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A Poesia No Livro X Da Republica de Platao Leandro Anesio Coelho

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A POESIA NO LIVRO X DA REPÚBLICA DE PLATÃO

Leandro Anésio Coelho (PIC/UFSJ) Orientador: Ignácio César de Bulhões (DFIME – UFSJ)

Resumo: A República de Platão é um diálogo no qual Sócrates e seus interlocutores buscam uma definição de justiça consonante com o projeto ético e político, de formação do indivíduo e constituição da pólis perfeita. O Livro X, último da obra, desenvolve, primeiramente, a justificativa da poeia ser banida da cidade e, em segundo lugar, o relato mítico de Er, razoalvemente esperan çoso, da alma em sua vida após a morte do indivíduo. Este estudo busca analisar a crítica platônica à poesia gega tradicional do ponto de vista do cultivo da alma do cidadão. Em que termos são postas sob avaliação as possibilidades da poesia como formadora do homem justo e feliz? Deve -se levar em conta, aqui, o fato de que Palavras-chaves: A República, Poesia, Filosofia, Verdade.

Introdução

mação do indivíduo e constituição da pólis perfeita. O Livro X, último da obra, desenvolve, prime iramente, a justificativa da po esia ser banida da cidade e, em segundo lugar, o relato mítico de Er, razoavelmente esperançoso, do que acontece com a alma após a morte do indivíduo. Este estudo busca analisar a crítica platônica à poesia grega tradicional do ponto de vista do cultivo da alma do cidadão. Em que termos são postas sob avaliação as possibilidades da poesia como formadora do homem justo e feliz? Deve -se levar em conta, aqui, o fato de que Platão reconhece de algum modo os poderes do mito quando elabora o mito de Er. É de se perguntar se em algum momento Platão quis mesmo expulsar da cidade perfeita a arte ou apenas a formação da alma base ada nela, ou seja, o costume de se ter a arte como leitura da realidade, como fonte de ve rdade. Porque a arte, mais especificamente a poesia, é assunto de discussão no inicio da República e volta a ser um problema no último l ivro da obra? Deve-se procurar evidências na própria obra, princ ipalmente no final dela e na crítica de Platão à arte (ou à vivência na arte), para responder essas questões ou pelo menos elucidá-las.

A

República de Platão é um diálogo no qual Sócrates e seus interlocutores bu scam uma definição de justiça consonante com o projeto ético e político, de fo r-

1. O Livro X e o lugar ocupado pela arte na cu ltura grega

Terminado o livro IX – no qual enumeraram as formas de governo existentes e as respect ivas almas características a cada um e compararam a vida do homem justo e a do h omem injusto –, no livro X é discutida a poesia como forma de educar as crianças, man eira muito comum entre os gregos de transmitir conhecimento, de educar e formar os futuros cidadãos. O fato de o livro

“Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei - Ano I - Número I – janeiro a dezembro de 2005

dos livros. seja qual fosse. já incorporada na cult ura e maneira de ensinar do povo. Platão é cuidadoso em não apenas dizer que a filosofia haveria de ocupar a função da poesia. mesmo na República.Ano I . 2” A poesia assume uma função tida indispensável na Grécia Clássica. o livro X retoma uma discussão anterior como se proporcionasse um fechamento para a obra.Revista Eletrônica do Grupo PET . Em PLATÃO. através dos escr itos. tratando de todos os assuntos que seriam mais tarde discutidos. recusando-a como forma adequada de ensino. deseja que a filosofia assuma o lugar ocupado pela poesia. a justiça e a injustiça. 209. Havelock cons idera que todas as civilizações fundam -se numa espécie de “livro” cultural. A época de Platão é momento no qual a sociedade grega está tendo a oportunidade de cult ivar uma forma a mais de aprendizado. a que pomos o mesmo nome. isto é. q ue essa produz patologias na alma humana. o “livro” cultural grego depositara -se na m e1 2 PAPPAS. cuja mente vagueasse durante a longa saga da cidade em declínio. os assuntos tratados nos livros II a IX. 1995. “Existência e Arte”. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . A discussão sobre o uso da poesia na educação dos cidadãos é iniciada subitamente no l ivro X. Não há quem não perceba a drástica mudança de assunto na República. p. Antes da época de Homero. no livro X. melhor ainda. leva alguns comentadores de Platão a considerar o livro X um apêndice de toda a obra. mas tenta paulatinamente. ainda.Ciências Humanas. provar a inutilidade da poesia ou. inserir e concluir re spectivamente. 1993. 596a.Leandro Anésio Coelho anterior discutir o contraste da vida do homem justo e injusto e retomar a poesia. deslocamo-nos para o que parece uma atabalhoada coleção de 1 argumentos respeitantes às artes. se daria conta imediata de que algo acont eceu. A passagem do Livro IX para o X é tão abrupta que até o leitor. na capacidade de armazenar i nformações a fim de reutilizá -las. algo que já havia sido discutido em vários livros ante riores da República (dentre eles os livros III e V). admite-se “uma certa idéia (sempre uma só) em relação a cada grupo de coisas part iculares. Assim como o livro I se apresenta como um índice da República. Da comparação entre justiça e inj ustiça. de forma mais severa que nos outros livros nos quais discutiu -se o mesmo assunto. sentem necessidade de observarem como se dará o exame so bre o assunto: o método será o habitual. A Grécia clássica ainda não disseminava o conhecimento. Ao retomar o assunto poesia.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . já que no livro anterior o centro da discussão era. e Platão se mostra precursor desse novo modo. A poesia era a maior ferramenta de propagação do saber fil osófico ou mesmo das coisas mais simples do cotidiano daquele povo. a escrita. abarcando a extensão da República. que gastou dois livros a preparar e que repisou uma argumentação intrincadamente estrutur ada. no livro X. apenas tendencialmente rel acionados com o diálogo no seu todo. os livros I e X vêm para ladear. Para alguns. Platão há muito. então. Antes de darem continuidade à argument ação. da mesma forma que os filósofos deveriam receber o dest aque na cidade que era dado aos sofistas (em livros anteriores Sócrates queix a-se no diálogo que os melhores filósofos eram tidos inúteis pela cidade). os filósofos procuram manter a mesma opinião de antes.

de alguns hinos religiosos. advogada por Sócrates para proteger os jovens guardiães. no livro III. na prática. A crítica no livro X É de se perguntar porque só depois de passados nove livros Platão se coloca. 1996. pelo Livro X.. Ambas as passagens censuram Homero. O leitor atento da República pode. no limiar da era helenística. nos livros III e V. pois dependeriam do domínio 4 não da arte de escrever por uma minoria. não deve obscurecer esse fato fundamental. não ofende Sócrates pela moralidade duvidosa. Ele se coloca a defender um novo método de aprendizado na Grécia. mas. caso isso tenha sido verdade. os c astigos e as divindades. Porquanto a epigrafia levou à conclusão de que a cultura grega foi sustentada por uma base inteiramente oral até ce rca de 700 a. e quase todas as palavras apropr iadas ao palco. Id. linha por l inha. as duas purgas deixarão a cidade com os mesmos dimi nutos fragme ntados de poesia. Platão se depara com uma sociedade que não sabia ensinar senão através da arte. certos gêneros. os primeiros dos assim chamados filósofos viviam e fal avam numa época em que ainda estavam se ajustando às condições de uma possível alfabetiz ação futura. já no início da República. com os mitos monstruosos sobre o Hades. vivendo no centro dessa revolução. [. o método de armazenamento c omeçou a se alterar quando as informações foram postas em alfabeto e. para isso. é banido por causa da sua forma imitativa. o autor refuta o uso da arte de forma drástica. o pensamento conceitual alca nçou certa fluência e seu vocabul ário se tornou mais ou menos padr onizado. p.A poesia no livro X da república de Platão mória oral. forneceram a pista seguinte. se alargue a o ponto de incluir todos os residentes na cidade [. inabilitando -a na educação de qualquer cidadão e não apenas na formação de uma ún ica classe. Os livros II-III aparecem empenhados em excluir da cidade uns trechos de poemas espec íficos ou. A associação das descobertas e conclusões da “Linear B”. Mas deve-se observar que Platão trata da arte de forma diferente no livro X: só neste ponto. seriam realizadas lentamente.. através da filosofia.] Os Livros II -III intentam organizar um novo currículo e. e .] é legít imo. O que. por exemplo. levantar sua voz para lembrar nos que a poesia é inserida muito antes. baseada na ficção e no exagero. neste momento.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . antecipou -a e tornou -se seu pr ofeta. a música pode instalar na alma do guardião o destempero. 2. efetivamente.Ano I . a moleza.Ciências Humanas. “Existência e Arte”. investiga -se os efeitos negativos da arte (poesia e música) na alma do gua rdião: a poesia pode colocar nele o medo da morte e dos deuses. demoram -se a tr atar do modo como as crianças ouvem os poemas. 13. enquanto o Livro X entra a argumentar sem a preocupação de tais minúcias. a proposta de novo método de aprend izado contradiz um item que. na primeira discussão. Entre Homero e Platão. segundo minha conclusão. p. dirigidos inicialmente por Carpenter. Ibid. 3 4 HAVELOCK. Mesmo que a censura. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . mas de uma leit ura fluente da maioria. a visão s uplantou a audiç ão como o principal órgão destinado a esse objetivo. como aqui mesmo já se admitiu.. que não deveria repetir os erros do método desempenhado até o momento pela poesia. Sem dúvida a poesia é assunto corrente principalmente. Os recursos da epigrafia. ao nosso ver. 11.3 A “missão” assumida por Platão não é fácil. Os resultados finais da alfabetização não se mostraram na Grécia senão quando. no m áximo.C. Por esses males. a ira. Nesse livro. conseqüentemente. Platão. quando se trata da formação do guardião da cidade perfeita.. esta diferença revela -se insignificante. condições que. fazia parte da estrutura daquela sociedade. a tratar da arte. por mais fascinante e atual que s eja.Revista Eletrônica do Grupo PET . Se exceptuarmos a concessão. decidem e xcluir a arte na educação do guardião. historicamente.

Número I – janeiro a dezembro de 2005 . 917. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . devem ser excluídos do 7 sistema ed ucacional da Grécia. ele argumenta que o artista produz uma versão da experiência que está duas vezes afastada da realidade. a poesia. O essencial é darmo -nos conta porque é precisamente aqui [no livro X] que Platão trava esta última bat alha decisiva entre a Filosofia e a poesia. JAEGER. objectivo de toda a obra. daquela que serve aos homens. e o que é a imitação. ao que parece. O marceneiro também é artíf ice da cama. tomem como exemplo os objetos cama. digamos. Sócrates pergunta quem é imitador. Só depois de analisada a cidade e o que há de bom e ruim nela é que se pode atingir um “Estado em nós”. inicialmente. mais do que um meio para por em relevo a estrutura moral da alma e a cooperação entre as suas partes.Leandro Anésio Coelho apesar disso. 1993. mím•sis. ou seja. 20. não somente porque no anterior tratava -se de justiça (e injustiça) e agora se fala da arte. por isso. os maiores poetas gregos. “a arte de imitar est á bem longe da verdade. na fundação do “Estado em 6 nós” da personalidade humana. que não passa de uma aparição [ eíd•lon]. projetando as no espelho amplificador do Estado. distribuição de funções. de sua natureza essencial.Revista Eletrônica do Grupo PET . só agora se e stá habilitado para se tratar da arte i ntrínseca à alma. Para alguns. Deus é o autor da cama real. Para examinar a questão.8” Com base nessa. por isso mesmo. É por isso que a hierarquia da paidéia inclui também os livros que tratam das espécies de constituições e dos tipos de alma correspondentes. pp. Depois que se estabelece o método de busca da ve rdade. no livro X. não é realmente. agora no livro X. de compreender o que a poesia lhes evoca. através de palavras e 5 6 7 8 PAPPAS. O pintor também é tido como artífice e autor do objeto e reconhecido como o imitador daquilo que os outros são artífices.Ciências Humanas. perigosa tanto para a ciência quanto para a moral. una. é pelo fato de atingir apenas uma pequena porção de cada coisa. Alguns autores. “Existência e Arte”. a República discute em todos os seus livros problemas fundamentados na política e. na p ior. já que esse não trata da realidade e. acusá -lo de pensar nos adultos como cr ianças. Suspeita-se de que seja o poeta e sua poesia. mas da poesia. 1996. Estamos preparados para a co mpreensão desta faceta. e se executa tudo. mesa e os personagens Deus. vêem uma mudança radical no a ssunto da discussão ao se passar do livro IX para o X. 1979. percebe -se que os poetas aparentam ser aqueles que dominam todo tipo de ofício através de suas obras. é frívola e. Essa parte final da República abre com um exame da nat ureza não da política. incapazes. sua obra. inspirada naquela que foi idealizada por Deus. 249 -251. p. 5 A refutação da arte na constituição da alma do cidadão da cidad e perfeita só é feita no último livro da República porque antes se preocupou em investigar todos os assuntos no estado. finalmente. como o próprio Platão o proclama no início. Sócrates sugere aos interlocutores que. Colocando o poeta ao lado do pintor. incluindo a vasta inqu irição das formas de degenerescência do Estado. não pode ficar incumbido de educar os futuros cidadãos da cidade. como se pode ver. eles se revelam imitadores de tudo o que existe e o que é arte de outrem. Como isso não é possível. Em PLATÃO. comentadores e estudiosos de Platão. marceneiro e pintor. Ora. pela consciência de que toda a investigação sobre o Estado perfeito. de Homero a Eurípedes. É só a partir deste ponto de vista que compreendemos porque é que a investigação culmina. mim•t•s. 598b. na melhor das hipóteses. o modelo supremo. 1995.Ano I . p. HAVELOCK.

No livro X. Ibid. 1993. quando o assunto passa para a poesia. devem ficar a tentos de que ela não é a representação e não justifica a realidade: “do mesmo modo nós. sendo os trágicos seus incide ntais epígonos. na cidade perfeita. A poesia. 12” Embora os homens comumente enxergam a poesia com bons olhos. Mas. 602a. imitava a forma humana. da forma como era usada. em versos iâmbicos ou épicos. se coloca a se reestruturar. 9” No diálogo é observado o ofício dos artistas. o primeiro imitador a ser identificado é o pintor. Por isso. 602b. em qualquer área. pois essa é a forma que o Estado utiliza há muito para formar os s eus cidadãos. são 10 todos eles imitadores. p. Ainda sobre o imitador (fique bem claro que Sócrates faz uso do pintor para se referir a qualquer tipo de imitador. O exemplo de Platão é Homero. a poesia imitava a aparência e elevava as piores partes da alma. no que toca à sua beleza ou fealdade.Ano I . enquanto o Livro III tenta definir um termo em ordem a que o leitor possa reconhecer a imitação. o filósofo grego condena os exageros homéric os e os mitos temíveis contidos nos seus escritos. mas que a imitação é uma brincadeira sem seriedade. Sócrates e os filósofos que participam do diálogo concordam que o homem grego é infl uenciado pela poesia.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . “o imitador não saberá nem terá uma opinião certa acerca do que imita.Ciências Humanas. Sócrates ataca veementemente Homero e os seus escritos. O homem livre e comedido enfrenta as desgraças com muito mais facilidade do que os outros homens. “a curar e a endireitar o que caiu e adoeceu. PAPPAS. da mesma forma que um h omem se livra de paixões quando percebe que essas estão lhe fazendo mal. Da forma como estava na cidade. O homem não -comedido perde tempo para se reestruturar. o 11 Livro X supõe que o leitor a reconhece e dispõe -se a explicar aquilo que já todos viram. diz-se: o imitador não tem conhecimentos que valham nada sobre aquilo que imita. quanto se pode ser. a ssumindo a função que deveria ser desempenhada pela parte racional. colorindo todas as artes sem entendê -las. como uma criança que leva a mão no lugar da palmada e se coloca a gritar. mais precisamente a função dos poetas e pi ntores. o Livro X rejeita a abordagem da imitação à m aneira do Livro III pois. tendo consciência de que aquilo nada mais é do que imi tações. consid erado sofista).Revista Eletrônica do Grupo PET . e os que se abalançam à poesia trágica. até mesmo ao pseudofilósofo. a concupiscível e irascível. até mesmo qua ndo a desgraça é a perda de um filho. Hesíodo também não escapa da crítica. Na sua empreitada contra a arte no diálogo. Isso já ocorria claramente no livro III.A poesia no livro X da república de Platão frases. 1995. a poesia imitará apenas as melhores dessas fo rmas. 10 11 “Existência e Arte”. devido ao amor 9 Id. Id. eliminando as lamentações com remédios. 12 Em PLATÃO. ao tratar da educação e formação do guard ião. o homem comedido não perde tempo. Ibid. o imit ador deixa de estar vinculado ao drama. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . o cidadão consciente não deve se deixar ludibriar com aquilo que a poesia lhe oferece. Num sentido mais lato. 604d. Essas duas partes d ominavam a alma. Ao falar da educação dessa classe. 253. apenas imitando-as.

diferenciando o fim da vida de um e de outro.Revista Eletrônica do Grupo PET . mas. não tem fim. como sendo um “bem” no homem. Essa alma é a do homem justo.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . Em PLATÃO. o qual se estenderá até o final do livro X. opõe de forma drástica a vida do homem justo e do injusto. enquanto não for capaz de se justificar. que não são alcanç ados pelo homem injusto. ainda que passem despercebidos em novos. Os participantes do diálogo estão de acordo que a alma é imortal. não perece e ta mbém “que tudo o que destrói e corrompe é mau. 608e. Mas se a alma for corrompida pelo o que é mal. são insultados na sua miséria por e strangeiros e conterrâneos. não passará o homem injusto a vida inteira despercebido. sobr e13 14 15 Id. a alma. assim. 1993. a parte racional. não desgraçada.Ano I . o diálogo passa ao pr oblema da imortalidade da alma. já que. sobrevive. sem ser punido pelas suas injustiças. lugar que deve ser oc upado pelo que há de melhor. Dessa forma. 14” Assim. Sócrates ainda nos diz: Direi pois que os justos. Ibid. quando envelhecem. a cobardia e a ignorância. A ela. e para tanto faz uso do mito de Er. já o que é mal segur amente sofre um processo como se fosse de autodestruição (deterioração). contrapõe a obra de imitação do homem de ofício. caminhando para o fim.Leandro Anésio Coelho por essa poesia que em nós se formou por influência da educação dos nossos belos Estados.13” Depois de analisar o uso da arte na cidade. se ilude com as aparências e nesse processo eleva as piores partes da alma (concupiscível e irascível) colocando -as no governo da alma. equilibrada e v oltada para o bem. eu o direi agora dos justos. aqueles homens que participam do diálogo querem evidenciar que o que é bom persevera. ela se torna má e se condena dessa forma a um fim. não se compromete com a verdade. mantenho que a maior parte deles. da arte na educação. Em PLATÃO. ao passo que o que salva e preserva é bom. estaremos dispostos a vê-la como muito boa e verdadeira. Essa ú ltima alma. “Existência e Arte”. Por isso. o homem justo é premiado junto aos deuses: espera -o uma vida melhor. E agora. quanto aos h omens injustos. Mesmo na sua vida na cidade. sucintamente. e com razão (depois são torturados e queimados com ferros em brasa). Justificando-se. 613d. Enquanto o homem injusto recebe prêmios por parte dos h omens. são chicoteados e sofrem aqueles suplícios que classificaste de selvagens. permanece.Ciências Humanas. ao contrári o da filosofia. enquanto aquele será honrado na cidade. o filósofo evidencia sua predileção pela verdade alcançada dial eticamente. contaminada por o que é mal. atingem na sua cidade os postos que quiserem. numa passagem que se achou por bem reproduzir abaixo. A poesia. pelo que ficou estabelecido anteriormente. são apanhados ao chegarem ao fim da carreira. a intemperança. quando se tornam mais velhos. do respeito que colhe dos demais cidadãos. Sobre o homem ju sto e injusto. casam com quem quiserem. tudo isso tu imaginarás que me ouviste dizer 15 também a mim como o sofrem. Sócrates enumera uma série de benefícios que o homem justo rec ebe ao final da vida na cidade. daquele que se reporta às formas. esse sofrerá penas. torna a alma desarmônica consigo mesma e. o mal não sobrevive. cobrem -se de ridículo e. E tudo quanto afirmastes acerca dos homens injustos. aparentando conhecê-las muito bem. 607e-608a. e dão os filhos em casamento a quem quiserem. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . é a alma do homem injusto. 1993. A República. como a injustiça.

O uso da mitologia (m ito de Er) para explicar a imortalidade da alma aos participantes do diálogo no mesmo livro no qual ocorre a crítica à arte. p. além disso. d enuncia.. 919.] não é a poesia que se poderia ler num livro que ele [Platão] está at acando. eleva as partes inferiores da a lma e destrói a cidade paradigma. Ibid. Uma vez levada em conta a importância dos poetas na estrutura educacional.Ano I . Platão fala eloqüentemente. p. mas dá a ela o seu dev ido papel que não é. coloca em xeque a cidade modelo. É uma experiência que caracter izamos como estética. de expulsar a poesia da cidade. sim. 258. 1979. Deve -se sempre ter o ant ídoto à mão. Uma vez que se veja a República como um ataque à estrutura educacional existente na Grécia. em segundo lugar. 1996. na metáfora e no mito. HAVELOCK. Ele apela. como observaremos numa análise po sterior.] Esta [a discussão sobre a poesia] forma uma unidade. A crítica de Platão à poesia no livro X da República denota mais uma vez o que o autor e xpressou em todos os livros da obra. Id. que até o momento está errado. 3. que para ele é inseparável do próprio p oema e que constitui um ato e um estado integrais da m i18 mesis. as repetidas críticas à poesia ajustam -se ao quadro. pp. É o ato de memorização mediante a identificação na declaração poética. Em vista do limitado espaço para as imagens na Linha Dividida e da hostilidade do Livro X para com as artes. A preocupação de Platão Não se pode ler o texto de Platão literalmente. Fala como se não tivesse outra alternativa senão travar a batalha até o fim.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . dizendo-nos que Mesmo quando Platão despede a poesia. desprezível. excluí -la como um veíc ulo de comunicação. argumenta. trata -se de uma espécie de veneno psíquico... de que os conduza na vivência na cidade. contra a pr ópria experiência poética. seria de esperar que a nobre mentira. a lógica de sua org anização global torna -se clara. 21-5. menos ainda nortear as pessoas na busca pela verdade. A educação imperfeita destrói o equilibro na alma procurada pelo autor.A poesia no livro X da república de Platão tudo. Ela tem. não se pode entender o livro X como o “co ndenar” a poesia” ao e squecimento e à exclusão da arte na cidade. a preocupação com a formação do cidadão q ue. Ele parece querer destituir a poesia como tal. Platão revela uma preocupação singular com a verdade e de que essa habite a alma dos homens.Ciências Humanas. com a poesia em especial.Revista Eletrônica do Grupo PET . a poesia. a educação e formação dos cidadãos. na cidade. 28/p. Não se trat a. certamente. revela que Platão não a tem como inútil. os seus planos para contar histórias aos cidadãos leva-o a introduzir os poemas. Para ele. dissimuladamente. baseada na ficção. [. Nickolas Pappas revela-nos a proximidade de Platão com a arte. lisonjeia. se eles não possuírem o remédio do conh ecimento da verdade 16”. não pode ser base da educação em tão nobre cidade. portanto. A confiança de Platão na imagem. Ela “estraga o espírito dos que a ouvem. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . se ministrada de forma imperfeita. “Existência e Arte”. O alvo de Platão parece ser exatamente a experiência poética como tal. É um 17 Davi enfrentando um Golias. ou l eva à 16 17 18 JAEGER. a parábola do navio do Estado. infeliz. é dirigida em primeiro lugar contra o discurso poético como tal e. da maneira como alguém que sente estar enfrentando um oponente pod eroso que pode arrebanhar todas as forças da tradição e da opinião contemporânea contra si. a Alegoria da Caverna e o mito de Er ficassem excluídos da filosofia. e é conduzida com uma enorme determina ção. seu papel na cidade. [. Por tudo isso..

Leandro Anésio Coelho condenação do seu projeto filosófico ou exige uma explicação sobre a ausência de parentesco entre esses e a poes i19 a. Mais ainda. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . 19 PAPPAS. p. na poesia. está também entendendo a arte contempor ânea com a mesma função que tinha a arte na antiguidade. da certeza que essa poderá s obreviver com o passar das gerações. Deseja Platão que essas coisas venham a ocorrer por meio da filosofia. da formação do futuro da cidade modelo. não leríamos o mito de Ero no mesmo livro no qual teria dec idido tal fim para a arte. por seu ataque à arte no livro X da República. do mito e da alegoria? Platão condena não a peça poética propriamente dita. o que não é procedente. que a poesia não se m anifeste na cidade intensamente e muito menos que a educação dos cidadãos se paute por ela. Platão dedica parte consid erável da República para falar da educação dos cidadãos. além de estar violentando a filosofia em questão por tirá -la do seu tempo e lugar. pintura. 254. A diferença essencial é que a sociedade atual não se fundamenta e não se apóia na poesia como a comunidade antiga. Algumas críticas contra o “ataque de Platão à arte” também não procedem por lê -lo literalmente e se esquecerem de perguntar o que realmente pretende Platão refutar. a melodia musical. excluindo aí a filosofia. se se tratasse da expulsão da arte da ci dade perfeita. A condenação do filósofo é em relação à poesia enquanto meio de formação e pe nsamento de um povo.Ciências Humanas. 1995. Provavelmente. não teria ele feito uso dos mitos e alegorias presentes na República. ou seja. a ação do autor. Ao se tentar fazer isso. Platão espera. Quer dizer-se que não é possível entender a crítica de Platão à arte daquela época como igualmente válida à arte conte mporânea. as idéias mirabolantes do escritor. “Existência e Arte”. ciência comprometida com a verdade e sem exaltações. Considerações finais Platão. O que Pl atão condena na poesia é o que o homem contemporâneo mais admira nela. Não cabe transportar a crítica platônica à arte par a os nossos dias. dessa forma.Ano I .Revista Eletrônica do Grupo PET . Não se pode acreditar que queria Platão varrer todo t ipo de arte da cidade modelo. mas a experiência que a arte imprime nos cidadãos. mais precisamente da poesia e da pintura.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . Por causa dessa preocupação. Estaria o filósofo expulsando da cidade perfeita a arte em si? Mas não é ele mesmo quem faz uso da poesia. [Com alterações]. Se Platão quisesse mesmo extinguir todo tido de man ifestação artística da cidade. proibir a presença da arte. Não é possível entender o ataque de Platão à arte no último livro se o leitor não tiver em mente a preocupação do autor com o futuro da cidade perfeita. até mesmo porque desejava o autor atingir ou se aproximar do equilíbr io e o homem se aproxima de ste estado se expressando também na arte. desperta muitas críticas.

Trans. Trad. PLATÃO. Petrópoli s. o homem e a cidade. Werner. espera que nenhum indivíduo de estruture pela arte. Um estudo sobre a alma . SP: Papirus. PAPPAS. Rachel Gazolla de. Enid Abreu D obránzsky.Revista Eletrônica do Grupo PET . 2. RJ: Vozes. 1996. Prefácio a Platão. Platão: o cosmo. 1979. Arthur M. Pereira. Maria Helena da Rocha Pereira. mas co ndena a vivência na arte. 1993. 1993. A República de Platão. pois dessa forma terá uma alma embebida em aparências e com as me smas variações e sobressaltos que existem no mundo artísti co. PLATO. JAEGER. “Existência e Arte”. Trad.A poesia no livro X da república de Platão Platão não deseja “matar” a arte. Abílio Queiroz. Lisboa: edições 70. Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei . 1995. A alma na verdade forma um ind ivíduo filósofo. São Paulo: Martins Fo ntes.Ciências Humanas. ed. Referências bibliográficas: ANDRADE. Eric. 1994. Lisboa: Caloustre Gulbenkian. HAVELOCK.Número I – janeiro a dezembro de 2005 . Press. Nickolas. Trad. by Paul Shorey. A República. a alma na arte é uma alma d oente e habita num indivíduo que é da mesma forma.Ano I . Campinas. Cambridge: Harvard Univ. Trad. Paidéia: A formação do homem grego. Republic.

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