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A Parábola dos Talentos

A Parábola dos Talentos

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A Parábola dos Talentos Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins

. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: O mundo inteiro ainda deverá transformar-se num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade. As suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Dava muito trabalho cuidar de todos os jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insectos, as fontes, as frutas, o perfume… Sozinho ele não daria conta Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou de fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, e disse-lhes: Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero que vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas… A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores espalhadas pelas rochas… E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins. Ditas essas palavras, partiu. Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas Boanerges não era jardineiro. Mentira ao oferecer-se para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro disse: Cuidar de jardins não é comigo. É demasiado trabalho… Trancou então o jardim com um cadeado e abandonou-o. Passados muitos dias voltou o Senhor, ansioso por ver os seus jardins. Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Hermógenes mostrou-lhe o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. E foi a vez de Boanerges… E não havia forma de enganar: Ah! Senhor! Preciso de confessar: não sou jardineiro. Os jardins dão-me medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das lagartas, das aranhas. As minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer na terra, essa coisa suja… Mas o que me assusta mesmo é o facto das plantas estarem sempre a transformar-se: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse em meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra estaria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras dão-me tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguichos e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas tranquei-o com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem. E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: Este jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar deste jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, irá partir pedras na minha pedreira… Rubem Gaiolas ou Asas Publicada por Helena em 6:40 Etiquetas: Rubem Alves 30/DEZ/2008 O Senhor Palha Conto japonês Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse Alves

motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha. Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar: — A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna. O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha. “Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.” E lá foi ele, com a palha na mão. Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se. — Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor! “Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha. — É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita? O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido. — Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer. — Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua. O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa. — Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca. O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça. — Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água. — Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas. O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo: — O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca. E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço. Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha. — Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real. — Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha. A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte. — O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca. A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.” Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico. Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade? William J. Bennett O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral

Publicada por Helena em 6:47 Etiquetas: William J. Bennett A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão… — Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Abriu a porta da gaiola. tu ficarás mais bonita. Ele chegou finalmente. Não mais terei saudades. Caíram as plumas e o penacho. cuidadosamente. e a cada dia que passava a saudade crescia. nós precisamos do ar. Voou que voou. e por isto voltava sempre. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. As minhas penas ficaram como aquele sol. E enfeitar-te-ás. na saudade. muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. A menina contava os dias. Foi então que a menina. adormeceu. os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Mas chegava a hora da tristeza. Sempre que ficares com saudade. E ficarei feliz…” Com estes pensamentos. Cansado da viagem. Sempre que eu ficar com saudade. chorava à noite de tristeza. E de novo começavam as histórias. com um gemido do pássaro… — Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. Também a menina se entristeceu. E o pássaro amava a menina. — Podes ir. os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã…. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola. assim. E ficou à espera. que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Não. escolher os vestidos. ele nunca mais partirá. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho… — Eu também terei saudades — dizia o pássaro. penacho dourado na cabeça. e o pássaro ficando diferente. própria para um pássaro que se ama muito. Fico tão triste. e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. É aquela tristeza. — Tenho de ir — dizia.E. — Eu também vou chorar. o mundo inteiro foi ficando encantado. de prata. como o pássaro. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água.” E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro. ia para a cama. cada noite. não haverá saudade. pássaro. terra quente e sem água. E de noite ela chorava. Será meu para sempre. os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. para que ele nunca mais a abandonasse. pensando naquilo que havia feito ao seu amigo… Até que não aguentou mais. — Venho de uma terra queimada pela seca. para que ele não acordasse. Se eu não for. * * * . Outra vez voltou vermelho como o fogo. comprou uma linda gaiola. que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama… E foi assim que ela. na espera do regresso. — Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo… E ela ia ao guarda-roupa. Mas não foi isto que aconteceu. Ah! Mundo maravilhoso. E adormeceu feliz. não vás. Pode ser que ele volte hoje… Sem que ela se apercebesse. Longe. Até que ela adormecia. e sonhava que voava nas asas do pássaro. aquele não era o pássaro que ela amava. Terei saudades. imaginando se o pássaro voltaria. o prendeu na gaiola. eu ficarei mais bonito. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Tenho de partir. Acordou de madrugada. ele partiu. para lugares distantes. — Por favor. O tempo ia passando. e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra. — Nunca se sabe. E tu deixarás de me amar. para me esperar… E partiu. E veio o silêncio: deixou de cantar. com histórias diferentes para contar. ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. A menina. menina. Assim. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar. maravilhoso nas suas novas cores. onde os grandes. triste de saudade. dia após dia. o amor ir-se-á embora… A menina não acreditou. Os vermelhos. sozinha. Volta quando quiseres… — Obrigado.

pois que se devia dançar tanto. mais belas Edições histórias de Asa. Sem um instante de hesitação. o Tocador. e a Nils Elofson. Esta história. depois mandou perguntar a Olle de Saby. enquanto houvesse em Svarstjo um músico como João Oster. que nunca tocaria em Svarstjo. Nils Elofson não achava graça à pretensão dos músicos de lhe imporem quem ele não queria. na comuna de Ulerud. era prudente e reflectido. – Duvido que ele ache melhor. enquanto houvesse naquela comuna o melhor músico de toda a Vermlândia. não havia necessidade de mandar chamar outro. Mas não é isso. e. preparam-se os abraços. como os outros. respondeu o criado de Nils que. que às vezes se apresentava nas festas descalço e de colete rasgado. e a festa duraria três dias inteiros. chamado o Tocador. havia ocasião de ouvi-lo todos os dias. e têm medo da solidão… As Lisboa. vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim. Mandou dizer a Nils Elofson que. angústias e medos ficam mais mansos. vai dar a mesma resposta que Martim o Tocador. esperou Nils Elofson alguns dias para reflectir. eu não a inventei. fica aquele vazio imenso: a saudade. Para que sejam deles. ele lá não iria tocar. proprietário de uma próspera granja. Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. que é a saudade que torna encantadas as pessoas. devia dançar-se desde o anoitecer até de manhãzinha. na Vermlândia. E quando o desejo cresce. respondeu Martim. Claro que são para crianças. como João Oster morava em Svarstjo. Alguns dias depois de receber a resposta de Olle de Saby. mais rara. . se estava disposto a vir tocar no casamento de Svarstjo. Recebendo esta resposta. Mas esse. atormentava mais este problema do que o resto dos preparativos. que morava na comuna de Stora Kil. Com isto. enviou o criado a Lars Larsson. desejava oferecer aos seus convidados alguma coisa melhor. Lars Larsson era homem abastado. e Olle de Saby – disse o criado. Decidiu-se enfim a mandar perguntar a certo Martim. Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas… Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano. Rubem Alves 2003 Publicada por Helena em 6:30 Etiquetas: Rubem Alves 27/DEZ/2008 A marcha nupcial Há muitos anos. cantão vizinho. e o nosso camponês sabia bem que tinha grande nomeada. Quanto ao músico que habitava em Svarstjo. o rico camponês que casava a filha. – Sem dúvida. e. E. para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem. Fiquei triste. entretanto. Tudo se enche com a presença de uma ausência. não o queria ele por preço algum. de Josseherad. o violinista de Engsgardet. visto que Nils Slofson promovia uma festa extraordinária. A bênção nupcial seria na igreja. Especialmente aquelas que moram dentro de nós. perguntando por que não se tinham dirigido a ele para o que queriam. não uma cabeça esquentada como os outros músicos. Visto que tinham aquele. pensou logo em João Oster. enquanto durasse a festa. ia celebrar-se um rico casamento na comuna de Svarstjo. era muito importante achar um músico consumado. Chamava-se João Oster. Não é um maltrapilho assim que a gente gosta de ver à frente de um cortejo nupcial. se podia vir tocar no casamento de sua filha. Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir.Para o adulto que for ler esta história para uma criança: Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus… Depois do adeus. Mas Olle de Saby deu a mesma resposta que Martim. A saudade faz crescer o desejo. Por malícia. Parecia-lhe até que era agora um ponto de honra achar outro músico que não fosse João Oster. mas era tão pobre. quase pronta.

o par. viram aproximar-se João Oster. Espera um pouco. acentuando as palavras. parecendo tranquilo e contente de si. Aproximou-se. e faria grande figura à frente do cortejo nupcial. Quando tudo estava pronto. vestia um belo trajo negro e tirou o instrumento de uma esplêndida caixa. fazendo-lhe sinal para que se apressassem. por causa da demora. o pastor já estava diante do altar. colocaram-se ambos os músicos à frente. dizendo: – É João Oster quem deve começar! Não pensava. envergando um velho colete de burel. a ele que. se não estivesse tão miseravelmente vestido. façamos de conta que de nada desconfiamos e vá dar-lhe as boas-vindas. pondo nos cotovelos grandes remendos de pano verde. porém. Tenho ouvido dizer que ele é arrebatado de génio. mas Lars Larsson olhou para João Oster. Fizeram ambos os músicos simultaneamente o mesmo gesto de apoiar o violino ao queixo. Guardou silêncio um momento. dois a dois.Dize a teu amo que agradeço o convite e que irei à hora marcada. como homem habituado a fazer o que quer. lá foi Lars Larsson à igreja de Svarstjo. Lars Larsson não se moveu. um velho costume exigia que fosse o músico mais hábil a iniciar a marcha nupcial. Era um belo homem. – Foi então algum trocista que o convidou. pareceu Lars Larsson contrariado. justamente quando começava a formar-se o cortejo nupcial para se pôr a caminho. pois. um rapaz. Atrás deles.contando-lhe o acolhimento que aqueles tinham feito ao convite do seu senhor. como se tivesse sido convidado para tocar na festa. No domingo seguinte. que lhe farei saber que nada tem a fazer aqui. pediu-lhes que iniciassem a marcha nupcial. dois músicos para tão magnífico casamento. dirigindo-se aos músicos. vinham depois os pais dos noivos. confuso. Olhou o rapaz para Lars Larsson como a indicar que este começasse. João Oster retirou o violino do queixo e deu um passo para o lado. João Oster que o outro. Era pouco delicado fazê-lo esperar. e não podemos ter a certeza de que não vá fazer escândalo. à espera. . – É João Oster quem deve começar – repetiu. ficou no seu lugar. de modo nenhum! Viu que o noivo tocava no cotovelo de Lars Larsson. dizendo: – Lars Larsson deve começar! Ouvindo estas palavras. sim. se quer o meu parecer. Atento. se lhe disser que não foi convidado. Viera no seu próprio carrinho. ouviu Lars Larsson a narração do criado. porque. que vestia há longos anos. Mas. de João Oster e cumprimentou-o. – Não têm mais do que pedir a João Oster que comece – respondeu Lars Larsson. Foi direito ao cortejo que cercava a noiva. – Nós. Vinha com o seu velho colete de burel cinzento. vestido tão ricamente como um senhor. Contudo. como se tratava de casamento tão rico. – Não compreendo por que veio. e se a luta incessante contra a miséria lhe não houvesse marcado o rosto de rugas. – Oh. mas de modo nenhum – disse ele. lhe pudesse ser inferior. e deu resposta afirmativa. Pouco depois da chegada de Lars Larsson. também não levantou o arco. – Oh! Não. de alta estatura. – Mas não o convidei – protestou Nils Elofson. À porta da igreja apareceu o porteiro. era um músico de quem a gente se podia orgulhar. e os diversos membros de ambas as famílias. Houve não pouca agitação no cortejo. Aceitou Nils sem hesitação este conselho. reflectindo. em Svarstjo. vinha de uma pobre cabana onde não havia mais do que trabalho e miséria. sob o pálio. – Não são demais com efeito. a mulher fizera alguns consertos. Veio o pai do noivo pedir a Lars Larsson que começasse. Recebeu-o Nils Elofson com todos os respeitos devidos à sua categoria: aquele. Seria inoportuno procurar aborrecimentos no momento em que o cortejo se formava na praça da igreja. de modo que o acompanhamento tinha na verdade um aspecto imponente. com o violino debaixo do braço. mas. rígidos. seguido dos pajens e donzelas de honor. Viram-no chegar à ladeira que conduz à igreja. puxado por um cavalo de preço. Vendo chegar João Oster. Nisto pararam ambos. Feito isto. – Convidou-o também? – perguntou a meia voz a Nils Elofson. .

tirou a faca do bolso e cortou de um golpe as quatro cordas. – Sim. lançou longe o arco. Selma Lagerlöf. – Mas começai – diziam – o pastor está à espera. Ora. muito longe. – Pode ser que assim seja – replicou o camponês – mas nós. E jamais a gente do cortejo ouvira ária tão triunfal. tem razão. atirou para trás a cabeça e aspirou violentamente o ar nos pulmões. permaneceu ali. como se escutasse alguma coisa que lhe vinha de muito.músicos. Tinha os traços do rosto tensos. porém. Mas Nils Elofson enfurecera-se perante a obstinação de todos em quererem impor-lhe João Oster. porque. Mas agora trata de começar. lá em casa. olhou-o Lars Larsson nos olhos e fez com a cabeça um sinal afirmativo. com um gesto rápido. sabemos que é o mais hábil de todos. Porque a ária que procurara em vão durante três anos. camponeses. – Ninguém dirá que me considero acima de João Oster! – gritou ele. e nunca lhe sucedera nada que o pudesse elevar acima da tarefa quotidiana. mas que era incapaz de fazer sair das cordas do violino. tenaz e desdenhoso como nunca.) Histórias Inesquecíveis para Crianças. fazendo ressoar as notas claras. é preciso acabar com isto. – Não compreendo por que a gente daqui se opõe com tanto ardor a que o seu próprio músico tenha o primeiro lugar – disse ele. Depois. produzindo um som agudo. achamos que és tu. Aproximou-se de Lars Larsson e disse-lhe ao ouvido: – Compreendo que foste tu quem chamou João Oster. que se partiram. e de repente. para o honrar diante de todos. Lars Larsson. . e. o mais hábil. Quando ouviu rebentarem as cordas do violino de Lars Larsson. é o caso que há três anos ruminava João Oster uma ária que sentia palpitar em si. adiantou-se alguns passos para que todos o pudessem ver. que o acompanhamento inteiro tinha os olhos rasos de lágrimas ao entrar na igreja. Lars Larsson. Vamos servir de risota a toda a gente. Arrastou-os a todos com tão irresistível ímpeto que o próprio Nils Elofson não se pôde manter quieto. Fez sinal a João Oster para retomar o seu lugar à frente. estava constantemente curvado sob o pesado fardo de cuidados pequeninos e miseráveis. pôs-se a tocar. que só levará daqui vergonha e confusão. lhe aparece de improviso com maravilhosa limpidez. pôs-se a caminhar altivamente para a igreja. Ilse Losa (org. Cercavam-nos todos os convidados. E. Sem mostrar cólera. não só de João Oster. senão vou enxotar da praça este esfarrapado. mas também de Lars Larsson. E estavam todos tão contentes.

o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Decorrido algum tempo.Publicada por Helena em 6:23 Etiquetas: Selma Lagerlöf 24/DEZ/2008 Conto de Natal Um aldeão russo. muito cristão. Na véspera do Natal sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. mal acordou. sempre à espera. De vez em quando ele observava a estrada. Teve tanta certeza da visita que. Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora e o aldeão continuava com os afazeres domésticos. cuidando também da sopa de repolho. levantou-se imediatamente e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado. Era um . constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana. que era o seu prato predileto.

.era Eu! A pobre mulher... Saiu mais uma vez. saiu de casa e foi ao encontro do vendedor.. deu-lhe de comer. A noite começava a cair. E nada de Jesus! Já quase sem esperanças. e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira. lamentou-se o aldeão. a mim mesmo o fizeste! Leon Tolstoi Publicada por Helena em 5:51 Etiquetas: Leão Tolstoi Conto de Natal ..Ah! Senhor! Esperei-O o dia todo e não aparecestes. aquecestes e deste de comer... iluminou tudo! Diante do pobre aldeão.. pôs sua roupa a secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho. pegou a criança e levou-a para a cabana.. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada. visitei tua choupana: o vendedor ambulante que socorrestes.Já por três vezes. O Bem que a cada um deles fizeste.era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade. Mas. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio. avistou uma mulher na estrada coberta de neve. Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada. E Jesus lhe respondeu: . que não provinha da lareira. e abrigou-a na choupana. Cansado e desolado. Fez com que sentasse próximo à lareira. o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. Deu-lhe de comer. envolto em uma túnica branca! . hoje. Levou-o para a choupana. também era Eu.. Foi buscála. Olhando de novo através da vidraça.. Compadecido. o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo. de repente.pobre vendedor ambulante. embrulhou-a em sua própria capa. uma luz radiosa... a quem deste a capa. surgiu risonho o Senhor.. que conduzia às costas um fardo bastante pesado.

mas uma ponta de arame o segurou pela camisa.... — Que é? O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. afastou dois fios de arame e passou. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados. Curvou-se. O pai agachou-se zangado: — Porcaria. O menino preferiu passar deitado..Sem dizer uma palavra. Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. — Péra aí. . puxando pela mão o menino de seis anos. A mulher seguiu-o sem compreender.

o suor correndo pela cara mulata. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos: — Eh. Riu muito. No dia seguinte de manhã o carreiro voltou.. os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina. — Péra aí. graças a Deus. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia. — Eu acho que o jeito. hoje é dia de Natal. pai. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado. Ela foi devagar.. mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. Ouviram então o guincho de um carro de bois. — Olhe.. Faustino de repente riu. e a mulher passou de quatro. e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor... e sentaram-se no chão. mulher. — Vamos ver aqui. e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha. Há muitos dias não ria. O menino Jesus Cristo estava morto. Faustino agradeceu a boa-vontade. do outro lado da várzea... — Oh. . Faustino. Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima. com dificuldade. O calor abafava. O carreiro morava numa casinha de sapé. vai ser hoje. Caminharam até a árvore. De tardinha seguiram caminho. mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. calados. a única que havia no pasto. mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado. cerrando os olhos. O carreiro apontou a estrebaria. ao lado da mãe adormecida.. desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. — Eu de lá ouvi os gritos. Mas caiu sentada num torrão de cupim! — Mulher! Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. — Não. Ô Natal desgraçado! — Natal? Com a pergunta de Faustino a mulher acordou. mostrando os dentes pretos de fumo: — Eh.. O menino tinha nascido. O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo! A mulher não achou graça. quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva... Trazia quatro broas velhas e uma lata com café. sem saber o que fazer. mulher. à sombra.. chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha.. pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto. Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro. Ficaram parados os três.. vem vê. — Eh.. Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca.. A casa do fazendeiro estava fechada. — Uai! Péra aí. Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Arranjou afinal um lugar melhor. O carreiro deu uma espiada. Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo. Eu nem me lembrava. Às 7 horas da noite. O menino choramingava.Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Deus me acuda. — Vai ser hoje. mulher.

soltando suspiros. envolto nos seus pobres andrajos. . pelo prazer de vê-lo se esvolar. teria saído mais cedo. se não tivesse medo de encontrar. e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia. Por sua vontade. ao cabo de um instante. "Faz muito frio aqui". os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa. refletia ele. Seu hálito formava. queixas e imprecações contra o garoto. admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. sem fazer ruído. por desfastio. onde num colchão de palha. com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta. 1964. Mas o cão não se encontrava alí. soprou os dedos para esquentá-los. no alto da escada. pág. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. Tendo apalpado o rosto de sua mãe. Por fim. com um saco sob a cabeça à guisa de almofada. ao se exalar.Texto extraído do Artes Gráficas Rio de Janeiro. 39. Diversas vezes. a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. um garotinho de seis anos de idade. Publicada por Helena em 5:40 Etiquetas: Rubem Braga A árvore de Natal na casa de Cristo livro Gomes "Nós e de o Natal". jazia a mãe enferma. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber. chato como um pastelão. nas soleiras das casas vizinhas. saiu do cômodo. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava. mas nem a menor migalha para comer. e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. ou menos ainda. de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. uma espécie de vapor branco. ocupava-se em soprar esse vapor da boca. tateando. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. pegou o seu gorrinho abandonado no leito e. reumática. que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha. depois. e o menino já ganhava a rua. e ele. durante a manhã. tinha se aproximado do catre. sentado num canto em cima de um baú. Souza Havia num porão uma criança. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária. um canzarrão que latira o dia todo.

Em uma janela. pensou o menino. seguramente. lá era tão quente. põe-se a chorar. penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. corre para mais longe. e eis que. pelo menos". sentiu um grande bem-estar. A criança olha. o menino se aproximou. sem poder retomar fôlego. enquanto seus lábios se mexem.murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura. e o frio. Atravessou o portão de uma cocheira. que olha com curiosidade. ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam. Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro.. e bruscamente. mas dessa vez tem medo e corre. abriu a porta e bruscamente entrou. Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali. há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino. Mas. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. desejaria chorar. De lá. de onde vinha.de verdade . e neste outra árvore.. Um moleque grande. em compensação. meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos". vai.. durante a noite. comem e bebem alguma coisa. era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém. pois foi muito rápido. abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. No quarto há crianças que correm. ah! como é bom dormir aqui!" . que claridade. as mãos e os pés tinham deixado de doer. mas era tão cômico. amarelos. Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem. e.. estende-lhe os braços e. refletiu ele. que não podem se dobrar nem mesmo se mover. a princípio. ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha. vamos ver a árvore de Natal. para fingir que não vê. muito calor. não se encontra mais ninguém fora. vem e corre. A cada instante. riem e brincam... latem. e em torno bonecas e cavalinhos.Venha comigo. olham uns para os outros. enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos. dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores. "não me acharão: está muito escuro.e. quanta gente. carruagens. tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. deu-lhe de repente um tapa na cabeça.. através da vidraça. logo sorri. é por causa da vidraça. mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro. malvado. e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças.. meu menino . "Aqui. nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente. logo.. sem saber para onde. derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. Ele ainda pensava que era a mãe. como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça. vermelhos. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo. não era ela. e só os cães.toda gente se apressa e se acotovela. por se sentir tão só e abandonado.nem ele mesmo sabe aonde. com uma árvore que sobe até o teto. davam-lhe de comer. surpresa. estão bem vestidas e muito limpas.Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido. a porta se abre para um senhor que entra. Corre soprando os dedos. como ao pé de uma estufa. quando. e. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. muitos objetos pequenos. O menino apertou o passo para ir mais longe . se não se ouve nada. frutas douradas. é um pinheiro." Sentou-se e encolheu-se. mas não. de tanto medo. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. e atrás dessa vidraça um quarto. através de uma vidraça.uivam. que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!". pôs-se de súbito a rir. e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. Nunca tinha visto bonecos assim. que grande algazarra ali. que eram pessoas vivas.. que estava ao lado dele. ao passo que ali. vou dormir. O menino rolou pelo chão. e sentia calor. "Mamãe. e como está claro. desde o cair da noite. bolos de amêndoa. como todo mundo grita.às centenas e aos milhares.. meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa. Tem vontade de chorar. E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. quando finalmente compreendeu que eram bonecos. nunca tinha visto . De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito. uma árvore de Natal onde há muitas luzes. falam. avista ainda um quarto. mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades. Na ponta dos pés.. toda gente permanece bem enfunada em casa. O menino julgou. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem. algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado. devem falar . através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada. Uma angústia o domina. cavalos. e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta.

e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça. para os meninos que não tiveram sua árvore na terra.. meninos? E vocês. mas alguns tinham morrido. Mas todos estão ali nesse momento. são meninos e meninas. e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz. há. E nesse lugar.. num lugar separado. . cruel. no meio das crianças. como nas brincadeiras de roda. só que muito luminosos! Todos o cercam.. ainda.Mamãe! mamãe! Como é bom aqui. mamãe! . Pai Natal . outros..mas não. .. levam-no com eles. recomendando-lhes que não chorem mais. todas. abraçam-nas.. .. sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos. outros tinham morrido junto às amas.Todos os anos. onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo. meninas. junto ao bom Deus. neste dia. De novo abraça seus companheiros.exclama a criança. no tempo em que grassava. os dois se encontraram no céu. e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas.pergunta ele. Estava morta um pouco adiante. abraçam-no em seu vôo... bonecos . Dostoiévski Publicada por Helena em 5:31 Etiquetas: Dostoiévski 23/DEZ/2008 Bom Natal. uma árvore de Natal.árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha. por toda parte. tomam-no. em algum dispensário finlandês. e em torno. na casa de Cristo.. todos juntos a Cristo. e Ele. os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha..respondem-lhe. e choram. a fome de Samara. todos são agora como anjos. tudo resplandece. cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas. E as mães dessas crianças estão ali. uns sobre o seio exaurido de suas mães.Isto.. E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele. é a árvore de Natal de Cristo . pela manhã. Quem são vocês então. que eles estão muito bem ali. gelados nos cestos. Procurou-se a mãe. estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães. quem são? .

Como qualquer carteiro que gosta do seu ofício. à passagem. mas também de ameaça. também são capazes de deixar uma palavra amiga e um abraço de consolo. nelas vai pousando. vê lá que notícias nos trazes hoje! — diziam-me. mas também das preocupações que não me dão sossego. Vi coisas boas e más. Acho que é assim que os carteiros são . mesmo quando trazem más notícias. que tratam por tu o gelo. Brancas da neve. o frio e a solidão dos grandes espaços brancos onde só há renas e bonecos de neve com narizes feitos com cenouras geladas como estalactites. acreditavam que eu podia fazer alguma coisa para tornar mais agradáveis as notícias tristes e ainda mais alegres as notícias boas. eu acompanhava a vida das notícias que levava e que trazia. sim porque os ofícios também podem escolher as pessoas e não o contrário. — Thor. com casas de madeira. As pessoas costumam gostar dos carteiros. Vi as crianças tornarem-se homens e mulheres e partirem para as cidades grandes em busca de trabalho. Vi desaparecer os mais velhos. Uma lágrima de tristeza no rosto de quem as recebia dizia-me que podiam ser bem melhores do que eram. prestem atenção àquilo que vos vou contar. também vi o mal que as guerras podem fazer a quem quer viver em paz. alegres e tristes e. porque eles. Pode ser-se Pai Natal de muitas maneiras. usando um tom que era de brincadeira. Durante muitos anos eu fui carteiro numa pequena cidade do Norte. Toda a gente me conhecia e eu conhecia toda a gente. que. as pessoas que moravam na pequena cidade de província. por exemplo. Eu. Se não acreditam.Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. em flocos. Foi ela que me escolheu. Vi nascer famílias inteiras. sim porque os amigos são isso mesmo. um nome comum nos países do norte da Europa. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. mas. não escolhi esta profissão. E eu estava sempre ao lado de quem sofria ou de quem ficava contente. onde a invernia durava mais de seis meses e onde a luz do sol era caprichosa e fazia muitas caretas antes de aparecer. Querem saber como é que se chega a Pai Natal? Então eu vou explicar-vos. muito antes de ser Pai Natal. São aqueles com quem se pode contar tanto nas horas boas como nas más. Um sorriso largo mostrava-me que elas tinham trazido felicidade a alguém. no fundo. Nessa altura não me chamava Pai Natal e sim Thor. sobretudo nas terras pequenas. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. Elas sabiam que eu não lia nem podia ler as cartas que lhes entregava.

mais cansado e menos capaz de cumprir a minha função de carteiro. Ao menino foi dado o nome de Hans Christian e quando cresceu passei a contá-lo entre os meus amigos. levei cartas para várias cidades e aldeias a dar a notícia da sua vinda ao mundo. que pediram ao chefe da estação de correios para me substituir. Ele fez-me muita falta. Fiquei-lhe agradecido por aquele gesto de amizade e de confiança. e longe estava eu de imaginar que muitas dessas histórias. como as personagens das histórias de que ambos gostamos tanto.vistos um pouco por toda a parte e eu não me importava que isso acontecesse comigo. para participar como soldado nas campanhas de Napoleão Bonaparte. Passei a caminhar mais lentamente e algumas pessoas começaram a protestar porque a entrega da correspondência se fazia cada vez mais tarde. Acreditem que era uma sensação agradável. ansioso por que chegasse a reforma e. comecei a sentir dores nas pernas e nas costas e o exercício matinal de andar vários quilómetros ao frio deixou de ser agradável e estimulante. queriam que familiares e amigos partilhassem a sua alegria. talvez mesmo escritor. dando asas aos sonhos que fazem voar as histórias e as lendas por cima das fronteiras que separam os países e os homens. Entristecia um pouco mais todos os dias. como nos velhos tempos da juventude. mas que para lá foram entretanto viver. bailarino. mas devo confessar que. — Não chores que ele qualquer dia volta — foram as únicas palavras que consegui dizer-lhe no dia em que o seu pai partiu para muito longe. — Desculpem. Durante muito tempo ele deixou de querer saber se chegavam ou não cartas de longe com notícias frescas e boas. Uma dessas pessoas era um simpático sapateiro chamado Andersen. Tu qualquer dia também vais fazer grandes viagens. mas ele. que tinha ideias arejadas apesar de o seu ofício ser modesto. fora das horas do meu serviço. Houve mesmo pessoas que não eram da cidade. O pai de Hans Christian nunca mais voltou. uma vez postas em livro. para ser famoso e rico. a quem vou eu contar as minhas histórias de carteiro velho? — Vou para Copenhaga. Ninguém mais lhe poderia dar a notícia pela qual ele ansiava: a do regresso de seu pai. Quando ele nasceu. um imperador francês que ele muito admirava. num dia do princípio de Abril. mas melhor do que isto já não consigo fazer — lamentava-me eu. Mas retirar-me para fazer o quê? Para essa pergunta eu não encontrava resposta. — Mas eu não passo de um pobre carteiro à beira da reforma — respondi-lhe eu. Com a idade. As ruas eram agora mais compridas. mas. sorriu e limitou-se a responder: — Enquanto ele puder andar e quiser continuar a ser carteiro. Qualquer dia tens uma grande surpresa — disse-me Hans Christian. até porque me dava a sensação de ter um poder que realmente não tinha. que era meu amigo e que sabia como eu era estimado. o lugar é dele. Nas semanas que se seguiram senti saudades de Hans Christian e das histórias que. Um dia vi Hans Christian de malas feitas para partir e perguntei-lhe: — Para onde vais. de tão felizes que estavam. mesmo puxando pela imaginação. * Ao longo da minha vida como carteiro conheci muita gente. Os pais. viriam depois a torná-lo famoso em todo o mundo. sem a sua presença. rostos novos e eu já não era capaz de conhecer toda a gente. Era uma criança pequena e muito metida consigo mesma. principalmente para um modesto carteiro cujo único poder era o de ler os endereços nos envelopes e de os entregar às pessoas certas sem demora. com pena de que o meu serviço estivesse a perder qualidade. Portanto. Quero ser cantor. lhes nasceu o único filho. rapaz? Se tu partires. actor. — Mas nada te obriga a teres este ofício até ao fim dos teus dias. Eu contava-lhe histórias e ele retribuía com outras que a mãe e o pai lhe contavam. não consegui descobrir qual poderia ser. a sua substituição está fora de questão. Era casado com uma senhora mais velha e recordo-me bem da alegria que o casal teve quando. contávamos um ao outro. nem as histórias que ele contava ao filho ao adormecer. porque. eu sentia-me mais velho. mas ela acabou por surgir. comecei a pensar em retirar-me para ter um fim de vida mais descansado. ao . a partir dessa altura. Fiquei a pensar na surpresa de que ele me falou com um sorriso matreiro no rosto magro e pálido. havia mais casas. enquanto subia para a carruagem que o levaria até à capital.

nosso amigo comum. acaba. balbuciando com a comoção — não sei o que é preciso fazer para se ser Pai Natal e. por aquilo que sei de ti e pelo que sei que as crianças sentem a teu respeito. vais contar os natais e ficarás sempre com a mesma idade. bem podias trazer-nos um presente bonito. Em vez de contares os dias. — E posso ao menos saber o teu nome. estou com muito poucas forças e a saúde muito fraca. mesmo que não seja Natal. — Mas eu — respondi. como sabia que Hans Christian não era pessoa para mentir. Todos os dias eu ficava à espera dessa visita que tardava a chegar. eu iria sentir-me inútil e abandonado. Eu sou a Fada do Inverno e venho propor-te um outro ofício que. me levantou da cama e me levou até à janela para ver. — E será que posso saber qual é esse ofício que agora me propões? — quis eu saber. Acho mesmo que estou velho de mais para aquilo que me propões. A partir de agora alguém mais jovem se ocupará da tua tarefa. — Não sei se sou ou não uma surpresa. — Vais fechar os olhos — disse-me — e. de casa em casa. não desisti de a ver chegar à porta da minha pequena casa de madeira. como uma estrela ou uma fogueira nocturna. cá fora. — Ah. As pessoas vão sentir saudades tuas. vais ter uma saúde de ferro e a idade vai deixar de contar para ti. Os seus livros eram agora lidos em muitos países e as suas histórias contadas a crianças de todo o mundo. mas podem vir visitar-te a casa. que assim se aproximava do fim. uma amiga que te vem ajudar — disse ela. a parte mais importante da surpresa. por ser muito diferente. de uma rapariga de vestido branco e olhos verdes. já cansado de tanto mistério. pelo menos. Numa dessas dessas cartas ele fazia-me um anúncio estranho e ao mesmo tempo agradável: “Prepara-te. nem me apercebi da presença. Foi nessa altura que comecei a receber cartas de muito longe. depois de Espanha e de Portugal. diziam-me: — Em vez de cartas cheias de gatafunhos. na rua. — Não deves preocupar-te com nada disso — explicou ela — porque. Era Hans Christian quem as mandava e em todas elas me dava conta dos seus êxitos literários. ao verem-me passar. sendo parecido com o que tiveste durante tantos anos. Afastado do meu trabalho. Foi então que a fada. Nem podia imaginar a alegria que o seu triunfo me dava. Suponho que Hans Christian. Thor. Eu devia estar a delirar com a febre e a Fada do Inverno não devia passar de uma alucinação. Um dia adoeci com gravidade e os meus amigos disseram-me: — É tempo de parares. Quis saber quem era e o que fazia ali. Mas. com a esperança de que ela tardasse o mais possível. satisfeito e intrigado. mas sou. Deitando contas à minha pobre vida. então és tu a surpresa de que ele me falava com tanto mistério — exclamei. onde as crianças da cidade me vinham pedir que lhes contasse histórias e saber se eu tinha presentes para lhes entregar. quando eu acabar de contar até dez. porque são boas as razões que me trazem à tua casa. mas não me atrevi a acreditar que nada daquilo fosse verdade.mesmo tempo. — Diz-me o teu nome e o que fazes aqui? — Não te assustes. a partir de hoje. — Venho propor-te que te tornes Pai Natal — esclareceu a fada — e. vais abri-los e ver o que está parado à tua porta. junto à minha cabeceira de doente. Às vezes as crianças. Primeiro de Itália. que parecia ter luz própria. ou será que não o podes dizer a um pobre carteiro que deixou de entregar cartas e que vê a sua vida a aproximar-se do fim? — Claro que podes saber o meu nome. . pegando-me na mão. para além disso. afinal. porque dentro de pouco tempo vais receber a visita de uma grande amiga minha que te levará boas notícias”. acho que vais gostar muito do teu novo trabalho. Tem que ter sempre a mesma idade e o mesmo aspecto. Os grandes frios de Inverno deixavam-me cada vez mais abatido e com menos vontade de distribuir correspondência de rua em rua. Tens direito a descansar e a passear pelas ruas e pelas praças sem a obrigação de entregares cartas e encomendas. Confesso que a ideia me agradou bastante. porque um Pai Natal não pode ser mais novo nem mais velho do que tu. te terá falado em mim.

Os pedidos eram satisfeitos pela ordem de chegada e primeiro estavam sempre os meninos e as meninas que. para a terra dos meus amigos cangurus. as fábricas a aparecerem e a encherem os céus de fumo espesso e escuro. — Eu gosto de ser criança e tenho vontade de ser feliz — diziam-me os mais pequenos. feitos a várias cores. mas não caí nela. No começo tudo foi agradável e entusiasmante. Nesse instante deixei também de sentir dores nas pernas e nas costas e a fraqueza que me levara à cama transformara-se num vigor e num bem-estar imensos. Vi. Já estive em vias de chocar com alguns e só por milagre isso não aconteceu. Alguém havia de me dar a sua morada. — Pois podes acreditar no que vês. Falando com os meus botões. o mundo a transformar-se: as cidades a crescerem. se desfazia num clarão. Dividido entre o sonho e a realidade. Ouvi atentamente todas as palavras da fada e comecei logo a fazer projectos quanto à forma de realizar da melhor maneira o meu novo trabalho. e não é muito diferente daquilo que fazias quando eras carteiro. Tive que aprender várias línguas e arranjar óculos com lentes mais fortes. senão ainda lhe teria . Eu nunca me sentira tão bem na minha vida. Mas eu sou um Pai Natal e as pessoas como eu não devem andar de carro ou de comboio. — Gostas? — perguntou ela. Eu nunca percebi verdadeiramente para que servia tudo aquilo. e eles responderam-me: “São os automóveis. com roupa de macia flanela vermelha. nem o seu paradeiro. como era Natal. E muitos não eram. Eu gostava muito daquilo que fazia e não havia pedido que não satisfizesse. Os meus maiores problemas foram sempre com os objectos voadores. se já tinha sido justo como carteiro. as populações a aumentarem e a movimentarem-se de uns países e de uns continentes para os outros. Era uma questão de justiça e eu. cá de cima. deparei com um lindo trenó. Apenas terás que viajar mais e não te poderás limitar a entregar encomendas. — Isto nunca esteve tão mal — lamentavam-se os velhos. Às vezes eu levava horas a tentar decifrar os pedidos que as crianças me faziam. até por ser novidade. prometi: “No próximo Natal vou deixar-lhe um presente na chaminé”. os aviões e os navios”. ninguém espera que andem. ao fazê-lo. ao abrir os olhos. Ao longo do ano chegavam-me cartas e postais de todo o mundo.Fiz exactamente como ela disse e. em Dezembro. primeiro com os aviões e mais recentemente com as naves espaciais. os autocarros e os comboios. E eu. Eu era agora um Pai Natal a sério. ovni de uma figa”! — gritou o comandante furibundo. agora tinha de o ser ainda mais como Pai Natal. Tive que perguntar aos gnomos que me ajudavam e que estavam mais atentos às pequenas e às grandes coisas da terra os nomes de estranhos objectos metálicos que eu observava cá em baixo em movimento. Tornara-me Pai Natal e não ia ter mãos a medir. — Claro que gosto — exclamei — mas não acredito que seja para mim e que vá ser eu a viajar nele. já que ele andava agora por todo o mundo a visitar cidades. depois de ter evitado à justa a colisão com um avião gigantesco que voava para a Austrália. ainda ouvi um insulto (digo que era um insulto pelo tom e não porque saiba o significado da palavra) que ainda hoje me dá que pensar: — “Desaparece da minha frente. puxado por quatro parelhas de renas. gorro da mesma cor com uma borla branca na ponta e com barbas ainda mais compridas do que as que habitualmente usava. com os olhos a faiscarem de raiva. Mas é mesmo essa a função de um Pai Natal. Claro que vais receber muitas cartas e ter que as ler para saber o que querem. porque os meus problemas de deslocação resolviam-se com um simples e rápido trenó. pouco ou nada tinham recebido. A partir de agora serás tu a conduzir aquele trenó e a levar. para que não se estrague a magia das histórias que ajudam a sonhar. Outros vinham escritos com uma letra miudinha e cheia de hesitações. presentes a crianças de muitos países. pelo menos. ou. nem lhe pude responder. escritores seus amigos e a ver os seus livros traduzidos noutras línguas nas montras das maiores livrarias. de onde são e em que medida podes ou não satisfazer os seus pedidos. senti que ela me tocava na testa com a varinha de condão e que. Alguns até traziam desenhos bonitos. mas não sabia a sua morada. as pessoas a andarem cada vez mais depressa. desaparecendo do meu quarto sem sequer me dizer adeus. mesmo que não fosse fácil de atender. ao longo do ano. Há uns anos. Quis agradecer ao meu amigo Hans Christian. Senti a tentação de satisfazer primeiro os pedidos das crianças da minha cidade.

jornais. Pai Natal? — Por nada. eu acho que as pessoas cada vez têm menos respeito umas pelas outras. As renas conhecem-me há tantos. Tinham deixado de morar ali. Levei o meu trenó o mais longe que pude. Mas eu não lhes menti inteiramente quando falei no fumo das fábricas. Para dizer a verdade. folhetos explicativos e muita outra papelada. de olhar para o céu e para o mar. Vou ver se não me esqueço de satisfazer o pedido da Bárbara. de estar com as outras pessoas. é ver os estragos que as guerras provocam às pessoas e às casas. quando o respeito falta. e foi precisamente isso que eu fiz. Não quero dizer que fosse melhor nem pior. o melhor é deixá-lo ficar em paz com os seus pensamentos — costuma ser este o comentário das renas. tantos anos que. também perdi a conta aos anos que tenho de idade. Eu sei que o mundo não pára e que tudo se transforma. até perto das casas dos meninos que me tinham escrito cartas e postais. carros telecomandados. Um Pai Natal não pode contar tudo aquilo que vê. Ainda há pouco abri uma carta vinda não sei bem de onde e. dos peixes. depois da minha conversa com a Fada do Inverno. Ninguém tem tanta sensibilidade como os animais para perceber se estamos ou não a sofrer. leitores de CDs. Muitas vezes chorei sobre as cidades destruídas e incendiadas pela guerra e ouvi as minhas renas a perguntarem-me: — Porque choras. primeiro porque não costumo dar máscaras antipoluição e depois porque não existem nenhumas feitas à medida dos pássaros. não os encontrei. quando finalmente chegaram. Confesso que tenho feito um grande esforço para me manter actualizado. sempre à espera de dias melhores e mais pacíficos. meu azelha dos céus. Por isso. os meus ouvidos andam cansados de ouvir tantas queixas. nada disto existia. — Quando ele está assim triste. No tempo em que eu contava histórias a Hans Christian e ele mas contava a mim. de ouvir e de contar histórias. porque nos fazem pensar e nos ajudam a fazer pensar os outros. vi que uma menina chamada Bárbara me pedia um telemóvel para poder falar a qualquer hora do dia com os primos que estão emigrados no Canadá. das crianças. já estavam fora de tempo. marionetas e bonecas de pano. muito diferente. mesmo não vos contando as coisas terríveis que já vi. sobretudo quando são pequeninos como os colibris. mas não faz mal. é do nevoeiro e do fumo que sai das chaminés das fábricas — respondi eu com pouca convicção. Era só o que faltava: eu envolvido numa discussão de trânsito! O que mais me tem custado em todos estes anos que levo de ofício e que já não têm conta. mesmo sem querer armar-me em filósofo de trazer por casa. mal eu começo a fungar. Às vezes. dos pássaros. É isso que se espera de um Pai Natal. Era tudo mais simples e menos confuso. Acho apenas que era diferente. Guardei os seus presentes no meu sótão iluminado. Claro que não pude satisfazer o pedido. porque eu. Mas esses dias. Mas também sei. mas. o velho Thor às vezes interroga-se: “Será que os presentes que eu entreguei ao longo da minha vida fizeram bem aos meninos e às meninas que os receberam? Será que não ficaram mais mesquinhos e gananciosos por terem presentes a mais?” Ainda não consegui e se calhar nunca conseguirei encontrar respostas para estas perguntas. as perguntas são muito mais importantes que as respostas. É mesmo verdade. que há coisas que as pessoas não podem nunca perder: o gosto de conversar. Vai mas é arrumar essa banheira de lata pintada na garagem da tua avó. Cada vez mais andam no ar fumos esquisitos e irritantes. carros de bombeiros feitos de lata. sabem logo que é uma grande tristeza a tomar conta de mim. Por aí vejo as voltas que o mundo deu. na maior parte das vezes. mas elas perceberam que eu não estava a falar verdade. dos que fazem chorar. Há meses até recebi uma carta de um colibri a pedir-me uma máscara contra os fumos de uma grande fábrica que construíram perto do seu ninho. Agora pedem-me coisas muito diferentes: jogos de computador. Não me chegam os dedos das mãos para contar os natais em que fiquei sem entregar presentes. tinham sido levados para campos longínquos onde as pessoas são tratadas como bichos e alguns nunca mais puderam regressar às suas casas. tudo se torna possível. lendo o segundo parágrafo. Mas os pedidos estranhos não se ficam por aqui. Até me arrepio quando falo nisto. Ovni é a tua prima! Mas achei de bom tom ficar calado e seguir viagem. Aqui. nem que seja para contar estrelas ou ondas. Leio livros. dos que fazem espirrar e dos que nos deixam cheios de comichões na pele. porque é para isso que um Pai .dito: — Ovni és tu. Antigamente pediam-me ursos de peluche. e. das árvores e dos rios.

* Embora todos ou quase todos sonhem com o Pai Natal quando são pequenos. — Pai Natal. ainda com a idade de ser um menino. mas. era bem capaz de me dar razão. Sentei-me na cama e tentei tocar-lhe nas barbas. senti que tinha os movimentos presos. Não tenho nada contra a televisão. um miúdo de cabelos negros e olhos muito vivos. Sempre que olhares para ele. Esta madrugada. é possível. este ano vou oferecer-te um livro muito bonito. mas. me torno um desmancha-prazeres. Sonhei que recebia a minha própria visita. — Ninguém me disse. e de repente bateram à porta e era eu que vinha entregar um presente a mim mesmo. na minha terra fria do Norte. antes de vir bater à tua porta. E foi isso que eu fiz. ou quase tudo. Vim até à tua casa para te oferecer este pequeno trenó. cheio de coisas para contar e de presentes para entregar. Ainda esta noite tive um sonho. preferia que ela me tivesse pedido um livro de lendas ou uma boneca. ainda menino. — Mas quem foi que te disse que eu ia querer um trenó para usar quando tiver a tua idade? — perguntei eu. recebeu. sendo menino. e senti uma grande ternura. Agora eu pergunto: será que é real o que vos estou a contar nesta história? Será que há histórias verdadeiras? Será que um Pai Natal. Quanto a dar televisões de presente. E pronto. tenho saudades das noites e dos dias em que havia paciência para sonhar e para inventar histórias. vais precisar de um trenó como aquele que agora te ofereço. mas prefiro dizer o que penso e o que sinto. não é sempre uma figura mágica. eu não sei mesmo o que seria a vida de um Pai Natal se não fossem os sonhos que o acompanham por toda a parte. se aqui estivesse o meu amigo Hans Christian. Quando o ecrã é grande até as guerras são um espectáculo! — disse-me na semana passada. hás-de lembrar-te de mim e hás-de lembrar-te daquilo que irás ser quando tiveres a minha idade. tinha chegado o momento de acabar o sonho. são manias que eu tenho. prefiro fazer outras escolhas. Eu estava a dormir. sinceramente. que não conseguia sequer mexer um músculo.Natal existe. barbas tão compridas como as minhas e este ar cansado e errante com que hoje me vês. à passagem por uma aldeia de montanha. como sou do tempo em que ela ainda não tinha sido inventada. até sonharmos que recebemos a nossa própria visita. mas por todos aqueles a quem consigo dar um pouco de alegria com o recheio mágico do meu saco iluminado. — Mas como podes tu saber a meu respeito coisas que eu nem sou capaz de imaginar? — Se calhar é a vantagem de ser Pai Natal. mas presentes desse tamanho já não cabem no meu trenó. que estava mais rígido que um pedaço de granito numa montanha. Não por mim. este ano tens que me trazer uma televisão gigante para eu ver o que se passa no mundo. Eu sei que quando tiveres a minha idade. fui eu que adivinhei. Como vocês sabem. os presentes da alegria e da saudade de ser menino? Podem ter a . Pode ser que eu esteja a ver mal as coisas. Eu ia fechar os olhos. Não leves a mal. em tom de menino esperto e inquiridor. às vezes. Sentei-me na cama e perguntei-lhe: — Que presente me trazes? — Trago-te um trenó pequenino para tu poderes viajar nele quando tiveres a minha idade — respondeu-me o Pai Natal. nos sonhos tudo. só que muito maior e com renas verdadeiras. mergulhar numa escuridão profunda e preparar-me para ser apenas aquilo que sou nesta história que hoje vos conto na primeira pessoa: um Pai Natal vindo das terras geladas e brancas do Norte. Olhei. na altura certa. e eu respondi-lhe: — Em vez da televisão. eu gostava de vos dizer que o Pai Natal também tem sonhos e gosta muito de sonhar. mesmo quando conta a sua própria história. eu passei pela casa de um outro menino chamado Hans Christian. Era eu menino a olhar para mim já velho e a sentir simpatia por aquele homem de barbas compridas e brancas que me trazia um presente de muito longe e de um sítio secreto no fundo da noite. nascida da imaginação de quem já foi menino e de quem. mas. Mas eu vou tentar satisfazer a tua curiosidade. como sempre acontece nos sonhos. Se calhar. mas. para aquele Pai Natal que era eu com os anos que hoje tenho. Olhei para aquela cara e confesso que ela não me pareceu nada estranha. em sonhos. Eu sei que. que me pediu para não me esquecer de ti nesta noite de todos os presentes e de todos os afectos. De resto.

“porque não tentam uma fundação ou uma empresa de brinquedos? A nossa função não é dar subsídios ao Pai Natal”. quando era pequeno. O maior de todos os azares aconteceu-me há dias. quando eu dava os primeiros passos no meu novo ofício. Endireito as costas no assento do meu velho trenó e parto para um outro capítulo. de varinha de condão em riste. Sigo o fio de luz deixado por um cometa que atravessa a noite em direcção a lado nenhum. Porque vocês me inventam e porque eu. os avós e os grandes amigos podem ser. porque isso só pode acontecer no fim da história. Fui ao armário dos segredos antigos buscar um xarope feito a partir de uma receita da minha avó e hoje já estou bastante melhor. Quando cheguei a casa os gnomos que me ajudam notaram que eu tinha o nariz a pingar e os olhos muito vermelhos. Porque não quero e porque não sei. só não vos entrego já o presente que trouxe para vos dar. Gosto de perguntar qual é o melhor caminho para chegar mais perto daqueles de quem gosto. de receber as minhas visitas na noite da Consoada. Visto o meu casacão de flanela e faz um calor abrasador. mas agora passo os dias a espirrar. — O Pai Natal vai ficar de cama e não pode entregar os presentes — disse-me Adónio. É seguindo estes rastos que eu encontro sempre o caminho que me leva até ao fim das histórias e até à casa de cada um de vós. pela primeira vez em tantos anos. ao saber-me inventado. que tenho passado por muitas peripécias e também por muitos azares. Ia eu todo satisfeito a sacudir as rédeas do meu trenó. “as nossas disponibilidades financeiras estão esgotadas com a compra de dois novos porta-aviões”. Pai Natal. Por isso eu vos disse. Estávamos a ver que nunca mais acordavas! — desabafou uma das renas. Eu bem apito. talvez não tivesse salvação. no começo desta minha história. e ainda tenho muito para viajar e outro tanto para contar. * — Atchim! Atchim! — desculpem lá o mau jeito. quem manda às vezes tem a memória curta e esquece-se de que um dia já foi pequeno. Nunca sei se é Verão ou se é Inverno. Mas as respostas que receberam eram quase todas iguais: “O orçamento deste ano não prevê despesas supérfluas”. Agora estou acordado outra vez. Gosto de perguntar qual é a morada das estrelas que me iluminam o caminho. Não tenho medo de morrer com uma constipação. E. mas também é verdade que quem escreveu estas cartas de resposta gostou sempre. coitadas. a cair daquela maneira.certeza que não vou dar resposta a nenhuma destas perguntas. o que não quero é faltar ao encontro com os meus amigos de todo o mundo na noite de Natal. — Vamos fazer-nos outra vez ao caminho. Estão todos muito ocupados a pensar nas suas vidinhas. Os esquis estão desengonçados e as renas. Mas eu não me deixei assustar com a perspectiva de ficar de cama. Vi-a chegar em voo picado. pedindo para me ser dado um trenó novo. e achei-a tão bonita e tão luminosa como na primeira luz em que nos encontrámos. mas a verdade é que temos outras prioridades para respeitar”. se é Primavera ou se é Outono. Um Pai Natal é muito mais interessante quando pergunta do que quando responde. também me sei amado como só os pais. Foi então que. cada vez têm que fazer mais esforço para o puxar através das longas e sempre engarrafadas avenidas do céu. Ai. Fico em mangas de camisa e sinto um frio de rachar. meus amigos. Vá lá um Pai Natal orientar-se no meio destas mudanças de temperatura! A constipação que agora me anda a incomodar apanhei-a há dias quando me saltou um esqui do trenó e passei ao relento mais de duas horas a repará-lo. Tudo isto é bem capaz de ser verdade. — Pronto — gritou-me ela — ainda não é desta que vais deixar de ser Pai Natal! . quando senti que o tapete fofo das nuvens me fugia debaixo dos pés. o mais esperto e espevitado de todos eles. Gosto de perguntar onde começa e acaba o sonho dos meninos que me inventam em cada noite de Consoada. mas ninguém se afasta para me deixar passar. bem sacudo os guizos e os chocalhos. dito isto. “lamentamos informar que a resposta será negativa. Um grupo de amigos meus do País dos Sonhos Azuis decidiu escrever uma longa carta aos governos de vários países. Senti que me afundava e que. pedi a ajuda da Fada do Inverno que não tardou em vir em meu auxílio. O que me está a preocupar é o mau estado em que tenho o trenó. no meio de um enorme clarão. e eu ainda tenho um longo caminho a percorrer até lá chegar. As estações do ano andam todas trocadas. E eu gosto muito de ser perguntador.

— Obrigado. quando os abri. Quanto às histórias. — Faça favor de dizer — respondo-lhe. de tão desnorteado que estava com a prolongada queda. Não fiquem nervosas. Jorge Edinter. Fechei os olhos e adormeci. piores serão os efeitos do sol sobre a pele dos seres humanos. encarrego-me pessoalmente de verificar se tudo está em ordem: os endereços. exausto de tantas peripécias e visitas inesperadas. Fada do Inverno. — Com certeza que vou satisfazer o seu pedido. — Não foi difícil. junte a cada um dos presentes que entregar um saquinho de sonhos e de mistérios. — Nunca pensei que um homem que nunca tem Natal desse com a minha morada — comentei. que é o do sonho e da fantasia. mas preocupado. muito pálido e magro. — É o resultado de todos os males que os homens têm feito à atmosfera. como sempre acontece. — Meu querido Pai Natal — esclareceu-me ela com a sua voz doce e bonita — o que aconteceu foi que caíste no buraco do ozono. que é uma das últimas maldades que os homens conseguiram fazer a este pobre planeta. me impeça de cair de novo no buraco do ozono. Traz um velho cavalo preso pela rédea e parece estar muito cansado. Esclarecido. O velho cavaleiro que nunca teve Natal já deve estar muito. Vão ter uma boa recompensa de erva fresca. Toca o telefone e eu atendo. — Essa é a parte mais fácil de tudo isto — respondeu o homem — porque eu trago nos alforges do meu cavalo centenas de sacos desses. Batem-me à porta e vou abrir. sobre as culturas e no próprio clima. Nada mais simples. Era só o que nos faltava! Está a aproximar-se a grande noite da distribuição dos presentes e eu. cenouras e açúcar e muito tempo para descansar”. Logo à noite vou mais uma vez distribuir presentes de Natal às crianças de todo o mundo. vestindo roupas escuras de um século anterior àquele em que eu nasci. surpreendido com tão inesperada visita. Logo à noite passarei pela tua casa para te deixar uma lembrança. Têm dentro um pó luminoso de magia e algumas sílabas encantadas que só se usam nas palavras das fadas e dos adivinhos. a quem devo o ofício que hoje tenho. que me diz: — Quero desejar-te um bom Natal e pedir-te que nunca te esqueças desta noite. mas será que posso saber o que me aconteceu? — perguntei eu. pela tua ajuda.— Obrigado. Quando ouvires os guizos das renas. digo-lhes num tom calmo e afectuoso. Ainda vou precisar de ti para entrares em muitas das minhas histórias. tal como eu. no meu velho e esvoaçante trenó. muito longe. As minhas renas começam a ficar impacientes com a proximidade da grande viagem através dos céus da noite. já sabes que sou eu que estou a chegar. — Venham os saquinhos — propus eu — e logo me encarregarei de os distribuir. É que os homens esqueceram-se de como se sonha e isso tornou-os muito mais tristonhos e carrancudos. Do outro lado está Hans Christian. — Mas o que é o buraco do ozono? — quis eu saber. Dar com a sua casa foi tão simples como sonhar. porque um Pai Natal tem que ser cuidadoso com todas as etapas por que passa o seu trabalho. mas ele já estava de partida com a sua montada. embora não saiba onde posso encontrar esses saquinhos de sonho e mistério. Hans Christian — respondo. “Calma. Nunca deixei essa tarefa em mãos alheias. Fechei os olhos. a caminho de qualquer lugar que eu nunca serei capaz de encontrar no mapa. José Porto. estava aqui a bater à porta. E só espero que a protecção da Fada do Inverno. — Desejo que tenhas também uma boa noite de Natal. — Quero pedir-lhe que. usando e abusando de “sprays” e de outros produtos químicos que poluem e estragam. cheio de curiosidade de saber como tudo aquilo tinha acontecido. meninas. pensei que tinha esse desejo e. porque nós agora pertencemos ao mesmo mundo. Senhor Pai Natal. Quem me procura é um senhor de idade. neste Natal. podes contar comigo. os laços nos embrulhos e as mensagens nos cartões que acompanham cada pacote. Quanto mais o buraco do ozono se alargar. Letria 1996 . ajeitei a minha amarrotada fatiota e fiquei a saber que existe mais um problema que todos vamos ter que resolver: o do buraco do ozono. — Eu sou aquele que nunca teve Natal — diz-me — e venho aqui pedir-vos um grande favor. que vai ser só mais uma viagem para entregar presentes. Ainda quis convidá-lo para beber um chazinho de tília.

assim. no pátio maior. e Miss Lu. de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo. a senhora Tung balbuciava. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito. indicando a irmã Chen-Mou. Nesses dias.. nem no terceiro Natal que passei em Macau. a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim. seca de carnes. o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. levavam-lhe chá ao quarto. falava inglês. na época do Natal. Todavia. Aldegundes. entregando cerimoniosamente o presente à filha. As criadas cortejavam-na nos corredores. tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores. Para lá dos pátios. bebia dois cálices. Encontrava-a por fim à mesa. contudo. como quem cumprisse um dever. ao fim da Missa do Galo. a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita. como mal provara o «chá de Paris». com chocolate quente. Sorríamos. Quanto à senhora Tung. A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung. O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Ficávamos. pensativos. com a irmã jardineira. a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório. Além de ser mãe da subdirectora. No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.. à porta da cozinha. mas o coração atraiçoava-a. A filha. preparavam-lhe pratos especiais. sempre atenta aos passos das monjas. vestira-se de gala para a festividade da meia-noite. fanática terceirafranciscana. . de olhos atenciosos. com as meninas em férias. curiosas. «chá de Paris». Entretanto. Daí a presença da senhora Tung. Com um sorriso meio complacente meio contrariado. que por sua vez o oferecia à directora. Via-a casualmente a contemplar. e. saboreava-o devagar. O coração continuava apegado a antigas devoções. a senhora Tung.. se tornar nessa altura notável. embevecida. coscorão lençol. aparecia com as especialidades da terra: aluares. gostava de comer. nem no segundo. A seguir ao jantar falava-se nisso. A senhora Tung chamava-lhe. a senhora Tung e eu. E muito empertigada. sorvia à pressa o líquido escaldante. depois. Uma das criadas entrava. Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora. tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa. que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes). silenciosa. Inclinando a cabeça para o peito. dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus. a senhora Tung era cristã. perguntava em chinês formal quando era o baptizado.Publicada por Helena em 6:34 Etiquetas: José Jorge Letria 21/DEZ/2008 Natal Chinês A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. passando a bandeja dos bolos à superiora. À luz das velas olorosas do centro de mesa. a senhora Tung sorria constantemente. uma em frente da outra. o presépio do convento. farte almofada. molhando nele o bolo. o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. a irmã Chen-Mou desconversava. a irmã Chen-Mou. a filha sabia. na noite de Natal. mas todos os anos se nomeava catecúmena. Costumava vê-la logo de manhã. de jogar ma-jong. dobrava-se quase até ao chão. a criada macaense mais antiga do colégio. Finalmente. a acompanhar os bolos de sésamo. fartes e coscorões. O chocolate era a esperada surpresa da directora. Os restantes comêlos-iamos nós. Baixa. Nem no primeiro. no grande e deserto refeitório.. e saía atrás delas. que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente. segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda. de fumar. a subdirectora e a mestra dos estudos. Rezava-se. que separava uns tantos para o convento. em ar de gracejo. quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa. Toda de vermelho. O certo. é que ambas o bebíamos. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem). Servia-se vinho de arroz. A directora. os seus olhos eram dois riscos tremulantes. as criadas espreitavam.

mãos cruzadas no colo. feições chinesas.. em cima da cómoda. a senhora Tung abria a gaveta. não me acreditaria. Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus. Tratava-se de uma pequena divindade. Não podia portanto deixar de a amar. operava milagres. Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras. mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Já em casa. de cabaia de seda encarnada. Depois. O Menino. A senhora Tung. espantada. anunciadora do Inverno para a madrugada. convidava-me a ir ver o seu presépio. . Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada. chegava de repente. O quarto cheirava fortemente a incenso. como se à procura de compreensão. de pé.. aludindo ao tempo. de um palmo de altura. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. sapatinhos de veludo preto. de assunto. O Inverno.. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia. por causa da deusa. Maria Ondina Braga. Estéril durante sete anos. toda nua e toda de oiro. a subdirectora do colégio ―.. atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. às saborosas guloseimas da criada macaísta. e surgia a deusa. apesar da aguardente de arroz. num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade. por causa da deusa.. O Menino Jesus era de marfim. Parava a meio do largo átrio enluarado. Despedíamo-nos. timidamente. patrona dos lares. Em cima da cómoda. A deusa.Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa. rápida. na gaveta. que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer. na gaveta. Toda a felicidade lhe provinha daí. ― a «menina» era a irmã Chen-Mou.. entre flores. a senhora Tung abria-se em confidências. E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo. trajando ricamente. E quem sabia mais do que a filha ? Eu já sentia frio. sob uma lua branca. de qualquer jeito. sim. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas. no entanto. lá estava o Menino Jesus. Mudava. sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa.. A China Fica ao Lado . sentada. Não. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. mas racionalmente. pequenina. E que. A Deusa da Fecundidade era de oiro. não devia fazer aquilo. Fora ela quem lhe dera filhos. de olhar meditabundo. em cima da cómoda. tinha as mãos quentes e as faces afogueadas. nua. A menina sabia. Como o Céu alagando a Terra na estação própria. nem ela parecia esperar resposta. dessa afortunada hora em que a deusa a escutara. como se falasse sozinha. Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. à viagem de regresso. ali..

e como vissem um homem perguntaram-lhe: – Você viu pra aí algum cão atrás duma lebre? Diz ele: . Um dia determinou o rei sair à caça. e ele mete-se a correr atrás dela – e dali a pouco já o não avistavam. não passas sem me vender o teu cão. No outro dia voltaram à caça. que o meu cão é o meu governo! De maneira que o velho foi-se embora a vender as lebres. e passaram à rua do rei. e vão dizer logo a Sua Majestade: – Ali vai o velho outra vez! E outra vez com o burro carregado! Diz-lhe Sua Majestade: – Ó velho. Passa o velho pela porta do rei. Correram todos a uma altura para avistarem o cão. Vendo o velho com tanta lebre a carregarem o burro. Foi o rapaz pra casa do padrinho. e o burro tornou a vir outra vez carregado de lebres! Diz o rapaz: – Pai. De maneira que pediu ao compadre que lhe deixasse ir o afilhado lá pra casa. não senhor. Começou o rapaz a praticar. Todas as lebres que apareciam. o cão fez-se num homem. Pediu uma quantia que a ele lhe pareceu. Levantou-se uma não tardou nada. Assim que chegaram ao campo. não tenha fezes! que amanhã saímos. e já ia fazendo algumas coisas. não senhor. que o queria educar muito bem-educado. que eu to dou pelo teu cão. e foram-se para o campo. foi o meu cão! Diz-lhe o rei: – Hás-de-me vender o teu cão. todos se admiravam! – Oh! Tanta lebre que leva aquele velho! Diz-lhe o rei: – Ó velho! Como apanhaste tu tanta lebre?! – Isto. O pai era pobre. e não tinha sequer que lhe dar de comer. O padrinho. de modo a nunca vender senão as lebres. mas vossemecê peça muito dinheiro. e o rapaz tudo era querer aprender. e vieram-se embora a vendê-las à terra. e o padrinho pô-lo à escola. que levasse o afilhado. que o meu cão é o meu governo! – Pede o dinheiro que quiseres. e deixou-se ficar muito bem parado. diz o filho: – Pai. começou ele a ver fazer artes ao padrinho. que o padrinho fazia artes diabólicas. Fazia artes diabólicas o padrinho. Quando o rapaz já ia sendo crescido. e fartava-se de espreitar o que fazia o padre! Até que uma vez encontrou um livro e pôs-se a ler – e viu que dali estudava o padrinho as artes que fazia. olhe que o rei há-de-lhe dizer para me vender. eu agora faço-me num cão e vou à caça. e levou com ele todos os companheiros. e começou logo a andar caçando. para verem o cão apanhar as lebres. – O meu cão não vendo eu. mas vendo-o o filho tão apaixonado e adivinhando logo a razão por que era. e as lebres que vir apanho-as todas! De maneira que o rapaz fez-se num cão.Publicada por Helena em 6:10 Etiquetas: Maria Ondina Braga O Conto das Artes Diabólicas Era uma vez um padre que tinha um afilhado. todas apanhava! Carregaram o burro de lebres. senhor. mandou-o embora para casa do pai. Depois de chegarem ao campo. e verá que arranjamos muito dinheiro! No outro dia prepararam os dois um burrinho que tinham. e o velho levou o dinheiro e o rei ficou com o cão. – O meu cão não vendo. e o rapaz aprendeu a ler na ponta da língua. O compadre disse-lhe que sim. como deu notícia que o rapaz ia já fazendo algumas coisas. Assim que percebeu que já o não avistavam. diz-lhe o rapaz: – Pai. começou logo o cão a andar à busca.

e disse para a filha muito alterado.– Vi! Lá vai ele a correr. e achou o anel. O padrinho fez-se num galgo. O anel fez-se-lhe num homem deitado com ela – que mal o vê começa a gritar. assim que as viu. já temos que comer?! – Isso sim! O que me deu o rei. tiraram-lhe o freio. O pai recebeu o dinheiro e entregou o cavalo – mas não se lembrou de lhe tirar o freio! Apanha o padrinho o cavalo e monta-se nele – e agora verás quem há-de fugir – e da corrida ia-o rebentando! Até que se apeou à entrada de um povo. lá baixo! Lá vai ele já muito longe! Ora até agora eles correm. A princesa quando o viu: – Olá! Um anel tão bonito aqui na varanda?! Apanhou-o e meteu-o no dedo. Foram elas. e mete atrás dele. com um cavalo que era uma lindeza! Quem havia de ele encontrar? O compadre! Viu logo que tinha o afilhado diante dele. De maneira que o velho marchou para a feira. Diz: – Ó compadre! Quer-me você vender o cavalo? Diz: – Vendo! Mas vai-lhe custar muito dinheiro! O padre deu-lhe todo o dinheiro que ele lhe pediu. e vossemecê vai à feira a vender-me. Roubaram-mo! – Deixe! Logo se arranja mais! Torna o filho a dizer ao pai: – Pai. fez-se num anel – e caiu! Onde havia de cair o anel? Na varanda do palácio do rei! Foi a princesa até à varanda. e o cavalinho. Chegou: – Então. mas quando me vender. Vamos-lhe levar uma caldeira de água. Prendeu o cavalo a uma árvore. Tanto que viu que o padrinho o agarrava. Passaram duas que iam para lá. ladrões o levaram. O padrinho faz-se numa águia. esse nunca soube para onde foi o rapaz. a ver se ele bebe. faz-se numa pomba e larga a voar. a ver o que era: – mas ele torna outra vez a fazer-se em anel e meteu-se logo no dedo da princesa. e antes de ir onde tinha de ir disse para o animal: – Quieto ai! Com outra corrida hei-de-te arrebentar! Ali perto havia um poço. onde as mulheres iam à água. tudo era querer ir também direito ao poço. Corre o pai ao quarto da filha. que era muito bonito. não quis tirar o anel e deitou-se com ele. e ele aí vai atrás da lebre! Tanto que viu que o padrinho já a agarrava. quando a princesa se foi deitar. feito num cavalo. A noite. pai. Diz-lhe o pai: – Tu que tens?! Diz: – Ó meu pai! que tenho um homem dentro da cama! O pai buscou e não viu nada. porque não viu onde caiu o anel. a ver se descobrem o cão! De maneira que trataram mas foi de se ir pra o palácio – e o rapaz para casa do pai. Mas apanha-se o cavalinho sem freio – e agora verás quem há-de fugir! Vem o padrinho e faz-se noutro cavalo mais forte. – e o padrinho. Levaram-lha e ele não podia beber. e mete logo atrás da pomba. Dizem as mulheres: – Tira-se-lhe o freio. – Isso são loucuras! Vê lá agora se ainda tornas! . vai vossemecê ver como se arranja mais! Agora faço-me num cavalo. tire-me o freio. faz-se numa lebre. Quando viu que o padrinho já o agarrava. Diz uma: – Aquele cavalinho tem muita sede. porque a sua vontade era apanhar o cavalo pra em seguida dar cabo dele.

Mas ela a desenfiar o anel – e a deixá-lo cair no meio do chão! Cai o anel no meio do chão – e faz-se logo numa romã. o anel que torna outra vez a fazer-se num homem. e tu vende-me – mas quando me passares para a mão dele. deixa-me cair no chão.. com medo do pai. e diz: – Oh! Aquilo é o meu afilhado!.. e o anel diz à princesa: – Aquele homem que veio aí pra tu me venderes é o meu padrinho. E foi e disse à princesa se lhe vendia o anel. .. Foi-se embora o padre pelo mesmo caminho. Ele anda pra ver se dá cabo de mim.. e ainda cá há-de voltar pra que me vendas. Os meus amores Publicada por Helena em 5:56 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 20/DEZ/2008 Conto de Natal . – sempre lhe disse: – Vá lá! Vendo! Trataram o preço. toda esbugalhada! Faz-se o padrinho numa galinha.. Vende? Vendo. Trindade Coelho. e a princesa meteu-o no dedo. Ela disse-lhe que não – que lho não vendia. e os pintos matou-os todos! Ali acabou o padrinho com a existência.Com que não sei se o anel ainda existe ou se já levou fim – porque eu vim-me de lá embora e nunca mais o vi. Escapou um bago que os pintos não viram! Era ele – que se fez numa raposa e comeu a galinha. com muitos pintos. e ele deu o dinheiro. já não gritou. e quando foi de manhã ao levantar.Começou a andar muito soado um anel que tinha a princesa! O padrinho. e deitam-se todos a comer nos bagos. deitado ao pé da princesa! Ela.. o homem fez-se outra vez no anel. e ele ficou feito anel no dedo da princesa. desconfia.. . Mas estaria o rei a pegar no sono. que ouve falar tanto no anel. Outra vez foi o padre onde à princesa: – A Senhora Princesa há-de-me vender o seu anel. não vendo..E foi-se para o quarto e meteu-se na cama.

Primeiro pela colheita do musgo. um milagre. caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. os primos. a avó já tinha colocado figuras mais toscas. A viagem começava em Dezembro. Acendiam e . pastores. que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo. Seguia-se a mãe. mais rebanhos. eu ia a Belém. A cabana. dos muros ou dos troncos das árvores velhas. atravessava os rios e os lagos. eram bonecos de barro comprados nas feiras. rios. Maria. José. que era mais do que um presépio. Mas agora era o Novo Testamento. mesmo antes de o Menino nascer. E a avó?.Todos os anos. tábuas. ou mesmo infraestruturas. enquanto a avó ia montando o que se chamaria hoje as estruturas. João Baptista baptizava nas águas do Jordão e aquele monte. lagos. Ficavam montanhas. gente que descia das serras. E todos os caminhos iam para Belém. a vaca. alguns amigos. Mais tarde os rios e os lagos. Via-se logo que era a fingir. ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. de vestido comprido. planícies. podia ser o Sinai ou talvez o último lugar de onde Moisés. Eram caixotes. no princípio das férias. pelo Natal. o burro. era uma peregrinação. sem lá entrar. andávamos pelo Velho Testamento. principalmente da ameixieira. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. eu. como aquele caçador que a avó colocava à frente dizendo: Este é o pai. entretanto. de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. de porcelana inglesa. dir-se-ia que ia para o baile. todos a caminho de Belém. com bocados de espelhos antigos. Jesus deitado nas palhinhas. uma jornada mágica ou. se quiserem. perguntava eu. saía de cima de uma mesinha da sala de visitas e agora estava ao lado do pai. E todas as manhãs deparávamos com novas casas. Enchia-se a canastra devagar. E todos iam para Belém. era bom sentir as grandes fatias despegarem-se da areia. nos recantos mais húmidos do jardim. Nós estávamos ali e não estávamos ali. os três reis do Oriente. caixas e tábuas desapareciam. passeávamos nas margens do Tiberíades. Não o da avó. À noite tremulavam luzes. A avó ia buscar as figuras ao sótão. Cortava-se como um bolo. De repente era a Judeia. olhando levemente para trás onde. Eu já estou velha para essas andanças. ao longe. a minha irmã. Até que todos os caixotes. Era uma nova criação do mundo. mas não. De dia para dia mudávamos de lugar. junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. viu finalmente a terra onde corria o leite e o mel. Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto. alguns mais antigos.

Era uma estrela no céu. Empurrava-nos um pouco mais para a frente. as figuras de Maria e José. uma estrela nos guiava. para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. era uma estrela que nos guiava. mas não fui capaz de bebê-la assim. atalhava a avó. . Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. deitado nas palhinhas. Depois. Naquela noite. E era uma estrela que nos guiava. não podes apressar o tempo. de caçador. Traziam o oiro. nem José. na Judeia. não conseguia deixar de corrigir o meu pai. onde Jesus. Caminhos e caminhos que iam para Belém. Talvez fosse a consciência de que. o mesmo sentimento de algo para sempre perdido. Procurei o bistrot onde . nem mesmo os mais duros. estávamos ali em carne e osso. Às vezes nós. dir-seá. de vestido de baile. Na noite de Natal os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Cheirava a musgo na sala de jantar. quase assustado. nem Maria. a pé. Mas ainda não se via a cabana. dentro de casa. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o pior de todos os exílios que é o de se sentir estrangeiro no mundo.” Não chegaram nada. outros lugares. Maria e José debruçavam-se sobre o berço. os vales. eu. a mirra. Saudade. completamente só. em Paris. a que a avó não ia. que também não dizia Pai Natal. eu estava sozinho. Comprei uma garrafa de vinho do Porto. Os montes. de burro. os primos. uma estrela de prata. era noite de Natal. verdadeiramente mágica era a avó. Talvez recordassem outras avós. ainda não. os rios. a grande estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras. de camelo. juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente / Já chegaram a Belém. quase sempre com lágrimas nos olhos. e vínhamos nós. muito mais tarde. trocavam-se presentes. Reuniamse em casa deste ou daquele. Magos. Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. improvisava-se uma árvore de Natal. Mais tarde. já não sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu. E a estrela lá estava. A estrela brilhava intensamente sobre a cabana. de José. nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. À noite. os mais pequenos. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. A avó chamava-nos ao sótão ( nós dizíamos forro ). os três reis do Oriente. trazia o Natal para dentro de casa e levava-nos a todos até Belém. todo rosado. chegavam a Belém para depositar aos pés do Menino o oiro. agitava os braços e as pernas. eram mistérios da minha avó. brilhava cá fora entre as estrelas. a estrela que nos guiava. Nunca nos deixou ver o resto. dizia a avó. dentro de nós. Pela sua magia Belém estava dentro de casa. já eram dos avós dos meus avós. Por vezes surgiam novos lagos. o incenso. talvez dentro de nós. brilhava dentro de nós. não éramos de porcelana nem de barro. na sala.Não lucras nada com isso. Mas ninguém. Mas ela descobria. Confesso que às vezes fazia batota. dizia S. Magos. o mesmo buraco por dentro. tínhamos chegado finalmente a Belém para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do Oriente. e vinha o pai. Uma noite de Natal. aparecia uma que brilhava mais que todas. os lagos. explicava o pai. Era ela que fazia o milagre da transfiguração. Na manhã seguinte lá estavam eles. para lá de todas as crenças ou não crenças. chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém. No céu. naquele momento. abria uma velha arca e desempacotava a cabana. havia um irremediável sentimento de perda. nós não estávamos na sala de jantar em frente do presépio. A avó limpava-os com muito cuidado e mandava-nos sair. Mas mágica. E a estrela de prata. Cada vez havia mais luzes na Judeia. a mirra. outros presépios. E vinham os pastores. enquanto os três reis do Oriente. Nicolau. brilhava sobre a Judeia e sobre o presépio. muito comovida. Esta é a estrela. num quarto de criada de um sexto andar numa velha rua do Quartier Latin. o incenso. quando regressávamos da missa do galo. Pela mão da avó ela brilhava. . Sentia o mesmo aperto. a mãe.apagavam.Não há nada tão antigo nesta casa. E também nervosos. ficava confuso. os que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada. Nicolau atravessando as estepes. agora sim. E a casa também ia até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. a minha irmã. Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o rosto magro. talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Estávamos cada vez mais perto. às vezes eu ia à janela e via a projecção daquela estrela. podes apressar toda a gente. entre as estrelas do céu. Então uma noite. envolvido pelo bafo quente dos animais. Mas não conseguia responder. eu estava no exílio. E os Magos lá vinham. era uma estrela nova. Muitas vezes me perguntei o que seria.

mesmo nesse dia. Magos. E agora? perguntei a Baltazar. brilhava outra vez dentro de mim. um velho de grandes barbas. Até que a professora surgiu na varanda da escola e bateu as palmas. solta a corda. Então o porco exercitou as habilidades que aprendera e os miúdos ficaram contentes com a professora a dar atenção àquelas brincadeiras. Brilhava no céu. um tipo com cara de eslavo. A mãe avisou-os de que no dia seguinte ela e o pai iriam almoçar fora. respondeu o africano apontando a estrela. . Ruça segurava a trela. Então conta. um africano.costumava comer uma omelete de fiambre. Ela desceu. rodava a cabeça. A estrela da avó. Alegre . Beto estava preparado com o carrinho de cargas. Então o plano foi traçado e. Trouxeram-no para casa e guardaram-no num vão escuro da escada. Depois. Camuflaram bem o suíno e arrastaram o saco até ao patamar. — A camarada professora pode tocar na barriga dele que está limpa.. o bicho ficou logo dei-tado de pança para o ar e a mexer as patas. que não resistiu muito tempo. Encomendámos outras bebidas. Chegados à rua o africano apontou o céu e disse-me: Olha. "Carnaval" consentiu na imobilização e as patas ficaram bem amarradas. Até que chegou a hora de se cumprir a promessa. farejava e mais outro miúdo queria cocegar-lhe a barriga. Só se for a do presépio da minha avó. Para disfarçar. Era uma estrela de prata. meninos! Qual quê! Ninguém lhe ligou. agora vamos para Belém. Vamos fazer uma roda e deixar o "Carnaval" no meio! — sugeriu Beto. diria o meu pai. Pedi a omelete e abri a garrafa. Perguntei ao velho e ele disse: Melchior. — Está na hora. — E os pais dele? — perguntou um dos miúdos. quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três. Conta uma história de Natal do teu país. E todos desataram à gargalhada. veio ao pátio e quis saber o que se passava. Felizmente estava aberto. Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na rua. num quase entendimento das palavras. E na escola a grande festa começou. Recomendava-lhes que levassem a chave. Zeca fez uma cócega na barriga do porco. Aí a professora cocegou também e os miúdos bateram palmas. Esperaram que a mãe saísse e quase nem comeram. E ele respondeu: Baltazar. com os três reis do Oriente. em Les Halles. Ruça afagou a espinha do bicho e contou que "Carnaval" era um porco que tinha aprendido a fazer habilidades. Um dia prometeram levá-lo à escola. E sem que sequer eu lhe perguntasse o eslavo disse: O meu nome é Gaspar. pediu o velho. E eu vi. os dois irmãos mais o Beto conseguiram arranjar um carrinho do supermercado. o "Carnaval". Toma banho todos os dias. cobriram-no com sacos. Então eu perguntei ao africano como se chamava. Eu contei. pesadão. Foi quando despontou uma lembrança: — Zeca. E outro respondeu: — Devem ter morrido na guerra contra os talhos. Convidei-os para partilharem comigo a garrafa de Porto. Havia mais três solitários no bistrot. Cá em baixo.Agora. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria fechar. E que a comida deles ficaria pronta. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. Manuel Publicada por Helena em 6:00 Etiquetas: Manuel Alegre 14/DEZ/2008 Um porco de estimação O Ruça e o Zeca têm em sua casa um porco de estimação..

punha-lhe a cara num pimentão. No dia seguinte. com folhas de alface e de serradela metidas nas grades.O porco andava de um lado para o outro.A lição? .ª classe em Pedornelo. E era num tal cenário que o prefeito o encontrava . lá fugia ele outra vez. punha-se a esgravatar. mas de pouco valia. fora do mundo. Trazia já o vício da terra. e o pobre do habitante do buraco não tinha outro remédio senão vir à tona.. Quem Me Dera Ser Onda Publicada por Helena em 9:17 Etiquetas: Manuel Rui: Quem Me Dera Ser Onda 11/DEZ/2008 O senhor Nicolau O pai queria fazer dele um homem. mas. abanava as orelhas e voltava a tentar furar a roda. em vez de a coisa melhorar. mal o pequeno acabou a 4. a dar encontrões aos miúdos. aos grilos. Guimarães com ele! Mas não havia padre Macário capaz de endireitar semelhante criatura. era vê-lo à torreira do sol. O reitor mandava-o ir ao gabinete. Em vez de retratos de actrizes e de cowboys. Nem a puxões de orelhas e a golpes de régua se conseguia evitar que o rapaz saltasse a toda a hora pelas janelas do colégio e desaparecesse pelas serras a cabo. Os garotos enxotavam e ele repetia a cena. Manuel Rui. Por isso. abstracto. Metia a sonda em cada agulheiro que encontrava. Tinha o quarto transformado em viveiro. Só quando o estômago dava horas das grandes regressava a casa com vinte ou trinta bichos daqueles. até que numa arranca-da veloz passou no meio das pernas da professora e fugiu. a esgravatar.quando o encontrava -. . gaiolas de todos os tamanhos dependuradas nas paredes.. com a idade. Na aula a seguir é que a coisa se via: um estenderete! .Estou a estudá-la. alheado. piorava. e voltava para o meio do círculo em velocidade de corrida. Fazia uma pausa. De palha na mão.

A balela foi por assim dizer o derradeiro sinal que Pedornelo deu de que não se esquecera inteiramente da vida social do Sr. A nota de Zoologia podia muito. todavia. pretos. azuis. apertados. continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas. matar o santo homem com a punhalada duma desilusão. Miguel. . Só o mestre-escola. desde as pulgas às carochas. apenas o mestre disse a ironia. herdeiro das ricas terras do pai. Coimbra. A certa altura. O seu mundo fechara-se ali. quando acabou por dar o braço a torcer. O pai sonhava com ele em Pedornelo a curar maleitas. Nicolau resistia a tudo. Mas o Sr. Fica tudo em família. crescia o cemitério. Além da Gertrudes.. que vinha de vez em quando lavar-lhe a roupa e fazer-lhe um caldo. Logo a seguir. Nicolau. Bastava chegar ao pé dele e mostrar-lhe uma joaninha. mandou-lhe piedosamente uma broncopneumonia. onde. Mas o senhor Nicolau. entre grandes armários. Deus não quis. Viam-no então no escritório. que o levou desta para melhor. Nicolau voltou definitivamente a Pedornelo. De modo que semelhante maluqueira era uma mina. E. E foi assim. Mas quando. Se lhe dá para coleccionar burros.. ano sim. No fim do curso do liceu. Anselmo.. o desgraçado saiu da lembrança da povoação. rematou ele: . tínhamos a aldeia transformada numa estrebaria. Calmamente. tio Armindo. A princípio. os bens de que passara a ser dono.. E.Enfim. lá ia ele pelos restolhos fora. ninguém mais lhe entrava em casa. Para médico. vista por qualquer lado.. quando passavam. Como sabe tanto de grilos. Andava então pelos trinta anos. E bem é. como inexplicavelmente na cadeira do Dr. ou já nem o cumprimentavam. pequeninos.. onde o sonho se conservava em naftalina. a não ser pelo S. Adriano Gomes! Mas apenas lhes arrendou. amarelos. se mostrava renitente na aceitação de tão grande desgraça. todos arregalaram os olhos. Às ironias do antigo professor e ao egoísmo do povo. Tirava um frasco do bolso. a folha corrida do rapaz registava apenas uma enigmática distinção em ciências naturais e reprovações no resto. aos centos. Nicolau. o velho julgava que tinha ali o Paracelso dos Paracelsos.Bem. Vivia sozinho.Talvez com alguma lesma. num justo e desconfiado espanto. carregado de inocência. E os outros mestres. o Sr. E abaixava-se a agarrar uma louva-a-deus.E com quem? . o velho Sr. sem horizontes. o boateiro do Fagundes lançou a atoarda do próximo casamento do lunático. e o professor gorava de grande prestígio entre os colegas. ia envelhecendo entre os mortos.Vá lá. calmamente. Alto. catalogados e suspensos num alfinete que lhes entrava nas costas e saía na barriga. veio pôr na veiga e nos montes da terra uma nota que até ali não havia: a mancha lírica dum cidadão de guarda-sol branco a caçar bicharocos. e bojo do vidro com ela. o coveiro. murado pelas estantes envidraçadas. ou lhe davam os bons-dias com o mesmo automatismo com que tiravam o . alheio às paixões humanas. vermelhos. juntamente com as esperanças que depositara no filho. em fila.Contudo. Mas como ninguém lhe soube dizer o nome da noiva. Porque. davam o 10 e desabafavam: . pegava na infeliz com mil cuidados. mal o sol apontava na serra de Alijo. pequenos. Rodrigues só tirava vintes. ano não. Havia-os de todos os tamanhos e de todas as cores possíveis. Nas vésperas de o cábula regressar. E. por umas cascas de alho. pálido. a própria aldeia oscilava nos gonzos. ao cabo de seis anos. . Nicolau passou bem? . . . sucediam-se guerras. brancos. delicado.. Grandes. dormiam o sono eterno quantos seres a sua paciência e os seus vinténs conseguiram agarrar em Pedernelo e cercanias. seco. No que dera o filho do Sr. que o Sr. um ou dois de cada qualidade e de quantas qualidades fora capaz a imaginação divina. e o viram contente com a transacção.perguntou o professor.. à medida que o tempo andava. mudaram de ideias e puseram-se a vender-lhe quantos insectos havia nas redondezas. não lhe fosse quebrar um braço.O Sr. que já na instrução primária se vira e desejara para meter naquela cabeça tonta as contas de multiplicar.. e com a Arca de Noé sabida de cabo a rabo. amorosamente. na altura do pagamento das rendas. e todos acabaram de se rir à vontade.. do mal o menos. muito obrigado. lá passava. foi desta maneira: . Tinha-os em caixas de papelão. para que a comprasse logo por um tostão. As nações desabavam. concêntrico.

correctamente. O nome do amalucado. A maioria. Chamado à pressa pela Gertrudes. pôs em evidência o facto psicológico. nem a tinha. ralo.. e resolveu por fim entrar pelo corpo dentro do moribundo com uma agulha que lhe enterrou na espinha.. meu querido. Ah! é verdade. Foi ontem: e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos túmulos antigos. Delirava. Era por 1813. assomou à porta da corte. por vingança de ciúmes. e bradou: – Perdeste alguma rês? . significava o mesmo que carrapato.. infestava aquelas serras. Mas o sr. à espera que o metessem na sua caixa. se lembravam de o lamentar. E daí a nada. estava de todo integrado no destino dos seus companheiros. Era um bicho. Nicolau. meu poeta da pátria e da alma? S. Nem que ele atravessasse o largo com uma ruga funda e desesperada na testa. Era éter acético primeiro. o meu nome em latim. não se desobrigava anualmente no rol da igreja. depois da última contracção. agora. a respeito de sofrimento. Um inofensivo bicho. Sentiu vagamente a dor na coluna. quando o pastor chorava encolhido. a um canto do curral. meado de Agosto. Ali. porém. João da Laje. dando pela falta de uma. Miguel de Seide. e pedia ao padre Santo António com muitas lágrimas que lhe deparasse a cabra perdida.. muitos anos antes. que fora encontrar o velho encolhido como um feto no sofá do escritório.Má técnica. estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos. Mas cinquenta anos de alheamento colectivo tiravam-lhe o direito de ser compreendido por homens. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública. veio.. asseverando que a avantesma não era alma. porque era a égua branca do vigário. O povo atribuíra aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Tâmega. sereno e de olhos fechados. febres e facadas. Quis finalmente o Dr. o amo. Novembro de 1876. Saul olhar aquele ser como habitante da terra e criatura de Deus. e só então. Tinha medo de voltar ao monte. Os Bichos Publicada por Helena em 5:56 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos Maria Moisés A Tomás Ribeiro São passados dez anos depois que vieste aqui.. às Trindades. e pensou: . – Que faria de ti a política.. divulgando que o moleiro era homem de maus costumes. Debaixo dela estão dez anos da nossa vida. Quem podia admitir que fossem motivo de desespero a tenaz quebrada dum besoiro ou qualquer sinal de traça numa bicha-cadela?! A sensibilidade de Pedornelo não reagia aos estímulos de tão subtis calamidades. e propalava que a alma do homicida. Tu não os recitaste porque tinhas lágrimas na voz e no rosto. porque se afirmava que a alma do defunto capitão-mor andava penando na Agra da Cruz. nem constava que tivesse matado algum francês.chapéu. só fome. e. pôs o termómetro. Às vezes. desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. Minava-o um desgosto tão verdadeiro como o de qualquer vizinho aflito com os estragos de uma trovoada. entender. Era noite fechada. a ruga tinha profundidade. Oxalá não se esqueça ele ao menos de escrever no rótulo... Primeira parte O pequeno pegureiro contou as cabras à porta do curral. agora. auscultou. Miguel Torga. lembrou-se do que tinha feito aos milhares de irmãos.. Jazem ali os homens que então éramos. onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra. tinha sido soldado na guerra do Rossilhão. tomou o pulso. formiga ou coisa assim. ali ficou quieto e feliz. de fraldas brancas e roçagantes. igual aos milhares quê tinha no escritório embalsamados. Estou vendo Castilho encostado ao friso da coluna tosca.

Olha lá. ouviste. senhor. que ela ia de saia escura. E deu-lhe dois valentes pontapés à conta. tia Brites – respondeu o rapaz suspirando ofegante. tiritando de medo. rapaz? – Tenho. Conheço bem o teu amo. E. Ainda assim. As almas boas dos que morrem são de Deus. sim. – Isso sei eu. a quem a tia Brites contava casos vários de almas penadas. – Espera aí que eu venho já. que as não larga das unhas. rapaz? É da alma do capitão-mor? Não sejas tolo. Deixe passar os parentes. – Sim. – P’ra pintassilgo estás muito fanhoso. rapaz. tia Brites. e as más são do diabo. – Boa hora é esta para um rapazinho se meter à cangosta do Estêvão! – Então que tem? – Que tem?! Vai perguntá-lo à Zefa do João da Laje. capitão-mor? Não me pareceu. a tua ama Zefa também anda à procura da cabra? – Àgora! A senhora Zefinha está doente há mais de mês e meio na cama. não me apareças mais. Este João da Laje era homem de princípios menos maus. ó Luís! – disse galhofando a Brites do Eirô. e agachado na raiz de um castanheiro. herege! – Ó tio Luís! – perguntou o pegureiro – Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra? – Não a vi. sim. os Sacramentos da Santa Madre Igreja. Vira um fantasma branco a destacar das trevas. e perguntou a meia voz: – Seria a alma? – Do sr. gargalaçou da borracha uma vez de vinho. mas havia de jurar que a vi saltar agora o portelo da cortinha do rio! Se não era a Zefa era o demo por ela! O rapaz tornou a tolher-se de medo. e voltou onde o esperava o pastor. – Ó Zé da Mónica. as Obras de misericórdia. sua bruxa. – Não me meta medo aos burros que eles já estão estacados a olhar p’ra você. encheu-lhes a manjedoura de erva. por isso é que eu ta vou ajudar a procurar. – Está mesmo indo. Mete aí pela cangosta do Estêvão. – Eu não sou da tua família. mas ouvia-a berrar lá para o rio. tangendo os burros que espontavam o tojo dos valados. e lá foi caminho da serra. tudo. À saída da aldeia. gaiola.O rapaz tartamudeou. e fazendo-lhe duas figas. – Vamos lá. recuou estarrecido. pintassilgo d’agora. e vinha cantando: Já Já Agora Destas fui lhe canário fugi sou meninas do da rei. Tendo de optar entre os malefícios da alma penada e a biqueira do tamanco do amo. – Olá. assentados em religião e pátria. que te dou eu. acrescentou: – Toma. não fazem mal a ninguém. Neste comenos. foi descarregá-los. és tu? – perguntou o suspeito fantasma. descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles. que ficou lá tolhida uma noite e nunca mais teve saúde. e acreditava que o fantasma era a alma do capitão-mor e não a égua branca do vigário. e levava um saiote pela cabeça. De que tens tu medo. olha lá: se a não trouxeres. se tiver meio quartilho de aguardente no bucho. e. ladrão? Vai em cata dela. você lá sabe desses tolhiços. e eu também sei como as raparigas se tolhem nas cangostas. ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os Pecados Mortais. que te arranco os fígados pela boca. Você viu-a? – Eu não. Tens medo. pequeno – disse o moleiro –. – Credo! Que medo você me fez! – Tu onde vás a esta hora?! – Vou à cata de uma cabra.. preferia encontrar o defunto capitão-mor.. é capaz de te quebrar os braços. havia matado dois franceses doentes nas ambulâncias retardadas. . – interveio a tia Brites. O rapazinho deitou a correr. jacobino? – replicou a velha. – Perdeste. – Sou eu. e sei que ele à conta da cabra. e vai pela beira do rio abaixo que a topas lá para a Várzea das poldras ou na Ínsua. que feitiços está você a fazer aí? – respondeu o veterano do 2º regimento do Porto.

deixemo-nos de graçolas.. que desembocava no rio. ouviram gemidos. – Bem dizia o outro. graças a Deus! – respondeu Brites com desvanecimento. e às vezes um melro assustado batia as asas na ramagem das sebes. – Não se metem no seu corpo? Pudera. havia dois portelos. bruto! Era o caseiro da quinta de Santa Eulália. pedaço de asno. já tinha tempo de ter juízo nesses cascos.. que das almas do outro mundo te livro eu. Não vês que é um homem em fralda? Abre esses olhos. Saía então do rio para a cangosta um grande vulto alvacento chofrando na água com pernadas longas e mesuradas. – redarguiu o veterano sempre risonho. – Que está você a rosnar. mas talvez viesse tomar banho. gritou: – Ó tio Luís. ia orando mentalmente fragmentos da Cartilha. O rapaz expediu um ai rouco e. e meteu-se em casa às arrecuas. um à direita para uma várzea de milho espigado com grande folhagem. – És tu. Agora é! . que a noite está quente. erguendo-se indignada. uma coisa que parecia uma criatura a chorar e a gemer. – Má raios partam a cabra! – praguejou o moleiro. Olha se te guardas de alguma sacholada de teu amo.– Arrenego-te eu! Este homem está vestido e calçado no inferno! – murmurou a tia Brites. que pareciam pouco distantes. desatava a fugir. se fosse alma penada. mas já depois a ouvi lá p’ra baixo na Ínsua. ouves. – Temos de ir passar às poldras. – Ouviste por’í berrar uma cabra? – Há pedaço. vejo. – Vai-te. O pastor então maquinalmente agarrava-se ao braço do moleiro. outro à esquerda para um panascal que entestava com a corrente do Tâmega. Ao fundo da viela. é a alma do capitão-mor que anda a pescar bogas com chumbeira. topando com você. o rapaz. – Isso era coruja ou sapo – replicou o moleiro com a intemerata certeza das ciências naturais. – Coisa má? Topaste algum avejão no rio? Olha que a alma do capitão-mor anda na serra.. vai-te. havia de ser pelo açude.. – Que é? – Vossemecê não vê? – Vejo.. Tendes que fazer. mulher! Que este rapazelho seja parvo. Olha que espiga! Eu antes queria pagar a rês a teu amo que ir agora além do rio! Neste momento. Vou-me chegando a casa. à beira do rio.. – É má noite. jacobino. quando passei p’ra riba. vou contigo. O peixe meteu-se aos poços. disse: – Ai Jesus! – Aquilo é cousa! – observou o veterano com pachorrenta reflexão. Não é coruja nem sapo. Deixa lá asnear o povo. Você já viu almas. Os vaga-lumes fosforeavam entre os silvedos. Adeus. – Sou. Lá está a cabra a berrar. benzendo-se de ombro a ombro. – O peixe cai? Dá cá duas bogas para eu cear. ouvi eu. mas você. * – É o que te digo. com mais de setenta anos na carcaça. tem desculpa. rapaz. ao passar nos lanços mais escuros do pedregal. Anda coisa má por aqui. com as mãos fechadas sobre a boca. cruzes! – exorcismou a tia Brites com dois dedos em cruz. – Homem – volveu o pescador escrupuloso –. que lhe metia a riso a covardia. – Eu. O pastor. ó tio Luís!.. rapaz? – Já passou para além do rio – disse o da chumbeira –. Luís. diabo. e do alto da cabeça ao umbigo.. ó criatura? – A mim não me empecem... que vinha batendo com a chumbeira as angras do rio por onde o escalo costumava acardumar-se. mas hás-de repartir do peixe que levas. Apesar das palavras animadoras do veterano.. para lá desses salgueiros. Aí bem perto donde tu estás. berrava ali no bravio do Pimenta. – Se tens medo. – Elas bem sabem com quem se metem. A alma que se metesse nesse corpo devia sair suja como a ratazana dum cano. agarrando-se aos suspensórios de couro do moleiro. ó Francisco Bragadas? – perguntou o moleiro. e pondo-se de cócoras. cruzes.. O moleiro ia conversando com o pastor pela pedregosa cangosta do Estêvão.

– Não lhe perguntes nada. – É uma mulher a chorar. tu não ouves? Vamos ver quem geme antes de mais nada. o vigário e outras pessoas. que ela está com Deus – respondeu Luís. que repetia as palavras: – Quem me acode. descendo do ombro para o regaço a mulher que efectivamente estava morta. – Isto que foi. tremia. que estás toda ensopada em água. mas que em outros bravos que tossem não tem sempre o mesmo significado. e perguntou: – Tu feriste-te. e vá chamar o sr. que lhe dava pelo joelho. receando que a convulsa rapariga lhe expirasse nos braços. invocou as almas à míngua dos recursos humanos. mas pareciam-lhe mais longe ao passo que mais se avizinhava. onde os pescadores colhiam com a chumbeira as bogas no tempo da desova. parecia viva porque tinha os olhos abertos. ajude-me que eu não posso! – Eu cá estou – disse o moleiro. dizia com palavras soluçantes: – Não me leve para casa. Vencida a dificuldade. vigário para me absolver. e. O pequeno seguia-o tão de perto que o trilhava nos calcanhares. e galgando a custo o valado que se esbarrondava cedendo aos pés vacilantes de Luís. e com incrível ânimo rompeu a direito por entre a ramaria do salgueiral. Chamou-a. Com meio corpo a água e os braços enroscados no esgalho de uma árvore. João da Laje. que eu estou a expedir. Josefa? Ela não respondeu. confirmou: – Está coberta de suor frio. A Brites do Eirô. e. A filha de João da Laje. como se em ânsias de asfixia se houvesse agarrado nele. sem arregaçar-se. molhados pela água que escorria dos vestidos. sentou-se esbofado no respaldo duma fraga. Josefa? – perguntou Luís. O moleiro seguiu-o. com o saiote pela cabeça. Ao chegarem ali. No momento em que transpunha o portelo com o embaraço do peso e do estorvo que lhe fazia o vestido molhado. levantando-a a custo. João. agitou-a. Poucos minutos depois. porque ela tinha as mãos recurvas e os braços rijamente hirtos no tronco do salgueiro. Na extrema da viela encontraram o Luís moleiro sentado à beira de Josefa que. tomando-a nos braços. – Que é isso. Transpôs o moleiro de um pulo o valado. desciam a cangosta do Estêvão com fachos de palha acesos. moça. neste lance. Os braços pendiam inertes ao longo das costas do moleiro. teve de colher as saias com a mão esquerda. e saltou. enxugava com a rama de fetos secos o suor que lhe gotejava das faces ao peito. apalpando-lhe as mãos e o rosto. ajuntou-se ao grupo dizendo que. estorcendo-se nos braços do moleiro. e a cabeça balançava maquinalmente conforme os movimentos variados que ele lhe dava ao corpo ajeitando-o para saltar a parede escadeada. e conseguindo assentar o pé no trilho pedregoso por onde viera. atraídas pela curiosidade ou pela compaixão. pelas almas benditas. nem gesticulou levemente. tinha visto Josefa saltar para o campo da Lagoa e meter para o lado do rio.. que os vira passar.. dizendo ao rapaz que fosse adiante avisar o amo. O vigário. mal distinto na escuridão cerrada da ramagem. Que foi isto? – ajuntou ele voltando-se para o João da Laje – Você há- . que eu morro sem confissão! – Ela é a senhora Zefinha! É a minha ama! Valha-me Deus! – exclamou o pastor. ao toque das Trindades. vista à luz dos archotes. Seguiu bem rente a ourela do Tâmega. aqui não te deixo. rapariga? – perguntou o pai. e tiritando em calafrios. formando lençol de água murmurosa. sentiu nas costas da mão um contacto de líquido quente com fartum enjoativo de sangue. que eu morro sem confissão! – Ó senhora Zefinha! – disse o rapaz – É vossemecê? – e deitou-lhe os braços ao peito erguendoa para si. Ao cabo do ervaçal adensava-se uma moita de álamos e salgueiros. Josefa? Que vieste aqui fazer tão de noite? – Jesus valei-me! Jesus acudi-me! Jesus salvai-me! – murmurava ela perdendo o alento. como gelado do terror do cadáver que lhe parecia resfriar nos braços. – Ó ti Luís. – Tem paciência. tio Luís? – perguntou o rapaz com a rouquidão afónica do pavor. tossindo de maneira que significava coragem neste bravo do Rossilhão. Então pensou que ela estivesse ferida. Tu caíste ao rio.– Então que é. e tens a cara a arder. porque a voz ia esmorecendo em soluços abafados. e lá no interior o rio espraiava-se. entreviram. atirou-a para o ombro direito. e apertou o passo por entre o ervaçal. de vez em quando ouvia os gemidos. aquele vulto de mulher. Deixe-me deitar na terra. ouviram estas palavras: – Quem me acode. e. Luís. ao rio. encostando-a à ribanceira.

. fui regar um campo de milho. deitou-se sobre ela a beijá-la. . porque o fedor da podridão obrigara a alterar o estilo das quarenta e oito horas sobre a terra. nem chorava. Bartolomeu. Ela tinha demónio no corpo? Note você. quando lá chegou o rapaz com a notícia. Os mais lúgubres. porque não comia. A mulher já não é assim. e. durante a noite. voltaram-se todos para um dos campos por onde vinha correndo a mãe da morta.. se encostar à coluna da igreja. e. que os espíritos maus quase sempre se ferram nos bons corpos! O tonsurado entreabriu um sorriso de forçada complacência. e também porque sabia francês. silencioso e estúpido a chegada da mulher. perguntei-lhe o que tinha. chamando a filha a grandes brados. a chamá-la com gritos de louca. ia eu mandar chamar o barbeiro das Vendas Novas a ver se ma sangrava. e João esperava quieto. padre Bento.. e agora. no caso de intervenção diabólica. é natural que bebesse. fez um ano em 24 de Agosto. Maria da Laje. posto a um canto do sobrado. soube que ela estava ainda no palheiro. mas nada me disse. – Ah! Conte-me isso. e ralham-lhes brutalmente. conversava com um minorista da Póvoa. umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. Os archotes erguidos ao alto alargaram a penumbra e condensaram mais a treva por onde o vulto da mulher vinha crescendo com as mãos na cabeça. a chorar. – Você conhecia esta rapariga. movendo pausadamente a cabeça como quem confirma uma recordação dolorosa. Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. – Bonita era ela.de saber pouco mais ou menos porque esta boa rapariga se deitou a afogar! – Eu não sei – respondeu o pai com a serenidade de um estranho narrador. a loura mocetona. o cadáver de Josefa de Santo Aleixo. Nesta conjuntura. * Vinte e quatro horas depois. Estas reflexões não são todas minhas: quem fazia algumas era um escrivão do juiz de paz.. – concordou o estudante de teologia dogmática. A maternidade é uma ilustração que lhe dá a intuitiva inteligência do amor e das grandes tristezas. nas securas da sua ardente aflição. quando tornei a casa à noite e perguntei por minha mulher. fechou-se na adega. padre Bento? – perguntou o funcionário ao minorista. e chamava à carniceria da revolução francesa a grande operação da catarata social. e lia O Citador de Pigault Lebrun. foi direita à filha. Ela saltou do campo à barroca por cima do tapume de espinheiros e silvas. ele receitou-lhe não sei que barzabum de xaropadas que a rapariga nem p’ra trás nem p’ra diante. que assistira aos responsos. ainda na derradeira curva que atasca em lama a espiral da degradação. nem bebia. Assisti-lhe aos exorcismos na capela do Santo. que estão a chocar o ovo de uma cousa pior. Luís meditava nas revelações do lavrador. A Brites aconchegava-se do vigário a fim de. e. por causa dos quais havia sido expulso de um convento graciano onde noviciava. acrescentou: – Bem sei eu quem foi a causa deste suicídio. que fora desanojar o João da Laje. começam a cair num sentimentalismo de burros com fome. A estupidez é mais valente que a morte. e não deu azo a que o espírito forte abrisse a válvula dos sarcasmos. Às vezes. O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. Dizia cousas como os socialistas de hoje. – Ela estava doente há mais de mês e meio. Depois. Essas. que há-de ser os socialistas de amanhã.. porque estava sem acordo. morrem mães que deixam um grupo de crianças ali a chorar num canto da cozinha. diziam que dava em louca.. em toda a parte. a mãe. e. desceu à cova. aborrecido dos interrogatórios impertinentes que lhe faziam os vizinhos e parentes acerca das causas que levaram Josefa a matar-se. – Vi-a uma vez na romaria de S. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro. a sacudi-la. e ela já me não respondeu. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. fugira para o lado da serra. Ora vai hoje ali pela sesta fui achar a minha Maria a chorar. e. à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado. Os viúvos olham para os pequeninos de través. peguei nela e deitei-a na cama. são mulheres. e ali perdeu os sentidos entre os braços brutais do marido que se esforçavam por desprendê-la da morta. O pai da defunta. Fui-me onde a ela. o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte. e. é-lhes concedido remirem--se pelas lágrimas. mandei chamar o boticário de Friúme. se estão seis horas no forçado jejum a que os obriga a funeral lareira apagada.

quando foi exorcismar-se à capela de S. Gregório. a Cavez. como o senhor sabe. O minorista. metia-se na Ínsua. e. quando não quisermos extremá-las pela virtude. e a Josefa ia lá ter. toda a sua erudição neste importante assunto era um fragmento de má e velha poesia francesa que dizia assim: On se livre à la volupté Parce qu’elle flatte et qu’on l’aime. Maurício – emendou o minorista. Foi ele então quem na apaixonou. – Sabe?. eu não o percebo. e. O escrivão replicava que todos os homens eram Hilariões. e altercavam os seus queixumes ao som do arrabil. que se fechara na adega com a sua dor. – Foi. – Digo o que sei e presumo sempre o melhor quando não tenho provas do pior. si du diable on est tenté. era a paixão que a desnorteava. Santo Anastásio. Depois ele fazia de Felício. padre Bento. – Lembre-se que essa pobre mulher ainda está quente na terra. Então quem foi?! – Foi você. que eu acredito tudo quanto há virginalmente extraordinário em um cadete de cavalaria de Chaves. quando as tenho. – Devagar – atalhou o prudente moço. continuou: – Não era possessa. Sumariamente contou o seguinte: Que Josefa. O sr. – Tudo isso é inocentemente pastoril. e lá.. como os pastores de Fernão Álvares d’Oriente.. disse o que sabia. encarecendo o melindre da revelação. que lutou com eles em forma de mulheres. calo-me. autorizado com S. Sei quem é o meu amigo. E.. O que afirmo é que o morgado de Cima de Vila. Santo Hilarião.. O fidalgo saiu. foi lá que todos os bons latinistas meus condiscípulos leram a Arte de amar de Ovídio. depois. mas conte-me essa história se confia em mim... frágil e bonita. aplicou as teorias do Sulmonense. Il faut dire la vérité: Chacun est son diable à soi-même. vencido pela pertinácia do amigo.. Entretanto. – Não vamos tão longe. Et... O vigário recusou-se e avisou Cristóvão de Queirós. – Conheço esse bosque. mas.. pai do cadete.. meteu-o no Limoeiro. não tinha no corpo o espírito imundo. sabe-o toda a gente. O futuro presbítero compreendia cristãmente o dever da caridade. com o filho para a capital. – Já sei quem foi a causa de se suicidar a Josefa – acudiu o escrivão. pelos modos. padre! – Não me diga isso nem a rir! – acudiu o teólogo com semblante mortificado. e saiu acompanhado do escrivão. e ela de Florisa. Vamos ao fim do conto: a rapariga. chegando há dois meses de férias de Coimbra. Bartolomeu. Conversaremos outro dia.. E demonstrou que havia obsessos.. É necessário atender aos temperamentos das pessoas. estarei – respondeu discretamente. defronte da Granja. e o cadete. a respeito da filha de João da Laje. e acrescentou entre parêntesis que não duvidava da existência de demónios súcubos e íncubos (1).. como o cadete quisesse fugirlhe. . O senhor sabe. que o não largou até lhe arrancar o segredo às relutâncias do escrúpulo. – Estou a brincar. Esse rapaz foi para a corte com o pai.. – O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras. O meu padre mestre de latim chamava-lhe a Ilha dos Amores. Maurício conhece o morgado de Cimo de Vila? – Se conheço! Aquele cadete de cavalaria de Chaves que estudou primeiro para frade crúzio. quis despedir-se de João da Laje. Há quem os visse no bosque de amieiros da Ínsua. ou mesmo recusasse obedecer-lhe. atidos à lógica dos delitos.. sr. onde estuda matemática.. pediu ao vigário de Santa Marinha que o casasse com Josefa de Santo Aleixo.. Quer dizer que eles se amavam honestamente? Diga isto assim pelo claro. porém não citava autor digno de crédito. – Não inventemos culpas. O minorista ergueu-se. e cada qual era o demónio de si mesmo. ouvida a tradução da quintilha. com a cana de pesca e o cacifro. confundiu o adversário com latim.– Sabe? E está calado com isso. – Padre.. Josefa suicida-se. – Estou.. e assentou praça quando ficou senhor da casa por morte do irmão!.

Manuel. nesta época de escalpelo. já que me coube em sorte arpoar com pena de ferro. morrer. Era pescador e caçador António de Queirós e Meneses. dá-se grandeza extraordinária. imenso.. vem o Mercúrio do poeta jogralesco de D. e vão deixando os paletós nas mãos incontinentes das Zuleikas. quando mal se precatarem. é verdade. fé.. Os que se derem a parafusar operações do céu. O coração aí é maior que as dimensões do peito.. * Ora vamos à história. Estes bons corações passam entre nós mordidos. e andam tão vendidas nesta feira de pecados como o Serafim do auto de Gil Vicente. tinha no corpo a nevrose que aumenta o calibre da retina. Quem pensava mal era o teólogo.. que é a arte de pensar bem... titânico. Uma cousa verdadeira. imaginando que o cadete e a loura de Santo Aleixo. disparado sobre a modéstia e singeleza de uma rapariga montesinha. mede-se pelo comprimento de horizonte a horizonte.. diabo. onde quer que seja. pelo mastim da ironia que lhes crava o dente canino da chufa. Viu no monte a filha do lavrador de Santo Aleixo. Maurício. e a religião chora uma alma condenada. pairando ao de cima destas ambulâncias em que todos gememos amputados na alma ou no corpo. cabo rabo é.. Se o amor lhe rutilou aí como um relâmpago que fulgura numa vasta cordilheira de montes. que. O homem.. faz lembrar Camões: . que os maus homens quase sempre têm. As pessoas cândidas e boas vivem constantemente logradas.. acontecer Deus. – Nem quero saber – acudiu o minorista.... A esta saudável ignorância das misérias do próximo chamava o meu padre Manuel Bernardes «trevas claríssimas».. Percebem e farejam os actos mais abscônditos da sociedade. e lhe espelha imagens através de corpos opacos.Agora. são filados. no cabeço de um fraguedo. como se vê só. agitando rapidamente ambas as mãos com gestos negativos. Raciocinou com a lógica dos corruptos. Isto. e retirou-se. Desenterre-se o cadáver. e venha para o anfiteatro anatómico. Enlevadas no especulativo. e diz-lhes: Muitos As E E Aos E E E Terão E presumem operações que o anjos ao o que eles um não mundo sabem todos cão sabem morte que e e tem em pelo cujo dos hão-de há-de a ao por saber céus. espavoridos. seja qual for a causa que levou esta mulher morta à desesperação. * A nossa curiosidade. vai além dos limites que o teólogo abalizou à sua. De Qual ninfa que será sustente o o amor dum bastante gigante? . as frases do meu tempo... é a crítica mordaz dos costumes. eram mais inocentes que os pássaros. com os dedos no nariz. que diz aquele grande realista do século de quinhentos... é um amor olímpico. As serras têm sombras do infinito. quando ele lhe malsinou a inocência nos sinceirais da Ínsua. Josefa não fora caluniada pelo escrivão. Não se pode ser perfeito hoje em dia sem se ser um bocadinho idiota. o escrivão. emboscados no choupal da Ínsua. como se a sociedade fosse obra deles. – Adivinhei o que o padre não sabe. quando cuidam que é virtude e resguardo a ignorância das cousas mundanais.. no fundo lodoso deste tinteiro. a caridade o que aí vê é uma desgraça.

os choupos da Ínsua mostravam as grimpas curvadas à flor da corrente arrebatada. cambado. Foi visto. É que os arvoredos estavam desfolhados. Ele foi para Coimbra. não perturbem o serviço da casa. jurou-lhe . nos montados da sua freguesia. estremecia. normandos. Coraram ambos. António de Queirós viu chorar Josefa. O velho não deu a mínima importância à denúncia. nas alcovas de ramagem que só eles e os rouxinóis conheciam nas margens do Tâmega. no sinceiral da Ínsua. bosques. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. não precisava destas esperanças. Sou o morgado. – Antes por lá que pelas criadas da casa – disse o assisado fidalgo. e aspecto pouco de bernardo. os pais. Sentia o grande vazio que a retórica lhe não enchia. Preferia tê-lo e amá-lo nas matas chilreadas. insinuando o amor selvagem. – Não serás frade – disse-lhe o coração a ele. foram vistos à beira do rio. Rodeava-os uma natureza contemporânea do homem vestido da pele do seu confrade em civilização. uma tarde. O velho fidalgo de Cimo de Vila ponderou na mudança de ideias do filho. Não eram lágrimas de amante magoada. como se ouvisse as harmonias das esferas. Precisam divertirse os filhos: levem a desonra onde quer que seja. segundo o preceito ovidiano: Paleat omnis amans. Assim seria. faz os poetas. nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. que era vesgo. em vez dos froixéis da relva. e queria fugir. A rapariga tremia pois da mãe. se as há. Vicente de Fora. ninguém que lhes lesse os grandes livros do padre Sanches acerca do matrimónio. Vou sentar praça. O pai viu de longe. logo que lhe disseram quem era a rapariga. rapariga. não queria tropos. para ser feliz até às lágrimas. nos desfiladeiros dos montes. todavia. Nas suas pesquisas descobriu que o filho. – É rapaz. alheios a tudo o que é epistolografia amorosa – peles-vermelhas no rigor antropológico. Ninguém a suspeitava. Se ele imaginasse que a mãe fechava os olhos às toleimas da moça. – Assim que meu pai morrer – disse ele à filha do lavrador –. lanzudo e bêbedo.. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Oh! A solidão. Ninguém que os visse. Queria o amor. o fogo levou de assalto aquele combustível edifício de inocência. à vista do modo como a gente em honesta prosa costuma casar-se. preferia uma mulher feia. Nestas ideias o encontrou Josefa da Laje. e ela. então com certeza lhe dava. palmilhada pelos lobos. ali mesmo. cavernas. Ela. passara o Tâmega e caçara nos montados de Santo Aleixo. à mais nítida metáfora de Cícero ou Vieira. Dava-lhe este direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. cheio de bons propósitos. mas o cadete. não embarrem pelas criadas. A mãe era cruel com as mulheres manchadas. Josefa a conversar em uma barroca com o fidalguinho. mas não corrompam a disciplina doméstica. Depois.Andava ele cursando retórica em Coimbra para ir vestir o hábito de frade fidalgo em S. e precisa de se divertir. Com que zelo estas matronas veneram a moral da cozinha. No último quartel da vida. mas talvez primitivos demais. da palidez dos que amam. porque meu irmão mais velho morreu. na cangosta do Estêvão. mas a casta varonil iria pelas gerações além menos sujeita a reparos de genealógicos. nos recôncavos das penedias. caso contigo. A forma selvática e antiga do proscénio deu-lhes jeitos de antigos actores da vida animal. Não lhe bateu. algum tanto gaélicos. quer meu pai queira quer não. Como não tinham florestas confidentes. não o contrariou. entre dois amantes. à volta de poucos dias. Tinha meninas para conservar a raça dos Queiroses e Meneses. Tinha êxtases nos píncaros das serras. Este rubor era o primeiro lampejo do incêndio. o grande urso e o grande veado. A serra tinha penhascais. sentados naquela fraga onde o Luís Moleiro encostou o cadáver de Josefa. da salgadeira e da despensa! * Nas férias de Páscoa. porque estava sempre às avessas da mulher. e disse-lhe: – Se tua mãe o sabe dá-te cabo do canastro. havia lençóis de neve. Escodrinhou razões secretas que o movessem. mas eles adoravam-se. Foi por aí que deslizaram três meses do estio e outono de 1812. Tinha vinte e dois anos. o João da Laje. Era magro e pálido. e até as mães – santo Deus! – dizem aquilo. se alguém a encarava a fito. cheio de fluidos inflamáveis. vindo a férias do Natal.. com farda de cadete.

Ortigas ou Gelorias antigas passasse pelo harém do amir de Córdova. Isto de esposas. Pobres pais! A verdade é que o fidalgo tinha as pernas inchadas. porque pode ser que alguma dessas Urracas. iria à sua panóplia – que era um feixe de montantes e partazanas ferrugentas encostadas a um canto da tulha – e seria capaz de lhe meter um ferro de lança no degenerado peito! Assim fizeram sempre Queiróses. Virá ela portanto a herdar os vínculos. Não estava no rol das infelizes senhoras de raça mista a destinada esposa de António de Queirós. sem consultar o filho.ª dispor da minha vida. O estudante contava com isto. Quem puder hoje provar. Já sabem que o vigário denunciou ao velho o propósito do jovem doido que pensava envergonhar seu pai. o Casto. porque há em Portugal outros Queiróses. e aí casou com Telo. sobrinho d’el-rei D. uma genealogia estragada. Passados os cinco meses aprazados. Dizia o cirurgião que o velho tinha uma anasarca. ilustríssimo galego. mas do meu coração já eu dispus. ou gépida. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi. Afonso. O fidalgo. Ao outro dia. e disse: – Duvido que você seja meu filho. e. Ximena. foi à terra. não só descendente de Bernardo del Carpio. A surpresa abafou a reacção do moço. quanto mais bárbaras na origem. Era Teles de Meneses. que a abandonou em um bosque donde a mísera foi dar ao sítio que hoje é Turgueda. porém vão lá filtrar em uma neta de Pelágio ou Cid uma gota de sangue muçulmano! É uma árvore podre. um mandado da regência ao intendente geral da polícia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro. pode V. nem têm diplomas de assassinos desde o século X (2). Não é herdeira. e prometia não incomodar muito tempo a sua família. rugindo: – Espere as minhas ordens no seu quarto. lavrador do casal de Meneses (3). ou não casarei nunca. S. António levantou o rosto e redarguiu: – Não se ultraja assim a memória de minha mãe. Al-horr-Ibn-Abdur-rahman-Ath-Thakefi.que viria casar com ela. entenda-se. e o segundo-génito é aleijado e incapaz para o matrimónio. mas também representante de Fernão de Queirós. A mãe olhava para ela com atenção. castelhano que entrou em Portugal a servir el-rei D. Fernando contra o de Castela. mas bom será que tenha doutras para a digestão. mas o velho. Proíbo-lhe que se assine Queirós de Meneses. que não vêm de Bernardo del Carpio – o qual matou o rei dos Longobardos em Itália –. não tinha ninguém a quem pedir a esmola de uma carta. huno. quando tal ouviu mandou selar as mulas dos lacaios e pôr aos varais da liteira a parelha dos nédios machos. com trinta e seis quartéis. mas o irmão morgado está ético. mas dos bons. O velho lutava entre a cólera e a vergonha. porque não são dos bons. na comarca de Vila Real. * Josefa esperava confiada. se o filho reagisse. em todo o prumo da sua soberba. filha de Ordonho 2º. o solarengo provinciano. Estendeu o braço. civilizados e finos. e estes fazem o que lhes parece. que fugiu ao pai com um cavaleiro. quando recebeu esta nova com os parabéns do cirurgião. Os árabes eram inteligentes. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios. Parecia castigo um pouco zombeteiro! O estudante. – um renegado da pátria. oriundos de uma D. – Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade –. agenciou-lhe noiva entre as mais estremes do sangue germânico das Astúrias. e não viveria mais de três. que seu trigésimo avô era celta. tem barrigadas de orgulho de raça. vascónio. mas sem desconfiança. e pediu-lhe que os recebesse. Fazia-lhe . e dizia-o com uma sossegada fleuma como se se tratasse da esperançosa morte de um parente desconhecido para onde houvesse de lhe vagar a administração de um vínculo. onde não havia corte nesse tempo. sujeito que foi muito amado pela melodia suavíssima do seu nome. expôs ao vigário o estado melindroso da rapariga. – Escolhi-te mulher – disse Cristóvão. Não sabia escrever. como disse já o minorista. Chegados à capital. – É ainda tua parenta por Meneses. O velho pôs a mão convulsa nos copos do espadim. e apontou-lhe a porta. ibero. O filho recebeu ordem de acompanhar seu pai à corte. mas aflita. arquejou largo espaço. os bons. melhores. Cristóvão de Queirós desinchou ao contrário da Josefa da Laje. É preciso que a visites hoje comigo. antes de cinco meses.

e baixou-os logo para a terra com humildade de pessoa indigna das mercês do alto. a mulher do Manuel Tocha. que matava o bicho todos os dias. onde tinha visões como nunca tiveram os narcotizados califas de Damasco. Tinha alanceada a alma pelo tormento da desesperação. Quando entraram no quinteiro. A curiosa respondeu que era de além-Tâmega. sorrindo com certa velhacaria. Ele não se ofendeu. entre cá.. bradou-lhe: – Ainda eu te veja como está a rapariga! – Salvo tal lugar! – retrucou. e perguntou-lhe quem era. depois. e à volta dela a bruta vida de seus pais – ele a esconder o pipo da aguardente de medronho. sargento--mor da Temporã? – perguntou João. pela boca de Gil Vicente. agora não é preciso. em verdade. Ao fim de quatro meses. mulher! – Deus lhe dê saúde. A vida íntima é cheia de passagens ridículas. no apuro da sua indignação. a fim de evitar que a vissem. fervidas em um quartilho de aguardente. tocou brandamente na face da doente. não arranjava nunca uma tragédia. tiazinha? – perguntou Maria da Laje aconchegando-se da mulher com bastante fé. E. sr. E deixou cair uma das contas de pau preto. há quatro meses a eito todas as noites – . borracho! Entre cá p’ra dentro. e viera àquela freguesia por causa de um sonho que tivera. porque. caseiro do sr. onde pela terceira vez fora matar o bicho. Josefa já não saía da cama. ao que a mulher retorquiu: – Vai-te deitar. – Em sua casa lho direi. que escreve casos tristes. se lhes não joeirasse a parte cómica.. porém. levou os olhos para o céu. fez o soído de umas castanhetas. Disséramos que era mal.umas perguntas da maior naturalidade. A lavradeira disse mal humorada o que sabia da doença. nos fenos do palheiro. e disse-lhe a meia voz o que quer que fosse muito semelhante ao que uma comadre.. A mulher refilou. – disse ironicamente João. e inferia das respostas que a rapariga não estava sã. santinha. António de Queirós não chegava! Um dia. – Vossemecê não é a Rosária. dizendo isto.. Você parece esmaleitada. – Sou. A gente. – Guarde-o Deus. receitava-lhe emplastos de ervas orjavão e semprónia. perguntou-lhe no adro. Expedia gritos de indizível angústia. Por serdes vós a primeira. pois que a sua casa é que venho. queixou-se rusticamente das sangrias que sofrera o pipo.. ó Maria? – Que te importa? Se havias de ir à missa. ao sair da missa. E muito acontecedeira. foi-se deitar. ressupinos em almofadas da Pérsia. que. Vou cá dentro conversar com a sua companheira à conta dumas meadas. Entretanto. saía o lavrador da adega. havia dito três séculos antes a Rubena: Isto é cousa natural. como estava a sua Josefa. ficaste a beber.. – Rebentada te veja eu a ti! O cirurgião continuou até ao quinto mês. O cirurgião da terra. – Então que sonhou você. estorcia-se em frenesins. – Tenho-lhe posto cataprasma de orjavão e semprónia. sim senhor. Vendo a companheira da esposa. aquela hidra de Lerna que botava cabeças todo o santo dia no bucho hercúleo de João da Laje. João da Laje. como quase sempre ia. uma mulher não conhecida de Maria da Laje. Estava ali aquela desgraçada mulher sobre as brasas do seu suplício. a mãe a pisar a erva semprónia e a pedir sinceramente ao céu que lhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras. – Meadas? Vocês lá as arranjam. que matava pelo Portugal Médico e pelo Mirandela. João – disse a hóspeda. e. muito velha e bem agraciada de semblante devoto. perguntou-lhe: – Quem é essa criatura. e tão copiosamente como se tivesse no estômago a arca de todas as bestas-feras diluviais. se lhe não acudissem. infitando-se nela. – Valha-a o demo! Custou-me a conhecê-la! Você vem assim a modo de quem anda a pedir p’ra uma missa! Se quer beber. batendo na imediata do rosário. Se nunca fora outra tal. a mulher de Manuel Tocha revelava à mãe de Josefa que sua filha estava doente de morte.

nem promete. meu Deus! Preso! – Não barregue. rapariga! Mal haja quem te meteu no corpo o feitiço! Tantos diabos o levem. que em bom pano cai uma nódoa. como o outro que diz.. abeirandose à doente assustada pela inopinada visita. E. e diz que o não tira da cadeia enquanto ele teimar que não casa. Antoninho escreveu ao meu patrão novo a contar-lhe isto e aquilo e aqueloutro. que ninguém lá vai. – Pois sim – exclamou Josefa com exaltação e profundamente abalada. O meu patrão mandou-me chamar. do Porto. E mostrou dependuradas de um negalho surrado e sebáceo as seguintes. e lhe dissesse que fugisse quanto antes de casa e fosse ter à quinta do Enxertado. – Vamos. – Quem ma tolheu? – Isso agora! – e olhou para o tecto. encaminhando a suposta benzedeira no sobrado alto em que estava a filha. sargento-mor da Temporã. – Ele onde está? – exclamou Josefa em ânsias de alegria. Venha daí com Deus. custasse o que custasse. – Ai. – O sr. cruzando os braços. que. p’r’acolá. – Eu já a levei ao sr. santinha. Rosendo. exibidas as relíquias. – Sua filha está enfeitiçada. Deus me perdoe! E vai ao depois. e escreveu-lhe então a dizer-lhe que a sr. – Não abra a porta do quarto em que a tolhida estiver comigo. ouvindo tocar ao longe uma requinta. – Eu fujo amanhã. São Bartolomeu – contraveio Maria. – Isso não lhe faz nada. Feche-se por dentro no sobrado. acrescentou: – Preciso ficar sozinha com a doente. duas pontas de vaca loira. de S. – O santinho tira o cão tinhoso. lá vai tudo com a breca. Dizia ela que os canudos continham ossos das sete irmãs santas naturais de Basto. porque . entrou com ela e disse a Josefa: – Aqui te trago a saúde. se nos ouvem. disse-lhe com o maior e mais desbeato desempeno: – Eu venho aqui com um recado do fidalgo novo de Cimo de Vila. que eu vou dizer-lhe ao que venho e vossemecê vai ficar alegre como uma levandisca. e coisas e tal. Cucufate de Braga. Josefinha. – Deu-lhe p’ra inchar! – observou a mãe da enfeitiçada. bracarense também. que eu preciso requerê-la.-lhe um canhoto às pernas com grande cólera. entende? – Olhe que eu não sei o que vossemecê diz. criatura. as mulheres nasceram para os trabalhos! Não chore. e vossemecê enquanto eu lá estiver não me corte o ar. E vai depois o meu amo foi onde a mim. – Vamos ver se ainda lhe podemos valer. que as bagadas me caíam quatro a quatro por esta cara abaixo (e alimpava a cara enxuta ao avental). a dizerlhe que o pai o metera em ferros d’el-rei porque ele não quisera casar com uma menina de lá. Nada de chamar quem está quedo. Aqui levo as arrelíquias p’ra lhe deitar ao pescoço. Ó filha. o sino-saimão aberto em placa de chumbo. e não fale no berzabum. lá disso de cortar o ar. é o mesmo que pô-las na barriga daquela cadela – e apontava para uma perdigueira que uivava. entre outras cousas cabalísticas: duas figas de azeviche. fale baixo. e contou-me resvés tudo. p’r’aqui. mas não desfaz os bruxedos – replicou Rosária Tocha.. – Raios partam a cadela! Isto é agouro! – exclamou a dona da casa. – Credo! Credo! – atalhou a benzedeira. salvo seja. e. remessando. – Vá vossemecê rezar sete salve-rainhas. e de S. e lá seria recolhida pelo feitor até ele vir de Lisboa. leu-me a carta. Pascásio. leve-me onde a ela. Antoninho está preso em Lisboa. Rosária escutou à fechadura os passos da outra que descia. O fidalgo escreveu de Lisboa ao filho do meu amo.ª Josefinha estava nesse estado. que é o sr. outro como um dedal. de S. – Vejam vocês! – volveu a outra assombrada. um canudinho de latão como um agulheiro. * Fechada com Josefa. cidade que ainda não deu outro santo. o sr. Olhe que diabo de homem. E. e disse-me que viesse eu falar com vossemecê. Antoninho. Eu lhe conto. – Não qu’ele é isso quando o feitiço adrega de pegar d’ostrução – explicou suficientemente Rosária. que é do sr. percebe agora? – Ah! quanté isso. Ora aqui tem.atalhou Maria da Laje. vá descansada. e até me leu a carta. tia Maria – prosseguiu a outra.

uma posta de presunto e um pichel de vinho. vendoa mudar de cor. – Mas quê? Não foi outra senão aquela tísica que não quer que haja outra mais bonita na freguesia. O pior é que eu não sei o caminho para o Enxertado. e a rapariga teve bons casamentos falados. mas. criatura – respondeu Rosária.ª Maria: eu jejuo para ganhar o jubileu.. e esmorecida como se o súbito incêndio de felicidade fosse um lampejo de estopas que se inflamam e nem faúlhas deixam. – Não tem que saber. – Estou aflita.. senhora mãe? – Quem te fez o feitiço? Ninguém foi senão a Bernarda do Manel Zé que te veio aqui pedir um dia – lembras-te – o teu jaqué amarelo com botões azuis. É que ela nesse momento sentira uma dor física. não forte. Vou-me indo que são horas. está com uma pele de rosto que parece uma rosa. Quando entrou no quarto. Pois olhe que esses feitiços são invejas das desavergonhadas que não podiam levar à paciência a virtude da minha Josefa. E explicou-lhe o trilho que devia seguir passadas as poldras do Tâmega. e mal hajam as invejosas que te fizeram a mandinga. muito aflita! Jesus. Hão-de roê-la! Sabes quem foi? – Quem foi o quê. esbofeteava-os). – Sim. – Que tens tu. Deus o despene! – Pois é verdade. capitão-mor.. Cala-te boca! (e. Maria galgou as escadas. Bebe-lhe. Deus lhe fale na alma. e chamando Jesus. a mais os filhos do sr. tem outro doairo na cara. e que lhe dissesse somente: «anda lá». e a cabeça encostada à mão esquerda. – Pegou-lhe deveras. nem na mais pintada! As outras por aí na freguesia todas têm rapazes que lhe rentam. rapariga? Há cinco semanas. fá. e não descobrisse ela quem era ao rapaz. valei-me! – dizia Josefa entre gemidos. Pões-te a pé ou não? Josefa.. Rosária embiocou o rosto no lenço.. de ir lavar ao rio e de guardar as ovelhas era matarem-na. para se não enganar. e correu a trazer-lhe uma farta malga de caldo fumegando por entre uma floresta de couves recheadas de feijões vermelhos. Havia de ser a brejeira da Rosa da Fonte e aquela tinhosa da Bernarda do Manel Zé! Cala-te.. A mãe. mas tem cura. e foi topar a filha sentada na cama a desengrenhar os seus loiros e bastos cabelos com uns meneios largos de braços e um atirar de tranças para trás que parecia uma alegre amante a pentear-se para ver passar o noivo amantíssimo. desconhecida. com o pente na mão direita descaída e inerte. Adeusinho. sabe Deus o que elas fazem. e lá quem na tirasse das suas devoções. vestindo as saias com agitação febril. – Deus lho acrescente. Foi para te fazer o feitiço no jaqué. que é um que dizem que anda a penar na Agra. – Àgora foi. disse que mandaria o rapaz das cabras esperá-la na encruzilhada do Mato. benza-a Deus! – Pois ela sãzinha e escorreita é como não há muitas. vossemecê há-de ter ouvido dizer. isso disse ela. Maria da Laje saiu-lhe da porta da cozinha com a boca aberta e cheia de interrogações: – Então? – É o que eu lhe dizia. caindo em si. boca! Enfim. sim. A minha Josefa nunca tolejou tanto como isto. esvaída de alento. erguendo- . mas. sentando-se.. senhora mãe! Quem foi o quê? – A mulher que aqui esteve contigo não te disse que era feitiçaria o teu mal? Josefa. – Ora ainda bem! – exclamou a risonha velhota. – Então quem foi? – interpelou a mãe com azedume. viu a filha fora da cama. enfiou as camândulas no pulso esquerdo.. mulher? – exclamou a mãe. vossemecê agora há-de mastigar um bocado de presunto para beber uma pinga do velho. ao pé da caixa das alminhas. e desceu as escadas.-las amanhã. com os dentes cerrados. estendendo os beiços. respondeu balbuciante: – Ah! sim. se desconfia. – Quem foi? – Eu sei lá. que não sais desse ninho! Queres tu comer? Vou-te buscar uma tigela de caldo. sr.tenho medo que minha mãe me mate. – Foi o meu padre Santo António que trouxe cá a santa da mulher! Vais-te prantar a pé. mas acompanhada de um calefrio. sentia-se como cansada. coitada da pobre rapariga que é tão boa! – contradisse Josefa. cachopa. se for preciso que eu cá torne. atribuiu o desmaio à fraqueza. e então virtude? Isso é que nenhuma. não tem mais que mandar-mo dizer. Vá vê-la que já não parece a mesma. Andaram aí atrás dela os fidalgos de Agunchos. e algumas.

os modos suplicantes da filha confessavam o crime. diz-lhe que eu cá m’arranjei. reformando-se sempre para pior. e murmurou: – Deixe-me chorar. – Dóite alguma coisa? – Tenho uma dor muito grande. compreendia barbaramente o dever da mulher. como lá dizem. e fazendo até uns gestos diante da mãe como se quisesse ajoelhar-se-lhe com as mãos erguidas. Ainda um destes dias contavam as gazetas de uma ilustre dama parisiense que matou a ferro frio uma neta que conspurcara a sua raça em amores abjectos. Este homem tinha em si algumas faíscas do génio de Diógenes. bramiu: – Tu que tens? Tu que fizeste.. naquele lance. reclamando-lhe a cabra ou os fígados. que era o sarro interior que lhe porejava na casca. Uma ligeira camada de verniz social não sei o que faria desta mulher. Se há inverosimilhança na crueldade das mães como Maria da Laje é lá onde são raras as que podem ler às filhas o livro da sua vida honesta. – Vais-te embora. João da Laje. crescendo para a filha. Ao entardecer daquele dia de Agosto. Ai que eu endoideço! ai que eu endoideço!. que eu à noite vou-me embora. malvada? Então p’ra onde vais tu? Morta te veja eu antes de à noite! P’ra onde queres tu ir? Quem foi que te botou a perder? Respondes.se. e murmurou: «Aguentate. e. partiu a fugir escada abaixo. convicto e implacável. E. foi levada em braços para a cama. sem discriminar as infelizes. Viveu assim largos anos. e o mais era espírito de vinho. – Que é de tua mãe. sentia nas mãos as crispações nervosas de quem estrangula um pescoço. um tudo-nada do espírito de Epicuro. de feito. .. Fez-se uma desfiguração improvisa e medonha nas feições de Maria da Laje. sentou-se ao pé da cuba. os mosteiros portugueses eram o dragão com os colmilhos abertos para esta espécie de vítimas que os pais lhe atiravam: se o cubículo claustral as não amordaçava. – Hoje não se come? Cá vou ver o que está na panela: quando ela vier. Maria da Laje sofrera punhalada que rasga profundas fibras em peitos de mães honradas. como levasse as mãos aos quadris no ímpeto da dor aguda. Neste instante fez-se-lhe luz na alma a um clarão infernal. e julgava-se com direito a murmurar de todas as frágeis. Da caridade cristã só entendia o preceito da esmola. muito grande. foi bater à porta da filha. sr. tinha o orgulho selvagem da honra. a mãe de Josefa. foi para a adega. com as mãos na cabeça. Aqueles gritos e contorções recordaram-lhe que havia sido mãe: viu. rapariga? – perguntou de fora. e foi sumir-se no palheiro. que tua mãe não faz outro». mulher perdida? Olha que se me gritas de modo que alguém oiça. * Com toda a certeza. e foi interpelar o rapazinho. – Que tens. Com alguma sentimentalidade no coração e frugalidade no estômago. dando gritos com a cabeça metida no feno para os abafar.. morreria na flor dos anos. com as mãos no rosto lavado em lágrimas. ouvindo dizer que o pegureiro perdera uma rês. e morreu aos 80. os sinais exteriores do crime nem sonhado. João. deixou a mulher a escabujar no catre.. Se imaginava que a filha podia desvairar uma vez. Não perdoava cegueiras de amor porque não amara nunca. entrando à cozinha para jantar e não vendo ninguém. minha mãe.. segundo o marido contou ao vigário na cangosta do Estêvão. dou-te com o olho de uma enxada na cabeça! Pois tu! Pois tu!. O confessor não lhe ensinara outra interpretação da terceira virtude teologal. seguindo-a espavorida naqueles trejeitos frenéticos. mulher? – bradava a mãe. extraindo do pote um naco de toicinho com que fez uma enorme e pingue sanduíche entre duas talhadas de broa. a mãe quedou-se como estupefacta a olhar para ela. Em tempos tenebrosos.. João. E. mas o brasão limpo. a enxerga e a fome. pai. O seu ódio às mães tolerantes com os desatinos das filhas era entranhado. – Não está aqui. Como era deslinguada e mordacíssima nas fraquezas alheias. porque a língua da chave estava corrida. como nunca vira.. impunha tacitamente à filha o dever de a sustentar na sua soberba inexorável. amaldiçoada? Josefa ajoelhou-se. E. com as mãos fincadas nas fontes. Era dura de condição. quando.. havia o tronco. depois a sepultura. Entretanto. coberto de musgo.

cuja cama era na tulha. Quando aí chegou. Pôs o berço à cabeça. rompendo sozinha pelo escuro da noite. convence-se de que a mulher do período quaternário (vou assim longe porque na Bíblia se conhecem de nome as parteiras Séfora e Fua) não carecia de mais assistência que a loba das cavernas. O remorso pôde mais com ela que a selvajeria da sua virtude. mas ainda viveu seis anos com reveses de demência. quando o infortúnio ou o acaso interceptam o menor auxílio à mãe. e lhe parecia que a filha. escorregou ao rio. mas neste instante ouviu os brados da mãe. mas contava consigo. e disse entre si: «Eu vou morrer». que perdera a cabra. A mãe era robusta. onde um claro de areia se lhe afigurou o berço. ouviu a voz do pai a praguejar contra o rapaz. lançando a saia de pano azul pela cabeça. nivelando-a nesse lance às espécies irracionais. Quando ela estendeu o braço já o não alcançou.-Tâmega. que era bastante forte para o derivar. saltou a vala. e souber da inutilidade da arte e dos preceitos. no mesmo plano da cozinha. privando-a da confiança pessoal. repelindo o marido desde que lhe ouvira dizer: «A rapariga faz-me falta porque não tenho quem me governe a casa». as regras. uma canastrinha de verga urdida tão densa e solidamente. e. e sentia-se torvada. sentia-se esvaída. Arremessou-se então ao rio. a desgraçada cortou de través para a margem. que não estavam perto. * António de Queirós soube no Limoeiro. era o mesmo berço em que a mãe a criara. foi mãe naquela já tardia explosão de angústia e amor. Não o queria para si. quando amamentava a criança. e com o fundo fasquiado de madeira tão impermeável. ia levantar o testo do púcaro. O seu destino era o abrigo que o pai da sua filha lhe dera. logo à ourela do rio. e fugiu. Atormentavam-na dores outra vez. Da parte de além. conselhos e desvelos que a ciência agrupou à volta de uma puérpera. Estremeceu. da consciência da força própria e de algum modo estorvando as influências directas da natureza. na precipitação com que o fez para não cair. esfregou os olhos turvos de pavor. Pousou o berço no escano. Era o Luís moleiro que vinha descendo com o rapaz. e esperou que as pancadas do coração sossegassem. Josefa. o pescador da chumbeira ouviu-a chorar na cangosta do Estêvão. Josefa era mais um dos inumeráveis exemplos da força prodigiosa da mãe. e. na queda. Um saiote de baeta dobrado envolvia a criança. Lembrou-se de José da Mónica. quando a soledade e o desamparo a obrigam a socorrer-se de si mesma. ergueu-se cambaleando. benzendo-se. perdido o tino. por carta do seu amigo da Temporã. a corrente parecia-lhe caudal e negra. não achando leite. caiu. Ao avistar as poldras que alvejavam puídas e resvaladiças ao lume d’água. pediria que a fossem guiar no mau caminho da grande légua que a distanciava da quinta do Enxertado. Neste lance. E observa também que os encarecimentos e demasias da arte a enfraqueceram e melindraram. Quis sentar-se em uma das poldras. que Josefa de Santo . A Brites do Eirô reconheceu-a a saltar para o campo da Lagoa. ao atravessar o quinteiro. invocando o auxílio das almas benditas. Quando ouviu vozes. Depois. e apertando o berço contra o peito. se lhe estirava hirta nos braços como morta. e a queda de nenhum perigo. mas os altos choupos da margem. Sabem os sucessos posteriores. encobrindo a baça claridade das estrelas. amparando-se à parede. mas daí em diante ia como cega.Ao mesmo tempo. Havia de atravessar o ervaçal que o moleiro e o pastor percorreram um quarto de hora depois. mas. agarrou-se ao esgalho do salgueiro em que o pastor e o Luís moleiro a encontraram moribunda. quando descia de manso a escada do seu quarto. Na cozinha não estava ninguém quando ela atravessou de passagem para o quinteiro. deitada sobre a velha enxerga de serradura. Ninguém lhe ouviu os últimos gritos dela nem os primeiros vagidos da criança. em um tratado de obstetrícia. desde que ela expirou nos braços do veterano até que o escrivão do juiz ordinário nos deu o exemplo da dissecção daquele cadáver. o pastorinho que lhe era muito afeiçoado. desfalecida e sem forças para transpor as poldras. teve vertigens. Viram que Maria da Laje. cuidando que fosse apanhada. ao longe. era para o converter no leite da sua filha. escureceram o berço. pisou com firmeza as quatro primeiras pedras. trazia debaixo do braço um berço com o filho. que poderia estancar a água sem transudar. pegou da criança. A água era pouca. se tomasse algum alimento. Quem ler. quando ouviu dizer que a filha se afogara. mas o berço caiu na veia da corrente. Olhou para a lareira a ver se acharia um pouco de caldo. no alto da barroca. e morreu em casa de seus irmãos em Santa Maria de Covas de Barroso.

acercou-se do lugar sombrio donde vinha a toada incessante daquele ríspido chorar. – Sabe que é o sucessor dos meus vínculos? – Disponha V. – Com quem cuida você que fala? – repetiu o convulso velho. Estendendo a mão. como lá dizem. – Com quem cuida você que fala? – interpelou o fidalgo com Bernardo del Carpio às cavaleiras que lhe esporeava as ilhargas com o direito de avô. que espraiava para dentro de um algar. sentada à porta da cozinha.Aleixo se suicidara no mesmo dia em que ele conseguira enviar-lhe o aviso para a fuga. Segunda parte Francisco Bragadas. quando ouviu no recanto escuro ou angrazinha da corrente. Francisco Bragadas exclamou levantando a canastrinha: – Oh! Pobre menino! Atiraram-te ao rio! Ainda eu mais verei neste mundo? – E. o mundo está a acabar! – Dá-lhe o peito quanto antes. senão o mundo acaba-se para ele. berço e tudo. À primeira esfriou de medo. Ele. teria dado trinta passos rio abaixo com a rede já enrolada. – Um quê. mas esperou a reacção do bom senso. atribuía à demência repentina a resolução da infeliz que ainda na manhã desse dia se mostrara contentíssima com a deliberação da fugida para a quinta do Enxertado. como ao seu antepassado quando matou o rei dos longobardos em Itália. Pé ante pé. Olha que desgraça.ª S. que era pai de muitos pequenitos. vá para onde quiser. . se não quer casar – disse Cristóvão ao filho. não podia confundir os vagidos de um menino com os guinchos das desdentadas bruxas. escondeu-a em uma lura do valado. e deitou a correr para casa. as quais. embalava uma filha com o pé. atado nele. – Tu estás tolo. porque tem a minha liberdade e o Limoeiro à sua disposição. mulher! – disse ele. a mim me bastariam a felicidade. homem? – Um crianço que pesquei no rio. – um bosque de choupos assim chamado. enquanto amamentava a mais nova. despedindo-se do moleiro. – Para onde quer ir? – Para o Rio de Janeiro: seguirei lá a vida militar. olhou para o céu com profunda mágoa. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho. foi buscar a candeia. Recebê-los-á hoje. pôs as mãos. costumam cacarejar casquinadas de riso quando lavam nas claras águas das ribeiras os seus indecentes arcaboiços. Aqui to deixo. apalpando-lhe o corpo por baixo do saiote.ª deles se quer e se pode. O fidalgo conferenciou com a regência. O vigário de Santa Marinha também avisou Cristóvão de Queirós do suicídio da rapariga. – Nem caso nem vou para a província. a mocidade e a alegria que me matou. – Vamos para a província. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço. – Irei já enquanto lá tenho a minha bagagem. espantado do sucesso. que eu vou contar aos fidalgos este caso. Afuzilavam-lhe os olhos.ª S. Dessa sei eu que você é filho. e amanhã partirá. convenceu-se que era uma criança viva. e exclamou: – Ó homem. que dali. um homem que eu sinceramente temo. disse maravilhado: – E nem sequer está húmido! Isto é milagre! Como a chumbeira lhe pesava. quando a avistou. Bernardo? – Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro. – Com V. atravessava para a margem da Ínsua. tocou na face tépida da criança. meu pai – respondeu António de Queirós. com o berço debaixo do braço. Sua mãe teve cinco mil cruzados de dote. por via de regra. – Cá tens mais um. A mulher de Bernardo. ó Isabel! A mulher benzeu-se. o timorato pescador de chumbeira. com certas apreensões agoirentas. – Tornará para o Limoeiro. O informador. – Não é meu filho! Vá para o Brasil.ª. o choro abafado de uma criança. e o intendente geral da polícia mandou passar alvará de soltura ao cadete de cavalaria.

– Isso sei eu. em várias comarcas. estavam as senhoras e mais o cónego e o irmão a jogar a sueca. outros as armas: tinha filhos para todos os ofícios e artes.. O Bragadas vem ensaiado por ele. Gostavam de alguns sujeitos que fingiram ignorar o sentimento involuntário que acendiam. Depois. – Eu sei! – duvidou a outra. – Credo! Tu que dizes. e asseverava que o primeiro e mais verídico historiador do género humano fora Moisés – asserto que ninguém lhe contestava. e exclamou: – Parece um caso bíblico! – Há factos análogos na história da Lusitânia – observou o desembargador. O cónego ergueu os óculos de tartaruga para a testa. – Marosca? – Sim. mas arranjava esta comédia com o caseiro. idade em que o sexo principia a descaracterizar-se. porque elas mesmas se sabem partejar. Umas filhas eram freiras franciscanas. Maria Filipa: – Olha que isto é marosca.. Esta família era do Arco de Baúlhe. comungava de madrugada. e ela ia para a labutação da cozinha. D. por causa da má cara que possuíam. Maria Tibúrcia disse ao ouvido de D. falava muito no Pentateuco. Largaram as cartas a um tempo.. recordando-se.. alguns filhos seguiam as letras. senhor de grandes prazos.. Elas tinham fogo latente no peito. Bernardo.. que também era solteiro. mana!. período equívoco em que a mulher. e. O mano doutor tinha servido lugares de magistratura. embalsamada. lá prestava os cuidados à criança. com umas cores rosadas que parecia uma noiva na véspera de ser esposa. moto próprio e propagação pessoal.. desde juiz-de-fora até corregedor. mas povoador de sua lavra. e por todas elas deixara prole ilegítima. de quem as parteiras egipcíacas diziam ao Faraó: «As mulheres de hebreus não são como as dos egípcios. dos cevados. da maceira. e presa à bisca sueca pelo espírito e à caixa do esturrinho de 1813 pelo nariz. uma coisa melancólica. mas. 1º. ainda frescal. . E era isso não pequeno desgosto para elas. parem» (Bíblia. O caseiro atravessou um campo de hortas e pomares na extrema do qual estava a casa nobre. Sancho povoador de seis comarcas. cap. e depois. posto que não antipatizassem com Cupido. sabendo de cor a Monarquia de Brito. mas menos casto que as manas. * Quando o caseiro. não na queria enfaixada.. Haviam sido feitas de modo e feitio pouco vulgar.. nunca exigiram quantia notável de seu irmão. Enquanto os dois pilares da história sagrada e profana porfiavam em erudições respectivas ao caso. mana Tibúrcia? O mano doutor não mandava atirar ao rio a criança. o doutor Teotónio de Valadares. E. se não tem filhos que lhe afirmem uma serventia retrospectiva. Maria Tibúrcia e D. a deitar os bofes pela boca. Maria Filipa eram solteiras. com o maior sossego de alma e muita conformidade com as dores. A criança é filha do mano Teotónio. homem erudito em história pátria. mas muito honestas. todo o alento aos pulmões. Deixemo-nos de tretas. mandava o homem para a lavoura. outras eram mães. – O mano Teotónio não precisava de estar com estas endróminas. Para estas senhoras não tinham significação estas palavras do padre Manuel Bernardes: «Mui íngremes e costa arriba são as veredas da castidade!» Eram castas estas duas irmãs como as melancias são frescas e os tremoços sensaborões: – era o seu feitio e a sua natureza. Era como as mulheres de Israel. Estava hóspede na casa o cónego de Braga João Correia Botelho. Êxodo. apareceu a dar notícia do achado da criança no Tâmega. dois dias depois. D. tornaram sagrado aquele fogo de que elas mesmas eram as vestais. grave. vº 19). ela mesma a lavava. parece que foi sempre assim. antes de nós chegarmos. porém. E quem há-de ser a mãe? – Faltam elas por aí. gente nobre e antiga. Confessava-se na véspera. onde os fidalgos de Santa Eulália costumavam passar o estio para se banharem no Tâmega. Duas senhoras de outros tempos com seu irmão desembargador aposentado. Era o D. matava uma galinha e dizia ao marido: – Vamos a isto.– Ai! – exclamou ela examinando a criança – É uma menina e ainda não tem cortada a invide! Queria dizer que ainda não estava ligado o cordão umbilical. dava-lhe aos braços toda a liberdade. e talvez pelo cónego.. Isabel tinha a ciência prática da mãe de onze filhos. todos nascidos sem mais auxílio que o do seu homem e o da sua serena coragem naquele acto. Passavam dos cinquenta. Na folha de inventário cabia a cada uma dez mil cruzados.

pergunta a minha curiosidade. Amanhã iremos a S. que é livro que nunca me larga.. em paga de ele acudir àquela criança que.. Salvador baptizá-la. – Ábidis?! – disse o padre invocando a memória. que eu cá estou. enquanto as duas irmãs estavam a ver se percebiam o modo como eram mães por um figurado esforço de latinidade. Leia. – Como há-de ela chamar-se? – perguntou o cónego. mano. já teria asas que a levantassem até ao paraíso. Ele não era teólogo. pois que o Francisco Bragadas tem onze filhos. porque madrinhas têm lugar de mães. – Então qual é madrinha? – perguntou o padre. – Sim – conveio o desembargador –. O ímpio Faraó mandara matar as crianças do sexo masculino. desembargador o que a Bíblia refere. se morresse. tomando do esturrinho de D. Achou-o. irei buscar o tomo I da Monarquia Lusitana. – Vá. continuou com ênfase: – Górgoris. que é o mais natural. Parecia-me. – É melhor – obtemperou o hóspede. – Eu não sei. Maria Tibúrcia. portanto..– É necessário – disse o cónego Botelho – baptizar a criança amanhã. depois de baptizada. de invento – eu acho. sr. – Que é isso de Ábidis?! – É um caso semelhante da história portuguesa. minhas senhoras. – Interrompa quanto quiser. – Eu não interrompo mais seu mano. – Não sejas má língua! Olha quem! Coitado do homem. Moisés foi achado no rio. – acrescentou o cónego. – atalhou D. desembargador. se ela me falhar. – E porque não há-de chamar-se Maria Ábidis? – perguntou o doutor. boa esmola lhe fazem. – Isso – confirmou o cónego. – Essa não me parece de homem que lê! Esse casaco que o senhor tem vestido quem o inventou? Quem é que inventou os casacos.. – Vamos à história de Górgoris. no ano 2806 da criação do mundo. – Será ele o cónego? – redarguiu D. – Tem razão – conveio ironicamente o cónego. num berço sobre o rio. padrinho há-de ser o sr. – Maria. O rei da Lusitânia Górgoris teve uma filha que se . – E. – Pode ser a mana Filipa – disse a outra. – Serão vossas senhorias ambas. – O senhor ri-se – acudiu o doutor. – A mana é Maria. O cónego sorriu-se. e vinha à flor da corrente deitado num berço. rei da Lusitânia. já se vê – respondeu D. tomaremos conta da enjeitada. – Se o cónego quer que o inventor do mel haja sido o inventor das abelhas. conte lá a história. – Vês? Não é ele o pai – disse D. em comemoração de tão estranho sucesso. O caseiro saiu alegre. – Meli e colo: não o inventou. – Matercula. que é o diminutivo de madres. Tibúrcia. – E na qualidade de mães substitutas que o sacramento lhes confere. cultivou-o: são coisas diversas – reguingou o padre. leia o meu Bernardo de Brito. – Bem sei. Maria Filipa à irmã a meia voz.. que a menina se chamasse Maria Moisés. de mater – acrescentou conspicuamente o doutor. – Eu cuidei que o inventor do mel houvesse sido o inventor das abelhas – explicou o padre. Francisco – disse o desembargador –. Muito bem sabe o sr. Tibúrcia. ou mãezinhas. – Prontamente! – anuiu o doutor Teotónio. tem de ficar a criança a cargo de seus padrinhos. Maria Filipa. – Inventou. Não lhe tenho eu dito cem mil vezes que a nossa história é um tesouro de ricos acontecimentos aplicáveis filosoficamente a tudo quanto há mais extraordinário?! Eu lhe conto de memória: e. que não vá ela morrer. dizendo: «Lançai ao rio todo o que nascer macho. minhas senhoras. responda que o inventor dos casacos foi o inventor dos carneiros que dão a lã dos estofos. mães. visto que a recém-nascida não tem mãe conhecida. foi o inventor do mel. se vossas senhorias tomarem conta da enjeitadinha. mas há-de acrescentar-se-lhe um sobrenome indicativo da circunstância em que foi encontrada. e não reserveis senão as fêmeas». – Sim. – Justamente. nem conhecia o limbo. – Serão doze – atalhou o agricultor – mas.. Madrinha há-de ser uma de vossas senhorias. minha senhora. cónego. – Ai que fazem sono à gente com a seca dos latinórios!. a pensar que Deus lhe olharia pelos seus pequenos. – Que por inventar o mel se chamou o Melícola. vai o cónego contar-nos o caso de Moisés.

porque a moribunda. que atribuiu a Voltaire. na qualidade de desembargador.. – Não parece pa lavra de pessoa eclesiástica! – notou a outra senhora não menos escandalizada. – Mas que é que dizem? – instou o doutor. a Rousseau e a Helvetius. O que denunciou estes amores foi. eu não sei se isto que dizem se assim é nem se não é. desembargador. ouvindo alémTâmega o tanger a finados. Antoninho de Cimo-de-Vila. – atalhou D. lavraria a sentença de morte dos portugueses que militavam na França com o tigre da Córsega. – Saberá vossa senhoria que até esta manhã não se dizia nada ao certo. num rapto de vidente. e. corrupto. foi a «emprenhidão».. e.apaixonou por um homem de baixa extracção. disse: – Uns nascem e outros morrem. – A Josefa? – perguntou Isabel.. que o avô deitou às feras.. sr. misérias. que eu não quero que haja mais lindo anjo do céu! – Por que se matou ela? – perguntou o desembargador. Aleixo dobravam a finados. que existiram tanto neste mundo como o tal Ábidis.. o filho no Limoeiro. isto é o que dizem. Contou ele que se deitara ao rio a filha do João da Laje. posto que nunca os lesse. e o cónego.. O sr.as. – Enfim.. senhoras. até toparem um homem de Santo Aleixo a quem perguntaram quem lá morrera. Maria Tibúrcia com a energia explosiva dos dizeres sentenciosos e finos. como as feras o não comessem. atirou-o ao Tejo. Misérias. os sinos de S. O que dizem é que aí pelo verão ia por lá um fidalgo. Citou os generais portugueses que deviam ser enforcados. que eu não sei nada. inventou Laimundus. atirou-se ao rio. Sim. – Não queremos saber disso. é um bêbedo. e daí veio chamar-se ao lugar Esca Abis (manjar de Ábidis). ria-se. fábulas de Brito não me engodam. acabou-se. diz Bernardo de Brito. se não inventou o mel como Górgoris.. Salvador festejavam com três repiques o baptizado de Maria Moisés.. pedira fervorosamente a confissão.. O mano Teotónio. Enfim. hoje em dia a civilidade não permite dizê-las. segundo o testemunho do moleiro. como tinha piscado o olho direito ao cónego. e. homem? A Josefa. à conta dela. – Eu dou licença – disse o cónego rindo. o que ele confessava com honrada jactância. permitame que eu repugne a que a enjeitada tenha um sobrenome procurado na fábula (4) . sr. Conversaram a respeito da enjeitada. posto no lajedo da igreja. Previu o advento monstruoso das ideias jacobinas. – Nada. – Você que me diz. Deus lá sabe. disse: – Minhas senhoras. – Tudo isso me parecem vocábulos corruptos e interpretações corruptíssimas. Scalabis. Foi o menino encontrado no sítio que hoje chamam Santarém. exclamou: .. Deus lá sabe. V. e. o cónego.. Quando a família de Santa Eulália ia a caminho de casa com a afilhada. – Credo! Que palavra! – exclamou com engulho D... A opinião dos padres e dos assistentes ao ofício era que a suicida praticara aquele crime porque devia ter chagas de lepra que a corroíam. Enfim. Vamos embora. entre quatro círios. como quer que uma corça lhe desse o primeiro leite. Maria Tibúrcia. –objectou o cónego Botelho – e. A criança saía da pia baptismal.. ainda que as entendesse. – Deu ela à luz um menino. O vigário consentia que a enterrassem em sagrado. Deu como prova da corrupção das aldeias um suicídio e uma tentativa de infanticídio no mesmo dia e na área de um quarto de légua. em uma palavra de cunho português de lei. Não saberei eu dizer quais são os mais felizes.. o que dizem é que o fidalgo velho meteu. e Mestre Menegaldo e Pedro Aládio. com a maior gravidade.. morreu. – E abandonou-a? – perguntou o cónego. Ande lá com a filha de Górgoris. com licença de V. Maria Tibúrcia. Eu digo o que ouvi.. fidalgas? Faz p’rá semana santa dois anos que ela foi de Madalena na procissão do enterro. ao mesmo tempo que o esquife da mãe. mas o que por lá corria agora é que ela. Ai. que era a virtude em carne e osso! E então bonita.as S. Quando os sinos de S. – Eu cá por mim antes queria nascer que morrer – disse D..ª S. era responsado por alguns clérigos que franziam os narizes ofendidos dos miasmas da carne podre. Fez ao propósito reflexões políticas e até proféticas. a mulher do Bragadas que levava a menina.. os antigos faziam as coisas e diziam-nas. etc.. Esse frade. chamou-se o menino Ábidis. O desembargador foi discorrendo acerca da corrupção dos costumes. e ela então. – Outros – prosseguiu o informador – dizem que lhe subira o flato ao miolo.. Disse que.ª manda. doutor Teotónio de Valadares. Uns diziam que ela não podia aturar o pai que.

no dogma. deu-se bem o florífago. ó sr. como se vê. em benefício da enjeitada. mas safou-se de casa e desmaiou cheia de pudor e denguice nos braços do seu bardo e marido. O desembargador quis pôr a irmã por demente.-Landry. desejou residir um verão na quinta de Santa Eulália para repassar tristemente na memória os vinte estios que aí folgara com o seu amigo Teotónio e com as duas irmãs. casou com um mancebo. – Deixá-la cair? E a fé? – Qual fé? A estátua que está no frontal da Inquisição no Rossio? Deixá-la cair também. a herdeira da quinta. em Braga. * Este cónego. não sei se me acreditam. e a sustentar-se (6). sr.. Maria Tibúrcia. que estudava teologia moral com tanta incapacidade. Maria Filipa. desembargador (5). Assim que chegou a Santa Eulália revelou ao cónego o seu pensamento: era criar meninos enjeitados! Era bom e caridoso o padre. Maria Moisés. mas a minha obrigação é atirar para aí com as pérolas da verdade sem me preocupar com o destino delas. cónego! – Deixá-la cair – disse o padre. O tutor e director da recolhida. o cónego Botelho. Sabia o cónego que uma anónima viúva francesa abrira um asilo de expostos perto de Saint. Tibúrcia com 10. porque os não tinha. posto que já desvidrados pelo puir dos setenta anos. e deixou 5000 cruzados a sua afilhada Maria Moisés. em que espécie de serviço aos enjeitados empregaria a sua caridade? Indo buscá-los à roda para os criar em sua casa? Assoldadando amas para a criação física e mestres para a criação moral? Mestres para as letras e para os ofícios? Em que veios de imaginário ouro se alimentara esta utopia que poderia ser virtuosa se não fosse indiscreta? . na margem direita do Tâmega. D. Estava ao pé de mim o nonagenário provedor da Misericórdia que me disse ter ainda conhecido aquele alegre ancião com a sua cabeça veneranda à gelosia de uma casinha na rua d’Água. mas ela.. mas dava aos pobres inválidos e enfermos parte de suas rendas e estimulava. acompanhou-o. e uma das irmãs. Este moço fazia sonetos e madrigais. como há pouco presenciámos. Manducabis solummodo de floribus. não ignorava que uma respeitável matrona. mas uma menina solteira a lidar com enjeitados afigurou-se-lhe exercício menos consentâneo com a pureza e candura de anos tanto em flor. sem auxiliares. Maria Tibúrcia. Cuidei que me falava da Fé de pedra. cónego! – Ah! Isso é outra coisa. Maria. fez testamento. frigideiras de Braga e morcelas de Arouca. eram boi e leitão. e – acrescenta Isidoro de Barreira – tornou a comer outros sete dias flores. A idiossincrasia do marido de Tibúrcia não eram flores. A outra. aos quinze anos. que ele. Marcos. que eu saiba. Foi ele quem recolheu no convento das Teresinhas de Braga. que lha desaprovou em termos enérgicos. resolvida a não tornar para o convento. em dias de alegre humor. sozinha. mas achou tão original e extravagante aquela ideia em uma menina de dezoito anos. cujo retrato eu vi há dias. sr. auxiliara S. Pelo que respeita a D. e desprovida de recursos bastantes. um estrénuo defensor do Santo Ofício. como quem diz que só tinham préstimo para a sueca. nem acreditava nas invencionices de Bernardo de Brito. a madrinha da enjeitada. – Falo na fé. sem família. representados na quinta de Santa Eulália. que se sustentou catorze dias de flores. D. na galeria dos benfeitores do hospital de S. que perfazia quatro emancipações completas. mas não as comia como Esdras. Além disso. a caridade dos seus hospedeiros amigos. Maria Moisés. Vicente de Paulo em dar abrigo às crianças abandonadas. cara a cara: – Estás uma carcaça e queres casar! Não tens vergonha! Põe um cáustico nessa cabeça. Conhecia toda a simbólica das flores. não lhe refilou os dentes. doida! Depois. não era. injuriou-a até ao extremo de lhe dizer. chamava as duas biscas. Ideara um viver muito diverso do monástico. a única pessoa. Isabel Lhuiller. que preferiu D. Não podia conventualmente exercitar umas estranhas humanidades que lhe agitavam o coração desde que sua madrinha lhe legara recursos para as realizar. Folguei de ver aquele ridente aspeito em que reluzem uns olhos sagazes.000 cruzados ao Mestre Larraga com a ciência do céu.– Quem viver dez anos há-de ver caída a inquisição. quando já eram falecidos o desembargador. preenchidos os cinquenta e sete anos. contanto que nenhum de nós esteja debaixo. disse-lhe o anjo.

acredito eu que a divina Providência tos manda. O coração decerto as tinha. quatro pipas de vinho e dez almudes de azeite é o teu rendimento.. com mais lágrimas que expressões. a repugnância congenial da sua vida pura sofreram uma dor íntima com a inesperada confissão. e foi levada sem alento para casa da mãe do morto. amamentava. morrera de cambras deixando dois filhos pequenos. Joaquina. que meu pai está muito acabado. – Vem para o meu quarto. a filha do Bragadas. – Mas tencionas procurá-los? – Isso não. um era o noivo de Joaquina. Alta noite ouviu ringir a porta do quarto de Joaquina.. os turbulentos acometeram-se peito a peito de clavinas engatilhadas. A rapariga ainda o viu moribundo. espero que a divina Providência os leve onde eu estiver. viúva de um soldado que estava lá para as Ilhas com o irmão do sr. que a tratou com o amor que tinha ao filho. O tiroteio de ambas as margens do Tâmega principiou às dez da noite. Uma noite. Bartolomeu. – Fala baixinho. e fez-se a sua enfermeira moral. Quem tem seis por ano e gasta sete. e não dês alento aos costumes depravados tomando a teu cargo os filhos que as mães abandonam. era agora uma guapa moça de quem Maria se afeiçoara fraternalmente. sentindo-se apertada ao seio daquela a quem se confessara mãe desonrada e perdida. mas não adormeceu. Não a encontrou no quarto. Do seu próprio nascimento inferia ela uma desgraça semelhante à de Joaquina. e disse singelamente: – O meu desejo é dar aos enjeitados a caridade que eu recebi. depois de muito instada a explicar o seu propósito. Oito carros de milho. Ora. Miguel.. vai. e disse-lhe abraçando-a: – Onde vais? Joaquina. segundo o bárbaro estilo daquela romagem.. Contam-se milagres de multiplicação que talvez se possam repetir no teu pouco. todavia as angústias da rapariga recresciam. mas não lhe inspirou de pronto palavras confortadoras. depois das colheitas. menina. – Então vou eu? – Pois vai. mas na noite de 24 de Agosto. Maria. não vás além do que te rende esta quinta. Miguel. que era agora caseiro da enjeitada que encontrou no rio. balbuciou: – Não diga a ninguém a causa da minha morte. se o reumatismo me deixasse. quando em Cavez se festeja o S. fora pedida por um lavrador abastado de Cavez. cónego? – disse ela – Já tenho dois! – Esses dois iria eu buscar-tos. correu à porta da sala de espera que ela nesse momento abrira. Ergueu-se alvoroçada pelo pressentimento de que a infeliz rapariga ia matar-se. * A filha que Isabel. – Também eu fui abandonada – disse ela. porém. sr. Maria Moisés deulhe uma cama em sua casa. se ele o souber. porque o pai de seu filho já não podia remediar a sua desonra. Volvidos alguns dias. Separou-se dela fundamente magoada e pensativa. deviam casar no S. – Vê. acorçoada pelo amoroso desvelo de Maria. morre de paixão. tornou para casa de seus pais. Maria Moisés tinha em casa dois meninos na primeira infância. Joaquina. passados alguns dias. e o propósito do suicídio revia-lhe nas meias confidências à sua benfeitora. que não ouça o sr. e. Assim. os seis somente em obras justas de misericórdia. ao fim de seis anos tem só um. revelou que estava perdida. a religião. quando o marido lhe levou a enjeitada. E olha que são mais dignos de compaixão os órfãos que viram morrer sua mãe do que os enjeitados que a não conheceram. mas o mais prudente é contares pela aritmética que eu te ensinei. Maria – replicou o padre – mas vieste tarde à procura dum mundo que passou. contou-lhe que a moleira da Trofa. cónego – disse Maria apontando para o quarto do hóspede. posto que pobre. Maria. A enjeitada quedou-se a olhar para Joaquina com muita tristeza e espanto. D. Exercita a caridade quanto as tuas forças to permitirem. que não tinham migalha de pão. – És uma virtuosa criança. Gasta os seis. e lembra-te que eu sou aquela enjeitada que teu pai pôs no .Ela ouviu silenciosa o cónego. mas o pudor. e dos dois valentes que caíram mortalmente feridos na ponte.-Montes. com a vista vaga e turva de quem chorou até que a demência lhe secasse as lágrimas. os festeiros do Minho brigaram com os de Trás-os. Reteve a desvairada. mulher do Bragadas. quis despenhar-se da ponte. Ao romper da alva. O velho Francisco Bragadas.

onde tenho as minhas amigas do convento. sabendo ler.. tio Francisco. Lá se eles tivessem que comer. quando te sentares neste banco de cortiça. fui eu que o plantei há vinte e três anos. não chores. que já podem ir à escola. no estio de 1835. – A senhora lá sabe o que lhe convém. Chamava-se a árvore do cónego.. nem nunca me fez minga. E olhe que está em terra azada para meter em casa mais garotos do que andam na escola do Farripas.. O que eu lhe digo é que. porque o prazer de dar é muito maior que o de receber. – obtemperou ironicamente o Bragadas. meu pai. – Ora adeus. se és minha amiga. despedir-me de ti. mas a melhor porção há-de ser a minha. – Está bem aviada a senhora! – tornou o Bragadas com bastante rabugice e algum zelo pelas comodidades da sua ama. e depois é agarrarem-se à enxada e à rabiça do arado. Na primavera seguinte. não era mau. Se eu ficar sem ela. Olhe que os milhos este ano quase que não espigaram. isto de escola p’ra que monta? Eu também não sei ler. Joaquina afastou-se com os olhos manejados de lágrimas. * No começo do inverno. retirando-se. se se espalhar a notícia de que a senhora recolhe os enjeitados. mas. quando não.. está a tocar ao viático. Vem. – Vou passar o inverno em Braga. fez a última visita à quinta de Santa Eulália.. – Venho despedir-me – disse ele –. Puseram-na no pátio da nossa casa. – Deixá-la ouvir. e depois veremos. sim? – Vá descansada. e Maria Moisés. Francisco. que eu não me ofendo – disse Maria Moisés. é porque a reparti por muitos pobres. e destas árvores que eu vi plantar. – E tem de pagar e dar de comer à mulher que o cria? – Pois ela!. para que possas mais alguns anos possuir a tua quinta e ser a dona da árvore do . então. – Sim. Quero que aprendam. sim. nem me assustes. ralhe. em Santo Aleixo. adeus! Isto assim vai tudo pela água abaixo.. – Ah! A senhora está a ler! Qué-los fazer brasileiros? Boa vai ela! Se vai nesse modo de vida. Maria. – Não quero. Já não há pais que saibam criar as filhas com pão e pau. tio Francisco. e. verá que lhe chovem em casa como a praga do Egipto. ó moça? – É uma enjeitada de que tomou conta a senhora. sorrindo. Vinho.. Já nasceu alguém mais pobrezinha que eu? Não se arrependa de ter sido quem deu causa a que eu fosse a dona desta quinta. mas o que eles carecem é de se pegar ao trabalho. Talvez os mande para o Brasil. Este olmo que ainda tem um sinal de letras. – Que tem que eu morra pobre? Acabarei como comecei. ó senhora. cortou a diatribe que o pai austero vociferava contra a dissolução dos costumes. Maria e Joaquina voltaram à quinta.colo de tua mãe quando tu lá estavas. perguntou à filha: – Aquilo que é.. quando viu apear uma mulher desconhecida com uma criança nos braços. vá. não se enche a cuba pequena.. Maria Moisés saiu de Santa Eulália. Isto por aqui é um louvar a Deus de mulheres perdidas. O caseiro. – Paciência. O melhor é dizer que a quinta dos fidalgos do Arco é agora a roda dos enjeitados. E. sr. Para nós e para os pequenos sempre há-de chegar. queira perdoar-me. * O cónego Botelho. lembra-te do teu amigo. com o seu frio egoísmo de velho. Esta senhora carece de tutor. – Ralhe. guardarem uns cevados enquanto não podem ir para o monte com a rês. e as oliveiras estão tolhidas da ferrugem. Lá pela vida fora. e pediu aos seus caseiros que deixassem ir com ela a sua filha. e a senhora não a deixou deitar à roda. – Para onde vai a senhora então? – perguntou o Bragadas. Trate-os como costuma tratar os filhos que não têm mãe. daqui a poucos anos. mas a minha ama dá conta do que tem. Aqui lhe deixo os meus órfãos.. – Olhe que ela ouve.

esmolas para entrevados de longe. propalou-se que uma senhora de grande riqueza e caridade aceitava enjeitados em sua casa. mas a dor e a vergonha eram bem remuneradas pelo prazer de abraçar um gordo rapaz que lhe chamava tia. vem sentar-te aqui onde agora estamos. porque a profecia de Francisco Bragadas se realizara. sem respeito a processos de canonização. Lavava-os e vestia-os. mas com a caridade de se encarregarem de alguns. De vez em quando. de grandes peitos e quadris. Maria Moisés pedia às pessoas abastadas que a auxiliassem. e depois legou ao filho natural do visconde de Agilde o farto ouro que parecia trazer consigo o condão de virtude da enjeitada de Santo Aleixo (7). A falsa piedade explorava-a. Como só de per si já não podia cuidar na educação dos enjeitados. com a certeza de que ela já havia pedido alguns centos de mil réis sobre a quinta. vermelhaças. era havida em conta de tola pelos velhacos. na verdade mal administrados. por todo o Barroso e Cerva. esmolas para aleijados que iam a caldas e ao mar. As irmandades. outros andavam na escola. Maria. Principiou a inquietar o ânimo de Maria o receio de não poder com tamanho encargo. capas para outros. – Eu também sou pobre – dizia ela.cónego. grossas. Festas de capela. É o mesmo que deixá-los a um hospício de infância desvalida. Assaltavamna a cada passo as reflexões do cónego Botelho. Quando se assentava à sombra do olmo. d’aquém e d’alémTâmega. e lhe desse meios para ver criados os dez enjeitados que tinha em casa. O velho Bragadas dizia que a patifaria era tal que as amas eram as próprias mães dos enjeitados que regateavam o ordenado da criação antes de darem os seios exuberantes aos filhos. Da confluência de expostos à quinta de Santa Eulália pode inferir-se que a virtude e a castidade de uma mulher era um afrodisíaco para a fecundidade das outras. para cabaneiros a quem o incêndio devorou a choça – com verdade ou impostura – ninguém ia da sua porta com as mãos vazias. que eram Joaquina em coisas de costura e Maria no ler e escrita. pediam-lhe donativos para reformar paramentos de sacristia. três expostos lhe pusera a Divina Providência no pátio. – Tem a graça de Deus que lhe dá tudo – respondiam os pedintes. e imagina que me ouves estes conselhos que te deixo. Assim foi que o abade de Pedraça tomou para si aquele pequenino que se chamou Álvaro. ainda quando se quer justificar com o título usurpado de caridade. As amas desciam das terras de Barroso. votos de missas pedidas. dando-as como exemplo. * Faleceu o cónego João Correia Botelho em 1836. pobremente enfaixados em pedaços de lençóis velhos e baetas rapadas. declamando contra a estragação dos costumes. Por toda a corda de Basto e Ribeira de Pena. Como conforto à saudade do seu benfeitor. E. exceptuava sempre as suas filhas. Receberás quatro mil cruzados. ouviao com saudade. Aplica-os segundo o teu plano caritativo. A herança do cónego e os rendimentos da quinta. e os que mandara criar fora. que lhe emprestavam o dinheiro a juro. e madeiras para os vigamentos das igrejas. esmolas para rapazinhos que iam para o Brasil. Joaquina ouvia com a alma confrangida as exclamações do pai. neste ano. supriram ainda assim as despesas no transcurso de dez anos. transcendia de júbilo. dera-lhe Deus a alegria dos três enjeitados. mas não sacrifiques o passadio da tua velhice. Maria. Os filhos da moleira já tinham ido para o Brasil. e pedia a Deus que a ensinasse a responder aos argumentos do padre. quando eu já estiver dormindo o sono eterno. resplendores para uns santos. A esmola é boa mas a prodigalidade é má. baptizava-os e alimentava-os com leite de ovelha enquanto não apareciam amas. durante o ano. * . as meninas tinham mestras. com a sua fama de santa. Maria Moisés. saberás que no meu testamento reparto entre ti e a Misericórdia de Braga os meus poucos haveres. Onde chegou a nova foi também o sobrenome da senhora: chamavam-lhe a santa Moisés. não com dinheiro.

. Este mesmo. O general chegou inesperadamente. aquelas senhoras mandavam deitar as cartas a uma criada velha para saberem se lhes viria alguma herança. tal qual ela era. Está essa infeliz diante dos meus olhos como a vi. mais velho que a sua idade. assim que chegavam navios brasileiros com a notícia das febres devastadoras. ergueu-a com ímpeto. a seu pedido.. mas que morresse quando ia a fugir com a criança para tua casa... nesse mesmo dia à noite. o aparecimento de uma criança no rio... Reconheceram-se pela voz. Como a velhice nos varre tudo da memória! Ah! uma circunstância. – Não pode ser – atalhou António de Queirós. que seguira a carreira das letras. Olha. e tão funda amargura o avassalou que se arrependeu de voltar à terra natal. eu saí daqui há trinta e cinco e nunca mais o vi. Falando eu a este respeito com o cirurgião. enviara a astuta caseira a Santo Aleixo com o recado da fuga. A omnipotência de teu pai chegou a subornar o fiel do correio de Vila Pouca de Aguiar. 27 de Agosto de 1813.. o esbelto cadete de cavalaria que o outro conhecera de cintura feminil. – a sombra plangente que lhe seguira todos os passos da vida. era juiz em uma das Relações do reino.. António. António de Queirós. – O quê? – Espera. suicidou-se. fragueiros. Era tudo o mais uma transformação em que os vermes do sepulcro já pouco teriam que destruir. e olhos negros docemente ameigados por alma apaixonada. porém. – Há quantos anos me não escreveste? – dizia Gonçalves Penha. depois que teu pai morreu me disseram teus cunhados que entre os papéis dele apareciam cartas que eu te escrevera falando-te daquela rapariga de Santo Aleixo. Perguntou pelos seus amigos da mocidade: todos eram mortos. a matarem coelhos para matarem o tempo. António de Queirós e Meneses. à míngua de recursos.. Gonçalves Penha tapou a cara com as mãos. não me quebres o fio das recordações.. me disse ele que a Josefa talvez não se suicidasse.. Isso vai tão longe. nem os mordomos por ele encarregados da fiscalização dos grandes bens lhos depreciaram.. Parece-me – prosseguiu o desembargador reparando na comoção de António de Queirós – que ainda te sangra o coração. curvou-se bamboando a cabeça. era agora um ancião de grandes barbas brancas. Que me dizias tu nessas cartas que eu não li? – Posso lá lembrar-me agora!. o irmão.Em 1850. exceptuado Fernando Gonçalves Penha. onde lhe entraram redivivas e pungentes ao âmago da alma as recordações de Josefa de Santo Aleixo. e disse: – Parece que vejo reviver o passado. Como viviam casadas com uns fidalgotes de meia escudela. datadas de Coimbra. Entretanto. – Porque não pode ser? . Escreveu-lhe Queirós. Queirós.. e Josefa respondeu alegremente que fugiria para o Enxertado na noite do dia seguinte. deixa-me ver se reúno umas ideias vagas. um homem que andava à pesca encontrou uma criança viva num berço levado à tona da água. Os vínculos não pôde o pai desviá-los da linha varonil. da casa da Temporã. sentiam um vago contentamento na hipótese de ser Deus servido levar-lhes o mano general.. há trinta e oito anos.. – Porquê? Então mataram-na?! – Já não vive há muitos anos o cirurgião que a tratou. noticiando-lhe a sua chegada. brutos e forçados. Os dois velhos abraçaram-se a chorar. Viera só. e faces angulosas. Só me recordo.. Espera lá. Não casara. Gonçalves Penha foi pressurosamente. Esse suicídio é que eu punha em dúvida nas minhas cartas que não recebeste. se ele vivesse. Tinha sessenta anos. – Recordo-me. – Ah! vou-me lembrando. que ainda tenho. trinta e oito anos depois que saíra de Portugal.. nunca se fechou a ferida.. para que eu não morra sem ver um amigo da juventude – dizia ele. mas. recolheu-se à casa onde nascera.. – Ainda. – Só duas? Escrevi-te mais. Vem. poderia ajudar-me a recordar. de vez em quando.. cheio de condecorações e mais nada. António de Queirós era rico em Portugal. nem granjeara família de ordem nenhuma. chegou à sua casa de Cimo-de-Vila em Ribeira de Pena... As irmãs. Recebi duas cartas tuas. olhos apagados.. – Há trinta e sete. casadas com pequenas legítimas. na mesma noite em que essa rapariga apareceu moribunda no rio. no amplo casacão de baeta. ordenava ao mordomo que lhes desse porção das suas rendas supérfluas. Sim. aquele que. eu mandei lá a minha caseira. reformado com a patente de general no império brasileiro. Nunca. a tiritar de frio..

mas. * Ao outro dia. e lembravam-se das travessuras do fidalguinho. – Onde era essa quinta? – interrompeu o general. – Sim.. O general recordava-se daqueles nomes. Era ali que Josefa esperava o juvenil aspirante embrenhada no choupal. para lhe produzir um forte abalo. e perguntava quem eram. quando se julgava abandonada. Gonçalves. te dizia que o teu filho podia existir. nas minhas cartas. mas deixa estar. – Onze! – É o que lhe eu digo. se bem me lembro. Já dentro da barca. mas o cirurgião convenceu-me de que bastava a alegria de fugir. do seu carrancudo solar.. Só de enjeitadinhos tem onze de portas a dentro.. – Bom é que haja uma santa onde há tantas mães que abandonam os filhos. – Faltava um mês. e caminhou a pé e sozinho na direcção do Tâmega. quando o viam ao longe. com uma barca de passagem amarrada a uma argola de pedra chumbada na parede.– Era cedo para ter já nascido o filho. e nas genealogias há muitos dessa espécie.ª há-de conhecer a senhora da quinta de Santa Eulália. nem uma choupana.. mandava-os cobrir.. – Há nove anos. – Lá isso sim. E espera. e que. olha que eu sei de casos de mais dificultosa averiguação que se tiraram a limpo. Alguns haviam sido seus companheiros na caça... que novas dores a esperança me está gerando na alma! A esperança! Que posso eu esperar das transformações de trinta e sete anos.. ainda que eu seja confiada.. pela primeira vez. Chegando à ourela do Tâmega. – Ó filho! Isso é que te não posso dizer já. mas. descobriam-se e paravam. que dez léguas em arredor toda a gente conhece a senhora de Santa Eulália. recordo-me eu agora perfeitamente de que. Mulheres más por aqui é uma casa sim e outra não à ida para cima. – E se tu descobrias agora o teu filho! – Não me passa pelo espírito esse devaneio..ª S. Ali mais arriba havia um moinho que a cheia me levou. porque havia de suicidar-se ela?. – Isso mesmo disse eu ao cirurgião. e oferecia a sua amizade aos outros.. mas à vinda para baixo são todas. – Então. Os homens antigos.. Fiquei com dois filhos pequenos. Eu te direi o que souber. meu senhor. a caseira deixou filhos que ainda são meus caseiros. contando-lhe o que sabia da tua carta escrita do Limoeiro. Ó Queirós! – exclamou o juiz com entusiasmo. não é de cá. À porta do moinho apareceu a moleira a perguntar-lhe se queria passar para além. mas tenho estado longe. e soube com certeza que foi achada nesta mesma noite. outra circunstância. – Quero.. Não te parece? – É possível. – Justamente.. meu amigo? – Tens razão. O general sorriu-se e disse: . – Sou. perguntou-lhe se aquela azenha ali estava há muito. a minha caseira foi disfarçada a uma quinta onde estava a criança que apareceu. meu amigo.. Não há outra assim no mundo. dava esmola generosa aos necessitados. Os processos por causa de sucessões estão cheios de factos que parecem novelas.. Ainda mesmo que o pequeno encontrado fosse o teu filho. pensando bem. – Não conheço. porque tu. senhor. Um conhecido amieiro de tronco esgalhado em ramos recurvos já não existia. o general Queirós de Meneses saiu. dizias-me que... sem modo de vida.. Ele parava também diante deles. – Não que ele também há muita desavergonhada por esse mundo de Cristo. tendo-me dito a caseira que a rapariga chorava de alegria? António.. Eu quisera antes que a morte dessa infeliz não fosse um acto de desesperação. E foi por isso mesmo que teu pai as subtraiu. mas a mãe dos pobres acudiu-me. Nesse lugar estava uma azenha. É natural que eles a ouvissem muitas vezes falar do caso milagroso da criança que apareceu deitada num berço de junco.. há que anos terá morrido o homem que o encontrou no Tâmega? Que destino levaria o rapaz? Ainda assim. parou defronte da Ínsua. outros brincaram com ele na infância.. V.

Chamava-se o João da Laje.. Trabalho muito. vigário.. Como a morte em poucas horas transformara uma criatura linda como os anjos num charco de podridões! – Que motivo se deu para o suicídio? – Não tenho a certeza.ª Ex. senhor. – Pois não vá. Perto de quarenta. coaxavam as rãs. todavia. perdoai aos mortos. e sentou-se no adro. reitor. iremos dar um passeio por esta aldeia que me parece muito pitoresca.ª Ex..-mor. – Se lhe não custa.ª está magoado com a história da pobre moça.ª S. e não os chamar a contas. O general parecia querer reconhecer o sítio e a casa.. o tenente-coronel. Da casa da residência saiu então um clérigo ancião. e o corpo não me pede folia. – Bendito seja Deus! Então V. Reparando no desconhecido. Chegaram a um recanto onde se viam ruínas de uma casa de lavrador muito espaçosa. Bebia um quartilho de aguardente todos os dias. morrendo ela à noite. Continuemos o nosso passeio. e sentou-se à sombra do plátano do adro. Está aqui reitor há muitos anos? – Há vinte e sete. pergunte pelo Queirós. Como ia fatigado. E caminhou pela orla do Tâmega até saltar o combro que descia para a Cangosta do Estêvão. apareça. pois que é tão atencioso com os forasteiros. foi preciso enterrá-la ao outro dia. general que chegou há dias? – Adeus. e chegou a idade tão provecta! Fiem-se lá nos médicos! Desta casa tenho eu uma recordação muito funesta. Em baixo murmurava a corrente agitando as franças dos salgueiros. – Todos os velhos são fáceis em chorar. O reitor. ao que parece. etc. Ainda me recordo que.. João da Laje morreu pobre. quando eu era minorista. Ali é que ela dormia. Em 1813. porém. – V. O reitor dizia-lhe os nomes dos possuidores dos melhores edifícios. uns disseram que por vontade própria. Devia tudo às irmandades e à fazenda. e Deus sabe quando terei outra. cortejou-o e ofereceu-lhe a sua residência. e lembrou-se que ali mesmo haviam estado sentados ambos em uma tarde de Julho. – Sim. – Da melhor vontade. sentou-se. apoiado na bengala. Entrou na aldeia de Santo Aleixo. os Pimentas. – disse o vigário atentando nas lágrimas represas do ancião. porque não se podia sofrer o cheiro do cadáver. sr. Tomara eu pão para os meus filhos. Era uma flor a moça. – Há proprietários muito ricos. fuja para lá.ª S. enxugando o suor. Gastou trinta mil cruzados. era aquele padre Bento da Póvoa que já em anos de indiscretas verduras queria que o escrivão respeitasse o cadáver ainda quente da suicida. – Aqui – disse o vigário – morou um lavrador que morreu há três anos com mais de oitenta. e às vezes um escalo de ventre prateado saltava à flor d’água. Há que anos isto vai!. Daqui descese para as poldras? . e receberá dinheiro para a sua nova barca. sr. desde que a mulher lhe morreu de paixão lá para Barroso. – Pudera! Mas a mim já me não pega o andaço. O nosso dever é orar por eles. e está arrasando a casa para fazer um palacete.. Parece que V. que esbeiça lá em baixo com o rio.ª não é d’aquém-Tâmega? – Não sou. o antigo capitão. Ainda acolá se vê de pé um sobrado onde eu vim para acompanhar a morta à igreja. O cansaço ansiava-o. com o breviário debaixo do braço. mas via e ouvia no passado o rosto e a voz de Josefa. que vou passar às poldras de Santo Aleixo. o padre acrescentou: – Esta casa vai desaparecer daqui. Subiu o íngreme barrocal da Cangosta. vim aqui assistir com a minha sobrepeliz aos responsos de uma pobre rapariga que se afogou no Tâmega. Tenho esta barca a meter água. A mãe dos pobres já me prometeu a madeira. tenho a suspeita. e embebia no lenço as lágrimas. Ele parecia ver e ouvir. – É o reitor desta freguesia? – perguntou o general.ª quer que eu espere? – perguntou a barqueira. – Não. na fraga a que o moleiro encostara o cadáver de Josefa..– Bem faz você em viver perto da ilha: quando a corrupção for geral. O general absteve-se de interrogações.. Amanhã vá você à casa de Cimo-de-Vila. V. – Aqui é aldeia de ricos lavradores. mas eu até já tenho vergonha de lá ir. Um brasileiro comprou esta quinta.ª é o sr. e outros disseram que por desastre. que assim falava. mulherzinha. Saltou à margem. dizem os livros sagrados.

ensina e dá modo de vida a quantos órfãos e enjeitados a mão da desgraça lhe leva ao seu regaço. meu senhor. vigário nunca ouviu dizer duma criança que apareceu por aqui num berço ao de cima da corrente? – Foi muito perto daqui. e nasceu nesta freguesia. mas a caridade na alma da santa mulher é que não esmoreceu..ª S. E o que eu não sei para mim é apenas possível. trinta e sete. Ainda há dias vi no livro dos baptizados que ele fez já oitenta anos. Os rendimentos da quinta são escassos e talvez mal pagos pelo caseiro a quem ela não pede contas. lhe deixou alguns mil cruzados com que ela custeou por bastantes anos as despesas de alimentação e educação de enjeitados e órfãos. O Bragadas é hoje caseiro da mesma enjeitada que ele achou! – Como?! – exclamou António de Queirós. depois. santo homem que eu conheci. se sabe que um fidalgo ou abade rico ou viúvo sem filhos está no caso de poder aceitar-lhe um órfão ou enjeitado. aos olhos do mundo. Eu não sei com quem tenho a honra de falar. Maria Moisés é uma mulher que faz lembrar as antigas santas. A santa cegueira não a deixava prever os limites das suas medianas posses. É uma bonita propriedade. Pena é que os poucos recursos lhe não permitam ir tão longe como o coração lhe pede. e que parece ter vinte anos. Acudia a todas as desgraças com mais liberalidade que prudência. perguntou o general: – O sr. quando podem aparecer. reitor que Maria Moisés está pobre agora? – Pobre de todo não direi.– Sim. Essa criança recordo-me eu muito bem que apareceu na mesma noite em que a Josefa da Laje se afogou. Alargou mais do que podia a área da caridade. mas. Os cabralistas querem dinheiro. e na porta da minha igreja está um aviso anunciando que quem quiser comprar a quinta de Santa Eulália fale com a dona da mesma. senhor. Mas há aqui um caso que parece conto de romance.. porque a suprema riqueza é a graça de Deus. – O homem que encontrou a criança já é falecido? – Nada. andando já perto dos quarenta. Não concorda comigo? – Eu já disse a V. salta-se ao campo da direita. uma das senhoras. sr. A pouco podiam montar.. por ter sido achada no rio como o santo legislador dos hebreus. ainda mal que teve sempre pecadoras das que cuidam esconder-se aos olhos de Deus. por medo das revoluções que são umas atrás das outras. mas ouço dizer que tem no rosto a formosura da alma. – É isso. Deitaram-se muitas inculcas. e dalguns se conta que foram para o Brasil e lá estão bem encaminhados. não há-de ir longe. mas necessitada de recursos para continuar a sua santa dedicação aos infelizes.. o que eu digo é . mas a verdade é esta. Esta terra. – Trinta e sete. ou aceita as que ele quer dar--lhe. não é. mas nunca se soube quem era a mãe. Não sei. mas eu reprovei que se fizessem juízos temerários. – Tem razão de se espantar. Quando chegaram às poldras.. chamam-lhe a mãe dos pobres. – Conhece-a. Afinal o dinheiro acabou-se. Verdade é que um cónego de Braga.. que a baptizaram com o nome de Maria Moisés. agora dizem que os saldanhistas vão sair com a procissão porque querem dinheiro. de 1813 a 1850. mas sou franco. talvez cem passos. e recolhe.. reitor? Nunca a vi. e quem não for uma das três cousas há-de pagar para todos os três partidos. – Parece – atalhou o general – que são muitas as probabilidades a confirmar a hipótese de que essa enjeitada seja filha de Josefa. deixou-lhe a quinta de Santa Eulália. – Sabe então o sr. porque vou ver uma doente que mora à beira do rio. onde o rio faz uma enseada.. com certeza está. – Ouvi dizer que a criança fora salva. e muito mais de mortos que não podem justificar-se. foi encontrada sã e enxuta num berço de canastra por um homem que andava pescando: era o caseiro dos Valadares de Santa Eulália. que foi madrinha. Saiu um anjo a criatura de Deus.ª que todos os juízos temerários são venialmente pecaminosos quando redundam em desdouro de vivos. e quem o tem fecha-se com ele. porque foi ele quem a salvou.. lá ao fundo. mas ninguém lhe dá o que ela vale. sem os filhos que enjeitaram. porque não há dinheiro. Deu muito que pensar e que suspeitar tal coincidência. porque eu sei que ela deve mais de três mil cruzados a várias confrarias. O enjeitado era uma menina de que tomaram conta os fidalgos. Seja de quem for filha. sim.. – Sim. Depois. Não pede nada. E assim tem conseguido arranjar bastantes. escreve-lhe a pedir pelo amor de Deus que o aceite e sustente com as migalhas da sua mesa. senhor. chama-se o Bragadas. os patuleias querem dinheiro. por esta viela. Eu acompanho-o até lá...

quando V. achara no sobrado uns embrulhos que estavam dentro de um berço de vime.. sr. Veja se se lembra do Bento Fernandes. mas. posto que.. coberta de lágrimas. não o achara.ª não estava na América? – Estive: há oito dias que cheguei. porque. Esta mulher tinha intermitências de loucura. Eu hei-de viver muitos anos.. onde não sabia como viveu muitos meses. e diz como em segredo: – Agora é que eu compreendo as suas lágrimas de há pouco. respondeu que. e exclamou com a alegria de uma criança: – Havemos de ter uma velhice muito feliz. Queirós! Olhe que somos ambos da mesma criação.. indo ao quarto da filha depois que a vira morta.ª Ex.. Miguel. procurando o berço.. D. da casa de Cimo-de-Vila. ora pro nobis. – Mas eu não sei com quem tenho a honra de falar. como que o afligia o sobressalto da esperança.. sentia na sua ânsia a alegria desconexa de um sonho feliz. Abraçou o padre. – Bento Fernandes. beijou-lhe as cãs. onde vivia com seus irmãos a mãe de Josefa. contou-me o que fizera. e. Era febril o desassossego de António de Queirós. levava uma criança.ª estudava para crúzio. dera à luz uma criança. O general ouvira apenas a toada confusa das fortes razões por que o inofensivo reitor de Santo Aleixo queria o sr. – O vigário denunciou a seu pai o bom intento de V. E o bom velho casquinhava a rir. e o director da caridade de minha filha! * . caíra como morta. fui eu mandado paroquiar na freguesia de Santa Maria de Covas de Barroso. quando fugiu de casa.ª e outros patuscos chamavam Beatus Benedictus. em frente do quarto onde viveu e foi amortalhada Josefa. pensando que me dava o exemplo de um bom feito. vigário! – exclamou o general apertando-lhe as duas mãos nas suas com arrebatada alegria. antes de sentar praça. O general estreitou ao peito o padre Bento. V. vai ser o meu capelão. Fiquei eu sabendo um segredo que nunca revelei. e. – Folgo de o ver assim excitado por um sentimento que me demonstra que tem sido infeliz e nunca esqueceu a desgraçada Josefa. mas com o inverosímil e desatado das felicidades sonhadas. V.. neste caso. – Que V. – Eu conheci-o em rapaz. o meu condiscípulo.ª. se divulgou por boca do cirurgião e de uma caseira da casa da Temporã.ª Ex. – Com quem eu tenho falado!. em 1817. Para mim – concluiu o vigário – está provado que Maria Moisés é filha de Josefa.ª Ex. fugira para casa dos irmãos.. lembrando-me do aparecimento de Maria Moisés.que Deus traga o sr. mas. Perguntei-lhe se era menino ou menina.ª procura sua filha? Suspeita que Maria Moisés seja a sua filha? É. O senhor Queirós denunciou ao vigário da Santa Marinha a gravidez de Josefa. Miguel I a ver se Portugal se endireita de vez. – disse o vigário. falecida Josefa. – A certeza? A certeza? Veja o que me diz. – Santo Deus! – exclamou o reitor. passava mais amargurada porque chorava sempre pela filha. me disse que sua filha. e quando voltara a si. Deus me perdoará. – Eu sou António de Queirós e Meneses. e passara temporadas de que não lhe restava a menor lembrança. Em 1818 fui chamado para ouvi-la de confissão. sr. se eu nesta hora transgredir o sigilo da confissão. e o padre Bento. Daí resultou a sua ida para a capital. apenas dera pela falta do berço. seria absurda a observância de um preceito que envolveria um segredo prejudicial à sua felicidade à de sua filha. D. Para mim era ainda duvidoso se Josefa já era mãe quando acaso se afogou ou determinadamente se matou. Estava a moribunda então no perfeito uso das suas faculdades. e depois a prisão. – repetiu o general. tenha a certeza que é. de súbito. mas. nas vinte e quatro horas que precederam a sua morte. na tarde do dia em que morrera.. mas. reveste o semblante duma gravidade misteriosa.ª Ex. quando lhe pediu que o casasse clandestinamente. O vigário. e ainda fomos condiscípulos alguns meses de 1809 em latim na aula do padre mestre Simão no Vale de Aguiar. mas que tinha a certeza que ela. Respondeu-me que não sabia. e convidou-o a passar um dia o Tâmega para ir a sua casa. nos períodos de lucidez. Perguntei-lhe se não ouvira dizer que nessa mesma noite fora encontrada uma menina no rio dentro de um berço de vime. da Póvoa. – É verdade.ª Ex.

entreviu a mãe. era Josefa de Santo Aleixo. coragem! – alentou o desembargador.. loura e bela como Josefa de Santo Aleixo.-lhe um gesto de silêncio. – Vou buscá-los. ali como aquele meu neto. disse a um neto: – Vai ver quem é. desejava comprar a quinta de Santa Eulália. S. Teremos mais algum enjeitado? Estou a ver quando começa o desaforo de os trazerem mesmo de dia! Aberta a porta. – Preciso ver os títulos – disse o funcionário. Maria era alta. amparava-se no braço de Gonçalves Penha. quando ouviu tilintar a sineta. mas de uma beleza mais senhoril. e sentara-se. Não pudera... – Dez mil cruzados! – disse o tabelião espantado. Velho sou eu que já tenho dois carros e mais um (8). O tabelião ia replicar com a coarctada das hipotecas. O desembargador. general Queirós. esta senhora dispensa procurador – observou o tabelião. mas o general apenas fez um gesto. – Então. – Ah! Bem me lembro dele quando era moço. que estava na eira. – Eu não dou a quinta por menos de dez mil cruzados. entraram os três sujeitos. são dez mil cruzados. chegou o rapaz que levara o recado. perguntou: – Querem alguma coisa? – É este cavalheiro que quer comprar esta quinta – disse o tabelião.-lhe ao ouvido: – Nunca me senti neste abatimento nos combates do Recife e do Lima. dizendo que a senhora mandava subir para a sala. disse que o seu amigo. de barriga ao sol. – São dez mil cruzados – repetiu Francisco Bragadas que já estava encostado à ombreira da porta. era o retrato de sua mãe. para encher o vácuo do silêncio que se fez.. e uma vida longa de domesticidade. Neste comenos. Francisco Bragadas. recozendo os seus oitenta anos. refeita. poderei hoje fechar este contrato? Já trouxe comigo o sr. Mas. tabelião para lavrar a escritura. subindo as escadas.ª quer ocupar a quinta imediatamente? – Não é forçoso isso. depois de respirar em dez invernos o ar do teatro de S.Ao outro dia. perguntou a D. Ergueram-se todos. – Visto que aqui está a dona. e em dez estios o ar latrinário dos Passeios de Lisboa. quando o general. colhido de sobressalto quando esperava a filha sem presunção antecipada da sua figura. Tinham passado por ela alguns anos de convento. Pouco depois que entraram à sala. e do ar puro das serras. as hipotecas é isto. e ele pescava à cana na Ínsua. em frente da quinta de Santa Eulália. – É o sr. e dizia. o sr. acompanhado do desembargador Fernando Gonçalves Penha e dum tabelião do julgado. balbuciando palavras que não se perceberam.ª não é velho. Tiraram pela sineta do portão com força. rapaz – mandou Bragadas. menos rica do colorido da saúde e das insolações tépidas. para os ver quando subiam por entre a álea de faias e olmos. livres para a vendedora – resmoneou o ancião. e acrescentou: – A quinta não se dá menos de dez mil cruzados. Depois. com grande tristeza. favorecido pela palheta de artista caprichoso que desadorasse as fortes e vivas cores das formosuras do campo. Quero comprá-la simplesmente.. – Não quero saber disso. As batalhas do coração são as piores. – Nas hipotecas está avaliada em seis. António de Queirós e Meneses. . e mais V. Francisco. que desmaia a epiderme compensando-a nas graças mórbidas da beleza aristocrática. e disse entre si: «Querem ver que temos penhora na quinta?» E. – É porque eu tenho uma numerosa família de crianças que por aqui se criaram e estão educando. Quantas vezes nós conversámos no rio! Eu andava com as redes. Não conheço a sua pessoa. pôs a mão na testa contra o sol. passaram o Tâmega. Esta impressão para mim vem tarde. Então – perguntou ela ao general com hesitação e visível mágoa – V. apareceu Maria Moisés. Ex. fazendo. – Para o servir. general Queirós de Meneses. – O meu caseiro diz a verdade – confirmou Maria Moisés com tristeza e irresolução. – Vossemecê é o sr. Maria: – Aceitando eu a quinta pela quantia que se pede. da casa de Cimo-de-Vila. como quer que fosse. – Vai dizer isso à senhora. Carlos. levantando-se encostado a um forte tanchão de sobro. Queirós.. E aí está a razão por que o general. Está muito acabado. Francisco Bragadas? – perguntou o general.

é possível que minha mãe tivesse aquela canastrinha na mão. general – disse Maria Moisés.. com suas próprias mãos.-se bem comigo. general! – acudiu Maria alegremente. Ex.. entrou um rancho de treze meninos e meninas. sor Bragadas. com uma alegria de idiota. mas sou sempre a sua amiguinha – e abraçou o ancião.. diga à sua Joaquina que mande cá os pequenos. – Eu já fiz experiências no Tâmega com os meus enjeitados. minha senhora.. indo cumprir as ordens de má vontade. – Num berço de vime – ajuntou António de Queirós. – Sim. e ajuda-me muito – disse Maria.. e tenho querido dar aos infelizes que não têm mãe nem pai o bem que recebi dos meus benfeitores. e agora sou obrigada a vendê-la porque os juros são grandes e mais tarde ou mais cedo as confrarias hão-de tomar conta disto tudo. me entregasse à corrente de um rio. – Se V. – Está bom. o que eu queria era ficar perto da minha ama – disse o velho. – Olhe.. * . está bom – atalhou Bragadas. – A canalha toda? – perguntou o velho. e entrara muito contente. sr. que tem muitos filhos e netos. Ex. Maria Moisés sorria--se ao reparo do fidalgo. e não foram ao fundo pondo-os eu à flor da água dentro do meu berço. quando olho para ele é que eu conheço que já tenho muitos anos.. tem muita habilidade. Cumprimentou os circunstantes com desempeno de grande sociedade. e retirou-se às recuadas para a frente do grupo. limpando as lágrimas com a manga da jaqueta.– Desejo vê-las – disse o general com os olhos cheios de lágrimas. peço-lhe que conserve aquele velhinho. – Ó tio Bragadas. Se VV. esteja certo disso.. e era aleijado. – Esteve este berço nas mãos de sua mãe.. enquanto eu vou dar uma vista de olhos por estas janelas – e encostando-se ao desembargador. – Já não sou sua ama. – Pois não.. pelo menos. Os rapazes vestiam uniforme de cotim escuro. – Parece incrível que o naviozinho não fosse a pique! – disse o desembargador. tabelião lavra a escritura. senhor. e poderei com o restante amparar alguns anos mais estes pobrezinhos. Vendendo eu a quinta por 10. – Minha senhora. – disse António de Queirós. minha senhora – respondeu ele com a voz tremente das lágrimas.. e as meninas de riscadinho azul. senhora D. e dizia: – Está já muito velho o meu berço. segredou-lhe: – Preciso ar. – Oh! Que ingranzéu eles aí vão fazer! – tornou o Bragadas.. encostava-se às muletas. – Devo a vida a este homem.. – O sr. Foi ele quem. e acrescentou: – Eu vou agora buscar os títulos.as querem vêlo? – Estimava – disse o general. Empenhei a quinta. porque eu nada tinha. – Foi ele quem a encontrou no rio. Fui enjeitada. – Que eu ainda conservo – disse ela sorrindo – porque é a herança de meus pais. Custa a crer que minha mãe. pago cinco e tanto que devo. que sacudia a cabeça porque o importunavam os soluços. ou pelo menos aqui vi a luz e o amor de uma madrinha que me criou e me deixou esta propriedade por esmola. saltando na única perna. – Este aleijadinho é o que ensina os outros a ler. – Talvez – observou ela – mas quem sabe? Pode ser que nem ela me visse. Joaquina.000 cruzados.. – Parece-me que está com saudades da sua quinta. – Pode-se dizer que nasci aqui. Neste instante. Infelizmente os recursos não me chegaram.ª há-de ter caseiro nesta quinta. – Vai buscá-lo. Maria – disse António de Queirós. – Não é urgente. – acrescentou o general. O mais velho tinha onze anos.. – É verdade. – disse o general – você é meu caseiro e há-de dar. O general parecia examiná-lo atentamente. – É muito bem tecido – explicou ela.. Os títulos depois – disse o general. – Sr. tio Francisco. Chegara o berço. – Chegue-se cá.

sei. prosseguiu: – Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos. – Mil anjos são muitos – disse ele. nem quero. O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera. Novelas do Minho O Conto da Infeliz Desgraçada A D.. Maria caiu de joelhos. sr. Pedirás então a Deus por teu pai. – À minha ama?! – bradou o ancião. – Aqui está a quantia estipulada – disse Queirós. Mas um dia a princesa estava muito apaixonada. tomando as mãos de Maria. morre. pendente dos braços do pai. Maria? – Eu! Jesus! Eu sua filha! – exclamou ela. Camilo Castelo Branco. os quadros comoventes que rutilam na alma a faísca do entusiasmo. – Mil anjos o acompanhem na vida e na morte. com o teu coração. se podes. Vindo Isabel a descer as escadas. quando ele a beijava na fronte. impeça o rei a dizer prá filha: – Filha. da idade de quinze anos. Enviuvou e ficou-lhe uma filha. porque o último feitio das novelas é não pintar.Estava lavrada a escritura. Nos literatos o que predomina é o verde. quando ouviu uma voz que dizia assim: – Isabel! Diz a teu pai que te casas. – Um anjo só me basta na vida. A passar tempos de casado. mas quando se iam a examinar. A passar já de algum tempo.. – À sua ama. Agora somente se pintam as gangrenas com as cores roxas das chagas. trementes e extáticos. e nas literaturas é o podre. e os velhos. para ver se havia algum homem com dentes de marfim – e que se o houvesse que lhe dava a filha. com o colorido gótico dos românticos. não pelos meus merecimentos. – A renda desta quinta continua o sr. diz-lhe o marido: – Isabel. Francisco Bragadas a pagá-la à mãe carinhosa dos enjeitados. mas pelas virtudes de minha filha. temos que ir à minha terra. e então quero-te deixar amparada quando morrer! A princesa não pendia a casar e vivia com algum desgosto. imagina este quadro e descreve-o. e esse quero eu que me assista na morte. e foi esse que casou com a princesa. – E. e com as cores verdes das podridões modernas. a lembrar-se das fezes que lhe dava o pai por amor de a casar. ouviu uma voz que dizia assim: . a ver a minha família. e as crianças ajoelharam também. Tomás Ribeiro. pondo as mãos convulsas. que eu não posso. Deus me chamará a si. mas afinal sempre apareceu um que os tinha de raiz. conhecia-se logo que eram postiços.. se tens nele uma lágrima. Era A A tua uma minh‘alma por Maria vez por mim Calheiros um ti não Veiga rei.. e que se os não tiver que não casas! A filha assim o disse ao pai. mas que há-de ser com um homem que tenha dentes de marfim. e todos os dias ia à missa a fazer as suas orações. general! – exclamou Maria. e o pai mandou logo deitar bando pelas outras nações. e tratou logo de se aprontar para ir com o marido. Ela disse-lhe que sim. que eu já estou cos pés prà cova. Vieram muitos homens com dentes de marfim. casa-te! Casa-te. sob a faísca eléctrica daquele sublime lance.

– Isabel! Diz ela: – Valha-me Deus! Quem me chama parece mesmo que está na estrebaria! Foi ela e assomou-se à porta da estrebaria, e estava lá dentro um cavalo cardano de clinas pretas, e diz-lhe o cavalo: – Isabel! Diz a teu pai que já lhe fizeste o gosto de te casares, também ele te há-de fazer o gosto de te deixar levar o cavalo cardano das clinas pretas – porque se me não levas estás perdida! Ela foi, e disse ao rei: – Meu pai, fiz-lhe o gosto de me casar; agora também me há-de fazer o gosto de me deixar levar o cavalo cardano das clinas pretas. O pai disse-lhe logo: – Pois sim, filha, leva-o. Ela tratou logo de mandar arrear o cavalo, e montou-se nele e o marido noutro, e lá foram. Já com duzentos dias de jornada, e mais sete, e eles que não chegavam à terra! Mas vai um dia, caminhavam os dois por umas serras, que eram umas montanhas tão fragosas que se não via senão céu e mato, olha a princesa para trás e não avista o marido! Diz ela! – Valha-me Deus! Que é isto?! Desapareceu-me o meu marido da vista dos olhos! Diz-lhe o cavalo: – Isabel! Volta para trás! A princesa voltou logo com o seu cavalo, e o cavalo largou dali a quanto podia! Onde parou ao pé dum monte, e diz-lhe o cavalo: – Isabel! Apeia-te! Sobe àquele monte, e entra na casa que lá encontrares – mas não olhes para lado nenhum. O que lá vires apanha! Ela foi, coitadinha, sempre muito assustada, e quando entrou na casa inda teve mais medo; mas reparando para trás da porta viu dois canudos, e um papel que estava enrolado, e apanhou tudo e retirou-se logo. Chegou ao pé do cavalo, e diz-lhe o cavalo: – Anda que sempre olhaste... Ela montou, e toca a fugir! Quando lhe a ela pareceu, olhou para trás. – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com esse papel! Ela foi e atirou com o papel. E logo ali se armou um nevoeiro, mas um nevoeiro que era tão cerrado, que o marido se atrasou no caminho, e não a alcançou. Mas quando depois passou a névoa, e já se via, o marido que larga outra vez atrás da princesa, a ver se a podia agarrar. Mas ela que o vê lá atrás, e grita logo: – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com um desses canudos! O canudo estava cheio de agulhas. Tancharam-se todas logo no chão, e armou-se um rochedo tão grande que o marido não podia passar. Arrodeou muito o pobre do homem, que não teve outro remédio; e quando se viu para além do rochedo, que largou outra vez atrás da mulher, ela ao vê-lo e a gritar logo: – Ai que desgraça, que aí vem o meu homem! Diz-lhe o cavalo: – Atira com o outro canudo! O canudo estava cheio de água. Armou-se num rio muito grande, que o marido não pôde passar – e o remédio foi voltar para trás! Caminhou a princesa com o seu cavalo, sem saber pra onde, até que lhe diz o cavalo: – Isabel! Vai além àquela casa, e que te vendam um fato de homem, ou que to troquem pelo teu se to não venderem. Ela foi; e pediu aos da casa o favor e esmola de lhe venderem um fato de homem, e que se lho não vendiam que lho trocassem. Tiveram dó dela os de casa, e deram-lho. E ela veio ao pé do cavalo e disse: – Cá está o fato! O cavalo: – Veste-te agora em trajo de homem, e despreza o que trazes vestido.

Ela vestiu-se em trajo de homem, e montou a cavalo; e foram ter a uma terra que não conheciam, porque já não era o reino dela, mas onde havia também um rei. E passando por aquela corte, a fazer uma grande gala no seu cavalo porque não havia outro que fosse mais lindo, todo o mundo lhe mirava o cavalo. E foram dizer ao rei que passava ali um cavalo muito bonito – e logo o rei se prantou à espera de o ver passar. O cavalo disse à princesa: – Isabel! Olha que o rei está à espera de me ver passar. Ele há-de-te chamar, e dizer-te se me queres vender – mas tu não me vendas, senão olha que estás perdida! Quando passou pela rua, que o rei o viu, mandou-o chamar e disse-lhe assim: – Ó rapaz! De quem é esse cavalo? – O cavalo é meu! – Hás-de-mo vender. – Não vendo, não senhor. E retirou-se logo – e mais cavaco não deu ao rei. Depois disse-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei inda te manda chamar, e há-de ateimar contigo para que me vendas; e logo que tu não queres, há-de-te concertar para o seu jardim, por fazer gosto em me lá ter em palácio. E tu concerta-te, mas olha não te esqueças de mim! Como assim foi: o rei mandou-o chamar e disse-lhe assim: – Ó rapaz! Então tu não me vendes o cavalo? – Não vendo, não senhor! – Então concerta-te comigo cá prò jardim. – Pois sim me concerto! O rapaz concertou-se, e pergunta-lhe o rei: – Tu como te chamas? – Eu chamo-me José. O rei mandou-o para o jardim. Mas, como solteiro, Sua Majestade ia todos os dias ver as flores, e começou a olhar muito para o rapaz e a dizer consigo: – Não parecem olhos de homem... Parecem olhos de mulher... Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei anda desconfiado que tu és mulher, e vê lá agora se lhe dás cavaco... O rei já ia ao jardim a todas as horas, e começava a conversar com ele, mas ele não lhe dava cavaco. O rei sempre desconfiado, foi-se ter com uma feiticeira já muito velha, e disse-lhe assim: – Ó sua velha! Você há-de-me aqui dizer se o rapaz do meu jardim é homem, ou se é mulher. Respondeu a velha: – Sua Majestade convide-o para ir jantar ao palácio, e prante-lhe uma cadeira alta, e ao pé prantelhe outra baixa. Se se sentar na baixa, é mulher; e se escolher a mais alta então é homem. Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei manda-te convidar para ires jantar ao palácio. À mesa pranta-te duas cadeiras, para te experimentar se és homem ou mulher. Mas tu escolhe a mais alta. – E assim aconteceu. O José depois veio-se embora; mas o rei, sempre duvidoso, foi-se outra vez ter com a velha: – Você há-de-me dizer se o rapaz do meu jardim é homem ou mulher! Senão, morre. – O que quer Sua Majestade que lhe eu diga?! Como quer saber, convidei-o para ir dormir ao quarto de Sua Majestade, «porque tem medo de dormir só». Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo: – Isabel! Olha que o rei há-de-te convidar para ires dormir ao quarto dele, «que tem medo de dormir só»; e tu vais, que não tens mais remédio. O que ele quer saber é se és homem ou mulher, mas tu não te esqueças de mim! Como assim foi, disse-lhe o rei: – José! Tens que ir esta noite dormir ao meu quarto, porque tenho medo de dormir só. José disse: – Pois irei. Como foi, dormir ao quarto de Sua Majestade. Depois de ter o quarto bem fechado, diz-lhe o rei:

– José, eu desconfio que tu não és homem. Mas agora aqui é que mo hás-de dizer! Es homem ou és mulher? Responde! – Sim! Sou mulher! O rei mandou-a logo mudar de fato, mas ali passaram a noite. Sendo já muito de dia, e o quarto ainda fechado, foi a mãe do rei e bateu à porta. Ele veio abrir, e diz prà mãe: – Mãe! Não lhe dizia eu que os olhos do José que não eram de homem, mas de mulher?! A mãe ficou muito contente por ver que era uma cara linda, como princesa que era – e o rei tratou logo de casar com ela. A passar algum tempo já de casados, veio uma embaixada ter com o rei para ir vencer uma batalha. O rei disse-lhe: – Isabel, tenho que te deixar. Vou para a batalha e levo o cavalo cardano. Fica tu em palácio com minha mãe, que nada te há-de faltar. O rei caminhou para a sua batalha; e a dias de lá estar, teve a mulher dois meninos que eram duas caras muito bonitas; e foi a mãe e escreveu-lhe uma carta mandando-lhe dizer: – «Filho, cá teve tua mulher dois meninos que são as caras mais lindas que têm aparecido!» E a carta foi remetida por um soldado, e o soldado caminhou um dia todo, e foi-lhe anoitecer perto de uma casa onde pediu pousada por uma noite. Disseram-lhe que sim, que entrasse. O soldado entrou e sentou-se, e não viu mais que foi um homem naquela casa. Ali conversaram um bocado ambos-e-dois; e perguntando ao soldado que caminho levava, disse-lhe ele que ia levar uma carta ao rei que andava em batalha. Depois preparou a cama para o soldado, e o soldado deitou-se e deixou-se dormir. Ele assim que apanha o soldado a dormir, deu-lhe volta à mochila, e tirou-lhe a carta e esteve lendo. Depois começou a escrever outra em vez daquela, dizendo: – «Filho, cá teve tua mulher dois bichos, que não há quem possa parar em palácio, e então vê o que determinas dela.» Fechou a carta e meteu-a na mochila e o soldado não deu notícia. Assim que amanheceu, o soldado levantou-se e foi-se embora. Chegou ao sítio onde era a batalha, e entregou ao rei a carta que levava. O rei abriu a carta e esteve lendo, e assim que leu começou a chorar. Ele queria muito à sua mulher; e assim escreveu logo a mandar dizer: – «Mãe, deixe estar minha mulher em palácio até eu ir.» Remeteu a carta pelo dito soldado, que foi dar à mesma pousada; onde lá encontrou o companheiro que lhe fizera a cama, e ali dormiu também essa noite. O soldado pegou no sono mal se deitou; e ele mal viu o soldado pegado no sono, dá-lhe logo volta à mochila, e tirou-lhe a carta, e depois de a ler queimou-a, e escreveu outra a mandar dizer: – «Mãe, logo que esta receba ponha minha mulher fora do palácio, que a não quero encontrar quando daqui for.» E meteu a carta na mochila do soldado, e o soldado não deu notícia. No outro dia caminhou o soldado para o palácio; e assim que chegou, entregou a carta à mãe do rei. Ela abriu a carta, e viu o que vinha dizendo. E disse: – Jesus! Isto que é?! O meu filho endoideceu! Assim começou a andar muito triste, e um dia diz-lhe a princesa: – Ó minha mãe! O que tem que anda tão triste?! – Nada! Não tenho nada! O teu homem que endoideceu! Manda-te prantar fora do palácio – «que te não quer encontrar quando voltar». Ela, coitadinha, disse: – Ai que sorte tão desgraçada! que só vim ao mundo prà desgraça! Logo que o meu homem me manda prantar fora do palácio, então vou-me já embora! Muito chorava a mãe; mais chorava ela por se ver assim; – e pegou nos seus dois meninos, um em cada braço, e caminhou pelos campos sem saber para onde, e disse: – Seja o que Deus quiser, que eu vou caminhando sem destino, que não sei onde irei parar! O rei continuava em batalha, mas muito apaixonado por ter recebido uma tão ruim nova. Não bastava só isso, senão deixar fugir o cavalo cardano! Eram duas paixões que o matavam! Mas deixemos o rei, e vamos à infeliz desgraçada, que se viu sozinha numa montanha, com os seus

dois meninos. Vai a olhar, e viu vir o cavalo cardano, que vinha a quanto podia; e depois olha e vê também o seu marido primeiro, que vinha para a matar! O cavalo chegou ao pé e diz-lhe: – Isabel! Ai o teu homem primeiro que te quer matar! Mas não te mata, que eu brigo mais ele, e ele mata-me a mim e eu mato-o a ele, e tu em me vendo morto mete-me a mão dentro da boca, e tira o que lá achares e segura-o no chão! O cavalo cardano brigou mais o dito indivíduo, e por fim caiu cada um para seu lado, ambos mortos. E ela assim que viu morto o seu lindo cavalo, meteu-lhe a mão dentro da boca, e apanhou-lhe a língua e a firmou no chão. Formou-se-lhe uma torre, e ela dentro mais os seus meninos; e tinha tudo quanto lhe fazia falta. O rei que chega da batalha, e pergunta à mãe novas da mulher. A mãe responde: – Ingrato! que a mandaste deitar fora do palácio, e agora perguntas por ela! Ele disse: – Não há tal! Para onde foi a minha mulher?! Quero ir em busca da minha mulher! E correu logo a correr, e perguntando se alguém lhe dava notícia de uma infeliz desgraçada. Soube por notícia o pai da princesa que a filha andava desgraçada, e tratou também de a procurar, a ver onde a iria topar. Como andavam de terra em terra, encontraram-se os dois numa pousada, o pai e o marido, à procura ambos da mesma pessoa; mas não se conhecendo um ao outro, e dizendo um que andava em pergunta de uma infeliz, dizia o outro que procurava também uma desgraçada! Ali se fizeram os dois muito conhecidos, e trataram de marchar caminhando juntos um dia todo, até que lhes anoiteceu. Não encontrando quem procuravam, onde se haviam de eles agasalhar? Vendo brilhar uma luz, dirigiram-se logo direitos a ela, e viram que era de uma torre; mas pondose ambos de roda dela, à pergunta da porta, foi coisa que não encontraram! Ele ouvindo falar em baixo, assomou-se à janela; e observando e conhecendo quem era, deitou uma escada de corda para subirem, porque a torre não tinha porta. Eles subiram; mas não se conhecendo um ao outro e ela conhecendo-os a ambos, obsequiou-os muito, e prantou a mesa para comerem todos – e avisou em segredo os seus meninos: – Vocês em acabando de comer hão-de rezar, e depois tomar a bênção àquele homem mais moço primeiro, e depois também àquele mais velho. Os meninos isso fizeram. Mas o rei moço admirou-se muito e diz assim: – Oh! Uns meninos tão bem-educados, e não têm preceito de pedir primeiro a bênção ao mais velho?! Vieram-na pedir primeiro ao homem mais moço?! Diz-lhe a mãe: – Os meus meninos têm muito preceito, que o preceito é tomar a bênção primeiro ao pai e depois à mãe e depois ao avô. Foi quando eles se conheceram, e se abraçaram todos com muito choro! E como então já se conheceram, determinaram logo ir-se dali embora – e a torre desapareceu. Trindade Coelho, Os meus amores

História da Gata Borralheira Durante alguns parágrafos o narrador alonga-se na DESCRIÇÃO do tempo, do espaço, do ambiente em que decorre a acção, utilizando alguns recursos expressivos. Destaca alguns exemplos. DESCRIÇÃO A A O DE: ambiente noite casa da festa

7. 6.2. O que vê ela no 4. Refere-te à simbologia do 4.3. 8. Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira Parte I UTILIZADOS: 1.3. 9. 2. Como? a sua vida. 7. 6. 7. agora.1. Que significado tem o facto de o segundo baile ocorrer no mesmo dia do primeiro e na mesma casa? 3. 6. da analepse. na tua opinião. espelho? espelho. -espaço. Indica a passagem do texto que melhor ilustra a afirmação acima apresentada. a acção no: 4.1. Lúcia volta a mirar-se no espelho atrás da porta como há 4. 4.2. 8. No texto de Sophia de Mello Breyner Andresen. Indica o nome dos três objectos que. Já no interior. Que explicação encontram as pessoas vinte anos. O quê? 6. 8. Lúcia foi praticamente ignorada pelas amigas da dona da casa.1. personagem? analepse. são fundamentais para a compreensão do conto em estudo. imagem? espelho? a acaba por despertar Que pressentimento que aconteceu à protagonista nega toma uma decisão atenção tem heroína sua altera de um rapaz.2. Qual é a prova definitiva da verdadeira identidade 5. de Lúcia? para: . entrada. A A dado momento Identifica as expressões que Que ficamos nós Explica então Lúcia O Como Lúcia O A mira-se no que lhe classificou a narração marcam o início e a saber sobre a função grande pareceu rapariga a a espelho a loira o é fim a da da sua o interrompida. que personagens se podem associar à Gata Borralheira e à fada do conto tradicional? 2. 8.1. Lúcia começa a aperceber-se de que algo a distingue das outras raparigas. 3. Localiza. -tempo. 5. o rapaz? enquanto dançava? identidade. Qual? personagem que Parte II 1.1.2. Resume o que aconteceu à personagem nos vinte anos seguintes. Que efeito provocou Lúcia quando entrou na sala? 4.RECURSOS EXPRESSIVOS Adjectivo Verbo Comparação Personificação Publicada por Helena em 6:43 Etiquetas: Fichas.3.

1. Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira Verificação de leitura do conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. 2. Completa o esquema abaixo. A O Do Baile jardim ocorreu via-se era foi da ficou ao dona só. Adjectivo. (parte I). -na -nos -nas -na A O O morte desaparecimento aparecimento de do do sapato Lúcia? de sapato Lúcia? roto? Procura indícios reflexos falas do coincidência do desfecho trágico descrição de Lúcia nos rapaz e da rapariga loira de datas e de do conto: inicial.2. 4.1. às amigas. 3. A passagem da descrição à narração é também perceptível na mudança dos tempos verbais. Ilustra a tua resposta a 4. espelhos. Publicada por Helena em 6:39 Etiquetas: Fichas. as afirmações aqui inscritas e coloca à frente das mesmas a resposta " Verdadeiro" ou "Falso" consoante o que leste no conto. 2. irmãos. espaços.1. -narração.2.5. Andresen. 1992 Lê atentamente o conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. Texto Editora. Verbo + Advérbio expressão 2. 1. dançar. 5. 2. Andresen. 2. a uma baile da casa ninguém numa casa. Lê. e antiga. 5.3. com exemplos do texto. ____ ____ ____ ____ ____ ____ grande. agora. de os Lúcia Lúcia filha Lúcia apresentou convidou . retirando do primeiro parágrafo do texto as palavras ou expressões que apontam para a personificação da noite. Verbo. Partes I e II 1. jovem com não a noite de cor-de-rosa dezasseis pais e Lúcia para Agosto. 6. 5. anos. Atribui um título a cada uma das partes. Indica o tempo verbal predominante na: -descrição. in Histórias da Terra e do Mar. Recursos expressivos: 1. Comparação.

caiu. 8. Sophia de Mello Breyner: Histórias da Terra e do Mar História da Gata Borralheira . A meio da noite ela voltou à sala onde se escondera há anos atrás.7. 17. 9. 10. 16. recebe um Numa Lúcia manhã mandou de fazer Maio uns ____ ____ bordados 18. 13. Ao clarear tinha do dia. 14. bonito. baile. rotos. ____ ____ Lúcia esfarrapado direito. 20. ____ 19. ____ convite. rico. um encontraram sapato Lúcia desmaiada no pé no chão. O Lúcia Lúcia Lúcia Um Lúcia Com Depois vestido achou sempre de o Lúcia seu sonhara no e no era vestido ir sótão moreno de seda muito azul. só. a ouro. 15. 11. Lúcia. Lúcia E alto meio Lúcia com da decidiu um 15 Lúcia sapatos casou passaram muito anos. 12. ____ ____ ____ ____ ____ ____ ____ ____ a uns sorriu sala ir homem um sapatos para quando viver encontrou rapaz dançava vergonha. Publicada por Helena em 6:34 Etiquetas: Fichas.

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etc. um erro. 4. limita-se a narrar os acontecimentos sem neles participar. Após a leitura feita. quando se dirige directamente aos leitores. 3. uma falta leva muitas vezes a cometer outro erro. a liberdade. Procura. uma desgraça nunca vem só.2. isto é. parece-te bem escolhido este título? Justifica a tua resposta. Pode ser o amor. Retira exemplos da primeira parte do conto. nas suas linhas gerais. a amizade. fig. faz sentir a sua presença.1 Considerando o seu significado.30/NOV/2008 Abyssus Abyssum Leitura Orientada 1. o abismo atrai o abismo: asneira pura asneira. 3. resumir a sua história 2. outra falta.). apreendeste. Qual te parece ser o tema predominante deste conto? 3. o narrador deste conto está ausente. o enredo de «Abyssus Abyssum». No entanto. . O tema (ou os temas. a ambição. por exemplo. pois uma narrativa pode ter mais de um tema} é a ideia principal que dá vida ao texto e na base da qual actuam as personagens. Como verificaste. Sugere um novo título para o conto. O título «Abyssus Abyssum» é uma simplificação da locução latina abayssus obyssum Invocat cujo significado fomos procurar no dicionário: abyssus abvssum invocat (lat. então.

O narrador utilizou diferentes modos de expressão.3. Tendo em conta o papel que desempenham.1. 8.3. prostrados da fadiga e das lágrimas.6.1. Para tal. Classifica esta narrativa: aberta fechada 6. Que significa a frase «. 6. que esquematizámos deste modo: 6.. 8.2. 8. quanto ao tempo de duração da acção? 6. suspende a narrativa no parágrafo «Até que por fim.1. diálogo. Identifica os locais e as cores correspondentes a cada parte ou momento. então.5. Esta narrativa apresenta-nos um desenlace trágico.. 9. 9. Indica passos do texto correspondentes a: narração. O que te propomos é que a modifiques. Descobre características das personagens a par dos seus comportamentos. que poderão ser O salvamento. Identifica-os.»? (último parágrafo) 9.1. era já alta noite. . das suas falas ou da fala i narrador. a que elementos do texto poderíamos recorrer para confirmar o tipo infantil destas personagens? 8.3.A acção decorre num período de tempo limitado. 9. 6. a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!. estrutura da frase. Que concluis. Distingue neste conto: a situação inicial. Aponta marcas de oralidade nos diálogos. Considerando a resposta anterior. de novo se deixaram adormecer. o desenlace. parece-te adequada a escolha de um círculo para esquematizar esta narrativa? 7. os dois irmãos experimentam variados sentimentos.4. o desenvolvimento as peripécias o ponto culminante.4.2. Identifica as várias personagens da narrativa.. A chegada a casa. Identifica recursos expressivos utilizados pelo narrador na descrição do espaço/tempo do segundo momento da acção.. a(s) personagem(ns) secundária(s).1. Aos diferentes momentos desta narrativa correspondem também espaços distintos. numa narrativa há momentos determinantes no desenvolvimento da acção.5. imaginando um desfecho diferente para a aventura dos dois irmãos. Se o narrador não nos dissesse que o António e Manuel eram crianças. 9.3. Qual a função da estrela Vésper no desenrolar da acção? 8. Que efeito se pretenderá obter com esta repetição? 9. Em qual destes tempos (momentos do dia) localizas a situação inicial? E o desenlace? Justifica as tuas respostas com expressões do texto. descrição. indica: a(s) personagem(ns) central(ais).5.4. 10. Como sabes. 8. 8. Faz o levantamento de pormenores descritivos em que são expressas sensações visuais e auditivas. Que momentos do dia representam os desenhos? 6. Ao longo da narrativa. 7. interjeições. no que respeita a: vocabulário.» e conclui-a com mais duas sequências narrativas. O verbo doer é repetido várias vezes. pontuação.2.

E então. — Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa! … Mas que tentação para ambos. nesse dia. eles não tinham ido ao rio. a primeira coisa que viam era o rio. humildes sob aquela ameaça terminante. um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas. Lá estava a ponte velha. a mãe que o soubesse… Ah. ameaçadora. mato-vos com pancada! Andai lá… Ih! Como ela dissera aquilo. — Ouvistes? — ralhara-lhes a mãe. os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.Trindade Coelho: Os meus amores ABYSSUS ABYSSUM* *Abismo dos Abismos Nesse dia. e então o barquinho branco do fidalgo — lindo barquinho! — . mas então não os deixassem dormir naquele quarto! Logo de manhã. aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara. Mãe Santíssima! Colérica. uma corrente muito lisa e esverdeada. sim… — lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo — … aos pássaros é que eles tinham ido. muito chegados um ao outro. mal abriam as janelas. cheios de susto. serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. com a mão em gume sobre as suas cabecitas louras… Lembravam-se de haver tremido. o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos.Publicada por Helena em 11:52 Etiquetas: Fichas. de cabeça para baixo. de onde os rapazes se atiravam despidos. com todo o seu entono vibrante de ameaça. Aos pássaros. Ao rio era bom!.

sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá. De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia e deixá-lo ir então para onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu «adeus até amanhã!» àquele pequeno objecto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo… Ah, tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada… — Mais nada? — Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida — gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto se ouvia o retintim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E àquela hora onde iria já a missa! A última beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia num carro cujo eixo ardera na véspera, e que era urgente compor, pelos modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta diária, enfim; os senhores sabem. Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois pequenos. — Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos na cama! — E, enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas. — Persignar e vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem! E pôs-lhes tudo sobre a cama. — Mãe, a bênção! — balbuciaram os dois, tontos de sono ainda. — Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora, eu já volto! Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver! Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito, que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem, onde os sonhos eram tão lindos!…

Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo, o achou encantador, todo resplandecente de verduras. — Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque será? O outro encolheu os ombros, não sabia; só se fosse por não haver nuvens… Pela janela aberta, avistava-se o trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas. Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio, que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado. — Ah!, ah!… — riu-se o Manuel, contemplando-o. — O rio! Que te parece?! Olha que é lindo, o rio! Ora é, ó António?! — É, lá isso… Mas tamém de que vale? — tornou-lhe com desalento o irmão. — A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, hã? — E, mirando por sua vez a paisagem, perguntou: — Já reparaste no barco, ó Manuel? — Tão bonito! Os dois riram. — Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara! — Pudera!… — explicou o Manuel — … amarrado com uma corda… — E depois, radiante, gesticulando para o irmão: — Mas eu era capaz de o desamarrar… — Ai eras! — disse duvidoso o António, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era! Ambos dentro dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar de barco! E aquele então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido — olhem lá não esquecessem! — aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava. O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando. — Está um dia lindo, avia-te. — Olha «avia-te»! para quê? — perguntou o António, torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama. O Manuel sorriu-se, triste. Era verdade… Aviarem-se para quê? A mãe não os deixava ir ao rio… E senão, que fossem! — «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» — Já se vê que depois

disto… E os dois suspiravam, desgostosos. «Que pena serem pequenos!». Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de tentação! E para mais tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nível da água! — Tate, ó Manuel! E se nós fugíssemos? — Ora! Se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar… Ora aí está!, isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da mãe: «Se voltais ao rio…». Ai, ai, a triste sorte! Recaíram no silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o Sol que rompia ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na largura muito ampla da paisagem. — Mas palavra que o barco parece pintado de novo… — relembrou com alegria o Manuel. — Mas é que está, palavra que está! Agora é que havia de ser bom andar dentro dele!… Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho!, e porque não? Por isso, cobrando ânimo, o António disse resoluto: — Olha agora o medo! Seguro que nos mata! — E puxando-o pela jaqueta: — Vamos lá, ó Manuel!? O Manuel fez que não com a cabeça e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão: — À tardinha, hem? Dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela nossa falta, ali à tardi-nha. A gente finge que vai para o adro. Levam-se os piões… — Há-de ser mesmo assim!, à tardinha! — concordou o António. — Eh!, eh!, eu cá desatraco. — E eu remo — disse logo o Manuel com gesto de quem remava. — Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula — explicou. — Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se queres assim… — Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser! E recapitulando, para melhor ficarem combinados: — Ao pra baixo remo eu, ora remo? — Remas. — E tu regulas, ora regulas? — Regulo. — Ao pra cima é às avessas, ora é? — É. Muito bem, «basta palavra»! E ambos, ao mesmo tempo, um ao outro se impuseram segre-do… — Psiu!… — Psiu!… *** A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejavam, imóveis. Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes franjavam-se de púrpura e ouro, na decoração mágica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer a natureza para grande sono reparador de toda a noite. … E a tarde ia descendo, cada vez mais límpida. Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às coisas… Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.

— A ti talharam-te o ar. No céu alto e sereno cintilavam as estrelas em cardumes. E esta feliz convicção de liberdade alcançada fazia-os agora orgulhosos. — Bem de ver! — volveu-lhe convencido o irmão. — Está queda. assim no meio do rio. — É que tem sono! — respondeu o outro a rir. fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em sorrisos. poderiam ir para onde lhes parecesse.E a tal hora e no meio de tal silêncio. — Ai a estrelinha! Deixa que ela faz-se fina. que era dos dois o mais supersticioso. tanta prata! — O Sol. — Olha que não! Aquilo é a fazer-nos negaças. ó Manuel! — Diz a mãe! À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água para cima do corpo! E a água que havia de estar fria — observou encolhendo os ombros. ó António! — Mas rema. dirse-ia que. a estrela que mais brilhava. incitando-os. de instante para instante. vejo. — Remas. e quem sabe se o seriam jamais?!… No entanto. esse é de ouro! — disse ainda o Manuel. Dentro dele. — De que são feitas as estrelas? — perguntou o mais novito. independentes. viraram-me para as estrelas e disse então a mãe: Ar Lua Estrelas vejo. exclamou: — Eh!. falta pouco. Ao direito daquela fraga é que ela está. — Que eu. antes queria as estrelas! Olha que rebanho! — Pois eu antes queria o Sol. Tão linda!… — Anda-me tu com o leme! — tornou-lhe com intimativa o Manuel. — Torna a apontar para elas… Eu cá não aponto. Pois está visto! Então o outro. tamém to digo! — Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo. a estrela parecia brilhar mais. uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul. os dois irmãozitos silenciosos iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendas nas águas… Não!. Não era difícil passar-lhe adiante. no entanto. E. lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu. António? — perguntava o do leme. só por isso… — Olha o milagre! Ela está queda! — fez o outro. Espertava nas margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. quanto mais a olhavam. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituais: Deus Que te no guie céu bem foste guiada. a feiticeira estrela mais brilhava. vejo: . está queda. bem se afoga… — E apontando-lhe um punho cerrado. com certo ruído muito doce… E. onde as primeiras estrelas começavam de lampejar. imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral. os dois não desfitavam os olhos da estrela feiticeira que perseguiam. qual era? Em menos de meia hora era certo alcançá-la. além de os encher de alegria. eram senhores absolutos da sua vontade. o barquinho branco deslizava mansamente sobre a água tranquila do rio. lá no alto céu. engastada no azul-escuro do céu. Com licença do teu querer. mas sempre na frente de nós! Vai lá entendê-la. — Vês? — disse o Manuel. sempre é mais grande! E enquanto falavam. Olha como brilha. — Vê-la a fazer assim? — e pôs-se a pestanejar. gritou a rir: — Eh. que nascem «cravos» nas mãos. convencido da facilidade da empresa. — Olha se a vês… — E apontava para Vésper. — De prata. sozinhos. era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma tão pode-rosa e viva alegria — alegria doida que lhes transvazava do peito. se me dessem à escolha. sumindo-se rapidamente. Dentro daquele adorado barco. criada. livres de admoestações alheias. mas havemos de passar-lhe adiante. boieira! Neste momento. que eu cá vou. Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes. iam abrindo fenda na água. a noite acentuava-se. — Depois. Os remos.

nem ao de leve sequer… O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente.O Pra mal trás das do costas meu o corpo despejo. Parecia-lhes medonho aquele marulhar contínuo da corrente. incoerente. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes que num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça. — A estrela? Ainda lá está. sobressaltado. Imobilizara-se também o cabo do leme. Senão quando. muitas. — Então não lhe passamos adiante? — perguntou ingenuamente o Manuel. coiracho ao colo da mãe. diz que vou morar três dias com três noites dentro de uma. ambos romperam num choro muito violento. E amolentadora e múrmura. A noite estava calma. Na grande alucinação do perigo. olha! — disse. Manuel! E. e eles sem darem fé. estonteado pelo sono. — Sempre. enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrela. fez acordar o do leme. … E os braços já não doíam. não havia forças que o arrancassem dali. Depois de morrer. a água da corrente ia espumando na quilha. de novo lhe gritou. um silêncio contínuo dominava tudo em volta. — Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?! É já muito tarde! — continuou aflito o António. doíam muito… Devia já ser tarde. em paga. acorda! Olha que estamos perdidos. no céu havia muitas estrelas brilhantes. Riram muito. — Ora! — tornou-lhe incrédulo o irmão. O Manuel despidinho. gritou imediatamente: — Manuel!. pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito e as pálpebras se lhes cerravam. Dentro dele. Tinham perdido os remos. os remos foram com a pá mergulhada na corrente. desvairado pelo medo. e rezar uma ave-maria. E o barco sempre encalhado. procurando chamá-lo à realidade. a ver quando se talhava o ar! — Mas talhou-se! Agora. cortando-a com levíssimo ruído. feridos de um terrível susto que a hora e o lugar aumentavam angustiosamente. preludiando-lhes as agonias lentas da morte. umas estrelas que além estão. referindo-se ainda à estrela. os dois pequenos entraram de olhar menos para ela. sacudindo-o convulsamente. … E os braços sempre a doerem!… Por algum tempo. agarrados um ao outro. mal conheceram o grande perigo em que estavam. com lágrimas na voz: — Manuel. alguém que ouvisse de longe os seus gritos de aflição! . havia de ser engraçado! E então todos de volta. sem impulso algum estranho. ó Manuel! O remador acordou. a despeito de todo o esforço. sempre?! — Até que morra. com certo ruído cada vez mais doce. Mas o irmão. mas nenhuma como aquela. a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos… Algum tempo assim. afligia-os como se fosse o salmodiar monótono e rouco duma legião de espíritos maus. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém viesse acudir-lhes. não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro. e logo um movimento brusco de balanço. sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro. ainda assim. — Tu não cabias lá! — Não sei! Assim é que anda nos livros! … Mas os braços doíam já dos remos. Entretanto. … Mas os braços já doíam mais!… Agora. uma vez por ano (ao menos uma vez por ano) tenho de olhar pelos ralos do lenço pràs cinco chagas. um ruído surdo.

num repelão mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte. era já alta noite. — Se ela pudesse acudir-nos! Até que por fim. no último paro-xismo da sua enorme dor desesperada. Quando a água se precipitou para dentro. quem nos vale! Acudam! Acudam! Tinha surgido a manhã. prostrados da fadiga e das lágrimas. Mas. violentamente. parece que embrutecendo-os. tranquila. romperam em gritos lancinantes: — Ai quem acode! Ai Jesus. serena. cheia de gorjeios e de azul. balbuciante de medo. no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela se haviam precipitado. de novo se deixaram adormecer. doía-lhes agora o corpo todo. assim de súbito acordados. os dois pequenos. Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual. como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença criminosa. que ali era muito forte. Até que. e entrou de girar com ele. o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se contorciam em remoinho. ao mesmo tempo que uma tristeza cada vez mais pesada lhes oprimia o espírito. após tamanho lidar.Transe crudelíssimo! E então os braços continuavam a doer. na sua fúria constante. os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também com ele!… . a corrente. — Mas a estrela sempre além… — notou ainda o Manuel. não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso.

a menina imaginava um dragão e chegava a ficar agoniada. Há. Inês foi ter uma longa conversa com os pais da sua nova amiga que logo foram tomar as medidas necessárias para que a filha não voltasse a ser maltratada.… Nesse mesmo instante… — e mais longe do que nunca — … a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!… Trindade Coelho In Os meus amores Publicada por Helena em 11:42 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 10. os dragões que deitam labaredas pela boca e fumaça pelo nariz não existem (a não ser na imaginação que o medo faz surgir e então parecem mesmo reais). como quando se está doente. no entanto. Inês começou a ajudar Teresa a libertar-se de quem não sabia respeitála e que. Deste modo. precisamente por usar a vantagem de ter um corpo de pessoa crescida . a fazia ter medo — tanto medo que. Decidida a cumprir o que prometera. Uma escritora no Castelo 10 Por causa dos laços de confiança e ternura que as uniam. Inês e Teresa tornaram-se inseparáveis. por essa razão. quem seja parecido com eles. ao pensar nessa pessoa. Na verdade.

. aqui no castelo.. — respondeu Inês.... no Céu.. Assim. . muito triste. — Mas porquê? — Porque há outro castelo à minha espera. Não se sentia preparada para ficar sem a companhia da sua amiga de sempre. claro. — Vais deixar o castelo?! — inquietou-se a amiga.. quando Inês já era velhinha. E a menina foi crescendo. medrosas e aventureiras. Acho que vou adormecer aqui no salão. de espírito prático e sonhadoras. vais continuar a escrever.. — Mas é claro que sabes! — E Inês voltou a sorrir antes de acrescentar muito baixinho: — Estou a ficar ensonada.. poderás. Teresa fez o que a amiga lhe pedira.. chamou Teresa ao salão e disse-lhe muito calmamente: — Sinto-me cansada. Sabes. — E o que é que eu farei sem ti? — perguntou-lhe. que ia escrevendo para que outros pudessem lê-las e passar umas horas na companhia daquelas personagens tão diferentes umas das outras: havia-as divertidas e sisudas. — Ora! Sabes que.. com um sorriso daqueles que ela fazia quando estava completamente em paz.. cada vez mais encantada com o mundo de histórias guardadas na sua alma. receber as crianças que quiserem vir ouvir uma história! Há tantas crianças que nunca ouviram uma história! — Não sei contar histórias como tu.. percebeu que deveria estar a sonhar porque continuava a sorrir.. de vez em quando. terrestres e extraterrestres. lugar que passou a escolher também para estudar e escrever as suas histórias — agora já sem um dragão a aprisionar meninas ou meninos. Teresa passou a viver com alegria. E este calor de Verão. Tomarás conta da biblioteca para que nenhum livro se perca e mandarás restaurar os que se forem estragando.. Então.para fazer mal a quem é ainda pequeno em idade e tamanho. E. voltou para junto da amiga que.. entretanto fechara os seus olhos verdes e doces como o canto dos pássaros do jardim. Teresa ficou preocupada. indo quase todos os dias ao castelo. Um dia. se quiseres. Abre um pouco a janela. olhando para ela. que sempre gostei de adormecer a ouvir os pássaros. já vivi muito tempo aqui. Talvez seja altura de pensar em mudar de casa. Depois de abrir uma das janelas e de afastar a cortina.

a não ser alguns. que só queria histórias de piratas.. o nome de Teresa. E. evidente¬mente: o da menina sardenta filha de um marinheiro. Numa delas estavam escritos os títulos de todos os livros que Inês lera desde a infância. a maior biblioteca do mundo (pelo menos do mundo conhecido pelos humanos). Alguns tinham até perdido o receio de falar e de escrever sobre tudo o que imaginavam e sentiam! Por outro lado. aqui tens a história que aprendi na minha visita ao Castelo dos Livros. afinal. Um companheiro de asas grandes. Inês lembrou-se imediatamente das palavras que o velho marquês lhe dissera pouco antes de ir para o Céu: «Mesmo que vivas até aos cem anos.. E isso agradou a Deus. as quatro torres da biblioteca foram ficando cada vez mais recheadas de livros.. ao longo da tua vida na Terra. que tudo vê e quer que todos sejam felizes! Inês não entendeu logo as palavras do anjo. também não vais ter tempo de os ler todos. Porém.. como não podia deixar de ser. alguns escritos pela nova habitante do castelo.. outras nem tanto. o nome da menina de pele da cor da canela que dissera que nunca haveria de gostar de ler e que. Foi assim que Teresa passou a habitar o Castelo dos Livros. que nunca mais parou de escrever. em letras maiores do que os outros. transformada numa espécie de vulcão capaz de produzir excelentes ideias para grandes aventuras. Inês não se tinha apercebido do quanto tinha sido útil a essas mesmas crianças cujos nomes já nem recordava.. de quase nada).» O marquês tinha razão. veio ao seu encontro e trazia duas enormes folhas de papel em ambas as mãos. enquanto subiam pelo azul que se tornava cada vez mais clarinho à medida que subiam e se chegavam a uma fonte de luz muito branca. Inês não foi sozinha. a menina que um dia resolveu escrever para contar a sua história triste e que se transformou numa contadora de histórias alegre e sem medo de nada (bem. . tinha passado a gostar de tal maneira que veio a ser professora de Literatura. mas ela acabou por conseguir ler muitos mais livros do que supunha. quase se sentia uma sábia! — Que nomes são esses que aparecem na outra folha? — perguntou ela ao anjo. lá estava na lista. Lembrava-se dos rostos de algumas das crianças e dos jovens que tinham visitado o castelo para a ouvirem contar ou ler histórias que fala-vam de muitas coisas — umas alegres.. ajudaste a crescer e a ser mais felizes. E todos regressavam a casa com um sorriso e muitas imagens fantásticas a fervilharem na sua imaginação. E pronto. contada por Teresa. E que bem lhe tinham feito essas leituras! Sim. mas todas muito interessantes. — Não adivinhas? Estes são os nomes de todas as crianças que. o do menino gorducho que não parava de fazer perguntas e falava com uma pronúncia engraçada. Tal como a amiga lhe sugerira. no Céu.. que era certamente o seu anjo-da-guarda. Foi essa missão que te tornou mais sábia. de vez em quando recebia crianças e jovens que vinham ouvir as suas histórias.Na sua viagem rumo ao novo castelo que iria habitar.

)! Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 8:06 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 9. de certa maneira. sobretudo àqueles que ainda não sabem como é bom ler e ouvir uma história! Porque quem conta histórias. De resto.. contudo.. ainda não tinhas pensado nisto. jamais sairia. Teresa e a sua história não saíam do pensamento de Inês. desejando libertar-se daquela vida sem.. é isto que costuma acontecer quando ficamos preocupados com alguma coisa real¬mente importante. talvez possas tu também contá-la. roncando estrondosamente como um motor. para escapar à tristeza. acaba por fazer amigos (se calhar. Depois de ter lido a história escrita no caderno. falando ou escrevendo.. ainda por acabar. para poder realmente ajudar Teresa a resolver o seu problema. Teresa falava de uma menina que vivia como escrava de um dragão que não a deixava afastar-se dele e ao qual ela só podia escapar.Agora. quando ele caía em sono profundo. fixara o olhar da autora e . estava só a pensar em qual seria a mais certa. por pouco tempo. com Teresa. E a menina vivia infeliz. o problema que vinha contado. no caderno onde a menina escrevia..Então. Provavelmente. conseguir. Inês continuou a lembrar-se da parte mais importante do seu dia. Amigas verdadeiras 9 Era quase meia-noite. punha-se a inventar histórias com que acabava por adormecer o dragão.. Então. Inês não tinha ainda sono porque ficara a pensar na história que Teresa lhe trouxera. Na sua história. não é verdade? Inês sabia que teria de tomar uma atitude. encostada nos almofadões da cama.

em vez disso. o melhor era deixá-la ajudar. Depois. confessou: — O que eu queria mesmo era que. E acrescentou: — Seja quem for. O nó na garganta estava quase a soltar-se. — Para te ajudar preciso que me digas quem te tem maltratado — pediu Inês com muita suavidade. já tinha menos medo. foi ajoelhar-se junto da poltrona onde ela estava sentada. de facto. deu-lhe a mão e fez um convite: — Vamos agora até ao jardim? Eu estou a sentir uma certa vontade de chorar. Ora.. chorar era algo que. Teresa levantou-se como se uma mola a tivesse empurrado para fora da poltrona e. E era uma história tão triste como a da menina que vivia com o dragão. porque sei que vamos resolver o teu problema! Se não te importares de me ver chorar. só muito raramente lhe acontecia. — Diz-me só quem é essa pessoa. — E Teresa deu um longo suspiro. Sim. não vamos ter medo! Lembras-te da lenda que uma vez contei sobre São Jorge? A menina sorriu. que não suspeitavam de nada.perguntara-lhe se havia alguma coisa na vida dela que estava a correr mal. mas o seu olhar continuava triste quando respondeu: — Lembro. vou tentar ajudar-te — tornou Inês. necessário agir depressa para que a vida de Teresa mudasse e ela fosse uma menina alegre.. Compreendendo o que a menina estava a sentir. Teresa disse o nome de quem a maltratava já há muito tempo. como ninguém sabia o que se passava. Tinha muito medo de que as coisas não corressem bem. com uma vida bonita como todas as crianças merecem e devem ter. podia dizer toda a verdade à amiga que vivia no castelo. porque. Na realidade. em silêncio. a menina ficou calada. Porém. podes vir comigo. encheu-se de coragem e começou a contar uma história verdadeira: a sua. Além disso.. e eu prometo que farei tudo o que puder para que não volte a tratar-te mal. era uma pessoa crescida. sob os últimos raios de sol da tarde. e era isso que ia fazer. nem se lembrava já de quando tinha sido a última vez. havia também na sua vida não um animal gigantesco e verde que deitava labaredas pela boca. bem o sentia. portanto. ele fosse morar para outra cidade e ficasse para sempre muito longe! — Se me deixares. Inês levantou-se do sofá. seguiu a amiga até ao jardim do castelo. desviando o olhar para o tapete. Aliás. ninguém tinha podido acabar com aquilo. mais ainda do que quando contava histórias. porque ela era sua amiga. a menina preferia ir sentar-se no seu quarto a imaginar histórias bonitas para afastar os maus pensamentos. Só que esses pensamentos tristes acabavam sempre por voltar. mas confiava em Inês... as duas choraram baixinho. . Então. Lá fora. Se conseguisse chorar. Porque. o nó soltar-se-ia e ela sentir-se-ia mais leve. mas São Jorge já morreu e eu não sei se alguém que morreu pode aparecer montado num cavalo com uma lança na mão para me salvar. passeando entre as árvores. Agora. Era. sim. mas um familiar que a maltratava desde que ela completara seis anos de idade. Na realidade. Depois.. obrigando-a a fazer coisas que ela não queria e metendo-lhe medo para que ela não contasse nada fosse a quem fosse. mas é de alegria.. nem mesmo os pais. Acreditas em mim? Teresa acreditava. podia fazer muitas coisas que ela ainda não podia. sem nada dizer.. Ao princípio. Teresa não se queixava e ninguém a via chorar. Já que lhe tinha contado a sua história verdadeira.

Teresa e Inês choraram sem pressas. Teresa lembrou-se da lenda sobre Jorge. entre eles Portugal e Inglaterra. Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 8:01 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros Histórias com dragões 8 O livro que falava do dragão lá estava devidamente arrumado numa estante da Torre Dourada. um jovem soldado do Império Romano que veio a ser chamado santo e que é o padroeiro de muitos países. E as lágrimas choradas na companhia de um amigo têm o poder misterioso de lavar o nosso coração e de o deixar mais leve. é preciso chorar para depois respirar melhor e voltar a sorrir. .às vezes. de resto. os dragões costumavam fazer. Diz a lenda que havia um dragão terrível que assustava os habitantes de uma cidade. as famílias daquela terra iam perdendo raparigas que o dragão atacava. precisamente por ser muito corajoso. porque os anjos são bons e os esquilos vivem lá no seu mundo de avelãs. diga-se de passagem. E só os anjos e os esquilos as viram e ouviram. Ao reler o livro. o que. Assim. como. mas não fazia mal. Aflitas e muito desgostosas. saltando aqui e ali sem se importarem com o resto. saindo das profundezas de um lago e deitando grandes labaredas pelo nariz. não é uma atitude nada civilizada.

.. Porque é normal não conseguirmos resolver sozinhos certos problemas. mesmo sem estar ainda acabada — disse ela a Teresa. porque quero que ela acabe bem. da qual ela ainda nada sabia a não ser que também falava de um dragão. Poucos dias depois. subitamente. A verdade é que. derrotou-o em combate. No fim. provando que acreditavam em Jesus Cristo como Filho de Deus e vencedor de todo o mal do mundo. Inês compreendeu finalmente que a menina andava a escrever sobre alguma coisa que deveria estar a acontecer na vida dela. ainda havia pouca gente baptizada e não costumavam sê-lo senão já na idade adulta. foi a vez de a filha do rei decidir ir entregar-se ao dragão para ver se.Um dia. Numa mão trazia uma lança e. Jorge disse a toda a gente da cidade que tinha vindo em nome de Cristo e que gostaria muito que todos os que se sentiam aliviados e felizes por verem que o dragão tinha sido vencido fossem baptizados. salvando a jovem e valente princesa. e não era uma história divertida. apareceu Jorge. alguma coisa que não era boa — talvez um problema difícil que ela não conseguia resolver sozinha. — Eu gostava de ler a tua história. indo enfrentar o dragão. assim. para que mais ninguém fosse vítima daquela criatura tão má. Sentia que devia fazer qualquer coisa. montado num cavalo branco e vestido com um manto e uma armadura onde se via uma cruz de cor vermelha. Inês ficou a pensar na história de São Jorge e na que a pequena Teresa estava a escrever. Inês chamou Teresa e perguntou-lhe: — Como vai a tua história? Tens escrito? A menina fez que sim com um gesto de cabeça e contou: — Não posso ainda terminar a minha história.. no fim de mais uma sessão de leitura para as crianças. ele pouparia a vida ao povo. — . Então. mas ainda não descobrira o quê.. de uma menina. Precisava de saber o que Teresa tinha para lhe contar. naquela altura.

É tão raro alguém merecer toda a nossa confiança. seguiu para o salão e sentou-se numa das poltronas. tinha muita vontade de mostrar a Inês o que escrevera. animais e lugares da Terra onde ninguém esteve.. por isso. Retirou o caderno da mochila. Está aqui dentro da mo¬chila. Quando acabaram de arrumar os romances de aventuras no lugar que lhes cabia. colocou-o no colo e ficou à espera. depois de sair da escola.. queres? A menina disse que sim com um gesto de cabeça e um sorriso. vamos sentar-nos lá fora só nós as duas ou. a biblioteca do castelo continuava em perfeito estado de conservação. — Estou a acabar o meu trabalho de hoje. antes de ir bater à porta. a menina foi sentar-se num dos bancos de pedra do jardim e pôs-se a pensar. Teresa — disse-lhe Inês. com a mochila às costas. Vai andando. porque não queria que nenhum livro fosse destruído pelos ácaros ou pela humidade. tratavase de uma história muito importante para ela. grutas misteriosas. abismos marinhos. por outro lado. E se Inês não percebesse a sua história? Não. bater à porta do castelo. entre lulas gigantes. de certo modo. e a menina tinha as bochechas coradas do calor e da vontade de mostrar à sua amiga mais velha o que tinha escrito. Disse-lhe que Inês se encontrava na oficina. No meio dos seus livros escolares. Como era bom poder contar no papel o que o seu pensamento lhe ditava! Nos primeiros anos de escola. Nunca tinha falado da sua história a ninguém.. vamos para o salão. animada com a possibilidade de vir a acabar depressa a sua história.. provavelmente perceberia. Teresa resolveu levantar-se do banco e ir. era.Como conheço muitas histórias. Inês tinha acabado por aprender com o marquês aquela arte de recuperar os livros que estavam estragados ou em risco de se estragarem e. apesar de ser imaginada. já que preferes assim. não é? Ao chegar ao castelo. Isto fazia Inês sentir-se satisfeita.. com a mochila aos pés. porque Inês merecia toda a confiança. Ainda que não soubesse exactamente porquê. porque Inês já tinha lido muitos livros e sabia coisas incríveis acerca de pessoas um pouco estranhas. jamais imaginara como escrever podia ser tão importante. a menina levava o caderno onde andava a escrever a sua história. Por um lado.. Inês sorriu-lhe: — Tiveste uma excelente ideia! Depois de arrumarmos os livros. a acabar o trabalho de restauro de um dos livros mais antigos da Torre dos Arrepios. um romance de aventuras passadas no fundo do mar. tubarões e outras criaturas marinhas. Inês disse: — Vamos então sentar-nos no salão. vulcões em actividade. parecida com algo que se passava na sua vida real e que muito a entristecia e embaraçava.. Logo no dia seguinte.. Foi Rudolfo quem veio abrir-lhe a porta. realmente. — Prefiro o salão — disse a menina. Teresa mordeu o lábio inferior e contou: — Hoje. porque.. como fazia muitas vezes. parecia-lhe agora que todas as dúvidas já tinham desaparecido da sua cabeça: Inês iria com certeza compreender a sua história! Não havia razão . como tanto queria. mas sentia que chegara a altura certa. enquanto acabava de colocar um livro já restaurado sobre um tabuleiro. Teresa dirigiu-se para o castelo. mas.. sugeriu: — E se viesses comigo guardar estes livros na biblioteca? Um pouco atrapalhada. se preferires. Depois. enquanto vou preparar um refresco para ambas. enquanto acompanhava a nova dona do castelo até à Torre dos Arrepios. Animada com estes pensamentos. O coração de Teresa batia cada vez mais depressa. baleias. Aquele era. então. como Inês tantas vezes fizera quando ainda era criança. talvez possa ter uma boa ideia para te dar uma ajuda. um dia importante para si! O dia em que ia mostrar a sua história a alguém em quem ela confiava. excepto alguns cientistas: picos de montanhas geladas. Estava um dia de Maio muito quente. Depois. — E que lá fora está um bocado abafado e cá dentro do castelo está sempre fresco. que dizes? A menina voltou a dizer que sim com um gesto de cabeça e saiu a correr do castelo. trouxe a minha história.

foi feliz. Na verdade. Nos dias frios. a Torre do Céu e a Dourada. No dia da sua partida deste mundo. o marquês.. Foi isto que ficou combinado entre o velho dono do castelo e a sua herdeira. que já estava muito velhinho e doente. reuniam-se no salão onde havia uma lareira.. continuassem a ser restaurados. Na verdade. sentavam-se no jardim do castelo à volta de Inês. conforme deves lembrarte. A contadora de histórias 7 Como talvez já tenhas adivinhado. mas um grupo que aos poucos se foi formando até serem vinte os meninos e meninas que ali vinham todas as semanas. porque Inês aceitou ficar a morar no castelo.para receios. poderiam manter-se por longo tempo ao serviço de pessoas de todas as idades. partiu para o Céu. claro. Mas então por que seria que as suas mãos estavam a ficar húmidas e não conseguia manter as pernas quietas?. Nos dias de calor. comprometendo-se a não deixar morrer o seu tesouro: os livros guardados nas suas quatro altas torres — a Torre dos Arrepios. Inês rapidamente pôs em prática o seu plano com as crianças da cidade — não todas.. Assim. até alguns animais da . Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:56 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 7. o marquês queria que os seus livros fossem lidos por muita gente e que. que merecia toda a sua confiança. Mais do que tudo. que faziam sonhar. que faziam crescer! E a jovem tornou-se uma perita contadora de histórias. que lia para eles ou lhes contava alguma das suas histórias favoritas. ao ficarem gastos ou danificados pelo uso ou por outra razão (como por exemplo a humidade ou o pó). a das Asas..

. como a própria Inês. porque descobriram que as histórias favoritas de uma eram também as da outra. Ela gostava de inventar as suas histórias. como aquela acerca de uma princesa que ficara pobre e sem abrigo e era tão incrivelmente sensível que. quando já tinha dez anos. subiam até à zona do castelo. Tinha apenas seis anos e. Era um jovem muito curioso que viera à Terra para descobrir como se faz um amigo.... Inês e Teresa começaram a tornar-se amigas. não conseguira adormecer. ficava longo tempo pensativa depois de ouvir uma história lida ou contada e não gostava muito de falar. vindo de um planeta distante... alguns deles. a tal que me recebeu no castelo e me contou esta história toda. Inês cedo percebeu que aquela menina de olhos castanhos. num deserto.. Um dia. Teresa aproximou-se de Inês no fim de uma sessão de leitura e contou-lhe: — Eu também ando a escrever. tendo aprendido muitas coisas com uma raposa e ensinado muitas outras a um piloto aviador que estava meio perdido. . fizesse perguntas curiosas.. nunca lera um livro. Teresa. portanto... uma noite. porém. No entanto. incomodada por uma ervilha que ficara debaixo do colchão. muitos meninos que nunca tinham lido um livro começaram a descobrir as grandes e maravilhosas aventuras guardadas na Torre Dourada e passaram a gostar de ler! Na verdade. atraídas pela voz magnética da contadora de histórias.. Quando Teresa foi ao castelo pela primeira vez. a história que falava de um pequeno príncipe. E continuou: — Já tenho várias páginas e sei como quero que termine. uma característica diferente dos outros meninos que ali iam. — Sim.. Apesar de conversarem pouco. embora. essa mesma em que estás a pensar. sem dizer nada a ninguém! O nome dessa menina era. que raramente se ria. ficando meio escondidos atrás das árvores que havia à entrada do jardim.. Mesmo as lebres. E havia muitas outras histórias de que ambas gostavam.. de vez em quando. Então. que estava apaixonado por uma rosa. Uma das meninas que ia todas as semanas ao castelo tinha. — A escrever? — perguntou Inês. que costumavam fazer a sua vida a uma altitude mais baixa. por exemplo. ainda nem aprendera a ler.montanha vinham ouvi-la. como. tornaram-se mesmo grandes leitores. a escrever uma história — disse Teresa. apesar de ainda faltar muito para chegar ao fim.

Inês voltou para o castelo a pensar na menina que gostava de inventar histórias. Aliás.. Porque. Sabia que como todos nós. — Ah. E um que eu imaginei.. até agora não se conhece nenhum dragão bom nem sequer simpático. mas não este. alguns são até um bocado perigosos.. em certas ocasiões. — Não sabia que tinhas inventado uma história! — Bem. onde ia ler quase diariamente. ficou pensativa e afastou-se. não digas nada! Deixa-me adivinhar. Na realidade. O marquês. lembrava-se de já ter contado aquela mesma história às crianças.— Essa novidade é muito interessante — animou-se Inês. deste castelo! E uma história sobre este castelo? A menina sorriu. mas esta é a primeira que eu decidi escrever. o mordomo. como se sabe. eu já inventei várias. Uma história com um dragão. O dragão de que ela falara. de que é que tu gostas muito?.. não — apressou-se Teresa a dizer.. Matilde.. Depois. passaram a ser os seus melhores . gostas muito. era mau. não lhe saía da cabeça. Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:49 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 6. Ora vejamos. é sobre um castelo. onde vive um dragão e. porque não estava com vontade de continuar a conversa.. Naquele fim de tarde. Uma ideia brilhante 6 A verdade é que Inês nunca mais deixou de visitar o castelo. pode ser muito desagradável ter um dragão na cabeça. embora pouco.. Já sei! Gostas muito de pensar e.. — E posso saber de que trata a tua história? Não. Parece-me muito empolgante e divertida a tua história.. — Mas não é.. Inês não lhe fez mais perguntas naquele dia.. Ora. abrindo muito os seus olhos castanhos. Teresa gostava de ficar em silêncio. provavelmente. de maneira que Inês resolveu ir à Torre Dourada procurar um livro que tinha lido quando era criança sobre um homem muito generoso e valente que tinha combatido contra um dragão e saíra vencedor desse terrível combate. mais ou menos como eu. uma menina de olhos castanhos. e a cozinheira. num dia de Inverno. para dizer a verdade. Talvez um dia ela lhe contasse mais sobre a sua história com um dragão que. junto da lareira do salão... com o seu sorriso um pouco triste: — Bem.. como deves imaginar. Rudolfo..

Lembra-se de uma conversa que tivemos há muito tempo sobre a importância de ter a cabeça organizada.. porque a idade não conta entre os amigos verdadeiros. — O senhor marquês está muito doente.. piratas de um só olho. não me lembro. Inês foi-se tornando uma aluna brilhante.. mas também alguém que consegue realizar algo importante para si e para os outros. mas se estás a querer que eu obedeça ao médico.amigos. — Concordo consigo. aos poucos.. embora ela nunca pensasse na idade dele (noventa e nove anos).. — Hum. era que ela estava a tornar-se sábia. Rudolfo apareceu-lhe com olhos tristes. claro.. é porque eu tenho uma notícia muito importante para lhe dar e. Ora. todos foram compreendendo que ela sentia mais necessidade de aprender do que outros jovens da sua idade. nesse mesmo dia. O que ninguém ainda sabia. Ao abrir-lhe a porta. devo dizer-te que não posso. Inês também ficou preocupada e correu ao quarto onde o marquês estava sentado numa cadeira de braços. foi a correr ao castelo para a contar ao seu amigo marquês. mas o que eu quero é ouvir-te! A rapariga sentou-se no tapete. junto do amigo que estava realmente muito velhinho. se for dormir. desta vez. porque sinto que já não me resta muito tempo e não quero passá-lo a dormir! Inês riu-se. — Não. com as ideias mais importantes à frente e as outras atrás? — começou ela. porque esses também contribuíam muito para que a sua vida fosse feliz. A pouco e pouco. — Ainda bem que vieste mais cedo — disse-lhe ele. de tal maneira que os seus pais até ficavam admirados não só com os seus resultados escolares mas com os elogios que alguns professores faziam a seu respeito. não posso. Mas. E a menina foi crescendo. Convém lembrar que um sábio não é apenas alguém que sabe muitas coisas. de preferência a dormir.. excepto o velho marquês. com uma manta no colo. ia conseguindo compreender melhor as tais coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola. princesas encantadoras. histórias sobre factos reais e outras sobre coisas imaginadas. teve uma ideia que lhe pareceu brilhante e. lendo e conversando sobre o que lia. A família de Inês achava um pouco excessivo o tempo que ela passava no castelo. O médico já veio vê-lo e não quer que ele se canse — contou o mordomo. — O que foi? — perguntou ela. Livros que falavam de tudo quanto Deus criou.. aventuras de sereias cantoras. príncipes encantados.. com ar preocupado. sem contar com os livros. . quando Inês já frequentava a universidade. como ler também ensina a pensar. — O médico aconselha-me a que fique em repouso. transformando-se numa rapariga que cada vez sabia mais sobre o mundo. de modo a que a vida fique mais bonita de viver! No princípio da idade adulta. — Isso é por eu estar muito velhote? — Não..

. E era justamente disso que ia tratar sem demora! Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:43 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 5. Um lugar de sonho . Por outro lado. nada disso! Podes começar amanhã.. — Então quer dizer que posso realizar os meus planos?! — entusiasmou-se a jovem. — Ontem à noite estive a pensar que é uma pena haver crianças que não sabem ler e a quem ninguém conta uma história. pensou Inês. animado. Não te digo hoje. também é lamentável que haja outras crianças que já andam na escola mas que ainda não descobriram que ler um livro pode ser muito divertido! — E então tiveste uma ideia — atalhou o marquês. Inês olhou os bancos de pedra e imaginou-se sentada num deles. no jardim. por pequenas que fossem! Esses meninos não faziam ideia de como é bom ouvir uma história divertida e empolgante como as que Inês conhecia! Mas também havia outras crianças que nunca tinham pegado num livro e não sabiam como um livro se pode tornar num amigo para toda a vida. — Estás em tua casa... Lá fora. porque já é tarde e.. Nos dias quentes. E gostou muito do que ali viu com os seus olhos tão treina¬dos para imaginar. apesar de se sentir fraco. se não te importas. saboreando os últimos raios de sol. onde há lareira e podemos aquecer-nos... ficamos no salão. Havia mesmo meninos na cidade a quem ninguém tinha tempo de contar histórias. ajeitou a manta que tapava o colo do velho amigo e saiu. no jardim. rodeada de crianças a ouvirem contar uma história. Era preciso falar com os pais das crianças para lhes explicar os seus planos. acho que vou seguir o conselho do médico e vou fazer uma sesta.. — Nada disso. ficaremos lá fora. ainda não falaste com os pais dessas crianças. — E quando vais começar? — Quando estiver melhor. Pensei que posso vir aqui uma ou duas tardes por semana contar histórias a crianças que queiram vir até ao castelo ter comigo e também ler para elas passagens de alguns dos livros de que mais gostei quando era pequena! Não quero que percam tantas aventuras fantásticas que estão escondidas nas quatro torres! Quando estiver frio. porque não quero que as crianças venham aqui incomodá-lo com algum barulho que possam fazer. — Tive. Inês — respondeu suavemente o marquês. que é tão bonito! — Parece-me uma grande ideia — aplaudiu o marquês.— E que notícia é essa? — interessou-se o marquês. Então. encostando a porta atrás de si. provavelmente. Tinha muito que fazer. — E agora. Inês ficou feliz.

Estava desejosa de acabar de ler o livro que começara na véspera! O que iria acontecer à menina que sabia voar?. Ao fim da tarde. o marquês veio ao salão. Se precisares de alguma coisa. Que bom seria falar a língua dos pássaros e pedir a uma cegonha das que todos os anos faziam ninho na torre da igreja ou no telhado da câmara municipal que lhe emprestasse as asas ou lhe dissesse como arranjar umas que dessem para voar! Então. Outras . mal saiu da escola. Inês encaminhou-se para o castelo. Havia tantas coisas para aprender e tantas aventuras para viver! Talvez os livros lhe ensinas-sem como arranjar essas asas que a fizessem voar ou lhe dessem pistas para desvendar muitos mistérios e compreender algumas coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola. ia começar imediatamente a lê-lo. E Inês lá seguiu Rudolfo até ao salão. bateu à porta e foi o mordomo quem veio abrir: — Boa tarde. menina Inês! — cumprimentou-a. a qual não estava marcada. mas pelo menos aqueles que tinham as histórias mais interessantes e os que ensinavam exactamente o que queria saber! Ao chegar ao castelo. aldeias e cidades. sentou-se imediatamente no lugar que o marquês lhe indicara e começou a ler o livro na página onde tinha ficado no dia anterior. Inês pegou nele e. muito satisfeito por ver nela uma futura leitora. chama o Rudolfo ou vai à cozinha ter com a Matilde. Bem.. Mal viu o livro. que ela prepara-te um refresco. Toda a sua atenção estava posta na página que estava a ler e a sua expressão era a de quem estava noutro mundo. o arco-íris. num lugar de sonho. tendo na mesa ao seu lado o livro que a menina começara a ler na véspera. perguntava-se. onde o marquês a aguarda' vá. cumprimentou-a com um aperto de mão e disse-lhe: — Podes sentar-te naquela poltrona e fica à vontade.5 No dia seguinte. a chuva. E que os livros têm este poder quase mágico de nos transportarem para outros lugares: sítios onde já estivemos e outros que nunca visitámos nem mesmo em sonhos! Os livros são autênticos comboios a levarem-nos por montes e vales. A jovem visitante do castelo estava precisamente a acabar de ler o livro e era fácil perceber que nada a perturbaria... Seria bom vir a ter uma vida longa para poder ler todos aqueles livros da biblioteca do castelo. mas ela lembrava-se exactamente de qual era. entusiasmada. poderia viajar pelo céu fora e descobrir muitas coisas sobre as nuvens. o marquês. Queira seguir-me. mas o mordomo fez um sinal para lhe lembrar que ainda não tinha saudado o dono do castelo. Vendo que a menina estava desejosa de retomar a sua leitura. Inês pousou a mochila no tapete. Eu vou para o meu escritório porque tenho uns trabalhos para fazer. de mochila às costas. — O senhor marquês está à sua espera no salão.. todos talvez não.

deve estar organizada. — Vem. assim como a nossa cabeça. ansiosa por ver que livro lhe iria. a países longínquos. — Como? — quis saber Inês.vezes. porque o marquês parecia saber muitas coisas importantes sobre vários assuntos! O marquês — dava para ver — era um sábio. é fácil: por ordem de importância. — Estou a perceber — disse a menina.. saboreando as últimas palavras que lera.. numa das estantes da torre número quatro. posso indicar-te um livro magnífico sobre fenómenos da Natureza. num instante. Se bem me lembro. E Inês lá seguiu o dono do castelo. nunca tinha visto ninguém tão concentrado a ler senão. . aquilo que os teus pais te pedem que faças é mais importante do que. aquelas a que damos mais valor. finalmente. ele próprio! Inês fazia-o sentir que tinha valido a pena coleccionar. disseste que gostavas de dançar. Por exemplo. é muito importante que cada livro esteja correctamente marcado. nesse caso. onde vivem muitas ideias. Depois.. porque a menina ainda não dera pela sua presença. Certamente seria interessante. em primeiro lugar. E o marquês lá se pôs a ensinar o que significava o código de letras e números que estava na etiqueta colada no livro que Inês tinha estado a ler. ao ver que não estava só. — Como é que se organiza uma cabeça? — Pois bem. são aviões que nos fazem chegar. — E de vulcões! E de trovões! E de relâmpagos! — Hum. Acompanha-me. a menina exclamou: — Ler é extraordinário! Acho que nunca mais vou parar! Posso ir à biblioteca buscar outro livro? — Primeiro. — Como estás a ver — disse o marquês —. Ora bem.. — Assim sendo — continuou o marquês —. se quiseres. Inês acabou de ler o livro — e antes de o fechar — deu um longo suspiro de olhos fechados.. E podem também ser foguetões. no espaço sideral! Foi enorme a alegria do marquês ao ver aquela menina tão interessada na leitura. A menina compreendeu-o imediatamente e fez questão de ser ela mesma a ir colocar o livro no seu devido lugar.. As coisas mais importantes. que costumava compreender tudo rapidamente. desta vez. as outras são arrumadas atrás. tal era a sua concentração! Quando. parar às mãos.. E o rosto enrugado do marquês iluminou-se num sorriso de ternura. que vou ensinar-te a fórmula mágica para descobrires o lugar exacto onde deves guardar um livro. ao longo da sua já longa vida. Mas vejamos agora o que queres ler a seguir. mas teremos de ir à torre número três. catalogar e restaurar tantos livros.. estrelas e meteoritos... porque uma biblioteca onde vivem muitos livros deve ser um lugar sempre organizado. para que te lembres bem desses pedidos. que nos transportam para lá das nuvens e nos levam para o meio de cometas. Na verdade. o que eles pedem para tu fazeres tem de vir antes de todas as outras coisas que te são ditas pelas outras pessoas. vamos colocar esse no lugar de onde saiu — disse o marquês. devem estar sempre à frente. pode-mos falar da tua leitura. — Posso agora ir escolher outro livro? — Claro que sim! Fico muito satisfeito por teres gostado de ler! Um dia. — O que pede outra pessoa qualquer — apressou-se Inês a responder...

já que o marquês tinha fama de ser um homem rico e o seu pai tinha sido o dono de muitas terras por aquelas bandas. muitos convites para serem distribuídos pelas casas. Eram pessoas de várias idades e profissões. Certamente. tal como Teresa ma contou. talvez não exactamente como ela contou. No primeiro sábado após a entrega dos convites. porque. Bem. quem conta um conto aumenta um ponto. Vinham cheias de curiosidade para descobrir o tal «tesouro» de que o convite falava. Como eu calculava.. Ou então talvez fossem encontrar jóias extravagantes... expostas em vitrinas: . amigos e empregados. tratar-se-ia de barras de ouro. a parte mais interessante da história estava mesmo para começar. Sentei-me num dos bancos de pedra para aqui te contar o resto da história deste castelo. o castelo começou a receber visitantes logo de manhã. ainda não havia Internet. lá em baixo no vale. Contente com a sua ideia. o que nele se encontrava. O tesouro 4 Estou novamente no exterior do castelo. para que viessem conhecer o seu tesouro? Sabia que nunca ninguém ali tinha entrado a não ser os seus familiares. num bonito jardim com uma vista magnífica para a cidade.. no momento em que Teresa parou de falar. no posto do correio. sobretudo. Estava o marquês quase sozinho no castelo quando teve uma ideia para acabar com a sua solidão e a monotonia dos seus dias: e se mandasse um convite aos habitantes da cidade lá em baixo. senão tudo teria sido mais rápido. mas vou tentar dizer-te toda a verdade. Provavelmente. muitos seriam os curiosos a desejarem vir conhecer o castelo e. Naquela altura. o marquês mandou o mordomo à cidade para que entregasse.Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:39 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 4.

Calor?! Vertigens?! Meigas?! Mosquitos?! Espirros?! Que desculpas tão esfarrapadas. no Verão. pulseiras e até. a partir daquele dia. desde que se comprometessem a devolvê-los. mas verificou que apenas três ou quatro esboçaram um sorriso para se mostrarem agradecidos. esmeraldas. fica com vertigens! — E há ainda o problema dos mosquitos e das meigas. se uma pessoa olha para baixo. Quando os visitantes saíram.. O marquês estava profundamente desolado com o que ouvira. voltou para dentro cabisbaixo. perguntava-se o marquês. Ainda foi colocar-se no meio dos visitantes dizendo-lhes que.. colares. coroas enfeitadas com pedras preciosas — diamantes. porque não?. limpando a testa com um lenço branco. apenas livros. Na realidade. — Eu cá fartei-me de espirrar enquanto subia a montanha. Além do mais. já que viviam ali tão perto. a caminho daqui — lembrava uma senhora com voz de cana rachada. ao levantar a cabeça. até gostava de vir buscar um ou dois livros — atalhou um técnico que fazia reparações em televisores.anéis. o castelo fica aqui no cimo da montanha. que é uma das coisas mais bonitas e interessantes que há?! Que pessoas eram.. entre dois espirros. fazia sentido que fossem conhecer o monumento mais antigo e bonito daquela zona. que não nos podemos esquecer de que estamos a quase mil metros de altitude e. tão perto do castelo? Seria que não havia ninguém que quisesse aventurar-se a descobrir o mundo tão grande e fantástico que a sua biblioteca guardava em silêncio?. que foi despedir-se à porta do castelo. — Para não falar das vertigens — queixava-se uma senhora idosa. — Sim. Deve ter sido alergia àquelas flores azuis! — queixou-se uma jovem. — Mas acontece que não tenho tempo para ler. rubis. que coxeava da perna direita. perante o olhar igual¬mente desanimado do mordomo. — Por mim.. ao serem abertas as portas das quatro torres que constituíam a fabulosa biblioteca. lá em baixo ao pé do lago.. safiras.. aquelas que moravam na cidade logo ali no vale. — Bem vê. julgava que a sua oferta ia ser recebida com grande entusiasmo pelos habitantes da cidade. Porém. o anfitrião. a subida é íngreme — desculpava-se o sapateiro. afinal. graças ao seu interesse e trabalho. os visitantes mostravam-se decepcionados. faz um calor dos diabos por aqui — comentava o alfaiate. que se tinham estafado a subir a Montanha Azul num dia de Sol?! O marquês ficou triste ao perceber que ninguém estava a dar o devido valor à extraordinária biblioteca recheada de tantos livros e todos — sem excepção! — em excelente estado de conservação. afinal. deparou-se-lhe uma visão que lhe iluminou as ideias e aqueceu o seu coração magoado: uma . E como podia alguém não ter tempo para ler. Então era aquilo o «tesouro» que vinha anuncia-do no convite que tinham recebido?! Seria. poderiam vir ao castelo requisitar gratuitamente os livros que desejassem ler. para verem livros. Porém. — E. passando a vida a ir receber os visitantes à porta do castelo e conduzindo-os aos lugares que o marquês queria que eles conhecessem. Naquele dia. Rudolfo não teve mãos a medir.

mesmo que vivas até aos cem anos. — Agora..... — Não?! — entristeceu-se a menina. Então. muito feliz. vestida com jardineiras e uma camisola cor-de-rosa estava sentada no segundo degrau da escadaria que dava acesso ao primeiro andar e tinha entre as mãos um livro. A menina de olhos verdes consultou então o seu relógio de pulso e compreendeu que era tarde. portanto poderei ajudar-te nas tuas escolhas. infelizmente. se preferires. são horas de voltares para tua casa.. mas li muitos e sei de que tratam os que ainda não li. Se eles estiverem de acordo. Afinal. concluiu: — Acho que é melhor vir ler aqui para o castelo. mas acho que sim. e dizse que os gatos têm sete! Não.. alguém se tinha interessado pela sua colecção de livros! E era uma menina que parecia saber bem o que queria! — Eu vou deixar-te ler. Já ando no terceiro ano! — Hum. de cabelo doirado. Iria ser sábia. — Posso voltar amanhã para acabar esta história? — perguntou ela. levantando-se com o livro na mão. Mas. Mas agora.. por exemplo: será que Deus ouve os trovões no lugar do Céu onde Ele vive? O marquês sorriu. Sabe. mas primeiro deverás falar com os teus pais. a menina de olhos verdes. E. tendo ele que tossir duas vezes para se fazer notar. este lugar é tão bonito!. que nem se apercebeu da presença do marquês.. fala comigo! — O senhor.. passarás a vir quando desejares! — E posso ler o que eu quiser? — Evidentemente. sim — disse ele. Se te deixarem. leva o livro contigo e devolves-mo quando já o tiveres lido — respondeu o marquês. depois. O marquês ficou contente ao ouvir estas palavras e disse: — O Rudolfo e eu teremos muito gosto em que venhas cá visitar--nos todos os dias.. respondeu à pergunta do marquês: — Ainda não sei se gosto de ler. que era o seu maior sonho desde que entrara para a escola! — Eu acho que vou ser uma grande cientista — disse ela. sem contar com os da escola. quero dizer.. Depois. Ainda por cima. já se foram embora e devem estar preocupados. é claro.... mas o que eu queria mesmo era saber voar. depois da escola. ouve-se sempre o barulho que vem da rua e da minha irmã a reclamar ou a pedir qualquer coisa. — Mas não será melhor ires ter com os teus pais? Se vieram contigo. . Toda a gente já se foi embora. — Adoro relâmpagos. Tão entretida estava a ler. gostava de acabar de ler a história — pediu a menina. o marquês foi despedir-se de Inês. Este é o primeiro livro que estou a ler. No terceiro ano. mas o que importa é que vais ter ocasião de ler muitos e mergulhares nas suas aventuras extraordinárias que farão de ti uma pessoa muito mais sábia e melhor! A menina ficou encantada. trovões e vulcões! Quero saber tudo o que há na terra... Em minha casa há sempre coisas para fazer e. já leu aqueles livros todos?! O marquês riu-se: — Para ler os livros todos da minha biblioteca precisaria de ter mais vidas do que os gatos. se precisares de algum conselho sobre os livros. no mar e no céu! Há tantas perguntas que quero fazer. ela ergueu o olhar para o dono do castelo que lhe perguntou: — Tu gostas de ler.. entregando o livro ao mordomo. eu tenho aulas de ballet e gosto de dançar. E que livro escolheste tu da minha biblioteca? — Este que tem uma capa bonita e um título de que gosto «A menina que voava». regressarás amanhã. — Não. não li os livros todos. também não vais ter tempo de os ler todos. — É claro. O marquês estava encantado. visivelmente contrariada por ter sido interrompida.. além disso.. A menina ficou a pensar uns instantes e. visto que tu. menina de olhos verdes?! — Chamo-me Inês — apressou-se ela a informar. apanhado em rabo-de-cavalo. se não se importa. Mas.menina de uns oito anos de idade. dizendo-lhe adeus da porta do castelo..

— Há muitos muitos anos.. mas devo avisar-te de que há uma condição para eu te contar a história. — Que condição é essa? — pergunto. Depois de ajeitar a almofada do sofá de veludo cor de mel. não era um conde nem um visconde.. E repito: — Prometo! — Mas será que vou mesmo conseguir não interromper? Eu tenho sempre tantas perguntas para fazer. Teresa recomeçou: — Era uma vez um marquês.. nem um duque. — Todas as histórias que conheço começam assim! — reclamo. — Não poderás interromper-me uma única vez! — Prometo — apresso-me a dizer.Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:33 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 3. para não perder tempo... — Muito bem. então recomeço de outra forma.. Não era um príncipe.. começo a ouvir Teresa contar a história deste castelo que vim conhecer. — Teresa olha para mim e percebe que estou a impacientar-me. Sim. ... confortavelmente instalada. um marquês.. A história do Castelo 3 Já no salão.

apesar de usar óculos. os escritores inventam palavras. para ter a certeza de que não vou interrompê-la. mesmo já adulto. vou ouvir com atenção até ao fim e depois conto-te tudo. Quanto a mim.. porque uns tinham viajado para terras distantes e outros. e ele só conseguia animar-se lendo ou relendo um dos seus livros favoritos. este marquês tinha milhares e milhares de livros guardados aqui mesmo. a voltar a pô-los como eles eram no momento em que acabaram de ser feitos. Sempre que descia a montanha para ir à cidade. prometo! . a lombada descolada ou com algumas páginas descosidas! Por esta razão. que foi o primeiro livro impresso no Mundo. o código de cada um deles indicava que se tratava de livros religiosos. livros! Alguém que possui milhares e milhares de livros. se dedicou ao trabalho de restaurar os livros mais gastos e em mau estado. sinto-o e estou desejosa de fazer perguntas.. E. Então. mas. já não nas estantes destinadas à poesia. neste momento. e devo dizer-te que nessa torre há apenas livros para crianças e para jovens. o jovem marquês mandou construir uma oficina aqui no castelo e foi lá que. porque. Tenho o pressentimento de que a primeira parte da história deste castelo já foi contada. Estes eram sempre colocados na torre número quatro. mas acabou por sofrer um acidente fatal. — As vezes. O marquês e sua mulher ficaram muito tristes. Aliás. o marquês e o mordomo iam até à oficina e era lá que o marquês se dedicava à tarefa de catalogar os livros que tinha trazido. ia visitar a livraria e procurava ver todas as novidades. ler ajuda a afastar a tristeza! Assim foi vivendo até ficar muito velhinho e já lhe custar ler. Naquela altura. E que. apenas o que lhe parecia interessante. com belíssimas ilustrações. já não tenho tanta certeza. o marquês não gostava muito de o ouvir.. olhando para mim. em cada ano que passava. à qual o marquês deu o nome de «Torre do Céu» e. a sua biblioteca ia ficando mais recheada com livros de todas as espécies e dos mais variados autores do mundo inteiro. Era um homem invulgar. tinham já partido para o Céu. por ser um homem muito forte. conseguia transportar uma pilha de livros debaixo de cada braço! Chegados ao castelo. como é fácil de ver. portanto este trabalho de catalogar os livros levava muito mais tempo. — Era um marquês biblionário — continua ela. mas. Não havia mais ninguém a não ser a cozinheira e essa. sabias? Esta fui eu que a inventei precisamente para descrever alguém muito rico em. ou melhor. onde ficaram até hoje. Começou a coleccionar livros ainda muito jovem. Também. o Marquês de Genciana. Tal como outros têm milhares e milhares de notas num banco. quem carregava os livros era Rudolfo. iria para a torre número um. se se tratasse de um romance de aventuras. iria para uma das estantes da torre número dois. como a mulher do marquês. a verdade é que. os escritores escreviam à máquina ou mesmo à mão. na realidade. A Bíblia. para que o livro fosse correctamente colocado numa das estantes. que o acompanhava para todo o lado e. mas. Edmundo. demorava muito mais tempo a ter um livro pronto para ir para as livrarias. com a capa em mau estado. Um livro de viagens também deveria ser guardado na torre número dois. nessa altura. o marquês chamava a «Torre Dourada». o mordomo do castelo. Resolvi manter-me em silêncio. Talvez esteja um pouco cansada ainda por causa do livro que acabou hoje de escrever. Gostava apenas das aulas de esgrima e tornou-se um atleta nessa modalidade. Mas. Se fosse um livro de poesia.Creio que está a pôr-me à prova. Exactamente! Este castelo foi a casa do marquês durante toda a sua vida. uma das primeiras coisas que aprendeu a fazer quando era jovem foi a restaurar livros. o único filho do marquês. voltava sempre cheio de livros novos. com apenas oito anos de idade. no seu castelo. aliás. naturalmente. O mordomo lia o melhor que sabia. Por exemplo. mesmo assim. bem como todos os livros sobre a vida de Jesus. de tal maneira que não podia ver nenhum maltratado.. claro está. ficava cansado. nem sabia ler. de que muito gostava. como sabes. à torre número quatro.. claro. mas nem por isso são em número inferior ao das outras torres do castelo. coitada. O castelo foi começando a ficar cada vez mais vazio de pessoas. Teresa calou-se. não havia computadores. a Marquesa de Genciana. E o seu amor pelos livros cresceu depressa. isto é. voltando ao nosso marquês. até ser muito velhinho. Assim. passou a pedir ao mordomo que lesse para ele. só o fazendo porque não via alternativa. portanto. Uma nuvem nublou-lhe os olhos. A parte mais interessante está a chegar. Infelizmente. não se interessava pelos livros nem pela escola. mais velhos. Ou talvez se tivesse lembrado de alguém querido que também já tenha partido. O que ele fazia era colar em cada um uma etiqueta com um código. mas... que recebeu o nome de «Torre das Asas». continuava a coleccionar livros de histórias para crianças. foi isso mesmo que prometi fazer. conhecida como a «Torre dos Arrepios». dos santos e dos anjos iam para a torre número três.. Não trazia tudo.

Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:28 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 2. Visita guiada 2 .

. uma baronesa. daqueles onde podemos afundar-nos e ficar a magicar ou. parando na enorme portaria onde já estive. outros de cores claras e outros ainda quase sem cor. Na verdade. uma duquesa. Comecemos pela primeira porta da direita. são muitas as histórias que poderia contar acerca deste castelo. nos livros.. Por mim. uma marquesa. sem conter a minha admiração. — Devem estar aqui mais de mil livros! — digo eu. que são todos diferentes. todos diferentes. acho óptimo! Gosto de me sentar confortavelmente num sofá bem fofo e macio.. à esquerda. alguns de cores escuras.. muito mais de mil... há estantes repletas de livros! Provavelmente. de cabeça voltada para o tecto. Mas senta-te.. aqui neste castelo a abarrotar de livros. Lá vou atrás dela. claro... — Quem comprou estes livros todos? — pergunto. Do nosso lado direito. nem uma duquesa. há um número idêntico de exemplares.. muitas centenas de livros. estava enganada. Percebo que estamos dentro de uma das quatro torres do castelo.. uma condessa. Não é uma rainha. A anfitriã sorriu. quero dizer. nem sequer uma baronesa. lá ao fundo.. Vem comigo. Teresa voltou a sorrir. A terceira e a quarta torres têm o aspecto das anteriores e também estão a abarrotar de livros até ao cimo. antes de começar a contar a história. Lá vamos então.. mas certamente saberá contar histórias. Uns grossos. — Ora isso já faz parte da história que quero contar-te — disse Teresa. Confesso que fiquei um pouco decepcionada por não estar antes a seguir uma rainha. outras duas. acompanhando a escadaria mesmo até ao cimo. — Enfim. Pelos vistos. mas acho que vou escolher a que é para mim mais interessante. Espero que a subida da montanha não tenha sido demasiado cansativa. digamos que é uma história que requer que nos sentemos confortavelmente.... no meio de um espaço quadrangular. — Estou a ver que a história é longa — ponho-me a adivinhar. porque é esse o seu trabalho. mal ela é aberta. Podes seguir-me. E sugeriu: — Vamos agora regressar ao salão. — E acrescento.. Teresa explica-me: — Em cada uma das três torres restantes. fora de uma biblioteca daquelas que existem nas grandes cidades. porque. a ouvir uma história. outros fininhos. — Não sabia que era costume haver tantos livros num castelo. Conforme me foi dito. a forma como vive. Estou desejosa de ouvir Teresa. tenho de mostrar algo de que ninguém parece estar à espera.. enfim. Suponho que queres saber a história deste lugar. — Mas os que estamos a ver não são os únicos livros que há neste castelo! — Não?! Estou cada vez mais surpreendida. Mas o que é verdadeiramente extraordinário é que.. excepto.. — Todos diferentes?! — Sim. estão duas portas e... — Espantoso! Vamos agora ver as outras torres? A actual dona do castelo concorda com um gesto de cabeça. Eu sou Teresa. sim. que vou já sentar-me ao teu lado. a segunda torre é semelhante em tudo à primeira. sem parar de observar aquelas estantes que sobem do chão até ao cimo da altíssima torre cheia de livros: — Não fazia ideia de que poderia haver mais de mil livros numa só casa. Encaminhamo-nos para a porta indicada e. Não sabia que podia haver tantos livros juntos. a nova dona deste castelo. nos tempos que correm. — Como vês — começou ela —.— Que prazer receber uma visita! Já é raro. porque é onde se encontram os sofás mais confortáveis. depara-se-nos uma enorme escadaria em caracol. há uma escadaria.. — Oh...

Sempre tive muita curiosidade em conhecer um castelo habitado. e quatro torres que quase chegam ao céu. interessam-me muito menos. ao ficar magicamente coberta de flores pequenas e azuladas — gencianas e campainhas. porque os outros. muitas histórias para contar.. há um castelo com um portão de madeira e ferro. é preciso escalar a montanha. Lá vou eu! Olhando à direita e à esquerda vejo como são mesmo azuis as res que cobrem a terra! Acho que nunca tinha caminhado entre flores assim tão bonitas! Não é à toa que chamam a esta montanha a Montanha Azul! . Lá no cimo. Primeiro. segredos. E o Castelo da Montanha Azul. Quem o olhe aqui debaixo.Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:22 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 1 A Montanha Azul Começo por te falar de uma montanha que ganha nova cor em cada Primavera. É Primavera! A montanha está azul como os olhos dos anjos. sim. É isso mesmo que eu vou fazer. apenas verá um castelo de pedra. o que não é tarefa fácil. mas tenho o pressentimento de que vai valer a pena. Tu podes seguir a minha trajectória. parecido com outros. cheio de mistérios.... se quiseres fazer-me companhia nesta aventura.. enigmas e muitas. Chegou o mês de Maio. Acho que se pode ir bater ao portão do castelo e esperar que nos abram a porta... Porém. quem nele se atrever a entrar encontrará um mundo fantástico. aqueles em que já ninguém mora.. do vale. Já decidi: vou ao castelo.

em frente do portão.. que este ar é muito mais puro do que aquele que respiramos lá em baixo.. que a meta é mais acima.. embora um pouco cansada. senão ainda posso ficar com tonturas. finalmente. porque parece contente. Maria Teresa Maia Gonzalez. Pede-me delicadamente que espere no salão. E só um portão muito velho.. Tão perto estou já do castelo que quase parece que vou chegar ao céu! Como é alta esta montanha! O melhor é não olhar para o lugar de onde vim. E. sentada à escrivaninha. Compreendo perfeitamente. em frente de um computador. certamente.. E muito maior do que parecia lá debaixo! Que estranho. Cheguei! Cá estou.. Na primeira sala à direita está alguém. Escrever um livro deve ser muito interessante. Deve ter acabado de escrever um livro. Assim farei. está aberto! Vamos entrar? Também ouviste ranger.. aí onde te encontras? Não te assustes. a precisar de um pouco de óleo nas dobradiças. na cidade. Escuta!.. já que tudo leva a crer que mora aqui. mas também é capaz de cansar um bocado. apesar de tão antigo e gasto! Está mesmo muito gasto! Quantos pés não devem ter já pisado este chão!.. A escritora precisa de ir descansar antes de falar comigo..Ah! Dá mesmo vontade de respirar fundo... in O Castelo dos Livros Publicada por Helena em 7:18 Etiquetas: Maria Teresa Maia Gonzalez: O Castelo dos Livros 19/NOV/2008 O Conto das três maçazinhas de oiro . Parece-me que ouço o ruído de dedos num teclado.. Nem se pode comparar! E melhor continuar a subida. já calculava: é uma escritora. Vou aproximar-me! Ah-ha. Vê só que portaria enorme! E como é bonito este chão de pedra. enquanto ela vai repousar um pouco. a pessoa indicada para falar deste castelo..

e mostrou-lhes as três maçãzinhas. que logo em seguida se foi embora. e ganhe para o seu sustento. morto por dar ao pai as três maçãzinhas. Chamou depois o seguinte em idade. e muito crentes que o seu crime se não saberia. e diz-lhe que é para te sustentar com elas. – mas qual não foi o espanto deles. que é a soldada.. mas nenhum deles disse palavra.Era uma vez um pai que tinha sete filhos. os dois desapareceram no ar. Como não tinha com que os manter. e deu-lhe as maçãzinhas do ajuste. e no fim dou-tos três maçãzinhas de oiro. que se voltou para ele e disse-lhe assim: – Menino. Saíram os rapazes. Mas não as dês senão ao teu pai. O pequeno pôs-se a chorar. e como o irmão não queria dar as maçãs. que nascia onde o pequeno estava enterrado! Cortou-a e fez uma flauta. qual queres mais: se o meu pão se a minha bênção. e às vezes sentava-se debaixo de uma árvore. o que me der! – Bem. Veio depois o mais novinho. e esse respondeu também que mais queria o pão. e por isso é preciso que cada um de vós vá tratar da vida. e cada um tomou por caminho diferente. e quando já ia perto de casa. – Sim senhora. um pastor passa por ali. Até que à boca da noite encontrou uma mulher muito bonita. ou um bocado de pão para o caminho? – Mais quero o pão – respondeu o filho mais velho. Os irmãos ficaram cegos com o brilho do oiro. filho. – Tão pequenino?! Ele então contou-lhe o que se tinha passado com o pai mais com os outros irmãos. Toma. e fez-lhe a mesma pergunta. e punha-se a chorar já muito cansado. encontrou dois que já tinham voltado. Queres? – Quero. o pastor põe-na à boca. filho. sim senhora. ouviste? O pequeno foi-se logo embora muito contente. porque nem idade tinha para se governar. e foram-se para casa depois de o enterrar. À vista disto. qual queres mais: a minha bênção. O pai partiu uma fatia de pão e deu-a ao filho. assim como uma nuvem de fogo! – O pequeno nem tinha desconfiado. eu não tenho que vos dar. Os três puseram-se então a conversar. ou de algum amo para se apreitar. Quem me dera! – respondeu logo o rapazinho. e a flauta impeça a dizer: . E o pequeno foi algum tempo detrás da ama. e respondeu que mais queria a bênção. para que fossem procurar vida. que se foi embora sempre a chorar. – e o pai deitou a bênção ao filho mais novo. e responderam o mesmo os outros todos até ao sexto. que haviam de chegar para ele e para os outros irmãos. mas a ama era Nossa Senhora. O mais pequeno. e disse-lhes assim: – Filhos. à procura de trabalho. e nem sequer trabalho. quero. Mas vai senão quando. Mas daí a mês pouco mais. e a aparecida disse-lhe assim: – Queres tu justar-te comigo?. – Mas vai senão quando. – E então quanto queres ganhar? – Eu. mas por sinal ambos muito pobres. e vê uma cana muito viçosa e muito bonita. e o pai que as repartisse por todos como quisesse. porque ninguém o tinha presenciado. quando viram que nem mesmo depois de morto arrancavam as maçãzinhas da mão do irmão?! Os dois resolveram então enterrar o pequeno. então estamos justos! Mas olha lá que tens de me servir sete anos. Chamou-os então. à boamente. e no fim a ama mandouo embora. Quando chegou a hora da partida.. mais aos teus irmãos. porque eu já estou muito velho e não posso mais. Mas ele respondeu que só as dava ao pai. lembrou-se de os despedir todos por esse mundo fora. – Toma! Dá-as a teu pai. e disse-lhe o pai as mesmas palavras: – Vê lá. tu onde vais? – A ganhar a vida – respondeu o pequeno. esse a bem dizer nem sabia aonde ia. – A ver se encontro um amo para me apreitar. e o mais novo contou aos irmãos a boa ama que tinha encontrado. logo ali resolveram matá-lo e tirar-lhas depois. que tinha só sete anos. o pai chamou o mais velho e disse-lhe assim: – Vê lá. nem trabalho para lhes dar. que eram três. e logo ali rogaram muito ao mais pequeno que lhes desse a cada um sua maçãzinha. Os rapazes ficaram todos muito pensativos. Por lá andou o pequeno sete anos. que lhe pareceram a ele só sete dias. e se bem o pensaram melhor o fizeram.

toca. O pai parece que o coração lhe adivinhou. e logo ali contou o que tinha acontecido e mostrou-lhe a flauta. que era um dos dois que já tinham voltado. Que meus irmãos me mataram. P’r amor de três maçãzinhas E ao cabo não nas levaram. Que tu mesmo me mataste. abriu a mão e largou-as logo. e ela começa logo: Toca. precisavam saber qual era o morto. carvoeiro. O carvoeiro. na boa fé. Que meus irmãos me mataram. não foram capazes de lhe tirar as maçãs. levados à presença do cadáver. Viu-se então que se tratava de um grande milagre. e foi-se dali onde a um carvoeiro. Levou a flauta o carvoeiro. no meio de uma nuvem de fogo! Logo em seguida a terra abriu-se e engoliu os dois irmãos! Trindade Coelho. A este tempo entrava na forja o pai do morto. Ficou o carvoeiro que nem sabia donde era! E como estava de caminho para ir para a aldeia. O pastor ficou muito aterrado com o sucedido. ó meu pai. Os meus amores Publicada por Helena em 5:30 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 15/NOV/2008 Miura . Mal o ferreiro a pôs à boca. Nessa ocasião entrava na frágua um dos filhos do velho. toca. P’r amor de três maçãzinhas. toca. Que meus irmãos me mataram. O velho pôs-se muito branco. e a flauta tinha a virtude de falar. e que trazia carvão para aguçar umas ferramentas. mal o rapaz entra na forja. porque. e cava-que-cava mesmo no sítio. Que meus irmãos me mataram. mas mal que o pai lhe tocou. Por três maçãzinhas d’oiro E ao cabo não nas levaram. e contou-lhe o caso. P’r amor de três maçãzinhas E ao cabo não nas levaram. ó pastor. e a primeira casa onde entrou foi a do ferreiro. que ficou também muito admirado quando lhe contaram o que dizia a flauta! Pega também nela o pobre do velho e põe-se a soprar. dá-lhe a flauta para que a tocasse: – Toma! Toca essa flauta! Leva o rapaz a flauta à boca. e a flauta diz logo assim: Toca. a ver se lá plo povo adivinhavam aquilo. a flauta começou logo: Toca. Foram-se então dali onde ao pastor.Toca. ó ferreiro. toca. que os levou onde tinha cortado a cana. e a flauta que entra logo a dizer: Toca. pega na flauta e põe-se a soprar. E ao cabo não nas levaram. não tardou que aparecesse o corpo do pequeno. e numa das mãos as três maçãzinhas! Por mais que alguns fizeram. pediu ao pastor que lha emprestasse. P'r amor de três maçãzinhas Que ao cabo não nas levaste! O rapaz ficou muito aterrado. inda mais espantado. meu irmão. e. e acudiu-lhe logo que as palavras da flauta diziam respeito à sua família. Mas como os filhos do velho eram sete e só dois é que tinham voltado. e viu-se-lhe logo na cara o sinal do crime. toca. que andava no monte a fazer carvão. os dois irmãos confessaram o que se tinha passado – e logo ali apareceu a Virgem Santíssima e arrebatou para o céu o corpo do pequeno.

à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural. num desespero de Sansão.. tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. Miura. Assobios. Estava.. encurralado. um toiro nado e criado na lezíria ribatejana. desesperante. O corpo. . Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. O Malhado dava gozo às senhorias. Sem querer. fresco. O ilimitado redil das noites luarentas. sedenta. a sua vez? Não chegara.... passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco.Fez um esforço. Estremeceu.. Nada. Novamente o silêncio... uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo.. ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais.. Um som fino de corneta.. a ruminar o tempo. de gaiola como um passarinho. loiro de sol e trigo. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria. enfim. Os muros eram resistentes.. à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Começou a ouvir-se. A planície. Embora ardesse numa chama de fúria. calou a praça e rarefez o curro. Ele. os homens. inchado de raiva. ele. Um toque estranho. Depois. com água limpa a espelhar os olhos. A planície.. condenado a divertir a multidão! Irreprimível. triste.. empurrou as paredes do cubículo. limpas... sedante. Foi a porta da esquerda que se abriu. Palmas e música lá fora. e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. A fornalha escaldante... com bocas mudas. que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. ao lado. Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.. O bebedoiro da Terra-Velha. só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado. o rei da campina! A multidão calou-se.. impedido de dar um passo. pois. O descampado infinito. Seria agora? Teria chegado. A planície!. o som grosso e pacífico das chocas. nostálgico. Dali a nada. O Bronco não fazia bem o papel. cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere.

onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Subitamente. não podia nada. escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. o manequim de lantejoulas caminhava sempre. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. À suprema humilhação de estar ali. juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Os cornos ávidos. para se atrever assim a transpor a barreira? A figura franzina avançou. Urinou sem querer. nas mãos amarelas. a nuvem vermelha apareceu. abrasado de não sabia que lume. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. deram em cor. com ar de troça. Algum tempo depois. Que força traria no rosto mirrado. Mais palmas ao dançarino. angustiados. Desgraçadamente. ei-lo. estava na arena. quase de voo. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria. Parou. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Todo inteiro a escutar o dobre a finados. Que seria? Palmas. e arqueou-se. porém. um tipo magro. deramlhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Infelizmente. Com ar de quem joga a vida. Nova picada no lombo. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Não. de cólera e de angústia. Admirado. Um largo espaço assim.Eh! boi! Eh! toiro! Tinha de ser. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. um rumor de tranca que cede. entrou no redondel. Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Agora! De novo. . Um tapume redondo e. veio vindo. Cego daquele ludíbrio. o fantasma. Olhava-a sem pestanejar. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante. a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. olhou à volta. senhor de si. . Inteiramente confiado. Mas o homem que visou. sem acabar. E. Apertou-se-lhe o coração. tornou a avançar. Era preciso ver calmamente. enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou: . música. cheio de lealdade. Pronto! A tremer como varas verdes. num ímpeto. Tal e qual. quando Miura o tinha já à distância dum arranco. gente. Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. e uma ferroada fina. Pequenino. Esperou. doirado. até lhe não poder sair do domínio dos chifres. Silêncio. uma fresta que se alargou. que atacou de frente. inesperadamente transfigurouse na confusão de uma nuvem vermelha. novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. .Miura! Cornudo! Dum salto todo muscular. veio vindo. Gritos da multidão. gente. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. olímpica e ansiosamente. Olhou-o a frio. funda. O espectro doirado lá estava sempre. Cerrou os dentes. que aparecia e desaparecia no mesmo instante.Eh! boi! Eh! toiro! A multidão dava palmas. Assim nada o poderia salvar. com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. do lado de lá. entrou-lhe na carne viva. gritos. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia.Rápida e vaga. olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo. abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão.

agora pequena e triangular. O homem! Mas o inimigo não desistia. tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole. agora com as patas e com os galhos. espetou os chifres na tábua dura. por isso. fugia-lhe por artes infernais. Talvez para exaltar a própria vaidade. que trazia também a nuvem. Depois. fundas. o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Então?! Como não recebeu qualquer resposta. e lá saltava na arena outro farsante doirado. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos. desceu solitário à consciência do seu martírio. joguete nas mãos dum zé-ninguém! Num ímpeto. gritos. Esperou. sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento. Não trouxesse ele o pano mágico. O corpo fino do toureiro. entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume. lançou-se-lhe à figura. Nada. em algodão. Protestos da assistência. com quanta alma pôde. avançou quatro vezes. num domínio perfeito de si. quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço. porém. Apesar disso. tornou a escarvar o chão. disposto a tudo. como sempre. aparentava dar-lhe mais oportunidades. a apontar dois pequenos paus coloridos. as duas farpas que erguia nas mãos. caiu sobre ele. Desesperado. Humilhado. morria. como sempre na miragem enganadora. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. E. relanceou a vista pela plateia. Voltou à carga. Mas quê! Como um gamo. e a gritar como há pouco: . urinou e roncou. avançou. o miserável saltava a vedação. que arquejava ainda do outro lado. Se vinha sem a capa enfeitiçada. em direcção à barriga do fugitivo. com o sangue a ferver-lhe nas veias. Calmamente. Miura fitou-a bem. Miguel Torga. Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão. Iludido. Apenas palmas ao actor. sem dar tempo ao inimigo. Mas era um novo palhaço. Desesperado. Avançou e bateu.Palmas. e veríamos! Não trazia. quase sem tino e a saber que era em vão que avançava. outra vez. escarvou a areia mais uma vez. Deu. num sofrimento sem limites. Lá levavam o moribundo em braços. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço. Mas o outro estava escudado. Parou. Quem seria? Voltou-se. avançou. Avançou de novo. Quê?! Pois poderia morrer ali. Miura. Os Bichos Publicada por Helena em 5:54 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos 14/NOV/2008 O coelho de jade . Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. a lâmina oferecia-se inteira.Eh! toiro! Eh! boi! Sem lhe dar tempo. Mesmo assim. Renovou a investida. Lá vinha todo empertigado. dolorosas. no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada.

nesse tempo. Bastava-lhe ser lebre sem mais quê. Pois. Ela. até.Contaram-me que. desta lebre da nossa história. Olhem uma andorinha implume. a espernear de aflição. o apelo do gavião. Era o caso da lebre. A força do ânimo e do bem-fazer. o que tudo sabe porque escuta o coração dos seres e interpreta a notícia dos ventos.repunha-a no conchego da asa materna.virava-o para a terra. recusava a honra. As cigarras zuniam ao calor da tarde. Como tinha de benefício a rapidez. o quei-xume do caracol ou o pausado discorrer dos tigres. E alguns. coberta de modéstia. recurso dos aflitos. de língua encortiçada e pendente. lá muito atrás de todos os séculos conhecidos. Olhem a abelha trémula.despegava-os da contenda e punha-os a balir a mesma canção de amizade. desceu o declive da colina que a lebre habitava. ambulatória. pela abundância das suas virtudes. era uma lebre esmoler e piedosa. Mas isso provinha da velocidade com que nascera para a vida. caída do ninho. Quis conhecê-la. Sozinho e cansado da jornada. Lebre assim. Olhem um cágado de carapaça voltada. Exemplo semelhante não se encontra em parte alguma. Vinha a lebre e zumba! . Buda estendeu-se à sombra de um penedo. Olhem dois carneiros de chifres encavalitados um no outro. com discursos de fugida e actos de raspão. é raridade. houve um tempo de maravilha em que os homens entendiam a fala dos bichos. quando e como os homens ensurdeceram às outras vozes da terra não sei. só entregue ao socorro alheio. Bichinho lesto. apanhada pelo caminho da noite. De uma vez em que andava por perto em visita aos seus discípulos. os outros animais gratamente lhe davam o título de princesa. nos romances de cavalaria e não em todos. pelo menos. todos os seres animados se entendiam. Só sei que foi pena. Vinha a lebre e zumba! carregava com ele até à beira do riacho. Olhem um cachorro sequioso. acorria com palavras de estímulo e amparo onde fosse preciso. Aos pés da colina encurvava-se o rio. assistente dos fracos. cansados de uma luta de que já nem sabiam o porquê.soprava-a para o cortiço. ouviu o que de bom se contava da lebre. senão. . Não senhor. aos saltos pelo mato. Mas não a julguem lebre pregadora. Que ela tinha muita força. Quando e como deixaram de perceber o sussurro das formigas. produzia numa hora mais acções boas do que outros conseguem juntar num ano. que os bichos do sítio supunham o único do mundo ou. Buda. por outras épocas e sítios. Vinha a lebre e zumba! . Como se percebe. alcançavam o respeito dos demais. Vinha a lebre e zumba! . Nela não havia fingimento. Vinha a lebre e zumba! . o mais belo de todos. na hora de semicerrar os olhos ao sol do meio-dia.

Está muito fraco. recordando o feito da lebre. . encaminhou-se para a fogueira. De curtas patas dianteiras e longuíssimas patas posteriores. sacerdote mendigo. Mais eis que.Quem acordou o fogo? . sob aquele disfarce. a lebre ou o coelho tritura. a lontra filou uma cobra. estendendo os braços..Não tenho o direito de sacrificar ao meu gesto os parasitas que me povoam o pêlo. Há muitas histórias de Buda que contam destes feitos. Se morrer. Via-se que aquele brâmane há muito que não conhecia abrigo nem pão. Mas nem mesmo depois de cozinhados o brâmane os quis.Como veio aqui ter? . a lebre ia lançar-se à fogueira. Tenham piedade de mim .Que tudo torne ao que era: o fogo em tronco seco e a bondade ao seu corpo vivo. Assim se fez.Estava a dormir na minha toca. a lebre. . E começou a catar-se..Confortado com o que vira. Trouxeram tudo de presente ao brâmane. Buda adormeceu. Tenham piedade de mim . para surpresa deles. magicamente desperto da sua prostração. o brâmane não tocou em nada.Faça-se um fogo para assar o peixe. Confrangia. quando o ouvi.Algum voto o proíbe de comer peixe.Piedade. era de Buda que se aproximavam. acordar ainda com as vestes e as configurações do sonho. ao grupo se juntou a lebre. num impulso. Conta ainda a lenda que os magos tauístas. a lebre debruçou-se sobre o brâmane. um dos bichos. Os restantes bichos recuaram. Descalço e esfarrapado pêlos espinheiros. O rato em direcção ao bosque. atraída pelo lume da fogueira. A lontra em direcção aos seixos da margem. a garça pescou um peixe. Mas. Sugeriu não sei qual: . . erguendo os braços.. retomando as forças de Buda. como se as chamas fossem um lago.suplicava o brâmane. .. Os animais correram para a lebre num alvoroço de alegria.suplicava o brâmane. . a imortalizaram numa imagem que ficou conhecida por «O coelho de jade». Ele que escolhesse.pensou. Levantando as pedras molhadas da beira-rio.Piedade. O coitado não dura muito. Então os bichos correram cada qual para seu lado. Todos achavam o mesmo. Os seus companheiros de colina estavam paralisados de espanto. Explicaram-lhe o sucedido e apontaram-lhe o brâmane moribundo.. à beira de muitos caminhos.suplicava o brâmane. o brâmane causava pena. para despelar a cobra. o brâmane. pendendo os braços. Piedade. num almofariz. sabiamente. remédio miraculoso contra todos os males. Precisa de comer carne de caça fresca para se salvar .. em voz alta. saltou para o meio delas. . para estalar os frutos..Piedade. .Carne de caça fresca é a da lebre. os animais da colina iam-se chegando ao brâmane desolado.sentenciou. Esvoaçando sobre as águas. Acon-tecia-lhe no sono transmutar-se noutro e. Quererá ele provar da minha? Perante o pânico da lontra. Compadecida.perguntou o rato de água aos bichos da vizinhança. Estavam desolados. Logo ali se aplacou o fogo. o rato colheu frutos silvestres. sem uma hesitação nos passos. da garça e do rato. quando se deteve: . será de fome suspeitou a lontra. . Tanta generosidade nunca se vira. E nós vamos deixar? perfilou-se a garça. exclamou. Vasculhando pelas ramagens. Depois de ter limpo de si todos os parasitas. o «Elixir de jade». Nesse mesmo instante. Não podiam adivinhar que. E.. fruta. O brâmane também a fitava com estranha atenção. A lebre fitou-os. A garça pernalta em direcção ao rio. . Tenham piedade de mim suplicou. de braços erguidos para o céu: . depois. levantou-se e. que desfalecia. Devagarinho. E eles não sabiam como valer-lhe. Já as chamas rente a ela a cobiçavam. Diante deles o desgraçado definhava. movida pela preocupação de acudir e abafar os excessos da Natureza.perguntou ela.. Ele que comesse. Agora pasmem com o que lhe ocorreu: .. . Tenham piedade de mim . ora um ora outro. Daquela vez acordou transformado em brâmane.

atente nos dois primeiros parágrafos.Entretanto. Quem.. pesquisar a Lua com olhos indagadores há-de divisarlhe a silhueta debruçada sobre o almofariz. Talvez uns grãos de pó. uns minúsculos grãos de pó se derramem do almofariz e caiam sobre a Terra. a lebre incansável. «as montanhas francesas». por desenfado. Após a leitura do conto «O Lobo». Seria bom. um Inverno rigoroso e inóspito. e no espaço. Certamente. Indique as principais vítimas das intempéries. . de Hermann Hesse.. em noites luarentas. constatou que o narrador nos localiza no tempo da acção. É ela. que trabalha. já Buda ordenara que à estóica lebre fosse concedido o panteão lunar. António Torrado Publicada por Helena em 4:04 Etiquetas: António Torrado 6/NOV/2008 O Lobo Leitura Orientada 1. naquele espaço.

1. 1.1. Que concluis quanto às possibilidades de existência real desse espaço? 2.. Identifique-o.2.2. nos cristais de neve e nos olhos mortiços do lobo abatido. Sublinha no texto as frases que situam a acção no tempo e no espaço.2. Delimite.1. 2.1. Escreva um breve texto. Se preferir." 2. percepcionamos. Explique. 3. Contudo.2. é possível. um segmento descritivo e um segmento narrativo. 6. Quer então esta frase dizer que este é um mundo onde: -coisas de diferentes épocas se podem passar ao mesmo tempo D -se pode viajar para o passado e para o futuro D -se pode antecipar o futuro D -num determinado momento se podem juntar . Decifre a possível simbologia da alcateia. Explique a atitude das pessoas quando sentiram a presença do trio de «intrusos» na sua região. Cada história tem as suas personagens.1. por palavras suas.2. 1. escreva o diálogo entre a alcateia faminta e desprotegida. 2. 3. . 8. os pensamentos e sentimentos que dominam homens e animais. cuja fraca luz se quebrava nos canos das espingardas.1.1. há um grupo de animais que decide emigrar. 2. 3. 2. o segmento textual transcrito.» 4. Esclareça a situação que originou o massacre dos animais. 4. 4. Imagine um possível diálogo entre os camponeses que perseguiram o lobo. que evidenciem o sofrimento do lobo. 7.1.1. Descreva o grupo que se dirigiu para o Jura suíço.1.1.3. AS PERSONAGENS 1.2. Identifique dois recursos estilísticos presentes no excerto. de cinquenta a sessenta palavras. secundárias e figurantes. presente e até futuro. O que significa a palavra coexistência? 2. no conto. Releia os dois Transcreva excertos do texto Esclareça a oposição entre a últimos parágrafos do texto.4. nem no brilho do planalto. "É um mundo onde uma certa -(.1.) -coexistência de passado. dor do animal e o júbilo das pessoas. Publicada por Helena em 15:52 Etiquetas: Fichas. nesta breve história.2. no qual apresente a sua impressão sobre o conto «O Lobo». «Ninguém reparou na beleza da floresta coberta de neve. 5. nem na Lua vermelha pendurada por cima do Chasseral. Face ao clima inóspito. 2. Indique as marcas linguísticas que lhe permitiram concluir que se encontra perante uma pausa na acção ou face a um momento em que a acção progride. O TEMPO / O ESPAÇO 2. Aplica o mesmo modelo às histórias em que os narradores são também personagens. 2. Herman Hesse 29/OUT/2008 Os Parâmetros da Vida Leitura orientada A compreensão do texto 1.2. Considerando a classificação de personagens em principais. O narrador não reproduz o discurso das personagens através do discurso directo. 6.1.2. 7. classifica as personagens da história do ladrão.

silva-macha e alecrim.3. chegou-se à Isaura. as entradas respectivas de cada tipo de narrador através do pronome pessoal que o identifica. Três anos! A moça ficou varada.. Vais anotar.1. há rãs. viu. pois.1. A HISTÓRIA 3. mouca como um soco. Na leitura que fizeste apercebeste-te que estás diante de várias histórias que de algum modo se ligam entre si. Cucu. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. que há vários narradores: narrador ausente e dois narradores presentes. Que histórias? Quem as conta? 4. O NARRADOR 4. no silêncio da tarde serena. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas.> 3. rijo e comprido... E o cuco.. De parada. o melro. desesperada: . em que pessoa te aparece a maior parte dos verbos? 4..Cucu. na margem do texto.Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar.gem (ou personagens) que ela representa.. cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? A rapariga era toda ela de se comer. maroto.Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem. na sebe de marmeleiros. vive Farrusco. a alcoviteira. Que significava. Sabe-se isso desde que. semelhante demora? Aflita. 4. Compara a maneira de contar do narrador ausente e a do(s) narradore(s) presente(s) quanto à objectividade ou subjectividade das respectivas narrações. e respondeu: . a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente: . olhou de lá. . Mas à volta. E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. apercebeste-te. e gritou-lhe aos ouvidos.pessoas (Escolhe do a passado resposta que e consideres do mais futuro D adequada.. 4.Cuco do Minho. Que verificaste? 4.2.1. Publicada por Helena em 11:35 Etiquetas: Fichas. Quando a narração é feita por um narrador ausente. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. Cucu.1. Faz agora corresponder o pronome pessoal que indica o narrador presente à persona.1. 4. em certo entardecer de Agosto.. como se alguém rasgasse um pano cru. que a seu lado sachava milho.3.1. E quando o narrador é presente? 4. . com certeza. Maria Isabel Barreno Farrusco Dentro da poça do Lenteiro. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias. a natureza animou-se. .Ouvirias mal!. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço.2. Nada mais do que isso. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente.4. que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Pela leitura do texto. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. e prometera levá-la à igreja logo a seguir.

as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. apelou da sentença: . esclareço ainda uma outra coisa: parecerá estranha. comprometida. e quanta arraia miúda tinha fala.. um rapaz triste. tia Isaura! Até um melro se riu!. saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão. se há pouco fora cruel. A seu lado. Pôs os olhos em si. honesta. Cucu. esses diabos. . novamente solidário com os direitos da moça. e rir de novo. não lhe consentia luxos de noitadas. Depois continuou tudo a cantar.Cucu. quero hoje contar-vos a história dum rapaz cuja linha de sobrevivência era estrita e rigorosa. Sim.. desta vez requintou.. as cegarregas. arrastada pela onda de harmonia. imaginárias. cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? O que foste fazer! O malandro do pitoniso. sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. naquele instante. esta história. sonolenta do calor do dia. Cucu. Uma Linha Maginot. que a rapariga ganhou ânimo. que tinha garantido o noivado a curto prazo.. Clara. confiante. falava.. Às rãs. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro. deitado na cama dura. se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco. Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. A vida homenageava a vida. eu. no ar de coisa sã que toda ela ressumava. velho contador de histórias e que disso fiz profissão. sadia. os descuidados -outros sentemse apertados dentro de muralhas asfixiantes. pressurosos. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. os ralos.. mas com um sabor antigo nos seus pormenores.. passando.. um ângulo de alguns graus inflectido. num amuo justificado. e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. juntou a sua alegria à alegria do melro. a passarada. era um orfeão aberto. a que chamais vosso.. e sorriu.. acordou. que enchia o mundo de confiança. porque ela nunca nos deixa a nós e voltando ao tema que me propus. Para uns essa linha parece longínqua. falava. ou porque o mundo. É um mundo onde uma certa -mas não total -coexistência de . Miguel Torga.. deixou correr as horas. prometedora. A vida que lhe ensinara a mãe. por isso. ainda o sol vinha lá para Galegos.. os grilos. as nossas linhas de sobrevivência são. os saudáveis. Discordância de tal maneira fresca. situada no presente. ela teve sua plena realidade e acontecer num mundo ligeiramente lateral àquele que conheceis: um mundo que faz com este. já ele tinha de estar de perna à vela. E. Cucu. e Farrusco ia fechando docemente os olhos. que tão factual e foneticamente se revelou imaginária. Pela manhã. Antes de me adiantar. cósmico e fraterno. Acontece que ela não se passou neste mundo. que partiu da verdura do milhão. na força criadora das margaridas abonadas. Chamadas por aquela volatina. Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu. em boa parte.A própria terra. . . Soltou então também uma risada cristalina.O estafermo do cuco.a morte. foi preciso que Farrusco. poderemos figurar esta questão como uma linha militar de defesas contra o inimigo . A esta. Ou vice-versa. o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu. passou pelas penas luzidias de Farrusco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. Ou de propósito. Os Bichos Publicada por Helena em 5:53 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos 26/OUT/2008 Os parâmetros da vida A linha da rotina diária necessária à sobrevivência instala-se. juntaram-se logo. a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. muito pelo contrário. quase perdida no horizonte dum grande espaço cheio de liberdade e de caprichosos ricos. Assim pensava ele e era. Um coro imenso. Depois. pronto para comer a bicharada da veiga. espartana. Ele não está separado deste agora em que vos falo. pelo menos tal como o conhecem.Riem-se de tudo. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana.Cuco do Minho. a Isaura. Desapontada. por certos eixos e fortificações. e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Deixando a imaginação -por agora. Sim. simples.

O pano negro era o espaço que separava quem falava e quem escutava. Como poderia ele. dias e dias. Não necessariamente pior. Mais do que indignados. Para não ser demasiado pomposo direi que o pano rectangular era o necessário ritual. perseguindo o ladrão. julgando responder inteiramente ao seu apelo com essa esmola para a voz que ouvem com mais ou menos atenção. desistindo de opiniões próprias. que conseguiu rastejar penosamente ao longo da ravina. os meus pais . muita gente se atardava. tive uma infância feliz. Ainda perplexo. com o olhar das pessoas. pensando nas vantagens imediatas: cama e comida garantidas. coxeando. o coxo ladrão aceitou os acontecimentos. vazio intermédio. o rectângulo destinava-se à recolha de moedas. Mas com o andar do tempo foi acreditando no significado da sua própria presença ali. A vida dum coxo não é igual à de quem tem duas pernas sãs. Decidiram que era impossível procurar o ladrão naquela ravina quase a pique. O que parece uma desgraça. ajudando todos os que querem fugir do mal. mas ninguém viu tal víbora ou seu rasto. Caiu do cavalo. disse aos filhos: aceitem os vossos destinos. sempre assim aconteceu com as minhas histórias. que o tornou seu ajudante. junto à fonte. herdou o negócio do sogro. um rectângulo nem muito pequeno nem muito grande. não sendo ricos. Poderia ser branco. O cavalo empinou-se. O ladrão aceitou tudo isto. Ainda adolescente. Estas julgam geralmente que o pano preto apenas se destina a recolher as moedas e assim fixam o seu olhar naquele rectângulo. perguntou o que se passava. o ladrão caíu e resvalou quase até ao fundo do precipício. empestando os caminhos daquela região. contando o dinheiro. pretender desmentir o que fora predito e acontecera? Como várias outras pessoas de similar experiência. responderam-lhe.passado. quando uma noite fugia. prisão improvisada. raízes e até de caules lenhosos. Reconhecemos-te. decidiram que certamente ele tinha morrido. O ladrão saiu do desfiladeiro. como sempre faço. Eu chamei-lhe velho idiota e afastei-me. perseguido por homens indignados. Pois conheci esse rapaz num dia igual a muitos outros. Uma víbora. planeando. também. tão querido e tão absolutamente limitado. embrenhou-se por um córrego na encosta dum fundo precipício. o ladrão coxo foi acolhido por um alfaiate. era saudável. refrescando-se no intervalo ou no fim das compras. Qualquer coisa espantou o animal. sem cavalo. é possível. Nada torna as pessoas boas a não ser elas próprias. Sabedorias que aprendi. Há muitas causas misteriosas neste mundo e não vale a pena determo-nos sobre elas. bebendo água. absorção de todos os possíveis. viviam desafogadamente. coxeando. pode não ser. era um adereço. que chame a atenção para não ser pisado. A queda quebrou a perna direita do ladrão. por isso tinham superado o medo e estavam dispostos à morte. Os perseguidores perscrutaram as sombras dos fundos. Era dia de mercado. mais do que isso. irremediavelmente coxa e dolorosa. eles fugiam da miséria. com gritos de boas-vindas e hossanas. Eu estendera o pano preto à minha frente. pelo menos não sairia dali com vida. Eu sentara-me na praça. Com um sorriso amargo perguntou-me: achas então que o sofrimento torna as pessoas boas? E eu disse-lhe que não. Em baixo corriam águas negras e apenas alguns penhascos e árvores raquíticas separavam o galope do cavalo daquelas águas furiosas. foi dito depois. Morreu. Outras comoviam-se e diziam que Deus é bom e tudo depende de nós aceitarmos as suas oportunidades. que considerais vosso. Algumas pessoas revoltavam-se com a história. Sim. um mundo que contém este. magro. por muito longa que fosse a agonia. considerando uma honra albergar aquele que fora anunciado. bebendo das águas furiosas do fundo. sua ou do ladrão. Este. presente e até futuro. sem aptidão para saltear nas estradas. muitos anos depois. Apenas o susteve um penhasco agudo. seu significado. que conhecia bem todos os caminhos e sítios desertos. Achavam injusto que um ladrão morresse feliz e em paz. alimentando-se de bagas. Admirado. Casou com a filha do alfaiate que era feia e dedicada. Caminhou para longe. Teve filhos. muita gente passava. Foi então que se aproximou o rapaz triste. torta. Chegou a uma aldeia distante e as pessoas juntavam-se à sua volta. a não ser quando elas nos chamam e se revelam. Mas. diz uma velha profecia que um dia chegarias. Tudo necessita duma infra-estrutura. em paz. foi acreditando na profecia. A queda salvou-o da morte. sozinho. e foi feliz. desesperados: o ladrão roubara-os vezes sem conta. mas que não crie também a interrogação hostil dum espaço grande que obrigue ao desvio dos itinerários naturais. Eu começara a contar a história dum salteador de estradas que um dia sofrera um grande desastre. E antes de morrer. Pai dos arrependidos. com os mestres e com a vida. Tinha nascido de pais que. dizia eu. não necessariamente melhor. A perna soldou. sua evidência.

disse uma mulher da assistência. ficando mesmo com ódio especial em relação àquela que a salvara. Como o que calha. mas o que eu posso. e tenho dois filhos. e convidei-o para jantar comigo. A minha ansiedade tornou-se muito grande e eu adoeci gravemente. Ele disse que não valia a pena discutir comigo e despediu-se. Que história tão estúpida. com grandes sacrifícios económicos. Em médicos e remédios se gastaram todas as poucas economias do meu tio. Foi tudo isto o que eu não contei ao velho idiota que contava histórias sobre os benefícios da adversidade. disse uma voz no meio da . ao fim de longo sofrimento: ficou com as mãos feias. mas obrigá-los a insistir para que ficasse junto deles. vestir-me. pagar-me alguns estudos. pois que parecia essa a única solução. sempre falando dos esforços redobrados a que eram obrigados por minha causa. Mas fiquei com uma doença incurável: para sobreviver em condições satisfatórias teria que fazer uma dieta rigorosa e cara. diziam. ficava fraco. Mas era muito novo. como os raios de luz se cruzam e invertem as imagens. sem nada dizer a meu tio ou aos meus primos. e eu não morri. A vida tem situações destas. mas ele não me ouviu. ou fingiu que não. e eu insistia que a questão não era essa. prejudicando os próprios filhos. esta se julgará chamada e avançará com mais rapidez. e eu sentia aquilo que ele queria que eu sentisse: a injustiça daquela igualdade. O meu tio e os meus primos trataram-me o melhor possível. Reparte comigo o produto das minhas histórias. ignorando-a. Uma forma de cumprir o meu desejo de desaparecer. poderia ter sido outra espécie de desespero? A mulher má foi salva e continuou má. Quando o rapaz se afastou. Fiz planos. ou a infelicidade do rapaz era tal que ele nem se atrevia a dizer o nome da sua doença. Não interessa o que eu quero. Insisti para que nessa noite o rapaz comesse aquilo de que necessitava. ele contou-me que comia pouco para que não se agravasse o mal que lhe atacava as entranhas. A única solução era eu partir sem nada dizer e deixá-los a lamentar a minha ingratidão na minha ausência: estaria então cumprido o dever deles. excepto pelo ódio e pelas mãos feias. e não conseguia trabalhar para ganhar o suficiente para comer os alimentos de que realmente necessitava. eles sentir-se-iam na obrigação de me forçar a ficar. só por si.morreram. assistindo aos seus óbvios sacrifícios. Não sou rico. a necessidade de que tal injustiça fosse reparada por mim. Aí é que tu te enganas. igualmente. má ou boa. Fui viver com um tio. Podemos sempre tornar pior a sorte. que tanto te desagradaram. Resolvi desaparecer. Consegui que aceitasse o jantar adequado à sua dieta. Achariam mesmo que O meu propósito não era ir-me embora. Talvez seja uma vantagem. um dia. Não sei se é isso que quero. respondi-lhe. Desde aí tenho andado à deriva. Todo o dinheiro que vou conseguindo arranjar reparto entre vocês os três. O medo. Não é vantagem. respondi-lhe. E a nossa conversa acabou aí. Aparentemente tudo ficou na mesma. misteriosamente. disse-lhe. Fiz planos. Deixei-lhes uma carta agradecendo tudo o que haviam feito por mim. muito pouco. Se falasse. Resumindo o nosso estranho diálogo. Ele dizia-me não vale a pena. Entre o comer pouco para sobreviver e não sobreviver por comer mal. Isto acontece com muita frequência entre as pessoas: julgam que. Esta curou-se. não tinha experiência de vida nem certeza quanto à forma de ganhar dinheiro. No fim. porque as pessoas fazem o que querem. mas também não vejo outra solução. que temos. Sempre rectos. Poucos trabalhos sei fazer. mas úteis. é necessidade. em que as linhas se cruzam e dão situações invertidas. dizia-me. durmo onde calha: o meu mal agrava-se de dia para dia. apenas com sentido do dever. desta vez contando a história da mulher que queimara as mãos ao tentar salvar das chamas uma vizinha maldosa que lançara fogo à própria casa --ao tentar fazer um bruxedo contra alguém. concluí eu. Mas que poderia eu fazer? A minha existência era. O que quer dizer? Que as boas acções não dão bons resultados? Quer dizer que os resultados das acções permanecem secretos. julgam desencorajá-la. O rapaz encolheu os ombros e disse que comia pouco. Nada mais acrescentava. Tenho poucas forças para trabalhar. e achava que seria uma boa solução. Acho que em breve morrerei. agradeceu-me e eu respondi-lhe que não me devia agradecimentos. Até que um dia saí de casa. De novo eu estava na praça do mercado. Sobretudo se insistirmos em nos sentirmos desgraçados. o seu desejo de sobrevivência oscilava. nem a mim nem a ninguém. O meu tio insistia em contar-me quanto lhe custava alimentar-me. À noite encontrei-o na estalagem. Mais algum tempo fiquei com o meu tio e os meus primos. O que quer você afinal? Perguntei-lhe. à qual ele se sentia obrigado. causa de um desequilíbrio. um jantar. Eu pensava: talvez morra. homem nem bom nem mau. E que comendo pouco. dizendo o nome da doença. Vários meses se passaram sem que eu o visse. eu chamei-o. Fiquei muito impressionado. não adianta. poucos trabalhos posso fazer. disseme o velho.

Comprou um carro de corrida. E depois? Perguntava quem o escutava. O rapaz aprendeu a contar histórias. ou tomar banho. Medo de não cumprir o que consideravam um dever. Não é todo o crescimento uma miraculosa cura. juntando-me a um velho sonho. Era o rapaz. que a riqueza é um mal? Davam-lhe também dinheiro ou comida. Colocava o rectângulo preto à sua frente porque isso lhe recordava o velho -agora grata memória -e lhe facilitava a concentração. In O Enviado Publicada por Helena em 11:29 Etiquetas: Maria Isabel Barreno 25/OUT/2008 Vicente . Eu soube que ele estava curado. As pessoas ficavam então junto dele discutindo o final. desenfreadamente o guiava. indignando-se.multidão. a história do menino infeliz. Depois a benfeitora adoeceu e o rapaz tratou-a com desvelo incomparável. as palavras surgiam. E eu não compreendia como fora possível a minha cegueira. certamente que o perderemos. deixando uma esmola. órfão e abandonado que um dia encontra uma benfeitora que o ama perdidamente. Depois viveram felizes para sempre. Percebeu que a reacção dos ouvintes eram o sinal da verdade da história -da falta de verdade. Tal como a sua dieta. Tão descuidado que achava longínquo o perigo. diziam. com acompanhamento musical. Chegou a contar esta história em verso. E eu olhava aquelas três criaturas. Contava. e miraculosa. onde todos os espaços. até que compreendi que o medo não ajuda a sorte de ninguém. Ajustou-se mais ao seu corpo. tentando escutar as queixas ou alegrias do seu corpo. mas os seus ouvintes maçavam-se. Que grande alegria deste a nosso pai. Contou então que o menino cresceu rico e descuidado. Passei um mau período. repeti com alegria. do não ser ao ser? É neste mundo de onde vos falo que se situa a fonte dos milagres. ou lavar os dentes. não encontrava final satisfatório. longínqua a necessidade. Esta é a minha própria história. Quando as pessoas tocavam esse rectângulo. atento também às reacções dos outros. Que a felicidade não dura. que lhe parecera tão terrível. Por isso pôde contar-me tudo o que lhe acontecera. Um mundo onde os narradores se misturam. naturalmente que esse trabalho estava também dentro das suas forças. Como eu me tornei um contador de histórias. a minha doença já não é uma limitação terrível. Recordei muitas vezes o que me disseste. o rapaz sorria. onde o tempo não tem sentido único. Encontrou assim um trabalho de que gostava. e beijei-o. podem ser visitados. esperando um milagre. Mas como ele comia frugalmente e ficava sentado. Maria Isabel Barreno. as histórias também. e compreendia quanto eram tímidos e inseguros: apenas haviam temido que eu não os notasse. e todos os dias temos de tentar prolongar um pouco mais o nosso trajecto. diziam. por exemplo. a quem detestara por me contarem o que faziam por mim. e matou-se num desastre. A minha doença foi um aviso. e eu reinterpretei toda a minha história. Medo da vida. mesmo os mais subjectivos. É possível que sim: que tenha havido uma cura. temos todos uma doença incurável: aproximamo-nos da morte todos os dias. e tive medo de piorar ainda a minha sorte. tomaram-no por um sábio. aos outros. mas que tinha qualidades mágicas. Resolvi então vir ter contigo. Queixavam-se porque tinham medo. tudo passou a ser condição natural da sua existência. que eu não notasse a sua dedicação. justos e edificantes. quieto e calado. Tornou-se meu ajudante. nem mais nem menos penosa do que comer como todos fazem. que é perdidamente generosa. que ficaram igualmente contentes por me verem. Bem vistas as coisas. O que queres provar. Fitando o negro. Fui visitar meu tio. Perdi o medo: se não cuidamos do nosso património de felicidade. Entraram então meus primos. aproximou-se de mim. Foi a partir daí que as pessoas passaram a acreditar que o rectângulo de pano preto não servia apenas para recolher esmolas. Ele comoveu-se muito e chorou abraçado a mim. depois de uma infância triste e de uma juventude doentia. Estava curado: quero dizer. O jovem inventava vários finais para a história. é uma coisa que me obriga a uma rotina diária. Para fugir do medo comecei a contar histórias: a mim próprio.

. numa severidade tonitruante.. Conseguira. aprestou as armas de defesa. Em que sítio é que ele se meteu? Até que alguém. atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga. na Arca. e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar. De repente. . Calado e carrancudo. penetrante como um raio. como que passou.Fugiu?! Fugiu como? . quanto mais inexorável se mostrava a prepotência. de peito aberto. indecisa. e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante. A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias.Deve andar por aí. porém.Noé. porém. Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto. Mas ninguém disse nada. uma mortalha de silêncio. sumir-se ao longe nos confins do espaço. Em semelhante balbúrdia . bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão. pesada. viram-no. apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. desceu. A criação inteira parecia muda. larga como um trovão. onde está o meu servo Vicente? Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro.Naquela tarde. Sobre o tombadilho varrido de ilusões. compadecido da mísera pequenez daquela natureza. Mas a divina autoridade não podia continuar assim. . pôs fim à comédia.. .Vicente!. Voou.. Mas pudera vencer-se.. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso. temerário. Quarenta dias. era homem.. E.Fugiu. Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. perguntava: . E.. Numa indignação silenciosa. . Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. à mercê da primeira subversão. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e. titubeante... integrado na leva dos escolhidos. O instante de perplexidade durou apenas um instante. como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. terrível. como tal. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. que o Criador queria punir? Justos ou injustos. Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados. os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo. Quarenta dias eram já decorridos desde que. um estremecimento de hesitação. rápido.. ..Vicente fugiu. e já do alto. andava de cá para lá numa agitação contínua. a voz de Deus: . Nada.lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -.Vicente! Vicente!. Ninguém o viu? Procurem-no! Nem uma resposta. por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Pasmados e deslumbrados. de irreprimível repulsa. dera entrada na Arca. enfim. Noé. depois. Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Vicente abriu as asas negras e partiu.. superar o instinto da própria conservação. mais crescia a revolta de Vicente. Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!.. a carne fraca o prendeu ali.a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens.

A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido. vivia... no vácuo em que tudo parecia mergulhado. correu a Arca de lês a lês como um perfume. e o tempo passava. A defendê-la e a defender Vicente. Escolhera a liberdade. o choro desesperado do Patriarca. negro. sereno. ou. Foi a sua pura insubmissão que o levou. Ninguém o maltratou aqui. ou de lhe haver negado a ração devida. gritada a medo. apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente. sobre o qual. cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino. as águas cresciam sempre. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. E salva-o. e perdoa-me também a mim. Terra! Desgraçadamente. trémulo e confuso. que. a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança? Ninguém dava resposta às próprias perguntas.Noé!.Noé. Para quantos o viam. ia diminuindo. Noé!.. impávido. que até os mais confiados a fixavam ansiosamente. . E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima. carregada de incertezas e terror.. a doçura do nome trazia em si um travor.. para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval. Palmo a palmo. e o pequeno outeiro. mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais. foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia. . até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes. por parecer ou miragem ou blasfémia.Senhor. Como um espectador impessoal. submerso o ponto de apoio. E a palavra de Deus. Terra! Nem planaltos. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo. apressada e firme . só o guardei a ele.ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -. nem desertos. pura e simplesmente... dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia. como que guiada por um piloto encoberto. Entretanto. . E. À medida que a barca se aproximava... porém. Depois. linha severa que limitava um corpo. Ah. como tu mandaste. este dilema. sim. seguiuse um silêncio mais terrível ainda. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos. recortada no horizonte. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião? Horas e horas a Arca navegou assim. Terra. a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Mas o filho? Mas Vicente. como a defendê-la da voragem. Sim. Simplesmente. comandados pela sua implacável tirania. e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte. Noé tentou justificar-se. o teu servo Vicente evadiu-se. e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco .. um lince de visão mais penetrante viu terra. existia ainda o ventre quente da mãe. Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.. que tinha então seiscentos anos de idade. e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção.. Subitamente. os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente. no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo. medonha. ouvia-se. de segundo a segundo. Terra! Mas uma porção de tal modo exígua. como que movida por uma força misteriosa. Mas bastava.. Olhava a barca. Encarnava a própria realidade deles. Mas perdoa-lhe. começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. se vencera tudo. suavemente. a Arca ia virando de rumo. Os olhos cravavam-se na distância. E a seguir. Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. Não. nem veigas. mas para encarar de frente a degradação que recusara. E no espírito claro ou brumoso de cada um. o legítimo fruto daquele seio? Vicente. único representante do que era raiz plantada no seu justo meio. à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E. ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. A palavra. Transida.a total autonomia da criatura em relação ao criador -. e era ao mesmo tempo um perfil de vontade. permanecia Vicente. ao convés. o cabeço fora devorado. morria Vicente. e nada mais importava e tinha sentido.. Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas. onde está o meu servo Vicente? Acordado do desmaio poltrão. infantil. seguia a Arca que vinha subindo com a maré. o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo. Restava dele apenas o topo.

em que me apetecia apenas existir como uma coisa qualquer a vegetar ao sol. respiração.. Até cheira mal!. Colada ao meu silêncio. fechava. molhado da cabeça aos pés. pé ante pé.. é que encontrei o 26. enrolada num xaile com rendas de miséria. com uma criança de mama ao colo.. luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. já não ia só. há céu azul. logo pressenti o desconcerto do dia. dependente do coração resoluto de Vicente. o desabar de mil universos num quarto sem janelas). Salva-me! Pinta-me de frio.. Anjo da Fleuma. Mas qual! O queixume persegue-me como um rasto. «A minha também deve estar de meter medo» – pensei. avulta mais os vincos desta bendita cara de pau que repele os homens. esmagar-me o coração com essa mão encarquilhada de pobre velha que nunca teve céu azul. pombas. Logo hoje. Não me conhecia. Sangue. A morte temia a morte. seiva de seiva. Quem é o 26? Sei lá! – Sou o 26 da 4.. – que os homens resolveram não coincidir com a natureza. venha cá a baixo. as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros. pá? . para salvar a sua própria obra. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra. O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau. Agora. porém. Foi precisamente hoje que todos vieram para a rua com tempestades por dentro.. talvez. Pois foi precisamente hoje – dia de sol. de giga à cabeça. minha rica. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre. Não consinto que venhas. saltitava uma velhota de farripas e chinelos rotos. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim e pus-me de novo a caminho. com pinchos de tonta.ª B do Liceu de Camões. o coração frágil da Arca. Que. velha dos diabos! Hoje faz sol. E tu vale-me também. nesta idade. Coitadinha! Está no hospital toda podre. Três vezes uma onda alta. etc. Não te lembras de mim. estremeceu de terror. mas três vezes recuou.. de árvores azuis. de andorinhas. mas basta. que... Ah. Tudo por causa da parteira que lhe carregou na barriga e. dia «incoincidente». as ruas riscam-se da rapidez das sombras. aos berros para uma senhorita encostada ao parapeito da janela do seu terceiro andar com os braços papudos de nada fazer: – Se quiser. sua gulosa! Mal deitei o nariz fora da porta. de poeta em férias. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores.. bem visível nesta nãocoincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua. desafiava a omnipotência. Tenho muita pena. calma e obstinadamente. Mas não cheguei a qualquer conclusão. melancolicamente. Até no eléctrico. como relâmpagos negros nos olhos sorumbáticos e trovões no furor justo daquela mulher. num estoirar de trovoada interior a rasar as almas de lés a lés. não! Hoje não me comoves. Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. e tapa-me bem os ouvidos para não voltar a escutar mais confidências lastimosas nem carpires de dramas à guitarra. pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural. sub-repticiamente. as comportas do céu. mas falava-me com esse à-vontade dos velhos que já não perdem tempo a fazer cerimónias com a vida: – Veja o que a minha filhinha me deixou nos braços. num arranco de fim. Os Bichos Publicada por Helena em 5:57 Etiquetas: Miguel Torga: Os Bichos A Sombra A um dia assim como o de hoje costumo chamar. A cada vaga. a alegria canta nas águas das mangueiras dos regadores das ruas e não quero passar todo o dia com o peso do teu menino ao colo dentro de mim. lastimo muito o teu pequenino drama (para ti. era aquele corvo negro. Miguel Torga. lambeu as garras do corvo. no meu calão.

destroços. Lá vem história!) E veio. encostou-me à parede.ª quer ter a bondade de me emprestar dez tostões para uma sopa?». o lacrimejar. de imprevisto. de pele oleosa e formas abundantes mal contidas por um vestido preto a luzir de sebo. ainda me restava atravessar a prova suprema.Lembro-me lá agora. Pois eu sou o 26 da 4. Não estragues o céu azul dos outros.. gorda. Mas ele em compensação conhece-me bem. ó 26! E saltei do eléctrico. 26.» (Lá vem história – pensei eu. fincou-me outra vez as mãos aos pulsos. Não fazes ideia do que tenho passado. «V. tão forte que – confesso – me contagiou também. com agilidade de acrobata. pá! Infelizmente. sufocado com o cheiro a suor da flibusteira. o faduncho da impotência que parece ter substituído de vez o protesto viril. tentativas de suicídio.. decidi regressar a penates. – Fiquei com toda a família às costas: mãe e três irmãos... falar. Preciso absolutamente de 42 escudos e 50 centavos para remédios.. Deitou-me um olhar rápido de análise e. condoído de mim mesmo.a B. despediram-me do emprego e. filhos com sarampelo. naquela cerca do passado tão cheia de gritaria.. «O meu pai morreu e. Tudo isso é muito bonito. não tive forças para resistir e entreguei-lhe a tremura duma nota de 20 escudos. senti galgar-me o desejo chorincas de desafogar. pieguices. torvo. Fugi vexado.. entornou de novo todas as suas abundâncias em cima de mim e intimou-me numa voz sem tergiversações: – A minha mãezinha está moribunda. inimigos e indiferentes me chorassem no seio amores não correspondidos. Até sabe a minha alcunha desses bons tempos de calções. Imagina que me aconteceu um drama à Dostoievski. nada mais de importante (de aristocrático ia eu a escrever) lhe sucedeu na vida. pá? Não me lembro. o soco na mesa. amigos. com a primeira pessoa que encontrasse. Alonguei ainda mais esta bendita cara de pau (não me abandones. tão fácil. intimidou-me: – A minha mãezinha está a morrer! preciso absolutamente de 20 escudos. esmagado por aquela inundação de formas. Mas lá nénias não. Uma história análoga a milhões de histórias banais. percebeste? Escusas de perder o teu latim de queixas comigo. abro. resolveu voltar à carga. a megera. Dê-mos! Zaranza. perdi o emprego e hoje o senhorio deu-me ordem de despejo. espezinhado. principalmente. já febril.. Mas resisti.. Estava escrito que. doenças nervosas.a B. a primeira amargura amarela que me viesse à boca. E.. Ex. Hoje acordei com cara de muro das lamentações e não consegui intrujar o Destino. Não me faltava mais nada senão gastar cérebro a recordar-me do passado. Adeus. desgraças... E. Porém. e com vontade trémula de começar também a lamurinhar. Em vão. Enfim: o coro da choradeira tornou-se tão insistente. porém. em objurgatórias de raiva e cinza nos cabelos: . para sempre amarrada àquele passado da 4. Dê-me mais 20 escudos. Mas ele repara lá no sorriso! O que quer é falar.. chorosa na voz implorativa. a Lamúria. lobrigando outras notas na carteira. Aliás nem chegou a acabar o curso. o silêncio firme do desespero calcado no coração ou as gargalhadas heróicas daquele meu amigo que certo dia me confidenciou. se quiseres. Conta-me partidas do liceu. ó 26. entornou-se-me toda em cima do peito até me tirar a respiração e. ó 26! Desculpa. Meteu mais alguns cartuchos de lágrimas na pistola. Mas desta vez não me verguei. que não têm culpa de que a Dor na vida não possua a fantasia fidalga dos poetas. Não te lembras. sofridas por milhões de homens também banais. Ao dobrar a esquina de certa rua deserta. eis que me surgiu de súbito na frente uma mulher alta. sacudi-a aos urros: não. Cheio duma cólera negra de vergonha que vinha do frio dos ossos. lívido de angústias alheias. um sorriso que mal cobre o frio da caveira. pá!. a rejubilar com os olhos tristes: – Estou contentíssimo. falar. mas hoje não quero afligir-me. Contente do êxito. agarrou-me nos pulsos. Anjo da Fleuma!) e no meio da tarde. de sol e de joelhos feridos. apontando-me uma pistola. quando seguia distraído o deslizar da minha sombra no chão.. não e NÃO! E fugi. ó 26! Tenho muito que fazer. com esforço enorme. carestia da vida. durante todo o dia. Pouco a pouco. Desde que deixou o liceu. com um futuro tão perto. Não tenho cheta. mas digo-lhe que sim para não o desiludir. de jogo da barra e de azedumes no Parque Eduardo VII: – Eras o «Cabeça». cantochão.

pelo terreiro. quase já não sabia o que era comer. o rancho das companheiras. ouviste? E como ainda lhe parecesse ver nos meus olhos atónitos um lampejo de desobediência. essas! Pelo buraco do poleiro. lembrando doze novelitos de ouro a mexerem-se como por milagre. invejara . havia entre todas rixas alegres. mas façam de conta que acreditam. sentia-as agora cacarejar. De repente. tinham assistido havia três dias a essa operação que a Choca sofrera.– Ai que desgraçado eu sou! Ai que triste vida a minha! Calei-me porque me aconteceu então uma coisa extraordinária. – e lá dentro. Só ela. um a um tinham-se encarrapitado no velho cesto de palha onde faziam a cama. Atrás dela.. em que por via de um grão.. porque a pobre. a minha sombra no chão levou um dedo à boca e impôs-me silêncio: – Psiu! Caludinha! Se queres lamentar-te. com o gogo. na grei. doente.. sim?) Como ia dizendo. – e ainda essa tarde. O Mundo dos Outros. todas as tardes. metia dó com tamanho sofrer! Um pouco aterradas. Ai. gozando ainda o seu resto de tarde. aninhando-se. a pobre! Ainda a trazia.. a Sombra não esteve com meias medidas: ergueu-se e esbofeteou-me. tranquilamente.. a olhar para o céu azul. e que certas delas. sabiam muito dolorosa. debaixo da asa materna. eram bem felizes.. fora o mesmo que nada. alvoroçasse no prazer do costume. (O que vão ler. A pena que lhe espetara no pescoço a velha que cuidava delas. para esta reportagem poética fi car com um desfecho digno. o melhor que puderam. a Choca recolhera ao poleiro mais cedo do que o costume. os doze filhinhos tinham seguido a mãe. calei-me porque me aconteceu qualquer coisa de extraordinário. E depois. o rancho das outras galinhas atribuía isso à doença da Choca. vai para casa e fecha-te num quarto às escuras para não maçares os outros. a Choca. os pequenitos. é mentira evidentemente. pior ficara. voltou a deitar-se ao sol no chão.. morta de sede. afligia-a como se fosse um estigma.. sem bem lhe fazer. – mas. – e não tardaria que o milho do recolher. – tanto ou mais que a própria doença. Eles mesmos tinham estranhado recolher tão cedo aquela tarde. Mas caludinha. – e se mal estava. 1950 Publicada por Helena em 5:52 Etiquetas: José Gomes Ferreira 20/OUT/2008 A Choca Ao Senhor Emídio Navarro Aquela tarde. o bando das companheiras. a seguir. às vezes. trazia para elas no seu mandil. que a velha. essa pena. e entretanto. deixando fora. Por isso recolhera cedo. mas quase seca porque não purgava. qual deles com mais dificuldade. cá fora.

ora esses abalos irreprimíveis de todo o corpo. ainda assim. ela própria. Episódios. ignorava se seria por isso. e essas.. para os ensinar. para os admoestar. – e que o não adivinhara na devoção dos galos. Esse alguém fora ainda vê-la um instante enquanto as outras comiam. muitas criara-as ela.. numa trave a um canto do poleiro. e ela.– adivinhara-o na inveja das outras..Entretanto. agora já velho. e surpreendendose. na quase escuridão do poleiro. prestes talvez a expirar. mais do que a doença. coitadinhos. Cansaço talvez da vida. ciúmes em que fizera arder tantas rivais. – e agora. como ela própria. Subtil. vendo-a recolher cedo com a ninhada. com a ideia de que se lhe afogava! Depois. ela mesma se namorara da sua figura esbelta. o melhor que lhes fora possível. Certo galo. fora-se a beber à pia e lá ficara. Ah.. talvez. muitas vezes. de outra vez. às vezes. vinha-lhe das muitas ninhadas que havia chocado. até no comedouro era moderada e no bebedouro. para os alimentar. sumira-se ao fundo na sombra densa. agora! Nos bebedouros. esse prestígio mágico da sua beleza. Estava então muito doente. para merecer à sorte um sofrimento daqueles: – e esse mesmo nome de Choca. ao romper da manhã. agora já também sem entusiasmos. por ter tão quentes os seus pequeninos. não era já dela que tinham ciúmes. ela era feliz. a Choca. de manhã. que ele se não recolhera por a ver recolher. ralhos. passara. intrigas. Decorria o tempo.a gotinha de água que um ou outro dos seus pintainhos. se concorriam ao que esgravatava.. pesava-lhe na memória uma grande culpa: essa . Febre que era mesmo lume. sentira-o aninhar-se onde passava as noites. ensinava-os a cacarejar. de tantos que a tinham amado. ela mesmo era boa companheira. opressa da gosmeira tenaz. e tirante algum fogacho de génio por amor dos filhos. por um impulso de compaixão. e os frangos. e agora. mais saudosas da mocidade. por certo. – quem lhe dizia a ela. e quando o procurou e o achou morto. quando deu pela falta e o procurou. e ia talvez morrer! E todavia ela fora toda a sua vida muito prestante. por a ver doente. quando o viu boiar. alguns tinha a sua biografia. entretanto. * À boca da noite. as da sua geração eram já poucas. beberricando na pia. entretida com os mais. mas esse era bem seu filho. para ela e para os seus. pareciam às vezes também doentes! . posto que lhe segredasse a natureza que o não era. esse velho e trôpego apaixonado (mas belo. quando algum acesso mais forte a sacudia. lhe declaravam o seu amor dos poleiros à roda. e que ao aclarar das manhãs. cada uma das quais – e não tinham conta! – lhe havia custado uma doença. depois de saciado. a sua fama de cantadeira! Galos que ela apaixonara. sem paciência para aturar os filhos. na sua justa decrepitude) não tardara a recolher-se também. as galinhas todas haviam-se já recolhido. – e. sobretudo. dir-se-ia que o enfeitiçara. afinal. nessas três semanas de choco. – tremendo por ele como por um filho. para os guardar. deixava. a Choca. eles tinham-se aninhado todos. pouco a pouco se estabelecera o silêncio. se tinha de os proteger ou se lhos ofendiam. nem o bastante para a ouvirem os filhos.. e aflições então não tinham conta! Certo ovo de pata que ela chocara.. muito parecido. sobretudo. debaixo da asa materna. tantas vezes repetidas. que era agora. como ela. afligia-a. e. e depois. que alegria! Outro se lhe afogara. e não podia! E pelo que tocava a cacarejar. que eles mesmos. deitara um monstro cá para fora. – e agora. tapara com uma pedra o buraco do poleiro. de fora. ainda assim. – e. que era muita a gosma. mas retirara-se muito triste. todos os dias. ela. e certos deles muito heróicos. do que lembradas. e por fim já se não via nada. uma vez por outra. e quanto às novas. De resto. – e muitos pintainhos doutras ninhadas queriam-lhe como se fosse avó.. a aflição ia-a matando. como a agonia do seu velho amor?! Pelo que respeitava às companheiras. nas convalescenças esses mil cuidados com os seus pequeninos. mas dormir não podia. e alguém. ora a imobilidade a que se votava por amor dos seus pequeninos. ia endoidecendo com a aflição! Querelas com as vizinhas eram a toda a hora.. cair do biquinho como uma pérola. Descuido. Mas nem comer nem beber. – quanto mais para uma dessas tiradas que outrora lhe haviam feito. – como tudo isso ia longe. todos a dormir e talvez sonhando. e erguendo um voo pesado. e aquela vez que o viu entrar numa ribeira. com uma alcunha. se por a verem talvez doente. talvez doença também. para os dirigir. e agora mesmo. mas esse bom tempo ia passado! Já chocara a ninhada com pouca saúde. – e embora muito enferma. combates.

nunca fugira. e daí a pouco já não sentia nada. muitas. esvaía-se-lhe a luz do instinto. ainda bem que iludiam a fome com o sono que era fadiga. mas de longe. ouviam-se já cantar os galos. – Ah.» – Coitada. – mas vivera em paz com a maioria.bicada feroz com que matara um pintainho estranho. também. os pobres dos pintainhos! Trindade Coelho In Os meus amores Publicada por Helena em 11:59 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores 15/OUT/2008 Os Três Reinos Era uma vez um rei – é claro. essa alvorada?. para defender os seus filhinhos. de uma vez que o pobrezinho. pela noite velha. – e sobre o corpo tépido da mãe. mexerem-se inquietos os seus pequeninos. convém acrescentar que o rei tinha ainda um filho adoptivo. um havia de ser considerado mais velho.. enovelavam-se agora.. que eram traiçoeiros e comilões. muito inquietos. com mais direitos. aquilo não era sono. à vista de certos cães. Mas. – «Que é da sua força? que é da sua alegria. com o frio da noite! Não tardariam os galos a cantar. deixando fama de um pouco ligeira de costumes (não demais) e muito formosa. Claro que seria esse o herdeiro do trono da coroa. O marido fora um dos cortesãos favoritos do rei. A gosma sufocava--a. e que pareciam tosse. achou bonito que o pequeno se criasse no palácio. coitada.. era a sua gosma! Cansada já de sofrer. A mãe-rainha morrera para os dar à luz. que já para ela não tinha encantos. – e aquele que uma vez não apareceu.. A esse tempo aclarara a manhã. entrou com ela um tremor de frio. – e ela já sentia. como quer que fosse. dir-se-ia até que lhe sabiam bem. Importa saber que esse era o reino do rei. para toda a vida. – e sentia que o rhom-rhom da gosma. um daqui. associando vários factos. pois. Ainda não luzia o buraco. na escuridão ainda cerrada. e isso mesmo. mas os inocentes. – e se eriçava as penas e arrastava as asas. o rei tinha dois fi lhos gémeos. – e pelo que tocava às raposas. não tinham deixado pregar olho. e outros doutra. Entretanto. lá cima. se ao menos o dia nascesse! Mas eis que certas intermitências dos sentidos sobrevinham à pobre da Choca! Não dormia. ao companheiro. outro dali. Em suma.. que tinha a mãe também doente. para que os seus não tivessem fome. – e disso não se arrependia. Adiante se esclarecerá este caso. mas a memória já se lhe apagava. que tinha um reino: o reino do rei. desde esse dia. Se se lhe extraviavam. com os seus filhinhos abrigados debaixo das asas. brincando familiarmente com os príncipes. que na própria morte ficara dócil.. ali guardado. Toda a gente. como num celeiro. e até . cumprira na sua vida todos os seus deveres. O tempo foi passando.. no ódio aos gatos. e uns debaixo de uma asa. para os que eram dela! Disso pediria ela perdão a Deus. piando. Chuvadas que no campo havia apanhado. para os seus pequeninos. Má noite. debicar-lhe no peito à cata de um grão. que tratara sempre. e recebendo educação quase igual à sua. alguns já desabrigados. e os acessos que tinha às vezes. decerto. ou coisa que o valha. mas lá fora. Evidentemente se torna que. Toda a gente. procurava-os. sim. pela vida adiante. o frio apertava com ela. muitas a haviam conhecido. inclusivamente. achou bonito! quase toda a gente. e por fim (cantou agora o galo no seu poleiro!) veio-lhe um espasmo e caiu na morte. * Mas o que não melhorava. – Inerte instantes depois.. Também a mãe deste morrera.. e a alguns se atirara com bico e unhas. com muita obra de caridade. e os dois irmãos crescendo. em verdade. nem mesmo do homem. e remira-o. De resto. e muitas vezes. do ceptro. deixara de comer. do título de Majestade. Desde já.. porém. disseminados. mais a enfrenesiara. – coisa que pertencia aos físicos determinar – ou. e que os dois filhos do rei eram gémeos. Além disso.. Vieram os melhores sábios indígenas.. não fora por querer. viera. ainda por cima sentiase pior. como inimigos.. cansados e mal comidos. sentia os filhinhos tremerem com frio. muito à boca pequena murmuravam os maledicentes que não era só bonito como compreensível. já viúva. humilde. viera-lhe isso do que ouvira de alguns. dos dois príncipes gémeos. natural..

não sendo seu irmão. Nesse mesmo dia. era para olhar não as estrelas da terra. Ao herdeiro do trono eram dispensados cuidados especiais. caía o príncipe numa espécie de alheamento. Agora. aos acontecimentos do reino que havia de governar. Por fim. Longos anos se haviam guerreado. para os educar. Então. todos sorriram maliciosamente.. estava-se à mesa. choros. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de esgrima. Estava nu. nem de fácil ensinamento ou aprendizagem. cogitações talvez não muito próprias dos seus verdes anos. Nisso tomasse exemplo em seu irmão. e tinha sobre o peito o livro que terminara essa noite. como é natural. aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar do seu grande amor pelos livros. Nesse tratado ficou assente que a princesa real do tal reino vizinho casaria com o sábio príncipe. espantos. ou estendido na relva. Mesmo nas horas de recreio o príncipe se recreava folheando os cartapácios de pergaminho. até certos pormenores da sua infância eram agora recordados. Quando tal não sucedia. Não. A noiva do morto sempre se meteu monja. Mais tarde se viu que era um grande livro. morria virgem. havia donzelas e donas muito belas. O rei nem repetiu os seus pratos favoritos. Bailava tão bem que nem parecia um príncipe. triste. com os seus esplêndidos olhos de cego. deu em fechar-se na sua câmara. Decerto muito ensinam os livros. e até já falara em se meter freira. o velho rei decidiu firmar um tratado de amizade com o rei do reino vizinho. triste. já comprometera uma nobre donzela da corte. O moço príncipe ouvia-o como se o não ouvisse. e tão ladino se mostrava na curiosidade por tudo que à sua volta decorria. um dia. sem o ver. os . cega dum olho e mística. Morrer virgem – não era com este. era na rica sala de jantar. Quando se levantava dos alfarrábios.» E começou ele. num livro que fora de sua mãe. Todos ficaram primeiro atónitos. a apanhar a água do céu. o irmão gémeo do morto. um ar quase de estátua.estrangeiros. Ou que se misturava com os rapazes da rua para ir aos ninhos. O Mestre caiu na imprudência de uma breve alusão ao que de manhã. Tentou-se falar doutras coisas. A pedido do rei. exposição de grandes veludos negros e galões de oiro. Homem experimentado. Envenenara-se com flores perigosas que havia na estufa. mais ou menos fora educado como tal. dissera ao seu educando. Finalmente. depois constrangidos. o jovem príncipe herdeiro apareceu morto.. com os respectivos maridos. também as experiências pessoais e vivas. ou parecia mergulhar em abstracções. fugia para os jardins nos dias de chuva. As formosas donas um pouco ligeiras de costumes (não demais). o de equitação e o de dança eram mais reservados nos seus louvores. até naquele que. O próprio pai algoz o lamentava. Só o jovem príncipe parecia indiferente ao que se passava: Era como se nada daquilo houvesse de ser com ele. feliz. um dos seus Mestres ousou. estavam ambos velhos. E. Conversava familiarmente com os pajens. cega dum olho.. no dia seguinte. aos jogos e folguedos próprios da sua idade.. e a sua cabeça loira dobrava sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. A proximidade da sepultura restringe as ambições e faz embotar os impulsos bélicos. Por esse tempo. Como para a sua pessoa se haviam transferido. por exemplo. o jovem príncipe revelava aptidões de excepção. Dizia-se que andava a escrever um grande livro. idiota. um sorriso alheio. mas as que cintilam demasiado longe. que. A sua cabeça loira pendia sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. Convinha que Sua Alteza se prendesse mais aos costumes da corte. o príncipe herdeiro levantou-se e respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelos livros e a sofreguidão da sua curiosidade. exéquias magníficas. ou jogar à pedrada. patinhando nas poças. fitando-o. mas o trato dos homens também. também ia crescendo. Claro que houve gritos. porque reinar não é coisa fácil. a ser preparado para o difícil ofício de reinar. perdia-se por caçadas. quase perigava a saúde de Sua Alteza nessa vida sem ar que Sua Alteza levava.» Lera isto. Do mesmo passo educavam o filho adoptivo. meditações. agora. El-Rei sorriu também e deixou de lamentar o filho. Agora. repetidos com sorridente complacência: Que. E saía de lá com olhos de cego. pelo menos. e lá davam com ele descalço. Felizmente. Aliás. ao fim da tarde. Ora a princesa noiva era feia. Na corte da noiva feia. não empalidecia este sobre alfarrábios de pergaminho! Aos catorze anos. de que falavam com entusiasmo os embaixadores. só as não comprometia por já estarem comprometidas: pelo menos. «Era o que tinha a fazer!» comentou o seu ex-futuro cunhado «Com aquele olho vesgo. Todos lamentaram a sorte do jovem príncipe – assim sacrificado a razões de Estado. aquelas particulares atenções que sempre se fixam sobre o herdeiro dum trono.

Duma vez. – nessas práticas achava grande prazer. Certas noites. – pouco dignas da solenidade do acto. o príncipe herdeiro teve excentricidades. saídas de humor que chegaram a provocar o riso na ilustre assembleia. De modo que. Já. O rei ergueu-se pouco depois. fervia a intriga na sombra. um esplêndido apetite. o novo herdeiro revelava também aptidões de excepção. Compenetrado do seu papel de futuro rei. Em certos assuntos. tinha bons músculos. cada um procurava . felizmente. anedotas. Em vão se fizeram as mais diligentes e minuciosas inculcas por todo o reino. como formas de conduta. E agora já no seu reino tão disciplinado fermentavam pequenos focos de anarquia. tão submetido. um dos seus Mestres se atreveu a aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar da originalidade de seus espíritos. embora subtil e indirectamente. o velho rei decidiu fazer jurar seu filho herdeiro do trono. o jovem príncipe herdeiro tinha desaparecido do palácio. Como se disse. Já quase o não podia dispensar o rei. um certo dó humilhante recaía sobre a memória do irmão suicida. perdidos os seus dois filhos legítimos. Por esse tempo. Já os pretendentes e partidários rivais se falavam com o sorriso amarelo nos lábios. O rei caiu de cama. Correu mais tarde que fugira numa carroça de saltimbancos nómadas. Às vezes. Também o moço parecia não se poder afastar do seu leito. Ele que. a pedido do rei. senhores de extraordinários dons. ainda pequenos mas que poderiam alastrar. Não lera isto em parte alguma.. Sempre que lhe era permitido falar. era na rica sala de jantar. Pelos meios de que dispunha cada um. durante tantos anos.. o príncipe real ergueu-se e respondeu: «O meu reino é deste mundo». vários pretendentes ao mesmo disputavam entre si seus direitos. Um ponto único havia. desaparecidos os dois herdeiros naturais do trono. porém. habilissimamente retivera nas mãos a governação do seu reino tão policiado. A expressão do seu rosto é que era ambígua. Então.. E a inteligência que no tratamento destas questões manifestava – áridas. Os seus Mestres resolveram limá-lo. e pouco à vontade. El-Rei conversava com ele. em atenção ao alto papel que fora Deus servido distribuirlhe. Todos diziam: «Desta vez. Estava cansado. nas suas actuais relações com o estrangeiro. Já as massas pressentiam a senilidade do pulso que tão energicamente as havia refreado. fantasias. Atitudes há do entendimento. porventura apreciáveis em um qualquer. e. durante as cerimónias. que muito eram da especialidade do rei. os vilões. E ninguém como ele para divertir as damas com histórias. no palácio. tendo sido educados quase no mesmo pé. fazia-se jardineiro: podava roseiras cantando canções da arraia miúda (nem sempre muito decentes) e até chegava a cavar com uma sachola! Dava esmola aos mendigos por sua própria mão. Nesse mesmo dia. agora se via sem herdeiro natural que lhe sucedesse.. Dois filhos legítimos tivera: gémeos e tão diferentes. O mesmo Mestre falava. ágil. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de línguas mortas. Na história política do reino. liberdades insólitas. trouxera às costas um miserável que achara desfalecido no caminho. estava-se à mesa. Tratou-se de coisas várias. já todos temiam que não resistisse a este novo grande golpe. escapulia-se disfarçado para ir correr aventuras. o de matemáticas e o de protocolo eram mais reservados nos seus louvores. como geralmente são. O príncipe começou a apurar a sua educação intelectual. com uma naturalidade fingida. podá-lo como fazia ele às roseiras. Coisa interessante!. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelas coisas e a viveza dos seus pontos de vista. renunciando à herança para que os preparara. mas nem sempre convenientes num príncipe real. Neste desconsolo. na sua geografia humana. ao fim da tarde. em que todos se entendiam: a malquerença àquele moço que tão visivelmente seduzia o velho rei. não ficava atrás da que noutras haviam manifestado os príncipes. tão dirigido. chegado El-Rei ao último quartel da vida. Era moreno. etc. intrigas. como respirando uma ironia que nenhum dos seus traços acusava. Ambos como que o haviam renegado. na discussão das suas Leis. por exemplo. e sentia que a vida se lhe ia apagando. e beliscões à socapa. Todos ficaram sem compreender. ainda foi o tal adoptivo que principiou a fazer-lhe companhia. Ora. E. no dia seguinte. recebera o moço instrução idêntica à dos príncipes. Claro que houve consternação geral. para jovens – por atrevimento que seja afirmá-lo. continuava a morigerar seu ilustre aluno. O príncipe ouvia-o sem nada dizer.criados. o verdete do ódio nos corações. temos homem!» Pelo contraste. e lhe continuasse a obra. Urgia que Sua Alteza renunciasse a dadas particularidades do seu temperamento. mentiras. mostrava uma curiosidade que nenhum dos príncipes mostrara. Mas. deixar-se-ia fazer um rei como se quer.

poder-se-á admitir que «a velha raposa astuta» (como depois. O do outro era-o por demais. resignaria no filho o poder real. se dirigiu o rei ao seu jovem protegido. esse conhecedor dos homens brincava ou não. estavam reunidos na câmara real os importantes da corte. não mais que um momento.. aqueles grandes senhores que. 1962 . o procuravam desprestigiar a ele. secretamente. rei. Dado o que depois se passou. Com a satisfação de ter um digno sucessor para o seu reino. o mais amado dos seus filhos. O rei para aí os convocara. Por maquinações do jovem? Sustentavam os escorraçados que sim! e espumavam de raiva e juravam tremendas vinganças futuras. E o resultado foi não ser este. lhe chamavam os seus parentes escorraçados) até apreciara o engenho com que o moço ia tentando exautorar.. Laus Deo. assim se fez. Ora o que depois se passou.desacreditar no espírito do velho rei o seu jovem amigo. De nada valeram as conspirações dos pretendentes despeitados. até do seu paço. («Ainda não é desta!» lamentavam os seus parentes tornados seus inimigos). porém destrinçar até que ponto no seu espírito de velha raposa astuta. e ainda pôde viver alguns anos. que estavam sumamente intrigados. E assim se disse. mas eles. A ser isto verdade. ao fim da tarde. Impossível. apertou a sua cabeça contra o peito. Talvez o moço hesitasse um momento. Como já não podia fugir à sensibilidade dos velhos. pois há algum tempo dava grandes sinais de melhoras. Decerto não passava isto despercebido do jovem. e a debilidade física do rei não se manifestava mentalmente. foi o seguinte: Uma tarde. que esse ia ser perfilhado. que um após outro sonhei me sucedessem. o velho rei restabeleceu-se. Há mais Mundos. E diante de todos. que eram pessoas da família real. dizendo: «Tive dois filhos legítimos. por seu turno. Morreu de muito avançada idade. Tu. Olhava complacentemente o filho. Mais tarde declarou que sempre esse fora. poderiam quaisquer manejos do moço passar incompreendidos do seu protector? O diabo sabe muito porque é velho. e que sem demora ele. Isto disse ele sorrindo. qual é o teu reino?» Um silêncio pânico se fez. junto do seu real amigo. como temia ver-se constrangido a fazer por força o que desde já faria de vontade. quem o rei afastou da sua câmara. teve de fazer um grande esforço para não soluçar. pois todos achavam estranhíssima esta cena. Logo respondeu: «Que reino pode ser o meu senão o vosso?» Então o rei chamou-o a si. embora filho natural. – atribuindo àquele moço uma tão diabólica intuição na intriga que suplantava toda e qualquer experiência. pois não só estava cansado. O reino dum não era deste mundo. jurado herdeiro do trono.

ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. se dos olhos. E ao mesmo tempo assustam-me. quando eu era pequeno. estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. . Mas havia um mistério. benzia-se quando passava diante do quadro. às vezes verdes. irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer. Não sei se do sorriso. às vezes alegre. Ficava ao cimo das escadas. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. rodeado de sombras. a criada velha. Para falar verdade.disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora. Arminda. Não sei se da blusa muito branca. Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Mesmo assim.Publicada por Helena em 6:08 Etiquetas: José Régio 13/OUT/2008 A Senhora do Retrato Os retratos a óleo fascinam-me. . Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. às vezes cinzentos. A prima Luísa passava sem olhar. Era talvez o único que não me assustava.Essa pergunta não se faz . Em certas noites. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja. às vezes triste. que de certo modo me protegia. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes.

É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos. silêncio: . Mas eu não resistia. mas eu gosto mais de Natacha. A minha tia sorriu. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz. Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta. pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura. principalmente Tolstoi. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo. que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. quase cinzentos. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes. não me contive e perguntei-lhe. O Homem do País Azul. Era uma propensão do seu espírito. com uma um névoa nos olhos. 1989 A cerejeira da Lua . E Natacha murmurou depois a minha de tia. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. sobretudo. talvez das próprias pessoas. E era como se me tivesse armado cavaleiro. das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. por vezes os meus pais. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. que há muito tinha partido para a África do Sul. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato.Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Depois levantouse. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. Creio que troçava das convenções. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta.Tu também tens alma russa . que me sorria de dentro do retrato. na praia da Costa Nova.Ela chama-se Natália. tinha um sentido agudo do ridículo. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestida. Com a minha tia-avó. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. sempre a tratei assim. eu tinha uma relação especial.dizia-me. Dostoievski. abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Via-se também a tia Hermengarda. . Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Manuel Alegre. mais nova. farto já de tanto mistério e ralhete e. Pushkine. gente que eu não conhecia. E também de fato de banho. Era óbvio que tinha um fraco por mim. Um dia. Falava muito da alma russa. Apesar de já ser muito velha.

Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. para ilustração do jovem imperador. cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura. depois seu mestre. Deixem-na sonhar. Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos.. todos os conselhos do livro dos veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo. pouco importa. ornamentada de gaiolas de ouro. um aviso da Lua? . O imperador suspira: Até uma pena de cotovia. Isto mesmo diz o imperador. Que sonhe. deste canto da Terra. Aliás. Nunca.pergunta o imperador. . Suspensas. pensativo. depois. à roda do imperador. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar. Até uma pena de cotovia repete o sábio.. nada bonita. antigas glórias. as ramagens . interpretou.Tudo à nossa volta aspira à perfeição . será . Introduziu-o no segredo dos cultos. Se a chamarmos. E.. as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. rente ao chão.A Lua fita-nos quando a fitamos? Não. Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. Onde isso vai. tocado pela tristeza do crepúsculo. por sinal. Foi seu aio. Que recorde outros tempos. dá de comer às cotovias.. Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim. subitamente ansioso. Meng Uóng. Ela que nos ignore. Presunçosa. Que dirija a atenção para a distância azul da noite.Não será um sinal. Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo. . um por um. que dela se enamorou. Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível. O sábio permite-se sorrir.Se Vossa Majestade assim o quer. . Numa das varandas do palácio imperial. A Lua é a nossa vizinha defronte. se perde por entre a ramagem dos sicómoros. A relva. ao perto.diz. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite. Entre muitas evocações mimosas a Lua sonha com o imperador Meng Uóng. O sábio Tien-o-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. rugas e verrugas. enquanto acompanha o devanear da pena que. Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. Tocada por um raio do luar parece de prata.comenta o sábio Tien-o-Tzê. Satélites zumbem à sua volta. a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida.

Cerre os olhos.pergunta. entusiasmado.brada.Os meus desejos são os vossos. o imperador. que eu vou lançar o bordão ao céu.. escreveu na base de uma estatueta de jade. Manter os olhos fechados. que dá a cada passo uma cadência de dança. que representava um monge de pálpebras descidas.. de pálpebras apertadas. habituado a confiar no mestre. sente.exclama Tien-o-Tzê. Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. .Quero ir à Lua. que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro. o sábio ou mago Tien-o-Tzê. Agitam leques. Aos ouvidos do jovem imperador soam. se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço. Majestade torna a recomendar-lhe Tien-o-Tzê. É insuportável.Segure. Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes. Ah! Eis a Lua! A seu lado. não abra. há-de levar-nos à Lua . Mais custaria abri-los. surpreendido. Ela. Vossa Majestade... que ambos seguramos. suspende os passos. a castelã da Lua . Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador. o imperador. numa fresca melopeia de boas--vindas.Para onde nos levam? . ora toma a configuração de uma rã de três pernas ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal. reconhecendo-a ao primeiro relance. Hau-Ngai. calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas.pergunta. para receber as visitas.comanda o sábio numa entoação de riso. o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado.Estás a desejar alguma coisa? . aturdido. Fecha os olhos. Parece que caminham sobre nuvens. . Seong-Ngó não profere uma única . . repercutida por toda a abóbada celeste: Não abra. não abra os olhos. o erudito e judicioso imperador La-long.Pois irá . Levados pelo redemoinho da festa.. que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo. .. os pés encontram chão.Seong-Ngó. o imperador. se exilara no palácio do Sol. redonda e enorme. em resposta. têm um andar precioso de dançarinas rituais. Tien-o-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar.baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. .. rodeada de fadas dançarinas. O imperador Meng Uóng. genial amigo . De súbito. O sábio abre os olhos: .. Proferidas estas palavras graves. os espera. Procurava apenas adivinhá-los. agora. Felizmente que. Não abra os olhos. num arrepio. o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida. O frio em amenidade. Sobem agora uma escadaria de marfim onde.Não abra os olhos Majestade. os acordes de guitarras e vozes femininas.Pode abrir os olhos.proclama o sábio. primeiro indistintamente depois mais nítidos.Tens razão. cantam e riem como sinos de porcelana. ergue o bordão e aponta-o à Lua. fofo e macio. Encara-o. E descobriste-os? Tien-o-Tzê. Majestade. Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta. no alto. não apareceu sob a forma de batráquio. que os pés. num acesso de inespe-rada força. que subia ao céu.exclama. Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes. Seong-Ngó reina sobre as selenitas. Majestade. o sábio Tien-o-Tzê. O vento pacifica-se em aragem. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos».. Majestade . O imperador.Este bordão. não custa. o que seria deselegante. .. um luminoso pensamento: «O inatingível está à tua mercê. . . A voz dele ressoa em eco. O sábio não errara. vestidas com túnicas de cores celestes. apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão. . logo por trás dos últimos sicómoros do jardim. corresponde ao mandado. logo acrescenta mais esta fala: . . luminosa. Sentada num trono de coral.Um vosso antepassado.

No espelho da imaginação tudo acontece como nós queremos. Um Tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro.exaspera-se Tien-o-Tzê. Feche os olhos. acredite.O tigre tem medo de cair. . Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz. Nós não! De olhos fechados. O sonho mau vai passar. após este. Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima onde o coelho de jade.. que já corre à frente do príncipe. apavorado. o imperador Meng Uóng. Os pés afundam-se no musgo como na neve.. flores. Assim. feche os olhos.. Os archotes da varanda ardem. olvidou. o que lhes prejudica o despacho da corrida.grita. chegam ao jardim imperial.Fujamos . rodopiando o leque.«Queres.. onde o deixaste? Longe responde-lhe o sábio. folhas.Agarre-se à minha mão .... Majestade! Mas o imperador duvida: E o tigre? O tigre não virá atrás de nós? . Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável.teme o imperador. como são designados os seus actores. mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar. Tien-o-Tzê. as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria. sem sobressalto. Acredite. Quem quiser ver a cerejeira que olhe para a Lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar.E aonde me agarro desta vez? O sábio. O sábio repete... pela primeira e única vez na vida. Com um gesto insinuante. os olhos». a máxima de La-long: . . diante do almofariz. no seu refúgio. soluçando de cansaço.. . sem parar de correr. Esquecidos das regras de reverência nem agradeceram a generosidade do convite. os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua. Sábio e imperador descem. Antes de alcançarem o coelho.O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos .Aguentará o nosso peso? . conta a lenda que ganhou ramos.. .palavra. segundo o calendário chinês. Aí. «discípulos do pomar das pêras». Logo em seguida um rugido e. inúteis. E o elixir da imortalidade. A Lua escondeu-se. escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.. Cessaram os cânticos de saudação. Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde. .O teu bordão. outro e outro ainda. Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-o-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua. aflito: . A guardiã da Lua parece dizer: «Querem provar? Apressem-se». têm de passar por um desfiladeiro obscuro. naquele transe.. E entusiasmado pêlos bailados e cânticos das fadas lunares criou uma escola. Majestade. num pavilhão. prepara incansavelmente o remédio contra todos os males.. que os teus desejos. aconteçam? Fecha. evocando as melodias que ouviu das selenitas. na sua oficina de alquimista. Se não conseguir ver. em corrida. À voz entrecortada do sábio responde o imperador. grita num assomo de impaciência: . Revi rã os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes. no meio de um pomar de pereiras. -Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra. a escadaria e precipitam-se para a colina. à luz da madrugada.enquanto lha estende. todos assustadores. Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome de lei-un-tchi-tâl.

De noite. e o grilo. enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha. – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto.. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite.. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. a coivinha atempou. Turvava-se tudo. Não se via vivalma. De nada serviram os pedidos ao Doutor. atirando a espuma às poças. era um saudoso namorado. ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres. O Rei.. a lua subia a terraço. o sol era um rei em seu balcão. os presentes. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. bravo e alto. E um belo dia.. e.... morreu a leitoa empachada. esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. E então veio a recruta. Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns. Vento excomungado.. A faia do Norte. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende. uma ave ou duas debaixo do lenço. o Inverno era frio como a neve e negro como um tição. a este e àquele: os cambos de ofertas. o forro do sótio ardia todo. Ah! Mas. o fogo passou-se à copeira. corado duma banda só. emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!). de manhã. frios.. sozinha neste mundo. A Cacena era uma triste mulher. as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá. outros. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura.. um tição de lume queimou as faias da cozedura. seriam umas três da manhã (água.. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Abaixem-se aí!» A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. passante disso. Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. bravas nos corredores. se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha: – São horas. cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas. tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. Vizinhança – nenhuma. a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. cornudos e torcidos. dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos. Primeiro. O pêssego amadurecia tarde. As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo. algravitadas.. já praça pronta. houve a peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. muito poucas dispensas. um deserto. Acudiu-lhe a vizinhança . Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. Enfim. a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então. fora de suas estribeiras. nas gretas.António Torrado Publicada por Helena em 3:54 Etiquetas: António Torrado 5/OUT/2008 Mau Agoiro A Canada do Búzio era uma bocarra. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas. De dia. de casca sardenta. com madrugadas. Ora.

Um deu vinte tábuas de forro. vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço.. Bateu-lhe as palmas. Era um gorgulho de ave. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo. de amor-Deus. mas benzendo-se: – não porque levem bruxedo. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz: – Deixa tu estar. davam fé daqueles santos pelingrinos e. Têm-no co elas… Agora.. Donde lhe vem.em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!. que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. de cá. até encontrarem solidão. Essa noite desceu como um fugido à justiça. chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos: – Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu. as codernizes. Uma tarde. de mãos postas. A coderniz é pior. se Dês quiser!. lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. Mas lá que têm pitafe. muito madrugada. com frechais e asnas novas. e logo. serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada. e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas. de ponta a ponta do cume. outro. – Não se afl ija. Afinal. Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre. a telha de vidro iase enchendo de flor de anil e azulão. Então o Capitão. ao ouvirem o passo mais à toa. dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco. à porta. com dois amigalhaços. com pena dele. e lá levantaram ambos a cozinha. – Que me dizes?! Ai. no Castelo. Aquilo era no batente – ora. minha Mãe? – disse ele. pela calada. estando a cardar lã de ovelha. que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus. mal luzia o buraco. toca a chocalheirar: – «Cá vão eles! Cá vão eles!» Mas as labandeiras vinham e. como se dizia na Peluda. todas repatanadas. se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo. por cima da cama. não choveu. – labandeiras! Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa.. corsaira. E.. a escuridão das canadas parecia tinta de ... – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar. No quarto da pobre Cacena. Mas vem o caim dum pé de vento. com a rabadilha em forquilha. assim abaulada. Mas desde esse dia reparou que. a todo o comprimento. à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se. – Jasus! Disse isto e. não sei. Quando João soube disto. outro. salpicando o telhado com as asinhas de rasto. os barrotes. A prove da minha mãe stá pràli sozinha. fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro». João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa... Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca. e. pegou numa pedrinha. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes. tremem da passarinha. e que. as cancelas do céu fecharam-se de repente.... deu fé de que uma delas aporfiava na dança. – Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada. s’o mê fi lho me morre!. e varejou-lha rente. voando baixo. que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto. sem ter quem no ganhe. uma coisa de nada. cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.. – Que mais quer. Era ao azular da hora de alva. uns pios de aflição pareciam picarnos o juízo como pontinhas de alfinetes. o Trigueiro que passa da cidade: – Boa noite. de mais a mais viúva e apartada do fi lho. Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava. sem o mais leve clarão. de rabo de forquilha. O Niquinha tirou dois dias de obras. cobrindo a velhota de beijos. uma mancheia de telha. três unhinhas de nada riscavam. Nã l’há-de chover pinga dentro. uma noite. como quem pede para toiros. de olho vivo. em menos dum amén.. com efeito. mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos.. tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital. têm. amassadas nos restolhos. A terra fi cou como uma furna negra.

Pirolito que já bateu.. Mãis o poleiro. foi-se toda a ninhada da pedrês. na pedra do lar.. fi lho! Stá caladinho. a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma. Dá-me dali o bordãozinho. que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo. que os nã tenho. um vento parecia dançar de porta a porta. sentada a remendar... A panela da ceia cantava com água choca e feijões.. graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina! «Quem fosse à Missa do Galo!. discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses. vai daí... 1949 . Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente.. deu-le o rato. para não ouvir a velha. não oives? João stá pior. meu amor! Vamos cozer de tarde. que nem cara têm de coisíssima nenhuma! É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra. Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las. Só eu incaranguei .. há casas ricas e casas proves. canja de galinha. pois. mãis tenho pernas. Fazia para a ceia coives espernegadas. figo passado.escrever. Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos. dentro em casa. Enfim. Às vezes.. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. cabaço. Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente». furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia. meu home! Mãis stá calado. Por isso José pegou no bordão. Às vezes. filho! Faço-te um esfregalho. que batia. o Natal chegou. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa. e é aí que se come bolo-rei. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho. O Mistério do Paço do Milhafre. «E.. Umas vezes é frio. nem a velha. vai. qu’a mãe vai ò mato e já vem. – Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai.. escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito.. que bate. Faço-te um esfregalho. João. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco. outras chuva. Deus dá o frio cunforme a roipa... outras são tão alegres ou tão tristes. e havê-las senhoronas. Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente. a moda do Pirolito que bate.. a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega. Nosso Senhor JesuCristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e. Chega sempre.. Burra na na tenho.. ! Nã te dou pão de milho azedo.. Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado. Em baixo. que é que tens? João. à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta.... tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa.

ele preferia resolvê-lo logo. Falou: . Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. Para quê ter medo? O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa.Publicada por Helena em 6:22 Etiquetas: Vitorino Nemésio 4/OUT/2008 Com que é que se parece um professor? Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema. Foi ele mesmo falar ao Comandante.

Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. o seu saquito era fácil de arrumar. Se não me querem aqui. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. como fazes.— És um rapaz esperto e corajoso. Se se portar mal avise-me. Com que é que se parecia um professor? Sim. não é bom. a olhar para uns papéis escritos. Ngunga imaginara-a de outra maneira. — Eu nunca fujo! — respondeu Ngunga — Quando quiser. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. aprender a ler e a escrever. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. Afinal era um jovem. Numa escola aprendes mais. — Não há problema! — respondeu o Comandante — Vou falar com o povo. digo que vou embora e vou mesmo. E não estás a aprender nada. numa sombra. Aqui já te disse que não podes ficar. Também o professor o surpreendeu. Não preciso de fugir como um porco-de-mato. — Como? Estou a ver novas terras. novas pessoas. Pepetela. — Tem de ficar a viver aqui comigo! — disse o professor — Também já tenho o Chivuala. O Ngunga precisa de estudar. — Não é a mesma coisa. eu vou saber. não perdia nada em experi-mentar. Estás a ouvir. Disse que ele não tinha família. Escola? Nunca vira. nos campos. Vais ver como gostarás da escola. que veio comigo do Guando. tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Eu parto amanhã e tu vais comigo. — Espero então que não queiras ir embora. sorridente e falador. Não queres? Ngunga ficou silencioso. para não ser como nós. ainda mais novo que o Comandante. . E. angolano). Se não gostasse da esco-la. isso sim. acrescentam um pouco para os dois pioneiros. Sem o saber. se fugires da escola. Os outros alunos são externos. Por isso deves estudar. vai haver o problema da alimentação. novos rios. A escola era só uma cubata(1) de capim(2) para o professor e. Vendo bem as coisas. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros? Mavinga apresentou-o. precisava de conhecer o professor. — Prefiro ser guerrilheiro. As Aventuras de Ngunga Notas: (1) cubata (2) capim — planta (3) quimbo — habitação gramínea que cresce — aldeia tradicional espontaneamente (termo africana. Andar só. Ngunga? Se não trabalhares bem. vivem nos quimbos(3) e vêm só receber aulas. eu encontrar-te-ei. O professor riu. então vou para outro sítio. E assim vais conhecer o professor. — Ngunga. Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Não devia ser bom. alguns ban-cos de pau e uma mesa. Deves ir para lá. Quando derem comida para o camarada professor. Estou a aprender. Para estes dois. Ouvira falar. Oiço o que falam.

.disse por fim o Vitorino. farto de conhecer a causa do formigueiro. .. Quando de madrugada o outro voltou à cama. o cheiro do mosto embebedava os sentidos. o Rasga foi-lhe no encalço.Vou até lá fora . enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas.. os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irónicos e coniventes. Pela manhã a vindima continuou.Nada. a vigiar-se mutuamente. cada vez mais insofrido.. O que se há-de fazer ao tarde.. .Agora caso com ela. Passou a mão pelo restolho da barba. na cardenha. . E saiu.Tu que tens? .perguntava-lhe o Rasga.. com a namorada ali quase à mão de semear. que metia aflição. parecia um rouxinol: Eu já vi a Tiraninha A beber numa cabaça. sumida no entrançado de vides e de folhas.Valha-te Deus. não parava sobre a palha centeia. . E o que havia de ver?.Não me apetece dormir. só lhe disse: . e deixou os felizardos na paz do Senhor. homem! E agora? . Era um rolar sem tino para um lado e para o outro. E à noite. E a Lúcia. . sem poder mais. os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no chão. Orvalhados. Olha a raça da Tirana Que até no beber tem graça. com a terra empapada de doçura a servir de lençol. o Vitorino. numa melancolia de faminto sem pão.e continuava a mexer-se. o colchão de todos. Pé ante pé. Como troncos derrubados. Um noivado ao luar..Publicada por Helena em 9:19 Etiquetas: Pepetela: As Aventuras de Ngunga 2/OUT/2008 A Vindima Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda. . pois então! Isto nem tira nem põe. Apenas os dois amigos velavam..

Os dois rapazes riram-se. apenas.Não estás farta. Só mesmo por alturas de S. tinha ainda a voz fresca como uma alface. e. o patrão. uma tristeza súbita calou-a. arredonda-a bem. mal o Doiro apareceu lá em baixo. Ergueu o vindimeiro. ou inspirada pela beleza do cenário. E com segundas. a fazer quanto podia para dar também um ar da sua graça.. Daí a nada arrebitou outra vez. levava tudo adiante. O harmónio repenicava-se todo em redor dela. lhe meteu medo. Vindimei-te o coração. atirou logo: Foi no Pinhão. À esquerda. mulher?! Riu-se e continuou na dela.. Ia a vindimar um cacho. ainda trauteava uma moda. Desde a saída de Lamares que não se calara mais. Rita. como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclópico dos montes. a semear milhão. queria empassar a terra.. maldoso. um despenhadeiro de meter medo. mortórios escalvados e desiludidos. ao deitar... Invulnerável. desembaraçada. onde a alma corre de fraga em fraga. Os geios eram degraus do Olimpo. no maio. uma penedia por ali acima.. que só de vê-la faltava a respiração. ao cabo de quatro dias de azáfama. À frente da estúrdia. certamente fecundada já pelo seu amor. que a primavera apenas endurecera. O sol.um . num mútuo entendimento da significação oculta da cantiga. à direita. Rita. em escada. num respeito de escravos. e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada. Enquanto os mais. era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho além. cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro. o Rasga comentou: . que nem o pai. e à noite.. o raio da rapariga rompia por ali adiante.. Ao passar diante do cemitério aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos. E o bombo. A lama de cinco meses de inverno. onde crescia e se colhia o espirito celeste. se descobriam ou cumprimentavam aquele símbolo do trabalho e dos ganhos na Ribeira. Foi a Guilhermina. arredonda a saia. Berkeley. de xaile à cabeça e cesta no braço. Depois. . E. Eu hei-de te amar. faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. com asas nos pés. sempre à vista do céu. Eu hei-de te amar. Dispersa pela encosta. já enfastiada. a Lúcia punha o coração a voar: A oliveira da serra O vento leva a flor. que a luz da tarde transformara numa barra cintilante. continuou a cantar como se nada fosse. Mas o grande rio doirado. Tirana. Cada canção .. ao longe.. ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros. chamava a si toda a atenção dos olhos. atirava com a voz bonita pelos montes a cabo.. a escaldar. Eu hei-de te amar. Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto.. Cristóvão é que esmoreceu.Ninguém lhe levava a palma. que a mandou calar. que sim. ao fundo. Encostas negras.. bem feita. apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava... Tirana. Os ferrinhos a dizerem que sim. ao chegar à Arrueda. enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga.O que vale é que a Tirana tem as costas largas. Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la. Obra dum suspiro. porém. Duma maneira que eu sei. depois de empassar as uvas. Nem a cara seca e vermelha do Sr. E agora. a roga mais parecia festejar um deus generoso e pagão do que trabalhar. eu hei.

Ainda o Vitorino não acabara de sair da sua contemplação.. recorre a mim. a signatária do referido documento. O tear mágico urdia desumanização. Devo esclarecer que não conheço. nenhum ódio. Entretanto. para arranjar onde o meter. Lá fora continuava o coro. vigilante e profana. numa fila indiana. Chora videira. quase teve de berrar. como que dava forma à incorpórea harmonia que.um solavanco no ritmo do cerimonial. ó videirão. que não ouvira nada da morte do Vitorino. A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. lhe berrava aos ouvidos: . Nervosa. Chora videira. já o Seara. que tens que preparar uma vasilha. Miguel Torga. suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos. a roga emudeceu também. Nenhuma mágoa. Chora videira. o feitor. é que se via que uma vontade prática subjazia ali. ó meu coração. por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. asfixiado dentro do bojo da cuba. em absoluto. que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino. Alegre. o Vitorino deslizava submisso pela portinhola dum tonel. que se assina simplesmente Aurélia-Maria provavelmente um pseudónimo. quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre.Tu andas parvo ou quê? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazém. descia em cascata pelos socalcos. Não havia tristeza que entrasse naquelas almas. Não há desgraça na vida Que aos pés da mulher não caia.a dádiva desse amantíssimo Senhor. Dir-se-ia que tudo naquele paraíso suspenso se movimentava lúdica e religiosamente. E os cestos acogulados. com a sua voz pesada. Garroteada como a do namorado.. E só quando um dos fios da meada emperrava. na qual parece encontrar-se presa para sempre. de amigos ignorantes e inimigos insidiosos.. Berkeley. ó videirinha. que só pedia contentamento em troca dos seus frutos. Contos da Montanha Publicada por Helena em 5:25 Etiquetas: Miguel Torga: Contos da Montanha 27/SET/2008 O Noivado Infeliz da Aurélia Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José. e havia . Principalmente na de Lúcia. Cantavam todos. Transida e comandada por tão grave silêncio. ó vida minha. Chora videira.. que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiéis devotos. cada vez mais agradecida ao céu pela sua redenção terrena. tal as vítimas dos sacrifícios antigos pela boca do dragão. falando-me com uma . porque o deus da abundância não se cansava de multiplicar o mosto no lagar. sonora e ritual . E sente-se tão perturbada pelos conselhos. a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento colectivo que alijara do mundo as misérias e os desenganos. a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia. descuidada. continuou a agoirar a tarde com o seu lamento fanhoso: A mulher é desgraçada Até no despir da saia. Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez. nenhuma desconfiança do futuro. E o bombo. uns diferentes dos outros. Só a Casimira velha. desgarrada numa valeira solitária. E o Seara.hino de louvor.

Quando ficou bom. e eis que Caruthers quebra a outra perna. . encarando a situação com ânimo firme. sobretudo. no hospital. Aurélia tinha dezesseis anos . numa indecisão cruel. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Um dia. Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. resolveu pôr à prova. Aurélia chegou a hesitar. com pouco nada mais restaria do rapaz. Ainda ama o noivo . ficaram noivos. e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Caruthers. e quebrou uma perna. Ainda na convalescença. Ainda assim. . com todo o ardor de uma alma apaixonada. coitada. como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz. como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade. Enfim. caiu. Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso. de New Jersey. que tocaria o coração de uma estátua. percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. A esta altura. distraído. tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais. poucos dias antes da data fixada. o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva. ainda uma vez.diz ela . com relativo conforto. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola. três me-ses depois. a pele marcada pelas bexigas. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele. com esse sistema de progressiva redação. a face da realidade transformou-se. embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto. Sentiu. Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que. Por sua vez. os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem. quanto à anulação do seu compromisso. tinho o rosto desfigurado. quase seis anos mais velho que ela. o coração transbordante de alegria. novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado. um rapaz de New Jersey. entretanto. Foi o seguinte: durante o ano. Contudo. aconteceu outra desgraça. teve o outro esmagado numa prensa agrícola.eis o que ela me pergunta. por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que. e só fez mesmo transferir o casamento. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos. limitou-se a transferir o casamento para depois. Caruthers. Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos. mas. Com o consentimento de seus pais. ainda deu graças a Deus por haver-se salvo. verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo. num poço. porém sua família se opõe terminantemente ao casamento. Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. por uma questão de piedade para com o infeliz.quando encontrou e amou.é o que ela me escreve em sua carta. Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. apesar da sua imensa bondade de sentimentos. e durante um largo período tudo correu muito bem. O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. Ama-o de todo o coração. quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus. Acontece que na véspera do casamento. como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente. Mas. Em seu desespero. reflectindo direito sobre o assunto. porque a sua beleza desaparecera para sempre. Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. mesmo por esse preço exorbitante. Aurélia sentiu uma emoção cruel. porém pondeu a todos que. Era enorme a sua aflição. e da espécie mais virulenta e terrível. as lamentáveis disposições do seu noivo. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado. Os pais e os amigos da moça. Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar.Que devo fazer? . chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers. não atendeu aos rogos dos seus.eloquência extraordinária. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse. Ouçamos a sua triste história. Já não era o mesmo. todos os dias. Foi transferida a data do casamento. Tiveram de amputá-la acima do joelho. Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. numa festa cívica.

e este me parece o melhor partido a tomar no caso. Decerto. Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso. Reflecti bastante sobre o assunto. as portas conservavam-se fechadas. poderá arriscarse a casar com ele. tratando de fazer coisa definitiva. É tentar a sorte. a não ser. por haver feito o que lhe pareceu melhor. Já que escolheu outro método. e assim Aurélia não perderá nada. era ainda muito cedo. Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia. e então a pobre noiva poderá ficar tranquila. que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição. não se pode criticá-lo. o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz. Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco. Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez. ao fim do qual. casada ou não. e não vinha das habitações o mais . de qualquer maneira. com efeito. uma questão delicada. propriedade do defunto. portanto. as pernas de pau e outros objectos. seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias. Ao longo das ruas tortuosas. com o rebanho atrás dele. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias. Mark Twain Publicada por Helena em 14:17 Etiquetas: Mark Twain Idílio Rústico A Fialho de Almeida Quando atravessou a povoação. sem o menor ressentimento. um olho de vidro e uma cabeleira postiça. se o rapaz não torcer o pescoço. dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível. sua próxima experiência na certa será fatal. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem. Casada. Feito isto. ficarão como herança para a viúva.Esta é. para torná-lo apresentável. rua abaixo. na realidade. deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais.

insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma estúrdia, a desoras… Mas, passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em ziguezagues. Fulgiam no céu azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos choca-lhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando a marcha se de novo ele se punha a caminhar. Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, que o eco levou para longe. – Não gastes pólvora, António! – recomendou o pastor. – Ouviste? E logo a voz do guardador: – Madrugas hoje, Gonçalo! – Pra que saibas! Cá um homem não tem medo! – Está bem. Adeus! – Saudinha. A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham atitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens secas, onde algum réptil passasse vagaroso. – Busca, Turco! – fazia-lhe o Gonçalo, que tinha medo às cobras. – Busca, valente! À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciência, – reflectia o pastor, a quem abor¬reciam de morte os intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, o Gonçalo desabafou: – Uff! até que enfim! – E pensava aliviado: – Nada mais fácil do que terem-me saído os lobos!... Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda acidentada de rochedos informes, blocos medonhos por entre os quais no inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num descuido involuntário – simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara. E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paisagem. A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e manso, e sem o mínimo ruído. Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também. – Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada... E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

– Ora se será ela?... Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira. – Ai, se fosse a Rosária!... – disse consigo. E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta. «O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária...» Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica. No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: – Eh lá, Gonçalo, és? O pastor desatou a rir. – Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! E logo a voz fresca da rapariga lembrou: – Não te esqueceu a moda, rapaz! – Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária? – Se outra fosse que ma tivesse ensinado... Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou: – Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? – Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p’r’as ovelhas. Han? – Basta! E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a pouco entrava, mais o rebanho, pela velha ponte mourisca, toda severa de construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas bravas. A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que era como um talismã precioso para livrar de maiores desgraças – naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles caminhos escabrosos que eram um perigo constante para homens e animais. Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual seguida do seu rebanho. – Ora viva a Rosária! – disse o pastor muito alegre, parando defronte da cachopa. – Bons-dias, Gonçalo! Então que ventos? Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da feira dos Caniços. – Por sinal que nem rez se vendeu! – lembrou o Gonçalo. – Por sinal! – disse com pena a Rosária. Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que a encontrava. – «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja ele...» – Mas se eu estive tão doente! – volveu triste a Rosária. E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou: – Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era mesmo lume, desde manhã até ao escurecer... Uma assim! E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, como agora tinha acontecido, – «tal e qual». – Assim te Deus salve, ó Rosária! – atalhou rápido o pastor, a quem enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga. – Assim; pois que dúvida? – tornou-lhe confiada a Rosária. – Não! – disse agastado o Gonçalo. – Não hás-de dizer assim... Dize certo, hás-de jurar direito. – Pois assim me Deus salve… – Como é verdade... Dize, tudo, Rosária! – suplicava o pastor. – Sim – volveu-lhe paciente a companheira – como é verdade que sonhava que nos encontrávamos – concluiu por fim muito risonha. E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também não a esquecera. – «Tanto

é que tirava da frauta as cantigas todas que ela lhe tinha ensinado.» – Lembras-te? A Rosária fez que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de sabugueiro, o pastor apressouse a declarar: – Saem daqui sem falhar uma! – E resoluto: Vá feito, Rosária, pede por boca! A Rosária pediu então a Pastorinha. – Eu é da que mais gosto – explicou. – É a mais linda. E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a Pastorinha, enquanto a Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra: Onde vás, ó pastorinha, Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé... – Sabes essa! É mesmo assim! – disse-lhe a Rosária a rir-se. – É como vês! – afirmou contente o Gonçalo. Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois reba¬nhos, confundidos, andavam na pasta-gem. – Olha as ovelhas juntas! – notou o Gonçalo. – Também nós nos quedámos juntos, – volveu-lhe a pequena, sorrindo. – As pobres dão-se bem, são amigas... – continuou com júbilo. – E nós também, ora também, Rosária? – Também – respondeu afoita a pastora. E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias. * A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela de alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo: a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada chó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante, no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores e continuavam conversa. Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a Rosária... – Mas o cabelo assim cortado... – disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça nua, e passando a mão pela dele – é que te não fica bem! «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças! Negras, de mais a mais, que era como ele gostava...» – Promessa da mãe se eu melhorasse – explicou a Rosária. – Lembranças... A gente quando está aflita... – Quando está aflita... – repetiu como um eco o pequeno. E depois, amuado: – Se te promete os olhos... A rapariga fitou-o, espantada. ...é porque tos tirava! – concluiu convicto. Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

– Se eles fossem tolos. o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia subindo e descendo. contando casos. lá isso. os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando. jogaram tudo – a pocinha. E foi-se a recolher as esparrelas. mas ela foi-se. para as terras onde tinham de pernoitar.. depois.. – Turco.. – que as promessas sempre fazem. iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados. a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo de que sempre valiam as promessas. – Olha lá não caiam! – tinha dito o Gonçalo... Rosária? – perguntou o pastor sem levantar os olhos para ela. o fito. como o rafeiro trazia à mão. sabias? E generoso: – Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta.. – Olha como dança. mais as ovelhas. – E deitando-se para trás: – Lá anda ela a pastar! – concluiu desalentado.– Não falas. aposto! Bateu no peito e fez com a cabeça que sim. que ia valente. mais pensativo. batendo com o bilro nos dentes: – Que às vezes as promessas pouco valem. não lhe agradava a conversa. repara que é a melhor. Ficou lindo. Ainda armaram aos pássaros. para se livrarem da estiagem. E pondo-se de joelhos.. – fez que concordava. eu mais a mãe. Inda vais feita no que disseste? «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo o santo dia. credo! – E depois animando-se: – Já foste à Senhora dos Remédios? O Gonçalo fez sinal que não tinha ido. Calor de rachar. a Rosária ia entretendo o pastor. – Também tu. não vês? A que se vai agora deitar. Como o tempo rendia.. No entanto. logo o rapaz acudia. no céu glorioso e fulvo. era ele que ia buscar o pauzinho. Ao alto.. O pastor teve um movimento de enfado. E sempre ao lado um do outro.. traze cá. acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto se deixara estar sentado. o largo céu esmorecia no seu azul suavíssimo. deitado de costas. . – E depois. E para acabar com ela: – Que enfim como melhoraste. firme na sua objecção: – Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! * À medida que o sol ia subindo. – Aquela ovelha. E convicta. Num prego ao lado do altar.. mostrando-lho orgulhoso – «que visse os torneados». dando ao demónio os pássaros.. A gente bem rezou e bem promessas fez. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa.. com a jaqueta a fazer de travesseiro. que foi quando tomaram para a banda das azinheiras. – E o fito. aos domingos à tarde. a bilharda. Na bilharda. já cansado de estar à espreita. Mas quando ela fazia pausa. – começou com medo a pequena. Pois era para Nossa Senhora. essa noite?» – E o mais. e já começava para poente a decoração fantástica do ocaso. ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro. – logo te zangas! Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso.. ó Rosária? – perguntou de novo com interesse. tu não conheceste. e para os pinheirais. E fitando fixamente os olhos negros da Rosária. agachado. começou a procurar pelo rebanho. disse-lhe assim: – Mas olha o que prometeste. ali por volta do meio-dia. que mais era que dormissem no mesmo curral. mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas. ia descaindo a tarde.. E contando. as pernas em ângulo tocando-se com os joelhos. quando zenia para longe. – Mas tinha de ser – volveu-lhe triste a Rosaria. já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens. No entanto. os santos! – Olha a minha Joaquina. – E interrompendo: – Sabes quem fez este bilro? – Foste tu. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno. a branca. um lacinho verde nas pontas. – Pois foi lá que deixámos as tranças. pondo o bilro a girar. Depois continuou: – Vai uma pessoa andando e os santos não se importam.. Ela então propôs que jogassem a pocinha. com o fio da armadilha preso ao dedo. Parece que se ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio.. as necas. bato-me com qualquer. Ora..

-tardes!» Ao sair da ponte. casava-se com a música. * Pouco a pouco. E como ele ia expansivo. – Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. Mas como o pastor não cessava de a olhar. um naco de queijo. colocando na sua frente a Rosária. e então. Numa terra de restolho.. os cães .. As ovelhas continuavam confundidas. não enxergas? A outra fez que sim com um gesto.A pequena ficou perplexa. assobiando aos cães. respondeu: – Também.. O brando rumor dos chocalhos. confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente. que se levantava de todo o rebanho. muito devagar. – E sorriu-se. Ao fundo. tilintando campainhas. Gado para dentro e toca a merendar. pequenos! – cumprimentou. Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou. e deu o sinal de partida. a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos três arcos. e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu. A ladrar. foi-se extinguindo no curral a música triste dos chocalhos. a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista.. Daí a pouco. o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas. parando a espaços. Mal acabaram de comer. tinha anoitecido havia instantes. – E os lobos? – perguntou a Rosária com medo. o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto. na direcção em que devia olhar: – Vês além?. Até que chegaram a um topo de serra. cobrindo-se com as mantas. de pé num topo de fraga. A Rosária explicou logo: – São as mouras a caçar com redes de oiro. Nas rugas da corrente. e da caminhada agora. – É bonito! – fez notar o pastor. lhes ia ensinando as manobras. Quando passavam a velha ponte. Neste direito? Resvés do castanheiro. – Adeus. e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia. de um pitoresco ingénuo de balada. um pouco mais abaixo.. e pondo-lhe à cara a flauta. bebendo mansamente.. * Até que por fim chegaram. e a companheira não dava palavra. sabias? Para a outra banda. parando um momento. fundindo-se numa nota subtil. alongando o pescoço para a veia de água serena. – Falta pouco. A gente vai pelo atalho. que é só mau para quem passa a cavalo. – Huum! Arrependeu-se. E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga. pão. tirando à água a sua translucidez normal. repetiu-lhe muito contente: – É mesmo além. tem de ser – volveu-lhe cabisbaixa.. escurentado de matagal rasteiro. três vitelos passavam o rio a vau. – Pois eu. estavam de marcha para o curral. E de novo se puseram em marcha. o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. Dentro da chata que vogava serenamente. – Isso é lá com os cães. Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo.. Sobre o vitelo das malhas brancas.. o Gonçalo perguntou. o rebanho teve de se afastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados. – volveu consigo o pastor. em mangas de camisa. o guardador cantarolava. ó Rosária? – Triste… não… Já agora. e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro. enquanto o pai. – Venha com Deus! – tornaram-lhe ambos. acenando com o chapéu ao moleiro – «Boastardes! Boas. um largo quadrado de cancelas marcava o espaço que as ovelhas tinham de ocupar essa noite. uma luz alaranjada tremeluzia. cerrara de toda a noite. quis então saber: – Estás triste.. e interrogou: – Então é ali? – Ali mesmo – volveu-lhe já de marcha. assomavam à flor da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro.

E se eu te armasse uma ratoeira? Se fosse à tua procura por todos os cafés de Lisboa e ao encontrar-te dissesse cruelmente: “Então essa gaja?” Que me responderias. neste caso. grande maroto!. mesmo sobre a cabana.. do trabalho irrespirável. vencidos da fadiga. combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado . dumas palavras que desejas ouvir e nunca ouviste. nos encontros que . imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a Natureza. uma doçura verde de erva molhada (sim. então porque lhe chamas gaja em vez de princesa das laranjas de oiro. mas puxando a coisa bem mais para a esquerda. a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois. Ou então. que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!) possa sentir-me de bem comigo próprio. um conflito assim entre irmãos – mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós. estarás. mulher de branco.. que não se preocupe. Justino Soares. se haverá realmente. como poderíamos imaginar possível. O rebanho devia dormir profundamente. raio de sol. a brincar a brincar. há vinte anos. pergunto-me como te falará ele. Quando ao repontar da manhã se levantaram. a minha boa acção diária para que no exame de consciência. inesquecível. casada com o Eugénio. e saíram a ver o céu. Rosária! Olha. tu. nas conversas que temos. invocandome como testemunha para dares mais realidade ao sonho. eu trato da necrologia. e para que eu te inveje. por descargo de consciência. na mais modesta das leitarias do teu bairro. ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela. na realidade. daquele). jamais vivido sobre a Terra. se deixaram adormecer – quando a história das mouras encantadas ia no seu melhor episódio.. Gonçalo! – Bonito dia. de palavras grandiloquentemente romanescas. neste fim de tarde. quem sabe?. um “para a esquerda” difícil. tão identificado com o presente que até já passou. ao pensar daqui a uma hora que enquanto bebo café e converso O arquimortes inutilmente com amigos sobre os boatos que já não há (aquelas velhas revoluções que estavam para rebentar no dia seguinte e que nunca rebentavam). te esfregas na cama com uma gaja bestial – mas. mulher que vais chegar atrasada. como falarás tu – se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho. aliás inútil. voando. ao largo. a ilusão de que estão a viver um momento único. uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório – resíduo sem memória futura. saberás que ele te trata por gaja. pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E.. ou porque ela não aparece ou porque nunca existiu. possa dizer-me que não sou um puro egoísta – muito antes pelo contrário sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio. os dois conversaram algum tempo. que fará do mundo. alguma mulher.. outros do Nouvel Observateur. num ciciar brando de vozes. “Pá – tinha-me ele dito –.. duns compridos cabelos de azeviche (que é o azeviche?). a estrela da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas crianças. conquistador imaginário? Mas se essa mulher não existe e tu procuras apenas um pouco de sonho. porque te apostas em sonhar tão baixo? (Penso na Guilhermina. in Os meus amores Publicada por Helena em 8:24 Etiquetas: Trindade Coelho: Os meus amores O Arquimortes A tua boa acção diária. se não terás falado assim para te safares do jornal. E lá no alto céu.faziam eco... – Bonito dia. que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde. deste. Justino Soares. uma simples cerveja. …na calma placidez do azul. bandos de pombas mansas iam voando.. são um nonagésimo sexto do dia). uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera. a calma repousante dum rosto de mulher. por quinze minutos (e quinze minutos. dado que a censura se encarregará de tosquiar esse “para a esquerda”. de resto: o conflito sino-soviético. a tomar uma cerveja.... pergunto-me se tu. até que por fim..... E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado. “ Sim. a minha saída deste antro detestado – mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu. Dentro da cabana. um momento que irá prolongar-se por muitos anos. Trindade Coelho. de todas as coisas.

inexistente. calvo. por exemplo. complexa. ela imitava. em suma. essa tristeza. Alegria. Guilhermina. do ABC. um Prémio Nobel. em vez de imortais (um Picasso. Nascendo para a glória! Que sensação estranha a minha. portanto. decretará a verdade. do sarampo. porque ela acabaria por um fracasso. autonomamente. muito pálido. vou buscá-la ao Arquimedes Meneses e Castro. porque eram simples e puros mortais. vistosa (vi-a uma única vez. penso agora. Guilhermina.. que poderia desempenhar a sua função discretamente. o seu destino mais autêntico. dessas que bem ou mal têm honras de arquivo. a primeira vez que dou por ele. era geralmente um homem triste. reservara o registo complementar: os novos heróis que iam nascendo para a glória. Ao que parece e apesar do nome aristocrático. que penso nele a sério durante alguns momentos. “Vamos lá matar mais este gajo!”. dos tormentosos anos de aprendizagem. sessenta anos. não um homem triste.evitamos. tarefa ao que eu pensava mais. os sentimentos profundos do Arquimedes. se faria palavras cruzadas ou se votara no general Humberto Delgado. S. Quase direi que nem dera pelo Arquimedes. porque não confessá-lo?. naquele nosso último diálogo em que elipticamente concluímos que nem sequer valia a pena tentarmos uma aventura fugaz. a China. só me lembro de lha ver nos dias em que alguma sumidade. Olá! Olá! Alegria que talvez não se tivesse manifestado logo de início. muito mais nova. que olho para ele com olhos de ver e não como se olha para um simples objecto igual a milhares de outros objectos (humanos?. ouço-me dizer. e mal acabava de escrever com letra gótica as palavras fatais (falecido em tantos de tal de mil novecentos e qualquer coisa) relia-as em voz alta para que tão importante acontecimento a ninguém passasse despercebido. não discutia futebol. resultava da comparação do seu aspecto (um homem apagado) com a frescura dela. nascidos homens feitos afinal – (e não foste tu. e terminei – a censura que faça o resto. mas calvície. esfregando as mãos. esfregava as mãos sempre que alguém morria. nunca consegui imaginar como ocuparia o tempo em casa. e pelo braço do marido.. os ténues fios da vida!).) Sim. me sentia igual a um deus criador. aliviando-os assim da tortura sem nome de terem sido crianças e adolescentes. alegria verdadeira. um desses homens que tinham descoberto a dupla hélice. a descer a Avenida da Liberdade num domingo de santos populares). mas tristeza – sim. tirara um curso comercial com grandes sacrifícios e dizia-se que a mulher o enganava. como se fossem àquelas mãos que estivessem presos os ténues fios da vida (aprecia a expressão. dos exames. lendo o primeiro nome (Manuela dos Santos Cruz): “Vamos lá matar esta cambada!”. Mas esta sensação. dava gritos de satisfação (Olá! Olá!).. a boa acção que hoje me imponho). tem uma voz que não é a minha. como se fosse eu a dar-lhes vida? E a dar-lhes vida já com mais de quarenta anos. nunca lhe vi um jornal desportivo nas mãos. descobri-o para além das aparências ao ver que num desses dias de homens mortos-mortais ele folheava desencantado o . Precisamente: dei-lhe um sujeito. o seu papel sobre a Terra. porque a frase (“Vamos lá matar esta cambada!”) não a inventei eu. mas sob a forma simples dos próprios atributos: não um homem calvo. como se todos aqueles mortos permanecessem vivos até o instante em que eu lhes baixasse os nomes ao papel. mas provavelmente isto era falso. embora ao invés. por detrás desse juízo definitivo estavam muitos meses de observação distraída em que ele não me aparecera ainda como um sujeito dotado de certos atributos. se coleccionava selos. até certo ponto. ela decidirá o que o público deve ou não saber. S. Ouço-me dizer. mas palidez. não humanos? – o ordenado que recebo não dá margem para ver humanidade nos homens que tenho de dirigir). a U. um Stravinsky). Eu próprio. Pego depois na lista dos mortos (a tarefa do Justino Soares. tornando público o que até aí fora privado e desconhecido. já o Arquimedes era o que depois vim a considerar ilusoriamente que sempre fora. porque quando dou por ele. mulher aparentemente com sangue na guelra. se via televisão. pertencia a uma família extremamente pobre. mas pouquíssimo cheguei a saber da vida dele para além destas simples aparências. que tinha a seu cargo a actualização necrológica dos ficheiros do jornal. a estrutura última dos genes. quando introduzia um novo nome no ficheiro. falo verdade. Baixinho. não precisavam de ser mortos. que me falaste da tua juventude como de uma época terrível?). Decerto. R. a primeira vez. abria o ficheiro aparatosamente. não a tive espontaneamente. dizia. Para mim. que se entretinham a ler no ADN o romance das nossas vidas! E precisarei de acrescentar que. não um homem pálido. nem sequer um romance policial. ao incluir no ficheiro esses recém-nascidos para a glória. talvez nem ele próprio conseguisse localizar o dia exacto (o morto exacto) em que descobrira a sua verdadeira missão neste mundo. nunca consegui descobri-los. Quanto aos interesses do Arquimedes. anunciava-nos. atributo sem sujeito (atributo ao qual eu não dera ainda sujeito) nesses dias em que os mortos. passava desta para melhor. da tabuada. Porque o Arquimedes. apesar de trabalharmos juntos todos os dias.

orçando pelos cem por cento. vinha noticiada no mais obscuro lugar da mais obscura das páginas.ficheiro com a esperança de que algum já lá estivesse. bem à portuguesa. recorrendo sempre a demonstrações de ordem estatística: trinta por cento dos mortais-imortais vivos ainda e registados no ficheiro (no Arquétipo. e associando-me à sua própria alegria. “Nunca mais os matamos?”. Limitei-me a uma dúvida: que data havíamos de escolher? (Se nos amamos. insistia. Guilhermina. porque não tentamos a grande aventura? Porque a experiência nos ensinou que o amor passa. tanto quanto sei. como se brincasse. mais mês menos mês?” Objectei como pude (concedo que o argumento era de peso) e alguns dias depois o Arquimedes propôs-me que matássemos o Picasso. os homens vulgares. invadido por uma suspeita. De facto. Sim. toda a gente o sabe. futuro breve que ficaria indestrutivelmente conservado nas nossas memórias. por ser pouco provável que ainda pudesse estar vivo. eu com a Helena?) Os brincalhões do Diário da Tarde. cuja morte. poderíamos encontrar a resposta? Certo dia. como eu não me entendo com a Helena. como diziam os graciosos sem graça nenhuma lá do jornal) já deviam ter setenta e nove anos (média exacta). sujeitou ao meu exame um cálculo perturbador: dez por cento dos mortais-imortais incluídos no ficheiro ainda estavam vivos. Para ele. Muito corado. Porque ninguém. tenho de o dizer). mas no dia seguinte contra-atacou. o que. esfregando as mãos. poderia roubar-nos os próximos meses da nossa aventura. Objectei-lhe que o número parecia razoável se o comparássemos com o que sucedia em Lisboa: efectivamente. consultava as outras fichas para saber as idades de quantos se obstinavam em ficar vivos. o Thomas Mann ou o Bertrand Russell. Porque lhe fugimos. fazia contas. o maroto que se me ia escapando!” O maroto que assim quase se lhe escapara. que. um desses homens que não chegaram portanto a existir (e que recusam – recusamos. lia em voz alta a data do nascimento. dissera. nem mesmo nós. e isto não é insinuar que conhecesse Platão (o Arquimedes era um filósofo espontâneo. pois lhes falta o Arquétipo. apesar de tudo. Porque para o Arquimedes. perguntava. tu com o Eugénio. o arquivo do Diário da Tarde transformara-se no mundo dos arquétipos. que dentro de um ano já não nos entenderemos assim e que portanto não vale a pena ensaiar o que está destinado ao fracasso e que seria somente a repetição de experiências que ambos já tivemos. sofrendo com a ideia de que aquele (ou outro) continuasse clandestinamente vivo. pois falava na primeira pessoa do plural. Já então o dia que ele sempre recordava com saudade era uma certa segunda-feira em que nada menos de sete homens geniais haviam morrido. por vezes. e com a mesma falta de humor. desprezava-os. era estatisticamente improvável num arquivo de personalidades que se distribuíam por cerca de quarenta séculos desde Amenofis IV (não sei bem porquê o ficheiro começava com este adorador do Sol) até o último coronel que fez ontem (ou há-de fazer amanhã) mais uma revolução fascista já não me lembro (ou não sei ainda) em que desgraçado país. e que por pouco ia conseguindo ficar vivo ad aeternum. mas a sério – e à espera que eu lhe abrisse a luz verde para a ambicionada hecatombe universal. De caminho. esse mundo longínquo do qual tudo o mais é sombra na caverna. E por vezes surpreendi-o a reler o jornal (a ler até a necrologia. consideravaos mortos de nascença). a ficha do Picasso na mão. explicou. a pouco e pouco fui-o percebendo. um anónimo sem honras de arquivo – de contrário ficaria horrorizado mal sentisse poisados sobre mim os olhos do Arquimedes. “Hoje vamos aqui matar uma porção deles”. um desses homens que nem sequer são sombras na caverna. porque nos negamos um passado inviolável. e se por acaso o morto tinha ultrapassado os noventa anos não escondia a sua indignação. o Arquimorto). a percentagem dos lisboetas vivos é bem mais elevada ainda. é nos jornais a vala comum dos homens vulgares) na vã esperança de encontrar algum morto-imortal – e o êxito. nós a quem nada mais resta do que a morte próxima ou longínqua?). caso quiséssemos saber com rigor se um Thomas Mann era vivo ou morto. se nos entendemos como tu não te entendes com o Eugénio. “O gajo não nos terá escapado?”. senão no arquivo. fosse afinal um grande homem (os outros. Felizmente sou um anónimo sem honras de arquivo. Guilhermina – a vida. a satisfação com que gritava: “Apanhei-o! Ah. que ao morrer prescindiam dos serviços dele. que já haviam inventado a história do Arquétipo. era o Matisse. começaram então a chamar-lhe o Arquimortes (também. mal me vira. substância de . Recorria à minha comparação com Lisboa: “Acha crível que trinta por cento dos Lisboetas andem à roda dos setenta e nove anos. a vida era a inevitável concessão que um universo imperfeito se vira obrigado a admitir para que a morte. O argumento perturbou-o e ele não se atreveu a dar-me resposta imediata. certos dias alcançado. onde.

embora de forma mais genial e prática.. um homem que perdera o ser. jovem ainda com os seus noventa e dois anos!). e despediu-se do Diário da Tarde com um argumento sem pés nem cabeça. por acaso. abandonando assim uma empresa à qual estava ligado havia mais de trinta anos. do Casals. para um acréscimo de imperfeição no universo.. Leio o nome da Manuela dos Santos Cruz. enquanto esfregava as mãos. vou passar por cima do teu nome – a ti. 1.? Precisarei de acrescentar-te que o proibi de continuar aquela tarefa? Mas a partir de então a alegria varreu-se-lhe do rosto. nunca mais ninguém lhe ouviu dizer olá!. o Álvaro Teixeira. Manuela dos Santos Cruz. não tinham ainda posto outra cruz à frente do teu nome.. atributo sem sujeito). o Delbrück. contribuindo. alguém que já não podia introduzir no mundo imperfeito um pouco de perfeição. incluindo os próprios – mas a opinião destes é evidentemente subjectiva e interessada. sessenta e dois anos. Certo dia encontrei-o-na rua. mas rico de imperfeição. que o Teixeira veio efectivamente a morrer no ano seguinte. limitara-se a retirar-lhes as fichas. agora estás definitiva-mente morta até para aqueles que. deixando no céu um ténue rasto de fumo que se prolongou sobre Lisboa por muito tempo (falou-se dessa nebulosidade no boletim meteorológico da televisão). Outro pressentimento forçou-me a procurar alguns nomes por mim recentemente ali introduzidos (o Luria. não era o teu. do Stravinsky. tão pouco!. até porque já ninguém te recorda e ninguém dará portanto pela tua falta. só porque existia. antes de me aproximar. quem. O funeral. embora no ano seguinte. não serei eu a matar-te. pura ilusão que és. então ainda vivos (ou considerados vivos por toda a gente. Um pressentimento levoume a consultar as fichas do Picasso. saltou-me à vista o verbete do Teixeira – devidamente falecido. (não. da tarde que anoitecia. “Por aqui?”. os olhos presos ao Teixeira (o Teixeira. Arquimedes Meneses e Castro. por nunca pensarem em ti. de quarenta e quatro anos. que posso até deixá-la em suspenso se não lhe puser o nome no jornal (mas amanhã quantas pessoas protestariam por tê-la salvo? Mesmo sem bens de raiz precisa de ser morta para que os vivos possam herdar-lhe a pobre mobília). Observei de longe o Arquimedes. Guilhermina.. o Picasso daí a três. (e profunda!) do cosmos reencontravase ele. nem sombra da caverna chegou a ser. ainda aterrorizado No azul tranquilo. vou deixar-te vivo para a eternidade! Augusto Abelaira . vou deixar-te vivo para sempre... apoiado na sua bengalinha. esses novos vivos que as marés do talento iam substituindo aos mortos. residente na Rua Braga de Melo. natural da Azinheira. o nome seguinte é o de Arquimedes Meneses e Castro. que todos os dias abro o jornal com receio de que o Casals e o Picasso. aliás. Poderei matar quem nunca chegou a existir no mundo das essências.. o Casals. Guilhermina. portanto. o Stravinsky fora-o daí a dois.-se tristeza. Esq. natural de Portunhos (costumava dizer que era de Lisboa. 17.” O nome seguinte. quem nem sequer era sombra duma sombra? Decido-me. vi perfeitamente evolar-se a foice que ele segurava. Se o Teixeira fora morto daí a um ano. pelas quinze horas. Alguns dias adiante tive de ir ao Arquétipo para lá introduzir um novo gigante acabado de entrar no tablado da fama (com trinta e cinco anos!) e. ouvi-o dizer num dos seus raros dias de fraqueza confessional: “Conseguiremos alguma vez pôr unicamente mortos naquela gaveta?” Conseguiremos e não conseguirei. Não. a cargo da Agência Rebordão.. e quase posso garantir que lhe vi uma foice. que o Stravinsky morreu dois anos depois. da sua residência para o cemitério de Benfica. disse-lhe depois. uma longa foice na mão. logo abaixo do título: “Faleceu a senhora D. o poeta que tanto admiro. sem coragem de chamá-lo à ordem. com toda uma família de grandes espíritos que desde a aurora do mundo têm visto no homem um cadáver adiado um momento de negatividade na positividade do nada. que não morrerá enquanto eu não lhe puser o nome no jornal. um homem irrealizado.).todas as coisas. negando-lhes assim que tivessem chegado a existir. Hesito. no Arquétipo do Arquimortes. mato-te friamente (vejo as minhas mãos ensanguentadas). receava que o considerassem provinciano). pudesse triunfar. tornou-se um homem triste (tornou.º. conversava já não sei com quem. casada. e que nesse momento. não dá quaisquer garantias de verdade). Manuela dos Santos Cruz. E escrevo. não era o meu. Ainda perplexo. mulher humilde (ao contrário do Arquimedes sou hoje um matador de gente humilde) e sinto que estou a adiar-lhe a morte. realiza-se amanhã. porque nós já morremos há muito tempo ao desistirmos um do outro). casado. ó irmão! Preciso agora de acrescentar-te. O Arquimortes não os matara directamente. etc. Nisto nesta visão niilista.

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