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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO Luiz Albuquerque* ÍNDICE Pág.

1. INTRODUÇÃO 2. ORIGEM E EVOLUÇÃO DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 3. OS PRINCIPAIS TEMAS E PROBLEMAS DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 3.1 Análise de Impacto Econômico 3.2 Análise Econômica Normativa 3.3 Análise Econômica Explicativa. 4. NOÇÕES BÁSICAS DE ECONOMIA APLICADA AO DIREITO 4.1 Economia e Análise Econômica do Direito 4.2 Conceitos básicos 4.2.1 Economia 4.2.2 Microeconomia 4.2.3 Macroeconomia 4.2.4 Recursos ou fatores de produção 4.2.5 Bens 4.2.6 Serviços 4.2.7 Eficiência 4.2.8 Custo de oportunidade 4.2.9 Mercado 4.2.10 Curva de Demanda 4.2.11 Curva de Oferta 4.2.12 Preço de Equilíbrio e Mecanismo de Mercado 4.2.13 Intervenção do governo 4.2.14 “Mão Invisível” 4.2.15 Liberalismo Econômico 4.2.16 Pressupostos do Liberalismo. 4.2.17 Falhas de mercado: Condições para intervenção do Estado 4.3 Conclusões acerca da fundamentação econômica 5. APLICAÇÕES PRÁTICAS DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 5.1 Aplicações genéricas da Análise Econômica do Direito 5.2 Critérios específicos: Riscos, incentivos e custos de transação 5.2.1 Incentivos 5.2.2 Riscos 5.2.3 Custos de Transação 5.3 Aplicação dos critérios específicos em estudo de casos: O arrendamento chinês (sharecropping) 5.3.1 Incentivos 5.3.2 Custos Transacionais 5.3.3 Riscos 5.3.4 Conclusões 5.3.5 Novas aplicações 5.4 Análise Econômica da Regulação 5.4.1 Regulação por Interesse Público 5.4.2 Regulação por Interesse Privado (Public ChoiceTheory) 5.5 Análise Econômica do Mercado de Ações 5.5.1 Análise Comparativa 5.5.2 Controle Concentrado e Difuso 5.5.3 Custos e conflitos da separação entre controle e propriedade (acionista e administrador) 5.5.4 Conclusões sobre o mercado de ações 6. Aplicações Indevidas da Análise Econômica do Direito 7. Auto- crítica da Análise Econômica do Direito 8. BIBLIOGRAFIA 02 03 06 06 07 10 11 11 12 13 13 14 14 14 15 15 15 15 16 16 17 18 18 19 19 20 23 24 24 30 30 32 34 35 36 37 37 37 38 38 39 40 44 44 45 45 46 47 48 49

José Luiz Singi Albuquerque é mestre em Análise Econômica do Direito (Law & Economics) pela Universidade de Utrecht, Holanda; professor de Direito Internacional Público e Privado da Universidade Federal de Ouro Preto; professor de Direito Econômico da Faculdade Mineira de Direito (PUC – Minas, Unidade Coração Eucarístico) em 2005; professor de Direito Internacional Econômico e Direito Internacional Público da Faculdade de Direito Milton Campos; consultor em Direito do comércio internacional e em projetos de articulação interinstitucional. E-mail: albuquerque.int@adv.oabmg.org.br

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Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Ms. Luiz Albuquerque 1. INTRODUÇÃO

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A utilização da Análise Econômica do Direito, enquanto forma complementar de compreensão do fenômeno jurídico, tem crescido substancialmente na Academia brasileira especialmente em virtude do crescente número de mestres e doutores que obtiveram sua titulação no exterior – particularmente nos Estados Unidos e na Europa – e depois vieram multiplicar este conhecimento junto aos estudantes brasileiros. Contudo, a disseminação destas novas idéias em nível de graduação é ainda bastante dificultada pela lacuna existente sobre o tema na literatura em língua portuguesa.1 Neste sentido, o presente artigo foi concebido para servir de texto-base de apoio às aulas, sem pretender trazer maiores aprofundamentos ou novas contribuições à doutrina.2 Objetiva-se aqui apenas a popularização entre os estudantes de graduação de um assunto que, apesar de ainda obscuro no Brasil, já recebeu cinco prêmios Nobel e já se encontra aplicado de maneira difusa em vários institutos do direito brasileiro e do direito internacional. Este trabalho é carinhosamente dedicado aos meus alunos na PUC – Coração Eucarístico. O artigo será dividido em seis partes, a saber: 1º.) apresentação geral do tema e dos principais autores envolvidos nesta linha de investigação; 2º.) introdução aos objetos de estudo da Análise Econômica do Direito; 3º.) revisão de alguns conceitos básicos das ciências econômicas; 4º.) aplicação da teoria ao estudo de casos concretos relacionados a contratos, regulação, mercado de ações e exemplos de aplicações que antagonizam o direito e a economia; 5º.) reconhecimento das limitações epistemológicas da Análise Econômica do Direito e, por fim , 6º.) conclusões gerais sobre a utilidade da matéria.
A lacuna que se discute aqui não se refere à falta de artigos científicos que utilizam a Análise Econômica do Direito como marco teórico, e sim de carência de textos didáticos voltados para a introdução deste tema para estudantes de graduação. 2 Este artigo é carinhosamente dedicado a todos os meus alunos, particularmente aos que me estimularam a escrever.
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Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Ms. Luiz Albuquerque 2. ORIGEM E EVOLUÇÃO DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO

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O direito e a economia interagem de diversas maneiras na organização da vida em sociedade. O direito influencia o funcionamento da economia, e a economia influencia a criação e aplicação do direito. Sendo mais preciso: algumas normas influenciam certos desdobramentos econômicos, e alguns fenômenos econômicos influenciam a criação e aplicação de determinadas normas. Esta constatação parece um tanto quanto óbvia. No entanto, não é óbvia qual seria, exatamente, esta tal “influência” (o que?); nem tampouco a maneira pela qual um influenciaria o outro (como?); nem muito menos as razões pelas quais esta influência ocorreria (por que?). Diferentes normas têm diferentes efeitos sobre a economia. Entretanto, estes efeitos econômicos não são facilmente percebidos pelo jurista. Por outro lado, as relações econômicas se desenvolvem dentro de parâmetros normativos que, por sua vez não são tão evidentes ao economista. Parece, então, ser necessário dominar estes dois campos do conhecimento para arriscarmos qualquer tipo de resposta a estas questões. Contudo, a relação entre estas duas matérias parece ser tão ampla e complexa que as tentativas de proceder a uma análise criteriosa e sistemática sobre estas interfaces sempre tende a esbarrar em problemas metodológicas. Mas estas dificuldades não impediram que Ronald Coase3 e Richard Posner4 (Universidade de Chicago) e Guido Calabresi (Universidade de Yale) rompessem as barreiras paradigmáticas entre Direito e Economia nas décadas de 1960 e 1970 lançando as

Os doutrinadores são unânimes em considerar que o ponto de partida da Análise Econômica do Direito foi a publicação do artigo “The problem of social cost”em 1960. 4 Richard Posner Publicou em 1972 o livro “Economic Analysis of Law” que foi o primeiro com uma abordagem generalista sobre o tema. Este livro teve o mérito de popularizar a matéria dentro e fora dos Estados Unidos. No Brasil, Posner talvez seja o único autor conhecido fora dos círculos de Direito Econômico. Infelizmente, pouco ou nada se conhece da extensa obra em Análise Econômica do Direito que foi produzida desde então.

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Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Ms. Luiz Albuquerque sementes do que viria a se transformar nos “jardins” da Análise Econômica do Direito. A qualidade dos trabalhos de Posner e Calabresi extrapolaram o circuito universitário quando ambos se tornaram influentes juízes nos Estados Unidos. A partir de então, a Análise Econômica do Direito, ou “Law and Economics” como ficou conhecida, passou a ser frequentemente aplicada pelo Poder Judiciário na solução de conflitos de natureza econômica e comercial. Também no Executivo e Legislativo tornou-se imperioso compreender que tipo de impacto econômico teriam as normas que estavam sendo criadas. Isto tudo popularizou a Análise Econômica do Direito na criação e aplicação do direito. No mundo acadêmico, a herança intelectual deixada por eles foi sabiamente aproveitada por inúmeros pensadores que perceberam a fertilidade deste casamento entre Direito e Economia e aplicaram este insight nos mais variados campos do conhecimento, transcendendo assim os limites destas duas disciplinas. A fim de ilustrar a importância e o reconhecimento desta nova abordagem, lembremos de alguns ganhadores do “Prêmio Nobel em Economia”5 que trabalharam direta ou indiretamente, com Análise Econômica do Direito:6 ▪ 1982 – George Stigler: pelos estudos sobre estruturas industriais, funcionamento de mercados e causas e conseqüências da regulamentação estatal; ▪ 1986 – James Buchanan: pelos estudos sobre as bases contratuais e constitucionais das teorias econômicas e políticas sobre os processos de tomada de decisão (Public Choice Theory) ; ▪ 1991 – Ronald Coase: pelo trabalho na descoberta e no esclarecimento sobre a importância dos custos de transação e direitos de propriedade para a estruturação e funcionamento da economia;

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O famoso Prêmio Nobel foi criado em 1901 por Alfred Nobel para homenagear grandes conquistas no campo da física, química, medicina, literatura e paz. Em 1968, o Sveriges Riksbank (Banco da Suécia) instituiu o Prêmio em Ciências Econômicas, em memória a Alfred Nobel. Note-se que não há Prêmio Nobel em Direito. 6 Disponível em: http://nobelprize.org/economics/laureates/index.html . Acesso em 11 out. 2005

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dentre outras. para o autor. dentre os quais o professor Bruce Ackerman. ambiental e ou mesmo penal. a aplicação de critérios econômicos para avaliação de questões penais. mas também tem ajudado no desenvolvimento de outras disciplinas relacionadas como sociologia e política. Luiz Albuquerque ▪ 1992 – Gary Becker: por ter estendido os domínios da análise microeconômica para vários aspectos do comportamento humano. Para uma visão panorâmica dos diversos temas abordados pela Análise Econômica do Direito recomenda-se enfaticamente uma visita à “Encyclopedia of Law & Economics” disponível no endereço eletrônico: http://encyclo. têm apontado a Análise Econômica do Direito como o desenvolvimento mais importante do ensino do direito no século XX. vários doutrinadores. regulação econômica. comércio internacional. destacam-se as aplicações relacionadas à propriedade. direito societário. inclusive interações não relacionadas ao mercado. Ms. ▪ 2005 – Robert Aumann & Thomas Schelling: pelas pesquisas sobre conflito e cooperação pela perspectiva da Teoria dos Jogos.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.7 Por tudo isto.findlaw. 5 Como se vê.com/ Contudo. 7 . Análise Econômica do Direito tem sido utilizada não apenas em diversos campos do Direito e da Economia. e até tópicos em direito processual. vale ressaltar que. Dentre os vários ramos no direito. responsabilidade civil. merece sérias reservas e só parece merecer consideração em um número reduzido de situações. da Universidade de Yale. contratos.

3. este artigo dividirá – por razões didáticas – aquelas questões em algumas perguntas-problemas. etc.1 Análise de Impacto Econômico Qual seria o tipo de influência que uma determinada norma poderia ter sobre o comportamento dos agentes econômicos? Como uma norma influenciaria o funcionamento da economia? Em outras palavras. . etc. Ms. cultural. a palavra “contexto” deve ser considerada incorporando simultaneamente a perspectiva histórica. Neste mesmo sentido. o objetivo aqui é justamente o de familiarizar o leitor com os temas enfrentados pela Análise Econômica do Direito em suas diferentes ramificações. qual seria o efeito econômico de uma determinada norma sobre um determinado contexto econômico? É importante esclarecer desde o início que quando neste artigo for utilizado o termo “norma”. medida de política econômica. OS PRINCIPAIS TEMAS E PROBLEMAS DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 6 O que se entende por “Análise Econômica do Direito”. na verdade consiste na análise de diferentes aspectos do direito que têm natureza econômica. Luiz Albuquerque 3. jurídica. contrato. Mais do que tentar oferecer respostas. econômica. Retomando aquela introdução sobre as múltiplas relações entre direito e economia. ele deve ser interpretado de maneira ampla enquanto uma manifestação do direito. sentença. e cujas principais linhas de investigação serão levantadas aqui. Por isto “norma” vai ser usada como uma referência genérica que engloba a noção de lei. geográfica.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

2001.2 Análise Econômica Normativa A segunda questão se refere a uma abordagem finalística. p. se haveria pressão inflacionária. Neste contexto perguntar-se-ia: quais seriam as prováveis conseqüências econômicas deste aumento? Poderíamos indagar. p. teleológica. (PINDYCK & RUBINFELD. se isto poderia reduzir a atividade econômica. 6) Ao aplicar uma análise positiva ao estudo de uma determinada norma com o intuito de entender qual seriam as prováveis conseqüências econômicas (efeitos) desta norma (causa). por exemplo. a título de ilustração. 7 3. etc. (DE GEEST. Luiz Albuquerque Em microeconomia entende-se por “Análise Positiva” a apreciação dos fatos que tem por objetivo descrever relações de causa e efeito. Ms. fazemos o que em Análise Econômica do Direito se chama de “Análise de Impacto Econômico” ou “Análise de Efeito”. por um governo que considera a possibilidade de aumentar um imposto incidente sobre combustíveis.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. .8 Este tipo de análise muitas vezes revela que normas acarretam efeitos econômicos colaterais desconhecidos pelos seus criadores e às vezes até conseqüências contrárias aos objetivos pretendidos com tal norma.2) Uma análise de impacto econômico pode ser utilizada. se este aumento seria repassado para outros preços. de maneira a prover explicações e possibilitar previsões de como tendem a se comportar agentes econômicos em determinados contextos. 2001a. pela qual se pretender saber que tipo de norma seria mais adequada para a obtenção de determinados 8 Tradução da expressão em inglês: “Effect Analyses”.

países que negociam um tratado ou qualquer outro processo no qual se cria uma norma com intuito de se atingir certos objetivos. uma vez comparadas diferentes possibilidades. para então defender a escolha que represente a melhor relação custo-benefício. que chamamos de Análise Econômica Normativa. considerando um determinado contexto real dentro do qual se deseja atingir certo objetivo através da criação de uma norma. É claro que nesta 8 O exemplo poderia ser feito com relação a um juiz que emite uma sentença. a análise normativa sugere qual deveria ser escolhida segundo o critério da eficiência econômica.11 serve para se propor a criação de normas eficientes ou a modificação de normas e instituições jurídicas de maneira a torná-las melhores. sob o ponto de vista da eficiência econômica. em tese. características. 11 Tradução da expressão em inglês: “Normative Economic Analyses”. 10 Objetivo social aqui significa uma meta política do governo para com a sociedade que pode ter natureza econômica. 17) Em Análise Econômica do Direito o uso deste tipo de análise. forma. É claro que na tomada de decisões há um juízo de valor que deve levar em consideração este critério juntamente com tantos outros que se relacionam ao tema. Isso implicaria avaliar vários tipos de normas que poderiam. sanções. de várias opções de ação que é seguida da sugestão de se escolher a alternativa mais eficiente de todas. (PINDYCK & RUBINFELD. empresas que celebram um contrato. 9 . Suponhamos que o governo9 tenha um objetivo social10 que ele espera atingir através da edição de uma norma. etc. comparando-as no que diz respeito ao critério do custo econômico. cultural. p. Pergunta-se: qual seria o tipo (conteúdo.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. 2001. Ms. etc. Luiz Albuquerque objetivos econômicos. Ou seja.) de norma que poderia atingir este objetivo de maneira a se obter o máximo benefício e o mínimo custo possível? Em outras palavras. ambiental. atingir o mesmo objetivo social. perguntase: que características deveria ter ou como deveria ser esta norma para que se atingisse tais objetivos de maneira mais economicamente eficiente? Em microeconomia chama-se de “Análise Normativa” a avaliação.

Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Contudo nosso objetivo aqui é apenas despertar o raciocínio do leitor para os custos e benefícios – genericamente considerados – de diferentes modalidades de normas. Pensem em argumentos a favor e contra cada uma das alternativas e depois escolham a que parece ser mais razoável do ponto de vista econômico O que seria mais eficiente: a) aumentar tributos gerais incidentes sobre toda população ou aumentar tributos específicos apenas sobre os potenciais beneficiários das obras? b) destinar estes recursos para que empresas estatais conduzam as obras ou fazer uma licitação e usar os recursos para pagar as empresas privadas que se mostrarem mais eficientes? c) conceder incentivos fiscais para empresas privadas construir com seus próprios recursos?. Ms. mas podem recuperar o investimento através da exploração econômica da obra que seria regulada pelo governo? 9 . Podendo se valer do direito em todas as suas modalidades para atingir seu objetivo. 2001a. d) obrigar empresas privadas a cederem os materiais (desapropriação) os funcionários (recrutamento compulsório) necessários para a construção e usar o poder de coerção do Estado (multas e prisões) para garantir que todas as empresas obedeçam? e) elaborar um esquema de parceria público-privada no qual empresas privadas arcam com as despesas da construção. (DE GEEST. não é possível oferecer uma resposta concreta. como o governo poderia agir de maneira mais eficiente? Como estamos conjeturando em uma situação hipotética sem dispor de números ou valores reais. p.2) Tomemos como exemplo de possível aplicação deste tipo de análise uma situação em que o governo tenha interesse em promover a construção de uma grande obra de infraestrutura. mas careça dos recursos necessários para fazê-lo. Luiz Albuquerque escolha deve-se também levar em consideração outros valores e fatores além da questão econômica.

(DE GEEST. como um modelo simplista usado para ilustrar o tipo de interação que ocorre entre governantes e eleitores no processo político que leva à adoção de leis e de medidas de política econômica. a aplicação mais interessante deste tipo de análise se relaciona às tentativas de se utilizar a lógica do comportamento dos fornecedores e consumidores no mercado. através do direito. a análise econômica normativa trabalha com a perspectiva de sugerir como deveria ser uma norma para que ela possa produzir os resultados esperados de maneira mais eficiente.2) Para o autor deste artigo. E por outro lado. organizar a sociedade de maneira a gerar um melhor aproveitamento dos recursos escassos. p. em geral. Esta linha de raciocínio procura entender como tende a ser o comportamento de agentes legislativos (representantes do governo) que desejam atingir certo objetivo junto ao eleitorado através da edição de normas.12 Acredita-se que muitas vezes o legislador tem. entender como tende a ser o 12 Tradução da expressão em inglês: “Explanatory Economic Analyses” . Luiz Albuquerque 10 Portanto. 2001a. direta ou indireta. 3. Ms. tentaria dar uma explicação “econômica” para certas normas.3 Análise Econômica Explicativa Além de análises positivas e normativas. a Análise Econômica do Direito também se dedica a tentar compreender qual seria a racionalidade econômica por trás de normas já existentes. ou seja. o intuito de tornar o “funcionamento” da sociedade mais eficiente. enquanto a análise de impacto econômico cuida de descrever quais seriam os efeitos de uma norma. Neste sentido a Análise Econômica Explicativa. explicita ou implicitamente o objetivo de.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

Sendo mais específico. 4. Isto significa. acima de tudo. Ms.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Uma vez sabendo quais tendem a ser os verdadeiros custos gerados pelo direito. sugere-se uma reflexão nos termos esboçados acima sobre a maneira como o processo de privatização se deu no Brasil nos anos 1990. pergunta-se: como tendem a se comportar os agentes legislativos que desejam provocar certo efeito no domínio econômico através de medidas de política econômica? E como tendem a se comportar os agentes econômicos que desejam obter dos agentes legislativos a edição de certas medidas de política econômica visando a atender seus interesses privados? Este tema será aprofundado abaixo. NOÇÕES BÁSICAS DE ECONOMIA APLICADA AO DIREITO 4. enxergar os custos e benefícios por trás das normas que nem sempre são tão evidentes aos olhos dos juristas. valores e critérios das ciências econômicas. . mas só para ilustrar com um exemplo uma aplicação desta linha de investigação. Por isto faz-se necessário proceder a uma breve revisão das principais noções de Economia. A idéia central é conseguir interpretar o direito a partir da perspectiva econômica. seria possível trabalhar com normas de maneira a obter a máxima eficiência na alocação de recursos escassos.1 Economia e Análise Econômica do Direito A Análise Econômica do Direito vai obviamente trabalhar com conceitos. Luiz Albuquerque 11 comportamento dos eleitores que desejam provocar a adoção de certas normas por parte do governo.

Na verdade. O critério básico da Análise Econômica do Direito é. Trata-se apenas da apresentação destas idéias tendo em vista tão somente a facilitação da leitura deste artigo. Luiz Albuquerque 12 Neste sentido. portanto. ou de qualquer norma de direito. Normas eficientes seriam aquelas que fazem com que pessoas racionais se comportem de maneira a reduzir custos desnecessários e podendo assim aumentar sua riqueza.2 Conceitos básicos Nesta seção serão apresentados de maneira introdutória e superficial alguns conceitos e noções importantes para uma familiarização com a Economia. a Análise Econômica do Direito vai tentar prever comportamentos prováveis dos diferentes agentes econômicos face a imposição de determinadas normas. e por serem racionais sempre tentam agir de maneira a aumentar sua riqueza adotando condutas que ofereçam a melhor relação custo-benefício. 4. vai-se aplicar a metodologia científica das ciências econômicas para entender melhor quais seriam as prováveis conseqüências econômicas de medidas de política econômica. Contudo.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. em geral. Daí se poderia supor quais tenderiam a ser os resultados concretos de uma norma em um certo contexto. Mais precisamente. e sim a análise das possibilidades de comportamento por pessoas confrontadas com determinadas normas. Ms. não necessariamente de natureza econômica. vale ressaltar que parece ser mais seguro e eficaz não exagerar no alcance desta aplicação e ficar em torno do perímetro de segurança do Direito Econômico. . o do conceito econômico de eficiência na alocação de recursos escassos tendo em vista a maximização da riqueza. A pretensão de querer prever comportamentos se funda no pressuposto segundo o qual as pessoas são racionais. o campo de aplicação desta metodologia não seria limitada a questões econômicas.

Vale-se de simplificações para supor quais seriam os comportamentos dos agentes econômicos. Luiz Albuquerque 13 Para o devido aprofundamento dos temas levantados aqui. microeconomia lida. mas os desejos e as necessidades dos indivíduos não são. p.2. (PINDYCK & RUBINFELD. 5). A perspectiva marxista. a indicada na bibliografia deste artigo. 2002. é bastante diferente da liberal (clássica) ou da keynesiana. Ou seja. confundindo as ciências econômicas com o pensamento liberal. Este conceito é baseado no princípio da escassez. essencialmente. segundo o qual os bens são escassos porque os indivíduos desejam muito mais do que a sociedade pode produzir. por vezes. os desejos não são estáticos. recomenda-se enfaticamente a leitura da literatura econômica especializada. Como a Análise Econômica do Direito se desenvolveu dentro deste marco teórico. trabalhador. 2002. Conforme visto acima. 4. com análise positiva. (TROSTER & MOCHÓN. investidor.2 Microeconomia é a parte da teoria econômica que estuda o comportamento das unidades (consumidor. Supõe-se que nunca haverá recursos suficientes para atender a todos os desejos de todas as pessoas. p. sempre se quer mais do que se tem. contudo. este artigo trabalhará com a perspectiva liberal. problemas e abordagens diferentes. 2001. por exemplo.1 Economia é o estudo da maneira como a sociedade tende a administrar os recursos escassos para produzir bens e serviços e distribuí-los para seu consumo entre os membros da sociedade (TROSTER & MOCHÓN.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. p. Os recursos são escassos. sem. até ideológica a esta doutrina. 4) . empresa) e suas inter-relações. Contudo a vertente liberal (ou neoliberal) se tornou de tal maneira hegemônica que a maioria dos livros nem sequer menciona outras teorias. e sim dinâmicos. deixar de fazer críticas de natureza científica e. 6). Até porque.2. Dentro do pensamento econômico existem vários paradigmas diferentes que trabalham com conceitos. como por exemplo. Ms. 4.

(TROSTER & MOCHÓN. p. • Trabalho → físico e/ou intelectual que promove a transformação dos recursos naturais em bens e serviços. 6) 4. Os bens podem ser classificados de várias maneiras. Antigamente se utilizava muito o termo “terra” para se referir a esta categoria.5 Bens são os meios materiais que servem para satisfazer os desejos e necessidades humanas.2.Livres: ilimitados e não-apropriáveis. Por serem não apropriáveis.5. (TROSTER & MOCHÓN. . edificações.2. Seu propósito é obter uma visão global simplificada da economia que permita conhecer suas tendências gerais de maneira a ajudar a sociedade a desenvolver políticas para melhorar o seu funcionamento. fábricas – ou dinheiro p/ adquirílos – empregados na produção de bens e serviços.Econômicos: escassos e apropriáveis.1 Segundo seu Caráter: . estes bens são tidos como não-econômicos a priori. • Capital → equipamentos. 2002.4 Recursos ou fatores de produção são os elementos usados na produção de bens e serviços. máquinas. Neste sentido. 9) 4.2. Tradicionalmente estes fatores de produção se dividem em três grandes categorias: • Recursos naturais → matéria-prima que será transformada na produção de bens e serviços. Luiz Albuquerque 4. ela inclui também análises normativas. Aqui só se analisará as classificações mais relevantes para a Análise Econômica do Direito: 4.2. p. São os bens que consistem no objeto de estudo das ciências econômicas. Ms. . 2002.3 14 Macroeconomia estuda o funcionamento da economia em seu conjunto.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

2002. 2002. (TROSTER & MOCHÓN. 2002. (TROSTER & MOCHÓN. Luiz Albuquerque 4.8 Custo de oportunidade deve ser entendido a partir do princípio da escassez. (TROSTER & MOCHÓN. A alternativa de que se abdicou é o que se chama de custo de oportunidade. p. provendo o máximo destes bens e serviços com os recursos e a tecnologia disponíveis e incorrendo no mínimo custo. Podem ser duráveis ou não-duráveis. (TROSTER & MOCHÓN. p. Como os recursos são escassos mas os desejos e necessidades humanas não são. mas que são indispensáveis à produção dos bens de consumo. esboçado acima.7 Eficiência significa essencialmente ausência de desperdício no emprego dos recursos na produção de bens e serviços. . o custo de oportunidade de um bem ou serviço é o a quantidade de outros bens ou serviços a que se deve renunciar para obtê-los.2.2.6 Serviços são atividades que. A noção de eficiência pode ter diversas aplicações diferentes. Assim. só se pode satisfazer uma necessidade se deixar de satisfazer outra. 2002. 4.Bens de consumo: bens que se destinam à satisfação direta de desejos e necessidades humanas.9 Mercado é toda a instituição social onde vendedores e compradores interagem na troca/comércio de bens.2 Segundo a Natureza: 15 . 383) 4. se destinam direta ou indiretamente a satisfazer desejos e necessidades humanas. p.5. p.2. 388) .Bens de capital ou de produção: bens que não atendem diretamente as necessidades humanas. serviços e fatores de produção.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.2. Ms.2. 9) 4. sem criar objetos materiais. 8) 4.

p. 21) Preço 0 Quantidade Figura 1. 2001. (PINDYCK & RUBINFELD. 21) . Curva de Demanda 4. Ms. expressa através de um gráfico (veja figura 1 abaixo).10 Curva de Demanda é a relação entre a quantidade de um bem ou serviço que tende a ser demandada em função do seu preço. p.11 Curva de Oferta é a relação entre a quantidade de um bem ou serviço que tende a ser oferecido pelos fornecedores em função do seu preço.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. pois: quanto maior o preço menor tende a ser a quantidade que o consumidor estaria disposto a comprar. Trata-se de uma curva crescente. Luiz Albuquerque 16 4. (PINDYCK & RUBINFELD. maior tende a ser a quantidade que o fornecedor estaria disposto a ofertar.2. Quanto menor o preço menor tende a ser a quantidade que o fornecedor estaria disposto a oferecer. Trata-se de uma curva decrescente. pois: quanto maior o preço. expressa através de um gráfico (veja figura 2 abaixo). 2001. Quanto menor o preço maior tende a ser a quantidade que o consumidor estaria disposto a comprar.2.

trabalho e capital. (PINDYCK & RUBINFELD. Para os economistas este é o equilíbrio ideal que não deveria ser afetado pela intervenção do Estado. Preço de Equilíbrio de Mercado. Este princípio.2. Luiz Albuquerque 17 Preço 0 Quantidade Figura 2.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. quanto também para os mercados de recursos. O ponto de equilíbrio seria o preço marcado pela interseção entre a curva de oferta e a curva de demanda. Ms. 4. profundamente relacionado à lei da oferta e da procura vale tanto para o mercado de bens e serviços. Curva de Oferta. 2001.12 Preço de Equilíbrio e Mecanismo de Mercado. 23) Preço Preço de equilíbrio 0 Quantidade Figura 3. . Em microeconomia acredita-se que exista uma tendência no mercado pela qual fornecedores e consumidores interagem de maneira a evitar que haja excedente na quantidade fornecida ou escassez na quantidade consumida. p. uma vez que qualquer interferência “distorceria” as condições normais do mercado.

A figura 4 abaixo ilustra uma situação em que há oferta excedente. Em síntese.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. P Máximo 0 Q.Ofertada Q Excedente Figura 4.Ofertada < Q. Ms. como excedente ou escassez no mercado.13 Intervenção do governo – para o pensamento econômico clássico – determinando através de normas qual deve ser o preço mínimo ou máximo de um bem ou serviço tende a gerar resultados ineficientes. Luiz Albuquerque 18 4.2.Demandada. 4. Intervenção do governo impondo preço mínimo tende a gerar excedente. A figura 5 demonstra um cenário de escassez semelhante ao que aconteceu com vários produtos que tiveram seus preços máximos tabelados pelo governo durante o Plano Cruzado. o . em que a bandeirada é regulada pelo governo e há mais oferta do que demanda.2.< Q.14 “Mão Invisível” foi uma metáfora criada por Adam Smith para ilustrar como oferta e procura se equilibram dentro do funcionamento “natural” do mercado. Poder-se-ia imaginar como exemplo a oferta de serviços de táxis.Demandada Q Escassez Figura 5. 53) P Mínimo 0 Q. 2001. p. (PINDYCK & RUBINFELD. Intervenção do governo impondo preço máximo tende a gerar escassez.

Luiz Albuquerque 19 argumento é que. Para esta linha de pensamento. 1993. deixe passar (comercializar)” .2. possibilitando deste modo a máxima liberdade individual” (SAMUELSON. laissez passer”13 dos fisiocratas franceses e pela obra de Adam Smith – que se tornou hegemônica após o fim da bipolarização capitalismo x socialismo. Ms. Dentre vários pressupostos. e que salienta a importância da liberdade individual nas atividades econômicas face a intervenção do Estado. 4. Economistas liberais ou clássicos acreditam que a interação entre indivíduos racionais que buscam ser mais eficientes para aumentar os seus lucros acarreta uma dinâmica geral no mercado que gera resultados econômicos melhores do que os obtidos quando o Estado se propõe a substituir esta racionalidade de mercado por uma racionalidade social politicamente construída que é implementada através do direito. e assim acabam beneficiando toda a sociedade. Enquanto um paradigma científico-ideológico.2. os indivíduos tentam ser mais eficientes. Portanto o Estado/governo/direito deveria se abster de intervir no domínio econômico. na busca pessoal pela obtenção do maior lucro possível no trabalho de cada um. a economia funcionaria melhor (de maneira mais eficiente) quando o mercado é deixado a sua própria racionalidade e dinâmica. p. possibilitando então a sua aplicação. a validade intrínseca do Liberalismo depende da ocorrência de uma série de circunstâncias e condições que são pressupostos necessários para que os conceitos e explicações deste paradigma tenham coerência interna.857) 4.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.16 Pressupostos do Liberalismo. se incluem os mencionados abaixo : 13 A tradução da expressão em francês significa: “Deixe fazer. Neste sentido. o discurso liberal sustenta que: “deveria ser dada a possibilidade aos indivíduos de perseguirem seus próprios interesses e desejos e que as atividades do Estado deveriam ser limitadas à garantia dos contratos e a proporcionar o policiamento e a defesa nacional.15 Liberalismo Econômico é a corrente de pensamento das ciências econômicas – influenciada pelas idéias de “laissez faire.

Neste contexto então se justifica a intervenção do Estado no domínio econômico para. portanto.2.16. Contudo. força suficiente para afetar o preço praticado no mercado (poder de mercado). etc. inexistindo. maximizando assim sua riqueza. por si.17 Falhas de mercado: Condições para intervenção do Estado.1 20 Racionalidade → Os indivíduos são sempre racionais (e inteligentes) na maneira pela qual eles utilizam os recursos escassos. no mínimo. Isto implica dizer que o Estado/direito – apesar da resistência dos liberais – acaba ainda tendo um grande papel a desempenhar no domínio econômico.2. Respeitando os limites propostos para este artigo. monopólios. 4.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. 4.4 Concorrência Perfeita → Mercado em que nenhum fornecedor ou comprador tem. Enquanto seres racionais. corrigir a falha.2 Plena Informação → Os indivíduos têm informação suficiente para saber como alocar seus recursos escassos de maneira eficiente. cartéis. Analisando as características da maioria dos setores econômicos na maioria dos países. apenas se mencionará algumas situações em que o Estado deve intervir para sanar uma falha de mercado relacionada aos pressupostos listados acima.2. as premissas e os pressupostos sobre os quais este marco teórico é construído muitas vezes não se verificam na prática.2. Luiz Albuquerque 4. é razoável afirmar que poucas vezes as condições teóricas se aplicam satisfatoriamente à realidade. Quando alguma destas condições não ocorre.3 Ausência de externalidades → Inexistência de quaisquer efeitos nocivos ou benéficos que uma empresa/pessoa impõe à sociedade e que não são incorporados ao preço dos produtos e serviços fornecidos por ela. 4. Ms. Estas “falhas” invalidam ou limitam a capacidade explicativa das teorias liberais e ainda por cima geram resultados ineficientes para a sociedade. O Liberalismo econômico é intrinsecamente lógico e coerente. 4.2.16.16.16. oligopólios. temos o que se chama de “falha de mercado”. . os homens almejam aumentar sua riqueza e por isto tentam agir de maneira economicamente eficiente.

e nos impõe obrigações como usar cintos de segurança e vacinar nossos filhos. ou proibições como as relacionadas à celebração de contratos ou ao exercício de certas atividades profissionais. Por isso parece ser importante o governo intervir criando normas que obrigam os fornecedores a prestar informações sobre os produtos que consumimos.2. administradores inescrupulosos (Enrom). Este efeito negativo gera um ônus.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Em muitos destes casos o Estado intervém na nossa liberdade. pressupondo que às vezes nos comportamos de maneira irracional. concorrentes desleais (Microsoft) ou outras falhas de informação sobre o mercado. que obrigam os administradores a informar os acionistas sobre o real desempenho das companhias etc.2 Plena Informação x Falha de Informação: Nem sempre sabemos de tudo que precisamos saber sobre os bens que consumimos.2. emotivos. Ou seja. que por isto não vai repassá-los ao consumidor. portanto. 4. Às vezes propagandas enganosas (tipo facas “Ginzu”). reduzindo os casos em que consumidores ou concorrentes são lesados.17. e este ônus significa um custo. pois são custos que não são arcados pelo fornecedor.17. 4. Ms. externos aos . São. Esses custos para a sociedade não são computados no preço dos bens e serviços. Muitas vezes somos impulsivos.2.17. as empresas em que investimos ou as concorrentes que enfrentamos. Luiz Albuquerque 4.1 21 Racionalidade x Paternalismo: Nem sempre somos racionais. o governo ou a sociedade fazem com que muitas vezes tomemos decisões economicamente ineficientes. pessoas que se situam fora deste mercado acabam sendo indiretamente oneradas por efeitos externos gerados por operações de compra e venda.. loucos ou – admitamos! – simplesmente tolos. as externalidades são efeitos colaterais que ocorrem quando empresas ou pessoas que fornecem bens ou serviços no mercado impõem custos (ou benefícios) a terceiros que não se relacionam com estas operações comercias. os recursos que dispomos.3 A verdade sobre a externalidades: Como visto acima.

uma das mais importantes seria o fornecimento de bens públicos 14. Além dos casos vistos acima. E isto gera resultados ineficientes para sociedade. Luiz Albuquerque 22 preços. Os custos serão repassados aos consumidores depois.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.2. ou seja: nenhum fornecedor ou comprador ter. a grande maioria dos mercados não apresentam as característica de concorrência perfeita. Tantos os custos com as despesas médicas com as crianças.17. A poluição causa externalidades. 14 . quanto o prejuízo dos pescadores poderiam ser evitado se a fábrica instalasse filtros nas chaminés e nas saídas de esgotos.5 Bens públicos. Tomemos como exemplo uma fábrica de pneus que polui o ar com fumaça e o rio com resíduos tóxicos. que geram perdas de eficiência e por isso precisam ser regulados e fiscalizados pelo governo. existem ainda várias outras situações em que a intervenção do Estado seria desejada. etc. 4. Mas como a fábrica não quer aumentar o preço do pneu para não perder clientes.2. oligopólios. pois a fumaça provoca doenças respiratórias em crianças que estudam por perto. Dentre elas. mas deveriam ser computados (internalizados) no valor dos bens ou serviços. mas de maneira muito diluída. pois assim deixariam de gerar custos à sociedade. A doutrina sempre Vale lembrar que o significado de “bens públicos” em economia e Análise Econômica do Direito não tem absolutamente nada em comum com a noção clássica de “bens públicos” tradicionalmente adotada em direito administrativo. ela não o faz.4 Concorrência perfeita x poder de mercado. Ninguém pode ser excluído do uso deste tipo de bem e não é fácil designar um preço para sua utilização. Ela poderia diluir os gastos com estes investimentos no preço dos pneus de maneira a repartir esta despesa com o consumidor. Neste contexto então o Estado deve intervir criando normas que proíbam a poluição. É muito comum que uma ou algumas empresas detenham este poder de mercado e disto resultam falhas de mercado como monopólios. 4. que são aqueles cujo consumo por um indivíduo não reduz a quantidade disponível para o outro. cartéis. Ms. e os resíduos matam os peixes do rio. por si. obrigando as fábricas a instalar os filtros. No mundo real. força suficiente para afetar o preço praticado no mercado .17.

não há incentivos para que a iniciativa privada os forneçam. o direito permeia tudo isso e não é mais possível pensar a civilização sem este tipo de organização jurídica. estradas e pontes em lugares ermos (como a famosa ponte ligando a região do “Capa Bode” com a do “Capa Jegue” na cidade de Itinga. Contudo. uma leitura superficial poderia levar a crer que uma análise econômica do direito concluiria que o direito não deve reger a economia. Não se pode seriamente cogitar a exclusão do Estado ou do direito. relações de trabalho. esta conclusão só seria correta se o mundo real fosse tal qual o universo teórico ideal dos economistas onde todos os pressupostos se verificam e onde a teorias fariam sentido. pesquisa básica. solução de conflitos. 4. Contudo.) . moeda. uma vez que se entende que o mercado deve ser deixado as suas próprias forças (lei da oferta e da procura. etc. Sendo realista e pragmático é possível aproveitar várias idéias dos economistas. mas – como vimos acima – não é plausível descartar o papel do Estado e do direito. MG.. Como estes bens e serviços não são lucrativos. impostos. Até porque. enfim. defesa nacional. empresas. Ms. exemplo sempre lembrado em aula). No máximo . Ora. propriedade. Luiz Albuquerque 23 menciona como exemplos: farol do mar. não é porque não são lucrativos que não sejam importantes. etc. o mercado sempre é regulado de várias maneiras: contratos. E por isto é fundamental que o Estado intervenha fornecendo bens e serviços essenciais para os quais não existe um mercado constituído uma vez que não são lucrativos.3 Conclusões acerca da fundamentação econômica Pode parecer estranho e até contraditório que a Análise Econômica do Direito seja baseada em um paradigma que tem por princípio a idéia de que o Estado (leia-se: o direito) não deve intervir na economia.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

O papel da Análise Econômica do Direito é descobrir como fazer isto de uma maneira eficiente. . 15 Itens 3. 3. consequentemente. Contudo. parte do pressuposto de que o direito tem grande importância para a sociedade e para a economia. Luiz Albuquerque 24 podemos discutir os limites do papel do Estado e do direito na estruturação dos sistemas econômicos. Como não há condições de concorrência perfeita.1. 5. E é justamente por isso que ele deve ser criado de maneira a incentivar o comportamento mais eficiente possível dos agentes econômicos de maneira a gerar o melhor funcionamento possível do mercado. Por isto o direito precisa interagir com a economia. “Análise Econômica Normativa” e “Análise Econômica Explicativa”. cabe agora proceder a uma aplicação prática destas idéias a casos concretos. e não com a aplicação de estatísticas precisas ou dados completos sobre os exemplos estudados. A Análise Econômica do Direito.3 respectivamente. APLICAÇÕES PRÁTICAS DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 5. então. sabemos que deixar o universo econômico pura e simplesmente nas “mãos invisíveis” do mercado não garante sempre a alocação eficiente de recursos escassos.1 Aplicações genéricas da Análise Econômica do Direito Depois de apresentar15 os conceitos de: “Análise de Impacto Econômico”. este exercício terá apenas objetivos didáticos e por isso se preocupará com a utilização de conceitos.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. a maximização da riqueza. Ms.2 e 3. e.

Neste contexto. maior será o lucro do produtor. Juros altos. a taxa selic era de 19. Assim. dentre outras coisas. em outubro de 2005.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. apurados no Sistema Especial de liquidação e Custódia. 50%. modernizar seu maquinário. 16 Para maiores informações sobre a taxa Selic. Ms. ele tenderá. a taxa de juros gera grandes incentivos para que o investidor aplique seu dinheiro no mercado financeiro e não no setor produtivo. ampliar seus negócios. ver o sítio eletrônico do Banco Central do Brasil: http://www. . quanto mais se produz menor fica o custo de cada unidade. Luiz Albuquerque Exemplo 1: Análise da determinação da Taxas de juros pelo COPOM 25 A taxa de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM) é a meta para a taxa Selic. parece válido proceder a uma análise econômica do direito de maneira a estudar como esta taxa – cuja estipulação por um órgão do Governo será aqui interpretada genericamente como uma “norma” – influencia a economia. Começando pela análise de impacto econômico. de maneira geral.16 Esta taxa serve de referência no sistema bancário nacional e os juros cobrados pelos bancos são profundamente influenciados pelo que é estipulado pelo COPOM. melhorar a qualidade de seus produtos e. Ou seja. então.br/?COPOM . Como este fator afeta todos os empresários que precisam de recorrer aos bancos para buscar recursos. o empresário que precisa buscar fontes de financiamento junto ao setor bancário tem maior dificuldade para aumentar a sua produção. enfim.gov.bcb. pode-se afirmar que uma norma que estipula uma taxa de juros muito elevada17 dificulta o endividamento e o financiamento por parte de consumidores e empresários. impedem o empresário de aumentar sua margem de lucro através destes investimentos que lhe trariam ganhos com economia de escala. é válido dizer que. tende a haver um aumento na taxa de desemprego.18 Isto o constrange a ter que cortar gastos para aumentar os lucros. e consequentemente. A mais elevada do mundo. Neste sentido. 18 Fala-se em economia de escala quando o custo de cada unidade produzida reduz ao se aumentar a quantidade produzida. com lastro em títulos federais. 17 Quando este artigo foi escrito. que consiste na taxa média dos financiamentos diários. Com a taxa de juros muito elevada. a não contratar novos funcionários ou até mesmo demitir empregados.

Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. ela ajuda no controle da inflação. isto reduz os lucros das empresas que podem ter que demitir funcionários. Como muitos consumidores não podem comprar os produtos mais caros – como bens de consumo duráveis – à vista. Por sua vez. Contudo. pois para comprar uma mercadoria a prazo. que estimulasse o investimento produtivo e a compra a prazo. seria muito mais eficiente do que juros altos. saber qual é o “objetivo social” que se tem previsto para uma norma. e somente se. se. antes de tudo. o que aumento o desemprego e reduz o consumo num ciclo vicioso. Ou seja. ele passa a ter que pagar parcelas muito mais caras em virtude da taxa de juros elevadas. Para proceder a uma análise econômica normativa. Por outro lado. então. o objetivo do Governo/COPOM ao estabelecer uma taxa tão elevada for manter a inflação em um patamar bastante reduzido. Ms. então uma taxa de juros baixa. Este efeito recessivo para o qual a taxa de juros elevada contribui. ao mesmo tempo em que esta elevada taxa de juros restringe o crescimento econômico. Se. o objetivo do Governo fosse o crescimento econômico. é preciso. é relativa. Por outro lado. o consumidor também é prejudicado pela dificuldade de crédito. a taxa de juros elevada tende a reduzir a quantidade de mercadorias vendidas. A questão de qual seria a norma mais eficiente. deve-se questionar se. além da determinação da taxa de juros de acordo com as metas de inflação. Luiz Albuquerque 26 dificultando assim ainda mais a captação de recurso por parte das empresas. uma análise econômica explicativa – particularmente se consideramos os interesses privados por trás desta norma – trará a tona o profundo conflito de interesses . haveria outras medidas de política econômica capazes de conter a inflação sem conter também o crescimento econômico. Só é possível saber qual seria a norma mais adequada para atender certos fins depois de saber quais são estes fins. então uma taxa elevada de juros tende a ser mais eficiente do que uma taxa de juros baixa. hipoteticamente. Por fim. pois depende essencialmente do objetivo social que se deseja atingir com ela. acaba por conter pressões inflacionárias.

é sempre melhor indagar sobre as razões por trás das decisões do que aceitar passivamente qualquer norma que nos seja imposta. quase como se o mercado fosse um deus como os da mitologia grega. A pergunta é: por que? Por que o poder de barganha do setor financeiro parece ser maior do que o do setor produtivo? Seria porque a economia nacional depende profundamente de capitais especulativos estrangeiros que podem deixar o país se a margem de lucro não for tão alta? Seria por que a globalização e o conseqüente aumento da interdependência econômica tornam os governos nacionais temerosos que uma crise internacional possa afetar suas economias e por isto o setor financeiro – o mais “globalizado” da economia – devesse ser privilegiado? Seria por que os bancos foram um dos principais contribuintes das campanhas dos políticos vitoriosos? Seria por que o Governo acredita já ter o apoio do setor produtivo. Ms. Se soubermos quais são as motivações que sustentam uma norma. A grafia de “Mercado” com “M” maiúsculo e em negrito traz em si uma ironia com a maneira pela qual o mercado tem deixado de ser percebido como um espaço institucional de interação econômica para ser considerado um sujeito único onipotente e onipresente a reger e fiscalizar os agentes econômicos ao redor do globo. 19 . já o segundo goza de uma margem de lucro fabulosa devido aos juros altos.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. e por isto pode sacrificá-lo para obter o apoio do setor financeiro que via o partido do Governo Federal com desconfiança? Seria por que o Governo valoriza muito as agências internacionais de monitoramento econômico que classificam a lucratividade de se investir em um país de acordo com indicadores macroeconômicos? Seria para agradar setores poderosos do “Mercado”?19 Seria por que o Governo realmente acredita no mérito desta política macroeconômica. cheio de caprichos e vontades. Mas ainda que seja tão difícil respondê-las. independentemente de que ganha e quem perde com ela? Ou seria um pouco de cada uma destas questões? O autor não tem estas respostas. Luiz Albuquerque 27 entre os representantes do setor produtivo e do setor financeiro. Talvez ninguém as tenha. O primeiro pressiona por uma redução da taxa de juros. Portanto parece óbvio quem vem vencendo a queda de braço até aqui. podemos contribuir criticamente oferecendo opiniões construtivas que possam permitir atingir os objetivos da maneira eficiente possível.

Neste contexto. não regulamentado/permitido pelo Governo – que visava atender a uma demanda insatisfeita com os serviços de transporte urbano prestados pelos ônibus coletivos e táxis (o primeiro pela qualidade e o segundo pelo preço).Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. pode-se dizer que o transporte urbano já era um mercado fechado que se tornou mais concentrado ainda. Mas como ele se tornou cotidiano. Do ponto de vista do impacto econômico. como: excesso de passageiros. depois de um polêmico debate social. aqui se presumirá que ele foi proibido a partir da edição da norma sob análise. Luiz Albuquerque 28 Exemplo 2: Proibição do transporte alternativo em Belo Horizonte Em Belo Horizonte. a Prefeitura de Belo Horizonte resolveu proibir20 de vez o transporte alternativo. surgiu um movimento de oferta de transporte alternativo de passageiros – i. genericamente considerado. Também não é qualquer motorista que pode se tornar taxista. a proibição acaba por contribuir para uma concentração ainda maior deste mercado nas mãos das empresas e profissionais 20 Há quem alegue que este tipo de transporte nunca foi permitido. Contudo. muitas manifestações e até conflitos entre perueiros e policiais. uma vez que a profissão é regulamentada. eles atendiam clientes que não podiam pagar táxis ou não queriam passar pelo desconforto e demora dos usuários dos ônibus. assim como em várias outras metrópoles em países em desenvolvimento. como ficaram conhecidos. Neste contexto.e. Ms. Isto torna este mercado ainda mais oligopolista do que já era (muitas empresas do setor são controladas por poucos grupos econômicos). se multiplicaram causando um aumento desordenado no fluxo de veículos nas avenidas que atrapalhava o trânsito – já congestionado – e reduzia a margem de lucro das empresas de ônibus e táxis. dente outras ligadas à segurança do usuário. as kombis e vans utilizadas também traziam problemas. . É preciso obter uma concessão do governo municipal para operar em determinadas linhas. para fins didáticos. manutenção mecânica precária e motoristas não habilitados. Os “perueiros”. Mas por outro lado. Não é qualquer empresa de ônibus que pode prestar o serviço de transporte.

22 Isso para não falar de um grupo desorganizado mas muito poderoso que é o dos proprietários de automóveis que se sentiam prejudicados pela aumento do movimento e do caos nas avenidas da cidade. paradas específicas. não há muita clareza sobre quais são os verdadeiros objetivos por trás da proibição. Luiz Albuquerque 29 que já trabalham na área. cintos de segurança. etc. no que tange à análise econômica explicativa. credenciamento de funcionários. pois tiveram suas opções reduzidas. então seria mais eficiente regulamentar e fiscalizar o transporte alternativo. como setor de energia elétrica. Ms. se o objetivo da norma fosse proteger empresas de ônibus e taxistas – eventualmente tidos como de importância estratégica ou de vulnerabilidade aparente – da concorrência dos perueiros que estava reduzindo os seus lucros. o objetivo da norma fosse garantir a segurança do consumidor. a capacidade máxima dos veículos. Se. 21 . E esta regulamentação poderia cobrar impostos e taxas para financiar todos os gastos que o Estado passaria a ter com este tipo de fiscalização. em que a concorrência direta pode inviabilizar a prestação de um serviço. obtenção de licenças para poder operar. Quanto à análise normativa. então esta norma atingiria exatamente este resultado. Ou seja o governo pode. por exemplo através da exigência do respeito às regras de trânsito. A regulamentação resolveria os problemas suscitados pelo transporte alternativo sem restringir a concorrência. é bastante comum que o Governo privilegie setores organizados do mercado22 com forte poder de barganha em detrimento de um grupo disperso de limitada representação política. e por isto parece ser um tipo de norma mais eficiente do que a simples proibição. Para os economistas – e para a Constituição Federal – a concorrência é fundamental21 para estimular a máxima eficiência por parte dos agentes econômicos. Neste contexto – Exceto nos casos de monopólio natural. regular este tipo de transporte. através de regulamentação específica. Nestes termos a proibição teve um impacto econômico negativo. e somente se. Finalmente. Por outro lado. pois ao restringir o número de fornecedores ela teve um efeito anti-concorrencial. obrigatoriedade de motoristas habilitados. fiscalização dos veículos. Isto significa que os consumidores também foram afetados.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. assim como deveria ser feito para os ônibus e táxis.

uma norma – seja uma lei. Mais especificamente. sentença ou contrato – cria um incentivo para que as pessoas se comportarem de determinada maneira.2. 5. Ms. incentivos e custos de transação Gerrit De Geest. ao se analisar uma norma da perspectiva da Análise Econômica do Direito. ensina que. facilitando o furto. podendo fazer uma propaganda negativa do governo – não deveria surpreender que estes setores pressionassem por medidas protecionistas e conseguissem obter esse tipo de proibição que restringe o acesso de concorrentes ao seu mercado consumidor. organizador da “Encyclopedia of Law & Economics”. ou desmotivando o trabalho – isto gera um custo para a sociedade. deve-se considerar – dentre outros aspectos clássicos da eficiência econômica – quais seriam os efeitos que esta norma tende a causar à sociedade no que se refere a incentivos. Se os incentivos que são provocados fazem com que as pessoas não se comportem de maneira eficiente – por exemplo: provocando o desperdício. desvalorizando o cuidado. deve-se tentar identificar quais tendem a ser os custos que esta norma impõe aos agentes econômicos no que se refere aos gastos com incentivos. riscos e custos de transação. p. Estes custos relacionados . Luiz Albuquerque 30 especialmente analisando o poder político dos empresários ligados às empresas de ônibus coletivos e potencial influência política dos taxistas que interagem com milhares de pessoas diariamente. 2001b.1 Incentivos De maneira geral.2 Critérios específicos: Riscos. Vejamos o que seria cada uma destas categorias (DE GEEST. riscos e custos de transação.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. 3) 5.

Lucro alto. os resultados desta relação também tendem a não ser. Por isto deve-se atentar para os incentivos que uma norma gera para verificar se são bons. Lucro baixo incentivo baixo.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. razão pela qual optou-se neste artigo pela adoção do termo no original em inglês. i. e o agente tem que incentivar o principal a remunerá-lo de maneira satisfatória. estimulam um comportamento eficiente por parte de quem é regulado pela por ela. Dentre vários temas que são estudados à sombra da questão dos incentivos se encontram os seguintes: • Relação Principal – Agente (Agency Problem). Ms. A questão do moral hazard23 se relaciona a tendência geral de zelar menos pelo que temos quando existe algum tipo de seguro ou algo que nos dê segurança. Luiz Albuquerque 31 aos (des)incentivos gerados por uma norma poderiam ser evitados se eles fossem previstos antes da norma ser criada. ou se são ruins.e. ou seja. Os exemplos clássicos desta relação são o do acionista (principal) com o administrador da companhia (agente). Situação em que uma pessoa (agente) trabalha para outra (principal) na qual se verifica a necessidades dos incentivos serem bem trabalhados sob pena desta relação gerar resultados ineficientes. a questão dos incentivos pode ser claramente observada quando a definição de uma taxa de juros muito elevada gera incentivos muito fortes para que os investidores apliquem seus recursos no mercado financeiro e não no setor produtivo. Quando os incentivos não são bons. se implicam custos para a sociedade em virtude de condutas ineficientes. • Moral hazard (Risco moral). incentivo alto. Dentre os exemplos que vimos acima. . Por exemplo: se o carro está na garantia tendemos a não tomar o mesmo nível de cuidado com ele que tomaríamos se ele não estivesse. e o da dona de casa (principal) com a empregada doméstica (agente). O principal tem que incentivar o agente a fazer um serviço bem feito. se temos um grande limite no cheque especial ou no cartão de crédito tendemos a gastar mais do que 23 A expressão “moral hazard” ainda não recebeu uma tradução consolidada em português.

•Teoria dos Jogos (Game theory).2 Riscos A maioria das pessoas não gosta de riscos. etc. não. p. Uma norma eficiente no que se refere a riscos é aquela que vai reduzir ao máximo os custos gerados . Todos este comportamentos são ineficientes. 866) 5. (SAMUELSON & NORDHAUS. Um dos exemplos mais famosos é o famoso “gato” na t. os incentivos para “pegarmos uma carona” no trabalho dos outros são grandes. jogo da galinha e o jogo do divide 100. mas suas utilizações mais freqüentes são relacionadas à interação nos mercados oligopolistas. negociações e conflitos. Daí surge a questão de como uma norma pode reduzir os custos relacionados a uma determinada atividade que gera risco. algo que representa um custo. O que a cultura popular brasileira vai chamar de “jeitinho” ou “lei de Gérson” é amplamente estudado na economia como “freerider problem” e não é nenhum monopólio brasileiro. um problema.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. Dentre os “jogos” mais famosos se encontram o dilema dos prisioneiros. O risco pra elas é uma coisa negativa. Estas teorias têm sido amplamente aplicadas. Luiz Albuquerque 32 gastaríamos se não tivéssemos. Se podemos obter um benefício sem termos que pagar o preço correspondente e sem (ou pelo menos com baixo risco de) sofrermos sanções.2. e nós só tendemos a agir assim por causa do tipo de (des)incentivo que o moral hazard gera. a cabo do vizinho. Este campo tem sido tão bem explorado que já ganhou dois prêmios Nobel (1994 e 2005).v. • Problema do Carona (freerider). O estudo sobre os incentivos relacionados a situações em que a pessoas têm que decidir o seu curso de ação considerando estrategicamente o comportamento provável de outras pessoas envolvidas na mesma situação atingiu seu ápice na Teoria do Jogo. Ms. 1993. se sabemos que os fiscais da “BH Trans” encerram o expediente às seis da tarde tendemos a não nos preocupar em parar o carro em lugares proibidos no final da tarde.

Qual seria a sua opção. Em geral uma análise sobre os custos do risco envolve verificar se existe seguro disponível (seguro aqui considerado a partir de uma perspectiva ampla). porém certa (sem risco). O Banco paga um seguro contra qualquer tipo de prejuízo provocado pela instabilidade econômica ou pela fragilidade político-institucional do país onde empresas privadas investirem em projetos que promovam o desenvolvimento. sem risco nenhum – consiste em um valor muito abaixo do que poderia ser ganho caso houvesse uma vitória ao final do processo. a segurança ou o risco? O Banco Mundial tem um programa que visa incentivar investimentos privados em países em desenvolvimento através da eliminação do risco de tais investimentos. Relembrando um exemplo citado em sala por um aluno. uma bela oportunidade para saber qual é o perfil de risco de uma pessoa se dá em uma situação na qual o autor de uma ação recebe uma proposta do réu para desistir do processo. Ms. Contudo nem todo mundo tem aversão ao risco. Se houver.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. o seguro deverá ser pago por quem tiver melhores condições de arcar com ele. ou arriscar mover a ação até o final podendo ganhar muito mais ou não ganhar nada (com risco). a norma deve concentrar o risco na parte ou parcela da sociedade que tiver melhores condições de arcar com este risco. Luiz Albuquerque 33 com a tentativa de reduzir ou eliminar os riscos da atividade que está sendo regulada pela norma. Assim esta norma – qual seja: este programa de financiamento de seguros do Banco Mundial – elimina o risco e permite o investimento . Contudo a oferta – apesar de segura e certa. ou seja. Neste contexto o dilema é: aceitar a oferta de uma quantia pequena. Se não houver. Há os que são neutros quanto ao risco e os que têm atração ao risco (os apostadores). Dependendo da escolha de cada um nesta situação pode-se dizer se a pessoa tende a ser avessa ou atraída pelo risco.

os custos de monitoramento (agency) do cumprimento do contrato. ou custos transacionais. Outro exemplo seria o programam federal de crédito consignado em folha de pagamento pelo qual o indivíduo pode obter um empréstimo que será pago através do desconto direto no salário. troca. sobre a qualidade de um carro usado. arrendamento. construção. prestação. agenciamento. dentre outros. cujo conceito vimos acima. telefone. criação. pois o que ele vai gastar com seguro é muito menos do que gastaria se fosse bancar o projeto como um todo. Também temos os “Custos Póscontratuais” que incluem o valor do pagamento efetivo (preço puro). Mais especificamente. que são aqueles relacionados ao: levantamento de informações (por exemplo.2. custas processos. E com isto o próprio Banco sai ganhando. locação. venda. custos com a redação de um contrato (se for um bem ou serviço mais valioso exija um contrato). custo da negociação (desgaste emocional da barganha. investimento. emprego. Transação deve ser considerada aqui de maneira mais abrangente possível significando qualquer operação econômica apreciável da perspectiva jurídica. peritos). além do custo de oportunidade. . empréstimo. Estes custos abrangem. capitais. são todos os custos envolvidos em uma transação. papel) e os custos de difícil avaliação (como tempo. e qualquer outro tipo de contratação envolvendo bens. 5. Este programa reduz os riscos de inadimplência. tempo. raciocínio. e os possíveis custos com solução de controvérsias (advogados. incluindo-se aí: compra. etc). Ms. reuniões). o banco passa a ter mais segurança de que vai receber o pagamento. Luiz Albuquerque 34 privado. trabalho ou recursos naturais. paciência. podemos falar de “Custos Pré-contratuais”. as condições de um imóvel ou as funções de um celular novo). os custos difusos (gasolina. serviços. ou seja.3 Custos de Transação Genericamente considerados os custos de transação.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

vai ser um instrumental analítico para se poder enxergar qual a capacidade de diferentes normas reduzirem o custo transacional dos interrelacionamentos na sociedade. 5. . Portanto Análise Econômica do Direito. não apenas no que tange aos custos de transação. publicou em 1969 um artigo em que analisou um tipo de arrendamento tradicional na China (sharecropping) 24e o comparou com outros tipos de contrato entre proprietários de terra e fazendeiros usados na Europa à luz da 24 A tradução para o português mais próxima do termo “sharecropping” seria “compartilhamento da safra”. Ms.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.3 Aplicação dos critérios específicos em estudo de casos: O arrendamento chinês (sharecropping) Um grande jus-economista chinês. Cheung. quanto você pagaria? Agora coloque-se na outra perspectiva: se alguma pessoa quisesse pagar você para resolver esta mesma transação por ela. Um belo exemplo de norma que reduz os custos de transação é o “Programa Facilita Minas” que consiste em um pacote de medidas que visa reduzir a burocracia excessiva com os procedimentos administrativos relacionados a abertura de uma empresa. mas de uma maneira geral. a princípio. possibilitando assim – através da comparação dentre vários tipos de normas – descobrir-se qual alternativa seria a mais economicamente eficiente para um determinado contexto. disposto pagar. Luiz Albuquerque 35 Na dúvida sobre como avaliar quantitativamente estes gastos pense em alguma transação mais ou menos complexa que você precisa fazer e imagine o seguinte: se você pudesse pagar uma pessoa competente e de confiança para fazer isso por você. quanto você cobraria para fazer? Note que geralmente – mas nem sempre – a gente tende a querer receber mais por um serviço do que o que a gente estaria .

o que ganhar a mais é lucro pra ele. o salário é o mesmo. ou o mais eficiente possível. considerando os incentivos. bom para o proprietário.3. → Arrendamento Chinês: O benefício de trabalhar duro só é apropriado em 50% pelo fazendeiro. ou seja. Se a safra for ruim o fazendeiro arca com o prejuízo. → Salário: o proprietário paga um salário fixo para o fazendeiro trabalhar nas suas terras e fica com o lucro ou o prejuízo da safra Se a safra for boa. Então os incentivos para trabalhar da maneira mais eficiente possível são fracos. Luiz Albuquerque 36 Análise Econômica do Direito. temos que quanto ao: → Aluguel: fazendeiro tem incentivo para trabalhar muito. se for ruim. → Aluguel: o fazendeiro paga um aluguel fixo para o proprietário pela utilização das terras e fica com o lucro ou prejuízo da safra. → Arrendamento Chinês: fazendeiro e proprietário montam uma parceria/sociedade.1 Incentivos. o fazendeiro colhe os lucros. Ms. De todo o fruto do trabalho extra metade vai para o fazendeiro. ruim pro proprietário. Com relação aos incentivos para que o fazendeiro trabalhar de maneira eficiente.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. → Salário: trabalhando muito ou pouco. Pago o aluguel. riscos e custos de transação individualmente. pois só ele se beneficia com o seu esforço extra. sendo em ambos casos indiferente para o proprietário. De qualquer maneira é indiferente para o fazendeiro 5. quando a safra for ruim é ruim para os dois. Quando a safra for boa é bom para os dois. pela qual o proprietário cede a terra e o fazendeiro emprega o seu trabalho. e ambos dividem igualmente o lucro ou prejuízo da safra. Se a safra for boa. . por isso o incentivo é médio. Portanto os incentivos são ótimos.

→ Arrendamento Chinês: o proprietário tem monitorar um pouco.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.3. → Arrendamento Chinês: risco é igualmente divido entre fazendeiro e proprietário.3. Cheung concentrou-se nos custos relacionados ao monitoramento que o proprietário tem para se assegurar que o fazendeiro está devidamente trabalhando na terra. Portanto os custos são altos. Portanto os custos são médios. enchente ou praga. Ms. do salário ou da porcentagem na qual a safra será dividida é basicamente o mesmo. pois este já tem os incentivos suficientes para trabalhar bastante. havia de fato muitas enchentes que acarretavam perdas totais. o verdadeiro mérito deste exercício para o autor é o de servir de modelo .2 37 Custos Transacionais. 5. Considerando que os custos de transação relacionados à negociação definição do valor do aluguel. Mas talvez a principal explicação seja não de natureza econômica. e constatou que: → Aluguel: o proprietário não tem que monitorar o fazendeiro. achou que a razão pela qual este tipo de arrendamento era tão comum na China residia no fato de o risco ali ser compartilhado. que podem levar a perda da safra. 5. e sim uma questão de tradição. E por isto Cheung. Esta pode ser uma das causas. como. pois os incentivos para o fazendeiro são baixos. → Salário: o proprietário tem que monitorar muito o trabalho do fazendeiro. Portanto os custos são baixos. De qualquer maneira. que arca com o risco em cada caso é: → Aluguel: risco é todo do fazendeiro. → Salário: risco é todo do proprietário. uma vez que o fazendeiro já tem certos incentivos. não demais. tentando fazer uma análise econômica explicativa. uma seca.3 Riscos. geada. por exemplo.4 Conclusões É verdade que na região da China estudada. Luiz Albuquerque 5. No que se refere aos riscos envolvidos na plantação.3.

e c) dos riscos (quem arca com os riscos de um incêndio. permitindo ao estudante enxergar diversas questões que antes talvez ele nunca tivesse pensado. falência.4 Análise Econômica da Regulação Um dos campos em que a Análise Econômica do Direito tem sido mais fértil – inclusive ganhando o reconhecimento do prêmio Nobel – é no que se refere à tentativa de entender melhor os incentivos que levam os agentes legislativos. Luiz Albuquerque 38 de aplicação de Análise Econômica do Direito.3. b) aos custos de transação (por exemplo. 2) o empresário paga um aluguel fixo para o proprietário pela utilização da sala e fica com o lucro ou prejuízo do seu trabalho. .Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. 5. recomenda-se que o leitor tente. pela qual o proprietário cede o imóvel e o empresário emprega o seu trabalho. e ambos dividem igualmente os lucros ou prejuízos desta parceria.). ou 3) empresário e proprietário montam uma parceria/sociedade. e um empresário quer ter uma sala para trabalhar. Poder-se-ia cogitar uma relação em que 1) o proprietário paga um salário fixo para o empresário trabalhar nas sua sala e fica com o lucro ou prejuízo do seu serviço. a optar por uma ou outra norma em cada caso específico. roubo. representantes do Poder Executivo e Legislativo que tem a competência e a função de criar o direito.5 Novas aplicações Agora seria interessante testar o seu aprendizado aplicando este tipo de análise a um caso mais próximo da nossa realidade. 5. os ligados ao monitoramento do trabalho). a título de exercício. Imagine uma situação em que o proprietário de um sala comercial quer obter uma renda deste imóvel. etc. Ms. analisar separadamente quais das três tendem a ser as melhores alternativas no que se refere: a) aos incentivos para o empresário trabalhar o máximo. ou seja. Neste sentido.

As normas ou medidas de política econômica que tem objetivos econômicos seriam aquelas que. esportes. artes. na Ética e na Política.2 Regulação por Interesse Privado (Public ChoiceTheory) Apesar de parecer um tabu falar “cientificamente” de interesses privados na criação do direito. O Estado cuida destas questões porque são avaliadas pela sociedade como importantes e muitas vezes não há incentivos do mercado para o fomento destas áreas. Luiz Albuquerque 5. serviriam para corrigir as “falhas de mercado”. se dedica a entender melhor como a riqueza pode ser gerada. preservação do meioambiente. temos algumas que têm objetivos econômicos e outras que têm objetivos não-econômicos. (ambos ganhadores do prêmio Nobel) 25 Item 4. e não a estudar como a riqueza deve ser distribuída.2.4.25 Dentre diversos exemplos de regulação por interesse público com objetivos não-econômicos poderíamos relacionar duas grandes categorias de normas relacionadas à: ▪ Justiça distributiva → Economia. no Direito. promoção de lazer. Este tema é objeto de debates insolúveis e infindáveis na Filosofia.17 . Mas a relação justiça x eficiência deve ser pesada caso a caso de acordo com a ideologia adotada em cada momento. economistas famosos como Buchanan e Stigler.1 Regulação por Interesse Público 39 Em princípio é forçoso reconhecer que a regulação pelo governo deveria atender ao “interesse público”. 5. conforme já visto acima. Políticas e normas que tentam atender a este objetivo de distribuição de riqueza podem ter resultados sabidamente ineficientes do ponto de vista econômico. Dentre as normas que são editadas visando a atender interesses públicos. de acordo com o pensamento econômico. Ms. ▪ Promoção de Valores Comunitários → Proteção da saúde.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. enquanto ramo do conhecimento humano.4. Justiça distributiva é um objetivo que recebe diferente tratamento por parte dos diferentes governos. na Sociologia. conservação do patrimônio histórico cultural. etc.

Esta teoria admite que muitas vezes os agentes do governo agem com as melhores intenções pensando no bem comum. é que os agentes do governo – assim como os agentes econômicos que interagem no mercado – também agem por interesses privados próprios.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. . Mas parece razoável dizer que algumas ações e decisões dos agentes de governo têm por objetivo maximizar o apoio político em torno do seu nome tendo em vista a possibilidade de atingir seus interesses enquanto representante da sociedade assim como seus interesse privados. Esta é. Contudo. dentre os quais o da (re)eleição. poder. Além disso. desenvolveram um sofisticado método analítico para avaliar de que maneiras os políticos (para ser mais exato: agentes do governo. Ms. Contudo. Luiz Albuquerque 40 além de Wilson e Olson. admite-se também que às vezes os agentes do governo agem com interesses privados. as idéias que foram aqui levantadas têm. “esquemões” e jeitinhos que tornaram públicas certas relações suspeitas entre agentes do governo e agentes privados. Estes casos acabaram de ser mencionados acima. uma visão cética. sem dúvida. o mérito de aguçar nossa capacidade crítica e de nos fornecer um marco teórico para avaliarmos tópicos da atual conjuntura política brasileira no que se refere a “mensalões” e favorzinhos. pelo menos. então. fama. individuais e egoístas. como riqueza. O pressuposto aqui. O método desenvolvido por eles pode parecer um pouco chocante para os estudiosos que ainda têm uma visão muito romântica do direito e da democracia. considera-se que todos os políticos (com as melhores ou piores intenções) precisam do mandato para atingir seus objetivos e por isto se comportam tendo em vista a possibilidade de eleição ou re-eleição. prestigio.) – que também são seres humanos com interesses privados – tendem a se comportar nos processos de criação do direito. tanto do Poder Executivo quanto do Legislativo. objetiva e fria de como as pessoas agem na política. priorizando estes sobre os interesses coletivos.

Ou seja. publicidade. o político/agente do governo “fornece” (ou apenas promete. capacidade de fornecer “apoio político”) tendem a adquirir do governo o tipo de regulação/medida de política econômica que desejam. o político/fornecedor deve fornecer normas/medidas de política econômica mais ou menos como se fornecem mercadorias no mercado de bens para satisfazer a “demanda” dos consumidores. toda a teoria coloca os agentes do governo na condição de fornecedores de normas e os cidadão/eleitores como consumidores desta norma. Ms. dentre outras formas de apoio. isto significa que para atender ao desejo ou necessidade dos eleitores/consumidores. A comunicação entre tais setores da sociedade e do mercado de um lado e os agentes do governo de outro se dá através do lobby. informações privilegiadas. preços mínimos.e. o governante precisa do eleitor assim como o fornecedor precisa do consumidor: A fim de se (re)eleger.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. empregos para seus familiares e aliados. Aliás. se ainda não tiver sido eleito) normas/medidas de política econômica tais como subsídios. como os recursos privados poderão ser alocados. o político/agente do governo demanda votos. Nesta lógica. barreiras à entrada de novas agentes no mercado. os agentes do governo fornecem um tipo de regulamentação favorável aos setores da sociedade que puderem lhe dar apoio político. Para fornecer tais normas/medidas de política econômica. Luiz Albuquerque 41 Este pressuposto é tratado como o equivalente a supor que o empresário quer maximizar o seu lucro. etc. através da regulação. contribuições de campanha. e as teorias sobre a escolha pública não pretendem desprezar estas diferenças. Neste contexto os setores da sociedade que têm o maior poder de barganha (i. Esta comparação do processo político com a dinâmica do mercado é obviamente vulnerável a vários tipos de críticas. Contudo eles seguem com a aplicação desta metáfora. Como os agentes do governo podem alocar vastos recursos públicos arrecadados através de impostos e pode decidir. .

Fome Zero) Majoritária (temas neutros) Grupos muito grandes são difíceis de serem organizados e como os benefícios se diluem. A relação entre a oferta de determinado tipo de regulação demandado por certos grupos de pressão ou setores da sociedade e o tipo de apoio político (voto. . particularmente pela chamada “Escola de Chicago”. os incentivos para fazer lobby são reduzidos. Muitas vezes isto acontece sem que muitas das pessoas do grupo X. e até do grupo Y. Custos Concentrados Benefícios Concentrados Lobby. emprego) que os governantes receberam em troca de tais normas já foi amplamente estudado pela doutrina. Dentre diversos autores que trabalharam esta questão se destaca Wilson que organizou uma grade analítica em que diversos tipos de pressões políticas são comparados. obras e serviços que atendam os interesses do grupo “Y”. contribuição para campanha. Isto é o que se chama de subsídio cruzado: o direito.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. saibam. Ou seja. e depois aplica estes recursos arrecadados em projetos. considerando que os recursos são escassos. interesses mais coesos). Por isso é mais comum encontrar legislação pró-indústria do que pró-consumidor. publicidade. faz com que um setor da sociedade subsidie outro. Por exemplo: o governo tributa o grupo “X”. enquanto fruto de um processo de barganha política. pois no caso o lobby pró-indústria é muito mais fácil de ser organizado (menos empresas. inteligentes ou organizados conseguem fazer com que a regulação/medida de política econômica transfira recursos dos setores menos organizados da sociedade para si. subsídios cruzados (drawback) Ideológica (ambiental) Difusos Difusos Política de Clientela (assistencialismo. Luiz Albuquerque 42 Mas há que se convir que estes grupos que têm grande poder de barganha nem sempre desejam para si aquilo que necessariamente seria o melhor para a sociedade. como um todo. os grupos de interesse mais fortes. Ms.

Na medida em que a Administração Pública desempenha um papel central na execução de políticas públicas. neste sentido. Os economistas chamam de “log rolling” aquela prática pela qual ao invés de aplicar os recursos escassos do governo apenas na obra mais importante ou eficiente. são convenientes para os funcionários públicos que passarão a ter mais recursos. entende-se ser mais provável que um governante forneça normas/obras/medidas de política econômica que tenham custos escondidos e benefícios evidentes. mas que. que são mais afastadas do controle direto do Governo e do eleitor. no entanto. Comparemos isto com obras relacionadas ao tratamento de água. os agentes do governo fazem uma acordo para que uns apóiem os projetos dos outros de maneira que todos eles ganhem politicamente às custas do contribuinte que é obrigado a financiar com o pagamento de seus tributos obras que muitas vezes são ineficientes ou dispensáveis. Ms. supõe-se que os burocratas influenciem o processo de criação de normas na tentativa de maximizar sua riqueza. mas que são muito próximas dos administrados/regulados.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. poder. A preocupação com a captura supõe que os funcionários destas . É o famoso “uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto” Outros estudos apontam para as ineficiências muitas vezes geradas pela burocracia estatal. importância. Luiz Albuquerque 43 Também de acordo com estas teorias. do que outras que tenham custos evidentes e benefícios escondidos. prestígio e poder. Muitos analistas se preocupam com o problema da “Captura”. muitas vezes pressionam por regulações/medidas de política econômica que são ineficientes para a sociedade. Pensem. os políticos muitas vezes tendem a gerir recursos públicos de maneira ineficiente. Ao conduzir o governo com o objetivo de maximizar apoio político. por exemplo no chamado “malufismo” ou na construção do complexo viário “Linha Verde” em Belo Horizonte. etc. que apesar de muito importante não se convertem facilmente em votos. Isto é particularmente o caso quando se fala de Agências Regulatórias.

falências. atraídos por futuras possibilidades de emprego. ▪ EUA.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.5 Análise Econômica do Mercado de Ações 5. Ms.1 Análise Comparativa A análise Econômica do Direito permite fazer uma análise comparada entre diferentes sistemas de regulação do mercado de ações de maneira a entender quais tendem a ser as características que tornam um sistema mais eficiente do que o outro. ▪ Alto risco de tomada de controle acionário (take-over).) entre os países: Network oriented system (Sistema de Redes de Trabalho) ▪ caracterizado pela concentração de poder acionista nas mãos de bancos e famílias (e às vezes de governos). ▪ Menor dificuldade de obter financiamento .5. ▪ Mercado de ações é bastante líquido. Alemanha. ▪ Sistema bancário fragmentado: negócios diferentes. mas lucrativos para as empresas reguladas. lucro a curto-prazo. França e América Latina. não precisando tanto de bancos. O investidor investe enquanto a empresa é lucrativa. 5. No que tange ao relacionamento entre os acionistas (proprietários) e os administradores das empresas (controladores). por isso é mais fácil de obter financiamento direto dos investidores (acionistas). ▪ Maior dificuldade de obtenção de Market oriented system (Sistema de Mercado) ▪ caracterizado pela grande liquidez e ausência de acionistas poderosos (controle pulverizado). As diferenças entre estes sistemas são frutos das diferenças entre os sistemas legais (direito societário. comercial. ▪ Executivos altamente remunerados. Inglaterra. ▪ Sistema bancário universal (um só banco para todas as operações). etc. ▪ Investidores querem retorno rápido. influenciados. bancos diferentes. ▪ Companhias obtém a maior parte do financiamento junto a bancos com os quais elas têm um relacionamento profundo e de longo prazo. Controladores têm relação de longo prazo com empresas. ▪ Japão. ▪ Executivos moderadamente remunerados. Luiz Albuquerque 44 agências possam ser cooptados. subornados. a doutrina identifica dois tipos básicos de sistema. tributário. ▪ Relação entre investidores e companhias é próxima. Por isto não há relacionamentos de longo prazo. ▪ Os bancos tem grande controle acionário e geralmente nomeiam seus representantes no conselho de administração. enfim capturados pela iniciativa privada de maneira a fornecer ou aplicar medidas de política econômica/regulamentos ineficientes para a sociedade. ▪ O controle acionário é altamente concentrado e por isso há pouca liquidez ▪ Baixo risco de tomada de controle acionário (take-over).

5. a tomada (take over) é geralmente contestada. Onde há controle concentrado. Ms. Existem diversos tipos de ações com diferentes poderes de voto (ações preferenciais sem direito a voto.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.). Por isso os acionistas contratam administradores para conduzirem os negócios da empresa. ações com direitos crescentes com o tempo. Em grandes companhias com suas ações distribuídas entre vários acionistas estes surgem naturalmente dificuldades para se administrar a empresa pessoalmente. Assim o .5. Leis ruins ou fracas acarretam um custo extra para as empresas. Onde há boa proteção o controle é mais pulverizado. ação de sócio fundador com direitos especiais. etc. Baixa proteção ao acionista minoritário significa menor capacidade de captar recursos no mercado de ações. Esta facilidade de captação de recursos é uma das principais vantagens da sociedade por ações. dificilmente há mobilização dos acionistas para impedir o take-over. Os investidores são mais protegidos quando direitos vinculados aos dividendos são relacionados ao direito de voto: 1 ação → 1voto. onde não há concentração. portanto quase não há contestação. ações são emitidas e vendidas.2 Controle Concentrado e Difuso Onde não há boa proteção dos direitos dos acionistas minoritários tende a haver muitas companhias com controle concentrado (i. Luiz Albuquerque 45 financiamento (ações menos valorizadas e externo (ações valorizadas e bons negócios medianos junto a bancos).e. mais de 20% das ações nas mãos de um acionista). ▪ Menor número de empresas controladas 5. uma vez que elas precisam recorrer mais ao mercado financeiro (mais caro) do que o mercado de ações para obter financiamento. 5. financiamentos junto a bancos) ▪ Maior número de empresas controladas.3 Custos e conflitos da separação entre controle e propriedade (acionista e administrador) A fim de poder arrecadar mais recursos para uma empresa.

Luiz Albuquerque 46 acionista passou de uma posição ativa para uma passiva na condução dos negócios da empresa. de negociação e de monitoramento. aumento de salário proporcional ao aumento dos lucros. Por outro lado significa um risco para as famílias e grupos que controlam as empresas. Isso gera o conhecido problema principal – agente (“problemas de agência” ) já visto acima. 5. Um mercado mais líquido possibilita o take-over. Os administradores tendem a querer obter o máximo lucro para si e isso nem sempre corresponde ao que é mais lucrativo para os acionistas. . o que incentiva o melhor desempenho dos administradores. etc.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.5. Neste sentido recomenda-se melhorar os direitos dos acionistas minoritários. Dentre eles se destacam: pagamento em ações ou opções de compra. tornando o mercado mais líquido. proporcional ao crescimento da empresa.4 Conclusões sobre o mercado de ações As regras dos mercados de ações. Ms. Incentivos financeiros para os administradores reduzem os problemas de agência. paraqueda de ouro. Este conflito de interesses entre acionista e administrador gera custos de informação. pois isto reduz o número de empresas controladas e reduz os riscos de investir em empresas controladas. do direito societário e as normas de governança coorporativa devem fomentar a liquidez do mercado e a redução dos custos relacionados aos problemas de agência. bônus.

Ms. e com isso lucrar às custas dos clientes. Considerando as indenizações de todos os processos pelas famílias das vítimas incendiadas e os custos com as alterações mecânicas. Alguns exemplos ficaram famosos pela frieza e crueldade dos seus objetivos. pouquíssimos conseguirão derrotar os brilhantes advogados dos bancos. Luiz Albuquerque 6. do que alterar o modelo-padrão do contrato para todos os correntistas e assim deixar de lucrar indevidamente. O segundo exemplo é o da decisão da Ford de não fazer um recall nos veículos “Ford Pinto” e nem tampouco alterar a linha de produção para corrigir uma falha no projeto do carro pelo qual ele explodia muito facilmente com pequenas batidas. Isso significa que é mais economicamente eficiente manter os contratos violando o Código de Defesa do Consumidor. Esta opção apesar de economicamente justificável pela lógica da maior eficiência é moralmente inaceitável e dispensa maiores comentários. a Ford preferiu deixar as pessoas morrerem para eventualmente ser obrigada na Justiça a pagar uma indenização. E dos poucos que questionarem. APLICAÇÕES INDEVIDAS DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 47 A lógica da eficiência muitas vezes é invocada para justificar decisões que são moralmente ou juridicamente condenáveis. A justificação por trás desta opção manifestamente ilegal reside no fato de que poucos consumidores chegarão a questionar judicialmente a abusividade destes contratos. Estes casos serão apresentados com o intuito de se demonstrar a importância da ponderação na aplicação das idéias da Análise Econômica do Direito. . O primeiro exemplo é o da estratégia dos bancos de trabalharem com contratos sabidamente contrários aos direitos do consumidor.Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof.

Introdução à ao Estudo da Análise Econômica do Direito Prof. O critério da eficiência econômica é apenas mais um a ser considerado juntamente com outros tantos como justiça social. democracia. às vezes. Também é bastante questionável a validade “científica” e os limites epistemológicos desta abordagem. Luiz Albuquerque 7. e como eles podem se relacionar com outros valores como a ética e a justiça. agentes econômicos privados priorizam de tal forma esta racionalidade econômica sobre outros valores que decisões empresariais resultam em conseqüências moralmente ou legalmente condenáveis. Às vezes. Será que essas teorias simplistas. e não se sobrepondo a estes. . AUTO-CRÍTICA DA ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO 48 É importante ressaltar que ao se estudar a Análise Econômica do Direito deve-se questionar qual é a verdadeira importância dos valores econômicos. a Análise Econômica do Direito pode ser útil. Ms. Mas. todas baseadas em pressupostos irrealistas como concorrência perfeita ou o pressuposto da racionalidade. E o que se espera com este artigo é que ele possa ajudar o leitor a aplicar estes conhecimentos de maneira inteligente e justa nos casos em que questões de direito e de economia exijam uma abordagem interdisciplinar. etc. da sociedade e do mercado prevendo como tende a ser o funcionamento da economia e o comportamento dos indivíduos? Será que uma análise matemática (quantitativa) com pretensões psicológicas (prever comportamentos dos indivíduos) pode mesmo justificar conclusões de natureza econômica? Talvez a resposta seja: nem sempre. podem realmente explicar a complexidade do indivíduo. direitos humanos.

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