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O poder da fotografia na história

O poder da fotografia na história

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Published by: mari152 on Nov 23, 2010
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Introdução

O objetivo deste trabalho é lançar um olhar diferente sobre uma fonte primária a partir da discussão entre fotografia e História. A fonte escolhida foi uma fotografia, ganhadora do prêmio Pulitzer em 1993, tirada por Kevin Carter, fotógrafo sul-africano, durante sua passagem pelo Sudão. Buscou-se relacionar um breve histórico sobre a biografia de Kevin Carter e o regime político vigente à época da foto com a discussão sobre real e verossímil dentro do contexto Fotografia-História. A questão orientadora do trabalho foca responder às seguintes perguntas em relação a fonte escolhida: a fotografia traz em si a realidade do instante? Caso não, por que o real não se mostra como essência?

(BURKE. O fotógrafo faz um recorte buscando dizer algo. no sentido de dar valores. fundamentar pensamentos e sustentar idéias. mais exatamente a de tomar uma imagem pela realidade. a fotografia incita muitas perguntas a respeito do que apresenta. Será essa uma boa definição para a fotografia dentro da sua relação com a história? Dentro da discussão sobre a colaboração da fotografia para o trabalho historiográfico. Aparentemente objetivo. foram criadas infinitos retratos da vida através de cliques. simultaneamente retratando e questionando a realidade e nesse embate muitas vezes a própria foto revela suas respostas. As tentações do realismo. Problema: como a pessoas recebem a imagem como fidedigno. A fotografia não representa o real. O impacto que a fotografia produzirá depende do contexto histórico a que ela pertença. este meio de comunicação é muito complexo. e nesse universo da fotografia. são particularmente sedutoras no que se refere a fotografias e retratos. A função ideológica das imagens nos leva a pensar que estas não podem ser vistas como a realidade “nua e crua”. Por quê? Se envolve pessoas. muito possivelmente a fotografia foi o que mais provocou debates históricos. geralmente chega-se a questão sobre até que ponto deve um historiador confiar em sua fonte. que surge de algo já existente e modifica a existência disso. O real é a própria espontaneidade. O fotógrafo seleciona um certo fragmento da realidade pois tem consciência que aquilo provoca. utilizada para divulgar ideologias.História e Fotografia Um meio pelo qual se possa destacar historicamente um momento. o que cria a si mesmo. (SILVA. quem garante que isso será compreendido. A sabedoria popular diz que uma imagem é capaz de expressar mais de mil palavras. entre tantos outros dispositivos da fotografia. contexto. . as palavras que a imagem dita são passíveis de escolha. mas antes como uma produção de sentido normativo por parte dos autores. EDLENE 2010) Entre tantos meios de comunicação. Como meio significativo de poder ao longo da história. De fotos românticas a cenas de guerra. Ela é uma construção iconográfica. aflora toda a sua complexidade. Uma imagem. A objetividade se apresenta no recorte do mundo em um dado momento e a escolha do ângulo. a fotografia é um meio de avaliar a situação. cena. PETER 2004) Necessária como registro. além de equivaler a palavras. como reflexo neutro do real. Diferindo-se da fotografia.

observa um acontecimento. interferem na criação da imagem fotográfica. EDLENE) Essa arquitetura da imagem não pode ser considerada a própria história. apresentada pelos primeiros fotógrafos. O retrato deve ser visto além do seu objetivo inicial: recorte da realidade. Existe uma relação de pertencimento entre um e outro. é uma definição plausível. Um dos papéis do historiador é sempre buscar criticar as fontes e evitar o hábito de ver um retrato como representação exata de um momento específico. foco e movimento. linhas. era sustentada pelo argumento de que os próprios objetos deixam vestígios na chapa fotográfica quando ela é exposta à luz. encontramos imagens que formam sentidos e criam significados. mas a fotografia transcende esse conceito. esquecendo-se de que como todo documento histórico é uma construção de uma certa realidade ou temporalidade.também as constitui. a intensidade. luz. a luz. A foto e o fotógrafo não são elementos destacados de seu tempo. conhecer fatos por imagens. buscando a verdade de um momento observando-o é um exercício extremamente tentador. seja vista como uma cópia perfeita do real. como conjunto de atores em um contexto. A idéia de objetividade. Fisicamente. (SILVA. pois a fotografia é uma montagem. textura. Vivemos em uma sociedade visual com intensas transformações tecnológicas na qual uma avalanche de imagens tem atravessado o espaço social e onde o espetáculo exerce uma influência considerável nas relações sociais. O tipo de ângulo. analisada sob todas as suas características. uma realidade constituída de escolhas do profissional que recorta um dado instante. Essa análise traz uma realidade construída pela fotografia. PETER 2004) A individualidade de cada foto ilustra a perspectiva do indivíduo que a construiu. EDLENE) . como registro mecânico da realidade. há um complexo humano e social que a constitui. Por todos lugares que andamos. O retrato é um resultado de um conjunto de escolhas feitas por um indivíduo. Apesar da aparente impessoalidade que a máquina fotográfica transparece. a cor. pode ser muito útil para se entender com que olhar a história. Ela pertence a um contexto socialmente construído.(SILVA. todavia não se deve cair na armadilha de acreditar somente naquilo que a fotografia mostra. O que é uma fotografia? Um documento composto por planos. faz com que a fotografia. formas. perspectiva. de tal forma que a imagem resultante não é o trabalho de mãos humanas . muitas vezes. A fotografia. mas sim do lápis da natureza (BURKE. desenhos. não apenas textos. O caráter único do encontro entre fotógrafo e fotografado. Não há maneira de realizar uma separação objetiva entre fotógrafo e fotografia. forma. de filme.

até ao seu fim político. na língua local seria algo como “aquele que ama negros”. Carter entrou na faculdade de farmácia. Aos 20 anos. sobreviveu à explosão de uma bomba em Pretória. Quatro desses profissionais ganharam destaque e formaram o Clube do Bangue-Bangue. Retornou ao exército e antes de completar seu exercício. . Greg Marinovich e Ken Oosterbroek e João Silva.Kevin Carter. o CNA (Congresso Nacional Africano) foi fechado na África do Sul. As fotos desse grupo correram o mundo e chamaram a atenção para a grave situação política que assolava a África do Sul. Carter encontrou emprego em uma loja de câmeras. Carter foi espancado por soldados pró-apartheid que o chamaram de kaffir-boetie. Carter mostrou-se um rapaz que discordava da opinião de sua família e do governo. mas logo foi demitido pois tentou se suicidar. apoiado por jornais locais e agências internacionais começou a fazer expedições às áreas de maior conflito de Joanesburgo. Já desligado do exército. o principal líder do partido foi preso. o Joanesburgo Express. com toda suas atrocidades. Em 1962. um grupo de fotógrafos brancos. Apartheid e o Clube do Bangue-Bangue Carter nasceu em 13 de setembro de 1960 em um subúrbio de Joanesburgo. Neste mesmo ano. Após terminar o colegial. fez apenas um ano e então saiu. Em 1984. assumiu a identidade falsa de David e começou a trabalhar como DJ (Disk Jockey). Nelson Mandela. onde teve o seu primeiro contato direto com o regime Ao tentar defender um garçom negro. Então aproveitou o horário fora da loja cobrindo jogos esportivos para o jornal de Joanesburgo. pois havia sido convocado para a Força de Defesa Sul Africana. Carter largou o exército. este último português. Carter presenciou um período que vai desde o auge do apartheid. Filho de pais Católicos Romanos. foram eles: os sul-africanos Kevin Carter.

Quatorze meses após esse retrato. deitada no chão de terra e mato seco e um abutre ao fundo aparentemente observando a criança. que escolhe aquilo que revelará sobre sua memória. fotografia y memoria. a fotografia causou grande comoção. A foto não permite fazer uma correspondência direta entre memória e fotografia. Kevin Carter fotografou uma situação. o abutre e o fotógrafo. O que se tem desse contexto é que não há como saber de fato o que se passou com a criança. O que de fato aconteceu pertence a uma dimensão distinta daquilo que se mostra no retrato. Os relatos do fotógrafo sobre o que aconteceu antes e depois da foto são discursos pertencentes a um indivíduo. do olhar do abutre aparentemente a espera da morte daquele ser humano. como uma espécie de realidade inventada. pois não é revelado ao espectador da foto.. . São especulações sobre uma situação. em 1994.A foto Em sua passagem pelo Sudão. tienen como objeto principal el almanecar algun tipo de esencia inmaterial. Em outra versão disse que aguardou vinte minutos. Essa é uma descrição simples e impessoal da foto. devido ao estado de aparente desnutrição da criança. os relatos de Carter sobre o momento da foto se mostram controversos. O que foi revelado ao público sobre os acontecimentos antes e depois da foto não pode ser considerado real. Em uma versão ele diz se mostrar tocado pela situação e questionar seu dever de ir ajudar a criança. Na época em que foi divulgada pelo jornal The New York Times. O Clube do Bangue-Bangue – Instantâneos de uma guerra oculta. A foto traz uma criança negra e magra. o fotógrafo suicidou-se. la fotografia realiza uma operación similar a la de la memória cuando fija algo tan frágil como um percepto. O jornal recebeu várias correspondências perguntando sobre o que havia acontecido com a criança e qual tinha sido a posição do fotógrafo em relação àquela situação. Ambas.al materializar algo tan inmaterial como la imagen de la cámara. instatánea y volátil. Deixou uma carta na qual mostra-se extremamente perturbado com as imagens dos anos em que passou fotografando cenas de guerra e fome na África. não conseguindo isso tirou a foto e sentou-se embaixo de uma árvore. Kevin Carter recebeu o prêmio Pulitzer por melhor foto jornalística. No livro. (tantos) meses após receber o prêmio.. . esperando o abutre abrir as asas.

Conclusão .

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