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ANÁLISE DA OCUPAÇÃO DO SOLO URBANO EM

ENCOSTAS: ESTUDO DE UMA ÁREA RESIDENCIAL


DA CIDADE DE ATIBAIA-SP

10/2008

Fernanda Barbosa Almendra


Pompeu Figueiredo de Carvalho
LPM / IGCE / UNESP
E-mail: fe1100@hotmail.com; pompeufc@rc.unesp.br;

As conseqüências decorrentes do uso e ocupação indevidos do solo


representam um grave problema atual das cidades. A legislação ambiental
existe para limitar a interferência humana nas áreas de grande função
ambiental. No entanto, os interesses econômicos muitas vezes se sobressaem
às normas de planejamento pautadas em tais leis, proporcionando a utilização
inadequada do solo e intensificação da degradação ambiental. Partindo dessa
premissa, este trabalho analisa a ocupação urbana na cidade de Atibaia, haja
vista que esta se localiza em um relevo movimentado e com elementos que
tornam o sistema frágil. Sendo assim, realizou-se a análise geomorfológica e
legislativa da ocupação da área de estudo – que engloba um condomínio e um
loteamento de médio/alto padrão, através do uso das Geotecnologias. Para
tanto, foi realizado o levantamento de bibliografia e documentos cartográficos
específicos, além de trabalho de campo. Com os dados obtidos, foram
elaborados mapas de declividade, que constituíram um instrumento para a
verificação das irregularidades da ocupação área.

Uso e Ocupação do Solo Urbano - Legislação Ambiental - Planejamento


Urbano – Geomorfologia

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Introdução

As cidades são importantes objetos a serem estudados uma vez que


representam o lugar de vivência da humanidade, com suas habitações e
atividades. As construções no meio urbano são influenciadas pelos relevos,
pois estes constituem as formas dos pisos onde as populações se inserem e a
partir disso, suas características e os processos que eles sofrem proporcionam
benefícios ou riscos à população. Nesse sentido, esses fatores positivos ou
negativos são alguns dos que determinam os valores econômicos e sociais que
o solo urbano recebe.
Entende-se que, devido à importância que o meio físico exerce sobre a
vida humana, é extremamente necessário o equilíbrio entre este meio e aquele
construído pelo ser humano, para que o desenvolvimento das cidades não
provoque danos inclusive à sua população.
Sendo assim, este trabalho discute uma ocupação urbana em área de
encosta ressaltando a importância dos estudos geomorfológicos para o
planejamento das cidades e mostrando que a análise dos elementos físicos
específicos da região facilita na compreensão das limitações propostas pelas
Legislações Ambientais Federais. Os objetivos específicos do trabalho são de
elaborar um prognóstico de susceptibilidade à ocorrência movimentos de
massa na área de estudo e elaborar mapas com a finalidade de verificar as
residências que não estão de acordo com as Leis Federais. Para tanto, faz-se
necessária a utilização das técnicas do SIG (Sistema de Informação
Geográfico), pois este facilita a interpretação das informações.
A urbanização foi um processo que provocou grandes desequilíbrios no
meio urbano, e dentre as mudanças ocorridas, o crescimento populacional
recebe destaque. Milton Santos (1994) afirma que no Brasil a urbanização da
sociedade antecede a urbanização do território. Este fato pode ser
exemplificado ao demonstrar que o processo de urbanização brasileiro da
década de 1970 até 2000, apresentou uma mudança na taxa de 30,5% para
81,2%. Neste intervalo temporal, as cidades não se estruturaram
adequadamente para receber a massa populacional que se deslocava do
campo para os aglomerados urbanos já existentes e acabaram por ocupar
áreas inadequadas.
Esse crescimento não se estagnou e engendra sérios prejuízos, pois a
ocupação de áreas de captação, de encostas ou margem de rios degrada os
recursos naturais, recursos estes que são extremamente importantes para
nossas vidas. Alguns desses prejuízos podem ser exemplificados pelo:
comprometimento dos recursos hídricos tanto em nível superficial como
subterrâneo; os movimentos de massa; e a erosão superficial. Estes processos
são dificilmente reversíveis e demonstram o quão necessário são as análises
geomorfológicas para um planejamento eficiente de ocupação e uso do solo.
No caso específico deste estudo, será elaborado um esboço sobre a
vulnerabilidade da área selecionada ao desencadeamento de problemas
geomorfológicos do tipo movimentos de massa, haja vista que ela se localiza
em relevo movimentado, além de pertencer a um clima propício a chuvas
intensas. Para isto foi necessário a utilização de dados físicos específicos da
área, pois a correlação desses dados proporcionaria um prognóstico de
vulnerabilidade aos processos de deslizamentos.

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Uma das intervenções humanas que provoca maiores alterações no
sistema ambiental é a retirada das rugosidades naturais, ou seja, conversão de
espaços naturais para superfícies impermeáveis. Esta ação provoca o aumento
do volume de água pluvial que provoca problemas tanto ao meio físico como ao
homem e algumas de suas conseqüências é: mudança da captação de água
da bacia hidrográfica, erosão superficial provocada pela força e velocidade da
água escoada, enchentes em pontos de altitudes mais baixas do relevo e
desmoronamentos de encostas.
Nesse sentido, entendemos que muitos dos problemas deparados pela
sociedade estão ligados a catástrofes ambientais ocorridas nas cidades, em
função principalmente da ocupação desordenada de encostas ou de terrenos
próximos aos rios e nascentes.
Goudie e Viles (1997) apud Guerra e Marçal (2006), destacam que a
Geomorfologia Urbana tenta entender e conciliar as relações entre os fatores
do meio físico (chuvas, solos, encostas, redes de drenagem, cobertura vegetal
etc.) com os impactos derivados da ocupação humana. Portanto, para um
planejamento urbano que vise sustentabilidade e qualidade de vida, é
necessária a contribuição da Geomorfologia Urbana.
O conhecimento geomorfológico pode evitar a ocorrência de impactos
ambientais negativos sobre o relevo e também propiciar um
desenvolvimento mais duradouro e estável de qualquer área da
superfície terrestre (GUERRA e MARÇAL 2006, pág. 41).
A estabilidade do terreno é importante para a sua ocupação racional e
ela varia de acordo com as tendências evolutivas do relevo somadas as
interferências dos demais componentes ambientais e antrópicos. Mendes
(1993) explica que perante a constatação de que o território é um recurso
limitado e frágil, emergiu a idéia de que é necessário a sua gestão,
preservação e ordenamento de forma prudente e eficaz, para uma melhor
qualidade de vida daqueles que nele habitam. A intervenção humana deve,
portanto ser planejada e adequada, para que os danos resultantes sejam os
menores possíveis. A Geomorfologia quando elabora relatórios dos impactos
antrópicos sobre o ambiente natural por meio de análises, desenvolve projetos
que auxiliam no planejamento, permitindo maior aproveitamento e menor
degradação do meio físico.
As diretrizes gerais do Estatuto da Cidade ressalta a importância de
uma adequada ocupação e uso do solo urbano para uma cidade sustentável e
com o mínimo possível de problemas econômico-sociais e principalmente
ambientais. Segue abaixo parte relevante ao trabalho extraída do capítulo 1 –
Diretrizes Gerais – do Estatuto da Cidade, na qual é explicitado o propósito do
Estatuto.
Art.1 - Na execução da política urbana, de que tratam os arts.
182 e 183 da Constituição Federal será aplicado o previsto nesta Lei.
Parágrafo único. Para todos os efeitos, esta Lei, denominada
Estatuto da Cidade, estabelece normas de ordem pública e interesse
social que regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem
coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos, bem como do
equilibro ambiental.
Art.2 – A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno
desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade
urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:
IV - planejamento do desenvolvimento das cidades, da
distribuição social da população e das atividades econômicas do
Município e do território sob sua área de influencia, de modo a evitar

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e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos
negativos sobre o meio ambiente;
VI - ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar:
f) a deterioração das áreas urbanizadas;
g) a poluição e a degradação ambiental;
Existem ainda Leis que regulamentam o uso do solo, como Código
Florestal, Resolução Conama, que faz algumas modificações no Código
Florestal e a Lei de Parcelamento do Solo. Todas servirão de base fundamental
para a análise das ocupações das encostas delimitadas pela área de estudo
situada na cidade de Atibaia.
Código Florestal LEI N° 4.771, de 15 de setembro de 1965
Artigo 2° - Consideram-se de preservação permanente, pelo só
efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural
situadas:
e) nas encostas ou partes destas com declividade superior a 45°
equivalente a 100% na linha de maior declive;
Artigo 10 - Não é permitida a derrubada de florestas situadas em
áreas de inclinação entre 25 a 45 graus, só sendo nelas tolerada a
extração de toros quando em regime de utilização racional, que vise a
rendimentos permanentes.
Resolução CONAMA Nº 303, de 20 de março de 2002
Não faz alterações no Código Florestal na questão das APPs de encostas.
LEI 6.766 de Parcelamento Do Solo de 19 de dezembro de 1979
Art. 3º - Somente será admitido o parcelamento do solo para fins
urbanos em zonas urbanas ou de expansão urbana, assim definidas
por lei municipal.
Parágrafo único - Não será permitido o parcelamento do solo:
III - em terrenos com declividade igual ou superior a 30% (trinta
por cento) salvo se atendidas exigências específicas das
autoridades competentes;
O Plano Diretor do Município estabelece uma Política de Meio
Ambiente, dentre os princípios que merecem destaque, estão:
a) o meio ambiente ecologicamente equilibrado é direito
fundamental da pessoa humana; o meio ambiente sadio configura-se
como extensão do direito à vida;
c) a Política de Meio Ambiente será implementada com a
observância na legislação ambiental vigente no País;
h) o Poder Público e a sociedade têm a responsabilidade de garantir
a qualidade urbano-ambiental do Município;
É fundamental a aplicação das Leis, pois elas constituem um
instrumento de regulação baseado em estudos ambientais que buscam o
equilíbrio entre meio ambiente e as diferentes utilizações que o ser humano faz
do solo.

Área de estudo

Foi escolhido como área de trabalho o Condomínio Flamboyant e o


Loteamento Arco Íris, localizados na cidade Atibaia, Estado de São Paulo. A
cidade situa-se nas coordenadas 23° 6´ 59,2” de latitude sul e 46° 33´ 4,3” de
longitude oeste de Greenwich. Está inserida na região administrativa de
Campinas e a nordeste da cidade de São Paulo e seu acesso é possível
através de duas rodovias: Fernão Dias (BR-381), que faz interligação de Belo
Horizonte a São Paulo; e D. Pedro I (SP-065), que interliga Campinas à
Jacareí. Segundo o IBGE 2007, a cidade possui aproximadamente 120 mil
habitantes das quais 89% residem em área urbana. O município pertence a

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“Área de Preservação Ambiental” de acordo com a Lei Estadual Nº 10.111 de
1998, que estabelece normas para o plano de manejo e gestão da área.

Figura 1 – localização da área de estudo. Imagem Google 2008

Aspectos físicos:
Os movimentos de massa de acordo com Guerra e Cunha (1966) são
fenômenos naturais contínuos de dinâmica externa, propícios em ambientes de
declividade acentuada e com índices pluviométricos altos. Além disso, são
induzidos por cortes para implantação de moradias. Os deslizamentos nas
encostas são basicamente desencadeados pelo processo de escoamento
superficial, e este ocorre em detrimento da capacidade de infiltração do solo.
Sendo assim, é fundamental o estudo da relação entre as chuvas, as
propriedades geológicas e pedológicas e a cobertura vegetal, segundo Guerra
e Cunha (1966). Dentro os tipos de movimentos de massas, o IPT (1991) aput
Guerra e Cunha (1966) faz a seguinte classificação: rastejos, corridas de
massa, escorregamentos e quedas ou tombamentos. A classe mais importante
é dos escorregamentos, que são movimentos rápidos de curta duração e com
plano de ruptura bem definido.
Caracterização física:
O Condomínio Flamboyant e o Loteamento Parque do Arco Íris
pertencem a Sub-bacia do Ribeirão Itapetinga (figura 3), localizado na
margem esquerda do Rio Atibaia, um dos rios que constitui a Bacia
UGRHI – Piracicaba/Capivari/Jundiaí (figura 2) de acordo com dados do
Plano Diretor. Os esquemas abaixo servem apenas de ilustração.

Mapa da Bacia UGRHI - Piracicaba/Capivari/Jundiaí


UGRHI - Piracicaba/ Capivari/ Jundiaí

Municípios vizinhos de Atibaia


Camp inas

Atib aia

Campinas

01- Itatiba Atibaia


02 - Jarinu
03 - Bom Jesus dos Perdões
04- Bragança Paulista
05 - Piracaia
06- Campo Limpo Paulista

Figura 2 – ilustra a localização de Atibaia na Bacia UGRH Figura 3 – ilustra a localização da área de estudo
Conforme Campos (2003), a cidade está inserida no Planalto Atlântico,
região serrana com diversas elevações no relevo e altitudes freqüentes
entre 700 e 1000 metros, além de fazer parte dos primeiros contrafortes
da Serra da Mantiqueira. Existem dois processos que agem na
modelação do relevo local, agradação e degradação. O mais importante
para esta pesquisa é o de degradação, pois age de forma erosiva sobre

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o relevo e provoca intensos desgastes, que somados aos tipos de solos
encontrados no município resultam num relevo em destruição.
A litologia regional é composta pelo Complexo Gnáissico-Migmatítico de
Amparo e pelos Maciços Graníticos de Socorro e Atibaia, conforme
apresentada por Campos (2003b).
Segundo Kawakubo et al., o clima da região de acordo com a
classificação de Koeppen é Cfb, que significa temperado com
temperaturas relativamente elevadas durante todo o ano. Os maiores
índices de chuva estão em dezembro e janeiro, com totais de 204,6mm
e 260,8mm, respectivamente.
A cobertura vegetal original da porção sul era de campos e cerrados e
do norte junto a Serra era de densa floresta subcaducifólia tropical de
planalto, espécie que possui sub-bosque e produz bastante matéria
orgânica. A maior parte do território foi desmatado para o cultivo do café,
posteriormente para pastagens, silvicultura de Pinus ssp e Eucaliptus
ssp, e cultivo de flores e frutas de acordo com Campos (2003). Imagens
satélites do Landsat de 1997 obtidas pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais mostram que o uso do solo predominante na região
é de pasto com pequenas porções espalhadas de floresta.
O solo de Atibaia, segundo Silva (2001), possui 11 unidades de solo. A
área de estudo encontra-se na unidade Itapetinga com 0,7% da área do
município, com tipo de solo litossolo com substrato granito gnaisse. Os
litossolos são associados a relevos movimentados com muitos
afloramentos rochosos e tem como fator limitante a declividade
acentuada e a pedregosidade.

MATERIAL E MÉTODOS

O método utilizado para análise será o geossistêmico, que


interrelaciona as informações naturais com antropo-naturais. Assim, este
trabalho analisa a integração dos componentes antrópicos com os naturais e
caracteriza as modificações e transformações das unidades naturais integrais
como sendo resultado dos diferentes tipos de ocupação. Para tanto, foi
necessário um levantamento de dados das características físicas da área,
incluindo além da geomorfologia e pedologia, características climáticas,
geológicas e do uso do solo. Esses dados são secundários, pois foram obtidos
de trabalhos já realizados no município. Outro aspecto importante para o
referido trabalho são as Leis que discutem a ocupação do solo urbano e
autores que abordam a relevância dos diagnósticos ambientais para os
projetos de planejamento das cidades.
O conjunto de procedimentos que viabilizou a proposta da pesquisa foi
fundamentado na base cartográfica da carta SF-23-Y-C-III-2-SE-B do Instituto
Geográfico e Cartográfico, 1979, em escala 1:10000. A priori foi construída a
carta hipsométrica georreferenciada em formato dwg. no software AutoCad,
que serviu para a elaboração das cartas de declividade.

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Base cartográfica
georreferenciada

Figura 3 – base cartográfica em formato dwg.


A escala usada é a de 1:10000 também para as cartas de declividade,
porque é os detalhes são importantes e Tricart (1966) já classificava esse tipo
de estudo como de quinta ordem de grandeza. A carta hipsométrica foi
importada em formato dxf. para o software SPRING, que após determinação
das classes, elaborou duas cartas, uma com as classe em função dos graus e
a outra em porcentagem. A necessidade de dois tipos de classes ocorreu
devido às citações nas Leis de Parcelamento do Solo e no Código Florestal, e
de acordo com DE BIASI (1992), é sempre recomendável determiná-las pelos
valores estabelecidos por lei aos casos de interesse. Além disso, o uso das
fotografias aéreas em escala 1:5000 obtidas do plano diretor do município foi
essencial para a averiguação da ocupação irregular que havia sido interpretada
através do mapa de declividade produzido anteriormente. O trabalho de campo
realizado com o auxílio de GPS serviu para a confirmação das hipóteses. A
partir dos produtos cartográficos e dos demais procedimentos foi possível fazer
a análise da ocupação nas áreas de declividade.

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Segundo a análise ambiental, a região estudada possui potencial aos


movimentos de massa, pois de modo geral os elementos físicos possuem
características que propiciam esse tipo de risco ambiental. A litologia de
Gnáissico-Migmatítico e Maciços Graníticos da região apresentam
afloramentos rochosos que podem causar movimentos rápidos de blocos ou
pedaços de rochas pela ação da gravidade, segundo Guerra e Cunha 1966.
Além disso, as rochas graníticas quando sofrem alterações químicas formam
camadas de areia (grãos de quartzo e palhetas de mica), que podem deslizar
facilmente pela vertente junta com a água pluvial.
As rochas cristalinas possuem baixo grau de permeabilidade e
apresentam rede pronunciada de fraturas e diáclases, por isso a água que
infiltra no solo é barrada pela rocha e escorre arrastando mais facilmente os
componentes do solo, ou ela pode penetrar nas fraturas e diáclases formando
os canais dendríticos. O solo da área é o litossolo, pouco desenvolvido, bem
drenado e um dos mais suscetíveis a erosão, pois seu índice de erodibilidade é
por volta de 0,035 segundo WISCHMEIER & SMITH, 1978. Além disso, tem a
possibilidade de ocorrer o rolamento das rochas afloradas, que pode ocasionar
grandes danos a população residente no local.
O uso do solo é principalmente de pastagem, uso que oferece pouca
proteção ao solo e facilita o desencadeamento de processos geomorfológicos.
Os resquícios de floresta original mostram que poucas áreas estão com a
cobertura adequada. A silvicultura também não representa um uso ideal, pois
os tipos de espécies plantadas não possuem sub-bosques, que protegeriam o
solo das chuvas, e também não produzem quantidades suficientes de matéria
orgânica, componente fortificante ao solo. As construções residenciais

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provocam cortes nas vertentes que induzem ainda mais os movimentos de
massa. O fator pluviométrico também é importante e a região possui clima
temperado com chuvas freqüentes no verão, o que indica volume suficiente
para o desencadeamento dos processos em questão.
De acordo com a análise dos mapas produzidos e a reambulação em
campo das fotografias aéreas, a área de estudo possui irregularidades no que
tange as Legislações citadas anteriormente. Segundo a Lei 6766, o
parcelamento do solo para fins urbanos em áreas com declividade superior ou
igual a 30% só seria permitido se atendidas exigências específicas das
autoridades competentes, ou seja, todas as residências construídas em
encostas com essa característica, mesmo que possua as estruturas de
construção mais adequadas, necessitam de autorização de órgãos específicos.
O condomínio e o loteamento apresentaram diversos casos de
irregularidade enquadrados nessa Lei. O Código Florestal, entretanto, possui
uma legislação menos rígida se comparado as declividades tratadas na outra
lei, pois é proibido o corte raso acima de 25 ° de declive e a liberação só ocorre
em caso de extração de toros para rendimento permanente. As encostas com
45 ° ou mais são consideradas APP’s e por isso não podem ser desmatadas de
forma alguma. Em detrimento da elevada declividade discutida pelo Código
Florestal, poucas residências se enquadram nesse tipo de irregularidade.
Porém, haja vista os valores abordados nesta Lei, nenhuma casa deveria estar
construídas nessas classes de declividade pelo risco geomorfológico alto
encontrado nesses terrenos. Obviamente, não deveriam existir ocupações em
nenhum dos casos determinados pelas leis, pois entre os diversos motivos em
que elas se baseiam, um deles é de manter o equilíbrio ambiental e evitar
riscos a sociedade.
Abaixo o mapa 1 sinaliza em vermelho e marrom as áreas impróprias
segundo a Lei de Parcelamento do Solo. O mapa 2 construído em função do
declive em graus mostra também em vermelho e marrom as área indevidas à
ocupação, porém, segundo o Código Florestal.

Mapa de declividade com malha viária Mapa de declividade com malha viária
Legenda Legenda
0-5 graus
0-5% 5-15 graus
5-15% 15-25 graus
15-30% 25-45 graus
30-55% >45 graus
>55%
7439500
7439500

7439000
7439000
Escala
0 240 480 m Escala
0 240 480 m

342207 342507 342807 7438500 342207 342507 342807 7438500


Mapa 1- declividade em função da porcentagem Mapa 2 – declividade em função dos graus

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Foto 1 – foto aérea com identificação das irregularidades

A foto acima indica as construções indevidas perante todas as


Legislações tratadas neste trabalho, em amarelo são irregulares pela Lei de
Parcelamento do Solo e as em vermelho que estão também em amarelo são
inadequadas pelo Código Florestal. O fator de algumas construções estarem
em desacordo com as duas leis é explicado em função da transformação
matemática de porcentagem para graus. Nesse sentido 30% equivale a 16° e,
portanto as casa em terreno igual ou superior a 25° estarão com certeza
inserida no caso anterior.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho buscou relacionar os problemas ambientais urbanos com


a ocupação de áreas geomorfológicas inadequadas pelas determinações da
Lei. Foi concluído que a área de estudo possui potencialidade ao
desencadeamento de movimentos de massa e contêm residências em áreas
inadequadas pelas normas legais.
A legislação foi criada principalmente pela necessidade de intervenção
pública sobre os diversos usos e ocupações urbanas, a fim de evitar maiores
danos no ambiente, além dos já inevitáveis. Então, com o propósito de
regularizar essas intervenções os órgãos específicos estabeleceram normas,
que através deste estudo foi concluído que são desobedecidas principalmente
pelo poder público e pela população de classe média à alta. Os poderes
econômicos não se restringem as determinações previstas nas leis e o poder
público consente essas ocupações em terrenos irregulares, que são muitas
vezes valorizados no mercado imobiliário por propiciarem melhores vistas e
proximidade com a natureza. É interessante ainda ressaltar que os princípios
descritos no Plano Diretor são contrários ao o que de fato ocorre.
Percebe-se, portanto, pouca importância voltada aos impactos
decorrentes da ocupação tanto parte da população como dos gestores
municipais, que não pensam no meio ambiente como sistema integrado a vida
humana, e por isso exploram seus elementos em favor de beneficio próprio.
Vale por fim ressaltar que as geotecnologias são ferramentas
fundamentais a um planejamento eficiente e foi de extrema importância para o
desenvolvimento deste trabalho, pois possibilitou a verificação das áreas
ocupadas indevidamente.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Município de Atibaia. São Paulo: Instituto de Geociências, USP, 2002.
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