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A SOCIEDADE SALARIAL, ‘Mas logo um outro modo de regulagio vai se impor de ‘manera mais eficaz. Todas essas dosagens de repressio e de mansidao filantrpica permanecem limiadas em seus =feitos, Porque continuam exteriores a organizagio do trabalho pro- priamente dita, Enquanto se trata de converter o operdtio a uma conduta mais regular, procurando convencé-lo de que seu verdadeiro interesse exige principalmente di ode se revoltar, ou se furtar, pela fuga a essas obrigacées que sio da esfera moral. A maquina impée outros tipos de cocr- bes, objetivas desta vez. Com ela nao se discute, Se no se segue o ritmo que a organizacio técnica do impée. A relagio de trabalho poderé deixar de set se esta organizagio técnica for, em si mesma, suficientemente poderosa para Segunda co 4 fixacéo do trabathador em sen posto” de trabalho e a racionalizagao do processo de trabalho ro quar, da”, As tentativas para regular a conduta operaria a partir das cocrgdes técnicas do proprio trabalho, que vio espardir-se com o taylorismo, nao sio do século XX. Ji em 1847, o bardo Charles Dupin sonha em realizar o trabalho perpétuo gracas a0 infatigavel impulso do “motor mecinico” Hi pois, uma extrema vantagem em fazer os mecanismos ope- rarem infatigavelmente, reduzindo a menor duragao os interva- Jos de descanso. A perfeigdo Incrativa seria trabalhar sempre... Porcanto, foram introduzidos na falar nesses cermos, arastados sem nico para 0 trabalho prolongado, para noite para se aproximar cada vez mais do ‘2s spor sua ordem. Beef dro de uma “gestio do tempo exata,recortada,regulamentay.* A AS METAMORFOSES NA QUESTAO SOCIAL ‘Mas essa maravilhosa utopia baseia-se na “exploragio em rivalidade” das diferentes categorias de pessoal, isto é, sobre a mobilizagao do fator humano. «40 cientifica” do trabalho, em compen- o trabalhador € fixado nao por uma coergio externa, lo encadeamento das operagdes técnicas cuja cronome- jorosamente a duragio, Assim, acha-se eli do 0 “perambular “ opersrio e, com cle, a margem de iativa cde iberdade que o trabalhador conseguia preservar. fas parceladas tornando-se si Ihe propiciava Mas os efeitos dessa “organizacio cientifica do trabalho” podem ser lidos de duas maneiras: como uma perda da auro- nomia operdria c como o alinhamento das competéncias pro- fissionais sobre o mais baixo nivel das tarefas reprodutivas. As anilises mais freqiientes sobre o taylorismo ¢ que enfatizam 0 io pré-taylorista, capaz de ir vender suas competéncias a quem oferece mais. Sem diivida, isso é verdadeiro quanto aos herdeiros dos of The Rise of Capitalism, op. at mas de divsio de tatef ue anteipam aseado na maquina, £0 caso da ASOCIEDADE SALARIAL artesanais, possuidores de comp. radas, Entretanto, se é verdade que se rande empresa, na maioria das vezes o t3 tar com populagdes opersrias de origem rural recente, sub- ‘qualificadas e pouco autonomas. De outro lado, foi sem diivida a racionalizagao “cientifica” da produgio que contribuiu de modo mais decisivo para a homogencizagio da classe opersria. Atacou a compartimenta- so estanque dos “oficios” com os quais seus membros se iden- tificavam estreitamente: a pessoa se pensava ferreiro ou carpinteiro antes de se pensar “operiio” (as rivalidades das associagdes de oficios, que sobreviveram por muito tempo a0 Antigo Regime, ilustram até chegar 8 caricarura essa crispacio sobre a especificidade do ofic ida mais porque, no seio deuma mesma especializagio prot existiam também. paridades muito importantes de fe status entre compa: nheiro com formagio completa, mio-de-obra,aprendiz.. Asim, a homogencizagio “cientifica” das condigées de trabalho pode uma consciéncia opersria que desemboca numa cons- icada pela penosidade da organizagio do ras ocupagdes de indistrias, em 1936, se esas mais modernase maismecanizadas. Eram- munistarecrutario seus Em terceiro lugar, a tendéncia & homogeneizacio das con- ou melhor, sta mesina medida em que se acentua, produz efeitos inversos de diferen- iagio. De fato, a produgio de massa exige, por si mesma, es entre um pessoal de pura execucio (6 0 caso do ‘operatio especializado, o OE) ¢ um pessoal de controle ou de manutencio (0 operério técnico). A evolugio téenica do tra- balho exige igualmente o fortalecimento ea diversificagio de Verdignuser, Memos dws comparon, Pars, cedisio Maspero, Les ousries dans la soceté francaise, op. ct < oy AS METAMORFOSES NA QUESTAO SOCIAL & Sum pessoal de concepgio e de enquadramento ~ 05 qué’ ¥3o »” se tornar os “quadros”. Homogencizagao ¢ diferenciagio: este duplo processo jé estd em curso no inicio da segunda revolugdo industrial. Con- vida a nao falar da “taylorizagio” como uum processo homo- géneo, langado a conquista do mundo ozeririo. implantagao € lenta e \dastriais muito particulares: antes d apenas 1% dda populagio industrial francesa ¢ atingida por essa inovagao americana”. Ademais, 0 taylorismo no € sendo a expressio ‘mais Figorosa ~ embora se abrande quando ¢ importada na Franga’” ~ da tendéncia mais geral para uma organizagio re- flctida do trabalho industrial, © que, nos anos 20, se chama de zag esses métodos vio transpor os locaisindustriais que ismo” evoca para se implantarem nos eicritérios, nas Brandes lojas, no setor “tercisrio”. Também, mais que de “tay- lorismo”, seria melhor falar da implantagio progressiva de uma i rizada pela ra- cionalizagio méxima do processo de trabalho, oencadeamen- to sincronizado das tarefas, uma separagio estrta entre tempo de trabalho e tempo de nio-trabalho, o todo permitindo 0 desenvolvimento de uma produgio de massa. Neste sentido, E exato dizer que 0 modo de organizacio do trabalho coman” dado pela busca de uma produtividade méxima a partir do controle rigoroso das operagées foi, de fato, um componente essencial na constituigso da relagio salarial moderna, Sobre as modaldadesdeimplanacio do taylorimo nas indstras Renault «os problemas que suscitou, cf P Fridenson, Histoire des usine Renault, 382. 28 ‘Terceiracondigéo: oacesso por intermédio do salarioa “novas ‘normas de consumos operirios"™, através do que 0 proprio ope- trio se tomna usuério da produgao de massa. Taylor jé defendia ‘um aumento substancial do salério para incitar os operétiosa se ssubmeterem s coeredes da nova disciplina da indistria”. Mas Henry Ford é quem sistematizaarelagio entre produgio de mas- sa (a generalizaga consumo de massa. O “five dollars day” nio representa ape- nas um aumento E pensado como a possibilidade do operétio moderno ter acesso ao estatuto de da sociedade industrial”. ¢ for situada na longa duragso da 40 de assalariado. Até essa virada, 0 traba- Ihador € essencialmente concebido, pelo menos na ideologia patronal, como um produtor maximo ¢ um consumidor it~ nimo: deve produzit 0 maximo possivel, mas as margens de lucro que resultam de seu trabalho sio mais importantes & Proporcio que seu salério é mais baixo. F significativo que as dlerrogagoes patronais 8 “lei de bronze" dos salérios tenkam