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Tempo para viver Antes que tudo esteja consumado, temos o tempo a ser vivido. O viver hoje para nós é abandonar os ventos bravios conquistadores da ilógica juventude e troca-los pela brisa calma da doação dos sentimentos comedidos e perenes. Nossos barcos, velhos barcos de velhas tormentas, têm os cascos repletos das cracas das vitórias em mares tempestuosos e agora, suaves, sábios e proféticos se aproximam do porto do equilíbrio, da calma, da fé, da esperança e da caridade onde as águas confundem superfície e profundeza, ondas azuis e brumas diáfanas. Nesse nosso cotidiano navegar, marujos fiéis da tolerância estarão ao nosso lado içando velas, inclinando a bombordo, puxando retrancas e mostrando o rumo estelar. Outros fiéis estafetas estarão presentes para mostrar que o Grande Senhor será nossa bússola ao partilhar o pão e o vinho e consagra-los à vida. Antes de aportar talvez sobrevenham tempestades e vagas gigantescas e será o tempo de abandonar as cargas ao mar, largando tralhas e pertences, que na verdade não nos pertencem. Abandonemos nossas bagagens mais pesadas e conduzamos nossas vidas com menos riscos, pelos mares mais instáveis. Procuremos aquele remorso, aquela mágoa, busquemos os maus pensamentos e as palavras tolas que pesam muito e que nos fazem afundar e varramos tudo para fora do convés, rumo ao mar profundo do abandono. Larguemos para trás coisas do passado, conquistáveis em tempo em que podíamos e queríamos conquistá-las e olhemos para elas como flâmulas nas paredes de quartos de adolescentes, que pelo tempo lá colocadas, não são mais vistas e nem causam emoção na idade adulta. Assim, abandonando as coisas pesadas, ficaremos com as recordações leves e felizes que servirão para enfeitar os caminhos imaginários de nossos jovens, que ao descartar nossas falas, como coisas dos velhos, deixarão sorrateiramente escondidas nas mangas, as cartas mais belas de nossa existência, para uso no momento exato de suas angustias, alegrias e necessidades. Por fim, desmontemos nossos quartos de recém casados, recém formados, recém empregados, recém qualquer coisa, e assumamos nosso querido quarto de experientes e tranqüilas almas, que semeando a calma entre os jovens, em falas, gestos e maneiras, continuaremos sendo amados e lembrados por eles pelos nossos bons momentos. Ao abandonar nossas paixões desmedidas e nosso passado descartável, teremos nossas vetustas embarcações com convés limpos e velas calmas içadas navegando rumo ao sol para lindamente nos encontrar um dia abandonando nosso corpo e nosso espírito nas mãos do Criador.

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