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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller


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Editora – AVBL
2010

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

MÜLLER, Elio Eugenio

“Amores da Guerra – Coleção Memórias da Figueira


– Volume: IV” – Elio Eugenio Müller -- Curitiba/PR.
Editora AVBL, 2010. -- Bauru/SP
186p. il. 14,8 X 21 cm.

ISBN: 978-85-98219-52-3

1. Contos: Literatura Brasileira. I. Título.

08-11-10 CDD-869.93

Índice para catálogo sistemático:


1. Contos: Literatura Brasileira - CDD-869.93

Copyright © - ELIO EUGENIO MÜLLER


eliomuller@uol.com.br - eliomuller@gmail.com

AMORES DA GUERRA
Coleção Memórias da Figueira - Volume: IV

ISBN: 978-85-98219-52-3

Direitos reservados segundo legislação em vigor


Proibida a reprodução total ou parcial
sem a autorização do autor.

EDITORA AVBL
www.editora.avbl.com.br
e-mail: editora@avbl.com.br

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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“AMORES DA GUERRA”
Coleção Memórias da Figueira
Volume: IV

Histórias da Guerra do Paraguai

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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ÍNDICE

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
5
- AGRADECIMENTOS 7
- PALAVRAS AO LEITOR 8

- AMORES DA GUERRA 11
- Os filhos que não voltarão... 15
- Marcas e cicatrizes da guerra 18

- UM EMOTIVO CULTO DE LEMBRANÇA DOS MORTOS 23


- A Bandeira da Colônia de Três Forquilhas 25
- Um sermão que calou na alma 26

- A CHEGADA DOS CINCO BAHIANOS 30


- Vida nova para os cinco baianos 32
- Candinho e Tonho, hóspedes dos Becker 34
- Emprego e casamento para Baiano Tonho 35
- Pedro Baiano encontra um novo lar no Josaphat 37
- Os baianos João e José também acolhidos no 39
Josaphat.
- A fama de Baiano Candinho 41

- A VOLTA DE PETER FECK 44

- O RETORNO DE “PARAGUAIO GROSS” 47


- Gross, ferido gravemente na batalha de Avaí 49
- Abela Delore apreciava cavalos 53
- Paraguaio Gross dá emprego para Baiano 56
Candinho
- Um casamento diferente 59
- “...eles vão pro mato e se escondem...” 65
- Uma demonstração hípica 68
- Somos dominados por uma cultura da guerra 70

TEXTOS DIVERSOS 75

- OS VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA, FILHOS DA 76

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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COLONIA ALEMÃ DE TRÊS FORQUILHAS QUE
FORAM PARA A GUERRA DO PARAGUAI
- Os mortos em combate 77
- Os que voltaram... 83
- Filhos de Três Forquilhas na Artilharia de Mallet 92

- OS VOLUNTÁRIOS DA CISPLATINA 94

- OS SOLDADOS DA PATRULHA SERRANA 98

- MILITARES BRUMMER QUE ENTRARAM NA COLONIA 101


DE TRÊS FORQUILHAS A PARTIR DE 1853

- FRIEDRICH SCHÜTT – UM ARMEIRO MILITAR 109


INGLÊS

- WILHELM SCHMITT – UM ARMEIRO E RELOJOEIRO 113


- O Ofício de um Mestre Armeiro 114

- A ÍNDIA PARAGUAIA ABELA DELORE 116

- A INICIAÇÃO POLÍTICA DE CANDINHO 119

- AS MÃES E AS VIUVAS DOS COMBATENTES 123


MORTOS

- A ESCOLA DO PASTOR VOGES 125

- ASSISTÊNCIA RELIGIOSA AOS COMBATENTES, 130


MINISTRADA POR VOGES, ANTES E DEPOIS DA
GUERRA
- O que a Comunidade tem a ver com o fim da 133
guerra?

- UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS 136

- O BRASÃO DA COLÔNIA DE TRÊS FORQUILHAS 142

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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- HOMENAGENS AO CORONEL NIEDERAUER EM 145
ITATI-RS

- CORRESPONDÊNCIAS 147

- COLOCAÇÃO DO BUSTO DO CORONEL NIEDERAUER 163


EM ITATI-RS
- A PRAÇA CORONEL NIEDERAUER, EM ITATI – RS 165

- GRUPO DE AMIGOS DA PRAÇA CORONEL 168


NIEDERAUER

- HOMENAGEM A ADÉLIO VOGES DO NASCIMENTO 170

- CONCLUSÃO 172

- NOTAS EXPLICATIVAS 175


- FIGURAS em “Amores da Guerra” 181
- FONTES DE CONSULTA 183
- COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA 186

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus fonte da vida e de toda a boa


inspiração, que me permitiu a realização desta obra. Que
estas memórias sirvam como um instrumento para a
edificação do Seu Reino sobre a terra.

À Doris, minha esposa, pelo permanente incentivo,


como companheira valorosa, ao longo destes 40 anos de
pesquisa e trabalho, que me ajudou a localizar e dar vida
aos personagens, muitos dos quais parentes dela, que
viveram esta saga contada em "Memórias da Figueira".

À Profª. Dra. Solange T. de Lima Guimarães (Sol


Karmel), amiga e conselheira, pela avaliação da obra e
orientação.

Ao publicitário Rodrigo Sounis Saporiti pela


orientação, na fase inicial, para a escolha do formato
literário da obra.

À escritora Maria Inês Simões, Presidente da


Academia Virtual Brasileira de Letras - AVBL, pela
orientação na fase de publicação do livro.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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PALAVRAS AO LEITOR

Sentado outra vez sob a proteção da acolhedora


figueira, em meu Sítio, me envolvi com os AMORES DA
GUERRA.

Desfilaram diante de mim inúmeros personagens,


filhos do vale do rio Três Forquilhas que quiseram, como
voluntários, seguir em defesa do solo pátrio.

Pensando nos voluntários da pátria, me vi de retorno


aos tempos de minha mocidade, em minha terra natal. Um
dia eu também me apresentei como voluntário para a
prestação do serviço militar.

Ser voluntário foi apenas uma consequência da


influência colhida na minha infância, tanto no lar, bem como
na escola e na igreja. Minha mente ficara povoada de
histórias dos épicos gloriosos.

Na escola me ensinaram sobre a grandeza do meu


país construída através das suas lutas, seus cavaleiros,
heróis, tudo marcado pela filosofia positivista então
dominante.

Na igreja me ensinaram as histórias épicas das lutas


dos heróis bíblicos, desde Moisés e Josué, na conquista da
Terra Prometida, bem como da coragem de Davi que
derrotou o gigante Golias.

Ensinaram-me que a fé em Deus é o escudo de um


bom guerreiro.

Passei a acreditar que o meu país precisava de homens

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como eu, para manter a sua integridade física e espiritual.
Por isso fui, sou e sempre serei um voluntário...
Na Junta do Serviço Militar, de Panambi – RS
trabalhava o Sr.Waldemar Wentz, o “Neco”, um amigo dos
jovens. Grande foi a minha decepção quando, em 1962 ele
sentenciou: - “Você está longe do físico ideal para ser um
soldado... Você é tão magro que qualquer vento te
derruba...”.

Como eu era nascido em novembro, portanto no final


do ano, recebi a recomendação: - “Volte no ano que vem,
mas, até lá, coma mais feijão. Então darei um jeito para te
levar à inspeção e a aprovação para ser um soldado”.

E, assim ocorreu... Como voluntário, consegui, com


satisfação, vestir a farda do soldado...

Neste contexto considero interessantes as palavras


de Jean Pouget - oficial do exército francês que em A
Guerra Cruel, escreveu: - “Sim, um dia eu escolhi usar a
farda do Exército. Sim, com orgulho vesti o uniforme... E,
isso não me impediu de ser um homem tão sensível como
qualquer outra pessoa. Donde é que tiraram a idéia de que
ser do Exército é ser tratado como criminoso comum?
Existem segmentos da opinião pública que desejam renegar
totalmente a nossa vocação, para termos vergonha da farda
que vestimos. O fato de que um homem escolheu ser um
soldado, por acaso significa que ele encontrou em si mesmo
um assassino sádico? Não, pois isto seria uma injustiça
muito grande, se deixássemos de reagir, sem vomitar em
cima de tal opinião. Iríamos admitir que todo soldado
desempenha o papel do carrasco, que aí está apenas para
matar... A verdade é que na guerra sempre há de se optar
pela morte do inimigo, ou pelo sacrifício da própria vida. É
preciso entrar numa guerra como um soldado voluntário,
como um profissional, não como um mercenário. E, acima
de tudo, é necessário escolher a disciplina, porque ela limita
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a violência. A profissão das armas é um sacerdócio. A
vitória não pertence ao soldado, nem a derrota. Elas sempre
pertencem à Nação que arregimentou as suas tropas...
Ambas são o resultado da política de uma Nação.
Humanizar a paz parece mais lógico do que tentar
humanizar a guerra. A guerra sempre pode ser uma das
soluções na busca pela paz.

Em AMORES DA GUERRA o foco central é a história


de um soldado brasileiro que foi socorrido por uma índia
guarani, paraguaia, que lhe salvou a vida.

Em AMORES DA GUERRA nos é revelada também, a


dor de tantas mães que viram seus filhos partindo para a
guerra e que, com saudade, ficaram por eles esperando.

Em AMORES DA GUERRA vemos os sobreviventes


retornando, trazendo lições de vida extraídas do campo de
guerra juncado de mortos.

Em AMORES DA GUERRA surgem jovens


combatentes que, de retorno à Pátria, não mais conseguem
se conformar com a realidade injusta da vida política
existente em sua própria terra. Por terem amor por sua
terra e pela Pátria estão dispostos a partir de novo para a
luta que apenas muda de foco.

Desejo a todos uma boa leitura, ou “leitorem


salutem” conforme diziam os latinos.

ITATI – RS, 13 de novembro de 2010

Elio Eugenio Müller


Membro da Academia Virtual Brasileira de Letras – AVBL

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AMORES DA GUERRA

- “Uma guerra sempre traz aflições”, disse o pastor


Voges. Ele estava se referindo à Guerra do Paraguai,
lembrando dos filhos de Três Forquilhas que haviam
perecido nesse confronto bélico. Voges estava sentado à
sombra do frondoso cedro, que podia ser visto, sempre
altaneiro, nos fundos da casa, no pátio, onde Mãe Maria
também costumava reunir seus irmãos africanos para as
danças e os cânticos. Nessa hora estavam ali apenas as
pessoas da casa pastoral, a esposa Dona Elisabetha, os
filhos Adolfo Felipe e Jacob. Faltava a filha Catharina que já
fazia anos morava em Campo Bom, onde casara com Jacob
Sebastian Diehl e, às vezes apareciam por algumas
semanas em Três Forquilhas, para dar contato dos netos
com seus avós. Num outro ponto estava Mãe Maria, Pai
Vicente e os filhos dos mesmos. Todos gostavam de ficar ali
conversando e às vezes provando das guloseimas, que “Mãe
Maria” se acostumara a preparar com todo o carinho e
sorridente oferecia uma prova aos presentes.

Pastor Voges continuou: - “A guerra abre feridas


inesperadas em muitos corações, que precisam chorar as
suas perdas. Mas não podemos esquecer que além das
feridas e da perda de vidas que são tão caras, a guerra
também desperta e promove os amores da guerra”.

Esposa e filhos gostavam destas conversas ao pé do


cedro, para escutar o pastor em suas reflexões. Como
sempre, a curiosidade tomou conta de todos. Dona
Elisabetha quis saber: - “Carlos, de que filósofo você pegou
esse pensamento?”.

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O pastor sorriu e falou: - “Porque dizes que peguei
pensamentos de algum filósofo? Não podem ser os meus
próprios pensamentos?”.
Dona Elisabetha encostou a cabeça no ombro do
marido e com carinho lhe fez cafuné. O pastor continuou: -
“Querida, confesso que me lembrei de uns escritos, não
muito indicados para os meus paroquianos, que eu li em
meus tempos de estudo, antes da vinda ao Brasil. Lembrei
do cancioneiro amoroso conhecido como Os Amores de
1
Ovídio” .

- “Amores da Guerra”, continuou insistindo o pastor.


“Sim, tivemos aqui as nossas histórias de amores da
guerra, no vale do rio Três Forquilhas. Podemos lembrar dos
amores inesperados trazidos com a chegada dos soldados
Brummer, depois de 1853. O primeiro que chegou aqui, foi
o Christian Tietboehl que mexeu com tantos corações
femininos... Sou de opinião que mestre de banda de música
sempre se destaca e chama a atenção de todos... Quem
poderia imaginar que o Professor Tietboehl seria tomado de
amores pela recatada Catharina Eigenbrodt. Mas com
certeza constituíram uma bonita família com nove filhos,
sete homens e duas mulheres. Penso que eles fazem uma
bela e exemplar família que muito poderão fazer pelo
progresso desta Colônia”.

Elisabetha concordou e também passou a recordar


dos militares prussianos que haviam chegado à Colônia. Ela
falou: - “Lembro do Peter Mathias Erling, ele que casou com
a Dorothea Henze. Essa família também colabora muito com
a igreja e não perdem nenhum culto. Naquela casa são três
filhos e três filhas que foram meus alunos aqui em nossa
escola da Comunidade”.

Adolfo Felipe e Jacob também se envolveram na


conversa e também foram enumerando nomes de militares
prussianos que haviam chegado à Colônia. Foram
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mencionados Mathias Grassmann que em 1858 casou com
Catharina Mittmann; José Etter que casou com Bárbara
Justin; Augusto Rudolf que casou com Catarina dos Santos,
filha do índio Manoel dos Santos; Franz Saul, professor
trazido pelo pastor para lecionar na Escola da Comunidade
que casou com Elisabeth Dorothea Mauer; Augusto
Sonntag, outro professor trazido pelo pastor, que casou
com Bárbara Triesch; João Pedro Baumann que casou com a
Anna Maria Schneider, filha do cervejeiro Schneider; Martin
Blehm que casou com Magdalena Gross; Maximiliano
Krause que casou com Anna Elisabeth Gehrmann; Jacob
Steinmetz que casou a Elisabeth Justin e se tornou o melhor
alfaiate da Colônia, costurando para as famílias mais
abastadas, criando trajes modernos; João Westphalen,
assassinado na Colônia em 1870 e que deixou viúva a Maria
Catharina Becker; Frederico Dicksen que casou com Maria
Madalena Menger e foi morar no Três Pinheiros para servir
aquele povo como sapateiro competente; Carlos Rickroth
que casou com Catharina Gross e foram morar nas bandas
do Morro do Chapéu; Luis Stahlbaum que casou Maria
Dresbach e também foi morar nas proximidades do
Rickroth; Jacob Hartmann que casou com Maria Eva Henze;
Frederico Brookschmitt que casou com Sofia Henze.

Adolfo Felipe perguntou então ao pai: - “E quanto ao


Wilhelm Schmitt que me contou ter trabalhado para o
Exército como armeiro e até guarda um lindo capacete
prussiano, na sala de visitas”.

Pastor Voges explicou: - “O Wilhelm é um grande


artista que domina tanto o ouro bem como o couro... Ele
trabalha com o ferro e com metais mais nobres, pois é um
2
experiente mecânico e ourives que sabe fabricar as suas
próprias peças de metal para consertar relógios e construir
jóias finas, broches e anéis. Fabrica também fivelas, galões,
botões e artefatos metálicos. Porém o que me chamou mais
a atenção são as idéias que ele prega entre os colonos.
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Nesses dias, numa reunião aqui na Igreja ele comparou o
Universo com um relógio e comparou Deus como sendo o
Grande Relojoeiro...”.
- “Que bela comparação...” - disse Elisabetha.

O pastor discordou: - “Querida Elisabetha, esse


pensamento até pode soar bem, mas a verdade é que ele
me causa algumas dificuldades... Ele é um livre pensador e
racionalista... Ele veio também fortemente influenciado pela
maçonaria germânica, semelhante ao tio e sogro, o nosso
saudoso Comandante Philipp Peter Schmitt... A diferença é
que o nosso inesquecível comandante jamais me contestou
e não interferia em minha atividade de pregação e ensino”.

- “Nada entendo disso”, disse Elisabetha Nunca ouvi


você falar alguma coisa a respeito dos Livres Pensadores.
Eles são procedentes de qual nação da Europa?”.

- “São pessoas das mais diferentes nações que


assumiram idéias filosóficas e religiosas racionalistas e
passaram a ser denominados de livres pensadores,
exatamente por se dizerem livres do poder exercido pela
religião. Eles são convictos de que a pregação religiosa não
aguenta aos testes da razão. O Wilhelm, por exemplo,
defende que nada há a se ganhar por acreditar no irreal,
como também há tudo a perder quando se sacrifica a
ferramenta da razão no altar da superstição. Ele criticou
dizendo que a religião tem sido usada para justificar
guerras, escravidão e, principalmente, a intolerância com as
minorias, como é o caso da perseguição movida contra a
maçonaria”.

- “Eu não sabia que o tio Wilhelm tem idéias tão


interessantes...” - interveio o filho Jacob.

- “Estão ouvindo?” - disse pastor Voges. - “Até a


minha família fica encantada com as idéias de um livre

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pensador. O Wilhelm vem recebendo uma publicação que
apresenta as teorias de Darwin. Terei um trabalho cada vez
mais árduo, para defender e explicar que as boas novas do
Evangelho de Jesus não são nenhuma superstição...”.

Elisabetha insistiu com o marido: - “Carlos, você


ainda não respondeu? De onde vem os Livres Pensadores?”.

O pastor explicou: - “Nos meus estudos básicos de


teologia, entre 1820 a 1823, li alguma coisa sobre o Livre
Pensar com base em Gottfried Von Leibniz que era natural
de Leipzig, na Alemanha. Mas hoje estou diante de coisas
mais complicadas e bem recentes, como as tais teorias do
inglês Charles Darwin. O Wilhelm Schmitt me emprestou um
folheto onde se explica algo a respeito dessas idéias,
através da Teoria das Espécies. Esse assunto é novo para
mim... Tenho passado dificuldade para rebater tais idéias
que, creio, tem muitos aspectos de grande valor científico
que merecem o nosso respeito... Confesso que gostei da
leitura, mas não concordo com aqueles que a partir da
Teoria das Espécies querem agora colocar a obra da criação
conforme é descrita no Livro de Gênesis como uma pura
lenda, sem valor científico e, em consequência, colocando a
fé como sendo pura superstição de crédulos que estariam
sendo enganados pela Igreja.

O pastor foi interrompido neste diáologo, pois uma


mulher viera até o templo, em busca de orientação e
consolo. Ele prontamente foi ver de quem e de que se
tratava.

Os filhos que não voltarão...

- “O meu filho não voltou” - disse a mãe


desconsolada que se dirigira até a igreja, para falar com o

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pastor. Ela estava de luto fechado... Tratava-se de Elisabeth
Catharina Gross, a viúva do carpinteiro e imigrante Philipp
Peter Gross. Muito magra e nervosa, ela retorcia as mãos
enquanto falava.

O pastor procurou consolá-la, enfatizando o amor


que uma mãe nutre por seus filhos, mesmo quando já são
crescidos. Falou das feridas que a guerra causa nos
corações, que choram. Mas finalmente ele falou de modo
mais enérgico, dizendo: - “Estimada senhora, não chegou
nenhum aviso do Exército, que informasse sobre a eventual
morte do seu filho, Carl Daniel Gross. Por isso a senhora
não deveria se apresentar aqui vestida de luto, só pelo fato
de que ele ainda não retornou. Tenho que insistir que o seu
filho não foi declarado como morto... Por este motivo peço
que não insista tanto em sofrer, pois é certo que a senhora
está procurando sofrer mais que o necessário”.

- “Pastor, não vim procurar este tipo de consolo, pois


são só palavras... O senhor é mestre de belas palavras, mas
é lerdo em ajudar as pessoas que sofrem! Exijo alguma
coisa mais concreta... Exijo que o senhor coloque uma coroa
de defunto na parede do templo, com o nome do meu filho.
Quero que o senhor inclua todas as demais homenagens
que o senhor tem feito para outros que também
morreram... Eu noto que isso trouxe consolo para aquelas
famílias que choram pelos filhos que não mais voltarão!”.

Desde a volta de diversos combatentes da Guerra do


Paraguai, a mãe de Carl Daniel Gross, havia colocado luto
pesado. Ela passou a chorar a morte do filho e insistia,
constantemente, com o pastor Voges para que o filho fosse
incluído nas preces de intercessão e homenagens póstumas,
que eram feitas na igreja, cada vez que vinha a notícia da
morte, de um soldado da Colônia. O pastor, no entanto,
sempre insistiu no conselho de que se deveria aguardar por
algum comunicado oficial do Exército e, por mais uma vez

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explicou: - “Tenho feito de tudo que me foi possível para
procurar ajudar a senhora. Quando os primeiros
sobreviventes retornaram, imediatamente fiz reuniões com
eles. Dentre os diversos assuntos que discutíamos procurei
colocar em primeiro lugar um pedido de informações sobre
o eventual paradeiro do seu filho. Porém, ninguém soube
dar qualquer informação a respeito dele...”.

- “Pastor, se ninguém soube dar alguma informação


sobre o paradeiro de meu filho então é por que ele morreu
nessa triste guerra. Por isto, diga-me se não estou certa em
chegar até aqui para insistir com o senhor para que ele
receba uma homenagem fúnebre”. A viúva pediu que se
fizesse uma coroa de flores artificiais que Dona Elisabetha
confeccionava e que a cada vez que chegava alguma
notificação do Exército informando a morte de um
combatente da Colônia, a mesma era colocada na parede
interna do templo, durante uma cerimônia de consolo.
Nessas ocasiões o pastor procurava reunir os familiares do
morto, com o objetivo de proferir uma mensagem de
conforto com base na Palavra de Deus e para fazer orações.

O pastor falou: - “No próximo domingo, na primeira


semana da primavera, faremos aqui um culto especial,
semelhante ao do ano passado quando iremos reunir na
igreja todos os voluntários da Pátria de nossa Colônia que
retornaram. Faremos também, outra vez, uma chamada
nominal dos filhos que não mais voltarão... Peço que a
senhora venha participar, juntamente com os seus
familiares... Faremos preces pela senhora e pediremos que
o seu filho possa voltar logo, se ainda estiver vivo...”.

- “Pastor, se já estamos chegando à primavera de


1871 e já faz quase um ano e meio que a guerra terminou,
conceda que o meu Carl Daniel também receba a sua coroa
fúnebre...”.

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- “Não posso fazer isso, pois o Exército não enviou
nenhum comunicado para informar a morte dele. Vá para
casa e tire esse traje de luto... Não posso impedi-la de
chorar de saudade pelo seu filho, mas, por favor, ainda não
é hora de querer lamentar a morte dele... Tenho aqui a
relação de todos os filhos de Três Forquilhas que não mais
voltarão”. O pastor mostrou à viúva um papel contendo os
nomes dos mortos.

A viúva saiu da igreja, insatisfeita e, onde podia,


reclamava, dizendo: - “O nosso pastor está ficando
insensível com a dor de uma pobre viúva...”.

Marcas e cicatrizes da guerra

O pastor Carlos Leopoldo Voges realizou um encontro


no templo reunindo os voluntários que haviam voltado da
guerra. O motivo principal era de organizar detalhes do
culto especial em Ação de Graças pelo final da guerra e pela
volta de diversos voluntários filhos desta Colônia.

Adolfo Felipe, o filho do pastor, estava postado junto


à porta principal de entrada do templo. Tinha nas mãos uma
folha com a relação dos voluntários. O primeiro a chegar foi
Carl Daniel Helbig que morava a 200 metros da igreja. Ele
fora o mais velho do grupo de voluntários e nascera na
Alemanha em 1824. Portanto estava agora com 48 anos de
idade. Ele havia sido o padrinho de batismo de dois dos
jovens soldados que com ele haviam seguido ao Paraguai.
Eram o Carl Daniel Gross e o Carl Daniel Dahl.

Helbig se mostrava desconsolado, pois o primeiro


dos afilhados ainda não regressara da Guerra e, o segundo,
o Dahl, regressara aleijado. Por isso demorou um instante
ao lado de Adolfo Felipe para comentar de sua lembrança do

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dia em que havia partido para a guerra e como alguns
amigos haviam feito brincadeira, dizendo: - “Você vai de
ama seca dos teus afilhados... Vê se cuida bem deles e os
traz de volta para nós...”.

Enquanto ele estava relembrando estes fatos foi


interrompido por alguém chegando e que disse: - “A
benção, padrinho!”. Era Carl Daniel Dahl que vinha
amparado numa muleta. O rosto dele e os braços estavam
marcados por muitas cicatrizes, de ferimentos recebidos em
combate. Locomovia-se com grande dificuldade, pois um
tiro o atingira na região inguinal, deixando-o sexualmente
impotente. Era visível no seu rosto que grande era o seu
trauma. Ele costumava dizer: - “Melhor teria sido que eu
tivesse ficado estendido, sem vida, lá no campo de
batalha”.

Da localidade de Três Pinheiros chegou, a cavalo, o


voluntário da pátria Cristiano Daniel Becker. O seu pai já
fora à Guerra Cisplatina e esse fato o motivara para
também seguir ao Paraguai. Em companhia do Becker
vinham também Carlos Frederico Kellermann e Carlos
Frederico Strassburg, dois primos-irmãos.

Chegaram também voluntários residentes na Boa


União, destacando-se o furriel Johann Heinrich Beck que
atuara no Serviço de Intendência do Exército. Em sua
companhia estavam Andreas Gehrmann, marcado por
cicatrizes dos muitos ferimentos recebidos e os irmãos
Sparremberger, O Johann Wilhelm, o Johann Carl, o
Heinrich e o Philipp que haviam atuado como artilheiros do
12º Regimento de Artilharia, o Boi de Botas, sob o comando
do General Emilio Luis Mallet, o Barão de Itapevi.

Finalmente foi chegando o veterano de guerra


August Sonntag, um imigrante brummer – prussiano -
agora já com 63 anos de idade. Ele não era das famílias

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desta Colônia, pois viera somente após o final da Guerra a
convite do pastor Voges para servir como professor na
escola da comunidade e em vias de ser efetivado como
professor da escola pública local.

Faltavam Carl Daniel Gross e Peter Feck que


constavam da relação dos sobreviventes, mas ainda não
haviam regressado ao lar. A família Feck estava feliz, pois
haviam sido notificados que Peter se encontrava em Porto
Alegre convalescendo no Hospital Militar. A informação
recebida dava conta que Peter Feck passara por sérios
contratempos, pois, por engano, fora incluído numa relação
de desertores quando na verdade passara por sérios
problemas de saúde advindos de ferimentos em combate.
Estivera entre a vida e a morte, numa enfermaria de
campanha, no Paraguai. Por este motivo ele decidiu
permanecer em Porto Alegre para colocar sua situação a
limpo e para receber o pagamento de soldos atrasados.

Os convidados, à medida que chegavam eram


conduzidos até os primeiros bancos, diante do altar. O
pastor cumprimentava um por um, para depois explicar: -
“Fiz este convite a vocês para juntos planejarmos um culto
solene, que oficiarei no próximo domingo, não só na
qualidade de pastor, mas um pastor que é cidadão
3
brasileiro” .

Em seguida Voges voltou a falar e perguntou: -


“Quem de vocês conseguiu trazer e tem uma farda militar?

Todos levantaram o braço confirmando que haviam


trazido a farda de gala com a qual, haviam desfilado em
Porto Alegre, para a festiva formatura pública, depois do
retorno ao torrão pátrio. Esta farda eles desejavam guardar
como lembrança da atuação como Voluntários da Pátria.

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O pastor foi concedendo detalhes sobre a liturgia do
culto de Ação de Graças, dos cânticos e do momento
memorial para os que pereceram na guerra. Voges disse: -
O meu filho Adolfo Felipe durante o nosso culto fará uma
chamada simbólica dos filhos desta Colônia que morreram
e, vocês, em conjunto, responderão < PRESENTE! >, pois
presentes em nossa memória, eles estarão, para sempre.

Estavam também presentes diversos ex-militares


prussianos, destacando-se Christian Tietboehl – regente do
coral e da banda – Wilhem Schmitt, entre outros. Diversos
ainda mantinham a farda de militar prussiano e combinaram
que também viriam fardados, para prestigiarem este culto
especial.

FIGURA 1: Os veteranos Brummer também decidiram vestir suas


velhas fardas e o capacete de agulha prussiano.
Fonte: Gravura dos arquivos do autor, 2010

Finalizada a reunião o pastor convidou todos, em


particular os 10 voluntários da pátria, para um café na casa
pastoral. Dona Elisabetha e Mãe Maria com muito carinho
haviam preparado a longa mesa que estava sempre ao
dispor no templo velho, e, agora, ornamentado com flores.
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
23
A conversa se prolongou por horas e invariavelmente
girava em torno dos companheiros que morreram na
guerra, das marcas e das cicatrizes, dos traumas e das
dores. Muitos rostos e braços estavam marcados pelas
cicatrizes e tantas outras marcas escondidas sob a roupa. O
mais tristonho de todos era Carl Daniel Dahl que ficara
“aleijado das partes”, como ele costumava dizer.

Ao cair da tarde, um a um ou em grupo, todos foram


se despedindo, para rumarem de volta aos seus lares.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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UM EMOTIVO CULTO DE LEMBRANÇA DOS
MORTOS

Finalmente raiou o dia tão esperado, do primeiro


domingo da primavera de 1871.

Famílias provenientes de todos os recantos da


Colônia vinham chegando ao templo. O recinto mostrou ser
pequeno para tanto povo. Além disso, os primeiros bancos
diante do altar estavam reservados para os soldados que
haviam retornado da guerra e que aguardavam na casa
pastoral para fazer uma entrada conjunta em companhia do
pastor, para o início do culto.

A Banda de Música regida pelo ex-militar prussiano


Christian Tietboehl estava colocada no lado de fora, junto à
porta de entrada do templo. O regente bem como diversos
integrantes estavam fardados, com seus vistosos dólmãs,
com botões dourados e reluzentes. Alguns estavam
espremidos dentro da farda que mais pareciam Dicke
Würste - lingüiças rechonchudas. Para estes a farda com
certeza já ficara apertada, fazia muitos anos...

Ao toque de uma marcha militar executada pela


banda, o pastor, o seu filho Adolfo Felipe fardado, e os
voluntários sobreviventes fizeram uma entrada solene. Os
veteranos estavam com o uniforme azul do Exército
Imperial, com seus dólmãs ostentando reluzentes botões
dourados.

Os acordes da banda cessaram quando o pastor


assomou o altar e fez-se um profundo silêncio.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Tratava-se de um culto bilíngüe, pois nem todos os
presentes entendiam a língua alemã. O pastor quebrou o
silêncio, declamando o salmo 76: A Majestade e o Poder de
Deus. Em seu sermão ele falou sobre o alívio que sobreveio
a todos com o final da guerra, ocorrido em março de 1870.
Falou sobre a volta dos 10 voluntários, ali sentados e de
mais dois Peter Feck e Carl Daniel Gross que ainda estavam
sendo aguardados ansiosamente, pelos familiares e pela
comunidade.

Chegou o momento mais emotivo da celebração. O


pastor disse: - “Vamos agora lembrar dos filhos que não
voltarão. Vamos fazer a chamada deles e vocês ouvirão
<PRESENTE!>, pois presentes estão e sempre estarão, em
nosso meio, em nossos corações e nas nossas mentes”.

Adolfo Felipe trajando o seu uniforme da Guarda


Nacional de São Leopoldo, agora já ostentando o posto de
major, passou a fazer a chamada solene. Inicialmente,
porém ele explicou: - “Quero aqui lembrar que eu mesmo
fui o encarregado de convocar, reunir e conduzir os
voluntários da pátria desta Colônia, para seguirem até Porto
Alegre, onde eles foram preparados e distribuídos nos
diferentes contingentes. Eu os entreguei ao Comandante
Militar da nossa Província. Agora, aqui estou, tocado por
uma forte emoção, para chamar em alta voz, o nome
daqueles que não voltaram”. Adolfo Felipe fez uma pausa
breve e continuou falando: - “Coronel João Niederauer
Sobrinho. Este não saiu daqui conosco, mas trata-se do
primeiro filho homem nascido nesta Colônia e que já estava
no Paraguai em combates, quando os nossos voluntários
daqui seguiram, para levar reforços. Niederauer tombou na
Batalha de Avaí, em 1868, aos 41 anos de idade. Chamo,
portanto o Coronel João Niederauer Sobrinho...”.

- “PRESENTE!”, ecoou a voz dos voluntários, em


uníssono.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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E, na sequência, o major Voges foi citando os demais
mortos na guerra: - “Tenente Johann Heinrich
Hoffmann, gravemente ferido em combate e que morreu
também aos 41 anos de idade. Philipp Peter Klein, morto
em combate aos 24 anos de idade. Carl Klein tombou na
batalha de Tuiuti aos 22 anos de idade. Christian Klein
morreu em combate aos 22 anos de idade. Philipp
Maschmann morreu em combate aos 24 anos de idade.
Johann Jacob Mauer, morto em combate aos 34 anos de
idade. Philipp Jacob Menger morto em combate aos 20
anos de idade. Michel Menger morto em combate aos 24
anos de idade. Friedrich Henze tombou na batalha de
Tuiuti aos 26 anos de idade.

Depois de cada nome citado os voluntários


presentes, em uníssono, diziam < PRESENTE >.

A Bandeira da Colônia de Três Forquilhas

Houve um fato que chamou particular atenção de


todos os presentes. Havia algo diferente, nunca antes visto.
Atrás do altar viam-se três bandeiras, no lado direito a
bandeira do Império, no lado esquerdo a bandeira da
Província e no centro uma bandeira desconhecida, pois
todos sabiam que não era a da Comarca de Conceição do
Arroio.

A curiosidade foi finalmente satisfeita quando, na


sequência do culto, o pastor chamou a sua esposa,
professora Elisabetha e Mãe Maria para recolherem a
bandeira da parede e trazê-la até mais perto, diante do
altar.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Enquanto elas seguravam o pano, o pastor passou a
explicar os motivos nela representados, dizendo:
“Apresento-vos, hoje, com satisfação a nossa bandeira da
Colônia de Três Forquilhas. Ela foi bordada nestes últimos
meses com a dedicação de minha esposa e mais Mãe Maria.
Ela é feita em pano de linho branco. O branco representa a
fraternidade, o entendimento entre as pessoas e entre
povos. Afinal, sabemos que o branco representa, acima de
tudo, a paz na terra, que todos almejamos. Vocês podem
também observar os símbolos constantes do brasão: - A
cruz branca plena simboliza a fé em Cristo. A trempe
lembra além da hospitalidade, o trabalho tropeiro e a
presença das mulheres. A guampa comprida, semelhante a
um berrante, simboliza o anúncio de um novo tempo para
todos nós, que desejamos participar ativamente da vida
política em nossa terra. A carreta lembra o trabalho árduo
dos colonos, que desde 1826 vem lutando pelo progresso
desta nossa Colônia de Três Forquilhas. E, finalmente, as
três lágrimas vermelhas, que lembram o sangue derramado
por filhos desta Colônia que participaram das três guerras,
da Cisplatina, dos Farrapos e do Paraguai, em sacrifício na
defesa do solo da nossa Pátria”.

Finalizada a apresentação da bandeira, a mesma foi


recolocada na parede, atrás do altar.

O culto continuou, com a execução de um cântico da


comunidade, sob a regência de Christian Mauer, com o
objetivo de preparar o público presente, para o sermão do
pastor que viria na sequência.

O sermão que calou na alma

Todos aguardavam ansiosos, pelo sermão do pastor.


Ele iniciou lendo as Bem Aventuranças, conforme o texto do

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Evangelho de Mateus 5, 3 – 12 e, depois, repetiu o versículo
9, falando lentamente: - “Bem aventurados os
pacificadores...”.

Para introduzir a reflexão ele procurou situar os seus


ouvintes, no motivo do culto e falou: - “Estamos reunidos
neste solene culto para lembrar, em particular, dos nossos
filhos mortos ou desaparecidos, da Guerra do Paraguai.
Decidi realizar uma cerimônia bem simples, conforme uma
situação destas recomenda, para não parecer que
alimentamos a vanglória. Uma guerra tem dois lados em
combate e, nos dois lados existe o horror de destruição e de
mutilações, de vidas humanas ceifadas e das relações entre
povos que ficaram estremecidas. Não vou aqui falar sobre a
necessidade ou validade das guerras. Um único motivo nos
chamou para cá. Desejamos lembrar dos nossos filhos
mortos e desaparecidos, colocando em destaque, em, nosso
meio, os filhos que puderam retornar ao lar... Filhos estes
que necessitam do nosso carinho, respeito e compreensão.
E, não posso esquecer dos familiares enlutados, que aqui
estão desconsolados, aguardando pelas nossas orações e
por palavras de consolo, em meio a tanta dor.

Somos seguidores de Jesus, nosso Senhor. E, como


tais, o nosso propósito é de vivermos confiantes no Seu
amor, desejosos por receber a orientação do Seu
Evangelho, para nos mantermos ao Seu Serviço. Esse é o
santo legado, vermächtnis: - Que sobre todo esse terrível
evento da guerra, sobre o sangue daqueles que foram
abatidos, os povos que estiveram envolvidos no conflito
possam voltar a se estender as mãos em gestos fraternos,
como filhos que todos são, do mesmo e único Pai de todos.
Sim, somente assim as bem-aventuranças que Jesus
pronunciou se estenderão sobre as nossas cabeças, em
especial o chamamento aos pacificadores, pois são eles, os
pacificadores, que são chamados de filhos de Deus.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Permitam que eu finalize com uma prece pedindo
que Jesus, nosso Senhor, queira colocar a Sua Paz em
nossos corações, nos corações de todos, seja aqui conosco,
ou seja, com o sofrido povo paraguaio. Somente assim o
nosso culto memorial pelos que tombaram nesta guerra se
transforma num Memorial das Consciências, “Mahnmal der
Gewissen”, para reconhecer que os nossos inimigos neste
confronto bélico, eram nossos irmãos... E, para que Deus
não nos acuse, como naquela hora em que ele inquiriu a
Caim, perguntando: < Caim, onde está o teu irmão Abel? O
sangue do teu irmão trucidado está clamando aos céus... >.

Um profundo silêncio se fez no recinto do templo. O


próprio pastor olhou em torno, sentindo este silêncio, e
prosseguiu: - “Os nossos irmãos paraguaios, nesta hora,
também estão chorando, com certeza... Estão chorando os
seus mortos e desaparecidos...

O luto paira, não somente sobre nós... O luto paira


igualmente sobre aqueles que foram os nossos inimigos
neste confronto bélico. Digo por isto: - < Que Deus tenha
piedade de nós e tenha piedade deles, dos paraguaios. Que
a aurora da paz de Deus volte a aparecer e venha a lançar
os seus raios de luz para dissipar as trevas, nas quais como
vulto nos movemos. Chocados por tanta morte e tanta dor,
necessitamos de consolo e de orientação de nosso Senhor
Jesus Cristo para prosseguir >.

Pastor Voges fez sinal para que todos levantassem


para a oração memorial.

Citou novamente cada soldado morto e os incluiu nas


preces de intercessão.

Muitos dos familiares enlutados foram tomados pelas


mais diferentes expressões de dor e pranto, desde gritos
histéricos de algumas mulheres, dentre as quais se

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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destacava a viúva Gross que pronunciava insistentemente o
nome do filho Carl Daniel Gross que ainda não retornara da
guerra. Mas também havia aqueles que no pranto
silencioso, choravam a sua dor...

Finalmente sobressaíram os acordes musicais da


banda.

O pastor e seu filho Adolfo Felipe foram até a porta


de saída, para se despedir das pessoas, à medida que
saíam. Aos poucos todos foram deixando o local e o silêncio
voltou a reinar no local.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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A CHEGADA DOS CINCO BAHIANOS

Justo no dia em que se realizara o culto solene em


memória dos filhos de Três Forquilhas mortos na guerra,
chegavam ao vale cinco desertores e que ficariam
conhecidos pelo apelido de bahianos.

Foi por questão de poucas horas que eles perderam


toda aquela movimentação do povo que estivera presente
ao culto.

Os baianos vieram devagar. Fazia horas que eles iam


pedindo informações aqui e ali, ao longo da estrada, no
rumo para a sede da Colônia de Três Forquilhas.
Perguntavam pelo major Adolfo Felipe Voges, o líder político
do lugar. Os cinco estavam além de sujos e empoeirados
também famintos e sedentos.

Quando chegaram ao endereço procurado, o major


Voges ainda se encontrava de farda, atrás do balcão,
conversando animadamente com alguns fregueses. Foi fácil
identificá-lo...

O líder do grupo conhecido por Bahiano Candinho


aproximou-se e em sinal de apresentação falou: - “Major,
quero apresentar-lhe o meu grupamento. Somos
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Voluntários da Pátria do Ceará que não aguentaram a
guerra... Escapamos dos campos de guerra, do Paraguai...
Se nos pegam vamos presos, pois foi declarado que somos
desertores...”.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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- “Quem vos indicou o meu nome?” - quis saber o
major.

- “Foi o Miguel Patrulha que era filho desta terra.


Nós, que fomos dos poucos cearenses que não morreram de
diarréia, de doença ou de frio, nós que sobramos com vida,
fomos incorporados à companhia do soldado Patrulha.
Lutamos lado a lado, até o dia em que ele caiu varado por
uma lança paraguaia...” Candinho indicando para outro
baiano postado ao lado explicou: - “Este aí é o Pedro, meu
irmão... Ele amparou o Miguel Patrulha na hora em que
morria... O moribundo ainda conseguiu recomendar que
procurássemos o Major Borges, da Colônia dos Alemães das
Três Forquilhas de Torres. Seguindo esta informação
chegamos até aqui...”.

Pedro Baiano deu um passo à frente e falou: - “O


Miguel Patrulha pediu para avisarmos o pai dele, chamado
João Patrulha... Senhor major, será que o senhor pode nos
dizer onde podemos encontrar esse tal João Patrulha, pai do
nosso companheiro morto?”.

Major Voges examinou detidamente os cinco


baianos. Teve uma boa impressão dos mesmos. Não
pareciam ser covardes e nem maus elementos. Por isso
ordenou: - “Vocês estão famintos e sedentos. Venham até o
galpão, aqui do lado de meu Armazém para lavarem o
rosto. Os meus peões vão servir uma refeição reforçada
para vocês. Depois veremos, com calma, o que vocês
farão...

Voges os deixou e foi até a sua residência para


trocar de roupa. Depois de passada meia hora voltou ao
galpão para atender os baianos que agora estavam com um
aspecto bem melhor, depois de alimentados e saciados. O
major foi inquirindo Candinho: - “Você falou que não
aguentaram a guerra e fugiram? Como foi isso?”.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Candinho explicou: - “Nós Voluntários da Pátria do
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Ceará sofremos muito no Paraguai . Vimos muitos dos
nossos morrendo de frio, de doença e de diarréia. Foi feio
de ver os nossos se finando, sem forças para viver. Não
aguentamos continuar vendo essa situação e decidimos
cuidar da nossa sobrevivência, pois não havia nem
comandante e nem médicos que nos pudessem ajudar ou
socorrer nessa penúria. Um dia daqueles quase no final da
guerra, fomos embora, por nossa conta... Chegamos aqui
para pedir a vossa acolhida, para que aqui possamos viver,
caso puderem nos aceitar... Apenas o Pedro tem um dever
a cumprir... Ele precisa procurar o João Patrulha, para dar o
recado do filho deste lugar, que morreu nos braços de meu
irmão...”.

Major Voges ordenou que Pedro e mais outros que


quisessem ir até a morada do João Patrulha, voltassem a
selar os cavalos, pois que no armazém estavam alguns
serranos que iriam seguir naquele rumo.

Vida nova para os cinco baianos

"Bahiano Candinho", o mais jovem dos cinco, é quem


mais falava. Ficou claro que ele exercia uma forte liderança
sobre os demais.

Candinho confidenciou ao Major Voges sobre a


situação deplorável em que se encontravam na condição de
desertores. Haviam fugido do campo de guerra e vieram se
escondendo nos matos, viajando mais à noite, com receio
de serem identificados por alguém. Acreditavam que nunca
mais poderiam retornar para a terra natal, onde agentes do
Imperador poderiam estar à espreita para prendê-los e

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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condená-los a 200 chibatadas ou até ao pelotão de
fuzilamento.

Candinho fez uma apresentação detalhada das


aptidões de cada um. Ele próprio era especialista em
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atafonas . Havia construído diversas atafonas, em sua terra
natal. O seu irmão era perito em fabricar farinha e sabia
lidar com gado. Já os primos José e João conheciam a lida
de engenho, no fabrico de açúcar mascavo, conforme a
prática nordestina. E finalmente, o Tonho, sabia fazer de
tudo um pouco, particularmente o fabrico de carne de sol,
de boa qualidade.

Major Voges avaliou as possibilidades de integração


dos baianos, na vida da Colônia. Diversas famílias haviam
perdido filhos nesta guerra. Os baianos bem que poderiam
preencher essa força de trabalho que os braços daqueles
teriam representado. Finalmente tomou uma decisão.
Ordenou que dois ou três deles fossem até o Josaphat, na
área da Serra do Pinto, para uma visita ao João Patrulha.
Este precisava saber detalhes sobre como o filho lutara e da
forma como morrera na guerra. Quanto ao "Bahiano
Candinho", para ele haveria um trabalho bem especial:
aperfeiçoar a atafona do patriarca e chefe espiritual da
Colônia, o pastor Voges - pai do Major.

Tonho imediatamente se dispôs a permanecer ao


lado de Candinho. Já Pedro, irmão de Candinho, prontificou-
se para seguir com os primos José e João até a morada de
João Patrulha, no Josaphat, pois havia presenciado a morte
do "Miguel" que, mortalmente ferido, amparado em seu
braço, pedira: - "Avise meu pai, nas Três Forquilhas de
Torres, que os paraguaios me vararam com uma lança".

Quando os baianos já saíam, o Major em tom de


pilhéria sugeriu: - "Temos diversas viúvas, na Colônia,
procurando por uma nova oportunidade de casamento. Se
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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os senhores tiverem mesmo o plano firme de aqui se
estabelecer e de viver com toda a dignidade, então nada
melhor do que servir de arrimo para alguma viúva,
necessitada de braço forte para cuidar de filhos, lavouras e
propriedade".

"Bahiano Candinho" deu uma forte gargalhada,


piscou um olho e acrescentou: - "Uma recomendação do
major é uma ordem para nós".

Os cinco saíram dali certos de que teriam


oportunidade para uma nova vida. Passaram a sonhar com
a vida de colono ou de dono de engenho, na Colônia Alemã
de Três Forquilhas.

Candinho e Tonho, hóspedes dos Becker

Os cinco baianos, saindo do armazém de Major


Voges, separaram-se em dois grupos. Pedro, João e José
subiram nas montarias, tomando o rumo do Baixo Josaphat
em companhia de alguns serranos, para uma visita
particular ao João Patrulha.

Candinho e Tonho mostraram-se indecisos. Que


rumo poderiam tomar? Saíram caminhando, puxando os
cavalos pelas rédeas. Talvez tivessem percorrido 100
metros quando tiveram a atenção despertada por um colono
que parecia estar enfrentando dificuldades. Tratava-se de
Jacob Becker que, sozinho, tentava consertar uma porteira.
Candinho ouvindo o colono, praguejando em língua alemã,
foi se achegando e finalmente ofereceu ajuda. O colono
ficou surpreso tanto com a gentileza bem como com o
sotaque do nordestino, mas sorriu, aceitando a ajuda dos
dois. Viu a porteira recolocada, rapidamente, no devido
lugar, pronta para o uso.

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Os três ficaram então "proseando". Candinho mesmo
encontrando dificuldade para se fazer entender explicou que
recém fora contratado pelo Major Voges para "dar uma
melhorada na atafona de pastor Voges". Havia, porém um
pequeno problema. Onde poderiam encontrar hospedagem?
Jacob Becker esclareceu que, nas proximidades,
não encontrariam nenhuma hospedagem. Mas, já que os
dois haveriam de fazer um trabalho para o pastor Voges,
então todo e qualquer colono haveria de dar-lhes acolhida.
Ofereceu a sua propriedade, caso os dois não
considerassem por ofensa a oferta para dormir nos galpões.

Esse encontro marcou a vida de Candinho e Tonho


nesse vínculo com a família Becker que se tornaria sólida.
Os dois baianos conheceram as irmãs de Jacob Becker,
filhas de Heinrich Becker e Maria Christina Gross. Uma era
viúva e outras duas, solteiras e cheias de amor para
oferecer, em busca do homem dos sonhos.

Emprego e casamento para Baiano Tonho

“Baiano Tonho” surpreendeu os quatro amigos


baianos, pois seria o primeiro a contrair matrimonio. Ele
fora apresentado por Jacob Becker a uma irmã, viúva, que
necessitava de um bom capataz ou um empregado, para
ajudá-la na administração e cuidados pelas lavouras e
propriedade agrícola.

A história dessa viúva era muito triste. Ela perdera o


marido de forma violenta, morto por um empregado. Um tal
de João Beriva aparecera na Colônia por volta de 1865 e
vivia de biscates, trabalhando ora aqui e ora ali. Tornara-se
um indesejado com fama de brigão. Carl Westphal apesar
dos conselhos de bons vizinhos decidira contratá-lo. Porém

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Beriva, já na primeira repreensão por causa de um serviço
mal feito, pedira briga. Westphal levou a pior. Foi retalhado
com golpes de facão. Isto ocorrera em 03.03.1870.

Maria Catharina Westphal, nascida Becker, já estava,


portanto a mais de um ano lutando com grandes
dificuldades, para cuidar das lavouras. Estava difícil
encontrar um bom peão e mais difícil ainda, de encontrar
um capataz competente para lidar com os peões. Quando
lhe foi apresentado o jovem “Baiano Tonho”, forte e
saudável, ela não teve dúvidas. O contratou de imediato,
pois lhe parecera um homem amável e trabalhador.

Maria Catharina ficara com sete filhos para criar.


Coragem não lhe faltava. Com a ajuda desse baiano, o
ânimo crescera, para novamente passar a produzir de tudo,
até moer cana no engenho. Em poucos dias “Baiano Tonho”
passara a morar sob o mesmo teto e logo em seguida a
dormir na mesma cama, com a viúva.

Quando ela constatou estar grávida, pediu o baiano


em casamento. Ela desejava que pastor Voges, lhes
concedesse uma benção, por mais simples que fosse
realizada na própria casa deles. O baiano concordou, com a
maior satisfação.

Pastor Voges atendeu a solicitação. Entretanto, nada


consta em seus registros, a respeito dessa união.
Possivelmente “Baiano Tonho” não tinha o menor interesse
para fornecer o seu nome verdadeiro, pois imaginava que
ainda estivesse sendo procurado pelo Exército Imperial do
Brasil, por causa da deserção dos campos de guerra, no
Paraguai.

Desta forma “Baiano Tonho” se tornara colono, na


sede da Colônia de Três Forquilhas, a aproximadamente 800
metros do templo protestante. Ele tornou-se benquisto por

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todos. Elogiavam o homem por ele ter assumido uma viúva
com sete filhos. Mas em breve ele teria seus próprios filhos
com a mulher.

O conceito dos baianos era bom, sendo vistos como


homens trabalhadores, honestos e cumpridores da palavra
empenhada.

Pedro Bahiano encontra um novo lar no


Josaphat

Os baianos, Pedro, João e José, cumprindo ordens do


Major Adolfo Felipe Voges, foram à procura da morada de
João Patrulha, no Josaphat. Grande foi o alvoroço quando
da chegada dos mesmos àquele destino.

O Velho Patrulha um serrano rude e “durão”, parecia


fraquejar diante da forte emoção, de que ficou acometido,
ao escutar o motivo da visita.

Façamos um pequeno parêntesis, para apresentar o


dono da casa: O seu nome verdadeiro era Johannes
Menger. Viera para aquela área no princípio da Revolução
Farroupilha, enviado pelo Tenente Coronel Francisco de
Paula Soares, integrando um grupo de soldados do Presídio
das Torres, para patrulhar os caminhos e as trilhas do
Josaphat, com a missão bem específica de dar um pouco
mais de segurança às eventuais caravanas de comerciantes
que, naquele período difícil entre 1835 e 1845, ainda
tiveram a coragem de viajar. João Patrulha ali conhecera
Maria Catharina Gross, filha de Jacob Gross, primeiro
morador de origem alemã do Baixo Josaphat.

João Patrulha e Maria Catharina tiveram apenas um


filho varão, o Miguel, que depois se apresentara como
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voluntário, para ir combater na Guerra do Paraguai. O casal
teve também cinco filhas. Haviam decidido fixar morada,
para sempre, naquele espaço tão ermo da Serra. João
Patrulha tornara-se líder político (maragato) da área,
vinculado ao Partido Liberal, sob o comando do Major Adolfo
Felipe Voges.

Vamos retomar novamente o relato sobre a chegada


de Pedro Bahiano ao Josaphat. Ele teve que contar,
repetidas vezes, a mesma história. Cada vez que ele
chegava ao ponto onde o soldado moribundo dizia - “Avise
o meu pai, nas Três Forquilhas de Torres, que os
paraguaios me vararam com uma lança”, o choro das
mulheres se intensificava. Eram os gritos de dor daquela
mãe que perdera, no Paraguai, o seu único filho varão,
fazendo eco com o forte choro das cinco filhas. E Pedro
Bahiano mostrava então o braço esquerdo, dizendo: - “Aqui
segurei o Miguel Patrulha, ferido de morte”.

Finalmente, João Patrulha bateu com o taco das


botas sobre o soalho, pedindo silêncio. Falou com voz forte
e firme: -“Bahiano, hoje você trouxe, de volta para nós, um
pouquinho do nosso filho Miguel. Por isto peço que você
fique em nossa casa. Quero que fique como se meu filho
fosse, já que o único que eu tinha, ficou sepultado lá no
Paraguai”.

Pedro Bahiano não tinha mesmo para onde ir.


Compreendeu que naquela hora a sorte estava sorrindo
para o seu lado, com uma oferta tão generosa de um novo
lar. Ele aceitou integrar-se à família Menger. Logo ficou
enamorado pela Margaretha Patrulha e casaram.

“Pedro Bahiano” declarou diante do sogro chamar-se


Pedro Jovêncio Maria. Entretanto, o seu nome verdadeiro
fora Pedro Pereira dos Santos, nascido na Província do

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Ceará, por volta de 1844, filho de José Pereira dos Santos e
Rosa Maria dos Santos.

Que rumo tomaram João Bahiano e José Bahiano?


Eles estiveram presentes, durante a visita ao João Patrulha,
em silêncio. O dono da casa, entretanto, em seguida os
encaminhou para a morada de vizinhos, onde também
pudessem receber um lar e trabalho

Os baianos João e José também acolhidos no


Josaphat

“Pedro Bahiano” parecia ser o mais feliz dos


baianos. Recebera o lugar de braço direito do “João
Patrulha”, assumindo a lida com a criação de gado, na
propriedade do sogro. Passou a sair na condução de tropas,
para negociar no mercado de animais de Vacaria. Alguns
fazendeiros aproveitavam esse serviço de tropeiro e
incluíam cabeças de gado para serem incluídas nos lotes e
conduzidas aos mercados mais próximos. A profissão de
tropeiro, na época, era bastante valorizada, concedendo aos
“chefes das tropeadas” um bom retorno financeiro.

Entretanto os primos de Pedro, o João e o José não


ficaram para trás. Também foram encaminhados para as
casas de vizinhos, de “Lipio Fatas” e de “Rico Treis”,
respectivamente. Vamos identificar agora esses dois
vizinhos:

“Lipio Fatas” era o Joachim Brusch, nascido em


1833, filho de Johann Phillip e Sofia Brusch, instalados com
criação de gado. Joachim em português é Joaquim. Ele
casara em 07.05.1853 com Sofia Gross, uma irmã da
esposa de “João Patrulha”. Portanto era, também, cunhado
de França e Jacob Gross. As filhas e filhos costumavam

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chamá-lo de “Lipio Fatas”. Os vizinhos e estranhos também
adotaram esse apelido, para identificá-lo. As filhas se
dirigiam ao pai, chamando-o de “Lieber Vater”, o que
significa “querido pai”.

7
João Bahiano . fez sociedade com “Felipe Fatas”, (o
filho primogênito de Joaquim). Passaram a se dedicar à
criação de gado, no Josaphat. “João Bahiano” se
apresentava como sendo João Rosa dos Santos, um nome
falso.

Quanto ao José Bahiano, ele foi encaminhado para a


morada de “Rico Treis”. Tratava-se de Heinrich Louis
Georg Triesch. Os nomes tão complicados é que levaram o
povo serrano a dar apelido aos imigrantes alemães e seus
descendentes. Simplesmente não conseguiam guardar na
memória e muito menos ainda de pronunciar tais nomes ou
sobrenomes.

“Rico Treis” era casado com Catharina Fuhr e tivera


7 filhas e 3 filhos. As filhas “Teia”, “Jacoba”, “Bina” e
“Barba” ainda bem jovens foram autorizadas pelos pais a
fazer companhia aos irmãos na lida com o gado e na
condução de tropas, pelos caminhos da Serra, rumo ao
mercado de Vacaria. Eram, portanto “tropeiras” que
cuidavam do preparo da comida, durante as andanças. Por
isto, sempre conduziam “cargueiros” (mulas) carregados
com trempes, panelas, chaleiras, charque, farinha, cuias e
erva-mate.

“José Bahiano” se apresentava como sendo José


Rosa dos Santos, um irmão de “João Bahiano”. Ele se uniu
8
com “Bina Treis” ou Maria Felisbina Triesch, nascida em
1848, filha do “Rico”).

Os dois baianos João e José eram peritos no trabalho


de castração de animais. Passaram a prestar seus serviços
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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aos fazendeiros da Serra e até mesmo para os colonos de
Três Forquilhas. Viajavam munidos de instrumentos como a
marreta de madeira, creolina e um preparado especial, uma
pomada, feito com ervas e unto de porco, para tratar de
eventuais feridas que fossem causadas durante o processo
da castração de um animal.

A fama de Baiano Candinho

Com grande rapidez espalhou-se, através de toda a


Colônia de Três Forquilhas, a fama de valente, do recém
chegado "Bahiano Candinho".

O seu companheiro Tonho é quem contava histórias


9
sobre a bravura dos soldados nordestinos, nos combates
no Paraguai. Invariavelmente destacava a força e a
coragem do amigo. Nos combates corpo a corpo é que
Candinho teria mostrado a maior bravura. Com grande
agilidade soubera enfrentar até quatro ou cinco inimigos, de
uma só vez. Usava de preferência sua arma predileta,
trazida do sertão do Ceará: - "um facão que mais parecia
um espadão". Ele ia logo "abrindo uma clareira ao seu
derredor", fazendo o inimigo recuar, em busca de refúgio,
para escapar do massacre. Destacou que Candinho parecia
ter o corpo fechado a tudo, fossem lanças, tiros ou golpes
de espada. Nada conseguira ferí-lo.

Além dessas histórias, espalhou-se também a


novidade que dava destaque para outra de suas qualidades.
Passou a ser conhecido como sendo "mestre de atafonas".
Poucos colonos possuíam uma atafona. Por isto, essa
habilidade não significava um real potencial para prestar
serviços a alguém e muito menos para garantir-lhe o
sustento. Serviu, porém para conceder-lhe um particular
prestígio diante do líder espiritual da Colônia, o pastor
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
43
Carlos Leopoldo Voges. Durante diversas semanas Candinho
esteve trabalhando na reforma daquela atafona. Não só
aperfeiçoou o funcionamento da mesma como ainda ensinou
aos peões atafoneiros, da casa do pastor, a maneira correta
de fabricar uma farinha de mandioca da melhor qualidade.

FIGURA 2: A velha atafona

FIGURA 3: O cevador

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
44
O contato de Candinho com o dia-a-dia da casa
pastoral trouxe um toque sensível para a sua alma de
sertanejo, de grande religiosidade. Não só passou a admirar
o pastor, mas também a alimentar uma verdadeira
veneração pelo carismático patriarca e líder espiritual dos
colonos.

Sempre que convidado para fazer alguma das


refeições na casa pastoral, ele fazia menção de beijar a
mão do pastor. Voges, porém com rapidez elevava a mão
até a cabeça de Candinho e dizia: - "Deus o abençoe!".

Candinho costumava confidenciar aos amigos: -


“Nunca esquecerei que meu primeiro dinheiro ganho aqui,
10 11
veio da algibeira deste padre dos lemôns ”.

Tonho e Baianho Candinho seguiram caminhos


diferentes. O primeiro se unira apressadamente com a viúva
Maria Catharina Becker, assumindo a vida pacata e recatada
de colono dedicado à família e ao trabalho da lavoura. Já o
Candinho não demonstrava nenhuma pressa para
"enrabichar-se" de forma definitiva, com alguma mulher da
Colônia.

Quando da chegada à Colônia, ele teve um breve


romance com "Tedéia Beca" (Maria Dorothea Becker), uma
das irmãs de Jacob Becker, mas não resultou
em casamento. Ele voltava para encontrá-la vez ou outra,
mas, teve, ao mesmo tempo, diversas outras mulheres.

Candinho preferiu manter-se livre e


descomprometido, não perdendo festas e nem bailes das
redondezas.

Espalhou-se o comentário de que inúmeras viúvas e


também moças solteiras da Colônia Alemã de Três
Forquilhas suspiravam ao ouvir o seu nome e, mais ainda
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
45
ao conseguirem ver o próprio Candinho, muitas delas
sonhando casar-se com ele.

A VOLTA DE PETER FECK

Ninguém consegue imaginar tudo o que se passa no


íntimo e na mente de quem sobrevive a graves ferimentos
em combates numa guerra. O tempo de tratamento e
convalescença é, sem dúvida, um valioso tempo de reflexão
e de preparação para o dia do retorno ao lar.

Peter Feck depois de muitos meses baixado no


hospital militar de Porto Alegre e depois mais outros tantos
meses morando na vizinhança da Capital, em casa de
amigos que também retornaram da guerra, não podia se
afastar da região, pois precisava colocar em ordem a sua
situação junto ao Exército. Por algum engano ocorrido no
Paraguai, seu nome constava do rol de desertores. Essa
situação precisava ser esclarecida para habilitá-lo a receber
os soldos atrasados, para regularizar sua situação
financeira. Peter foi por algumas semanas, visitar amigos,
ex-combatentes residentes em Taquara, em Rolante e São
Sebastião do Caí. No vale do Caí conheceu uma mulher,
com a qual teve um breve romance. Mais tarde as más
línguas diriam que ele deixara um filho para trás.

Peter Feck teve êxito e todas as pendências


finalmente foram solucionadas. Seu nome voltara a constar
do rol dos valorosos ex-combatentes. Peter Feck saiu de
Porto Alegre montado num belo cavalo que ele adquirira,
trajando a sua farda de gala, azul, e a calça branca, de
soldado do Exército Imperial. Chegou ao vale do rio Três
Forquilhas todo garboso, peito estufado, com os botões
metálicos de seu dólmã jogando reflexos quando em
contato com os raios de sol.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Peter estava muito feliz... Vez ou outra apalpava sua
bolsa de dinheiro, recheada de moedas sonantes,
provenientes de soldos atrasados.

Chegando perto de sua morada, na altura do Sítio da


Figueira esporeou o animal e se pôs a galope, batendo com
o quepe nas ancas do animal.

O cavaleiro entrou pátio adentro e fez o cavalo


estacar de repente, levantado torrões de terra e poeira. Os
cachorros fugiram ganindo e as galinhas entraram pelo
bananal próximo, cacarejando. A casa parecia deserta, mais
se assemelhava a uma tapera. Chamou algumas vezes
pelos familiares. Finalmente apareceu um menino,
assustado, espiando pelo canto do galpão. Era o sobrinho
Pedrinho filho de sua mana caçula, casada com o sapateiro
Serafim Flor da Silva. O menino ficava mais tempo com os
avós já idosos, que já passavam dos 60 anos de idade para
dar-lhes companhia. O recém chegado perguntou: - “Onde
estão meu pai e minha mãe?”.

O menino prontamente respondeu: - “Estão na


lavoura. Me deixaram aqui para dar atenção aos porquinhos
nascidos faz poucos dias. São onze porquinhos e como
sabes a porca só tem dez tetas. Preciso cuidar para que
todos eles encontrem o alimento que necessitam...”.

Peter deu uma sonora gargalhada e comentou: -


“Vivendo e aprendendo. Esse assunto é bom: - a porca tem
só dez tetas, mas é capaz de gerar mais de dez porquinhos.
É uma bela história que haverei de aproveitar no futuro...”.

Peter esporeou o cavalo e seguiu pela trilha da roça


à procura dos pais. Estava ansioso para abraçá-los. Grande
foi a alegria dos velhos. Voltaram abraçados ao filho
desejosos de escutar as histórias que ele teria para contar.
E Peter era um bom contador de histórias. Ele costumava

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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destacar que o fato mais marcante na guerra fora a fome.
Certa vez chegara a roer couro e comer ervas, para aliviar a
dor, causada pela fome. Dizia também que tantas vezes
pensava ter que morrer de fome, tendo o alimento bem
próximo. Eram reses paraguaias soltas no campo. Todavia,
os combates impediam uma trégua adequada para o abate
de um animal e consequente churrascada. Lembrava que
passou a ter raiva dos paraguaios, pelas dezenas de vezes
que investiam, exatamente na hora da refeição. Na hora de
carneação ou na hora de descansar, vinha o toque de
avançar ou atacar, para repelir o inimigo.

Pedro Feck tornou-se um personagem central das


Três Forquilhas, visto como um homem corajoso. Era o
convidado especial nas comemorações de datas / cívicas.
Diziam que a campanha do Paraguai o transformara em um
homem muito resoluto, capaz de defender os interesses da
Colônia, diante das autoridades. Tinha que ir
constantemente a Conceição do Arroio (Osório), fazendo a
vez de advogado, para defender diante das autoridades os
anseios de algum colono.

Contam que certa feita estava ele em Osório, por


causa de uma questão de terras. Chegado a um
restaurante, onde trataria do problema, encontrou os
servidores da justiça, almoçando. Ele estava sem refeição
desde o desjejum, que fora em plena madrugada. Ninguém,
porém o convidara para reunir-se a mesa. Finalmente um
dos chefes dirigiu-lhe a palavra, querendo saber: - "Quais
são as novidades em Três Forquilhas?". Ele então
respondeu: - "Uma porca deu cria, concebendo 11 filhotes".
Alguém junto à mesa, que entendia de lavoura e de criação,
concluiu: - "Mas isto é grave. Com certeza um vai morrer de
fome?" E Pedro Feck teria então completado, dizendo: -
Com certeza. “O coitado é como eu". Houve uma gostosa
gargalhada. Foram dadas ordens: - "Tragam mais uma
cadeira!

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Foi servido então do bom e do melhor para o esperto
veterano da Guerra do Paraguai.
O RETORNO DO “PARAGUAIO GROSS”

Muitas surpresas estiveram reservadas para o povo


do vale do rio Três Forquilhas, com a chegada dos
sobreviventes da guerra. O último a voltar, o veterano Carl
Daniel Gross, foi, certamente, quem causou o maior
impacto, pois já fora tido como morto até pela própria mãe.

A Colônia viu-se surpreendida com a notícia que


“Paraguaio Gross” voltara. O que mais chamara a atenção é
que ele viera com uma índia paraguaia na garupa de
Hidalgo, o seu belo cavalo paraguaio. Uma jovem mulher de
cabelos negros e longos, trajando um vestido colorido e um
lenço de seda esvoaçando ao vento.

FIGURA 4: O Paraguaio Gross com uma Índia Paraguaia


Fonte: Gravura dos arquivos do autor, 2010

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Nas casas comerciais era repetida a história: - “A
mulher veio na garupa. Com uma mão ela se segurava na
cintura do cavaleiro e com a outra segurava uma corda
puxando uma égua chamada Milonga carregada com
mochilas e pertences que a índia fizera questão de trazer
consigo. Ao lado de Hidalgo e Milonga vinha Valente, um
cachorro velho, marcado por muitas cicatrizes colhidas
durante os combates. Vallente vinha com a língua
pendente, estropiado, parecendo sentir o rigor da longa
jornada. Mas era um cachorro fiel, que se dedicara ao dono,
e não quisera ficar para trás”.

Grande foi a confusão na propriedade dos Gross,


quando este casal entrou porteira adentro. Foi muita
correria, gente vindo de dentro da casa e dos galpões para
ver o espetáculo. Crianças, mulheres, homens e peões
falavam todos ao mesmo tempo, enquanto a cachorrada
latia sem parar vendo aquele cão intruso e desconhecido se
esgueirando e finalmente, Valente se larga exausto, sobre o
gramado.

A mãe idosa e chorosa foi a primeira a reconhecer o


filho e gritou: - “É ele!”. Em seguida ela colocou-se de
joelhos, levantou os olhos aos céus e clamou: - “Obrigado,
meu Pai do Céu, pois hoje me devolves com vida o filho que
eu pensara que estava morto”.

O jovem fardado apeou do animal, ajudou a sua


companheira a descer também, entregou as rédeas para um
peão e aproximou-se de mão estendida para a mãe,
fazendo-a levantar-se do solo. A velha chorava agora com
lágrimas soltas. Abraçou longamente o filho até que, de
repente, volveu os olhos para a índia paraguaia que com ele
chegara.

- “Quem é essa! - quis ela saber.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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E o filho tomado pela emoção falou: - “Esta é um
anjo dos céus que me livrou da morte, quando eu estava
estirado no campo de batalha de Avaí”.

A mãe foi até a índia, tomou-a carinhosamente pela


mão e a beijou no rosto.

- “Venha, vamos entrar em casa” - disse a viúva,


tentando estabelecer um diálogo. Mas a índia só dominava
bem a língua guarani e um pouco do castelhano. A língua
portuguesa lhe era ainda estranha e muito mais ainda a
língua alemã, que a velha utilizava para falar.

Carl Daniel pegou então a índia pelo braço e a


conduziu delicadamente para dentro de casa. Antes de
passar pelo umbral da porta ele gritou ainda para os
familiares e peões reunidos no pátio: - “Parem com essa
zoeira, que depois de um bom descanso, volto para contar
sobre tudo o que vivi e sofri nestes tempos de guerra, no
Paraguai”.

Gross, ferido gravemente na Batalha de Avaí

Carlos Daniel Gross, depois de descansar, contou e


voltou a repetir inúmeras vezes à história de como fora
ferido gravemente a batalha de Avaí. Relatou que, mesmo
socorrido pela índia paraguaia, estivera por diversos dias
entre a vida e a morte.

Carl Daniel teve que contar detalhes sobre a longa


guerra. Falou dos combates dos quais participou, Atuara na
Cavalaria comandada pelo General Osório e sob as ordens
diretas do Coronel João Niederauer Sobrinho, e dizia: -
“Acredito que o combate mais difícil foi o de Itororó,
ocorrido no dia 6 de dezembro de 1868, quando o próprio

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Duque de Caxias, o chefe de todas as nossas forças estava
ali conosco. Depois de investidas repetidas de nossos
soldados, sem êxito, ele mesmo, o Duque em pessoa, o que
ele fez? Ele tomou a frente e comandou a investida decisiva
para nos dar a vitória...”.

Carlos Daniel Gross relatou detalhes sobre aquela


que viria a ser a sua última batalha, em Avaí: - “Integrei
um dos esquadrões, que recebeu a missão de flanquear a
posição paraguaia. Foi uma investida frustrada, na qual
muitos ficaram fora de combate, feridos ou mortos,
atingidos por canhonaços ou subjugados a golpes de lança.
O terreno ficou juncado de feridos e de cadáveres de
soldados brasileiros...”.

Gross continua o seu relato: “Fui abatido por


lançaços e, fiquei estirado num ponto distante, numa curva
da estrada, por onde havíamos tentado flanquear os
paraguaios. Não conseguimos surpreendê-los. Quase todos
os companheiros do meu pelotão estavam mortos. E eu,
estava numa terrível agonia entre a vida e a morte... O
ruído dos combates cessara, finalmente... O silêncio
incomodava... Ouvi então o trotear de dois cavalos.
Vislumbrei a figura do meu comandante, o Coronel João
Niederauer, acompanhado por dois ajudantes de ordens,
avançando e parando para escutar, examinando os corpos
inertes, em busca de algum ferido e sobrevivente... Vi
quando um soldado paraguaio ferido foi se arrastando por
entre os arbustos, à espreita do meu coronel... Tentei me
mexer e não consegui... Tentei gritar para alertar o
comandante, mas a voz permaneceu presa em minha
garganta... O coronel continuou avançando e quando estava
a dez passos do paraguaio escondido, este saltou
repentinamente por entre os arbustos e reunindo as forças
arremessou uma lança contra o chefe... O coronel foi
surpreendido... Não conseguiu nem esboçar um gesto
sequer para se desviar da lança. A mesma o atingiu, um

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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pouco abaixo da fivela perfurando-lhe o ventre. Em reação
imediata um dos acompanhantes do nosso comandante,
abateu o paraguaio com um tiro certeiro no coração.
Somente meses mais tarde eu soube que a ferida no ventre
de Niederauer foi muito grave e que ele veio há morrer três
dias depois...”.

A curiosidade dos ouvintes era grande. Ninguém


falava. Todos escutavam com muita atenção. E Gross
continuou no relato a respeito da emboscada em que o seu
chefe fora abatido: - “Em poucos minutos surgiram, à
galope, diversos soldados brasileiros, alertados pelo tiro.
Deviam estar preocupados em levar auxílio e proteção ao
chefe e comandante. Vi toda a movimentação que se
seguiu... Vi que transportaram o nosso comandante ferido,
às pressas. em busca de socorro médico... Tentei
novamente me mexer, tentei gritar para dizer que eu
também necessitava de ajuda urgente, mas meu corpo não
me obedeceu...”.

Gross contou que pareceu uma eternidade o tempo


que em ele ficou ali entre momentos de lucidez, de torpor e
de inconsciência. Em certo momento sentiu a língua quente
de Valente, o seu cachorro, que em lambidas suaves nas
faces tentava reanimá-lo... Afinal este fiel amigo também
estava com feridas feias, na cabeça e na paleta, mas não
morrera... Algum paraguaio com certeza acertara Valente
com pontaços de lança ou com bordoadas, mas ele resistira
aos ferimentos.

Gross contou que Valente ajudara para que se


reanimasse um pouco, mas não conseguiu se mexer. Estava
com muita sede e passou a sentir fortes dores, proveniente
de alguns ferimentos mais profundos, em seu peito. Em
determinado momento notou o vulto de uma pessoa se
esgueirando por entre os arbustos... Imaginou que poderia
ser um paraguaio ferido, sobrevivente do combate...

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Valente começou a rosnar. A pessoa ficou parada por um
instante, mas logo passou a se aproximar novamente, para
examinar o corpo ali estendido. Por algum motivo o
cachorro foi se aquietando permitindo que a pessoa
chegasse até o ferido.

Gross contou que viu então nitidamente o rosto de


uma mulher, uma mulher bem jovem, cabelos longos e
pretos e as feições de índia paraguaia. Ela estava ali
percorrendo o campo de batalha à procura de seu pai e seus
irmãos, que ela temia, podiam estar feridos ou até entre os
mortos.

E Gross enfatizou: - “A índia colocou-se ao lado do


meu corpo e me examinou atentamente. Ela notou que eu
ainda respirava... Ela me contou mais tarde, que eu
gemia... Ela não falava nossa língua, apenas um pouco do
espanhol além da língua materna dela, a língua dos índios
guaranis...”. Gross continuou falando: - “Ela afastou-se um
pouco do local onde eu estava deitado e deu um assovio
insistente e contínuo, como para dar um sinal para alguém.
Não demorou muito apareceu ali um menino de uns 14 ou
15 anos de idade, segurando um cavalo pela rédea. A índia
falou na língua guarani, dando ordens ao menino. Este
olhou inicialmente assustado para mim, mas obedeceu.
Pegou um facão que estava nas mãos de um paraguaio
morto e veio caminhando... Passou perto de mim e seguiu
até um arbusto mais alto... cortou dois fortes galhos,
trazendo-os para a irmã. Esta depois de tirar dois casacos
de paraguaios mortos improvisou uma padiola. Em seguida
me colocou sobre a mesma, fixou uma ponta dessa maca
improvisada, na sela do cavalo com o objetivo de me
arrastar com cuidado... Ela tomou a direção da estância da
família...”.

Gross contou que por diversos dias ele permaneceu


entre a vida e a morte, delirando, com febre e convulsões.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Nas horas de lucidez ele chamava pela mãe. Pedia que ela
viesse para ajudar e aliviar as dores e tratar das feridas
infeccionadas. Ele guardara na memória aquele vulto de
mulher, que cuidava das feridas, e lhe dava xaropadas de
ervas medicinais. Aos poucos o seu organismo reagiu e foi
melhorando...

Contou que quando a jovem constatou que Gross já


apresentava condições para montar ela decidira conduzi-lo
até o acampamento brasileiro mais próximo.

Gross finalizou: - “Grande foi a surpresa de todos, no


Hospital de Campanha do nosso Exército, vendo uma índia
paraguaia trazendo um inimigo ferido, para ser socorrido
por eles. Permitiram que ela continuasse ao meu lado,
enquanto eu podia me restabelecer e convalescer das
graves feridas...”.

Abela Delore apreciava cavalos

Carl Daniel Gross, quando ainda no Paraguai,


enquanto fazia planos sobre o seu retorno ao Brasil, ouviu
que Abela e seu irmãozinho desejavam acompanhá-lo.
Recebeu a notícia com satisfação, pois que ele se afeiçoara
muito à paraguaia e dizia a si mesmo: - “Ela me salvou da
morte e tem cuidado de mim com tanto desvelo, de modos
que minha vida agora lhe pertence. Já nem sei mais o que
seria viver sem ela... Será isso amor?”.

Quando começaram a fazer os preparativos para a


viagem ao Brasil, Abela sugeriu que levassem alguns
cavalos que seu pai e seus irmãos haviam escondido em
lugar seguro.

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Os antepassados de Abela haviam sido estancieiros
prósperos, dedicado à criação de cavalos. A mãe de Abela
morrera no princípio da guerra. Em seguida, o pai e os
irmãos foram convocados para se apresentarem ao Exército
de Solano Lopes. Antes de partir, o pai, comunicou que os
cavalos da estância haviam sido requisitados pelo exército.
Assim sendo ele teria que levá-los. Porém esconderia alguns
animais. Ele escolheu o seu cavalo predileto, chamado por
Hidalgo. E o filho primogênito do estancieiro, tinha uma
égua muito linda, chamada Milonga; também desejava
preservá-la para com ela iniciar uma nova manada, no
futuro, quando terminada a guerra. Os demais irmãos
apartaram mais quatro éguas, escondendo todos esses
animais num refúgio de uma invernada de difícil acesso, em
meio aos morros.

Quando Abela e o irmãozinho, apelidado de Pepito


decidiram acompanhar Gross, foram buscar esses animais,
para levá-los para iniciar uma manada na nova terra.

A viagem ao Brasil foi muito lenta... Gross precisava


fazer paradas demoradas para descansar, uma vez que o
seu corpo ainda estava fraco, pois que se encontrava em
estado de pós-convalescença.

Chegando a Santa Maria, Pepito começou a ficar


intranqüilo. Falou para a irmã de que não estava gostando
das terras brasileiras e desejava retornar para a sua
estância, no Paraguai.

Gross e Abela falaram e insistiram que ele os


acompanhasse até o vale do rio Três Forquilhas, mas não
havia argumento que o convencesse. Vendo que nada o
fazia mudar de idéia, Gross então sugeriu que vendessem
três das éguas para que o menino tivesse um mínimo de
recursos para cuidar de sua sobrevivência. A irmã ensinou-o
de como devia proceder para que ninguém desconfiasse que

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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ele estivesse com tantas moedas. Devia portar um
pouquinho de dinheiro, de modo visível, acondicionado num
saquinho pendurado na cintura. As demais moedas deviam
ser mantidas escondidas, dentro do alforje, preso debaixo
do pelego.

Quando o menino se despediu, Abela caiu em


prantos. Chorando sempre, abraçou Pepito, rogando a Deus
para que o protegesse no retorno e no futuro. O último elo
de sangue, da família Delore, estava se rompendo e Carlos
Daniel Gross ficou parado, olhando compadecido, sem nada
poder fazer ou dizer, para consolar Abela.

A viagem rumo à Colônia de Três Forquilhas foi


retomada.

Gross vendo a tristeza de Abela, perguntava


tentando falar em espanhol: - “¿Qué sucede en tu
mente?”.

E ela sempre concedia uma e mesma resposta: -


“Mis pensamientos están con Pepito, mi pequeño hermano”.

Gross aproximava-se de Abela em silêncio e a


enlaçava com seus braços, demoradamente, pois não tinha
outro remédio para oferecer.

Finalmente chegaram a Três Forquilhas, conforme já


tivemos a oportunidade de relatar.

Assim que Carlos Daniel se recompôs da longa


jornada, passou a cuidar de detalhes para organizarem a
vida e principalmente para logo iniciarem a criação de
cavalos. Haveria de adquirir mais algumas éguas, para
compensar a perda daquelas que ele vendera em Santa
Maria no propósito de ajudar Pepito.

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Abela gostava de cavalos e da lida diária para cuidar
deles. O que mais satisfação lhe trazia era de ajudar uma
égua prenha na hora do parto e depois, de cuidar daquela
cria nova, para vê-la saltitar e se desenvolver.

Carl Daniel mandou construir um galpão novo com


dois estábulos. Pediu a ajuda de todos os seus familiares da
numerosa família Gross bem como o apoio dos cunhados.
12
Era costume, na época, haver um mutirão , cada vez que
alguém construía uma casa ou galpões, fato que
representava uma grande economia, sem a necessidade de
pagar pela mão de obra. Assim não faltaram braços nas
diferentes frentes de trabalho que foram organizadas.

Paraguaio Gross dá emprego ao Baiano


Candinho

Os irmãos Johann Philipp Gross e Wilhelm Gross


moravam nas mesmas terras que haviam pertencido ao pai
deles, o imigrante e carpinteiro Philipp Peter Gross. Por este
motivo os dois foram os primeiros voluntários e os mais
dispostos para ajudar o irmão que ao retornar recebera o
apelido de Paraguaio Gross.

Os cunhados também não queriam ficar para trás. O


velho João Patrulha Menger, casado com a Maria Catharina
Gross mandou seu genro Pedro Baiano para prestar ajuda.
O cunhado Martin Brehm, um ex-militar prussiano, casado
com a Anna Magdalena Gross veio pessoalmente da Boa
União disposto a dedicar uma ou duas semanas de trabalho,
caso fosse preciso. Da localidade conhecida por Bananeiras
veio o cunhado Joachim Brusch que era casado com a Sofia
Gross. Da localidade de Morro do Chapéu que ficava ali
pertinho, veio Carl Rieckroth outro ex-militar prussiano,
casado com a Catharina Elisabeth Gross. Da sede da Colônia
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veio o sobrinho Jacob Becker, filho da Maria Elisabetha
Gross e Heinrich Becker. Este sobrinho trouxe diversas e
boas ferramentas para ajudar no trabalho. No entanto, a
ajuda mais preciosa certamente foi oferecida pelo cunhado
e competente mestre pedreiro açoriano José Pereira de
Souza, casado com Maria Cristina Gross.

Os vizinhos passaram a fazer comentários de humor


e de brincadeira, dizendo: - “Homem que quer casar precisa
ter casa. E você paraguaio, com tantos braços ajudando,
logo poderá casar...”. Faziam então referência aos
comentários que corriam através de toda a Colônia de que o
Paraguaio Gross até já tinha a data de casamento marcada
com o pastor Voges.

A verdade é que Gross realmente tinha pressa para


casar com a índia paraguaia Abela Delore que lhe salvara a
vida. Desejava deixar a propriedade bem organizada, até o
dia do casamento. Um problema aparentemente simples
estava lhe tirando o sono. Dizia que não encontrava um
capataz competente em condições de comandar os peões
que ele contratara. Conversando sobre a preocupação com
o sobrinho Jacob Becker este tranqüilizou o tio Paraguaio e
sugeriu: - “Por que o tio não contrata o Baiano Candinho?
Esse homem é de bom caráter, muito trabalhador e sabe
ser enérgico, quando necessário. Tenho certeza que esse
Baiano tem tudo para ser um bom capataz...”.

Paraguaio Gross entendeu que valia a pena verificar


essa possibilidade e cavalgou até a sede da Colônia para
procurar pelo Candinho. Sabia que o mesmo ainda estava
hospedado no galpão dos Becker.

Conversa vai e conversa vem, o Paraguaio lança uma


proposta: - “Preciso de um bom capataz para comandar os
peões que contratei. Estou disposto a pagar bem. Preciso
com toda a urgência que seja feita uma cerca de taipa de

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pedra num trecho de minha propriedade, para demarcar o
meu potreiro e pastagens. Abela e eu pretendemos nos
dedicar à criação de cavalos. Trouxemos um bom
reprodutor, do Paraguai, o Hidalgo que foi o garanhão
predileto do pai de minha noiva. Trouxemos também uma
bela égua, a Milonga. Preciso conseguir mais algumas
éguas... Meu irmão França me prometeu uma, que ele tem
nos pastos ali no Baixo Josaphat. Teu irmão o Pedro Baiano
também ficou de conseguir um bom animal, em Vacaria, na
próxima tropeada quando ele irá até Vacaria, do cima da
Serra.

Baiano Candinho surpreendeu quando prontamente


respondeu: - “Aceito o emprego de bom grado, pois, afinal,
preciso com urgência ganhar dinheiro, para também
organizar a minha vida. Além disso, gosto muito de cavalos
e poderei dar-lhe apoio. Também sou um mestre para fazer
cercas de taipa de pedra. Me comprometo a ser o seu
capataz por 12 meses, pois não quero ficar amarrado num
compromisso por muito tempo. Amo a liberdade, para me
governar... E preciso de liberdade”.

Na mesma hora Candinho juntou seus poucos


pertences, selou o cavalo e acompanhou Paraguaio Gross.
Ele, no entanto, não disse, por mera discrição, que estava
desejoso para distanciar-se um pouco mais da propriedade
dos amigos Becker que tanto já o haviam ajudado. A Tedéia
Becker, irmã de Jacob, estava dando em cima de Candinho
desejosa para casar. E ele não queria ainda um
relacionamento sério e muito menos um casamento.

Quando Candinho se encontrava com o seu mano


Pedro, ele costumava desabafar: - “Tenho dó do primo
Tonho Baiano que casou com aquela viúva com a casa cheia
de filhos, aquela irmã de Tedéia. Já descobri que essas
mulheres Becker prendem demais os seus homens. Veja o
coitado do Tonho que é obrigado a ficar na lavoura desde o

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
60
amanhecer até a noite chegar. Isso não é uma escravidão?
Eu quero mais é liberdade. Não quero mulher que queira me
ditar ordens ou me impor algum tipo de trabalho”.

Pedro Baiano concordava e respondia: - “Eu é que


sou um homem de sorte e feliz. Tenho toda a liberdade que
poderia querer, pois sou um tropeiro igual ao meu sogro
João Patrulha Menger. Quando canso de ficar em casa,
surge uma tropeda até Vacaria e às vezes para Passo Fundo
e Cruz Alta. Ficamos durante semanas nos campos e pelas
estradas. Quando volto sei que a prisão de minha casa é
bem vinda, e estou ansioso para deixar minha mulher
dormir em meus braços”.

Candinho, ao escutar essas conversas do irmão,


sonhava em também encontrar algum dia desses uma
tropeira ou uma filha de algum tropeiro, para estabelecer
uma feliz união e para colocar filhos no mundo.

Um casamento diferente

Grande foi a movimentação na casa de Carl Daniel


Gross, nos preparativos para o casamento. Os irmãos
ajudaram a preparar um altar improvisado junto às
taquareiras. As mulheres trouxeram flores silvestres e
enfeitaram o local. Parecia agora um recanto florido.

O pastor gastara muitas horas organizando a sua


fala, nos dias que antecederam o especial momento.
Sabendo que a índia não entendia a língua alemã e poucas
palavras da nossa língua nacional, optou por utilizar, em
alguns momentos, frases em espanhol.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Abela Delore escolheu para testemunhas o casal
Manoel Santos e esposa. Carlos Daniel convidou o Major
Adolfo Felipe Voges e esposa.

O noivo solicitou o comparecimento do maestro


Christian Tietboehl que organizou um pequeno grupo de
canto. Foram integrados Carl Mauer e filhas, Adam Martin
Bobsin e esposa, Christian Eberhardt e esposa, Bárbara
Schmitt, esposa de Wilhelm Schmitt e Pastor Voges e
esposa. Tietboehl fazia, nessas ocasiões, um
acompanhamento musical com a sua flauta.

A cerimônia foi breve e já todos se aproximaram do


galpão novo e estábulo, bem limpos onde os convidados
permaneceram conversando animadamente, esperando pelo
churrasco. Formaram-se dois grupos distintos. No grupo
menor destacava-se a presença de pastor Voges e esposa,
além de Wilhelm Schmitt e esposa, Christian Tietboehl e
esposa, Wilhelm Brehm e esposa e o meio irmão Friedrich
Philipp Nicolaus Schütt, que era afilhado de Philipp Gross.
Também estavam ali Christian Mauer e família, Peter Feck
ainda solteiro e mais alguns curiosos. Em outro ponto
encontrava-se o Major Adolfo Felipe Voges e o noivo
Paraguaio Gross, tendo em volta o pedreiro José Pereira de
Souza e filhos, Baiano Candinho, Pedro Baiano, João
Patrulha, Carl Rietgeroth, Jacob Becker, França e Jacob
Gross, o professor Serafim Agostinho do Nascimento e
outros familiares do noivo, irmãos e sobrinhos. Também
estava ali o velho Miguel Barata, de cabelos brancos, com
seus mais de 70 anos de idade, adoentado e queixoso,
sofrendo de reumatismo e de outras dores do corpo e da
mente.

A noiva saíra discretamente com a sogra, dizendo


que iriam ver os preparativos das mulheres, na cozinha.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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No primeiro grupo Wilhelm Schmitt liderava a
conversa, sempre cheio de novas idéias para comentar e,
logicamente, falando em língua alemã. Desta vez passou a
comentar sobre sua insatisfação com a situação da
comunidade protestante, dizendo: - “Não me agrado dessa
mistura racial que prolifera a olhos vistos.

Pastor Voges logo notou que estava sendo


pressionado, mas sorriu e manteve silêncio.

Wilhelm Schmitt continuou: - “A nossa igreja precisa


de orientação mais firme, para incentivar as nossas famílias
alemãs para que preservem nossa raça, língua, costumes e
cultura”.

Pastor Voges, de modo benévolo, apenas sorriu em


postura de quem escuta com atenção. No entanto, o
professor Christiano Tietboehl reagiu, dizendo: - “Não
consigo acompanhar o pensamento do nosso amigo Wilhelm
Schmitt. Sou professor e lido com as crianças e com as
famílias de alunos. Penso que precisamos inserir nossa
gente na realidade nacional... As crianças precisam dominar
a língua da nossa nova Pátria para que lhes sejam dadas as
possibilidades de encontrarem um lugar na vida política e
social brasileira”.

Wilhelm Schmitt olhou o interlocutor com espanto,


pois esperara que viesse uma reação da parte do pastor
Voges. Mas não imaginara que o maestro e professor
Tietboehl viesse tomar a frente na discussão.

O maestro Tietboehl continuou: - “Sou de opinião


que ninguém consegue segurar essa miscigenação em
marcha e por isso dou os meus aplausos ao nosso pastor
que, já deve fazer muitos anos, utiliza momentos de culto
bilíngue em nossa igreja, principalmente em dias de festa. E
outro procedimento importante de nosso pastor é o fato de

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
63
ele ter trazido para esse nosso interior o professor Serafim
Agostinho do Nascimento, um competente mestre formado
na Capital do nosso Império, para garantir aos nossos filhos
um bom ensino em nossa língua nacional, sem terem que
sair daqui para isso”.

Pastor Voges fez discreto gesto de aprovação e, em


dado momento, procurou desviar o assunto da discussão
que Wilhelm Schmitt levantara. Apontando para o ferreiro
Wilhelm Brehm, postado num canto, perguntou: - “Vejo que
o nosso ferreiro Brehm está aqui... Parece-me que ambos
Wilhelm, tanto o Wilhelm Schmitt bem como o Wilhelm
Brehm, tem diversas aptidões em comum...”.

Wilhelm Brehm sorriu satisfeito com a menção do


seu nome. Já Schmitt olhou surpreso para o pastor e
reagiu, dizendo: - “Eu não sou ferreiro... Sou um artista em
ouro e couro... Pelo que sei o Brehm só entende de malhar
ferro em brasa sobre sua pesada bigorna...”.

Voges sugeriu: - “Quem sabe vamos uma vez


escutar o Brehm. Ele tem histórias lindas e interessantes
sobre a aprendizagem que ele teve junto ao padrasto, o
armeiro militar Friedrich Schütt....”.

Brehm puxou uma banqueta e tomou lugar ao lado


do pastor, disposto a entrar nessa conversa. Já Schmitt
curioso disse: - “Olhem só, o ferreiro teve um mestre que
era armeiro militar Parece que esse armeiro tinha algo em
comum comigo...”.

Pastor Voges sorriu, satisfeito, ao notar que um novo


rumo de discussão estava garantido.

Ferreiro Brehm, encarando Schmitt de frente,


explicou: - “O meu padrasto aperfeiçoou os conhecimentos
de armeiro na Inglaterra, ao servir no 15º Regimento de

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Cavalaria Leve. Até inglês ele sabia falar... Mas aqui na
Colônia nunca encontrou alguém com quem pudesse manter
uma conversação...”.

Brehm fez uma pequena pausa para observar seus


ouvintes, em particular, encarou mais uma vez Wilhelm
Schmitt de frente e continuou: - “Meu padrasto sabia
derreter metais, fazia moldes de argila e fabricava as suas
peças de reposição para consertar pistolas e espingardas,
dos colonos de Três Forquilhas. Traziam armas até do
Baluarte Ipiranga, no começo de nossa Colônia, enquanto o
Coronel Paula Soares lá mandava. Meu padrasto falava às
vezes de assuntos bem complicados quando tentava nos
contar de que ele era um iniciado em alquimia... Mas a
cultura dos colonos não chegava até aí, para ele poder
explicar melhor os conhecimentos que ele adquirira na
Inglaterra. Acredito que todos aqui sabem muito bem, ele
foi o primeiro ferreiro de Três Forquilhas, pois aqui chegou
antes do Natal de 1826 atendendo o apelo do comandante
Philipp Peter Schmitt. O meu “papai ferreiro” trouxe com ele
a minha mãe e mais eu e meu irmãozinho. Eu disse papai
ferreiro, pois ele foi um bom pai para mim, me criou e
educou para fazer de mim o que hoje posso ser aqui na
Colônia...”.

A curiosidade de Wilhelm Schmitt era visível. Com


grande atenção acompanhava agora esse relato. E o ferreiro
continuou: - “O meu padrasto nos ensinou que a água do
tonel de ferreiro tem poderes curativos. Essa água onde o
ferro em brasa é esfriado serve para tratar de certas
doenças da pele e até para eliminar verrugas. Os mais
velhos contam que papai Schütt eliminou verruga de muita
gente...”.

Wilhelm Schmitt não se conteve e reclamou: - “Não


quero acreditar que o ferreiro Schütt prestou-se a alimentar
a superstição do povo. Ele devia saber que a simples água

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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de um tonel de ferreiro não possui poderes para eliminar
verrugas e menos ainda serve para tratar de doenças da
pele. Isso que ele fez não tem aceitação científica e não
resiste ao raciocínio normal de qualquer um, mesmo que
não tenha os mínimos conhecimentos sobre a medicina...”.

O professor Cristiano Tietboehl interveio e sugeriu: -


“Será que não é interessante escutarmos a história do
ferreiro Brehm? Outro dia ele me falou sobre o modo como
o padrasto dele tratava de feridas abertas, que vertiam
sangue, provenientes de corte de facão, foice ou
machado...”.

- “É verdade”, disse Brehm. “Meu padrasto muitas


vezes foi procurado por pessoas que traziam alguém
gravemente ferido, para dar um jeito de estancar o sangue.
Ele fazia uso de um ferro em brasa e dizia que isso logo
ajudava também a evitar uma infecção...”.

Schmitt interrompeu o relato e comentou: - “Isso


não é novidade. Trata-se de uma prática comum em
campos de guerra. O Schütt deve ter aprendido essa prática
no Regimento Inglês no qual atuou”.

O ferreiro continuou: - “O meu padrasto foi um


homem com uma forte fé em Deus. Ele nos orientava com
palavras das Escrituras Sagradas que ele lia todo o dia. Ele
nos ensinou que o nosso Criador que fez os céus e a terra
nos colocou no mundo para dominarmos a terra, com muito
cuidado sobre todas as coisas”.

Os olhos de Schmitt se aguçaram, mas ele se


manteve em silêncio.

Pastor Voges esfregou as mãos certamente como um


sinal do quanto estava satisfeito com o rumo que a
conversa havia tomado.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Enquanto isso, no outro grupo, reunido em outro
ponto do galpão, também se desenvolvia uma animada
conversa. O noivo Paraguaio Gross, estava sentado ao lado
de Major Voges e fez questão que o velho Miguel Barata
viesse sentar ao seu lado. Miguel Barata saíra de casa de
madrugada, da área do Baixo Josaphat, onde residia junto
ao Arroio Barata.

Gross insistia com os convidados para que


levantassem assuntos e perguntas a respeito da atividade
política da Colônia Alemã de Três Forquilhas e região.

Miguel Barata teve que falar sobre sua participação


nas guerras, da Cisplatina e dos Farrapos.

Major Voges falou sobre o trabalho de liderança no


Partido Liberal. A conversa era bem descontraída, marcada
pelo bom humor e, às vezes podiam ser ouvidas sonoras
gargalhadas.

A língua usada neste grupo foi o português uma vez


que muitos dos que ali se encontravam nada ou pouco
entendiam da língua alemã.

“... eles vão pro mato e se escondem...”

O velho Miguel Eberhardt, o Barata, amparado em


um bastão, utilizado como bengala, aproximou-se de Adam
Martin Bobsin e colocando paternalmente a mão sobre seu
ombro, perguntou: - “O que andam fazendo os
descendentes do colono mais forte que um touro? As
lavouras naquele cantão de vocês devem produzir muito
bem?”.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Bobsin sorriu e respondeu: - “Fortes somos, mas
nem tanto... Homem com força igual ao meu pai,
dificilmente aparecerá outro por aqui... Meus irmãos
trabalham muito, e tem lavouras muito bonitas. O único que
teve interesse para continuar trabalhando com couro sou
eu. Mas não vale mais a pena, pois nos últimos tempos
apareceram tantos sapateiros e artistas de couro que não
existe trabalho para todos. Diante disso a minha ocupação
principal também passou a ser o cultivo da terra. Eu e meus
irmãos acabamos de colher milho e feijão...”.

Miguel Barata, agora falando mais baixo, quase a


cochichar, segredou: - “Contam por aí que vocês Bobsin
fugiram do chamado para a guerra... Uma família com
tantos homens sadios e fortes e não houve um sequer para
se apresentar como voluntário da Pátria?”.

Bobsin olhou em torno e também falando em voz


baixa, para que ninguém escutasse a conversa, explicou: -
“Você sempre foi o grande amigo de meu pai e por isso
deve saber muito bem que por questões de consciência e de
convicções de fé cristã, papai nunca foi de querer saber de
guerra. Depois de 1839, quando aconteceu aquela
desgraceira da Guerra dos Farrapos e que meu irmãozinho
inocente foi apagado covardemente por um farrapo
desgarrado, meu pai pirou... Você deve ter tomado
conhecimento que reagiu à morte de Pedrinho e liquidou
aquele sargento farrapo, com um tiro só... Mas não sei se
soubeste que, meu pai que sempre foi um simpatizante dos
ideais farroupilhas, depois daquela tragédia com Pedrinho e
da morte do farrapo, ele entrou num período de grande
desânimo... Certo dia pegou aquela arma com a qual ele
liquidara o farrapo e a fez em cacos. Depois reuniu a família
e ensinou que pela decisão que ele estava tomando naquela
hora, nunca mais haveria uma arma de fogo na casa dele e
de seus descendentes...”.

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Miguel Barata colocou novamente a mão sobre o
ombro de Bobsin e falou: - “Eu acompanhei de perto toda
essa problemática de teu pai. Muito me esforcei para tirar
as idéias erradas da cabeça dele, pois que era apenas um
sofrimento desnecessário que ele estava carregando. Afinal,
ele apenas reagiu para vingar, no ato, a morte de
Pedrinho”.

Bobsin explicou: - “Agora você colocou o dedo na


ferida que machucou a mente e o coração do meu pai, pois
que ele insistia que o espírito de vingança fere o Evangelho
de Jesus”.

Barata elevou a voz, explicando: - “Quando falei em


vingança, eu quis dizer que acredito no direito de defesa
que pertence para uma comunidade...”.

Bobsin assustou-se e colocando os dedos sobre os


lábios, implorou: - “Barata, fale mais baixo, pois que já vejo
gente nos olhando com curiosidade... Não quero que ouçam
o assunto da nossa conversa, pois senão as pilhérias contra
a minha família vão ressurgir...”.

- “Que pilhérias?”, quis saber Barata.

Bobsin explicou: - “Tem gente que nos debocha


dizendo que os Bobsin quando são chamados pra ir pra
guerra, eles vão é pro mato, e só saem de lá depois de um
ano...”.

Barata procurou segurar o riso, mas não conseguiu e


uma sonora gargalhada pode ser ouvida, ecoando pelo
galpão. Barata abraçou firmemente Bobsin e concluiu: - “Me
perdoe, amigo, mas não aguentei a graça dessa pilhéria.
Não leve a mal que o povo da Colônia anda falando isso,
pois no fundo, bem no fundo, eles admiram e respeitam os
Bobsin”.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Bobsin, um pouco intimidado, pediu licença,
dirigindo-se até o gramado, diante do galpão, onde uma
repentina agitação podia ser notada.

Uma demonstração hípica

O almoço da festa de casamento consistiu de um


churrasco gaúcho, assado pelos competentes peões de
Paraguaio Gross. As irmãs e sobrinhas do noivo passavam
diante dos convidados oferecendo porções de aipim cozido
ou de cuca, que elas conduziam em pequenas gamelas de
madeira. Enquanto isso alguns rapazes estavam a postos
para oferecer cerveja caseira e suco de framboesa, de
acordo com o gosto de cada qual. Mas não existiam canecas
suficientes à disposição dos convidados de modos que
muitos homens pegavam a cerveja, para beber diretamente
13
do gargalo .

A noiva durante o tempo todo se manteve calada,


pois não entendia o que era falado em torno dela. As
animadas conversas dos convidados mais próximos era
mantida em língua alemã.

O noivo tinha consciência da situação, pois


constantemente murmurava algo nos ouvidos da noiva,
talvez traduzindo um ou outro assunto, da conversa que
corria solta.

Terminado o almoço, Paraguaio Gross pediu que


todos que tivessem vontade de ver uma demonstração
hípica viessem até o grande gramado, diante de sua casa.
Baiano Candinho já recebera ordens de selar Hidalgo e
Milonga. O próprio Candinho montou o garanhão e seu
irmão Pedro montou a égua.
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Paraguaio Gross explicou, em português e em
alemão, que o seu cavalo Hidalgo havia sido o predileto do
sogro, um homem que ele não chegara a conhecer, um
estancieiro paraguaio, morto em combate pelos brasileiros.
Em seguida apontou para a égua Milonga que pertencera ao
seu cunhado, que também perecera em combate contra os
brasileiros. Foi explicando cada atividade que era
desenvolvida por Candinho e Pedro, enfatizando a beleza do
trote e a desenvoltura do galope dos animais.

Candinho passou a fazer evoluções especiais com


Hidalgo, muito mais para se mostrar como exímio cavaleiro
que ele era. Candinho estava trajando uma bombacha, peça
de farda militar também recebida por outros, os soldados
nordestinos que em algum momento integraram a arma da
Cavalaria, durante a Guerra do Paraguai. Certamente foi por
causa desta guerra e durante a guerra que a bombacha
transformou-se em símbolo não só dos gaúchos, mas
também da cavalaria brasileira.

FIGURA 5: O velho João Patrulha Menger mostra sua destreza no


tiro de laço. Fonte: Gravura dos arquivos do autor, 2010

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Candinho e Pedro fizeram uma breve demonstração
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de paleteada e demonstrações de rédeas. Eles mostraram
que controlar um cavalo não é só guiá-lo, mas dominar os
seus movimentos, com firmeza e destreza.

Finalmente, quando todos pensavam que a


demonstração estava encerrada, apresentou-se João
Patrulha Menger, apesar de seus 61 anos de idade. Alguém
trouxera novamente uma rês e Patrulha, montando em
Hidalgo fez uma demonstração de tiro de laço. Ele recebeu
muitos aplausos, diante de sua exímia destreza, revelando
que fizera jus às tantas vezes que fora sagrado major do
laço, como campeão em torneios de tiro de laço que se
realizavam na Colônia.

Somos dominados por uma cultura da guerra

Pastor Voges também observava as evoluções dos


cavaleiros. Notou a presença de Adam Martin Bobsin,
postado ao lado, de modo pensativo. O pastor aproximou-se
e puxou conversa: - “Adam Bobsin, você me parece
preocupado com alguma coisa...”.

Bobsin foi se achegando, enquanto olhava a proeza


de João Patrulha que com um certeiro tiro de laço, pegara a
rês com grande precisão. Aproveitou para aplaudir a
façanha...

Voges continuou: - “Algum problema em casa? A


família vai bem?”.

Bobsin chegou ainda mais perto e falou em voz


baixa: - “Em casa tudo vai muito bem. Porém, se alguém
não anda bem sou eu... Meu problema tem algo a ver com o
meu falecido pai. Há pouco tive uma prosa particular com o
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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amigo Miguel Barata e fiquei ainda mais confuso das idéias.
Não é que ele me disse que o meu pai estava errado...”.

- “Não entendi ao certo, qual é mesmo problema...” -


disse pastor Voges.
- “É a respeito da nossa ausência na Guerra do
Paraguai e também a respeito da decisão de meu pai já no
tempo da Guerra dos Farrapos, depois da morte de meu
irmão Pedrinho, atingido por um tiro... O Miguel Barata
falou que o meu pai estava errado, quando decidiu que em
nossa casa não teria mais lugar para uma arma de fogo...”.

Pastor Voges puxou Bobsin pelo braço de modo


delicado e pediu que o acompanhasse numa breve
caminhada, para olhar as lavouras dos Gross. Enquanto
seguiam em frente, Voges falou: - “Adam, preciso que você
saiba que eu sempre considerei o teu pai como um homem
de boa formação evangélica e muito coerente em tudo o
que fazia e dizia. O mundo não entende um homem que vê
as coisas a partir do Evangelho. O mundo está dominado
por uma cultura da guerra. Preciso te dizer com clareza que
a humanidade, ao longo dos milênios, sempre foi guiada
pela cultura da guerra e por ela dominada...”.

Bobsin olhou com ares de ansiedade, como quem


não consegue acompanhar o pensamento do interlocutor e
falou: - “Pastor, para ser sincero com o senhor, preciso
dizer que não estou entendendo o que o senhor quer me
dizer. As suas palavras são muito complicadas. Será
possível explicar isso com palavras que eu consiga
entender?”.

O pastor sorriu de modo amigável e explicou: - “É


verdade, eu compliquei mais do que expliquei, não é
verdade? Vamos ver se consigo deixar isso em palavras
bem mais simples... Quando falei em cultura da guerra eu
estava me lembrando que os povos desde a antiguidade

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mais remota, sempre se basearam no princípio da força
bélica, a força das armas, a força dos guerreiros, para
impor-se sobre outros povos vizinhos. Basta olharmos para
a história do tempo do Antigo Egito, o tempo da Babilônia, o
tempo da Grécia com seus espartanos guerreiros e assim
continuou século após século, até os nossos dias. A
humanidade mostra não conhecer outro caminho possível
que não seja o uso da força das armas para resolver as
diferenças que aparecem. E você foi logo falar com o nosso
amigo Miguel Barata que tem um espírito bélico e só não é
capitão honorário hoje, porque o lado dele perdeu a
guerra... Entendes? Ele esteve no lado perdedor, na Guerra
dos Farrapos... Mas quero ainda aproveitar para falar mais
um pouco sobre essa cultura da guerra e o resultado dela.
Posso dizer que fazendo guerras, cultivam-se mais guerras.
E qual é a utilidade de uma guerra? Nesta questão o teu pai
viu um caminho novo melhor, que foi concedido para a
humanidade. Em nossas reuniões na igreja ele comentava
sobre isso e insistia que a confiança sempre é melhor que a
suspeita... Ele insistia que é melhor diminuir a defesa e, que
é melhor desarmar-se, pois os que estão armados, quando
ameaçados se defendem com a utilização deste
armamento...”.

Bobsin estava em silêncio e era notório que tentava


entender a explanação e mais uma vez interrompeu Voges e
pediu: - “Pastor, não consegui acompanhar a sua
explicação. Não será possível dizer isso em palavras ainda
mais simples?”.

Voges ficou em silêncio por um momento e revelou


estar pensando, procurando por um exemplo mais prático.
Finalmente passou a dizer: - “Pois bem, vou ser franco e
branco contigo. Imagine o teu pai diante da casa de vocês
em 1839. Alguns Farrapos desgarrados vem chegando, à
galope, perseguindo diversas vacas. Eles estão com fome.
Querem pegar apenas uma e abatê-la. Eles vem a galope

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soltos, segurando numa das mãos, com firmeza, a arma de
cano longo, para não perdê-la pelo caminho. Certamente
nem pensam em fazer uso das armas. Agora olhe para o teu
pai... Ele vê os desconhecidos se aproximando e grita ao
Pedrinho pedindo que lhe traga a arma que está dentro de
casa. Teu pai está lá no galpão, só observando... Teu
irmãozinho rapidamente cumpre a ordem recebida e com a
arma na mão corre na direção do galpão. O teu pai apesar
de ser um simpatizante dos Farrapos, os vê chegando com
a suspeita que possam estar se aproximando para causar-
lhes algum mal. Os farroupilhas desgarrados, vendo alguém
correndo de arma na mão, suspeitam que serão
hostilizados. O primeiro a atirar é o Farrapo, que atinge
mortalmente o inocente Pedrinho. O teu pai, com um
pequeno esforço alcança a arma que o teu irmãozinho
estava levando até ele, mira e elimina o Farrapo. Agora
imagine o contrário, algo que teu pai insistia em nos
contar... Imagine que o teu pai não chamasse pelo Pedrinho
e não pedisse que lhe trouxesse aquela arma. O teu pai
estaria desarmado diante do Farrapo... Estariam frente a
frente, dois Farrapos, pois que teu pai sempre simpatizou
com os ideais de justiça que os farroupilhas pregavam... E,
tenho certeza que Johannes Bobsin jamais teria negado
comida para aqueles soldados famintos... Entendes agora
sobre que o teu pai procurava nos alertar? Sou testemunha
que o meu inesquecível amigo Johannes Bobsin foi dos
poucos colonos de Três Forquilhas com começou a entender
o Evangelho de Jesus, para reconhecer o caminho novo que
se abriu para toda a humanidade que se debate em meio
aos conflitos de ódio e guerras... Tente imaginar como seria
a atividade política dos homens e como seriam as relações
na sociedade, se todos nós começássemos a colocar em
prática o Evangelho que Jesus nos legou!”.

Adam Martin Bobsin olhou aliviado para o pastor e


enfatizou: - “Agora entendi, sim... Ficou muito claro para
mim que papai estava certo a respeito das lições que ele

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procurou nos transmitir. Agora entendo o motivo que levou
o pai a quebrar a arma dele em muitos pedaços... Agora
entendo o motivo porque ele não desejava mais ter uma
arma de fogo dentro de casa.”.

Os dois foram retornando para o galpão onde


naquele momento um grupo de músicos liderado pelo
maestro Christian Tietboehl conduzia as danças, animando a
festa do casório de Carl Daniel e Abela.

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TEXTOS DIVERSOS

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OS VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA, FILHOS DA
COLONIA ALEMÃ DE TRÊS FORQUILHAS QUE FORAM
PARA A GUERRA DO PARAGUAI

Em junho de 1865 o Paraguai, nosso vizinho pais,


invadira o Brasil e tomou as cidades brasileiras de são
Borja, Itaqui e Uruguaiana.

De imediato, o Ministro da Guerra Ângelo Muniz da


Silva Ferraz (Barão de Uruguaiana) lançou um apelo
nacional. Solicitava o empenho de padres e pastores, para
que através de seus bons ofícios conclamassem a todos
aqueles que, em condições de servir, cerrassem fileiras,
apresentando-se o quanto antes, para partir em defesa da
Pátria.

Pastor Carlos Leopoldo Voges, na Colônia Alemã de


Três Forquilhas, conclamou a comunidade apelando que
voluntários se apresentassem. O seu filho major Adolfo
Felipe Voges que iniciara como oficial da Guarda Nacional de
São Leopoldo e passara para a Guarda Nacional de Santo
Antonio da Patrulha ficou encarregado de reunir o efetivo de
voluntários. Algumas famílias, com mais posses, colocaram
substituto para seu filho. Isto era permitido. Unicamente
cumpria ao interessado assumir o compromisso financeiro
com o voluntário substituto. Em geral era feito um simples
contrato, com o pagamento de metade do valor na ora da
partida e a outra metade por ocasião do final da guerra.

Os jovens da Colônia Alemã de Três Forquilhas


foram conduzidos a Porto Alegre sob o comando do Major
Voges e ali foram distribuídos entre as diferentes armas e

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efetivos, de acordo com suas aptidões. Todos prestaram o
juramento à Bandeira do Brasil. Receberam um treinamento
elementar para o combate para logo serem postos em
marcha rumo aos campos de batalha, no Paraguai.
Descendentes dos veteranos contam que Carlos
Daniel Gross, integrando a Arma da Cavalaria, foi dos
primeiros a receber seu batismo de fogo e haveria de
enfrentar por maior tempo o envolvimento nesta Guerra.

Até julho de 1866 praticamente todos os voluntários


da Colônia Alemã de Três Forquilhas, de alguma forma,
tiveram contato com as frentes de combate. Tiveram o
chamado “batismo de fogo”. Logo também começaram a
aparecer as primeiras baixas.

Os mortos em combate

Dos filhos da já antiga Colônia Alemã de São Pedro


de Alcântara das Três Forquilhas, que participaram da
Guerra do Paraguai, alguns tombaram, derramando o seu
sangue, em defesa das fronteiras da Pátria. São nomes que,
em sua própria terra natal, caíram no esquecimento.
Queremos lembrá-los, em homenagem, mesmo que tardia,
para servir como reconhecimento, pelo sacrifício ao qual se
dispuseram de modo voluntário e como preito de amor à
Pátria.

JOÃO NIDERAUER SOBRINHO - Coronel. - Nasceu


na Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati – RS), no
dia 04 de abril de 1827, portanto no alvorecer desta
colonização.

Era filho do imigrante Felipe Leonardo Niederrauer, e


de Catarina Diehl Niederauer naturais de
Kettenheim/Rheinhessen. Sua mãe era parente próxima de

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Elisabetha Diefenthaeler Voges, esposa de Carlos Leopoldo
Voges, pároco da Colônia Alemã de Três Forquilhas.

João Niderauer Sobrinho foi batizado pelo pastor


Voges em 14.04.1827, tendo por padrinho o seu tio
homônimo João Niderauer, que atuara como comerciante
próximo ao Baluarte Ipiranga, em Torres e depois, por
breve tempo, na Colônia de Três Forquilhas.

Com o prenúncio da Revolução Farroupilha, todo o


grupo familiar Niederauer mais chegado retornaram para
São Leopoldo e Santa Maria, permitindo que João
Niederauer Sobrinho recebesse uma ótima formação
escolar.

Em 1849 encontrâmo-lo em Santa Maria-RS, como


integrante da Guarda Nacional. Em 09.01.1850 foi nomeado
Alferes do 12º Esquadrão do Corpo de Cavalaria, de Santa
Maria. Fez, assim, em 1851, as campanhas contra Oribe e
Rosas, recebendo a Medalha do Valor Militar.

Em 21.09.1852, casou-se com sua prima Maria


Catarina Niederauer, sendo abençoados com o nascimento
de 6 filhos: Delfina (1853), João, Gabriela, José Gabriel,
Afonso e Adelaide.

Em 1854 foi promovido ao posto de Capitão e


marchou para a campanha do Uruguai. De volta, continuou
prestando serviços de observação, junto à fronteira. Em
30.05.1860 foi promovido a Tenente-Coronel. Recebeu, 4
anos depois, o Comando do 7º Corpo de Cavalaria da
Guarda Nacional. Partiu, em 1864, para a campanha do
Uruguai. Participou da tomada de Paisandu e do cerco de
Montevidéu. Do Uruguai, teve que marchar diretamente ao
Paraguai, esse país vizinho que em junho de 1865 tomara
três de nossas cidades, junto à fronteira. Em 25.05.1866 foi

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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promovido ao posto de Coronel, recebendo o Comando da
3ª Brigada de Cavalaria.

Tomou parte nos seguintes combates: Tuiucuê


(03.07.1867), Arroio Hondo (03.08.1867), San Solano
(06.09.1867), assalto à vila de Pilar (20. 09.1867),
cercanias de San Solano (29.09.1867), Hermosa-cuê
(03.10.1867), Tataibá (21.10.1867), Potrero Obela
(29.10.1867), vizinhanças de Humaitá 31.01.1868), apoio a
passagem de Humaitá - e assalto ao Forte del
Estabelecimiento (19.02. 1868), Arroio Jacaré
(26.08.1868), Passo de Tiibicuarl (28.08.1868), Arroio de
Surubiu e Batalha de Itororó (06.12.1868), batalha de Avaí
(12.12.1868).

Foi ferido gravemente nesta última batalha, atingido


por uma lança paraguaia, quando percorria o campo de
luta, após os combates, à procura de soldados brasileiros
feridos. Foi levado ao Hospital de Vileta. Ali faleceu em
13.12.1868, sendo a morte causada por peritonite aguda,
em consequência de ferimento recebido no ventre. Foi
sepultado no Cemitério de Vileta.

Sobre a morte de Niederauer, temos um relato de


Otto Stiehr, correspondente de guerra, que em 15.12.1868
escreveu: "Depois da tomada de Vileta, o Coronel João
Niedrauer Sobrinho montou a cavalo para, acompanhado de
duas ordenanças, percorrer uma picada e reconhecê-la. Ai,
num estreito da picada, surge um soldado paraguaio que,
com sua lança fere o Coronel na ilharga, quase lhe abrindo
a barriga toda. Esse paraguaio, logo após, é morto. O
Coronel é levado ao Hospital de Sangue. Dois dias depois
morre, em consequência de gangrena".

"Os feitos de Niderauer foram dos mais notáveis e a


sua morte, em plena vitória na batalha decisiva de Avaí,
trouxe geral consternação entre os companheiros e

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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comandados brasileiros" (Ten Cel Henrique O. Wiederspahn
– pg. 245/248).

FIGURA 6 : Coronel João Niederauer Sobrinho. Fonte: Arquivo


fotográfico da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, Santa Maria - RS.

Coronel João Niderauer Sobrinho já estava cogitado


na relação de promoções ao generalato. Mereceu durante a
campanha do Paraguai, reiterados elogios do Brigadeiro
José Joaquim de Andrade Neves e do próprio comandante
em Chefe do Exército Brasileiro, o Duque de Caxias.

Para conhecer um pouco melhor a personalidade de


Coronel Niderauer, ouçamos de novo palavras de Otto
Stiehr: "Foi um cidadão moderado com senso realista; um
amigo abnegado sempre disposto a ajudar a todos que o
procurassem; um companheiro afável e muito benquisto; e,
original nos seus risos cordiais. Como Oficial e Chefe
preferia falar seriamente e admoestar amigavelmente ao
invés de punir disciplinarmente. Estimado e quase

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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endeusado pelos seus comandados, gozava de muita estima
bem como da amizade e da confiança particular do Marquez
de Caxias. Foi um dos mais intrépidos Soldados e
Comandantes que, sem expor-se atrevidamente ao perigo,
sempre indicou, para a sua Brigada, o caminho para a
vitória". (Klaus Becker - pg. /113).

JOÃO HENRIQUE HOFFMANN – Tenente. - Nasceu


na Colônia Alemã de Três Forquilhas em 12 de maio de
1827 (hoje Três Forquilhas - RS), filho primogênito do
imigrante Jacob Hoffmann (natural de Unterlais/Hessen) e
de Cristina Maria Neiss. Foi batizado pelo pastor Carlos
Leopoldo Voges em 12.05.1827, tendo por padrinho
Henrique Schwartzzhaupt. Seus pais saíram de Três
Forquilhas juntamente com os Niederauer, por volta de
1834, radicando-se em São Leopoldo - RS.

João Henrique, semelhante a Adolfo Felipe Voges,


ingressou na Guarda Nacional daquela cidade. Seguiu para
a campanha do Paraguai, onde foi gravemente ferido em
combate, vindo a falecer a seguir. Não temos outros
detalhes sobre a vida militar do Tenente João Henrique
Hoffmann.

FELIPE PEDRO KLEIN – Soldado - Nasceu na


Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 16 de
agosto de 1842, filho do imigrante Carlos Klein e de Maria
Margareta Jacoby. Foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo
Voges em 28.08.1842, tendo por padrinhos Felipe Jacó
Menger, Carolina Menger, Pedro Jacoby e Dorotéia Helbig.
Foi morto em combate aos 24 anos de idade.

CARLOS KLEIN - Soldado. - Nasceu na Colônia


Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 06 de abril de
1844, filho do imigrante Carlos Klein e de Maria Margareta
Jacoby. Foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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08.05.1844, tendo por padrinho Carlos Jacoby. Tombou na
Batalha de Tuiuti.

CRISTIANO KLEIN - Soldado. - Nasceu na Colônia


Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 16 de
novembro de 1845, filho do imigrante Carlos Klein e de
Maria Margareta Jacoby. Foi batizado pelo pastor Carlos
Leopoldo Voges em 18.12.1845, tendo por padrinho
Cristiano Jacoby. Morreu em combate.

FELIPE MASCHMANN - Soldado. - Nasceu na


Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas -
RS) em 09 de outubro de 1842, filho do imigrante João
Maschmann e de Gertrudes Klippel. Foi batizado pelo pastor
Carlos Leopoldo Voges em 04.11.1842, tendo por padrinhos
Jacó Felipe Feck e Doroteia Niederauer Feck. Morreu em
combate.

JOÃO JACÓ MAUER - Soldado. - Nasceu na Colônia


Alemã de Três Forquilhas em 1834, filho do imigrante
Cristiano Mauer e de Cristina Helbig. O nome de João Jacó
Mauer não consta no registro de batismos do pastor Voges.
A tradição oral porem transmitiu que o mesmo foi filho
deste casal e que tombou na Paraguai, em defesa da Pátria.
Dr. Klaus Becker, em "Alemães e seus Descendentes na
Guerra do Paraguai" registra o nome de João Jacó Mauer,
citando-o como filho da Colônia Alemã de Três Forquilhas e
como tendo sido morto em combate.

FELIPE JACÓ MENGER - Soldado. - Nasceu Colônia


Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 16 de agosto
de 1846, filho do imigrante Jacob Menger Senior (natural de
Bechtheim/Rheinhessen) e de Carolina Klein. Foi batizado
pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em 28.09.1846, tendo
por padrinhos Jacó Felipe Feck e Dorotéia Niederauer Feck.
Morreu em combate.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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MIGUEL MENGER - Soldado. - Nasceu na Colônia
Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 12 de março
de 1842, filho do imigrante João Menger (João Patrulha) e
de Maria Catharina Gross. Foi batizado pelo pastor Carlos
Leopoldo Voges em 10.05.1842, tendo por padrinhos João
Maschmann e Gertrudes Klippel. Morreu em combate.

FREDERICO HENZE - Nasceu na Colônia Alemã de


Três Forquilhas (hoje Itati - RS) em 25 de dezembro de
1840, filho do imigrante Loudwich Gottlieb Henze e de
Dorotéia Cristina Doebelling. Foi batizado pelo pastor Carlos
Leopoldo Voges em 27.12.1840, tendo por padrinhos
Frederico Strassburg e Catarina Kellermann. Dr. Klaus
Becker menciona em sua obra (pag. 186) um Frederico
Henes (e, entre parêntesis ele sugere Henz), como soldado
do Corpo de Pioneiros, tombado na batalha de Tuiuti, em
1867. Caso levarmos em consideração essa referência então
devemos também pesquisar o nome de Peter Henes (Henz)
que igualmente tombou na batalha de Tuiuti, em
21.12.1987, com um tiro na cabeça. O Corpo de Pioneiros
perdeu 50 homens na batalha. A família Henze saiu de Três
Forquilhas após o final da Guerra da Paraguai, o que
dificultou a verificação junto à tradição oral, para tirar estas
dúvidas. Não incluímos o nome de Peter Henze em nossa
relação.

Os que voltaram...

Os voluntários da Colônia Alemã de Três Forquilhas,


sobreviventes da Guerra do Paraguai não voltaram ao
mesmo tempo. Alguns foram dispensados mais cedo, tendo
em vista ferimentos graves recebidos em combate. Outros
voltaram em 1870, ao final da guerra Houve também um
que já era chorado pela família, tido como desaparecido na
guerra. Estes veteranos passaram a ser olhados com grande

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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respeito e admiração, pois que invariavelmente carregavam
marcas e cicatrizes, sinais incontestes da participação direta
nos combates.

Com emoção falavam da barbárie da guerra, dos


sofrimentos, das feridas, do sangue e de mortes,
presenciados, em solo paraguaio. Junto ao nome daqueles
que voltaram, procuramos também incluir as histórias e
estórias que os seus descendentes souberam ainda nos
transmitir.

JOÃO HENRIQUE BECK - Furriel. - Nasceu na


Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-RS)
em 19 de novembro de 1839, filho do imigrante João Beck
(natural de Gelnnhaar) e de Sofia Gebhardt (natural de
Stuttgart). Foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges
em 22.01.1840, tendo por padrinho Henrique Beck. Era o
único filho varão do casal, permitindo assim, caso quisesse,
de contornar a convocação. Foi, porém, como voluntário.
Recebeu funções na intendência. Ficou encarregado da
distribuição de material de campanha e como auxiliar nos
pagamentos do soldo à tropa. Isto indica de que João
Henrique Beck não atuou na frente de combate. Ao
regressar do Paraguai (com a idade de 31 anos), casou-se
em 05.12.1870 com Juliana Beck (de 17 anos), filha de
Guilherme Beck e Catarina Schwartzzhaupt. O casal teve
oito filhos: João (05.08.1872), Guilherme (14.10.1873),
Carlos (29.12.1874), Maria (27.05.1877), Maria Luisa
Cristina (01.02. 1881), Felipe Pedro (12.10.1883), Carolina
(03. 09.1887) e Frederico (20.06.1889).

CARLOS DANIEL GROSS - Nasceu na Colônia


Alemã de Forquilhas (hoje Três Forquilhas-RS) em 12 de
junho de 1842, filho do imigrante Felipe Pedro Gross
(natural de Birkenfeld/Oldenburg) e de Elisabetha Catarina
Hoffmann. Foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges
em 22 de agosto de 1842, tendo por padrinhos Carlos

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Becker, Daniel Helbig e Dorotéia Becker Helbig. Era filho de
família numerosa, tendo outros cinco irmãos e seis irmãs.

Carlos Daniel Gross foi integrado na Arma da


Cavalaria, sob o comando de General Osório e de Coronel
Niederauer. Desde o inicio da guerra se fez acompanhar por
um cachorro, que mais tarde lhe ajudaria a salvar a vida.

Chegando a Três Forquilhas, grande foi a confusão


em seu lar e redobrada a alegria de sua mãe. Era choro e
riso ao mesmo tempo.

Carlos Daniel Gross casou-se com a paraguaia Luisa


Abela Dellore, em 1873, sendo o casamento oficiado pelo
pastor Carlos Leopoldo Voges. O matrimônio foi abençoado
com o nascimento de 5 filhos: Carlos Daniel (27.08.1874 -
que tornou- se capitão, na revolução federalista de 1893),
Evelina (09.12.1875), Rosalina (20.09,1879), Serafim José
(07.07.1882), e Maria Paulina (06.06.1883). Esta última
menina foi adotada por Carlos Strassburg, companheiro de
Gross, na Guerra do Paraguai. Na época Gross estava muito
adoentado. Sofria muito. Seus filhos diziam que, quando o
veterano faleceu "mais parecia um couro estaqueado sobre
os ossos, curtido ao sol". Ele fora secando lentamente,
ficando apenas pele e ossos.

O corpo de Carlos Daniel Gross estava repleto de


cicatrizes, provenientes dos pontaços das lanças
paraguaias. Trouxera também sequelas físicas e psíquicas,
que os combates, sangue e cadáveres, ferimentos e
exaustão haviam produzido. Sofria de constantes problemas
gástricos, tendo o organismo totalmente minado pela
doença.

PEDRO FECK - Cabo - Nasceu na Colônia Alemã de


Três Forquilhas (hoje Itati-RS) em 05 de junho de 1845,
filho natural de Catarina Feck e neto de Felipe Jacó Feck e

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Dorotéia Niederauer Feck. Em suas veias corria o sangue
dos destemidos Niederauer, pois era, por parte da avó
materna, parente do Coronel de Cavalaria João Niederauer
Sobrinho. Ele fora batizado pelo pastor Carlos Leopoldo
Voges em 16.09.1845, sendo padrinho Carlos Pedro
Menger. O pai de Peter Feck, conforme seus netos fora
Pedro Jacoby Júnior, filho de uma família muito rica de Três
Forquilhas.

Pedro Feck voltou da guerra em 1871, mas levou


sete anos até encontrar com quem casar. No dia 05 de julho
de 1878 casou com Elisabeta Schmitt, filha de Wilhelm
Schmitt. Tiveram os seguintes filhos: Pedro Antonio (12.
02.1881), Idalina (06.04.1883), José Gustavo (05. 11.1884
- falecido em 1893, Alberto (03.08.1886 falecido em 1898),
Artur (08.06.1888), Maria Sezilda (26.04.1890) e Balduino
(1892 - falecido em 1893).

Pedro Feck recebeu soldo honorário conforme


decreto de 13.08.1907 passando a contar com bons
recursos financeiros. Faleceu por volta de 1920.

Contam os seus descendentes de que Peter guardara


seu uniforme de gala e o boné, para o dia do enterro. Sua
vontade expressa fora de ser velado e sepultado como
soldado, veterano da Guerra do Paraguai, o que de fato foi
cumprido pelos seus filhos.

CRISTIANO DANIEL BECKER - Nasceu na Colônia


Alemã de Três Forquilhas, (hoje Itati – RS) a 16 de agosto
1844, filho de Carlos Becker (veterano da Campanha
Cisplatina) e de Eva Helbig. Foi batizado pelo pastor Carlos
Leopoldo Voges em 04 de setembro de 1844, tendo como
padrinhos: Cristiano Jacoby, Carlos Mauer e Jaco Daniel
Helbig. Era de família numerosa, com mais quatro irmãos e
quatro irmãs. Ao voltar do Paraguai, casou com Magdalena
Eigenbrodt. Não consta, terem tido filhos.

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CARLOS DANIEL DAHL - Soldado. - Nasceu na
Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Itati-RS) em
07.04.1840, filho do imigrante João Dahl e de Catarina
Hellbig. Tinha mais dois irmãos e cinco irmãs. Foi batizado
pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em 24.06.1840, sendo
padrinhos Carlos Becker e Daniel Helbig. Carlos Daniel Dahl
voltou do Paraguai com o corpo marcado de cicatrizes,
provindas da guerra. Sofrendo muito por causa de uma
mutilação dos órgãos genitais, decidiu não contrair
matrimônio.

JACÓ DANIEL HELBIG - Soldado. - Era imigrante,


nascido na região de Rheinhessen, em 1824. Filho de
Nicolau e Margarida Helbig. Era o único filho varão. Tinha
mais seis irmãs.

Jacó Daniel já casara em 1852 com Maria Margareta


Hoffmann, sendo o matrimônio abençoado com o
nascimento de uma filha: Elisabeta (20.05.1854). Perdeu a
esposa por complicações pós-parto. Casou, em segundas
núpcias, com Catarina Menger. Deste novo matrimônio
nasceram os seguintes filhos: Carlos Pedro (17.01.1856),
João (05.07.1857), Jacó (15.06. 1859), Felipe (12.07.1861)
e Carolina Cristina (12. 07.1864). Seguiu ao Paraguai aos
41 anos de idade, deixando para trás a esposa e seis filhos.

Ele levou em sua companhia os afilhados de batismo


Carlos Daniel Gross, e Carlos Daniel Dahl. Foi incumbido
pelos pais destes dois, para que olhasse por eles, dentro do
possível. Para a sua felicidade, estes dois afilhados voltaram
da guerra. Nada sabemos sobre a atuação de Helbig nos
campos de guerra. Faleceu por volta de 1880.

CARLOS FREDERICO KELLERMANN - Soldado. -


Nasceu na Colônia de Três Forquilhas (hoje Itati-RS) em
04.07.1841, filho do imigrante Carlos Kellermann e de

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Catarina Müller. Foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo
Voges em 06 de março de 1842 tendo por padrinho Carlos
Frederico Strassburg. Era filho primogênito de família
numerosa (5 irmãs e 4 irmãos) todos gente forte e de
elevada estatura. Nada sabemos sobre a sua participação
no Paraguai, pois que regressando da guerra, decidiu
radicar-se em Três Coroas-RS, onde casou e deixou
descendência. A maior parte de seus irmãos permaneceu
em Três Forquilhas.

CARLOS FREDERICO STRASSBURG - Soldado. -


Nasceu na Colônia de Três Forquilhas (hoje Itati-RS) em 06
de agosto de 1839), filho primogênito do imigrante Carlos
Frederico Strassburg (natural de Hoyah/Hannover) e de
Catarina Kellermann. Tinha mais 2 irmãos e 7 irmãs. Carlos
Frederico foi batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em
25.08.1839, sendo padrinho o seu tio Carlos Kellermann.
Portanto Carlos Frederico Strassburg era primo em primeiro
grau de Carlos Frederico Kellermann. Nada sabemos sobre a
sua participação na guerra, pois ele só falava que apenas
queria esquecer do horror vivido no Paraguai. Retornou com
31 anos de idade, casando em 13.09.1870 com Henrieta
Jacoby. Tiveram 9 filhos: Maria Cristina (07.07.1872),
Catarina Barbara (10.09. 1874), Catarina Elisabeta
(12.03.1877) Frederico (12. 01. 1880 - falecido em 1894),
Henrieta (30.03.1885), Carlos Ferdinando (13.10.1887),
Matilde (04.11.1889) e Guilherme Ferdinando (1892
falecido em 1894). Além destes 8 filhos, ele adotou também
a filha caçula de Carlos Daniel Gross, ao constatar que
aquele camarada de combates estava finando lentamente,
sem condições de atender a família.

ANDREAS GEHRMANN - Soldado - Nasceu na


Colônia de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-RS) em 18
de março de 1842, filho do imigrante João Jorge Cristiano
Gehrrmann (natural do Mecklenburgo) e de Maria Catarina
Dresbach. Foi batizado pelo pastor Carlos Leopóldo Voges

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em 13.04.1844, sendo padrinhos Andreas Walter e Apolonia
Justin Walter. Tinha 3 irmãos e 4 irmãs. Regressou mais
cedo do Paraguai em virtude de graves ferimentos
recebidos. Casou com Maria Elisabeta Mittmann em 1869,
sendo abençoados com 8 filhos; Maria (09.04.1870), Maria
Margareta (29.12.1871), Carlos Leopoldo (25. 03.1873),
João Alberto (06.03.1876), Maria Luisa (03.05.1878),
Nicolau (28.02.1880), Ernestina (09. 06.1882) e Avelina
(04.04.1888). Andreas Gehrmann faleceu em 19.08.1911,
aos 69 anos de idade.

JOÃO GUILHEME SPARREMBEREGER - Soldado. -


Nasceu na Colônia de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-
RS) em 05.09.1837, filho do imigrante João Sparremberger
(natural de Wendelsheim/Hessen) e de Anna Maria Beck. Foi
batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em 24.09.1837,
tendo por padrinho João Guilherme Beck. Na Guerra do
Paraguai, foi soldado do 12º Regimento de Artilharia, dando
baixa em 27.02.1870. Casara antes de ir para a guerra, em
1862, com Luisa Eberhardt, tendo os seguintes filhos: João
(03.06.1863) e Maria Madalena (03.09.1865). Depois da
guerra tiveram mais uma filha: Luisa Carolina (01.04.1876).
Faleceu em 14.09.1906, aos 69 anos de idade.

JOÃO CARLOS SPARREMBERGER - Soldado. -


Nasceu na Colônia de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-
RS) 07.04.1839, filho do imigrante João Sparremberger
(natural Wendelsheim/Hessen) e de Anna Maria Beck. Foi
batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges 13.05:1839,
sendo padrinho João Beck. Foi soldado do 8º Corpo de
Cavalaria, na Guerra do Paraguai. De volta, casou aos 31
anos de idade, em 13.09.1870, com Juliana Beck (23 anos),
irmã do veterano de guerra João Henrique Beck. O
matrimonio foi abençoado com 7 filhos: Carolina Cristina
(29.05.1872), Guilherme (30.06.1873), Henrique
(01.06.1874), João Pedro (07.07.1875) Ana Maria
(30.12.1876), Felipe (08.09.1880), e Catarina

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(03.05.1885). João Carlos faleceu em 11.11.1908 aos 69
anos idade.

HENRIQUE SPARREMBERGER - Soldado. - Nasceu


na Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-
RS) 18.04.1841, filho do imigrante João Sparremberger
(natural Wendelsheim/Hessen) e de Anna Maria Beck. Foi
batizado pelo pastor Carlos Leopoldo Voges em 27.04.1841,
sendo padrinho Henrique Sparremberger. Integrou o 12º
Regimento de Artilharia, na Guerra Paraguai. De volta,
casou com Sofia Knewitz, em 18.07.1873. O matrimonio foi
abençoado com o nascimento de 3 filhos: Carlos
(27.06.1875), Catarina Margareta (19.01.1877) e João
Gustavo (07.11.1883). Faleceu em 09.12.1908, aos 67 anos
de idade.

FELIPE SPARREMBERGER - Soldado. - Nasceu


Colônia Alemã de Três Forquilhas (hoje Três Forquilhas-RS)
em 1843, filho de João Sparremberger (natural de
Wendelsheim /Hessen) e de Anna Maria Beck. Pastor Voges
não registrou o batismo. Porém consta do registro de
casamentos, com a devida filiação e idade, permitindo sua
identificação. Integrou o 12º Regimento de Artilharia, na
Guerra do Paraguai. De regresso, casou-se em 11.02.1873
com Margareta Beck: tiveram apenas um filho: João
(08.02.1874).

AUGUSTO SONNTAG - O veterano da Guerra do


Paraguai professor Augusto Sonntag veio a Três Forquilhas
a convite de pastor Voges para atuar tanto na Escola
Comunitária mantida pelo pastor, bem como para lecionar
na Escola Pública. Augusto Sonntag era imigrante, nascido
em 1809. Deu baixa mais cedo, no Paraguai, em virtude de
ferimentos recebidos. Em Três Forquilhas ele encontrou
uma efusiva acolhida. Casou em 1876 com Bárbara Triesch.
O matrimonio foi abençoado com o nascimento de 2 filhos:
João Carlos Augusto (22.10.1877) e Maria (26.09.1880).

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Professor Sonntag ficou conhecido em Três Forquilhas,
como "O Xaropeiro". Ele atuava como farmacêutico. Além
de vender medicamentos trazidos de Porto Alegre, fabricava
ainda os seus próprios xaropes. Ele estabeleceu residência a
150 metros da casa pastoral, em um pequeno terreno
cedido por um colono. Por volta de 1892 o vale do Rio Três
Forquilhas passou a ser assolado por uma epidemia
conhecida como "Rothe Ruhr" (diarréia de sangue) ou
cólera. Professor Sonntag passou então a fabricar um
medicamento com base em ervas, na tentativa de ajudar os
enfermos. O esforço foi infrutífero, pois que somente os
mais fortes resistiam. Morriam principalmente as crianças,
os velhos e os negros. O próprio professor Sonntag, então
com 83 anos de idade, não resistiu ao mal, falecendo em
25.04.1892.

EDUARDO SELISTRE - Trata-se de um descendente


do imigrante João Jorge Schlitzer (natural de Hessen) que
entrou na Colônia Alemã das Tôrres, integrando a caravana
de 1826. Os Schlitzer eram inicialmente católicos,
localizando-se na Colônia Alemã de São Pedro (Tôrres-RS).
Depois alguns deles vieram na direção da Colônia Alemã de
Três Forquilhas e Santo Antonio da Patrulha. Perderam a
grafia original do nome, passando alguns a assinar Selistre
e outros Silistrio. No registro do pastor Voges surge esta
última grafia. Eduardo Selistre era integrante do 15º Corpo
de Cavalaria de Santo Antonio da Patrulha e no retorno,
radicou-se por algum tempo na área do Serra do Pinto.

RUDOLFO LIPPERT - Trata-se de um provável


descendente do imigrante Francisco Lippert que entrou
nessa região do Litoral Norte do Rio Grande do Sul nos
primórdios da colonização. Rudolfo Lippert retornou do
Paraguai, integrado ao 39º Batalhão de Voluntários da
Pátria. Chegou a Porto Alegre em 28.04.1870. Encontramos
ainda hoje descendentes dos imigrantes Lippertno Vale do
rio das Três Forquilhas, pois no vale do rio Três Forquilhas

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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reside atualmente o Prefeito de Terra de Areia-RS, Dr.
Generi Máximo Lippert.

Filhos de Três Forquilhas na Artilharia de Mallet

Os três irmãos Sparremberger (João Guilherme,


Henrique e Felipe) integraram o 1º Regimento de Artilharia,
mais conhecido como o "Boi de Botas". Combateram sob o
Comando do General Emlio Luis Mallet, o Barão de Itapevy.

Em 24 de maio de 1866 os irmãos Sparremberger


tiveram sua primeira participação na guerra, ficando
postados na vanguarda, na linha de fogo. Foi na primeira
batalha de Tuiuti. . Em 16.07.1866 foram expectadores no
assalto à linha fortificada de Sauce; em 18.07.1866
participaram da batalha de Boqueron. Tiveram que puxar
peças de artilharia, por falta de mulas. Em 21.09.1866
auxiliaram a Cavalaria e Infantaria no assalto a Curupaiti,
em 19.02.1868 na Batalha de Humaitá e tomada de Forte
del Estabelecimiento. O Regimento cooperou ainda nas
vitórias de Itororó (06.12.1868); Avaí (11.12.1868); Lomas
Valentinas (27.12.1868); Ita-Ivaté; Passo do Espinilho;
Pare-Cuê; Fortléza de Humaitá; Assunção (30.01.1869);
Luque (06.04.1869); Areguá (22. 04.1869); Itaguá
(23.04.1869); Piraju (25.04.1869); Ascurra; Sapucai;
Penbebui (12.08.1869) e Campo Grande ou Nhu-Guassu
(16.08.1869).

Voltando aos combates do Passo da Pátria, naquela


oportunidade Mallet tentou utilizar muares para fazer o
desembarque das peças de artilharia. Os muares
empacaram na prancha. Os soldados mais fortes foram
chamados, inclusive os irmãos Sparremberger, para puxar
as peças e colocá-las em posição, no braço.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
94
Depois desta situação Mallet mudou a estratégia.
Para movimentar as peças de artilharia através dos campos
paraguaios ele passou a fazer uso de tração bovina. Os bois
eram mais resistentes e movimentavam as peças com
maior eficiência.

Por este motivo a unidade de Mallet, o 1º Regimento


de Artilharia Montada passou a ser conhecido como
“Regimento Boi de Botas”.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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OS VOLUNTÁRIOS DA CISPLATINA

O Imperador D. Pedro I, em dezembro de 1826, ao


passar pela Vila de Torres requisitou voluntários, da
imigração alemã para acompanhá-lo rumo à Campanha
Cisplatina. Em nossas pesquisas foram localizados os
seguintes nomes:

EBERHARDT, JOÃO MIGUEL Nasceu em


Dorzbach/Württemberg, filho de João Eberhardt e Regina
Ziegler. Veio para ser soldado integrado a Companhia dos
Voluntários Alemães e foi lutar na Campanha Cisplatina.
Não há certeza sobre a época em que esteve em Três
Forquilhas, já que não poderia permanecer em dois lugares
ao mesmo tempo. Consta ter entrado em Três Forquilhas
em 1827. Neste caso ele foi conduzido às pressas a Porto
Alegre, para ser movimentado à fronteira platina. Em 1836
ele se encontrava em São Leopoldo, onde se uniu com
Maria Catarina Heller. Em 1837, entretanto, já aparece de
novo em Três Forquilhas, onde se une com Magdalena Geb,
filha de Heinrich Geb. Estabeleceu-se em seu antigo lote, a
300 metros da casa do pastor Voges. Por volta de 1839/40
ele aderiu às tropas farroupilhas, recebendo farda e soldo.
Levou a família para a região de Campo Bom ou Lomba
Grande. Não se sabe por onde ele possa ter andado, mas
sabemos que ele participou de combates. Ele ficou
comparado a uma pedra que muito rola e por isto não cria
limo. Seus filhos e esposa sofreram privações e falta de
escola. Eberhardt retomou a sua antiga propriedade de Três
Forquilhas em 1850 bem como assumiu um lote na floresta
da Boa União, onde existe o Arroio Barata. O seu filho
Cristiano, mais conhecido como "Cristiano Barata", herdou
mais tarde a propriedade paterna e vinculou-se firmemente

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
96
à Comunidade. Foi presbítero muito dedicado por longos
anos. Cristiano Eberhardt assumiu sob a sua guarda o
netinho Eugenio Bobsin que ficara órfão da mãe. Desta
forma Eugenio Bobsin viria a assumir a propriedade dos
"Barata" e teve no avô um dedicado "professor", sendo
despertando para o serviço voltado à Igreja e ao
desenvolvimento da Colônia. Eugenio Bobsin foi sub-Prefeito
de Itati e, presidente da Comunidade por um decênio.

João Miguel Eberhardt deixou numerosa


descendência na Colônia, que depois se espalhou rumo a
Sanga Funda, Cachoeira/Maquiné e Osório. Na sua
descendência, através dos Bobsin, constam dois pastores da
IECLB, citados nas referências de João Bobsin.

JORGE LORÉ ou Georg Lorey nasceu em Nack –


Reinhessen. Perdera a esposa durante a viagem. Casou em
São Leopoldo e deixou a nova esposa grávida e os filhos do
primeiro matrimônio, em São Leopoldo com os sogros
Cassel. Integrou a caravana para Torres em 1826. Foi com
D. Pedro I como voluntário para a Guerra Cisplatina.
Retornou mais cedo, doente. Recebeu terras em Três
Forquilhas. Sua profissão foi de mestre pedreiro. Desistiu
das terras, pois a esposa não mais desejava sair de perto
dos pais dela. Durante a Guerra dos Farrapos acompanhou
Michel Eberhardt e outros, recebendo farda e soldo, para
lutar pela República do Piratini, integrado à Cavalaria de
Bento Gonçalves.

BECKER, CARLOS Sobre sua origem consta ter sido


um Mecklemburgues, trazido para ser soldado no confronto
Cisplatino. Integrou efetivamente a Companhia dos
Voluntários Alemães, sendo dispensado em 1827. Ele casou
perante o pastor Voges, em 1829, com Eva Hellbig. Tiveram
seis filhas e cinco filhos. O seu filho Cristiano Daniel Becker
integrou mais tarde o Corpo de Voluntários da Pátria e
seguiu à Guerra do Paraguai (retomou e constituiu família

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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em Três Forquilhas). Carlos Becker não consta como
parente de Henrique Becker. Sua descendência radicou-se
na Costa do Morro, na área de Três Pinheiros, em direção às
"terras de areia". Entre sua descendência constam
presbíteros e, através de uma união com o Professor
Serafim Agostinho do Nascimento, surgiu o descendente
pastor Gilmar do Nascimento, da IECLB.

SCHMITT, JOÃO NICOLAUS Não há registro sobre


sua origem na Alemanha. Casou em Três Forquilhas com
Maria Catarina Jacoby (filha de João Pedro Jacoby Senior),
após retomar da Campanha Cisplatina. Com a abertura da
estrada da renascença ele subiu a Serra, não havendo
referências sobre o seu destino.

SEIM, CONRADO Veio para ser soldado e lutou na


Guerra Cisplatina. Recebeu designação de um lote de terra
em Três Forquilhas. Quando retomou da Guerra, uniu-se
com a mulher de Felipe Boehl. Tiveram dois filhos em Três
Forquilhas, Jacob (1831) e Cristóvão (1836). A família saiu
da Colônia, não havendo referência sobre o destino que
tomaram.

BECK, JOÃO natural de Hessen, veio para ser


soldado e integrou a Companhia dos Voluntários Alemães
que seguiram à Guerra Cisplatina. Casou em 1837, em Três
Forquilhas, com Sofia Gebhardt. O casal teve um filho e
duas filhas. Esse único filho varão, João Henrique, integrou
o Corpo de Voluntários da Pátria, foi Furriel durante a
Guerra do Paraguai e depois do retorno casou com a sua
prima-irmã Juliana em 1870, deixando numerosa
descendência.

STOLLENBERG, HANS TRHON Era de origem


norueguesa, apelidado de "Wicking". Sua predileção era a
navegação, pois era barqueiro. Casara em São Leopoldo em
1826 com Maria Magdalena Beyer. Tiveram um filho em

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Três Forquilhas, João Cristovão Paulo (1827). Há dúvidas
sobre o destino dos Stollenberg. Conforme a tradição oral, o
Vicking faleceu logo após a Guerra dos Farrapos em
conseqüência de ferimentos recebidos num confronto na
Colônia de Três Forquilhas, contra os farroupilhas. A viúva
deve ter seguido para São Leopoldo onde residiam os seus
pais e parentes mais próximos.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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OS SOLDADOS DA PATRULHA SERRANA

Em 1835 o Coronel Francisco de Paula Soares


destacara um grupamento de soldados de sua Milícia
Sertaneja, para patrulhar a Serra do Pinto. Conforme a
tradição oral eram homens fardados, alguns casados outros
solteiros, que se fixaram em pontos estratégicos da área
serrana da Colônia de Três Forquilhas. O comando ficou
com Johann Schlitzer, o João Silistrio. É a seguinte a relação
dos integrantes da Patrulha Serrana, conforme depoimentos
da tradição oral:

JOÃO SILISTRIO, no alto da Serra. Seu nome


correto era Johann Georg Schlitzer, nascido em Hessen em
1784. Perdeu a esposa e um filho, na viagem ao Brasil.
Chegou a Torres viúvo, em companhia de quatro filhos e
duas filhas. Em 1826 ingressou como soldado, no Baluarte
Ipiranga, com o Coronel Paula Soares. Em 1835, no posto
de Sargento, já contando com 71 anos de idade, foi
destacado para ser o comandante da Patrulha Serrana, em
Três Forquilhas. Foram com ele as duas filhas e o filho
menor. Os dois filhos mais velhos seguiram até Porto Alegre
e se apresentaram a Paula Soares, como voluntários, para
servir ao Exército Imperial. O seu neto ANTONIO
SILISTRIO, Anton Schlitzer casou com Maria Joaquina da
Silva Becker, tornando-se protestante. Anton e Maria
Joaquina tiveram o filho João Silistrio (04.06.1891),
batizado pelo pastor Voges.

JOHANNES MENGER, o João Patrulha, ao pé da


Serra, nasceu em Dittelsheim em 1811, filho da viúva Anna
Catarina Menger. Casou em Três Forquilhas com Maria
Catarina Gross. Fixou residência na região do Josaphat. Em

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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virtude disto os seus filhos não tiveram escola, além de se
criarem em um meio muito rude e hostil. Deixou numerosa
descendência, destacando-se Lidurino "Barroso" Menger,
com dedicada atuação na formação do núcleo comunitário
de Três Pinheiros, doando terrenos para ampliação do
cemitério e construção de um Centro Evangélico da IECLB
bem como foi vereador do município de Osório – RS.

JOSÉ DA CUNHA, no alto da Serra, mais conhecido


como José Cândido, da Patrulha Serrana. Após a Guerra dos
Farrapos recebeu terras na Serra e ali se radicou. O seu
filho MANOEL FRANCISCO DA CUNHA, conhecido como
"Miguel Cândido", juntar-se-ia mais tarde, com Maria
Menger, filha de João Patrulha. Tiveram os seguintes filhos:
Jacob Menger (1856), Carlos Pedro Menger (1862), Miguel
Cândido Menger (1866). O neto "Miguel Cândido Menger",
nascido em 1866, foi assassinado em 11.11.1893, no
princípio da agitação federalista. Jacob Menger casou em
Três Forquilhas em 04.11.1880 com Maria Luisa Witt e
integrou-se firmemente à Comunidade Evangélica de Três
Forquilhas, deixando a sua descendência vinculada ao
trabalho da Igreja.

ESTEBAN DOS SANTOS, índio guarani, nascido na


região das Missões. Veio a Três Forquilhas integrando a
Patrulha Serrana, durante a Guerra dos Farrapos. O seu
filho Manoel casou com Magdalena Strach, meia irmã de
João Patrulha. Manoel e Magdalena radicaram-se no núcleo
da igreja, na sede da Colônia, nas terras da viúva Menger.
O casal teve 4 filhas e 6 filhos que se vincularam com
dedicação na vida da Comunidade. Entre seus descendentes
destacaram-se Adair dos Santos e seu sobrinho Jaime dos
Santos que foram presidente da Comunidade IECLB em Itati
e o reverendo Roberto Etter dos Santos (ex-pastor da
IECLB).

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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JOSÉ FLOR DA SILVA, residiu no alto da Serra,
integrando a Patrulha Serrana. Após a Guerra dos Farrapos
recebeu terras no Baixo Josaphat, próximo a João Patrulha
Menger. Seu filho Serafim estudou em Torres, onde
aprendeu a profissão de alfaiate e sapateiro. Serafim casou
em 1859 perante pastor Voges com Carolina Feck. Este
casal deu 8 netos para Zeca Flor, pois tiveram 3 filhas e 6
filhos. O filho Adriano Flor da Silva foi assassinado em 1892.
O filho Carlos Pedro morreu envenenado em 1897.

ANTONIO SABINO, o TONHO CABELEIRA, que


residiu ao pé da Serra, ao servir na Patrulha Serrana. Finda
a guerra recebeu terras no alto da Serra. Os “Sabino”
tornaram-se conhecidos como sendo os “Cabeleiras” por
usarem cabelo comprido, amarrado com um lenço. Até hoje
existe a Trilha dos Cabeleiras, no fundo de Rio Carvalho.
João Sabino, filho de Tonho, era cunhado de Rico Marques.
Uniu-se com Bárbara Pereira de Souza. Tiveram os filhos:
José (02.01.1880) e Maria (01.02.1878), batizados pelo
Pastor Voges. Todos os descendentes da Família Sabino
moravam na Serra dos Cabeleiras e tornaram-se
maragatos, participando da Revolução Federalista.

FRANZ STRACH, veio fixar-se na Colônia de Três


Forquilhas, ao pé da Serra, ao integrar a Patrulha Serrana.
Ele teve seu sobrenome aportuguesado para Estraque e
Straque. Recebeu terras no Baixo Josaphat, em forma de
pagamento, Estava unido com a viúva Ana Catarina Menger
que conseguira terras na sede da Colônia. Franz Strach foi,
portanto padrasto de João Patrulha Menger.

TILO FABRÍCIO, integrou a Patrulha Serrana


radicando-se no Baixo Josaphat, ao pé da Serra do Pinto. A
sua filha Maria Fabrício, casou com Johannes Teisinger,
casal que teve o filho Valentim, em 1849 (afilhado de
Valentim Justin). O casal Teisinger saiu de Três Forquilhas,
devido à má fama dos irmãos Fabrício, filhos de Tilo, Por

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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volta de 1880 esses irmãos Fabrício passaram a promover
atos de violência na Colônia e foram eliminados pela força
policial.

MILITARES BRUMMER QUE ENTRARAM NA


COLONIA DE TRÊS FORQUILHAS A PARTIR DE 1853

Para a Colônia de Três Forquilhas que por algum


tempo sofreu sob um inclemente isolamento e estagnação,
a vinda dos "Brummer", tornou-se fator valioso a contribuir
na arrancada para o desenvolvimento no chamado período
da "Renascença da Colônia". Eles representavam sangue
novo como ótimos partidos para as moças casadoiras além
de apresentarem todos eles boa formação intelectual e
capacitação profissional. Alguns foram dispensados antes da
guerra, por motivos de saúde, como foi o caso do professor
Christian Tietboehl.

Ao chegarem, traziam seus vistosos uniformes,


medalhas, armas e mochila militar. Na Colônia de Três
Forquilhas passaram a ser conhecidos como "Mochileiros",
pois que diversos passaram a circular pela Vila e
circunvizinhanças com a mochila nas costas, para levar as
ferramentas de trabalho.

Quem eram estes militares prussianos?

Em 1851 o Brasil decidira contratar tropas


mercenárias para a luta contra Oribe e Rosas. Foram
trazidos 1800 homens da Prússia (alemães) sendo muitos
deles experientes por terem atuado em campos de guerra
da Europa.

Vieram artilheiros, infantes, sapadores.


Apresentaram-se completamente apetrechados com suas
armas (fuzil Dreyse com agulha), fardamento, capacete,

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
103
além da mochila de campanha, com todo o material para
entrar em combate.

Fizeram um contrato para quatro anos de serviços ao


Brasil, nas seguintes condições: 1 – No final dos quatro
anos receberiam um prêmio em dinheiro e se quisessem
poderiam voltar para a Alemanha. 2 – ou, receber o soldo
durante quatro anos e mais uma área de terra e radicar-se
no Brasil. A maioria aceitou a segunda opção.

Dois Brummer destacaram-se pelo seu valor militar


sendo convidados, após a guerra, para servirem de
instrutores na Escola Militar no Rio de Janeiro. O Major
Maximiliano Emmerich. Ele transmitiu a tecnologia militar
prussiana aos jovens oficiais brasileiros. Ele seguiu depois
para a Guerra do Paraguai como militar do Exército
Brasileiro.

O segundo instrutor foi o tenente Coronel Peter


Meyer, um atirador de elite e serviu como instrutor de tiro
para alunos da Escola Militar. Também depois partiu para a
Guerra do Paraguai.

Findas as lutas contra Oribe e Rosas, os que não


estavam enfermos, tiveram que terminar o contrato com o
Império para serem liberados.

Pastor Voges, a partir de 1851, empenhara-se,


insistentemente, com o auxílio do Comandante Schmitt e do
Brummer Christian Tieboehl, para conseguir a vinda de pelo
menos alguns militares, para a Colônia de Três Forquilhas.

Comandante Schmitt tinha um especial interesse,


pois dentre esses imigrantes encontrava-se o seu sobrinho
Wilhelm Schmitt, que viera por volta de 1852 ou 53, para
prestar serviços de armeiro, aguardado, para o efetivo dos
Brummer. Wilhelm era aguardado em Três Forquilhas com

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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ansiedade, para o casamento com Bárbara Schmitt, (filha
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do comandante Schmitt e prima de Wilhelm ).

Porém Comandante Schmitt não pode presenciar a


chegada do sobrinho e o casamento com Bárbara, pois
faleceu semanas antes, em virtude de enfermidade crônica
de hidropisia.

Christian Tietboehl também auxiliou bastante, pois


tinha entre aqueles militares diversos de seus amigos e
conhecidos.

Vieram em torno de 20 militares prussianos para


Três Forquilhas, com suas fardas, mochilas e armas (fuzil
Dreyse).

A inclusão deste militares na Colônia teve um efeito


bem maior do que o esperado, nas mais diferentes áreas:
social, econômica e cultural. Eles vinham com seus soldos
de quatro anos quase intactos, para aplicar em atividades
na Colônia. Foram logo vistos como ótimos partidos para
um casamento. Além disso, diversos deles eram disputados
como profissionais bem qualificados em diferentes áreas
como alfaiates, sapateiros, carpinteiros, funileiros, entre
outras profissões.

É a seguinte a relação dos "Brummer" da Colônia de


Três Forquilhas, com base no Registro Eclesiástico do Pastor
Voges e outras fontes da tradição oral:

CRISTIANO TIETBOEHL nasceu em Demin


(Prussia). A tradição oral transmite que ele fora oficial do
Exército Imperial da Prússia, com uma fina formação
intelectual e artística. Era pedagogo e músico. Casou no
vale do rio Três Forquilhas com Catarina Eigendrodt.
Tiveram sete filhos e duas filhas. Em 1860 fundou/
juntamente com outros companheiros a Banda de Música de
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Três Forquilhas. Estabeleceu uma Escola Particular e
assumiu o cargo de regente do Coral da Igreja. Seus filhos
e netos dariam continuidade ao mesmo empenho,
mantendo a Banda de Música e o Coral da Igreja em quase
100 anos de atividades ininterruptas, por três gerações da
família Tietboehl.

FIGURA 7: Christian Tietboehl - ex Oficial Brummer.


Fonte: Arquivos da Família Voges, 1970.

PETER MATHIAS ERLING nasceu em


Mannesheim/Holstein, filho de João Erling, casou no vale do
rio Três Forquilhas, em primeiro matrimônio com Dorothea
Henze, tendo duas filhas e um filho, e, em segundas
núpcias com Susana Weckmann, com quem teve mais três
filhas e três filhos. Adquiriu uma propriedade agrícola na
sede da Colônia e assumiu forte presença na liderança
comunitária na Igreja.

MATHIAS GRASSMANN nasceu em Mannbach bei


Nieederheimbach, em 1826, filho de Jacob Grassmann e
Anna Elisabetha Grassmann e casou na Colônia de Três
Forquilhas em 1858, em primeiras núpcias com Catarina
Mittmann, tendo quatro filhas e três filhos e, em segundas
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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núpcias com Maria Klein com mais duas filhas e dois filhos.
Estabeleceu-se como curtidor e agricultor, com forte
presença na liderança comunitária.
JOSÉ ETTERER nasceu em Heithil am Rhein, em
1820, filho de Matheus Etterer e Maria Braunholz e casou no
Vale de Três Forquilhas em 1853 com Bárbara Justin.
Tiveram doze filhas e dois filhos. Modificou mais tarde o
sobrenome, passando a assinar somente ETTER. Exerceu as
profissões de alfaiate e sapateiro, estabelecido à margem
das terras do Pastor Voges, na estrada que leva à localidade
de Arroio do Padre.

AUGUST RUDOLF nasceu em Berlim em 1834, filho


de João Daaniel Rudolf e Carolina Rudolf. Casou em 1861
com Catarina dos Santos, filha do indo missioneiro Manoel
Santos, tendo uma filha e sete filhos. Modificou mais tarde o
sobrenome, passando a assinar RODOLFO. Exerceu as
profissões de alfaiate e sapateiro.

FRANZ SAUL, não encontramos nenhum registro


sobre a sua procedência, na Prússia. Casou na Colônia de
Três Forquilhas, em 1857 com Elisabeta Dorotea Mauer,
tendo com ela cinco filhos. Exerceu o cargo de professor da
Comunidade, mantida pelo Pastor Voges. Seus descendente
não permaneceram na Colônia, mudando residência para a
região do cima da Serra.

AUGUST SONNTAG não encontramos nenhum


registro sobre suas origens, na Prússia. Foi ao campo de
guerra no Paraguai, e no retorno a São Leopoldo, foi
convidado pelo Pastor Voges para atuar como professor da
Escola da Comunidade, como sucessor de Franz Saul. Foi a
fase de especial progresso na área do ensino escolar.
Sonntag casou com Bárbara Triesch, em 1876 e tiveram um
filho e uma ·filha. Exerceu ainda a profissão de médico
homeopata, recebendo o apelido de "Xaropeiro".

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GUILHERME SCHMITT nasceu nas redondezas de
Borrnheim/Hessen. Conforme a tradição oral ele teria
servido como armeiro, no Exercito Imperial da Prússia. Na
Alemanha, como artesão, estivera ligado à maçonaria
germânica. Foi trazido pelo tio Felipe Pedro Schmitt para
casar com a meia prima Bárbara Schmitt. Tiveram três
filhas e dois filhos. Ele assumiu a casa comercial e o espaço
de liderança ocupado pelo sogro, herdando também o
apelido do mesmo: Comandante Schmitt.

JOÃO PEDRO DIETERICO BAUMANN não


encontramos registro sobre suas origens na Prússia. Lutou
na Guerra do Paraguai. Casou na Colônia com Anna Maria
Schneider (filha do cervejeiro Schneider). Tiveram três
filhos. Não permaneceu no Vale do rio Três Forquilhas.

MARTIN BREHM (ou BLEHM), nasceu em


Briedel/Koblenz, em 1841, filho de Franz Brehm e
Elisabetha Schon. Casou, em 1866, com Magdalena Gross,
que não era parente. Tiveram três filhas e quatro filhos.
Estabeleceu-se na localidade da Boa União como agricultor
e criador de gado.

MAXIMILIANO KRAUSE nasceu em Konigsberg,


em 1832, filho de João Ferdinand Maximiliano Krause e
Frederica Schellenberg. Casou em 1857 com Anna
Elisabetha Gehrmann. Tiveram quatro filhas. Exerceu a
profissão de marceneiro.

JACOB STEINMETZ não encontramos registro sobre


suas origens na Prússia. Casou em 1856 com Elisabetha
Justin. Tiveram três filhos e duas filhas. Exerceu a profissão
de alfaiate e seus descendentes encontraram prosperidade,
alguns buscando a atividade política e a administração
pública em Conceição do Arroio – Osório – RS.

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JOÃO F.C. WESTPHALEN nasceu em Lübeck bei
Neumünsster/Holstein. Casou em 1858 com Maria Catarina
Becker. Tiveram quatro filhos e três filhas. Dedicou-se à
agricultura, na sede da Colônia. Foi assassinado em 1870,
na Colônia de Três Forquilhas.

FREDERICO DICKSEN nasceu em Kiel/Holstein em


1826, filho de João e Helena Dicksen. Casou em 1863 com
Maria Madalena Menger. Tiveram seis filhas e dois filhos.
Exerceu a profissão de mestre sapateiro na localidade de
Três Pinheiros.

CARLOS RIETGEROTH. Não encontramos registro


sobre suas origens na Prússia. Casou em 1857 com
Catharina Gross. Tiveram cinco filhos e três filhas. Mudou o
sobrenome para RICKROTH. Foi mestre sapateiro na
localidade de Morro do Chapéu. Consta que trouxe para
dentro de sua casa uma mulher índia, caingangue, e com
ela gerou filhos que levaram o seu sobrenome e batizados
como sendo filhos tidos com a esposa Catharina Gross.

LUIS STAHLBAUM. Não encontramos registro sobre


suas origens na Prússia. Casou em 1860 com Maria
Dresbach. Tiveram cinco filhos e duas filhas. Teve
modificado o seu sobrenome pelo apelido de Gaspar, por
causa do sogro Gaspar Dresbach. Ele passou a ser o Luiz do
Gaspar e depois simplesmente Luis Gaspar. Foi marceneiro
na localidade de Morro do Chapéu.

JACOB HARTMANN filho de Matheus Hartmann e


Cristina Hummes, casou em 1853 com Maria Eva Henze.
Tiveram uma filha. A família saiu da área da Colônia Alemã
de Três Forquilhas.

JOÃO FINGER. Este nome não aparece no Registro


Eclesiástico mantido pelo Pastor Voges. Consta apenas da
relação transmitida pela tradição oral. Nos registros consta,

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porém ALBERT FINGER, radicado em Vacaria e que em 1867
batizou uma filha com o Pastor Voges. Este era casado com
Maria Romilda Lemos.
JOÃO SCHWARZ. Não aparece no Livro de Registro
Eclesiástico mantido pelo Pastor Voges. Consta que ele
residiu no Vale do rio Três Forquilhas, como agricultor.

FREDERICO RODOLFO DIETERICO


BROOKSCHMITT. Nasceu em Lushof, no Reinado de
Hannover, em 1828, filho de Frederico Brooksschmitt e
Cristina Schlüsselberg. Casou em 1855 com Sofia Henze.
Estabeleceu-se como agricultor, porém não permaneceu na
Colônia por muito tempo.

Observação: É possível que mais outros Brummer


tenham entrado no vale do rio Três Forquilhas, mas não
identificados como militares prussianos, uma vez que o
Pastor Voges não mencionava detalhes desta natureza em
seu Registro Eclesiástico. Esperamos, no entanto, ter
contribuído com o resultado das nossas pesquisas para que
esta matéria possa ser aprofundada pelos interessados.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
110
FRIEDRICH SCHÜTT – UM ARMEIRO MILITAR INGLÊS

FIGURA 8: Armeiro e ferreiro.


Fonte: Arquivo fotográfico do autor, 1974.

SCHÜTT, FREDERICO. Frederico Schütt que


nasceu em Hannover, na Alemanha, serviu no 15º
Regimento de Cavalaria Leve, no exército inglês. Veio ao
Brasil com o objetivo de servir ao Exército Imperial para
combater na Guerra Cisplatina.

Ele se uniu com Elisabetha Brehm, e com ela teve


duas crianças. A Dorothea Schütt nascida em 08.07.1828 e
a segunda criança foi Friedrich Philipp Nicolaus Schütt,
nascido em 29.09.1831, batizado pelo pastor Voges no dia
08.10.1831 e teve como padrinhos Friedrich Wilhelm
Eigenbrodt, Nicolaus Helbig e Philipp Gross.

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111
O filho Frederico Schütt casou em 14.07.1853 com
Elisabetha Eigenbrodt e faleceu de ataque cardíaco em
15.05.1896 e tiveram 8 filhos. F1 - Catharina Maria nasceu
em 06.08.1854 e que casou com Friedrich Wilhelm Brehm
em 13.05.1876. F2 - Friedrich nasceu em 16.09.1858 e
casou com Carolina Elisabeth Tietboehl em 27.02.1886. F3 -
Catharina nasceu em 17.08.1860 e faleceu quando criança.
F4 - Luiza Dorothea nasceu em 1862 e casou com o médico
inglês William Williams no dia 28.10.1877. F5 - Anton Peter
nasceu em 10.09.1864 e casou com Christina Gross
03.04.1890. F6 - Wilhelm nasceu em 26.07.1866 e casou
com Rosalina Gross, filha de Paraguaio Gross e Abela
Delore, em 07.09.1899. F7 - Leopoldo que nasceu em
23.06.1869 e faleceu solteiro. F8 - Mariana Wilhelmina
nasceu em 16.09.1870 e casou com Wilhelm Tietböehl em
24.03.1887.

A profissão de armeiro era uma das mais valorizadas


do Brasil, após a Independência (depois de 1822). Serviço
não faltava - afinal, alguém tinha de cuidar do armamento
dos Soldados, e das armas (espadas e lanças) das milícias.

Era preciso consertar armas avariadas e também


alinhar as miras e deixar os canos em ordem. Pela
intensidade do uso de armamento, e até com o romper da
Guerra Cisplatina, faltavam armeiros no mercado. Quem
sabe, os melhores do ramo eram solicitados a prestar
serviços ao Exército Imperial, na Capital - Rio de Janeiro.
Porque Schütt não permaneceu no Rio de Janeiro, servindo
ao Exército, se ele era um militar? Não sei dar a resposta...

Caso Schütt tivesse permanecido no Rio de Janeiro,


certamente ele teria ganhado muito dinheiro, muito e muito
mais do que ganhava em ser o ferreiro da Colônia de Três
Forquilhas.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
112
No entanto, creio que o amor pela Izabel Brehm, o fez
seguir com ela para o Sul. Ou ficara enfermo e não podia
mais ser um soldado e armeiro da tropa? Hipóteses para
serem pesquisadas. Não tenho respostas para tais
perguntas que surgiram...

Sei apenas que Schütt preferiu seguir com a sua


amada Izabel Brehm tornando-se padrasto de Wilhelm e
Martin Brehm. Ele ajudou na formação excelente dos
meninos Brehm e fez deles homens de valor, os quais
deixaram suas marcas na história local. (Darci Brehm foi o
primeiro Prefeito do município de Três Forquilhas. Também
Rubem Brehm Justo e Enildo Brehm foram Prefeitos de Três
Forquilhas. Carlos Chaves, atual Prefeito de Itati – RS
também é descendente de Wilhelm Brehm. Existem outros
líderes, em cujas veias, correm o sangue de Brehm, por
exemplo, o Jarbas Brehm e toda aquela numerosa turma.
Inclusive nas veias de minha esposa e de meus filhos existe
o sangue Brehm, pois a bisavó de Doris chamava-se
Leopoldina Brehm e casou com José Justo. Todos eles
devem ao Schütt que o antepassado Wilhelm Brehm
recebeu esse bom encaminhamento para a vida.

Dentre os descendentes do armeiro militar


Frederico Schutt lembramos também o professor Pedro
Osmar Schutt com destacada folha de serviços no
magistério, em particular na Escola Rural Guilherme
Schmitt, em Três Pinheiros e o Sr. Luis Cláudio Schutt que
foi vereador em Itati - RS.

O ferreiro GUILHERME BREHM nasceu em


04.12.1825 no Rio de Janeiro, filho de Izabel ou "Elisabeta"
Brehm, que voltara a casar em São Leopoldo com o viúvo
Bentzen, que faleceu. A viúva integrou a caravana rumo a
Três Forquilhas e em algum momento uniu-se com
Frederiico Schütt. Desta forma Guilherme Brehm entrou no
Vale de Três Forquilhas com apenas um ano de idade. Ele
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
113
aprendeu a profissão de ferreiro, ofício que lhe foi
transmitido pelo padrasto. Seus descendentes tiveram
presença marcante na vida da Colônia de Três Forquilhas.
Tornaram-se ativos na Comunidade e arrojados em seus
empreendimentos. São responsáveis pela instalação da
primeira indústria de conservas do Vale do Rio Três
Forquilhas, em 1970. Darci Brehm exerceu a função de
Prefeito de Torres e foi eleito primeiro Prefeito de Três
Forquilhas em 1992. Na descendência de Guilherme Brehm
constam mais dois Prefeitos do município de Três
Forquilhas: Rubem Brehm Justo e Enildo Brehm, além de
diversos vereadores e líderes políticos.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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WILHELM SCHMITT – UM ARMEIRO E
RELOJOEIRO

Wilhelm Schmitt trouxe da Europa uma forja


doméstica, pequena, mas na época bem moderna. Na
profissão de relojoeiro ele não encontrou muito serviço, pois
os relógios eram escassos na Colônia de Três Forquilhas.

Schmitt não fabricava relógios, apenas consertava.


Ele fabricava as peças de reposição, fabricando mecanismos
e engrenagens. Era, por isso, fundidor, dourador e
cinzelador.

Os relógios quase todos eram de ferro, com corda


para dois dias. Os relógios com pêndulo eram ainda mais
raros, talvez meia dúzia deles na Colônia. Wilhelm possuía o
relógio de pêndulo mais fino, era de pêndulo compensado
com mercúrio com elevado grau de precisão, no modelo da
marca George Graham.

Comparando os armeiros Schütt e Schmitt, ficava


evidente que a forja do primeiro era rústica, de tamanho
grande. A forja do segundo era pequena e delicada. O
ferreiro Schütt e depois seu enteado Brehm usavam um
grande martelo, batendo sobre o ferro em brasa na forte
bigorna. Já o armeiro Wilhelm Schmitt usava no máximo um
martelete. Com a forja delicada ele derretia metais e os
moldava em moldes de gesso.

Ambos sabiam trabalhar com o ferro, com o aço e


bronze.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Wilhelm Brehm, o ferreiro herdeiro de Schütt,
continuou fabricando ferramentas grandes, duras e
flexíveis.

Wilhelm Schmitt passou a fabricar pequenas peças,


mecanismos e engrenagens.

As ferramentas de Wilhelm Brehm eram, portanto a


bigorna, os martelos, a grande forja, o fole, os tornos de
cilindrar, as serras de cortar, as cunhas e as alavancas.

Já para Wilhelm Schmitt era tudo em miniatura.

O Ofício de um Mestre Armeiro

O armeiro tinha que entender do ofício de ferreiro,


de funileiro e ferramenteiro.

O Armeiro, como ferreiro, fazia o serviço rústico de


transformar ferro em canos e nas demais peças de
armamento. Na condição de Funileiro fazia moldes para
fabricar armas e armaduras, espadas e lanças. Como
ferramenteiro sabia fazer toda a espécie de ferramentas e
engenhocas.

O principal personagem da SAGA DOS SCHÜTT NA


COLÔNIA DE TRÊS FORQUILHAS foi o armeiro Friedrich
Schütt. Ele foi ferreiro, funileiro e ferramenteiro. Ele sabia
produzir de tudo que lhe fosse encomendado, desde
espadas, lanças, bem como as ferramentas mais diversas
como facões, foices, machados e enxadas.

Como armeiro Schütt sabia trabalhar com moldes de


argila. Com esses moldes ele produzia, em uma fornalha
própria, as suas espadas, lanças e canos de armas e de

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
116
pistolas, com a qualidade que suas habilidades permitiam.
Uma arma feita de bronze tinha qualidades totalmente
diferentes das de uma de ferro. Por isso havia a
necessidade de conseguir a matéria prima. Onde conseguir
a matéria prima? Possivelmente, em Três Forquilhas, ele
passou a trabalhar exclusivamente com ferro, a matéria
prima mais fácil de ser encontrada e abandonou a
fabricação de armamentos.

Em Três Forquilhas, em 1826, a maioria eram


colonos que precisavam de algum tipo de ferramenta, de
ferro. Enxadas, foices, machados, facões, etc.

Certamente ele apenas consertava armas... Armas


avariadas que os colonos lhe traziam...

Quando Wilhelm Schmitt chegou ao vale do Três


Forquilhas também notou que não teria clientela. Tentou
desenvolver a sua exímia atividade artesanal para forjar as
peças de reposição em armamentos, tanto de pistolas bem
como de armamento de cano longo. Mas o serviço era tão
escasso que passou a cuidar de suas lavouras, do engenho
e de seu alambique, com o auxílio de peões.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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A ÍNDIA PARAGUAIA ABELA DELORE

Abela Delore nasceu em 1851 nas proximidades de


Luque, no Paraguai, nas planícies entre o rio Paraguai e o
lago de Ypacaraí, a quase 20 quilômetros de Assunção.

A família de Abela mudou-se mais tarde, por volta de


1858 para as margens do rio Avaí, na direção da cidade de
Vileta.

A família Delore era de origem indígena, do ramo dos


guaranis, civilizados e entrosados na sociedade. O pai de
Abela tornou-se um próspero estancieiro dedicado à criação
de cavalos.

FIGURA 9: Índia Guarani, do Paraguai.


Fonte: Internet, 2010.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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O estancieiro e seus filhos mais velhos foram
convocados para a guerra e pereceram na batalha de Avaí,
em 1868.
Restaram órfãos Abela e Pepito, pois a mãe já
falecera no início da guerra.

Abela socorreu o soldado brasileiro Carl Daneil Gross,


que jazia gravemente ferido no campo de batalha.
Concedeu-lhe os primeiros cuidados e depois o conduziu até
o Hospital de Campanha brasileiro, provavelmente em
Vileta.

Luisa Abela Dellore depois veio na garupa de um


cavalo, acompanhando o soldado brasileiro que ela
socorrera até o Brasil e dele cuidou com integral dedicação,
até o final. Seus filhos e netos e amigos a admiravam por
este motivo.

Quando Carlos Daniel Gross partiu desta vida, Abela


foi tomada pela solidão. Sobrevieram para ela horas de
saudade do Paraguai. Ela se dirigia então ao descampado,
ou subia algum morro mais próximo, preferindo estar longe
de todos. Encontravam-na inúmeras vezes com o olhar
perdido, olhando para o horizonte, na direção de sua terra
natal. Sofria em silêncio, a sós.

Ainda que Abela falasse pouco, pois que só dominava


bem a língua guarani, seus netos souberam que ela fora
filha de um rico estancieiro paraguaio. O pai um próspero
criador de cavalos e dono de 25 escravos. A mãe dela
falecera antes do inicio da guerra. Por causa da guerra
todos os cavalos haviam sido requisitados pelo Exército de
Solano Lopes. Nada mais restou ao estancieiro senão de
também partir para o campo de combate, juntamente com
os seus filhos mais velhos. O pai cairia morto, diante das
lanças da cavalaria brasileira, na Batalha do Avaí, em 1868.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Abela que fora rondar os campos de batalha,
andando em companhia do irmãozinho, passou pelos
campos de combate do Avaí, em busca de notícias do pai ou
de seus irmãos. Encontrou ali o cavalariano brasileiro que
talvez tivesse morto seus familiares.

Essa era a história da índia paraguaia Abela e do


combatente brasileiro Carlos Daniel Gross. Uma legítima
história de AMORES DA GUERRA.

O irmãozinho de Abela, que prometera acompanhá-


la, só chegou até Santa Maria. Assustou-se com a vastidão
da terra estrangeira em que pisava pela primeira vez e
preferiu retornar ao Paraguai.

Quando Carlos Daniel Gross faleceu, Abela passou a


pensar muito nesse seu irmão. Tinha uma enorme vontade
para revê-lo, de saber se ele estava bem. Ela ficou tão
envolvida neste sofrimento tão profundo que se arraigava
em sua alma que, quando Paraguaio Gross faltou, ela não
conseguiu nem mais cuidar de sua filhinha caçula, nascida
em 1883, um pouco antes do falecimento de Paraguaio
Gross. Carl Strassburg que também estivera na guerra, se
apresentou na casa da viúva Abela Delore e prontificou-se a
adotar e criar a pequenina Maria Paulina Gross.

Abela findou os dias na Colônia Alemã de Três


Forquilhas, minada pela tristeza e melancolia. Ela também
recebeu, em 1885, o repouso no Cemitério do Passo, ao
lado da sepultura daquele que ela salvara e ao qual se
ligara a tal ponto que deixara tudo, sua terra e sua gente.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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A INICIAÇÃO POLÍTICA DE CANDINHO

Baiano Candinho teve um período muito feliz, na


propriedade de Paraguaio Gross, como capataz para
conduzir a atividade dos peões da propriedade.

As cercas de taipa de pedra, para demarcar a


propriedade e as cercas do potreiro, foram construídas
nesse período por orientação dele.

Os dias de chuva e dias de folga foram ocasiões de


longas conversas mantidas por Paraguaio Gross e Candinho.
Outras vezes foram as visitas demoradas que o velho Miguel
Barata costumava fazer ao Paraguaio, para ficarem falando
de política. E, conversa vem e conversa vai, Candinho vinha
se juntar aos dois, interessado pelos ideais farroupilhas e
das lutas do passado, em busca de mais justiça para os
habitantes da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Todos notavam que Paraguaio Gross ia perdendo a


força muscular, a cada dia que passava. O homem parecia
estar "secando", lentamente, por debaixo da pele. Aos
amigos ele explicava que o problema resultara de água
16
pestilenta que ele se vira obrigado a beber, em certa
oportunidade, para não morrer de sede.

Os amigos, por sua vez, faziam "troça", sugerindo


que ele, cada vez mais, se assemelhava ao couro
17
estaqueado .

No contato com o veterano Paraguaio Gross, a


influência que Candinho passara a receber dizia respeito à
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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atividade política no vale do rio Três Forquilhas. Gross não
escondia a sua grande insatisfação com a situação em que
se encontravam os imigrantes alemães e seus filhos, de
credo protestante que estavam impedidos, de votar e de
serem votados. O veterano Gross costumava criticar tal
situação, dizendo: "Para oferecermos as nossas vidas em
defesa da Pátria, fomos aceitos. Mas para votar e sermos
votados, não nos concedem tal direito".

Bahiano Candinho simpatizou com este discurso.


Temos que lembrar que ele também se via alijado da vida
política e pública por viver como um clandestino. Até um
nome falso ele adotara.

Conforme já citamos anteriormente Paraguaio Gross


pertencia ao grupo dos admiradores dos feitos e da
coragem dos farrapos que enfrentaram o Governo Imperial
em busca de mais atenção para esta terra do extremo sul.

No passado, após a Guerra dos Farrapos, de retorno


ao vale, o Miguel Barata é quem mais influenciara os jovens
da localidade, com seus discursos inflamados, dentre os
quais Gross ocupava um lugar especial.

Além disso, a Colônia Alemã de Três Forquilhas via o


fortalecimento, cada vez maior, do Partido Liberal, sob a
liderança do Major Adolfo Felipe Voges. Esse partido era
reconhecido como continuador dos ideais farroupilhas, ao
qual estava ligado até o insigne General Manoel Luis Osório,
que todos admiravam.

Lembramos ainda que nos primórdios da Colônia, no


tempo da Revolução Farroupilha (1835-45) poucos haviam
sido os maragatos farroupilhas, na localidade. Apenas era
citado o nome de Miguel Barata (Johann Michel Eberhardt)
que se posicionara publicamente e por causa disto até tivera

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
122
que se afastar de Três Forquilhas, por diversos anos, para
fugir de perseguições.

Agora, porém, no Partido Liberal podiam ser


encontrados representantes de inúmeras famílias influentes
da Colônia, como por exemplo: dos Jacoby, dos Hoffmann,
dos Eberhardt, dos Gross, dos Becker, dos Menger, dos
Pereira de Souza, dos Triesch, dos Flor, dos Klein, dos
Rudolf, dos Stahlbaum, dos Brusch, dos Schwartzhaupt, dos
Rickroth, dos Steinmetz, dos Tietboehl, entre tantos outros.
O próprio pastor Carlos Leopoldo Voges, depois de mais de
40 anos de dedicação à vida administrativa e espiritual da
Colônia encorajava agora os paroquianos a uma vida bem
mais ativa na esfera política local. O pastor se naturalizara,
para ser um cidadão brasileiro, fazia muitos anos, com o
objetivo de contornar as limitações que alguns setores
políticos da Província tentavam lhe impor por considerá-lo
como sendo um estrangeiro. Pastor Voges não tinha
pretensões por cargos eletivos, mas incentivava os seus
filhos e os filhos dos colonos para ocuparem todos os
espaços possíveis e para o exercício de liderança em busca
de uma participação ativa na política, ali onde se
estabelecessem.

Bahiano Candinho inicialmente foi apenas observador


e ouvinte. Mas quando aderiu passou também a pregar os
ideais dos farroupilhas e maragatos, e o fez com convicção.
Foi ocupando, passo a passo, o espaço que o seu amigo
Paraguaio Gross ia deixando, em virtude da saúde precária
que, a cada dia, piorava.

A discriminação que no passado fora feita pela


maioria dos moradores da Colônia de Três Forquilhas, aos
seguidores do movimento farroupilha, foi desaparecendo
por completo. Certamente a causa principal para isto foi à
conscientização ampla, como esta em que Paraguaio Gross
também se empenhou, após o seu retorno da guerra. Os

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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colonos passaram a entender que a falta de perspectivas
dos protestantes de participar da vida política do Brasil, era
inaceitável.

Foi deste modo que os cinco baianos ingressaram


neste círculo bem íntimo do "Paraguaio Gross", pelo simples
fato de estarem unidos com sobrinhas dele. Todavia,
tiveram que passar a viver à sombra da fama, ao lado de
um combatente de valor reconhecido.

Afinal, Carlos Daniel Gross era filho do Carpinteiro


Gross - Philipp Peter Gross - dos pioneiros imigrantes.
Paraguaio Gross era cunhado de "João Patrulha" (Johannes
Menger), de "Lipio Fatas" (Joachim Brusch) e de Heinrich
Becker. Era tio das mulheres de "Pedro Bahiano", "João
Bahiano" e "Bahiano Tonho" e tio da eterna namorada de
"Bahiano Candinho", a "Tedéia Beca".

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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AS MÃES E AS VIÚVAS DOS COMBATENTES
MORTOS

Merece espaço em AMORES DA GUERRA um


enfoque, por breve que seja e que permita uma visão da
situação das mães e das viúvas dos ex-combatentes que
tombaram na Guerra do Paraguai. As famílias souberam
quando dos recrutamentos dos voluntários, que em caso de
mortes dos mesmos, haveria uma pensão para a mãe, se
solteiro, ou para a viúva, quando casado.

Podemos assim entender que uma das preocupações


da viúva Gross, que surge em AMORES DA GUERRA, tinha
algo a ver com o recebimento de uma pensão, caso o filho
não retornasse. Felizmente ele retornou e com uma boa
quantia em dinheiro na guaiaca, do soldo pelo cumprimento
do serviço como combatente.

Conforme estimativas dos pesquisadores, o Brasil


teve entre trinta a cinqüenta mil mortos na Guerra do
Paraguai. Além disso, teve um número elevado de
mutilados e gravemente feridos.

Sucedeu um grave problema social do pós-guerra


que atingiu entre cinquenta a oitenta mil famílias
brasileiras.

O Governo Imperial havia contabilizado um problema


econômico de grandes proporções, advindo dos gastos com
a Guerra do Paraguai. Ficou diante de uma desorganização
político administrativa com dificuldades para ressarcir as

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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mães e ou as viúvas e órfãos dos ex-combatentes tombados
nos combates e os mutilados e incapazes para o trabalho.
Inúmeras mães ou viúvas jamais foram indenizadas pela
perda irreparável do filho ou do marido, fato que
comprometeu a sobrevivência daquelas famílias.

Muitas mães e muitas viúvas e órfãos foram tomados


por angústia e pelo medo. A angústia e o medo são pólos
que merecem a nossa observação. O medo pode ser
descrito como sendo uma situação bem determinada, com
vistas claras sobre o futuro adverso que está pela frente. Já
a angústia é marcada por total incerteza, motivada pela
ausência de notícias e bem mais difícil de enfrentar, pois
precisa lidar com uma ansiedade difícil de ser identificada.
Tratam-se de sofrimentos profundos, que comprometem a
saúde e a existência dessas mulheres.

Existiram muitas mães, muitas viúvas, e muitos


órfãos tomados por ansiedade e melancolia por causa do
desaparecimento do combatente, que não voltou, criando
uma angústia profunda e dolorosa. Somado à angústia, está
o medo, causado pela ausência do provedor, que cuida da
sobrevivência da família.

Angústia e medo, sofrimento dobrado, para mães,


viúvas e órfãos diante de um governo imperial ineficiente,
que foi incapaz de providenciar uma pensão imediata para
as famílias dos militares mortos ou mutilados, da Guerra do
Paraguai.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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A ESCOLA DO PASTOR VOGES

A Escola da Comunidade, também conhecida como


Escola do Pastor Voges iniciou em 1827, de modo precário e
funcionou no templo de madeira, por mais de 20 anos.

Em 1850 ela foi transferida para o sobrado do


pastor, com sala no piso superior. Além disso, o pastor
oferecia acomodação ou quarto para hospedar o professor,
enquanto que solteiro.

Em 1853 o pastor conseguiu a vinda do professor


August Schröder, que chegou logo após a inauguração do
templo de pedra. Schröder adoeceu em 1854 pedindo
transferência a Porto Alegre, para melhor cuidar de seu
tratamento. Em 05 de janeiro de 1855 o pastor enviou ofício
ao Conde de Sinimbu, José Lins Vieira, então Presidente da
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e ainda dizia:
“A aula em Três Forquilhas é freqüentada por 30 alunos, os
quais fazem ligeiros progressos debaixo do magistério do
professor Augusto Guilherme Schröder, de maneira que os
meninos da Missão freqüentam a sua aula. Vão à Escola do
Governo do dito professor, mui acertado, por ser pessoa de
boa moral e zeloso no seu emprego”.

Na primavera de 1854 o pastor conseguiu trazer o


professor Franz Saul, para integrar o corpo docente da
Escola da Comunidade, uma vez que Schröder já
comunicara sua situação precária de saúde e o desejo de
seguir para Porto Alegre. Franz Saul era dos militares
prussianos, Brummer, que lutaram na Guerra contra Oribe e
Rosas, e vinha com uma esmerada formação recebida em
escola européia. O professor Saul adaptou-se bem à Colônia

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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e em 1858 casou com Elisabeth Dorotéia Mauer. Tratava-se
de uma filha do moleiro Christian Mauer, regente do coral
da igreja e braço direito de pastor Voges na liderança da
Comunidade. O casamento do professor Saul com Elisabeth
Doroteia foi abençoado com os seguintes filhos: Carlos Saul,
em 03.03.1859, Adolfo Guilherme Saul em 03.04.1861,
Leopoldo Saul em 21.08.1863, Carlos Frederico Saul em
03.07.1865 e Martin Saul em 18.05.1867.

Dez anos após o término da Guerra do Paraguai


professor Saul decidiu transferir-se para a região do Cima
da Serra. Novamente o pastor teve que se empenhar na
busca de novo professor. Localizou o militar August Sonntag
que combatera na Guerra do Paraguai e estava em busca de
um campo de trabalho, como professor, em vista de sua
formação em escolas européias, dando-lhe condições de
exercer este mister. Augusto Sonntag assumiu a Escola de
Voges após a saída do professor Saul e integrou-se na
Comunidade. Casou em 1876 com Bárbara Triesch e
tiveram os seguintes filhos: João Carlos Augusto Sonntag,
nascido em 22.10.1877 e Maria Sonntag nascida em
26.09.1880.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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FIGURA 10: Professor AUGUST SONNTAG
Fonte: Arquivo da Família Voges

O professor Sonntag dedicou-se além do magistério


também à prática da medicina, recebendo o apelido de
Xaropeiro. Ele fabricava os seus próprios xaropes e, além
disso, trazia remédios da Capital. Professor Sonntag
permaneceu na Colônia de Três Forquilhas até a morte,
vitimado pela epidemia de cólera que se abateu sobre a
Colônia de Três Forquilhas.

Outra iniciativa de grande vulto encetada em prol da


formação ministrada na Escola do Pastor Voges foi sem
dúvida a vinda do professor Serafim Agostinho do
Nascimento com o claro objetivo de oferecer o ensino da
língua nacional aos alunos. O professor Nascimento se
formara na Capital Federal, ou seja, no Rio de Janeiro. O
trabalho trouxe uma total mudança no ensino ministrado na
Escola do Pastor Voges.

O professor SERAFIM AGOSTINHO DO NASCIMENTO


nasceu em 1835 na cidade de Rio Grande, na Província de
São Pedro do Rio Grande do Sul, filho de Antonio Agostinho
do Nascimento e Maria do Nascimento. Serafim teria sido
primo-irmão do pai do Presidente Getúlio Dornelles Vargas.
Conforme informação de Hernando Nascimento, o pai de
Getúlio Vargas teria se chamado Manoel Vargas do
Nascimento. Ainda não foi possível comprovar essa
informação com outras fontes.

Serafim foi estudar na Capital do Império, Rio de


Janeiro. Lá casou com a baiana Maria Carolina dos Santos,
filha de Antonio José da Silva e Marcelina Joaquina do
Espírito Santo. Retornando ao sul, Serafim foi morar
inicialmente na cidade de Conceição do Arroio (Osório). Mais
tarde seria enviado para a Colônia de Três Forquilhas. O
Governo da Província atendia solicitação feita pelo pastor
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Voges que desejava receber um bom professor de língua
nacional, para os jovens matriculados na escola por ele
mantida. Como primeira atitude, ao chegar à Colônia,
professor Serafim buscou receber, junto ao pastor Voges,
algumas aulas de língua alemã, com o propósito de melhor
conseguir se comunicar com pais e alunos.

Professor Serafim e Dona Maria Carolina tiveram os


seguintes filhos: F1 – Serafim Agostinho do Nascimento,
nascido no Rio de Janeiro em 1861. Sem outras
informações. F2 – Antonio Agostinho do Nascimento,
nascido no dia 13 de setembro de 1863 em Conceição do
Arroio (hoje Osório – RS). Na Colônia de Três Forquilhas
recebeu depois o apelido de “Nico Nascimento”. Casou com
Catharina Schwartzhaupt. O casal deu os seguintes netos
para o professor: N1 – João; N2 – Nenê; N3 – Marica; N4 –
Brandina; N5 – Serafim; N6 – Antonio; N7 – Dolfa. “Nico”
foi cabo da Escolta Policial, em 1897, destacado para a
Guarnição de Arroio do Padre (Trilha das Mulas). F3 – João
Agostinho do Nascimento nasceu no dia 23 de junho de
1865 na cidade de Conceição do Arroio (Osório – RS).
Recebeu o apelido de “Joca Nascimento”. Casou com
Generosa Feijó. Tiveram os filhos: N1 – João (02.11.1896),
N2 – Alypio (11.12.1899). Joca e Generosa fixaram
residência na localidade de Três Pinheiros. F4 – Luiza
Serafina (Carolina) do Nascimento nasceu no dia 23 de
agosto de 1867 na cidade de Conceição do Arroio (Osório –
RS). F5 – Luiz Agostinho do Nascimento nasceu em 1868,
na Colônia de Três Forquilhas. Recebeu o apelido de “Lula
Agostinho”. Não há registro sobre nome da esposa. O casal
deu os seguintes netos ao professor: N1 – Modesto; N2 –
Leopoldo; N3 – Dedé; N4 – Vicentina; N5 – Maria; N6 –
Palmira; N7 – Candoca. Lula e família fixaram residência em
Três Pinheiros. F6 – Carlos Agostinho do Nascimento nasceu
em 1869, na Colônia de Três Forquilhas. Casou com Maria
Cardoso (viúva do falecido Frederico Bobsin). Não tiveram
filhos.

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O professor Serafim Agostinho do Nascimento
recebera a alcunha de Doutor Nascimento, pois ele clinicava
e tratava as doenças mais simples. Quando saía à cavalo,
nas andanças pela Colônia, sempre levava uma maleta
contendo homeopatias, xaropes e outros medicamentos.

Serafim além de professor era homeopata, parteiro,


doutor, também atuava como advogado de colonos
analfabetos fazia inventários, redigia cartas, documentos e
petições em nome de pessoas analfabetas, foi político
atuante no Partido Liberal (Maragato). Participava do
trabalho de alistamento eleitoral dos colonos. Por diversas
vezes recebeu o cargo de subdelegado da Colônia de Três
Forquilhas. Sua residência se situava a aproximadamente
200 metros do templo protestante, onde mais tarde o Sr.
Otto Becker construiria um armazém.

Professor Nascimento lecionou na Escola mantida


pelo Pastor Voges durante 30 anos. Aposentara-se em
1890, porém continuou ministrando aulas de português na
referida Escola, por falta de um mestre que o pudesse
substituir.

Em 1894 a Escola foi transferida para a nova casa


pastoral e, transformada, pelo novo pastor, em Escola
Alemã. A Escola deixou de ministrar um ensino completo.
Passou a ser uma escola de catequese, visando alfabetizar
as crianças na língua alemã e catequizá-las na doutrina
protestante (hoje se falaria em ensino confirmatório).

Professor Serafim Agostinhho do Nascimento caiu em


total ostracismo, por ter sido sempre um maragato
convicto. Quando faleceu, em 22.05.1902, aos 67 anos de
idade, deixou uma boa herança para os filhos: uma fazenda
em Mostardas. Os filhos, porém jamais reivindicaram a
propriedade, deixando-a abandonada até os dias atuais.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
131
ASSISTÊNCIA RELIGIOSA AOS COMBATENTES,
MINISTRADA POR VOGES, ANTES E DEPOIS DA
GUERRA

A assistência aos voluntários do vale do rio Três


Forquilhas e seus familiares foi ministrada pelo Pastor Voges
com uma atenção especial. Todos eram da Igreja
Protestante (hoje IECLB), ligados à Colônia Alemã de São
Pedro de Alcântara das Três Forquilhas.

Por ocasião da convocação dos voluntários, era, pois


pastor Voges quem os assistia. Assim que o efetivo
apresentou-se pronto para partir, ele os reuniu na Igreja,
juntamente com os respectivos familiares, para um culto
solene. O pastor invocou a proteção e a ajuda de Deus,
para que cumprissem fielmente todos os deveres, em
defesa da Pátria.

Sabemos que outros pastores também assistiram os


soldados de suas respectivas áreas. O pastor Otto H.T.
Recke, pároco de Campo Bom-RS (no Vale do Rio dos
Sinos) chegou a viajar a Porto Alegre para junto à Igreja
Evangélica (Rua Senhor dos Passos) realizar cultos
especiais, destinados aos voluntários alemães.

Em 20.08.1865 oficiou um culto para a "Bateria dos


Voluntários Alemães", sendo que todos eles
(aproximadamente 80) comungaram na Santa Ceia. Estes
voluntários foram depois incorporados ao 12º Regimento de
Artilharia Montada, comandada pelo Coronel Emilio Luiz
Mallet. Diversos voluntários das Três Forquilhas também
integraram este Regimento, como foi o caso dos irmãos

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
132
Sparremberger e certamente participaram desse culto
realizado em Porto Alegre.

Em Hamburgo Velho (Novo Hamburgo-RS) o pastor


João Pedro Haesbert ofereceu assistência aos voluntários. O
seu próprio filho Luiz Adolfo Haesbert, da Guarda Nacional,
também seguiu ao Paraguai, morrendo em 1867, em
Corrientes, vitimado pela cólera.

Os voluntários protestantes seguiram ao campo de


batalha, sem a companhia de um pastor. O Império
contratara somente padres católicos, para o serviço de
assistência religiosa, aos efetivos brasileiros que seguiram
até a frente de guerra.

Um dos motivos de não existir um Capelão


Protestante vinha de uma circunstância, descrita pelo pastor
Voges, já no ano de 1827: "Por falta de pregadores
evangélicos não está contratado um pregador para os
Regimentos Alemães". Essa situação da falta de pastores
persistiu até a época do final da Guerra do Paraguai.

Antes da partida dos futuros combatentes da Colônia


Alemã de Três Forquilhas, pastor Voges realizou um culto
especial, para animar os voluntários que partiam em defesa
das terras brasileiras.

Depois, cada vez que, do Paraguai, vinha a


informação da morte de um filho da Colônia, Dona
Elizabetha, esposa do pastor Voges, confeccionava uma
coroa de flores. No culto seguinte, esta coroa era fixada na
parede interior do templo, juntamente com uma faixa
contendo o nome do soldado morto. Durante as orações, o
pastor lembrava o nome do falecido. Após o culto reunia os
familiares em torno da coroa, enfatizando o sangue
derramado em defesa da Pátria, deste filho ora sepultado
em terras estrangeiras.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
133
O pastor enfatizava, dizendo: - “Eis aqui a coroa de
ramos de cipreste, feita para nosso querido (nome). Olhem
para esta coroa. Ela é circular, sem início e sem fim. Que
ela sirva de comparação, para saber que em meio da
desesperança surgiu uma nova esperança. Ali onde nós
chegamos ao fim, apenas tem início um novo começo, pois
Cristo Ressuscitou. Nele e através d’Ele a nossa vida não
acaba com a morte. Por isto confiamos que a coroa
incorruptível da vitória está guardada para...” (nome do
soldado morto).

O pastor lia o texto da 2ª Carta do Apóstolo Paulo


para Timoteo, Capítulo 4, versículos 7 e 8: - “Combati o
bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a
coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto
juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas a
todos os que amam a sua vinda”.

Em geral as cerimônias tornavam-se fator de fortes


emoções, em particular das famílias atingidas.

Finda a guerra, o trabalho da assistência espiritual


não diminuiu. Os combatentes que voltavam, muitos deles
necessitaram de muita atenção. Alguns estavam mutilados,
outros se apresentavam física e psiquicamente alquebrados
e outros marcados por traumas e cicatrizes da guerra.

No ano de 1870 foi oficiado um culto solene, visando


agradecer a Deus pelo fim da guerra e para confortar os
soldados sobreviventes. Apenas um não estava ali. Era
Carlos Daniel Gross, que só viria mais tarde, quando, pela
família, já era dado como desaparecido. Uma jovem
paraguaia, porém o socorreu em campo de batalha, onde
ele jazia entre a vida e a morte, sem possibilidades de
receber assistência médica. Abela Delore era uma órfã de
guerra, filha de um estancieiro paraguaio, morto em

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
134
combate contra os brasileiros. Ela socorreu o suposto
inimigo e dele cuidou com grande desvelo, por meses a fio.
Depois ela o acompanharia até o Brasil, para terminar seus
dias ao lado daquele que ela salvara. Ela recebeu a
admiração do povo do vale do rio Três Forquilhas que a
acolheu com muito carinho.

O que a Comunidade tem a ver com o fim da


guerra?

(Alocução do autor proferida em 1970, durante a


comemoração do Centenário do término da Guerra do
Paraguai, em Itati – RS).

Dez filhos da Colônia Alemã de Três Forquilhas


pereceram na Guerra do Paraguai. Os demais que
retornaram, puderam transmitir à posteridade algo de suas
vivências. Além desses vinte e dois soldados, nascidos no
vale do rio Três Forquilhas, recolhemos ainda o nome de
outros que, de alguma forma, também estiveram ligados
com a antiga Colônia Alemã das Três Forquilhas também
designada como Colônia de São Pedro de Alcântara das Três
Forquilhas.

Pastor Carlos Leopoldo Voges revelou que a


Comunidade tinha muito a ver com os seus filhos que
partiam em defesa da Pátria.

Os jovens foram assistidos e encorajados antes da


partida.

Foram acompanhados pelas orações da Comunidade,


durante a ação em campanha. Aqueles que caíram no
campo de guerra foram homenageados, em cultos
especiais. Conta inclusive a tradição oral, de que as dez

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
135
coroas, com o nome dos soldados mortos na Guerra do
Paraguai, ficaram por dezenas de anos, fixadas na parede
da Igreja Evangélica de Três Forquilhas. Naquele período do
pastor Voges, até 1893, quando ele faleceu, os familiares e
os membros da Comunidade mantinham vivamente na
memória os nomes dos seus filhos, sacrificados em terra
estranha, em defesa das fronteiras da Pátria.

Existia um forte espírito cívico entre o povo.

Olhando para os que voltaram, vemos que foram


recebidos com júbilo, cercados pelo carinho da Comunidade.
Alguns veteranos da guerra carregavam profundas sequelas
físicas e psíquicas, produzidas pelas feridas, exaustão,
doenças e combates.

Vimos também que os veteranos que voltaram quase


todos conseguiram constituir família, cercando-se do
carinho de filhos e netos.

Em particular granjearam o respeito daqueles que


não foram à guerra. Era a consideração daqueles que
puderam permanecer à distância, na expectativa dos
acontecimentos.

Os veteranos da guerra do Paraguai comemoraram a


vitória com alívio e cheios de esperança por um mundo de
paz, pois afinal, a ameaça estava afastada, as fronteiras
asseguradas, a guerra finda. Havia agora silêncio nas
antigas frentes de combate.

Em 1870, respirava-se alívio, até no país adversário.


Era o fim das lutas, apesar da profunda dor pelos mortos.

Entretanto, constamos que o povo, depois da


morte do pastor Voges, esqueceu, bem depressa, dos
soldados que não se pouparam que foram para o sacrifício,

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
136
aqueles que lutaram em favor dos seus. Pelo menos
deveríamos dar a eles, hoje, a nossa respeitosa reverência,
mesmo que anonimamente.
Queremos ir mais longe, trazendo novamente os
seus nomes à memória. Uma homenagem singela pelo
exemplo que nos concederam, pelo desprendimento que
tiveram.

Que isto ajude para que todos, nós, nossos filhos e


nossos netos saibamos compreender o quanto e absurda a
ambição e ganância desenfreada do gênero humano, que
provoca a violência, no desrespeito à liberdade e aos
direitos dos semelhantes.

A Comunidade tem muito a ver com o fim da guerra.


A Comunidade pode falar às novas gerações sobre os
caminhos que levam à paz e que contribuem para o
entendimento entre os povos.

A Comunidade, particularmente com a sua ação


pastoral (Atos 1,8) tem uma missão que precisa dirigir-se a
todas as esferas da atividade e da vida dos homens. Os
homens precisam ouvir o Evangelho de Cristo, para
buscarem uma vida e ação cristã, no lugar onde estão
colocados, enquanto ainda é tempo. (Elio E. Müller – 1970).

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS

"Por falta de pregadores evangélicos não está


contratado um pregador para os Regimentos Alemães".
Conforme já registramos anteriormente, estas foram
palavras escritas pelo pastor Carlos Leopoldo Voges, em
fevereiro de 1827, em carta enviada, à British and Foreign
Bible Soociety.

Naquela época havia somente quatro pastores


protestantes em todo o território brasileiro. Vieram
acompanhando os imigrantes alemães que chegavam
dispostos a se integrar nesta nova pátria.

1 - Pastor FRIEDRICH OSVALD SAUERBRON,


entrou em Nova Friburgo (Rio de Janeiro) em 1824,
acompanhando 300 alemães, que em sua maioria eram
protestantes.

2 - Pastor JOHANN GEORGE EHLERS, entrou em


São Leoopoldo (Rio Grande do Sul) em 06.11.1824,
acompanhando os imigrantes alemães que ali se
estabeleceram.

3 - Pastor CARLOS LEOPOLDO VOGES entrou


também em São Leopoldo (Rio Grande do Sul) em fevereiro
de 1825. Foi designado pelo Governo Imperial para
acompanhar em novembro de 1826, a caravana de colonos
protestantes incumbidos de iniciar a colonização em Torres.

4 - Pastor FREDERICO CRISTIANO


KLINGELHÖFFER, entrou em São Leopoldo em 17.04.1826,
radicando-se em Campo Bom (também no Vale do Rio dos

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
138
Sinos). Pastor Klingelhöfer foi morto em 1838, quando
integrava as forças farroupilhas, em confronto com uma
tropa do Império.
Foi, portanto no alvorecer da colonização alemã, que
pastor Voges, com perspicácia, já olhava para os diferentes
setores que mereciam atenção pastoral. Os tempos eram
propícios para alcançar os favores do soberano brasileiro. D.
Pedro I prometera aos pastores protestantes as mesmas
vantagens e emolumentos concedidos aos demais vigários
(católicos), no Brasil. Prova disto é que pastor Voges
chegou a receber ordenado pelos cofres do Governo
Imperial até 1830.

Se na época tivesse havido pastor evangélico


disponível, possivelmente, um teria sido contratado para
servir nos Regimentos Alemães (na qualidade de vigário
militar). A questão ficou, contudo só na idéia do pastor
Voges.

Os tempos mudaram, já a partir de 1830. Os


protestantes foram perdendo vantagens recebidas. Na
verdade estavam estabelecidos em um país onde a Igreja
Católica Romana era oficial, integrada com o Governo. A
Igreja Católica passou a ver com preocupação o
crescimento e progresso das populações protestantes, no
Brasil.

De 1824 até o rompimento da Guerra do Paraguai,


passou a persistir o problema descrito pelo pastor Voges: -
era sentida a falta de pastores evangélicos. Diversas
Colônias estavam sem pastor. Foi um período chamado,
pelos historiadores modernos, de "estiagem pastoral". A
Igreja Luterana da Alemanha não acordara para a
necessidade de uma maior assistência teológica para as
suas Comunidades no Brasil.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Em 1970 havíamos elaborado um ensaio literário sob
o título de "UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS
ALEMÃES" A partir desse enfoque, pretendíamos não só
lançar um olhar sobre o passado. A intenção era também de
observar o pregador evangélico em tempos atuais, que
como desbravador e pioneiro sabe agir com o pensamento
voltado ao futuro do rebanho, com a oferta de uma
assistência ampla, nas mais diferentes esferas e campos da
vida nas comunidades e em nossa sociedade.

“UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS ALEMÃES"


foi originalmente redigido para dar uma visão da dura
realidade vivida no passado. Da luta, do suor, do sangue e
da morte, diante da barbárie da guerra. A história de jovens
teuto-brasileiros que escutaram o apelo para sair em defesa
da jovem Pátria, a Nação que os acolhera e que eles
desejavam ajudar a forjar e construir em bases fortes.

Em cada personagem, em cada esboço biográfico


registrado na época, desfilavam diante de nós, emoções
vividas, de felicidade ou de tragédia, de sonhos realizados
ou frustrados e de ideais e das perspectivas para promover
a vida e no propósito de buscar a felicidade de todos.

"UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS ALEMÃES"


foi, para nós, semelhante a uma ponte. Uma ponte em
condições de nos vincular a um passado distante, e que
muito teve para falar na hora presente. Uma ponte que
indicava para um espaço que ainda estava no futuro, de
uma tarefa que deveria ser ampliada e desenvolvida, para
ser levada a bom termo.

Este ensaio foi resultado das nossas primeiras


pesquisas que fizemos, sobre a presença de filhos da
Colônia Alemã das Três Forquilhas nas guerras, a Guerra
Cisplatina, a Guerra dos Farrapos, a Guerra contra Uribe e
Rosas, a Guerra do Paraguai e a Revolução Federalista. Em

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
140
particular procuramos identificar os mortos em combate.
Este fato despertou em nós uma palpitante pergunta: -
"Qual teria sido o papel do PREGADOR PARA OS
REGIMENTOS junto aos soldados e suas famílias, no
enfrentar das angústias da guerra e de morte?”.

Os REGIMENTOS ALEMÃES, das guerras de então,


não puderam contar com uma cura adequada d'alma
protestante. Ou, será que nessa situação o homem não
necessita e não espera o consolo de Cristo?

Seja na guerra, ou seja, em tempos de paz, no


nosso entender, o soldado deve receber a possibilidade de
buscar sustento para sua vida espiritual e para uma ação
cristã, no mundo em que ele vive.

Mais de 150 anos depois de pastor Carlos Leopoldo


Voges escrever afirmando que “por falta de pregadores
evangélicos não está contratado um pregador para os
Regimentos Alemães”, o Exército Brasileiro incluiu, dentre
os pastores de credo evangélico, também os primeiros
pastores luteranos, para integrar o Quadro de Capelães do
Serviço de Assistência Religiosa do Exército Brasileiro -
SAREx.

O Pastor DARCI DREHMER, que já viera atuando,


fazia muitos anos, como Capelão Civil, da IECLB, em
quartéis, foi nomeado ao posto de 2º Tenente da Ativa, pela
Portaria Ministerial nº 622, de 09 de julho de 1982.

No ano seguinte, o pastor ELIO EUGENIO MÜLLER


também conseguiu o ingresso na Capelania Militar,
integrando a primeira turma de Capelães Estagiários da
Academia Militar das Agulhas Negras - AMAN, em Resende-
RJ. Pastor MÜLLER foi nomeado, pelo Ministro de Estado do
Exército, e também incluído como Capelão Militar no Quadro
do SAREx, a contar de 03 de dezembro de 1983 (“Portaria

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Ministerial nº 311, de” 02 de maio de 1984 e Diário Oficial
nº 86, de 04 de maio de 1984).

Capelão MÜLLER conseguiu fazer o seu sucessor em


1996, com o ingresso do pastor JOÃO LUIS BOLLA que
iniciou seu estágio na Escola da Administração do Exército,
em Salvador da Bahia.

Pastor Darci Drehmer atuou na área do Comando


Militar do Sul, sediado em Porto Alegre – RS e sempre
residiu em São Leopoldo-RS. Pastor Elio Eugenio Müller
atuou por 11 anos na área do Comando da 5º Região Militar
e 5º Divisão de Exército em Curitiba-PR; em 1994 foi
transferido para Recife – PE junto ao Comando Militar do
Nordeste e, em 1998 foi nomeado para o cargo de Capelão
Chefe do SAREx, no QGEx em Brasília – DF. O pastor João
Luis Bolla, atuou no Rio de Janeiro – RJ, depois no Recife –
PE, em Brasília – DF e atualmente em Tabatinga – AM.

Iniciou-se assim uma nova situação na história do


pastorado evangélico e luterano no Brasil, com a nomeação
de Capelães Militares.

A frase que pastor Carlos Leopoldo Voges escreveu


em 1827, entretanto perdeu a conotação étnica, que
marcava os Luteranos no passado. Os pastores luteranos no
Brasil já são hoje, em sua maioria, brasileiros e a própria
Instituição Eclesiástica trazida pelos imigrantes, tornou-se a
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB.

Não mais existem Regimentos Alemães e nem a


contratação de mercenários estrangeiros para a tarefa de
zelar pela defesa do Brasil.

A relação entre católicos e protestantes (luteranos)


também está mudada. Particularmente no Brasil as duas
confissões eclesiásticas (católicos e protestantes),

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encontraram uma dimensão ecumênica, possibilitando um
intercâmbio teológico e uma aproximação em atividades
práticas, no exercício do ministério eclesiástico.
"UM PREGADOR PARA OS REGIMENTOS” significa
hoje, concretamente, a inclusão de pastores evangélicos no
Serviço de Assistência Religiosa do Exército, o SAREX, para
participar da assistência ao soldado brasileiro.

O desafio para os Capelães Militares está muito


bem definido pelo apóstolo Paulo, em Filipenses 2, 7:
"Vivei, acima de tudo, por modo digno do Evangelho de
Cristo, estando firmes em um só espírito, como uma só
alma, lutando juntos pela fé evangélica", (e pelo bem do
Brasil).

Hoje, após quase 40 anos de pesquisa da história da


Colônia Alemã de Três Forquilhas e com a jornada
concluída, na qualidade de Capelão Militar, ou seja, de
PREGADOR DOS REGIMENTOS, recebemos uma visão bem
mais ampla, daquela que tínhamos em 1970. Hoje podemos
avaliar os nossos escritos de então, com a experiência
colhida na missão de Capelão Militar do Exército Brasileiro.
Chegamos até o coração dos REGIMENTOS BRASILEIROS,
em nossa função exercida na Chefia do SAREX, com atuação
no Quartel General do Exército, em Brasília – DF, de 1998 a
99.

É isto nos ajudou, de maneira muito especial, para


escrever este quarto volume das MEMÓRIAS DA
FIGUEIRA sob o título de AMORES DA GUERRA.

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O BRASÃO DA COLÔNIA DE TRÊS FORQUILHAS

FIGURA 11: Brasão da Colônia de Três Forquilhas, 1870


Fonte: Esboço feito pelo autor com base no brasão antigo
Arte final de Ernani C. Straube, Curitiba, 2000.

Descrição heráldica do Brasão da Colônia de


Três Forquilhas:

Escudo peninsular, de gules, com cruz plena de


argenta, esquartelado: o primeiro de uma trempe, o
segundo de um berrante, o terceiro de uma carreta e o
quarto de quatro gotas, todos de argenta. Em 1870 eram
três as gotas de sangue, porém, após a Revolução
Federalista, entendemos que cabem quatro gotas de sangue
derramado.

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Timbre: coroa mural de argenta com cinco torres
visíveis.

Listel de gules, tendo inscrito, com letras de


argenta, no centro, "Cidadania".
Significado das peças:

Escudo peninsular, primitivo ou clássico, usado


largamente em Portugal, tem a ponta boleada e mede três
módulos de largura e quatro de altura.

Gules ou vermelho, representado no desenho


monocromático por linhas verticais, significa das virtudes a
caridade, das qualidades, a nobreza, a magnanimidade, o
valor, a generosidade, a honra. Os que trazem essa cor
estão obrigados a socorrer os oprimidos pela injustiça.

Cruz plena, isto é, ligada aos bordos do escudo,


simboliza a fé.

Argenta, prata ou branco, representada no desenho


monocromático, deixando em branco o campo, significa, das
virtudes, a humildade, a inocência, a pureza e a verdade e
das qualidades a franqueza, a limpeza, a integridade.

Esquartelado, isto é dividido em quatro partes ou


quartéis.

A trempe, o berrante e a carreta marcam a presença


do tropeiro e a sua influência no desenvolvimento da região.

As quatro gotas de prata, que indicam lágrimas,


correspondem à participação dos habitantes da região nos
momentos históricos da terra, isto é, a Campanha
Cisplatina, a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai e
a Revolução Federalista.

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O timbre representado por uma coroa mural com
torres e ameias é de prata.

O listel ou legenda tem como dístico principal a


palavra "Cidadania", como a qualidade do cidadão da
Colônia de Três Forquilhas, que nós propusemos.

Significado das peças:

a) A trempe lembra a hospitalidade do povo e a


presença da mulher;
b) O berrante é o arauto que anuncia os novos
tempos;
c) O carroção ou carreta lembra o trabalho árduo
do imigrante e dos seus descendentes alargando os
horizontes e
d) As quatro lágrimas lembram a epopéia dos
heróis do vale do rio Três Forquilhas nas campanhas
gloriosas em defesa da terra e na construção da Nação.

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HOMENAGENS AO CORONEL NIEDERAUER, EM
ITATI - RS

(Correspondência do autor mantida com autoridades


municipais e militares).

No dia 03 de junho de 1992 o Noticiário do


Exército, no Boletim nº 8.440 publicou em destaque que a
62ª Brigada de Infantaria Blindada de Santa Maria – RS
recebera a designação de BRIGADA NIEDERAUER.

Neste mesmo noticiário, em um breve resumo


biográfico eram concedidas informações sobre o Coronel
Niederauer, dando conta ele teria nascido em Três
Forquilhas, no município de Torres – RS.

Mostrei imediatamente esta publicação ao meu chefe


direto, em Curitiba – PR, hoje o General de Divisão NELSON
BORGES MOLINARI. Expliquei que a informação sobre o
local de nascimento não condizia mais com a designação
geográfica correta, pois se o homenageado nascera na
Colônia Alemã de Três Forquilhas, então em 1827 ligada
administrativamente à Vila de Torres, hoje está modificada.
O local de nascimento, ou seja, a morada dos Niederauer se
localiza em Itati, hoje no município de Terra de Areia – RS.
(Isto enquanto Itati não conseguisse o seu intento de
emancipação política).

O General Molinari orientou que fosse feito um


contato direto com o Comandante da Brigada Niederauer, o
amigo dele, General de Brigada CARLOS AUGUSTO
FERNANDES DOS SANTOS.

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O contato telefônico sugerido foi coroado de êxito,
inclusive com a pronta resposta que a nossa idéia de se
instalar uma praça e a colocação de um monumento ou
busto do Coronel João Niederauer Sobrinho, primeiro filho
varão nascido na Colônia Alemã na área que hoje pertence
à Itati – RS era viável.

O General DOS SANTOS autorizou o


encaminhamento de contatos, tratativas e entendimentos
com as autoridades municipais, em particular para a
mobilização da Prefeitura de Terra de Areia e do povo de
Itati para uma forte adesão a esta iniciativa de se
homenagear Coronel Niederauer em sua terra natal.

Segue correspondência mantida a respeito do


assunto.

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CORRESPONDÊNCIAS

AO SR GENERI MÁXIMO LIPPERT - Prefeito de Terra


de Areia – RS

Curitiba-PR, 22 de junho de 1992.


Ilmo. Sr. GENERI M. LIPERT

Caro amigo. Remeto cópia do Informativo Militar


"NOTICIÁRIO DO EXÉRCITO” de 03.06.92 que divulga que a
62ª Bda Inf Bld de Santa Maria-RS passou a denominar-se
BRIGADA NIEDERAUER.
Neste Informativo consta uma breve biografia do Cel
JOÃO NIDERAUER SOBRINHO, registrando que o berço natal
deste ilustre filho do hoje município de Terra de Areia - RS
teria sido no lado de Torres. Creio que cabe ao ilustre amigo
prefeito ajudar para que este dado seja corrigido. Sugiro
uma correspondência sua dirigida ao Comandante dessa
Brigada. O endereço dele é o seguinte:

Exmo Sr.

Gen Bda CARLOS AUGUSTO FERNANDES DOS SANTOS

Avenida Borges de Medeiros 1515 - 97015 SANTA


MARIA - RS

Aproveito para incluir outra sugestão ao amigo


Prefeito. Trata-se da possibilidade de organizarmos em Itati
uma praça, que poderia receber o nome de "PRAÇA
CORONEL NIEDERAUER". Um possível local seria em frente
da "Casa da Dindinha" (hoje moradia da Professora Leci
Pereira de Souza. Talvez a família Pereira de Souza vende à

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Prefeitura ou até faz uma doação, dessa área situada no
outro lado da rua (lado do rio Três Forquilhas), podendo ser
aberta uma rua até a ponte pênsil. A rua seria alargada
neste ponto, para proporcionar um estacionamento de
veículos. A praça poderia ser pequena (50 x 50) recebendo
aterro, em virtude de eventuais enchentes. Porém o aterro
não deveria ir até o rio, para não represar as águas, em
caso de enchente. Nesta praça poderia ser futuramente
colocado um busto do Coronel Niederauer com o auxílio de
firmas de Santa Maria, Porto Alegre, Osório e Terra de
Areia. Cada dois ou três anos, em combinação com a
Brigada Niederauer (de Santa Maria) poderia ser feita uma
solenidade cívico-militar com a presença ou mesmo
totalmente organizada pelo Exército ou então pela
Prefeitura de Terra de Areia. Seria um ponto de valor
turístico, incluindo a ponte pênsil e a própria casa enxaimel
da Dindinha. Caso quisermos que a praça seja mais próxima
do ponto onde Niederauer nasceu, certamente deveria ser
nas terras de Shimomura. Não sei se ele estaria disposto a
doar um trecho, no outro lado da estrada, em direção ao
Rio. Creio que Terra de Areia pode aproveitar positivamente
esse momento e divulgar um pouco de sua história.
Incluo também alguns recortes de jornais referentes
a publicação do meu livro que estão praticamente
esgotados. Curitiba concedeu-me um extraordinário apoio,
particularmente o Banco do Brasil que patrocinou uma tarde
de autógrafos, incluindo um caríssimo coquetel de queijos e
vinhos e uma exposição de materiais bélicos do Museu do
expedicionário, de Curitiba. A minha Agência do Banco do
Brasil bancou todas as despesas.
Sugiro que o amigo remeta um livro seu “TERRA DE
AREIA, IDÉIA, SONHO, REALIDADE” como brinde para o
Comando da 62ª Brigada de Infantaria Blindada, de Santa
Maria, para que fique incluído na biblioteca deles.

Por hoje é isto, com saudações cordiais de

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ELIO EUGENIO MÜLLER
Major Capelão do Exército Brasileiro

FIGURA 12: Cartão enviado pelo Exmo. Senhor General Carlos


Augusto dos Santos ao autor, confirmando o recebimento do
Atestado do registro do Batismo de Coronel Niederauer.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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AO SR GENERI MÁXIMO LIPPERT - Prefeito de Terra
de Areia – RS

Curitiba-PR, 12 de julho de 1992.

Caro amigo Prefeito GENERI MÁXIMO LIPERT:


Conforme o teu pedido feito por meio de telefonema, envio
um breve resumo sobre a abordagem que pode ser feita a
respeito do assunto:

ONDE NASCEU O CORONEL JOÃO NIEDERAUER SOBRINHO?

1 – O Coronel JOÃO NIEDERAUER SOBRINHO, herói


da Guerra da Paraguai, agora patrono da 6ª Brigada de
Infantaria Blindada, sediada em Santa Maria – RS, conforme
Portaria do MEx de 18 de março de 1992 filho de Philipp
Leonhard Niederauer e de Catharina Diehl Niederauer,
nasceu no dia 04 de abril de 1827. E a pergunta que
lançamos é: - ONDE NASCEU ELE? Conforme nossas
pesquisas, o imigrante Philipp Leonhard Niederauer e família
entraram no vale do rio Três Forquilhas durante o mês de
dezembro de 1826, integrando a primeira leva de
colonizadores. Ele foi um dos três comerciantes que se
radicaram na Colônia, tendo ele escolhido como local para o
seu estabelecimento comercial, o núcleo da igreja, a talvez
200 metros do templo protestante. (Em anexo incluo outros
dados biográficos sobre João Niederauer Sobrinho, a saída
da área do vale do rio Três Forquilhas e sua trajetória de
vida, até o dia em que tombou na batalha do Avaí, no
Paraguai).
2 – Convém levar em conta as dúvidas existentes
sobre o local de nascimento de João Niederauer Sobrinho.
a) – Por exemplo, no livro “O Pote de Geléia” Hoffmeister
afirma que Niederauer teria nascido em Três Forquilhas,
Torres – RS. b) – No livro “Terra de Areia, Idéia, Sonho e

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Realidade, o autor Generi M. Lippert publica na página 54 o
mapa esclarecedor, de autoria de Elio E. Müller, no qual
constam os nomes dos pioneiros genearcas da Colônia de
Três Forquilhas. Felipe Niederauer, pai de João Niederauer
Sobrinho, aparece como morador no Núcleo da Igreja que
hoje pertence à área geográfica de Itati. c) – As dúvidas de
alguns autores certamente surgiram de uma confusão que
se fez a respeito da localização da Colônia de Três
Forquilhas que se tornara conhecida como sendo uma
parcela da colonização alemã, administrada a partir do
Presídio Militar de Torres. Falava-se nas Colônias Alemãs de
Torres (São Pedro e Três Forquilhas) integrando a então
Comarca de Santo Antonio da Patrulha. É recomendável
explicar que foi somente em 1857 que surgiu a Comarca de
Conceição do Arroio (Osório – RS) e que em 1878 surgiu a
Comarca de Torres. Com a criação da Comarca de Torres a
antiga Colônia de Três Forquilhas viu-se dividida, sendo o
divisor o rio Três Forquilhas. No lado esquerdo ficou o
distrito de Três Forquilhas pertencente a Torres e, no lado
direito, o distrito de Três Forquilhas, pertencente à
Conceição do Arroio. d) – Importa definir com clareza, num
mapa, onde se situava e ainda se situa o Núcleo da Igreja,
que depois passou a ser a sede de Itati, local onde nasceu
João Niederauer Sobrinho.
3 – Cópias de documentos anexos: a) – Atestado do
registro de nascimento de João Niederauer Sobrinho. b)
Mapa dos moradores da Colônia de Três Forquilhas, dos
pioneiros de 1826 e 27, que foi por mim organizado. d) –
Mapa do Vale do rio Três Forquilhas, conforme publicado em
meu livro TRES FORQUILHAS 1826 – 1899.

Caso ainda persistam dúvidas, conte com a minha


ajuda.

Com saudações fraternas

ELIO EUGENIO MÜLLER

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Major Capelão da 5ª Região Militar.

FIGURA 13: Atestado de Registro de Batismo de Coronel


Niederauer. (Extraído do Livro do Registro Eclesiástico da Comunidade
Evangélica de Três Forquilhas - IECLB, de ITATI – RS – Livro nº 01, página
22, Registro nº 05).

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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AO ILUSTRÍSSIMO SENHOR MAJOR ELIO E. MULLER -
CURITIBA – PR

Terra de Areia, 24 de agosto de 1992.


Of. GB nº 262/92 - Gabinete do Prefeito

Prezado Major Elio: Conforme havíamos conversado


quando de tua visita a Terra de Areia, estou enviando cópia
do expediente remetido ao Gen. Bda. Carlos Augusto
Fernandes dos Santos, comandante da 6ª Brigada de
Infantaria Motorizada em 11 de agosto de 1992, sobre o
local de nascimento do Cel. João Niederauer Sobrinho.

Gostaria de receber tua opinião acerca da


abordagem do assunto.

Em anexo segue também reportagem do jornal "O


Informativo" registrando tua visita e doação de livros a
Biblioteca Pública Municipal "ProL Leopoldo Tietboehl".

Atte GENERI MAX LIPERT - Prefeito Municipal


Rua Tancredo Neves, 500
- Fone (051) 666.1110 - Telex: 51.5056
- CEP 95547 - Terra de Areia - RS

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AO EXMO SENHOR GEN. BDA. CARLOS AUGUSTO
FERNANDES DOS SANTOS

Terra de Areia, 11 de agosto de J992.


Of. GB nº 250/92 - Gabinete do Prefeito

Senhor Comandante: Ao ensejo de cumprimentar V.


Sa. Tenho a honra de encaminhar-lhe assunto da mais alta
relevância para o Município de Terra de Areia, o qual me
orgulho de ser seu primeiro Prefeito. Trata-se do local de
nascimento do herói da Guerra do Paraguai, Tenente-
Coronel João Niederauer Sobrinho que por ato do
Excelentíssimo Senhor Ministro do Exército General Carlos
Tinoco Ribeiro Gomes, prestou-lhe justa e merecida
homenagem ao conceder à 6ª Brigada de Infantaria
Motorizada o nome daquele ilustre brasileiro.

Segundo conhecimentos adquiridos em pesquisa da


micro história da Região do Vale do rio Três Forquilhas, João
Niederauer Sobrinho nasceu em terras do atual Município de
Terra de Areia, na sede do atual distrito de Itati, que foi
sede da antiga. Colônia Alemã de Três Forquilhas, fundada
em dezembro de 1826.

Para melhor expor a tese defendida pelo pesquisador


Capelão Militar Elio Eugenio Muller, que foi Pastor em Itati
de 1969 a 1975, a qual me filio, é necessário estabelecer os
limites geográficos dos mais antigos municípios gaúchos, a
começar por Santo Antonio da Patrulha, criado pela Provisão
Real de 01/1O/1809 que abrangia toda a região nordeste do
Rio Grande do Sul, do Litoral até os Campos do Cima da
Serra. Portanto, as terras colonizadas pelos alemães a partir
de 1826 que originaram a Colônia de São Pedro (católica) e
a Colônia de Três Forquilhas (luterana), localizaram- se
primeiramente em terras de Santo Antonio da Patrulha. Em
16 de dezembro de 1857, pela Lei nº 401, foi criado o
Município de Conceição do Arroio, atual Osório, abrangendo

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a Freguesia de Torres. Em 2J/05/1878 pela Lei nº 1152, foi
criado o Município de São Domingos das Torres, cuja divisa
com Conceição do Arroio (Osório), ao Sul, ficou sendo o Rio
Três Forquilhas, que as suas margens abrigavam a Colônia
Alemã. À margem direita ficava o território de Conceição do
Arroio e à esquerda o de Torres. Com a criação do Município
de Terra de Areia, pela Lei 8.561 de 13/04/1988, a margem
direita do Rio Três Forquilhas (Itati) passou a pertencer a
este município, bem como, foi criado o Município de Três
Forquilhas, abrangendo toda a região da margem esquerda,
pela Lei nº 9.590 de 20 de março de 1992, cuja instalação
se deu em 01/0J/1993.

Voltando a questão do local de nascimento do Ten.


Cel. João Niederauer Sobrinho, baseado no estudo do Major
Elio Eugenio Müller que é o guardião dos arquivos do 1º
Pastor de Três Forquilhas, Carlos Leopoldo Voges e com
base na tradição oral, pode-se afirmar que o mesmo nasceu
na casa de seus pais, cujo lote de terras situava-se próximo
da atual vila de Itati, propriedade que hoje pertence ao
colono de origem nipônica Riohey Shimomura. Em reforço
ao aqui exposto, remeto a V. Sa., atestado firmado pelo
Major Elio, bem como, um exemplar do livro "Terra de Areia
- Idéia, Sonho e Realidade", de minha autoria, onde o
assunto é abordado. A página 54 consta o mapa elaborado
pelo Major Elio quando Pastor em Itati, onde aparece o
nome do genearca Felipe Niederauer, localizado na margem
direita do Rio Três Forquilhas.

Caso V. Sa. tenha outras provas documentais,


capazes de derrogar nossa tese, gostaria de receber
noticias, para que numa futura edição revisada da obra em
apreço possa eu fazer as devidas correções.

Por outro lado, se nossos argumentos conseguirem


sensibilizar V. Sa. e o Alto Comando do Exército Brasileiro,
então proponho que seja criada uma praça nas

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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proximidades do local de nascimento do ilustre militar, onde
ficasse um espaço para erguer um monumento ao nosso
herói, com a possibilidade de periodicamente deslocar-se
um grupamento da Brigada Niederauer e prestar-lhe uma
justa homenagem na terra que o viu nascer. Penso que a
idéia seria Interessante tanto para o Município de Terra de
Areia, como para o próprio Exército Brasileiro.

No aguardo de vossa manifestação, colho o ensejo


para enviar-lhe Cordiais saudações

GENERI MÁXIMO LIPPERT – Prefeito Municipal.


Rua Tancredo Neves, 500
Fone (051) 666, 1110 - CEP 95547
- Terra de Areia - RS

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AO MAJOR CAPELÃO ELIO EUGENIO MULLER

Terra de Areia, 14 de setembro de 1992.


Of. GB nº 278/92 - Gabinete do Prefeito
Prezado Major Capelão ELIO EUGENIO MÜLLER

Ao ensejo de cumprimentá-lo, tomo a liberdade de


enviar-lhe cópia do oficio Nr 185-E/l do Comandante da 6ª
Brigada de Infantaria Blindada, Gen. Bda. CARLOS
AUGUSTO FERNANDES DOS SANTOS acerca do local de
nascimento do Cel. JOÃO NIEDERAUER SOBRINHO.

Como se verifica através da pesquisa histórica do


Coronel MÁRIO JOSÉ DE MENEZES está aceita a tese do
local de nascimento do ilustre militar em território do
Município, mais precisamente em Itati.

Quanto à solicitação do ilustre comandante para


enviar cópia autêntica da Certidão de Batismo do Cel.
Niederauer, socorro-me do dileto amigo para atender aquele
pedido.

Em anexo seguem também alguns trechos de obras


que versam sobre o assunto que acompanharam o oficio do
comandante da 6ª Bd. de Inf. Bld.

Atenciosamente

GENERI MÁXIMO LIPPERT –


Prefeito Municipal de Terra de Areia.

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AO MAJOR CAPELÃO ELIO EUGENIO MÜLLER

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO
COMANDO MILITAR DO SUL
3ª DIVISÃO DE EXÉRCITO
CMDO DA 6ª BDA INF BLD
"BRIGADA NIEDERAUER"

SANTA MARIA, RS, 09 Out 92.

Caro Major Capelão MULLER: Acuso o recebimento


de sua correspondência com data de 24 de setembro de
1992.

Vi, com interesse, a idéia da construção de uma


praça, em TERRA DE AREIA, em homenagem ao nosso
patrono.

Tão logo estejam definidos a cessão da área e o


projeto, enviaremos ao Sr Cmt da 3ª Divisão de Exército
expediente, solicitando autorização para iniciarmos as
gestões' necessárias para colaborarmos com o referido
projeto.

Atenciosamente,

Gen Bda CARLOS AUGUSTO DOS SANTOS


- Comandante da 6ª Bda Inf Bld -

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AO SR GENERI MÁXIMO LIPPERT – Prefeito de Terra
de Areia – RS

Terra de Areia, 26 de dezembro de 1992.

Senhor Prefeito: Ao ensejo de cumprimentá-lo,


tomamos a liberdade de retomar o assunto referente à
implantação da Praça Pública no distrito de Itati, em
homenagem ao ilustre filho desta terra, Cel. João
Niederauer Sobrinho, herói da Guerra do Paraguai.

Outrossim, ao tomar conhecimento da


indisponibilidade de cedência dos imóveis previstos, de
propriedade dos senhores Ryohei Shimomura e Evaldo
Ranft, queremos colocar a possibilidade de fazer a doação
para aquela finalidade especifica, de uma fração de terra
rural, de nossa propriedade, situada no Sitio da Figueira,
próximo à ponte do rio Três Forquilhas.

Ao propor a presente doação, autorizamos esta


Municipalidade a proceder o levantamento topográfico da
referida fração de terra condicionando tal doação a
edificação do monumento ao Cel. Niederauer e uma placa
em memória aos filhos de Três Forquilhas, tombados na
Guerra do Paraguai, bem como, se a Prefeitura entender
viável, implantar na parte mais baixa do terreno, (na
margem entre a estrada e o rio) um balneário para o lazer
do público em geral. Outrossim, comunicamos que o Sr.
Podalírio Teixeira de Oliveira e sua esposa Gládis Bobsin de
Oliveira também se dispõe a doar igual fração de terreno
para a edificação da Praça Niederauer.

Queremos informar ainda da nossa intenção de ceder


para acampamento provisório, a infraestrutura do Sítio da
Figueira, com o objetivo de acolher como hóspedes os
integrantes do efetivo da 6ª Brigada de Infantaria Blindada,
denominada Brigada Niederauer, cujo comandante

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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demonstrou interesse de efetuar envio de uma
representação para homenagear o Patrono da referida
Brigada, periodicamente.

Na certeza de merecer toda a atenção que o assunto


merece, subscrevemo-nos,

Atenciosamente

ELIO EUGENIO MÜLLER e DORIS BOBSIN MÜLLER

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AO SR MAJOR CAPELÃO ELIO EUGENIO MÜLLER

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO
COMANDO MILITAR DO SUL
3ª DE - 6ª BDA INF BLD
“BRIGADA NIEDERAUER”
SANTA MARIA, RS, 24 Fev 93.

Do Gen Bda CARLOS AUGUSTO FERNANDES


Oficio Nr 20-E/3 - DOS SANTOS

Assunto: Homenagens ao Cel JOÃO NIEDERAUER


SOBRINHO

Sr. Major Capelão ELIO EUGÊNIO MULLER:


Prazerosamente acuso o recebimento de suas duas últimas
correspondências e, desde já, gostaria de retribuir e
agradecer, em nome dos integrantes da "Brigada
NIEDERAUER", os votos de um abençoado 1993.

Este Comando vê com bons olhos as tratativas para


a consecução do monumento em praça pública, em
homenagem ao Patrono da 6ª Bda Inf Bld, a ser implantado
no distrito de ITATI, no município de TERRA DE AREIA.

A doação de fração de terra onde será erguido o


referido monumento, bem como o empenho e interesse da
Administração Municipal em ver realizado o
empreendimento, em tela, são motivos fortes que se unem
aos interesses da nossa Brigada e do Exército e que, sem
dúvida, servirão como alavanca para a concretização do
objetivo maior.

O novo prefeito de TERRA DE AREIA, Sr. NEDIO


PERUSSO, ainda não entrou em contato com a Brigada,
conforme foi adiantado em seu cartão.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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Finalmente, gostaria de lhe adiantar que, a 4 de abril
próximo, dia do nascimento do Cel NIEDERAUER - será
levado a efeito a transferência da herma do Patrono da
Brigada, atualmente localizada no centro da cidade de
SANTA MARIA, para a Praça Gen OSÓRIO, onde se juntará a
outros bustos de figuras ilustres da história do Brasil. Para
esse evento, V. Sa. receberá documentação especifica,
oportunamente.

Sendo o que tinha no momento, subscrevo-me

Atenciosamente,

Gen Bda CARLOS AUGUSTO FERNANDES DOS


SANTOS

Comandante da 6ª Bda Inf Bld

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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COLOCAÇÃO DO BUSTO DO CORONEL
NIEDERAUER EM ITATI-RS

O General CARLOS AUGUSTO FERNANDES DOS


SANTOS, conforme decisão tomada encaminhou a confecção
de um busto de Coronel Niederauer conforme o propósito
definido, de colocá-lo em praça a ser erigida em Itati. O
assunto tramitou via comando e o Ministro do Exército
autorizou que o Arsenal de Guerra, no Rio de Janeiro
assumisse a confecção da peça, que foi forjada com o
bronze de canhões antigos, que foram derretidos, para
servirem na moldagem do busto do homenageado.

O Arsenal de Guerra concluiu o trabalho no princípio


de 1995. O busto foi enviado de navio até Rio Grande onde
foi recebido pelo Exército e transportado até Porto Alegre,
para mais tarde ser enviado até Itati.

Nestas alturas dos acontecimentos o General DOS


SANTOS já entregara o comando da Brigada Niederauer de
Santa Maria ao General TREVISAN.

E o autor deste livro, Capelão Müller, agora já no


posto de Tenente Coronel fora transferido ao Recife – PE
para a condução da Subchefia do SAREX, no Nordeste.

Aproximando-se a data prevista para a realização do


ato festivo da colocação do busto de Coronel Niederauer,
em Itati, General TREVISAN fez contato telefônico com o
Capelão informando que a Prefeitura Municipal de Terra de
Areia não conseguiria construir a praça pretendida para
receber o monumento de Niederauer, em Itati. O General
solicitou a autorização para que o busto fosse colocado no
gramado, diante da casa secular do Sítio da Figueira.

Estabeleceu-se o seguinte diálogo:

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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- “Capelão Müller, dois de meus Oficiais de Estado
Maior da Brigada Niederauer estiveram em Itati e
estudaram as diferentes possibilidades para que se erga um
monumento e se coloque o busto de Niederuaer, em Itati. O
Prefeito Municipal Dr. Nédio Perusso já nos informou que
não existe mais tempo hábil de se construir uma praça”.

- “Caro General Trevisan, fico feliz pelo seu empenho


para que aconteça essa justa homenagem ao Coronel
Niederauer em sua própria terra natal”. E continuei: “Estou
ao seu dispor para fazer o que me for possível para que o
evento possa ser realizado”.

General Trevisan agradeceu e falou: - “Meus oficiais


fizeram um levantamento do local e concluíram que, em
face da inexistência de uma praça, o busto poderia ser
colocado diante da porta principal da sua casa, no Sítio da
Figueira. O local apresenta um belo gramado, bem cuidado
e que dispensaria qualquer outra obra, a não ser a
colocação do busto...”.

Expliquei ao General que a propriedade do Sítio da


Figueira pertencera aos antepassados de minha esposa e
fora recebida por ela, como herança. Falei: - “General,
aguarde um minuto, que vou consultar a minha esposa, que
está aqui ao meu lado, para que ela autorize a utilização
deste local.

O General agradeceu por mais esta nossa


contribuição para que as justas homenagens ao Coronel
João Niedrauer Sobrinho possam finalmente ser
concretizadas em sua própria terra natal.

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FIGURA 14: Busto de Coronel NIEDERAUER, Itati, 11.04.1995,
pronto para inauguração, no Sítio da Figueira. Flagrante do
discurso do General Trevisan. Foto do acervo da Brigada
Niederauer, de Santa Maria – RS.

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A PRAÇA CORONEL NIEDERAUER, EM ITATI-RS

Em 1999 através do interesse do Dr. Generi Máximo


Lippert, Prefeito Municipal de Terra de Areia, foi construída
a Praça Niederauer, distando a apenas 20 metros do local
provisório, diante da secular figueira. O busto foi transferido
para este novo local em momento festivo que contou com a
presença de uma representação da Brigada Niederauer
através do próprio Comandante, General JOSÉ CHUQUER
RODRIGUES e de um grupamento militar trajando
uniformes da época da Guerra do Paraguai.

FIGURA 15: General CHUQUER (direita), Prefeito GENERI LIPERT


(centro) e JOSÉ HOFFMANN, Prefeito de Três Forquilhas
(esquerda). Fonte: Foto do Arquivo da Brigada Niederauer, 1999.

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FIGURA 16: Efetivo da BRIGADA NIEDERAUER, com uniforme da
época do Paraguai, desfilando em Itati.
Fonte: Foto do Arquivo da Brigada Niederauer, 1999.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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GRUPO DE AMIGOS DA PRAÇA CORONEL
NIEDERAUER

A Praça Coronel Niederauer não foi assumida


devidamente pela Prefeitura de Itati, quando da
emancipação do município. Em conseqüência a manutenção
da mesma não foi satisfatória, uma vez que fora construída
com pedras de taipa, com frestas, por onde sumia a areia
que fora utilizada para preencher a base do piso, coberto
com lajes de pedra. Em pouco tempo, a calçada deteriorara
de modo a oferecer sérios riscos para os visitantes.

FIGURA 17: A - Praça Niederauer danificada pelas chuvas.


A praça foi recuperada pelo voluntário Adélio do Nascimento.
Fonte: Acervo fotográfico do autor, 2003.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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O autor e esposa professora Doris, proprietários do
Sítio da Figueira, decidiram formar o Grupo de Amigos
Coronel Niederauer, reunindo pessoas dispostas em assumir
a tarefa de manutenção e zelo pela praça. Foi eleito para
presidir o grupo o Sr. Osmarino Rickroth, mais conhecido
por todos como Marinho Rickroth, um descendente do
militar Brummer Carl Rickroth, e que passou a mostrar uma
grande atenção pela manutenção da praça.

Adélio Voges do Nascimento foi convidado e aceitou


a tarefa de mantenedor voluntário. Em poucos meses, com
a colaboração de outros voluntários, a praça foi totalmente
remodelada, concedendo-lhe uma bela aparência e mais
segurança para os visitantes.

Nos últimos anos o próprio autor e esposa passaram


a cuidar da conservação da praça. Pessoas que passam,
brincam, dizendo: - “Um coronel cuidando da praça de outro
coronel”.

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HOMENAGEM A ADÉLIO VOGES DO
NASCIMENTO

FIGURA 18: Adélio do Nascimento restaurando a Praça Niederauer.


Fonte: Acervo fotográfico do autor.

Adélio do Nascimento, filho de Laura Voges do


Nascimento e de Edmundo do Nascimento. era um
descendente de pastor Carlos L. Voges e de professor
Serafim Agostinho do Nascimento.

Adélio apresentou-se como voluntário para auxiliar


na recuperação da Praça Coronel Niederauer, que havia
decaído.

Ele revelou prazer pelo trabalho, uma vez que a


Prefeitura Municipal de Itati alegava falta de condições
financeiras para cuidar dessa tarefa.

Adélio do Nascimento merece, pois um lugar na


galeria dos mantenedores da Praça Coronel Niederauer, pois
foi o que mais intensamente trabalhou, mas,
lamentavelmente, bem cedo partiu desta vida, vitimado por
um câncer em 2009.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
172
Deve-se a ele a maior parte do trabalho de
restauração, desta Praça.

Adélio era um mutilado, não de guerra, mas de um


acidente de trabalho, ocorrido em sua propriedade, tendo
perdido três dedos da mão direita.

Adélio, sem três de seus dedos da mão, teve que


ouvir inúmeras vezes, um veredito de funcionários e
médicos de órgãos da nossa Previdência Social insensíveis:
- “Você não é incapaz para o trabalho e poderá muito bem
prover o seu sustento”.

Adélio foi um amigo leal, um verdadeiro irmão, e um


batalhador pelas boas causas do nosso município.

Em sua simplicidade, conseguiu despertar o nosso


respeito e a nossa admiração, por causa deste seu
desprendimento como um legítimo voluntário.

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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CONCLUSÃO

AMORES DA GUERRA mostra entre outros enfoques o


lugar duplo que podem ter mutilações sofridas em virtude
do confronto bélico.

De um lado está um soldado ferido, mutilado, que


passou de defensor para indefeso, depois de ferimentos
severos sofridos no campo de batalha.

Do outro lado está a viúva, com o coração vestido de


luto, habitado pela dor, com o amor mutilado, mas ela
precisa ser forte para cuidar dos filhos pequenos, que
ficaram órfãos de pai.

O que dói mais?

A sociedade confrontada com a situação também é


atingida. Ela pode sentir-se culpada por ser o objeto do
sacrifício, seja daquele que deixou viúva e órfãos, ou seja,
do mutilado que colocou sua integridade física em jogo, na
defesa do solo pátrio. No primeiro momento a sociedade
age e reage, muito mais em conseqüência do sentimento de
culpa e depois esquece dos seus soldados.

O que atinge mais a fundo as nossas emoções e nos


desperta para a compaixão?

Será a mulher que costura o seu luto, de um coração


já costurado, pois que não poderá mais sangrar ou chorar
uma vez que precisa ser forte para cuidar dos seus filhos...

Ou será a figura do soldado desfigurado,


desuniformizado, que deixou parte de si mesmo no campo
de batalha e que agora precisa aprender a viver sem a
autonomia de outrora?

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
174
A verdade é que rapidamente, nós - a sociedade -
esquecemos desta ou daquele. Esquecemos da viúva e do
soldado ferido e mutilado. A sociedade esquece sua dívida e
a necessidade de expressar gratidão, por aqueles que
carregaram o peso do sacrifício pelos demais.

AMORES DA GUERRA não tem por objetivo comparar


sofrimentos apesar, de que, na verdade a maioria das
pessoas preferem passar de largo onde vêem o sofredor
que jaz à margem da estrada (Lucas 10, 55 – 37 – A
Parábola do Bom Samaritano). Outrossim, AMORES DA
GUERRA não quer cobrar dívidas da sociedade, apenas
ressalta: os que a integram tem um compromisso com
aqueles que se dispões a colocar a vida em sacrifício em
defesa da integridade da Pátria e para o bem estar de
todos.

AMORES DA GUERRA pretende servir muito mais


para partilhar as diferentes formas de sofrer, não somente
as causadas pela guerra, mas, por que não servir também,
para que olhemos todas as dores do cotidiano que surgem
na vida de um povo, seja nas catástrofes (enchentes,
pragas ou terremotos) ou em casos de epidemia (cólera,
tifo, etc.) e nas mais diferentes situações onde pessoas são
atingidas por males que as fazem penar.

A Comunidade precisa ser despertada, sempre de


novo, para que todos aprendam a se apoiarem mutuamente
em particular, nos momentos difíceis da caminhada, pois
feita em conjunto, será menos penosa, menos longa e
menos triste.

Seja como for, um dia o sofrimento também nos


alcançará. A caminhada de sofrimento, todos temos que
fazer, algum dia, mais cedo ou mais tarde, que a façamos

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
175
acompanhados e não sozinhos, amparados e não no
desamparo.

Se já é certo que temos que caminhar no trilho


comum que é imposto a toda a humanidade, sem escolha,
onde entre outras coisas, mesmo entre alegrias e diversões,
o sofrimento também está apenas à espera... Então, por
que não começar já a olhar em torno, para descobrir as
fisionomias daqueles que já agora, sofrem e talvez se
encontram bem próximos de nós.

O importante é aprendamos a respeitar a forma


como cada um sente a dor. Os sentimentos da dor não são
idênticos para todos. Para uns é permeado pela angústia,
para outros desperta a revolta. Há aqueles que sentem
raiva e se tornam agressivos e outras vezes, são pessoas
que tem surtos fortes de choro e de saudade. Há até
aqueles que na inércia não querem mais viver e, finalmente,
não podemos esquecer aqueles que simplesmente negam a
realidade do sofrimento e tentam tapar os olhos para não
verem essa realidade.

Importa saber e ver com mais clareza que existem


diferentes formas de vivenciar, de expressar e de
interpretar o sofrimento.

Que aprendamos a lidar com o sofrimento dentro de


um espírito de solidariedade, onde a ajuda mútua é
praticada de modo espontâneo e consciente, como fruto da
espiritualidade.

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NOTAS EXPLICATIVAS

(1) Ovídio: nasceu em 43 a.C. em Sulmo (Sulmona),


num vale nos Apeninos, a leste de Roma e faleceu em 18 d.
C.. Sua poesia, muito imitada durante a Antiguidade tardia
e a Idade Média, influenciou decisivamente a arte e a
literatura europeias, particulamente Dante, Shakespeare e
Milton, e permanece como uma das fontes mais importantes
de mitologia clássica.

(2) Mecânico: termo usado na época para designar


um artesão que tivesse a capacidade de fabricar as suas
próprias peças para consertar relógios.

(3) Cidadão Brasileiro: a constatação é que pastor


Voges, sempre que via uma oportunidade, fazia questão de
se apresentar como sendo um cidadão brasileiro. Isto ele
passara a fazer desde 1854 quando lhe fora concedida a
naturalização. O historiador Rodrigo Trespach nos forneceu
interessante documento que atesta a naturalização de
Voges. Conforme uma Ata da Câmara Municipal de
Vereadores da Comarca de Santo Antonio da Patrulha e
conforme transcrição paleográfica de Teresinha de Jesus
Benfica Fier, segue o texto: "4ª SESSÃO DE 7 DE JULHO DE
1852. Presidente o Sr. Antônio Xavier da Luz. Aos sete de
Julho de mil oitocentos e cinqüenta e dois trigésimo
primeiro da Independência do Império nos Paços da Câmara
Municipal da Vila de Santo Antônio da Patrulha reunidos os
Senhores Vereadores sob, digo, Vereadores Antônio Xavier
da Luz, Marcelino Soares da Silva, Victorino Correa de
Andrade, Lourenço Antônio da Rosa e Venâncio José
Monteiro, o Sr. Antônio Xavier da Luz abriu a Sessão leu-se
e aprovou-se a ata da antecedente. Ficou a Câmara
inteirada do ofício do Cirurgião de Partido acompanhado do
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
177
Mapa dos enfermos pobres que tratou durante o trimestre
findo, deliberou-se que se remetesse ao Exmo. Vice-
Presidente. Ficou a Câmara inteirada da Portaria Circular da
Vice-Presidência de nº. 9 e deliberou que (Fl. 123) fosse
respondido. Assinou termo de declaração de querer se
naturalizar cidadão brasileiro Carlos Leopoldo Voges Vigário
Apostólico do Santo Evangelho da Colônia de São Pedro de
Alcântara por seu bastante Procurador Manoel Dias Ribeiro
de Almeida, e ordenou-se que se lhe desse o competente
documento para exigir sua carta de naturalização.
Levantou-se a Sessão eu João Pereira de Souza Secretário
lavrei a presente que lida foi aprovada. Xavier da Luz
Monteiro Andrade".

(4) 26º Corpo de Voluntários da Pátria: a Província


do Ceará enviara apenas o “26º Corpo de Voluntários da
Pátria” (Marcos Antonio da Cunha, A Chama da
Nacionalidade, p. 99), por isto, os cinco baianos (cearenses)
liderados por Baiano Candinho e que entraram no vale do
rio Três Forquilhas devem ter integrado o mesmo. Esse
Corpo de Voluntários viera com um efetivo de 2.037
voluntários (Marcos Antonio da Cunha, A Chama da
Nacionalidade, p. 72), dos quais, grande parte não mais
retornaria ao Nordeste. Conforme relatos, a mortandade
entre os mesmos fora muito acentuada: “... vítimas da
influência da mudança brusca das condições climáticas a
que estavam acostumados, contraíram inúmeras moléstias,
o que resultou em expressivo número de óbitos” (Marcos
Antonio da Cunha, A Chama da Nacionalidade, p. 80).

(5) “Nós Voluntários da Pátria do Ceará sofremos


muito no Paraguai”: essa informação está correta, pois o
próprio Serviço de Saúde do Exército reconheceu que: “...
não há medicamentos próprios para enfermidades que
geralmente acometem aos homens do Norte neste clima
frio, e que vem comer só carne verde”. (História do Serviço

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de Saúde do Exército – 1º volume – Gilberto de Medeiros
Mitchel, RJ, 1963 – página 119).

(6) Atafona: palavra portuguesa derivada do árabe


'at-tahuna' que significa moinho. É um moinho movido à
mão ou pela força de um animal (mula, burro, boi) ou pela
força da água e destina-se ao fabrico de farinha de
mandioca. A roda motora se encontra num plano horizontal,
em geral, junto ao chão ou a uma altura de cerca de dois
metros. A atafona situa-se dentro duma casa, a atafona,
muitas vezes é também a morada do peão responsável, o
atafoneiro.

(7) João Bahiano: em 1874 João Bahiano entrou para


a família Brusch ao se unir com “Rosinha Fatas” (Rosalina
Christina Brusch, nascida em 1855). Ela faleceu cedo com
problemas de parto. Mais tarde, por volta de 1884, João
voltou a buscar uma nova companheira, unindo-se com
“Teia Treis” (Maria Dorothea Triesch, nascida em 1858). Ela
consta do Registro Eclesiástico do pastor Voges ao batizar
dois filhos: Joseph (23.06.1885) e Carl Johann
(01.09.1889).

(8) Maria Felisbina Triesch: aparece no Registro


Eclesiástico do pastor Voges como mãe de três crianças:
Bersalina (08.10.1884), Johannes (17.10.1885) e Idalina
(12.02.1888).

(9) “A bravura dos soldados nordestinos”: Essa


afirmação sobre a bravura dos soldados nordestinos é
confirmada pela historiografia militar. O homem nordestino
é valente. No seu meio, seja na caatinga ou no agreste, ele
é resistente. Mas conduzi-lo para um terreno e clima para
os quais ele não foi adaptado é destrutivo para a sua
sobrevivência e para o moral do efetivo. Imagine o soldado
nordestino, de uma hora para outra, jogado em meio às
geladas noites paraguaias, em meio à geada e condenado a
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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uma dieta não recomendada e para a qual o seu organismo
não está afeito. Existem, porém relatos que atestam para o
bom humor do soldado nordestino em meio àquelas
dificuldades, não da guerra, mas do clima e alimentação. O
bom humor foi algo que distinguiu o soldado nordestino.
“Numa das arrancadas da cavalaria, composta por uma
coluna de Infantaria, integrada por soldados do 26º
Batalhão de Voluntários da Pátria, o famoso Batalhão do
Ceará. Os exploradores atravessavam enorme laranjal, todo
em floração, rescindindo um perfume inebriante. Em dado
momento quando tudo era silêncio, quebrando a monotonia
dos que marchavam, um soldado, genuíno caboclo do Norte
(do ceará) pensando sem dúvida na aspereza da guerra, tão
escassa de sorrisos e encantos femininos, grita a bom
pulmão: - < Valha-me São Francisco das Chagas! Que
cheiro bom de mulher >. E uma gargalhada sacudiu a
tropa”. (Euzébio de Sousa – Anedotário da Guerra da
Tríplice Aliança – R. J. – Biblioteca Militar, 1944 – páginas
103 e 104).

(10) Algibeira: A palavra vem do árabe al-jibairâ e


significa um pequeno saco de couro com vários bolsos,
usado pelos cavaleiros árabes. No Brasil o termo passou a
designar um pequeno bolso integrado à roupa, geralmente
costurado pelo lado de dentro do vestuário. Os homens, por
exemplo, também usavam o relógio de algibeira (de bolso).
Algibeira podia ser também uma pequena bolsa que as
mulheres do povo prendiam á cintura.

(11) Padre dos Lemôns: Os baianos quando faziam


humor, costumavam designar Voges de padre, para mexer
com os colonos. Ao invés de alemães falavam nos lemôns,
no sentido da fruta cítrica conhecida como limão.

(12) Mutirão: Termo de origem na língua tupi,


designa a mobilização familiar ou da vizinhança para
proporcionar ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma
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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
180
expressão usada para o trabalho no meio rural em lavouras,
ou em vilas, na construção de casas, galpões ou outras
edificações, onde voluntários convidados prestam auxílio,
num sistema de rodízio.

(13) Pegavam a cerveja, para beber diretamente do


gargalo: a garrafa de cerveja caseira era a grande novidade
na Colônia de Três Forquilhas. O vasilhame já podia ser
adquirido no Armazém dos Jacoby. As garrafas eram
adquiridas pelos Jacoby, na Cervejaria de Friedrich
Christoffel, em Porto Alegre e passaram a ser revendidas na
Colônia. A grande novidade tornou-se pois a cerveja caseira
engarrafada mas que somente as famílias mais abastadas
tinham condições de produzir, uma vez que garrafas eram
caras.

(14) Paleteada: a paleteada revela a aptidão do


cavaleiro com o gado e também a velocidade, a força, a
rusticidade e a submissão do cavalo. Consiste na prensa e
condução de um novilho, por uma raia. A demonstração, em
geral, é realizada em duplas.

(15) Prima de Wilhelm: conforme pesquisas


realizadas pelo amigo e historiador Rodrigo Trespach:
“Philipp Peter Schmitt (1797 – 1853) o Comandante era
filho de Christoph e sua segunda mulher Johanna
Magdalena Barth. Philipp Peter era onze anos mais novo que
o irmão Johann Konrad Schmitt (1786 – 1860) e que era
filho de Christoph Schmitt e sua primeira esposa Maria
Catharina Schmahl. Portanto, os irmãos Schmitt (Philipp
Peter e Konrad) que teriam arranjado o casamento entre os
filhos Wilhem e Bárbara, eram na verdade somente meio
irmãos”. (Do Livro: “Borger, Justin, Schmitt e outras
famílias de origem germânica” – Editora Secco –
Florianópolis – SC, 2010 – Página 54).

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(16) Água pestilenta: água contaminada por
cadáveres de pessoas e de animais, fato comum em tempos
de guerra.
(17) Couro estaqueado: referia-se ao couro de gado
que, logo após o abate de uma rês, era cuidadosamente
retirado e fixado contra uma parede de galpão, com
estaquinhas de madeira. O couro permanecia desta forma,
durante algumas semanas, até ficar bem seco e curtido. Daí
veio a comparação, que faziam, da aparência de Paraguaio
Gross).

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FIGURAS em “Amores da Guerra”

FIGURA 1: Página 21 - Os veteranos Brummer também


decidiram vestir suas velhas fardas e o capacete de agulha
prussiano. Fonte: Gravura dos arquivos do autor, 2010.

FIGURA 2: Página 42 – A velha Atafona.

FIGURA 3: Página 42 – O Cevador.

FIGURA 4: Página 47 – O Paraguaio Gross com uma Índia


Paraguaia. Fonte: Gravura dos arquivos do autor, 2010.

FIGURA 5: Página 69 - O velho João Patrulha Menger


mostra sua destreza no tiro de laço. Fonte: Gravura dos
arquivos do autor, 2010.

FIGURA 6: Página 80 - Coronel João Niederauer Sobrinho.


Fonte: Arquivo fotográfico da 6ª Brigada de Infantaria
Blindada, Santa Maria - RS.

FIGURA 7: Página 104 - Christian Tietboehl - ex Oficial


Brummer. Fonte: Arquivos da Família Voges, 1970.

FIGURA 8: Página 109 - Armeiro e ferreiro. Fonte: Arquivo


fotográfico do autor, 1974.

FIGURA 9: Página 116 - Índia Guarani, do Paraguai.


Fonte: Internet, 2010.

FIGURA 10: Página 126 - Professor AUGUST SONNTAG


Fonte: Arquivo da Família Voges.

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FIGURA 11: Página 142 - Brasão da Colônia de Três
Forquilhas, 1870. Fonte: Esboço feito pelo autor com base
no brasão antigo Arte final de Ernani C. Straube, Curitiba,
2000.

FIGURA 12: Página 149 - Cartão enviado pelo Exmo.


Senhor General Carlos Augusto dos Santos ao autor,
confirmando o recebimento do Atestado do registro do
Batismo de Coronel Niederauer.

FIGURA 13: Página 152 - Atestado de Registro de Batismo


de Coronel Niederauer. (Extraído do Livro do Registro
Eclesiástico da Comunidade Evangélica de Três Forquilhas -
IECLB, de ITATI – RS – Livro nº 01, página 22, Registro nº
05).

FIGURA 14: Página 165 - Busto de Coronel NIEDERAUER,


Itati, 11.04.1995, pronto para inauguração, no Sítio da
Figueira. Flagrante do discurso do General Trevisan. Foto do
acervo da Brigada Niederauer, de Santa Maria – RS.

FIGURA 15: Página 166 - General CHUQUER (direita),


Prefeito GENERI LIPERT (centro) e JOSÉ HOFFMANN,
Prefeito de Três Forquilhas (esquerda). Fonte: Foto do
Arquivo da Brigada Niederauer, 1999.

FIGURA 16: Página 167 - Efetivo da BRIGADA


NIEDERAUER, com uniforme da época do Paraguai,
desfilando em Itati. Fonte: Foto do Arquivo da Brigada
Niederauer, 1999.

FIGURA 17: página 168 - A - Praça Niederauer danificada


pelas chuvas. A praça foi recuperada pelo voluntário Adélio
do Nascimento. Fonte: Acervo fotográfico do autor, 2003.

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FIGURA 18: Página170 - Adélio do Nascimento restaurando
a praça Niederauer. Fonte: Acervo fotográfico do autor.

FONTES DE CONSULTA

Acervo documental do Pastor CARLOS LEOPOLDO


VOGES. Pastas de documentos, livros, relatórios, fotografias
e papéis avulsos.

Livros do Registro Eclesiástico da COMUNIDADE


EVANGÉLICA DE TRÊS FORQUILHAS, em Itati – RS.
(Registro de Batismos, Casamentos e Óbitos).

Arquivo pessoal do escrivão ALBERTO SCHMITT e de


seu pai, o escrivão CHRISTOVAM SCHMITT. Depoimentos de
Alberto Schmitt vindos da tradição oral.

Depoimentos de ARTUR DANIEL GROSS, um homem


irrequieto, de espírito errante, conhecido como “Paraguaio
Gross”, descendente do veterano da Guerra do Paraguai,
Carl Daniel Gross. Nasceu em Três Forquilhas - RS em
28.07.1910, filho de Carlos Daniel Gross Júnior e de
Carolina Bobsin Gross. Faleceu em Curitiba – PR, no
Instituto de Medicina em 25.08.1986. Foi sepultado no dia
26 de agosto, no Cemitério de Santa Cândida. O falecido
não tinha vínculo eclesiástico por isso a família solicitou a
assistência do Capelão Militar Protestante. No entanto o
mesmo estava ausente de Curitiba participando de
manobras militares. Em conseqüência a esposa do Capelão,
Doris Bobsin Müller oficiou a cerimônia fúnebre. Artur Daniel
Gross ficara durante três meses em tratamento médico, na
cidade de Curitiba. Isso permitiu que ele recebesse
inúmeras visitas do capelão, que aproveitou para escutá-lo,
já que o enfermo desejava contar a sua história, bem como
dos antepassados. Foram tocantes histórias sobre o avô
Carl Daniel Gross, veterano da Guerra do Paraguai, sobre o

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
185
pai Carlos Daniel Gross Júnior, um revolucionário que aos
19 anos ingressou nas fileiras maragatas para lutar na
Revolução Federalista, tendo acompanhado Gumercindo
Saraiva no Cerco da Lapa e a tomada de Curitiba.

Depoimentos de EUGENIO BOBSIN, com memórias


sobre os seus antepassados Eberhardt e Bobsin. Eugenio
Bobsin foi criado pelo avô Cristiano Eberhardt, com o qual
colheu memórias valiosas sobre a história da Colônia de
Três Forquilhas.

Elio E. Müller, em “TRÊS FORQUILHAS 1826 – 1899”,


Fonte Gráfica e Editora Ltda, Curitiba, 1992.

Gilberto de Medeiros Mitchel, em “História do Serviço


de Saúde do Exército” – 1º volume –, Serviço de Saúde do
exército, RJ, 1963 – página 119.

Maria Regina Santos de Souza, em “Entre Súplica e


Luta – ações de viúvas e de outros parentes de militares da
Guerra do Paraguai – 1865-1870”, Revista Outros Tempos –
UFPE, Recife, PE, 2009.

Cláudio Moreira Bento, Major Eng QEMA, em “OS


BRUMMER, OS PRIMEIROS PONTONEIROS DO EXÉRCITO
BRASILEIRO”, do livro dos “Anais do 1º Simpósio de
História da Imigração e Colonização Alemã no rio Grande do
Sul” – São Leopoldo – RS – Rotermund S. A. – 1974.

Depoimentos de LIDURINO BARROSO MENGER,


bisneto de João Patrulha Menger e que guardou a tradição
oral da família. Ele enfatizava que a Família Menger,
semelhante a muitas outras que participaram da Revolução
Federalista, passaram a esconder o passado de
revolucionários por temerem represálias que eram impostas
aos maragatos derrotados que, apesar de anistiados, foram
perseguidos e alguns eliminados sumariamente sem prisão,

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“Amores da Guerra” – Elio Eugenio Müller
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nem julgamento ou condenação. Lidurino Menger disputou
eleições para o cargo de vereador do município de Osório e,
mesmo apenas suplente, desempenhou o exercício do cargo
por algum tempo, em substituição ao vereador titular.

Depoimentos de CLARESTINA JUSTIN BREHM, sobre


a numerosa Família Justin e Brehm. "Dona Clara", como era
chamada, guardou muitas histórias interessantes sobre os
antepassados e sobre a vida na Colônia. Semelhante a
outros entrevistados, ela solicitou para não ser mencionada
diretamente em causos e fatos por ela relatados, deixando a
responsabilidade pela divulgação para ser assumida pelo
próprio autor.

Depoimentos de ADY BREHM, descendente do


ferreiro Wilhelm Brehm, um conhecedor profundo do
passado da família e das relações de famílias e grupos na
vida da Colônia De Três Forquilhas. Ady Brehm bem como o
seu irmão ADELINO foram líderes atuantes na política,
chegando a ser eleitos para o cargo de vereador de Torres e
o desempenho de outras atividades políticas, em diferentes
momentos.

Depoimentos de IVO DE OLIVEIRA MELLO, o "IVO


BAIANO", neto de Baiano Candinho, um bom conhecedor da
história do legendário avô. Ivo mostrava orgulho que Baiano
Candinho, fora um Voluntário da Pátria, do Estado do Ceará,
que lutou na Guerra do Paraguai, que desertando
juntamente com seu irmão Pedro e primos, veio buscar
refúgio no vale do rio Três Forquilhas.

Depoimentos de HERNANDO DO NASCIMENTO,


bisneto do professor Serafim Agostinho do Nascimento e
bisneto de Wilhelm Schmitt, um pesquisador da história dos
antepassados e guardião da memória da família
Nascimento.

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COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA
Autor: Elio Eugenio Müller

Volume: I
“De Pés e a Ferros”
O nascer da Colônia de Três Forquilhas.

Volume: II
“Sangue de Inocentes”
Episódio da Revolução Farroupilha.

Volume: III
“Dos bugres aos pretos”
A tragédia de duas raças.

Volume: IV
“Amores da Guerra”
Histórias da Guerra do Paraguai.

Volume: V
“Face Morena”
A miscigenação na Colônia de Três Forquilhas.

Volume: VI
“Os Peleadores”
Um episódio da Revolução Federalista.

Volume: VII
“E a vida continua...”
O drama humano diante do flagelo da epidemia.

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A oratória do autor, diante do Monumento ao Coronel Niederauer.

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