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Instituto Superior de Agronomia 1ª edição em 1995

edção revista em 2010


Secção de Agricultura
Prof. Pedro Aguiar Pinto

A ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO
AGRÍCOLA A palavra SISTEMA irá ser utilizada com frequência,

1. Conceitos porque a utilização deste conceito abstracto é extra-

A Agricultura é uma actividade económica complexa, ordinariamente útil na arrumação de ideias e permite

interpretada por autores diferentes e com estilos uma análise eficaz da realidade:

muito pessoais: SISTEMA - É uma hierarquia de componentes e

Algumas definições de Agricultura factores, humanos ou materiais, visando determina-


do objectivo. O funcionamento do sistema está
Tarefa de colocar as plantas cultivadas em condi- dependente da interligação e interdependência das
ções ambientais óptimas de modo a conseguir-se o suas componentes, formando um todo coerente. (Aze-
máximo rendimento em quantidade e qualidade. vedo et al., 1972).
(Dihel)
1.1. Sistemas de exploração da terra

É a arte de extrair do solo pela cultura, e dum modo Um sistema de exploração da terra pode ser interpre-

mais ou menos permanente, o máximo de produção tado como o conjunto de culturas e práticas ou

com um mínimo de despesas e esforço. operações culturais característico das explorações


(Chevalier) agrícolas, que assume uma forma mais ou menos
homogénea no espaço e no tempo.
Actividade económica complexa que visa a produção
O sistema representa portanto, uma forma de apro-
de bens, quer explorando a fertilidade do solo através
veitamento agrícola, agrupando explorações que,
da vida latente contida no embrião vegetal quer
embora possuam a sua individualidade própria, apre-
transformando os produtos vegetais e animais por
sentam swemelhanças nas características de distri-
intermédio de indústrias anexas.
buição dos seus componentes, no tempo e no espa-
(H. Barros)
ço. A orientação directriz da interacção entre compo-
É uma actividade do Homem levada a cabo primari- nentes assume o mesmo padrão de comportamento.
amente com o intuito de produzir alimentos (directa Dentro da disciplina de análise de sistemas, um dos
ou indirectamente), fibras, combustíveis e outros corolários usados é a permissibilidade de considera-
materiais, mediante o uso controlado de vegetais e ção de subsistemas alternativos. Assim, num siste-
animais. ma de exploração da terra podem distinguir-se os
(Spedding)
sistemas de produção e os sistemas de cultura,
que interpretam a mesma realidade com ópticas
A actual conjuntura de preços de bens alimentares,
subtilmente diferentes.
que adquirem um peso cada vez menor no “cabaz de
compras” dos países mais desenvolvidos, tem con- 1.1.1. Sistema de produção
duzido a reconhecer explicitamente como funções da Define a importância relativa de cada um dos secto-
Agricultura, um conjunto de funções que lhe eram res de actividade agrícola na exploração: pecuária,
implícitas e que necessitam de maior desenvolvi- arvense, florestal, hortícola, etc, bem como a intensi-
mento e divulgação, como, por exemplo: a conserva- dade de emprego de factores externos. Numa pers-
ção do ambiente rural, a ocupação humana do terri- pectiva que é frequentemente usada pelos econo-
tório, a propiciação de actividades de lazer, etc. mistas agrários, o SISTEMA DE PRODUÇÃO repre-

1
senta a combinação de produções e factores no seio 1.1.3. Sistema de agricultura
Diz respeito, de acordo com a classificação de Bicanic
da unidade produtiva ou centro de decisões que é a
(1967), à organização e finalidade económica da
empresa, sendo as produções o resultado das
exploração:
actividades a que o agricultor se dedica ou pretende
Agricultura de subsistência
dedicar e os factores, os recursos humanos e mate-
Agricultura comercial
riais necessários e de que pode dispor, para conse-
Agricultura empresarial
guir obter o resultado económico desejado. Note-se
Agricultura contratual e planeada
que, nesta perspectiva, associam-se às considera-
ções de ordem técnica, as implicações económicas 1.1.4. Sistema agrário
do sistema. Numa concepção muito mais alargada, Caldas (1964)
apresenta o SISTEMA AGRÁRIO como o conjunto
1.1.2. Sistema de cultura
de situações de carácter económico e social, enqua-
Segundo Hénin e Sebillotte (1962) reflecte a maneira
dradas por uma certa harmonia de normas jurídicas
pela qual os agricultores podem manter ou aumentar
ou costumes inveterados ou até caracterizados por
a fertilidade dos seus campos,
uma mentalidade determinada do empresário agrí-
• seja fazendo suceder as culturas,
cola ou do trabalhador.
• seja cedendo adubos,
EXEMPLOS:
• seja pelo contrário, orientando as produções A agricultura itinerante das zonas tropicais é carac-
para produtos de fracas exportações.
terizada por:
Estas três estratégias, que não são antagónicas,
podem muitas vezes ser complementares. um sistema de produção pouco intensivo em capital,
recorrendo em exclusivo a mão-de-obra familiar;

Quadro 1. Caracterização de alguns sistemas de exploração da terra (Adaptado de Azevedo et al., 1972).

Condições ambientais
Sistemas Mobilização do solo Origem da Rotações Grau de domin antes
de exploração Antes da Depois da fertilidade frequentes mecanização Clima Observações
Solo
da terra sementeira sementeira das operações (Köppen)

Agricultura itinerante (sistema


Resíduos da vegetação C ou S-Pn Vários Queimada para permitir a
de produção Uma Várias Nulo Aw
expontânea n ≥ 30 (laterites) instalação das culturas
sem pecuária)

Agricultura mediterrânica Várias Resíduos do pousio; Alq-C-C-Pn


tradicional de sequeiro (Alqueive) Várias fertilização n ≤ 10 Mínimo a elevado Csa Vários -------------------------

Estrumação e Norfolk ou
Ley-farming ------------------------- ------------------------- sideração S-C-L-Pr Mínimo a elevado Cf Vários -------------------------

Espessura efectiva
Fertilização e Alq-C Bs
Dry-farming Numerosas ------------------------- restolhos (baixos) Alq-Alq-C Elevado R < 300 mm
elevada com elevada -------------------------
CAU

Espessura efectiva Emprego de máquinas


Uma ou duas; Fertilização e restolhos C-L
Stubble-mulch farming Corte de resíduos Elevado Bs a Cf elevada com elevada especiais: semeadores e
reviramento intenso (altos) S-C-L
CAU estirpadores

S-C
S-L Boa estrutura e
Mobilização mínima Uma ------------------------- Fertilização S-C-L Elevado Cf a Df drenagem Monda química intensa
S-C-L-C

No-tillage Cf a Df Boa estrutura e


(sem mobilização) ------------------------- ------------------------- Fertilização S-L Máximo drenagem Monda química intensa

S-C
Agricultura de regadio de Uma ou duas; Csa a Csb Arvenses de regadio;
Várias Fertilização S-S Elevado Vários; aluviossolos
Verão mediterrânico reviramento reduzido (Verão) hortofruticltura
S-C-L

2
um sistema de cultura de sequeiro com pousio e com a quantificação dos meios de produção tendo
incorporação de resíduos da vegetação espontâ-
nea; em vista a obtenção do objectivo económico do
empresário, quer este seja a efectividade do custo, a
um sistema de agricultura primariamente de subsis-
tência, ocasionalmente comercial, mas dirigido relação custo - preço, a relação custo - lucro ou
sobretudo para o autoconsumo; eficiência do custo.

um sistema agrário de propriedade privada familiar A gestão de uma empresa agrícola envolve ainda, a
com predomínio da mulher na gestão da empresa. consideração de duas perspectivas diferentes, mas
obrigatoriamente complementares (Black, 1947):
O sistema de agricultura de regadio do Campo do
Ribatejo será: - a organização da empresa agrícola, isto é, a
estrutura e componentes da empresa; (do lat.
um sistema de produção muito intensivo em capital, orgänu - órgão).
recorrendo em larga escala a mão-de-obra assa-
lariada; - as operações, isto é, o exercício ou funciona-
mento dos componentes; (do lat. operatiõne -
um sistema de cultura de regadio, muito intensivo, acção de trabalhar).
altamente mecanizado e incorporando grandes O estudo da organização da empresa pode partir de
quantidades de nutrientes, sob a forma quase ex-
clusiva de adubos químicos; uma análise sistemática das condições de produ-
ção, visando responder a perguntas como:
um sistema de agricultura empresarial ou contratual
e planeado;
- O que produzir? Culturas, animais, combina-
ções de culturas e animais.
um sistema agrário de propriedade privada e empre-
sa patronal.
- Quando produzir? Outono - Inverno ou Prima-
(Azevedo et al., 1972) vera - Verão? Sementeira precoce ou tardia?
2. O estudo da exploração agrícola - O que produzir em cada folha da exploração?
Na actividade quotidiana de uma exploração agríco- Unidades de produção. Afolhamento. Rota-
ção.
la, surgem situações que ora exigem uma solução de
ordem técnica ora de ordem económica, ou um - Natureza da energia a utilizar? Tipo de tracção.
Potência necessária.
compromisso entre ambas.
- Operações culturais a realizar? Justificação.
Os problemas de ordem técnica enquadram aspec-
Objectivo. Alternativas.
tos relacionados com o funcionamento da explora-
- Como se efectuam as operações? Material a
ção que podem ser analisados sem interferir com a
utilizar. Características. Alternativas. Carac-
combinação de meios de produção e, portanto com terísticas da operação. Diferibilidade
o sistema de produção.
- Quantidade de factores a utilizar? Curvas de
EXEMPLOS: produção. Eficiência de uso.

- Escolha de uma formulação de adubação, aten- - Unidades produtoras a utilizar? Biótipos. Cul-
dendo às exigências da cultura; tivar ou raça.

- Determinação da dotação e intervalo de rega - Quando como e onde vender? Características


mais adequado para as condições climáticas, de conservação do produto. Evolução sazo-
o solo, a cultura e a fase do ciclo cultural. nal dos preços de mercado.

- Tipo de preparação do solo mais adequada às Uma vez definida a organização da exploração, o
suas características físicas, teor de humidade
actual e previsível e cultura a instalar, etc. empresário tem que decidir constantemente sobre o

Os problemas de ordem económica relacionam-se modo de funcionamento dos diferentes órgãos ou


constituintes da empresa. São as decisões
3
Ambiente físico Figura 2.1. Fases do planeamento de operações num sistema de
DEFINIR
Ambiente cultural OBJECTIVOS OU Programa exploração da terra.
Ambiente económico ACÇÕES Estratégia
Ambiente social
resultado final ou minimização do risco, e
concorrentes porque consomem facto-
DEFINIR E
Padrões ou CARACTERIZAR OS Soluções res de produção, devendo portanto ser
alternativas MODELO
referências MEIOS
analisada a sua eficiência comparativa no
emprego de tais factores, de modo a ser possível
Ordenamento COMBINAR E
COORDENAR OS definir qual a melhor combinação de actividades
no espaço e Projecto
no tempo MEIOS
elementares, do ponto de vista técnico e económico.
A definição de actividade, ou unidade elementar
RECTIFICAR A (Barros, 1964) pressupõe a correspondência com
Controlo UTILIZAÇÃO DOS Execução
MEIOS do projecto uma produção ou conjunto de produções rigorosa-
mente definidas no que respeita à época, qualidade,

operacionais, que têm características eminente- quantidade e preço, bem como entre a produção e o

mente dinâmicas. Para que a sequência de decisões conjunto de factores nela aplicados.

tenha lógica e portanto, consiga assegurar o bom 3. Sistemas de cultura


funcionamento da estrutura, é necessário que as
Recorde-se que a definição de sistema de cultura de
operações sejam planeadas, isto é, que os objecti-
Hénin e Sebillotte (1962) sugere que as maneiras
vos sejam ordenados no tempo, que os meios neces-
pela qual os agricultores podem manter ou aumentar
sários sejam previstos e estejam disponíveis para
a fertilidade dos seus campos são:
serem utilizados quando a operação se realize.
O estudo da exploração agrícola visa geralmente • fazendo suceder as culturas,

dois objectivos: • cedendo adubos,


Análise - Quando incide sobre explorações existen-
• orientando as produções para produtos de
tes, caracterizando a sua estrutura e modo de funci- fracas exportações.
onamento, avaliando o seu potencial e permitindo a O problema da manutenção da fertilidade é, para o
detecção de deficiências, estrangulamentos ou “pon- agricultor um compromisso entre duas perspectivas
tos fracos”. diferentes (Sébillotte, 1966):
Planeamento - Quando procura estruturar novas - A curto prazo: como obter a máxima produção da
explorações ou promover a remodelação das explo- terra de que dispõe.
rações existentes.
Agricultura contratual e planeada Empresário
Na empresa agrícola, as diferentes
s
sc rito
actividades são simultaneamente do
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Agricultura empresarial p Director de empresa


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Agricultura comercial
optimização do uso dos factores o
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Qu
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Capataz
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disponíveis e a maximização do
r
te
In

Agricultura de subsistência
Figura 2.2. Importância e intervenientes no
planeamento das explorações agrícolas. Operário não especializado

0 % 100 0 % 100

4
Média 1852-1925 Adubação Rendimento em
Média 1935-1954 (20 anos) Precedente
(74 anos) mineral grão (kg. ha-1)

TRATAMENTOS Monocultura contínua 1.º ano após pousio 4.º ano após pousio N P K
(kg.ha-1) (kg.ha-1) (kg.ha-1)
40 100 100 3160
Testemunha sem
1000 2000 1100 60 100 100 Trigo desde 1900 3440
adubação
80 100 100 3330
14 t/ha de estrume por
2450 3200 2450 100 100 100 3550
ano
100 100 100 Beterraba-sacarina 4880
Adubação mineral
2500 3150 2500 100 100 100 Pousio 4770
completa

Quadro 2. Monocultura do trigo em Rothamstead desde 1839. Quadro 3. Monocultura do trigo em Grignon desde 1900 (Ensaio de
(Adaptado de Duthil (1973). Dados originais de Lawes e Gilbert.) Berthault). (Adaptado de Duthil (1973). Dados originais de Péquignot
e Récamier em 1960.). Menor diferença significativa: 410 kg
- A longo prazo: como restaurar a fertilidade da terra,
“esgotada” pelas culturas precedentes. de cereais, conduz a uma diminuição de rendimen-

Durante muito tempo a alternância entre cultura e tos. Esta diminuição é tanto mais marcada, quanto

pousio, parecia ser a única resposta às duas ques- maior a distância que separa a produção do período

tões. O agricultor teria que ter sempre, pelo menos, de pousio. Por outro lado, uma adubação mineral,

o dobro da área que era efectivamente cultivada reduz esta diminuição, sem contudo a conseguir

anualmente: uma metade incluía as folhas que eliminar. Algumas culturas antecedendo outras,

estavam em produção e a outra agrupava as terras produzem um efeito de recuperação, semelhante ao

que em ciclo de restauração da fertilidade. O apare- conseguido pelo pousio.

cimento dos adubos, no século passado, e o empre- 3.1. Sequência de culturas


go generalizado de estrumes nas culturas sachadas,
3.1.1. Efeitos de uma cultura sobre a que se
no século passado, permitiram substituir com vanta- lhe segue. Precedente cultural.
gens nítidas, a alternância cultura-pousio. O quadro 3. sugere que a beterraba sacarina tem um
Mas será mesmo necessário fazer alternar as cultu- efeito sobre a produção de trigo semelhante ao
ras sobre um mesmo terreno? Não se poderá optar pousio. É um bom precedente cultural do trigo.
pela monocultura que simplificaria muito, toda a O exemplo da cultura do milho, em Madison (Ohio)
gestão da empresa agrícola? (Quadro 4.), permite-nos estender as conclusões
Vários ensaios de longa duração, como os sobre os efeitos da monocultura e dos precedentes
exemplificados nos quadros 2 e 3, respectivamente culturais. Assim, parecem evidentes as seguintes
em Rothamstead (Reino Unido) e Grignon (França), conclusões:
evidenciam que a monocultura, nomeadamente a - A cultura continuada da mesma espécie
(monocultura) conduz geralmente à diminuição da
Rendimento em
TRATAMENTOS hl.ha-1 produtividade, mas há diferenças no comportamento
1946 a 1952 1953 a 1957 1946 a 1957 das várias espécies cultivadas.
A: Monocultura de milho sem N 40.7 39.2 40.1
- No caso do trigo, uma única interrupção, pousio em
B: Monocultura de milho com 112 N 49.9 55.6 52.2
Rothamstead ou cultura sachada em Grignon, é
C: Monocultura de milho com 112 N
60.7 64.5 62.3
(Melhor solo)
suficiente para recuperar dramaticamente o rendi-
O: Milho-Soja-Trigo-Forragem anual 77.0 77.1 77.0
mento. Todavia, este efeito de recuperação desapa-
Quadro 4. Comparação dos rendimento do milho em monocultura e rece rapidamente (quatro anos após a interrupção,
em rotação em Madison (OHIO). (Adaptado de Duthil (1972))
-Todas as parcelas receberam 336 kg de 0.12.12 . ha-1.ano-1. em Rothamstead, a produtividade do trigo era prati-
- A e B têm o mesmo tipo de solo.
- C é um solo melhor e com maior capacidade de retenção. O milho no Ohio é cultivado na estação
húmida. As medidas de capacidade eram frequentemente usadas no comércio de sementes de cereais e de
- O: representa a média obtida nos diferentes tipos de solos. outros grãos. De modo a converter para massa, a grandeza mais correctamente utilizada, é
- B e C : Os resíduos de colheita (restolhos) são enterrados e ocasionalmente foi semeado um azevém necessário conhecer a massa específica do grão de milho. É variável com o tamanho e forma do grão
de Inverno. (Lollium sp.) e com o teor de água, oscilando entre 680 e 720 kg.m-3. Assim, o máximo rendimento obtido neste
ensaio (77 hl.ha-1 )equivale a uma produção entre 5236 e 5544 kg.ha-1)

5
3.1.2.2. Culturas esgotantes
camente idêntica à obtida em monocultura).
Com o mesmo tipo de restrições à sua generaliza-
- No caso do milho, os resultados obtidos com a
ção, uma cultura esgotante, deixa o solo em piores
rotação de culturas são igualmente superiores aos
condições de fertilidade, comparativamente com as
conseguidos em monocultura. Mas a fertilização
condições pré-existentes.
(uma das alternativas enunciadas por Sébillote na
3.1.2.3. Culturas liquidadoras
definição de sistema de cultura) e a natureza do solo
Em alguns casos, o “excesso” de fertilidade residual,
exercem uma influência determinante. O caso do
consequência de uma determinada sequência de
milho é, um exemplo relativamente complexo. Há
culturas pode ser removido por uma cultura
vários exemplos, em muitas regiões produtoras do
liquidadora que repõe a fertilidade ao nível inicial.
mundo, em que não se verificaram reduções de
Pressupõe-se uma cultura que apenas utilizará a
produtividade, em situação de monocultura prolon-
fertilidade existente no solo, não requerendo aduba-
gada de milho.
ções.
3.1.2. Alternância de culturas. Período de 3.1.2.4. Culturas sufocantes
recorrência Tipicamente são culturas de rápido crescimento ini-
3.1.2.1. Culturas melhoradoras cial, cobrindo rápida completamente o solo, pelo que
São culturas que deixam o solo em melhores condi-
“derrotam” as infestantes na competição inicial, “su-
ções do que aquelas que encontraram. Uma vez que
focando-as”. De notar o seu interesse no controlo de
as condições de solo que melhor satisfazem os
infestantes, sem recurso a herbicidas.
requisitos de uma cultura são variáveis com a cultu- 3.1.2.5. Consociação de culturas
ra, este conceito não é generalizável, isto é, não há Cultura de duas ou mais espécies diferentes em
uma cultura que possa ser sempre considerada simultâneo. A diversidade procurada pela utilização
como melhoradora, tudo dependendo da cultura em de sequências de culturas, é parcialmente conseguida
questão e da cultura que se lhe segue. nas consociações. Levantam, contudo, graves pro-
blemas à mecanização das operações, pelo que a
Beterraba
Precedente cultural Trigo Colza sua utilização é praticamente restrita às forragens e
sacarina
prados e a alguns outros casos isolados.
Aveia 6 2
3.1.2.6. Culturas intercalares ou furtivas
Batata 1 1 1
A finalidade destas culturas é a maximização da
Beterraba-sacarina 2 7
utilização da terra, preenchendo os períodos deso-
Cevada 6 5 2
cupados as culturas principais. Dadas as caracterís-
Colza 3
ticas do nosso clima, estes períodos de desocupa-
Ervilha - 3
ção são relativamente pequenos, excepto quando a
Fava -
uma cultura de Outono - Inverno se segue uma
Leguminosa (excepto luzerna) 2
cultura de Primavera - Verão. Neste caso, o tempo
Luzerna 4 3
em que a terra se encontra desocupada, pode ir de
Pastagem 2
Julho a Maio do ano seguinte. Uma vez que é dada
Pousio 5
prioridade à cultura principal (de Primavera), a cultu-
Trigo 5 4 4
ra intercalar ou furtiva está sujeita a não completar o
seu ciclo vegetativo, pelo que é normalmente uma
Quadro 5. Ordenação do valor de vários precedentes culturais do
trigo, beterraba sacarina e colza. (Adaptado de Duthil, 1972). cultura forrageira.

6
3.1.2.7. Culturas encadeadas princípio que a utilização de uma cultura com uma
São culturas que, numa sequência cultural estão periodicidade inferior ao período de recorrência con-
parcialmente sobrepostas, isto é, ainda a primeira duz a efeitos negativos sobre o rendimento. Pode
não completou completamente o seu ciclo cultural e ser igualmente visto (para culturas anuais) como o
já a segunda cultura é instalada. O objectivo princi- denominador do n.º máximo de repetições de uma
pal é também o de conseguir optimizar a utilização mesma cultura a efectuar numa dada sequência
temporal da terra. Exemplo: a cultura do azevém cultural. (Quadro 2.6)
seguindo a cultura do milho no Noroeste.
3.2. Afolhamentos: Compartimentação
3.1.2.8. Culturas de protecção
espacial da exploração agrícola
Destinam-se prioritariamente aservir de cobertura
A terminologia francesa atribui ao termo “assolement”
de protecção ao solo, quando o risco de degradação
um significado mais lato do que aquele que é, geral-
é acentuado, em consequência da incidência parti-
mente considerado no nosso país. O “assolement”
cularmente grave de fenómenos erosivos (erosão
está associado à distribuição de unidades de produ-
hídrica ou eólica).
ção e culturas pela exploração agrícola, sem consi-
3.1.2.9. Culturas para siderar. Siderações. Adubos
verdes. derar obrigatoriamente uma associação dos concei-

Praticadas com o objectivo de produzir biomassa tos de afolhamento (divisão espacial) e rotação

que será incorporada no solo no final do ciclo cultural, (divisão temporal). Em português, “afolhamento”

visando melhorar o teor de matéria orgânica. tem a sua raíz etimológica na “folha”, que significa
3.1.2.10. Pousios e alqueives. uma parcela de terra, tratada homogeneamente, isto
Enquanto o pousio se refere ao tempo durante o qual é, recebendo uma cultura sujeita a técnicas culturais
a terra não é ocupada por nenhuma cultura, o alquei- condicionadas pela cultura e pelas características
ve é um pousio durante o qual a terra é mobilizada, específicas da parcela. O afolhamento é, muitas
com o objectivo principal de combater as infestantes. vezes, condicionado pela presença de limites físicos
3.1.2.11. Período de recorrência. Máximo de impostos à compartimentação da exploração agríco-
repetições
la (caminhos e estradas, muros e sebes vivas pré-
É o mínimo período que decorre entre duas culturas
existentes, linhas de água, características topográfi-
da mesma espécie numa rotação. Parte-se do
cas específicas, etc.). Numa situação ideal, o núme-
Máximo de Período de
Cultura ro de folhas corresponde à duração da rotação
repetições recorrência
empregue na unidade de produção, a área das
Beterraba 1/3 3
folhas tenderá a ser equivalente e a sua forma
Batata 1/3 3
deverá ser tão regular (poligonal) quanto possível.
Milho 1 1

Trigo 1/2 2 3.2.1. A forma das folhas


Cevada 1/2 2 Na realidade, a formas das folhas, quando condicio-
Aveia 1/2 2 nadas por limites ou barreiras físicas pré-existentes
Colza 1/6 6 é extremamente variável, podendo ter uma influên-
Luzerna 3/9 6 cia desfavorável na mecanização das operações
Ervilha 1/4 4 agrícolas.
FORMA
Linho 1/6 6
COEFICIENTE 1.00 1.41 1.55 1.55 1.66 1.41 1.66
Quadro 6. Período de recorrência e número máximo de repetições
(Adaptado de Duthil,1973). Quadro 7. Coeficientes de agravamento dos tempos de viragem
segundo a forma da parcela (Coelho, 1993).

7
0.5 ha
tar o afolhamento à organização espacial específica
1.0 ha
triangular

pentagonal
de cada exploração.
Forma da parcela

trapezoidal 3.2.2.1. Fragmentação da superfície da exploração


circular agrícola
hexagonal
A fragmentação da propriedadade agrícola é, um
quadrangular

rectangular processo espacial que encerra elementos visíveis,


0 2 4 6
Tempo de tarefa (horas/ha)
8 10 tais como a distribuição dos campos, das cercas e
Figura 3. Evolução do tempo de tarefa com a variação da forma da dos muros, e elementos invisíveis, tais como a estru-
parcela, para parcelas de diferentes áreas.
tura das explorações agrícolas - os conjuntos de
Como a maior parte das operações agrícolas meca-
campos possuídos ou trabalhados por um agricultor
nizadas são lineares, a forma rectangular é a mais
individual num dado momento. A fragmentação da
eficiente, já que para uma área igual reduz o tempo
terra agrícola é, também, muitas vezes, uma respos-
total necessário para as viragens nas cabeceiras.
ta racional dos agricultores às heterogeneidades e
Coelho (1993) tomou para base de referência o
incertezas do ambiente natural, económico e social
número de viragens que é necessário realizar numa
em que operam (Coelho, 1993).
parcela de forma quadrangular e estudou os traça-
A intensidade da fragmentação é, vulgarmente, as-
dos de trabalho teóricos que permitem minimizar o
sociada à idade dos sistemas agrários, sendo o
número de viragens em parcelas de diferentes for-
fenómeno, de acordo com o censo mundial da agri-
mas e com a mesma área do quadrado de base,
cultura de 1970, mais acentuado na Europa, com um
tendo calculado os quocientes entre o número de
número médio de 6.2 parcelas por exploração, do
viragens na forma em estudo e o número de viragens
que nos outros continentes (FAO, 1981), em conse-
na forma de referência, que constituem, coeficientes
quência da antiguidade dos sistemas agrários, da
de agravamento do tempo de viragem em função da
pressão demográfica e dos regimes de transmissão
forma da parcela (Quadro 2.7). Segundo esta aná-
por herança. A fragmentação da terra e das explo-
lise, a influência da forma da parcela sobre o tempo
rações agrícolas tem efeitos importantes ao nível da
de tarefa faz-se sentir sobretudo nos casos com
organização do trabalho, da produtividade e da eco-
vértices pronunciados e numerosos como, por exem-
nomia das explorações agrícolas.
plo, em parcelas triangulares e pentagonais (Figura
O termo fragmentação é usado, indiferentemente
2.4). O efeito é tanto mais pronunciado quanto menor
em dois sentidos distintos, quer para descrever situ-
a superfície da parcela. Esta relação resulta do facto
ações em que a divisão da propriedade agrícola
de quanto menor for a parcela, maior é a importância
origina unidades tão pequenas que dificultam ou
do tempo de viragem no tempo de tarefa, sendo este
impedem uma exploração racional das mesmasquer
último, por isso, mais afectado pela variação da
referindo-se a uma situação em que a propriedade
forma.
individual se encontra dividida em muitas parcelas
3.2.2. Número e dimensão das folhas não contíguas.
O número e dimensão das folhas deveria ser condi- 3.2.2.2. Emparcelamento
cionado pela ocupação cultural que o agricultor dá à Emparcelamento, é o nome dado ao instrumento

sua exploração agrícola, isto é, dentro de cada político utilizado para resolver problemas de organi-

unidade de produção, o número de folhas deveria zação espacial das explorações, é pois, essencial-

estar associado à rotação preconizada. Contudo, mente, uma acção de resolução de problemas espa-

muitas vezes, nas situações concretas, há que adap- ciais (Coelho, 1993). Já no século IV A.C. um sábio

8
chinês, de nome Mercuis, propôs a divisão lógica da e o agrupamento ou concentração das parcelas de
terra agrícola em unidades quadrangulares e suge- uma dada exploração. Esta definição transporta tam-
riu que pequenas aldeias fossem compostas de nove bém, alguma carga ideológica no que se refere ao
dessas unidades. A lógica desta operação tornou-a estatuto de posse da terra (Coelho, 1983).
num sistema muito divulgado na China (King e Burton, Actualmente, o conceito de emparcelamento tem um
1982). significado muito amplo, sendo entendido como um
O emparcelamento adquire maior importância nas instrumento privilegiado para promover o desenvol-
sociedades com um largo passado agrário e mais vimento global em meios rurais. Neste sentido, a
desenvolvidas, devido, em primeiro lugar, à reorganização espacial visa não só o desenvolvi-
agudização do problema da fragmentação, particu- mento do sector agrícola mas também o dos restan-
larmente naquelas em que o regime de heranças em tes sectores da economia regional.
partes iguais é mais antigo, e, em segundo lugar, ao
3.3. Rotações
elevado custo económico desta política. Países
Embora os Romanos conhecessem os efeitos bené-
europeus de economias desenvolvidas, como a Su-
ficos de certas culturas (fava, ervilha e tremoço,
écia, a Dinamarca, a Alemanha, a França e a Suíça
entre outras Leguminosas) sobre a cultura cerealífera
têm vindo a emparcelar as suas terras desde há
dominante, na Europa medieval, a cultura cerealífera
década. Na Alemanha, por exemplo, desde 1942
só era possível quando intercalada com períodos de
que se vem seguindo um programa activo de empar-
pousio de duração variável consoante as condições
celamento da propriedade fragmentada; por volta
do meio. Apenas no século XVIII, foram introduzidas
dos anos 60, durante o pico de actividade, cerca de
importantes inovações tecnológicas que estão na
metade do orçamento do ministério da agricultura
origem da Agricultura actual. Assim, a introdução
era devotado a esta política (King, 1977). O proble-
por Jethro Tull (Inglaterra) da sementeira em linhas,
ma da fragmentação permanece hoje preocupante
por oposição à sementeira a lanço, possibilitou a
na Europa do Sul, em países como Portugal, Espanha,
utilização da sacha com tracção animal, o que se
Grécia e Turquia (Coelho, 1993).
demonstrou determinante no controle mecâncio (o
Fragmentação e emparcelamento são, essencial-
único possível, à época) das infestantes. Propunha
mente, processos de rearranjo do espaço. Enquanto
também, uma preparação cuidada e fina do solo, na
que as reformas agrárias, no sentido redistributivo,
convicção errada de que as raízes das plantas eram
são aplicadas às estruturas agrárias que estão su-
capazes de ingerir partículas de solo. Por razões
postamente mal organizadas, no que respeita à
erradas, a maior intensidade e cuidado colocados na
posse de terra e à dimensão da propriedade, o
preparação do solo foram benéficos, incentivando,
emparcelamento preocupa-se com explorações que
também, posteriores inovações tecnológicas. Se-
estão deficientemente organizadas, no que diz res-
guiu-se-lhe o Visconde Townshend of Rainham, no
peito à localização e à forma, ou seja, que têm uma
condado de Norfolk que, mais tarde ficou conhecido
organização espacial deficiente. A FAO define em-
por Turnip (Nabo) Townshend que divulgou o esque-
parcelamento rural como a medida ‘’para criar ou
ma cultural conhecido por rotação quadrienal (four-
promover a criação de explorações agrícolas indivi-
course rotation) de Norfolk (Spedding, 1983). Nesta
duais com dimensão, estrutura, capital e gestão
sequência, o trigo habitual (C) era sucedido por uma
adequadas’’ , englobando simultaneamente o alar-
cultura de raíz tuberosa (geralmente nabo) semeada
gamento de explorações economicamente inviáveis
em linhas e sachada (S), que por sua vez era
9
sucedida por cevada (C) e esta por trevo encarnado consequentemente a rotações de diferente duração
(L) combinado com azevém. e composição. Na Tapada da Ajuda existem duas
A necessidade de fazer suceder culturas de modo unidades de produção arvense: a unidade de produ-
regular, dá origem ao conceito de rotação. Assim, ção de regadio (R) sujeita a uma rotação quadrienal
uma rotação é uma sequência ordenada de culturas, que abrange a quase totalidade da Terra Grande e
durante um determinado período de tempo, findo o uma unidade de produção de sequeiro (S) submetida
qual, as culturas se sucedem na mesma ordem. a uma rotação quinquenal, que inclui o Almotivo e a
Eira Velha. A disponibilidade de água na Terra
3.3.1. Unidade de produção
Grande e um solo com maior potencial produtivo
Representa um sub-sector produtivo dentro da ex-
estabelecem o critério para esta difernciação. Cada
ploração agrícola, que ocupa uma determinada frac-
unidade de produção submetida a rotação de cultu-
ção da área total. Assim, podemos ter a unidade de
ras (porque há unidades de produção, como, por
produção florestal, hortícola, pecuária, arvense de
exemplo, a vinha e os pomares, não sujeitas a
sequeiro, arvense de regadio, etc. Porque é uma
rotação) tem um afolhamento correspondente. Da-
unidade, pressupõe-se a existência de característi-
qui a necessidade de fazer a distinção entre o
cas semelhantes. É vulgar encontrarmos explora-
afolhamento, no sentido estrito (dentro da unidade
ções com diferentes unidades de produção e, mes-
de produção) do assolement francês, que é melhor
mo dentro das unidades de produção de culturas
descrito pelo conceito de ocupação cultural.
arvenses, há muitas vezes, razões que aconselham
a uma organização que se baseie em mais do que 3.2. Representação simbólica e gráfica das
uma unidade de produção. Assim, a possibilidade rotações. Sua classificação
As rotações podem ser representadas simbolica-
limitada de água para irrigação, aconselha à criação
mente de acordo com uma classificação funcional
de uma unidade de produção de regadio e de uma
das culturas. Assim, a rotação exemplificada acima
unidade de produção de sequeiro; características
pode ser representada simbolicamente:
muito distintas no que respeita a potencial produtivo
do solo, (textura, declive, etc.) podem conduzir a
uma opção por duas unidades de produção sujeitas
S-C-L-C
a graus de intensificação cultural diferentes e,

Milho Trigo Trigo Fava


1.º ano 2.º ano 3.º ano 4.º ano
Cevada Fava Milho Cevada

Folha 1 Milho Trigo Fava Cevada


t=1 t=2

Folha 2 Trigo Fava Cevada Milho

Cevada Milho Fava Cevada


Folha 3 Fava Cevada Milho Trigo
Fava Trigo Trigo Milho
Folha 4 Cevada Milho Trigo Fava

t=4 t=3
Quadro 8. Representação esquemática de uma rotação quadrienal,
Figura 4. Representação gráfica de uma rotação quadrienal, tipo
tipo Norfolk.
Norfolk.

10
2.3.3.3. Rotação-tipo te organização espacial da parte aérea (porte, rami-

2.3.3.4. Regras para a implantação de rotações ficações e folhas) que se sucedam na rotação, mos-
2.3.3.4.1. Definição de objectivos tram competitividades diferentes em relação às po-
De modo a compreendermos melhor os critérios a pulações de infestantes, pelo que, não favorecerão
utilizar na escolha de uma rotação devemos ter o desenvolvimento diferencial de nenhuma espécie.
presente os objectivos que se pretendem alcançar O mesmo tipo de raciocínio pode ser aplicado a
com a prática da rotação de culturas: pragas e doenças criptogâmicas em relação às quais
2.3.3.4.1.1. Manutenção da fertilidade dos solos.
duas culturas de espécies diferentes apresentarão
Introdução de leguminosas e/ou de culturas que
susceptibilidades diferentes.
deixem uma quantidade apreciável de resíduos;
2.3.3.4.1.5. Optimização no tempo dos recursos da explora-
outro aspecto não menos importante está ligado com ção

a optimização da gestão dos nutrientes ao longo do Recursos fixos, como mão-de-obra permanente, trac-

perfil. Culturas com sistemas radicais de geometria tores e alfaias, em alguns casos a água (caudais de

diferente e explorando diferentes volumes de solo, rega disponíveis) podem ser utilizados mais eficien-

quando em sucessão numa rotação asseguram a temente se a sua utilização for distribuída ao longo

melhor utilização potencial dos fertilizantes aplica- do ano, o que se consegue mais facilmente empre-

dos que se distribuem de modo diferencial ao longo gando espécies de ciclos culturais diferentes e,

do perfil. consequentemente, mobilizando diferencialmente


2.3.3.4.1.2. Manutenção e/ou melhoria da arabilidade dos esse tipo de recursos. Ex: dois cereais numa mesma
solos
rotação podem ou não, dependendo das respectivas
Características físicas (estrutura, drenagem interna)
2.3.3.4.1.3. Protecção contra a erosão
precocidades, exigir as mesmas operações em con-

Maximização da fracção de tempo em que o solo tínuo ou em simultaneidade.


2.3.3.4.1.6. Optimização das receitas de tesouraria ao longo
está protegido por um coberto vegetal. do ano:
2.3.3.4.1.4. Promoção de técnicas de protecção integrada:
Produção de leite, hortícolas, Culturas de Outono -
A descontinuidade criada pela sucessão de culturas
Inverno e de Primavera - Verão, etc. (Recurso ao
com características diferentes (morfológicas, anató-
crédito de campanha).
micas e fisiológicas) impede a especialização de 2.3.3.4.1.7. Diminuição do risco
qualquer grupo particular de competidores ou para- Ligado a acidentes climatéricos ou de mercado. A
sitas. Por exemplo, plantas que apresentem diferen- multiplicidade das produções associada às rota-
Maior ções, dilui o risco associado à variabilidade climática
dificuldade de A frequência
controlo aumenta ou às oscilações de mercado.
Epidemia 2.3.3.4.2. Condicionantes da escolha de um sistema de
culturas
Monocultura Doença
Cultivar com
A concretização de qualquer destes objectivos, de-
Novo tipo de
nova resistência virulência pendendo da sua aplicabilidade a cada situação
Maior Aumento da concreta, determina um conjunto de normas a que a
intensidade de quantidade
tratamento de inóculo rotação deve obedecer.
Aumento dos problemas O processo de definição de uma rotação normalmen-
fitossanitários em monocultura
te começa pela escolha de uma cultura que, quer

Figura 2.5. Representação esquemática do crescimento da pelo seu particular interesse económico, quer pela
incidência de doenças em monocultura, intensificação cultural a que obriga, tem uma posição

11
predominante no conjunto de culturas da rotação, declives acentuados estão sempre associados a
sendo por isso designada por cabeça de rotação. A solos delgados, exactamente por acção continuada
escolha desta cultura é determinante na definição da erosão, pelo que a sua aptidão agrícola é muito
das culturas que a seguem e precedem na sequên- limitada ou mesmo nula, sugerindo-se outras utiliza-
cia temporal, pelo que se deve empregar a máxima ções nomeadamente florestal e ou silvo-pastoril.
ponderação na decisão a tomar. (Classes de declive).
3.3.4.2.1. Condições edafo-climáticas. 3.3.4.2.1.3. Pedregosidade.
3.3.4.2.1.1. Temperatura. 3.3.4.2.1.4. Espessura efectiva do solo.
O primeiro passo deste processo de análise de Para além das situações em que a rocha-mãe se
alternativas passa pela caracterização do ambiente encontra muito perto da superfície há condições em
físico da exploração, de modo a avaliar as que, embora aparentemente não pareça haver limi-
potencialidades de produção e a proceder ao levan- tações na espessura do solo, a espessura efectiva-
tamento das eventuais limitações existentes. Em mente explorável pelas raízes é reduzida, em virtude
ordem sequencial e decrescente de limitação são os da presença de certos depósitos minerais que imper-
seguintes os principais factores limitantes: meabilizam o horizonte iluvial, ou a presença de uma
No nosso país está particularmente associada à toalha freática superficial impede, pelo menos du-
orografia e, no caso das culturas de Primavera - rante uma parte do ano, o desenvolvimento dos
Verão pode ser limitante da duração da época cultu- sistemas radicais em toda a espessura do solo.
ral para culturas sub - tropicais. Ex: Arroz tem como (Drenagem)
3.3.4.2.1.5. Deficiência de água
fronteira setentrional o Vale do Vouga. Situações
A Agricultura sem recurso à irrigação é, no nosso
microclimáticas particulares devem ser tomadas em
país denominada de sequeiro, por oposição à Agri-
consideração, quer para delas tirar proveito, quer
cultura de regadio. Noutras condições climáticas, a
para obviar situações de risco elevado. Estão no
regularidade e quantidade das precipitações permite
primeiro caso situações em que se pode tirar partido
fazer Agricultura sem irrigação e com pequenas
de um microclima privilegiado (moderação climática,
limitações de água. (Climas marítimos, Climas con-
ou exposição favorável) proporcionando a obtenção
tinentais com precipitações regulares na estação
de colheitas antecipadas e, por conseguinte melhor
quente, climas tropicais com estação quente e húmi-
remuneradas (Ex: batata - primor no Oeste, tomate
da, regimes monsónicos, etc.). Particularmente, no
para consumo vs. tomate industrial, etc..). Estão no
caso dos climas mediterrânicos e noutros tipos cli-
segundo caso todas as situações que proporcionem,
máticos em que a estação quente coincide com a
devido às suas peculiaridades microclimáticas uma
estação seca, ou em climas desérticos, em que a
maior frequência de geadas ou a extensão do perí-
quantidade de precipitação é sempre reduzida, inde-
odo de geadas, aumentando por conseguinte, o risco
pendentemente da época do ano em que ocorre, o
associado a certas culturas sensíveis.
3.3.4.2.1.2. Declive. solo tem uma importância determinante na econo-
Pelas dificuldades impostas à mecanização, bem mia da água. Assim, em função das suas caracterís-
como pelos elevados riscos de erosão a que os ticas físicas (particularmente a capacidade de reten-
declives acentuados estão associados na ausência ção para a água, asssociada à microporosidade -
de processos extremamente dispendiosos de pro- textura e estrutura ), bem como do volume de solo
tecção é um factor que muito frequentemente limita exploràvel se define a Capacidade Utilizável (C. A.
as potencialidades produtivas de uma região. Os U.) que determina o sucesso ou insucesso da Agri-

12
cultura de sequeiro. A sua importância, embora não “nicho ecológico” próprio e que este não seja coinci-
tão determinantemente, faz-se também sentir na dente com os de outras espécies alternativas. Con-
Agricultura de regadio, reflectindo-se, sobretudo na tudo, as expressões que atribuem qualificativos cul-
maior ou menor facilidade na gestão da água. turais a certo tipo de solos, como por exemplo, “Terra
3.3.4.2.1.6. Disponibilidades de água para irrigação de pão”, ou “Terra de batata”, não são exactas. Na
Dadas as características climáticas da generalidade
generalidade das circunstâncias, as características
do nosso País, a alimentação em água das culturas,
favoráveis ou desfavoráveis de um certo tipo de solo
particularmente das culturas de Primavera - Verão
são-no para a maior parte das plantas cultivadas.
faz-se recorrendo a água armazenada no solo, ou a
Pode todavia acontecer que espécies mais rústicas
água precipitada anteriormente e armazenada quer
se desenvolvam melhor em solos mais pobres do
superficialmente (charcas, albufeiras) quer em pro-
que outras espécies mais exigentes. Porém este
fundidade (poços, furos) ou ainda a água precipitada
facto não nos permite concluir que aqueles solos são
noutras regiões (rios, ribeiros e barragens de gran-
mais favoráveis à espécie mais rústica. O que se
des dimensões). Em função da quantidade e em
passa é que, a reduzida fertilidade diminui o poten-
alguns casos da qualidade ou preço da água dispo-
cial produtivo da espécie mais exigente, sem afectar
nível este factor pode ser ou não fortemente restritivo
o já de si reduzido potencial da espécie mais rústica.
das opções a tomar. (Adaptação ao regadio).
No primeiro caso a limitação é ambiental, ao passo
3.3.4.2.1.7. Características químicas, físicas e biológicas do
perfil cultural que neste último, a limitação predominante é
Particularmente a arabilidade, i.e., a facilidade com genotípica. A análise das potencialidades e limita-
que é trabalhado, o pH, a presença de sais em ções define o tipo de intensificação cultural possível
elevadas concentrações (salinidade) e noutros ca- no quadro definido pela limitação mais restritiva (Lei
sos menos comuns, a presença de elementos tóxi- de Liebig, ou do mínimo).
cos (caso de solos derivados de rochas com metais 3.3.4.2.3. Condições estruturais.
3.3.4.2.3.1. Estatuto de posse da terra
pesados na sua composição - serpentinites) podem
A exploração por conta própria familiar e o
por em risco a viabilidade de certas culturas, embora,
consequente prazo temporal alargado associado a
a maior parte das situações possa ser corrigida.
ela, bem como, a perspectiva de manter em bom
(Critério económico).
estado de conservação um património fundiário para
3.3.4.2.2. Considerações gerais
Estas considerações aplicam-se à generalidade das as gerações futuras, de um modo geral assegura

culturas. Contudo, há casos em que determinadas uma estratégia mais conservadora e cuidada do que

características limitantes para a generalidade das no caso da exploração por arrendamento ou na

culturas podem estar particularmente bem adapta- exploração empresarial. Particularmente no caso da

das a certas culturas com requisitos ecológicos pe- exploração por arrendamento, o curto horizonte tem-

culiares. É o caso, por exemplo do pessegueiro, que, poral não contempla preocupações de índole

pelo facto de ser extremamente susceptível ao defi- conservacionista, sendo o objectivo principal a

ciente arejamento do solo, se desenvolve melhor em maximização do rendimento a todo o custo, dentro

solos de textura ligeira, geralmente considerados do período limitado de exploração.

mais “pobres” do que os solos com maiores teores de Um outro aspecto, este ligado com o estatuto jurídico

argila e limo, desde que convenientemente regado. da terra tem tido efeitos semelhantes ao das explo-

É esperável que cada espécie cultivada tenha o seu rações por arrendamento, desincentivando o inves-
timento produtivo de médio e longo prazo e estimu-

13
lando a utilização descontrolada da terra. opção por certas culturas pode ser limitada por uma
3.3.4.2.3.2. Vias de comunicação dimensão que não assegure uma utilização superior
Estabelecem o contacto entre a produção e o
ao limiar de rentabilidade. (Economias de escala).
utilizador. A rapidez de comunicação está associada
Ao contrário, certas culturas particularmente intensi-
ao peso do custo do transporte no valor da produção
vas em capital e/ou mão de obra, ou cujos produtos
no mercado. Por isto facilmente se vê que, quando as
tenham uma procura restrita, não são bem adaptá-
vias de comunicação são lentas, oneram desneces-
veis a grandes explorações.
sariamente os encargos com a produção ou reduzem 3.3.4.2.5.2. Grau de mecanização
o valor comercial desta. Em qualquer dos casos a Quer a mão de obra disponível quer as disponibilida-
margem bruta é reduzida. des de tracção ou de alfaias específicas podem ser
3.3.4.2.3.3. Rega limitantes de certas opções, ou pelo contrário, suge-
Regadios públicos e privados; redes de distribuição;
rir a tomada de uma decisão que maximize a utiliza-
esquemas de funcionamento; preço do factor água.
ção desse tipo de recursos fixos.
3.3.4.2.3.4. Energia
3.3.4.3. Métodos de elaboração de rotações
A importância da energia (eléctrica ou outra) na
3.3.4.3..1. Por aproximações sucessivas
exploração agrícola é cada vez maior. A sua utiliza-
Grau
ção como força motriz (ex: bombagem de água), em Novas culturas
de
intensifi-
cação
frigorificação ou aquecimento ou secagem, bem como cultural

noutros inúmeros sectores da actividade agrícola Culturas tradicionais


Informação s/
adaptabilidade
torna-a indispensável na Agricultura actual. A ausên- A
F
O
cia de electrificação rural pode inviabilizar, senão em Cabeça de rotação Culturas possíveis L
H
absoluto pelo menos economicamente muitas op- A
M
E
ções possíveis. Sucessão de culturas N
Culturas T
3.3.4.2.4. Condições económicas melhoradoras
O
3.3.4.2.4.1. Escoamento dos produtos Culturas
3.3.4.2.4.1.1. Mercados e Preços esgotantes
Factores
Período de
Uma vez que a escolha de uma rotação visa conse- recorrência
económico-
-sociais

guir o melhor rendimento económico, embora con- R O T A Ç ÃO Capital


Calendário
cultural
servando a viabilidade da sua manutenção a longo Mão de obra

Mercado
prazo, pelo recurso a práticas conservacionistas das
Preço
características do solo o valor da produção, e a
Figura 6. Diagrama relacional dos factores a ter em consideração na
facilidade de colocação são dos factores mais deci- escolha de culturas numa rotação
sivos na escolha da cabeça de rotação.
3.3.4.2.4.2. Crédito
A opção por determinadas culturas que envolvam
investimentos iniciais elevados está condicionada na 3.3.4.3..2 Por programação linear
A programação linear permite escolher uma combi-
maior parte dos casos pela disponibilidade e custo de
nação de culturas que optimiza uma dada função
capitais alheios.
3.3.4.2.5. Condições específicas da própria exploração objectivo, desde que se conheçam as restrições
3.3.4.2.5.1. Área técnicas de cada cultura.
Os meios necessários à execução de operações
culturais específicas têm um custo fixo que se dilui
com o grau de utilização que lhes é dado. Assim, a

14
Exemplo: Um produtor de leite do Noroeste Português pretende maximizar a

margem bruta global da sua exploração recorrendo à produção de forragens (milho e Azevém Função objectivo: z = 500 X1 + 400 X2
X2
azevém). Sabendo que a área disponível é de 40 ha, que só pode dispor de 150

000 m3 de água para rega e que pode dispor de 240 dias.homem determine qual a 60 Restrições:
área a atribuir a cada uma das culturas para uma margem bruta unitária de 500 Área: 40 ha

X1 + X2 <= 40
unidades para o milho e de 400 unidades para o azevém. 50
Mão de obra: 240 dH
Cada restrição técnica permite definir uma recta que delimita todas as combinações
6 X1 + 4 X2 <= 240
possíveis de X1 e X2. Assim, por exemplo, o factor terra permite todas as
40
Água: 150 000 m3
combinações possíveis de área dedicadas a Milho e Azevém limitadas
5000 X1 + 3000 X2 <= 150000
superiormente pela recta X2 = 40 - X 1 , i.e., desde a totalidade da área dedicada ao
30
Azevém até à totalidade da área dedicada ao Milho. Já no caso da água, a recta

que delimita todas as combinações possíveis de utilização do factor (X2 = 50 - 5/3

X1) ou (X1 = 30 - 3/5 X2), embora permitindo a utilização de uma área superior à 20

que existe com a cultura do azevém(que requer 3000 m3.ha-1, ou seja, 120 000 m3

para a totalidade da área), não permite a utilização integral da área existente com a 10

cultura do milho, já que neste caso, seriam necessários 200 000 m3, limitando a

cultura do milho possível a uma área de 30 ha. O sistema de inequações que traduz

a combinação das três restrições técnicas, define o polígono a sombreado que 0 10 20 30 40 50 60


Milho X1
corresponde ao domínio de todas as combinações possíveis de áreas dedicadas às

culturas do milho e do azevém.


Coeficientes ou restrições técnicas:
A função objectivo Z = 500 X1 + 400 X2 estabelece a margem bruta obtenível pelas

combinações de área dedicada ao milho e ao azevém. É tanto maior quanto


Consumo de
Milho Azevém Disponibilidade
maiores forem X1 e X2 e quanto maior for a distância à origem. Esta equação pode factor
ser reescrita: X2 = - 5/4 X1 + Z/500 e daqui se pode concluir que para qualquer
Terra 1 1 40
valor de Z, i.e., para qualquer que seja a margem bruta global obtida, o declive da

recta que representa a função objectivo é constante e igual a - 5/4 e a ordenada na Mão de obra 6dH 4 dH 240 dH
origem é tanto maior quanto maior for Z. A solução óptima corresponde ao domínio

realizável (área sombreada) por um lado e a uma recta de declive - 5/4, cuja Água 5000 m3 3000 m3 150000 m3

ordenada seja a maior possível. A família de rectas paralelas, representadas a

tracejado, inclui a recta tangente a um vértice exterior do polígono com a maior


Figura 7. Exemplificação de um caso simples de aplicação da
ordenada na origem. O ponto de intercepção indica a combinação de X1 e X2 programação linear.
(áreas dedicadas às culturas do milho e do azevém) que maximiza a margem bruta.

3.3.5.1. Balanço da matéria orgânica


3.3.5. Avaliação das rotações
BALANÇO HÚMICO
1 - SEM ESTRUMAÇÃO OU INCORPORAÇÃO DE
A priori A posteriori
RESÍDUOS
Balanço da matéria
orgânica
Valor da produção n
A = A ( 1- k )
o 1
Matéria seca
Índice de produzida e A - Teor actual de matéria orgânica (%)
produtividade qualidade da
produção A - Teor inicial de matéria orgânica estável (%)
o
Evolução do teor
Utilização de
dos diversos k - Taxa de mineralização anual (ano-1)
nutrientes
nutrientes no solo 1
n - tempo (anos)
Consumo de Alteração da
pesticidas estrutura do solo
4%
Utilização de
Mão-de-obra

Necessidades de 3%
k1=0.5%
mecanização (horas
% de M.O.

k1=1%
e tipo de máquina)
2%

Eficiência Quadro 9. Critérios


energética de avaliação de uma 1%

Eficiência de rega
rotação k1=2%

0%
Estimativa da 0 50 100 150 200
Produtividade Anos

Avaliação do
impacte ambiental Figura 8. Evolução teórica do teor de matéria orgânica ao longo do
tempo

15
Húmus
Coeficiente Natureza dos resíduos MS (t.ha-1)
Material orgânico (kg.ha-1.ano-1)
iso-húmico
Beterraba 3-6 450-900

Estrume bem decomposto 0.5 Batata 0.5 Negligenciável

Trigo (palha exportada) 2-4 300-600


Estrume mais ou menos palhoso 0.2-0.4
Cevada (palha exportada) 1-2 150-300
Detritos vegetais lenhosos mas ainda ricos em
0.15-0.3
azoto, palhas enterradas com adubos azotados Milho (5 ton.ha-1)
5 750
(Colmos enterrados)
Palhas mal misturadas com o solo, sem
0.08-0.15
fornecimento de azoto, detritos lenhosos Palha de trigo 4 400

Quadro 10. Coeficientes isohúmicos de alguns materiais orgânicos Luzerna (2 anos) 5-8 500-800

Prado temporário (3 anos) 15-18 750-900


2 - COM ESTRUMAÇÃO OU INCORPORAÇÃO DE
Mostarda branca 3 Negligenciável
PALHAS OU RESÍDUOS
k2 - coeficiente isohúmico Estrume de quinta
8 320-640
(de 5 em 5 anos)
x - quantidade de resíduos/estrume incorporados
Quadro 11. Quantidades de húmus formadas pelos resíduos de
t
o
A
o diversas culturas (kg.ha-1)
t A +k x
o o 2 t {[(A + k x)(1-k )+ k x](1-k )+ k x}(1-k )+ k x
3 o 2 1 2 1 2 1 2
t (A + k x)(1-k )+ k x 3 2
1 o 2 1 2 t {[(A + k x)(1-k ) + k x (1-k ) }+ k x
3 o 2 1 2 1 2
t [(A + k x)(1-k )+ k x](1-k )+ k x n n-1
2 o 2 1 2 1 2 t [(A + k x)(1-k ) + k x(1-k ) ]+ k x
n o 2 1 2 1 2
3.3.5.2. Índices de produtividade
A. Culturas e Operações
Trigo, aveia, cevada, centeio, triticale (sem incorporação de palhas) -2.0
Cook (1962) apresentou o Alqueive nu ou de Verão -2.5
Culturas estremes em linhas, sachadas: milho, sorgo, batata serôdia, tomate (indústria), feijão, abóbora, etc. -1.0
conceito de índices de produ-
Pomares cultivados sem cultura de protecção -2.5
tividade - solo que atribui uma Oleaginosas anuais de sequeiro (girassol, açafroa) -1.5
. Sem alqueive prévio. -1.5
notação ao efeito de uma cul- . Revestindo alqueives 0.25
Leguminosas anuais Outono x Invernais a lanço -0.25
tura e tecnologia sobre a pro-
Leguminosas anuais de Primavera a lanço 0.0
dutividade de um solo. Gramíneas permanentes para corte 0.25
Gramíneas permanentes para pasto 0.5
O cálculo dos Índices de Pro- . 1.º ano 2.5
Leguminosas permanentes
dutividade baseia-se na con- . 2.º ano 0.5
. 3.º ano 0.25
sideração de três perspecti- . Outros anos 0.25
Trevos anuais para pasto 1.0
vas sob as quais incide a aná-
Trevos anuais para corte 0.5
lise de uma tecnologia cultu- Prados permanentes ou temporários de gramíneas e de leguminosas 1.0

ral (Quadro 12): Resíduos de culturas (2.5 t.ha-1 ) deixados nos campos (cereais de pragana, milho, sorgo, etc.) 0.25

B. Fertilização
Por cada tonelada de estrume por hectare não enterrado 0.04
Por cada tonelada de estrume por hectare enterrado 0.05
Por cada 40 unidades.ha- 1 de adubos químicos 0.15

C. Erosão (agravamento dos índices negativos indicados em A.)


Quadro 12. Índices de Produtividade -
solo. Adaptação dos índices de Cook Classe Grau Declive (%) Sem defesa Lavoura em curvas
de nível Culturas em faixas ou valados
(1962) às condições de Portugal
1 Nulo ou pequeno 1 0.00 0.000 0.000
Continental. Preparado por Azevedo (1971/72),
Portas (1970 e 1972) e Lynce de Faria e Portas 2 Ligeiro 1-2 0.25 0.125 0.050
(1984).
3 Moderado 3-5 0.50 0.330 0.125
4 Severo 6-10 1.00 0.800 0.300
5 Muito severo 10 2.00 - -

16
A - Culturas e Operações
A cada cultura ou operação é atribuída uma nota (positiva ou negativa) de acordo com vários factores
associados ao seu efeito sobre as características do solo. Assim os cereais são notados negativamente ao
passo que os prados temporários têm um efeito positivo sobre a fertilidade do solo.
B - Fertilização
Cada 40 unidades de adubos químicos fornecidos por ha, independentemente do nutriente fornecido, têm
um efeito positivo de igual grandeza. Os estrumes têm também um efeito positivo, que é maior no estrume
enterrado por comparação com o estrume não enterrado.
C - Erosão
Os índices negativos atribuíveis às Culturas e Operações são agravados, tanto mais quanto maior for o
declive. Este efeito é atenuado por medidas de protecção contra a erosão.

Usando como exemplo uma rotação com alguma tradição na unidade de produção
- Cálculo dos índices de produtividade associados ao declive (Perspectiva C):
de regadio da Terra Grande (Tapada da Ajuda):
Cada índice negativo associado às culturas e tecnologias de produção é agravado
Anafa x Milho - Trigo - Consociação - Trigo
no caso vertente em -0.33, dado que se trata de uma área com declive médio entre
o procedimento de cálculo do Índice de Produtividade, passa pelas seguintes
3 e 5%, onde a lavoura é efectuada paralelamente às curvas de nível:
etapas:
3 parcelas negativas 3 x (-0.330) = -0.99 ≈ -1
- Cálculo dos índices de produtividade associados a culturas e operações
- Índice de produtividade da rotação:
(Perspectiva A)
A= -4.0
Anafa +0.5 B = 802 /40 x 0.15 = +3.0
(Procurar no quadro o índice de
Milho -1.0 C = -1.0
produtividade respeitante à
Trigo -2.0 Total = A + B + C = -2.0
cultura, ou cultura de
Consociação +.5 Uma vez que a rotação é quadrienal o índice de produtividade médio é (-2/4) = - 0.5
características semelhantes).
Trigo -2.0

__________________________________ 3.4. Potencialidades e orientações para a


∑ -4.0 produção agrícola
- Cálculo dos índices de produtividade associados à fertilização (Perspectiva B):
Temperatura Insuficiente 1
é necessário determinar a soma de todas as unidades de macronutrientes principais

incorporados nos fertilizantes empregues


Suficentes para satisfazer
as exigências da cultura

A cultura da anafa tem, nesta rotação o papel de cultura intercalar, uma


declive muito
vez que é colhida a tempo de proporcionar a sementeira da cabeça de Topografia acentuado reduzidas
>15%

rotação: Milho.
plano declive
ou frequentemente
pouco Défice elevado
acidentado hídrico
elevado 8% < < 15%
0% < < 8%
Possibilidades
de rega
baixo
Cultura da Anafa Défice
médias ou boas
hídrico
2
200 kg Superfosfato 18%200 kg x 0.18 P = 36 elevado

Cultura do Milho baixo

Possibilidades reduzidas 3
600 kg Adubo ternário 15:15.:15600 kg x (3 x 0.15) = 270 de
rega
Adubação de cobertura: 1 - Orientação forrageira boas
extensiva, floresta Comportamento
400 kg NH4NO3 26% 400 kg x 0.26 = 104 físico do solo
deficiente 4

2 - Orientação menos extensiva:


Cultura do Trigo
normal
-área importante dedicada à
250 kg Adubo binário 16:32:0250 kg x (0.16 + 0.32) = 120 cultura forrageira;
5

-algumas possibilidades para 4 - Orientação baseada em:


Adubação de cobertura: culturas arvenses, -rotação forragem-cereal;
nomeadamente cereais de -possibilidade de algumas culturas de Verão;
200 kg NH4NO3 26%3 200 kg x 0.26 = 52
Inverno; -culturas especiais possíveis (vinha).
Consociação -certas culturas especiais
(árvores de fruta,vinha) e 5 - Largas possibilidades de cultura:
300 kg Superfosfato 18%300 kg x 0.18 = 48 floresta.
-culturas forrageiras diversas;
3 - Orientação com: -cereais de Inverno,
2.ª Cultura de trigo = 172
-área importante de vinha; oleaginosas;
____________________________________________________________________ -culturas forrageiras, cereais de Inverno, -culturas de Verão;
oleaginosas; -culturas especiais variadas.
∑ = 802 -área dedicada às culturas de Verão muito reduzida.

Quadro 13. Orientações da produção agrícola de acordo com os


factores ecológicos

17
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Cook, R.L. 1962. Fitting crops to the soils. Soil management for conservation and production.
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Quadros e Desenhos auxiliares. Instituto Superior de Agronomia. UTL. Lisboa. Hénin, S e S. Sébillotte 1962. Si nous parlions “assolement”. Bull. C. E. T. A., Étude n.º 783. Citado
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Caldas, E. C. 1964. A difusão de técnicas e de conhecimentos entre os agricultores. In: Análise e Centenário do Pavilhão de Exposições da Tapada da Ajuda.
planeamento da exploração agrícola. Centro de Estudos de Economia Agrária. Citado por Sébillotte, S. 1966. Rotations et assolements. Révue agricole de France. Numéro spécial:
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Coelho, J. P. 1993. Análise de projectos de emparcelamento rural. O caso de Valença do Minho. Spedding, C. (ed.) 1983. Freams’s Agriculture. 16th edition. Royal Agricultural Society of England.
Tese de doutoramento. ISA, UTL. 816p.

ANEXOS
à absorção total, diluída pela planície ondulante e sem fim, dessecada
Pela sua importância e interesse relevante para os pelo «suão» e pelos calores tórridos do estio. E quando as chuvas
voltam, quase sempre breves mas copiosas e o «leste» sopra agora
temas abordados neste capítulo, incluem-se, textos gélido das estepes de Castela, o Alentejo é de novo agreste, para mais
ou excerptos de textos de algumas referências adiante reverdecer exuberante, numa promessa de abundância que
raramente se concretiza. A agricultura do Sul tem, por isso mesmo,
bibliogáficas incluídas. feição característica. Por fatalismo ou abandono, por imposição da
natureza ou da vontade dos homens, assim continua também, quase
imutável, a exploração da terra. Muito se tem dito e escrito sobre a
agricultura do Sul, sobre ela se tem discutido apaixonadamente, tanto
sob o ponto de vista da estrutura como da técnica da exploração agrária.
Alves, A. A. 1961. A Agricultura do Sul. In: Nada se acrescentará aqui de novo, deduzindo argumentos em favor
O problema da manutenção da desta ou daquela teoria. Procura-se analisar, sem paixão e objectiva-
fertilidade na Agricultura do Sul. mente, algumas das práticas correntes da agricultura do Sul, como
base dum aperfeiçoamento, que, mesmo os mais incrédulos julgam
Melhoramento, 14.13-32. necessário, a bem da produtividade da terra que é manifestamente
baixa. Mas para melhor compreender a agricultura de hoje, tornou-se
indispensável estudar a evolução através dos tempos, na medida em
1. A AGRICULTURA DO SUL
que ela por vezes explica práticas tradicionais que se desejam rever à
Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, luz dos conhecimentos técnicos actualizados. Achar as razões que
o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: determinaram sentido da evolução é tão importante para o estudo das
o descampado dum sonho infinito e a realidade dum solo exausto. práticas culturais integradas num ambiente ecológico, como a análise
MIGUEL TORGA dessas mesmas práticas, na agricultura progressiva que nos é imposta
pela pressão demográfica e necessidades da vida actual, que não pode
Latifúndio e monocultura de cereais praganosos, é o fácies dominan- ser alheio o elemento humano nelas envolvido. De resto, como escre-
te da exploração agrícola ao Sul do Tejo. Nesta agricultura a duas largas veu REBELO DA SILVA (1868), «se não serve de nada suas lições, a
dimensões, a pecuária, embora de certo relevo, é subsidiária apenas. História a ninguém aproveita».
O porco é um sub-produto do sobreiro, da azinheira e do «agostadouro»,
tal como a ovelha o é deste e do pousio. A ovelha quase faz parte da 1. 1. AGRICULTURA PRIMITIVA
paisagem, implantada na terra, quer esta tenha ou não revestimento Sem elementos que nos mostrem o relevo da agricultura pré-
vegetal, mais um ser espontâneo, entregue à inclemência do tempo, muçulmana, pode apenas conjecturar-se como ela se terá desenvolvi-
frequentemente adverso, e às benesses da providência nem sempre do no Sul. «Outrora a Lusitânia foi por certo uma região essencialmente
pródiga. Contudo, «lavoura sem gados é uma casa sem telhado; arborizada, uma vasta floresta acidentada onde abundavam as charne-
lavrador sem vivos, não é lavrador não é nada» como escreveu cas e os pântanos e habitada por uma fauna numerosa e variada»
CAPELA E SILVA (1939). SUPOSPÔIN SARD (1912), ao tentar reconstituir o primitivo território
A extensividade e o cereal, sobretudo o trigo, exercem sobre o português e seu povoamento.
agricultor do Sul poderosa influência, fascinação de meridional a quem Que era arborizada, demonstra-o o próprio nome de Lusitânia,
os excessos deleitam; também porque, «é preciso ter terra para ser radicado naquela origem, segundo HERCULANO (1914). E a
alguém, muita terra para ser remediado». A cultura até ao outeiro, longe Fitossociologia moderna o considera também, julgando ter sido, em
que no Alentejo é além», «já ali», o mar imenso da seara ondulante, são visão ampla, a Quercus ilex ssp. rotundifolia característica
considerados inerentes ao clima adverso, como à terra sáfara, fatalis- fisionomicamente destacada da vegetação climácica do Sul, como a
mos que o alentejano admite por tradição e perpetua imutável desde há Quercus robur o foi no Norte (MALATO-BELIZ, inf. verb.).
séculos. Para quem chega, o ambiente pesa na vastidão dos seus
Evoluindo sempre, por conquista e adaptação desde os caçadores
longes, a continuidade da sua tradição absorvente e dominadora. Os
do paleolítico, através de sucessivas invasões de povos de tradição
que vêm do Norte ou são «ratinhos», se oriundos da Beira e chegam
pela época das ceifas, ou simples e genericamente «galegos» que o agrícola como os Líguros, outros nómadas mais afeitos à pastorícia e
outros ainda de índole guerreira como os Celtas, amalgamando-se sob
íncola olha suspeitoso e com não velado desprezo. O primitivismo dos
a protecção dum clima mediterrânico geralmente ameno e dum ambi-
costumes atingiu proporções de uniformidade que não têm paralelo em
qualquer outra província, parecendo que o tempo deixou imutáveis, ente rico, assim se foi consubstanciando a Lusitânia. “Rica de estanho,
cobre e madeiras simultaneamente, encontravam-se pois, todos os
petrificados no campo em seus «pelicos» e «safões», o pastor e o
materiais necessários à fabricação do bronze que durante tanto tempo
porqueiro, enquanto o «ganhão» revolve o alqueive sem fim, num
vaivém cadenciado que prossegue para além do próprio tempo. Toda foi o metal mais usado» (POINSARD, 1912). Dela derivou, segundo o
mesmo autor, a atracção dos fenícios, cartagineses e gregos, de
a reacção contra o meio depara com a resistência da tradição, a
tendência comercial. E a indústria dos metais perpetuou-se ainda por
continuidade do «sempre assim foi» e vai pouco a pouco morrendo até

18
algum tempo pois que, como EZEQUlEL DE CAMPOS escreveu em latifúndios, distribuídos com mão pródiga a ordens, mosteiros e ricos-
1946, «desde D. Afonso Henriques até bem depois da ida a Ceuta, homens» (TELLES, 1899). D. Dinis distribuiu courelas junto das aldei-
fizemos ferro para as nossas precisões». A agricultura não foi o labor as, mas as grandes propriedades desde sempre dominaram a extensão
dominante daqueles tempos e a pastorícia foi a ocupação predilecta territorial do Alentejo. Era mais fácil dividir em grande, sobretudo
dos primeiros habitantes da Lusitânia, mais adequada à tendência quando a terra abundava e era escasso o número dos contemplados.
nómada e às disponibilidades naturais aqui achadas pelos povos Separadas depois por heranças sucessivas, reagrupadas por união de
primitivos — Ager pastoralis. Que assim foi e que a ovelha era o animal famílias as «herdades» atravessaram os séculos, perpetuando a divi-
preponderante, pode sem dúvida deduzir-se também da origem fenícia são original na propriedade. «Assim a constituição da propriedade
do rio que pelo sul limitava a Lusitânia (HERCULANO, 1914). Afeiçoa- alentejana conserva ainda o carácter que lhe imprimiu o sistema
dos à adaptação quase constante aos múltiplos invasores, não é de empregado por D. Sancho, e seguido depois por D. Afonso III e por seu
estranhar que os povos da península fossem tão facilmente assimilados filho D. Dinis, na distribuição das terras”, como escreveu ANSELMO De
pelos romanos, portadores duma organização perfeita, possuidores ANDRADE em 1898, o latifúndio que alguns continuam a atribuir ao
duma técnica agrícola e industrial evoluídas, duma civilização que fatalismo conjunto do nosso clima irregular e pobreza do solo. Com a
floresceu também aqui. Existiram no Sul, ao tempo dos romanos na estrutura se foi perpetuando também o sistema de exploração que lhe
península, cidades importantes, cujos vestígios Évora ostenta, Ebora é inerente e que REBELO DA SILVA (1868) referiu nestes termos: «A
que fora a capital da Lusitânia. Mas as cidades estavam isoladas, extensão das herdades e defezas, excluindo a pequena propriedade,
ocupando posições estratégicas como Juromenha ou no seguimento criou a lavoura gigantesca, atrasada e em grande parte pastoril, com os
de povoações pré-existentes. E a agricultura devia circunscrever as pousios de muitos anos, as queimadas e os montados, a par dela uma
cidades, pois que no dizer de Herculano, «as aldeolas, as granjas, as economia rural tão especial e arreigada que frustou sempre os esforços
habitações isoladas pelos campos pressupõem extremo aperfeiçoa- mais vigorosos, porque nunca cedeu ao preceito das leis, nem à acção
mento da vida civil. Este grande facto social pertence exclusivamente das ideias». Igual defeito lhe achou BASÍLIO TELLES (1899) como
às eras modernas. Os romanos desconheciam-no. Foi a cultura dos SEVERIM DE FARIA o criticara também asperamente, já em l624
cereais, fundamentalmente do trigo, a que os romanos transplantaram (SILVA, 1868), Contudo, o latifúndio e toda a sua agricultura ancestral
do Lacio e intensificaram na Península com a sua técnica aperfeiçoada continuou através dos tempos até aos nossos dias: «um sistema
mas ainda esgotante. Deles herdámos o arado de pau, as rotações, a bárbaro de cultura, enérgicos alqueives, queimas assoladoras sem
organização da lavoura do Sul A «herdade» é ainda hoje, uma imagem incorporação de húmus, maus afolhamentos que têm depauperado
da «villa rústica» generalizada no Lacio, identificada por LUÍS CHAVES ainda mais as nossas terras pobres (REBELO, 1917); o gado errante
(1922) no Alentejo. Por isso «desde o começo do domínio romano até por montes e vales do tempo de Viria to, ou da antiga transumância do
à invasão dos mouros, prosseguira a devastação da floresta por toda a Alentejo... o pousio vindo pelo menos dos romanos, com as fumaradas
terra» (CAMPOS, 1946). Com Musa e Tarik veio para a Península uma dos alqueives» (CAMPOS, 1946); o que afinal AQUILINO RIBEIRO
nova civilização que iria igualmente florescer aqui, mercê das sintetizou em caricatura, escrevendo: «mutatis mutantis o português
circunstancias naturais favoráveis, como da aptidão do povo que a cultiva a terra como no tempo do rei Vamba».
possuía. A vocação comercial dos árabes aliada à aptidão rural dos
berberes, muito contribuíram para o desenvolvimento das cidades em
1. 2. A CULTURA DO TRIGO
que Évora se destacava novamente e Silves ombreava com as mais
importantes da Península. Desenvolvendo a agricultura, a indústria e o
comércio, o domínio árabe deve ter modificado substancialmente a Assegurar o pão de cada dia foi sempre a preocupação dominante
organização territorial do Sul. Pago ao invasor o tributo territorial e de dos povos, desde os tempos primitivos, quando trocaram a vida
capitação, o mosárabe parece ter mantido completa liberdade de nómada da caça e pastorícia pela agricultura, pois que, como diz o
acção. «The new regime was liberal and tolerant, and even the Spanish povo, «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém com razão». E
chroniclers describe it as preferable to the Frankish rule in the north». o pão, na bacia mediterrânica, sempre foi obtido à custa do trigo, que
Mais do que tolerante contudo, «the greatest benefit that it brought to the ainda hoje é base da alimentação e o fulcro da agricultura do Sul. Nos
country was the elimination of the old ruling class of nobility and clergy séculos XII e XIII já a cevada, o centeio, o milho miúdo e a aveia
and the distribution of their lands, creating a new class of smallholders alternavam com o trigo (HERCULANO, 1914). Diz-nos REBELO DA
who were largely responsible for the agricultural prosperity of Muslim SILVA (1930) que «a agricultura naquele tempo tinha uma feição
Spain». (LEWIS, 1958). Pelo contrário a reconquista, deve ter localiza- semelhante à actual; eram cultivadas as mesmas plantas, exceptuando
do, cingindo aos aglomerados protegidos as terras cultivadas, com o milho actual». Estavam assim lançados à terra vasta do Sul, os
agricultura anual, transitória, entre as «algaras» e os «fossados» que cereais praganosos, e radicadas para sempre as características dos
todos os anos, descendo do norte, procuravam desalojar os muçulma- nossos dias. O tempo e as vicissitudes de cada nova época, imprimiriam
nos. «A agricultura cingia apenas as povoações acasteladas, o mais era somente maior relevo às modalidades da feição original. Na crónica de
deserto» escreveu Herculano. Com o domínio cristão ia começar uma D. Fernando, FERNÃO LOPES deu-nos conta das medidas que aquele
nova fase de desenvolvimento do Sul. «Depois da conquista de Alcácer monarca tomou para que «as herdades que eram para dar pão todas
os cristãos vitoriosos penetravam como uma torrente no sertão do fossem semeadas de trigo e cevada e milho», no intuito de debelar o que
moderno Alentejo» diz ainda o nosso primeiro historiador, dando-nos BASÍLIO TELLES (1899) designou «a primeira crise cerealífera do
uma ideia do povoamento ou antes, do despovoamento do nosso Sul, país». Assim se procurava evitar, entre outros, o abandono do trigo pela
em meados do século Xll. Conquistados aos serracenos a golpes de vinha sem legislar contra ela, por razões de estado, o que Pombal faria
audácia, perdidos e reconquistados tantas vezes, os matagais e char- quatro séculos depois, mais energicamente e o que ainda se verifica
necas do Sul foram-se pouco a pouco transformando em terras de nos nossos dias, não a favor do trigo, mas das culturas arvenses em
cultura. O fogo destruía o mato, a floresta tombava pela chama, como geral. No século XVII, os «campos de Évora, Beja, Serpa, Moura e
o agareno tantas vezes caíra pela espada dos piedosos cruzados e dos Ourique, quando lhes corriam propícias as estações, não só acudiam
godos, em cujas veias corria sangue guerreiro de germanos e suevos. com avultadas quantidades aos depósitos de Lisboa, como repartiam
Dos centros populacionais que os árabes haviam desenvolvido, tantas as sobras pelos lugares de Castela mais vizinhos» escreveu REBELO
vezes prósperos, irradiava a ocupação. As ordens religiosas, pondo de DA SILVA (1868). No século XIX, o trigo chegou para exportar (TELLES,
lado a espada inútil, ocupavam as terras, partindo de Leiria para leste 1899), como sucederia mais tarde, em 1934. Mas estes períodos de
e depois para sul. Aos Templários, que dominavam a Beira-Baixa, abundância, de duração limitada, sem dúvida resultados anuais de
Afonso Henriques doou terras no Alto Alentejo onde Ucrate (Crato) condições climáticas de excepcional feição, alternaram sempre com
começou a ser edificada em 1232. Mais para sul, a do Hospital fundou largos períodos de escassez. Sucederam-se, através dos séculos, as
Avis. A de Calatrava, doou o nosso primeiro rei «todo o herdamento e crises de que OLIVEIRA SOUSA (1886), HERCULANO (1914) e
vinhas e almoínhas e figueiras que para mim tomei nas cercanias de REBELO DA SILVA (1930) nos deram notícia, motivadas bastas vezes
Évora» (HERCULANO, 1914). Nasceram assim as «herdades», doa- pelo clima adverso como a de 1202, e a seca que em 1521 «não permitiu
ções dos reis às ordens religiosas e aos vassalos que se haviam que as searas formassem espigas». A cultura do trigo deve pois sempre
distinguido na guerra santa. Estabelecia-se no Sul o «regime dos ter sido, entre nós, uma cultura aleatória, insuficiente para as necessi-

19
dades do país as mais das vezes, raramente produzindo mais que o vam a ponto de as terras mais magras se negarem a produzir. Surgiu
necessário. Daí a necessidade quase constante do proteccionismo de então a necessidade de as deixar em descanso por alguns anos»
que tem sido alvo pelos tempos fora, desde D. Fernando até aos nossos (GALVÃO, 1943). A insistência dos agricultores na cultura cerealífera,
dias, destacando-se no século passado a célebre «lei dos cereais» de «a cultura pouco rendosa do trigo» como a designava VERÍSSIMO DE
ELVINO DE BRITO, promulgada em 1899. Extensificou-se a cultura do ALMEIDA (1880), a extensificação a terras menos aptas à cultura
trigo e «a charneca cinzenta entrou de cobrir-se de largas manchas esgotante foram responsabilizadas, no final do século passado, pela
verdes e de claros restolhos desmaiados ao sol» (REBELO, 1917). baixa produção unitária dos nossos trigos. LACHER MARÇAL (1879)
MIRA GALVÃO (1943) diz do Campo Branco no Baixo Alentejo: «Toda no Alto Alentejo, escrevia da progressiva escassez das colheitas e
esta vasta região, a maior produtora de trigo do país, encontrava-se há diminuição da fertilidade. VERÍSSIMO DE ALMEIDA (1880) em Lisboa,
cerca de 50 anos quase na sua totalidade coberta de matos que vastos atacava a generalização da cultura do trigo a solos impróprios para
incêndios periodicamente destruíam. Só junto dos montes e das povo- aquela planta, preconizava a fava como «ensejo» do trigo, indicando
ações se fazia agricultura pobre e definhada por falta de fertilizantes. Só uma rotação que Plínio recomendara e os árabes largamente haviam
se cultivava de trigo uma pequena área, a indispensável para satisfazer usado no Sul. O agricultor do Sul retrogradava ao tempo dos gregos,
as necessidades e exigências que eram poucas, das escassas popu- usando a pousio, o alqueive, que os romanos progressivamente haviam
lações rurais». Mais recentemente a «Campanha do trigo», aumentan- substituido pela alternancia de culturas, com predomínio das legumino-
do de novo a área dedicada ao trigo, arreigou ainda mais no agricultor sas entre os anos de trigo. De nada serviram porém os conselhos da
do Sul a tendência para a cultura cerealífera, «a mais antiga, mais técnica perante a impulso no sentido da cultura do trigo, favorecido por
generalizada e a mais radicada da nossa tradição», como a designou condições económicas. A extensificação da cultura não foi acompanha-
FILIPE DE FIGUEIREDO (1929). «Mercê dos prémios de cultura, dos da de aperfeiçoamento cultural com vista à estabilização da produtivi-
estímulos e auxílios de várias ordens então criados, conseguiu-se que dade do solo, já que novas técnicas o poderiam conseguir, supunha-se,
os restos da charneca que tinham ficado por cultivar, por antieconómicas um pouco ingenuamente, como ainda hoje sucede. Entretanto, «a
a sua arroteia e cultivo, fossem finalmente desbravados e com os escassez das colheitas aumenta; a fertilidade das terras diminui. . .
estímulos criados para a cultura do trigo mais foi alargada a área de enquanto a renda quase duplicou» (MARÇAL, 1879) É a pressão
cultura à custa da redução dos pousios» (GALVÃO, 1943). Mais uma demográfica, a fome de terra, a política do pão que leva à extensificação,
vez, como depois da «lei dos cereais», aumentou a produção, verifican- à «lei dos cereais». Aumentou-se a área cultivada, elevou-se a produ-
do-se temporariamente autosuficiência de trigo, mais à custa de área tividade do solo à custa de mobilizações mais fundas, que elevavam a
cultivada, de condições climatéricas anuais favoráveis, que da capaci- colheita até 25% (LAPA, 1879), de alqueives mais cuidados, de mais
dade produtiva do actual sistema da cultura, como se mostrará. fertilizantes e melhores sementes, mormente nas melhores terras. E
Tem sido opinião corrente desde longa data, que a fertilidade do solo tudo isso deve ter contribuído para o equilíbrio da produtividade da terra,
português tem baixado, tanto quanto diz respeito ao Sul. A agricultura compensando o declínio da fertilidade das novas terras abrangidas pela
praticada no Sul foi sempre do tipo primitivo, quase sempre itinerante, extensificação cultural. Responsabiliza-se o clima pela irregularidade e
evoluindo para a alternância a curto prazo, onde as fertilizações são baixo nível da produtividade dos nossos solos naturalmente pouco
escassas e desequilibradas e a recuperação mínima. farteis, o que é verdade em grande parte. Mas se é certo que o «clima
era então, como hoje, pouco favorável à cultura cerealífera» como
Após as queimadas, destruidoras dos matagais, foi trigo, com outros escreveu REBELO DA SILVA (1868) não está provado que o clima
cereais praganosos, a cultura dominante das planícies sem fim. «O solo tenha evoluído desfavoravelmente para a cultura. E já em tempos idos,
porém, empobrecido com a repetição dos cereais, depressa principiou como o mesmo autor refere, «a abundância de ano para ano se ia
a perder a fertilidade», escreveu REBELO DA SILVA (1868). A produ- tornando mais rara, e a aparição do espectro da fome cada vez se
ção unitária do trigo, que era de 8 hl/ha nos séculos XIII e XIV, não foi repetia mais frequentemente». É que o agricultor de então mobilizava
grandemente elevada nem com a extensificação da cultura a novas o solo apenas superficialmente, com o fertilizava pouco ou mesmo nada
terras. No final do século XIX devia oscilar entre 10 hl (ALMEIDA, 1880) e não usava sementes seleccionadas de cultivares mais produtivas.
e 9 hl (SOUSA 1886) ou talvez mesmo manter-se nos 8 hl (MACHADO Para REBELO DA SILVA a «agricultura primitiva» era uma das causas
1893; ANDRADE 1898). Se atendermos a que já então a fertilização da baixa produtividade entre nós. Era sem dúvida a cultura cerealífera
mineral começava a ser aplicada, que a preparação da terra era mais estreme, a deficiente estrutura agrária do Sul. Já em 1624 SEVERIM DE
cuidada. pela generalização da charrua e que novas terras eram FARIA responsabilizara o despovoamento do reino pela existência das
submetidas à cultura, parece não se terem verificado aumentos sensí- grandes «herdades» (SILVA, 1868) e a lei das esterilidades» da
veis da produtividade da terra. Vinte anos depois, a produção não era ordenação manuelina, fora feita contra a incúria dos agricultores. Muito
muito mais elevada e assim se manteve até agora: embora evoluindo, ainda que lentamente, a cultura do trigo continuou
rudimentar duma maneira geral. Dela escreveu PEQUITO REBELO
1920/24 7.0 Quintais/ha (1917) que a conhece por experiência: «são sobretudo imperfeitos
1925/29 6.5 Quintais/ha ainda os trabalhos preparatórios, sendo as lavouras superficiais e mal
1930/34 10.0 Quintais/ha cortadas; as sementeiras, são feitas grosseiramente a lanço e sem
critério; as adubações, consistem em deitar à terra doses maciças de
1935/39 9.0 Quintais/ha superfostato, sem se atender à qualidade e às necessidades do solo».
1940/44 6.5 Quintais/ha E se de então para cá muito se tem progredido quanto à técnica cultural,
1945/49 5.5 Quintais/ha ainda hoje muitos dos defeitos apontados são práticas normais da
cultura do trigo. Elevam-se as fertilizações mas «o super já não dá
A média destes últimos trinta anos é de 7.4 quintais por hectare, o que aquelas fundas extraordinárias dos primeiros tempos. O solo entra no
equivale a cerca de 9.2 hl/ha e se não afasta grandemente dos números caminho do empobrecimento» (BARRADAS, 1933). Confirma-se as-
citados pelos autores do final do século passado. Tomada assim a sim experimentalmente, o que TAVARES DA SILVA (1906) afirmava «o
produtividade no seu conjunto, ela é porém resultante de duas causas emprego exclusivo do superfosfato conduz-nos fatalmente à esteriliza-
antagónicas, para as quais não dispomos de elementos de informação ção do terreno». O solo é pobre, toda a gente o reconhece. Contudo,
que permitam distingui-las. Por um lado, o aperfeiçoamento técnico da este solo que hoje julgamos pouco fértil por determinismo da providên-
cultura do trigo elevou sem dúvida a produtividade das melhores terras, cia, foi o mesmo solo de que Herculano escreveu - «o território à volta
tornou possível a sementeira em terras até então de pousio. Por outro de Évora, passava por ser um dos singulares em fertilidade» e criou a
lado a extensificação, levada a terras menos aptas à cultura, fez baixar paisagem exuberante que devia circundar Alcácer no tempo dos
a produtividade média do país diluindo os efeitos da primeira causa. As mouros, como descreveu o mesmo autor. Não terá baixado a fertilidade
novas terras trazidas à cultura, embora possuidoras de fertilidade porque a temos delapidado com a monocultura imponderada de cereais
natural acumulada pelo repouso da charneca, sem serem potencial- praganosos, em rotações esgotantes ano após ano, culminando na
mente ricas, volvidos escassos anos de cultura empobreciam de tal aveia «liquidadora»? E quando a fertilidade baixou e a produtividade
modo que a sua produtividade declinava vertiginosamente. «À medida comprometeu a economia duma agricultura parasitária, «a rotação
que a cultura ia consumindo a matéria orgânica, as produções baixa- bienal nasceu então, ou mais exacto, ressurgiu das tradições dos

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agrónomos antigos» (SILVA, 1868). Fizemos o mesmo que os outros que a condicionam. Das rotações alqueive—trigo—trigo—cevada ou
povos Mediterrânicos em idênticas condições ecológicas, usámos as aveia—pousio por alguns anos (PEREIRA, 1900), (*) ou alqueive—
mesmas culturas, abusámos das mesmas rotações, por isso atingimos trigo—cevada—aveia—pousio ou ainda alqueive—trigo—aveia—pousio
o nível que PANTANELLI (1948) reconheceu em Itália — <Nei nostri (ANONIMO, 1942), tem a sucessão de culturas sido cada vez mais
latifondi invece, miserabili sono i residui di fertilitá». frequente, por encurtamento de pousio, até se reduzir a alqueive—
trigo—cevada ou aveia ou simplesmente alqueive—trigo. Como HER-
1. 3. 1. A MANUTENÇÃO DA FERTILIDADE CULANO escreveu em 1874, «Num país mediocremente cerealífero,
ao menos com relação às praganas, esgotamos os terrenos férteis com
Destruída a floresta pelo fogo, arroteada a charneca, foi o cereal, foi tristes rotações bienais e trienais, em que raramente figuram as ervas
o trigo o primeiro ocupante das «charnecas do Alentejo, espécie de de fouce». E «a rotação (#) é imprópria para obter uma remuneradora
bacia cujo solo arenoso se embebe de calor» como descreveu produção de trigo» (#) alqueive—trigo—cevada, aveia, trigo ou cen-
POINSARD (1912). teio—pousio (1 a 10 anos) (BARROS, 1934).
Não podia, contudo, à míngua de fertilização adequada e rotações Não há dúvida que se tem feito progressos no aperfeiçoamento da
equilibradas, suportar aquele solo, naturalmente pouco fértil, tão cultura em si, no que diz respeito à introdução de cultivares mais
esgotante cultura por largo tempo. E o pousio era então como hoje, a produtivas e adaptadas a condições desfavoráveis de solo e clima,
única solução de continuidade naquela exploração do solo em que tudo sobretudo ultimamente. Aduba-se mais, sem que isso signifique as
era exigido sem quase nada dar em troca. mais das vezes melhor. Fazem-se mobilizações do solo não só mais
fundas como mais frequentes e perfeitas. «Dantes, davam-se pr’aí uns
Assim havia sido na evolução da agricultura primitiva, ao passarem riscos de arado nas terras, semente parriba d’elas e zás! Agora?!...
os povos do tipo pastoril ao pastoril-agrário, onde o gado tosava uma alqueives em branco de charrueca, atalhos, aterceiros, quando Deus
vegetação espontânea só abundante nas primaveras húmidas. O quer grades; desmoitas por baixo; adubo número doze, amónios;
pousio, dando alguma pastagem magra para um gado em manadio, ao salitre. . . mal empregado dinheiro» (SILVA, 1939). Alargou-se a área
sabor do tempo, era a única recuperação permitida ao solo. Era também cultivada a terras folgadas, mas o rendimento unitário manteve-se
uma adaptação da agricultura tradicional à grande extensão, para que constante, ou aumentou apenas muito ligeiramente. Em alguns casos
não havia nem braços, nem capital de exploração; era a forma primitiva mesmo, como no Alto Alentejo, «ao passo que a área semeada
de exploração agrícola, a solução do homem que não domina a aumentou de 25,5% de 1931 para 1932, a produção aumentou apenas
natureza e se converte em parasita do solo. 15%, o que prova ter o aumento sido conseguido mais à custa do
Afeito a uma rotação primitiva, a uma exploração que não tem em acréscimo da área do que da intensificação cultural» (BARROS, 1934),
conta nem as necessidades das plantas, nem as exigências da manu- como BORGES reconhecera já em 1920 «As terras novas, que nunca
tenção da fertilidade do solo, o agricultor do Sul adoptou a rotação tinham visto semente, davam searas brutas... Era semear e colher.
tradicional e a ela se manteve arreigado, impelido pela necessidade de Depois é que amargou! Terras fracas, delgadinhas, deram logo em
viver e conduzido pelo proteccionismo do trigo. Deste modo, o Sul, cansar-se, em minguar na semente e só a poder de guano se tira hoje
aparentemente mais evoluído, retrogradava sob o ponto de vista alguma coisa delas (RIBEIRO, 1927). Ora se a técnica cultural se
técnico da exploração do solo. O berbere, localizado junto das cidades, aperfeiçoou e a produtividade não cresceu paralelamente, é que o clima
explorando as suas «almuínhas» aperfeiçoara o sistema de cultura das a não permite ou o solo a não comporta. Que os climatologistas
terras. «Conheciam e praticavam os mouros o benefício das lavras determinem até que ponto o clima é factor inibitório da cultura e os
profundas e repetidas, usando com vantagem das culturas alternadas agrónomos achem as modificações culturais susceptíveis de afectar a
para descansar e restaurar as terras da extenuação causada pelas produção. Já não é hoje viável cultivar de certa maneira «porque
gramíneas cerealíferas, especialmente do trigo” escreveu REBELO DA sempre assim se fez»; não o recomenda a técnica, nem o consente uma
SILVA (1868). Mas o que se pode fazer numa agricultura localizada, situação económica desejável. Mas se se aceita que alguma coisa não
diversificada, com mercados assegurados, não pode generalizar-se em está bem e há que modificar, torna-se indispensável conhecer em
grande escala ao latifúndio. É ainda o autor citado que o explica: «a pormenor e demonstrar no campo, como certas práticas culturais
necessidade de gados proporcionados à extensão do domínio, a afectam a produtividade e fertilidade da terra, admitindo todavia como
aplicação de correctivos e adubos recomendados pelos árabes, de cujo ANDRADE CORVO em 1867 (SOUSA, 1886) que «a rotina tem certas
uso se encontram vestígios, exigiam grandes despesas». E uma das e determinadas regras fundadas na experiência». Foi numa tentativa de
razões do fracasso das leis fernandinas parece ter sido justamente a conhecimento das práticas usuais, para saber porque assim se fazia,
falta de capitais (TELLES, 1899), cuja carestia se reconhece entre nós, que surgiram os ensaios adiante discutidos. É certo que ignorando, ou
hoje como no século passado (MARÇAL, 1879). antes menosprezando, talvez as dificuldades, se aproou ao rumo mais
A pressão cerealífera sobre uma estrutura agrária defeituosa, facto- difícil, conforme o demonstrou o trabalho subsequente e a bibliografia
res vários, têm arrastado a agricultura no sentido da exploração desde então acumulada. Esta última provou também, em extensão e
imoderada da terra — «só um lavrador agora semeia tanto como dantes profundidade, que eram idênticos os anseios alheios como é pertinente
semeava o termo d’ Elvas (SILVA, 1939). a necessidade de melhor conhecer os já tão velhos e sempre novos
fenómenos ligados à tradicional rotina da cultura da terra. Toda a cultura
A avaliar pelo que se sabe da técnica árabe, a reconquista não
do trigo entre nós é baseada quase exclusivamente no alqueive,
trouxe, no campo agrícola, aperfeiçoamentos notáveis. Pode mesmo
revestido ou não, à boa maneira mediterrânica, e o grão de bico é a
dizer-se que, no aproveitamento da água, como no dos estrumes, a
leguminosa predilecta no Sul, para o alqueive das «terras fortes». A
técnica actual no Sul é inferior à dos dominadores da Península por sete
estrumação verde que eleva a produção, é julgada prática melhoradora
séculos. E se a questão da água começa a ser resolvida em larga
da fertilidade do solo, «que pode chamar-se bem uma correcção
escala, embora localizada em relação à vastidão do Alentejo, é o preço
humífera» (REBELO, 1917). A palha como o restolho, queimam-se para
da mesma de fundamental importância nas condições de exploração da
«melhoria do estado físico, químico e biológico da terra e combate à
actual conjuntura agrária.
maior parte das doenças do trigo, embora percamos húmus e azoto»
Fundamentalmente porém, toda a agricultura extensiva do Sul, o (REBELO, 1917), tal como Vergílio preconizou e elevar mesmo a
sequeiro, assenta na monocultura de gramíneas cerealíferas, dominan- produção, como a própria agronomia contemporânea reconhece
temente no trigo, único cereal com colocação assegurada a preço (GALVÃO, 1937). Sem compreender como actua o alqueive para uma
conhecido, protegido desde a sementeira até à colheita, com excepção fertilidade efectiva do solo, nem tão pouco a estrumação verde, já então,
do clima frequentemente adverso e às vezes traiçoeiro. há doze anos, isso era contestado na bibliografia, entre o dilema de
Sem discutir o sentido da evolução da cultura do trigo entre nós aceitar passiva e comodamente práticas generalizadas por decalque,
problema económico para além das nossas possibilidades e que hábito ou dedução pouco lógica e rever no campo e no laboratório
transcende o simples aspecto da fertilidade que nos propusemos algumas delas, optou-se pela segunda alternativa.
estudar, podem contudo analisar-se com maior detalhe os elementos Mesmo em condições; deficientes para a experimentação desta
básicos da cultura em si, no que diz respeito aos elementos edáficos natureza, fizeram-se tentativas de estudo de práticas correntes e

21
outras; o desejar-se o óptimo é talvez a razão de se não possuírem apresentam características semelhantes de distribuição das formas
ainda hoje os conhecimentos básicos indispensáveis para uma agricul- úteis sobre a superfície aproveitada, no tempo e no espaço, e nas quais
tura melhor. Por isso, logo que foi possível obter uns palmos de terra, a orientação que lhes é imprimida segue uma mesma linha geral de
e não podia ambicionar-se solo representativo tão pouco, logo que nos comportamento.
deram um modesto «quinchoso», instalou-se um reduzido ensaio, ou
O método de análise de sistemas deve obedecer ao seguinte
um simples campo de demonstração, onde pudessem verificar-se uns
esquema:
quantos efeitos com o auxílio do laboratório. Nada de novo se trouxe
para a experimentação além de ideias simples, adaptações, tentativas —admitir subsistemas alternativos;
de melhor conhecer, e bem pouco, o comportamento de certas práticas —formular conjuntamente os vários factores ou componen-
nas nossas condições ecológicas. O que se fez com modéstia, é o que tes;
adiante se expõe e se procura comentar. —definir correctamente os padrões a atingir, bem como as
características normais das componentes;
1. 6. BIBLIOGRAFIA CITADA
—considerar o conjunto dos factores e definir as ligações
ALMEIDA, J. V. 1880. Jornal Official de Agricultura IV. Imp. Nac. Lisboa.
estratégicas e as operações indispensáveis (isto é, os aconte-
ANDRADE, A. DE 1898. A Terra. Manuel Gomes. Lisboa.
cimentos decisionais).
ANÓNIMO 1942. A Aveia. Bases elementares da sua cultura. Rep. Est. Inf. Prop. Ser. B. n.º 14.
BARRADAS, L. A. 1933. Regiões Latifundiárias. Edit. Império, Lda. Lisboa.
Os sistemas de exploração da terra traduzem em geral situações de
BORGES, A. 1920. Notas sobre a cultura cerealífera em Portugal. Rel. Final I.S.A.
equilíbrio entre o homem e o meio, realizadas através das explorações
BARROS, H. 1934. A cultura do trigo na Região do Alto Alentejo. Est. Agr. Central. Bol. 13. Série A. agrícolas, embora por vezes com alterações profundas da biogeocenose.
CHAVES, L. 1922. Latifúndio de Romanos no Alentejo. Uma «villa» romana. Bol. Ass. Cent. de Agric.
São pois dependentes do modelo físico que preside às relações bio-
Portuguesa 4. energéticas locais e podem discutir-se com base nesses modelos.
CAMPOS, E. DE 1946 Problemas fundamentais portugueses. Edição da Revista Ocidente. Lisboa.
Num sistema de exploração da terra podem distinguir-se os sistemas
FIGUEIREDO, F. E. A. 1929 Questões Agrícolas e Agronómicas. Castro Irmão. Lisboa.
de produção e os sistemas de cultura.
GALVÃO, J. M. 1937 Fertilização das terras de barro por efeito das queimas com palhas sobrantes,
matos em moreiras, etc.. Folha de Div. da Brig. Téc. XIV Reg. Agric. Os sistema de produção definem a importância de cada um dos
GALVÃO, J. M. 1943. A matéria orgânica nas regiões cálido-áridas e a defesa da fertilidade da terra. sectores de actividade agrícola na exploração: pecuária, arvense,
Folha de Div. da Brig. Téc. XIV Reg. Agric. hortícola, florestal, etc.
HERCULANO, A. 1914. História de Portugal. Liv. Aillaud e Bertrand. Lisboa.
Os sistemas de cultura reflectem «a maneira pela qual os agricultores
LAPA,J.L.F. 1879. Jornal Official de Agricultura III Imp. Nac. Lisboa
podem manter ou aumentar a fertilidade dos seus campos, seja fazendo
LEWlS, B. 1958. The Arabs in History. Arrow Books. London.
suceder as culturas, seja cedendo adubos, seja pelo contrário orientan-
MACHADO, B. 1893. A Agricultura. (O Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria em l893 —
23 Fev. a 20 Dez. Coimbra. Tip. França Amado. do a produção para produtos de fracas exportações» (HÉNIN e
MARÇAL, R. L. 1879. Alguns estudos acerca da agricultura do Distrito de Portalegre - Tipografia SÉBILLOTE, 1962). Alguns exemplos de sistemas de cultura: agricul-
Portalegrense. Portalegre. tura extensiva de culturas arvenses de sequeiro com pousio, cultura do
PANTANELLI, E. 1948. Problemi biologici nell’incremento delle colture meridionali. It. Aqric. 80:367- regadio da cana-de-açúcar com intensa aplicação de adubos químicos.
385.
PEREIRA, S. DE M. 1900. Les céréales. Portugal Agricole: 569-607. A noção de sistema de produção considerada pelos economistas,
POINSARD, L. 1912. Portugal ignorado. Magalhães e Moniz, Lda.. Porto. mais lata, englobando as concepcões anteriormente formuladas; repre-
REBELO, J. P. 1917. Novos métodos de cultura. Lisboa. senta a combinação das produções e dos factores no seio da unidade
RIBEIRO, M. 1927. A planície heróica. Guimarães Ed. Lisboa. produtiva ou centro de decisões que e a empresa. Deste modo o
SILVA, J. A. C. 1939. Ganharias. Imp. Baroeth. Lisboa. sistema de produção é a combinaçao das produções a que o agricultor
SILVA, L. A. R. 1868. Memória sobre a população e a agricultura de Portugal desde a fundação da se dedica ou pretende dedicar e dos recursos humano e materiais cuja
monarquia até 1865. I(1097-1640) Imp. Nac. Lisboa. aplicação considera necessária entre aqueles de que pode dispor, para
SILVA, L. A. R. 1930. Cataclismos, secas e fomes na Península Ibérica, em tempos remotos. Rev. extrair de tais produções o resultado económico desejado. As compo-
Agron. 18: 5-26.
nentes fundamentais do sistema de produção são os factores e as
SILVA L. M. T. DA 1906. A cultura económica do trigo. Emp. Tip. Eborense. Évora.
produções.
SOUSA, J. S. O. 1886. Algumas considerações sobre a Crise Agrícola em Portugal. Lisboa.
TELLES, B. 1899. O Problema Agrícola. Liv. Chardron. Porto. Abandona-se destarte uma óptica exclusivamente técnica para
considerar as implicações económicas do sistema. Ao nível da explo-
ração to agrícola os sistemas de exploração da terra conduzem a um
sistema de produção.
Azevedo, A. L, C. A. M. Portas e F. C. C.
...
Cary. 1972. O planeamento das
Numa concepção mais ampla podemos ainda considerar as defini-
operações em sistemas de ções de sistema de agricultura e de sistema agrário, mas a sua
exploração da terra. Informação formulação implica um enquadramento sócio-económico das compo-
Científica, 6. Nova Lisboa.1-17. nentes dos sistemas.
Os sistemas de agricultura dizem respeito à organização e finalidade
económica da exploração. De acordo com BICANIC (1967), podemos
1 - Alguns conceitos considerar os seguintes sistemas: agricultura de subsistência; agricul-
tura comercial; agricultura empresarial; agricultura contratual e plane-
Sistema é uma hierarquia de componentes e factores, humanos ou ada.
materiais, visando determinado objectivo; para que um sistema funci- O sistema agrário é apresentado por CASTRO CALDAS (1964)
one, necessário se torna que as componentes estejam interligadas e como o conjunto de situações de carácter económico e social, enqua-
dependentes, formando um todo coerente. Ou como diz LOPES (1970) dradas por uma certa harmonia de normas jurídicas ou costumes
“um sistema é um conjunto de partes interdependentes, e essa inveterados ou ate caracterizados por uma mentalidade determinada
interdependência determina um intercâmbio que se processa ordena- do empresário agrícola ou do trabalhador.
damente entre as suas diversas componentes”.
A formulação de dois exemplos ajuda a esclarecer alguns dos
Dentro de idêntica perspectiva podemos considerar, numa primeira conceitos que se acabam de indicar.
abordagem, a definição do conceito de sistema de exploração da terra
interpretado como o conjunto de culturas e práticas ou operações A agricultura itinerante do Huambo será:
culturais, característico das explorações agrícolas, que assume uma —um sistema de produção pouco intensivo em capital,
forma mais ou menos homogénea no espaço e no tempo. recorrendo em exclusivo a mão-de-obra familiar;
O sistema representa assim uma certa forma do aproveitamento —um sistema de cultura com pousio e incorporação de
agrícola e agrupa explorações - todas diferentes uma das outras - que resíduos de vegetação espontânea;
22
—um sistema de agricultura de subsistência e comercial nação da potência necessária para cada operação, assim como a
mas fundamentalmente orientado para o autoconsumo; opção entre tracção animal ou mecânica. Operações culturais a reali-
—um sistema agrário de propriedade privada familiar com zar? Em que consistem as operações? Qual o objectivo? São necessá-
predomínio da mulher na gestão da empresa. rias? Porquê? Poderiam ser substituídas por outras operações?
O sistema de agricultura de regadio no Campo do Ribatejo será: Como se efectuam as operações? Porquê com este material?
Poderão ser efectuadas com outro material? Quais as principais
—um sistema de produção muito intensivo em capital recor- características do material necessário para realizar a operação?
rendo em larga escala ao trabalho assalariado;
Quantidade de factores a utilizar? Quais as fórmulas empregues
—um sistema de cultura muito intensivo, mecanizado e nas adubações? Que quantidade de semente empregar? Que tipo de
incorporando grandes quantidades de nutrientes sob a forma arraçoamento?
de adubos químicos;
Unidades produtoras a utilizar? Este aspecto é fundamental, pois
—um sistema de cultura comercial ou contratual e planea- da escolha dos biótipos (plantas ou animais) depende em boa parte a
do; produtividade da exploração.
—um sistema agrário de propriedade privada e empresa Quando vender? Em que fase ou época; a que preços?
patronal.
A organização da exploração é económica quanto à decisão final,
mas esta será inadequada se não se fundamentar numa formulação
2 — Aspectos técnicos e económicos numa exploração agrícola
técnica o mais possível exacta dos problemas existentes.
Em qualquer empresa agrícola o empresário é solicitado a resolver A organização da exploração recorre simultaneamente à informação
problemas de ordem técnica e problemas de ordem económica. técnica e à informação económica: assim, ao definir a técnica operatória
para levar a cabo determinada produção, é evidente que apenas à
Os problemas de ordem técnica enquadram os aspectos relativos ao técnica recorremos; se pretendemos escolher o tipo de aiveca que
funcionamento da exploração que podem ser analisados sem interferir permite efectuar de forma mais adequada uma lavoura, é ainda à
com a combinação dos meios de produção e portanto com o sistema de informação técnica que apelamos; se pretendermos determinar a
produção, no sentido económico. A sua solução pode ser equacionada fórmula do arraçoamento para levar a cabo determinada actividade
sem recurso ao cálculo económico. pecuária, será ainda na técnica que recolhemos a informação necessá-
Consideremos alguns exemplos: a escolha de uma fórmula de ria para fundamentar a decisão.
adubação no que respeita à essencialidade dos nutrientes que a Mas as diversas soluções alternativas, indicadas por uma análise
compõem; o tipo de armação do terreno em cultura regada; a escolha exclusivamente técnica são, como já se referiu, passíveis de uma
do tipo de aiveca mais indicado para realizar determinada lavoura. análise económica.
Diz-se que se distinguem mas não são independentes das soluções Em conclusão, a organização da empresa implica o recurso sistemá-
económicas, embora possa haver casos extremos em que é impossível tico e simultâneo às informações da técnica e da economia.
a escolha de diferentes soluções técnicas. A apresentação de alguns
exemplos permite esclarecer esta ideia; na região de Nova Lisboa Primeiramente intervém a técnica para definir as referências de cuja
(Huambo) em solos ferralíticos, onde não há produção física do toma- ordenação resulta a técnica cultural ou operatória; depois intervém a
teiro sem adubação azotada e fosfórica, essa fertilização impõe-se; a análise económica para definir, entre as diversas soluções tecnicamen-
escolha entre os distintos modos de colheita do tomate em estufa que, te possíveis, qual a mais interessante para o resultado final da explora-
nesta condição, só pode ser manual. ção em causa. Todavia, tem-se por essencial que a análise económica
só e útil para o empresário quando aplicada sobre um equacionamento
Excluindo estes casos extremos, todos os problemas técnicos são correcto dos problemas técnicos.
passíveis de uma análise económica; mas uma análise económica para
se revelar útil ao empresário pressupõe a correcta abordagem dos Deste modo podemos concluir que o planeamento actua como
problemas técnicos, de cuja caracterização resultam, em ultima aná- ligação entre a técnica e a economia; a decisão final é económica, mas
lise, as referências técnicas essenciais para a análise a fazer pelo esta será inadequada se não se fundamentar numa formulação técnica
economista. tão exacta quanto possível dos problemas existentes.
Os problemas de ordem económica estão relacionados com a Organizada a exploração o empresário tem que tomar uma sucessão
escolha o quantificação dos meios de produção com vista à consecução constante de resoluções, mês a mês, semana a semana, dia a dia; são
do objectivo económico do empresário, qualquer que este seja: efectivi- as decisões operacionais, de aspecto eminentemente dinâmico.
dade de custo, relação custo-preço, relação custo-lucro ou eficiência do A formulação correcta destas decisões implica uma acção planeada,
custo. A solução deste tipo de problemas conduz à revisão do sistema isto é, a ordenação dos objectivos, a previsão dos meios necessários
de produção e portanto da gestão da empresa. e a coordenação da respectiva utilização.
A segunda questão que nos propusemos analisar refere-se aos Consideremos alguns exemplos:
conceitos de organização e operação. —Prevendo-se a necessidade de adubar uma cultura em
Como refere BLACK (1947), na gestão duma empresa agrícola há Novembro, o adubo deverá estar na exploração antes desse
dois aspectos fundamentalmente distintos: a organização (etimologia: mes.
orgão que é parte) e as operações (etimologia: operar ou actuar, que é —Para decidir sobre as operações que permitem realizar
exercício ou funcionamento dum orgão). em boas condições uma colheita de forragem para conservar,
O estudo da organização da empresa deve corresponder a uma programada para época com condições meteorológicas incer-
análise sistemática das condições de produção e ser orientado de modo tas, é necessária a existência de um armazém, de um secador
a fornecer adequada resposta às seguintes questões fundamentais: ou de um silo, pois tais condições podem não permitir a
O que produzir? Que culturas, que animais, que combinações de fenação uma vez que a época de colheita pode ser chuvosa ou
culturas e animais? A resposta a esta questão será relativamente fácil húmida.
quando a exploração apenas pode produzir em condições económicas O planeamento das operações fornece elementos para a elaboração
um produto ou um número restrito de produtos, como acontece, por da técnica cultural. As decisões são tomadas pelo empresário no
exemplo, no caso duma açucareira ou nas empresas produzindo sob tempo, de maneira dinâmica e não estática, com possibilidade de
contrato. intervenção correctiva; mas só se as operações forem devidamente
O que produzir em cada folha da exploração? Esta questão planeadas haverá probabilidades de êxito quanto ao acerto dessas
pressupõe a escolha da rotação e o estabelecimento dos afolhamentos. decisões.
Natureza da energia (além da solar) a utilizar? Envolve a determi- Consideremos agora a noção de actividade. Não se pode elaborar o
planeamento das operações sem que previamente se estabeleça um
plano de exploração e este não pode ser feito sem que se realize o
23
estudo da empresa agrícola como unidade económica. O estudo da determinado objectivo cultural. Assim, a operação cultural «distribuição
empresa agrícola como unidade económica pode visar dois objectivos: mecânica do adubo» pode abranger as actividades seguintes: compra
de análise, quando incide sobre explorações existentes, permitindo do adubo, prazo de entrega, transporte do adubo ao local onde se inicia
então a sua crítica e evidenciando os seus «pontos fracos; de pla- o trabalho, transporte do distribuidor ao local de trabalho, verificar e
neamento, quando procura estruturar novas explorações ou promover regular o distribuidor, abastecimento do distribuidor, distribuição do
a remodelação mais ou menos profunda das explorações existentes adubo e viragens no topo da parcela.
(BARROS, 1964). É nesta última perspectiva que se orientam os A noção de actividade considerada é muito distinta do conceito de
chamados métodos de programação da empresa agrícola. A empresa actividade formulado pelos economistas: ao passo que em planeamen-
agrícola, por sua vez é um conjunto de «ramos de actividade que se to de operações a actividade representa a fracção unitária ou elementar
apresentam simultaneamente como complementares e concorrentes. do caminho a percorrer para a consecução do objectivo cultural fixado
Complementares, porque em geral qualquer deles, isoladamente, não a concepção apresentada pelos economistas e mais ampla e caracte-
consegue assegurar a óptima solução quanto ao resultado final e ao riza, técnica e economicamente, o conjunto produção-tecnologia adop-
melhor aproveitamento dos factores disponíveis, o que torna quase tada.
sempre necessário associar e combinar um certo número de ramos.
Concorrentes, porque todo são consumidores de factores de produção, A escolha do sistema de produção obriga a definir previamente o
devendo dar-se preferência aos que proporcionem melhor resultado plano de produção, que integra o seguinte conjunto de planos parce-
por unidade de factores aplicados» (BARROS, 1964). lares:
É este, em síntese, o objectivo dos métodos de programação que
• Plano de afolhamento
«pretendem determinar a estrutura duma exploração e propor a combi-
nação mais favorável (..) das diversas modalidades de utilização do • Plano de culturas
solo e da criação animal, ecológica e tecnicamente julgadas viáveis» • Plano de operações
(BARROS, 1964). • Plano de fertilizações
O critério a que se recorre «para definir as unidades ou peças • Plano pecuário
elementares que devem entrar nas combinações a estabelecer, não é
nem pode ser uniforme, e não se baseia exclusivamente na natureza da O conjunto destes planos constitui um modelo e é o confronto entre
produção» mas tem de ser «muito preciso» (BARROS, 1964). os vários modelos possíveis que permite escolher o mais interessante
do ponto de vista empresarial. Num sistema de produção racionalmente
A unidade, a tal peça elementar, deve sempre corresponder: estruturado, os planos parcelares considerados são, como é óbvio,
1.º- a uma produção ou a um conjunto de produções interdependentes; todavia o plano de operações situa-se numa posição
rigorosamente definidos no que respeita à época, à qualidade, de cúpula em relação aos restantes. Na verdade, a consecução dos
à quantidade e ao preço; diversos planos parcelares implica a definição de conjuntos de opera-
2.º—a uma relação, igualmente bem definida, entre aquela ções cuja realização constitui o âmbito do plano de operações. Como
produção ou este conjunto e os factores nela aplicados» (...) refere HILF (1963), na organização de qualquer empresa a economia
«Propomos que se lhe dê a designação de actividade» (BAR- selecciona os objectivos e a técnica prepara e reúne os meios para os
ROS, 1964). realizar; no topo, o trabalho através do plano de operações combina os
meios de forma a alcançar os fins. Delimitando assim o campo das
A actividade simples ou elementar, utilizada pelo responsável pelo
nossas preocupações às operações culturais a realizar no quadro de
planeamento, é aquela que se caracteriza pela existência da mais
um sistema de produção previamente definido, podemos concluir que
completa identidade no que diz respeito aos factores seguintes:
a elaboração de um modelo de operações se traduz na definição de um
a) natureza, produtividade e localização da parcela do solo; conjunto ordenado de acções, de cujo planeamento vamos tratar.
b) cultura praticada; No planeamento das operações na exploração agrícola pode mos
c) produtividade unitária; identificar as seguintes fases (CARY e DESRUISSEAUX, 1970):
d) preços dos produtos obtidos; —definir objectivos e operações;
e) valores unitários dos factores aplicados: valor venal ou —seleccionar meios;
renda da propriedade, taxas de juro dos capitais, preços dos —combinar e coordenar;
materiais, salários, custo do dia ou hora de tracção, etc.;
—controlar e rectificar.
f)técnica cultural seguida.
A — Definir objectivos e operações
3 — O planeamento das operações
Definir os objectivos e as operações a realizar, a partir da análise dos
No planeamento de operações adopta-se em geral o seguinte diversos planos parcelares que foram considerados, bem como dos
esquema de análise: condicionalismos edafoclimáticos, culturais, económicos e sociais.
Trabalho global, entendendo-se como tal o conjunto dos trabalhos Esta fase permita estruturar o programa ou estratégia de actuação.
ou tarefas efectuadas na exploração ao longo de determinado intervalo
de tempo. B — Seleccionar meios
Trabalho especial, isto é o conjunto de tarefas efectuadas expres-
samente para determinada produção. Definir e caracterizar os meios humanos e materiais indispensáveis
Parcela de trabalho, que constitui o conjunto de operações culturais à consecução desses objectivos, a partir do conhecimento das normas
que permitem materializar determinado objectivo cultural. de rendimento ou valores modulados necessários para definir com
exactidão as condições de execução das operações. Estes valores
Operação cultural, definida como um conjunto de actividades
devem ser adaptados às condições específicas da exploração nomeada-
visando determinado objectivo bem definido. O trabalho «sementeira
mente no que se refere à natureza e estado do solo, à dimensão e
do trigo», por exemplo, é decomponível nas operações culturais se-
localização das folhas e aos quantitativos de produtos a distribuir ou a
guintes: preparação do solo para receber a semente, transporte do
recolher. Torna-se entretanto possível encarar diversas soluções e
adubo, distribuição do adubo, transporte da semente, distribuição da
combinações alternativas susceptíveis de permitir a realização das
semente.
operações. Por exemplo realizar a preparação da terra para a cultura do
Actividade é deste modo a fracção ou elemento unitário em que se trigo com duas lavouras e uma gradagem ou reduzir o número de
pode decompor uma operação cultural efectuada em dado local com mobilizações e efectuar apenas uma gradagem.
meios e em condições bem definidas, necessária à concretização de

24
C — Combinar e coordenar 4 — Tipos do plano de operações

Combinar e coordenar no espaço e no tempo quer os meios quer a O desenvolvimento do projecto pode ser horizontal ou vertical
própria realização das operações, o que permite em última análise conforme se processa por culturas (ou grupos de culturas) ou por
estruturar o projecto ou modelo de combinação das operações. As sectores da empresa agrícola.
operações agrícolas são, por via de regra, efectuadas a céu aberto e Por melhor estruturado que seja um projecto, é praticamente impos-
estão portanto dependentes das irregularidades do clima. Por outro sível definir antecipadamente com precisão todas as decisões e opções
lado o ritmo de realização dos trabalhos deve enquadrar-se nas que se torna necessário tomar no decorrer da execução e prever a
exigências biológicas das plantas e dos animais. Destarte não se torna rendibilidade das diversas soluções possíveis e muitas vezes será na
possível ordenar regularmente os trabalhos agrícolas ao longo do ano, experiência passada que se buscará a orientação para as decisões do
sucedendo-se pelo contrário alternadamente períodos de grande e de futuro.
pequena ou nula actividade. A épocas com grande intensidade de
trabalhos dão origem aos períodos de ponta ou seja aqueles em que As dificuldades aumentam com a amplitude do período de tempo que
são excedidas as disponibilidades normais da mão-de-obra e do o modelo pretende abranger. O facto sugere a necessidade de consi-
equipamento da exploração e não é possível executar em boas condi- derar no planeamento das operações um horizonte de longo prazo e um
ções a totalidade dos trabalhos programados. horizonte de curto prazo.
A ocorrência destes períodos complica consideravelmente a elabo- O plano de longo prazo terá duração idêntica ao número de anos
ração do plano de operações (ou a sua ulterior realização) e conduz necessários para completar a rotação: as decisões a tomar relacionam-
quase sempre a acréscimo de encargos. se sobretudo com a escolha do material pesado (tractores, ceifeiras-
debulhadoras, equipamento para rega, etc.) e com a realização de
De facto ou dispomos de meios susceptíveis de fazer face às operações culturais cuja acção se faz sentir durante vários ciclos de
necessidades destes períodos, que só são plenamente empregados produção (drenagens, nivelamentos, correcções da fertilidade do solo,
em restritas épocas do ano, ou pelo contrário procuramos o pleno derrubas, etc.).
emprego dos meios de trabalho disponíveis, correndo-se então o risco
de não ser possível respeitar o calendário cultural e de efectuar alguns Verifica-se no entanto que no período de actividade em causa
trabalhos em condições desfavoráveis e susceptíveis de afectar o ocorrem ou podem ocorrer acontecimentos de difícil ou mesmo impos-
rendimento físico das produções. sível previsão, tornando-se deste modo necessário proceder à rectifica-
ção periódica do plano de longo prazo. Tais acontecimentos podem
Um dos objectivos do planeamento das operações consiste precisa- fazer-se sentir no meio económico (crises económicas, diminuição
mente em reduzir ou até eliminar as pontas alcançando uma mais brusca da população activa provocada pela aceleração do surto de
equilibrada repartição das operações no tempo e um melhor ajustamen- emigração ou outras causas) ou no meio cultural (novas tecnologias
to entre os meios de trabalho disponíveis e os considerados necessá- resultantes da acção de processos técnicos imediatamente aplicáveis).
rios, não deixando contudo de ter em vista as restrições técnico- Este facto evidencia a necessidade de recorrer a planos de médio
económicas da empresa. A regularidade na execução das tarefas prazo, ou seja planos anuais através dos quais se define a estratégia
torna-se, como regra, mais difícil de conseguir em sistemas de das operações.
monocultura; “a conveniente repartição das operações ao longo do ano
pode obter-se, quer diversificando as produções, de forma a alternar Finalmente haverá que referir a ocorrência de determinados aconte-
actividades com diferentes exigências estacionais de meios de traba- cimentos na fase de execução do projecto que obrigam a alterar a
lho” (CARY e DESRUISSEAUX, 1970), quer organizando em moldes orientação inicialmente prevista; esta deverá ser ajustada através de
diferentes ou alternativos as operações cujas épocas de realização programas de curto prazo (semanais ou mensais) definidores da táctica
coincidam com os períodos de ponta. A sensibilidade dos trabalhos operatória.
agrícolas à variação das condições meteorológicas não é uniforme, Um dos factores que tornam difícil o estabelecimento de um projecto
antes oscilando dentro de limites bastante amplos. O facto leva-nos a rígido de operações na exploração agrícola é a já referida dependência
classificar os trabalhos realizados na exploração em não-diferíveis e em que se encontra o empresário agrícola em relação às condições
diferíveis, consoante se encontram ou não subordinados a datas climáticas. Considerem-se as três seguintes operações: a lavoura, a
precisas, não podendo a sua execução ser avançada ou retardada sem sementeira na agricultura de sequeiro e a colheita.
afectar o resultado da produção (CARY e DESRUISSEAUX, 1970). São Todas elas são profundamente influenciadas pelos estados do
os trabalhos não-diferíveis que suscitam problemas complexos na tempo que afectam o estado físico do solo e o estado hídrico da planta
programação das operações: assim, em consequência das já referidas e dos quais dependem em larga medida as condições de operabilidade.
dependências em relação ao clima e ao ciclo biológico das produções, Por outro lado, o atraso de poucos dias no inicio de uma operação
torna-se necessário conhecer os períodos de execução do trabalho pode afectar de algumas semanas a sua conclusão.
e os dias disponíveis. O cálculo destes parâmetros é feito para regiões
homogéneas no que diz respeito ao clima e ao tipo de solo, As condições climáticas condicionam também a duração do ciclo
correspondendo a cada operação não-diferível um número determina- biológico das culturas, cuja amplitude pode ser muito alterada. Nas
do de dias disponíveis resultante da interacção de dois fenómenos: a regiões do continente a sul do Tejo, a variabilidade climática é muito
variação da amplitude do período de realização dos trabalhos e a mais acentuada no semestre Novembro-Abril que no semestre Maio-
variação da proporção dos dias utilizáveis no interior destes períodos. Outubro, do facto resultando uma maior dificuldade em planear as
No que se refere aos trabalhos diferíveis admite-se que eles podem ser operações naquele período.
efectuados nos períodos de tempo localizados entre pontas provocadas ....
pelas operações ligadas a datas precisas de execução; este critério, Finalmente, haverá que referir a irregularidade física da maioria da
que se revela aceitável na generalidade das explorações de policultura, explorações agrícolas cuja acção concorre cumulativamente com as
e de aplicação muito discutível nas empresas adoptando sistemas de dificuldades resultantes da variabilidade climática. Basta referir a tão
cultura muito especializados ou recorrendo a elevado grau de mecani- frequente heterogeneidade das folhas quanto à natureza dos solos.
zação, casos em que os trabalhos diferíveis assumem considerável Deve acentuar-se que o planeamento das operações tem uma palavra
importância. Torna-se deste modo necessário entrar em linha de conta a dizer após a obtenção dos resultados do planeamento económico,
com eles ao elaborar o planeamento das operações. sobretudo quando as respectivas escalas de trabalho forem distintas.
A optimização económica feita para uma região é, por vezes, dificilmen-
D — Coordenar e rectificar os meios te exequível ao nível da exploração agrícola. Dois exemplos: o
afolhamento preconizado não se conjuga facilmente com a variabili-
Trata-se da fase de execução do projecto no decurso da qual se torna dade dos solos da exploração; as épocas previstas para a preparação
necessário controlar a realização das operações e intervir sempre que do terreno são condicionadas pelas disponibilidades de mão-de-obra
se registem desvios importantes ao modelo previamente definido. na empresa.

25
O planeamento das operações na exploração agrícola pode ser destinam.
encarado de acordo com duas ópticas distintas. Forma mais elaborada nas técnicas de programação das operações,
O planeamento global considera a totalidade das operações realiza- como da própria exploração, representa o planeamento por peças
das na exploração durante um período de tempo determinado; corres- escritas. A transmissão das informações no que se refere às tarefas a
ponde-lhe a máxima complexidade, dado que pressupõe o enquadra- realizar, aos meios de trabalho, às condições de execução, ~ ordem de
mento sistemático de todas as operações com vista a estudar as prioridade das diversas operações e respectiva sucessão no tempo
melhores condições de utilização do conjunto dos meios de trabalho passa a ser feita textualmente sob a forma de relatório.
(mão-de-obra e máquinas) disponíveis. Nesta perspectiva global o Estes documentos permitem equacionar em conjunto os objectivos
planeamento das operações conduz não só a determinar o adequado previstos e os recursos necessários ou disponíveis para os atingir; a sua
escalonamento das operações no tempo e no espaço, mas implica elaboração pressupõe um esforço de reflexão sobre a utilidade de cada
igualmente a realização dos trabalhos no momento oportuno. Numa uma das operações e permite, uma vez passado à fase de execução do
óptica mais restrita o planeamento das operações estuda operações projecto, responsabilizar os executantes.
isoladas, determinando as condições que conduzam à melhor execu-
ção dos trabalhos; assume deste modo a forma de um planeamento O relatório pode ser simplificado, recorrendo a quadros ou fichas
parcelar que se confunde com a organização do trabalho e é auxiliares que facilitam não só a escrituração como a leitura. Um modelo
concretizado na fase de execução ou preparação das operações. deste tipo de quadro é representado pela designada ficha de operação,
Torna-se evidente que o planeamento global supõe o planeamento preparada para nela se inscreverem de forma sintética mas precisa
parcelar; não apresentaria sentido tentar programar um conjunto quan- todas as indicações relativas à execução de cada tarefa: objectivos;
do os respectivos elementos componentes se encontram organizados justificação; recursos necessários; previsão da duração; evolução no
de forma insuficiente. tempo.
Assim, enquanto que o relatório dificilmente permite analisar o
5 — Métodos de elaboração do plano de operações desenvolvimento das operações no tempo, a ficha de operação eviden-
cia esta evolução e funciona deste modo como meio de controlo das
acções ou operações previstas.
Os métodos de planeamento registaram nos últimos anos progres-
sos notáveis; o método científico de estudo e preparação das decisões O método de planeamento por peças escritas apresenta no entanto
foi gradualmente introduzido nas diferentes actividades económicas, as seguintes limitações:
iniciando-se essa penetração pela indústria e alcançando mais recen- —a sua elaboração e consulta revela-se bastante demora-
temente o sector agrícola. da;
Para tal penetração contribui decisivamente o crescendo de dificul- —a transmissão das informações é quase sempre difícil e
dades que em todos os aspectos se deparam ao empresário; durante pouco precisa;
anos a tomada de decisões no que diz respeito à escolha das activida- —o controlo das operações e a sua rectificação, sempre que
des, dos factores de produção e à combinação das operações na ocorram desvios nas previsões elaboradas, torna-se deveras
exploração agrícola fundamentou-se em princípios e técnicas empíricas, complexo;
que na rotina e no bom senso buscavam justificação.
—dificilmente evidencia as ligações entre as operações e
Esses métodos embora tenham conduzido, em determinada fase da permite localizar aquelas cuja realização condiciona o mais
evolução da sociedade, a uma situação de equilíbrio que traduzia o racional desenvolvimento do projecto.
mais racional aproveitamento dos recursos disponíveis, revelam-se em
boa parte inoperantes na actualidade. Não se infira contudo das deficiências apontadas aos métodos
convencionais de programar as operações que tais métodos devam
Pertence a este tipo de actuação o planeamento de memória no pura e simplesmente ser abandonados; tal concepção está longe de
qual todas as decisões são tomadas de forma empírica, baseadas na traduzir o nosso ponto de vista, uma vez que mantemos a opinião de que
experiência e na intuição mas ignorando grandemente o método os métodos escritos constituem apoio essencial dos métodos evoluídos
científico e os princípios do racionalismo. A informação de base é retida de planeamento das operações que analisaremos seguidamente. Mas
na memória do agricultor e as opções tomam-se por força das circuns- não deixamos de acentuar a necessidade de os simplificar e melhorar
tâncias e com base em justificações meramente intuitivas; a transmis- de forma a torná-los verdadeiramente funcionais.
são das informações e directrizes aos executantes é sempre feita
oralmente e não existe qualquer possibilidade de verificação sobre a ...
execução das operações. As insuficiências e limitações dos métodos convencionais de plane-
Este processo de planear a exploração e de elaborar o modelo de amento das operações sugerem a necessidade de recorrer a processos
operações, perfeitamente adequado para certos sistemas de explora- mais evoluídos largamente adoptados em outros sectores da activida-
ção da terra, evidencia-se em outros casos demasiado grosseiro e com de económica; e o caso dos métodos baseados na investigação de
elevada margem de incerteza; os lapsos e omissões são frequentes, só operações.
não se revelando a sua gravidade porque o planeamento de memória A crescente penetração dos métodos baseados na investigação de
é hoje praticado quase exclusivamente na agricultura de subsistência, operações na programação das operações em agricultura encontra
na qual, por via de regra, o número de operações executadas é justificação em dois aspectos distintos.
relativamente pequeno e deste modo a margem de erro, ainda que Por um lado na integração da empresa agrícola no desenvolvimento
existente, afecta em menor grau o funcionamento da exploração e económico e na concomitante evolução de um sistema de economia
pouco se faz sentir no conjunto do sector agrícola. Por outro lado sendo agrícola de subsistência para um sistema de economia agrícola de
os factores incorporados na produção fabricados ou preparados na empresa orientado para a troca.
exploração e sendo os produtos destinados em grande parte ao Por outro lado no reconhecimento de que não obstante o facto de a
autoconsumo, o~ erros de orientação no plano de produção traduzem-
realização dos trabalhos agrícolas, submetida às imposições das
se somente numa maior soma de sacrifícios por parte do empresário e
condições climáticas, obedecer a uma ordem ditada pelas exigências
seus familiares Será oportuno todavia recordar que tais empresas biológicas das plantas e dos animais e (...) estar sujeita a um calendário
constituem ainda na agricultura quantitativo demasiado importante
cultural que, até hoje, se tem imposto, quase implacavelmente, ao
para que se possa aceitar atitude tão simplista. Assim, ocioso será
homem revelando-se «o processo de produção raramente, e apenas
reforçar a necessidade de estruturar e divulgar novas técnicas de mediante recurso a técnicas especiais, susceptível de ser acelerado ou
elaboração do plano de operações suficientemente explícitas e
retardado» (CARY e DESRUISSEAUX, 1970), a previsão não deve ser
simplificadas, tornando-se todavia essencial considerar dois aspectos
excluída na agricultura. Com efeito, quer o progresso das ciências
que julgamos fundamentais: por um lado a escassez de referências ngronómicas como o aperfeiçoamento das técnicas de previsão contri-
técnico-económicas sobre as condições de emprego dos factores de
buíram decisivamente para demonstrar que todo o processo da produ-
produção; por outro lado o nível cultural dos agricultores aos quais se

26
ção agrícola é na verdade susceptível de ser programado e controlado, Área:
podendo o «empresário calcular com rigor crescente a evolução da sua 1 ha ................................................................ 10.04 m2 ........................ (100 x 100 m)
exploração e diminuir, cada vez com mais eficácia, a acção dos riscos 1 acre ......................................................... 4840 sq yd ................................ 43560 sq ft
e dos imponderáveis (CARY e DESRUISSEAUX, 1970). 0.836127 m2 .................................................... 1 sq yd ........................................ 9 sq ft
O interesse da empresa agrícola em recorrer a técnicas evoluídas de 1 sq ft ............................................................... 0.0929 m2 ............................... 144.0 in2

planeamento será tanto mais intensamente sentido quanto esta aban- 1 in2 ................................................................. 6.45 cm2 ................................. 645.0 mm2
1 ha .................................................................. 2.471 acres ......................... 11959.9056 sq yd
dona uma posição de autonomia e se integra em sistemas de economia
0.405 ha ........................................................... 1 acre .................................... 4046.8546 m2
agrícola de mercado nos quais a necessidade de fundamentar todas as
decisões (escolha e composição das actividades; definição da técnica
sq. yd - square yard - jarda quadrada; sq. ft. - square foot - pé quadrado.
cultural; indicação da máquina destinada a realizar determinada opera-
ção; etc.) no conhecimento probalístico dos acontecimentos, de contro-
lar e rectificar o desenvolvimento das acções, é mais premente. Volume/Capacidade:
1 l ............................................................... 1000 ml ...................................... 1dm3
...
1000 l .......................................................... 1m3 ................................................. 1 estere
BARROS, H. 1964. Análise e planemaneto; conceitos e aplicações. In: Análise e planeamento da
exploração agrícola. Lisboa. Centro de Estudos de Economia Agrária. 1 galão (gallon -gal-) ........................................ 4 quart ......................................... 3.784 l

BICANIC, R. 1967. Agriculture and the political scientist. International J. agrar. A. Lonodon, 5 (2). 1 pé cúbico ( ft3) .............................................. 0.028 m3 .................................. 28.317 l
1 litro ................................................................ 1.057 quart .................................. 0.26425 galões
BLACK J. D. et al. 1947. Farm management. New York. The Macmillan Co.
1 almude ........................................................ 25 l .............................................. 16.5 a 26 l
CARY, F. C. e DESRUISSEAUX, J. P. 1970 Princípios e técnicas de organização do trabalho na
empresa agrícola. Lisboa. Centro de Estudos de Economia Agrária. 1 pipa ..................................................... 20 a 25 almudes ..................... 500 a 625 l
CASTRO CALDAS, E. 1964. A difusão de técnicas e de conhecimentos entre os agricultores. In: 1 barril (barrel - bbl -; US Petroleum):
Análise e planeamento da exploração agrícola. Lisboa. Centro de Estudos de Economia 42 gal ........................................................... 159 l ............................................ 137 kg petróleo
Agrária.
1 bushel ........................................................... 1.24 ft3 .......................................... 35.12 l
HILF, H. H. 1963. La ciência del trabajo. Madrid. Rialp.
LOPES, S. 1970. Organizações e Sociedade. Análise Social, 8:32. Lisboa.
estere - Medida de volume para madeiras; almude - Antiga unidade de medida ou capacidade que
varia conforme as regiões do País.

A equivalência do barril de petróleo (bbl - US Petroleum) é estabelecida para uma massa volúmica de
0.86 g.cm-3; (Petróleo “standard”).

Nos Estados Unidos, e em consequência disso, no mercado mundial de cereais e outros grãos, a
medida tradicional é o bushel (bu). As medidas de capacidade podem se convenientes quando se
FACTORES DE CONVERSÃO E tratam de avaliar capacidades de carga. Contudo, a densidade daqueles produtos é muito variável,
sendo necessário proceder a controlos de densidade (“bushel weight” ou o equivalente português “peso
CONSTANTES ÚTEIS EM AGRONOMIA do hectolitro”) e teor de humidade. Alguns valores do “bushel test weight” (Martin, Leonard e Stamp,
1976).
E ECOLOGIA
Trigo 60 lb/bu 27.2 kg/bu a 14.0% H20 77.3 kg/hl
O sistema métrico, ou SI (Système International), que tem por base
o kilograma massa (kg), o metro e o segundo é reconhecido mundial- Milho 56 lb/bu 25.4 kg/bu a 15.5% H20 72.2 kg/hl
mente e é usado na maior parte do comércio agrícola mundial. Alguns
países continuam a usar medidas inglesas (EUA, Inglaterra, Austrália, Sorgo 55 lb/bu 24.9 kg/bu a 15.5% H20 70.7 kg/hl
N. Zelândia, etc.), embora a maior parte das revistas científicas usem
unidades SI. Para o agrónomo é particularmente útil a capacidade de Cevada 48 lb/bu 21.8 kg/bu 61.9 kg/hl
análise quantitativa, sendo frequentemente necessário conhecer as
interrelações entre unidades de várias grandezas físicas. Aveia 32 lb/bu 14.5 kg/bu a 14.5% H20 41.2 kg/hl

Soja 60 lb/bu 27.2 kg/bu 77.3 kg/hl


Prefixos métricos:
p .................................................................. pico ....................................... 10.0-12 O grão aumenta de volume com o aumento de teor de humidade, pelo que o “test weight”, (peso do
n ................................................................. nano ......................................... 10.0-9 hectolitro) diminui. A conservação com segurança dos cereais, requer 13 a 14% de humidade e teores
µ ................................................................ micro ......................................... 10.0-6 ainda menores no caso das leguminosas e oleaginosas.
m .................................................................. mili ......................................... 10.0-3 A precipitação (chuva, neve, etc.) e a água de rega são frequente-
c ................................................................. centi ......................................... 10.0-2 mente medidas em altura de água, sendo a unidade mais usada o mm.
d .................................................................. deci ......................................... 10.0-1 Um milímetro de água corresponde, como se pode avaliar da figura, ao
da ............................................................... deca ......................................... 10.0 1 volume de um sólido que tem por base a área considerada (1 m2, 1 ha)
h ................................................................ hecto ......................................... 10.0 2
k ................................................................... kilo ......................................... 10.0 3 Area
M ............................................................... mega ......................................... 10.0 6 1 mm

G ................................................................. giga ......................................... 10.0 9


T .................................................................. tera ........................................ 10.012
e por altura 1 mm. Assim, 1 mm de precipitação corresponde a:

Comprimento 1mm x 1 m 2 = 10-3 m x 1 m2 = 10-3 m3 =


= 1 dm3 = 1 l (num m2) ou l/m2
1 km ........................................................... 1000 m ..................................... 0.6214 milhas
1 milha .................................................... 1609.3 m ..................................... 1.6093 km 1mm x 1 ha = 10-3 m x 10 4 m2 =
0.0254 m ..................................................... 2.54 cm ............................................ 1 polegada (“) = 10 1 m3 = 10 m3 ou 10 m 3/ha
1 m ............................................................... 100 cm ..................................... 39.37 “
0.01m ............................................................... 1 cm ................................... 0.3937 polegadas “
Massa:
0.3048 ....................................................... 30.48 cm ............................................ 1 pé (ft)
1 t (tonelada métrica) ................................ 10.03 kg ...................................... 10.06g
0.333 jardas (yd) .............................................. 1 pé ........................................... 12 polegadas
1 lb (libra/pound) ..................................... 0.4535 kg ........................................... 16 oz (onças)
1 jarda .............................................................. 3 pés ......................................... 36 polegadas
1 kg ........................................................... 2.205 lb ....................................... 35.28 oz
0.9144 m ........................................................ 91.44 cm ....................................... 1 jarda
1 oz ......................................................... 0.0625 lb ....................................... 28.34 g
10-6 m ............................................................ 10.0-4 cm ...................................... 1 µm (micron)
10-9m ............................................................... 1mµ (milimicron) ......................... 1 nm
Há dois tipos de sistemas que usam a libra (pound) como unidade: O sistema “avoidupoids”, em que a
libra (lb avdp.) é dividida em 16 onças (oz) e o sistema “troy” ou “Apothecaries”, usado para ouro, prata,
etc., em que a libra (lb troy) é dividida em 12 onças.

27
................................................... ° K = ° C + 273 ................................ graus Kelvin
Produtividade/produção/rendimento:
1 kg ha-1 ................................................................. 0.1 g m-2 ........................................ 0.893 lb acre-1 Alguns valores comparativos:
1 lb acre-1 ............................................................... 1.120 kg ha-1 ............................ @ 1.0 kg ha-1
1 t ha-1 .................................................................. 10.0-1 kg m-2 ................................. 10.02 m-2 C ..................................................................... F ................................................. K
1 t ha -1 ............................................................. 0.4046 t acre-1 ............................ 2.205 t ha-1 -50 ................................................................ -58 ............................................. 223
-40 ................................................................ -40 ............................................. 233

Em conversões rápidas, comete-se um erro de 12% na conversão de 1 lb.acre-1 para 1 kg.ha-1. -30 ................................................................ -22 ............................................. 243
-20 .................................................................. -4 ............................................. 253
-10 .................................................................. 14 ............................................. 263
Força: 0 ................................................................... 32 ............................................. 273
1 N ................................................................... 1.0 kg x 1 m s-2 10 .................................................................. 50 ............................................. 283
1 dyne .............................................................. 1.0 g x 1 cm s-2 20 .................................................................. 68 ............................................. 293
1 N ................................................................. 10.03 g x 102 cm s-2 ..................... 10.0 5 dyne 30 .................................................................. 86 ............................................. 303
1 dyne ............................................................ 10.0-3 kg x 10-2 m s-2 ................... 10.0-5 N 40 ................................................................ 104 ............................................. 313
1 kgf ................................................... 1.0 kg x 9.8 m s-2 50 ................................................................ 122 ............................................. 323
1kg f .................................................................. 9.8 N ........................................... 9.8 x 105 dyne 100 ............................................................... 212 ............................................. 373
1N .................................................................... 0.10204 kgf ......................... ≅ 10.0-1 kgf
1 dyne .............................................................. 1.02 x 10-6 kgf .................... ≅ 10.0-6 kgf
Energia e trabalho:
Pressão:
1 atm ............................................................ 760 mm Hg ................................... 10.336 m H20
“Trabalho” em sentido mecânico resulta da acção de uma força ao
1 atm ................................................................ 1.0336 kgf cm-2 ........................ 14.7 lb in-2
longo de uma distância. O corpo em que o trabalho foi aplicado ganha
1 bar ............................................................... 10.06 dyne cm-2 ........................... 1.0133 atm
“energia”. Assim, trabalho e energia são expressos nas mesmas
1 Pa .................................................................. 1.0 N m-2 .................................. 10.05 dynex10-4 cm-2 unidades.
1 Pa ................................................................ 10.0 dyne cm-2 .............................. 10.0-5 bar 1 Joule é a energia criada quando se aplica um força de um Newton
1 Pa .................................................................. 0.01 mbar (força que imprime uma aceleração de 1m.s-2 a uma massa de 1 kg) ao
1MPa .............................................................. 10.06 x 10-5 bar .......................... 10 bar longo de uma distância de 1 metro. Potência é a taxa a que o trabalho
se processa e 1 Watt = 1 Joule / segundo.
Unidades do “Système International” (SI)
No sistema m-kp-s, em que o kilograma força substitui o kilograma
Quantidade .................................... Dimensões ............................... Unidades SI massa como unidade fundamental, a unidade de energia é o kilogrâmetro.
Massa ............................................................. M ................................................ kg
1 kgm = 1 kgf x 1 m
Comprimento ................................................... L ................................................ m
Tempo .............................................................. T .................................................. s 1 J = 1 N . m = 1 kg. m. s-2 . m
Área ............................................................... L2 .............................................. m2 1 erg = 1 dyne . cm = 1 g . cm. s-2 . cm
Volume ........................................................... L3 .............................................. m3
Massa volúmica ......................................... ML-3 ................................................ kg.m-3
1 J .............................. 103g x102 cm s -2 .x 102 cm ..................................... 10.07erg
Frequência ................................................... T-1 ............................................... Hz
1 J .................................................. 0.102 kgf x1 m ....................................... 0.102 kgm
Velocidade ................................................. LT-1 ............................................ ms-1
1 W ............................................... 0.102 kgms-1 .................................. 10.07 erg s-1
Aceleração ................................................. LT-2 ............................................ ms-2
Momento ................................................. MLT -1 ........................................ kgms-1
Força ....................................................... MLT -2 ........................................ kgms-2 = N As unidades inglesas de energia e potência, são a libra.pé (ft.lb) e o
Pressão ................................................ ML-1T-2 ..................................... kgm-1s -2 = Pa horsepower (hp). Esta última é ainda muito usada em motorização.
Energia ou trabalho ............................... ML2T-2 ...................................... kgm2s -2 = J
Potência ................................................ ML2T-3 ...................................... kgm2s -3 = W 1 ft.lb ........... 0.3048 m x 0.4535 kg ....................... 0.1382 kgm .................... 1.3546 J
Tensão superficial ...................................... MT-2 ................................................. N.m-1
Viscosidade (dinâmica) ....................... ML-1T-1 ................................................ kg.m-1 s-1
1 hp ..................... 550.0 ft lb s-1 ................. 76.01 kgms-1 ............................ 745.03 W
Viscosidade (cinética) ............................... L2T-1 ......................................... m2s -1
Temperatura ................................................. Θ ......................... °C ou K
Energia (calor) ............................. H (ou ML 2T-2) ................................................. J Estas são as unidades fundamentais, mas há muitos outros sistemas
Fluxo de radiação ...................................... HT-1 ................................................ W empíricos usados em situações específicas. Quando se trata de
Densidade de fluxo de radiação ........... HL-2T-1 ................................................ W.m-2 energia calorífica, a caloria (quantidade de calor necessária para elevar
Calor latente ............................................. HM-1 .................................................. J.kg-1 de 1° C a temperatura de 1 g de água) é ainda frequentemente usada.
Calor específico ............................. HM-1Θ
-1 ................................ J.kg-1°C-1 Nos países anglo-saxónicos, a British Thermal Unit (BTU) é utilizada
-1
Condutividade térmica ................ HL-1Θ T-1 ................................... Wm-1°C-1 frequentemente. Corresponde à quantidade de calor necessária para
Coeficientes de difusão ............................ L2T-1 ......................................... m2s -1 elevar de 1°F a temperatura de 1 libra de água.

O potencial de água é medido em unidades de pressão: atmosferas na 1 cal .......................................................... 4.184 J .............................. 3.97 x 10 -3 BTU
literatura mais antiga, bar mais recentemente começando a usar-se 1 J ............................................................. 0.239 cal ........................... 9.49 x 10 -4 BTU
com mais frequência a unidade SI (MPa). 1 BTU ......................................................... 1054 J ........................................... 252 cal

De notar que o potencial de água, que traduz a concentração de energia REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

livre na água, é expresso em unidades de pressão: Almeida, G.


1988. Sistema Internacional de Unidades (SI). Grandezas e unidades físicas:
terminologia, símbolos e recomendações. Plátano Editora. Lisboa. 239 p.
Energia/Volume = (ML2T-2) (L-3) = (ML-1T-2) = Pressão Martin, J. H., W. Leonard and D. L. Stamp
1975. Principles of crop production. Macmillan Publishing Co. Inc. New York. 1118 p.
Nobel, P. S.
Densidade de plantas: 1970. Introduction to biophysical plant physiology. W. H. Freeman and Co. San
Francisco. 488 p.
1 planta m-2 .................................. 10.04 pl ha-1 ................. @ 4.0 x 103 pl acre -1

N.º de plantas .ha-1 = 104 m2.ha-1 / [largura da entrelinha (m) x distância na linha (m)]

Temperatura:
............................................ ° F = ° C x 9/5 + 32 .......................... graus Farenheit
........................................... ° C = (°F - 32) x 5/9 .............................. graus Celsius

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