Você está na página 1de 11

Cultura negra e educação

Cultura negra e educação

Nilma Lino Gomes


Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação

Denys Cuche (1999, p. 9), ao discutir a noção de nossa área, ou uma mudança de paradigmas, acredito
cultura nas ciências sociais, destaca que o problema que só o fato da palavra cultura começar a fazer parte
da cultura ou das culturas passa por um processo de (ou voltar a fazer parte) do vocabulário educacional
atualização tanto no plano intelectual, quanto no pla- já constitui um dado pedagógico que merece nossa
no político. O autor inicia essa discussão já na Intro- atenção. Constitui uma inflexão no pensamento edu-
dução do seu livro, com uma epígrafe do antropólogo cacional, fruto das mudanças ocorridas em nossa so-
Marc Augé (1988). Nela, Marc Augé argumenta que, ciedade devido às ações e demandas dos movimentos
nos últimos anos, na França, a cultura tem sido bem sociais, dos grupos sociais e étnicos.
mais destacada do que há tempos atrás. Segundo ele, Mas se a ênfase na discussão da cultura no campo
esse uso da palavra cultura, por mais descontrolado educacional se restringir ao simples elogio às diferen-
que possa parecer, constitui por si mesmo um dado ças ou ficar reduzida aos estudos do campo do currícu-
etnológico. lo e da cultura escolar, corremos o risco de não explo-
Guardadas as devidas proporções, podemos ob- rar toda a riqueza que tal inflexão pode nos trazer.
servar que um fato semelhante vem ocorrendo nos A cultura, seja na educação ou nas ciências so-
últimos anos no Brasil, e mais especificamente no ciais, é mais do que um conceito acadêmico. Ela diz
campo da educação. Também entre nós, educadores e respeito às vivências concretas dos sujeitos, à varia-
educadoras, nunca se falou tanto em cultura quanto bilidade de formas de conceber o mundo, às particu-
hoje: cultura escolar, cultura da escola, diversidade laridades e semelhanças construídas pelos seres hu-
cultural, multiculturalismo, interculturalismo, sujei- manos ao longo do processo histórico e social.
tos socioculturais, cultura juvenil, cultura indígena, Os homens e as mulheres, por meio da cultura,
cultura negra... estipulam regras, convencionam valores e significa-
Por mais que tal apelo à cultura possa significar ções que possibilitam a comunicação dos indivíduos
um modismo pedagógico, ou o mais novo jargão da e dos grupos. Por meio da cultura eles podem se adap-

Revista Brasileira de Educação 75


Nilma Lino Gomes

tar ao meio mas também o adaptam a si mesmos e, vazias”. Debert recorre ao antropólogo Clifford Geertz
mais do que isso, podem transformá-lo. Segundo (1978, p. 52) para fundamentar a sua crítica:
Rodrigues (1986, p. 11), a cultura é como um mapa
que orienta o comportamento dos indivíduos em sua O fato de que em todos os lugares as pessoas se jun-
vida social. Esse mapa é puramente convencional, e tam e procriam filhos, têm algum sentido do que é meu e do
por isso não se confunde com o território. Ele é uma que é teu, e se protegem, de alguma forma, contra a chuva
representação abstrata do território, submetida a uma e o sol não é nem falso nem sem importância, sob alguns
lógica que permite decifrá-lo. Dessa forma, ao refle- pontos de vista. Todavia, isso pouco ajuda no traçar um
tirmos sobre o que é viver em sociedade e produzir retrato do homem que seja uma presença verdadeira e ho-
cultura, entenderemos a complexidade dessa situação: nesta e não uma espécie de caricatura de um “João univer-
significa que vivemos sob a dominação de uma lógi- sal”, sem crenças e credos.
ca simbólica e que as pessoas se comportam segundo
as exigências dela, muitas vezes sem que disso te- Essa crítica ao pressuposto de que a essência do
nham consciência. Podemos então inferir que a vida ser humano se revela nos aspectos que são universais
coletiva, como a vida psíquica dos indivíduos, faz-se às culturas deve ser considerada pela educação. De
de representações, ou seja, das figurações mentais de acordo com Geertz, “pode ser que nas particularida-
seus componentes. Os sistemas de representação são des culturais dos povos – em suas esquisitices – se-
construídos historicamente; eles originam-se do rela- jam encontradas algumas das revelações mais instru-
cionamento dos indivíduos e dos grupos sociais e, ao tivas sobre o que é ser genericamente humano” (1978,
mesmo tempo, regulam esse relacionamento. É a se- p. 55). Sendo assim, o que nos faz mais semelhantes
guinte afirmação de José Carlos Rodrigues que se tor- ou mais humanos são as diferenças.
na imprescindível para o campo educacional. Segun- E é com esse olhar que penso a relação entre cul-
do ele, “o fato é que, uma vez constituídos, os sistemas tura negra e educação. Parto da concordância de que
de representações e sua lógica são introjetados pela negros e brancos são iguais do ponto de vista genéti-
educação nos indivíduos, de forma a fixar as simili- co, porém discuto que, ao longo da experiência histó-
tudes essenciais que a vida coletiva supõe, garantin- rica, social e cultural, a diferença entre ambos foi cons-
do, dessa maneira, para o sistema social, uma certa truída, pela cultura, como uma forma de classificação
homogeneidade” (Rodrigues, 1986, p. 11). do humano. No entanto, no contexto das relações de
Mas se as representações, as classificações, a poder e dominação, essas diferenças foram transfor-
reciprocidade e tantos outras aspectos da cultura po- madas em formas de hierarquizar indivíduos, grupos
dem ser considerados como grandes semelhanças, ou e povos. As propriedades biológicas foram captura-
seja, os universais que nos identificam como huma- das pela cultura e por ela transformadas. Esse proces-
nos e sujeitos culturais, não podemos nos esquecer so, que também acontece com o sexo e a idade, apre-
das particularidades. Guita Grin Debert (2000), ao senta variações de uma sociedade para outra.
estudar a especificidade da velhice em nossa socie- No caso do negro brasileiro, a classificação e a
dade, traz contribuições importantes para o debate hierarquização racial hoje existentes, construídas na
sobre os universais e as particularidades. Ao tomar efervescência das relações sociais e no contexto da
como objeto de estudo a especificidade da velhice escravidão e do racismo, passaram a regular as rela-
enquanto um grupo de idade, Debert nos alerta para ções entre negros e brancos como mais uma lógica
tomarmos cuidado com a ênfase nos universais, pois desenvolvida no interior da nossa sociedade. Uma vez
na tentativa de encontrar o que é comum em expe- constituídas, são introjetadas nos indivíduos negros e
riências culturais diferentes, multifacetadas e fragmen- brancos pela cultura. Somos educados pelo meio so-
tadas, eles acabam transformando-se em “categorias ciocultural a enxergar certas diferenças, as quais fa-

76 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Cultura negra e educação

zem parte de um sistema de representações construí- No caso específico da educação escolar, ao ten-
do socialmente por meio de tensões, conflitos, acor- tarmos compreender, debater e problematizar a cul-
dos e negociações sociais. tura negra, não podemos desconsiderar a existência
A escola, enquanto instituição social responsável do racismo e da desigualdade entre negros e bran-
pela organização, transmissão e socialização do conhe- cos em nossa sociedade. Por quê? Porque ao fazer-
cimento e da cultura, revela-se como um dos espaços mos tal ponderação inevitavelmente nos afastare-
em que as representações negativas sobre o negro são mos das práticas educativas que, ao tentarem destacar
difundidas. E por isso mesmo ela também é um impor- essa cultura no interior da escola ou no discurso
tante local onde estas podem ser superadas. pedagógico, ainda a colocam no lugar do exótico e
Cabe ao educador e à educadora compreender do folclore.
como os diferentes povos, ao longo da história, clas- Discutir sobre a cultura negra também exigirá
sificaram a si mesmos e aos outros, como certas clas- de nós um posicionamento sobre o que realmente
sificações foram hierarquizadas no contexto do racis- queremos dizer quando apelamos para a construção
mo e como este fenômeno interfere na construção da de projetos e práticas multiculturais (tão em moda
auto-estima e impede a construção de uma escola de- ultimamente) e nos direcionará a um compromisso
mocrática. É também tarefa do educador e da educa- político explícito diante da questão racial, entendida
dora entender o conjunto de representações sobre o aqui como indissoluvelmente ligada ao conjunto de
negro existente na sociedade e na escola, e enfatizar questões sociais, culturais, históricas e políticas do
as representações positivas construídas politicamen- nosso país. Isso nos leva a pensar nas ações afirmati-
te pelos movimentos negros e pela comunidade ne- vas para o povo negro e à forma como os educadores
gra. A discussão sobre a cultura negra poderá nos aju- e as educadoras, negros e brancos, favoráveis à dis-
dar nessa tarefa. cussão e à inserção da cultura negra no currículo es-
Mas isso requer um posicionamento. Implica a colar, posicionam-se diante delas.
construção de práticas pedagógicas de combate à dis- Por tudo isso, reitero que tratar, trabalhar, lidar,
criminação racial, um rompimento com a “naturaliza- problematizar e discutir sobre educação e cultura ne-
ção” das diferenças étnico/raciais, pois esta sempre gra no Brasil é assumir uma postura política. De for-
desliza para o racismo biológico e acaba por reforçar o ma alguma as relações culturais e sociais entre ne-
mito da democracia racial. Uma alternativa para a gros e brancos em nosso país podem ser pensadas
construção de práticas pedagógicas que se posicionem como harmoniosas, democráticas e diluídas nas ques-
contra a discriminação racial é a compreensão, a divul- tões socioeconômicas. Os últimos dados do Instituto
gação e o trabalho educativo que destaca a radicalida- Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – e do
de da cultura negra. Essa é uma tarefa tanto dos cursos Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA –
de formação de professores quanto dos profissionais e sobre as desigualdades raciais deveriam ser fonte de
pesquisadores/as que já estão na prática. consulta para os pesquisadores e pesquisadoras da edu-
A cultura negra pode ser vista como uma parti- cação que se interessam pelo tema.
cularidade cultural construída historicamente por um
grupo étnico/racial específico, não de maneira isola- Cultura negra e práticas pedagógicas
da, mas no contato com outros grupos e povos. Essa
cultura faz-se presente no modo de vida do brasilei- Hoje já está comprovado pela biologia e pela
ro, seja qual for o seu pertencimento étnico. Todavia, genética que todos os seres humanos possuem a mes-
a sua predominância se dá entre os descendentes de ma carga genética. Tais estudos são importantes para
africanos escravizados no Brasil, ou seja, o segmento desconstruir e superar as teorias racistas que predo-
negro da população. minaram na intelectualidade no final do século XIX e

Revista Brasileira de Educação 77


Nilma Lino Gomes

início do século XX, e cujo teor, infelizmente, ainda podem estar sendo destruídas. A fome, a pobreza e a
se faz presente na sociedade brasileira. desigualdade têm incidido com mais contundência so-
Mas se todos partilhamos de semelhanças como bre os descentes de africanos em nosso país do que em
seres humanos, o que nos faz diferentes? Segundo relação ao segmento branco. Como dizem alguns pes-
Denys Cuche (1999, p. 10), são as nossas escolhas, a quisadores: elas têm cor. A reversão desse quadro diz
forma como cada grupo cultural inventa soluções ori- respeito à construção de políticas públicas específicas,
ginais para os problemas que lhes são colocados pela tanto na educação básica quanto no ensino superior.
vida em sociedade e ao longo do processo histórico. Significa resgatar a positividade dessa cultura, a sua
Essas escolhas não são simplesmente mecânicas e beleza, a sua radicalidade e sua presença na constitui-
empíricas. Elas não estão relacionadas somente à ção da nossa formação cultural.
adaptação ao meio, mas às disputas de poder entre Refletir sobre a cultura negra é considerar as ló-
grupos e povos. Nessas disputas as diferenças são in- gicas simbólicas construídas ao longo da história por
ventadas, e através delas nos aproximamos de uns e um grupo sociocultural específico: os descendentes
tornamos outros inimigos, adversários, inferiores ou de africanos escravizados no Brasil. Se partirmos do
“violentos”. pressuposto de que o nosso país, hoje, é uma nação
Nesse sentido, podemos compreender que as di- miscigenada, diríamos que a maioria da sociedade
ferenças, mesmo aquelas que nos apresentam como brasileira se encaixa nesse perfil, ou seja, uma grande
as mais físicas, biológicas e visíveis a olho nu, são parte dos brasileiros pode se considerar descendente
construídas, inventadas pela cultura. A natureza é in- de africanos. Porém, refiro-me aqui ao grupo étnico/
terpretada pela cultura. Ao pensarmos dessa forma, racial classificado socialmente como negro.
entramos nos domínios do simbólico. É nesse campo Embora alguns antropólogos tratem com descon-
que foram construídas as diferenças étnico/raciais. fiança a adjetivação de uma cultura como “negra”, o
Apelar para a existência da “raça” do ponto de que importa aqui é destacar que a produção cultural
vista da genética é, atualmente, cair na cilada do ra- oriunda dos africanos escravizados no Brasil e ainda
cismo biológico. Todos concordamos que “raça” é um presente nos seus descendentes tem uma efetividade
conceito cientificamente inoperante. Porém, social e na construção identitária dos sujeitos socialmente clas-
politicamente, ele é um conceito relevante para pen- sificados como negros. Não se trata de cairmos no
sar os lugares ocupados e a situação dos negros e bran- racismo biológico, nem de afirmarmos que o fenótipo
cos em nossa sociedade. Quando o movimento negro é o único determinante da posição ocupada pelas pes-
e pesquisadores da questão racial discutem sobre a soas na sociedade brasileira. Trata-se de compreen-
raça negra, hoje, estão usando esse conceito do ponto der que há uma lógica gerada no bojo de uma africa-
de vista político e social, com toda uma ressignifica- nidade recriada no Brasil, a qual impregna a vida de
ção que o mesmo recebeu dos próprios negros ao lon- todos nós, negros e brancos. E isso não tem nada de
go da nossa história. Por isso, a discussão sobre raça, natural. Essa inexistência de algo puramente natural
racismo e cultura negra nas ciências sociais e na es- na sociedade pode ser vista inclusive quando ponde-
cola é uma discussão política. Ao não politizarmos a ramos sobre a existência das teorias racistas. Embora
“raça” e a cultura negra caímos fatalmente nas ma- elas apregoassem trabalhar somente com os dados
lhas do racismo e do mito da democracia racial. biológicos para atestarem a suposta inferioridade do
Essa politização da raça e da cultura negra não negro, na realidade elas operavam e ainda operam o
implica a entrada para o movimento social negro, o tempo todo no campo da cultura. Nesse sentido, qual-
que não deixa de ser uma boa experiência. Significa quer adjetivação da cultura, seja cigana, judaica, in-
saber que estamos entrando em um terreno complexo, dígena ou negra, é uma construção social, política,
em que identidades foram fragmentadas, auto-estimas ideológica e cultural que, numa sociedade que tende

78 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Cultura negra e educação

a discriminar e tratar desigualmente as diferenças, na na vida cotidiana. Um professor ou professora, ou


passa a ter uma validade política e identitária. mesmo um pesquisador ou pesquisadora que estiver
A cultura negra possibilita aos negros a constru- alerta para essa realidade perceberá o quanto a heran-
ção de um “nós”, de uma história e de uma identidade. ça ancestral africana recriada no Brasil – e que nesse
Diz respeito à consciência cultural, à estética, à corpo- artigo chamamos de cultura negra – orienta e traz ins-
reidade, à musicalidade, à religiosidade, à vivência da piração para os negros da diáspora. Sempre sob for-
negritude, marcadas por um processo de africanidade mas diferentes, essa herança está entre nós (e em nós)
e recriação cultural. Esse “nós” possibilita o posicio- e se objetiva na história, nos costumes, nas ondas mu-
namento de negro diante do outro e destaca aspectos sicais, nas crenças, nas narrativas, nas histórias con-
relevantes da sua história e de sua ancestralidade. tadas pelas mães e pais/griôts, nas lendas, nos mitos,
A cultura negra só pode ser entendida na relação nos saberes acumulados, na medicina, na arte afro-
com as outras culturas existentes em nosso país. E brasileira, na estética, no corpo. Muito desse proces-
nessa relação não há nenhuma pureza; antes, existe so acontece de forma inconsciente. Tomemos, então,
um processo contínuo de troca bilateral, de mudança, dois aspectos que merecem ser destacados e observa-
de criação e recriação, de significação e ressignifica- dos pelos educadores(as) ao discutirem sobre a cultu-
ção. Quando a escola desconsidera esses aspectos ela ra negra no Brasil: o corpo como expressão da identi-
tende a essencializar a cultura negra e, por conseguin- dade negra e a manipulação do cabelo.
te, a submete a um processo de cristalização ou de
folclorização. O corpo como expressão da identidade negra
François Neyt e Catherine Vanderhaeghe (2000)
perguntam: “Quantos séculos serão necessários para O corpo pode simbolizar diferentes identidades
avaliarmos a riqueza e a fecundidade das tradições sociais, extrapolando a dimensão do indivíduo e da
culturais africanas? Elas retornam em ondas musicais pessoa. De acordo com José Carlos Rodrigues (1986,
e artísticas, sob formas sempre novas e diferentes, fiéis p. 45), o corpo é sempre uma representação da socie-
à sua inspiração primordial” (p. 34). dade, por isso não há processo exclusivamente bioló-
Parafraseando os autores, poderíamos perguntar: gico no comportamento humano.
Quanto tempo ainda esperaremos para que a escola e Nenhum outro animal transforma voluntariamen-
os educadores/as avaliem de forma séria e não essen- te o próprio corpo. Essa é uma característica dos se-
cializada a riqueza e a fecundidade da cultura negra res humanos. As transformações que os homens im-
construída no Brasil, e o seu peso na formação cultu- primem ao corpo, além de variarem de acordo com
ral das outras etnias? cada cultura, também acontecem conforme a especi-
A construção de uma prática pedagógica que se ficidade dos segmentos sociais no interior de um mes-
configure como uma resposta a essa pergunta não se mo grupo. Por isso a forma de manipular o corpo, os
limita à produção de pesquisas sobre o tema, nem ao sinais nele impressos e o tipo de penteado podem sig-
documento “pluralidade cultural” dos Parâmetros nificar hierarquia, idade, símbolo de status, de poder
Curriculares Nacionais. Na minha opinião, trabalhar e de realeza entre sujeitos de um mesmo grupo cultu-
com a cultura negra, na educação de um modo geral e ral ou entre diferentes grupos.
na escola em específico, é considerar a consciência Segundo Rodrigues (1986, p. 159), o corpo ex-
cultural do povo negro, ou seja, é atentar para o uso pressa metaforicamente os princípios estruturais da
auto-reflexivo dessa cultura pelos sujeitos. Significa vida coletiva. Há no organismo forças controladas e
compreender como as crianças, adolescentes, jovens, forças que ignoram o controle social e o ameaçam. As-
adultos e velhos negros e negras constroem, vivem e sim, o corpo pode simbolizar aquilo que uma socie-
reinventam suas tradições culturais de matriz africa- dade deseja ser, assim como o que se deseja negar.

Revista Brasileira de Educação 79


Nilma Lino Gomes

Uma sociedade racista usa de várias estratégias uma entidade biológica, sendo o mais natural e o pri-
para discriminar o negro. Alguns aspectos corporais, meiro instrumento do homem. Por isso ele encontra-
no contexto do racismo, são tomados pela cultura e se submetido a algumas imposições elementares da
recebem um tratamento discriminatório. São estraté- natureza, colocando a todos nós em uma mesma e
gias para retirar do negro o status de humanidade. única condição. Em contrapartida, é preciso conside-
Talvez seja esta uma das piores maneiras de o racis- rar que o corpo é objeto de alteração exercida pela
mo se perpetuar. Ele transforma as diferenças inscri- cultura, sendo por ela modelado e modificado. Te-
tas no corpo em marcas de inferioridade. Nesse pro- mos então, expressos no corpo, os universais e as par-
cesso são estabelecidos padrões de superioridade/ ticularidades da cultura.
inferioridade, beleza/feiúra. Embora possa não parecer, em cada cultura há
O cabelo crespo é um dos argumentos usados regras especiais para tossir, cuspir e espirrar, fazer a
para retirar o negro do lugar da beleza. O fato de a higiene corporal, cuidar da estética corporal, praticar
sociedade brasileira insistir tanto em negar aos ne- esportes, lazer, entre outros. A cultura também deter-
gros e às negras o direito de serem vistos como belos mina as posições a serem adotadas para agachar, fi-
expressa, na realidade, o quanto esse grupo e sua ex- car de pé, descansar, sentar e as formas consideradas
pressão estética possuem um lugar de destaque na corretas para utilizar os instrumentos mais diversos,
nossa constituição histórica e cultural. O negro é o desde aqueles que são utilizados para alimentação até
ponto de referência para a construção da alteridade os usados no trabalho. Todas essas posturas e posi-
em nossa sociedade. Ele é o ponto de referência para ções são aprendidas socialmente.
a construção da identidade do branco. Juntamente com Marcel Mauss revela como as forças sociais con-
o índio, o negro concretiza a nossa sociedade, a nos- vergem no corpo. O autor procura compreender as
sa cultura, as nossas relações sociais, políticas e eco- formas pelas quais os seres humanos, em cada cultu-
nômicas. Como afirma Rodrigues (1999, p. 26), “aqui- ra, nas diferentes sociedades, usam seus corpos. Par-
lo que não quero ser é parte ‘inabstraível’ do que sou, tindo da evidência de que cada formação social tem
aquilo que uma sociedade renega é intimamente in- os hábitos que são próprios, Mauss descreveu, e de
tegrante de si”. certo modo inventariou, uma enorme variedade de
Enquanto imagem social, o corpo é a representa- “técnicas corporais”, ou seja, de “atos montados, e
ção exterior do que somos. É o que nos coloca em montados no indivíduo não simplesmente por ele
contato com o mundo externo, com o “outro”, por mesmo, mas por toda a sua educação, por toda a so-
isso ele carrega em si a idéia de relação. Sabendo que ciedade da qual ele faz parte, no lugar que ele nela
a identidade negra em nossa sociedade se constrói ocupa” (Mauss, 1974, p. 218).
imersa no movimento de rejeição/aceitação do ser Em cada uma dessas técnicas está presente uma
negro, é compreensível que os diferentes sentidos atri- confluência de forças sociais, em relação às quais a
buídos pelo homem e pela mulher negra ao seu cabe- base física do corpo não é senão a matéria sobre a
lo e ao seu corpo revelem uma maneira tensa e con- qual essa convergência se aplica. Mauss percebe que
flituosa de “lidar” com a corporeidade enquanto uma o social se faz presente nas menores ações humanas.
dimensão exterior e interior da negritude. Nas diferentes culturas, as práticas que, a princípio,
O corpo apresenta a dupla capacidade de ser, ao podem parecer insignificantes, traduzem mensagens,
mesmo tempo, objeto e sujeito da natureza e da cul- normalmente inconscientes, sobre o que é certo e o
tura. Essa dupla capacidade é trabalhada pioneiramen- que é errado, o que é considerado “coisa dos homens”
te na antropologia por Marcel Mauss (1974), no en- e o que é “coisa dos bichos”, o que é igual e o que é
saio intitulado “As técnicas corporais”. O autor afirma diferente, o que é respeitoso e o que é profanação, o
que não se pode negar que o corpo humano constitui que é nobre e o que é indigno, o que é considerado

80 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Cultura negra e educação

feio e o que é bonito, entre outros. O efeito conotativo diferentes mensagens, podemos concluir também que
de tais práticas vai muito além do que se poderia es- o entendimento da simbologia do corpo negro e os
perar do seu fraco poder denotativo (Rodrigues, 1986, sentidos da manipulação de suas diferentes partes,
p. 96-97). entre elas o cabelo, pode ser um dos caminhos para a
Mas um fato relevante destaca-se nas conside- compreensão da cultura negra em nossa sociedade.
rações de Marcel Mauss. Segundo ele, as técnicas No processo histórico e cultural brasileiro, o ne-
corporais são transmitidas por meio da educação. Elas gro, sobretudo as mulheres negras, constrói sua cor-
são atos tradicionais e eficazes, e, segundo o autor, poreidade por meio de um aprendizado que incorpora
“é nisso que o homem se distingue sobretudo dos um movimento tenso de rejeição/aceitação, negação/
animais: pela transmissão de suas técnicas e muito afirmação do corpo. Porém, não basta apenas para o
provavelmente por sua transmissão oral” (Mauss, negro brasileiro avançar do pólo da rejeição para o da
1974, p. 217). Assim, a educação é o meio através aceitação para que compreenda e valorize a riqueza
do qual o homem aprende a trabalhar o corpo, trans- da sua cultura. Ver-se e aceitar-se negro toca em ques-
mitindo de geração em geração as técnicas, a arte e tões identitárias complexas. Implica, sobretudo, a res-
os meios dessa manipulação. Tudo isso ela faz atra- significação de um pertencimento étnico/racial no
vés da linguagem. Por isso podemos pensar que cada plano individual e coletivo.
sociedade desenvolve a sua pedagogia corporal. Esse Falar em corpo nos remete, inevitavelmente,
processo é mais do que imitação pura e simples. Ele aos padrões de beleza. É fato que cada grupo cultu-
é cultural. ral define a beleza à sua própria maneira, e que “o
A educação pode desenvolver uma pedagogia belo é subjetivo e se fixa no olho do contemplador”
corporal que destaque a riqueza da cultura negra ins- (Munanga, 1988, p. 7). Porém, é também verdade
crita no corpo, nas técnicas corporais, nos estilos de que esta autonomia é parcial, uma vez que a beleza
penteados e nas vestimentas, as quais também são ainda está submetida a padrões etnocêntricos – que
transmitidas oralmente. São aprendizados da infân- se pretendem universais –, os quais primam pelo
cia e da adolescência. O corpo negro pode ser toma- equilíbrio de formas e de proporcionalidade. Para
do como símbolo de beleza, e não de inferioridade. além do princípio universal de apreensão do mun-
Ele pode ser visto como o corpo guerreiro, belo, atuan- do, de conhecimento do objeto mediante os senti-
te presente na história do negro da diáspora, e não dos, temos presenciado no decorrer do processo his-
como o corpo do escravo, servil, doente e acorrenta- tórico que a partir do século XV construiu-se um
do como lamentavelmente nos é apresentado em mui- padrão hegemônico de beleza e proporcionalidade
tos manuais didáticos do ensino fundamental. baseados na Europa colonial. A partir de então, quando
O cabelo é um dos elementos mais visíveis e des- aplicamos o conceito de beleza aos corpos, passa-
tacados do corpo. Em todo e qualquer grupo étnico mos por um processo muitas vezes rígido de classi-
ele apresenta características como visibilidade, cres- ficação e hierarquização, e a aparência física passa
cimento, diferentes cores e texturas, possibilitando a carregar significados ligados a atributos negati-
técnicas diversas de manipulação sem necessariamen- vos ou positivos. Esse ideal de beleza, visto por al-
te estar subordinado ao uso de tecnologias sofistica- guns como universal é, na realidade, construído so-
das. Ao mesmo tempo, a forma como o cabelo é tra- cialmente, num contexto histórico, cultural e político,
tado e manipulado, assim como a sua simbologia, e por isso mesmo pode ser ressignificado pelos su-
diferem de cultura para cultura. Esse caráter univer- jeitos sociais. Esse é o papel da discussão sobre cultura
sal e particular do cabelo atesta a sua importância negra na educação: ressignificar e construir repre-
como ícone identitário. sentações positivas sobre o negro, sua história, sua
Se concordamos que o corpo carrega muitas e cultura, sua corporeidade e sua estética.

Revista Brasileira de Educação 81


Nilma Lino Gomes

A manipulação do cabelo citam uma interessante pesquisa da antropóloga Sylvia


como uma dimensão da cultura negra A. Boone, especialista no estudo da cultura Mende de
Serra Leoa. De acordo com essa antropóloga, uma
Por mais que a escravidão e a diáspora negra te- cabeça grande e com muito cabelo eram qualidades
nham obtido algum sucesso na despersonalização do que as mulheres africanas queriam ter. Mas era preci-
negro, por mais que a mistura racial tenha mesclado so mais do que uma quantidade abundante de cabelo
corpos, costumes e tradições, e por mais que o conta- para ser bonita. Ele deveria ser limpo, asseado e pen-
to com o branco colonizador tenha disseminado um teado com um determinado estilo, geralmente um
processo de discriminação intra-racial entre os negros desenho específico de trança, conforme a tradição de
e introduzido uma hierarquização racial que elege o cada grupo étnico.
tipo de cabelo e a cor da pele como símbolos de bele- Um estilo particular de cabelo poderia ser usado
za ou de feiúra, todo esse processo não conseguiu apa- para atrair a pessoa do sexo oposto ou como sinal de
gar as marcas simbólicas e objetivas que nos reme- um ritual religioso. Na Nigéria, se uma mulher deixa-
tem à ascendência africana. Os corpos e a manipulação va o cabelo despenteado era sinal de que alguma coi-
do cabelo são depósitos da memória. sa estava errada: a mulher estava de luto, deprimida
A escritora Ayana D. Byrd e a jornalista Lori L. ou suja. Para os Mende, um cabelo despenteado,
Tharps (2001) registram que no início do século XV desleixado ou sujo implicava que a mulher tinha “per-
o cabelo funcionava como um condutor de mensa- dido” a moral ou era insana.
gens na maioria das sociedades africanas ocidentais. A interpretação e a descrição etnográfica da an-
Muitos integrantes dessas sociedades, incluindo os tropóloga Sylvia A. Boone também se aplicam às
Wolof, Mende, Mandingo e Iorubás, foram escravi- mulheres senegalesas. Segundo ela, as mulheres Wolof
zados e trazidos para o Novo Mundo. Nessas culturas gostam de manter seus cabelos lustrosos e longos. Ele
o cabelo era parte integrante de um complexo siste- não era cortado, mas artesanalmente penteado. Um
ma de linguagem. Desde o surgimento da civilização cabelo despenteado era freqüentemente interpretado
africana, o estilo do cabelo tem sido usado para indi- como um sinal de demência. Os homens também se
car o estado civil, a origem geográfica, a idade, a re- enquadravam em tais padrões estéticos. Deles era sem-
ligião, a identidade étnica, a riqueza e a posição so- pre esperado que mantivessem seus locks limpos e
cial das pessoas. Em algumas culturas, o sobrenome arrumados, usados em estilo mais simples ou com uma
de uma pessoa podia ser descoberto simplesmente pelo criação mais elaborada.
exame do cabelo, pois cada clã tinha o seu próprio e A força simbólica do cabelo para os africanos
único estilo. continua de maneira recriada e ressignificada entre
O significado social do cabelo era uma riqueza nós, seus descendentes. Ela pode ser vista nas práti-
para o africano. Dessa forma, os aspectos estéticos cas cotidianas e nas intervenções estéticas desenvol-
assumiam um lugar de importância na vida cultural vidas pelas cabeleireiras e cabeleireiros étnicos, pe-
das diferentes etnias. Várias comunidades da África las trançadeiras em domicílio, pela família negra que
Ocidental admiravam a mulher de cabeça delicada corta e penteia o cabelo da menina e do menino. Pode
com cabelos anelados e grossos. Esse padrão estéti- ser vista também nas tranças, nos dreads e penteados
co demonstrava força, poder de multiplicação, pros- usados pela juventude negra e branca. Se no processo
peridade e a possibilidade de parir crianças saudá- da escravidão o negro não encontrava no seu cotidia-
veis. no um lugar, quer fosse público ou privado, para ce-
Byrd e Tharps (2001, p. 4), na sua reconstrução lebrar o cabelo como se fazia na África, no mundo
histórica sobre os significados culturais do cabelo contemporâneo alguns espaços foram construídos para
construídos pelos africanos e pelos negros da diáspora, atender a essa prática cultural. Os salões étnicos es-

82 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Cultura negra e educação

palhados pelas mais diferentes cidades e estados bra- ferentes lógicas de estilização negra. O processo de
sileiros apresentam-se como um dos espaços em que continuidade e recriação de elementos da cultura afri-
essa celebração é possível. Será que ela também é cana no Brasil sofre influências não só devido à ex-
possível na escola? periência da diáspora, mas ao contexto histórico, às
Para entender esse processo de recriação da me- mudanças econômicas, à globalização, à exclusão
mória, que afeta a maneira como a beleza é vista e social, às transformações no mundo da moda e às
construída pelos negros, o estudo dos penteados e do atuais condições de vida da população. Porém, mes-
simbolismo do cabelo torna-se uma necessidade e uma mo que de uma forma parcial, os negros, através das
condição. Este é um campo de pesquisa pouco explo- suas técnicas corporais, guardam como evidência de
rado no Brasil. A diferenciação na confecção dos di- uma tradição africana o lugar ocupado pelo cabelo na
ferentes tipos de penteados mostra-nos um processo estruturação da sua vida social e psíquica.
de evolução plástica quando comparamos as técnicas Assim, não é só por mera vaidade ou por não se
tradicionais de manipular o cabelo com a moderna sentirem satisfeitos com a sua aparência que os ne-
tecnologia. Este é um estudo interessante, que envol- gros e as negras dão tanta atenção ao cabelo. Para o
ve história, geografia, estética e cultura negra, e que homem e a mulher negra, manipular o cabelo repre-
pode ser desenvolvido pelos educadores. Recolher as senta uma dentre as múltiplas formas de expressão da
práticas culturais ligadas aos penteados pode ser uma corporeidade e da cultura, as quais remetem a uma
instigante tarefa para os adolescentes e jovens negros raiz ancestral. Nesse sentido, os penteados utilizados
e brancos das nossas escolas. pelos negros da diáspora e suas técnicas complexas
Apesar da ruptura na estrutura social causada pela mantêm uma certa inspiração africana, mesmo que
transplantação dos africanos para o Novo Mundo, pelo esta não esteja no plano da consciência.
processo de despersonalização e de fragmentação da A presença da cultura negra no Brasil, na qual
identidade, as formas de recriação cultural através da insiro os penteados e a manipulação do cabelo, pode
manipulação do cabelo – que podem ser vistas no in- ser vista dentro de um movimento de circularidade
terior da escola, nos bairros populares, nos bailes cultural. O fato de haver uma circulação desses ele-
funks, no movimento hip-hop, nos grupos de dança- mentos da África para o Novo Mundo, e dele retor-
afro –, continuam impregnadas de africanidade. Po- nando e influenciando, inclusive, a moda e o estilo
demos dizer, então, que a manipulação do cabelo do dos africanos contemporâneos, reforça a minha hipó-
negro não nos fala apenas da modernidade, das técni- tese da profunda capacidade de enraizamento da ma-
cas modernas de alisamento e relaxamento, da estili- triz africana na construção da cultura negra em nosso
zação de penteados, da reprodução da ideologia do país. Reitero que não há, no Brasil, nenhuma cópia
branqueamento e do mito da democracia racial, mas ou reprodução literal da cultura de matriz africana,
também de processos de resistência. Como diz mas sua recriação a partir da construção histórica e
Kabengele Munanga: social do negro da diáspora.
Dessa forma, insisto que não seria ousado acres-
Para que os elementos culturais africanos pudessem centar que, ao lado da religiosidade, vista como um
sobreviver à condição de despersonalização de seus porta- campo cultural muito resistente, no qual se pôde niti-
dores pela escravidão, eles deveriam ter, a priori, valores damente observar o fenômeno de continuidade de ele-
mais profundos. A esses valores primários, vistos como mentos culturais africanos, encontramos também, no
continuidade, foram acrescidos novos valores que emergi- Brasil, a manipulação do cabelo através dos cortes,
ram do novo ambiente. (2000, p. 99) tranças, penteados e diferentes estilos, e que esta pode
ser considerada um dos aspectos da cultura negra em
Hoje, mais do que nunca, estamos diante de di- nosso país.

Revista Brasileira de Educação 83


Nilma Lino Gomes

Considerações finais vários países africanos, fruto de um processo truculento


de colonização e exploração. Em tempos de globaliza-
Muitos aspectos da cultura negra presentes no ção, em que denúncias sobre a globalização da miséria
Brasil poderiam ainda ser destacados. Elegemos, neste têm sido feitas incessantemente, não há como conti-
artigo, a corporeidade e a manipulação do cabelo para nuarmos considerando a África como matriz estética
exemplificar a riqueza dessa cultura e sua forte pre- de vários movimentos da arte e da cultura contempo-
sença entre nós. São aspectos que, a princípio, pare- râneos e, ao mesmo tempo, ignorarmos o drama de ex-
cem não manter nenhuma relação com a educação. clusão e miséria imposto ao povo africano.
Mas, se retomarmos alguns pontos destacados no iní-
cio deste artigo, veremos que o educativo é eminen- NILMA LINO GOMES, doutora em Antropologia Social pela
temente cultural e que a relação ensino/aprendizagem USP, é professora do Departamento de Administração Escolar da
se constrói no campo dos valores, das representações Faculdade de Educação da UFMG e coordenadora do Projeto Ações
e de diferentes lógicas. Não lidamos somente com Afirmativas na UFMG, aprovado pelo concurso Cor no Ensino Su-
processos cognitivos. Aliás, cada vez mais descobri- perior do Programa Políticas da Cor, do Laboratório de Políticas
mos que a cognição é construída na cultura. Dessa Públicas da UERJ. Algumas publicações: “Iguales y diferentes:
forma, a pesquisa educacional sempre será enrique- escuela y diversidad cultural” In : Pablo Gentili (coord.) Códigos
cida pelo diálogo com outras áreas das ciências hu- para la ciudadanía: la formacíon ética como prática de la libertad

manas. No caso do estudo sobre a questão racial, é (Buenos Aires: Santillana, 2000), “Educação cidadã, etnia e raça: o
trato pedagógico da diversidade”. In : Eliane Cavalleiro (org.) Ra-
importante que esse diálogo se dê com as áreas do
cismo e anti-racismo na educação; repensando nossa escola (São
conhecimento que, pela sua história, possuem um
Paulo: Selo Negro, 2001), “O desafio da diversidade” In : Nilma
acúmulo na discussão sobre a cultura e, no caso espe-
Lino Gomes e Petronilha Beatriz e Gonçalves e Silva (orgs.). Expe-
cífico deste artigo, a cultura negra.
riências étnico-culturais para a formação de professores (Belo
Como já foi dito também, ao se discutir sobre a Horizonte: Autêntica, 2002). Organizou em parceria com Lilia K.
cultura negra não podemos nos esquecer de denun- M. Schwarcz: Antropologia e história: debate em região de frontei-
ciar a lamentável existência do racismo entre nós. A ra (Belo Horizonte: Autêntica, 2000) e com Petronilha Beatriz Gon-
ausência dessa discussão nas pesquisas educacionais çalves e Silva: Experiências étnico/culturais para a formação de
que se propõem a investigar as relações raciais e a professores (Belo Horizonte: Autêntica, 2002). Desenvolve atual-
formação cultural negra na educação brasileira pode mente a pesquisa: Práticas culturais, juventude e identidade negra.
nos conduzir a um debate despolitizado sobre o tema. E-mail : nilmagomes@uol.com.br
Porém, não podemos restringir o debate e a pes-
quisa sobre o negro e sua cultura somente aos efeitos Referências bibliográficas
nefastos do racismo. Perceber as lógicas por meio das
quais os negros e negras expressam seus sentimentos AUGÉ, Marc, (1988). L’autre proche. In : SEGALEN, Martine
e atribuem sentido ao mundo, destacar aspectos pou- (ed.). L’autre et le semblable: regards sur l’ethnologie des sociétés
co explorados da cultura negra, resgatar a história da contemporaines. Paris: Presses du CNRS. p. 19-34.
África e da sua cultura e as semelhanças existentes
BYRD, Ayana D., THARPS, Lori L., (2001). Hair story : untangling
entre esse continente e a sociedade brasileira é tam-
the roots of black hair in America. New York: St. Martin’s
bém uma tarefa necessária para o campo da pesquisa
Press.
educacional.
Cada vez mais confirmaremos que, para entender CUCHE, Denys, (1999). A noção de cultura nas ciências sociais.

o Brasil, é preciso conhecer e compreender a África. E Bauru: Edusc. Tradução de Viviane Ribeiro.

ao aceitarmos esse desafio fatalmente teremos que nos DEBERT, Guita Grin, (2000). A antropologia e o estudo dos gru-
posicionar diante das condições reais vividas hoje por pos e categorias de idade. In: MORAES, Myriam, BARROS,

84 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Cultura negra e educação

Lins de (orgs.). Velhice ou terceira idade? Rio de Janeiro: Edi- 500 anos Brasil artes visuais. São Paulo: Fundação Bienal de
tora FGV. p. 49-67. São Paulo. p. 98-111.

GEERTZ, Clifford, (1978). A interpretação das culturas. Rio de NEYT, François, VANDERHAEGHE, Catherine, (2000). A arte
Janeiro: Zahar. das cortes da África negra no Brasil. In: Mostra do redescobri-
mento : arte afro-brasileira. Associação 500 anos Brasil artes
GOMES, Nilma Lino, (2002). Corpo e cabelo como ícones de
visuais. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. p. 34-97.
construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos
de Belo Horizonte. Tese de doutorado em Antropologia So- RODRIGUES, José Carlos, (1986). O tabu do corpo. Rio de Ja-
cial. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da neiro: Dois Pontos.
Universidade de São Paulo. , (1999). O corpo na história. Rio de Janeiro: Fiocruz.
MAUSS, Marcel, (1974). As técnicas corporais. In : Sociologia e SAHLINS, Marshall, (1997). O “pessimismo sentimental” e a
antropologia. São Paulo: EPU. p. 209-233. experiência etnográfica: por que a cultura não é um “objeto”
MUNANGA, Kabengele, (1988). A criação artística negro-africa- em via de extinção (parte II). In : Mana – estudos de antropo-
na: uma arte situada na fronteira entre a contemplação e a utili- logia social. Rio de Janeiro: Contra Capa/PPGAS, v. 3, nº 2,
dade prática. África Negra. Salvador: Prefeitura Municipal de p. 103-150.
Salvador/Fundação Gregório de Mattos/Museu de Arte de São
Paulo Assis Chateaubriand, 11 de maio a 26 de junho. p. 7-9.

, (2000). Arte afro-brasileira: o que é, afinal? In : Recebido em março de 2003


Mostra do redescobrimento : arte afro-brasileira. Associação Aprovado em março de 2003

Revista Brasileira de Educação 85