FISIOCRACIA

de harmonia entre o interesse individual e o geral. que cumpria conhecer e deixar atuar. o futuro ministro de Luís XVI. liderados por François Quesnay. processam-se livres de qualquer coação exterior. para os fisiocratas. o pai do grande tribuno da Revolução Francesa. “as leis (de ordem natural) não restringem a liberdade do homem. o abade Baudeau. são as bases do progresso econômico e social. próximo a Versalhes. levaram-no a ser convidado por Diderot a escrever diversos artigos para sua Enciclopédia. portanto. em seu Droit naturel. no período que vai de 1756 a 1778. um desígnio de Deus para a felicidade dos homens e. que servirá de base ao liberalismo econômico. Seus discípulos foram os primeiros a serem chamados de “economistas” e intitulavam-se “fisiocratas” porque derivava de “lei da Natureza” em grego. François Quesnay (1694-1774) Filho de um camponês e comerciante do vilarejo de Méré. A noção da ordem natural e providencial está intimamente associada aos conceitos de propriedade e liberdade. conselheiro parlamentar. E um direito não é nada sem a possibilidade de ser exercido. e consultor do próprio rei. a poderosa amante de Luís XV. até receber o título de doutor em 1744. Seus amplos interesses intelectuais. O Tableau Économique de Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. Dupont de Nemours. ou seja. Mercier de la Rivière. Cantillon já havia descrito o funcionamento de uma economia como um . O que deve ser sublinhado nesta concepção é a noção. para eles. livremente: Segundo Quesnay. pois as vantagens destas leis supremas são manifestamente objeto de melhor escolha da liberdade”. que. pensavam os fisiocratas. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. já com 55 anos de idade. A liberdade serve de estímulo à propriedade e a expansão desse direito constitui o principal fator de progresso social. secretário da Escola. O direito de propriedade tem a sua utilidade social justificada porque “sem a garantia da propriedade. representante de Orléans no Parlamento. Sua reputação como médico gradualmente cresceu com a publicação de diversos trabalhos especializados. daí deduzida pelos fisiocratas. mas conseguiu se formar em Medicina em 1717. Quesnay teve pouco estudo formal. assim como suas ligações com a nata da nobreza francesa. é necessário que possa vigorar de modo natural. Destacam-se entre eles: Mirabeau. Essa ordem natural é.A FISIOCRACIA A Escola Fisiocrática foi formada por um grupo de pensadores franceses que. Cinco anos depois. Nesta fase. trabalharam na elaboração de uma explicação geral da vida econômica. mudou-se para Versalhes para se tornar o médico particular de Madame Pompadour. a terra permaneceria inculta”. le Trosne. começou a se interessar por Economia e Matemática. Os fenômenos econômicos. e Turgot. que lhe grangearam fama e seguidores. ou seja. uma ordem providencial.

na medida em esta dependa de produtos manufaturados. O setor manufatureiro (e comercial) recebe $500 dos proprietários e $500 dos agricultores e com isso compra $1. Se cobrado do setor agrícola. em suas mãos produtos agrícolas no valor de $1.000 de manufaturas. O Tableau descreve a sociedade como se compondo de três classes ou setores: (i) um setor agrícola. a idéia fecunda de equilíbrio geral que Léon Walras desenvolverá de maneira mais precisa no fim do século XIX. se o imposto for cobrado dos proprietários de terra isto não reduz os insumos disponíveis para qualquer dos outros dois setores.000 em dinheiro para pagar aos proprietários os aluguéis do período seguinte. que . e (iii) uma classe de proprietários de terras. além de ferramentas para o trabalho. Quesnay presume também que toda a renda é gasta.000 mas vende apenas $1. e também a do setor agrícola. devido ao efeito multiplicativo da terra. Quesnay desenvolveu este conceito e. quantificou algumas dessas inter-relações em maior detalhe. no que se convencionou chamar a teoria fisiocrática do aluguel da terra.000 aos outros dois setores. além disso. de forma que uma dessas transações anula a outra. De um lado. Expressa. mas recebem $1. mais $1. Uma conclusão importante que os fisiocratas retiravam do Tableau era que só se devem cobrar impostos dos proprietários de terras.000. assim.000 (por exemplo) de aluguéis pagos pelo setor agrícola e gastam toda essa renda em consumo. O setor agrícola produz $2. relativamente à circulação do sangue no organismo humano. logo não leva a um declínio econômico. Na maior parte dos Tableaux a produção agrícola correspondia ao dobro dos insumos. que produz tecidos e abrigo. qualquer imposto reduziria os insumos remanescentes. (ii) um setor manufatureiro. O Tableau deriva claramente da formação médica de Quesnay e se inspira diretamente na descoberta feita em 1628 por Harvey. Outra política recomendada pelos fisiocratas era a reestruturação da agricultura francesa. Quesnay considera somente a atividade agrícola como “produtiva” e os outros dois setores como “estéreis”. compra $500 de manufaturas e vende outros $500 ao setor manufatureiro.conjunto de fluxos circulares ou inter-relações econômicas. tanto agrícola quanto industrial . relativamente a um estado estacionário e sob forma rudimentar. que produz alimentos e matéria primas. numa primeira tentativa de modelar a economia como um todo e mostrar como se relacionam seus diversos componentes. em seu Tableau. metade de bens agrícolas e metade em bens manufaturados. que nada produz mas tem direito ao excedente produzido pelos agricultores que é pago na forma de aluguéis.000 de insumos doa agricultura e produz $1. Os proprietários não produzem nada. e associa equilíbrio físico à saúde orgânica. embora Quesnay deixe claro que esta relação depende da técnica de produção empregada e proponha políticas para melhorá-la.que inclui também o comércio local e internacional. o que diminuiria a produção futura de forma ainda mais severa que no setor manufatureiro. a não ser que haja alguma perturbação do sistema. Qualquer imposto cobrado do setor manufatureiro reduziria sua produção. dividindo-se em partes iguais entre bens agrícolas e manufaturados. O processo continua ano após ano. Mas. as pequenas propriedades deveriam ser agrupadas em unidades maiores. uma vez que ele não produz nenhum excedente. Sobram.

B. O ensinamento fulcral do Tableau é. Mercier de la Rivière . afinal de contas. que tem fascinado os estudiosos desde que foi redescoberto por Marx em meados do século XIX. mas sim não conseguir de forma alguma provar que a terra é produtora de valor. Say como Lei dos Mercados foi parte integrante da crítica dos fisiocratas ao mercantilismo. para revelar a principal fraqueza analítica do sistema de Quesnay: ela não é tanto atribuir a renda líquida da atividade econômica à terra. numa palavra. unir as pequenas propriedades e libertar o comércio de cereais de todas as reações protecionistas. Say virou a Lei dos Mercados contra seus precursores fisiocratas porque eles tinham argumentado que uma renda auferida não é automaticamente reposta em circulação. Como acentua Mark Blaug. pelo contrário. Uma discussão do Tableau serve.” “A idéia mais tarde popularizada por J. “o programa dos fisiocratas era eliminar os vestígios de laços pessoais medievais nas zonas rurais. por exemplo. De outro.” . a fisiocracia deve ser considerada como uma reação às políticas mercantilistas de Colbert durante o reinado de Luís XIV. Críticas à fisiocracia Como sugeriu Adam Smith. Mas.permitissem o uso de técnicas e métodos somente viáveis em grande escala. por estranho que pareça.cuja obtra intitulada L’Ordre naturel et essentiel (1767) foi citada por Smith como “a mais clara e mais bem encadeada síntese da fisiocracia” . que o comércio se reduz essencialmente a trocas e que o ato de produzir gera automaticamente a renda cujo dispêndio torna possível iniciar um novo ciclo de produção. à semelhança da inglesa. o conceito de capital como um adiantamento pela produção.observa que “ninguém é comprador sem ser ao mesmo tempo um vendedor” e não há muita diferença entre a frase de Quesnay: “tudo que é comprado é vendido e tudo que é vendido é comprado” e a de Say: “a oferta cria sua própria procura”. elas constituem as premissas sobre as quais ele está construído. nem demonstrar que a agricultura gera necessariamente um ‘produto líquido’. mas não conseguiu aceitar sua argumentação de que só a agricultura é capaz de gerar valor. As conclusões da teoria fisiocrática não podem ser deduzidas do Tableau. tentar imitar a agricultura inglesa. como. a agricultura deveria se tornar mais capitalista. racionalizar o sistema fiscal. Smith encontrou méritos no pensamento fisiocrata. não deve ser considerado como o elemento central do sistema fisiocrático. que a moeda é um mero meio de troca. reduzindo todos os impostos a um único lançado sobre o rendimento da terra.” Ainda nas palavras de Blaug: “O Tableau Économique de Quesnay. Quesnay não consegue mostrar que a indústria é estéril. porém.

Completado esse circuito. médico da corte e do rei Luiz XV. da França. esse quadro se inspira diretamente na descoberta feita por Harvey em 1628. formada de agricultores. que se situam entre 1756 e 1788. otimista. A circulação das riquezas por entre essas diferentes classes indica a importância relativa de cada uma e explica a repartição dos bens produzidos. Quesnay. Parte integrante do magnífico movimento intelectual e científico – o Enciclopedismo – desenvolvido a partir de 1750. cuja lógica e serenidade se opunham à incerteza e à inquietação do momento. isto é. SEÇÃO I – A NOÇÃO DE ORDEM NATURAL Os fenômenos econômicos – pensavam os fisiocratas – processam-se livre e independentemente da qualquer coação exterior. do fluxo das rendas. a classe chamada “estéril”. por analogia. constituída por ilustres personalidades que se reúnem em Versalhes. Contém. Os fisiocratas pretendem com isso dizer que apenas a produção agrícola permite a obtenção de riqueza gerada em . outra. constituída pelos proprietários de terras e. um exagero que irá comprometer todas as teorias fisiocráticas: a divisão da sociedade em uma classe “produtiva” e outra “estéril”. relativa à circulação do sangue no organismo humano. em torno do Dr. solidamente ligada à terra.A FISIOCRACIA RESUMO DO TÍTULO III – CAP. Sua apresentação precisa faz com que muitos vejam em Quesnay um dos precursores do uso da matemática no estudo dos fenômenos econômicos. ao organismo econômico. I – A ESCOLA FISIOCRÁTICA É a primeira escola econômica. eram chamados de “economistas” e suas obras. aplicada. em seu conjunto. Quanto à forma. Seu sucesso foi rápido e imenso. pois. à indústria. segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. compreendendo os que se dedicam ao comércio. Quesnay tem exatamente a finalidade de por em evidência essa ordem natural. É a primeira expressão racional do funcionamento da vida econômica. aos serviços domésticos e às profissões liberais. porém. Quanto ao conteúdo. O “Tableau Économique” do Dr. A sociedade se compõe de três classes: uma “produtiva”. desenvolveram uma explicação fisiocrática de uma ordem natural e providencial. conhecer essas leis naturais e deixá-las atuar. Cumpre. I DA HISTÓRIA DAS DOUTTRINAS ECONÔMICAS DE PAUL HUGON TÍTULO II – DOUTRINA LIBERAL E INDIVIDUALISTA CAP. as primeiras unidades de valor se acham reconstituídas nas mãos da classe “produtiva” e o ciclo pode recomeçar indefinidamente. é uma primeira tentativa de elaboração de uma teoria sintética da circulação das riquezas. finalmente.

cujo volume é naturalmente regulado pela necessidade de circulação e pela abundância da produção. SEÇÃO II – A NOÇÃO DE ORDEM PROVIDENCIAL Os fisiocratas julgam ser a ordem natural uma ordem providencial. não produz riqueza.maior volume que a riqueza consumida. Segundo. Dentre os inúmeros erros que essa falsa noção vai difundir na doutrina fisiocrática. freqüente na época. não relacionam a idéia de valor com a satisfação das necessidades do homem. a terra permaneceria inculta”. segundo a sua concepção. isto é. Do direito de propriedade agrícola passam os fisiocratas à justificação do direito de propriedade de modo geral. Primeiro. daí deduzida pelos fisiocratas. isto é. escreve Quesnay. e o ônus do pagamento integral dos impostos. A conservação da liberdade é tanto mais indispensável quanto. ele conduz a uma melhor apreciação da utilidade da agricultura. À noção providencial da ordem natural está intimamente ligada a de liberdade. o destaque atribuído à agricultura leva os fisiocratas a estabelecer bases sólidas para o direito de propriedade. Quanto ao ponto de partida do mecanismo econômico. concorre para assegurar o “bom preço” ou preço “alto” fixado pela livre concorrência. dando-lhe um lucro real. livremente. não vêem os liames existentes entre valor e consumo. não é útil. independentemente de regulamentação. tanto interno quanto internacional. deve poder vigorar de modo natural. Eis como se exprime a reação contra a taxação do “mínimo” para os produtos agrícolas. Entretanto. é interessante ressaltar a aversão ao comércio. Mas impõem deveres ao titular da terra: a obrigação de mantê-la em estado de cultura. Além disso. É uma noção economicamente falsa e estreita. a qual doravante servirá de base ao liberalismo econômico. a noção de classe “estéril” contém em si uma reação à idéia metalista dos mercantilistas. O bom preço atuaria no sentido de elevar todos os preços – da remuneração do trabalho. Justificam o direito de propriedade fundiária pela sua utilidade social: “Sem a garantia da propriedade. até então esquecida. que gira em torno da idéia de produção. decorrente de uma errada concepção de valor. a natureza colabora com o homem. Os fisiocratas confundem riqueza com valor. que para os fisiocratas é a base do progresso econômico e social. Sobre essa base jurídica irá desenvolver-se o individualismo. O comércio. portanto. entre interesse individual e geral. por isso. os fisiocratas insistem em ser o interesse geral e permanente. desejada por Deus para a felicidade dos homens e. do capital e da terra. voltando ao lugar de uma riqueza subalterna. que permite a cada um . na verdade. esse exagero do papel da agricultura facilita a reação contra dois erros do mercantilismo. existente em todo homem. ao qual os fisiocratas dão o nome de “produto líquido”. a repartição dos produtos obtidos de forma a melhor atender ao interesse geral. A riqueza material volta a ocupar uma posição central na economia e a moeda passa a simples auxiliar das trocas. O que merece ser sublinhado nessa concepção é a noção de harmonia.

os fisiocratas elaboram um sistema de taxação direta e única da renda dos proprietários de terras. ao contrário. o “despotismo”. ou seja. (b) liberdade de conservar o produto do trabalho e dele dispor: direito de propriedade sob todas as suas formas. a bem da economia e rapidez da percepção. traz o cunho “providencial” característico da doutrina. tem. Mas de fato a tese fisiocrática é lógica. . portanto. de certo modo. De fato. os fisiocratas foram censurados por haverem negligenciado a observação dos fatos para recorrer quase exclusivamente à dedução. mas. mais vale colher o imposto diretamente na sua fonte. eis a conduta econômica perfeita”. PAR. tornando-a. Do ponto de vista metodológico. ora. O interesse essencial do país se confunde com o dos proprietários de terras. principalmente. pois. a de ordem providencial – levará os fisiocratas a propor. a noção de ordem natural é afirmada como verdade evidente e sempre exata.encontrar por si mesmo. o interesse destes é um único: a obtenção do “produto líquido”. mais científica. a lei fisiocrática não é neutra ou “indiferente”. tanto no tempo como no espaço. como melhor forma de governo.e. Estranha e paradoxal pode parecer a escolha desse regime por parte de adeptos da liberdade econômica. mas a concepção fiscal fisiocrata servirá posteriormente de fonte de inspiração a numerosos outros sistemas tributários. Um século antes dos hedonistas. nada mais lógico. quando livre. por isso mesmo. “Obter o máximo aumento possível de satisfações com a máxima redução possível de dispêndio. (c) liberdade de comércio: livre concorrência. que tenha também a nação um único representante. os fisiocratas vão protestar sempre pelo exercício pleno de liberdade na esfera econômica: (a) liberdade de trabalho. Essa generalização do método dedutivo leva os fisiocratas a elaborarem leis gerais e permanentes. SEÇÃO III – AS APLICAÇÕES DE ORDEM NATURAL E PROVIDENCIAL PAR 1o – APLICAÇÕES NA ESFERA ECONÔMICA Para que possa essa ordem natural e providencial produzir todos os seus efeitos. sendo a classe “estéril” e a “produtiva” assalariadas dos proprietários de terras. Adam Smith liberará a lei econômica dessa característica. a solução econômica mais vantajosa. o colorido de metafísica otimista. o ônus do imposto acabaria necessariamente por recair sobre estes últimos. Quesnay escreveu: “O homem busca obter o máximo de satisfação com o mínimo de esforço”. Partindo da convicção de que somente da terra provém o “produto líquido”. 2o – APLICAÇÕES NA ESFERA POLÍTICA A concepção de ordem natural . a monarquia absoluta e hereditária. Inútil recolher esse imposto em outras classes da sociedade. A idéia pela qual se norteiam é sempre a mesma: a liberdade gera o “bom preço”. Esse imposto único jamais conheceu plena aplicação.

. O soberano não deve “fazer” as leis. decorrente da “evidência” da ordem natural e que por isso mesmo se contrapõe ao despotismo arbitrário. Segundo Dupont de Nemours: “Os monarcas hereditários são os únicos soberanos cujos interesses podem estar ligados aos da nação. poder arbitrário. através da co-propriedade de todos os produtos líquidos ou territoriais sujeitos à sua soberania”. fazendo com que sejam respeitadas. Trata-se. na acepção fisiocrática. portanto. Poder absoluto não significa. de um “despotismo” legal. apenas declará-las. sim. mas.Há nesse sistema político uma interessante tentativa de justificar a monarquia absoluta e hereditária com base na sua utilidade social.

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