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A Adolescência de Contardo Calligaris – Comentários

sexta-feira, abril 3rd, 2009

Neste livro, Calligaris aborda a adolescência como uma


moratória em que os jovens modernos passam entre a infância e a fase adulta. Sem serem
mais reconhecidos como crianças e ainda não recebendo o devido reconhecimento,
aparentemente sem explicação, como adultos, os jovens passam por esse período de espera
que não possui um certo ritual que marca o seu início ou fim. Os adolescentes não são mais
considerados crianças pois já possuem um certo discernimento para assimilar valores como
o destaque pelo sucesso do financeiro/social , sexual/amoroso e seus corpos e mentes já
atingiram maturação suficiente para que possam atuar nas atividades que possam lhes trazer
tais sucessos, porém lhes é imposta pela sociedade esta moratória. Moratória esta que acaba
criando certos efeitos colaterais aos adolescentes pois estes acabam comportando-se de
maneira rebelde a este período injusto.
A adolescência é um conceito moderno criado e idealizado aos poucos por adultos
(divulgada pela mídia e outros meios de controle do sistema econômico atual) que tem por
base também em seus desejos secretos e profundos. A idealização da adolescência,
inicialmente criada para tornar a moratória algo “aceitável” para os jovens, tomou um
âmbito tão forte que agora influência também os adultos, pois estes aos poucos querem
cada vez mais parecer com os jovens. Esta idealização faz com que os jovens sintam que
tem uma obrigação de se sentirem felizes, o que pode causar causa uma certa depressão em
alguns jovens.
Calligaris propõe cinco tipos diferentes de adolescentes (alguns muito parecidos e espero
que ele não ache que são os únicos tipos que existem):
Os adolescentes gregários são jovens reunidos em certos grupos ou comunidades que
exigem um “algo em comum”. São grupos onde não existiria esta moratória exigida pelos
adultos, logo, todos são reconhecidos como iguais. Calligaris comenta sobre uma lei em um
dos estados dos EUA que ,em certos lugares, permite que jovens de 16 anos possuam
licença para dirigir mas proíbe que os mesmos dirijam o veículo com outros jovens até
completarem 18 anos. Segundo essa lei, jovens em bando são potencialmente perigosos
pois transgridem para afirmarem-se entre si.
O adolescente delinquente, é aquele que, ao perceber que não conseguiu seu devido
reconhecimento no mundo dos adultos, usa da ignorância e violência para tentar ser levado
a sério: gritando, quebrando coisas, colocando fogo em casas. Para os adultos é uma
situação difícil já que não cabe fazer muita coisa a respeito pois se os ignoram, eles acabam
fazendo mais e mais delinquências e sendo mais violentos pois acham que não estão sendo
levados a sério e, se reprimirem demais só manifestarão ao adolescente que seus gestos não
foram devidamente interpretados e estes, acabaram agindo com mais violência novamente.
Por outro lado, Calligaris também trata da delinquência com consequências sexuais. O
jovem, não sendo sexualmente aceito como adulto, resolve se impor pela sedução mais
violenta para tentar ser aceito sexualmente como igual.
O adolescente toxicômano, é o adolescente dependente de drogas. Os adolescentes de hoje,
herdaram o que restou da geração “paz e amor” (e sexo e , principalmente, drogas), vêem
isso como um resquício de rebeldia. A droga possuí um certo encanto entre os jovens e
também uma promessa de “satisfação garantida” (comentei já algo parecido no texto
“Adolescência e Contemporaniedade – Comentários”). Já em relação às drogas legais
(tabaco e álcool), os jovens vêem como uma maneira de se aproximarem do modo de vida
de muitos adultos, a maioria usuários de ambos. “Os adultos bebem e fumam mas não nos
reconhecem como adultos, vamos beber e fumar para mostrar-lhes que também podemos”
pode ser o pensamento dos adolescentes quando começam a experimentar essas drogas
legais.
Os adolescentes que se enfeiam são os jovens que inventam um certo padrão estético fora
do usual que a sociedade impõem. Calligaris explica que esta pode ser uma reação ao
possível medo de não ser aceito por sua beleza nos padrões normais, o adolescente
deteriora a própria imagem para não correr o risco de ser considerado feio normalmente.
Ele se enfeiou e sabe disso.
E por fim, Os adolescentes barulhentos são aqueles da “geração MTV“, os adolescentes
que transmitem a sua rebeldia através da música, imaginam suas vidas como em filmes ou
clipes de suas bandas ou artistas favoritos.
Primeiramente, os adultos idolatram as crianças, por serem criaturas naturalmente felizes e
por sentirem certa necessidade em deixá-las plenamente felizes em tempo integral. Vêem
nelas uma maneira de se perpetuarem , visto a sociedade individualista à qual vivemos, ao
longo dos anos, uma luz de esperança na escuridão que é a vida moderna. Porém, aos
poucos o olhar que está sobre as crianças vai se desviando para os jovens, por serem mais
maduros e mais próximos dos adultos. Os adultos agora vêem que se conseguirem tornar
estes jovens permanentemente felizes , protegidos e despreocupados (como as crianças)
seria mais gratificante para eles, visto que seria uma felicidade mais próxima do que eles
sonham. Com isso o jovem vai se encaixando nesta adolescência idealizada culturalmente e
tornando sua moratória objetivo de inveja de crianças e adultos.