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O último vôo do flamingo

Há pelo menos sete camadas de vôo em “O último voo do Flamingo” (a editora optou por
manter, inclusive no título, a ortografia vigente em Moçambique), romance de Mia Couto. Vôos
rasantes, rasteiros, sobremodo altos, amplos espaços – apresso-me a observar que essa
gradação não diz respeito à qualidade do vôo, mas às suas variadas direções.

O primeiro vôo é a própria narrativa, a história e seu conteúdo: estamos em uma imaginária
Tizangara, cercada por um mistério: corpos de soldados estrangeiros que começam,
subitamente, a explodir. Um oficial das Nações Unidas, o italiano Massimo Risi, é destacado
para investigar o caso. Tudo é contado pelo tradutor destacado pelos poderes oficiais da vila
para acompanhar o italiano. Bem, quase tudo. À medida que os fatos se sucedem, outras
vozes ganham espaço no texto, deslocando-se o foco narrativo para outros personagens:
Massimo Risi, Estêvão Jonas -o administrador da vila-, a velha-moça Temporina, a prostituta
Ana Deusqueira, o feiticeiro Zeca Andorinho e o velho Sulplício, o pai do narrador. Eles
apresentam suas versões dos fatos, ou contam sonhos ou lembranças essenciais para a
compreensão dos fatos – vôos sobre o tempo dos acontecimentos e o tempo da memória.
Os outros personagens, dona Ermelinda (a “administratriz”), Chupanga (o adjunto do
administrador) e padre Muhando completam a atmosfera de Tizungara, envolta em verdade e
ficção, realidade e magia, natureza e sobrenatural, o mundo dos vivos e o mundo dos mortos;
e um presente que balança entre a força dos antepassados e a ausência de futuro.

O segundo vôo é a forma de que Mia Couto se vale para dar conta desse universo. Para falar
de uma vila onde “acontecimento era coisa que nunca sucedia”, e que só “os factos são
sobrenaturais”, o próprio autor parece tomado por um encantamento pela linguagem.
Feiticeiro, ele mistura num caldeirão as culturas tradicionais africanas e a cultura ocidental, o
português “colonizador” com as variantes dialetais da população moçambicana – há um
glossário no final do livro.
Outros ingredientes são o uso de aforismos, desconstrução de provérbios e ditos populares
(“contra os factos tudo são argumentos”). Mia Couto “desarranja” a linguagem, em muitos
momentos a aproximar-se de Guimarães Rosa (“o motor nhenhenhou-se”) ou, mesmo, da
sintaxe do poeta Manoel de Barros, já na parte final do romance (“as sujidades se
definitivam”), e da qual emerge a relação profunda entre o homem e a terra.

O terceiro vôo tangencia as margens do realismo fantástico latino-americano ou, como sugere
Mia Couto, o “realismo animista”, na expressão do angolano Pepetela. Há Temporina, com o
rosto de velha e corpo de moça (mas que, em “flagrante de amor, juvenescia”); uma tia que,
após morta, se transforma em louva-a-deus; um personagem que, quando toca em mulher,
suas mãos aquecem até ficarem como “carvão aceso”; outro que, ao dormir, pendura os
próprios ossos fora do corpo; determinados feitiços que faziam com que os enfeitiçados
emagrecessem até ficarem do tamanho de formiga. Diante desses acontecimentos, resta ao
italiano Massimo Risi, entre uma perplexidade e outra, temer pela veracidade do relatório que
terá de entregar a seus superiores (“na capital, a sede da missão da ONU espera por notícias
concretas, explicações plausíveis. E o que tinha ele esclarecido? Uma meia dúzia de estórias
delirantes”).

Sobre esse ponto, aliás, vale reproduzir o trecho de uma entrevista que Mia Couto concedeu ao
jornal português “Público”. Perguntado sobre se acreditaria no feitiço e na eficácia dos
curandeiros ou feiticeiros da tradição moçambicana, o escritor respondeu: “a pergunta certa
não é se acredita ou não. Também é necessário separar a feitiçaria do curandeirismo. São
coisas diferentes. Mas ambas emergem de sistema de conhecimento que se sedimentaram ao
longo dos séculos. A feitiçaria e o curandeirismo são emanações que são percebidas
isoladamente do sistema total a que pertencem. Olhar para esses fenômenos sem
compreender o contexto religioso e até filosófico em que se situam só pode produzir respostas
erradas”.

O quinto vôo espraia-se no humor e na ironia. Às vezes predomina o sarcasmo, às vezes o


espírito crítico, outras tantas ambos. Quando, por exemplo, um pênis decepado é achado,
chamam a prostituta Ana Deusqueira para “identificar o todo pela parte”. Ou, em outra cena, o
administrador relata: “Na véspera de cada visita, nós todos, administradores, recebíamos a
urgência: era preciso esconder os habitantes, varrer toda aquela pobreza”. Mais ironia:
contratado para traduzir, o próprio tradutor é desnecessário. Quando ele se apresenta ao
italiano, este comenta: “Eu posso falar e entender. Problema não é a língua. O que eu não
entendo é esse mundo daqui”.

A narrativa poética incendeia o sexto vôo, carregado de lirismo. Entre várias seqüências, o
leitor há de perceber aquela em que Massimo Risi passa por um terreno minado como “Jesus
se deslocou sobre as águas”. Pode também esse leitor acompanhar a mãe do tradutor
desfiando a estória dos flamingos que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado
do mundo.
Finalmente, o sétimo vôo é aquele que, ao término da leitura, redimensiona o olhar sobre
Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, recém-saído de três décadas de guerra
civil fratricida, que matou ao menos 16 milhões de pessoas nesse período (em 2000, quando o
livro foi publicado, comemorava-se os 25 anos de independência de Moçambique). Por “O
último voo do flamingo”, Mia Couto recebeu o prêmio Mário António, da Fundação Calouste
Gulbenkian, em 2001. Na entrega do prêmio, o escritor disse que seu romance fala de uma
“perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de
esperança praticado pela ganância dos poderosos”. Contra esse estado de coisas, resta ao
escritor uma posição ética, de posicionar-se contra “a indecência dos que enriquecem à custa
de tudo e de todos”.

Mia Couto sabe criar o suspense para que passemos toda a narrativa a descobrir a causa da
explosão dos soldados. Ao fim ao cabo – como diria Couto – importa mais conhecer o destino
de um país que desaparece inteiramente, um país que talvez seja o principal personagem
dessa alegoria. Para o mais otimista dos pessimistas, à margem de um céu subterrâneo, à
beira do último abismo, é que se pode reinvestir na palavra “o mágico reinício de tudo”. Lá,
como cá, estamos precisados de gente que ame a terra em que pisa.

SOBRE MIA COUTO

António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Como
jornalista, foi diretor da Agência de Informação de Moçambique. Estudou medicina e biologia, e
trabalhou como biólogo em uma reserva natural moçambicana.
Sua obra está traduzida para diversas línguas – espanhol, sueco, francês, italiano e holandês.
Tem 15 livros publicados, sendo que o de estréia é o único de poemas, “Raiz de Orvalho”, de
1983. Depois, publicou romances, crônicas e contos. O mais recente é “O fio das missangas”,
lançado em 2004, de contos.
“O último voo do flamingo” é seu quarto romance. Antes, vieram “Terra sonâmbula (1992), “A
varanda do Frangipani” (1996) e “Vinte e Zinco” (1999).

TRECHOS DE “O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO”

“O padre Muhando já falara contra esse preconceito. O pensamento do sacerdote ia direito no


assunto: mulatos, não somos todos nós? Mas o povo, em Tizangara, não se queria reconhecer
amulatado. Porque o ser negro – ter aquela raça – nos tinha sido passado como nossa única e
última riqueza. E alguns de nós fabricavam sua identidade nesse ilusório espelho.”

“O inferno já não agüenta tantos demônios. Estamos a receber os excedentes aqui na Terra.
Um gênero de deslocados do Inferno, está entender? E nós, os antigos revolucionários,
fazemos parte desses excedentes.”

“Pássaros nenhuns não havia. Tudo em liso silêncio. Mas meu pai, só ele escutava o rouco
grasnar dos flamingos. Dívida que ele tinha com as aves pernaltas. Os pescadores chamam-
lhes os ‘salva-vidas’. No meio da noite, em plena tempestade, quando se perde noção da terra,
é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores perdidos”.

“Viver é fácil. Até os mortos conseguem. Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por
todos os viventes.”