FISIOCRACIA

de harmonia entre o interesse individual e o geral. A noção da ordem natural e providencial está intimamente associada aos conceitos de propriedade e liberdade. daí deduzida pelos fisiocratas. é necessário que possa vigorar de modo natural. Cantillon já havia descrito o funcionamento de uma economia como um . no período que vai de 1756 a 1778. livremente: Segundo Quesnay. A liberdade serve de estímulo à propriedade e a expansão desse direito constitui o principal fator de progresso social. que cumpria conhecer e deixar atuar. Quesnay teve pouco estudo formal. Dupont de Nemours. a terra permaneceria inculta”. a poderosa amante de Luís XV. mas conseguiu se formar em Medicina em 1717. portanto. liderados por François Quesnay. O que deve ser sublinhado nesta concepção é a noção. levaram-no a ser convidado por Diderot a escrever diversos artigos para sua Enciclopédia. Seus amplos interesses intelectuais. Nesta fase. representante de Orléans no Parlamento. “as leis (de ordem natural) não restringem a liberdade do homem. para os fisiocratas. o pai do grande tribuno da Revolução Francesa. pois as vantagens destas leis supremas são manifestamente objeto de melhor escolha da liberdade”. em seu Droit naturel. E um direito não é nada sem a possibilidade de ser exercido. O direito de propriedade tem a sua utilidade social justificada porque “sem a garantia da propriedade. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. que. O Tableau Économique de Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. Destacam-se entre eles: Mirabeau. que servirá de base ao liberalismo econômico. processam-se livres de qualquer coação exterior. pensavam os fisiocratas. Cinco anos depois. Essa ordem natural é. até receber o título de doutor em 1744. Sua reputação como médico gradualmente cresceu com a publicação de diversos trabalhos especializados. trabalharam na elaboração de uma explicação geral da vida econômica. assim como suas ligações com a nata da nobreza francesa.A FISIOCRACIA A Escola Fisiocrática foi formada por um grupo de pensadores franceses que. o abade Baudeau. já com 55 anos de idade. começou a se interessar por Economia e Matemática. le Trosne. conselheiro parlamentar. um desígnio de Deus para a felicidade dos homens e. mudou-se para Versalhes para se tornar o médico particular de Madame Pompadour. secretário da Escola. são as bases do progresso econômico e social. o futuro ministro de Luís XVI. e consultor do próprio rei. uma ordem providencial. e Turgot. para eles. Seus discípulos foram os primeiros a serem chamados de “economistas” e intitulavam-se “fisiocratas” porque derivava de “lei da Natureza” em grego. ou seja. Os fenômenos econômicos. que lhe grangearam fama e seguidores. ou seja. Mercier de la Rivière. François Quesnay (1694-1774) Filho de um camponês e comerciante do vilarejo de Méré. próximo a Versalhes.

Outra política recomendada pelos fisiocratas era a reestruturação da agricultura francesa. O setor agrícola produz $2. Uma conclusão importante que os fisiocratas retiravam do Tableau era que só se devem cobrar impostos dos proprietários de terras. Quesnay presume também que toda a renda é gasta. mais $1. a não ser que haja alguma perturbação do sistema. mas recebem $1. na medida em esta dependa de produtos manufaturados. qualquer imposto reduziria os insumos remanescentes. além disso. uma vez que ele não produz nenhum excedente. assim. que . De um lado. tanto agrícola quanto industrial .conjunto de fluxos circulares ou inter-relações econômicas. Expressa. metade de bens agrícolas e metade em bens manufaturados. e também a do setor agrícola. a idéia fecunda de equilíbrio geral que Léon Walras desenvolverá de maneira mais precisa no fim do século XIX. que nada produz mas tem direito ao excedente produzido pelos agricultores que é pago na forma de aluguéis. numa primeira tentativa de modelar a economia como um todo e mostrar como se relacionam seus diversos componentes. e (iii) uma classe de proprietários de terras. logo não leva a um declínio econômico. Quesnay desenvolveu este conceito e.000 de insumos doa agricultura e produz $1. as pequenas propriedades deveriam ser agrupadas em unidades maiores. O Tableau descreve a sociedade como se compondo de três classes ou setores: (i) um setor agrícola. relativamente a um estado estacionário e sob forma rudimentar.000. dividindo-se em partes iguais entre bens agrícolas e manufaturados. o que diminuiria a produção futura de forma ainda mais severa que no setor manufatureiro. Quesnay considera somente a atividade agrícola como “produtiva” e os outros dois setores como “estéreis”. (ii) um setor manufatureiro. Sobram. que produz alimentos e matéria primas.000 mas vende apenas $1. Na maior parte dos Tableaux a produção agrícola correspondia ao dobro dos insumos. quantificou algumas dessas inter-relações em maior detalhe. além de ferramentas para o trabalho. O processo continua ano após ano. e associa equilíbrio físico à saúde orgânica. se o imposto for cobrado dos proprietários de terra isto não reduz os insumos disponíveis para qualquer dos outros dois setores. compra $500 de manufaturas e vende outros $500 ao setor manufatureiro. Mas. Os proprietários não produzem nada. que produz tecidos e abrigo. devido ao efeito multiplicativo da terra. relativamente à circulação do sangue no organismo humano. O setor manufatureiro (e comercial) recebe $500 dos proprietários e $500 dos agricultores e com isso compra $1.000 de manufaturas. Qualquer imposto cobrado do setor manufatureiro reduziria sua produção. O Tableau deriva claramente da formação médica de Quesnay e se inspira diretamente na descoberta feita em 1628 por Harvey. no que se convencionou chamar a teoria fisiocrática do aluguel da terra. de forma que uma dessas transações anula a outra. em suas mãos produtos agrícolas no valor de $1.000 (por exemplo) de aluguéis pagos pelo setor agrícola e gastam toda essa renda em consumo. Se cobrado do setor agrícola. embora Quesnay deixe claro que esta relação depende da técnica de produção empregada e proponha políticas para melhorá-la.000 em dinheiro para pagar aos proprietários os aluguéis do período seguinte. em seu Tableau.000 aos outros dois setores.que inclui também o comércio local e internacional.

Say virou a Lei dos Mercados contra seus precursores fisiocratas porque eles tinham argumentado que uma renda auferida não é automaticamente reposta em circulação. afinal de contas. para revelar a principal fraqueza analítica do sistema de Quesnay: ela não é tanto atribuir a renda líquida da atividade econômica à terra. unir as pequenas propriedades e libertar o comércio de cereais de todas as reações protecionistas. Críticas à fisiocracia Como sugeriu Adam Smith. Say como Lei dos Mercados foi parte integrante da crítica dos fisiocratas ao mercantilismo. elas constituem as premissas sobre as quais ele está construído. porém. mas sim não conseguir de forma alguma provar que a terra é produtora de valor. não deve ser considerado como o elemento central do sistema fisiocrático. tentar imitar a agricultura inglesa.” Ainda nas palavras de Blaug: “O Tableau Économique de Quesnay. Uma discussão do Tableau serve.” . que tem fascinado os estudiosos desde que foi redescoberto por Marx em meados do século XIX. Como acentua Mark Blaug.” “A idéia mais tarde popularizada por J. por estranho que pareça. mas não conseguiu aceitar sua argumentação de que só a agricultura é capaz de gerar valor. por exemplo. a fisiocracia deve ser considerada como uma reação às políticas mercantilistas de Colbert durante o reinado de Luís XIV. Mercier de la Rivière . B. numa palavra. pelo contrário.permitissem o uso de técnicas e métodos somente viáveis em grande escala. que o comércio se reduz essencialmente a trocas e que o ato de produzir gera automaticamente a renda cujo dispêndio torna possível iniciar um novo ciclo de produção.observa que “ninguém é comprador sem ser ao mesmo tempo um vendedor” e não há muita diferença entre a frase de Quesnay: “tudo que é comprado é vendido e tudo que é vendido é comprado” e a de Say: “a oferta cria sua própria procura”. que a moeda é um mero meio de troca.cuja obtra intitulada L’Ordre naturel et essentiel (1767) foi citada por Smith como “a mais clara e mais bem encadeada síntese da fisiocracia” . o conceito de capital como um adiantamento pela produção. “o programa dos fisiocratas era eliminar os vestígios de laços pessoais medievais nas zonas rurais. Smith encontrou méritos no pensamento fisiocrata. como. a agricultura deveria se tornar mais capitalista. nem demonstrar que a agricultura gera necessariamente um ‘produto líquido’. Quesnay não consegue mostrar que a indústria é estéril. à semelhança da inglesa. O ensinamento fulcral do Tableau é. As conclusões da teoria fisiocrática não podem ser deduzidas do Tableau. Mas. reduzindo todos os impostos a um único lançado sobre o rendimento da terra. racionalizar o sistema fiscal. De outro.

pois. a classe chamada “estéril”. É a primeira expressão racional do funcionamento da vida econômica. isto é. compreendendo os que se dedicam ao comércio. relativa à circulação do sangue no organismo humano. as primeiras unidades de valor se acham reconstituídas nas mãos da classe “produtiva” e o ciclo pode recomeçar indefinidamente. conhecer essas leis naturais e deixá-las atuar. A sociedade se compõe de três classes: uma “produtiva”. Quanto ao conteúdo. da França. Parte integrante do magnífico movimento intelectual e científico – o Enciclopedismo – desenvolvido a partir de 1750. constituída pelos proprietários de terras e. do fluxo das rendas. solidamente ligada à terra. otimista. por analogia. I – A ESCOLA FISIOCRÁTICA É a primeira escola econômica. aos serviços domésticos e às profissões liberais. ao organismo econômico. à indústria. formada de agricultores. Quesnay. Cumpre. em torno do Dr. Completado esse circuito. médico da corte e do rei Luiz XV. outra. que se situam entre 1756 e 1788. finalmente. Seu sucesso foi rápido e imenso. aplicada. desenvolveram uma explicação fisiocrática de uma ordem natural e providencial. Contém. em seu conjunto.A FISIOCRACIA RESUMO DO TÍTULO III – CAP. SEÇÃO I – A NOÇÃO DE ORDEM NATURAL Os fenômenos econômicos – pensavam os fisiocratas – processam-se livre e independentemente da qualquer coação exterior. Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. Sua apresentação precisa faz com que muitos vejam em Quesnay um dos precursores do uso da matemática no estudo dos fenômenos econômicos. porém. eram chamados de “economistas” e suas obras. I DA HISTÓRIA DAS DOUTTRINAS ECONÔMICAS DE PAUL HUGON TÍTULO II – DOUTRINA LIBERAL E INDIVIDUALISTA CAP. A circulação das riquezas por entre essas diferentes classes indica a importância relativa de cada uma e explica a repartição dos bens produzidos. Os fisiocratas pretendem com isso dizer que apenas a produção agrícola permite a obtenção de riqueza gerada em . Quanto à forma. O “Tableau Économique” do Dr. é uma primeira tentativa de elaboração de uma teoria sintética da circulação das riquezas. esse quadro se inspira diretamente na descoberta feita por Harvey em 1628. um exagero que irá comprometer todas as teorias fisiocráticas: a divisão da sociedade em uma classe “produtiva” e outra “estéril”. cuja lógica e serenidade se opunham à incerteza e à inquietação do momento. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. constituída por ilustres personalidades que se reúnem em Versalhes.

a qual doravante servirá de base ao liberalismo econômico. Primeiro. até então esquecida. Além disso. independentemente de regulamentação. que gira em torno da idéia de produção. Justificam o direito de propriedade fundiária pela sua utilidade social: “Sem a garantia da propriedade. deve poder vigorar de modo natural. concorre para assegurar o “bom preço” ou preço “alto” fixado pela livre concorrência. decorrente de uma errada concepção de valor. por isso. Do direito de propriedade agrícola passam os fisiocratas à justificação do direito de propriedade de modo geral. entre interesse individual e geral. Dentre os inúmeros erros que essa falsa noção vai difundir na doutrina fisiocrática. Mas impõem deveres ao titular da terra: a obrigação de mantê-la em estado de cultura. O bom preço atuaria no sentido de elevar todos os preços – da remuneração do trabalho. Eis como se exprime a reação contra a taxação do “mínimo” para os produtos agrícolas. não vêem os liames existentes entre valor e consumo. Entretanto. O comércio. não relacionam a idéia de valor com a satisfação das necessidades do homem. livremente. portanto. A riqueza material volta a ocupar uma posição central na economia e a moeda passa a simples auxiliar das trocas. ao qual os fisiocratas dão o nome de “produto líquido”. que permite a cada um .maior volume que a riqueza consumida. voltando ao lugar de uma riqueza subalterna. desejada por Deus para a felicidade dos homens e. do capital e da terra. isto é. Quanto ao ponto de partida do mecanismo econômico. e o ônus do pagamento integral dos impostos. a noção de classe “estéril” contém em si uma reação à idéia metalista dos mercantilistas. que para os fisiocratas é a base do progresso econômico e social. não produz riqueza. não é útil. a natureza colabora com o homem. a repartição dos produtos obtidos de forma a melhor atender ao interesse geral. daí deduzida pelos fisiocratas. é interessante ressaltar a aversão ao comércio. o destaque atribuído à agricultura leva os fisiocratas a estabelecer bases sólidas para o direito de propriedade. segundo a sua concepção. O que merece ser sublinhado nessa concepção é a noção de harmonia. SEÇÃO II – A NOÇÃO DE ORDEM PROVIDENCIAL Os fisiocratas julgam ser a ordem natural uma ordem providencial. Segundo. ele conduz a uma melhor apreciação da utilidade da agricultura. A conservação da liberdade é tanto mais indispensável quanto. Os fisiocratas confundem riqueza com valor. freqüente na época. É uma noção economicamente falsa e estreita. esse exagero do papel da agricultura facilita a reação contra dois erros do mercantilismo. escreve Quesnay. dando-lhe um lucro real. Sobre essa base jurídica irá desenvolver-se o individualismo. os fisiocratas insistem em ser o interesse geral e permanente. cujo volume é naturalmente regulado pela necessidade de circulação e pela abundância da produção. À noção providencial da ordem natural está intimamente ligada a de liberdade. isto é. na verdade. a terra permaneceria inculta”. existente em todo homem. tanto interno quanto internacional.

os fisiocratas foram censurados por haverem negligenciado a observação dos fatos para recorrer quase exclusivamente à dedução. a monarquia absoluta e hereditária. Quesnay escreveu: “O homem busca obter o máximo de satisfação com o mínimo de esforço”. a bem da economia e rapidez da percepção. quando livre. ora. os fisiocratas vão protestar sempre pelo exercício pleno de liberdade na esfera econômica: (a) liberdade de trabalho. como melhor forma de governo. mas. os fisiocratas elaboram um sistema de taxação direta e única da renda dos proprietários de terras. o ônus do imposto acabaria necessariamente por recair sobre estes últimos. o colorido de metafísica otimista. “Obter o máximo aumento possível de satisfações com a máxima redução possível de dispêndio. por isso mesmo. Adam Smith liberará a lei econômica dessa característica. ao contrário. SEÇÃO III – AS APLICAÇÕES DE ORDEM NATURAL E PROVIDENCIAL PAR 1o – APLICAÇÕES NA ESFERA ECONÔMICA Para que possa essa ordem natural e providencial produzir todos os seus efeitos. (c) liberdade de comércio: livre concorrência. a solução econômica mais vantajosa. nada mais lógico. a lei fisiocrática não é neutra ou “indiferente”. De fato. sendo a classe “estéril” e a “produtiva” assalariadas dos proprietários de terras. a de ordem providencial – levará os fisiocratas a propor. a noção de ordem natural é afirmada como verdade evidente e sempre exata. O interesse essencial do país se confunde com o dos proprietários de terras. Do ponto de vista metodológico. PAR. Essa generalização do método dedutivo leva os fisiocratas a elaborarem leis gerais e permanentes. o “despotismo”. Esse imposto único jamais conheceu plena aplicação. tanto no tempo como no espaço. de certo modo. Estranha e paradoxal pode parecer a escolha desse regime por parte de adeptos da liberdade econômica. pois.e. (b) liberdade de conservar o produto do trabalho e dele dispor: direito de propriedade sob todas as suas formas. mais científica.encontrar por si mesmo. tornando-a. principalmente. eis a conduta econômica perfeita”. tem. mais vale colher o imposto diretamente na sua fonte. 2o – APLICAÇÕES NA ESFERA POLÍTICA A concepção de ordem natural . ou seja. Um século antes dos hedonistas. portanto. A idéia pela qual se norteiam é sempre a mesma: a liberdade gera o “bom preço”. Inútil recolher esse imposto em outras classes da sociedade. que tenha também a nação um único representante. . o interesse destes é um único: a obtenção do “produto líquido”. Partindo da convicção de que somente da terra provém o “produto líquido”. traz o cunho “providencial” característico da doutrina. Mas de fato a tese fisiocrática é lógica. mas a concepção fiscal fisiocrata servirá posteriormente de fonte de inspiração a numerosos outros sistemas tributários.

sim. através da co-propriedade de todos os produtos líquidos ou territoriais sujeitos à sua soberania”. Poder absoluto não significa. apenas declará-las. . O soberano não deve “fazer” as leis. de um “despotismo” legal. fazendo com que sejam respeitadas. decorrente da “evidência” da ordem natural e que por isso mesmo se contrapõe ao despotismo arbitrário. portanto. poder arbitrário.Há nesse sistema político uma interessante tentativa de justificar a monarquia absoluta e hereditária com base na sua utilidade social. Trata-se. Segundo Dupont de Nemours: “Os monarcas hereditários são os únicos soberanos cujos interesses podem estar ligados aos da nação. na acepção fisiocrática. mas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful