fisiocracia

FISIOCRACIA

para os fisiocratas. portanto. François Quesnay (1694-1774) Filho de um camponês e comerciante do vilarejo de Méré. um desígnio de Deus para a felicidade dos homens e. pensavam os fisiocratas. que cumpria conhecer e deixar atuar. começou a se interessar por Economia e Matemática. Essa ordem natural é. A noção da ordem natural e providencial está intimamente associada aos conceitos de propriedade e liberdade. Cantillon já havia descrito o funcionamento de uma economia como um . trabalharam na elaboração de uma explicação geral da vida econômica. assim como suas ligações com a nata da nobreza francesa. Nesta fase. Cinco anos depois. ou seja. liderados por François Quesnay. Mercier de la Rivière. Seus amplos interesses intelectuais. mas conseguiu se formar em Medicina em 1717. que servirá de base ao liberalismo econômico. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. Seus discípulos foram os primeiros a serem chamados de “economistas” e intitulavam-se “fisiocratas” porque derivava de “lei da Natureza” em grego. livremente: Segundo Quesnay. o pai do grande tribuno da Revolução Francesa. e Turgot. le Trosne. uma ordem providencial. Dupont de Nemours. daí deduzida pelos fisiocratas. mudou-se para Versalhes para se tornar o médico particular de Madame Pompadour. Quesnay teve pouco estudo formal. é necessário que possa vigorar de modo natural. de harmonia entre o interesse individual e o geral. pois as vantagens destas leis supremas são manifestamente objeto de melhor escolha da liberdade”. secretário da Escola. o abade Baudeau. ou seja. O que deve ser sublinhado nesta concepção é a noção. que lhe grangearam fama e seguidores.A FISIOCRACIA A Escola Fisiocrática foi formada por um grupo de pensadores franceses que. próximo a Versalhes. “as leis (de ordem natural) não restringem a liberdade do homem. são as bases do progresso econômico e social. processam-se livres de qualquer coação exterior. representante de Orléans no Parlamento. A liberdade serve de estímulo à propriedade e a expansão desse direito constitui o principal fator de progresso social. que. levaram-no a ser convidado por Diderot a escrever diversos artigos para sua Enciclopédia. conselheiro parlamentar. O Tableau Économique de Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. E um direito não é nada sem a possibilidade de ser exercido. Os fenômenos econômicos. até receber o título de doutor em 1744. Destacam-se entre eles: Mirabeau. o futuro ministro de Luís XVI. em seu Droit naturel. a terra permaneceria inculta”. a poderosa amante de Luís XV. para eles. no período que vai de 1756 a 1778. já com 55 anos de idade. Sua reputação como médico gradualmente cresceu com a publicação de diversos trabalhos especializados. O direito de propriedade tem a sua utilidade social justificada porque “sem a garantia da propriedade. e consultor do próprio rei.

mais $1. a não ser que haja alguma perturbação do sistema. se o imposto for cobrado dos proprietários de terra isto não reduz os insumos disponíveis para qualquer dos outros dois setores. Quesnay desenvolveu este conceito e. as pequenas propriedades deveriam ser agrupadas em unidades maiores.que inclui também o comércio local e internacional. no que se convencionou chamar a teoria fisiocrática do aluguel da terra. que produz alimentos e matéria primas. Uma conclusão importante que os fisiocratas retiravam do Tableau era que só se devem cobrar impostos dos proprietários de terras. e (iii) uma classe de proprietários de terras. uma vez que ele não produz nenhum excedente. quantificou algumas dessas inter-relações em maior detalhe.000 de insumos doa agricultura e produz $1. Quesnay presume também que toda a renda é gasta.000 de manufaturas. Na maior parte dos Tableaux a produção agrícola correspondia ao dobro dos insumos.000 (por exemplo) de aluguéis pagos pelo setor agrícola e gastam toda essa renda em consumo.000 mas vende apenas $1.conjunto de fluxos circulares ou inter-relações econômicas. (ii) um setor manufatureiro. embora Quesnay deixe claro que esta relação depende da técnica de produção empregada e proponha políticas para melhorá-la. qualquer imposto reduziria os insumos remanescentes. compra $500 de manufaturas e vende outros $500 ao setor manufatureiro. Expressa. Mas. De um lado. que produz tecidos e abrigo. metade de bens agrícolas e metade em bens manufaturados. relativamente à circulação do sangue no organismo humano. em seu Tableau. que . tanto agrícola quanto industrial . Se cobrado do setor agrícola. relativamente a um estado estacionário e sob forma rudimentar. logo não leva a um declínio econômico. Quesnay considera somente a atividade agrícola como “produtiva” e os outros dois setores como “estéreis”. O setor manufatureiro (e comercial) recebe $500 dos proprietários e $500 dos agricultores e com isso compra $1. dividindo-se em partes iguais entre bens agrícolas e manufaturados. em suas mãos produtos agrícolas no valor de $1. Os proprietários não produzem nada. na medida em esta dependa de produtos manufaturados. numa primeira tentativa de modelar a economia como um todo e mostrar como se relacionam seus diversos componentes. mas recebem $1. a idéia fecunda de equilíbrio geral que Léon Walras desenvolverá de maneira mais precisa no fim do século XIX. devido ao efeito multiplicativo da terra. que nada produz mas tem direito ao excedente produzido pelos agricultores que é pago na forma de aluguéis.000 em dinheiro para pagar aos proprietários os aluguéis do período seguinte. de forma que uma dessas transações anula a outra. o que diminuiria a produção futura de forma ainda mais severa que no setor manufatureiro. e associa equilíbrio físico à saúde orgânica. O setor agrícola produz $2. O Tableau descreve a sociedade como se compondo de três classes ou setores: (i) um setor agrícola. além disso. assim. O processo continua ano após ano.000.000 aos outros dois setores. Outra política recomendada pelos fisiocratas era a reestruturação da agricultura francesa. além de ferramentas para o trabalho. O Tableau deriva claramente da formação médica de Quesnay e se inspira diretamente na descoberta feita em 1628 por Harvey. e também a do setor agrícola. Sobram. Qualquer imposto cobrado do setor manufatureiro reduziria sua produção.

Mercier de la Rivière . Críticas à fisiocracia Como sugeriu Adam Smith. afinal de contas.” . elas constituem as premissas sobre as quais ele está construído. que o comércio se reduz essencialmente a trocas e que o ato de produzir gera automaticamente a renda cujo dispêndio torna possível iniciar um novo ciclo de produção. a agricultura deveria se tornar mais capitalista. numa palavra.” “A idéia mais tarde popularizada por J. De outro. Say virou a Lei dos Mercados contra seus precursores fisiocratas porque eles tinham argumentado que uma renda auferida não é automaticamente reposta em circulação. mas não conseguiu aceitar sua argumentação de que só a agricultura é capaz de gerar valor. Quesnay não consegue mostrar que a indústria é estéril. B.permitissem o uso de técnicas e métodos somente viáveis em grande escala. por estranho que pareça. por exemplo. à semelhança da inglesa.” Ainda nas palavras de Blaug: “O Tableau Économique de Quesnay. porém. As conclusões da teoria fisiocrática não podem ser deduzidas do Tableau. que tem fascinado os estudiosos desde que foi redescoberto por Marx em meados do século XIX. “o programa dos fisiocratas era eliminar os vestígios de laços pessoais medievais nas zonas rurais. mas sim não conseguir de forma alguma provar que a terra é produtora de valor. unir as pequenas propriedades e libertar o comércio de cereais de todas as reações protecionistas. O ensinamento fulcral do Tableau é. Smith encontrou méritos no pensamento fisiocrata. pelo contrário. que a moeda é um mero meio de troca. para revelar a principal fraqueza analítica do sistema de Quesnay: ela não é tanto atribuir a renda líquida da atividade econômica à terra. Uma discussão do Tableau serve. reduzindo todos os impostos a um único lançado sobre o rendimento da terra.cuja obtra intitulada L’Ordre naturel et essentiel (1767) foi citada por Smith como “a mais clara e mais bem encadeada síntese da fisiocracia” . Mas.observa que “ninguém é comprador sem ser ao mesmo tempo um vendedor” e não há muita diferença entre a frase de Quesnay: “tudo que é comprado é vendido e tudo que é vendido é comprado” e a de Say: “a oferta cria sua própria procura”. Como acentua Mark Blaug. tentar imitar a agricultura inglesa. não deve ser considerado como o elemento central do sistema fisiocrático. nem demonstrar que a agricultura gera necessariamente um ‘produto líquido’. a fisiocracia deve ser considerada como uma reação às políticas mercantilistas de Colbert durante o reinado de Luís XIV. como. racionalizar o sistema fiscal. o conceito de capital como um adiantamento pela produção. Say como Lei dos Mercados foi parte integrante da crítica dos fisiocratas ao mercantilismo.

Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. a classe chamada “estéril”. A sociedade se compõe de três classes: uma “produtiva”. compreendendo os que se dedicam ao comércio. finalmente. que se situam entre 1756 e 1788. pois. Cumpre. conhecer essas leis naturais e deixá-las atuar. O “Tableau Économique” do Dr. Quanto ao conteúdo. do fluxo das rendas. desenvolveram uma explicação fisiocrática de uma ordem natural e providencial. Quesnay. porém. Seu sucesso foi rápido e imenso. SEÇÃO I – A NOÇÃO DE ORDEM NATURAL Os fenômenos econômicos – pensavam os fisiocratas – processam-se livre e independentemente da qualquer coação exterior. por analogia. aplicada. solidamente ligada à terra. eram chamados de “economistas” e suas obras. Contém. outra. da França. um exagero que irá comprometer todas as teorias fisiocráticas: a divisão da sociedade em uma classe “produtiva” e outra “estéril”. Quanto à forma. Parte integrante do magnífico movimento intelectual e científico – o Enciclopedismo – desenvolvido a partir de 1750. I DA HISTÓRIA DAS DOUTTRINAS ECONÔMICAS DE PAUL HUGON TÍTULO II – DOUTRINA LIBERAL E INDIVIDUALISTA CAP. Os fisiocratas pretendem com isso dizer que apenas a produção agrícola permite a obtenção de riqueza gerada em . ao organismo econômico. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. A circulação das riquezas por entre essas diferentes classes indica a importância relativa de cada uma e explica a repartição dos bens produzidos.A FISIOCRACIA RESUMO DO TÍTULO III – CAP. I – A ESCOLA FISIOCRÁTICA É a primeira escola econômica. as primeiras unidades de valor se acham reconstituídas nas mãos da classe “produtiva” e o ciclo pode recomeçar indefinidamente. otimista. médico da corte e do rei Luiz XV. constituída pelos proprietários de terras e. relativa à circulação do sangue no organismo humano. é uma primeira tentativa de elaboração de uma teoria sintética da circulação das riquezas. isto é. cuja lógica e serenidade se opunham à incerteza e à inquietação do momento. Sua apresentação precisa faz com que muitos vejam em Quesnay um dos precursores do uso da matemática no estudo dos fenômenos econômicos. aos serviços domésticos e às profissões liberais. constituída por ilustres personalidades que se reúnem em Versalhes. em torno do Dr. esse quadro se inspira diretamente na descoberta feita por Harvey em 1628. formada de agricultores. em seu conjunto. à indústria. É a primeira expressão racional do funcionamento da vida econômica. Completado esse circuito.

a qual doravante servirá de base ao liberalismo econômico. na verdade. isto é. Quanto ao ponto de partida do mecanismo econômico. À noção providencial da ordem natural está intimamente ligada a de liberdade. O que merece ser sublinhado nessa concepção é a noção de harmonia. Primeiro. ao qual os fisiocratas dão o nome de “produto líquido”.maior volume que a riqueza consumida. Os fisiocratas confundem riqueza com valor. entre interesse individual e geral. esse exagero do papel da agricultura facilita a reação contra dois erros do mercantilismo. É uma noção economicamente falsa e estreita. voltando ao lugar de uma riqueza subalterna. Segundo. Dentre os inúmeros erros que essa falsa noção vai difundir na doutrina fisiocrática. decorrente de uma errada concepção de valor. existente em todo homem. até então esquecida. Sobre essa base jurídica irá desenvolver-se o individualismo. a repartição dos produtos obtidos de forma a melhor atender ao interesse geral. isto é. Eis como se exprime a reação contra a taxação do “mínimo” para os produtos agrícolas. e o ônus do pagamento integral dos impostos. tanto interno quanto internacional. segundo a sua concepção. portanto. a noção de classe “estéril” contém em si uma reação à idéia metalista dos mercantilistas. O bom preço atuaria no sentido de elevar todos os preços – da remuneração do trabalho. a terra permaneceria inculta”. é interessante ressaltar a aversão ao comércio. a natureza colabora com o homem. que permite a cada um . não vêem os liames existentes entre valor e consumo. Além disso. deve poder vigorar de modo natural. não é útil. livremente. o destaque atribuído à agricultura leva os fisiocratas a estabelecer bases sólidas para o direito de propriedade. que gira em torno da idéia de produção. não produz riqueza. que para os fisiocratas é a base do progresso econômico e social. desejada por Deus para a felicidade dos homens e. não relacionam a idéia de valor com a satisfação das necessidades do homem. do capital e da terra. freqüente na época. os fisiocratas insistem em ser o interesse geral e permanente. dando-lhe um lucro real. cujo volume é naturalmente regulado pela necessidade de circulação e pela abundância da produção. ele conduz a uma melhor apreciação da utilidade da agricultura. por isso. A conservação da liberdade é tanto mais indispensável quanto. O comércio. independentemente de regulamentação. Mas impõem deveres ao titular da terra: a obrigação de mantê-la em estado de cultura. Do direito de propriedade agrícola passam os fisiocratas à justificação do direito de propriedade de modo geral. A riqueza material volta a ocupar uma posição central na economia e a moeda passa a simples auxiliar das trocas. daí deduzida pelos fisiocratas. concorre para assegurar o “bom preço” ou preço “alto” fixado pela livre concorrência. Entretanto. SEÇÃO II – A NOÇÃO DE ORDEM PROVIDENCIAL Os fisiocratas julgam ser a ordem natural uma ordem providencial. Justificam o direito de propriedade fundiária pela sua utilidade social: “Sem a garantia da propriedade. escreve Quesnay.

traz o cunho “providencial” característico da doutrina. Partindo da convicção de que somente da terra provém o “produto líquido”. SEÇÃO III – AS APLICAÇÕES DE ORDEM NATURAL E PROVIDENCIAL PAR 1o – APLICAÇÕES NA ESFERA ECONÔMICA Para que possa essa ordem natural e providencial produzir todos os seus efeitos. os fisiocratas foram censurados por haverem negligenciado a observação dos fatos para recorrer quase exclusivamente à dedução. a monarquia absoluta e hereditária. os fisiocratas elaboram um sistema de taxação direta e única da renda dos proprietários de terras. mas a concepção fiscal fisiocrata servirá posteriormente de fonte de inspiração a numerosos outros sistemas tributários. . ou seja. (b) liberdade de conservar o produto do trabalho e dele dispor: direito de propriedade sob todas as suas formas. portanto. De fato. o ônus do imposto acabaria necessariamente por recair sobre estes últimos. Esse imposto único jamais conheceu plena aplicação. a lei fisiocrática não é neutra ou “indiferente”. que tenha também a nação um único representante. o colorido de metafísica otimista. 2o – APLICAÇÕES NA ESFERA POLÍTICA A concepção de ordem natural . Mas de fato a tese fisiocrática é lógica. mas. a noção de ordem natural é afirmada como verdade evidente e sempre exata. “Obter o máximo aumento possível de satisfações com a máxima redução possível de dispêndio. tornando-a. o interesse destes é um único: a obtenção do “produto líquido”. a bem da economia e rapidez da percepção. a de ordem providencial – levará os fisiocratas a propor. como melhor forma de governo.encontrar por si mesmo. mais vale colher o imposto diretamente na sua fonte. ora. nada mais lógico. principalmente. O interesse essencial do país se confunde com o dos proprietários de terras. Quesnay escreveu: “O homem busca obter o máximo de satisfação com o mínimo de esforço”. eis a conduta econômica perfeita”. de certo modo. mais científica. sendo a classe “estéril” e a “produtiva” assalariadas dos proprietários de terras. quando livre. Um século antes dos hedonistas. por isso mesmo. PAR. A idéia pela qual se norteiam é sempre a mesma: a liberdade gera o “bom preço”. Inútil recolher esse imposto em outras classes da sociedade. Do ponto de vista metodológico. os fisiocratas vão protestar sempre pelo exercício pleno de liberdade na esfera econômica: (a) liberdade de trabalho.e. o “despotismo”. (c) liberdade de comércio: livre concorrência. ao contrário. a solução econômica mais vantajosa. pois. Adam Smith liberará a lei econômica dessa característica. Estranha e paradoxal pode parecer a escolha desse regime por parte de adeptos da liberdade econômica. tanto no tempo como no espaço. tem. Essa generalização do método dedutivo leva os fisiocratas a elaborarem leis gerais e permanentes.

poder arbitrário. na acepção fisiocrática. decorrente da “evidência” da ordem natural e que por isso mesmo se contrapõe ao despotismo arbitrário. através da co-propriedade de todos os produtos líquidos ou territoriais sujeitos à sua soberania”. mas. portanto.Há nesse sistema político uma interessante tentativa de justificar a monarquia absoluta e hereditária com base na sua utilidade social. apenas declará-las. sim. . O soberano não deve “fazer” as leis. Poder absoluto não significa. de um “despotismo” legal. Segundo Dupont de Nemours: “Os monarcas hereditários são os únicos soberanos cujos interesses podem estar ligados aos da nação. Trata-se. fazendo com que sejam respeitadas.

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