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Fonte: STRATHERN, P. Kant em 90 minutos.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

Pergunta: De que trata a Crítica da razão pura?


Resposta: De metafísica.

P: O que é exatamente metafísica?


R: Essa palavra começou como um erro e acabou por ser considerada um erro. Nesse meio
tempo, foi o principal tópico da filosofia.

P: Isso ainda não responde a pergunta. O que significa metafísica exatamente?


R: Nada, segundo a maioria dos filósofos modernos.

P: Bem, o que significava de início?


R: Essa palavra foi primeiro usada para fazer referência a certas obras filosóficas de
Aristóteles, as que se situavam depois de sua grande obra na área da física, em suas obras
reunidas, e que se tornaram conhecidas como "além da física" - que em grego se dizia "meta-
física".

P: Mas isso ainda não me diz o que ela é.


R: Nessas obras "além da física", Aristóteles dedicou-se à "ciência das coisas transcendendo o
que é físico ou natural".

P: E o que quer dizer isso?


R: É a ciência que trata dos primeiros princípios teóricos além e acima do mundo físico. Esses
são os princípios que governam nosso conhecimento daquele mesmo mundo físico. Em outras
palavras, a metafísica diz respeito a tudo que transcende o mundo físico que experimentamos.

P: Mas como sabemos que existe alguma coisa além do mundo físico que experimentamos?
R: Não sabemos! Razão pela qual a maioria dos filósofos modernos rejeita a metafísica como
um erro.

P: Mas Kant não o fez?


R: Kant estava decidido a criar uma nova metafísica. Antes dele, Hume tinha chegado em
grande parte à mesma conclusão desses filósofos modernos. Hume pensou que tivesse
destruído a possibilidade da metafísica.

P: Como?
R: Duvidando de tudo que não pudesse confirmar mediante sua própria experiência. Esse
ceticismo extremo excluía tudo em que a humanidade acreditara através dos séculos, mas que
jamais experimentara de fato.

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P: Por exemplo?
R: Deus, por exemplo.

P: Mas o que Hume disse não parecia fazer muita diferença. As pessoas continuaram a
acreditar em Deus.
R: Sim, mas compreende-se cada vez mais que isso acontecia por conta de um impulso da fé e
não como resultado de qualquer experiência direta ou de argumentação racional.

P: Então a "contestação" da metafísica por parte de Hume não fez qualquer diferença?
R: Na realidade, fez grande diferença. Principalmente para os cientistas e os filósofos.

P: Como?
R: Mediante a exclusão de tudo, à exceção daquilo que podemos comprovar através da
experiência, Hume eliminou muito mais que Deus. Ele destruiu, a causalidade, p que era
muito mais importante para os cientistas e para os filósofos.

P: Como?
R: Segundo Hume, tudo o que sabemos da experiência é que um evento se segue a outro. Não
podemos jamais saber se um evento causa o outro. Não podemos ir além da nossa experiência
para afirmar isso. Na realidade, jamais experimentamos algum evento causando outro -
apenas um evento se seguindo a outro.

P: Então?
R: Isso atinge o âmago de todo o nosso conhecimento científico. De acordo com Hume a
ciência baseada na causalidade é metafísica – não empírica. Não pode nunca ser comprovada.
E a comprovação é a base de nosso conhecimento. Da mesma forma, a filosofia é não
empírica. Segundo Hume, jamais poderemos provar as afirmações da filosofia, a menos que
elas sejam resultado de experiência direta.

P: Como por exemplo?


R: Assim como na afirmação: "Esta maçã é verde."

P: Mas isso significa que a filosofia praticamente nada pode dizer.


R: Exatamente. E essa é a dificuldade extrema que Kant tentou superar em sua filosofia.

P: De que maneira?
R: Ele tentou mostrar que, apesar do ceticismo devastador de Hume, ainda era possível
construir uma metafísica, que seria a base real de uma forma de conhecimento universal e
logicamente necessária — que permaneceria impermeável ao ceticismo de Hume. Kant a
estabeleceu pela primeira vez em sua Crítica da razão pura.

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P: Então a metafísica de Kant era uma tentativa de estabelecer algum tipo de ciência
definitiva, que garantisse a verdade do nosso conhecimento?
R: Exatamente.

P: E como ele chegou a isso?


R: Kant ressaltou o que chamava sua "filosofia crítica", que significava uma análise profunda
da epistemologia - um estudo da própria base sobre a qual nosso conhecimento reside.
Segundo Kant, fazemos certos juízos que são indispensáveis a todo conhecimento, juízos que
ele classificou como "sintéticos a prior?. Por sintético, ele queria dizer que não eram
analíticos e que o conhecimento neles contido não estava implícito no conceito original. Por
exemplo, "a bola é redonda" é uma afirmação analítica -porque o conceito "redondeza" está
contido no conceito bola. Já "a bola é brilhante" é um juízo sintético, porque diz sobre a bola
alguma coisa além do que está contido no conceito original, da mesma forma que uma
afirmação empírica. Como a priori Kant definiu os juízos necessários e universais, que tinham
de ser verdadeiros antes de qualquer experiência e que são constituídos somente pelo uso da
razão. Diferentemente dos juízos resultantes da experiência, eles não eram particulares e
contingentes. Ou seja, não se aplicavam apenas a uma instância e eram destituídos de
necessidade lógica - como as afirmações "esse cavalo ganhou o Derby" e "aquele cavalo é
marrom".
Como qualquer juízo científico, essas afirmações sintéticas a priori deviam ser
irrefutáveis e verdadeiras em termos universais. Em outras palavras, deviam ter a mesma
energia e vigor de uma afirmação analítica, embora fossem sintéticas. E deviam se adequar à
experiência, permanecendo ao mesmo tempo anteriores a ela. A pergunta básica de Kant era:
"Como são possíveis as afirmações sintéticas a priori?” Ele levava essa pergunta à
matemática, à física e à metafísica. A matemática, segundo ele, se relaciona a espaço e tempo.
Argumentava que, ao contrário das aparências, o espaço e o tempo são de fato a priori – ou
seja, não fazem parte da nossa experiência, sendo uma condição anterior necessária a essa
experiência. Não poderíamos ter a experiência sem essas "formas de nossa sensibilidade".
Kant prossegue argumentando que as afirmações da física são juízos a priori. Elas
classificam os juízos empíricos (sendo, portanto, sintéticas), mas utilizam conceitos anteriores
à experiência (sendo, portanto, a priori). Esses conceitos, ou "categorias de nosso
entendimento", como Kant as chamava, assemelham-se muito ao espaço e ao tempo na
matemática. As "categorias" são a estrutura essencial de nosso conhecimento, sendo
constituídas de coisas como qualidade, quantidade, relação (inclusive a causalidade) e
modalidade (assim como existência ou não-existência). Elas não são parte de nossa
experiência e, no entanto, não poderíamos ter qualquer experiência sem elas.
Contudo, quando chegamos à metafísica, o oposto se aplica à matemática e à física. A
metafísica não tem qualquer relação com a experiência (já que está "além da física"). Isso
significa que não podemos aplicar "categorias" como quantidade e qualidade à metafísica
porque elas são a estrutura de nosso conhecimento da experiência. Assim, a metafísica se
exclui do campo dos juízos sintéticos a priori, não possui base científica. Dessa forma, se
tomamos um conceito metafísico, como Deus, não podemos fazer qualquer afirmação
científica (ou verificável) sobre ele, pois quaisquer categorias que pudéssemos lhe aplicar só
seriam relevantes para a experiência. Falar da existência (ou não existência) de Deus seria
igualmente aplicar de forma errônea as categorias.
Foi desse modo que Kant rejeitou a metafísica. Ao fazê-lo, no entanto, construiu seu
próprio sistema metafísico alternativo. Da maneira como Kant as viu, as "formas do nosso
conhecimento" (espaço e tempo), assim como as "categorias do nosso entendimento"
(inclusive a experiência, a necessidade etc), são indubitavelmente metafísicas. Nós podemos

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considerar que o espaço e a existência estão "lá fora", na física da nossa experiência, mas
Kant não pensava assim. Dessa forma, seu argumento contra a metafísica aplica-se
igualmente a eles. Não podemos fazer afirmações sintéticas a priori sobre eles. Eles não são
científicos, não são analíticos e não são logicamente necessários: são metafísicos. E se, por
outro lado, estão "lá fora" na nossa experiência, certamente não podem ser conceitos a priori
de nosso entendimento.

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OBSERVAÇÃO: Immanuel Kant (1724 - 1804) | David Hume (1711 - 1776).