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extrativismo

CRiança brinca nas águas do Rio Unini, em Barcelos, AM; à esquerda, feixes de cipó ambé

cipó artístico
cipó
artístico
morador o
morador
o

moradores da bacia do rio negro, no amazonas,

encontram encont na coleta e no artesanato de fibras

naturais naturais uma alternativa econômica que respeita

o meio ambiente e a tradição local

Texto Mônica trindade canejo * Fotos maurício de Paiva

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antônio da Prata beneficia cipó-ambé na comunidade Terra Nova (atrás dele, dois caboclos transportam feixes de fibras recém- -cortadas na mata)

S entado no chão, cercado por longas tiras de cipó, antônio da Prata, 43 anos, vai tirando, uma a uma, as cascas. Bem ao jeito caboclo, ex- plica: “eu sou um coletor”. estamos na comunidade de terra Nova, den- tro da reserva extrativista do rio

Unini, um dos muitos afluentes do rio Negro, no es- tado do amazonas. Da sua nascente na Colômbia ao encontro com o rio solimões, próximo a manaus, o Negro serpenteia por mais de 2.200 quilômetros de extensão, cortando uma das regiões de maior bio- diversidade do planeta e de grande riqueza humana. em suas margens e nas de seus diversos afluentes, se espalham centenas de comunidades, parte de- las pertencentes a grupos indígenas como baniwa, tukano e macuxi. mas também muitos caboclos ri- beirinhos, que, como antônio, pescam, fazem sua roça, cuidam de pequenos animais. em comum, eles mantêm uma arte secular: o artesanato com fibras vegetais. os moradores da Bacia do rio Negro encon- traram no extrativismo de fibras uma fonte de renda. além do cipó-titica, há o cipó-ambé, o cipó-timbó, a

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cipó-ambé, o cipó-timbó, a 42 Globo RuRal | julho 2010 Produção arteSanal gera renda à PoPulação

Produção arteSanal gera renda à PoPulação e não agride a natureza

piaçava e fibras derivadas de palmeiras como a aru- mã e o buriti. trata-se de uma alternativa econômica ecologicamente correta, capaz de trazer sustento

aos moradores locais sem agredir a floresta. e, nessa parte do planeta, preservação é algo de fundamen- tal importância. É por ali que está, por exemplo, o Parque Nacional do Jaú, um dos mais importantes da amazônia, e a reserva extrativista do rio Unini,

a maior do estado do amazonas, criada há cerca de

um ano, em Barcelos. extrair fibras é uma alternativa

a outras fontes de renda, o que diminui o impacto da presença humana sobre o ambiente, evitando atitu-

des predatórias como o corte de madeira e a caça in- discriminada de mamíferos de médio e grande porte

– capivara, anta, cutia, queixada e até onça-pintada,

ainda bastante comum na vizinhança. atitudes como a de seu antônio são incentivadas por ambientalistas e coordenadores de programas socioambientais, como os da Fundação vitória ama- zônica (Fva), uma organização não governamental que atua na região há mais de uma década e que teve

importante papel, junto com a amoru, a associação de moradores locais, na criação da reserva extrativista (resex). “acho que a esperança de todos os envolvidos no processo da resex do Unini é que os moradores desseriopercebamqueexistemalternativasmelhores do que as adotadas até então de desenvolvimento para a região”, explica Fabiano silva, da Fva. o aprendizado veio dos índios, e a lida não é das mais fáceis. Um extrator de cipó deve caminhar muitas horas pela mata até encontrar as raízes no tamanho e com a maturidade adequados. No caso do cipó-timbó-açu, vão em geral três ou quatro pes- soas. Com um pedaço de cipó descascado, fazem a “envira” – uma tira para se prender na testa- e car- regam os grandes feixes de cipó bruto amarrados de volta à comunidade. em uma semana, podem colher até 100 quilos de matéria-prima. seu antônio nos conta, com a sabedoria de quem tem experiência no assunto, que é importante colher apenas as raízes mais velhas. Deixando as novas, ele tem certeza que, daqui a um ano, a colheita será farta.

jovem recolhe lascas de madeira de canoa há pouco entalhada em igarapé da comunidade Floresta, às margens do Unini

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SuStentabilidade é termo novo na cidade – e P rática antiga na flore Sta

aRtesã de Novo Airão (acima); coletor de castanha; e caboclos da comunidade Democracia trazendo piaçava do mato (à dir.)

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“Fiz uma experiência de tirar os maduros e deixar os fios verdes no cipoal. então percebi que dessa forma a próxima safra fica garantida e deixei para meus filhos verem.” essa é sem dúvida uma maneira de não esgotar os recursos naturais, dando tempo para que a natureza faça sua parte. “os companheiros acham que o cipó está aparecendo cada vez mais em regiões distantes. se os verdes fosses deixados, se renovariam ali mesmo por perto, sem precisar ser colhidos tão longe. essa mi- nha experiência pode ser uma regra a ser seguida por todos os coletores, né?”, conclui. esse pensamento vai ao encontro das propostas das ongs, que orientam os moradores da região a manejar a mata de forma sus- tentável, garantindo as próximas safras.

Dentro dessa cadeia de subsistência, a colheita é apenas um dos passos. em seguida, os cipós são des- cascados um a um e novamente divididos em feixes. Depois do processamento das fibras, elas são vendi- das para atravessadores, que as levam para outros

lugares. surge aí uma figura controversa: o regatão.

o regatão é o comerciante que vem de barco buscar

a matéria-prima para vendê-la em outros lugares. É

ele também quem traz o café, o açúcar, o arroz

É ele

quem dá os preços e muitas vezes abusa da falta de opções dos moradores mais distantes, obrigados a vender o cipó por baixos preços e a comprar os pro- dutos industrializados por altos valores. mas, sem ele, muitas comunidades ficam isoladas, e os líderes

sem ele, muitas comunidades ficam isoladas, e os líderes Preservação controlada m unicípio de Barcelos, AM:

Preservação

controlada

m unicípio de Barcelos, AM: de um lado do rio de águas espelhadas está o Parque Nacio- nal do Jaú. Do outro, a maior reserva ex-

trativista do estado, com 830 mil hectares, a do Rio Unini, oficializada em junho de 2006. Uma Resex, como é conhecido esse tipo de unidade de conser- vação, é um território de domínio público. Porém, di- ferentemente do que ocorre nos parques nacionais, que são considerados áreas de proteção integral, nelas é permitido que se mantenham comunidades que tradicionalmente vivem do extrativismo, com agricultura de subsistência e criação de animais de pequeno porte. Na Resex do Rio Unini, moram cerca de 200 famílias. “Sua criação foi uma conquista sem precedentes para essas comunidades. Hoje, seus moradores têm a garantia de acesso à terra e não podem mais ser “expulsos” por empresários ou po-

líticos com interesses escusos”, diz Fabiano Silva, da Fundação Vitória Amazônica (FVA). Entre as prioridades do plano de manejo que vem sendo organizado para os moradores, está or- ganizar alternativas econômicas que minimizem o impacto da presença humana no ambiente. Nes- se caso, está sendo incentivada a coleta de fibras, como cipó-titica, timbó, ambé, ambé-açu, piaçava,

e de outros produtos da floresta, como a castanha

do Brasil, comuns em toda a região do médio e alto Rio Negro. Ignácio Oliete, engenheiro agrônomo es- panhol associado a FVA, explica: “O caboclo ribeiri-

nho possui seu próprio calendário da floresta, que é

o extrativismo. Nesse sistema cultural, os diversos

tipos de cipó são, sem dúvida alguma, ótimas alter- nativas de trabalho, mantenedoras da floresta”.

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falta reSolver o gargalo da logíStica e definir aS obrigaçÕeS ambientaiS

a arte cabocla exPreSSa aS relaçÕeS doS PovoS ribeirinhoS com a natureza

o Cotidiano na região de Caicubi: os homens cuidam do trabalho pesado, e as mulheres da roça, dos filhos e do artesanato

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comunitários lutam para que os regatões continuem

ter acesso, mesmo a áreas onde o ibama fiscaliza a entrada e a saída. Quando essas fibras chegam às comunidades que produzem o artesanato, um novo

trabalho começa. É preciso tecê-las cuidadosamente para que se transfor- mem em diversos tipos de peças. os objetos produzidos vão de cestas e ba- laios a painéis e móveis. Um dos mais tradicionais é o tupé, um tipo de tapete. além de objetos lisos, há aqueles em que os grafismos marcam presença e trazem sofisticação aos modelos bási- cos. Para criar essas peças, são usadas fibras com coloração natural trançadas com outras tingidas. Geralmente, são representações estilizadas da natu- reza, como o casco do jabuti, a teia de aranha ou mesmo a casca do abacaxi

– desenhos que trazem a simbologia

das míticas narrativas indígenas. em Caicubi, também no amazonas, as mãos acostumadas com a lida na ro-

a

ça também emprestam sua delicadeza às tramas – e

criam peças de muito bom gosto. estamos falando das mãos das mulheres: enquanto os homens se mantêm nos trabalhos pesados, elas se revezam entre a agricul- tura, a casa, os filhos e o artesanato. a maior prova de que essa iniciati-

va é inteligente e produtiva é que esse trabalho cresceu tanto que surgiu a necessidade de uma organização mais formal. em Novo airão, am, é a asso- ciação dos artesãos de Novo airão que responde por essas trabalhadoras. a função é garantir profissionalização, da produção das peças à venda. É as- sim que se podem encontrar objetos criados nas margens do rio Negro em shoppings de são Paulo, no rio de Janeiro e até no exterior. ao pegar um desses delicados objetos na mão, você pode achar que são leves. mas saiba que cada um deles traz a marca da preservação do meio ambiente, da valorização da cultura local e da sub- sistência de diversos povoados.

as fibRas

mais usadas

aRumã: planta terrestre. É utilizada na fabricação de tupés (tapetes), peneiras, balaios, tipitis (objeto indígena usado no processamento da farinha de mandioca) e cestaria em geral. Cipó-ambé: a planta cresce presa a uma árvore. Suas raízes é que são utilizadas para o artesanato. Cipó-timbó-açu: muito parecido com o cipó- -titica, porém, é menos flexível. Costuma ser usado desfiado para a confecção de vassouras. Cipó-titiCa: são as raízes suspensas que também servem de matéria-prima. Jacitara: espécie de palmeira, pode ser usada na criação de peneiras e tipitis.

piaçava: tradicional na fabricação de vassouras, também pode se transformar em cestaria e objetos de decoração.

piaçava: tradicional na fabricação de vassouras, também pode se transformar em cestaria e objetos de decoração.

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