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Coleção Pernambuco em Antologias: "Cronistas de Pernambuco". Antônio Campos e Luiz Carlos Monteiro. 1ª ed.

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Carpe Diem Edições e Produções, 2010.Faz parte do PERNAMBUCANIDADE EM JOGO. Maratona Premiada do Conhecimento Literário. Uma parceria da 7a. Festa Literária Internacional de Pernambuco, FLIPORTO 2011 e a Microsoft Innovation Center, MIC-PE. Curador: Antônio Campos. Coordenação: Lídia Freitas, MICPE; Cláudia Cordeiro, Fliporto Digital. Saiba mais. Acesse: http://www.pernambucoemantologias.com.br/
Carpe Diem Edições e Produções, 2010.Faz parte do PERNAMBUCANIDADE EM JOGO. Maratona Premiada do Conhecimento Literário. Uma parceria da 7a. Festa Literária Internacional de Pernambuco, FLIPORTO 2011 e a Microsoft Innovation Center, MIC-PE. Curador: Antônio Campos. Coordenação: Lídia Freitas, MICPE; Cláudia Cordeiro, Fliporto Digital. Saiba mais. Acesse: http://www.pernambucoemantologias.com.br/

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Organizadores

Antônio Campos Luiz Carlos Monteiro

DE PERNAMBUCO
Inclui índice onomástico

CRONISTAS
Recife, 2010
3

Copyright dos textos© dos autores Copyright da edição© 2010 Carpe Diem - Edições e Produções Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida, nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da Editora. Organização

Antônio Campos | Luiz Carlos Monteiro
Editoria e Coordenação Editorial

Antônio Campos | Norma Baracho Araújo
Assessoria Técnico-Administrativa (IMC)

Kamila Nascimento | Leila Teixeira | Veronika Zydowicz
Projeto gráfico

Patrícia Lima
Revisão de texto e elaboração do Índice Onomástico*

Norma Baracho Araújo | Marília Prado Paranhos
* Apresentação, Prefácio e Dados Biobibliográficos Impressão

Gráfica Santa Marta

C947

Cronistas de Pernambuco/ Orgs. Antônio Campos, Luiz Carlos Monteiro. - Recife: Carpe Diem Edições e Produções, 2010. 483p.; Inclui índice onomástico. ISBN 978-85-62648-10-6 1. Cronistas Brasileiros - Pernambuco. I. Campos, Antônio (org.), II. Monteiro, Luiz Carlos (org.) III. Título. CDU 821.134.3 (81) – 82

CRB4/1544

Impresso no Brasil Printed in Brazil Carpe Diem - Edições e Produções Rua do Chacon, 335, Casa Forte, Recife, PE 55 81 32696134 | www.editoracarpediem.com.br

Sumário

Apresentação, Antônio Campos, 9 Prefácio, Luiz Carlos Monteiro, 13 Abdias Moura, Os filmes de Celso Marconi, 23 Admaldo Matos de Assis, Inchação urbana, 28 Alberto da Cunha Melo, Como envelhecer uma caçarola, 30 Alex (José de Souza Alencar), Ouvir a voz do tempo, 34 Aluizio Falcão, Sozinho no bar, 36 Aluízio Furtado de Mendonça, O São João da minha infância, 38 Ana Maria César, Uma dama em tempos idos, 41 Antônio Campos, O sol de Pernambuco, 45 Antônio Falcão, Os olhos sem nexo e verdes do mar, 47 Antônio Maria, O exercício de piano, 50 Ariadne Quintella, Boa tarde, 52 Ariano Suassuna, Homero existiu?, 54 Arnaud Mattoso, O leão adormecido acordou com um tapa, 59 Arthur Carvalho, Retrato na parede, 62 Carlos Cavalcanti, No galope da cardã, 65 Carlos Newton Júnior, Procurado, 69 Carlos Pena Filho, Lembrança do mundo antigo, 74 Cássio Cavalcante, Presente de grego, 76 Celso Marconi, As três vezes que vi Che, 79 Celso Rodrigues, O espelho como testemunha, 83 Cícero Belmar, A chuva, 87 Clarice Lispector, As grandes punições, 90 Cristiano Ramos, Saramago, José, literatura, 93

Cyl Gallindo, 50 Anos de Brasília, 97 Esther Sterenberg, Caco de vidro, 102 Everardo Norões, Um certo padre Gomes, 105 Fátima Quintas, Um cheiro, por favor, 113 Fernando Monteiro, Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar..., 116 Fernando Portela, Mambo-Jambo deve morrer, 123 Flávio Chaves, Saudade iluminada, 127 Francisco Brennand, Um universo e uma escultura, 130 Frederico Pernambucano de Mello, A lei de Corisco, 134 Geneton Moraes Neto, O dia em que o autor de Morte e vida severina desabafou contra o exibicionismo: “ninguém é tão interessante para falar de si mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista de hoje?), 137 Geórgia Alves, Recife inverno, 141 Geraldo Pereira, O Recife iluminado e belo, 143 Gilberto Freyre, Do horrível mau hábito de falar gritando, 146 Gladstone Vieira Belo, Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo, 149 Gustavo Krause, A flatulência bovina, 155 Hermilo Borba Filho, Da obscenidade, 158 Homero Fonseca, Os ETs eram todos comunistas, 161 Hugo Vaz, A vida sexual dos idosos, 167 Inah Lins, Martini seco, 170 Italo Bianchi, De celulares, sites, e outras reflexões, 176 Ivanildo Sampaio, Pedras brutas, 179 Janguiê Diniz, Cartografia urbana da Fundição Capunga, 182 Joaquim Cesário de Melo, O homem à margem da cidade, 185 Joca Souza Leão, Preto-graúna, 188 Jorge Abrantes, Sentimento do Recife, 191 José Cláudio, Crônica em três capítulos – Todos três nojentos, 194
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José Mário Austregésilo, O aboio de um povo, 197 José Mário Rodrigues, Pra lá de Marrakech, 199 José Paulo Cavalcanti Filho, Duas ou três coisas sobre meu pai, 201 José Teles, Estão mexendo na língua, 205 Leonardo Dantas Silva, No tempo do lança-perfume, 207 Lopes Gama, As palestras da ponte da Boa Vista, 210 Luciano Bivar, A intuição não vem do nada, 217 Luciano Siqueira, Vidas quase cruzadas, 224 Luiz Berto, Anotações sobre um coração e uma trombeta, 226 Luiz Carlos Monteiro, Mãe & Filha, 228 Luiz Arraes, A velhinha no Jardin du Luxembourg, 230 Lourdes Sarmento, Os 45 minutos, 235 Luzilá Gonçalves Ferreira, Recife: o amor de uma cidade, 238 Manuel Bandeira, Carnavais de outrora, 242 Marco Polo Guimarães, 1968, 245 Marcus Accioly, A dor, 248 Marilena de Castro, Tamarineira, adeus, 251 Mário Sette, Não há quem dê mais?, 253 Marly Mota, Fundação Terra em Arcoverde, 261 Mauro Mota, Família dos livros, 264 Maurício Melo Júnior, Diálogos simplificantes de La Mancha, 266 Maximiano Campos, Do amor, 269 Miriam Carrilho, Comparação, 272 Nagib Jorge Neto, Aura de outono, 274 Nelly Carvalho, Recife brasileiro, 277 Nelson Rodrigues, O menino de Pernambuco, 280 Nilo Pereira, Um Recife que não volta mais, 285 Olímpio Bonald Neto, O poder sênior, 288 Osman Lins, Anatol Rosenfeld – homenagem à memória do intelectual, 298 Paulo Caldas, Flores e baionetas, 303 Paulo Cavalcanti, O Recife de Mauro Mota, 306
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Paulo do Couto Malta, Cozinha regional, 310 Paulo Fernando Craveiro, O mestre de telas alheias, 312 Paulo Gileno Cysneiros, Tudo flui, 315 Raimundo Carrero, Uma cidade feliz. E gorda, 319 Raimundo de Moraes, As reclusas de Chawton e Amherst, 322 Raul Pompéia, O carnaval no Recife (impressão de viagem), 325 Reinaldo de Oliveira, O vazio, 328 Renato Carneiro Campos, Recife, 331 Robson Sampaio, Uma ruela estreita, espremida..., 335 Ronaldo Carneiro Leão, Carta aberta a um ladrão, 337 Ronaldo Correia de Brito, E mesmo assim continuamos escrevendo, 340 Ronildo Maia Leite, O boêmio morre de madrugada. Com o sol. Iluminadamente, 344 Rostand Paraíso, Das calçadas, quintais e jardins do Recife, 347 Rubem Braga, Véspera de São João no Recife, 354 Salma Bandeira de Mello, Maria do cais, 359 Samarone Lima, Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho, 361 Ulysses Lins de Albuquerque, Antônio Piutá entre cangaceiros, 365 Urariano Mota, Miss Pernambuco 1963, 369 Vandeck Santiago, Eu estava lá e vi, 375 Valdemar de Oliveira, Boi, 378 Waldimir Maia Leite, Para este domingo, 380 Waldenio Porto, Sábado de Zé Pereira em Caruaru, 382 Dados biobibliográficos, 385 Índice onomástico, 475

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Apresentação Pernambuco em Antologias
Antônio Campos*

O Instituto Maximiano Campos surgiu da necessidade de preservar a memória do escritor Maximiano Campos, meu pai. Memória não apenas dele, mas também da família, do trabalho, dos seus amigos – na quase totalidade escritores –, do seu Estado, da sua região Nordeste, enfim do Brasil. Para ser fiel ao seu espírito plural e coletivo, o IMC, além de conservar, promover e divulgar a obra de Maximiano, realiza e apoia eventos culturais, como também concursos literários. Entre as atividades que o IMC vem desenvolvendo, devo destacar a publicação de livros, a exemplo desta coleção, Pernambuco em Antologias, que revela a literatura pernambucana em verso e prosa. As obras, organizadas por mim em parceria com grandes amigos, são um vasto mural da produção literária pernambucana. O livro Pernambuco, terra da poesia, idealizado por mim e pela ensaísta Cláudia Cordeiro, é um painel da poesia pernambucana entre os séculos XVI e XXI. Ao reunir 161 poetas em quase 600 páginas de poemas, tivemos como resultado um registro magnífico de várias situações, paisagens e sentimentos vivenciados, tanto por parte dos autores quanto pelos leitores que “viajam” ao lerem a obra. É um registro físico da literatura nacional, desde o marco da Literatura Brasileira, com o poema Prosopopeia, de Bento Teixeira, até produções locais da famosa Geração 65, da qual o próprio Maximiano fez parte. A toda hora, em toda parte, encontro um poeta, agradecido por participar

da obra, ou escritores e críticos a comentá-la, citando desconhecer autores nela revelados. É uma forma de termos conosco a história de Pernambuco de uma maneira mais clara e sublime, através da Arte Poética. Como em todos os escritos poéticos, esses trajetos não se desenrolam de maneira uniforme. Cada poeta e cada poema têm suas próprias características, assim como avaliações, julgamentos e encantamentos singulares – reservados aos leitores desta coletânea. Uma estética sucede-se à outra, assim como um juízo a outro. A história da Arte Poética está longe de formar um todo homogêneo e unânime. Assim, acreditamos que a principal tarefa da poesia tem sido, através dos séculos, falar das verdades que habitam em cada homem, em cada escritor, de uma forma atemporal e que possibilita ao próprio homem se reconhecer, independentemente da época. Concordo com Ferreira Gullar que diz: “Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.”, pois a poesia é isso. É a verdade absoluta em cada um de nós. O sucesso de Pernambuco, terra da poesia despertou em mim o interesse de produzir outro livro. Desta vez, voltado à área da ficção. O outro volume da coleção é Panorâmica do conto em Pernambuco, fruto da minha parceria com o escritor Cyl Gallindo. A obra, cuja produção demandou a leitura detalhada de mais de 500 textos em livros, revistas, internet e até mesmo em acervos pessoais cedidos pelos próprios autores, resultou em uma síntese do que há de melhor na literatura de contos. Nessa coletânea de contos, tivemos prazerosas descobertas, desde a inédita Margarida Cantarelli até o exgovernador de Pernambuco Barbosa Lima Sobrinho; na extensão do conceito de pernambucanidade, incluímos

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Graciliano Ramos, visto que morou em Buíque durante boa parte de sua infância, assim como a ucraniana Clarice Lispector, que se dizia recifense por ter morado no Recife quando criança e onde realizou os estudos primários. Essas inserções são possíveis, porque, a partir da primeira obra, adotamos o critério de “Domicílio Literário”, que transcende ao do simples registro biográfico da naturalidade. Histórias da infância, amizades, aventuras e grandes amores são narrados por escritores como Amílcar Dória Matos (recém-falecido), Benito Araújo, Fátima Quintas, Gilberto Freyre, Luzilá Gonçalves, Raimundo Carrero e tantos outros não menos importantes que estes antes citados. Como afirmou Gallindo, “as coletâneas são como as publicações de obras completas de autores vivos: ficam sempre incompletas”, mas acredito piamente que fizemos um belo trabalho. Lançada a antologia de contos, era chegado o momento de voltar a atenção para a publicação de uma antologia de crônicas. Desta feita, a parceria na organização seria com o professor Luiz Carlos Monteiro. A antologia Cronistas de Pernambuco reflete um esforço literário de forte expressividade cultural, no sentido de trazer a lume escritores de períodos diferenciados da vida e da história pernambucanas. São autores de variada origem e tendência profissional e artística, do século XIX até os dias atuais. A importância dessa contribuição cultural evidencia-se pelo registro literário que tais autores empreenderam na forma da crônica, reunindo pequenos ou grandes acontecimentos, fatos e eventos cotidianos que a notícia de jornal não pode exprimir com a poesia e a sutilidade que a crônica requer. O mundo, cada vez mais individualista e fragmentado, precisa unir-se, e uma antologia é uma tentativa de união. João Cabral de Melo Neto mostra que a reunião de diversos cantos é a responsável por uma grande manhã:

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“Um galo sozinho não tece uma manhã ele precisará sempre de outros galos. (...) para que a manhã, desde uma teia tênue se vá tecendo, entre todos os galos.” O sociólogo Renato Carneiro Campos, em um ensaio intitulado Joaquim Nabuco: um agitador de ideias, afirma que, se tivesse que escolher um Estado, na Federação, para representar D. Quixote, este Estado seria Pernambuco, pois “Não lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto”. Realmente, Renato tinha razão. Pernambuco, com suas revoluções falhadas e seus movimentos libertários abafados a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação. Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados em 1817, quando foi proclamada a República de Pernambuco, e em 1824, quando se desenrolou a Confederação do Equador, o território da antiga Província de Pernambuco perdeu as Comarcas das Alagoas e a do São Francisco. Contudo, Pernambuco resistiu e nunca deixou de sonhar e de fazer arte. Certa vez, Alceu Amoroso Lima disse que, quando o Brasil está em crise, se volta para cá, para a região cortada pelo Rio São Francisco, que é conhecido como o “Rio da Integração Nacional”. Que o sol de Pernambuco e a força de sua poesia e de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações, acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostre o verdadeiro caminho da nação brasileira. A série Pernambuco em Antologias é exatamente isso. É um meio de mostrar ao Brasil e ao mundo o valor desta terra iluminada, tanto pelo sol estampado em nossa bandeira, quanto no valor histórico, cultural e intelectual do nosso povo. Além de ser uma homenagem sincera que prestamos ao nosso Estado e a cada um dos pernambucanos.
*Advogado, Escritor, Presidente do Instituto Maximiano Campos (IMC).
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Prefácio
Luiz Carlos Monteiro

A crônica é um gênero literário polêmico por excelência. Da sua origem remota em sintonia com o relato histórico organizado no tempo, passando pelo ensaio e o folhetim até chegar aos nossos dias, quando se consolida na fronteira entre a poesia e o conto, o lirismo subjetivo e a narrativa cotidiana, há um longo percurso. Já na primeira metade do século XIX no Brasil, a crônica funcionou, nos poucos jornais existentes, como folhetim de derivação francesa. A narrativa domingueira e eclética dos fatos políticos, históricos e culturais do cotidiano, que saía no rodapé da primeira página dos jornais, sustentada no modelo francês, teve seus cultores iniciais na voga romântica, cujo representante principal foi José de Alencar. O escritor romântico manteve semanalmente, entre 1854 e 1855, uma seção famosa, “Ao correr da pena”, nos jornais cariocas Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Nos folhetins que publicava, Alencar aproximava-se da literatura ficcional, ao imprimir a sua maneira e o seu estilo aos textos: “Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio, a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do prosador que logo se afirmaria no cenário nacional”1. Posteriormente, em 1856, Alencar inaugurou a seção “Folhas soltas” no Diário do Rio de Janeiro (do qual foi diretor), cujos
1 “Alencar conversa com seus leitores”, pref. José Roberto Faria. In: José de Alencar, Crônicas escolhidas. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ática, 1995.

textos, mesmo não tendo a periodicidade da coluna anterior, traziam agora o feitio característico da crônica, sem estar presos ao noticiário ou aos fatos jornalísticos. O outro grande cronista da época foi Machado de Assis. Diferentemente de Alencar, o autor de Dom Casmurro questionava por dentro as relações entre texto literário e linguagem jornalística, a partir dos diversos moldes jornalísticos então utilizados na crônica: “Machado de Assis é o cronista que buscou a maturidade estética da crônica, tornando-a um gênero de natureza híbrida que pode abrigar várias linguagens no jornal e manter uma independência linguística ante o folhetim e o discurso jornalístico de sua época”2. As transformações locais sofridas pela crônica, notadamente no Rio de Janeiro, fizeram com que recebesse contribuições definidoras que autorizam muitos críticos e estudiosos a considerá-la como modalidade desenvolvida ao extremo no nosso país. É dessa forma que ela é vista por Massaud Moisés: “(...) é certo que, pela quantidade, constância e qualidade de seus cultores, a crônica semelha um produto genuinamente carioca. E tal naturalização não se processou sem profunda metamorfose, que explica o entusiasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania brasileira da crônica: ao menos em relação à crônica dos nossos dias, tudo faz crer que raciocinam corretamente”3. Chega-se a outros cronistas de especial relevância, numa série temporal que envolve os nomes de Olavo Bilac e João do Rio, Mário de Andrade e Rubem Braga, tendo este último atravessado, depois que começou a publicar em 1928, quase todo o restante do século XX a escrever crônicas de grande sucesso de público. Uma das antologias mais recentes que pudemos conferir, Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria, organizada pelo professor Douglas Tu2 3

PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil. João Pessoa: Ideia, 1994. MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.

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fano, alinha apenas dez cronistas. São cinco cariocas – Carlos Eduardo Novaes, Lima Barreto, Luís Martins, Machado de Assis e Olavo Bilac, três mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, uma cearense – Rachel de Queiroz e um paulista – Lourenço Diaféria. O pequeno número de cronistas, com predominância do Rio de Janeiro, é compensado pelo número de crônicas, numa média de cinco para cada um deles. É bem menos conhecido fora da sua terra do que os outros, Lourenço Diaféria, embora seja tido como o legítimo representante da crônica paulista. Esse fenômeno ocorre também em Pernambuco com um autor enraizado feito Renato Carneiro Campos, o cronista natural e abalizado do Recife. Outro nome sui generis da antologia de Tufano, o poeta Paulo Mendes Campos, ombreia-se com o do pernambucano Nelson Rodrigues na valorização da crônica futebolística. O formato curto e a aproximação ao ficcional e ao subjetivo logram sugerir propósitos de concepção do organizador, ao ressaltar o “compromisso” dos cronistas com a “vida concreta”. Fornece, em poucas palavras, uma definição da crônica moderna: “Hoje as crônicas em geral são mais curtas, os autores gozam de uma liberdade de expressão maior, o tom subjetivo é mais acentuado, os elementos ficcionais estão mais presentes – mas todas guardam seu compromisso com a vida concreta, mesmo quando parecem não estar falando dela”4. Voltando um pouco no tempo, uma coletânea que teve grande alcance de público, Elenco de cronistas modernos, continha apenas sete autores: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. A afluência regional era menos acentuada, e o número de crônicas, dez para cada um. Mas, todos ti4 Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. Organização e apresentação Douglas Tufano. São Paulo: Moderna, 2009.

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nham sido editados pela extinta Sabiá, no que se constata facilmente que o critério geral de inclusão foi esse5. Ao prefaciar um dos volumes da conhecida série Para gostar de ler, Antonio Candido afirma que a crônica “elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser natural. Na sua despretensão, humaniza; e essa humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição”6. Eis aí, sem tirar nem pôr, o que seria um dos papéis fundamentais da crônica: humanizar e, no mesmo compasso, nos aproximar ao “modo de ser mais natural”. Dessa humanização, que reaquece linguagens e procedimentos, é que se chega ao texto acabado, livre das intrusões que o tornam frágil, gorduroso e destituído de seus sentidos inaugurais e extensivos. Por isso mesmo, foi facilitada uma ampliação da leitura da crônica no Brasil, vetorizada em formas esteticamente expressivas oralizadas (inicialmente no rádio) e escritas (na revista e no jornal) que intentavam comunicar quase sempre o que se queria ler, sentir e escutar. A permanência vigorosa da crônica nos jornais brasileiros era somente interrompida em circunstâncias imperiosas e superiores, que não dependiam exclusivamente dos cronistas, como, por exemplo, a morte. Mas, enquanto vivo, cada cronista recriava o cotidiano a partir do seu campo de observação, com sua visada pessoal que elegia o homem e a vida como objetos primeiros e privilegiados. Nossa antologia inicia-se no Recife do século XIX, com um cronista de costumes, o Padre Lopes Gama, que passou
5 Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, [s.d.]. A Editora José Olympio relançou a 20ª edição desta obra em 2003. 6 “A vida ao rés do chão”, pref. Antonio Candido. In: Para gostar de ler: crônicas. Carlos Drummond de Andrade... [et al.] Ed. Didática, v. 5. São Paulo, Ática, 1981. Além de Drummond, os outros participantes são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.

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a editar a partir de 1832, com algumas interrupções, um jornal implacável, O Carapuceiro. Nesse jornal, Lopes Gama fustigava todos os segmentos da sociedade, sob os pontos de vista moral, religioso ou político. Dele publica-se aqui a crônica “As palestras da ponte da Boa Vista”, uma viagem irônica, irreverente e bem-humorada por uma tipologia humana que se reunia diariamente na ponte em torno a conversas sérias ou maledicentes que dependiam dos caracteres sociais e humanos de cada grupo (“rabequistas”, “gamenhos”, “jogadores”, “políticos”, “cavaleiros da indústria”)7. Na condição de cronista mais antigo desta coletânea, Lopes Gama enseja os passos inaugurais da prática jornalística de se fazer crônicas. E exatamente por isso, como não poderia deixar de ser, que a maioria dos autores aqui presentes é composta de jornalistas de batente ou que exerceram atividades de jornalista. Há, também, os que têm outras atividades, no âmbito artístico ou profissional, mas que não deixam de rabiscar a sua crônica e publicá-la em jornal ou livro. Escritores que se completam no romance, no conto ou na poesia, emprestam também a sua contribuição. O Recife de Mário Sette é um capítulo à parte. Na crônica “Não há quem dê mais?”, do conhecido livro Arruar: história pitoresca do Recife antigo8, Sette discorre sobre os leilões em domicílio que ocorriam rotineiramente no Recife do século XIX. Casas eram invadidas por agentes, licitantes e curiosos, uns ávidos por uma boa negociação, outros simplesmente para especular como vivia a gente que estava a vender seu mobiliário, na ânsia de desvendar segredos familiares, normalmente fechados ao público. Uma boa quantidade de escritores que ultrapassaram com seu nome as fronteiras pernambucanas faz-se presen7 O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. O levantamento das crônicas feito por Evaldo Cabral de Mello teve como base o trabalho anterior de Leonardo Dantas Silva. 8 Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978.

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te nesta antologia: Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Osman Lins. Dentre os que aqui viveram por um tempo, mas que não deixaram de lembrar o Recife em seus escritos, encontram-se Nelson Rodrigues, pernambucano que se radicou no Rio, cuja crônica, “O menino de Pernambuco”, é sintomática de sua infância recifense; Clarice Lispector, que passou parte da infância no bairro da Boa Vista, não tendo jamais esquecido a cidade; Raul Pompéia, que com um grupo de colegas deslocou-se em 1885 de São Paulo ao Recife a fim de concluir o curso de Direito; e Rubem Braga, que esteve aqui de maio a setembro de 1935. Braga conviveu com intelectuais e boêmios locais, frequentou a zona do meretrício e escreveu crônicas que se popularizaram em todo o Brasil. Fez amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Diégues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu 25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Aliança Libertadora Nacional nordestina, que ele editava. Depois de três prisões, deixou a cidade em 13 de setembro de 1935, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro9. O cronista-compositor Antônio Maria, que viveu até o início de sua juventude no Recife, passando a morar depois no Rio de Janeiro, repartiu-se entre a crônica dessas duas cidades. Suas lembranças recifenses fornecem um painel lírico e urbano de fidelidade e paixão pela cidade; do mesmo modo, quando escreve a crônica carioca, consegue, com familiaridade, retratar amigos, absorver recantos boêmios, dobrar ruas e esquinas do Rio, relatar situações cotidianas com um profundo sentimento lírico. Além da crônica-poema, como é o caso da que escreveu Everardo Norões, “Um certo padre Gomes”, o leitor vai
9 Para um conhecimento mais aprofundado da vida e obra de Rubem Braga, é importante conferir sua biografia, escrita por Marco Antonio de Carvalho (1950-2007), Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar. São Paulo: Globo, 2007.

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dispor também de crônicas-perfis de autoria de Gladstone Vieira Belo (tendo como objeto o jornalista Antônio Camelo), de Osman Lins (que mostra a relação de amizade de Osman com o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld), de Paulo Cavalcanti (que reúne, num só texto, o poeta Mauro Mota e uma visada panorâmica e saborosa do Recife que este viveu). Nesse ponto, uma cronista brasileira da maior importância vem à lembrança, Rachel de Queiroz, que teve recentemente uma seleção de suas crônicas feita por Heloisa Buarque de Hollanda. Sobre os “perfis definitivos” em forma de crônicas elaborados por Rachel, notadamente um sobre o Padre Cícero, pronuncia-se Heloisa Buarque: “A galeria de personagens inesquecíveis, lendas e lembranças da seca, fatos curiosos e flagrantes do cotidiano é a matéria-prima central com a qual Rachel trabalha suas crônicas e sua expertise narrativa”10. Das crônicas sobre a cidade do Recife e suas manifestações culturais e festivas, seus personagens populares e sua convivência boêmia, sua compulsão libertária e seus novos-ricos, seus becos obscuros e seus locais públicos, a mais representativa é, certamente, “Recife”, de Renato Carneiro Campos. Que vem escrita em prosa poética delirante e nominativa, dando a impressão de nada ter faltado na tremenda declaração de amor à cidade feita pelo cronista. Em toda coleta literária, surge imediatamente o problema das omissões, por variados motivos – de espaço, de contato ou de escolha. Omissões que podem ser corrigidas futuramente em novas antologias, nas quais aqueles que ficaram de fora poderão vir a ser contemplados. Nomes que invariavelmente serão lembrados pelo paradoxo da
10 QUEIROZ, Rachel de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Gaudi Editorial, 2008. No prefácio a este livro, Heloisa Buarque de Hollanda, que também fez a seleção das crônicas, chama a atenção para “o belíssimo estudo de psicologia regional que é a crônica sobre o Padre Cícero, figura cearense emblemática, reconhecido pelo desenho afetivo e personalizado de Rachel”.

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sua momentânea ausência, a exemplo de um Pereira da Costa. E de outros que tiveram presença e papel relevante na crônica recifense: Mário Melo, Aníbal Fernandes, Theotônio Freire, Silvino Lopes, Altamiro Cunha, para citar apenas esses. Mas, com um trabalho assemelhado e militante nos jornais locais, tais omissões completamse em outros contemporâneos que foram contemplados: Jorge Abrantes, Mário Sette, Mauro Mota, Nilo Pereira, Paulo do Couto Malta e Valdemar de Oliveira. Novos cronistas comparecem, alguns inéditos em livro, outros elastecendo aos poucos a sua bibliografia – Cristiano Ramos, Geórgia Alves, Miriam Carrilho, Raimundo de Moraes. Ao lado desses, aparecem autores consolidados e de carreira literária extensa em suas realizações. Artistas plásticos de inclinação literária já reconhecida também trazem a sua contribuição – Francisco Brennand, José Cláudio e Marly Mota. Nem falta, aqui, a crônica sertaneja dos cangaceiros, com o texto de Frederico Pernambucano de Mello. De um modo subliminar ou direto, insurge-se um elemento de ligação entre muitas dessas crônicas, sinalizado pelo que fascina ou instiga no perfil guerreiro ou festivo de uma cidade, o Recife. Elimina-se, portanto, algo da disparidade temática predominante e da aparente dispersão conteudística. E, em termos de estrutura e disposição textual das páginas da obra, ao optarmos pela não fixação prévia do tamanho dos textos, imaginávamos que, na consecução posterior do livro, teríamos de assumir a irregularidade das dimensões variáveis e da surpresa do produto final. Na solicitação dos trabalhos aos autores ou seus familiares, as negativas foram tão poucas e irrelevantes que seria ocioso mencionar. Amigos se prontificaram a ajudar, indicando formas de contato com autores, fornecendo livros e outros materiais bibliográficos, apontando locais de

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pesquisa onde seriam encontrados trabalhos de interesse para a antologia. Parentes de autores mortos agiram com rapidez e diligência enviando crônicas e esboços biográficos – alguns deles também presentes como cronistas, mostrando-se redundante citá-los. Todos sabem, contudo, o quanto ficamos agradecidos e sensibilizados pelo gesto solidário que consolida e reafirma amizades. Quando Antônio Campos me convidou para este trabalho conjunto que é o Cronistas de Pernambuco, o tempo para pensar sobre o projeto foi mínimo. De imediato, começaram a desfilar no pensamento numerosos nomes que fui juntando aos que Antônio já havia sugerido. E a cada dia novas descobertas, novos insights, e um lema proposto por ele, que funcionou do início ao fim da elaboração do livro: incluir sempre, numa generosidade e desprendimento que não excluía, de outra parte, o critério estético. O fato é que conseguimos reunir uma centena de cronistas que configuram um perfil razoável do gênero em Pernambuco. O feitio estético, a qualidade literária e a capacidade de comoção ou entretenimento originários destas crônicas, deixamos para o nosso possível leitor sentir, desfrutar e avaliar.
Recife, 30 de setembro de 2010

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Os filmes de Celso Marconi
Abdias Moura

Sou um assistente ocasional de cinema. Quando menino, não tinha dinheiro para pagar entrada, e ouvia embevecido as informações de uns primos sobre seriados famosos, mas nunca os pude acompanhar. Somente uma vez assisti a dois episódios seguidos, mas fiquei decepcionado porque no final do primeiro o artista caía mortalmente num poço, mas no começo da continuação mudaram a cena, aparecendo uma corda salvadora. Senti-me enganado, pois tinha certeza de que a tal corda não existia no episódio final da semana anterior. Os filmes que marcaram minha infância foram, na realidade, os da dupla conhecida como O gordo e o magro. Até na idade adulta, vi alguns filmes deles e geralmente me agradam, como Queijo suíço e Dois palermas em Oxford. Detestei outros dois cômicos, tão sem graça que davam pena. De Carlitos, vi na infância apenas alguns filmes de curtametragem. Somente comecei a admirar Charlie Chaplin quando assisti a Luzes da cidade, O garoto e, sobretudo, Tempos modernos, muitos anos depois. Apenas me diverti com O grande ditador e não gostei muito de Luzes da ribalta, apesar de assoviar a música até hoje. Quanto aos Irmãos Marx, não chegaram a me entusiasmar, mas algumas cenas isoladas daquele trio desigual me ficaram na memória. Menino, assisti a todos os filmes que pude de Tarzan. Decepcionei-me mais uma vez, quando o herói das selvas viajou a Nova York e lá, metendo-se numa briga, foi vencido pelos policiais (eram muitos) e chegou a ser preso.

Os filmes de CelsO marCOni

Desde então, nunca mais vi filmes com esse personagem. Meus artistas admirados, na adolescência, eram os mesmos de minhas irmãs: Clark Gable, Errol Flynn, Tyrone Powell e outros bonitões do cinema norte-americano. Apaixonei-me, depois, por Deborah Kerr, ou pela personagem que ela representou em Chá e simpatia. Quando já jornalista (comecei com 19 anos), chegou a fase dos filmes europeus. Nunca me encantei por Brigitte Bardot, nem Claudia Cardinale, ou Gina Lollobrigida, mas sim por Sophia Loren e a Jeanne Moreau de Jules e Jim. E sabia o nome dos diretores famosos: Fellini, Vittorio de Sica e até do legendista (autor de diálogos) Sergio Amidei, com quem passeei, numa noite, pelos morros de Olinda, na companhia do poeta Felix Atahyde, num jeep sem freios dirigido pelo irresponsável fotógrafo João Pedrosa. Descobri o sueco lngmar Bergman por acaso (nunca havia ouvido falar dele, então), num pequeno cinema de arte em Ipanema. Fiquei encantado com o seu Morangos silvestres. Mas, se tivesse de dizer qual o filme de minha vida, escolheria o também sueco Êxtase, o único a que assisti duas vezes, de quem não me lembro o nome do diretor, mas sei que foi estrelado por Hedy Lamarr. Penso que esta seria também a opinião de Mauro Mota, a julgar por um verso do seu Boletim sentimental da guerra no Recife. Já homem de meia-idade, quero dizer, na casa dos quarenta, estando apaixonado, amei igualmente Hiroshima mon amour, de Alain Resnais. Todo este nariz de cera (como se diz no jornalismo) é para justificar por que não escrevi até agora sobre os filmes de Celso Marconi, reunidos no ano de 2009 sob a forma de DVD. É que cinema para mim (como pintura) é figurativo. Não se trata de uma escolha intelectual, mas circunstancial: Eu sou eu mais minhas circunstâncias, dizia Ortega e Gasset no século passado, que foi o século da minha formação. Por isso, nem falei até agora do cinema

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abdias mOura

brasileiro, que na minha juventude era representado pelas chanchadas da Atlântida (somente muito depois valorizadas). O primeiro filme feito no país que me despertou a atenção foi O cangaceiro, de Lima Barreto, talvez pelo prêmio internacional, ainda que me lembre com simpatia de alguns anteriores, entre eles Favela dos meus amores, cuja música título ainda soa a meus ouvidos, como um belo samba carioca. Dos mais recentes, meu preferido é Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. Também gostei da atual safra pernambucana, representada por Amarelo manga e daquele que só tem de ruim o título (falando de Aspirina e... urubus). Quando Alberto Cavalcanti, que nasceu no Brasil, mas se fez cineasta na Inglaterra, esteve no Recife fazendo O canto do mar, eu o entrevistei para a revista Manchete. A matéria, publicada com destaque, tinha um título que não o agradou, ainda que repetindo palavras suas: Saí do Brasil como indesejável e voltei como indesejável. Assisti ao filme meses depois, e não gostei. Admiro Glauber Rocha como agitador cultural (que até criou uma forma especial de se comunicar por escrito), e sei de suas dificuldades para fazer cinema numa época de censura intensa. Mas, pobre de mim, não consigo também gostar de seus filmes. Vi, com simpatia, até um inacabado, mas que passou na tela grande, espécie de História do Brasil recontada com imagens. Lembrei-me logo da tentativa, muito anterior e riquíssima, de Orson Welles, estourando todos os orçamentos de produtores milionários, mas sem um roteiro predefinido, acompanhando a viagem de um jangadeiro, desde o Ceará até o Rio de Janeiro, para suprir o Programa da Boa Vizinhança dos Estados Unidos, em relação ao Brasil, que, no entanto, só seria efetivado de forma artística através do dedo duro? Walt Disney, com o seu meio sem graça desenho animado

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Os filmes de CelsO marCOni

que apresentou (ao mundo – tenho dúvidas) a figura do Zé Carioca. Chego finalmente aos DVDs de Celso Marconi. Considero seus filmes em Super 8, feitos nos anos 70 do século XX, e agora resgatados, da maior importância para a história do cinema brasileiro. Como lhe disse que não iria comentar, por não entender muito de cinema, ele me mandou dizer que desse uma opinião como sociólogo. Mas, esclareço: como professor de Sociologia, poderia falar, por exemplo, de sua tentativa vitoriosa para resgatar manifestações populares como a Festa da Conceição, no Recife, ou a campanha eleitoral do PMDB, oposição consentida pela ditadura militar (que me parecem os dois pontos mais altos de sua produção). Mas, nos dois casos, os destaques são para os narradores escolhidos: Roberto Motta, com sua aula sem pedantismo sobre religiões populares, e José Cláudio, com sua descontração tão espontânea que pode até parecer fingida... Claro, as imagens são únicas e não poderiam ter sido recuperadas por outro cineasta, por mais perfeita que fosse a técnica empregada. E isso bastaria para glorificar a obra cinematográfica de Celso Marconi. Além desses dois, há outros momentos gloriosos nos filmes do jornalista pernambucano, como as cenas glauberianas no pátio do Mercado de São José, e outras mais, com o notável Emanuel Cavalcanti, que domina a cena, como se diz, não fosse ele o ator principal das películas. E no que se refere à reconquista de um passado agora inexistente, bastaria uma referência à degradação do velho Recife, afinal contida por ex-prefeitos da cidade, não citados no documentário e, talvez, nem lembrados pelos eleitores. Deixarei de falar das cenas íntimas protagonizadas por pessoa de nossas relações pessoais (la noblesse oblige), ainda que elas me tenham parecido as mais importantes da filmagem.

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abdias mOura

Mas quero, ao final, fazer pelo menos uma referência à cena, relativamente longa considerando a pequena duração do filme mais impressionante da coletânea: a corrida de uma jovem mulher, sempre de frente para a câmara, em que o vestido fica colado ao corpo e a saia se ondula ao compasso do movimento, sugerindo, mas não mostrando, o que há por trás do pano que encobre o corpo feminino. É tão bonita, que me evocou Hedy Lamarr correndo, nua (mas de costas) em direção ao rio em que se dá a um desconhecido, em Êxtase, meu filme inesquecível.

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Inchação urbana
Admaldo Matos de Assis

A urbanização não é um fato novo – suas origens remontam à Revolução Comercial e à Revolução Industrial. Fenômeno novo é a urbanização vertiginosa, responsável pelas metrópoles e megalópoles do nosso tempo. Não se pode atribuir à urbanização apenas causas econômicas, como, por exemplo, a carência de emprego e a exiguidade de renda na zona rural e no interior. Há ainda motivo de ordem cultural, qual seja uma tendência natural do homem ao convívio nos grandes aglomerados populacionais. A metrópole desperta um fascínio irresistível. No Brasil, especialmente no Nordeste, a urbanização ocorre de forma rápida e desordenada, com o agravante de que as cidades-polos desse processo não dispõem de condições para absorver os novos contingentes populacionais. No Recife, já não se pode falar em urbanização, mas em inchação urbana. Isso porque, não dispondo a cidade de espaço, de empregos e de infraestrutura urbana e de serviços para atender à demanda crescente termina por oferecer à maioria dos seus habitantes condições muito precárias, refletindo-se, em maior ou menor escala, na qualidade de vida de todos. A favela e o camelô são anverso e verso da mesma medalha. Numa, a expressão da carência habitacional; no outro, o reflexo do desemprego. Em ambos, os subprodutos, social e econômico, da inchação urbana. Essa grande doença da sociedade moderna precisa ser racionalmente tratada, nas suas causas e nos seus efeitos, sob pena de jamais haver cura efetiva.

admaldO matOs de assis

Tem-se dado muita ênfase à melhoria das condições de vida nas grandes cidades, mas tal atitude, embora não seja má, no mínimo é capenga, incompleta. Se se busca, apenas, melhorar a grande cidade, esta se tornará ainda mais atrativa e, por isso, mais inchada, mais problemática, mais carente. É preciso buscar o equilíbrio na aplicação das medidas voltadas para as causas da urbanização (fortalecimento da economia rural e interiorana, melhoria dos serviços públicos nas áreas onde se originam as migrações) e naquelas voltadas para os seus efeitos (melhoria da infraestrutura urbana e de serviços, e geração de emprego e renda nas grandes cidades). Seria ilusão pretender simplesmente estancar o processo de urbanização, mas havendo políticas adequadas, o fenômeno poderá ser ordenado, racionalizado. As cidades de porte médio poderiam ser transformadas em filtros reguladores do fluxo migratório, de forma a permitir que as grandes cidades se tornem capazes de absorver normalmente as demandas decorrentes do crescimento populacional. Se não tivermos consciência desses problemas e uma visão clara de como enfrentá-los, não será exagero dizer que, numa cidade como o Recife, a vida será insuportável ao final do século, em face da miséria reinante, da insegurança urbana e da instabilidade coletiva. É preciso evitar que a grande cidade, de Terra Prometida, se converta no Inferno de Dante.
Diario de Pernambuco, 13 de julho de 1985

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Como envelhecer uma caçarola
Alberto da Cunha Melo

Torniamo all’antico sarà un progresso. Giuseppe Verdi

Não sei se contei aqui o fato que segue. Não importa. O Estatuto do Idoso permite ao velho contar mil vezes uma anedota e ainda se zangar se não escuta as caridosas risadas. Estive eu numa locadora alugando uma fita de ação (sim, uma fita, e não um DVD, porque faz muito tempo, uns três anos) e um menino de uns seis anos enchia o saco do pai para levar a droga de uma fita de Mickey, enquanto o inditoso genitor suplicava que ele levasse outra, de Pato Donald, por exemplo, porque ninguém em casa suportava mais nem o som daquela porcaria. Aquele endiabrado pirralho, seguindo talvez apenas seus sentidos, ensinou-me mais sobre resistência cultural do que o magnífico Peter Berger. Todo mundo naquela locadora dava prioridade absoluta aos lançamentos, havendo para eles filas de espera, enquanto os denominados catálogos ou eram alugados em virtude do preço da locação (muito mais barata) ou porque o cliente já alugara todos os lançamentos. Eu estava enquadrado nas duas categorias: em tempo de carne de boi, dava prioridade aos lançamentos; em tempo de frango congelado, alugava catálogos, dando preferência àqueles a que não tinha assistido. Homem do século XIX, eu pensava que menino só sabia fazer duas coisas: raiva e cocô. Com a historinha da locadora, acrescentei mais uma: ser fiel à sua sensibilidade

albertO da Cunha melO

estética. A partir daquele episódio, mesmo no tempo de carne de boi, eu só alugava um lançamento pela qualidade do elenco e pelo diretor, normalmente. Passei a alugar uma, duas, três, ene vezes as fitas antigas de que tinha gostado. Estou certo de que algumas delas, até desaparecer da locadora, eram alugadas apenas por mim. Lembro-me das duas que foram campeãs de minhas relocações: Depois de horas, de Martin Scorsese (o filme mais kafkiano a que já assisti) e Sob o domínio do medo, de Sam Peckinpah (onde aprendi que a violência não tem pátria, ela mora no homem). Como aquele garoto aporrinhava o pai e o resto da família com o seu Mickey eu vivo aporrinhando meu pessoal com fitas e DVDs repetidos à exaustão. Certa vez, escrevi um poema de encomenda, intitulado Ponta verde, para servir de prefácio a um romance do mesmo nome, de autoria de Alves da Mota, grande alma, grande amigo. Pedindo misericórdia aos meus milhões de leitores, cito um trecho daquele poema: A mudança,/ a mudança,/ eis o mais recente/ nome da pressa e da aflição. Na época em que o compus, o tema estaria ligado ao mundo das ideias, das análises precipitadas, dos Fukuyamas da vida anunciando o fim da História, e por aí vai. Hoje, ele me faz lembrar o esforço tecnológico para atualizar os produtos industriais, acrescentando-lhes em curto lapso de tempo um novo designer para acelerar o consumo, mudando-lhes a aparência e não a essência, reduzindo-lhes a resistência e impondo, através da publicidade, a cultura do novo. Para mim, a arte é a eterna novidade. A tecnologia industrial não faz objetos realmente novos, o que faz são repetitivas extensões dos sentidos. E quando muda, muda o invólucro, a embalagem, com monstruosas devastações no meio ambiente (a latinha de alumínio derruba montanhas). Instala-se, nesse anômico mundo burguês, uma falsa filosofia, a do lucro, do juro, do carro do ano. Sustenta-a, o enve-

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COmO envelheCer uma CaçarOla

lhecimento precoce e premeditado dos produtos, a chamada obsolência planejada, o triunfo do supérfluo e do desnecessário. Lembro-me de outros tempos, da máquina de costura Singer de minha tia Albertina, funcionando plenamente, centenária, ainda na década de 70 do século passado. A obsolência planejada, para o professor José A. Lutzenberger, é uma das maiores trapaças da tecnologia moderna. Somos uma civilização trapaceada, onde as pesquisas de mercado definem, para ser atacadas, as categorias ainda imunes à mais recente trapaça. Alugar só os últimos lançamentos nas locadoras alimenta a vaidade idiota de estar atualizado, mesmo que os DVDs alugados sejam puras titicas de urubu. Essa numerosa fauna do carro do ano, se tem algum hábito de leitura, que não a revista Caras, quando lê um livro pode apostar que é um best-seller de Frederick Forsyth, J.K. Rowling, Sidney Sheldon, Stephen King ou, de quando em quando, para dar uma pitada nacionalista, o rococó de Paulo Coelho. Hoje em dia eu já não sei se as pessoas compram coisas ou são compradas por elas. Quando menino, eu vi na fazendola de meu avô, em Lajedo, PE, um velho agricultor acender um cigarro de fumo plantado lá, enrolado em palha de milho, com um isqueiro pré-histórico: duas pedrinhas, uma delas cavada, onde colocava um capuchinho de algodão impregnado com óleo de carrapateira, e a outra servindo para lançar faíscas, com batidas na primeira. Um cordel feito com casca de árvore servia para que as pedrinhas não se dispersassem. Quando adolescente, e já fumante, surpreendia-me com a curiosidade dos primos, comendo com os olhos a minha caixinha de fósforos. Eis a era da pedra polida reinventada, em plena segunda metade do século XX, na era da matéria plástica que nos rodeia por todos os lados. No entanto, estou no tempo da internet e não sei o que faz um ferro elétrico de engomar aquecer. Literalmente

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albertO da Cunha melO

perdido entre miríades de brinquedos eletrônicos, neste setor em que os feitores da obsolência planejada pintam e bordam. Tempo em que os valores da honra, da autenticidade, da fidelidade e do sentido cósmico da vida já não estão mais no display do mundo cristão. Mundo em que os trinta dinheiros, com correção monetária de dois mil anos e juros sobre juros soterraram a última inocência e um resto de paz de espírito, que a áurea mediocridade aristotélica poderia nos reservar, a nós, fantasmas, do século XIX. Mas não se enganem! A anomia só se instalou no âmbito dos valores e normas espirituais. Os sentidos serão bem servidos, sim, senhor. Os humanos estão devidamente classificados quanto ao potencial de consumo. Necessidades são criadas do dia para a noite e, para atendêlas, novos produtos são colocados no mercado. Milhões de consumidores, bem comportados com seus babadores, esperam sair arrotando de satisfação. Bem-vinda a bomba de neutro (ou cobalto?) que mata as pessoas e deixa as coisas em paz. Tudo tem vida. Uma pedra é uma colônia viva de átomos. E daí?
Marco Zero, crônicas. Recife, CEPE, 2009

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Ouvir a voz do tempo
Alex (José de Souza Alencar)

Em momentos especiais procuro reler esse pequeno trecho de uma crônica de Caio Fernando Abreu: Desde então, mesmo quando chove ou o céu tem nuvens, sabem sempre quando a lua é cheia. E quando míngua e some, sabem que se renova e cresce e torna a ser cheia outra vez e assim por todos os séculos e séculos porque é assim que é e sempre foi e será, se Deus quiser e os anjos disserem Amém. E dizem, vão dizer, estão dizendo, já disseram. Ontem foi o último dia de maio, um mês especial, aristocrático que representa tantas coisas boas, otimistas, as lembranças, o passado. Um mês em que as pequeninas campânulas são tocadas pelo vento e emitem os sons discretos como se fosse mágica. Aumenta o perfume dos jasmins e alguns sons que ressoam em nosso espírito, nos fazem dormir mais tranquilos. O pequenino som do sino da felicidade mais desejada, ou que impulsiona pessoas a não terem medo da nostalgia nem da solidão. Afinal temos aquelas pessoas que recebem mas nem sempre oferecem. O melhor para escrever é quando vivemos um desencanto qualquer, ou pode ser ao contrário, nos momentos felizes. Afinal as coisas mais belas não surgem espontaneamente. E muitas vezes nem descobrimos o que teria de ser palavra, frase ou crônica de jornal. Como os sonhos que não acontecem quando pedimos ou precisamos. Em tudo existe sempre um motivo, algo que rondou e despertou a nossa emoção. A sensibilidade é feita desses retalhos do querer bem não importa a quem, ou como tudo nesse universo que

alex (JOsé de sOuza alenCar)

se esconde em nossa personalidade. Como cronista, tenho de revelar o que me comove ou revolta assumindo todas as consequências do que percebo no cotidiano e transformo em frases. E lembro a história de um sabiá de antigamente e que jamais esqueci. Acreditem, pode surgir um sabiá que termina por demonstrar que percebe e destaca certas pessoas e revela sua alegria, quem sabe o amor oferecendo o seu canto. Um deles viveu muito tempo na minha varanda e ainda hoje conservo a dúvida se ele me conhecia para sempre cantar quando eu andava perto do seu espaço. Mas um certo dia ele cantou mais forte, fez malabarismos e gorjeios alegres, tantos que parei a leitura de um livro e fiquei olhando e ouvindo aquela ave maravilhosa que chegou até nosso discreto jardim fugindo de um gavião que andava nas redondezas. E aqui ficou, protegido na gaiola, tinha de ser. E cantou uma eternidade porque viveu muito. Mas depois de tanto cantar, numa tarde que parecia inocente e boa, ele parou, ficou silencioso, tomou banho jogando água sobre as penas. Ainda improvisou alguns silvos, pousou em silêncio tranquilo ou quase humilde sobre o simulacro de galho e caiu morto. Então pensei, quase em lágrimas, movido por uma culpa que não saberia explicar, também sem esquecer, meu egoísmo por ter acolhido aquela ave que parecia alegre quando me aproximava. O banho foi a despedida da vida. Então envolvi seu corpinho leve num lenço branco e enterrei no jardim. E vez por outra um assustado sabiá pousa numa árvore e não canta, mas voa de um lado para outro como se estivesse reconhecendo o espaço onde talvez tenha vivido a sua amada.

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Sozinho no bar
Aluizio Falcão

Nove da noite no bar Bohemia. Movimentadíssimo na madrugada este bar, em horas cristãs, tinha um silêncio de mosteiro. Na mesa ao lado, um jovem casal ia tocando sua conversinha em voz baixa, mas eu podia ouvir claramente. Ele dizia que era da Mooca e nem precisava dizer, o sotaque revelava. A moça era do interior, informação também desnecessária, dado o erre esticado em certas sílabas, tão presente na fala caipira de São Paulo. Eu acompanhava a conversa discretamente, sem olhar, como quem ouve um programa de rádio. O rapaz se esforçava para impressionar, dizia que gostava de ler, desfiava títulos de best-sellers. A namorada, modesta, nem se lembrava do último livro que lera, comentava a novela das oito. Depois, graças a Deus, abandonaram os temas estéticos. Enveredaram pelos floridos caminhos da intimidade. Ela disse “eu te gosto” com voz trêmula, e senti uma vaga inveja por serem tão jovens e tão felizes. Onde estarão hoje, passados tantos anos? Fico a imaginar quantas pessoas já ocuparam aquelas mesas e se disseram juras e frases perdidas para sempre. Algumas até deveriam ter sido escritas, de tão bonitas que eram. Assim são os bares: museus de conversas que se foram, beijos que os fantasmas beberam pelo caminho, antigas ternuras desfeitas pelo tempo, esse grande filho da puta. Naquela noite eu esperava retardatários. A presença do jovem casal no bar tornou menos desconfortável a falta de companhia. Ficar sozinho em botequim é a pior forma de solidão. Lembro de um episódio que se atribui a Tom

aluiziO falCãO

Jobim, não sei se real, mas típico do senso de humor do grande músico. Contam que Jobim chegou ao bar favorito e ficou esperando sua turma: Vinicius, Chico Buarque & Cia. Passavam-se horas, não aparecia ninguém. Toda vez que a porta do bar se abria, o maestro olhava, curioso, e nada. Somente chegavam estranhos, como estranha era toda a freguesia em volta, incluindo moças desacompanhadas que o solitário compositor observava, já depois da terceira dose, com interesse cada vez maior. As moças, porém, continuavam o papo, indiferentes aos seus olhares. Para tornar ainda mais triste a solidão de Tom Jobim, alguns casais nas mesas próximas caprichavam em cenas românticas. Tudo conspirava para que ele acelerasse o consumo de uísque. Sem ter com quem conversar nos bares as pessoas tendem a beber muito mais. O maestro não fugia a essa regra boêmia. Num dado instante, de copo vazio, espiava com inveja um casal se beijando, quando o garçom aproximou-se: “O senhor quer alguma coisa?” E Jobim, imperativo: “Garçom, beije-me”.

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O São João da minha infância
Aluízio Furtado de Mendonça

O povo nordestino é essa gente comunicativa e alegre, brincalhona, que vive intensa e emocionalmente os festejos populares, já que a vida por essas bandas é bastante limitada para os mais humildes de posse, de bolso. E ele faz das adversidades consentidas pelos poderes públicos um milagre de sobrevivência que tem muito a ver com a bondade divina, pois, como dizia Euclides da Cunha: “O nordestino é antes de tudo um forte!” Eu deveria andar pelos três ou quatro anos quando os festejos juninos entraram em minha vida. Nasci em Natal, no Rio Grande do Norte, e as festas ali, como aqui também em Pernambuco, sempre foram muito animadas, revestidas de uma tradicionalidade que vinha de tempos muito antigos. Semanas antes dos festejos, a casa de meus pais começava a ser preparada para as comemorações. Seu Modesto, uma figura inesquecível de minha meninice – alto, magro, ossudo, o rosto escavado pela fome, vestido humildemente – chegava-se, reservado, procurando falar como minha mãe: era a contratação antecipada de uma fogueira enorme, que só ele sabia fazer do nosso jeito. Depois, os vizinhos, os amigos, os parentes iam-se arregimentando para a grande festa. Notava-se no ar uma atmosfera diferente, prazerosa. Os diálogos eram sempre vigorosos, as pessoas demonstravam uma alegria contagiante: falavam de iguarias diversas em preparo: bolo de milho, canjica, pamonha, milho verde assado ou cozinhado na espiga e por aí ia a

aluíziO furtadO de mendOnça

animação sem controle, até a data estabelecida para as homenagens ao santo popular e idolatrado. No dia vinte e três de junho, a véspera das comemorações, era difícil haver na cidade de Natal quem não estivesse engajado na turbulenta alegria. Era o pipocar continuado de fogos menos agressivos, os chamados traques de massa, as bombas caseiras, os fogos de artifício, a fogueira acesa, a madeira ardendo com estalidos secos e as chamas subindo para o alto, rapidamente. Os meninos corriam em torno do fogaréu incontido, pulando e gritando compulsivamente, enquanto as moças donzelas faziam adivinhações e “simpatias” para ver quem seria o príncipe encantado de seus sonhos... matrimoniais. Faziam, à margem do fogo crepitante, também, casamentos simbólicos, com o padre improvisado, todo paramentado, as testemunhas, os convidados... e os anjinhos acompanhantes, geralmente crianças de tenra idade, que emocionadamente e como se fosse tudo aquilo verdade, prestavam-se para animar mais as solenidades. No meio dos atos “oficiais”, havia também aqueles que acolhiam, entre os amigos do peito, o compadre e a comadre, com celebrações de grandes e definitivas amizades, que a partir dali eram respeitadas e cultivadas como manifestações religiosas de longa e fraterna continuidade.

II
Na casa de meu pai, os parentes mais próximos chegavam na véspera. Vinham de toda parte do interior. Apresentavam-se com as breves “mudanças” – algumas camisas, roupas interiores e geralmente um presente para a cozinheira, que ia suportar os encargos à margem do fogão. – É para você, comadre, uma lembrancinha para animar mais nossa amizade!
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O sãO JOãO da minha infânCia

E todo mundo ria, na hora. – Não precisava disso, comadre! Vocês aqui estão em casa! – dizia minha mãe, encabulada. Quando chegava a noite, a fogueira já estava erguida defronte de casa. Um fogueirão respeitável! Seu Modesto era expert no assunto. Reunia a madeira, pau a pau. Depois fazia a entrada de fogo, com pequenos gravetos. Outros chamam “boca de vento” ou coisas assim, mas o certo é que ele vinha cauteloso, jogava querosene na área mais inflamável, soprava com toda a força dos pulmões e vinha lá de dentro a chama poderosa, que logo tomava conta de tudo, elevando as labaredas a uma altura surpreendente. E os presentes se alvoroçavam, gritavam, pulavam, elevavam os braços numa saudação efusiva e generalizada que durava ali mais algumas horas da noite. Sim, era esse o São João de minha infância distante, mas que deixou em mim marcas de eternidade que o tempo enorme transcorrido não conseguiu ainda apagar.

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Uma dama em tempos idos
Ana Maria César

Os dedos ágeis deslizavam sobre o teclado da máquina de escrever, as hastes carregadas de tipos forjados no aço subiam e desciam em movimento sincopado, imprimindo no papel letras e desenhos de formas variadas. Se parava por instantes, como a buscar palavras, logo os dedos bailarinos retornavam à dança sobre os minúsculos palcos arredondados, acompanhados de música seca e metálica. Ao final da linha, arrastava a alavanca até o ponto de trava e tudo recomeçava. A música, a dança, os traços. Escrevia cartas e mais cartas, todos os dias, a irmãos, tios, primos e amigos. Estilo elegante, enxuto, fluido, era considerada missivista de grande talento. Sem telefone, fax ou e-mail, o mundo daquela época transcorria lento, sem pressa. Toda a comunicação acontecia através de cartas que, postas no correio, aguardavam resposta por dias e semanas intermináveis. Guardo comigo sua imensa correspondência, cartas escritas à mão ou à máquina, no cabeçalho as letras J.M.J, alusão a Jesus, Maria, José, ou ainda, A.M.D.G. – Ad majorem dei gloriam – hábito adquirido das religiosas em cujos colégios estudou. Nelas tratava de assuntos corriqueiros, falava do tempo, discutia política: “Quanto à intervenção, eu tenho comigo que nós já estamos com ela, apenas o Sr. Washington mandou-a sem declarar publicamente. Pois, o que significa esse movimento de forças federais pelo sertão, agora quando tudo está mais ou menos calmo?” (escrita no dia 15 de agosto de 1930).

uma dama em tempOs idOs

Fã incondicional da administração do presidente João Pessoa, embora fosse impedida de votar – o que só aconteceu a partir de 1932 – fez parte dos débeis movimentos que iniciavam a participação feminina na política por ocasião do assassinato de João Pessoa. Mantinha fotos do presidente da Paraíba emolduradas na parede e bordou uma bandeira com o Nego, nas cores vermelha e preta. Áurea Rafael Torres Ventura nasceu em 9 de abril de 1906, em Monteiro, Paraíba, filha de Anna Rafael Torres Ventura e de Antônio Feitosa Ferreira Ventura, ele, bacharel em Direito, promotor público, juiz de Direito e desembargador. Filha mais velha, pois a primogênita morrera com menos de dois meses, teve oito irmãos, mas apenas quatro chegaram à idade adulta: Antônia, Aurélio, Altino e Abel. Seu pendor pelas letras, acredito, foi obliterado pela exagerada religiosidade que, naquela época, impedia a leitura de nossos clássicos, através do Index, lista dos livros e autores considerados proibidos sob pena de excomunhão. No entanto, a palavra se lhe insurgia com tal força que deixou, reunidas em brochura, crônicas descrevendo lugares e fatos de sua época, como: “Jardim Público”, “A Praça Venâncio Neiva”, “Parque Arruda Câmara”, “Um incêndio”, onde demonstra a vocação do cronista no registro de acontecimentos do cotidiano. Guardou por toda a vida o hábito de recortar artigos de jornais e revistas, muitos deles organizados no que chamava escarcela, vocábulo que, em sua origem, pelo século XVI, significava “bolsa de couro que se carregava presa à cintura”, mas no século XX era usado para indicar pasta de cartolina onde se colecionavam documentos, papéis. Durante anos fez anotações em cadernos, com lápis grafite – que o tempo tenta apagar – a que denominava Memórias – essas ainda com a grafia anterior a 1943 – outras vezes, Retalhos – de uma segunda fase.

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ana maria César

No dia 21 de janeiro de 1932, casou-se com o bacharel em Direito e poeta Amaro de Lyra e César. Juntos, desbravaram o interior do Estado. Moraram em Limoeiro, Gameleira, São José do Egito, Alagoa de Baixo, Garanhuns, Carpina, Caruaru. Nesta última, participou ativamente da grande obra que foi o Abrigo de Menores Dom Bosco onde exercia graciosamente o cargo de diretora para assuntos gerais, pois se envolvia com todos os problemas que dissessem respeito ao funcionamento da instituição. Lembro ocasiões em que ia à Rádio Difusora de Caruaru, em programa de grande audiência, fazer campanhas para repor o que faltasse no abrigo. Se pedia lençóis, por exemplo, poucas horas depois começava romaria à nossa casa, fazendo entrega do que cada um podia dispor. E logo os meninos do abrigo, que a chamavam de “mainha”, não sentiriam mais frio. Enfrentou com mágoa e revolta a encampação do Dom Bosco pelo governo do Estado, por motivos políticos – acredito que nunca se recompôs da dor pela perda dos seus 150 “filhos”, do dia para a noite. Mas logo, ao lado do companheiro, iniciou outra obra monumental, o Lar Santa Maria Goretti para meninas carentes e que foi entregue às Irmãs do Bom Pastor. Criada numa família patriarcal, os Torres Rafael de Monteiro, e em colégios de freiras, que primavam por uma educação primorosa, foi, por toda a vida, uma dama em atitudes e gestos. Seguia os costumes que a rígida sociedade da época impunha, como cobrir-se de luto pela morte dos parentes: um ano, pais; seis meses, avós; três meses, tios. Cumpria as regras sociais à risca. Possuía cartões tarjados de negro para os períodos lutuosos ou para se dirigir a quem neles estivesse. Visitava doentes, acompanhava enterros, assistia a missas, apresentava pêsames como se cumprisse preceito inalienável e inconteste. Antes de empreender viagem ao exterior, peregrinava pelas

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uma dama em tempOs idOs

casas de parentes e amigos, como manda o ritual, para comunicar o afastamento e – acredito – se colocar à disposição para alguma encomenda, seguindo costume no Brasil Colônia, quando ir ao Reino se revestia de pompa especial. Na volta, se frustrava ao não receber retorno das visitas que fizera. Percebi, com o tempo, que pouca gente tinha conhecimento dessa norma de convivência social. A hospitalidade, herdara-a de sua avó Antônia, a Mãe Toinha do clã dos Rafaéis, que em princípios do século XX recebia com fidalguia nos confins do sertão paraibano, servindo iguarias importadas e bebendo água mineral de Vichy. Também de sua mãe, Anna Rafael Torres Ventura, que na capital paraibana ditava moda em seu atelier de costura, frequentado pela mais alta representação da sociedade da época. Hospitalidade levada ao extremo ao se ceder o quarto do casal – que se acomodava de qualquer forma – a quem dava a honra de pernoitar em sua casa. Peregrinando por cidades do interior pernambucano, por décadas manteve o hábito, adquirido no casarão de Monteiro e no sobrado de João Pessoa, de tomar chá todas as tardes. Conservou a pronúncia castiça do português antigo, como as vogais fechadas em palavras como sinhora, buneca, e a nasalação em formas verbais como sentamos, chegamos. E deixou um exemplo de fidalguia aos que com ela conviveram.

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O sol de Pernambuco
Antônio Campos

Pernambuco, a terra de mais luz da Terra, na expressão de Pinzón, referida pelo poeta João Cabral de Melo Neto no seu poema O sol em Pernambuco, vem assistindo a um verdadeiro renascimento cultural fulcrado na (re)valorização de seu diversificado patrimônio artístico-cultural e histórico. Pernambuco vem mostrando a força e a criatividade de seu artesanato, da sua culinária, da sua música, de sua poesia, das suas festas populares, das suas artes plásticas e cênicas e da sua literatura. Institutos e centros culturais são criados e ganham força e vida. Exposições, livros são lançados e relançados. É tempo de Pernambuco. O sociólogo Renato Carneiro Campos, em ensaio intitulado Joaquim Nabuco: um agitador de ideias, dizia que se tivéssemos que escolher um estado, na Federação, para representar D. Quixote este estado seria Pernambuco: Não lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto. Renato tinha razão: Pernambuco, com suas revoluções falhadas, com seus movimentos libertários abafados a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação. Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados em 1817 (República de Pernambuco) e 1824 (Confederação do Equador), o território da antiga Província de Pernambuco perdeu as Comarcas das Alagoas e do São

O sOl de pernambuCO

Francisco. Contudo, Pernambuco resistiu e nunca deixou de sonhar e de ser altivo. Alceu Amoroso Lima disse, certa vez, que quando o Brasil está em crise se volta para cá, para a região cortada pelo Rio São Francisco, que é o Rio da Integração Nacional. Se dei o meu amor a Pernambuco, dei a minha paixão ao Recife, como afirmou Chico Science. O poeta Jaci Bezerra, no poema Tatuagem na água, nos diz: No Recife me perco e me inauguro/ pisando acácias e águas machucadas,/ no bolso o sol ferido, um sol maduro/ escorre, úmido, e acende a madrugada./ Uma árvore brota no meu peito impuro/ acalentando a infância que, abismada,/ brinca dentro de mim e dói no escuro/ sempre por um menino acompanhada. Nunca a essa cidade fui perjuro/ nem nunca a reneguei, talvez por isso/ ela me planta e aninha entre os seus muros,/ e eu a carrego em mim, arrebatado,/ apodrecendo nos mangues dos seus vícios/ e amando como se nunca houvesse amado. Aqui, em nossas terras, o poeta cristão-novo Bento Teixeira foi o autor da primeira obra poética produzida no Brasil que mereceu as honras do prelo, Prosopopeia. Daqui saíram as primeiras imagens do Novo Mundo. Aqui, forjou-se o berço da nacionalidade. Pernambuco não se cansa de sonhar e de criar. Que o sol de Pernambuco e a força de sua cultura e de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações, acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostrem o caminho do reencontro entre o Estado e a Nação.
Território da palavra. São Paulo, Escrituras, 2008

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Os olhos sem nexo e verdes do mar
Antônio Falcão Quem nasceu e vive no litoral não faz ideia do que é ser de onde não tem mar. Tiro por mim que vim das brenhas, lá dos cafundós do Agreste e me extasio com a festa aquática. Do mar-oceano, quero os olhos verdes, aboticados, assim me cubando de viés, enquanto leio e sonho. E ainda hoje, cravada em mim, essa imagem enfeita a lapela da alma, faz meu peito espalhafatoso rir que nem demente... Decerto, integra a cultura que nos legou o tombadilho, seja – portanto – nós, vocês e eu. Daí, um testemunho pessoal aqui cai bem. Vamos lá: Vem de longe a paixão, dos meus seis anos – idade em que no nosso clã ninguém morria. Imito Fernando Pessoa: o que sou é ter crescido e ser órfão. Conto: Papai, do interior e me tendo à mão, viu-me embaraçado com as águas e disse “é o mar, Toninho”, e me bastou. Foi como se, ali, ele me apresentasse à utopia. (Agora, esse anúncio do pai me evoca Jorge Luís Borges: O mar, o velho mar, já estava e era – o ex-ministro Eduardo Portela surrupiou um dito do poeta argentino.) Embeveci pra sempre. E desde então fiz do oceano companheiro e cúmplice, compadre e cupincha desta vida marinheira que, por erro de classe, me deixam viver. E vivo intensamente. Hoje, o zíper da modéstia já não me cala mais a boca: vivi a vida em demasia, sim. Vivi-a junto e só, em livros e na rua, pelos amores e em geografia, por toda parte onde medra a ação e o pensamento. Em outras terras, o mar me viu com tons que não o esverdeado que se vê da ótica do Nordeste brasileiro. Ou jade, a cor da água em Portugal. Era Rafina, vilarejo grego

Os OlhOs sem nexO e verdes dO mar

que lambe Atenas e eu um rapaz que fazia versos acreditando no dizer poético pra salvar o mundo. A namorada estranhou tanto azul anil – pensando bem, de Mondrian – saindo do Mar Jônico. Por ironia, falei que era o cisco do Atlântico, coado no Estreito de Gibraltar, fazendo de boia o cocô árabe do medieval Magreb – mais lixo “cívico” do sul da Europa. E o resto Tirreno, Egeu, Mediterrâneo, Adriático... – blefes e sacanagens dos mapas. Aí, ela, meu bem-querer, me olhou assim como quem cuba doido. E estava redondamente certa a amada – eh! como estava. Outra vez, pela União Soviética, quando aquilo nem imaginava ruir, o Mar Cáspio à minha frente, plúmbeo (que palavra!), exalando mijo e esturjão – caviar a preço de bolo de goma. Águas feias e tristes, essas águas. E, ainda por cima, tão exibidas. Mas, no fundo, um lago – metido a besta, vá lá, mas um lago, um tremendo lago... Como isto não é diário de viagem, eu quis (e vou) falar da magia do Atlântico, massa líquida que finge e significa afeto, molda-nos a sensualidade, dá ritmo à voz, põe sal no texto. Mesmo que noutras praias o mar nos veja com olhos diferentes, a alma lusotropical vive e continua dolorida. Não sei de ânsia literária mais madrasta, a dar e a receber porrada. É látego vindo das ondas descomunais do oceano que nos borda e serpenteia – diria alguém chegado ao (e do) Parnaso. Existe, sabe-se lá, argonauta em nós que vem dos almirantes Vasco e Cabral, de mares nunca dantes, travessias. Tudo Atlântico, vindo e indo nas naus de Sagres, no sargaço pescador, na agonia. É só correr a vista por Camões, Florbela, Bandeira, João Cabral, Eça, Graciliano, Machado, Rosa (sem Minas), Saramago... – e tantos mais que deram, em literatura, a emoção que a vida nos negou. Ou não nos pôde oferecer. Por isso, assim e mais, eu louvo ao mar. Nem que seja no rabo disto aqui e sem nexo, não importa. A mim, já

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antôniO falCãO

e sempre, conta como te vejo verde e o quanto te quero bem, meu querubim. Conta o modo como te via ao lado do pai; conta o jeito e a forma com que contigo sonhei em agrestino, o modo de te ler e descobrir em Português. Por tudo, deves cantar intenso e estridente, oceano. E cantar muito. Até nos polir o sensitivo, ferindo o peito gauche e a despertar os peixes. Canta, sobretudo, pra ninar a minha alma andeja e caipira; canta doce, água atlântica, abissal.
Jornal do Commercio, 26 de abril de 1998

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O exercício de piano
Antônio Maria A música distante de um exercício de piano. Por trás, a infância. A música reminiscente do exercício de piano, que tocava, na mão direita: dó-mi-sol-mi-ré-mi-ré-dó. Na mão direita de todas as crianças, estudando piano, a mesma música. Na mão direita, eu tinha uma roseira. Era no mês de junho. Chovia, de tarde, na rua da Aurora. O Capibaribe estava vazio, com as vísceras à mostra. A lama. Ouviam-se os siris batendo as patas, em luta corporal. As mulheres passavam, para o médico. Todas elas pálidas, honestas, resignadas; como não tinham o que fazer, de tarde, iam ao médico. Logo depois davam seis horas. Ouviase o sino da Conceição dos Milagres. Depois, de dentro das casas, pelas venezianas, vinha a voz do speaker da PRA-8. – Ave-Maria! Rainha pura e ditosa dos homens pecadores, santa radiosa dos céus... Ia por aí. As mulheres já estavam em casa, “de seu” contando que estiveram no médico e que, no dia seguinte, teriam de voltar, para novo exame. A expressão “de seu”, ou “de meu”, era muito comum no Recife. Queria dizer pouca coisa. Estar “de seu” é estar consigo mesmo. Então, servia-se o jantar. Carne assada com arroz. Carne de sol com farofa. Carne assada no Recife era lombo. E farofa era feita na água quente. Depois do jantar, nas casas sem jardim, botavam-se cadeiras na calçada. Cadeiras de vime. A voz do sorveteiro, lá longe, triste, mendiga, musical. Cada vez mais perto. Até chegar a arriar a sorveteira na calçada. O perfume inesquecível dos sorvetes de mangaba! Cada sorvete, um tostão. Cada tostão, um desprendimento.

antôniO maria

Rua da União. Defronte, nas janelas dos sobrados, as quartinhas e os copos de barro, refrescando. Os copos de barro tinham tampa e cada um era marcado com o nome do dono. A gente não sabe por que escreve essas coisas, que não eram importantes na época, nem o são, hoje, em lembrança. Mas a gente escreve, irreprimivelmente, para aliviar. A noite mesmo, a noite de dormir, começa com um fundo silêncio, interrompido, longe, pelos bondes da Pernambuco Tramways. Eram todos amarelos. Depois, a dita noite agregava-se ao homem e se tornava imperceptível. A música perdida do exercício de piano. Se conseguíssemos descerrá-la, veríamos, com arrependimento, a infância e, nela, o Capibaribe descarnando com a lama toda de fora. Todos nós, os meninos, sentíamos uma constante necessidade de abandono.
6 de outubro de 1962 Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994

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Boa tarde
Ariadne Quintella

Os pombos que, tranquilamente, dormiam, durante a noite, nas torres do Palácio da Justiça, perderam seu pouso. Foram desalojados. Despejados, e ninguém sabe informar se foi por falta de pagamento. À tarde, era interessante observar as suas acrobacias, o seu voo aparentemente incerto, mas, na verdade, seguro, em direção às janelas do prédio secular, de poucos andares, porém majestoso, imponente, um convite aos jovens à nova profissão. Mas os homens chegaram armados com instrumentos de trabalho para fazer a necessária pintura e, na arrumação da Casa, descobriram o ninho. As aves, perdendo a tranquilidade, partiram para destino incerto e não sabido, ignorado. Dessa vez saíram sem meta, sem itinerário, sem hora de voo. Certamente foram se juntar aos desabrigados que perambulam pelas ruas do Recife. Somente eles estão à altura de entender seus lamentos, o sofrimento de quem não tem mais um teto para se abrigar. A ordem de despejo dada aos pombos, segundo comentários nos corredores do Palácio, foi para “uso próprio”, porque a máquina da Justiça exige espaço e tranquilidade quando está em funcionamento. A última notícia, ou boato colhido pelos repórteres indiscretos, dá conta de que o arrulhar dos pombos incomodava os desembargadores que, sem encontrar uma saída, resolveram cassá-los. Não sabemos se é verdade. Para distrair os olhares “distraídos” dos advogados, principalmente dos “medalhões” do Direito, doutores da

ariadne Quintella

lei com ares de sapiência, ficaram as figuras (alegres, descontraídas, cheias de vida) das colegas de profissão, iniciantes no “ofício” e que todas as tardes cobrem o mesmo itinerário, iluminando os salões sombrios do Palácio da Justiça. Isso, para muita gente, representa uma bênção, depois de um dia inteiro de trabalho rotineiro e exaustivo. Mas, deixando de lado o saracoteado das bacharelas, é tempo de voltar a pensar nos pombos. Eles não podem desaparecer da paisagem da cidade. Precisam de um novo abrigo. Talvez caiba à Prefeitura do Recife encontrar.
Diario da Noite, 4 de dezembro de 1975

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Homero existiu?
Ariano Suassuna

Existe um certo tipo de pessoa que, não perdoando ao mundo e aos outros homens sua própria pequenez, tem um especial prazer em negar a existência dos grandes homens. Entre os críticos e ensaístas literários, essa posição é muito comum ante os escritores e artistas criadores: impotentes para a criação, deleitam-se em negar a existência, não digo nem dos gênios, mas até dos Poetas comuns, de poder criador comum; nem a estes últimos perdoam o fato de criar alguma coisa, eles que são capazes, apenas, de comentar o que os outros criam. É assim que, durante um certo tempo, foi muito comum negar-se a existência de Homero: os críticos, lendo a Ilíada e a Odisseia, sentiam-se insultados pelo fato de ter existido tal gigante e começaram a espalhar outra versão sobre o caso. Os dois poemas geniais seriam, apenas, a reunião de cantos realizados por vários poetas anônimos, reunião realizada pelos “diascevastas”, isto é, os críticos e “eruditos” do tempo. Tal reunião teria sido feita por muita gente e partindo-se, também, dos cantos realizados por muita gente, aos poucos, de modo fragmentário e disperso. Com isso, matavam-se dois coelhos de uma só cajadada: negava-se a existência de Homero e atribuía-se a existência de seus dois grandes poemas a uma entidade dispersa e coletiva, na qual, por acaso, os críticos e eruditos desempenhavam um importante papel. Havia, porém, dois pormenores que os estudiosos e ensaístas sempre deixaram de lado: primeiro, é que havia, e há, uma

arianO suassuna

unidade enorme, em ambos os poemas. Depois, a métrica usada na Ilíada e na Odisseia é pessoal e muito diferente da métrica dos poemas e cantos dos Aedos e rapsodos populares anteriores a elas. Que Homero partiu desses cantos, não há dúvida. Mas hoje, a melhor crítica é unânime em reconhecer que um espírito de gênio, um só, um grande Poeta, partindo desses cantos, recriou-os e deu-lhes unidade, de um modo pessoal e próprio, inconfundível – e esse grande Poeta foi Homero. A mesma coisa fizeram e ainda fazem com Shakespeare. Para negar a existência do gênio criador que foi ele, já inventaram mil versões fantasiosas, cada qual mais inverossímil. Uns dizem que o autor das peças shakespearianas foi Marlowe. Marlowe tinha sido condenado à morte. Seu protetor, para evitar a ele o cutelo do carrasco, dera-o como assassinado numa briga de taverna, enterrara um desconhecido em seu lugar, conservara Marlowe oculto em sua casa e as peças escritas por este daí em diante tinham passado a ser assinadas com o nome de Shakespeare. Outros atribuem as peças de Shakespeare a Francis Bacon, quando basta a qualquer pessoa mais ou menos enfronhada em Literatura ler os escritos de um e outro para ver que são pessoas de temperamento e inteligência inteiramente diferentes e até opostos. Eu não simpatizo com a Inglaterra, e poderia até aproveitar o fato para dizer que Shakespeare era mediterrâneo, da Itália, o que o deixaria muito mais próximo de nós. Porque, para ser franco, na minha opinião, o único defeito que Shakespeare teve foi ser inglês. Mas como não sou dessas coisas, tenho que respeitar a verdade, e aceitar o fato de um dos maiores gênios do Teatro universal ter nascido num país com o qual antipatizo. Mas se eu fosse como esses críticos que vivem especulando sobre a existência ou não existência dos criadores, teria alguns argu-

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hOmerO existiu?

mentos para fundamentar minha tese de que Shakespeare era italiano. Vejamo-los. Em primeiro lugar, existe uma certidão de batismo de Shakespeare (argumento, aliás, bastante forte para provar que ele nasceu e existiu). Nessa certidão, vem o menino com o nome, não de William, mas de Gulielgmo Shakespeare! Ora, Gulielgmo é a forma italiana de William e Guilherme: logo, Shakespeare era italiano, e não inglês! E eu sairia por aí adiante, mostrando que era do fato de ser italiano que decorria o interesse de Shakespeare pelos temas italianos, como acontece com Romeu e Julieta, com Otelo, o mouro de Veneza etc. Acontece, porém, que eu não sou dessas coisas, e prefiro dizer a verdade. Não tendo mania de grandeza, não me sinto insultado e diminuído pela existência dos grandes, de modo que não tenho dificuldade nenhuma de enxergar o fato de que Shakespeare existiu e foi o autor de suas peças. Para nos convencermos disso, basta examinar um ou dois fatos. Está provado, por exemplo, que, no tempo em que apareceram as peças shakespearianas – algumas delas editadas ainda em vida do autor – existiu um homem, na Inglaterra, chamado William Shakespeare. Esse homem, ao chegar a Londres, começou a trabalhar em teatros, a princípio executando tarefas subalternas. Depois, foi ator. Ainda depois, revelando jeito para Literatura, foi encarregado de “modificar” as peças dos outros, a fim de adaptálas às necessidades da companhia de teatro em que trabalhava. Foi assim que começou sua carreira de autor teatral. Pegava as peças do repertório popular e tradicional de seu tempo e cortava aqui, acrescentava ali, introduzia dois ou três personagens, retirava três ou quatro outros; e assim, aos poucos, terminou escrevendo suas próprias obras, a partir, quase sempre, de textos alheios. É por isso que,

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arianO suassuna

em alguns casos, ainda restam, em algumas de suas peças, inúmeros versos dos outros: eram os versos dos quais ele gostava e que não achava necessário substituir. É por isso, também, que seu Hamlet é a quarta ou quinta peça escrita sobre o mesmo tema, em seu tempo. O que acontece, porém – e nisso os críticos não falam –, é que só se fala, hoje, nos “Hamlets” anteriores, por causa do dele. Agora, tenho que mudar um pouco de tom, porque eu pensava em escrever estes meus comentários num tom de simples brincadeira; depois, empolgado pela admiração que tenho por Homero e Shakespeare, terminei falando a sério. Agora, estou em dificuldades para dizer o que queria, porque, sem esclarecer bem as coisas, tudo pode terminar numa intolerável pretensão – a de querer, eu, me colocar num nível pelo menos longinquamente próximo a dois dos maiores gênios da Humanidade, o que seria legítimo em Quaderna, mas profundamente ridículo em mim. Fique, portanto, desde logo claro, que o que vou dizer agora nem de longe supõe essa pretensão. Vendo que, depois da morte dos escritores, os eruditos recorrem frequentemente aos documentos para provar os fatos de sua vida, ando meio preocupado com as contradições de documentos oficiais sobre minha identidade. Esclareço então, desde agora, para evitar dúvidas futuras, que me chamo Ariano Suassuna. Moro, em Taperoá, numa casa sertaneja, chamada a “Casa-Forte da Malhada-Suassuna”, situada na data da “Carnaúba”. No Recife, moro na casa n° 328 da Rua do Chacon, no bairro da Casa-Forte. Sou o autor de A pedra do reino e do Auto da Compadecida, e meu nome, mesmo, é Ariano Suassuna, apesar de que, na Prefeitura do Recife, eu seja chamado, pelos documentos oficiais, de Amaro V. Suassuna. No Saneamento, meu nome é Manoel Alves Maia, e, na Celpe, Isaac David de Souza. Esclarecido tudo isso, espero que,

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hOmerO existiu?

mais adiante, os eruditos que forem fazer a história da literatura paraibana não neguem a autoria de meus trabalhos ao filho de João Suassuna e Dona Ritinha, para atribuí-los a esses cidadãos, dos quais um não existe, o outro já morreu e o terceiro é meu amigo, mas juro que não fez parte nenhuma do meu modesto, mas meu, trabalho de escritor.
“Almanaque Armorial do Nordeste”, Jornal da Semana, Recife, 8 e 14 de abril de 1973

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O leão adormecido acordou com um tapa
Arnaud Mattoso Os dois policiais se aproximaram de Jimis e do amigo que esperavam um ônibus para ir ao Centro do Recife, numa parada da avenida Mascarenhas de Moraes, no bairro da Imbiribeira. Taxistas que faziam ponto próximo à parada ligaram para a polícia dando conta de “dois elementos suspeitos”. Jimis tem nove irmãos todos negros, pobres e favelados como ele. Na infância vivia à beira do rio Capibaribe, onde catou sururu e marisco na Bacia do Pina para vender no mercado de Camaragibe. Naquela noite, Jimis e o amigo iriam passear pelo Centro da Cidade, diversão única para quem não tem dinheiro para gastar. O policial pediu documentos. Jimis os entregou e o policial perguntou o que eles estavam fazendo ali. “Esperando ônibus para ir ao Centro”. – Onde vocês moram? “Na Ilha de Deus”, respondeu Jimis mais uma vez ao policial que duvidou, então Jimis enumerou os moradores mais antigos da comunidade pobre da periferia do Recife. Contrariado, o policial fez pressão contra o negro de vinte anos indefeso na parada do ônibus. Não admitia que o jovem não fosse um delinquente. Procurou no teto do abrigo armas ou drogas e, como não encontrou, quis fazêlo confessar que era ladrão. Jimis era estudante de escola pública, estava terminando o ensino médio, fazia curso técnico em refrigeração e era pobre, mas honesto. O policial deu-lhe um tapa no peito que o fez cair na calçada, sendo observado pelo amigo que estava seguro pelo outro policial. Jimis levantou-se:

O leãO adOrmeCidO aCOrdOu COm um tapa

“Você acaba de despertar o leão que estava adormecido”, disse enquanto limpava a areia da calça de tecido barato e a camisa doada pelos patrões de sua mãe. “Vou continuar estudando, vou ser advogado e entrar para polícia para fazer você olhar para mim de igual para igual”, discursou sem medir as consequências de sua atitude. O policial não se abalou e disse que não queria vê-los por ali. Jimis e o amigo desistiram do passeio e voltaram à comunidade carente da Ilha de Deus na zona oeste do Recife, às margens do rio Capibaribe. O impacto da discriminação e da injustiça teve efeito positivo para Jimis que aos vinte e três anos estuda os livros de Direito na Biblioteca Pública Estadual, trabalhou em empresas de refrigeração, é casado, a mulher espera o primeiro filho e conseguiu manter-se longe da marginalidade. Ao contrário dos seus nove irmãos que estão presos por crimes diversos, Jimis manteve-se centrado nos livros e no caminho do estudo para livrá-lo do destino aos que nascem em sua condição. Está inscrito para o concurso da Polícia Civil e vai tentar o vestibular como cotista da Universidade Federal de Pernambuco para cursar Direito. Ele quer cumprir a promessa que fez ao policial que despertou o leão adormecido e para isso não mede esforços. Está desempregado, mas sabe atuar como técnico em refrigeração. Enquanto isso, defende um trocado como flanelinha numa rua anexa ao Mercado da Madalena, onde lava carros e enfrenta todos os preconceitos da sociedade, seja da classe média que o vê como um marginal, seja dos colegas de trabalho que o veem como um presunçoso por ler e estudar. Jimis é um herói das ruas, um exemplo de que nem tudo está perdido e que é possível fugir ao destino reservado dos que nascem negro, pobre e favelado. Jimis é um caso raro, um em mil fugindo de uma condição que não queria estar.

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arnaud mattOsO

Nota-se a ausência do poder municipal, estadual e federal, pois Jimis está sozinho em sua empreitada contra tudo e contra todos, contra uma sociedade inteira que o empurra para o abismo do crime e das drogas, mas ele resiste. Quando me despedi, dei-lhe uma nota de cinco reais, uma mixaria diante de sua grandeza e coragem, de sua percepção de mundo e das palavras sinceras que tropeçavam entre o linguajar correto e a dificuldade de quem nasce num berço à beira da lama de um rio fétido. Ao me despedir, pedi-lhe que fizesse um favor: “Não desista e nunca se afaste deste leão que despertou”.

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Retrato na parede
Arthur Carvalho

Uma das crônicas mais pungentes e bonitas de nossa literatura é O mangue, de Manuel Bandeira (Obras completas, Aguilar, v. 2, papel bíblia). Nela, Bandeira descreve o Mangue no seu esplendor e nos dias seguintes à sua interdição, pela polícia da ditadura Vargas, comandada por Felinto Müller. Começa dizendo que o Mangue era uma festa de todas as noites, com violões e cavaquinhos varando a madrugada, onde se tocava e cantava o que havia de melhor e mais genuíno na nossa música popular. E descreve, com tintas dramáticas, o desespero das mulheres perseguidas pelos beleguins e inúmeros suicídios, alguns deles com as rameiras, qual tochas humanas, ateando fogo às vestes, como na criação. Todos conhecem a história da Lapa, a bela e triste história da Lapa, com seus charmosos cabarés (o Novo México era sensacional), cafetinas, algumas delas poliglotas e versadas em literatura, suas polacas, valentões (Madame Satã, Miguelzinho, Camisa Preta, Edgar), reduto de malandros, travestis, intelectuais, artistas plásticos, cantores de rádio, compositores jornalistas, jogadores de futebol e prostitutas. Dizem os entendidos que a decadência da Lapa começou quando substituíram os músicos que tocavam nos botequins e tavernas pelas radiolas de ficha levadas pelos marujos americanos durante a Segunda Guerra. Agora, estão tentando revitalizá-la.

arthur CarvalhO

Os cortiços da Bahia eram na Gamboa, Pelourinho e Ladeira da Montanha, de baixo meretrício. Quem quisesse coisa melhor que procurasse as dançarinas do Belvedere, Tabaris e Rumba Dancing, equivalentes ao Chantecler, Yacasin, Moulin Rouge, Astoria e Flutuante. Salvador ainda oferecia a Gameleira, de sofrível qualidade, e a boate O’Clock, de onde se “arrastavam” meninas de programa. Aqui, a zona alegre se concentrava nas avenidas, ruas, becos e prédios do Recife Antigo, com muitos bares e prostíbulos, inclusive o de Baiana, na Vigário Tenório, no Pina (Cassino Americano, Mãezinha, Aurélia Castelo Branco, Casa Azul), na Rua do Rangel e adjacências, com a boate Mauá, a Fiver O’Clock e o badalado Balança Mas Não Cai. As madames mais conhecidas, Alzira, Edite, Maria Magra, Júlia Peixe-Boi e Verônica, acolhiam a rapaziada da classe média e os craques da bola. Berta, em Boa Viagem, amigada com lendário boêmio da paróquia, companheiro de farra de Valdemar Marinheiro, falecido recentemente, e Hugo da Peixa, recebia usineiros, empresários, políticos e a turma da grana, na Av. Conselheiro Aguiar, onde depois funcionou o Casa-Grande & Senzala. A Mary House e a Madrugada agitavam os notívagos. Houve época em que alguns dos melhores bordéis do Brasil eram em Natal: o da paraibana Maria de Oliveira Barros, a Maria Boa, o de Francisquinha, na Rua Câmara Cascudo, ex-manicure do Grande Hotel, o de Vanda, em Lagoa Seca, o de Belinha, em Petrópolis, e o de Rachel, no Tirol. Isso porque, no início dos anos 40, Tio Sam construiu em território potiguar o maior aeroporto militar da América Latina, o de Parnamirim, pois Natal era a capital do litoral brasileiro mais próxima ao continente Africano, perfeita para a travessia do Atlântico pelos aviões das Nações Unidas. As tropas aliadas injetaram, informalmente, muitos dólares na economia natalense, em especial no setor de

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retratO na parede

serviços. Quando cheguei em Natal, nos fins de 1948, já era tempo de paz, a maioria dos carros de aluguer (não havia táxi) era de importados: Ford V-8, Chevrolet, Lincoln Zephir, Studebaker Champion, Dodge, Mercury, Oldsmobile, Pontiac, Plymouth. Os novos-ricos, guiando Studebaker Land Cruiser, Hudson conversível, Chrysler Imperial, Packard Clipper, Buick Eight, Cadillac, pneus faixa-branca, Lincoln Continental desfilando de capota arriada, para plateia de marmanjos embasbacados, na passarela do Grande Ponto. O Nash do major Theodorico Bezerra e o De Soto de Ezequiel Ferreira de Souza faziam sucesso. Maria Boa enricou, com a prata derramada pelos oficiais superiores, em trânsito pelo Trampolim da Vitória, e tornou-se uma das senhoras de maior prestígio entre os coronéis do interior, deputados e senadores. Dizem que fizeram um filme dobre ela. Sua arborizada mansão, no bairro do Baldo, tornou-se célebre e parecia tudo, menos suspeita. Fabiano Veras que o diga. Os fuzileiros navais, embarcadiços, soldados e estudantes lisos, frequentavam a Pensão Ideal, com estrela na fachada, à procura de Doralice C.D.F., monumental pandeiro papa-jerimum, a Cibá, na Rua Chile, e a Rua 15 de Novembro, batizada de canjerê, na Ribeira, Cidade Baixa. Vanda e Belinha, não sei; Maria Boa e Francisquinha já partiram, mas, como no samba de Ataulfo Alves, morre o homem, fica a fama. Com o advento dos motéis e a liberação das moças de família, os castelos, como dizem na terra do Senhor do Bonfim, são hoje apenas um retrato na parede. Mas como dói!

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No galope da cardã
Carlos Cavalcanti

Afasto-me do litoral. Distancio-me da maresia e do gás carbônico. Procuro respirar a brisa fresca do agreste ou o bochorno abafadiço das caatingas nordestinas. A cruviana do amanhecer na Serra das Russas é a mesma que sinto ao chegar de noitão ao pináculo da Borborema. A égua cardã reapareceu amarrada no esteio claro/escuro do alpendre das recordações. A viagem continua enquanto o meu cavalo rodado, manteúdo, faz a cobertura das bestas parideiras. A beleza das mangas-largas permitirá uma nova safra de poldros marchadores. Preparo os alforjes. Dispenso o surrão para a viagem campesina. Cascavilho nas algibeiras e remexo as velhas gavetas do tempo em busca d’algumas pratas de mil réis para garantir a complementação do farnel nas bodegas do interior. O brote com mariola pede uma cuia d’água doce e fria vinda do pé da serra para a jarra de barro da minha avó. Encalquei a espora na cardã para que não esmorecesse a passada macia e chegássemos aos campos verdejantes do agreste paraibano. Avistei de longe a baraúna centenária ao lado da casa antiga. Olhando para o poente, a mata virgem do meu avô ondeava na folhagem verde-musgo guardando no sombrio aconchegante, o ninhário policromático da passarada. A sibilante sinfonia musicava a orbe. O desencontro

nO galOpe da Cardã

dos ponteiros anunciava o pender do sol. A tarde seguia lenta sob o hálito quente da boca da noite. Chegamos à margem da cacimba. Veneza, a égua de estimação, bebeu água salobra enquanto eu tomava banho ensaboado com raspas de juá. Os antigos roçados transformaram-se em pastagens de pangolas e coloniões a engordar os rebanhos do latifundiário. Na casa em ruínas a infinidade de marimbondos ensaiava uma dança nervosa recusando a minha presença. Os verdadeiros proprietários cederam lugar aos insetos e aos pucumãs. Somente as almas sentidas dos ancestrais certamente vagueavam pelos escombros a mitigar saudades. A voz do silêncio azucrina os meus ouvidos. Os ontens duelam comigo na batalha inacabável das lembranças. Procurei meu banquinho de umburana e não o encontrei. O cedro centenário, lavrado, aquele que sobrara na construção da casa, nos idos de 1920, estendido no alpendre onde fazia as vezes de assento, fora levado para a cidade grande e transformado em mobília de luxo na mansão do novo fazendeiro. Ainda bem que ouvi, no olho do pau-d’arco um canário da terra desafiando a patativa, descendentes daqueles meus, criados com xerém de milho e deixados na fazenda no dia da minha partida. A plumagem era a mesma e o canto não desafinara. A gata Nininha, se não morreu de velha, sem dúvidas morreu de banzo. Os armadores roncantes, vítimas da paraplegia ferruginosa, nem giram, nem roncam mais. O tilintar imaginário das esporas pretéritas estridula no quarto das selas interrompendo o sono dos morcegos notívagos. O cupinzeiro na cumeeira da sala semelha-se a monstro hidrocéfalo com sua carranca negra, funérea e destruidora.

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CarlOs CavalCanti

Restam emperradas pela ferrugem, as dobradiças das portas para que ninguém tente fechá-las. Não permitem que os vultos de antanho fiquem ali aprisionados no sufoco da acalmia e na ausência da liberdade Olho para o chão. O acúmulo de poeira e umidade criou uma crosta espessa e não mais permite avistarem-se os ladrilhos fabricados por meu pai. Tinha formiga como os trinta. Os leirões no canto do alpendre indicavam o ninho no subsolo da velha calçada em ruínas. Lembro-me de quando pastoreava o gado para que não entrasse na lavoura do meu tio. Um velho juazeiro servia de anteparo para a inclemente soalheira. Certa vez escrevi meu nome num dos galhos daquela árvore majestosa. Dela, agora, resta apenas o tronco decepado pela motosserra. A teimosia de uma resina antiga ainda perdura na casca seca simbolizando a espessa lágrima do protesto vegetal. Afunda e a baladeira serviam-me para conter as vacas teimosas e puladoras de cercas Os umbuzeiros que plantei, na minha adolescência, no oitão da casa, a pequena distância um do outro, estes sim, estão vigorosos e naturalmente prestaram-me uma singela, porém imensa homenagem: cresceram na horizontalidade e uniram-se num abraço cítrico louvando a Natureza. Ali também está, para sempre, o meu fraterno abraço. Capiongo, revejo o local da sala onde armava a minha rede. Com os olhos marejando volto-me para uma das janelas frontais do chalé e contemplo a serrania distante. A ramificação da Borborema tem no seu dorso um aglomerado de rochas imensas e desiguais. Numa delas, de muitas toneladas, encontra-se a furna do Sítio Laranjeiras, que pertencera também, a meu pai. O famoso “banho na furna” finou-se de repente. A água que brotava entre as

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nO galOpe da Cardã

duas rochas gigantescas e se acumulava numa depressão arenosa, secou inexplicavelmente. Dei de garra da tabica de jucá, montei na égua cardã e procurei largar de mão a terra amada que me serviu de berço. O meu pegadio com a fazenda onde nasci trouxe para a minha alma uma saudade remanchona, persistente e possessiva. Os meninos magricelas das redondezas olhavam para mim com certa desconfiança. Neles revi o garoto campesino que fui. Amigo confidente de tantos pobres daquela terra. Meninos que no dia a dia das caçadas e do trabalho na roça, juntamente com seus pais, ensinaram-me, involuntariamente, grande parte dessa linguagem rica e tão em voga na intercomunicação das gentes interioranas da minha Paraíba. Linguagem nossa, pé no chão, linguagem cabocla, verdadeira, feijão com arroz, resistente ao tempo e ao desapego da cidade grande. Solto, por fim, a égua marchadora nas terras vicejante da minha aldeia. Sigo vagarosamente, sem olhar para trás, vou à Parada Massapê, pego o “Maria Fumaça” imaginário e volto carregado de saudades para ouvir o canto das cigarras e dos bem-te-vis nas ruas ameaçadoras desta querida e acolhedora cidade do Recife.

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Procurado
Carlos Newton Júnior

Entre as poucas imagens conhecidas de Osama Bin Laden, duas são recorrentes nas reportagens que televisões do mundo inteiro veiculam a seu respeito. Na primeira, Bin Laden, com os seus trajes típicos de beduíno, apoiado em um cajado, caminha autoconfiante e sorridente por uma trilha qualquer de alguma região áspera, escarpada e pedregosa, seguido de perto por um grupo de seus comandados, todos fortemente armados. Na segunda imagem, com roupa semelhante, ainda feliz da vida, Bin Laden pratica tiro agachado, com uma arma longa. Trata-se, ao que tudo indica, de um atirador canhoto, pois segura a arma com o braço direito e apoia o coice no ombro esquerdo. Se não me traem os meus parcos conhecimentos bélicos, eu diria que a sua arma é um rifle de assalto AK-47, de fabricação russa, ideal, pela sua resistência a areia e fácil manutenção, para o tipo de terreno em que atua. De imediato, essas imagens de Bin Laden me fazem recordar duas imagens do cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião, uma em movimento e outra em repouso, ambas captadas pelo cineasta e fotógrafo árabe Benjamin Abrahão, em 1936, e bastante divulgadas ainda hoje, em reportagens de televisão, documentários, artigos e livros sobre o cangaço. Na primeira imagem (um trecho do famoso filme de Benjamin), Lampião, com a sua indumentária espetaculosa, e tendo, a seu lado, sua mulher, Maria, caminha à frente de um grupo de cangaceiros, tão autoconfiante e sorridente quanto Bin Laden, em algum

prOCuradO

lugar remoto dos sertões nordestinos, cuja paisagem se revela através de um trecho espinhento de caatinga. De repente, o cangaceiro volta-se para a câmara, desembainha o longo punhal que trazia à cintura e o apresenta aos espectadores, numa clara atitude de desafio. Na segunda imagem (uma fotografia), Lampião, agachado, atira com arma longa, com a mesma paisagem de caatinga ao fundo. A semelhança com a imagem de Bin Laden praticando tiro se acentua ainda mais pelo fato de que Lampião, que era destro, também segura o seu rifle com o braço direito, apoiando a coronha na face e no ombro do lado esquerdo. Tal fato se justifica, no seu caso, pela perda do olho direito ainda jovem, o que o levou a um esforço de adaptação para usar o rifle como se fosse canhoto. Um esforço que, diga-se de passagem, obteve um êxito inquestionável, a julgar pela origem que geralmente se atribui ao seu apelido – como atirava muito rápido, o clarão que o fuzil fazia, à noite, durante um tiroteio, era quase constante, lembrando aos companheiros a chama de um lampião. As quatro imagens a que me refiro são protagonizadas por dois homens de mesma faixa etária, morenos, altos e magros. Depoimentos de alguns ex-cangaceiros afirmam que Lampião possuía uma voz calma e suave, como a voz que às vezes escutamos de Bin Laden, naquela sua língua ininteligível para os pobres mortais do ocidente. A julgar pelas traduções que as redes de televisão nos apresentam, Bin Laden diz que vai destruir a cultura ocidental com a mesma doçura com que costumamos dar conselhos a uma criança. A voz doce, tanto num caso quanto no outro, talvez se justifique pelo fato de que estamos tratando de dois homens profundamente religiosos, um dos quais, inclusive, se diz porta-voz e braço armado do deus em que acredita. Penso, então, que Osama Bin Laden é uma espécie de Lampião em ponto grande, um cangaceiro do mundo, re-

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CarlOs newtOn JúniOr

presentando, para a sociedade cosmopolita e globalizada de hoje, mais ou menos aquilo que Lampião representava para o Brasil urbano de sua época, sobretudo na segunda metade da década de 1930, quando o seu poder e a sua influência atingiram o auge. Assim como ocorria com Lampião, que alternava ataques espetaculares a vilarejos do sertão nordestino com longos períodos de reclusão em grutas e locais inacessíveis da caatinga, Bin Laden passa longos períodos escondido somente Alá sabe onde, lá nas montanhas e nos desertos do Afeganistão, cuja paisagem lembra muito a paisagem nordestina, seca, pedregosa e cheia de furnas, para, de repente, desencadear um dos seus ataques cruéis, fulminantes e espetaculares, às cidades do mundo civilizado não islâmico. Do mesmo modo que Lampião possuía coiteiros influentes, muitos deles coronéis e políticos de prestígio, que lhe faziam chegar, periodicamente, armas novas e farta munição, Bin Laden certamente conta com os seus coiteiros, alguns deles, talvez, líderes mundiais e políticos de prestígio ligados a empresários da indústria armamentista. Da mesma forma que Lampião sonhava em adquirir uma metralhadora, ou uma “costureira”, como ele dizia, é razoável imaginar que Bin Laden sonha noites a fio com um míssil de alcance intercontinental, de preferência com uma ogiva nuclear na ponta, e Deus queira, mesmo, que seus coiteiros não consigam chegar a tanto, como não conseguiram os de Lampião em relação a seu sonho de consumo bem mais modesto. As semelhanças não param por aí. Bin Laden, caçado pela maior potência militar do planeta, possui sua cabeça posta a prêmio há anos. É o homem mais procurado do mundo. Lampião também conviveu com uma situação semelhante, tendo sido, durante anos, o homem mais procurado do Brasil, cujo governo não poupou esforços para eliminá-lo. Pensou-se, até, em jogar sobre ele e seu gru-

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prOCuradO

po de cangaceiros uma bomba lançada de um avião (algo parecido, aliás, com o que os israelenses estão fazendo agora, para exterminar alguns líderes palestinos). Deve ser realmente humilhante, para os líderes norte-americanos, assistir às declarações de Bin Laden na televisão. Como aqueles malditos repórteres conseguem achá-lo, ridicularizando os agentes do seu poderoso serviço secreto e pondo em xeque a eficiência de sua alta e caríssima tecnologia de espionagem? A mesma humilhação foi sentida por Getúlio Vargas e políticos do Estado Novo em gestação quando o árabe Benjamin anunciou que filmara Lampião e seu bando. Tanto assim que o documentário foi apreendido antes de estrear nos cinemas e seu autor foi misteriosamente assassinado com nada menos do que quarenta e duas facadas. Alguém poderá argumentar que Bin Laden, mesmo fazendo-se valer de métodos abjetos, luta por uma “causa”, enquanto Lampião, de todo desprovido de consciência política, lutava pela simples sobrevivência, para manter o seu modo de vida errante e lucrativo. Mas há também quem veja uma “causa”, e uma causa nobre, até, na luta de Lampião e no cangaço enquanto movimento social. É por isso, por conta das tais “causas” e das masturbações sociológicas que as cercam, que tanto Lampião quanto Bin Laden possuem detratores e admiradores fervorosos, chegando esses, quase sempre, ao radicalismo maniqueísta que reduz os dois personagens, mitificando-os ora como bandidos sanguinários e arquétipos do mal, ora como heróis populares e agentes da libertação dos oprimidos. Parece pouco provável que Osama Bin Laden consiga sobreviver à próxima década, tal a dimensão da campanha que as potências ocidentais têm movido contra ele. Como aconteceu com Lampião, muito provavelmente ele será traído por alguém de sua confiança, alguém que,

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CarlOs newtOn JúniOr

neste caso, será movido pela promessa de uma alta soma em dinheiro. Uma vez assassinado, seu cadáver será exposto à apreciação pública, através da mídia mundial. Se o cadáver não estiver em bom estado, farão a exposição ao menos de sua cabeça, como o governo brasileiro fez em relação à cabeça de Lampião. Antes da morte de Lampião, vários cadáveres e cabeças de cangaceiros foram expostos a público, como troféus de guerra macabros, através de fotografias veiculadas em jornais do país. De modo semelhante, aliás, ao que os norte-americanos fizeram com os cadáveres deformados dos dois filhos de Saddam Hussein, alguns anos atrás. Por fim, para não ser acusado por não tomar posição, gostaria de declarar que Osama Bin Laden desperta em mim o mesmo sentimento contraditório de repulsa e admiração que sinto diante da figura, hoje histórica, de Lampião. De repulsa, evidentemente, por conta dos crimes bárbaros a eles ligados. A meu ver, as ações terroristas de Bin Laden são tão condenáveis, do ponto de vista moral, quanto as ações perpetradas pelo “terrorismo de estado” norteamericano ou israelense contra árabes ou palestinos. E de admiração, por reconhecer que são, ambos, “criminosos na epiderme e irredentos no mais fundo da carne”, para usar uma expressão de Frederico Pernambucano de Mello, o homem que mais entende de cangaço na face da Terra. Bin Laden, e o mesmo eu diria de Lampião, não pode ser considerado uma alma pura; mas ninguém poderá negar que ele é, como Lampião o foi, uma alma grande. A missão que ambos outorgaram a si, colocando-se em franca oposição a um poder muito acima das forças de um homem comum, chega a tocar, queira-se ou não, as raias do grandioso.
15 de novembro de 2006 “Pernambuco”, Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado, Recife, março de 2007
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Lembrança do mundo antigo
Carlos Pena Filho

O meu avô, à tarde, ia ao palheiro e escolhia a melhor palha de trigo, amarela-quase-dourada. Espalhava-se pelo chão da cozinha, enquanto a bacalhoada fervia, na panela sobre a trempe. Eu já arrancara das sebes o melhor musgo para fazer o chão do presépio, num canto, perto da lareira. Estava tudo pronto: a neve caía sobre as couves da horta, o bom vinho aguardava nas canecas, e aí, pelas nove da noite, nos sentávamos no chão sobre a palha e começávamos a comer, muito vagarosamente, a ceia: castanhas, passas, nozes e, principalmente, a bacalhoada. Água ninguém bebia, nem as crianças, pois os mais velhos diziam, com a maior naturalidade: – Isso não, faz mal, escava o estômago. É verdade que a reza não faltava, mas passava logo. O bom vinho derramava-se sobre toda a família, sobre o ano passado, sobre o que ainda vinha, sobre as lembranças, sobre os planos para o futuro. Um pinheiro escolhido com cuidado, era a árvore de Natal, enfeitada com algodão, à guisa de neve. Entretanto, lá fora, os grandes pinheiros se precisavam de algodão era para agasalho, pois o que os cobria era neve mesmo, vinha lá das bandas da Serra da Estrela, das “penhas doiradas”, como dizia o livro da escola. Agora, neste fim de 1958, lembro o distante Natal, o distante ano novo e procuro ver se seria passível repeti-lo. Que nada. Mesmo que tudo se reunisse outra vez, os meninos são homens, os homens são velhos e os velhos tão

CarlOs pena filhO

mais velhos que existem apenas como vagas sombras na lembrança. Os meninos, a começar por mim, já pecaram tanto que não têm mais direito à ceia comida no chão. Talvez, mais tarde, eu tome um copo de vinho, mas duvido que o gosto seja o mesmo. Em todo o caso, será melhor do que água, por que nessa eu não toco hoje. Escava o estômago. O que me consola e me reconcilia com o espírito do ano novo é esta lembrança que tive de um tempo tão distante. Afinal, eu não estou tão pecador ainda que não lembre a freguesia de São Salvador da Árvore, onde meu velho avô cochila, na beira do fogo. Se eu soubesse que ele se lembraria de mim, esta noite, estaria bem pago de todas as coisas ruins que o ano velho reuniu. E quando começassem as pessoas à minha volta a reclamar da vida, a xingar os comerciantes e políticos, eu conseguiria arrumar no canto da boca um leve sorriso e pensar como o poeta: “Havia jardins naquele tempo, havia manhãs naquele tempo”.
Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1958

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Presente de grego
Cássio Cavalcante

Caruaru é um município brasileiro do estado de Pernambuco, que tem a maior população no interior pernambucano. Localizado na região do agreste, devido à sua importância, é reconhecida como capital e carinhosamente como princesa da região. Trata-se de uma cidade graciosa. O clima, mais ameno que o do Recife, faz do lugar um pouso certo. Tem o segmento de turismo como forte aliado. Mas desperta para o mundo com as festas juninas. Não tem igual ao São João de Caruaru. O seu maior charme, é que mesmo depois de um grande crescimento, ainda consegue manter certo ar provinciano, encantando os moradores e visitantes. No início de uma manhã, a cidade ainda acordava. Na padaria, uma mulher, enquanto pagava o pão e o leite, conversava com o dono do estabelecimento. Reclamava não saber mais o que fazer para conseguir uma empregada doméstica. Pois sendo em casa só ela e uma mãe de 79 anos, quando saía para trabalhar, a senhora ficava sozinha até o final da tarde, quando retornava da prefeitura onde trabalhava. Uma morena, de cabelos lisos que tomava café em uma mesinha perto do caixa, prestava atenção na conversa. O dono da padaria, atencioso, perguntou qual era mesmo o nome da rua e o número da casa, pois aparecendo alguma moça querendo trabalho ele indicaria. Na casa em questão tocou a campainha, dona Albertina atendeu. A morena com um sorriso cativante disse ser

CássiO CavalCante

a empregada que a filha mandou. A mãe com muita alegria a recebeu e logo mostrou toda a casa. Inclusive uma cozinha com uma pia lotada de louça suja. Na sala de estar, dona Albertina postava-se em frente ao santuário que muito lhe orgulhava, pois tinha imagens adquiridas por no mínimo três gerações de sua família. Agradecia enquanto rezava um terço o presente que acreditou que veio do céu. A manhã passou rápida. A moça deu conta da pia, arrumou a cozinha e fez uns bifes, arroz e feijão. Lavou todos os banheiros, passou um pano nos móveis e varreu toda a casa. Depois do almoço, a empregada pediu licença para sair. Afirmou que gostou muito da casa, mas tinha que ir acertar as contas com a antiga patroa e pegar os documentos, a senhora, maravilhada, disse: – Vá minha filha, mas volte logo. Quando Ester chegar quero que ela lhe encontre em casa. Ela retorna geralmente por volta das quatro e meia ou cinco horas da tarde. Em pouco tempo, viu-se um caminhão parado na porta daquela casa. Levaram tudo, até o santuário, e sem o devido cuidado com as imagens. Na casa, deixaram apenas uma cama sem colchão e, amarrada, em cima do estrado, dona Albertina. Foram as horas mais demoradas para a vítima, mantida amarrada até que a filha retornasse ao lar. O pavor que sentiu se uniu a uma pesada decepção por ter falhado. Caruaru mais uma vez amanheceu, em sua feira que ficou famosa na voz de Luiz Gonzaga, o cheiro forte de frutas e verduras frescas era um festival de aromas. Mas na frente cortes de carnes para todos os gostos, gado, porco e bode. Entre as variedades a galinha matriz, muita apreciada na região. Panelas, pratos, fogareiros e até santos, tudo feito de barro. Nas padarias fornadas de pães quentinhos saíam direto para a mesa dos habitantes da cidade.

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presente de gregO

A sofrida Albertina veio a falecer poucos meses depois do acontecido, em decorrência de complicações de uma depressão profunda que a abateu.
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As três vezes que vi Che
Celso Marconi

Quando eu estive na China, em 1963, me encontrei com alguns líderes políticos. Fiz essa viagem com uma delegação de dez jornalistas latino-americanos, sendo oito brasileiros e dois peruanos. Foi após um Congresso Internacional de Jornalistas, acontecido em Baden bei Wien, na Áustria, e para onde foram alguns pernambucanos, entre eles Luiz Beltrão, Leocádio Morais, a mulher de Beltrão, o então presidente da AIP (que não consigo me lembrar o nome), e outros. Abdias Moura era o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco e eu era o tesoureiro. Após o Congresso, que era comandado pelos socialistas, houve convites por parte de alguns países, sendo os mais importantes os da URSS e da China, para que o jornalista visitasse o país. Leocádio queria por que queria ir para a China e fez tudo para isso. Mas, como eu era da base do Partido, tive prioridade e Mesplé, que era do Rio de Janeiro, e coordenava tudo, confirmou meu nome como um dos convidados dos chineses. Na época não era tão fácil fazer viagens internacionais. Tanto que o avião, no qual viajamos do Recife para a Europa, fez escalas em Dakar, na África; em Madrid, na Espanha. Para então chegar a Viena. Eu tinha uma caderneta em que fazia anotações (não sei mais onde anda) e Leocádio, para brincar comigo, escreveu, como se fosse eu: “Vi em Dakar uns negrinhos falando francês”. Também quando seguimos com os chineses fizemos um longo percurso. Primeiro fomos para Roma, de avião. Da capital

as três vezes Que vi Che

italiana seguimos para Praga, de trem, numa longa e excitante viagem. Em Praga, então capital da Tchecoslováquia, permanecemos oito dias, esperando que houvesse avião para a China. Ficamos um mês completo na China. Era novembro de 1963. E coincidiu que no mesmo período “Che” Guevara chegou para uma visita ao país. E foi assim que vi três vezes o hoje mito para a humanidade. Primeiro fomos ao aeroporto de Pequim para recepcioná-lo. Ficamos ao longo de uma espécie de fila aguardando que o avião que trazia Guevara pousasse. Inclusive tenho uma foto, tirada por mim, do seu desembarque, ainda na escada do avião. Ernesto veio e cumprimentou um a um os que o estavam esperando. Acho que demorei muito apertando sua mão, todo empolgado. Depois houve uma recepção na Associação de Amizade Latino-americana / Chinesa, quando os latino-americanos que se encontravam em Pequim o homenagearam. E os brasileiros, o nosso grupo subiu no palco para cantar um samba. Numa hora todo mundo parou para olhar para mim que estava cantando totalmente fora de tom. Morto de vergonha, continuei cantando, mas bem baixinho. E a terceira vez que vi o “Che” foi na grande recepção, com a participação de mais ou menos cinco mil pessoas, no Palácio do Governo, oferecida por Mao Tse Tung. O salão de banquetes é formado por mesas onde ficam dez ou doze pessoas. E o grande momento foi quando o presidente Mao, o primeiro-ministro Chou en Lai e o ministro da Economia de Cuba, Ernesto Guevara, saíram de mesa em mesa, cumprimentando todos os participantes. Nós éramos uns dos primeiros brasileiros a visitar a China após a revolução comunista. Por isso fomos recebidos com a mesma regalia que era prestada a chefes de Estado. Foi na mesma época em que Jango e Francisco Julião estavam por lá e nos encontramos. Então eu ainda trabalhava

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CelsO marCOni

no Diario de Pernambuco (antes de ir para a Última Hora NE) e quando eu voltei o Dr. Aníbal (como nós o chamávamos) colocou em sua coluna: “o magricela Celso Marconi foi à China como quem vai a Água Fria e já volta”. Essa estória das vezes que vi o “Che” não é inédita. Eu a contei certa vez, em 1967, quando o Comandante foi morto na Bolívia, em 9 de outubro desse ano. Eu trabalhava no Jornal do Commercio, era editor do caderno de variedades (não me recordo se então já se chamava Caderno C), e Vladimir Calheiros era o editor-geral. Ainda havia dúvidas sobre se Che havia sido morto ou não. E por isso mesmo a cobertura durou três dias. Então não havia muitos repórteres para fazer o caderno e eu mesmo tinha, quase todo dia, de fazer uma reportagem para a primeira página. Vladimir sabia da minha estória e achou que poderia ser a capa. Como tinha ligações com o comando do 4º Exército telefonou para lá e consultou sobre a possibilidade da publicação. Aberto o caminho, escrevi o texto, As três vezes que vi o Che, que foi lido pelo então editor internacional do JC, Paulo Fernando Craveiro, e que disse: “Você se conteve o máximo, mas no final sentimos que existe nas entrelinhas um “Que viva o Che”. O texto foi ilustrado por fotos antigas de Guevara. Na verdade, eu nunca vi essa matéria publicada. E isso porque acontecia quase todo dia. Eu fazia uma capa para o Caderno à tarde e quando chegava 21/22 horas Vladimir fazia outra. Tirava a minha e colocava a dele como 2º Clichê. Assim a minha matéria que sempre tinha mais interesse para o Recife ia para o chamado Interior e a feita por Vladimir circulava com os jornais do Grande Recife, como 2º Clichê. Eu argumentava com ele, mas não tinha jeito. “Enquanto eu for editor-geral é assim”, dizia. E assim também foi no dia 10 de outubro de 1967. Minha matéria circulou em João Pessoa (Eurico Reis que morava

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as três vezes Que vi Che

lá me disse que viu), no Rio de Janeiro (alguns números), em Garanhuns e outras cidades. Mas nem na redação, internamente, circulou. Segundo eu soube (e foi contado na edição de 80 anos do JC), o então contínuo (e depois diagramador, meu amigo) Pelé (José Inácio da Silva) viu umas fotos de “um homem parecido com Jesus” chegando à redação, e disse isso quando se encontrou com Vladimir no bar próximo ao jornal, acho que já mais de meia-noite. Ele imediatamente voltou e fez nova página, com as novas fotos de Che, morto pela polícia boliviana. E fez outro texto também, como uma espécie de legenda. Então o que eu quero é o seguinte. Encontrar alguém que tenha um jornal daquela época. E me permita tirar uma cópia. Porque Eurico Reis, que me disse que leu, não tem. E isso para que meu nome (vaidade!) fique ligado ao Che na cobertura feita no JC do Recife. Cobertura que foi elogiada, inclusive no Rio, quando se fez referência à matéria local (que era a minha). Quando se falou nessa cobertura (não sei se foi Fernando Menezes ou Jodeval Duarte que fez a pesquisa) nada se disse da minha reportagem. E eu não quero ser esquecido assim. Pelo menos na história do Jornal do Commercio, onde trabalhei de 1966 até 1989.
Olinda, 28 de fevereiro de 2010

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O espelho como testemunha
Celso Rodrigues

E o espelho? A limpidez do espelho lhe doía, projetando seus cabelos embranquecidos, umas poucas rugas no rosto arredondado e largo, e o pior, naquela tarde, um perfil de cansaço, de exaustão, de tédio: Como vencer o cansaço e o tédio? A distância se media pela impossibilidade de ganhar novos horizontes e, afinal, definir-se diante deles: o que fazer agora, no enlevo dos braços do infinito sempre azul? Lembrou-se dos sapatos, dos gestos, das gravatas e das mãos de Carlos Pena Filho. De resto, o espelho cuidava de fixar seu corpo por inteiro, e ele confessava amar mais sua alma do que seu corpo. Nos seus olhos, a visão de um insinuante calendário, que não lhe fazia concessões: 28 de julho. A primeira imagem que lhe chegou foi da mãe, do pai, dos irmãos. De uma pequena casa onde não se falava em desamor; e, em torno dela, um imenso espaço verde que alimentava pequenas e grandes árvores, asas-brancas, patativas, galos-de-campina, pequenos sapos e cobras que disputavam entre si o domínio e a paternidade do rio versátil, mas preguiçoso. As árvores já evocavam a primazia de guardar, para um futuro ainda distante, as ofertas saídas da boca daquele pequeno invasor dos seus mistérios. Dos mistérios das flores silvestres, do canto dos pássaros, dos lamentos do rio, quando não explorando o caráter da sua voluptuosidade.

O espelhO COmO testemunha

O espelho não lhe negava justiça; quem assim nascera, imagem dos pais, dos irmãos, do rio, dos pássaros, da terra virgem – não seria, em consequência, um coroamento do improviso e do desencanto que explica o vazio das almas realmente vazias. * A ambiguidade do 28 de julho – dizia aos amigos – não se restringia ao fato de nele ter nascido. Mais importante o ato de ter sido conscientemente gerado para começar a existir no ciclo da truculência da Revolução de 30 – não um golpe militar, grosseiro – e que permitia o encontro do País com a justiça social. Na barriga da mãe, ele já ameaçava. Isto é: mostravase inquieto e inconformado nos limites daquele recanto escuro em que suspiros invisíveis, mas constantes, transformavam-se no canto da primavera da sua próxima redenção. Em resposta, olhos fechados e alma aberta, jurava assumir-se a vida toda, entendido que vida é vida – complexa sucessão de acertos, de equívocos, de fatalidades, de conquistas, de frustrações, e o fim da vida – quem sabe? – o fim de tudo. * Só, naquelas doces ruas da sua estima, da procura da sua infância e da sua juventude, ele se considerava agora um número. E registrava o alegre aceno de poucos amigos. Mas as ruas de hoje lhe davam um cheiro de cemitério. Nelas construíram como que um campo para dolorosas batalhas: matar, roubar, sequestrar. Em nome de quem? Da fome, que é maior hoje do que ontem? De uma opção pré-revolucionária? Cadê os donos

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CelsO rOdrigues

de todas as ideologias? Apenas não encurtaram as boas lembranças: Ruas Nova, Imperador, Imperatriz. Praças Sérgio Loreto e Maciel Pinheiro. Parque 13 de Maio. Rua Matias de Albuquerque. Ali, o filósofo Plínio “Boy”, com o figurino dos canaviais de Primavera, viu mais o encanto do amor. E era verdade. A mulher responsável por tardes e noites que se eternizaram na década de 1960, respondia por uma nova Sônia à procura de um novo Raskólnikov: olhos quietos, de envolvente paciência, lia Jorge Amado no meio das manhãs; passos largos para novas caminhadas, e sentimentos que guardava dentro das mãos para uma plena doação, já apostando no seu amanhã. E aconteceu. Sabia que já estavam na posteridade as mulheres que souberam se doar. Elas não se perderam, ou não se perdem, nas esquinas da vida. * Somavam-se na cabeça dele, no vigor daquele 28 de julho, os resultados dos bons ventos de existir, com filhos e netos, amigos também, que lhe traziam apoio otimista e mais além, talvez com a súplica de que vale a pena reinventar a vida. “A vida só é possível reinventada”, assim desejou Cecília Meireles. E voltou o espelho a perguntar-lhe sobre seu destino e sua vontade, após o 28 de julho de 1990. Mostrou ao interlocutor livros e discos espalhados, recortes do seu jornal e o próprio jornal descansando no sofá. Máquina de escrever, sugerindo-lhe escrever sobre tudo, e agradecer gestos de estima, de lealdade, de irmandade, de amor. Pois lá fora era o corpo a corpo que agredia. Não lhe bastava o remoto duelo, às 12 horas, na Rua da Matriz, maquinação policialesca e da ótica da mediocridade e da bestialidade humana?

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O espelhO COmO testemunha

Pérfido e mesquinho, às vezes, o mundo lá fora, quando manipulado pela esquizofrenia agonizante. E quando uma só palavra – cândida palavra – seria capaz de abrir as portas aos homens para a construção de um poema. Uma só palavra – o amor – e dois caminhos: paz e liberdade. A propósito, apontou para o quadro mais próximo do seu mundo, e deu Antônio Maria escrevendo. O gordo não fazia isso para seu deleite pessoal. Nem por desculpável vaidade. Mas, como cidadão de todos os continentes, semear flores nos dias da sua singular imaginação. Diante do espelho, o homem não escondia, então, a presença e a influência do Jornal de Antônio Maria. Felizmente. E confidenciou mais, que assim resgatara sua crença em ponderáveis parcelas da humanidade, e no seu existir, amparado por braços rígidos e solidários daqui e dali – sustentáculos do seu romantismo, apesar dos cabelos embranquecidos... * – É contornando os obstáculos que o rio chega ao oceano – ensinou-lhe Chaplin.
Amo teu amor, Juliana: homens, mulheres, fatos e ideias do meu tempo. Olinda: Polys Editora, 2006

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A chuva
Cícero Belmar

Com a chuva, entendi: o que salva e dá alegria é também o que destrói e traz dor. O riso e a tragédia são façanhas do mesmo agente, como se a vida fosse teatro. Aquilo que é motivo de festa para quem mora no Sertão é causa de pânico no recifense. Razões não faltam. Para os dois lados. Com justificativas opostas: para uns, as precipitações são a esperança acenando com o verde mais verde. Para outros, revela a face pálido-cerosa da destruição. O mais irônico, no entanto, é que as tragédias muitas vezes são evitáveis e previsíveis. Restam-nos as filosofadas e as metáforas. E algumas histórias para contar. De coisas dolorosas. E de doces lembranças que a água da chuva derramou. A poetisa Cida Pedrosa, sertaneja como eu, um dia estava relembrando que no seu tempo de menina gostava de tomar banho de chuva no meio da rua. Era alegria demais. Ficava toda ensopada, o vestido colado no corpo e ela tremendo de frio. No Sertão chove e o tempo esfria. Tudo fica verde, como num passe de mágica. Num minuto, a folhagem sai de algum lugar oculto e misterioso, e se oferece à paisagem. Os animais, tranquilos, lambuzamse no pasto. E os pássaros saem, não sei de onde, em bandos. Fazendo algazarra no espaço claro. Se o tempo esfria, acabou-se tempo ruim. Já no Recife, dizem os jornais, basta uma horinha de chuvas para castigar a população e se o temporal cai de madru-

a Chuva

gada milhares de famílias têm suas casas invadidas pela fúria das águas. Quem mora no morro, assiste à terra desmoronar. As pessoas têm perdas materiais e outras irreparáveis. Neste inverno de 2010, depois de mais de 24 horas de chuvas, uma família inteira morreu, na Linha do Tiro – uma comunidade de baixa renda do Recife –, soterrada pela barreira que caiu enquanto as pessoas dormiam. O experiente bombeiro que fazia o resgate dos corpos caiu em prantos quando encontrou o corpo da menina de seis anos. No dia anterior, na Avenida Conde da Boa Vista, os pontos de ônibus estavam lotados. Quando chove, o Recife fica intransitável. Os ônibus, parece, sumiram. A água, como dizia o vendedor de pipocas ao meu lado, “estava dando no meio da canela”. Qualquer chuvinha, alaga. Chuva forte, então, é caos. Uma senhora de uns 60 anos, mais ou menos, reclamava: toda vez que chove é a mesma coisa! Já completamente molhada, apesar de tentar se abrigar no ponto do ônibus, ela começou a falar para as pessoas mais próximas. Dizia: na cheia de 1975, começou desse mesmo jeito. Choveu sem parar, dia e noite, e o Rio Capibaribe transbordou. Na rua, a gente só via os carros sendo levados pela correnteza. As outras pessoas que também esperavam ônibus se interessaram pelo assunto. E a senhora morava onde? Respondeu: no Derby. Ali, a água subiu quase dois metros. A gente teve que subir e passar um dia todo no telhado da casa, para não ser levada pelo rio. Chovia, mas a gente não podia descer. Desde essa época tenho horror a chuva. As pessoas quiseram saber o resto da história. E ela: quando o rio abaixou, e a gente desceu do telhado, tá pensando que alguém teve sossego? Começaram a dizer que Tapacurá tinha estourado. Era o Apocalipse. E o povo saiu alarmando, correndo, uma Kombi na rua dizia que a

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CíCerO belmar

água já tinha chegado em Piedade! Eu mesma fiquei gritando: Tapacurá estourou! Tapacurá estourou! Empolgada com a narração, para dar mais realismo, ela aumentou rapidamente o tom da voz, como se estivesse revivendo o drama: Tapacurá estourou! Tapacurá estourou! E uma moça, que estava no mesmo ponto, porém mais distante, assustou-se. Talvez porque a chuva também lhe causasse pânico. Sem saber que a mulher apenas contava uma história de 1975, a moça quase entrou em pânico quando ouviu os gritos realistas. É como se os ecos de Tapacurá ainda ressoassem. Com cara de choro, ela reagiu: ai, meu Deus, e agora?! Eu faço o quê? Me ajude! Foi necessário alguém acalmá-la, explicando que o fim não estava tão próximo assim. Choveu muito. De um canto a outro da cidade, tudo alagado. A mulher tinha razão quando disse: toda vez que chove é a mesma coisa. Às vezes, convenhamos, nem precisa chover muito para causar transtornos. Faltam obras estruturadoras, que possam fazer a drenagem dessa cidade bonita abaixo da linha do mar. É um exagero dizer que natureza tanto pode ser mãe (para uns) e preceptora severa (para outros). A culpa da tragédia no Recife não é da chuva. É da insensatez. A causa da alegria do Sertão não é da chuva. É do paliativo ao desprezo. Olha o que é a vida: nada é bom ou ruim. A chuva, na verdade, é a possibilidade. Resta-nos rir e chorar.

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As grandes punições
Clarice Lispector

Foi no primeiro dia de aula do Jardim da Infância do Grupo Escolar João Barbalho, na Rua Formosa, em Recife, que encontrei Leopoldo. E no dia seguinte já éramos os dois impossíveis da turma. Passamos o ano ouvindo nossos dois nomes gritados pela professora – mas, não sei por que, ela gostava de nós, apesar do trabalho que lhe dávamos. Separou nossos bancos inutilmente, pois Leopoldo e eu falávamos lá o que falávamos em voz alta, o que piorava a disciplina da classe. Depois passamos para o primeiro ano primário. E para a nova professora também éramos os dois alunos impossíveis. Tirávamos boas notas, menos em comportamento. Até que um dia apareceu na classe a imponente diretora que falou baixo com a professora. Vou contar logo o que realmente era, antes de narrar o que realmente senti. Tratava-se apenas de fazer o levantamento do nível mental das crianças do Estado, por meio de testes. Mas quando as crianças eram, na opinião da professora, mais vivas, faziam o teste em ano superior, porque no próprio ano seria fácil demais. Tratava-se apenas disso. Mas depois que a diretora saiu, a professora disse: Leopoldo e Clarice vão fazer uma espécie de exame no quarto ano. E levei uma das dores de minha vida. Ela não explicou mais nada. Mas os nossos dois nomes de novo citados juntos revelaram-me que chegara a hora da punição divina. Eu, apesar de alegre, era muito chorona, e comecei a soluçar baixinho. Leopoldo imediatamente passou a

ClariCe lispeCtOr

me consolar, a explicar que não era nada. Inútil: eu era a culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal. E de repente eis-nos os dois na sala do quarto ano primário, com crianças grandalhonas, professora desconhecida e sala desconhecida. Meu pavor cresceu, as lágrimas me escorriam pelo rosto, pelo peito. Sentaram-nos, Leopoldo e eu, um ao lado do outro. Foram distribuídas folhas de papel impresso, ao mesmo tempo que a severa professora dizia essa coisa incompreensível: – Até eu dizer agora!, não olhem para o papel. Só comecem a ler quando eu disser. E no instante em que eu disser chega!, vocês param no ponto em que estiverem. Recebemos as folhas. Leopoldo tranquilo, eu em pânico maior ainda. Além do mais eu nem sabia o que era exame, ainda não tinha feito nenhum. E quando ela disse de repente “agora”, meus soluços abafados aumentaram. Leopoldo – além de meu pai – foi o meu primeiro protetor masculino, e tão bem o fez que me deixou para o resto da vida aceitando e querendo a proteção masculina – Leopoldo mandou eu me acalmar, ler as perguntas e responder o que soubesse. Inútil: a essa hora meu papel já estava todo ensopado de lágrimas e, quando eu tentava ler, as lágrimas me impediam de enxergar. Não escrevi uma só palavra, chorava e sofria como só vim a sofrer mais tarde e por outros motivos. Leopoldo, além de escrever, ocupava-se de mim. Quando a professora gritou “Chega!”, minhas lágrimas ainda não chegavam. Ela me chamou, eu não expliquei nada, ela me explicou sem severidade que as crianças mais vivas de uma turma etc. Só fui entender dias depois, quando sarei. Nunca soube do resultado do teste, acho que nem era para sabermos. No terceiro ano primário mudei de escola. E no exame de admissão para o Ginásio Pernambucano, logo de entrada, reencontrei Leopoldo, e foi como se não nos tivés-

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as grandes punições

semos separado. Ele continuou a me proteger. Lembrome de que uma vez usei uma palavra qualquer de gíria, cuja origem maliciosa eu ignorava. E Leopoldo: “Não diga mais essa palavra.” “Por quê?” “Mais tarde você vai entender”, disse-me ele. No terceiro ano de ginásio, minha família mudou-se para o Rio. Só vi Leopoldo mais uma vez na vida, por acaso, na rua, e como adultos. Passáramos agora a ser dois tímidos que viajaram na mesma condução sem quase pronunciar uma palavra. Éramos impossíveis de outro modo. Leopoldo é Leopoldo Nachbin. Eu soube que no primeiro ano de engenharia resolveu um dos teoremas considerados insolúveis desde a mais alta Antiguidade. E que imediatamente foi chamado à Sorbonne para explicar o processo. É um dos maiores matemáticos que hoje existem no mundo. Quanto a mim, choro menos.
4 de novembro de 1967 A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999

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Saramago, José, literatura
Cristiano Ramos

“Se não escrevi o livro definitivo que tornará a literatura portuguesa, enfim, uma coisa a sério, foi só porque ainda não tive tempo. Isto é o que me diz o meu amigo Ricardo, e di-lo com tal convicção, que muito céptico seria eu se não acreditasse sob palavra. (...) Digo “sim senhor”, se a intimidade não dá para mais, e se é o caso de dar, como acontece com o meu amigo Ricardo, acho-me tão eloquente que construo uma frase de oito palavras ‘então vê lá isso cá fico à espera’”. De José Saramago, em A bagagem do viajante.

Lembrei do Saramago duas vezes, neste semestre que demora tanto a passar. E confesso que acordei hoje envergonhado. Primeiro, por tão pouco voltar a um autor que foi bastante presente naquele meu tempo ainda repleto de sonhos e créditos a pagar na universidade; segundo, porque a derradeira vez em que ele me veio foi na Livraria Cultura, quando, para Bruno Piffardini e Delmo Montenegro, sapequei: – Por que o Saramago não morre logo? O pior dos leitores de um escritor é, sem dúvida, o mais apaixonado. Porque este se veste de direitos, pragueja sem motivos, reclama ainda mais se há razões. Pode, inclusive, aprontar pessoalmente, como se a sua opinião alguma importância maior tivesse, como se lhe fossem perdoadas quaisquer grosserias. Creio que não sou tal indivíduo, não me vejo parando o Saramago na rua para

saramagO, JOsé, literatura

lhe dar beijos, prendê-lo com mil elogios e sugerir reparos à sua obra. Mais eis que, naquele dia, assim de longe, indaguei por qual razão ele não morria – coisa de ex-namorado, desses mal resolvidos. Melhor então lembrar da outra oportunidade em que lembrei dele, da qual ainda posso tirar algo de bom. Nas poucas vezes em que fui ao banco este ano foi para verificar o dinheiro que nos pagam quando conseguimos ser demitidos neste país que, segundo dizem, nunca empregou tanta gente. Numa dessas, um senhor baixinho, de sandálias surradas, cheirando a vodka e espetinho (daquele de calçada, que nunca conseguimos fazer igual) perguntou se o programa de televisão Opinião Pernambuco voltaria. Antes que eu lhe passasse a piada, de que na emissora tem cartaz com “Opinião volta mês que vem”, ele se adiantou: – É que tenho um romance pronto. Precisava ir ao Opinião, pedir editora e anunciar uma obra-prima. Entre apressado e curioso, enquanto o caixa eletrônico confirmava meu gordo seguro, escutei seus argumentos, as virtudes que faziam do inédito romance um clássico, antes mesmo de chegar às estantes. Depois, fiz uma maldade: quando ele pediu contato de alguém que pudesse publicá-lo, passei o celular de Paulo Caldas, porque imaginei um dia encontrar o editor da Bagaço e brincar com o fato. Terminei aquela conversa repetindo Saramago: – Fico esperando, então. Não vá desistir. Alguma horas depois de saber da morte do romancista português, às dezenas de matérias que saíam na internet, preferi reler A bagagem do viajante. São crônicas saídas em jornais entre 1969 e 1971. Nelas, aumentei minha vergonha. Um dos belos textos começa assim: “Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que

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CristianO ramOs

veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas.”. Saramago, também um josé, escreve sobre um dos milhões que andam pelo mundo, José Júnior, que, “sem mais riqueza de apelidos e genealogias”, é “novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertemse à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe”. O escritor setencia: “Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas”. Não fui feroz, mas também não tive respeito para com o meu josé de sandálias e crente em seu excepcional talento. Diferente de Saramago, que não achou outra coisa além da frase de oito palavras, eu fiquei ouvindo aquele senhor porque era uma futura brincadeira, um chiste, assunto para mesa de bar e eventos literários. E se o chamo de José não é homenagem a Drummond ou Saramago, tampouco por saber o verso como metáfora. Eu o faço porque sequer tive a educação de perguntar o nome daquele homem, mesmo quando ele avisou, sem perceber que eu ainda o não sabia, “Guarde bem meu nome, porque ouvirá muito sobre ele”.

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saramagO, JOsé, literatura

Sou desses românticos que creem na força da literatura, em sua capacidade de nos transformar em pessoas melhores. E, pelo jeito, preciso ler muito, muito mais. Aquele senhor talvez não tivesse escrito uma obra-prima, porém, ao tentar fazê-lo, não acredito que tenha se tornado mais pobre, bem pelo contrário. Eu, por outro lado, sem tentar produzir obra-prima, mas armado de outras vaidades, o que tenho feito dessas dezenas de leituras semanais? Amanheço alguém melhor por conta disso? Neste mês de reclusão, tenho refletido um bocado. Não basta optar por viver de literatura, seja pela crítica ou em salas de aula. Esta minha escolha romântica, de trabalhar com livros, precisa ser acompanhada também de um ideário romântico, de uma busca moral. E não desenho aqui uma concepção estética, apenas confesso um sentimento. Um sentimento que cresce. E, sem que eu tenha originais de obra-prima ou receba o Nobel, pode até ser que tal postura me faça também alvo de desdém, de piadas, alguns dos meus amigos me dedicando um carinhoso “por que não morre logo”? Mas quero sim sair de junho com lentes diferentes, calcorrear as ruas noutro ritmo, e lidar com os espaços críticos que me dão como lugares não de confirmação de meus inúmeros defeitos, mas como meio de os superar pouco a pouco, página por página, conversa depois de conversa. Eu quero, mesmo, finalmente, repetir outra vez Saramago. Desta, no entanto, pelo motivo certo... “Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever. ‘E agora, José?’.”

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50 Anos de Brasília
Cyl Gallindo

Numa das muitas páginas por mim escritas, citei Brasília como o lugar onde, ao me aposentar, inaugurei a minha velhice. E pretendia ficar para o resto da vida, não fosse o clima com uma umidade relativa do ar de 10 a 12 por cento. Clima de deserto, informam as rádios, com a recomendação de pôr bacias com água no quarto, antes de dormir. As aulas são suspensas, não se praticam esportes, crianças e velhos recorrem aos hospitais para fazerem nebulização. Retornei ao Recife. Aqui tem brisa. Nem por isso, Brasília foi desmembrada da minha geografia. Observando a vida, como os lugares, cada homem tem a sua geografia própria. Dela não fazem parte os lugares por onde passamos, a negócio e passeio. Eu mesmo, como bom andarilho, conheci do Alto Solimões, no Amazonas, ao Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul. Visitei todas as capitais brasileiras e fiz zigue-zague por todo o Nordeste. Sou incapaz de citar as cidades que cruzei. Afora 15 países que conheci, com permanência de meses na Holanda. Nada disso, porém, faz parte da minha geografia. A geografia de um homem é composta daqueles lugares onde ele entrou como um leão entra numa savana, o dono do mundo. Ali, ele escolhe um bairro; no bairro, uma rua; na rua, um imóvel, e neste escolhe um quarto, um recanto para comer, outro para ler, outro ainda para o lazer. Lentamente se constroem as suas circunstâncias. O mercado, a farmácia, amigos e bares para encontros. Os afetos e desafetos, as preocupações, os interesses, dívidas

50 anOs de brasília

e dúvidas, débitos e créditos. Muitas vezes, surge a mulher da sua vida, e filhos, e netos e uma cova para sepultura. O verdadeiro espaço do leão. Onde ele canta o hino da geografia adquirida, na sua própria nênia. Este ciclo pode se completar, para mim, em qualquer uma das quatro cidades que compõem a minha Pátria. Munido desse cantochão, desse amor, do mais puro patriotismo, transformo o meu coração num imenso salão de festa. Acendo candelabros de cristais, corto um imenso bolo e faço desembocar um rio de vinho espumante para festejar os 50 anos de existência de Brasília. Morava no Rio de Janeiro, ano de 1959. Assistia ao vivo as pregações de Alziro Zarur, na Rádio Mundial, sobre a Legião da Boa Vontade. Ao meu lado, Ubiratã de Oliveira, capitão da Aeronáutica, que me convidou para ir com ele a Brasília. Como recusar uma aventura dessas? Lá ficamos quatro dias. Homens e máquinas rasgando o chão, em meio a uma poeira vermelha infernal, e surgindo prédios. Dormíamos num apartamento de uma das superquadras em construção e fazíamos as refeições no restaurante do Grupo de Trabalho da W3-Sul. Vi os primeiros vergalhões do prédio do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, de prédios dos ministérios. Voltei a Brasília, no governo Jânio Quadros. Eu havia votado no marechal Lott, adversário de Jânio, mas como este tomava medidas talvez mais avançadas do que aquilo que esperávamos do marechal, o mundo estudantil, no qual eu me incluía, sob a liderança de Aldo Arantes, na UNE, passou a defender e apoiar o seu governo. Desta vez, me hospedei no apartamento do deputado Sérgio Magalhães, eleito pelo Rio de Janeiro, que já atuava na Capital. Visitei o conterrâneo de Buíque, José Maria Albuquerque, diretor-presidente do Serviço Nacional de Assistência aos Municípios, que me ofereceu uma colo-

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cação. Recusei. Não podia sair do Rio de Janeiro. Uma estupidez. Saí à força, em 1964. Em 1986, fui transferido para Brasília, para assumir uma função importante para o Nordeste, junto ao Congresso Nacional. Função abortada pela desconfiança do chefe da representação do órgão onde eu servia, temeroso diante dos aplausos de parlamentares. Eu voltaria para o Recife, não fosse o encanto por Brasília e uma promessa de trabalhar na Assessoria de Comunicação do Senado. Deixei-me ficar. O ministro então Chefe da Casa Civil Marco Maciel promoveu o lançamento do meu mais novo livro, com grande repercussão na mídia. Cresceram as circunstâncias, em cujo bojo estavam a Associação Nacional dos Escritores, o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e a Academia de Letras do Brasil. Amigos do quilate literário de José Santiago Naud, Anderson Braga Horta, José Geraldo Pires de Mello, Branca Bakaj, Alan Viggiano, Affonso Heliodoro dos Santos, Danilo Gomes, Fernando Mendes Viana, Ronaldo Cagiano, Jason Tércio, Joanyr de Oliveira, Napoleão Valadares, Afonso Ligório Pires de Carvalho, Maurício Melo Jr., Maria do Carmo Pereira Coelho, Ivan, da Livraria Presença e Victor Alegria, o editor do meu primeiro trabalho, pela Coordenada Editora de Brasília, em 1968. Ao lado do então reitor da UnB Cristovam Buarque, dos senadores Marco Maciel e esposa, Anna Maria, e Ney Maranhão, de vários deputados, do coronel Luiz Carlos Prati Molina, dos jornalistas Magno Martins e Dioclécio Luz, reativamos a Casa de Pernambuco, que chegou a congregar mais de 300 pessoas e promover lançamentos de livros, exposições de artes plásticas e outros eventos. E quando menos esperei, Brasília não era a minha cidade, eu é que era um ponto, uma sarda na sua pele, mas queira ou não queira, Brasília faz parte da minha geogra-

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fia, das minhas preocupações, do meu amor vital. Com uma lista enorme de amigos e camaradas, que não posso nomeá-los aqui, como gostaria. O que mais me impressionou em Brasília, com a sua divisão em quadras, foi o fato de, ao sairmos de uma quadra para a outra, termos a sensação de entrar em uma autoestrada, como quem viaja para outra cidade; daí a tese de que em Brasília não há esquinas. Sério mesmo é o concurso das amizades. Ao chegarmos à cidade, fazemos centenas de relacionamentos. Criamos um painel nacional de conhecimentos, em que se incluem, com polifonia de sotaques, sulistas, centro-sulistas, planaltinos, nordestinos, nortistas. Com alguns até se solidificam boas camaradagens. De um momento para o outro, muda o governo, o Congresso se renova, saem ministros, e ao procuramos o amigo, não mais o encontramos. Sumiu, encantou-se. Ninguém pertence a essa ou àquela “tradicional família”. Existe o indivíduo. O que prevalece é o cargo ocupado, ou a função exercida. Amizade, em Brasília, é areia movediça, da qual fazemos parte, sem outra opção. Embora haja afetos verdadeiros. Como toda regra tem exceção, eu me vanglorio da quebra de regras das amizades voláteis do Planalto. Ganhei uma sólida e coletiva com os Salustiano Botelho: a urbanista escritora Lídia Adjuto, o romancista Tristão Salustiano Botelho, e os seus três descendentes, a quem afetivamente vi nascer: a jornalista Júlia, o artista plástico Augusto e a escritora Sofia. Esta virou a minha família em Brasília, ou o meu povo, como eu costumo dizer. Uma única dúvida: se ela é minha nora, ou ele é o meu genro. No início a direção era Paracatu/MG. Passeio, férias, fim de semana... em Paracatu. Até que dei o grito de liberdade, agora é “tu para cá!” A rota mudou para o Recife, ou o Nordeste, Natal, Maceió.

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Cyl gallindO

Resumindo, confesso: minha pátria, hoje, resume-se a quatro cidades: Buíque, onde nasci e vivi a infância; o Recife e o Rio de Janeiro, onde vivi as etapas mais vigorosas da juventude e maturidade; e Brasília, onde, aposentandome, inaugurei a velhice, e descobri o que é um novo horizonte, o futuro, senão meu, mas do Brasil, como Nação.
Recife, Boa Viagem, 21 de abril de 2010

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Caco de vidro
Esther Sterenberg

Era um ambiente sóbrio e de requinte, destacando-se até dos demais cômodos daquela vasta e ostensiva mansão. O austero mobiliário de estilo colonial dava-lhe uma aparência de salão de museu. Compondo estrategicamente o ambiente, avistavamse, em um recanto isolado, dois grandes vasos de fina porcelana e, se alguém, naquele momento, deles se aproximasse, certamente escutaria o seguinte diálogo: – Já notastes, companheiro, que as pessoas quando entram nesta sala, pela primeira vez, sentem de imediato que estamos presentes e, admirando-se da imponente beleza, não nos poupam elogios ao mesmo tempo que se detêm calculando o nosso valor material? – Sim, é verdade. Somos realmente duas peças raras, daquelas que os colecionadores de Antiguidade cobiçam e não regateiam esforços na ânsia de possuí-las. – Porém, tu reconheces a minha supremacia, não é? – Acho que não estou entendendo bem a superioridade a que te referes, pois te vejo como se fosses o meu irmão gêmeo e, se somos iguais em tudo, por que vales mais que eu? – Ora, santa ingenuidade! Então, não sentes a rachadura que existe em teu pedestal? Ontem mesmo, quando aquele casal de nobres, primos da dona da casa, tomava o chá das cinco refestelados naquelas poltronas, escutei os comentários enquanto te miravam compadecidos: “Oh, que pena! Será que algum vento encanado trincou este suntuoso vaso?”

esther sterenberg

– Sinceramente, não havia me apercebido desta falha que agora me apontas, porém isso não me incomoda nem me deprecia, pois sou feliz tal qual me vejo, e não será uma simples fissura superficial que fará com que eu me sinta diminuído diante da comiseração de alguns. – Prefiro continuar envaidecendo-me com o olhar significativo dos que sabem apreciar a perfeição das minhas formas e a sutileza dos meus matizes. – Não sejas presunçoso. Em teu lugar, eu teria bem mais cautela e evitaria o aspirador de pó e as mãos desavisadas da mucama em sua rotineira limpeza deste local, pois receio que, em qualquer momento inesperado, possas desmoronar e te transformares em um monte de cacos de vidro que para nada serviriam a não ser que alguém, bastante depressivo, de algum deles se utilizasse para cortar os seus próprios pulsos, na tentativa de pôr termo à vida. – Meu Deus, quanta maldade! Não seria mais reconfortante pensar que os meus reluzentes pedaços poderiam ser aproveitados na confecção de um talentoso caleidoscópio, cujos mosaicos encantariam o expressivo olhar dos curiosos? Pensamentos mesquinhos atestam a mediocridade das pessoas e eu não me sinto bem descobrindo em ti esses atributos. Nesse exato momento, entram na sala os donos da casa e o casal visitante da véspera, convidado a escolher de presente um dos vasos de porcelana de sua preferência Agachando-se, o anfitrião ergueu o vaso perfeito, tomou-o carinhosamente nos braços e ao dirigir-se para entregá-lo aos seus novos donos, tropeçou no espesso carpete que adornava o piso e eis que a peça, escorregadia, cai ao solo e despedaça-se ruidosamente. Clima de consternação geral. Como pôde acontecer tamanho despropósito? Olhando para o vaso trincado, que compactuava da frustração daquele instante, podiam-se

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CaCO de vidrO

imaginar vertiginosas lágrimas escorrendo lateralmente e acumulando-se ao seu redor. Era a certeza de que tanto os que se admitem perfeitos quanto aqueles que assumem a sua condição de fragilidade deveriam conviver fraternalmente, pois a vida é igual para todos e nada intercepta os passos do destino na elaboração dos seus planos.

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Um certo padre Gomes
Everardo Norões

Dez horas da manhã. Na sala de aula, duas altas janelas cortam o claro dos céus em pedaços. O professor profere a chamada. O verbo é ‘proferir’; ele nunca chama: ordena. Ele é padre, mas nada tem a ver com seus pares. Basta ver o corte da batina, a faixa à cintura que mais parece um obi de samurai. Postura de quem está sempre à espreita, aguarda o ataque. Pronuncia os nomes, não os repete; olha a cara de [cada um, baixa a vista para o livro de anotações, escreve. O que contam esses registros? Depois, se não aprova o nominado, ele o dispensa antes do início da classe. (Comenta-se que presa à faixa não há uma katana, o sabre japonês, mas um Smith&Wesson. 38 duplo. Única concessão que faz ao império do Tio Sam.) Assim fala a fotografia: cinzento é o ginásio na sua arquitetura cansativamente [simétrica, corredores de piso de mosaico, campainha para retinir [recreios, sanitários malcheirosos a lançarem seus eflúvios sobre o amplo pátio.

um CertO padre gOmes

O pátio: um quadrado de terra vermelha, onde nenhuma grama cresce, como no chão de Átila. Às 5h30 da manhã, e durante uma hora a fio, os alunos, na aula de educação física, aqui são tratados como cabos de guerra pelo sargento do Tiro. A cor da argila designa o bairro do Barro Vermelho, lugar onde foi fuzilado Pinto Madeira, pertinho daqui. Ainda se busca a mancha de sangue, o buraco da bala, o sopro da última palavra. Inútil: tudo aqui foi destruído: a rua de azulejos portugueses, a calçada dos morféticos, o piano que ressoava na rua as lembranças de Branca Bilhar. (A cidade conspurca com crueldade seus espectros.) Ao lado do retângulo vermelho, a dita sala, igual a vinte [outras, com seus trinta alunos sentados em carteiras de [madeira de lei. Numa delas, as duas iniciais de um nome; em outra, um signo-salomão, uma meia-lua ou um [ferro de gado. Nada de sugestões pornográficas ou insinuações [subversivas. Ninguém se iluda: neste reduto da diocese não apenas se aprendem as matérias do currículo: aqui também se é iniciado no exercício da delação. A aula começa.

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everardO nOrões

O professor comenta a diferença entre os homens do [interior e os que ficaram pelos litorais, a arranharem a terra como caranguejos, dixit Frei Vicente do Salvador, ou Vicente Rodrigues [Palha, nome laico do jesuíta baiano que descreveu a vida na [Colônia. A linha de pensamento do mestre se insinua pelos meandros do rio São Francisco. É regida pelas observações do mais brilhante [historiador de seu tempo, Capistrano de Abreu, ateu e, para seu [desgosto, pai de uma freira que se refugiou no claustro e fez voto de silêncio. O curso do pensamento do professor acompanha o do Grande Rio, desemboca no Riacho da Brígida. Busca um Ulisses, entre preadores de índios da Missão do Miranda, [ex-Itaytera. Um Ulisses capaz de conservar engastado o rochedo sob os pés da Virgem da Penha, para impedir que a Serpente não o rompa e sejamos arrastados pela Grande Água. Na brecha dos mitos, ele, o padre, professor, [pesquisador, vasculha nomes carreados de Sergipe, Pernambuco, [Bahia, catapultados pela Casa da Torre, perdidos nos brejos, ribanceiras, serranias. Onde estará nossa Ítaca? (Como discernir na partitura do tempo o que se [tornou usura da história?
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um CertO padre gOmes

Todo texto é ficção, dizem. Nenhuma sessão da memória se repete com a [fidelidade do cinema. Apenas o cenário pode permanecer imutável. Remontagens arqueológicas sedimentam nossos [delírios e as ruínas refeitas guardam detritos que suscitam [apontamentos bizarros, registros em cadernos esquecidos. Pois a história, escreve José Honório Rodrigues, “não [é só fato: é também emoção, o sentimento, o pensamento dos [que viveram – a parte mais difícil dos negócios humanos”.) Voltemos ao Padre, seu outro lado, seu silêncio martirizado no quarto de estudos, onde dormir é privilégio. Aí doma seus fantasmas, suas letras. Não tem com quem conversar, aprofundar argumentos, buscar o verme que contamina o miolo de seu fruto, o fruto vermelho da História. Busca nos alfarrábios, cruza garatujas de batistérios. E sempre Nascimento e Morte de permeio, desmontados em árvores desenhadas em páginas [coladas, para chegar ao mais idiota descendente de um coronel qualquer da Guarda Nacional. O Álbvm do Seminário do Crato, de 1925 – álbvm com ‘v’, para imitar o latim da Santa Igreja –, registra o aluno na página 202; o clérigo, na 207. A fotografia da página 189, carcomida pela traça, [revela:

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batina, barrete, mas sem a capa romana que o [acompanharia durante tantos anos, tremulante e [negra sob o sol dos Cariris. Pois assim reza o artigo 12 do capítulo III do Regulamento do Seminário Maior: “Uma modéstia sem afetação e um porte digno resaltem do seu todo, mormente nos actos religiosos e quando estiverem recebendo instrucção” (sic). É necessário lupa para recompor feições e formas. Segundo da segunda fila, da direita para a esquerda. A cabeça encoberta inclinada à direita; deixa-se ver o relógio de algibeira, quem sabe um Patek Philippe. O rosto é magro; o nariz, aquilino, mouro; as orelhas não se deixam passar despercebidas. Não mira a objetiva do fotógrafo. É uma visão para o largo, um ar que o distingue da bonomia do grupo. Tem um ar triste, inquieto. Escreverá mais tarde: “A zona é percorrida por rios secos e serranias de [altura medíocre, de platôs e faldas férteis, abrindo-se em depressões vulgarmente conhecidas por boqueirões. Florestas e serras de altura de mil metros, mais ou [menos, e as margens de rios, águas em lagoas, olhos d’água e [cacimbas, barreiros salgados, forragens substanciosas, campos mimosos e agrestes ao lado de catingas, carrascais e ilhas de cacto, eis outra face da fisionomia natural da terra, tudo conforme acentuou Capistrano de Abreu”.
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Sempre Capistrano, o grande Mestre. E, já assimilada, a leitura de Euclides. Um homem sozinho atravessa a cidade: batina negra, capa romana, faixa à cintura. Segue o trajeto que vai da igreja da Sé ao Ginásio. Quantas vezes terá feito esse percurso? Saúda Tandô, sentado no meio-fio da praça. “Em que pensa esse padre, com jeito de homem”, se pergunta o anão? Aqui tudo é vigiado. A cada janela há um olho à espreita. O padre caminha sem prestar atenção a quem passa, nem atentar para quem se furta por detrás das [gelosias. Anda rápido para dar tempo à chamada do refeitório e, logo depois, recomeçar reflexões e leituras. Abrirá a porta de vidro da estante de cedro com a chave escondida dentro do sapato, enrolada na [meia. Lembrança do regulamento, de quando era regente: “Só poderão fazer leituras extra-programma mediante prévia autorização do Padre Prefeito” (sic). (As duas maiúsculas encerram o assunto.) Equivoca-se quem pensa que sua busca tem como [finalidade cruzar ramos de famílias, desvendar mancebias, revestir de letras de nobreza alguns filhos da terra. Sua história tem dupla leitura: de um lado, parece agradar a quem procura na veia mínima gota de sangue caramuru. Mas a outra vertente é a que mais lhe importa:
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seguir os rastros do autor de Caminhos do povoamento, contrapor aos heróis oficiais de guerras subalternas a saga dos anônimos. Ou seja: catar os detritos da história, cônscio de que o passado nunca fica para trás: continua a vicejar entre os vivos, como as bactérias nos corpos em putrefação. Em 9 de janeiro de 1941, Padre Gomes, nos Cariris, longe de tudo, ensina, pesquisa, escreve, elabora e medita, sozinho. Nesse mesmo dia, sob a França ocupada e 5 dias após a morte de Henri Bergson, Paul Valéry pronuncia na Academia Francesa o belíssimo elogio fúnebre ao filósofo, de uma simplicidade que surpreende quem está [familiarizado com a escrita carregada de erudição e de refinamento [do poeta. Diz da alta figura de homem pensante que foi Bergson, talvez um dos últimos, segundo Valéry, que teriam [exclusivamente e profundamente pensado, num mundo em que se pensa cada vez menos: “enquanto a miséria, as angústias, as limitações de [toda espécie deprimem ou desencorajam os empreendimentos do [espírito”. Observações sobre um homem pensante: aplicam-se perfeitamente ao padre de Brejo Santo. Passa o Padre Gomes e Tandô, o anão, se pergunta: “Em que diabo está pensando esse homem?”
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um CertO padre gOmes

Somente hoje é possível compreender o porquê daqueles passos apressados, daquela inquietação permanente, de sua genialidade e equívocos. A fotografia: não é mais necessário lupa para recompor as feições. Não mira a objetiva do fotógrafo. É uma visão para o largo, um ar que o distingue do resto. Tem um ar triste, inquieto. Pensa num mundo mais largo, sem cadeias, distante do jugo das genealogias, longe de um sol que é o mesmo sol de todos os dias, segundo Machado de Assis, onde nada existe que seja novo, onde tudo cansa, tudo exaure...

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Um cheiro, por favor
Fátima Quintas

Há quanto tempo não recebo um cheiro? Aquele afago pleno de mimos, com caprichos de sutileza, macio, doce, especial. Ah! que saudade do gesto brando e agradável! Uma prática requintada que se traduzia num apelo de leveza. Sim, nada mais singelo que um cheiro. Na minha juventude cheiros pululavam a toda hora, em qualquer lugar, nos encontros informais, nas festas de colégio, nas quermesses... Sem que desse por isso, os anos se passaram, as relações se tornaram mecanizadas, a humanidade acanhou-se diante do jeito de sentir, os meneios solidários desapareceram, mas a terra continua girando em torno do sol – Galileu morreu repetindo: mas ela gira, sim. E os sentimentos trocaram de expressões, embora na essência sejam os mesmos: o riso, o choro, a alegria, a tristeza; todos somos iguais na ciranda da vida. Fico a pensar: por que esquecemos o cheiro? Onde anda o romantismo? O aprendizado existencial me chama a atenção para os antigos costumes, fora de moda, anacrônicos, escondidos em baús fechados a sete chaves, talvez infestados de bolor. Não desisto de perguntar: o que fizeram dos meus encantos? Perdi o bonde e a esperança./ Volto pálido para casa. Parece que Drummond nos socorre quando o cotidiano precisa de poesia. Assim, em momentos difíceis, lembro-me de José; quando os amores não são correspondidos, logo, logo, recorro à Quadrilha; se enfrento um obstáculo, a imagem mais clarividente que encontro é a pedra no meio do caminho; diante das vulne-

um CheirO, pOr favOr

rabilidades, coração machucado, arremato: Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo; se existe um descompasso em meus devaneios, apego-me à rima, mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução. Como sobreviver sem os versos do poeta? Trago-os na mais recôndita porção da alma e de novo apego-me às suas transfigurações: E depois das memórias vem o tempo/ trazer novo sofrimento de memórias,/ até que, fatigado, te recuses/ e não saiba se a vida é ou foi. A memória persevera. Atiça a consciência. Reclama espaços num mundo prenhe de renovações. A vida é o que foi. O presente se faz breve, brevíssimo, enquanto o passado corresponde ao tempo consistente, sólido, verdadeiro. Bem sei que os dias fluíram... era ontem quando repetia ao despedir-me: um cheiro para você. Haverá coisa melhor que um cheiro? Ato gracioso, carícia das mais instigantes, oferecida sem abruptos rompantes, devagar, nenhuma pressa, como se as emoções se tocassem levemente; sopro epidérmico, movimento gentil e toda a carga de uma ternura sem fim. Adeuses se traduziam em nuances de acalanto à sombra de manifestações infantis ou adultas. Um cheiro pelo telefone; um cheiro ao avistar o amigo; um cheiro de amor. De repente, tomo um susto, um grande susto, sintome traída na minha história: os dias atuais ofuscaram a dimensão lúdica da rotina. Não há tempo para as belas tradições. Ecoam apenas ressonâncias de um pretérito não tão distante assim. Todos correm em direção ao nada, os carros buzinam, o frenesi se instala, ninguém conversa na esquina, as mãos se agitam em desordem, vou e volto, não faço coisa alguma, angustio-me para chegar pontualmente em compromissos marcados, a agenda está repleta... Nem sei o que se passa em mim, os sonhos esmoreceram em uma certa encruzilhada, e então... e então... e então!

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fátima Quintas

Estou cansada, o corpo pede um mínimo de sossego. Acordo, olho o relógio, atropelam-me os atrasos. Desperdiço horas, meses, anos... ando a patinar em gelo, escorrego na estrada da vida, levo um tropeço; não importa, ninguém viu. Há tanta gente nas ruas, nos mercados, nas lojas!... E tudo isso para quê? A verdade é que o cheiro sumiu ou, pelo menos, perdeu a força majestática. Outro dia me surpreendi ofertando um cheiro. Foi quando me deparei com o espanto de um impulso inopinado. Serei alguma ré de gestos à antiga? Acho que sim. Confesso: não me preocupa esta indisposição com o mundo excessivamente ocupado. Carrego uma saudade embutida no peito, um grito de pasmo, às vezes, até mesmo uma frustração por não ter defendido com mais afinco os valores que me faziam feliz e que lamentavelmente feneceram. Por que não recuperar um dedo de prosa na hora crepuscular, um ingênuo flerte à entrada do cinema, um pouco de pó de arroz para embelezar a face, os frequentes “assustados” em casas de amigo, o guaraná Fratelli Vita e as suas gasosas de maçã e pera que tanto aplacavam a sede, o Corta-Jaca, lá em frente à casa do Navio, na Av. Boa Viagem, os maiôs Catalina, pretos, elegantes, que vestiam as candidatas do concurso Miss Brasil? Que a modernidade se vanglorie de excelsos pragmatismos, que a tecnologia se desenvolva para atender necessidades crescentes, que a população se iluda nos corredores dos shoppings, a avistar montras habilmente sedutoras, que tudo aconteça em nome da celeridade dos tempos contemporâneos, celulares, DVDs, GPS, tudo, tudo... menos desprezar o cheiro tão genuinamente delicado, inocente e bucólico. Um cheiro, por favor.

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Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...
Fernando Monteiro

Foi essa a frase (“Greta Garbo, quem diria...”) que, há vinte anos, eu murmurei para a minha mulher, numa tarde de julho de 1985. Estávamos caminhando ao longo das margens do Hudson, num daqueles passeios arborizados que acompanham as amuradas do rio nova-iorquino, quando Cristina propôs que sentássemos um pouco. Vimos um sólido banco de ferro, repintado de verde, e esperávamos ficar sós nele, na quietude daquela área onde os habitantes da megalópole podem tomar o sol esquivo entre choupos e tílias. Ali – mais ou menos da 51 para cima – eram ruas menos permeadas de turistas, naquela época, e, suponho, não parecíamos com eles, sem sacolas de compras e sentados não para os lanches improvisados dos cucarachas. Não me passou pela cabeça, então, a proximidade de um dos endereços mais gritantes de silêncio do cinema: o de Greta Lovisa Gustafsson, número 450 da rua 52 de passantes indiferentes uns aos outros, nos domingos e nos outros dias da semana (se você não for um daqueles vagabundos profissionais, olhando para o nada como se olhassem para as portas do fundo de alguma antiga vida). Foi então que veio sentar-se, no mesmo banco, uma senhora também cansada. “É ela. Eu juro. É ela, sim!” – foi o meu murmúrio seguinte, para a incrédula Cristina. “Quem?” “Greta. Greta Garbo.”

fernandO mOnteirO

Eu não podia me enganar com aquele formato do rosto e com a boca, embora o nariz... Não, não era nada que se pudesse apontar: seria, antes, a reminiscência de uma aura magnética, o resto do halo da “Divina”, naquela face devastada. Sei lá por que, mas algo da sua personalidade misteriosa estava ainda presente, e não deixava dúvidas sobre você estar diante da Estrela Absoluta dos Céus Frios da Perdida Idade de Ouro do Cinema, persistente nas retinas. Por falar em retinas, seus olhos – a prova definitiva – estavam infelizmente velados pelos óculos escuros, de modelo antiquado. Apoiava-se numa bengala preta, e se aproximara com a leve hesitação de uma senhora bemeducada, para se sentar justo no nosso banco lustroso da tinta nova onde o ferro estivera, quem sabe, tão descascado quanto ela própria, Greta Garbo. “Greta Garbo?” Minha mulher não acreditava. Mas era. Era a Garbo, aquela anciã em quem ninguém estava prestando atenção, exceto nós – com o cuidado extremo dos disfarces inúteis para olhos talvez implacáveis, atrás daquelas lentes grossas. O canto esquerdo de seus lábios, num ricto, passou a fugidia impressão da pessoa que fica nervosa, ao se saber reconhecida. “Não olhe assim!”. Cristina tinha razão. Eu estava a examinar muito diretamente a estranha que ela tentava proteger da minha curiosidade. De pouco adiantava, entretanto: qualquer um ficaria vidrado na figura de cabelos escorridos, sem estilo (aparados pela própria?) e sem o brilho que, um dia, havia ostentado na noite artificial dos estúdios. Estava vestida com o desleixo de quem saíra apenas para esticar as pernas e caminhar ao longo das amuradas, calçada com uns tênis meio sujos nos pés talvez grandes demais para uma mulher.

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greta garbO, Quem diria, aCabOu de se sentar...

Minha atenção era, portanto, fascinada e irreprimível. Ou mal-educada, numa palavra que são duas (você deixa de saber contar, diante do fantasma de uma Diva). E daí? Você só vai estar sentado junto de Greta Garbo uma vez – se é que vai estar, alguma vez na vida. Ficamos ali, portanto, trocando olhares oprimidos pela certeza de saber quem era aquela senhora pálida e descolorida como o casaco machucado que ela usava sobre o corpo antigamente escultural, com mais um lenço desbotado na cabeça... Quando o tirou (para receber o sol atenuado), eu tive, então, a mais plena certeza: era, de fato, a atriz retirada do cinema há 44 anos, puxando do bolso um saco de milho para dar aos pombos privilegiados, alguns dos quais acostumados, acercando-se para se alimentar das mãos de dedos nodosos – como pequenos galhos castigados – de um dos seres humanos mais belos e mais enigmáticos já nascidos sobre a superfície do planeta quase tão exausto quanto a solitária senhora de Nova Iorque, quem diria, Greta Garbo, 80 anos, acabou de se sentar... I want to be alone... Muitos garantiram que ela nunca disse isso, “eu quero ficar só”. Sua frase (a um jornalista) teria sido: I want to be let alone – “eu quero que me deixem sozinha”. Ou seja, em paz (ela que tinha horror de entrevistas e mexericos). Eu sabia do reparo feito à frase tão famosa, e podia estar olhando, sendo indiscreto, até incômodo etc., porém jamais iria romper com as derradeiras regras da educação e apresentar-me como cinéfilo e perguntar a Greta Garbo: “Por que razão a senhora abandonou o cinema no auge da fama?” Claro que era humanamente impossível indagar isso, sem mais nem menos, à gentil alimentadora de pombos

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tristes entre seus pés (ela sorrindo a sombra daquele sorriso iluminado pelos mais aclamados mestres da fotografia). Tudo que eu fazia era olhá-la, sem tentar virar o rosto ou disfarçar – como se olha para o busto da rainha Nefertiti, no museu egípcio de Berlim. Só que ali, próximo das águas do Hudson, estava uma contrafação da beleza imóvel da genial escultura da 18ª dinastia: um rosto vivo, e não de pedra calcária, cujas linhas devastadas pouco correspondiam àquelas imortalizadas em 24 quadros por segundo nas telas e no rio do tempo que faz escorrerem os minutos, as horas, os meses, os anos e as décadas sepultando tudo sobre a pedra-pomes de Pompeia, há séculos soterrada. Greta Garbo – então, você existe? E nasceu de mulher, como se diz na Bíblia, no dia 18 de setembro de 1905? Cresceu num bairro pobre, a terceira filha de um gari de Estocolmo? Perguntas possíveis. As respostas – bem, as respostas poderiam variar um pouco, de acordo com o humor da jovem sueca, cujo primeiro emprego havia sido a mais que subalterna função de ensaboar os rostos dos clientes de uma barbearia. Você ainda se lembra do seu primeiro filme longo? Eu sei qual foi (caso você já tenha esquecido): Pedro, o vagabundo, uma comédia dirigida por Erick Petschler, em 1922. Com o pouco dinheiro que ganhou nesse filme ridículo, Senhora dos Pombos da Paz Impossível, você foi estudar na Real Academia de Arte Dramática, onde seu belo rosto anguloso logo chamou a atenção de Mauritz Stiller (1883-1928), cineasta nascido na Finlândia, e não na Suécia, como muitos imaginam. Foi Stiller quem a dirigiu num filme baseado num livro de Selma Lagërlof – A saga de Gösta Berling – que chamou a atenção para a novata. Mauritz queria chamá-la “Mona Garbor”, nos letreiros onde você mesma escolheu chamarse Greta Garbo (e não Garbor).
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O sucesso de Gösta Berling a levou para as mãos do diretor alemão G. W. Pabst. Com ele, você fez o seu segundo filme – Rua das lágrimas (1925) – porém, Stiller a recuperou para si, quando recebeu, naquele ano, convite de Louis B. Mayer para trabalhar em Hollywood. Você se lembra? O seu descobridor impôs, ao produtor, uma única condição para viajar rumo à loucura da América: contratar também a “querida Greta”, com salário de 300 dólares por semana. Quantas “verdinhas” mais você terá ganho, minha linda sovina, para aparecer em mais 24 filmes, na maioria grandes sucessos de bilheteria? O mordomo Gustav, serviçal na sua mansão de Beverly Hills, mais tarde iria revelar: “Eu nunca vi Miss Garbo comprar um vaso para a casa; ela me dava 100 dólares mensais para a comida e isso era tudo; se eu comprasse algo a mais, ela reclamava como uma caixeirinha”. É verdade, senhora? E é verdade, também, que você nunca amou ninguém? Nem o astro de A carne e o diabo, aquele rapaz de bigodinho chamado John Pringle? Ídolo da tela com o nome de John Gilbert, ele chegou a comprar um palácio em Los Angeles e um iate de 200 mil dólares, para recebê-la na terra e no mar. Deu em água: você desapareceu, em 1927, depois que ambos atuaram em Love, a primeira versão de Ana Karenina. Gilbert ficou esperando durante anos, até se afogar em uísque, depois de filmar Ana, de novo, consigo, oh Senhora Sempre Sozinha. Você não amou nem sequer aquela amiga íntima, Mercedes de Acosta, roteirista e aristocrata de luminosa inteligência? (Você admirava as mentes brilhantes.) E, confesse, gostava mais das mulheres do que dos homens. E mais dos jogos de espírito do que dos prazeres do corpo? O que sentiu, no fundo, por “Stoky”? (Se ninguém adivinha, esse foi o apelido que ela pôs no maestro Leopold Stokowski, seu amante vinte e três anos mais velho.)
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E o fotógrafo inglês Cecil Beaton – que todos chamam de o seu “último amor” – poderia lhe dar prazer? Ele que, sim, preferia os rapazes, mas viria a abrir exceção, em 1932, para amar uma única mulher em toda a sua longa carreira de paixões masculinas? Vocês dois nunca foram (todo mundo sabe) “apenas bons amigos”, por favor. A senhora passou o final da guerra com Beaton, e, já envelhecida, fez cruzeiros seletíssimos com ele, nos mais luxuosos transatlânticos gregos. Até que acabou (você acabou). Senhora Dureza, quantas vezes luziu o diamante do seu coração gelado do norte europeu? Cecil, o artista delicado, fotografou-a como ninguém. Dizem que você possui todas essas fotos fechadas num arquivo. E também dizem que Beaton, para os melhores amigos, reconhecia ser você “uma excêntrica e uma chata” que ele amara sem restrições, até sofrer um derrame em 1974, quando ficou semiparalítico e com a fala travada, na Inglaterra. Um dia, anunciaram-lhe a visita de Miss Greta. Ele autorizou, e ela subiu as escadas de mármore, entrou no quarto do doente, para uma conversa por sinais e palavras truncadas do homem de robe de chambre na cama estilo Tudor. Depois, a atriz de Ana Karenina assinou o livro de visitas (que o educadíssimo Beaton disponibilizara no saguão repleto de obras de arte). E nunca mais se viram. Para se livrar de algumas dívidas, a sua amiga Acosta escreveu um livro de memórias que consta ter irritado a senhora profundamente, no seu retiro do apartamento da rua 52 aqui perto – isso procede? Você não desejava que fossem divulgadas coisas como a pequena Greta se ver como um “homenzinho”, desde a infância, quando se referia a si mesma na terceira pessoa, como “ele”... Enfim, minha cara senhora, quem é ou, melhor, quem foi você, mito vivo e incomodado com meus olhares insistentes?
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Mas ela já não estava ali. Com dificuldade que não pedia por qualquer ajuda, Greta Garbo havia se levantado do banco de ferro e partido, com seu caminhar inseguro, firmando a bengala para prosseguir rumo à solidão escolhida. Cinco anos depois, iria falecer num hospital de Nova Iorque, no dia 15 de abril de 1990, mais só do que jamais havia sido.

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Mambo-Jambo deve morrer
Fernando Portela

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa? Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de espanto, os olhos arregalados? Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator, na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Convidei-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo perseguido. “Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?” “Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho que, na confusão, bateram a minha carteira.” “Que coisa”, pensei. “Este moleque tem pouco mais de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama! O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei”. Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com comunicação de massa. Na minha novela, uma verdadeira bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora, inventei um personagem meio doido, meio hippie , chamado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos topando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de cubano que justificava tudo. Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do morro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com

mambO-JambO deve mOrrer

dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar metade do tempo inventando situações para o casal, tal a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, joguei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro que, naturalmente, era o maior filho da puta. Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam) passou a ser imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo o país e os militares que detinham o poder mandaram chamar o dono da emissora. “Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono, português esperto, mas ignorante, que se transformara no maior empresário de comunicação do continente. “Mas senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.” “Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o testemunho de quem assistira à reunião, “não é para matar o ator, e sim o personagem.” “Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o português. Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-vendedor de carros, mas, sobretudo, ex-alcoólatra, que vende o seu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou para mim logo que voltou da reunião que ocorrera na capital. E foi taxativo: “Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou eu estou fodido!” Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a morte de um fenômeno de popularidade do dia para a noite. Mas seu Feitosa estava histérico: “Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o personagem, eu mando matar o ator. Não quero problema com os milicos.”
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fernandO pOrtela

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar a morte dele.” “Então tá bom. Uma semana.” “Quinze dias.” “Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gritos o português mais poderoso do continente, encerrando a conversa. Aí chamei Júnior ao meu apartamento e contei tudo a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de verdade. O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela época, coitado, parecia incompetente porque não havia estudado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se com uma certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo tinha muito dele. Não se é popular à toa. “Bem. Você está-me dizendo que Mam-Jam está morto. Que posso fazer? É você que escreve a novela.” “Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mambo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, dessa forma estúpida.” “Não entendi.” “Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do personagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações sobre o perigo que está correndo.” Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada, olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava MamboJambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, trigueira e sofrida. Fiquei perplexo. “O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e os cacoetes do personagem.
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mambO-JambO deve mOrrer

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jambo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente. Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças, fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um lado para outro. “Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.” “Como é que é?” “Vamos não só invadir fazendas como viajar até a capital e exigir que os militares organizem eleições democráticas!” “Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui, durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de araque?” “Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo, “nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acreditar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparentemente não existem, como eu, Mam-Jam.” “Como, aparentemente?” “Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão forte que você, meu criador, veio me perguntar se deve me matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza de que a receberei. Você não imagina o que acabou de acontecer aí embaixo, no calçadão.” Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!” Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o personagem para iniciar uma reação popular contra a tirania. Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares invadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impopularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam? Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moderna democracia começou aí.
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Saudade iluminada
Flávio Chaves

Entre discursos e lágrimas de governadores, ministros, artistas, intelectuais, familiares e amigos, no momento da descida do corpo de Odilon Ribeiro Coutinho ao túnel do descanso, a grande emoção coube à gente anônima e humilde, o seu povo paraibano, a plebe que não ignora os legítimos valores, cujas lágrimas em seu mudo e desesperado discurso são movidas pela força generosa da admiração e do respeito. Esse registro antecipa o depoimento comovido que faço, no púlpito do povo que é a imprensa, afirmando que o mundo não ficou menor com a ida definitiva do amigo, mas cresceu, ficou mais amplo e fecundo, aperfeiçoado pela sua presença plural e singular. O poeta Miguel Torga registrou que, mal acabara de ler a notícia do óbito de Fernando Pessoa, foi “chorar com os pinheiros e as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade, mas não atinava para o que acontecia”. No caso de Odilon Ribeiro Coutinho, todos choram o irmão, o amigo, o líder e todos testemunham sua passagem para a eternidade com sentimento e admiração. Naquele momento, tão vivo porque tão trágico, o choro desatou incontido e vigoroso, a magia poética reza que lágrimas derramadas por um irmão tornam-se estrelas; assim, quando chorei, ao lado do nosso irmão comum, Edson Nery, despedindo-me do amigo tão fraterno e íntimo, senti que do meu rosto se elevavam constelações e que

saudade iluminada

todos os sinos, os do mundo e os do sangue, os do espírito e do século, os que no bronze cintilam a alma do eco, os dos mosteiros perdidos e das abadias do tempo, todos os sinos, os das palavras, dos dias, dos oceanos e das metáforas, todos os sinos dobravam por ti, irmão Odilon. Fostes um poeta, Odilon, no silêncio, na vontade e na ação, um político exemplar para qualquer país e geração de políticos exemplares, um modelo de amigo, cultivador de nossa atenção, um culto e íntegro como poucos e sempre generoso com todos. Prosador admirável e, duplamente, prosador, escritor exímio e de conversação sem rival, bom de prosa, de poema, de conversa, envolvente, fino, atualizado, britânico e preciso, em suas projeções e reconstituições de fatos culturais da região e do Brasil. Bibliófilo, leitor voraz e exato, mantinha Odilon uma relação peculiar com o livro, um encontro amoroso entre o homem e as páginas de leituras, como quem descortina lençóis de mel na leitura lasciva, na iconografia cálida do desejo, como Baudelaire, Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Edson Nery, seus amigos. Mas a memória de teus feitos humanos, o sol de tua inteligência, o vasto aspecto de tua cultura, tua bondade, postos a serviço da vida, restaram comigo, em todos os meus trajetos pelas plagas de cultura pernambucana e nordestina. Para Odilon, o livro era algo anímico, vital, uma verdadeira companhia, ao lado da companheira de sempre, Solange, tão amada e tão amiga, com quem vivia e sonhava, conversava e aprendia, soletrava o amor e o desejo. Como Borges, Odilon sentia de modo quase físico a gravitação do livro, o âmbito sereno de uma ordem pura, o tempo dissecando-se, abrindo-se em flor cronológica, quase perpétua.

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fláviO Chaves

No entanto, para Odilon, os rumores da praça não ficavam para trás quando ele entrava em uma biblioteca. A praça do povo, dos meninos de rua e das mulheres solitárias era um livro de fato, o verdadeiro tratado da vida brasileira, uma enciclopédia visceral. Odilon Ribeiro Coutinho viveu mais do que, existiu, sentiu tanto quanto pensou, seu tempo foi sulcado de perpétuos campos elísios e para sempre uma grande alma de amigo, suas obras, os frutos sáfaros de sua memória, aqui na terra estarão sempre oferecidos para a plural colheita dos que o admiraram e estimaram.
Canções de vento e mar. Recife, Gráfica Pirâmide, 2006

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Um universo e uma escultura
Francisco Brennand

Sem nenhum aviso, vinda da minha própria cidade, aparece-me R., e deve ter surgido, como tantas outras, para ferir. Acredito que foi ontem que esteve aqui, ao cair da noite. Cheguei mesmo a passear com ela pelos longos corredores da Oficina. Vez ou outra a olhava como se não acreditasse no que eu estava vendo. Tem trinta anos e é mãe de três filhos. O motivo real de sua vinda não foi a natural curiosidade de conhecer o artista ou a sua obra, mas a necessidade premente de vender um quadro de sua coleção a um possível comprador. A tela em questão foi pintada por alguém por nome Naval e representa uma infame bailarina na ponta dos pés, imobilizada como um espantalho. Antes que eu esqueça, R. parece muito com a atriz franco-italiana Dominique Sanda, um pouco mais envelhecida. Como não me ocorreu mandar-lhe uma braçada de rosas vermelhas? Vestia preto; e alguns adornos discretos em vermelho, cinza e rosa disfarçavam o seu luto ritual. Parecia um Velázquez, na sua grave harmonia: toda de negro, prata e escarlate. Agora, me vem à memória mandar-lhe flores. Chamo “Mercúrio” (o mensageiro), às pressas, para que amanhã logo cedo providencie um ramalhete. Preparo febrilmente um cartão para dizerlhe algumas tolices como segue: “Afinal de contas quem é Naval? Não consegui conciliar o sono pensando nesse enigma. Veja se você descobre de quem se trata. Apesar do infame trocadilho, esperei a tarde inteira notícias de Naval e acabei vendo navios!”.

franCisCO brennand

Nadra telefonou comunicando o desaparecimento de Greta, a jovem dinamarquesa, que, segundo diz, “sumiu no sábado, correndo atrás de Ronnie Von (o cantor)”. Carla mentiu – pela primeira vez – antes que o galo cantasse. Mas acontece que ela nada me deve. E, depois, será assim tão grave essa falta? E se tivesse conseguido falar comigo, eu estaria mais apaziguado? Todas essas mulheres somadas fazem apenas uma só sombra indistinta, o que não quer dizer que esta sombra de um negror insuportável não limite o meu território de ação, como se habitasse numa pequena ilha de apenas alguns metros quadrados. Meu Deus, por que necessariamente as mulheres são sempre momentos? Será que nelas somente a gestação tem algum sentido duradouro, exigindo um tempo determinado pela natureza, período do qual até hoje elas não conseguiram se desvencilhar? Então, de fato, só conta o momento de acasalar e nada mais tem sentido? Uma segunda-feira cheia de trabalhos. Novos desenhos e montagens. R. prometeu telefonar à noite. Saberei aguardar? Insisto, talvez por hábito ou mesmo vício; talvez pela minha definitiva e comprovada incapacidade de encontrar nesta ilha de sombras uma mulher que descubra, afinal, aquilo que eu sempre pretendi que todas descobrissem, ou seja, uma irresgatável cumplicidade. Tem sido assim nestes últimos tempos. Um esforço desmesurado, quase sobre-humano de quem tenta por todos os meios, organizar a sua tragicômica desorganização sentimental. Não fosse o trabalho árduo, quase suicida, que me leva na maior parte das vezes à completa exaustão, eu não sei como resistiria. De qualquer forma, a presença delas é o alimento de todo o meu trabalho. A curva de um dorso, a projeção do ventre, a grande ossatura ilíaca, fazendo adivinhar a caverna do sonho que divide

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um universO e uma esCultura

a mulher em três partes: cabeça, tronco e, abaixo do umbigo, um universo. Permanentemente, obsessivamente, toda esta carnificina é observada, anotada, esquartejada e dissecada. Agora mesmo, por cima do seu vestido, estou apalpando o arco das costelas de R. Ela se esquiva sem entender. “São os seus preciosos ossos, tão enigmáticos quanto os seus músculos e a sua pele”, eu digo. “E ainda resta o seu sangue, querida, as suas vísceras, os seus pés fendidos oito vezes, o que é um sinal de fraqueza”. Atônita, ela recua como se tivesse tratando com um louco. Seguro os seus pulsos com uma certa violência e isso a amedronta e imobiliza. Baixou os olhos como sinal de submissão. Toda a magia do momento havia desaparecido... E ela estava livre. Ocorreu-me uma frase sobre uma mulher desagradável: “um réptil de lupanar”. Aliás essa é uma definição de Lugones sobre o tango. Ele disse: uma música vulgar, um réptil de lupanar... Lugones foi citado numa entrevista do Le Monde, pelo escritor Jorge Luis Borges. Hoje, pela manhã, a escultura, cujo título é Lara, já havia saído do forno, no entanto deverá ser retrabalhada. Se por momentos tentei recuar deste arriscado propósito, logo em seguida repintei-a toda e está de novo a caminho das fornalhas. Que Júpiter – o algoz de Lara – me proteja com os seus bons ofícios de um deus todo-poderoso. A pobre Lara, por falar demais, teve a língua cortada por ordem de Júpiter. Depois, o infame Mercúrio carregou-a para o inferno onde passou a ser a ninfa das águas do reino dos mortos. A caminho do inferno, Mercúrio achando pouco, violou-a. Na última queima da escultura de Lara, um pingo de esmalte caído da abóbada do forno sobre o rosto da desgraçada ninfa formou uma inesperada lágrima negra, o que proporcionou à figura uma força e magia inesperadas.

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franCisCO brennand

Na entrevista de Borges, ele demonstra vontade de escrever um conto, cuja ação se situaria além de qualquer circunstância. “As circunstâncias arruinaram a literatura de hoje em dia”, disse Borges. Em seu conto não haveria referências de lugar e tempo, nem mesmo nomes próprios. Esta observação me faz pensar nos inúmeros projetos que tenho de batismo para algumas esculturas. Não seria tudo isso um mero recurso, uma fraqueza, uma artimanha de quem, não se sentindo seguro, procura um discurso, uma explicação? Borges está certo. Para que nomear as coisas? Seria preferível não nomeá-las, deixá-las obscuras à procura delas próprias, do seu real significado. Cada coisa deve falar por si própria. Depois, apesar de tantos rótulos, a maior parte do que fazemos ou planejamos permanece indecifrável

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A lei de Corisco
Frederico Pernambucano de Mello

O sujeito bateu no meu ombro e deu de beiço agitado: o homem é aquele! Em meio às barracas da feira do Pão de Açúcar, margem alagoana do São Francisco, manhã quente de abril de 2005, cresce na minha frente um velho de noventa anos, entretido na conversa com amigos. Vermelho, alto, magro, crestado pela vida no campo, mais um descendente remoto do português do Norte espalhado pelo Brasil ao longo da colonização. O galego, da voz nordestina. Nascido e criado ali mesmo nos sertões do São Francisco, e habituado à feira do lugar como janela para o mundo a cada semana, não estranhava o ambiente fermentado pela quantidade de peixe seco, couro malcurtido na golda do angico, fumo de rolo, restos de querosene e de aguardente impregnados nas bancas de madeira. Mosca a valer. Criei coragem e fui a ele para saber se estava falando com Mário Maciel. “Às suas ordens”, respostou sem piscar, erguendo-se com agilidade surpreendente. E no cangaço, que vulgo tomou? – voltei à carga. “Casa Rica, logo que entrei, depois Tirania, que foi o que ficou, desde que peguei no grupo do finado Cristino, o Capitão Corisco”. Corto a cena e mergulho no tempo: 1938, julho, primeira semana. Depois de tiroteio rápido com o sargento Juvêncio, no quebrar da barra, Lampião está brigando novamente, manhã alta, dessa vez com o tenente José Calu, também da força volante alagoana com sede em Pão de Açúcar. Cansado pela renitência das escaramuças daquele dia, o chefe cangaceiro usa do tino guerreiro proverbial e

frederiCO pernambuCanO de mellO

envolve a volante num fogo cruzado que a leva a desertar das posições. Um soldado permanece atirando praticamente em campo raso, sem perceber que tinha ficado só. E tão isolado se queda finalmente que nada lhe resta senão brigar. Vender caro a vidinha de sertanejo pobre, entregue ao trabalho sol a sol desde menino. Lampião se impressiona com aquele macaco que não dava descanso ao ferrolho do fuzil. O bando vai rareando o fogo num arroubo. É quando um cabra da localidade, o cangaceiro Manuel de Miguel, vulgo Elétrico, se chega ao chefe e sopra no ouvido: “Sabe quem está brigando ali, Capitão?”. Não espera a resposta para passar a informação: “É Mário Maciel”. Lampião não se contém. Pulando em zigue-zague, avança uns oito metros e grita bem perto do soldado solitário: “Perdeu a fama hoje, fi’ da peste, pra não largar o cangaço pra ser macaco”. E dá a carga do mosquetão três vezes, quinze disparos de ponto no rumo do traidor sem perdão. O tiro derradeiro estoura a cabaça d’água do alvejado, elevando o esguicho à altura de um homem. Faz-se silêncio por minutos que parecem horas. A volante se recompõe. Ensaia o ataque de retaguarda. Lampião trila o apito duas vezes e retira com o bando para distância prudente. Um alto, de onde fica a observar a cena com o óculo de alcance alemão. Os soldados se aproximam do companheiro temerário e... a surpresa: Mário se levanta, batendo o pó, pegando os bornais e as cartucheiras. Lampião não acredita. Mudando de cor, daí a uma hora estará em casa do coiteiro Antônio Pequeno, ainda transtornado de ódio. “Antônio, eu nunca atirei de ponto num homem pra perder o tiro, e hoje errei, em Mário Maciel”. Não se dava conta o veterano chefe de cangaço de que os quarenta anos de vida sacrificada começavam a cobrar-lhe a dívida, minando-lhe a percepção aguda dos anos verdes. Dos tempos em que o poeta Ascenso Ferreira o batizara de Tigre do Sertão.

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a lei de COrisCO

De volta a 2005, me recomponho do êxtase a que o relato vivo me remetera, e quase que sentindo o cheiro acre da pólvora, pergunto a Tirania a razão de ter se transformado em soldado. “Eu andava triste e foram enredar a Corisco. Ele me chamou pra saber se estava querendo deixar o grupo. Não, Capitão! Ele fingiu que acreditou. Calmo estava e da calma não saiu. No dia seguinte, novo chamado: “Tirania, quem é seu maior amigo no Pão de Açúcar?” Zeca Júlio, Capitão, amigo de minha família e meu compadre. “Pois bem, Tirania, você me traz as orelhas de seu compadre até a boca da noite de amanhã”. Isso, não, Capitão, pelo amor de Deus! Corisco olha para ele de cima abaixo e dispara: “Não tem o que fazer com essa prova de confiança: é a lei de Corisco!” No nevoeiro da madrugada, um cangaceiro dá baixa do bando de Corisco em silêncio, e consegue chegar à fazenda Horizonte numa carreira de botar os bofes pela boca. Vale-se do coronel Elísio Maia, um dos chefes do município, embora ainda jovem. Com um bilhete costurado no punho da túnica, o foragido apresenta-se ao major Lucena, no II Batalhão de Polícia, em Santana do Ipanema. Nascia o soldado rastejador Mário Maciel, seu nome de pia. Com muita luta, viu o cangaço quase desaparecer com a queda final de Lampião em 1938, apenas sossegando quando um companheiro de farda lhe soprou a notícia de que a metralhadora despachara o “padrinho” terrível, em maio de 1940, “com sete tiros no bucho”. Criou a família de modo exemplar. E morreu na cama, como cristão, no dia 16 de julho de 2008, confirmando a cisma carrancuda de Euclides da Cunha: “Os sertões guardam, para todo sempre perdidas, tragédias espantosas”.

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O dia em que o autor de Morte e vida severina desabafou contra o exibicionismo: “ninguém é tão interessante para falar de si mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista de hoje?)
Geneton Moraes Neto

Se os jornais publicassem tudo o que se fala numa redação (ou, pelo menos, tudo o que os repórteres veem mas não escrevem), nossa imprensa certamente não mereceria o julgamento que um dia Paulo Francis fez: “Nossa imprensa: acadêmica, empolada, previsível, chata. Meu Deus, como é chata…” Ponto. Parágrafo. Já se disse que o melhor jornal é aquele que jamais chega ao conhecimento do leitor. O que acontece nos bastidores de uma reportagem pode ser tão interessante quanto o que sai nas páginas dos jornais. Minha pequena coleção de entrevistas com o superpoeta João Cabral de Melo Neto foi marcada por desencontros, vexames, incidentes e mal-entendidos – sem maior gravidade, mas suficientes para fazer ruborizar qualquer tímido.

O dia em Que O autOr de mOrte e vida severina desabafOu COntra O exibiCiOnismO: “ninguém é tãO interessante para falar de si mesmO O tempO tOdO” (O Que ele diria dO festival narCisista de hOJe?)

Vexame Número 1
Cenário: saguão do Aeroporto Internacional dos Guararapes. Ano: 1973. Dou meus primeiros passos como repórter. O chefe de reportagem me despacha para o Aeroporto. Missão: cobrir a chegada do mais ilustre dos poetas pernambucanos. O diplomata João Cabral vivia no exterior, na época. Lá fomos nós, em busca da celebridade. O único problema é que o fotógrafo não sabia que João Cabral era pernambucano. Assim que o poeta desembarca, o fotógrafo o convoca a posar em frente a um painel turístico que mostrava uma imensa foto do Recife. A pose em frente ao painel provaria que o poeta esteve na cidade… Pouco à vontade, o poeta concorda em posar. Lá pelas tantas, o fotógrafo quer saber se o poeta por acaso já conhecia a capital. João Cabral responde com algum som inaudível.

Vexame Número 2
João Cabral aceita receber o repórter na casa do irmão, à beira-mar, em Olinda. Horário da entrevista: onze da manhã. O repórter chega vinte minutos atrasado. Formalíssimo, João Cabral nem parece estar de férias. Aparece no portão metido numa impecável camisa de manga comprida abotoada até a gola. Primeira frase que pronuncia: “Você chegou com uma pontualidade nada britânica…”. O repórter quase estreante procura, em vão, um buraco no chão para se esconder. Não encontra. Entre mortos e feridos, todos se salvam: a entrevista segue adiante.

Vexame Número 3
De volta ao Brasil depois de se aposentar da carreira diplomática, João Cabral escolhe o Rio de Janeiro como
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genetOn mOraes netO

endereço. O repórter, que, anos antes, cometera o pecado de chegar com uma “pontualidade nada britânica”, telefona em busca de uma nova entrevista. Quem sabe, agora consiga fazer uma entrevista sem incidentes. João Cabral se desculpa: “Vamos marcar outra hora… Minha mulher morreu ontem”. Já não tão estreante, o repórter procura de novo um buraco no chão para se esconder – em vão. Um silêncio que parece durar uma eternidade se instala nos dois lados da linha telefônica. O que dizer numa situação dessas? Nada. Meus pêsames. Desculpe. Eu sinto muito. Socorro!

Vexame Número 4
O homem marca a entrevista: vai receber o repórter em casa – um apartamento na Praia do Flamengo. Por coincidência, o jornal O Globo marca, para a mesmíssima hora, uma sessão de fotos de João Cabral com Ferreira Gullar. Os dois poetas aguardam a chegada do fotógrafo do jornal. Aperto a campainha. “Pode entrar”. Cabral e Gullar vão para a janela do apartamento. A vista, ao fundo, é bela. Fazem pose. Ficam olhando para as minhas mãos, à espera de que eu saque a máquina fotográfica. Pensam que eu sou o fotógrafo que estavam esperando. Mas não tenho máquina nenhuma. Carrego apenas meu gravador. “Não quer fazer a foto agora?” Dois dos maiores poetas brasileiros estavam ali, diante de mim, à espera da impossível foto. Não, não quero, não sei, não posso fazer. Deve ter havido algum engano. Nunca fui fotógrafo em minha vida. Um buraco no chão, pelo amor de Deus! Desfeito o equívoco, os dois desistem de esperar pelo clique de minha máquina inexistente. Cinco minutos depois, o fotógrafo (o verdadeiro) desembarca no apartamento. Os dois voltam a posar na janela. Livre da tarefa,
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O dia em Que O autOr de mOrte e vida severina desabafOu COntra O exibiCiOnismO: “ninguém é tãO interessante para falar de si mesmO O tempO tOdO” (O Que ele diria dO festival narCisista de hOJe?)

João Cabral finalmente dá a entrevista pedida pelo locutor-que-vos-fala. O poeta – um dos maiores que o Brasil já teve – confessava que o gosto do fracasso não lhe era estranho. Devo ter comentado com meu demônio-da-guarda: fracasso? Se depender do meu histórico de fracassos nos bastidores das entrevistas com João Cabral, posso dizer que sou diplomado no assunto.
18 de setembro de 2009 Dossiê geral – o blog das confissões. http://g1.glob.com/platb/geneton

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Recife inverno
Geórgia Alves

“Aceita um café? Vou buscar! Talvez tenha adoçado demais...”. Bebo em solitude. Às vezes o Recife é tão triste quanto um pão francês dormido e mofado. Ali abandonado em seu saco de papel escuro de quem não serviu a banhar-se em leite e nem ser tornado fatia-parida. Como diriam em mesas de natais; “feito rabanada”! Seu inverno é úmido e abafado. Não fosse tão úmido e verde-escuro estaria agora polvilhado de açúcar e canela. Serviria mais se fosse apenas um Recife duro. Faria sorrindo em rodelas a alegria de meninos e meninas em cafés da manhã de ternura, em festa! Com presença de carinho-de-mãe no jarro de vidro sobre a mesa. Mas no seu inverno o Recife não é assim... É cigarro molhado, feito charco de cinco mil substâncias para matar ratos e baratas. Socorrer por baratos o sujeito incauto em beco coberto de marcas. É mais triste que abandono de recifense esquecido na parada pelo último ônibus que passa apressado. É noite de perigo e o Recife nunca pôde dar abrigo definitivo aos que vão se desmanchando feito papel pelas encostas. O Recife nunca pôde se dar de presente em caminhões de lata para crianças que aprendem cedo a brincar com aquilo que mata. Meninos e meninas que guardam seus desejos, sonhos de brinquedos, por minguados que faltam. É overdose de desespero, de pancada, de dor que não passa...

reCife invernO

Recife, no inverno, às vezes não vai nem com o café mais adoçado do amigo vigilante que me espia escrevendo em bloquinhos no assento do carro. Não, Recife, não bastará teu carnaval para me fazer feliz. Rezo pela cartilha de Neruda que me diz do homem, da mulher, do pão e do vinho. Da mesa, da morada... Homeless que sou, me abrigo em lugares distintos. Um dia um, n’outro outro. E assisto a seu modo o Recife oferecer um sorriso ao me olhar no rosto, feito reconhecimento, e a um só tempo, me expulsar. Justo em momentos que nos faríamos quites. Não, eu não entendo. É meu amigo vigilante quem vem e consola minha fragilidade de osso exposto. De criatura feita de mola. Eu que ora sou espicho, ora rolha. Espicho e encolho. Numa hora pingo, mergulho e afogo. Quem dera não tivesse sequer encharcado... Poderia apenas dizer como imagem da minha tristeza que me sinto um desses pássaros capturados, logo de manhãzinha, nas matas atlânticas de teus arredores, Recife. Cruelmente, esses homens que não têm o que fazer, nem se darão ao trabalho, usam outros canários para atrair suas presas. É assim no sexto e em outros quilômetros da Aldeia. Testemunho em gritos de buzina para espantálos. Mas a verdade é que não vou conseguir socorrê-los ou fazê-los correr dali. Fugir das arapucas montadas em cercas rentes ao pasto. Capim que sou, só me resta acender esse cigarro molhado, sacar o bloquinho enquanto espero o ônibus. Meu único brinquedo. Eu que perdi meu caminhão de lata... E beber com alguma alegria matutina o café “talvez adoçado demais” do meu amigo vigilante. Para quem agradeço num cumprimento tímido, sem abraço.

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O Recife iluminado e belo
Geraldo Pereira

A década de quarenta estava findando e os anos cinquenta começando, eu era menino, bem menino, andava de calças curtas e ainda vestia roupa de marinheiro. O meu pai nunca descuidava do passeio aos domingos à tarde, de casa até a Rua da Aurora. Ali, à beira do rio, parávamos em pequeno cais, que servia aos remadores e aos pescadores, e eu soltava o meu barquinho de papel feito com arte e destreza. A minúscula embarcação ganhava as águas e no meu imaginário talvez fosse aportar distante, bem distante, em terras d’África ou se largasse de sua fictícia rota e margeando o litoral do Brasil chegasse à Bahia, que é de todos os santos, ou ao Rio de todas as belezas e de minhas fantasias pueris. Daqueles dias nunca esqueci! São gestos paternos de um amor tão grande que a memória, vez ou outra, resgata. Depois, num Natal qualquer, o meu pai trouxe uma lancha de metal, de flandre penso eu, que funcionava à base do álcool. Não lembro bem se o combustível era adicionado em algodão embebido ou se diretamente no barco. O que sei e recordo com saudade são as voltas que a pequenina embarcação, de 13 ou de 15 cm, dava na banheira de casa, cheia d’água. Um dia, eu quis trazer a lanchinha para a largueza do Rio Capibaribe, mas o meu pai ponderou que iria perder o brinquedo, que a hélice, tão potente à minha vista de criança, levaria o barquinho pequenino embora, até os limites do imenso caudal. Aceitei, porque pai é pai e sabe das coisas, mas não me conformava com

O reCife iluminadO e belO

a restrição da banheira. Um dia choveu e choveu muito, o terreiro de casa encheu e eu pude ver a lancha dos meus sonhos rodopiar no efêmero das águas pluviais. Fui lembrando dessas oportunidades, de minha ligação com as águas que foram das capivaras, enquanto passeava no catamarã, vendo o Recife numa posição diferente, olhando para as ruas e as pontes de dentro do rio, em plena semana do Natal. Um roteiro, francamente, muito bem estabelecido pelos organizadores, no qual o circuito dos poetas faz o expectador, turista ou munícipe, acompanhar a produção pernambucana em verso ao longo dos anos e dos tempos. O velho Ascenso, a quem conheci no alpendre de casa, sentado no Cais da Alfândega sobre uma pilha de livros, parece soltar o vozeirão e recitar o que tanto ouvi na minha infância, na radiola de casa: “Lá vem o vaqueiro, pelos atalhos,/ Blém... blém..., blém contam os chocalhos/ dos tristes bodes patriarcais/ E os guizos fininhos das ovelhinhas ternas/ dilim... dilim... dilim.../ E o sino da igreja velha: bão... bão... bão/ ...O sol é vermelho como um tição/ ...” E, assim, o barco movido a potente motor vai mostrando o Recife, as pontes e as ruas, a iluminação sobretudo, linda como está agora, neste Natal. A Rua da Aurora, a mesma que eu frequentei aos 5 ou 6 anos de idade, muito bonita, quando vista assim, do rio, principalmente no trecho do antigo prédio da Prefeitura e do velho buque da Polícia Civil, como chamava Paulo Malta. Um contraste de cores dá uma vida diferente ao casario que se reflete nas águas. E a lua cheia presidia o espetáculo, alumiando o rio que corre e a cidade que fica, os poetas que cantaram e ainda cantam as belezas da correnteza e das ruas, dos becos especialmente, mas das pontes também: Joaquim Cardozo e Capiba, Manuel Bandeira e João Cabral. Sem esquecer o grande caranguejo que se mostra diante do Ginásio, homenageando Josué e Chico Science.

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geraldO pereira

A presença da família inteira naquele barco marcava um reencontro auspicioso: toda a constelação parental, novamente, junta. Mesmo que por poucos dias, para as festas de fim de ano. Uma veio das distâncias agora mais do que gélidas de Espanha e a outra do calor tropical, esturricante quase, de Fortaleza. Juntaram-se aqui à terceira, neste recanto tupiniquim. Juntaram-se e não mataram a saudade ainda dos tempos de menina, dos dias em Santo Amaro das Salinas e das férias em Pau Amarelo, de tantas inspirações e de tantos amores. O resultado é que se encontram no café da manhã e vão fiando conversa até que o almoço seja servido, não fazem a sesta e jantam no mesmo diapasão: fiando conversa. E assim ganham a noite. Nunca vi tanta coisa para conversar e lembrar. A de Espanha foi para a cozinha e preparou a ceia de Natal, a daqui, a do Recife de Nassau, lavou toda a louça da noite e a segunda tomou conta do trabalho das outras. Viva! Eis aí um Recife iluminado e belo.
27 de dezembro de 2007 Blog de Geraldo Pereira. http://blogdegeraldopereira.blogspot.com

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Do horrível mau hábito de falar gritando
Gilberto Freyre Por que gritamos tanto ao falar, os brasileiros? Gritamos horrivelmente. O brasileiro quase não possui voz de conversa. Do assunto já uma vez me ocupei. E volto a ele, sob a impressão de desencanto de uma bonita criatura a falar gritando. Desencanto que acabo de ter. Por que o grito e não a voz de conversa? O grito na conversa é tão fora do ritmo gentil da vida como acelerar uma pessoa o passo em violenta carreira em hora de fazer compras ou de passeio. O grito é para a voz de conversa o que a carreira é para o passo normal: uma aceleração ou uma elevação para momentos excepcionais – casos de perigo ou “sport” – em ocasiões que repelem tais excessos. Excluídos os casos de “sport” ou de arte, a voz só se deveria elevar do seu natural para o angustioso berro de “Aqui d’el rei!” ou para o de “Socorro!” E vozes há que somente a esses gritos se deveriam limitar, excluindo mesmo os do “sport” ou arte do canto. Ia-me esquecendo dos gritos de dor e de sofrimento. Mas destes só são toleráveis os irreprimíveis. E dessa espécie de berro já Santo Thyrso se ocupou numa daquelas páginas que dão antes a ideia de escritas para a transcrição do que para a simples leitura. “Berrar” – escreveu Santo Thyrso – “é próprio dos suínos quando lhes chega a hora da desgraça. Como a sensibilidade se refina pela educação, as pessoas ineducadas sofrem menos, mas gemem; choram e berram incomparavelmente mais. Produzir ruídos parece

gilbertO freyre

um desafogo moral como é um desafogo físico: mas todos os desafogos são incompatíveis com as boas maneiras.” O berro a que principalmente me refiro é o produzido por pessoas que, simplesmente conversando, temem que suas ideias não impressionem pela falta do agudo da voz. E elevam a dita a alturas de quartos e quintos andares; e até a altura de “skyscrapers”. Um verdadeiro horror. O grito na conversa é muito do homem brasileiro, quando discute, mas principalmente da mulher. Dizia-me uma vez um amigo: nas discussões brasileiras vence quem berra mais forte. E é verdade. No Brasil um vigoroso ou sonoro berro vale imensamente mais que um bom argumento ou uma boa ideia. Perante uma audiência brasileira, postos para discutir como dois galos de briga, Fradique e Acácio, quem acabaria sob palmas aos seus sonoros berros seria o Conselheiro, elevando sentenciosamente a voz. Saint-Hilaire atribuía o horrível hábito de falar gritando da brasileira às frequentes necessidades de dar ordens aos escravos. E esta opinião é repetida por Fletcher e Kidder. Porque a verdade é que o assunto tem preocupado os viajantes notáveis, dos quais o primeiro a confessar, não desagrado, mas enleio, ante a voz horrivelmente aguda da brasileira, foi o Sr. Júlio Dantas. O gracioso e amável Sr. Júlio Dantas. Explicação de Saint-Hilaire, Fletcher e Kidder e observadores mais recentes já tiveram ocasião de acrescentar a seguinte: que o hábito de falar gritando da brasileira resulta das necessidades como que pedagógicas de repreender escravos ou criadagem numerosa e quase-escrava, depois da Abolição. Nas professoras de escola primária não se desenvolvem, por motivos semelhantes, agudos ou acres de voz que os tornam inconfundíveis? Mas há uma outra explicação. Encontro-a em interessante trabalho de investigação histórica do Professor Afon-

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dO hOrrível mau hábitO de falar gritandO

so de E. Taunay, de São Paulo: Sob El Rey Nosso Senhor. Escreve o erudito de São Paulo: “Pelas taipas dos quintais entabulavam-se (no São Paulo do século XVIII) infindáveis conversações; com as vizinhas mais distantes era aos gritos que se entretinham essas relações. Não proviria daí o hábito da elevação do diapasão das conversas, ainda hoje tão notado, no nosso Interior, entre as senhoras?” Como se vê, é assunto aberto a investigações históricas e a muita especulação – isso de falarem gritando muitas das brasileiras. Nossas meninas precisam de aprender a conversar em voz de conversa – que é uma tão linda e tão deliciosa voz – mesmo antes de aprenderem a “recitar” ou a “dizer”.
Diario de Pernambuco, 14 de fevereiro de 1926

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Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo
Gladstone Vieira Belo

F. Fraser Bond, em livro que influenciou um grande número de jornalistas brasileiros, escreveu que as pessoas, na sua maioria, veem “a imparcialidade como uma virtude que se esforçam por alcançar. O jornalismo vê a imparcialidade como ideal. Os melhores redatores e os melhores jornais procuram evitar a parcialidade deliberada e intencional. É hoje uma prática generalizada permitir que as partes contrárias exponham suas razões. O ideal de imparcialidade é alcançado pelo jornalismo que evita erros, tendenciosidade, preconceitos e sensacionalismo”. Assim entendia Antônio Camelo o exercício do jornalismo, que considerava uma atividade voltada, na sua essência, para o bem público, vendo o contraditório de que fala Bond como um dos pressupostos básicos da imprensa no Estado de Direito. Camelo foi um jornalista de firmes convicções democráticas. O livro de F. Fraser Bond, An introduction to journalism, traduzido para o português por Cícero Sandroni, apareceu no mercado brasileiro em 1959, lançado pela Livraria Agir Editora. Começava no Brasil a profissionalização da carreira, com o surgimento de faculdades de jornalismo. Bond integrava o Departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York e a tradução de Sandroni foi prefaciada por Walter Ramos Poyares. “Falando a públicos cada vez mais numerosos, o jornalista é chamado a informá-los e a orientá-los sobre tantos setores em quantos se intromete o engenho humano”, sublinhava Poyares, ao salientar que existe, nesse campo de atividade, “muito

antôniO CamelO: O exerCíCiO demOCrátiCO dO JOrnalismO

pormenor de natureza técnica”. Ouvi algumas vezes Antônio Camelo citar o manual de F. Fraser Bond nas conversas de redação, que giravam, uma vez por outra, em torno de questões teóricas ligadas à prática jornalística. O jornalismo depende também de certas noções conceituais, aspecto ao qual Camelo estava muito atento. Esse alagoano pernambucanizado ingressa no jornalismo ainda pisando as cinzas quentes do Estado Novo. Viviase o ano de 1946, quando, pelas mãos de Edson Regis, ele chegou ao Diario de Pernambuco para exercer as funções de noticiarista, sob o comando de Aníbal Fernandes, então diretor do mais antigo jornal em circulação na América Latina. Aníbal, seu professor no Ginásio Pernambucano, era uma figura poderosa do jornalismo recifense e marcou profundamente a formação intelectual do jovem repórter. Homem de inquestionável coragem cívica, Aníbal Fernandes combateu, sem medo, a ditadura de Getúlio Vargas e os seus apaniguados, expondo-se à perseguição da polícia política, bem instalada em Pernambuco. “Foi a jornada heroica de 45 que me trouxe ao Diario”, recordou Antônio Camelo, anos depois, falando aos seus antigos companheiros da Faculdade de Direito do Recife, onde se graduara, em 1947. No discurso, que celebrava os 40 anos de formatura, Camelo relembrou ainda diversos lances da campanha pela redemocratização do país, movimento que culminara, no Recife, com os trágicos episódios de 3 de março de 1945, em que foram mortos pela polícia do Estado Novo o estudante de Direito Demócrito de Souza Filho e carvoeiro Manoel Elias. O cenário: a Praça da Independência, que os recifenses carinhosamente chamam de Pracinha do Diario, na qual se localiza o imponente edifício que abrigou, por uma centena de anos, a mais antiga publicação do mundo editada em língua portuguesa. “O 3 de março, confessou Antônio Camelo,

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gladstOne vieira belO

foi para mim uma tarde de intensas emoções e de agudas sensações. Nunca mais os acontecimentos daquele dia me fugiram da lembrança. Basta fechar os olhos, concentrar os pensamentos, para ver na frente do prédio do jornal, naquela tarde ensolarada e calorenta, a figura do seu bravo diretor Aníbal Fernandes se preparando para falar à multidão que chegava em passeata desde a Faculdade de Direito do Recife. Aníbal tinha uma voz bem fininha e por certo descera à calçada do Diario para ser mais bem ouvido pelo povo, como tantas vezes fizera antes nas grandes vitórias das forças aliadas na Segunda Guerra mundial. Eu estava ao lado de Edson Regis e José Gibson, a 10 metros da entrada do jornal. No batente do prédio vizinho, conhecido grupo de pelegos sindicais do Estado Novo discutia brandindo seus revólveres.” Ele foi, portanto, uma testemunha ocular dos trágicos acontecimentos daquele dia fatídico. Testemunha e, ao mesmo tempo, protagonista, entre os milhares de pernambucanos que protestavam contra a ditadura getulista, em plena praça pública, diante do edifício do combativo jornal, que Assis Chateaubriand incorporaria aos Diários Associados, em 1931, num tempo também de grandes expectativas de natureza política. O historiador da imprensa que deseje esboçar um perfil definitivo de Antônio Camelo, perfil intelectual e psicológico, não poderá se esquecer desses episódios, que deixaram marcas tão salientes na sua biografia. Foram acontecimentos decisivos para as suas opções de natureza política. Desmantelado o Estado Novo e restabelecidas as franquias democráticas, Antônio Camelo abandona a militância política, que envolveu muitos companheiros de geração: Odilon Ribeiro Coutinho, Paulo Rangel Moreira e Salviano Machado, entre outros. Odilon, anos depois, vai para o Congresso, eleito deputado pelo Rio Grande do Norte, em um também crucial momento da vida bra-

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sileira; Paulo Rangel alcança a presidência da Assembleia Legislativa do Estado; e Salviano torna-se vice-governador de Pernambuco. Camelo, abandonando a militância política, que o empolgara na jornada de combate à ditadura, volta-se, de corpo e alma, para o jornalismo, convivendo, na redação do Diario, com as novas realidades que as transformações institucionais impuseram ao país. O jornal revigora-se, animado por essas mudanças, e Aníbal Fernandes, no seu comando, reafirma os velhos compromissos do Diario de Pernambuco com a ordem democrática. Antônio Camelo observa que Aníbal Fernandes defendia um jornalismo de tendência francesa, opinativo. Ancorado nessa escola, diz Camelo, Aníbal “colocava a opinião acima da informação. Só o fato é sagrado. O comentário é livre, e bote liberdade nisso. Opinião sem rodeio, severa, frontal, crítica. Diante dos acontecimentos nada de imparcialidade. O jornal que se preza não pode ficar em cima do muro. Deve assumir posição, tomar partido, marchar para a luta. Politique d’abord, o lema de Maurice Barrès, era o lema de Aníbal, que não se cansava de repetir à equipe que o Diário, em toda a sua história, nunca fora neutral”. As ideias de Aníbal Fernandes, que Camelo tão bem rememorou, assinalam um dos mais instigantes períodos da vida do jornal fundado no já muito distante ano de 1825. Uma outra grande figura do Diario de Pernambuco, que surgia sempre nas lembranças de Antônio Camelo, ao recordar aqueles tempos, era Mauro Mota, que orientou, por longos anos, o seu Suplemento Literário, que circulava aos domingos, abrindo as suas páginas aos jovens escritores e às diferentes correntes culturais, num movimento de ampla repercussão regional, como registra Jodeval Duarte em livro que documenta esse trabalho, intitulado Agitação cultural: o Suplemento e Mauro Mota. Além de responsável pelo Suplemento, em que colaboravam alguns dos

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mais representativos nomes da literatura brasileira, Mauro foi também secretário e diretor do Diario. Entretanto, ao contrário de Aníbal, sublinha Camelo, Mauro Mota “seguia a escola norte-americana do jornalismo prioritariamente informativo. Comunicar os fatos honestamente, sem tendenciosidade, para atender o direito dos leitores de serem bem informados e poderem eles mesmos tirar suas próprias conclusões. A opinião ficava para as páginas especializadas, devendo ser sempre emitida pelos editorialistas, à base de fatos e informações fidedignas”. Para Antônio Camelo, o Diario conseguiu tirar proveito desse antagonismo conceitual entre os dois grandes jornalistas, que se ligavam por afetuosos laços de estima recíproca. Camelo explica como era superado esse choque de tendências: “O estranho é que os conceitos divergentes de ambos sobre comunicação, as diferenças psicológicas, os temperamentos contrários desses dois homens, como se obedecessem à lei da física, em vez de se repelirem, se atraíam, se amalgamavam, numa fusão das mais benéficas para o desempenho do jornal. O que resultou do trabalho conjunto de ambos foi um Diario mais vibrante, com uma cobertura noticiosa mais ampla, um melhor nível de reportagem. Uma redação clara e precisa das matérias informativas, ao mesmo tempo em que se produziam, sob o calor dos acontecimentos, admiráveis editoriais, todos fiéis à linha da palavra incisiva e audaciosa.” Camelo recordou esses tempos numa conferência proferida no Arquivo Público Estadual, em agosto de 1991, num painel organizado para assinalar os 80 anos de nascimento de Mauro Mota, abrindo o seu pronunciamento de maneira enfática: “A contribuição que deu ao Diario de Pernambuco, ao longo de mais de 40 anos de serviço, registra seu nome, para sempre, entre os grandes vultos da história do sesquicentenário do jornal”.

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Antônio Camelo mostrou-se, ao longo da sua fulgurante carreira jornalística, mais próximo das tendências da escola em que se inseria Mauro Mota, embora fosse um apaixonado pela França, pela sua literatura, pela sua arte, pela sua filosofia, pela sua história e pelos seus pensadores políticos. Camelo falava francês fluentemente. Ao seu agudíssimo senso jornalístico junta-se uma sólida cultura humanística, procurando sempre atualizar os seus conhecimentos através de leitura intensa e viagens ao exterior. O professor Potiguar Matos, que foi editorialista do Diario de Pernambuco – por muito tempo, e que com ele manteve intensa convivência, de quase 20 anos, destacou, em comovente depoimento, este expressivo detalhe do retrato intelectual de Camelo: “Um dos traços de sua personalidade, que logo me marcou, foi sua devoradora fome de saber. Era leitor inveterado, familiar dos clássicos, atraído, também, pela obra do dia a dia, a teoria mais nova, a perene renovação do conhecimento, através dos contemporâneos”. Fez Antônio Camelo uma invejável carreira profissional, que o coloca entre os mais notáveis jornalistas da sua geração. Ocupou no Diario, e em outros órgãos Associados de Pernambuco, todos os postos de direção. Teve, por diversas vezes, oportunidade de deixar o Recife, mas preferiu, diante de insistentes convites, manter-se fiel aos profundos laços de afetividade que o ligaram a Pernambuco, particularmente ao velho jornal fundado, em dias remotos, por Antonino José de Miranda Falcão. Camelo entrou no Diario de Pernambuco para ocupar interinamente, durante três meses, a vaga de noticiarista. Lá permaneceu, contudo, por 46 anos.

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A flatulência bovina
Gustavo Krause

Acrescido de “Ou a teoria do pum”, tem tudo a ver com o assunto do momento: as mudanças climáticas e a lambança que foi a COP15, realizada na Dinamarca. Restou uma conta enorme para boi e familiares (bubalinos, caprinos, ovinos, asininos e muares, todos mamíferos ruminantes), o que me deixou injuriado. E explico. Sou um apaixonado pelo boi a ponto de duvidar da história de que o cachorro é o “melhor amigo do homem”. Esta paixão vem da infância. Precisamente na Fazenda Pirauá de propriedade do meu avô, município de João Alfredo, quando os olhos da criança foram apresentados àquele bicho interessantíssimo de índole mansa e com mil e uma utilidades. Nos saborosos tempos de férias, acordava com mugidos que assinalavam o raiar da manhã e a ordenha nossa de cada dia que faz da esposa do boi, a vaca, a ama de leite da humanidade do berço ao túmulo. Aliás, que injustiça atacar de vaca mulher vadia que sai por aí dando adoidado! A vaca não dá, simplesmente, aceita a poligamia explícita, negada por culturas e confirmada pela natureza animal. Apesar disso, seus maridos, os bois, chifrudos, não estão nem aí para a maledicência. Foi paixão à primeira, à segunda e às muitas vistas que me fizeram entender aquele bicho enorme, de força descomunal, porém, doce e meigo (boi brabo é exceção assim como os touros miúras, bravios, treinados para o espetáculo dantesco da tourada; devo dizer que torço pela chifrada do touro na bunda do toureiro).

a flatulênCia bOvina

Jamais enxerguei o boi como “o churrasco antecipado que procria”, ou seja, jamais imaginei suas partes dissecadas em cortes especializados pela ciência gastronômica, matéria-prima de pratos refinados de elegantes banquetes ou alinhados em vários espetos, correndo de mesa em mesa para saciar a gula dos carnívoros. Pelo contrário. O que me tocava era sua mansidão; seu rosto plácido ruminando capim que nem os pensadores ruminam suas ideias; seus olhos me emocionavam e ainda me emocionam porque transparecem um permanente pedido de clemência aos seus futuros carrascos para comutar a pena do destino trágico que lhes aguardam os terríveis matadouros. Ouvi o aboio do vaqueiro. Eliaquim tangendo o gado para o pasto e de volta, no fim da tarde, para os currais, o que me soava como uma espécie de cantiga de ninar, um canto plangente que corta cerimoniosamente o silêncio do campo. Meus encantos dobraram depois que fui apresentado ao “Boi Serapião”, poema-prosopopeia, nascido da sensibilidade única e do inconformismo social de Carlos Pena Filho ao criar um personagem em que se confundem boi e homem, habitante do “campo vasto e cinzento” e que na falta do “capim na terra e milho no paiol solenemente mastiga areias, pedra e sol”. Pois bem, distinto público, este bicho, que compõe melopeia no ranger do carro de boi e que a gente “tange, ferra, engorda e mata”, tornou-se um grande vilão na emissão dos gases (de nomes complicadíssimos) que provocam o efeito-estufa e, por sua vez, contribuem com a novela do aquecimento global. É aí que entra a flatulência bovina ou a teoria do pum segundo a qual, além do desmatamento e da queima para formação de pastagens, a peidaria coletiva de 1 bilhão

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gustavO Krause

de cabeças de gado responde pela catástrofe climática em decorrência da “fermentação entérica dos animais ruminantes, liberando gás metano (24 vezes mais potentes do que o dióxido de carbono) para a atmosfera, através da flatulência e eructação dos animais”, Em estudo elaborado por renomados cientistas brasileiros para a COP15 (2003/2008), está registrado que dos dois bilhões de toneladas de emissão 50% resultam das atividades pecuárias, isto é, provêm dos animais, principalmente da pecuária, e o restante das “atividades humanas”. Alto lá! Isto é conversa para boi dormir. A ameaça de sobrevivência da humanidade por conta da degradação ambiental é de responsabilidade total do homem, particularmente, do Homo rapiens, dissidente do Homo sapiens, que pilha e devasta a natureza sem dó nem piedade. Na COP15, as vacas de presépio, ou seja, os poderosos chefes de Estado balançaram suas submissas cabeças para poderosos interesses, interesses, aliás, que eles atenderam, pressurosos, quando ruíram as catedrais financeiras da ganância. A COP deu com os burros n’água. Sobrou, porém, da peleja ambiental, a retórica oportunista de Lula, mais uma eructação demagógica que ele joga no ventilador, tal qual o fez no Maranhão, ao plagiar literalmente o bravo general Cambronne quando respondeu à proposta de rendição dos ingleses em Waterloo.

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Da obscenidade
Hermilo Borba Filho

A confusão que se faz entre obscenidade e pornografia tem conduzido muita gente em nossos dias a cometer erros tremendos, manejando-se o erótico para lá e para cá, falando-se que a seminudez dos jovens é uma imoralidade, proibindo-se os desenhos de Picasso, coisa esta que não ajuda em nada a formar uma boa imagem do Brasil no exterior. Por isto, aconselho ao meu amigo Renato Carneiro Campos (estou baseado em uma nota publicada por Paulo Fernando Craveiro e não sei se o meu amigo continua com a ideia) que nem pense em fazer uma exposição erótica de Francisco Brennand, José Cláudio e João Câmara porque, com certeza, os moralistas lhe cairão em cima, incapazes como são de distinguir entre o que é obsceno e pornográfico. Henry Miller, em A obscenidade e a lei de reflexão, diz “quando a obscenidade aparece na arte, particularmente na literatura, comumente adquire o valor de um processo: o elemento deliberado que aí se encontra nada tem a ver com a excitação sexual, como é o caso da pornografia. Se há um pensamento oculto vai mais longe que a sexualidade. Seu fim é de despertar, comunicar um sentimento da realidade. Num certo sentido, o recurso do artista à obscenidade é comparável ao recurso do Mestre ao elemento miraculoso”. A discussão vem de muito longe, por estreiteza dos moralistas, e o velho Tolstói já havia esgotado o assunto quando escreveu o seu livro sobre a imoralidade na obra de arte. A discussão torna-se cada vez mais ociosa

hermilO bOrba filhO

neste mundo em que os últimos tabus sexuais estão caindo. Claro que há muita coisa misturada e não poderia deixar de ser assim: todo movimento revolucionário traz, em sua realização, um sem-número de exageros, deformações, abusos. Mas de qualquer forma, tudo isto, quero dizer, esta transição é muito mais sadia do que a longa e terrível fase que se viveu, dando-se ao sexo um conceito de sujeira e conduzindo-se a função sexual para lugares escusos. Enquanto a obscenidade é puramente subjetiva – e agora estamos novamente no terreno da arte –, a pornografia não. A pornografia tende a despertar, por meios imorais, o desejo sexual. O que é obsceno para mim pode não ser para outro e vice-versa. Outro dia, assistindo ao pastoril do Velho Faceta, estava novamente pensando sobre isto. Os espetáculos populares são terrivelmente obscenos neste sentido restrito de coisas ligadas ao sexo (para mim, obsceno, no sentido de pornográfico, como o usado pelos moralistas, é guerra, subdesenvolvimento, fome, exploração do homem, e uma porção de coisas mais) e o ator popular explora à vontade essa outra característica da obscenidade: sua capacidade de provocar o riso, seu humor intrínseco, ao contrário da pornografia que é sempre séria. Tudo é subjetivo, até mesmo encontrar lirismo ou não em sexo, até mesmo mascarar desejos de pornográficos ou experiências chamadas de pervertidas. Classifica-se o sexo segundo as nossas conveniências. Por causa desse direito particular que cada um tem em relação à obscenidade é que se costuma classificar os demais. É natural que cada um se cerque de argumentos que possam justificar suas mazelas, se é que há mazelas. Isto no plano das relações humanas. Quando se trata então de obra de arte a coisa não tem limites. O julgamento pessoal é válido e depende da burrice ou da inteligência de cada um, da sua cultura ou do seu analfabetismo,

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da ObsCenidade

da sua abertura ou da sua intolerância e vai do terrível Index da Igreja à proibição de desenhos de Picasso. Repetindo: eu se fosse o meu amigo Renato Carneiro Campos não me arriscaria à exposição dos nossos eróticos (todos eles excelentes), menos por comodismo e inércia do que por interesses financeiros. Quando se proíbe uma obra supostamente imoral por não se saber distinguir entre a obscenidade e a pornografia, não se leva em conta o dinheiro alheio. É muito cômodo. O que os censores de qualquer espécie, oficiais ou particulares, deveriam fazer, era meditar nos versos de Lawrence, um artista que foi também tão acusado: Só é imoral ser morto-vivo, sol extinto, preocupado em tomar o Sol dos outros.
Diario de Pernambuco, 22 de março de 1973

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Os ETs eram todos comunistas
Homero Fonseca

De repente, uma informação despretensiosa que me foi passada por e-mail (uma “madeleine” virtual) por um antigo camarada, me faz mergulhar no túnel do tempo. Recebo mensagem do jornalista e escritor Rubens Coelho, a quem não vejo há 40 anos, diretamente de Mossoró (RN), onde mora e atua. E me vejo em 1965, aos 17 anos de idade, quando, com medo da repressão da ditadura, fugi para Fortaleza. Eu morava em Caruaru, participara da autodissolvida União dos Estudantes Secundaristas local e tinha iniciado a vida profissional na Rádio Cultura do Nordeste, escrevendo jornais falados e uma crônica diária. Como na primeira etapa do golpe (a segunda viria com o AI-5, em 68) havia um certo espaço para críticas, andei questionando pelo ar aspectos da “revolução”. Não tardou e dois oficiais do Exército foram me procurar na emissora. Enquanto parlamentavam com José Almeida, dono e diretor da rádio, eu, avisado por um colega, me escapuli bem sob os narizes deles, que não imaginavam ser o cronista um garoto quase imberbe. Eu tinha notícias da repressão que se abatia em todo o país, soubera da exibição de Gregório Bezerra como troféu, seminu e ensanguentado, na Praça de Casa Forte, no Recife, e tinha topado com um rapaz, Ivanildo, da Ótica Globo, sendo preso no local de trabalho e levado num caminhão verde-oliva. De maneira que não paguei pra ver. Meu amigo Gianninni Mastroianni, que tinha um irmão publicitário em Fortaleza, estava indo morar lá e me ofereceu apoio.

Os ets eram tOdOs COmunistas

Fui com ele num ônibus, via Crato, e me hospedei na pensão de Dona Galdina, na Rua Assunção Cearense. Em pouco tempo, estava articulado com o movimento estudantil e daí para a militância no POR(T) – Partido Operário Revolucionário (Trotskista) –, ligado à IV Internacional, foi um passo. Os trotiskistas estavam arrebanhando os remanescentes do PCzão, a quem culpavam pelo golpe pela tibieza de suas posições políticas alinhada “à velha burocracia soviético-estalinista”. Era uma explicação simplista, mas nos escombros da crise uma explicação é tudo que basta. Os dois principais dirigentes chegados ao Ceará eram “Davi” (Rômulo, que eu conhecera de vista agitando em congresso estudantil em Pernambuco) e “Waldemar” (um paraibano que sofria de degenerescência muscular progressiva). Comecei a militar numa célula de base e quase diariamente me encontrava com os camaradas Rubens, Arlindo e Cláudio para discussões políticas e distribuição de tarefas. Meu codinome era “Miguel”. Eu havia arranjado um emprego no jornal “O Nordeste” e me matriculado no 2º ano clássico do Colégio Municipal, mas mergulhei tão fervorosamente nas tarefas revolucionárias que abandonei tudo e me “profissionalizei”, isto é, fui morar num “aparelho” com “Davi”, sua companheira “Ema” e “Waldemar”. Redigia um jornalzinho partidário e dei assistência, com imenso orgulho, a uma célula operária, numa vila industrial da região metropolitana de Fortaleza. Eu me sentia um elo da ampla aliança operário-estudantil-camponesa. Éramos tão envolvidos naquele universo meio literário (mas perigoso) de conspiração, que, certa vez, nosso grupo juvenil, estando reunido na Praça do Liceu, viu se aproximar um “policial” à paisana; para disfarçar, decidimos, na hora, cantar uma música. Mas deu um branco em todo mundo e quando o cara, que felizmente não desconfiava de nada e nem era do DOPS, estava justamente passando por nós, Arlindo lembrou de

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uma música e soltou a voz: “Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião!” No início, eu conciliava a “vida revolucionária” com a “vida normal”, digamos assim: vez por outra escrevia para os amigos em Caruaru; aos sábados, sem dinheiro e a fim de tomar umas cervejas, eu e Arlindo íamos algumas vezes à Rodoviária, à hora da chegada do ônibus de Massapê, terra dele, pois sempre desembarcava algum conhecido e, feliz por encontrar um conterrâneo logo na chegada à capital, pagava generosamente uns tragos. Um ou outro domingo, eu e Cláudio praticávamos um “desvio revolucionário”: valendo-nos de um camarada, velho comunista, porteiro do Clube dos Diários, em plena Praia de Iracema, entrávamos de fininho, tomávamos uma cerveja e dávamos uns mergulhos na piscina do clube de classe média abastada. Cláudio era uma figura notável, o tipo do cara empolgado com tudo que fazia – olhos brilhantes, gestos incisivos, elétrico nos seus 21 anos, sempre usando uma expressão exclamativa peculiar: “Fodendo meio mundo!” Com o tempo, comecei a sentir um estranho deslocamento em relação ao cotidiano das pessoas comuns. Se via um filme de Fellini, sentia o cheiro da decadência burguesa. Se tomava uns tragos com os amigos ou camaradas, me sentia culpado. Até meu namoro com uma moreninha chamada Glória, quando ela se declarou fã da cantora Wanderléa, foi por água abaixo. Pensava obsessivamente na coerência, nas ações revolucionárias, nos perigos da repressão, vendo tudo como oportunidade ou malogro e todo contato humano como uma potencial conquista à causa. Comecei a conhecer as brigas intestinas da organização (num encontro grande na Serra da Ibiapaba vi o “Davi” espumando literalmente e sacar uma tesoura contra um companheiro da direção nacional do qual discordava) e com um ano nessa vida já estava meio esquizofrê-

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nico, pois não aguentava a pressão dessa realidade vivida sempre ultraintensamente; mas, por outro lado, achava simplesmente deixar a luta uma capitulação vergonhosa, a famosa “debreada”. Estava abatido, emocionalmente carente e mentalmente confuso. É quando me bate um panfleto que circulava dentro da organização assinado pelo líder supremo J. Posadas, ao qual, a meu ver, se concedia um culto à personalidade. Era o seguinte: diante de uma daquelas ondas de notícias sobre OVNIs na imprensa, Posadas conclamava os companheiros a aderirem aos invasores, pois, vindos a bordo de uma tecnologia espacial tão avançada, só poderiam viver num regime comunista (“etapa superior da civilização”) e, portanto, seriam nossos aliados na grande Revolução que, agora, para muito além da consigna estalinista “Socialismo num só país” e mesmo da consigna “Revolução permanente”, de Trotski, se trataria de implantar o comunismo não apenas num só planeta, mas em escala extraterrestre. Caí com pneumonia e meu tio Biu foi me buscar, levando-me de volta para Caruaru nas asas de um Caravelle, meu primeiro voo de avião. Uns meses depois, procurei o camarada Sérgio, da seccional de Pernambuco, para formalizar meu desligamento (e ele teve uma atitude totalmente compreensiva, para minha surpresa). E nunca mais me meti em organizações clandestinas, sem, porém, haver perdido a certeza de que a utopia é necessária. A notícia que causou esse fluxo de memória foi a resposta de Rubens à minha indagação sobre o destino de Cláudio Augusto Alencar Cunha, o cara do “fodendo meio mundo”. A última notícia que eu tinha tido dele fora lendo, no Jornal do Brasil, em matéria de primeira página, ele em foto de documento do antigo Liceu Cearense, por haver, com outros três companheiros, sequestrado o primeiro avião comercial

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brasileiro e o levado para Cuba, um Caravelle, no simbólico dia 8 de outubro de 1969 (dois anos após a morte de Che), quando era, ao que parece, militante do MR-8. Eis o que fiquei sabendo por Rubens: “Claudio, ao chegar a Cuba no avião sequestrado, foi preso e ficou um bom tempo encarcerado. Provavelmente as suas posições políticas trotskistas fizeram a segurança do Estado cubano desconfiar, pensar tratar-se de um provocador. Libertado, retornou para o Brasil, tornou-se um anticubanista radical. Arranjou um emprego na Receita Estadual do Ceará. Os amigos que tiveram contato com ele, depois de sua volta, disseram que Claudio estava completamente desmiolado. Neurótico, psicótico, com mania de perseguição e outros problemas mentais. Ultimamente, dedicava-se a provar matematicamente a existência de Deus. Menos mal, né? Em vários momentos tentei entrevistá-lo, mas não consegui, o homem estava muito arredio. Fiquei triste por não ter feito esse trabalho, pois eu o estimava. Em nossa convivência quando alunos do Liceu, já era um verdadeiro Maluco Beleza. Foi a primeira pessoa que falou em J. Posadas em Fortaleza, andava pra cima e pra baixo com o livro desse cara debaixo do braço. Aí o Partidão tomou conhecimento e resolveu mandá-lo para a Alemanha Oriental, a fim de fazer um “curso” de capacitação política. Veio o golpe e a viagem não se realizou. Então, é isso, meu caro Homero, se olharmos para trás, viraremos pedra de sal. É a vida.” O jornal Tribuna do Norte (TN online), de Natal, em 23.02.2007, divulgou sua morte: “Morreu no último sábado, de parada cardíaca, em Fortaleza, Cláudio Alencar Cunha. Alencar Cunha, que tinha 64 anos, sequestrou, em 1969, durante a Ditadura Militar, um avião Caravelle da Companhia Cruzeiro do Sul, que fazia a rota Rio de Janeiro-Manaus e desviou a rota para Cuba. Ele não era ligado ao movimento político ou a grupos guerrilheiros e, à

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época, disse que, com o sequestro, pretendia chegar a uma “Cuba perfeita”. No país socialista, Cláudio Alencar Cunha trabalhou como cortador de cana. Depois conseguiu asilo no Equador e em Portugal, até ser anistiado pelo Governo brasileiro, 10 anos depois do sequestro, em 1979. Em 1982, chegou a se candidatar a deputado estadual pelo PMDB, no Ceará, mas não se elegeu. O falecimento só foi divulgado hoje. Amanhã (24), às 19h, está marcada a missa de 7º Dia, na Igreja das Missionárias, em Fortaleza. EM TEMPO: Rubens Coelho Figueiredo é jornalista e escritor. Mora em Mossoró, RN. Seu livro Pelas ruas de Havana é um relato pungente, simples e direto da trajetória de um militante socialista. Arlindo Soares, sociólogo e consultor político, vive no Recife. Sérgio Buarque, recifense, é economista e consultor de planejamento. Rômulo Fontes (“Davi”), segundo o livro de Rubens, passou a atuar em São Paulo onde foi preso numa tentativa de assalto a banco. Tornou-se analista de informação do DOI-CODI, tendo participado do interrogatório de antigos companheiros trotskistas. J. Posadas era o pseudônimo do argentino Homero Rômulo Cristalli Frasnelli, espécie de Trotski terceiro-mundista, líder da facção latino-americana da IV Internacional Comunista. Na juventude, chegou a ganhar fama como jogador do Estudiantes de La Plata. Começou a desenvolver suas teorias sobre os OVNIs em 1968. Ele também acreditava, no auge da guerra fria, que dos escombros de uma inevitável guerra nuclear surgiria uma nova sociedade mundial fraterna, de bases comunistas. Faleceu em 1981.
16 de agosto de 2009 Blog de Homero Fonseca. www.homerofonseca.com.br

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A vida sexual dos idosos
Hugo Vaz

Em formidável e cativante livro sobre Ortotrofia, ciência que estuda a correta nutrição (do grego orthos, que quer dizer direito, e de trophê, a significar alimentação) – livro que esteve por muitos anos à minha cabeceira, ao lado das rubaiatas de Omar Khayyám – Albert Mosséri transcreve passagens da obra do cientista suíço Ralph Bircher, afirmando que os Hunzas são o povo mais saudável da terra. Vivem no Norte da Caxemira, na região ocidental do Tibete, em perfeita saúde, onde até as doenças da velhice não existem. É provável que a região tenha inspirado ao escritor norte-americano James Hilton a criação do seu famoso romance Lost horizon (“Horizonte perdido”), local utópico que chamou de Shangri-lá. Depois de minuciosa narrativa sobre capacidade e esforço, jovialidade de caráter, paciência, meio-jejum que fazem na primavera, crenças, festas, habitação e alimentação, Mosséri aborda o aspecto sexual daquele povo invejável. E aponta, entre outras razões, a origem da bela saúde dos Hunzas, exatamente no capítulo 40, penúltimo do precioso livro: Juntemos a isto tudo as práticas sexuais perfeitas: o mínimo de relações necessárias com vista à procriação de um filho de três em três anos – e nada mais. Quando acabei de ler o livro pela primeira vez em 1970, tive ímpeto de jogá-lo ao lixo. Não é conselho, nem exemplo, que se dê a homem nenhum: – um mínimo de relações sexuais de três em três anos! Grande asneira!

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Anos depois, em 1987, a imprensa brasileira divulgava entrevista com o médico urologista baiano Aday Coutinho, em que preconizava ... apenas de três a dez relações sexuais a vida inteira, sob pena – dizia o ascético doutorzinho – de o homem ser punido com um adenoma ou câncer prostático. Pois bem. Como se já não fossem absurdos os depoimentos e argumentos de autoridades mundiais (doutores talvez até já broxados pelo desuso...), jornais de São Paulo tentam reforçar a crença de que os idosos não têm tesão. Circulou na Capital paulista – e depois em várias Capitais brasileiras – curiosa brochura com sugestivo título: A vida sexual depois dos 60 anos. O autor, não identificado, revela que escreveu o livro depois de longos e concludentes depoimentos de pessoas que já atingiram aquela idade. A conclusão da pesquisa está contida nas páginas seguintes à Introdução: – todas as cem páginas do livro estão em branco..., insinuando, e tentando fazer crer, sobre a ausência total de atividade sexual para aqueles que completaram já os 60 anos de idade. Pura, satírica e injusta gozação! Não é preciso ser nenhum atleta sexual para que se mantenha, ao longo de toda a existência, ritmo frequente de saudáveis relações sexuais. A Medicina Forense abriga em seus anais inúmeros casos de violentadores eróticos de idade já bem avançada. A natureza biológica da mulher a fez de tal forma que ela, engravidando uma vez em um ano, levará nove meses para gestação e parto, em termos regulares. Já o homem, por outro lado, está apto (sem qualquer conotação machista) para fecundar quantas fêmeas se lhe caiam na cama, tantas quantas sua capacidade genésica permitir ao dia, por semana, ao mês, ao ano. Quando eu ainda tolerava a advocacia, atuei em processo de inventário de uma figura notável da História de

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Pernambuco, descendente direto e ilustre de herói da Revolução Praieira, em 1848 – Nunes Machado – no final do ciclo de revoluções liberais que convulsionaram o Estado. Revelo nesta crônica, forçado por escrúpulo éticoprofissional, apenas suas iniciais – M.G.N.M. Morreu aos 96 anos de idade de complicações intestinais. Deixou esposa e três amantes, teúdas e manteúdas, além de mais 43 herdeiros, entre filhos, netos e bisnetos, e mais um filho com oito meses de nascido, e um outro com quatro anos. Faleceu sem adenomas, sem câncer, a próstata intacta. E o que dizer do curandeiro do Zimbábwe (África), Thuma Nzumakaze, de 88 anos de idade, já na vigésima quarta esposa e tem 139 filhos? Diz a notícia: Em maio passado, três esposas lhe deram filhos. Nas próximas semanas, as três últimas também darão à luz. Mas Thuma não está satisfeito. Acaba de se casar com a vigésima quarta, Laster, uma adolescente de apenas 13 anos... E o que dizer, ainda, do arrieiro siciliano de 92 anos, Pepino d’Allura, famoso amante italiano que teria inspirado o escritor D. H. Lawrence, autor do romance O amante de lady Chaterley, em que o romancista narra as aventuras amorosas de um guarda-florestal, idoso, que mantém múltiplas e vigorosas relações sexuais com a esposa de um marido mutilado de guerra? E para concluir, uma mulher –, a jornalista, escritora e princesa italiana Cristina di Belgiojoso, fundadora, em 1848, em Milão (Itália), do jornal La Gazzetta Italiana, a quem um dia uma entrevistadora teria perguntado com que idade a mulher deixava de fazer amor. Ela, maliciosamente, deliciosamente, respondeu: – Não sei, só tenho 80 anos...
Jornal do Commercio, 24 de novembro de 1992

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Martini seco
Inah Lins

Hoje, serena, flutua, metade roubada ao mar, metade à imaginação, pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa. (Carlos Pena Filho)

Ontem, debruçada no peitoril da janela, fui surpreendida por um quadro inesquecível. Navio aportando devagar, cauteloso, diante da cidade desconhecida que o saudava com nuvens formando raios vermelhos na violenta luminosidade do crepúsculo. O céu de final de tarde desenhava um caleidoscópio, o que complementava a saudação ao visitante, após atravessar o mar e, ao longe, vislumbrar o Rio Capibaribe. E as luzes da nave acenderam em reverência ao Recife. Deitei na rede ao lado do vidro da janela baixa e a sensação era a de que ele junto aportaria. De imediato, senti-me na obrigação de apresentá-lo à minha cidade. Um marinheiro com procuração do visitante me acompanhou, testemunha que tudo documentaria para depois ao mundo mostrar. Encontrei o representante do Comando do navio holandês no Cais. Cumprimentamo-nos. Logo perguntei se falava francês, receosa que, se apenas holandês, eu teria de me comunicar por mímica. Por sorte, ele disse que sim. Caminhamos na direção do marco nascedouro da cidade e, enquanto andávamos, fui contando a histórica formação. Dirigimo-nos ao início da cidade, aos muros erguidos para resguardá-la, onde o mar se encosta e descansa nos ar-

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recifes. Sentamos diante do Marco Zero, primeiro berço que embalou a vila. Falei dos antigos Arcos que a rodeavam, à época chamada Cidade dos Arcos, construídos pelos seus antepassados e infelizmente destruídos por mãos insensíveis. Convidei-o para um lugar-surpresa, onde teria muito que ver e longa história a ouvir. Olhou-me assustado. – Não se preocupe, irei apresentá-lo a um milagre, ao que pode ser transformado a partir de uma ruína. Uma memorável obra construída pelos seus ancestrais, restaurada pelas mãos sensíveis dos pernambucanos. – O que é isso? Algum Palácio, o antigo de Friburgo? – Vamos entrar, sentaremos num banco diante de um tapete de cerâmica, obra do artista, Ariano Suassuna, e lá contarei a história desse espaço mágico. No berço da cidade, o Marco Zero, convidei-o para um brinde no terraço do restaurante no último andar. Estarrecido com tanta beleza, falou a língua natal, entendi apenas a palavra Amsterdã. Contei-lhe então a reconstrução do atual Paço Alfândega, antes apenas ruínas dos alicerces. Apontei o Rio Beberibe, que depois vai se encontrar com o Capibaribe, chamado, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, de O cão sem plumas. Mostrei as torres da Igreja de São Pedro, situada no Pátio do mesmo nome, onde são realizadas festas folclóricas. Admiramos a beleza das pontes iluminadas. Encerrada a aula de História, descemos e disse ter outra surpresa para mostrar. Caminhando até o novo espaço, percebi lágrimas nos olhos azuis do marinheiro. – O que é isso? Mon Dieu! Que grande livraria. Quero subir, olhar os livros de história e levar alguns que tenham as gravuras dos holandeses sobre as quais você me falou e a história da formação desta linda terra. Entreguei-o a uma vendedora amiga e saí escondida para comprar o Livro geral, do poeta Carlos Pena Filho, do qual eu já havia recitado parte do poema Roteiro sobre a cidade do Reci-

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fe. Olhei o relógio, já era tarde, combinamos um encontro no dia seguinte, às nove horas da manhã na Rua do Imperador, defronte à Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, perto da Praça da República. Despedimo-nos no charmoso café da livraria. O dia estava lindo, a claridade da cidade refletia o azul do céu em todos os monumentos. Encontramo-nos na hora acertada. Dirigimo-nos à Igreja, entramos e Karl, o marinheiro, apreciou o altar barroco todo revestido de ouro. Fomos ao Gabinete Português de Leitura, onde ficou maravilhado com a riqueza dos livros e a extensa documentação de grande importância histórica. De lá, passamos pela Rua do Bom Jesus, onde se encontra a primeira Sinagoga da América Latina, recentemente muito bem restaurada pela colônia judaica. Em direção à Praça da República chamei a sua atenção: à direita, a Ponte Princesa Isabel; à esquerda, o Teatro de Santa Isabel, uma das construções de beleza arquitetônica, de autoria do arquiteto Vauthier; em frente, o Palácio do Governo, chamado de Palácio do Campo das Princesas, em homenagem às filhas do Imperador Dom Pedro II, que viriam em visita à cidade em companhia dos pais, o que de fato não ocorreu, vieram apenas o Imperador e a Imperatriz Tereza Cristina, mas assim ficou batizado. Ainda na mesma praça, a imponente construção do Palácio da Justiça, onde funciona o Tribunal de Justiça do Estado. Sentamos num dos bancos, diante de bela fonte, e contei o restante da história daquelas edificações. Apontei o lugar onde deveria ter sido construído, por seus antepassados, o Palácio de Friburgo, residência do Conde Maurício de Nassau, local hoje da Secretaria da Fazenda. Rumo ao Forte das Cinco Pontas, relatei a sua história, ao sairmos, perguntei se desejava um passeio de barco, aceitou. Caminhando, fomos ao lugar de onde partem

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os chamados catamarãs para uma volta à cidade e subúrbios através do Rio Capibaribe. A paisagem do caminho, rodeado de manguezal verde-musgo, contrastava com o azul profundo do céu. Descemos em direção ao Parque Treze de Maio, paramos diante do busto de Manuel Bandeira, privado de olhar a casa do avô na Rua da União, hoje denominada Pasárgada, cidade ainda cantada e amante, correspondida, de outro poeta, Joaquim Cardozo. Das pontes mostrei o rio escuro e triste, alegrando-se em tempos de chuvas quando a lama é disfarçada pelas baronesas vindas do interior. Paramos diante da Faculdade de Direito do Recife, construção com pátio interno de ferro trazido da Bélgica. Visitamos a secular casa de detenção, antigo presídio, hoje chamada Casa da Cultura, enfeitada de rendas e artesanatos coloridos que não conseguem calar sussurros, choros e lamentos dos presidiários no passado torturados. Levei Karl aonde existiu a saudosa Ponte Giratória, de ferro fundido, que com toque de cortesia deixava passar as embarcações, abrindo larga porta aos navegantes com votos de boas-vindas, hoje nada mais que lembranças em postais e fotos recordados por quem não perdoa as mãos que a desfizeram. Buarque de Macedo, Boa Vista em arco, elegantemente atravessam o Rio que, apressado, se encaminha rumo às várzeas, protegido pelo corrimão formado pelos manguezais. A cidade se estende pelos arredores rumo aos subúrbios ainda premiados por alguns casarões coloniais. Caxangá, Monteiro, Apipucos, onde encontramos a Fundação Joaquim Nabuco. No Bairro de Casa Forte, lembrança da casa de Ana Paes, mulher famosa pela beleza e cultura, mansão guardada na memória dos mais velhos, posto que soterrada por mãos insensíveis e temerosas do seu tombamento pelos órgãos de preservação da memória histórica da cidade.

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História da mulher que amou e foi amada pelo príncipe Maurício de Nassau, homem culto que tanto nos presenteou com requintes culturais e arquitetônicos, vindo para cá como representante da famosa Companhia das Índias Ocidentais, além de pintores como Frans Post e outros artistas que nos legaram grandes obras de arte. Ainda tivemos tempo de ir ao Bairro da Várzea, para mostrar o que não poderia deixar de ser visto, a Oficina Cosme e Damião, obra do artista Francisco Brennand, um vitorioso da Arte, que conseguiu o milagre de transformar as ruínas da fábrica de telhas do avô num espaço mágico, onde estão expostas as grandes cerâmicas e pinturas de rara beleza, podemos dizer, de um amante da arte. A cidade se estende além do Rio e vai ao mar, formando o horizonte onde se emenda à fúria do oceano, depois de pintar de azul as praias ao longo do desenho curvilíneo do seu litoral. Preocupada com a hora, sugeri uma ida rápida à praia da Boa Viagem, com toda a beleza azul das águas e a sua extensão. – Como gostaria de mais tempo para caminhar pela orla dessa mágica natureza, como fazem os seus moradores. Aceitei o convite de Karl para almoçar no restaurante português, o Leite, decorado com azulejos brancos e azuis e arquitetura lusitana, tradicional pela gastronomia e por ser o mais antigo da cidade. Conversando, fizemos análises de hipóteses, entre elas, se tivéssemos permanecido com seus antepassados, e chegamos à conclusão de que o momento não comportava essas lembranças. Foi então que ouvi a frase que desenhou o perfil de Karl. – Quero esclarecer a razão da nossa vinda a esta cidade: no passado para invasão e domínio; hoje para conhecer a Maurits Stadt. Notei-o calado e com ar tímido, quando devagar foi contando que o pai, também marinheiro, teria vindo ao

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Recife e gostaria que cumprisse uma promessa: se algum dia aqui estivesse, não deixasse de ir ao local chamado Chantecler, onde vivera uma história de amor com uma linda mulher, e tomasse um Martini Seco em homenagem a esse momento, inesquecível para ele. Fiquei confusa por alguns momentos, o local era na zona de prostituição da cidade, mas segurou-me a mão e o seu olhar era entre comovedor e enigmático. Após a sobremesa dos famosos pastéis de Belém e de um café bem brasileiro, saímos, e em silêncio fomos caminhando em direção ao Recife Antigo. Chegamos aos velhos casarões desgastados pelo tempo, ele olhava, ora para os velhos sobrados, como se procurando o lugar recomendado, ora para o meu rosto. – Terei que cumprir a promessa feita ao meu velho pai e gostaria de convidá-la para subirmos ao velho Chantecler, ei-lo. Segurou-me a mão e subi as escadas. O lugar mostrava o estrago do tempo, mas diante das palavras do marinheiro senti que fantasiava o local, enxergando tudo como fora descrito pelo pai. Pediu à garçonete um Martini, recomendando cerejas para enfeitar o drinque. Brindamos o cumprimento da promessa e convidou-me para dançar. Ali ficamos até o dia seguinte, quando o rosa da madrugada iluminou a cama onde passamos a noite entre conversas e carícias e ouvimos com pesar o som nostálgico do apitar do navio chamando todos a bordo. Abriram-se os portões antigos de ferro para a entrada da tripulação. Através das grades nos despedimos com a emoção expressa no olhar.

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De celulares, sites, e outras reflexões
Italo Bianchi

Os leitores que me desculpem a forma do título “à latina” (De, etc.), uma bossa dos antigos clássicos e dos escritores mais pedantes da era moderna, mas pareceu-me engraçado usá-la para tratar de dois assuntos de absoluta atualidade: a comunicação via internet e a via telefones celulares, e suas consequências culturais. Se tivesse que escrever um roteiro para um documentário sobre as mutações de comportamento provocadas pelas inovações tecnológicas de todos os tempos, começaria com uma cena que está num romance de Émile Zola: um calígrafo testando metodicamente a maciez de sua pena metálica na unha do polegar da mão esquerda (close nela). Não fazia muito tempo que tinha terminado o embate entre os defensores da pena de ganso, em nome da bela caligrafia, e os adeptos da pena industrial metálica, em nome da praticidade e da democratização da escrita. Está aí um pequeno exemplo da eterna celeuma entre conservadores e progressistas em relação às inovações tecnológicas, em que os primeiros sempre levaram a pior. Desde que foi inventada a roda, as resistências às novas tecnologias foram de toda ordem – ética, estética, social e econômica. Não importa. Os conservadores sempre perderam, ainda quando cobertos de razões, como em inúmeros casos da Revolução Industrial, em que as inovações eram adotadas pela cobiça dos capitalistas, criando gravíssimos problemas para as classes trabalhadoras. (Quem

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não se lembra da revolta dos tecelões ingleses contra os teares mecânicos que, no entanto, pelo barateamento dos preços dos tecidos, acabaram gerando mais empregos, ao preço, porém, do achatamento dos salários?). Pulando a história da sucessão de novas descobertas científicas, novas invenções e novas tecnologias, durante séculos, e, ultimamente, durante décadas, chegamos à espantosa e rapidíssima ascensão da eletrônica e, consequentemente, da informática. O inimaginável aconteceu. Através de um aparelhinho que cabe na palma da mão podemos falar com quem quiser, onde estiver – em casa, no escritório, na rua, no banheiro ou na cama com a amante, de dia ou de noite. O telefonino (como os italianos chamam este aparelho, o que lembra mais o nome de um brinquedo) não perdoa e é sempre perdoado. Ele invade, com todo consentimento, a nossa privacidade e modifica a nossa educação. Desligá-lo, por qualquer motivo de força maior, cria até complexo de culpa. Antigamente, isto é, ontem ou anteontem, pedíamos desculpas a um interlocutor se interrompêssemos uma conversa devido a um simples espirro; hoje, quando ele toca, atendemos de imediato, sem a menor cerimônia, e sem achar necessária qualquer justificativa. No entanto, sua enorme utilidade é indescritível, assim como a democratização do seu uso. Há dias, vi uma cena edificante: uma carroça carregada de estrume, atrelada a um pangaré que trotava sob o comando de um carroceiro em pé, feito um guerreiro romano em sua biga, e falando no telefonino. Certamente devia estar tratando do seu negócio de merda. E o que dizer da internet? Um recurso de comunicação nascido ontem, que nos permite saber tudo sobre tudo de qualquer fonte e a qualquer hora. Que nos permite interagir com qualquer pessoa em qualquer lugar. Ou de brincar, feito meninos, e eles inclusive, de polícia e ladrão.

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de Celulares, sites, e Outras reflexões

Ou de tratar de nossos negócios sem tirar a bunda da cadeira. Ou, falando em bunda, exercitar nosso voyeurismo no completo anonimato. Por enquanto este brinquedo maravilhoso está reservado, pelo seu custo, a uma classe privilegiada que, encantada, está mudando seu estilo de vida em função dele. Mas, assim que se tornar acessível à maioria das pessoas, assistiremos a uma irreversível mutação de comportamento da sociedade como um todo. Já está na hora de concluir a matéria. É sempre assim. No momento em que começamos a tomar gosto pelo assunto, estamos chegando ao limite de toques ou da tolerância dos leitores. E minha conclusão é a seguinte: quando o homem pensou Deus à sua semelhança, conferiu-lhe três atributos – onipresença, onisciência e onipotência – na certeza que ele, o homem, jamais poderia aspirar a tanto. Entrementes os telefonini estão chegando perto da onipresença com sua capacidade de se intercomunicarem a toda hora e por toda parte. A onisciência está sendo alcançada pelos milhares e milhares (ou milhões?) de sites, transportando pelo éter milhões e milhões de informações. Quanto à onipotência... Bem, parece que os gênios da informática ainda não pensaram nisso. Claro que estou brincando.
Pensando alto (99 crônicas). Recife, Faculdade Maurício de Nassau, 2006

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Pedras brutas
Ivanildo Sampaio

Em meados dos anos 70 do século passado, quando o Mato Grosso ainda era um Estado único – não havia sido partido em dois – estive lá, como repórter, diversas vezes. Gostava de viajar por aquele mundo líquido e verde, escuro e misterioso, com cidades plantadas no meio da floresta, lagos, rios e cachoeiras, tão puros o quanto foram no primeiro minuto da criação, as populações indígenas olhando desconfiadas a presença do branco invasor. Mato Grosso, Goiás, o norte do Amazonas e o sul do Pará – toda aquela imensidão da floresta tinha sobre mim uma espécie de magia, de alumbramento, de sentir que estava convivendo com um testemunho vivo da presença de Deus. Vasculhei os baixios do Pantanal, viajei em canoas guiadas por nativos dos rios amazônicos, dormi em tendas armadas à beira de igarapés, almocei tucunaré recém-pescado e cozido em panela de barro, voei num velho Catalina com as asas remendadas com esparadrapo, conheci o caiapó andarilho e arredio, estive na região habitada pelos cintas-largas. Na empresa onde trabalhava, eu era provavelmente o repórter-itinerante de mais larga intimidade com toda aquela imensa região. Mudei de emprego, mas não de afeição pelo Norte e pelo Centro-Oeste do país. Por conta disso, na nova empresa, uma das primeiras tarefas que me designaram para cobrir foi o lançamento de um projeto denominado “Aripuanã”, tocado pela Universidade Federal do Mato Grosso e com participação dos Ministérios da Educação, do

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Interior e de Minas e Energia. Era um daqueles projetos típicos do “Brasil Grande”, tão caro aos governos militares e que, confesso, impressionava pela sua abrangência. Fincava, em plena floresta, um campus avançado da Universidade e um posto igualmente avançado de cada um daqueles ministérios. Instalavam-se no meio da floresta para estudar a biodiversidade da região, a fauna, a flora, os recursos minerais, a presença de tribos indígenas não aculturadas. O que os repórteres não sabiam – e só comentou-se muito tempo depois – é que tropas militares também acompanhavam de perto o projeto, nas ações reservadas que o Exército empreendeu para combater a guerrilha no Araguaia. Mas isso já é outra história. Para chegar ao projeto, deixamos Cuiabá a bordo de um avião Hércules, da FAB, adaptado para o transporte de tropas, e seis horas depois descemos num campo improvisado sobre um platô, bem ao lado de uma cachoeira batizada de Salto dos Dardanelos, uma belíssima queda d’água com cerca de 130 metros de altura que, cá de cima, mal víamos tocar o solo lá embaixo. Devo dizer que meu companheiro nessa empreitada era o fotógrafo Claus Mayer, um alemão grande e rosado, extremamente talentoso e igualmente apaixonado pela natureza. Havíamos trabalhado juntos numa revista semanal de muito sucesso, onde Claus, em pouco tempo, tornou-se um dos nomes mais respeitados. Ali, no Mato Grosso, ele estava como freelancer, trabalhava para várias agências noticiosas do mundo, a Black Star, a Mondadori, a Image Bank, entre outras. E insistia comigo para que ficasse mais algum tempo na região, onde, noutras partes do Estado, ameaçava-se um conflito entre índios e posseiros. Ele ia fotografar, queria alguém que escrevesse o texto. Sem dizer que sim nem que não, desconversei e passei a explorar a periferia do projeto, conversando com um trabalhador aqui, outro ali – até que comecei a descer o

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platô para chegar à margem do rio que corria lá embaixo, continuação da queda de Dardanelos. Na solidão daquele mundo, no silêncio cúmplice da selva, longe da vista das tantas pessoas que visitavam Aripuanã, vejo-me diante de dois mestiços com mais cara de índio do que de branco, ambos com um vasilhame na mão, mais ou menos com a dimensão de um litro, cada. Pelo jeito, bastante pesados. E me chamam para negociar. Querem vender o conteúdo daqueles vasilhames. Só quando chego mais perto dá para perceber que estão ali, naquelas latas rústicas, uns dois quilos de diamantes brutos, garimpados à beira daquele rio ou sei lá de quais, dos tantos pequenos e médios igarapés que se escondem na imensidão da selva. Evidentemente que não comprei, não tinha dinheiro para tanto nem era aquela a minha praia. Mas fiquei pensando: será que alguém matou ou morreu pela posse daquelas pedras? Será que as autoridades brasileiras tinham conhecimento do comércio pirata que se praticava com pedras preciosas no coração do país? Da evasão de riquezas que naqueles anos acontecia quase à vista de tantas autoridades que estavam visitando o Projeto Aripuanã? Não sei, não voltei mais lá, conversei sobre o assunto apenas com meu companheiro Claus. Algum tempo depois, de volta ao Rio, reencontro com ele num boteco qualquer de Copacabana. Com aquele seu sotaque alemão e um riso matreiro no rosto, Claus me pergunta: – Escuta, por que você não comprou as pedras daqueles caboclos lá em Aripuanã? Eles estavam vendendo tão baratinho... Grande Claus, que um dia, desencantado da vida, saltou para a morte do prédio onde morava, no pacato bairro de Santa Tereza, deixando como legado o seu imenso coração e algumas das mais belas fotos que já foram feitas sobre o mundo amazônico.

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Cartografia urbana da Fundição Capunga
Janguiê Diniz Às vezes somos vítimas de um saudosismo que se recusa a entender que tempo muda cenário. Balzac chega de fininho a um sentido meu e lança meus olhos ao chão. Não ao chão do presente de minha cidade Recife. Mas ao chão azul de um passado do Recife. E a voz de Balzac continua, insiste, dizendo-me bem baixinho aos ouvidos: “tempo muda cenário”. Com sua insistência, abruptamente meus olhos se renovam. Grito num comício dentro de minha alma que Balzac me trouxe a jovialidade. Agora, sou um homem maduro, mas com olhar novo, moderno e em progressão para o pósmoderno. Já não mais estou cego ao presente. Na fundição da Capunga, de fato, há uma nova pulsação: a Faculdade Maurício de Nassau, fazendo parte da nossa História. E é gostoso testemunhar que parte da Veneza Brasileira não está morta, enterrada em uma fundição que já não mais existe há anos. É prazeroso perceber que não mais estou preso a uma minúscula fenda de uma caverna: o saudosismo. Antes, paredes cansadas, fatigadas, entregues pela força natural do tempo. Pretas, queimadas pelo fogo forjando o ferro a quente e a frio. Antes, o medo de caminhar por ruas estreitas e estranhas que se recusavam a se entregar à necessidade de uma população em busca de espaço para investir em seus sonhos. Antes, de fato, um passado petrificado em um saudosismo estranho à velocidade de nossa época. Antes, por fim, um lugar sem o relógio de nosso tempo. Eis a antiga fundição da Capunga.

Janguiê diniz

A Capunga e as Graças surgiram de loteamentos desenvolvidos no século XIX, primitivo sítio que começava na Camboa do Manguinho (Parque do Amorim) e se estendia até à margem do Capibaribe. E, conforme nos ensinou Clarice Lispector, por o tempo urgir, o sítio foi dividido em dois: Capunga Velha e Capunga Nova. Das mãos do sargento-mor Luís Ferreira Feio e sua mulher D. Maria Correia Monteiro, com o tempo, passou para as do comerciante açoriano Guilherme Fischer. Com a morte deste, passou para as mãos da Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Recife. Com a insistência da filosofia machadiana, em 1878, concluiu-se a construção de um templo. E a população cresceu. Já havia 4.511 pessoas livres e 922 escravos. E para lá afluíam as novidades. E surge, por exemplo, na fundição, o engenheiro e mestre ferreiro Hermínio Filomeno forjando o ferro a quente. Sua finalidade é dar forma ao ferro. Ofício que nos remonta aos primeiros momentos da civilização egípcia. Os passos do mundo parecem andar no ritmo da velocidade da luz. Devemos nos preocupar com a velocidade de nossos olhos. O bater de nossas pálpebras não pode estar obedecendo à preguiçosa lentidão de um saudosismo que freia nossa cidade. Já não é o ferro o único a dar forma ao que nos circunda. Já não temos apenas 4.511 pessoas, ou melhor, 5.433 pessoas no antigo sítio. Mas o homem não dorme. O homem pulsa. O homem renasce. O homem faz germinar o aparente chão queimado, infecundo e que repousa em minúsculas fendas de um passado que já foi o caminho das Índias. Sim, faz germinar! Faculdade Maurício de Nassau! Como não enxerguei tudo isso antes?! Como ela estava ilegível àquela primeira vista... àquela vista cansada, velha e míope da qual há tão pouco tempo me distanciei. Obrigado, Balzac! A realidade de uma cidade é sempre móvel. A vida de uma cidade

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CartOgrafia urbana da fundiçãO Capunga

obedece à filosofia de Machado de Assis, ou seja, respeita a filosofia dos humanitas. Isso! É necessário entender a sequência natural de nosso espaço urbano, assim como é mister compreender que precisamos morrer para dar vida a quem teima em chegar. E chega! E assim, enfim, nasce a Faculdade Maurício de Nassau na antiga fundição. Já não há mais o descompromisso com o local. Já não existe mais umidade naquele chão. Para lembrar nosso poeta Manuel Bandeira, já estava na hora de “lavar o tédio dos telhados que envelheciam”. Por que a necessidade de se buscar em espaço onírico uma Pasárgada para se viver a necessidade de nosso tempo? Hoje, com a Faculdade Maurício de Nassau, há um novo ferro dando forma a todo um coletivo de pessoas não assistidas por um governo carente de recursos, preso a um déficit público. O ferro nos portões da Faculdade Maurício de Nassau nos lembra – mas apenas nos lembra – aquelas 4.511 pessoas e aqueles 922 escravos. A fachada da Maurício de Nassau na fundição é a fronteira entre o chão que dá repouso aos olhos míopes do saudosista e a nova cartografia urbana. Existe um espaço onde se encontra o alimento mais substancioso à formação do recifense, a educação. Milhares de jovens se instrumentalizam com o conhecimento científico para ter identidade, garantia e desenvolver nossa Veneza Brasileira.

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O homem à margem da cidade
Joaquim Cesário de Melo O ano que se inicia é igual ao que passou, já que os relógios não distinguem os dias: todos têm as mesmas horas e os mesmos minutos. O que muda é a sequência dos números nas semanas dos calendários e um ou outro amigo que se foi, um ou outro que ficou. Se um dia não é mais que duas voltas de um ponteiro – quantas voltas, então, deve ter uma vida inteira? Poderia com tais ideias ocupar a mente, mas nelas não pensava. A uma mente despida de pensamentos, sobra-lhe o interior oco de palavras, o indivisível do ser. Cada homem, todo ele, dentro de si, é primariamente um homem baldio, pois o desencontro vem sempre muito antes que qualquer encontro. O rosto de alguém é alguém que não se conhece. A madrugada é a tarde da noite e a ressaca do dia. Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar de longínquos e atrasados fogos que rareantes explodiam por detrás dos edifícios que apontavam à lua, ao invés de arranharem o céu. O mar estava quase distante. Preferia assim à quietude companheira dos rios, talvez por temer oxidar de salinidades e agitos. Alguns poucos eram como ele: desconhecidos entre desconhecidos, melhor do que em meio a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de cumplicidade irreconhecida se misturava ao fino frio do fim da noite. Sorveu em um só gole todo o conhaque que continha o copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a alma com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez pelo estômago vazio, fazia horas que trocara o corriqueiro jan-

O hOmem à margem da Cidade

tar por um sanduíche de queijo e mortadela. Um tanto tonto, porém insuficientemente, pediu a conta e pagou, não sem antes solicitar outra dose. Caminhava agora pelas ruas com a inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se enterrará Quando por baixo dela viver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância, seu passado, sua história… Os pés do adulto que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído. Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pontes, como várias vezes passará, até que passar não lhe seja mais nenhuma obrigação. Da cidade herdara o prenome e sobrenomes, bem como os seus desígnios e destinos. Seu nome o revestia de ser exatamente o que não era: o desejo de quem o batizou primeiro do que um padre. O batismo de um nome é acima de tudo o legado de um sonho, e se o filho é o espólio silencioso de um sonho, o nome deste é sempre a frustração de um outro. Fadado ao insucesso, restavalhe a vida inteira para lembrar que ao nascer já não era quem nunca fora. Chamava-se pelo nome do avô materno a quem jamais conhecera. Uma mãe não devia, afirmava consigo e tomado pelo pensamento, parir um pai, pois pais também se fazem de rupturas e cortes. Pudesse adotar números em vez de letras, adotaria o um e o sete. Setenta e um, ou dezessete, pouco importa, melhor assim seria do que já era. Ali ia o homem margeando o rio que margeava a cidade que margeava sua vida. No limiar dos seus limites amanhecia o amanhecer, embora ainda estivesse um pouco escuro e se iluminasse das luzes dos postes e da matina. A princípio impercebeu que rumo ou rota seguia, tão so-

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JOaQuim CesáriO de melO

mente continuava como se o continuar fosse a tarefa dos que ficaram. Quando por si se deu, logo compreendeu que o longo muro que o seguia feito cachorro sem dono e que se findava em um largo e elevado portão de ferro era todo o cemitério. Plantado como um poste se planta, aguardou o dia com suas claridades e consequências – acaso passasse alguém no adiantado daquela hora, imaginaria ser ele uma assombração. Quando abriram o pesado portão não se importou com o susto do zelador, continuou. Consigo não trazia nada além da roupa do corpo e suas lembranças, lembranças estas que depositaria, que nem flores, no jazigo onde estavam os nomes da sua família. Se me perguntarem se ele voltou ou se ele ficou, não saberei neste instante responder. O que apenas sei foi que ele não escutou, ou não quis ouvir, quando o zelador, educada e timidamente, pronunciou um distante, como distante é o mar: – Feliz ano novo.

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Preto-graúna
Joca Souza Leão

Quando cheguei à barbearia, o cidadão já tava lá, com uma toalha enrolada na cabeça, como um turbante. E algodão (acho que era algodão) cobrindo as sobrancelhas, como um de loja de subúrbio. Por menos curioso que eu fosse, não tinha como não observá-lo. Tava sentado Papai Noel na cadeira de barbeiro ao lado da minha. Portanto, a cara de um tava no espelho do outro. Enquanto a tolha e o algodão faziam sua parte – que eu até então nem desconfiava quais eram –, a manicure lhe fazia as unhas. E o barbeiro, a barba. Passados uns vinte a vinte e cinco minutos, a cabeleireira iniciou os procedimentos para desenrolar o turbante, com todo aquele ritual e solenidade que a ocasião exigia. Mais parecia uma oftalmologista retirando as ataduras do paciente recém-operado. E que ainda não sabia se tinha recuperado a visão. Tcham-tcham-tcham-tcham... Sucesso total! E o meu vizinho de cadeira exibiu, rindo para o espelho, sua cabeleira e suas sobrancelhas mais pretas que as penas de uma graúna. Não me pareceu marinheiro de primeira viagem, aquela não era uma alegria deslumbrada. Era alegria renovada, periódica, com hora e dia marcados. (Se chegou à barbearia com uns 70 anos, deveria levantar daquela cadeira com, no máximo, uns 50. Assim pensava – e devia se sentir –, por certo). Que a indústria de cosméticos sacaneia com os homens, não há a menor dúvida a respeito. Só pode ser de propósito. Mulher pinta o cabelo de qualquer cor e fica

JOCa sOuza leãO

uma maravilha. A gente é capaz de jurar que a loura não é de farmácia e que a ruivinha puxou à tataravó escocesa. Homem, não. Pintou, dançou. Parece mais um outdoor ambulante. Preto-graúna ou acaju (que, pra quem não sabe, é uma madeira de tom castanho-avermelhado). Custava nada a indústria fazer tintas com cores de cabelo de verdade? Preto, castanho, louro e ruivo? Mas não. Pra homem, são duas as tintas. Uma tem cor de pena de passarinho. E a outra, de pé-de-pau, também conhecida como cor de burro quando foge. Com as perucas, então, a coisa é ainda mais séria. Para as mulheres, todas dão certo. Naturais e sintéticas, com mil penteados diferentes, longos ou curtos, lisos ou ondulados, com tranças ou cachos, pretas, louras ou ruivas. Pra homem, peruca não tem a menor chance. E isso não tem nada a ver com a qualidade. O careca pode ter todo o dinheiro do mundo e mandar fazer a peruca mais cara do planeta. Quando sair de casa, sabe quem vai dizer qu’ele tá de peruca? Deus e o mundo. Apenas. Não tem jeito. Se tivesse, ninguém jamais teria percebido a peruquinha de Frank Sinatra. E dinheiro ali não faltava. Acho que só uma pessoa não reconhece cabelo de homem pintado: o próprio, o sujeito do cabelo pintado. E de peruca, então... Só ele acha que tá abafando. Tecnologia e ciência servem pra tudo. Menos para rejuvenescer e ressuscitar cabelo de homem. Tudo quanto é remédio que promete nascer cabelo é picaretagem. Os implantes até que melhoraram um pouco. Antigamente parecia plantação de coentro, agora parece mesmo plantação de cabelo. Eu era intolerante paca com homem de cabelo pintado. Era. Não sou mais. Ao contrário. A partir de agora, sou solidário e até um tanto compadecido. O que não quer dizer que eu vá pintar o meu. Não. Não vou. Mas sempre vou

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pretO-graúna

lembrar a cara de felicidade do meu vizinho de barbearia, com suas sobrancelhas e seu cabelo preto-graúna. Se o preço da felicidade é o ridículo, tem quem pague. O que não deixa de ser comovente.
Jornal do Commercio, 1 de maio de 2010

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Sentimento do Recife
Jorge Abrantes

O poeta falou do sentimento do mundo, que envolve aqueles para quem as circunstâncias de região, de pátria, de classe, de profissão, de religião não constituem limitação aos anseios de libertação do espírito. Falo, também, de um “sentimento do Recife”, que se pode generalizar no sentimento do lugar onde se nasceu ou onde se vive, qualquer coisa difícil de definir e da qual podemos dizer desajeitadamente, neste particular, ser a afinidade, a correspondência de coração e de inteligência que liga esta nossa cidade à personalidade de cada um dos que a amamos. Sim, porque há os ingratos e os ausentes, que brotaram para a vida e se fizeram homens dentro dos muros do Recife, ou que do Recife fizeram a cidade da sua vida, mas têm a alma seca ou fechada a esse amor. Poderá haver quem, contemplando um trecho velho e familiar do Recife, conhecendo a casa onde nasceu, revendo as casas onde sucessivamente morou, passando pelo beco onde bateu bola, pela campina onde soltou papagaio, pela janela onde namorou, pelo grupo escolar e pelo colégio onde estudou, pelos lugares onde vagabundou; poderá haver quem não se enterneça e não tenha, ao menos, a revelação desse sentimento? Infelizmente há. E esses não entendem o que quero dizer. Tentarei explicar-lhes, pela minha experiência pessoal. Em primeiro lugar, não sou daqui, mas do sertão. Mas apenas acidentalmente do sertão. Cresci, criei-me, estudei no Recife. Os meus primeiros passos para a vida foram aqui

sentimentO dO reCife

encaminhados. Aqui sofri os percalços da infância pobre. Morei numa casinha de porta e janela da rua de Santa Cecília, por trás da mole da Basílica da Penha, e os meus primeiros deslumbramentos urbanos foram os ofícios religiosos nessa igreja e o imenso bazar colorido e ruidoso do Mercado de São José. Aí comecei a ir à escola, levando chuva como um pinto nos feios invernos recifenses. Mas às vezes levando por gosto... Aí comecei a ter contato com a vida maior, num grande colégio do bairro burguês da Boa Vista. Entrementes, brincava no areal do Chupa, hoje sepultado sob o calçamento moderno, e brincava de quadrilha à noite, na praça Sérgio Loreto, que foi a Campina do Bodé, por causa de um português que ali morava e se chamava Bodé. Ali fiz as minhas primeiras experiências à margem do carnaval do Recife, os grandes carnavais de 1925 e 1926. Daí saí uma vez, com minha família toda, para assistir à chegada do “Jaú”, quase morrendo esmagado pela multidão que se comprimia na Praça Rio Branco. Morei também na Rua Augusta e vi ali crescer em torno de mim a Revolução de Trinta. As rajadas de metralhadora varriam a rua e a gente encolhida dentro de casa... Quando passou o barulho, saí escondido para a rua, para espiar o movimento e vi, na Praça da República, um homem morto, envolvido em papel de bobina do Jornal do Commercio, que tinha sido assaltado. Morei uma meia dúzia de vezes no arrabalde então proletário da Torre e brinquei os brinquedos de menino nas suas areias brancas e ardentes de sol. Às vezes, ia com minha mãe ao bairro do Recife e me admirava do progresso “notável” da cidade, com aqueles prédios da avenida, então os mais novos e imponentes. E minha mãe falava do traçado antigo daquele bairro, inteiramente diferente do de hoje, com o cais da lingueta, a Igreja do Corpo Santo e uma infinidade de ruas e ruelas antigas; falava dos arcos que, como a igreja, tinham sido demolidos. Notáveis eu achava
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JOrge abrantes

também aquelas estátuas da ponte Maurício de Nassau. Amplo e misterioso achava o porto. A vida da cidade girava em torno de mim, mas eu não chegava a apreender todas as suas manifestações. Os ruídos da política, da imprensa, da vida social chegavam-me como ecos abafados e, no entanto, eu sabia que aquela entidade complicada e de mil formas era o Recife, a minha cidade. Com a idade, a decifração desse mistério se foi fazendo, lentamente, lentamente, e ao mesmo tempo em que eu desbravava a topografia recifense, via paisagens novas, trechos inéditos, recantos desconhecidos. Um conhecimento em extensão geográfica e em penetração psicológica. Houve também um desvendamento retrospectivo, pelo qual se me revelou toda a perspectiva histórica, desde o largo cenário do presente até aquele ponto obscuro, de onde tudo proveio: o velho burgo de pescadores e negociantes. E, de tudo isso, nasceu essa compreensão e esse amor, a que chamo, um pouco imperfeitamente, o sentimento do Recife. Sentimento de que está impregnada a obra de Mário Sette, a de Gilberto Freyre, a de tantos outros escritores, ensaístas, poetas e homens de cultura em geral. Sentimento que move e anima a Diretoria de Documentação e Cultura em sua missão de registar todos os movimentos de vida da cidade, de reconstituir o seu passado e de acompanhar e incentivar as suas atividades de cultura. Sentimento de todo recifense digno realmente desse nome e que ama esta cidade acima de todas as outras. Esse amor não conhece condições de inteligência, cultura, situação social e pode vibrar, tanto no coração do rico que prefere aqui aplicar os frutos de sua riqueza, em benefício do desenvolvimento da cidade, quanto no do pobre homem da rua, convicto de que “não há cidade como o Recife”, onde se faz o melhor carnaval do mundo...
Prosa breve (org. Luiz Delgado). Recife, Associação da Imprensa de Pernambuco, 1976
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Crônica em três capítulos Todos três nojentos
José Cláudio Abelardo da Hora vivia tirando catota. Tem uma foto, de 1952, em Ipojuca, eu, ele, os pintores Gilvan Samico, Marius Lauritzen Bern, a última vez que estive com ele fotógrafo no Rio de Janeiro, e Ionaldo Andrade, falecido há alguns anos em São Paulo, Abelardo tirando catota. Dizia ter “uma fábrica de catotas”. Ficava amolegando a catota entre o polegar e o indicador, no caso dele uma extensão da modelagem no barro, quando às vezes imitava coisinhas mínimas, um talinho de planta num relevo como nessa pequena obra-prima sobre o pau-brasil que fez para sua terra São Lourenço da Mata. Há o ditado “certo que só o dedo na venta” e o roedor serelepe ou caxinguelê também chamado para-catota. Tive um amigo que usava a unha do dedo mindinho mais longa para enfiá-la no nariz e no ouvido. Na peça As três irmãs, de Anton Tchekhov, ato II, o subtenente Aleksei Petrovitch Fedotik declara, mostrando aos presentes: “Para mim comprei um canivete... olhe... uma lâmina, outra lâmina, ainda uma terceira lâmina... Isto é para raspar o interior do ouvido...” O pintor Carybé considerava uma das maiores felicidades dos seres humanos tirar “uma daquelas melecas bem compridas que parece que vêm do cérebro”. Tem menino que come catota. Uma vez, trabalhando no Jornal do Commercio, Recife, distraído, olhando para a página, fazendo a diagramação dos tabloides, chegou Alexandrino Rocha junto do meu birô e perguntou: “Limpando o salão?” Só então me dei conta de que estava tirando catota. Mas chega de catotas.

JOsé CláudiO

Outro capítulo é sobre se limpar ou mais precisamente limpar a bunda. Sempre me limpei puxando o papel para a frente e imaginava que todos fizessem o mesmo até ser despertado para o assunto, por acaso, numa aula de modelo vivo na Academia de Belas-Artes de Roma, manhã fria de outono de 1957, à beira do Tibre. Uma das modelos, presumivelmente italiana, já que era proibido aos alunos tomar informações ou falar com as mesmas, apelidada de Regina di Spagna (rainha de Espanha), boa estatura, de um moreno claro puxado para pálido, vinha para a sala envolta num casaco de peles, enquanto as outras já saíam despidas de detrás de um biombo. Um ritual de elegância vê-la desnudar-se naquele rápido strip-tease. Numa das poses, observava-se uma lista escura inequívoca subindo-lhe de entre as nádegas, do sulco interglúteo, digo, rego da bunda, para o lado direito, sumindo logo acima. Educadamente todos fingiram ignorar o fato mesmo que o professor nos chamasse atenção para cada trecho da anatomia in loco no corpo da moça. Havia, pois, a possibilidade de se limpar para trás. Imaginei uma diferença entre homens e mulheres nesse particular. Mas, conversando anos depois com o mesmo Gilvan Samico, ele disse que limpava também para trás e era assim, acreditava ele, que todo mundo fazia. Não continuei a pesquisa. Nem sei o que dizem os manuais. Também queria falar de peido, mal que ataca os velhos, consagrado no nome do traque junino peido de velha. Se do assunto anterior não encontrei manuais, deste há desde cordel, como O peido que a doida deu, ao erudito L’art de peter (a arte de peidar), que leio na tradução espanhola Tratado sobre el pedo (tratado sobre o peido),”que os latinos chamavam crepitus ventris, os alemães fartzen e os ingleses fart”, citados Horácio e Marcial entre outros nomes ilustres como Cícero e Aristófanes. No Satyricon, de Petrônio, “o

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CrôniCa em três CapítulOs tOdOs três nOJentOs

mais antigo de todos os romances” segundo o seu tradutor Paulo Leminski, o capítulo 47 começa assim: “As fábulas ainda vibravam no ar, quando eis que volta Trimalcião e, enxugando a testa, lavou as mãos com unguentos, e disse, depois de um silêncio: ‘Não levem a mal, meus amigos, há dias que não consigo cagar direito, e os médicos não sabem o que dizer. Mas acabo de tomar uma infusão de casca de granada no vinagre. Espero que assim minha barriga tome vergonha. Se não der certo, vocês me ouvirão peidar, como se um touro mugisse. Aliás, se algum de vocês tiver o mesmo problema, nada de acanhamentos. Ninguém é perfeito. Acredito que não há tormento igual ao de não poder cagar.’” Para finalizar, um verso dos tempos de menino em Ipojuca. “Eu dei um peido lá na porta do fuá qui chegou quilariá...”

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O aboio de um povo
José Mário Austregésilo

Quando Luiz Gonzaga canta, cantam os pássaros, os bois, as cabras, os rios, as cachoeiras e toda a natureza nordestina é um coro só. O canto gonzaguiano é a sonoplastia de um parto sertanejo e nordestino; é o ranger das cancelas, o coaxar dos sapos, o galopar dos cavalos nos lajedos; o canto sonoro de um “coco” que mergulha no fundo de um pote em busca da água para matar a saudade: “tichibungo!” Quando Gonzaga conta por que ele se dizia mais contador do que cantador, despertam as personagens do imaginário nordestino: vaqueiro, romeiros, padres, valentes e covardes; um canto que desperta uma imensa nação de cangaceiros, volantes, cantadores, emboladores, cegos de feiras, sanfoneiros e rezadeiras que nos livram do mal e nos protegem dos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Quando O Rei do Baião conta e canta, desenha-se o cotidiano criador de uma cultura, uma das mais importantes matrizes, raiz e copa, dessa imensa árvore (sempre na mira da mídia da serra elétrica!) que é a música popular brasileira. Quando Lua canta, canta a natureza nordestina; falam os sapos, late fino o cachorro do pobre, late grosso o cachorro do rico, e o jumento, nosso irmão, dá as horas, mostra sua inteligência e, por ter carregado Nosso Senhor Jesus Cristo nas costas, pode desafiar o Rei do Baião: Seu Luiz, comi seu milho, e como, e como e como...”.

O abOiO de um pOvO

O canto de Gonzaga está onde o povo está; canto dos sanfoneiros de todos os baixos, forrós de pé de serra e de cidade grande; um canto ouvido e dançado pelos corpos que imprensam suor nos sambas do Sertão. Quando uma sanfona, um triângulo e uma zabumba se encontram, tocados por quem quer que seja, venha de onde vier, chegue de onde chegar, pode-se ter a certeza de que o Rei está presente, em carne, osso e espírito do nosso povo. As vozes incorporadas pelo Mestre Lua são aquelas da seca, da luta, um canto precursor do protesto contra a injustiça e a desigualdade social, mas é também um canto de louvor às chuvas caindo, aos rios correndo e às cachoeiras zoando; são aboios de um povo, vestido de chapéu de couro e gibão, sanfona colada no peito e olhar encontrado no sol em brasa, se pondo no horizonte das certezas que fazem e refazem, todo dia, o Sertão nordestino.

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Pra lá de Marrakech
José Mário Rodrigues

Há alguns anos comprei o Alcorão, numa tradução de Mansur Challita, mas não li. Nem sei mesmo por que comprei. E o livro ficou hibernando na estante. Tenho alguns livros que estão em sono letárgico. Uns recebi de presente, outros são para futuras leituras, pois um dia serão aquecidos por minhas mãos ou por mãos de outras pessoas que surgirem no espaço entre a sala e o quarto onde eles descansam seus mistérios. Os muito amados os quero sempre perto de mim e por isso mudam de lugar, andam pelo apartamento. Mas há, também, os que não deveriam ter sido escritos, e já preparo o seu descanso no sebo das calçadas do Recife, de onde nunca deveriam ter saído. Os livros são como as pessoas: possuem virtudes e defeitos. Poucos são geniais. Também não encontramos gênios com facilidade. Ser uma pessoa de vergonha, de caráter, ou um livro inteligente e criativo já é o bastante. Uma viagem que fiz recentemente ao Marrocos provocou em mim o interesse de ler o Alcorão. Religião por lá é coisa muito séria. Basta dizer que as Mesquitas não são visitadas no seu interior. Só os muçulmanos podem frequentar aqueles lugares sagrados. Em todo o país, apenas uma é aberta à visitação pública e fica em Meknès, uma cidade próxima a Fez, e que ficou conhecida depois da novela O clone. Como manda o ritual, com todo o respeito tirei os sapatos e entrei no templo. Mas não foram as paredes decoradas com textos do livro de Maomé nem os lustres nem os

pra lá de marraKeCh

tapetes ou as portas trabalhadas com madeira e bronze que me despertaram curiosidade, mas a aposição do Alcorão no centro da Mesquita. O célebre livro do Profeta, reverenciado por mais de um sexto da raça humana, e que exige com determinação o cumprimento de suas máximas, está escrito em forma de poemas, todos eles com o mesmo enunciado: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”. Em Marrakech, precisamente na praça Jamaa el-Fna, também chamada praça do mundo, localizada ao lado da torre da Kutubiyya, símbolo da cidade, fiquei desconcertado e, aqui pra nós, um pouco atacado da cabeça. Não sabia o que fazer. Tive medo de atravessar e ser atropelado. Era gente, carro, moto bicicleta, burro, carroça, tudo entrançado como uma rede de pescar. Fiquei parado, até que alguém me disse: “não preste atenção aos outros, eles vão se livrar de você, mas não corra, atravesse tranquilo”. Disfarçado numa tranquilidade que não tenho nem nunca tive, segui o conselho e andei em direção à medina – o grande mercado – com o coração na mão. A desorganização organizada da praça acabou em divertimento e visão real do malabarismo cotidiano dos mercadores marroquinos. Patrimônio da Humanidade, Marrakech é a capital do artesanato do Marrocos e metrópole dos povos berberes, de gente nômade que se acostumou à dureza de uma vida dividida entre as areias do deserto do Sahara e o mar. Depois de atravessar de norte a sul o belo país da África, voltei para Madrid no avião da Ibéria e desci, justamente, no Terminal 4, onde poucas horas depois viria a explodir um carro bomba do ETA, matando duas pessoas e ferindo dezenas. Por um triz, quase voei pelos ares para conhecer, verdadeiramente, o caminho que me levaria “pra lá de Marrakech”.

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Duas ou três coisas sobre meu pai
José Paulo Cavalcanti

Lembro meu pai num lampejo Indo embora lá de casa Esquecendo a cova rasa Em que plantou seu desejo. Lembro bem daquele beijo Que nunca pôde me dar Na mesa falta o lugar Na cova falta a semente Comigo o rojão é quente Cante quem souber cantar. (Versos de cantoria, no gênero Comigo o rojão é quente, de José Paulo Cavalcanti Filho.)

Meu pai era uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Talvez a mais inteligente. Era também generoso. Muito generoso. Mas era, sobretudo, um homem simples. Quando lhe pediam currículo, apenas fazia constar ser “advogado no Recife”. Profissão e destino. Escreveu três livros e mais 31 monografias publicadas, todos no campo do Direito Civil; e, apesar dos muitos convites, nunca aceitou ocupar cargo público. Um dia, disse que “o homem é barro trágico rareado de estrelas”. Se assim for, guardarei dele a lembrança de uma estrela. Sempre ouvi dizer que só quem perde o pai é capaz de saber a dimensão dessa dor. Agora sei. E como dói. Das imagens que cortam meu coração em brasa, talvez nenhuma seja tão recorrente quanto a de Penderama – o engenho em que ele nasceu, no município de Ipojuca. Um dia me pôs no carro e levou lá. Meus olhos de menino ain-

duas Ou três COisas sObre meu pai

da hoje lembram, nitidamente, aquele terraço alto da casa grande desabitada, com vista para as poucas construções do entorno e um campo verde sem fim. O velho sentou-se em uma das cadeiras por lá esquecidas e falou como se falasse para ele mesmo. Lembrou do pai, o Major Joaquim Cavalcanti, e de como brincava despreocupado naquele campo. Dessa conversa recordo apenas seu olhar perdido – como se estivesse sozinho, como se procurasse alguma coisa que ainda não sabia, como se estivesse vendo outras pessoas em um outro tempo. Estava feliz, quem sabe por haver encontrado ali alguns fantasmas de sua infância. Não sei a quem pertence, hoje. E nem mesmo sei o que quer dizer Penderama. Provavelmente será palavra de origem indígena. Seja qual for, continuará, em mim, sobretudo como lembrança de perdas. O gesto de afeto aberto que tantas vezes tentei fazer e nunca fiz, talvez por imaginar ser suficiente o testemunho de estar a seu lado no escritório. Ou a vontade hoje inútil de pedir que me ensinasse um pouco mais da profissão, o que também nunca fiz, talvez por estar convencido de já não ser necessário. Ou um último beijo carinhoso que teria gostado de ter dado e não lhe dei, talvez por vergonha. Melhor então passar a considerar que esse nome, Penderama, tenha de agora em diante um sabor menos amargo, apenas o sentido de perdidas ilusões, marcas esquecidas e distantes, restos de caminhos que não voltarei a percorrer, pedaços de alma que andam perambulando por aquele terraço e aqueles campos. Recordar é viver, segundo toda gente. Mas nem sempre assim se passa, nesse mundão de meu Deus; por vezes é apenas se perder, apenas ter medo das promessas do futuro, apenas morrer pouco a pouco, no corpo e no espírito, bem devagar. Guimarães Rosa dizia que toda saudade é uma espécie de velhice; e talvez seja mesmo, um jeito torto de esquecer, de ter pena, de caminhar inevitavel-

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JOsé paulO CavalCanti

mente em direção ao passado, como quem percorre um cordão sem ponta. Passa a vida, todos passamos, só não passam os espinhos do doloroso revés de tudo que poderia ter sido e não foi. Por isso, dias desses, voltei a Penderama. Com os filhos junto, como um dia meu pai fez comigo. Quem sabe para, como antes aconteceu com ele, procurar alguma coisa que também ainda não sabia; ou quem sabe para encontrar, em minha imaginação, seu vulto amigo esperando para conversar. Não foi a volta alegre que pensei, durante tanto tempo. Porque é longa a distância que separa memória e realidade. E ninguém nunca volta, verdadeiramente, ao território da infância. Que muda o espaço físico, nosso corpo envelhece, nossa alma vai aos poucos perdendo substância. Tentei perceber, nos rostos das crianças brincando, algum traço que lembrasse o passado de quem fui ou sonhei ser; mas encontrei só rugas precoces da pobreza endêmica de nossa Zona da Mata. O campo, descuidado, tinha as marcas do abandono. A casa grande como que encolheu, agora era igual a tantas outras – metade ocupada por uma escola, metade por família de posseiros. O terraço, enorme em minha imaginação, reduziu-se a pouco mais que metro e meio de largura. No piso, cerâmicas quebradas e fora de lugar, decompondo-se, pouco a pouco, pedaço por pedaço, em um desenho ilógico. Naquele cenário grandioso, em minha memória, havia só o presente dilacerado. Procurei minha infância e encontrei só restos. Procurei lembranças de meu pai e ouvi só o barulho das brincadeiras de algumas crianças tristes. Naquele momento mágico, compreendi que seria inútil voltar àquele pedaço de passado que já não me pertencia. Por tudo então, e dando os trâmites por findos, apenas fui embora. Sem palavras. E tendo apenas o cuidado, antes, de dar adeus a velhos que me olhavam curiosos, sentados nos de-

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duas Ou três COisas sObre meu pai

graus de uma escada, sem compreender bem a cena. Sem nem saber que, com aquele aceno, estava dizendo adeus a um pedaço de minha vida. Não fiz perguntas. Apenas olhei, uma última vez, aquela paisagem que em mim já começava a se dissolver, impressentidamente; mas que só desaparecerá, então completamente, quando afinal desaparecer o menino que um dia ali viu seu pai, sentado em uma velha cadeira, sorrindo.

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Estão mexendo na língua
José Teles

Tava na praia, quando o pirralho gritou: “Minha pipa, minha pipa”. A linha da tal pipa havia se enrolado perigosamente no meu pescoço. Pipa é de lascar. Quem chamava pipa era o pessoal lá do Rio, São Paulo. Aqui sempre se chamou de papagaio. Agora eu mesmo sou obrigado a chamar de pipa, senão ninguém sabe do que tô falando, e é capaz de pensar que endoidei, confundindo pipa com um psitacídeo. Aliás, até mesmo papagaio era pouco usado pelo nordestino, dizia-se mais “louro”. Ninguém mais diz “Dá cá o pé, meu louro”. Pelo menos acho que não, porque é meio pé-quebrado um “dá cá o pé, meu papagaio”. A culpa disso, obviamente, é da TV em rede e rádio em rede. Com tanta rede, acho que o nordestino não tá mais nem dormindo em rede. Embora não entenda nada de linguística, gosto muito desta coisa da palavra, do idioma, da dinâmica da língua (sem maldade, por favor, minha senhora). Acho que a influência da TV e rádio em rede é maior no nordestino. Porque ouço rádio e a maioria dos novos repórteres pronunciam o “e”, como “ê”, feito os sulistas. Curioso é que, acostumado com o linguajar cada vez menos nordestino dos nordestinos, pelo menos os das cidades maiores, tava outro dia em Belo Horizonte, numa mesa só de mineiros, Mariana, uma jornalista com quem sempre me encontro em lançamentos de discos e festivais fora daqui do Recife me espantou. Nunca havia conversado muito com ela. E a moça fala igualzinho a estes mineiros que a gente vê caricaturados nos programas de TV. É cheia dos “uai”, “sôr”. “Trem bão”, por aí.

estãO mexendO na língua

A TV, sobretudo, padroniza cada vez mais a língua. “Semáforo”. Nunca que ninguém por aqui chamava sinal de semáforo, que é coisa de paulista. Agora todo mundo aqui fala semáforo. Logo tão falando “farol”, feito começam a falar “retenção”. A senhora, mais bem informada do que o que vos tecla, obviamente sabe o que é retenção. Pois só um dia desses foi que descobri que “retenção” é engarrafamento de trânsito. Eu jurava que tinha a ver com prisão de ventre, constipação, por aí. Aliás, esse comentário linguístico, e nada científico, certamente sem base teórica que o embase, é mais uma das minhas repetições. Foi não foi estanco num assunto e fico feito disco de vinil arranhado. Mas é que sou invocado mesmo com certos termos. Quer ver um? “Galinha caipira”. Sempre se chamou aqui “galinha de capoeira”, e ninguém supunha que se tratava de um galináceo que tocava berimbau e ficava passando rasteira nas outras penosas. Agora começou este negócio de “caipira”. Agora, não, faz tempo. Galinha caipira pra mim é a que faz “cocorocorrrrrr”, com aqueles erres dos caipiras mineiros. Nem sei como não chamam de frango caipira. Galinha aqui no Nordeste sempre foi galinha, depois, influência dos sulistas, virou frango. E a senhora não me venha com esta de que sempre se chamou de frango porque senão seria “frango à cabidela”. Aliás, nem entendo como ainda se diz cabidela. Porque já vi cardápio aqui no Recife oferecendo “galinha ao molho pardo”. E aí pode até ser minha ignorância em gastronomia, que nunca fui ligado em comida. Vai que galinha à cabidela e ao molho pardo são dois modos diferentes de fazer a penosa. Mas aí me perdoem, que em gastronomia, repito-me, como se dizia antigamente, eu sou um tapado.
Jornal do Commercio, 18 de abril de 2010

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No tempo do lança-perfume
Leonardo Dantas Silva

O lança-perfume foi a grande invenção do Carnaval Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio a dar uma aura toda especial às festas de momo de norte e sul deste imenso país do carnaval. Apareceu com grande publicidade, sendo distribuído em três apresentações – dez, trinta e sessenta gramas, pela Casa Davi do Rio de Janeiro. Fabricadas pela Rodo, na Suíça, aquelas ampolas de cloreto de etila, especialmente aromatizadas, perfumaram os nossos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proibida por decreto do presidente Jânio da Silva Quadros. Em 1911, eram consumidas no Brasil 300 libras do produto e só a Rodo Suíça para aqui exportara a elevada quantia de 4.500 contos de réis! Tal mercado veio a despertar a atenção daquela empresa, que logo enviou ao Brasil um seu representante, sr. J. A. Perretin, a fim de assistir às festas do carnaval do Rio de Janeiro daquele ano. Em entrevista à Gazeta de Notícias, transcrita parcialmente por Eneida, o sr. Perretin declarou: “Um povo que faz um carnaval como este é o povo mais alegre do mundo”. Denominava-se de lança-perfume a bisnaga metálica ou de vidro, para uso nos festejos carnavalescos que, carregada de éter perfumado e à base de ar comprimido, lança seu conteúdo a relativa distância quando destampada. Um inconveniente, porém, acompanhava o produto e era causa de constantes acidentes entre os seus usuários: os recipientes que continham o éter perfumado sob pressão eram de vidro. Em 1927, para sanar tal deficiência, a

nO tempO dO lança-perfume

Rodo lançou no mercado o seu lança-perfume metálico. Apresentado em invólucros de alumínio dourado, o novo produto recebeu a marca Rodouro, o que não impediu que se continuasse a produzir com preços inferiores lança-perfumes em recipientes de vidro. Porém, o que era brinquedo romântico, inofensivo e barato, passou a ter outra destinação. Segundo denúncia da imprensa carioca, no carnaval de 1928, o conteúdo do lançaperfume passou a ter objetivos outros: “... o éter fantasiado de lança-perfume é sorvido com escândalo pelo carnaval. No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas do terrível entorpecente. Essa quantidade de anestesia daria para abastecer todos os hospitais do mundo”. No Recife, o hábito de aspirar lança-perfume já aparece no romance de Mário Sette, Seu Candinho da Farmácia, lançado em 1933 pela Editora Nacional, que assim comenta na boca de um dos personagens: “O cheiro de éter perfumado misturado ao cheiro das mulheres fazia rodar a gente...” Nas eleições presidenciais de 1960, o sr. Jânio da Silva Quadros vence com uma imensa maioria de votos o general Henrique Teixeira Lott. No seu conturbado mandato de 206 dias, Jânio inaugura o sistema de governar através dos chamados “bilhetinhos”, tendo emitido 1.534 deles, versando sobre os mais diversos assuntos. Preocupado com o saneamento moral do país, proíbe “a fabricação, o comércio e o uso do lança-perfume no território nacional”, através do Decreto n º 51.211, de 18 de agosto de 1961, cujos efeitos atingem os festejos carnavalescos até os nossos dias. A sua proibição, porém, deixou saudades em todos os foliões que dele faziam uso de maneira romântica, como forma de aproximação ou de convívio, na alegria do carnaval, enchendo de perfume e povoando com a sua aura inesquecível as nossas ruas e salões.

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Como no Cordão da saideira, frevo composto por Edu Lobo: “Hoje não tem dança/ não tem mais menina de trança/ nem cheiro de lança no ar/ Hoje não tem frevo/ Tem gente que passa com medo/ Na praça ninguém pra cantar...”.

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As palestras da ponte da Boa Vista
Lopes Gama

Grande circunspecção cabe que tenha este número do meu Carapuceiro, a fim de que não se lembre algum pechoso de proferir muito autoritário e categórico que me balancei a reprovar a esmo quantos de volta do seu passeio, ou mesmo de caso pensado, vão tomar fresco e papear nos assentos dessa ponte. Não; fora mister ser mais que rigorista e sobremodo rabugento para censurar um recreio, que em si nada tem de criminoso. Mas como nada há, ainda do que é mais justo e mais santo, de que se não possa abusar, eu só falarei do abuso, e tome embora a carapuça aquele em quem ela assentar de molde e a seu gosto. Está dado o competente “cavaquinho” (aliás necessário por causa das dúvidas) e entremos na matéria, que dá bastante pano para boas carapuças. A ponte da Boa Vista todas as noites, mormente de luar, é um teatro talvez mais divertido do que o chamado teatro público. Ali aparecem indivíduos de todo o lote, desde o honesto e sisudo cidadão até o mais completo e rematado peralvilho. Ali se representam forças de todas as qualidades, e tanto mais irrisórias quanto inesperadas e fortuitas; e quase sempre dividem-se os ranchos em departamentos. Em uma parte, assenta-se a mó dos rabequistas, defronte muitas vezes fica a mó dos gamenhos; deste lado está repimpada a seção dos políticos, daquele outro toma assento o bando dos jogadores, d’além se apinhoa a grei dos cavaleiros da indústria etc. etc.

lOpes gama

Ao departamento dos rabequistas pertence de juro e herdade a poda de vivos e mortos, de presentes e ausentes, de homens e mulheres, e de quantos têm a desgraça de passar por aquele lugar. Ali a maledicência vai percorrendo desapiedadamente famílias inteiras à progenie in progenies, e parece que apostam sobre quem melhor explicará e comentará a crônica escandalosa do seu próximo. Ali aventam-se particularidades e segredos familiares de que nunca se ouviu falar. Ali vêm a juízo todos quantos indivíduos vão ocorrendo à memória sempre feliz dos rabequistas; e se sucede haver uma pequena pausa por se ter esgotado qualquer assunto de murmuração, diz dali um sócio, que estivera um pouco distraído: “E fulano, que lhes parece?”. Oh (pega logo outro da palavra), isso é boa joia, isso é boa peceta! E saltam-lhe na pele a atassalbada como cães famintos. Quem há aí tão feliz que, passando a essa hora pela ponte, escape às desumanas arcadas do bando rabequista? Pobre senhora, que por ali andou nessa ocasião! Apenas a lobrigam, pregam-lhes os olhos e afinam os instrumentos, perguntando-se uns aos outros: “Quem é?”. Mas apenas sabem quem seja a infeliz, e esta vai seguindo seu caminho, então pega a sinfonia, e parecem apostados a qual há de florear com mais fusas e semifusas. Se é solteira ou viúva, juram que se está namorando com este, e mais com aquele; se é casada, o marido recebe logo desses senhores as honras de Júpiter Amon, fora outras muitas gracinhas, reflexões e explicações, que a modéstia manda calar. Finalmente em matéria de maledicência se um envida, o outro revida, e podem gabar-se de que ninguém lhes ganha por mão. O departamento dos gamenhos compõe-se pela maior parte de maninelos, buginicos e jirigotes de toda laia. Naquele grupo de Laocoon a principal conversa é o vastíssimo assunto das modas. Ali se discute qual seja o alfaiate

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as palestras da pOnte da bOa vista

de melhor gosto que sabe fazer uma calça do bom-tom dos petimetres de Paris, isto é, tão ajustada à perna que só na matéria e na cor se possa distinguir da pele. Um dos sócios faz menção honrosa de um figurino chegado há pouco de França, que muito lhe deu no gosto. A cabeça pela parte posterior é tosquiada tal e qual a de um donato, mas por diante tem a gadelha completa de um leão. Os cabelos ficam todos a uma banda, encrespados e anelados, de maneira que o cabeleireiro não tem menos que fazer naquela que na cabeça de uma noiva dessas que querem os penteados como os prédios urbanos, repartidos em três e quatro andares, com seu mirante em cima de tudo. Colete (diz o comentador do figurino modelo) é coisa que já não trazem os rapazes de bom-tom: e tomara que já viesse a moda de andarmos todos em mangas de camisas. E que linda sobrecasaca! Pregada no corpo como a calça, e deve ficar na altura, uma mão travessa acima do joelho; além disto deve ter grande franzido em redor da cintura, finalmente é uma jaquetinha com folhos. Que guapo vestido! Coisas farão estrangeiros! Os chapéus (já se sabe) cada vez são mais pequeninos (continua a dissertar o orador cupido); e se nessa ocasião sucede passar alguém com seu chapéu um pouco mais alto, dará graças a Deus se o deixarem ir sem lhe gritarem em abrotaria: “Baú, baú”. Parece encomenda dos senhores chapeleiros, para darem extração à sua fazenda. Depois das modas vem o acepipe favorito, quero dizer, o namoro. Levantam-se renhidas e calorosas discussões sobre qual seja a menina mais bela desta capital e seus subúrbios, no círculo de quatro a cinco léguas, que a tanto se estende o faro dos gamenhos. Um quer que não haja Deus comparável a dona Sinfrósia. Outro assaca-lhe pechas e baldões; diz que é desdentada e amarela, com cor de tampo de viola velha, e põe acima de tudo a dona Ziguezigue, cuja beleza,

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graças e espírito não podem ter competidores. Cada qual que mais gabe a sua predileta, cada qual que mais ufano relate as suas conquistas feitas e por fazer, e neste assunto os gêneros mentira, bazófia e impostura andam a granel. Amuado a um canto jaz sentado um gamenho sentimental, que ouvindo tratar da sua matéria favorita arranca do peito um estirado suspiro, e diz: “Estão os senhores a falar desde hoje nesta e mais naquela menina e eu só pensamenteando a respeito da minha querida Clóris. Oh, isso é que é moça, isso é que é peixão! Em dois meses tenho-lhe enviado duzentos e tantos escritos, e ela, apenas me tem pago à razão de 1%. Se me envia algum raminho de alecrim com cravos ou perpétuas, tudo como, porque assento que só no coração devo depositar essas prendas, embora padeça de estômago, e me haja dito o dr. (...) que padeço gastroenterite e mais uma aplenite, junto com uma hepatite, se bem que outro já me asseverou que a minha moléstia crônica e incurável é a cerebrite. Mas seja o que for, todo o meu mal é, segundo creio, uma gamenhite; e só Clóris me poderá curar. Logo um dos da roda passa-se para o pé do derretido amador, e lhe roga queira mostrar-lhe os escritos da sua Clóris, que lhe retribuirá a mesma confiança, comunicando-lhe os da sua amada, cujo estilo é mais terno, apaixonado e gracioso que o da própria Safo. Neste comenos se passa alguma filha de Jerusalém, ou algumas dessas desembainhadas, que andam ao fanico, é indispensável a caçoada, e qual que se mostre mais zombeteiro e garanhão. É de advertir que do rancho dos gamenhos trescala mais penetrantes cheiros do que uma botica, e que assaz manifestam haver ali copioso sortimento de macaçar, água de colônia, de lavanda etc. A seção dos políticos é mais respeitável e temível. Ali se discutem e decidem as mais intrincadas questões de direito público, de economia política, de diplomacia, de di-

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reito civil e penal, de tudo, finalmente, que diz respeito à política. Um diz que muito se honra de ser chimango, outro gloria-se igualmente de ser regressista, e um terceiro só fala na felicidade do Rio Grande do Sul, apostando que a república está ali seguríssima, e que não tarda nos enviem de lá o nosso quinhão de república, ainda que venha por exportação em algum barco de carne. Ali se retinem os mais intolerantes e decisivos alvitristas: este lamenta o estado miserável das nossas pontes, que todas devem já e já ser feitas de pedra e cal, ou de ferro. Mas aquele entende que seria melhor fazê-las de barcas, porque já leu que assim as há nos países estrangeiros, e quer logo uma ponte destas para a passagem do Caldeireiro. Um, mais caroável da ciência econômica, declama com grande afã dos seus próprios pulmões contra a fome de farinha, e põe pela rua da amargura a Assembleia Provincial, que não faz uma lei proibindo o monopólio e obrigando os senhores de engenhos a plantarem mandioca para o seu consumo. E o mais é que quem ouvir gritar a este alvitrista facilmente dirá que o homem tem razão. Este rancho ou Parlamento alto decide em última instância do mérito ou demérito dos escritores; e quantas vezes não terá sido assunto das suas judiciosas discussões o meu pobre Carapuceiro! Aqui se declara a guerra, dão-se batalhas e ultimam-se tratados de paz e de comércio, fazem-se e desfazem-se ministérios, despacham-se diplomatas, reformam-se códigos, revogam-se leis, disciplinam-se exércitos, organiza-se a marinha, demitem-se e proveemse empregados, cercam-se os impostos, ensancha-se a Receita, dão-se cortes violentos na despesa nacional, endireita-se finalmente o Brasil. Mas tudo de língua, e cada um volta para sua casa sem que os nossos negócios saiam nem uma polegada do seu statu quo, que significa pouco mais ou menos ficar tudo no sicut erat.

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Enquanto estas coisas se passam nos diferentes departamentos, lá está o grupo dos jogadores, perturbando com suas teimas e vozerias as outras seções. Um grita a esganiçar-se que fulano, uma vez que não era o feito, e comprara em último lugar por ser o fraco, não deverá, sendo mão, tirar um rei para o mesmo feito. Não o entende assim o companheiro, que gasta suas presunções do primeiro mestre da matéria, e vai citando o capítulo, a página e a linha do livro do voltarete, não obstante o quê, outro sócio atiralhe seus chascos, asseverando ser Sua Senhoria um corpo malhadiço de codilhos. Este porfia que não há joguinho de contentar o espírito, como o expedito diga; aquele está firme e inabalável nos encômios do gagau. Há nada como o gagau (exclama o sujeito)? Ainda ontem ganhei a meu compadre (muito seu amigo sou!) seiscentos patacões, afora mais oitocentos (diz de parte um perna já bem escarmentado do êxito dessas dívidas). Ali está casualmente um bom matuto, que também mete o seu bedelho, e quer que o melhor joguinho que se inventou neste mundo fosse o 31 com o curinga. Naquela roda não se ouve senão ganhei tantos patacões, perdi tantas mil peças, de sorte que, a ser verdade o que dizem esses senhores, entre eles há mais avultada circulação de numerário do que na praça do comércio de Londres. A muitos desses jogadores não se lhes conhece outro modo de vida. Entretanto eles trajam, e são à la grande, arrotam dinheiro como um morgado, e vão vivendo maravilhosamente. Verdade é que não poucas vezes o jogador acaba por portas, e a sua família fica entregue a todos os horrores da indigência. Entretanto não há nada como jogar e pescar: com um camarãozinho apanha-se muitas vezes uma cavala. Os cavaleiros da indústria são esses sujeitinhos respeitabilíssimos que vivem das suas agências. Alguns também vão-se pôr ao fresco na santa ponte da Boa Vista e com-

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põem a sua muito honrada seção. Estes costumam tratar de negociatas em que se meteram (cujos fundos saem ordinariamente das bolsas alheias), dos lucros ou prejuízos, que tiveram. Queixam-se da má-fé dos homens, dão a entender que têm empregado quantiosos cabedais, cada um parece um barateiro do Maranhão, e arrematam tudo, pedindo emprestados (para nunca mais pagarem) dois ou três patacões!! Neste rancho repimpam-se às vezes alguns pais da pátria, os quais, depois que houve armistício de rusgas, perderam certos vencimentos e gratificações, e não sabem em que se hão de empregar, porque enfim estão os tempos tão mudados que já o seu povo crê menos neles do que em duendes e cabra cabriola.
O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo, Companhia das Letras, 1996

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A intuição não vem do nada
Luciano Bivar

Você não é um, mas dois: o você racional e o você intuitivo. A distinção dos dois vocês pode até ser perceptível. Um age com frieza e calculismo. O outro manifesta-se por sentimentos, através de percepções abstraídas do mundo real e objetivo, que você processa e sente no seu interior. Filósofos clássicos como Arthur Schopenhauer afirmam que só depois de se conhecer o mundo empírico – advindo das percepções dos sentidos – é que se pode formar conceitos abstratos. Aristóteles chegou à mesma conclusão: a intuição é a capacidade do organismo de, primeiramente, experimentar percepções e de sistematizar essas memórias. Passei a minha vida muito ligado às minhas intuições. Não que elas nunca tenham me enganado, mas, muitas das vezes, deixei-me enganar por objetivos diversos e sempre cheguei à conclusão de que a luz interior de alerta havia piscado na ocasião, e eu não lhe dei a atenção que merecia. Agi por impulso e o resultado foi desastroso. Me conforto porque sou humano. Tenho livre arbítrio, e ser feliz ou infeliz é a magia da vida. Certa vez, quando muito jovem, queria comprar um carro esporte, fruto dos meus sonhos, quando apareceu um vendedor dizendo que tinha uma “Berlinetta” que atendia a tudo que eu imaginava. Era rápida como um alce, imponente como um leão e com um preço abaixo do mercado. Não precisa dizer que foi o bastante para me seduzir. No entanto, teria que ser naquele momento,

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pois havia outros pretendentes. Algo me soava estranho. Por que teria que ser naquele momento e já? Mas com a impulsividade de um jovem movido pelo desejo, quem sabe até pelo exibicionismo do belo carro, ou ainda pela ganância de um preço convidativo, eu desconheci ou não dei importância ao meu instinto e me deixei levar pela sedução. Depois descobri que o carro era fruto de uma clonagem criminosa e minha sorte foi ter perdido apenas o sinal que havia pago, já que o veículo pertencia a outro proprietário. A intuição ainda me livrou parcialmente, mas a perda existiu. Ninguém pode intuir por mim. É um processo pessoal e intransferível. O que senti no momento da transação, somente eu poderia entender. Foi uma lição por não escutar o meu sexto sentido. É assim que as coisas acontecem diariamente a todos nós, quando ignoramos o nosso “eu inconsciente”. Os sinais existem e você deve deixá-los fluir sobre o seu ser, como um anjo da guarda. Eles ocorrem na efervescência do seu estômago, quando percebemos que estamos prontos a cair numa cilada armada para nos derrotar. Isso já aconteceu comigo centenas de vezes. Numa ocasião particularmente memorável, depois de o nosso grupo ter adquirido o controle acionário de uma grande empresa, atendi a campainha de meu apartamento funcional, pertencente à Companhia, e deparei-me com uma linda jovem, herdeira e presidente da antiga empresa cessionária. Ela usava uma elegante roupa, tão reveladora quanto sua grife. Fiquei atônito com aquela inesperada visita, principalmente por se tratar de uma mulher tão presunçosa e orgulhosa de sua condição social. Para causar-lhe uma impressão positiva, concordei, de início, com vários argumentos apresentados por aquela bela executiva que me cobrava 200 mil dólares que haviam, por esquecimento

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ou não, composto o relatório de dívidas que deveríamos assumir quando da compra da sua ex-empresa. Toda aquela atenção dela, deslocando-se do Rio de Janeiro para São Paulo, e seu discurso elogioso, em todos os sentidos, fez meu estômago se contrair ao tempo em que comecei a balbuciar minhas primeiras assertivas. Era um aviso claro para meu cérebro: “Ei, estão querendo enganar você aqui!” Então, humildemente, agradeci os elogios, mas expliquei que eu não era o “dono da bola”. A minha modéstia a fez entender que a minha não era a última palavra para aquela decisão. Acreditar ou não, era com ela. Sem me importar com a impressão que ela levou de mim, seja de incapaz, insensível ou tolo, ante a indiferença ao seu charme, a verdade é que minha empresa poupou um gasto de 200 mil dólares com aquela conversa de vendedor, graças ao fato de eu não haver jamais acreditado naquela história fantasiosa alertado que fui pela intuição. Em outra ocasião, ainda jovem, caminhando pela Rue du Rhône, em Genève, junto com minha esposa, fui atraído por um lindo relógio, com preço extremamente convidativo, exposto na vitrina de uma fina loja. Entrei e pedi ao vendedor que me mostrasse a peça. Ao trazer-me o relógio, ao qual me referi com o preço já estabelecido no mostruário da vitrina, ele perguntou se a pulseira estaria a gosto ou se seria preciso tirar alguns anéis para adequála ao meu pulso. A bandeja de prata revestida de veludo escarlate, na qual fui examinar o relógio, já me deixou um pouco apreensivo, mas o pior foi quando o funcionário me perguntou a que horas eu estaria no hotel para entregar-me o relógio, devido ao ajustamento da pulseira, pois teria de fazê-lo diretamente a mim. Foi aí que meu feeling falou mais alto e eu perguntei se ele poderia me confirmar o preço do relógio, cujo valor, como pressenti, era muito superior àquele apresentado

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na vitrina. Não tive dúvida, levei o vendedor até a vitrina e apontei o preço ali estabelecido, e ele me falou que aquele preço era referente a um par de abotoaduras que estava ao lado de relógio. Claro que tudo aquilo era ardilosamente armado para pegar os incautos, ou algum árabe de petrodólares desavisado. Catarina, minha mulher, insistiu que eu pagasse o valor correto, mas relutei contra meu ego exibicionista de recém-casado e desfiz o negócio, independentemente da cara feia do vendedor e do constrangimento de minha jovem mulher. A minha indignação se tornou um contra-ataque perfeito para mim. Sempre que meu cérebro diz que eu serei um otário se me mantiver coerente com um compromisso mal-estabelecido, não me sinto culpado em recuar e me dou por satisfeito. Nesse caso, minha intuição venceu e um explorador perdeu. Como se vê, às vezes não é fácil sentir-se adequadamente avisado contra as pressões de uma tomada de decisão, mas é muito mais difícil transformar esse aviso em ação. Parte do problema é que nossa reação típica ao desejo atrapalha nossa capacidade de pensar. À medida que essa corrente visceral avança, o lado cognitivo e racional recua. No impulso da excitação é difícil ficar calmo e refletir sobre o assunto. Quando vemos algo que queremos, uma agitação física tem início, especialmente nos casos que envolvem competição. O sangue sobe, a concentração fica mais direcionada e as emoções aumentam. Você não pode se deixar levar pela obsessão e pela aceleração do momento. Jamais deixe o racional intuitivo de lado. Por isso, em vez de deixar que a excitação obscureça o seu cérebro, talvez seja melhor usarmos o destempero do nosso inimigo em nosso favor e simplesmente nos sintonizarmos com nosso ímpeto interno, visceral, para obter um aviso. Aí, tomaremos a decisão certa.

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Mas é bom que isso fique bem claro: não existe sexto sentido sem que algo tenha acontecido antes. Você pode até não perceber – o que, aliás, é muito comum –, mesmo porque não somos muito de raciocinar quando imbuídos de paixão. Lia Habib diz que somos preguiçosos mentais à beira de um colapso, sendo que o processo já não é tão simples. Concordo que não exista receita para atuar, no entanto, é necessário observar o mundo ao redor. No mundo dos negócios, você toma decisões, reconhece talentos, contrata pessoas, aposta em novos produtos, novos conceitos, paradigmas e necessariamente todo esse processo passa por regras lógicas de mercado, estudos e pesquisas. Daí então, você forma seu próprio conceito interior, não verbal ou racional, mas isso não afasta a necessidade do trabalho árduo, responsável e a verificação científica do dia a dia. Sem trabalho direcionado e com inteligência, não há solução. Tudo isso faz me faz lembrar a história de dois náufragos perdidos no meio do oceano, sendo um religioso e outro leigo. O primeiro virou-se para o leigo e falou: – Irmão, vamos nadar e orar. É a única coisa que nos resta. Ao que respondeu o leigo: – Está certo, santo padre, mas é preciso que nademos para o lado da praia. O que eu quero dizer é que não basta a intuição – é preciso ir em frente. O trabalho árduo e contínuo de que falamos é, nada mais nada menos, que a materialização do intuitivo. Não basta a análise intuitiva, é preciso trabalhar na direção certa. O megaempresário Jorge Paulo Lemann, um dos líderes da maior indústria de cerveja do mundo, a ABInbev,

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entre outras lições, diz que, ao longo do tempo, aprendeu a confiar e a depender mais de estudos, projeções e opiniões de especialistas em processos decisórios mais formais. Isso sem jamais dispensar o feeling. Corremos riscos mais baseados em sentimentos do que em análises mais profundas. Eu diria que antes eram 80% feeling, 20% estudos. Hoje em dia, talvez seja 50-50. Acho que aquilo que você sente na barriga vale tanto quanto aquilo que está no papel. Washington Olivetto, um dos mais bem-sucedidos publicitários brasileiros, depois de passar 53 dias em um cativeiro, vítima de um sequestro, só pensava em deixar o Brasil e viver mansa e pacificamente o resto de sua vida. Entretanto, tomou outra decisão. Disse ele: “Vi que o que me alimenta é meu trabalho e é no Brasil que eu o faço melhor. Continuo na W, fui pai de novo e vivo uma vida plena. Sou muito intuitivo. Costumo brincar que, em termos de intuição, sou uma comitiva de mulheres. Na hora de decidir, levo em conta tanto interpretações racionais quanto percepções intuitivas. Se empatar, opto pelo que diz minha intuição”. A vida é sempre assim, cheia de bifurcações e encruzilhadas. Nós temos que estar bem preparados para administrar os obstáculos que nos surgem e é importante discernir a impulsividade da emoção intuitiva. Muitas vezes fui advertido por meus advogados e conselheiros a não agir tão firme de modo a parecer inconsequente, mas meu sentimento de justiça falava mais alto do que as consequências que pudessem advir de algumas decisões intuitivas, mas jamais me dobrei às maledicências que o mundo nos apregoa. Sempre fui, obviamente, um homem de carne e osso, e às vezes lembro uma frase de Mahatma Gandhi: “Onde não houver escolha senão entre a covardia e a violência, eu aconselharia a violência”. Não que praticasse a violên-

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luCianO bivar

cia no sentido físico, mas o destemor pelo certo e pela paixão e o amor fazem de cada um de nós a essência pura de um ser humano. Não passamos um dia sequer sem fazer escolhas, das mais simples às mais complexas. Casar ou não casar? Mudar de emprego ou não? Morar em outro país ou ficar onde está? Deixar o bem-amado e trilhar por novas aventuras amorosas? Enfim, são tantas encruzilhadas que nos transformamos em uma complexa máquina de pensamentos. Decidir não é fácil. Nossas escolhas, muitas vezes, dependem ou comprometem outras pessoas. Por isso, é importante que você observe a sua intuição. Ela é mais pura, porque traz em sua essência aquilo que chamo não de premonitor, mas de dom divino, porque ela vem calcada do mais cristalino sentimento de verdade, imune aos mais sedutores desejos do mundo plástico das coisas. Essa é a razão da minha fé.

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Vidas quase cruzadas
Luciano Siqueira

Dela soubemos apenas que nasceu em Fortaleza, mudou-se para o Rio de Janeiro onde viveu a infância, a adolescência e o começo da juventude, e alterou períodos fora do país – não disse onde – com retornos intermitentes à terra natal. O sotaque carioca conserva. E o gosto por peças e símbolos orientais, que mistura com motivos nordestinos na decoração da pousada. Tem um cantinho meio esquisito, uma pequena edificação em taipa, onde se encontra um tosco altar para os que desejarem fazer suas preces. – Religião não tenho, mas sou adepta da filosofia budista, explica. De suas andanças e vivências, exibe no corpo tatuagens que quem olha não entende, carece de esclarecimento. Sim, tem também o marido, que usa óculos escuros para proteger a vista do sol, meio obeso e fala ao jeito gaúcho. Ao café da manhã, demonstra intimidade com quatro hóspedes mulheres que lhe relembram a conversa da noite anterior: – Que história tem vocês, hem. Nós também temos nossas histórias, hoje a gente continua daquele ponto: quando e como tudo começou. Trocam risadas e resmungos, como se segredos estivessem a revelar. Na promessa de detalhes, feita pela branquela, um quê de cumplicidade. São dois casais do mesmo sexo. Fazíamos nossos pratos: abacaxi, melão, mamão papaia, tapioca, ovos fritos, queijo, manteiga, presunto. Suco de acerola. Café forte. Não éramos parte do pequeno grupo que se formara em torno da mesa larga. Nossas

luCianO siQueira

intimidades não interessavam, certamente nada tinham a nos contar numa manhã de sol esquentado, naquele mormaço debaixo da grande caiçara. Não tínhamos compartilhado como elas, na noite anterior, coisas vividas, sonhadas, sofridas e comemoradas. Ficamos à mesa na quina, mais distante, já não ouvíamos a conversa, nem ouviam o que dizíamos. Entre peças artesanais nordestinas e abajus e estatuetas budistas, espalhados pelos diversos ambientes da pousada, livros e revistas em diversas línguas e uma coleção quase completa de Bravo! A capa, sobre os cinquenta anos de Grande sertão: veredas, deu o mote para breve troca de impressões sobre o gosto comum pela boa leitura. Nada mais que isso. Dia seguinte seguimos viagem pelo litoral cearense, deixando a saudação habitual de um bom-dia, um abraço fraterno, a paga pelos dois dias ali vividos e a leve frustração, nossa, não sabemos se dela também, por não havermos entrado na roda e compartilhado coisas da vida, de nossas vidas. Nossos destinos por estradas distintas, em paralelo, talvez mais: bifurcados, faltos daquela oportunidade de entrosamento, vidas que não se cruzaram. Por um pouquinho de nada.
14 de janeiro de 2010 Portal vermelho – a esquerda bem informada. www.vermelho.org.br

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Anotações sobre um coração e uma trombeta
Luiz Berto Enterrem meu coração na curva do rio é o título de um livro que fez sucesso há alguns anos no Brasil. É, me parece, o texto de um índio norte-americano sobre a odisseia de seu povo. Largo essas informações assim imprecisas pelo fato simples de que não cheguei a ler o livro. O que vale, para o que aqui discorro, é a profunda impressão que causou em mim este título: Enterrem meu coração na curva do rio. Uma força enorme me atraiu para a beleza da imagem criada pela frase. É incrível esse coração terno e arrebatado que pede para ser enterrado na curva do rio. Eis aqui o outro mistério da frase, pois nada de mais poético e encantado que uma curva. E, ainda por cima, uma curva de rio. Doce e apaixonado coração que exige não menos que a sinuosidade de uma corrente, possivelmente silenciosa, de onde fitará para sempre, em seu repouso, uma beleza que só mesmo um coração sensível e terno pode divisar. Acho que só os nascidos ou criados às margens de um rio de interior são capazes de perceber as sutilezas que se escondem atrás do correr das águas num leito que a natureza levou milhões de anos para moldar. Nos primeiros decênios do século passado havia uma aldeia de índios mansos – onde hoje se ergue a mui digna, leal e hospitaleira cidade dos Palmares – que caçavam em nossas matas e pescavam no Rio Una.

luiz bertO

Essa aldeia, embrião da cidade dos Palmares de hoje, recebeu o nome de Trombetas a partir de uma determinada época. A se acreditar nos alfarrábios (e eu não vejo motivo nenhum para duvidar deles), um batalhão passou nas cercanias da aldeia por ocasião da Revolução Praieira e por lá deixou se perder na lama uma trombeta de guerra. Daí o nome do povoado. Eu pensei nesta trombeta, enterrada por acaso em nossas terras, e me lembrei do coração do índio pedindo para ser enterrado na curva do rio. Quem sabe, a trombeta não estará plantada numa das curvas do Una? E, pensando nisso, me dei conta de que meu próprio coração está firmemente enraizado não apenas em uma curva, mas em toda a extensão do Una que banha nossa cidade. Fui enterrando-o aos poucos, desde que nasci, nos remansos barrentos de suas margens, até que chegou o dia em que me dei conta de que, por mais longe que fosse, um pedaço de mim estaria para sempre fincado nesse misterioso chão que me serviu de berço. Possivelmente meu coração sabe o local exato onde foi perdida a trombeta e, com toda certeza, compreende perfeitamente o desejo do coração do índio de ser enterrado na curva do rio do seu povo. Hermilo dizia: “Palmares é minha marca para toda vida”, porém eu acho que o coração dele é que é mais uma marca plantada numa das curvas do Una. Como o meu coração. Como o coração de todos que se encantam com a magia dessa terra que recebeu um rio de presente, e de um rio que deu vida a essa cidade. Ao contrário do índio norte-americano, poupo aos pósteros o trabalho de enterrar meu coração numa curva que dê boa vista para a paisagem e tranquilidade para um bom repouso. Meu coração já está plantado em algum recanto de margem desse velho Una.
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Mãe & Filha
Luiz Carlos Monteiro

De passagem por Olinda decido ir à procura de alguém que conheço. Chego ao bairro. Localizo a rua e a casa. Chamo. Moram apenas as duas. Mãe e filha. A mãe aparece. Mesmo me reconhecendo não se altera. Não me convida a entrar e nem alimenta nenhuma conversa. Diz apenas que Ela não está. E retira-se para dentro ruminando seus velhos severos cabelos de prata. Antes fecha a porta. Os olhos frios duríssimos por trás dos óculos dourados. Vi que a antiga árvore da entrada do jardim da casa definhara bastante. Raízes e galhos implodindo cansada. Não havia rastro dos pneus do carro. Insisto. Mas eu preciso saber onde Ela está. A mãe rebate. Agora eu só sei que aqui Ela não está. Taxativa. Volte outro dia. Digo que não posso vir outro dia. Bate novamente a porta na minha cara. Mais três pancadinhas e falo com Ela. Três pancadinhas de nada. Três pancadinhas assim. Desisto. Seguirei o conselho da velha. Outro dia eu volto. Um tempo que usarei para lembrar e relembrar. Noites que se sucediam rapidamente até o núcleo de vivências inesperadas de muito pique e festa. Horas encruzadas de contatos com aspirantes a artistas e artistas consolidados. Artistas da vida que se equilibravam com a força da ginga e do verbo. Sucesso garantido com as mulheres malucas desinibidas. Bailarinas poetas atores cantoras músicos pintoras. Gente diversa que compunha o espetáculo repetido de bares alternativos e próprios para turista ver e desfrutar. Barraquinhas de queijo assa-

luiz CarlOs mOnteirO

do e tapioca. Abraxas. Cantinho da Sé. Praça do Carmo. Ladeira de São Francisco. A loucura de aparência espectral de uns contraposta à lucidez falseada de outros. Alguns mergulhados e embalados no ritmo de cigarros ainda proibidos para consumo geral e somente por lá encontrados. Bolinhas de guaraná e fartura de alcaloides. Sempre guardando qualquer ressonância com um passado tão próximo quanto o presente que se estava a fazer. Todos com sede radical de vida. Boêmios que abraçavam a noite pela noite. Sem trocar a conversa bem-humorada e sem compromisso pela destilaria de saberes acumulados. Na noite cerceada e sem saída inventava-se uma outra noite só ocorrente na claridão de luzes clandestinas. Amanhece e é preciso retornar ao provisório de um quarto. Transitar pela cidade ainda sonolenta. Resolvo que vou ao duplex das duas para ver se Ela também já voltou da surpresa viageira e errante. Busco sem hesitar pela velha ao basculante da porta. Nenhum sinal humano ali. Estava morta na volta. Não sei o motivo. Velhice talvez. Antes tentava dormir não dormia. Agora dorme sem tentar nem desejar. Dormirá indefinidamente. Não há dúvida de que Ela não voltou. Não pude mais procurá-la.
2 de fevereiro de 2010 Blog de Luiz Carlos Monteiro. http://omundocircundante.blogspot.com

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A velhinha no Jardin du Luxembourg
Luiz Arraes

Seu andar vagaroso, o corpo curvado, firmes em cada braço de um lado a sua velha bolsa (que haveria dentro dela?), do outro o saquinho de milhos para os pombos. Sentava-se, sempre, no mesmo banco, arrodeada das estátuas de Catarina de Médicis e suas princesas. A rainha que teve três filhos, e que o destino, ou alguma maldição, não fez, de nenhum, rei. Talvez por isso, no mármore frio do Jardin du Luxembourg ela esteja cercada de mulheres. Apenas mulheres. Esconderam os homens que não chegaram a cumprir seus destinos A velhinha olhava para o alto. À sua volta parecia não haver ninguém. Os passantes que andavam apressados eram indiferentes a ela e ela mais ainda a eles. Abria o pequeno saco e jogava na maior circunferência possível, que seus pequenos braços já cansados permitiam, os grãos de milho. Não demorava nada e lá chegavam “seus” pombinhos. Digo seus porque com eles tinha grande intimidade, parecendo falar a mesma língua. Esse encontro, distante, silencioso e unilateral, creio eu, aconteceu há alguns anos. Fruto da coincidência do horário em que corto caminho pelos Jardins du Luxembourg, vindo de meu escritório na Sorbonne até o Boulevard Raspail, onde apresento seminários no Institut des Hautes Études. Aquela presença constante e fiel da velhinha me chamou a atenção e, desde então, paro o tempo necessário que o bem de observá-la me faz.

luiz arraes

Observamo-nos aos outros porque observarmo-nos a nós mesmos não traz nenhuma serenidade. Lá está ela. Pergunta-se ou aos pombos de onde vem a felicidade deles. Nietzsche tinha uma resposta. Clássica resposta. A felicidade ou tranquilidade dos animais vinha do fato deles não serem importunados por perguntas. Se isto por acaso acontecesse, eles esqueciam ou não entendiam a pergunta e seguiam seus caminhos. Lá está ela. Não a imagino leitora de Nietzsche, mas pouco importa. Ele não era o único a saber das coisas e possivelmente muitas vezes equivocou-se. Não é monopólio de ninguém a ideia da aliança do sofrimento com a lembrança e a consequente construção de uma memória. A primeira leva de milho acabou. Os pombos procuram em vão girando em torno de si. Um balé caótico, no limite da agitação. A mão da velhinha já carrega outro punhado. Os pássaros param em torno dela. Viram a mão dela encher-se de grãos. Ela, numa primeira vez, finge que lança ao ar o punhado de milho. Os pombos ficam parados. Por fim, ela joga a nova carga. Recomeça a festa. Fico a me perguntar. Por quê? Será que tudo não esteja justamente na ausência de mistério, de segredo. Fico a me perguntar: por quê? Sobre a razão das coisas, a origem, a vida, seu sentido, a morte; tanta coisa, coisas que inquietam a todos. Por quê? Será que tudo não se explicaria justamente na ausência de mistério, de segredo? Numa mão de milho jogada aos pombos que se alegram com aquele farto banquete e que alegra quem a joga? As pessoas passam apressadas na maioria das vezes. Jovens, casais, executivos ou executivas, ou trajados como tal, a cidade de hoje, seus habitantes para resumir. Não

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a velhinha nO Jardin du luxembOurg

olham para a velhinha em seu canto e quando o fazem, raramente o fazem, imagino desinteresse, descaso ou excepcionalmente compaixão. Equivoca-se quem, por acaso, queira dar sentido àquela cena. A velhinha não tem rótulos, ideologia, qualquer sentido para ninguém. Pouco importa a ela. Ela é uma velhinha sentada no banquinho, tal como pode ser vista. Uma velhinha a jogar grãos de milho aos pombos. Por que saber mais? Somos, ao que parece, condenados a pensar o tempo inteiro, a encontrar explicações, a querer, é o que pedem de nós, enxergar na escuridão. Talvez porque no nosso cérebro e no nosso coração existam partes que não existem e que só passam a existir, a ser, à medida que um estímulo, experiência, observação, reflexão, lhes dê vida, lhes acorde. Lá está a velhinha sentada. Ainda a alimentar seus pombos; os insaciáveis ou bandos diferentes que descobrem ou já conheciam seu ritual. A intimidade entre ela e os pombos é algo de espantar. Penso – mais uma vez esta imposição – no tempo dela, sem regras como o nosso. O tempo dela é sem amarras, a expansão de sua serenidade, talvez até um vazio interior, que a isole de algo que a puxe para o passado ou para o futuro. Lembro-me de Valéry que dizia ser a vida tão simples e o pensamento tão complexo. Ou Kafka que pensava parecido, embora, paradoxalmente, o oposto. Dizia ele que na vida não há propósito, o labirinto simplesmente existe. A tarde mostra um céu. Raios de sol, como se fossem dirigidos, iluminam uma árvore que muda de cor à medida que o raio a varre, o imponente prédio do Senado cujas pedras parecem, por um instante, de bronze, a água da fonte que se transforma em prata. Luz. Luzes. Um barulho me tira da contemplação. A revoada de pombos. Sobem em bando como uma flecha; fazem ainda duas voltas

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luiz arraes

no ar antes de tomarem uma direção exata. A velhinha balançou a mão num gesto de despedida. Amassou seu saquinho de papel e após levantar-se com algum esforço jogou-o numa lata de lixo. Segurando a sua bolsa, caminhava com os mesmos passos lentos da chegada a caminho da saída. Lá fora esperavam-na o tumulto e o barulho dos carros, das pessoas, das ambulâncias, dos apitos e tantos outros; quem sabe até um pedido de socorro de alguém sendo estrangulado abafado pelo caos sonoro. As coisas, a vida acontecem dentro dela, em seu interior, em seu tempo, em sua paz solitária. Ela fez o certo que é se calar e não falar como nós, para que não a ponham no hospício. Para o outro, somos sempre os loucos, os largados. Algumas vezes cheguei a segui-la. Um pouco para vê-la em sua caminhada pela calçada. O mesmo passo lento, o sorriso discreto, mas revelador de sua grande felicidade. Aquele sorriso não poderia mentir! Pobre gente que um dia tenha passado por ela e pensado: coitada. Pobre gente apressada a pensar o mesmo que, há muitos anos, outros tenham pensado de São Francisco de Assis. Pobre gente como eu que carrega uma agenda, usa no pulso um relógio, vive a fazer cálculos, a falar ao telefone, a usar sem necessidade o computador. O mundo não cabe no meu entendimento. Aprendi algumas coisas e toscamente repito para outros. Chego na hora certa. A velhinha nunca se atrasou. Deixaria que ela me atrasasse caso ela se demorasse mais a chegar. De toda forma o tempo dela é outro. O fato é que não veio.

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a velhinha nO Jardin du luxembOurg

Os alunos me esperam. Gosto do ar respeitoso que vejo em seus rostos, pelo nome que construí. Artigos, livros, conferências, mídia. O professor! Começo a falar ante um silêncio absoluto. O que estará a fazer a minha grande professora? Penso já no dia seguinte, no reencontro com a velhinha, estranhamente, ausente hoje. Penso já no nosso reencontro quando a verei chegar, com seu andar lento, sua bolsa em um braço e seu saquinho de milhos. Seu corpo curvado como de quem só quer ver o que quer e não o que a paisagem oferece. Ela tem uma independência e liberdade que me assustam, que admiro. As perguntas dos alunos me provam o quanto é difícil aprender as coisas simples. Penso nela sem me dispersar. Estou na aula. Penso, pergunta boba, o que carregará aquela velhinha naquela bolsa que leva consigo com tanto zelo? Se faltar ao nosso encontro, qual será a explicação? Depois de tantos anos, qual será a resposta? Não quero pensar na inevitável pergunta que a sua ausência criou na minha mente.

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Os 45 minutos
Lourdes Sarmento

O pássaro azul voou em círculo, devagar sobre os girassóis, observando o tropel. Como Clarice Lispector “quero escrever como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por que, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta”. Há no hálito da tarde, além da minha palavra, o canto que me divide o peito em espigas douradas do verão. O trigo está maduro. A mesa está posta. Quero ofertar aos famintos e oprimidos uma refeição matinal. Quero falar aos mal-amados que os seus olhos estão abertos para o nada. Só o amor é a estrela que nos conduz ao amanhecer e senta-se, como conviva, no festim do sonho e do prazer. Fui hóspede da ilusão e da minha própria história. “Os homens crescem como árvores em diferentes formas, tortas ou direitas, segundo a natureza do seu nutrimento. Mas, enquanto a seiva corre e as folhas reverdecem, não deveria haver disputas quanto à forma do homem”. Nasci, há alguns instantes. Como Huxley, comemoro o dia do meu nascimento espiritual – o dia que emergi da semi-imbecilidade para algo mais assemelhado à forma humana. Comungo a hóstia e o vinho tinto dos jambeiros. Rua das Crioulas, a rua dos jambeiros e ali o meu casarão, cheirando a lembranças da infância, enquanto a minha gata branca tinha um canto mais alto do que a noite. Teço, hoje, a minha história. Fui silêncio, para não quebrar a força do gesto das nossas mãos. Somei vários e di-

Os 45 minutOs

ferentes momentos, em 45 minutos de um 31 de agosto inteiro, na dimensão mais perfeita do existir. “O amor maduro não disputa, não cobra, não faz do temor argumento. Basta-se com a própria existência.” (Artur da Távola). Tudo é vida. Tudo é amor e, se nada se repetir e nada mais acontecer é linda a vida que declaro possuir. “Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada compreende, nada vale. Mas quem compreende também ama, observa, vê... Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa, tanto maior o amor... Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas.” (Paracelso). Escrevi um hino quando inventei as minhas próprias leis. Sei que a vida é algo mais do que tudo aquilo que os olhos veem. Nas curvas do caminho, espera-me sempre. No meu corpo haverá eternamente um verão com o cheiro do mar, acordando o mundo com o seu canto. A chuva anuncia o inverno. Quase todos nós sentimos na dor o inverno tragando os nossos sonhos. É a lágrima que lava nossa alma em momento de spleen. É a nossa angústia diante do assassinato da vida. É o protesto sufocado diante de um painel humano de amarguras e paixões. É o inverno. Não importa que comece em março. Não importa que comece em setembro. Ele existe. Ele existirá sempre. Como diz Rainer Maria Rilke: “as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”. De repente, somos alcançados pela tempestade impiedosa, pelo frio que tenta congelar os nossos músculos. É o inverno para o qual não estávamos preparados. A nossa roupagem já está gasta e nos restam duas opções: fugir sem olhar para trás. Sem ter saudades do que construímos com sacrifícios e amor ou buscar o

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lOurdes sarmentO

outono entre árvores que mudam as cores das folhas, para entender a caminhada. É noite. Da varanda do meu apartamento, não consigo ver as cores diversificadas das folhas das mangueiras e delas retirar a seiva que me sustenta na mais profunda comunhão com a natureza. Mesmo nos momentos de reflexão e lamento interior, consigo amar a vida, quando esqueço a maldade dos seres humanos e sinto-me parte integrante das árvores, das plantas, das flores, dos rios, do mar. Sou a mulher que aprendeu a sorrir quando uma lágrima amarga desliza no interior do seu ser. Não sei se sou palhaço, louca ou poeta. Talvez uma mistura de tudo, para que salve os meus cabelos dourados das nuvens cinzentas da poluição. Ontem declarei, no silêncio do meu quarto, que “procurarei suportar com ânimo tudo aquilo que precisa ser feito” (Sócrates). Gostaria que as pessoas entendessem mais sobre a liberdade. Não se valessem de retórica, simplesmente respeitassem a minha dignidade de viver sem interferências que somente complicam o ritmo das coisas. Acende-se em mim o fogo da terra, marco o Tempo em sóis, luas e tempestades que trouxe no meu último voo, sem resposta.

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Recife: o amor de uma cidade
Luzilá Gonçalves Ferreira

Houve um tempo em que o Recife era uma palavra, uma coisa longe, um lugar para onde vez em quando viajava meu pai, para onde viajava vez por outra minha mãe, visitar minhas irmãs internas no colégio. Dessas viagens eles traziam novidades: colares feitos com castanhas, vidrinhos de perfume, das pequenas provetas Dirce, todas com cheiro enfadonho e igual. Quando brigava com minha irmã pequena, ela dizia “se você não me der isso eu vou mimbora pro Recife”, eu chorava e dava a boneca de espiga de milho, o boizinho feito com mamão e palitos, as estampas de sabonete Eucalol que contavam os feitos de Hércules e as doze maravilhas do mundo antigo. No Recife, o trem passava na frente da casa, um sobrado com tantos quartos que mais da metade a gente não usava. No quintal as árvores pareciam fantasmas, vetustas e escuras, a lavadeira cavava um buraco no chão e nele deitava o filho, que sorria e dormia em meio às folhas secas, um paninho alvo protegendo. E quando a gente se mudou outra vez, a casa nova tinha um jardinzinho com tomateiros em forma de cajá. E umas lindas flores azuis que minha mãe chamava de hortênsias, e que ela cuidava como se cuida amor. Perto de casa passava o bonde, as rodas rangiam nos trilhos do circular, o bonde que de vez em quando tomávamos, sem mais razão do que esta: ir dar uma volta na cidade e ver os jardins. A gente nem descia, os jardins eram uma beleza, o centro da cidade tão limpo, as vitrines arru-

luzilá gOnçalves ferreira

madas. Numa esquina da Manoel Borba havia uma linda casa, com um terraço redondo, o teto pintado de azul tinha umas andorinhas pregadas que me faziam sonhar. Os jardins dos ricos possuíam roseiras e dálias, palmeiras que recendiam a pimenta, mas a gente nunca via ninguém neles. Quase em frente ao Clube Português havia um chalé, e no jardim uma espécie de quiosque chinês se cercava de flores. Depois eu soube que ali morava dona Cilu, que gostava tanto de rir e eu entendi que só podia ser mesmo feliz quem morava ali. Anos depois, quando iam demolir a casa, entrei, buscando a sombra de dona Cilu que eu não conhecera e pedi ao vigia que me deixasse apanhar umas plantas. Desde então, a esta época do ano os liriozinhos azuis de dona Cilu florescem no meu jardim. Recife tinha o Colégio Agnes, as meninas internas tocavam a Serenata de Schubert, cantavam canções de VillaLobos, liam Pollyana moça, e eu invejava minhas irmãs. Diziam que ali fora o palacete dos Tasso e, no sítio, uma enorme ubaia plantada por um deles ostentava a placa indicando, com data antiga. Recife era o Parque Amorim, a casa dos Tavares em meio ao enorme sítio; quase em frente, uma mansão onde funcionara o Agnes muitos anos antes e uma espécie de lago com uma pontezinha. Minha mãe contava que, menina, viera ao Recife, e ali vira o peixe-boi, que as gentes olhavam e respeitavam. Recife era uma cidade onde a pobreza era digna, a gente passeava livremente pelas ruas do centro ou dos arrabaldes, sem que a miséria nos entristecesse. Dona Maria Filipa vendia ovos e falava da mãe, camareira de Eugênia Câmara, a amada do poeta. Um doido que morava na Estrada de Belém vinha todas as tardes conversar com a gente. Cantava “Granada, terra sonhada por mim”, repetia a primeira frase, a cada vez subindo uma nota da

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reCife: O amOr de uma Cidade

escala – até que a garganta não suportasse mais e então suspirava e desistia dizendo: – Mas isso é bonito! Recife. Quando me vêm à mente essas lembranças, essas imagens, quando folheio velhos jornais, velhas revistas com fotos de nossa cidade, vejo o caminho percorrido e alguma coisa dói. Da beleza antiga, da arquitetura antiga pouco resta, em alguma rua da Várzea, de Casa Forte, em certos trechos abandonados da rua Imperial e daqui a uns anos, se as coisas continuam neste ritmo, esta cidade não se parecerá mais com nada. Os jardins desapareceram ou quase: os ricos constroem belas residências, altos muros, aprisionam moradores e jardins. Na rua Nova já não se pode flanar para ver vitrines, no Parque 13 de Maio a gente já não se sente tão protegida, e ninguém pode mais se sentar tranquilamente à beira do cais e olhar o rio. Recife. Muitas coisas se escondem atrás desse nome, dizia um poeta. Com todas as suas mazelas, o Recife é ainda uma cidade onde a gente pode ser feliz. Onde a vida pode ser construída a uma escala humana, o ar é respirável, a maioria das pessoas ainda tem tempo para os amigos. No S. João ainda há fogueiras e quadrilhas. A gente troca pratinhos de canjica e bolos de milho. E quando se está triste, porém triste de morrer, não é preciso sonhar com Pasárgada: a gente pode se esticar ao sol de Boa Viagem, mergulhar em suas águas mornas. Recife. Muitos de nós poderíamos viver em outra cidade, mas escolhemos permanecer aqui. Onde cada esquina nos conhece, onde encontramos gente amiga quando nos aventuramos a um teatro, a uma conferência, um cinema, um concerto Aqui nossos filhos crescem, buscando seus próprios caminhos, nesta paisagem impressa em nós, na retina de nossos olhos, em nosso corpo, e onde repousam nossos mortos queridos.

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luzilá gOnçalves ferreira

Recife: uma cidade amada. Um jeito de ser e de viver, de respirar este ar, estes cheiros, de ver como as coisas se recortam na paisagem, nesta luminosidade que existe em poucas cidades do mundo. Com o olhar de quem conhece as qualidades e defeitos do ser amado. E continua a amar.

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Carnavais de outrora
Manuel Bandeira

Conheci ainda o Carnaval do papel-picado, dos limões de cheiro e do Zé-Pereira. O Carnaval do Recife, na Rua da União, entre 1892 e 1896. O Zé-Pereira: Bum! Bum! Bum! Bum! Bum-bum-bum! Zé-Pereira! Era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô, nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, compravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas, verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras trabalhavam picando o papel em minúsculos quadradinhos. Eu não tinha ainda dez anos, mas já achava insensato levar horas preparando um punhado de papel picado que se iria embora pelos ares num gesto de mão que durava um segundo... Assisti ao aparecimento dos primeiros confetes, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas, que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava eram os dominós negros, as que me pareciam mais estranhas, mais misteriosas, mais poéticas. Em 96 vim para o Rio e conheci o Carnaval carioca, tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mestre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade não era então a Avenida Rio Branco; era uma das ruas

manuel bandeira

mais estreitas e mais curtas da cidade e também a mais elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a população da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O momento capital do desfile das grandes sociedades era na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade estavam presentes nas sacadas. Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi senão os Carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu prestígio. Quando voltei a ver o Carnaval carioca, já era ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande poema, que é de 1923: ...sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor risadas e danças Batuque maxixes Jeitos de micos piricicas Ditos pesados graça popular Coros luzes serpentinas serpentinas Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas Sambas bumbos guisos serpentinas serpentinas... Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Cheirava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretudo no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devidamente no meu “Rondó do Palace Hotel”: Deus do céu, que alucinação! Há uma criatura tão bonita, Que até os olhos parecem nós: Nossa Senhora da Prostituição! – “Garçon, cinco martinis!” Os Adolescentes cheiram éter No hall do Palace,

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Carnavais de OutrOra

Depois... Depois o Carnaval carioca passou a ter fama internacional. Criou-se um Departamento de Turismo, que começou a fazer propaganda do nosso Carnaval. Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a murchar, e o certo é que o Carnaval verdadeiro, o Carnaval de rua, só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita Hayworth a dar as caras por estas bandas. O Carnaval visto por Mário de Andrade em 1923 não existe mais...
Quadrante. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1962

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1968
Marco Polo Guimarães

Cena 1
Uma parede coberta por colagens coloridas; em destaque, uma palavra saindo de dentro da cabeça de Picasso: Fabulástico. Em 68 não se escrevia linearmente. Não mais. Era algo assim como uma escrita de Jomard Muniz e Glauber Rocha. A grande influência era McLuhan. O meio é a mensagem. A mídia é um mosaico. Alegria Alegria é uma letra de música assim, fragmentária e caleidoscópica. Na Fafire, era criado o Cecosne, por madre Escobar, com uma exposição de poema-processo. Algum tempo depois fui convidado a colaborar com uma mostramonstro de poema-processo nacional, em Brasília. Mandei dois. De um deles gostava particularmente. Era uma colagem. A cara de Ringo Star. No lugar da cabeleira, o fogo e a fumaça de uma explosão atômica. Da boca saindo um balão de HQ. Dentro, a mesma frase, primeiro num corpo grande, depois repetida várias vezes diminuindo de tamanho até quase se tornar impossível a leitura. A frase: A Revolução tem futuro? Dois dias depois de inaugurada, a exposição foi invadida pelo exército e todos os trabalhos destruídos. A grande influência era Marcuse. A Revolução Sexual. Mas algumas meninas não tinham “embasamento”. A gente tinha que gastar muita vã filosofia até convencê-las de que fazer sexo era o melhor para elas. E pra gente também. Outros embarcavam na viagem do amor livre. Ninguém é de ninguém. Era duro – e às vezes

1968

cômico – ver gente lutando com o coração sangrento para permanecer impassível ao ver o/a parceiro/a com outro/a. Ajoelhou tem que rezar. É proibido proibir.

Cena 2
Cortinas de plástico amarelo e verde, vermelho, azul e branco pendendo do teto; em cima, embaixo, no meio, papagaios e tucanos, jararacas e ratinhos, cobras e lagartos, tribos e totens e tabus. Show da Rhodia no Santa Isabel com Caetano e Gil, corpo de balé e desfile de modas. Festa na casa de Tiago, de mãos dadas com Rita Lee dançando ciranda. Rita Lee era uma menina e era linda, mas Arnaldo Batista era muito ciumento. Dedé era uma menina e era linda, mas Caetano era muito ciumento. As meninas do balé e as manequins eram umas meninas e eram lindas, e seus maridos e namorados podiam até ser muito ciumentos, mas estavam em São Paulo. Melhor pra nós. Levávamos eles para os bares mais pebas do mundo: Pina, Encruzilhada. Eles adoravam, até amanhecer o dia. Uma vez, às duas da madrugada, Celso Marconi cismou de levar Caetano para conhecer Zé Cláudio. A gente batendo na janela da casa de Zé e Zé lá de dentro xingando com tudo quanto era nome. E Celso: abre a porta, Zé, Caetano Veloso quer te conhecer. E Zé: que Caetano Veloso porra nenhuma, vai te foder, Celso. Até que de tanta insistência veio abrir a porta e se convenceu de que era verdade. Não perdeu a pose, mandou todo mundo entrar e foi uma festa. Até o dia amanhecer.

Cena 3
Mar de Boa Viagem, à noite. Um grupo de rapazes e moças corre pra água, todo mundo nu. Gritos e sussurros.
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marCO pOlO guimarães

As sessões do Cinema de Arte no São Luís, aos sábados, de manhã, cheias de gente jovem e bonita e inteligente. Fellini, Buñuel, Godard, Glauber, Pasolini, Os Cafajestes, Bergman, Os Amantes, Antonioni, Cinema Novo, nouvelle vague. Na Sessão de Arte do Coliseu, Vidas Secas, Um Corpo que Cai, Kurosawa, Festival Buster Keaton, o homem que não ri. Na radiola, Tropicalismo, Beatles, Yes nós temos bananas, Bob Dylan, Ambiente de Festival, Zimbo Trio, Marcianita, Birds, Superbacana e Rolling Stones. Na prateleira, os livros de Che Guevara, o pôster de Che Guevara, as frases de Che Guevara. Na Europa, hippies, estudantes, Sorbonne e Daniel Cohn Bendit; nos Estados Unidos, hippies, Panteras Negras e Angela Davies. Na TV, Chacrinha comandando a massa e Reginaldo Rossi cantando: tô doidão, tô doidão, bicho, tô doidão. Na poesia, a tentativa de clicar tudo isso num único poema, escrito no calor daqueles dias: Ser jovem é um sucesso (1968) Não há por que viver sem sol nem porque desprezar as soluções o Brasil ainda tem uma saída para os nossos corações colar retratos na parede minha mulher dorme com amigos eu estou só mas sou um forte e amanhã mesmo vou assistir a um filme de Fellini. O delegado me perguntou qual a verdade e eu perguntei se tinha um gravador debaixo da mesa. Aí eu não vejo por que negar e disse, yes, nós também temos muitas bananas de dinamite.

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A dor
Marcus Accioly

Nunca se sente a velhice do corpo, como se sente a do espírito, porque a velhice do corpo é progressiva e a do espírito acontece de uma vez. Byron, que morreu aos 36, colocou em uma ficha de hotel a sua idade: 100 anos. Quando um homem gasta mais os chinelos que os sapatos, anda mais pela casa que nas ruas, descobre que, afinal, ele está velho. Embora a literatura seja, conforme Proust – “a arte de ficar em casa” – há neste ficar (diverso do “ficar” feliz dos jovens) um ficar nos pijamas e chinelos. Como ele anda sem sair do canto, os pés restam pesados no lugar e os passos vão-se, aos poucos, encurtando. As vestes são levadas pelo vento e o corpo perde o prumo vertical. Ei-lo, sem equilíbrio, usando as mãos como os pássaros pousados usam as asas. Não havia descoberto isso em mim mesmo e talvez nunca descobrisse: os meus chinelos eram usados pelos meus pés e pelos dentes de Alfa. Também quase não possuía uma roupa que não tivesse uma etiqueta falsa, para encobrir rasgões – marcas de Alfa. Jamais o repreendi por isso, jamais o repreendi por nada. Tudo meu era dele e vice-versa. Eu sempre ri de mim (ria por ele) quando ia me vestir, às vezes às pressas, e percebia a falta dos botões. Ele queria que eu ficasse em casa. Para ele, uma gravata era uma cobra e, por isso, deixei até de usá-las. Alfa era um belo e forte cão de caça – um pointer-alemão, brakko, kurzhaar, fígado e branco, com nome de princípio e de estrela principal e mais brilhante de uma constela-

marCus aCCiOly

ção. O seu pedigree superava o meu. Tínhamos os mesmos olhos amarelos, mas o que importa agora a cor dos olhos, se as lágrimas não têm nenhuma cor? Nunca deixei Alfa sozinho. Quando a viagem se fazia longa, eu a encurtava em cada ligação: alguém botava o fone em seu ouvido para que ele escutasse a minha voz. Era o bastante para que voltasse a comer e a esperar. Agora é Alfa que está longe e quem telefonaria para que eu voltasse a comer e a esperar? Havíamos combinado o nosso delírio, como o delírio de Edgar Allan Poe com Maria Clemm: “Só juntos poderemos morrer”. Algo quebrou a força da magia e a morte descumpriu o nosso pacto. O biógrafo de Isadora Duncan, Maurice Lever, dividiu com ela as palavras: “As crianças não sabem morrer”. Alfa, que era uma criança e que amava as crianças, também não sabia morrer. Se eu pudesse com ele, pelo menos, revezar vida e morte, como as duas estrelas da Constelação de Gêmeos – Castor e Pólux – que, quando uma se acende, a outra se apaga... Lembrava de Machado de Assis – “Quincas Borba olhou para Quincas Borba” – quando, habitualmente, tanto eu pensava ser ele, olhando para mim, quanto ele pensava ser eu, olhando para ele. Li um poema em que o autor esperava olhar para Deus como o seu cão olhava no seu rosto. Nunca pensei assim. Jamais eu fui um deus perante Alfa. Nossos olhares, um de frente ao outro, subiam amarelos para o céu. Costumava orar pondo a mão sobre os seus pelos brilhantes e macios – que dizem ter os cães que são amados. Mas nada disso mais existirá. Alfa não vive e eu morro por saber. Uma dor tão intensa e tão extensa, eu só senti quando perdi os meus. A dor moral, feito a dor física, não é contínua, mas intermitente. Creio que ambas, se não tivessem pausas, romperiam de vez o ser humano. Durante a suspensão, os olhos secam e a dor fica cansada de doer. Mas tudo volta e a dor parece nova

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a dOr

e, da luz que há nos olhos, desce a lágrima. As mortes dos meus sempre me tiraram da aparente realidade e do suposto equilíbrio em que vivo. É paradoxal, mas entre a vida e a literatura há um espaço e existe um outro tempo. A literatura é feita de vida, ou da vida, pois ela traz a vida, faz a vida, e sem vida não há literatura. Eis que a literatura vence a morte. Porém, quando se chega à minha idade, também se chega à outra conclusão: sem a literatura não há vida. Quando a poesia triunfa sobre a vida e vence o poeta com sua queda de braço – por se saber mais forte do que ele – então se torna insubstituível. Nas mortes dos meus, sempre existiu a dor compartilhada. Na morte de Alfa, é a dor sozinha. Embora haja solidariedade, só eu posso sentir tanto e chorar tanto, o que tanto comigo ele viveu. Alfa me fez feliz por onze anos e o fiz, por onze anos, ser feliz. Kleist e Stefan Zweig procuraram alguém para morrer com eles e encontraram. A dor de Alfa é totalmente minha. Eu não encontro um só para chorar.

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Tamarineira, adeus
Marilena de Castro

Há dez anos quando cheguei aqui havia muito verde. O verde rosa das mangueiras, o verde dos cajueiros, das jaqueiras que dão o nome ao bairro e do parque, isto sem falar das tamarineiras. Tamarineira, também o apelido do hospício mais famoso da cidade. No terreno que cerca o hospital encontra-se um grande pomar de vários tipos de árvores e fruteiras que deixam no velho manicômio o ar de mistério. Infelizmente tudo ameaça se transformar em shopping center ou quem sabe lá o quê. Houve passeatas, protestos, foram colocadas faixas e cartazes, todo um bairro se mobilizou, mas a muralha do poder econômico não se mexeu. Da janela do apartamento vejo as cores do dia mudando até o caminhar da lua à noite. Só faltando as estrelas ofuscadas pela luz dos postes e das casas. Nos dias de chuva observo a lavagem dos telhados das casas restantes. Talvez não reste quase nada. Todos os dias, vejo desaparecer a paisagem para que brotem do chão prédios tão altos que encobrem os morros que não enxergo mais. Os pés de manga, goiaba, jaca, tamarindos, caju, foram mortos para nascerem os arranha-céus. A ministra Marina Silva falou, em uma entrevista, que a primeira vez que viu do avião uma cidade grande cheia de prédios, achou que a terra sentisse cócegas

tamarineira, adeus

Parece que estes gigantes de concreto estão mesmo arranhando os céus, pois a cidade está cada dia mais quente. Já perceberam quantas mudanças no clima e na paisagem? Como dizem os mestres orientais, a impermanência é a única coisa que permanece. Pois sim, o mundo está mudando e rápido. Se não formos atentos nem perceberemos o dia passar e assim os meses e os anos. Talvez nós estejamos provocando todo o desequilíbrio do mundo ou, quem sabe, sejamos apenas os agentes ativos e/ou passivos. Será que já está escrito? Antes que a América fosse descoberta, os Maias prediziam, através do seu calendário, que o mundo iria passar por transformações dramáticas em nossa época. Talvez baseados no que aconteceu à sua própria civilização. Ciclos de fartura e de escassez, até o desaparecimento. Aliás, tudo muda, não é? Ah, como muda. Este adeus, de mãos abertas e dedos livres, estava pronto para a despedida quase em forma de apocalipse, embora lírica. Mas não. Não foi preciso. Os Maias terão que esperar mais um pouco. A Tamarineira está salva. Salva e verdejante.

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Não há quem dê mais?
Mário Sette

O leilão em domicílio foi considerado a princípio uma falta de pudor. Assim como não se permite a ninguém despir-se em público, também causava vexames abrir as casas a estranhos para que ali se vendessem trastes e utensílios. Aqueles interiores de outrora tão esquivos, tão claustrais! Ficava mal por esse lado de recato e, além do mais, dava ideia de penúria, de dificuldades, de decadência. Dir-se-ia: – “Fulano está acabando com o que tem...” Era um mau sinal de equilíbrio econômico. Geraria desconfianças e prevenções não somente de ordem privada como igualmente de caráter comercial. O crédito sofreria na praça... Leilão, somente os ordenados pelo juiz. Por isso, de começo, anúncios de leilões apenas aludiam a vendas de salvados, de artigos em abandono, por medidas judiciais, fossem nos trapiches, nas alfândegas ou nos próprios cais da cidade. Quando muito, nas agências dos leiloeiros. Predominavam, entretanto, os leilões de mercadorias avariadas, explicáveis pela morosidade nas travessias dos barcos a vela, sujeitos a ríspidos temporais com insultos violentos de vagas, aguaceiros, mofo, tudo a concorrer para que muita cousa saída dos portos europeus em bom estado aqui chegasse em condições de não ser aceita por quem a encomendara. O martelo decidia-lhes a sorte – e o preço. Tornavam-se assíduos, deste modo, os avisos de que seriam vendidos no dia tal e a certa hora o carregamento avariado trazido pela barca ou pelo brigue inglês. Os com-

nãO há Quem dê mais?

pradores afluíam e, arrematando esses artigos, ofereciamnos dias depois em seus balcões com abates, por estarem “levemente manchados”. Não raro, a própria embarcação era também posta em praça, por lhe faltarem condições de navegabilidade ou por insolvência do armador. Posteriormente, já se proporcionava a aquisição por quem mais desse, de móveis em “segunda mão”. Mas apenas nas agências. O agente Borja, por exemplo, em seu armazém na Rua do Colégio, nº 15, fazia leilão de uma “infinidade de objetos patentes ao ato da venda”, e acrescentava que entre eles haveria um ótimo escravo. Esse agente Borja parecia ser homem de relevo na sua época, pelo tino profissional, pois já anunciava com clichê. Representava a pequena gravura uma mesa por trás da qual o leiloeiro, de martelo em punho, apregoava, e em roda surgiam cabeças de licitantes. Certo dia, uma família, porventura estrangeira, pretendendo retirar-se da cidade, quis vender seus móveis de modo menos precário que o de passar a outras mãos particularmente, e entregou-os a um leiloeiro para leválos à competição pública. E assim se fez. Deu que falar, houve críticas e estranhezas; contudo, tratando-se de “povo de fora”, achou-se explicável a “sem-cerimônia”: – “Estrangeiro não tem vergonha de nada!”. Concorrentes não faltaram: uns na expectativa de pechinchas, outros curiosos de ver o chalé por dentro, bisbilhotar o cenário da intimidade alheia, conhecer como esse pessoal de outras terras tinha a casa. A venda deu bons resultados. Certas cousas alcançaram preços superiores aos dos objetos novos. – “Tudo pelos olhos da cara!” Valeu a lição, porque, aos poucos, famílias brasileiras experimentaram o gostinho de fazer leilão de seus “trastes” nos próprios domicílios. Como motivo real ou fingido diziam “retirarse para a Corte ou ir passear à Europa”.

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Terá sido um dos mais primitivos anúncios de leilão desse gênero o seguinte, que saiu em 1856: Estando a família do sr. ... a retirar-se para Lisboa pela barca de vapor de 21 do corrente, faz este leilão, por intermédio do agente Oliveira, da mobília da casa de sua morada no campo, consistindo em um piano de excelentes vozes, em perfeito estado, sofás, cadeiras usuais de braços, de balanço, mesa elástica para 18 pessoas, ditas redondas para salas, consolos, bancas para jogos, secretárias, guarda-roupa, guarda-vestidos, guarda-louça, aparadores, cômodas, um superior leito feito de ferro de encomenda, para casal, ditos de jacarandá e de outras madeiras, pedra para filtrar água, jogo de corrida de cavalinhos, lavatórios, toucadores, lanternas, candeeiros, relógio, aparelhos de louça para mesa, sobremesa, almoço e para chá, garrafas inclusive para clarete, copos de várias qualidades, uma vaca de leite em abundância, com bezerro, um carro para seis pessoas para um e dois cavalos, com arreios dobrados e singelos, um cabriolé novamente consertado e pintado, uma carroça, escadas, banheiros e outros objetos. Sexta-feira, (dia-santo suprimido e por isto de poucos afazeres) 25 do corrente, às 10 horas da manhã, no sítio do Caminho dos Aflitos, outrora pertencente ao finado Tavares e atualmente ao Ilm.º Sr. F. C. Pais de Andrade, próximo ao Manguinho, advertindo-se aos concorrentes que ali será servido apetecível lanche para recreação. Não é apenas já um reclamo inteligente e sugestivo. É um quadro da época. Nos aspectos da cidade, nos seus costumes, no interior de suas casas, na particularidade do seu quotidiano. Quem não compreende aquele dia-santo cortado, mas ainda respeitado pela população? E a mesa elástica de 18 pessoas, tão diferente dos quatro lugares de hoje e das festas em que se comem “salgadinhos” quase invisíveis, e de pé? E o cabriolé? E a identificação do prédio pelo nome do proprietário?
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Os leilões foram-se amiudando. Adjetivação nos anúncios; títulos vistosos. Nomenclatura grupada pelas peças do prédio. Ia sofrendo modificação o sentimento de recato em se abrirem as portas aos estranhos para as exposições e os lances. Quer se tratasse de um palacete, quer de uma casa térrea. Entrava-se à vontade pela sala de visitas, onde a mobília de jacarandá se dispunha simetricamente: o sofá com as quatro cadeiras de braços, a jardineira ao centro sustentando sobre o tampo de mármore um jarrão de louça de China ou um vistoso candeeiro belga, os dois consolos com portas envidraçadas através das quais se viam biscuits, álbuns para retratos, objetos de charão, as dezoito cadeiras de guarnição em várias filas, o espelho oval, as oleografias em voga, o tapete aveludado... Dali se passava ao corredor, com o porta-chapéu, ao quarto de “estado” provido da cama de casal com cúpula e cortinado, o toilette, o lavatório a ostentar sua guarnição de porcelana, o guarda-vestidos de duas amplas portas. E mais os quartos do santuário, de costura, de dormir, de banho. Por fim, cozinha de “fogão de tijolo”, copiar com gaiolas de passarinhos, cocheiras, caramanchões, figuras de louça, bancos... Tudo se vendia, inclusive, às vezes, baús de flandres pintados ou de couro com fechos de metal, castiçais de mangas de vidro, caixinhas de tartaruga, quadros de caranguejos... É interessante acompanhar nesses velhos anúncios de leilões as características dos móveis ou pelo menos os seus nomes de outrora. A princípio, marquesas e marquesões não faltavam, simples ou trabalhados. E os canapés, tremós, arcas, cômodas com segredo, conversadeiras para centro de sala, forradas de damasco de seda com flores artificiais, podendo formar quatro peças. As cadeiras forradas eram comuns: ora de cetim amarelo, ora de seda preta, ora de gorgorão bordado. Igualmente se recomen-

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davam as poltronas douradas. Mesinhas de charão, camas com embutidos de marfim ou madrepérola, caixinhas de música, quartinheiras de colunas ou de paredes não faltavam, e alguns desses objetos vieram até a época mais atual. Muito comuns, também, na época, as cadeiras-privadas... Depois, já se viam os dunquerques, os aparadores de suspensão, as cristaleiras, os toilettes, os bibelôs e outros tipos de móveis não conhecidos pelos antepassados. Rareavam os baús, as arcas, os tremós, os armários de portas almofadadas. Apareciam, porém, escarradeiras de porcelana com gravuras de muito bom gosto. Esse costume das escarradeiras nas salas durou até a segunda década deste século, mais ou menos. Elas estavam presentes sempre, em par, aos lados dos sofás, para que ninguém cuspisse no chão... Os espelhos de parede, com molduras douradas, geralmente encimados por liras, florões, cabeças de crianças, também se faziam obrigatórios. Uns menores, e outros de grande tamanho, às vezes com cercaduras de veludo. Os bonitos e caros candeeiros de cima de mesa ostentaram-se até se vulgarizar o uso do gás carbônico. Substituíram-nos pelos lustres de pingentes ou, quando mais modesta a casa, por arandelas de dois e três bicos ornados de globos lavrados ou coloridos. A água encanada nos domicílios veio a afastar dos leilões, um tanto, as bacias, os “banheiros” e as pitorescas gamelas “boas para um bom banho”. O que ganhou notável prestígio nas vendas a martelo foi o piano. A princípio dava que falar quem o possuía e o tocava. Destacava-se o teto do qual saíam sons deste maravilhoso instrumento. Pouco a pouco, entretanto, foram-se tornando comuns. Os professores e professoras de piano enchiam os jornais com seus oferecimentos de serviços. E não havia mais leilão sem piano. De Pleyel, de Blondel, de Herz, de Bevelot... De cauda e meia cauda, de armário com lanternas de prata e mangas de cristal, nas

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madeiras mais preciosas como fosse jacarandá. Senhoras e senhorinhas poderiam em condições mais suaves deslizar seus dedos pelos teclados de marfim na interpretação de noturnos e valsas, de sonatas e óperas, de melodias ou quadrilhas. Quem é que perderia seu dinheiro com realejo, que tinha pancadaria, feito em Paris, e que ali custara 800$000? Tampouco os cravos, as harpas, as rebecas arrastariam maior número de concorrentes a essas vendas públicas. Agora, só piano! A máquina de costura, por seu turno, começou a frequentar a nomenclatura dos leiloeiros Oliveira, Pinto, Gusmão, Pestana e outros. Já não constituía aquela grande novidade que se ostentara em clichês saborosos nas folhas, acompanhados de elogios ao seu “progresso maravilhoso”. Seu trabalho equivalia ao de 34 costureiras: pesponto, bordar, franzir... E vendiam-se em prestações, custando de 50 a 70 mil réis cada uma. Pois já perdera o caráter de raridade. Caíra nos leilões. Essas vendas a quem mais desse estavam tendo competidores e precisavam apresentar comodidades e atrações. Além do “lanche de recreação”, havia bondes especiais. Houve mesmo um ônibus gratuito para um leilão na Passagem da Madalena antes de correrem os bondes. As maxambombas igualmente davam transporte grátis por conta dos vendedores. Os versinhos ajudavam: Temos trens grátis Para os concorrentes, Pois estamos certos: Voltarão contentes. Sim, voltavam. Os que realizavam compras de pechincha e os que lá se dirigiam apenas para mastigar uns bons-bocados e tortas, ou saborear uma cerveja. Também

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os que faziam do leilão uma pequena festa, entre conversas, criticas, namoros... Em 1871, faleceu o agente de leilões Francisco Gomes de Oliveira, e o seu necrológio acentuava-lhe a prioridade na classe. Por volta de 1900, com o novo século, foi surgindo a moda dos móveis menos pesados, como se dizia no tempo. Era a inovação das mobílias austríacas, dos bibelôs torneados, das cristaleiras de um só corpo, das cadeiras tipo Thonet, das colunas de pau-cetim. Para adquiri-los vendiam-se por qualquer preço as marquesas de jacarandá, os aparadores de carvalho, as camas de bilros, as arcas de tremidos, os cadeirões de bolachas, as cômodas de amplos gavetões e de segredos, tudo que fosse sólido e antigo. Os anúncios de leilões refletem essa ânsia... Os agentes Gusmão, Pestana, Pinto, Vernet não se cansavam em manejar o martelo, e embora se esforçassem, os lances tornavam-se exíguos e morriam depressa. Vinha vindo, igualmente, a era da peroba amarelinha, que encheria os interiores daquelas séries de mobiliários saídos das serrarias há pouco inauguradas na cidade com abundância de reclamos e ruídos de exposições nos seus depósitos em ruas centrais. A fama dos móveis austríacos, por sua vez, transitava para os leilões... As madeiras nacionais ganhavam supremacia. Surgiam os sofás e cadeiras de encosto reto, de pés frágeis, de assento mesquinho, revelador de um tempo em que pouco se parava em casa, em que a vida se transferira para os cinemas, os clubes, os consultórios, as lojas... Para que mais as mesas elásticas de seis e oito tábuas, quando agora as famílias se reduziam pela restrição da natalidade e pelo egoísmo econômico de se morar sozinho? Nem tampouco nas festas as mesas amplas prestavam serviços: comia-se em pé – salgadinhos e doces minúsculos, com as próprias mãos, ao invés dos

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fartos e prolongados jantares ou ceias de garfo, de antigamente, com uma dezena de pratos, uma infinidade de sobremesas, grande variedade de vinhos, e ainda por fim o café e o licor. Nos lares ultramodernos tudo se reduzia: o espaço das peças, o tamanho dos móveis, até a altura das portas. Piano? Para quê, se havia o rádio de cabeceira? Escrivaninha? Bastava a máquina de escrever portátil, que se guardava numa gaveta de penteadeira. Reapareceria então, como paradoxo, o interesse de um grupo de bom gosto, ou de uma classe de novos-ricos ávidos de ostentação, pelos velhos mobiliários, pelas “antiguidades”; mas estas não chegariam mais para o martelo dos leiloeiros – seriam traficadas pelos antiquários sonhadores de milhões de cruzeiros. Os leilões iriam voltando ao primitivo cenário das agências, tornando-se raros nos domicílios como outrora. Desta vez, o motivo não seria absolutamente o pudor de se devassarem os interiores. Oh, não!... Porque muitas coisas que as nossas avós teriam vergonha de mostrar, mesmo na intimidade das alcovas, já andam à vista de todos pelas ruas...
Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife, Secretaria de Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978

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Fundação Terra em Arcoverde
Marly Mota

Saímos do Recife com nuvens pesadas de chuva nos acompanhando até a Serra das Russas. Depois, fez-se tarde das mais belas até Arcoverde. A viagem duraria de três a quatro horas, em confortável caminhonete, nos levando por boas estradas, confluentes dos sertões de Pernambuco. Entre ligeiras fugas, observo a paisagem de escassa vegetação e retalhos de verdes. Nos caminhos, solitárias cruzes plantadas, como símbolos da religiosidade popular. Lembrei-me de ter lido o livro, comprado por Mauro Mota, numa loja do Sebo, na Rua da Matriz: Viagens no Brasil, São Paulo, 1943, do botânico George Gardner, quando aqui chegou aos 24 anos, de Liverpool, em 1836. Gardner, também zoólogo, andou por esses mesmos caminhos até o Cariri, em condições adversas, observando a riqueza da flora, a beleza e variedade da natureza das regiões tropicais que o fascinaram, nas viagens e expedições que realizou em terras brasileiras. Ao chegar à Fundação Terra, onde com os meus filhos, noras e os meus sobrinhos, médicos cardiologistas, do Real Hospital Português, Flávia Arruda e Djalma Godoy – eles, levando equipamentos, remédios e assistência aos doentes e desafortunados, colaborando com a Fundação – passamos um produtivo final de semana, na Casa de Retiro da Sagrada Família, situada a 12 quilômetros da cidade de Arcoverde no Sítio da Malhada. – “Lugar de oração, evangelização, silêncio e busca interior”, para um

fundaçãO terra em arCOverde

retiro aberto com o reverendíssimo padre Airton Freire, tão presente com a sua obra assistencial, que lhe confere o reconhecimento de quantos com ele colaboram, em doações de terrenos, construções de casas, escolas, abrigos e o Projeto Prover, fundado pelos seus amigos: França Neto, do Ceará, e Sérgio Motta, de Pernambuco. Esta ação meritória é apoiada pelo reverendíssimo bispo diocesano, dom Francisco Biase. Dentro desse panorama envolvente, fomos conhecer a já famosa Rua do Lixo, na periferia da cidade, onde o padre tem por meta prioritária colocar idosos abandonados em abrigos e retirar a criançada do lixo, para a escola. Cada um de nós tomou uma criança como afilhada, com o compromisso mensal de ajudá-las. O padre Airton Freire, que nasceu em São José do Egito, ordenando-se em 1982, optou em 1984 por viver nessa rua entre os pobres, como pobre. Ajudado pelos amigos, esteve em Houston, para uma complexa cirurgia cardíaca. Saúde quase zero. É dele este aforismo: “Enxerguei olhos que pediam, mesmo que nada dissessem”. Voltando à Casa de Retiro que nos acolheu, assinamos uma ficha de inscrição registrando também a razão para esse nosso recolhimento. Claro que a motivação depende do critério de cada um. Na Capela da Sagrada Família, o padre Airton Freire é o pregador. O seu sermão religioso nos encaminha a reflexões e resoluções. Dentro da acolhedora casa o silêncio é fundamental no cumprimento da programação religiosa. A paisagem que nos cerca é harmoniosa, as buganvílias vermelhas enfeitam telhados, os crótons juntam-se aos cactos ramificados, com as suas flores alvas, que se abrem à noite. O panorama que nos cerca é de hospitalidade. Tudo muito simples e, por tudo isso, muito bom. A comida nordestina, especialidade tão peculiar para quem guarda esses sabores, servida em amplo refeitório. A casa

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marly mOta

onde mora o padre Airton é modesta. Exuberante só a natureza que a cerca. Ele diz que da janela do seu quarto olha a Serra da Andorinha, enquanto lê Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, vigiado pelo canto dos passarinhos e pelos girassóis, que enfeitam de amarelo o roçado atrás da casa. Ao derredor, entre mandacarus, aroeiras e coroas-de-frade, pastam, em convivência harmoniosa, emas, cabras e carneiros. O nosso amigo, padre Airton, chama a atenção para não perdermos o pôr do sol nesse final de tarde. Diz ser, a cada dia, mais incendiado. Não há como não se sentir em paz consigo mesmo, diante de tal resplandecência. Já noite, olhei o céu como há muito tempo não via. As estrelas pareciam despencar de tão brilhantes. Lá estava transcendente a Via Láctea, a mesma do poema de Olavo Bilac, que recitei de cor no colégio: “Talvez sonhasse, quando a vi./ Mas via / Que, aos raios do luar iluminada,/ Entre as estrelas trêmulas subia/ Uma infinita e cintilante escada.” O padre Airton é teólogo, psicólogo, filósofo, poeta, compositor, sobretudo grande figura humana. Autor de vários livros, incluindo os seus aforismos, e os textos reunidos em Conversando com o Padre Airton Freire, e que estão gravados em CDs, sempre acompanhados com músicas selecionadas. Algumas por Ernesto Cortázar. Quando deixamos a Fundação Terra, prometemos voltar. “Há despedidas que são pedidos para ficar”.

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Família dos livros
Mauro Mota

É melancólico o destino de algumas bibliotecas particulares do Recife, reunidas durante anos a fio de buscas em editoras e sebos daqui, de outros Estados e países. Coleções de História, Linguística, Direito, Literatura. Autores lidos e mantidos nas melhores encadernações, algumas parecendo ter sensações humanas no manuseio das consultas e da releitura. As mãos não as pegam com violência. Antes com as carícias sempre renovadas, escorrendo pela ponta dos dedos que viram as páginas com a ternura de quem virasse uma criança adormecida no berço. Às vezes há uma ilusão acústica. Se for de noite e houver silêncio, se estivermos sós num recanto da casa, as palavras impressas fogem do seu mutismo gráfico e adquirem para nós os tons da voz mais pura de quem as escreveu. Temos o poder da ubiquidade. Vamos para um território de fantasmas e melodias. Esse amor de bibliófilo é um amor sem declínio. Amor que o tempo revigora em cada dia, em cada noite. Também com os seus conflitos, quando a preferência é maior por determinados volumes. Neste, o bibliófilo, em vez de tinta impressa, encontra sangue em circulação, sangue que se comunica com o seu e o ajuda a viver nas suas mágoas e na sua solidão. Mas, de qualquer modo, o bibliófilo não é imortal como tantos dos livros. Passado o sétimo dia, como se um ciúme inconsciente os instigasse, os herdeiros determinam a dispersão da-

maurO mOta

quelas peças de mais longa convivência do morto. Consideram os livros usurpadores e intrusos. Decretam o seu banimento. Não há o menor respeito pelo gosto e pelas preferências de quem passou o tempo a juntá-los e a conhecê-los na intimidade, a tirar deles ensinamentos e experiência. É preciso desocupar o lugar. A biblioteca forma uma grande família com ordem de despejo. É como se casais fossem separados, velhos enterrados vivos, filhos pequenos arrancados para sempre dos braços das mães. A dispersão é total sem ao menos a medição dos valores literários e históricos entregues aos licitantes. Estes muitos sabem dar um bom destino às suas quotas; outros, não. Afinal a tristeza maior é a do retalhamento da biblioteca. Ela, que passou toda uma época a constituir-se, desfaz-se em menos de uma semana. Despovoam-se as estantes, as coleções perdem a unidade, os livros dizem adeus aos companheiros de tantos anos, vizinhos de prateleiras. Mãos estranhas vão agora possuí-los e não se sabe de que modo. É como se a morte fosse pouco e um mundo desabasse em cima do cadáver de quem o construiu.
Capitão de fandango. Recife, CEPE, 1960

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Diálogos simplificantes de La Mancha
Maurício Melo Júnior

Diz o tempo quando a arte deve se materializar. A fruta sabe o instante exato de seu mais perfeito sabor. Isso também se dá em arte, acredito. Mas como não ando tendo muitas certezas, acotovelo-me entre meus livros alheios. Falava mesmo do instante da arte. Pois bem. Há cerca de um ano, numa viagem quase desprovida de sentidos, fui dar com os costados em Natal. Como carregava a tiracolo uma equipe de televisão, resolvi fazer um breve documentário sobre Luís da Câmara Cascudo, a quem cultivo impagáveis dívidas. Filmei o que pude, gravei entrevistas e voltei com o bisaco pejado de ideias. Só que os atropelos que caminham incessantemente pelos corredores de tudo quanto é televisão deixaram a edição repousar por vários meses. A bem da verdade, somente agora estou conseguindo trabalhar o projeto. E tudo aconteceu no tempo certo. Para engrossar meu caldo de devoção, aproveitei os meses para retomar minhas conversas com Cascudo. Impressiona como ele conseguia traduzir numa linguagem simples e direta as mais intricadas teorias da ciência humana. E talvez aí repouse a antipatia que nutria pelo discurso acadêmico. Uma antipatia que, burramente, se tornou recíproca por muitos anos. Aliás, denominar de ciência humana o que foge ao campo das físicas e químicas da vida é pensar estreitamente na dimensão do homem. Toda ciência é humana,

mauríCiO melO JúniOr

ensina Cascudo. E ensina escudado pelo aspecto mais simples da escrita. Era ele, Cascudo, tão despojado quanto o Quixote que tenho em minha frente e que já não me lembro como chegou às minhas mãos. O elmo partido, a lança, o escudo, tudo denuncia Quixote, mas está desprovido de feições e heroísmo. Uma figura comum. É como a leitura de Cascudo. O texto leve disfarça sem esconder sua fortaleza erudita. Dom Quixote e Cascudo foram companheiro de longas horas. No livro Prelúdio e fuga do real o doutor Cascudinho conta como recebeu, numa tarde, a visita do fidalgo da triste figura. “O motivo real desta visita é expor-lhe meu julgamento sobre a angústia contemporânea, insatisfação, ansiedade, amargura, insubmissão, melancolia dos tempos presentes”, anuncia o cavaleiro e deita a falar do excesso de violência e futilidade que doma a literatura. “Todos os espíritos escrevem, pintam, esculpem, compõem, para dissipar a permanente noite desse Tempo triste. (...) O moderno é uma câmara secreta da Santa Inquisição, fogo, tenazes, cunhas, garfos de ferro rasgando devagar os nervos da nossa sensibilidade.” Sentencia o pai do romance moderno. Tenho a curiosidade de saber a data de publicação do livro. 1974. Há trinta e quatro anos, Cascudo estranha a futilidade da literatura. Por dever de ofício e também por prazer, constantemente leio os autores contemporâneos brasileiros. Choca-me o insistente transitar pelo vazio, pela violência, pela falta de sentido. Não que tenha ouvidos sensíveis. Meu incômodo vem do empobrecimento que isso nos traz. Mesmo autores de incontestável talento se entregam ao modismo e optam pela linguagem franciscana. Nossa riqueza vernácula foi abandonada, trocada pela urgência e pelo banal. E é bom lembrar que banalidade não é sinônimo de simplicidade. “O artesão, de posse do barro, pode fazer um Deus ou uma vasilha”, ensinava Eça de Queiroz. Ultimamen267

diálOgOs simplifiCantes de la manCha

te nossos escritores têm fabricado muitas vasilhas e quase nenhum Deus. A arte tem seu tempo, e muitos são aqueles que pela urgência chegam à imaturidade. Melhor voltar ao velho diálogo entre Cascudo e Quixote. “Creio, professor, uma solução poderosa na terapêutica instintiva reside no aparecimento de uma literatura anti-histérica, anticerebral, antiofídica, emergindo da majestosa simplicidade do Comum.” Caro Quixote, suas esperanças ainda são quimeras. Mas ainda temos tempo. Toda arte tem seu tempo.

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Do amor
Maximiano Campos

Uma mulher pediu-me que lhe falasse do amor. Respondi-lhe apenas que a amava. Ela era inteligente e percebeu o quanto são precárias as palavras. Além do mais, o que eu poderia dizer de novo depois de Ovídio, Stendhal e tantos outros haverem falado sobre o assunto? E de que espécie de amor se tratava? Há tantas espécies de amor quantas pessoas existem no mundo. As pessoas se assemelham umas com as outras, mas, nem por isso, deixam de ser mistos de abismos e pontes entre semelhanças. Há o amor-paixão, o amor-carnal, o amor-afinidade, o amor pelas coisas abstratas e pelas pessoas e objetos, há o amor por Deus e o amor pela mais decaída e vencida das suas criaturas. Há um amor que é só desejo, há um amor que é só entrega e doação. Tudo isso é bastante óbvio e está por demais repisado. Mas eu gostaria de poder dizer àquela mulher naquele momento que observasse a minha vida desde o dia em que a conheci. Sim, porque ninguém é diferente do amor que sente pelas criaturas amadas. O meu amor por ela tinha todas as minhas fraquezas e todas as minhas forças. Tinha todas as minhas danações e todos os meus apaziguamentos. O meu amor por ela era o meu limite, o meu ponto máximo de ser pessoa. Era o saber que a sua morte não angustiava menos do que a minha, que as suas aflições se confundiam com as minhas até o ponto máximo que nos leva à empatia mais poderosa. E, ao mesmo tempo, era por sabê-la tão diferente de mim, tão contrária a mim, que eu a amava. Amava-a nas suas au-

dO amOr

sências, nos seus defeitos, nas imperfeições do seu corpo mortalmente belo de fêmea e amante. E eu sabia, e acho que ela também, que se conseguíssemos explicar tudo, o mistério desapareceria e com ele a força do amor que não pede e está além e aquém de explicações. Tenho muita pena dos que tentam explicar o amor por uma mulher. Era como se alguém quisesse explicar por que nasceu. Esse alguém até poderia dar uma aula de Biologia, de Anatomia, mas não saberia o porquê de ter nascido naquele dia e naquela hora, pois todos nós temos horas e dias absolutamente nossos: o do nascimento e o da morte. Porque duas pessoas, se amando ou não, juntaram sementes e entranhas acumpliciadas para, no prazer ou na dor, gerar outra criatura, é fato que só os tolos tentam explicar. Naquele tempo, eu era mais moço e queria dar uma resposta, sem saber que uma resposta ditada pela razão, ordenada em palavras, era impossível. Era impossível dizerlhe mais do que eu disse, e eu apenas disse que a amava. E eu nem sabia o quanto era grave, grande e cruel o que a ela havia dito. Cruel, sim, cruel. Porque o amor é uma crueldade sem limites da ternura extremada. De todos os compromissos do homem o amor é o mais difícil de ser assumido. Mesmo porque não somos nós que o assumimos e, por maior que o seja o amor, nada mata a solidão inexorável. Comecei a dizer que a amava porque a julgava bela. Comecei a dizer que a amava porque nela encontrava o prazer maior de todos os prazeres nos abismos do seu corpo. Disse-lhe que a amava porque nela via a companheira e o repouso, a paz e o campo de batalha. Falei-lhe dos mínimos detalhes do seu corpo que me deslumbrava e prendia em carícias. Falei-lhe de um tempo nosso, de um tempo comum que passamos juntos, tantas vezes cegos e videntes, tantas vezes perdidos e tantas vezes redimidos. Falei-lhe do

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maximianO CampOs

medo de perdê-la, do desejo da sua presença, da sua ausência doendo nos nervos e na alma. Falei-lhe, falei-lhe, e enquanto falava comecei a perceber que falava sobre o passado. Uma das características do amor é ele confundir passado, presente e futuro; e como o presente não pode ser estabelecido porque está a passar, contínuo e ininterrupto, compreendi que só iniciei a falar quando o amor ergueu os estandartes da sua própria morte e revelou-se na sua extinção. Assim como as pessoas, só depois de morto e findo o seu ciclo, o amor pode ser explicado. A razão julga, escolhe, decide. O instinto, a intuição, percebe sem julgamentos, entende sem demonstrações nem provas, aceita sem motivos e, o que é mais incrível, nunca erra; e, se erra, nos leva a errar sem deixar que sejamos mesquinhos. Sim, porque um erro não é a mesma coisa que uma inverdade.
Cartas aos amigos (org. Antônio Campos). Recife, Bagaço, 2002

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Comparação
Miriam Carrilho

Passava pouco das oito, a manhã vestia luz e frescor, nos entretínhamos na arrumação das prateleiras, na limpeza dos livros, dos cadernos e da miuçalha, nas anotações e nos comentários corriqueiros, quando o sino da porta soou forte a anunciar um possível cliente. Calmo, bem penteado, bem posto em sua camisa de algodão azul bem-passada, ensacada na calça preta de velhos carnavais, andou distraído a olhar os produtos expostos, sem se dar conta da moça que o cumprimentara e o seguia. Chegou junto ao birô onde eu estava envolvida nos traços e pontos de um desenho recém-começado. – Bom dia, dona. – Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo? Olhou-me, simpatia e serenidade. Tudo nele transpirava aquela velha e boa educação benfazeja a cada dia mais rara, a cada dia menos valorizada. Com firmeza, seguro e decidido, pediu: – Por favor, quero uma caneta. Boa, viu? É para dar um presente. Abri o meu melhor sorriso, disse um “pois não” e acenei para a funcionária ao seu lado, que logo o convidou para escolher dentre os diversos modelos dispostos em finas caixas acolchoadas. O homem abria olhos e boca, deixando descambar, queixo abaixo, a baba da admiração. Para o seu gosto, cada uma mais bonita, mais cheia de predicados, mais atraente. Cego de deslumbramento, não via os preços apostos ao lado das caixas.

miriam CarrilhO

– E os preços, hem? – Pois não, esta aqui é quinze, esta outra é vinte e três, aquela ali, ó, é sessenta e oito e oitenta... A ansiedade a instalar-se, ele começou a perder o fôlego. – O senhor gostou desta? Pode experimentar. É boa, ou não é? Veja como é linda! Palmira segurou uma delas entre os indicadores e começou a balançá-la para lá e para cá. Como num desfile de modas, uma a uma dançava, faceira, num ritual de conquista. Coquetes, sedutoras, maliciosas. O homem começou a desmoronar. Perdia, aos poucos, o tino. O desassossego a invadir-lhe inteiro. Frenética, sem perceber, a vendedora continuava a pegar mais e mais canetas na tentativa de agradá-lo. Perdido no labirinto, ele começou a temer o Minotauro. Aos deuses suplicou uma saída... Súbito uma ideia o fez recobrar a lucidez. Olhou para mim de soslaio, como a perscrutar se não estava sendo observado. Fingi que não. Afundei a cabeça no desenho. Percebi o gesto: pediu à funcionária que se aproximasse. Ela, enfim, o compreendeu e, por pouco, não encostou a orelha à sua boca. Um sussurro, um sopro, quase, voejou dos seus lábios: – Moça será que não tem uma mais baratinha... O alívio estampou-se em sua face, espraiou-se à sua volta. Resolvida a peleja entre o desejo e as posses, dirigiu-se ao caixa. Com um sorriso agradecido segurou, cheio de cuidados, a embalagem caprichada, segredou: – Pois é, dona. Quem pode, faz. Quem não pode, faz a comparação...

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Aura de outono
Nagib Jorge Neto

Dos tempos de primavera, sonhos, festas, ainda restam imagens, paisagens, evocações de momentos de amor, lutas, encantos. Dos tempos de outono – complexos, críticos –, lembranças de ilusões minguantes, mutantes, instantes de poesia, beleza, sem a chama da utopia no amor e na luta. Daí a prevalência de marcas imprecisas, diluídas na realidade, no ritmo feroz das mudanças, na geração de desencantos. Então mudou o mundo, vingou um outono sisudo, e quase toda uma geração esqueceu ideias, ideais, sonhos. Com medo de envelhecer ou sair de moda, renegou conceitos, preceitos, capitulou diante da maré do novo tempo. A força das ondas rebentou portos, fortes, invadiu praias, atingiu e desbotou bandeiras, que eram erguidas em nome do amor e da libertação. A chama mudou de mãos, de objetivos, e na corrida a pira virou símbolo de uma nova era de promessas, esperanças. É um símbolo recriado, reciclado, mas que ganhou aparência de moderno, avançado, exatamente em nome da liberdade, do desenvolvimento, que deve ser obra de uma mão invisível, do mercado, que faz a seleção natural dos competentes, dos espertos, vencedores. É exatamente o oposto dos tempos de primavera, de sonhos, da fase de verão, também princípios de outono, quando muitos defendiam um modelo de ordenamento jurídico, de progresso, em que havia controles, limites. Assim a liberdade não servia apenas ao econômico, ao do-

nagib JOrge netO

mínio de suas forças, mas era expressão de garantia dos fracos, dos humildes, excluídos. Nesse sonho, muita gente defendia um Estado democrático, organizado, com condições de preservar a soberania nacional, regular a atividade econômica, proteger o país, a nação, contra a avidez do lucro e do controle do poder. A maior parte não queria um Estado totalitário, do tipo fascista ou socialista, mas sim salvaguardas, instrumentos efetivos, para enfrentar as regras imponderáveis do jogo de mercado. As ideias pareciam justas, corretas, mas o outono trouxe consigo o inverno da desesperança, da frustração, e tornou mais imprecisas, vagas, as ilusões de um mundo justo, humanista, solidário. Mais que isso: gerou a crença no valor absoluto da disputa, da competição, na lei do mais forte, de forma que vingou a impressão de que as convicções antigas eram erradas ou ridículas. Assim, não se teve um retrocesso, uma capitulação, mas uma nova forma de ver a realidade, o mundo, baseado numa concepção de Estado realista, sem idealizações e falsas esperanças. De alguma forma, essa nova visão lembra as cartas de amor da juventude, as paixões e juras, ou as ações políticas na defesa de reformas, com panfletos ou comícios reivindicando liberdade e justiça social. O tempo é cruel, os anos desbotam amores, posições ideológicas, mas sempre resta alguma lembrança de ternura, carinho, luta e resistência. As cartas de amor, as juras, mesmo quando parecem ridículas, evocam uma fase juvenil, lúdica, de paixões, afeto, dor de cotovelo, real ou platônica. As ideias políticas, igualmente, refletem um passado de combate, afirmação, e, então, traduzem um sentimento de solidariedade, humanismo, que completam os ideais das cartas ou juras de amor. Daí é sempre válido lembrar as cartas, paixões, convicções, o ângulo da felicidade no amor, do ideal de libertação
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aura de OutOnO

e justiça no sentido coletivo, pois é uma forma de não perder o contato com a primavera, a estação das flores. Então pode-se rever o encantamento, a utopia, que o passar dos anos não deve relegar ao esquecimento, abandono, sobretudo quando o outono, noturno e soturno, mostra que a realidade adensa o inverno, aumenta a desesperança. É mais do que tempo, pois, de ver o mundo que se diz novo, rever as teorias que aprofundam a desigualdade, vendem utopias, ampliam a distância entre ricos e pobres, gerando um quadro que mostra o avanço do horror econômico, da tragédia do desemprego e da pobreza, que está entre nós, noutras áreas do país, de outras nações. Enfim, é preciso um pouco de amor, de combate, em tempo de primavera e sem essa triste, envelhecida, aura de outono.

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Recife brasileiro
Nelly Carvalho

“Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.”Embora não tenha tendências saudosistas, poderia repetir e endossar os versos de Bandeira, excluindo a casa brasileira. A casa de meu avô, na Cruz Cabugá, era uma casa portuguesa, com certeza. Mas foi lá que aprendi a conhecer e amar o Recife, contemplando os casarões, percorrendo os caminhos que nos levavam do Espinheiro até lá. Talvez, daí também tenha vindo certo interesse pelos meios de comunicação. A Rádio Clube, orgulho da época, era quase em frente a sua casa. Tornavase uma festa olhar e ouvir o que lá se passava: parecia estar de um caleidoscópio, com imagens visuais e sonoras de um mundo que ansiava por conhecer. Aos poucos, o cenário foi mudando. Os casarões familiares foram cedendo vez a fábricas escuras e pragmáticas, a oficinas cheirando a graxa, as calçadas atravancadas de peças, impedindo a passagem: já não eram prazerosos os caminhos. Começava o Recife a ser “mutilado, pregado à cruz das novas avenidas”, como testemunhou Joaquim Cardozo ao ver as mudanças no centro da cidade. Mas, pensávamos, descaracterizavam-se apenas alguns bairros. Santo Amaro era bairro de pouco prestígio. Espinheiro, Derby, Casa Forte, Aflitos não teriam o mesmo destino. Permaneciam afortunados com suas mansões de quintais com mangueiras, palacetes de majestosas escadarias que desciam para os jardins. Do alto de seus andares, olhavam sobranceiros para as ruas, para os passantes, para a vida.

reCife brasileirO

Esses pomares urbanos de um outrora tão recente estão na poesia de Cabral, nos “tamarindos da Jaqueira, e jaca da Tamarineira. [...] [e] mangas [...]nos quintais ricos do Espinheiro e dos Aflitos”. Para o poeta, “diversas coisas se alinham na memória numa prateleira com o rótulo: Recife. Coisas bem legíveis em sua forma simples”. O longo corredor da avenida Rosa e Silva, limite entre bairros ensombrados, Espinheiro e Aflitos, onde o sol fazia renda no chão, em pleno meio-dia, ao voltarmos do colégio, para nós, certamente será uma delas. Lá, nos jardins floridos, acácias e flamboyants desmanchavam-se em cascatas de cores no verão. Era o endereço da gente fina. Discretos, fechados, os casarões não exibiam a vida de seus moradores aos olhos curiosos. Como os pernambucanos da época pré-emergentes, eram avessos a ostentações. Aos poucos, o perigo foi se aproximando, não só com o comércio, mas com o crescimento populacional, dificuldades de manutenção, urbanização. Caíram os primeiros casarões para dar lugar a prédios de porte modesto, mudando o nível dos que passaram a ter esse endereço. Fotos da avenida Rosa e Silva nos anos 40 são uma elegia visual. A partir dos anos 80, o exército de espigões de concreto fixou suas sentinelas avançadas, que se transformaram em legião nos anos 90, destruindo o patrimônio arquitetônico que fazia do Recife, com certeza, uma cidade conhecida pelas belas residências. Agora, na primeira década do século XXI, caem as últimas testemunhas de um Recife tranquilo, arborizado, onde pousava a esperança e a alegria nas asas da cotovia. Ao cruzarmos a Rosa e Silva, vimos, por esses dias, um trator-vilão, um arrasa-quarteirão, derrubando, sem piedade, paredes que contam histórias por nós desconhecidas, mas nem por isso pouco relevantes. A casa fazia parte do cenário afetivo dos moradores do bairro, embora não

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fosse histórica, nem artística. Talvez não valesse a pena conservá-la junto com o prédio. Essas conservações descaracterizam tanto a casa tombada que, alterando o contexto, roubam-lhe a imponência e a personalidade Em breve, quem voltar ao Recife estará diante de uma cidade desconhecida e despersonalizada. Diferente dos grandes centros, que constroem novos bairros em torno do centro antigo, mesmo que não tenha valor artístico, destruímos para transformar bairros aprazíveis em paliteiro de espigões. Parafraseando Bandeira, eu poderia dizer: Recife... Avenida Rosa e Silva... Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia tão impregnado de eternidade!

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O menino de Pernambuco
Nelson Rodrigues

1. Certas frutas desapareceram. Por exemplo: – carambola. Há trinta anos, não vejo um mísero pé de carambola. Nem goiaba. As goiabeiras sumiram dos quintais. E pior: – os quintais também sumiram. O que há é a solidão dos apartamentos. 2. Por que é mesmo que estou dizendo isso? Eu ia falar das pitangas de minha infância. É outra fruta em vias de extinção. Coisa curiosa. Toda minha infância tem gosto de pitanga e de caju. Pitanga brava e caju de praia. Hoje tenho 57 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade com um cordial descaso, porque, ao contrário do Tristão de Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: – ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou arrebatado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais. 3. E volto a 1913, ao mesmo Recife e ao mesmo Pernambuco. Mas não era mais Capunga e sim Olinda. Alguém me levou à praia e não sei se mordi primeiro uma pitanga ou primeiro um caju. Só sei que a pitanga ardida ou o caju amargoso foi a minha primeira relação com o universo. Ali, eu começava a existir. Ainda não vira um rosto, um olho, uma flor. Nada sabia dos outros, nem de mim mesmo. E, súbito, as coisas nasciam, e eu descobria uma pitangueira ou um cajueiro. 4. Que idade teria eu? Eis o que me pergunto: – que idade teria eu? Um ano, um ano e pouco, sei lá. Ou menos, talvez menos. Minha família morava diante do mar.

nelsOn rOdrigues

Mas o mar antes de ser paisagem e som, antes de ser concha, antes de ser espuma – o mar foi cheiro. Há ainda um cavalo na minha infância profunda. Mas também o cavalo foi cheiro. Antes de ser uma figura plástica, elástica, com espuma nas ventas – o cavalo foi aroma como o mar. 5. 1913. O que a memória consciente preservou de Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lembro de pouquíssimas pessoas. Por exemplo: – vejo uma imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio. 6. Falei do mar e volto a ele. Tenho umas poucas obsessões que cultivo, com paciência e amor. Uma delas é o mar. Qualquer praia vagabunda, mesmo a de Ramos, tem para mim um apelo mortal. Às vezes penso que já morri afogado em vidas passadas ou morrerei afogado em vidas futuras. 7. Em 1914, houve o incidente de Sarajevo. Caçaram o arquiduque a tiros, bombas. Meu pai soube, e minha mãe, e meus tios, e as visitas. Mas na hora do atentado, eu não sabia que o arquiduque, já ferido de morte, soluçava para a mulher: – “Vive para os nossos filhos!” Era um defunto falando para uma defunta. Aquele homem assumia, ali, a sua plena e inefável miserabilidade. Deixava de ser um uniforme, um penacho, um par de botas. As medalhas escorriam sobre as tripas à mostra. E as esporas triunfais estavam agora geladas. Na hora de morrer, e quando sabe

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O meninO de pernambuCO

que está morrendo – o homem tem um olhar súplice e insuportável de criança batida. Não, não, um olhar de contínuo. Sempre imagino que o arquiduque austríaco, com os intestinos de fora, morreu como o último dos contínuos. 8. Era a guerra. Um ano depois, nascia mais um, lá em casa. Era o sexto filho. Meu pai já espalhara por toda Recife: – “Se for menino, vai se chamar Joffre.” E veio um menino, de cabelo de fogo. Esse irmão, que se uniria a mim como um gêmeo, ia morrer, aos 21 anos, tuberculoso. Depois da Revolução de 30, e até 35, eu e toda minha família conhecemos uma miséria que só tem equivalente nos retirantes de Portinari. Ainda agora, quando me lembro desse período, tenho vontade – vontade mesmo – de me sentar no meio-fio e começar a chorar. Eu e meu irmão Joffre passamos fome e foi a fome que estourou nossos pulmões. Mas não quero misturar datas e contarei tudo isso, a seu tempo. (Naquela época, os jornais davam à tuberculose o nome imaculado de “peste branca”. Por uma associação meio idiota, eu me lembro de Moby Dick, a “baleia branca”. Mas, estou divagando, e me desculpem.) 9. Voltemos à guerra, isto é, à Primeira Grande Guerra. Meu pai embarcou para o Rio em 1915 (jornalista de combate, com tremendo potencial de ira, ele sempre imaginou que ia morrer assassinado). Pernambuco tornara-se pequeno para a sua ambição jornalística. Largou emprego, largou tudo, e disse a minha mãe: – “Você me espera. Se arranjar emprego, mando buscar você. Se não arranjar, volto.” Partiu. Meu pai era gago e daí, talvez, a ternura que eu tenho por todos os gagos. Que figura doce era meu pai e capaz de cóleras tamanhas. Cóleras contra os outros, contra o mundo mas trêmulo de ternura para a mulher e para os filhos. Morreu aos 44 anos de idade e jamais me deu um vago e merecido cascudo. Na hora, porém, do revide polêmico, era um Zola a descompor o

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exército francês. Mas meu pai não era homem de passar muito tempo longe de minha mãe. 10. No dia em que desembarcou no Rio, deu-lhe uma santa e provinciana pusilanimidade. Sua vontade foi voltar, correndo. O que ele não sabia, nem podia imaginar, é que minha mãe estava empenhando joias, o diabo. Meu tio Augusto protestou: – “Não faça isso. É loucura!” Ela não aceitou nenhum argumento, nenhum raciocínio: – “Vou, porque vou, vou mesmo.” Linda, minha mãe. Tenho retratos seus da mocidade e posso repetir: – linda, minha mãe. Um dia, meu pai recebe o telegrama: – “Embarco hoje, navio tal. Beijos.” E lá ficou ele como uma barata tonta, lendo e relendo aquilo. Vinham a mãe e seis filhos, o último de colo. Esse batalhão de crianças ia inundar o Rio de Janeiro. Diga-se de passagem que, há muito tempo, minha mãe vinha martelando meu pai: – “Vamos para o Rio. Você tem que ir para o Rio.” 11. Uma coisa é certa: – meu pai só ficou por causa de minha mãe. E quando entramos no navio, a Europa continuava morrendo e matando. Segundo dizia o Eu sei tudo, os alemães arrancavam o olho dos prisioneiros com o dedo em gancho. Só os alemães estupravam, só os alemães espetavam criancinhas na ponta das baionetas. Durante a viagem, meus irmãos mais velhos, Milton e Roberto, estavam eufóricos. A campanha submarina alemã espalhava o terror por todos os mares. Meus irmãos queriam ser torpedeados e, se morrêssemos todos, seria ótimo, ótimo. Quanto a mim, não me lembro de nada, ou por outra: – o que me ficou do navio foi a lembrança de uma delicada escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Finalmente chegamos. No cais, estavam meu pai e Olegário Mariano, o poeta. 12. Eu só imagino a pungência, a plangência da cena. Minha mãe descendo a escadinha, com a filharada atrás,

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O meninO de pernambuCO

e sem um tostão (o dinheiro das joias fora todo gasto nas passagens e em poucas gorjetas de bordo); e meu pai, sem emprego, rigorosamente sem emprego, ou melhor: – meu pai arranjara um emprego e fora despedido. Saímos dali e fomos – meus pais, com a filharada – para a casa de Olegário. Lá, passamos não sei se vinte dias, um mês. Mas falei em Olegário e preciso contar um episódio que ocorreria trinta e poucos anos mais tarde. Tivemos um bateboca, pelo telefone, de uma espantosa violência. Houve de parte a parte, os insultos mais pesados. Olegário berrava: – “Eu te matei a fome! Eu te matei a fome!”
O Globo, 9 de outubro de 1970 O reacionário – memórias e confissões. Rio de Janeiro, Agir, 2008

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Um Recife que não volta mais
Nilo Pereira

Recordar ainda é uma das coisas boas da vida. Pode trazer sofrimento. Mas o espírito se refaz. O coração se alegra. Há sempre um tempo que não foi perdido. Lembro hoje o Recife de há uns bons 40 anos. A cidade hanseática, como a chamaria Vamireh Chacon, era outra. Não havia assaltos nem sequestros. Punha-se a cadeira na calçada. Era possível “arruar”, como no romance de Mário Sette. Lia-se Aníbal Fernandes e Mário Melo. Tomava-se chá na Confeitaria Helvética que talvez fosse a nossa Casa Havaneza tão celebrada por Eça de Queiroz. Frequentava-se o Cinema Royal. Ouvia-se Maurice Chevalier e Jeannette Mac Donald cantar. O “chansonnier” francês cantava às vezes em inglês: – “I love Pauline, I love also Josephine”. Usava chapéu de palhinha. A bengala entre os seus dedos ágeis descrevia arcos como se voasse. No Helvética jantava-se bem. Muitas vezes Otacílio Alecrim e eu ali ficávamos a cavaquear sobre mundo de coisas. Tínhamos a imaginação solta. Alecrim ria como um Mefistófeles goethiano. Os garçons não gostavam dele, das suas reclamações a respeito dos pratos e talheres mal-lavados. Um Recife sossegado esse da década de quarenta por aí. Jordão Emerenciano morava na Rua dos Ossos. Dizia Silvino Lopes que a rua tinha esse nome porque Jordão havia comido toda a carne. Na sua casa as reuniões varavam ruidosamente a noite. Nas grandes ceias vivia-se um clima de literatura esguedelhada. Éramos para nós mes-

um reCife Que nãO vOlta mais

mos novos “Vencidos da Vida”. O grupo compunha-se de Gilberto Osório de Andrade, Samuel Mac-Dowell, Silvino Lopes, João Vasconcelos, Sylvio Rabello, Andrade Lima Filho, Olívio Montenegro e este rabiscador. À meia-noite em ponto Samuel Mac-Dowell declamava O corvo, de Edgar Poe. Grande momento esse. As luzes esmoreciam à chegada do bicho sinistro piando sobre uma estante. Samuel falava também com as mãos. Era um artista do Renascimento. Tinha um talento descomunal. Ouvi-lo nessas horas de recolhimento espiritual era como levitar sobre o mundo. E alcançar as esferas celestiais, onde os anjos cantam em coro. O Recife não produzirá mais um Jordão Emerenciano. Monarquista, ele guardava um ar fidalgo de herdeiro presuntivo, que parecia disputar com Guilherme Auler. Tudo nele era aristocrático. Os republicanos não se sentiam mal diante dele. Imagine como Carlos de Laet – o mais fiel dos monarquistas – gostaria de o ter conhecido. Juntos, em infindáveis tertúlias, louvariam D. Pedro II e o Visconde de Ouro Preto, que fez Laet deputado pela Paraíba e por Mato Grosso. O grande jornalista não chegou a tomar posse na sua cadeira de representante do povo. A proclamação da República lhe tolheu a carreira parlamentar. Fez com ele o que a revolução de 1930 fez com Luís da Câmara Cascudo, que foi deputado estadual por três dias... Esse Recife já antigo teve outra figura que não se repete: – Valdemar de Oliveira. Valdemar foi tudo. Uma síntese dos vários Valdemares que havia nele: o médico, o bacharel em Direito, o teatrólogo, o escritor, o jornalista, o ator, o autor, o professor, o compositor, o pianista. O homem plural como o chamei numa expressão talvez feliz. Não se repete mais um Valdemar como esse. Certa vez no Ginásio do Recife o mestre que ele era incompatibilizou-se com uma turma de História Natural onde ensinava.
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nilO pereira

Vieram os exames finais. O Padre Félix Barreto, diretor do Ginásio, me pôs na banca examinadora como presidente, “para manter a ordem”. Eu era muito mais moço do que Valdemar, de modo que não soava bem a expressão “manter a ordem”. Mas lá fui eu. Valdemar reprovou a turma toda. Grande assuada. Ele imperturbável. O mantenedor da ordem impossibilitado de exigir silêncio. Saímos juntos. Valdemar dirigia nessa época uma “Baratinha” Chevrolet. Íamos ao Jornal do Commercio: ele para redigir o seu “A propósito”, uma coluna de Arte; eu para elaborar o editorial, então chamado “batelão”. Verificamos que todos os quatro pneus do carro de Valdemar estavam furados. Os estudantes escondidos numa mercearia próxima espreitavam o momento de ver o mestre tomar o carro e ficar dançando sobre as rodas murchas. Que fez ele? Deu-me o braço. Fomos a sua casa. Não podia prever o que ia acontecer. Ele me disse então: – Quando me contrario, abro o meu piano. E foi o que fez. Que grande pianista era Valdemar! Aos poucos tudo se foi dissipando. A música divina música nos levava em asas de anjos para regiões indefinidas. Voávamos. Ou levitávamos. Assombrou-me aquele homem. Não o conhecia tão ágil no piano. Tocou uma valsa só com a mão esquerda. Depois a sua própria valsa de sua autoria que havia composto para uma sua ex-noiva. Surgiu o romântico diante de mim. E disse versos. Transfigurou-se na sua cena. Era o artista que o Recife tantas vezes aplaudiu. Há isso hoje? Não há mais. Jordão e Valdemar não se repetem. Foram-se e levaram com eles um tempo do Recife, como gostava de dizer Mauro Mota, outro que também não se repete. Não sou propriamente um saudosista. Mas amo essas coisas que passaram. Vejo nesses amigos algo de irreal. Como se eles estivessem por empréstimo entre nós.
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O poder sênior
Olímpio Bonald Neto

Vive-se mais, a cada geração. O IBGE proclama o paulatino aumento da “expectativa de vida” dos brasileiros. A medicina alardeia meios e modos de prolongar a vida útil da população e tudo repercute na economia, na sociedade e na cultura. Os brasileiros idosos conquistam seu estatuto legal, com direitos e privilégios e, cada vez mais, interferem e participam da vida nacional. O professor Torres Montenegro, da UFPE, diz: “Romper, de forma absoluta, com o Passado, parece ser todo o objetivo da ‘Cultura da Modernidade’. Diverso das ‘sociedades imaginárias’, onde a sabedoria se transmitia oralmente e a função precípua (a Finalidade Objetiva) dos velhos e das velhas era Recordar, Lembrar – Manter Viva – e Transmitir (ensinar) a memória coletiva.” (LIMA, Daniel. Diario de Pernambuco, 25 de dezembro de 1991). Por isso, começo interrogando. Qual o objetivo da velhice em tempos da Modernidade? O fim como o inevitável término da vida? Ou viver ensinando a viver? Manter a Cultura (a tradição das memórias, da história, das lendas, experiências, costumes, técnicas, tabus, saberes, conceitos e preconceitos etc.) exige experiência vivida no Tempo, além de convivência e lazer dinâmico, privilégio de idosos, experientes da vida, liberados das tarefas cotidianas, no “ócio com dignidade”. Labor de sá-

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bios e disponíveis, e por isso mesmo respeitados, veneráveis guardiões das lembranças, senhores do imaginário coletivo, da ancestralidade, das ilusões perdidas e dos sonhos realizados pelo tempo... Orgulhosos dos seus ócios, estão certos de que até o Criador, ao sétimo dia, permitiu-se descansar, consagrando a importância do tempo vago para a ação criadora: o sétimo dia de Deus foi de repouso, de lazer contemplativo em face à Criação Universal. Assim, Lazer, na modernidade socializada, é cada um dispor, sem restrições, do bem sagrado e sem preço que é seu Tempo. Hoje, compondo o Direito dos trabalhadores, são inalienáveis, garantidos por Lei, o repouso noturno, o descanso semanal remunerado, as férias, as licenças e a aposentadoria. O sábio padre Daniel Lima, assim define o homem diante do Tempo: “Somos, de qualquer modo, em qualquer idade, criaturas do Tempo e, portanto, marcadas pela ação entrelaçada dos três momentos que o constituem e que nos historicizam. Ninguém se livra do Passado, tanto quanto é impossível escamotear o Presente e o Futuro. Todo instante humano é mistura dessas três situações. Disto se faz nossa Vida e a nossa Morte. Um minuto não passa de tão lento, enquanto tão depressa correm os anos. Não cuides, pois, dos anos nem das horas. Cuida só deste instante único e lindo onde o melhor de ti palpita à espera.” (LIMA, Daniel. Soneto do instante. Diario de Pernambuco, 1º de janeiro de 1992). Daí, cada idoso ser um sedimento do Tempo da sua comunidade. Verdadeira poça das chuvas da Vida, das experiências sofridas ou gozadas, sempre, todavia, com o saldo positi289

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vo da sobrevida, formando imensos mares salgados com os sagrados sais da Vida!

A angústia do ser globalizado
Outro dado a considerar é que a agonia de hoje – o stress da maioria dos homens que se querem para além do Moderno – um “Ser Globalizado” – é não ter Tempo para nada, salvo para as obrigações. Gasta-se todo o Tempo de Vida cumprindo tarefas, perseguindo as mil faces do sucesso, desde a riqueza à competência profissional, numa carreira enlouquecida, atropelando dias e anos, precipitando-se no caudal psicodélico das imagens e das notícias – em tempo real, de todos os recantos da Terra – trazidas pela mídia internetizada. E, como no mundo capitalista time is money, e como dinheiro é a mola mestra desse mundo, ninguém parece ter mais tempo para saborear a vida, para degustar o passado, para recordar os momentos vividos, ou desenhar os sonhos do futuro. Porque saborear, recordar e sonhar são atividades improdutivas; não dão retorno, não geram rendas nem juros. Coisas inúteis de crianças e de velhos... Como se viver fosse somente levar vantagem em tudo, ambicionar, conquistar poderes e riquezas, gastar o tempo, estar sempre correndo para um destino incerto e sem qualquer controle. E nesta carreira idiota – sem razão nem sentido – a maioria, desembestada, sucumbe...

Os sobreviventes
Todavia, alguns fogem à regra desse universo ofegante. Há uma seleção natural pelo talento, pela sensibilidade e pela inteligência. Quase sempre sobrevivem os melhores. Os sábios, os feiticeiros, os santos, os visionários, os navegadores e as290

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tronautas, os inventores de engenhos e técnicas, os profetas, os pensadores, os criadores dos mitos e das artes, os poetas e outros autores das estórias, das crônicas e dos romances que fazem a humanidade pensar, sonhar e desejar progredir. São mulheres e homens, aparentemente iguais aos outros, porém mais experientes, mentalmente ativos, veteranos do seu mundo e da sua época, que aprenderam a dispor desse extraordinário bem fora do comércio, desse raro, limitado e precioso produto natural chamado Tempo de Vida. São os mais lúcidos, os que souberam organizar a Vida, aplicando o capital tempo acumulado no repouso, na ação, na solidão e na reflexão criadora. Não são velhos, superados, exauridos. Não gastaram, mas sim empregaram bem o seu Tempo.

Velhos e idosos, como distinguir?
Velhos, mesmo, são os desvalidos, os doentes – mais das almas que dos corpos – os frustrados, desiludidos, negativistas, dependentes inúteis, órfãos da sua época, invejosos e rancorosos, carentes de tudo, exilados no próprio lar, amargurados com todos. Idosos são adultos ativos, mentalmente sadios, líderes da sociedade, realizados e de bem com a vida e com o mundo. São os que nunca se entregam aos azares da sorte, nem vestem o pijama da acomodação, são os eternos capitães de suas indústrias, os míticos santos e demônios, os provedores, os conselheiros, os intelectuais, os românticos amantes que ainda mandam flores, os que simplesmente não têm (ou não precisam negar) a idade que têm... Os verdadeiros Seniores de cada geração. Mesmo arriscando excluir muitos, permito-me exemplificar alguns Seniores da nossa geração que agora me acodem à memória.
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Como Marcos Prado, Leny Amorim, Waldenio Porto, Antônio Correa, Esther Sterenberg, Nelson Saldanha, Amaury Medeiros, F. Bandeira de Mello, Geninha da Rosa Borges, Jarbas Maranhão, Odile Cantinho, Abdias Moura, Débora Brennand, Alex, Marly Mota, Mário Márcio, Dirceu Rabelo, W. Maia Leite, Meraldo Zisman, Pe. Edvaldo, Ana Maria César, Roque de Brito Alves, Marcos Vilaça, Luzilá Gonçalves, Fátima Quintas, Francisco Brennand, Carlos Garcia, Jarbas Vasconcelos, Marco Maciel, Maria do Carmo Tavares de Miranda, José Nivaldo, Lourdes Sarmento, os irmãos Germano e Fernando Coelho, Wilton de Souza, Djalma Costa, Rostand Paraíso, Milton Lins, Reinaldo Oliveira, Djanira Silva, César Leal, Rosa Lia, Ariano Suassuna, Nagib J. Neto, Lúcio Ferreira, Carlos S. Cavalcanti, o casal Dorinha e Tavares de Lima, Lucilo Varejão Filho, Albuquerque Pereira, Aluízio F. de Mendonça, Fernando Gonçalves, Bernadete Serpa, Cyl Gallindo, Alexandre Ribemboim, Aurélio Loyola, Dulce Albert, Melchiades Montenegro, Ruth Bacelar, José Paulo Cavalcanti Filho, Nicolino Limongi, Lúcia Cardoso, Esther Camurça, Graziela Peregrino, José Menezes e tantos e tantos outros ilustres idosos, atuantes Seniores que iluminam nossos palcos, salões, oficinas, bibliotecas e tribunas. Ou Gente já “Encantada” – e viva na Memória da nossa geração – como Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Waldemar Lopes, Jamesson F. Lima, Waldemir Miranda, os irmãos Maximiano e Renato Carneiro Campos, Evaldo Coutinho, Gaston Manguinho, João Pedrosa da Fonseca, José do Rego Maciel, D. Helder Camara, Celina de Holanda, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre, Paulo Cavalcanti, Zuleno Pessoa, Jaime Griz, Amaro Quintas, Orlando Parahym, Ulisses Lins, Ana das Carrancas, Temístocles de Andrade, William Ferrer, Manoel Correia de Andrade, Pinto Ferreira, José Rafael de Menezes, Felix de Athayde, Ma-

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ria do Carmo Barreto Campello, Pelópidas Silveira, Luiz Gonzaga, Vanildo Bezerra, Costa Porto, Potiguar Matos, José Lourenço, Paulo Cardoso, Joaquim Monteiro, Ulisses Guimarães, Capiba, Clarisse Amazonas, Djair Brindeiro, Roberto Marinho, Alcindo Pedrosa, Celina de Holanda, Audálio Alves, Edmir Domingues, José Ermírio de Moraes, Lamartine Morais, Marcos Freire, Luiz Beltrão, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Katarina Real, Flávio Guerra, Luiz Delgado, Mário Souto Maior, Lula Cardoso Ayres, Barbosa Lima Sobrinho, Clídio Nigro, Armando Monteiro, Miguel Arraes, Waldemar e Diná de Oliveira, dentre muitos outros que tiveram fecunda existência, criando e distribuindo energia vital, alegria, beleza, deixando exemplos de amor a Deus, ao Brasil e ao seu povo, amando e defendendo as artes, a natureza e a vida.

Quantos somos?
Aumenta a cada dia a população de seniores, esses idosos que vivem cada vez mais... Só em Pernambuco – na década de 1990, dizia o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – viviam mais de 600 mil maiores de 60 anos. No Recife eram 216.566. No Brasil mais de 10 milhões. Em 2000, eram mais de 15 milhões e, para o ano 2030, projetava-se uma população de 31 milhões... Ironia é que a cada dia passam a sobreviver mais idosos no Brasil, o que inutilizou as perspectivas atuariais, prejudicando os cálculos das aposentadorias... Uma população idosa que vem crescendo a taxas superiores à da população jovem. A cada mês e a cada ano, continua aumentando, até vir a ser uma força de valor e importância moral ainda não plenamente avaliada! O cientista político Hélio Jaguaribe chega a afirmar:

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“A 3a. Idade é mais do que um problema social ou da Humanidade. É um Problema Político!” De fato, para muitos, ser ou sentir-se “velho” é postura individual. Por isso, adultos experientes, éticos e lúcidos são a rara e preciosa elite da nossa Terceira Idade. O só fato de estarem vivos aos setenta anos, em momentos tão difíceis como os de hoje, já os distinguem como casta superior. Especialmente neste momento da história, em que a insegurança individual, dos familiares e dos seus patrimônios, os desencantos políticos diante das maracutaias e de toda sorte de cambalachos que emporcalham os mais altos poderes da República brasileira, levam ao desespero o cidadão comum, o contribuinte fiel e sacrificado por dívidas públicas internacionais, respeitador das mil regras, portarias e normas, que atazanam a sua vida se cumpridas (ou se violadas por infratores, quase nunca punidos). Daí, o ser mais raro é o Sênior! Um adulto idoso ativo, eficiente, lúcido, pragmático e, ao mesmo tempo, ético, visionário, idealista, perseguindo resultados imediatos, metas visíveis, enquanto sonha e crê no que vislumbra além da realidade material, no espaço infinito da imaginação e da sensibilidade, tal como fazem os poetas. É que ele já sofreu, suportou (experimentou) situações extremas, ainda desgraçadamente impostas a uma América Latina de terceiro mundo, de economia controlada por banqueiros internacionais, dominada pela cultura de massa voltada para um público incauto, domesticado por certa mídia cativa, consumidor de produtos de baixa qualidade, colonizadores, alienantes mentais. Por isso nossa crença (e tanta esperança) neste Poder Sênior – cerne de uma geração que sobreviveu à 1ª Guerra Mundial e a duas ditaduras, que sem ódio e sem medo

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resistiu ao Golpe Militar e restaurou a liberdade e a democracia, e vem aprendendo a ser povo e eleitor consciente. Pessoas que atravessaram mil vicissitudes nessas últimas décadas da história política do Brasil. Idosos lúcidos, que superaram a senilidade da velhice e a apatia da desesperança, e que estão por aí, como força oculta, liderando alguns dos melhores setores da sociedade, dos negócios, da política, das artes e da cultura contemporânea. Essa força oculta atua nas várias dimensões da nacionalidade. Na dimensão política é representada pelos eleitores independentes, teoricamente à prova da embromação eleitoreira de políticos desonestos; cidadãos que conseguem ver e ouvir além do que lhes mostram e muito além do que escutam... Na dimensão econômica: é uma decisiva força consumista de médio poder aquisitivo, que sabe o que melhor lhe serve, compra apenas o que precisa, acima dos modismos, sem se deixar levar pelo “papo” publicitário. Se mais bem advertido e conscientizado, esse poder de consumidor pode vir a impor comportamentos mais honestos aos produtores e vendedores, exigindo qualidade, quantidade e preços justos. Impondo freios à especulação que desespera a massa de consumidores sem juízo crítico nem experiência de vida. Na dimensão moral: essa elite representa uma reserva de crítica positiva que examina, escolhe e influencia as mudanças de comportamentos sociais sem concessões aos preconceitos, às novidades, aos modelos de importação de matrizes culturais impostas ao nosso povo há tantos anos; de um falso progresso globalizado que vem corroendo as matrizes estéticas, morais e religiosas do povo brasileiro. Uma força crítica, capaz de embargar os processos de aculturação que vêm sendo impostos ao povo brasileiro

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por interesses do rapinante primeiro mundo, que interfere em tudo, da economia à segurança interna, da família à política, coagindo governantes, corrompendo a máquina burocrática e as relações internacionais de comércio, a perpetuar a relação colonialista que fez de nosso país reserva de mercado, mero produtor de bens primários e território livre, onde tudo se permite... Vale imaginar que essa força crítica – de homens e mulheres mentalmente independentes, vividos e politizados, apaixonados pelo amor e pela vida – será capaz de se opor às práticas amorais, materialistas, poluidoras, belicistas, aberrantes e desumanas das elites políticas, econômicas, militaristas e fanatizadas que pretendem dominar o mundo neste aterrador terceiro milênio, tão sinistramente apocalíptico. Vale, pois agora, sonhar com o Poder Sênior. Ver, com os olhos da alma, perseguindo uma estética do belo, do justo, do harmonioso; preservando a moralidade consolidada ao longo da história, através do paulatino aperfeiçoamento dos valores do homem – como ser supremo da criação, animal superior na escala biológica, capaz de amar, de pensar e de agir racionalmente, em função da sua consciência do Bem e do Mal. Assim, para nós, o objetivo maior da velhice ativa – do Poder Sênior – é lutar, com todas as forças e sabedoria, para restaurar a dignidade do homem contemporâneo, integrando-o pelo corpo e pela mente à vida de uma comunidade essencial, capaz de atuar positivamente dentro da sociedade brasileira, hoje infelizmente enferma, economicamente frágil e moralmente infectada. E isso implicará na participação cada vez maior do adulto experiente em movimentos sociais pela cidadania, pela Justiça e pelo Direito. A mulher ou o homem Sênior são, desse ponto de vista, a melhor parte da sociedade nacional, o extrato mais

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saudável do espírito, o lado mais operoso e eficiente do idoso ativo, que pode vir a ser uma Força acima das diferenças regionais, das religiões e dos partidos políticos, agindo em favor do futuro dos mais jovens e do presente dos idosos menos capazes, tirando da morte a sua sinistra função de libertadora da velhice abandonada... É, pois, em nome desse Poder Sênior que nós somos (ou a Deus querer, seremos...), que ouso conclamar todos os companheiros adultos ativos, para refletir sobre o quanto já desperdiçamos da Vida, e passar a usar conscientemente o muito que ainda temos, certos de que constituímos uma grande e poderosa força, imensa reserva de experiência e de saberes, e, especialmente, donos dessa magnífica sobra de tempo de vida que Deus vem permitindo seja ativa, lúcida, amorosa, idealista e eficiente. Ainda há tempo para se tentar refazer o mundo!!!
O fim da velhice (antologia). Recife, 2006

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Anatol Rosenfeld – homenagem à memória do intelectual
Osman Lins Não sei em que mês de 1965 nos encontramos. Eu concluíra um livro e desejava ouvir a sua opinião; o que ele publicava nos jornais indicava um leitor compreensivo, arguto e aberto a experiências novas. Nosso contato foi rápido e algum tempo decorreu antes que voltássemos a nos ver. Pouco importa, para esta breve memória, o que me disse a propósito do livro; basta que se saiba que a verdadeira natureza de certas explorações minhas foi por ele revelada. O crítico traduzia para o criador – que assim se tornava mais lúcido – alguns dos seus processos. Nasceu, portanto, em torno de um texto, como felizmente nascem quase todas as relações do escritor, uma amizade cerimoniosa que só a morte viria a romper. Para dizer a verdade, não nos vimos muitas vezes ao longo desses anos. Ao menos, não o vi com a frequência com que desejava e deveria vê-lo. Ia, a intervalos, encontrá-lo no seu gabinete de trabalho (na rua Groelândia e depois na Giacomo Garrini), rodeado de livros, a mesa sempre coberta de páginas manuscritas – e sempre com frio, mesmo nos dias quentes. Ou convidava-o para vir à nossa casa, aonde ele chegava invariavelmente com pontualidade exemplar: sucedeu a campainha e o relógio de parede soarem ao mesmo tempo. Interrompendo, certa vez, no seu escritório, uma conversa sobre Thomas Mann, chamei-o para continuá-la três ou quatro dias depois. Veio com a pontualidade de sempre e trazia-nos – alusão ao tema de nossas discussões e a nossa admiração pelo autor de Os Buddenbrook –

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uma lata de enchovas procedente de Lubeck. Aliás, nunca aparecia sem nos trazer uma lembrança qualquer. Gestos assim faziam parte de seu modo de ser. Conversávamos sempre sobre autores e obras, sobre o teatro, sobre arte em geral. Nunca, em hipótese alguma, falava de si mesmo. Foi necessário, após anos de conhecimento, interrogá-lo, para saber que todo o seu destino fora alterado por um motivo fortuito. Estava a cidade de Berlim, antes da guerra, cheia de visitantes estrangeiros, vindos para as Olimpíadas. Alguém pediu em francês ao jovem Anatol Rosenfeld uma informação qualquer; ele respondeu na mesma língua; agentes nazistas prenderamno por esse crime e assim iniciou-se um processo do qual só a fuga viria a libertá-lo. Embarcou então para o Brasil, onde se fez trabalhador braçal na lavoura. Escapara da prisão e talvez até da morte, mas a sua vida estava cortada. Torna-se, mais tarde, vendedor de gravatas. Servir-lheiam de algo, nessa atividade que o obrigava a viajar pelo interior do país ainda estranho, os seus conhecimentos de Kant e de Goethe? Que se passaria em sua mente, quando se fechava à noite em algum quarto barato de hotel? Sua bagagem intelectual não parece havê-lo impedido de progredir no negócio de gravatas, a ponto de o fabricante propor-lhe sociedade. Anatol Rosenfeld viu-se então num dilema. Aceitar a sociedade representava um lance afortunado, um golpe de sorte: a terra desconhecida oferecialhe a oportunidade de enriquecer. O que seria então do seu interesse pela vida do espírito? Na Alemanha nazista, de onde vinha, um fenômeno terrível sufocava a cultura: a alguns caberia resguardá-la. Ele renuncia à oportunidade, demite-se da firma, começa a enviar resenhas de livros para um jornal alemão. Afastando-se em definitivo do comércio, retorna, aos poucos, modestamente, a suas atividades intelectuais: a cultura recupera o seu antigo servidor.
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Quando haveria decidido permanecer no Brasil? Não sei e foi difícil obter, através dele, o pouco que sei. Como alguns outros nascidos em países distantes e que, numa espécie de homenagem à terra que os acolheu, familiarizam-se com a nossa língua, não se contenta em aprender o português: torna-se um escritor brasileiro. Não, não um escritor brasileiro, mas um adventício generoso, com perspectivas próprias, informado sobre as letras do mundo – e quase, curiosamente, parecia trazer para a nossa ensaística uma espécie de nobreza. Quem ainda não o conhece, leia O teatro épico, as páginas tão lúcidas de Texto/Contexto. O fato, se nele atentamos, é comovente e ilustra o lado positivo do espírito humano. Eis um jovem apresentandose para a vida intelectual e que a violência política conduz de súbito a um país distante. Atordoado com a mudança, entrega-se a atividades inesperadas. Lentamente, reordena as suas forças, enfrenta a adversidade, reorganiza a sua vida e orienta-a, no meio novo, em direção ao rumo que parecia perdido. Contudo, sendo diferente o quadro de sua aventura, introduz, com sabedoria, modificações no projeto inicial. Agora, não lhe interessa apenas a cultura do seu país de origem: familiariza-se com obras do país que o abriga, faz-se uma espécie de elo entre cultura alemã e cultura brasileira, não – o que é admirável – como um europeu, mas como o natural de algum país mais amplo, sem nome e sem fronteiras, o país das Letras. Assim era, ao mesmo tempo, nosso mestre e nosso irmão. Devo lembrar, é indispensável lembrar, que a sua contribuição não se restringiu à vida intelectual. A não ser que compreendamos a vida intelectual como ele parece havê-la compreendido: um exercício de elevação total do ser, um esforço de aperfeiçoamento espiritual, quase uma ascese. Sabemos que isso é raro e que a atividade intelectual serve com frequência ao orgulho e à ambição (de

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posições, de glória, de bens materiais). Ambição e orgulho eram paixões estranhas a Anatol Rosenfeld. Recusou, seguidamente, cargos universitários, como recusara antes a participação no negócio de gravatas. Preferia viver mais modestamente – e sabe-se quanto limitava as suas necessidades de celibatário – contanto que pudesse manter a sua liberdade de espírito. Nunca foi tentado por nenhuma oportunidade de obter posições ou melhoria econômica. E isso era apenas um lado da inteireza moral. Não esqueçamos que essa inteireza, nele, jamais assumia aspectos ostensivos – que já seria uma expressão de orgulho. Mesclava-se à sua austeridade uma espécie de doçura altamente compreensiva: com isto, era raro escutarmos, dele, uma palavra de censura, uma expressão cáustica. Traço surpreendente, pois seria de esperar que um golpe como o que sofreu na juventude o amargurasse para sempre. Este homem que perdemos na primeira quinzena de dezembro e cuja ausência nunca será preenchida. Pois em quem voltariam a reunir-se tantas qualidades raras? Não o vi no seu leito de morte – ele não queria que o vissem e a sua delicadeza era tamanha que, supondo estar condenado, começou a afastar-se dos amigos – mas estava na antecâmara do aposento onde agonizava, quando alguém abriu a porta e me informou que ele acabara de morrer. Nunca, em minha vida, estive presente a morte mais silenciosa que a sua e não sei se vi alguma assim, tão solitária. Eram seis horas da tarde e, ignoro por que, olhei sem nada dizer, através da janela, as copas das árvores e alguns pássaros que então se recolhiam. Um rabino pronunciou as orações rituais enquanto o corpo descia à cova e jogavam terra sobre ele. Fazia sol e ventava, o vento arrebatava os lenços com que alguns homens, segundo o costume judeu, tinham coberto a cabeça. O chão brasileiro, que ele adotara e que lhe fora

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mais ameno que a terra do seu nascimento (à qual nunca voltou), abria-se e acolhia-o materialmente, para sempre. A migração era definitiva. Enquanto o via desaparecer, apreendi, de súbito, como num diagrama, a humildade e a grandeza da sua trajetória. Aquele homem pequeno e quase sempre sorridente empreendera com o mundo um combate de que poucos têm notícia. Amando os livros e o ato de escrevê-los, dera de ombros a tudo e a eles consagrara-se. Era, de certo modo, um herói da palavra – e, portanto, com algo de patético, como todos os heróis. (Chamava-o Roberto Schwarz o “Herói Civilizador”). Procura, durante toda a vida, nutrir o seu espírito de textos elevados e fizera-se, dos textos, um mediador, um pregador. Nem sequer chegara a constituir família. Os escritos compensavam-no de tudo, eram para ele irmãos e filhos. Mereceríamos nós um homem como este? Mereceria o dom de uma vida como a sua um mundo apenas sensível aos que conquistam uma das várias formas do poder? Movido por um impulso obscuro, indaguei do rabino, terminada a cerimônia, se sabia que acabara de oficiar a inumação de um grande homem. Inquietava-me o receio de que Anatol Rosenfeld, para quem as palavras sempre haviam tido uma importância extrema, pudesse ser entregue à terra com palavras ocas e sem que o oficiante tivesse uma ideia do que fora em vida o morto. Olhou-me o rabino com uma certa surpresa, talvez com suspeita de haver cometido um engano irreparável, e respondeu: – “Não. Quem era ele?”
O Estado de São Paulo, Suplemento Literário. São Paulo, 28 de abril de 1974 Vitral ao sol - ensaios sobre a obra de Osman Lins (org. Ermelinda Ferreira). Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2004

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Flores e baionetas
Paulo Caldas

Para Jomard Muniz de Britto

Era tempo de flores e baionetas, tanques e beijos. Ante o bocejo conservador de carrancudas estruturas, gritos de paz e amor buscavam o adeus às armas, apenas buscavam. Cabelos compridos, vestes coloridas davam unidos a ordem contra a severidade dos costumes, rancores e rigores censurais. Era tempo de um Recife rebelde, estigma de pernambucanidade tatuada, povo insolente, sob jugo dos doces baronatos decadentes, erguidos aos suores e dores de ébanos oprimidos. Sobre as pontes, de costas para o mar, podia-se ler A noviça rebelde, monja loura sem hábito, rodeada de infantes bem-nascidos, a reger sons maximelados. No olhar lateral, quem me queres nas auroras do cão sem plumas. Nas avenidas de boas vistas, não sangravam flamboyants em azuladas tardes, mas corações. Cavalos e soldados limitavam os territórios das liberdades e libertinagens, contudo sem esmagar ideais nem sarcasmos. Trabalhadores, estudantes, religiosos pariam lideranças expostas às carabinas. Engajados arriscavam peles politizadas, alienados curtiam melodias, imagens vivenciadas numa urbe então terceira do País. Entre esses e aqueles, a juventude se fazia. Ambos, daqui e doutras pátrias, batiam latas nas portas acadêmicas quase sempre estreitas para os menos afortunados, desvalidos de chances, tal afuniladas continuam para esses tais.

flOres e baiOnetas

Era tempo de ralações compartilhadas: no aperto dos transportes, dos bolsos às mesadas lençol curto, das novidades cine-sonoras-televisivas, sob inquietas lentes glauberianas de brilhos pirilampeados, mostrando terras do sol em transe e abraços de deuses diabólicos, mais tarde visíveis a olhos astigmáticos em asas de satélites. Palmas aos lampiões, coriscos, silvinos, reis de coroas xique-xiqueadas. Sigs do humor pasquineado, camundonguiando ironias tablóidicas, fradins, idosas taubatenses e dos bons Jeremias. Nas telas os cerebrais hitchcockianos frente a frente com aloprados jamesboniais; vai Marilyn vem Brigite, sai Dean entra Presley, enquanto a falsa moral escorre das telinhas, na família de um papai sabedor de tudo à frente de prole idiotizada pelo conservadorismo de um preconceituoso Tio in Sano. Das ribaltas aos claustros augustos ensaios boalianos. Um kimble nunca achado, fugitivo intocável semanal, ao modo do revival da eterna segunda guerra, uma noite sabatina de black tie antecede show da corte castelã, obrigatoriamente, sufocados em desnecessários duques – paletós tergalinos e gravatas de duas cordas – também exigidos às casas severianas mais chiques –, coisas que o vento levou, mas por certo deixou em cada coração uma saudade. Era tempo festivalesco. De sons e Tons, mil tons gilbertianos, de Chicos Caetaneados, Edus, Elis de braços às hélices, axilas à mostra, tímidas Naras, tímidas Ritas, mutantes subversores de harmonias, acordes guardados em jovens dominicais, de versos inócuos em espelhos made in Liverpool. No firmamento do oitavo paralelo silverjeteando com anjos, aves sangrentas, tártariavase musicais moderatos. Era tempo da relva tropicaliente atapetada, palco shows de estrelas aflitas de constelações alvirrubras, dominadoras, vindas de hexas galáxias celestiais de quatro

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paulO Caldas

letras: lula, gena, ivan, nado, bita nino, lala, gladiadores em desafios salomônicos em ducados tupiniquins. Era tempo entre amar ou banir, dos soturnos coturnos, continências incontinentes. Nas tribunas, demagogos bajuladores sobreviviam das migalhas do banquete verdeamarelo, degustado por supostos heróis, primatas adeptos da força, senhores do mal que a força sempre traz, segundo versos belchiorianos, ocultos das lâmpadas inquiridoras, mentores de álibis hipócritas que antecediam choques, chibatas e masmorras. Das igrejas ecoavam gritos e os sussurros helderianos, abafados pelos sinos dobrados em catedrais ornadas de lustres e candelabros romanos. Era tempo dos amados, dos primaveris recados de Praga e Braga, das torres de West, das odisseias de Clark. Tempo das estampas virgulinas, cabralianas covas de palmos medidos, pops filosofais jomarianos, elucubrações freyrianas em campos de Renatos, Max, Hermilos e Arianos compadecidos. Era tempo de cultuar Luther Kings, Ches fidelizados, reis guardiões de matas tropicais, de águas caribenhas, kenennedyanamente tocaiados. Tempos de mitos cratenses, perseguidores de sonhos juntos sonhados, mas só sonhados, pois sonho nos resta, infinito enquanto dure. Válido, lúcido e inserido no contexto.

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O Recife de Mauro Mota
Paulo Cavalcanti

A minha geração perdeu o seu maior poeta. Conheci Mauro Mota logo depois da Revolução de 30, quando os jovens da nossa idade despertavam para os problemas políticos do País, pegando em armas. As frustrações da Revolução de 30 deixaram marcas em cada um de nós, tornando-nos crédulos de outras ideologias, que novamente embotaram a nossa consciência. Era a época de ascensão do integralismo. Uma geração de moços intelectuais viuse envolvida nas malhas do fascismo, acreditando em suas promessas. Era a geração de Álvaro Lins, de Gilberto Osório de Andrade, de Andrade Lima Filho, de Arnóbio Graça, de Mauro Mota – de tantos e tantos que, de alma leve, buscavam caminhos diferentes para solucionar velhos problemas sociais. Eu me filiei a essa geração. E paguei, como os outros, o preço de uma militância impensada. Depois, as encruzilhadas da vida separaram-nos, cada qual tentando realizar o roteiro de sua identidade política. Tornei-me, então, marxista. Eu me lembro de Mauro Mota, elegante, amável, “almofadinha” do seu tempo, namorando as “melindrosas” do cinema Politeama. Mais velho do que eu apenas uns poucos anos, Mauro já tinha nome nos jornais, como poeta. E era apontado como um intelectual sensível às coisas de sua geração. Reduto da classe média, a Boa Vista agasalhava, além dos judeus do Recife, a massa de funcionários públicos, de empregados dos Correios e Telégrafos, de comerciários,

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de profissionais liberais, de auxiliares de uns poucos estabelecimentos bancários que operavam na cidade. Era o Recife dos anos 30, do footing da Rua Nova, do chá das 5 na Confeitaria Glória, onde mataram João Pessoa, dos sorvetes de Carlitos, na Rua da Conceição, de Barbosa, na Rua do Rangel, das festas religiosas do pátio da Santa Cruz e das novenas do Carmo, dos bailes animados da Tuna Portuguesa, num casarão assobradado da Rua do Imperador. Era o Recife dos concursos de beleza, da fase romântica dos concursos de beleza, com Nininha Varêda, Ceci Cantinho, Conie Braz da Cunha, Iolanda Gama, Beatrizinha Lacerda. O Recife dos fox-trots de Nelson e Luiz Ferreira, dos primeiros frevos de rua, com Não puxa, Maroca, e Borboleta não é ave. Das valsas dolentes de Alfredo Gama e Alfredo de Medeiros, com o Quero te dizer, querida, que Gilberto Freyre sabe de cor. O Recife das operetas de Valdemar de Oliveira e Nelson Paixão – Madrinha dos cadetes e Berenice. O Recife das comédias teatrais de Silvino Lopes e Samuel Campelo. O Recife das quermesses acadêmicas, da Festa do Rubi, da Festa da Esmeralda, da Festa da Mocidade, da Jazz Band Acadêmica, do Bando Acadêmico, onde Capiba, Homero Freire, Carnera, Plácido de Souza, Fernando Lobo e Pádua Walfrido tocavam e compunham suas animadas canções, repetidas nos bailes das casas de família, os “assustados” daquela época. O Recife dos encantos, da simpatia e das anedotas de Noel Nutels, dos irmãos Suassuna e de Ferreira dos Santos. Dos poemas de Austro Costa, das revistas semanais de José Penante, Willy Levin e Porto da Silveira – “A pilhéria”, “Prá você” e outras. O Recife do Silogeu Pernambucano de Letras, em que pontificavam Álvaro Lins, Mauro Mota, Berguedof Elliot, Noelly Correia, Hibernon Wanderley, Alfredo Ferreira Filho, Reynaldo Lins e Artur Santa Cruz. O Recife das fábricas recifenses de cigarro, a “Lafayette” e a “Caxias”, com o “Mistura Dois” e o “Flor da Penha”. O Recife das serestas
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madrugadoras, das extravagâncias também noturnas da bebida e do sexo, com as “polacas” e as francesas da “Casa Branca da Serra”, da pensão “Boêmia” e de Júlia PeixeBoi, que os embarcadiços da Europa frequentavam, provocando brigas em que a peixeira pernambucana inaugurava vísceras de louros dolicocéfalos. O Recife dos corsos de Carnaval da Rua Imperial e da Rua da Concórdia, do lançaperfume Vlã, com odor de rosas primaveris. O Recife dos automóveis do ano, dos Ford de bigode ou dos Chevrolet de faróis em cima dos para-lamas, a buzina do fom-fom alegrando a meninada, com as morenas fantasiadas de odaliscas nos carros de capota arriada. O Recife das cheias do Capibaribe e do Beberibe, entrando de porta adentro nos mocambos da zona ribeirinha, destruindo lares, trazendo nas enxurradas boi morto, pedaços de cama velha e penicos enferrujados, com as baronesas colorindo a tragédia. E na tragédia a meninada mergulhando no “galinha gorda, gorda é ela, vamos comer cabidela?” Mas também o Recife sério e raivoso, das revoluções e das quarteladas “para salvar a Pátria”, das conspirações “tenentistas” que despertavam anseios cívicos em árdegos estudantes, os Waldemar Valente, os Pina Júnior, os Dinorah Paes Barreto, os Heitor Maia Filho, os João Cavalcanti, “herói” da minha família, ferido no peito quando apontava seu fuzil-metralhadora sobre a Casa de Detenção, último reduto do governo de Estácio Coimbra, em 1930. O Recife das agitações políticas de Gilberto Freyre, Di Cavalcanti e Cícero Dias, presos pela polícia por haverem assinado um fogoso manifesto contra a Lei de Segurança Nacional e se solidarizarem com uma greve de padeiros. O Recife das tecelãs e dos operários da Tramways. Foi nesse Recife que Mauro Mota forjou sua personalidade e se identificou sentimentalmente com a paisagem social e humana da cidade grande.
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Juntos, fizemos concurso para o cargo de escreventedatilógrafo da Secretaria do Interior e Justiça, Mauro se classificando no primeiro lugar. Depois, tornamos a nos encontrar na Faculdade de Direito e, em seguida, nas colunas literárias do Diário da Manhã, dirigido por ele e Gilberto Osório de Andrade, o bravo Diário da Manhã, de Carlos de Lima Cavalcanti, talvez o órgão de imprensa que mais revolucionou os processos gráficos do Nordeste. Este Recife, Mauro o incorporou à sua vida e aos seus sentimentos. Poucos se davam conta, dos que conviviam com ele, do seu imenso valor e sua marcante atuação literária. Mauro era simples, modesto, talvez excessivamente humilde. Sob o comum de sua vida, encobria-se aquele que, decerto, haveria de escrever alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa de todos os tempos. O Recife tê-lo-á sempre na memória. O Recife lhe é grato por tudo quanto fez na vida, como poeta, como ensaísta, como geógrafo, como etnógrafo, como homem de imprensa, como professor, como administrador e como escritor público. Seus méritos jamais serão esquecidos. E todos seremos vigilantes na defesa do grande patrimônio que deixou para os pósteros.
Homens e ideias do meu tempo. Recife, Nordestal, 1993

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Cozinha regional
Paulo do Couto Malta

O etnólogo Mário Souto Maior defende a inclusão da cozinha regional nos cardápios das casas de pasto. Durante curso em empresa oficial de turismo, afirmou que os portugueses, quando aqui abicaram, trouxeram hábitos alimentares europeus e os passaram ao nativo. O hábito europeu de degustação e, também, de cambulhada, “os costumes, os folguedos, as canções, as superstições, as danças, a saudade e a religiosidade”. Os africanos juntaram aos manjares europeus os nativos, deles completamente divorciados, havendo, conforme frisa, “um maravilhoso resultado” de sabores. Da aculturação desses sabores, isoladamente díspares, nasceram “pratos saborosos que atestam as nossas tradições, que falam da nossa gente e simbolizam a nossa região”. Não vai ser fácil a hotéis de classe “A” (os chamados cinco estrelas) mesclar pratos regionais, afeitos à satisfação palatal do nativo, a pratos internacionalmente tidos como adequados a quaisquer paladares. A recomendação do Souto Maior é atendida, com reservas, pela maioria dos hotéis, nunca em caráter de exclusividade. A inclusão de prato regional, perdido entre os que jamais tiveram o visto do maître, cede mais à curiosidade do freguês do que a sua disponibilidade de gosto. Pelo que, à pergunta ao maître se a casa tem feijoada, fatal será a resposta de só haver o prato nos sábados. Subsiste a impressão de não jiboiá-la a capricho quem do restaurante sair para as canseiras do escritório; de pedir, com a subsequente sesta,

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horas deduzidas do trabalho. A maioria dos nossos pratos típicos, salvo os de peixe, ocasionam sonolência, torpor, inércia, por mais biqueiro seja o degustador. Mais de uma vez, Aníbal Fernandes defendeu neste Diario a inclusão da cartola na ementa das sobremesas nos restaurantes do Recife. O prato conciliava o sabor à qualidade nutritiva; ademais, substituto à altura dos doces em calda e tanto apetecível quanto o que mais o fosse. O Leite o adotou por algum tempo, mas a ninguém regalava tanto quanto ao Aníbal. Não se retira do comedor de restaurante o hábito das compotas e derivados. As tortas e bolos variados estão sempre à disposição do freguês, mas a esquecida cartola só lhe chega à mesa à la carte. As restrições ao prato regional não impedem que, gradativamente, venham a integrar em condições de igualdade a escolha do apreciador das variações culinárias. E bem faz o escritor Souto Maior de recomendar a cozinha regional aos participantes do curso que ministrou na Empetur. Comer o que é nosso é fator, entre tantos outros, de integração.
Diario de Pernambuco, 25 de setembro de 1976. Coisas da cidade e outras coisas. Brasília, 1991

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O mestre de telas alheias
Paulo Fernando Craveiro

Entro de costas no Museu do Prado. Muitas vezes entrei de frente. Não tenho bons modos. Entrando de costas, estimo perceber minúcias jamais percebidas em quadros famosos. Dessa maneira, dependendo da luz ambiente e do tamanho das pessoas que se habituam a ficar entre as telas e os demais visitantes, serei capaz de renovar meus olhos. Gosto de ver coisas diferentes naquilo que vi, a retina latejando com sangue novo. Há nervuras, perspectivas e sorrisos engelhados que preciso rever. É tempo de reparar a indiferença de uma moça vestida de branco no Moisés salvo das águas, de Veronese. É tempo de observar a figura seráfica da Santa Cacilda, de Zurbarán, que se interessava em geometrizar a vida. É chegado o momento de reinterpretar o gesto feminino do Cristo, de Correggio, diante da Madalena ajoelhada. Minha profissão: restaurador de quadros. Sou o terror dos pintores mortos, o mestre transformador de telas intocáveis. Não faço apenas restaurações de quadros. Eu os modifico ao bel-prazer. Tenho necessidades estéticas às quais necessito dar vazão. Os pintores mortos – tantos séculos passados que os olhos deles cegaram – haverão de me compreender. Os artistas mais conscientes concluirão que suas obras ficaram melhor depois que exerci meu ofício. Não se trata do caso de Moroni, por exemplo, que se tornará colérico quando verificar a alteração feita no retrato de um nobre barbudo da família Albani. Ao pintar em

paulO fernandO CraveirO

1661, em primeiro plano, a figura algo complacente de seu personagem, registrou ao fundo cortes arquitetônicos com uma planta a delimitar uma nesga de horizonte, vegetal que eu terminei podando. Assim, com a omissão das folhas, o quadro reencontra-se com a severidade que o torna mais belo. O pintor me odiará, e terá razão para isso, enquanto incorporarei mais um remorso à minha cesta de pecados. A cesta é grande e nela cabem todos os pecados. Ah, Moroni, quanto da impassibilidade de teus aristocratas e burgueses de Bergamo eu gostaria de ver em teu rosto renascentista, depois da adulteração de seu quadro, quanto da parca melancolia dos semblantes é forçoso manter nessas caras que atravessam o tempo. Em vez de roubar quadros, como fazem os ladrões de museus, às vezes danificando-os, eu os transformo à minha maneira, docemente, assim como o líder de um grupo de instrumentistas contemporâneos dá sua versão a um quinteto de Boccherini e maestros modificam o andamento das sinfonias de Beethoven. Como não há queixas, pois minha atividade é invisível, meus delírios jorram às escondidas como os cactos de um deserto inexplicável. Pulo de um quadro para outro como um gato pula de sua sombra para a sombra da sombra dele. A respeito do retrato da infanta Margarida, de Velázquez, com frequência confundido com o da infanta Maria Teresa, eu cometo a delicadeza de lhe remendar as feições, desde muito reconstruídas por outro pintor. Espero que a menina não continue a chegar até nós tão feia, trezentos e cinquenta anos depois, uma rosa na mão esquerda, um xale transparente na mão direita. Eu quero presentear-lhe com a beleza que não tem. Para isso comecei por ocultar com uma pincelada sua franja absurda, embora me agrade o exagero do vestido inflado como um balão.

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O mestre de telas alheias

Ah, Velázquez, em tua honra adiciono cores e transparências ao tecido do vestido da infanta na última tela que o teu cansaço pintou. Sei que me agradeces antes que desapareças como o cavalheiro de ar furtivo que sai por uma porta traseira do quadro Las meninas, onde estão a infanta, outras crianças, uma anã, uma criada e um cachorro na corte de Felipe IV. Ao restaurar Vênus e o organista, de Ticiano, recomponho o ventre de Afrodite, cobrindo-lhe a excessiva camada de gordura (o gosto da época) com uma camada de tinta que a emagrece. Feita a mudança, o nobre que toca órgão haverá de interromper antes o concerto, talvez uma composição de Giacomo Frescobaldi, a fim de olhar para ela de ângulo propício para um voyeur, desejando-a, sem a elegância que o distancia da beleza calma da mulher. À Vênus do teu quadro, ah, Ticiano, adiciono pelos no púbis e substituo o inofensivo cão, com que ela brinca, por um filhote de tigre de olhos gratos que lhe sobe pelos seios pequeninos. Saio do Museu do Prado como entrei, andando de costas, e logo reverto o modo de caminhar, o que não me torna menos banal. Tomo a direção da Plaza Cibeles, de fonte translúcida, as estrias do fim da tarde se alongando na direção da noite. Ali reencontro a deusa da natureza, sentada, ansiosa pela mutação das estações do ano.

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Tudo flui
Paulo Gileno Cysneiros

Voltei ao Santuário Brennand com uma amiga e tive uma surpresa diferente: todas as peças do primeiro recinto estavam embaladas em caixas de madeira pintadas de branco, com tiras de reforço em azul. Ainda surpreso, dirigi-me ao homem que cuidava da tarefa e perguntei o que estava acontecendo: “Vai pra uma exposição na Alemanha... de navio... ficará por uns meses...” Além da frustração de não poder compartilhar com minha amiga aquela parte inicial do santuário, me vieram à mente algumas inquietações. Era como se fosse a primeira viagem de um pássaro que estivesse criando asas; que iria enfrentar um mundo hostil, com seus perigos e suas casualidades. E se alguma peça for danificada? Em que ambiente serão expostas? Preocupações de quem aprendeu a amar algo, a rever sempre o objeto de amor com novos olhos, a acompanhar o crescimento de um filho. Em retrospectiva, lembrei das primeiras pinturas, das peças iniciais de Brennand. O alegre verde, os traços e curvas de certo modo bem comportados, contrastando com a força explosiva e arrojada das formas, das cores e da sensualidade profunda de criações mais recentes. Ainda bem que o restante estava lá, intacto. Senti como o pai que vê o filho mais velho partir e busca consolo e amparo na presença e na individualidade dos outros filhos, dos filhos-netos.

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Lá estava a solitária máquina de fazer telhas francesas, em sua eterna roupa dominical de vermelho e preto, imponente, com a inscrição “Cerâmica São João” na fôrma do seu ventre, baixo-relevo, indelevelmente marcado em milhares e milhares de peças padronizadas. Telhas entrelaçadas no teto do galpão que agora a abriga, como um filho que sente prazer em acolher a mãe-avó, a operária que descansa e relembra o passado. Telhas também vermelhas, testemunhas mudas do labor daquele mecanismo de outras eras. A máquina-mãe que se orgulha do filho-telhado. Quantos homens e mulheres conviveram com aquela velha máquina? Gastando partes preciosas de suas vidas. Quantas casas foram abrigadas do sol e das chuvas nordestinas pela produção daquela incansável operária metálica? Quantas paixões, alegrias e tristezas foram testemunhadas pelas brilhantes telhas francesas de outras eras? Depois de tantos anos, relembro agora minhas primeiras caminhadas solitárias pelo Atelier de Brennand, ainda no início. Minha terapia esporádica de morador do bairro da Várzea. Em cada nova visita, novos sentimentos, percepção de novas formas; detalhes que ali estavam, mas que não pudera ver antes, como alguém em um imenso banquete não consegue saborear todos os pratos. Fui com minha amiga para a parte externa do santuário e senti certo alívio: ainda bem que aquele espaço-templo ninguém poderá mover para terras distantes. Tem raízes. Está fincado na margem do Capibaribe e me provoca um sentimento de permanência. Lá estavam os cisnes negros na fluidez das águas, junto aos peixes de cores suaves, mesclando elegantes movimentos de pescoços serpenteantes, contrastando com a rigidez das formas eróticas ao ar livre; no centro, lá estava o templo coroado com vitrôs azuis; arcadas simétricas, chão

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tosco, abrigando o logotipo pontiagudo do seu criador. Caim. Abel. Heráclito, Konrad, um verso do nosso Ariano, imortalizados na intemporalidade da cerâmica. Novamente o sentimento do novo. O novo de plantas que cresceram desde minha última visita; de peças acrescentadas pela visão do artista e pelo labor incessante de operários que materializam emoções. Tudo flui. A vida está presente. Lembrei-me de quando o templo-espaço foi invadido pelo séquito de um casamento famoso. Preferi não ver aquela noite profana, com luzes incandescentes e falas tolas ferindo a paz do local. Voltamos para o outro galpão, inundado pelo barulho surdo e monótono de máquinas produzindo novas cerâmicas, novas peças. Voltei à realidade pela movimentação de funcionários entre as esculturas, com papéis nas mãos, como noviços desavisados caminhando entre lajes de mosteiros medievais. Tudo flui. A vida se renova. Novamente minha vista se enche com as imponentes tesouras de madeira talhada, sustentáculos do telhado, chapéu daquele imenso galpão industrial do século passado. O forno cerâmico de outrora, como a máquina vermelha, orgulhoso de suas entranhas transformadas em escritório, onde docemente repousa um frágil microcomputador e uma impressora. Lembro de Baudrillard; são fenômenos extremos. Tudo flui. A vida continua. Voltamos ao pátio de entrada. Uma fonte mescla seu jorro cristalino com os raios de um sol que ofusca minha vista. Descanso a vista no verde de gramados esparsos, bem-cuidados, entremeados com a aridez do duro solo nordestino. Tudo flui. Retiramo-nos vagarosamente. Noto as redondas figuras espalhadas pelos jardins. Esqueci completamente as caixas-normalistas de azul e branco. Inconscientemente,

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freudianamente protegendo-me do sentimento de perda. Oh, pedaço arrancado de mim. Tudo flui. Como consolo, já pressentia a alegria da volta. Daquelas peças ocupando os mesmos lugares, depois da cansativa viagem ao Velho Mundo. Será que marcaram exatamente os mesmo lugares de antes? Voltarão com os mesmos ares? Certamente não. Serão objeto de olhares estranhos. Virão mais vividas. Lembro a parábola do filho pródigo. Que as outras peças não sintam ciúmes. Ciúmes inconscientes de quem não viveu sacrilégios imaginários. Não se sintam desprezadas pela minha alegria com o regresso de suas irmãs. Tudo flui. A vida continua.
Jornal do Commercio, 29 de dezembro de 1992

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Uma cidade feliz. E gorda
Raimundo Carrero

Era no tempo do prato quente e gorduroso, suculento e salgado, muito salgado, fumegante e apimentado. Porque também era assim o Centro do Recife, de muito sol e frevo, quando grupos de jornalistas, publicitários, comerciantes, comerciários e bancários – toda a gente – se debatiam entre chopes, cervejas e cachaças, com chambaris, peixadas, feijoadas, invadindo restaurantes, bares e pegabêbados, numa fartura de meter medo em Pantagruel, o forte e esquisito personagem de Rabelais. Havia os restaurantes populares: Portuguesa, chambaris e mãos de vaca; Savoy, bacalhoadas com chopp; Cristal, peixe cozido na travessa com tomate e cebola, em pé, no balcão; Bar do Rato, cachaça com laranja; Cigano, carne de sol com feijão-verde. Tudo regado à mais pura cachaça. E o Leite, o tradicional e requintado Restaurante Leite, o gosto sofisticado de comidas finas, regadas a vinhos, em porcelanas ricas e talheres de prata. Um Recife que misturava cachaça com champanhe. E muita cerveja. Outro dia, depois do plantão do jornal, fui jantar com um colega de redação. Sentamos à mesa do Star, madrugada adentro, e sugeri: – Vamos pedir um galeto para nós dois. E ele me barrou já na terceira cerveja: – Não, senhor, cada um come o seu. Mas não acabou. Felizmente, não acabou. O “era” fica por conta da mudança dos tempos – verbal e físico. Por-

uma Cidade feliz. e gOrda

tanto, era no tempo em que o centro da cidade existia com toda a graça e movimentação. Até os jornais – Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio – não estão mais lá. Transferiram-se, como dois bons amantes, para o bairro de Santo Amaro, juntinhos, porque viveram durante décadas, parece que até séculos, no Centro. Os restaurantes, os bares e os pega-bêbados espalharam-se um tanto para Olinda, outro tanto para a Zona Sul. Parece esquisito que, falando do Recife, outra cidade seja lembrada: Olinda. É que são tão ligadas, tão intimamente ligadas, que se torna inevitável. Quem come no Recife, dorme em Olinda. Eu sei, eu sei, Olinda não é mais uma cidade-dormitório. Compreendo. Porque se há uma coisa que irrita qualquer olindense, e irrita gravemente, é chamar Olinda de cidade-dormitório. Porque se dizia que as pessoas trabalhavam e viviam no Recife e dormiam em Olinda. Tudo bem, não digo mais. Tanto Recife quanto Olinda oferecem mesa farta e diversificada. Popular ou requintada. Comece pelo Caprinos, o restaurante do Rosarinho, que serve uma carne de sol divina. Com macaxeira e manteiga de garrafa. Que tal experimentar, em restaurante à beira-mar, uma moranga de camarão ao molho de pimenta? Não sabe o que é moranga? Bem, trata-se de uma espécie de jerimum, que é esvaziado, e onde se coloca, neste caso, uma boa quantidade de camarão, com um tanto de arroz e feijão. Fica uma delícia. E é comida para uma família inteira. Serve-se quente. Bem quente. Acompanha cerveja, refrigerante ou água. Há quem exagere: bebe vinho. Uma loucura, não é mesmo? Quem não tem medo de engordar ou não presta contas à balança – nem à saúde – come, pouco antes da refeição, um arrumadinho. Prato pernambucaníssimo. Sobretudo, com cerveja. Arrumadinho é um prato rápido, mas saboroso – carne de charque, farinha e feijão-verde.

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Junta-se tudo, como diz o nome da comida, e leva-se ao fogo, até que a carne fique pronta. Serve-se em boa quantidade. Não esquecendo que reúne muita gordura, principalmente por causa de carne. Mas também é feito de camarão. Outra delícia. Há um restaurante no bairro de Santo Amaro, bem perto de cemitério, que é bem famoso. Por causa da vizinhança, é claro. No entanto, tratando-se do Recife, não se pode esquecer a feijoada. Antes havia muitas casas especializadas: a feijoada do Jayme, por exemplo. Agora nem tanto. Mas é possível encontrar o prato em restaurantes de cozinha diversificada, apenas como um dos pratos do rico cardápio. Com preferência para o caldinho. Uma característica profundamente recifense. Quase todas as casas servem caldinho. E não apenas de feijoada: de camarão, de peixe, de chambaril, de legumes. Basta pedir e será logo atendido. Lembrando-se sempre da figurona de Ascendo Ferreira, o grande poeta, que depois de duas feijoadas, cantava grave e grosso: “Pernas pro ar que ninguém é de ferro”.

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As reclusas de Chawton e Amherst
Raimundo de Moraes Por acaso semana passada assisti na TV ao filme Emma, dirigido por Douglas McGrath (conhecido também como ator e roteirista), baseado na obra homônima de Jane Austen. Este Emma que eu vi, estrelado pela loira Gwyneth Paltrow, é mais uma das dezenas de adaptações dos livros de Miss Austen, que está no Olimpo dos grandes escritores de língua inglesa. Orgulho e preconceito, por exemplo, já teve um novo remake feito em 2005; se bem que a BBC de Londres, dez anos antes, produziu uma impecável minissérie baseada no livro. Não vi, só li as resenhas, mas pretendo encontrá-la em DVD. Desde que tomei conhecimento de Emily Dickinson nunca consegui dissociá-la da imagem de Jane Austen. Por quê? Uma era romancista, outra poeta. Uma inglesa, outra americana. As duas não foram contemporâneas. Quando Emily nasceu (1817) Jane já era só ossos na catedral de Winchester. Li Orgulho e preconceito e Razão e sensibilidade na pré-história da minha vida. Depois, adulto, quando li os poemas de Emily, a comparação foi inevitável: tanto a americana como a inglesa viveram reclusas em suas casas, nunca casaram e o ponto central de suas existências foi a Literatura. Ambas tiveram lá suas esquisitices e seus mistérios. Emily vestia-se sempre de branco, personagem etérea passeando nos jardins de Amherst. Em vida, nunca publicou um livro sequer, mas na contagem geral de sua inces-

raimundO de mOraes

sante produção, sua obra alcançou um montante de 1.800 poemas. Jane Austen teve uma carreira diversa: seus romances fizeram muito sucesso antes de sua morte. Alguns historiadores dizem que era visto como um “comportamento normal” das mulheres, antes da Revolução Industrial, o fato de viverem isoladas, apartadas da vida em sociedade. Eu digo que é preciso acrescentar algumas notórias exceções nessa questão. No século XVIII, Madame de Stäel adorava um bom sarau literário e foi um dos personagens mais interessantes do Iluminismo francês. George Sand também era chegada a um agito cultural e a uma vida aventuresca (dizem que Chopin não aguentou tanta “energia”). Aqui no Brasil, bem antes de João VI chegar com sua corte, a poeta Ângela do Amaral Rangel já participava da Academia dos Seletos no Rio de Janeiro. E em Lisboa, a Marquesa de Alorna promovia grandes debates literários em sua casa – Bocage foi um dos seus frequentadores. Talvez se tivessem nascido em grandes cidades, tanto Jane como Emily não houvessem optado pelo autoexílio em seus respectivos “santuários”. Nas poucas vezes em que Jane se ausentou de Chawton foi para cuidar da saúde (deduz-se que ela sofria do Mal de Addison; alguns dos sintomas são náuseas, fraqueza muscular, anorexia, diarreia e vômito. Imaginem como a coitada entregou sua alma a Deus). Quanto a Emily, dizem que quando chegava uma visita à casa dos seus pais, ela se escondia. O contato com os outros seres humanos lhe parecia ser um fardo. Daí o apelido de A Grande Reclusa. As obras dessas duas mulheres continuam a suscitar as mais variadas interpretações. Mas o que importa é que o reconhecimento não veio de cima para baixo (crítica-leitor), e sim de baixo para cima (leitor-crítica). Emily fazia circular seus poemas entre amigos e familiares, anexados

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as reClusas de ChawtOn e amherst

às vezes aos milhares de cartas que escreveu. Jane Austen, apesar do grande sucesso de Orgulho e preconceito (1797), não era muito bem vista pelos editores britânicos. Porém como editores são movidos pelo lucro (livro é objeto de comercialização, meus caros. Mecenato agora é um verbete no dicionário), renderam-se à obra da reclusa de Chawton. Hoje Jane é considerada a precursora da moderna literatura inglesa. Ultrapassando todos os limites que poderiam torná-las anônimas em seus países e no mundo – sem a “bênção” da crítica quando ainda estavam vivas e produzindo, afastadas dos grandes círculos culturais, morando em pequenas cidades no interior – Jane e Emily tornaram-se referência pelo talento que extrapolou fronteiras. Elas, junto com Virginia Woolf, estão na lista de Harold Bloom em seu O cânone ocidental, uma seleção muito pessoal de obras e autores europeus e sul/norte-americanos. No seu livro, ele esmiúça literária e historicamente o último livro de Jane (Persuasão). Sobre a obra de Emily Dickinson ele faz a seguinte afirmação: Tirando Shakespeare, é ela que manifesta mais originalidade cognitiva do que qualquer outro poeta ocidental depois de Dante. Sem buscar Beatriz, os poemas de Emily revelam seus próprios infernos, purgatórios e céus. E um permanente deslumbramento com a natureza.

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O carnaval no Recife (impressão de viagem)
Raul Pompéia Às quatro da tarde, começa. O povo alvoroçado derrama-se pelas ruas. Encarapitam-se às guarnições de ferro das pontes, formando verdadeiros cachos humanos, cujo aspecto caprichoso a placidez das águas reproduz em grandes manchas escuras incertas que o refluxo do rio não consegue dissolver. Apinham-se ao longo das calçadas e em toda a linha do cais; enchem as praças. Às janelas, de todos os andares de todos os prédios, as senhoras debruçam-se, olhando, sobre a multidão, massa preta confusa de ombros e chapéus que se agita, produzindo um vasto zumbir de vozes e de passos. Pouco o pouco, começa a negra multidão a pontear-se de cores claras. Aqui vermelho, acolá verde, roxo àquela esquina, azul mais adiante, branco em muitos lugares. Multiplicam-se os pontos e as cores, surgem, na onda do povo, como estrelas, ao cair a noite, uns após outros, aos grupos, às porções, alinhados, dispersos. Em meio do povo abrem-se sulcos e por aí desfilam intermináveis bandos de homens e mulheres fantasiados. Vão chegando os maracatus. Antes das seis horas, o carnaval tem conquistado a cidade. A massa viva dos transeuntes perde o primitivo aspecto geral de negrume, à invasão das cores claras que sur-

O Carnaval nO reCife 0 (impressãO de viagem)

gem de repente, como nascidas da calçada. Modifica-se de todo a fisionomia das ruas e das praças. Dominava a cor preta, o caleidoscópio transformouse; vai dominando agora o branco. Por toda parte o maracatu. O uniforme desses originalíssimos bandos de foliões é uma combinação do branco com todas as cores possíveis. O branco em dous terços, na proporção. De cima, das altas janelas, vê-se como inundação aquele tumulto de refolhadas vestes brancas, gorros brancos que dançam, braços brancos que se elevam, alçando pandeiros, amplos calções nitentes que sacaroteiam, pantufos de neve que saltitam e uma tempestade de fitas multicores, doudejantes sobre os grupos, como iriados coriscos. Presencia-se, então, o conflito das duas cores opostas. O preto e branco, confundem-se, como no entremeado das tábuas do xadrez, ou separam-se distintos em zonas sem mescla, como na bandeira prussiana. Giram em turbilhão, comprimem-se, repelem-se, tentam de parte a parte rechaçar a cor adversa e conquistar o domínio exclusivo das ruas. Não dura muito o combate. Notavam-se já em diversos pontos repentinas explosões de alva poeira. As explosões tornam-se mais frequentes. Rebentam de todos os cantos. Alvacento nevoeiro espalha-se em transparente camada sobre o povo. Começa o entrudo do polvilho. As insolências da água nos nossos entrudos fluminenses, mal dão ideia do arrojo audaz da irreverência, do polvilho e da maisena do entrudo pernambucano. Não pode mais resistir a cor preta. O reforço do polvilho vem dar vitória decisiva ao branco. O nevoeiro, alvacento engrossa-se. Ombros e chapéus primitivamente negros alvejam agora como se lhes caísse a neve por cima.
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raul pOmpéia

Não se distingue mais o maracatu no meio do povo. Não há mais chapéus, não há mais ombros. Não se distinguem braços nem pandeiros. À medida que se vai cerrando o crepúsculo, um daqueles límpidos crepúsculos do Norte, cerra-se igualmente a tempestuosa nuvem de polvilho. Uniforme brancura opaca e imóvel substitui a perspectiva acidentada da multidão em tropel. Dos elevados pontos de vista nada mais se percebe através da nuvem. Ouve-se apenas lá embaixo o alarido do povo em festa e a música selvagem e rude do maracatu, meio africana meio indígena, barulhos de guizos, roncos de buzinas, trovoadas de tambores.
Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, 10 de março de 1886.

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O vazio
Reinaldo de Oliveira

Algum amigo leitor há de estar esperando pelo que eu viesse a escrever depois do acontecimento mais trágico de minha vida. O desaparecimento da minha querida Dulcinéa destroçou meu coração e hão de imaginar o tremendo vazio que me deixou. Vasculhar tudo que ficou é mergulhar numa agonia que só a força que nos legou como exemplo, pode remediar. Não me considerem piegas ou um sentimental exagerado. Procurem compreender a dor de um homem que aos 77 anos se vê privado da mulher de todos os dias. Da mão que o afagava dando-lhe forças. Da palavra sempre forte de quem estimula a pessoa a viver. Do respeito e da disciplina com que enfrentava tudo. Foram 10 meses de extremo sofrimento, sem que, jamais, emitisse uma palavra de medo da morte ou, sequer, de suspeita. Como psicóloga que foi, Dulcinéa se acostumou com o doente terminal em vários hospitais. Deve ter aplicado nela mesma as lições que transmitia. A terrível doença minou seu organismo não dando chances aos tratamentos adequados instituídos. Tendo ao seu lado, sempre, a candura e competência de Candice Lima, oncologista da Ónkos, entidade clínica especializada em tratar do corpo e do espírito dos que são atingidos pela moléstia fatal, dedicou-se, disciplinadamente, a tudo, com o apoio da equipe paralela de um Évio de Abreu e Lima, de um cirurgião do porte de um Manoel Raimundo, de um cardiologista como Henrique Cruz, de um Victorino

reinaldO de Oliveira

Spinelli, clínico, de um Ênio Laprovítera como anestesista, de um Carlos Abath como endoscopista, de mais Paulo Santana e Fernando Amaral, colegas, amigos, e dos abnegados Alberto e George Trigueiro que fizeram do Centro Hospitalar Albert Sabin a sua morada final. Mulher Guerreira – como foi chamada no Rotary –, chegou à condição de Governadora do Distrito 4500, empossada numa maravilhosa festa no dia 30 de junho, esperançada em seguir o mandato de um ano, pronta a colocar o nosso Distrito no patamar mais alto do país. Depois de se preparar no Instituto de Atibaia, em São Paulo, e na Assembleia Internacional de San Diego, na Califórnia, achava-se pronta, sem pressentir que o monstro a corroía por dentro. Seus últimos dias foram de sofrimento e, ao mesmo tempo, de uma bravura que a torna um exemplo para os que ficam. Ela sabe que deixou uma casa vazia. Vazia, mas cheia de sua imagem que passeia pelos corredores, que dorme comigo, que inunda o meu coração com sua ternura, seu carinho e sua dedicação de esposa, mãe e avó. Seus chinelos vazios são um quadro ocioso, sem função. Seu batom não mais tem lábios para contornar. Sua escova guarda os cabelos, já mortos, relíquias a serem conservadas. Suas roupas penduradas, inertes, também. Seus pertences, suas joias, de uso em dedos ou colo que não mais existem, exibem um brilho desnecessário, enquanto suas fotos alegres e bonitas assumem a posição da guerreira caída. Este artigo está escrito com a tinta que as lágrimas não parecem possuir. O computador em que escrevia seus trabalhos está parado, sem dona, perplexo. Seu lugar vazio na nossa cama parece refletir o contorno de seu corpo; seu travesseiro mostra a forma de sua cabeça desde quando saiu, numa madrugada esperançosa, para o hospital. Ao descer as escadas, sofrendo e amparada por mim, ain-

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O vaziO

da mantinha a chama acesa de quem tinha muito a fazer. Despediu-se do cão amigo, dos papagaios e entrou no meu novo carro, preto, pela primeira vez, como se àquele luto jamais voltasse. Agora minha mão está vazia. Meus olhos mantêm a morada da lágrima seca, meus ouvidos não conseguem mais ouvir seus gritos de angústia. Meus beijos já não encontram os lábios ou as faces aos quais se possam endereçar. Os meus lamentos e os de Yêda e Dinazinha, suas filhas, e os netos Alice, Luisa, Maria e Artur, se perdem no vazio em que se transformou o mundo. Conto com o apoio de amigos, de meu irmão Fernando, dos filhos Sérgio e Patrícia, dos meus netos Rodrigo, Eduardo e Giulia e do meu genro Anastácio. Nada é suficiente, pois o que eu procuro é o seu olhar, suas mãos, sua voz, como quem busca a própria vida. O seu último suspiro, cansado, eu guardei só para mim. Não é de ninguém, só meu. Respeitem o meu egoísmo. No ataúde estava mais linda do que nunca. Transmitia pureza e determinação. Lembro Garcia Lorca que colocava, na boca de Bernarda Alba, interpretada, na época, por minha mãe Diná, ao lado dela, Dulcinéa, a frase: – “Eu senti a tempestade aproximar-se, mas não pensei que estalasse tão depressa...” Que o que resta dela seja um tributo de respeito e de amor profundo ao que tive de melhor na vida.
Diario de Pernambuco, 28 de agosto de 2007

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Recife
Renato Carneiro Campos

Sou do Recife. (Nunca digo de Recife. Será uma besteira? Não era para Aníbal Fernandes e Mário Melo. Não é para Gilberto Freyre. Segundo eles, somente diz “de Recife” quem desconhece a história e o espírito da cidade.) Conheço os sons e os cheiros de suas ruas, os seus mangues, mucambos, os seus córregos, as margens escalavradas do Capibaribe, as rinhas de galo e de canário, as suas gafieiras, o seu meretrício, os seus restaurantes populares, as suas feiras e mercados, os seus bares, o seu carnaval, os seus clubes populares e grã-finos, o “esforço heroico” do seu incipiente society, os seus velhos sobrados, as suas velhas e quase abandonadas igrejas, os seus subúrbios (quintais de cantos de sabiá, de frutos, de jasmineiros, de caramanchões, de aventuras de sexo, de repouso, de escolhida solidão), as suas patéticas casas de porta e janela, as modernosas metidas a sebo, os palacetes de novos-ricos copiados de modelos europeus ou norte-americanos, as suas praias, os seus cais desolados. Conheço de cor, escalando como se escala um time de futebol, obedecendo a um ritmo profundamente musical, os seus legítimos heróis e mártires. Li e reli os poetas que procuraram captar o seu espírito um tanto mouro, esquivo. Já mediunicamente deixei-me apossar pelos seus duendes. Sofro na carne a sua mania de contestação, o seu ânimo revolucionário, a sua agressividade, a sua inexplicável paixão de cidade magra e ácida, onde o açúcar está mais para o azedo do que para o doce. Acostumei-me ao labirinto das suas intri-

Recife

gas e ingratidões. Tenho pelo Recife um amor de apache. Amor doido e doído que não exige mais retribuições. Jogo de dominó nas calçadas cachorros e meninos virando latas de lixo camelôs indo e voltando das ruas como ioiôs mendigos de ponto fixo nas esquinas e nas pontes muros gravados com sexos de homem e de mulher armados de cacos de vidro balaieiros sorveteiros subdesenvolvidas carrocinhas eletrolas de músicas cafonas festas de padroeiro meses-de-maio procissões restaurantes metidos a internacionais garçons de barba por fazer unhas sujas camisas e paletós puídos sanitários agredindo como socos menores superabandonados bares para a “patota de Ipanema” cabocla “boites” de sádicas contas nos dias de sexta-feira e sábado serestas e mais serestas uísques falsificados servidos por proprietários considerados respeitáveis cachaça com caldinho de feijão a peixeira funcionando depois do abandono amoroso ou da saturação da bebida assaltos imitando São Paulo e cidades dos Estados Unidos velhas pensões familiares “recursos” botes abandonados na beira do rio barcaças ruas sonolentas de subúrbio com mulheres na janela gaiolas de passarinho viveiros proustianos cheiros de lança-perfume talcos serpentinas confetes corso maracatus frevos marchas caboclinhos bumbas meu boi pastoris cirandas fogueiras balões travessas de canjica e pamonha milho assado e cozido bandeirinhas coloridas lapinhas minuciosas folhas de canela nas salas em dia de festa mãos de vaca sarapatéis chambaris buchadas pitus peixadas de pirão gordo cozidos lombos de molho de ferrugem sopa de feijão comidas de coco doce japonês tapioca cuscuz na madrugada cavaquinho adolescentes vestidas de luto namoros em portões lavadeiras na beira do açude tardes de futebol regatas e corridas de cavalo jangadas regressando sargaços velhas cômodas de jacarandá perfumadas com alfazema e bolas de naftalina

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renatO CarneirO CampOs

defumações igrejas com burocráticas beatas benzeduras varandas de sobrados com jarros de flor mulheres morenas dançando e cantando nos xangôs os batuques escorrendo pelos morros afundando na lama dos mangues retratos do Cristo iluminados por pequenas lâmpadas roxas lamparinas boiando no azeite velas de promessas os banhos e passeios grã-finos de Boa Viagem candelabros de cristal talheres de prata porcelanas remanescentes dos velhos engenhos de esquecidos brasões misteriosos licores e doces caseiros em recipientes de cristal bombons em vidros de farmácia nas renitentes vendas quartinhas de barro jarros pratos e canecos de ágata e flandres água de coco caldo de cana com pão-doce “geladas” roletes tabuleiros de bate-entope cachorro-quente na saída das festas pé de moleque bolo Souza Leão bolo de rolo perfumes de mangas e cajus casquinhos de caranguejo guaiamuns cevados fritadas de siri quartos de tabique de prostitutas enfeitados com frascos de loções baratas adocicadas pegajosas retratos de santos nas paredes cheias de remorsos o aviso triste dos búzios nos dias de cheia baronesas animais mortos a casta dos barões do açúcar roupa de linho branco chapéu do chile correntão de ouro o pavor da desmoralização “cara que mamãe beijou” o machismo a falsa aparência de fortuna a demagogia bacharelesca as revoluções a ocupação da cidade por contingentes de outros estados o espírito crítico a mordacidade a superstição a imitação europeia e norte-americana uísque com guaraná ou coca-cola a gozação o gosto da poesia a contenção o humor azedo a ironia agressiva o choro e os ataques histéricos nos enterros o fascínio das descobertas genealógicas a mania aristocrática o orientalismo das relações sexuais o sexo quantitativo o sebastianismo mais camaradagens do que amizades mais orgulhos do que humildades ódios entocados que desabam de repente porres tristes e dramáti-

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Recife

cos reportagens íntimas da vida alheia como passatempo a intriga como arte o brio o pavor do ridículo ostentação da hospitalidade largados rasgos quixotescos. Recife. Entendo o amor de Balzac por Paris, o de Joyce por Dublin, o de Lorca por Granada, o de Fernando Pessoa por Lisboa, o de Machado pelo Rio, o de Mário de Andrade por São Paulo, o de Guimarães Rosa por Cordisburgo, para citar apenas alguns exemplos expressivos. Parece até que esses escritores eram sínteses dessas cidades, de suas qualidades e defeitos, anjos e demônios de uma só vez, exaltando e agredindo. Desconfio muito dos que gostam de uma cidade em tom paternalista, com o ânimo gerencial de apenas melhorá-la, enfeitá-la, modernizá-la, pensando que desenvolvimento e progresso formam uma só palavra. Muitos esquecem que certos aspectos considerados modernos da urbanização são inteiramente contrários ao Homem. Desenvolver as capacidades humanas, fazer gente viver como gente, que os sobreviventes se tornem viventes, tudo isso é bem mais importante para qualquer cidade. Sinto-me preso ao Recife com a resignação de um condenado à prisão perpétua. Pés de chumbo, asas cortadas. Lar e exílio ao mesmo tempo. Nunca, porém, um Robinson Crusoé cansado da sua ilha. Sinto que há alguma coisa de conquista na minha permanência. Algo assim como quem apanhou e deu, mas que não terminou perdendo. Mais: compreendeu, identificou-se, misturou-se. A coragem de ficar, de não fugir, de não procurar melhoras, como se possuíssemos – eu e o Recife – um mesmo destino, independentemente dos seus dirigentes, dos seus transitórios amores oficiais.
30 de março de 1975 Sempre aos Domingos – crônicas (org. Jaci Bezerra). Recife, Massangana, 1984

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Uma ruela estreita, espremida...
Robson Sampaio

A ruela é estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas e rosadas. Contudo, se a noite for boa, as casas estremecem com o dobrar do burburinho da madrugada, das conversas banais e das promessas mentirosas. Rosa, morena jovem e faceira, nos seus 20 anos, não viu as mulheres chegar e outras tantas partir... O flerte já não mais existe naquela ruela estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas e rosadas. Para Rosa, dinheiro na mão, calcinha no chão... Ela não conhece ainda e nem sabe que há um drama em cada pedaço de carne exposta naquele bazar humano, mas, apenas, a certeza do prazer descompromissado. Tal qual um produto cotidiano na prateleira da vida, onde o sexo é primeira necessidade... Eugênia, 65 anos, a mais velha moradora daquela ruela estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas e rosadas, suspira com saudades... Recorda os antigos bordéis, onde os malandros faziam a abordagem com uma Corte de ginga, gírias e palavras doces. Sem tristezas e com um ar sonhador, olha o quadro empoeirado no alto da parede azul do quarto. Acaricia-se com os olhos e relembra a moça cheirosa, vaidosa e cobiçada dos velhos tempos. Era um tempo tão bom que não imaginava que ia acabar. O recato despia-se na penumbra... Eugênia carrega o presente sem queixas e contempla o futuro sem névoas. E divaga com as visões de um passado que, como a própria expressão sugere, é nostálgico...

uma ruela estreita, espremida...

Porém, se a noite for boa, certamente, naquela ruela estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas e rosadas, o domingo amanhecerá mais tarde. E nessa hora furtiva da manhã tardia, haverá mulheres a chegar e tantas outras a partir... Tanto Rosa quanto Eugênia, dirão: “Enquanto houver homem e mulher, haverá sexo”. E, seguramente, uma passagem sem volta naquela ruela estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas e rosadas...

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Carta aberta a um ladrão
Ronaldo Carneiro Leão

Tem um cidadão por aí que roubou e está usando o meu cartão de crédito. Todos eles. Tem feito uso também do meu talão de cheques e talvez esteja espantado de até hoje, transcorridos quase sessenta dias, os cheques continuarem sendo pagos pelo banco e os cartões ainda serem normalmente aceitos nas lojas. Devo a esse ladrão um esclarecimento, pois o normal era os cartões já terem sido cancelados, assim como o resto do talão de cheques. Nada disso vai ser feito. Ocorre que você, caro ladrão, tem sido mais parcimonioso do que eu nos seus gastos, de modo que esse roubo está saindo muito econômico para mim. Você comprou uma camisa no supermercado. Custou R$ 32,00 e isso demonstra que não é um esbanjador. Fosse eu, provavelmente compraria numa loja qualquer no shopping e duas ou três camisas de uma só empreitada. Você pagou um almoço em um restaurante chamado Rei dos Grelhados. Nem sei onde fica. Comida barata. Espero que tenha sido um almoço compensador para você, pois para mim foi demais. Se estivesse com o meu cartão, teria ido ao Spettus e gasto uma nota preta. Provavelmente chamaria meus filhos ou um amigo e a conta sairia pelo menos umas seis vezes o preço da sua pequena refeição. Desse modo, tenho economizado muito por sua causa e devo-lhe agradecimentos por isso. Você tem se mostrado extremamente ponderado no uso do talão de cheques também. O único gasto um pou-

Carta aberta a um ladrãO

quinho maior foi na conta da oficina, mas justifica-se. Serviço de oficina hoje em dia é sempre muito caro. Qualquer bobagem é uma fortuna. Pelo valor do cheque, o de número 672112, é até possível que você tenha batido no seu carro. Espero sinceramente que não tenha se machucado. De qualquer forma, exceto por essa conta da oficina, todos os outros gastos demonstram muito zelo pelo patrimônio alheio, no caso, o meu patrimônio. Foi uma sorte minha ter sido roubado por você. Poderia ter sido roubado por um ladrão gastador e nem sei o que faria nesse caso. Como você tem sido comedido em seus gastos, liberei o banco para entregar outro talão de cheques ao receber a requisição existente nesse. Faço isso para que não lhe falte nada, mas quero fazer um acordo com você. Prefiro botar o seu carro dentro do meu seguro, porque não aguento outra conta de oficina daquela. Por favor, remeta os dados para que eu tome as devidas providências. Outra conta que me preocupa são as despesas médicas. Tenho notado que já é o segundo cheque para pagamento de consulta. Isso significa que você não tem nenhum convênio saúde e está doente. Enquanto forem consultas, tudo bem, mas o que acontecerá caso você precise de uma hospitalização? Melhor colocar você como dependente do meu plano de saúde. Não só você, naturalmente, mas toda a sua família, até porque percebi que um dos médicos consultados é um pediatra. Amigo meu, por sinal. Ótimo médico, só que um pouco careiro. Eu nem sabia disso, mas agora sei. Fazendo todas as contas, do que eu teria gasto contra o que você de fato gastou, percebo que estou fazendo uma enorme economia, graças a sua ajuda. Devo, portanto, agradecer. Além de tudo, sinto que dessa forma estou contribuindo para uma melhor distribuição de renda, pois apesar de ter cartão de crédito por tanto tempo,

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rOnaldO CarneirO leãO

em nenhuma ocasião dei um pouco de lucro ao Rei dos Grelhados ou a esse médico amigo meu. Tenho sempre, e egoisticamente, ido aos mesmos lugares e procurado quase sempre lugares caros. Agradeço, portanto, pela economia. Agora mesmo, meu filho veio pedir-me para comprar uma placa nova para o seu computador, e minha filha queria um sapato para combinar com uma roupa que também precisava comprar. Expliquei a ambos que estava sem nenhum cartão de crédito e sem nenhum talão de cheques, pois tudo havia sido roubado. – Mas pai, isso já faz dois meses. – Eu sei filha, mas tá tão bom assim!!! Se você continuar dessa forma, caro ladrão, estaremos ambos satisfeitos e sinto que estou tendo uma real oportunidade de criar um sólido patrimônio.

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E mesmo assim continuamos escrevendo
Ronaldo Correia de Brito É possível que de tanto repeti-la eu já tenha me apropriado da história de Lao Tsé e contado como se fosse minha. Freud se refere a essas apropriações, no Livro dos sonhos. Ele escreve que uma paciente sua relatou durante uma sessão de psicanálise a história que ouvira de um amigo e, ao narrá-la, o fez como se falasse de si mesma. Freud escutou, elaborou, e também passou a contar a história como se fosse dele. Dizem que o chinês Lao Tsé, que viveu no século VI antes de Cristo, abandonou a vida na corte quando completou quarenta anos de idade. Recolheu-se à floresta até os oitenta anos, e nesse tempo de ascese e meditação escreveu o Tao Te King, livro que é a base do pensamento e da educação chinesa, junto com as obras do filósofo Confúcio. Lao Tsé, fiel ao taoismo que ensina que pelo não agir tudo é agido, entregou o seu manuscrito a um guarda de fronteira, nada falou sobre ele, nada recomendou, e foi embora. Por conta desse misterioso não fazer ou não interferir, que tudo realiza e resolve, o livro cumpriu seu destino, virou ensinamento para milhões de pessoas e chegou até nós. O contista mineiro Francisco Mendes, quando lhe narrei a lenda, perguntou-me quem é o nosso guarda de fronteira. A quem nós entregaremos os manuscritos ao abandonarmos a floresta? Eis a metáfora do escritor. Porque ninguém mais enche de silêncio o coração e contempla isento de desejos o incessante vaivém do mundo.

rOnaldO COrreia de britO

O escritor busca comunicar-se com seu público. Uns de forma serena; outros, desvairados; correm atrás de quem os leia, ou escute, ou aplauda. Ao mesmo tempo em que precisa do exercício silencioso da criação, de estar sozinho trabalhando, o mundo cobra cada dia mais que ele chegue ao limite de sua resistência, cumprindo uma maratona de conferências, entrevistas, artigos, uma exposição do corpo e da alma para ser visto, lido, cortejado. Já não existem florestas, nem guardas. Poucos sobrevivem ao novo enigma da esfinge: preserva-te e serás esquecido ou mostra-te e serás devorado. O prazeroso ou atormentado exercício da escrita tem pouco a ver com o giro pelo mundo, à cata de leitores. Pouco a ver com a caça aos prêmios. São nuvens de palavras/ meu tormento./ O peito em desejo,/ sempre aberto:/ fogo estranho que reluz/ na noite escura/ de São João da Cruz./ Nuvens:/ rebanho de pensamentos./ Sopra do céu um vago lamento,/ como um risco de luz,/ na noite escura/ de São João da Cruz. – Escreveu o poeta Everardo Norões (A rua do padre inglês. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006), que escolheu o exílio dentro da poesia. Os artistas que não assinaram suas obras, anônimos sem temor ao esquecimento, se ergueram às alturas sem desejos e encheram de silêncio o coração. Talvez esses, talvez, tenham conhecido a alegria de criar pela mesma razão porque respiram, pulsam e amam. Criar para viver e viver para criar. E só. E tanto. Rolar dentro de si/ como a pedra no poço./ Do arco do corpo/ desencadear o sopro./ Avistar/ onde o olhar não alcança:/ ler os passos de Deus/ dentro da dança. – Também escreveu Everardo Norões (A rua do padre inglês. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006), de dentro do seu exílio. Buscar uma medida exata do que significa a criação na arte. Há diferenças no fazer e no criar? Ou tudo é um

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e mesmO assim COntinuamOs esCrevendO

mesmo esquecimento de si? O artista popular Raimundo Aniceto, da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato, no Ceará, deu-me uma lição que nunca esqueci. Fui visitá-lo numa véspera da festa de Santo Antônio. Ele se arrumava para a noite que passaria sem dormir, tocando e dançando. A esposa cozinhava o jantar e o olhava de vez em quando, enternecida. Eu fazia perguntas sobre a música que ele tocava, sobre a dança, a história da banda. Vasculhava lá dentro dele para descobrir as pistas de um gênio do povo. Acredito que os meus elogios e as perguntas o incomodavam. Raimundo parecia indiferente à personificação do artista que eu traçava para ele. De repente, levantou-se da cadeira, me chamou, e eu acompanhei-o até um quarto de porta fechada. Ele abriu a porta e mostrou-me o interior do cômodo. Não compreendi. Pensei que me mostraria alguns instrumentos raros, que confeccionara e tocava. Não. Ele apontou sacos de arroz, feijão e milho, empilhados, uns sobre os outros. Eu plantei e colhi tudo isso, falou-me sorridente. Bela lição que jamais esqueci. Todos os ofícios são sagrados, e o escritor não é mais que o padeiro, nem o carpinteiro, nem o pintor de paredes. Deus não prefere o músico ao pescador, como preferiu o Abel que pastorava ovelhas ao Caim que cultivava a terra. O sábio tudo realiza, e nada considera seu. Tudo faz, e não se apega à sua obra, escreveu Lao Tsé. Talvez por isso tenha deixado os seus originais nas mãos de um desconhecido, sem importar-se com o destino que teriam. O guarda não era um editor renomado, não programou lançamento, não traçou planos de mídia, não inscreveu o livro em concurso literário. E mesmo assim ele fez carreira, vive há dois mil e seiscentos anos. Mas isso é uma lenda, e não existem guardas de fronteira como os antigos. O poeta busca a medida entre o ato solitário da criação e o mundo que o ignora ou traga.

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rOnaldO COrreia de britO

Dessoletro-me sozinho Neste canto de sala. O vulto vem e espreita. Mais nada...

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O boêmio morre de madrugada. Com o sol. Iluminadamente
Ronildo Maia Leite

Se é boêmio convicto, o quarentão é necessariamente avesso à bebedeira das quatro festas do ano. Nada mais chato e triste e pegajoso e caricato do que o bêbado de véspera de Natal e Ano Novo. Piedoso feito as filhas de Maria, vai à Missa do Galo para se enxerir com as moças. À toa, bebe cerveja e se embriaga facilmente ouvindo blues na radiola do bar. Declama sonetos, canta canções antigas. E chora com saudade dos parentes, geralmente do interior. O de São João solta traques de sala, bebe jinjibirra com uísque. Também chora de amor e de saudade. O de Carnaval é lasca. Veste saia de mulher. Grita e berra e esperneia e dá cotoveladas com a bunda. Também termina chorando. De amor e de saudade. Boêmio convicto jejua nas quatro festas do ano. Para curtir as madrugadas que lhe restam. Simplesmente porque, filho das noites, entende o segredo das madrugadas. Aos bêbados eventuais, eu aconselho, pois: necessário entender as madrugadas. Na proporção que expõe e exibe, a madrugada esconde e protege o boêmio como as grandes mães alcoviteiras. Acalenta amores. Denga os desesperados. Constrói ambições. Destrói necessidades. Dos insípidos, faz poetas. Dos intrinsecamente burros, feito eu, o mais brilhante dos papos. Especializa equívocos. Quantas mulheres lindas por mim já se apaixonaram. E quantas mulheres feias amei.

rOnildO maia leite

A madrugada legaliza conspiradores. Inspira desaforos. Ameniza desrespeitos. Suaviza provocações. Cicatriza ventas quebradas. Escraviza o nada. Foi na boca da noite que o cronistíssimo Renato Carneiro Campos encontrou coragem para desafiar o poetíssimo João Cabral. Ô de Melo Neto, você é um poeta da porra, mas, por favor, me diga o que pensa da agressão americana ao Vietnã... Aqui, ó... Noutra vez, esculhambou um general, de sobrenome Tavares que me lembre, sem que o arrependimento nem o medo o matassem. Foi nos bares, a escola das ruas, onde a esquerda sufocada organizou inteligências para resistir ao arbítrio. E onde, ainda hoje, se espreme e se esconde na mais desconjuntada burrice. De competente Secretário de Estado, sei de histórias muito próprias da noite. Dele ainda hoje se conta delirante madrugada nos vastos jardins de um senhor onipotente, todo cercado, esses jardins, por altíssimas grades. De pés juntos me jura, como se verdade fosse, o sacana que me contou a história que a seguir se sabe: Estava o já falado Secretário em meio a outros ilibados homens públicos. Tilintintim, fazia o gelo no copo de cristal. Bulumbumbum, ressoava o uísque no seu quengo. De repente, como o sopro do terral, a visão fantástica madrugada adentro. A ditadura estava voltando com a gangrena. Soldados nas ruas. O amigo gordo era um bulldozer. Tinha certeza, era uma maquinona. Bonitas mulheres sendo presas por horríveis gendarmes. Inocentes democratas na prisão. Inclusive ele. Desesperado, ele corre, então, e se abraça com as grades. Que, na sua visão, não eram de jardim nenhum, mas de um xadrez. Liberdade, liberdade, abre o manto sobre nós, gritava de espanto. Quando acordou, todo mundo sorria. E ele amargava ressacas. As do uísque propriamente dito e as de 64.

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O bOêmiO mOrre de madrugada. COm O sOl. iluminadamente

É isso aí. A madrugada constrói as pessoas, ainda que ao bar frequentem também as lacraias desesperadas. Coitada, irmão, da cidade que não tem os seus bares próprios. Suas esquinas noturnas. Seus doidos. Seus fantasmas. Até os que sofrem de fraturas de caráter. Sobretudo, a cidade que não tem os seus boêmios. Eu, de minha parte, confesso – sou um homem da madrugada. Pois, como estou cansado de afirmar, a mesa do jornal é como a mesa do bar – nelas, se morre todas as noites. Não vejo cronista, repórter, poeta, artista, ator, atriz, produtor teatral e escambais que não seja um boêmio. A mesa do jornal e a mesa do bar e a mesa dos camarins e a mesa da criação têm lá as suas coisas em comum. Nos camarins, também o ator se urde todas as noites num mesmo papel. Sem se repetir. Num se morrer diário. Se faz amor nas coxias da noite. É noturna a confecção da crônica, do teatro, da tela, da tinta. Somos todos de uma mesma ribalta, porque toda arte é essencialmente boêmia. A crônica morre ao meio-dia. Não passam da meianoite a fala e gesto, a recriação e o brilho da atriz. O boêmio, todos nós, morre na barra da alvorada. Todas as madrugadas. Fuzilados pelo nascer do sol. Iluminadamente.
A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário. Recife, Ed. Raiz, 1990

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Das calçadas, quintais e jardins do Recife
Rostand Paraíso Continuo a abrir as gavetas da minha memória e recordo-me, agora, da tranquilidade de nossas noites de verão. Depois do jantar (naqueles tempos jantava-se cedo, em torno das 17 ou 18 horas, às vezes se fazendo, mais tarde, uma ceia), era costume que, após os momentos sagrados da hora do Angelus e de alguns programas de rádio – naquela que era, então, nossa única estação, a PRA-8 –, todos começassem a se distribuir pelas janelas e calçadas, onde se ficava a conversar e a trocar ideias. Levavam-se para lá as cadeiras de balanço, as espreguiçadeiras de lona, alguns bancos e até toscos tamboretes, onde as empregadas mais antigas, e que já eram consideradas como fazendo parte da família, se sentavam humildemente, de uma maneira discreta, mais ouvindo do que falando, de preferência nos locais mais escuros. Não havia ainda a televisão, responsável, entre outras coisas, pelo desaparecimento da calçada como ponto de reunião das famílias, lugar onde se conversava e eram discutidos os problemas da comunidade e de cada um. Calçadas que se prolongavam pela rua – naqueles tempos o movimento de carros era diminuto, raramente se vendo algum nos arrabaldes – e era ali, no meio da rua, que nós, crianças, ficávamos, sob os olhares dos mais velhos, a brincar de pega, de cademia, de boca de forno (o seu rei mandou dizer...), de dono da calçada, e de tantas outras brincadeiras que, pouco a pouco, com o progresso, iriam desaparecendo.

das Calçadas, Quintais e Jardins dO reCife

Era ali que se reuniam os mais velhos, vizinhos, amigos e parentes, famílias inteiras, toda noite ali presentes, para alguns jogos (gamão, dominó), mas, principalmente, para longas conversas que se estendiam noite adentro e que versavam sobre tudo, futebol, doenças e as melhores meizinhas para curá-las, política, revoluções (como tínhamos revoluções naqueles tempos...), histórias de almas e outras crendices populares, receitas de bolos e de doces caseiros, músicas recém-lançadas para o carnaval, namoros, noivados, infidelidades conjugais, casamentos desfeitos etc., etc. Conversas que eram interrompidas apenas quando nos alertávamos para a hora de dormir, em geral ao ouvirmos os apitos dos guardas-noturnos, que começavam por volta das 10 horas da noite e se repetiam regularmente, a cada hora, durante toda a madrugada. A guarda-noturna, como era conhecida, era paga pelos próprios moradores, numa espécie de segurança particular (havia umas plaquinhas que identificavam as casas dos assinantes), e se fazia presente sempre em duplas, cada um dos guardas armado apenas de cassetete, nunca de armas de fogo. Os apitos, quando dados rotineiramente, a cada hora, indicavam que tudo estava bem, mas, se os ouvíamos de uma forma repetida, era sinal de que havia ladrão na área e, de um modo geral, todos os moradores se mobilizavam e corriam para ajudar na captura do gatuno. Os apitos dos guardas-noturnos, já ao amanhecer, se confundiam com os do homem do cuscuz – aquele inesquecível cuscuz que nos era trazido na porta, para o nosso café da manhã – e nos davam uma extraordinária sensação de segurança, a sensação de que alguém velava por nós e de que não seríamos molestados pelos ladrões, podendo dormir tranquilos a noite toda. As calçadas do Recife antigo, gostosas calçadas do bairro de São José e de Santo Antônio – Rua da Concórdia, Rua da Palma –, e dos bairros mais afastados, desapareceriam,
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destruídas pela pressa, pela insegurança, pela violência e, acima de tudo, pela televisão, essa grande desagregadora da família, que faz com que se isolem todos, uns dos outros, ninguém tendo mais tempo para conversar, cada um vendo, no aparelho do quarto ou da sala, no canal preferido, o seu festival particular de violência e de sexo. Naqueles tempos, década de 1940, ninguém morava em apartamento e as casas, principalmente, aquelas dos subúrbios mais distantes – Casa Amarela, Casa Forte, Apipucos, Dois Irmãos, Várzea – tinham enormes e acolhedores quintais, nem sempre muito limpos (passava-se apenas o ciscador para tirar a sujeira mais grossa), mas cheios de árvores que os sombreavam e que forneciam, com suas frutas, as sobremesas e os sucos servidos nas principais refeições e nos lanches dos fins de tardes. Eram muitas as árvores que ali se encontravam, e que nos davam abacates, cajus, mangas (ah, gostosas e bonitas mangas, mangas-rosa, mangas-espada, mangas-de-Itamaracá, manguitos...), sapotis, jacas, bananas, cajás, graviolas, jenipapos, carambolas, jabuticabas, abius, pinhas, romãs, goiabas, pitangas (parece-me que naqueles tempos as acerolas ainda não haviam sido inventadas), maracujás, pitombas, tantas árvores, por nós cutucadas com aquelas longas varas que tinham um saco em sua extremidade e com as quais tirávamos as frutas, antes que elas amadurecessem e fossem bicadas pelos muitos pássaros que ali havia. Árvores pelas quais gostávamos de subir, galho por galho, o mais que pudéssemos, pelo simples gosto da aventura e, também, para, lá de cima, descortinar os quintais das casas vizinhas, invadindo as suas privacidades e descobrindo, às vezes, em verdadeiros e inesquecíveis alumbramentos, coisas com que nem sequer sonháramos... Era, lá do alto, um verde total, onde havia vida, muita vida, as borboletas (de cores variadas e que circulavam em torno das flores) e os pássaros, numa variedade que
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nos deslumbrava, as lavandeiras, os sabiás-da-mata, os sabiás-congás, as rolinhas, os caga-sebites, os canários-daterra, os papa-capins, alguns curiós e galos-de-campina, os concrizes, os xexéus, os guriatãs, os pintassilgos, os beija-flores, os bem-te-vis, os sanhaçus, estes últimos, grandes comedores de frutas, e tantos mais (não me lembro que naquela época houvesse pardais), pássaros que, num verdadeiro desplante, vinham fazer, atraídos pelo calor e fugindo das intempéries, os seus ninhos dentro de casa, às vezes em torno de uma luminária. E, embaixo, os animais que faziam parte da casa, os gatos, os cachorros (esses nunca faltavam, e quando morriam eram de imediato substituídos por outros), papagaios, galinhas, perus (que, amarrados pelo pé, eram, o ano inteiro, cuidadosamente alimentados, recebendo a comida em bolões, diretamente no bico, sendo, dessa maneira, cevados para o Natal), marrecos, patos, porcos, em uma sinfonia permanente, sem fim. Às vezes eram os galos que nos despertavam com seus cocorocós madrugadores, outras vezes eram as galinhas, a nos anunciar os ovos que íamos buscar para nossas omeletes, outras ainda, os papagaios, a repetir as frases porventura aprendidas; ouvíamos, ainda, o coaxar dos sapos e das rãs e, às vezes, o ruído que nos fazia desconfiar da presença indesejável de um timbu ou de uma cobra, a rastejar por entre os matos; o trinado dos pássaros, o cri-cri dos grilos, o grunhir dos porcos, o apito estridente das cigarras..., tudo aquilo fazendo parte do festival diário que a Natureza nos proporcionava. Quintais, acolhedores quintais, onde jogávamos, descalços, nossas peladas de fins de tarde, usando bolas de meia, as barras sendo delimitadas pelas próprias árvores ou por montículos de areia ou pedaços de tijolo. Não satisfeitos com os nossos territórios, pulávamos os muros e alcançávamos os quintais vizinhos, à procura de parceiros para nossos jogos ou de uma fruta diferente, que, às vezes,
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era permutada, nunca vendida, pelas nossas próprias frutas. Nos galhos mais baixos e mais grossos, fabricávamos rústicos balanços, e, nos arroubos da juventude, sentindo-nos verdadeiros tarzans, pendurando-nos nas cordas como se fossem cipós, lançávamos aos ares estridentes gritos que, muitas vezes, chegavam a apavorar os vizinhos. Com as castanhas dos cajus, improvisávamos jogos e, por fim, vencidos e vencedores, juntávamos todas elas e íamos assá-las, num inebriante perfume que, à distância, era percebido e que, ainda hoje, me traz, quando o sinto, uma enorme recordação daqueles tempos. Ah, o cheiro de castanha assada... Não somente os quintais, as ruas do Recife eram também cheias de árvores e, em lembranças que coincidem com as minhas, Vamireh Chacon, no seu livro O poço do passado, lembra algumas ruas da Boa Vista, do Espinheiro e da Madalena, que eram verdadeiros túneis, ruas arborizadas com fícus-benjamins e cujas raízes acabariam rachando e levantando as calçadas, dando margem a piadas eróticas... Eram ruas onde as árvores, lá em cima, se abraçavam umas às outras, mal deixando ver as nuvens e quase não deixando passar a luz do sol; algumas delas, verdadeiros ninhos, caprichosamente atraindo, às suas copas e galhos, sem que descobríssemos o porquê, pássaros e mais pássaros que enchiam os ares com seus trinados. Dessas ruas ainda vemos, como exemplos últimos das muitas que então existiam, a Manoel Borba, a Malaquias, a Visconde de Albuquerque, a Oswaldo Cruz, a Conselheiro Portela, a Quarenta e Oito e algumas poucas mais. As árvores, submetidas a uma poda exagerada e sem qualquer técnica, ficam, às vezes, reduzidas a esqueletos, sem folhas e sem galhos, muitas sendo derrubadas por qualquer motivo – ou mesmo sem motivo –, e sem qualquer cuidado de reposição por parte das autoridades municipais. E os jardins?
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Era extremamente raro, na época da minha juventude, que eles fossem gramados, a grama sendo considerada, então, como de conservação cara e trabalhosa. Eram, em sua grande maioria, de chão batido, adubados com esterco de gado, e tinham canteiros, delimitados por fileiras de tijolos, periodicamente caiados, dentro dos quais havia as rosas, de tantas e variadas cores, as dálias, as onze-horas (que não podiam faltar num jardim que se prezasse), os cravos-de-defunto, os sorrisos-de-maria, os copos-de-leite, as angélicas, os cheirosos jasmins-de-banho, jasmins-resedá e jasmins-bugaris, os amores-de-homem, os mimosdo-céu, as hortênsias, as acácias amarelas ou róseas, as alergênicas espirradeiras, os bambus – cujas folhas, achatadas e filigranadas, se prestavam para enfeite e decoração – as begônias, as trepadeiras (que, naqueles tempos, ao se pronunciar seu nome, o jardineiro dizia: com licença da palavra, madame) que se enrolavam pela frente da casa, enroscando-se, às vezes, nas grades dos terraços e das janelas, as buganvílias, os dedais-de-dama, os flamboiãs, e, como se não bastassem tantas plantas, em cestas penduradas ao longo dos terraços e nos galhos das árvores, as avencas, as samambaias e os alfinetes. Alguns desses jardins eram verdadeiras sementeiras, fornecedoras, por amizade, nunca por comércio, de sementes e mudas para replantio. Flores que eram cultivadas para serem doadas às igrejas do bairro, quando do mês de maio, ou, então, presenteadas aos vizinhos nas festas de batizado, de aniversário, de casamento ou de formatura. Entre as plantas, nos muros, corriam as lagartixas, vítimas habituais dos nossos bodoques, a maioria já sem rabos, rabos que, diziam (e isso fazia com que não sentíssemos qualquer remorso), cresceriam novamente. Os caminhos que ligavam o portão da frente ao terraço e à porta de entrada eram habitualmente ladeados pelas nu-

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vens, verdadeiras cercas vivas, periodicamente podadas para que mantivessem uma altura uniforme. E, en passant, já que estamos descrevendo a frente das casas, havia, quase sempre, ao lado do jardim, ligando o portão de serviço à garagem (que, regra geral, ficava no fundo do quintal), dois ou três degraus ladeados por rampas que faziam com que os carros passassem, obrigatoriamente, pelo terraço, permitindo, assim, que nos dias de inverno, pudessem as pessoas ali descer, a salvo da chuva e da lama. Havia, no Recife de antigamente, jardins famosos, alguns de mansões de Casa Forte e de Apipucos, e Gilberto Freyre nos fala, em várias ocasiões, daqueles que marcaram época, como o de D. Maroquinha Tasso e o de Mário de Souza. Eram famosas as orquídeas do professor Luiz Siqueira, nas Ubaias; as papoulas de Fred Maia, cultivadas na sua casa do Parnamirim, onde chegou a ter cerca de mil variedades; as do padre jesuíta Bragança, radioamador e famoso educador do Colégio Nóbrega, figura bastante conhecida no Recife daqueles tempos; e as do professor Rinaldo Azevedo, este último chegando a ter, na sua casa da Rua Amapá, no Espinheiro, e nos quintais do Hospital Oswaldo Cruz, onde trabalhava, um enorme número de variedades de papoulas, todas devidamente catalogadas e etiquetadas. Falava-se, verdadeiro colírio para os olhos de quem passava, dos jardins de Ramiro Costa, na Ruy Barbosa, e de Maria Peretti, na Várzea; e das palmeiras imperiais de Suzana Maranhão, na Avenida Caxangá, essas últimas motivo de uma curiosa e irreverente briga entre ela e o Prefeito Augusto Lucena, quando do alargamento daquela Avenida. Naqueles tempos, em que havia água com fartura em nossa cidade, as plantas eram aguadas carinhosamente, pelos próprios donos, com regadores, nunca com mangueiras, todo cuidado sendo pouco para que não fossem danificadas por um jato excessivamente forte.

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Véspera de São João no Recife
Rubem Braga

O que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu falarei da terra. Ora, João, tu tinhas um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em volta de teus rins; e a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E a filha de Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que queria neste mundo, o rei entristeceu. Eras a voz que clama no deserto, e clamavas na cadeia. E tua cabeça veio num prato para as mãos da bailarina. João, esta geração de homens continua a mesma da qual disse o Senhor: “São semelhantes aos meninos que estão assentados no terreiro, e que falam uns para os outros e dizem: nós temos cantado ao som da gaita, para vos divertir, e vós não bailastes; temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes”. João, ontem foi a noite de véspera de teu dia. O povo bailava ao som de gaitas. Não bailei nem chorei. Estive em Boa Vista, Afogados, Areias, Tejipió, na Estrada de Jaboatão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive, por que não dizer?, na zona noturna da ilha do Recife. E em toda a parte o povo te festejava. Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava. E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem chuva. Mas na terra humilde, a noite era sempre a mesma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de uma luz pobre. Nas janelas e nas portas se penduravam as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz

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fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da parede, forneciam imagens nas ruas tão escuras. As estrelas do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para perto da lama, para as casinhas baixas, e teu retrato, segurando o menino Jesus, estava colado nelas pelos quintais enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro estacas com folhas de cana, bananeiras-meninas enterradas em volta, as fogueiras enfeitadas, de espaço a espaço, ensanguentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos oitões, nos mangues, nos palmares, junto das pontes, ao longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de fogo na noite preta. E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando a flor das ruas e as pontes quase se apoiam na massa líquida, e, para ver a cidade, é preciso andar toda a cidade... Os fogos pipocavam pela noite adentro. Uns tinham estalos secos, intermitentes, esparsos; outros rebentavam roucos; outros chiavam; outros crepitavam; outros eram urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite, eu estava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas avançavam, negras, sobre mim, e eu as reconhecia, penosamente. Estava deitado na trincheira, fazia três abaixo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, estava deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhadoras crepitavam, crepitavam. João, eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estrangeiras. Aquela do oeste era Hotchkiss pesada, a que estava embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era Zebê, e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre o meu crânio, assobiavam apenas os fuzis Mauser dos ca-

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çadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do outro lado da noite, roncou um Schneider. Nas primeiras noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quando rebentavam a cinquenta metros, rebentavam dentro do meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo, e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição, acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas curvas onde as balas furavam as carrocerias, a toda a velocidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e roncando terrivelmente. Mas para mim não era mais uma noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu não queria matar ninguém, não me importava se alguém me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, murmurando que eu era um espião. Eu era espião, João, João; eu era um espião da vida, no meio da morte. Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras. No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que haviam sido os comerciantes da guerra, e, entretanto, eu não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chamaram de cínico, quando somei os contos de réis que custava a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe no

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Principessa Mafalda, só contando munição gasta. Eu não era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do cinismo dos cães de luxo; eu sempre tive o direito de ter o cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono. João, eu não tenho mais dezenove anos, estou na rua e não na trincheira, mas esses estampidos na noite transformam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, folhas, flores, fogueiras, abraços, olhares, amores, e outras noites me cercam. Eu tinha treze anos e naquela noite ela subitamente me amou. Me amou talvez apenas um minuto, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus cabelos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis, e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço tinha um cheiro terno e quente de cabelos castanhos, e aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma eu amei nem amarei mais amada com amor assim. João, naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste no ar escuro tinha o mesmo cheiro. João, são muitas noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna. João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos homens irão clamar nas cadeias, como tu clamavas. João, amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará deturpando a beleza da vida; as moças suburbanas irão perder a beleza no trabalho escravo; as crianças continuarão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será

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explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo, as metralhadoras se viram para os peitos populares. Ninguém dividiu as túnicas, nem os pães, como tu mandaste, João, inútil João.
Junho, 1935 200 Crônicas escolhidas. São Paulo, Círculo do Livro, [s.d.]

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Maria do cais
Salma Bandeira de Mello

Maria do Cais sou eu, és tu, somos todas nós, mulheres na eterna espera, esperança do viajante homem marinheiro de muitas portas, e passagens. Sentada no cais do porto, na caldeira colonial da casa residencial ou no bureau de design moderno, não importa, todas nós mulheres trazemos a seiva do fruto que brotará e, para que ele atinja a plenitude da maturidade, precisamos esperar. Maria do Cais, mulher sereia, mulher água, ligada ao primeiro elemento que a tudo vivifica e fecunda. Mãe de muitas mortes e renascimentos, útero intumescido de muito sangue. Fonte de dor, luz e prazer. O marinheiro homem encontrou-a linda, fagueira e radiante. Consumiu toda sua luz e, na partida, deixou um espectro do que ela fora, apenas uma sombra que vagueia dias e noites, horas e minutos na esperança de que ele volte. Maria do Cais, Maria esperança; sim, porque ai dela, ai de mim – se esperança não houvesse, seria melhor se transformar de vez em cinzas. Sei que ela também renasceria, porque Maria também é pássaro Fênix, aquela que renasce depois de toda a consumação. Aí está a sua força, o seu poder de tudo suportar e a tudo renascer no amor e na esperança de que o marinheiro voltará lhe trazendo flores vermelhas, o brilho e o champagne. Um farol brilhou no cais. É meia-noite, a hora de todos os mistérios, lá vem Maria no balanço dos quadris, xale nos ombros porque a noite é fria, como fria e angustiante

maria dO Cais

é toda espera. Já de manhã, o marinheiro chega como se não a tivesse rejeitado, não a tivesse esquecido. Quiçá, alhures as sereias de outros portos eram apenas sombras e não Maria de verdade na dor e no amor. Maria, aproveita, aproveita, Maria, que tempo é fugaz e o marinheiro logo partirá, se não no navio, no pensamento, porque pensamento de homem é volátil, como é a sua natureza. Um dia Maria morre. Pouco importa se de tiro ou de faca peixeira. Toda mulher não morre todos os dias um pouco pela frieza e dureza do homem? Será mesmo que ela morreu? Eu a encontrei, ora faceira, ora ingênua, ora valente, no rosto de muitas mulheres. Não, Maria do Cais não morreu. Ela vagueia pelas noites em busca do marinheiro amado, ela espera no lar burguês a volta do marido, ou ela espera ansiosa o telefonema do amado para um novo encontro. Ela dá à luz um novo filho, ora ela chora, ora ri, porque ninguém é mais próxima do riso e do choro do que a mulher. Eu te homenageio em nome de todas as mulheres, primeiro como mãe tão pobre e carente, Maria manjedoura, que, como na canção de Chico Buarque, chamou o filho de Menino Jesus. Depois, como Lilith ou Eva, senhora de todos os pecados e poderes. Morta e renascida na dor do amor, no vestido branco da pureza, no laço vermelho da sedução, no perfume francês da madame. Todas as mulheres, mulheres cheias de amor, de dor, de paixão e sedução. A solução encontram em ti, Maria.

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Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho
Samarone Lima Tive o prazer de conhecê-lo há cerca de 15 dias, ali no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente, barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Recife para um divertimento sadio, que é tomar umas cervejinhas e contemplar o povo se bulindo. O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”, como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima desculpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, voltemos ao assunto. Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamente, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao lado, pediu um quartinho e dois pedaços de passarinha. Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por detrás do Mercado, cemitério este, onde só tive oportunidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu túmulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha. “O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo. Depois de um silêncio pesaroso, completou.

persOnagens dO reCife: adãO pinheirO de CarvalhO

“Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não está no gibi”. Na sequência, deu uma bicada de com força naquela garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passarinha, oleosa como o quê. Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho (pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escritório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona isso tudo. De leão eu entendo melhor que os africanos”, completou, com um sorriso de convencimento. Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinheiro me confessou que tinha como principal atividade, aos sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa Amarela. Achei esquisito, mas a espécie humana já não me surpreende. “Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou ele, com uma cara meio triste e já anormal. Eu realmente nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pensei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida. Ao final do dia, volto para casa muito mais humilde”, completou. Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigarro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e me disse assim em segredo. “Professor, a vida é por um triz”. Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério, conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os setores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos túmulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos, enfim. Sabia de muitas histórias. “Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no almoço e estava envenenada. Os cinco morreram horas depois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho.

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samarOne lima

Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse. Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tempo que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com o mundo dos mortos, ele disse que o enterro mais triste de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que chamou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra. Nenhum parente ou amigo fora ao velório. “A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é morrer só, professor”. Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu outro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome quando lembro disso”. Ele percebeu meu interesse e se aproximou. “Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar alguém. Mais de uma hora depois, ninguém”. “E aí?”, perguntei. “E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser enterrada sem um mísero olhar de compaixão?” Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jéssica, que morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situação, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era um ato de solidariedade. “Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de desligar o telefone. Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era o irmão do morto. Adão não soube me explicar o motivo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tempo de dar uma passadinha na casa da amante. Adão pediu

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persOnagens dO reCife: adãO pinheirO de CarvalhO

cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo solitário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu). Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela primeira vez o rosto do morto e o achou triste. O que teria feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos. Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de repente alguém da família morrendo, e comentou com o coveiro: “Ninguém merece morrer sozinho”. “Ruim mesmo é viver sozinho, meu senhor”, respondeu Lalau. Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha e mandou ver na sua garapa. Me contou que, na época do enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais velho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro emprestado. “Coisas de família”, disse. Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão. “Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então achei que era justo reencontrar um irmão que estava perdendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o telefonema, mas também disse que vinha pensando em fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo ficou resolvido. Depois de me contar sua história, Adão fez um silêncio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada, longe, com aqueles olhos perdidos. “Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, ninguém merece morrer sozinho”. Então, eu escrevi.
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Antônio Piutá entre cangaceiros
Ulysses Lins de Albuquerque

A meu neto Eduardo Eu sou como a cascavel Que não respeita ninguém: Emboscada na vereda Morde quem vai e quem vem, E se der um bote errado Morre de raiva que tem. (Severino Pinto)

Naquele tempo – fins do século passado – o sertão de Pernambuco era a terra do cangaço. Os municípios de Lagoa de Baixo, Afogados da Ingazeira e Floresta (especialmente o riacho do Navio, afluente do Pajeú – rio que cortava os municípios de São José do Egito, Afogados, Flores, Serra Talhada e Floresta) eram habitados por cangaceiros, sendo os mais afamados os do Navio – Casimiro Honório e Ângelo Umbuzeiro; em Afogados, Francisco Batista Morais, os Godês e outros; e, em Lagoa de Baixo, os criminosos protegidos pelo velho chefe político tenente-coronel Manuel Inácio – como Zuza Brás, Pedro Viana, Pau Velho, Joaquim Caetano e muitos outros, que aquele político conservava, amparando-os, evitando que fossem aprisionados pela polícia. Acontecia às vezes que os cabras se matavam uns aos outros, e, quando chegava à vila a notícia das mortes (de uma feita entraram na vila quatro redes de defuntos), o coronel dizia filosoficamente: – “Não tem nada, não. As cobras é para se engolirem umas às outras...”

antôniO piutá entre CangaCeirOs

Na serra de Jabitacá – umas três léguas distante da vila – Joaquim Caetano, um dia, foi à casinhola de Pau Velho e o matou com um tiro de bacamarte. E, sedento de sangue, monta no cadáver e passa a apunhalá-lo! A mulher de Pau Velho, vendo aquilo, arma-se de uma acha de lenha e trucida o assassino do marido, desfechando-lhe repetidos golpes! Era assim o ambiente no município, onde os criminosos roubavam cavalos até dentro da vila, nos dias de feira, deixando alguns sertanejos a pé, de volta para casa. Foi por isso que o velho Francisco Severo, fazendeiro residente a uma légua da vila, assim falou para um Promotor que dizia sanear o município, prendendo ladrões e assassinos, se o governo lhe fornecesse um forte contingente de polícia: – “Está muito bom, seu doutô. Mas se vossa senhoria fizé isso, aqui não fica nem quem diga missa nem quem na oiça...” Aquele velho era uma vítima dos cangaceiros, que matavam reses suas pelas caatingas, banqueteando-se às suas custas. E quando alguém lhe dizia que ele mudasse o pasto do seu gado para um local onde não andassem os cangaceiros, ele dizia filosoficamente: – “Ora, se eu fô levando o gado daqui para lá e venha eles de lá pra cá, quando nós se encontrá não resta mais nada.” Antônio Piutá – assim chamado por morar nas proximidades de uma fazenda com esse nome – foi um dos cangaceiros que tomaram parte no assalto ao Teixeira, na Paraíba, nos limites com Pernambuco, levado a efeito por Silvino Aires, inimigo da família Dantas, que o perseguia. Era uma velha intriga, desde o tempo de um seu tio, que, certa vez, foi refugiar-se na fazenda Jacu, de Alagoa de Baixo, à sombra do meu bisavô Antônio de Siqueira, chefe do Partido Conservador no município. Silvino foi ao município de Alagoa de Baixo – no Moxotó, e ao de Afogados da Ingazeira, onde aliciou uma

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dúzia de cangaceiros – inclusive Manuel Batista de Morais (mais tarde Antônio Silvino), Antônio Piutá, Luiz Mansidão e o irmão, Isidoro – estes do Moxotó – e com eles e outros atacou o Teixeira, depredando uma casa comercial dos Dantas e fazendo roubos de cavalos nas vazantes de pessoas daquela família. Depois, Silvino seguiu para Pernambuco, dissolvendo o grupo em certo ponto e internando-se nas caatingas do Moxotó, onde foi capturado por um capitão da polícia de Pernambuco – Abílio Novais. Luiz Mansidão voltou para o Moxotó, chefiando um grupo de assaltantes, inclusive Manuel Batista de Morais. Um ano depois, Luiz Mansidão era assassinado de emboscada por um rapazinho, que chegando em casa – andava com uma espingarda, matando passarinhos –, encontrou a mãe chorando por ter sido espancada por uns cangaceiros que vinham do Brejo do Prioré, município de Buíque. Era o grupo de Luiz Mansidão. O rapaz carregou a espingarda com uma bala e seguiu no encalço dos cangaceiros, que haviam saído pouco tempo antes. Notando que eles iam por uma vereda que ele bem conhecia, entrou pelo mato e foi emboscá-los num serrote por onde deviam passar, numa curva da vereda. E quando os cangaceiros iam passando, ele alvejou-os, e a bala atingiu a Luiz Mansidão. Dali, os cabras – depois de dispararem os bacamartes para o lado de onde partiu o tiro – seguiram com chefe ferido, que morreu alguns dias depois no Moxotó. Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais, que adotara esse cognome, certamente em homenagem a Silvino Aires), assumiu a direção do grupo. Antônio Piutá não quis ficar no grupo. Voltou para o seu sítio – Maniçoba – e aos sábados ia à feira, na vila, onde a polícia não o incomodava, pois era protegido do

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chefe político... E, também, porque era “respeitado”, temido, pois era valente e já dera umas cacetadas num sargento, comandante do destacamento! E lá um dia soube que um seu camarada havia sido preso e levado ao tronco, no povoado de Olho d’Água dos Bredos – hoje a cidade de Arcoverde – e entendeu de desagravar o camarada. Mandou chamá-lo, convidou alguns parentes e foi com eles ao Olho d’Água dos Bredos. Lá chegando, dirigiu-se à casa onde funcionava a subdelegacia, arrombou a porta e mandou que os companheiros rebentassem o tronco! Os cabras, cantando emboladas, espatifaram aquele instrumento de tortura – comum naquele tempo, “para amansar. brabo” – como se dizia. O subdelegado não apareceu, nem as pessoas de mais importância, no arruado... Apenas uma pessoa apareceu, e por ela Antônio Piutá mandou exigir cinquenta mil réis (dinheiro muito na época) e uma garrafa de aguardente, vinda de uma bodega, para que ele e seus companheiros “molhassem a garganta”... Assim desagravado, saiu Antônio Piutá, cantando emboladas, sem que ninguém o incomodasse. Era assim o sertão do Moxotó naquele tempo.
O boi de ouro e outras estórias. Rio de Janeiro, Ed. Cátedra, 1975

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Miss Pernambuco 1963
Urariano Mota

Vera Lúcia Torres Bezerra é senhora com uma idade que a educação e a gentileza não devem perguntar. Em uma discreta graça, que a maldade chamaria coquete, de passagem ela conta que foi Miss quando possuía apenas 16 anos. Pela implacável aritmética, 2010 – 1963 = 47. Quarenta e sete mais dezesseis, sessenta e três. Mas isso é segredo, ela fala com maior graça, porque mocinhas menores de idade não poderiam participar do concurso. Então, pelas normas legais, se ela foi Miss aos dezoito, atravessa hoje os sessenta e cinco anos. Mas a Lei e a cruel Aritmética de nada sabem. Entendam, não é bem que as pessoas, as mulheres em particular, e Vera Lúcia em especial, não sintam nem sofram quarenta e sete mais dezesseis anos. Sentem, percebem, sofrem, se desesperam ou se acomodam a esse inexorável. Não quero ser, nem poderia em razão de natural deficiência, um Catão, um copiador de procedimentos de Plutarco, a invocar ética dura e pesada moral. Mas pessoas como Vera Lúcia penetram em nossa consciência como uma antecipação do que seremos. O que nos salva ou nos salvará quando tudo for perdido? Ela me fala com o rosto oculto em óculos escuros, embora seja noite no Recife. Enquanto fala, enquanto expõe, ela vai desarmando, ela vai desmontando os mais severos e sólidos preconceitos. O primeiro deles é o de que as misses devem ser ignorantes, quando não se resumem à mais simples burrice. Ela desmonta isso não bem por um currículo exterior, de provas e títulos. Por esses documentos,

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sabemos que essa mulher é graduada em economia, com pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas. Por eles essa mulher conhece a língua francesa, e somente nisso ela já ultrapassaria a marca das misses que dizem ter lido O pequeno príncipe, mas são incapazes de saber quem foi Exupéry. Mas não é por isso que a vemos inteligente. A sua inteligência se revela em documentos não escritos, porque se pronuncia por um dom raro de observação, quase diria, se isso não me fizesse mergulhar em outro preconceito, ela percebe coisas dignas do olhar de um artista. Vera Lúcia Torres foi Miss Pernambuco no mesmo ano em que a Miss Brasil foi Ieda Maria Vargas, em 1963. Ieda Vargas, mais adiante, conquistou o título de Miss Universo. Mas isso ainda é currículo, o bom vem depois. Quando perguntada sobre a mudança do padrão de beleza da mulher, do seu tempo até hoje, Vera Lúcia responde, melhor dizendo, observa: “Elas agora são mais altas, de fisionomia mais graúda”, e explica o que é este graúda: “boca grande, olhos grandes. No meu tempo eu notava que a beleza era angelical, mais delicada. E agora é mais a mulher graúda, magra demais. Eu não sou a favor de gordura, mas eu acho que tem de ter as curvas, porque se não fica igual ao corpo de um homem. Além das pernas bonitas, tem que ter, no meu conceito, uma cinturinha e uma curva. Isso não quer dizer um quadril grande, exagerado”. E ouçam agora as medidas, no que parece um número de ouro da beleza do Brasil em 1963: “O busto tinha que ter a medida dos quadris. A cintura igual às coxas... Gisele Bündchen jamais seria miss. Na minha época se exigia muito postura. E a de Gisele deixa muito a desejar, a maneira dela se sentar, de se dirigir, de falar. Hoje se exige apenas que seja alta, magra. Com as pernas finas, altas, as modelos mais parecem equilibristas...”. – O que é a maneira de Gisele se sentar? – Masculinizada. Perna aberta, uma lá, outra cá...

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E vem então uma observação que se perdeu com o tempo, mas não a seus olhos que me fitam por trás das lentes escuras: – Na minha época, as manequins, modelos que desfilavam, não podiam rebolar, bambolear o quadril. Havia uma exigência, uma ordem de caminhar roçando os pulsos no quadril, que era para não menear as cadeiras. A esta altura, como se fizesse um só comentário, como uma continuação que tem a ver com o modo de caminhar, a senhora Vera Lúcia observa e traz uma notícia rara, até hoje não escrita em qualquer imprensa: – A Miss Universo de meu concurso, a Ieda Maria Vargas, não conseguia juntar... ela só tirava retrato de lado, porque de frente não juntava as pernas. – Por quê? As pernas dela eram muito volumosas? – Não, porque ela tinha um joelho grosso em cima, e aqui embaixo era um buraco. Ela só tirava foto de lado, pode ver. – Como assim?, eu não estou entendendo. A Miss Universo da época não tirava retrato de frente, por quê? As coxas dela eram muito grossas e, por isso, não ficavam juntas? – Era uma abertura, com as pernas em arco. Era um desvio nas pernas, cangalha, entende? Então ela, sabida, posava de lado. E maquiava, porque tinha varizes. Ela passava uma base, um creme. A base escura disfarçava as varizes. Está certo, são observações de mulher concorrente ao mesmo título, poderia ser dito. Mas o que diríamos de um pintor que observa com olhos argutos uma pintura de outro? Ou de um escritor que percebe as fraturas da obra de um novelista? Diríamos que são observações fruto da inveja? Ou mais precisamente que são notações de alma treinada naquele ofício? O mais sensato é ouvi-la, principalmente quando ela fala algo como: – A Miss Universo possuía um rosto muito bonito, a boca, os olhos cor de mel..., mas não tinha cultura ne371

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nhuma. Ele chegou aqui em Pernambuco e saudou, “povo peruano”... – Trocou o Recife por Lima. Muito interessante. Isso foi no rádio ou na televisão? – Foi quando ela voltou, como Miss Universo. Ali mesmo no aeroporto, com todos os repórteres, fotógrafos, microfones. Então eu lhe falo com a voz mais traiçoeira que um entrevistador pode ter, com um tom suave, pleno de intimidade e blandícia: – Na sua época, ser Miss era o mesmo que ser burra, não era? Vera Lúcia Torres não se engana com o tom nem se ofende com o conteúdo. E como prova de que tal qualidade não se aplica a ela, responde: – Diziam que a única leitura de Miss era O pequeno príncipe. É claro que, como eu era muito jovem na época, não poderia ter a cultura que adquiri depois. Mas eu já gostava de ler. Os meus amigos eram todos universitários, de medicina, de direito, teatro. Eu ia muito a teatro, exposições, porque eu gostava. E o entrevistador, traiçoeiro: – Exatamente. Tem toda a razão. – Mas a mulher do meu tempo era preparada para esperar o príncipe encantado, e se fosse Miss, o sonho era casar com um grande empresário, um homem rico, porque era Miss... – A senhora casou com um empresário? – Não. – Nem com um homem rico? – Não. Em primeiro lugar tinha que existir amor. A esta altura, a sua filha, uma jovem bonita de 24 anos, entra na entrevista para completar a frase que a mãe não quis dizer:

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– Ela casou com um homem pobre e feio. – Verdade? E a filha: – Era pobre, feio, horrível. E assim, cheio de homem rico e lindo atrás de mãezinha. Ao que explica a mãe: – Uma das coisas que eu mais admiro no ser humano é a inteligência. E a bondade. – Verdade? A esta altura o entrevistador se foi, partiu, porque deixou de ter o domínio, porque foi destruído em seu maquiavelismo. Deixou de conduzir para ser conduzido. Há um capítulo não escrito, na vida dos entrevistadores, que reza a sua conquista em razão de um comportamento inesperado. Nesse capítulo, em uma das suas divisões, em algum lugar se inscreve que entrevistadores feios e pobres são conquistados por misses que não se casam com grandes empresários. Mesmo que essas misses não mais sejam formosas jovens, mesmo que tenham passado pela curva dos sessenta anos. Ou até mesmo por isso, diria até com mais razão, por se encontrarem nessa idade. Não sei se isso é bem perversão ou uma busca do espírito, só tu, puro espírito. De qualquer forma, uma perversão, que nem precisa dizer que é romântica, porque é do caráter do romântico um semelhante desvio. O fato é que ex-misses como a senhora Vera Lúcia Torres Bezerra possuem um travo, um amargo de ex-combatente, de quem passou pela experiência da guerra. E, no entanto, esse travo é bom. Imagino que isso se dá em razão de ser uma vitória dos valores em que acreditamos, o do valor que é o valor, o da vitória do belo nas condições mais infames. Senhoritas, misses, que em um mundo de corpo-mercadoria, em um açougue de carnes, reagem e vivem como pessoa e gente. E que se casam ao fim com indivíduos cujo maior

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patrimônio é a qualidade interior. Isso não é um conto de fadas. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra está diante de mim para tentar vender uma carta do poeta Olavo Bilac, que guarda e guardou há muito tempo. O entrevistador se foi. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra nem precisava dizer que estudou Economia porque era admiradora de Celso Furtado. Nem mesmo, em um golpe mortal para mim, que esteve ao lado daqueles doidos e perseguidos pela ditadura no Brasil. Derrotado, miro-lhe então os olhos despidos das lentes escuras, e percebo-lhe as rugas, o pescoço, o tecido mole. Mas, coisa estranha, percebo, ainda assim, que os anos por ela passaram e não alcançaram a sua decadência. Por que esse paradoxo? Talvez porque o espírito, quando sobrevive, suporta melhor o copo que envelhece. Não importa quantos anos se tenham passado, tenho gana de lhe dizer e me calo. Por isso escrevo agora, porque os escritores somos muito valentes no silêncio e a distância: Vera Lúcia Torres Bezerra, você ainda é a nossa musa. O tempo passou para todos, Miss Pernambuco 1963.

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Eu estava lá e vi
Vandeck Santiago

E aí está o meu avô, que às vezes entra quando o sono se esconde. Parco de gestos, mais ainda de palavras. “Quem usa palavra à toa fica sem nenhuma na hora da precisão”. Ninguém ousava contrariá-lo. Não precisa falar, só olhava, mas seu olhar tinha tal poder de convencimento que o atingido punha-se de imediato a fazer o que presumia fosse sua vontade. As mulheres da casa estavam conversando na maior animação – ele chegava, todas emudeciam. Eu costumava ir para a casa dele à tarde, depois da escola. Ficávamos os dois na varanda, só se ouvia o reco-reco da cadeira de balanço. Comíamos bolo de milho, quente; toda tarde minha avó fazia. De vez em quando ele passava a mão na minha cabeça e grunhia uma frase que eu nunca entendia direito. Era um reconhecimento de que eu existia, merecia sua atenção. Eu era mais poderoso que o mundo. Só comecei a sentir medo quando ele entrou em briga com o demônio. “O infeliz das costas ocas”, dizia. O demônio queria arrancar-lhe a alma pelo espinhaço. Vivia rondando a casa, subindo no telhado, espiando pelas janelas, escondendo-se nas frestas da porta, à espera de um descuido. Meu avô não tinha medo do demônio. Uma vez abriu as portas da entrada e dos fundos da casa, eu vi tudo, de madrugada, e ficou gritando, punhal na mão:

eu estava lá e vi

– Vem, infeliz, vem! Deixa de ser covarde e vem pela frente!... Toda sexta-feira, perto das 6 da noite, ele punha roupa branca, colocava o punhal na cintura e rumava em direção à mata. Ia para o confronto aberto com o “infeliz”. Se não voltasse, não queria ninguém chorando. Eu ficava na cadeira de balanço, sem fome para o bolo de milho, com vontade, mas sem coragem de dizer “vô, não vá”. Ele era o mais forte dos homens, eu sabia, mas não era qualquer um que ele ia enfrentar. Houve uma ocasião, quando ele já se perdera mato adentro, em que saí andando seguindo o seu rumo, com um pedaço de pau na mão. Minha avó me pegou no meio do caminho. Levei a maior surra, nunca mais repeti a besteira. Ninguém perguntava o que acontecia naquelas tardes de sexta-feira. No meio da noite ele voltava. Suado, com a roupa suja de quem havia rolado pelo chão. “Louvado seja o sangue do nosso senhor Jesus Cristo”, dizia minha avó, aliviada quando o via despontar na rua. Baixinho, para ninguém escutar, eu também agradecia ao Menino Jesus de Praga. Um dia foi diferente. Eu estava lá e vi. Um dos moradores entrou esbaforido em casa. O chapéu nas mãos, o olhar para baixo, uma notícia ruim para dar. Meu avô estava morto, fora esfaqueado na mata. Minha lembrança gravou até o cheiro do vento naquele dia. Não podia ser aquilo que o homem estava dizendo, daqui a pouco seu Carlos ia chegar ali e falar que era mentira, que o morto não era o meu avô, era outro parecido com ele. Era bem capaz de ser o seu Damião, tomara que fosse, os dois eram muito parecidos, todo mundo dizia. Ao longe avistei o cortejo – meu avô vinha carregado nos ombros da multidão. Como uma cruz humana, os

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braços arriados, todo ensanguentado. As roupas sujas de barro, o cabelo assanhado. Havia sinais de ferimentos no peito, no pescoço e no rosto. Com cuidado o puseram no terraço, perto da cadeira de balanço. Acenderam duas velas, uma de cada lado. “Ai, meu Deus, ai, meu Deus!”, gritava minha avó, sem parar. Eu fiquei sentado na cadeira de balanço, fazendo reco-reco-reco, sem tirar os olhos do meu avô. Foi por isso que ninguém viu, mas eu vi: um filete de sangue escapou de debaixo do meu avô e veio escorregando devagarinho em minha direção. Não saí do canto, acho que estou lá até hoje.

P.S.: O assassino fora um ladrão que o seguira e tentara roubá-lo. Fora preso por dois soldados que faziam a segurança do povoado. Depois de apanhar muito na cadeia, confessou o crime. Em nossa família, no entanto, nunca ninguém acreditou nessa história. Todos nós sabemos que foi o demônio quem matou o meu avô.
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Boi
Valdemar de Oliveira

Passo os olhos, de vez em quando, pelas colunas sociais da nossa imprensa. Visto que não frequento os clubes mundanos, é esse o meio mais prático de saber o que lá vai pelos salões onde a Sociedade se diverte. Foi por essa via providencial que me chegou ao conhecimento uma novidade curiosa: um dos nossos mais conceituados clubes vai sortear, entre os seus associados, um boi. Receoso de confusões, o cronista repete: “um boi de verdade”. Não há possibilidade, pois, de que se trate de um boi de barro, como os de Vitalino, ou de um boi de Papelão, como o do Melchior. É boi de carne e osso, no duro. Mas um boi? O meu espanto não é menor do que o do Eça d’As farpas ao comentar a presença de 160 bois, formados em alas, para receber, em Vila do Conde, terras de Portugal, Sua Majestade dom Pedro II, das Terras do Brasil. Acostumados já estamos em ver sortear aparelhos de rádio, receptores de televisão, enceradeiras, ventiladores, baixelas, faqueiros, perfumes, colares – mas boi? É a primeira vez que ouço falar nisso – e não dou parabéns aos donos da ideia, porque a presença do boi na Sociedade pode tornarse incômoda, senão perigosa. Essa presença é imprescindível, desde que o pacato ruminante participa da relação de prêmios. E é aí que reside a primeira razão de temor: o “Corisco” pode portar-se inconvenientemente, ignorante como é de etiquetas e boas maneiras, mal sabendo (ou não sabendo nada, porque nunca foi sócio de clubes mundanos), o que se deve fazer e o que se não deve fazer; pode

valdemar de Oliveira

espantar-se com as luzes, a música, o movimento geral e investir, de repente, sobre as mesas, como um bonitão bêbedo em noite de carnaval; pode pôr-se a mugir como se fosse o “crooner” da noite ou a espanar com a cauda o nariz de madame ou o cangote da miss mais próxima. Mesmo que seja um boi manso (como há tantos) e educado (como não há nenhum), poderá tornar-se alvo de comparações, não faltando quem lhe descobrisse, logo, traços fisionômicos semelhantes aos de alguns dos presentes. Viria, depois, o sorteio, o que aumentaria os riscos, sendo o primeiro deles que o robusto zebu fosse parar às mãos de um cavalheiro que, em matéria de pontas, já estivesse bem guarnecido. A coincidência poderia produzir um impacto de gargalhadas logo que o felizardo se levantasse, agitando no ar, muito contente, o bilhetinho premiado. E ninguém pode calcular as reações que essas gargalhadas, unânimes e ruidosas, produziriam em qualquer dos dois. Tudo me convence de que essa história de boi, no Internacional, não dá certo. Melhor será voltar aos refrigeradores e às joias. São menos contundentes.
20 de junho de 1961

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Para este domingo
Waldimir Maia Leite

Para Gilberto Freyre, o jogo de palavras desta crônica

Para este domingo quero dispor de uma planície (como quem põe uma toalha sobre a mesa sem, entretanto, conviva). Para este domingo quero todos os enverdecidos campos em florilégio, onde possa eu derramar (como chuva em vertical) o suor do meu sofrido e caminhante rosto/ adulto; e assim germinar e aprofundar no solo raízes dos meus olhos de fuga em busca de uma Verdade (imersa Verdade a boiar como translúcido mineral). Para este domingo quero sentir todos os soprares de ventos (indo e vindo como duas mãos que buscam), o somatório de indícios físicos e meteorológicos; que no amanhã haverá um Sol hóspede meu (irmão e igual no ato de doar luz e calor em fotossíntese às plantas) e que desperte, como flor que abre, inesperada e úmida, as matinais pálpebras, o rude e sobrevivente desejo – nos homens – de colheita de fruto para a eterna fome de sua momentânea boca; e de perene amor para o sedento e eventual coração. Para este domingo quero todos os sons, aqueles que marcam, como acordados sinos, o nascer e o extenuar das adormecidas horas; e os que alertam para a fragilidade do debruçar da noite sobre a terra onde, um dia, estarei – imóvel e sem volição – como um arbusto decepado sem memória de incogitáveis frutos e folhas.

waldimir maia leite

Para este domingo quero selar, com pressa de correr, o melhor e o mais ágil dos ginetes, e partir, combater – de peito aberto – trinta ou quarenta moinhos de vento, sem retornar o movimento dos meus olhos e deixar para trás imagens que não mais me pertencem, nem tocam (ah! nunca, nunca mais!) a retina que me instrui o essencial da visão. Para este domingo quero o silêncio de todas as pessoas – as que me cercam e as que a eventualidade me separa – a quebra de todas as palavras, a privação das frases não adjetivadas. Para este domingo quero uma ampla, interminável planície (porção de terreno não-meu), tão ermo quanto meu coração já despovoado e erodente. Para este domingo quero sal sobre as rubras chagas abertas pelas tormentas marítimas em minhas brancas e finas mãos, lágrimas no dueto sem vozes dos meus olhos e suor em meu rosto, bronzeado pelo Tempo, formando o suor um rio, no leito derivado das invasoras rugas; o rio da fadiga, muito e profundo cansaço que em mim faça renunciar, à luz do dia, a todos os movimentos (inclusive o oscilante ato de amar). (E se, neste domingo, me for dada uma planície necessariamente horizontal – como uma toalha de areia incolor sobre a mesa sem conviva – serei capaz de descer, súbito como um hierático condor de negras asas, do alto das minhas involuntárias ansiedades, descer do topo da montanha das minhas angústias e ali (na planície) depositar este meu impertencido corpo: voluntário e místico como quem frequenta o mistério de Getsemâni – gesto de semente que (se) tardiamente renasce).
Terra molhada - crônicas. Recife, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1985

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Sábado de Zé Pereira em Caruaru
Waldenio Porto

– Quando chegava o carnaval, parece que estou vendo... me transporto à casa de minha avó, em Caruaru, perto da igreja da Matriz das Dores, onde morava... Retorno à passada infância... – “Que os anos não trazem mais!” – graceja Praxedes. – É o que você pensa. O carnaval, pense bem, refaz tudo direitinho... nos mínimos detalhes. Com as músicas, os amigos que já se foram, mas chegam apressados, namoradas, os confetes e serpentinas, até o cheiro do “lança-perfume” de saudosa memória. – Estou ouvindo seus devaneios passadiços. Prossiga. – Zé Negrinho passava óleo de Peroba nas cadeiras austríacas de espaldar recurvo, ângulos torneados, encosto e assento de palhinha, na sala de visitas. Cantarolava despreocupado, enquanto esfregava a flanela umedecida nos recortes dos móveis de estimação: Viva Zé Pereira, viva Juvenal, Viva Zé Pereira no dia de carnaval. Eu tava dormindo, papai me acordou, Quem não tem dinheiro não embarca no vapor! O menino ouve e pergunta. Escuta explicações não muito claras e fica na confusão do pouco entender. Afinal, que se poderia esperar de Zé Negrinho, cria de casa e pau mandado para toda obra? Espere até mais tarde! diz ele. Aí você vai entender.

waldeniO pOrtO

O dia escorre para todos na expectativa da noite daquele sábado. A ansiedade do menino. As mãos frias. Molhadas. Já taludo bastante para sair só, à noite, não longe de casa, na ainda pacata cidadezinha de Caruaru. A multidão se ajunta e cresce a cada momento. Um riso geral clareia os rostos, na rua quase escura, também chamada de beco do Dr. Silva Filho. Que desce da Rua da Matriz e desemboca no descampado largo da estação da Great Western. O riso, os passos rápidos, a quase pressa de todos pelo acontecimento esperado. Transforma sisudos em gaiatos, surpreendentemente. O falar animado e alto. O menino, misturado no meio da gente, estranha o comportamento galhofeiro de adultos sérios. A enxurrada dos que descem esbarra na multidão já represada ao longo dos trilhos da via férrea. Tropeça nos dormentes e não para de se agitar, como se consumida pela euforia. Não encontra canto certo e se move incessante. Passam dois molecotes fantasiados, com lanternas de armações coloridas, revestidas por celofane, alumiadas por carbureto, espetadas em longas varas, enroladas em papel laminado brilhante, encarnado e azul. Dirigem-se para a plataforma da estação ferroviária. Já acesas, mostram que a coisa está para começar. Quando menos se espera, rompe, por cima do vozerio da multidão estacionada, o som limpo e forte do trompete de Joel, grito de guerra dos foliões em todos os carnavais. Um clamor se eleva, abafando as últimas notas da corneta, como se o espírito da alegria precisasse apenas daquele chamamento para se mostrar. O apito do trem ao longe multiplica o alvoroço. Uma girândola interminável atroa os ares. Ouve-se a batida surda do bombo e a orquestra do maestro Cazaquinha estrondeia o frevo Vassourinhas, enquanto a locomotiva, de

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sábadO de zé pereira em Caruaru

chaminé alta e bojuda, entra resfolegando na estação, com seu facho imenso de luz e a posse de todas as emoções. Apertos. Correrias. Exclamações. Todos querem chegar perto para ver o Rei Momo que chegou do Recife com sua corte de ministros, no trem do subúrbio. Todos sabem que Chico Porto, Aluísio Gata Magra e Quinzinho tinham ido esperar o trem em Gonçalves Ferreira, última estação antes de Caruaru. Mas todos juram que o rei da folia veio mesmo da Capital. O menino, apertado na multidão, pouco vê. Alguém o protege com o corpo, livrando-o dos empurrões. Chico Nunes não se contém, nem mais espera. Ordena ao maestro Malaquias, de Motoristas, que revide o debique do outro clube com o frevo Três da tarde. Ninguém se entende mais e os metais brigam com as requintas e os taróis pela posse do tumulto alucinatório. O maquinista do trem, que é, como todo o ferroviário, do Madeiras do Rosarinho, no Recife, se contagia. E aumenta a balbúrdia com o apito repetitivo da locomotiva. Delírio coletivo. Com muito esforço e ajuda, o Rei Momo, primeiro e único, é içado para o Ford 29, capota arriada e escape livre. Cento e muitos quilos de bonomia. Chico Porto, simples, bom, crédulo, alegre, encarna, como ninguém, a realeza da fantasia que veste. Coroa na cabeça, cetro na mão, cumprimenta e é aplaudido pelo povo. Ao lado, também de pé, a figura esguia de Aluísio Gata Magra, vestido de fraque (pois é Ministro), com uma cartola preta e alta que mais lhe acentua a altura. Em contraste carnavalesco, Quinzinho, mais baixo, completa o séquito de dignitários. Os foguetes ainda espocam, aqui e ali, acompanhando o cortejo, que se desloca, lentamente, em direção à Rua da Matriz. Os carros, de escape livre, aumentam o barulho ensurdecedor. E todos dançam e cantam abraçados, como se fora a manhã do primeiro dia da criação...

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Dados Biobibliográficos

ABDIAS Cabral de MOURA Filho, (“Os filmes de Celso Marconi”), nasceu no Recife/PE (22.04.1930). Diplomado em Direito (1954) e em Sociologia (1964). Romancista, ensaísta, cronista e jornalista. Foi editorialista do Jornal do Commercio, Recife. Membro da Academia Pernambucana de Letras, da Academia de Letras e Artes do Nordeste e da União Brasileira de Escritores, seção de Pernambuco. A UBE-PE reuniu num livro os Depoimentos e comentários de A a Z, sobre Abdias Moura, no qual aparecem, entre outros, Gilberto Freyre, Barbosa Lima Sobrinho, Maria do Carmo Barreto Campello de Melo. Bibliografia: O sumidouro do rio São Francisco: origem dos conflitos no Brasil, 1985; Evangelho do subdesenvolvimento, 1990; A sociedade no planeta Terra, 1997; Memórias do século XX, 2000; As três faces do amor, 2004 (contém três romances publicados em anos diferentes pelas Edições Tempo Brasileiro: Os desamores de Benedicto, 1992, A descoberta da harpa, 1988, e O segredo da ilha de pedra, 1995); e 12 Autores em tempos diversos, hist. e crítica, 2007; Sexo, nação e cor – ensaio sobre o preconceito, 2008; Como a guerra chegou à floresta amazônica, Recife, 2008. ADMALDO MATOS DE ASSIS, (“Inchação urbana”), nasceu em Gravatá/PE (29.07.1945). Ficcionista. Diplomado em Direito pela UFPE. Professor de Literatura Portuguesa e Brasileira e de História, no ensino

médio. Professor de Direito Tributário e Instituições do Direito, da Universidade Católica de Pernambuco. Auditor do Tesouro Estadual por concurso público, exerceu os cargos de chefe de Gabinete, secretário municipal do Recife, secretário de Habitação e presidente da Cohab/PE, secretário de Educação e Cultura do Recife, secretário da Fazenda do Estado e do município de Jaboatão dos Guararapes. Vereador do Recife, por dois mandatos. É membro da Academia de Letras e Artes de Gravatá e da UBE-PE. Bibliografia: Reflexões sobre a questão habitacional, ensaio, 1983; O poder e a comunhão, discursos, 1992; Mágica do equilíbrio, artigos, 1995. O homem revalorizado, discursos, 1996; O preço da missa, contos, 1997; Olhar sobre a Rússia, viagem, 1999; Coerência, discursos, 2000; A máscara veneziana, contos, 2001; O dono do girassol e outros contos, 2003; Astúcias da imaginação, contos, 2005; e Sete dias na Terra Santa, 2008. José ALBERTO Tavares DA CUNHA MELO, (“Como envelhecer uma caçarola”), nasceu em Jaboatão/PE (08.04.1942). Jornalista e sociólogo. Foi um dos fundadores das Edições Pirata e integrante da Geração 65 de escritores pernambucanos. Criou o Prêmio Literário Carlos Pena Filho em 1982, que premiou autores locais (PE) e, no ano seguinte (1983), nacionais. Diretor de Assuntos Culturais da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) em 1979-1980 e em l987-1989. No jornalismo, destacou-se como editor do “Commercio Cultural” (1982-85), no Jornal do Commercio. Foi editor da revista Pasárgada, nos anos de 1994-1995). Colaborador (1998 a 1999) da coluna “Arte pela Arte”, do Jornal da Tarde, SP. De dezembro de 2000 até novembro de 2007, manteve a coluna Marco Zero, na revista Continente Multicultural. A convite da Universidade de Évora, Portugal, participou do III Seminário Inter386

nacional de Lusografias, em 2000), relançando o seu livro Yacala, e como expositor do tema: “Condições de Criação nos Países Lusófonos”. Seu livro O cão de olhos amarelos & Outros poemas inéditos recebeu o Prêmio de Poesia 2007 da Academia Brasileira de Letras, na qualidade de melhor livro de poesia publicado no ano de 2006 no Brasil. Participou de 32 antologias, duas delas internacionais. Bibliografia: Círculo Cósmico, separata da revista Estudos Universitários, 1966; Oração pelo poema, separata da revista Estudos Universitários, 1969; “Publicação do corpo”, in: Quíntuplo, 1974; A noite da longa aprendizagem. Notas à margem do trabalho poético, Recife, 1978-2000, v. I, II, III, IV, V, inédito; Dez poemas políticos, 1979; Dez poemas políticos, 1979, segundo clichê; Noticiário, 1979; Poemas à mão livre, 1981; Soma dos sumos, 1983; Poemas anteriores, 1989; Clau, 1992; A Rural também ensina a semear a poesia, 1992; Folheto de cordel – divulgação do lançamento do livro Clau; Carne de terceira com poemas à mão livre, 1996; Yacala, 1999; Yacala, 2000, edição fac-similar, prefácio de Alfredo Bosi; Meditação sob os lajedos, 2002; Dois caminhos e uma oração, 2003; O cão de olhos amarelos & Outros poemas inéditos, 2006; Marco Zero, crônica, 2009. ALEX (José de Souza Alencar), (“Ouvir a voz do tempo”), nasceu em Água Branca/AL (05.08.1926). Passou a residir no Recife em 1948. Foi um dos fundadores, em 1950, do Clube do Cinema do Recife. Concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito da UFPE, em 1952. Faz parte do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco. É membro da Academia Pernambucana de Letras desde 1970, ocupando a Cadeira nº 10. Na área do jornalismo, foi crítico de cinema e colunista social, assinando atualmente uma coluna diária de crônicas breves e notícias variadas no Jornal do Commercio.
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Bibliografia: Cadeira vazia; O tempo não retorna; Alex: 70 Crônicas; Anotações do cotidiano. ALUIZIO FALCÃO, (“Sozinho no bar”), viveu no Recife até 1962. Jornalista. Foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular e presidiu o Sindicato dos Jornalistas. Exerceu o cargo de secretário particular do governador Miguel Arraes no mandato interrompido pelo golpe militar. Trabalhou como repórter do Diario de Pernambuco e colunista diário da Última Hora/NE, bem como na Rádio Olinda e Rádio Tamandaré. Em São Paulo, onde mora há 46 anos, foi chefe de programação da Rádio Eldorado e diretor das gravadoras culturais “Discos Marcus Pereira” e “Estúdio Eldorado”. Colaborou regularmente nos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Aposentou-se como jornalista na Universidade de São Paulo. A crônica Sozinho no bar faz parte do livro Crônicas da vida boêmia, lançado em 1998. Foi também publicada no Jornal da Tarde, em São Paulo. Bibliografia: Crônicas da vida boêmia, 1998. ALUÍZIO FURTADO DE MENDONÇA, (“O São João da minha infância”), nasceu em Natal/RN (09.12.1927). Muito cedo se iniciou na Literatura, no suplemento literário dominical de O Diário de Natal, órgão dos Diários Associados. Foi redator por alguns anos da Rádio Poti de Natal. Posteriormente, prestando concurso público para o Ministério da Fazenda, foi nomeado para o Porto de Areia Branca, no Rio Grande do Norte. Em 1954, foi transferido para a antiga Alfândega do Recife, hoje Receita Federal do Brasil. Foi repórter do Diario de Pernambuco e depois do Jornal do Commercio do Recife. Em 1957, ganhou o Prêmio Literário de Ficção do IPASE, com a novela, O velho, os gatos e a noite. Participou de várias antologias, sempre no gênero ficção. Foi presidente da Academia
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de Letras e Artes do Nordeste em duas gestões. Foi presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. Fundou e dirigiu as revistas: Letras e Artes e Edições Cadernos Culturais, a primeira durante a sua gestão à frente da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Divulgou vários autores através de sua Editora, Assessoria Editorial do Nordeste (AEN). Fundou e mantém a editoração do Jornal Ponto de Encontro, de circulação nacional. Bibliografia: O silêncio das horas, contos, 1952; O soldado de ronda, contos, 1953; Contos inéditos, 2000; Ali, do outro lado da maçã, nov., 2002; Quem matou Anatólio Brochado, nov. Participa de diversas coletâneas de contos e poesias. ANA MARIA Ventura de Lyra e CÉSAR, (“Uma dama em tempos idos”), nasceu no Recife/PE (17.04.1941). Diplomada em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, UFPE, e em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Unicap. Filha do desembargador Amaro de Lyra e César e de Áurea Ventura de Lyra e César. Romancista, poetisa, conferencista e ensaísta, iniciou sua trajetória escrevendo sobre o próprio pai, o desembargador e poeta Amaro de Lyra e César. Destacou-se como presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste, biênios 19981999 e 2000-2001. Recentemente, foi eleita para a Academia Pernambucana de Letras. Bibliografia: Lira e César, juiz de Caruaru, ensaio biográfico, 1981; Gênesis, crônicas, 1884; A bala e a mitra, ensaio/ reportagem, 1994; Prêmio Vânia Souto Carvalho, APL; 50 Anos do Senac em Pernambuco, hist., 1996; Versos voláteis, poesia, 1998; O tom azul, rom., 1997; Prêmio Dulce Chacon, APL; Habemus panem, memórias de uma época, memórias, 2001; No limiar do tempo, poesia, 2005; e A faculdade sitiada, ensaio histórico, 2009, Prêmio Amaro Quintas – História de Pernambuco, da APL.
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ANTÔNIO Ricardo Accioly CAMPOS, (“O sol de Pernambuco”), nasceu no Recife/PE, (25.06.1968). É advogado militante especializado em Direito Empresarial. Detentor da Comenda Dom Quixote da revista Cidadania e Justiça. Palestrante Honorário da Escola Ruy Antunes da OAB-PE, na cadeira de Direito Eleitoral. Foi Conselheiro Titular da 1ª Câmara do 2º Conselho de Contribuintes da Receita Federal. É membro da União Brasileira de Escritores (UBE-PE). Autor de artigos jurídicos e literários publicados em periódicos, revistas e jornais. Colunista semanal da Folha de Pernambuco. Curador da Festa Literária Internacional de Pernambuco – Fliporto. Membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Presidente do Instituto Maximiano Campos (IMC), sociedade civil voltada para a valorização da cultura brasileira, especialmente dos valores literários, com ampla atuação em Pernambuco e na região nordestina, cujas atividades podem ser visualizadas no site www.imcbr.org.br. Bibliografia: Mensagens, seleta de artigos, 2002; Pense S.A., acerca de planejamento estratégico e melhoria organizacional, 2002; O grande portal, seleta de artigos e ensaios, 2003; Direito eleitoral – Eleições 2004, 2004; A arte de advogar, 2004; Viver é resistir, 2005; Território da palavra, 2006; Organizador da coletânea Pernambuco, terra da poesia (em colaboração com Cláudia Cordeiro), 2007; Panorâmica do conto em Pernambuco (em colaboração com Cyl Gallindo), 2007; Portal de sonhos, poesias, 2008; [Em]Canto – A voz do poema – leitura de Antônio Campos, poesia CD; Clarice Lispector: uma geografia fundadora. Palestra proferida na APL, quando da comemoração do Dia Internacional da Mulher, 25.03.2010, 2010; A reinvenção do livro, conferência proferida na UBE-PE, em comemoração do Dia Internacional do Livro, 23.04.2010, 2010; Diálogos culturais no mundo pós-moderno, realizado em
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Estocolmo, em março de 2010, 2010; Carpe Diem: diálogos contemporâneos, 2010. ANTÔNIO Leite FALCÃO, (“Os olhos sem nexo e verdes do mar”), nasceu em Belo Jardim/PE (15.7.1941). É filho de Ida Leite Falcão e de Flávio Marinho Falcão. Entre 1946 e 1949, morou com a família em Ribeirão, Zona da Mata do Estado. Seu pai era coletor de impostos do governo estadual. De 1949 a 1955, viveu em Caruaru. De 1956 a 1964, morou no Recife e concluiu o curso secundário. Por suas convicções políticas e participação no governo popular de Arraes, foi preso em 1964 e, uma vez solto, viajou para São Paulo, onde aprendeu a trabalhar na empresa privada. Foi escriturário, vendedor, revisor de textos, gerente de empresa, jornalista e freelancer no Círculo do Livro, da Ed. Abril. Em 1968, ingressou nos cursos de ciências sociais, da USP, e de direito, da PUC. Ainda aguentou duas cadeias, ambas, de curta duração. Viajou para a Europa, estudou planejamento e análise regional e desenvolvimento urbano. Passou alguns anos em Paris, Londres e Roma. No final de 1977, voltou ao Brasil. No Recife, trabalhou num mestrado universitário, foi técnico numa empresa de desenvolvimento empresarial, traduziu e escreveu vários projetos, tendo ainda colaborado com administrações democráticas do Recife e do governo do Estado. Em 1985, criou uma microempresa de confecções, que lhe rendeu dinheiro por alguns anos. Presta consultoria gerencial e econômica a uma porção de clientes daqui e do exterior. Publica com regularidade crônicas, contos e artigos em jornais nordestinos, em sites nacionais e do exterior. Bibliografia: Romeiros do absurdo – crônicas, ensaios, contos e novela, 1991; Mil, novecentos e nós – 50 crônicas selecionadas, 1995; O tango das meretrizes, crônicas e ensaios, 1997; Um sonho em carne e osso – os 32 fora
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de série do futebol brasileiro, 2002; e Os artistas do futebol brasileiro – 50 minibiografias, 2006. ANTÔNIO MARIA de Araújo Morais, (“O exercício de piano”), nasceu no Recife/PE (17.03.1921) e faleceu no Rio de Janeiro/RJ (15.10.1964). Cronista e compositor, locutor esportivo e radialista. No Recife, iniciou sua carreira na PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco. Convidado por Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, aceitou dirigir a Rádio Clube do Ceará e, já casado com a pernambucana Maria Gonçalves Ferreira, sua primeira mulher, seguiu para Fortaleza. Posteriormente, mudou-se para Salvador, convidado para a direção das Emissoras Associadas da Bahia. Antônio Maria permaneceu no Nordeste até 1948 quando, mais uma vez, embarcou para o Rio de Janeiro. Diretor do departamento de produção da Rádio Tupi e já assinando uma coluna n’O Jornal, Antônio Maria torna-se, a 20 de janeiro de 1951, o diretor da primeira emissora de televisão instalada no Brasil, a TV Tupi do Rio de Janeiro. Começa, a partir desse mesmo ano, 1951, a compor várias canções em parceria com Fernando Lobo, Vinicius de Moraes, Ismael Neto, entre outros. Teve canções interpretadas por Dolores Duran, Luiz Bonfá e Nora Ney. Como cronista, atuou em vários jornais e revistas, entre os quais Diário Carioca, O Globo, Manchete e Última Hora. Bibliografia: O Jornal de Antônio Maria, crônicas, 1968; Com vocês, Antônio Maria, crônicas, 1994; Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria, 2002; O diário de Antônio Maria, 2002. ARIADNE QUINTELLA, (“Boa tarde”), é jornalista, formada pela Universidade Católica de Pernambuco. Recentemente, concluiu o curso de pós-graduação em Literatura e Arte, pela Universidade Salgado Filho (Universo). Começou sua vida profissional no Movi392

mento de Cultura Popular, na mesma época em que iniciou os estudos universitários, tendo sido professora de alfabetização de adolescentes no Grupo Escolar Vasco da Gama. Depois de concursada, ensinou na Escola Mínima do Alto da Favela e no Grupo Escolar José Vilela. Também foi servidora da antiga Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe). Depois de ter feito estágios no Diario de Pernambuco e trabalhado como freelancer para vários veículos de comunicação, como as revistas Veja e Realidade, jornais da Semana e da Cidade, ingressou no Diario da Noite, ainda como estagiária por um ano, onde fez carreira, de repórter à editora e colunista por bastante tempo, ali assinando a coluna diária “Boa Tarde”, antes assinada por Silvino Lopes e depois por Andrade Lima; migrou para o Jornal do Commercio, da mesma empresa, onde ocupou várias funções, inclusive de redatora, assinando por um bom período uma coluna feminina com seu nome e, posteriormente, duas páginas de Turismo. Foram mais de trinta anos de Redação. É sócia fundadora da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet-PE), membro da União Brasileira de Escritores (UBE-PE), detentora da Medalha do Mérito da OAB de Pernambuco e do Troféu da Imprensa conferido pela AIP em 1997; tem seu nome nos anais da Assembleia Legislativa do Estado e na Câmara Municipal do Recife por matérias publicadas. Tem crônicas e artigos publicados em mais de dez antologias, incluindo uma sobre o Recife, editada pelo jornalista Ronildo Maia Leite. Foi chefe da Assessoria de Imprensa da Fundação Joaquim Nabuco por um largo período de tempo. Atuou como advogada na antiga Assistência Judiciária do Estado. É aposentada como defensora pública. Atualmente, trabalha como revisora das obras editadas pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), e considera a experiência fascinante.
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ARIANO Vilar SUASSUNA, (“Homero existiu?”), nasceu na Paraíba (hoje João Pessoa), capital da Paraíba (16.06.1927). Passou a infância e parte da adolescência no sertão paraibano, na cidade de Taperoá. Mudou para o Recife em 1942, onde vive até hoje. Poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta de renome nacional e internacional, é membro da Academia Brasileira de Letras, além de pertencer às academias dos estados da Paraíba e de Pernambuco. Participou do Teatro do Estudante de Pernambuco, com Hermilo Borba Filho e, com ele, fundou o Teatro Popular do Nordeste. Sua obra teatral, difundida em vários países, é considerada um marco da dramaturgia moderna brasileira. É autor de um dos maiores romances brasileiros, o Romance d’A pedra do reino, cuja primeira edição data de 1971. Foi professor da Universidade Federal de Pernambuco, de 1956 até aposentar-se, em 1989. Idealizador do Movimento Armorial, lançado oficialmente em 1970, ocupou cargos de relevância na área da cultura, tanto no âmbito da prefeitura do Recife quanto no do governo do Estado de Pernambuco. Ao longo de mais de 60 anos de vida literária, colaborou com diversos jornais e revistas do país, publicando artigos, ensaios e crônicas. Bibliografia: Auto da Compadecida, 1955; O santo e a porca, 1957; O casamento suspeitoso, 1957; A pena e a lei, 1959; Farsa da boa preguiça, 1960; Romance d’A pedra do reino, 1971. ARNAUD Soares MATTOSO, (“O leão adormecido acordou com um tapa”), nasceu no Recife/PE, com origens paternas no distrito de Nossa Senhora do Ó, município de Ipojuca. Jornalista, escritor e compositor. Agora, dedica-se a escrever contos e romances. Bibliografia: Publicou uma trilogia poética composta dos livros: Porto das Galinhas d’Angola; Cheiro cola, sim senhor; e Madrigal da solidão.
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ARTHUR Eduardo de Oliveira CARVALHO, (“Retrato na parede”), nascido em Salvador/BA (25.12.1935). Filho de Carlos Koch de Carvalho e de Amália Maria de Oliveira Carvalho. Advogado e jornalista. Colaborador da Imprensa Pernambucana desde 1956. Entre 1956 e 1973, escreveu contos e ensaios literários para os Suplementos Literários do Diario de Pernambuco e do Jornal do Commercio. A partir de 1973, colaborou com crônicas e artigos nas páginas de opinião dos jornais Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio e Diário da Noite. Na página Opinião do Diario de Pernambuco, colaborou durante 21 anos ininterruptamente todas as semanas, de 1973 a 1994. Atual articulista do Jornal do Commercio (artigo semanal), desde 1994. Colaborador da Revista Nordeste (literatura), na década de 1950-1960. Colaborador do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Ex-presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP), eleito no dia 15 de março de 1999, até o ano de 2004. Membro das seguintes academias, associações e instituições: Academia Pernambucana de Letras Jurídicas; Academia Olindense de Letras; Academia de Artes e Letras de Pernambuco; Academia Recifense de Letras; Federação Internacional dos Jornalistas e Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), da qual é membro fundador. Bibliografia: Um reencontro inesperado, crônicas, 1977; Saca-trapo, crônicas, 2ª edição, 1996; Barbosa Lima Sobrinho: monumento vivo, ensaio biográfico, 1997; Escritas atemporais, coautor, 2003; Lua branca, crônicas, 2004. CARLOS Severiano CAVALCANTI, (“No galope da cardã), nasceu em Campina Grande/PB (31.07.1936). Radicado no Recife há 45 anos. Bacharel em Relações Públicas e Comunicação Social pela Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco (Esurp). Poeta, declamador, palestrante, contista. Integra instituições
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culturais como: Instituto Histórico de Olinda; Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda; Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda (presidente); Academia Olindense de Letras; Academia Recifense de Letras; Alane, Sobrames, União Brasileira de Trovadores (UBT) e UBE-PE. Participa das seguintes coletâneas de poesias e contos: Poetas vivos de Olinda; Letras e Artes da Alane. Colabora com as revistas: Oficina de Letras, da Sobrames, e Revista Letras e Artes, da Alane, e tem poemas publicados em Francachela, Revista Internacional de Literatura e Arte, dirigida por José E. Kameniecki, Buenos Aires, Argentina. Bibliografia: Caminhos da vida, 1997; Prêmio De Lyra e César, de poesias, da Academia Pernambucana de Letras, 2000; Reflexos de terra e sol, 2001; Sertanidade, 2004; Menção Honrosa da Academia Pernambucana de Letras, ano 2006, e Tema de Mestrado em Língua Portuguesa: O popular e o erudito na poesia brasileira na UFPE; nome de mesa na Festa Literária de Paraty, RJ, 2007. Sertanidade foi também editado em linguagem Braille pelo Instituto São Manoel para estudantes invisuais da cidade do Porto, Portugal, 2010. Seus poemas foram gravados em DVD, com ilustrações elaboradas por estudantes das Escolas Rodrigues de Freitas, Porto, e Diogo Bernardes, de Ponta da Barca, ambas ao Norte de Portugal. Técnicas de metrificação poética, 2007, em parceria com Salete Rêgo Barros e Terezinha Acioli; Na ponta da língua: guia do escritor, 2008; A gênese do tempo, poesias, Menção Honrosa do Prêmio Edmir Domingues, da APL; Histórias sertanejas, contos, 2009; Tresafio: motes e glosas, em parceria com Paulo Camelo e Rosa Lia Dinelli; Trovalizando a redondilha, trovas; e Retrospectivas, crônicas, inéditos. Carlos Cavalcanti, Telma Brilhante e Lourdes Nicácio e Silva organizaram a antologia Paisagem da memória, com trabalhos de 73 autores, lançada recentemente no Recife pela Novo Horizonte.
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CARLOS NEWTON de Souza Lima JÚNIOR, (“Procurado”), nasceu no Recife/PE (07.09.1966). Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é formado em Arquitetura e em História, com mestrado e doutorado em Literatura. Sua poesia se encontra publicada em antologias no Brasil, na Espanha (Galícia) e em Portugal. Organizou os poemas de Ariano Suassuna, para a editora universitária da UFPE (Poemas, 1999), os ensaios do mesmo autor, para a editora José Olympio (Almanaque Armorial, 2008), a poesia reunida de Paulo de Tarso Correia de Melo, para a editora universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Talhe rupestre, 2008) e o álbum iconográfico Portal da Memória, 2005, publicado pelo Senado Federal por ocasião do cinquentenário da UFRN, instituição na qual lecionou durante dezessete anos. Em 2009, publicou O cangaço na poesia brasileira, reunindo a produção de poetas eruditos sobre o tema. Possui artigos, contos e crônicas publicados em diversos jornais e revistas de circulação nacional. Bibliografia: No campo do ensaio, publicou, entre outros, A Ilha Baratária e a Ilha Brasil, 1996; O pai, o exílio e o reino: a poesia armorial de Ariano Suassuna, 1999; e O quinto naipe do baralho, 2002. No campo da prosa de ficção, publicou Honorato, o bom-deveras, 1998; e Vida de Quaderna e Simão 2003. Estreou na poesia em 1993, com O homem só e outros poemas, publicando ainda Canudos: poema dos quinhentos, 1999; Nóstos, 2002; Poeta em Londres, 2005; e De mãos dadas aos caboclos, 2008. CARLOS Souto PENA FILHO, (“Lembrança do mundo antigo”), nasceu no Recife/PE (17.05.1929) e faleceu na mesma cidade (01.07.1960). Descendente próximo de portugueses, aos quatro anos de idade foi morar na casa de familiares em Portugal. Em 1941, retornou ao Recife, onde frequentou o curso secundá397

rio no Colégio Nóbrega, e em seguida passou a estudar Direito. Seu primeiro trabalho como poeta, o soneto “Marinha”, foi publicado em 1947 pelo Diario de Pernambuco. Bacharelou-se em Direito em 1957. Foi, também, compositor, em parceria com Capiba, com quem compôs as canções A mesma rosa amarela, Claro amor, Pobre canção e Manhã de tecelã, todas gravadas em 1960, sob o título Sambas de Capiba. Na imprensa do Recife, atuou como repórter político, mas, segundo seus contemporâneos, não tinha a menor vocação para o jornalismo, sua paixão era mesmo a poesia. Com o Livro geral, conquistou, em 1959, o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro. A 26 de junho de 1960, o Jornal do Commercio, do Recife, publicou o seu último trabalho, o poema Soneto oco. Bibliografia: O tempo da busca, Recife: Região, 1952; Memórias do boi Serapião, 1955; A vertigem lúcida, 1958; Livro geral, 1959; Livro geral, 1969; Livro geral, 1973; Livro geral (formato álbum, edição de luxo), 1977; Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. Seleção de Edilberto Coutinho, 1983; 2. ed., 1986. CÁSSIO CAVALCANTE, (“Presente de grego”), nascido em Fortaleza/CE. Administrador. Casado, radicado no Recife há mais de 15 anos. Secretário-geral da União Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco (UBE-PE), membro efetivo da Academia Recifense de Letras e Relator da Comissão Deliberativa do Funcultura. Colunista do jornal Gazeta Nossa com a coluna “Bate-papo literal”. Seu início na literatura se deu em 2004, como contista, quando participou com o conto “O sorriso de Lígia”, da antologia Contos de Oficina, organizada pelo escritor Raimundo Carrero. Tem mais de 20 contos publicados em livros, revistas, jornais e internet. Em 2009, coordenou o programa literário da UBE-PE: “A ficção em Pernambuco”, na livraria Saraiva. Coordena o programa da mesma en398

tidade literária, “Cultura e Arte em Pernambuco”, na livraria Cultura. Bibliografia: Os mistérios de cada um, 2007; e Nara Leão, a musa dos trópicos, 2009. CELSO MARCONI, (“As três vezes que vi Che”), nasceu em Pernambuco (23.08.1930). Jornalista e cineasta. Sua relação com o cinema vem desde os anos 1940. Na década de 1950, estudou na Faculdade de Filosofia da UFPE, quando começou a escrever sobre filmes nos jornais Folha da Manhã e Folha do Povo. Sua vida profissional no jornalismo começou na década de 1960, como repórter no Diario de Pernambuco. Foi colunista diário da Última Hora em 1963-1964. No Jornal do Commercio, trabalhou de 1966 a 1989. Lecionou na década de 1990 na Universidade Católica de Pernambuco. Bibliografia: Obra jornalística de Celso Marconi, 2000; Super 8 e outros: cinema brasileiro, 2002. Em breve, será lançado o DVD duplo O cinema de Celso Marconi. CELSO RODRIGUES da Silva, (“O espelho como testemunha”), nasceu em Caruaru/PE (28.07.1929). Aos 11 anos de idade, começa a trabalhar nas oficinas do jornal Vanguarda. Posteriormente, emprega-se no Jornal de Caruaru. Funda e edita a Revista do Agreste. Cria, em Campina Grande, PB, o semanário O Momento; diretor do Treze Futebol Clube; presidente do Esporte Clube Campinense; gerente da Rádio Difusora de Garanhuns; implanta a Rádio Cultura do Nordeste. Entre 1954 e 1962, assume a presidência da Câmara dos Vereadores de Caruaru. Candidata-se a prefeito de Caruaru em 1963. Foi um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Redator do Jornal Pequeno, no Recife, e editor geral do Jornal do Commercio. Mais recentemente, foi membro do Conselho de Direitos Humanos da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP).
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Bibliografia: Amo teu amor, Juliana: homens, mulheres, fatos e ideias do meu tempo, crônicas, ensaios, poesias, biografias, homenagens, 2006. CICERO BELMAR, (“A chuva”), pernambucano, é escritor e jornalista. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Prefeitura do Recife, nos anos de 2000 e 2005, pelos romances Umbilina e sua grande rival e Rossellini amou a pensão de dona Bombom. Este último também recebeu o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, em 2005. Além de romancista, ele é autor de outros livros de contos e biografias, além de peças teatrais infantis, como a Floresta encantada, Coração de mel, Meu reino por um drama e A flor e o sol. Esta última foi premiada pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), quando montada pela primeira vez em 1999. Como jornalista, Cícero Belmar já exerceu várias funções e assumiu diversos cargos na Imprensa pernambucana. Foi editor executivo por 12 anos do Jornal do Commercio e também trabalhou na TV Tribuna (Recife), na TV Manchete (Sucursal Recife), no Diario de Pernambuco, na Agência de Publicidade Gruponove e no Jornal do Brasil (Sucursal Recife). Recebeu duas vezes o Prêmio Cristina Tavares de Reportagem, em 1993 e em 1995. Foi indicado para o Prêmio Esso de Reportagem Regional – Nordeste. CLARICE LISPECTOR, (“As grandes punições”), nasceu em Tchetchelnik/Ucrânia, faleceu no Rio de Janeiro/RJ (10.12.1925-09.12.1977). Estreou em 1944, com o romance Perto do coração selvagem. Chegou ao Recife ainda de berço, com a emigração de seus pais. Cursou o Grupo Escolar João Barbalho e, em seguida, o Ginásio Pernambucano. A família transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1934, onde continuou os estudos, até chegar à Faculdade de Direito. Casou-se
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com o colega de turma e diplomata Mauri Gurgel Valente, e passou a residir no exterior por muitos anos, em lugares como Berna, Suíça e nos Estados Unidos, até voltar para o Brasil e se fixar no Rio de Janeiro. O Recife é sempre lembrado em sua obra, pelo fato de ter vivido parte da infância na cidade e de ter absorvido a poesia de lugares, festas, pessoas e ritos da capital pernambucana. Bibliografia: Perto do coração selvagem, rom., 1944; O lustre, rom., 1946; A cidade sitiada, rom., 1949; Alguns contos, 1953; Laços de família, contos, 1960; A maçã no escuro, rom., 1961; A legião estrangeira, contos e crônicas, 1964; A paixão segundo G. H., rom., 1964; A mulher que matou os peixes, 1968; Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, rom., 1969; Felicidade clandestina, contos, 1971; A imitação da rosa, contos, 1973; Água viva, prosa, 1973; Lazos de família, contos, 1973; A via-crúcis do corpo, contos, 1974; Onde estiveste de noite?, contos, 1974; De corpo inteiro, entrevista, 1975; Visão do esplendor, crônicas, 1975; Seleta, contos, rom., 1975; Contos escolhidos, 1976; A hora da estrela, rom., 1977; Para não esquecer, crônicas póstumas, 1978; Um sopro de vida, prosa póstuma, 1978; A bela e a fera, contos póstumos, 1979; A descoberta do mundo, crônicas, 1984. CRISTIANO RAMOS, (“Saramago, José, literatura”), pernambucano de Bonito, é jornalista e crítico literário. Publicou textos nas revistas Cult e Continente, no Jornal do Commercio, no Diario de Pernambuco, n’O Estado de S. Paulo e no Rascunho. Entre 1999 e 2009, militou no jornalismo público e educativo, primeiro como produtor e coordenador de programação da Rádio Universitária AM e apresentador da Universitária FM, depois como apresentador do Opinião Pernambuco, espaço de entrevistas e Debates da TVU (Canal 11/ PE). Neste televisivo, a partir de 2004, acumulou também a direção, e criou o segmento Sexta Cultural, que
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contou com a presença de convidados e dos comentaristas fixos Rubem Rocha Filho, Raimundo Carrero, Jomard Muniz de Britto, Nelly Carvalho, Fernando Monteiro, Anco Márcio Tenório Vieira, entre outros. Atualmente, desenvolve pesquisa na pós-graduação de Letras da UFPE, com estudo comparado sobre o romance e o chamado livro-reportagem. Está também como curador do Laboratório de Crítica e Literatura. CYL GALLINDO (Cícero Amorim G.), (“50 Anos de Brasília”), nasceu em Buíque/PE (28.05.1935). Diplomado em Ciências Sociais pela UFPE. É escritor, poeta, jornalista e conferencista. Trabalhou na Assessoria de Comunicação do Senado Federal e de outras repartições públicas. Foi repórter, redator, editor e colunista de jornais de Pernambuco, Brasília e Mato Grosso, além de correspondente do Jornal de Letras, RJ. Produziu e apresentou o programa Síntese na TV Universitária, Recife, e colaborou com o jornal Gazeta do Povo, Paraná. É membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia de Letras do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Associação Nacional dos Escritores, Brasília, DF, e da União Brasileira de Escritores/PE. Foi membro (fundador) do Conselho Municipal de Cultura do Recife. Teve e tem amizade com grandes nomes da Literatura Brasileira, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Gilberto Freyre, Mauro Mota, Nélida Piñon, Anderson Braga Horta, José Santiago Naud e muitos outros. Atualmente, representa no Brasil a Francachela, Revista Internacional de Literatura e Arte, editada na Argentina. É diretor da Coleção Integração Cultural Latino-Americana (CICLA) destinada à tradução e publicação de obra de autores brasileiros contemporâneos, na Argentina, e faz parte do Conselho Editorial da revista Encontro, do Gabinete Português de
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Leitura/PE. A 18.11.2004 recebeu o título de Cidadão do Recife e a Medalha José Mariano, concedidos pela Câmara Municipal do Recife, sob proposta do vereador Paulo Dantas. Bibliografia: Agenda poética do Recife: antologia dos novíssimos, prefácio de Joaquim Cardozo, 1968; A conservação do grito-gesto, poesia, 1971, Prêmio de Poesias da APL; As galinhas do coronel, contos, 1974; Prêmio Revista Equipe, Recife; O urbanismo na literatura: contistas de Pernambuco, antologia, 1976; Um morto coberto de razão, contos, 1985. Prêmio de Ficção da APL; Contos de Pernambuco, antologia, org. Cyl Gallindo, 1988; Livro para minha idade / O menino e o peixe, infanto-juvenil, em parceria com sua filha Guajassy 1989; Quanto pesa a alma de um homem – Quanto pesa a alma de uma mulher, contos, 1994; Os movimentos, poesia, 1996; 20 Poemas escolhidos – Por Waldemar Lopes, 1999; Cadeira de Dinah, Discurso de posse na Academia de Letras do Brasil, 1999; Em defesa da língua portuguesa, ensaio, 2000; Milagre no jardim da casa-grande, conto, 2003; De como descobri que não existo, contos, 2007, traduzido para o espanhol por Jorge Ariel Madrazo, 2007. ESTHER STERENBERG, (“Caco de vidro”), nasceu em João Pessoa/PB (20.02.1936). É psicóloga, poetisa, professora e escritora. Faz parte das Academias Recifense de Letras e Irajaense de Letras, RJ, da União Brasileira de Escritores, seção de Pernambuco, do Instituto Internacional de Poesia de Porto Alegre e do Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisa Literária de Brasília, DF. Tem textos em diversas antologias, coletâneas e enciclopédias nos planos local e internacional e vem conquistando prêmios e condecorações literárias. Bibliografia: Desabrochar de emoções, poemas, 1989; Retalho de fantasias, poemas, 1990; Eis aí... aconteceu, crônicas, 1993; Re-buscando, poemas, 1997; Pingos d’alma, poemas, 1999; Reflexões de outono, poemas,
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2001; Ainda sei atirar flores, poemas, 2004; Versos diversos... um voo na amplidão, poemas, 2007; Décimo segundo, poemas, 2009; EVERARDO NORÕES (José EVERARDO Arraes de Alencar NORÕES), (“Um certo padre Gomes”), nasceu no Crato/CE. Publicou os livros Poemas argelinos, 1981; Poemas (Prêmios Literários Cidade do Recife), 2000; Nas entrelinhas do mundo, 2002; A Rua do Padre Inglês, 2006; Retábulo de Jerônimo Bosch, 2008; Poeiras na réstia, 2010; e é coautor do texto das peças Auto das portas do céu e Nascimento da bandeira. Escreve artigos e crônicas para diversos jornais e revistas e teve seus poemas traduzidos para várias línguas, dentre as quais francês, espanhol e italiano. Maria de FÁTIMA de Andrade QUINTAS, (“Um cheiro, por favor”), nasceu no Recife/PE. Diplomouse em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tendo sido pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco durante 37 anos. Realizou cursos de pós-graduação em Antropologia Cultural e Museologia no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina e no Museu das Janelas Verdes, respectivamente. Nos dias atuais é Coordenadora do Instituto de Tropicologia da Fundação Gilberto Freyre, articulista semanal do Jornal do Commercio (desde 1987) e professora universitária. Publicou diversas obras de Antropologia e vem se dedicando à Literatura com ênfase na linguagem intimista – contista e romancista. É membro da União Brasileira de Escritores (UBEPE), da Academia Recifense de Letras e da Academia Pernambucana de Letras (APL). Bibliografia: Sexo e marginalidade: estudo sobre a sexualidade feminina em camadas de baixa renda, 1987; O cotidiano em Gilberto Freyre, org. 1992; Mulher negra: preconceito, sexualidade e imaginário, org. 1995; O
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negro: identidade e cidadania, org. 1995; Manifesto regionalista, Gilberto Freyre, org. 1996; De névoas e brumas, 1999; A obra em tempos vários, org. 1999; A mulher e a família no final do século XX, 2000; Novo mundo nos trópicos, org. 2001; Frevo no pé, 2001; Prece confessional, 2002; Segredos da velha arca, 2003; Evocações e interpretações de Gilberto Freyre, org. 2004; O silêncio das horas, 2004; Oficina literária Clarice Lispector, org. 2005; As melhores frases de Casa-grande & senzala: a obra-prima de Gilberto Freyre, 2005. Opúsculos: Educação sexual: um olhar adiante, 1992; Discurso de posse para a Academia Pernambucana de Letras, 2003; A ilustre casa dos fantasmas, rom., 2007, e mais dezenas de artigos publicados no Jornal do Commercio. FERNANDO Antônio de Barros MONTEIRO, (“Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...”), nasceu no Recife/PE (20.05.1949). Diplomado em Ciências Sociais. Estudou Comunicação em Roma, Itália. Poeta, escritor, cineasta e crítico de arte. Como autor de curtas-metragens culturais, representou o Brasil em inúmeros festivais internacionais (Guadalajara, Berlim, Varsóvia etc.) e, como romancista, lançou-se em Portugal, com o premiado Aspades, ETs Etc, 1997, prosseguindo com obras de ficção no gênero do romance e do conto. Recentemente retornou ao verso através de Vi uma foto de Anna Akhmátova, 2009 – um poema longo com impacto nacional e repercussão crítica imediata. Bibliografia: Memória do mar sublevado, poema longo, 1973; O rei póstumo, teatro, 1974. Prêmio Othon Bezerra de Mello da Academia Pernambucana de Letras; Leilão sem Pena, poema e roteiro cinematográfico, 1980. Prêmio de Melhor Roteiro no Festival Nacional de Cinema de Aracaju; Ecométrica, poesia, 1983. Prêmio Nacional de Poesia UBE-Rio; Hiléiade, poema longo; A interrogação dos dias, poesia, Edições
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1984; Akhenaton: ascese & revolução, ensaio; e Brennand, ensaio, 1987. Prêmio Funarte de Melhor Livro de Arte brasileiro; Aspades, Ets Etc, rom., 1997; A cabeça no fundo do entulho, rom., 1999. Prêmio Revista Bravo! de Literatura; T. E. Lawrence: morte num ano de sombra, ensaio, 2000; A múmia do rosto dourado do Rio de Janeiro, rom., 2001; O grau Graumann, rom., 2002. Primeiro volume da Trilogia Graumann; Armada América, contos, 2003; Finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, 2004; As confissões de Lúcio, rom., 2006; Segundo volume da Trilogia Graumann; O nome de um hamster, infanto-juvenil, 2008. Vi uma foto de Anna Akhmátova, 2009. FERNANDO PORTELA, (“Mambo-Jambo deve morrer”), nasceu em Olinda/PE. Estreou na imprensa como contista e poeta no suplemento literário do Jornal do Commercio, do Recife, no início dos anos 1960. Aluno do Curso de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco, jamais seguiu a carreira. Aos 13 anos, começou a escrever ficção, sempre contos. Aos 15, entrou numa redação de jornal pela primeira vez, como estagiário do Diário da Noite, do Recife; aos 20 anos, foi redator na sucursal nordestina da então Norton Publicidade. Em São Paulo desde 1965, trabalhou para inúmeras publicações nacionais, como a mítica revista Realidade, mas fez carreira no Jornal da Tarde, do Grupo Estado, de que foi um dos fundadores; ocupou os cargos de repórter, redator, pauteiro, chefe de reportagem, editor-geral e repórter especial. E, mais recentemente, diretor de projetos especiais. Fernando Portela também trabalhou como responsável pela imagem corporativa da Fiat do Brasil, representante da holding italiana no País. Dirigiu a comunicação do grupo, de 1989 a 1998. Em abril de 1998, Fernando Portela voltou ao Jornal da Tarde, como diretor de projetos especiais. O trabalho de Fernando Portela, en406

tre outros profissionais do antigo Jornal da Tarde, tem sido estudado em cursos de jornalismo pelo País; seu nome costuma ser associado ao tratamento do texto (o chamado new journalism) e à reportagem especial. Sempre escrevendo ficção, o autor mantém o blog http://fernandoportela.wordpress.com/ Bibliografia: Guerra de guerrilhas no Brasil, reportagem sobre o movimento guerrilheiro do Araguaia, depois transformada em livro; Fronteiras, viagem ao Brasil desconhecido, com o jornalista Cláudio Bojunga; Além do normal; Drogados da vida; Amei de paixão, 1999; Allegro, contos, 2003; O homem dentro de um cão, 2007, segundo volume de uma trilogia iniciada com o Allegro. O homem dentro de um cão foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti, na sua categoria. Em 2008, fechou a trilogia com o livro Memórias embriagadas. FLÁVIO Ricardo CHAVES Gomes, (“Saudade iluminada”), nasceu em Carpina/PE (17.10.1958). Iniciou na Literatura com o livro Digitais de um coração, poesia, 1983. Idealizou e organizou, no Recife, a I Caminhada Poética Brasileira, tendo continuidade com a segunda e terceira edições. É membro das seguintes academias: Pernambucana de Letras, Recifense de Letras e da Maçônica de Letras. Pertence também à Ordem dos Jornalistas do Brasil, à Sociedade de Médicos Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico de Carpina. Na União Brasileira de Escritores (UBEPE), foi presidente, nos biênios 1995-1996, 19971998, 1999-2000, reeleito para o biênio 2001-2002. Bibliografia: Digitais de um coração, 1983; Ofício de existir, 1985; Vocabulário das sombras, 1990; Alvoroço do invisível, 1992; Aragem do subterrâneo, 1994; Território da lembrança, 1999; todos de poesias. Tem inéditos Lua azul, poesia, e Rosto no escuro, rom.

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FRANCISCO de Paula Coimbra de Almeida BRENNAND, (“Um universo e uma escultura”), nasceu no Recife/PE (11.6.1927). Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador, gravador. Inicia sua formação em 1942, aprendendo a modelar com Abelardo da Hora. Posteriormente, recebe orientação em pintura de Álvaro Amorim e Murillo La Greca. No fim dos anos 1940, pinta principalmente naturezasmortas, realizadas com grande simplificação formal. Em 1947, recebe o primeiro prêmio de pintura do Salão de Arte do Museu de Pernambuco, com o quadro de uma paisagem inspirada no Engenho São João. Em 1949, viaja para a França, incentivado por Cícero Dias. Frequenta cursos com André Lhote e Fernand Léger em Paris, em 1951. Conhece obras de Pablo Picasso e Joán Miró e descobre na cerâmica seu principal meio de expressão. Em 1958, inaugura o mural do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife; e, entre 1961 e 1962, realiza uma das obras mais significativas da sua carreira: Batalha dos Guararapes, para uma agência do Banco da Lavoura de Minas Gerais, no Recife. O painel trata da expulsão dos holandeses do Brasil. Em novembro de 1971, o artista começou a reconstruir a velha Cerâmica São João da Várzea, fundada pelo seu pai em 1917. Esse conjunto, encontrado em ruínas, deu início a um colossal projeto de esculturas cerâmicas que deveriam povoar os espaços internos e externos do ambiente. Hoje, após quase 40 anos de trabalho intenso e obsessivo, confrontamo-nos com um complexo escultórico, cujo significado dá relevo a um sentido cosmogônico e, ao mesmo tempo, visionário de Francisco Brennand. Em 1993, é realizada grande retrospectiva de sua produção na Staatliche Kunsthalle, em Berlim. É publicado o livro Brennand, pela editora Métron, com texto de Olívio Tavares de Araújo, em 1997. Em 1998, é realizada a retrospectiva Brennand: escultu408

ras 1974-1998, na Pinacoteca do Estado (PESP), em São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand: oficina de mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão, em 2000. Sua obra recebeu diversos prêmios, sendo o mais importante deles o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, concedido pela Organização dos Estados Americanos (OEA), Washington, Estados Unidos, em 1993. FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO, (“A lei de Corisco”), nasceu no Recife/PE. Possui formação em História e Direito, sendo Procurador Federal [aposentado]. Na Fundação Joaquim Nabuco, integrou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre, de 1972 a 1987, período em que se especializou, sob a orientação deste, no estudo da História Social da região Nordeste do Brasil, especialmente em seus aspectos de conflito. Possui diversos prêmios literários, a exemplo dos concedidos pela Academia Pernambucana de Letras e pelo Governo do Estado de Pernambuco, através da Fundarpe, além de distinções honoríficas civis e militares, dentre as quais, a Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco, a Medalha do Pacificador e a Ordem do Mérito Militar do Exército Brasileiro. É membro dos Institutos Históricos de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, e da Academia de História Militar Terrestre, tendo sido curador internacional da Fundação Bienal de São Paulo por cinco anos, e presidente da União Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco. Na Academia Pernambucana de Letras, ocupa a Cadeira nº 36 desde o ano de 1988. Pela originalidade de seus estudos, pelo volume da obra que produziu, e por se dedicar a aspectos de nossa história considerados ásperos e de pesquisa difícil ou penosa, tem sido considerado, sobretudo no meio
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acadêmico paulista, o “historiador do Brasil profundo”, na palavra do professor Nelson Aguilar. Bibliografia: Rota batida: escritos de lazer e de ofício, 1983; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, 1985 [ora em 5ª edição pela Editora A Girafa, de São Paulo, a partir de 2004]; Quem foi Lampião, 1993 [ora em 3ª edição]; A guerra total de Canudos, 1997 [ora em 2ª edição pela Editora A Girafa, de São Paulo, a partir de 2007]; Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, 1998; Tragédia dos blindados: a Revolução de 30 no Recife, 2007; Estrelas de couro: a estética do cangaço, 2010; conclui, também em livro, a biografia Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros. GENETON MORAES NETO, (“O dia em que o autor de Morte e vida severina desabafou contra o exibicionismo: “ninguém é tão interessante para falar de si mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista de hoje?)”), nasceu no Recife/PE (13.07.1956). Pressentiu desde cedo que “não tinha a menor vocação para exercer profissões realmente importantes”: por esse motivo, aos treze anos, em 1970, já era um praticante amador do jornalismo – em artigos que tentavam clonar o estilo bombástico de David Nasser, no suplemento infantil do Diario de Pernambuco. Entre 1975 e 1980, trabalhou – primeiro, no Diario de Pernambuco; depois, na sucursal Nordeste de O Estado de S. Paulo – sempre como “repórter da geral”. Em Paris, foi camareiro do Hotel Mônaco, motorista de uma família rica e estudante de Cinema na Sorbonne. De volta ao jornalismo, no Brasil, trabalhou na Rede Globo Nordeste como editor e repórter. Entre idas e vindas, trabalha na Rede Globo/Rio desde 1985. Foi editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional; correspondente da Globonews e do jornal O Globo em Londres; repórter e editor-chefe do Fantástico por
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duas vezes. Não troca por nada o exercício da reportagem – “a única função realmente importante no jornalismo”. Teve a chance de percorrer corredores da morte em prisões de segurança máxima americanas, ruínas de campos de concentração na Alemanha, além de entrevistar três astronautas que pisaram na Lua, duas sobreviventes do naufrágio do Titanic, o copiloto do avião que jogou a bomba atômica sobre Hiroshima, o produtor de todos os discos dos Beatles, o assassino do líder negro Martin Luther King, o promotor britânico que comandou a condenação dos criminosos nazistas no Tribunal de Nuremberg, o agente secreto britânico que armou um atentado – frustrado – para matar Hitler, o golpista que engendrou o célebre Assalto ao Trem Pagador inglês. Organizou, em 2006, O livro das grandes reportagens: os bastidores de encontros com personagens inesquecíveis, em 2004; Joel Silveira: diário do último dinossauro. Tem participação também nos livros Ciro Gomes no país dos conflitos, 1994; e Grandes entrevistas do milênio, 2009. Bibliografia: Caderno de confissões brasileiras – dez depoimentos, palavra por palavra: Antônio Callado, Ariano Suassuna, Caetano Veloso, Carlos Diegues, Fernanda Montenegro, Ferreira Gullar, João Câmara, Joaquim Cardozo, Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer e Fernando Gabeira, 1983; Cartas ao planeta Brasil: entrevistas com Anthony Burgess, Arnaldo Jabor, Daniel Cohn-Bendit, Francisco Julião, Gilberto Freyre, Gilberto Gil, Gregório Bezerra, Henfil, Dom Helder Camara, João Cabral de Melo Neto, João Saldanha, Luiz Gonzaga, Pete Best, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Ronald Edwards,1988; Hitler/Stalin: o pacto maldito: tudo sobre o acordo que estarreceu o mundo e suas repercussões na Esquerda brasileira – em parceria com Joel Silveira, 1990; Nitroglicerina pura / Documentos que passaram 50 anos escondidos em Londres e Washington traçam um perfil devastador
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da elite política brasileira – em parceria com Joel Silveira, 1992; O dossiê Drummond: a última entrevista do poeta..., 1994; edição revista e atualizada, 2007; Dossiê Brasil, 1997; Dossiê 50: os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro, 2000; Dossiê Moscou: um repórter brasileiro acompanha, em Moscou, o desfecho da mais fascinante reviravolta política do século XX: o dia em que começou a busca por uma nova utopia, 2004; Dossiê Brasília: quatro ex-presidentes da República revelam cenas dos bastidores do poder, 2005; Dossiê história: um repórter encontra personagens e testemunhas de grandes tragédias da história mundial: o 11 de setembro, o atentado às Olimpíadas de Munique e o pesadelo nazista. Capítulo extra: as lições do repórter que derrubou um presidente, 2007; Dossiê Gabeira: o filme que nunca foi feito, 2009. GEÓRGIA ALVES, (“Recife inverno”), jornalista com Especialização em Literatura Brasileira. Monografia apresentada no curso de pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco no ano de 2002, sobre o tema A felicidade em Clarice Lispector. Premiada com o ensaio Sobre o amor, em Clarice Lispector, ParaAmarClarice, em 2007. Ainda não publicado. Colunista da Revista Literária Interpoética. Coluna Dacordafelicidade. Cursos sobre a História do Cinema Documentário e Linguagem Cinematográfica. Diretora e Roteirista do curta-metragem O triunfo. Inspirado no primeiro conto de Clarice Lispector. Menção Honrosa Sindicine na Mostra Pernambuco do CinePE 2008; 1º Lugar ParaAmarClarice; 3º Lugar Mostra Competitiva de Pernambuco. Também documentarista e autora do blog: http://dacordafelicidade.blogspot.com/. Outros textos publicados no Jornal de Ideias como: O universo da literatura infantil; Trinta anos d’A hora da estrela; Os infantis de Clarice e Gratidão às palavras.
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GERALDO José Marques PEREIRA, (“O Recife iluminado e belo”), nasceu no Recife/PE (04.10.1944). É médico e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), de onde foi Reitor. Atualmente é conselheiro do Conselho Estadual de Cultura. É presidente da Academia Pernambucana de Medicina e pertence à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores; ao Instituto Pernambucano de História da Medicina e à Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Publicou vários trabalhos científicos voltados para a Medicina Tropical, numa abordagem da epidemiologia e da ecologia, bem como numa perspectiva das ciências sociais. Mantém um blog na internet, no qual publica semanalmente crônicas de sua autoria <http://www. blogdegeraldopereira.blogspot.com>. Colaborador do Jornal do Commercio, do Recife, desde a década de 1980, publicando crônicas e artigos de opinião. Bibliografia: Esquistossomose urbana: a propósito de um foco; Aspectos econômicos e sociais da saúde e da nutrição em Pernambuco; A medida das saudades, crônicas; Fragmentos de meu tempo, crônicas; Histórias pitorescas de um reitor e o pitoresco de outras histórias; Bezerra Coutinho: um sábio pernambucano do século XX, 2010. GILBERTO de Mello FREYRE, (“Do horrível mau hábito de falar gritando”), nasceu no Recife/PE (15.03.1900). Filho de Alfredo Freyre, educador, juiz de Direito e catedrático de Economia Política na Faculdade de Direito do Recife e de Dona Francisca de Mello Freyre. Na capital pernambucana, fez o curso primário, ministrado pelo professor inglês Mr. Williams, estudou francês com Madame Meunier, desenho com o pintor Telles Júnior e latim com seu pai. O curso secundário foi feito no Colégio Americano Gilreath, cuja pedagogia se baseava no incentivo à leitura dos bons autores como base do conhecimento. Nos Estados Unidos, tornou-se bacharel em Artes Li413

berais pela Universidade de Baylor (Waco, Texas). Na Universidade de Colúmbia (Nova York), realizou estudos pós-graduados de Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, obtendo o grau de Mestre (M.A.) com a dissertação Vida social no Brasil nos meados do século XIX. Criador de um estilo literário em língua portuguesa, talvez o mais notável, segundo alguns, desde Eça de Queiroz. Fundador do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, quando Deputado Federal pelo Estado de Pernambuco, do Seminário de Tropicologia, da Universidade Federal de Pernambuco. Considerado por alguns o fundador de uma ciência: Tropicologia, juntamente com uma Hispanotropicologia e uma Lusotropicologia. Conhecido pelos seus conceitos de tempo tríbio, morenidade e metarraça, e consagrado pela Sorbonne como abridor de novos caminhos às Ciências do Homem. Realizou uma vasta obra de interpretação da cultura brasileira, muito especialmente no entendimento das relações sociais nas regiões agrárias do Brasil, nas quais o patriarcalismo rural e o paternalismo senhorial são faces dominantes da realidade. Além do estudo da própria identidade do Brasil e do brasileiro, o conjunto da obra de Gilberto Freyre, na sua vastidão e diversidade, retrata a terra, a vida, as coisas, os animais, os fatos do cotidiano, a casa, a moda. São dele, pioneiramente, os mais sérios e aprofundados estudos sobre o Nordeste e o Trópico, interessando-lhe, sobretudo, o homem situado nesses espaços geográficos, considerando todas as circunstâncias dessa localização e avaliando as consequências daí decorrentes. Foi o escritor brasileiro que recebeu as maiores distinções, o maior reconhecimento de universidades e instituições brasileiras e estrangeiras. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Colúmbia, Baylor, Oxford, Sorbonne, Munique, Salamanca e homenagens dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra, de Portugal, da
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Espanha, entre outras. Foi distinguido com o título de “Sir” Cavaleiro do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II da Inglaterra, recebeu o Prêmio Internacional La Madoninna e o Prêmio Aspen pelo que há de original, excepcional e de valor permanente em sua obra. Foi eleito, por aclamação, Membro da Academia Pernambucana de Letras, ocupando a Cadeira nº 23. Extremamente afeiçoado aos seus familiares, à sua casa, aos seus livros, ao seu bairro, aos seus amigos e a todo um mundo que foi construindo ao longo dos seus 87 anos de vida, Gilberto Freyre passou a maior parte da sua existência na casa conhecida como Vivenda Santo Antônio de Apipucos, no Recife. Dali, da colina de Apipucos, exerceu uma notável e renovadora influência no campo das Ciências Humanas e na evolução dessas ciências no Brasil. Bibliografia: Casa-grande & senzala; Sobrados e mucambos; Ordem e progresso; Nordeste; Sociologia; Novo mundo nos trópicos; Aventura e rotina; Além do apenas moderno; Tempo morto e outros tempos; Açúcar; entre muitos outros. GLADSTONE VIEIRA BELO, (“Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo”), nasceu em Bom Conselho/PE, residiu por dez anos em Garanhuns, realizando nessa cidade as suas primeiras experiências no campo da literatura. É vice-presidente do Diario de Pernambuco, onde exerceu inicialmente as funções de repórter e colunista literário, a partir de 1967. Antes dessa data ele já colaborava no seu Suplemento Literário, editado pelo poeta César Leal. Era notado aí pelos seus textos de crítica literária. Com os estímulos de César Leal, surge, nas páginas do Diario, um grupo de novíssimos escritores, base do que Tadeu Rocha denominou de Geração 65. Gladstone foi ativo integrante dessa Geração, convivendo com Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marco Polo Guimarães, Sérgio Moacir de Al415

buquerque, Laércio Vasconcelos, Raimundo Carrero, Maximiano Campos, Marcus Prado, Tarcísio Meira César, Arnaldo Tobias, Cláudio Aguiar, José Mário Rodrigues, Marcus Accioly, José Carlos Targino, Almir Castro Barros, entre outros jovens autores que começavam a marcar presença na vida intelectual da província. Alguns desses poetas e romancistas habitualmente frequentavam, para tertúlias, o extinto bar Savoy, celebrizado por Carlos Pena Filho num poema em que se refere, através de versos antológicos, ao outrora concorrido botequim da Avenida Guararapes. Publicou livro de poemas quando ainda morava em Garanhuns, A face despida, com prefácio de Erasmo Vilela. Seu nome está entre os poetas participantes da Lírica, histórica coletânea lançada no Recife por Eloi-Editor. Exerceu também o cargo de assessor de imprensa do antigo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, na época em que Mauro Mota dirigia aquele órgão, posteriormente transformado em Fundação. É hoje um dos membros da diretoria da Sociedade Eça de Queiroz, presidida pelo escritor Dagoberto Carvalho Júnior. Faz parte do Condomínio Acionário dos Diários e Emissoras Associados, instituído pelo jornalista Assis Chateaubriand, tendo viajado, em missão jornalística, aos Estados Unidos, Inglaterra, França, Venezuela e Portugal, acompanhando, em várias idas a Lisboa, o desenrolar do processo revolucionário que eclodiu em abril de 1974. GUSTAVO KRAUSE Gonçalves Sobrinho, (“A flatulência bovina”), nasceu em 1947, em Pernambuco. Advogado e político. Iniciou a carreira política em 1975, quando foi secretário da Fazenda de Pernambuco. Em 1979, foi escolhido pelo então governador Marco Maciel para prefeito do Recife, cargo que ocupou até 1982. Criou o Sistema de Ação Comunitária com a finalidade de promover a participação das comuni416

dades de baixa renda na discussão sobre a cidade, e também o projeto Um por Todos, que possibilitou a execução de numerosas obras em morros alagados, além de ter implantado o Instituto da Cidade. Eleito, pelo voto direto, vice-governador de Pernambuco na chapa de Roberto Magalhães (PFL), fica no cargo entre 1983 e 1986, quando assume o posto de governador em decorrência do afastamento de Magalhães para disputar a eleição de senador. Em 1988, é eleito vereador pelo Recife. Em 1990, elege-se deputado federal. Em 1991, ocupa mais uma vez a Secretaria da Fazenda de Pernambuco. Em 1992, torna-se ministro da Fazenda. Em 1994, disputa e perde para Miguel Arraes a eleição de governador de Pernambuco. Em 1995, torna-se ministro do Meio Ambiente, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. HERMILO BORBA FILHO, (“Da obscenidade”), nasceu em Palmares/PE e faleceu no Recife/PE (08.07.1917-02.06.1976). Em 1950, forma-se em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, mas não exerce a profissão de advogado. Sente-se fortemente atraído pelo teatro, e por meio do teatro presta a sua grande contribuição à vida cultural do país. Em 1946, assume o cargo de diretor artístico do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), grupo formado por, entre outros, Joel Pontes, Ariano Suassuna, José Laurênio de Melo, Ana Canen, Gastão de Holanda e José Moraes Pinho. Em 1953, muda-se para São Paulo, a fim de viver profissionalmente de teatro. Na capital paulista, dirige a Cia. Nydia Lícia-Sérgio Cardoso, Cia. Cacilda Becker, Cia. Dercy Gonçalves, o grupo Studio Teatral e o Teatro Paulistano de Comédia. Paralelamente, exerce atividades jornalísticas que incluem passagens pelos jornais Última Hora, Correio Paulistano e revista Visão. Volta ao Recife em 1958, como professor de História do Teatro, do então recém-fundado
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Curso de Arte Dramática, da Escola de Belas Artes, vinculado à Universidade Federal de Pernambuco. Em 1960, ao lado de Ariano Suassuna, Leda Alves, José Carlos Cavalcanti Borges, Gastão de Holanda, José Moraes Pinho, Aldomar Conrado e Capiba, funda o Teatro Popular do Nordeste (TPN), no qual desenvolve alguns dos experimentos cênicos mais importantes para o teatro da região. Na estreia, no Teatro do Parque, dirige A pena e a lei, de Ariano Suassuna. Em 1966, o grupo inaugura sua sede própria, localizada na avenida Conde da Boa Vista. Lá, até o ano de 1970, o grupo apresenta 14 das 20 montagens que produz. Além de sua atividade como diretor teatral, Hermilo exerce atividades culturais em diversas instituições, como Universidade Federal de Pernambuco, Serviço Nacional de Teatro, Secretaria de Educação e Cultura de São Paulo, Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, Secretaria de Educação do Recife, Movimento de Cultura Popular, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal da Paraíba, Cineclube do Recife, Escolinha de Arte do Recife, Centro de Comunicação Social do Nordeste e Centro de Cultura Luiz Freire. Ao longo de sua carreira, recebeu vários prêmios, como: a Comenda da Ordem de Nina Rodrigues, conferida pelo Conselho da Medalha do Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro, 1964; Chevalier de l’Ordre dês Artes El des Lettres, diploma e medalha, outorgados pelo Governo francês, sendo ministro da Cultura o escritor André Malraux, Paris, 1969. Bibliografia: Escreve mais de 20 peças de teatro, das quais publica apenas oito: Soldados da retaguarda; Um paroquiano inevitável; João sem terra; A barca de ouro; Electra no circo; A donzela Joana; O auto da mula do padre; Sobrados e mocambos. Nas décadas de 1960 e 1970, destaca-se na literatura nacional, com os romances Os caminhos da solidão; Sol das almas; a tetralogia Um ca418

valheiro da segunda decadência, que inclui os volumes Margem da lembrança, A porteira do mundo, O cavalo da noite e Deus no pasto; e Agá. É autor também de numerosos contos e de uma novela, Os ambulantes de Deus. Escreveu livros de pesquisas sobre teatro, dentre os quais se destacam História do teatro; Diálogo do encenador; História do espetáculo; Teoria e prática do teatro. HOMERO FONSECA, (“Os ETs eram todos comunistas”), pernambucano, é jornalista e escritor. Exdiretor editorial (até 31.10.2008) da revista Continente Multicultural, já foi diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor-chefe do Diario de Pernambuco, repórter do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo. Foi professor de Teoria da Comunicação por um curto verão e, em priscas eras, fracassou como vendedor de fundos de investimentos. Bibliografia: Viagem ao planeta dos boatos, ensaio jornalístico, 1996; A vida é fêmea, contos, 2000; Mário Melo – a arte de viver teimosamente, perfil biográfico, 2001; Pequeno teatro da vida, crônicas, 2002; Pernambucânia – o que há nos nomes das nossas cidades, ensaio de toponímia, 2006; Roliúde, rom., 2007; além dos cordéis A catástrofe da Fonte Nova, 1981; A peleja de Maciel e Magalhães, 1983; e O filho do Satanás no colégio eleitoral, 1984, sob o pseudônimo de Zé de Arruda. HUGO de Moraes VAZ, José, (“A vida sexual dos idosos”), nasceu no Recife/PE (04.09.1933). Bacharel em Direito pela UFPE, jornalista, advogado, inspetor federal do Trabalho, assessor de Imprensa credenciado como repórter da Folha da Manhã junto ao governo de Pernambuco, redator e editor do Jornal Pequeno e da Última Hora, do Recife; redator, copidesque e editornacional do Jornal do Commercio e do vespertino Diário da Noite, Hugo tem uma extensa folha de serviços prestados, como advogado, aprovado em concurso
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pelo DASP, inspetor federal do Trabalho no Fórum do Recife e de diversas capitais brasileiras, e como jornalista, atividade que começou aos 14 anos de idade, tanto no batente como credenciado junto ao Palácio do Governo, como assessor de Imprensa da repartição em que prestava serviços. Numa junção da sensibilidade com a experiência advinda das múltiplas atividades que exerceu, resulta a sua obra literária. Bibliografia: Da prisão do devedor civil, monog., 1968; Do registro de jornalistas, 1976; Esboço para um projeto de lei (Alteração e consolidação dos textos legais sobre a profissão de jornalista), 1978; Da regulamentação profissional do jornalista, 1979; Bestiário da Imprensa, 4 vol., 1984/95; Resgate de Afrodite, rom., 1996; O pesadelo de Svetevena, rom., 1998, premiado pela UBE-PE e Conselho Municipal de Cultura do Recife; e o livro Memórias de um sábio, rom., recebeu Menção Honrosa da APL, 2006. INAH LINS de Albuquerque, (“Martini seco”), nasceu no Recife/PE no dia de Finados, mas, segundo ela própria, ama a vida. Aos onze anos de idade foi para o Rio de Janeiro estudar, e aos dezessete publicou dois contos na revista Presente de Natal. Formada em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), levou algum tempo para derrubar o muro do “juridiquês” dos seus textos. Pratica a leitura e a escrita através de exercícios constantes no prazeroso ato de ler desde o início de sua adolescência. Frequenta há mais de seis anos a Oficina de Literatura do escritor Raimundo Carrero, onde participa de Antologias anuais. Escreveu ainda em diversas coletâneas e antologias de contos e crônicas. Atualmente escreve para o jornal O Vagalume em São Paulo, dirigido pela escritora Cida Sepúlveda, e também em outros meios de comunicação nacionais. Acaba de lançar o livro A solidão é espaçosa, pela editora Calibán.
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ITALO BIANCHI, (“De celulares, sites, e outras reflexões”), nasceu em Milão, Itália (09.02.1924) e faleceu no Recife/PE (05.10.2008). Formou-se, em 1946, em História da Arte. Chegando ao Brasil em 1949, trabalha inicialmente como cenógrafo na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde ficou até 1954. Em 1955, trabalhou em Buenos Aires produzindo cenários para os espetáculos de balé clássico da Companhia de Dança Ana Hitelman. Volta ao Brasil em 1957 e trabalha no jornal O Estado de S. Paulo. Elaborou, em 1956, o projeto gráfico do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. De 1962 a 1967, ensinou história da arte e teoria da comunicação no IAD, fase em que também fez design de móveis. Em 1968, montou um estúdio de comunicação visual e criação publicitária no Recife, com trabalhos para Abaeté, MPM, Standard, dentre outros clientes. Fundou, em 1971, a Italo Bianchi Publicitários Associados, com Alfrízio Melo. Em 1986, volta a se dedicar às artes plásticas, como pintor, por intermédio de mergulhos na abstração geométrica, como exposto em suas obras na Galeria Ranulpho, no Recife. Sua participação acionária na Italo Bianchi foi vendida para os demais sócios (Alfrízio Melo, Jairo Lima e Joca Souza Leão) em 1995. A partir de então, além da pintura, três veículos passaram a fazer parte da sua história: Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco e revista About. As crônicas publicadas semanalmente pelos títulos deram origem ao livro Nasceu uma rosa no meu jardim, publicado em 2003. No mesmo período, ele atuou como consultor de criação, primeiramente da Ampla Comunicação e, em seguida, para outros clientes, aceitando convite, em 2004, para exercer a função de consultor de comunicação social da Faculdade Maurício de Nassau e, posteriormente, para ser membro do Conselho Editorial da Fundação Joaquim Nabuco. Em 2005, passa a atuar como consultor de criação da
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agência Italo Bianchi, que já havia agregado mais um sócio: Giuliano Bianchi, um de seus filhos. IVANILDO SAMPAIO, (“Pedras brutas”), nasceu em São José do Egito/PE (03.01.1943). É bacharel em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, turma de 1966. Começou sua carreira como estagiário da Sucursal da revista Manchete em Pernambuco. Logo depois de formado foi contratado pelo Jornal do Commercio, onde foi editor-regional e colunista diário, produzindo a coluna Nordeste Confidencial. Em 1968, voltou para a Manchete, sendo transferido para a matriz no Rio de Janeiro. Lá, foi repórter-itinerante durante cinco anos, escrevendo para as revistas Manchete, Fatos & Fotos e Tendência. No Rio, foi ainda redator e produtor de programas da Rádio MEC e da TV Educativa, produtor de jornais cinematográficos, repórter freelance do Diario de Barcelona e da Agência EFE, Espanha. De volta ao Recife, trabalhou no Diario de Pernambuco (editor de Economia e da Primeira Página), foi durante cinco anos editor de telejornais da TV Globo Nordeste, prestou assessoria e consultoria de Imprensa a instituições públicas e privadas. Há 23 anos é diretor de redação do Jornal do Commercio. É casado com a psicóloga Aldenita Macedo, pai de Pedro Henrique, engenheiro de computação, e Marcella, jornalista e professora de comunicação; avô de Júlia e Alice, filhas de Marcella. Bibliografia: Na condição de jornalista, produziu, em 40 anos de carreira, cerca de 10 mil páginas de jornal. Fez, com Ernani Régis, Quincas Borba no folclore político, que chegou à terceira edição; participou, com José Paulo Cavalcanti Filho, Jânio de Freiras e Evandro Lins e Silva, do livro de ensaios Informação e poder, editado pela Record; tem crônicas publicadas no livro Luzes da cidade, organizado por Ronildo Maia Leite e editado pela Prefeitura do Recife. Fez dezenas de
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palestras em Universidades, órgãos de classe, academias, instituições etc., embora nunca tenha pensado em reuni-las em livro. JANGUIÊ DINIZ, (“Cartografia urbana da Fundição Capunga”), nasceu em Santana dos Garrotes/PB (21.03.1964). Era um dos oito filhos de Lourdes e de João. Aos seis anos, sua família deixou o Sertão paraibano e seguiu para o centro-oeste, para o município de Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Aos 14 anos, vem estudar no Recife, onde procuraria um tio que nunca vira, o advogado Nivam Bezerra da Costa. Fez vestibular de Direito em 1979 e foi aprovado na UFPE. Em 1992, Janguiê tornou-se juiz de Direito, através de concurso. Nessa época, já havia se formado em Letras na Unicap e ensinava na Faculdade de Direito de Olinda. Embora tenha conquistado uma vaga de juiz no Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região, exerceu o cargo apenas por um ano, para poder se dedicar a outros projetos, como a criação do Bureau Jurídico, curso preparatório para concursos, em 1994. No mesmo ano, começa a investir na realização de congressos nacionais e internacionais na área jurídica. Posteriormente, passou no concurso para procurador do Ministério Público da União, conquistando o 1º lugar no Norte-Nordeste. Fez pós-graduações, além do mestrado e doutorado na UFPE. Em 1998, funda o BJ Colégio e Curso, que atualmente oferece turmas da Educação Infantil ao Pré-Vestibular. Em 2003, nasce no Recife a Faculdade Maurício de Nassau. Em 2007, é fundada a Faculdade Joaquim Nabuco, com unidades em Paulista e no Recife. No mesmo ano, a Maurício de Nassau se expande para o estado da Paraíba, abrindo unidades nos municípios de João Pessoa e Campina Grande. No ano seguinte, a instituição implanta unidades em Salvador e Lauro de Freitas, na Bahia, e em Natal, no Rio Grande do
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Norte, e Maceió, em Alagoas, e agora se prepara para abrir unidades em Caruaru, no Agreste pernambucano, e em Fortaleza, no Ceará. O processo de expansão é acompanhado pela chegada de uma nova marca: o Grupo Ser Educacional que reúne todas as instituições. JOAQUIM CESÁRIO DE MELO, (“O homem à margem da cidade”), psicólogo, psicoterapeuta, escritor, professor universitário e bacharel em Direito. Desde os anos 80 tem publicado trabalhos literários e artigos nos jornais Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio (onde respondia pela coluna “A Vida Crônica” no caderno JC Cultural), bem como participado de antologias, entre outras Ensaio V, poesia, SP; Antologia Poética 50 anos AABB, PE; Poesia Viva do Recife, PE. Internacionalmente publicou crônicas através do Institut Pluridisciplinaire Pour Lês Etudes Sur L’Amerique Latine, nº 75, Paris, França; e em L´Ordinaire Latino Américain – Boletín de Novedades, nº 184, Université de Toulouse-le Mirail, França. Leciona atualmente Psicologia na Fafire, PE. Bibliografia: Dialética terapêutica, 2003. JOCA SOUZA LEÃO (João Augusto Souza Leão), (“Preto-graúna”), nasceu no Recife, em 1946. Deixou o curso de Direito para estudar Publicidade e Marketing na Inglaterra, onde viveu por quatro anos. Publicitário desde os 17, foi empregado e dono de agência. Teve o mundo dos anúncios como foco de trabalho por mais de 40 anos, tendo conquistado dezenas de prêmios nacionais e internacionais durante a carreira, como redator e diretor de criação. Participou de uma antologia de contistas publicitários e teve diversos artigos, contos e poemas publicados em jornais, revistas e suplementos literários. De escritor bissexto, tornou-se cronista contumaz há quatro anos, quan424

do passou a escrever regularmente para o Jornal do Commercio, a revista Algomais e o PE360graus (blog da Rede Globo Nordeste). JORGE ABRANTES, (“Sentimento do Recife”), nasceu em São José do Egito/PE (24.03.1917) e faleceu no Recife/PE (28.04.1961). Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, em 1934, bacharelando-se em 1939. Começou sua carreira jornalística, publicando artigos no jornal A Ordem, do município de Água Preta, Pernambuco. Em 1937, trabalha como revisor e repórter do jornal Diário do Nordeste, porta-voz local do movimento integralista. Ao bacharelar-se, começa a trabalhar na redação do Jornal do Commercio. Nessa época, inicia uma campanha para criar a Associação dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, criada em 1941, com um grupo de jornalistas, posteriormente transformada em Sindicato dos Jornalistas. Em 1945, exerce o cargo de promotor público no município pernambucano de São Bento do Una. Em 1946, a empresa do Jornal do Commercio, dirigida por F. Pessoa de Queiroz, publica o Diario da Noite e convida Jorge Abrantes para ser seu principal redator. Torna-se funcionário do Departamento de Documentação e Cultura, da Prefeitura do Recife. Nos anos de 1948-1949 faz um curso de especialização em Biblioteconomia, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A partir de 1950, escreve para o Diario da Noite. Em 1952, inicia sua colaboração nos suplementos de domingo do jornal Diário de Pernambuco. Em 1957, é eleito presidente da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP), sendo reeleito para o mandado seguinte, e representa essa associação nos Estados Unidos. Bibliografia: Em 1976, a AIP publica Prosa breve, livro póstumo de crônicas, prefaciado e organizado por Luiz Delgado.

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JOSÉ CLÁUDIO da Silva, (“Crônica em três capítulos – Todos três nojentos”), nasceu em Ipojuca/PE (27.08.1932). Desenhista, pintor, gravurista, escultor, crítico de arte, escritor. Abandonou o curso na antiga Faculdade de Direito do Recife, para se dedicar às artes plásticas. Participou, ao lado de Gilvan Samico, Guita Charifker, Reynaldo Fonseca, entre outros, da fundação do Atelier Coletivo da SAMR, dirigido por Abelardo da Hora. Depois, viajou para a Bahia, onde frequentou o ateliê de Mário Cravo, Carybé e Jenner Augusto. Seguiu para São Paulo, trabalhou com Di Cavalcanti e Lívio Abramo, e fez sua primeira exposição individual de desenhos, em 1956. Participou do Salão Nacional de Arte Moderna, do Salão Paulista de Arte Moderna e de várias Bienais de São Paulo, obtendo o Prêmio de Aquisição da IV Bienal. Ganhador de uma bolsa de estudos da Academia de Belas Artes de Roma, zarpou para a Europa onde estudou nos anos de 1957 e 1958. Fez, também, esculturas de granito e painéis de pedra cerâmica. De volta ao Brasil, foi ser auxiliar de diagramação do jornal O Estado de S. Paulo, função que continuou no Jornal do Commercio, do Recife. Em 1962, conquistou o Prêmio Leirner de Arte Contemporânea para desenho. Em 1969, iniciou o ciclo de grandes esculturas de granito, em Fazenda Nova, interior pernambucano. Tais obras formam, hoje, o Parque das Esculturas. Tem outras peças monumentais em Petrolina, Lagoa Grande, Aracaju e no Recife. Bibliografia: Viagem de um jovem pintor à Bahia, 1965; Ipojuca de Santo Cristo, 1965; Bem dentro, 1968 (obras que formam a trilogia das suas Memórias do Norte). Os dias de Uidá, 1995; Meu pai não viu a minha glória, crônicas, 1995. Tem catálogos, artigos, contos e críticas publicados em vários órgãos da imprensa nacional.

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JOSÉ MÁRIO AUSTREGÉSILO da Silva Lima, (“O aboio de um povo”), é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Católica de Pernambuco, em 1970. Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem vasta experiência profissional na área de Comunicação, com ênfase em rádio, TV, cinema, teatro e estudos culturais. É professor da UPFE, atuando nos cursos de graduação de Jornalismo, Radialismo, Publicidade e Propaganda e nos cursos de pós-graduação (especialização) de Comunicação e Marketing do Centro de Desenvolvimento Pessoal. É também pesquisador do Núcleo de Documentação dos Movimentos Sociais (NDMS), da UFPE. Autor de livros e artigos na área de radiodifusão, cultura popular e estudos culturais. Participante do Grupo de Pesquisa Rádio e Movimentos Sociais. Coordenador do Laboratório de RTV da UFPE. Bibliografia: A oralidade e imagética em Luiz Gonzaga: uma análise de conteúdo da obra musical, 2006; Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta, 2008. JOSÉ MÁRIO RODRIGUES, (“Pra lá de Marrakech”), nasceu em Flores/PE (23.07.1947). Poeta, advogado e jornalista. Filho do comerciante José Ben Rodrigues e da funcionária pública Noêmia de Queiroz Rodrigues. Integra a Geração 65 de escritores pernambucanos. Criou, com outros poetas e artistas, o Grupo de Poesia Falada do Recife, que encenava poemas para serem apresentados em eventos. Dedicou-se também ao ensino, ao lecionar por algum tempo na Faculdade de Direito de Caruaru. Como jornalista, foi diretor cultural da Associação de Imprensa de Pernambuco, redator do Suplemento Cultural do Jornal do Commercio e colunista do Suplemento Cultural da Companhia Editora de Pernambuco. Bibliografia: A estação dos ventos, 1973; Os motivos, 1975; Declaração da eterna brevidade, 1979; Para exor427

cizar a ilusão, 1979; Respiração do absoluto ou ar da solidão, 1983; O eterno de todo dia, 1987; Os motivos da eterna brevidade, 1990; Trem de nuvens, 1997; As rédeas da solidão, 1993; Alicerces da ventania, 2003. JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO, (“Duas ou três coisas sobre meu pai”), é advogado, especialista em legislação de mídia e um dos principais articulistas brasileiros. Pós-graduado pela Universidade Harvard, EUA. Foi presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e da extinta Empresa Brasileira de Notícias, além de secretário-geral do Ministério da Justiça, em abril de 1985, quando faleceu Tancredo Neves, eleito pelo Congresso Nacional para ocupar a Presidência da República. Foi presidente do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar do Congresso Nacional, criado pela Lei nº 8.389, de 30.12.1991. Tem banca de advocacia em Pernambuco. Ocupa a Cadeira nº 27 da Academia Pernambucana de Letras, substituindo Pelópidas Soares. Começou a escrever regularmente na Folha de S.Paulo, onde permaneceu por dez anos, escrevendo primeiro uma, depois duas, no fim três colunas por semana. Agora escreve nas Folhas, de Pernambuco e na de S.Paulo. Trabalha, há vários anos, num livro sobre a vida de Fernando Pessoa. Bibliografia: Informação e poder (org.), 1994; O mel e o fel, 1998; Adeus Penderama – e outros escritos, 2007. JOSÉ TELES, (“Estão mexendo na língua”), paraibano radicado no Recife/PE, é jornalista, formado em 1991, pela Unicap. É crítico de música do Jornal do Commercio desde 1986, e já escreveu sobre o assunto em diversas publicações pernambucanas e de outros estados, inclusive no jornal A Bola, de Lisboa. Teve textos publicados pel’O Pasquim, Rio; Bizz, São Paulo; revista General, São Paulo; Meus Caros Amigos, São
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Paulo; Continente Multicultural e Suplemento Cultural Pernambuco. Para esta revista assinou três edições da Continente Documento, com Luiz Gonzaga, Capiba e com o Movimento Manguebeat. Colaborou com sites como o Clique Music, RJ, editado por Tárik de Souza; Jornal da Música, RJ, também editado por Tárik de Souza; e em O Carapuceiro, SP, editado por Xico Sá. Em 1988, ganhou, com Ronaldo Correia de Brito, o prêmio de Novos Ficcionistas, promovido pela Fundarpe. Em 2007, venceu o prêmio de ensaio dos “100 Anos do Frevo”, promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife. O ensaio foi publicado em livro, com o título de O frevo rumo à modernidade. No mesmo ano, publicou, pela mesma Fundação, o livro de ensaio O baião do mundo. Em 2000, publicou, pela Editora 34, SP, o livro Do frevo ao manguebeat, que virou uma referência na bibliografia da história da música pernambucana. Como cronista dominical, tem quatro compilações de crônicas publicadas há 15 anos na coluna Curto & Grosso. Publicou pela Edições Bagaços 17 livros infantis e infanto-juvenis. Pela mesma Bagaço publicou o livro de viagem, Eu e meu Ray-Ban: uma viagem, 2008; e este ano Quem goitana foi Ellie Greenwich, uma reunião de crônicas sobre música popular, publicadas na coluna Toques Digitais, que mantém desde 2007, no JC online. LEONARDO Antônio DANTAS SILVA, (“No tempo do lança-perfume”), jornalista e escritor, nasceu no Recife, a 10 de dezembro de 1945. Fez o seu curso secundário no Colégio Salesiano, Recife, e o curso universitário na Universidade Católica de Pernambuco, onde em 1969 recebeu o título de Bacharel em Direito. Dedicou-se desde jovem ao jornalismo e à pesquisa histórica, exercendo diversas funções públicas: diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco (1975429

1979), primeiro presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife (1979-1983), diretor de Assuntos Culturais da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) (1983-1987). Exerceu a função de diretor da Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco. A 25 novembro de 1996, foi empossado como Membro do Comitê de Apoio da Comissão Nacional dos Festejos do V Centenário dos Descobrimentos do Brasil, na função de coordenador da Área de Documentação e Publicações. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e efetivo do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Suas atividades nas pesquisas históricas tiveram início na Biblioteca Pública Estadual, ainda sob a direção do pesquisador Olympio Costa Júnior, 1965, passando depois a receber os ensinamentos do professor José Antônio Gonsalves de Mello, com o qual realizou oito viagens de pesquisas em arquivos portugueses. Exerce, hoje, a função de membro efetivo do Conselho Estadual de Cultura e Consultor do Instituto Ricardo Brennand, Recife. Bibliografia: Bandeira de Pernambuco, 1972; Recife: uma história de quatro séculos, 1975; Pequeno calendário histórico-cultural de Pernambuco, 1977; O frevo pernambucano, 1990; Ritmos e danças – frevo, 1978; Cancioneiro pernambucano, 1978; O Brasil que Nassau conheceu (org.), 1979; O piano em Pernambuco, 1987; Alguns documentos para a história da abolição (org.), 1988; A imprensa e a abolição (org.), 1988; A abolição em Pernambuco (org.), 1988; Estudos sobre a escravidão negra, vol. I (org.), 1988; Estudos sobre a escravidão negra, volume II (org.), 1988; O Recife: imagens da cidade sereia, 1998; Carnaval do Recife, 2000; Brasil holandês: Frans Post e os desenhos do British Museum, 2000; Pernambuco: imagens da vida e da história, 2001; Ho430

landeses em Pernambuco 1630-1654, 2005; Crônicas de uma vida. 2009. Miguel do Sacramento LOPES GAMA, (“As palestras da ponte da Boa Vista”), nasceu no Recife/PE (29.09.1793) e faleceu na mesma cidade (09.12.1852). Filho do médico João Lopes Cardoso Machado e de D. Ana Bernardo do Nascimento. Entre 1805 e 1815, desenvolve atividades religiosas, desde noviço no mosteiro de São Bento de Olinda, até professar como monge beneditino em Salvador. Professor de retórica no Seminário de Olinda em 1817 e, posteriormente, ensina no Liceu, futuro Ginásio Pernambucano. Paralelamente, trabalha como jornalista, publicando O Conciliador Nacional e dirigindo o Diário do Governo de Pernambuco. A partir de 1932, inicia a publicação de O Carapuceiro. Em 1834, abandona a ordem beneditina. Traduz e publica obras de autores estrangeiros sobre religião, moral e economia. Deputado provincial em 1830 e, como suplente, assume a cadeira de deputado-geral por Pernambuco em 1840 na Corte, passando a divulgar O Carapuceiro. Dirige os Cursos do que seria mais tarde a Faculdade de Direito em 1835 e 1847; dirige o Liceu pela segunda vez em 1850; é nomeado diretor-geral da Instrução Pública em Pernambuco em 1851. Escreve na Marmota Fluminense em 1852, ano da sua morte. Bibliografia: Traduz, em 1837, Memória sobre quais são os meios de fundar a moral de um povo, de Destutt de Tracy; Refutação completa da pestilencial doutrina do interesse propalado por Hobbes, de Torombert; Princípios gerais de economia política e industrial, de Turanne; em 1839, A religião cristã demonstrada pela conversão e apostolado de São Paulo, de Lyttelton; A farpeleira, 1841, obra individual; Código criminal da semirrepública do Passamão na Oceania, 1841, sátira; Lições de eloquência nacional, 1846, em dois volumes, obra individual;
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Observações críticas sobre o romance do sr. Eugênio Sue, “O judeu errante”, 1850, ensaio; traduz, em 1850, Uma lição acadêmica sobre a pena de morte, de Carmignani; e, em 1852, Os deveres dos homens, de Silvio Pellico. LOURDES Maria Mendonça SARMENTO, (“Os 45 minutos”), nasceu no Recife/PE (15.02.1944). Poeta, escritora, pesquisadora, biógrafa, conferencista e jornalista. Editada por Vericuetos, Chemins Scabreux, em Paris, e por Editorial Francachela, em Buenos Aires, Argentina. Faz parte do Conselho Editorial de Francachela, Revista Internacional de Literatura e Arte. É autora de 20 livros publicados em português, inglês, francês e espanhol. Participação em 68 antologias nacionais e internacionais, com trabalhos literários e jornalísticos apresentados em Washington e Miami, USA; Lima, Peru; na Cidade do México e em Lisboa, Portugal. Organizou a antologia Poésie du Brésil, publicada em Paris, 1997, e o Projeto Literatura dos Trópicos, em parceria com Beatriz Alcântara, reunindo 205 poetas do Norte e Nordeste do Brasil, que resultou na publicação de três livros: Amor nos trópicos, 2000; Águas dos trópicos, 2000; e Fauna e flora nos trópicos, 2002. Pertence à Academia de Artes e Letras de Pernambuco; de Poesia de Petrópolis, RJ; Carioca de Letras, RJ; Recifense de Letras; de Estudos Literários e Linguísticos, Anápolis, GO. Pertence ainda à Associação Internacional de Escritores e Jornalistas, México; ao Centro de Estudos Americanos de Fernando Pessoa, São Paulo; à União Brasileira de Escritores: UBE-PE e UBE-RJ. Bibliografia: Poemas do despertar, poesia, 1965; Explosão das manhãs, poesia, 1973; Pequena história da telefonia em Pernambuco, pesquisa, 1980; Primórdios da comunicação, pesquisa, 1981; traduzido para o inglês; Janela, crônicas, 1984; A palavra e as circunstâncias, ensaio, 1985; Tatuagem da solidão, poesia, 1991; Se432

dução da arte em Vera Bastos, ensaio biográfico, 1993; Vingt-cinq poèmes de passion, poesia, 1994; Alcides Lopes: nas estações do tempo, biografia, 1994; Poésie du Brésil – Panorama da poesia brasileira, org., Paris, 1997; José de Souza Alencar: Alex: o artesão da palavra, biografia, 1998; Amor nos trópicos, 2000; Água nos trópicos, 2000; e Fauna e flora nos trópicos, 2002, em parceria com Beatriz Alcântara; Olhos de tigre, poesia, 2001 – Prêmio Dulce Chacon da APL e Prêmio Alejandro Cabassa hors-concours da UBE-RJ; Guardiã das horas, poesia, 2003; A poesia é eterna, em parceria, 2003; 7 Cartas e uma confissão de amor, prosa e poesia, 2004; Rituales del deseo: rituais do desejo, edição bilíngue: espanhol-português, 2005; 50 Poemas escolhidos pela autora, 2009. LUCIANO Caldas BIVAR, (“A intuição não vem do nada”), nasceu no Recife/PE. É empresário, segurador, desportista, bacharel em Direito, com pós-graduação em Financial Education (Northewestern University, Illinois, USA) e Direito Comparado (Unicap, Recife). Participou de inúmeros eventos nas áreas de finanças e seguros. Deputado Federal por Pernambuco (1999-2003), pelo Partido Social Liberal (PSL), do qual é presidente nacional, integrou as Comissões Permanentes de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), de Finanças e Tributação (CFT), Viação e Transportes (CVT) e as Comissões Especiais de criação do Imposto Único Federal (IUF), da Agência Nacional de Aviação Civil e da Previdência Complementar. Foi um dos maiores entusiastas da implantação do IUF, que julga ser a melhor opção para a definitiva conquista da justiça fiscal e tributária no Brasil. Sua atuação parlamentar caracterizou-se pela defesa de uma reforma política que preserve o atual espectro partidário e assegure a representação congressual de todas as correntes políticas, inclusive as pequenas e
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médias agremiações. Além de sua produção na Câmara dos Deputados, é autor de Brasil alerta: psicoses socialistas, Recife, 1985; Cuba: um retrato sem retoques, Rio de Janeiro, 1986; e Passagem para a vida: operação terror, Rio de Janeiro, 1989. É membro de diversas associações de classe e programas para maior aproximação entre os povos da América. LUCIANO Roberto Rosas de SIQUEIRA, (“Vidas quase cruzadas”), nasceu em Natal/RN (1942). É formado em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco. Começou a militância política na Ação Popular em 1966 e ingressou no Partido Comunista do Brasil em 1972. Foi líder estudantil na década de 1960, quando cursava medicina na Universidade Federal de Pernambuco. No combate ao regime militar, foi cassado dos seus direitos de estudante por três anos. De 1970 a 1974, fugindo da perseguição policial, já militando no Partido Comunista do Brasil, atuou na clandestinidade, sobrevivendo como vendedor ambulante no interior do Nordeste. Preso e torturado em abril de 1974, reconquistou a liberdade em 1976, quando retornou à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Como médico, trabalhou em projetos de Saúde Comunitária e fez pós-graduação em saúde pública. Exerceu o mandato de deputado estadual pelo PMDB, sendo eleito em 1982. Como dirigente estadual e nacional do PCdoB, participou de mobilizações pela Anistia, Diretas Já, Constituinte de 88 e Fora Collor, além de se destacar nas articulações para unir a esquerda em Pernambuco. Vice-prefeito do Recife entre 2000 e 2008, tendo sido reeleito no pleito eleitoral de 2004. Em 2006, foi candidato ao Senado representando o campo progressista e obteve 33% dos votos válidos no Recife. Foi eleito vereador do Recife para o mandato de 2009-2012 com a segunda maior votação da his434

tória da cidade do Recife. Presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara Municipal do Recife, desde 2009 vem realizando diversas audiências públicas, entre elas a que discutiu a requalificação do centro do Recife e a necessidade de formação da mão de obra para o novo ciclo de desenvolvimento do Estado. Apresentou projetos de leis criando o Sistema Municipal de Ciência e Tecnologia, a Política do Livro e a Semana Burle Marx. LUIZ BERTO, (“Anotações sobre um coração e uma trombeta”), nasceu em Palmares/PE (07.08.1946). Tem participação no International Writing Program da Universidade de Iowa, Estados Unidos, a convite do governo americano, e no International Festival of Authors, Toronto, Canadá, representando o Brasil. Recebeu o Prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro/MEC, categoria Obra Publicada (O romance da Besta Fubana), São Paulo; Prêmio Guararapes da União Brasileira de Escritores (O romance da Besta Fubana), Rio de Janeiro. O seu livro O romance da Besta Fubana: festa e utopia no interior do Nordeste teve dissertação apresentada pela professora Ilane Ferreira Cavalcante ao Curso de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para a obtenção do Grau de Mestre em Letras, área de concentração em Literatura Comparada, em junho de 1996. Bibliografia: A prisão de São Benedito, crônicas, 1982; 2. ed., 1987; 3. ed., 1991; 4. ed., 1997. O romance da Besta Fubana, rom., 1984; 2. ed., 1994; 3. ed., 2004. A serenata, nov., 1986; 2. ed., 2005; A guerrilha de Palmares, rom., 1987; 2. ed., 2007; Memorial do mundo novo, rom., 2001; Peibufo, etc. e coisa e tal, comédia em um ato levada ao palco, em Palmares e no Recife, PE; em Belo Horizonte, MG; e em Brasília, DF, 1989. Histórias que
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nós gostamos de contar, crônicas, em preparo. Cem obrasprimas da poesia ruim, coletânea, em preparo. LUIZ Cláudio ARRAES de Alencar, (“A velhinha no Jardin du Luxembourg”), nasceu no Recife/PE (31.01.1959). Diplomado em Medicina, doutorado em Infectologia e pós-doutorado em Imunologia. Especialista em doenças infecciosas. Trabalha como médico, é professor universitário e pesquisador. Publicou seu primeiro livro de contos em 1990 e desde então já publicou outros sete livros, além de diversos contos em revistas e jornais e pela internet. Exceto o primeiro e o segundo livros, que saíram respectivamente pela Inojosa e pela Fundarpe, todos os demais foram publicados pela 7Letras. Bibliografia: Palavra por palavra, 1990; Rastejador, 1991; O desaparecido, 1997; O que faz um homem rir, 1998; Anotações para um livro de baixa ajuda, contos, 2005; Tentando entender Monterroso, contos, 2005; O remetente, 2005; O que faz um homem rir, contos, 2005; O desaparecido, contos, 2005; Todo diálogo é possível: conversas com meu pai, Miguel Arraes. LUIZ CARLOS Rodrigues MONTEIRO, (“Mãe & Filha”), nasceu em Sertânia/PE (24.10.1957). Em 1972, radicou-se no Recife, onde vive até hoje. Iniciou o curso de Engenharia de Minas em 1976 na UFPE, interrompendo-o posteriormente. É formado em Pedagogia e mestre em Teoria da Literatura pela mesma universidade. Entre as décadas de 1970 e 1980, fez parte do movimento estudantil e do movimento dos escritores independentes de Pernambuco. De 1987 a 1992, passou a residir na Mata Sul do estado, dedicando-se ao ensino médio e participando, como militante, de movimentos políticos e sindicais no município de Rio Formoso e circunvizinhanças. Publicou cerca de 200 artigos e ensaios de crítica lite436

rária em revistas, jornais, sites e blogs de Pernambuco e de outros estados. Seus poemas vêm aparecendo com maior frequência em antologias e jornais alternativos. Tem participado de eventos e encontros literários diversos, entre eles a Bienal do Livro de Pernambuco e a Fliporto, e de colóquios acadêmicos na UFPE. Bibliografia: Na solidão do néon, 1983; Vigílias, 1990; Poemas, 1999; O impossível dizer e outros poemas, 2005; Para ler Maximiano Campos, 2008; Prêmio Maximiano Campos nas suas versões 2, 3 e 4 (coletânea, em colaboração com Antônio Campos, 2008; Musa fragmentada: a poética de Carlos Pena Filho, 2009. LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA, (“Recife: o amor de uma cidade”), nasceu em Garanhuns/PE (19.11.1936). Diplomada em Letras, mestra em Teoria da Literatura, doutora em Estudos Literários pela Université Paris, romancista, ensaísta, biógrafa, crítica literária, professora universitária, pesquisadora de história das mulheres em Pernambuco. Com o romance Muito além do corpo, conquistou o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, 1988; e com Humana, demasiadamente, humana, biogr., e Lou e Salomé conquistou os Prêmios da FCCR e da APL; Rios turvos, Prêmio Joaquim Nabuco da ABL. Voltar a Palermo foi classificado entre Os Dez Mais do Ano, no Prêmio Portugal Telecom; No tempo frágil das horas, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão da FCCR. Através de suas pesquisas e histórias das mulheres recebeu o título Woman of the Year, pelo American Biographical Institute. Bibliografia: O espaço do teu rosto, contos, 1981; O tempo sem remédio na farmácia, ensaio, 1982; Muito além do corpo, rom., 1988; Dentro da vida: à margem da história, ensaio, 1989; Em busca de Thargélia: poesia escrita por mulheres em Pernambuco no segundo oitocentismo, 1870-1920, ant. org., 1991; A fala roubada: cem anos de imprensa feminina em Pernambuco, 1991;
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Ênio Silveira, 1992; Os rios turvos, rom., 1993; A garça mal ferida: a história de Anna Paes d’Altro no Brasil holandês, rom., 1995; Humana, demasiadamente, humana, biogr., e Lou Salomé, ensaios. MANUEL Carneiro de Souza BANDEIRA Filho, (“Carnavais de outrora”), nasceu no Recife/PE (19.04.1886) e faleceu no Rio de Janeiro (13.10.1968). Filho de Manuel Carneiro de Souza Bandeira e de Francelina Ribeiro de Souza Bandeira. Entre 1890 e 1904, mora em vários estados e cidades: Rio de Janeiro, Santos, Recife e São Paulo. No final do ano de 1904, tendo contraído tuberculose, passa temporadas em outras cidades: Campanha, Teresópolis, Maranguape, Uruquê, Quixeramobim. A fim de se tratar no Sanatório de Clavadel, na Suíça, embarca em junho de 1913 para a Europa. Em 1914, volta ao Brasil em outubro. Em 1916, falece sua mãe, Francelina; em 1918, perde a irmã Maria Cândida de Souza Bandeira. O pai de Bandeira, Manuel Carneiro, falece em 1920. Em 1921, conhece Mário de Andrade. Estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Osvaldo Orico. É nomeado, no ano de 1935, pelo ministro Gustavo Capanema, inspetor de ensino secundário. Posteriormente, passa a trabalhar como professor de literatura do Colégio Pedro II. Em 1940, é eleito para a Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 30 de novembro, sendo saudado por Ribeiro Couto. Começa a fazer crítica de artes plásticas em A Manhã, em 1941, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, é nomeado membro da Sociedade Felipe de Oliveira. Nomeado professor de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1943, deixa o Colégio Pedro II. Recebe o prêmio de poesia do IBEC por conjunto de obra, em 1946. Em 1955, inicia colaboração como cronista no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e na Folha da
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Manhã, de São Paulo. Comemora 80 anos, em 1966, recebendo muitas homenagens. A Editora José Olympio realiza em sua sede uma festa de que participam mais de mil pessoas e lança os volumes Estrela da vida inteira (poesias completas e traduções de poesia) e Andorinha, andorinha (seleção de textos em prosa, organizada por Carlos Drummond de Andrade). Bibliografia: A cinza das horas, 1917; Carnaval, 1919; Poesias, 1924; Libertinagem, 1930; Estrela da manhã, 1936; Poesias escolhidas, 1937; Poesias completas, 1940; Poemas traduzidos, 1945; Mafuá do malungo, 1948; Opus 10, 1952; 50 Poemas escolhidos pelo autor, 1955; Poesia e prosa completa, 1958; Alumbramentos, 1960; Estrela da tarde, 1960; Estrela da vida inteira, 1966; Manuel Bandeira: 50 poemas escolhidos pelo autor, 2006 (todos de poesia). Crônicas da província do Brasil, 1936; Guia de Ouro Preto, 1938; Noções de história das literaturas, 1940; Autoria das cartas chilenas, 1940; Apresentação da poesia brasileira, 1946; Literatura hispano-americana, 1949; Gonçalves Dias, biog., 1952; Itinerário de Pasárgada - Jornal de Letras, 1954; De poetas e de poesia, 1954; A flauta de papel, 1957; Itinerário de Pasárgada, 1957; Prosa, 1958; Andorinha, andorinha, 1966; Itinerário de Pasárgada, 1966; Colóquio unilateralmente sentimental, 1968. MARCO POLO GUIMARÃES Martins, (“1968”), nasceu no Recife/PE (31.03.1948). É jornalista, escritor e compositor. Trabalhou no Diário da Noite, PE, Diario de Pernambuco, PE, e Jornal da Tarde, SP. Foi editor de Cultura do Jornal do Commercio, PE. Atualmente na Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), onde editou a revista Continente Multicultural, é superintendente de Produção Editorial. Foi diretor-geral do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM). Redator e curador da área de pintura, desenho e gravura do Catálogo do Museu do Estado de Pernambuco
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(MEPE), que integra a coleção de catálogos de acervo dos museus brasileiros. É membro da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP); da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); da União Brasileira de Escritores (UBE), seção Pernambuco; da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), seção Pernambuco. Recebeu o Diploma de Destaque do Ano no Jornalismo do Conselho Municipal de Cultura do Recife e do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, 1999, e o diploma de Amigo do Livro, da Câmara Brasileira do Livro (CBL). A convite do governo dos Estados Unidos, visitou Nova York, Washington, San Francisco, Nova Orleans, Novo México e Miami, conhecendo a redação de jornais como o Washington Post, em intercâmbio com editores de Cultura. Bibliografia: Voo subterrâneo, poesia, 1986; Narrativas, contos, 1992; Memorial, memórias, 1996; Brilho, poesia, 1996; Palavra clara, poesia, 1998; A superfície do silêncio, poesia, 2002; Caligrafias, poesia, 2003; Sax áspero, antologia poética, 2007; Corpointeiro, poesia, 2008. MARCUS Moraes ACCIOLY, (“A dor”), nasceu em Aliança/PE (21.01.1943). Passou a adolescência dividido entre o engenho Jaguaraba, em Barreiros, PE, e o Recife. Diplomado em Direito pela Unicap, e pósgraduado em Letras, Teoria da Literatura, pela UFPE. Advogado, professor, conferencista, poeta. Integrou, como apresentador e declamador, o Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna. Exerceu, entre outros, o cargo de diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE e do Centro de Produção Científica e Cultural do Engenho Massangana, onde nasceu Joaquim Nabuco, da Fundaj; foi coordenador cultural do Nordeste/MEC (Ministério da Educação e Cultura); chefe da 4ª Superintendência Regional da Secretaria de Cultura da Presidência da República e secretário executivo do MinC, tendo por diversas ve440

zes substituído o ministro Antônio Houaiss. Pertenceu aos Conselhos Federal de Cultura e Nacional de Política Cultural. É conselheiro e, atualmente, presidente do Conselho Estadual de Cultura, PE, e do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. Além de Íxion, tem outros livros adaptados para o teatro. Recebeu os seguintes Prêmios nacionais, por obras isoladas e pelo conjunto de suas obras: Recife de Humanidades, 1971; Fernando Chinaglia, 1979; Láurea “Altamente Recomendável para o Jovem, 1980”, Luiza Cláudio de Souza, 1980; Mário de Andrade, 1983; Jorge de Lima, 1983; Carlos Pena Filho, 1983; Associação Paulista dos Críticos de Arte, 1985; Olavo Bilac, 1985; Leandro Gomes de Barros, 1996. Bibliografia: Cancioneiro, 1968; Nordestinados, 1971; Xilografia, 1974; Sísifo, 1976; Poética: pré-manifesto ou anteprojeto do realismo épico, 1977; Íxion, 1978; Ó(de)Itabira, 1980; Guriatã: um cordel para menino, 1980; Narciso, 1984; Érato: 69 poemas eróticos e uma ode ao vinho, 1990; O jogo dos bichos, 1990; Latinomérica, 2001. DaguerreÓtipos, sonetos, 2008. MARILENA DE CASTRO Carrero, (“Tamarineira, adeus”), nasceu no Rio de Janeiro e veio para o Recife, aos quatro anos, onde fez estudos preliminares e cursou a Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, hoje integrando a Universidade Estadual de Pernambuco (UPE). É ginecologista com pósgraduação em Homeopatia e Antroposofia. Integra a Sociedade de Médicos Escritores (Sobrames-PE), colabora com a revista Oficina de Letras da entidade. Tem escrito sistematicamente, publicando contos e poemas na revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura, com participações ainda na Antologia de Contos e crônicas, do Instituto Cultural de Arte Livre; Ábaco, Oficina da escritora Lucila Nogueira; I Antologia de Poesia Nordestina, Mormaços e sargaços; Fauna
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e flora nos trópicos, Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Integra, ainda, a Antologia de Poesia Contemporânea, Retratos, em 2005; Painel de Poesia Pernambucana dos séculos XVI e XXI: Pernambuco, terra da poesia, em 2005; Cantos e contos do Natal, 2006; Conto feminino contemporâneo em Pernambuco, 2006, Contos de Oficina II e III, escritos pelos integrantes da Oficina de Criação Literária de Raimundo Carrero, 2005, 2006 e 2007. Publica poemas no suplemento cultural Pernambuco, órgão do Diário Oficial, do governo do Estado em 2008; participa da Antologia Contos e Poemas Pimenta Rosa, em 2006; colabora na revista Eita!, publicada pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2009; e na Antologia Poética do site da Interpoética. É autora do livro A outra face, 2004. MÁRIO SETTE, (“Não há quem dê mais?”), nasceu e faleceu no Recife/PE (19.04.1886-25.03.1950). Professor catedrático, funcionário público, folclorista, romancista, contista, ensaísta. Estreou com o romance Ao clarão dos obuses. Aparecem, então, contos e ensaios, depois novelas, romances e obras de investigação histórica, que traçam perfis singulares dos tipos humanos mais característicos do povo e as tradições do Recife Antigo, com suas crenças, seus hábitos e costumes. E também as paisagens canavieiras de Tracunhaém, das praias e ladeiras de Olinda e da lendária Caruaru, princesa do Agreste, ficaram gravados para sempre. O melhor exemplo dessa tendência é o livro Arruar: história pitoresca do velho Recife. Muitos dos seus livros, lançados por Monteiro Lobato, permitiram a Mário Sette, sem sair do seu Estado, tornar-se um nome nacional e internacional, através de revistas e periódicos franceses, portugueses e argentinos. E seus contos foram incluídos em coletâneas organizadas por R. Magalhães Júnior e Graciliano Ramos. Mário Sette viveu a infância e a juventude em lugares
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diversos como São Paulo e Rio de Janeiro. Foi diretor dos Correios e Telégrafos em Maceió, onde morou durante quatro anos. Morou também em Caruaru. Foi professor de História do Brasil em educandários recifenses, e na Faculdade de Filosofia do Recife. Bibliografia: Ao clarão dos obuses, contos, 1918; Rosas e espinhos, contos, 1919; O palanquim dourado, rom., 1921; Senhora de engenho, rom., 1921; A filha de dona Sinhá, rom., 1923; O vigia da casa-grande, rom., 1924; Sombras de baraúnas e João Inácio, contos, 1927; Seu Candinho da farmácia, rom.; As contas do terço, rom., 1929; A mulher do meu amigo, nov., 1933; Os Azevedos do Poço; Anquinhas e Bernardas; Por onde os avós passaram e Barcas de vapor antecederam Arruar: história pitoresca do Recife Antigo, crônicas, 1948-1949 e 1978; Didáticos: Velhos azulejos e Terra pernambucana, coleção de episódios históricos, bravuras, lendas, folclore, década de 1920. MARLY MOTA, (“Fundação Terra em Arcoverde”), nasceu no Engenho São Francisco, em Ipojuca. Aos três meses de vida, veio para Bom Jardim, no Agreste pernambucano. Lá, morou até a adolescência, quando veio enfim para a capital. Aqui, aos 21 anos, conheceu Mauro Mota. Ele era bem mais velho – 38 anos, viúvo e tinha dois filhos, com quem foi casado por 34 anos. É artista plástica e cronista, além de articulista do Diario de Pernambuco. Assumiu em 2008 a Cadeira nº 29 da Academia Pernambucana de Letras, antes ocupada pela poetisa Maria do Carmo Barreto Campello, lançando simultaneamente os livros Além do jardim e O mundo e o carrossel. Os dois títulos são coletâneas de crônicas escritas por Marly para periódicos do Recife (Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco). Em Além do jardim, a seleção engloba textos escritos de fevereiro de 1984 a junho de 2006. Em O mundo e o carrossel, reúne crônicas de junho de 2006
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até outubro de 2007. Como pintora, Marly Mota começou a expor na década de 1960 no Recife e tem quadros expostos em Portugal e na França. Entre os trabalhos mais importantes dela estão as 12 telas das cenas baseadas na obra de Eça de Queiroz, oito em Casa-grande & senzala de Gilberto Freyre e outras dez na obra de Mauro Mota. MAURÍCIO de Albuquerque MELO JÚNIOR, (“Diálogos simplificantes de La Mancha”), nasceu em Catende/PE (28.11.1961). Diplomado em Comunicação Social e pós-graduado em Ciência Política. Jornalista, professor universitário, crítico literário, contista, novelista e cronista. Foi crítico literário e repórter de cultura do Correio Braziliense entre 1989 e 1999. Atuou em assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados, Senado Federal e Ministério da Justiça. Foi professor do Centro de Ensino Universitário de Brasília (CEUB) e chefe de telejornalismo da Radiobrás. Escreveu resenhas literárias para o Jornal do Brasil, RJ, e Zero Hora, RS. Escreveu e publicou diversos livros infanto-juvenis, além de uma novela e um volume de crônicas. Tem contos publicados em diversas antologias. Participou, como palestrante, de diversos eventos literários como a Jornada Literária de Passo Fundo, RS, em 2007; da Balada Literária, São Paulo, em 2008; da Bienal do Livro de Alagoas, em 2009; e do 2º Festival Internacional da Leitura, Campinas, SP, em 2010. Foi júri de diversos concursos literários. Participou da fundação das Edições Bagaço. É jornalista da TV Senado, onde dirige e apresenta o programa Leituras, dedicado à literatura brasileira. Escreve resenhas literárias para o jornal Rascunho, Curitiba, PR. Bibliografia: A revolta do cascudo, infanto-juvenil, 1992; O palhaço que perdeu o riso, infanto-juvenil, 1993; O vaqueiro misterioso, infanto-juvenil, 1993; A lenda do Pé de Espeto, infanto-juvenil, 1994; As mangas de jasmim, in444

fanto-juvenil, 1995; A cidade encantada de Jericoacoara, infanto-juvenil, 1995; Histórias da inteligência nacional, crônicas, 1995; Fernando de Noronha: instruções para uso e preservação, viagem, 2004; Crônica do Arvoredo, infanto-juvenil, , 2006; No país dos caralâmpios: a história das nossas Alagoas, infanto-juvenil, 2006; Andarilhos, novelas, 2007; É doce viver no mar, infantojuvenil, 2008; Paranã-puka e o berço da pátria: passeio histórico e sentimental pela nação pernambucana, infanto-juvenil, 2008. MAURO Ramos da MOTA e Albuquerque, (“Família dos livros”), nasceu e faleceu no Recife/PE (16.08.1911-22.11.1984). Diplomado pela Faculdade de Direito do Recife. Poeta, jornalista, professor, cronista, ensaísta, memorialista. Pertenceu às Academias Brasileira e Pernambucana de Letras. Catedrático, por concurso público de Geografia do Brasil, lecionou no Ginásio do Recife e em diversas escolas particulares. Colaborou na imprensa desde a juventude e chegou a secretário, redator-chefe e diretor do Diario de Pernambuco. Foi colaborador do Correio da Manhã, do Diário de Notícias e do Jornal de Letras, no Rio de Janeiro. Durante 15 anos foi diretor executivo do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, onde é homenageado com a Sala Mauro Mota. Membro do Seminário de Tropicologia, da UFPE e Fundaj. Diretor do Arquivo Público de Pernambuco de 1973 a 1983. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e do Conselho Federal de Cultura. O livro Elegias recebeu o Prêmio Olavo Bilac da ABL, o Prêmio de Poesia da APL e o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Já o livro Itinerário, poesia, conquistou, em 1975, o Prêmio Pen Club do Brasil. Três coletâneas reúnem obras de Mauro: Antologia poética, 1968; Antologia em verso e prosa, 1982, e a antologia organizada por Sônia Lessa e Everardo Norões, Mauro
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Mota, 2001. Mauro Mota é o patrono da Cadeira nº 35 da Academia de Letras do Brasil, Brasília, DF, atualmente ocupada pelo poeta João Carlos Taveira. Bibliografia: poesias: Elegias, 1952; A tecelã, 1956; Os epitáfios, 1959; O galo e o cata-vento, 1962; Canto ao meio, 1964; Antologia poética; 1968; Poemas inéditos; separata de Cahiers du Monde Hispanique et Luso-Brésilien, 1970; Itinerário; 1975; Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória, 1979; Pernambucânia dois, 1980; Antologia em verso e prosa, 1982; prosa: No roteiro do Cariri, 1952; São João do Nordeste, 1952; Cajueiro nordestino; e Recife, província literária precursora, 1954; Itinerário da escola 1956; Cadeira vinte; e Paisagem das secas, 1958; Estrela de pedra e capitão de fandango, 1960; Geografia literária e imagens do Nordeste; 1961; Fitofobia e dietas; 1962; Terra e gente; 1963; A casa: habitação rural, 1964; História em rótulos de cigarro; 1965; Quem foi Delmiro Gouveia?, 1967; O criador de passarinhos; O pátio vermelho; Votos e ex-votos, 1968; Os bichos na fala da gente, 1969; Amor no Recife, O navegante Gilberto Amado, Discurso de posse e recepção na Academia Brasileira de Letras, 1970; Pernambuco sim, em colaboração com Gilberto Freyre e Roberto Cavalcanti, 1972; Cara e c’roa; Igarassu e a Escolinha de Arte; A gênese de “Casa-grande & senzala”, 1974; Virtudes e virtualidades, 1974; Modas e modos; 1975; Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais; 1976; Gervásio Fioravanti; Manuel Bandeira; Mercados e feiras; 1978; Igarassu, outra civilização, 1980; A estrela de pedra e outros ensaios nordestinos, 1981; Fortalezas de Pernambuco; Do banco de Amintas à cadeira da Academia, 1982; Barão de Chocolate & companhia; 1983, Alfinetes e bombons, 1984. MAXIMIANO Accioly CAMPOS, (“Do amor”), nasceu e faleceu no Recife/PE (19.11.1941-07.08.1998). Passa a infância num engenho da família, na Mata Sul do Estado. Quando volta a morar no Recife, começa a
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estudar. Frequenta o Colégio São João, onde faz os estudos secundários. Ingressa no curso de Direito. Em 1963, trabalha como oficial de Gabinete de Miguel Arraes de Alencar, seu futuro sogro, até a deposição e prisão do ex-governador. Assistente de pesquisa dos departamentos de Sociologia e Psicologia Social do Instituto Joaquim Nabuco. Em 1964, casa-se com Ana Lúcia Arraes de Alencar em 10 de agosto. Participa do II Curso de Preparação em Pesquisa Social, promovido pelo Instituto Joaquim Nabuco. Nesse mesmo ano, termina de escrever seu romance de estreia Sem lei nem rei. Em 1965, nasce o seu filho Eduardo Henrique Accioly Campos, a 10 de agosto. Isola-se com a família na Fazenda Três Marias, no município pernambucano de Vitória de Santo Antão. Em 1966, recebe o título de Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco. Em 1968, nasce o seu segundo filho, Antônio Ricardo Accioly Campos, em 25 de junho. Estreia com o romance Sem lei nem rei. Escreve a novela Os cassacos, que conclui em outubro. Nomeado, em 1987, secretário de Cultura, Turismo e Esportes no segundo governo Arraes. Promove ações culturais como o restabelecimento dos congressos de cantoria e o mapeamento artístico-cultural do Estado, com vistas à interiorização da cultura e conscientização popular aliando arte e saúde. Em 1997, é publicado O viajante e o horizonte, uma seleta de contos feita por Antônio Campos nos trabalhos anteriores, compreendendo As emboscadas da sorte, As sentenças do tempo e As feras mortas. Bibliografia: Sem lei nem rei, rom., 1968; As emboscadas da sorte, contos, 1971; As sementes do tempo, contos, 1972; As feras mortas, contos, 1975; O major Façanha, nov., 1975; A loucura imaginosa, nov., 1985; Cartas aos amigos, ensaios, 2002; Do amor e outras loucuras, poesia, 2003; Os cassacos, nov., 2003; Na estrada, contos, 2005.

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MIRIAM Monte CARRILHO de Oliveira, (“Comparação”), nasceu em Natal/RN (22.5.1947). A vontade dos pais levou-a para o Rio de Janeiro em 1947, onde permaneceu até 1961. Interna em colégio de freiras, desenvolveu o gosto pela escrita e pelo desenho. Retornou a Natal em fins de 1961, onde recomeçou os estudos. Em 1975, concluiu Administração na UFRN; em 1977, voltou ao Rio de Janeiro, onde permaneceu até os meados de 1979, quando se mudou para o Recife. Em 1984, concluiu Jornalismo na Unicap, e conseguiu uma entrevista com o escritor Ariano Suassuna. A Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro, a publicou na íntegra. Costuma presentear com poemas, crônicas, contos e desenhos muitos dos seus clientes. O incentivo de muitos serviu para que ousasse a publicação do livro de poemas Folhas esparsas, em 2003, e exposições de telas e desenhos entre os anos de 2006 a 2008. Em 2010, lança o seu Pacote – Ficções, que reúne alguns desses seus fazeres. Tem contos, crônicas e poemas publicados em revistas nordestinas e na virtual Conexão Maringá. NAGIB JORGE NETO, (“Aura de outono”), nasceu em Pedreiras/MA (1937). Filho do comerciante libanês Paulo Jorge Dakar e da camponesa Bernardina de Sousa Morais. Jornalista e escritor. Em 1956, Nagib vai para São Luís e conclui o ginásio no Ateneu Teixeira Mendes. Funda o jornal Tribuna Estudantil, juntamente com José Carlos Brandão Monteiro, que foi deputado federal pelo PDT/RJ. Começa a carreira profissional como repórter de polícia na Rádio Timbira, São Luís, em 1958. Ainda em São Luís, foi secretário de redação do Jornal do Povo que acabou fechado em 1964, durante o golpe militar que destituiu o presidente João Goulart. Mudou-se para o Recife, onde trabalhou em jornais pernambucanos e na sucursal
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recifense do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. Em 1968, conquistou o Prêmio Esso Nacional de Informação Econômica. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco. Bibliografia: O presidente de esporas, 1972; As três princesas perderam o encanto na boca da noite, 1976; O cordeiro zomba do lobo, 1979; Longe do país dos sonhos, 1981; A literatura em Pernambuco, 2010. NELLY Medeiros de CARVALHO, (“Recife brasileiro”), possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, 1956; especialização em Literatura Francesa pela Faculdade Frassinetti do Recife, 1957; mestrado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, 1982; e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, 1993. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Pernambuco; Conselheira do Conselho Estadual de Educação, da Academia Brasileira de Filologia; administradora da Aliança Francesa; professora da Faculdade Frassinetti do Recife e membro do Conselho Social da UPE. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Linguística Histórica. Atuando principalmente nos seguintes temas: Lexicologia, Publicidade, Propaganda. É colaboradora do Jornal do Commercio, com cerca de 200 textos publicados. Bibliografia: Linguagem jornalística: aspectos inovadores, 1983; O que é neologismo?, 2. ed. 1987; Terminologia técnico-científica: aspectos linguísticos e metodológicos, 1991; Linguagens da vida, 1998; A palavra é, 1999; Pensar e escrever, 2004; Publicidade: a linguagem da sedução, 3. ed., 2004; Empréstimos linguísticos na língua portuguesa, 2009; Crônicas do cotidiano (Coleção Letras Edições Eletrônicas), 2010. NELSON Falcão RODRIGUES, (“O menino de Pernambuco”), nasceu no Recife/PE e faleceu no Rio de
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Janeiro/RJ (23.08.1912-21.12.1980). Jornalista, cronista esportivo, romancista, contista, dramaturgo. Seu pai, Mário Rodrigues, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, quando o autor ainda era criança, indo residir na zona norte da cidade. Mário Rodrigues emprega-se no Correio da Manhã. Deixa este jornal e funda, inicialmente, o A Manhã, que não prosperou; posteriormente, A Crítica, ambos jornais sensacionalistas. Nelson, aos treze anos de idade, com seus irmãos Milton, Mário Filho e Roberto passam a trabalhar na redação do novo jornal. Em 1942, estreou a primeira de suas peças, A mulher sem pecado. No ano seguinte, Zbigniew Ziembinski montou, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Vestido de noiva. Além do teatro, do romance, do conto, Nelson Rodrigues foi cronista esportivo conceituado na Imprensa brasileira. Bibliografia: Peças: A mulher sem pecado, 1941; Vestido de noiva, 1943; Álbum de família, 1946; Anjo negro, 1947; Senhora dos Afogados, 1947; Doroteia, 1949; Valsa nº 6, 1951; A falecida, 1953; Perdoa-me por me traíres, 1957; Viúva, porém honesta, 1957; Os sete gatinhos, 1958; Boca de ouro, 1959; O beijo no asfalto, 1960; Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, 1962; Toda nudez será castigada, 1965; Anti-Nelson Rodrigues, 1973; A serpente; 1978. Romances: Meu destino é pecar, 1944; Escravas do amor; 1944; Minha vida, 1944; Núpcias de fogo; 1948; A mulher que amou demais, 1949; O homem proibido, 1959; A mentira, 1953; Asfalto selvagem, 1959 (também conhecido como Engraçadinha); O casamento, 1966. Contos: Cem contos escolhidos – A vida como ela é..., 1972; Elas gostam de apanhar, 1974; A vida como ela é: o homem fiel e outros contos, 1992; A dama do lotação e outros contos e crônicas, 1992; A coroa de orquídeas, 1992. Crônicas: Memórias de Nelson Rodrigues, 1967; O óbvio ululante: primeiras confissões, 1968; A cabra vadia, 1970; O reacionário: memórias e confissões, 1977;
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O remador de Ben-Hur, 1992; A cabra vadia: novas confissões, 1992; A pátria sem chuteiras: novas crônicas de futebol, 1992; A menina sem estrela, memórias, 1992; À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol, 1992; A mulher do próximo, 1992. Telenovelas: TV Rio: Sonho de amor, 1963; O desconhecido, 1964; TV Globo: O homem proibido, 1982. Filmes: Somos dois, 1950; Meu destino é pecar, 1952; Mulheres e milhões, 1961; Boca de ouro, 1963; Meu nome é Pelé, 1963; Bonitinha, mas ordinária, 1963; Asfalto selvagem, 1964; A falecida, 1965; O beijo, 1966; Engraçadinha depois dos trinta, 1966; Toda nudez será castigada, 1973; O casamento, 1975; A dama do lotação, 1978; Os sete gatinhos, 1980; O beijo no asfalto, 1980; Bonitinha, mas ordinária, 1980; Álbum de família, 1981; Engraçadinha; 1981; Perdoa-me por me traíres, 1983; Boca de ouro; 1990; Vestido de noiva; 2006. NILO de Oliveira PEREIRA, (“Um Recife que não volta mais”), nasceu no engenho Verde-Nasce, na cidade de Ceará-Mirim/RN (11.12.1909) e faleceu no Recife/PE (23.01.1992). Filho de Fausto Varela Pereira e de Beatriz de Oliveira Pereira. Estudou no CearáMirim, mudando-se depois para Natal, capital do Estado, onde cursou Humanidades e a Escola de Comércio. Em Natal, aos 15 anos começou a escrever para o jornal Diário de Natal e depois para o jornal A República, do qual foi também repórter. Fez vestibular e cursou o primeiro ano de Direito no Rio de Janeiro, transferindo-se, a partir do segundo ano, para a Faculdade de Direito do Recife, onde bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1932. Foi diretor do Departamento Estadual de Educação por duas vezes. Casou-se em 31 de março de 1943, com Lila Marques Pereira, cujo nome de solteira era Lila Pimentel Marques. Praticamente não exerceu o Direito, pois sua vocação maior foi o jornalismo. Gostava também da atividade de professor, tendo ensinado nos Colégios
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Nóbrega, Salesiano, Padre Félix, Ginásio Pernambucano e vários outros colégios do Recife. Foi redatorchefe da Folha da Manhã, jornal diário que pertencia a Agamenon Magalhães; trabalhou no Jornal do Commercio, do Recife, onde foi editorialista por muito anos e onde publicava regularmente a coluna Notas Avulsas (1954-1992); colaborou com os jornais recifenses Jornal Pequeno, A Tribuna e o Diario de Pernambuco; O Jornal e o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro; O Liberal, de Belém do Pará; A União, de João Pessoa, Paraíba, e com vários jornais de Natal, como o Diário de Natal, A República, O Estado, O Poti e Tribuna do Norte. Recebeu diversos títulos honoríficos e condecorações, entre as quais, o de Professor Emérito e o de Doutor Honoris Causa da UFPE; o de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Comendador da Ordem de Cristo, concedida pelo Governo português; Colar da Universidade de Coimbra, Portugal; Medalha do Mérito Cultural Oliveira Lima, do Governo do Estado de Pernambuco; Medalha Carneiro Vilela, da Academia Pernambucana de Letras, da qual também foi membro. Bibliografia: O período regencial brasileiro, 1939, sua primeira publicação, tese (não defendida) para acesso ao corpo docente do Ginásio Pernambucano; Camões e Nabuco, 1949; Revisionismo e tradição, 1950; Dom Vital e a questão religiosa no Brasil, 1966; Conflitos entre a Igreja e o Estado no Brasil, 1970; Espírito de província, 1970; Ensaios de história regional, 1972; Agamenon Magalhães: uma evocação pessoal, 1973; O tempo mágico, 1975; A Faculdade de Direito do Recife, 1927-1977, 1977; Um tempo do Recife, 1978; Reflexões de um fim de século, 1979; Igreja e Estado: relações difíceis, 1982; Iniciação ao jornalismo: pesquisa histórica, 1982; A rosa verde: crônica quase romance, 1982; Pernambucanidade: alguns aspectos históricos, 1983; Gilberto Freyre visto de perto, 1986; Mauro Mota e o seu tempo, 1987; Profissio452

nais de Pernambuco, 1989; O Estado Novo em Pernambuco, 1989; Conferência sobre a vida e a obra do abolicionista José Mariano, 1990; Os outros, 1996, [livro póstumo]. OLÍMPIO BONALD da Cunha Pedrosa NETO, (“O poder sênior”), nasceu em Olinda/PE (17.10.1932. Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, em 1955, e pós-graduado em Jornalismo Político pela Unicap (década 1980). Sócio da Academia Pernambucana de Letras, sóciofundador do Instituto Histórico de Olinda e da entidade congênere de Goiana. Fundador e presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-PE). Advogado trabalhista e civil e procurador autárquico federal aposentado, membro do Conselho de Cultura do Estado. Foi presidente da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (1994-1995). Até 2000, foi consultor de Cultura da Cidade de Olinda. É professor fundador do Curso de Turismo da Unicap. Colabora na imprensa desde a década de 1950. Está citado no Dicionário biobibliográfico de poetas pernambucanos, 1993; na Antologia Escritores vivos de Pernambuco, 1998; e na Enciclopédia de literatura brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza. É portador da Comenda da Ordem dos Guararapes do Estado de Pernambuco e da Medalha Marechal Trompowsky, do Instituto dos Docentes do Magistério Militar, 2004. É Presidente Emérito da UBE-PE e detentor de vários prêmios literários, entre os quais o de Contos, conferido pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, em 1957; o de Poesia, da UBE-PE, em 1966; o de Ensaio, da Academia Pernambucana de Letras em 1976 e o de Antropologia Cultural, da Fundação Joaquim Nabuco, em 1990. Bibliografia: Contos: Um negro volta ao mangue, 1957; O homem que devia ter morrido há três anos, 1966; Uma noite no castelo, 1985; A loba e os faisões, 1992; Seresta em
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tempo de caju, 1996. Poesia: Dura e breve história da Ilha do Maruim, 1971; Da lúcida visão do homem de pouca fé, 1965; Tríptico: vida, paixão e canto, 1968; Hinapino, 1974; Estudo de cor na Zona da Mata Sul pernambucana, 1976; Cantoria, 1980; Poética olindense, 1981; Balada bacamarteira no Alto do Bom Jesus, 1983; Práxis Amandi, 1984; O livro da poesia de Olímpio Bonald Neto, 1990. Antropologia Cultural: Os bacamarteiros, 1965; Bacamarte, pólvora e povo, 1976, com nova edição aumentada em 2005; Palco e palanque, 1963 e 1988; Apresentação da via-sacra de mestre Nosa, 1969; Folclore, 1975; O Homem da Meia-Noite, 1978; A arte do entalhe: tradição artística olindense, 1985; Os caboclos de lança: azougados guerreiros de Ogum, 1987; Caboclos de lança, 1978; Turismo, folclore e artesanato: 15 Anos de ação da Empetur, 1982; Modernismo e integralismo: a ideologia dos anos trinta, 1996; Culinária popular, turismo e região, 1998; e Gigantes foliões em Pernambuco, 1992, com 2ª edição, em 2007. Ensaios literários, técnicos e didáticos: Guias turísticos de: Olinda, Nova Jerusalém, Itamaracá e PE-2, Tronco Sul (década de 1970); Que é turismo?, 1973; Onde passear no Brasil, 1974; Introdução ao estudo do turismo, 1975; Turismo e trópico, 1977; O verbo e a voz, em colaboração com Nelson Saldanha, 1981; Artistas de Pernambuco, 1982; Cultura, turismo e tempo: a fruição do intangível, 1983; Aspectos da receita turística de Pernambuco, em colaboração com a economista Marinalva Coelho, 1983; Turismo tropical: vocação regional e estratégia internacional capitalista, 1984; Potencial turístico do Nordeste, em coautoria com Zenaide Bonald Pedrosa, 1986; Planejamento e organização do turismo, 1978, 1986, 1989 e 1995; e Elementos do Plano e do Projeto em Turismo, 1999; e O poder sênior, na antologia O fim da velhice, 2006. OSMAN da Costa LINS, (“Anatol Rosenfeld – homenagem à memória do intelectual”), nasceu em
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Vitória de Santo Antão/PE e faleceu em São Paulo/ SP (05.07.1924-08.07.1978). Diplomado em Ciências Econômicas e Dramaturgia. Professor, romancista, ensaísta, contista. Sua obra tem merecido estudos de críticos e professores de universidades brasileiras e estrangeiras, como é o caso da professora Regina Igel, University of Maryland, USA, que escreveu: Osman Lins: uma biografia literária, biogr., 1988; e de Odete Pena Coelho, que produziu Poéticas em confronto: nove, novena e o romance, ensaio, 1987. Osman Lins fez o curso primário na sua cidade natal e, em 1941, transferiu-se para o Recife, conheceu Mário Sette, que incentivou o autor de Avalovara a publicar o seu primeiro conto no Jornal do Commercio. Em 1946, Osman Lins escreve o primeiro romance, O visitante, que conquista anos depois o Prêmio Fábio Júnior, 1955. Seguiram-se o Prêmio Especial, da Academia Pernambucana de Letras, e o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. Muda-se para São Paulo, onde leciona Literatura Brasileira na Faculdade de Marília. Casa-se com a também escritora Julieta de Godoy Ladeira. Bibliografia: O visitante, rom., 1955; Os gestos, contos, Prêmio Monteiro Lobato, SP, 1957; O fiel e a pedra, rom., 1961; Lisbela e o prisioneiro, teatro, 1961, levado ao cinema; A idade dos homens, teatro, 1963; Marinheiro de primeira viagem, relato de viagem, 1963; Nove novena, narrativas, 1966; Um mundo estagnado, ensaio, 1966; Capa-verde e o Natal, teatro infantil, 1967; Guerra do Cansa-Cavalo, teatro infantil, 1967; Avalovara, rom., 1973; Guerra sem testemunhas, ensaio, 1974, sobre o escritor, sua condição e a realidade social; Santa, automóvel e soldado, teatro, 1975; Lima Barreto e o espaço romanesco, ensaio, 1976; A rainha dos cárceres da Grécia, rom., 1976; Do ideal e da glória: problemas inculturais brasileiros, ensaio, 1977; La paz existe?, relato de viagem, 1977; A missa do galo: variação sobre o mesmo
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tema, antologia, da qual foi o organizador, 1977; O diabo na noite de natal, infantil, 1977; Casos especiais de Osman Lins, contos, 1978; Evangelhos na taba: outros problemas inculturais brasileiros, ensaio, 1979. PAULO Fernando Lins CALDAS, (“Flores e baionetas”), nasceu no Recife/PE (15.12.1945). Diplomado em Economia pela UFPE, possui curso de pós-graduação em Engenharia de Produção. Poeta, ficcionista, contista. Milita na Literatura pernambucana desde o início dos anos 1980, voltando-se em especial à produção de literatura infanto-juvenil. Foi vencedor dos Prêmios 50 Anos da AABB, gênero conto, e 25 Anos da Celpe, em poesia. É um dos sócios fundadores da Edições Bagaço. Bibliografia: No tempo do nosso tempo, crônicas, em parceria com o cronista Evaldo Donato, 1980; Era uma vez um quintal, infanto-juvenil, 1982; Anatomia do baixa renda, crônicas, 1982; infanto-juvenil, 1983; Asas pra que te quero, infanto-juvenil, 1985; Reflexões sobre a terceira idade, ensaio, 1987; República dos bichos, infantojuvenil, 1989; Esses bichos maravilhosos e suas incríveis aventuras, infanto-juvenil, 1988; O fascínio da caixa preta, infanto-juvenil, 1992; Destino cidade, infanto-juvenil, 1993; A tecla sigma, infanto-juvenil, 1995; Flores para Cecília, infanto-juvenil, 1996; As faces do escorpião, infanto-juvenil, 1997; A cor da pele, nov., 2000; O sol além da minha rua, nov., 2003; Um anjo chamado alegria, nov., 2005. Quase todos com selo da Edições Bagaço. PAULO CAVALCANTI, (“O Recife de Mauro Mota”), nasceu em Olinda, Pernambuco (1915), mas aos cinco anos se mudou para o Recife. No ano de 1947, passou a integrar a redação do jornal Folha do Povo. Além da política, do jornalismo e do direito, Cavalcanti tornou-se escritor, produzindo trabalhos importantes, como Eça de Queiroz: agitador no Brasil, de 1959.
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Deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro, exerceu o seu mandato por duas vezes, de 1947 a 1951, por ter sido convocado, como primeiro suplente, a assumir a vaga do deputado Barros Barreto, e de 1951-1954, fazendo oposição ao governo de Etelvino Lins. Foi promotor público, advogado, crítico literário e memorialista. Foi também, em 1988, vereador do Recife. Com o golpe de 1964, foi aposentado compulsoriamente, quando se dedica a advogar para presos políticos. Apesar de ter sua origem em famílias tradicionais (Cavalcanti, pelo lado paterno, e Abreu e Lima, pelo materno), Paulo Cavalcanti assumiu a luta em defesa do povo, vivendo o ambiente da classe média pobre do Recife. O autor faleceu no Recife em 1995 aos 80 anos de idade. Bibliografia: Eça de Queiroz: agitador no Brasil, 1959; O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas, 1o. volume de memórias,1978; O caso eu conto como o caso foi, 2o. volume de memórias, 1980; Nos tempos de Prestes, 1981/1982; A luta clandestina, 3o. volume de memórias, 1984/1985; Homens e ideias do meu tempo, 1993; Vale a pena (ainda) ser comunista, 1994; História de um governo popular; Os equívocos de Caio Prado Júnior. PAULO DO COUTO MALTA, (“Cozinha regional”), nasceu em Maceió/AL (28.10.1911) e faleceu no Recife/PE. Na capital alagoana, concluiu seus primeiros estudos. No Recife, onde fixou residência ainda jovem, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da UFPE e dedicou-se ao jornalismo. Servidor público, foi delegado de Polícia e diretor da Companhia de Transportes Urbanos do Recife. Considerado um dos melhores cronistas recifenses do seu tempo, atuou por vários anos no Diario de Pernambuco. Fundou (com Audálio Alves, Eugênio Coimbra Júnior, Selênio Homem de Siqueira, entre
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outros) a Academia Anexa, que tinha como objetivo animar a cultura na capital pernambucana. Na época da II Guerra Mundial, passou a assinar a coluna “USA BITS”, no Diario de Pernambuco. Atuou posteriormente como cronista parlamentar, cobrindo o trabalho de plenário da Assembleia Legislativa. Assinou, em seguida, a coluna “Periscópio”, sobre política. Com a morte de Aníbal Fernandes, assumiu a coluna “Coisas da Cidade”, assinando-a apenas com um “P”. Possuía um considerável domínio sobre a escrita de prosa e a língua portuguesa, demonstrando isso através de um estilo limpo, enxuto e de muita verve. Alagoano pernambucanizado, tornou-se um jornalista que entendia bastante dos meandros da política pernambucana. PAULO FERNANDO CRAVEIRO, (“O mestre de telas alheias”), nasceu em Alagoa do Monteiro/PB (1934). Estudou na Faculdade de Direito do Recife. Fez curso de estilo literário na Faculdade de Filosofia da Universidade de Madri, ganhou o Prêmio de Jornalismo Carlos Septien, criado pelo Instituto de Cultura Hispânica de Madri, frequentou aulas de teoria política na George Washington University, em Washington, e aperfeiçoouse em jornalismo na Thomson Foundation, no País de Gales. Gilberto Freyre o considerava “um mestre brasileiro da crônica jornalística tocada de graça”. Bibliografia: O homem só, 1959; Prefácio da cidade, 1961 e 1991; A mulher no silêncio, 1964; A voz escrita, 1968; A fábula da guerra, 1970; O pintor de fêmeas, 1976 e 1977; As sandálias do tempo, 1978; Os olhos azuis da sombra, 2004; O último dia do corpo, 2005; Pássaro feito de pó, 2007; Boa terra de ódios, 2007; O boneco íntimo, 2009. PAULO GILENO CYSNEIROS, (“Tudo flui”), é graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco, 1968; mestre em Educação pela Michigan State University, 1972; doutor em Psicolo458

gia Educacional pela Syracuse University, 1979. Exerceu o magistério no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco, de 1979 a 1996. Foi professor visitante da Universidade Federal da Paraíba de 1997 a 2000 e da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Ceará, de 2001 a 2003. Professor da Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes, Aracaju, Sergipe, em 2006, e do Mestrado em Tecnologia da Informação e Comunicação na Formação em EAD (parceria entre a Universidade Federal do Ceará – UFC e a Universidade Norte do Paraná – Unopar) até 2009. Nas últimas três décadas, tem-se dedicado ao ensino e à pesquisa em Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação – Formação de Professores para uso de Novas Tecnologias; Gestão de Tecnologias na Educação; Educação à Distância. Representante do Brasil na Rede Ibero-Americana de Informática Educativa (Ribie). Membro do Comitê Pedagógico do Projeto Um Computador por Aluno, do Ministério da Educação do Brasil (Secretaria de Educação à Distância), 2007-2009. Membro de corpo editorial em 1998 da revista Informática Educativa; em 2003, da revista da Faced e em 1999 da Revista Brasileira de Informática na Educação. É membro do Comitê Pedagógico do Projeto UCA – Um Computador por Aluno – da SEEDMEC/Presidência da República, nomeado através de Portaria em 2007. Tem textos publicados em jornais de notícias/revistas: Amarelo Manga. Expresso do Norte, Sobral, Ceará, 19 set. 2003; Professores, Alunos e Computadores: quem ensina a quem?. Fractais, Recife, UFRPE, v. 2, p. 26 - 32, 11 dez. 2001. RAIMUNDO CARRERO, (“Uma cidade feliz. E gorda”), nasceu em Salgueiro/PE (20.12.1947). Jornalista, romancista, crítico literário, conferencista, teatrólogo, contista. Estudou em regime de internato e externa459

to no Salesiano, no Arquidiocesano e Estadual de sua cidade natal. Mudou-se para o Recife e dedicou-se ao jornalismo. Entrou no Diario de Pernambuco, onde exerceu vários cargos, e assinou uma coluna de crítica literária. Trabalhou também na Televisão e no Rádio. Foi assessor de Imprensa da Fundaj e no Departamento de Extensão Cultural da UFPE, sob a orientação de Ariano Suassuna. Nessa época, ao lado de Marcus Accioly, Ângelo Monteiro e Maximiano Campos, integrou o Movimento Armorial e escreveu a novela A história de Bernarda Soledade: a tigre do sertão. Com esse mesmo espírito, de sabor mais rural, escreveu também As sementes do sol – o semeador e A dupla face do baralho. Nessa mesma época, estreou no teatro com a peça Anticrime, encenada pelo Grupo Otto Prado. Escreveu ainda para o teatro: O misterioso encontro do destino com a morte. Recebeu os Prêmios Governo do Estado, PE, 1985; APCA, 1995; FBN, 1995; Jabuti, 2000. Ganhou recentemente o Prêmio São Paulo de Literatura, 2010, com o livro Minha alma é irmã de Deus Bibliografia: Anticrime, teatro, 1971; A história de Bernarda Soledade: a tigre do Sertão, 1975, reeditado em 2007; As sementes do sol – o semeador, 1981; A dupla face do baralho: confissões do Comissário Félix Gurgel, 1984; Sombra severa, 1986; Viagem no ventre da baleia, 1986; O senhor dos sonhos, 1987; Maçã agreste, 1989; Sinfonia para vagabundos, 1992; Extremos do arco-íris, 1992; Somos pedras que se consomem, 1995; As sombrias ruínas da alma, 1999; Sombra severa, 2001; Orlando Parahym: o arco e o escudo, 2001; Ao redor do escorpião... uma tarântula?, 2003; Os extremos do arco-íris, 2004; O delicado abismo da loucura, 2005; Os segredos da ficção: a arte de escrever, 2005; O amor não tem bons sentimentos, 2007; Contos de Oficina, nº 4, 2007; Minha alma é irmã de Deus, 2010. RAIMUNDO DE MORAES, (“As reclusas de Chawton e Amherst”), é jornalista e publicitário, e colunista do
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Interpoética. Vem da eclética geração do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, que levou para as ruas da capital pernambucana, através de happenings e recitais, a nova proposta de arte dos chamados “escritores marginais”. Na década de 1990, residiu na Europa, trabalhando como tradutor do Progetto Comett de capacitação universitária. De volta ao Brasil, dedicou-se às áreas de publicidade e jornalismo cultural. Publicou Baba de moço (com o heterônimo Aymmar Rodriguéz) e Tríade (através de projeto aprovado no Funcultura, Fundarpe). Em coletâneas: Recife conta o São João (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2008); antologia nacional Dedo de moça (Terracota, 2009) e demais coletâneas dos concursos literários nos quais foi premiado: Concurso Nacional Carlos Drummond de Andrade (Sesc-DF, seleção 2008); Off Flip 2008, primeiro lugar nacionalexterior categoria Poesia; Concurso Nacional de Literatura Fundação Garibaldi Brasil, Rio Branco, Acre, categoria Conto, 2008; Menção Honrosa em Poesia no Concurso Nacional Mendonça Filho (Jornal Extra/ Academia Alagoana de Letras, 2008); Menção Honrosa no Concurso Nacional Helena Kolody (Secretaria Estadual do Governo do Paraná, 2007); Concurso Nacional de Contos Machado de Assis (Sesc-DF, seleção 2007); Nelson Rodrigues e as Tragédias Cariocas Hoje (Editora Nova Fronteira / Autoria.com, 2007); Prêmio Mostre seu Talento – Poesia (Chesf / Sindicato dos Bancários de Pernambuco, 2006). RAUL d’Ávila POMPÉIA, (O carnaval no Recife – impressão de viagem), nasceu em Jacuecanga, município de Angra dos Reis/RJ (12.04.1863). Foi aluno interno no Colégio Abílio, tendo completado seus estudos secundários no Colégio Pedro II. Estudou Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Em 1885, transfere-se com vários
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colegas, para a Faculdade de Direito do Recife, para terminar o curso. Ensina, a partir de 1891, Mitologia, na Escola Nacional de Belas-Artes. Nomeado diretor da Biblioteca Nacional em 1894, é exonerado desse cargo no ano posterior. Patrono da Cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras. Suicida-se no Rio de Janeiro, em 25.12.1895. Bibliografia: Uma tragédia no Amazonas, rom., 1880; Microscópicos, contos, 1881; As joias da Coroa, rom., 1882, O Ateneu, rom., 1888; Canções sem metro, poema em prosa, 1900; Alma morta, 1888; Prosas esparsa de Raul Pompéia, 1920-1921. REINALDO da Rosa Borges de OLIVEIRA, (“O vazio”), nasceu no Recife (28.6.1930). Filho de Valdemar de Oliveira e de Diná de Oliveira. Médico-cirurgião formado pela antiga Universidade do Recife. É teatrólogo, ator, compositor, contista e escritor brasileiro. Faz parte das seguintes entidades: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional de Pernambuco – sócio titular desde 1977, foi seu presidente no biênio 1982-1983; Academia Pernambucana de Letras, ocupa a Cadeira nº 24 desde 1993; Academia de Letras e Artes do Nordeste, ocupa a Cadeira nº 28; Academia de Artes e Letras de Pernambuco; Academia Pernambucana de Música; Academia Pernambucana de Ciências; Sociedade Brasileira de Autores Teatrais; Teatro de Amadores de Pernambuco; União Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco. Escreveu as peças teatrais Frevo, capoeira e passo, em coautoria com seu irmão Fernando de Oliveira; Ave Maria… gool, entre outras. Dirigiu mais de 10 peças teatrais e atuou em mais de oitenta. Recebeu os prêmios Medalha do Mérito Guararapes do Governo do Estado de Pernambuco; Medalha do Mérito José Mariano da Prefeitura do Recife; Medalha do Mérito Joaquim Nabuco da Fundação Joaquim Nabuco; Medalha do
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Mérito Joaquim Nabuco da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Bibliografia: Manga rosa, 1995; Alegria de morrer: um conto e cem crônicas, 2008. RENATO CARNEIRO CAMPOS, (“Recife”), nasceu em Jaboatão dos Guararapes/PE (08.03.1931) e faleceu no Recife/PE (31.01.1977). Sociólogo e professor de Literatura na UFPE. Pesquisador e diretor do Departamento de Sociologia da Fundação Joaquim Nabuco (antigo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais). Concluiu o curso de Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1953. Conferencista, ensaísta e colaborador de revistas e jornais diversos, publicando também ensaios na área de folclore. Em 1984, suas crônicas semanais publicadas no Diario de Pernambuco foram reunidas em livro póstumo sob o título Sempre aos domingos. Bibliografia: Folhetos populares na zona dos engenhos de Pernambuco, 1955; Ideologia dos poetas populares do Nordeste, 1959; Arte, sociedade e região, 1960; Carlos Pena Filho: poeta da cor, 1967; Igreja, política e região, 1967; Tempo amarelo e outros tempos, 1980; Sempre aos domingos, 1984. ROBSON SAMPAIO, (“Uma ruela estreita, espremida...”), nasceu em Maceió/AL (16.07.1947). Veio para o Recife com 12 anos. É jornalista há 42 anos e autor dos livros O Recife & outros poemas, 2007, e, em 2009, Eu sou Capibaribe, pelo Instituto Maximiano Campos/ Edições Bagaço. Poeta e boêmio, tem as suas poesias publicadas nos três jornais do Recife e em revistas da Capital e do Interior. Além disso, tem seus poemas afixados nas paredes do Bar Savoy, Canto do Poeta, Bar 75 e no Restaurante Dom Pedro. Em 2006, recebeu o título de Cidadão do Recife, na Câmara Municipal do Recife e, ainda nesse ano, o Troféu Cultural Calunga, em homenagem aos 75 anos do Bloco Car463

navalesco Homem da Meia-Noite. Em 2009, recebeu a Comenda José Olegário Mariano, também na Câmara Municipal do Recife. É sócio da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP) e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, desde 1968; fundador e diretor do Sindicato dos Escritores do Estado de Pernambuco e da Academia Maceioense de Letras. Há 12 anos, é colunista da Folha da Cidade, publicada diariamente no jornal Folha de Pernambuco, onde atua desde a fundação, em 1998. Eventualmente, atua também como editorialista da Folha, ao lado do jornalista Fernando Mendonça. E, desde 1984, é jornalista da Secretaria de Imprensa do Governo do Estado. Ainda em reconhecimento ao seu trabalho, foi agraciado com várias homenagens, troféus, medalhas e diplomas de instituições, a exemplo do CPOR do Recife, da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, da Comissão de Moral e Civismo do Governo do Estado, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, dentre outros. É oficial da Reserva do Exército, Turma de 1967 do CPOR-Recife e torcedor do Náutico. RONALDO CARNEIRO LEÃO, (“Carta aberta a um ladrão”), é idealista, corredor, viajante, aprendiz de cientista, especialista em conversas em cafés do Recife, pai, avô e, nas horas vagas, escritor. Ufa! Nasceu no Recife em 1947. No site Cyber Artes, publicou mais de 1.800 matérias sobre artes plásticas nos últimos oito anos, mas o seu entusiasmo são mesmo as crônicas do cotidiano. Seu primeiro livro nasceu da insistência dos amigos para que publicasse suas crônicas bem-humoradas e irreverentes. Bibliografia: A arca de Noé, crônicas, 2010. RONALDO CORREIA DE BRITO, (“E mesmo assim continuamos escrevendo”), nasceu no Ceará e reside no Recife. É médico formado pela Universidade
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Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular. Publicou o romance Galileia, 2008, pela editora Alfaguara – Prêmio São Paulo de Literatura, 2009, Melhor Livro do Ano; os livros de contos Faca, 2003, e Livro dos homens, 2005, editados pela Cosac&Naify; e As noites e os dias, 1997, pela editora Bagaço. Dramaturgo, autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim, encenadas em todo o Brasil, gravadas em disco pelo selo Eldorado, e editadas tanto no formato teatral como em prosa. Baile do Menino Deus e Arlequim, textos teatrais publicados pela Objetiva, foram distribuídos pelo Programa Nacional Biblioteca Escolar. Autor de O pavão misterioso, nov. infanto-juvenil, também encenada, gravada em disco e editada pela Cosac&Naify, 2004. Assinou durante sete anos a coluna Entremez, na revista Continente Multicultural, e assina coluna semanal na revista Terra Magazine, do Portal Terra. Escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. RONILDO MAIA LEITE, (“O boêmio morre de madrugada. Com o sol. Iluminadamente”), nasceu em Garanhuns/PE (30.10.1930) e faleceu no Recife/ PE (05.07.2009). Jornalista, desenvolveu sua carreira no Recife, onde atuou em diversos jornais, entre eles Diario da Noite, Diario de Pernambuco, sucursais da revista Veja, do jornal O Globo, do qual foi chefe da sucursal Nordeste. Autor de 15 livros, participante de três antologias, quatro prêmios e uma menção honrosa do Esso de Jornalismo. Começou a carreira profissional no Jornal Pequeno, de onde saiu para o Correio do Povo. Foi, também, redator de publicidade, chefe de redação do Diario da Noite, repórter freelancer da revista Istoé. Diploma Mérito Cultural conferido pela Fundação de Cultura de Pernambuco, Diploma
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de Memória Viva do Recife, da Fundação de Cultura do Recife, Medalha comemorativa dos 40 anos da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, entre outras honrarias. ROSTAND Carneiro Leão PARAÍSO, (“Das calçadas, quintais e jardins do Recife”), nasceu no Recife/PE (26.02.1930). Fez o curso ginasial e científico no Liceu Pernambucano e graduou-se pela Faculdade de Medicina da UFPE em 1953. Com relação à pós-graduação, através de bolsa de estudos concedida pelo American College of Physicians e pela W.K. Kellogg Foundation, fez estágios na Columbia University e Cornell University, ambas em New York, de maio a julho de 1961; e na Tulane University, em New Orleans, de agosto de 1961 a agosto de 1962. Foi professor de clínica médica nas duas escolas médicas de Pernambuco, tendo se aposentado como professor adjunto na Universidade Federal de Pernambuco. Tem diploma de Fellow in Medicine, pelo American College of Physicians. Foi agraciado em 1996, com o diploma de Memória Viva do Recife, concedido pelo Museu da Cidade do Recife; em 1998, com o Prêmio Valdemar de Oliveira, concedido pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames) – Regional de Pernambuco. Em 2001, com o Diploma Cultural, na categoria de Historiador, concedido pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e, em 2005, homenageado, na V Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, pela Secretaria de Saúde de Pernambuco. Colaborador literário desde 1992 do Jornal do Commercio recifense, publicando crônicas na Seção Opiniões daquele matutino. Pertence à Academia Pernambucana de Letras, Cadeira nº 14, e à União Brasileira de Escritores (UBE), entre outras entidades. Bibliografia: Antes que o tempo apague, crônica dos anos 40 e 50, 1993; Tantas histórias a contar, 1994; O Recife e a II Guerra Mundial, 1995; Esses ingleses..., 1997; Cadê
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Mário Melo..., 1997; A indefinível cor do tempo, 1998; A esquina do Lafayette – e outros tempos do Recife, 2001; A velha Rua Nova – e outras histórias, 2002; Charme e magia dos antigos hotéis e pensões recifenses, 2003; A velha senhora, 2004; Livros, livreiros, livrarias, 2006; Fuxicos literários: a boemia dos cafés, 2007; A magia dos quadrinhos, 2008; O vendedor de livros (em preparo). RUBEM BRAGA, (“Véspera de São João no Recife”), nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES (12.01.1913) e faleceu no Rio de Janeiro/RJ (19.12.1990). Iniciou seus estudos naquela cidade, continuando-os em Niterói, no Colégio Salesiano. Estudou Direito inicialmente no Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte/MG, em 1932. Na capital mineira, casou-se em 1936, com Zora Seljan Braga, de quem posteriormente se desquitou, mãe de seu único filho, Roberto Braga. Foi correspondente de guerra do Diário Carioca na Itália, onde escreveu o livro Com a FEB na Itália, em 1945. De volta ao Brasil, morou no Recife, em Porto Alegre e em São Paulo, antes de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro. Como jornalista, exerceu as funções de repórter, redator, editorialista e cronista em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Porto Alegre e do Recife. Correspondente de O Globo em Paris, em 1947, e do Correio da Manhã, em 1950. A presença de Rubem Braga no Recife se deu de maio a setembro de 1935. Levado por Antônio de Alcântara Machado, trabalha em O Jornal, dos Diários Associados, mas sua relação com Assis Chateaubriand é difícil, precária, instável. Alceu Amoroso Lima exige a demissão de Braga, tendo como causa a publicação de um artigo do cronista, no qual ele atacara a Igreja Católica. Essa crise culmina com a vinda de Braga ao Recife. Convive com intelectuais e boêmios locais, frequenta a zona do meretrício e escreve crônicas que se popularizam em todo o Bra467

sil. Faz amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Diégues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu 25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Aliança Libertadora Nacional nordestina editado por Braga. Depois de três prisões, deixa a cidade em 13 de setembro, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro. Bibliografia: O conde e o passarinho, 1936; O morro do isolamento, 1944; Com a FEB na Itália, 1945; Um pé de milho, 1948; O homem rouco, 1949; 50 Crônicas escolhidas, 1951; Três primitivos, 1954; A borboleta amarela, 1955; A cidade e a roça, 1957; 100 Crônicas escolhidas, 1958; Ai de ti, Copacabana, 1960; A traição das elegantes, 1967; As boas coisas da vida, 1988; O verão e as mulheres, 1990; Um episódio em Porto Alegre: uma fada no front, 2002. SALMA BANDEIRA DE MELLO, (“Maria do cais”), nasceu em Manaus/AM (02.06.1947). Está radicada no Recife desde 1948. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Carmo, na Universidade Católica de Pernambuco (Direito) e na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Psicologia). É delegada de Polícia, tendo sido a primeira Delegada da Mulher em Pernambuco. Lecionou Direito Civil na Unicap e Psicologia do Comportamento na Facho. Bibliografia: Vivências, crônicas, 1976; Impressões, poemas, 1985; Delegacia da Mulher: uma percepção da condição feminina, ensaio, 1986; Inventário do tempo, crônicas, 2002; Descompasso do tempo, crônicas, 2010. SAMARONE LIMA, (“Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho”), é cearense radicado no Recife. Por opção, jornalista desde 1993. Por acidente do destino, dono de bar duas vezes, carreira que encerrou definitivamente, com muitos prejuízos financeiros e psicológicos. Trabalhou em jornais e revistas os
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mais diversos, mas também ganhou seu pão escrevendo relatos pornôs para a revista Brazil. Santa Cruz de corpo e alma, desde que chegou ao Recife, em 1987, e se deparou com a massa coral, no Arruda. Zagueiro raçudo na pelada dos “Caducos”, aos domingos, mas com limitações na saída de bola. Fracassou brutalmente na carreira de boxeador e saxofonista, mas teve um rendimento razoável na carreira política, quando foi presidente da Casa do Estudante Universitário (CEU), em 1991. Todos sobreviveram. Depois disso, nunca mais disputou eleições nem concorreu a mandatos. Participou ativamente de dois momentos fundamentais da cidade do Recife: a fundação da Troça Carnavalesca Mista “Os Barba” e da Torcida Organizada Musical “Sanfona Coral”. Vive no Recife e tem quatro livros publicados: Zé, 1998; Clamor, 2003; Estuário, 2005; e Viagem ao crepúsculo, 2009. Zé e Estuário estão esgotados. ULYSSES LINS DE ALBUQUERQUE, (“Antônio Piutá entre cangaceiros”), nasceu em Sertânia/ PE (09.05.1889) e faleceu no Rio de Janeiro/RJ (29.12.1979). Foi coletor estadual e federal, professor e bacharel em Direito. Como escritor, poeta e historiador, foi membro da Academia Pernambucana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco e do Instituto Arqueológico Nacional. Teve seus primeiros poemas publicados na Gazeta de Pesqueira, PE, em 1905. Eleito em 1938 para a Academia Pernambucana de Letras, o sertaniense Ulysses Lins de Albuquerque ocupou a Cadeira nº 1, cujo patrono é Bento Teixeira Pinto. O atual ocupante da Cadeira nº 1 é o escritor olindense Olímpio Bonald Neto. A essa época, transferido para São Paulo, atuou na advocacia e na indústria agropecuária. Em 1945, elegeu-se constituinte e, depois, deputado federal por Pernambuco, na legenda do Partido Social De469

mocrático (PSD), reelegendo-se nos pleitos de 1950 e de 1954. Um de seus filhos, Etelvino Lins, foi interventor de Pernambuco, senador, deputado federal e governador de Pernambuco. Bibliografia: Ao sol do sertão, versos; Mestres e discípulos, sonetos; Fogo e cinza, poesia; Um sertanejo e o sertão, memórias; Chico Dandim, rom.; Moxotó brabo; Sol poente; Seara alheia; E a noite vem; Três ribeiras; O boi de ouro e outros escritos. URARIANO MOTA de Santana, (“Miss Pernambuco 1963”), nasceu no Recife/PE (29.09.1950). Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e demais publicações alternativas, na época da ditadura. Na Ficção, número especial de humor, n. 16, de abril de 1977, um conto seu, Uma noite na bahiana, recebeu publicação ao lado de Fernando Sabino, Orígenes Lessa, Mário Quintana, José Cândido de Carvalho. Tem contos, crônicas e artigos em lugares que vão da Europa ao Brasil. Em revistas brasileiras, tem publicado na Carta Capital, na Fórum e na Continente. No Brasil, é colunista do Direto da Redação, www.diretodaredacao.com. Colaborador do Observatório da Imprensa. No exterior, possui textos publicados nos sites CounterPunch, http://www.counterpunch.org; Nova Cultura, www.novacultura.de; Musibrasil, www.musibarsil.net; La Insignia, www.lainsignia. org; Portugal em Linha, http://www.portugal-linha.pt; revista Mirada Global, http://www.miradaglobal.com; LaRepública, http://larepublica.es; e La Jiribilla, de Cuba, http://www.lajiribilla.co.cu. Agora, com o livro Soledad no Recife percorre as veredas dos testemunhos e das confissões ao reviver a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, que sofreu tortura e foi assassinada pela ditadura militar. Seu primeiro romance, Os corações futuristas, recebeu críticas entusiasmadas na Alemanha, Itália e Brasil.
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Em Os corações futuristas, a paisagem humana física também era a ditadura Médici, no Recife. VANDECK SANTIAGO, (“Eu estava lá e vi”), nasceu em Pesqueira, agreste pernambucano. É autor de um romance inédito (Tá com medo, condenado?), que até agora só teve dois leitores: Xico Sá e Raimundo Carrero. Os dois gostaram. Carrero até escreveu uma apresentação para se um dia o livro for publicado: “É um romance forte e violento, o autor estreia na literatura brasileira com muita determinação”. Dê-se o desconto de que, além de amigos do autor, Xico e Carrero são conhecidos pela generosidade. Além de escritor nas horas vagas, Vandeck é jornalista. Trabalhou na Veja, na Folha de S. Paulo e no Jornal do Brasil. Hoje é repórter especial do Diario de Pernambuco. Ganhou 12 prêmios jornalísticos, entre os quais o Esso e o Embratel. Já publicou cinco livros de não ficção, entre os quais Josué de Castro: o gênio silenciado, 2008; e Francisco Julião: as Ligas e o Golpe Militar de 1964, 2004. Participou ainda de três coletâneas lançadas por editoras de São Paulo, como A questão agrária no Brasil, vol. 4, 2006; e A ditadura militar no Brasil, 2008. VALDEMAR DE OLIVEIRA, (“Boi”), nasceu no Recife/PE (02.05.1900), na rua da Imperatriz. Faleceu no Recife (18.04.1977). Foi adotado pela tia Clotilde de Oliveira, que o educou no colégio por ela dirigido, o Prytaneu, embora não perdesse os vínculos com os pais verdadeiros, Bianor de Oliveira e Maria Almeida de Oliveira. Desde cedo demonstrou suas aptidões para o piano e aos onze anos dava um concerto no Teatro moderno, tocando a Sonata Patética, de Beethoven. Estudou Medicina na Bahia, onde se formou em 1922. Voltando para o Recife, cursou a Faculdade de Direito, saindo bacharel em 1929. Por esse tempo já se dedicava ao jornalismo, do qual nun471

ca se afastaria, e ao teatro e à música que impregnaram, fortemente, a sua vida. Criou a Sociedade de Cultura Musical com o médico Gouveia de Barros e fundou o Teatro de Amadores de Pernambuco, sua obra máxima que continua “rexistindo”. Foi compositor escrevendo muitas operetas, para adultos (Aves de arribação, Rosa vermelha, Bob & Bobete, Madrinha dos cadetes) e crianças (A princesa Rosalinda, Terra adorada, Em marcha, Brasil). Ator e diretor de mais de 50 peças no Teatro de Amadores, tendo escrito vários originais, alguns premiados pela Academia Brasileira de Letras (Honra ao Mérito). Membro e presidente da Academia Pernambucana de Letras, assim como do Rotary Club Recife. Fez parte também do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, por ele fundada, e professor catedrático de Higiene da Faculdade de Ciências Médicas que ajudou a fundar e da qual foi diretor, além de professor da Faculdade de Medicina e de inúmeros colégios e ginásios do Recife. Escreveu vários compêndios científicos sobre Biologia, Botânica, Higiene, Zoologia, Mineralogia e Ciências Físicas e Naturais. WALDENIO FLORÊNCIO PORTO, (“Sábado de Zé Pereira em Caruaru”), nasceu em Caruaru/PE (29.07.1935). É romancista e memorialista. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco em 1959, especializando-se em Proctologia. Pertence, entre outras, às seguintes entidades de classe: Colégio Brasileiro de Cirurgiões; Colégio Internacional de Cirurgiões; Sociedade Brasileira de Coloproctologia; Academia Pernambucana de Medicina; Academia Pernambucana de Ciências; Academia Brasileira de Medicina Militar. Tem participação efetiva em entidades literárias, a exemplo da Associação Cultural de Caruaru (foi seu fundador e presidente); da Socie472

dade Brasileira de Médicos Escritores (presidente da Regional Pernambuco entre 1988 e 1991; presidente nacional entre 1992 e 1993); da União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos (UMEAL), que criou, em 1992, com médicos escritores e artistas de Pernambuco, Rio de Janeiro, Portugal e Moçambique; foi seu primeiro presidente, sendo reconduzido ao cargo em 2007, durante o VI Congresso da entidade. Na Academia Pernambucana de Letras ocupa a Cadeira nº 15 desde 1995, sendo seu presidente desde 26 de janeiro de 2002, eleito por unanimidade; na Academia de Letras e Artes do Nordeste ocupa a Cadeira nº 31. Bibliografia: As flores que não plantei; Fernando Paulin: o cirurgião; As vinhas da esperança: memórias de um xepeiro; Quando se cobrem de verde as baraúnas; A emoção da palavra; Violinos no Coque. WALDIMIR MAIA LEITE, (“Para este domingo”), nasceu em Garanhuns/PE e faleceu no Recife/PE (24.12.1925-30.06.2010). Jornalista e poeta, trabalhou durante 50 anos no Diario de Pernambuco. Durante 22 anos, foi assessor de Imprensa da Sudene, cargo no qual se aposentou. Em 1975, recebeu o Prêmio Recife de Humanidades, categoria conto, promovido por Francisco Matarazzo. Medalhas de Mérito Cultural da Fundação Joaquim Nabuco e do Governo de Portugal. Títulos de cidadão honorário das cidades do Recife, de Jaboatão dos Guararapes e de Saloá, em Pernambuco, conferidos pelas câmaras de vereadores dessas cidades. Ocupou a Cadeira nº 38 da Academia Pernambucana de Letras, tendo tomado posse em 1980. Bibliografia: Ofício da busca e outros ofícios, poemas; Quatro poemas de outono, poemas; O viajante das palavras, crônicas; Terra molhada, crônicas. Waldimir Maia Leite: a voz e a poesia, disco com poemas e crônicas lidos pelo autor, Fundação Joaquim Nabuco.

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Índice Onomástico

A Abdias Moura 5, 23, 25, 27, 29, 31, 33, 385 Abelardo da Hora 408, 426 Admaldo Matos de Assis 5, 28, 29, 385 Afrânio Coutinho 453 Agamenon Magalhães 452 Alberto da Cunha Melo 5, 30, 415 Alceu Amoroso Lima 467 Aldenita Macedo 422 Aldomar Conrado 418 Alex (José de Souza Alencar) 5, 34, 387 Alfredo Freyre 413 Alfrízio Melo 421 Almir Castro Barros 416 Altamiro Cunha 20 Aluizio Falcão 5, 36, 37, 388 Aluízio Furtado de Mendonça 5, 38, 39, 388 Álvaro Amorim 408 Amália Maria de Oliveira Carvalho 395 Amaro de Lyra e César 389 Ana Bernardo do Nascimento 431 Ana Canen 417

Ana Lúcia Arraes de Alencar 447 Ana Maria César 5, 41, 389 Anatol Rosenfeld 7, 19, 454 Anco Márcio Tenório Vieira 402 Anderson Braga Horta 402 Andrade Lima 393 André Lhote 408 André Malraux 418 Ângelo Monteiro 415, 460 Aníbal Fernandes 20, 458 Anthony Burgess 411 Antônio Callado 411 Antônio Camelo 19, 415 Antônio Campos 5, 9, 21, 45, 271, 390, 437, 447 Antonio Candido 16 Antônio de Alcântara Machado 467 Antônio Falcão 5, 47, 49, 391 Antônio Houaiss 441 Antônio Maria 5, 18, 50, 51, 392 Ariadne Quintella 5, 52, 53, 392

Ariano Suassuna 5, 54, 55, 57, 394, 397, 411, 417, 418, 440, 448, 460 Arnaldo Jabor 411 Arnaldo Tobias 416 Arnaud Mattoso 5, 59 Arthur Carvalho 5, 62, 63, 395 Assis Chateaubriand 392, 416, 467 Audálio Alves 457 Áurea Ventura de Lyra e César 389 Aymmar Rodriguéz (v. Raimundo de Moraes) 461

B Barbosa Lima Sobrinho 385 Barros Barreto 457 Beatriz Alcântara 432, 433 Beatriz de Oliveira Pereira 451 Bento Teixeira Pinto 469 Bernardina de Sousa Morais 448 Bianor de Oliveira 471

C Caetano Veloso 411 Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa) 18, 398, 418, 429, 468

Carlos Cavalcanti 5, 65, 67, 395, 396 Carlos Diegues 411 Carlos Drummond de Andrade 15, 16, 402, 439 Carlos Eduardo Novaes 15 Carlos Koch de Carvalho 395 Carlos Newton Júnior 5, 69, 397 Carlos Pena Filho 5, 74, 75, 386, 416 Carmignani 432 Carybé 426 Cássio Cavalcante 5, 76, 77, 398 Celso Marconi 5, 79, 81, 385, 399 Celso Rodrigues 5, 83, 85, 399 César Leal 415 Cícero Belmar 5, 87, 89, 400 Cícero Dias 18, 408, 468 Cícero (padre) 19 Cida Sepúlveda 420 Clarice Lispector 5, 15, 18, 90, 91, 400, 412 Cláudia Cordeiro 390 Cláudio Aguiar 416 Clotilde de Oliveira 471 Cristiano Ramos 5, 20, 93, 95, 401 Cyl Gallindo 6, 97, 99, 101, 390, 402, 403

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D Dagoberto Carvalho Júnior 416 Daniel Cohn-Bendit 411 David Nasser 410 Destutt de Tracy 431 Di Cavalcanti 426 Diná de Oliveira 462 Dolores Duran 392 Douglas Tufano 15

E Eça de Queiroz 414, 444 Edilberto Coutinho 398 Eduardo Campos 447 Elizabeth II 415 Emílio Garrastazu Médici 471 Erasmo Vilela 416 Ermelinda Ferreira 302 Ernani Régis 422 Esther Sterenberg 6, 102 Etelvino Lins 457, 470 Eugênio Coimbra Júnior 457 Evaldo Cabral de Mello 17 Evandro Lins e Silva 422 Everardo Norões 6, 18, 105, 107, 109, 111, 404, 445

Fernanda Montenegro 411 Fernand Léger 408 Fernando de Oliveira 462 Fernando Gabeira 411 Fernando Henrique Cardoso 417 Fernando Lobo 18, 392, 468 Fernando Mendonça 464 Fernando Monteiro 6, 116, 402, 405 Fernando Pessoa 428 Fernando Portela 6, 123, 125, 406 Fernando Sabino 15, 16, 470 Ferreira Gullar 411 Flávio Chaves 6, 127, 129, 407 Flávio Marinho Falcão 391 Francelina Ribeiro de Souza Bandeira 438 Francisca de Mello Freyre 413 Francisco Brennand 6, 20, 130, 408 Francisco Julião 411 Francisco Matarazzo 473 Francisco Pessoa de Queiroz 425 Frederico Pernambucano de Mello 6, 20, 134, 135, 409

F Fátima Quintas 6, 113, 115, 404 Fausto Varela Pereira 451
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G Gastão de Holanda 417, 418 Geneton Moraes Neto 6, 137, 410 George Lyttelton 431 Geórgia Alves 6, 20, 141, 412 Geraldo Pereira 6, 143, 145, 413 Gilberto Freyre 6, 18, 146, 380, 385, 402, 405, 409, 411, 413, 414, 415, 444, 446, 458, 468 Gilberto Gil 411 Gilvan Samico 426 Giuliano Bianchi 422 Gladstone Vieira Belo 6, 19, 149, 151, 153, 415 Gouveia de Barros 472 Graciliano Ramos 442 Gregório Bezerra 411 Guajassy Gallindo 403 Guita Charifker 426 Gustavo Capanema 438 Gustavo Krause 6, 155, 157, 416

Hermilo Borba Filho 6, 18, 158, 394, 417, 418 Hitler 411 Homero Fonseca 6, 161, 163, 165, 166, 419 Honório Torombert 431 Hugo Vaz 6, 167, 169, 419

I Ida Leite Falcão 391 Ilane Ferreira Cavalcante 435 Inah Lins 6, 170, 171, 173, 175, 420 Ismael Neto 392 Italo Bianchi 6, 176, 177, 421 Ivanildo Sampaio 6, 179, 181, 422

J Jaci Bezerra 334, 415 Jairo Lima 421 Janguiê Diniz 6, 182, 183, 423 Jânio de Freiras 422 Jenner Augusto 426 J. Galante de Souza 453 Joán Miró 408 João Cabral de Melo Neto 411 João Câmara 411 João Carlos Taveira 446 João do Rio 14

H Helder Camara (dom) 411 Hélio Fernandes 448 Heloisa Buarque de Hollanda 19 Henfil 411

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João Goulart 448 João Lopes Cardoso Machado 431 João Saldanha 411 Joaquim Cardozo 403, 411 Joaquim Cesário de Melo 6, 185, 424 Joca Souza Leão 6, 188, 189, 421, 424 Joel Pontes 417 Joel Silveira 411, 412 Jomard Muniz de Britto 303, 402 Jorge Abrantes 6, 20, 191, 193, 425 Jorge Ariel Madrazo 403 José Antônio Gonsalves de Mello 430 José Ben Rodrigues 427 José Cândido de Carvalho 470 José Carlos Brandão Monteiro 448 José Carlos Cavalcanti Borges 418 José Carlos Targino 416 José Cláudio 6, 20, 194, 195, 426 José de Alencar 13, 14 José E. Kameniecki 396 José Laurênio de Melo 417 José Mário Austregésilo 7, 197, 427 José Mário Rodrigues 7, 199, 416, 427 José Moraes Pinho 417, 418 José Paulo Cavalcanti Filho 7, 201, 203, 422, 428 José Roberto Faria 13

José Santiago Naud 402 José Saramago 401 José Teles 7, 205 Julieta de Godoy Ladeira 455

L Laércio Vasconcelos 416 Leda Alves 418 Leonardo Dantas Silva 7, 17, 207, 429 Lila Marques Pereira 451 Lima Barreto 15, 455 Lívio Abramo 426 Lopes Gama (padre) 7, 16, 17, 210, 431 Lourdes Nicácio e Silva 396 Lourdes Sarmento 7, 235, 432 Lourenço Diaféria 14, 15 Luciano Bivar 7, 217, 433 Luciano Siqueira 7, 224, 225, 434 Lucila Nogueira 441 Luís Martins 15 Luiz Arraes 7, 230, 231, 233, 436 Luiz Berto 7, 226, 227, 435 Luiz Bonfá 392 Luiz Carlos Monteiro 5, 7, 13, 228, 229, 436 Luiz Delgado 193, 425 Luiz Gonzaga 411, 429 Luzilá Gonçalves Ferreira 7, 238, 239, 241, 437

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M Machado de Assis 14, 15 Manuel Bandeira 7, 15, 18, 242, 402, 438 Manuel Carneiro de Souza Bandeira 438 Manuel Diégues Júnior 18, 468 Marco Antonio de Carvalho 18 Marco Maciel 416 Marco Polo Guimarães 7, 245, 247, 415, 439 Marcus Accioly 7, 248, 249, 416, 440, 460 Marcus Prado 416 Maria Almeida de Oliveira 471 Maria Cândida de Souza Bandeira 438 Maria do Carmo Barreto Campello de Melo 385, 443 Maria Gonçalves Ferreira 392 Marilena de Castro 7, 251, 441 Marinalva Coelho 454 Mário Cravo 426 Mário de Andrade 14, 438 Mário Melo 20 Mário Quintana 470 Mário Rodrigues 450 Mário Rodrigues Filho 450 Mário Sette 7, 17, 20, 253, 255, 257, 259, 442, 455

Marly Mota 7, 20, 261, 263, 443, 444 Martin Luther King 411 Massaud Moisés 14 Maurício Melo Júnior 7, 266, 267, 444 Mauri Gurgel Valente 401 Mauro Mota 7, 18, 19, 20, 264, 402, 416, 443, 444, 445, 446 Maximiano Campos 7, 269, 271, 416, 446, 460 Miguel Arraes 388, 391, 417, 436, 447 Milton Rodrigues 450 Miriam Carrilho 7, 20, 272, 273, 448 Monteiro Lobato 442 Murillo La Greca 408

N Nagib Jorge Neto 7, 274, 275, 448 Nélida Piñon 402 Nelly Carvalho 7, 277, 402, 449 Nelson Aguilar 410 Nelson Rodrigues 7, 15, 18, 280, 281, 283, 411, 449, 450 Nilo Pereira 7, 20, 285, 287, 451 Nivam Bezerra da Costa 423 Noel Nutels 18, 468

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Noêmia de Queiroz Rodrigues 427 Nora Ney 392

O Odete Pena Coelho 455 Odorico Tavares 18, 468 Olavo Bilac 14, 15 Olímpio Bonald Neto 7, 288, 289, 291, 293, 295, 297, 453, 469 Olívio Tavares de Araújo 408 Olympio Costa Júnior 430 Orígenes Lessa 470 Oscar Niemeyer 411 Osman Lins 7, 18, 19, 298, 299, 301, 454, 455 Osvaldo Orico 438 Oswald de Andrade 438

Paulo Fernando Craveiro 8, 312, 313, 458 Paulo Gileno Cysneiros 8, 315, 458 Paulo Jorge Dakar 448 Paulo Mendes Campos 15, 16 Pelópidas Soares 428 Pereira da Costa 20 Pete Best 411

R Rachel de Queiroz 15, 19 Raimundo Carrero 8, 319, 321, 398, 402, 416, 420, 442, 459, 471 Raimundo de Moraes 8, 20, 322, 460 Raimundo Magalhães Júnior 442 Raquel de Queiroz 19 Raul Pompéia 8, 18, 325, 461 Regina Igel 455 Reinaldo de Oliveira 8, 328, 462 Renato Carneiro Campos 8, 15, 19, 331, 463 Reynaldo Fonseca 426 Ribeiro Couto 438 Roberto Carlos 411 Roberto Cavalcanti 446 Roberto Magalhães 417 Roberto Rodrigues 450 Robson Sampaio 8, 335, 463

P Pablo Picasso 408 Paulo Caldas 7, 303, 305, 456 Paulo Camelo 396 Paulo Cavalcanti 7, 19, 306, 307, 309, 456, 457 Paulo Dantas 403 Paulo de Tarso Correia de Melo 397 Paulo do Couto Malta 8, 20, 310, 311, 457

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Ronald Edwards 411 Ronaldo Carneiro Leão 8, 337, 464 Ronaldo Correia de Brito 8, 340, 341, 343, 429, 464 Ronildo Maia Leite 8, 344, 393, 422, 465 Rosa Lia Dinelli 396 Rostand Paraíso 8, 347, 349, 351, 353, 466 Rubem Braga 8, 14, 15, 16, 18, 354, 355, 357, 467 Rubem Rocha Filho 402

Tárik de Souza 429 Telles Júnior 413 Telma Brilhante 396 Terezinha Acioli 396 Theotônio Freire 20 Turanne 431

U Ulysses Lins de Albuquerque 8, 365, 367, 469 Urariano Mota 8, 369, 371, 373, 470

S Salete Rêgo Barros 396 Salma Bandeira de Mello 8, 359, 468 Samarone Lima 8, 361, 468 Selênio Homem de Siqueira 457 Sérgio Buarque de Holanda 438 Sérgio Moacir de Albuquerque 416 Silvino Lopes 20, 393 Silvio Pellico 432 Soledad Barret 470 Sônia Lessa 445 V Valdemar Cavalcanti 18, 468 Valdemar de Oliveira 8, 20, 378, 379, 462, 471 Vandeck Santiago 8, 375, 471 Vinicius de Moraes 392, 402

W Waldemar Lopes 403 Waldenio Porto 8, 382, 383, 472 Waldimir Maia Leite 8, 380, 381, 473 Wellington Pereira 14

T Tadeu Rocha 415 Tancredo Neves 428 Tarcísio Meira César 416
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X Xico Sá 429, 471

Z Zbigniew Ziembinski 450 Zé de Arruda (v. Homero Fonseca) 419 Zenaide Bonald Pedrosa 454 Zora Seljan Braga 467

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Este livro foi composto e editado eletronicamente na fonte New Baskerville, com tiragem de 1.500 exemplares. Impressão em papel Chamois Fine Dunas, 67g/m², para o miolo e Triplex, 250g/m², para a capa. Produzido pela Gráfica Santa Marta. João Pessoa, Brasil, outubro de 2010.

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