ANÁLISE FUNCIONAL COMPORTAMENTAL DE 2 CASOS CLÍNICOS Vera Lúcia Constantino de Campos, Profª PUCCAMP O OBJETIVO DESTE RELATO É MOSTRAR

A IMPORTÂNCIA DA ANÁLISE FUNCIONAL COMPORTAMENTAL PARA A MUDANÇA TERAPÊUTICA. A Análise Funcional é um dos passos decisivos e difíceis no processo de mudança de um comportamento. Sem determinar as variáveis mantenedoras do comportamento do cliente, o terapeuta pode perder tempo visando alvos funcionalmente irrelevantes. A Análise Funcional tem que determinar: 1) Antecedentes situacionais potenciais. 2) Variáveis organísmicas. 3) Variáveis de Respostas (Comportamentos). 4) As conseqüências do comportamento. Durante este processo, levantamos e testamos várias hipóteses até chegar à Formulação Comportamental -- onde o clínico examina a riqueza das informações e procura dar um sentido a elas -- identificando suas relações. Nesse momento, ele pode desenvolver um modelo acurado de predição do comportamento do cliente. Somente agora o terapeuta pode desenvolver a terapia adequada para aquele caso em particular respeitando a natureza idiográfica da atividade clínica. O clínico, assim, resolve se vai trabalhar com as queixas do cliente ou com as ansiedades subjacentes a elas. (Victor Meyer e Ira Turkat, Lettner e Rangé).

CASO CLÍNICO n° 1 IDENTIFICAÇÃO: D, 22 a., 2° ano de Administração, solteira, mora só com os pais (Abril/89). QUEIXA: Muito medo do futuro -- "Não sei o que vou fazer". Indecisa, insegura -- "Tenho medo de ficar sozinha em casa; medo de dormir sozinha". "Estou desligada, desatenta, desinteressada das coisas". Mãe e pai estão muito preocupados com ela, pois há +/- 1 ano está assim. RELACIONAMENTO COM A FAMÍLIA:

Considera ter um bom relacionamento com os pais, que dão tudo a ela. Se dá melhor com a mãe (43a) que é alegre e expansiva. Seu pai (49a) é muito fechado, não é muito afetivo e ela tem muito respeito por ele. Ele se dava melhor com sua irmã (24a) que é falecida. Pais ficaram e ainda estão muito abalados com a morte da primeira filha, e agora estão muito preocupados com a cliente. A irmã da cliente faleceu há 1 ano (em 1988), e a família passou por um momento difícil. A irmã (segundo a cliente) era o "centro da casa". Ela trazia todas as notícias, e trabalhava com o pai na empresa que o pai possui. Era o "braço direito do pai". DADOS DAS ENTREVISTAS: Infância feliz no geral. Foi aluna regular, não era boa em matérias decorativas. Repetiu duas vezes a 6a. série. Em nov/88 terminou um noivado. Foi difícil, pois gostava muito dele, mas brigavam muito. Nas entrevistas fala muito de seus medos que a angustiam: toda noite lembra da irmã, reza muito. Lembra do que aconteceu com ela e diz que "a hora de dormir é horrível". Sempre tem esses pensamentos. Muitas vezes sonha com a irmã. Tem medo de barulhos à noite, imagina que alguém vai matá-la ou matar seus pais (a irmã foi assassinada por ladrão). Lembrar que não tem mais a irmã dá muita tristeza, sente muito sua falta. Quando sente medo acende a luz, liga o som, tranca a porta. Chora muito -- está pior há 2 meses -- sente-se muito triste e muito quieta, sem vontade da fazer as coisas. Não entende o que sente agora, pois sempre foi muito alegre, falante, "a alegria da casa". Sempre foi carinhosa e brincalhona com os pais. Quando a irmã morreu, ela queria animá-los para que não ficassem tão tristes, mas agora não consegue e não sabe o que fazer. LEVANTAMENTO DE HIPÓTESES E FORMULAÇÃO COMPORTAMENTAL (SUMÁRIO) Antecedentes: 1) Pensar na morte da irmã (na hora de dormir) S. cognitivos 2) Barulhos à noite na casa (na hora de dormir) S. do ambiente

3) Ver tristeza dos pais (S afetivos do ambiente e cognitivos). Conseqüentes: Respostas de ansiedade → chorar, rezar (motoras), medo de ficar só, medo do futuro, de morrer, da morte dos pais, ser morta, dormir só (cognitivas). Respostas de evitação ativa (esquiva da ansiedade) -- acender luz, ligar som, trancar porta, rezar. Conseqüência da Resposta: Depressão (desatenção, desligamento) e Indecisão.

FORMULAÇÃO COMPORTAMENTAL A cliente parece evidenciar início de DEPRESSÃO por não conseguir mais lidar eficientemente com sua ansiedade em relação à perda da irmã e às conseqüências afetivas desta perda para ela e para sua família. Seus comportamentos de desatenção, desligamento e insegurança (não saber o que fazer) demonstram sua impotência para lidar com a situação, seu medo do futuro, seu novo papel na dinâmica familiar e com suas expectativas a "as da família" em relação a ela. Talvez ela ser agora "o centro da casa" aumente suas ansiedades quanto à sua capacidade de dar conta desse papel. Tem medo dessa responsabilidade, demonstrando sua fragilidade e baixa autoestima. Ao mesmo tempo, a dificuldade real dos pais em lidar com a perda da filha também contribui para intensificar sua insegurança. A Visão de Ferster (1965) é incompleta para este caso, pois ele não enfatiza a avaliação cognitiva e vê a depressão como "ausência de conseqüências reforçadoras na vida de uma pessoa". A Visão de Seligman (1975) é mais abrangente -- "ausência percebida de qualquer mudança entre os esforços da pessoa e a natureza reforçadora das conseqüências que se seguem". A percepção ou avaliação cognitiva distorcida que a pessoa tem de sua capacidade de controlar os eventos de sua vida é essencial para desenvolver a depressão ou desamparo. No caso apresentado, a cliente apresenta os 3 fatores descritos por Seligman, como responsáveis pela depressão: 1) Esforços inadequados do indivíduo para obter reforçamento. 2) Percepção distorcida de sua capacidade de controlar sua vida. 3) Meio pouco reforçador devido ao luto dos pais, muita tristeza, impossibilidade de lidar com suas altas expectativas ("suprir" os pais de sua perda afetiva). Terapia: Trabalhar com a perda da irmã e suas conseqüências afetivas para ela e para a dinâmica familiar. Trabalhar sua auto-imagem, auto-estima e sua necessidade de sempre corresponder às expectativas familiares. Trabalhar sua insegurança e diminuição da assertividade e repertório social.

CASO CLÍNICO n° 2

IDENTIFICAÇÃO L.A.: 16a6m, 1° colegial, bom aluno. Faz computação e música (guitarra). Mãe: 42 anos, dona-de-casa. Pai: 48 anos, operário. QUEIXA E DADOS DA ENTREVISTA "Pensamentos de sexo -- o dia todo. Coisas ruins, não normais. Quando tenho esses pensamentos meu coração acelera, fico muito nervoso, tenho aperto no peito. No domingo foi barra -- de dia chorei muito, fico desesperado -- começou a encucação, me abri com meu pai, ele me deu apoio e fiquei melhor. Tenho medo que isso não vá passar, que seja louco, que não vou poder ser feliz, sou um monstro. Tenho vontade de me matar, de parar com isso. Só não faço por causa da minha mãe, sei que não posso fazer isso" (sic). Há mais ou menos 1 mês começaram esses pensamentos, ficou muito descontrolado. Quebrou uma porta e algumas coisas no quarto. Foi uma crise, chorou muito. Está bastante deprimido. Os pensamentos de sexo referem-se a pensamentos sexuais com a mãe, ou com outras pessoas (homens também), mas sempre com muita culpa e sensação de sujeira. Os pensamentos sobre sexo começaram após ele assistir um filme pornográfico no vídeo. Essas imagens vêm à sua cabeça, não consegue dormir -- começa a tremer, sente aperto no coração, acelera a pulsação. Fica se questionando se é normal ou não, se é homem ou não. Começou a ir à igreja para ver se ajudava, mas pensava que Deus não ia querer ajudá-lo. "Vou acabar ficando louco. Se sou sujo de um lado vou ser puro de outro. Me sinto diferente dos outros. Desequilibrado" (sic). Na infância revela bom relacionamento com a mãe, pai e com a irmã. Aos 6 anos brincava de médico com a vizinha. Aos 10 anos teve esse "lance sexual" (sic) com um amiguinho. Muito inseguro, nunca soube o que queria ser. "Sempre tive medo de crescer e não saber o que quero ser. Hoje penso sobre essas experiências sexuais na infância e me questiono -- será que sou homem ou não ?". Aos +/- 13,14 anos teve sua época de "revoltado". Apareceu de cabelo comprido, calça jeans rasgada, brinco -- gostava de chocar os outros. "Nunca gostei do comum, cara normal era chato. Saía bastante, nessa época". Aos 13 anos, ao saber que havia repetido de ano, chegou esmurrando a porta, chutando tudo. Aos 12 anos quis entrar numa peça de teatro na escola, mas depois desistiu, não sabia se era mesmo isso que queria. Em criança, +/- dos 6 aos 10 anos, sempre que frustrado chutava portas e quebrava algo. "Era muito descontrolado e estourado". Seus pais eram compreensivos, nunca bateram nele. Mãe sempre conversava muito com ele e o entendia.

Aos +/- 10 anos teve tiques: fazia caretas com o rosto (gestos). "Eram como manias. Tinha que fazer algo de determinado jeito". Hoje tem ótimo relacionamento com a mãe e irmã. Discorda muito do pai, que gostaria que ele jogasse futebol e fosse mais seguro, mais "machão". O pai é operário e "acha que homem tem que trabalhar e jogar futebol". Inventário de Willoughby 58%. Tem dificuldades de expressar-se assertivamente. Muito medo do futuro. Muita ansiedade. É negativista. Mudou-se para Campinas há 2 anos. Nunca teve namorada.

LEVANTAMENTO DE HIPÓTESES E FORMULAÇÃO COMPORTAMENTAL (SUMÁRIO) Antecedentes: Cognições negativas sobre sexo (S cognitivos). Conseqüentes: Cognitivo - Cognições e sentimentos negativos sobre sua sanidade e equilíbrio psicológico. "Não sou normal, sou louco, não mereço viver". Desespero. nervosismo. Autonômico - Aperto no peito, pulso elevado, coração acelerado. Motor - Chorar, descontrolar-se (desequilíbrio), quebrar coisas, esmurrar (evitação ativa). Conseqüência do Problema: Depressão.

FORMULAÇÃO COMPORTAMENTAL O cliente apresenta atualmente um quadro de depressão por não conseguir lidar com sua ansiedade muito elevada frente a situações de sua vida. Ele é um adolescente numa fase típica, cheia de conflitos. Sente muito medo e ambivalência em relação às novas responsabilidades que tem que enfrentar (carreira, afetividade, escolhas, sexo). Sua ansiedade se manifesta basicamente em explosões/crises (generalização da ansiedade por comportamentos de esquiva ativa -quebrando ou explodindo), ou em cognições negativas sobre sexo → "compulsões cognitivas" (aversivas, punitivas). Apresenta também muita ansiedade em relação a expressar-se assertivamente e afetivamente, e tem baixo repertório social para se comunicar (especialmente com garotas). O cliente já apresentou no passado comportamentos compulsivos (manias, gestos), que eram resultado provavelmente de

alguma situação de ansiedade na época, e também já apresentou anteriormente comportamento compensatórios de generalização de ansiedade (quebrar, chutar). O conteúdo das cognições sexuais do cliente levantaram hipóteses de que ele apresenta ansiedade de desempenho sexual -- o que foi posteriormente comprovado e tratado como parte de sua dificuldade de comunicar-se e colocar-se no "mundo dos adultos" "Indivíduos que não conseguem controlar as contingências aversivas em sua vida vão apresentar desamparo ou desesperança apreendida". (Conceito de Seligman 1977).

TERAPIA Entendimento e explicação comportamental de seus problemas emocionais. Trabalhar sua autoimagem, sua competência social e afetiva, assertividade, sua independência, capacidade de enfrentar situações novas.

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