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Cubo Mágico

Eu quero processar Rubik, o inventor Em termos de maneiras de exercitar a mente, o


do Cubo Mágico. Porque, contrariando nosso bom velho Cubo de Rubik é muito mais
todas as expectativas que o mundo interessante que estas modernices do Sudoku –
tinha na era de glória do cubo, a nossa a começar pelo facto de ser muito mais bonito.
geração não é assim tão genial como Um Cubo Mágico dava estilo ao seu proprietário.
seria de esperar. E devíamos ser génios, Podia ser quase usado como acessório de moda.
caraças. Já pensaram no tempo que Embora, nos anos 80, quase tudo pudesse ser
gastámos a exercitar os neurónios com usado como acessório de moda – com resulta-
aquela traquitana? “Olha para este lado, dos francamente assustadores, em boa parte dos
está quase feito! Mas agora, para fazer casos.
aquele, já desfiz este! AAAAAH!”
Eu tinha o Cubo Mágico, mas só para me armar.
Muito exercitámos os neurónios com o Porque nunca fui capaz de resolver aquilo, lamento
Cubo Mágico naquela altura. Então porque dizê-lo. E tentei. Deus sabe como tentei. À minha
é que eu continuo a não saber fazer volta, mais e mais pessoas conseguiam resolver
decentemente uma mera conta de dividir? o Cubo, cada vez mais depressa – incluindo
aquele que era considerado o rapaz mais burro
O Cubo Mágico estava em todo o lado, da minha turma.
nos anos 80. Foi inventado pelo húngaro
Erno Rubik em 1974, possui 43 quintil- Penso que ainda hoje a resolução do Cubo
iões de combinações diferentes e rezam Mágico se mantém como o maior feito da vida
os estudos sobre este fascinante pedaço daquele indivíduo, já que ele sabia fazer o Cubo
de plástico que adiou a vida sexual a Mágico mas depois fazia perguntas do género:
tanta gente que se alguém pudesse “Como é que os senhores do Telejornal cabem na
realizar todas as combinações possíveis televisão? Onde é que eles metem as pernas?”
a uma velocidade de 10 por segundo,
demoraria 136 mil anos. Isto é o que
eu chamo informação útil – sobretudo
quando se é solteiro e sem perspectivas
de ser mais do que isso nos próximos,
vamos cá ver, 136 mil anos.

Convém dizer que o próprio inventor


do Cubo, Rubik, demorou um mês para
o resolver, quando jogou com ele pela
primeira vez. Isto também é um pedaço
de informação fascinante – é quase
como pensar que o Manoel de Oliveira
dormiu durante a projecção do Non ou a “Olha para este lado, está quase feito! 20
Mas agora, para fazer aquele, já desfiz este! AAAAAH!”
Vã Glória de Mandar.

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Felizmente, quando acabou a moda do Cubo que troca a namorada pelo Cubo Mágico,
Mágico e começou a moda do Ioiô Russell – de negando-lhe carinhos e descurando as
que falarei aqui num futuro cromo – este rapaz necessidades físicas e afectivas da ra-
confirmou que o caso do Cubo Mágico foi, de pariga. Ora isto torna bastante evidente
facto, um acidente, já que várias vezes ele acer- porque é que Lara Li, depois destes
tava com o famoso IoIô da Coca-Cola, com toda a trágicos acontecimentos, nunca mais
força, na própria testa. foi vista na companhia de homens. Daí
que o que parecia uma canção de co-
Mas eram uns tempos inquietantes. Era como se média se revista, passados todos estes
cada vez mais pessoas à minha volta percebessem anos, de todo um outro significado,
o Sentido da Vida e eu continuasse no escuro. consagrando-se como o mais incrível
grito de alerta para os passatempos
À conta do Cubo Mágico, dei muito dinheiro a que nos afastam das nossas cônjuges.
ganhar a muita gente, na altura. Porque não só
tive vários cubos mágicos diferentes – na vã es- Lembrem-se da Lara Li.
perança de que uns fossem mais fáceis de re-
solver do que os outros – como ainda fui na moda
dos livros sobre como fazer o Cubo Mágico. Livros
que, em alguns casos, chegavam a ser mais difí-
ceis de perceber do que o próprio cubo, mas que
certamente serviram para que muito indivíduo
sem qualquer talento e com demasiado tempo
nas mãos conseguisse ter uma casa com piscina.

Dei ainda dinheiro a uma empresa de autocolantes


que lançou quadradinhos coloridos autocolantes
para resolução rápida do Cubo, em caso de de-
sespero extremo – era só forrar cada face do
Cubo com autocolantes de uma cor diferente. E,
por fim, dei ainda dinheiro à cantora Lara Li, ad-
quirindo aquela que me parece ter sido a única
canção pop – e falo mesmo a nível mundial – so-
bre o Cubo Mágico.

O Rapaz do Cubo Mágico, uma das canções me-


nos sérias de Lara Li, longe do lirismo e serena
poesia de clássicos como “Telepatia”, era, no
fim de contas, muito mais séria do que na altura
parecia. A letra fala de um fenómeno clássico da
altura, e conheci alguns casos assim: um homem

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