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Porque Teatro no Ensino Médio

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Published by: Joana Abreu on Nov 20, 2010
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Por que Teatro no Ensino Médio?

Joana Abreu

Em seu livro intitulado A linguagem Teatral na Escola: pesquisa, docência e prática pedagógica, o pesquisador Ricardo Japiassu dedica um capítulo inteiro a refletir sobre a importância do ensino de teatro nas escolas. O autor opta por nomear o capítulo com uma pergunta: “Por que teatro na escola?”. O presente artigo pretende dialogar com o capítulo elaborado por Japiassu, bem como, com outros autores e dados, direcionando, no entanto, a pergunta para o contexto do Ensino Médio no Brasil. A fim de pensar a presença do teatro na escola, Japiassu discorre sobre a teatralidade como modalidade da comunicação cênica, abordando termos como espetacularidade, estética, fruição, apreciação, cênico e teatral. Para ele, por ser parte da comunicação cênica e corporal, a teatralidade está presente em todas as esferas da vida social, e o autor a analisa partindo do princípio de que ela pode ser deliberada ou inconsciente ou, ainda, cotidiana ou extracotidiana (Japiassu, 2007, 92).1 O autor discorre ainda sobre o faz-de-conta infantil e sobre sua relação com a comunicação cênica. Embora, muitos dos exemplos do texto se apliquem ao processo de teatro-educação direcionado para o trabalho com crianças, boa parte das reflexões presentes no capítulo se aplica também quando pensamos na educação teatral de adolescentes e jovens do Ensino Médio. As reflexões de Japiassu podem contemplar mais ainda os estudos sobre o teatro no Ensino Médio se acrescentarmos a elas a noção de que em nosso sistema de ensino, quanto mais velho o aluno, menos acesso ele tem à experiência do faz-de-conta e da comunicação corporal consciente. Em nossas escolas, ‘brincar’ só é permitido às crianças e, mesmo assim, até uma certa medida. Para a professora doutora Ingrid Koudela:
Tradicionalmente, nossas escolas são escolas de leitura. Ainda hoje, a partir da pré-escola, a atividade fundamental da criança é aprender a ler e escrever. A criança em idade pré-escolar “brinca”, não se atribuindo às atividades espontâneas a mesma importância e seriedade que caracterizam o ensino primário, onde a criança começa a ter “tarefas” a cumprir. A escola atribui um peso proporcionalmente maior à função de acomodação da inteligência, não

Joana Abreu é atriz, educadora, mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Brasília, professora da licenciatura em Artes Cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e professora autora da disciplina Estágio Supervisionado em Artes Cênicas 1, na UAB/UnB.
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Para maiores informações sobre as proposições de Japiassu, ler o texto do capítulo mencionado, que está disponível na pasta de leituras complementares da semana 5 da disciplina ESAC1.

porque. reduzindo assim o acúmulo de conteúdos e a pressão do vestibular – incluem a disciplina de artes cênicas. a impressão que se tem é a de um retrocesso [. No Nordeste. 55% (Pnad. apenas 34% dos adolescentes de 15 a 17 anos freqüentam o Ensino Médio. 82. o que dizer da presença do teatro-educação nesse seguimento do ensino? Embora o MEC não disponibilize dados estatísticos a respeito. No entanto. estadual ou municipal. Se essa é a situação do Ensino Médio de um modo geral. de acordo com a Pnad. 36% dos meninos e meninas de 15 a 17 anos cursam o Ensino Médio.1% dos adolescentes entre 15 e 17 anos. A realidade do Ensino Médio nas várias regiões do país apresenta uma enorme diversidade. No Norte.] A atividade artística é periférica ao sistema escolar e lhe é atribuída a característica de “recreação”. mas também ao tipo de realidades que é possível encontrar em cada região dentro do próprio Ensino Médio. essa é uma situação isolada. se a política educacional do estado ou município está ligada ao partido político A ou B.8% e. no Brasil. a disciplina Teatro.unicef. 2007 in www.org). A média nacional. 44% desses adolescentes ainda não concluíram o Ensino Fundamental e apenas 48% cursam o Ensino Médio dentro da faixa etária adequada para esse nível. Entretanto.] (Koudela. desde 1995. segundo uma análise da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). ao contrário. quando não é submetida a exercícios de coordenação motora[. não somente em relação aos dados estatísticos de freqüência escolar. pensemos agora na situação da maior parte das salas de aula no Ensino Médio brasileiro. Em primeiro lugar. dentro de sua grade curricular. esse percentual fica em 58.. Na Região Sudeste.conferindo a mesma dimensão à assimilação. freqüentam a escola. Esse número cresce um pouco nas grandes capitais. se está localizada em zona urbana ou rural. é importante considerar que. 1984. no Sul. na expressão artística.. ao longo de todo o Ensino Médio. feita pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2007. . O que se vê com freqüência é que enquanto as funções intelectuais têm um progresso contínuo. sabemos que são pouquíssimas as escolas de Ensino Médio que oferecem. A situação da escola varia de acordo com fatores como se é rede federal.. é de 48%. Em Brasília (DF). as provas de avaliação do PAS – que são realizadas anualmente pelos alunos. 29). Isso se deu. a aprovação da resolução que instituiu o PAS (Programa de Avaliação Seriada) para ingresso dos alunos na Universidade de Brasília modificou um pouco esse panorama. Considerando tudo isso. Isso fez com que as escolas de Ensino Médio da cidade tivessem que inserir essa disciplina em seus currículos. se é pública ou privada.. e assim por diante.

em grande maioria. Essa criação de espaço abrange desde negociações relacionadas ao tempo de aula e às instalações em que essa será ministrada. Justamente pelo mencionado . Tudo isso se dá. lutando contra cadeiras. Além de negociar com a direção/coordenação da escola e com a equipe de professores. se essa lacuna fosse. filosofia etc. mesas. uma situação como essa seja o primeiro contato de vários alunos com a linguagem teatral. pelo menos em parte. ou ainda o estabelecimento de relações e parcerias com os outros sujeitos do contexto escolar. Em nossas escolas. 50 minutos). os alunos têm acesso à produção teatral. a grande maioria delas não dispõe de instalações adequadas para o ensino de teatro. parte dela se foi nesse ‘aquecimento’ de preparação do espaço de trabalho. consideremos a exceção. o professor de teatro terá melhores resultados se conseguir estabelecer comunicação também com os pais dos alunos. Tomemos como referência para nossa reflexão o pequeno grupo de escolas que oferecem a disciplina de teatro no Ensino Médio. As aulas são. em grande parte. suprida pela escola. Uma vez que. não só não oferecemos a disciplina teatro para os alunos. raramente. um número reduzido de escolas que oferecem essa disciplina em nosso país. chão sujo que dificulta qualquer proposta de trabalho corporal. o professor de teatro e seus alunos terão. teríamos uma situação diferente. Ainda que ofereça a disciplina. português. ministradas nas próprias salas de aula das outras disciplinas ou no pátio da escola. pela desvalorização da educação nas áreas de artes. Preocupamo-nos pouquíssimo com o desenvolvimento artístico de nossos cidadãos. Embora. Como a aula de teatro tem a mesma duração que as outras aulas (às vezes 45. nós professores. está muito longe de ser um estudo de teatro. muitas vezes. entre outros detalhes. Em alguns casos. Nelas. Esse último exemplo talvez simbolize uma necessidade um pouco mais ampla que se apresenta ao professor de teatro no contexto do Ensino Médio. como não criamos oportunidades para que esses mesmos alunos assistam obras teatrais. de modo geral. como bem mencionou a professora Ingrid Koudela. investimos pouco em nossas próprias oportunidades de apreciar e produzir arte. encontramos professores de outras disciplinas que utilizam o teatro como estratégia metodológica para trabalhar conteúdos de história. A necessidade de criar espaços para sua disciplina. não raro. Mais ainda. antes de tudo que ‘escavar’ seu espaço. em seus contextos familiares e comunitários. Entretanto.havendo. até o equilíbrio entre aulas teóricas e práticas.

No caso do teatro. veremos que: No dia a dia. uma parte mais ampla da comunidade escolar. Dificilmente um professor chega a um escola impondo mudanças na estrutura. a disposição para esses ajustes. Se voltarmos às reflexões de Japiassu. agrava essa situação. cada turma e. dentro de suas possibilidades. emocionais e sociais. a adolescência tem suas características próprias. abrangendo. a consciência que o adolescente desenvolve do próprio corpo. a 50 adolescentes e jovens. Usamos a comunicação corporal. Tanto no faz-de-conta como nos jogos teatrais e. inclusive ao pronunciarmos as palavras. um semestre ou mesmo um ano para que os primeiros frutos possam ser colhidos. Um professor cuidadoso está aberto a essas adaptações independente da disciplina que ministra. sabemos que. o fato de haver a pressão do vestibular ou da inserção no mercado de trabalho. de cada um de nossos alunos para que nosso trabalho seja efetivo. o trabalho de educação no e para o teatro que o professor propõe na escola será mais eficiente à medida que for inclusivo. é comum os pais considerarem esse tempo extra dedicado ao teatro como um ‘prejuízo’ para os estudos das outras disciplinas. por exemplo. talvez se apresente mais fortemente. Além disso. as turmas do Ensino Médio têm um número grande de alunos. Devido a essas mudanças. No Ensino Médio. em relação ao que está sendo desenvolvido pelo professor. muitas vezes. como cada etapa do desenvolvimento do ser humano. por parte da comunidade escolar. sem ter que fazer concessões que prejudiquem a integridade da proposta de ensino. os vínculos que estabelece dentro de seu grupo de amigos na escola e o papel que desempenha nesse grupo assumem enorme importância. É importante considerar ainda que. numa situação em que atividades com a disciplina de teatro demandem tempo extra-classe dos alunos. Ou seja. cada escola. em alguns casos. . nós nos comunicamos usando variados gestos. Sabemos que. em última instância. Dar aula de teatro no ensino formal no Brasil ainda é um exercício de abertura de caminhos. que incluem intensas mudanças físicas. em nossas trajetórias como educadores. desde que se estabeleça confiança. chegando. múltiplos olhares e produzindo diferentes sons e entonações. Essa possibilidade vem com o tempo e o trabalho. sempre teremos que nos adaptar e adaptar nossas propostas à realidade de cada comunidade. Isso significa que a atuação desse professor talvez precise de mais de um bimestre.desconhecimento da linguagem teatral pela comunidade escolar e pela falta de consciência da importância das áreas artísticas na educação.

de onde eles podem ‘ver’ (fruir e apreciar) ações corporais – que uma pessoa recorre ao uso da comunicação corporal ou cênica para se relacionar interativamente com seus interlocutores no cotidiano” (Idem. que se despreze a comunicação verbal (pelas palavras). imagine então o receio diante da situação de estar intencionalmente exposto aos olhos de todo o seu grupo! Aos poucos.ainda. à medida que aprofundam seu conhecimento da linguagem teatral. Os pontos mencionados acima. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais. são somente algumas possibilidades presentes no trabalho com teatro no Ensino Médio. Um exemplo . a experiência teatral pressupõe relação com o outro e ampliação da compreensão dos papéis desempenhados por cada sujeito envolvido. pode surgir resistência até para tirar os sapatos para uma atividade. Pensando nisso. Essa oportunidade de vivência das negociações de grupo e de experimentação de papéis e pontos de vista vai ao encontro de alguns questionamentos da própria adolescência. ainda segundo Japiassu. Isso implica. por natureza. Por outro lado. Existem outras que não se esgotariam neste pequeno artigo. cujo significado é ‘lugar de onde se vê’. talvez possamos considerar os benefícios de um trabalho abrangente com a teatralidade no Ensino Médio no que diz respeito à consciência corporal dos alunos. a partir das colocações feitas por Ricardo Japiassu. do ponto de vista que interessa aqui. 2007. A abordagem do professor em relação a essa ampliação da consciência corporal terá que se construir a partir da sensibilidade da escuta ao aluno. também nos relacionamos pela comunicação corporal. o professor terá que compreender e propor caminhos cuidadosos para o aprofundamento do trabalho. 95). sabemos que “teatro (theátron) é uma palavra também de origem grega. Se. mas isso não quer dizer. “por ter em mente o theátron – o lugar ocupado por prováveis observadores. (Japiassu. a teatralidade se insere. Esse é o modo de comunicação mais usado nas manifestações espetaculares e teatrais. no campo da comunicação corporal. 96). na representação teatral de aspecto cênico invariante (nos espetáculos teatrais propriamente ditos). por si só. sejam elas cotidianas ou extracotidianas. entendermos a teatralidade como espetacularidade tipicamente humana – uma espetacularidade que se oferece deliberadamente (intencionalmente) à fruição e à apreciação estéticas (sensoriais)” (Idem. O autor ressalta ainda o fato de que A comunicação corporal ou cênica recorre às muitas possibilidades expressivas de nossos corpos. ibidem. de maneira alguma. É. De onde podemos refletir que. os grupos de adolescentes se mostrem bastante receptivos às propostas das aulas. em alguns grupos. 93) Ou seja.

é a escassez ou inexistência de oportunidades para que os alunos exerçam a fruição e a apreciação estéticas2. 2 Para Ricardo Japiassu. Esse recurso varia de cidade para cidade e de região para região. para que essas possibilidades se concretizem. 2007. zambiapunga e tantas outras expressões cênicas populares” (Japiassu. mas pode ser mais acessível que o teatro no sentido comumente utilizado para a palavra de ‘peça teatral’. a sugestão. Outro exemplo ainda é o fato de a arte ser um caminho de expressão do discurso de quem cria e. Certamente. 2007. marujada. Além do que foi levantado acima. não se desconsidere a teatralidade dos grupos ‘folclóricos’ de terno-de-reis. os desafios para o professor não são poucos. “A fruição deve ser entendida como atividade prazerosa de interação do sujeito com diferentes manifestações espetaculares. feita por Japiassu. considerando sempre o contexto e a história de sua comunidade escolar e da comunidade em que esta se insere. o espaço para a criatividade na escola diminui de forma proporcional ao aumento da faixa etária dos alunos. A valiosa recomendação do autor é que “ao serem focalizadas as manifestações teatrais extracotidianas. que ainda não foi suficientemente mencionado no âmbito deste trabalho. Além da busca de soluções para ampliar o acesso dos alunos a performances e montagens teatrais. 94). cabe a cada professor de teatro no Ensino Médio descobrir os caminhos e conquistas de sua disciplina. .108). já a apreciação refere-se à apercepção. Um deles. cavalhada. constituir-se em lugar para debater e questionar pontos da vida e da sociedade considerados importantes pelos adolescentes e que contribuirão para sua maneira de atuar no mundo. de ampliação da noção de teatralidade a partir das manifestações da cultura popular vem a calhar como mais um recurso para o acesso dos alunos ao fenômeno do espetáculo. sendo assim.disso é a oportunidade de que os alunos restabeleçam um espaço de criação dentro da escola. à atividade metacognitiva (reflexiva) do sujeito sobre suas percepções (atuais e/ou recordadas e/ou imaginadas)” (Japiassu. ou seja. algo que se apóia exclusivamente na percepção atualizada (instantânea) dos fenômenos observados/vivenciados. principalmente considerando que em nosso sistema educacional. indispensáveis no processo de capacitação em artes.

http://www. docência e prática pedagógica.org/brazil/pt/media_14931. 1984. Jogos teatrais. Koudela.htm . A linguagem Teatral na Escola: pesquisa. Ingrid Dormien. Ricardo. 2007. Campinas: Papirus Editora. São Paulo: Perspectiva.unicef.Referências Bibliográficas e sites consultados Japiassu.

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