República, a qual denomina-se “agir de ofício”. A “representação” constitui uma espécie de
denunciação, um pedido formalmente direcionado ao Ministério Público com o intuito de
que se realize uma investigação e, possivelmente, que seja promovida a responsabilização
criminal. Os operadores do direito a diferenciam da “denúncia”, que consiste uma peça de
acusação formal encaminhada ao Poder Judiciário, inaugurando uma ação judicial.55

As

metaindividuais lesados: Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, Patrimônio Público e Social, Ordem
Econômica, Saúde, Minorias, Consumidor e Previdência Social.

55

Para evitar confusão entre a idéia de “representação”, enquanto uma espécie de denunciação, e a idéia de
“representação social”, enquanto conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, expressão amplamente
utilizada no campo da filosofia e das ciências humanas, optar-se-á, daqui em diante, pelo emprego do termo
“denunciação”, em distinção à “denúncia”, que ocorre na relação com o Poder Judiciário.

43

representações encaminhadas ao Ministério Público podem ser realizadas via Internet, por
telefone ou pessoalmente, através de ofício, sendo facultado ao reclamante o direito de se
manter em anonimato.

Após a institucionalização da denunciação, há uma espécie de triagem para definir
para qual órgão dentro do Parquet Federal ela deve ser encaminhada, de acordo com a
natureza do direito ou interesse lesado. Se por ventura a denunciação for encaminhada para
o ofício do meio ambiente, é realizado um sorteio que definirá quem, dentre os
procuradores que atuam na área, será o titular do procedimento. Essas regras são implícitas
ao “Princípio do Promotor Natural” e têm por finalidade evitar qualquer tipo de
manipulação ilegítima na condução dos casos.
Após uma denunciação (ou mesmo após uma iniciativa “de ofício” dos procuradores
da República) tem início o processo investigativo com a instauração de um Inquérito Civil
Público ou de um Procedimento Administrativo.56

Com o processo investigativo procura-se
recolher e sistematizar informações, realizar exames periciais e obter documentos que
caracterizem uma base probatória (o objeto da denúncia, os possíveis danos causados e os
responsáveis pelos mesmos) acerca de um descumprimento (ou probabilidade de
descumprimento) da legislação ambiental, a fim de mediar soluções para os conflitos, por
vias judiciais ou extrajudiciais. Para adquirir informações e elementos capazes de formar o
seu convencimento e uma base probatória, os procuradores promovem inspeções, colhem
depoimentos e oficiam57

a todos que possam ter algum tipo de envolvimento no caso ou
elucidar algo: autoridades de órgãos e entidades públicas e privadas, pesquisadores ou
peritos de universidades, indivíduos comuns etc.
Os investigados como causadores do dano ou da ameaça de dano podem assumir
diversos perfis: pessoa física ou jurídica, pública ou privada, ou ainda órgãos do poder
público, seja por decorrência das suas ações, seja por omissão. Cabe esclarecer que a
promoção das atribuições de investigação por parte do Ministério Público não depende do

56

O Inquérito Civil Público constitui um procedimento de natureza investigativa de titularidade do Ministério
Público, podendo ser sigiloso (caso o Parquet justifique por que o acesso do investigado ao mesmo poderia
causar prejuízos às investigações), ocasião em que é facultada a consulta pública aos autos. O Inquérito Civil
distingue-se do Inquérito Policial e por vezes os dois desenvolvem-se concomitantemente.

57

As requisições por ofício dos procuradores atuantes na área ambiental podem envolver: a realização de
vistorias, de laudos técnicos e de análises laboratoriais; esclarecimentos gerais sobre o assunto do
procedimento; a documentação pertinente ao licenciamento de empreendimentos; cópias de Relatórios de
Impacto Ambiental ou de mapas de Unidades de Conservação etc.

44

princípio de oportunidade. Isto é, o exercício dessa função não pode depender de
considerações de conveniência e oportunidade. O ofício da investigação é de natureza
obrigatória diante de toda representação encaminhada à instituição. São, portanto, vedadas
quaisquer escolhas ou interferências de cunho político, sejam elas internas ou externas ao
Ministério Público.

Em suma, uma vez estando o conflito social institucionalizado, após a instauração
de um Inquérito Civil ou de um Procedimento Administrativo, as principais iniciativas dos
promotores e dos procuradores são:
1) Mediar soluções para os conflitos através do uso de meios extrajudiciais. Dentre
os meios extrajudiciais destacam-se o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), acordo
onde se especifica que os responsáveis pelo delito devem cumprir uma série de medidas de
adequação à lei definidas em um cronograma58

; e a Recomendação Legal, espécie de
advertência ou conselho enviado em ofício ao responsável por um delito (seja ele real ou
possível no futuro) para que cumpra a lei.
2) Mediar soluções para os conflitos através de ações judiciais como a Ação Penal
Pública e a Ação Civil Pública, instrumentos que visam punir responsáveis, exigir soluções
que afastem o perigo de dano a direitos garantidos ou mitigar problemas a partir de
obrigações judiciais de “fazer” ou “não fazer” e da condenação em dinheiro.59

Tendo em
vista a demora na produção de sentenças judiciais, muitas vezes é solicitado ao juiz que
conceda uma Medida Liminar, cujo pedido tem por fim afastar imediatamente o perigo de
dano – ou cessá-lo, quando já iniciado – enquanto não se define a sentença da ação
judicial.60

3) Arquivar o Inquérito Civil Público ou o Procedimento Administrativo, graças à
irrelevância da matéria, à ausência de provas, à conclusão de que não houve dano (ou

58

O TAC configura-se como um título executivo extrajudicial, o que significa que caso as metas do
compromisso não sejam cumpridas, o acordo está sujeito a rescisão e o compromissário ao pagamento de
multa previamente estipulada no termo de compromisso.

59

Essas não são as únicas opções de ação coletiva aptas a serem aplicadas em casos de lesão ao meio
ambiente. A Ação Popular, o Mandado de Segurança Coletivo e o Mandado de Injunção constituem outros
exemplos, embora o Ministério Público não seja legitimado a fazer uso dos mesmos.

60

O Ministério Público não é o único legitimado a fazer uso da Ação Civil Pública e do Termo de
Ajustamento de Conduta. A Ação Civil Pública pode ser igualmente empregada pelas Unidades Federativas
(União, estados, Distrito Federal ou municípios), autarquias, empresas públicas, sociedades de economia
mista, fundações e associações civis com existência superior a um ano e cuja finalidade inclua a defesa de
bens coletivos. Em que pesem os Termos de Ajustamento de Conduta, também são legitimados a firmá-los os
mesmos órgãos públicos estatais aptos a fazerem uso da Ação Civil Pública.

45

ameaça de dano) a direitos metaindividuais ou ainda por conta do cumprimento de uma
sentença judicial ou dos compromissos firmados em um Termo de Ajustamento de
Conduta. Para que se efetive o arquivamento é preciso que antes os autos sejam remetidos
ao Conselho Superior do Ministério Público, podendo ser julgado procedente e
homologando o arquivamento, ou improcedente, caso em que as investigações reiniciam.
Até aqui procuramos apresentar um painel acerca das mudanças por que passou o
Ministério Público, de seu atual modelo institucional e dos procedimentos básicos que
configuram sua forma de atuar. No próximo capítulo veremos como as ciências sociais vêm
oferecendo diferentes enfoques a respeito de sua atuação.

46

CAPÍTULO 2

A ATUAÇÃO INSTITUCIONAL SOB A ÓTICA DAS
CIÊNCIAS SOCIAIS

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