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o Moderno Príncipe

Notas sobre a política de Maquiavel . O caráter fundamen-


tal do Príncipe consiste em que ele nao um trabalho siste-
é

mático, mas um livro "vivo" em que a .ideología política e a


ciencia política fundem-se na forma dramática do "mito". En-
tre a utopia e o tratado escolástico, as formas através das quais
se configurava a ciencia política até Maquiavel, este deu a sua
concepcáo a forma fantástica e artística, pela qual o elemento
doutrinal e racional incorpora-se num condottiero, que repre:.,
~611~ntr.QPQmór.fkamente" o símbQlo da "yon-
tade coletivt'. O processo de formacáo de uma determinada
vonmde coletiva, para-un; determinaEo_ fim político, represen- é

tado nao atrávés de disq~lassifica!tóes pedantescas de

3
. ~2S. e ~.!~!fu..o.~_Q..e.-.!UJL!QétoQ!:utt;:._a<;~9.)",mas como gua~ r
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obra mais ainda como aquele elemento que lanca a sua ver-
;~<?~~ar~::í~t!~os~..dl~ve~_~§,.1!ecessi?ades,d~ urna .pessea dadd.ra luz sobre'tbda a obra e faz dela um "manifesto político".
- - " -S0lwr~ta, tuao -º-Que faz ttabªlhªX_<ª~fanta~~rti~tLG.:;t~q].le!?J
se qller con"el1ce!:_~_garJQ.@amais-concre.ta_as<paimJ~s políticas.' / Pode-se estudar como Sorel, a partir da concepcáo da
O Príncipe de Maquiavel poderia ser estudado como urna
.;k exemplífícacño histórica do "mito" soreliano, isto é, de urna
ideologia política que se apresenta nao COt:IJ.Q fria utopía, nem
l
1)
ideologia-mito, nao tenha alcancado a com'pr~ensao do. p~rtido
. político .ficando apenas na concepcáo do sindicato profíssional.
Na verdade, para Sorel o "mito" n~o e~contrava a sua expres-
como raciocínio doutrinário, mas como tima criacáo da fantasia .sáo jnaior no sindicato como orgamzacao de urna vontade co-
concreta que ",atua sobre um povodisperso e pulverizado para letiva, mas na acáo prática do s~dicat~ e. de . um~ vonta~e
despertar e organizar a sua vontade coletiva. O caráter utó- . coletiva já atuante,. acáo prática"c~J~ maior re~li~~<;ao deve:la
pico do Príncipe consiste em que ~ríncj.plLn~Q~~:¡dstia na ser a rgreve geral, isto e, urna atividade pa~slva , l?~r as~
,~lidaQe--his.t6rica, nao se apresentava ao pOYO italia~' dizer de caráter negativo e preliminar (o cara~er POSItIVO so.e
características de imediatismo objetivo, mas era urna pura dado' pelo acordo alcancado nas vo~ta~es"as~ocladas), um~ a,~I­
abstracáo doutrinária, o símbolo do chefe, do condottiero ideal; vidade que nao preve urna fase propna atI~a e construtíva..'
mas os elementos passionais, míticos, contidos em todo o livro, Em Sorel portanto chocavam-se duas necessidades: a do mito
com a<;:ao dramática de grande efeito, juntam-se e tornam-se e a da crítica do mito, na medida em que "cada plano preesta-
reais na conclusáo, na' invocacáo de um príncipe "reahIlente belecido é utópico e reacionário". A solucáoera ~bandonada
existente". Em todo o livro, Maquiavel mostra como deve ser ao impulso do irracional, do "arbitrário" (no. sentido bergso-
o Príncipe para levar um povo ,a fundacáo do novo Estado, e ni~no de "impulso vital"),' da "espontaneidade"."
o desenvolvimento é conduzido com rigor lógico, com relevo Mas, pode um mito ser ~'nao-construtiyo", p.ode-'se imagi-
científico; na conclusáo, o próprio Maquiavel faz-se pOYO, con- nar, na ordem de intuicóes de Sorel, que seja ef~tIvamente pro-
funde-se com o pOYO, mas nao com um pavo "genéricamente" dutivo um instrumento que deixa a vontade coletIv~ ~a ~ua fase
entendido, mas com o pOYO que Maquiavel convenceu :com o primitiva e elementar d~ Te~a f?rmaJao, po~ distincáo (~or
seu desenvolvimento anterior, do qual de se toma e se sente "cisáo"), embora com violencia, IStO e, destruindo a.s relacóes
consciencia e expressáo, com o qual de sente-se identificado: morais e jurídicas existentes? M~s e~t~ vo~tadecoletI:va, a~sl!U
parece' que todo o trabalho "lógico" nao passa de urna reflexño formada elementarmente, nao deixará lmedlata~en~e. de .eXIstIr,
do povo, um raciocínio interior que se manifesta na consciencia pulverizando-se numa infinidade de vc:nta~es l~dlV1dua¡s, que
popular e acaba num grito apaixonado, imediato. -4... paixao, em virtude da fase positiva seguem ~Ir~~oes dlye;sas e c,:n-
de raciocínlo_..8J1.b.r.e si mesma, transforma-se em "afeto:".-febre; trastantes? Além do que, nao pode existir destruicáo, nega<;~o,
. fa~._d~La<;.ao_-:-Els por cíUe o e¡)ífOgo-.-aü7rfncipe nao é sem '. urna implícita construcáo, añrmacáo, e nao em sentido
----qualquer coisa de extrínseco, de "impingido" de fora, de re-
tórico, mas deve ser explicado como elemento necessario da 1 Nota-se aqui umacontradícáo ~~plícita,?o ;nod.o com o qual Cr¿ce
<

apresenta o seu problema de Histona e an~;Hls~6na co~. ou~os mo os


de ensar de Croce: a sua aversño rpelos partidos políticos e o ~e~
1 Verificar entre os escritores políticos anteriores a Maquiavel se exis- od~ de apresentar a questáo da "previsíbílídade" dos fatos, ~ocrals
tem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Principe ref Conversazioni criÚche, primeira série, págs. 150-152, relen~o ,do
livr~ de LUDOVICO LlMENTANI, La previsión.e, d~i fatti 8?C~ i, un~,
está ligado a este caráter "mítico" do livro; depois de ter representado )f Bocea, 1907): se os fatos. sociais sao ímprevísiveis e o. propno con~elto
o condottiero ideal, Maquiavel, num trecho de grande eficácia artística,
invoca o condottiem real que o personifique historicamente: esta Invo- de prevísáo é um puro .som, o irracional ~~o p~de de~ar de d~m~;:rarl
cagao apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe exatamente e cada organízacáo de homens é anti-histonca, e um preconcerto, r s.o
o caráter d):a¡pático....Em.PXQlegomeni de L. Russo, Maquiavel é de- resta resolver um a um, e com critérios imediatos, os pr?blemas. prati-
:nominado:(,artista da políticll~ urna vez aparece, inclusive, aexpres- cos colocados pelo desenvolvimento histórico. ( Cf. o artigo, de CROCE,
sao "mito";-'inas naó-precisamente com o sentido acima indicado. Il partito come giudizio e come pr~gi.udizi?, em Cu!tura e mta morale.)
.Assim, o oportunismo toma-se a umca linha possível,
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t
j
\
.1
"metafísico", 1?as pratícamente, isto é, pofiticamehte, como pro- la novamente e fortalece-la, e nao que se deva criar urna von-
grama de partido. Neste caso" supóe-se por trás da espontanei- tade coletiva ex novo, original, e orientá-la para metas con-
?adeum .puro mecanicismo, por trás da liberdade (arbítrio- cretas e racionáis, mas de urna concrecáo e racionalidade ainda
ímpulso VItal) ~m. máximo de determinismo, por trás do idea- nao verificadas e criticadas por urna experiencia histórica efe-
Iismo um materíalísmo absoluto.
tiva .e universalmente conhecida.
~ lomoderno:p~ín,cipe, o mito-príncipe, nao pode ser urna O caráter "abstrato" da concepcáo soreliana do "mito" \
pessoa real, um individuo concreto; só pode ser um organismoj[, deriva da aversáo (que assume a forma passional de urna re-
__~~~ple.~º~..dJ;:~Soo..cie.,dl!d~o qual já tenha se inicia: pulsa ética) pelos jacobinos, que certamente foram urna
do a concretIza~ao de urna vontade cóletíva reconhecida e fun- "encarnacáo categórica" do Príncipe de MaquiaveI. O moder-
damentada parcialmente na al;ao. Este organismo já é deter- no Príncipe deve ter urna parte dedicada ao jacobinismo (no
m~a~o pelo desenvolvimento histórico, é o_pª-t:tkI.Q-pJl1iti~Q;.. a
¡ significado integral que esta nocáo teve históricamente e deve
( pnmeira ceIula na qual se aglomeram germes de vontade cole-
tíva que te?dem a se tornar universais e totais. No mundo
modern?, so urna a~ao histórico-política imediata e iminente,
cara~tenzada pela necessidade de um procedimento rápido e
) I
1

I
ter conceitualmente), para exemplificar como se formou concre-
tamente e atuou urna vontade coletiva que, pelo menos por
alguns aspectos, foi criacáo ex novo, original. E preciso tam-
bém definir a vontade coletiva e a vontade política .em geral
fulminante., ,Pode-se encarnar míticamenté num indivíduo con- l no sentido moderno; a vontade como consciencia atuante da
creto; a raplde~ s.ó pode tornar-se necessária em virtude de um necessidade histórica, como protagonista de um ", drama histó-
grande pengo nnmente, grande perigo que efetivamenté leve a
um despertar ,fl;llminante das paixñes e do fanatismo, aniquilan-
I rico real e efetivo.
Urna das primeiras partesdeveria precisamente ser dedica-
doo ~ens? cr~tIco, ~ a"corrosividade irónica que podem destruir
o carater cansmaüco do condottiero (o que ocorreu na aven-
tura de Boulanger) .. Mas uma a~ao imediata de tal genero nao
! da a "vontade coletiva", apresentando a questáo deste modo:
"Quando é possível dizer que existem as condicóes para que

po~e ser, pela sua.própri.a natureza, ampla e de caráter orgánico: i possa surgir e desenvolver-se urna vontade coletiva nacional-
popular?" Portanto, urna análise histórica (económica) da es-
sera. quase s~mp~e de tipo restauracáo e reorganizacáo, e nao trutura social de um determinado país e urna representacáo
de tipo peculiar a ~~a~ao de novos Estados ede novas estru- t "dramática" das tentativas feitas através dos séculos para suscitar
turas nacionars e SOClaIS (como no caso do Príncipe de Maquia- esta-vontade e as- razóes dos sucessivos fracassos. Por que nao
vel~ .em .que ,o .aspecto de restauracáo era só um elemento houVé a monarquia absolutista na Itália no tempo de Maquia-
retonco, IStO e, ligado ao conceíto literário da Itália descendente ~necessário remontar ao Império Romano (questáo da
de ~oma~ que devia restaurar a ordem e a potencia de Roma)1. língua, dos intelectuais, etc. ) , compreender a funcáo das co-
S:ra de tipo "defensivo", e nao criador original, em que se su- munas medievais, o .significado do catolicismo, etc.; deve-se,
p.oe qu~ um~ vontade ~oletiva já existente tenha-se enfraqne- enfim, fazer um bosquejo de toda a história italiana, sintético
cído, ~Issem~n.ado, sofndo,?m colapso perigoso e ameacador mas exato.
mas nao decisivo e catastrófico que torne necessário concentrá- A razáo dos sucessivos fracassos das tentativas de criar
urna vontade coletivanacional-popular deve ser procurada na
é) tiS~~~AlémdadFranca
1. do modelo exemplar dado pelas .grandes monarquias absolu-
e, da Espanha, Maquiavel foi levado a sua concepeño
existencia de determinados grupos sociais que se' formam a par-
po ítíca a necessidade de um Estado unitário italiano pela evocaeño
do. passado de Roma. Deve-se ressaItar, porém, que nem por isso Ma- rece, se colocado oxatamente no- clima do Humanismo e do Renasci-
mento. No Livro VII da Arte della guerra le-se: "Esta província (a
qmavel deve ser c0nfun..did~ com a tradíeño literária-ret6rica. Inclusive Itália) parece ter nascido para ressuscitar as coisas mortas, como se
porque ,:ste elemento nao e exclusivo e nem ao menos dominante e
a ne~essldade de um, grande .Estado nacional .nño é deduzida dele.' E víu pela poesia, pela pintura e pela escultura", porque entáo nao ne-
cessítaria a virtude militar?", etc. Reagrupar as outras cítacñes do
tambem porque o propno apelo a Roma é menos abstrato do que pa- mesmn~enero para estabelecer o' seu caráter exato.
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'tir da dissolucáo da. burguesía comunal, no caráter particular \ ulterior da vontade coletiva nacional-popular no sentido de
l de outros grupos que refletem a funcáo internacional da Itália alcancar uma forma superior e total de civilizacáo moderna.
como sede da Igreja e depositária do Sagrado Império Romano, Estes dois pontos fundamentais: formacáo de uma vonta-
etc. Esta funcáo e a posicáo conseqüente determinam uma de coletiva nacional-popular, da qual o moderno Príncipe ao é

situacáo interna que pode ser chamada "económico-corporati- " mesmo tempo o .organizador e a expressáo ativa e amante, e
va", isto é, políticamente, a pior das formas de sociedade feudal, reforma intelectual e moral, deveriam constituir a estrutura do
a forma menos progressista e mais estagnante. Faltou sempre, trabalho. Os pontos programáticos concretos devem ser incor-
e nao podia constituir-se, uma forca jacobina eficiente, exata- porados na primeira parte, isto é, deveriam, "dramáticamente",
mente a forca que nas outras nacóes suscitou e organizou a " resultar do discurso, nao ser uma fria e pedante exposicáo de
vontade coletiva nacional-popular e fundou os Estados moder- argumentos.
nos. Finalmente, existem as condicóes para esta vontade, ou Pode haver reforma cultural, elevacáo civil das camadas
seja, qual é a relacáo atual entre estas condicóes e as Torcas mais baixas da sociedade, sem uma precedente reforma econó-
que se opóem a ela? Tradicionalmente, as forcas oponentes fo- mica e uma modificacáo na posieáo social e no mundo econó-
ram a aristocracia latifundiária e, em geral, o latifúndio no seu mico? Eis por que uma reforma intelectual e moral nao pode
conjunto, com o seu trace característico italiano: uma "bur- deixar de estar ligada a um programa de reforma. económica.
guesia rural" especial, heranca de parasitismo legada aos tem- E mais, o programa de reforma económica é exatamente o mo-
pos modernos pela ruína, como classe, da burguesia comunal do concreto através do qual se apresenta toda reforma" intelec-
(as cem cidades, as cidades do silencio). As condicóes positivas tual e moral. O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte
devem .ser localizadas na existencia de grupos sociais urbanos todo o sistema de relacóes intelectuais e morais; na medida em
convenientemente desenvolvidos no campo da producáo indus- qué o seudesenvolvimento significa de fato que cada ato é con-
trial, que alcancaram um determinado nível de cultura histórico- cebido como útil ou. prejudicial, como virtuoso ou criminoso;
política. A formacáo de uma vontade coletiva nacional-popular mas só na medida em que tem como ponto de referencia o
é impossível se as grandes massas dos camponeses cultivadores próprio moderno Príncipe e serve para acentuar o seu poder, ou
gao irrompem simultaneamente na vida política. Maquiavel contrastá-lo, O Príncipe toma o lugar, nas consciencias, da divín-
pretendia lsto através da reforma da milícia, como os jacobinos dade ou do üñpetativo categórico, torna-se a base de um laicis-
o . fizeram na RevoIDgoo Francesa. Deve-se identificar nesta mo moderno e de rima Iaicízacáo completa de toda a vida e de
>e compreensáo um jacobinismo precoce de Maquiavel, o germe tódas' as 1ela<;oes de -costume .
(mais ou menos fecundo) da sua concepcáo da revolucáo na-
cional. Toda a História, a partir de 1815, mostra o esforco das
classes tradicionais para impedir a f'ormacáo de uma vontade A ciéncia da política. A inovacáo fundamental. introduzida
coletiva deste genero, para manter o poder "económico-corpo- pela filosofia da praxis na ciencia da política e da História é a
rativo" num sistema internacional de equilíbriopassivo. demonstracáo de que nao existe urna "natureza humana" abstra-
Uma parte importante do moderno Príncipe deverá ser ta, .fíxa e .imutável '(conceito que certamente deriva do pensa-
dedicada a questáo de uma reforma intelectual e moral, isto é, mento religioso e <la transcendencia); mas que a natureza hu-
a questáo religiosa ou de urna concepcáo do mundo. Também mana o conjunto das relacóes sociais históricamente determi-
é

neste campo encontramos na tradicáo ausencia de jacobinismo nadas, isto é, um fato histórico comprovável, dentro de certos
e medo do jacobinismo (a última expressáo filosófica de tal limites, através dos métodos da filologia e da crítica. Portanto,
medo é a atitude malthusiana de B. Croce em relacáo a reli- a ciéncia políticadeve ser concebida no seu conteúdoconcreto
giáo) . o moderno Príncipe deve e nao pode deixar de ser o (e também na sua formulacño lógica) como um organismo em

L propagandista e o organizador de uma reforma intelectual e


.moral, o que significa criar o terreno para um desenvolviment~

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-
desenvolvimento .. Todavia, deve-se observar que a forma dada
por Maquiavel a qúestáo da política (isto é, a afirmacáo implí-
.

I .BIBLIOTECA DA U. C. M. G. I
cita nos seus escritos de que a política urna atividade autono-l
é

ma, com seus princípios e leis diversos daqueles da moral e da é verdadeira abstratamente , O próprio Maquiavel nota que as
religiáo, proposicáo que tem um grande alcance filosófico, pois coisas que ele escreve sao aplicadas, e foram sempre aplicadas,
implicitamente inova toda a concepcáo do mundo) é ainda hoje pelos maiores homens da História. Por isso, nao parece que
discutida e contraditada, nao conseguiu tomar-se "senso co- ele queira sugerir' a quem já sabe, nem o seu estilo é aquéle
mum". Qual o significado disto? Apenas que a revolucáo inte- ,de urna desinteressada atividade científica; nem se pode pensar
lectual e moral, cujos elementos estáocontidos in nuce no pen- que ele tenha chegado as suas teses sobre ciencia política atra-
samento de Maquiavel, ainda nao se efetivou, nao se tornou , vés de especulacóes filosóficas, o que no caso desta particular
forma pública e manifesta da cultura nacional? Ou será que matéria seria algo milagroso no seu tempo,' já que, inclusive,
só tem um mero significado político atual, serve para indicar hoje ela encontra tanto contraste e oposícño ,
apenas a separacáo existente entre govemantes e govemados,
para indicar que existem duas culturas: a dos govemantes e a Pode-se, portanto, supor que Maquiavel tem em vista
dos govemados; e que a classe dirigente, como a 19E~?,tem "quem nao sabe", que ele pretende educar políticamente "quem
urna atitude sua em rela!;ao aos §lmples, ditada" pela necessi- nao sabe". EdUCa!;aO política nao-negativa, dos que odeiam
dade de naoafastar-se deles, oe um lado; e, de outro, de man- tiranos, como parecia entender Foscolo, mas positiva, de quem
te-los na COnVIC!;aO aéque Maquiavel nada mais é do que urna deve reconhecer como necessários determinados meios, mesmo
aparicáo diabólica? . se próprios dos tiranos, porquedeseja determinados fins , Ouem
Coloca-se, assim, o problema do significado que Maquiavel nasceu na tradicáo dos homens de govérno, absorvendo todo o
teve no seu tempo e dos fins que ele se propunha escrevendo complexo da educacáo do ambiente familiar, no qual predomí-
os seus livros, especialmente o Príncipe. A doutrina de Maquia- nam os interesses dinásticos ou patrimoniais, adquire quase que
vel nao era, no seu tempo, uma coisa puramente "livresca", um automaticamente as características do político realista. Quem,
monopólio de pensadores isolados, um livro secreto que circula portanto, "nao sabe"? A classe revolucionária da época, o
entre iniciados. O estilo de Maquiavel nao o de um tratadista
é "povo" e a "nacáo" italiana, a democracia urbana que· se ex-
sistemático como os tinha a Idade Média e o Humanismo, abso- prime através dos Savonarola e dos Pier Soderini e nao dos
lutamente; é estilo de homem de acáo, de quem quer impulsio- Castruccio e dos Valentino. Pode-se deduzir que Maquiavel
nar aacáo; é estilo de "marllifesto"de partido. Certamente, a pretende persuadir estas f&!;as da necessidade. de ter um "chefe"
interpretacáo "moralística" dada por Foscolo é errada; todavia, que saiba aquilo que quer e como obté-lo, e de aceitá-lo com
éverdade que Maquiavel revela alguma coisa, e nao só teorizou entusiasmo, mesmo se as suas acóes possam estar, ou parecer
sobre o real. Mas, qual era o objetivo da revelacáo? Um obje- em contradicáo com a ideologia difundida na época» a religiáo ,
tivo moralístico ou político? Costuma-se dizer que as normas Esta posicáo política de Maquiavel repete-se na filosofia da
de Maquiavél para a átividade política "sao aplicadas, mas nao praxis. Repete-se a necessidade de ser "antimaquiavélico", de-
sao ditas"; os grandes políticos - diz-se - comecam maldi- senvolvendo urna teoriae urna técnica políticas que possam ser-
zendo Maquiavel, declarando-se antimaquiavélicos, exatamente vir as duas partes em luta, embora creia-se que elas termina-
para poderem aplicar as suas normas "santamente". Nao teria ráo por servir especialmente a parte que "nao sabia", porque
sido Maquiavel pouco maquiavélico, um daqueles que "conhe- ,;: nela é que se considera existir a fórca progressista da História.
~jago"e estultamente o ensinam, enquanto o maqmavé- Efetivainente, obtém-se de imediato um resultado: romper a
IIsmo vulgar ensina a fazer o contrário? A afirmacáo de Croce unidade baseada na ideologia tradicional, sem cuja ruptura a
de que; sendo 2 maquiavelismo urna ciencia, serve tanto aos forca nova nao poderia adquirir consciencia da própria per-
~cionários como aos democratas, como a arte da esgrima ser-
sonalidade independente. O maquiavelismo serviu para me-
ve nos nobres e aOs bandoleiros, para defender-se e assassín..ar, '
[ ~ue neste s:§!iOo é que se deve entender o juízo de Foscolo, lhorar a técnica política tradicional dos grupos dirigentes con...
servadores, assim como a política da filosofia da praxis; isto
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nao deve mascarar o' seu caráter essencialmente revolucionário, e nao "metafísicamente"? Crítica da posicáo de Croce, para o
que inclusive hoje é sentido e explica todo o antimaquiavelismo, qual, no final da polémica, a estrutura torna-se um "deus as-
daquele dos jesuítas áquele pietista de Paquale Villari. coso", um "número" em contraposicáo as "aparéncias" da su-
perestrutura. "Aparéncias" em sentido metafórico e positivo.
"Por que, "historicamente", e como linguagem, falou-se de
A política como ciencia autónoma. A questáo inicial que "aparéncias"?
deve ser colocada e resolvida num trabalho sobre Maquiavel é . É interessante registrar como Croce, partindo desta con-
a questáo da política como ciencia autónoma, isto é, do lugar cepcáo geral, extraiu a sua doutrina particular do erro e da
que a ciencia política ocupa, ou deve ocupar, numa concepcáo . origem prática do erro. Para Croce o erro .tem origem numa
sistemática (coerente e conseqüente) do mundo, numa filosofia "paixáo" imediata, de caráter individual ou de grupo; mas o
da praxis. que produzirá a "paixáo" de alcance histórico mais amplo, a
O progresso proporcionado por Croce, a 'este propósito, aos paixáo 'como "categoria"? A paixáo-interesse imediato, que é

éstudos sobre Maquiavel e sobre a ciencia política, consiste pre- .origem do "erro", o momento denominado schmutzig-jüdisch
é

cipuamente (como em outros campos da atividade crítica ero- em Glosse al Feuerbach: mas como a paixáo-interesse schmutzig-
ciana) na dissolucáo de uma série de problemas falsos, incxis- jüdisch determina o erro imediato, assim a paixáo do grupo
tentes ou mal formulados. Croce baseou-se na sua distincáo dos social mais vasto determina o "erro" filosófico (intermédio o
momentos do espírito e na afirmacáo de um momento da prá- erro-ideología, que Crece trata em separado). O importante
tica, de um espírito prático, autónomo e independente, embora nesta série "egoísmo (erro imediato) -ideologia-filosofia" o é

ligado circularmente a toda a realidade pela dialética dos con- termo .comum "erro", ligado aos diversos graus de paixáo, e
trários. Numa filosofía da praxis, a distincáo certamente nao que deve ser entendido nao no significado moralístico ou dou-
será entre os momentos do Espírito absoluto, mas entre os . trinário, mas no sentido puramente "histórico" e .dialético "da-
graus da superestrutura, tratando-se, portanto, de estabelecer a quilo que é historicamentecaduco e digno de cair", no sentido
posicáo dialética da atividade política (e da ciencia correspon- da "nño-definitividade" de cada filosofia, da "morte-vida", "ser-
dente) como determinado grau superestrutural , Poder-se-á nao-ser", isto é, do termo dialético a superar no desenvolvi-
dizer, como primeiro aceno e aproximacáo, que' a atividade po- mento.
lítica é efetivamente o primeiro momento ou primeiro grau, o D termo "aparente", "aparencia", significa exatamente isto,
momento em que a superestrutura está ainda na fase imediata . e nada mais que isto, e se justifica contra o dogmatismo: é a
de mera afirmacáo voluntária, indistinta e elementar. afirmacáo da caducidade de todo sistema ideológico, paralela-
Em que sentido pode-se identificar a política e a História mente a afirrnacáo de urna validez histórica de todo sistema, e
e, portante, toda a vida e a política? Como, em vista disso, todo da necessidade dele. ("No terreno ideológico o homem adquire
o sistema das superestruturas pode ser concebido como distlncóes consciencia das relacóes sociais": dizer isto nao é afirmar a
da política e,- portanto, justifique a íntroducáo do conceito de necessidade e a validez das "aparéncias"?)
distincáo numa filosofia da praxis? Mas, pode-sefalar de día- A concepcáo de Croce ·da política-paixáo excluí os partidos,
létíca' dos contrários? 'como se pode entender o conceito de cír- . já que nao se pode pensar numa "paixáo" organizada e perma-
culo entre os graus da superestrutura? Coneeito de "bloca his- nente: a paixáo permanente é urna condicáo de orgasmo e de
tórico", isto é, unidade entre a natureza e o espírito (estrutura espasmo, que determina incapacidade de execucáo , Exclui os
e supetestrutura), unidade dos contrários e dos distintos. partidos e exclui todo "plano" de acáo concertado preventiva-
Pode-se introduzir o critério de distincáo também na es- mente. Todavia, os partidos existem, e planos de acáo sao ela-
trutura? Como se deverá entender a estrutura? Como no siste- borados, aplicados e muitas vezes realizados em medida notá-
ma das relacóes sociais será possível distinguir os elementos ve}: há, portanto, um "vício" na concepcáo de Croce. Nem é
"técnica", "trabalho", "classe", etc., entendidos hístorícamente, preciso dizer que; se os partidos existem, istonáo tem grande

12 13
f

importancia "teórica", já que no momento daacáo o "partido" Ao lado dos ,néritos de> rnoderno "maquiavensu.o ', deri-
que atua nao é o mesmo "partido" que existia antes. Em parte, vado de Croce. u" .e-se assiualar também os "exageros" e os
isto pode ser verdadeiro, todavia entre os dois "partidos" as desvios a que deu lugar. Criou-se o hábito de considerar muito
coincidencias sao tantas que, na realidade, pode-se dizer que Maquiavel como o "político em geral", como o "cientista da
se trata do mesmo organismo. . \' yolítica", atual em todos os tempos.
Mas a concepcáo, para ser válida, deveria aplicar-se tam- A, . E necessário considerar mais Maquiavel como expressáo
bém a "guerra" e, portanto, explicar a existencia dos exércitos \ necessária do seu tempo e estreitamente ligado as' condicóes e
permanentes, das academias militares, dos corpos de oficiais. as exigencias da sua época, que resultam: 1) das lutas internas
Também o ato da guerra é "paixáo", a mais intensa e febril, é da república florentina e da estrutura particular do Estado que
um momento da vida política, é a continuacáo, sob outras for- nao sabia libertar-se dos resíduos comunais-municipais, isto é,
mas, de urna determinada política; é necessário, pois, explicar de urna forma estorvante de feudalismo; 2) das lutas entre os
como a "paixáo" pode-se tornar "dever" moral, e nao dever Estados italianos por um equilíbrio no ámbito italiano; que era
de moral política, mas de ética. dificultado pela existencia do Papado e dos outros residuos
Sobre os "planos políticos" ligados aos partidos como for- feudais, municipalistas, da forma estatal urbana e nao territo-
macóes permanentes, lembrar aquilo que Moltke dizia dos pla- rial; 3) das lutas dos Estados italianos mais ou menos solidá-
nos militares: quedes nao podem ser elaborados e fixados rios por um equilíbrio europeu, ou seja, das contradicóes entre
precedentemente em todos os seus detalhes, mas só no seu nú- as necessidades de um equilíbrio interno italiano e as exigen-
cleo e rasgo central, porque as particularidades da agao depen- cias dos Estados europeus em luta pela hegemonia.
dem, em certa medida, dos movimentos do adversário . A paixáo Atua sobre Maquiavel o exemplo da Franca e da Espanha,
manifesta-se exatamente nos particulares, mas nao parece que que alcancaram urna poderosa unidade estatal territorial; Ma-
o principio de Moltke seja tal que justifique a concepcáo de quiavel faz urna "comparacáo elítica" (para usar a expressáo
Croce. Em qualquer caso, restaría por explicar o genero de crociana) e deduz as regras para um Estado forte em geral e
"paixáo" do Estado-Maior que elaborou o plano fria <:) "de- italiano em particular. Maquiavel é inteiramente um homem
sapaixonadamente" . da sua época; e a sua ciencia política representa a filosofia do
Se o conceito crociano da paixáo como momento da polí- seu tempo, que tende a organízacáo das monarquias nacidnais
tica choca-se com a dificuldade de explicar e justificar as for- absolutistas, a forma política que permite e facilita um desen-
macóes políticas permanentes, como os partidos e mais ainda volvimento das, forcas produtivas burguesas. Pode-se descobrir
os exércitos nacionais e os Estados-Maiores, urna vez que nao in nuce em Maquiavel a separacáo dos poderes e o parlamen-
"n se pode conceber urna paixáo organizada permanentemente sem tarismo (o regime representativo): a sua ferocidade dirige-se
/1 que ela se- torne racionalidade e reflexáo ponderada, isto é, nao contra os resíduos do mundo feudal, nao contra as classes pro-
~ . mais paixáo, a solucáo só pode ser encontrada na identidade gressistas. O Príncipe deve acabar com a anarquia feudal; e isto
entre. política e economia. A pol~!l~2Xao J2~n~~~ é o que faz Valentino na Romanha, apoiando-se nas classes
"nti~ªuizac6es. peliiffi!Íeñfes, na medida em que efetiva- produtoras, mercadores e camooneses. Em virtude do caráter
mente se identifica com a ecoñOinia. Mas esta também tem sua militar-ditatorial do chefe do Estado, como se requer num pe-
distincáo, e por isso pode-se falar separadamente de economia ríodo de luta para a fundacáo e a consolidacáo de um novo
e de política e pode-se falar da "paixáo política" comoum poder, a indicacáo de classe contida na Arte della guerra deve
impulso imediato a agao, que: nasce no terreno "permanente e ser entendida também para a estrutura do Estado cm geral: se
orgánico" da vida económica, mas supera-o, fazendo entrar em as classes urbanas pretendem terminar com a desordem interna
jogo sentimentos e aspiracóes em cuja atmosfera incandescente e a anarquia externa devem apoiar-se nos camponeses como
o próprio cálculo da vida humana individual obedece a leis massa, constituindo uma forca varmada segura e fiel de tipo
diversas daquelas do proveito individual, etc. . inteiramente diferente daquelas de ocasiáo . Pode-se dizer que a

14 15
concepcáo essencialmente política de tal forma dominante em
é ponto de vista do interesse nacional, de um equilíbrio interno
Maquiavel que o leva a cometer erros de caráter militar: ele das c1asses, de modo que a hegemonia pertenca ao Terceiro
pensa especialmente na infantaria, cujas massas podem ser ar- Estado através do monarca. Parece-me evidente que cIassificar
roladas com urna acáo política e por isso desconhece o signifi- Bodin entre os "antimaquiavélicos" seja questáo absolutamente
cado da artilharia. extrínseca e superficial. Bodirr funda a ciencia política na
Russo (em Prolegomeni a Machiavelli) observa justamen- Franca num terreno muito mais avancado e complexo do que
te que a Arte della guerra integra o Príncipe, mas nao extrai aquele oferecido pela Itália a Maquiavel. Para Bodin, nao se
todas as conclusóes da sua observacáo , Também na Arte della trata de fundar o Estado unitário-territorial (nacional), isto é,
guerra Maquiavel deve ser considerado como um político que de retornar á época de Luís XI, mas de equilibrar as forcas
precisa ocupar-se da arte militar; °
seu unílateralismo (com sociais em luta dentro desse Estado já forte e enraizado; nao
outras "curiosidades", como a teoria da falange, que dáo lugar é o momento da forca que interessa a Bodin, mas o do consen-
a fáceis chalacas como aquela mais difundida extraída de Ban- so. A monarquia absolutista tende a se desenvolver com Bodin:
dello) depende :do fato de que a questáo técnico-militar nao o Terceiro Estado tem tal consciencia da sua forca e da sua
constitui o centro do seu interesse e do seu pensamento. Ele dignidade, sabe tao bem que a sorte da monarquia absoluta
trata dela apenas na medida em que é necessária para a sua está ligada a sua própria sorte e ao seu próprio desenvolvimen-
construcáo política.. Mas nao só a Arte della guerra deve ser to, que impoe condicáes para o seu conseniimenio, apresenta
ligada ao Príncipe; também Istorie jiorentine, que deve efetiva- exigencias, tendea limitar o absolutismo. Na Franca, Maquia-
mente servir para urna análise das condicóes reais italianas e vel já servia a reacáo, pois podia ser utilizado para justificar
européias das quais derivam as exigencias imediatas contidas que se mantivesse o mundo no "berco" (segundo a expressáo
no -Príncipe. de Bertrando Spaventa); portanto, era necessário ser "polemi-
De urna concepcáo de Maquiavel mais aderente aos tem- camente" antimaquiavélico.
pos deriva, subordinadamente, urna avaliacáo mais historicista Deve-se notar que na Itália estudada por Maquiavel nao
dos chamados "antimaquiavélicos", ou, pelo menos,dos mais existiam instituicñes representativas já descnvolvidas e signifi-
"ingenuos" entre eles. Na realidade, nao se trata de antima- cativas para a vida nacional como as dos Estados Gerais na
quiavélicos, mas de políticos que exprimem exigencias da sua Franca. Quando, modernamente, se observa. de modo tenden-
época ou de condicóes diversas daquelas que influíam sobre cioso, que as instituicóes parlamentares na Itália foram impor-
.Maquiavel; a forma polémica puro acidente literário. O exem-
é
tadas do exterior, nao se leva em conta que isto reflete apenas
plo típico destes "antimaquiavélicos" parece-me lean Bodin urna condicáode atraso e estagnacáo da história política e social
(1530-1596), que foi deputado dos Estados Gerais de Blois, italiana de 1 500 a 1 700; condicáo que se devia em grande
em 1576, e Ievou o Terceiro Estado a recusar os subsídios so- parte a predominancia das relacóes internacionais sobre as re-
licitados para a guerra civil.' . lacóes internas, paralisadas e entorpecidas. O fato de que a
estrutura estatal italiana,em virtudeda predominancia estran-
Durante as guerras civis na Franca, Bodin o expoente do
é
geira, tenha permanecido na fase- semifeudal de umobjeto de
terceiro partido, denominado dos "políticos", que defende o
suzeraineté estrangeira, seria talvez "originalidade" nacional
1 Obras de BODIN: Methodus ad facilem historiarum cognitionem destruída pela importacáo das formas parlamentares que, ao
( 1566), onde assínala a influencia do clima sobre a forma dos Estados, contrário dáo urna forma aoprócessoríé l1bertac;ao nacional?
acena para urna idéia de progresso, etc.; République (1576), onde ']E a passagem ao Estado territorial m@detftd (independente e
exprime as opinioe~ do Terceiro Estado sobre amonarquia absoluta e nacional)? No mais, especialmente no Sul e ffá Sieília, existiram
lls.suas relacñes com o po~o; Heptaplomeres (inédito até a época mo- instituicóes representativas, mas com caráter muito mais restrito
derna), em que examina todas as relígíñes- e justifica-as como expres-
sñes diversas das religioes naturais, as únicas razoáveis, e todas igual- do que na. Franca, cm virtude do pequeno deserivolvimento do
mente dignas de respeito e de tolerancia. Terceiro Estado nestas regi6es. Isto levava a que os Parlarñen-

16 17
1---------
tos. fóssem utilizados como instrumentos para manter a anar- ticas baseiarn-se neste fato primordial, irreduzível (em certas
I quia dos b.ar6es ~ontra as ~~ntativas. inovadoras da monarquia, condicóes gerais). As origens deste fato constituem um pro-
-1 a qual ?e~Ia apoiar-se nos maltrapilhos", na ausencia de urna blema cm si, que deverá ser estudado em si (pelo menos poder-
~urguesI~. É compreensível que o programa e a
tendencia a se-á e dever-se-á estudar como atenuar e eliminar o fato, modi-
ficando certas condicóes identificáveis como atuantcs neste sen-
h~a.r a cidade ao campo pudessem ter apenas urna expressáo
militar, sabendo-se que o jacobinismo francés seria inexplicável tido') , mas permanece o fato de que existem dirigentes e dirigi-
sem o pressuposto da cultura fisiocrática, coma sua demons- dos, governantes e governados. Em virtude disto, resta ver a
I
tra<;~o da importáncia económica e cultural do agricultor • As possibílidade de como dirigir do modo mais eficaz (dados cer-
teo.rIas economicas de Maquiavel foram estudadas por Gino _tos fins) , de como preparar da melhor maneira os dirigentes
I ~nas .(em A~,:ali d'Econon:ia da Universidade Bocconi), mas (e nisto precisamente consiste a primeira secáo da" ciencia e
e preciso verificar se Maquiavel teve teorias económicas. Tra- arte políticas), e como, de outro lado, identificar as linhas de
ta-se de ver se a linguagem essencialmente política de Maquia- menor resistencia ou racionais para alcancar a obediencia dos
vel p~od~ ser traduzida em termos económicos, e a qual sistema dirigidos ou governados. Ao formar-se o dirigente, é funda-
eCO?OmICO pode .s.er reduzida. Ver se Maquiavel,-que viveu no mental a premissa: pretende-se que existam sempre governados
pe~lOdo mercantIlis~a~ pohticamente precedeu os tempos e an- e governantes, ou pretende-se criar as condicóes em que a
tecípou algumas exigencias que posteriormente encontraram sua necessidade dessa divisáo desaparees? Isto é, parte-se da pre-
expressáo nos fisiocratas.s missa da divisáo perpétua do genero humano, ou ere-se que e1a
, Elementos de polí~íca. Deve-se dizer que os primeiros ele- é apenas um fato histórico, correspondente a certas condicóes?
mentos a serem esquecidos foram exatamente os primeiros ele- Entretanto, deve-se ver claramente que a divisáo entre gover-
me?tos, as. c~i~as mais elementares; estas, por outro lado, re- nados e governantes, embora, em última análise, refira-se a urna
petíndo-se infinitas vezes, transformam-se nos pilares da política divisáo de grupos sociais, todavía. existe, em virtude da forma
e de qualquer acáo coletiva. como as coisas sao, também no seio do mesmo grupo, inclusive
Primeiro .e!emento é a existencia real de governados e socialmente homogéneo; pode-se dizer, em certo sentido, que
governantes, dirigentes e dirigidos. Toda a ciéncia e arte polí- esta divisáo urna criacáo da divisáo do trabalho, é um fato
é

11 técnico. Especulam sobre esta coexistencia de motivos todos


1 • Recordar o estudo de ANTONIO PANELLA, Gli antimachiavellici, pu- II os que véem em tudo apenas "técnica", necessidade "técnica",
bhcado no Marzocco de 1927 (ou também em 26?, em . onze artigos}, I etc., para nao propor-se o problema fundamental.
observar como Panella julga Bodin em confronto cO,m Maquiavel ~'
co~o .o proplema. do antimaquiavelismo é apresentado em geral, (Os
Dado que no mesmo grupo existe a divisáo entre gover-
pnmeiros tres artígos foram publícados iem 1926, os outros em 1927. nantes e governados, é necessário fixar alguns princípios inder-
-N.eL) rogáveis. Exatamente neste terreno ocorrem os "erres" mais
2 R~usseau ~eria sido possÍ,:"e} sem a cultura fisiocrática? Nao me pa- graves, isto é, manifestam-se as incapacidades mais criminosas,
rece Justo, afirmar que os físíocratas tenham representado meros inte-
resses agrícolas e que só com a economia c1ássica afírmem-se os inte-
mais difíceis de endireitar. Cré-se que, estabelecido o princípio
resses do cap~t~lismo urbano. (?s fisiocratas representam a ruptura ,do mesmo grupo, a obediencia deva ser automática, deva ocor-
com o mercantilismo e com o regime das corporacñes e constituem urna rer sem necessidade nao só de urna demonstracáo de "necessi-
fase para se chegar a economia clássíca . Mas, exatamente por isso, pa- dade" e racionalidade, mas seja indiscutível (alguns pensam, e
rece-me que eles representam uma sociedade futura muito mais com- isto é o pior, que a obediencia "virá" sem ser solicitada, sem
plexa d? qu.e aquela contra a q~al c~mbatem e do que aquela que
resulta . lmedl~ta~ente das s~as afirmacóes . A sua línguagem está bas- que seja indicado o caminho a seguir). Assim, é difícil extirpar
tante ligada a epoca e expnme a .contradíoño imediata entre cidade e o cadornismo dos dirigentes, isto é, a conviccáo de que urna
ca~po, mas, faz ,prever um "alargamento do capitalismo na direcáo da coisa será feita porque o dirigente considera justo e racional
agricultura. A formula do deixar fazer, deixar passar", isto é da Ií- que ela seja feita .Se nao é feita, "a culpa" é lancada sobre
berdade i~~ustrial ede iniciativa, nao está certamente ligada 'a ínte-
resses agranos. quem "deveria fazé-la", etc. Desse modo, torna-se difícil extir-

18 19
par o hábito criminoso do desleixo em evitar os sacrifícios inú- pressup6e cada ato como o momento de um processocomplexo,
teis. Entretanto, o senso comum unostra que a maior parte já iniciado e que continuará. A responsabilidade deste processo,
dos desastres coletivos (políticos) ocorrem por nao ter-se pro- de ser atar deste processo, a solidariedade para com .forcas
curado evitar o sacrifício inútil,ou porque se mostrou nao materialmente "ignotas", mas que apesar disso revelam-se ope-
levar em conta o sacrifício dos outros, jogando-se com as -suas ., rantes e ativas e que sao levadas em conta como se fossem
vidas. Todos já ouviram oficiais que estiveram nas trincheiras "materiais" e presentes corporalmente, é o que se denomina
contar ~omo rea~n:ente os soldados arríscavam a vida quando ,exatamente, em certos casos, "espírito estatal". É evidente que
era mais necessano. Mas como, ao contrário, se rebelavam tal consciencia do "tempo" deve ser concreta, e nao abstrata,
quando se sentiam abandonados. Por exemplo: uma companhia ., em certo sentido, nao deve ultrapassar determinados limites.
e:.a cap~z de jejuar muitos dias quando sabia que os víveres Admitamos que os limites mais estreitos sejam urna geracáo
nao podiam chegar por motivo de forca maior; mas amotinava- precedente e urna geracáo futura, o que nao é pouco, pois as
se ~e nao recebesseapenas uma refeicáo por desleixo, buro- geracóes seráo avaliadas, nao a contar de trinta anos antes e
cratísmo, etc. trinta anos depois de hoje, mas orgánicamente, em sentido his-
. ~~te pri~cípio estende-se a todas as acóes que exigem tórico, o que em relacáo ao passado, pelo menos, é fácil de
sacn~clOs . EIS por que, antes ~e tudo sempre necessário,
é
compreender. Sentimo-nos solidários com os homens que hoje
depoís de qualquer reves, exammar as responsabilidades dos sao velhíssimos e que para nós representam o "passado" que
~irigent~s" e isto nu~ sentido restrito (por exemplo: uma frente ainda vive entre nós, que deve ser conhecido e examinado, pois
e constituida de murtas secóes, e cada secáo tem os seus diri- é ele um dos elementos do presente e das premissas do futuro;
gent~s: É possível que os responsáveis por urna derrota sejam
e com as criancas, com as geracóes que estáo nascendo e eres-
os dirigentes de urna secáo, mas trata-se de mais e de menos cendo, pelas quais somos responsáveis. (É outro o "culto" da
porém jamáis de exclusáo de responsabilidades para qualquer "tradicáo", que tem um valor tendencioso, implica urna opcáo
um)., e um objetivo determinado, baseia-se numa ideologia.) Mas,
se se pode afirmar que um "espírito estatal" assim compreen-
Estabelecido o princípio de que existem dirigidos e di;i- dido está em tudo, é necessário lutar permanentemente .contra
gentes, governantes e governados, verifica-se que os "partidos" deformacóes ou desvios que nele se manifestam.
sao ate agora o modo mais adequado para aperfeicoar os diri-
gentes e a capacidade de. dire.c;ao (os partidos podem-se apre- O "gesto pelo gesto", a luta pela luta, etc., e especialmente
sen~ar ~ob os nomes mais diversos, mesmo sob o nome de o individualismo estreito e mesquinho, que nao passa de urna
antípartido e de "negacáo dos partidos"; na realidade, até os satisfacáo caprichosa de impulsos momentáneos, etc. (Na rea-
chamados "individualistas" S2[0 homens de partido só que pre- lidade, o ponto sempre aquele do "apoliticismo" italiano, que
é

tenderiam ser "chefes de partido" pela graca de Deus ou pela assume estas várias formas pitorescas e bizarras.) O individua-
imbecilidade dos que os seguem). lismo é apenas apoliticismo animalesco, o sectarismo é "apoli-
" " l?esenvolvi~ento .do conceito geral co~tid.o. na expressño ticismo". Efetivamente, se se observar bem, o sectarismo é urna
esp~nto ~stat~l . Esta expressao tem um significado bastante forma de "clientela" pessoal na medida em que está ausente o
pr~cIso, históricamente determinado. Mas,' surge o problema: espírito de partido, elemento fundamental do "espírito estatal".
existe algo. semelhante ao que se denomina "espírito .estatal" Demonstrar que o espírito de partido é o elemento fundamental
num movimento sério, que nao seja .a expressáo arbitrária de do espírito estatal é um dos argumentos mais elevados a serem
individualismos mais ou menos justificados? Contudo, o "espírito sustentados, e da maior importancia; vice-versa, o "individua-
estatal" pressup6e a continuidade, tanto no que se refere ao lismo" é um elemento animalesco, "apreciado pelos forasteiros",
passado, a' tradicáo, como no que se refere ao futuro. Isto é: como os atos dos habitantes de um jardim zoológico.
20 21
o partido político. Afirmou-se que o protagonista do novo a nenhuma das fracóes, mas opera como se fosse urna forca
Príncipe nao poderia ser, na época moderna, um herói pessoal,
mas o partido político. Isto é: sempre e nas diferentes relacóes dirigente superior aos partidos e as vezes reconhecida c?mo tal
internas das diversas nacóes, aquele determinado partido que pelo público ,Esta funcáo pode. ser estudada c~m maior pre-
pretende (e está racional e historicamente destinado a este fim) cisáo se se parte do ponto de VIsta de que um Jorn~l (ou ~m
fundar um .novo tipo de Estado. grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas), sao
também eles "partidos", "fracóesde partido". ou "funcóes de
É necessário observar como nos regimes totalitários a fun-
~ao tradicional do instituto da Coroa é, na realidade, absorvida
um determinado partido". Veja-se a funcáo do Times na In-
por um determinado partido, que é totalitário exatamente por- glaterra, a que teve o Corriere delta Sera na Itália, J também
que assume tal funcáo , Embora cada partido seja aexpressáo ,a funcáo da chamada "imprensa de informacáo", supo.stamente
de um grupo social e de urn só grupo social,ocorre que, em "apolítica", e até a funcáo da imprensa esportiva e da I~prensa
determinadas condicóes, determinados partidos representam um técnica. De resto, o fenómeno apresenta aspectos interes-
grupo social' na medida em que exercem urna funcáo de equilí- santes nos países onde existe um partido único e total~­
brio e de arbitragem entre os interesses do seu grupo e os outros tário de govérno; pois tal partido nao desempenha mais
grupos, e na medida em que buscam fazer com que o desenvol- funcóes simplesmente políticas, mas só técnicas, de yropa~~nda;
vimento do grupo representado se processe com o consentimen- de polícia, de influencia moral e cultural. .A func;:a~ p01lt~ca e
to e com a ajuda dos grupos aliados, e muitas vézes dos grupos indireta, pois se nao existem outros partidos legais, ~xIstem
decididamente inimigos, A fórmula constitucional do rei ou do sempre outros partidos de fato e tendencias legalmente mcoer-
presidente da república que "reina mas nao governa" é a fór- cíveis, contra os quais a polémica e a luta t~avada como se
é

mula jurídica que exprime esta funcáo de arbitragem e a preo- num jogo de cabra-cega. De qualquer modo, e certo que em
tais partidos. as funcñes culturais predominam, dando lugar a
cupacáo dos partidos constitucionais de nao "descobrir" a coroa
ou presidente; as fórmulas sobre a náo-responsabilidade para os urna linguagem política de jargáo: isto é" as quest6e~ pol!tic~s
revestem-se de formas culturais e como tal se tornam insolúveis.
atos governamentais do chefe de Estado, mas sobre a respon-
Mas um partido tradicional tem um caráter essencial "indi-
sabilidade ministerial, sao a casuística do princípio geral de
reto,": apresenta-se 'explícitamente como puramente "educativo:'
tutela da concepcáo da unidade estatal e do consentimento dos
(lucus, etc.), moralista, de cultura (sic). É o movimento 11-
governados a acño estatal, qualquer que seja o pessoal imediato bertário Inclusive a chamada acáo direta (terrorista) é con-
do governo e o seu partido.
cebida ~omo "propaganda" através do exemplo. A partir. daí
No caso do partido totalitário, estas fórmulas perdem o é possível ainda reforcar a opiniáo de que o movimento ~ber­
seu significado, levando a minimizacáo do papel das instituicóes tário nao é autónomo, mas vive a margem dos outros partidos,
que funcionavam segundo as referidas fórmulas; mas a própria
"para educá-los". "P?de-se falar d~ um ::libert~r~sm~" ineren~e
fun~ao é incorporada pelo partido, que exaltará o conceito
a cada partido orgamco. (O que sao o~ Hb~rta~lOs I~telectuaIs
abstrato de "Estado" e procurará de várias maneiras dar a im- ou cerebrais" se nao um aspecto desse marginalismo em rela-
pressáo de que a funcáo de "forca imparcial" continua ativa e
eficaz. . ~ao aos grandes partidos .dos "grupos sociais do~in~~tes?). A
própria "seita dos economistas era um aspecto, histórico deste
Será necessária a acáo política (no sentido estrito) para fenómeno.
que se possa falar de "partido político"? Observa-se que no -Portanto apresentam-se duas formas de "partido" que,
mundo .moderno, em muitos países, os partidos orgánicos e como tal, ao que parece, fazem abstracáo da acáo política ime-
fundamentais se dividiram, por necessidade de luta ou por qual- diata: o partido constituído por urna élite de ~omens de cultura,
quer outra razáo, em fracóes que assumiram o nome de "parti- que tém a funcáo de dirigir d? ponto de vl~ta da. cultura, da
do" e, inclusive, de partido independente , Por isso, muitas ve- ideologia geral, um grande movIme~to de ~al:tIdos afins .(na ,rea-
zes o Estado-Maior intelectual do partido orgánico nao pertence lidade, fracóes de um mesmo partido orgamco); e, no penodo
22
23
mais recente, o partido de nao-élite, mas de massas, que como partido terá maior ou menor significado e peso na medida em
massas nao tém outra funcáo política que a de urna fidelidade que a sua atividade particular pese mais 011 menos na determi-
genérica, de tipo militar, a um centro político visível ou invisí- nacáo da história de um país.
vel (freqüentemente o centro visível o mecanismo de coman-
Dessa forma, chegamos a conclusáo de que do modo de
é

do de fórcas q~e nao desejam mostrar-se a plena luz, mas ape-


nas operar indiretamente por interposta pessoa e por "inter- escrever a história de um partido resulta o c~nceito que se tem
posta ideologia"). A massa é simplesmente de "manobra" e é daquilo que é e deva 'ser um partido , O. sectário exaltará os
"conquistada" com pregacóes morais, estímulos sentimentais .pequenos fatos internos, que teráo para ele um significado eso-
mitos messianico~ ~e expe~:t~t~va de idades fabulosas, nas quai~ térico, impregnando-o de um entusiasmo místico; o historiador,
todas as contradicóes e misenas do presente seráo automática- - mesmo- dando a cada coisa a importancia que tem no quadro
mente resolvidas e sanadas. geral, acentuará sobretudo a eficiencia real do partido, a sua
Para se escrever a história de um partido político, é neces- forca determinante, positiva e negativa, a sua contribuicáo para
sário enfrentar toda uma séríe de problemas muito menos sim- criar um acontecimento e também para impedir que outros
ples do que pensa, por exemplo, Roberto Michels considerado acontecímentos se verifiquem.
um especialista no assunto . O que é a história de' um partido? O desejo de saber exatamente quando um partido se Ior-
~erá a mera narracáo da vida interna de uma organízacáo polí- mou, isto é, quando assumiu urna missáo precisa e permanente,
tica? Como nasce, os primeiros grupos que a constituem as dá lugar a muitas discussóes e freqüentemente gera também uma
polémicas ideológicas através dasquais se elabora o seu ~ro­ forma de bazófia que nao é menos ridícula e perigosa do que a
grama e a sua concepcáo do mundo e da vida? Tratar-se-ia, "bazófia das nacóes", a qual Vico se refere. Na verdade, pode-
neste caso, da história de grupos intelectuais restritos, e algumas se dizer que um partido jamais se completa e se forma, no sen-
vezes da biografia política de umindivíduo. Lago, a moldura tido de que cada desenvolvimento cria novas missóes e encargos
do quadro deverá ser mais vasta e compreensiva. e no sentido de que, para determinados partidos, é verdadeiro
Dever-se-á escrever a história de uma determinada massa o paradoxo de que eles só se completam e se formamquando
de ~omens que seguiu os promotores, amparou-os com a sua deixam de existir, isto é, quando a sua existencia se tornou
confíanca, com a sua lealdade, com a sua disciplina, ou que os históricamente inútil. Assim, como cada partido nao é mais
criticou "realisticamente", dispersando-se ou permanecendo que urna nomenclatura de classe, evidente que, para o partido
é

passiva diante de algumas iniciativas. Mas será esta massa cons- que se propóe anular a divisáo em classes, a sua perfeicáo e
tuída apenas pelos adeptos do partido? S~rá suficiente acompa- acabamento consiste em nao existir mais, porque já nao existem
nhar . o~ congressos, as vot:a9Ü~s,.:etc., i~to é, todo o conjunto classes e, portanto, a sua expressáo. Mas, no caso presente, re-
de atividades e de modos de: existir atraves dos quais urna massa ferimo-nos a .um momento particular deste processo de desen-
de partido manifesta a sua vontade? Evidentemente será neces- volvimento: ao momento posterior áquele em queum fato pode
sário levar .em conta o grupo social do qual o partido expressáo
é existir e pode nao existir, no sentido de que a necessidade da
e s~tor ~aIs avancado .. L~~o, a história de um partido nao po- sua existencia ainda nao se tornou "peremptória", mas depende
dera deixar de ser a história de um determinado grupo social. em "grande parte" da existencia de pessoas de extraordinário
~as. este gr.?po nao é isolado; tem amigos, afins, adversários, poder volitivo e de extraordinária vontade ,
mmngos . So do quadro complexo de todo O, conjunto social e Em que momento um partido torna-se históricamente "ne-
estatal (e freqüentemente com interferencias internacionais) re- cessário"? No momento em que as condicóes do seu "triunfo",
sl;lltará a história de um determinado partido. Assim, pode-sé da sua infalível transformacáo em Estado estáo, pelo menos,
dizer que escrever a história de um partido significa exatamente em vias de forrnacáo e levam a prever normalmente o seu de-
escrever a história geral de um país, de um ponto de vista senvolvimento ulterior. Mas quando é 'possível dizer, em tais
monográfico, destacando um seu aspecto característico. Um condicóes, que um partido nao pode ser destruído por meios
24 25
normais? Para responder a isto necessário desenvolver um segundo elemento nao existe, todo raciocinio é vazio) mesmo
dispersas, os outros dois inevitavelmente devem-se f~i:mar o
é

raciocínio. Para que um partido exista é obrigatória a confluen-


cia de tres elementos fundamentais (tres grupos· de elementos): primeiro, que obrigatoriamente forma o terceiro como continua-
cáo dele e seu meio de expressáo . I
. ~. !lm, elemen~o difuso, de homenscomuns, médios, cuja
Para que isto ocorra é preciso que se tenha criado a con-
partlClpa5~0 e .ofereclda pela disciplina e pela fidelidade, nao
~elo e~pmt? ~r!ad<?r e altamente orgaríízativo , Sem eles o par- . v~c~.ao férrea de que urna determinada solucáo dos problemas
t~do nao e,XIstIr!a, e ~e:~ad,~; mas ta.II!bémé verdade que o par- vítaís torna-se necessária .. Sem esta conviccáo nao se formará
tido tambem nao existiria somente" com eles. Eles constituem o segundo elemento, cuja destruicáo é mais fácil em virtude do
um~ forca .na. n;tedida em que existe algo que os centraliza, or- seu número escasso; mas é necessário que este segundo elemen-
gamza e disciplina; mas na ausencia dessa fórca eles se disper- to, se destruído, deixe como heranca um fermento a partir do
sanam e anulariam numa poeira impotente. Nao se nega que' q~al volte a se formar. E este fermento subsistirá melhor, e
cada u~ desses elementos pode-se transformar numa das forcas ainda melhor se formará, no primeiro e no terceiro elementos
de coesao; mas falamos deles exatamente no momento em que que .s~ homoge~am mais com o segundo. Em virtude disso:
nao o sao e nao estáo em condicóes de se-lo e se o sao é só a atividade do segundo elemento para constituir este elemento
num círculo restríto, poIi:ticamente ineficiente'e inconseqüente. é fundamental. O critério parase julgar este segundo elemento
2... : ~ . elemento de coesáo principal, que centraliza no deve ser procurado: 1) naquilo que realmente faz; 2) naquilo
campo nacional, que torna eficiente e poderoso um conjunto de que prepara na hipótese da sua destruícáo , É difícil dizer qual
torcas que.' abandonadas a si mesmas, representariam zeró ou entre os dois fatos é o mais importante. Jáque na luta deve-se
pouco mais; este elementu é dotado deuma forca altamente ~empre prever a _der.rota, a preparacáo dos próprios sucessores
~oesi~a, ce~tralizadora e disciplinadora e, também, talvez por e um elemento tao Importante quanto tudo o que se faz para
IStO, inventiva (se se entendle "inventiva"· em certo sentido se- vencer.
gundo~eterminad~s linhas de .fór~a, determinadas perspectivas, A propósito da "bazófia" do partido, pode-se dizer que
e tambem _determIna.das premissas) . É verdade que, só, este ela é pior do que a "bazófia das nacóes", á.qual Vico se refere.
ele~~nto nao forn~ana. o partido, embora servisse para formá-lo Por que? Porque urna nacáo nao pode nao existir, e no fato
mais do que o pnmeiro elemento considerado. Fala-se de ca- de queela existe é sempre possível, mesmo recorrendo a boa
pitáes sem exército, mas, na realidade, é mais fácil formar um vontade e 'solicitando .os textos, achar que a existencia. é plena
~~érc~to do ~ue capi!aes. Tanto isto é ve!~ade que um exército de destino e de significacáo . Vm partido, ao contrárioc .nño
J~ e~stente e destruido se faltam os capítáes, enquanto a exis- pode existir por forca própria. J amais devemos ignorar que, na
téncia de um grupo de capitáes, unidos, de acórdo entre eles luta entre as nacñes; cad,a urna delas tem interesse em que a
com objetivos comuns, nao demora ªJ.6rmar um exército inclu- outra se enfraqueca atraves das lutas internas e que. os partidos
sive onde ele nao existe. . , ' sao exatamente os elementos das lutas internas. Portanto, no que
3 . Um elemento médio, que articule o primeiro com o se refere aos partidos é sempre possível perguntar se eles exis-
segundo elemento, colocando-os em contato nao só "físico" tem por forca própria, como necessidade intrínseca, ou se exis-
mas moral e intelectual. Na realidade, para cada partido exis~ tem apenas em virtude deiriteresses outros (efetivamente, nas
tem "proporcóes definidas" entre estés elementos e o máximo polémicas, este ponto jamais éesquecido; ao contrário, é moti-
d: efici~ncia é alcancado quando tais "prC'por~6es definidas" vo de insistencia, 'especialmente quando a resposta nao dúbia,
é

sao realizadas. o. que significa que é levado em conta e suscita dúvidas).É


_ Dadas estas consideracñes, pode-se dizer que um partido claro que. quem se deixasse torturar poressa dúvida seria um
nao p()~e ser destruído por meios normais quando, existindo tolo. Politicamente, a. questáo só tem um relevo momentáneo.
nece,ssan~~en~e o segundo elemento, cujo nascimento está liga- Na história do chamado princípio de nacionalidade, as ínter-
do a existencia das condicóes materiais objetivas (e, se este vencóes estrangeiras a favor dos partidos nacionais que pertur-

26 27
bavam a ordem interna dos Estados antagonistas sao numero- cionária: progressista quando tende a manter na órbita da lega-
. sas, tanto que quando se fala, por exemplo, da política "orien- lidade as forcas reacionárias alijadas do poder e a elevar ao
tal" de Cavour, pergunta-se se se tratava de urna "política", nível da nova legalidade as massas atrasadas. :É reacionária
isto é, de urna linha de acáo permanente, ou de um estratage- quando tende a comprimir as tor~as vivas da História e a man-
ma momentáneo para enfraquecer a Austria, tendo em vista ter urna legalidade ultrapassada, anti-histórica, tornada extrín-
1859 e 1866. Assim, nos movimentos mazinianos de 1870 seca. De resto, o funcionamento de um determinado partido
(exemplo, o fato Barsanti) ve-se. a intervencáo de Bismarck 'fornece critérios discriminantes: quando o partido é progressista
que, em virtude da guerra com a Franca e do perigode urna . funciona "democraticamente" (no sentido de um centralismo
alianca ítalo-francesa, pensava enfraquecer a Itália com con- democrático); quando o partido é reacionário funciona "buro-
flitos internos. Também nos acontecimentos de 1914, alguns craticamente" (no sentido de um centralismo burocrático). No
véem a intervencáo do Estado-Maior austríaco, preocupado com segundo caso, o partido é puro executor, nao deliberante: entáo
a guerra que estava para vir. Como' se Ve, os casos sao nu- é técnicamente um órgáo de polícia, e o seu nome de "partido
merosos, e é necessário ter idéias claras a respeito. Admitindo- político" é urna pura metáfora de caráter mitológico.
se que,quando se faz qualquer coisa, sempre se faz o jógo de
alguém, o importante é procurar de todos os modos fazer bem
o próprio jogo, isto é, vencer completamente. De qualquer for-
ma, é necessário desprezar a "bazófia" do partido e substituí-la Industriais e agricultores. Tém os grandes industriais um
por fatos concretos. Ouem substitui os fatos concretos pela partido político permanente próprio? Na minha opiniáo, a res-
bazófia, ou faz a política da bazófia, deve ser indubitavelmente posta deve ser negativa. Os grandes industriáis utilizam alter-
suspeito de pouca seriedade. Nao é necessário acrescentar que, nadamente todos os partidos existentes, mas nao tém u111 par-
no que se refere aos partidos, épreciso evitar também a aparen- tido próprio. Por isso eles nao sao absolutamente "agnósticos"
cia "justificada" de que se esteja fazendo o jogo de alguém, ou "apolíticos": o seu interesse é um equilíbrio determinado,
especialmente se. este alguém é um Estado estrangeiro; se de- que obtémexatamente reforcando com osseus meios, alterna-
pois ainda se especular sobre isso, ninguém pode evitá-lo , damente, este ou aquele partido do tabuleiro político (a exce-
:É difícil afirmar que um partido político (dos grupos do- ~ao, entenda-se, do único partido antagonista, cujo reforcamento
minantes, e. também de grupos subalternos) nao exerce funcñes nao pode ser ajudado nem mesmo por manobra tática). En-
'de polícia, isto é, de tutela de urna determinada ordem política tretanto, se é verdade que isto ocorre na vida "normal", nos
e legal. Se isto fosse demonstrado taxativamente, a questáo de- casos extremos, que afinal sao aque1es que contam (como a
veria ser colocada em outros termos: sobre os modos e as dire- guerra na vida nacional), o partido dos industriais é o mesmo
cóes através dos quais se exerce essafuncáo , O sentido é re- dos agricultores, os quais, ao contrário, tém um partido perma-
pressivo ou díñisivo, isto é, reacionário ou progressista? Um nente. Pode-se exemplificar esta nota com a Inglaterra, onde
determinado partido exerce a sua funcáo de polícia para con- o Partido Conservador absorveu o Partido Liberal, tradicional-
servar urna orderri externa, extrínseca, cadeia das torcas vivas mente considerado como o partido dos industriais.
da História, ou a exerce nura sentido que tende a levar o povo A sítuacáo inglesa, com as suas grandes Trade Unions,
a um novo nível de civilízacáo, da qual a ordem política e legal explica este fato. Na Inglaterra nao existe formalmente um
é urna expressáo programática? Efetívamente, urna lei en- partido adversário dos industriais em grande estilo, é certo; mas
contra quem a infringe: 1) entre os elementos sociais reacio- exístem as organizacóes operárias de massas, e viu-se como elas,
nários que a lei destronou; 2) entre os elémentos progressistás nos momentos decisivos, transformaram-se constitucionalmente
que a lei comprime; 3) entre os elementos que nao alcancaram de baixo para cima, rómpendo o invólucro burocrático (exem-
o nível de civilízacáo que a lei pode representar. Portanto, a plos, em 1919 e 1926). Além do mais, existem estreitos inte-
funcáo de polícia de um partido pode ser progressista ou rea- resses permanentes entre agricultores e industriais (especiaImen-
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29
te agora que o protecionismo se tornou geral, agrícola e indus- determinados movimentos concebem a si mesmos apenas como
trial); e é inegável que os agricultores sao "politicamente" marginais: pressupóem um mogimento principal no qual se in-
muito melhor organizados do que os industriais, atraem mais os serem para reformar determinados males, pretensos ou verda-
intelectuais, sao mais "permanentes", nas suas diretrizes, etc. A deiros; isto é, sao movimentos puramente reformistas.
sorte dos partidos "industriais" tradicíonais, como o "liberal- Éste princípio tem importancia política porque a verdade
radical" ingles e o radical francés (que sempre se diferenciou 'teórica de que cada classe possui apenas um partido demons-
é

muito do primeiro), é interessante (da mesma forma que o , trada, nos momentos decisivos, pela uniáo cm bloco de agrupa-
"radical italiano", de boa memória). O que representavam eles? mentos diversos que se apresentavam como partidos "indepen-
Um conjunto de classes, grandes e pequenas,e nao apenas urna dentes". A multiplicidade existente antes era apenas de caráter
classe. Daí surgirem e desaparecerem freqüentemente . A "reformista", refería-se a questóes parciais. Em certo sentido,
massa de "manobra" era fome cida pela classe menor, que sem- era urna divisáo do trabalho político (útil nos seus limites),
pre se manteve em condicóes diversas no conjunto, até trans- mas urna parte pressupunha a outra, tanto que nos momentos
formar-se completamente. Hoje ela fome ce a massa aos "par- decisivos, .quando as questóes principais foram colocadas em
tidos demagógicos", o que se compreende. jogo, formou-se a unidade, criou-se o bloco. Daí a conclusáo
Em geral, pode-se dizer que, nesta história dos partidos, a de que, na construcáo do partido, é necessário se basear num
comparacáo entre os vários países é das mais instrutivas e de- caráter "monolítico", e nao em questóes secundárias: daí.a ne-
cisivas para se localizar a origem das causas de transformacáo. cessidade de se prestar atencáo a existencia de homogeneidade
O que vale também para as polémicas entre os partidos dos entre dirigentes e dirigidos, entre chefes e massa. Se" nos mo-
países "tradicionais", onde estáo representados "retalhos" de mentos decisivos, os chefes passam ao seu "verdadeiro partido",
todo o "catálogo" histórico. as massas ficam desamparadas, inertes e sem eficácia. Pode-se
Eis um critério primordial de julgamento tanto para as dizer que nenhum movimento real adquire consciencia da sua
concepcóes do mundo, como, e especialmente, para as atitudes totalidade de um golpe.. mas só por experiencia sucessiva; isto
práticas: a concepcáo do mundo ou o ato' prático pode ser 4, quando percebe através dos fatos que nada do 'que Ihe é
concebido "isolado","independente" e assumindo toda a res- próprioé natural (no sentido extravagante da palavra), mas
ponsabilidade da vida coletiva; ou isto é impossível, e a con- existe porque surgem determinadas condicñes cujo desapareci-
cepcáo do mundo ou o ato prático pode ser concebido como mento nao permanece sem conseqüéncias , Assim, o movimento
"integracáo", aperfeícoamento, contrapeso, etc., de outra con- se aperfeicoa, perde os elementos de arbitrariedade, de" "sim-
cepcáo do mundo ou atitude prática. Refletindo-se, percebe-se biose" e torna-se verdadeiramente independente na medida em
que' este. critério é decisivo para um julgamento ideal sobre os que, para obter determinadas conseqüéncias, cria as premissas
impulsos ideais e os impulsos práticos; percebe-se também que necessárias. Mais ainda, empenha todas as suas fórcas nacria-
seu alcance prático nao é pequeno . cáo dessas premissas.
Urna das criacóes mais cornuns é aquela que acredita ser
"natural" que tudo o que existe deve existir, nao pode deixar
de existir, e que as próprias tentativas ,de reforma, por pior que Alguns aspectos teóricos e práticos do "economismo":
andem, nao interromperáo a vida; as forcas tradicionais pros- Economismo - movimento teórico pela livre troca - sindica-
seguíráo atuando, e a vida continuará. É claro que neste modo lismo teórico. Deve-se ver em que medida o sindicalismo teó-
de pensar há algo de justo; e ai se nao fosse assim! Entretanto, rico se originou da teoria da praxis e em que medida derivou
a partir de um determinado limite, este modo de pensar torna- das doutrinaseconómicas da livre troca, do liberalismo. Por
se perigoso (certos casos da política do pior) e, de qualquer issoé necessário ver se o economismo, na sua forma mais acaba-
modo, como se disse, subsiste o critério de julgamento filosó- da, nao passa de urna filiacáo direta doliberalisino, tendo m~n­
fico; político e histórico . Na realidade, se se observa a fundo, tido, inclusive na sua origem, bem poucas relacóes com a filo-
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r
r

sofia da praxis; relacñes de qualquer modo apenas extrínsecas mico-corporativa para alcancar a fase de hegemonia ético-polí-
e puramente verbais. ticana sociedade civil e dominante no Estado. No que se refere
A partir deste ponto de vista é que se deve encarar a po- ao liberalismo, há o caso de uma fraerao do grupo dirigente que
Iémica Einaudi-Croce,> sugerida pelo novo prefácio (1917) ao pretende modificar jnao a estrutura do Estado, mas apenas a
livro sobre o Materialismo Storico . A exigencia, projetada por " orientacáo governamental; que pretende reformar a legislacáo
Einaudi, de levar em conta a literatura de história económica comercial e só indiretamente a industrial (pois é ínegável que o
suscitada pela economia clássica inglesa, pode ser satisfeita neste protecionismo, especialmente nos países de mercado pobre e
sentido: tal literatura, através de uma contaminacáo superfi- . restrito, limita a liberdade de iniciativa industrial e favorece o
cial com a filosofia da praxis, originou o economismo; por isso, surgimento . de monopólios): trata-se de rotacáo dos partidos
quando Einaudi critica (na verdade, de modo impreciso) algu- dirigentes no govérno, nao de fundacáo e organízacáo de urna
mas degeneracóes economistas, nao faz mais do que atirar pe~ nova sociedade civil. A questáo apresenta-se com maior com-
drasnum pombal , O nexo entre ideologias dalivre troca e sin- plexidade no movimento do sindicalismo teórico; é inegável ql:!e
dicalismo teórico é especialniente evidente na Itália, onde é co- nele a independencia e a autonomia do grupo subalterno que
nhecida a admiraeáo devotada a Pareto por sindicalistas como diz exprimir sao sacrificadas a hegemonia intelectual do grupo
Lanzillo e C. Entretanto, o significado destas duas tendencias dominante, pois o sindicalismo teórico nao passa de um aspecto
é bastante diversor o primeiro é próprio de um grupo social do liberalismo, justificado com algumas afírmacóes mutiladas,
dominante e dirigente; o segundo, de um grupo ainda subal- e por isso banalizadas da filosofia da praxis. Por que e como se
terno, que nao adquiriu consciencia da sua torca e das' suas verifica este "sacrifício"? Exc1ui-se a transformacáo do grupo
possibilidades e modos de se desenvolver e por isso nao sabe subordinado em dominante, seja porque o problema nem ao
superar a fase de primitivismo. . menos é formulado (fabianismo, De Man, parte notável do
A formulacáo do movimento da livre troca baseia-se num laborismo), ou porque é apresentado sob formas incoerentes e
erro teórico do qual nao é difícil identificar a origem prática: ineficazes (tendencias social-democratas em geral) ou porque
a distincáo entre sociedade política e sociedade civil, que de defende-se o salto imediato do regime dos grupos ao regime da
distincáo métodica se transforma e é apresentada como distin- perfeita igualdade e da economia sindical.
erao orgánica. Assim, afirma-se que a atividade económica é
É pelo menos estraliha a atitude do economismo em re-
própria da sociedade civil e que o Estado nao deve intervir na
laerao as expressóes de vontade, de aerao e de iniciativa política
sua regulamentacáo , Mas, como na realidade fatual sociedade
e intelectual, como se estas nao fossem urna emanacño orgánica
civil e Estado se identificarn, deve-se considerar que também de necessidades económicas e, mais, a única expressño eñcíente
o liberalismo é urna "regulamentacáo" de caráter estatal, fntro- da economia; assim, é incoerente que a formulacáo concreta da
duzida e mantida por caminhos legislativos e coercitivos: é um
questáo hegemónica seja interpretada como um fato que SUDor.:.
fato de vontade consciente dos próprios fins, e nao a expressáo
dina o grupo hegemónico. O fato da hegemonia pressupóe índu-
espontánea, automática, do fato económico. Portanto .o libe-
bítávelmente que se deve levar em conta os interesses e as
ralismo é um programa político, destinado a modificar: quando
tendencias dos grupos sobre os quais a hegemonía .§eíá~ifefcida;
triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa. económico do
que se forme certo equilibrio de compromísso, ist!i e¡ que' o
próprio Estado; isto é, a modificar a distribuicáo da renda na- grupo dirigente faca sacrificios de ordem econórñieo-éorpora-
. cional.
tiva. Mas também é indubitável que os sacrificios e o compro-
É diferente o caso do sindicalismo teórico, quando se re-
misso nao se' relacionam com o .essencial, pois .se a hegemonía
fere a um grupo subalterno. Através desta teoríaéle é impedido
é ético-política. também é económica; náo pode deixar de se
de se tornar dominante, de se desenvolver além da fase econó-
fundamentar na funerao decisiva que o grupo dirigente exerce
1 Cf. a Riforma Sociale, julho-ag6sto 1918, pág. 415. (N.e.!.) no
..•. . . .núcleo decisivo da atividade económica.
,

32 33
. o economismo apresenta-se sob muitas outras formas alé~
do liberalismo e do sindicalismo teórico. Pertencem a ele' todas Em várias ocasi6es afirmou-se nestas notas' que a filosofia
as formas de abstencionismo eleitoral (exemplo típieo é o abs- da praxis está muíto mais difuadida do que se pensa. A afir-
tencionismo dos clericais italianos depois de 1870, que foi macáo exata desde que se entenda como difundido o econo-
é

atenuando-se a partir de 1900, até 1919 e a formacáo do Parti- "mismo histórico, que é como o Prof. Loria denomina agora as
do Popular. A dístincáo orgánica que os clericais faziam entre suas concepcóes mais ou menos desconjuntadas, e que, portanto,
Itália real e Itália legal era urna reproducáo da distincáo o ambiente cultural modificou-se completamente desde o tempo
ent~e mundo económico e mundo político-legal), que sao em 'que a filosofia da praxis inicioua sua luta; poder-se-ia dizer,
muítas desde que se admita o semi-abstencionismo, um quarto, com terminologia crociana, que 'a maior heresia surgida no seio
etc. Ao abstencionismo está ligada a fórmula do "quanto pior, . da "religiáo da liberdade" sofreu, também ela, como a religiáo
melhor" e também a fórmula da chamada "intransigencia" par- ortodoxa, urna degeneracáo . Difundiu-se como "supersticáo",
lªmenta~ de ,alguma~ . fracóes_ de d~.putados. Nem sempre o
isto é, entrou em combinacáo com o liberalismo e produziu o
econ~mIsmo e ~ontrano a acao P?httca e ao partido. político,
economismo. Embora a religiáo ortodoxa tenha se estiolado de-
considerado porem um mero organismo educador de tipo sindi- finitivamente, é preciso ver se a supersticáo herética nao rnanteve
cal. Ponto de referencia para o estudo do cconomismo e para sempre um fermento que a fará renascer como religiáo superior,
compreender as relacóes entre estrutura e superestruturas o é
se as escórias de sugersticáo nao seráo facilmente liquidadas.
ti
trecho da Miséria da Filosoiia onde se afirma que urna fase Alguns pontos característicos do economismo histórico: 1)
importante no desenvolvimento de um grupo social aquela em
é na busca dos nexos históricos nao se distingue aquilo que é

que os membros de um sindicato nao lutam só pelos seus inte- "relativamente permanente" daquilo que é flutuacáo ocasional;
resses económicos, mas na defesa e pelo desenvolvimento da entende-se como fato económico o interesse pessoal ou de um
própria organizacáo.! Deve-se recordar também a afirmacáo de, pequeno grupo, num sentido imediato e "sordidamente judaico".
Engels de que a economia só em "última análise" é a mola da Nao se leva em conta as formacóes de classe económica, coro
Histó;ia (nas. d~as cartas sobre a filosofia da praxis, publicadas todas as relacóes inerentes a elas, mas assume-se o interesse mes-
tambem em Italiano), a qua! se ligadiretamente ao trecho do quinho e usurário, especialtnente quando coincide com formas
prefácio a Crítica da Economia Política, onde se diz que os delituosas contempladas nos códigos criminais; 2) a doutrina
homens adquirem consciencia dos conflitos que se verificam no segundo a qual o desenvolvimento económico é reduzido a su-
mundo económico no terreno das ideologias. . cessáo de modificacóes técnicas nos instrumentos de trabalho.
O Prof. Loria fez urna exposicáo brilhantíssima desta doutrina
aplicada no artigo sobre a influencia social do aeroplano, pu-
1 Ve: a afírmacño exata; a Miséria da Filosofia é um momento. blicado na Rassegna Contemporánea de 1912; 3) a. doutrina
essencíal da forma<;a~ da filosofia da praxis; pode ser considera- segundo a qual o desenvolvimento económico e histórico depen-
da como o ~~se~volvlmento das Teses eobre Feuerbach, enquanto a
S.agrada Famtlt;: e urna fase íntermediáría indistinta e de origem oca- de imediatamente das' mudancas num determinado elemento
s~onal, como dao a. e.ntender os. trechos dedicados a Proudhon e espe- importante da producáo, da descoberta de urna nova matéria-
cialmente ao materíalísmo frances:. O trecho sobre o materialismo fran- prima, de uro novo combustível, etc.,. que trazem consigo a
c~s é mais ~mcapítulo de hístóría da cultura que urna elaboraeáo teó- aplicacáo de novos métodos na construcáo e no acionamento das
rIca,. ?omo e geralmente interpretado; e como história da cultura é máquinas. Últimamente apareceu toda uma literatura sobre o
admírável , Recordar a observacáo que a crítica contida na Miséria da
Filosofia cO,n?"a Proudh~n e ~ sua ínterpretacáo da dialética hegeliana petróleo: pode-se considerar como típico um artigo de Antonio
pode ser. v~lida para Cíobertí e para o hegelianismo dos liberais mo-
derados italianos em geral.'. O paralelo Proudhon-Gioberti, nao obstante
eles represe~tarem fase histórico-políticas nao .homogéneas, mas exata- 1 Veja-seGRAMscI, Il materialismo storico e la filosofia di B. Crece
mente por ísto, pode ser ínteressante e fecundo. ( ed . brasileira, A Concepdio Dialética da História, trad. de Carlos
Nelson Coutinho, Ed. Cívílízaeño Brasileira, 1966. N. do' T.)
34
35
Laviosa publicado na Nuova Antologia de 16 de maio de 1929. em poucas linhas, urna grande parte dos elementos mais banais
A descoberta de novos combustíveis e de novas energias mo- de polémica contra a filosoffada praxis" mas, na realidade, a
trizes, assim como de novas matérias-primas, tem ccrtamente polémica é contra o economismo desconjuntado de tipo loriano.
grande importancia porque pode modificar a posicáo dos Es- Além do mais, o escritor nao é muito entendido na matéria,
tados, mas nao determina o movimento histórico, etc. . inclusive por outros aspectos: ele nao compreende que as "pai-
Muitas vezes acontece que se combate o economismo his- xóes" podem ser simplesmente umsinónimo dos interesses eco-
tórico pensando combater o materialismo histórico. Por exem- nómicos e que é difícil sustentar que a atividade política possa
plo, é este o caso de um artigo do A venir de Paris, de 10 de ser um estado permanente de exasperacáo e de espasmo; exata-
outubro de 1930 (transcrito na Rassegna Settimanale della . mente a política francesa é apresentada como de urna "racio-
Stampa Estera, de 21 de outubro de 1930, págs. 2303-2304), nalidade" sistemática e coerente, isto é, depurada de todos os
que transcrevemos como típico: "Dizemos há muito tempo, mas elementos passionais, etc.
sobretudo depois da guerra, que as questóes de interesse domi- Na sua forma mais difundida de supersticáo economista,
nam os POyOS e fazem o mundo avancar . Foram os marxistas a filosofia da praxis perde urna grande parte da sua expansivi-
que inventaram esta tese, sob o apelativo um pouco doutrinário dade cultural na esfera superior do grupo intelectual, tanto
de "materialismo histórico". No marxismo puro, os homens quanto adquire entre as massas populares e entre os intelectuais
tomados' cm conjunto nao obedecem as paixóes, mas as neces- medianos, que nao pretendem cansar o cérebro, mas pretendem
sidades económicas. A política é urna paixáo , A pátria é urna parecer sabidíssimos, etc. Como disse Engels, é cómodo para
paixáo . Estas duas idéias exigentes só desempenham na Histó- muitos acreditar que podem ter a baixo preco e semnenhum
ria urna funcáo de aparencia, porque na realidade a vida dos esforco, ao alcance da máo, toda a História e todo o saber
pOYOS, no curso dos séculos,é explicada através de um jogo político e filosófico concentrados em algumas formulazinhas. A
. cambiante e sempre renovado de causas de ordem material. ignorancia de que a tese segundo a qual os homens adquirem
A economia é tudo. Muitos :Eilósofos e economistas "burgueses" consciencia dos conflitos fundamentais no terreno das ideologias
retomaram este estribilho. Eles assumem certo ar para explicar- nao é de caráter psicológico ou moralista, mas tem um caráter
nos através do curso do trigo, do petróleo ou da borracha, a orgánico gnosiológico, criou a forma mentis de considerar a po-
grande política internacional. Esmeram-se em demonstrar-nos lítica e, portanto, a História, como um contínuo marché de
que toda a diplomacia é comandada por questóes de tarifas dupes, um jogo de ilusionismos e de prestidigitacáo , A ativi-
alfandegárias e de preces de custo. Estas explicacóes estáo dade "crítica" reduziu-se a revelar truques, a' suscitar escanda-
muito na moda . Tém urna pequena aparencia científica e pro- los, a tratar das miudezas dos homens representativos.
cedem de urna espécie de ceticismo superior com pretensóes a
passar por urna elegancia suprema. A paixáo em política ex- Olvidou-se assim que, sendo ou presumindo ser, também
terna? O sentimento em questóes nacionais? Qual o que? Esta o "economismo" umcánone objetivo de interpretacáo (objetivo-
mercadoria é boa para a gente comum. Os grandes espíritos, científico), a pesquisa no sentido dos interesses imediatos de-
os iniciados sabem que tudo dominado pelo dar e pelo receber.
é
veria ser válida para todos os aspectos da História, tanto para
Ora, esta é urna pseudoverdade absoluta. É completamente falso os homens que representam a "tese" como para aqueles que
que os pOYOS só se deixam guiar por consideracóes de interesse representam a "antítese". Ignorou-se ainda outra proposicáoda
e é completamente verdadeiro que eles obedecem sobretudo a filosofia da praxis: aquela segundo a qual as "crencas popula-
consideracées ditadas por um desejo e por urna fé ardente de res" ou as crencas do tipo das crencas populares tém a validade
prestígio. Quem nao compreende isto nao compreende nada." das forcas materiais. Os erros de interpretacáo no sentido das
A continuacáo do artigo (intitulado La mania del prestigio) pesquisas dos interesses "sordidamente judaicos" foram algumas
exemplifica com a política alemñ e italiana, que seria de "pres- vézes grosseiros e cómicos, de modo a reagir negativamente sobre
tígio", e nao ditada por ínteresses materiais. O artigo engloba, o prestígio da doutrina original. Por isso é necessário combater

36 37
'(

,
o economismo nao só na teoria da historiografia, mas também 3) qual O significado político e social das reivindícacóes que os
e especialmente na teoria e na prática políticas. Neste. c~mpo, dirigentes apresentam e que logo encontram apoio? a que exi-
a luta pode e deve ser conduzida desenvolvendo o conceito de gencias efetivas correspondem? 4) exame da conformidade dos
hegemonia, da mesma forma como fo~ condu~~da praticamente meios ao fim proposto; 5) só em última análise, e apresentada
no desenvolvimento da teoria do partldopohtlco. e no d~~en­ ., sob forma política e nao moralista, desenha-se a hipátese de
volvimento prático da vida de determinados yartldos pOhtlCO~ qué tal movimento necessariamente será desnaturado e servirá
(a luta contra a teoria da chamada revolucáo pe~anente, a a outros fins que nao aqueles que as multidóes de seguidores
qual se contrapunha o conceito de dit.adura d~m~)Cratlc~-revolu­ .esperam . Ao contrário, esta hipótese é afirmada preventiva-
cionária, a importancia que teve o apoio dado as ld~ologIas cons- mente, quando nenhum elemento concreto (que se apresente
tituintes, etc.). Poder-se-ia realizar urna p~sqUlsa so~re as , como tal através da evidencia dosenso comum, e nao gracas
opinióes emitidas a medida que se d~senvolvla~ determinados a urna análise "científica" esotérica) existe ainda para sufraga-
rriovimentos políticos, tomando como tipo o movlmen!o boulan- la, de modo que ela se manifesta como uma acusacáo moralista
gista (de 1886 a 1890), o processo Dreyfus, ou e?tao o po~pe de dubiedade e má-fé, ou de falta de sagacidade, de estupidez
de Estado de 2 de dezembro (urna análise do hvro clássico (para os seguidores). A luta política transforma-se, assim,'
sobre o 2 dedezembro;' para estudar a importancia relativa do numa série de choques pessoais entre os espertalhóes, que guar-
fator económico imediato e o lugar que ocupa o estudo con- dam o diabo na ampola, e os que nao sao levados a sério pelos
creto das "ideologias"). Diante destes acon~ecimentos, ~ ~~o­ próprios dirigentes e recusam-se a se convencer em virtude da
nomismo se pergunta: a quem interessa im~dl~t~me~te ~ ml~Ia­ sua tolice. Além do mais, enquanto estes movimentos nao
tiva em questáo", e responde com um raCIOcmIO tao slmphsta alqancarem o poder, pode-se sempre pensar que faliráo, e alguns
quanto paralogístico .. Favorece de, im~diato a urna determmad~ efetivamente faliram (o próprio boulangismo, que faliu como
fracáo do grupo dominante, e, para nao errar, esta escol~a recai tal e posteriormente foi esmagado pelo movimento dreyfusard;
sobre aquela fracáo que evidenteI?ente tem .urna func;aAo pro- o movimento de George Valois e o movimento do general
gressista e de controle sobre o conjunto das Iorcas ~conomlcas. Gayda); logo, a pesquisa orienta-se no sentido da identificacáo
Pode-se estar seguro de nao errar, porquenecessanamente, ~e dos elementos de forca, mas também dos elementos de fraqueza
o movimento analisado chegar ao poder; cedo ou tarde a fracáo que eles contém no seu interior: a hipótese "economista" afirma
progressista do grupo dominante acabará controla~?o o novo um elemento imediato de forca, isto é, a disponibilidade de urna
governo e o transformará num instrumento para utilizar o apa- determinada quota financeíra direta ou indireta (um grande
relho estatal em seu bene:Eício. jornal que apóie o movimento, é também de urna contribuicáo
financeira indireta), e basta. Muito pouco. Também neste caso
Trata-se, portanto, de urna infalibilidade m~ito gr~ss~ira a análise dos diversos graus de relacáo de fotc;as só pode culmi-
que nao só nao tem significado teórico, mas pO~SUl escassissimo nar na esfera da hegemonia e das relacñes ético-políticas.
alcance político e eficácia prática .. N? gera!, ,so. produz prega- Um elemento que deve ser acrescentado como exemplifi-
eñes moralistas e contendas pes~oals mter~mavels. .auando se cacáo das teorias chamadas de intransigencia é aquele referente
verifica um movimento boulangista, ~ anahse deven~ ser CO?- a rígida aversáo de princípio aoschamados compromissos, que
duzida realistícamente segundo esta linha: 1) conteudo SOCIal tém como manífestacáo subordinada aquela que pode ser inti-
da massa que adere ao movimento; 2) que p~pel desempenhava tulada . o "medo' dos perigos". É evidente que a aversáo de
esta massa no equilíbrio de forcas, que, Val-se transfo:mand~ princípío aos compromissos está estreitamente vinculada ao eco-
como o novo movimento demonstra atraves do seu nascimento? nomismo. Quanto a concepcáo sobre a qual sé baseia esta
aversáo, ela reside indubitavelmente na conviccáo férrea de que
1 O Dezoíto Brumário de Luis Bonaparte, de Marx (edicáo brasileira,
existem leis objetivas para o desenvolvimento histórico, com o
Editorial Vitória, 1961 - Marx e Engels, Obras Escolhidas, 1.0 volume.
(N. do T.) mesmo caráter das leis naturais, acrescentada da persuasáo de

38 39
um finalismo fatalista semelhante ao fatalismo religioso. Já
que ascondicóes favoráveis fatalmente surgiráo e determinado, Previsño e perspectiva. Outro ponto a ser fixado e desen-
de modo um tanto misterioso, acontecimentos revigorantes, nao volvidoé o da "dupla perspectiva" na acáo política e na vida
só se revelará inútil, mas danosa, qualquer iniciativa voluntaria estatal. Vários sao os graus através dos .quais pode-se apresen-
tendente a predispor estas situacóes segundo um plano. Ao tar a dupla perspectiva, dos mais elementares aos mais com-
lado destas conviccóes fatalistas manifesta-se a tendencia a con- olexos , Mas eles podem-se reduzir teóricamente a dois graus
fiar "em seguida", cegamente e sem qualquer critério, na vir- -fundamentais, correspondentes a natureza dúplice do Centauro
tude reguladora das armas, o que nao deixa de ter certa lógica maquiavélico, ferina e humana: da torca e do consentimento, da
e coeréncia, pois acredita-se que a intervencáo da vontade é autoridade e da hegemonia, da violencia e da civilidade, do
útil para a destruicáo, nao para a reconstrucáo (já em processo momento individual e do momento universal (da "Igreja" e do
no exato momento da destruicác) . A destruicáo é concebida "Estado"), da agitacáo e da propaganda, da tática e da estra-
mecanicamente, nao como destruicáo-reconstrucáo , tégia, etc. Alguns reduziram a teoria da "dupla perspectiva" a
uma coisa mesquinha e banal, a nada mais que duasformas de
Nestas maneiras de pensar nao se leva em conta o fator "imediatismo" a se sucederem .mecanicarnente no tempo com
"tempo" e, em última análise, a própria "economía" no sentido maior ou menor "proximidade". Ao contrário, pode ocorrer
de nao se compreender que os movimentos ideológicos de mas- que quanto mais a primeira '''perspectiva'' é "imediatíssima"
sa estáo sempre atrasados em relacáo aos fenómenos económi- elementaríssima, tanto mais a segunda deve ser "distante" (na~
cos de massa e de que, portanto, em determinados momentos; no tempo, mas como relacáo dialética), complexa, elevada.
o impulso automático devido ao fator económico é afrouxado, Assim como na vida humana, em que quanto mais um individuo
travado ou até destruído momentaneamente por elementos ideo- é
.
obrigado
.
a defender a própria existencia física imediata, tanto
-

lógicos tradicionais; e que por isso deve haver luta consciente mais se coloca ao lado e defende o ponto de vista de todos os
e determinada a fim de que se "compreenda" as exigénciasda complexos e mais elevados valores da civilizacáo e da humani-
posicáo económica de massa que pode estar em contradicáo com dade.
as diretivas dos chefes tradicionais. Uma iniciativa política apro- É verdade que prever significa apenas ver bem o presente
priada é sempre necessária para libertar o impulso económico e o passado como movimento: ver bem, isto é, identificar com
dos entraves da política tradicional, para modificar a direcáo exatidáo os elementos fundamentais e permanentes do. processo.
política de determinadas forcas que devem ser absorvidas para Mas él absurdo pensar numa previsáo puramente "objetiva".
criar um bloco histórico económico-político novo, homogéneo, Ouemprevé, na realidade tem um "programa" que quer ver
sem contradicóes internas. Já que duas torcas "semelhantes" só triunfar, e a previsáo exatamente umelemento de tal triunfo.
é

podemfundir-se num organismo novo através de uma série de Isto nao significa que a previsáo deve ser sempre arbitrária e
compromissos ou pela forca das armas, unindo-se num plano gratuita ou puramente tendenciosa. .Ao contrário, pode-se dizer
de. alianca, ou subordinando uma a outra pela coercáo, a ques- que só na medida em que o aspecto objetivo da previsáo está
tao é saber se existe esta forca e se é "proveitoso" empregá-la, ligado a um programa, esse aspecto adquire objetividade: 1)
Se á uniáo de duas Jorcas é necessária para derrotar uma ter- porque só a paixáo aguca o intelecto e colabora para a intuicáo
ceira, o recurso as armas e ácoercáo (desde que haja disponi- mais clara; 2) porque sendo a realidade o resultado de uma
bilidade) é uma pura hipótese de método, e a única possibili- a
aplica~ao ~a ,:ontade hUD;1an.a sociedade das coisas (do maqui-
dade concreta é o compromisso, já que a Iorca pode ser em- nísta a maquma), prescindir de todo elemento voluntário, ou
pregada contra os inimigos, nao contra uma parte de si mesmos calcular apenas a intervencáo de vontades outras como ele-
que se quer assimilar rapidamente e do qual se requer o entu- mento objetivo do jogo geral mutila a própria realidade. SÓ
siasmo e a "boa vontade". quem deseja fortemente identificaos elementos necessários a
realiza~ao da sua vontade.
40
41.
r
¡
I
Assim constitui uni erro de fatuidade grosseira e de su-
perficialidade considerar que urna determinada .concepga? do
ser .entendido emsentido moralista. Assim, a questáo nao deve
ser colocada nestes termos, é mais complexa: trata-se de con-
mundo e da vida guarda em si mesma urna supenor cap,a~ldad,e siderar se' o "dever ser" é um ato arbitrário ou necessário, é
de previsáo . É claro que urna concepcáo do mundo estáimplí- vontade concreta, ouveleidade, desejo, sonho. O político em
cita em qualquer previsáo; portanto,o fato de que ela se~a urna aqao um criador, um suscitador; mas nao cria do nada, nem
é

desconexáo de atos arbitrários do pensamento ou urna ngorosa se' move no vazio túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se
e coerente visáo nao sem importáncia. Mas, por isso mesmo,
é 'na realidade fatual. Mas, O' que é esta realidade fatual? É
ela só adquire essa lmportáncia no cérebro vivo de quem faz ·talvez algo de estático e imóvel, ou nao é antes urna relacáo de
a previsáo, vivifica~do-a com ~ !ma v?ntade for~~. Isto. pode torcas em continuo movimento e mudanca de equilibrio? Apli-
ser percebido atraves das ]~~ev~so~s fe~~as pelo.s , desapaíxona- car a vontade a criaqao de uro novo equilibrio das for~s real-
dos": elas estáo plenas de ociosidade", de mmucias SUtlS, de mente existentes e atuantes, baseando-se numa determinada
elegancias conjeturais. Só a existencia no "previsor" de ?m forqa que se' considera progressista, fortalecendo-a para levá-la
programa a ser realizado faz com que ele atenha-se ao essencial, ao '. triunfo, é sempre mover-se no terreno da realidade fatual,
aos elementos que, sendo "organizáveis", suscetí~eis de serem mas para dominá-la e superé-la (ou contribuir para isso).
dirigidos ou desviados, sao os únic?s que, na realidade, po~e:n Portanto, o "dever ser" é concrecáo; mais ainda, é a única in-
ser previstos. Geralmente se acredita que ca~a ato de 1?revlsao terpretacáo realista e historicista da realidade, é história em aqao
pressupóe a determin~5a~ de leis ~e regulandade do tl~o d~s e filosofía em aqao, unicamente política.
é

leis que regulam as ciencias naturals,: ~as como esta~ lels. nao A oposícáo Savonarola-Maquiavel nao' a oposicáo entre
é

existem no sentido absoluto ou mecamco que se supoe, nao se ser e dever ser (todo o parágrafo de Russo sobre éste ponto
levam em conta as vontades outras e nao se "preve" a sua aplica- é puro beletrismo), mas entre dois "dever ser": o abstrato e
gao. Logo, edifica-se sobre urna hipótese arbitrária, e nao sobre obscuro de Savonarola e o realista de Maquiavel, realismo, mes-
a realidade. ·mo nao tendo se tornadorealidade imediata, pois nao se pode
O "excessivo" (e portanto superficial e mecánico) realismo pretender que um indivíduoou um livro modifiquem a reali-
político leva muitas vezes a afirmacáo de que o homem de dade; eles só a ínterpretam e indicam a linha possível da acño.
Estado só deve atuar no ámbito da "realidade fatual", nao se O limite e a estreiteza de Maquiavel consistem apenas no fato
interessar com o "ode.ver ser", mas apenas com o "ser". Isto de ter sido ele uma "pessoa privada", um escritor,e nao o
significaria que asrperspectivas de um estadista nao podem ir chefe de um Estado ou de' um exército, que também é apenas
além do tamanho do seu nariz. Este erro levou Paolo Treves urna pessoa, mas tendo a sua disposícáo as torcas de. um Esta-
a considerar Guicciardini, e nao. Maquiavel, o "verdadeiro po- do ou de um exército, e nao semente exércitos de palavras.
lítico" . . Nem por isso se pode dizer que Maquiavel tenha sido um
'Mais do que entre "diplomata" e "político", necessáno
é "profeta desarmado": seria um gracejo multo barato. Maquia-
distinguir entre cientista da política e político prático. O dipl~­ vel jamáis diz que pensa ou se propñe ele mesmo a mudar a
mata nao pode deixar de se mover só na realidade fatu?l; ~01S realidade; o que faz é mostrar concretamente como deveriam
a sua atividade específica nao éa de. criar novos eq';l1h?~lOS, atuar as fórcas históricas para se tornarem eficientes.
más a de conservar dentro de determinados quadros jurídicos
um equilibrio existente. Assim, também o cienti.sta.deve mo-
ver-se apenas na realidade fatual como mero cientísta . M~s
Maquiavel nao um mero cientista; ele éum homem de partí-
é

cípacáo, de paíxóes poderosas, um político p~ático, que pr,.e-


tende criar novas relacóesde torca e que por ISS0 mesmo nao Análises das situafoes. Relacoes de [orca, Oestudo,s'obre
pode deixar de se ocupar com o "dever ser", que nao deve ·como sedeve analisar as "situacóes", isto é, de como se devem

42 .43
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1:
11
!
,
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estabelecer os diversos graus de relacáo de forcas, pode-se pres-
tar a uma exposicáo elementar sobre ciencia e arte políticas,
entendidas como um conjunto de cánones práticos de pesquisa
a revolucáo italiana tecnicamente Impossívell) . A partir desta
série de fatos, pode-se chegar a conclusáo de que, freqüente-
mente, o chamado "partido estrangeiro" nao é propriamente
f,
¡ e de observacñes particulares úteis para despertar o interesse aquele que vulgarmente é apontado como tal, mas exatamente
I pela realidade fatual e suscitar intuicóespolíticas mais rigorosas o' partido nacionalista, que, na realidade, mais do que repre-
I e vigorosas. Ao mesmo tempo, preciso expor o que se deve
é
sentar as forcas vitais do seu país, representa a sua subordina-
I entender em política por estratégia e tática, por "plano" estra- c;:ao e a servídáo económica as nacñes ou a um grupo de nacñes
tégico, por propaganda e agitacáo, por organizacáo, ou ciencia hegemónicas. 1
da organízacáo e da administracáo em política.
I Os elementos de observacáo empírica que comumente sao É o problema das relacóes entre estrutura e superestrutura
que. deve ser situado com exatidáo e resolvido para assim se
" apresentados desordenadamente nos tratados de ciencia política
(pode-se tomar como exemplar a obra de G. Mosca, Elementi chegar a uma justa análise das forcas que atuam na história
1
di scienza politice) deveriam, na medida em que nao sao ques-
de um determinado período e .a definicáo da relacáo entre elas.
É necessário movimentar-se no ámbito de dois princípios: 1)
tñes abstratas ou apanhadas ao acaso, situar-se nos vários graus
da relacáo de forcas, a comecar pela relacáo das torcas interna- o de que nenhuma sociedade assume encargos para cuja solu-
~aoainda nao existam as condícóes necessárias e suficientes, ou
cionais (em que se localizariam as notas escritas sobre o que
é uma grande potencia, sobre os agrupamentos de Estados em que pelo menos nao estejam em vias de aparecer e se desenvol-
sistemas hegemónicos e, por conseguinte, sobre o conceito de ver; 2) o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser
independencia e soberania no que se refere as pequenas e mé- substituída antes de desenvolver e completar todas as formas
dias poténcias-), passando em seguida as relacóes sociais obje- de vida implícitas nas suas relacóes." Da reflexáo sobre estes
tivas, ao grau de desenvolvimento das forcas produtivas, as re- dois cánones pode-se chegar ao desenvolvimento de toda uma
lacóes de forca política e de partido (sistemas hegemónicos série de outros princípios de metodologia histórica. Todavía
dentro do Estado) e as relacñes políticas imediatas (ou seja, deve-se distinguir no estudo de uma estrutura os movimento~
potencialmente militares) . orgánicos (relativamente, permanentes) dos elementos que po-
As relacóes internacionais precedem ou seguem (Iogica- deni ser denominados "de conjuntura" (que se apresentam como
mente) as relacóes sociais fundamentáis? Seguem, indubitável.
é
ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenóme-
Toda inovacáo orgánica na estrutura modifica organicamente as nos de conjuntura dependem, claro, de movimentos orgánicos,
é

relacóes absolutas e relativas no campo internacional, através mas seu significado nao tem um amplo alcance histórico: eles
das suas expressóes técnico-militares. Inclusive a posicáo geo- dáo lugar a uma crítica política miúda, do día-a-día, que investe
gráfica de um Estado nao precede, mas segue (lógicamente) as
inovacóes estruturais, mesmo reagindo sobre elas numa certa 1. U~a referencia a este elemento internacional "repressivo" das ener-
medida (exatamente na me:didaem que as superestruturas rea- glas mternas 20de ser encontrada nos' artígos publicados por G. VOLPE
gem sobre a estrutura, a política sobre a economia, etc.). Além no C:orriere della Sera de 22 e.23 de margo de 1932.
do mais, as relacñes internacionais reagem positiva e ativamente 2 "Urna formaeáo social nao perece antes de se terem desenvolvido
todas as foreas produtivas em relaeño as quais ela ainda é suficiente
sobre as relacñes políticas (de hegemonia dos partidcs) . Quan- e novas e mais altas relacñes de. producáo nao tenham tomado o seu
to mais a vida económica iimediata de uma nacáo se subordina lugar, antes de as condícées materíaís de existencia destas últimas nao
as relacóes internacionais, mais um partido determinado repre- terem .sido incubadas no próprío seio da .velha sociedade. Por isto, a
senta esta situacáo e explora-a para i.mpedir o predomínio dos humamdade assume se~pre aqueles encargos que ela pode resolver;
partidos adversários (veja-se o famoso discurso de Nitti sobre se se observ~ com mais agudeza, chegar-se-á sempre a conclusáo vde
que o p~óp~o ~ncargo só surge onde ~s condigoes materiais para a
sua solueño la exístem, ou pelo menos estao em processo de surgimento".
1 Ver págs. 138, 162 e seguintes. a
(MARX, Introdur;áo Crítica da Economía Política.)

44 45

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r
os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediata- aquelas em que se verifica uma estagnacáo das forcasproduti-
mente responsáveis pelo poder. Os fenómenos orgánicos dáo vas. O nexo dialético entre as duas ordens de movimento e,
margem a crítica histórico-social, que investe os grandes agru- portanto, de pesquisa, dificilmente pode ser estabelecido exa-
pamentos, acima das pessoas imediatamente responsáveis e aci- tamente; e, seo erro grave no que se refere a historiografia,
é

ma do pessoal dirigente. A importáncia dessa grande diferen- mais graveainda se torna na arte política, quando se trata nao
ciacáo surge quando se estuda um período histórico. Verifica- .de reconstruir a história passada, mas de construir a história
se uma crise que, as vezes, prolonga-se por dezenas de anos. .presente e futura.' Os próprios desejos e paix6es deteriorantes
Esta duracáo excepcional quer dizer que se revelaram (amadu- e imediatos constituem a causa' do "erro na medida em que
receram) contradicóes insanáveis na estrutura e que as Iorcas substituem a análiseobjetiva e imparcial. E isto se verifica nao
políticas que atuam positivamente para conservar e defender a como "meio" consciente para estimular a acáo, mas como auto-
própria estrutura esforcam-se para saná-las dentro de certos engano , Também neste caso a cobra morde o charlatáo: o de-
limites e superá-las. Estes esíorcosIncessantes e perseverantes magogo .é a primeira vítima da sua demagogia.
(pois nenhuma forma social jamais confessará que foi supera- Estes critériós metodológicos podem adquirir visível e di-
da) formam o terreno "ocasional" sobre o qual se organizamas daticamente todo o seu significado quando aplicados ao exame
forcas antagonistas, que tendem a demonstrar (demonstracáo de fatos históricos concretos. O que se poderla fazer com utili-
que, em última análise, só se realiza e é "verdadeira" quando dade em relacáo ¡lOS acontecimentos que se verificaram na
se torna nova realidade, quando as torcas antagonistas triunf.am; Franca de 1"789 a 1870. Parece-me que para- maior clareza 'da
mas imediatamente desenvoJlve-se uma série de polémicas ideo- exposicáo. seja necessário abranger todo este período. Efetiva-
lógicas, religiosas, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., cuja con- mente, SÓ em 1870-1871, com a tentativa da Comuna, esgotam-
crecáo pode ser avaliada pela medida em que conseguem con- se históricamente todos os germes nascidos em 1789. Nao só
vencer e deslocam o preexistente dispositivo de' forcas sociais) a nova classe que luta pelo poder derrota os representantes da
que já existem as condicóes necessárias e suficientes para que velha sociédade que nao quer confessar-se definitivamente su-
determinados encargos possam e, por conseguinte, devam ser perada, mas derrota também os grupos novíssimos que acredi-
resolvidos históricamente, Ce devem, porque qualquer vacila- tam já ultrapassada a nova estrutura surgida da transformacáo
c;:ao em cumprir o dever histórico aumenta a desordem necessá- iniciada em. 1789. Assim, ela demonstra a sua vitalidade tanto
ria e prepara catástrofes mais graves). ero relacáo ao velho como em relacáoao novíssimo. Além do
Nas análises histórico-políticas, freqüentemente incorre-se
no erro de nao saber encontrar a justa relacáo entre o que é 1 O fato de nao se ter considerado o momento imediato das "relacóes
orgánico e o que é ocasional. Assim, ou se apresentam como de forca" está ligado a residuos da concepcáo liberal vulgar, da qual
imediatamente atuantes causas que, ao contrário, atuam media- o sindicalismo é urna manifestacáo que acreditava ser mais avancada
quando, na realidade, representava um passo atrás. Efetivamente, a
tamente, ou se afirma que as causas imediatas sao as únicas concepcáo liberal vulgar, dando importancia a relacáo das forcas polí-
causas eficientes. Num caso, manifesta-se o exagero de "eco- ticas: organizadas nas diversas formas de partido (leitores de jornais,
nomismo" ou de doutrinarismo pedantesco; no outro, o excesso eleícóes parlamentares e locais, organízacées de massa dos partidos e
de "ideologismo". Num caso, superestimam-se as causas mecá- dos sindicatos num sentido estrito), era mais avancada do que o sin-
d~ca~smo, 9-ue da,:a importancia primo!dia~ a relacáo fundam~ntal eco-
nicas; no outro, exalta-se' o elemento voluntarista e individual. nómico-social, \3 so a ela. A concep9ao liberal vulgar. tambem levava
A distincáo entre "movimentos" e fatos orgánicos e movimentos em conta implicitamente esta relacáo (como transparece através de
e fatos de "conjuntura" ou ocasionais deve ser aplicada a todos muítos sínaís ), mas Insistía prioritariamente sobre a relacáo das fóreas
os tipos de situacáo: nao só áquelas em que se verifica um políticas, que era urna expressáo da outra e, na realidade, englobava-a.
Estes residuos da concepcáo liberal vulgar podem ser encontrados em
processo regressivo ou de crise aguda, mas áquelas em que se toda urna série de trabalhos que se dizem ligados a filosofia da praxis
verifica um desenvolvimento progressista ou de prosperidade e e deram lugar a formas infantis de otimismo e a asneiras.

46 47
mais, em virtude dos acontecimentos de J870-1871, perde efí- Um aspecto do mesmo problema é a chamada questáo das
cácia o conjunto de princípios de estratégia e tática política nas- relacñes de fórca , Le-se com íreqüéncía nas narracóes histó-
cidos praticamente em 1789 e desenvolvidos ideologicamente ricas a expressáo: "relacóes de torcas favoráveis, desfavoráveis
eni torno de 1848 (aqueles que se sintetizam na fórmula da a esta ou aquela tendencia." Assim, abstratamente, esta formu-
"revolucáo permanente"," Seria interessante estudar os elemen- la9ao. nao explica nada ou quase nada, pois o que se faz é
tos desta fórmula que se manifestaram na estratégía maziniana .repetír o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez
- por exemplo,a insurreicáo de 1853 em Miláo - e se isto . co~o fato e outra como lei abstrata e como explicacáo . Por-
ocorreu conscientemente) .. Um elemento que demonstra a jus- tanto, o erro teórico consiste em apresentar um elemento de
teza deste ponto de vista é o fato de que os historiadores de pesquisa e de interpretacáo como "causa histórica".
modo nenhum concordam (e é impossível que concordem) ao Na "relacáo de torca" énecessário distinguir diversos mo-
fixar os limites daquela série de acontecimentos que constitui a mentos ou graus, que no fundamental sao estes:
Revolucáo Francesa. Para alguns (Salvemini, por exemplo), a 1) Uma relacáo de íórcas sociais estreitamente ligada a
Revolucáo se completa em Valmy: a Franca criou o novo estrutura, objetiva, independente da vontade dos homens, que
Estado e soube organizar a forca político-militar que o sustenta pode ser medida com os sistemas das ciencias exatas ou físicas.
e defende a sua soberania territorial. Para outros, a Revolucáo A base do grau de desenvolvimento das Iorcas materiais de
continua até Termidor; mais ainda, eles falam de muitas revo- producáo estruturam-se os agrupamentos sociais, cada um dos
lucóes (o 10 de agosto seria uma revolucáo em si, etc.)." A quais representa uma funcáo e ocupa uma posicáo determinada
maneira de interpretar Termidor e a obra de Napoleáo apre- na producáo , Esta relacáo é a que é, uma realidade rebelde:
senta as mais agudas contradicóes: trata-se de revolucáo ou ninguém pode modificar o número das fazendas e dos seus
de contra-revolucáo? Para outros, a Revolucáo continua até agregados, o número das cidades com as suas populacóes de-
1830, 1848, 1870 e inclusive até a guerra mundial de' 1914. terminadas, etc. Este dispositivo fundamental permite verificar
Em todas estas maneiras de ver há uma parte de verdade. se na sociedade existem as condicóes necessárias e suficientes
Realmente, as contradicóes internas da estrutura francesa, que para a sua transformacáo; permite control..; o grau de realismo
e de viabilidade das diversas ideologías que ela gerou durante
se desenvolvem depois de 1789, só encontram uma relativa com-
o seu curso.
posicáo com a Terceira República. E a Franca goza sessenta 2) ; O momento seguinte é a relacáo das forcas políticas:
anos de vida política equilibrada depois de oitenta anos de trans- a avaliacáo do grau de homogeneidade, de autoconscíéncia e
formacóes em ondas cada vez maiores: 1789, 1794,1799,1804, de organízacáo alcancado pelos vários grupos socíais . Por sua
1815, 1830, 1848, 1870. É exatamente o estudo dessas "ondas"
vez, este momento pode ser analisado e diferenciado em vários
de diferentes oscilacóes que permite reconstruir as relacóes en-
graus, que correspondem aos diversos momentos da consciencia
tre estrutura esuperstruturas, de um lado, e, de outro, as relacóes políticacoletiva, da forma como se manifestaram na História
entre o curso do movimento orgánico e o curso do movimento até agora. O primeiro e mais elementar é o económico-corpo-
de conjuntura da estrutura. Assim, pode-se dizer que a medi- rativo: um comerciante sente que deve-se: solídásío com outro
c;ao .dialética entre os dois princípios metodológicos enunciados comerciante, etc., mas o comerciante náosesente ainda sofidá-
no início desta nota localiza-se na fórmula político-histórica da rio com o fabricante. Assim, seme-se a unidadehomogénea do
revolucáo permanente. grupo profissional e o dever de organizá-la, mas nao ainda a
unidade do grupo social mais amplo , Um segundé momento é
1 Gramsci usa o termo revolucáo permanente para indicar a interpre- aquele em que se adquire a consciencia da solidariédade de in-
taºao errada de Trotski (urna transformacáo política levada a cabo por teresses entre todos os membros do grupo social, mas ainda no
urna minoria sem o apoio das grandes massas) a fórmula de Karl Marx.
Por isso o autor a coloca entre aspas. (N. el.) campo meramente económico. Neste momento já se coloca a
2 Cf. La Révolution franfaise de A. MATIDEZ, na colecño A. Colino questáo do Estado, mas apenas visando a alcancar uma igual-

48 49

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dade político-jurídica com os grupos dominantes: reivindica-se cretas. Urna ideologia nascida num país desenvolvido difunde-
o direito de participar da Iegislacáo e da administracáo e, talvez, se em países menos desenvolvidos, incindindo no jogo local das
de modificá-las, reformá-las, mas nos quadros fundamentais já combinacóes.!
existentes. Um terceiro momento é aquele em que se adquire Esta relacáo entre torcas internacionais e Jorcas nacionais
a consciencia de que os próprios interesses corporativos, no seu ainda complicada pela existencia, no interior de cada Estado,
é

desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de diversas secóes territoriais com estruturas diferentes e dife-
de grupo meramente económico, e podem e devem tornar-se os rentes relacóes de forca em todos os graus (a Vandéia era alia-
interesses de outros grupos subordinados. Esta é a fase mais da das forcas reacionárias internacionais e representava-as no
abertamente política, que assinala a passagem nítida da estru- seio da unidade territorial francesa; Liáo, na Revolucáo Fran-
tura para a esfera das superestruturas complexas; é a fase em cesa, representava um nó particular de relacóes, etc.) .
que as ideologias germinadas anteriormente se transformam em 3) O terceiro momento é o da relacáo das forcas militares,
"partido", entram em choque e lutam até que urna delas, ou imediatamente decisiva em determinados instantes. (O desen-
oelo menos urna combinacáo delas, tende a prevalecer, a se volvimento histórico oscila continuamente entre o primeiro e o
impor, a: se irradiar em toda a área social, determinando, além terceiro momento, com a mediacáo do segundo). Mas esse
da unicidade dos fins económicos e políticos, também a uni- momento nao é algo indistinto e que possa ser identificado ime-
dade intelectual e moral. Coloca todas as questóes em torno das diatamente de forma esquemática. Também nele podem-se
quais se acende a luta nao num plano .corporativo, mas num distinguir dois graus: o militar, num sentido .estrito ou
plano "universal", criando, assim, a hegemonia de um grupo técnico-militar, e o grau que pode ser denominado de político-
social fundamental sobre urna série de grupos subordinados. O . militar. No curso da História estes dois graus se apresen-
Estado é concebido como organismo próprio de um grupo, des- taram com uma grande variedade de combínacóes. Um exem-
tinado a criar as condicóes favoráveis a expansáo máxima des- plo típico; que pode servir como demonstracáo-limite, é o da
se grupo. Mas este desenvolvimento e esta expansáo sao con- reíacáo de opressáo militar de um Estado sobre uma nacáo que
cebidos e apresentados como a forca motriz de urna expansáo procura alcancar a sua independencia estatal. A relacáo nao
universal, de um desenvolvimento de todas as energias "nacio- é puramente militar, mas político-militar. Efetivamente, tal tipo
aais". O grupo dominante coordena-se concretamente com os de opressáo seria inexplicável se nao existisse o estado de de-
interesses gerais dos grupos subordinados, e a vida estatal é
sagregacáo social do POyO oprimido e a passividade da sua
concebida como urna continua formacáo e superacáo de equili- maioria. Portanto, a independencia nao poderá ser alcancada
orios instáveis (no ámbito da lei) entre os interesses do grupo apenas com fórcas puramente militares, mas com íórcas milita-
fundamental e os interesses dos grupos subordinados; equilibrios res ep6lítico-militares. Se a nacáo oprimida, para iniciar a
emque os interesses do grupo dominante prevalecem até um Juta da independencia, tivesse de esperar a permissáo do Esta-
determinado ponto, exc1uindo o interesse económico-corpora-
tivo estreito. . 1 A relígíáo, por exemplo, sempre foi urna fontedessas combinacñes
Na história real estes momentos se confundem reciproca- ideológico-políticas nacionais e intemacionais; e, com a relígíáo, as. ou-
mente, por assim dizer horizontal e verticalmente, segundo as tras formacñes intemacionais: a maeonaría, o Rotary Clube, os judeus,
a diplomacia de carreira, que sugerem expedientes políticos de origem
atividades económicas sociais (horizontaísj e segundo; os terri- histórica diferente e levam-nas a triunfar em determinados países, fun-
tórios (verticais) , combinando-se e dividindo-se alternadamen- cionando como partido político internacional que atua em cada nacáo
te. Cada urna destaácombinacóes pode ser representada por com todas as suas fórcas intemacionais concentradas. Urna religiáo, a
urna expressáo orgánica própria, económica e política. Tam- maconaría, os judeus, Rotary, etc., podem ser incluídos na categoría
social dos "íntelectuaís", cuja funeáo, em escala internacional, é a de
bém necessário levar em conta que, com estas relacées inter-
é
mediar os extremos, "socializar" as ínovaeóes técnicas que permitem o
nas de um Estado-Nacáo, entrelacam-se as relacóes internacio- funcionamentode' toda atividade de dírecáo, de excogitar compromissos
nais, criando novascombínacóes originais e historicamente con- e saídas entre solucóes extremas.

50 51

1
I do dominante para organizar o seu exército no sentidoestrito rupturas do equilíbrio social, afirma que, por volta de 1789, a
e técnico da palavra, deveria aguardar bastante .tempo (pode situacáo económica era mais do que boa, pelo que nao se pode
ocorrer que a reivindicacáo seja concedida pela nacáo dominan- dizer que a catástrofe do Estado absoluto tenha sido motivada
te, mas isto significa que urna grande parte da luta já foi tra- por urna crise de empobrecimento. Deve-se observar que o
vada e vencida no terreno político-militar). Logo,a nacáo . Estado estava as voltas com urna crise financeira mortal e devia
II oprimida oporá inicialmente a torca militar hegemónica urna optar sobre qual das tres ordens sociais privilegiadas deveriam
I
fórca que é apenas "político-militar"; isto é, oporá urna forma , recair QS sacrificios e o peso destinados a reordenar as financas
I de acáo política com a virtude de determinar reflexos de cará- estatais e reais. Além do mais, se a posicáo económica da bur-
ter militar no sentido de que: 1) seja capaz de desagregar inti- guesia era próspera, certamente nao era boa a situacáo das clas-
mamente a eficiencia bélica da nacáo dominante; 2) obrigue á ses populares das cidades e do campo, especialmente estas, ator-
forca militar dominante a diluir-se e dispersar-se num grande mentadas pela miséria endémica. De qualquer modo, a ruptura
I território, anulando grande parte da sua eficiencia bélica. No do eguilíbrio entre as torcas nao se verificou em virtude de
Risorgimento italiano pode-se notar a ausencia de~astrosa. de causas mecánicas imediatas de empobrecimento do grupo social
I urna direcáo político-militar, especialmente no Partido da A~¡¡o interessado em romper o equilíbrio, e que de fato rompeu; mas
! (por incapacidade congénita), mas tambémno partido piemon- verificou-se no quadro de conflitos acima do mundo económico
tes-moderado, tanto antes como depois de 1848. Isto ocorreu imediato, ligados ao "prestígio" de classe (interesses económicos
nao por incapacidade, mas por "malthusianismo económico- futuros), a urna exasperacáo do sentimento de independencia,
político", porque nao se pretendeu nem ao menos acenar com de autonomía e de poder. A questáo particular do mal-estarou
a possibilidade de urna reforma agrária e porque .náo se queria do bem-estar económico como causa de novas realidades his-
a convocacáo.de urna assembléia nacional constituinte. Só se tóricas é um aspecto parcial da questáo das relacóes de forca
queria que a monarquía piemontesa, sem condicóes ou limitacóes nos seus vários graus. Podem-se verificar navidades, tanto por-
de origem popular, se estendesse a toda a Itália com a simples que urna situacáo de bem-estar é ameacada pelo egoísmo mes-
sancáo de plebiscitos regionais. quinho de um grupo adversário, como porque o mal-estar se
Outra questáo ligada as precedentes é a de se ver se as tornou intolerável e nao se percebe na velha sociedade nenhuma
crises históricas fundamentais sao determinadas imediatamente Iorca que seja capaz de minará-lo' e de restabelecer a normali-
pelas crises económicas. A resposta a questáo está implícita- dade através de medidas legais. Portanto, pode-se dizer que
mente contida nos parágrafos anteriores, onde as questñes tra- todos estes elementos sao. a manifestacáo concreta das flutua-
tadasconstituem outro modo de apresentar o problema ao qual ~5es de conjuntura do conjunto das relacóes sociais de forca,
nos referimos agora. Todaviaé sempre necessário, por motivos sobre cujo terreno verifica-se a passagem destas relacñes para
didáticos devidos ao público particular, examinar cada modo relacóes políticas de torca, culminando na relacáo militar de-
sob O' qual se apresenta uma mesma questáo, como se fosse cisiva.'
um problema independente e novo . Inicialmente, pode-sé excluir Interrompendo-se .este processo de desenvolvimento de um
que, 'de per si, as crises económicas imediatas produzam acon- momento para outro, e éle é essencialmente um processo que
tecimentos fundamentais; apenas podem criar um terreno. favo- tem como atores os homens e a vontade e a capacidade nos
a
rável difusáo de determiliadas maneiras de pensar, de formu- homens, a situacáo mantém-se inerte, podendo dar Jugar a con-
lar e resolver as questóes que envolvem todo o curso ulterior clusóes contraditórias: a velha sociedade resiste e assegura um
da vida estatal. De resto, todas as afirmacóes referentes a perío- período .de "alivio", exterminando fisicamente a élite adversá-
dos de crise ou de prosperidade podem dar margem a juízos ria e aterrorizando as massas de reserva; ou entáo verifica-se a
unilaterais. No seu compendio de História da Revolucáo Fran- destruicáofecíproca das forcas em luta com a instauracáo da
cesa, Mathiez, opondo-se a história vulgar tradicional, que aprio- paz dos cemitérios, talvez sob a vigilancia de um sentinela es-
rísticamente "acha" urna c:rise para coincidr .com as grandes trangeiro.
52 53
Mas a observacáo mais importante a ser feita a propósito parlamentar, organizacáo [omalística)' refletem-se em todo o
de qualquer análise concreta das relacóes de forca, esta: tais
é
organismo estatal, reforcando a posicáo relativa do poder da
análises nao se encerram cm si mesmas (a menos que nao se burocracia (civil e militar), da alta financa, da Igreja e em
escreva um capítulo da história do passado), mas só adquirem geral de todos os organismos relativamente independentes das
um significado se servem para justificar urna atividade prática, - flutuacóes da opiniáo pública? O processo é diferente em cada
urna iniciativa de vontade , Elas indicam quais 'sao os pontos país, embora o conteúdo seja o mesmo. E o conteúdo é a
débeis de resistencia onde a forca da vontade pode ser aplicada crise de hegemonia da c1asse dirigente, que ocorre ou porque a
mais frutIferamente,sugerem as operacóes táticas imediatas, 'c1a'sse dirigente faliu em determinado grande empreendimento
indicam a melhor maneira. de empreender urna campanha de . político pelo qual .pediu ou impós pela forca o consentimento
agitacáo política, a linguagem que será melhor compreendida das grandes massas (como a guerra), ou porque amplas mas-
pelas multid6es, etc. O elemento decisivo de cada situacáo é a sas (especialmente de camponeses e de pequenos burgueses in-
torca permanente organizada e antecipadamente predisposta, telectuaisj passaram de repente da passividade política a cer-
que se pode fazer avancar quando se manifestar urna- situacáo ta atividade e apresentaram reivindicacóes que, no seu com-
favorável (e só é favoráve1 na medida em que esta torca exista plexo desorganizado, constituem urna revolucáo. Fala-se de "cri-
e esteja carregada de ardor combativo). Por isso, a tarefa essen- se de autoridade", mas, na realidade, o que se verifica é a
cial consiste em cuidar sistemática e pacientemente da forma- crise de hegemonia, ou crise do Estado no seu conjunto.
<;ao, do desenvolvimento, da unidade compacta e consciente de ,A crise cria situacóes imediatas perigosas, pois as diver-
si mesma, desta fórca , Comprova-se isto na história militar e sas camadas da populacáo nao possuem a mesma capacidade
no cuidado com que, sempre, os exércitos mostraram-se predis- de orientar-se rapidamente e de se reorganizar com o mesmo
postos a iniciar urna guerra em qualquer momento. Os grandes ritmo. A. c1asse dirigente tradicional, que tem um numeroso
Estados eram grandes Estados exatamente porque sempre esta- pessoal preparado, muda homens e programas e retoma o
vam preparados para se inserir eficazmente nas conjunturas in- controle que lhe fugia, com urna rapidez maior do que a que
ternacionais favoráveis, e o eram porque havia a possibilidade se verifica entre as classes subalternas. Talvez faca sacrifícios,
concreta de inserirem-se eficazmente nelas. exponha-s~ a um futuro sombrio com promessas demagógicas,
mas mantem o poder, reforca-o momentaneamente e serve-se
dele para esmagar o adversário e desbaratar os seus dirigentes,
Observacties sobre alguns aspectos da estrutura dos par- que nao podem ser muitos e adequadamente preparados. A
tidos políticos nos períodos de crise orgánica. Num determi- unificacáo das tropas de muitos partidos sob a bandeira de um
nado momento da sua vida histórica, os grupos sociais se afas- partido único, que representa melhor e encarna as necessidades
tain dos seus partidos tradicionais, isto é, os partidos tradi- de toda a c1asse, é um fenómeno orgánico e normal, mesmo se
cionais com urna determinada forma de organízacáo, com de- o seu ritmo for muito rápido e fulminante em relacáo aos tem-
terminados homens que os constituem, representam e dirigem, pos tranqüilos: representa a fusáo de todo um grupo social sob
nao sao mais reconhecídos como expressáo própria da sua urna só direcáo; considerada a única capaz de resolver um pro-
c1asse mi fra<;ao de c1asse. Quando se verificam estas crises, blema existencial dominante e afastar um perigo mortal. Quan-
a situacáo imediata torna-se delicada e perigosa, pois abre-se o do a crise náoencontra esta solucáo orgánica, mas a solucáo
campo as solucóes de forca, a atividade de poderes ocultos, re- do ,~hefe ca.rismático, isto significa que existe um equilíbrio
presentados' pelos homens providenciáis ou carismáticos. estático (cujos fatores podem ser despropositados, mas nos
Como se formam estas situacóes de contraste entre "re- quaisprevalece a imaturidade das Jorcas progressistas); signi-
presentados e representantes", que do terreno dos partidos (or- fica que nenhum grupo, nem o conservador nem o progressis-
ganizacóes de partido num sentido estríto, campo eleitoral-

54 55
ta, dispóe da torca para vencer e que também o grupo conser- cito, de nao fazé-lo sair da constitucionalidade de nao levar
vador tem necessidade de um patráo", a política aos quartéis, como se diz, para manter a homoge-
Esta ordem de fenómenos está ligada a urna das ques- nei~ade entre ofi~ia~s e soldados num terreno de aparente neu-
toes mais importantes, concernentes ao partido político; isto trah.dade, e supenondade sobre as íaccóes; porém, é o exérci-
é, a capacidade de reacáo do partido contra o espírito consue- to, ISt~ e, ~ Estado-M~ior e a oficialidade, quem determina a
tudinário, contra as tendencias mumificadoras e anacronísticas. nova ,Sl~Ua¡;aO e a domina: Por outro lado, nao é verdade que
Os partidos nascem e se constítuem em organízacñes para di- . o exército, ~egundo ?s Constituicóes, jamais deve fazer políti-
rigir asituacáo em momentos historicamente vitais para as suas ca; o exército devena exatamente defender a Constituicáo, a
classes; mas nem sempre eles sabem adaptar-se as novas tare- forma legal do .Estado. e .a~ instituicóes conexas; por isso, a
fas e as novas épocas, nem sempre sabem desenvolver-se de chamada n~utr~hda~e significa apenas apoio a parte retrógra-
acorde com o desenvolvimento do conjunto das relacóes de da. Em taI~ sltua¡;oe.s, tor?a-se necessário colocar a questáo
torca (portanto, a posicáo relativa das classes que represen- d~s~~ manelf~ para impedir que se reproduza no exército a
tam) no país a que pertencem ou no campo internacional. Ao ~hvIsao do paI~,. e que desapareca, através da desagregacándo
analisar-se o desenvolvimento dos partidos é necessário dis- instrumento militar, o poder determinante do Estado-Maior, Na
tinguir: o grupo social, a massa partidária, a burocracia e o verdade, todos éstes elementos de observacáo nao sao abso-
Estado-Maior do partido. A burocracia é a torca consuetudi- lutos; o seu peso muito diferente nos diversos momentos his-
é

nária e conservadora mais perigosa; se ela chega a constituir tóricos e nos vários países. .
um corpo solidário, voltado para si e independente da massa, A primeira índagacáo que se deve fazer esta: existe num
é

o partido acaba se tornando anacrónico, e nos momentos de de.terminado país urna camada social ampla para a qual a cal"
crise aguda é esvaziado do seu conteúdo social e permanece ~elfa burocrática, civil e militar, constitui um elemento muito
como que solto no ar. Veja-se o que está ocorrendo com urna I~porta~te de vida económica e afirmacáo política (participa-
série de partidos alemáes, em virtude da expansáo do hitleris- cao efetiva no poder, mesmo indiretamente, pela "chantagem")?
mo. Os. partidos franceses constituem um terreno rico para tais Na Europa, n:oderna es.ta camada pode ser localizada na pe-
investigacfies: estáo todos mumificados e sao anacrónicos; nao quena e .média burguesía rural, que é mais ou menos nume-
passam de documentos históricos-políticos das diversas fases da rosa nos diversos países de acordo com o desenvolvimento das
história passada francesa, da qual repetem a terminologia en- forcas industriais, d~ um lado, e da reforma agrária, de outro'
velhecida; a sua crise pode-se tornar mais catastrófica do que É claro que a carreira burocrática (civil e militar) nao é um
a dos partidos alemáes. monopólio desta .camada social: todaviá, ela lhe é particular-
Aoexaminar-se esta ordem de acontecimentos, é comum mente apta em virtude da funcáo social que esta camada rea-
deixar de colocar no seu devido lugar o elemento burocrático, liza e das tendencias psicológicas que a .funcáo determina ou
civil e militar; e também nao se leva em conta que em tais f~vorece. Estes dois. elementos dáo ao conjunto do grupo sa-
análises nao devem entrar apenas os elementos militares e bu- cial certa homogeneidade
e

e enerzia
b para dirigir. ,. e , portanto
._ - .,
rocráticos existentes, masas camadas sociais· entre ' as quais, um valor político e urna funcáo muitas vezes decisiva no ám-
nos diferentes complexos estatais, a burocracia é tradicional- b~to do organismo social. Os elementos deste grupo estáo ha-
mente recrutada. Um movimento político pode ser de caráter bituados a comandar diretamente núcleos de homens mesmo
abertamente militar, mesmo se o exército como tal nao parti- exíguos, e a comandar "políticamente", nao "economicamente";
cipa abertamente dele; um governo pode ser de caráter militar, na sua arte de comando nao existe a disposicáo de ordenar
mesmo se o exército nao participa dele. Em determinadas si- as "coisas", de "ordenar homens e coisas" num todo orgánico,
tuacóespode-se dar a conveniencia de nao "descobrir" o exér- como ocorre na producáo industrial, pois este grupo nao tem
funcñes económicas no sentido moderno da palavra. Ele tem
1 Cf. o Dezoito Brumário de Luis' Bonaparte.
57
5fl
uma renda porque jundicamente proprietário de uma parte
é

do solo nacional, e a sua funcáo consiste em impedir "politi- deve ser entendida neste sentido, e nao em sentido absoluto; o
camente" o camponés cultivador de melhorar a sua existencia, que nao é pouco 1. Deve-se notar como este caráter "militar"
pois qualquer melhoria da posicáo relativa do camponés seria do grupo social em questáo, que era tradicionalmente um re-
catastrófica para a sua posicáo social. A miséria crónica e o flexo espontáneo de determinadas condicóes de existencia, é
trabalho prolongado do camponés, com o conseqüente embru- agora conscientemente educado e predisposto organicamente.
tecimento, representam para ele uma necessidade primordial. Enquadram-se neste movimento consciente os esforcos siste-
Por isso emprega a máxima energia na resistencia e no contra- máticos para criar e manter permanentemente diversas. asso-
ataque a mínima tentativa de organizacáo autónoma do tra- ciacóes de militares reformados e de ex-combatentes dos vários
balho camponés e a qualquer movimento cultural camponés corpos e armas, ligadas aos Estados-Maiores e capazes de se-
que ultrapasse os limites da religiáo oficial. Os limites deste rem mobilizadas quando necessário. Isto evitaria a necessidade
grupo social e as razóes da sua fraqueza íntima situam-se na de mobilizar o exército regular, que manteria, assim, o seu
sua dispersáo territorial e na "nño-homogeneidade" mtimamen- caráter de reserva em estado de alerta, reforcada e imune a
te ligada a esta dispersáo. Isto também explica outras caracte- decomposicáo política 'destas forcas "privadas" que nao pode-
rísticas: a volubilidade, a multiplicidade dos sistemas ideoló- riam deixar de influir sobre o seu "moral", sustentando-o e
gicos a que aderem, o próprio exotismo das ideologias algumas . fortalecendo-o. Pode-se dizer que ocorre um movimento do
vezes encampadas. A vontade está decididamente orientada pa- tipo "cossaco", nao em formacóes escalonadas dentro dos li-
ra um fim, mas é vagarosa e freqüentemente necessita de um mites da nacionalidade, como se verificava com os cossacos
longo processo para centralizar-se orgánica e politicamente. O czaristas mas dentro dos "limites" de grupo social. Portanto,
processo se acelera quando a "vontade" específica desse grupo em toda uma série de países, a influencia do elemento militar
coincide com a vontade e os interesses imediatos da classe alta; na vida estatal nao significa apenas influencia e peso do ele-
nao só o processo se acelera, como manifesta-se repentinamen- mento técnico militar, mas influencia e peso da camada social
te a "forca militar" dessa camada, que algumas vézes, depois fundamental de origem do elemento técnico-militar (especial-
de se organizar, dita leis a classe alta, se nao pelo conteúdo, mente os oficiais subalternos). Esta série de observacñes é

pelo menos no que se refere a "forma" da solucáo. Observa-se indispensável para a análise do aspecto mais íntimo daquela
neste caso o funcionamento das mesmas leis que se configu- determinada forma política que se convencionou chamar de
raram nas relacóes cidade-c:ampo no tocante as classes subal- cesarismo ou bonapartismo; para distingui-la de outras formas
ternas: a forca da cidade automaticamente se transforma em em que o elemento técnico-militar como :tal predomina sob
forca do campo. Mas, em virtude de que no campo os confli- formas talvez ainda mais destacadas e exclusivas.
tos logo assumem uma forma aguda e "pessoal", dada a ausen- A Espanha e a Grécia oferecem dois exemplos típicos,
cia de margens económicas e a normalmente mais pesada pres- com aspectos semelhantes e diversos. Na Espanha preciso le-
é

sao de cima para baixo, assim, no campo, os contra-ataques varem conta algumas particularidades: tamanho do território
devem ser mais rápidos e decisivos. Este grupo compreende e e baixa densidade da populacáo rural. Nao existe, entre o lati-
ve que a origem das suas preocupacóes está nas cidades, na fundiário nobre e o camponés, urna numerosa burguesia rural;
fórca das cidades, e por isso entende de "dever" ditar a solucáo
1 Pode-se ver um reflexo deste grupo na atividade ideológica dos in-
as classes altas urbanas, a fim de que o foco seja apagado, telectuais conservadores de direita. O livro de GAETANO MOSCA, Teo-
mesmo se ísto nao fór da conveniéncia imediata das classes al- rica dei governi e governo parlamentare (segunda edicño de 1925, pri-
tas urbanas, seja porque muito dispendioso, ou porque perigoso meira edícáo de 1883) é exemplar a este respeito; já em 1883 Mosca
a longo prazo (estas classes véem ciclos mais amplos de desen- se aterrorizava com um possível contato entre cídade e campo. Mosca,
pela sua posícáo defensiva (de contra-ataque), compreendia melhor em
volvimento nos quais é possível manobrar.e nao apenas o in- 1883 a técnica da política das classes subalternas do que a compreen-
teresse "físico" imediato). A funcáo dirigente desta camada deram, mesmo alguns decéníos depois, os representantes destas forcas
subalternas, inclusive urbanas.
58
59
portanto, era escassa a importancia da oficialidade subalterna se desagregue horizontalmente (permanecerá neutro até certo
como forca em si (ao contrário, tinha certa importancia de ponto, entenda-se). Em lugar dele, entra em acño a c1asse mi-
antagonista a oficialidade das armas especializadas, artilharia e litar burocrática, que, utilizando meios militares, sufoca o mo-
engenharia, de origem burguesa urbana, que se opunha aos vimento no campo (de irnediato o mais perigoso). Nesta luta,
generais e procurava ter urna política própria). Assim, os go- o "movimento no campo registra certa unificacáo política e
vernos militares sao governos de "grandes" generais. Passivi- 'ideológica, encontra aliados nas c1asses médias urbanas (médias
dade das massas camponesas como populacáo e 'lomo tropa. .no sentido italiano) reforcadas pelos estudantes de origem ru-
Se no exército verifica-se desagregacáo política, é em sentido ral que vivem nas cidades, impóe os seus métodos políticos as
vertical, nao horizontal, fruto da competicáo entre as cama- c1asses altas, as quais devem fazer muitas concess6es e permi-
rilhas dirigentes: a tropa se:. divide para seguir os chefes em tir urna determinada legislacáo favoráve1. Enfim, consegue, até
luta entre si. O governo militar um paréntese entre dois go-
é
um determinado ponto, permear o Estado de acordo com os
vernosconstitucionais; o elemento militar éa reserva perma- seus interesses e substituir uma parte dos quadros dirigentes;
nente da ordem e do conservadorismo, é urna torca política continuando a se manter armado no desarmamento geral, de-
que atua "publicamente" quando a "legalidade" está em peri- senha apossibilidade de uma guerra civil entre os seus adep-
go. O mesmo ocorre na Grécia, com a diferenca de que o ter- tos armados e o exército regular, no caso de a c1asse alta mos-
ritório grego se espalha num sistema de ilhas e de que urna trar muita disposicáo de resistencia. Estas observacóes nao de-
parte da populacáo mais enérgica e ativa está sempre no mar, vem ser concebidas corno esquemas rígidos, mas apenas como
o que torna mais fácil a intriga e a conspiracáo militar. O critérios práticos de interpretacáo histórica e política: Nas aná-
camponés grego é passivocomo o espanhol; mas, no quadro lises concretas de fatos reais, as formas históricas sao caracte-
da populacáo total, quando, por ser marinheiro, o grego mais
rísticas e quase"únicas". César representa urna combinacáo
enérgico e. ativo está quase sempre longe do seu centro de vida
de circunstancias reais bastante diversa da combinacáo repre-
política, a passividade geral deve ser analisada diversamente,
sentada por Napoleáo l, da mesma forma que Primo de Rivera,
e a solucáo do problema nao pode ser a mesma (o fuzilamen-
Zivkovich, etc.
to dos membros de um governo derrubado, há alguns anos,
provávelmente deve ser explicado como urna explosáo de có- Na análise do terceiro grau ou momento do sistema das
lera desteelemento enérgico e ativo, que-pretendeu dar urna relacóes de forca existentes numa determinada situacáo, pode-
sangrenta licáo). O que se deve observar especialmente é que, se recorrer proveitosamente ao conceito que na ciencia militar
na Grécia e na Espanha, a experiencia do governo militar nao é conhecido por "conjuntura estratégica", ou seja, mais preci-
criou urna ideología política e social permanente e formalmente samente, ao grau de preparacáo estratégica do teatro da luta,
orgánica, como sucede nos países potencialmente bonapartis- doqual um dos elementos principais fornecido pelas condi-
é

tas, para usar a expressáo. Mas as condicóes históricas gerais cóes qualitativas do pessoal dirigente das forcas ativas que po-
dos dois tipos sao as mesrnas: equilíbrio dos grupos urbanos dem ser chamadas de primeira linha (inc1uídas nestas as fórcas
em luta, o que impede o jogo da democracia "normal", o par- de assalto). O grau de preparacáo estratégica pode dar a vitó-
lamentarismo; a influencia do campo neste equilíbrio, entre; ria a forcas "aparentemente" (isto é, quantitativamente) in-
tanto,é diferente. Nos países como a Espanha, o campo, com- feriores .as do adversário. Pode-se dizer que a preparacáo es-
pletamente passivo, permite aos generais da nobreza latifun- tratégica tende a reduzir a zercos chamados "fatores impon-
diária servirem-se políticamente do exército para restabelecer deráveis", as reacóes ínstántaneas de surpresa, num determi-
o equilíbrio em perigo, isto é, o triunfo dos grupos altos, Em nado momento, adotadas .. por torcas tradicionalmente inertes
outros países o campo nao é passivo, mas o seu movimento e passivas. Devem ser computados entre os elementos da pre-
nao está políticamente coordenado com o urbano: o exército paracáo de urna conjuntura estratégica favorável aqueles con-
deve permanecer neutro, pois épossível que de outro modo ele siderados nas observacóes sobre a existencia e a organizacño
60 61
de urna camada militar ao lado do organismo técnico do exér-
cito nacional'. recebida com disciplina intelectual e como meio para promo-
ver formas de juízo nao discordantes e uniformidade de lin-
Outros elementos podem ser elaborados a partir deste tre- guagem, de modo a permitir a todos que compreendam e se
cho do discurso pronunciado no Senado, em 19 de maio de facam compreender. Se, as vezes, a unidade doutrinária amea-
1932, pelo Ministro da Guerra, General Gazzera (d. Corrie- ,cou 'degenerar em esquematismo, a reacáo foi imediata, im-
re della Sera de 20 de maio): "O regime disciplinar do nosso primindo a tática, inclusive através dos progressos da técnica,
exército constitui hoje, gracas ao fascismo, uma diretiva para urna rápida renovacáo, Portanto, esta regulamentacáo nao é
toda a nacáo. Outros exércitos tiveram e ainda tém uma dis- estática, nao é tradicional, como alguns créem. A tradicáo é
ciplina formal e rígida. Nós temos sempre presente o princí- considerada apenas como forca, e os regulamentos estáo sem-
pio de que o exército é feito para a guerra e que para ela pre em curso de revisáo, nao por desejo de mudanca, mas
deve-se preparar; portanto, a disciplina de paz deve ser a mes- para pode-los adequar a realidade". (Um exemplo de "prepa-
ma disciplina do tempo de guerra, que no. tempo de paz deve racáo daconjuntura estratégica" pode ser encontrado nas Me-
encontrar o seu fundamento espiritual. A nossa disciplina ba- márias de Churchill, no trecho em que fala da batalha da Ju-
seia-se no espírito de coesáo entre chefes e gregários, coesáo que tlándia.)
é fruto espontáneo do sistema seguido. Este sistema resistiu
magnificarnente, durante uma longa e duríssima guerra, até a
vitória; é mérito do regime fascista ter levado a todo o povo o cesarismo. César, Napoleáo 1, Napoleáo III, Cromwell,
italiano uma tradicáo disciplinar tao insigne. Da disciplina de e outros. Compilar um catálogo dos eventos históricos que
cada um depende o éxito da concepcáo estratégica e das ope- culminaram numa grande personalidade "heróica".
racóes táticas. A guerra ensinou muitas coisas, inclusive que
há uma separacáo profunda entre a preparacáo de paz e a Pode-se afirmar que o cesarismo exprime urna situacáo
realidade da guerra. É claro que, qualquer que seja a prepa- em que as forcas em luta se equilibram de modo catastrófico,
racáo, as operacóes iniciais da campanha colocam os belige- isto é, equilibram-se de tal forma que a continuacáo da luta só
rantes diante de problemas novos que dáo Tugar a surpresas pode levar a destruicáo recíproca. Quando a forca pro gres-
de uma parte e de outra. Por isso, nao se deve chegar a con- sista A luta contra a forca reacionária B, nao só pode ocorrer
clusáo de que nao é útil formular uma concepcáo a priori e que A venca B ou B venca A, mas também pode suceder que
que nenhum ensinamento pode ser extraído da guerra passada. nem A nem B vencam, porém se aniquilem mutuamente, e
Pode-se extrair dela uma doutrina de guerra, que deve ser urna terceira forca, C, intervenha de fora submetendo o que
resta de A e de B,. Na Itália, depois da morte do Magnífico,
sucedeu exatamente isto.
1 A propósito da "camada militar", é interessante o que escreve T,
TITTONI, em Ricordi personali di política interna, Nuooa Antologia, Mas o cesarismo, se exprime sempre a solucáo "arbitral",
1-16 de abril de 1929, Confessa Tittoni ter meditado sobre o fato de confiada a uma grande personalidade, de urna situacáo histó-
que, para reuriir a forea pública necessária a enfrentar os tumultos eclo-
didos numa localidade, era necessárío desguarnecer outras regi6es. Du-
rico-política caracterizada por um equilíbrio de forcas de pers-
rante a Semana Vermelha de [unho de 1914, foi necessário desguarnecer pectiva catastrófica, nao tem sempre o mesmo significado hís-
Ravenna para reprimir os motíns de Ancona . Em seguida, privado da tórico. Pode haver um cesarismo progressista e um cesarismo
forea pública, o prefeito de Ravenna teve de se trancar na prefeitura, reacionário; mas em última análise, o significado exato de cada
abandonando a cidade aos revoltosos, "Muítas vezes perguntei a mim
mesmo o que poderia fazer o governo se um movimento de revolta ti-
forma de cesarismo só pode ser reconstruído pela história con-
vesse eclodido simultaneamente 'ern toda a península", Tittoni propós ao creta, e nao por um esquema sociológico. O cesarismo é pro-
governo a críacáo dos "voluntáríos da ordem", ex-combatentes dirigidos gressista quando a sua intervencáo ajuda a forca progressista
por oficiais reformados, O projeto de Tittoni parece que obteve alguma a triunfar, mesmo com certos compromissos e medidas que
consideracño, mas nao teve seqüéncía.
limitam a vitória; é reacionário quando a sua íntervencáo aju-
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da a torca reacionária a triunfar, também neste caso com de.. campo a mesma situacáo examinada a propósito da fórmula
terminados compromissos e Iimitacóes que tém um valor, um jacobino-revolucionária da chamada "revolucáo permanente'",
alcance. e um significado diversos, opostos aos do caso prece- A técnica política moderna mudou completamente depois de
dente. César e Napoleáo I sao exemplos de cesarismo progres- 1848, depois da expansáo do parlamentarismo, do regime as-
sista. Napoleáo III e Bismarck de cesarismo reacionário. " soeiativo isindical e partidário, da formacáo de amplas buro-
.cracias estatais e "privadas" (político-privadas, partidárias ú
Trata-se de ver se na dialética "revolucáo-restauracño" é , sindicais) e das transformacóes que se verificaram na política
o elemento revolucáo ou o elemento restauracáo que prevalece, num sentido mais largo, istoé, nao só do servíco estatal des-
já que é cerio que no movimento histórico jamais se volta atrás, tinadoa repressáo da delinqüéncia, mas do conjunto das foro
e nao existem restauracóes in tato. De resto, o cesarismo é urna cas organizadas pelo Estado e pelos particulares para tutelar
fórmula polémico-ideológica, e nao um cánone de interpre- o domínio político e económico das c1asses dirigentes. Neste
tacáo histórica. É possível haver urna solucáo cesarista mesmo sentido, inteiros partidos "políticos" e outras organizacóes eco-
sem um César, sem urna personalidade "heróica" e represen- nómicas ou de outro genero devem ser considerados organis-
tativa. Também o sistema parlamentar criou um mecanismo mos de polícia política, e de caráter investigativo e preventivo.
para tais solucóes de compromisso. Os governos "trabalhistas" O esquema genérico das torcas A e B em luta com urna pers-
de MacDonald eram, num determinado grau, solucóes dessa pectiva catastrófica, isto é, com a perspectiva de que nem A
natureza; o grau de cesarismo elevou-se quando foi formado o nem B vencam na luta para constituir (ou reconstituir) um
governo com MacDonald na presidencia e urna maioria con- equilíbrio orgánico, da qual nasce (pode nascer) o cesarismo,
servadora. Da mesma forma na Itália, em outubro de 1922, é precisamente urna hipótese genérica, um esquema socioló-
até o afastamento dos "populares", e depois, gradualmente, até gico (conveniente para a arte política). A hipótese pode-se
3 de janeiro de 1925, e ainda até 8 de novembro de 1926, tornar sempre mais concreta, pode ser levada a um grau sem-
verificou-se um movimento histórico-político em que diversas pre maior de aproximacáo da realidade histórica concreta, o
gradacóes de cesarismo se sucederam até urna forma mais pura que pode ser obtido determinando alguns elementos funda-
e permanente, embora também esta nao imóvel e estática. Ca- mentais.
da governó de coalizáo é um grau inicial de cesarismo, que Assim, falando de A e de B só se disseque elas sao uma
pode ou- nao se desenvolver até graus mais significativos (ao rorca genericamente progressístae urna fC.<f<;agenericamente
contrário, a opiniáo vulgar é a de que os governos de coalízáo reacíonana. Pqge-:,s~ precisar' de .que tipoae forcas progres-
constituem o mais "sólido baluarte" contra o cesarismo). No sistas e reacióriárlas se 'trata e, desse modo, alcancar maiores
mundo moderno, com as suas grandes coalizóes de caráter aproximacóes, Nos casos de César e Napoleáo pode-se dizer
económico-sindical e político partidário, o mecanismo do fe- que A e B, mesmo sendo distintas e contrastantes, nño eram
nómeno cesarista é muito diferente do que foi até Napoleáo torcas tais que nao pudessem "absolutamente" chegarva urna
111. No período que culminou com Napoleáo 111, as torcas fusáo e assimilacáo recíproca depois de um processo molecular;
militares regulares ou de fileira constituíam um elemento de- o que de fatoocorreu, pelo menos em certa rnedida (todavía
cisivo para o advento do cesarismo, que' se verificava através suficiente para os objetivos histórico-políticos da cessacáo da
de golpes de Estado precisos, de acóes militares, etc. No mun- luta orgánica fundamental e, portanto, para a superacáo da
do moderno, as torcas sindicais e políticasvcom os meios fi- fase catastrófica). Este é um elemento de maior aproximacáo,
nanceiros incalculáveis de que podem dispor pequenos grupos Outro elemento o seguinte: a fase catastrófica pode emergir
é

de cidadáos, complicam o problema. Os funcionários dos par- em virtude de urna deficiencia política "momentánea" da for<;a
tidos e dos sindicatos económicos podem ser corrompidos ou dominante tradicional, .e nao agora em virtude de urna -defi-
aterrorizados, sem que haja necessidade de acóes militares em
grande estilo, tipo César ou 18 Brumário. Reproduz-se neste 1 Ver nota na pág. 42. (N. do T.)

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to progressistas como reacionanos ou de caráter intermediá-:
ciencia orgánica necessariamente msuperável, Foi o que se ve- rio ~pisódico, qualquer novo fenómeno histórico derive do equi-
rificou no caso de Napoleáo 111. A forca dominante na Fran- lfbrio entre as forcas "fundamentais"; também é necessário
cade 1815 a 1848 dividira-se políticamente (sediciosamente) examinar as relacóes supervenientes entre os grupos principais
em .quatro fracóes: a legitimista, a orleanista, a bonapartista " (de genero diferente, social-económico e técnico-económico)
e a jacobino-republicana. As lutas internas entre' as faccóes ~as classes fundamentaís e as forcas auxiliares guiadas ou sub-
eram de tal ordem que tornavam possível o avance da forca metidas a influencia hegemónica. Desse modo nao se compre-
antagonista B (progressista) de forma "precoce"; mas a for- 'enderia o golpe de Estado de 2 de dezembro sem se estudar a
ma social existente ainda nao exaurira as suas possibilidades _ funcáo dos grupos militares e dos camponeses franceses.
de desenvolvimento, como al História em seguida provou abun- Urn episódio histórico muito importante desse ponto de
dantemente. Napoleáo 111 representou (a sua maneira, de acor- vista é o chama~o movimento provocado pelo caso Dreyfus
do com a estatura do homem, que era grande) estas possibili- na Franca; tambem ele deve ser considerado nesta série de
dades latentes e imanentes: o seu .cesarismo, assim, tem um observacñes, nao porque tenha levado ao "cesarismo", mas
colorido particular. O cesarismo de César e de Napoleáo 1 exatamente pelo contrário: porque impediu a ocorréncia de
foi, por assim dizer, de caráter quantitativo-qualitativo, repre- um cesari~mo de car~ter nítidamente reacionário, que estava
sentou a fase histórica de passagem de um tipo de Estado e~ gestacáo, O movnnento Dreyfus é característico, porque
para outro, urna passagem em que as inovacóes foram tantas sao ele~entos do mesmo bloca social dominante que frustram
e de tal ordem que representaram urna transformacáo com- o cesansmo da sua parte mais reacionária, apoiando-se· nao
pleta. O cesarismo de Napoleáo III foi só e limitadamente nos camponeses, no campo, mas nos elementos subordinados
quantítatívo.vnño se verificou a passagem de um tipo de Estado da cidade, guiados pelo reformismo socialista (e também na
para outro, mas só "evolucáo" do mesmo tipo, segundo urna parte mais avancada das massas camponesas). Encontramos
linha ininterrupta. outros mo_vimentos histórico-políticos modernos do tipo Drey-
No mundo moderno, os fenómenos de cesarismo sao in-o fus que nao sao, certamente, revolucóes, mas também nao sao
teiramente diversos, tanto daqueles do tipo progressista César- ~tei~amente reacionários, tendo em vista que rompem crista-
Napoleáo l, como também daqueles- do tipo Napoleáo JII, lizacóes sufocantes no campo dominante e inserem na vida' do
embora se aproximem deste- último. No mundo moderno, o Estado e nas atividades sociais um pessoal diferente e mais
equilíbrio com perspectivas catastróficas náo se verifíea entre numeroso do que o precedente. Inclusive estes movimentos po-
forcas queyem últimaanálise, poderiam fundir-seg uaíñcar-se, dem ter um conteúdo relativamente "progressista" na medida
mesmo depois de um "proeesso fatigáiilee' sañgreñto, mas en. em que assinalam a existencia, na velha sociedade, de forcas
tre forcas cujo contraste é insanável historicamente, e que se atuantes latentes nao desfrutadas pelos velhos dirigentes; mes-
aprofunda com o advento de formas de cesarismo. Todavia, ~o send~ "torcas marginais", nao sao absolutamente progres-
o cesarismo no mundo moderno ainda encontra urna margem, sístas, pois nao podem "marcar época". Tornam-se historica-
maior ou menor, de acórdo com os países e o seu peso rela- mente eficientes em virtude da debilidade construtiva do anta-
tivo na estrutura mundial, [á que urna forma social "sempre" gonista! na~de urna .for<;a própria .interior, fato que as liga a
tem possibilidades marginais de desenvolvimento ulterior e de urna sítuacáo determmada de equilíbrio das forcas em luta
sistematízacáo organizativa. Ela pode contar especialmente com ambas inc~p~zes dé exprimir urna vontade construtiva peculiar
a fraqueza relativa da forca progressista antagonista, devida no seu propno campo.
a suanatureza e ao seu modo de vida particular, fraqueza que
deve ser mantida: por isso afirmou-se que o cesarismo moder-
no mais do que militar é policial. Lutap~lítica e guerra militar. Na guerra militar, alean-
Seria um erro de método (um aspecto do mecanicismo cado o objetivo estratégico ---'- destruicáo do exército inimigo
sociológico) considerar que" nos fenómenos de cesarismo, tan-
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e ocupacáo do seu território - chega-se a paz .. Alé~ do mais, Tratamento a parte deve ser dado a questáo dos comitagi bal-
deve-se observar que, para que a guerra termine, e ~astante· cánicos, que estño ligados a condicóes particulares do ambiente
que o objetivo estratégico seja .alca~l$~do apenas potenclal}Il~n­ físico-geográfico regional, a formacáo das classes rurais e tam-
te: ésuficientenao haver mais dúvidas de que um exército bém a eficiencia real dos governos. O mesmo se deve fazer em
nao pode mais lutar e de que o exército vitorioso "pode" . relacáo aos grupos irlandeses, cuja forma de guerra e de oro
ocupar o território inimigo. A luta política é muitíssimo mais ganizacáo se vinculava a estrutura social irlandesa. Os comi-
complexa: em certo sentido pode ser c?mparada as guer~as tagi, os irlandeses e as outras formas de guerra de guerrilhas
coloniais ou as velhasguerras de conquísta, quando o exer- devem ser separadas da questáo do arditismo, embora parecam
cito vitorioso ocupa ou se prop6e ocupar permanentemente to- . ter pontos de contato com ele. Estas formas de luta sao pró-
do ou urna parte do território conquistado. Entáo, o .exército prias de minorias débeis, mas exasperadas, contra maiorias
vencido é desarmado e dissolvido, mas a luta continua no hem organizadas; enquanto que o arditismo moderno pres-
terreno político e da "preparacáo" militar. supóe urna grande reserva, imobilizada por várias razóes, mas
Assim a luta política da India contra os ingleses (e, em potencialmente eficiente, que o sustenta e alimenta com con-
certa medida a luta da Alemanha contra a Franca ou da Hun- tribuicóes individuais.
gria contra ~ Pequena Entente) conhece tres forn~as d~ guer-
ra: de movimento, de posicáo e subterránea, A reslstencl~ pas- A relacáo existente em 1917-18 entre as- formacñes de
siva de Gandhi uma guerra de posicáo, que em determinados
é
assa1to e o exército no seu complexo pode levar e já levou os
momentos se transforma em guerra de movimento e, em outros, dirigentes políticos a erróneas formulacóes de planos de luta.
em guerra subterránea: o boicote guerra d: posicáo, ~s. gre-
é
Esquece-se: 1) que os grupos de assa1to (arditi) sao simples
ves sao guerras de movimento, a preparacao clandestm~ de formacóes táticas e pressup6em um exército pouco eficiente,
armas ee1ementos combativos de assalto é guerra subterranea. mas nao completamente inerte: pois se a disciplina e o espíri-
Há urna forma de arditismo; mas ela empregada com muita
é
to militar relaxaram até ao ponto de aconselhar uma nova dis-
ponderacáo. Se os ingleses estivessem convencidos da prepa- posicáo tática, em certa medida nao deixaram de existir, pois
racáo de um grande movimento insurrecional destina~o a es- a novadisposicáo tática corresponde exatamente a disciplina e
magar a sua atual superioridade estratégica (que cons~ste, e~ ao espírito militar; de outro modo, seria a derrota total e a
certo sentido , na sua possibilidade de manobrar atraves "de Ii- ,fuga; 2 ) que -náo é necessário considerar o arditismo como
.

nhasinternas e de concentrar as suas forcas no ponto espo- um sinal da combatividade geral da massa militar, mas vice-
radicamente" mais perigoso) com um levante em ~~ssa - versa, como um sinal da sua passividade e da sua relativa des-
moralizacáo, Isto deve ser compreendido através do critério
isto é, obrigando-os a dispersar forcas n~~ teatro belic? .t~r­
nado simu1taneamente geral --. a eles convma provocar a uncia- geral de que as comparacóes entre a arte militar e a política de-
tiva prematura das forcas indianas para identifi~~-la~.e des- vem ser sempre estabelecidas cum grano salis, isto é, apenas
truir o movimento geraI. Da mesma forma convma a Franca como estímulos ao pensamento e como termos simplificativos
que a direita nacionalista alemá se envo~vess~ nu~. gol~e de ad absurdum. Efetivamente, na militancia política nao existe
Estado aventureiro que levasse a orgaruzal$ao. ~ruhtar de~al a sancáo penal implacável para quem erra ou nao obedece
presumida a se manifestar prematura?Jente, pe!'mltmd? uma m- pontualmente, falta o julgamentomarcial, além de que o dis-
tervencáo tempestiva do ponto de VIsta frances. Assím, nestas positivo político nao se compara nem de longe ao dispositivo
militar.
formas de luta mistas, de caráter militar fundamental e de ca-
ráter político preponderante (mas cada luta política tem sempre Na luta política, além das guerras de movimento, dé
um substrato militar), o emprego dos grupos de assalto exige cerco ou de posicáo, existem outras formas. O verdadeiro ardi-
urna formulacáo tática original, paracuja concepcáo a expe- tismo, o arditismo moderno, é próprío da guerra de posicáo,
riencia da guerra só pode dar um estímulo, nao um modelo. como se viu em 1914-18. Também a guerra de movimento e
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3. guerra de cerco dos períodos anteriores tinham os seus ardi-


f?n<;ao p.olític~-militar: como funcáo de arma especial, o ardi-
ti, em certo sentido; a cavaIaria ligeira e pesada, os bersaglieri,
tismo fOI aplicado por todos os exércitos na zuerra mundial:
etc., as armas ligeiras em geral desempenhavam em parte uma como :nn:<;ao po~~co-militar verificou-se nos ópaíses política-
funcáo de grupos de assalto. Na arte de organizar as patru-
_mente _n~o-ho~ogeneos e enfraquecidos, cuja expressáo era
lhas maniíestava-se o embriáo do arditismo moderno. Embriáo um, exército nacional pouco combativo e um Estado-Maior bu-
que surgía com mais vigor na guerra de cerco do que na rocratizado e fossilizado na carreíra.
guerra de movimento: servico de patrulhas mais amplo e es- • A pr~pósito das comparacóes entre os conceitos de guer-
pecialmente arte de organizar sortidas imprevistas e imprevis- ra de. movlIDe~to e de guerra de posicáo na arte militar e os
tosassaltos com elementos escolhidos. . conceitos relativos na arte política, deve-se recordar o opús-
Outro elemento a se levar em conta é o seguinte: na luta culo de Rosal, traduzido para o italiano em 1919 por e Ales-
política nao necessário imitar os métodos de luta das classes
é sandri (traduzido do francés). .
dominantes, sem cair em emboscadas fáceis. Nas .lutas atuais , No op.ú~culo teoriza-se um poueo apressadamente e tam-
muitas vezes verifica-se este fenómeno: urna organízacáo es- be~ superficialmente sobre as experiencias históricas de 1905:
tatal debilitada é como um exército enfraquecido; entram ern efetivamente, Rosa desprezou os elementos "voluntários" e or-
acáo os grupos de assalto, isto é, as organízacóes armadas pri- ga~izativos, muito mais difundidos e eficientes naqueles .acon-
vadas, que tém duas missóes: usar a ilegalidade, enquanto o teclm~nto~, do que. el~ pudesse crer, em virtude de certo pre-
Estado parece permanecer na legalidade, como meio para reor- conceíto economIs!a e espontaneísta , Todavia, este opús-
ganizar o próprio Estado. Acreditar que se possa opor a ati- cul? (~ 0.u~ros. ensaios do mesmo autor) um dos documentos
é

vidade privada ilegal outra atividade semelhante, isto é, com- mais ~IgmficatIv~~ da. teorizacáo da guerra de movimento apli-
bater o arditismo com o arditismo, urna tolice; significa acre-
é cada .~ arte. política. O elemento económico imediato (crises,
ditar que o Estado permaneca eternamente inerte, o que ja- etc.), e considerado como a. ~rti~aria de campo que na guer-
mais ocorre, além das outras condicóes díversas. O caráter de ra abre a ?recha na defesa mmnga, brecha suficiente para que
c1asse leva a urna diferenca fundamental: urna c1asse que deve a~ .tropas irrompam e obtenham um sucesso definitivo (estra-
trabalhar diariamente num horário determinado nao pode ter t~glCO), ou 'p~lo menos um sucesso importante no sentido da
organizacóes de· assalto permanentes e especializadas, como h~a estratégica. Naturalmente, na ciencia histórica a eficá-
urna c1asse que desfruta de amplas poss~bilidades financeiras CIa. do el~ento económico imediato era considerada muito
e nao está ligada, por tod.os os seus membros, a um trabalho ~aIS comple~a .do que a da artilharia pesada na guerra de mo-
fixo. Em qualquer hora do dia ·e da noite estas organizacóes, vimento, pois este elemento era concebido como tendo um
tornadas profissionais, podem vibrar golpes decisivos e atacar duplo. efeito: 1) abrir a brecha na defesa inimiga, depois de
de imprevisto. Portanto,a tática dos grupos de assalto nao po- ter desbaratado e levado as suas fileiras a perder a fé em si,
de ter, para determinadasclasses, a mesma importancia que nas suas forcas e no seu futuro; 2) organizar rapidamente as
.para outras; para determinadas classes é necessária, porque suas tropas, criar o.s quadr~s, ou, pelo menos, colocar os qua-
própria, a guerra de movimento e de manobra, que, no caso dros eXIstente~ (criados ate entáo pelo processo histórico ge-
da luta política, pode-se combinar com um útil e talvez índis- ral) com ral~lldez .no posto que lhes cabia no enquadramento
pensável uso da tática dos grupos de assalto. Mas fixar-se no d~s !ropa~ .dIsse~nadas; 3) criar imediatamente a concentra-
modelo militar é tolice: a política deve, também neste caso, cao ideológica da identidade do fimo a ser alcancado , Era urna
ser superior a parte militar, e só a política cria a possibilidade forma de fér~eo determinism~economista, com a agravante
da manobra e do movimento. de que os efeitos eram concebidos como rapidíssimos no tem-
De tudo o que se dísse, resulta que no fenómeno do ardi- 1 ,ROSA DE· LUXEMBURGO, Lo sciopero generale - il partito e i· sind~­
tismo militaré necessário distinguir entre funcáo técnica e cati, S. E. "Avantí!", Mil1ío, 1919. (N. e l.)

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po e no espaco; por isso constituía um verdadeiro misticismo ser riscado da ciencia' mas
histórico, a expectativa de uma espécie de fulguracáo milagrosa,
A observacáo do General Krasnov (no seu romance) 1
de que a Entente (que nao queria urna vitória da Rússia im-
~~~~~C!i~:!e~a:e~r~d;;:~~~::~~~E~
" de manobra, a guerra e cerco em relacáo guerra
perial, para que nao se resolvesse definitivamente a favor do
P()líti~, ~~~:~:~~~~~ q~eeV~~sereI:;~fi~~~ ~~taa;: ~a
czarismo a questáo oriental) ímpós ao Estado-Maior russo a
guerra de trincheira (absurda, em virtude da extensáo dafren- , e ciencia
te _ do Báltico ao Mar Negro e com grandes zonas pantano- dos,, onde a "sociedade civil" trans forr s mais
ormou-se numa est t avanca-
sas e boscosas), enquanto que a única possível era a guerra muíto complexa e resistente a ,,' _" ru ura
de movimento, urna tolice. Na realidade, o exército russo ten- elemento econamico imediato s, irrupcoes _ catastróficas do
perestruturas da sociedade civffr~~es, depressóes, etc.) : as su-
é

tou a guerra de movimento e de penetracño, especialmente no


setor austríaco (mas também na Prússia Oriental) e alean- cheiras na guerra moderna D ao comfo o SIstema de trin-
, a mesma orma que o '
cou éxitos brilhantes, embora eíémeros. A verdade éque nao
se pode escolher a forma de guerra que se quer, a menos que
se tenha urna superioridade esmagadora sobre o inimigo, e é
~~:'t;~~~si~m~U~~~.á~ d~ :g~~o,p~e:;a'J:~~i
a e, so o atingira na sua superfície externa ..'
sabido quantas perdas custou a obstinacáo dos Estados'-Maio- ~o ~taqu~ os as~~ltantes defrontavam-se co~ .~:~ :I:t~r::e~t~
res em nao quererem reconhecer que a guerra de posicáo era ens~a al~da eficiente, assim ocorre na política durante :s
"imposta" pela relacáo geral das forcas em choque. Efetiva- gran es cr~ses econormcas; nem as tropas atacantes .
mente, a guerra de posicáo nao determinada apenas pela luta
é tude da ~rtse, organizam-se rápidamente no tempo e ~o e::p::ro•
de trincheira, mas por todo o dispositivo organizativo e indus- nem muito menos adquire ' . . ... ,
trial que suporta o exército combatente; e é imposta especial- mente, os atacados nao se~~:o~~t~~~, :=s~~Jn~eclproca-

~~:~~:=:~=i!fie;I.;::;~}E:E~;'
mente pelo tiro rápido dos canhóes, das metralhadoras, dos
mosquetóes, pela concentracáo das armas num determinado
ponto, além de que pela abundancia do fomecimento, que per-
mite a substituicáo rápida do material perdido depois de urna
penetracáo e de um recuo. Outro elemento a grande massa
apa~e~~r~~ao acel~rado, da marcha progressísta definitiva!ao
é
cadornismo político, o com o que esperavam os estrategistas do
de homens que participam do dispositivo, de valor muito de-
sigual e que só podem operar como massa. Ve-se como na O último fato desta natureza na hi té . ,. .
frente oriental urna coisa era irromper no setor alemáo, e ou- acontecimentos de 1917 El . 1 s ona política foram os
tra no setor austríaco, e como num setor austríaco reforcado cisiva na história da a~te ;s d~ss~~ a~am utp.a reviravolta de-
por tropas escolhidas alemás e comandado por alemáes a tá- necessário estudar com "profundid~~n~la p~lítt:.as, Portanto, é

tica do irrompimento acabava em desastre. Verificou-se a mes- da sociedade civil que . d e quals. sao os elementos
ma coisa na guerra polonesa de 1920, quando o avance que n .' _ correspon em aos SIstemas de defesa
parecia irresistível foi detiido as portas de Varsóvia pelo Ge- a guerra. de posicao, Digo com "profundidade" intenci 1
mente, pOlS eles foram tud d . nciona -

~~~~~:~P~~i~~:fo~d~~~:iiac~;i:~~:1:f:at~~~t~~~d~oP~~:~:~~
neral Weygand na linha c:omandada por oficiais franceses. Os
próprios técnicos militares que se ñxaram definitivamente na
guerra de posícño, como antes se fixavam na guerra de ma- suasá d A ' lS o e com a per-
nobra, de modo algum sustentam que o tipo precedente deva flica~~s \i:l~st~~~:~n~:~~~~~a; ::ofb~~~~í~~;efs~~<:iS de ex-
1 PIOTR KRASNOV,Vareaquila imperiale olla bandiera rossa, Florenca ;J~:d~i~e, de resto, também nao se destroem ao ~::ei.°~~:
Salani, 1928. (N. e!.)

72 73
I~

r
mentos de sociedade civil, etc. No Oriente, o Estado era tudo,
Deve-se examinar se a famosa teoria de Bronstein sóbre a sociedade civil era primordial e gelatinosa; no Ocidente, ha-
a permanencia1 do movimento nao é reflexo político da teoria via entre o Estado e a socidade civil uma justa relacáo e em
da guerra manobrada (recordar a observa~ao do general. ~os qualquer abalo do Estado imediatamente descobria-se urna po-
cossacos Krasnov), em última análise o reflexo das condicées derosa estrutura da sociedade civil. O Estado era apenas urna
gerais e'conómicas-culturais-sodais de um país em que os~ qua- .. trincheira avancada, por trás da qual se situava uma robusta
dros da vida nacional sao embrionários e relaxados e nao se .cadeía de fortalezas e casamatas; em medida diversa de Estado
podem tomar "trincheira ou fortaleza". Neste c~so. poder:se-~~ ,para Estado, é claro, mas exatamente isto exigia um acurado
dizer que Bronstein, que aparece como um ocidentalista", reconheciménto do caráter nacional.
era, ao contrário, um cosmopolita, isto é, superficialmente na- A teoria de Bronstein pode ser comparada a teoria de
cional .e superficialmente ocidentalista ou europeu. llich,2 ao certos sindicalistas franceses sobre a greve geral e a' teoría de
contrário, era profundamente nacional e profundamente euro- Rosa no. opúsculo traduzido por Alessandri: os opúsculos de
peu,
Rosa e a teoria de Bronstein, além do mais, influenciaram os
Bronstein recorda nas suas memórias terem-lhe dito que sindicalistas franceses, como se depreende de determinados ar-
a sua teoría se revelara boa quinze anos. .. depois, e respon- tip?s de Rosm,er sobre a Alemanha em Vie Ouvriére (primeira
de ao epigrama com outro epigrama. Na realidade, a sua t~o­ sene em fascículos). Eles,em parte, tambéni dependem da
ria como tal nao era boa nem quinze anos antes, nem quin- teoria da espontaneidade. .
ze' anos dep~is: como' sucedeicqm os obstinados, dos quais
fala Guicciardini, ele adivinhou em grosso, teve razáo na pre-
visáo prática mais geral; da mesma for~a 9ue se preve 9.ue o conceito de revoluciio passiva. O conceito de "revo-
uma menina de quatro anos se tomara mae, e quando IStO Iucño passiva" deduz-se rigorosamente dos dois princípios fun-
ocorre, vinteanos depois, se diz "adivinhei",. esquecendo 1'0- damentais de ciencia política: 1) nenhuma formacáo social de-
rém que quando a menina tinha quatro anos se tentara estu- saparece enquanto as forcas produtivas que nela se desenvol-
prá-la, certo de que se tomarla máe, Parece-roe que llich com- veram encontrarem lugar para um ulterior movimento progres-
preendeu que se verificara urna modíñcacño da guerra mano- sista; 2) a sociedade nao assume compromissos para cuja so-
brada, aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917,3 para a lucño ainda nao tenham surgido as condicóes necessárias, etc.
guerra de posicáo, que era a única possível.no Oci~ente, onde, Assim, devem ser reportados a descricño dos tres momentos
como observa Krasnov, num espaco estreito podiam acumu- fundamentais que podem distinguir urna "situacáo'tou um equí-
lar quantidades indiscriminadas de municáo, . onde .os q~adr~s líbrio de torcas com o máximo de valorizacáo do segundo mo-
sociais eram de' per si' ainda capazes de se tomarem trínchei- mento ou equilibrio das torcas políticas e, especialmente, do
ras municiadíssimas. Parece-me que esta seja a fórmula da terceiro momento ou equilíbrio político-militar.
"frente' única", que corresponde a concepeño de uma única Observa-se que Pisacane, nos seus Saggi, preocupa-se. com
frente da Entente sob o comando único de Foch. este terceiro momento: ele compreende, diferentemente de Maz-
So que llich. nao teve tempo de ap!ofundar a ~uafórm~a; zini, toda a importancia da presenca na Itália de um aguer-
mesmo levando em conta que ele podía aprofunda-la teonca- rido exército austríaco, sempre pronto a intervir em qualquer
mente apenas, desde que a missáo fundamental er~a nacional, ponto da península, e que, além do mais, tem atrás de si toda
exigia um reconhecimento do terreno e uma fixa~ao dos ele- a potencia militar do império dos Absburgo, uma matriz sem-
mentos de trincheira e de fortaleza representados pelos ele- pre pronta a formar novosexércitos de. reforce. Outro ele-
mento histórico a ser citado é o desenvolvimento do cristia-
nismo no seio do Império Romano, assim como o fenómeno
1 A teoría da "revolucáo permanente" de Trotski. ( N. e l. )
1 Lénín , (N. e I.)
atual do gandhismo na .India e a teoria da nao-resistencia ao
2 Na Rússia .. (N. e I.)
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mal, de Tolstoi, que tanto se aproximam da primeira fase do polí.ticas. Pode-se aplicar ao conceito de revolucáo passiva (do-
cristianismo (antes do édito de Miláo). O gandhismo e o tols- cumentando-se no Risorgimento italiano) o critério interpre-
teísmo sao teorizacóes ingénuas e com tintura religiosa da tativo das modificacóes moleculares que, na realidade, modi-
"revolucáo passiva". Também devem ser citados .alguñs moví- ficam progressivamente a composicáo precedente das torcas e,
mentos chamados "liquidacionistas" e as reacóes que susci- portanto, transformam-se em matriz de novas modificacóes,
taram, em relacáo com os tempos e as formas de determinadas .Assim, no Risorgimemo italiano viu-se como a passagem ao
situacñes (especialmente do terceiro momento). O ponto de -cavourismo (depois de 1848) de novos elementos do Partido
partida para o estudo é o trabalho de Vineenzo Cuoco; mas de Acáo modificou progressivamente a composicáo das íorcas
é evidente que a expressáo de Cuoco a respeito da revolucáo moderadas, liquidando o neoguelfismo, de um lado, e, de outro,
napolitana de 1799 nao passa de uma alusáo, pois o conceito empobrecendo o movimento mazziniano (a este processo per-
está completamente modificado e enriquecido. tencem também as oscilacóes de Garibaldi, etc.). Logo, este ele-
O coneeito de "revolucáo passiva", atribuído por Vín- mento a fase originária daquele fenómeno que se chamou mais
é

cenzo Cuoco ao primeiro período do Risorgimento italiano, tarde "transformismo", cuja importancia, parece, nao foi até
pode ser relacionado com o conceito de "guerra de posicáo", agora dimensionada devidamente como forma de desenvolvi-
em confronto com a guerra manobrada? Isto é, estes conceitos mento hitórico.
surgiram depois da Revolucáo Francesa, e o binomio Prou- Insistir no aprofundamento do conceito de que, enquanto
dhon-Gioberti pode ser justificado com o pánico criado pelo Cavour tinha consciencia da sua missáo e consciencia crítica da
terror de 1793, como o sorelianísmo com o pánico que se missáo de Mazzini, este, em virtude de nao ter quase ou ne-
seguiu aos massacres de Paris em 1871? Existe uma identida- nhuma consciencia da missáo de Cavour, estava, na realidade,
de absoluta entre guerra de posicáo e revolucáo passiva? Exis- pouco consciente da sua própria missáo. Daí derivaram as suas
te.pelo menos, ou pode ser concebido todo um período bis- vacilacóes (em Miláo, no período posterior as Cinco Iornadas
tóríco em que os dois conceitos devem-se identificar até que a e em outras ocasióes) e as suas iniciativas fora de tempo, que
guerra de posicáo se transforme em guerra manobrada? por isso configuravam-se apenas como elementos úteis a polí-
É necessário formular. um juízo "dinámico" sobre as "res- tica piemontesa. Eis um exemplo teórico sobre como devia ser
tauracóes", que constituiriam uma "astúcia da providencia" em compreendida a dialética apresentada em a Miséria da Filosoiia:
sentido vichiano. Um problema existe: na luta Cavour-Mazzi- que cada membro da oposicáo deve procurar ser integralmente
ni, em que Cavour é o expoente da revolucáo passiva-guerra de ele mesmo e lancar na luta todas as suas "reservas" políticas e
posicáo e Mazzini da iniciativa popular-guerra manobrada, nao morais, e que só assim se consegue uma superacáo real, n~d~
seráo ambos indispensáveis na mesma medida? Todavia, é ne- disso era compreendido nem por Proudhon, nem por Mazzini,
cessário levar em conta que, enquanto Cavour tínhaconsciéncía Dir-se-á que nem Gioberti e nem os teóricos da revolucáo pas-
da sua missao (pelo menos em certa medida), enquanto com- siva ou "revolucáo-restauracáo"! compreenderam o fenómeno,
preendia a missáo de Mazzini, este parece que nao tinha cons- mas a questáo neste caso se modifica: neles, a "incompreensáo"
ciencia da sua e da missáo de Cavour; se, ao contrário, Mazzírii teórica era a expressáo prática das necessidades da "tese" de
tivesse adquirido esta consciéncia, isto é, se fosse um político desenvolver-se integralmente, até o ponto de conseguir incor-
realista, e nao um apóstolo iluminado (se nao tivesse sido Mazzi- porar urna parte da própria antítese, para nao se deixar "su-
ni) o equilíbrio resultante da confluencia das duas atividades se- perar". Isto é, na oposicáo dialética só a tese desenvolve, na
ria diferente, mais favorável ao mazzinianísmo: o Estado italiano
ter-se-ia constituído sobre bases menos atrasadas e mais mo-. 1 Consultar a literatura política sobre 1848, de autoria de estudiosos
demas. E já que em cada acontecimento histórico verificam-se da filosofía da praxis. Mas nao me parece que se possa esperar muito
quase sempre siutacñes semelhantes, deve-se ver se nao é pos- neste sentido. Os acontecimentos italianos, por exemplo, só foram exa-
sível extrair daí alguns princípios gerais -de ciencia e de arte minados sob o ángulo dos livros de Bolton King, etc.

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realidade, todas as suas possibilidades de luta, até atrair para ram a plataforma de urna nova política organica, nao obstante
si os chamados representantes da antítese: exatamente nessa o próprio Mazzini ter reconhecido que Pisacane formulara urna
formulacáo consiste a revolucáo passiva ou revolucáo-restau- "concepcáo estratégica" da revolucáo nacional italiana.
racáo. Neste ponto deve-se considerar a questáo da passagem A relacáo "revolucáo passiva-guerra de posicáo" no Ri-
da luta política de "guerra manobrada" para "guerra de po- sorgimento italiano também pode ser estudada sob outros as-
sicáo", o que na Europa ocorreu depois de 1848, e que' nao ,pectos. Dois sao importantíssimos: o que pode denominar-se
foi compreendido por Mazzini e pelos mazzinianos como o . do "pessoal" e o da "reuniáo revolucionária". O do "pessoal"
foi por outros. A mesma passagem verificou-sedepois de 1871, pode ser comparado com o que se verificou na guerra mundial,
etc. Homens como Mazzini tinham dificuldades de compre- na relacáo entre oficiais de carreira e oficiais da reserva, de
ender, entáo, a questáo, dado que as guerras militares nao ha- um lado, e entre soldados das fileiras e voluntários-arditi, de
viam fornecido o modelo; ao contrário, as doutrinas militares outro. Os oficiais de carreira corresponderam, no Risorgimento,
desenvolviam-se no sentido da guerra de movimento. É precí- aos partidos políticos regulares, organizados, tradicionais, etc.,
so ver se Pisacane, teórico militar do mazzinianismo, refere-se que no momento da acáo (1848) revelaram-se inaptos ou qua-
a questáo, se, e foram, em 1848-49, suplantados pela onda popular maz-
Pisacane deve ser estudado porque foi o único que ten- ziniano-democrática, onda caótica, desordenada" "extemporá-
tou dar ao Partido de Acáo um conteúdo nao só formal, mas nea" por assim dizer, mas que, todavia, liderada por chefes
substancial: de antítese superadora das posicóes tradicionais. improvisados ou quase (de qualquer modo nao. pertencentes a
Nao se pode dizer que para obter estes resultados hitóricos formacóes constituídas como era o partido moderado) obteve
fosse necessária a insurreicáo popular armada, como acredi- sucessos indubitavelmente maiores do que os obtidos pelos mo-
tava Mazzini obsessivamente, isto é, nao realísticamente, mas deradós: a República romana e Veneza revelaram urna torca
como missionário religioso. A intervencáo popular, que nao foi de resisténcia notável. No .período posterior a 1848, a relacáo
possível na forma concentrada e simultanea da insurreícáo, nao entreas duas f'orcas, aregular e a "carismática", organizou-se
se verificou nem mesmo na forma "difusa" e capilar da pres- em torno de Cavour e de Garibaldi, e deu o máximo resultado,
sao indireta, o que era possível e talvez fosse a premissa in- embota posteriormente fossé aprovertada por Cavour.
dispensável para a primeira forma. A forma concentrada ou Este aspecto está ligado ao outro, da "reuniño". Deve-se
simultanea tornara-se impossívelem virtude da técnica militar observar que a dificuldade técnica contra a qual semprese
da época, mas só em parte. Isto é, a impossibilidade existiu chocavam as iniciativas mazzinianas foi exatañíénte aque1a da
na medida em que a forma. concentrada e simultanea nao foi "reuniáo revolucionária". Seria interessante, .apartir diste pon-
precedida de urna preparacáo política e ideológica de longo to de vista, estudar a tentativa de invasáo da Savóia efetua-
fólego, organicamente predisposta a despertar as paix6es po- da pelo General Ramorino, pelos irmáos Ba:ñ~éra, por Pisa-
pulares e tornar possível a concentracáo e a eclosáo simul- cane, etc., comparando-a com as situacóes que se oferecerama
tanea do movimento. Mazzini em 1848, emMilño, e em 1849, em Roma, e que
Depois de 1848, só os moderados fizeram a crítica dos ele nao teve capacidade de organizar. Essas tentativas de al-
métodos que precederam ao fracasso.. Efetivamente, todo o guns poucos nao podiam deixar de ser esmagadas no nas-
movimento moderado se renovou, o neoguelfismo foi liquida- cedouro, pois seria maravilhoso que as forcas reacionárias, que
do, homens novos ascenderam aos principais cargos de direcáo, estavam concentradas e podiam operar livremente (isto é, nao
No mazzinianismo, ao contrário, nenhuma autocrítíca, ou en- encontravant nenhuma oposicáo em amplos movimentos da po-
tao autocrítíca liquidacionista no sentido de que muitos ele- pulacáo), nao pudessem esmagar as iniciativas do tipo Ramo-
mentos abandonaram Mazzini e organizaram a ala esquerda rino, Pisacane, Bandiera, mesmo que e1as tivessem sido pre-
do partido piemontés; única tentativa "ortodoxa", interna, fo- paradas melhor do que o foram na realidade. No segundo pe-
ram os ensaios de Pisacane, que, entretanto, jamais se torna- ríodo (1859-1860), a "reuniáo revolucionária", como aquela
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dos Mil de Garibaldi, tornou-se possível gracas ao fato de "clareza" intelectual dos termos da luta deve ser indispensável.
que: primeiro, Garibaldi apoiava-se nas torcas estatais pie- Mas esta clareza é um valor político quando se torna paixáo
montesas, e, depois, que a frota inglesa protegeu de fato o generalizada e constitui a premissa de urna vontade forte. Nos
desembarque em Marsala, a tomada de Palermo e esterilizou últimos tempos, em muitas publicacóes sobre o Risorgimento,
a frota bourbónica, Em Miláo, depois das Cinco Jornadas e na ""revelou-se" que existiam personalidades que viam claro, etc.
Roma republicana, Mazzini teria podido constituir pracas de (veja-se a valorizacáo de Ornato feita por Piero Gobetti); mas
armas para reunióes organizadas; mas nao se propós fazé-lo, .est~s "revela¡;~es" destroem-se por si mesmas, exatamente por
daí o seu conflito com Garibaldi em Roma e a sua inutilizacáo serem revelacóes; elas demonstram que se tratava de elucubra-
em Miláo, diante de Cattaneo e do grupo democrático milanés, ,c;6es individuais, que hoje representam urna forma do "senso
De qualquer forma, o curso do processo do Risorgimenio, a posteriori". Efetivamente, jamais se fundiram com a reali-
se trouxe a luz a importancia enorme do movimento "dema- dade fatual, jamais se tornaram consciencia popular-nacional
gógico" de massa, com chefes surgidos ao acaso, improvisados, geral e atuante. Qual dos dois, o Partido de A¡;ao ou o Partido
etc., na realidade foi absorvidopelas torcas organizadas tra- Moderado, representou as "forcas subjetivas" efetivas do Ri-
dicionais, pelos partidos formados ao longo do tempo, com sorgimento? É claro ,que o Partido Moderado, e exataniente
elaboracáo racional dos chefes, etc. Em todos os acontecimen- porque teve consciencia inclusive da missáo do Partido de
tos políticos do mesmo tipo o resultadosempre foi igual (as- Acáo. Em virtude dessa consciencia, a sua "subjetividade" era
sim em 1830, na Franca, a predominancia dos orleanistas so- de urna qualidade superior e mais decisiva. Na expressáo de Vi-
bre as forcas populares radicais democráticas, e assim, no fun- tório Emanuel JI: "O Partido de Acño nós o ternos no bolso",
do, na Revolucáo Francesa de 1789, em que Napoleáo repre- há mais sentido histórico-político do que em toda a obra de
senta, em última análise, o triunfo das Iorcas burguesas orga- Mazzini.
nizadas contra as forcas pequeno-burguesass-jaeobinas). Da
mesma forma na guerra mundial.vopredommio dos velhos ofi-
ciais de carreira sobre os oficiais da reserva, etc. Em qualquer Sobre a burocracia. 1) O fato de que no desenvolvimento
caso, a auséncia.santre as forcas radicais-popularesde urna histórico das formas políticas e económicas viesse se formando
consciencia da missáo da outra parte, impediu-as de ter plena o tipo de funcionário "de carreira", tecnicamente preparado
consciencia da sua própria missáo e, portanto, de pesar no para o trabalho burocrático (civil e militar), tem um . signi-
equilíhrj9Ji,nal das torcas em relacáo ao seu efetivo poder de ficado primordial na ciencia política e na história das formas
intervencáo e; finalmente, de determinar um resultado mais
estatais. Tratou-se de urna necessidade ou de urna degeneracáo,
em relacáo ao autogoverno(selfgovernment), como preten-
aván9ádo,inun1 sentido de maior progresso e mais moderno.
,,:':3 SemflJ:.e..,a propósito do conceito de "revolucáo passiva"
dem os livre-cambistas "puros"? É verdade que cada forma so-
ou de "revolucáo-restauracáo" no Risorgimento italiano, é ne- cial e estatal teve um seu problema dos funcionários, um mo-
do seu de apresentá-lo .e resolvé-lo, um sistema particular de
cessário colocar com exatidáo o problema que, em algumas
selecáo, um tipo próprio de funcionário a educar. Reveste-se
tendencias historiográficas, é denominado das relacóes entre
condicóes objetivas e condicñes subjetivas do evento histórico.
de capital importancia reconstruir o desenvolvimento de todos
Parece'que as condicñes subjetivas existem sempre que exis- estes elementos. O problema dos funcionários coincide, em
parte, com o problema dos intelectuais. Mas, se é verdade que
tirem condi¡;?es objetivas, isto na medida em que se trata de
simples distincáo de caráter didático: logo, a discussáo pode cada nova forma social teve necessidade de um novo tipo de
funcionário, também é verdade que os noves grupos .dirigentes
versar sobre o grau e a intensidade das forcas subjetivas, so-
jamais puderam prescindir, pelo menos durante certo tempo,
bre a relacáo dialética entre as forcas subjetivas contrastantes.
É preciso evitar que a questáo seja colocada em termos
da tradicáo e dos interesses constituidos, isto é, das forma-
cóes de funcionários já existentes e pré-constituídas quando do
"intelectualísticos", e nao histórico-políticos. É pacífico que a
80 81
seu advento (especialmente nas esferas eclesiástica e militar). ram precisamente urna crítica unilateral e de intelectuais a
A unidade do trabalho manual e intelectual e urna ligacáo mais desordem e a dispersáo de torcas.
estreita entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo (pela Entretanto,
é preciso distinguir nas teorias do centralis-
qual os funcionários e1eitos, além de controlar, Se interessam mo orgánico entre aqueIas que ocultam um programa preciso
pelos negócios de Estado) podem ser motivos inspiradores tan- . de .predomínio real de urna parte sobre o todo (seja a parte
to para urna orientacáo nova na solucáo do problema dos in- constituida por urna camada como a dos intelectuais, seja a
telectuais, como para o problema dos funcionários. .parte constituída por um grupo territorial "privilegiado) e aque-
2) Vinculada a questáo da burocracia e da sua organi- las que representam urna pura posicáo unilateral de sectários e
zacáo "ótima", está a discussáo sobre os chamados "centra- . fanáticos, e que mesmo podendo esconder uin programa de
lismo orgánico" e "centralismo democrático" (que, além do predomínio (em geral de urna individualidade, como a do Pa-
mais, nao tem nada que ver com a democracia abstrata, tanto pa infalível que levou o catolicismo a se transformar numa
que a Revolucáo francesa e a Terceira República desenvol- espécie de culto do pontífice), imediatamente nao parece ocul-
veram formas de centralismo orgánico nao conhecidas nem pe- tar tal programa como fato político consciente. O nome rnais
la monarquia absoluta e nem por Napoleáo 1). Devem ser exato seria o de centralismo burocrático. A "organicidade"· só
procuradas e examinadas as relacóes económicas e políticas pode ser do centralismo democrático, que é um centralismo
reais que encontram a sua forma de organizacáo, a sua arti- em movimento, isto é, uma contínua adequacáo da organi-
culacáo e a sua funcionalidade nas diversas manifestacóes de zacáo ao movimento real, um modo de temperar os impulsos
centralismo orgánico .e democrático em todos os campos: na da base com o comando da cúpula, um inserimento contínuo
vida estatal (unitarismo, federacáo, uniáo de Estados federados, dos elementos que brotam do mais fundo da massa na cornija
federacáo de Estados ou Estado federal, etc.); na vida interes- sólida do aparelho de direcáo que assegura a continuidade e
tatal (alíancas, formas várias de "eonstelacáo" política inter- a acumulacáo regular das experiencias. Ele é "orgánico" por-
nacional); na vida das associacóes políticas e culturais (ma- que leva em conta o movimento, que é o modo orgánico de re-
conaria, Rotary Clube, Igreja católica); sindicais, económicas velar-se da realidade histórica, e nao se enrijece mecánicamen-
(cartéis, trustes); num mesmo país, em diversos países, etc. te na burocracia e, ao mesmo tempo, leva em conta o que é

estável e permanente, ou que, pelo menos, move-se numa di-


Polémicas surgiram no passado (antes de 1914) a pro- recáo fácil de prever," etc. Este elemento de estabilidade no
pósito do predomínio alemáo na vida da alta cultura e de algu- Estado encarna-se no desenvolvimento orgánico do núcleo cen-
mas forcas políticas internacionais: era, de fato, real este pre- tral do grupo dirigente, da mesma forma que sucede em escala
domínio, ou ·em que consistía ele? Pode-se dizer: a) nenhum mais restrita na vida dos partidos. A predominancia do centra-
vínculo orgánico e disciplinar estabelecia essa supremacia, que, lismo burocrático no Estado indica que o grupo dirigente está
portanto, era um mero fenómeno de influencia cultural abs- saturado, transformando-se num corri1ho estreito que tende a
trata e de prestígio bastante instável; b) esta influéncia cultural perpetuar os seus mesquinhos privilégios controlando, ou in-
nao atingia em nada a atividade fatual, que, vice-versa, era clusive sufocando, o surgimento de íórcas contrastantes, mes-
desagregada, localista, sem orientacáo de conjunto. Nao se po- mo se estas forcas se confundem com os ínteresses dominan-
de falar, por isso, de nenhum centralismo, nem orgánico nem tes fundamentais (por exemplo, nos sistemas ngídamente pro-
democrático e nem de outro genero ou misto. A influencia tecionistas ém luta com o liberalismo económico) . Nos parti-
era sentida de imediato por escassos grupos intelectuais sem dos que representam grupos socialmente subalternos, o ele-
ligacáo com as massas populares; e exatamente esta ausencia mento de estabilidade é necessário para assegurar a hegemo-
de ligacáo caracterizava a situacáo, Todavia, tal estado de coi- nia nao a grupos privilegiados, mas aos elementos progressistas,
sasé digno de exame porque facilita explicar o processo que orgánicamente progressistas em relacáo a outras forcas afins e
levou a formular as teorias do centralismo orgánico, que Io- aliadas, mas conciliadoras e oscilantes. .
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De qualquer modo, deve-se destacar que as manífestacñes valor esquemático e metafórico, isto é, nao pode ser aplicado
deformantes de centralismo burocrático ocorreram em virtude mecánicamente, porque nos agregados humanos o elemento qua-
de deficiencia de iniciativa e de responsabilidade na base, isto litativo. (ou de capacidade técnica e intelectual de cada um dos
é; do primitivismo político das fórcas periféricas, inclusive seus componentes) tem uma fun~ao predominante, enquanto
quando elas sao da mesmanatureza do grupo territorial hege- . nao pode ser medido matematicamente. Por isso, pode-se dizer
mónico (fenómeno do piemontesisma nos primeiros decenios da , que cada aglomerado humano tem um princípio 6timo particular
unidade italiana). A existencia de tais situacóes nos organismos de proporc;oes definidas.
internacionais (Sociedade das Nac;oes ) pode ser prejudicial e Especialmente a ciencia da organízacáo pode recorrer com
perigosa. . utilidade a este teorema, e isto manifesta-se com clareza no
O centralismo democrático oferece uma fórmula elástica, exército. Mas cada forma de sociedade tem um tipo de exér-
que se presta a muitas encarnacóes; ela vive enquanto é inter- cito, e. cada tipo de exército tem um princípio de proporcñes
pretada e adaptada continuamente as necessidades. Ela consiste definidas particular, que, de resto, também muda de acotdocom
na pesquisa crítica de tudo que é igual na aparente disformidade, as diversas armas ou especialidades. Há urna determinada rela-
e diferente e inclusive oposto na aparente uniformidade para ~ao .entre homens de tropa; graduados, suboficiais, ofieiais su-
organizar e ligar estreitamente tudo o que é semelhante, mas balternos, oficiais superiores, Estados-Maiores, Estado-Maíor
de modo que a organizacáo e a conexáo parecam urna necessi- Geral, etc. Há urna relacáo entre as várias armas e especialidades,
dade prática e "indutiva", experimental, e nao o resultado de etc. Cada modiñcacáonuma parte determina a necessidade de
umprocesso racionalista, dedutivo, abstrato, isto é, próprio dos um equilíbrio com o todo, etc.
intelectuais puros (ou puros asnos). Este trabalho contínuo para Politicamente, o teorema pode ser aplicado nos partidos,
selecionar o elemento "internacional" e "unitário" na realidade nos sindicatos, nas fábricas, para se ver como cada grupo social
nacional e local é, na realidade, a a~ao política concreta, a tero urna lei de proporcóes definidas própria, que varia de acor-
única atividade criadora de progresso histórico. Éste trabalho do com o nível de cultura, de independencia mental, de espírito
requer urna unidade orgánica entre teoria e prática, entre ca- de iniciativa e de senso de responsabilidade e de disciplina dos
madas .intelectuais e massas populares, entre governantes e go- seus membros mais atrasados e periféricos.
vernados. As fórmulas de unídade e federacáo perdem grande A lei das proporcñes é sintetizada da seguinte forma por
parte do seu significado deste ponto de vista, enquanto conser- Pantaleone, em Principi di economia pura: " ... Os corpos
varo o seu veneno na concepcáo burocrática, pela qual a uni- se combinam quimicamente ..apenas em proporcóes definidas, e
dade deixa de existir e se transforma como que num pantano cada quantidade de umelemento, que supere a quantidade exi-
de águas estagnadas, superficialmente calmo e "mudo", e a fe- gida para urna combinacáo com outros elementos presentes ero
deracáo num "saco de batatas", isto é, na justaposicáo mecánica quantidades definidas, fica livre; se a quantidade de urn elemen-
de "unidades" individuais sem nexo entre elas. to é deficiente em relacáo a quantidade de outros elementos
presentes, a combinacáo só se verifica na medida em que é

suficiente a quantidade do elemento que está presente em quan-


o teorema das proporcáes definidas. Este teorema pode tidade menor do que os outros'',! Seria possível servir-se metafo-
ser empregado com utilidade para tornar mais claros e de um ricamente desta lei para compreender como um "movimento"
esquematismo mais evidente muitos raciocínios relacionados com ou tendencia de opinióes se toma partido, isto é, fórca política
a ciencia da organízacño (o estudo do aparelho administrativo, eficiente, do ponto de vista do exercício do poder governamental:
da composicáo demográfica, etc.) e também com a política exatamente na medida em que possui (elaborou no seu interior)
geral (na análise das situacóes, das relacóes de forcas, no pro-
blema dos intelectuais, etc. ). Deve-se recordar sempre, claro,
é
1 MAFFEO PANTALEONE, Principí di economía pura, Míláo, 1931, parág.
que o recurso ao teorema das proporcóes definidas tem um 5, pág. 112. (N. e!.)

84 85

r
dirigentes de vários graus e na medida em que esses dirigentes do uma época de "evolucáo" "natural", que a sociedade tivesse
adquiriram determinadas capacidades. encont:ado os seu~ fundamentos definitivos, porque racionais,
e~~. ~IS que a. sociedade pode ser estudada pelos métodos das
O "automatismo" histórico de determinadas premissas (a '1 cIencIa~. pa~urals. Empobrecimento do conceito de Estado, em
existencia de determinadas condicóes objetivas) é potenciado consequencia .de tal ~isao. Se ciencia política significa ciencia
políticamente pelos partidos e pelos homens capazes: a sua . do, Estado, e Estado. e todo o complexo de atividades práticas e
ausencia ou deficiencia (quantitativa e qualitativa) torna estéril . t~oncascom as quais a classe dirigente justifica e mantém nao
o próprio "automatismo" (que, portanto, nao é automatismo). so o seu domínio, mas cónsegue obter o consentimento ativo
As premissas existem abstratamente, mas as conseqüéncías nao dos, gov~rna~os, evidente que todas as questóes essenciais da
é

se verificam porque falta o fator humano. Por. isso pode-se soclOlo~a nao pass~m de qnestóes da. ciencia política, 'Se há
dizer que os partidos tém a missáo de criar dirigentes capazes, um resíduo, . ~sse so pode ser de falsos problemas, isto é, de
sao a funcáo de massa que: seleciona, desenvolve, multiplica os problemas 0~lOS0S, Portanto, a questáo que se impunha ao au-
dirigentes necessários para que um grupo social definido (que tor ,de Saggio popolare,l e~a a ~e, determinarem que relacóes
é uma quantidade "fixa", na medida em que se pode estabelecer podia ser colocada a, cIe~cIa I?olítIca com a filosofia da praxis;
A

quantos sao os componentes de cada grupo social) se articule se entr~ as duas existe identidade (coisa nao sustentável, ou
e, de caos tumultuado, transforme-se em exército político orge- sl;lstentavel apenas'Ado, pont~, deyista do mais grosseiro positi-
nicamente predisposto .. Quando em eleicóes sucessivas do mes- v~s~o), ou se, ~ CIenCIa política e o conjunto de princípios em-
mo grau ou de grau diferente (por exemplo, na Alemanha antes pmcos ou práticos que s~ deduz~m de urna concepcáo mais
de Hitler: eleicóes para II presidencia da República, para o vas,ta ?O ,mun?.? <?u filosofía propríamente dita, ou se esta filo-
Reichstag, para as dietas dos Llinder, para os conselhos comu- sofia e s~Aa ~lencl3;. ~os conceitos ou categorias gerais que nas-
nais, e assim até os comités de fazenda) um partido oscila na cem da CIenCIa política, etc.
sua massa de sufrágios de máximos a mínimos que parecem Se é, v~r?ade que o hornem só pode ser concebido como
estranhos e arbitrários, pode-se deduzir que os seus quadros ho~em hIstónca~ente determinado, isto é, que se desenvol~eu
sao deficientes em quantidade e qualidade, ou em quantidade e e v~ve em det,enrunadas condicées, num determinado complexo
nao em qualidade (relativamente), ou em qualidade e nao em s?cml,ou conjunto de relacóes sociais, pode-se conceber a so-
quantidade. Um partido que obtém muitos votos nas eleicóes ciologia apenas como e~tudo destas condicóes e das leis que
locais e menos naquelas de maior importancia política, certa- regulam o seu des,e~v.oIYImento? J ~ que nao se pode prescindir
mente édeficiente qualitativamente na sua direcáo central: d~ vontade e da iniciativa dos proprios homens, este conceito
possui muitos subalternos OU, pelo menos, em número suficien- so pode ser. falso, Saber o que é a própria "ciencia", eis um
te, mas nao possui uro Estado-Maior adequado ao país e a sua problema que deve ser colocado. Nao é a ciencia em si mes-
posicáo no mundo, etc. ma, "atividade política" e pensamento político, n~ medida em
que ;ransforma ,o~, h~~e~,s, ,torna~~s diferentes do que eram
antes, Se tU?~ e política, e preCISO, para nao cair num fra-
Sociologia e ciencia política. A fortuna da sociologia rela- seado, ~autologIco e enfadonho, distinguir com conceitos novos
ciona-se com a decadencia do conceito de ciencia política e a política que corresponde aquela ciencia que tradicionalmente
de. arte política que se verificou no século XIX (com mais exa- se ~hama "fil?~of~a", ~~ política, ciencia política nUID sentido
tidáo na segunda metade, com o éxito das doutrinas evolucio- es;nt~, ~e a cle.ncla e descoberta" de realidade ignorada antes,
nistas e positivistas ). Tudo o que há de importante na socio- nao e esta reahdade, em certo sentido, 'concebida- como trans-
logia nao pass a de ciencia política. "Política" torna-se sinónimo cendente? Nao se pode pensar que ainda existe algo de "igno-
de política parlamentar ou de corrilhos pessoais. Convencimen-
to <le que com as constituicñes e os parlamentos tivesse comeca- 1 Bukhanin. (N. e I.)

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to" e, portanto, de transcendente? Além do mais, o conceito de "nacionais" que náopodem deixar de prevalecer quando se tra-
ciencia como "criacáo" nao tem o mesmo significado de "polí- ta de induzir a vontade nacional num sentido mais do que nou-
tica"? Tudoconsiste em ver se se trata de criacáo "arbitrária" tro. "Desgracadamente", o indivíduo 'levado a confundir o seu
é

ou racional, isto é , "útil"aos. homens para ampliar o seu con- "particular" com o interesse nacional, e, portanto, achar "hor-
ceito da vida, para tornar superior (desenvolver) a própria vída.! rível", etc., que a decísáo .caiba a "lei do número"; na verdade,
O número e a qualidade nos regimes representativos. Urn , é melhor se tornar élite por decreto. Logo, nao se trata de quem
dos lugares-comuns mais banais- que se repetem contra o síste- "tem muito" intelectualmente sentir-se reduzido ao nível do últi-
ma eleitoral de Iormacáo dos órgños estatais o de que "nele
é mo analfabeto, mas de quem presume ter muito e pretende
o número lei suprema" e que as "opínñes de um imbecil qual-
é arrebatar ao homem "qualquer", inclusive aquela fracño infini-
quer que saiba escrever (e inclusive de um analfabeto, em de- tesimal de poder que ele possuí para decidir sóbre o curso da
terminadospaíses) vale, para efeito de determinar o curso po- vida estatal.
lítico do Estado, tanto quanto as opinióes de quem dedica a Da crítica (de origem oligárquica, e nao de élite) ao regime
nacáo as suas melhores íorcas", etc," Mas a verdade é que, de parlamentarista (é estranho que ele nao seja criticado pelo fato
modo nenhum, o número constitui a "lei suprema", nem o peso de que a racionalidade historicista do consentimentonumérico
da opiniño de cada eleitor é exatamente igual. Os números, é sistematicamente falsificada pela influencia da riqueza), estas
mesmo nestecaso, sñoum simples valor instrumental, que dáo afírmacóes banais se estenderam a qualquer sistema represen-
urna medida e urna relacáo, e nada mais. E depois, o que é tativo, mesmo nao parlamentarista e nao forjado segundo os
que Se mede? Mede-se exatamente a eficácia e a capacidade de cánones da democracia formal. O que as torna . menos exatas ..
expansáo e de persuasáo das opinióes de alguns, das minorías Nestes outros regimes o consentimento nao tem no momento
ativas, das élites, das vanguardas, etc. Isto é, a sua racionali- do voto urna fase final, ao contrário.! Supóe-se o consentimento
dade ou historicidade ou funcionalidade concreta. O que nao permanentemente ativo, até o ponto em que aqueles que con-
quer dizer que o peso das opinióes de cada um seja "exatamen- sentem poderiam ser considerados como "funcionários" do Es-
te" igual. As idéias e as opinióes nao "nascem" espontáneamente tado e as eleícóes um modo de recrutamento voluntário de fun-
no cerébro de cada indíviduo: tiveram um centro de formacáo, cionários estatais de um determinado tipo, que em certo sentido
de irradiacáo, de. difusáo, de persuasáo, um grupo de homens poderia assemelhar-se (em diversos planos) ao seligovemment.
ou inclusive urna individuaIidade que as elaborou e apresentou Baseando-se as eleícóes nao em programas genéricos e vagos,
soba forma política de atualidade. A numeracáo dos "votos" mas em programas de trabalho concreto imediato, quem con-
é a manifestacáo final de um longo processo em que a maior sente empenha-se em fazer algo mais do que o cidadáo legal
influencia pertence exatamente áqueles que "dedicam ao Estado comum para realizá-Ios, isto é; em ser urna vanguarda de tra-
e a nacáo as suas melhores forcas" (quando sao tais). Se éste balho ativo e responsável. O elemento "voluntariedade" na
pretenso grupo de grandes, apesar das fórcas materiais extra- iniciativa nao poderia ser estimulado de outro modo pelas mais
ordinárias que possui, nao obtém o consentimento da maioria, amplas multidóes, e quando. estas nao sao formadas de cidadáos
deve ser julgado ou inepto ou nao-representante dos interesses amorfos, mas de elementos produtivos qualificados, pode-se
compreender a importancia que pode ter a manifestacño xío
1 A propósito 00 Saggio Popolare e do seu apéndice, Teoria e pratica, voto,s .
veja-se na "Nuova Antología" de 16 de marco de 1933 a resenha filo-
sófica de ARMANDO CARLINI, da qual resulta que a equaeáo: "Teoría: 1 Alusáo ao sistema soviético do contróle permanente dos eleitores sbbre
prática = matemática pura: matemática aplicada" foi enunciada por um os eleitos. ( N. eL)
ingles (parece-me que Whitaker). 2 Estas observacñes poderiam ser desenvolvidas mais ampla e orgánica-
2 As formulacñes sao muitas, algumas inclusive mais felizes do que a mente, destacando também outras dífereneas entre os diversos tipos de
citada, que é de MARIO DE SILVA, na Critic.a Fascista de 15 de agosto eleícño, de acórdo com as modíficacñes nas relacñes geraís sociais e po-
de 1932, mas o conteúdo é sempre igual. líticas: relacáo entre funcionárioseletivos e funoíonáríos de carreira, etc.

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A proposicáo de que "a sociedade nao coloca diante de sl e de modificacáo no peso relativo que os elementos das velhas
problemas para cuja solucáo ainda nao -existam as premissas ideologias possuíam: tudo o que era secundário e subordinado,
materiais".É o problema da formacáo de uma vontade cole- ou inclusive incidental, é considerado principal, torna-se o nú-
tiva que dependeimediatamente desta proposicáo , Analisar cleo de um novo complexo ideológico e doutrinário , A velha
críticamente o significado da proposicáo, implica indagar como vontade coletiva desagrega-se nos seus elementos contraditó-
se formam as vontades coletivas permanentes, e como tais von- , ríos, já que os elementos subordinados contidos nestes elementos
tades se propóemobjetivos imediatos e mediatos concretos, isto .se desenvolvem socialmente, etc.
é, urna linha de a<;ao coletiva , Trata-se de processos de desen- . Depois da formacáo do regime dos partidos, fase histórica
volvimento mais oumenos longos, e raramente de explosóes ligada a estandardizacáo de grandes massas da populacáo (co-
"sintéticas" imprevistas. Também as "explosóes" sintéticas se municacóes, jornais, grandes cidades, etc.), os processos mo-
verificam, mas, observando de perto, ve-se que nestes casos leculares se manifestam com mais rapidez do que no passado,
trata-se de destruir mais do que reconstruir, de remover obstá- etc.
culos mecánicos externos. ao desenvolvimento original e espon-
táneo: as Vésperas sicilianas podem ser consideradas um exem-
Questáo do "homem coletivo" ou do "conformismo social".
plo típico dessas explosóes , Missáo educativa' e formativa do Estado, cujo fim é sempre
Seria possível estudar concretamente a formacáo de uro
criar novos e mais elevados tipos de civilízacáo, adequar a "ci-
movimento histórico coletivo, analisando-o emtbdas as suas
viliza<;~o" e a moralidade das mais amplas massas populares as
fases moleculares, o que habitualmente nao se faz porque tor--
naría pesado qualquer trabalho: em vez. disso, utilizarn-se as necessidades do desenvolvimento continuado do aparelho eco-
nómico de producáo, portanto elaborar também físicamente
correntes de opiniáo já constituidas em torno de um grupo {lU
de urna personalidade dominante. É o problema que moderna- tipos novos de humanidade. Mas, como cada indívíduoconse-
mente se express a em termos de partido ou de coalizáo de guirá incorporar-se no homem coletivo e como se verificará a
pressáo educativa sobre cada um com o seu consentimento e
partidosafins: como se inicia á organizacáo de um 'partido,
como se desenvolve a sua for<;aorganizada e influencia social, colabora<;ao,' transformando em "liberdade" a necessidade e a
coer~ao? .Questao do "direito", cujo conceito deverá ser amplia-
etc. Trata-se de um processo molecular, miudíssimo, de aná-
lise extrema, capilar, cuja documentacáo constituída por uma
é
do, incluindo nele aquelas atividades que hoje sao compreendí-
quantidadeincrível de livros, opúsculos, artigos de revistas e de das na fórmula "indiferente jurídico" e que sao de domínio da
jornais, de conversacñes e debates verbais que se repetem infi- sociedade civil que atua sem "sancóes" e sem "obrigacóes" ta-
nitas vézes e que no seu conjunto gigantesco representam este xativas, mas que nem por isso exerce uma pressáo coletiva e
trabalho do qual nasce uma vontade coletiva com um determi- obtém resultados objetivos de elaboracáo nos costumes, nos
nado grau de homogeneidade, grau que é necessário e suficiente modos de pensar e de atuar, na moralidade, etc.
para determinar urna acáo coordenada e simultanea no tempo . Conceito político da chamada "revolucáo permanente",
e no espaco geográfico em que o fato histórico se verifica. surgido antes de 1848, como expressáo científicamente elabora-
Importancia das utopias e das ideologias confusas e racio- da das experiencias jacobinas de 1789 em Termidor. A fórmula
nalistas na fase inicial dos processos históricos de formacáo das é própria de um período histórico em que nao existiam ainda
vontades coletivas: as utopias, o racionalismo abstrato, tém a os grandes partidos políticos de massa e os grandes sindicatos
mesma importancia das velhas concepcóes do mundohistórica- económicos, e a sociedade ainda estava, por' assim dizer, no
mente .elaboradas por acumulacáo de experiencias sucessivas. estado de fluidez sob muitos aspectos: maior atrasado campo
O que importa é a crítica a qual este complexo ideológico é e monopólio quase completo da eficiencia político-estatal em
submetido pelos primeiros representantes da nova fase. histó- poucas cida.des ou numa só (Paris para a Franca); aparelho
rica. Através desta crítica obtém-se um processo de distincáo estatal relativamente pouco desenvolvido e maior autonomia da

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sociedade civil em relacáo it atividade estatal; determinado siste- "natureza humana" nos dois é diferente. Na "natureza humana"
ma das for~as militares e .do armamento nacional; maior auto- de Maquiavel está incluído o "homem europeu", e este homem,
nomia das economias nacionais no quadro das relacóes econó- na Franca e na Espanha, superou fatualmente a fase feudal de-
micas do mercado mundial, etc. No período posterior a 1870, sagregada na monarquia absoluta: logo, nao é a "natureza hu-
em virtude da expansáo colonial européia, todos éstes elementos mana" que seopóe ao surgimento, na Itália, de uma monarquia
se modiñcam, as relacñes de organízacáo internas e interna- absoluta unitária, mas condicóes transitórias que a vontade pode
cionais do Estado tornam-se maiscomplexas e macícas, e a . superar. Maquiavel é "pessimista" (ou melhor, "realista")
fórmula jacobíno-revolucionária da v'revolucáo permanente" é quando considera. os homens e as direcóes de sua atividade;
elaborada e superada na cíéncía política pela fórmula de "hege- Guicciardini nao é pessimista, mas cético e estreito. Paolo Tre-
monia civil". Verifica-se na arte política aquilo que ocórre na ves- comete muitos erros ao analisar Guicciardini e Maquiavel;
arte militar: a guerra de movimento transforma-se cada vez nao distingue bem "política" de "diplomacia", mas exatamente
mais em guerra de posicáo, podendo-se dizer que um Estado nesta náo-dístíncáo reside a causa das suas apreciacóes erradas.
vence urna guerra quando a prepara minuciosa e técnicamente Efetivamente, na politica o elemento volitivo tem urna impor-
no tempo de paz. Na estrutura de massa das democracias mo- tancia muito maior do que na diplomacia. A diplomacia san-
dernas, tanto as organizacóes estatais como o complexo de as- ciona e tende a conservar as situacóes criadas pelo choque das
sociacóes na vida. civil constítuem para a arte política o mesmo políticas estatais; é criadora apenas por metáfora ou por con-
que as "trincheiras" e as fortificacñes permanentes da frente vencáo filosófica (toda a atividade humana é criadora). As
na guerra de posicáo: elas fazem com que seja apenas "parcial" relacñes internacionais estabelecem um equilibrio de fórcas sobre
o elemento do movimento que antes constituía "toda" a guerra, o qual cada elemento estatal pode influir muito débilmente:
etc. Florenca podia influir reforcando a si mesma, porexemplo, mas
A questáo relaciona-se com o Estado moderno, nao com este reforcamento, mesmoque tivesse me1horado a suaposicño
os países atrasados e as colónias, onde ainda vigoram formas no equilíbrio italiano e europeu, nao poderia ser visto como
que nos outros já foram superadas e se tornaram anacrónicas. decisivo para subverter o conjunto do próprio equilíbrio. Por
Também a questáo do valor das ideologías (como se depreende isso o diplomata, por causa do hábito profissional, é levado ao
da polémíca Malagodi-Croc:e) 1 - com as observacóes de Crece ceticismo e a estreiteza conservadora.
sobre o "mito" soreliano, que podem ser contrapostas a "pai-
xáo" - deve ser estudada num tratado de ciencia política. Nas relacóes internas de um Estado, a situacño é incom-
paravelmenté mais favorável. a iniciativa central, a urna vontade
de comando, da forma como a compreendia Maquiavel. A
opiniáo de De Sanctis sobre Guicciardini é muito mais realista
Fase economtca corporativa do Estado. Guicciardini as-
do que Treves julga. Daí a pergunta: por que De Sanctis estava
sinala um passo atrás na ciencia política diante de Maquiavel.
melhor preparado do que Treves para dar esta opiniáo histórica
O maior "pessimismo" de Guicciardini só tem um significado.
e cieniíficamente mais exata? De Sanctis participou de um mo-
Guicciardini retoma a um pensamento político puramente ita-
mento criador da história política italiana, de um momento em
liano, enquanto Maquiavel alcancara um pensamento europeu.
que á eficiencia da vontade política, empenhada em suscitar
Nao secompreende Maquiavel se nao se leva em canta que
ele supera a experiencia italiana na experiencia européia (ínter- fórcasnovas e originais e nao só em estribar-se naquelas tra-
dicionais, concebidas como impossíveis de se desenvolverem e
nacional, naquela época): a sua "vontade" seria utópica sema
experiencia européia .Em virtude disso, a mesma concepcáo da reorganizarem (ceticismo político guicciardiniano), mostrara

1 Ver Crece, Conversazione critiche, série IV, Bari, 1'932, págs. 143-146. 1 Cf. Il realismo político di Erancesco Guicciardini, in Nuooa Rivista
(N. e l.) Storica, novembro-dezembro de 1930.

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toda a sua potencialidade náo só na arte de fundar um Estado o Os escritos de Guicciardini sao mais uro sinal dos tempos
a partir de urna acáo interna, mas também de dominar as rela- do que ciénciapolítica, e éste éo juízo de De Sanctis; sinal dos
~oes internacionais, reformulando os métodos profissionais e tempos, e nao ensaio de história da ciencia política éo trabalho
costumeiros da diplomacia (com Cavour). A. atmosfera cul- de Paolo Treves.
tural era propícia a urna concepcáo mais compreensivamente
realista da ciencia e da arte políticas. Mas, mesmo sem esta
atmósfera, teria sido impossível a De Sanctis compreender Ma- Hegemonía (sociedade civil) e divisiio dos poderes. A
quiavel? A atmosfera do momento histórico enriquece os en- divisáo dos poderes, toda a discussáo havida para a sua eíeti-
saios de De Sanctis de um pathos sentimental que torna mais vacáo e o dogmatismo jurídico derivado do seu advento, cons-
simpático e apaixonante o assunto, milis artistícamente expreso, tituem o resultado da luta entre a sociedade civil e a sociedade
siva e cativante a exposicáo científica, mas o conteúdo 'lógico política de um determinado período histórico, com certo equi-
da Ciencia política poderia ser formulado inclusive nos períodos líbrio instável entre as c1asses, determinado pelo fato de que
de pior reacáo , Nao é talvez a reacáo, também ela, um ato algumas categorias de intelectuais (a servíco direto do Estado,
construtivo de vontade? E nao é ato volrintário a conservacáo? especialmente burocracia civil e militar) ainda estáo muito liga-
Por que entño seria "utópica" a vontade de Maquiavel, por das as velhas c1asses dominantes. Verifica-se, assim, no interior
que revolucionária e nao utópica a vontade de quem pretende da sociedade, aquilo que Croce define como o "conflito perpé-
conservar o existente e impedir o surgimento e a organizacáo tuo entre Igreja e Estado", no qual a Igreja é tomada como
de fórcas novas que perturbariam e subverteriam o equilíbrio representante da sociedade civil no seu conjunto (enquanto, na
tradicional? A ciencia política abstrai o elemento "vontade" e realidade, nao passa de um elemento gradualmente menos im-
portante) e o Estado como autor de todas as tentativas destina-
nao leva em conta o fim ao qual urna vontade determinada é
das a cristalizar permanentemente tím determinado estágio de
aplicada. O atributo de "utópico" nao é próprio da vontade
desenvolvimento, urna determinada situacáo , Neste sentido a
política em geral, mas dasvontades particulares que nao sabem
própria Igreja pode-se tornar Estado, e o conflito pode mani-
ligar o meio ao fim e, portanto, nao sao 'nem mesmo vontade,
festar-se entre sociedade civil laica e laicizante e Estado-Igreja
mas veleidades, sonhos, desejos, etc. o
(quando a Igreja se tornou urna parte integrante do Estado, da
O cetícísmo de Guiccilardini (nao pessimismo da inteligen- sociedade política monopolizada por um determinado grupo pri-
cia, que pode ser unido a umotimismo da .vontade nos polí- vilegiado que se agrega a Igreja para melhor defender o seu
ticos realistas ativos) tem diversas origens: 1) o hábito diplo- monopólio com o apoio daquela zona da "sociedade civil" que
mático, isto é, de urna atívidade subalterna subordinada, exe- ela representa).
cutivo-burocrática, que deve aceitar' urna vontade estranha Importancia essencial da divisáo dos poderes para o libe-
(aquela política do próprio governo ou príncipe) as conviccóes ralismo político e económico. Toda a ideologia liberal, com as
particulares do diplomata (que pode, é verdade, sentir aq uela suas forcas e as suas fraquezas, pode ser enfeixada no princípio
vontade como sua, na medida em que corresponde as suas con- da divisáo dos poderes, o que revela a fonte da debilidade do
viccóes, mas também pode nao sentí-la. O fato de a diploma- liberalismo: a. burocracia, a cristalízacáo do pessoal dirigente,
cia ter-se tornado necessariamente urna profissáo especializada. que exerce o poder coercitivo e que, num determinado ponto,
levou a esta conseqüéncía: pode afastar o diplomata da política, s.e transforma emcasta. Daí a reivindicacáo popular da elegibi-
dos governos mutáveis, etc:.), portanto, ceticismo, e, na elabo- lidade par~ todos os cargos, reivindicacáo que é, simultanea-
racño científica,preconceitos extracientíficos; 2) as conviccóes mente, o liberalismo extremo e a sua dissolucáo (princípio da
de Guicciardini,que era conservador, no quadro geral da polí- C:0~stituinte permanente, etc.; nas repúblicas, a eleícáo tempo-
tica italiana, e por isto teoriza sobre as suas opinióes, a sua rana do chefe do Estado dá urna satisfacáo ilusória a esta rei-
posicñopolítica, etc. vindicacáo popular elementar).

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Unidade do Estado na distincáo dos poderes: o Parlamen- nitiva, de alcance moral, e nao apenas um JUlZO de periculosi-
to mais ligado a sociedade civil, o Poder Judiciário entre gover- dade genérica. O direito é o aspecto repressivo e negativo de
no e Parlamento, representa a continuidade da lei escrita (in- toda a atividade positiva de civilizacáo desenvolvida pelo Estado.
clusive contra o governo) . Naturalmente os tres poderes sao Deveriam ser incorporadas na concepcáo do direito inclusive
também órgáo da hegemonia política, mas em diversa medida: as atividades "premiadoras" de indivíduos, de grupos, etc.;
1) Parlamento; 2) magistratura; 3) governo . Deve-se notar premia-se a atividade louvável e meritória como se pune a ati-
como impressiona mal ao público as íncorrecóes da administra- vidade criminosa (e pune-se de modo original, permitindo a
cáo da justica: o aparelho hegemónico é mais sensível neste intervencáo da "opiniáo pública" como sancionadora).
setor, ao qual podem-se reduzir também os arbítrios da polícia
e da adrninistracáo pública. .
Política e direito constitucional. A Nuova Aniologla, de
16 de dezembro de 1929, publica urna resenha de um certo
Concepciio do direito . Urna concepcáo do direito essencial- M. .Azzalini, La política, scienza ed arte di Stato, que pode ser
mente renovadora nao pode ser encontrada, integralmente, em interessante como apresentacáo dos elementos em que se de-
nenhuma doutrina preexistente (nem mesmo na doutrina da bate o esquematismo científico.
chamada escola positiva, e particularmente na doutrina de Ferri). Azzalini comeca afirmando que foi glória "fulgidíssima" de
Se cada Estado tende a criar e a manter certo tipo de civiliza- Maquiavel "ter ele circunscrito ao Estado o ámbito da política".
gao e de cidadáo (e, portanto, de convivencia e de relacóes Nao fácil compreender o que o Sr. Azzalini quis dizer. Ele
é

individuais), tende a fazer desaparecer certos costumes e há- transcreve o seguinte período do cap. III do Príncipe: "Dizen-
bitos e a difundir outros, o direito será o instrumento para do-me o cardeal de Roano que os italianos nao entendiam da
este fim (ao lado da escola e de outras instituicées e atividades) guerra, respondi que os franceses nao entendiam do Estado",
e deve ser elaborado de modo que esteja conforme ao fim e seja e sobre esta única citacáo baseia a afirni(l~¡'íf) de que, "portanto",
eficaz ao máximo e criador de resultados positivos. para Maquiavel, "a política devia ser entendida como ciencia,
A concepcñodo direitodeverá ser libertada de todo resí- e como ciencia de Estado, e que foi sua glória, etc. (o termo
duo de transcendencia e de absoluto; embora a mim pareca "ciencia de Estado" para "política" teria sido adotado, no seu
que nao se pode partir _do ponto de vista de que o Estado nao correto significado moderno, antes de Maquiavel, só por Marsi-
"pune" (reduzindo-se este termo ao seu significado humano), lio da Padova). Azzaliní bastante leviano e superficial. A
é

mas luta apenas contra a "periculosidade" social. Na realidade, anedota do Cardeal de Roano, isolada no texto, nao significa
o Estado deve ser concebido como "educador", desde que ten- nada. No contexto, assume um significado que nao se -presta
de a criar um novo tipo ou nivel de civilizacáo , Em virtude do a deducóes científicas: trata-se, evidentemente, de urna frase
fato de que se atua essencialmente sobre as forcas económicas, de espírito, de urna réplica imediata. O Cardeal de Roano
reorganiza-se e desenvolve-se o aparelho de producáo económica, afirmara que os italianos nao entendem de guerra; replicando,
inova-se a estrutura, nao se deve concluir que os elementos de Maquiavel responde que os franceses nao entendem do Estado,
superestrutura devam ser abandonados a si mesmos, ao seu de outro modo nao teriam permitido ao Papa ampliar o seu
desenvolvimento espontáneo, a urna germinacáo casual e espo- poder na Itália, o que era contra os interesses do Estado fran-
rádica. O Estado, inclusive nestecampo, é um instrumento de - ces. Maquiavel, de modo algum, pensava que os franceses nao
"racionalizacáo", de aceleracáo e de taylorizacáo, atua segundo entendessem do Estado, inclusive ele adinirava o modo pelo
um plano, pressiona, incita, solicita e "pune", pois, criadas as qual a monarquia (Luís XI) realizara a unidade estatal da
condicóes em que um determinado modo de vida é "possível", Franca e fazia das acñes da Franca, no- terreno do Estado, um
a "acáo ou omissáo criminosa" devem receber urna sancáo pu- exemplo para a Itália. Naquele seu diálogo com o Cardeal de

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Roano, ele fez "política" prática, e nao "ciencia política"; pois, macáo de Estados fortes na Itália, intervindo na vida interna
segundo ele, se o reforcarnento do Papa era prcjudicial a polí- dos povos por ele nao dominados temporalmente, em defesa de
tica francesa, era mais prejudicial ainda cm relacáo a política interesses que nao eram os dos Estados e que por isso era m
interna italiana. perturbadores e desagregadores) .
O curioso que, partindo de tao infeliz citacáo, Azzalini
é Pode-se encontrar em Maquiavel a confirrnacáo de tudo o
afirme que "mesmo enunciando-se que aquel a ciencia estuda o que notei em outras partes: que a burguesia italiana medieval
Estado, dá-se uma definicáo (!?) inteiramente imprecisa (!) nao soube sair da fase corporativa para ingressar na fase polí-
porque nao se indica com que critério se deve observar o obje- tica por nao ter sabido libertar-se completamente da concepcáo
to da pesquisa. E a imprecisáo absoluta, dado que todas as
é
medieval cosmopolita representada pelo Papa, o clero e, inclu-
ciencias jurídicas em geral, e o direito público em particular, sive, os inteIectuais leigos(humanistas), isto é, nao soube criar
referem-se indiretamente e diretamente áquele elemento". um Estado. autónomo, permanecendo na moldura medieval,
O que quer dizer tudo isto, em relacáo aMaquiavel? Nada feudal e cosmopolita.
de nada: confusáo mental. Maquiavel escreveu livros de "acáo Azzalini acentua que "basta" apenas a definicáo de Ulpia-
política imediata", nao escreveu uma utopia em que um Estado no e, melhor ainda, os seus exemplos, publicados no Digesto,
já constituido, com todas as suas funcóes e os seus elementos para ressaltar a identidade extrínseca (e entao?)do objeto das
constitutivos, íosse almejado. No seu trabalho, na sua crítica duas ciencias. "/lIS publicum ad statutum rei (publicae) roma-
do presente, ele exprimiu conceitosgerais, que, portanto, se nae spectat. ~ Publicum ius, in sacris, in sacerdotibus, in ma-
apresentam sob forma aforística, e nao sistemática, e exprimir; gistratibus consistit:" "Verifica-se, portanto, uma identidade de
uma concepcáo do mundo original que também poderia ser de- objeto no direito público e na ciencia política, mas nao substan-
finida como "filosofia da praxis" ou "neo-humanismo" na me- cial, porque os. critérios com os quais urna e outra ciencia rela-
dida em que nao reconhece elementos transcendentes ou ima- cionam a mesma matéria sao .inteiramente diversos. Efetiva-
nentes (em sentido metafísico), mas baseia-se inteiramente na mente, diversas sao as esferas da ordem jurídica e da ordem
acáo concreta do homem que, pelas suas necessidades históricas, política. Na realidade, enquanto a primeira observa o organis-
atua e transforma a realidade. Nao é verdade, como parece mo público, de um ponto de vista estático, como o produto
acreditar Azzalini, que Maquiavel nao tenha levado em conta natural de urna determinada evolucáo histórica, asegunda obser-
o "direito constitucional". Em toda a obra de Maquiavel en- va o mesmo organismo, de um ponto de vista dinámico, como
contram-se esparsos princípios gerais de direito constitucional, um .produto que pode ser avaliado nas suas qualidades e nos
e ele afirma, com bastante clareza, a necessidade de que no seus defeitos e que, conseqüentemente, deve ser modificado de
Estado domine a lei, prineípios fixos segundo os quais os cida- acordo com as novas exigencias e as ulteriores evólucóes", Logo,
daos virtuosos possam atuar seguros de que nao cairáo sob os pode-se-ia dizer que "a ordem jurídica ontológica e analítica,
é

golpes do arbítrio. Mas, justamente, Maquiavel reconduz tudo pois estudae analisa os diversos institutos públicos no. seu ser
a a
política, isto é, arte de governar os homens, de procurar o real", enquanto a "ordem política é deontológica e crítica, por-
seu consentimento permanente, de fundar, portanto, os "gran- que estuda os vários institutos nao como sao, mas como deve-
des Estados" (deve-se recordar que Maquiave1 sentia que Esta- riam ser, isto é, com critérios de avaliacáo e julgamentos de
do nao era a Comuna ou a República e a Possessáo Comunal, oportunidades que nao sao nem podem ser jurídicos".
porque lhes faltava, além de um vasto território, uma popula- E tal sabicháo pensa que é um admirador de Maquiavel,
<;ao capaz de ser a base de uma forca militar que permitisse um seu discípulo e, o que é mais, um aperfeicoador!
uma política internacional autónoma: ele sentia que na Itália,
"Daí se deduz que a identidade formalacima descrita opóe-
com o Papado, perdurava urna situacáo de nao-Estado e que
ela perdurada 'enquanto a religiáo nao se tornasse "política" do se uma substancial diversidade tao profunda e notável de modo
a nao permitir, talvez, a opiniáo express a de um dos maiores
Estado e deixasse de ser política do Papa para impedir a for-
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publicistas contemporáneos, que considerava difícil, se nao im- no qual predomina a atividade teórica cognoscitiva, existe o
possível, criar urna ciencia política completamente diferente do artista, no qual predomina a atividade teórica intuitiva. Isto nao
direito constitucional. Parece-nos que' este raciocínio só ver-
é exaure inteiramente a esfera de a~ao da arte política que, além
dadeiro se a análise do aspecto jurídico e do aspecto político se de ser observada através do estadista que, na prática das fun-
detém neste ponto; nao o será se for além, especificando aqué- 96es do govérno, exterioriza a representacáo interna do intuito,
le campo ulterior que de competencia exclusiva da ciencia
é pode ser avaliada através do escritor, que realiza no mundo
política. Esta, efetivamente, nao se limita a estudar a organi- externo (!) a verdade intuída nao praticando atos de poder,
zacáo do Estado com um. critério deontológico e crítico, e por mas criando obras e escritos que traduzem o intuito do autor.
isso diferente daquele usado para o mesmo objeto pelo direito É o caso do indiano Kamandaki (século III D. c. ), de Petrar-
público, mas amplia a sua esfera a um campo que lhe próprio,
é ca no Trattatello pei Carraresi, de Botero na Ragion di Stato
definindo as leis que regularn o surgimento, a consolidacáo e o e, sob certos aspectos, de Maquiavel e de Mazzini." Azzalini
declínio dos Estados. Nem válido afirmar que este
é um
é nao sabe orientar-se J?em na filosofia, nem na ciencia da polí-
estudo da História (entendida no seu significado geral (!), por- tica. Mas procurei utilizar-me de todas estas notas. para tentar
que mesmo admitindo que a pesquisa das causas, dos efeitos, desernbaracar o novelo e ver se chego a conceitos claros por
dos vínculos mútuos de independencia das leis naturais que go- minha canta. Deve-se esclarecer, por exemplo, o que pode sig-
vernam o ser e o existir dos Estados seja ínvestigacño histórica, nificar "intuicáo" na política e a expressáo "arte" política, etc.
permanecerá sempre no ámbito exclusivamente político, portan- Recordar, ao mesmo tempo. alguns pontos de Bergson: "A
to nem histórico nem jurídico, a pesquisa dos meios idóneos inteligencia só nos oferece urna traducáo da vida (a realidade
capazes de presidir, na prática, a orientacáo geral política. A em movimento) em termos da inércia. Ela gira em torno de
funcáo que Maquiavel se propunha realizar e sintetizava dizen- tuda, apanhando de fora o maior número possível de visóes do
do: Provarei como estes principados podem ser governados e objeto que aproxima de si, em vez de penetrar nele . Mas é a
mantidos (Principe, cap. 11), é de tal ordem pela sua impor- intuicáo que nos levará ao interior da vida: pretendo dizer o
tancia intrínseca e como argumento, que nao só legitima a au- instinto que se tornou desinteressado." "O nosso olho percebe
tonomia da política, mas permite, pelo menos sob o aspecto os traeos do ser vivo, mas aproximados um do outro, nao or-
anteriormente delineado, uma distincáo inclusive formal entre a ganizados entre si. A intencáo da vida, o movimento simples
política e o direito público." que corre através das linhas, que liga urna a outra e dá-lhes um
Eis o que Azzalini entiende por autonomia da política! significado, escapa a ele, e é esta intencáo que o artista tende
Mas - afirma o autor - além de urna ciencia, existe urna a apanhar, colocando-seno interior do objeto com urna espécie
arte política. "Existem homens que apreendem ou apreende- de simpatia, superando através de um esforco de intuicáo a
ram da intuicáo pessoal a visáo das necessidades e dos interesses barreira que o espaco coloca entre ele e o modelo. Mas, na
do país governado, que na sua obra de governo aplicaram. no verdade, a intuicáo estética só abrange o individual." "A inteli-
mundo externo a visáo, a intuicáo pessoal. Nao queremos dízer gencia é caracterizada por urna incompreensáo natural da vida,
com isto, é claro, que a atividade intuitiva, e por isso artística, já que ela representa claramente apenas o descontínuo e a imo-
é a única e predominante no estadista; queremos apenas dizer bilidade."l
que nele, ao lado das atividlades práticas, económicas e morais, Portanto, separacáo da intuicáo política da intuicáo esté-
deve subsistir também aquela atividade teórica acima indicada, tica ou lírica, ou artística: só por metáfora fala-se de arte po-
tanto sob o aspecto subjetivo da intuicáo como sob o aspecto lítica. A intuicáo política nao se exprime no artista, mas no
objetivo (!) da expressáo, e que, na ausencia desses requisitos, "chefe", e por "intuicáo" deve-se entender nao o "conhecimento
nao pode existir o governante e muito menos (!) o estadista, dos individuais", mas a rapidez em ligar fatos aparentemente
cujo fastigio se caracteriza exatamente por aquela faculdade
inata (?). Logo, também no campo político, além do cientista, 1 BERGSON, Í/évolution créatrice, Paris, 1907, passim; (N. e. I.)
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estranhos entre si e em conceber os meios adequados ao fim
para situar os ínteresses em jogo, suscitar as paix6es dos ho-
mens e orientá-los para urna determinada acáo , A "expressáo"
do "chefe" a "acáo" (em sentido positivo ou negativo, desen-
é

cadear urna acáo, ou impedir que se verifique urna determinada


acáo; conveniente ou inconveniente ao fim que se quer alean- I
car}. Além do mais, em política o "chefe" pode ser um indi-
víduo, mas também um corpo político mais ou menos nume-
roso: .neste último caso a unidade de intencóes será sintetizada
num indivíduo ou num pequeno grupo interno; e no pequeno
grupo num indivíduo que pode mudar, permanecendo o grupo 2
, ¡mido e coerente no prosseguimento da sua obra.
h Para se traduzir em linguagem política moderna a nocáo
de "príncipe", da forma como ela se apresenta no livro de
Maquiavel, seria necessário fazer urna série de distincóes: "Prín- Roberto Michels e os
cipe" poderia ser 'um .chefe .de Estado, um chefe de governo,
mas também um líder político que pretende conquistar um Es-
tado ou fundar um novo tipo de Estado; neste sentido, em Iin-
Partidos Políticos
guagem moderna, a traducáo de "Príncipe" poderia ser "parti-
do político". Na realidade de todos os Estados, o "chefe do
Estado;', isto é, o elemento equilibrador dos diversos interesses
em luta contra o interesse predominante, mas nao exclusivo num
sentido absoluto, é exatamente o "partido político"; ele, porém,
ao contrário do que se verifica no direito constitucional tradi-
cional, nem reina nem governa juridicamente: tem "o poder
de fato", exerce a funcáo hegemónica e, portanto, equi-
libradora de interesses diversos, na "sociedade civil"; mas de
tal modo esta se entrelaca de fato com a sociedade política, que
todos os cidadáos sentem que de" reina e governa. Sobre esta
LE PARTI politique~ escreve MicheIs ~ ne saurait étre
etymologiquement et logiquement qu'une partie de I'ensemble des
realidade, que se movimenta continuamente, nao se pode criar citoyens, organisée sur- le terrain de la politiqueo Le parti n'est
um direitoconstitucional do tipo tradicional, mas só umsistema done qu'une fraction, pars 'pro toto'''.1 Segundo Max Weber 2'
de princípios que afirma cOmO objetivo do Estado o seu próprio ele s: origina de ~uas espécies de causas: seria especialmente. u~a
fim, o seu desaparecimento, a reabsorcáo da sociedade política associacao espontanea de propaganda e de agitacño, que tende
pela sociedade civil. ao ~o~~r para permitir, assim, aos seus adeptos ativos (militantes)
possíbílídades morai~ e ma!eriais .para alcancar metas objetivas
ou vantagens .pessoais ou, aínda, as duas coísas juntas. Aorien-

I R. MICHELS, Les partis politiquee et la contrainte sociale Mercure


2de
Fr?nce, 1.0 de maio de 1928, págs. 513-535. '
Wtrtschaft und Gesellschaft. Grundriss der SozialOkonomik III 2 a
ed., Tubingen, 1925, págs. 167, 1 6 9 . · , , .

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