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GRAMÁTICA DO TEXTO JORNALÍSTICO

Por Nilson Lage

[AULA 1]

O jornalismo é uma forma de conhecimento e, como tal, incumbe-se de atualizar o


nível de informação da população com velocidade impossível de alcançar por outro
meio. Sua necessidade social ampliou-se na medida em que as transformações
políticas, sociais, científicas e tecnológicas se aceleraram, tornando inviável a
atualização por outros processos, como contatos pessoais, demonstrações em
auditórios etc.

O jornalismo seria, assim, responsável tanto pela amplitude quanto pela


superficialidade do conhecimento que as pessoas têm, fora de suas áreas específicas
de atuação. No entanto, a influência da atividade jornalística penetra mesmo em
setores que dispõem de estruturas próprias de coleta de dados.

Uma pesquisa (SCHUCH, 1997), realizada no universo das principais empresas de


Santa Catarina, revela que seus executivos baseiam-se em jornais (particularmente na
Gazeta Mercantil) para formular decisões estratégicas. O mesmo se observa, por
exemplo, na indústria norte-americana de espetáculos, com relação à crítica
especializada, ou nos mercados de capitais, em que corriqueiramente informações da
imprensa sobre desempenho de setores produtivos provocam reações antes de serem
divulgadas oficialmente – por exemplo, nos balanços.

É óbvia a influência do jornalismo em processos políticos como as eleições. No entanto,


a aferição dessa influência costuma ser destorcida por uma tendência genérica dos
grupos de poder: eles consideram ótimo o jornalismo quando é a favor e péssimo
quando é contra, independente da verdade ou falsidade dos conteúdos. Da perspectiva
profissional, os critérios são outros: uma boa notícia não é a mais bem escrita ou a
mais construtiva, mas, principalmente, a verdadeira. Parece óbvio que toda notícia
apaixonante beneficia ou agrada a uns e prejudica ou desagrada a outros.

Neste aspecto, o jornalismo tem uma confiança tal em seu discurso que se aproxima
da ciência: define verdade, à maneira de Isaac Israeli (Século IX), como adequação
desse discurso à realidade. Não passou certamente pela cabeça de Isaac Newton, ao
enunciar a Lei da Gravitação Universal, discutir se seria ou não conveniente para a
humanidade continuar ignorando os princípios da gravidade, que sempre existiu. Da
mesma forma, seria insensato imaginar que Alan Turing destruísse os originais de sua
pesquisa sobre a máquina universal de processamento de informações, na década de
30, por antever que os computadores poderiam causar desemprego.

Excluídas algumas situações chamadas de éticas, em que o prejuízo é imediato e


evidente (como pode ser o caso de negociações no curso de seqüestros ou do
envolvimento de menores em crimes), a tendência dos jornalistas é considerar
adequada a divulgação de informação de interesse público sobre que têm certeza. A
dificuldade de distinguir o que é público e o que é privado ou de confrontar o que se
supõe que as pessoas precisam ouvir e o que elas querem realmente ouvir não é
problema só do jornalismo, mas, no geral, das sociedades em que é praticado.
No entanto, há diferenças importantes entre o discurso jornalístico e o discurso
científico: uma delas é que o primeiro é um discurso de aparências. Qualquer que
sejam as versões difundidas numa matéria de jornal ou revista, não importando a linha
editorial, o mais importante são sempre os fatos. São estes o que os repórteres
apuram e que valorizam. Já na ciência, o que se investiga são essências: leis,
princípios e postulados que devem reger conjuntos de fatos; teorias que se sustentam
enquanto não se consegue comprovar sua falsidade.

Quando o jornalismo tenta abordar essências da realidade, geralmente foge a suas


características informativas, perde a novidade, recorre ao lugar comum e torna-se
subliteratura. A literatura, a partir da forma da língua e da vaguidade dos conceitos,
cuida de revelar verdades essenciais. O método não é a inferência dedutiva, como se
pretende numa demonstração científica, mas o insight, a experiência, a indução. Assim
se pode dizer que uma obra de ficção encerra realidade – visões pessoais, parciais e
essenciais; esse percurso não é viável nas condições industriais em que se produz
normalmente o jornalismo. O insight, a experiência e a indução também existem na
ciência quando ela formula hipóteses e idealiza modelos, que são falseamentos
geralmente baseados na abstração de algum ou alguns aspectos da realidade; a
questão é que hipótese e modelos têm ser verificados e comprovados, o que não se
exige da obra literária.

Em síntese, o jornalismo, como a ciência, pretende que a verdade objetiva existe e


que é possível discorrer sobre ela; não investiga essências e assume as versões
impostas pela ideologia, procurando preservar, no entanto, a inteireza dos fatos. Não
trabalha, ao menos conscientemente, sobre a forma da língua para aprofundar ou
desvelar algo que relata, nem se baseia na intuição, experiência ou capacidade
indutiva do autor.

Pelo jornalismo passam discursos ideológicos que provêm, em maior escala, dos
setores dominantes das sociedades. O mesmo ocorre com outros mídia, como a
universidade, as escolas de ensino médio e primário, produtos artísticos e de
recreação. No entanto, a visibilidade da presença desse discurso no jornalismo é
maior, uma vez que suas mensagens são mais explícitas e se reportam a assuntos de
interesse imediato.

No ensino, as turmas são relativamente homogêneas, há obrigatoriedade de


freqüência e avaliações periódicas. A informação jornalística, pelo contrário, destina-se
a público diversificado, disperso e pode ser ignorada ou omitida – basta não comprar o
jornal, pô-lo de lado, desligar ou mudar a estação de rádio, de televisão, a página da
Internet. Isso obriga o jornalismo a ser atraente, o que significa ser facilmente
compreensível e conformar-se a pelo menos alguns dos valores, aspirações e fantasias
de um público.

Enunciados jornalísticos estão sendo tomados, modernamente, como padrão da língua


culta, tanto escrita quanto oral – embora, neste caso, haja apenas simulação de
oralidade. Falas jornalísticas, no rádio ou na televisão, correspondem à leitura de
textos feitos para serem lidos em voz alta ou, no caso da narrativa simultânea de
eventos (como jogos desportivos ou desfiles de carnaval), à repetição de poucas
estruturas modulares, com eventual recurso a suportes escritos e comentaristas
especializados.
A pré-história do jornalismo

Os sistemas sociais de difusão de informação envolviam, nos estados clássicos, dois


circuitos:

1. o oficial, constituído por mensageiros ou arautos que levavam à população decisões


e conclamações do poder leigo; sacerdotes, incumbidos da tarefa de convencimento e
da mobilização comunitária; e artistas (poetas e atores, em forma lingüística, mas
também pintores, escultores e arquitetos), empenhados na exaltação do estado ou da
fé;

2. o privado, constituído por trovadores que receberam, em épocas e países diferentes,


diversas denominações (na Grécia, aedos); por eles transitavam histórias centradas
em enredos fantásticos ou envolventes, geralmente com localização e temporalidade
imprecisas. Pode-se acompanhar, ao longo dos anos, o trajeto de alguns desses
contos, como As aventuras de Cid, ao longo de décadas, pela Europa medieval.

Sempre que o nível de alfabetização permitia, utilizavam-se suportes escritos. É o caso


das Actae Durnae do Senado romano, ou dos Avvisi, mandados redigir por banqueiros
e comerciantes nas cidades litorâneas da Itália do Século XIV. Em ambos os casos, os
manuscritos eram colados nas paredes.

Passaram-se 150 anos entre a descoberta, na Europa, do tipos móveis, e o surgimento


da imprensa periódica, que só ocorreu no início do Século XVII. Dois processos dessa
época são considerados essenciais: a difusão da alfabetização e a expansão dos
serviços de correios, que permitiam o tráfego mais rápido de informações. Um terceiro
processo foi fundamental para a rápida difusão dos jornais: a luta da burguesia pelo
poder.

Formas clássicas dos discursos não artísticos

Os discursos não-artísticos (isto é, não construídos com preocupação dominantemente


estética) sempre compuseram a maior parte dos enunciados sociais. A preocupação de
quem redige uma lei, um documento oficial ou científico distribui-se por igual entre
fatores que podem ser considerados equivalentes às leis estabelecidas por Grice para a
conversação.

A cada uma das máximas de Grice corresponde uma regra da estilística tradicional.
Assim, a informação deve ser a necessária para os fins do documento e não
excedente; ser verdadeira ou, no mínimo, verossímil (admitindo-se que alguns
documentos, como algumas falas, são realmente maliciosos); ser relevante, não-
ambígua, concisa, estruturar-se segundo preceitos lógicos e com a clareza necessária
para ser compreendida pelo(s) destinatário(s).

Máximas de Grice

1. Máximas da quantidade
a. Faça sua contribuição tão informativa quanto necessário (para os
propósitos reais da troca de informações);
b. Não faça sua contribuição mais informativa do que o necessário.
2. Máximas da qualidade
Tente fazer sua contribuição verdadeira
a. Não diga o que acredita ser falso;
b. Não diga algo de que você não tem adequada evidência.

3. Máxima da relação
Seja relevante

4. Máximas da maneira
Seja claro
a. Evite a obscuridade;
b. Evite expressões vagas e ambíguas;
c. Seja breve (evite a prolixidade);
d. Seja ordenado

Ao lado de textos construídos com esses cuidados, existem outros, com estrutura
particular: os retóricos, preocupados com o convencimento. A oratória desenvolveu-se
notavelmente nas cidades gregas em que as assembléias enfeixavam todo ou quase
todo o poder. Prosperou em Roma, quer na forma de discursos políticos, dirigidos à
elite, quer como conclamação às massas (já se chamavam assim, naquele tempo),
quer como parte da decisão jurídica, em que se arbitra o que é, a partir de então,
imposto como verdadeiro.

Até que ponto a retórica encerra verdade no sentido jornalístico ou científico? A


pergunta não é cabível, uma vez que, no discurso retórico, o que está em jogo não é a
verdade como adequação do enunciado à coisa, mas outras instâncias do conceito:
uma verdade relativa, ou convicção, que expressa interesses, como na publicidade; ou
então a verdade como revelação ou deslumbramento, como nos sermões religiosos. De
fato, o que importa, no discurso de convencimento, é transferir essa convicção ou
impor esse deslumbramento. Em um mundo mergulhado em enunciados retóricos, a
realidade tende a conformar-se ao discurso, de modo que ele se consolida nas crenças
das pessoas, transfere-se aos objetos de cultura - e se materializa, então.

O discurso retórico é voltado para as versões ou interpretações da realidade; o


discurso informativo, essencialmente, para os fatos. Assim, não se pode dizer que haja
má fé quando o Padre Antônio Vieira calcula em 20 milhões o número de índios
existente no Maranhão, no século XVII; o que importa é a utilização desse dado, em
que há evidente exagero, para a defesa da causa do não-extermínio, da não-
escravidão e da evangelização dos índios. Da mesma forma, os promotores de causas
modernas costumam ampliar a relevância de fenômenos como a prostituição infantil, a
incidência da cárie dentária ou a destruição ecológica. As boas intenções, nessa linha
de raciocínio, inocentariam a mentira.

O exagero é um recurso retórico entre outros - por exemplo, a repetição, o uso de


efeitos fonéticos atraentes ou de associações analógicas (entre medo e escuridão,
entre seqüência e conseqüência, entre revelação e claridade etc.). Discursos retóricos
sempre foram esteticamente mais cuidados do que os informativos: a beleza e o ritmo
fazem parte de seu poder de atrair. No entanto, os padrões da estética variam
conforme a natureza dos públicos destinatários.
Pode-se admitir, como parece óbvio, que o jornalismo contemporâneo descende dos
discursos informativos clássicos; e que a publicidade, da mesma forma, decorre dos
discursos retóricos. No entanto, a relação não é tão simples: na verdade, o universo
político e social é retórico, e o jornalismo está imerso nele; a forma de convivência é,
aí, o discurso indireto, em que opiniões, interpretações ou versões são dadas como
manifestas e, assim, citadas.

"O discurso citado", escreve Mikhail Bakhtin (BAKHTIN,1992, pp. 144 fls), "é o discurso
no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre
o discurso, uma enunciação sobre a enunciação". O discurso citado "é visto pelo
falante como a enunciação de uma outra pessoa, completamente independente na
origem, dotada de construção completa e situada fora do contexto narrativo". A partir
dessa existência autônoma, o discurso de outrem "passa para o contexto narrativo,
conservando o seu conteúdo e ao menos rudimentos de sua integridade lingüística e de
sua autonomia estrutural primitivas".

Bakhtin observa que quem apreende a enunciação de outrem "não é um ser mudo,
privado de palavra, mas, ao contrário, um ser cheio de palavras interiores". No
discurso jornalístico, pelo menos em suas formas canônicas (a notícia e a reportagem),
as formas de citação usuais são o discurso direto e o indireto; outros processos, como
o discurso indireto livre (em que o narrador assume a subjetividade do indivíduo
citado) não são considerados legítimos. A única responsabilidade que o jornalista se
impõe diante de uma citação (embora não seja sempre esse o entendimento legal) é
que ela esteja conforme a essência (ou a forma, se entre aspas) do discurso citado.
Ainda assim, quem cita escolhe o que cita e, de muitas maneiras, assume posições em
face da citação.

O narrador pode interferir pela escolha do verbo dicendi ou proposicional, pela


definição de circunstâncias para o trecho citado, pela seleção de trechos entre aspas
etc. Pode suprimir o contexto da enunciação (extrair o texto do contexto) ou, pelo
contrário, explicitá-lo - isto conforme suas intenções, ou quantas inferências adicionais
imagine possibilitar ao leitor. Compare-se:

1. Em discurso direto:

a."Vamos recorrer no Judiciário até a última instância", disse o advogado.

b."Vamos recorrer no Judiciário até a última instância", advertiu o advogado.

c."Vamos recorrer no Judiciário até a última instância", ameaçou o advogado.

2. Em discurso indireto:

a.Marta Suplici disse que, em caráter pessoal, votará em Mário Covas.

b. Marta Suplici anunciou seu voto em Mário Covas, "em caráter pessoal".

c.Discordando da orientação do Diretório Nacional do PT, que recomendou não apoiar


nenhum candidato ligado a Fernando Henrique Cardoso, Marta Suplici tornou pública
sua "decisão pessoal" de votar em Mário Covas.
Os stile books (livros de normas) de alguns veículos preocupam-se com alguns desses
recursos, vedando a utilização de verbos que encerram nítido juízo de valor, como
ameaçar, vociferar ou disparar. No entanto, a preocupação manifesta com a exatidão
da citação, a reiteração de seu conteúdo podem ser também recursos para
desqualificá-la ou fornecer elementos para sua crítica:

1.O Ministro da Fazenda disse, ao longo da entrevista, que a prorrogação da CPMF "é
indispensável", "mais do que necessária", "essencial" e que o aumento de 50 por cento
da alíquota "não pode ser descartado", "é provável", "está quase decidido".

Combinada com um antecedente circunstancial - e a partir do princípio retórico de que


"se a vem antes de b, a é a causa de b", ou post hoc ergo propter hoc - uma citação
pode assumir o valor de discurso opinativo:

2. O parlamentar governista, cujo salário aumentará com a elevação do teto de


vencimentos do funcionalismo, manifestou-se "plenamente favorável" à medida.

A citação é tomada, no discurso científico ou jurídico, tal como na retórica clássica,


como base para o argumento de autoridade; é o que se passa, neste texto, com as
citações de Bakhtin. Mas não é o caso do jornalismo contemporâneo, inserido no que o
autor soviético chama de individualismo relativista. Adverte ele que "é importante
determinar o peso específico dos discursos retórico, político ou jurídico na consciência
de um dado grupo social em determinada época", bem como "a posição que um
discurso citado ocupa na hierarquia social de valores".

A história moderna dos discursos não-artísticos

Na Idade Média, os discursos não-artísticos constituem documentos fundamentais para


o estudo da evolução do latim vulgar e de sua diluição em dialetos comunitários e
regionais por toda a Europa. Anais, atas, decretos, relatórios, proclamações, crônicas
(episódios listados em ordem cronológica) constituem parte substancial da bibliografia
dos dicionários etimológicos.

Com o renascimento e a formação dos estados nacionais modernos, as línguas


nacionais foram impostas a áreas territoriais extensas através de mecanismos
compulsórios e sistemas escolares que partiram da estruturação dessas línguas em
documentos literários canônicos, como Os Lusíadas, de Camões, Dom Quixote, de
Cervantes, peças de Shakespeare e poemas de Mílton, o teatro de Racine e Molière.

A literatura - pelo menos, essa literatura - passou a ser o padrão ao qual deveriam
conformar-se os discursos institucionais. É por esse tempo que nasce o jornalismo,
caracterizado, inicialmente, como publicismo e com a tarefa histórica de confrontar a
aristocracia a serviço da ideologia burguesa. Os grandes jornalistas do Século XVIII
foram escritores, nem sempre brilhantes, e críticos do poder aristocrático;
consideravam-se e eram considerados portadores da verdade iluminista. O jornalismo
era, ao mesmo tempo, retórico e literário.

O público era restrito, porque a alfabetização ainda não se difundira o bastante; os


enunciados dirigiam-se a formadores de opinião, pessoas que, por definição,
dispunham de alguma liderança na sociedade. Opinião, interpretação e fatos se
misturavam, a ponto de ser difícil distingui-los. A própria divisão das matérias por
assuntos - que daria origem às modernas editorias - demorou a acontecer.
As mudanças aceleraram-se no Século XIX, em parte por causa da mecanização da
indústria gráfica e do surgimento da publicidade, que baixou o custo de produção dos
jornais e reduziu de maneira radical o espaço para a opinião divergente, isto é,
daquela contrária ao poder econômico; data dessa época o fim da censura de estado
por toda a Europa. O principal fator para a mudança, no entanto, terá sido a
generalização do ensino básico, por conta da revolução industrial.

O público multiplicou-se, alterando a demanda de informação. Dentre os vários


caminhos tentados - novelas contadas no rodapé das páginas, desenhos e gravuras
que dariam origem às charges e às histórias em quadrinhos, campanhas de opinião
contundentes etc. - o que mais se mostrou frutífero foi a exploração do noticiário. Os
novos leitores apreciavam histórias fantásticas e sentimentais, acontecimentos
emocionantes e portentosos, relatos de países distantes, selvagens ou misteriosos e a
ampliação de dramas do cotidiano.

Daí ao sensacionalismo foi um passo. A má qualidade literária - herdada da época da


publicismo - somou-se, aí, ao exagero retórico para produzir relatos da realidade muito
destorcidos e eventualmente mentirosos. Isso se tornaria mais evidente, no entanto,
nos Estados Unidos que viveram, no fim do século passado, uma revolução industrial
rápida e intensa, com a inserção na sociedade de levas e levas de imigrantes.

Foi na América que o sensacionalismo atingiu sua máxima ampliação. Tratava-se, aí,
de integrar recém-chegados de várias procedências, muitos deles mal dominando o
inglês. O modelo capitalista conduziu à concentração da indústria da informação,
produzindo distorções tais que um dos magnatas da imprensa da época, Hearst, foi
acusado de ter promovido a guerra contra a Espanha pelo domínio sobre Cuba em
troca de privilégios de cobertura jornalística.

Foi também na América que o sensacionalismo foi contestado de maneira mais


conseqüente. Para enfrentá-lo, criaram-se cursos de jornalismo nas universidades (o
primeiro deles resultante de uma doação milionária de outro magnata da informação,
Pulitzer) e procuraram-se formas de regulamentar a produção de matérias jornalísticas
com alguns objetivos essenciais: (a) fixar procedimentos confiáveis de apuração de
informações; (b) estabelecer padrões consensuais de qualidade; (c) restringir o código
lingüístico de forma a permitir que notícias e reportagens possam ser produzidas
rapidamente, com alta legibilidade e o mínimo de interferência das modas artísticas e
literárias.

As estratégias empregadas para o atingimento dessas metas refletiram tendências


típicas da época: influência dos métodos e critérios das ciências exatas, com traços
que refletem posturas positivistas e funcionalistas; preocupação industrial e
segmentação de tarefas, à maneira da organização do trabalho taylorista;
pragmatismo quanto às linhas editoriais, temperado por uma tarefa de vigilância ética,
transferida, geralmente, às corporações profissionais, e às escolas especializadas.

A despeito dessa origem datada, os procedimentos desenvolvidos então difundiram-se


rapidamente por todos os países industrializados, com adaptações às culturas locais.
Mesmo os críticos mais veementes do positivismo ou do funcionalismo - como é o caso
dos sistemas de informação da Igreja católica ou da União Soviética, enquanto ela
existiu - terminaram adotando as normas básicas da escola americana para a produção
de notícias e reportagens jornalísticas. Elas são versáteis o bastante para conviver com
diferentes ideologias; pode suportar linhas editoriais fundadas em hard news - como as
notícias sobre política, ciências ou economia - ou em temas de recreação, como
esportes e espetáculos. Tornadas signo da modernidade, chegaram ao Brasil meio
século depois e levaram mais duas décadas para se implantarem aqui.

Na verdade, esse estilo que valoriza a objetividade não alcança por igual todos os
gêneros do jornalismo. Magazines, por exemplo, continuam inserindo mais adjetivos e
advérbios do que seria canonicamente desejável; o estilo Time combina um
vocabulário básico restrito com vocábulos técnicos, palavras de gíria e adjetivação
erudita. Editoriais e artigos aproximam-se mais da retórica clássica; seções
especializadas assumem freqüentemente discursos intimistas ou excessivamente
técnicos; a crônica e a crítica são gêneros que se aproximam da literatura.

No entanto, a linguagem básica do jornalismo tem ampla penetração social e influencia


bastante outros discursos. Mantém relação constante com a linguagem coloquial e se
tornou o padrão genérico dos enunciados impessoais e conteudísticos que predominam
na cultura contemporânea - diante dos quais surgem como rebarbativos os discursos
jurídicos tradicionais, a escrita oficial e cartorária e certas falas corporativas, como o
economês.

O texto jornalístico no Brasil

Os primeiros veículos de informação periódica produzidos no Brasil antecedem de


pouco a Independência. No primeiro império e no período das regências, o jornalismo
era uma atividade publicista de alto risco, exercida em veículos geralmente de vida
efêmera. Só no Segundo Império, em ambiente de mecenato, surgem algumas
características peculiares de estilo. Jornalistas, na época, eram escritores, alguns
notáveis, como Machado de Assis ou Raul Pompéia; adotavam, em geral, um texto
literário simplificado, que se manifesta, por exemplo, nas Crônicas do Senado, de
Machado.

Qualidade realmente literária é rara. Ela aparece, por exemplo, em Os sertões, de


Euclides da Cunha. No entanto, esse extenso livro-reportagem levou dois anos para
ser escrito, enquanto o autor, que era engenheiro, construía uma ponte, em São José
do Rio Pardo, São Paulo, e teve dois pré-textos: os telegramas que enviou ao Estado
de São Paulo, acompanhando a guerra em Canudos, e o manuscrito Diário de uma
expedição, que só seria publicado em 1935.

O divórcio entre a língua escrita e a falada - entre o vocabulário e os usos gramaticais


de uma e outra - agravaram-se no início do Século XX. Sob influência do
parnasianismo francês, exaltava-se o estilo empolado dos discursos de Rui Barbosa,
cujo conteúdo jurídico, no entanto, parece hoje modesto. Essa mesma presunção de
qualidade artística se reflete nos artigos médicos relacionados com a campanha contra
as doenças tropicais liderada por Osvaldo Cruz, nas crônicas e romances de Coelho
Neto ou Humberto de Campos, nas reportagens - importantes como documento - de
João do Rio (Paulo Barreto), notável jornalista do Rio de Janeiro da República velha.

Com a profissionalização incipiente e a presença de corretores de anúncios nas


redações - as agências de publicidade só começariam a aparecer na década de 20 - o
nível sociocultural dos jornalistas sofreu, na média, queda acentuada. A cobertura de
fatos urbanos e policiais, particularmente, evidencia esse fato: tende a incorporar a
gíria dos rábulas e policiais, chamando os acusados de indigitados, as pessoas pobres
(só estas) de indivíduos, os carros oficiais de viaturas. Ao mesmo tempo, a presunção
literária nomeava ruas e avenidas como artérias, vereadores como edis, motoristas
como chauffeurs etc. A hierarquia social rígida aparecia no tratamento de Sua
Excelência dado às autoridades e de doutor a qualquer pessoa influente.

Os poucos escritores dessa época lidos ainda hoje eram acusados por seus
contemporâneos de praticar um estilo pobre e vulgar. É o caso de Lima Barreto, de
Monteiro Lobato e de Oswald de Andrade (este, desde muito antes de se tornar
conhecido, com a Semana de Arte Moderna de 1922).

O modernismo literário demorou a se transplantar para o discurso jornalístico; a


maioria das propostas da Semana, que pretendia justamente aproximar os enunciados
artísticos da fala comum, só chegou efetivamente aos jornais somadas à importação
estilística do modelo americano, a partir da década de 50 - embora houvesse
tentativas anteriores, principalmente gráficas e em publicações de circulação restrita.

Uma das razões do abandono dos paradigmas literários no jornalismo, com a


industrialização, é uma nova compreensão dos objetivos do ensino e da prática da
língua nacional. A questão central é que dificilmente alguém será chamado, na prática,
a exercer a competência compatível com um Camões, um Machado, ou para citar autor
mais recente, de um Graciliano Ramos, ele mesmo revisor de originas do Correio da
Manhã, do Rio, na década de 40. Pessoas em geral não escrevem ou falam literatura,
isto é, língua em forma de poesia ou narrativa artística; o que se exige delas é que se
expressem com clareza, concisão, correção e, subsidiariamente, elegância, em
discursos e textos voltados para a comunicação de conteúdos referenciais.

O estudo da "língua culta"

Presentemente, os estudos literários ampliam-se, associando-se à análise de discursos


e à semiologia na tentativa de construir um conhecimento que dê conta de atividades
artísticas envolvendo línguas e imagens dinâmicas, como o teatro, o cinema ou os
quadrinhos. Já a Lingüística contemporânea valoriza extraordinariamente o estudo das
formas orais e dialetais das línguas. Isso se deve a uma série de fatores:

a. línguas ágrafas ocuparam o espaço acadêmico antes dedicado às letras clássicas e à


Lingüística comparada, principalmente a partir da tarefa de descrever idiomas
indígenas, a que se obrigaram os lingüistas desde a contratação de Franz Boas pelo
governo americano, com essa finalidade, no século passado e, depois, com os
investimentos feitos na área de antropologia;

b. algumas tendências modernas, como a Gramática Gerativa de Noam Chomsky,


buscam uma gramática universal (UG), fundada na correspondência de uma forma
lógica (LF) e uma forma fonética (PF) e cujo fundamento é a aquisição de linguagem
(oral) pelas crianças, atribuída a uma faculdade mental inata. Isto chamou a atenção
para o fato óbvio de que as línguas são primariamente eventos sonoros;

c. a fonética teve desenvolvimento extraordinário e se tornou a única área da


especialidade que parece a ponto de se completar como ciência, produzindo
conhecimento que se transfere à medicina e à informática.

Terá sentido, dentro desse contexto, estudar uma forma de língua escrita, que no
sentido clássico se chamaria de "culta" e, ainda mais, não literária? Há duas respostas
possíveis. Uma refere-se a questões essencialmente técnicas - facilidades operacionais
que o estudo da língua escrita simplificada em que os jornalistas se expressam oferece
para uma compreensão formal documentada do idioma. Esmiuçaremos isso na próxima
aula.

Outra resposta tem que ver com um raciocínio de outra natureza. Ele nos remete a um
anúncio de banco que a televisão veicula; nele, um ator declara que seu apoio à
globalização e comenta: "um só mundo, falando a mesma língua". Como aconteceu
sobre o Império romano, o inglês, novo latim, tende a ser língua universal e, assim
sendo, substituir os idiomas nacionais como língua de cultura.

Dentre as línguas nacionais, o português é uma das mais vulneráveis: é falado por um
grupo de países pobres, está sendo varrido da Ásia e, no entanto, materializa uma bela
tradição cultural. A sobrevivência da língua, em sua forma escrita e "culta", relaciona-
se com a sobrevivência do estado nacional, dentro do qual construímos nossa
identidade, validamos nossos poucos direitos civis, as habilitações profissionais e
acadêmicas.

Preservar o português em suas formas escritas é, assim, como observa o Prêmio Nobel
de Literatura José Saramago, uma atitude política de sentido, a essa altura,
fortemente contestador.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica1.html em 27.11.2002

[Aula 2]

A reforma do estilo da imprensa brasileira começou na década de 1950 num pequeno


jornal do Rio de Janeiro, o Diário Carioca, de forte tradição política e orientação
conservadora. Lá, dois professores do curso pioneiro de jornalismo que funcionava na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil - Danton Jobim, o
catedrático, e Pompeu de Souza, seu assistente - arregimentaram um grupo de
jovens, vindos quase todos de diferentes cursos universitários, para introduzir no Brasil
as técnicas de redação originalmente desenvolvidas nos Estados Unidos e que já se
haviam generalizado nos países desenvolvidos.

A aspiração de modernidade adequava-se ao espírito desenvolvimentista da década e


correspondia à influência do estilo das agências de notícias internacionais (France
Press, United Press, Associated Press, principalmente), cujos telegramas traduzidos os
jornais transcreviam. Com a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, a guerra fria,
esses telegramas ocupavam espaços privilegiados, em conflito estilístico claro com as
matérias locais. Por outro lado, as técnicas modernas de redação eram conhecidas de
número restrito de jornalistas com experiência no exterior, como Joel Silveira e Rubem
Braga, correspondentes de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália, ou
o próprio Pompeu de Souza, que trabalhou como redator de um noticiário da Columbia
Broadcasting System (CBS) dirigido ao Brasil, entre 1941 e 1943.

Do Diário Carioca a nova maneira de redigir migrou - na verdade, foram os redatores


que migraram -, para o Jornal do Brasil, veículo tradicional (fundado em 1891, com
orientação monarquista) que se decidiu a fazer uma reforma editorial. Lá, no final da
década de 50 e nos primeiros anos da de 60, o estilo de texto se fixou, associando-se
a uma nova estética gráfica. A primeira página, antes ocupada por anúncios
classificados, ganhou formas inspiradas no construtivismo; o mesmo formato
prosseguia pelas páginas internas e suplementos. Um deles, o Suplemento Literário,
com diagramação experimental surpreendente, veiculava idéias estruturalistas e
publicava poemas concretos. A própria diagramação das páginas - projeção em
prancheta - era novidade, introduzida na imprensa diária, anos antes, pela Última
Hora, de Samuel Weiner, que, no entanto, importou da Argentina estética popular e
mais conservadora. O Diário Carioca, como os outros jornais da época, não era
diagramado.

O efeito da reforma do Jornal do Brasil foi notável, não tanto pelo aumento da tiragem
(que se elevou bastante, mas não a ponto de torná-lo o líder em vendas na cidade),
mas, principalmente, pelo prestígio que o jornal assumiu como porta-voz das
aspirações da nova classe média que ocupava postos de decisão nas empresas estatais
e multinacionais. Como conseqüência, a reação dos concorrentes foi intensa.

A maneira encontrada pelo Jornal do Brasil para modificar, do dia para a noite, o estilo
de todo texto do jornal foi a institucionalização de um procedimento já adotado no
Diário, de maneira informal: reescrever as matérias, ampliando as atribuições do copy
desk, seção da redação existente na imprensa americana com a incumbência de
revisar originais. Foi exatamente contra o copy desk do JB que se concentrou a
campanha movida tanto por jornais do Rio de Janeiro, principalmente O Globo, quanto,
em caráter preventivo, pelos de São Paulo.

A razão principal é que o copy desk era um corpo de profissionais com visão técnica do
jornalismo, excluído do sistema de injunções que tradicionalmente se instituíra na
imprensa. Naquela época, as empresas jornalísticas, com raras exceções,
remuneravam oficialmente todos os redatores e repórteres com o salário mínimo
permitido por lei. Muitos eram funcionários públicos ou de empresas prestadoras de
serviços públicos; para esses, o jornalismo era um segundo emprego, relacionado com
o primeiro - no jornal, defendiam os interesses do principal empregador. Para outros, o
próprio dono do jornal conseguia, com seu prestigio, a inclusão em folhas de
pagamento de repartições do governo. Nos casos (como os dos jovens redatores) em
que havia necessidade de pagar além do mínimo, o dinheiro saía por fora, isto é, sem
o recolhimento de encargos previdenciários, sem a obrigação de remunerar as férias e
indenizar por ocasião da dispensa.

A luta contra essa caixa dois, pela profissionalização e moralização do jornalismo


empolgou naturalmente os jovens redatores do copydesk do Jornal do Brasil, que
estiveram na linha de frente de uma greve que paralisou os jornais cariocas, em 1962,
exatamente com essas palavras de ordem. No clima político agitado da época que
precedeu e se seguiu imediatamente ao golpe de 1964, eles foram, então,
sucessivamente acusados de comunistas, comparados a censores e, finalmente,
apelidados de idiotas da objetividade por Nélson Rodrigues, o teatrólogo que escrevia
uma coluna em O Globo expressando geralmente o pensamento de Roberto Marinho.
Nessa mesma coluna, anos depois, ele conduziria uma campanha de desmoralização
contra D. Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, numa época em que o nome
do clérigo, opositor do regime militar, não podia sequer ser mencionado nos outros
jornais.

Só no início da década de 70 os grandes jornais do Rio e de São Paulo - logo seguidos


pela imprensa de todo o País - adotariam algumas das normas de redação lançadas
pelo Diário Carioca (que deixou de circular em 1965) e fixadas no Jornal do Brasil. O
Globo, inicialmente, contratou um profissional oriundo do Diário Carioca para reformar
seu texto noticioso, organizando um copy desk; cerca de um ano depois, quando
vagou o cargo de diretor de redação, trouxe outro jornalista do Diário para ocupar o
cargo.

Em São Paulo, a mudança dos métodos e critérios do jornalismo havia começado, na


década de 60, com uma revista mensal ambiciosa e muito bem editada, Realidade.
Para a mudança nos jornais, foram feitas algumas experiências, a começar pelo
vespertino de O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, que dava às matérias noticiosas
estilo inspirado no dos magazines. A incorporação do novo modo de escrever ao
noticiário tradicional fez-se aos poucos, com a preocupação de copiar rigorosamente
modelos americanos, de modo que algumas das criações mais originais do Diário
Carioca não chegaram ou demoraram a chegar à imprensa paulista.

Foram características da reforma do Diário Carioca:

1. a adaptação do lead - primeiro parágrafo da matéria impressa, onde consta o fato


principal ou mais importante de uma série, tomado por seu aspecto principal - à língua
portuguesa evitando, por exemplo, o estilo uma proposição por período, que é ainda
hoje norma imposta na Folha de São Paulo, e dá aos textos aspecto telegráfico, de
leitura cansativa. Para isso, foram consultados outros modelos de adaptação,
principalmente dos jornais ingleses e franceses;

2.a incorporação progressiva de usos propostos, na literatura, pelos modernistas de


1922, para aproximar a escrita da fala corrente brasileira. Nessa linha, as pessoas
deixaram de morar à Rua X para morar na Rua X. Os tratamentos tornaram-se menos
cerimoniosos; passou-se, aos poucos, a escrever o nome das pessoas sem a
precedência de um título - senhor, senhora, doutor, excelência, dona e, para os
desqualificados, o estranho indivíduo. Os redatores do Diário eram leitores constantes
de autores modernos, particularmente de Graciliano Ramos, cujo estilo enxuto
tomava-se como modelo.

É interessante comparar os style books - manuais de redação - do Diário e dos jornais


atuais. O manual escrito em 1950 por Pompeu de Souza, é um documento sintético,
até porque produzido por quem iria gerir sua aplicação. Contém algumas concessões
ao espírito da época: não se admitia chamar uma mulher casada, pelo menos as da
classe dominante, pelo nome; era necessário precedê-lo de d. Da mesma forma, o
pronome para o Papa não era ele, mas Sua Santidade, e temia-se que fosse impossível
suprimir inteiramente o Exa do nome de alguns figurões. Esses preceitos tiveram que
ser modificados ao longo do tempo, à medida que as experiências ou (falsos)
esquecimentos esbarravam ou não em reações negativas - das madamas, da
hierarquia da Igreja, daqueles a quem se negava a excelência.

Já os manuais de redação atuais costumam ser detalhistas, abrangentes e


presunçosos. Misturam discursos sobre o que o dono do jornal pensa do mundo (na
RBS, instruções internas informam aos jornalistas que o jornal apóia decididamente a
privatização e a globalização) - e nisto se parecem com o manual da Tribuna da
Imprensa, de Carlos Lacerda que, na década de 50, imitando o Diário Carioca, lançou
também seu style book - com critérios editoriais genéricos, manifestações de princípios
e argumentos de marketing institucional.

Em alguns casos, pretendem legislar sobre temas lingüísticos: o manual do Estado de


São Paulo, inspirado em uma tradição que descende da Gramática de Port Royal, do
Século XVII, afirma que a ordem sujeito-verbo-objeto é a "normal" nas sentenças,
alinhando, em seguida, dezenas de exemplos em contrário, ou exceções.
Consideremos, mais longamente esse caso, em particular:

A - Característica geral da percepção humana - portanto, da gramática universal - é


que a natureza nos propõe ações e relações entre objetos, mas nós as representamos
como objetos em relação ou ação. Na natureza, o que notamos, portanto, é a queda
do cometa, o soco de um pugilista no outro, o pássaro no céu; o notável, para nós, é a
descontinuidade, a relação entre dois estados simultâneos (uma forma contraposta a
outra) ou entre dois estados sucessivos (os de algo que se desloca, se revela ou se
transforma). A maneira humana de representar isso atribui papéis temáticos (de
agente, paciente, instrumento etc.) a objetos ou coisas, que são os argumentos da
função, e concentra a transformação em verbos, adjetivos, advérbios e preposições.
Assim, dizemos que o cometa cai (o cometa é o paciente da queda), que um pugilista
(agente) socou o outro (paciente), o pássaro (paciente) está, é perceptível no céu
(função). Neste último caso, no (em) estabelece a relação entre pássaro e céu;
transforma céu em no céu; o verbo estar afirma a relação, transforma-a em sentença,
além de agregar os elementos tempo, modo e aspecto.

B - Isso, no entanto, não justifica a generalização da precedência do sujeito na


sentença. Na verdade, a ordem S-V-O é típica de línguas não declinadas e não pro-
drop, como o francês ou o inglês. Nas línguas declinadas (como o latim, o alemão ou o
russo), a ordem pode não ser relevante ou essencial para o sentido. Nas línguas pro-
drop, como o português, em que as pessoas verbais são identificadas na fala por
desinências distintas, o sujeito genérico é freqüentemente omitido (fica subentendido
pela desinência do verbo), o sujeito pode aparecer posposto e desaparecem pronomes
expletivos (de valor meramente gramatical) antecedendo as formas verbais. Há
línguas em que a ordem usual não é S-V-O, mas outra: em irlandês, a sentença usual
tem a forma V-S-O.

1-
a - Passaram todos.
b - *Have passed (they) all
c - *Ont passé ( ils) tous

2-
a - Chove.
b - *Raine
c - *Pleut

3-
a - Sevódnia utrom vam zvoníl Sómov (russo)
Hoje de manhã para vocês telefonou Somov

4-
a - Chonaic Seán an madra (irlandês)
Viu João o cachorro

C - Daí se pode presumir que o etnocentrismo, não efetivamente hipóteses


relacionadas com universais lingüísticos, determinam a indicação da ordem S-V-O
como normal, intuitiva ou "própria da estrutura profunda da linguagem", tanto no
manual de O Estado de São Paulo quanto na gramática francesa do Século XVII (em
que se apresentava o francês como língua lógica, em oposição ao alemão, que falava
por inversões) e em textos da gramática gerativa americana.

D - Note-se que a descrição gramatical, no caso dessas duas gramáticas, parte dos
conceitos de sujeito e predicado em Aristóteles. Este sustentava o ponto de vista de
Parmênides, sobre a unidade do ser, para o qual as sentenças apenas podiam predicar
estados. No entanto, na visão dialética de Heráclito, a primazia não pertence ao
sujeito, mas aos estados, já que não há dois sujeitos iguais em estados ou tempos
distintos: "não se pode tomar banho duas vezes na mesma água de um rio". O mundo
é dado em fluxo e, portanto, todos os seres estão também em fluxo.

E - A notação lógico-matemática que prevalece hoje na lingüística formal está mais


para Heráclito do que para Parmênides. A predicação é, aí, assimilada ao conceito de
função; sujeitos e demais complementos do verbo são considerados argumentos.
Assim, em "João viu o cachorro", viu é a função; João e o cachorro os argumentos. A
função é designada por letra maiúscula (F) e os argumentos pelas letras iniciais
minúsculas da palavra principal do sujeito ou complementos do verbo. Se
pretendermos uma interpretação filosófica, as relações presidem as entidades
nomeadas no discurso. Assim:

5 - João viu o cachorro


jFc
F(j,c)

E - Observe-se que a precedência é dada à função, não ao argumento, seja ele sujeito
ou objeto do verbo. Esse modelo funcional domina praticamente todas as gramáticas
contemporâneas, desde a semântica de Montague e as representações da lingüística
computacional até o gerativismo de Chomsky a partir da Teoria dos Princípios e
Parâmetros(onde os argumentos são chamados de externo, o sujeito, e internos, os
objetos), embora possa conviver, aí, mesmo no minimalismo, com a precedência
atribuída ao sujeito nas sentenças nas primeiras versões da Teoria Gerativa.

Características da linguagem jornalística

Com as inovações introduzidas pelas reformas do período 1950-1970, a linguagem


jornalística tem, hoje, as seguintes características:

aos discursos retóricos, explicitamente, pelo mecanismo da citação e, implicitamente,


através dos métodos de seleção do que é informado e ordenação das informações -
que são os aspectos ideológicos desse tipo de discurso.

A - quanto à escolha de itens léxicos

1. utilização, sempre que possível de palavras admissíveis no registro formal e no


registro coloquial da linguagem, isto é, daquelas palavras que pertencem, ao mesmo
tempo, ao conjunto dos itens léxicos aceitos na linguagem formal e na linguagem
coloquial. Sempre que os sentidos sejam permutáveis, entre perfunctório e superficial,
o preferível, portanto, é superficial; entre próximo a e perto de, é perto de; entre
recinto e sala, é sala; entre pretérito e passado, é passado; entre sintagma e locução,
é locução. A regra se aplica, no geral, tanto ao texto escrito quanto ao coloquial
simulado.
2. criação de neologismos e atualizações necessárias (malufista, petista), formas
condensadas que se originam da circunstância de os títulos terem letras contadas (FHC
por Fernando Henrique Cardoso, desarme por desarmamento), bem como a
incorporação de expressões populares e de gíria que se generalizam (bumbum, cheque
voador).

3. eliminação, sempre que possível, de preciosismos, palavras estrangeiras, de gíria


local e jargão profissional. Palavras técnicas, quando necessárias - e elas se tornam
necessárias em períodos de intensa transformação tecnológica como o atual - devem
ser usadas com parcimônia (na linguagem jornalística, seria preferível com
moderação) e definidas pragmaticamente, isto é, com a explicação necessária apenas
a seu entendimento imediato. Assim, por exemplo, na descrição de uma cirurgia:

O corte é feito na artéria femural, a principal da coxa, quatro dedos acima do joelho...

e não:

O corte é feito, seis centímetros acima da borda da rótula, na artéria femural, ramo
primário da aorta descedente que se nomeia como artéria ilíaca até o ponto em que,
ao sair da região ínguino-crural, assume esse nome ...

1. a teoria geral por detrás dessas escolhas é de que a precisão é sempre relativa,
dependendo do contexto da enunciação. Se um político sofre de câncer, isto basta
numa notícia destinada ao público em geral, mas não bastará certamente a seu médico
assistente, que precisará averiguar a natureza, tamanho e localização do tumor, no
mínimo. A informação de que uma nave experimental é movida a jatos de partículas
subatômicas ou íons é adequada e bastante para um público com formação básica
escolar completa, mas nitidamente insuficiente para umfísico, que gostaria de dispor
de detalhes sobre o funcionamento desse motor iônico; a mesma informação é, por
outro lado, inacessível a pessoas sem formação básica completa ou que não prestaram
a atenção merecida às aulas de ciências - daí o bom senso de se acrescentar no jornal
uma explicação suplementar tal como "este é um tipo de motor que só existia em
filmes de ficção e histórias em quadrinhos".

2. eliminação (com exceção das citações), de adjetivos e categorias testemunhais, isto


é, daqueles e daquelas cuja aplicação depende da subjetividade de quem produz a
mensagem. Assim, evita-se dizer que alguém é rico, ou que é bonito, ou que é
notável; prefere-se alinhar os bens, reproduzir depoimentos de entendidos sobre a
beleza ou contar episódios em que se comprova a notatabilidade. A preferência pela
adjetivação fatual ou comprovável (números, evidências) atende à circunstância de o
jornalismo ser um discurso impessoal, da perspectiva do consumidor. Não conhecendo
o autor do enunciado, ele geralmente não é capaz de avaliar os padrões de referência
da aferição: em relação a que média se é rico, a que padrão étnico ou estético se
reporta a beleza, qual a natureza ou intensidade da notabilidade atribuída.

3. eliminação, na medida do possível e com exceção de citações, de advérbios que


expressam juízos de valor ou modulam predicações e sentenças, situando-as em
mundos possíveis ou desejáveis - em suma dos advérbios de modo, intensidade e
afirmação. Essa característica é importante para uma descrição formal, porque esses
advérbios oferecem dificuldades suplementares para a análise, por serem elementos
lógicos de segunda ordem, ou seja, que predicam o que já está predicado, atuando
como funções de funções. O jornalismo reporta-se ao mundo real (é fundamento
filosófico do ofício que ele existe), não ao que ao mundo que seria possivelmente,
provavelmente, supostamente, desejavelmente, preferivelmente etc.

4. na mesma linha, restrição genérica e entendimento particular de verbos de atitude


proposicional, isto é, que expressam esperanças, temores, desejos etc. quanto à
proposição que os sucede, precedida de que (o que em inglês se chama de that-
verbs). É o caso de considerar, esperar, ameaçar, parecer etc. - verbos cujo sentido
pleno reporta-se à pessoa do falante. Quando se lê em um veículo de informação que
"X considera que P", é tácita a leitura "X disse que considera que P".

B - quanto aos procedimentos gramaticais

1. de maneira paralela ao que ocorre quanto aos itens léxicos, utilizam-se as formas
sancionadas no registro formal e aceitas no registro coloquial da linguagem.
Construções em desuso, como as mesóclises, são definitivamente suprimidas; há forte
tendência em favor da próclise em lugar da ênclise, por ser este o uso coloquial
corrente no Brasil; pela mesma razão, é mais comum a forma analítica do que a
sintética do pretérito mais que perfeito etc.

2. de modo geral, os jornalistas estão comprometidos com a normalização da língua,


embora priorizem a necessidade de informar; assim, o verbo assistir, quando tem
regência indireta (assistir ao espetáculo), não deveria admitir voz passiva (o
espetáculo foi assistido por...), que, no entanto, tornou-se usual pela inexistência de
qualquer outro verbo que permitisse apassivar a construção (o espetáculo foi
presenciado por... não é o mesmo que o espetáculo foi assistido por...).

3. a linguagem do jornalismo é mais dinâmica do que a linguagem formal. Reflete,


apesar da preocupação com a norma, os usos que se tornam correntes na língua
coloquial, como, por exemplo, a tendência de violar a concordância verbo-nominal
quando verbos pronominais vêm antes dos elementos descritos tradicionalmente como
sujeitos: Vende-se casas, amplia-se as possibilidades...

4. os períodos costumam ser mais curtos do que no uso formal. Períodos muito longos
(com mais de 20 palavras, em média, dependendo, naturalmente, do grau de coesão)
são de leitura difícil e seletiva quanto ao nível cultural do leitor. A brevidade é
evidentemente maior nos enunciados destinados a serem lidos, no rádio ou televisão, e
nos que se destinam à veiculação noticiosa pela Internet.

5. As sentenças são construídas, quase sempre, na terceira pessoa, com exceção das
citações em discurso direto. Os tempos preferenciais, nas notícias, são o passado
perfeito, o futuro e o presente pelo futuro, reservando-se o presente concomitante ou
freqüentativo para as interpretações e as formas imperfeitas para descrições que
caracterizam os actantes - personagens e entidades em geral que interferem no
enunciado. O subjuntivo é de uso restrito e há nítida preferência pelo infinitivo
impessoal.

Em suma: o texto jornalístico utiliza um léxico simplificado, sistema verbal restrito à


terceira pessoa e a alguns tempos verbais, constrói períodos mais curtos e evita ou
delimita o sentido de construções problemáticas, como as proposicionais. Isto lhe
permite produção rápida e eficiente para fins informativos, obedecendo às normas
gerais da língua. No entanto, confina a abrangência dos enunciados: a informação em
jornalismo é axiomática, geralmente não dedutiva, dispensa a argumentação e as
estratégias de convencimento. Reporta-se.
Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica2.html em 6 fev 2004

[Aula 3]

Suponhamos que um observador humano contempla a realidade. Coloca-se no vértice


de um campo de visão e; a partir dos estímulos luminosos que chegam à retina,
fabrica uma realidade virtual que corresponde à realidade real considerando a
sensibilidade a certas radiações (do vermelho ao azul) e não a outras; integra-a com
outras percepções, táteis, sonoras, olfativas e de equilíbrio; e compensa variações de
luz e foco, movimentos dos olhos e do corpo.

O input que a representação mental do mundo recebe corresponde a descontinuidades


no espaço e fluxo no tempo, definindo relações (no primeiro caso) e ações (no
segundo). Contrapostas à memória, essas descontinuidades permitem o
reconhecimento de padrões pelos quais se estabelecem identidades e semelhanças.
Redes neurais artificiais, construídas à semelhança das biológicas, têm sido capazes de
demonstrar essa competência, aprendendo a reconhecer formas com grande acuidade.

O trabalho mental dissocia objetos e relações, que irão corresponder a entidades e


predicações do discurso. Recorrendo à memória, organiza os objetos em categorias,
com base em semelhanças; distingue as relações entre as em presença (localizações)
e em seqüência (ações); atribui causas e antecipa conseqüências. Prevê e desenvolve
raciocínios probabilísticos.

A confusão das categorias de identidade e semelhança resulta essencial para a


construção da consciência humana da realidade. Admitamos que revejo uma pessoa
alguns meses ou anos depois de tê-la visto: concluo que é a mesma pessoa, embora
tenha tais e tais mudanças. Admitamos que vejo uma palmeira, e que a reconheço
com base na memória da visão de outra palmeira: não são iguais, mas concluo que
são da mesma espécie.

Os conceitos de identidade do ser e de agrupamento em espécies são possíveis


exatamente pelo abandono de algumas características julgadas acessórias e
consideração de outras, julgadas fundamentais. É por efeito da memória que me
considero idêntico ao que era nos diferentes estados por que passei na vida, embora
tenha mudado radicalmente, em forma, atitudes, comportamentos e valores;
reconheço a criança no homem, os traços do pai no filho e o Coliseu nas ruínas do
Coliseu.

É evidente que, do ponto de vista lógico, uma coisa só pode ser idêntica a si mesma e,
como todas as coisas existentes estão situadas no espaço e em fluxo no tempo, essa
identidade só subsiste no mesmo espaço e no mesmo tempo. Um afresco medieval no
teto de uma igreja é distinto da imagem do mesmo afresco medieval na tela do
computador ou na gravura exposta em um museu, por mais exata que seja a
reprodução. Não havendo como separar a percepção de um objeto das relações que o
cercam, nem de igualar a representação desse objeto por observadores inseridos em
circunstâncias diferentes, cada fruição do objeto, em espaço e tempo distintos, é uma
experiência única.

Dois produtos industriais de uma linha de montagem não são logicamente idênticos: se
fossem, submetidos às mesmas condições, se deteriorariam de modo exatamente igual
e no mesmo instante, o que não acontece. A própria idéia de semelhança recobre
critérios distintos: duas coisas podem ser semelhantes porque se parecem na forma
(como as pérolas), porque têm desempenho similar (como os computadores) ou
porque despertam os mesmos sentimentos (como as feras). A definição de categorias
depende da pragmática da relação: a denominação pinheiro, em português, recobre
vários tipos diferentes de árvores em russo; a cultura aimara reconhecia dezenas de
sementes distintas para o que chamamos de amendoim.

A teoria moderna mais consistente que aborda a questão da percepção é a dos


modelos. Segundo ela, a representação da realidade é decomposta e modelada numa
etapa pré-lingüística da percepção. Desenvolvida no contexto da Teoria da Cognição,
sua formulação deve-se, principalmente, a Johnson Phillip-Laird (PHILLIP-LAIRD,
1983). Segundo essa hipótese, as sentenças das línguas naturais remeteriam a
modelos mentais, que são análogos estruturais do mundo: dão conta de relações
estáticas e dinâmicas entre objetos, ações e estados; descartam aspectos não
relevantes da realidade para captar os relevantes e contêm aspectos proposicionais,
tais como relações sintáticas .

Os modelos mentais são incompletos, mais ou menos imprecisos, eventualmente


inconsistentes, porém funcionais. Não têm fronteiras definidas: superpõem-se e
confundem-se. São tomados como hipóteses mais ou menos confiáveis e não
suprimem necessariamente comportamentos relacionados a modelos concorrentes.

Modelos mentais refletem crenças da pessoa, adquiridas por observação, informação


ou inferência; devem ter parâmetros e estados correspondentes a parâmetros e
estados cuja negação a pessoa não possa observar ou inferir. Permitem também certo
nível de predição: quem está com o guarda-chuva aberto e tem que passar portal de
casa modela previamente o evento de modo a perceber que precisa fechar o guarda-
chuva e colocá-lo na vertical.

As pessoas fazem modelos mentais das situações espaço-temporais descritas nas


proposições que recebem; estabelecem, assim, relações que excedem as
possibilidades de inferência a partir das proposições recebidas; podem ter modelos
diferentes ou contraditórios para o mesmo estado de coisas, em diferentes instâncias
ou situações. Esquecem detalhes do sistema modelado, refazem e revisam seus
modelos com a experiência. A operação dinâmica dos modelos possibilita a redução de
riscos objetivos (antecipação de desastres) e a economia de esforços físicos na
apreensão do conhecimento (dispensa de experimentações), embora haja nisso custo
mental e limitações operacionais variáveis.

É a gestão do modelo que vai definir sua amplitude, isto é, o conjunto de coisas a que
ele se aplica. Modelos mentais representam objetos e relações, a que vão
corresponder, nas proposições, argumentos (nomes) e funções (verbos, adjetivos,
advérbios); estruturam-se conforme os estados de coisas do mundo mas, por terem
estrutura dimensional, podem ser manipulados mais livremente do que as
representações proposicionais, aprisionadas a regras sintáticas.

As estruturas dos modelos mentais eqüivalem às estruturas atribuídas pela percepção


ou concepção aos estados de coisas que os modelos representam. Cada elemento de
um modelo mental, incluindo suas relações estruturais, deve representar algo, nada
havendo nele sem significado ou função.
Uma pessoa que anda, à noite, no escuro, em sua casa, tem um modelo mental
(espacial) da casa. Uma pessoa que reza durante uma tempestade tem um modelo
mental (causal) que relaciona a reza e algum controle sobre a tempestade. Uma
pessoa que aperta repetidamente o botão + da calculadora tem um modelo mental de
procedimento recursivo ou confirmatório.

No âmbito da Teoria da Cognição, modelos mentais são concebidos como entidades


computáveis e finitas, construídas a partir de elementos (ou tokens) e relações, que
podem ser revisadas recursivamente, de modo a corresponder a número infinito de
possíveis estados de coisas. A possibilidade de representar diretamente
indeterminações é limitada pela operacionalidade do modelo.

Modelos mentais constituem conjuntos finitos de campos semânticos e de operadores,


entre esses os conceitos de tempo, espaço, possibilidade, permissibilidade, causa e
intenção. Campos semânticos correspondem, nas línguas, a palavras que
compartilham um conceito comum no núcleo de seus significados. Quanto a esses
operadores, tempo e espaço, por exemplo, podem ser entendidos como grandezas
vetoriais; a noção de causa relaciona-se com a implicação lógica (a causa b se
pertence a um conjunto de eventos A tal que A antecede b e, se ocorrer A, então
ocorre b); os demais (o possível, o permitido, o pretendido) pertencem ao universo da
Lógica Modal.

Ao atualizar um modelo, remeto a primitivos conceituais que devem ser inatos - por
exemplo, a noção de fluxo. Suponhamos que tenho o modelo mental de "avião" como
algo estrutural equivalente a "artefato + que voa". Se ouço dizerem "o avião que
passa", atualizo o modelo no tempo-espaço (seria diferente a dimensão espaço-
temporal se dissesse "a nave interplanetária"). Mas se me reporto ao "avião em que
viajo", atualizo o modelo para "eu-dentro-avião"; naturalmente, o modelo será
diferente se sei como é um avião por dentro ou não, se já viajei ou não em avião. No
entanto, se imagino "o avião que piloto", atualizo o modelo "eu-dentro-avião" para
"eu-comando-avião", com o grau de discernimento de que disponha sobre a tarefa da
pilotagem.

A Teoria distingue entre modelos físicos (estáticos, espaciais, temporais, cinemáticos,


dinâmicos e imagens, que são vistas ou projeções do objeto ou evento representado) e
modelos conceituais, construídos, em geral, a partir dos discursos. Dentre esses: (a) o
monádico, que representa afirmações sobre individualidades; (b) o relacional, que
agrega número finito de relações, possivelmente abstratas, entre entidades
individuais; (c) o metalingüístico, que contém tokens correspondentes a expressões
que relacionam um item do código lingüístico a outros (como chama-se, significa); e
(d) o conjunto teórico, que contem número finito de tokens que representam
qualidades abstratas dos conjuntos e um número finito de relações entre os elementos
desses conjuntos.

A tese dos modelos mentais sintetiza concepções freqüentes na segunda metade do


Século XX em diferentes campos do conhecimento. Ela é compatível, por exemplo,
com a proposta de Charles Fillmore (FILLMORE, 1971), para quem o significado está
ligado a cenas e perspectivas: sempre que o falante escolhe uma palavra em um
enunciado, automaticamente a insere numa cena na qual adquire interpretação. A
noção de perspectiva é tal que, quando se diz "quebrei o vaso", o que está sendo
posto em primeiro plano é o que foi quebrado, colocando-se em desprezível segundo
plano o onde, o quando e o como.
Os nomes

Ao distinguir entidades e relações, o pensamento humano nomeia as primeiros, isto é,


estabelece correspondências entre os traços do modelo que representa as entidades e
alguma cadeia de símbolos sonoros. Os nomes podem ser grupados em três
categorias:

1.Nomes próprios - do ponto de vista semântico, nome próprio ou individual é aquele


que designa de maneira única uma entidade em um universo de discurso considerado.
O universo de discurso corresponde a espaço e tempo delimitados, de modo que
Márcia é o nome próprio de uma pessoa numa sala de aula de poucos alunos, mas não
o é para o conjunto de uma escola, muito menos para o Registro Civil, onde será
necessário não apenas o nome completo mas outros índices (como a filiação e o CPF)
para compor uma designação única; não se pode afirmar que essa mesma designação
completa corresponda à entidade Márcia em algum tempo futuro ou passado ou num
outro planeta.

Nomes próprios (ou designações próprias) são unívocos no universo considerado. No


entanto, um mesmo objeto pode ter vários nomes próprios. Assim, o presidente da
república e Fernando Henrique Cardoso designam a mesma entidade, hoje, no Brasil;
Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões e o repórter de O Estado de São Paulo
enviado a Canudos para cobertura da campanha designam a mesma pessoa.

As equatividades (Fernando Henrique é o presidente, Euclides é o autor de Os Sertões


e o repórter enviado a Canudos) reduzem-se, do ponto de vista da extensão ou da
referência, isto é, do mundo real, a tautologias, já que uma coisa é igual a si mesma;
não conteriam, assim, informação. No entanto, do ponto de vista da intensão ou do
sentido, isto é, da linguagem, é capaz de encerrar informação, porque alguém pode
conhecer Fernando Henrique Cardoso e não saber que ele é Presidente da República,
ou conhecer Euclides da Cunha, saber que ele é o autor de Os Sertões mas não que foi
enviado como repórter de O Estado de São Paulo para a cobertura da campanha de
Canudos.

A questão da intensão tem que ver com o princípio de Leibnitz (Eadem sunt quorum
unum potest substitui alteri salva veritate), segundo o qual, se duas coisas são a
mesma, então uma pode substituir a outra sem afetar o valor de verdade. Isso não
ocorre em contextos proposicionais, ditos opacos. Num exemplo clássico,

( i) Electra tem diante dela um homem.

( ii) Esse homem é Orestes.

(iii) Electra sabe que Orestes é seu irmão, mas não sabe que o homem diante dela é
Orestes.

( iv) Não há, pois, do ponto de vista de Electra, como substituir "um homem", na
sentença ( i), por "Orestes".

A intensão é um princípio de determinação extensional. Da mesma forma que


diferentes intensões correspondem à mesma extensão, a intensão pode permanecer a
mesma, enquanto a extensão se modifica (é o caso de seres humanos da Terra em
épocas diferentes).
A existência de informação intensional nas relações equativas explica porque, nas
locuções, duas ou mais denominações da mesma coisa podem aparecer justapostas (1
a-b), sem que se constate redundância, que é, no entanto, evidente em (1 c):

1 a - O Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ...

Fernando Henrique Cardoso, Presidente da República, ...

1 b - Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, ...

O autor de Os Sertões, Euclides da Cunha, ...

1 c - *Márcia, Márcia, ...

*Márcia, Márcia de Freitas, ...

Do ponto de vista de uma gramática categórica, bem como da gramática de Montague,


nomes próprios são designados pela letra e.

Observe-se que a palavra "o/a", no contexto de (1 a-b) incorpora os sentidos de


unicidade (é único), singularidade (em oposição a os/as) e determinação (é este, não
outro). Mais ou menos com as mesmas interpretações aparece antes de designativos
genéricos que precedem nomes próprios (a Rua X, o Sr. Y, o General Z), mas não se
usa com esses sentidos antes do nome de registro de pessoa; passaria, aí, a indicar
intimidade ou notoriedade do personagem. Antes de nomes próprios geográficos, a
admissão de o/a é idiossincrática (venho de Pernambuco, venho da Paraíba).

2.Nomes genéricos. Os nomes genéricos dão início ao processo de abstração que


permite a linguagem e o discurso. Trata-se de uma predicação, em que se afirma que
uma entidade pertence a um conjunto ou categoria existente (a que se denomina).
Uma mesma entidade admite n denominações genéricas, conforme a categoria em que
seja incluída: uma mesma entidade pode ser "um muro", "uma divisa", "um obstáculo"
etc. Observe-se que a palavra "um", nesse contexto, incorpora os sentidos de numeral
(em oposição a dois, três ... uns), de indeterminador (um qualquer) e de partitivo (um
dentre aqueles da categoria ...).

Há relação necessária entre nome genérico e pertinência a conjunto ou categoria.


Quando digo que determinada entidade x "é uma árvore", estou dizendo que ela
"pertence ao conjunto das árvores". A remissão é a um modelo, isto é, a algo de que
disponho, na memória, de traços aplicáveis à entidade em causa. Como em todo
modelo, há um protótipo, ou imagem ideal, que incorpora muitos desses traços, e
possibilidades mais distantes do protótipo, em que alguns traços são afirmados e
outros não, criando uma zona difusa (fuzzy). A entidade, aí, pode ser, por exemplo,
árvore ou arbusto - caso em que poderia recorrer a outro conjunto mais abrangente -
por exemplo, planta, com o ônus de tornar mais abrangente (e portanto menos
específica) a denominação.

A nomeação genérica, de certa maneira, desintegra o objeto denominado, ao


considerá-lo por uma característica ou utilidade. Quando chamo determinada
mangueira de árvore, atento para sua configuração geral (que corresponde aos traços
do modelo de árvore - tronco, copa), mas desprezo a circunstância, por exemplo, de
que dá mangas; se a chamasse mais especificamente de mangueira, atentaria para
esse fato, mas não para o tipo de manga, nem para a localização da árvore. De toda
sorte, nenhuma denominação genérica define (especifica de maneira única) a entidade
que predica. Isto significa que a denominação genericamente não corresponde a um
elemento, mas uma variável.

Sendo variável do discurso, a designação genérica pode sempre ser especificada por
uma atribuição. Se tenho a designação genérica árvore, ao acrescentar o atributo
florida, restrinjo o sentido; se acrescento do meu jardim, restrinjo ainda mais e, por aí,
posso especificar a denominação de modo que ela termine se aplicando a uma só
entidade e se torne, então, nome próprio, o da única árvore florida do meu jardim. O
mecanismo, aí, é o de interseção de conjuntos conceituais, isto é, das coleções de
objetos a que se reportam funcionalmente os nomes: o conjunto das entidades que
são árvores, primeiro, porque árvore é o núcleo semântico da locução: depois, dentre
as árvores, as floridas e, dentre essas, a (as) que está (estão) no meu jardim.
Nomeado os conjuntos pelas iniciais maiúsculas:

x = AÇ FÇ J

Numa gramática categórica, a representação para nome genérico é t/e. Nesse tipo de
álgebra, o denominador indica com que elemento o nome genérico deve combinar-se e
o numerador o resultado da combinação: nomes genéricos devem combinar-se com
um nome próprio para formar uma predicação completa. Assim:

2.
e - Maria (entidade)
t/e - jornalista (nome genérico)
t - A Jornalista Maria; Maria, jornalista; ou Maria é jornalista. (predicação completa)

Sendo t/e uma fração, o produto algébrico de t/e por e é, obviamente, t .

Note-se que t/e não é mais específico do que e, porque este, por definição, é o nome
próprio da entidade nomeada; no entanto, permite acrescentar um predicado a e,
gerando a proposição predicativa t.

Numa representação lógica tradicional, a sentença Maria é jornalista ficaria assim:

3 - - $ x| M(x) Ù J(x), existe um x tal que x é Maria e x é jornalista.

A notação (3 b) contempla a possibilidade de não se saber previamente que x é Maria,


isto é, de se desconhecer o nome próprio de x. No entanto, iguala a condição única de
ser Maria no universo considerado à condição predicada (não necessariamente
exclusiva) de ser jornalista- ou seja, não distingue entre a definição, ou designação
única de x (que é ser Maria) e seu atributo (que é ser jornalista).

O verbo ser (é) afirma a relação entre e e t, transformando uma locução (a Jornalista
Maria, ou Maria, jornalista) em sentença, à qual agrega as noções de tempo, modo e
aspecto (Maria foi/era/ tem sido/pode ser... jornalista). A partir de Alfred Tarski
(TARSKI, 1974), considera-se que uma sentença tem valor de verdade (é verdadeira
ou falsa), enquanto uma locução pode designar uma entidade ou conjunto de
entidades, mas não tem valor de verdade, isto é, não pode ser dita verdadeira ou
falsa.

A notação lógica (seja da lógica categórica, em (2), seja na lógica convencional, em


que pressupõe a existência ($ ) de Maria, em (3)) não contempla a diferença
lingüística entre a forma canônica Maria é jornalista e a forma inversa jornalista é
Maria, nem a nuança de sentido que se obtém agregando à categoria a palavra "o/a"
(Maria é a jornalista, a jornalista é Maria).

No caso da inversão, a distinção decorre de estratégias de discurso, isto é, da


gramática do texto, não da gramática da sentença. Digo que Maria é a jornalista se o
foco discursivo recai sobre Maria e que a jornalista é Maria se o foco discursivo recai
sobre a professora.

A palavra "o/a", antes de um nome genérico, pode atuar como o operador lógico iota (i
), individualizando a entidade (como quando digo "o jornalista apurou a notícia",
referindo-me a determinado jornalista e a determinada notícia) ou particularizar a
categoria designada pelo nome genérico em relação a qualquer outra (como quando
digo "o jornalista é um questionador", querendo dizer que todo/qualquer jornalista é
questionador, ou que ser questionador é predicado da categoria/conjunto/espécie dos
jornalistas). Em determinados contextos, diferencia a relação equativa da relação
predicativa:

4 - a - João da Mata, o guia da expedição ao Alto Purus, ...


b - João da Mata, guia da expedição ao Alto Purus, ...
c - João da Mata, um guia da expedição ao Alto Purus, ...

Em (4 a), João da Mata é o único guia da expedição ao Alto Purus e, portanto, guia da
expedição ao Alto Purus é designação própria de João da Mata; em (4 b) e (4 c), não
se afirma essa unicidade e, portanto, guia da expedição ao Alto Purus é apenas um
nome genérico predicado a João da Mata.

Note-se que, embora os significados de "o/a" pareçam relevantes, a exigência dessas


formas (e a complicada regulagem de seu uso) é peculiar de algumas línguas (na
Gramática Gerativa se poderia dizer que é paramétrica dessas línguas), de vez que
muitas outros idiomas dispensam o artigo. É o caso do russo, do latim ou do hebraico.

III - Nomes relacionais - Entidades não são designadas apenas por nomes próprios ou
nomes genéricos, isto é, pelas categorias a que se afirma pertencerem. Podem ser
designados também a partir de relações que mantêm com outras entidades não
consideradas similares. Por exemplo, irmão (de Pedro), causador (da briga), vencedor
(da corrida). Nomes relacionais correspondem a predicações, designando a entidade a
partir de funções (ser irmão de x, causar y, vencer z).

Essas designações, que Luria chama de genitivas (LURIA, 1987) e os nomes genéricos
diferem
a. do ponto de vista semântico, porque nomes genéricos reportam-se a conjuntos de
entidades (árvores, carros, pessoas, mares, rios, aviões etc.), enquanto nomes
relacionais (irmão, marido, causador, matador, vítima etc.), não se reportam a
qualquer entidade salvo quando acompanhados da designação da entidade com que se
estabelece a relação (irmão, marido, matador de alguém; causador de algo; vítima de
alguém ou de algo);
b.do ponto de vista sintático, porque, quando um nome genérico é acompanhado de
um atributo, pode-se afirmar a relação predicativa (4 a-b-c); isso não ocorre em um
nome relacional, exatamente porque ele já expressa, em si, uma relação (5 a-b-c).
Pode-se, no entanto, predicar a relação à entidade (6 a-b-c):

4 - a - O carro de São Paulo > o carro é de São Paulo


b - A árvore frondosa > a árvore é frondosa
c - O avião da presidência > o avião é da presidência

5 - a - O irmão de Pedro > *o irmão é de Pedro


b - O causador da tragédia > *o causador é da tragédia
c - A vítima do chantagista > *a vítima é do chantagista

6 - a - X, irmão de Pedro, ... > X é irmão de Pedro


b - Y, causador da tragédia, ... > Y é causador da tragédia
c - Z, dono da casa, ... > Z é dono da casa

Nomes relacionais rotulam não apenas entidades que mantém relações com outras,
isto é, argumentos de funções, mas as próprias funções, constituindo, portanto,
elementos de uma lógica de segunda ordem, isto é, uma lógica que permite predicar
funções. Assim, consideremos funções e designações relacionais a elas referidas:

7 - a - A mulher bela > a beleza da mulher


b - Peter caça antílopes > o caçador de antílopes > a caçada de antílopes > a caça de
Peter
c - Mário comprou o carro > a compra do carro por Mário

Em (7 a), a beleza rotula a predicação "ser bela". Em (7 b), o caçador é o agente de


"caçar", isto é, Peter; a caça é o paciente da "caçar", isto é, os antílopes; e caçada a
função "caçar". Em (7 c), a compra rotula a função "comprar",

A nomeação relacional pode ter ou não correspondência morfológica derivacional.


Assim, se o assaltante matou o caseiro, podemos chamar o assaltante de matador ou
assassino, a morte de assassinato ou crime, que é uma designação mais abrangente, e
o caseiro de morto ou vítima; em todos esses casos teremos designações relacionais,
referidas à função descrita na sentença.

Fato de interesse sintático, no entanto, é que as nomeações relacionais transportam


para a locução de que participam a estrutura argumental originária. Tomemos, por
exemplo, um verbo de movimento, que preside ou admite o agrupamento de uma
série de papéis temáticos: paciente, origem, destino, sentido, direção etc.:

8 - a - Carlos viajou de Londres a Paris, semana passada, pelo túnel sob o Canal da
Mancha.
b - A viagem de Carlos, de Londres a Paris, semana passada, pelo túnel sob o Canal da
Mancha, foi uma aventura fascinante.

Não parece adequado considerar que todas relações e circunstâncias agrupadas em


torno da denominação relacional viagem sejam meros atributos; na verdade, elas
preservam sua natureza de argumentos funcionais, permitindo a coesão da sentença
em (8 b). Compare-se com a acumulação de atribuições em torno de uma nomeação
genérica, em (9) :

9 - A porta de ferro da casa de campo do dono da firma de construção civil foi


arrombada.

A dificuldade de entendimento de (9) é certamente maior do que a (8 b).


A possibilidade de se nomear relacionalmente não é universal: não existe, em
português - e, provavelmente, em língua alguma -, nomeação adequada para todas as
funções e papéis temáticos. No caso de Maria comeu um sanduíche, poderíamos
nomear sanduíche como "comida", a função comeu, com alguma impropriedade, como
"refeição", mas não teríamos como nomear relacionalmente Maria. Em João deu um
livro a Márcia, o livro poderia ser "presente"; Maria, em alguns contextos, "a
presenteada"; não teríamos, porém, como designar o benefactor, João.

Nomeação relacional e estrutura da notícia


A nomeação relacional tem extraordinária importância na gramática dos textos
expositivos, onde atua como elemento de coesão, capaz de desdobrar por vários
períodos uma única proposição. Consideremos uma notícia típica, com seu lead (10 a)
organizado no modelo clássico, em que se responde às perguntas quem? fez o quê? a
quem? quando? onde? por que? e como?

10 -
a - X matou Y, no tempo t, no lugar l, com a arma A, pelo motivo M.
b - O assassino ....
c - A vítima ...
d - O crime ...
e - A causa ...
f - A arma...

Na série (10 a-f), os parágrafos indicados por (10 b-f) estão integrados ao lead pelo
instrumento de coesão que são as nomeações relacionais. De forma menos
esquemática (variando a ordenação, intercalando outras informações etc.), este é o
molde básico de notícias produzidas industrialmente.

Acontece, aí, que é exatamente a denominação relacional que permite estruturar como
exposição, isto é, como ordenação lógica (no caso, situando o todo no primeiro
parágrafo lógico e as partes, uma a uma, nos parágrafos subsequentes) um evento
seqüencial. Não precisamos explicitar tudo que sabemos sobre o assassino para depois
falar de tudo que sabemos sobre o crime, tudo sobre a vítima etc.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica3.html em 06 fev 2004.

[Aula 4]

O mundo externo, percebido pelos órgãos dos sentidos, é reconstruído na mente como
realidade virtual. Essa representação se faz por modelos compostos de traços. Modelos
são, portanto, representações constituídas de conjuntos de traços que se especificam
ou particularizam a cada proposição.

As operações proposicionais realizadas com modelos/traços permitem reconhecer


relações:
a. espaço-temporais (em presença e em fluxo),
b. de inferência lógica (negação, conjunção, disjunção, implicação, equivalência),
c.de semelhança (causa/conseqüência, essência/aparência).

Operando (suprimindo, compondo, abstraindo) com modelos/traços analógicos,


podem-se antecipar eventos com alto grau de probabilidade e modelar objetos
inexistentes no mundo real, mas atribuídos a mundos possíveis: (a) ficcionais
(unicórnios, centauros); (b) de desejo (deuses, fadas) ou temor (demônios,
vampiros); (c) de conhecimento (seres extra-terrestres, buracos negros) etc. Pode-se
também inferir a existência de abstrações necessárias (números, equações) e modelar
metaforicamente entidades inefáveis (sensações e estados subjetivos, como angústia
ou ansiedade).

A cada modelo corresponde uma entidade ou conjunto de entidades virtuais ou


mentais; modelos mantém relações funcionais com esses entidades. Dessa maneira, o
universo dos modelos é o co-domínio ou universo dos valores do universo das
entidades mentais, tenham ou não existência no mundo real.

Toda predicação é uma função na qual se relacionam argumentos um-um ou vários-


um. Modelar um mundo real ou possível implica construir cenários onde entes desse
mundo desempenham papéis temáticos (agente, paciente, tema etc.) determinados
pelo funtor da predicação. Um mesmo episódio real ou possível pode ser modelado de
maneira distinta por diferentes funtores, que criam cenários próprios.

Criar um cenário implica não apenas distribuir papéis temáticos mas também priorizar
algum(ns) aspecto(s) em detrimento de outros. Assim, posso considerar a construção
da casa de (1 a-c) como investimento (1-a), dimencioná-la pelo espaço que ocupa(1-
b) ou sugerir seu valor como criação artística (1-c) em distintos cenários
proposicionais, onde ela ocupa o papel temático de tema e, por hipótese, designa o
mesmo objeto:

1-
a - A casa custou quinhentos mil dólares
b - A casa ocupa oitocentos metros quadrados.
c - A casa foi projetada por Niemeier.

Diante da morte de alguém conhecido, posso destacar o paciente, Mário, tornando a


causa irrelevante (2-a), co-relevante ou secundária (2-b) ou relevante (2-c) para o
discurso, conforme a estratégia assumida (parte-se de uma das máximas de Grice:
dizer apenas o que é relevante):

2-
a - O Mário morreu
b - O Mário morreu de aids
c - A aids matou o Mário

Os papéis temáticos realizam-se na língua como casos sintáticos determinados pelo


funtor da predicação. O funtor ou o predicado desenham o cenário da predicação, de
modo que não há homologia entre papéis temáticos e casos sintáticos. Por exemplo,
embora intuitivamente se atribua o papel de agente ao sujeito, verbos ditos
inacusativos ou ergativos (por exemplo, "Mário morreu", "Maria chegou") destinam o
lugar de sujeito ao paciente ou tema, não ao agente.

Nas línguas em geral, todas as relações que constituem dimensões de um modelo


devem ser expressas por sons linearmente organizados. Por um princípio de economia
lingüística, tanto relações necessárias (tempo, aspecto e modo das sentenças; lugar,
pertinência, propriedade, posse: agente/paciente, modo, instrumento,
causa/conseqüência, origem, destino, sentido, direção etc) quanto condições
semânticas (sexo expresso pelo gênero, singularidade e pluralidade etc.) podem ser
gramaticalizadas. O elenco de relações e condições selecionadas para gramaticalização
varia de língua para língua, embora haja um conjunto de relações e condições que
tende a ser gramaticalizada na maioria das línguas.

Os processos de gramaticalização obedecem com freqüência a uma hierarquia:


a. adição à unidade semântica mínima de afixos;
b. adição à locução de afixos;
c. ordenação das palavras.

Em um sistema de afixação, a ausência de afixo (ou afixo Æ ) costuma ser


significativa. Assim, na oposição singular/plural, em português, o s é marca de
pluralidade e, em decorrência, sua ausência é marca de singularidade.

Os afixos de palavras são freqüentemente sufixos, embora possam ocorrer prefixos (o


redobro dos verbos gregos, por exemplo) e encaixes internos. Os afixos de locuções
são freqüentemente prefixos, embora possam ocorrer formas sufixais, partículas
encaixadas ou livres.

A ordenação de palavras tende a torna-se significativa de relações de caso (portanto,


dos papéis temáticos, dentro do cenário desenhado pelo modelo proposicional) à
medida que se desprezam os recursos da afixação de palavras e locuções. No entanto,
a ordenação pode conter significados semânticos não relacionais ou sistêmicos da
língua (paradigmáticos, em regra, não sintagmáticos), como ocorre na colocação de
muitos adjetivos em português: eles são mais referenciais ou concretos após o nome,
mais fracos ou abstratos antes do nome (grande casa, casa grande, homem pobre,
pobre homem).

Diz-se em teoria da gramática que os predicados ou seus funtores selecionam os


papéis temáticos, atribuindo-lhes casos e sistemas de concordância que variam de
língua para língua. Pode-se afirmar que para qualquer papel temático existe um caso,
embora seja comum mais de um caso terem a mesma forma (por exemplo, as
palavras femininas gregas da primeira declinação com o tema em a precedido de e , i
ou r têm nominativo, vocativo e dativo com a terminação Æ ), o que gera
eventualmente ambigüidade fora do contexto. Isto é, no entanto, irrelevante porque o
que importa na língua é a ambigüidade contextualizada, isto é, as situações de
enunciação em que a ambigüidade não pode ser eliminada imediatamente por
inferência ou pressuposto.

A noção de predicação tem sido aplicada ora à sentença, onde o funtor seria em geral
o verbo (discute-se este papel no caso das sentenças copulares e de sentenças sem
verbos ou small clauses, como "João considera a prova difícil" ) , ora a locuções, onde
(a) adjetivos atuariam como predicados (3-a) e (b) preposições (3-b) ou, mesmo, em
português, o artigo indefinido (3-c) atuariam como funtores, estabelecendo relações
funcionais entre dois termos. Sob certas condições, a simples justaposição de um
termo genérico a um nome próprio já é capaz de indicar a predicação (3-d):

3-
a - casa confortável - C(c) = a casa [é] confortável
b - casa de pedra - F(c, p) = casa [é] feita de pedra
c - Armstrong, um astronauta - A(a) = Armstrong [é] [um dos da categoria de ou
pertence à categoria de] astronauta
d - O Marechal Rondon - i M(r ) = [determinado] Rondon [é] [um dos da categoria de
ou pertence à categoria de] Marechal
Tomemos o caso de uma sentença que admite vários papéis temáticos, como é o caso
daquelas nucleadas por verbos de movimento, que mapeam cenários de deslocamento
no espaço-tempo:

4 - João foi de Ponta Grossa a Foz do Iguaçu de automóvel em cinco horas.

Uma abordagem no nível da sentença atribuiria a João o papel temático de paciente do


deslocamento, a Ponta Grossa o papel de origem do deslocamento, a Foz do Iguaçu o
de destino do deslocamento, a de automóvel o de instrumento do deslocamento e a
cinco horas o de tempo decorrido no deslocamento.

Poderíamos admitir também que o verbo ir (foi) atribui ou admite esses papéis
temáticos, mas sua realização, em cada caso, decorreria de funtores particulares: de
para origem, para para destino, de para instrumento e em para tempo decorrido. O
uso de de com mais de uma significação funcional (ele tem mais de uma dezena) na
mesma sentença não implica ambigüidade uma vez que os argumentos internos
regidos em cada caso (Ponta Grossa e automóvel) não a admitem.

A relação funcional em de Ponta Grossa seria entre a função verbal rotulada, isto é, o
termo que designa a fórmula funcional (a ida), e um designativo de lugar (Ponta
Grossa); em para Foz do Iguaçu seria entre esse termo (ida) e um designativo de
lugar (Foz do Iguaçu); em de automóvel, seria entre o termo (ida) e um designativo
de instrumento ou meio do transporte (automóvel). Como a função verbal não está
efetivamente rotulada na sentença (onde a palavra ida não aparece), cada um dos
papéis temáticos referidos a ela teriam o caráter de elementos de uma lógica de
segundo grau (a lógica de primeiro grau não permite predicar funções como se fossem
argumentos), o que explica o entendimento tradicional desses complementos como
advérbios.

Pode-se admitir a continuidade da noção de caso, ainda sem os sufixos que


consagraram essa figura nas línguas clássicas, como o latim ou o grego, e se
preservam em línguas modernas, como o alemão ou o russo. Aí, cada caso seria
designado pela ausência/presença de alguma preposição em algum contexto.
Parodiando designações clássicas, teríamos algo como um "genitivo de origem" em de
Ponta Grossa, um "acusativo de movimento" em para Foz do Iguaçu e um
"instrumental" em de automóvel.

Para o verbo de ação matar, numa sentença indicativa afirmativa, em português, o


sujeito ou argumento externo (agente) é marcado pela desinência Æ , preposição Æ e
a posição pré-verbal; o objeto ou argumento interno (paciente) pela desinência Æ ,
preposição Æ e posição pós-verbal; o instrumento pela preposição com; o tempo por
uma palavra própria para significações semânticas freqüentes (hoje, ontem, amanhã
etc.) ou por locução ou sentença com a preposição a; o lugar por uma palavra própria
para significações semânticas freqüentes (aqui, lá, adiante etc.) ou por locução ou
sentença com a preposição em. Dessas predicações, sujeito (agente) e objeto
(paciente) são argumentos exigidos pelo verbo; o instrumento é argumento admitido;
tempo e lugar são argumentos exigidos em toda predicação existencial. As preposições
com, a e em seriam funtores dos papéis temáticos de instrumento, tempo e lugar, isto
é, prefixos de locução ou sentença capazes de torná-las argumentos internos de
predicações de instrumento, tempo e lugar.
As nuanças sintáticas admitidas na construção das sentenças e na organização das
sentenças em textos nas línguas naturais são de tal maneira complexas que sugere
mais do que automatismo, inteligência, no seu mecanismo de formulação. Uma dessas
hipóteses, explorada recentemente, admite que os predicados e os funtores poderiam
associar-se ao conceito de agentes inteligentes.

Agentes inteligentes são, em sentido amplo, sistemas computacionais, geralmente


baseados em software, dotados de:
- autonomia, isto é, que agem sem intervenção humana direta ou indireta, e têm
algum controle sobre suas ações e estados internos;
- habilidade social, isto é, que interagem com outros agentes por via de alguma
espécie de linguagem;
- reatividade, isto é, que têm alguma percepção do meio em que agem e respondem a
tempo a mudanças que ocorrem nele;
- pró-atividade, isto é, não apenas agem em resposta ao meio, mas são capazes de
tomar a iniciativa e exibir comportamento dirigido a um objetivo.

Em sentido mais estrito, agentes inteligentes são dispositivos projetados ou


implementados com conceitos aplicados em geral a seres humanos, tais como
conhecimento, crença, intenção, obrigação e, mesmo, emoção. Atribuem-se a agentes
inteligentes, em diferentes contextos, mobilidade (capacidade de deslocar-se em
algum contexto), racionalidade (ao perseguir um objetivo, não agem de modo a
impedir sua consecução) e benevolência (não tendo objetivos conflitantes, cada qual
sempre tenta fazer o que lhe é destinado).

A teoria dos agentes inteligentes está vinculada à visão intuitiva que atribui atos
objetivos a atitudes, tais como crenças, vontade, esperança, medo ou desejos. Essa
abordagem, dita intencional, admite uma primeira ordem, qual seja a das atitudes
(crenças, vontades etc.), uma segunda ordem, qual seja a das atitudes motivadas por
atitudes (crenças de crenças, temor de crenças etc.), uma terceira ordem e assim por
diante. A atribuição de tais intenções a agentes não humanos pode ser acusada de
antropomórfica; no entanto, vários autores contemporâneos a defendem, na medida
em que permite a melhor compreensão da operação de um dispositivo, seja ele uma
máquina ou item de um sistema simbólico, tal qual é o lingüístico.

A operação com atitudes proposicionais constrói contextos opacos e envolve, no


entanto, dois problemas lógicos. O primeiro é semântico: a impossibilidade de
substituição de termos sinônimos, salva veritate, isto é, da aplicação da Lei de
Leibnitiz: se Janine crê que Cronos é o pai de Zeus e Zeus é o outro nome de Júpiter,
não posso dizer que Janine crê ser Cronos o pai de Júpiter, uma vez que ela pode
ignorar que Zeus é Júpiter. A segunda situa-se no universo da lógica proposicional ou
de primeira ordem: não posso tomar como argumento da função crê a unidade Cronos
é o pai de Júpiter, já que esta não é um termo e sim uma fórmula.

A questão central é que, nos contextos opacos, a verdade dos componentes não
assegura a verdade do conjunto (eles não são thruth functional), de modo que o
formalismo lógico a ser adotado terá que ser outro. Qualquer formalismo alternativo
deve dar conta de um modelo semântico (já que a Lei de Leibnitz é descumprida) e de
uma linguagem de formulação, isto é, de uma sintaxe. As abordagens existentes são
as da lógica modal, que introduz operadores modais sem função de verdade - como
necessário ou certo (N) e provável (M) - e a da metalinguagem, isto é, uma linguagem
que inclui termos ou rótulos denotando fórmulas de outra linguagem, dita linguagem-
objeto.
Quanto ao problema semântico, a solução pode vir da semântica dos mundos
possíveis, onde as crenças, conhecimento ou objetos dos agentes podem ser situados
em mundos irreais, inexistentes, admitindo-se a relação de acessibilidade entre eles. A
tese da correspondência entre esses mundos torna essa semântica atraente como
ferramenta teórica; no entanto, ela suscita alguns problemas, particularmente o da
onisciência lógica: teríamos que admitir, para aplicá-la, que os agentes raciocinam de
maneira perfeita. Assim, numa abordagem epistêmica, um agente não poderia saber
de ou crer em algo que não fosse verdadeiro.

Uma abordagem bem mais simples é trabalhar com estruturas simbólicas


interpretadas: crenças ou conhecimentos são vistos como funções simbólicas
representadas numa estrutura de dados associada ao agente. Um agente acredita em f
se f está presente em sua estrutura de dados. Sob certas circunstâncias, isso funciona.

De toda sorte, atribuir ao predicador ou funtor lingüístico o papel de agente na


arquitetura da proposição (que representa o cenário desenhado pela mente para uma
dada situação) significa propor uma autonomia operacional da sintaxe, determinada
por estruturas incluídas na entrada léxica. É isso o que fazem as gramáticas gerativas,
em particular a de Chomsky, quando afirmam que o verbo seleciona determinados
papéis temáticos, admite ou impõe alçamentos etc. A natureza inteligente dos agentes
explicaria a complexidade idiossincrática das estruturas geradas, a dificuldade de sua
descrição genérica (por exemplo, em árvores) e a coerência sintática dos discursos em
situações de obnubilação mental, bem como a integração dos sistemas simbólicos
(essencialmente lingüísticos, relacionados ao código) e inferenciais (lógicos,
pressupostos ou inferidos do contexto) na produção e recepção de mensagens.

A natureza das locuções nominais

Conforme a natureza do núcleo, as locuções nominais podem ser grupadas em três


categorias:
A - locuções nucleadas por nomes próprios
B - locuções nucleadas por nomes genéricos
C - locuções geradas a partir de predicações

A - Locuções nucleadas por nomes próprios

Neste caso, os elementos que circundam o núcleo têm o papel de comentários, isto é,
podem ser suprimidos sem afetar o sentido expresso da proposição. Assim, em (5), se
Cândido Emiliano Rondon é um nome próprio, no universo da história brasileira
conhecida pela comunidade falante-ouvinte, então Marechal e índio baixinho, magro e
obstinado são comentários:

5 - O Marechal Cândido Emiliano Rondon, índio baixinho, magro e obstinado, foi o


único militar conhecido a comandar uma tropa cujo lema era morrer, se fosse preciso,
e jamais matar.

Se esses predicados são logicamente dispensáveis, no nível da sentença, por que são
mantidos no discurso, considerando a máxima de Grice segundo a qual não se deve
informar mais do que o necessário? A questão admite algumas considerações:
a.em primeiro lugar, em jornalismo e nos discursos em geral dirigidos a público
indeterminado, não se dispõe de informação confiável sobre o repertório de cada
receptor da mensagem. Assim, a presunção de que determinada expressão é um nome
próprio não pode ser universalmente assumida. Os elementos adicionais podem
funcionar como facilitadores para a localização do personagem na memória de longo
prazo, de modo que, sabendo que Cândido Emiliano Rondon foi militar e que tinha tal e
qual aspecto alguém possa mais facilmente lembrar-se da existência dele e da entrada
enciclopédica derivada, talvez, da menção em livros escolares. Ou, na hipótese de o
receptor não acessar essa informação na memória de longo prazo, ele poderá inferir
que um marechal que era índio comandou tal tropa e registrar na memória de curto
prazo (e talvez, em seguida, na de longo prazo) que Cãndido Emiliano Rondon era seu
nome;

b. uma segunda questão é de que as determinações acrescentadas como comentário e


irrelevantes na lógica da sentença podem adquirir relevância da lógica do enunciado
visto por inteiro, isto é, cumprir função discursiva ou desempenhar papel estilístico.

O nível de expressão das funções discursivas, compreende, por exemplo, pistas ou


possíveis pistas de uma história policial, colocadas ao longo do texto; funções de
reconhecimento, que se obtém inserindo informações que o leitor provavelmente será
capaz de identificar, ou com as quais se identificará (referências a lugares turísticos,
filmes, músicas, pontos de vista associados a épocas ou tipos humanos); funções de
real (número da sepultura no cemitério, placa do carro, circunstâncias que sugerem
testemunho do fato); sugestões metafóricas ou citações, em que se compara a história
(ou um elemento dela) com outra provavelmente conhecida; funções de
metalinguagem (raras em jornalismo, mas comuns na literatura, por exemplo, em
Machado de Assis), em que um narrador ou comentarista se intromete na história para
fazer observações sobre o texto, o estilo, ou convidar o leitor a tomar partido; funções
de continuidade, em que se sugere o prosseguimento da trama em outro espaço.

Em jornalismo, a figura estilística mais ambicionada é a antítese, particularmente a


aproximação, em um mesmo contexto, de duas caracterizações que se associam,
conotam ou são usualmente tomadas como signo de universos conceituais opostos. É o
caso de índio e marechal, de baixinho e comandante, da tropa e seu lema. É também o
caso de vedete (associado à boêmia) e Getúlio Vargas (associado à administração
pública), em 6:

6 - A vedete Virgína Lane admitiu recentemente que visitava os aposentos de Getúlio


Vargas no Palácio do Catete.

B - Locuções nucleadas por nomes genéricos

Locuções que têm como núcleo nomes genéricos compõem, com as predicações que as
circundam, uma relação lógica incluída na Teoria dos Conjuntos. Pode-se tratar de uma
interseção de conjuntos conceituais, como, por exemplo, em 7:

7 - Os políticos do PSDB que estiveram com Pérsio Arida dizem que ele não se
preocupa muito com as denúncias.

Políticos do PSDB é um subconjunto de políticos; políticos que estiveram com Pérsio


Arida é outro subconjunto de políticos; a locução completa (os políticos do PSDB que
estiveram com Pérsio Arida) é a interseção desses dois subconjuntos. Daí se conclui
que o output de uma locução designa sempre um conjunto menor do que o input. Uma
categoria de nomes próprios, às vezes chamadas de designações próprias resulta
exatamente dessa operação conceitual.No caso do exemplo 7, a locução poderia ser
grosseiramente formalizada, atribuindo-se ao artigo determinativo plural o papel
desempenhado pelo operador lógico l:

7 - b - l x|P(x) Ù PSDB(x) Ç V(x) , onde V = visitantes de Pérsio Arida

C - Locuções geradas a partir de predicações

Neste caso, colocam-se duas hipóteses. Ou se trata de (i) rótulo ou termo decorrente
de uma função proposicional que opera em um único mundo, real ou possível, ou (ii)
de rótulo ou termo que decorre de uma função de atitude proposicional, isto é, remete
à relação entre mundos (reais ou possíveis) dotados de acessibilidade um ao outro.

A hipótese (i) remete ao sistema de rotulagem que transforma em termos (a) uma
função proposicional ou (b) os argumentos da função, referidos ao papel que
desempenham na função. Por exemplo, em A matou B, os termos crime, assassino e
vítima:

Vimos o papel que esse tipo de designação desempenha na coesão da notícia em sua
forma clássica. Em jornalismo, há forte tendência de se produzirem nomes próprios ou
designações próprias a partir de relações funcionais; isto se deve a que esses nomes
devem ser freqüentemente referidos, em um mesmo texto ou em textos consecutivos,
já que os assuntos têm durabilidade no tempo; precisam ainda ser citados em
construções compactas, como os títulos. Assim, o assassinato do bancário Afrânio de
Lemos por um tenente da Aeronáutica, na Ladeira do Sacopã, em Ipanema, Rio de
Janeiro, na década de 50, ficou conhecido como o crime do Sacopã; o assassinato de
uma jovem chamada Cláudia por um jovem milionário e um cabeleireiro, na década de
70, passou a ser o caso Cláudia; a contratação de empréstimos irregulares e desvio de
verbas destinadas ao pagamento de precatórios por governadores (entre eles o de
Santa Catarina), nos anos 90, tornou-se o caso dos precatórios; e a mulher que matou
a filha do amante em um conjunto residencial do bairro da Penha, no Rio de Janeiro,
foi conhecida por muito tempo (pelo menos até seu julgamento) como fera da Penha;
um assassino de mulheres ficou conhecimento como bandido da luz vermelha, numa
citação de Carril Chessman, a quem a imprensa americana deu primeiro esse apelido;
outro criminoso em série, este de São Paulo é o maníaco do parque. Assassinos são
geralmente nomeados, e não seus crimes ou suas vítimas, porque é neles,
sobreviventes do caso, que se concentra a atenção da Polícia e da Justiça. Na tradição
jurídica americana, onde se busca designação neutra para os eventos criminais, eles
são usualmente nomeados como caso A x B, em que A é o acusador, B o réu e x se lê
versus.

Em uma locução nucleada por um termo ou rotulo que remete a função, os elementos
predicados ao núcleo têm com ele relações que derivam da função originária. Assim,
em (8 -a), do Fluminense frente ao América de Natal, por 2 a 0, no Maracanã, sábado
último, são argumentos da função (8-b), designada pelo rótulo derrota:

8 - a - A derrota do Fluminense frente ao América de Natal, por 2 a 0, no Maracanã,


sábado último, pôs um ponto final na esperança de recuperação do time este ano.

b - O Fluminense perdeu para o América de Na,tal por 2 a 0, no Maracanã, sábado


último.
Na hipótese (ii), há um núcleo aparente ou sintático que é nome próprio, genérico ou
relacional, porém ele está deslocado de sua condição referencial por uma notação
metalingüística que remete a um mundo possível.

Tomemos o exemplo 9:

9 - O suposto assassino foi preso no matagal perto da fazenda.

A palavra assassino não designa, aí, necessariamente, o agente de um assassinato; o


suposto assassino pode não ser o assassino. A locução, na verdade, remete a uma
sentença com verbo de atitude proposicional, isto é, que se refere ao que alguém,
determinado ou não, supõe. Ora, verbos desse tipo (acreditar, supor, desconfiar,
temer, esperar, confiar etc.) remetem a mundos possíveis (o mundo daquilo que
alguém, determinado ou não, acredita, supõe etc.), transformando seu argumento
interno (aquilo em que alguém, determinado ou não, acredita, supõe etc.) em
linguagem objeto de uma metalinguagem. Entende-se suposto assassino como aquele
que se supõe ser o assassino, não sendo, portanto, o elemento designado nenhum
subconjunto das entidades que, de fato, são assassinos.

Entre os predicados que têm essa característica ou poder metalingüístico, figuram


alguns que, em português, não têm correspondência verbal, como falso, que remete a
não é verdadeiro. Um falso brilhante não é um brilhante da categoria falso, não
designa, de fato, qualquer categoria de brilhantes, mas algo que, por definição, não é
um brilhante, embora, infere-se, pareça. Retomamos, neste caso, a questão lógica
suscitada pelos contextos opacos, um dos temas centrais de estudo atual na adaptação
da lógica como ferramenta teórica para dar conta das línguas naturais.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica4.html em 06 fev 2004.

[Aula 5]

O lead da notícia jornalística decorre da maneira usual de, na linguagem falada,


transmitirmos a informação de um fato singular supostamente interessante.
Admitamos que, no caminho de casa para o trabalho, vi um corpo estirado no asfalto,
ao lado de uma vela acesa. Direi aos colegas: "Vi um desastre com um morto na
Costeira" ou "um camarada morreu agora mesmo num desastre na Costeira".

De maneira alguma iniciarei o relato da ocorrência contando, em ordem cronológica,


como acontece nas narrativas, os incidentes do meu dia: "Acordei hoje de manhã,
tomei café, saí de casa antes da hora e, na Costeira, o trânsito estava engarrafado.
Demorou uns 15 minutos até que vi que tinha acontecido um desastre..." Nem farei a
análise lógica do meu achado: "Na Costeira havia um carro batido; como estava lá,
atrapalhando o trânsito, suponho que tenha ocorrido um desastre pouco antes. Perto,
um corpo caído no chão. Se havia uma vela acesa junto ao corpo, então ele deve ser
um cadáver e, pela localização, concluo que foi vítima do mesmo acidente..."

A notícia decorre do testemunho e é, como no caso acima, axiomática: não argumenta


nem instaura a mensagem em contexto particular, como acontece com as narrativas. A
diferença entre o lead formal clássico da notícia e o relato oral que faço da ocorrência
aos colegas (apresentando como fato ilações que me parecem justificadas) é que, nas
circunstâncias de publicação de um jornal, não tenho controle sobre a situação em que
a informação será consumida, isto é, não sei onde, nem exatamente quando, em que
ambiente e com que preocupações estará o consumidor.

Enquanto na comunicação oral direta disponho de feedback imediato - sei se o que


digo está interessando ou não, se estou sendo ou não compreendido - no caso da
notícia publicada em veículo de comunicação devo conformar-me com dados
estatísticos e probabilidades: em geral as pessoas lêem o jornal no dia em que ele é
editado, muitos lêem durante o café da manhã, as pessoas costumam escutar as
novidades no rádio do carro etc. Também não posso circunstanciar a informação com
entonações e expressão gestual: não faço voz mais grave para sublinhar o quanto me
incomodou o engarrafamento nem armo rosto compungido quando menciono o
cadáver.

Finalmente, circunstâncias que estão implícitas ou são dadas como irrelevantes no


relato individual - quando exatamente foi, onde exatamente foi, porque foi, para que
foi, como foi, com que instrumento foi - passam a ter cabimento no relato formalizado
em notícia.

Outra peculiaridade interessante da notícia publicada é que raramente se especifica


qual seu autor e, quando se especifica, essa identificação costuma ter pouco sentido
para quem consome a mensagem. Assim, as reações emocionais de quem escreve a
notícia passam a não interessar, ao contrário do que acontece quando um colega nos
conta uma novidade.

Em síntese: se abstrairmos a pessoa do informante, agregarmos ao relato singular de


um fato notável as informações que se inferem das circunstâncias do relato e
especificarmos algumas denominações difusas, do tipo "agora há pouco" ou "perto do
supermercado", teremos uma notícia jornalística do fato notável.

A situação em que não se tem controle das circunstâncias de fruição de uma


mensagem existe desde que se inventou a tecnologia da escrita - e, com ela, a
possibilidade de transmitir mensagens complexas de maneira transtemporal e
transespacial, isto é, para consumidores que não estão no hic et nunc - no aqui e
agora - da produção da mensagem.

Aristóteles teorizou sobre essa situação, criando a noção de proposição completa - isto
é, daquela que consiste do sujeito, do que lhe é atribuído ou predicado e do maior
número possível de circunstâncias entre as de tempo, lugar, modo, instrumento, causa
e conseqüência. É daí que vem a síntese de Laswell - quem ou que, o quê, onde, como
(e com que), por que e para que.

1 - O lead teórico como proposição completa.


Seja o lead concebido, na teoria, como proposição completa que transfere para as
circunstâncias do jornalismo a maneira usual de se transmitir oralmente, pessoa a
pessoa, a mensagem de um fato julgado de interesse. Teríamos assim o lead como
sentença longa, constituída de uma proposição nuclear (quem fez - ou foi, ou disse - o
quê) e o maior número disponível de circunstâncias do evento.

Em primeiro lugar, temos que considerar que proposições desse tipo, nas
circunstâncias do jornalismo, têm como núcleo verbos de ação ou processo objetivos,
isto é, que expressam transformação evidente, deslocamentos ou enunciações; verbos
dos campos semânticos de fazer, ir e dizer, isto é, fazer de alguma forma, ir (ou vir)
de alguma forma, dizer de alguma forma. No mundo das experiências sensíveis a que
o jornalismo se reporta, não há espaço para verbos de ação subjetiva como pensar ou
imaginar: não posso afirmar como fato o que suponho que alguém estava pensando ou
imaginando; devo limitar-me ao que constatei, ao que se tornou explícito para mim,
como observador e é, por hipótese, verificável. Verbos de ação subjetiva só têm valor
de verdade (se têm) na primeira pessoa, ou então em textos ficcionais, quando a ação
é atribuída a um personagem por quem o está criando. Na eventualidade de surgir um
verbo de ação subjetiva em um texto desses (o que é raro), deverá forçosamente ser
entendido como subordinado a um verbo de enunciação: se o presidente sabe,
acredita, duvida ou espera tal coisa, é que (ou alguém disse por ele - o porta-voz da
Presidência, talvez) disse que ele sabe, acredita, duvida ou espera

A proposição completa pode ser ordenada a partir de qualquer de seus termos. Pode
começar:
a. pelo sujeito, construindo-se com verbo de ação na voz ativa - "O assaltante A matou
B...";
b. pelo objeto direto, construindo-se com verbo de processo (inacusativo, ergativo) na
voz ativa ("B morreu após ser assaltado por A...") ou verbo de ação ação na voz
passiva - "B foi morto por A...";
c. pelo objeto indireto, usando-se um verbo de antonímia recíproca - "A embaixatriz da
Dinamarca recebeu do Presidente da República a medalha..." em lugar de "O
Presidente da República deu à Embaixatriz da Dinamarca a medalha ...";
d. por uma circunstância, tornada sintagma circunstancial externo - "Com uma chave
de fenda, o assaltante matou ...";
e. por uma circunstância transformada em sentença pelo emprego de um verbo (ou
locução verbal) relacional, nominalizando-se, eventualmente, a ação principal -

"Uma chave de fenda serviu para o assaltante matar...", "A esquina mais
movimentada da cidade foi cenário do assassinato...".

2 - Do lead teórico ao lead real


Para se compreender o percurso do lead teórico - a proposição completa de Aristóteles
- até os leads reais, devemos considerar a distinção entre níveis conceitual ou
profundo e superficial ou de realização de uma sentença. Em nível profundo, isto é,
como modelo ou entidade semântica básica, o lead é concebido como a proposição
completa aristotélica. A partir daí, vai sofrer transformações ditadas pelas
circunstâncias de uso (a pragmática) e pela estilística própria do discurso jornalístico:

As versões aderidas aos fatos no texto interpretativo, estas sim, são vulneráveis à
crítica. Da mesma forma a escolha de assuntos suscitados por um fato relevante.
Considerem a possibilidade de a clonagem de mamíferos gerar reportagens unilaterais
distintas: uma sobre os perigos da ciência e outra sobre as perspectivas abertas à
pecuária e à preservação da biodiversidade. É claro que essas reportagens apontam
para ideologias distintas e contraditórias.

Numa sociedade de classes, organizada segundo um pacto de dominação, a


interpretação dominante será inevitavelmente a da classe dominante - e isto vale
também, ou principalmente, para os veículos de comunicação. Esses mesmos
interesses influem, direta ou indiretamente, na seleção dos assuntos das pautas de
reportagem, tanto quanto na formulação dos projetos acadêmicos de pesquisa ou na
formulação de políticas públicas.

3 - Esquematização do lead
Consideremos um lead em nível profundo ou conceitual. Ele é, então, uma proposição
completa, constituída de sujeito, verbo, complementos do verbo, mais as
circunstâncias de tempo, lugar, modo, instrumento, causa e conseqüência.

Para se construir um modelo sintático de uma proposição desse tipo conforme os


moldes tradicionais, devemos suprimir uma série de exigências que, na verdade,
estarão necessariamente incluídas na entrada léxica dos verbos que articulam a
proposição. Por exemplo:

a. as circunstâncias de tempo e lugar são indispensáveis a toda proposição existencial,


salvo quando inferidas do contexto e, portanto, ocupam lugar à parte em relação a
circunstâncias relacionais atribuídas pelo discurso, tais como as de causa ou finalidade;

b. dependendo de sua natureza semântica, isto é, do modelo proposicional concebido


para a realidade que se descreve, os verbos vão exigir dupla ou tripla circunstâncias de
tempo/espaço. Verbos de movimento, por exemplo, admitem lugares de origem,
destino e situação (ir do hotel à praia, em Florianópolis); alguns verbos de enunciação,
movimento e permanência admitem o tempo decorrido, além do tempo de situação
(discursou por uma hora, ontem; percorreu por dois meses o litoral nordestino, em
1988);

c. verbos de enunciação são geralmente that-verbs, isto é, verbos que exigem como
argumento proposições em discurso direto ou indireto ("P", d; dkP) ou rótulos de
citação (declarou-se a favor do projeto).

Pode-se dizer que a descrição sintática tradicional só se aplica, a bem dizer, a um


número restrito de verbos de ação que situam o sujeito como agente e exigem dois ou
três argumentos, abstraindo-se da especificidade das circunstâncias e da diferença que
há entre circunstâncias da ação descrita e modulação (por exemplo, de intensidade) do
verbo. Uma estrutura assim empobrecida teria:

- o sujeito, argumento constituído de uma locução ou sintagma nominal, SN1;


- o verbo, uma locução ou sintagma verbal cujo núcleo é um verbo de ação (pode ser
uma palavra só, como matou, ou uma cadeia de palavras, como pode ter matado ou
acabou de matar), SV; na voz passiva, 1/SV;
- o complemento do verbo, outro argumento, locução ou sintagma nominal, SN2,
(acusativo) geralmente não precedido de preposição;
- no caso de existência de dois complementos do verbo, o terceiro argumento,
geralmente precedido de preposição, de SN3;
- as circunstâncias (onde, quando, como, com que, porque, para que), que podem
constituir-se de advérbio, locução adverbial ou oração precedida de relacionador (k),
serão representadas por SC1, SC2, SC3, ... SCn.

As fórmulas desses leads, ao consideramos a imposição de iniciar pela notação mais


importante, será:

1. A notação mais importante é o sujeito ou a ação verbal:


SN1 . [(SV + SN2 +kSN3) (SC1, SC2, SC3, ... SCn)] ou SN2 . [(1/SV + kSN1 + kSN3)
(SC1, SC2, SC3, ... SCn)]

2. A notação mais importante é o complemento direto do verbo:


SN2 . [(1/SV + kSN1 + kSN3) (SC1, SC2, SC3, ... SCn)]
3. A notação mais importante é o complemento indireto do verbo:
SN3 . [(SV-1 + SN2 + kSN1) (SC1, SC2, SC3, ... SCn)], em que SV-1 é antônimo
recíproco . de SV.

4. A notação mais importante é um sintagma circunstancial (SNi):


SCi . {SN1 [(SV + SN2 +kSN3) (SC1, SC2, SC3, ... SCn)]} ou SCi . {SN1 [(1/SV +
kSN2 + kSN3) (SC1, SC2, SC3, ... SCn)]}

Em nível de realização, a circunstância pode ser tornada oração principal, unindo-se à


ação nominalizada por um verbo relacional: "com um golpe de machado, Fulano matou
Sicrano" = "um machado serviu para Fulano matar Cicrano".

A relação causal pode ainda ser substituída por uma relação temporal ou consecutiva:
"por causa da queda do avião, 75 pessoas morreram" = "setenta e cinco pessoas
morreram quando o avião caiu"; por causa de uma semana de chuva, mil pessoas
perderam suas casas = "ao fim de uma semana de chuva, mil pessoas ficaram
desabrigadas". No caso, expressa-se a ambigüidade clássica "post hoc ergo propter
hoc" - "o que vem depois é causado por".

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica5.html em 06 fev 2004.

[Aula 6]

A partir de um conceito de inteligência vinculado a (a) consciência e (b) comunicação


por códigos digitais (lingüistico e matemático), uma série de habilidades humanas têm
sido descritas como automáticas. Entre elas, figuram várias adquiridas durante a vida,
como caminhar, digitar no computador, dirigir automóvel ou pilotar aviões. Sua
aprendizagem tem sido geralmente explicada através de mecanismos simples, como os
reflexos condicionados, e o fato de várias delas serem exclusivamente humanas
atribuído a características físicas, desde o formato das mãos até a postura ereta.

A convicção de que se tratava de automatismo conduziu a vários equívocos, como


supor que seria possível reproduzir a caminhada humana em objetos mecânicos, os
robôs, bastando torná-los suficientemente complexos. Na verdade, quem caminha não
apenas aciona coordenadamente centenas de músculos; reage de maneira diferente
em diferentes contextos: diante de um obstáculo, decide se o ultrapassa ou contorna;
desloca seu centro de gravidade quando o terreno apresenta declive lateral ou frontal;
acelera ou reduz o ritmo da marcha, amplia ou encolhe as passadas conforme
estimativas de tempo-espaço ou sobre a própria capacidade física etc..

Pelo critério do senso comum, a língua, como as outras habilidades, seria aprendida
por imitação, a partir dos comportamentos da comunidade falante. Não exigiria muita
inteligência, já que praticamente todos os humanos são capazes de utilizá-la para
comunicar mensagens, expressar sensações ou sentimentos. Na essência, poderia ser
descrita como um dicionário a que se aplica sistema limitado de regras, formando a
infinidade de enunciados que compõem a fala ou discurso. Descrever uma língua tem
sido sempre entendido como explicitar essas regras.

O aprendizado de uma língua teria esses dois aspectos: a memorização de palavras e a


internalização de regras, que se tornariam procedimentos automáticos. Estas seriam
inferidas, no todo ou em parte, de enunciados, permitindo a formulação de novos
enunciados. Bastaria pensar em um enunciado e - pronto - ele naturalmente se
transformaria em palavras de uma língua aprendida.

A língua seria o instrumento formal (funções e variáveis ou constantes) com que se


construiriam os enunciados (as proposições ordenadas); funcionaria como mero
automatismo instrumental - um código - através do qual se manifestaria o discurso.
Isto significa que, como objeto de estudo, a língua estaria em plano subalterno.

Considerava-se evidente que enunciados são representações da idéia - e, portanto,


ideológicos, refletindo condições históricas e papéis sociais. Daí se concluía que o
discurso muda conforme a ideologia e que essa mudança reflete ou retrata a curto
prazo modificações na sociedade.

Há vários pontos discutíveis nessa visão, em sua unilateralidade: culturas distintas são
capazes de comunicar-se; classes conflitantes de uma sociedade, ainda quando
conscientes desse conflito, permanecem utilizando a mesma língua; e é difícil imaginar
qual o conteúdo ideológico de mensagens como "prevê-se chuva para amanhã",
"causas externas - crimes, suicídios e acidentes - são a principal causa de morte de
jovens em São Paulo", "duzentas pessoas morreram no incêndio de um circo em
Bombaim" ou "os aeroportos de Curitiba e Confins operam esta manhã por
instrumentos".

Alguns autores não distinguem língua e discurso e consideram ambos ideológicos. Mas
surgem novos problemas: embora as ideologias possam mudar rapidamente - no
momento, por exemplo, em que o grupo dominante de uma sociedade, como
aconteceu no Brasil, abandona a bandeira do nacionalismo para aliar-se à globalização
- os acervos lingüísticos mudam lentamente. Tirando-se a mudança temporária de
formas de tratamento - de seigneur para citoignen - e algumas inovações no jargão
político - esquerda e direita (os socialistas de Babeuf sentavam-se à esquerda, no
Parlamento, e os nomes à direita), por exemplo - a Revolução Francesa pouco mudou
o francês. O mesmo aconteceu com a Revolução Russa e com o fim da União
Soviética: uma reforma ortográfica e, no mais, a substituição temporária de gospodin
(senhor) por tavarich (camarada). O número de sentidos que se alteram, em cada
caso, é limitado e as regras combinatórias não parecem sofrer alteração.

Vários desses pressupostos têm sido alterados recentemente. Pode-se supor que
alguns dentre eles, dados por óbvios, são apenas decorrência de antigas crenças. Por
exemplo, a oposição entre cultura e natureza lembra o instante mágico em que Deus
teria soprado a vida no primeiro homem; evidentemente, o ar da respiração parecia ao
autor desse conto a melhor imagem para a imaterialidade da alma

Parte-se, hoje, pelo contrário, da constatação de que o homem é parte da natureza e


que a consciência é algo sobreposto a mecanismos inteligentes que a precedem.
Admite-se que a fala - a capacidade de aprender a falar - é habilidade inata do
homem, parte de sua natureza:

1. A inteligência é hoje considerada propriedade dos sistemas físicos capazes de se


adaptar em algum limite a modificações do contexto, desenvolver estratégias
cooperativas, atuar com alguma finalidade etc. Não é privilégio humano nem depende
de consciência;
2. O aprendizado de algumas técnicas, como caminhar e falar, decorre de
configurações não apenas de sistemas de energia (ossos, músculos, disposição dos
tubos do aparelho respiratório e das cordas vocais), mas também de sistemas de
controle cerebrais e (no caso do homem, pelo menos) mentais, sendo o cérebro
entendido como uma espécie de hardware biológico e a mente como um software
extraordinariamente sofisticado;

3. Outras habilidades, como dirigir automóvel ou pilotar aviões, são aproveitamentos


de aptidões. Uma vez aprendidas, elas se desenvolvem em processos inteligentes de
que só eventualmente (em regra, diante de situações críticas) o usuário humano toma
consciência plena.

4. A gerência da habilidade adquirida é transferida a um sistema agente que dispõe de


autonomia relativa.

Em decorrência, a habilidade lingüística é entendida como competência de gerir um


acervo de itens léxicos e padrões combinatórios, conforme o que se sabe, avalia ou
presume sobre as circunstâncias do enunciado. É a partir daí que se traçam estratégias
discursivas - por exemplo, o grau de detalhe da informação, a necessidade de maior
discrição de situações, a formalidade do tratamento, o registro de linguagem (mais
coloquial, mais formal) etc. Nesse processo embutem-se valores ideológicos:
subjetivação de hierarquias de poder, desejo de manter ou construir a própria imagem
etc.

Ao lado do discurso oral comunitário - tão valorizado em Lingüística - outros níveis de


habilidade discursiva têm crescente importância social. A língua é utilizada
diferentemente por grupos profissionais e segmentos sociais para a informação
transtemporal (documentos duráveis) e transespacial (como no rádio); para receptores
conhecidos ou não; para o convencimento (a retórica) e a comunicação entre
indivíduos ou coletividades reconhecidamente diferentes ou de interesses opostos. Isso
implica alterações de conteúdo e forma, planejamento e estratégias peculiares.

O que chamamos de regras de uma língua são dispositivos complexos que se


organizam em várias categorias sobre princípios universais - por exemplo, (1) o que
estipula que toda realidade é descrita como predicação de objetos (a maçã [caiu]) ou
predicação de predicações (a queda da maçã [foi notada por Newton]) ou (2) o que
classifica entidades e relações em categorias conforme a semelhança (homens,
árvores, causas) ou utilidade (alimentos, roupas, veículos).

Desses dispositivos, alguns são exigenciais (a desobediência torna o enunciado, o mais


das vezes, incompreensível, ou leva a compreensão diferente); outros resultam em
enunciados estranhos e, freqüentemente, desqualificam a comunicação; um terceiro
grupo é facultativo, constituído de dispositivos empregados apenas quando necessário.
Em todos os casos, o critério parece a busca de maior eficácia com menor esforço.

Entre os enunciados que causam estranheza - além dos regionalismos, pidgnins, falas
crioulas, caipiras e desvios desqualificadores - figuram os discursos pernósticos.
Tomemos dois deles - fi-lo porque qui-lo e estou ministro - o primeiro atribuído ao
gramático e ex-presidente Jânio Quadros, o segundo a um literato que foi Ministro da
Educação, Eduardo Portela.

Jânio deu a resposta quando lhe perguntaram porque renunciou em 1961 - e ele,
obviamente, não queria dar maiores explicações. Fi-lo porque qui-lo é estranho não
apenas por causa do múltiplo sentido de qui-lo na língua falada (também medida de
peso, redução de quilograma, e conteúdo gástrico) - mas principalmente pelo sistema
complicado de inferências exigido para sua compreensão. Jânio Quadros não se referia
a algum produto feito por ele (um bolo, por exemplo), mas ao próprio ato de fazer.
Diz-se, nesses casos, que o verbo é performativo - reporta-se a uma performance.

Fi-lo se entenderia como "fiz assim", "fiz desse jeito" ou "fiz o que fiz". Para que a
proposição tenha sentido, é necessário atribuir ao segundo verbo uma atitude
proposicional, modulando um verbo de ação (quis fazer). Mas esse entendimento ("fiz
o que fiz porque quis fazer o que fiz") só pode ser alcançado, com alto custo de
processamento, depois de se porem de lado vários padrões mais prováveis, como o de
que dois pronomes oblíquos numa seqüência de verbos devem ter o mesmo referente
(como em ame-o ou deixe-o, eu o acompanhei porque o amava etc.); não é o caso,
porque o segundo lo refere-se á totalidade da primeira parte da conjunção (fi-lo).

Quanto à frase de Portela - na íntegra, sou professor, estou ministro, afetando


desinteresse pelo cargo - a estranheza decorre do uso equivocado do verbo estar.
Este, em oposição a ser, indica um aspecto - ser por algum tempo - em oposições do
tipo ser/estar bonito, rico, maluco, milionário etc. - as chamadas condições inerentes
ou em individual level. Antes de adjetivos que expressam condição externa, estado
(profissões, cargos) - o chamado stage level -, estar não é usualmente aplicável: ser
jornalista, professor, presidente, ministro etc. mas não estar em nenhuma dessas
categorias. Confundir nível inerente com nível de estado - individual level com stage
level - teria sido um erro se Portela não fosse professor (embora não costumasse dar
aulas, pelo menos na época em que escapei de ser seu aluno); como era, classifique-
se a coisa como travessura lingüística.

Os dois exemplos são valiosos porque mostram o nível de especificidade e complicação


a que podem chegar as regras de uma língua, quando se reportam a enunciados reais.
Terá sentido aprendê-las para falar (e escrever) bem, ou serão as regras de uma
língua tão numerosas, maleáveis e dinâmicas quanto o acervo de itens léxicos? Em
outras palavras: se falar é um procedimento inteligente, pode-se explicitar os
mecanismos de operação da inteligência em um sistema finito, simples e praticável de
regras? Posso, por exemplo, reduzir a regras o processo de decisão que me leva, em
cada instante, quando caminho, a apressar mais ou menos o passo, circundar, saltar
ou escalar um obstáculo, distrair-me ou concentrar-me num trajeto - ou será isso
questão sem sentido, fora de um exercício crítico, necessariamente posterior ou
paralelo?

A conclusão a que se chega é que , a partir do que chamamos de regras de uma


língua, a inteligência formula estratégias que poderão ser também transformadas em
número enorme de regras ad hoc amparadas por inferências (se...então) - de
pouquíssima utilidade prática.

A questão dos dispositivos lingüísticos facultativos corrobora essa impressão.


Tomemos duas sentenças:

Dei o que ganhei

Quando cheguei, o ônibus tinha sido assaltado

Na primeira, refiro-me a dois tempos - o da doação (o passado) e o do recebimento (o


passado do passado). Por que, então, não uso o mais-que-perfeito, que o tempo
passado do passado, e digo "dei o que tinha ganho" ou "dei o que ganhara"? A razão é
que, se pude dar é porque ganhei antes. Não há necessidade de recorrer a uma
construção mais custosa porque mais rara (o mais-que-perfeito), quando disponho de
uma mais comum (o perfeito simples).

No entanto, em quando cheguei, o ônibus tinha sido assaltado, não tenho opção. Como
o evento chegar é instantâneo, e as duas sentenças estão unidas pela marca temporal
quando, se disser que o ônibus foi assaltado, estarei dizendo que os dois eventos - a
chegada e o assalto - foram simultâneos. O mais-que-perfeito é aí obrigatório, e sou
obrigado a produzir uma das duas variantes, com esse tempo analítico (mais coloquial)
ou sintético (atualmente caindo em desuso, no Brasil): quando cheguei, o ônibus tinha
sido assaltado ou quando cheguei, o ônibus fora assaltado.

A inteligência consiste não em conhecer as regras - tê-las na consciência, poder citá-


las -, mas em aplicá-las ou não, combiná-las e/ou inferir novas regras a partir de
situações concretas, com o objetivo de atingir uma finalidade comunicacional,
expressiva ou estética. Regras que, afinal, estão internalizadas ainda quando não
conscientes - como no caso da distinção individual level/stage level, de que poucos
ouviram falar mas que todos aplicam.

1. Conceitos e práticas do jornalismo


As estratégias discursivas desenvolvidas na prática do jornalismo podem ser
relacionadas com os conceitos atribuídos ao ofício, desde seu surgimento, no Século
XVII.

Esses conceitos refletem concepções sobre (a) a finalidade do jornalismo, (b) seu
papel social e (c) o publico alvo.

Publicismo - Numa primeira etapa, o jornalismo foi concebido basicamente como


instrumento para a propagação de idéias, na luta desfechada pela burguesia contra o
domínio aristocrático na Europa. Os primeiros jornais surgiram em cidades comerciais,
na Alemanha, na Holanda e mesmo na França, em Marselha. Embora desde o início se
evidenciasse o interesse pela informação em seu estado puro - chegadas e partidas de
navios, eventos políticos com repercussões econômicas etc. - e, tão logo o número de
leitores se ampliou, também pelas histórias emocionantes e sentimentais, a base do
jornal, seu núcleo e razão de prestígio dos proprietários eram os artigos de fundo.

Escritos à maneira dos discursos, com linguagem retórica, esses textos tinham
tratamento doutrinário. Ao lado do modelo clássico, aristotélico, em que se teoriza
primeiro para exemplificar depois, com os fatos, o empirismo faria nascer outra
estrutura, partindo dos fatos para a interpretação - no caso da imprensa burguesa,
inevitavelmente atribuindo todos os problemas aos controles estatais da produção, do
comércio e do fluxo de idéias.

Surgiram variações estilísticas. Conforme a moda, os textos deslocavam-se ora para o


conto alegórico (muito comum em períodos de tensão política ou para abordar temas
sensíveis, como a indolência, corrupção e alienação atribuídas aos aristocratas), ora
para um humor mais popular e panfletário, que lembra, às vezes, Rabelais. Mas o
estilo mais freqüente era o parlamentar e jurídico, dirigido a formadores de opinião em
sociedades em que a leitura era uma prática ainda não difundida.

Não havia noção de notícia, nem distinção entre segmentos de opinião e de


informação. O formato era pequeno, como o dos livros. Os jornais eram produzidos
artesanalmente, com pequeno investimento em tipos móveis e prensas e rápida
circulação do capital aplicado em papel e tinta. A facilidade de produzir jornais - similar
ao que se anuncia agora, com o advento das estações gráficas informatizadas -
estimulou de certa maneira as legislações de censura, que continuaram, na prática, a
ser aplicadas ainda quando a burguesia, que tanto pregava a liberdade de imprensa,
assumia o poder: os jornais sempre podiam servir de instrumento à calúnia, à bruxaria
ou à pornografia.

O jornalismo educador e o jornalismo sensacionalista - Os conceitos, aparentemente


conflitantes, de jornalismo educador e jornalismo sensacionalista são, na verdade,
duas faces da adaptação a uma mesma contingência histórica que se apresentou, para
o jornalismo europeu, na primeira metade do século passado, e atingiu, nos Estados
Unidos do fim do Século XIX, a maturidade e o exagero.

Com a liquidação do feudalismo e a generalização das grandes instalações industriais,


as cidades européias cresceram rapidamente e ampliou-se enormemente a instrução
pública, capaz de preparar camponeses para o trabalho das fábricas. Com isso,
aumentou o número de leitores - pessoas que traziam de suas regiões de origem
valores, atitudes e comportamentos que precisavam ser modificados.

Para atingir esse público, a produção de jornais tornou-se empreendimento econômico


de porte, utilizando grandes máquinas, como as impressoras inventadas na segunda
década do Século XIX ou a linotipo - que compunha linhas de chumbo-antimônio à
maneira de carimbos - surgida 80 anos depois. Os artigos de fundo - previsíveis, em
geral, já que a burguesia estava firmemente ancorada no poder - perderam
rapidamente o atrativo.

A partir da experiência dos romances sentimentais do Século XVIII e dos contos


folclóricos que se coletaram intensamente por toda a Europa - iriam dar origem a
antologias duráveis, como os contos de Grimm, de Andersen etc. - passaram-se a
valorizar histórias de amor e renúncia, sofrimento e vitória, que reportavam
simbolicamente à difícil transição de um pacto social (o da servidão) para outro (o do
proletariado).

Com a voga do romance histórico, houve um retorno à Idade Média, onde a burguesia
situava seu passado mitológico: na luta contra os impostos, na afirmação das culturas
locais, na valorização do trabalho artesanal e da "vida simples" do campo. Restos de
tradição medieval, a resistência dos místicos ao avanço da ciência e os costumes rurais
combinaram-se para ressaltar episódios fantásticos, milagrosos, degenerações e
mostruosidades.

Ao lado disso, o escapismo da aventura e o fascínio das histórias de países fantásticos:


afinal, a Europa se expandira por todo o globo e o comércio impunha contatos culturais
surpreendentes. Os feitos militares das conquistas eram sempre exaltados e
constituíam, para o homem comum - ao menos para os jovens -, uma possibilidade
concreta de fugir das condições difíceis de vida sob a nova ordem econômica para os
riscos e a glória da vida em combate, compensada, mais tarde, pela estabilidade das
aposentadorias militares.

Em termos de gêneros, essas formas de atrativo de leitura desenvolveram-se pelos


caminhos da produção de (a) notícias emocionantes e (b) literatura industrial. As duas
coisas praticamente se misturavam: realidade distorcida e verdadeiras rapsódias de
momentos excitantes alinhados em novelas ficcionais que ocupavam o rodapé das
páginas. Estes os componentes do sensacionalismo.

Mas o objetivo institucional era outro: adaptar as pessoas às novas formas de viver, ao
salário e ao consumo. A maior parte dos jornais passou a desempenhar esse papel
didático: em lugar do articulista de fundo, chegaram os críticos - de teatro, de
literatura, de moda, de vida em sociedade etc. Raramente analíticos, com muito mais
certezas do que dúvidas, cuidavam de ensinar as pessoas o que era adequado assistir,
ler, vestir, aonde ir, como se comportar e que idéias ter. O mesmo objetivo
transbordava para as páginas de noticiário, onde proliferavam histórias edificantes (de
ascensão individual, de iniciativas de caridade, de feitos generosos) e as promessas
redentoras (de educação pública, de exaltação das novidades técnicas - o trem, o
telégrafo, o telefone).

Um jornalismo - o sensacionalista - parece opor-se ao outro - e educador - mas ambos


se igualam no objetivo central de integrar o indivíduo na sociedade e impedi-lo de
contestar seus fundamentos. O conflito entre os dois decorre principalmente dos
valores conservadores - a proibição do erotismo e as polícias da linguagem, por
exemplo - do que de questões de fundo, já que, para o pensamento político
dominante, a informação destinada às grandes platéias deve ter exatamente esse
duplo papel: de distraí-las e acomodá-las.

A crítica cultural de tradição marxista - como é o caso da Escola de Frankfurt (de


Adorno e Benjamim a Marcuse e Harbermas) - reporta-se a esse momento, da mesma
forma que as estratégias funcionalistas buscam racionalizá-lo, estabelecendo seus
mecanismos funcionais. Em ambos os casos, discute-se a ideologia como instrumento
de domínio e colocam-se os sistemas de comunicação pública como meios lineares de
difusão ideológica.

Não é bem assim. Foi exatamente no contexto do jornalismo educador-sensacionalista


que se evidenciou um novo papel social para a profissão - o de portador de uma forma
de conhecimento indispensável às sociedades modernas. E foi a descoberta desse
papel que tornou a notícia e a reportagem - não a crítica e as novelas de rodapé - o
fundamental no jornalismo moderno.

Esse processo desenvolveu-se principalmente nos Estados Unidos. Desde o inicio, o


país tinha tradição de imprensa local e comunitária; quando da guerra civil, na década
de 1860, tinha já importância econômica bastante para gerar a mais ampla cobertura
jornalística de um conflito não-europeu, até aquela época. Depois, a intensa migração
e a necessidade de incorporar a massa de ex-combatentes, ex-escravos e migrantes
internos produziu um surto intenso de informação educativa e sensacionalista - até o
limite do anedótico. Um dos magnatas da mídia, Hearst, tornou-se figura-símbolo
desse tempo e chegou a ser acusado de promover a guerra com a Espanha pela posse
de Cuba com o simples propósito de garantir exclusividade das matérias para seus
repórteres. Foi nesse contexto, e sob a forma de reação ética, que a indústria
jornalística voltou-se para a formalização das ciências positivas em busca de maior
credibilidade e prestígio.

O jornalismo testemunho e tradutor de linguagens - O terceiro conceito de jornalismo


firma-se na sociedade industrial madura. A questão central é que, neste tipo de
sociedade, a informação torna-se insumo necessário à orientação, à prosperidade, à
manutenção de papéis sociais e até mesmo à sobrevivência das pessoas. O
desenvolvimento dos transportes e dos meios de comunicação combina-se com a
rapidez dos processos políticos, econômicos e tecnológicos para inviabilizar a
tradicional transmissão de conhecimentos pelo sistema escolar. Qualquer profissional
depende, para orientar-se, de dados que fluem ao longo de seu tempo de vida, não
apenas na sua especialidade, mas nas demais; ao mesmo tempo, as circunstâncias
políticas e econômicas mudam rapidamente e é impossível acompanhá-las sem o apoio
de um fluxo contínuo de relatos e testemunhos.

O papel do jornalista, neste contexto, desdobra-se em duas vertentes. Ele é o:


1. agente que transmite a seus leitores, ouvintes e espectadores, uma visão
supostamente menos comprometida dos fatos públicos da sociedade - e das demais
sociedades, já que se tornam crescentemente dependentes; e
2. tradutor dos discursos políticos, culturais e técnicos que logo se transformam em
diretrizes, produtos e métodos de uso universal.

É com o apoio no jornalismo que foi possível transformar em assunto presente e


próximo eventos importantes que ocorreram há algum tempo ou em países distantes;
tornar evidentes a todos fenômenos como a crescente centralização do poder e das
decisões em um mundo capitalista globalizado; popularizar a conquista do espaço, a
cirurgia dos transplantes e os mistérios da física do átomo; difundir não apenas o
automóvel, mas a cultura do automóvel, e transformar a informática, em poucas
décadas, de um mistério custoso e seletivo em ferramenta multiuso. É foi possível
também acelerar e ampliar a discussão dos problemas trazidos por essas mudanças e
que mal conseguem, ainda hoje, ser abordados nos manuais do ensino básico.

O jornalismo é, assim, não apenas instrumento do poder, mas também o que o torna
visível e discutível. E é também um prestador de serviços que nos permite acompanhar
o fluxo dos negócios, as políticas de salários, as correntes culturais, o estado das
estradas, a previsão do tempo, o discurso dos cientistas, dos juristas, dos religiosos,
dos agnósticos, dos que pensam viver no futuro e dos que pretendem a volta do
passado.

Sabe-se hoje - desde que isso foi comprovado pelas pesquisas funcionalistas das
décadas de 1930 e 1940 - que a opinião pública forma-se muito mais pela troca
interpessoal de idéias do que pela influência direta dos meios de comunicação social.
Restou a acusação de que os meios de comunicação estabelecem a agenda de temas
abordados por esses grupos - as famílias, os círculos de amigos, os segmentos
profissionais. No entanto, tem sido sempre, privilégio do poder determinar os assuntos
da ordem-do-dia: isto muito antes de existirem meios de comunicação com a
amplitude dos de hoje. Atribuir o agenda setting aos meios de comunicação é uma
forma de inocentar as estruturas de poder que incluem os meios de comunicação, mas
também a máquina do Estado, a escola e a gestão das empresas.

1. Linguagens do jornalismo
O período do jornalismo educador/ sensacionalista deixou, como grande legado para a
técnica jornalística, a pesquisa sobre as formas de se tornar o texto acessível às
pessoas comuns. A modalidade escrita da língua tinha tradição elitista, porque a
alfabetização era limitada a círculos jurídicos, clericais e acadêmicos. Foi preciso um
longo caminho para se buscar a relação necessária entre o texto e a fala corrente,
considerando dois fatores contraditórios: de um lado, a alta comunicabilidade do texto
coloquial; do outro, seu caráter restritivo, familiar, tribal ou comunitário.

A unidade da língua literária, ostentada no período do classicismo, foi-se esgarçando à


medida que o conhecimento se especializava, gerando denominações particulares para
técnicas, processos e visões globais da cultura e da natureza. O termo comum à língua
nacional, abrangente em território vasto, terminou sendo uma espécie de compromisso
entre o idioma culto - seu dicionário e as formas gramaticais aceitas - e aquilo que é
possível no discurso coloquial. Passaram a coexistir as línguas coloquiais, a língua
nacional corrente (que se aprende na escola) e as linguagens particulares das
disciplinas técnicas, constituídas, em grande parte, por denominações que tendem a
internacionalizar-se, quer sob a forma de palavras similares nos diferentes idiomas
quer por um sistema rígido de correspondências. Efetuar a transcrição desses
enunciados é tarefa do jornalista; em decorrência, passa a ser a língua que ele usa -
não a dos clássicos ou literatos - o padrão da língua nacional.

Quanto ao testemunho, ele passa, é claro, pela subjetividade do jornalista. Delegado


de seus leitores, ouvintes ou espectadores, cabe-lhe informar sobre o que se passa.
Seu critério de verdade é a adequação do enunciado aos fatos - o que significa
exigência de objetividade. No entanto, o relato de fatos e versões estão de tal maneira
entrelaçados e envolvem questões éticas tão sensíveis que em torno disso se travam
as mais intensas discussões. É aí que se localiza a questão da ética profissional.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica6.html em 06 fev 2004.

[Aula 7]

As relações lingüísticas elementares consistem em adição e predicação de nomes,


locuções e de sentenças.

A - Consideramos locução toda composição designativa de uma entidade em que, a um


termo argumento se aplicam predicados: adjetivos, outros nomes predicados,
quantificadores, determinativos, nomes precedidos de preposições ou sentenças
precedidas de conjunções e/ou preposições.

Argumento:
Mário da Silva
Predicados:
O diretor Mário da Silva = Mário da Silva é o diretor
O diretor Mário da Silva, que assinou a demissão = Mário da Silva é o diretor e assinou
a demissão.
O felizardo diretor Mário da Silva = Mário da Silva é diretor e é o felizardo
O diretor Mário da Silva, de Botucatu = Mário da Silva é o diretor e é de Botucatu.
O único diretor presente, Mário da Silva, = Mário da Silva é o único diretor presente.

No caso de nomes precedidos de preposições ou sentenças precedidas de conjunções


e/ou preposições, as preposições e, eventualmente, as conjunções que embutem
preposições atuam como funtores da relação, isto é, especificam a natureza da
relação. A mesma preposição pode representar relações de diferentes naturezas,
mantendo, portanto, ambigüidade que (a) pode ser irrelevante para o discurso; (b)
pode ser conveniente para o discurso; (c) pode ser especificada por uma construção
verbalizada.

Argumento:
Casa
Predicado:
A casa de Pedro = a casa pertencente a Pedro, a casa onde Pedro mora, a casa que
Pedro construiu, a casa que Pedro projetou.

B - Consideraremos sentença como toda composição designativa de uma relação ou


função de ou entre entidades (FREGE, 1978). Sentenças ou (a) afirmam uma relação
do tipo das que se encontram nas locuções através de um procedimento de cópula ou
(b) estão centradas no termo predicado, o verbo, que relaciona argumentos: o
argumento externo, ou sujeito, e os argumentos internos, os complementos verbais,
necessários ou facultativos.

Sentenças são definidas no tempo e espaço e podem sofrer predicação de segunda


ordem, dita adverbial, que modula ou define o mundo possível em que se passa a
ação.

1. Verbos que afirmam relações locucionais


1. De existência - O verbo principal é haver, impessoal. Essa peculiaridade
provavelmente decorre do uso medieval, teológico, de Deus é, que atribui à divindade
não apenas a existência, mas também a circunstância de ser a única essência
verdadeira em um universo de aparências. Ora, esse Deus que é único e essencial há
(=tem, do latim habet) todas as coisas do mundo, mas Seu nome não deve ser
pronunciado em vão.

Verbos desse grupo estipulam a existência de:


- à coisas em geral - Isto é, de todos os conceitos sobre os quais se pode afirmar uma
sentença: há bons e maus pensamentos, faz calor, é verão.
- à entes (vivos ou não) - Embora o verbo haver possa ser empregado, este é o
sentido específico do verbo existir (etimologicamente, ex(s)istere = estar para foram,
evidenciar-se): existem partes do brinquedo que se movem, mas não *existem
sonhos. Verbos pronominais como achar-se ou encontrar-se também significam
existência ("Se x se acha/se encontra, então x existe"), especialmente quando
seguidos por locuções circunstancias de tempo ou lugar: encontra-se água em Marte =
existe água em Marte.
-à tempo decorrido, distância transposta, quando relacionados a momento ou lugar
definidos - Em tal uso, os verbos haver e fazer são impessoais: faz dez anos, há dez
quilômetros. Essa construção afirma uma relação cuja correspondente locucional é
representada pela palavra atrás: dez anos atrás, dez quilômetros atrás.

Sintaxe: Verbos de existência funcionam como funções com um argumento (FREGE,


1978), que pode ser o sujeito (argumento externo) de existir ou o complemento
(argumento interno) de haver e fazer.

2. De ligação ou cópula - Esta é a denominação tradicional do campo semântico cujo


verbo matriz é ser. Pertencem a esse grupo estar (quando oposto a ser, =ser por
algum tempo), parecer (=ser, aparentemente), ficar 1(=passar a ser), permanecer
(=ser permanentemente), continuar (=ser continuado) etc. Entre eles, o par opositivo
mais interessante é ser/parecer, porque a relação essência/aparência representa grave
problema para a Lógica e a Filosofia do Conhecimento. Esses verbos afirmam:

Ligações lógicas entre conceitos:


- à identidade ou equatividade – no universo considerado, entre o termo antecedente e
o conseqüente. Ex: este homem ® o homem é este; Joaquim José da Silva Xavier, o
Tiradentes ® Joaquim José da Silva Xavier é o Tiradentes; a pitangueira, terceira
árvore desta ala ® a pitangueira é a terceira árvore desta ala; o homem de que falei
® o homem é o de que falei.
- à pertinência ou semelhança – na qual se afirma que o termo antecedente, na forma
canônica, pertence ou é similar à categoria designada pelo termo (adjetivo ou
substantivo) conseqüente. Ex: O tenente bombeiro Carlos da Silva ® Carlos da Silva é
um/Æ tenente bombeiro; o homem feliz ® o homem é feliz; Um dos mil soldados,
Feliciano ® Feliciano é um dos mil soldados.

Sintaxe - Aqui, verbos de ligação ou cópula unem nomes próprios um ao outro; um


nome próprio ao nome de uma classe; nomes que designam classes; um nome próprio
ou de classe a uma locução nominal; um nome próprio ou de classe a um adjetivo que
designa classe; um nome próprio ou de classe a determinativos ou quantitativos etc.
Tal relação pode ser compreendida como de pertinência ou de subconjuntos na Teoria
dos Conjuntos. Por exemplo, se Mário é menino, então pertence ao conjunto dos
meninos; se os trópicos são tristes (Tristes Trópicos é o título de um livro de Claude
Levi-Strauss), então o conjunto das pessoas ou pessoas dos trópicos são subconjunto
do conjunto das coisas ou pessoas tristes.

Relações expressas por preposições


Essas relações podem ser percebidas como adjetivas, significando propriedade,
apropriação, origem, substância material etc. (ex: a casa de pedra ® a casa é de
pedra, a casa é feita de pedra); ou adverbial, mapeando ou situando algo em escala de
tempo (ex.: a casa em São Paulo ® a casa é em São Paulo, a casa fica em São Paulo,
a casa localiza-se em São Paulo; o jornal de ontem ® o jornal é de ontem, o jornal foi
editado ontem). Para a interpretação semântica dessas sentenças devemos considerar
o sentido da preposição. O verbo ser é, aí (como nas atribuições), funcional; outros
verbos (como localiza-se) são redundantes em face da preposição.

Oposição ser/estar – (a) Ser é de uso exclusivo nas predicações consideradas pela
língua como inerentes (cargos, etapas, deverbais agentivos): é presidente, é janeiro, é
autor. (b) Estar é de uso exclusivo em predicações que indicam algo em
processamento ou eventual, como os gerúndios: está construindo, está prestes a sair,
está processando, está com dinheiro.. (c) Nos contextos em que ser e estar são
admissíveis, a distinção é geralmente de aspecto (estar = ser por algum tempo): está
apaixonado/é apaixonado; está rico/é rico.

Oposição ser/parecer – a oposição ser/parecer poderia ser compreendida como modal,


reportando-se ao mundo real e a um mundo possível, não fossem as condições de
parecer e de ser coexistentes no mundo real. O que parece pode ser, na essência, ou
não. O discurso corrente flutua entre essências e aparências.

Relações funcionais em sentenças de cópula – a relação depende da natureza da


locução nominal que é predicada ao sujeito. Assim, se a locução predicada é definida
(precedida de artigo definido, demonstrativo, possessivo), a relação é equativa; se a
locução predicada é indefinida (precedida de um/Æ ), a relação é predicativa. Ex:

Márcio é o médico de plantão (só há um médico de plantão no universo considerado)

Márcio é um médico de plantão (há ou pode haver outros médicos de plantão)

A relação de predicação entre os termos pré-verbal (argumento) e pós-verbal, na


forma canônica (em português, o predicado ocupa freqüentemente posição pré-verbal
ou inversa, assim chamada em oposição á canônica), nem sempre define uma função
de um argumento.

Quando o termo pós-verbal na forma canônica (predicado) é constituído de um nome


relacional seguido de preposição, existe função argumental entre o sujeito e o termo
que se segue à preposição:

Argumento 1 Função Argumento 2

Um cigarro é a causa do o incêndio


Paris é a capital da França
Pedro é o irmão de Paulo
Marcos é parecido com Joaquim
Maria está perto de Moacir
Suzana é a secretária da coordenação

Sintaxe –
1 - A natureza distinta da relação funcional tem implicações sintáticas. A primeira delas
é a impossibilidade de ser afirmar relação entre o termo relacional e seu complemento:

Núcleo genérico Nome relacional

A foto [é] da criança A causa {*é] do incêndio


O frango [é] da granja O irmão [*é] do Mário
A vasilha [é] de plástico A capital [*é} da França

O mesmo ocorre quanto a extrações:


a - O tiro foi a causa da morte
b’ - O ladrão foi o homem de terno
a’ - De que o tiro foi a causa?
b’ - *De que o ladrão foi o homem?
c - O soldado foi o autor do tiro
d - O soldado foi o louro de óculos
c’ - De que tiro o soldado foi autor?
d’ - *De que óculos o soldado foi o louro?

2 - Podemos considerar os verbos de ligação, em geral, como operadores que têm a


propriedade de transformar uma locução nominal ou adverbial em sentença,
atribuindo-lhe, portanto, valor de verdade (TARSKY, 1972). Podemos também
presumir que sentenças com verbos de ligação são primitivos de sentenças mais
complexas; isto é, partes mínimas de sentenças complexas que podem ter tido valor
de verdade em um nível profundo, ou anterior, do processo de percepção/enunciação.
Assim: Isto é (notável)> isto é um avião> isto cai> o avião cai> o avião caiu.

A aferição dos papéis temáticos (agente, paciente etc.) e dos casos regidos pelos
verbos depende, evidentemente, de outras considerações. Uma das mais óbvias é a de
que os diferentes casos atribuídos aos itens léxicos decorrem regularmente de um
processo clítico que se realiza pela adição de afixos (pondo-se à margem a tradição do
registro gráfico, preposições podem ser consideradas prefixos de locuções tanto quanto
as desinências são sufixos agregados ao radical de palavras). Nas línguas declinadas,
onde os casos aparecem de forma manifesta - isto é, em regra, sufixal - , predominam
os sufixos, com ou sem preposições; essa dupla marcação permite que uma mesma
forma - digamos, o acusativo latino - seja complemento direto do verbo e, com o
acréscimo de preposição (ad), represente, após um verbo de deslocamento, o lugar
para onde. Nas línguas não declinadas, isto é, que não evidenciam o caso pela adição
de sufixos ao radical, o sistema de preposições combina-se com outros mecanismos
(como, por exemplo, a ordenação mais ou menos rígida das palavras nas sentenças)
para estabelecer adequada discriminação de caso e papel.

De Relação - Afirmam relações atribuídas pelo homem em seu processo de apreensão


da realidade, especificando-as por sua natureza peculiar. Em geral, essas relações
podem ser definidas com instrumentos da Lógica ou da Teoria dos Conjuntos. Uma das
mais relevantes é a relação de causa, que tem sido objeto da Filosofia desde
Guilherme de Occam, passando por Francis Bacon e Stuart Mill; no entanto, pode-se
compreender grosseiramente uma relação causal da seguinte maneira: a causa um
evento b quando a pertence a conjunto de eventos A tal que A precede b e, se A
ocorre, então b ocorre. Consideremos as relações:

A - Lógicas e pragmáticas -
- à identidade, igualdade, pertinência, analogia - igualar, equivaler a, diferir de, incluir,
conter ou locuções verbais como ser idêntico a, fazer parte de, ser igual a etc.
- à comparação - superar, destacar-se de etc.
- à valores, quantias - pesar, custar etc.
- à dimensão - ter, ocupar, medir (a estrada tem/mede dois quilômetros) etc.
- à duração - durar, demorar, prolongar-se por, levar (a viagem leva duas horas),
coincidir com etc.
- à instrumento - utilizar, empregar etc.
à posse/uso - ter, possuir (Há uma nuança semântica: enquanto ter tem coisas em
geral como objeto, possuir deve ter como complemento coisas concretas, com um
traço de relacionamento material; assim é possível possuir uma casa, mas não possuir
pensamentos); por antonímia recíproca, pertencer.

Circunstâncias discursivas
- à causalidade/conseqüência - provocar, motivar, causar, determinar etc.; por
antonímia recíproca, resultar, decorrer etc.
- finalidade - objetivar, pretender, destinar etc.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica7.html em 06 fev 2004.

[Aula 8]

Erros Comuns

Ortográficos – menos relevantes por causa dos corretores ortográficos incluídos nos
programas de edição de texto. A exceção é o caso de palavras semelhantes, com
sentidos distintos, como
- Incipiente (iniciante)/insipiente (ignorante)
- Esperto/experto
- Obcecar (cegar, levar a erro)/obsedar (impor-se, poderar-se do espírito de alguém)
- Etnológico (estudo de etnias)/etimológico (estudo da origem das palavras) /Enológico
(relativo a vinhos)
- Orográfico (estudo de montanhas)/ holográfico/ ortográfico
De estrutura lógica – Os textos jornalísticos organizam-se segundo uma lógica
subjacente. Se narrativos, são seqüências adicionadas umas às outras e marcadas pela
sucessividade interna dos núcleos verbais. Se expositivos, pela subordinação de dados
factuais (tornados documentação) a versões (tornadas tópicos), que atuam como
organizadoras ou classificadoras das informações. Quando essas normas não são
obedecidas, os textos deixam de ser textos, no sentido de algo que se tece, e passam
a ser encadeamentos desordenados de sentenças impossíveis de se compreender.

De sintaxe – Os erros mais comuns são:


a.Concordância verbo-nominal quando o verbo, sendo inacusativo ou de cópula,
antecede o sujeito. Ex: "Chegou a Florianópolis Fulano e Beltrano"; "É necessário um
passaporte e algum dinheiro".
b.Uso de vírgula diferencial entre locuções nominais próprias e situações de aposto.
Ex: "O comandante do navio, Capitão-de-fragata Mário Assunção, ..." /"O tenente do
Corpo de Bombeiros Mário Assunção..."
c.Uso de vírgula em intercaladas. Ex: (Um homem já mencionado) "O homem, que
estava de cócoras, levantou-se ..." / (Vários homens presentes) "O homem que estava
de cócoras levantou-se ..."
d.Períodos com sentenças sem verbo principal. Ex: "Ele chegou. Dirigindo o
automóvel." (Esse tipo de construção é de uso literário restrito, sempre vinculado a
uma intenção de ênfase).
e.Omissão do sujeito em parágrafos lógicos. O sujeito deve ser repetido (pelo próprio
nome, por um nome mais abrangente, por um pronome) a cada estrutura de
parágrafo.
f.Abuso do pronome pessoal. O português permite, com ganhos estilísticos, a
supressão de pronomes pessoais caso reto (eu, tu, ele etc.) antes de verbos em forma
conjugada. Ex: "O presidente desembarcou em Goiânia. Disse que decretará ..." /"O
presidente desembarcou em Goiânia. Ele disse que decretará ..."
g.Abuso de artigos indefinidos. Devem-se evitar artigos indefinidos (não o numeral
um, uma), particularmente em situações de dupla indefinição. Ex: "Chegaram à
fazenda uns cachos de umas uvas híbridas."/ "Chegaram à fazenda uns cachos de uvas
híbridas."

De propriedade vocabular – O erro mais comum é o uso de expressões fora do registro


de linguagem adequado.
a. Estritamente coloquiais ou de jargão: falar por dizer, colocar por propor
b.Estritamente formais ou técnicas, sem necessidade: denegar por negar, perspicaz
por esperto, próximo a por perto de, adentrar por entrar.
c.Palavras fora do sentido canônico: possuir por ter, resgatar por salvar
d.Palavras cognatas do inglês: afluente por próspero, realizar por conceber.Palavras
cognatas do francês: enquanto por como, remeter por sugerir.

Disponível em http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/md-gramatica8.html em 06 fev 2004.