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Organizadores

Antônio Campos
Luiz Carlos Monteiro

CRONISTAS
DE PERNAMBUCO
Inclui índice onomástico

Recife, 2010
3
Copyright dos textos© dos autores
Copyright da edição© 2010 Carpe Diem - Edições e Produções

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida, nem apropriada ou
estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da Editora.

Organização
Antônio Campos | Luiz Carlos Monteiro

Editoria e Coordenação Editorial


Antônio Campos | Norma Baracho Araújo

Assessoria Técnico-Administrativa (IMC)


Kamila Nascimento | Leila Teixeira | Veronika Zydowicz
Projeto gráfico
Patrícia Lima
Revisão de texto e elaboração do Índice Onomástico*
Norma Baracho Araújo | Marília Prado Paranhos
* Apresentação, Prefácio e Dados Biobibliográficos

Impressão
Gráfica Santa Marta

C947 Cronistas de Pernambuco/ Orgs. Antônio Campos, Luiz Carlos


Monteiro. - Recife: Carpe Diem Edições e Produções, 2010.
483p.;


Inclui índice onomástico.

ISBN 978-85-62648-10-6

1. Cronistas Brasileiros - Pernambuco. I. Campos, Antônio (org.),
II. Monteiro, Luiz Carlos (org.) III. Título.

CDU 821.134.3 (81) – 82
CRB4/1544

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Carpe Diem - Edições e Produções


Rua do Chacon, 335, Casa Forte, Recife, PE
55 81 32696134 | www.editoracarpediem.com.br
Sumário

Apresentação, Antônio Campos, 9

Prefácio, Luiz Carlos Monteiro, 13

Abdias Moura, Os filmes de Celso Marconi, 23


Admaldo Matos de Assis, Inchação urbana, 28
Alberto da Cunha Melo, Como envelhecer uma caçarola, 30
Alex (José de Souza Alencar), Ouvir a voz do tempo, 34
Aluizio Falcão, Sozinho no bar, 36
Aluízio Furtado de Mendonça, O São João da minha infância, 38
Ana Maria César, Uma dama em tempos idos, 41
Antônio Campos, O sol de Pernambuco, 45
Antônio Falcão, Os olhos sem nexo e verdes do mar, 47
Antônio Maria, O exercício de piano, 50
Ariadne Quintella, Boa tarde, 52
Ariano Suassuna, Homero existiu?, 54
Arnaud Mattoso, O leão adormecido acordou com um tapa, 59
Arthur Carvalho, Retrato na parede, 62
Carlos Cavalcanti, No galope da cardã, 65
Carlos Newton Júnior, Procurado, 69
Carlos Pena Filho, Lembrança do mundo antigo, 74
Cássio Cavalcante, Presente de grego, 76
Celso Marconi, As três vezes que vi Che, 79
Celso Rodrigues, O espelho como testemunha, 83
Cícero Belmar, A chuva, 87
Clarice Lispector, As grandes punições, 90
Cristiano Ramos, Saramago, José, literatura, 93
Cyl Gallindo, 50 Anos de Brasília, 97
Esther Sterenberg, Caco de vidro, 102
Everardo Norões, Um certo padre Gomes, 105
Fátima Quintas, Um cheiro, por favor, 113
Fernando Monteiro, Greta Garbo, quem diria,
acabou de se sentar..., 116
Fernando Portela, Mambo-Jambo deve morrer, 123
Flávio Chaves, Saudade iluminada, 127
Francisco Brennand, Um universo e uma escultura, 130
Frederico Pernambucano de Mello, A lei de Corisco, 134
Geneton Moraes Neto, O dia em que o autor de Morte e
vida severina desabafou contra o exibicionismo:
“ninguém é tão interessante para falar de si mesmo
o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista
de hoje?), 137
Geórgia Alves, Recife inverno, 141
Geraldo Pereira, O Recife iluminado e belo, 143
Gilberto Freyre, Do horrível mau hábito de falar gritando, 146
Gladstone Vieira Belo, Antônio Camelo: o exercício
democrático do jornalismo, 149
Gustavo Krause, A flatulência bovina, 155
Hermilo Borba Filho, Da obscenidade, 158
Homero Fonseca, Os ETs eram todos comunistas, 161
Hugo Vaz, A vida sexual dos idosos, 167
Inah Lins, Martini seco, 170
Italo Bianchi, De celulares, sites, e outras reflexões, 176
Ivanildo Sampaio, Pedras brutas, 179
Janguiê Diniz, Cartografia urbana da
Fundição Capunga, 182
Joaquim Cesário de Melo, O homem à margem
da cidade, 185
Joca Souza Leão, Preto-graúna, 188
Jorge Abrantes, Sentimento do Recife, 191
José Cláudio, Crônica em três capítulos –
Todos três nojentos, 194

6
José Mário Austregésilo, O aboio de um povo, 197
José Mário Rodrigues, Pra lá de Marrakech, 199
José Paulo Cavalcanti Filho, Duas ou três coisas sobre
meu pai, 201
José Teles, Estão mexendo na língua, 205
Leonardo Dantas Silva, No tempo do lança-perfume, 207
Lopes Gama, As palestras da ponte da Boa Vista, 210
Luciano Bivar, A intuição não vem do nada, 217
Luciano Siqueira, Vidas quase cruzadas, 224
Luiz Berto, Anotações sobre um coração e uma trombeta, 226
Luiz Carlos Monteiro, Mãe & Filha, 228
Luiz Arraes, A velhinha no Jardin du Luxembourg, 230
Lourdes Sarmento, Os 45 minutos, 235
Luzilá Gonçalves Ferreira, Recife: o amor de
uma cidade, 238
Manuel Bandeira, Carnavais de outrora, 242
Marco Polo Guimarães, 1968, 245
Marcus Accioly, A dor, 248
Marilena de Castro, Tamarineira, adeus, 251
Mário Sette, Não há quem dê mais?, 253
Marly Mota, Fundação Terra em Arcoverde, 261
Mauro Mota, Família dos livros, 264
Maurício Melo Júnior, Diálogos simplificantes de
La Mancha, 266
Maximiano Campos, Do amor, 269
Miriam Carrilho, Comparação, 272
Nagib Jorge Neto, Aura de outono, 274
Nelly Carvalho, Recife brasileiro, 277
Nelson Rodrigues, O menino de Pernambuco, 280
Nilo Pereira, Um Recife que não volta mais, 285
Olímpio Bonald Neto, O poder sênior, 288
Osman Lins, Anatol Rosenfeld – homenagem à memória
do intelectual, 298
Paulo Caldas, Flores e baionetas, 303
Paulo Cavalcanti, O Recife de Mauro Mota, 306

7
Paulo do Couto Malta, Cozinha regional, 310
Paulo Fernando Craveiro, O mestre de telas alheias, 312
Paulo Gileno Cysneiros, Tudo flui, 315
Raimundo Carrero, Uma cidade feliz. E gorda, 319
Raimundo de Moraes, As reclusas de Chawton e Amherst, 322
Raul Pompéia, O carnaval no Recife (impressão de viagem), 325
Reinaldo de Oliveira, O vazio, 328
Renato Carneiro Campos, Recife, 331
Robson Sampaio, Uma ruela estreita, espremida..., 335
Ronaldo Carneiro Leão, Carta aberta a um ladrão, 337
Ronaldo Correia de Brito, E mesmo assim
continuamos escrevendo, 340
Ronildo Maia Leite, O boêmio morre de madrugada.
Com o sol. Iluminadamente, 344
Rostand Paraíso, Das calçadas, quintais e jardins do Recife, 347
Rubem Braga, Véspera de São João no Recife, 354
Salma Bandeira de Mello, Maria do cais, 359
Samarone Lima, Personagens do Recife: Adão Pinheiro
de Carvalho, 361
Ulysses Lins de Albuquerque, Antônio Piutá
entre cangaceiros, 365
Urariano Mota, Miss Pernambuco 1963, 369
Vandeck Santiago, Eu estava lá e vi, 375
Valdemar de Oliveira, Boi, 378
Waldimir Maia Leite, Para este domingo, 380
Waldenio Porto, Sábado de Zé Pereira em Caruaru, 382

Dados biobibliográficos, 385

Índice onomástico, 475

8
Apresentação

Pernambuco em Antologias
Antônio Campos*

O Instituto Maximiano Campos surgiu da necessidade


de preservar a memória do escritor Maximiano Campos,
meu pai. Memória não apenas dele, mas também da fa-
mília, do trabalho, dos seus amigos – na quase totalidade
escritores –, do seu Estado, da sua região Nordeste, enfim
do Brasil. Para ser fiel ao seu espírito plural e coletivo, o
IMC, além de conservar, promover e divulgar a obra de
Maximiano, realiza e apoia eventos culturais, como tam-
bém concursos literários.
Entre as atividades que o IMC vem desenvolvendo,
devo destacar a publicação de livros, a exemplo desta
coleção, Pernambuco em Antologias, que revela a literatura
pernambucana em verso e prosa. As obras, organizadas
por mim em parceria com grandes amigos, são um vasto
mural da produção literária pernambucana.
O livro Pernambuco, terra da poesia, idealizado por mim
e pela ensaísta Cláudia Cordeiro, é um painel da poesia
pernambucana entre os séculos XVI e XXI. Ao reunir 161
poetas em quase 600 páginas de poemas, tivemos como
resultado um registro magnífico de várias situações, paisa-
gens e sentimentos vivenciados, tanto por parte dos auto-
res quanto pelos leitores que “viajam” ao lerem a obra. É
um registro físico da literatura nacional, desde o marco da
Literatura Brasileira, com o poema Prosopopeia, de Ben-
to Teixeira, até produções locais da famosa Geração 65,
da qual o próprio Maximiano fez parte. A toda hora, em
toda parte, encontro um poeta, agradecido por participar
da obra, ou escritores e críticos a comentá-la, citando des-
conhecer autores nela revelados. É uma forma de termos
conosco a história de Pernambuco de uma maneira mais
clara e sublime, através da Arte Poética.
Como em todos os escritos poéticos, esses trajetos não
se desenrolam de maneira uniforme. Cada poeta e cada
poema têm suas próprias características, assim como avalia-
ções, julgamentos e encantamentos singulares – reservados
aos leitores desta coletânea. Uma estética sucede-se à outra,
assim como um juízo a outro. A história da Arte Poética está
longe de formar um todo homogêneo e unânime. Assim,
acreditamos que a principal tarefa da poesia tem sido, atra-
vés dos séculos, falar das verdades que habitam em cada
homem, em cada escritor, de uma forma atemporal e que
possibilita ao próprio homem se reconhecer, independen-
temente da época. Concordo com Ferreira Gullar que diz:
“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao so-
frimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma
luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que
nasce das mãos e do espírito dos homens.”, pois a poesia é
isso. É a verdade absoluta em cada um de nós.
O sucesso de Pernambuco, terra da poesia despertou em
mim o interesse de produzir outro livro. Desta vez, volta-
do à área da ficção. O outro volume da coleção é Panorâ-
mica do conto em Pernambuco, fruto da minha parceria com
o escritor Cyl Gallindo. A obra, cuja produção demandou
a leitura detalhada de mais de 500 textos em livros, re-
vistas, internet e até mesmo em acervos pessoais cedidos
pelos próprios autores, resultou em uma síntese do que
há de melhor na literatura de contos.
Nessa coletânea de contos, tivemos prazerosas des-
cobertas, desde a inédita Margarida Cantarelli até o ex-
governador de Pernambuco Barbosa Lima Sobrinho; na
extensão do conceito de pernambucanidade, incluímos

10
Graciliano Ramos, visto que morou em Buíque durante
boa parte de sua infância, assim como a ucraniana Clarice
Lispector, que se dizia recifense por ter morado no Recife
quando criança e onde realizou os estudos primários. Essas
inserções são possíveis, porque, a partir da primeira obra,
adotamos o critério de “Domicílio Literário”, que trans-
cende ao do simples registro biográfico da naturalidade.
Histórias da infância, amizades, aventuras e grandes
amores são narrados por escritores como Amílcar Dória
Matos (recém-falecido), Benito Araújo, Fátima Quintas,
Gilberto Freyre, Luzilá Gonçalves, Raimundo Carrero e
tantos outros não menos importantes que estes antes ci-
tados. Como afirmou Gallindo, “as coletâneas são como
as publicações de obras completas de autores vivos: ficam
sempre incompletas”, mas acredito piamente que fizemos
um belo trabalho.
Lançada a antologia de contos, era chegado o momento
de voltar a atenção para a publicação de uma antologia de
crônicas. Desta feita, a parceria na organização seria com
o professor Luiz Carlos Monteiro. A antologia Cronistas de
Pernambuco reflete um esforço literário de forte expressivi-
dade cultural, no sentido de trazer a lume escritores de pe-
ríodos diferenciados da vida e da história pernambucanas.
São autores de variada origem e tendência profissional e
artística, do século XIX até os dias atuais. A importância
dessa contribuição cultural evidencia-se pelo registro lite-
rário que tais autores empreenderam na forma da crôni-
ca, reunindo pequenos ou grandes acontecimentos, fatos e
eventos cotidianos que a notícia de jornal não pode expri-
mir com a poesia e a sutilidade que a crônica requer.
O mundo, cada vez mais individualista e fragmentado,
precisa unir-se, e uma antologia é uma tentativa de união.
João Cabral de Melo Neto mostra que a reunião de diver-
sos cantos é a responsável por uma grande manhã:

11
“Um galo sozinho não tece uma manhã
ele precisará sempre de outros galos.
(...) para que a manhã, desde uma teia tênue
se vá tecendo, entre todos os galos.”
O sociólogo Renato Carneiro Campos, em um ensaio
intitulado Joaquim Nabuco: um agitador de ideias, afirma que,
se tivesse que escolher um Estado, na Federação, para re-
presentar D. Quixote, este Estado seria Pernambuco, pois
“Não lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto”.
Realmente, Renato tinha razão. Pernambuco, com suas
revoluções falhadas e seus movimentos libertários abafados
a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação.
Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados em
1817, quando foi proclamada a República de Pernambuco,
e em 1824, quando se desenrolou a Confederação do Equa-
dor, o território da antiga Província de Pernambuco perdeu
as Comarcas das Alagoas e a do São Francisco. Contudo, Per-
nambuco resistiu e nunca deixou de sonhar e de fazer arte.
Certa vez, Alceu Amoroso Lima disse que, quando o
Brasil está em crise, se volta para cá, para a região cortada
pelo Rio São Francisco, que é conhecido como o “Rio da
Integração Nacional”.
Que o sol de Pernambuco e a força de sua poesia e
de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações,
acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostre o
verdadeiro caminho da nação brasileira. A série Pernam-
buco em Antologias é exatamente isso. É um meio de mos-
trar ao Brasil e ao mundo o valor desta terra iluminada,
tanto pelo sol estampado em nossa bandeira, quanto no
valor histórico, cultural e intelectual do nosso povo. Além
de ser uma homenagem sincera que prestamos ao nosso
Estado e a cada um dos pernambucanos.

*Advogado, Escritor, Presidente do


Instituto Maximiano Campos (IMC).

12
Prefácio
Luiz Carlos Monteiro

A crônica é um gênero literário polêmico por exce-


lência. Da sua origem remota em sintonia com o relato
histórico organizado no tempo, passando pelo ensaio e o
folhetim até chegar aos nossos dias, quando se consolida
na fronteira entre a poesia e o conto, o lirismo subjetivo e
a narrativa cotidiana, há um longo percurso. Já na primei-
ra metade do século XIX no Brasil, a crônica funcionou,
nos poucos jornais existentes, como folhetim de derivação
francesa. A narrativa domingueira e eclética dos fatos polí-
ticos, históricos e culturais do cotidiano, que saía no roda-
pé da primeira página dos jornais, sustentada no modelo
francês, teve seus cultores iniciais na voga romântica, cujo
representante principal foi José de Alencar. O escritor ro-
mântico manteve semanalmente, entre 1854 e 1855, uma
seção famosa, “Ao correr da pena”, nos jornais cariocas
Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Nos folhetins
que publicava, Alencar aproximava-se da literatura ficcio-
nal, ao imprimir a sua maneira e o seu estilo aos textos:
“Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de
assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio,
a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio
de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do
prosador que logo se afirmaria no cenário nacional”1. Pos-
teriormente, em 1856, Alencar inaugurou a seção “Folhas
soltas” no Diário do Rio de Janeiro (do qual foi diretor), cujos
1
“Alencar conversa com seus leitores”, pref. José Roberto Faria. In: José de Alencar,
Crônicas escolhidas. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ática, 1995.
textos, mesmo não tendo a periodicidade da coluna ante-
rior, traziam agora o feitio característico da crônica, sem
estar presos ao noticiário ou aos fatos jornalísticos.
O outro grande cronista da época foi Machado de As-
sis. Diferentemente de Alencar, o autor de Dom Casmurro
questionava por dentro as relações entre texto literário e
linguagem jornalística, a partir dos diversos moldes jorna-
lísticos então utilizados na crônica: “Machado de Assis é o
cronista que buscou a maturidade estética da crônica, tor-
nando-a um gênero de natureza híbrida que pode abrigar
várias linguagens no jornal e manter uma independência
linguística ante o folhetim e o discurso jornalístico de sua
época”2. As transformações locais sofridas pela crônica, no-
tadamente no Rio de Janeiro, fizeram com que recebesse
contribuições definidoras que autorizam muitos críticos e
estudiosos a considerá-la como modalidade desenvolvida
ao extremo no nosso país. É dessa forma que ela é vista por
Massaud Moisés: “(...) é certo que, pela quantidade, cons-
tância e qualidade de seus cultores, a crônica semelha um
produto genuinamente carioca. E tal naturalização não se
processou sem profunda metamorfose, que explica o entu-
siasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania
brasileira da crônica: ao menos em relação à crônica dos
nossos dias, tudo faz crer que raciocinam corretamente”3.
Chega-se a outros cronistas de especial relevância, numa
série temporal que envolve os nomes de Olavo Bilac e João
do Rio, Mário de Andrade e Rubem Braga, tendo este últi-
mo atravessado, depois que começou a publicar em 1928,
quase todo o restante do século XX a escrever crônicas de
grande sucesso de público.
Uma das antologias mais recentes que pudemos con-
ferir, Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a
Lourenço Diaféria, organizada pelo professor Douglas Tu-
2
PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil. João Pessoa: Ideia, 1994.
3
MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.

14
fano, alinha apenas dez cronistas. São cinco cariocas – Car-
los Eduardo Novaes, Lima Barreto, Luís Martins, Machado
de Assis e Olavo Bilac, três mineiros – Carlos Drummond
de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos,
uma cearense – Rachel de Queiroz e um paulista – Louren-
ço Diaféria. O pequeno número de cronistas, com predo-
minância do Rio de Janeiro, é compensado pelo número
de crônicas, numa média de cinco para cada um deles.
É bem menos conhecido fora da sua terra do que os ou-
tros, Lourenço Diaféria, embora seja tido como o legítimo
representante da crônica paulista. Esse fenômeno ocorre
também em Pernambuco com um autor enraizado feito
Renato Carneiro Campos, o cronista natural e abalizado
do Recife. Outro nome sui generis da antologia de Tufano,
o poeta Paulo Mendes Campos, ombreia-se com o do per-
nambucano Nelson Rodrigues na valorização da crônica
futebolística. O formato curto e a aproximação ao ficcio-
nal e ao subjetivo logram sugerir propósitos de concepção
do organizador, ao ressaltar o “compromisso” dos cronis-
tas com a “vida concreta”. Fornece, em poucas palavras,
uma definição da crônica moderna: “Hoje as crônicas em
geral são mais curtas, os autores gozam de uma liberda-
de de expressão maior, o tom subjetivo é mais acentuado,
os elementos ficcionais estão mais presentes – mas todas
guardam seu compromisso com a vida concreta, mesmo
quando parecem não estar falando dela”4.
Voltando um pouco no tempo, uma coletânea que
teve grande alcance de público, Elenco de cronistas moder-
nos, continha apenas sete autores: Carlos Drummond de
Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel
Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e
Rubem Braga. A afluência regional era menos acentuada,
e o número de crônicas, dez para cada um. Mas, todos ti-
4
Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. Organização
e apresentação Douglas Tufano. São Paulo: Moderna, 2009.

15
nham sido editados pela extinta Sabiá, no que se constata
facilmente que o critério geral de inclusão foi esse5.
Ao prefaciar um dos volumes da conhecida série Para
gostar de ler, Antonio Candido afirma que a crônica “elabora
uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser na-
tural. Na sua despretensão, humaniza; e essa humanização
lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com
outra mão uma certa profundidade de significado e um cer-
to acabamento de forma, que de repente podem fazer dela
uma inesperada embora discreta candidata à perfeição”6.
Eis aí, sem tirar nem pôr, o que seria um dos papéis funda-
mentais da crônica: humanizar e, no mesmo compasso, nos
aproximar ao “modo de ser mais natural”. Dessa humani-
zação, que reaquece linguagens e procedimentos, é que se
chega ao texto acabado, livre das intrusões que o tornam
frágil, gorduroso e destituído de seus sentidos inaugurais
e extensivos. Por isso mesmo, foi facilitada uma ampliação
da leitura da crônica no Brasil, vetorizada em formas es-
teticamente expressivas oralizadas (inicialmente no rádio)
e escritas (na revista e no jornal) que intentavam comuni-
car quase sempre o que se queria ler, sentir e escutar. A
permanência vigorosa da crônica nos jornais brasileiros era
somente interrompida em circunstâncias imperiosas e su-
periores, que não dependiam exclusivamente dos cronistas,
como, por exemplo, a morte. Mas, enquanto vivo, cada cro-
nista recriava o cotidiano a partir do seu campo de obser-
vação, com sua visada pessoal que elegia o homem e a vida
como objetos primeiros e privilegiados.
Nossa antologia inicia-se no Recife do século XIX, com
um cronista de costumes, o Padre Lopes Gama, que passou
5
Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, [s.d.]. A Editora José
Olympio relançou a 20ª edição desta obra em 2003.
6
“A vida ao rés do chão”, pref. Antonio Candido. In: Para gostar de ler: crônicas. Carlos
Drummond de Andrade... [et al.] Ed. Didática, v. 5. São Paulo, Ática, 1981. Além de
Drummond, os outros participantes são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e
Rubem Braga.

16
a editar a partir de 1832, com algumas interrupções, um
jornal implacável, O Carapuceiro. Nesse jornal, Lopes Gama
fustigava todos os segmentos da sociedade, sob os pontos
de vista moral, religioso ou político. Dele publica-se aqui a
crônica “As palestras da ponte da Boa Vista”, uma viagem
irônica, irreverente e bem-humorada por uma tipologia hu-
mana que se reunia diariamente na ponte em torno a con-
versas sérias ou maledicentes que dependiam dos caracteres
sociais e humanos de cada grupo (“rabequistas”, “game-
nhos”, “jogadores”, “políticos”, “cavaleiros da indústria”)7.
Na condição de cronista mais antigo desta coletânea, Lopes
Gama enseja os passos inaugurais da prática jornalística de
se fazer crônicas. E exatamente por isso, como não poderia
deixar de ser, que a maioria dos autores aqui presentes é
composta de jornalistas de batente ou que exerceram ati-
vidades de jornalista. Há, também, os que têm outras ati-
vidades, no âmbito artístico ou profissional, mas que não
deixam de rabiscar a sua crônica e publicá-la em jornal ou
livro. Escritores que se completam no romance, no conto ou
na poesia, emprestam também a sua contribuição.
O Recife de Mário Sette é um capítulo à parte. Na crô-
nica “Não há quem dê mais?”, do conhecido livro Arruar:
história pitoresca do Recife antigo8, Sette discorre sobre
os leilões em domicílio que ocorriam rotineiramente no
Recife do século XIX. Casas eram invadidas por agentes,
licitantes e curiosos, uns ávidos por uma boa negociação,
outros simplesmente para especular como vivia a gente
que estava a vender seu mobiliário, na ânsia de desvendar
segredos familiares, normalmente fechados ao público.
Uma boa quantidade de escritores que ultrapassaram
com seu nome as fronteiras pernambucanas faz-se presen-
7
O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 1996. O levantamento das crônicas feito por Evaldo Cabral de Mello
teve como base o trabalho anterior de Leonardo Dantas Silva.
8
Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do
Governo de Pernambuco, 1978.

17
te nesta antologia: Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho,
Manuel Bandeira, Mauro Mota e Osman Lins. Dentre os
que aqui viveram por um tempo, mas que não deixaram
de lembrar o Recife em seus escritos, encontram-se Nel-
son Rodrigues, pernambucano que se radicou no Rio, cuja
crônica, “O menino de Pernambuco”, é sintomática de sua
infância recifense; Clarice Lispector, que passou parte da
infância no bairro da Boa Vista, não tendo jamais esqueci-
do a cidade; Raul Pompéia, que com um grupo de colegas
deslocou-se em 1885 de São Paulo ao Recife a fim de con-
cluir o curso de Direito; e Rubem Braga, que esteve aqui
de maio a setembro de 1935. Braga conviveu com intelec-
tuais e boêmios locais, frequentou a zona do meretrício e
escreveu crônicas que se popularizaram em todo o Brasil.
Fez amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Dié­gues
Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias,
Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu
25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Alian-
ça Libertadora Nacional nordestina, que ele editava. De-
pois de três prisões, deixou a cidade em 13 de setembro
de 1935, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Ja-
neiro9. O cronista-compositor Antônio Maria, que viveu
até o início de sua juventude no Recife, passando a morar
depois no Rio de Janeiro, repartiu-se entre a crônica des-
sas duas cidades. Suas lembranças recifenses fornecem um
painel lírico e urbano de fidelidade e paixão pela cidade;
do mesmo modo, quando escreve a crônica carioca, conse-
gue, com familiaridade, retratar amigos, absorver recantos
boêmios, dobrar ruas e esquinas do Rio, relatar situações
cotidianas com um profundo sentimento lírico.
Além da crônica-poema, como é o caso da que escreveu
Everardo Norões, “Um certo padre Gomes”, o leitor vai
9
Para um conhecimento mais aprofundado da vida e obra de Rubem Braga, é im-
portante conferir sua biografia, escrita por Marco Antonio de Carvalho (1950-2007),
Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar. São Paulo: Globo, 2007.

18
dispor também de crônicas-perfis de autoria de Gladstone
Vieira Belo (tendo como objeto o jornalista Antônio Ca-
melo), de Osman Lins (que mostra a relação de amizade
de Osman com o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld),
de Paulo Cavalcanti (que reúne, num só texto, o poeta
Mauro Mota e uma visada panorâmica e saborosa do Reci-
fe que este viveu). Nesse ponto, uma cronista brasileira da
maior importância vem à lembrança, Rachel de Queiroz,
que teve recentemente uma seleção de suas crônicas feita
por Heloisa Buarque de Hollanda. Sobre os “perfis defi-
nitivos” em forma de crônicas elaborados por Rachel, no-
tadamente um sobre o Padre Cícero, pronuncia-se Heloisa
Buarque: “A galeria de personagens inesquecíveis, lendas
e lembranças da seca, fatos curiosos e flagrantes do coti-
diano é a matéria-prima central com a qual Rachel traba-
lha suas crônicas e sua expertise narrativa”10.
Das crônicas sobre a cidade do Recife e suas manifes-
tações culturais e festivas, seus personagens populares e
sua convivência boêmia, sua compulsão libertária e seus
novos-ricos, seus becos obscuros e seus locais públicos,
a mais representativa é, certamente, “Recife”, de Rena-
to Carneiro Campos. Que vem escrita em prosa poética
delirante e nominativa, dando a impressão de nada ter
faltado na tremenda declaração de amor à cidade feita
pelo cronista.
Em toda coleta literária, surge imediatamente o pro-
blema das omissões, por variados motivos – de espaço, de
contato ou de escolha. Omissões que podem ser corrigidas
futuramente em novas antologias, nas quais aqueles que
ficaram de fora poderão vir a ser contemplados. Nomes
que invariavelmente serão lembrados pelo paradoxo da
10
QUEIROZ, Rachel de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Gaudi Editorial, 2008. No pre-
fácio a este livro, Heloisa Buarque de Hollanda, que também fez a seleção das crôni-
cas, chama a atenção para “o belíssimo estudo de psicologia regional que é a crônica
sobre o Padre Cícero, figura cearense emblemática, reconhecido pelo desenho afetivo
e personalizado de Rachel”.

19
sua momentânea ausência, a exemplo de um Pereira da
Costa. E de outros que tiveram presença e papel relevan-
te na crônica recifense: Mário Melo, Aníbal Fernandes,
Theo­tônio Freire, Silvino Lopes, Altamiro Cunha, para
citar apenas esses. Mas, com um trabalho assemelhado
e militante nos jornais locais, tais omissões completam-
se em outros contemporâneos que foram contemplados:
Jorge Abrantes, Mário Sette, Mauro Mota, Nilo Pereira,
Paulo do Couto Malta e Valdemar de Oliveira.
Novos cronistas comparecem, alguns inéditos em livro,
outros elastecendo aos poucos a sua bibliografia – Cristia-
no Ramos, Geórgia Alves, Miriam Carrilho, Raimundo de
Moraes. Ao lado desses, aparecem autores consolidados e
de carreira literária extensa em suas realizações. Artistas
plásticos de inclinação literária já reconhecida também
trazem a sua contribuição – Francisco Brennand, José
Cláudio e Marly Mota. Nem falta, aqui, a crônica sertane-
ja dos cangaceiros, com o texto de Frederico Pernambu-
cano de Mello.
De um modo subliminar ou direto, insurge-se um ele-
mento de ligação entre muitas dessas crônicas, sinalizado
pelo que fascina ou instiga no perfil guerreiro ou festivo
de uma cidade, o Recife. Elimina-se, portanto, algo da
disparidade temática predominante e da aparente disper-
são conteudística. E, em termos de estrutura e disposição
textual das páginas da obra, ao optarmos pela não fixação
prévia do tamanho dos textos, imaginávamos que, na con-
secução posterior do livro, teríamos de assumir a irregula-
ridade das dimensões variáveis e da surpresa do produto
final. Na solicitação dos trabalhos aos autores ou seus fa-
miliares, as negativas foram tão poucas e irrelevantes que
seria ocioso mencionar. Amigos se prontificaram a ajudar,
indicando formas de contato com autores, fornecendo li-
vros e outros materiais bibliográficos, apontando locais de

20
pesquisa onde seriam encontrados trabalhos de interesse
para a antologia. Parentes de autores mortos agiram com
rapidez e diligência enviando crônicas e esboços biográ-
ficos – alguns deles também presentes como cronistas,
mostrando-se redundante citá-los. Todos sabem, contudo,
o quanto ficamos agradecidos e sensibilizados pelo gesto
solidário que consolida e reafirma amizades.
Quando Antônio Campos me convidou para este tra-
balho conjunto que é o Cronistas de Pernambuco, o tem-
po para pensar sobre o projeto foi mínimo. De imediato,
começaram a desfilar no pensamento numerosos nomes
que fui juntando aos que Antônio já havia sugerido. E a
cada dia novas descobertas, novos insights, e um lema pro-
posto por ele, que funcionou do início ao fim da elabora-
ção do livro: incluir sempre, numa generosidade e des-
prendimento que não excluía, de outra parte, o critério
estético. O fato é que conseguimos reunir uma centena
de cronistas que configuram um perfil razoável do gênero
em Pernambuco. O feitio estético, a qualidade literária e
a capacidade de comoção ou entretenimento originários
destas crônicas, deixamos para o nosso possível leitor sen-
tir, desfrutar e avaliar.

Recife, 30 de setembro de 2010

21
22
Os filmes de Celso Marconi
Abdias Moura

Sou um assistente ocasional de cinema. Quando meni-


no, não tinha dinheiro para pagar entrada, e ouvia embe-
vecido as informações de uns primos sobre seriados famo-
sos, mas nunca os pude acompanhar. Somente uma vez
assisti a dois episódios seguidos, mas fiquei decepcionado
porque no final do primeiro o artista caía mortalmente
num poço, mas no começo da continuação mudaram a
cena, aparecendo uma corda salvadora. Senti-me enga-
nado, pois tinha certeza de que a tal corda não existia no
episódio final da semana anterior.
Os filmes que marcaram minha infância foram, na rea­
lidade, os da dupla conhecida como O gordo e o magro. Até
na idade adulta, vi alguns filmes deles e geralmente me
agradam, como Queijo suíço e Dois palermas em Oxford. De-
testei outros dois cômicos, tão sem graça que davam pena.
De Carlitos, vi na infância apenas alguns filmes de curta-
metragem. Somente comecei a admirar Charlie Chaplin
quando assisti a Luzes da cidade, O garoto e, sobretudo, Tem-
pos modernos, muitos anos depois. Apenas me diverti com
O grande ditador e não gostei muito de Luzes da ribalta, ape-
sar de assoviar a música até hoje. Quanto aos Irmãos Marx,
não chegaram a me entusiasmar, mas algumas cenas isola-
das daquele trio desigual me ficaram na memória.
Menino, assisti a todos os filmes que pude de Tarzan.
Decepcionei-me mais uma vez, quando o herói das selvas
viajou a Nova York e lá, metendo-se numa briga, foi ven-
cido pelos policiais (eram muitos) e chegou a ser preso.
Os filmes de Celso Marconi

Desde então, nunca mais vi filmes com esse personagem.


Meus artistas admirados, na adolescência, eram os
mesmos de minhas irmãs: Clark Gable, Errol Flynn, Tyro-
ne Powell e outros bonitões do cinema norte-americano.
Apaixonei-me, depois, por Deborah Kerr, ou pela perso-
nagem que ela representou em Chá e simpatia.
Quando já jornalista (comecei com 19 anos), chegou a
fase dos filmes europeus. Nunca me encantei por Brigit­­te
Bardot, nem Claudia Cardinale, ou Gina Lollobrigida, mas
sim por Sophia Loren e a Jeanne Moreau de Jules e Jim.
E sabia o nome dos diretores famosos: Fellini, Vittorio de
Sica e até do legendista (autor de diálogos) Sergio Amidei,
com quem passeei, numa noite, pelos morros de Olinda,
na companhia do poeta Felix Atahyde, num jeep sem freios
dirigido pelo irresponsável fotógrafo João Pedrosa. Desco-
bri o sueco lngmar Bergman por acaso (nunca havia ouvi-
do falar dele, então), num pequeno cinema de arte em Ipa-
nema. Fiquei encantado com o seu Morangos silvestres. Mas,
se tivesse de dizer qual o filme de minha vida, escolheria
o também sueco Êxtase, o único a que assisti duas vezes, de
quem não me lembro o nome do diretor, mas sei que foi
estrelado por Hedy Lamarr. Penso que esta seria também a
opinião de Mauro Mota, a julgar por um verso do seu Bo-
letim sentimental da guerra no Recife. Já homem de meia-ida-
de, quero dizer, na casa dos quarenta, estando apaixonado,
amei igualmente Hiroshima mon amour, de Alain Resnais.
Todo este nariz de cera (como se diz no jornalismo)
é para justificar por que não escrevi até agora sobre os
filmes de Celso Marconi, reunidos no ano de 2009 sob a
forma de DVD. É que cinema para mim (como pintura)
é figurativo. Não se trata de uma escolha intelectual, mas
circunstancial: Eu sou eu mais minhas circunstâncias, di-
zia Ortega e Gasset no século passado, que foi o século da
minha formação. Por isso, nem falei até agora do cinema

24
Abdias Moura

brasileiro, que na minha juventude era representado pe-


las chanchadas da Atlântida (somente muito depois valo-
rizadas). O primeiro filme feito no país que me despertou
a atenção foi O cangaceiro, de Lima Barreto, talvez pelo
prêmio internacional, ainda que me lembre com simpa-
tia de alguns anteriores, entre eles Favela dos meus amores,
cuja música título ainda soa a meus ouvidos, como um
belo samba carioca. Dos mais recentes, meu preferido é
Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. Também gostei
da atual safra pernambucana, representada por Amarelo
manga e daquele que só tem de ruim o título (falando de
Aspirina e... urubus).
Quando Alberto Cavalcanti, que nasceu no Brasil, mas
se fez cineasta na Inglaterra, esteve no Recife fazendo O
canto do mar, eu o entrevistei para a revista Manchete. A
matéria, publicada com destaque, tinha um título que não
o agradou, ainda que repetindo palavras suas: Saí do Bra-
sil como indesejável e voltei como indesejável. Assisti ao
filme meses depois, e não gostei.
Admiro Glauber Rocha como agitador cultural (que até
criou uma forma especial de se comunicar por escrito), e
sei de suas dificuldades para fazer cinema numa época de
censura intensa. Mas, pobre de mim, não consigo tam-
bém gostar de seus filmes. Vi, com simpatia, até um inaca-
bado, mas que passou na tela grande, espécie de História
do Brasil recontada com imagens. Lembrei-me logo da
tentativa, muito anterior e riquíssima, de Orson Welles,
estourando todos os orçamentos de produtores milioná-
rios, mas sem um roteiro predefinido, acompanhando a
viagem de um jangadeiro, desde o Ceará até o Rio de
Janeiro, para suprir o Programa da Boa Vizinhança dos
Estados Unidos, em relação ao Brasil, que, no entanto, só
seria efetivado de forma artística através do dedo duro?
Walt Disney, com o seu meio sem graça desenho animado

25
Os filmes de Celso Marconi

que apresentou (ao mundo – tenho dúvidas) a figura do


Zé Carioca.
Chego finalmente aos DVDs de Celso Marconi. Con-
sidero seus filmes em Super 8, feitos nos anos 70 do sécu-
lo XX, e agora resgatados, da maior importância para a
história do cinema brasileiro. Como lhe disse que não iria
comentar, por não entender muito de cinema, ele me man-
dou dizer que desse uma opinião como sociólogo. Mas, es-
clareço: como professor de Sociologia, poderia falar, por
exemplo, de sua tentativa vitoriosa para resgatar manifes-
tações populares como a Festa da Conceição, no Recife, ou
a campanha eleitoral do PMDB, oposição consentida pela
ditadura militar (que me parecem os dois pontos mais altos
de sua produção). Mas, nos dois casos, os destaques são
para os narradores escolhidos: Roberto Motta, com sua aula
sem pedantismo sobre religiões populares, e José Cláudio,
com sua descontração tão espontânea que pode até parecer
fingida... Claro, as imagens são únicas e não poderiam ter
sido recuperadas por outro cineasta, por mais perfeita que
fosse a técnica empregada. E isso bastaria para glorificar a
obra cinematográfica de Celso Marconi.
Além desses dois, há outros momentos gloriosos nos fil-
mes do jornalista pernambucano, como as cenas glauberia-
nas no pátio do Mercado de São José, e outras mais, com
o notável Emanuel Cavalcanti, que domina a cena, como
se diz, não fosse ele o ator principal das películas. E no
que se refere à reconquista de um passado agora inexisten-
te, bastaria uma referência à degradação do velho Recife,
afinal contida por ex-prefeitos da cidade, não citados no
documen­tário e, talvez, nem lembrados pelos eleitores.
Deixarei de falar das cenas íntimas protagonizadas
por pessoa de nossas relações pessoais (la noblesse oblige),
ainda que elas me tenham parecido as mais importantes
da filmagem.

26
Abdias Moura

Mas quero, ao final, fazer pelo menos uma referência à


cena, relativamente longa considerando a pequena dura-
ção do filme mais impressionante da coletânea: a corrida
de uma jovem mulher, sempre de frente para a câmara,
em que o vestido fica colado ao corpo e a saia se ondula ao
compasso do movimento, sugerindo, mas não mostrando,
o que há por trás do pano que encobre o corpo feminino.
É tão bonita, que me evocou Hedy Lamarr correndo, nua
(mas de costas) em direção ao rio em que se dá a um des-
conhecido, em Êxtase, meu filme inesquecível.

27
Inchação urbana
Admaldo Matos de Assis

A urbanização não é um fato novo – suas origens re-


montam à Revolução Comercial e à Revolução Industrial.
Fenômeno novo é a urbanização vertiginosa, responsável
pelas metrópoles e megalópoles do nosso tempo.
Não se pode atribuir à urbanização apenas causas eco-
nômicas, como, por exemplo, a carência de emprego e a
exiguidade de renda na zona rural e no interior. Há ainda
motivo de ordem cultural, qual seja uma tendência natural
do homem ao convívio nos grandes aglomerados popula-
cionais. A metrópole desperta um fascínio irresistível.
No Brasil, especialmente no Nordeste, a urbanização
ocorre de forma rápida e desordenada, com o agravante
de que as cidades-polos desse processo não dispõem de
condições para absorver os novos contingentes popula-
cionais. No Recife, já não se pode falar em urbanização,
mas em inchação urbana.
Isso porque, não dispondo a cidade de espaço, de em-
pregos e de infraestrutura urbana e de serviços para atender
à demanda crescente termina por oferecer à maioria dos
seus habitantes condições muito precárias, refletindo-se, em
maior ou menor escala, na qualidade de vida de todos.
A favela e o camelô são anverso e verso da mesma me-
dalha. Numa, a expressão da carência habitacional; no
outro, o reflexo do desemprego. Em ambos, os subprodu-
tos, social e econômico, da inchação urbana.
Essa grande doença da sociedade moderna precisa ser
racionalmente tratada, nas suas causas e nos seus efeitos,
sob pena de jamais haver cura efetiva.
Admaldo Matos de Assis

Tem-se dado muita ênfase à melhoria das condições


de vida nas grandes cidades, mas tal atitude, embora não
seja má, no mínimo é capenga, incompleta. Se se busca,
apenas, melhorar a grande cidade, esta se tornará ainda
mais atrativa e, por isso, mais inchada, mais problemática,
mais carente. É preciso buscar o equilíbrio na aplicação
das medidas voltadas para as causas da urbanização (for-
talecimento da economia rural e interiorana, melhoria
dos serviços públicos nas áreas onde se originam as mi-
grações) e naquelas voltadas para os seus efeitos (melho-
ria da infraestrutura urbana e de serviços, e geração de
emprego e renda nas grandes cidades).
Seria ilusão pretender simplesmente estancar o pro-
cesso de urbanização, mas havendo políticas adequadas, o
fenômeno poderá ser ordenado, racionalizado. As cidades
de porte médio poderiam ser transformadas em filtros re-
guladores do fluxo migratório, de forma a permitir que
as grandes cidades se tornem capazes de absorver nor-
malmente as demandas decorrentes do crescimento po-
pulacional. Se não tivermos consciência desses problemas
e uma visão clara de como enfrentá-los, não será exagero
dizer que, numa cidade como o Recife, a vida será insu-
portável ao final do século, em face da miséria reinante,
da insegurança urbana e da instabilidade coletiva.
É preciso evitar que a grande cidade, de Terra Prome-
tida, se converta no Inferno de Dante.

Diario de Pernambuco, 13 de julho de 1985

29
Como envelhecer uma caçarola
Alberto da Cunha Melo

Torniamo all’antico sarà un progresso.


Giuseppe Verdi

Não sei se contei aqui o fato que segue. Não importa.


O Estatuto do Idoso permite ao velho contar mil vezes
uma anedota e ainda se zangar se não escuta as caridosas
risadas. Estive eu numa locadora alugando uma fita de
ação (sim, uma fita, e não um DVD, porque faz muito tem-
po, uns três anos) e um menino de uns seis anos enchia
o saco do pai para levar a droga de uma fita de Mickey,
enquanto o inditoso genitor suplicava que ele levasse ou-
tra, de Pato Donald, por exemplo, porque ninguém em
casa suportava mais nem o som daquela porcaria. Aquele
endiabrado pirralho, seguindo talvez apenas seus senti-
dos, ensinou-me mais sobre resistência cultural do que o
magnífico Peter Berger. Todo mundo naquela locadora
dava prioridade absoluta aos lançamentos, havendo para
eles filas de espera, enquanto os denominados catálogos
ou eram alugados em virtude do preço da locação (muito
mais barata) ou porque o cliente já alugara todos os lan-
çamentos. Eu estava enquadrado nas duas categorias: em
tempo de carne de boi, dava prioridade aos lançamentos;
em tempo de frango congelado, alugava catálogos, dando
preferência àqueles a que não tinha assistido.
Homem do século XIX, eu pensava que menino só sa-
bia fazer duas coisas: raiva e cocô. Com a historinha da lo-
cadora, acrescentei mais uma: ser fiel à sua sensibilidade
Alberto da Cunha Melo

estética. A partir daquele episódio, mesmo no tempo de


carne de boi, eu só alugava um lançamento pela qualida-
de do elenco e pelo diretor, normalmente. Passei a alugar
uma, duas, três, ene vezes as fitas antigas de que tinha gos-
tado. Estou certo de que algumas delas, até desaparecer
da locadora, eram alugadas apenas por mim. Lembro-me
das duas que foram campeãs de minhas relocações: Depois
de horas, de Martin Scorsese (o filme mais kafkiano a que
já assisti) e Sob o domínio do medo, de Sam Peckinpah (onde
aprendi que a violência não tem pátria, ela mora no ho-
mem). Como aquele garoto aporrinhava o pai e o resto
da família com o seu Mickey eu vivo aporrinhando meu
pessoal com fitas e DVDs repetidos à exaustão.
Certa vez, escrevi um poema de encomenda, intitula-
do Ponta verde, para servir de prefácio a um romance do
mesmo nome, de autoria de Alves da Mota, grande alma,
grande amigo. Pedindo misericórdia aos meus milhões de
leitores, cito um trecho daquele poema: A mudança,/ a mu-
dança,/ eis o mais recente/ nome da pressa e da aflição. Na época
em que o compus, o tema estaria ligado ao mundo das
ideias, das análises precipitadas, dos Fukuyamas da vida
anunciando o fim da História, e por aí vai. Hoje, ele me faz
lembrar o esforço tecnológico para atualizar os produtos
industriais, acrescentando-lhes em curto lapso de tempo
um novo designer para acelerar o consumo, mudando-lhes
a aparência e não a essência, reduzindo-lhes a resistência e
impondo, através da publicidade, a cultura do novo.
Para mim, a arte é a eterna novidade. A tecnologia in-
dustrial não faz objetos realmente novos, o que faz são re-
petitivas extensões dos sentidos. E quando muda, muda o
invólucro, a embalagem, com monstruosas devastações no
meio ambiente (a latinha de alumínio derruba montanhas).
Instala-se, nesse anômico mundo burguês, uma falsa filoso-
fia, a do lucro, do juro, do carro do ano. Sustenta-a, o enve-

31
Como envelhecer uma caçarola

lhecimento precoce e premeditado dos produtos, a chamada


obsolência planejada, o triunfo do supérfluo e do desneces-
sário. Lembro-me de outros tempos, da máquina de costura
Singer de minha tia Albertina, funcionando plenamente,
centenária, ainda na década de 70 do século passado.
A obsolência planejada, para o professor José A.
Lutzenberger­, é uma das maiores trapaças da tecnologia moder-
na. Somos uma civilização trapaceada, onde as pesquisas
de mercado definem, para ser atacadas, as categorias ainda
imunes à mais recente trapaça. Alugar só os últimos lança-
mentos nas locadoras alimenta a vaidade idiota de estar
atualizado, mesmo que os DVDs alugados sejam puras titi-
cas de urubu. Essa numerosa fauna do carro do ano, se tem
algum hábito de leitura, que não a revista Caras, quando
lê um livro pode apostar que é um best-seller de Frederick
Forsyth, J.K. Rowling, Sidney Sheldon, Stephen King ou,
de quando em quando, para dar uma pitada nacionalista,
o rococó de Paulo Coelho. Hoje em dia eu já não sei se as
pessoas compram coisas ou são compradas por elas.
Quando menino, eu vi na fazendola de meu avô, em
Lajedo, PE, um velho agricultor acender um cigarro de
fumo plantado lá, enrolado em palha de milho, com um
isqueiro pré-histórico: duas pedrinhas, uma delas cavada,
onde colocava um capuchinho de algodão impregnado
com óleo de carrapateira, e a outra servindo para lançar
faíscas, com batidas na primeira. Um cordel feito com cas-
ca de árvore servia para que as pedrinhas não se dispersas-
sem. Quando adolescente, e já fumante, surpreendia-me
com a curiosidade dos primos, comendo com os olhos a
minha caixinha de fósforos. Eis a era da pedra polida rein-
ventada, em plena segunda metade do século XX, na era
da matéria plástica que nos rodeia por todos os lados.
No entanto, estou no tempo da internet e não sei o que
faz um ferro elétrico de engomar aquecer. Literalmente

32
Alberto da Cunha Melo

perdido entre miríades de brinquedos eletrônicos, neste


setor em que os feitores da obsolência planejada pintam e
bordam. Tempo em que os valores da honra, da autenti-
cidade, da fidelidade e do sentido cósmico da vida já não
estão mais no display do mundo cristão. Mundo em que os
trinta dinheiros, com correção monetária de dois mil anos
e juros sobre juros soterraram a última inocência e um res-
to de paz de espírito, que a áurea mediocridade aristotélica
poderia nos reservar, a nós, fantasmas, do século XIX.
Mas não se enganem! A anomia só se instalou no âm-
bito dos valores e normas espirituais. Os sentidos serão
bem servidos, sim, senhor. Os humanos estão devidamen-
te classificados quanto ao potencial de consumo. Neces-
sidades são criadas do dia para a noite e, para atendê-
las, novos produtos são colocados no mercado. Milhões
de consumidores, bem comportados com seus babadores,
esperam sair arrotando de satisfação. Bem-vinda a bomba
de neutro (ou cobalto?) que mata as pessoas e deixa as
coisas em paz. Tudo tem vida. Uma pedra é uma colônia
viva de átomos. E daí?

Marco Zero, crônicas. Recife, CEPE,


2009

33
Ouvir a voz do tempo
Alex (José de Souza Alencar)

Em momentos especiais procuro reler esse pequeno


trecho de uma crônica de Caio Fernando Abreu: Desde en-
tão, mesmo quando chove ou o céu tem nuvens, sabem sempre
quando a lua é cheia. E quando míngua e some, sabem que se
renova e cresce e torna a ser cheia outra vez e assim por todos
os séculos e séculos porque é assim que é e sempre foi e será, se
Deus quiser e os anjos disserem Amém. E dizem, vão dizer, estão
dizendo, já disseram.
Ontem foi o último dia de maio, um mês especial, aristo-
crático que representa tantas coisas boas, otimistas, as lem-
branças, o passado. Um mês em que as pequeninas cam-
pânulas são tocadas pelo vento e emitem os sons discretos
como se fosse mágica. Aumenta o perfume dos jasmins e
alguns sons que ressoam em nosso espírito, nos fazem dor-
mir mais tranquilos. O pequenino som do sino da felicida-
de mais desejada, ou que impulsiona pessoas a não terem
medo da nostalgia nem da solidão. Afinal temos aquelas
pessoas que recebem mas nem sempre oferecem. O melhor
para escrever é quando vivemos um desencanto qualquer,
ou pode ser ao contrário, nos momentos felizes. Afinal as
coisas mais belas não surgem espontaneamente. E muitas
vezes nem descobrimos o que teria de ser palavra, frase
ou crônica de jornal. Como os sonhos que não acontecem
quando pedimos ou precisamos. Em tudo existe sempre um
motivo, algo que rondou e despertou a nossa emoção.
A sensibilidade é feita desses retalhos do querer bem
não importa a quem, ou como tudo nesse universo que
Alex (José de Souza Alencar)

se esconde em nossa personalidade. Como cronista, tenho


de revelar o que me comove ou revolta assumindo todas as
consequências do que percebo no cotidiano e transformo
em frases. E lembro a história de um sabiá de antigamente
e que jamais esqueci. Acreditem, pode surgir um sabiá que
termina por demonstrar que percebe e destaca certas pes-
soas e revela sua alegria, quem sabe o amor oferecendo o
seu canto. Um deles viveu muito tempo na minha varanda
e ainda hoje conservo a dúvida se ele me conhecia para
sempre cantar quando eu andava perto do seu espaço.
Mas um certo dia ele cantou mais forte, fez malabarismos
e gorjeios alegres, tantos que parei a leitura de um livro e
fiquei olhando e ouvindo aquela ave maravilhosa que che-
gou até nosso discreto jardim fugindo de um gavião que
andava nas redondezas. E aqui ficou, protegido na gaiola,
tinha de ser. E cantou uma eternidade porque viveu mui-
to. Mas depois de tanto cantar, numa tarde que parecia
inocente e boa, ele parou, ficou silencioso, tomou banho
jogando água sobre as penas. Ainda improvisou alguns sil-
vos, pousou em silêncio tranquilo ou quase humilde sobre
o simulacro de galho e caiu morto. Então pensei, quase em
lágrimas, movido por uma culpa que não saberia expli-
car, também sem esquecer, meu egoísmo por ter acolhido
aquela ave que parecia alegre quando me aproximava. O
banho foi a despedida da vida. Então envolvi seu corpi-
nho leve num lenço branco e enterrei no jardim. E vez por
outra um assustado sabiá pousa numa árvore e não canta,
mas voa de um lado para outro como se estivesse reconhe-
cendo o espaço onde talvez tenha vivido a sua amada.

35
Sozinho no bar
Aluizio Falcão

Nove da noite no bar Bohemia. Movimentadíssimo na


madrugada este bar, em horas cristãs, tinha um silêncio de
mosteiro. Na mesa ao lado, um jovem casal ia tocando sua
conversinha em voz baixa, mas eu podia ouvir claramente.
Ele dizia que era da Mooca e nem precisava dizer, o sota-
que revelava. A moça era do interior, informação também
desnecessária, dado o erre esticado em certas sílabas, tão
presente na fala caipira de São Paulo. Eu acompanhava a
conversa discretamente, sem olhar, como quem ouve um
programa de rádio. O rapaz se esforçava para impressio-
nar, dizia que gostava de ler, desfiava títulos de best-sellers. A
namorada, modesta, nem se lembrava do último livro que
lera, comentava a novela das oito. Depois, graças a Deus,
abandonaram os temas estéticos. Enveredaram pelos flori-
dos caminhos da intimidade. Ela disse “eu te gosto” com
voz trêmula, e senti uma vaga inveja por serem tão jovens
e tão felizes. Onde estarão hoje, passados tantos anos? Fico
a imaginar quantas pessoas já ocuparam aquelas mesas e se
disseram juras e frases perdidas para sempre. Algumas até
deveriam ter sido escritas, de tão bonitas que eram. Assim
são os bares: museus de conversas que se foram, beijos que
os fantasmas beberam pelo caminho, antigas ternuras des-
feitas pelo tempo, esse grande filho da puta.
Naquela noite eu esperava retardatários. A presença
do jovem casal no bar tornou menos desconfortável a falta
de companhia. Ficar sozinho em botequim é a pior forma
de solidão. Lembro de um episódio que se atribui a Tom
Aluizio Falcão

Jobim, não sei se real, mas típico do senso de humor do


grande músico.
Contam que Jobim chegou ao bar favorito e ficou es-
perando sua turma: Vinicius, Chico Buarque & Cia. Pas-
savam-se horas, não aparecia ninguém. Toda vez que a
porta do bar se abria, o maestro olhava, curioso, e nada.
Somente chegavam estranhos, como estranha era toda a
freguesia em volta, incluindo moças desacompanhadas
que o solitário compositor observava, já depois da tercei-
ra dose, com interesse cada vez maior. As moças, porém,
continuavam o papo, indiferentes aos seus olhares.
Para tornar ainda mais triste a solidão de Tom Jobim,
alguns casais nas mesas próximas caprichavam em cenas
românticas. Tudo conspirava para que ele acelerasse o
consumo de uísque. Sem ter com quem conversar nos ba-
res as pessoas tendem a beber muito mais. O maestro não
fugia a essa regra boêmia. Num dado instante, de copo
vazio, espiava com inveja um casal se beijando, quando o
garçom aproximou-se: “O senhor quer alguma coisa?” E
Jobim, imperativo: “Garçom, beije-me”.

37
O São João da minha infância
Aluízio Furtado de Mendonça

O povo nordestino é essa gente comunicativa e alegre, brin-


calhona, que vive intensa e emocionalmente os festejos populares,
já que a vida por essas bandas é bastante limitada para os mais
humildes de posse, de bolso. E ele faz das adversidades consenti-
das pelos poderes públicos um milagre de sobrevivência que tem
muito a ver com a bondade divina, pois, como dizia Euclides da
Cunha: “O nordestino é antes de tudo um forte!”
Eu deveria andar pelos três ou quatro anos quando os
festejos juninos entraram em minha vida. Nasci em Na-
tal, no Rio Grande do Norte, e as festas ali, como aqui
também em Pernambuco, sempre foram muito animadas,
revestidas de uma tradicionalidade que vinha de tempos
muito antigos.
Semanas antes dos festejos, a casa de meus pais co-
meçava a ser preparada para as comemorações. Seu Mo-
desto, uma figura inesquecível de minha meninice – alto,
magro, ossudo, o rosto escavado pela fome, vestido hu-
mildemente – chegava-se, reservado, procurando falar
como minha mãe: era a contratação antecipada de uma
fogueira enorme, que só ele sabia fazer do nosso jeito.
Depois, os vizinhos, os amigos, os parentes iam-se ar-
regimentando para a grande festa.
Notava-se no ar uma atmosfera diferente, prazerosa.
Os diálogos eram sempre vigorosos, as pessoas demons-
travam uma alegria contagiante: falavam de iguarias di-
versas em preparo: bolo de milho, canjica, pamonha, mi-
lho verde assado ou cozinhado na espiga e por aí ia a
Aluízio Furtado de Mendonça

animação sem controle, até a data estabelecida para as


homenagens ao santo popular e idolatrado.
No dia vinte e três de junho, a véspera das comemora-
ções, era difícil haver na cidade de Natal quem não esti-
vesse engajado na turbulenta alegria. Era o pipocar conti-
nuado de fogos menos agressivos, os chamados traques de
massa, as bombas caseiras, os fogos de artifício, a fogueira
acesa, a madeira ardendo com estalidos secos e as chamas
subindo para o alto, rapidamente.
Os meninos corriam em torno do fogaréu incontido,
pulando e gritando compulsivamente, enquanto as mo-
ças donzelas faziam adivinhações e “simpatias” para ver
quem seria o príncipe encantado de seus sonhos... matri-
moniais.
Faziam, à margem do fogo crepitante, também, casa-
mentos simbólicos, com o padre improvisado, todo para-
mentado, as testemunhas, os convidados... e os anjinhos
acompanhantes, geralmente crianças de tenra idade, que
emocionadamente e como se fosse tudo aquilo verdade,
prestavam-se para animar mais as solenidades.
No meio dos atos “oficiais”, havia também aqueles que
acolhiam, entre os amigos do peito, o compadre e a coma-
dre, com celebrações de grandes e definitivas amizades,
que a partir dali eram respeitadas e cultivadas como ma-
nifestações religiosas de longa e fraterna continuidade.

II
Na casa de meu pai, os parentes mais próximos chega-
vam na véspera. Vinham de toda parte do interior. Apre-
sentavam-se com as breves “mudanças” – algumas camisas,
roupas interiores e geralmente um presente para a cozi-
nheira, que ia suportar os encargos à margem do fogão.
– É para você, comadre, uma lembrancinha para ani-
mar mais nossa amizade!

39
O São João da minha infância

E todo mundo ria, na hora.


– Não precisava disso, comadre! Vocês aqui estão em
casa! – dizia minha mãe, encabulada.
Quando chegava a noite, a fogueira já estava erguida
defronte de casa. Um fogueirão respeitável! Seu Modesto
era expert no assunto.
Reunia a madeira, pau a pau. Depois fazia a entrada
de fogo, com pequenos gravetos. Outros chamam “boca
de vento” ou coisas assim, mas o certo é que ele vinha cau-
teloso, jogava querosene na área mais inflamável, soprava
com toda a força dos pulmões e vinha lá de dentro a cha-
ma poderosa, que logo tomava conta de tudo, elevando
as labaredas a uma altura surpreendente. E os presentes
se alvoroçavam, gritavam, pulavam, elevavam os braços
numa saudação efusiva e generalizada que durava ali mais
algumas horas da noite.
Sim, era esse o São João de minha infância distante,
mas que deixou em mim marcas de eternidade que o tem-
po enorme transcorrido não conseguiu ainda apagar.

40
Uma dama em tempos idos
Ana Maria César

Os dedos ágeis deslizavam sobre o teclado da máquina


de escrever, as hastes carregadas de tipos forjados no aço
subiam e desciam em movimento sincopado, imprimindo
no papel letras e desenhos de formas variadas. Se parava
por instantes, como a buscar palavras, logo os dedos bai-
larinos retornavam à dança sobre os minúsculos palcos
arredondados, acompanhados de música seca e metálica.
Ao final da linha, arrastava a alavanca até o ponto de tra-
va e tudo recomeçava. A música, a dança, os traços.
Escrevia cartas e mais cartas, todos os dias, a irmãos,
tios, primos e amigos. Estilo elegante, enxuto, fluido, era
considerada missivista de grande talento. Sem telefone,
fax ou e-mail, o mundo daquela época transcorria lento,
sem pressa. Toda a comunicação acontecia através de car-
tas que, postas no correio, aguardavam resposta por dias
e semanas intermináveis.
Guardo comigo sua imensa correspondência, cartas
escritas à mão ou à máquina, no cabeçalho as letras J.M.J,
alusão a Jesus, Maria, José, ou ainda, A.M.D.G. – Ad majo-
rem dei gloriam – hábito adquirido das religiosas em cujos
colégios estudou. Nelas tratava de assuntos corriqueiros,
falava do tempo, discutia política: “Quanto à intervenção,
eu tenho comigo que nós já estamos com ela, apenas o Sr.
Washington mandou-a sem declarar publicamente. Pois,
o que significa esse movimento de forças federais pelo
sertão, agora quando tudo está mais ou menos calmo?”
(escrita no dia 15 de agosto de 1930).
Uma dama em tempos idos

Fã incondicional da administração do presidente João


Pessoa, embora fosse impedida de votar – o que só acon-
teceu a partir de 1932 – fez parte dos débeis movimen-
tos que iniciavam a participação feminina na política por
ocasião do assassinato de João Pessoa. Mantinha fotos do
presidente da Paraíba emolduradas na parede e bordou
uma bandeira com o Nego, nas cores vermelha e preta.
Áurea Rafael Torres Ventura nasceu em 9 de abril de
1906, em Monteiro, Paraíba, filha de Anna Rafael Torres
Ventura e de Antônio Feitosa Ferreira Ventura, ele, bacharel
em Direito, promotor público, juiz de Direito e desembar-
gador. Filha mais velha, pois a primogênita morrera com
menos de dois meses, teve oito irmãos, mas apenas quatro
chegaram à idade adulta: Antônia, Aurélio, Altino e Abel.
Seu pendor pelas letras, acredito, foi obliterado pela
exagerada religiosidade que, naquela época, impedia a
leitura de nossos clássicos, através do Index, lista dos li-
vros e autores considerados proibidos sob pena de exco-
munhão. No entanto, a palavra se lhe insurgia com tal
força que deixou, reunidas em brochura, crônicas descre-
vendo lugares e fatos de sua época, como: “Jardim Públi-
co”, “A Praça Venâncio Neiva”, “Parque Arruda Câmara”,
“Um incêndio”, onde demonstra a vocação do cronista no
registro de acontecimentos do cotidiano.
Guardou por toda a vida o hábito de recortar artigos
de jornais e revistas, muitos deles organizados no que cha-
mava escarcela, vocábulo que, em sua origem, pelo século
XVI, significava “bolsa de couro que se carregava presa à
cintura”, mas no século XX era usado para indicar pasta
de cartolina onde se colecionavam documentos, papéis.
Durante anos fez anotações em cadernos, com lápis gra-
fite – que o tempo tenta apagar – a que denominava Me-
mórias – essas ainda com a grafia anterior a 1943 – outras
vezes, Retalhos – de uma segunda fase.

42
Ana Maria César

No dia 21 de janeiro de 1932, casou-se com o bacharel


em Direito e poeta Amaro de Lyra e César. Juntos, desbra-
varam o interior do Estado. Moraram em Limoeiro, Ga-
meleira, São José do Egito, Alagoa de Baixo, Garanhuns,
Carpina, Caruaru. Nesta última, participou ativamente
da grande obra que foi o Abrigo de Menores Dom Bos-
co onde exercia graciosamente o cargo de diretora para
assuntos gerais, pois se envolvia com todos os problemas
que dissessem respeito ao funcionamento da instituição.
Lembro ocasiões em que ia à Rádio Difusora de Caruaru,
em programa de grande audiência, fazer campanhas para
repor o que faltasse no abrigo. Se pedia lençóis, por exem-
plo, poucas horas depois começava romaria à nossa casa,
fazendo entrega do que cada um podia dispor. E logo os
meninos do abrigo, que a chamavam de “mainha”, não
sentiriam mais frio. Enfrentou com mágoa e revolta a en-
campação do Dom Bosco pelo governo do Estado, por
motivos políticos – acredito que nunca se recompôs da
dor pela perda dos seus 150 “filhos”, do dia para a noi-
te. Mas logo, ao lado do companheiro, iniciou outra obra
monumental, o Lar Santa Maria Goretti para meninas ca-
rentes e que foi entregue às Irmãs do Bom Pastor.
Criada numa família patriarcal, os Torres Rafael de
Monteiro, e em colégios de freiras, que primavam por
uma educação primorosa, foi, por toda a vida, uma dama
em atitudes e gestos. Seguia os costumes que a rígida so-
ciedade da época impunha, como cobrir-se de luto pela
morte dos parentes: um ano, pais; seis meses, avós; três
meses, tios. Cumpria as regras sociais à risca. Possuía car-
tões tarjados de negro para os períodos lutuosos ou para
se dirigir a quem neles estivesse. Visitava doentes, acom-
panhava enterros, assistia a missas, apresentava pêsames
como se cumprisse preceito inalienável e inconteste. An-
tes de empreender viagem ao exterior, peregrinava pelas

43
Uma dama em tempos idos

casas de parentes e amigos, como manda o ritual, para


comunicar o afastamento e – acredito – se colocar à dis-
posição para alguma encomenda, seguindo costume no
Brasil Colônia, quando ir ao Reino se revestia de pompa
especial. Na volta, se frustrava ao não receber retorno das
visitas que fizera. Percebi, com o tempo, que pouca gente
tinha conhecimento dessa norma de convivência social.
A hospitalidade, herdara-a de sua avó Antônia, a Mãe
Toinha do clã dos Rafaéis, que em princípios do século
XX recebia com fidalguia nos confins do sertão paraiba-
no, servindo iguarias importadas e bebendo água mineral
de Vichy. Também de sua mãe, Anna Rafael Torres Ventu-
ra, que na capital paraibana ditava moda em seu atelier de
costura, frequentado pela mais alta representação da so-
ciedade da época. Hospitalidade levada ao extremo ao se
ceder o quarto do casal – que se acomodava de qualquer
forma – a quem dava a honra de pernoitar em sua casa.
Peregrinando por cidades do interior pernambucano,
por décadas manteve o hábito, adquirido no casarão de
Monteiro e no sobrado de João Pessoa, de tomar chá to-
das as tardes. Conservou a pronúncia castiça do portu-
guês antigo, como as vogais fechadas em palavras como
sinhora, buneca, e a nasalação em formas verbais como sen-
tamos, chegamos.
E deixou um exemplo de fidalguia aos que com ela
conviveram.

44
O sol de Pernambuco
Antônio Campos

Pernambuco, a terra de mais luz da Terra, na expres-


são de Pinzón, referida pelo poeta João Cabral de Melo
Neto no seu poema O sol em Pernambuco, vem assistindo a
um verdadeiro renascimento cultural fulcrado na (re)valo-
rização de seu diversificado patrimônio artístico-cultural
e histórico.
Pernambuco vem mostrando a força e a criatividade
de seu artesanato, da sua culinária, da sua música, de sua
poesia, das suas festas populares, das suas artes plásticas
e cênicas e da sua literatura. Institutos e centros culturais
são criados e ganham força e vida. Exposições, livros são
lançados e relançados. É tempo de Pernambuco.
O sociólogo Renato Carneiro Campos, em ensaio in-
titulado Joaquim Nabuco: um agitador de ideias, dizia que
se tivéssemos que escolher um estado, na Federação, para
representar D. Quixote este estado seria Pernambuco: Não
lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto.
Renato tinha razão:

Pernambuco, com suas revoluções falhadas, com


seus movimentos libertários abafados a ferro e a fogo,
é uma espécie de D. Quixote da Federação.

Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados


em 1817 (República de Pernambuco) e 1824 (Confede-
ração do Equador), o território da antiga Província de
Pernambuco perdeu as Comarcas das Alagoas e do São
O sol de Pernambuco

Francisco. Contudo, Pernambuco resistiu e nunca deixou


de sonhar e de ser altivo.
Alceu Amoroso Lima disse, certa vez, que quando o
Brasil está em crise se volta para cá, para a região cortada
pelo Rio São Francisco, que é o Rio da Integração Nacional.
Se dei o meu amor a Pernambuco, dei a minha paixão
ao Recife, como afirmou Chico Science. O poeta Jaci Be-
zerra, no poema Tatuagem na água, nos diz:

No Recife me perco e me inauguro/ pisando acácias


e águas machucadas,/ no bolso o sol ferido, um sol
maduro/ escorre, úmido, e acende a madrugada./ Uma
árvore brota no meu peito impuro/ acalentando a
infância que, abismada,/ brinca dentro de mim e dói
no escuro/ sempre por um menino acompanhada. Nunca
a essa cidade fui perjuro/ nem nunca a reneguei, talvez
por isso/ ela me planta e aninha entre os seus muros,/ e
eu a carrego em mim, arrebatado,/ apodrecendo nos
mangues dos seus vícios/ e amando como se nunca
houvesse amado.

Aqui, em nossas terras, o poeta cristão-novo Bento


Teixeira foi o autor da primeira obra poética produzida
no Brasil que mereceu as honras do prelo, Prosopopeia. Da-
qui saíram as primeiras imagens do Novo Mundo. Aqui,
forjou-se o berço da nacionalidade. Pernambuco não se
cansa de sonhar e de criar.
Que o sol de Pernambuco e a força de sua cultura e
de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações,
acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostrem o
caminho do reencontro entre o Estado e a Nação.

Território da palavra. São Paulo, Escrituras, 2008

46
Os olhos sem nexo e verdes do mar
Antônio Falcão

Quem nasceu e vive no litoral não faz ideia do que é


ser de onde não tem mar. Tiro por mim que vim das bre-
nhas, lá dos cafundós do Agreste e me extasio com a festa
aquática. Do mar-oceano, quero os olhos verdes, abotica-
dos, assim me cubando de viés, enquanto leio e sonho. E
ainda hoje, cravada em mim, essa imagem enfeita a lapela
da alma, faz meu peito espalhafatoso rir que nem demen-
te... Decerto, integra a cultura que nos legou o tombadi-
lho, seja – portanto – nós, vocês e eu. Daí, um testemunho
pessoal aqui cai bem. Vamos lá:
Vem de longe a paixão, dos meus seis anos – idade
em que no nosso clã ninguém morria. Imito Fernando
Pessoa: o que sou é ter crescido e ser órfão. Conto: Papai,
do interior e me tendo à mão, viu-me embaraçado com as
águas e disse “é o mar, Toninho”, e me bastou. Foi como
se, ali, ele me apresentasse à utopia. (Agora, esse anúncio
do pai me evoca Jorge Luís Borges: O mar, o velho mar, já
estava e era – o ex-ministro Eduardo Portela surrupiou um
dito do poeta argentino.) Embeveci pra sempre. E desde
então fiz do oceano companheiro e cúmplice, compadre
e cupincha desta vida marinheira que, por erro de classe,
me deixam viver. E vivo intensamente.
Hoje, o zíper da modéstia já não me cala mais a boca:
vivi a vida em demasia, sim. Vivi-a junto e só, em livros e
na rua, pelos amores e em geografia, por toda parte onde
medra a ação e o pensamento.
Em outras terras, o mar me viu com tons que não o
esverdeado que se vê da ótica do Nordeste brasileiro. Ou
jade, a cor da água em Portugal. Era Rafina, vilarejo grego
Os olhos sem nexo e verdes do mar

que lambe Atenas e eu um rapaz que fazia versos acredi-


tando no dizer poético pra salvar o mundo. A namorada
estranhou tanto azul anil – pensando bem, de Mondrian
– saindo do Mar Jônico. Por ironia, falei que era o cisco
do Atlântico, coado no Estreito de Gibraltar, fazendo de
boia o cocô árabe do medieval Magreb – mais lixo “cívico”
do sul da Europa. E o resto Tirreno, Egeu, Mediterrâneo,
Adriático... – blefes e sacanagens dos mapas. Aí, ela, meu
bem-querer, me olhou assim como quem cuba doido. E
estava redondamente certa a amada – eh! como estava.
Outra vez, pela União Soviética, quando aquilo nem
imaginava ruir, o Mar Cáspio à minha frente, plúmbeo
(que palavra!), exalando mijo e esturjão – caviar a preço
de bolo de goma. Águas feias e tristes, essas águas. E, ain-
da por cima, tão exibidas. Mas, no fundo, um lago – meti-
do a besta, vá lá, mas um lago, um tremendo lago...
Como isto não é diário de viagem, eu quis (e vou) falar
da magia do Atlântico, massa líquida que finge e signifi-
ca afeto, molda-nos a sensualidade, dá ritmo à voz, põe
sal no texto. Mesmo que noutras praias o mar nos veja
com olhos diferentes, a alma lusotropical vive e continua
dolorida. Não sei de ânsia literária mais madrasta, a dar
e a receber porrada. É látego vindo das ondas descomu-
nais do oceano que nos borda e serpenteia – diria alguém
chegado ao (e do) Parnaso. Existe, sabe-se lá, argonauta
em nós que vem dos almirantes Vasco e Cabral, de mares
nunca dantes, travessias. Tudo Atlântico, vindo e indo nas
naus de Sagres, no sargaço pescador, na agonia. É só cor-
rer a vista por Camões, Florbela, Bandeira, João Cabral,
Eça, Graciliano, Machado, Rosa (sem Minas), Saramago...
– e tantos mais que deram, em literatura, a emoção que a
vida nos negou. Ou não nos pôde oferecer.
Por isso, assim e mais, eu louvo ao mar. Nem que seja
no rabo disto aqui e sem nexo, não importa. A mim, já

48
Antônio Falcão

e sempre, conta como te vejo verde e o quanto te quero


bem, meu querubim. Conta o modo como te via ao lado
do pai; conta o jeito e a forma com que contigo sonhei em
agrestino, o modo de te ler e descobrir em Português. Por
tudo, deves cantar intenso e estridente, oceano. E cantar
muito. Até nos polir o sensitivo, ferindo o peito gauche e a
despertar os peixes.
Canta, sobretudo, pra ninar a minha alma andeja e
caipira; canta doce, água atlântica, abissal.

Jornal do Commercio, 26 de abril de 1998

49
O exercício de piano
Antônio Maria

A música distante de um exercício de piano. Por trás,


a infância. A música reminiscente do exercício de piano,
que tocava, na mão direita: dó-mi-sol-mi-ré-mi-ré-dó. Na
mão direita de todas as crianças, estudando piano, a mes-
ma música. Na mão direita, eu tinha uma roseira.
Era no mês de junho. Chovia, de tarde, na rua da Au-
rora. O Capibaribe estava vazio, com as vísceras à mostra.
A lama. Ouviam-se os siris batendo as patas, em luta cor-
poral.
As mulheres passavam, para o médico. Todas elas páli-
das, honestas, resignadas; como não tinham o que fazer, de
tarde, iam ao médico. Logo depois davam seis horas. Ouvia-
se o sino da Conceição dos Milagres. Depois, de dentro das
casas, pelas venezianas, vinha a voz do speaker da PRA-8.
– Ave-Maria! Rainha pura e ditosa dos homens peca-
dores, santa radiosa dos céus...
Ia por aí. As mulheres já estavam em casa, “de seu”
contando que estiveram no médico e que, no dia seguin-
te, teriam de voltar, para novo exame. A expressão “de
seu”, ou “de meu”, era muito comum no Recife. Queria
dizer pouca coisa. Estar “de seu” é estar consigo mesmo.
Então, servia-se o jantar. Carne assada com arroz. Carne
de sol com farofa. Carne assada no Recife era lombo. E
farofa era feita na água quente.
Depois do jantar, nas casas sem jardim, botavam-se ca-
deiras na calçada. Cadeiras de vime. A voz do sorveteiro,
lá longe, triste, mendiga, musical. Cada vez mais perto.
Até chegar a arriar a sorveteira na calçada. O perfume
inesquecível dos sorvetes de mangaba! Cada sorvete, um
tostão. Cada tostão, um desprendimento.
Antônio Maria

Rua da União. Defronte, nas janelas dos sobrados, as


quartinhas e os copos de barro, refrescando. Os copos de
barro tinham tampa e cada um era marcado com o nome
do dono.
A gente não sabe por que escreve essas coisas, que não
eram importantes na época, nem o são, hoje, em lembran-
ça. Mas a gente escreve, irreprimivelmente, para aliviar.
A noite mesmo, a noite de dormir, começa com um
fundo silêncio, interrompido, longe, pelos bondes da Per-
nambuco Tramways. Eram todos amarelos. Depois, a dita
noite agregava-se ao homem e se tornava imperceptível.
A música perdida do exercício de piano. Se conseguís-
semos descerrá-la, veríamos, com arrependimento, a in-
fância e, nela, o Capibaribe descarnando com a lama toda
de fora. Todos nós, os meninos, sentíamos uma constante
necessidade de abandono.

6 de outubro de 1962
Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994

51
Boa tarde
Ariadne Quintella

Os pombos que, tranquilamente, dormiam, durante a


noite, nas torres do Palácio da Justiça, perderam seu pou-
so. Foram desalojados. Despejados, e ninguém sabe infor-
mar se foi por falta de pagamento. À tarde, era interes-
sante observar as suas acrobacias, o seu voo aparentemen-
te incerto, mas, na verdade, seguro, em direção às janelas
do prédio secular, de poucos andares, porém majestoso,
imponente, um convite aos jovens à nova profissão.
Mas os homens chegaram armados com instrumentos
de trabalho para fazer a necessária pintura e, na arruma-
ção da Casa, descobriram o ninho. As aves, perdendo a
tranquilidade, partiram para destino incerto e não sabido,
ignorado. Dessa vez saíram sem meta, sem itinerário, sem
hora de voo. Certamente foram se juntar aos desabriga-
dos que perambulam pelas ruas do Recife. Somente eles
estão à altura de entender seus lamentos, o sofrimento de
quem não tem mais um teto para se abrigar.
A ordem de despejo dada aos pombos, segundo comen-
tários nos corredores do Palácio, foi para “uso próprio”,
porque a máquina da Justiça exige espaço e tranquilidade
quando está em funcionamento. A última notícia, ou boa­
to colhido pelos repórteres indiscretos, dá conta de que
o arrulhar dos pombos incomodava os desembargadores
que, sem encontrar uma saída, resolveram cassá-los. Não
sabemos se é verdade.
Para distrair os olhares “distraídos” dos advogados,
principalmente dos “medalhões” do Direito, doutores da
Ariadne Quintella

lei com ares de sapiência, ficaram as figuras (alegres, des-


contraídas, cheias de vida) das colegas de profissão, inician-
tes no “ofício” e que todas as tardes cobrem o mesmo itine-
rário, iluminando os salões sombrios do Palácio da Justiça.
Isso, para muita gente, representa uma bênção, depois de
um dia inteiro de trabalho rotineiro e exaustivo.
Mas, deixando de lado o saracoteado das bacharelas,
é tempo de voltar a pensar nos pombos. Eles não podem
desaparecer da paisagem da cidade. Precisam de um novo
abrigo. Talvez caiba à Prefeitura do Recife encontrar.

Diario da Noite, 4 de dezembro de 1975

53
Homero existiu?
Ariano Suassuna

Existe um certo tipo de pessoa que, não perdoando ao


mundo e aos outros homens sua própria pequenez, tem
um especial prazer em negar a existência dos grandes ho-
mens. Entre os críticos e ensaístas literários, essa posição
é muito comum ante os escritores e artistas criadores: im-
potentes para a criação, deleitam-se em negar a existên-
cia, não digo nem dos gênios, mas até dos Poetas comuns,
de poder criador comum; nem a estes últimos perdoam o
fato de criar alguma coisa, eles que são capazes, apenas,
de comentar o que os outros criam.
É assim que, durante um certo tempo, foi muito co-
mum negar-se a existência de Homero: os críticos, lendo
a Ilíada e a Odisseia, sentiam-se insultados pelo fato de ter
existido tal gigante e começaram a espalhar outra versão
sobre o caso. Os dois poemas geniais seriam, apenas, a
reunião de cantos realizados por vários poetas anônimos,
reunião realizada pelos “diascevastas”, isto é, os críticos
e “eruditos” do tempo. Tal reunião teria sido feita por
muita gente e partindo-se, também, dos cantos realiza-
dos por muita gente, aos poucos, de modo fragmentário
e disperso. Com isso, matavam-se dois coelhos de uma só
cajadada: negava-se a existência de Homero e atribuía-se
a existência de seus dois grandes poemas a uma entidade
dispersa e coletiva, na qual, por acaso, os críticos e eru-
ditos desempenhavam um importante papel. Havia, po-
rém, dois pormenores que os estudiosos e ensaístas sem-
pre deixaram de lado: primeiro, é que havia, e há, uma
Ariano Suassuna

unidade enorme, em ambos os poemas. Depois, a métrica


usada na Ilíada e na Odisseia é pessoal e muito diferente da
métrica dos poemas e cantos dos Aedos e rapsodos popu-
lares anteriores a elas. Que Homero partiu desses cantos,
não há dúvida. Mas hoje, a melhor crítica é unânime em
reconhecer que um espírito de gênio, um só, um grande
Poeta, partindo desses cantos, recriou-os e deu-lhes uni-
dade, de um modo pessoal e próprio, inconfundível – e
esse grande Poeta foi Homero.
A mesma coisa fizeram e ainda fazem com Shakespeare­.
Para negar a existência do gênio criador que foi ele, já
inventaram mil versões fantasiosas, cada qual mais inve-
rossímil. Uns dizem que o autor das peças shakespearia-
nas foi Marlowe. Marlowe tinha sido condenado à morte.
Seu protetor, para evitar a ele o cutelo do carrasco, dera-o
como assassinado numa briga de taverna, enterrara um
desconhecido em seu lugar, conservara Marlowe oculto em
sua casa e as peças escritas por este daí em diante tinham
passado a ser assinadas com o nome de Shakespeare.
Outros atribuem as peças de Shakespeare a Francis
Bacon, quando basta a qualquer pessoa mais ou menos
enfronhada em Literatura ler os escritos de um e outro
para ver que são pessoas de temperamento e inteligência
inteiramente diferentes e até opostos.
Eu não simpatizo com a Inglaterra, e poderia até
aproveitar o fato para dizer que Shakespeare era mediter-
râneo, da Itália, o que o deixaria muito mais próximo de
nós. Porque, para ser franco, na minha opinião, o único
defeito que Shakespeare teve foi ser inglês. Mas como não
sou dessas coisas, tenho que respeitar a verdade, e aceitar
o fato de um dos maiores gênios do Teatro universal ter
nascido num país com o qual antipatizo. Mas se eu fosse
como esses críticos que vivem especulando sobre a exis-
tência ou não existência dos criadores, teria alguns argu-

55
Homero existiu?

mentos para fundamentar minha tese de que Shakespeare­


era italiano. Vejamo-los.
Em primeiro lugar, existe uma certidão de batismo
de Shakespeare (argumento, aliás, bastante forte para
provar que ele nasceu e existiu). Nessa certidão, vem o
menino com o nome, não de William, mas de Gulielgmo
Shakespeare­! Ora, Gulielgmo é a forma italiana de William
e Guilherme: logo, Shakespeare era italiano, e não inglês!
E eu sairia por aí adiante, mostrando que era do fato de
ser italiano que decorria o interesse de Shakespeare pelos
temas italianos, como acontece com Romeu e Julieta, com
Otelo, o mouro de Veneza etc.
Acontece, porém, que eu não sou dessas coisas, e pre-
firo dizer a verdade. Não tendo mania de grandeza, não
me sinto insultado e diminuído pela existência dos gran-
des, de modo que não tenho dificuldade nenhuma de en-
xergar o fato de que Shakespeare existiu e foi o autor de
suas peças.
Para nos convencermos disso, basta examinar um ou
dois fatos. Está provado, por exemplo, que, no tempo em
que apareceram as peças shakespearianas – algumas delas
editadas ainda em vida do autor – existiu um homem, na
Inglaterra, chamado William Shakespeare. Esse homem,
ao chegar a Londres, começou a trabalhar em teatros, a
princípio executando tarefas subalternas. Depois, foi ator.
Ainda depois, revelando jeito para Literatura, foi encarre-
gado de “modificar” as peças dos outros, a fim de adaptá-
las às necessidades da companhia de teatro em que traba-
lhava. Foi assim que começou sua carreira de autor teatral.
Pegava as peças do repertório popular e tradicional de seu
tempo e cortava aqui, acrescentava ali, introduzia dois ou
três personagens, retirava três ou quatro outros; e assim,
aos poucos, terminou escrevendo suas próprias obras, a
partir, quase sempre, de textos alheios. É por isso que,

56
Ariano Suassuna

em alguns casos, ainda restam, em algumas de suas peças,


inúmeros versos dos outros: eram os versos dos quais ele
gostava e que não achava necessário substituir. É por isso,
também, que seu Hamlet é a quarta ou quinta peça escrita
sobre o mesmo tema, em seu tempo. O que acontece, po-
rém – e nisso os críticos não falam –, é que só se fala, hoje,
nos “Hamlets” anteriores, por causa do dele.
Agora, tenho que mudar um pouco de tom, porque eu
pensava em escrever estes meus comentários num tom de
simples brincadeira; depois, empolgado pela admiração
que tenho por Homero e Shakespeare, terminei falando a
sério. Agora, estou em dificuldades para dizer o que que-
ria, porque, sem esclarecer bem as coisas, tudo pode ter-
minar numa intolerável pretensão – a de querer, eu, me
colocar num nível pelo menos longinquamente próximo
a dois dos maiores gênios da Humanidade, o que seria
legítimo em Quaderna, mas profundamente ridículo em
mim. Fique, portanto, desde logo claro, que o que vou
dizer agora nem de longe supõe essa pretensão.
Vendo que, depois da morte dos escritores, os erudi-
tos recorrem frequentemente aos documentos para pro-
var os fatos de sua vida, ando meio preocupado com as
contradições de documentos oficiais sobre minha identi-
dade. Esclareço então, desde agora, para evitar dúvidas
futuras, que me chamo Ariano Suassuna. Moro, em Ta-
peroá, numa casa sertaneja, chamada a “Casa-Forte da
Malhada-Suassuna”, situada na data da “Carnaúba”. No
Recife, moro na casa n° 328 da Rua do Chacon, no bairro
da Casa-Forte. Sou o autor de A pedra do reino e do Auto
da Compadecida, e meu nome, mesmo, é Ariano Suassuna,
apesar de que, na Prefeitura do Recife, eu seja chamado,
pelos documentos oficiais, de Amaro V. Suassuna. No Sa-
neamento, meu nome é Manoel Alves Maia, e, na Celpe,
Isaac David de Souza. Esclarecido tudo isso, espero que,

57
Homero existiu?

mais adiante, os eruditos que forem fazer a história da


literatura paraibana não neguem a autoria de meus tra-
balhos ao filho de João Suassuna e Dona Ritinha, para
atribuí-los a esses cidadãos, dos quais um não existe, o ou-
tro já morreu e o terceiro é meu amigo, mas juro que não
fez parte nenhuma do meu modesto, mas meu, trabalho
de escritor.

“Almanaque Armorial do Nordeste”,


Jornal da Semana, Recife, 8 e 14 de abril de 1973

58
O leão adormecido acordou
com um tapa
Arnaud Mattoso

Os dois policiais se aproximaram de Jimis e do ami-


go que esperavam um ônibus para ir ao Centro do Recife,
numa parada da avenida Mascarenhas de Moraes, no bair-
ro da Imbiribeira. Taxistas que faziam ponto próximo à pa-
rada ligaram para a polícia dando conta de “dois elemen-
tos suspeitos”. Jimis tem nove irmãos todos negros, pobres
e favelados como ele. Na infância vivia à beira do rio Capi-
baribe, onde catou sururu e marisco na Bacia do Pina para
vender no mercado de Camaragibe. Naquela noite, Jimis
e o amigo iriam passear pelo Centro da Cidade, diversão
única para quem não tem dinheiro para gastar.
O policial pediu documentos. Jimis os entregou e o
policial perguntou o que eles estavam fazendo ali. “Espe-
rando ônibus para ir ao Centro”. – Onde vocês moram?
“Na Ilha de Deus”, respondeu Jimis mais uma vez ao po-
licial que duvidou, então Jimis enumerou os moradores
mais antigos da comunidade pobre da periferia do Recife.
Contrariado, o policial fez pressão contra o negro de vin-
te anos indefeso na parada do ônibus. Não admitia que
o jovem não fosse um delinquente. Procurou no teto do
abrigo armas ou drogas e, como não encontrou, quis fazê-
lo confessar que era ladrão.
Jimis era estudante de escola pública, estava terminan-
do o ensino médio, fazia curso técnico em refrigeração e
era pobre, mas honesto. O policial deu-lhe um tapa no
peito que o fez cair na calçada, sendo observado pelo ami-
go que estava seguro pelo outro policial. Jimis levantou-se:
O leão adormecido acordou com um tapa

“Você acaba de despertar o leão que estava adormecido”,


disse enquanto limpava a areia da calça de tecido barato e
a camisa doada pelos patrões de sua mãe. “Vou continuar
estudando, vou ser advogado e entrar para polícia para
fazer você olhar para mim de igual para igual”, discursou
sem medir as consequências de sua atitude. O policial não
se abalou e disse que não queria vê-los por ali. Jimis e o
amigo desistiram do passeio e voltaram à comunidade ca-
rente da Ilha de Deus na zona oeste do Recife, às margens
do rio Capibaribe.
O impacto da discriminação e da injustiça teve efeito
positivo para Jimis que aos vinte e três anos estuda os li-
vros de Direito na Biblioteca Pública Estadual, trabalhou
em empresas de refrigeração, é casado, a mulher espera o
primeiro filho e conseguiu manter-se longe da marginali-
dade. Ao contrário dos seus nove irmãos que estão presos
por crimes diversos, Jimis manteve-se centrado nos livros
e no caminho do estudo para livrá-lo do destino aos que
nascem em sua condição. Está inscrito para o concurso da
Polícia Civil e vai tentar o vestibular como cotista da Uni-
versidade Federal de Pernambuco para cursar Direito.
Ele quer cumprir a promessa que fez ao policial que
despertou o leão adormecido e para isso não mede es-
forços. Está desempregado, mas sabe atuar como técni-
co em refrigeração. Enquanto isso, defende um trocado
como flanelinha numa rua anexa ao Mercado da Madale-
na, onde lava carros e enfrenta todos os preconceitos da
sociedade, seja da classe média que o vê como um mar-
ginal, seja dos colegas de trabalho que o veem como um
presunçoso por ler e estudar.
Jimis é um herói das ruas, um exemplo de que nem tudo
está perdido e que é possível fugir ao destino reservado dos
que nascem negro, pobre e favelado. Jimis é um caso raro,
um em mil fugindo de uma condição que não queria estar.

60
Arnaud Mattoso

Nota-se a ausência do poder municipal, estadual e federal,


pois Jimis está sozinho em sua empreitada contra tudo e
contra todos, contra uma sociedade inteira que o empurra
para o abismo do crime e das drogas, mas ele resiste.
Quando me despedi, dei-lhe uma nota de cinco reais,
uma mixaria diante de sua grandeza e coragem, de sua
percepção de mundo e das palavras sinceras que trope-
çavam entre o linguajar correto e a dificuldade de quem
nasce num berço à beira da lama de um rio fétido. Ao me
despedir, pedi-lhe que fizesse um favor: “Não desista e
nunca se afaste deste leão que despertou”.

61
Retrato na parede
Arthur Carvalho

Uma das crônicas mais pungentes e bonitas de nossa


literatura é O mangue, de Manuel Bandeira (Obras comple-
tas, Aguilar, v. 2, papel bíblia). Nela, Bandeira descreve o
Mangue no seu esplendor e nos dias seguintes à sua in-
terdição, pela polícia da ditadura Vargas, comandada por
Felinto Müller.
Começa dizendo que o Mangue era uma festa de todas
as noites, com violões e cavaquinhos varando a madru-
gada, onde se tocava e cantava o que havia de melhor e
mais genuíno na nossa música popular. E descreve, com
tintas dramáticas, o desespero das mulheres perseguidas
pelos beleguins e inúmeros suicídios, alguns deles com as
rameiras, qual tochas humanas, ateando fogo às vestes,
como na criação.
Todos conhecem a história da Lapa, a bela e triste his-
tória da Lapa, com seus charmosos cabarés (o Novo Mé-
xico era sensacional), cafetinas, algumas delas poliglotas
e versadas em literatura, suas polacas, valentões (Madame
Satã, Miguelzinho, Camisa Preta, Edgar), reduto de ma-
landros, travestis, intelectuais, artistas plásticos, cantores
de rádio, compositores jornalistas, jogadores de futebol
e prostitutas. Dizem os entendidos que a decadência da
Lapa começou quando substituíram os músicos que toca-
vam nos botequins e tavernas pelas radiolas de ficha leva-
das pelos marujos americanos durante a Segunda Guerra.
Agora, estão tentando revitalizá-la.
Arthur Carvalho

Os cortiços da Bahia eram na Gamboa, Pelourinho e


Ladeira da Montanha, de baixo meretrício. Quem quisesse
coisa melhor que procurasse as dançarinas do Belvedere­,
Tabaris e Rumba Dancing, equivalentes ao Chantecler,
Yacasin, Moulin Rouge, Astoria e Flutuante. Salvador ain-
da oferecia a Gameleira, de sofrível qualidade, e a boate
O’Clock, de onde se “arrastavam” meninas de programa.
Aqui, a zona alegre se concentrava nas avenidas, ruas,
becos e prédios do Recife Antigo, com muitos bares e pros-
tíbulos, inclusive o de Baiana, na Vigário Tenório, no Pina
(Cassino Americano, Mãezinha, Aurélia Castelo Branco,
Casa Azul), na Rua do Rangel e adjacências, com a boate
Mauá, a Fiver O’Clock e o badalado Balança Mas Não Cai.
As madames mais conhecidas, Alzira, Edite, Maria Magra,
Júlia Peixe-Boi e Verônica, acolhiam a rapaziada da classe
média e os craques da bola. Berta, em Boa Viagem, ami-
gada com lendário boêmio da paróquia, companheiro de
farra de Valdemar Marinheiro, falecido recentemente, e
Hugo da Peixa, recebia usineiros, empresários, políticos e
a turma da grana, na Av. Conselheiro Aguiar, onde depois
funcionou o Casa-Grande & Senzala. A Mary House e a
Madrugada agitavam os notívagos.
Houve época em que alguns dos melhores bordéis do
Brasil eram em Natal: o da paraibana Maria de Oliveira Bar-
ros, a Maria Boa, o de Francisquinha, na Rua Câmara Cas-
cudo, ex-manicure do Grande Hotel, o de Vanda, em Lagoa
Seca, o de Belinha, em Petrópolis, e o de Rachel, no Tirol.
Isso porque, no início dos anos 40, Tio Sam construiu em
território potiguar o maior aeroporto militar da América La-
tina, o de Parnamirim, pois Natal era a capital do litoral bra-
sileiro mais próxima ao continente Africano, perfeita para a
travessia do Atlântico pelos aviões das Nações Unidas.
As tropas aliadas injetaram, informalmente, muitos
dólares na economia natalense, em especial no setor de

63
Retrato na parede

serviços. Quando cheguei em Natal, nos fins de 1948, já era


tempo de paz, a maioria dos carros de aluguer (não havia
táxi) era de importados: Ford V-8, Chevrolet, Lincoln Zephir­,
Studebaker Champion, Dodge, Mercury, Oldsmobile,
Pontiac, Plymouth. Os novos-ricos, guiando Studebaker
Land Cruiser, Hudson conversível, Chrysler Imperial,
Packard Clipper, Buick Eight, Cadillac, pneus faixa-branca,
Lincoln Continental desfilando de capota arriada, para
plateia de marmanjos embasbacados, na passarela do
Grande Ponto. O Nash do major Theodorico Bezerra e o
De Soto de Ezequiel Ferreira de Souza faziam sucesso.
Maria Boa enricou, com a prata derramada pelos ofi-
ciais superiores, em trânsito pelo Trampolim da Vitória,
e tornou-se uma das senhoras de maior prestígio entre os
coronéis do interior, deputados e senadores. Dizem que
fizeram um filme dobre ela. Sua arborizada mansão, no
bairro do Baldo, tornou-se célebre e parecia tudo, menos
suspeita. Fabiano Veras que o diga.
Os fuzileiros navais, embarcadiços, soldados e estu-
dantes lisos, frequentavam a Pensão Ideal, com estrela na
fachada, à procura de Doralice C.D.F., monumental pan-
deiro papa-jerimum, a Cibá, na Rua Chile, e a Rua 15 de
Novembro, batizada de canjerê, na Ribeira, Cidade Bai-
xa. Vanda e Belinha, não sei; Maria Boa e Francisquinha
já partiram, mas, como no samba de Ataulfo Alves, morre
o homem, fica a fama. Com o advento dos motéis e a li-
beração das moças de família, os castelos, como dizem na
terra do Senhor do Bonfim, são hoje apenas um retrato
na parede. Mas como dói!

64
No galope da cardã
Carlos Cavalcanti

Afasto-me do litoral. Distancio-me da maresia e do gás


carbônico. Procuro respirar a brisa fresca do agreste ou o
bochorno abafadiço das caatingas nordestinas.
A cruviana do amanhecer na Serra das Russas é a mes-
ma que sinto ao chegar de noitão ao pináculo da Borbo-
rema.
A égua cardã reapareceu amarrada no esteio claro/es-
curo do alpendre das recordações. A viagem continua en-
quanto o meu cavalo rodado, manteúdo, faz a cobertura
das bestas parideiras. A beleza das mangas-largas permi-
tirá uma nova safra de poldros marchadores.
Preparo os alforjes. Dispenso o surrão para a viagem
campesina. Cascavilho nas algibeiras e remexo as velhas
gavetas do tempo em busca d’algumas pratas de mil réis
para garantir a complementação do farnel nas bodegas
do interior. O brote com mariola pede uma cuia d’água
doce e fria vinda do pé da serra para a jarra de barro da
minha avó.
Encalquei a espora na cardã para que não esmorecesse
a passada macia e chegássemos aos campos verdejantes
do agreste paraibano.
Avistei de longe a baraúna centenária ao lado da casa
antiga. Olhando para o poente, a mata virgem do meu avô
ondeava na folhagem verde-musgo guardando no som-
brio aconchegante, o ninhário policromático da passara-
da. A sibilante sinfonia musicava a orbe. O desencontro
No galope da cardã

dos ponteiros anunciava o pender do sol. A tarde seguia


lenta sob o hálito quente da boca da noite.
Chegamos à margem da cacimba. Veneza, a égua de
estimação, bebeu água salobra enquanto eu tomava ba-
nho ensaboado com raspas de juá.
Os antigos roçados transformaram-se em pastagens de
pangolas e coloniões a engordar os rebanhos do latifun-
diário.
Na casa em ruínas a infinidade de marimbondos en-
saiava uma dança nervosa recusando a minha presença.
Os verdadeiros proprietários cederam lugar aos insetos
e aos pucumãs. Somente as almas sentidas dos ancestrais
certamente vagueavam pelos escombros a mitigar sauda-
des. A voz do silêncio azucrina os meus ouvidos. Os ontens
duelam comigo na batalha inacabável das lembranças.
Procurei meu banquinho de umburana e não o encon-
trei. O cedro centenário, lavrado, aquele que sobrara na
construção da casa, nos idos de 1920, estendido no al-
pendre onde fazia as vezes de assento, fora levado para
a cidade grande e transformado em mobília de luxo na
mansão do novo fazendeiro.
Ainda bem que ouvi, no olho do pau-d’arco um caná-
rio da terra desafiando a patativa, descendentes daqueles
meus, criados com xerém de milho e deixados na fazenda
no dia da minha partida. A plumagem era a mesma e o
canto não desafinara.
A gata Nininha, se não morreu de velha, sem dúvidas
morreu de banzo.
Os armadores roncantes, vítimas da paraplegia ferru-
ginosa, nem giram, nem roncam mais. O tilintar imagi-
nário das esporas pretéritas estridula no quarto das selas
interrompendo o sono dos morcegos notívagos.
O cupinzeiro na cumeeira da sala semelha-se a monstro
hidrocéfalo com sua carranca negra, funérea e destruidora.

66
Carlos Cavalcanti

Restam emperradas pela ferrugem, as dobradiças das


portas para que ninguém tente fechá-las. Não permitem
que os vultos de antanho fiquem ali aprisionados no sufo-
co da acalmia e na ausência da liberdade
Olho para o chão. O acúmulo de poeira e umidade
criou uma crosta espessa e não mais permite avistarem-se
os ladrilhos fabricados por meu pai.
Tinha formiga como os trinta. Os leirões no canto do
alpendre indicavam o ninho no subsolo da velha calçada
em ruínas.
Lembro-me de quando pastoreava o gado para que
não entrasse na lavoura do meu tio. Um velho juazeiro
servia de anteparo para a inclemente soalheira. Certa vez
escrevi meu nome num dos galhos daquela árvore majes-
tosa. Dela, agora, resta apenas o tronco decepado pela
motosserra. A teimosia de uma resina antiga ainda perdu-
ra na casca seca simbolizando a espessa lágrima do pro-
testo vegetal.
Afunda e a baladeira serviam-me para conter as vacas
teimosas e puladoras de cercas
Os umbuzeiros que plantei, na minha adolescência, no
oitão da casa, a pequena distância um do outro, estes sim,
estão vigorosos e naturalmente prestaram-me uma singe-
la, porém imensa homenagem: cresceram na horizontali-
dade e uniram-se num abraço cítrico louvando a Natureza.
Ali também está, para sempre, o meu fraterno abraço.
Capiongo, revejo o local da sala onde armava a minha
rede. Com os olhos marejando volto-me para uma das ja-
nelas frontais do chalé e contemplo a serrania distante.
A ramificação da Borborema tem no seu dorso um aglo-
merado de rochas imensas e desiguais. Numa delas, de
muitas toneladas, encontra-se a furna do Sítio Laranjei-
ras, que pertencera também, a meu pai. O famoso “banho
na furna” finou-se de repente. A água que brotava entre as

67
No galope da cardã

duas rochas gigantescas e se acumulava numa depressão


arenosa, secou inexplicavelmente.
Dei de garra da tabica de jucá, montei na égua cardã
e procurei largar de mão a terra amada que me serviu de
berço.
O meu pegadio com a fazenda onde nasci trouxe para
a minha alma uma saudade remanchona, persistente e
possessiva.
Os meninos magricelas das redondezas olhavam para
mim com certa desconfiança. Neles revi o garoto campe-
sino que fui. Amigo confidente de tantos pobres daquela
terra. Meninos que no dia a dia das caçadas e do trabalho
na roça, juntamente com seus pais, ensinaram-me, invo-
luntariamente, grande parte dessa linguagem rica e tão
em voga na intercomunicação das gentes interioranas da
minha Paraíba. Linguagem nossa, pé no chão, linguagem
cabocla, verdadeira, feijão com arroz, resistente ao tempo
e ao desapego da cidade grande.
Solto, por fim, a égua marchadora nas terras vicejan-
te da minha aldeia. Sigo vagarosamente, sem olhar para
trás, vou à Parada Massapê, pego o “Maria Fumaça” ima-
ginário e volto carregado de saudades para ouvir o canto
das cigarras e dos bem-te-vis nas ruas ameaçadoras desta
querida e acolhedora cidade do Recife.

68
Procurado
Carlos Newton Júnior

Entre as poucas imagens conhecidas de Osama Bin


Laden­, duas são recorrentes nas reportagens que televi-
sões do mundo inteiro veiculam a seu respeito. Na pri-
meira, Bin Laden, com os seus trajes típicos de beduíno,
apoiado em um cajado, caminha autoconfiante e sorri-
dente por uma trilha qualquer de alguma região áspera,
escarpada e pedregosa, seguido de perto por um grupo
de seus comandados, todos fortemente armados. Na se-
gunda imagem, com roupa semelhante, ainda feliz da
vida, Bin Laden pratica tiro agachado, com uma arma
longa. Trata-se, ao que tudo indica, de um atirador ca-
nhoto, pois segura a arma com o braço direito e apoia
o coice no ombro esquerdo. Se não me traem os meus
parcos conhecimentos bélicos, eu diria que a sua arma é
um rifle de assalto AK-47, de fabricação russa, ideal, pela
sua resistência a areia e fácil manutenção, para o tipo de
terreno em que atua.
De imediato, essas imagens de Bin Laden me fazem
recordar duas imagens do cangaceiro Virgulino Ferrei-
ra, o Lampião, uma em movimento e outra em repouso,
ambas captadas pelo cineasta e fotógrafo árabe Benjamin
Abrahão, em 1936, e bastante divulgadas ainda hoje, em
reportagens de televisão, documentários, artigos e livros
sobre o cangaço. Na primeira imagem (um trecho do fa-
moso filme de Benjamin), Lampião, com a sua indumen-
tária espetaculosa, e tendo, a seu lado, sua mulher, Ma-
ria, caminha à frente de um grupo de cangaceiros, tão
autoconfiante e sorridente quanto Bin Laden, em algum
Procurado

lugar remoto dos sertões nordestinos, cuja paisagem se


revela através de um trecho espinhento de caatinga. De
repente, o cangaceiro volta-se para a câmara, desembai-
nha o longo punhal que trazia à cintura e o apresenta aos
espectadores, numa clara atitude de desafio. Na segunda
imagem (uma fotografia), Lampião, agachado, atira com
arma longa, com a mesma paisagem de caatinga ao fun-
do. A semelhança com a imagem de Bin Laden praticando
tiro se acentua ainda mais pelo fato de que Lampião, que
era destro, também segura o seu rifle com o braço direito,
apoiando a coronha na face e no ombro do lado esquerdo.
Tal fato se justifica, no seu caso, pela perda do olho direi-
to ainda jovem, o que o levou a um esforço de adaptação
para usar o rifle como se fosse canhoto. Um esforço que,
diga-se de passagem, obteve um êxito inquestionável, a
julgar pela origem que geralmente se atribui ao seu apeli-
do – como atirava muito rápido, o clarão que o fuzil fazia,
à noite, durante um tiroteio, era quase constante, lem-
brando aos companheiros a chama de um lampião.
As quatro imagens a que me refiro são protagonizadas
por dois homens de mesma faixa etária, morenos, altos e
magros. Depoimentos de alguns ex-cangaceiros afirmam
que Lampião possuía uma voz calma e suave, como a voz
que às vezes escutamos de Bin Laden, naquela sua língua
ininteligível para os pobres mortais do ocidente. A julgar
pelas traduções que as redes de televisão nos apresentam,
Bin Laden diz que vai destruir a cultura ocidental com a
mesma doçura com que costumamos dar conselhos a uma
criança. A voz doce, tanto num caso quanto no outro, talvez
se justifique pelo fato de que estamos tratando de dois ho-
mens profundamente religiosos, um dos quais, inclusive, se
diz porta-voz e braço armado do deus em que acredita.
Penso, então, que Osama Bin Laden é uma espécie de
Lampião em ponto grande, um cangaceiro do mundo, re-

70
Carlos Newton Júnior

presentando, para a sociedade cosmopolita e globalizada


de hoje, mais ou menos aquilo que Lampião representava
para o Brasil urbano de sua época, sobretudo na segunda
metade da década de 1930, quando o seu poder e a sua
influência atingiram o auge. Assim como ocorria com Lam-
pião, que alternava ataques espetaculares a vilarejos do ser-
tão nordestino com longos períodos de reclusão em grutas
e locais inacessíveis da caatinga, Bin Laden passa longos
períodos escondido somente Alá sabe onde, lá nas monta-
nhas e nos desertos do Afeganistão, cuja paisagem lembra
muito a paisagem nordestina, seca, pedregosa e cheia de
furnas, para, de repente, desencadear um dos seus ataques
cruéis, fulminantes e espetaculares, às cidades do mundo
civilizado não islâmico. Do mesmo modo que Lampião
possuía coiteiros influentes, muitos deles coronéis e polí-
ticos de prestígio, que lhe faziam chegar, periodicamente,
armas novas e farta munição, Bin Laden certamente conta
com os seus coiteiros, alguns deles, talvez, líderes mundiais
e políticos de prestígio ligados a empresários da indústria
armamentista. Da mesma forma que Lampião sonhava em
adquirir uma metralhadora, ou uma “costureira”, como ele
dizia, é razoável imaginar que Bin Laden sonha noites a fio
com um míssil de alcance intercontinental, de preferência
com uma ogiva nuclear na ponta, e Deus queira, mesmo,
que seus coiteiros não consigam chegar a tanto, como não
conseguiram os de Lampião em relação a seu sonho de
consumo bem mais modesto.
As semelhanças não param por aí. Bin Laden, caçado
pela maior potência militar do planeta, possui sua cabeça
posta a prêmio há anos. É o homem mais procurado do
mundo. Lampião também conviveu com uma situação se-
melhante, tendo sido, durante anos, o homem mais pro-
curado do Brasil, cujo governo não poupou esforços para
eliminá-lo. Pensou-se, até, em jogar sobre ele e seu gru-

71
Procurado

po de cangaceiros uma bomba lançada de um avião (algo


parecido, aliás, com o que os israelenses estão fazendo
agora, para exterminar alguns líderes palestinos). Deve
ser realmente humilhante, para os líderes norte-ameri-
canos, assistir às declarações de Bin Laden na televisão.
Como aqueles malditos repórteres conseguem achá-lo,
ridicularizando os agentes do seu poderoso serviço secre-
to e pondo em xeque a eficiência de sua alta e caríssima
tecnologia de espionagem? A mesma humilhação foi sen-
tida por Getúlio Vargas e políticos do Estado Novo em
gestação quando o árabe Benjamin anunciou que filmara
Lampião e seu bando. Tanto assim que o documentário
foi apreendido antes de estrear nos cinemas e seu autor
foi misteriosamente assassinado com nada menos do que
quarenta e duas facadas.
Alguém poderá argumentar que Bin Laden, mesmo fa-
zendo-se valer de métodos abjetos, luta por uma “causa”,
enquanto Lampião, de todo desprovido de consciência
política, lutava pela simples sobrevivência, para manter
o seu modo de vida errante e lucrativo. Mas há também
quem veja uma “causa”, e uma causa nobre, até, na luta de
Lampião e no cangaço enquanto movimento social. É por
isso, por conta das tais “causas” e das masturbações so-
ciológicas que as cercam, que tanto Lampião quanto Bin
Laden possuem detratores e admiradores fervorosos, che-
gando esses, quase sempre, ao radicalismo maniqueísta
que reduz os dois personagens, mitificando-os ora como
bandidos sanguinários e arquétipos do mal, ora como he-
róis populares e agentes da libertação dos oprimidos.
Parece pouco provável que Osama Bin Laden consiga
sobreviver à próxima década, tal a dimensão da campa-
nha que as potências ocidentais têm movido contra ele.
Como aconteceu com Lampião, muito provavelmente
ele será traído por alguém de sua confiança, alguém que,

72
Carlos Newton Júnior

neste caso, será movido pela promessa de uma alta soma


em dinheiro. Uma vez assassinado, seu cadáver será ex-
posto à apreciação pública, através da mídia mundial. Se
o cadáver não estiver em bom estado, farão a exposição
ao menos de sua cabeça, como o governo brasileiro fez em
relação à cabeça de Lampião. Antes da morte de Lampião,
vários cadáveres e cabeças de cangaceiros foram expostos
a público, como troféus de guerra macabros, através de
fotografias veiculadas em jornais do país. De modo seme-
lhante, aliás, ao que os norte-americanos fizeram com os
cadáveres deformados dos dois filhos de Saddam Hussein­,
alguns anos atrás.
Por fim, para não ser acusado por não tomar posição,
gostaria de declarar que Osama Bin Laden desperta em
mim o mesmo sentimento contraditório de repulsa e ad-
miração que sinto diante da figura, hoje histórica, de Lam-
pião. De repulsa, evidentemente, por conta dos crimes bár-
baros a eles ligados. A meu ver, as ações terroristas de Bin
Laden são tão condenáveis, do ponto de vista moral, quan-
to as ações perpetradas pelo “terrorismo de estado” norte-
americano ou israelense contra árabes ou palestinos. E de
admiração, por reconhecer que são, ambos, “criminosos na
epiderme e irredentos no mais fundo da carne”, para usar
uma expressão de Frederico Pernambucano de Mello, o
homem que mais entende de cangaço na face da Terra. Bin
Laden, e o mesmo eu diria de Lampião, não pode ser con-
siderado uma alma pura; mas ninguém poderá negar que
ele é, como Lampião o foi, uma alma grande. A missão que
ambos outorgaram a si, colocando-se em franca oposição a
um poder muito acima das forças de um homem comum,
chega a tocar, queira-se ou não, as raias do grandioso.

15 de novembro de 2006
“Pernambuco”, Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado,
Recife, março de 2007

73
Lembrança do mundo antigo
Carlos Pena Filho

O meu avô, à tarde, ia ao palheiro e escolhia a melhor


palha de trigo, amarela-quase-dourada. Espalhava-se pelo
chão da cozinha, enquanto a bacalhoada fervia, na panela
sobre a trempe.
Eu já arrancara das sebes o melhor musgo para fazer
o chão do presépio, num canto, perto da lareira. Estava
tudo pronto: a neve caía sobre as couves da horta, o bom
vinho aguardava nas canecas, e aí, pelas nove da noite,
nos sentávamos no chão sobre a palha e começávamos a
comer, muito vagarosamente, a ceia: castanhas, passas,
nozes e, principalmente, a bacalhoada. Água ninguém
bebia, nem as crianças, pois os mais velhos diziam, com a
maior naturalidade:
– Isso não, faz mal, escava o estômago.
É verdade que a reza não faltava, mas passava logo. O
bom vinho derramava-se sobre toda a família, sobre o ano
passado, sobre o que ainda vinha, sobre as lembranças, so-
bre os planos para o futuro. Um pinheiro escolhido com
cuidado, era a árvore de Natal, enfeitada com algodão, à
guisa de neve. Entretanto, lá fora, os grandes pinheiros se
precisavam de algodão era para agasalho, pois o que os
cobria era neve mesmo, vinha lá das bandas da Serra da Es-
trela, das “penhas doiradas”, como dizia o livro da escola.
Agora, neste fim de 1958, lembro o distante Natal, o
distante ano novo e procuro ver se seria passível repeti-lo.
Que nada. Mesmo que tudo se reunisse outra vez, os
meninos são homens, os homens são velhos e os velhos tão
Carlos Pena Filho

mais velhos que existem apenas como vagas sombras na


lembrança. Os meninos, a começar por mim, já pecaram
tanto que não têm mais direito à ceia comida no chão.
Talvez, mais tarde, eu tome um copo de vinho, mas
duvido que o gosto seja o mesmo. Em todo o caso, será
melhor do que água, por que nessa eu não toco hoje. Es-
cava o estômago.
O que me consola e me reconcilia com o espírito do ano
novo é esta lembrança que tive de um tempo tão distante.
Afinal, eu não estou tão pecador ainda que não lembre a
freguesia de São Salvador da Árvore, onde meu velho avô
cochila, na beira do fogo. Se eu soubesse que ele se lembra-
ria de mim, esta noite, estaria bem pago de todas as coisas
ruins que o ano velho reuniu. E quando começassem as
pessoas à minha volta a reclamar da vida, a xingar os co-
merciantes e políticos, eu conseguiria arrumar no canto da
boca um leve sorriso e pensar como o poeta: “Havia jardins
naquele tempo, havia manhãs naquele tempo”.

Jornal do Commercio, 25 de dezembro de 1958

75
Presente de grego
Cássio Cavalcante

Caruaru é um município brasileiro do estado de Per-


nambuco, que tem a maior população no interior per-
nambucano. Localizado na região do agreste, devido à
sua importância, é reconhecida como capital e carinhosa-
mente como princesa da região. Trata-se de uma cidade
graciosa. O clima, mais ameno que o do Recife, faz do
lugar um pouso certo. Tem o segmento de turismo como
forte aliado. Mas desperta para o mundo com as festas ju-
ninas. Não tem igual ao São João de Caruaru. O seu maior
charme, é que mesmo depois de um grande crescimento,
ainda consegue manter certo ar provinciano, encantando
os moradores e visitantes.
No início de uma manhã, a cidade ainda acordava. Na
padaria, uma mulher, enquanto pagava o pão e o leite,
conversava com o dono do estabelecimento. Reclamava
não saber mais o que fazer para conseguir uma emprega-
da doméstica. Pois sendo em casa só ela e uma mãe de 79
anos, quando saía para trabalhar, a senhora ficava sozinha
até o final da tarde, quando retornava da prefeitura onde
trabalhava.
Uma morena, de cabelos lisos que tomava café em uma
mesinha perto do caixa, prestava atenção na conversa. O
dono da padaria, atencioso, perguntou qual era mesmo o
nome da rua e o número da casa, pois aparecendo alguma
moça querendo trabalho ele indicaria.
Na casa em questão tocou a campainha, dona Alberti-
na atendeu. A morena com um sorriso cativante disse ser
Cássio Cavalcante

a empregada que a filha mandou. A mãe com muita ale-


gria a recebeu e logo mostrou toda a casa. Inclusive uma
cozinha com uma pia lotada de louça suja.
Na sala de estar, dona Albertina postava-se em frente
ao santuário que muito lhe orgulhava, pois tinha imagens
adquiridas por no mínimo três gerações de sua família.
Agradecia enquanto rezava um terço o presente que acre-
ditou que veio do céu.
A manhã passou rápida. A moça deu conta da pia, ar-
rumou a cozinha e fez uns bifes, arroz e feijão. Lavou to-
dos os banheiros, passou um pano nos móveis e varreu
toda a casa. Depois do almoço, a empregada pediu licen-
ça para sair. Afirmou que gostou muito da casa, mas tinha
que ir acertar as contas com a antiga patroa e pegar os
documentos, a senhora, maravilhada, disse:
– Vá minha filha, mas volte logo. Quando Ester chegar
quero que ela lhe encontre em casa. Ela retorna geralmen-
te por volta das quatro e meia ou cinco horas da tarde.
Em pouco tempo, viu-se um caminhão parado na porta
daquela casa. Levaram tudo, até o santuário, e sem o de-
vido cuidado com as imagens. Na casa, deixaram apenas
uma cama sem colchão e, amarrada, em cima do estrado,
dona Albertina. Foram as horas mais demoradas para a
vítima, mantida amarrada até que a filha retornasse ao
lar. O pavor que sentiu se uniu a uma pesada decepção
por ter falhado.
Caruaru mais uma vez amanheceu, em sua feira que
ficou famosa na voz de Luiz Gonzaga, o cheiro forte de
frutas e verduras frescas era um festival de aromas. Mas na
frente cortes de carnes para todos os gostos, gado, porco e
bode. Entre as variedades a galinha matriz, muita aprecia-
da na região. Panelas, pratos, fogareiros e até santos, tudo
feito de barro. Nas padarias fornadas de pães quentinhos
saíam direto para a mesa dos habitantes da cidade.

77
Presente de grego

A sofrida Albertina veio a falecer poucos meses depois


do acontecido, em decorrência de complicações de uma
depressão profunda que a abateu.

28 de março de 2010

78
As três vezes que vi Che
Celso Marconi

Quando eu estive na China, em 1963, me encontrei


com alguns líderes políticos. Fiz essa viagem com uma de-
legação de dez jornalistas latino-americanos, sendo oito
brasileiros e dois peruanos. Foi após um Congresso Inter-
nacional de Jornalistas, acontecido em Baden bei Wien, na
Áustria, e para onde foram alguns pernambucanos, entre
eles Luiz Beltrão, Leocádio Morais, a mulher de Beltrão,
o então presidente da AIP (que não consigo me lembrar o
nome), e outros. Abdias Moura era o presidente do Sindi-
cato dos Jornalistas de Pernambuco e eu era o tesoureiro.
Após o Congresso, que era comandado pelos socialistas,
houve convites por parte de alguns países, sendo os mais
importantes os da URSS e da China, para que o jornalista
visitasse o país. Leocádio queria por que queria ir para a
China e fez tudo para isso. Mas, como eu era da base do
Partido, tive prioridade e Mesplé, que era do Rio de Ja-
neiro, e coordenava tudo, confirmou meu nome como um
dos convidados dos chineses.
Na época não era tão fácil fazer viagens internacio-
nais. Tanto que o avião, no qual viajamos do Recife para
a Europa, fez escalas em Dakar, na África; em Madrid, na
Espanha. Para então chegar a Viena. Eu tinha uma cader-
neta em que fazia anotações (não sei mais onde anda) e
Leocádio, para brincar comigo, escreveu, como se fosse
eu: “Vi em Dakar uns negrinhos falando francês”. Tam-
bém quando seguimos com os chineses fizemos um longo
percurso. Primeiro fomos para Roma, de avião. Da capital
As três vezes que vi Che

italiana seguimos para Praga, de trem, numa longa e ex-


citante viagem. Em Praga, então capital da Tchecoslová-
quia, permanecemos oito dias, esperando que houvesse
avião para a China.
Ficamos um mês completo na China. Era novembro de
1963. E coincidiu que no mesmo período “Che” Guevara­
chegou para uma visita ao país. E foi assim que vi três ve-
zes o hoje mito para a humanidade. Primeiro fomos ao ae-
roporto de Pequim para recepcioná-lo. Ficamos ao longo
de uma espécie de fila aguardando que o avião que tra-
zia Guevara pousasse. Inclusive tenho uma foto, tirada
por mim, do seu desembarque, ainda na escada do avião.
Ernesto veio e cumprimentou um a um os que o estavam
esperando. Acho que demorei muito apertando sua mão,
todo empolgado. Depois houve uma recepção na Associa-
ção de Amizade Latino-americana / Chinesa, quando os
latino-americanos que se encontravam em Pequim o ho-
menagearam. E os brasileiros, o nosso grupo subiu no pal-
co para cantar um samba. Numa hora todo mundo parou
para olhar para mim que estava cantando totalmente fora
de tom. Morto de vergonha, continuei cantando, mas bem
baixinho. E a terceira vez que vi o “Che” foi na grande
recepção, com a participação de mais ou menos cinco mil
pessoas, no Palácio do Governo, oferecida por Mao Tse
Tung. O salão de banquetes é formado por mesas onde fi-
cam dez ou doze pessoas. E o grande momento foi quando
o presidente Mao, o primeiro-ministro Chou en Lai e o mi-
nistro da Economia de Cuba, Ernesto Guevara, saíram de
mesa em mesa, cumprimentando todos os participantes.
Nós éramos uns dos primeiros brasileiros a visitar a Chi-
na após a revolução comunista. Por isso fomos recebidos
com a mesma regalia que era prestada a chefes de Estado.
Foi na mesma época em que Jango e Francisco Julião esta-
vam por lá e nos encontramos. Então eu ainda trabalhava

80
Celso Marconi

no Diario de Pernambuco (antes de ir para a Última Hora NE)


e quando eu voltei o Dr. Aníbal (como nós o chamávamos)
colocou em sua coluna: “o magricela Celso Marconi foi à
China como quem vai a Água Fria e já volta”.
Essa estória das vezes que vi o “Che” não é inédita.
Eu a contei certa vez, em 1967, quando o Comandante
foi morto na Bolívia, em 9 de outubro desse ano. Eu tra-
balhava no Jornal do Commercio, era editor do caderno de
variedades (não me recordo se então já se chamava Ca-
derno C), e Vladimir Calheiros era o editor-geral. Ainda
havia dúvidas sobre se Che havia sido morto ou não. E
por isso mesmo a cobertura durou três dias. Então não
havia muitos repórteres para fazer o caderno e eu mesmo
tinha, quase todo dia, de fazer uma reportagem para a
primeira página. Vladimir sabia da minha estória e achou
que poderia ser a capa. Como tinha ligações com o co-
mando do 4º Exército telefonou para lá e consultou sobre
a possibilidade da publicação. Aberto o caminho, escrevi
o texto, As três vezes que vi o Che, que foi lido pelo então
editor internacional do JC, Paulo Fernando Craveiro, e
que disse: “Você se conteve o máximo, mas no final sen-
timos que existe nas entrelinhas um “Que viva o Che”. O
texto foi ilustrado por fotos antigas de Guevara.
Na verdade, eu nunca vi essa matéria publicada. E isso
porque acontecia quase todo dia. Eu fazia uma capa para
o Caderno à tarde e quando chegava 21/22 horas Vladi-
mir fazia outra. Tirava a minha e colocava a dele como 2º
Clichê. Assim a minha matéria que sempre tinha mais in-
teresse para o Recife ia para o chamado Interior e a feita
por Vladimir circulava com os jornais do Grande Recife­,
como 2º Clichê. Eu argumentava com ele, mas não tinha
jeito. “Enquanto eu for editor-geral é assim”, dizia. E as-
sim também foi no dia 10 de outubro de 1967. Minha
matéria circulou em João Pessoa (Eurico Reis que morava

81
As três vezes que vi Che

lá me disse que viu), no Rio de Janeiro (alguns números),


em Garanhuns e outras cidades. Mas nem na redação, in-
ternamente, circulou.
Segundo eu soube (e foi contado na edição de 80 anos
do JC), o então contínuo (e depois diagramador, meu
amigo) Pelé (José Inácio da Silva) viu umas fotos de “um
homem parecido com Jesus” chegando à redação, e disse
isso quando se encontrou com Vladimir no bar próximo
ao jornal, acho que já mais de meia-noite. Ele imediata-
mente voltou e fez nova página, com as novas fotos de
Che, morto pela polícia boliviana. E fez outro texto tam-
bém, como uma espécie de legenda.
Então o que eu quero é o seguinte. Encontrar alguém
que tenha um jornal daquela época. E me permita tirar
uma cópia. Porque Eurico Reis, que me disse que leu, não
tem. E isso para que meu nome (vaidade!) fique ligado ao
Che na cobertura feita no JC do Recife. Cobertura que foi
elogiada, inclusive no Rio, quando se fez referência à ma-
téria local (que era a minha). Quando se falou nessa cober-
tura (não sei se foi Fernando Menezes ou Jodeval Duarte
que fez a pesquisa) nada se disse da minha reportagem. E
eu não quero ser esquecido assim. Pelo menos na história
do Jornal do Commercio, onde trabalhei de 1966 até 1989.

Olinda, 28 de fevereiro de 2010

82
O espelho como testemunha
Celso Rodrigues

E o espelho? A limpidez do espelho lhe doía, proje-


tando seus cabelos embranquecidos, umas poucas rugas
no rosto arredondado e largo, e o pior, naquela tarde, um
perfil de cansaço, de exaustão, de tédio:
Como vencer o cansaço e o tédio?
A distância se media pela impossibilidade de ganhar
novos horizontes e, afinal, definir-se diante deles: o que
fazer agora, no enlevo dos braços do infinito sempre
azul?
Lembrou-se dos sapatos, dos gestos, das gravatas e das
mãos de Carlos Pena Filho.
De resto, o espelho cuidava de fixar seu corpo por in-
teiro, e ele confessava amar mais sua alma do que seu cor-
po. Nos seus olhos, a visão de um insinuante calendário,
que não lhe fazia concessões: 28 de julho.
A primeira imagem que lhe chegou foi da mãe, do pai,
dos irmãos. De uma pequena casa onde não se falava em
desamor; e, em torno dela, um imenso espaço verde que
alimentava pequenas e grandes árvores, asas-brancas, pa-
tativas, galos-de-campina, pequenos sapos e cobras que
disputavam entre si o domínio e a paternidade do rio ver-
sátil, mas preguiçoso.
As árvores já evocavam a primazia de guardar, para um
futuro ainda distante, as ofertas saídas da boca daquele
pequeno invasor dos seus mistérios. Dos mistérios das flo-
res silvestres, do canto dos pássaros, dos lamentos do rio,
quando não explorando o caráter da sua voluptuosidade.
O espelho como testemunha

O espelho não lhe negava justiça; quem assim nascera,


imagem dos pais, dos irmãos, do rio, dos pássaros, da ter-
ra virgem – não seria, em consequência, um coroamento
do improviso e do desencanto que explica o vazio das al-
mas realmente vazias.

A ambiguidade do 28 de julho – dizia aos amigos – não


se restringia ao fato de nele ter nascido. Mais importante
o ato de ter sido conscientemente gerado para começar a
existir no ciclo da truculência da Revolução de 30 – não
um golpe militar, grosseiro – e que permitia o encontro
do País com a justiça social.
Na barriga da mãe, ele já ameaçava. Isto é: mostrava-
se inquieto e inconformado nos limites daquele recanto
escuro em que suspiros invisíveis, mas constantes, trans-
formavam-se no canto da primavera da sua próxima re-
denção. Em resposta, olhos fechados e alma aberta, jurava
assumir-se a vida toda, entendido que vida é vida – com-
plexa sucessão de acertos, de equívocos, de fatalidades, de
conquistas, de frustrações, e o fim da vida – quem sabe?
– o fim de tudo.

Só, naquelas doces ruas da sua estima, da procura da


sua infância e da sua juventude, ele se considerava agora
um número. E registrava o alegre aceno de poucos ami-
gos. Mas as ruas de hoje lhe davam um cheiro de cemité-
rio. Nelas construíram como que um campo para doloro-
sas batalhas: matar, roubar, sequestrar.
Em nome de quem? Da fome, que é maior hoje do que
ontem? De uma opção pré-revolucionária? Cadê os donos

84
Celso Rodrigues

de todas as ideologias? Apenas não encurtaram as boas


lembranças: Ruas Nova, Imperador, Imperatriz. Praças
Sérgio Loreto e Maciel Pinheiro. Parque 13 de Maio.
Rua Matias de Albuquerque. Ali, o filósofo Plínio
“Boy”, com o figurino dos canaviais de Primavera, viu
mais o encanto do amor. E era verdade. A mulher respon-
sável por tardes e noites que se eternizaram na década
de 1960, respondia por uma nova Sônia à procura de um
novo Raskólnikov: olhos quietos, de envolvente paciência,
lia Jorge Amado no meio das manhãs; passos largos para
novas caminhadas, e sentimentos que guardava dentro
das mãos para uma plena doação, já apostando no seu
amanhã. E aconteceu. Sabia que já estavam na posterida-
de as mulheres que souberam se doar. Elas não se perde-
ram, ou não se perdem, nas esquinas da vida.

Somavam-se na cabeça dele, no vigor daquele 28 de


julho, os resultados dos bons ventos de existir, com filhos
e netos, amigos também, que lhe traziam apoio otimista
e mais além, talvez com a súplica de que vale a pena rein-
ventar a vida. “A vida só é possível reinventada”, assim
desejou Cecília Meireles.
E voltou o espelho a perguntar-lhe sobre seu destino e
sua vontade, após o 28 de julho de 1990. Mostrou ao in-
terlocutor livros e discos espalhados, recortes do seu jor-
nal e o próprio jornal descansando no sofá. Máquina de
escrever, sugerindo-lhe escrever sobre tudo, e agradecer
gestos de estima, de lealdade, de irmandade, de amor.
Pois lá fora era o corpo a corpo que agredia. Não lhe
bastava o remoto duelo, às 12 horas, na Rua da Matriz,
maquinação policialesca e da ótica da mediocridade e da
bestialidade humana?

85
O espelho como testemunha

Pérfido e mesquinho, às vezes, o mundo lá fora, quan-


do manipulado pela esquizofrenia agonizante. E quando
uma só palavra – cândida palavra – seria capaz de abrir as
portas aos homens para a construção de um poema. Uma
só palavra – o amor – e dois caminhos: paz e liberdade.
A propósito, apontou para o quadro mais próximo do
seu mundo, e deu Antônio Maria escrevendo. O gordo não
fazia isso para seu deleite pessoal. Nem por desculpável
vaidade. Mas, como cidadão de todos os continentes, se-
mear flores nos dias da sua singular imaginação.
Diante do espelho, o homem não escondia, então, a
presença e a influência do Jornal de Antônio Maria. Fe-
lizmente. E confidenciou mais, que assim resgatara sua
crença em ponderáveis parcelas da humanidade, e no seu
existir, amparado por braços rígidos e solidários daqui e
dali – sustentáculos do seu romantismo, apesar dos cabe-
los embranquecidos...

– É contornando os obstáculos que o rio chega ao ocea­


no – ensinou-lhe Chaplin.

Amo teu amor, Juliana: homens, mulheres, fatos e


ideias do meu tempo. Olinda: Polys Editora, 2006

86
A chuva
Cícero Belmar

Com a chuva, entendi: o que salva e dá alegria é tam-


bém o que destrói e traz dor. O riso e a tragédia são faça-
nhas do mesmo agente, como se a vida fosse teatro. Aquilo
que é motivo de festa para quem mora no Sertão é causa
de pânico no recifense.
Razões não faltam. Para os dois lados. Com justifica-
tivas opostas: para uns, as precipitações são a esperança
acenando com o verde mais verde. Para outros, revela a
face pálido-cerosa da destruição. O mais irônico, no en-
tanto, é que as tragédias muitas vezes são evitáveis e pre-
visíveis.
Restam-nos as filosofadas e as metáforas. E algumas
histórias para contar. De coisas dolorosas. E de doces lem-
branças que a água da chuva derramou.
A poetisa Cida Pedrosa, sertaneja como eu, um dia es-
tava relembrando que no seu tempo de menina gostava
de tomar banho de chuva no meio da rua. Era alegria de-
mais. Ficava toda ensopada, o vestido colado no corpo e
ela tremendo de frio. No Sertão chove e o tempo esfria.
Tudo fica verde, como num passe de mágica. Num mi-
nuto, a folhagem sai de algum lugar oculto e misterioso, e
se oferece à paisagem. Os animais, tranquilos, lambuzam-
se no pasto. E os pássaros saem, não sei de onde, em ban-
dos. Fazendo algazarra no espaço claro. Se o tempo esfria,
acabou-se tempo ruim.
Já no Recife, dizem os jornais, basta uma horinha de chu-
vas para castigar a população e se o temporal cai de madru-
A chuva

gada milhares de famílias têm suas casas invadidas pela fúria


das águas. Quem mora no morro, assiste à terra desmoro-
nar. As pessoas têm perdas materiais e outras irreparáveis.
Neste inverno de 2010, depois de mais de 24 horas de
chuvas, uma família inteira morreu, na Linha do Tiro – uma
comunidade de baixa renda do Recife –, soterrada pela bar-
reira que caiu enquanto as pessoas dormiam. O experiente
bombeiro que fazia o resgate dos corpos caiu em prantos
quando encontrou o corpo da menina de seis anos.
No dia anterior, na Avenida Conde da Boa Vista, os
pontos de ônibus estavam lotados. Quando chove, o Reci-
fe fica intransitável. Os ônibus, parece, sumiram. A água,
como dizia o vendedor de pipocas ao meu lado, “esta-
va dando no meio da canela”. Qualquer chuvinha, alaga.
Chuva forte, então, é caos.
Uma senhora de uns 60 anos, mais ou menos, recla-
mava: toda vez que chove é a mesma coisa!
Já completamente molhada, apesar de tentar se abri-
gar no ponto do ônibus, ela começou a falar para as pes-
soas mais próximas. Dizia: na cheia de 1975, começou
desse mesmo jeito. Choveu sem parar, dia e noite, e o Rio
Capibaribe transbordou. Na rua, a gente só via os carros
sendo levados pela correnteza.
As outras pessoas que também esperavam ônibus se in-
teressaram pelo assunto. E a senhora morava onde? Res-
pondeu: no Derby. Ali, a água subiu quase dois metros. A
gente teve que subir e passar um dia todo no telhado da
casa, para não ser levada pelo rio. Chovia, mas a gente não
podia descer. Desde essa época tenho horror a chuva.
As pessoas quiseram saber o resto da história. E ela:
quando o rio abaixou, e a gente desceu do telhado, tá
pensando que alguém teve sossego? Começaram a dizer
que Tapacurá tinha estourado. Era o Apocalipse. E o povo
saiu alarmando, correndo, uma Kombi na rua dizia que a

88
Cícero Belmar

água já tinha chegado em Piedade! Eu mesma fiquei gri-


tando: Tapacurá estourou! Tapacurá estourou!
Empolgada com a narração, para dar mais realismo,
ela aumentou rapidamente o tom da voz, como se esti-
vesse revivendo o drama: Tapacurá estourou! Tapacurá
estourou!
E uma moça, que estava no mesmo ponto, porém mais
distante, assustou-se. Talvez porque a chuva também lhe
causasse pânico. Sem saber que a mulher apenas contava
uma história de 1975, a moça quase entrou em pânico
quando ouviu os gritos realistas. É como se os ecos de Ta-
pacurá ainda ressoassem. Com cara de choro, ela reagiu:
ai, meu Deus, e agora?! Eu faço o quê? Me ajude!
Foi necessário alguém acalmá-la, explicando que o fim
não estava tão próximo assim.
Choveu muito. De um canto a outro da cidade, tudo
alagado. A mulher tinha razão quando disse: toda vez que
chove é a mesma coisa. Às vezes, convenhamos, nem pre-
cisa chover muito para causar transtornos. Faltam obras
estruturadoras, que possam fazer a drenagem dessa cida-
de bonita abaixo da linha do mar.
É um exagero dizer que natureza tanto pode ser mãe
(para uns) e preceptora severa (para outros).
A culpa da tragédia no Recife não é da chuva. É da
insensatez. A causa da alegria do Sertão não é da chuva. É
do paliativo ao desprezo. Olha o que é a vida: nada é bom
ou ruim. A chuva, na verdade, é a possibilidade. Resta-nos
rir e chorar.

89
As grandes punições
Clarice Lispector

Foi no primeiro dia de aula do Jardim da Infância do


Grupo Escolar João Barbalho, na Rua Formosa, em Reci-
fe, que encontrei Leopoldo. E no dia seguinte já éramos
os dois impossíveis da turma. Passamos o ano ouvindo
nossos dois nomes gritados pela professora – mas, não sei
por que, ela gostava de nós, apesar do trabalho que lhe
dávamos. Separou nossos bancos inutilmente, pois Leo-
poldo e eu falávamos lá o que falávamos em voz alta, o
que piorava a disciplina da classe. Depois passamos para
o primeiro ano primário. E para a nova professora tam-
bém éramos os dois alunos impossíveis. Tirávamos boas
notas, menos em comportamento.
Até que um dia apareceu na classe a imponente dire-
tora que falou baixo com a professora. Vou contar logo o
que realmente era, antes de narrar o que realmente senti.
Tratava-se apenas de fazer o levantamento do nível men-
tal das crianças do Estado, por meio de testes. Mas quan-
do as crianças eram, na opinião da professora, mais vivas,
faziam o teste em ano superior, porque no próprio ano
seria fácil demais. Tratava-se apenas disso.
Mas depois que a diretora saiu, a professora disse:
Leopoldo e Clarice vão fazer uma espécie de exame no
quarto ano. E levei uma das dores de minha vida. Ela não
explicou mais nada. Mas os nossos dois nomes de novo ci-
tados juntos revelaram-me que chegara a hora da punição
divina. Eu, apesar de alegre, era muito chorona, e come-
cei a soluçar baixinho. Leopoldo imediatamente passou a
Clarice Lispector

me consolar, a explicar que não era nada. Inútil: eu era a


culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal.
E de repente eis-nos os dois na sala do quarto ano
primário, com crianças grandalhonas, professora desco-
nhecida e sala desconhecida. Meu pavor cresceu, as lágri-
mas me escorriam pelo rosto, pelo peito. Sentaram-nos,
Leopoldo e eu, um ao lado do outro. Foram distribuídas
folhas de papel impresso, ao mesmo tempo que a severa
professora dizia essa coisa incompreensível:
– Até eu dizer agora!, não olhem para o papel. Só co-
mecem a ler quando eu disser. E no instante em que eu
disser chega!, vocês param no ponto em que estiverem.
Recebemos as folhas. Leopoldo tranquilo, eu em pânico
maior ainda. Além do mais eu nem sabia o que era exame,
ainda não tinha feito nenhum. E quando ela disse de repen-
te “agora”, meus soluços abafados aumentaram. Leopoldo
– além de meu pai – foi o meu primeiro protetor masculino,
e tão bem o fez que me deixou para o resto da vida aceitan-
do e querendo a proteção masculina – Leopoldo mandou
eu me acalmar, ler as perguntas e responder o que soubesse.
Inútil: a essa hora meu papel já estava todo ensopado de
lágrimas e, quando eu tentava ler, as lágrimas me impediam
de enxergar. Não escrevi uma só palavra, chorava e sofria
como só vim a sofrer mais tarde e por outros motivos. Leo-
poldo, além de escrever, ocupava-se de mim.
Quando a professora gritou “Chega!”, minhas lágri-
mas ainda não chegavam. Ela me chamou, eu não expli-
quei nada, ela me explicou sem severidade que as crianças
mais vivas de uma turma etc. Só fui entender dias depois,
quando sarei. Nunca soube do resultado do teste, acho
que nem era para sabermos.
No terceiro ano primário mudei de escola. E no exame
de admissão para o Ginásio Pernambucano, logo de en-
trada, reencontrei Leopoldo, e foi como se não nos tivés-

91
As grandes punições

semos separado. Ele continuou a me proteger. Lembro-


me de que uma vez usei uma palavra qualquer de gíria,
cuja origem maliciosa eu ignorava. E Leopoldo: “Não
diga mais essa palavra.” “Por quê?” “Mais tarde você vai
entender”, disse-me ele.
No terceiro ano de ginásio, minha família mudou-se
para o Rio. Só vi Leopoldo mais uma vez na vida, por aca-
so, na rua, e como adultos. Passáramos agora a ser dois
tímidos que viajaram na mesma condução sem quase pro-
nunciar uma palavra. Éramos impossíveis de outro modo.
Leopoldo é Leopoldo Nachbin. Eu soube que no pri-
meiro ano de engenharia resolveu um dos teoremas con-
siderados insolúveis desde a mais alta Antiguidade. E que
imediatamente foi chamado à Sorbonne para explicar o
processo. É um dos maiores matemáticos que hoje exis-
tem no mundo.
Quanto a mim, choro menos.

4 de novembro de 1967
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999

92
Saramago, José, literatura
Cristiano Ramos

“Se não escrevi o livro definitivo que


tornará a literatura portuguesa, enfim,
uma coisa a sério, foi só porque ainda não
tive tempo. Isto é o que me diz o meu
amigo Ricardo, e di-lo com tal convicção,
que muito céptico seria eu se não acredi-
tasse sob palavra. (...) Digo “sim senhor”,
se a intimidade não dá para mais, e se é
o caso de dar, como acontece com o meu
amigo Ricardo, acho-me tão eloquente
que construo uma frase de oito palavras
‘então vê lá isso cá fico à espera’”.
De José Saramago, em A bagagem do viajante.

Lembrei do Saramago duas vezes, neste semestre que


demora tanto a passar. E confesso que acordei hoje enver-
gonhado. Primeiro, por tão pouco voltar a um autor que
foi bastante presente naquele meu tempo ainda repleto
de sonhos e créditos a pagar na universidade; segundo,
porque a derradeira vez em que ele me veio foi na Li-
vraria Cultura, quando, para Bruno Piffardini e Delmo
Montenegro, sapequei:
– Por que o Saramago não morre logo?
O pior dos leitores de um escritor é, sem dúvida, o
mais apaixonado. Porque este se veste de direitos, prague-
ja sem motivos, reclama ainda mais se há razões. Pode,
inclusive, aprontar pessoalmente, como se a sua opinião
alguma importância maior tivesse, como se lhe fossem
perdoadas quaisquer grosserias. Creio que não sou tal in-
divíduo, não me vejo parando o Saramago na rua para
Saramago, José, literatura

lhe dar beijos, prendê-lo com mil elogios e sugerir repa-


ros à sua obra. Mais eis que, naquele dia, assim de longe,
indaguei por qual razão ele não morria – coisa de ex-na-
morado, desses mal resolvidos. Melhor então lembrar da
outra oportunidade em que lembrei dele, da qual ainda
posso tirar algo de bom.
Nas poucas vezes em que fui ao banco este ano foi para
verificar o dinheiro que nos pagam quando conseguimos
ser demitidos neste país que, segundo dizem, nunca em-
pregou tanta gente. Numa dessas, um senhor baixinho, de
sandálias surradas, cheirando a vodka e espetinho (daque-
le de calçada, que nunca conseguimos fazer igual) pergun-
tou se o programa de televisão Opinião Pernambuco voltaria.
Antes que eu lhe passasse a piada, de que na emissora tem
cartaz com “Opinião volta mês que vem”, ele se adiantou:
– É que tenho um romance pronto. Precisava ir ao
Opinião­, pedir editora e anunciar uma obra-prima.
Entre apressado e curioso, enquanto o caixa eletrônico
confirmava meu gordo seguro, escutei seus argumentos,
as virtudes que faziam do inédito romance um clássico,
antes mesmo de chegar às estantes. Depois, fiz uma mal-
dade: quando ele pediu contato de alguém que pudesse
publicá-lo, passei o celular de Paulo Caldas, porque ima-
ginei um dia encontrar o editor da Bagaço e brincar com o
fato. Terminei aquela conversa repetindo Saramago:
– Fico esperando, então. Não vá desistir.
Alguma horas depois de saber da morte do romancista
português, às dezenas de matérias que saíam na internet,
preferi reler A bagagem do viajante. São crônicas saídas em
jornais entre 1969 e 1971. Nelas, aumentei minha vergo-
nha. Um dos belos textos começa assim:
“Há versos célebres que se transmitem através das ida-
des do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de ma-
rear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que

94
Cristiano Ramos

veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Car-


los Drummond de Andrade, acompanha-me desde que
nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que
viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo
nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Consi-
dero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo
José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E ago-
ra?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em
que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que
as mãos ficaram vazias e atónitas.”.
Saramago, também um josé, escreve sobre um dos mi-
lhões que andam pelo mundo, José Júnior, que, “sem mais
riqueza de apelidos e genealogias”, é “novo, embriaga-se,
e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-
se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assua-
das, talvez o apedrejem de longe”. O escritor setencia:
“Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no
banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam
perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande
fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de
Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano
para darem livre expansão a ferocidades ocultas”.
Não fui feroz, mas também não tive respeito para com
o meu josé de sandálias e crente em seu excepcional ta-
lento. Diferente de Saramago, que não achou outra coisa
além da frase de oito palavras, eu fiquei ouvindo aquele
senhor porque era uma futura brincadeira, um chiste, as-
sunto para mesa de bar e eventos literários. E se o chamo
de José não é homenagem a Drummond ou Saramago,
tampouco por saber o verso como metáfora. Eu o faço
porque sequer tive a educação de perguntar o nome da-
quele homem, mesmo quando ele avisou, sem perceber
que eu ainda o não sabia, “Guarde bem meu nome, por-
que ouvirá muito sobre ele”.

95
Saramago, José, literatura

Sou desses românticos que creem na força da literatu-


ra, em sua capacidade de nos transformar em pessoas me-
lhores. E, pelo jeito, preciso ler muito, muito mais. Aquele
senhor talvez não tivesse escrito uma obra-prima, porém,
ao tentar fazê-lo, não acredito que tenha se tornado mais
pobre, bem pelo contrário. Eu, por outro lado, sem ten-
tar produzir obra-prima, mas armado de outras vaidades,
o que tenho feito dessas dezenas de leituras semanais?
Amanheço alguém melhor por conta disso?
Neste mês de reclusão, tenho refletido um bocado. Não
basta optar por viver de literatura, seja pela crítica ou em
salas de aula. Esta minha escolha romântica, de trabalhar
com livros, precisa ser acompanhada também de um ideá­
rio romântico, de uma busca moral. E não desenho aqui
uma concepção estética, apenas confesso um sentimento.
Um sentimento que cresce. E, sem que eu tenha origi-
nais de obra-prima ou receba o Nobel, pode até ser que tal
postura me faça também alvo de desdém, de piadas, alguns
dos meus amigos me dedicando um carinhoso “por que
não morre logo”? Mas quero sim sair de junho com lentes
diferentes, calcorrear as ruas noutro ritmo, e lidar com os
espaços críticos que me dão como lugares não de confirma-
ção de meus inúmeros defeitos, mas como meio de os supe-
rar pouco a pouco, página por página, conversa depois de
conversa. Eu quero, mesmo, finalmente, repetir outra vez
Saramago. Desta, no entanto, pelo motivo certo...
“Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever. ‘E agora,
José?’.”

96
50 Anos de Brasília
Cyl Gallindo

Numa das muitas páginas por mim escritas, citei Bra-


sília como o lugar onde, ao me aposentar, inaugurei a mi-
nha velhice. E pretendia ficar para o resto da vida, não
fosse o clima com uma umidade relativa do ar de 10 a 12
por cento. Clima de deserto, informam as rádios, com a
recomendação de pôr bacias com água no quarto, antes
de dormir. As aulas são suspensas, não se praticam espor-
tes, crianças e velhos recorrem aos hospitais para fazerem
nebulização. Retornei ao Recife. Aqui tem brisa.
Nem por isso, Brasília foi desmembrada da minha geo­
grafia. Observando a vida, como os lugares, cada homem
tem a sua geografia própria. Dela não fazem parte os lu-
gares por onde passamos, a negócio e passeio. Eu mesmo,
como bom andarilho, conheci do Alto Solimões, no Ama-
zonas, ao Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul. Visitei todas
as capitais brasileiras e fiz zigue-zague por todo o Nordes-
te. Sou incapaz de citar as cidades que cruzei. Afora 15
paí­ses que conheci, com permanência de meses na Holan-
da. Nada disso, porém, faz parte da minha geografia.
A geografia de um homem é composta daqueles lugares
onde ele entrou como um leão entra numa savana, o dono
do mundo. Ali, ele escolhe um bairro; no bairro, uma rua;
na rua, um imóvel, e neste escolhe um quarto, um recanto
para comer, outro para ler, outro ainda para o lazer.
Lentamente se constroem as suas circunstâncias. O
mercado, a farmácia, amigos e bares para encontros. Os
afetos e desafetos, as preocupações, os interesses, dívidas
50 Anos de Brasília

e dúvidas, débitos e créditos. Muitas vezes, surge a mulher


da sua vida, e filhos, e netos e uma cova para sepultura.
O verdadeiro espaço do leão. Onde ele canta o hino da
geografia adquirida, na sua própria nênia.
Este ciclo pode se completar, para mim, em qualquer
uma das quatro cidades que compõem a minha Pátria.
Munido desse cantochão, desse amor, do mais puro
patriotismo, transformo o meu coração num imenso salão
de festa. Acendo candelabros de cristais, corto um imenso
bolo e faço desembocar um rio de vinho espumante para
festejar os 50 anos de existência de Brasília.
Morava no Rio de Janeiro, ano de 1959. Assistia ao
vivo as pregações de Alziro Zarur, na Rádio Mundial, so-
bre a Legião da Boa Vontade. Ao meu lado, Ubiratã de
Oliveira, capitão da Aeronáutica, que me convidou para
ir com ele a Brasília. Como recusar uma aventura dessas?
Lá ficamos quatro dias. Homens e máquinas rasgando o
chão, em meio a uma poeira vermelha infernal, e surgin-
do prédios. Dormíamos num apartamento de uma das
superquadras em construção e fazíamos as refeições no
restaurante do Grupo de Trabalho da W3-Sul. Vi os pri-
meiros vergalhões do prédio do Congresso Nacional, do
Palácio do Planalto, de prédios dos ministérios.
Voltei a Brasília, no governo Jânio Quadros. Eu havia
votado no marechal Lott, adversário de Jânio, mas como
este tomava medidas talvez mais avançadas do que aquilo
que esperávamos do marechal, o mundo estudantil, no
qual eu me incluía, sob a liderança de Aldo Arantes, na
UNE, passou a defender e apoiar o seu governo. Des-
ta vez, me hospedei no apartamento do deputado Sér-
gio Magalhães, eleito pelo Rio de Janeiro, que já atuava
na Capital. Visitei o conterrâneo de Buíque, José Maria
­Albuquerque, diretor-presidente do Serviço Nacional de
Assistência aos Municípios, que me ofereceu uma colo-

98
Cyl Gallindo

cação. Recusei. Não podia sair do Rio de Janeiro. Uma


estupidez. Saí à força, em 1964.
Em 1986, fui transferido para Brasília, para assumir
uma função importante para o Nordeste, junto ao Con-
gresso Nacional. Função abortada pela desconfiança do
chefe da representação do órgão onde eu servia, temeroso
diante dos aplausos de parlamentares.
Eu voltaria para o Recife, não fosse o encanto por ­Brasília
e uma promessa de trabalhar na Assessoria de Comunica-
ção do Senado. Deixei-me ficar. O ministro então Chefe da
Casa Civil Marco Maciel promoveu o lançamento do meu
mais novo livro, com grande repercussão na mídia. Cresce-
ram as circunstâncias, em cujo bojo estavam a Associação
Nacional dos Escritores, o Instituto Histórico e Geográfico
do Distrito Federal e a Academia de Letras do Brasil. Ami-
gos do quilate literário de José Santiago­ Naud, Anderson
Braga Horta, José Geraldo Pires­ de Mello, Branca­ Bakaj,
Alan Viggiano, Affonso Heliodoro dos Santos­, Danilo Go-
mes, Fernando Mendes Viana, Ronaldo­ Cagiano, Jason
Tércio, Joanyr de Oliveira, Napoleão ­Valadares, Afonso
Ligório Pires de Carvalho, Maurício Melo Jr., Maria do
Carmo Pereira Coelho, Ivan, da Livraria Presença e Victor
Alegria, o editor do meu primeiro trabalho, pela Coorde-
nada Editora de Brasília, em 1968.
Ao lado do então reitor da UnB Cristovam Buarque,
dos senadores Marco Maciel e esposa, Anna Maria, e Ney
Maranhão, de vários deputados, do coronel Luiz Carlos
Prati Molina, dos jornalistas Magno Martins e Dioclécio
Luz, reativamos a Casa de Pernambuco, que chegou a
congregar mais de 300 pessoas e promover lançamentos
de livros, exposições de artes plásticas e outros eventos.
E quando menos esperei, Brasília não era a minha ci-
dade, eu é que era um ponto, uma sarda na sua pele, mas
queira ou não queira, Brasília faz parte da minha geogra-

99
50 Anos de Brasília

fia, das minhas preocupações, do meu amor vital. Com


uma lista enorme de amigos e camaradas, que não posso
nomeá-los aqui, como gostaria.
O que mais me impressionou em Brasília, com a sua
divisão em quadras, foi o fato de, ao sairmos de uma qua-
dra para a outra, termos a sensação de entrar em uma
autoestrada, como quem viaja para outra cidade; daí a
tese de que em Brasília não há esquinas.
Sério mesmo é o concurso das amizades. Ao chegar-
mos à cidade, fazemos centenas de relacionamentos.
Criamos um painel nacional de conhecimentos, em que
se incluem, com polifonia de sotaques, sulistas, centro-su-
listas, planaltinos, nordestinos, nortistas. Com alguns até
se solidificam boas camaradagens.
De um momento para o outro, muda o governo, o
Congresso se renova, saem ministros, e ao procuramos
o amigo, não mais o encontramos. Sumiu, encantou-se.
Ninguém pertence a essa ou àquela “tradicional família”.
Existe o indivíduo. O que prevalece é o cargo ocupado, ou
a função exercida. Amizade, em Brasília, é areia movedi-
ça, da qual fazemos parte, sem outra opção. Embora haja
afetos verdadeiros.
Como toda regra tem exceção, eu me vanglorio da que-
bra de regras das amizades voláteis do Planalto. Ganhei
uma sólida e coletiva com os Salustiano Botelho: a urbanista
escritora Lídia Adjuto, o romancista Tristão Salustiano Bo-
telho, e os seus três descendentes, a quem afetivamente vi
nascer: a jornalista Júlia, o artista plástico Augusto e a escri-
tora Sofia. Esta virou a minha família em Brasília, ou o meu
povo, como eu costumo dizer. Uma única dúvida: se ela é
minha nora, ou ele é o meu genro. No início a direção era
Paracatu/MG. Passeio, férias, fim de semana... em Paracatu.
Até que dei o grito de liberdade, agora é “tu para cá!” A rota
mudou para o Recife, ou o Nordeste, Natal, Maceió.

100
Cyl Gallindo

Resumindo, confesso: minha pátria, hoje, resume-se a


quatro cidades: Buíque, onde nasci e vivi a infância; o Re-
cife e o Rio de Janeiro, onde vivi as etapas mais vigorosas
da juventude e maturidade; e Brasília, onde, aposentando-
me, inaugurei a velhice, e descobri o que é um novo hori-
zonte, o futuro, senão meu, mas do Brasil, como Nação.

Recife, Boa Viagem, 21 de abril de 2010

101
Caco de vidro
Esther Sterenberg

Era um ambiente sóbrio e de requinte, destacando-se


até dos demais cômodos daquela vasta e ostensiva mansão.
O austero mobiliário de estilo colonial dava-lhe uma
aparência de salão de museu.
Compondo estrategicamente o ambiente, avistavam-
se, em um recanto isolado, dois grandes vasos de fina por-
celana e, se alguém, naquele momento, deles se aproxi-
masse, certamente escutaria o seguinte diálogo:
– Já notastes, companheiro, que as pessoas quando
entram nesta sala, pela primeira vez, sentem de imedia-
to que estamos presentes e, admirando-se da imponente
beleza, não nos poupam elogios ao mesmo tempo que se
detêm calculando o nosso valor material?
– Sim, é verdade. Somos realmente duas peças raras,
daquelas que os colecionadores de Antiguidade cobiçam e
não regateiam esforços na ânsia de possuí-las.
– Porém, tu reconheces a minha supremacia, não é?
– Acho que não estou entendendo bem a superiori-
dade a que te referes, pois te vejo como se fosses o meu
irmão gêmeo e, se somos iguais em tudo, por que vales
mais que eu?
– Ora, santa ingenuidade! Então, não sentes a racha-
dura que existe em teu pedestal? Ontem mesmo, quando
aquele casal de nobres, primos da dona da casa, tomava o
chá das cinco refestelados naquelas poltronas, escutei os
comentários enquanto te miravam compadecidos: “Oh,
que pena! Será que algum vento encanado trincou este
suntuoso vaso?”
Esther Sterenberg

– Sinceramente, não havia me apercebido desta falha


que agora me apontas, porém isso não me incomoda nem
me deprecia, pois sou feliz tal qual me vejo, e não será
uma simples fissura superficial que fará com que eu me
sinta diminuído diante da comiseração de alguns.
– Prefiro continuar envaidecendo-me com o olhar sig-
nificativo dos que sabem apreciar a perfeição das minhas
formas e a sutileza dos meus matizes.
– Não sejas presunçoso. Em teu lugar, eu teria bem
mais cautela e evitaria o aspirador de pó e as mãos desa-
visadas da mucama em sua rotineira limpeza deste local,
pois receio que, em qualquer momento inesperado, possas
desmoronar e te transformares em um monte de cacos de
vidro que para nada serviriam a não ser que alguém, bas-
tante depressivo, de algum deles se utilizasse para cortar
os seus próprios pulsos, na tentativa de pôr termo à vida.
– Meu Deus, quanta maldade! Não seria mais recon-
fortante pensar que os meus reluzentes pedaços poderiam
ser aproveitados na confecção de um talentoso caleidos-
cópio, cujos mosaicos encantariam o expressivo olhar dos
curiosos? Pensamentos mesquinhos atestam a mediocri-
dade das pessoas e eu não me sinto bem descobrindo em
ti esses atributos.
Nesse exato momento, entram na sala os donos da casa
e o casal visitante da véspera, convidado a escolher de
presente um dos vasos de porcelana de sua preferência
Agachando-se, o anfitrião ergueu o vaso perfeito, to-
mou-o carinhosamente nos braços e ao dirigir-se para
entregá-lo aos seus novos donos, tropeçou no espesso car-
pete que adornava o piso e eis que a peça, escorregadia,
cai ao solo e despedaça-se ruidosamente.
Clima de consternação geral. Como pôde acontecer ta-
manho despropósito? Olhando para o vaso trincado, que
compactuava da frustração daquele instante, podiam-se

103
Caco de vidro

imaginar vertiginosas lágrimas escorrendo lateralmente e


acumulando-se ao seu redor.
Era a certeza de que tanto os que se admitem perfeitos
quanto aqueles que assumem a sua condição de fragilida-
de deveriam conviver fraternalmente, pois a vida é igual
para todos e nada intercepta os passos do destino na ela-
boração dos seus planos.

104
Um certo padre Gomes
Everardo Norões

Dez horas da manhã.


Na sala de aula, duas altas janelas cortam
o claro dos céus em pedaços.
O professor profere a chamada.
O verbo é ‘proferir’; ele nunca chama: ordena.
Ele é padre, mas nada tem a ver com seus pares.
Basta ver o corte da batina, a faixa à cintura
que mais parece um obi de samurai.
Postura de quem está sempre à espreita,
aguarda o ataque.
Pronuncia os nomes, não os repete; olha a cara de
[cada um,
baixa a vista para o livro de anotações, escreve.
O que contam esses registros?
Depois, se não aprova o nominado,
ele o dispensa antes do início da classe.

(Comenta-se que presa à faixa não há uma katana,


o sabre japonês, mas um Smith&Wesson. 38 duplo.
Única concessão que faz ao império do Tio Sam.)

Assim fala a fotografia:


cinzento é o ginásio na sua arquitetura cansativamente
[simétrica,
corredores de piso de mosaico, campainha para retinir
[recreios,
sanitários malcheirosos a lançarem seus eflúvios
sobre o amplo pátio.
Um certo padre Gomes

O pátio:
um quadrado de terra vermelha,
onde nenhuma grama cresce, como no chão de Átila.
Às 5h30 da manhã, e durante uma hora a fio,
os alunos, na aula de educação física, aqui são tratados
como cabos de guerra pelo sargento do Tiro.
A cor da argila designa o bairro do Barro Vermelho,
lugar onde foi fuzilado Pinto Madeira, pertinho daqui.
Ainda se busca a mancha de sangue, o buraco da bala,
o sopro da última palavra.
Inútil:
tudo aqui foi destruído:
a rua de azulejos portugueses,
a calçada dos morféticos,
o piano que ressoava na rua
as lembranças de Branca Bilhar.

(A cidade conspurca com crueldade seus espectros.)

Ao lado do retângulo vermelho, a dita sala, igual a vinte


[outras,
com seus trinta alunos sentados em carteiras de
[madeira de lei.
Numa delas, as duas iniciais de um nome;
em outra, um signo-salomão, uma meia-lua ou um
[ferro de gado.
Nada de sugestões pornográficas ou insinuações
[subversivas.
Ninguém se iluda:
neste reduto da diocese não apenas se aprendem
as matérias do currículo:
aqui também se é iniciado no exercício da delação.

A aula começa.

106
Everardo Norões

O professor comenta a diferença entre os homens do


[interior
e os que ficaram pelos litorais,
a arranharem a terra como caranguejos,
dixit Frei Vicente do Salvador, ou Vicente Rodrigues
[Palha,
nome laico do jesuíta baiano que descreveu a vida na
[Colônia.
A linha de pensamento do mestre se insinua
pelos meandros do rio São Francisco.
É regida pelas observações do mais brilhante
[historiador
de seu tempo, Capistrano de Abreu, ateu e, para seu
[desgosto,
pai de uma freira que se refugiou no claustro
e fez voto de silêncio.
O curso do pensamento do professor acompanha
o do Grande Rio, desemboca no Riacho da Brígida.
Busca um Ulisses,
entre preadores de índios da Missão do Miranda,
[ex-Itaytera.
Um Ulisses capaz de conservar engastado o rochedo
sob os pés da Virgem da Penha,
para impedir que a Serpente não o rompa
e sejamos arrastados pela Grande Água.
Na brecha dos mitos, ele, o padre, professor,
[pesquisador,
vasculha nomes carreados de Sergipe, Pernambuco,
[Bahia,
catapultados pela Casa da Torre,
perdidos nos brejos, ribanceiras, serranias.
Onde estará nossa Ítaca?

(Como discernir na partitura do tempo o que se


[tornou usura da história?

107
Um certo padre Gomes

Todo texto é ficção, dizem.


Nenhuma sessão da memória se repete com a
[fidelidade do cinema.
Apenas o cenário pode permanecer imutável.
Remontagens arqueológicas sedimentam nossos
[delírios e
as ruínas refeitas guardam detritos que suscitam
[apontamentos bizarros,
registros em cadernos esquecidos.
Pois a história, escreve José Honório Rodrigues, “não
[é só fato:
é também emoção, o sentimento, o pensamento dos
[que viveram
– a parte mais difícil dos negócios humanos”.)

Voltemos ao Padre, seu outro lado,


seu silêncio martirizado no quarto de estudos,
onde dormir é privilégio.
Aí doma seus fantasmas, suas letras.
Não tem com quem conversar, aprofundar argumentos,
buscar o verme que contamina o miolo de seu fruto,
o fruto vermelho da História.
Busca nos alfarrábios, cruza garatujas de batistérios.
E sempre Nascimento e Morte de permeio,
desmontados em árvores desenhadas em páginas
[coladas,
para chegar ao mais idiota descendente
de um coronel qualquer da Guarda Nacional.

O Álbvm do Seminário do Crato, de 1925


– álbvm com ‘v’, para imitar o latim da Santa Igreja –,
registra o aluno na página 202; o clérigo, na 207.
A fotografia da página 189, carcomida pela traça,
[revela:

108
Everardo Norões

batina, barrete, mas sem a capa romana que o


[acompanharia durante tantos anos, tremulante e
[negra sob o sol dos Cariris.
Pois assim reza o artigo 12
do capítulo III do Regulamento do Seminário Maior:
“Uma modéstia sem afetação e um porte digno
resaltem do seu todo, mormente nos actos religiosos
e quando estiverem recebendo instrucção” (sic).

É necessário lupa para recompor feições e formas.


Segundo da segunda fila, da direita para a esquerda.
A cabeça encoberta inclinada à direita;
deixa-se ver o relógio de algibeira,
quem sabe um Patek Philippe.
O rosto é magro; o nariz, aquilino, mouro;
as orelhas não se deixam passar despercebidas.
Não mira a objetiva do fotógrafo.
É uma visão para o largo,
um ar que o distingue da bonomia do grupo.
Tem um ar triste, inquieto.
Escreverá mais tarde:

“A zona é percorrida por rios secos e serranias de


[altura medíocre,
de platôs e faldas férteis, abrindo-se em depressões
vulgarmente conhecidas por boqueirões.
Florestas e serras de altura de mil metros, mais ou
[menos,
e as margens de rios, águas em lagoas, olhos d’água e
[cacimbas,
barreiros salgados, forragens substanciosas,
campos mimosos e agrestes ao lado de catingas,
carrascais e ilhas de cacto,
eis outra face da fisionomia natural da terra,
tudo conforme acentuou Capistrano de Abreu”.

109
Um certo padre Gomes

Sempre Capistrano, o grande Mestre.


E, já assimilada, a leitura de Euclides.

Um homem sozinho atravessa a cidade:


batina negra, capa romana, faixa à cintura.
Segue o trajeto que vai da igreja da Sé ao Ginásio.
Quantas vezes terá feito esse percurso?
Saúda Tandô, sentado no meio-fio da praça.
“Em que pensa esse padre, com jeito de homem”,
se pergunta o anão?
Aqui tudo é vigiado.
A cada janela há um olho à espreita.
O padre caminha sem prestar atenção a quem passa,
nem atentar para quem se furta por detrás das
[gelosias.
Anda rápido para dar tempo à chamada do refeitório e,
logo depois, recomeçar reflexões e leituras.
Abrirá a porta de vidro da estante de cedro
com a chave escondida dentro do sapato, enrolada na
[meia.
Lembrança do regulamento, de quando era regente:
“Só poderão fazer leituras extra-programma mediante
prévia
autorização do Padre Prefeito” (sic).

(As duas maiúsculas encerram o assunto.)

Equivoca-se quem pensa que sua busca tem como


[finalidade
cruzar ramos de famílias, desvendar mancebias,
revestir de letras de nobreza alguns filhos da terra.
Sua história tem dupla leitura:
de um lado, parece agradar a quem procura na veia
mínima gota de sangue caramuru.
Mas a outra vertente é a que mais lhe importa:

110
Everardo Norões

seguir os rastros do autor


de Caminhos do povoamento,
contrapor aos heróis oficiais de guerras subalternas
a saga dos anônimos.
Ou seja: catar os detritos da história,
cônscio de que o passado nunca fica para trás:
continua a vicejar entre os vivos,
como as bactérias nos corpos em putrefação.

Em 9 de janeiro de 1941, Padre Gomes,


nos Cariris, longe de tudo, ensina, pesquisa, escreve,
elabora e medita, sozinho.
Nesse mesmo dia,
sob a França ocupada e 5 dias
após a morte de Henri Bergson,
Paul Valéry pronuncia na Academia Francesa
o belíssimo elogio fúnebre ao filósofo,
de uma simplicidade que surpreende quem está
[familiarizado
com a escrita carregada de erudição e de refinamento
[do poeta.
Diz da alta figura de homem pensante que foi Bergson,
talvez um dos últimos, segundo Valéry, que teriam
[exclusivamente
e profundamente pensado, num mundo
em que se pensa cada vez menos:
“enquanto a miséria, as angústias, as limitações de
[toda espécie
deprimem ou desencorajam os empreendimentos do
[espírito”.
Observações sobre um homem pensante:
aplicam-se perfeitamente ao padre de Brejo Santo.

Passa o Padre Gomes e Tandô, o anão, se pergunta:


“Em que diabo está pensando esse homem?”

111
Um certo padre Gomes

Somente hoje é possível compreender


o porquê daqueles passos apressados,
daquela inquietação permanente,
de sua genialidade e equívocos.

A fotografia:
não é mais necessário lupa para recompor as feições.
Não mira a objetiva do fotógrafo.
É uma visão para o largo,
um ar que o distingue do resto.
Tem um ar triste, inquieto.
Pensa num mundo mais largo, sem cadeias,
distante do jugo das genealogias,
longe de um sol que é o mesmo sol de todos os dias,
segundo Machado de Assis,
onde nada existe que seja novo,
onde tudo cansa, tudo exaure...

112
Um cheiro, por favor
Fátima Quintas

Há quanto tempo não recebo um cheiro? Aquele afago


pleno de mimos, com caprichos de sutileza, macio, doce,
especial. Ah! que saudade do gesto brando e agradável!
Uma prática requintada que se traduzia num apelo de le-
veza. Sim, nada mais singelo que um cheiro. Na minha
juventude cheiros pululavam a toda hora, em qualquer
lugar, nos encontros informais, nas festas de colégio, nas
quermesses... Sem que desse por isso, os anos se passa-
ram, as relações se tornaram mecanizadas, a humanidade
acanhou-se diante do jeito de sentir, os meneios solidários
desapareceram, mas a terra continua girando em torno
do sol – Galileu morreu repetindo: mas ela gira, sim. E os
sentimentos trocaram de expressões, embora na essência
sejam os mesmos: o riso, o choro, a alegria, a tristeza;
todos somos iguais na ciranda da vida. Fico a pensar: por
que esquecemos o cheiro?
Onde anda o romantismo? O aprendizado existencial
me chama a atenção para os antigos costumes, fora de
moda, anacrônicos, escondidos em baús fechados a sete
chaves, talvez infestados de bolor. Não desisto de pergun-
tar: o que fizeram dos meus encantos? Perdi o bonde e a es-
perança./ Volto pálido para casa. Parece que Drummond nos
socorre quando o cotidiano precisa de poesia. Assim, em
momentos difíceis, lembro-me de José; quando os amores
não são correspondidos, logo, logo, recorro à Quadrilha;
se enfrento um obstáculo, a imagem mais clarividente que
encontro é a pedra no meio do caminho; diante das vulne-
Um cheiro, por favor

rabilidades, coração machucado, arremato: Tenho apenas


duas mãos/ e o sentimento do mundo; se existe um descom-
passo em meus devaneios, apego-me à rima, mundo mundo
vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima,
não seria uma solução. Como sobreviver sem os versos do
poeta? Trago-os na mais recôndita porção da alma e de
novo apego-me às suas transfigurações: E depois das memó-
rias vem o tempo/ trazer novo sofrimento de memórias,/ até que,
fatigado, te recuses/ e não saiba se a vida é ou foi.
A memória persevera. Atiça a consciência. Reclama
espaços num mundo prenhe de renovações. A vida é o
que foi. O presente se faz breve, brevíssimo, enquanto o
passado corresponde ao tempo consistente, sólido, ver-
dadeiro. Bem sei que os dias fluíram... era ontem quan-
do repetia ao despedir-me: um cheiro para você. Have-
rá coisa melhor que um cheiro? Ato gracioso, carícia das
mais instigantes, oferecida sem abruptos rompantes, de-
vagar, nenhuma pressa, como se as emoções se tocassem
levemente; sopro epidérmico, movimento gentil e toda a
carga de uma ternura sem fim. Adeuses se traduziam em
nuan­ces de acalanto à sombra de manifestações infantis
ou adultas. Um cheiro pelo telefone; um cheiro ao avistar
o amigo; um cheiro de amor.
De repente, tomo um susto, um grande susto, sinto-
me traída na minha história: os dias atuais ofuscaram a
dimensão lúdica da rotina. Não há tempo para as belas
tradições. Ecoam apenas ressonâncias de um pretérito não
tão distante assim. Todos correm em direção ao nada, os
carros buzinam, o frenesi se instala, ninguém conversa na
esquina, as mãos se agitam em desordem, vou e volto, não
faço coisa alguma, angustio-me para chegar pontualmen-
te em compromissos marcados, a agenda está repleta...
Nem sei o que se passa em mim, os sonhos esmoreceram
em uma certa encruzilhada, e então... e então... e então!

114
Fátima Quintas

Estou cansada, o corpo pede um mínimo de sossego. Acor-


do, olho o relógio, atropelam-me os atrasos. Desperdiço
horas, meses, anos... ando a patinar em gelo, escorrego na
estrada da vida, levo um tropeço; não importa, ninguém
viu. Há tanta gente nas ruas, nos mercados, nas lojas!...
E tudo isso para quê? A verdade é que o cheiro sumiu
ou, pelo menos, perdeu a força majestática. Outro dia me
surpreendi ofertando um cheiro. Foi quando me deparei
com o espanto de um impulso inopinado. Serei alguma
ré de gestos à antiga? Acho que sim. Confesso: não me
preocupa esta indisposição com o mundo excessivamente
ocupado. Carrego uma saudade embutida no peito, um
grito de pasmo, às vezes, até mesmo uma frustração por
não ter defendido com mais afinco os valores que me fa-
ziam feliz e que lamentavelmente feneceram. Por que não
recuperar um dedo de prosa na hora crepuscular, um in-
gênuo flerte à entrada do cinema, um pouco de pó de ar-
roz para embelezar a face, os frequentes “assustados” em
casas de amigo, o guaraná Fratelli Vita e as suas gasosas
de maçã e pera que tanto aplacavam a sede, o Corta-Jaca,
lá em frente à casa do Navio, na Av. Boa Viagem, os maiôs
Catalina, pretos, elegantes, que vestiam as candidatas do
concurso Miss Brasil?
Que a modernidade se vanglorie de excelsos pragma­
tismos, que a tecnologia se desenvolva para atender ne-
cessidades crescentes, que a população se iluda nos cor-
redores dos shoppings, a avistar montras habilmente se-
dutoras, que tudo aconteça em nome da celeridade dos
tempos contemporâneos, celulares, DVDs, GPS, tudo,
tudo... menos desprezar o cheiro tão genuinamente deli-
cado, inocente e bucólico.
Um cheiro, por favor.

115
Greta Garbo, quem diria,
acabou de se sentar...
Fernando Monteiro

Foi essa a frase (“Greta Garbo, quem diria...”) que,


há vinte anos, eu murmurei para a minha mulher, numa
tarde de julho de 1985. Estávamos caminhando ao longo
das margens do Hudson, num daqueles passeios arboriza-
dos que acompanham as amuradas do rio nova-iorquino,
quando Cristina propôs que sentássemos um pouco.
Vimos um sólido banco de ferro, repintado de verde, e
esperávamos ficar sós nele, na quietude daquela área onde
os habitantes da megalópole podem tomar o sol esquivo
entre choupos e tílias. Ali – mais ou menos da 51 para
cima – eram ruas menos permeadas de turistas, naquela
época, e, suponho, não parecíamos com eles, sem sacolas
de compras e sentados não para os lanches improvisados
dos cucarachas.
Não me passou pela cabeça, então, a proximidade de
um dos endereços mais gritantes de silêncio do cinema:
o de Greta Lovisa Gustafsson, número 450 da rua 52 de
passantes indiferentes uns aos outros, nos domingos e nos
outros dias da semana (se você não for um daqueles vaga-
bundos profissionais, olhando para o nada como se olhas-
sem para as portas do fundo de alguma antiga vida).
Foi então que veio sentar-se, no mesmo banco, uma
senhora também cansada.
“É ela. Eu juro. É ela, sim!” – foi o meu murmúrio se-
guinte, para a incrédula Cristina.
“Quem?”
“Greta. Greta Garbo.”
Fernando Monteiro

Eu não podia me enganar com aquele formato do ros-


to e com a boca, embora o nariz... Não, não era nada que
se pudesse apontar: seria, antes, a reminiscência de uma
aura magnética, o resto do halo da “Divina”, naquela face
devastada. Sei lá por que, mas algo da sua personalidade
misteriosa estava ainda presente, e não deixava dúvidas
sobre você estar diante da Estrela Absoluta dos Céus Frios
da Perdida Idade de Ouro do Cinema, persistente nas re-
tinas. Por falar em retinas, seus olhos – a prova definitiva
– estavam infelizmente velados pelos óculos escuros, de
modelo antiquado. Apoiava-se numa bengala preta, e se
aproximara com a leve hesitação de uma senhora bem-
educada, para se sentar justo no nosso banco lustroso da
tinta nova onde o ferro estivera, quem sabe, tão descasca-
do quanto ela própria, Greta Garbo.
“Greta Garbo?”
Minha mulher não acreditava. Mas era. Era a Garbo,
aquela anciã em quem ninguém estava prestando aten-
ção, exceto nós – com o cuidado extremo dos disfarces
inúteis para olhos talvez implacáveis, atrás daquelas len-
tes grossas.
O canto esquerdo de seus lábios, num ricto, passou a
fugidia impressão da pessoa que fica nervosa, ao se saber
reconhecida.
“Não olhe assim!”.
Cristina tinha razão. Eu estava a examinar muito di-
retamente a estranha que ela tentava proteger da minha
curiosidade. De pouco adiantava, entretanto: qualquer um
ficaria vidrado na figura de cabelos escorridos, sem estilo
(aparados pela própria?) e sem o brilho que, um dia, havia
ostentado na noite artificial dos estúdios. Estava vestida com
o desleixo de quem saíra apenas para esticar as pernas e ca-
minhar ao longo das amuradas, calçada com uns tênis meio
sujos nos pés talvez grandes demais para uma mulher.

117
Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...

Minha atenção era, portanto, fascinada e irreprimível.


Ou mal-educada, numa palavra que são duas (você deixa
de saber contar, diante do fantasma de uma Diva). E daí?
Você só vai estar sentado junto de Greta Garbo uma vez –
se é que vai estar, alguma vez na vida.
Ficamos ali, portanto, trocando olhares oprimidos
pela certeza de saber quem era aquela senhora pálida e
descolorida como o casaco machucado que ela usava so-
bre o corpo antigamente escultural, com mais um lenço
desbotado na cabeça...
Quando o tirou (para receber o sol atenuado), eu tive,
então, a mais plena certeza: era, de fato, a atriz retirada
do cinema há 44 anos, puxando do bolso um saco de mi-
lho para dar aos pombos privilegiados, alguns dos quais
acostumados, acercando-se para se alimentar das mãos de
dedos nodosos – como pequenos galhos castigados – de
um dos seres humanos mais belos e mais enigmáticos já
nascidos sobre a superfície do planeta quase tão exausto
quanto a solitária senhora de Nova Iorque, quem diria,
Greta Garbo, 80 anos, acabou de se sentar...

I want to be alone...

Muitos garantiram que ela nunca disse isso, “eu quero


ficar só”. Sua frase (a um jornalista) teria sido: I want to be
let alone – “eu quero que me deixem sozinha”. Ou seja, em
paz (ela que tinha horror de entrevistas e mexericos).
Eu sabia do reparo feito à frase tão famosa, e podia estar
olhando, sendo indiscreto, até incômodo etc., porém jamais
iria romper com as derradeiras regras da educação e apre-
sentar-me como cinéfilo e perguntar a Greta Garbo: “Por que
razão a senhora abandonou o cinema no auge da fama?”
Claro que era humanamente impossível indagar isso,
sem mais nem menos, à gentil alimentadora de pombos

118
Fernando Monteiro

tristes entre seus pés (ela sorrindo a sombra daquele sorri-


so iluminado pelos mais aclamados mestres da fotografia).
Tudo que eu fazia era olhá-la, sem tentar virar o rosto
ou disfarçar – como se olha para o busto da rainha Nefer-
titi, no museu egípcio de Berlim. Só que ali, próximo das
águas do Hudson, estava uma contrafação da beleza imóvel
da genial escultura da 18ª dinastia: um rosto vivo, e não de
pedra calcária, cujas linhas devastadas pouco correspon-
diam àquelas imortalizadas em 24 quadros por segundo
nas telas e no rio do tempo que faz escorrerem os minutos,
as horas, os meses, os anos e as décadas sepultando tudo
sobre a pedra-pomes de Pompeia, há séculos soterrada.
Greta Garbo – então, você existe? E nasceu de mulher,
como se diz na Bíblia, no dia 18 de setembro de 1905?
Cresceu num bairro pobre, a terceira filha de um gari de
Estocolmo?
Perguntas possíveis. As respostas – bem, as respostas
poderiam variar um pouco, de acordo com o humor da
jovem sueca, cujo primeiro emprego havia sido a mais
que subalterna função de ensaboar os rostos dos clientes
de uma barbearia.
Você ainda se lembra do seu primeiro filme longo?
Eu sei qual foi (caso você já tenha esquecido): Pedro,
o vagabundo, uma comédia dirigida por Erick Petschler,
em 1922. Com o pouco dinheiro que ganhou nesse filme
ridículo, Senhora dos Pombos da Paz Impossível, você foi es-
tudar na Real Academia de Arte Dramática, onde seu belo
rosto anguloso logo chamou a atenção de Mauritz Stiller
(1883-1928), cineasta nascido na Finlândia, e não na Sué-
cia, como muitos imaginam.
Foi Stiller quem a dirigiu num filme baseado num livro
de Selma Lagërlof – A saga de Gösta Berling – que chamou
a atenção para a novata. Mauritz queria chamá-la “Mona
Garbor”, nos letreiros onde você mesma escolheu chamar-
se Greta Garbo (e não Garbor).

119
Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...

O sucesso de Gösta Berling a levou para as mãos do


diretor alemão G. W. Pabst. Com ele, você fez o seu se-
gundo filme – Rua das lágrimas (1925) – porém, Stiller a
recuperou para si, quando recebeu, naquele ano, convite
de Louis B. Mayer para trabalhar em Hollywood. Você
se lembra? O seu descobridor impôs, ao produtor, uma
única condição para viajar rumo à loucura da América:
contratar também a “querida Greta”, com salário de 300
dólares por semana.
Quantas “verdinhas” mais você terá ganho, minha
linda sovina, para aparecer em mais 24 filmes, na maio-
ria grandes sucessos de bilheteria? O mordomo Gustav,
serviçal na sua mansão de Beverly Hills, mais tarde iria
revelar: “Eu nunca vi Miss Garbo comprar um vaso para
a casa; ela me dava 100 dólares mensais para a comida e
isso era tudo; se eu comprasse algo a mais, ela reclamava
como uma caixeirinha”.
É verdade, senhora? E é verdade, também, que você
nunca amou ninguém? Nem o astro de A carne e o diabo,
aquele rapaz de bigodinho chamado John Pringle? Ídolo
da tela com o nome de John Gilbert, ele chegou a comprar
um palácio em Los Angeles e um iate de 200 mil dólares,
para recebê-la na terra e no mar. Deu em água: você desa-
pareceu, em 1927, depois que ambos atuaram em Love, a
primeira versão de Ana Karenina. Gilbert ficou esperando
durante anos, até se afogar em uísque, depois de filmar
Ana, de novo, consigo, oh Senhora Sempre Sozinha.
Você não amou nem sequer aquela amiga íntima, Mer-
cedes de Acosta, roteirista e aristocrata de luminosa inteli-
gência? (Você admirava as mentes brilhantes.) E, confesse,
gostava mais das mulheres do que dos homens. E mais
dos jogos de espírito do que dos prazeres do corpo? O que
sentiu, no fundo, por “Stoky”? (Se ninguém adivinha, esse
foi o apelido que ela pôs no maestro Leopold Stokowski­,
seu amante vinte e três anos mais velho.)

120
Fernando Monteiro

E o fotógrafo inglês Cecil Beaton – que todos chamam


de o seu “último amor” – poderia lhe dar prazer? Ele que,
sim, preferia os rapazes, mas viria a abrir exceção, em
1932, para amar uma única mulher em toda a sua longa
carreira de paixões masculinas?
Vocês dois nunca foram (todo mundo sabe) “apenas
bons amigos”, por favor. A senhora passou o final da
guerra com Beaton, e, já envelhecida, fez cruzeiros sele-
tíssimos com ele, nos mais luxuosos transatlânticos gre-
gos. Até que acabou (você acabou).
Senhora Dureza, quantas vezes luziu o diamante do
seu coração gelado do norte europeu? Cecil, o artista deli-
cado, fotografou-a como ninguém. Dizem que você possui
todas essas fotos fechadas num arquivo. E também dizem
que Beaton, para os melhores amigos, reconhecia ser você
“uma excêntrica e uma chata” que ele amara sem restri-
ções, até sofrer um derrame em 1974, quando ficou se-
miparalítico e com a fala travada, na Inglaterra. Um dia,
anunciaram-lhe a visita de Miss Greta. Ele autorizou, e ela
subiu as escadas de mármore, entrou no quarto do doen-
te, para uma conversa por sinais e palavras truncadas do
homem de robe de chambre na cama estilo Tudor.
Depois, a atriz de Ana Karenina assinou o livro de visi-
tas (que o educadíssimo Beaton disponibilizara no saguão
repleto de obras de arte). E nunca mais se viram.
Para se livrar de algumas dívidas, a sua amiga Acos-
ta escreveu um livro de memórias que consta ter irritado
a senhora profundamente, no seu retiro do apartamento
da rua 52 aqui perto – isso procede? Você não desejava
que fossem divulgadas coisas como a pequena Greta se
ver como um “homenzinho”, desde a infância, quando se
referia a si mesma na terceira pessoa, como “ele”...
Enfim, minha cara senhora, quem é ou, melhor, quem
foi você, mito vivo e incomodado com meus olhares insis-
tentes?

121
Greta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...

Mas ela já não estava ali. Com dificuldade que não pe-
dia por qualquer ajuda, Greta Garbo havia se levantado
do banco de ferro e partido, com seu caminhar inseguro,
firmando a bengala para prosseguir rumo à solidão es-
colhida. Cinco anos depois, iria falecer num hospital de
Nova Iorque, no dia 15 de abril de 1990, mais só do que
jamais havia sido.

122
Mambo-Jambo deve morrer
Fernando Portela

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa?


Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de es-
panto, os olhos arregalados?
Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator,
na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Con-
videi-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo
perseguido.
“Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?”
“Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui
embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho
que, na confusão, bateram a minha carteira.”
“Que coisa”, pensei. “Este moleque tem pouco mais
de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora
ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama!
O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei”.
Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com
comunicação de massa. Na minha novela, uma verdadeira
bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela
só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora,
inventei um personagem meio doido, meio hippie , cha-
mado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos
latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos to-
pando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção
péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de
cubano que justificava tudo.
Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do mor-
ro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova
do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com
Mambo-Jambo deve morrer

dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar


metade do tempo inventando situações para o casal, tal
a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, jo-
guei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder
camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro
que, naturalmente, era o maior filho da puta.
Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou
Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam) passou a ser
imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo
o país e os militares que detinham o poder mandaram
chamar o dono da emissora.
“Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono,
português esperto, mas ignorante, que se transformara
no maior empresário de comunicação do continente.
“Mas senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha
vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.”
“Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o teste-
munho de quem assistira à reunião, “não é para matar o
ator, e sim o personagem.”
“Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o por-
tuguês.
Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-ven-
dedor de carros, mas, sobretudo, ex-alcoólatra, que vende
o seu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou
para mim logo que voltou da reunião que ocorrera na ca-
pital. E foi taxativo:
“Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou
eu estou fodido!”
Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive
para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a
morte de um fenômeno de popularidade do dia para a
noite. Mas seu Feitosa estava histérico:
“Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o persona-
gem, eu mando matar o ator. Não quero problema com
os milicos.”

124
Fernando Portela

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar


a morte dele.”
“Então tá bom. Uma semana.”
“Quinze dias.”
“Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gri-
tos o português mais poderoso do continente, encerrando
a conversa.
Aí chamei Júnior ao meu apartamento e contei tudo
a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de
verdade.
O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o
idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela épo-
ca, coitado, parecia incompetente porque não havia estu-
dado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se
com uma certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo ti-
nha muito dele. Não se é popular à toa.
“Bem. Você está-me dizendo que Mam-Jam está mor-
to. Que posso fazer? É você que escreve a novela.”
“Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mam-
bo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, dessa
forma estúpida.”
“Não entendi.”
“Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma
besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do perso-
nagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações
sobre o perigo que está correndo.”
Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar
a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um
copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada,
olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões
de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava Mambo-
Jambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, tri-
gueira e sofrida. Fiquei perplexo.
“O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e
os cacoetes do personagem.

125
Mambo-Jambo deve morrer

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jam-


bo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente.
Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças,
fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as
fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um
lado para outro.
“Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.”
“Como é que é?”
“Vamos não só invadir fazendas como viajar até a ca-
pital e exigir que os militares organizem eleições demo-
cráticas!”
“Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui,
durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de
araque?”
“Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo,
“nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acredi-
tar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparen-
temente não existem, como eu, Mam-Jam.”
“Como, aparentemente?”
“Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão for-
te que você, meu criador, veio me perguntar se deve me
matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza
de que a receberei. Você não imagina o que acabou de
acontecer aí embaixo, no calçadão.”
Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e
gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da
idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!”
Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na
verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o persona-
gem para iniciar uma reação popular contra a tirania.
Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares in-
vadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impo-
pularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam?
Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moder-
na democracia começou aí.

126
Saudade iluminada
Flávio Chaves

Entre discursos e lágrimas de governadores, ministros,


artistas, intelectuais, familiares e amigos, no momento da
descida do corpo de Odilon Ribeiro Coutinho ao túnel
do descanso, a grande emoção coube à gente anônima e
humilde, o seu povo paraibano, a plebe que não ignora
os legítimos valores, cujas lágrimas em seu mudo e de-
sesperado discurso são movidas pela força generosa da
admiração e do respeito.
Esse registro antecipa o depoimento comovido que
faço, no púlpito do povo que é a imprensa, afirmando que
o mundo não ficou menor com a ida definitiva do amigo,
mas cresceu, ficou mais amplo e fecundo, aperfeiçoado
pela sua presença plural e singular.
O poeta Miguel Torga registrou que, mal acabara de
ler a notícia do óbito de Fernando Pessoa, foi “chorar com
os pinheiros e as fragas a morte do nosso maior poeta de
hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternida-
de, mas não atinava para o que acontecia”.
No caso de Odilon Ribeiro Coutinho, todos choram o
irmão, o amigo, o líder e todos testemunham sua passa-
gem para a eternidade com sentimento e admiração.
Naquele momento, tão vivo porque tão trágico, o cho-
ro desatou incontido e vigoroso, a magia poética reza que
lágrimas derramadas por um irmão tornam-se estrelas;
assim, quando chorei, ao lado do nosso irmão comum,
Edson Nery, despedindo-me do amigo tão fraterno e ínti-
mo, senti que do meu rosto se elevavam constelações e que
Saudade iluminada

todos os sinos, os do mundo e os do sangue, os do espírito


e do século, os que no bronze cintilam a alma do eco, os
dos mosteiros perdidos e das abadias do tempo, todos os
sinos, os das palavras, dos dias, dos oceanos e das metáfo-
ras, todos os sinos dobravam por ti, irmão Odilon.
Fostes um poeta, Odilon, no silêncio, na vontade e na
ação, um político exemplar para qualquer país e geração
de políticos exemplares, um modelo de amigo, cultivador
de nossa atenção, um culto e íntegro como poucos e sem-
pre generoso com todos.
Prosador admirável e, duplamente, prosador, escritor
exímio e de conversação sem rival, bom de prosa, de poe-
ma, de conversa, envolvente, fino, atualizado, britânico e
preciso, em suas projeções e reconstituições de fatos cul-
turais da região e do Brasil.
Bibliófilo, leitor voraz e exato, mantinha Odilon uma
relação peculiar com o livro, um encontro amoroso entre
o homem e as páginas de leituras, como quem descortina
lençóis de mel na leitura lasciva, na iconografia cálida do
desejo, como Baudelaire, Drummond, João Cabral, Muri-
lo Mendes, José Lins do Rego, Edson Nery, seus amigos.
Mas a memória de teus feitos humanos, o sol de tua
inteligência, o vasto aspecto de tua cultura, tua bonda-
de, postos a serviço da vida, restaram comigo, em todos
os meus trajetos pelas plagas de cultura pernambucana e
nordestina.
Para Odilon, o livro era algo anímico, vital, uma verda-
deira companhia, ao lado da companheira de sempre, So-
lange, tão amada e tão amiga, com quem vivia e sonhava,
conversava e aprendia, soletrava o amor e o desejo.
Como Borges, Odilon sentia de modo quase físico a
gravitação do livro, o âmbito sereno de uma ordem pura,
o tempo dissecando-se, abrindo-se em flor cronológica,
quase perpétua.

128
Flávio Chaves

No entanto, para Odilon, os rumores da praça não


ficavam para trás quando ele entrava em uma bibliote-
ca. A praça do povo, dos meninos de rua e das mulheres
solitárias era um livro de fato, o verdadeiro tratado da
vida brasileira, uma enciclopédia visceral. Odilon Ribeiro
Coutinho viveu mais do que, existiu, sentiu tanto quan-
to pensou, seu tempo foi sulcado de perpétuos campos
elísios e para sempre uma grande alma de amigo, suas
obras, os frutos sáfaros de sua memória, aqui na terra es-
tarão sempre oferecidos para a plural colheita dos que o
admiraram e estimaram.

Canções de vento e mar. Recife, Gráfica Pirâmide, 2006

129
Um universo e uma escultura
Francisco Brennand

Sem nenhum aviso, vinda da minha própria cidade,


aparece-me R., e deve ter surgido, como tantas outras,
para ferir. Acredito que foi ontem que esteve aqui, ao cair
da noite. Cheguei mesmo a passear com ela pelos longos
corredores da Oficina. Vez ou outra a olhava como se não
acreditasse no que eu estava vendo. Tem trinta anos e é
mãe de três filhos. O motivo real de sua vinda não foi a
natural curiosidade de conhecer o artista ou a sua obra,
mas a necessidade premente de vender um quadro de sua
coleção a um possível comprador. A tela em questão foi
pintada por alguém por nome Naval e representa uma
infame bailarina na ponta dos pés, imobilizada como um
espantalho. Antes que eu esqueça, R. parece muito com
a atriz franco-italiana Dominique Sanda, um pouco mais
envelhecida. Como não me ocorreu mandar-lhe uma bra-
çada de rosas vermelhas? Vestia preto; e alguns adornos
discretos em vermelho, cinza e rosa disfarçavam o seu luto
ritual. Parecia um Velázquez, na sua grave harmonia: toda
de negro, prata e escarlate. Agora, me vem à memória
mandar-lhe flores. Chamo “Mercúrio” (o mensageiro),
às pressas, para que amanhã logo cedo providencie um
ramalhete. Preparo febrilmente um cartão para dizer-
lhe algumas tolices como segue: “Afinal de contas quem
é Naval? Não consegui conciliar o sono pensando nesse
enigma. Veja se você descobre de quem se trata. Apesar
do infame trocadilho, esperei a tarde inteira notícias de
Naval e acabei vendo navios!”.
Francisco Brennand

Nadra telefonou comunicando o desaparecimento de


Greta, a jovem dinamarquesa, que, segundo diz, “sumiu
no sábado, correndo atrás de Ronnie Von (o cantor)”.
Carla mentiu – pela primeira vez – antes que o galo
cantasse. Mas acontece que ela nada me deve. E, depois,
será assim tão grave essa falta? E se tivesse conseguido
falar comigo, eu estaria mais apaziguado? Todas essas
mulheres somadas fazem apenas uma só sombra indistin-
ta, o que não quer dizer que esta sombra de um negror
insuportável não limite o meu território de ação, como
se habitasse numa pequena ilha de apenas alguns metros
quadrados.
Meu Deus, por que necessariamente as mulheres são
sempre momentos? Será que nelas somente a gestação tem
algum sentido duradouro, exigindo um tempo determi-
nado pela natureza, período do qual até hoje elas não
conseguiram se desvencilhar? Então, de fato, só conta o
momento de acasalar e nada mais tem sentido?
Uma segunda-feira cheia de trabalhos. Novos dese-
nhos e montagens. R. prometeu telefonar à noite. Sabe-
rei aguardar? Insisto, talvez por hábito ou mesmo vício;
talvez pela minha definitiva e comprovada incapacidade
de encontrar nesta ilha de sombras uma mulher que des-
cubra, afinal, aquilo que eu sempre pretendi que todas
descobrissem, ou seja, uma irresgatável cumplicidade.
Tem sido assim nestes últimos tempos. Um esforço
desmesurado, quase sobre-humano de quem tenta por to-
dos os meios, organizar a sua tragicômica desorganização
sentimental. Não fosse o trabalho árduo, quase suicida,
que me leva na maior parte das vezes à completa exaus-
tão, eu não sei como resistiria. De qualquer forma, a pre-
sença delas é o alimento de todo o meu trabalho. A cur-
va de um dorso, a projeção do ventre, a grande ossatura
ilíaca, fazendo adivinhar a caverna do sonho que divide

131
Um universo e uma escultura

a mulher em três partes: cabeça, tronco e, abaixo do um-


bigo, um universo.
Permanentemente, obsessivamente, toda esta carnifi-
cina é observada, anotada, esquartejada e dissecada.
Agora mesmo, por cima do seu vestido, estou apalpan-
do o arco das costelas de R. Ela se esquiva sem entender.
“São os seus preciosos ossos, tão enigmáticos quanto os
seus músculos e a sua pele”, eu digo. “E ainda resta o seu
sangue, querida, as suas vísceras, os seus pés fendidos oito
vezes, o que é um sinal de fraqueza”. Atônita, ela recua
como se tivesse tratando com um louco. Seguro os seus pul-
sos com uma certa violência e isso a amedronta e imobiliza.
Baixou os olhos como sinal de submissão. Toda a magia do
momento havia desaparecido... E ela estava livre.
Ocorreu-me uma frase sobre uma mulher desagradá-
vel: “um réptil de lupanar”. Aliás essa é uma definição de
Lugones sobre o tango. Ele disse: uma música vulgar, um
réptil de lupanar... Lugones foi citado numa entrevista do
Le Monde, pelo escritor Jorge Luis Borges.
Hoje, pela manhã, a escultura, cujo título é Lara, já
havia saído do forno, no entanto deverá ser retrabalhada.
Se por momentos tentei recuar deste arriscado propósito,
logo em seguida repintei-a toda e está de novo a caminho
das fornalhas. Que Júpiter – o algoz de Lara – me proteja
com os seus bons ofícios de um deus todo-poderoso.
A pobre Lara, por falar demais, teve a língua cortada
por ordem de Júpiter. Depois, o infame Mercúrio carre-
gou-a para o inferno onde passou a ser a ninfa das águas do
reino dos mortos. A caminho do inferno, Mercúrio achando
pouco, violou-a.
Na última queima da escultura de Lara, um pingo de
esmalte caído da abóbada do forno sobre o rosto da desgra-
çada ninfa formou uma inesperada lágrima negra, o que
proporcionou à figura uma força e magia inesperadas.

132
Francisco Brennand

Na entrevista de Borges, ele demonstra vontade de es-


crever um conto, cuja ação se situaria além de qualquer
circunstância. “As circunstâncias arruinaram a literatura
de hoje em dia”, disse Borges.
Em seu conto não haveria referências de lugar e tem-
po, nem mesmo nomes próprios. Esta observação me faz
pensar nos inúmeros projetos que tenho de batismo para
algumas esculturas. Não seria tudo isso um mero recurso,
uma fraqueza, uma artimanha de quem, não se sentindo
seguro, procura um discurso, uma explicação? Borges está
certo. Para que nomear as coisas? Seria preferível não no-
meá-las, deixá-las obscuras à procura delas próprias, do
seu real significado. Cada coisa deve falar por si própria.
Depois, apesar de tantos rótulos, a maior parte do que
fazemos ou planejamos permanece indecifrável

133
A lei de Corisco
Frederico Pernambucano de Mello

O sujeito bateu no meu ombro e deu de beiço agitado:


o homem é aquele! Em meio às barracas da feira do Pão de
Açúcar, margem alagoana do São Francisco, manhã quente
de abril de 2005, cresce na minha frente um velho de no-
venta anos, entretido na conversa com amigos. Vermelho,
alto, magro, crestado pela vida no campo, mais um descen-
dente remoto do português do Norte espalhado pelo Bra-
sil ao longo da colonização. O galego, da voz nordestina.
Nascido e criado ali mesmo nos sertões do São Francis-
co, e habituado à feira do lugar como janela para o mun-
do a cada semana, não estranhava o ambiente fermentado
pela quantidade de peixe seco, couro malcurtido na golda
do angico, fumo de rolo, restos de querosene e de aguar-
dente impregnados nas bancas de madeira. Mosca a va-
ler. Criei coragem e fui a ele para saber se estava falando
com Mário Maciel. “Às suas ordens”, respostou sem piscar,
erguendo-se com agilidade surpreendente. E no cangaço,
que vulgo tomou? – voltei à carga. “Casa Rica, logo que en-
trei, depois Tirania, que foi o que ficou, desde que peguei
no grupo do finado Cristino, o Capitão Corisco”.
Corto a cena e mergulho no tempo: 1938, julho, pri-
meira semana. Depois de tiroteio rápido com o sargento
Juvêncio, no quebrar da barra, Lampião está brigando no-
vamente, manhã alta, dessa vez com o tenente José Calu,
também da força volante alagoana com sede em Pão de
Açúcar. Cansado pela renitência das escaramuças daquele
dia, o chefe cangaceiro usa do tino guerreiro proverbial e
Frederico Pernambucano de Mello

envolve a volante num fogo cruzado que a leva a desertar


das posições. Um soldado permanece atirando pratica-
mente em campo raso, sem perceber que tinha ficado só.
E tão isolado se queda finalmente que nada lhe resta senão
brigar. Vender caro a vidinha de sertanejo pobre, entregue
ao trabalho sol a sol desde menino. Lampião se impres-
siona com aquele macaco que não dava descanso ao ferro-
lho do fuzil. O bando vai rareando o fogo num arroubo. É
quando um cabra da localidade, o cangaceiro Manuel de
Miguel, vulgo Elétrico, se chega ao chefe e sopra no ouvi-
do: “Sabe quem está brigando ali, Capitão?”. Não espera
a resposta para passar a informação: “É Mário Maciel”.
Lampião não se contém. Pulando em zigue-zague, avan-
ça uns oito metros e grita bem perto do soldado solitário:
“Perdeu a fama hoje, fi’ da peste, pra não largar o canga-
ço pra ser macaco”. E dá a carga do mosquetão três vezes,
quinze disparos de ponto no rumo do traidor sem perdão.
O tiro derradeiro estoura a cabaça d’água do alvejado, ele-
vando o esguicho à altura de um homem. Faz-se silêncio
por minutos que parecem horas. A volante se recompõe.
Ensaia o ataque de retaguarda. Lampião trila o apito duas
vezes e retira com o bando para distância prudente. Um
alto, de onde fica a observar a cena com o óculo de alcance
alemão. Os soldados se aproximam do companheiro te-
merário e... a surpresa: Mário se levanta, batendo o pó, pe-
gando os bornais e as cartucheiras. Lampião não acredita.
Mudando de cor, daí a uma hora estará em casa do coiteiro
Antônio Pequeno, ainda transtornado de ódio. “Antônio,
eu nunca atirei de ponto num homem pra perder o tiro,
e hoje errei, em Mário Maciel”. Não se dava conta o ve-
terano chefe de cangaço de que os quarenta anos de vida
sacrificada começavam a cobrar-lhe a dívida, minando-lhe
a percepção aguda dos anos verdes. Dos tempos em que o
poeta Ascenso Ferreira o batizara de Tigre do Sertão.

135
A lei de Corisco

De volta a 2005, me recomponho do êxtase a que o re-


lato vivo me remetera, e quase que sentindo o cheiro acre
da pólvora, pergunto a Tirania a razão de ter se trans-
formado em soldado. “Eu andava triste e foram enredar
a Corisco. Ele me chamou pra saber se estava querendo
deixar o grupo. Não, Capitão! Ele fingiu que acreditou.
Calmo estava e da calma não saiu. No dia seguinte, novo
chamado: “Tirania, quem é seu maior amigo no Pão de
Açúcar?” Zeca Júlio, Capitão, amigo de minha família e
meu compadre. “Pois bem, Tirania, você me traz as ore-
lhas de seu compadre até a boca da noite de amanhã”.
Isso, não, Capitão, pelo amor de Deus! Corisco olha para
ele de cima abaixo e dispara: “Não tem o que fazer com
essa prova de confiança: é a lei de Corisco!”
No nevoeiro da madrugada, um cangaceiro dá baixa do
bando de Corisco em silêncio, e consegue chegar à fazenda
Horizonte numa carreira de botar os bofes pela boca. Va-
le-se do coronel Elísio Maia, um dos chefes do município,
embora ainda jovem. Com um bilhete costurado no punho
da túnica, o foragido apresenta-se ao major Lucena, no II
Batalhão de Polícia, em Santana do Ipanema. Nascia o sol-
dado rastejador Mário Maciel, seu nome de pia.
Com muita luta, viu o cangaço quase desaparecer com
a queda final de Lampião em 1938, apenas sossegando
quando um companheiro de farda lhe soprou a notícia de
que a metralhadora despachara o “padrinho” terrível, em
maio de 1940, “com sete tiros no bucho”. Criou a família
de modo exemplar. E morreu na cama, como cristão, no
dia 16 de julho de 2008, confirmando a cisma carrancuda
de Euclides da Cunha: “Os sertões guardam, para todo
sempre perdidas, tragédias espantosas”.

136
O dia em que o autor de Morte e
vida severina desabafou contra o
exibicionismo: “ninguém é tão inte-
ressante para falar de si mesmo o
tempo todo” (o que ele diria do
festival narcisista de hoje?)
Geneton Moraes Neto

Se os jornais publicassem tudo o que se fala numa re-


dação (ou, pelo menos, tudo o que os repórteres veem
mas não escrevem), nossa imprensa certamente não me-
receria o julgamento que um dia Paulo Francis fez:
“Nossa imprensa: acadêmica, empolada, previsível,
chata. Meu Deus, como é chata…”
Ponto. Parágrafo.
Já se disse que o melhor jornal é aquele que jamais
chega ao conhecimento do leitor. O que acontece nos
bastidores de uma reportagem pode ser tão interessante
quanto o que sai nas páginas dos jornais. 
Minha pequena coleção de entrevistas com o super­poe­
ta João Cabral de Melo Neto foi marcada por desencon-
tros, vexames, incidentes e mal-entendidos – sem maior
gravidade, mas suficientes para fazer ruborizar qualquer
tímido.
O dia em que o autor de Morte e vida severina desabafou contra o exibicionismo: “ninguém é tão
interessante para falar de si mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista de hoje?)

Vexame Número 1
Cenário: saguão do Aeroporto Internacional dos Gua-
rarapes. Ano: 1973. Dou meus primeiros passos como
repórter. O chefe de reportagem me despacha para o
Aeroporto. Missão: cobrir a chegada do mais ilustre dos
poetas pernambucanos. O diplomata João Cabral vivia no
exterior, na época.
Lá fomos nós, em busca da celebridade. O único pro-
blema é que o fotógrafo não sabia que João Cabral era
pernambucano. Assim que o poeta desembarca, o fotó-
grafo o convoca a posar em frente a um painel turístico
que mostrava uma imensa foto do Recife. A pose em fren-
te ao painel provaria que o poeta esteve na cidade… Pou-
co à vontade, o poeta concorda em posar. Lá pelas tantas,
o fotógrafo quer saber se o poeta por acaso já conhecia a
capital. João Cabral responde com algum som inaudível.

Vexame Número 2
João Cabral aceita receber o repórter na casa do ir-
mão, à beira-mar, em Olinda. Horário da entrevista: onze
da manhã. O repórter chega vinte minutos atrasado. For-
malíssimo, João Cabral nem parece estar de férias. Apa-
rece no portão metido numa impecável camisa de manga
comprida abotoada até a gola.
Primeira frase que pronuncia: “Você chegou com uma
pontualidade nada britânica…”. O repórter quase estre-
ante procura, em vão, um buraco no chão para se escon-
der. Não encontra. Entre mortos e feridos, todos se sal-
vam: a entrevista segue adiante.

Vexame Número 3
De volta ao Brasil depois de se aposentar da carreira
diplomática, João Cabral escolhe o Rio de Janeiro como

138
Geneton Moraes Neto

endereço. O repórter, que, anos antes, cometera o pecado


de chegar com uma “pontualidade nada britânica”, tele-
fona em busca de uma nova entrevista. Quem sabe, agora
consiga fazer uma entrevista sem incidentes.
João Cabral se desculpa: “Vamos marcar outra hora…
Minha mulher morreu ontem”. Já não tão estreante, o
repórter procura de novo um buraco no chão para se
esconder – em vão. Um silêncio que parece durar uma
eternidade se instala nos dois lados da linha telefônica.
O que dizer numa situação dessas? Nada. Meus pêsames.
Desculpe. Eu sinto muito. Socorro!

Vexame Número 4
O homem marca a entrevista: vai receber o repórter
em casa – um apartamento na Praia do Flamengo. Por
coincidência, o jornal O Globo marca, para a mesmíssima
hora, uma sessão de fotos de João Cabral com Ferreira
Gullar. Os dois poetas aguardam a chegada do fotógrafo
do jornal.
Aperto a campainha. “Pode entrar”. Cabral e Gullar
vão para a janela do apartamento. A vista, ao fundo, é
bela. Fazem pose. Ficam olhando para as minhas mãos, à
espera de que eu saque a máquina fotográfica. Pensam que
eu sou o fotógrafo que estavam esperando. Mas não tenho
máquina nenhuma. Carrego apenas meu gravador.
“Não quer fazer a foto agora?” Dois dos maiores poe­
tas brasileiros estavam ali, diante de mim, à espera da im-
possível foto. Não, não quero, não sei, não posso fazer.
Deve ter havido algum engano. Nunca fui fotógrafo em
minha vida. Um buraco no chão, pelo amor de Deus!
Desfeito o equívoco, os dois desistem de esperar pelo
clique de minha máquina inexistente. Cinco minutos de-
pois, o fotógrafo (o verdadeiro) desembarca no aparta-
mento. Os dois voltam a posar na janela. Livre da tarefa,

139
O dia em que o autor de Morte e vida severina desabafou contra o exibicionismo: “ninguém é tão
interessante para falar de si mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival narcisista de hoje?)

João Cabral finalmente dá a entrevista pedida pelo locu-


tor-que-vos-fala.
O poeta – um dos maiores que o Brasil já teve – con-
fessava que o gosto do fracasso não lhe era estranho. Devo
ter comentado com meu demônio-da-guarda: fracasso?
Se depender do meu histórico de fracassos nos bastidores
das entrevistas com João Cabral, posso dizer que sou di-
plomado no assunto.

18 de setembro de 2009
Dossiê geral – o blog das confissões. http://g1.glob.com/platb/geneton

140
Recife inverno
Geórgia Alves

“Aceita um café? Vou buscar! Talvez tenha adoçado de-


mais...”. Bebo em solitude. Às vezes o Recife é tão triste
quanto um pão francês dormido e mofado. Ali abando-
nado em seu saco de papel escuro de quem não serviu a
banhar-se em leite e nem ser tornado fatia-parida. Como
diriam em mesas de natais; “feito rabanada”! Seu inverno
é úmido e abafado.
Não fosse tão úmido e verde-escuro estaria agora pol-
vilhado de açúcar e canela. Serviria mais se fosse apenas
um Recife duro. Faria sorrindo em rodelas a alegria de
meninos e meninas em cafés da manhã de ternura, em
festa! Com presença de carinho-de-mãe no jarro de vidro
sobre a mesa.
Mas no seu inverno o Recife não é assim... É cigarro
molhado, feito charco de cinco mil substâncias para ma-
tar ratos e baratas. Socorrer por baratos o sujeito incauto
em beco coberto de marcas. É mais triste que abandono
de recifense esquecido na parada pelo último ônibus que
passa apressado.
É noite de perigo e o Recife nunca pôde dar abrigo
definitivo aos que vão se desmanchando feito papel pelas
encostas. O Recife nunca pôde se dar de presente em ca-
minhões de lata para crianças que aprendem cedo a brin-
car com aquilo que mata. Meninos e meninas que guar-
dam seus desejos, sonhos de brinquedos, por minguados
que faltam. É overdose de desespero, de pancada, de dor
que não passa...
Recife inverno

Recife, no inverno, às vezes não vai nem com o café


mais adoçado do amigo vigilante que me espia escreven-
do em bloquinhos no assento do carro. Não, Recife, não
bastará teu carnaval para me fazer feliz. Rezo pela cartilha
de Neruda que me diz do homem, da mulher, do pão e do
vinho. Da mesa, da morada...
Homeless que sou, me abrigo em lugares distintos. Um
dia um, n’outro outro. E assisto a seu modo o Recife ofere-
cer um sorriso ao me olhar no rosto, feito reconhecimen-
to, e a um só tempo, me expulsar. Justo em momentos que
nos faríamos quites. Não, eu não entendo. É meu amigo
vigilante quem vem e consola minha fragilidade de osso
exposto. De criatura feita de mola.
Eu que ora sou espicho, ora rolha. Espicho e encolho.
Numa hora pingo, mergulho e afogo. Quem dera não
tivesse sequer encharcado... Poderia apenas dizer como
imagem da minha tristeza que me sinto um desses pássa-
ros capturados, logo de manhãzinha, nas matas atlânticas
de teus arredores, Recife.
Cruelmente, esses homens que não têm o que fazer,
nem se darão ao trabalho, usam outros canários para atrair
suas presas. É assim no sexto e em outros quilômetros da
Aldeia. Testemunho em gritos de buzina para espantá-
los. Mas a verdade é que não vou conseguir socorrê-los
ou fazê-los correr dali. Fugir das arapucas montadas em
cercas rentes ao pasto.
Capim que sou, só me resta acender esse cigarro mo-
lhado, sacar o bloquinho enquanto espero o ônibus. Meu
único brinquedo. Eu que perdi meu caminhão de lata... E
beber com alguma alegria matutina o café “talvez adoça-
do demais” do meu amigo vigilante. Para quem agradeço
num cumprimento tímido, sem abraço.

142
O Recife iluminado e belo
Geraldo Pereira

A década de quarenta estava findando e os anos cin-


quenta começando, eu era menino, bem menino, anda-
va de calças curtas e ainda vestia roupa de marinheiro.
O meu pai nunca descuidava do passeio aos domingos
à tarde, de casa até a Rua da Aurora. Ali, à beira do rio,
parávamos em pequeno cais, que servia aos remadores e
aos pescadores, e eu soltava o meu barquinho de papel
feito com arte e destreza. A minúscula embarcação ganha-
va as águas e no meu imaginário talvez fosse aportar dis-
tante, bem distante, em terras d’África ou se largasse de
sua fictícia rota e margeando o litoral do Brasil chegasse
à Bahia, que é de todos os santos, ou ao Rio de todas as
belezas e de minhas fantasias pueris. Daqueles dias nunca
esqueci! São gestos paternos de um amor tão grande que
a memória, vez ou outra, resgata.
Depois, num Natal qualquer, o meu pai trouxe uma
lancha de metal, de flandre penso eu, que funcionava à
base do álcool. Não lembro bem se o combustível era adi-
cionado em algodão embebido ou se diretamente no bar-
co. O que sei e recordo com saudade são as voltas que a pe-
quenina embarcação, de 13 ou de 15 cm, dava na banheira
de casa, cheia d’água. Um dia, eu quis trazer a lanchinha
para a largueza do Rio Capibaribe, mas o meu pai ponde-
rou que iria perder o brinquedo, que a hélice, tão potente
à minha vista de criança, levaria o barquinho pequenino
embora, até os limites do imenso caudal. Aceitei, porque
pai é pai e sabe das coisas, mas não me conformava com
O Recife iluminado e belo

a restrição da banheira. Um dia choveu e choveu muito, o


terreiro de casa encheu e eu pude ver a lancha dos meus
sonhos rodopiar no efêmero das águas pluviais.
Fui lembrando dessas oportunidades, de minha ligação
com as águas que foram das capivaras, enquanto passea-
va no catamarã, vendo o Recife numa posição diferente,
olhando para as ruas e as pontes de dentro do rio, em ple-
na semana do Natal. Um roteiro, francamente, muito bem
estabelecido pelos organizadores, no qual o circuito dos
poetas faz o expectador, turista ou munícipe, acompanhar
a produção pernambucana em verso ao longo dos anos e
dos tempos. O velho Ascenso, a quem conheci no alpendre
de casa, sentado no Cais da Alfândega sobre uma pilha de
livros, parece soltar o vozeirão e recitar o que tanto ouvi
na minha infância, na radiola de casa: “Lá vem o vaqueiro,
pelos atalhos,/ Blém... blém..., blém contam os chocalhos/
dos tristes bodes patriarcais/ E os guizos fininhos das ove-
lhinhas ternas/ dilim... dilim... dilim.../ E o sino da igreja
velha: bão... bão... bão/ ...O sol é vermelho como um tição/
...” E, assim, o barco movido a potente motor vai mostran-
do o Recife, as pontes e as ruas, a iluminação sobretudo,
linda como está agora, neste Natal. A Rua da Aurora, a
mesma que eu frequentei aos 5 ou 6 anos de idade, muito
bonita, quando vista assim, do rio, principalmente no tre-
cho do antigo prédio da Prefeitura e do velho buque da
Polícia Civil, como chamava Paulo Malta. Um contraste de
cores dá uma vida diferente ao casario que se reflete nas
águas. E a lua cheia presidia o espetáculo, alumiando o
rio que corre e a cidade que fica, os poetas que cantaram
e ainda cantam as belezas da correnteza e das ruas, dos
becos especialmente, mas das pontes também: Joaquim
Cardozo e Capiba, Manuel Bandeira e João Cabral. Sem
esquecer o grande caranguejo que se mostra diante do Gi-
násio, homenageando Josué e Chico Science.

144
Geraldo Pereira

A presença da família inteira naquele barco marcava


um reencontro auspicioso: toda a constelação parental,
novamente, junta. Mesmo que por poucos dias, para as
festas de fim de ano. Uma veio das distâncias agora mais
do que gélidas de Espanha e a outra do calor tropical,
esturricante quase, de Fortaleza. Juntaram-se aqui à ter-
ceira, neste recanto tupiniquim. Juntaram-se e não mata-
ram a saudade ainda dos tempos de menina, dos dias em
Santo Amaro das Salinas e das férias em Pau Amarelo, de
tantas inspirações e de tantos amores. O resultado é que
se encontram no café da manhã e vão fiando conversa
até que o almoço seja servido, não fazem a sesta e jantam
no mesmo diapasão: fiando conversa. E assim ganham a
noite. Nunca vi tanta coisa para conversar e lembrar. A de
Espanha foi para a cozinha e preparou a ceia de Natal, a
daqui, a do Recife de Nassau, lavou toda a louça da noite
e a segunda tomou conta do trabalho das outras. Viva!
Eis aí um Recife iluminado e belo.

27 de dezembro de 2007
Blog de Geraldo Pereira. http://blogdegeraldopereira.blogspot.com

145
Do horrível mau hábito
de falar gritando
Gilberto Freyre

Por que gritamos tanto ao falar, os brasileiros? Grita-


mos horrivelmente. O brasileiro quase não possui voz de
conversa.
Do assunto já uma vez me ocupei. E volto a ele, sob a
impressão de desencanto de uma bonita criatura a falar
gritando. Desencanto que acabo de ter.
Por que o grito e não a voz de conversa? O grito na
conversa é tão fora do ritmo gentil da vida como acelerar
uma pessoa o passo em violenta carreira em hora de fazer
compras ou de passeio.
O grito é para a voz de conversa o que a carreira é para
o passo normal: uma aceleração ou uma elevação para
momentos excepcionais – casos de perigo ou “sport” – em
ocasiões que repelem tais excessos. Excluídos os casos de
“sport” ou de arte, a voz só se deveria elevar do seu natural
para o angustioso berro de “Aqui d’el rei!” ou para o de “So-
corro!” E vozes há que somente a esses gritos se deveriam
limitar, excluindo mesmo os do “sport” ou arte do canto.
Ia-me esquecendo dos gritos de dor e de sofrimento.
Mas destes só são toleráveis os irreprimíveis. E dessa es-
pécie de berro já Santo Thyrso se ocupou numa daquelas
páginas que dão antes a ideia de escritas para a transcrição
do que para a simples leitura. “Berrar” – escreveu Santo
Thyrso – “é próprio dos suínos quando lhes chega a hora
da desgraça. Como a sensibilidade se refina pela educação,
as pessoas ineducadas sofrem menos, mas gemem; choram
e berram incomparavelmente mais. Produzir ruídos parece
Gilberto Freyre

um desafogo moral como é um desafogo físico: mas todos


os desafogos são incompatíveis com as boas maneiras.”
O berro a que principalmente me refiro é o produzido
por pessoas que, simplesmente conversando, temem que
suas ideias não impressionem pela falta do agudo da voz.
E elevam a dita a alturas de quartos e quintos andares; e
até a altura de “skyscrapers”. Um verdadeiro horror.
O grito na conversa é muito do homem brasileiro, quan-
do discute, mas principalmente da mulher. Dizia-me uma
vez um amigo: nas discussões brasileiras vence quem berra
mais forte. E é verdade. No Brasil um vigoroso ou sonoro
berro vale imensamente mais que um bom argumento ou
uma boa ideia. Perante uma audiência brasileira, postos
para discutir como dois galos de briga, Fradique e Acácio,
quem acabaria sob palmas aos seus sonoros berros seria o
Conselheiro, elevando sentenciosamente a voz.
Saint-Hilaire atribuía o horrível hábito de falar gri-
tando da brasileira às frequentes necessidades de dar or-
dens aos escravos. E esta opinião é repetida por Fletcher e
Kidder­. Porque a verdade é que o assunto tem preocupado
os viajantes notáveis, dos quais o primeiro a confessar, não
desagrado, mas enleio, ante a voz horrivelmente aguda
da brasileira, foi o Sr. Júlio Dantas. O gracioso e amável
Sr. Júlio Dantas.
Explicação de Saint-Hilaire, Fletcher e Kidder e ob-
servadores mais recentes já tiveram ocasião de acrescentar
a seguinte: que o hábito de falar gritando da brasileira
resulta das necessidades como que pedagógicas de repre-
ender escravos ou criadagem numerosa e quase-escrava,
depois da Abolição. Nas professoras de escola primária
não se desenvolvem, por motivos semelhantes, agudos ou
acres de voz que os tornam inconfundíveis?
Mas há uma outra explicação. Encontro-a em interes-
sante trabalho de investigação histórica do Professor Afon-

147
Do horrível mau hábito de falar gritando

so de E. Taunay, de São Paulo: Sob El Rey Nosso Senhor.


Escreve o erudito de São Paulo: “Pelas taipas dos quintais
entabulavam-se (no São Paulo do século XVIII) infindáveis
conversações; com as vizinhas mais distantes era aos gritos
que se entretinham essas relações. Não proviria daí o há-
bito da elevação do diapasão das conversas, ainda hoje tão
notado, no nosso Interior, entre as senhoras?”
Como se vê, é assunto aberto a investigações históricas
e a muita especulação – isso de falarem gritando muitas
das brasileiras.
Nossas meninas precisam de aprender a conversar em
voz de conversa – que é uma tão linda e tão deliciosa voz
– mesmo antes de aprenderem a “recitar” ou a “dizer”.

Diario de Pernambuco, 14 de fevereiro de 1926

148
Antônio Camelo:
o exercício democrático do jornalismo
Gladstone Vieira Belo

F. Fraser Bond, em livro que influenciou um grande nú-


mero de jornalistas brasileiros, escreveu que as pessoas, na
sua maioria, veem “a imparcialidade como uma virtude que
se esforçam por alcançar. O jornalismo vê a imparcialidade
como ideal. Os melhores redatores e os melhores jornais
procuram evitar a parcialidade deliberada e intencional. É
hoje uma prática generalizada permitir que as partes con-
trárias exponham suas razões. O ideal de imparcialidade é
alcançado pelo jornalismo que evita erros, tendenciosida-
de, preconceitos e sensacionalismo”. Assim entendia An-
tônio Camelo o exercício do jornalismo, que considerava
uma atividade voltada, na sua essência, para o bem públi-
co, vendo o contraditório de que fala Bond como um dos
pressupostos básicos da imprensa no Estado de Direito. Ca-
melo foi um jornalista de firmes convicções democráticas.
O livro de F. Fraser Bond, An introduction to journalism,
traduzido para o português por Cícero Sandroni, apare-
ceu no mercado brasileiro em 1959, lançado pela Livra-
ria Agir Editora. Começava no Brasil a profissionalização
da carreira, com o surgimento de faculdades de jornalis-
mo. Bond integrava o Departamento de Jornalismo da
Universidade de Nova York e a tradução de Sandroni foi
prefaciada por Walter Ramos Poyares. “Falando a públi-
cos cada vez mais numerosos, o jornalista é chamado a
informá-los e a orientá-los sobre tantos setores em quan-
tos se intromete o engenho humano”, sublinhava Poyares,
ao salientar que existe, nesse campo de atividade, “muito
Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo

pormenor de natureza técnica”. Ouvi algumas vezes An-


tônio Camelo citar o manual de F. Fraser Bond nas con-
versas de redação, que giravam, uma vez por outra, em
torno de questões teóricas ligadas à prática jornalística. O
jornalismo depende também de certas noções conceitu-
ais, aspecto ao qual Camelo estava muito atento.
Esse alagoano pernambucanizado ingressa no jornalis-
mo ainda pisando as cinzas quentes do Estado Novo. Vivia-
se o ano de 1946, quando, pelas mãos de Edson Regis, ele
chegou ao Diario de Pernambuco para exercer as funções de
noticiarista, sob o comando de Aníbal Fernandes, então
diretor do mais antigo jornal em circulação na América
Latina. Aníbal, seu professor no Ginásio Pernambucano,
era uma figura poderosa do jornalismo recifense e mar-
cou profundamente a formação intelectual do jovem re-
pórter. Homem de inquestionável coragem cívica, Aníbal
Fernandes combateu, sem medo, a ditadura de Getúlio
Vargas e os seus apaniguados, expondo-se à perseguição
da polícia política, bem instalada em Pernambuco.
“Foi a jornada heroica de 45 que me trouxe ao Diario”,
recordou Antônio Camelo, anos depois, falando aos seus
antigos companheiros da Faculdade de Direito do Recife,
onde se graduara, em 1947. No discurso, que celebrava os
40 anos de formatura, Camelo relembrou ainda diversos
lances da campanha pela redemocratização do país, mo-
vimento que culminara, no Recife, com os trágicos episó-
dios de 3 de março de 1945, em que foram mortos pela
polícia do Estado Novo o estudante de Direito Demócrito
de Souza Filho e carvoeiro Manoel Elias. O cenário: a Pra-
ça da Independência, que os recifenses carinhosamente
chamam de Pracinha do Diario, na qual se localiza o im-
ponente edifício que abrigou, por uma centena de anos,
a mais antiga publicação do mundo editada em língua
portuguesa. “O 3 de março, confessou Antônio Camelo,

150
Gladstone Vieira Belo

foi para mim uma tarde de intensas emoções e de agudas


sensações. Nunca mais os acontecimentos daquele dia me
fugiram da lembrança. Basta fechar os olhos, concentrar
os pensamentos, para ver na frente do prédio do jornal,
naquela tarde ensolarada e calorenta, a figura do seu bra-
vo diretor Aníbal Fernandes se preparando para falar à
multidão que chegava em passeata desde a Faculdade de
Direito do Recife. Aníbal tinha uma voz bem fininha e por
certo descera à calçada do Diario para ser mais bem ouvi-
do pelo povo, como tantas vezes fizera antes nas grandes
vitórias das forças aliadas na Segunda Guerra mundial. Eu
estava ao lado de Edson Regis e José Gibson, a 10 metros
da entrada do jornal. No batente do prédio vizinho, co-
nhecido grupo de pelegos sindicais do Estado Novo dis-
cutia brandindo seus revólveres.” Ele foi, portanto, uma
testemunha ocular dos trágicos acontecimentos daquele
dia fatídico. Testemunha e, ao mesmo tempo, protagonis-
ta, entre os milhares de pernambucanos que protestavam
contra a ditadura getulista, em plena praça pública, diante
do edifício do combativo jornal, que Assis Chateaubriand
incorporaria aos Diários Associados, em 1931, num tempo
também de grandes expectativas de natureza política.
O historiador da imprensa que deseje esboçar um per-
fil definitivo de Antônio Camelo, perfil intelectual e psi-
cológico, não poderá se esquecer desses episódios, que
deixaram marcas tão salientes na sua biografia. Foram
acontecimentos decisivos para as suas opções de natureza
política. Desmantelado o Estado Novo e restabelecidas as
franquias democráticas, Antônio Camelo abandona a mi-
litância política, que envolveu muitos companheiros de
geração: Odilon Ribeiro Coutinho, Paulo Rangel Moreira
e Salviano Machado, entre outros. Odilon, anos depois,
vai para o Congresso, eleito deputado pelo Rio Grande
do Norte, em um também crucial momento da vida bra-

151
Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo

sileira; Paulo Rangel alcança a presidência da Assembleia


Legislativa do Estado; e Salviano torna-se vice-governa-
dor de Pernambuco. Camelo, abandonando a militância
política, que o empolgara na jornada de combate à dita-
dura, volta-se, de corpo e alma, para o jornalismo, convi-
vendo, na redação do Diario, com as novas realidades que
as transformações institucionais impuseram ao país.
O jornal revigora-se, animado por essas mudanças, e
Aníbal Fernandes, no seu comando, reafirma os velhos
compromissos do Diario de Pernambuco com a ordem de-
mocrática. Antônio Camelo observa que Aníbal Fernandes
defendia um jornalismo de tendência francesa, opinativo.
Ancorado nessa escola, diz Camelo, Aníbal “colocava a opi-
nião acima da informação. Só o fato é sagrado. O comen-
tário é livre, e bote liberdade nisso. Opinião sem rodeio,
severa, frontal, crítica. Diante dos acontecimentos nada de
imparcialidade. O jornal que se preza não pode ficar em
cima do muro. Deve assumir posição, tomar partido, mar-
char para a luta. Politique d’abord, o lema de Maurice Barrès,
era o lema de Aníbal, que não se cansava de repetir à equi-
pe que o Diário, em toda a sua história, nunca fora neutral”.
As ideias de Aníbal Fernandes, que Camelo tão bem reme-
morou, assinalam um dos mais instigantes períodos da vida
do jornal fundado no já muito distante ano de 1825.
Uma outra grande figura do Diario de Pernambuco, que
surgia sempre nas lembranças de Antônio Camelo, ao re-
cordar aqueles tempos, era Mauro Mota, que orientou,
por longos anos, o seu Suplemento Literário, que circulava
aos domingos, abrindo as suas páginas aos jovens escrito-
res e às diferentes correntes culturais, num movimento de
ampla repercussão regional, como registra Jodeval Duarte
em livro que documenta esse trabalho, intitulado Agitação
cultural: o Suplemento e Mauro Mota. Além de respon-
sável pelo Suplemento, em que colaboravam alguns dos

152
Gladstone Vieira Belo

mais representativos nomes da literatura brasileira, Mau-


ro foi também secretário e diretor do Diario. Entretanto,
ao contrário de Aníbal, sublinha Camelo, Mauro Mota
“seguia a escola norte-americana do jornalismo priorita-
riamente informativo. Comunicar os fatos honestamente,
sem tendenciosidade, para atender o direito dos leitores
de serem bem informados e poderem eles mesmos tirar
suas próprias conclusões. A opinião ficava para as páginas
especializadas, devendo ser sempre emitida pelos edito-
rialistas, à base de fatos e informações fidedignas”. Para
Antônio Camelo, o Diario conseguiu tirar proveito desse
antagonismo conceitual entre os dois grandes jornalistas,
que se ligavam por afetuosos laços de estima recíproca.
Camelo explica como era superado esse choque de ten-
dências: “O estranho é que os conceitos divergentes de
ambos sobre comunicação, as diferenças psicológicas, os
temperamentos contrários desses dois homens, como se
obedecessem à lei da física, em vez de se repelirem, se
atraíam, se amalgamavam, numa fusão das mais benéficas
para o desempenho do jornal. O que resultou do traba-
lho conjunto de ambos foi um Diario mais vibrante, com
uma cobertura noticiosa mais ampla, um melhor nível de
reportagem. Uma redação clara e precisa das matérias in-
formativas, ao mesmo tempo em que se produziam, sob
o calor dos acontecimentos, admiráveis editoriais, todos
fiéis à linha da palavra incisiva e audaciosa.” Camelo re-
cordou esses tempos numa conferência proferida no Ar-
quivo Público Estadual, em agosto de 1991, num painel
organizado para assinalar os 80 anos de nascimento de
Mauro Mota, abrindo o seu pronunciamento de maneira
enfática: “A contribuição que deu ao Diario de Pernambu-
co, ao longo de mais de 40 anos de serviço, registra seu
nome, para sempre, entre os grandes vultos da história do
sesquicentenário do jornal”.

153
Antônio Camelo: o exercício democrático do jornalismo

Antônio Camelo mostrou-se, ao longo da sua fulguran-


te carreira jornalística, mais próximo das tendências da
escola em que se inseria Mauro Mota, embora fosse um
apaixonado pela França, pela sua literatura, pela sua arte,
pela sua filosofia, pela sua história e pelos seus pensado-
res políticos. Camelo falava francês fluentemente. Ao seu
agudíssimo senso jornalístico junta-se uma sólida cultura
humanística, procurando sempre atualizar os seus conhe-
cimentos através de leitura intensa e viagens ao exterior.
O professor Potiguar Matos, que foi editorialista do Diario
de Pernambuco – por muito tempo, e que com ele manteve
intensa convivência, de quase 20 anos, destacou, em como-
vente depoimento, este expressivo detalhe do retrato inte-
lectual de Camelo: “Um dos traços de sua personalidade,
que logo me marcou, foi sua devoradora fome de saber. Era
leitor inveterado, familiar dos clássicos, atraído, também,
pela obra do dia a dia, a teoria mais nova, a perene renova-
ção do conhecimento, através dos contemporâneos”.
Fez Antônio Camelo uma invejável carreira profissio-
nal, que o coloca entre os mais notáveis jornalistas da sua
geração. Ocupou no Diario, e em outros órgãos Associa-
dos de Pernambuco, todos os postos de direção. Teve,
por diversas vezes, oportunidade de deixar o Recife, mas
preferiu, diante de insistentes convites, manter-se fiel aos
profundos laços de afetividade que o ligaram a Pernam-
buco, particularmente ao velho jornal fundado, em dias
remotos, por Antonino José de Miranda Falcão. Camelo
entrou no Diario de Pernambuco para ocupar interinamen-
te, durante três meses, a vaga de noticiarista. Lá perma-
neceu, contudo, por 46 anos.

154
A flatulência bovina
Gustavo Krause

Acrescido de “Ou a teoria do pum”, tem tudo a ver


com o assunto do momento: as mudanças climáticas e a
lambança que foi a COP15, realizada na Dinamarca.
Restou uma conta enorme para boi e familiares (buba-
linos, caprinos, ovinos, asininos e muares, todos mamífe-
ros ruminantes), o que me deixou injuriado. E explico.
Sou um apaixonado pelo boi a ponto de duvidar da
história de que o cachorro é o “melhor amigo do homem”.
Esta paixão vem da infância. Precisamente na Fazenda
Pirauá de propriedade do meu avô, município de João
Alfredo, quando os olhos da criança foram apresentados
àquele bicho interessantíssimo de índole mansa e com mil
e uma utilidades.
Nos saborosos tempos de férias, acordava com mugi-
dos que assinalavam o raiar da manhã e a ordenha nossa
de cada dia que faz da esposa do boi, a vaca, a ama de lei-
te da humanidade do berço ao túmulo. Aliás, que injustiça
atacar de vaca mulher vadia que sai por aí dando adoi-
dado! A vaca não dá, simplesmente, aceita a poligamia
explícita, negada por culturas e confirmada pela nature-
za animal. Apesar disso, seus maridos, os bois, chifrudos,
não estão nem aí para a maledicência.
Foi paixão à primeira, à segunda e às muitas vistas
que me fizeram entender aquele bicho enorme, de força
descomunal, porém, doce e meigo (boi brabo é exceção
assim como os touros miúras, bravios, treinados para o es-
petáculo dantesco da tourada; devo dizer que torço pela
chifrada do touro na bunda do toureiro).
A flatulência bovina

Jamais enxerguei o boi como “o churrasco antecipado


que procria”, ou seja, jamais imaginei suas partes disseca-
das em cortes especializados pela ciência gastronômica,
matéria-prima de pratos refinados de elegantes banque-
tes ou alinhados em vários espetos, correndo de mesa em
mesa para saciar a gula dos carnívoros.
Pelo contrário. O que me tocava era sua mansidão; seu
rosto plácido ruminando capim que nem os pensadores
ruminam suas ideias; seus olhos me emocionavam e ain-
da me emocionam porque transparecem um permanente
pedido de clemência aos seus futuros carrascos para co-
mutar a pena do destino trágico que lhes aguardam os
terríveis matadouros.
Ouvi o aboio do vaqueiro. Eliaquim tangendo o gado
para o pasto e de volta, no fim da tarde, para os currais, o
que me soava como uma espécie de cantiga de ninar, um
canto plangente que corta cerimoniosamente o silêncio
do campo.
Meus encantos dobraram depois que fui apresentado
ao “Boi Serapião”, poema-prosopopeia, nascido da sensi-
bilidade única e do inconformismo social de Carlos Pena
Filho ao criar um personagem em que se confundem boi
e homem, habitante do “campo vasto e cinzento” e que
na falta do “capim na terra e milho no paiol solenemente
mastiga areias, pedra e sol”.
Pois bem, distinto público, este bicho, que compõe
melopeia no ranger do carro de boi e que a gente “tan-
ge, ferra, engorda e mata”, tornou-se um grande vilão na
emissão dos gases (de nomes complicadíssimos) que pro-
vocam o efeito-estufa e, por sua vez, contribuem com a
novela do aquecimento global.
É aí que entra a flatulência bovina ou a teoria do pum
segundo a qual, além do desmatamento e da queima para
formação de pastagens, a peidaria coletiva de 1 bilhão

156
Gustavo Krause

de cabeças de gado responde pela catástrofe climática em


decorrência da “fermentação entérica dos animais rumi-
nantes, liberando gás metano (24 vezes mais potentes do
que o dióxido de carbono) para a atmosfera, através da
flatulência e eructação dos animais”,
Em estudo elaborado por renomados cientistas brasilei-
ros para a COP15 (2003/2008), está registrado que dos dois
bilhões de toneladas de emissão 50% resultam das ativida-
des pecuárias, isto é, provêm dos animais, principalmente
da pecuária, e o restante das “atividades humanas”.
Alto lá! Isto é conversa para boi dormir. A ameaça de
sobrevivência da humanidade por conta da degradação
ambiental é de responsabilidade total do homem, parti-
cularmente, do Homo rapiens, dissidente do Homo sapiens,
que pilha e devasta a natureza sem dó nem piedade.
Na COP15, as vacas de presépio, ou seja, os poderosos
chefes de Estado balançaram suas submissas cabeças para
poderosos interesses, interesses, aliás, que eles atende-
ram, pressurosos, quando ruíram as catedrais financeiras
da ganância. A COP deu com os burros n’água.
Sobrou, porém, da peleja ambiental, a retórica opor-
tunista de Lula, mais uma eructação demagógica que ele
joga no ventilador, tal qual o fez no Maranhão, ao plagiar
literalmente o bravo general Cambronne quando respon-
deu à proposta de rendição dos ingleses em Waterloo.

157
Da obscenidade
Hermilo Borba Filho

A confusão que se faz entre obscenidade e pornogra-


fia tem conduzido muita gente em nossos dias a cometer
erros tremendos, manejando-se o erótico para lá e para
cá, falando-se que a seminudez dos jovens é uma imorali-
dade, proibindo-se os desenhos de Picasso, coisa esta que
não ajuda em nada a formar uma boa imagem do Bra-
sil no exterior. Por isto, aconselho ao meu amigo Renato
Carneiro Campos (estou baseado em uma nota publicada
por Paulo Fernando Craveiro e não sei se o meu amigo
continua com a ideia) que nem pense em fazer uma expo-
sição erótica de Francisco Brennand, José Cláudio e João
Câmara porque, com certeza, os moralistas lhe cairão em
cima, incapazes como são de distinguir entre o que é obs-
ceno e pornográfico.
Henry Miller, em A obscenidade e a lei de reflexão, diz
“quando a obscenidade aparece na arte, particularmente
na literatura, comumente adquire o valor de um processo:
o elemento deliberado que aí se encontra nada tem a ver
com a excitação sexual, como é o caso da pornografia. Se
há um pensamento oculto vai mais longe que a sexualida-
de. Seu fim é de despertar, comunicar um sentimento da
realidade. Num certo sentido, o recurso do artista à obs-
cenidade é comparável ao recurso do Mestre ao elemento
miraculoso”. A discussão vem de muito longe, por estrei-
teza dos moralistas, e o velho Tolstói já havia esgotado o
assunto quando escreveu o seu livro sobre a imoralidade
na obra de arte. A discussão torna-se cada vez mais ociosa
Hermilo Borba Filho

neste mundo em que os últimos tabus sexuais estão cain-


do. Claro que há muita coisa misturada e não poderia dei-
xar de ser assim: todo movimento revolucionário traz, em
sua realização, um sem-número de exageros, deformações,
abusos. Mas de qualquer forma, tudo isto, quero dizer, esta
transição é muito mais sadia do que a longa e terrível fase
que se viveu, dando-se ao sexo um conceito de sujeira e
conduzindo-se a função sexual para lugares escusos.
Enquanto a obscenidade é puramente subjetiva – e
agora estamos novamente no terreno da arte –, a porno-
grafia não. A pornografia tende a despertar, por meios
imorais, o desejo sexual. O que é obsceno para mim pode
não ser para outro e vice-versa. Outro dia, assistindo ao
pastoril do Velho Faceta, estava novamente pensando so-
bre isto. Os espetáculos populares são terrivelmente obs-
cenos neste sentido restrito de coisas ligadas ao sexo (para
mim, obsceno, no sentido de pornográfico, como o usa-
do pelos moralistas, é guerra, subdesenvolvimento, fome,
exploração do homem, e uma porção de coisas mais) e
o ator popular explora à vontade essa outra caracterís-
tica da obscenidade: sua capacidade de provocar o riso,
seu humor intrínseco, ao contrário da pornografia que
é sempre séria. Tudo é subjetivo, até mesmo encontrar
lirismo ou não em sexo, até mesmo mascarar desejos de
pornográficos ou experiências chamadas de pervertidas.
Classifica-se o sexo segundo as nossas conveniências. Por
causa desse direito particular que cada um tem em rela-
ção à obscenidade é que se costuma classificar os demais.
É natural que cada um se cerque de argumentos que pos-
sam justificar suas mazelas, se é que há mazelas.
Isto no plano das relações humanas. Quando se trata
então de obra de arte a coisa não tem limites. O julgamen-
to pessoal é válido e depende da burrice ou da inteligên-
cia de cada um, da sua cultura ou do seu analfabetismo,

159
Da obscenidade

da sua abertura ou da sua intolerância e vai do terrível


Index da Igreja à proibição de desenhos de Picasso. Repe-
tindo: eu se fosse o meu amigo Renato Carneiro Campos
não me arriscaria à exposição dos nossos eróticos (todos
eles excelentes), menos por comodismo e inércia do que
por interesses financeiros. Quando se proíbe uma obra
supostamente imoral por não se saber distinguir entre a
obscenidade e a pornografia, não se leva em conta o di-
nheiro alheio. É muito cômodo.
O que os censores de qualquer espécie, oficiais ou
particulares, deveriam fazer, era meditar nos versos de
­Lawrence, um artista que foi também tão acusado:

Só é imoral
ser morto-vivo,
sol extinto,
preocupado em tomar o Sol
dos outros.

Diario de Pernambuco, 22 de março de 1973

160
Os ETs eram todos comunistas
Homero Fonseca

De repente, uma informação despretensiosa que me


foi passada por e-mail (uma “madeleine” virtual) por um
antigo camarada, me faz mergulhar no túnel do tempo.
Recebo mensagem do jornalista e escritor Rubens Coe-
lho, a quem não vejo há 40 anos, diretamente de Mossoró
(RN), onde mora e atua.
E me vejo em 1965, aos 17 anos de idade, quando, com
medo da repressão da ditadura, fugi para Fortaleza. Eu mo-
rava em Caruaru, participara da autodissolvida União dos
Estudantes Secundaristas local e tinha iniciado a vida pro-
fissional na Rádio Cultura do Nordeste, escrevendo jornais
falados e uma crônica diária. Como na primeira etapa do
golpe (a segunda viria com o AI-5, em 68) havia um certo
espaço para críticas, andei questionando pelo ar aspectos
da “revolução”. Não tardou e dois oficiais do Exército fo-
ram me procurar na emissora. Enquanto parlamentavam
com José Almeida, dono e diretor da rádio, eu, avisado por
um colega, me escapuli bem sob os narizes deles, que não
imaginavam ser o cronista um garoto quase imberbe. Eu
tinha notícias da repressão que se abatia em todo o país,
soubera da exibição de Gregório Bezerra como troféu, se-
minu e ensanguentado, na Praça de Casa Forte, no Recife,
e tinha topado com um rapaz, Ivanildo, da Ótica Globo,
sendo preso no local de trabalho e levado num caminhão
verde-oliva. De maneira que não paguei pra ver. Meu ami-
go Gianninni Mastroianni, que tinha um irmão publicitário
em Fortaleza, estava indo morar lá e me ofereceu apoio.
Os ETs eram todos comunistas

Fui com ele num ônibus, via Crato, e me hospedei na


pensão de Dona Galdina, na Rua Assunção Cearense. Em
pouco tempo, estava articulado com o movimento estudan-
til e daí para a militância no POR(T) – Partido Operário
Revolucionário (Trotskista) –, ligado à IV Internacional,
foi um passo. Os trotiskistas estavam arrebanhando os re-
manescentes do PCzão, a quem culpavam pelo golpe pela
tibieza de suas posições políticas alinhada “à velha burocra-
cia soviético-estalinista”. Era uma explicação simplista, mas
nos escombros da crise uma explicação é tudo que basta. Os
dois principais dirigentes chegados ao Ceará eram “Davi”
(Rômulo, que eu conhecera de vista agitando em congresso
estudantil em Pernambuco) e “Waldemar” (um paraibano
que sofria de degenerescência muscular progressiva). Co-
mecei a militar numa célula de base e quase diariamente
me encontrava com os camaradas Rubens, Arlindo e Cláu-
dio para discussões políticas e distribuição de tarefas. Meu
codinome era “Miguel”. Eu havia arranjado um emprego
no jornal “O Nordeste” e me matriculado no 2º ano clássico
do Colégio Municipal, mas mergulhei tão fervorosamente
nas tarefas revolucionárias que abandonei tudo e me “pro-
fissionalizei”, isto é, fui morar num “aparelho” com “Davi”,
sua companheira “Ema” e “Waldemar”. Redigia um jornal-
zinho partidário e dei assistência, com imenso orgulho, a
uma célula operária, numa vila industrial da região metro-
politana de Fortaleza. Eu me sentia um elo da ampla alian-
ça operário-estudantil-camponesa. Éramos tão envolvidos
naquele universo meio literário (mas perigoso) de conspi-
ração, que, certa vez, nosso grupo juvenil, estando reunido
na Praça do Liceu, viu se aproximar um “policial” à paisa-
na; para disfarçar, decidimos, na hora, cantar uma música.
Mas deu um branco em todo mundo e quando o cara, que
felizmente não desconfiava de nada e nem era do DOPS,
estava justamente passando por nós, Arlindo lembrou de

162
Homero Fonseca

uma música e soltou a voz: “Podem me prender, podem me


bater, que eu não mudo de opinião!”
No início, eu conciliava a “vida revolucionária” com a
“vida normal”, digamos assim: vez por outra escrevia para
os amigos em Caruaru; aos sábados, sem dinheiro e a fim
de tomar umas cervejas, eu e Arlindo íamos algumas vezes
à Rodoviária, à hora da chegada do ônibus de Massapê,
terra dele, pois sempre desembarcava algum conhecido
e, feliz por encontrar um conterrâneo logo na chegada à
capital, pagava generosamente uns tragos. Um ou outro
domingo, eu e Cláudio praticávamos um “desvio revolu-
cionário”: valendo-nos de um camarada, velho comunista,
porteiro do Clube dos Diários, em plena Praia de Iracema,
entrávamos de fininho, tomávamos uma cerveja e dáva-
mos uns mergulhos na piscina do clube de classe média
abastada. Cláudio era uma figura notável, o tipo do cara
empolgado com tudo que fazia – olhos brilhantes, gestos
incisivos, elétrico nos seus 21 anos, sempre usando uma
expressão exclamativa peculiar: “Fodendo meio mundo!”
Com o tempo, comecei a sentir um estranho desloca-
mento em relação ao cotidiano das pessoas comuns. Se via
um filme de Fellini, sentia o cheiro da decadência burgue-
sa. Se tomava uns tragos com os amigos ou camaradas,
me sentia culpado. Até meu namoro com uma moreninha
chamada Glória, quando ela se declarou fã da cantora
Wanderléa, foi por água abaixo. Pensava obsessivamente
na coerência, nas ações revolucionárias, nos perigos da
repressão, vendo tudo como oportunidade ou malogro
e todo contato humano como uma potencial conquista à
causa. Comecei a conhecer as brigas intestinas da orga-
nização (num encontro grande na Serra da Ibiapaba vi o
“Davi” espumando literalmente e sacar uma tesoura con-
tra um companheiro da direção nacional do qual discor-
dava) e com um ano nessa vida já estava meio esquizofrê-

163
Os ETs eram todos comunistas

nico, pois não aguentava a pressão dessa realidade vivida


sempre ultraintensamente; mas, por outro lado, achava
simplesmente deixar a luta uma capitulação vergonhosa,
a famosa “debreada”.
Estava abatido, emocionalmente carente e mental-
mente confuso. É quando me bate um panfleto que circu-
lava dentro da organização assinado pelo líder supremo
J. Posadas, ao qual, a meu ver, se concedia um culto à
personalidade. Era o seguinte: diante de uma daquelas
ondas de notícias sobre OVNIs na imprensa, Posadas con-
clamava os companheiros a aderirem aos invasores, pois,
vindos a bordo de uma tecnologia espacial tão avançada,
só poderiam viver num regime comunista (“etapa supe-
rior da civilização”) e, portanto, seriam nossos aliados na
grande Revolução que, agora, para muito além da con-
signa estalinista “Socialismo num só país” e mesmo da
consigna “Revolução permanente”, de Trotski, se trataria
de implantar o comunismo não apenas num só planeta,
mas em escala extraterrestre.
Caí com pneumonia e meu tio Biu foi me buscar,
levando-me de volta para Caruaru nas asas de um Ca-
ravelle, meu primeiro voo de avião. Uns meses depois,
procurei o camarada Sérgio, da seccional de Pernambuco,
para formalizar meu desligamento (e ele teve uma atitude
totalmente compreensiva, para minha surpresa). E nunca
mais me meti em organizações clandestinas, sem, porém,
haver perdido a certeza de que a utopia é necessária.
A notícia que causou esse fluxo de memória foi a respos-
ta de Rubens à minha indagação sobre o destino de Cláudio
Augusto Alencar Cunha, o cara do “fodendo meio mundo”.
A última notícia que eu tinha tido dele fora lendo, no Jornal
do Brasil, em matéria de primeira página, ele em foto de do-
cumento do antigo Liceu Cearense, por haver, com outros
três companheiros, sequestrado o primeiro avião comercial

164
Homero Fonseca

brasileiro e o levado para Cuba, um Caravelle, no simbólico


dia 8 de outubro de 1969 (dois anos após a morte de Che),
quando era, ao que parece, militante do MR-8. Eis o que
fiquei sabendo por Rubens: “Claudio, ao chegar a Cuba no
avião sequestrado, foi preso e ficou um bom tempo encar-
cerado. Provavelmente as suas posições políticas trotskistas
fizeram a segurança do Estado cubano desconfiar, pensar
tratar-se de um provocador. Libertado, retornou para o
Brasil, tornou-se um anticubanista radical. Arranjou um
emprego na Receita Estadual do Ceará. Os amigos que ti-
veram contato com ele, depois de sua volta, disseram que
Claudio estava completamente desmiolado. Neurótico, psi-
cótico, com mania de perseguição e outros problemas men-
tais. Ultimamente, dedicava-se a provar matematicamente
a existência de Deus. Menos mal, né? Em vários momen-
tos tentei entrevistá-lo, mas não consegui, o homem estava
muito arredio. Fiquei triste por não ter feito esse trabalho,
pois eu o estimava. Em nossa convivência quando alunos do
Liceu, já era um verdadeiro Maluco Beleza. Foi a primeira
pessoa que falou em J. Posadas em Fortaleza, andava pra
cima e pra baixo com o livro desse cara debaixo do braço. Aí
o Partidão tomou conhecimento e resolveu mandá-lo para a
Alemanha Oriental, a fim de fazer um “curso” de capacita-
ção política. Veio o golpe e a viagem não se realizou. Então,
é isso, meu caro Homero, se olharmos para trás, viraremos
pedra de sal. É a vida.”
O jornal Tribuna do Norte (TN online), de Natal, em
23.02.2007, divulgou sua morte: “Morreu no último sá-
bado, de parada cardíaca, em Fortaleza, Cláudio Alencar
Cunha. Alencar Cunha, que tinha 64 anos, sequestrou,
em 1969, durante a Ditadura Militar, um avião Caravelle
da Companhia Cruzeiro do Sul, que fazia a rota Rio de
Janeiro-Manaus e desviou a rota para Cuba. Ele não era li-
gado ao movimento político ou a grupos guerrilheiros e, à

165
Os ETs eram todos comunistas

época, disse que, com o sequestro, pretendia chegar a uma


“Cuba perfeita”. No país socialista, Cláudio Alencar Cunha
trabalhou como cortador de cana. Depois conseguiu asilo
no Equador e em Portugal, até ser anistiado pelo Gover-
no brasileiro, 10 anos depois do sequestro, em 1979. Em
1982, chegou a se candidatar a deputado estadual pelo
PMDB, no Ceará, mas não se elegeu. O falecimento só foi
divulgado hoje. Amanhã (24), às 19h, está marcada a mis-
sa de 7º Dia, na Igreja das Missionárias, em Fortaleza.
EM TEMPO: Rubens Coelho Figueiredo é jornalista e
escritor. Mora em Mossoró, RN. Seu livro Pelas ruas de Ha-
vana é um relato pungente, simples e direto da trajetória
de um militante socialista.
Arlindo Soares, sociólogo e consultor político, vive no
Recife.
Sérgio Buarque, recifense, é economista e consultor de
planejamento.
Rômulo Fontes (“Davi”), segundo o livro de Rubens,
passou a atuar em São Paulo onde foi preso numa tenta-
tiva de assalto a banco. Tornou-se analista de informação
do DOI-CODI, tendo participado do interrogatório de
antigos companheiros trotskistas.
J. Posadas era o pseudônimo do argentino Homero Rô-
mulo Cristalli Frasnelli, espécie de Trotski terceiro-mun-
dista, líder da facção latino-americana da IV Internacional
Comunista. Na juventude, chegou a ganhar fama como jo-
gador do Estudiantes de La Plata. Começou a desenvolver
suas teorias sobre os OVNIs em 1968. Ele também acredi-
tava, no auge da guerra fria, que dos escombros de uma
inevitável guerra nuclear surgiria uma nova sociedade
mundial fraterna, de bases comunistas. Faleceu em 1981.

16 de agosto de 2009
Blog de Homero Fonseca. www.homerofonseca.com.br

166
A vida sexual dos idosos
Hugo Vaz

Em formidável e cativante livro sobre Ortotrofia, ciência


que estuda a correta nutrição (do grego orthos, que quer
dizer direito, e de trophê, a significar alimentação) – livro que
esteve por muitos anos à minha cabeceira, ao lado das
rubaiatas de Omar Khayyám – Albert Mosséri transcreve
passagens da obra do cientista suíço Ralph Bircher, afir-
mando que os Hunzas são o povo mais saudável da terra.
Vivem no Norte da Caxemira, na região ocidental do Ti-
bete, em perfeita saúde, onde até as doenças da velhice
não existem. É provável que a região tenha inspirado ao
escritor norte-americano James Hilton a criação do seu
famoso romance Lost horizon (“Horizonte perdido”), local
utópico que chamou de Shangri-lá.
Depois de minuciosa narrativa sobre capacidade e es-
forço, jovialidade de caráter, paciência, meio-jejum que
fazem na primavera, crenças, festas, habitação e alimen-
tação, Mosséri aborda o aspecto sexual daquele povo in-
vejável. E aponta, entre outras razões, a origem da bela
saúde dos Hunzas, exatamente no capítulo 40, penúltimo
do precioso livro:
Juntemos a isto tudo as práticas sexuais perfeitas: o
mínimo de relações necessárias com vista à procriação de
um filho de três em três anos – e nada mais.
Quando acabei de ler o livro pela primeira vez em
1970, tive ímpeto de jogá-lo ao lixo. Não é conselho, nem
exemplo, que se dê a homem nenhum: – um mínimo de
relações sexuais de três em três anos! Grande asneira!
A vida sexual dos idosos

Anos depois, em 1987, a imprensa brasileira divulgava


entrevista com o médico urologista baiano Aday Couti-
nho, em que preconizava
... apenas de três a dez relações sexuais a vida inteira, sob
pena – dizia o ascético doutorzinho – de o homem ser punido
com um adenoma ou câncer prostático.
Pois bem. Como se já não fossem absurdos os depoi-
mentos e argumentos de autoridades mundiais (doutores
talvez até já broxados pelo desuso...), jornais de São Paulo
tentam reforçar a crença de que os idosos não têm tesão.
Circulou na Capital paulista – e depois em várias Ca-
pitais brasileiras – curiosa brochura com sugestivo título:
A vida sexual depois dos 60 anos. O autor, não identificado,
revela que escreveu o livro depois de longos e concludentes
depoimentos de pessoas que já atingiram aquela idade. A
conclusão da pesquisa está contida nas páginas seguintes
à Introdução: – todas as cem páginas do livro estão em
branco..., insinuando, e tentando fazer crer, sobre a au-
sência total de atividade sexual para aqueles que comple-
taram já os 60 anos de idade.
Pura, satírica e injusta gozação! Não é preciso ser ne-
nhum atleta sexual para que se mantenha, ao longo de
toda a existência, ritmo frequente de saudáveis relações
sexuais. A Medicina Forense abriga em seus anais inúme-
ros casos de violentadores eróticos de idade já bem avan-
çada. A natureza biológica da mulher a fez de tal forma
que ela, engravidando uma vez em um ano, levará nove
meses para gestação e parto, em termos regulares. Já o
homem, por outro lado, está apto (sem qualquer conota-
ção machista) para fecundar quantas fêmeas se lhe caiam
na cama, tantas quantas sua capacidade genésica permitir
ao dia, por semana, ao mês, ao ano.
Quando eu ainda tolerava a advocacia, atuei em pro-
cesso de inventário de uma figura notável da História de

168
Hugo Vaz

Pernambuco, descendente direto e ilustre de herói da Re-


volução Praieira, em 1848 – Nunes Machado – no final
do ciclo de revoluções liberais que convulsionaram o Es-
tado. Revelo nesta crônica, forçado por escrúpulo ético-
profissional, apenas suas iniciais – M.G.N.M. Morreu aos
96 anos de idade de complicações intestinais. Deixou es-
posa e três amantes, teúdas e manteúdas, além de mais 43
herdeiros, entre filhos, netos e bisnetos, e mais um filho
com oito meses de nascido, e um outro com quatro anos.
Faleceu sem adenomas, sem câncer, a próstata intacta.
E o que dizer do curandeiro do Zimbábwe (África),
Thuma Nzumakaze, de 88 anos de idade, já na vigésima
quarta esposa e tem 139 filhos? Diz a notícia:
Em maio passado, três esposas lhe deram filhos. Nas próxi-
mas semanas, as três últimas também darão à luz. Mas Thuma
não está satisfeito. Acaba de se casar com a vigésima quarta,
Laster, uma adolescente de apenas 13 anos...
E o que dizer, ainda, do arrieiro siciliano de 92 anos,
Pepino d’Allura, famoso amante italiano que teria inspira-
do o escritor D. H. Lawrence, autor do romance O amante
de lady Chaterley, em que o romancista narra as aventu-
ras amorosas de um guarda-florestal, idoso, que mantém
múltiplas e vigorosas relações sexuais com a esposa de um
marido mutilado de guerra?
E para concluir, uma mulher –, a jornalista, escritora
e princesa italiana Cristina di Belgiojoso, fundadora, em
1848, em Milão (Itália), do jornal La Gazzetta Italiana, a
quem um dia uma entrevistadora teria perguntado com
que idade a mulher deixava de fazer amor. Ela, maliciosa-
mente, deliciosamente, respondeu:
– Não sei, só tenho 80 anos...

Jornal do Commercio, 24 de novembro de 1992

169
Martini seco
Inah Lins

Hoje, serena, flutua,


metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.
(Carlos Pena Filho)

Ontem, debruçada no peitoril da janela, fui surpreen-


dida por um quadro inesquecível.
Navio aportando devagar, cauteloso, diante da cidade
desconhecida que o saudava com nuvens formando raios
vermelhos na violenta luminosidade do crepúsculo.
O céu de final de tarde desenhava um caleidoscópio, o
que complementava a saudação ao visitante, após atraves-
sar o mar e, ao longe, vislumbrar o Rio Capibaribe. E as
luzes da nave acenderam em reverência ao Recife.
Deitei na rede ao lado do vidro da janela baixa e a sensa-
ção era a de que ele junto aportaria. De imediato, senti-me na
obrigação de apresentá-lo à minha cidade. Um marinheiro
com procuração do visitante me acompanhou, testemunha
que tudo documentaria para depois ao mundo mostrar.
Encontrei o representante do Comando do navio ho-
landês no Cais. Cumprimentamo-nos. Logo perguntei se
falava francês, receosa que, se apenas holandês, eu teria
de me comunicar por mímica. Por sorte, ele disse que sim.
Caminhamos na direção do marco nascedouro da cidade e,
enquanto andávamos, fui contando a histórica formação.
Dirigimo-nos ao início da cidade, aos muros erguidos
para resguardá-la, onde o mar se encosta e descansa nos ar-
Inah Lins

recifes. Sentamos diante do Marco Zero, primeiro berço que


embalou a vila. Falei dos antigos Arcos que a rodeavam, à
época chamada Cidade dos Arcos, construídos pelos seus an-
tepassados e infelizmente destruídos por mãos insensíveis.
Convidei-o para um lugar-surpresa, onde teria muito
que ver e longa história a ouvir. Olhou-me assustado.
– Não se preocupe, irei apresentá-lo a um milagre, ao
que pode ser transformado a partir de uma ruína. Uma
memorável obra construída pelos seus ancestrais, restau-
rada pelas mãos sensíveis dos pernambucanos.
– O que é isso? Algum Palácio, o antigo de Friburgo?
– Vamos entrar, sentaremos num banco diante de um
tapete de cerâmica, obra do artista, Ariano Suassuna, e lá
contarei a história desse espaço mágico.
No berço da cidade, o Marco Zero, convidei-o para um
brinde no terraço do restaurante no último andar. Estarre-
cido com tanta beleza, falou a língua natal, entendi apenas a
palavra Amsterdã. Contei-lhe então a reconstrução do atual
Paço Alfândega, antes apenas ruínas dos alicerces. Apontei
o Rio Beberibe, que depois vai se encontrar com o Capiba-
ribe, chamado, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, de
O cão sem plumas. Mostrei as torres da Igreja de São Pedro,
situada no Pátio do mesmo nome, onde são realizadas festas
folclóricas. Admiramos a beleza das pontes iluminadas.
Encerrada a aula de História, descemos e disse ter ou-
tra surpresa para mostrar. Caminhando até o novo espa-
ço, percebi lágrimas nos olhos azuis do marinheiro.
– O que é isso? Mon Dieu! Que grande livraria. Quero
subir, olhar os livros de história e levar alguns que tenham
as gravuras dos holandeses sobre as quais você me falou
e a história da formação desta linda terra. Entreguei-o a
uma vendedora amiga e saí escondida para comprar o
Livro geral, do poeta Carlos Pena Filho, do qual eu já ha-
via recitado parte do poema Roteiro sobre a cidade do Reci-

171
Martini seco

fe. Olhei o relógio, já era tarde, combinamos um encon-


tro no dia seguinte, às nove horas da manhã na Rua do
Imperador, defronte à Igreja da Ordem Terceira de São
Francisco, perto da Praça da República. Despedimo-nos
no charmoso café da livraria.
O dia estava lindo, a claridade da cidade refletia o
azul do céu em todos os monumentos. Encontramo-nos
na hora acertada. Dirigimo-nos à Igreja, entramos e Karl,
o marinheiro, apreciou o altar barroco todo revestido de
ouro. Fomos ao Gabinete Português de Leitura, onde fi-
cou maravilhado com a riqueza dos livros e a extensa do-
cumentação de grande importância histórica.
De lá, passamos pela Rua do Bom Jesus, onde se en-
contra a primeira Sinagoga da América Latina, recente-
mente muito bem restaurada pela colônia judaica.
Em direção à Praça da República chamei a sua atenção:
à direita, a Ponte Princesa Isabel; à esquerda, o Teatro de
Santa Isabel, uma das construções de beleza arquitetôni-
ca, de autoria do arquiteto Vauthier; em frente, o Palácio
do Governo, chamado de Palácio do Campo das Prince-
sas, em homenagem às filhas do Imperador Dom Pedro
II, que viriam em visita à cidade em companhia dos pais,
o que de fato não ocorreu, vieram apenas o Imperador e a
Imperatriz Tereza Cristina, mas assim ficou batizado.
Ainda na mesma praça, a imponente construção do
Palácio da Justiça, onde funciona o Tribunal de Justiça do
Estado. Sentamos num dos bancos, diante de bela fonte,
e contei o restante da história daquelas edificações. Apon-
tei o lugar onde deveria ter sido construído, por seus an-
tepassados, o Palácio de Friburgo, residência do Conde
Maurício de Nassau, local hoje da Secretaria da Fazenda.
Rumo ao Forte das Cinco Pontas, relatei a sua história,
ao sairmos, perguntei se desejava um passeio de barco,
aceitou. Caminhando, fomos ao lugar de onde partem

172
Inah Lins

os chamados catamarãs para uma volta à cidade e subúr-


bios através do Rio Capibaribe. A paisagem do caminho,
rodea­do de manguezal verde-musgo, contrastava com o
azul profundo do céu.
Descemos em direção ao Parque Treze de Maio, pa-
ramos diante do busto de Manuel Bandeira, privado de
olhar a casa do avô na Rua da União, hoje denominada
Pasárgada, cidade ainda cantada e amante, correspondi-
da, de outro poeta, Joaquim Cardozo.
Das pontes mostrei o rio escuro e triste, alegrando-se
em tempos de chuvas quando a lama é disfarçada pelas
baronesas vindas do interior. Paramos diante da Faculda-
de de Direito do Recife, construção com pátio interno de
ferro trazido da Bélgica.
Visitamos a secular casa de detenção, antigo presídio,
hoje chamada Casa da Cultura, enfeitada de rendas e arte-
sanatos coloridos que não conseguem calar sussurros, cho-
ros e lamentos dos presidiários no passado torturados.
Levei Karl aonde existiu a saudosa Ponte Giratória, de
ferro fundido, que com toque de cortesia deixava passar as
embarcações, abrindo larga porta aos navegantes com votos
de boas-vindas, hoje nada mais que lembranças em postais e
fotos recordados por quem não perdoa as mãos que a desfize-
ram. Buarque de Macedo, Boa Vista em arco, elegantemente
atravessam o Rio que, apressado, se encaminha rumo às vár-
zeas, protegido pelo corrimão formado pelos manguezais.
A cidade se estende pelos arredores rumo aos subúrbios
ainda premiados por alguns casarões coloniais. Caxangá,
Monteiro, Apipucos, onde encontramos a Fundação Joa-
quim Nabuco. No Bairro de Casa Forte, lembrança da casa
de Ana Paes, mulher famosa pela beleza e cultura, mansão
guardada na memória dos mais velhos, posto que soterrada
por mãos insensíveis e temerosas do seu tombamento pelos
órgãos de preservação da memória histórica da cidade.

173
Martini seco

História da mulher que amou e foi amada pelo prínci-


pe Maurício de Nassau, homem culto que tanto nos pre-
senteou com requintes culturais e arquitetônicos, vindo
para cá como representante da famosa Companhia das
Índias Ocidentais, além de pintores como Frans Post e ou-
tros artistas que nos legaram grandes obras de arte.
Ainda tivemos tempo de ir ao Bairro da Várzea, para
mostrar o que não poderia deixar de ser visto, a Oficina
Cosme e Damião, obra do artista Francisco Brennand, um
vitorioso da Arte, que conseguiu o milagre de transformar
as ruínas da fábrica de telhas do avô num espaço mágico,
onde estão expostas as grandes cerâmicas e pinturas de
rara beleza, podemos dizer, de um amante da arte.
A cidade se estende além do Rio e vai ao mar, forman-
do o horizonte onde se emenda à fúria do oceano, depois
de pintar de azul as praias ao longo do desenho curvilí-
neo do seu litoral. Preocupada com a hora, sugeri uma
ida rápida à praia da Boa Viagem, com toda a beleza azul
das águas e a sua extensão.
– Como gostaria de mais tempo para caminhar pela orla
dessa mágica natureza, como fazem os seus moradores.
Aceitei o convite de Karl para almoçar no restaurante
português, o Leite, decorado com azulejos brancos e azuis
e arquitetura lusitana, tradicional pela gastronomia e por
ser o mais antigo da cidade. Conversando, fizemos aná-
lises de hipóteses, entre elas, se tivéssemos permanecido
com seus antepassados, e chegamos à conclusão de que o
momento não comportava essas lembranças.
Foi então que ouvi a frase que desenhou o perfil de Karl.
– Quero esclarecer a razão da nossa vinda a esta cida-
de: no passado para invasão e domínio; hoje para conhe-
cer a Maurits Stadt.
Notei-o calado e com ar tímido, quando devagar foi
contando que o pai, também marinheiro, teria vindo ao

174
Inah Lins

Recife e gostaria que cumprisse uma promessa: se algum


dia aqui estivesse, não deixasse de ir ao local chamado
Chantecler, onde vivera uma história de amor com uma
linda mulher, e tomasse um Martini Seco em homenagem
a esse momento, inesquecível para ele. Fiquei confusa por
alguns momentos, o local era na zona de prostituição da
cidade, mas segurou-me a mão e o seu olhar era entre
comovedor e enigmático.
Após a sobremesa dos famosos pastéis de Belém e de
um café bem brasileiro, saímos, e em silêncio fomos cami-
nhando em direção ao Recife Antigo.
Chegamos aos velhos casarões desgastados pelo tem-
po, ele olhava, ora para os velhos sobrados, como se pro-
curando o lugar recomendado, ora para o meu rosto.
– Terei que cumprir a promessa feita ao meu velho pai
e gostaria de convidá-la para subirmos ao velho Chante-
cler, ei-lo.
Segurou-me a mão e subi as escadas. O lugar mostrava
o estrago do tempo, mas diante das palavras do marinhei-
ro senti que fantasiava o local, enxergando tudo como
fora descrito pelo pai. Pediu à garçonete um Martini, re-
comendando cerejas para enfeitar o drinque. Brindamos
o cumprimento da promessa e convidou-me para dançar.
Ali ficamos até o dia seguinte, quando o rosa da ma-
drugada iluminou a cama onde passamos a noite entre
conversas e carícias e ouvimos com pesar o som nostálgico
do apitar do navio chamando todos a bordo.
Abriram-se os portões antigos de ferro para a entrada
da tripulação.
Através das grades nos despedimos com a emoção ex-
pressa no olhar.

175
De celulares, sites,
e outras reflexões
Italo Bianchi

Os leitores que me desculpem a forma do título “à la-


tina” (De, etc.), uma bossa dos antigos clássicos e dos es-
critores mais pedantes da era moderna, mas pareceu-me
engraçado usá-la para tratar de dois assuntos de absoluta
atualidade: a comunicação via internet e a via telefones
celulares, e suas consequências culturais.
Se tivesse que escrever um roteiro para um documen-
tário sobre as mutações de comportamento provocadas
pelas inovações tecnológicas de todos os tempos, começa-
ria com uma cena que está num romance de Émile Zola:
um calígrafo testando metodicamente a maciez de sua
pena metálica na unha do polegar da mão esquerda (close
nela). Não fazia muito tempo que tinha terminado o em-
bate entre os defensores da pena de ganso, em nome da
bela caligrafia, e os adeptos da pena industrial metálica,
em nome da praticidade e da democratização da escrita.
Está aí um pequeno exemplo da eterna celeuma entre
conservadores e progressistas em relação às inovações tec-
nológicas, em que os primeiros sempre levaram a pior.
Desde que foi inventada a roda, as resistências às novas
tecnologias foram de toda ordem – ética, estética, social e
econômica. Não importa. Os conservadores sempre per-
deram, ainda quando cobertos de razões, como em inú-
meros casos da Revolução Industrial, em que as inovações
eram adotadas pela cobiça dos capitalistas, criando gra-
víssimos problemas para as classes trabalhadoras. (Quem
Italo Bianchi

não se lembra da revolta dos tecelões ingleses contra os


teares mecânicos que, no entanto, pelo barateamento dos
preços dos tecidos, acabaram gerando mais empregos, ao
preço, porém, do achatamento dos salários?).
Pulando a história da sucessão de novas descobertas
científicas, novas invenções e novas tecnologias, duran-
te séculos, e, ultimamente, durante décadas, chegamos à
espantosa e rapidíssima ascensão da eletrônica e, conse-
quentemente, da informática.
O inimaginável aconteceu. Através de um aparelhinho
que cabe na palma da mão podemos falar com quem quiser,
onde estiver – em casa, no escritório, na rua, no banheiro
ou na cama com a amante, de dia ou de noite. O telefonino
(como os italianos chamam este aparelho, o que lembra mais
o nome de um brinquedo) não perdoa e é sempre perdo-
ado. Ele invade, com todo consentimento, a nossa privaci-
dade e modifica a nossa educação. Desligá-lo, por qualquer
motivo de força maior, cria até complexo de culpa. Antiga-
mente, isto é, ontem ou anteontem, pedíamos desculpas a
um interlocutor se interrompêssemos uma conversa devido
a um simples espirro; hoje, quando ele toca, atendemos de
imediato, sem a menor cerimônia, e sem achar necessária
qualquer justificativa. No entanto, sua enorme utilidade é
indescritível, assim como a democratização do seu uso. Há
dias, vi uma cena edificante: uma carroça carregada de es-
trume, atrelada a um pangaré que trotava sob o comando
de um carroceiro em pé, feito um guerreiro romano em sua
biga, e falando no telefonino. Certamente devia estar tra-
tando do seu negócio de merda.
E o que dizer da internet? Um recurso de comunicação
nascido ontem, que nos permite saber tudo sobre tudo de
qualquer fonte e a qualquer hora. Que nos permite in-
teragir com qualquer pessoa em qualquer lugar. Ou de
brincar, feito meninos, e eles inclusive, de polícia e ladrão.

177
De celulares, sites, e outras reflexões

Ou de tratar de nossos negócios sem tirar a bunda da ca-


deira. Ou, falando em bunda, exercitar nosso voyeurismo
no completo anonimato. Por enquanto este brinquedo
maravilhoso está reservado, pelo seu custo, a uma classe
privilegiada que, encantada, está mudando seu estilo de
vida em função dele. Mas, assim que se tornar acessível à
maioria das pessoas, assistiremos a uma irreversível muta-
ção de comportamento da sociedade como um todo.
Já está na hora de concluir a matéria. É sempre assim.
No momento em que começamos a tomar gosto pelo as-
sunto, estamos chegando ao limite de toques ou da tole-
rância dos leitores.
E minha conclusão é a seguinte: quando o homem
pensou Deus à sua semelhança, conferiu-lhe três atribu-
tos – onipresença, onisciência e onipotência – na certeza
que ele, o homem, jamais poderia aspirar a tanto. Entre-
mentes os telefonini estão chegando perto da onipresença
com sua capacidade de se intercomunicarem a toda hora
e por toda parte. A onisciência está sendo alcançada pelos
milhares e milhares (ou milhões?) de sites, transportando
pelo éter milhões e milhões de informações. Quanto à
onipotência... Bem, parece que os gênios da informática
ainda não pensaram nisso.
Claro que estou brincando.

Pensando alto (99 crônicas). Recife,


Faculdade Maurício de Nassau, 2006

178
Pedras brutas
Ivanildo Sampaio

Em meados dos anos 70 do século passado, quando o


Mato Grosso ainda era um Estado único – não havia sido
partido em dois – estive lá, como repórter, diversas ve-
zes. Gostava de viajar por aquele mundo líquido e verde,
escuro e misterioso, com cidades plantadas no meio da
floresta, lagos, rios e cachoeiras, tão puros o quanto foram
no primeiro minuto da criação, as populações indígenas
olhando desconfiadas a presença do branco invasor.
Mato Grosso, Goiás, o norte do Amazonas e o sul do
Pará – toda aquela imensidão da floresta tinha sobre mim
uma espécie de magia, de alumbramento, de sentir que
estava convivendo com um testemunho vivo da presen-
ça de Deus. Vasculhei os baixios do Pantanal, viajei em
canoas guiadas por nativos dos rios amazônicos, dormi
em tendas armadas à beira de igarapés, almocei tucunaré
recém-pescado e cozido em panela de barro, voei num
velho Catalina com as asas remendadas com esparadrapo,
conheci o caiapó andarilho e arredio, estive na região ha-
bitada pelos cintas-largas. Na empresa onde trabalhava,
eu era provavelmente o repórter-itinerante de mais larga
intimidade com toda aquela imensa região.
Mudei de emprego, mas não de afeição pelo Norte e
pelo Centro-Oeste do país. Por conta disso, na nova em-
presa, uma das primeiras tarefas que me designaram para
cobrir foi o lançamento de um projeto denominado “Ari-
puanã”, tocado pela Universidade Federal do Mato Gros-
so e com participação dos Ministérios da Educação, do
Pedras brutas

Interior e de Minas e Energia. Era um daqueles projetos


típicos do “Brasil Grande”, tão caro aos governos milita-
res e que, confesso, impressionava pela sua abrangência.
Fincava, em plena floresta, um campus avançado da Uni-
versidade e um posto igualmente avançado de cada um
daqueles ministérios. Instalavam-se no meio da floresta
para estudar a biodiversidade da região, a fauna, a flo-
ra, os recursos minerais, a presença de tribos indígenas
não aculturadas. O que os repórteres não sabiam – e só
comentou-se muito tempo depois – é que tropas milita-
res também acompanhavam de perto o projeto, nas ações
reservadas que o Exército empreendeu para combater a
guerrilha no Araguaia. Mas isso já é outra história.
Para chegar ao projeto, deixamos Cuiabá a bordo de um
avião Hércules, da FAB, adaptado para o transporte de tro-
pas, e seis horas depois descemos num campo improvisado
sobre um platô, bem ao lado de uma cachoeira batizada
de Salto dos Dardanelos, uma belíssima queda d’água com
cerca de 130 metros de altura que, cá de cima, mal víamos
tocar o solo lá embaixo. Devo dizer que meu companheiro
nessa empreitada era o fotógrafo Claus Mayer, um alemão
grande e rosado, extremamente talentoso e igualmente
apaixonado pela natureza. Havíamos trabalhado juntos
numa revista semanal de muito sucesso, onde Claus, em
pouco tempo, tornou-se um dos nomes mais respeitados.
Ali, no Mato Grosso, ele estava como freelancer, trabalhava
para várias agências noticiosas do mundo, a Black Star, a
Mondadori, a Image Bank, entre outras. E insistia comigo
para que ficasse mais algum tempo na região, onde, nou-
tras partes do Estado, ameaçava-se um conflito entre índios
e posseiros. Ele ia fotografar, queria alguém que escrevesse
o texto. Sem dizer que sim nem que não, desconversei e
passei a explorar a periferia do projeto, conversando com
um trabalhador aqui, outro ali – até que comecei a descer o

180
Ivanildo Sampaio

platô para chegar à margem do rio que corria lá embaixo,


continuação da queda de Dardanelos.
Na solidão daquele mundo, no silêncio cúmplice da sel-
va, longe da vista das tantas pessoas que visitavam Aripuanã,
vejo-me diante de dois mestiços com mais cara de índio do
que de branco, ambos com um vasilhame na mão, mais ou
menos com a dimensão de um litro, cada. Pelo jeito, bastan-
te pesados. E me chamam para negociar. Querem vender o
conteúdo daqueles vasilhames. Só quando chego mais perto
dá para perceber que estão ali, naquelas latas rústicas, uns
dois quilos de diamantes brutos, garimpados à beira daquele
rio ou sei lá de quais, dos tantos pequenos e médios igarapés
que se escondem na imensidão da selva. Evidentemente que
não comprei, não tinha dinheiro para tanto nem era aque-
la a minha praia. Mas fiquei pensando: será que alguém
matou ou morreu pela posse daquelas pedras? Será que as
autoridades brasileiras tinham conhecimento do comércio
pirata que se praticava com pedras preciosas no coração do
país? Da evasão de riquezas que naqueles anos acontecia
quase à vista de tantas autoridades que estavam visitando
o Projeto Aripuanã? Não sei, não voltei mais lá, conversei
sobre o assunto apenas com meu companheiro Claus.
Algum tempo depois, de volta ao Rio, reencontro com
ele num boteco qualquer de Copacabana. Com aquele seu
sotaque alemão e um riso matreiro no rosto, Claus me
pergunta:
– Escuta, por que você não comprou as pedras daque-
les caboclos lá em Aripuanã? Eles estavam vendendo tão
baratinho...
Grande Claus, que um dia, desencantado da vida, sal-
tou para a morte do prédio onde morava, no pacato bair-
ro de Santa Tereza, deixando como legado o seu imenso
coração e algumas das mais belas fotos que já foram feitas
sobre o mundo amazônico.

181
Cartografia urbana da
Fundição Capunga
Janguiê Diniz

Às vezes somos vítimas de um saudosismo que se re-


cusa a entender que tempo muda cenário. Balzac chega
de fininho a um sentido meu e lança meus olhos ao chão.
Não ao chão do presente de minha cidade Recife. Mas
ao chão azul de um passado do Recife. E a voz de Balzac
continua, insiste, dizendo-me bem baixinho aos ouvidos:
“tempo muda cenário”.
Com sua insistência, abruptamente meus olhos se reno-
vam. Grito num comício dentro de minha alma que Balzac
me trouxe a jovialidade. Agora, sou um homem maduro,
mas com olhar novo, moderno e em progressão para o pós-
moderno. Já não mais estou cego ao presente. Na fundição
da Capunga, de fato, há uma nova pulsação: a Faculdade
Maurício de Nassau, fazendo parte da nossa História. E é
gostoso testemunhar que parte da Veneza Brasileira não está
morta, enterrada em uma fundição que já não mais existe
há anos. É prazeroso perceber que não mais estou preso a
uma minúscula fenda de uma caverna: o saudosismo.
Antes, paredes cansadas, fatigadas, entregues pela for-
ça natural do tempo. Pretas, queimadas pelo fogo forjan-
do o ferro a quente e a frio. Antes, o medo de caminhar
por ruas estreitas e estranhas que se recusavam a se entre-
gar à necessidade de uma população em busca de espaço
para investir em seus sonhos. Antes, de fato, um passado
petrificado em um saudosismo estranho à velocidade de
nossa época. Antes, por fim, um lugar sem o relógio de
nosso tempo. Eis a antiga fundição da Capunga.
Janguiê Diniz

A Capunga e as Graças surgiram de loteamentos de-


senvolvidos no século XIX, primitivo sítio que começa-
va na Camboa do Manguinho (Parque do Amorim) e se
estendia até à margem do Capibaribe. E, conforme nos
ensinou Clarice Lispector, por o tempo urgir, o sítio foi
dividido em dois: Capunga Velha e Capunga Nova. Das
mãos do sargento-mor Luís Ferreira Feio e sua mulher D.
Maria Correia Monteiro, com o tempo, passou para as do
comerciante açoriano Guilherme Fischer. Com a morte
deste, passou para as mãos da Irmandade de São Pedro
dos Clérigos do Recife. Com a insistência da filosofia ma-
chadiana, em 1878, concluiu-se a construção de um tem-
plo. E a população cresceu. Já havia 4.511 pessoas livres e
922 escravos. E para lá afluíam as novidades.
E surge, por exemplo, na fundição, o engenheiro e mes-
tre ferreiro Hermínio Filomeno forjando o ferro a quente.
Sua finalidade é dar forma ao ferro. Ofício que nos remon-
ta aos primeiros momentos da civilização egípcia.
Os passos do mundo parecem andar no ritmo da velo-
cidade da luz. Devemos nos preocupar com a velocidade
de nossos olhos. O bater de nossas pálpebras não pode
estar obedecendo à preguiçosa lentidão de um saudosis-
mo que freia nossa cidade. Já não é o ferro o único a dar
forma ao que nos circunda. Já não temos apenas 4.511
pessoas, ou melhor, 5.433 pessoas no antigo sítio.
Mas o homem não dorme. O homem pulsa. O homem
renasce. O homem faz germinar o aparente chão queimado,
infecundo e que repousa em minúsculas fendas de um pas-
sado que já foi o caminho das Índias. Sim, faz germinar!
Faculdade Maurício de Nassau! Como não enxerguei
tudo isso antes?! Como ela estava ilegível àquela primeira
vista... àquela vista cansada, velha e míope da qual há tão
pouco tempo me distanciei. Obrigado, Balzac! A realida-
de de uma cidade é sempre móvel. A vida de uma cidade

183
Cartografia urbana da Fundição Capunga

obedece à filosofia de Machado de Assis, ou seja, respeita


a filosofia dos humanitas. Isso! É necessário entender a
sequência natural de nosso espaço urbano, assim como
é mister compreender que precisamos morrer para dar
vida a quem teima em chegar. E chega!
E assim, enfim, nasce a Faculdade Maurício de Nas-
sau na antiga fundição. Já não há mais o descompromisso
com o local. Já não existe mais umidade naquele chão.
Para lembrar nosso poeta Manuel Bandeira, já estava na
hora de “lavar o tédio dos telhados que envelheciam”. Por
que a necessidade de se buscar em espaço onírico uma
Pasárgada para se viver a necessidade de nosso tempo?
Hoje, com a Faculdade Maurício de Nassau, há um
novo ferro dando forma a todo um coletivo de pessoas
não assistidas por um governo carente de recursos, preso
a um déficit público. O ferro nos portões da Faculdade
Maurício de Nassau nos lembra – mas apenas nos lembra
– aquelas 4.511 pessoas e aqueles 922 escravos. A fachada
da Maurício de Nassau na fundição é a fronteira entre o
chão que dá repouso aos olhos míopes do saudosista e a
nova cartografia urbana.
Existe um espaço onde se encontra o alimento mais
substancioso à formação do recifense, a educação. Milha-
res de jovens se instrumentalizam com o conhecimento
científico para ter identidade, garantia e desenvolver nos-
sa Veneza Brasileira.

184
O homem à margem
da cidade
Joaquim Cesário de Melo

O ano que se inicia é igual ao que passou, já que os re-


lógios não distinguem os dias: todos têm as mesmas horas
e os mesmos minutos. O que muda é a sequência dos nú-
meros nas semanas dos calendários e um ou outro amigo
que se foi, um ou outro que ficou. Se um dia não é mais
que duas voltas de um ponteiro – quantas voltas, então,
deve ter uma vida inteira? Poderia com tais ideias ocupar
a mente, mas nelas não pensava. A uma mente despida
de pensamentos, sobra-lhe o interior oco de palavras, o
indivisível do ser. Cada homem, todo ele, dentro de si,
é primariamente um homem baldio, pois o desencontro
vem sempre muito antes que qualquer encontro. O rosto
de alguém é alguém que não se conhece.
A madrugada é a tarde da noite e a ressaca do dia.
Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar de longínquos e
atrasados fogos que rareantes explodiam por detrás dos
edifícios que apontavam à lua, ao invés de arranharem o
céu. O mar estava quase distante. Preferia assim à quie-
tude companheira dos rios, talvez por temer oxidar de
salinidades e agitos. Alguns poucos eram como ele: des-
conhecidos entre desconhecidos, melhor do que em meio
a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de cumplicidade
irreconhecida se misturava ao fino frio do fim da noite.
Sorveu em um só gole todo o conhaque que continha o
copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a alma
com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez pelo
estômago vazio, fazia horas que trocara o corriqueiro jan-
O homem à margem da cidade

tar por um sanduíche de queijo e mortadela. Um tanto


tonto, porém insuficientemente, pediu a conta e pagou,
não sem antes solicitar outra dose.
Caminhava agora pelas ruas com a inabalável certe-
za de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois
partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos
da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um
dia em que nela se enterrará Quando por baixo dela vi-
ver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa
sua infância, seu passado, sua história… Os pés do adulto
que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone
e traído. Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pon-
tes, como várias vezes passará, até que passar não lhe seja
mais nenhuma obrigação.
Da cidade herdara o prenome e sobrenomes, bem
como os seus desígnios e destinos. Seu nome o revestia
de ser exatamente o que não era: o desejo de quem o ba-
tizou primeiro do que um padre. O batismo de um nome
é acima de tudo o legado de um sonho, e se o filho é o
espólio silencioso de um sonho, o nome deste é sempre
a frustração de um outro. Fadado ao insucesso, restava-
lhe a vida inteira para lembrar que ao nascer já não era
quem nunca fora. Chamava-se pelo nome do avô mater-
no a quem jamais conhecera. Uma mãe não devia, afir-
mava consigo e tomado pelo pensamento, parir um pai,
pois pais também se fazem de rupturas e cortes. Pudesse
adotar números em vez de letras, adotaria o um e o sete.
Setenta e um, ou dezessete, pouco importa, melhor assim
seria do que já era.
Ali ia o homem margeando o rio que margeava a ci-
dade que margeava sua vida. No limiar dos seus limites
amanhecia o amanhecer, embora ainda estivesse um pou-
co escuro e se iluminasse das luzes dos postes e da matina.
A princípio impercebeu que rumo ou rota seguia, tão so-

186
Joaquim Cesário de Melo

mente continuava como se o continuar fosse a tarefa dos


que ficaram. Quando por si se deu, logo compreendeu que
o longo muro que o seguia feito cachorro sem dono e que
se findava em um largo e elevado portão de ferro era todo
o cemitério. Plantado como um poste se planta, aguardou
o dia com suas claridades e consequências – acaso passas-
se alguém no adiantado daquela hora, imaginaria ser ele
uma assombração. Quando abriram o pesado portão não
se importou com o susto do zelador, continuou. Consigo
não trazia nada além da roupa do corpo e suas lembran-
ças, lembranças estas que depositaria, que nem flores, no
jazigo onde estavam os nomes da sua família.
Se me perguntarem se ele voltou ou se ele ficou, não
saberei neste instante responder. O que apenas sei foi que
ele não escutou, ou não quis ouvir, quando o zelador, edu-
cada e timidamente, pronunciou um distante, como dis-
tante é o mar:
– Feliz ano novo.

187
Preto-graúna
Joca Souza Leão

Quando cheguei à barbearia, o cidadão já tava lá, com


uma toalha enrolada na cabeça, como um turbante. E al-
godão (acho que era algodão) cobrindo as sobrancelhas,
como um de loja de subúrbio. Por menos curioso que eu
fosse, não tinha como não observá-lo. Tava sentado Papai
Noel na cadeira de barbeiro ao lado da minha. Portanto,
a cara de um tava no espelho do outro.
Enquanto a tolha e o algodão faziam sua parte – que
eu até então nem desconfiava quais eram –, a manicure
lhe fazia as unhas. E o barbeiro, a barba.
Passados uns vinte a vinte e cinco minutos, a cabeleireira
iniciou os procedimentos para desenrolar o turbante, com
todo aquele ritual e solenidade que a ocasião exigia. Mais
parecia uma oftalmologista retirando as ataduras do pacien-
te recém-operado. E que ainda não sabia se tinha recupera-
do a visão. Tcham-tcham-tcham-tcham... Sucesso total!
E o meu vizinho de cadeira exibiu, rindo para o es-
pelho, sua cabeleira e suas sobrancelhas mais pretas que
as penas de uma graúna. Não me pareceu marinheiro de
primeira viagem, aquela não era uma alegria deslumbra-
da. Era alegria renovada, periódica, com hora e dia mar-
cados. (Se chegou à barbearia com uns 70 anos, deveria
levantar daquela cadeira com, no máximo, uns 50. Assim
pensava – e devia se sentir –, por certo).
Que a indústria de cosméticos sacaneia com os ho-
mens, não há a menor dúvida a respeito. Só pode ser de
propósito. Mulher pinta o cabelo de qualquer cor e fica
Joca Souza Leão

uma maravilha. A gente é capaz de jurar que a loura não é


de farmácia e que a ruivinha puxou à tataravó escocesa.
Homem, não. Pintou, dançou. Parece mais um outdoor­
ambulante. Preto-graúna ou acaju (que, pra quem não
sabe, é uma madeira de tom castanho-avermelhado). Cus-
tava nada a indústria fazer tintas com cores de cabelo de
verdade? Preto, castanho, louro e ruivo? Mas não. Pra ho-
mem, são duas as tintas. Uma tem cor de pena de passa-
rinho. E a outra, de pé-de-pau, também conhecida como
cor de burro quando foge.
Com as perucas, então, a coisa é ainda mais séria. Para
as mulheres, todas dão certo. Naturais e sintéticas, com
mil penteados diferentes, longos ou curtos, lisos ou ondu-
lados, com tranças ou cachos, pretas, louras ou ruivas.
Pra homem, peruca não tem a menor chance. E isso
não tem nada a ver com a qualidade. O careca pode ter
todo o dinheiro do mundo e mandar fazer a peruca mais
cara do planeta. Quando sair de casa, sabe quem vai dizer
qu’ele tá de peruca? Deus e o mundo. Apenas. Não tem
jeito. Se tivesse, ninguém jamais teria percebido a peru-
quinha de Frank Sinatra. E dinheiro ali não faltava.
Acho que só uma pessoa não reconhece cabelo de ho-
mem pintado: o próprio, o sujeito do cabelo pintado. E
de peruca, então... Só ele acha que tá abafando.
Tecnologia e ciência servem pra tudo. Menos para re-
juvenescer e ressuscitar cabelo de homem. Tudo quanto
é remédio que promete nascer cabelo é picaretagem. Os
implantes até que melhoraram um pouco. Antigamente
parecia plantação de coentro, agora parece mesmo plan-
tação de cabelo.
Eu era intolerante paca com homem de cabelo pintado.
Era. Não sou mais. Ao contrário. A partir de agora, sou so-
lidário e até um tanto compadecido. O que não quer dizer
que eu vá pintar o meu. Não. Não vou. Mas sempre vou

189
Preto-graúna

lembrar a cara de felicidade do meu vizinho de barbea­ria,


com suas sobrancelhas e seu cabelo preto-graúna.
Se o preço da felicidade é o ridículo, tem quem pague.
O que não deixa de ser comovente.

Jornal do Commercio, 1 de maio de 2010

190
Sentimento do Recife
Jorge Abrantes

O poeta falou do sentimento do mundo, que envolve


aqueles para quem as circunstâncias de região, de pátria,
de classe, de profissão, de religião não constituem limita-
ção aos anseios de libertação do espírito. Falo, também,
de um “sentimento do Recife”, que se pode generalizar
no sentimento do lugar onde se nasceu ou onde se vive,
qualquer coisa difícil de definir e da qual podemos dizer
desajeitadamente, neste particular, ser a afinidade, a cor-
respondência de coração e de inteligência que liga esta
nossa cidade à personalidade de cada um dos que a ama-
mos. Sim, porque há os ingratos e os ausentes, que brota-
ram para a vida e se fizeram homens dentro dos muros do
Recife, ou que do Recife fizeram a cidade da sua vida, mas
têm a alma seca ou fechada a esse amor.
Poderá haver quem, contemplando um trecho velho
e familiar do Recife, conhecendo a casa onde nasceu,
revendo as casas onde sucessivamente morou, passando
pelo beco onde bateu bola, pela campina onde soltou pa-
pagaio, pela janela onde namorou, pelo grupo escolar e
pelo colégio onde estudou, pelos lugares onde vagabun-
dou; poderá haver quem não se enterneça e não tenha, ao
menos, a revelação desse sentimento? Infelizmente há. E
esses não entendem o que quero dizer.
Tentarei explicar-lhes, pela minha experiência pessoal.
Em primeiro lugar, não sou daqui, mas do sertão. Mas ape-
nas acidentalmente do sertão. Cresci, criei-me, estudei no
Recife. Os meus primeiros passos para a vida foram aqui
Sentimento do Recife

encaminhados. Aqui sofri os percalços da infância pobre.


Morei numa casinha de porta e janela da rua de Santa
Cecília, por trás da mole da Basílica da Penha, e os meus
primeiros deslumbramentos urbanos foram os ofícios reli-
giosos nessa igreja e o imenso bazar colorido e ruidoso do
Mercado de São José. Aí comecei a ir à escola, levando chu-
va como um pinto nos feios invernos recifenses. Mas às ve-
zes levando por gosto... Aí comecei a ter contato com a vida
maior, num grande colégio do bairro burguês da Boa Vista.
Entrementes, brincava no areal do Chupa, hoje sepultado
sob o calçamento moderno, e brincava de quadrilha à noi-
te, na praça Sérgio Loreto, que foi a Campina do Bodé, por
causa de um português que ali morava e se chamava Bodé.
Ali fiz as minhas primeiras experiências à margem do car-
naval do Recife, os grandes carnavais de 1925 e 1926. Daí
saí uma vez, com minha família toda, para assistir à chega-
da do “Jaú”, quase morrendo esmagado pela multidão que
se comprimia na Praça Rio Branco.
Morei também na Rua Augusta e vi ali crescer em tor-
no de mim a Revolução de Trinta. As rajadas de metralha-
dora varriam a rua e a gente encolhida dentro de casa...
Quando passou o barulho, saí escondido para a rua, para
espiar o movimento e vi, na Praça da República, um ho-
mem morto, envolvido em papel de bobina do Jornal
do Commercio, que tinha sido assaltado. Morei uma meia
dúzia de vezes no arrabalde então proletário da Torre e
brinquei os brinquedos de menino nas suas areias brancas
e ardentes de sol. Às vezes, ia com minha mãe ao bair-
ro do Recife e me admirava do progresso “notável” da
cidade, com aqueles prédios da avenida, então os mais
novos e imponentes. E minha mãe falava do traçado an-
tigo daquele bairro, inteiramente diferente do de hoje,
com o cais da lingueta, a Igreja do Corpo Santo e uma
infinidade de ruas e ruelas antigas; falava dos arcos que,
como a igreja, tinham sido demolidos. Notáveis eu achava

192
Jorge Abrantes

também aquelas estátuas da ponte Maurício de Nassau.


Amplo e misterioso achava o porto.
A vida da cidade girava em torno de mim, mas eu não
chegava a apreender todas as suas manifestações. Os ruídos
da política, da imprensa, da vida social chegavam-me como
ecos abafados e, no entanto, eu sabia que aquela entidade
complicada e de mil formas era o Recife, a minha cidade.
Com a idade, a decifração desse mistério se foi fazendo,
lentamente, lentamente, e ao mesmo tempo em que eu
desbravava a topografia recifense, via paisagens novas, tre-
chos inéditos, recantos desconhecidos. Um conhecimento
em extensão geográfica e em penetração psicológica. Hou-
ve também um desvendamento retrospectivo, pelo qual se
me revelou toda a perspectiva histórica, desde o largo ce-
nário do presente até aquele ponto obscuro, de onde tudo
proveio: o velho burgo de pescadores e negociantes.
E, de tudo isso, nasceu essa compreensão e esse amor,
a que chamo, um pouco imperfeitamente, o sentimento
do Recife. Sentimento de que está impregnada a obra de
Mário Sette, a de Gilberto Freyre, a de tantos outros es-
critores, ensaístas, poetas e homens de cultura em geral.
Sentimento que move e anima a Diretoria de Documen-
tação e Cultura em sua missão de registar todos os movi-
mentos de vida da cidade, de reconstituir o seu passado
e de acompanhar e incentivar as suas atividades de cultu-
ra. Sentimento de todo recifense digno realmente desse
nome e que ama esta cidade acima de todas as outras.
Esse amor não conhece condições de inteligência, cultura,
situação social e pode vibrar, tanto no coração do rico que
prefere aqui aplicar os frutos de sua riqueza, em benefí-
cio do desenvolvimento da cidade, quanto no do pobre
homem da rua, convicto de que “não há cidade como o
Recife”, onde se faz o melhor carnaval do mundo...
Prosa breve (org. Luiz Delgado).
Recife, Associação da Imprensa de Pernambuco, 1976

193
Crônica em três capítulos
Todos três nojentos
José Cláudio

Abelardo da Hora vivia tirando catota. Tem uma foto,


de 1952, em Ipojuca, eu, ele, os pintores Gilvan Samico,
Marius Lauritzen Bern, a última vez que estive com ele
fotógrafo no Rio de Janeiro, e Ionaldo Andrade, falecido
há alguns anos em São Paulo, Abelardo tirando catota.
Dizia ter “uma fábrica de catotas”. Ficava amolegando a
catota entre o polegar e o indicador, no caso dele uma
extensão da modelagem no barro, quando às vezes imi-
tava coisinhas mínimas, um talinho de planta num relevo
como nessa pequena obra-prima sobre o pau-brasil que
fez para sua terra São Lourenço da Mata.
Há o ditado “certo que só o dedo na venta” e o roe-
dor serelepe ou caxinguelê também chamado para-cato-
ta. Tive um amigo que usava a unha do dedo mindinho
mais longa para enfiá-la no nariz e no ouvido. Na peça As
três irmãs, de Anton Tchekhov, ato II, o subtenente Aleksei­
­Petrovitch Fedotik declara, mostrando aos presentes:
“Para mim comprei um canivete... olhe... uma lâmina, ou-
tra lâmina, ainda uma terceira lâmina... Isto é para raspar
o interior do ouvido...” O pintor Carybé considerava uma
das maiores felicidades dos seres humanos tirar “uma da-
quelas melecas bem compridas que parece que vêm do
cérebro”. Tem menino que come catota. Uma vez, traba-
lhando no Jornal do Commercio, Recife, distraído, olhando
para a página, fazendo a diagramação dos tabloides, che-
gou Alexandrino Rocha junto do meu birô e perguntou:
“Limpando o salão?” Só então me dei conta de que estava
tirando catota. Mas chega de catotas.
José Cláudio

Outro capítulo é sobre se limpar ou mais precisamen-


te limpar a bunda. Sempre me limpei puxando o papel
para a frente e imaginava que todos fizessem o mesmo até
ser despertado para o assunto, por acaso, numa aula de
modelo vivo na Academia de Belas-Artes de Roma, ma-
nhã fria de outono de 1957, à beira do Tibre. Uma das
modelos, presumivelmente italiana, já que era proibido
aos alunos tomar informações ou falar com as mesmas,
apelidada de Regina di Spagna (rainha de Espanha), boa
estatura, de um moreno claro puxado para pálido, vinha
para a sala envolta num casaco de peles, enquanto as ou-
tras já saíam despidas de detrás de um biombo. Um ritual
de elegância vê-la desnudar-se naquele rápido strip-tease.
Numa das poses, observava-se uma lista escura inequívo-
ca subindo-lhe de entre as nádegas, do sulco interglúteo,
digo, rego da bunda, para o lado direito, sumindo logo
acima. Educadamente todos fingiram ignorar o fato mes-
mo que o professor nos chamasse atenção para cada tre-
cho da anatomia in loco no corpo da moça. Havia, pois,
a possibilidade de se limpar para trás. Imaginei uma di-
ferença entre homens e mulheres nesse particular. Mas,
conversando anos depois com o mesmo Gilvan Samico,
ele disse que limpava também para trás e era assim, acre-
ditava ele, que todo mundo fazia. Não continuei a pesqui-
sa. Nem sei o que dizem os manuais.
Também queria falar de peido, mal que ataca os velhos,
consagrado no nome do traque junino peido de velha. Se
do assunto anterior não encontrei manuais, deste há des-
de cordel, como O peido que a doida deu, ao erudito L’art de
peter (a arte de peidar), que leio na tradução espanhola
Tratado sobre el pedo (tratado sobre o peido),”que os latinos
chamavam crepitus ventris, os alemães fartzen e os ingleses
fart”, citados Horácio e Marcial entre outros nomes ilustres
como Cícero e Aristófanes. No Satyricon, de Petrônio, “o

195
Crônica em três capítulos Todos três nojentos

mais antigo de todos os romances” segundo o seu tradutor


Paulo Leminski, o capítulo 47 começa assim:
“As fábulas ainda vibravam no ar, quando eis que volta
Trimalcião e, enxugando a testa, lavou as mãos com un-
guentos, e disse, depois de um silêncio: ‘Não levem a mal,
meus amigos, há dias que não consigo cagar direito, e os
médicos não sabem o que dizer. Mas acabo de tomar uma
infusão de casca de granada no vinagre. Espero que assim
minha barriga tome vergonha. Se não der certo, vocês me
ouvirão peidar, como se um touro mugisse. Aliás­, se algum
de vocês tiver o mesmo problema, nada de acanhamen-
tos. Ninguém é perfeito. Acredito que não há tormento
igual ao de não poder cagar.’”
Para finalizar, um verso dos tempos de menino em
Ipojuca. “Eu dei um peido lá na porta do fuá qui chegou
quilariá...”

196
O aboio de um povo
José Mário Austregésilo

Quando Luiz Gonzaga canta, cantam os pássaros, os


bois, as cabras, os rios, as cachoeiras e toda a natureza
nordestina é um coro só. O canto gonzaguiano é a sono-
plastia de um parto sertanejo e nordestino; é o ranger das
cancelas, o coaxar dos sapos, o galopar dos cavalos nos
lajedos; o canto sonoro de um “coco” que mergulha no
fundo de um pote em busca da água para matar a sauda-
de: “tichibungo!”
Quando Gonzaga conta por que ele se dizia mais con-
tador do que cantador, despertam as personagens do ima-
ginário nordestino: vaqueiro, romeiros, padres, valentes
e covardes; um canto que desperta uma imensa nação de
cangaceiros, volantes, cantadores, emboladores, cegos de
feiras, sanfoneiros e rezadeiras que nos livram do mal e
nos protegem dos inimigos, em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo.
Quando O Rei do Baião conta e canta, desenha-se o
cotidiano criador de uma cultura, uma das mais impor-
tantes matrizes, raiz e copa, dessa imensa árvore (sempre
na mira da mídia da serra elétrica!) que é a música popu-
lar brasileira.
Quando Lua canta, canta a natureza nordestina; fa-
lam os sapos, late fino o cachorro do pobre, late grosso o
cachorro do rico, e o jumento, nosso irmão, dá as horas,
mostra sua inteligência e, por ter carregado Nosso Senhor
Jesus Cristo nas costas, pode desafiar o Rei do Baião: Seu
Luiz, comi seu milho, e como, e como e como...”.
O aboio de um povo

O canto de Gonzaga está onde o povo está; canto dos


sanfoneiros de todos os baixos, forrós de pé de serra e de
cidade grande; um canto ouvido e dançado pelos corpos
que imprensam suor nos sambas do Sertão. Quando uma
sanfona, um triângulo e uma zabumba se encontram, to-
cados por quem quer que seja, venha de onde vier, chegue
de onde chegar, pode-se ter a certeza de que o Rei está
presente, em carne, osso e espírito do nosso povo.
As vozes incorporadas pelo Mestre Lua são aquelas da
seca, da luta, um canto precursor do protesto contra a
injustiça e a desigualdade social, mas é também um canto
de louvor às chuvas caindo, aos rios correndo e às cacho-
eiras zoando; são aboios de um povo, vestido de chapéu
de couro e gibão, sanfona colada no peito e olhar encon-
trado no sol em brasa, se pondo no horizonte das certezas
que fazem e refazem, todo dia, o Sertão nordestino.

198
Pra lá de Marrakech
José Mário Rodrigues

Há alguns anos comprei o Alcorão, numa tradução de


Mansur Challita, mas não li. Nem sei mesmo por que com-
prei. E o livro ficou hibernando na estante. Tenho alguns
livros que estão em sono letárgico. Uns recebi de presente,
outros são para futuras leituras, pois um dia serão aqueci-
dos por minhas mãos ou por mãos de outras pessoas que
surgirem no espaço entre a sala e o quarto onde eles des-
cansam seus mistérios. Os muito amados os quero sempre
perto de mim e por isso mudam de lugar, andam pelo
apartamento. Mas há, também, os que não deveriam ter
sido escritos, e já preparo o seu descanso no sebo das cal-
çadas do Recife, de onde nunca deveriam ter saído.
Os livros são como as pessoas: possuem virtudes e
defeitos. Poucos são geniais. Também não encontramos
gênios com facilidade. Ser uma pessoa de vergonha, de
caráter, ou um livro inteligente e criativo já é o bastante.
Uma viagem que fiz recentemente ao Marrocos provo-
cou em mim o interesse de ler o Alcorão. Religião por lá
é coisa muito séria. Basta dizer que as Mesquitas não são
visitadas no seu interior. Só os muçulmanos podem fre-
quentar aqueles lugares sagrados. Em todo o país, apenas
uma é aberta à visitação pública e fica em Meknès, uma
cidade próxima a Fez, e que ficou conhecida depois da
novela O clone.
Como manda o ritual, com todo o respeito tirei os sa-
patos e entrei no templo. Mas não foram as paredes deco-
radas com textos do livro de Maomé nem os lustres nem os
Pra lá de Marrakech

tapetes ou as portas trabalhadas com madeira e bronze que


me despertaram curiosidade, mas a aposição do Alcorão no
centro da Mesquita. O célebre livro do Profeta, reverencia-
do por mais de um sexto da raça humana, e que exige com
determinação o cumprimento de suas máximas, está escri-
to em forma de poemas, todos eles com o mesmo enuncia-
do: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”.
Em Marrakech, precisamente na praça Jamaa el-Fna,
também chamada praça do mundo, localizada ao lado da
torre da Kutubiyya, símbolo da cidade, fiquei desconcerta-
do e, aqui pra nós, um pouco atacado da cabeça. Não sabia
o que fazer. Tive medo de atravessar e ser atropelado. Era
gente, carro, moto bicicleta, burro, carroça, tudo entran-
çado como uma rede de pescar. Fiquei parado, até que al-
guém me disse: “não preste atenção aos outros, eles vão se
livrar de você, mas não corra, atravesse tranquilo”.
Disfarçado numa tranquilidade que não tenho nem
nunca tive, segui o conselho e andei em direção à medina
– o grande mercado – com o coração na mão. A desorga-
nização organizada da praça acabou em divertimento e
visão real do malabarismo cotidiano dos mercadores mar-
roquinos.
Patrimônio da Humanidade, Marrakech é a capital do
artesanato do Marrocos e metrópole dos povos berberes,
de gente nômade que se acostumou à dureza de uma vida
dividida entre as areias do deserto do Sahara e o mar.
Depois de atravessar de norte a sul o belo país da Áfri-
ca, voltei para Madrid no avião da Ibéria e desci, justa-
mente, no Terminal 4, onde poucas horas depois viria a
explodir um carro bomba do ETA, matando duas pessoas
e ferindo dezenas. Por um triz, quase voei pelos ares para
conhecer, verdadeiramente, o caminho que me levaria
“pra lá de Marrakech”.

200
Duas ou três coisas sobre meu pai
José Paulo Cavalcanti

Lembro meu pai num lampejo


Indo embora lá de casa
Esquecendo a cova rasa
Em que plantou seu desejo.
Lembro bem daquele beijo
Que nunca pôde me dar
Na mesa falta o lugar
Na cova falta a semente
Comigo o rojão é quente
Cante quem souber cantar.
(Versos de cantoria, no gênero Comigo o rojão é quente,
de José Paulo Cavalcanti Filho.)

Meu pai era uma das pessoas mais inteligentes que co-
nheci. Talvez a mais inteligente. Era também generoso.
Muito generoso. Mas era, sobretudo, um homem simples.
Quando lhe pediam currículo, apenas fazia constar ser
“advogado no Recife”. Profissão e destino. Escreveu três
livros e mais 31 monografias publicadas, todos no campo
do Direito Civil; e, apesar dos muitos convites, nunca acei-
tou ocupar cargo público. Um dia, disse que “o homem é
barro trágico rareado de estrelas”. Se assim for, guardarei
dele a lembrança de uma estrela. Sempre ouvi dizer que
só quem perde o pai é capaz de saber a dimensão dessa
dor. Agora sei. E como dói.
Das imagens que cortam meu coração em brasa, talvez
nenhuma seja tão recorrente quanto a de Penderama – o
engenho em que ele nasceu, no município de Ipojuca. Um
dia me pôs no carro e levou lá. Meus olhos de menino ain-
Duas ou três coisas sobre meu pai

da hoje lembram, nitidamente, aquele terraço alto da casa


grande desabitada, com vista para as poucas construções do
entorno e um campo verde sem fim. O velho sentou-se em
uma das cadeiras por lá esquecidas e falou como se falasse
para ele mesmo. Lembrou do pai, o Major Joaquim Caval-
canti, e de como brincava despreocupado naquele campo.
Dessa conversa recordo apenas seu olhar perdido – como
se estivesse sozinho, como se procurasse alguma coisa que
ainda não sabia, como se estivesse vendo outras pessoas em
um outro tempo. Estava feliz, quem sabe por haver encon-
trado ali alguns fantasmas de sua infância.
Não sei a quem pertence, hoje. E nem mesmo sei o que
quer dizer Penderama. Provavelmente será palavra de ori-
gem indígena. Seja qual for, continuará, em mim, sobretu-
do como lembrança de perdas. O gesto de afeto aberto que
tantas vezes tentei fazer e nunca fiz, talvez por imaginar ser
suficiente o testemunho de estar a seu lado no escritório.
Ou a vontade hoje inútil de pedir que me ensinasse um
pouco mais da profissão, o que também nunca fiz, talvez
por estar convencido de já não ser necessário. Ou um últi-
mo beijo carinhoso que teria gostado de ter dado e não lhe
dei, talvez por vergonha. Melhor então passar a considerar
que esse nome, Penderama, tenha de agora em diante um
sabor menos amargo, apenas o sentido de perdidas ilusões,
marcas esquecidas e distantes, restos de caminhos que não
voltarei a percorrer, pedaços de alma que andam perambu-
lando por aquele terraço e aqueles campos.
Recordar é viver, segundo toda gente. Mas nem sem-
pre assim se passa, nesse mundão de meu Deus; por vezes
é apenas se perder, apenas ter medo das promessas do fu-
turo, apenas morrer pouco a pouco, no corpo e no espíri-
to, bem devagar. Guimarães Rosa dizia que toda saudade
é uma espécie de velhice; e talvez seja mesmo, um jeito
torto de esquecer, de ter pena, de caminhar inevitavel-

202
José Paulo Cavalcanti

mente em direção ao passado, como quem percorre um


cordão sem ponta. Passa a vida, todos passamos, só não
passam os espinhos do doloroso revés de tudo que pode-
ria ter sido e não foi.
Por isso, dias desses, voltei a Penderama. Com os filhos
junto, como um dia meu pai fez comigo. Quem sabe para,
como antes aconteceu com ele, procurar alguma coisa que
também ainda não sabia; ou quem sabe para encontrar, em
minha imaginação, seu vulto amigo esperando para conver-
sar. Não foi a volta alegre que pensei, durante tanto tempo.
Porque é longa a distância que separa memória e realidade.
E ninguém nunca volta, verdadeiramente, ao território da
infância. Que muda o espaço físico, nosso corpo envelhece,
nossa alma vai aos poucos perdendo substância.
Tentei perceber, nos rostos das crianças brincando, al-
gum traço que lembrasse o passado de quem fui ou sonhei
ser; mas encontrei só rugas precoces da pobreza endêmi-
ca de nossa Zona da Mata. O campo, descuidado, tinha as
marcas do abandono. A casa grande como que encolheu,
agora era igual a tantas outras – metade ocupada por uma
escola, metade por família de posseiros. O terraço, enor-
me em minha imaginação, reduziu-se a pouco mais que
metro e meio de largura. No piso, cerâmicas quebradas
e fora de lugar, decompondo-se, pouco a pouco, peda-
ço por pedaço, em um desenho ilógico. Naquele cenário
grandioso, em minha memória, havia só o presente di-
lacerado. Procurei minha infância e encontrei só restos.
Procurei lembranças de meu pai e ouvi só o barulho das
brincadeiras de algumas crianças tristes. Naquele mo-
mento mágico, compreendi que seria inútil voltar àquele
pedaço de passado que já não me pertencia. Por tudo en-
tão, e dando os trâmites por findos, apenas fui embora.
Sem palavras. E tendo apenas o cuidado, antes, de dar
adeus a velhos que me olhavam curiosos, sentados nos de-

203
Duas ou três coisas sobre meu pai

graus de uma escada, sem compreender bem a cena. Sem


nem saber que, com aquele aceno, estava dizendo adeus
a um pedaço de minha vida. Não fiz perguntas. Apenas
olhei, uma última vez, aquela paisagem que em mim já
começava a se dissolver, impressentidamente; mas que só
desaparecerá, então completamente, quando afinal desa-
parecer o menino que um dia ali viu seu pai, sentado em
uma velha cadeira, sorrindo.

204
Estão mexendo na língua
José Teles

Tava na praia, quando o pirralho gritou: “Minha pipa,


minha pipa”. A linha da tal pipa havia se enrolado peri-
gosamente no meu pescoço. Pipa é de lascar. Quem cha-
mava pipa era o pessoal lá do Rio, São Paulo. Aqui sempre
se chamou de papagaio. Agora eu mesmo sou obrigado a
chamar de pipa, senão ninguém sabe do que tô falando,
e é capaz de pensar que endoidei, confundindo pipa com
um psitacídeo. Aliás, até mesmo papagaio era pouco usado
pelo nordestino, dizia-se mais “louro”. Ninguém mais diz
“Dá cá o pé, meu louro”. Pelo menos acho que não, porque
é meio pé-quebrado um “dá cá o pé, meu papagaio”.
A culpa disso, obviamente, é da TV em rede e rádio em
rede. Com tanta rede, acho que o nordestino não tá mais
nem dormindo em rede. Embora não entenda nada de
linguística, gosto muito desta coisa da palavra, do idioma,
da dinâmica da língua (sem maldade, por favor, minha
senhora). Acho que a influência da TV e rádio em rede é
maior no nordestino. Porque ouço rádio e a maioria dos
novos repórteres pronunciam o “e”, como “ê”, feito os su-
listas. Curioso é que, acostumado com o linguajar cada
vez menos nordestino dos nordestinos, pelo menos os das
cidades maiores, tava outro dia em Belo Horizonte, numa
mesa só de mineiros, Mariana, uma jornalista com quem
sempre me encontro em lançamentos de discos e festivais
fora daqui do Recife me espantou. Nunca havia conversa-
do muito com ela. E a moça fala igualzinho a estes minei-
ros que a gente vê caricaturados nos programas de TV. É
cheia dos “uai”, “sôr”. “Trem bão”, por aí.
Estão mexendo na língua

A TV, sobretudo, padroniza cada vez mais a língua.


“Semáforo”. Nunca que ninguém por aqui chamava sinal
de semáforo, que é coisa de paulista. Agora todo mundo
aqui fala semáforo. Logo tão falando “farol”, feito come-
çam a falar “retenção”. A senhora, mais bem informada
do que o que vos tecla, obviamente sabe o que é reten-
ção. Pois só um dia desses foi que descobri que “retenção”
é engarrafamento de trânsito. Eu jurava que tinha a ver
com prisão de ventre, constipação, por aí.
Aliás, esse comentário linguístico, e nada científico,
certamente sem base teórica que o embase, é mais uma
das minhas repetições. Foi não foi estanco num assunto
e fico feito disco de vinil arranhado. Mas é que sou invo-
cado mesmo com certos termos. Quer ver um? “Galinha
caipira”. Sempre se chamou aqui “galinha de capoeira”,
e ninguém supunha que se tratava de um galináceo que
tocava berimbau e ficava passando rasteira nas outras pe-
nosas. Agora começou este negócio de “caipira”. Agora,
não, faz tempo. Galinha caipira pra mim é a que faz “co-
corocorrrrrr”, com aqueles erres dos caipiras mineiros.
Nem sei como não chamam de frango caipira. Galinha
aqui no Nordeste sempre foi galinha, depois, influência
dos sulistas, virou frango. E a senhora não me venha com
esta de que sempre se chamou de frango porque senão
seria “frango à cabidela”. Aliás, nem entendo como ain-
da se diz cabidela. Porque já vi cardápio aqui no Recife
oferecendo “galinha ao molho pardo”. E aí pode até ser
minha ignorância em gastronomia, que nunca fui ligado
em comida. Vai que galinha à cabidela e ao molho pardo
são dois modos diferentes de fazer a penosa. Mas aí me
perdoem, que em gastronomia, repito-me, como se dizia
antigamente, eu sou um tapado.

Jornal do Commercio, 18 de abril de 2010

206
No tempo do lança-perfume
Leonardo Dantas Silva

O lança-perfume foi a grande invenção do Carnaval


Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio
a dar uma aura toda especial às festas de momo de norte
e sul deste imenso país do carnaval. Apareceu com grande
publicidade, sendo distribuído em três apresentações – dez,
trinta e sessenta gramas, pela Casa Davi do Rio de Janeiro.
Fabricadas pela Rodo, na Suíça, aquelas ampolas de cloreto
de etila, especialmente aromatizadas, perfumaram os nos-
sos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proi-
bida por decreto do presidente Jânio da Silva Quadros.
Em 1911, eram consumidas no Brasil 300 libras do
produto e só a Rodo Suíça para aqui exportara a eleva-
da quantia de 4.500 contos de réis! Tal mercado veio a
despertar a atenção daquela empresa, que logo enviou ao
Brasil um seu representante, sr. J. A. Perretin, a fim de as-
sistir às festas do carnaval do Rio de Janeiro daquele ano.
Em entrevista à Gazeta de Notícias, transcrita parcialmente
por Eneida, o sr. Perretin declarou: “Um povo que faz um
carnaval como este é o povo mais alegre do mundo”.
Denominava-se de lança-perfume a bisnaga metálica
ou de vidro, para uso nos festejos carnavalescos que, carre-
gada de éter perfumado e à base de ar comprimido, lança
seu conteúdo a relativa distância quando destampada.
Um inconveniente, porém, acompanhava o produto e
era causa de constantes acidentes entre os seus usuários:
os recipientes que continham o éter perfumado sob pres-
são eram de vidro. Em 1927, para sanar tal deficiência, a
No tempo do lança-perfume

Rodo lançou no mercado o seu lança-perfume metálico.


Apresentado em invólucros de alumínio dourado, o novo
produto recebeu a marca Rodouro, o que não impediu
que se continuasse a produzir com preços inferiores lan-
ça-perfumes em recipientes de vidro.
Porém, o que era brinquedo romântico, inofensivo e ba-
rato, passou a ter outra destinação. Segundo denúncia da
imprensa carioca, no carnaval de 1928, o conteúdo do lança-
perfume passou a ter objetivos outros: “... o éter fantasiado
de lança-perfume é sorvido com escândalo pelo carnaval.
No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas
do terrível entorpecente. Essa quantidade de anestesia da-
ria para abastecer todos os hospitais do mundo”.
No Recife, o hábito de aspirar lança-perfume já aparece
no romance de Mário Sette, Seu Candinho da Farmácia, lan-
çado em 1933 pela Editora Nacional, que assim comenta na
boca de um dos personagens: “O cheiro de éter perfumado
misturado ao cheiro das mulheres fazia rodar a gente...”
Nas eleições presidenciais de 1960, o sr. Jânio da Silva
Quadros vence com uma imensa maioria de votos o gene-
ral Henrique Teixeira Lott. No seu conturbado mandato
de 206 dias, Jânio inaugura o sistema de governar através
dos chamados “bilhetinhos”, tendo emitido 1.534 deles,
versando sobre os mais diversos assuntos. Preocupado
com o saneamento moral do país, proíbe “a fabricação,
o comércio e o uso do lança-perfume no território nacio-
nal”, através do Decreto n º 51.211, de 18 de agosto de
1961, cujos efeitos atingem os festejos carnavalescos até
os nossos dias.
A sua proibição, porém, deixou saudades em todos os
foliões que dele faziam uso de maneira romântica, como
forma de aproximação ou de convívio, na alegria do car-
naval, enchendo de perfume e povoando com a sua aura
inesquecível as nossas ruas e salões.

208
Leonardo Dantas Silva

Como no Cordão da saideira, frevo composto por Edu


Lobo: “Hoje não tem dança/ não tem mais menina de
trança/ nem cheiro de lança no ar/ Hoje não tem frevo/
Tem gente que passa com medo/ Na praça ninguém pra
cantar...”.

209
As palestras da ponte da Boa Vista
Lopes Gama

Grande circunspecção cabe que tenha este número


do meu Carapuceiro, a fim de que não se lembre algum
pechoso de proferir muito autoritário e categórico que
me balancei a reprovar a esmo quantos de volta do seu
passeio, ou mesmo de caso pensado, vão tomar fresco e
papear nos assentos dessa ponte. Não; fora mister ser
mais que rigorista e sobremodo rabugento para censurar
um recreio, que em si nada tem de criminoso. Mas como
nada há, ainda do que é mais justo e mais santo, de que se
não possa abusar, eu só falarei do abuso, e tome embora
a carapuça aquele em quem ela assentar de molde e a seu
gosto. Está dado o competente “cavaquinho” (aliás neces-
sário por causa das dúvidas) e entremos na matéria, que
dá bastante pano para boas carapuças.
A ponte da Boa Vista todas as noites, mormente de
luar, é um teatro talvez mais divertido do que o chamado
teatro público. Ali aparecem indivíduos de todo o lote,
desde o honesto e sisudo cidadão até o mais completo e
rematado peralvilho. Ali se representam forças de todas
as qualidades, e tanto mais irrisórias quanto inesperadas
e fortuitas; e quase sempre dividem-se os ranchos em de-
partamentos. Em uma parte, assenta-se a mó dos rabe-
quistas, defronte muitas vezes fica a mó dos gamenhos;
deste lado está repimpada a seção dos políticos, daquele
outro toma assento o bando dos jogadores, d’além se api-
nhoa a grei dos cavaleiros da indústria etc. etc.
Lopes Gama

Ao departamento dos rabequistas pertence de juro e


herdade a poda de vivos e mortos, de presentes e ausentes,
de homens e mulheres, e de quantos têm a desgraça de
passar por aquele lugar. Ali a maledicência vai percorrendo
desapiedadamente famílias inteiras à progenie in progenies, e
parece que apostam sobre quem melhor explicará e comen-
tará a crônica escandalosa do seu próximo. Ali aventam-se
particularidades e segredos familiares de que nunca se ou-
viu falar. Ali vêm a juízo todos quantos indivíduos vão ocor-
rendo à memória sempre feliz dos rabequistas; e se sucede
haver uma pequena pausa por se ter esgotado qualquer
assunto de murmuração, diz dali um sócio, que estivera um
pouco distraído: “E fulano, que lhes parece?”. Oh (pega
logo outro da palavra), isso é boa joia, isso é boa peceta! E
saltam-lhe na pele a atassalbada como cães famintos.
Quem há aí tão feliz que, passando a essa hora pela
ponte, escape às desumanas arcadas do bando rabequis-
ta? Pobre senhora, que por ali andou nessa ocasião! Ape-
nas a lobrigam, pregam-lhes os olhos e afinam os instru-
mentos, perguntando-se uns aos outros: “Quem é?”. Mas
apenas sabem quem seja a infeliz, e esta vai seguindo seu
caminho, então pega a sinfonia, e parecem apostados a
qual há de florear com mais fusas e semifusas. Se é sol-
teira ou viúva, juram que se está namorando com este, e
mais com aquele; se é casada, o marido recebe logo desses
senhores as honras de Júpiter Amon, fora outras muitas
gracinhas, reflexões e explicações, que a modéstia manda
calar. Finalmente em matéria de maledicência se um en-
vida, o outro revida, e podem gabar-se de que ninguém
lhes ganha por mão.
O departamento dos gamenhos compõe-se pela maior
parte de maninelos, buginicos e jirigotes de toda laia. Na-
quele grupo de Laocoon a principal conversa é o vastíssi-
mo assunto das modas. Ali se discute qual seja o alfaiate

211
As palestras da ponte da Boa Vista

de melhor gosto que sabe fazer uma calça do bom-tom


dos petimetres de Paris, isto é, tão ajustada à perna que
só na matéria e na cor se possa distinguir da pele. Um
dos sócios faz menção honrosa de um figurino chegado
há pouco de França, que muito lhe deu no gosto. A ca-
beça pela parte posterior é tosquiada tal e qual a de um
donato, mas por diante tem a gadelha completa de um
leão. Os cabelos ficam todos a uma banda, encrespados e
anelados, de maneira que o cabeleireiro não tem menos
que fazer naquela que na cabeça de uma noiva dessas que
querem os penteados como os prédios urbanos, reparti-
dos em três e quatro andares, com seu mirante em cima
de tudo. Colete (diz o comentador do figurino modelo) é
coisa que já não trazem os rapazes de bom-tom: e tomara
que já viesse a moda de andarmos todos em mangas de
camisas. E que linda sobrecasaca! Pregada no corpo como
a calça, e deve ficar na altura, uma mão travessa acima
do joelho; além disto deve ter grande franzido em redor
da cintura, finalmente é uma jaquetinha com folhos. Que
guapo vestido! Coisas farão estrangeiros!
Os chapéus (já se sabe) cada vez são mais pequeninos
(continua a dissertar o orador cupido); e se nessa ocasião
sucede passar alguém com seu chapéu um pouco mais
alto, dará graças a Deus se o deixarem ir sem lhe gritarem
em abrotaria: “Baú, baú”. Parece encomenda dos senhores
chapeleiros, para darem extração à sua fazenda. Depois
das modas vem o acepipe favorito, quero dizer, o namo-
ro. Levantam-se renhidas e calorosas discussões sobre qual
seja a menina mais bela desta capital e seus subúrbios, no
círculo de quatro a cinco léguas, que a tanto se estende o
faro dos gamenhos. Um quer que não haja Deus compa-
rável a dona Sinfrósia. Outro assaca-lhe pechas e baldões;
diz que é desdentada e amarela, com cor de tampo de viola
velha, e põe acima de tudo a dona Ziguezigue, cuja beleza,

212
Lopes Gama

graças e espírito não podem ter competidores. Cada qual


que mais gabe a sua predileta, cada qual que mais ufano
relate as suas conquistas feitas e por fazer, e neste assunto
os gêneros mentira, bazófia e impostura andam a granel.
Amuado a um canto jaz sentado um gamenho sentimen-
tal, que ouvindo tratar da sua matéria favorita arranca do
peito um estirado suspiro, e diz: “Estão os senhores a falar
desde hoje nesta e mais naquela menina e eu só pensa-
menteando a respeito da minha querida Clóris. Oh, isso é
que é moça, isso é que é peixão! Em dois meses tenho-lhe
enviado duzentos e tantos escritos, e ela, apenas me tem
pago à razão de 1%. Se me envia algum raminho de ale-
crim com cravos ou perpétuas, tudo como, porque assento
que só no coração devo depositar essas prendas, embora
padeça de estômago, e me haja dito o dr. (...) que padeço
gastroenterite e mais uma aplenite, junto com uma hepati-
te, se bem que outro já me asseverou que a minha moléstia
crônica e incurável é a cerebrite. Mas seja o que for, todo
o meu mal é, segundo creio, uma gamenhite; e só Clóris
me poderá curar. Logo um dos da roda passa-se para o
pé do derretido amador, e lhe roga queira mostrar-lhe os
escritos da sua Clóris, que lhe retribuirá a mesma confian-
ça, comunicando-lhe os da sua amada, cujo estilo é mais
terno, apaixonado e gracioso que o da própria Safo.
Neste comenos se passa alguma filha de Jerusalém, ou
algumas dessas desembainhadas, que andam ao fanico, é
indispensável a caçoada, e qual que se mostre mais zom-
beteiro e garanhão. É de advertir que do rancho dos ga-
menhos trescala mais penetrantes cheiros do que uma bo-
tica, e que assaz manifestam haver ali copioso sortimento
de macaçar, água de colônia, de lavanda etc.
A seção dos políticos é mais respeitável e temível. Ali
se discutem e decidem as mais intrincadas questões de di-
reito público, de economia política, de diplomacia, de di-

213
As palestras da ponte da Boa Vista

reito civil e penal, de tudo, finalmente, que diz respeito à


política. Um diz que muito se honra de ser chimango, ou-
tro gloria-se igualmente de ser regressista, e um terceiro
só fala na felicidade do Rio Grande do Sul, apostando que
a república está ali seguríssima, e que não tarda nos en-
viem de lá o nosso quinhão de república, ainda que venha
por exportação em algum barco de carne. Ali se retinem
os mais intolerantes e decisivos alvitristas: este lamenta
o estado miserável das nossas pontes, que todas devem
já e já ser feitas de pedra e cal, ou de ferro. Mas aquele
entende que seria melhor fazê-las de barcas, porque já leu
que assim as há nos países estrangeiros, e quer logo uma
ponte destas para a passagem do Caldeireiro. Um, mais
caroável da ciência econômica, declama com grande afã
dos seus próprios pulmões contra a fome de farinha, e
põe pela rua da amargura a Assembleia Provincial, que
não faz uma lei proibindo o monopólio e obrigando os
senhores de engenhos a plantarem mandioca para o seu
consumo. E o mais é que quem ouvir gritar a este alvitrista
facilmente dirá que o homem tem razão.
Este rancho ou Parlamento alto decide em última ins-
tância do mérito ou demérito dos escritores; e quantas
vezes não terá sido assunto das suas judiciosas discussões
o meu pobre Carapuceiro! Aqui se declara a guerra, dão-se
batalhas e ultimam-se tratados de paz e de comércio, fa-
zem-se e desfazem-se ministérios, despacham-se diploma-
tas, reformam-se códigos, revogam-se leis, disciplinam-se
exércitos, organiza-se a marinha, demitem-se e proveem-
se empregados, cercam-se os impostos, ensancha-se a Re-
ceita, dão-se cortes violentos na despesa nacional, endi-
reita-se finalmente o Brasil. Mas tudo de língua, e cada
um volta para sua casa sem que os nossos negócios saiam
nem uma polegada do seu statu quo, que significa pouco
mais ou menos ficar tudo no sicut erat.

214
Lopes Gama

Enquanto estas coisas se passam nos diferentes depar-


tamentos, lá está o grupo dos jogadores, perturbando com
suas teimas e vozerias as outras seções. Um grita a esgani-
çar-se que fulano, uma vez que não era o feito, e comprara
em último lugar por ser o fraco, não deverá, sendo mão,
tirar um rei para o mesmo feito. Não o entende assim o
companheiro, que gasta suas presunções do primeiro mes-
tre da matéria, e vai citando o capítulo, a página e a linha
do livro do voltarete, não obstante o quê, outro sócio atira-
lhe seus chascos, asseverando ser Sua Senhoria um corpo
malhadiço de codilhos. Este porfia que não há joguinho
de contentar o espírito, como o expedito diga; aquele está
firme e inabalável nos encômios do gagau. Há nada como
o gagau (exclama o sujeito)? Ainda ontem ganhei a meu
compadre (muito seu amigo sou!) seiscentos patacões, afo-
ra mais oitocentos (diz de parte um perna já bem escar-
mentado do êxito dessas dívidas). Ali está casualmente um
bom matuto, que também mete o seu bedelho, e quer que
o melhor joguinho que se inventou neste mundo fosse o
31 com o curinga. Naquela roda não se ouve senão ganhei
tantos patacões, perdi tantas mil peças, de sorte que, a ser
verdade o que dizem esses senhores, entre eles há mais
avultada circulação de numerário do que na praça do co-
mércio de Londres. A muitos desses jogadores não se lhes
conhece outro modo de vida. Entretanto eles trajam, e são
à la grande, arrotam dinheiro como um morgado, e vão vi-
vendo maravilhosamente. Verdade é que não poucas vezes
o jogador acaba por portas, e a sua família fica entregue a
todos os horrores da indigência. Entretanto não há nada
como jogar e pescar: com um camarãozinho apanha-se
muitas vezes uma cavala.
Os cavaleiros da indústria são esses sujeitinhos respei-
tabilíssimos que vivem das suas agências. Alguns também
vão-se pôr ao fresco na santa ponte da Boa Vista e com-

215
As palestras da ponte da Boa Vista

põem a sua muito honrada seção. Estes costumam tra-


tar de negociatas em que se meteram (cujos fundos saem
ordinariamente das bolsas alheias), dos lucros ou prejuí-
zos, que tiveram. Queixam-se da má-fé dos homens, dão
a entender que têm empregado quantiosos cabedais, cada
um parece um barateiro do Maranhão, e arrematam tudo,
pedindo emprestados (para nunca mais pagarem) dois ou
três patacões!! Neste rancho repimpam-se às vezes alguns
pais da pátria, os quais, depois que houve armistício de
rusgas, perderam certos vencimentos e gratificações, e não
sabem em que se hão de empregar, porque enfim estão os
tempos tão mudados que já o seu povo crê menos neles
do que em duendes e cabra cabriola.

O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello).


São Paulo, Companhia das Letras, 1996

216
A intuição não vem do nada
Luciano Bivar

Você não é um, mas dois: o você racional e o você intui-


tivo. A distinção dos dois vocês pode até ser perceptível.
Um age com frieza e calculismo. O outro manifesta-se por
sentimentos, através de percepções abstraídas do mundo
real e objetivo, que você processa e sente no seu interior.
Filósofos clássicos como Arthur Schopenhauer afir-
mam que só depois de se conhecer o mundo empírico
– advindo das percepções dos sentidos – é que se pode
formar conceitos abstratos. Aristóteles chegou à mesma
conclusão: a intuição é a capacidade do organismo de,
primeiramente, experimentar percepções e de sistemati-
zar essas memórias.
Passei a minha vida muito ligado às minhas intuições.
Não que elas nunca tenham me enganado, mas, muitas
das vezes, deixei-me enganar por objetivos diversos e
sempre cheguei à conclusão de que a luz interior de alerta
havia piscado na ocasião, e eu não lhe dei a atenção que
merecia. Agi por impulso e o resultado foi desastroso. Me
conforto porque sou humano. Tenho livre arbítrio, e ser
feliz ou infeliz é a magia da vida.
Certa vez, quando muito jovem, queria comprar um
carro esporte, fruto dos meus sonhos, quando apareceu
um vendedor dizendo que tinha uma “Berlinetta” que
atendia a tudo que eu imaginava. Era rápida como um
alce, imponente como um leão e com um preço abaixo
do mercado. Não precisa dizer que foi o bastante para
me seduzir. No entanto, teria que ser naquele momento,
A intuição não vem do nada

pois havia outros pretendentes. Algo me soava estranho.


Por que teria que ser naquele momento e já? Mas com a
impulsividade de um jovem movido pelo desejo, quem
sabe até pelo exibicionismo do belo carro, ou ainda pela
ganância de um preço convidativo, eu desconheci ou não
dei importância ao meu instinto e me deixei levar pela
sedução. Depois descobri que o carro era fruto de uma
clonagem criminosa e minha sorte foi ter perdido apenas
o sinal que havia pago, já que o veículo pertencia a ou-
tro proprietário. A intuição ainda me livrou parcialmente,
mas a perda existiu.
Ninguém pode intuir por mim. É um processo pessoal
e intransferível. O que senti no momento da transação,
somente eu poderia entender. Foi uma lição por não escu-
tar o meu sexto sentido. É assim que as coisas acontecem
diariamente a todos nós, quando ignoramos o nosso “eu
inconsciente”.
Os sinais existem e você deve deixá-los fluir sobre o
seu ser, como um anjo da guarda. Eles ocorrem na efer-
vescência do seu estômago, quando percebemos que esta-
mos prontos a cair numa cilada armada para nos derrotar.
Isso já aconteceu comigo centenas de vezes. Numa ocasião
particularmente memorável, depois de o nosso grupo ter
adquirido o controle acionário de uma grande empresa,
atendi a campainha de meu apartamento funcional, per-
tencente à Companhia, e deparei-me com uma linda jo-
vem, herdeira e presidente da antiga empresa cessionária.
Ela usava uma elegante roupa, tão reveladora quanto sua
grife. Fiquei atônito com aquela inesperada visita, prin-
cipalmente por se tratar de uma mulher tão presunçosa
e orgulhosa de sua condição social. Para causar-lhe uma
impressão positiva, concordei, de início, com vários argu-
mentos apresentados por aquela bela executiva que me
cobrava 200 mil dólares que haviam, por esquecimento

218
Luciano Bivar

ou não, composto o relatório de dívidas que deveríamos


assumir quando da compra da sua ex-empresa.
Toda aquela atenção dela, deslocando-se do Rio de Ja-
neiro para São Paulo, e seu discurso elogioso, em todos os
sentidos, fez meu estômago se contrair ao tempo em que
comecei a balbuciar minhas primeiras assertivas. Era um
aviso claro para meu cérebro: “Ei, estão querendo enga-
nar você aqui!” Então, humildemente, agradeci os elogios,
mas expliquei que eu não era o “dono da bola”. A minha
modéstia a fez entender que a minha não era a última pa-
lavra para aquela decisão. Acreditar ou não, era com ela.
Sem me importar com a impressão que ela levou de
mim, seja de incapaz, insensível ou tolo, ante a indiferen-
ça ao seu charme, a verdade é que minha empresa poupou
um gasto de 200 mil dólares com aquela conversa de ven-
dedor, graças ao fato de eu não haver jamais acreditado
naquela história fantasiosa alertado que fui pela intuição.
Em outra ocasião, ainda jovem, caminhando pela Rue
du Rhône, em Genève, junto com minha esposa, fui atraí-
do por um lindo relógio, com preço extremamente convi-
dativo, exposto na vitrina de uma fina loja. Entrei e pedi
ao vendedor que me mostrasse a peça. Ao trazer-me o
relógio, ao qual me referi com o preço já estabelecido no
mostruário da vitrina, ele perguntou se a pulseira estaria
a gosto ou se seria preciso tirar alguns anéis para adequá-
la ao meu pulso. A bandeja de prata revestida de veludo
escarlate, na qual fui examinar o relógio, já me deixou
um pouco apreensivo, mas o pior foi quando o funcio-
nário me perguntou a que horas eu estaria no hotel para
entregar-me o relógio, devido ao ajustamento da pulseira,
pois teria de fazê-lo diretamente a mim.
Foi aí que meu feeling falou mais alto e eu perguntei se
ele poderia me confirmar o preço do relógio, cujo valor,
como pressenti, era muito superior àquele apresentado

219
A intuição não vem do nada

na vitrina. Não tive dúvida, levei o vendedor até a vitri-


na e apontei o preço ali estabelecido, e ele me falou que
aquele preço era referente a um par de abotoaduras que
estava ao lado de relógio. Claro que tudo aquilo era ardi-
losamente armado para pegar os incautos, ou algum ára-
be de petrodólares desavisado. Catarina, minha mulher,
insistiu que eu pagasse o valor correto, mas relutei contra
meu ego exibicionista de recém-casado e desfiz o negócio,
independentemente da cara feia do vendedor e do cons-
trangimento de minha jovem mulher.
A minha indignação se tornou um contra-ataque per-
feito para mim. Sempre que meu cérebro diz que eu serei
um otário se me mantiver coerente com um compromisso
mal-estabelecido, não me sinto culpado em recuar e me
dou por satisfeito. Nesse caso, minha intuição venceu e
um explorador perdeu.
Como se vê, às vezes não é fácil sentir-se adequada-
mente avisado contra as pressões de uma tomada de de-
cisão, mas é muito mais difícil transformar esse aviso em
ação. Parte do problema é que nossa reação típica ao de-
sejo atrapalha nossa capacidade de pensar. À medida que
essa corrente visceral avança, o lado cognitivo e racional
recua. No impulso da excitação é difícil ficar calmo e re-
fletir sobre o assunto. Quando vemos algo que queremos,
uma agitação física tem início, especialmente nos casos
que envolvem competição. O sangue sobe, a concentração
fica mais direcionada e as emoções aumentam. Você não
pode se deixar levar pela obsessão e pela aceleração do
momento. Jamais deixe o racional intuitivo de lado.
Por isso, em vez de deixar que a excitação obscureça o
seu cérebro, talvez seja melhor usarmos o destempero do
nosso inimigo em nosso favor e simplesmente nos sinto-
nizarmos com nosso ímpeto interno, visceral, para obter
um aviso. Aí, tomaremos a decisão certa.

220
Luciano Bivar

Mas é bom que isso fique bem claro: não existe sexto
sentido sem que algo tenha acontecido antes. Você pode
até não perceber – o que, aliás, é muito comum –, mesmo
porque não somos muito de raciocinar quando imbuídos
de paixão. Lia Habib diz que somos preguiçosos mentais
à beira de um colapso, sendo que o processo já não é tão
simples. Concordo que não exista receita para atuar, no
entanto, é necessário observar o mundo ao redor.
No mundo dos negócios, você toma decisões, reconhe-
ce talentos, contrata pessoas, aposta em novos produtos,
novos conceitos, paradigmas e necessariamente todo esse
processo passa por regras lógicas de mercado, estudos e
pesquisas. Daí então, você forma seu próprio conceito in-
terior, não verbal ou racional, mas isso não afasta a ne-
cessidade do trabalho árduo, responsável e a verificação
científica do dia a dia.
Sem trabalho direcionado e com inteligência, não há
solução.
Tudo isso faz me faz lembrar a história de dois náu-
fragos perdidos no meio do oceano, sendo um religioso e
outro leigo. O primeiro virou-se para o leigo e falou:
– Irmão, vamos nadar e orar. É a única coisa que nos
resta.
Ao que respondeu o leigo:
– Está certo, santo padre, mas é preciso que nademos
para o lado da praia.
O que eu quero dizer é que não basta a intuição – é
preciso ir em frente. O trabalho árduo e contínuo de que
falamos é, nada mais nada menos, que a materialização
do intuitivo.
Não basta a análise intuitiva, é preciso trabalhar na
direção certa.
O megaempresário Jorge Paulo Lemann, um dos líde-
res da maior indústria de cerveja do mundo, a ABInbev,

221
A intuição não vem do nada

entre outras lições, diz que, ao longo do tempo, aprendeu a


confiar e a depender mais de estudos, projeções e opiniões
de especialistas em processos decisórios mais formais. Isso
sem jamais dispensar o feeling. Corremos riscos mais basea­
dos em sentimentos do que em análises mais profundas.
Eu diria que antes eram 80% feeling, 20% estudos. Hoje em
dia, talvez seja 50-50. Acho que aquilo que você sente na
barriga vale tanto quanto aquilo que está no papel.
Washington Olivetto, um dos mais bem-sucedidos pu-
blicitários brasileiros, depois de passar 53 dias em um ca-
tiveiro, vítima de um sequestro, só pensava em deixar o
Brasil e viver mansa e pacificamente o resto de sua vida.
Entretanto, tomou outra decisão. Disse ele: “Vi que o que
me alimenta é meu trabalho e é no Brasil que eu o faço
melhor. Continuo na W, fui pai de novo e vivo uma vida
plena. Sou muito intuitivo. Costumo brincar que, em ter-
mos de intuição, sou uma comitiva de mulheres. Na hora
de decidir, levo em conta tanto interpretações racionais
quanto percepções intuitivas. Se empatar, opto pelo que
diz minha intuição”.
A vida é sempre assim, cheia de bifurcações e encru-
zilhadas. Nós temos que estar bem preparados para ad-
ministrar os obstáculos que nos surgem e é importante
discernir a impulsividade da emoção intuitiva.
Muitas vezes fui advertido por meus advogados e con-
selheiros a não agir tão firme de modo a parecer incon-
sequente, mas meu sentimento de justiça falava mais alto
do que as consequências que pudessem advir de algumas
decisões intuitivas, mas jamais me dobrei às maledicên-
cias que o mundo nos apregoa.
Sempre fui, obviamente, um homem de carne e osso,
e às vezes lembro uma frase de Mahatma Gandhi: “Onde
não houver escolha senão entre a covardia e a violência,
eu aconselharia a violência”. Não que praticasse a violên-

222
Luciano Bivar

cia no sentido físico, mas o destemor pelo certo e pela


paixão e o amor fazem de cada um de nós a essência pura
de um ser humano.
Não passamos um dia sequer sem fazer escolhas, das
mais simples às mais complexas. Casar ou não casar?
Mudar de emprego ou não? Morar em outro país ou fi-
car onde está? Deixar o bem-amado e trilhar por novas
aventuras amorosas? Enfim, são tantas encruzilhadas que
nos transformamos em uma complexa máquina de pen-
samentos.
Decidir não é fácil. Nossas escolhas, muitas vezes, de-
pendem ou comprometem outras pessoas. Por isso, é im-
portante que você observe a sua intuição. Ela é mais pura,
porque traz em sua essência aquilo que chamo não de
premonitor, mas de dom divino, porque ela vem calcada
do mais cristalino sentimento de verdade, imune aos mais
sedutores desejos do mundo plástico das coisas. Essa é a
razão da minha fé.

223
Vidas quase cruzadas
Luciano Siqueira

Dela soubemos apenas que nasceu em Fortaleza, mu-


dou-se para o Rio de Janeiro onde viveu a infância, a
adolescência e o começo da juventude, e alterou períodos
fora do país – não disse onde – com retornos intermiten-
tes à terra natal. O sotaque carioca conserva. E o gosto
por peças e símbolos orientais, que mistura com motivos
nordestinos na decoração da pousada. Tem um cantinho
meio esquisito, uma pequena edificação em taipa, onde se
encontra um tosco altar para os que desejarem fazer suas
preces. – Religião não tenho, mas sou adepta da filosofia
budista, explica. De suas andanças e vivências, exibe no
corpo tatuagens que quem olha não entende, carece de
esclarecimento. Sim, tem também o marido, que usa ócu-
los escuros para proteger a vista do sol, meio obeso e fala
ao jeito gaúcho.
Ao café da manhã, demonstra intimidade com qua-
tro hóspedes mulheres que lhe relembram a conversa da
noite anterior: – Que história tem vocês, hem. Nós tam-
bém temos nossas histórias, hoje a gente continua daque-
le ponto: quando e como tudo começou. Trocam risadas
e resmungos, como se segredos estivessem a revelar. Na
promessa de detalhes, feita pela branquela, um quê de
cumplicidade. São dois casais do mesmo sexo.
Fazíamos nossos pratos: abacaxi, melão, mamão pa-
paia, tapioca, ovos fritos, queijo, manteiga, presunto.
Suco de acerola. Café forte. Não éramos parte do peque-
no grupo que se formara em torno da mesa larga. Nossas
Luciano Siqueira

intimidades não interessavam, certamente nada tinham a


nos contar numa manhã de sol esquentado, naquele mor-
maço debaixo da grande caiçara. Não tínhamos compar-
tilhado como elas, na noite anterior, coisas vividas, sonha-
das, sofridas e comemoradas.
Ficamos à mesa na quina, mais distante, já não ouvía-
mos a conversa, nem ouviam o que dizíamos.
Entre peças artesanais nordestinas e abajus e estatue-
tas budistas, espalhados pelos diversos ambientes da pou-
sada, livros e revistas em diversas línguas e uma coleção
quase completa de Bravo! A capa, sobre os cinquenta anos
de Grande sertão: veredas, deu o mote para breve troca de
impressões sobre o gosto comum pela boa leitura. Nada
mais que isso.
Dia seguinte seguimos viagem pelo litoral cearense,
deixando a saudação habitual de um bom-dia, um abraço
fraterno, a paga pelos dois dias ali vividos e a leve frustra-
ção, nossa, não sabemos se dela também, por não haver-
mos entrado na roda e compartilhado coisas da vida, de
nossas vidas. Nossos destinos por estradas distintas, em
paralelo, talvez mais: bifurcados, faltos daquela oportu-
nidade de entrosamento, vidas que não se cruzaram. Por
um pouquinho de nada.

14 de janeiro de 2010
Portal vermelho – a esquerda bem informada. www.vermelho.org.br

225
Anotações sobre um coração
e uma trombeta
Luiz Berto

Enterrem meu coração na curva do rio é o título de um


livro que fez sucesso há alguns anos no Brasil. É, me pare-
ce, o texto de um índio norte-americano sobre a odisseia
de seu povo.
Largo essas informações assim imprecisas pelo fato
simples de que não cheguei a ler o livro. O que vale, para
o que aqui discorro, é a profunda impressão que causou
em mim este título: Enterrem meu coração na curva do rio.
Uma força enorme me atraiu para a beleza da imagem
criada pela frase.
É incrível esse coração terno e arrebatado que pede
para ser enterrado na curva do rio. Eis aqui o outro mis-
tério da frase, pois nada de mais poético e encantado que
uma curva. E, ainda por cima, uma curva de rio. Doce e
apaixonado coração que exige não menos que a sinuosi-
dade de uma corrente, possivelmente silenciosa, de onde
fitará para sempre, em seu repouso, uma beleza que só
mesmo um coração sensível e terno pode divisar.
Acho que só os nascidos ou criados às margens de um
rio de interior são capazes de perceber as sutilezas que se
escondem atrás do correr das águas num leito que a natu-
reza levou milhões de anos para moldar.
Nos primeiros decênios do século passado havia uma
aldeia de índios mansos – onde hoje se ergue a mui digna,
leal e hospitaleira cidade dos Palmares – que caçavam em
nossas matas e pescavam no Rio Una.
Luiz Berto

Essa aldeia, embrião da cidade dos Palmares de hoje,


recebeu o nome de Trombetas a partir de uma determi-
nada época. A se acreditar nos alfarrábios (e eu não vejo
motivo nenhum para duvidar deles), um batalhão passou
nas cercanias da aldeia por ocasião da Revolução Praieira
e por lá deixou se perder na lama uma trombeta de guer-
ra. Daí o nome do povoado.
Eu pensei nesta trombeta, enterrada por acaso em nos-
sas terras, e me lembrei do coração do índio pedindo para
ser enterrado na curva do rio. Quem sabe, a trombeta não
estará plantada numa das curvas do Una?
E, pensando nisso, me dei conta de que meu próprio
coração está firmemente enraizado não apenas em uma
curva, mas em toda a extensão do Una que banha nossa
cidade. Fui enterrando-o aos poucos, desde que nasci, nos
remansos barrentos de suas margens, até que chegou o
dia em que me dei conta de que, por mais longe que fos-
se, um pedaço de mim estaria para sempre fincado nesse
misterioso chão que me serviu de berço.
Possivelmente meu coração sabe o local exato onde foi
perdida a trombeta e, com toda certeza, compreende per-
feitamente o desejo do coração do índio de ser enterrado
na curva do rio do seu povo.
Hermilo dizia: “Palmares é minha marca para toda
vida”, porém eu acho que o coração dele é que é mais
uma marca plantada numa das curvas do Una. Como o
meu coração. Como o coração de todos que se encantam
com a magia dessa terra que recebeu um rio de presente,
e de um rio que deu vida a essa cidade.
Ao contrário do índio norte-americano, poupo aos
pósteros o trabalho de enterrar meu coração numa curva
que dê boa vista para a paisagem e tranquilidade para um
bom repouso.
Meu coração já está plantado em algum recanto de
margem desse velho Una.

227
Mãe & Filha
Luiz Carlos Monteiro

De passagem por Olinda decido ir à procura de alguém


que conheço. Chego ao bairro. Localizo a rua e a casa.
Chamo. Moram apenas as duas. Mãe e filha. A mãe apare-
ce. Mesmo me reconhecendo não se altera. Não me convi-
da a entrar e nem alimenta nenhuma conversa. Diz apenas
que Ela não está. E retira-se para dentro ruminando seus
velhos severos cabelos de prata. Antes fecha a porta. Os
olhos frios duríssimos por trás dos óculos dourados.
Vi que a antiga árvore da entrada do jardim da casa
definhara bastante. Raízes e galhos implodindo cansada.
Não havia rastro dos pneus do carro. Insisto. Mas eu pre-
ciso saber onde Ela está. A mãe rebate. Agora eu só sei
que aqui Ela não está. Taxativa. Volte outro dia. Digo que
não posso vir outro dia. Bate novamente a porta na minha
cara. Mais três pancadinhas e falo com Ela. Três pancadi-
nhas de nada. Três pancadinhas assim. Desisto. Seguirei o
conselho da velha.
Outro dia eu volto. Um tempo que usarei para lem-
brar e relembrar. Noites que se sucediam rapidamente até
o núcleo de vivências inesperadas de muito pique e festa.
Horas encruzadas de contatos com aspirantes a artistas e
artistas consolidados. Artistas da vida que se equilibravam
com a força da ginga e do verbo. Sucesso garantido com
as mulheres malucas desinibidas. Bailarinas poetas atores
cantoras músicos pintoras. Gente diversa que compunha
o espetáculo repetido de bares alternativos e próprios
para turista ver e desfrutar. Barraquinhas de queijo assa-
Luiz Carlos Monteiro

do e tapioca. Abraxas. Cantinho da Sé. Praça do Carmo.


Ladeira de São Francisco.
A loucura de aparência espectral de uns contraposta à
lucidez falseada de outros. Alguns mergulhados e emba-
lados no ritmo de cigarros ainda proibidos para consumo
geral e somente por lá encontrados. Bolinhas de guaraná
e fartura de alcaloides. Sempre guardando qualquer res-
sonância com um passado tão próximo quanto o presen-
te que se estava a fazer. Todos com sede radical de vida.
Boêmios que abraçavam a noite pela noite. Sem trocar a
conversa bem-humorada e sem compromisso pela destila-
ria de saberes acumulados. Na noite cerceada e sem saída
inventava-se uma outra noite só ocorrente na claridão de
luzes clandestinas.
Amanhece e é preciso retornar ao provisório de um
quarto. Transitar pela cidade ainda sonolenta. Resolvo
que vou ao duplex das duas para ver se Ela também já
voltou da surpresa viageira e errante. Busco sem hesitar
pela velha ao basculante da porta. Nenhum sinal humano
ali. Estava morta na volta. Não sei o motivo. Velhice tal-
vez. Antes tentava dormir não dormia. Agora dorme sem
tentar nem desejar. Dormirá indefinidamente. Não há
dúvida de que Ela não voltou. Não pude mais procurá-la.

2 de fevereiro de 2010
Blog de Luiz Carlos Monteiro. http://omundocircundante.blogspot.com

229
A velhinha no Jardin du Luxembourg
Luiz Arraes

Seu andar vagaroso, o corpo curvado, firmes em cada


braço de um lado a sua velha bolsa (que haveria dentro
dela?), do outro o saquinho de milhos para os pombos.
Sentava-se, sempre, no mesmo banco, arrodeada das
estátuas de Catarina de Médicis e suas princesas. A rainha
que teve três filhos, e que o destino, ou alguma maldição,
não fez, de nenhum, rei. Talvez por isso, no mármore frio
do Jardin du Luxembourg ela esteja cercada de mulheres.
Apenas mulheres. Esconderam os homens que não chega-
ram a cumprir seus destinos
A velhinha olhava para o alto. À sua volta parecia não
haver ninguém. Os passantes que andavam apressados
eram indiferentes a ela e ela mais ainda a eles. Abria o
pequeno saco e jogava na maior circunferência possível,
que seus pequenos braços já cansados permitiam, os grãos
de milho. Não demorava nada e lá chegavam “seus” pom-
binhos. Digo seus porque com eles tinha grande intimida-
de, parecendo falar a mesma língua.
Esse encontro, distante, silencioso e unilateral, creio
eu, aconteceu há alguns anos.
Fruto da coincidência do horário em que corto cami-
nho pelos Jardins du Luxembourg, vindo de meu escritó-
rio na Sorbonne até o Boulevard Raspail, onde apresento
seminários no Institut des Hautes Études.
Aquela presença constante e fiel da velhinha me cha-
mou a atenção e, desde então, paro o tempo necessário
que o bem de observá-la me faz.
Luiz Arraes

Observamo-nos aos outros porque observarmo-nos a


nós mesmos não traz nenhuma serenidade. Lá está ela.
Pergunta-se ou aos pombos de onde vem a felicidade de-
les. Nietzsche tinha uma resposta. Clássica resposta. A fe-
licidade ou tranquilidade dos animais vinha do fato deles
não serem importunados por perguntas. Se isto por acaso
acontecesse, eles esqueciam ou não entendiam a pergunta
e seguiam seus caminhos.
Lá está ela. Não a imagino leitora de Nietzsche, mas
pouco importa. Ele não era o único a saber das coisas e
possivelmente muitas vezes equivocou-se.
Não é monopólio de ninguém a ideia da aliança do
sofrimento com a lembrança e a consequente construção
de uma memória.
A primeira leva de milho acabou. Os pombos procu-
ram em vão girando em torno de si.
Um balé caótico, no limite da agitação. A mão da velhi-
nha já carrega outro punhado. Os pássaros param em tor-
no dela. Viram a mão dela encher-se de grãos. Ela, numa
primeira vez, finge que lança ao ar o punhado de milho.
Os pombos ficam parados. Por fim, ela joga a nova
carga. Recomeça a festa.
Fico a me perguntar. Por quê? Será que tudo não esteja
justamente na ausência de mistério, de segredo. Fico a me
perguntar: por quê?
Sobre a razão das coisas, a origem, a vida, seu sentido,
a morte; tanta coisa, coisas que inquietam a todos. Por
quê? Será que tudo não se explicaria justamente na au-
sência de mistério, de segredo?
Numa mão de milho jogada aos pombos que se alegram
com aquele farto banquete e que alegra quem a joga?
As pessoas passam apressadas na maioria das vezes.
Jovens, casais, executivos ou executivas, ou trajados como
tal, a cidade de hoje, seus habitantes para resumir. Não

231
A velhinha no Jardin du Luxembourg

olham para a velhinha em seu canto e quando o fazem,


raramente o fazem, imagino desinteresse, descaso ou ex-
cepcionalmente compaixão.
Equivoca-se quem, por acaso, queira dar sentido àque-
la cena. A velhinha não tem rótulos, ideologia, qualquer
sentido para ninguém. Pouco importa a ela. Ela é uma
velhinha sentada no banquinho, tal como pode ser vista.
Uma velhinha a jogar grãos de milho aos pombos. Por
que saber mais? Somos, ao que parece, condenados a pen-
sar o tempo inteiro, a encontrar explicações, a querer, é o
que pedem de nós, enxergar na escuridão.
Talvez porque no nosso cérebro e no nosso coração
existam partes que não existem e que só passam a existir,
a ser, à medida que um estímulo, experiência, observação,
reflexão, lhes dê vida, lhes acorde.
Lá está a velhinha sentada. Ainda a alimentar seus
pombos; os insaciáveis ou bandos diferentes que desco-
brem ou já conheciam seu ritual. A intimidade entre ela e
os pombos é algo de espantar. Penso – mais uma vez esta
imposição – no tempo dela, sem regras como o nosso. O
tempo dela é sem amarras, a expansão de sua serenida-
de, talvez até um vazio interior, que a isole de algo que
a puxe para o passado ou para o futuro. Lembro-me de
Valéry que dizia ser a vida tão simples e o pensamento
tão complexo. Ou Kafka que pensava parecido, embora,
paradoxalmente, o oposto. Dizia ele que na vida não há
propósito, o labirinto simplesmente existe.
A tarde mostra um céu. Raios de sol, como se fossem
dirigidos, iluminam uma árvore que muda de cor à me-
dida que o raio a varre, o imponente prédio do Senado
cujas pedras parecem, por um instante, de bronze, a água
da fonte que se transforma em prata. Luz. Luzes. Um ba-
rulho me tira da contemplação. A revoada de pombos. So-
bem em bando como uma flecha; fazem ainda duas voltas

232
Luiz Arraes

no ar antes de tomarem uma direção exata. A velhinha


balançou a mão num gesto de despedida. Amassou seu
saquinho de papel e após levantar-se com algum esforço
jogou-o numa lata de lixo.
Segurando a sua bolsa, caminhava com os mesmos
passos lentos da chegada a caminho da saída. Lá fora es-
peravam-na o tumulto e o barulho dos carros, das pesso-
as, das ambulâncias, dos apitos e tantos outros; quem sabe
até um pedido de socorro de alguém sendo estrangulado
abafado pelo caos sonoro.
As coisas, a vida acontecem dentro dela, em seu inte-
rior, em seu tempo, em sua paz solitária. Ela fez o certo
que é se calar e não falar como nós, para que não a po-
nham no hospício. Para o outro, somos sempre os loucos,
os largados.
Algumas vezes cheguei a segui-la. Um pouco para vê-la
em sua caminhada pela calçada. O mesmo passo lento, o
sorriso discreto, mas revelador de sua grande felicidade.
Aquele sorriso não poderia mentir!
Pobre gente que um dia tenha passado por ela e pen-
sado: coitada.
Pobre gente apressada a pensar o mesmo que, há muitos
anos, outros tenham pensado de São Francisco de Assis.
Pobre gente como eu que carrega uma agenda, usa no
pulso um relógio, vive a fazer cálculos, a falar ao telefone,
a usar sem necessidade o computador.
O mundo não cabe no meu entendimento.
Aprendi algumas coisas e toscamente repito para ou-
tros.
Chego na hora certa. A velhinha nunca se atrasou.
Deixaria que ela me atrasasse caso ela se demorasse
mais a chegar.
De toda forma o tempo dela é outro.
O fato é que não veio.

233
A velhinha no Jardin du Luxembourg

Os alunos me esperam. Gosto do ar respeitoso que


vejo em seus rostos, pelo nome que construí.
Artigos, livros, conferências, mídia. O professor!
Começo a falar ante um silêncio absoluto. O que esta-
rá a fazer a minha grande professora?
Penso já no dia seguinte, no reencontro com a velhi-
nha, estranhamente, ausente hoje.
Penso já no nosso reencontro quando a verei chegar,
com seu andar lento, sua bolsa em um braço e seu saquinho
de milhos. Seu corpo curvado como de quem só quer ver
o que quer e não o que a paisagem oferece. Ela tem uma
independência e liberdade que me assustam, que admiro.
As perguntas dos alunos me provam o quanto é difícil
aprender as coisas simples.
Penso nela sem me dispersar. Estou na aula.
Penso, pergunta boba, o que carregará aquela velhi-
nha naquela bolsa que leva consigo com tanto zelo?
Se faltar ao nosso encontro, qual será a explicação?
Depois de tantos anos, qual será a resposta? Não quero
pensar na inevitável pergunta que a sua ausência criou na
minha mente.

234
Os 45 minutos
Lourdes Sarmento

O pássaro azul voou em círculo, devagar sobre os giras-


sóis, observando o tropel. Como Clarice Lispector “que-
ro escrever como quem aprende. Fotografo cada instante.
Aprofundo as palavras como se pintasse mais do que um
objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por que, po-
de-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem
resposta”. Há no hálito da tarde, além da minha palavra,
o canto que me divide o peito em espigas douradas do ve-
rão. O trigo está maduro. A mesa está posta. Quero ofertar
aos famintos e oprimidos uma refeição matinal. Quero fa-
lar aos mal-amados que os seus olhos estão abertos para o
nada. Só o amor é a estrela que nos conduz ao amanhecer
e senta-se, como conviva, no festim do sonho e do prazer.
Fui hóspede da ilusão e da minha própria história. “Os
homens crescem como árvores em diferentes formas, tor-
tas ou direitas, segundo a natureza do seu nutrimento.
Mas, enquanto a seiva corre e as folhas reverdecem, não
deveria haver disputas quanto à forma do homem”. Nas-
ci, há alguns instantes. Como Huxley, comemoro o dia do
meu nascimento espiritual – o dia que emergi da semi-im-
becilidade para algo mais assemelhado à forma humana.
Comungo a hóstia e o vinho tinto dos jambeiros. Rua
das Crioulas, a rua dos jambeiros e ali o meu casarão,
cheirando a lembranças da infância, enquanto a minha
gata branca tinha um canto mais alto do que a noite.
Teço, hoje, a minha história. Fui silêncio, para não que-
brar a força do gesto das nossas mãos. Somei vários e di-
Os 45 minutos

ferentes momentos, em 45 minutos de um 31 de agosto


inteiro, na dimensão mais perfeita do existir. “O amor ma-
duro não disputa, não cobra, não faz do temor argumen-
to. Basta-se com a própria existência.” (Artur da Távola).
Tudo é vida. Tudo é amor e, se nada se repetir e nada mais
acontecer é linda a vida que declaro possuir. “Quem nada
conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada com-
preende, nada vale. Mas quem compreende também ama,
observa, vê... Quanto mais conhecimento houver inerente
numa coisa, tanto maior o amor... Aquele que imagina que
todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as
cerejas, nada sabe a respeito das uvas.” (Paracelso).
Escrevi um hino quando inventei as minhas próprias
leis. Sei que a vida é algo mais do que tudo aquilo que os
olhos veem. Nas curvas do caminho, espera-me sempre.
No meu corpo haverá eternamente um verão com o chei-
ro do mar, acordando o mundo com o seu canto.
A chuva anuncia o inverno. Quase todos nós sentimos
na dor o inverno tragando os nossos sonhos. É a lágrima
que lava nossa alma em momento de spleen. É a nossa an-
gústia diante do assassinato da vida. É o protesto sufocado
diante de um painel humano de amarguras e paixões.
É o inverno. Não importa que comece em março. Não
importa que comece em setembro. Ele existe. Ele existirá
sempre. Como diz Rainer Maria Rilke: “as coisas estão
longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos
pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos
é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma pa-
lavra nunca pisou”. De repente, somos alcançados pela
tempestade impiedosa, pelo frio que tenta congelar os
nossos músculos. É o inverno para o qual não estávamos
preparados. A nossa roupagem já está gasta e nos restam
duas opções: fugir sem olhar para trás. Sem ter saudades
do que construímos com sacrifícios e amor ou buscar o

236
Lourdes Sarmento

outono entre árvores que mudam as cores das folhas, para


entender a caminhada.
É noite. Da varanda do meu apartamento, não consigo
ver as cores diversificadas das folhas das mangueiras e de-
las retirar a seiva que me sustenta na mais profunda comu-
nhão com a natureza. Mesmo nos momentos de reflexão
e lamento interior, consigo amar a vida, quando esqueço
a maldade dos seres humanos e sinto-me parte integrante
das árvores, das plantas, das flores, dos rios, do mar.
Sou a mulher que aprendeu a sorrir quando uma lá-
grima amarga desliza no interior do seu ser. Não sei se
sou palhaço, louca ou poeta. Talvez uma mistura de tudo,
para que salve os meus cabelos dourados das nuvens cin-
zentas da poluição. Ontem declarei, no silêncio do meu
quarto, que “procurarei suportar com ânimo tudo aquilo
que precisa ser feito” (Sócrates). Gostaria que as pessoas
entendessem mais sobre a liberdade. Não se valessem de
retórica, simplesmente respeitassem a minha dignidade
de viver sem interferências que somente complicam o rit-
mo das coisas.
Acende-se em mim o fogo da terra, marco o Tempo
em sóis, luas e tempestades que trouxe no meu último
voo, sem resposta.

237
Recife: o amor de uma cidade
Luzilá Gonçalves Ferreira

Houve um tempo em que o Recife era uma palavra,


uma coisa longe, um lugar para onde vez em quando via-
java meu pai, para onde viajava vez por outra minha mãe,
visitar minhas irmãs internas no colégio. Dessas viagens
eles traziam novidades: colares feitos com castanhas, vi-
drinhos de perfume, das pequenas provetas Dirce, todas
com cheiro enfadonho e igual. Quando brigava com mi-
nha irmã pequena, ela dizia “se você não me der isso eu
vou mimbora pro Recife”, eu chorava e dava a boneca de
espiga de milho, o boizinho feito com mamão e palitos, as
estampas de sabonete Eucalol que contavam os feitos de
Hércules e as doze maravilhas do mundo antigo.
No Recife, o trem passava na frente da casa, um sobra-
do com tantos quartos que mais da metade a gente não
usava. No quintal as árvores pareciam fantasmas, vetustas
e escuras, a lavadeira cavava um buraco no chão e nele
deitava o filho, que sorria e dormia em meio às folhas
secas, um paninho alvo protegendo. E quando a gente se
mudou outra vez, a casa nova tinha um jardinzinho com
tomateiros em forma de cajá. E umas lindas flores azuis
que minha mãe chamava de hortênsias, e que ela cuidava
como se cuida amor.
Perto de casa passava o bonde, as rodas rangiam nos
trilhos do circular, o bonde que de vez em quando tomá-
vamos, sem mais razão do que esta: ir dar uma volta na ci-
dade e ver os jardins. A gente nem descia, os jardins eram
uma beleza, o centro da cidade tão limpo, as vitrines arru-
Luzilá Gonçalves Ferreira

madas. Numa esquina da Manoel Borba havia uma linda


casa, com um terraço redondo, o teto pintado de azul ti-
nha umas andorinhas pregadas que me faziam sonhar. Os
jardins dos ricos possuíam roseiras e dálias, palmeiras que
recendiam a pimenta, mas a gente nunca via ninguém ne-
les. Quase em frente ao Clube Português havia um chalé,
e no jardim uma espécie de quiosque chinês se cercava
de flores. Depois eu soube que ali morava dona Cilu, que
gostava tanto de rir e eu entendi que só podia ser mesmo
feliz quem morava ali. Anos depois, quando iam demolir
a casa, entrei, buscando a sombra de dona Cilu que eu
não conhecera e pedi ao vigia que me deixasse apanhar
umas plantas. Desde então, a esta época do ano os liriozi-
nhos azuis de dona Cilu florescem no meu jardim.
Recife tinha o Colégio Agnes, as meninas internas to-
cavam a Serenata de Schubert, cantavam canções de Villa-
Lobos, liam Pollyana moça, e eu invejava minhas irmãs.
Diziam que ali fora o palacete dos Tasso e, no sítio, uma
enorme ubaia plantada por um deles ostentava a placa
indicando, com data antiga.
Recife era o Parque Amorim, a casa dos Tavares em
meio ao enorme sítio; quase em frente, uma mansão onde
funcionara o Agnes muitos anos antes e uma espécie de
lago com uma pontezinha. Minha mãe contava que, me-
nina, viera ao Recife, e ali vira o peixe-boi, que as gentes
olhavam e respeitavam.
Recife era uma cidade onde a pobreza era digna, a
gente passeava livremente pelas ruas do centro ou dos ar-
rabaldes, sem que a miséria nos entristecesse. Dona Maria
Filipa vendia ovos e falava da mãe, camareira de Eugênia
Câmara, a amada do poeta. Um doido que morava na
Estrada de Belém vinha todas as tardes conversar com a
gente. Cantava “Granada, terra sonhada por mim”, re-
petia a primeira frase, a cada vez subindo uma nota da

239
Recife: o amor de uma cidade

escala – até que a garganta não suportasse mais e então


suspirava e desistia dizendo: – Mas isso é bonito!
Recife. Quando me vêm à mente essas lembranças, es-
sas imagens, quando folheio velhos jornais, velhas revistas
com fotos de nossa cidade, vejo o caminho percorrido e
alguma coisa dói. Da beleza antiga, da arquitetura antiga
pouco resta, em alguma rua da Várzea, de Casa Forte, em
certos trechos abandonados da rua Imperial e daqui a uns
anos, se as coisas continuam neste ritmo, esta cidade não
se parecerá mais com nada. Os jardins desapareceram ou
quase: os ricos constroem belas residências, altos muros,
aprisionam moradores e jardins. Na rua Nova já não se
pode flanar para ver vitrines, no Parque 13 de Maio a
gente já não se sente tão protegida, e ninguém pode mais
se sentar tranquilamente à beira do cais e olhar o rio.
Recife. Muitas coisas se escondem atrás desse nome,
dizia um poeta. Com todas as suas mazelas, o Recife é ain-
da uma cidade onde a gente pode ser feliz. Onde a vida
pode ser construída a uma escala humana, o ar é respirá-
vel, a maioria das pessoas ainda tem tempo para os ami-
gos. No S. João ainda há fogueiras e quadrilhas. A gente
troca pratinhos de canjica e bolos de milho. E quando se
está triste, porém triste de morrer, não é preciso sonhar
com Pasárgada: a gente pode se esticar ao sol de Boa Via-
gem, mergulhar em suas águas mornas.
Recife. Muitos de nós poderíamos viver em outra cida-
de, mas escolhemos permanecer aqui. Onde cada esquina
nos conhece, onde encontramos gente amiga quando nos
aventuramos a um teatro, a uma conferência, um cinema,
um concerto Aqui nossos filhos crescem, buscando seus
próprios caminhos, nesta paisagem impressa em nós, na
retina de nossos olhos, em nosso corpo, e onde repousam
nossos mortos queridos.

240
Luzilá Gonçalves Ferreira

Recife: uma cidade amada. Um jeito de ser e de viver,


de respirar este ar, estes cheiros, de ver como as coisas se
recortam na paisagem, nesta luminosidade que existe em
poucas cidades do mundo. Com o olhar de quem conhece
as qualidades e defeitos do ser amado. E continua a amar.

241
Carnavais de outrora
Manuel Bandeira

Conheci ainda o Carnaval do papel-picado, dos limões


de cheiro e do Zé-Pereira. O Carnaval do Recife, na Rua
da União, entre 1892 e 1896. O Zé-Pereira:

Bum! Bum! Bum!


Bum! Bum-bum-bum!
Zé-Pereira!

Era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda


a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô,
nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, com-
pravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas,
verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras
trabalhavam picando o papel em minúsculos quadradi-
nhos. Eu não tinha ainda dez anos, mas já achava insensa-
to levar horas preparando um punhado de papel picado
que se iria embora pelos ares num gesto de mão que du-
rava um segundo... Assisti ao aparecimento dos primeiros
confetes, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas,
que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras
serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava
eram os dominós negros, as que me pareciam mais estra-
nhas, mais misteriosas, mais poéticas.
Em 96 vim para o Rio e conheci o Carnaval carioca,
tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mes-
tre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade
não era então a Avenida Rio Branco; era uma das ruas
Manuel Bandeira

mais estreitas e mais curtas da cidade e também a mais


elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a popula-
ção da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O
momento capital do desfile das grandes sociedades era
na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade es-
tavam presentes nas sacadas.
Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi se-
não os Carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio
abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu
prestígio. Quando voltei a ver o Carnaval carioca, já era
ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande
poema, que é de 1923:

...sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor


risadas e danças
Batuque maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados graça popular
Coros luzes serpentinas serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Sambas bumbos guisos serpentinas serpentinas...

Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Chei-


rava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretu-
do no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devi-
damente no meu “Rondó do Palace Hotel”:

Deus do céu, que alucinação!


Há uma criatura tão bonita,
Que até os olhos parecem nós:
Nossa Senhora da Prostituição!
– “Garçon, cinco martinis!” Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace,

243
Carnavais de outrora

Depois... Depois o Carnaval carioca passou a ter fama


internacional. Criou-se um Departamento de Turismo,
que começou a fazer propaganda do nosso Carnaval.
Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou
por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a mur-
char, e o certo é que o Carnaval verdadeiro, o Carnaval de
rua, só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita
Hayworth­a dar as caras por estas bandas. O Carnaval vis-
to por M­ ário de Andrade em 1923 não existe mais...

Quadrante. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1962

244
1968
Marco Polo Guimarães

Cena 1
Uma parede coberta por colagens coloridas; em des-
taque, uma palavra saindo de dentro da cabeça de Picas-
so: Fabulástico. Em 68 não se escrevia linearmente. Não
mais. Era algo assim como uma escrita de Jomard Muniz
e Glauber Rocha. A grande influência era McLuhan. O
meio é a mensagem. A mídia é um mosaico. Alegria Ale-
gria é uma letra de música assim, fragmentária e calei-
doscópica. Na Fafire, era criado o Cecosne, por madre
Escobar, com uma exposição de poema-processo. Algum
tempo depois fui convidado a colaborar com uma mostra-
monstro de poema-processo nacional, em Brasília. Man-
dei dois. De um deles gostava particularmente. Era uma
colagem. A cara de Ringo Star. No lugar da cabeleira, o
fogo e a fumaça de uma explosão atômica. Da boca saindo
um balão de HQ. Dentro, a mesma frase, primeiro num
corpo grande, depois repetida várias vezes diminuindo de
tamanho até quase se tornar impossível a leitura. A frase:
A Revolução tem futuro? Dois dias depois de inaugurada,
a exposição foi invadida pelo exército e todos os trabalhos
destruídos. A grande influência era Marcuse. A Revolu-
ção Sexual. Mas algumas meninas não tinham “embasa-
mento”. A gente tinha que gastar muita vã filosofia até
convencê-las de que fazer sexo era o melhor para elas.
E pra gente também. Outros embarcavam na viagem do
amor livre. Ninguém é de ninguém. Era duro – e às vezes
1968

cômico – ver gente lutando com o coração sangrento para


permanecer impassível ao ver o/a parceiro/a com outro/a.
Ajoelhou tem que rezar. É proibido proibir.

Cena 2
Cortinas de plástico amarelo e verde, vermelho, azul
e branco pendendo do teto; em cima, embaixo, no meio,
papagaios e tucanos, jararacas e ratinhos, cobras e lagar-
tos, tribos e totens e tabus.
Show da Rhodia no Santa Isabel com Caetano e Gil,
corpo de balé e desfile de modas. Festa na casa de Tiago,
de mãos dadas com Rita Lee dançando ciranda. Rita Lee
era uma menina e era linda, mas Arnaldo Batista era mui-
to ciumento. Dedé era uma menina e era linda, mas Cae-
tano era muito ciumento. As meninas do balé e as mane-
quins eram umas meninas e eram lindas, e seus maridos e
namorados podiam até ser muito ciumentos, mas estavam
em São Paulo. Melhor pra nós.
Levávamos eles para os bares mais pebas do mundo:
Pina, Encruzilhada. Eles adoravam, até amanhecer o dia.
Uma vez, às duas da madrugada, Celso Marconi cismou
de levar Caetano para conhecer Zé Cláudio. A gente ba-
tendo na janela da casa de Zé e Zé lá de dentro xingando
com tudo quanto era nome. E Celso: abre a porta, Zé,
Caetano Veloso quer te conhecer. E Zé: que Caetano Ve-
loso porra nenhuma, vai te foder, Celso. Até que de tanta
insistência veio abrir a porta e se convenceu de que era
verdade. Não perdeu a pose, mandou todo mundo entrar
e foi uma festa. Até o dia amanhecer.

Cena 3
Mar de Boa Viagem, à noite. Um grupo de rapazes e
moças corre pra água, todo mundo nu. Gritos e sussurros.

246
Marco Polo Guimarães

As sessões do Cinema de Arte no São Luís, aos sábados,


de manhã, cheias de gente jovem e bonita e inteligente.
Fellini, Buñuel, Godard, Glauber, Pasolini, Os Cafajestes,
Bergman, Os Amantes, Antonioni, Cinema Novo, nou-
velle vague. Na Sessão de Arte do Coliseu, Vidas Secas,
Um Corpo que Cai, Kurosawa, Festival Buster Keaton, o
homem que não ri. Na radiola, Tropicalismo, Beatles, Yes
nós temos bananas, Bob Dylan, Ambiente de Festival, Zim-
bo Trio, Marcianita, Birds, Superbacana e Rolling Stones.
Na prateleira, os livros de Che Guevara, o pôster de Che
Guevara, as frases de Che Guevara. Na Europa, hippies,
estudantes, Sorbonne e Daniel Cohn Bendit; nos Estados
Unidos, hippies, Panteras Negras e Angela Davies. Na TV,
Chacrinha comandando a massa e Reginaldo Rossi can-
tando: tô doidão, tô doidão, bicho, tô doidão. Na poesia,
a tentativa de clicar tudo isso num único poema, escrito
no calor daqueles dias:

Ser jovem é um sucesso (1968)

Não há por que viver sem sol


nem porque desprezar as soluções
o Brasil ainda tem uma saída
para os nossos corações
colar retratos na parede
minha mulher dorme com amigos
eu estou só mas sou um forte
e amanhã mesmo vou assistir a um filme de Fellini.
O delegado me perguntou qual a verdade
e eu perguntei se tinha um gravador debaixo da mesa.
Aí eu não vejo por que negar
e disse, yes, nós também temos
muitas bananas de dinamite.

247
A dor
Marcus Accioly

Nunca se sente a velhice do corpo, como se sente a


do espírito, porque a velhice do corpo é progressiva e
a do espírito acontece de uma vez. Byron, que morreu
aos 36, colocou em uma ficha de hotel a sua idade: 100
anos. Quando um homem gasta mais os chinelos que os
sapatos, anda mais pela casa que nas ruas, descobre que,
afinal, ele está velho. Embora a literatura seja, conforme
Proust – “a arte de ficar em casa” – há neste ficar (diverso
do “ficar” feliz dos jovens) um ficar nos pijamas e chine-
los. Como ele anda sem sair do canto, os pés restam pesa-
dos no lugar e os passos vão-se, aos poucos, encurtando.
As vestes são levadas pelo vento e o corpo perde o pru-
mo vertical. Ei-lo, sem equilíbrio, usando as mãos como
os pássaros pousados usam as asas. Não havia descoberto
isso em mim mesmo e talvez nunca descobrisse: os meus
chinelos eram usados pelos meus pés e pelos dentes de
Alfa. Também quase não possuía uma roupa que não ti-
vesse uma etiqueta falsa, para encobrir rasgões – marcas
de Alfa. Jamais o repreendi por isso, jamais o repreendi
por nada. Tudo meu era dele e vice-versa. Eu sempre ri de
mim (ria por ele) quando ia me vestir, às vezes às pressas,
e percebia a falta dos botões. Ele queria que eu ficasse
em casa. Para ele, uma gravata era uma cobra e, por isso,
deixei até de usá-las.
Alfa era um belo e forte cão de caça – um pointer-alemão,
brakko, kurzhaar, fígado e branco, com nome de princípio
e de estrela principal e mais brilhante de uma constela-
Marcus Accioly

ção. O seu pedigree superava o meu. Tínhamos os mesmos


olhos amarelos, mas o que importa agora a cor dos olhos,
se as lágrimas não têm nenhuma cor? Nunca deixei Alfa
sozinho. Quando a viagem se fazia longa, eu a encurtava
em cada ligação: alguém botava o fone em seu ouvido
para que ele escutasse a minha voz. Era o bastante para
que voltasse a comer e a esperar. Agora é Alfa que está
longe e quem telefonaria para que eu voltasse a comer e
a esperar? Havíamos combinado o nosso delírio, como o
delírio de Edgar Allan Poe com Maria Clemm: “Só juntos
poderemos morrer”. Algo quebrou a força da magia e a
morte descumpriu o nosso pacto. O biógrafo de Isadora
Duncan, Maurice Lever, dividiu com ela as palavras: “As
crianças não sabem morrer”. Alfa, que era uma criança e
que amava as crianças, também não sabia morrer. Se eu
pudesse com ele, pelo menos, revezar vida e morte, como
as duas estrelas da Constelação de Gêmeos – Castor e Pó-
lux – que, quando uma se acende, a outra se apaga...
Lembrava de Machado de Assis – “Quincas Borba
olhou para Quincas Borba” – quando, habitualmente,
tanto eu pensava ser ele, olhando para mim, quanto ele
pensava ser eu, olhando para ele. Li um poema em que
o autor esperava olhar para Deus como o seu cão olhava
no seu rosto. Nunca pensei assim. Jamais eu fui um deus
perante Alfa. Nossos olhares, um de frente ao outro, su-
biam amarelos para o céu. Costumava orar pondo a mão
sobre os seus pelos brilhantes e macios – que dizem ter os
cães que são amados. Mas nada disso mais existirá. Alfa
não vive e eu morro por saber. Uma dor tão intensa e tão
extensa, eu só senti quando perdi os meus. A dor moral,
feito a dor física, não é contínua, mas intermitente. Creio
que ambas, se não tivessem pausas, romperiam de vez o
ser humano. Durante a suspensão, os olhos secam e a dor
fica cansada de doer. Mas tudo volta e a dor parece nova

249
A dor

e, da luz que há nos olhos, desce a lágrima. As mortes


dos meus sempre me tiraram da aparente realidade e do
suposto equilíbrio em que vivo. É paradoxal, mas entre a
vida e a literatura há um espaço e existe um outro tempo.
A literatura é feita de vida, ou da vida, pois ela traz a vida,
faz a vida, e sem vida não há literatura. Eis que a literatu-
ra vence a morte. Porém, quando se chega à minha idade,
também se chega à outra conclusão: sem a literatura não
há vida. Quando a poesia triunfa sobre a vida e vence o
poeta com sua queda de braço – por se saber mais forte
do que ele – então se torna insubstituível. Nas mortes dos
meus, sempre existiu a dor compartilhada. Na morte de
Alfa, é a dor sozinha. Embora haja solidariedade, só eu
posso sentir tanto e chorar tanto, o que tanto comigo ele
viveu. Alfa me fez feliz por onze anos e o fiz, por onze
anos, ser feliz. Kleist e Stefan Zweig procuraram alguém
para morrer com eles e encontraram. A dor de Alfa é to-
talmente minha. Eu não encontro um só para chorar.

250
Tamarineira, adeus
Marilena de Castro

Há dez anos quando cheguei aqui havia muito verde.


O verde rosa das mangueiras, o verde dos cajueiros, das
jaqueiras que dão o nome ao bairro e do parque, isto sem
falar das tamarineiras.
Tamarineira, também o apelido do hospício mais fa-
moso da cidade. No terreno que cerca o hospital encon-
tra-se um grande pomar de vários tipos de árvores e fru-
teiras que deixam no velho manicômio o ar de mistério.
Infelizmente tudo ameaça se transformar em shopping cen-
ter ou quem sabe lá o quê.
Houve passeatas, protestos, foram colocadas faixas e
cartazes, todo um bairro se mobilizou, mas a muralha do
poder econômico não se mexeu.
Da janela do apartamento vejo as cores do dia mudan-
do até o caminhar da lua à noite. Só faltando as estrelas
ofuscadas pela luz dos postes e das casas.
Nos dias de chuva observo a lavagem dos telhados
das casas restantes. Talvez não reste quase nada. Todos
os dias, vejo desaparecer a paisagem para que brotem do
chão prédios tão altos que encobrem os morros que não
enxergo mais.
Os pés de manga, goiaba, jaca, tamarindos, caju, fo-
ram mortos para nascerem os arranha-céus.
A ministra Marina Silva falou, em uma entrevista, que
a primeira vez que viu do avião uma cidade grande cheia
de prédios, achou que a terra sentisse cócegas
Tamarineira, adeus

Parece que estes gigantes de concreto estão mesmo arra-


nhando os céus, pois a cidade está cada dia mais quente.
Já perceberam quantas mudanças no clima e na pai-
sagem?
Como dizem os mestres orientais, a impermanência é
a única coisa que permanece.
Pois sim, o mundo está mudando e rápido. Se não for-
mos atentos nem perceberemos o dia passar e assim os
meses e os anos.
Talvez nós estejamos provocando todo o desequilíbrio
do mundo ou, quem sabe, sejamos apenas os agentes ati-
vos e/ou passivos.
Será que já está escrito?
Antes que a América fosse descoberta, os Maias predi-
ziam, através do seu calendário, que o mundo iria passar
por transformações dramáticas em nossa época. Talvez
baseados no que aconteceu à sua própria civilização. Ci-
clos de fartura e de escassez, até o desaparecimento.
Aliás, tudo muda, não é?
Ah, como muda. Este adeus, de mãos abertas e dedos
livres, estava pronto para a despedida quase em forma de
apocalipse, embora lírica. Mas não. Não foi preciso.
Os Maias terão que esperar mais um pouco.
A Tamarineira está salva. Salva e verdejante.

252
Não há quem dê mais?
Mário Sette

O leilão em domicílio foi considerado a princípio uma


falta de pudor. Assim como não se permite a ninguém
despir-se em público, também causava vexames abrir
as casas a estranhos para que ali se vendessem trastes e
utensílios. Aqueles interiores de outrora tão esquivos, tão
claustrais! Ficava mal por esse lado de recato e, além do
mais, dava ideia de penúria, de dificuldades, de decadên-
cia. Dir-se-ia: – “Fulano está acabando com o que tem...”
Era um mau sinal de equilíbrio econômico. Geraria des-
confianças e prevenções não somente de ordem privada
como igualmente de caráter comercial. O crédito sofreria
na praça... Leilão, somente os ordenados pelo juiz.
Por isso, de começo, anúncios de leilões apenas alu-
diam a vendas de salvados, de artigos em abandono, por
medidas judiciais, fossem nos trapiches, nas alfândegas
ou nos próprios cais da cidade. Quando muito, nas agên-
cias dos leiloeiros. Predominavam, entretanto, os leilões
de mercadorias avariadas, explicáveis pela morosidade
nas travessias dos barcos a vela, sujeitos a ríspidos tem-
porais com insultos violentos de vagas, aguaceiros, mofo,
tudo a concorrer para que muita cousa saída dos portos
europeus em bom estado aqui chegasse em condições de
não ser aceita por quem a encomendara.
O martelo decidia-lhes a sorte – e o preço.
Tornavam-se assíduos, deste modo, os avisos de que
seriam vendidos no dia tal e a certa hora o carregamento
avariado trazido pela barca ou pelo brigue inglês. Os com-
Não há quem dê mais?

pradores afluíam e, arrematando esses artigos, ofereciam-


nos dias depois em seus balcões com abates, por estarem
“levemente manchados”. Não raro, a própria embarcação
era também posta em praça, por lhe faltarem condições
de navegabilidade ou por insolvência do armador.
Posteriormente, já se proporcionava a aquisição por
quem mais desse, de móveis em “segunda mão”. Mas
apenas nas agências. O agente Borja, por exemplo, em
seu armazém na Rua do Colégio, nº 15, fazia leilão de
uma “infinidade de objetos patentes ao ato da venda”, e
acrescentava que entre eles haveria um ótimo escravo. Esse
agente Borja parecia ser homem de relevo na sua época,
pelo tino profissional, pois já anunciava com clichê. Re-
presentava a pequena gravura uma mesa por trás da qual
o leiloeiro, de martelo em punho, apregoava, e em roda
surgiam cabeças de licitantes.
Certo dia, uma família, porventura estrangeira, pre-
tendendo retirar-se da cidade, quis vender seus móveis
de modo menos precário que o de passar a outras mãos
particularmente, e entregou-os a um leiloeiro para levá-
los à competição pública. E assim se fez. Deu que falar,
houve críticas e estranhezas; contudo, tratando-se de
“povo de fora”, achou-se explicável a “sem-cerimônia”: –
“Estrangeiro não tem vergonha de nada!”. Concorrentes
não faltaram: uns na expectativa de pechinchas, outros
curiosos de ver o chalé por dentro, bisbilhotar o cená-
rio da intimidade alheia, conhecer como esse pessoal de
outras terras tinha a casa. A venda deu bons resultados.
Certas cousas alcançaram preços superiores aos dos ob-
jetos novos. – “Tudo pelos olhos da cara!” Valeu a lição,
porque, aos poucos, famílias brasileiras experimentaram
o gostinho de fazer leilão de seus “trastes” nos próprios
domicílios. Como motivo real ou fingido diziam “retirar-
se para a Corte ou ir passear à Europa”.

254
Mário Sette

Terá sido um dos mais primitivos anúncios de leilão


desse gênero o seguinte, que saiu em 1856:

Estando a família do sr. ... a retirar-se para Lisboa pela bar-


ca de vapor de 21 do corrente, faz este leilão, por intermédio do
agente Oliveira, da mobília da casa de sua morada no campo,
consistindo em um piano de excelentes vozes, em perfeito estado,
sofás, cadeiras usuais de braços, de balanço, mesa elástica para
18 pessoas, ditas redondas para salas, consolos, bancas para jo-
gos, secretárias, guarda-roupa, guarda-vestidos, guarda-louça,
aparadores, cômodas, um superior leito feito de ferro de enco-
menda, para casal, ditos de jacarandá e de outras madeiras, pe-
dra para filtrar água, jogo de corrida de cavalinhos, lavatórios,
toucadores, lanternas, candeeiros, relógio, aparelhos de louça
para mesa, sobremesa, almoço e para chá, garrafas inclusive
para clarete, copos de várias qualidades, uma vaca de leite em
abundância, com bezerro, um carro para seis pessoas para um
e dois cavalos, com arreios dobrados e singelos, um cabriolé no-
vamente consertado e pintado, uma carroça, escadas, banheiros
e outros objetos. Sexta-feira, (dia-santo suprimido e por isto de
poucos afazeres) 25 do corrente, às 10 horas da manhã, no sítio
do Caminho dos Aflitos, outrora pertencente ao finado Tavares
e atualmente ao Ilm.º Sr. F. C. Pais de Andrade, próximo ao
Manguinho, advertindo-se aos concorrentes que ali será servido
apetecível lanche para recreação.

Não é apenas já um reclamo inteligente e sugestivo.


É um quadro da época. Nos aspectos da cidade, nos seus
costumes, no interior de suas casas, na particularidade do
seu quotidiano. Quem não compreende aquele dia-santo
cortado, mas ainda respeitado pela população? E a mesa
elástica de 18 pessoas, tão diferente dos quatro lugares de
hoje e das festas em que se comem “salgadinhos” quase
invisíveis, e de pé? E o cabriolé? E a identificação do pré-
dio pelo nome do proprietário?

255
Não há quem dê mais?

Os leilões foram-se amiudando. Adjetivação nos anún-


cios; títulos vistosos. Nomenclatura grupada pelas peças
do prédio. Ia sofrendo modificação o sentimento de reca-
to em se abrirem as portas aos estranhos para as exposi-
ções e os lances. Quer se tratasse de um palacete, quer de
uma casa térrea. Entrava-se à vontade pela sala de visitas,
onde a mobília de jacarandá se dispunha simetricamente:
o sofá com as quatro cadeiras de braços, a jardineira ao
centro sustentando sobre o tampo de mármore um jar-
rão de louça de China ou um vistoso candeeiro belga, os
dois consolos com portas envidraçadas através das quais
se viam biscuits, álbuns para retratos, objetos de charão, as
dezoito cadeiras de guarnição em várias filas, o espelho
oval, as oleografias em voga, o tapete aveludado... Dali se
passava ao corredor, com o porta-chapéu, ao quarto de
“estado” provido da cama de casal com cúpula e cortina-
do, o toilette, o lavatório a ostentar sua guarnição de por-
celana, o guarda-vestidos de duas amplas portas. E mais
os quartos do santuário, de costura, de dormir, de banho.
Por fim, cozinha de “fogão de tijolo”, copiar com gaiolas
de passarinhos, cocheiras, caramanchões, figuras de lou-
ça, bancos... Tudo se vendia, inclusive, às vezes, baús de
flandres pintados ou de couro com fechos de metal, casti-
çais de mangas de vidro, caixinhas de tartaruga, quadros
de caranguejos...
É interessante acompanhar nesses velhos anúncios de
leilões as características dos móveis ou pelo menos os seus
nomes de outrora. A princípio, marquesas e marquesões
não faltavam, simples ou trabalhados. E os canapés, tre-
mós, arcas, cômodas com segredo, conversadeiras para
centro de sala, forradas de damasco de seda com flores
artificiais, podendo formar quatro peças. As cadeiras for-
radas eram comuns: ora de cetim amarelo, ora de seda
preta, ora de gorgorão bordado. Igualmente se recomen-

256
Mário Sette

davam as poltronas douradas. Mesinhas de charão, camas


com embutidos de marfim ou madrepérola, caixinhas de
música, quartinheiras de colunas ou de paredes não falta-
vam, e alguns desses objetos vieram até a época mais atual.
Muito comuns, também, na época, as cadeiras-privadas...
Depois, já se viam os dunquerques, os aparadores de
suspensão, as cristaleiras, os toilettes, os bibelôs e outros ti-
pos de móveis não conhecidos pelos antepassados. Rarea­
vam os baús, as arcas, os tremós, os armários de portas
almofadadas. Apareciam, porém, escarradeiras de porce-
lana com gravuras de muito bom gosto. Esse costume das
escarradeiras nas salas durou até a segunda década deste
século, mais ou menos. Elas estavam presentes sempre, em
par, aos lados dos sofás, para que ninguém cuspisse no
chão... Os espelhos de parede, com molduras douradas,
geralmente encimados por liras, florões, cabeças de crian-
ças, também se faziam obrigatórios. Uns menores, e outros
de grande tamanho, às vezes com cercaduras de veludo.
Os bonitos e caros candeeiros de cima de mesa ostenta-
ram-se até se vulgarizar o uso do gás carbônico. Substituí-
ram-nos pelos lustres de pingentes ou, quando mais modes-
ta a casa, por arandelas de dois e três bicos ornados de glo-
bos lavrados ou coloridos. A água encanada nos domicílios
veio a afastar dos leilões, um tanto, as bacias, os “banheiros”
e as pitorescas gamelas “boas para um bom banho”.
O que ganhou notável prestígio nas vendas a martelo
foi o piano. A princípio dava que falar quem o possuía
e o tocava. Destacava-se o teto do qual saíam sons des-
te maravilhoso instrumento. Pouco a pouco, entretanto,
foram-se tornando comuns. Os professores e professoras
de piano enchiam os jornais com seus oferecimentos de
serviços. E não havia mais leilão sem piano. De Pleyel, de
Blondel, de Herz, de Bevelot... De cauda e meia cauda, de
armário com lanternas de prata e mangas de cristal, nas

257
Não há quem dê mais?

madeiras mais preciosas como fosse jacarandá. Senhoras


e senhorinhas poderiam em condições mais suaves desli-
zar seus dedos pelos teclados de marfim na interpretação
de noturnos e valsas, de sonatas e óperas, de melodias ou
quadrilhas. Quem é que perderia seu dinheiro com reale-
jo, que tinha pancadaria, feito em Paris, e que ali custara
800$000? Tampouco os cravos, as harpas, as rebecas ar-
rastariam maior número de concorrentes a essas vendas
públicas. Agora, só piano!
A máquina de costura, por seu turno, começou a fre-
quentar a nomenclatura dos leiloeiros Oliveira, Pinto,
Gusmão, Pestana e outros. Já não constituía aquela gran-
de novidade que se ostentara em clichês saborosos nas
folhas, acompanhados de elogios ao seu “progresso ma-
ravilhoso”. Seu trabalho equivalia ao de 34 costureiras:
pesponto, bordar, franzir... E vendiam-se em prestações,
custando de 50 a 70 mil réis cada uma. Pois já perdera o
caráter de raridade. Caíra nos leilões.
Essas vendas a quem mais desse estavam tendo com-
petidores e precisavam apresentar comodidades e atra-
ções. Além do “lanche de recreação”, havia bondes espe-
ciais. Houve mesmo um ônibus gratuito para um leilão na
Passagem da Madalena antes de correrem os bondes. As
maxambombas igualmente davam transporte grátis por
conta dos vendedores. Os versinhos ajudavam:

Temos trens grátis


Para os concorrentes,
Pois estamos certos:
Voltarão contentes.

Sim, voltavam. Os que realizavam compras de pe-


chincha e os que lá se dirigiam apenas para mastigar uns
bons-bocados e tortas, ou saborear uma cerveja. Também

258
Mário Sette

os que faziam do leilão uma pequena festa, entre conver-


sas, criticas, namoros...
Em 1871, faleceu o agente de leilões Francisco Gomes
de Oliveira, e o seu necrológio acentuava-lhe a prioridade
na classe.
Por volta de 1900, com o novo século, foi surgindo a
moda dos móveis menos pesados, como se dizia no tem-
po. Era a inovação das mobílias austríacas, dos bibelôs
torneados, das cristaleiras de um só corpo, das cadeiras
tipo Thonet, das colunas de pau-cetim. Para adquiri-los
vendiam-se por qualquer preço as marquesas de jacaran-
dá, os aparadores de carvalho, as camas de bilros, as ar-
cas de tremidos, os cadeirões de bolachas, as cômodas de
amplos gavetões e de segredos, tudo que fosse sólido e
antigo. Os anúncios de leilões refletem essa ânsia...
Os agentes Gusmão, Pestana, Pinto, Vernet não se can-
savam em manejar o martelo, e embora se esforçassem,
os lances tornavam-se exíguos e morriam depressa. Vi-
nha vindo, igualmente, a era da peroba amarelinha, que
encheria os interiores daquelas séries de mobiliários saí­
dos das serrarias há pouco inauguradas na cidade com
abundância de reclamos e ruídos de exposições nos seus
depósitos em ruas centrais. A fama dos móveis austríacos,
por sua vez, transitava para os leilões... As madeiras na-
cionais ganhavam supremacia. Surgiam os sofás e cadei-
ras de encosto reto, de pés frágeis, de assento mesquinho,
revelador de um tempo em que pouco se parava em casa,
em que a vida se transferira para os cinemas, os clubes, os
consultórios, as lojas... Para que mais as mesas elásticas de
seis e oito tábuas, quando agora as famílias se reduziam
pela restrição da natalidade e pelo egoísmo econômico
de se morar sozinho? Nem tampouco nas festas as mesas
amplas prestavam serviços: comia-se em pé – salgadinhos
e doces minúsculos, com as próprias mãos, ao invés dos

259
Não há quem dê mais?

fartos e prolongados jantares ou ceias de garfo, de anti-


gamente, com uma dezena de pratos, uma infinidade de
sobremesas, grande variedade de vinhos, e ainda por fim
o café e o licor. Nos lares ultramodernos tudo se reduzia:
o espaço das peças, o tamanho dos móveis, até a altura
das portas. Piano? Para quê, se havia o rádio de cabecei-
ra? Escrivaninha? Bastava a máquina de escrever portátil,
que se guardava numa gaveta de penteadeira.
Reapareceria então, como paradoxo, o interesse de
um grupo de bom gosto, ou de uma classe de novos-ricos
ávidos de ostentação, pelos velhos mobiliários, pelas “an-
tiguidades”; mas estas não chegariam mais para o mar-
telo dos leiloeiros – seriam traficadas pelos antiquários
sonhadores de milhões de cruzeiros.
Os leilões iriam voltando ao primitivo cenário das
agências, tornando-se raros nos domicílios como outrora.
Desta vez, o motivo não seria absolutamente o pudor de
se devassarem os interiores. Oh, não!... Porque muitas coi-
sas que as nossas avós teriam vergonha de mostrar, mes-
mo na intimidade das alcovas, já andam à vista de todos
pelas ruas...

Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife, Secretaria de


Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978

260
Fundação Terra em Arcoverde
Marly Mota

Saímos do Recife com nuvens pesadas de chuva nos


acompanhando até a Serra das Russas. Depois, fez-se tar-
de das mais belas até Arcoverde. A viagem duraria de três
a quatro horas, em confortável caminhonete, nos levando
por boas estradas, confluentes dos sertões de Pernambuco.
Entre ligeiras fugas, observo a paisagem de escassa vege-
tação e retalhos de verdes. Nos caminhos, solitárias cruzes
plantadas, como símbolos da religiosidade popular.
Lembrei-me de ter lido o livro, comprado por Mau-
ro Mota, numa loja do Sebo, na Rua da Matriz: Viagens
no Brasil, São Paulo, 1943, do botânico George Gardner,
quando aqui chegou aos 24 anos, de Liverpool, em 1836.
Gardner, também zoólogo, andou por esses mesmos ca-
minhos até o Cariri, em condições adversas, observando a
riqueza da flora, a beleza e variedade da natureza das re-
giões tropicais que o fascinaram, nas viagens e expedições
que realizou em terras brasileiras.
Ao chegar à Fundação Terra, onde com os meus fi-
lhos, noras e os meus sobrinhos, médicos cardiologistas,
do Real Hospital Português, Flávia Arruda e Djalma Go-
doy – eles, levando equipamentos, remédios e assistência
aos doentes e desafortunados, colaborando com a Funda-
ção – passamos um produtivo final de semana, na Casa
de Retiro da Sagrada Família, situada a 12 quilômetros
da cidade de Arcoverde no Sítio da Malhada. – “Lugar de
oração, evangelização, silêncio e busca interior”, para um
Fundação Terra em Arcoverde

retiro aberto com o reverendíssimo padre Airton Freire,


tão presente com a sua obra assistencial, que lhe confere o
reconhecimento de quantos com ele colaboram, em doa-
ções de terrenos, construções de casas, escolas, abrigos e o
Projeto Prover, fundado pelos seus amigos: França Neto,
do Ceará, e Sérgio Motta, de Pernambuco. Esta ação me-
ritória é apoiada pelo reverendíssimo bispo diocesano,
dom Francisco Biase. Dentro desse panorama envolvente,
fomos conhecer a já famosa Rua do Lixo, na periferia da
cidade, onde o padre tem por meta prioritária colocar
idosos abandonados em abrigos e retirar a criançada do
lixo, para a escola. Cada um de nós tomou uma criança
como afilhada, com o compromisso mensal de ajudá-las.
O padre Airton Freire, que nasceu em São José do Egito,
ordenando-se em 1982, optou em 1984 por viver nessa
rua entre os pobres, como pobre. Ajudado pelos amigos,
esteve em Houston, para uma complexa cirurgia cardíaca.
Saúde quase zero. É dele este aforismo: “Enxerguei olhos
que pediam, mesmo que nada dissessem”.
Voltando à Casa de Retiro que nos acolheu, assinamos
uma ficha de inscrição registrando também a razão para
esse nosso recolhimento. Claro que a motivação depende
do critério de cada um. Na Capela da Sagrada Família, o
padre Airton Freire é o pregador. O seu sermão religioso
nos encaminha a reflexões e resoluções. Dentro da aco-
lhedora casa o silêncio é fundamental no cumprimento
da programação religiosa.
A paisagem que nos cerca é harmoniosa, as buganví-
lias vermelhas enfeitam telhados, os crótons juntam-se
aos cactos ramificados, com as suas flores alvas, que se
abrem à noite. O panorama que nos cerca é de hospitali-
dade. Tudo muito simples e, por tudo isso, muito bom. A
comida nordestina, especialidade tão peculiar para quem
guarda esses sabores, servida em amplo refeitório. A casa

262
Marly Mota

onde mora o padre Airton é modesta. Exuberante só a


natureza que a cerca. Ele diz que da janela do seu quarto
olha a Serra da Andorinha, enquanto lê Guimarães Rosa
em Grande sertão: veredas, vigiado pelo canto dos passa-
rinhos e pelos girassóis, que enfeitam de amarelo o roça-
do atrás da casa. Ao derredor, entre mandacarus, aroeiras
e coroas-de-frade, pastam, em convivência harmoniosa,
emas, cabras e carneiros.
O nosso amigo, padre Airton, chama a atenção para
não perdermos o pôr do sol nesse final de tarde. Diz ser,
a cada dia, mais incendiado. Não há como não se sentir
em paz consigo mesmo, diante de tal resplandecência. Já
noite, olhei o céu como há muito tempo não via. As estre-
las pareciam despencar de tão brilhantes. Lá estava trans-
cendente a Via Láctea, a mesma do poema de Olavo Bilac,
que recitei de cor no colégio: “Talvez sonhasse, quando a
vi./ Mas via / Que, aos raios do luar iluminada,/ Entre as
estrelas trêmulas subia/ Uma infinita e cintilante escada.”
O padre Airton é teólogo, psicólogo, filósofo, poeta,
compositor, sobretudo grande figura humana. Autor de
vários livros, incluindo os seus aforismos, e os textos reu-
nidos em Conversando com o Padre Airton Freire, e que estão
gravados em CDs, sempre acompanhados com músicas
selecionadas. Algumas por Ernesto Cortázar. Quando dei-
xamos a Fundação Terra, prometemos voltar. “Há despe-
didas que são pedidos para ficar”.

263
Família dos livros
Mauro Mota

É melancólico o destino de algumas bibliotecas parti-


culares do Recife, reunidas durante anos a fio de buscas
em editoras e sebos daqui, de outros Estados e países. Co-
leções de História, Linguística, Direito, Literatura. Auto-
res lidos e mantidos nas melhores encadernações, algumas
parecendo ter sensações humanas no manuseio das con-
sultas e da releitura. As mãos não as pegam com violência.
Antes com as carícias sempre renovadas, escorrendo pela
ponta dos dedos que viram as páginas com a ternura de
quem virasse uma criança adormecida no berço.
Às vezes há uma ilusão acústica. Se for de noite e hou-
ver silêncio, se estivermos sós num recanto da casa, as
palavras impressas fogem do seu mutismo gráfico e ad-
quirem para nós os tons da voz mais pura de quem as
escreveu. Temos o poder da ubiquidade. Vamos para um
território de fantasmas e melodias.
Esse amor de bibliófilo é um amor sem declínio. Amor
que o tempo revigora em cada dia, em cada noite. Tam-
bém com os seus conflitos, quando a preferência é maior
por determinados volumes. Neste, o bibliófilo, em vez de
tinta impressa, encontra sangue em circulação, sangue
que se comunica com o seu e o ajuda a viver nas suas má-
goas e na sua solidão.
Mas, de qualquer modo, o bibliófilo não é imortal
como tantos dos livros.
Passado o sétimo dia, como se um ciúme inconscien-
te os instigasse, os herdeiros determinam a dispersão da-
Mauro Mota

quelas peças de mais longa convivência do morto. Con-


sideram os livros usurpadores e intrusos. Decretam o seu
banimento.
Não há o menor respeito pelo gosto e pelas preferên-
cias de quem passou o tempo a juntá-los e a conhecê-los
na intimidade, a tirar deles ensinamentos e experiência.
É preciso desocupar o lugar. A biblioteca forma uma
grande família com ordem de despejo.
É como se casais fossem separados, velhos enterrados
vivos, filhos pequenos arrancados para sempre dos braços
das mães.
A dispersão é total sem ao menos a medição dos va-
lores literários e históricos entregues aos licitantes. Estes
muitos sabem dar um bom destino às suas quotas; outros,
não. Afinal a tristeza maior é a do retalhamento da bi-
blioteca. Ela, que passou toda uma época a constituir-se,
desfaz-se em menos de uma semana.
Despovoam-se as estantes, as coleções perdem a uni-
dade, os livros dizem adeus aos companheiros de tantos
anos, vizinhos de prateleiras. Mãos estranhas vão agora
possuí-los e não se sabe de que modo. É como se a morte
fosse pouco e um mundo desabasse em cima do cadáver
de quem o construiu.

Capitão de fandango. Recife, CEPE, 1960

265
Diálogos simplificantes de La Mancha
Maurício Melo Júnior

Diz o tempo quando a arte deve se materializar. A fruta


sabe o instante exato de seu mais perfeito sabor. Isso tam-
bém se dá em arte, acredito. Mas como não ando tendo
muitas certezas, acotovelo-me entre meus livros alheios.
Falava mesmo do instante da arte. Pois bem. Há cerca
de um ano, numa viagem quase desprovida de sentidos,
fui dar com os costados em Natal. Como carregava a tira-
colo uma equipe de televisão, resolvi fazer um breve docu-
mentário sobre Luís da Câmara Cascudo, a quem cultivo
impagáveis dívidas. Filmei o que pude, gravei entrevistas
e voltei com o bisaco pejado de ideias. Só que os atropelos
que caminham incessantemente pelos corredores de tudo
quanto é televisão deixaram a edição repousar por vários
meses. A bem da verdade, somente agora estou conse-
guindo trabalhar o projeto.
E tudo aconteceu no tempo certo.
Para engrossar meu caldo de devoção, aproveitei os
meses para retomar minhas conversas com Cascudo. Im-
pressiona como ele conseguia traduzir numa linguagem
simples e direta as mais intricadas teorias da ciência hu-
mana. E talvez aí repouse a antipatia que nutria pelo dis-
curso acadêmico. Uma antipatia que, burramente, se tor-
nou recíproca por muitos anos.
Aliás, denominar de ciência humana o que foge ao
campo das físicas e químicas da vida é pensar estreita-
mente na dimensão do homem. Toda ciência é humana,
Maurício Melo Júnior

ensina Cascudo. E ensina escudado pelo aspecto mais


simples da escrita.
Era ele, Cascudo, tão despojado quanto o Quixote que
tenho em minha frente e que já não me lembro como che-
gou às minhas mãos. O elmo partido, a lança, o escudo, tudo
denuncia Quixote, mas está desprovido de feições e hero-
ísmo. Uma figura comum. É como a leitura de Cascudo. O
texto leve disfarça sem esconder sua fortaleza erudita.
Dom Quixote e Cascudo foram companheiro de longas
horas. No livro Prelúdio e fuga do real o doutor Cascudinho
conta como recebeu, numa tarde, a visita do fidalgo da
triste figura. “O motivo real desta visita é expor-lhe meu
julgamento sobre a angústia contemporânea, insatisfação,
ansiedade, amargura, insubmissão, melancolia dos tempos
presentes”, anuncia o cavaleiro e deita a falar do excesso de
violência e futilidade que doma a literatura. “Todos os espí-
ritos escrevem, pintam, esculpem, compõem, para dissipar
a permanente noite desse Tempo triste. (...) O moderno
é uma câmara secreta da Santa Inquisição, fogo, tenazes,
cunhas, garfos de ferro rasgando devagar os nervos da nos-
sa sensibilidade.” Sentencia o pai do romance moderno.
Tenho a curiosidade de saber a data de publicação do
livro. 1974. Há trinta e quatro anos, Cascudo estranha a
futilidade da literatura. Por dever de ofício e também por
prazer, constantemente leio os autores contemporâneos
brasileiros. Choca-me o insistente transitar pelo vazio,
pela violência, pela falta de sentido. Não que tenha ou-
vidos sensíveis. Meu incômodo vem do empobrecimento
que isso nos traz. Mesmo autores de incontestável talento
se entregam ao modismo e optam pela linguagem fran-
ciscana. Nossa riqueza vernácula foi abandonada, trocada
pela urgência e pelo banal. E é bom lembrar que banali-
dade não é sinônimo de simplicidade.
“O artesão, de posse do barro, pode fazer um Deus
ou uma vasilha”, ensinava Eça de Queiroz. Ultimamen-

267
Diálogos simplificantes de La Mancha

te nossos escritores têm fabricado muitas vasilhas e quase


nenhum Deus. A arte tem seu tempo, e muitos são aque-
les que pela urgência chegam à imaturidade.
Melhor voltar ao velho diálogo entre Cascudo e Qui-
xote. “Creio, professor, uma solução poderosa na terapêu-
tica instintiva reside no aparecimento de uma literatura
anti-histérica, anticerebral, antiofídica, emergindo da ma-
jestosa simplicidade do Comum.”
Caro Quixote, suas esperanças ainda são quimeras.
Mas ainda temos tempo. Toda arte tem seu tempo.

268
Do amor
Maximiano Campos

Uma mulher pediu-me que lhe falasse do amor. Res-


pondi-lhe apenas que a amava. Ela era inteligente e per-
cebeu o quanto são precárias as palavras. Além do mais, o
que eu poderia dizer de novo depois de Ovídio, Stendhal
e tantos outros haverem falado sobre o assunto? E de que
espécie de amor se tratava? Há tantas espécies de amor
quantas pessoas existem no mundo. As pessoas se asseme-
lham umas com as outras, mas, nem por isso, deixam de
ser mistos de abismos e pontes entre semelhanças.
Há o amor-paixão, o amor-carnal, o amor-afinidade, o
amor pelas coisas abstratas e pelas pessoas e objetos, há o
amor por Deus e o amor pela mais decaída e vencida das
suas criaturas. Há um amor que é só desejo, há um amor
que é só entrega e doação. Tudo isso é bastante óbvio e
está por demais repisado. Mas eu gostaria de poder dizer
àquela mulher naquele momento que observasse a minha
vida desde o dia em que a conheci. Sim, porque ninguém
é diferente do amor que sente pelas criaturas amadas. O
meu amor por ela tinha todas as minhas fraquezas e todas
as minhas forças. Tinha todas as minhas danações e todos
os meus apaziguamentos. O meu amor por ela era o meu
limite, o meu ponto máximo de ser pessoa. Era o saber
que a sua morte não angustiava menos do que a minha,
que as suas aflições se confundiam com as minhas até o
ponto máximo que nos leva à empatia mais poderosa. E,
ao mesmo tempo, era por sabê-la tão diferente de mim,
tão contrária a mim, que eu a amava. Amava-a nas suas au-
Do amor

sências, nos seus defeitos, nas imperfeições do seu corpo


mortalmente belo de fêmea e amante. E eu sabia, e acho
que ela também, que se conseguíssemos explicar tudo, o
mistério desapareceria e com ele a força do amor que não
pede e está além e aquém de explicações. Tenho muita
pena dos que tentam explicar o amor por uma mulher.
Era como se alguém quisesse explicar por que nasceu.
Esse alguém até poderia dar uma aula de Biologia, de
Anatomia, mas não saberia o porquê de ter nascido na-
quele dia e naquela hora, pois todos nós temos horas e
dias absolutamente nossos: o do nascimento e o da morte.
Porque duas pessoas, se amando ou não, juntaram semen-
tes e entranhas acumpliciadas para, no prazer ou na dor,
gerar outra criatura, é fato que só os tolos tentam explicar.
Naquele tempo, eu era mais moço e queria dar uma res-
posta, sem saber que uma resposta ditada pela razão, or-
denada em palavras, era impossível. Era impossível dizer-
lhe mais do que eu disse, e eu apenas disse que a amava.
E eu nem sabia o quanto era grave, grande e cruel
o que a ela havia dito. Cruel, sim, cruel. Porque o amor
é uma crueldade sem limites da ternura extremada. De
todos os compromissos do homem o amor é o mais difí-
cil de ser assumido. Mesmo porque não somos nós que o
assumimos e, por maior que o seja o amor, nada mata a
solidão inexorável.
Comecei a dizer que a amava porque a julgava bela.
Comecei a dizer que a amava porque nela encontrava o
prazer maior de todos os prazeres nos abismos do seu cor-
po. Disse-lhe que a amava porque nela via a companheira e
o repouso, a paz e o campo de batalha. Falei-lhe dos míni-
mos detalhes do seu corpo que me deslumbrava e prendia
em carícias. Falei-lhe de um tempo nosso, de um tempo
comum que passamos juntos, tantas vezes cegos e videntes,
tantas vezes perdidos e tantas vezes redimidos. Falei-lhe do

270
Maximiano Campos

medo de perdê-la, do desejo da sua presença, da sua au-


sência doendo nos nervos e na alma. Falei-lhe, falei-lhe,
e enquanto falava comecei a perceber que falava sobre o
passado. Uma das características do amor é ele confundir
passado, presente e futuro; e como o presente não pode ser
estabelecido porque está a passar, contínuo e ininterrupto,
compreendi que só iniciei a falar quando o amor ergueu os
estandartes da sua própria morte e revelou-se na sua extin-
ção. Assim como as pessoas, só depois de morto e findo o
seu ciclo, o amor pode ser explicado. A razão julga, esco-
lhe, decide. O instinto, a intuição, percebe sem julgamen-
tos, entende sem demonstrações nem provas, aceita sem
motivos e, o que é mais incrível, nunca erra; e, se erra, nos
leva a errar sem deixar que sejamos mesquinhos.
Sim, porque um erro não é a mesma coisa que uma
inverdade.

Cartas aos amigos (org. Antônio Campos). Recife, Bagaço, 2002

271
Comparação
Miriam Carrilho

Passava pouco das oito, a manhã vestia luz e frescor,


nos entretínhamos na arrumação das prateleiras, na lim-
peza dos livros, dos cadernos e da miuçalha, nas anota-
ções e nos comentários corriqueiros, quando o sino da
porta soou forte a anunciar um possível cliente.
Calmo, bem penteado, bem posto em sua camisa de
algodão azul bem-passada, ensacada na calça preta de ve-
lhos carnavais, andou distraído a olhar os produtos ex-
postos, sem se dar conta da moça que o cumprimentara e
o seguia. Chegou junto ao birô onde eu estava envolvida
nos traços e pontos de um desenho recém-começado.
– Bom dia, dona.
– Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo?
Olhou-me, simpatia e serenidade. Tudo nele transpi-
rava aquela velha e boa educação benfazeja a cada dia
mais rara, a cada dia menos valorizada. Com firmeza, se-
guro e decidido, pediu:
– Por favor, quero uma caneta. Boa, viu? É para dar
um presente.
Abri o meu melhor sorriso, disse um “pois não” e ace-
nei para a funcionária ao seu lado, que logo o convidou
para escolher dentre os diversos modelos dispostos em
finas caixas acolchoadas. O homem abria olhos e boca,
deixando descambar, queixo abaixo, a baba da admira-
ção. Para o seu gosto, cada uma mais bonita, mais cheia
de predicados, mais atraente. Cego de deslumbramento,
não via os preços apostos ao lado das caixas.
Miriam Carrilho

– E os preços, hem?
– Pois não, esta aqui é quinze, esta outra é vinte e três,
aquela ali, ó, é sessenta e oito e oitenta...
A ansiedade a instalar-se, ele começou a perder o fô-
lego.
– O senhor gostou desta? Pode experimentar. É boa,
ou não é? Veja como é linda!
Palmira segurou uma delas entre os indicadores e co-
meçou a balançá-la para lá e para cá. Como num desfi-
le de modas, uma a uma dançava, faceira, num ritual de
conquista. Coquetes, sedutoras, maliciosas.
O homem começou a desmoronar. Perdia, aos poucos,
o tino. O desassossego a invadir-lhe inteiro.
Frenética, sem perceber, a vendedora continuava a pe-
gar mais e mais canetas na tentativa de agradá-lo.
Perdido no labirinto, ele começou a temer o Minotau-
ro. Aos deuses suplicou uma saída... Súbito uma ideia o
fez recobrar a lucidez. Olhou para mim de soslaio, como
a perscrutar se não estava sendo observado.
Fingi que não. Afundei a cabeça no desenho. Perce-
bi o gesto: pediu à funcionária que se aproximasse. Ela,
enfim, o compreendeu e, por pouco, não encostou a ore-
lha à sua boca. Um sussurro, um sopro, quase, voejou dos
seus lábios:
– Moça será que não tem uma mais baratinha...
O alívio estampou-se em sua face, espraiou-se à sua
volta. Resolvida a peleja entre o desejo e as posses, diri-
giu-se ao caixa.
Com um sorriso agradecido segurou, cheio de cuida-
dos, a embalagem caprichada, segredou:
– Pois é, dona. Quem pode, faz. Quem não pode, faz
a comparação...

273
Aura de outono
Nagib Jorge Neto

Dos tempos de primavera, sonhos, festas, ainda restam


imagens, paisagens, evocações de momentos de amor, lu-
tas, encantos. Dos tempos de outono – complexos, críticos
–, lembranças de ilusões minguantes, mutantes, instantes
de poesia, beleza, sem a chama da utopia no amor e na
luta. Daí a prevalência de marcas imprecisas, diluídas na
realidade, no ritmo feroz das mudanças, na geração de
desencantos.
Então mudou o mundo, vingou um outono sisudo, e
quase toda uma geração esqueceu ideias, ideais, sonhos.
Com medo de envelhecer ou sair de moda, renegou con-
ceitos, preceitos, capitulou diante da maré do novo tem-
po. A força das ondas rebentou portos, fortes, invadiu
praias, atingiu e desbotou bandeiras, que eram erguidas
em nome do amor e da libertação.
A chama mudou de mãos, de objetivos, e na corrida a
pira virou símbolo de uma nova era de promessas, espe-
ranças. É um símbolo recriado, reciclado, mas que ganhou
aparência de moderno, avançado, exatamente em nome
da liberdade, do desenvolvimento, que deve ser obra de
uma mão invisível, do mercado, que faz a seleção natural
dos competentes, dos espertos, vencedores.
É exatamente o oposto dos tempos de primavera, de
sonhos, da fase de verão, também princípios de outono,
quando muitos defendiam um modelo de ordenamento
jurídico, de progresso, em que havia controles, limites.
Assim a liberdade não servia apenas ao econômico, ao do-
Nagib Jorge Neto

mínio de suas forças, mas era expressão de garantia dos


fracos, dos humildes, excluídos.
Nesse sonho, muita gente defendia um Estado demo-
crático, organizado, com condições de preservar a sobe-
rania nacional, regular a atividade econômica, proteger
o país, a nação, contra a avidez do lucro e do controle do
poder. A maior parte não queria um Estado totalitário, do
tipo fascista ou socialista, mas sim salvaguardas, instru-
mentos efetivos, para enfrentar as regras imponderáveis
do jogo de mercado.
As ideias pareciam justas, corretas, mas o outono trou-
xe consigo o inverno da desesperança, da frustração, e
tornou mais imprecisas, vagas, as ilusões de um mundo
justo, humanista, solidário. Mais que isso: gerou a crença
no valor absoluto da disputa, da competição, na lei do
mais forte, de forma que vingou a impressão de que as
convicções antigas eram erradas ou ridículas.
Assim, não se teve um retrocesso, uma capitulação,
mas uma nova forma de ver a realidade, o mundo, basea-
do numa concepção de Estado realista, sem idealizações e
falsas esperanças. De alguma forma, essa nova visão lem-
bra as cartas de amor da juventude, as paixões e juras, ou
as ações políticas na defesa de reformas, com panfletos ou
comícios reivindicando liberdade e justiça social.
O tempo é cruel, os anos desbotam amores, posições
ideológicas, mas sempre resta alguma lembrança de ter-
nura, carinho, luta e resistência. As cartas de amor, as ju-
ras, mesmo quando parecem ridículas, evocam uma fase
juvenil, lúdica, de paixões, afeto, dor de cotovelo, real ou
platônica. As ideias políticas, igualmente, refletem um
passado de combate, afirmação, e, então, traduzem um
sentimento de solidariedade, humanismo, que comple-
tam os ideais das cartas ou juras de amor.
Daí é sempre válido lembrar as cartas, paixões, convic-
ções, o ângulo da felicidade no amor, do ideal de libertação

275
Aura de outono

e justiça no sentido coletivo, pois é uma forma de não per-


der o contato com a primavera, a estação das flores. Então
pode-se rever o encantamento, a utopia, que o passar dos
anos não deve relegar ao esquecimento, abandono, sobre-
tudo quando o outono, noturno e soturno, mostra que a
realidade adensa o inverno, aumenta a desesperança.
É mais do que tempo, pois, de ver o mundo que se
diz novo, rever as teorias que aprofundam a desigualdade,
vendem utopias, ampliam a distância entre ricos e pobres,
gerando um quadro que mostra o avanço do horror eco-
nômico, da tragédia do desemprego e da pobreza, que está
entre nós, noutras áreas do país, de outras nações. Enfim,
é preciso um pouco de amor, de combate, em tempo de
primavera e sem essa triste, envelhecida, aura de outono.

276
Recife brasileiro
Nelly Carvalho

“Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a


casa de meu avô.”Embora não tenha tendências saudo-
sistas, poderia repetir e endossar os versos de Bandeira,
excluindo a casa brasileira. A casa de meu avô, na Cruz
Cabugá, era uma casa portuguesa, com certeza. Mas foi lá
que aprendi a conhecer e amar o Recife, contemplando
os casarões, percorrendo os caminhos que nos levavam do
Espinheiro até lá. Talvez, daí também tenha vindo certo
interesse pelos meios de comunicação. A Rádio Clube, or-
gulho da época, era quase em frente a sua casa. Tornava-
se uma festa olhar e ouvir o que lá se passava: parecia es-
tar de um caleidoscópio, com imagens visuais e sonoras
de um mundo que ansiava por conhecer.
Aos poucos, o cenário foi mudando. Os casarões fami-
liares foram cedendo vez a fábricas escuras e pragmáticas,
a oficinas cheirando a graxa, as calçadas atravancadas de
peças, impedindo a passagem: já não eram prazerosos os
caminhos. Começava o Recife a ser “mutilado, pregado
à cruz das novas avenidas”, como testemunhou Joaquim
Cardozo ao ver as mudanças no centro da cidade. Mas,
pensávamos, descaracterizavam-se apenas alguns bairros.
Santo Amaro era bairro de pouco prestígio. Espinheiro,
Derby, Casa Forte, Aflitos não teriam o mesmo destino.
Permaneciam afortunados com suas mansões de quintais
com mangueiras, palacetes de majestosas escadarias que
desciam para os jardins. Do alto de seus andares, olhavam
sobranceiros para as ruas, para os passantes, para a vida.
Recife brasileiro

Esses pomares urbanos de um outrora tão recente es-


tão na poesia de Cabral, nos “tamarindos da Jaqueira, e
jaca da Tamarineira. [...] [e] mangas [...]nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos”. Para o poeta, “diversas coi-
sas se alinham na memória numa prateleira com o rótulo:
Recife. Coisas bem legíveis em sua forma simples”. O lon-
go corredor da avenida Rosa e Silva, limite entre bairros
ensombrados, Espinheiro e Aflitos, onde o sol fazia ren-
da no chão, em pleno meio-dia, ao voltarmos do colégio,
para nós, certamente será uma delas. Lá, nos jardins flo-
ridos, acácias e flamboyants desmanchavam-se em cascatas
de cores no verão. Era o endereço da gente fina. Discretos,
fechados, os casarões não exibiam a vida de seus morado-
res aos olhos curiosos. Como os pernambucanos da época
pré-emergentes, eram avessos a ostentações.
Aos poucos, o perigo foi se aproximando, não só com
o comércio, mas com o crescimento populacional, dificul-
dades de manutenção, urbanização. Caíram os primeiros
casarões para dar lugar a prédios de porte modesto, mu-
dando o nível dos que passaram a ter esse endereço. Fotos
da avenida Rosa e Silva nos anos 40 são uma elegia visual.
A partir dos anos 80, o exército de espigões de concreto
fixou suas sentinelas avançadas, que se transformaram em
legião nos anos 90, destruindo o patrimônio arquitetôni-
co que fazia do Recife, com certeza, uma cidade conheci-
da pelas belas residências. Agora, na primeira década do
século XXI, caem as últimas testemunhas de um Recife
tranquilo, arborizado, onde pousava a esperança e a alegria
nas asas da cotovia.
Ao cruzarmos a Rosa e Silva, vimos, por esses dias, um
trator-vilão, um arrasa-quarteirão, derrubando, sem pie-
dade, paredes que contam histórias por nós desconheci-
das, mas nem por isso pouco relevantes. A casa fazia parte
do cenário afetivo dos moradores do bairro, embora não

278
Nelly Carvalho

fosse histórica, nem artística. Talvez não valesse a pena


conservá-la junto com o prédio. Essas conservações desca-
racterizam tanto a casa tombada que, alterando o contex-
to, roubam-lhe a imponência e a personalidade
Em breve, quem voltar ao Recife estará diante de uma
cidade desconhecida e despersonalizada. Diferente dos
grandes centros, que constroem novos bairros em torno
do centro antigo, mesmo que não tenha valor artístico,
destruímos para transformar bairros aprazíveis em pali-
teiro de espigões. Parafraseando Bandeira, eu poderia di-
zer: Recife... Avenida Rosa e Silva... Nunca pensei que ela
acabasse! Tudo lá parecia tão impregnado de eternidade!

279
O menino de Pernambuco
Nelson Rodrigues

1. Certas frutas desapareceram. Por exemplo: – caram-


bola. Há trinta anos, não vejo um mísero pé de carambo-
la. Nem goiaba. As goiabeiras sumiram dos quintais. E
pior: – os quintais também sumiram. O que há é a solidão
dos apartamentos.
2. Por que é mesmo que estou dizendo isso? Eu ia falar
das pitangas de minha infância. É outra fruta em vias de
extinção. Coisa curiosa. Toda minha infância tem gosto de
pitanga e de caju. Pitanga brava e caju de praia. Hoje tenho
57 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade
com um cordial descaso, porque, ao contrário do Tristão de
Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: – ain-
da hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contempo-
râneo, sou arrebatado por um desses movimentos proustia-
nos, por um desses processos regressivos e fatais.
3. E volto a 1913, ao mesmo Recife e ao mesmo Per-
nambuco. Mas não era mais Capunga e sim Olinda. Al-
guém me levou à praia e não sei se mordi primeiro uma
pitanga ou primeiro um caju. Só sei que a pitanga ardida
ou o caju amargoso foi a minha primeira relação com o
universo. Ali, eu começava a existir. Ainda não vira um
rosto, um olho, uma flor. Nada sabia dos outros, nem de
mim mesmo. E, súbito, as coisas nasciam, e eu descobria
uma pitangueira ou um cajueiro.
4. Que idade teria eu? Eis o que me pergunto: – que
idade teria eu? Um ano, um ano e pouco, sei lá. Ou me-
nos, talvez menos. Minha família morava diante do mar.
Nelson Rodrigues

Mas o mar antes de ser paisagem e som, antes de ser con-


cha, antes de ser espuma – o mar foi cheiro. Há ainda um
cavalo na minha infância profunda. Mas também o cavalo
foi cheiro. Antes de ser uma figura plástica, elástica, com
espuma nas ventas – o cavalo foi aroma como o mar.
5. 1913. O que a memória consciente preservou de
Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lem-
bro de pouquíssimas pessoas. Por exemplo: – vejo uma
imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma
mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam
não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por
entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com
uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu
pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me
espanta é que essa primeira infância não tem palavras.
Não me lembro de uma única voz. Não há um canto de
galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio
mar era silêncio.
6. Falei do mar e volto a ele. Tenho umas poucas ob-
sessões que cultivo, com paciência e amor. Uma delas é o
mar. Qualquer praia vagabunda, mesmo a de Ramos, tem
para mim um apelo mortal. Às vezes penso que já morri
afogado em vidas passadas ou morrerei afogado em vidas
futuras.
7. Em 1914, houve o incidente de Sarajevo. Caçaram o
arquiduque a tiros, bombas. Meu pai soube, e minha mãe,
e meus tios, e as visitas. Mas na hora do atentado, eu não
sabia que o arquiduque, já ferido de morte, soluçava para
a mulher: – “Vive para os nossos filhos!” Era um defunto
falando para uma defunta. Aquele homem assumia, ali,
a sua plena e inefável miserabilidade. Deixava de ser um
uniforme, um penacho, um par de botas. As medalhas es-
corriam sobre as tripas à mostra. E as esporas triunfais es-
tavam agora geladas. Na hora de morrer, e quando sabe

281
O menino de Pernambuco

que está morrendo – o homem tem um olhar súplice e in-


suportável de criança batida. Não, não, um olhar de contí-
nuo. Sempre imagino que o arquiduque austríaco, com os
intestinos de fora, morreu como o último dos contínuos.
8. Era a guerra. Um ano depois, nascia mais um, lá
em casa. Era o sexto filho. Meu pai já espalhara por toda
Recife: – “Se for menino, vai se chamar Joffre.” E veio um
menino, de cabelo de fogo. Esse irmão, que se uniria a
mim como um gêmeo, ia morrer, aos 21 anos, tuberculo-
so. Depois da Revolução de 30, e até 35, eu e toda minha
família conhecemos uma miséria que só tem equivalente
nos retirantes de Portinari. Ainda agora, quando me lem-
bro desse período, tenho vontade – vontade mesmo – de
me sentar no meio-fio e começar a chorar. Eu e meu irmão
Joffre passamos fome e foi a fome que estourou nossos
pulmões. Mas não quero misturar datas e contarei tudo
isso, a seu tempo. (Naquela época, os jornais davam à tu-
berculose o nome imaculado de “peste branca”. Por uma
associação meio idiota, eu me lembro de Moby Dick, a
“baleia branca”. Mas, estou divagando, e me desculpem.)
9. Voltemos à guerra, isto é, à Primeira Grande Guer-
ra. Meu pai embarcou para o Rio em 1915 (jornalista de
combate, com tremendo potencial de ira, ele sempre ima-
ginou que ia morrer assassinado). Pernambuco tornara-se
pequeno para a sua ambição jornalística. Largou empre-
go, largou tudo, e disse a minha mãe: – “Você me espera.
Se arranjar emprego, mando buscar você. Se não arran-
jar, volto.” Partiu. Meu pai era gago e daí, talvez, a ter-
nura que eu tenho por todos os gagos. Que figura doce
era meu pai e capaz de cóleras tamanhas. Cóleras contra
os outros, contra o mundo mas trêmulo de ternura para
a mulher e para os filhos. Morreu aos 44 anos de idade
e jamais me deu um vago e merecido cascudo. Na hora,
porém, do revide polêmico, era um Zola a descompor o

282
Nelson Rodrigues

exército francês. Mas meu pai não era homem de passar


muito tempo longe de minha mãe.
10. No dia em que desembarcou no Rio, deu-lhe uma
santa e provinciana pusilanimidade. Sua vontade foi vol-
tar, correndo. O que ele não sabia, nem podia imaginar,
é que minha mãe estava empenhando joias, o diabo. Meu
tio Augusto protestou: – “Não faça isso. É loucura!” Ela
não aceitou nenhum argumento, nenhum raciocínio: –
“Vou, porque vou, vou mesmo.” Linda, minha mãe. Tenho
retratos seus da mocidade e posso repetir: – linda, minha
mãe. Um dia, meu pai recebe o telegrama: – “Embarco
hoje, navio tal. Beijos.” E lá ficou ele como uma barata
tonta, lendo e relendo aquilo. Vinham a mãe e seis filhos,
o último de colo. Esse batalhão de crianças ia inundar o
Rio de Janeiro. Diga-se de passagem que, há muito tem-
po, minha mãe vinha martelando meu pai: – “Vamos para
o Rio. Você tem que ir para o Rio.”
11. Uma coisa é certa: – meu pai só ficou por causa
de minha mãe. E quando entramos no navio, a Europa
continuava morrendo e matando. Segundo dizia o Eu
sei tudo, os alemães arrancavam o olho dos prisioneiros
com o dedo em gancho. Só os alemães estupravam, só
os alemães espetavam criancinhas na ponta das baione-
tas. Durante a viagem, meus irmãos mais velhos, Milton e
Roberto, estavam eufóricos. A campanha submarina ale-
mã espalhava o terror por todos os mares. Meus irmãos
queriam ser torpedeados e, se morrêssemos todos, seria
ótimo, ótimo. Quanto a mim, não me lembro de nada, ou
por outra: – o que me ficou do navio foi a lembrança de
uma delicada escarradeira de louça, com flores desenha-
das em relevo. Finalmente chegamos. No cais, estavam
meu pai e Olegário Mariano, o poeta.
12. Eu só imagino a pungência, a plangência da cena.
Minha mãe descendo a escadinha, com a filharada atrás,

283
O menino de Pernambuco

e sem um tostão (o dinheiro das joias fora todo gasto nas


passagens e em poucas gorjetas de bordo); e meu pai, sem
emprego, rigorosamente sem emprego, ou melhor: – meu
pai arranjara um emprego e fora despedido. Saímos dali
e fomos – meus pais, com a filharada – para a casa de
Olegário. Lá, passamos não sei se vinte dias, um mês. Mas
falei em Olegário e preciso contar um episódio que ocor-
reria trinta e poucos anos mais tarde. Tivemos um bate-
boca, pelo telefone, de uma espantosa violência. Houve
de parte a parte, os insultos mais pesados. Olegário ber-
rava: – “Eu te matei a fome! Eu te matei a fome!”

O Globo, 9 de outubro de 1970


O reacionário – memórias e confissões. Rio de Janeiro, Agir, 2008

284
Um Recife que não volta mais
Nilo Pereira

Recordar ainda é uma das coisas boas da vida. Pode


trazer sofrimento. Mas o espírito se refaz. O coração se
alegra. Há sempre um tempo que não foi perdido.
Lembro hoje o Recife de há uns bons 40 anos. A ci-
dade hanseática, como a chamaria Vamireh Chacon, era
outra. Não havia assaltos nem sequestros. Punha-se a ca-
deira na calçada. Era possível “arruar”, como no romance
de Mário Sette. Lia-se Aníbal Fernandes e Mário Melo.
Tomava-se chá na Confeitaria Helvética que talvez fosse a
nossa Casa Havaneza tão celebrada por Eça de Queiroz.
Frequentava-se o Cinema Royal. Ouvia-se Maurice Che-
valier e Jeannette Mac Donald cantar. O “chansonnier”
francês cantava às vezes em inglês: – “I love Pauline, I love
also Josephine”. Usava chapéu de palhinha. A bengala
entre os seus dedos ágeis descrevia arcos como se voasse.
No Helvética jantava-se bem. Muitas vezes Otacílio
Alecrim e eu ali ficávamos a cavaquear sobre mundo de
coisas. Tínhamos a imaginação solta. Alecrim ria como
um Mefistófeles goethiano. Os garçons não gostavam
dele, das suas reclamações a respeito dos pratos e talheres
mal-lavados.
Um Recife sossegado esse da década de quarenta por
aí. Jordão Emerenciano morava na Rua dos Ossos. Dizia
Silvino Lopes que a rua tinha esse nome porque Jordão
havia comido toda a carne. Na sua casa as reuniões vara-
vam ruidosamente a noite. Nas grandes ceias vivia-se um
clima de literatura esguedelhada. Éramos para nós mes-
Um Recife que não volta mais

mos novos “Vencidos da Vida”. O grupo compunha-se de


Gilberto Osório de Andrade, Samuel Mac-Dowell, Silvino
Lopes, João Vasconcelos, Sylvio Rabello, Andrade Lima
Filho, Olívio Montenegro e este rabiscador.
À meia-noite em ponto Samuel Mac-Dowell declama-
va O corvo, de Edgar Poe. Grande momento esse. As lu-
zes esmoreciam à chegada do bicho sinistro piando sobre
uma estante. Samuel falava também com as mãos. Era um
artista do Renascimento. Tinha um talento descomunal.
Ouvi-lo nessas horas de recolhimento espiritual era como
levitar sobre o mundo. E alcançar as esferas celestiais,
onde os anjos cantam em coro.
O Recife não produzirá mais um Jordão Emerenciano.
Monarquista, ele guardava um ar fidalgo de herdeiro pre-
suntivo, que parecia disputar com Guilherme Auler. Tudo
nele era aristocrático. Os republicanos não se sentiam mal
diante dele. Imagine como Carlos de Laet – o mais fiel dos
monarquistas – gostaria de o ter conhecido. Juntos, em
infindáveis tertúlias, louvariam D. Pedro II e o Visconde de
Ouro Preto, que fez Laet deputado pela Paraíba e por Mato
Grosso. O grande jornalista não chegou a tomar posse na
sua cadeira de representante do povo. A proclamação da
República lhe tolheu a carreira parlamentar. Fez com ele o
que a revolução de 1930 fez com Luís da Câmara Cascudo,
que foi deputado estadual por três dias...
Esse Recife já antigo teve outra figura que não se repe-
te: – Valdemar de Oliveira.
Valdemar foi tudo. Uma síntese dos vários Valdemares
que havia nele: o médico, o bacharel em Direito, o teatró-
logo, o escritor, o jornalista, o ator, o autor, o professor, o
compositor, o pianista. O homem plural como o chamei
numa expressão talvez feliz.
Não se repete mais um Valdemar como esse. Certa vez
no Ginásio do Recife o mestre que ele era incompatibili-
zou-se com uma turma de História Natural onde ensinava.

286
Nilo Pereira

Vieram os exames finais. O Padre Félix Barreto, diretor do


Ginásio, me pôs na banca examinadora como presidente,
“para manter a ordem”. Eu era muito mais moço do que
Valdemar, de modo que não soava bem a expressão “man-
ter a ordem”. Mas lá fui eu. Valdemar reprovou a turma
toda. Grande assuada. Ele imperturbável. O mantenedor
da ordem impossibilitado de exigir silêncio.
Saímos juntos. Valdemar dirigia nessa época uma “Ba-
ratinha” Chevrolet. Íamos ao Jornal do Commercio: ele para
redigir o seu “A propósito”, uma coluna de Arte; eu para
elaborar o editorial, então chamado “batelão”.
Verificamos que todos os quatro pneus do carro de Val-
demar estavam furados. Os estudantes escondidos numa
mercearia próxima espreitavam o momento de ver o mestre
tomar o carro e ficar dançando sobre as rodas murchas.
Que fez ele? Deu-me o braço. Fomos a sua casa. Não
podia prever o que ia acontecer. Ele me disse então:
– Quando me contrario, abro o meu piano.
E foi o que fez. Que grande pianista era Valdemar! Aos
poucos tudo se foi dissipando. A música divina música nos
levava em asas de anjos para regiões indefinidas. Voáva-
mos. Ou levitávamos.
Assombrou-me aquele homem. Não o conhecia tão
ágil no piano. Tocou uma valsa só com a mão esquerda.
Depois a sua própria valsa de sua autoria que havia com-
posto para uma sua ex-noiva. Surgiu o romântico diante
de mim. E disse versos. Transfigurou-se na sua cena. Era
o artista que o Recife tantas vezes aplaudiu.
Há isso hoje? Não há mais. Jordão e Valdemar não
se repetem. Foram-se e levaram com eles um tempo do
Recife­, como gostava de dizer Mauro Mota, outro que
também não se repete.
Não sou propriamente um saudosista. Mas amo essas
coisas que passaram. Vejo nesses amigos algo de irreal.
Como se eles estivessem por empréstimo entre nós.

287
O poder sênior
Olímpio Bonald Neto

Vive-se mais, a cada geração.


O IBGE proclama o paulatino aumento da “expecta-
tiva de vida” dos brasileiros. A medicina alardeia meios
e modos de prolongar a vida útil da população e tudo
repercute na economia, na sociedade e na cultura.
Os brasileiros idosos conquistam seu estatuto legal,
com direitos e privilégios e, cada vez mais, interferem e
participam da vida nacional.
O professor Torres Montenegro, da UFPE, diz:

“Romper, de forma absoluta, com o Passado, parece ser todo


o objetivo da ‘Cultura da Modernidade’. Diverso das ‘sociedades
imaginárias’, onde a sabedoria se transmitia oralmente e a fun-
ção precípua (a Finalidade Objetiva) dos velhos e das velhas era
Recordar, Lembrar – Manter Viva – e Transmitir (ensinar) a
memória coletiva.” (LIMA, Daniel. Diario de Pernambuco, 25
de dezembro de 1991).

Por isso, começo interrogando. Qual o objetivo da ve-


lhice em tempos da Modernidade? O fim como o inevitá-
vel término da vida? Ou viver ensinando a viver?
Manter a Cultura (a tradição das memórias, da his-
tória, das lendas, experiências, costumes, técnicas, tabus,
saberes, conceitos e preconceitos etc.) exige experiência
vivida no Tempo, além de convivência e lazer dinâmico,
privilégio de idosos, experientes da vida, liberados das
tarefas cotidianas, no “ócio com dignidade”. Labor de sá-
Olímpio Bonald Neto

bios e disponíveis, e por isso mesmo respeitados, vene-


ráveis guardiões das lembranças, senhores do imaginário
coletivo, da ancestralidade, das ilusões perdidas e dos so-
nhos realizados pelo tempo...
Orgulhosos dos seus ócios, estão certos de que até o
Criador, ao sétimo dia, permitiu-se descansar, consagran-
do a importância do tempo vago para a ação criadora: o
sétimo dia de Deus foi de repouso, de lazer contemplativo
em face à Criação Universal.
Assim, Lazer, na modernidade socializada, é cada um
dispor, sem restrições, do bem sagrado e sem preço que é
seu Tempo. Hoje, compondo o Direito dos trabalhadores,
são inalienáveis, garantidos por Lei, o repouso noturno,
o descanso semanal remunerado, as férias, as licenças e a
aposentadoria.
O sábio padre Daniel Lima, assim define o homem
diante do Tempo:

“Somos, de qualquer modo, em qualquer idade, criaturas do


Tempo e, portanto, marcadas pela ação entrelaçada dos três mo-
mentos que o constituem e que nos historicizam. Ninguém se li-
vra do Passado, tanto quanto é impossível escamotear o Presente
e o Futuro.
Todo instante humano é mistura dessas três situações. Disto
se faz nossa Vida e a nossa Morte. Um minuto não passa de tão
lento, enquanto tão depressa correm os anos.
Não cuides, pois, dos anos nem das horas. Cuida só deste
instante único e lindo onde o melhor de ti palpita à espera.”
(LIMA, Daniel. Soneto do instante. Diario de Pernambuco,
1º de janeiro de 1992).

Daí, cada idoso ser um sedimento do Tempo da sua


comunidade.
Verdadeira poça das chuvas da Vida, das experiências
sofridas ou gozadas, sempre, todavia, com o saldo positi-

289
O poder sênior

vo da sobrevida, formando imensos mares salgados com


os sagrados sais da Vida!

A angústia do ser globalizado


Outro dado a considerar é que a agonia de hoje – o
stress da maioria dos homens que se querem para além do
Moderno – um “Ser Globalizado” – é não ter Tempo para
nada, salvo para as obrigações.
Gasta-se todo o Tempo de Vida cumprindo tarefas, per-
seguindo as mil faces do sucesso, desde a riqueza à compe-
tência profissional, numa carreira enlouquecida, atrope-
lando dias e anos, precipitando-se no caudal psicodélico
das imagens e das notícias – em tempo real, de todos os
recantos da Terra – trazidas pela mídia internetizada.
E, como no mundo capitalista time is money, e como
dinheiro é a mola mestra desse mundo, ninguém parece ter
mais tempo para saborear a vida, para degustar o passa-
do, para recordar os momentos vividos, ou desenhar os
sonhos do futuro. Porque saborear, recordar e sonhar são ati-
vidades improdutivas; não dão retorno, não geram rendas
nem juros. Coisas inúteis de crianças e de velhos... Como
se viver fosse somente levar vantagem em tudo, ambicio-
nar, conquistar poderes e riquezas, gastar o tempo, estar
sempre correndo para um destino incerto e sem qualquer
controle. E nesta carreira idiota – sem razão nem sentido
– a maioria, desembestada, sucumbe...

Os sobreviventes
Todavia, alguns fogem à regra desse universo ofegante.
Há uma seleção natural pelo talento, pela sensibilida-
de e pela inteligência.
Quase sempre sobrevivem os melhores. Os sábios, os
feiticeiros, os santos, os visionários, os navegadores e as-

290
Olímpio Bonald Neto

tronautas, os inventores de engenhos e técnicas, os pro-


fetas, os pensadores, os criadores dos mitos e das artes,
os poetas e outros autores das estórias, das crônicas e dos
romances que fazem a humanidade pensar, sonhar e de-
sejar progredir.
São mulheres e homens, aparentemente iguais aos ou-
tros, porém mais experientes, mentalmente ativos, vetera-
nos do seu mundo e da sua época, que aprenderam a dispor
desse extraordinário bem fora do comércio, desse raro, limi-
tado e precioso produto natural chamado Tempo de Vida.
São os mais lúcidos, os que souberam organizar a Vida,
aplicando o capital tempo acumulado no repouso, na
ação, na solidão e na reflexão criadora. Não são velhos,
superados, exauridos. Não gastaram, mas sim emprega-
ram bem o seu Tempo.

Velhos e idosos, como distinguir?


Velhos, mesmo, são os desvalidos, os doentes – mais das
almas que dos corpos – os frustrados, desiludidos, negati-
vistas, dependentes inúteis, órfãos da sua época, invejosos
e rancorosos, carentes de tudo, exilados no próprio lar,
amargurados com todos.
Idosos são adultos ativos, mentalmente sadios, líderes
da sociedade, realizados e de bem com a vida e com o
mundo. São os que nunca se entregam aos azares da sorte,
nem vestem o pijama da acomodação, são os eternos ca-
pitães de suas indústrias, os míticos santos e demônios, os
provedores, os conselheiros, os intelectuais, os românticos
amantes que ainda mandam flores, os que simplesmente
não têm (ou não precisam negar) a idade que têm...
Os verdadeiros Seniores de cada geração.
Mesmo arriscando excluir muitos, permito-me exem-
plificar alguns Seniores da nossa geração que agora me
acodem à memória.

291
O poder sênior

Como Marcos Prado, Leny Amorim, Waldenio Por-


to, Antônio Correa, Esther Sterenberg, Nelson Saldanha,
Amaury Medeiros, F. Bandeira de Mello, Geninha da Rosa
Borges, Jarbas Maranhão, Odile Cantinho, Abdias Mou-
ra, Débora Brennand, Alex, Marly Mota, Mário Márcio,
Dirceu Rabelo, W. Maia Leite, Meraldo Zisman, Pe. Edval-
do, Ana Maria César, Roque de Brito Alves, Marcos Vilaça,
Luzilá Gonçalves, Fátima Quintas, Francisco Brennand,
Carlos Garcia, Jarbas Vasconcelos, Marco Maciel, Maria do
Carmo Tavares de Miranda, José Nivaldo, Lourdes Sar-
mento, os irmãos Germano e Fernando Coelho, Wilton de
Souza, Djalma Costa, Rostand Paraíso, Milton Lins, Rei-
naldo Oliveira, Djanira Silva, César Leal, Rosa Lia, Ariano
Suassuna, Nagib J. Neto, Lúcio Ferreira, Carlos S. Caval-
canti, o casal Dorinha e Tavares de Lima, Lucilo Varejão
Filho, Albuquerque Pereira, Aluízio F. de Mendonça, Fer-
nando Gonçalves, Bernadete Serpa, Cyl Gallindo, Alexan-
dre Ribemboim, Aurélio Loyola, Dulce Albert, Melchiades
Montenegro, Ruth Bacelar, José Paulo Cavalcanti Filho,
Nicolino Limongi, Lúcia Cardoso, Esther Camurça, Gra-
ziela Peregrino, José Menezes e tantos e tantos outros ilus-
tres idosos, atuantes Seniores que iluminam nossos palcos,
salões, oficinas, bibliotecas e tribunas.
Ou Gente já “Encantada” – e viva na Memória da nossa
geração – como Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Waldemar
Lopes, Jamesson F. Lima, Waldemir Miranda, os irmãos
Maximiano e Renato Carneiro Campos, Evaldo Couti-
nho, Gaston Manguinho, João Pedrosa da Fonseca, José
do Rego Maciel, D. Helder Camara, Celina de Holanda,
João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre, Paulo Caval-
canti, Zuleno Pessoa, Jaime Griz, Amaro Quintas, Orlando
Parahym, Ulisses Lins, Ana das Carrancas, Temístocles de
Andrade, William Ferrer, Manoel Correia de Andrade, Pin-
to Ferreira, José Rafael de Menezes, Felix de Athayde, Ma-

292
Olímpio Bonald Neto

ria do Carmo Barreto Campello, Pelópidas Silveira, Luiz


Gonzaga, Vanildo Bezerra, Costa Porto, Potiguar Matos,
José Lourenço, Paulo Cardoso, Joaquim Monteiro, Ulisses
Guimarães, Capiba, Clarisse Amazonas, Djair Brindeiro,
Roberto Marinho, Alcindo Pedrosa, Celina de Holanda,
Audálio Alves, Edmir Domingues, José Ermírio de Moraes­,
Lamartine Morais, Marcos Freire, Luiz Beltrão, Manuel
Bandeira, Ascenso Ferreira, Katarina Real, Flávio Guer-
ra, Luiz Delgado, Mário Souto Maior, Lula Cardoso Ayres,
Barbosa Lima Sobrinho, Clídio Nigro, Armando Montei-
ro, Miguel Arraes, Waldemar e Diná de Oliveira, dentre
muitos outros que tiveram fecunda existência, criando e
distribuindo energia vital, alegria, beleza, deixando exem-
plos de amor a Deus, ao Brasil e ao seu povo, amando e
defendendo as artes, a natureza e a vida.

Quantos somos?
Aumenta a cada dia a população de seniores, esses
idosos que vivem cada vez mais...
Só em Pernambuco – na década de 1990, dizia o Ins-
tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – vi-
viam mais de 600 mil maiores de 60 anos. No Recife eram
216.566. No Brasil mais de 10 milhões. Em 2000, eram
mais de 15 milhões e, para o ano 2030, projetava-se uma
população de 31 milhões...
Ironia é que a cada dia passam a sobreviver mais ido-
sos no Brasil, o que inutilizou as perspectivas atuariais,
prejudicando os cálculos das aposentadorias...
Uma população idosa que vem crescendo a taxas su-
periores à da população jovem. A cada mês e a cada ano,
continua aumentando, até vir a ser uma força de valor e
importância moral ainda não plenamente avaliada!
O cientista político Hélio Jaguaribe chega a afirmar:

293
O poder sênior

“A 3a. Idade é mais do que um problema social ou da


Humanidade. É um Problema Político!”
De fato, para muitos, ser ou sentir-se “velho” é postura
individual. Por isso, adultos experientes, éticos e lúcidos
são a rara e preciosa elite da nossa Terceira Idade.
O só fato de estarem vivos aos setenta anos, em mo-
mentos tão difíceis como os de hoje, já os distinguem
como casta superior.
Especialmente neste momento da história, em que a
insegurança individual, dos familiares e dos seus patri-
mônios, os desencantos políticos diante das maracutaias e
de toda sorte de cambalachos que emporcalham os mais
altos poderes da República brasileira, levam ao desespero
o cidadão comum, o contribuinte fiel e sacrificado por dí-
vidas públicas internacionais, respeitador das mil regras,
portarias e normas, que atazanam a sua vida se cumpridas
(ou se violadas por infratores, quase nunca punidos).
Daí, o ser mais raro é o Sênior!
Um adulto idoso ativo, eficiente, lúcido, pragmático e,
ao mesmo tempo, ético, visionário, idealista, perseguindo
resultados imediatos, metas visíveis, enquanto sonha e crê
no que vislumbra além da realidade material, no espaço
infinito da imaginação e da sensibilidade, tal como fazem
os poetas.
É que ele já sofreu, suportou (experimentou) situações
extremas, ainda desgraçadamente impostas a uma Amé-
rica Latina de terceiro mundo, de economia controlada
por banqueiros internacionais, dominada pela cultura de
massa voltada para um público incauto, domesticado por
certa mídia cativa, consumidor de produtos de baixa qua-
lidade, colonizadores, alienantes mentais.
Por isso nossa crença (e tanta esperança) neste Poder
Sênior – cerne de uma geração que sobreviveu à 1ª Guer-
ra Mundial e a duas ditaduras, que sem ódio e sem medo

294
Olímpio Bonald Neto

resistiu ao Golpe Militar e restaurou a liberdade e a demo-


cracia, e vem aprendendo a ser povo e eleitor consciente.
Pessoas que atravessaram mil vicissitudes nessas últi-
mas décadas da história política do Brasil.
Idosos lúcidos, que superaram a senilidade da velhice
e a apatia da desesperança, e que estão por aí, como força
oculta, liderando alguns dos melhores setores da socieda-
de, dos negócios, da política, das artes e da cultura con-
temporânea.
Essa força oculta atua nas várias dimensões da naciona-
lidade.
Na dimensão política é representada pelos eleitores inde-
pendentes, teoricamente à prova da embromação eleitoreira
de políticos desonestos; cidadãos que conseguem ver e ouvir
além do que lhes mostram e muito além do que escutam...
Na dimensão econômica: é uma decisiva força consumis-
ta de médio poder aquisitivo, que sabe o que melhor lhe
serve, compra apenas o que precisa, acima dos modismos,
sem se deixar levar pelo “papo” publicitário.
Se mais bem advertido e conscientizado, esse poder de
consumidor pode vir a impor comportamentos mais ho-
nestos aos produtores e vendedores, exigindo qualidade,
quantidade e preços justos. Impondo freios à especulação
que desespera a massa de consumidores sem juízo crítico
nem experiência de vida.
Na dimensão moral: essa elite representa uma reserva
de crítica positiva que examina, escolhe e influencia as
mudanças de comportamentos sociais sem concessões aos
preconceitos, às novidades, aos modelos de importação de
matrizes culturais impostas ao nosso povo há tantos anos;
de um falso progresso globalizado que vem corroendo as
matrizes estéticas, morais e religiosas do povo brasileiro.
Uma força crítica, capaz de embargar os processos de
aculturação que vêm sendo impostos ao povo brasileiro

295
O poder sênior

por interesses do rapinante primeiro mundo, que interfe-


re em tudo, da economia à segurança interna, da família
à política, coagindo governantes, corrompendo a máqui-
na burocrática e as relações internacionais de comércio,
a perpetuar a relação colonialista que fez de nosso país
reserva de mercado, mero produtor de bens primários e
território livre, onde tudo se permite...
Vale imaginar que essa força crítica – de homens e mu-
lheres mentalmente independentes, vividos e politizados,
apaixonados pelo amor e pela vida – será capaz de se opor
às práticas amorais, materialistas, poluidoras, belicistas,
aberrantes e desumanas das elites políticas, econômicas,
militaristas e fanatizadas que pretendem dominar o mun-
do neste aterrador terceiro milênio, tão sinistramente
apocalíptico.
Vale, pois agora, sonhar com o Poder Sênior.
Ver, com os olhos da alma, perseguindo uma estética
do belo, do justo, do harmonioso; preservando a morali-
dade consolidada ao longo da história, através do paula-
tino aperfeiçoamento dos valores do homem – como ser
supremo da criação, animal superior na escala biológica,
capaz de amar, de pensar e de agir racionalmente, em
função da sua consciência do Bem e do Mal.
Assim, para nós, o objetivo maior da velhice ativa – do
Poder Sênior – é lutar, com todas as forças e sabedoria, para
restaurar a dignidade do homem contemporâneo, integrando-o
pelo corpo e pela mente à vida de uma comunidade essencial,
capaz de atuar positivamente dentro da sociedade brasi-
leira, hoje infelizmente enferma, economicamente frágil
e moralmente infectada. E isso implicará na participação
cada vez maior do adulto experiente em movimentos so-
ciais pela cidadania, pela Justiça e pelo Direito.
A mulher ou o homem Sênior são, desse ponto de vis-
ta, a melhor parte da sociedade nacional, o extrato mais

296
Olímpio Bonald Neto

saudável do espírito, o lado mais operoso e eficiente do


idoso ativo, que pode vir a ser uma Força acima das di-
ferenças regionais, das religiões e dos partidos políticos,
agindo em favor do futuro dos mais jovens e do presente dos
idosos menos capazes, tirando da morte a sua sinistra função
de libertadora da velhice abandonada...
É, pois, em nome desse Poder Sênior que nós somos
(ou a Deus querer, seremos...), que ouso conclamar todos
os companheiros adultos ativos, para refletir sobre o quan-
to já desperdiçamos da Vida, e passar a usar conscien-
temente o muito que ainda temos, certos de que consti-
tuímos uma grande e poderosa força, imensa reserva de
experiência e de saberes, e, especialmente, donos dessa
magnífica sobra de tempo de vida que Deus vem permitindo seja
ativa, lúcida, amorosa, idealista e eficiente.
Ainda há tempo para se tentar refazer o mundo!!!

O fim da velhice (antologia). Recife, 2006

297
Anatol Rosenfeld –
homenagem à memória do intelectual
Osman Lins

Não sei em que mês de 1965 nos encontramos. Eu


concluíra um livro e desejava ouvir a sua opinião; o que
ele publicava nos jornais indicava um leitor compreensi-
vo, arguto e aberto a experiências novas. Nosso contato
foi rápido e algum tempo decorreu antes que voltássemos
a nos ver. Pouco importa, para esta breve memória, o que
me disse a propósito do livro; basta que se saiba que a ver-
dadeira natureza de certas explorações minhas foi por ele
revelada. O crítico traduzia para o criador – que assim se
tornava mais lúcido – alguns dos seus processos.
Nasceu, portanto, em torno de um texto, como feliz-
mente nascem quase todas as relações do escritor, uma
amizade cerimoniosa que só a morte viria a romper.
Para dizer a verdade, não nos vimos muitas vezes ao lon-
go desses anos. Ao menos, não o vi com a frequência com
que desejava e deveria vê-lo. Ia, a intervalos, encontrá-lo
no seu gabinete de trabalho (na rua Groelândia e depois na
Giacomo Garrini), rodeado de livros, a mesa sempre cober-
ta de páginas manuscritas – e sempre com frio, mesmo nos
dias quentes. Ou convidava-o para vir à nossa casa, aonde
ele chegava invariavelmente com pontualidade exemplar:
sucedeu a campainha e o relógio de parede soarem ao mes-
mo tempo. Interrompendo, certa vez, no seu escritório,
uma conversa sobre Thomas Mann, chamei-o para conti-
nuá-la três ou quatro dias depois. Veio com a pontualidade
de sempre e trazia-nos – alusão ao tema de nossas discus-
sões e a nossa admiração pelo autor de Os Buddenbrook –
Osman Lins

uma lata de enchovas procedente de Lubeck. Aliás, nunca


aparecia sem nos trazer uma lembrança qualquer. Gestos
assim faziam parte de seu modo de ser.
Conversávamos sempre sobre autores e obras, sobre o
teatro, sobre arte em geral. Nunca, em hipótese alguma,
falava de si mesmo. Foi necessário, após anos de conhe-
cimento, interrogá-lo, para saber que todo o seu destino
fora alterado por um motivo fortuito. Estava a cidade de
Berlim, antes da guerra, cheia de visitantes estrangeiros,
vindos para as Olimpíadas. Alguém pediu em francês ao
jovem Anatol Rosenfeld uma informação qualquer; ele
respondeu na mesma língua; agentes nazistas prenderam-
no por esse crime e assim iniciou-se um processo do qual
só a fuga viria a libertá-lo.
Embarcou então para o Brasil, onde se fez trabalhador
braçal na lavoura. Escapara da prisão e talvez até da mor-
te, mas a sua vida estava cortada.
Torna-se, mais tarde, vendedor de gravatas. Servir-lhe-
iam de algo, nessa atividade que o obrigava a viajar pelo
interior do país ainda estranho, os seus conhecimentos de
Kant e de Goethe? Que se passaria em sua mente, quan-
do se fechava à noite em algum quarto barato de hotel?
Sua bagagem intelectual não parece havê-lo impedido de
progredir no negócio de gravatas, a ponto de o fabricante
propor-lhe sociedade. Anatol Rosenfeld viu-se então num
dilema. Aceitar a sociedade representava um lance afortu-
nado, um golpe de sorte: a terra desconhecida oferecia-
lhe a oportunidade de enriquecer. O que seria então do
seu interesse pela vida do espírito? Na Alemanha nazista,
de onde vinha, um fenômeno terrível sufocava a cultura: a
alguns caberia resguardá-la. Ele renuncia à oportunidade,
demite-se da firma, começa a enviar resenhas de livros para
um jornal alemão. Afastando-se em definitivo do comér-
cio, retorna, aos poucos, modestamente, a suas atividades
intelectuais: a cultura recupera o seu antigo servidor.

299
Anatol Rosenfeld – homenagem à memória do intelectual

Quando haveria decidido permanecer no Brasil? Não


sei e foi difícil obter, através dele, o pouco que sei. Como
alguns outros nascidos em países distantes e que, numa
espécie de homenagem à terra que os acolheu, familiari-
zam-se com a nossa língua, não se contenta em aprender
o português: torna-se um escritor brasileiro. Não, não um
escritor brasileiro, mas um adventício generoso, com pers-
pectivas próprias, informado sobre as letras do mundo – e
quase, curiosamente, parecia trazer para a nossa ensaística
uma espécie de nobreza. Quem ainda não o conhece, leia
O teatro épico, as páginas tão lúcidas de Texto/Contexto.
O fato, se nele atentamos, é comovente e ilustra o lado
positivo do espírito humano. Eis um jovem apresentando-
se para a vida intelectual e que a violência política conduz
de súbito a um país distante. Atordoado com a mudança,
entrega-se a atividades inesperadas. Lentamente, reorde-
na as suas forças, enfrenta a adversidade, reorganiza a sua
vida e orienta-a, no meio novo, em direção ao rumo que
parecia perdido. Contudo, sendo diferente o quadro de
sua aventura, introduz, com sabedoria, modificações no
projeto inicial. Agora, não lhe interessa apenas a cultura
do seu país de origem: familiariza-se com obras do país
que o abriga, faz-se uma espécie de elo entre cultura ale-
mã e cultura brasileira, não – o que é admirável – como
um europeu, mas como o natural de algum país mais am-
plo, sem nome e sem fronteiras, o país das Letras. Assim
era, ao mesmo tempo, nosso mestre e nosso irmão.
Devo lembrar, é indispensável lembrar, que a sua con-
tribuição não se restringiu à vida intelectual. A não ser
que compreendamos a vida intelectual como ele parece
havê-la compreendido: um exercício de elevação total do
ser, um esforço de aperfeiçoamento espiritual, quase uma
ascese. Sabemos que isso é raro e que a atividade inte-
lectual serve com frequência ao orgulho e à ambição (de

300
Osman Lins

posições, de glória, de bens materiais). Ambição e orgu-


lho eram paixões estranhas a Anatol Rosenfeld. Recusou,
seguidamente, cargos universitários, como recusara antes
a participação no negócio de gravatas. Preferia viver mais
modestamente – e sabe-se quanto limitava as suas necessi-
dades de celibatário – contanto que pudesse manter a sua
liberdade de espírito. Nunca foi tentado por nenhuma
oportunidade de obter posições ou melhoria econômica.
E isso era apenas um lado da inteireza moral. Não esque-
çamos que essa inteireza, nele, jamais assumia aspectos
ostensivos – que já seria uma expressão de orgulho. Mes-
clava-se à sua austeridade uma espécie de doçura alta-
mente compreensiva: com isto, era raro escutarmos, dele,
uma palavra de censura, uma expressão cáustica. Traço
surpreendente, pois seria de esperar que um golpe como
o que sofreu na juventude o amargurasse para sempre.
Este homem que perdemos na primeira quinzena de
dezembro e cuja ausência nunca será preenchida. Pois em
quem voltariam a reunir-se tantas qualidades raras? Não
o vi no seu leito de morte – ele não queria que o vissem
e a sua delicadeza era tamanha que, supondo estar con-
denado, começou a afastar-se dos amigos – mas estava na
antecâmara do aposento onde agonizava, quando alguém
abriu a porta e me informou que ele acabara de morrer.
Nunca, em minha vida, estive presente a morte mais si-
lenciosa que a sua e não sei se vi alguma assim, tão solitá-
ria. Eram seis horas da tarde e, ignoro por que, olhei sem
nada dizer, através da janela, as copas das árvores e alguns
pássaros que então se recolhiam.
Um rabino pronunciou as orações rituais enquanto o
corpo descia à cova e jogavam terra sobre ele. Fazia sol
e ventava, o vento arrebatava os lenços com que alguns
homens, segundo o costume judeu, tinham coberto a ca-
beça. O chão brasileiro, que ele adotara e que lhe fora

301
Anatol Rosenfeld – homenagem à memória do intelectual

mais ameno que a terra do seu nascimento (à qual nunca


voltou), abria-se e acolhia-o materialmente, para sempre.
A migração era definitiva. Enquanto o via desaparecer,
apreendi, de súbito, como num diagrama, a humildade
e a grandeza da sua trajetória. Aquele homem pequeno
e quase sempre sorridente empreendera com o mundo
um combate de que poucos têm notícia. Amando os livros
e o ato de escrevê-los, dera de ombros a tudo e a eles
consagrara-se. Era, de certo modo, um herói da palavra –
e, portanto, com algo de patético, como todos os heróis.
(Chamava-o Roberto Schwarz o “Herói Civilizador”). Pro-
cura, durante toda a vida, nutrir o seu espírito de textos
elevados e fizera-se, dos textos, um mediador, um prega-
dor. Nem sequer chegara a constituir família. Os escritos
compensavam-no de tudo, eram para ele irmãos e filhos.
Mereceríamos nós um homem como este? Mereceria o
dom de uma vida como a sua um mundo apenas sensível
aos que conquistam uma das várias formas do poder?
Movido por um impulso obscuro, indaguei do rabino,
terminada a cerimônia, se sabia que acabara de oficiar a
inumação de um grande homem. Inquietava-me o receio
de que Anatol Rosenfeld, para quem as palavras sempre
haviam tido uma importância extrema, pudesse ser entre-
gue à terra com palavras ocas e sem que o oficiante tivesse
uma ideia do que fora em vida o morto.
Olhou-me o rabino com uma certa surpresa, talvez
com suspeita de haver cometido um engano irreparável,
e respondeu:
– “Não. Quem era ele?”

O Estado de São Paulo, Suplemento Literário.


São Paulo, 28 de abril de 1974
Vitral ao sol - ensaios sobre a obra de Osman Lins (org. Ermelinda
Ferreira). Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2004

302
Flores e baionetas
Paulo Caldas

Para Jomard Muniz de Britto

Era tempo de flores e baionetas, tanques e beijos. Ante o


bocejo conservador de carrancudas estruturas, gritos de paz
e amor buscavam o adeus às armas, apenas buscavam. Cabe-
los compridos, vestes coloridas davam unidos a ordem con-
tra a severidade dos costumes, rancores e rigores censurais.
Era tempo de um Recife rebelde, estigma de pernam-
bucanidade tatuada, povo insolente, sob jugo dos doces
baronatos decadentes, erguidos aos suores e dores de
ébanos oprimidos. Sobre as pontes, de costas para o mar,
podia-se ler A noviça rebelde, monja loura sem hábito, ro-
deada de infantes bem-nascidos, a reger sons maximela-
dos. No olhar lateral, quem me queres nas auroras do cão
sem plumas.
Nas avenidas de boas vistas, não sangravam flamboyants
em azuladas tardes, mas corações. Cavalos e soldados limi-
tavam os territórios das liberdades e libertinagens, contudo
sem esmagar ideais nem sarcasmos. Trabalhadores, estu-
dantes, religiosos pariam lideranças expostas às carabinas.
Engajados arriscavam peles politizadas, alienados cur-
tiam melodias, imagens vivenciadas numa urbe então ter-
ceira do País. Entre esses e aqueles, a juventude se fazia.
Ambos, daqui e doutras pátrias, batiam latas nas portas
acadêmicas quase sempre estreitas para os menos afor-
tunados, desvalidos de chances, tal afuniladas continuam
para esses tais.
Flores e baionetas

Era tempo de ralações compartilhadas: no aperto dos


transportes, dos bolsos às mesadas lençol curto, das novi-
dades cine-sonoras-televisivas, sob inquietas lentes glaube-
rianas de brilhos pirilampeados, mostrando terras do sol
em transe e abraços de deuses diabólicos, mais tarde visí-
veis a olhos astigmáticos em asas de satélites. Palmas aos
lampiões, coriscos, silvinos, reis de coroas xique-xiqueadas.
Sigs do humor pasquineado, camundonguiando ironias ta-
blóidicas, fradins, idosas taubatenses e dos bons Jeremias.
Nas telas os cerebrais hitchcockianos frente a frente
com aloprados jamesboniais; vai Marilyn vem Brigite, sai
Dean entra Presley, enquanto a falsa moral escorre das
telinhas, na família de um papai sabedor de tudo à frente
de prole idiotizada pelo conservadorismo de um precon-
ceituoso Tio in Sano. Das ribaltas aos claustros augustos
ensaios boalianos.
Um kimble nunca achado, fugitivo intocável semanal,
ao modo do revival da eterna segunda guerra, uma noite
sabatina de black tie antecede show da corte castelã, obri-
gatoriamente, sufocados em desnecessários duques – pale-
tós tergalinos e gravatas de duas cordas – também exigidos
às casas severianas mais chiques –, coisas que o vento le-
vou, mas por certo deixou em cada coração uma saudade.
Era tempo festivalesco. De sons e Tons, mil tons gil-
bertianos, de Chicos Caetaneados, Edus, Elis de braços às
hélices, axilas à mostra, tímidas Naras, tímidas Ritas, mu-
tantes subversores de harmonias, acordes guardados em
jovens dominicais, de versos inócuos em espelhos made
in Liverpool. No firmamento do oitavo paralelo silverje-
teando com anjos, aves sangrentas, tártariavase musicais
moderatos.
Era tempo da relva tropicaliente atapetada, palco
shows­ de estrelas aflitas de constelações alvirrubras, do-
minadoras, vindas de hexas galáxias celestiais de quatro

304
Paulo Caldas

letras: lula, gena, ivan, nado, bita nino, lala, gladiadores


em desafios salomônicos em ducados tupiniquins.
Era tempo entre amar ou banir, dos soturnos coturnos,
continências incontinentes. Nas tribunas, demagogos ba-
juladores sobreviviam das migalhas do banquete verde-
amarelo, degustado por supostos heróis, primatas adep-
tos da força, senhores do mal que a força sempre traz,
segundo versos belchiorianos, ocultos das lâmpadas in-
quiridoras, mentores de álibis hipócritas que antecediam
choques, chibatas e masmorras.
Das igrejas ecoavam gritos e os sussurros helderianos,
abafados pelos sinos dobrados em catedrais ornadas de
lustres e candelabros romanos. Era tempo dos amados,
dos primaveris recados de Praga e Braga, das torres de
West, das odisseias de Clark. Tempo das estampas virguli-
nas, cabralianas covas de palmos medidos, pops filosofais
jomarianos, elucubrações freyrianas em campos de Rena-
tos, Max, Hermilos e Arianos compadecidos.
Era tempo de cultuar Luther Kings, Ches fidelizados,
reis guardiões de matas tropicais, de águas caribenhas,
­kenennedyanamente tocaiados. Tempos de mitos cra-
tenses, perseguidores de sonhos juntos sonhados, mas só
sonhados, pois sonho nos resta, infinito enquanto dure.
Válido, lúcido e inserido no contexto.

305
O Recife de Mauro Mota
Paulo Cavalcanti

A minha geração perdeu o seu maior poeta. Conhe-


ci Mauro Mota logo depois da Revolução de 30, quando
os jovens da nossa idade despertavam para os problemas
políticos do País, pegando em armas. As frustrações da Re-
volução de 30 deixaram marcas em cada um de nós, tor-
nando-nos crédulos de outras ideologias, que novamente
embotaram a nossa consciência. Era a época de ascensão
do integralismo. Uma geração de moços intelectuais viu-
se envolvida nas malhas do fascismo, acreditando em suas
promessas. Era a geração de Álvaro Lins, de Gilberto Osó-
rio de Andrade, de Andrade Lima Filho, de Arnóbio Gra-
ça, de Mauro Mota – de tantos e tantos que, de alma leve,
buscavam caminhos diferentes para solucionar velhos pro-
blemas sociais. Eu me filiei a essa geração. E paguei, como
os outros, o preço de uma militância impensada.
Depois, as encruzilhadas da vida separaram-nos, cada
qual tentando realizar o roteiro de sua identidade políti-
ca. Tornei-me, então, marxista.
Eu me lembro de Mauro Mota, elegante, amável, “al-
mofadinha” do seu tempo, namorando as “melindrosas”
do cinema Politeama. Mais velho do que eu apenas uns
poucos anos, Mauro já tinha nome nos jornais, como poe-
ta. E era apontado como um intelectual sensível às coisas
de sua geração.
Reduto da classe média, a Boa Vista agasalhava, além
dos judeus do Recife, a massa de funcionários públicos, de
empregados dos Correios e Telégrafos, de comerciários,
Paulo Cavalcanti

de profissionais liberais, de auxiliares de uns poucos esta-


belecimentos bancários que operavam na cidade.
Era o Recife dos anos 30, do footing da Rua Nova, do
chá das 5 na Confeitaria Glória, onde mataram João Pes-
soa, dos sorvetes de Carlitos, na Rua da Conceição, de Bar-
bosa, na Rua do Rangel, das festas religiosas do pátio da
Santa Cruz e das novenas do Carmo, dos bailes animados
da Tuna Portuguesa, num casarão assobradado da Rua do
Imperador. Era o Recife dos concursos de beleza, da fase
romântica dos concursos de beleza, com Nininha Varêda,
Ceci Cantinho, Conie Braz da Cunha, Iolanda Gama, Bea­
trizinha Lacerda. O Recife dos fox-trots de Nelson e Luiz
Ferreira, dos primeiros frevos de rua, com Não puxa, Ma-
roca, e Borboleta não é ave. Das valsas dolentes de Alfredo
Gama e Alfredo de Medeiros, com o Quero te dizer, querida,
que Gilberto Freyre sabe de cor. O Recife das operetas de
Valdemar de Oliveira e Nelson Paixão – Madrinha dos ca-
detes e Berenice. O Recife das comédias teatrais de Silvino
Lopes e Samuel Campelo. O Recife das quermesses acadê-
micas, da Festa do Rubi, da Festa da Esmeralda, da Festa
da Mocidade, da Jazz Band Acadêmica, do Bando Acadêmico,
onde Capiba, Homero Freire, Carnera, Plácido de Souza,
Fernando Lobo e Pádua Walfrido tocavam e compunham
suas animadas canções, repetidas nos bailes das casas de
família, os “assustados” daquela época. O Recife dos en-
cantos, da simpatia e das anedotas de Noel Nutels, dos
irmãos Suassuna e de Ferreira dos Santos. Dos poemas de
Austro Costa, das revistas semanais de José Penante, Willy
Levin e Porto da Silveira – “A pilhéria”, “Prá você” e ou-
tras. O Recife do Silogeu Pernambucano de Letras, em que
pontificavam Álvaro Lins, Mauro Mota, Berguedof Elliot,
Noelly Correia, Hibernon Wanderley, Alfredo Ferreira Fi-
lho, Reynaldo Lins e Artur Santa Cruz. O Recife das fábri-
cas recifenses de cigarro, a “Lafayette” e a “Caxias”, com o
“Mistura Dois” e o “Flor da Penha”. O Recife das serestas

307
O Recife de Mauro Mota

madrugadoras, das extravagâncias também noturnas da


bebida e do sexo, com as “polacas” e as francesas da “Casa
Branca da Serra”, da pensão “Boêmia” e de Júlia Peixe-
Boi, que os embarcadiços da Europa frequentavam, provo-
cando brigas em que a peixeira pernambucana inaugurava
vísceras de louros dolicocéfalos. O Recife dos corsos de Car-
naval da Rua Imperial e da Rua da Concórdia, do lança-
perfume Vlã, com odor de rosas primaveris. O ­Recife dos
automóveis do ano, dos Ford de bigode ou dos Chevrolet de
faróis em cima dos para-lamas, a buzina do fom-fom ale-
grando a meninada, com as morenas fantasiadas de oda-
liscas nos carros de capota arriada.
O Recife das cheias do Capibaribe e do Beberibe, en-
trando de porta adentro nos mocambos da zona ribeiri-
nha, destruindo lares, trazendo nas enxurradas boi mor-
to, pedaços de cama velha e penicos enferrujados, com as
baronesas colorindo a tragédia. E na tragédia a meninada
mergulhando no “galinha gorda, gorda é ela, vamos co-
mer cabidela?”
Mas também o Recife sério e raivoso, das revoluções
e das quarteladas “para salvar a Pátria”, das conspirações
“tenentistas” que despertavam anseios cívicos em árdegos
estudantes, os Waldemar Valente, os Pina Júnior, os Dino-
rah Paes Barreto, os Heitor Maia Filho, os João Cavalcanti,
“herói” da minha família, ferido no peito quando apon-
tava seu fuzil-metralhadora sobre a Casa de Detenção, úl-
timo reduto do governo de Estácio Coimbra, em 1930. O
Recife das agitações políticas de Gilberto Freyre, Di Ca-
valcanti e Cícero Dias, presos pela polícia por haverem
assinado um fogoso manifesto contra a Lei de Segurança
Nacional e se solidarizarem com uma greve de padeiros.
O Recife das tecelãs e dos operários da Tramways.
Foi nesse Recife que Mauro Mota forjou sua persona-
lidade e se identificou sentimentalmente com a paisagem
social e humana da cidade grande.

308
Paulo Cavalcanti

Juntos, fizemos concurso para o cargo de escrevente-


datilógrafo da Secretaria do Interior e Justiça, Mauro se
classificando no primeiro lugar.
Depois, tornamos a nos encontrar na Faculdade de
Direito e, em seguida, nas colunas literárias do Diário da
Manhã, dirigido por ele e Gilberto Osório de Andrade,
o bravo Diário da Manhã, de Carlos de Lima Cavalcanti,
talvez o órgão de imprensa que mais revolucionou os pro-
cessos gráficos do Nordeste.
Este Recife, Mauro o incorporou à sua vida e aos seus
sentimentos.
Poucos se davam conta, dos que conviviam com ele, do
seu imenso valor e sua marcante atuação literária. Mauro
era simples, modesto, talvez excessivamente humilde. Sob
o comum de sua vida, encobria-se aquele que, decerto,
haveria de escrever alguns dos mais belos sonetos da lín-
gua portuguesa de todos os tempos.
O Recife tê-lo-á sempre na memória. O Recife lhe é
grato por tudo quanto fez na vida, como poeta, como en-
saísta, como geógrafo, como etnógrafo, como homem de
imprensa, como professor, como administrador e como
escritor público. Seus méritos jamais serão esquecidos.
E todos seremos vigilantes na defesa do grande patri-
mônio que deixou para os pósteros.

Homens e ideias do meu tempo. Recife, Nordestal, 1993

309
Cozinha regional
Paulo do Couto Malta

O etnólogo Mário Souto Maior defende a inclusão da


cozinha regional nos cardápios das casas de pasto. Du-
rante curso em empresa oficial de turismo, afirmou que
os portugueses, quando aqui abicaram, trouxeram hábi-
tos alimentares europeus e os passaram ao nativo. O há-
bito europeu de degustação e, também, de cambulhada,
“os costumes, os folguedos, as canções, as superstições, as
danças, a saudade e a religiosidade”.
Os africanos juntaram aos manjares europeus os nati-
vos, deles completamente divorciados, havendo, confor-
me frisa, “um maravilhoso resultado” de sabores. Da acul-
turação desses sabores, isoladamente díspares, nasceram
“pratos saborosos que atestam as nossas tradições, que fa-
lam da nossa gente e simbolizam a nossa região”.
Não vai ser fácil a hotéis de classe “A” (os chamados
cinco estrelas) mesclar pratos regionais, afeitos à satisfa-
ção palatal do nativo, a pratos internacionalmente tidos
como adequados a quaisquer paladares. A recomendação
do Souto Maior é atendida, com reservas, pela maioria
dos hotéis, nunca em caráter de exclusividade. A inclusão
de prato regional, perdido entre os que jamais tiveram
o visto do maître, cede mais à curiosidade do freguês do
que a sua disponibilidade de gosto. Pelo que, à pergunta
ao maître se a casa tem feijoada, fatal será a resposta de só
haver o prato nos sábados. Subsiste a impressão de não
jiboiá-la a capricho quem do restaurante sair para as can-
seiras do escritório; de pedir, com a subsequente sesta,
Paulo do Couto Malta

horas deduzidas do trabalho. A maioria dos nossos pratos


típicos, salvo os de peixe, ocasionam sonolência, torpor,
inércia, por mais biqueiro seja o degustador.
Mais de uma vez, Aníbal Fernandes defendeu neste
Diario a inclusão da cartola na ementa das sobremesas
nos restaurantes do Recife. O prato conciliava o sabor à
qualidade nutritiva; ademais, substituto à altura dos doces
em calda e tanto apetecível quanto o que mais o fosse. O
Leite o adotou por algum tempo, mas a ninguém regala-
va tanto quanto ao Aníbal. Não se retira do comedor de
restaurante o hábito das compotas e derivados. As tortas e
bolos variados estão sempre à disposição do freguês, mas
a esquecida cartola só lhe chega à mesa à la carte.
As restrições ao prato regional não impedem que, gra-
dativamente, venham a integrar em condições de igual-
dade a escolha do apreciador das variações culinárias. E
bem faz o escritor Souto Maior de recomendar a cozinha
regional aos participantes do curso que ministrou na Em-
petur. Comer o que é nosso é fator, entre tantos outros, de
integração.

Diario de Pernambuco, 25 de setembro de 1976.


Coisas da cidade e outras coisas. Brasília, 1991

311
O mestre de telas alheias
Paulo Fernando Craveiro

Entro de costas no Museu do Prado. Muitas vezes en-


trei de frente. Não tenho bons modos. Entrando de costas,
estimo perceber minúcias jamais percebidas em quadros
famosos. Dessa maneira, dependendo da luz ambiente e
do tamanho das pessoas que se habituam a ficar entre as
telas e os demais visitantes, serei capaz de renovar meus
olhos. Gosto de ver coisas diferentes naquilo que vi, a re-
tina latejando com sangue novo. Há nervuras, perspecti-
vas e sorrisos engelhados que preciso rever. É tempo de
reparar a indiferença de uma moça vestida de branco no
Moisés salvo das águas, de Veronese. É tempo de observar
a figura seráfica da Santa Cacilda, de Zurbarán, que se in-
teressava em geometrizar a vida. É chegado o momento
de reinterpretar o gesto feminino do Cristo, de Correggio,
diante da Madalena ajoelhada.
Minha profissão: restaurador de quadros.
Sou o terror dos pintores mortos, o mestre transfor-
mador de telas intocáveis.
Não faço apenas restaurações de quadros. Eu os mo-
difico ao bel-prazer. Tenho necessidades estéticas às quais
necessito dar vazão. Os pintores mortos – tantos séculos
passados que os olhos deles cegaram – haverão de me
compreender. Os artistas mais conscientes concluirão que
suas obras ficaram melhor depois que exerci meu ofício.
Não se trata do caso de Moroni, por exemplo, que se tor-
nará colérico quando verificar a alteração feita no retrato
de um nobre barbudo da família Albani. Ao pintar em
Paulo Fernando Craveiro

1661, em primeiro plano, a figura algo complacente de


seu personagem, registrou ao fundo cortes arquitetônicos
com uma planta a delimitar uma nesga de horizonte, ve-
getal que eu terminei podando. Assim, com a omissão das
folhas, o quadro reencontra-se com a severidade que o
torna mais belo. O pintor me odiará, e terá razão para
isso, enquanto incorporarei mais um remorso à minha
cesta de pecados.
A cesta é grande e nela cabem todos os pecados.
Ah, Moroni, quanto da impassibilidade de teus aris-
tocratas e burgueses de Bergamo eu gostaria de ver em
teu rosto renascentista, depois da adulteração de seu qua-
dro, quanto da parca melancolia dos semblantes é forçoso
manter nessas caras que atravessam o tempo.
Em vez de roubar quadros, como fazem os ladrões de
museus, às vezes danificando-os, eu os transformo à mi-
nha maneira, docemente, assim como o líder de um gru-
po de instrumentistas contemporâneos dá sua versão a
um quinteto de Boccherini e maestros modificam o anda-
mento das sinfonias de Beethoven. Como não há queixas,
pois minha atividade é invisível, meus delírios jorram às
escondidas como os cactos de um deserto inexplicável.
Pulo de um quadro para outro como um gato pula de
sua sombra para a sombra da sombra dele.
A respeito do retrato da infanta Margarida, de Veláz-
quez, com frequência confundido com o da infanta Maria
Teresa, eu cometo a delicadeza de lhe remendar as feições,
desde muito reconstruídas por outro pintor. Espero que a
menina não continue a chegar até nós tão feia, trezentos
e cinquenta anos depois, uma rosa na mão esquerda, um
xale transparente na mão direita. Eu quero presentear-lhe
com a beleza que não tem. Para isso comecei por ocultar
com uma pincelada sua franja absurda, embora me agra-
de o exagero do vestido inflado como um balão.

313
O mestre de telas alheias

Ah, Velázquez, em tua honra adiciono cores e trans-


parências ao tecido do vestido da infanta na última tela
que o teu cansaço pintou. Sei que me agradeces antes que
desapareças como o cavalheiro de ar furtivo que sai por
uma porta traseira do quadro Las meninas, onde estão a
infanta, outras crianças, uma anã, uma criada e um ca-
chorro na corte de Felipe IV.
Ao restaurar Vênus e o organista, de Ticiano, recompo-
nho o ventre de Afrodite, cobrindo-lhe a excessiva cama-
da de gordura (o gosto da época) com uma camada de
tinta que a emagrece. Feita a mudança, o nobre que toca
órgão haverá de interromper antes o concerto, talvez uma
composição de Giacomo Frescobaldi, a fim de olhar para
ela de ângulo propício para um voyeur, desejando-a, sem
a elegância que o distancia da beleza calma da mulher.
À Vênus do teu quadro, ah, Ticiano, adiciono pelos
no púbis e substituo o inofensivo cão, com que ela brinca,
por um filhote de tigre de olhos gratos que lhe sobe pelos
seios pequeninos.
Saio do Museu do Prado como entrei, andando de cos-
tas, e logo reverto o modo de caminhar, o que não me
torna menos banal. Tomo a direção da Plaza Cibeles, de
fonte translúcida, as estrias do fim da tarde se alongando
na direção da noite. Ali reencontro a deusa da natureza,
sentada, ansiosa pela mutação das estações do ano.

314
Tudo flui
Paulo Gileno Cysneiros

Voltei ao Santuário Brennand com uma amiga e tive


uma surpresa diferente: todas as peças do primeiro recin-
to estavam embaladas em caixas de madeira pintadas de
branco, com tiras de reforço em azul.
Ainda surpreso, dirigi-me ao homem que cuidava da ta-
refa e perguntei o que estava acontecendo: “Vai pra uma ex-
posição na Alemanha... de navio... ficará por uns meses...”
Além da frustração de não poder compartilhar com
minha amiga aquela parte inicial do santuário, me vieram
à mente algumas inquietações.
Era como se fosse a primeira viagem de um pássaro
que estivesse criando asas; que iria enfrentar um mundo
hostil, com seus perigos e suas casualidades. E se alguma
peça for danificada? Em que ambiente serão expostas?
Preocupações de quem aprendeu a amar algo, a rever
sempre o objeto de amor com novos olhos, a acompanhar
o crescimento de um filho.
Em retrospectiva, lembrei das primeiras pinturas, das
peças iniciais de Brennand. O alegre verde, os traços e
curvas de certo modo bem comportados, contrastando
com a força explosiva e arrojada das formas, das cores e
da sensualidade profunda de criações mais recentes.
Ainda bem que o restante estava lá, intacto. Senti como
o pai que vê o filho mais velho partir e busca consolo e
amparo na presença e na individualidade dos outros fi-
lhos, dos filhos-netos.
Tudo flui

Lá estava a solitária máquina de fazer telhas francesas,


em sua eterna roupa dominical de vermelho e preto, im-
ponente, com a inscrição “Cerâmica São João” na fôrma
do seu ventre, baixo-relevo, indelevelmente marcado em
milhares e milhares de peças padronizadas. Telhas entre-
laçadas no teto do galpão que agora a abriga, como um fi-
lho que sente prazer em acolher a mãe-avó, a operária que
descansa e relembra o passado. Telhas também vermelhas,
testemunhas mudas do labor daquele mecanismo de outras
eras. A máquina-mãe que se orgulha do filho-telhado.
Quantos homens e mulheres conviveram com aquela
velha máquina? Gastando partes preciosas de suas vidas.
Quantas casas foram abrigadas do sol e das chuvas
nordestinas pela produção daquela incansável operária
metálica?
Quantas paixões, alegrias e tristezas foram testemu-
nhadas pelas brilhantes telhas francesas de outras eras?
Depois de tantos anos, relembro agora minhas primei-
ras caminhadas solitárias pelo Atelier de Brennand, ainda
no início. Minha terapia esporádica de morador do bairro
da Várzea. Em cada nova visita, novos sentimentos, per-
cepção de novas formas; detalhes que ali estavam, mas
que não pudera ver antes, como alguém em um imenso
banquete não consegue saborear todos os pratos.
Fui com minha amiga para a parte externa do san-
tuário e senti certo alívio: ainda bem que aquele espa-
ço-templo ninguém poderá mover para terras distantes.
Tem raízes. Está fincado na margem do Capibaribe e me
provoca um sentimento de permanência.
Lá estavam os cisnes negros na fluidez das águas, jun-
to aos peixes de cores suaves, mesclando elegantes movi-
mentos de pescoços serpenteantes, contrastando com a ri-
gidez das formas eróticas ao ar livre; no centro, lá estava o
templo coroado com vitrôs azuis; arcadas simétricas, chão

316
Paulo Gileno Cysneiros

tosco, abrigando o logotipo pontiagudo do seu criador.


Caim. Abel. Heráclito, Konrad, um verso do nosso Aria-
no, imortalizados na intemporalidade da cerâmica.
Novamente o sentimento do novo. O novo de plantas
que cresceram desde minha última visita; de peças acres-
centadas pela visão do artista e pelo labor incessante de
operários que materializam emoções. Tudo flui. A vida
está presente.
Lembrei-me de quando o templo-espaço foi invadido
pelo séquito de um casamento famoso. Preferi não ver
aquela noite profana, com luzes incandescentes e falas to-
las ferindo a paz do local.
Voltamos para o outro galpão, inundado pelo barulho
surdo e monótono de máquinas produzindo novas cerâ-
micas, novas peças. Voltei à realidade pela movimenta-
ção de funcionários entre as esculturas, com papéis nas
mãos, como noviços desavisados caminhando entre lajes
de mosteiros medievais. Tudo flui. A vida se renova.
Novamente minha vista se enche com as imponentes te-
souras de madeira talhada, sustentáculos do telhado, cha-
péu daquele imenso galpão industrial do século passado.
O forno cerâmico de outrora, como a máquina ver-
melha, orgulhoso de suas entranhas transformadas em
escritório, onde docemente repousa um frágil microcom-
putador e uma impressora. Lembro de Baudrillard; são
fenômenos extremos. Tudo flui. A vida continua.
Voltamos ao pátio de entrada. Uma fonte mescla seu
jorro cristalino com os raios de um sol que ofusca minha
vista. Descanso a vista no verde de gramados esparsos,
bem-cuidados, entremeados com a aridez do duro solo
nordestino. Tudo flui.
Retiramo-nos vagarosamente. Noto as redondas figu-
ras espalhadas pelos jardins. Esqueci completamente as
caixas-normalistas de azul e branco. Inconscientemente,

317
Tudo flui

freudianamente protegendo-me do sentimento de perda.


Oh, pedaço arrancado de mim. Tudo flui.
Como consolo, já pressentia a alegria da volta. Da-
quelas peças ocupando os mesmos lugares, depois da
cansativa viagem ao Velho Mundo. Será que marcaram
exatamente os mesmo lugares de antes? Voltarão com os
mesmos ares? Certamente não. Serão objeto de olhares
estranhos. Virão mais vividas.
Lembro a parábola do filho pródigo. Que as outras
peças não sintam ciúmes. Ciúmes inconscientes de quem
não viveu sacrilégios imaginários. Não se sintam despre-
zadas pela minha alegria com o regresso de suas irmãs.
Tudo flui. A vida continua.

Jornal do Commercio, 29 de dezembro de 1992

318
Uma cidade feliz. E gorda
Raimundo Carrero

Era no tempo do prato quente e gorduroso, suculento


e salgado, muito salgado, fumegante e apimentado. Por-
que também era assim o Centro do Recife, de muito sol e
frevo, quando grupos de jornalistas, publicitários, comer-
ciantes, comerciários e bancários – toda a gente – se de-
batiam entre chopes, cervejas e cachaças, com chambaris,
peixadas, feijoadas, invadindo restaurantes, bares e pega-
bêbados, numa fartura de meter medo em Pantagruel, o
forte e esquisito personagem de Rabelais. Havia os restau-
rantes populares: Portuguesa, chambaris e mãos de vaca;
Savoy, bacalhoadas com chopp; Cristal, peixe cozido na
travessa com tomate e cebola, em pé, no balcão; Bar do
Rato, cachaça com laranja; Cigano, carne de sol com fei-
jão-verde. Tudo regado à mais pura cachaça. E o Leite, o
tradicional e requintado Restaurante Leite, o gosto sofis-
ticado de comidas finas, regadas a vinhos, em porcelanas
ricas e talheres de prata.
Um Recife que misturava cachaça com champanhe. E
muita cerveja.
Outro dia, depois do plantão do jornal, fui jantar com
um colega de redação. Sentamos à mesa do Star, madru-
gada adentro, e sugeri:
– Vamos pedir um galeto para nós dois.
E ele me barrou já na terceira cerveja:
– Não, senhor, cada um come o seu.
Mas não acabou. Felizmente, não acabou. O “era” fica
por conta da mudança dos tempos – verbal e físico. Por-
Uma cidade feliz. E gorda

tanto, era no tempo em que o centro da cidade existia


com toda a graça e movimentação. Até os jornais – Diario
de Pernambuco e Jornal do Commercio – não estão mais lá.
Transferiram-se, como dois bons amantes, para o bairro
de Santo Amaro, juntinhos, porque viveram durante dé-
cadas, parece que até séculos, no Centro. Os restaurantes,
os bares e os pega-bêbados espalharam-se um tanto para
Olinda, outro tanto para a Zona Sul. Parece esquisito que,
falando do Recife, outra cidade seja lembrada: Olinda. É
que são tão ligadas, tão intimamente ligadas, que se tor-
na inevitável. Quem come no Recife, dorme em Olinda.
Eu sei, eu sei, Olinda não é mais uma cidade-dormitório.
Compreendo. Porque se há uma coisa que irrita qualquer
olindense, e irrita gravemente, é chamar Olinda de cida-
de-dormitório. Porque se dizia que as pessoas trabalha-
vam e viviam no Recife e dormiam em Olinda. Tudo bem,
não digo mais.
Tanto Recife quanto Olinda oferecem mesa farta e di-
versificada. Popular ou requintada. Comece pelo Caprinos,
o restaurante do Rosarinho, que serve uma carne de sol
divina. Com macaxeira e manteiga de garrafa. Que tal ex-
perimentar, em restaurante à beira-mar, uma moranga de
camarão ao molho de pimenta? Não sabe o que é moran-
ga? Bem, trata-se de uma espécie de jerimum, que é esva-
ziado, e onde se coloca, neste caso, uma boa quantidade
de camarão, com um tanto de arroz e feijão. Fica uma de-
lícia. E é comida para uma família inteira. Serve-se quente.
Bem quente. Acompanha cerveja, refrigerante ou água. Há
quem exagere: bebe vinho. Uma loucura, não é mesmo?
Quem não tem medo de engordar ou não presta con-
tas à balança – nem à saúde – come, pouco antes da re-
feição, um arrumadinho. Prato pernambucaníssimo. So-
bretudo, com cerveja. Arrumadinho é um prato rápido,
mas saboroso – carne de charque, farinha e feijão-verde.

320
Raimundo Carrero

Junta-se tudo, como diz o nome da comida, e leva-se ao


fogo, até que a carne fique pronta. Serve-se em boa quan-
tidade. Não esquecendo que reúne muita gordura, prin-
cipalmente por causa de carne. Mas também é feito de
camarão. Outra delícia. Há um restaurante no bairro de
Santo Amaro, bem perto de cemitério, que é bem famoso.
Por causa da vizinhança, é claro.
No entanto, tratando-se do Recife, não se pode esquecer
a feijoada. Antes havia muitas casas especializadas: a feijoa-
da do Jayme, por exemplo. Agora nem tanto. Mas é possível
encontrar o prato em restaurantes de cozinha diversificada,
apenas como um dos pratos do rico cardápio. Com prefe-
rência para o caldinho. Uma característica profundamen-
te recifense. Quase todas as casas servem caldinho. E não
apenas de feijoada: de camarão, de peixe, de chambaril, de
legumes. Basta pedir e será logo atendido. Lembrando-se
sempre da figurona de Ascendo Ferreira, o grande poeta,
que depois de duas feijoadas, cantava grave e grosso:
“Pernas pro ar que ninguém é de ferro”.

321
As reclusas de
Chawton e Amherst
Raimundo de Moraes

Por acaso semana passada assisti na TV ao filme Emma,


dirigido por Douglas McGrath (conhecido também como
ator e roteirista), baseado na obra homônima de Jane
Austen. Este Emma que eu vi, estrelado pela loira Gwy-
neth Paltrow, é mais uma das dezenas de adaptações dos
livros de Miss Austen, que está no Olimpo dos grandes
escritores de língua inglesa. Orgulho e preconceito, por
exemplo, já teve um novo remake feito em 2005; se bem
que a BBC de Londres, dez anos antes, produziu uma im-
pecável minissérie baseada no livro. Não vi, só li as rese-
nhas, mas pretendo encontrá-la em DVD.
Desde que tomei conhecimento de Emily Dickinson
nunca consegui dissociá-la da imagem de Jane Austen.
Por quê? Uma era romancista, outra poeta. Uma ingle-
sa, outra americana. As duas não foram contemporâneas.
Quando Emily nasceu (1817) Jane já era só ossos na cate-
dral de Winchester.
Li Orgulho e preconceito e Razão e sensibilidade na
pré-história da minha vida. Depois, adulto, quando li os
poemas de Emily, a comparação foi inevitável: tanto a
americana como a inglesa viveram reclusas em suas casas,
nunca casaram e o ponto central de suas existências foi a
Literatura.
Ambas tiveram lá suas esquisitices e seus mistérios.
Emily vestia-se sempre de branco, personagem etérea
passeando nos jardins de Amherst. Em vida, nunca publi-
cou um livro sequer, mas na contagem geral de sua inces-
Raimundo de Moraes

sante produção, sua obra alcançou um montante de 1.800


poemas. Jane Austen teve uma carreira diversa: seus ro-
mances fizeram muito sucesso antes de sua morte.
Alguns historiadores dizem que era visto como um
“comportamento normal” das mulheres, antes da Revo-
lução Industrial, o fato de viverem isoladas, apartadas da
vida em sociedade. Eu digo que é preciso acrescentar al-
gumas notórias exceções nessa questão. No século XVIII,
Madame de Stäel adorava um bom sarau literário e foi um
dos personagens mais interessantes do Iluminismo fran-
cês. George Sand também era chegada a um agito cultural
e a uma vida aventuresca (dizem que Chopin não aguen-
tou tanta “energia”). Aqui no Brasil, bem antes de João VI
chegar com sua corte, a poeta Ângela do Amaral Rangel
já participava da Academia dos Seletos no Rio de Janeiro.
E em Lisboa, a Marquesa de Alorna promovia grandes
debates literários em sua casa – Bocage foi um dos seus
frequentadores.
Talvez se tivessem nascido em grandes cidades, tan-
to Jane como Emily não houvessem optado pelo autoe-
xílio em seus respectivos “santuários”. Nas poucas vezes
em que Jane se ausentou de Chawton foi para cuidar da
saúde (deduz-se que ela sofria do Mal de Addison; alguns
dos sintomas são náuseas, fraqueza muscular, anorexia,
diarreia e vômito. Imaginem como a coitada entregou sua
alma a Deus). Quanto a Emily, dizem que quando chegava
uma visita à casa dos seus pais, ela se escondia. O contato
com os outros seres humanos lhe parecia ser um fardo.
Daí o apelido de A Grande Reclusa.
As obras dessas duas mulheres continuam a suscitar as
mais variadas interpretações. Mas o que importa é que o
reconhecimento não veio de cima para baixo (crítica-lei-
tor), e sim de baixo para cima (leitor-crítica). Emily fazia
circular seus poemas entre amigos e familiares, anexados

323
As reclusas de Chawton e Amherst

às vezes aos milhares de cartas que escreveu. Jane Aus-


ten, apesar do grande sucesso de Orgulho e preconceito
(1797), não era muito bem vista pelos editores britânicos.
Porém como editores são movidos pelo lucro (livro é obje-
to de comercialização, meus caros. Mecenato agora é um
verbete no dicionário), renderam-se à obra da reclusa de
Chawton. Hoje Jane é considerada a precursora da mo-
derna literatura inglesa.
Ultrapassando todos os limites que poderiam torná-las
anônimas em seus países e no mundo – sem a “bênção” da
crítica quando ainda estavam vivas e produzindo, afasta-
das dos grandes círculos culturais, morando em pequenas
cidades no interior – Jane e Emily tornaram-se referência
pelo talento que extrapolou fronteiras. Elas, junto com
Virginia Woolf, estão na lista de Harold Bloom em seu O
cânone ocidental, uma seleção muito pessoal de obras e
autores europeus e sul/norte-americanos. No seu livro, ele
esmiúça literária e historicamente o último livro de Jane
(Persuasão). Sobre a obra de Emily Dickinson ele faz a
seguinte afirmação:
Tirando Shakespeare, é ela que manifesta mais origi-
nalidade cognitiva do que qualquer outro poeta ocidental
depois de Dante.
Sem buscar Beatriz, os poemas de Emily revelam seus
próprios infernos, purgatórios e céus. E um permanente
deslumbramento com a natureza.

324
O carnaval no Recife
(impressão de viagem)
Raul Pompéia

Às quatro da tarde, começa.


O povo alvoroçado derrama-se pelas ruas.
Encarapitam-se às guarnições de ferro das pontes, for-
mando verdadeiros cachos humanos, cujo aspecto capri-
choso a placidez das águas reproduz em grandes manchas
escuras incertas que o refluxo do rio não consegue dissol-
ver. Apinham-se ao longo das calçadas e em toda a linha
do cais; enchem as praças.
Às janelas, de todos os andares de todos os prédios, as
senhoras debruçam-se, olhando, sobre a multidão, massa
preta confusa de ombros e chapéus que se agita, produ-
zindo um vasto zumbir de vozes e de passos.
Pouco o pouco, começa a negra multidão a pontear-se
de cores claras.
Aqui vermelho, acolá verde, roxo àquela esquina, azul
mais adiante, branco em muitos lugares. Multiplicam-se
os pontos e as cores, surgem, na onda do povo, como es-
trelas, ao cair a noite, uns após outros, aos grupos, às por-
ções, alinhados, dispersos.
Em meio do povo abrem-se sulcos e por aí desfilam
intermináveis bandos de homens e mulheres fantasiados.
Vão chegando os maracatus.
Antes das seis horas, o carnaval tem conquistado a ci-
dade.
A massa viva dos transeuntes perde o primitivo aspec-
to geral de negrume, à invasão das cores claras que sur-
O carnaval no Recife 0 (impressão de viagem)

gem de repente, como nascidas da calçada. Modifica-se


de todo a fisionomia das ruas e das praças.
Dominava a cor preta, o caleidoscópio transformou-
se; vai dominando agora o branco.
Por toda parte o maracatu.
O uniforme desses originalíssimos bandos de foliões é
uma combinação do branco com todas as cores possíveis.
O branco em dous terços, na proporção.
De cima, das altas janelas, vê-se como inundação aque-
le tumulto de refolhadas vestes brancas, gorros brancos
que dançam, braços brancos que se elevam, alçando pan-
deiros, amplos calções nitentes que sacaroteiam, pantufos
de neve que saltitam e uma tempestade de fitas multico-
res, doudejantes sobre os grupos, como iriados coriscos.
Presencia-se, então, o conflito das duas cores opostas.
O preto e branco, confundem-se, como no entremeado
das tábuas do xadrez, ou separam-se distintos em zonas
sem mescla, como na bandeira prussiana.
Giram em turbilhão, comprimem-se, repelem-se, ten-
tam de parte a parte rechaçar a cor adversa e conquistar o
domínio exclusivo das ruas.
Não dura muito o combate.
Notavam-se já em diversos pontos repentinas explo-
sões de alva poeira.
As explosões tornam-se mais frequentes. Rebentam de
todos os cantos. Alvacento nevoeiro espalha-se em transpa-
rente camada sobre o povo. Começa o entrudo do polvilho.
As insolências da água nos nossos entrudos fluminen-
ses, mal dão ideia do arrojo audaz da irreverência, do pol-
vilho e da maisena do entrudo pernambucano.
Não pode mais resistir a cor preta. O reforço do polvi-
lho vem dar vitória decisiva ao branco.
O nevoeiro, alvacento engrossa-se. Ombros e chapéus
primitivamente negros alvejam agora como se lhes caísse
a neve por cima.

326
Raul Pompéia

Não se distingue mais o maracatu no meio do povo.


Não há mais chapéus, não há mais ombros. Não se distin-
guem braços nem pandeiros.
À medida que se vai cerrando o crepúsculo, um daque-
les límpidos crepúsculos do Norte, cerra-se igualmente a
tempestuosa nuvem de polvilho.
Uniforme brancura opaca e imóvel substitui a pers-
pectiva acidentada da multidão em tropel.
Dos elevados pontos de vista nada mais se percebe
através da nuvem.
Ouve-se apenas lá embaixo o alarido do povo em festa
e a música selvagem e rude do maracatu, meio africana
meio indígena, barulhos de guizos, roncos de buzinas,
trovoadas de tambores.

Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, 10 de março de 1886.

327
O vazio
Reinaldo de Oliveira

Algum amigo leitor há de estar esperando pelo que eu


viesse a escrever depois do acontecimento mais trágico de
minha vida. O desaparecimento da minha querida Dulci-
néa destroçou meu coração e hão de imaginar o tremen-
do vazio que me deixou.
Vasculhar tudo que ficou é mergulhar numa agonia
que só a força que nos legou como exemplo, pode reme-
diar. Não me considerem piegas ou um sentimental exa-
gerado. Procurem compreender a dor de um homem que
aos 77 anos se vê privado da mulher de todos os dias. Da
mão que o afagava dando-lhe forças. Da palavra sempre
forte de quem estimula a pessoa a viver. Do respeito e da
disciplina com que enfrentava tudo.
Foram 10 meses de extremo sofrimento, sem que, ja-
mais, emitisse uma palavra de medo da morte ou, sequer,
de suspeita. Como psicóloga que foi, Dulcinéa se acostu-
mou com o doente terminal em vários hospitais. Deve ter
aplicado nela mesma as lições que transmitia.
A terrível doença minou seu organismo não dando
chances aos tratamentos adequados instituídos. Tendo ao
seu lado, sempre, a candura e competência de Candice
Lima, oncologista da Ónkos, entidade clínica especializa-
da em tratar do corpo e do espírito dos que são atingidos
pela moléstia fatal, dedicou-se, disciplinadamente, a tudo,
com o apoio da equipe paralela de um Évio de Abreu e
Lima, de um cirurgião do porte de um Manoel Raimundo,
de um cardiologista como Henrique Cruz, de um Victorino
Reinaldo de Oliveira

Spinelli, clínico, de um Ênio Laprovítera como anestesis-


ta, de um Carlos Abath como endoscopista, de mais Paulo
Santana e Fernando Amaral, colegas, amigos, e dos abne-
gados Alberto e George Trigueiro que fizeram do Centro
Hospitalar Albert Sabin a sua morada final.
Mulher Guerreira – como foi chamada no Rotary –,
chegou à condição de Governadora do Distrito 4500, em-
possada numa maravilhosa festa no dia 30 de junho, espe-
rançada em seguir o mandato de um ano, pronta a colo-
car o nosso Distrito no patamar mais alto do país. Depois
de se preparar no Instituto de Atibaia, em São Paulo, e
na Assembleia Internacional de San Diego, na Califórnia,
achava-se pronta, sem pressentir que o monstro a corroía
por dentro. Seus últimos dias foram de sofrimento e, ao
mesmo tempo, de uma bravura que a torna um exemplo
para os que ficam.
Ela sabe que deixou uma casa vazia. Vazia, mas cheia
de sua imagem que passeia pelos corredores, que dorme
comigo, que inunda o meu coração com sua ternura, seu
carinho e sua dedicação de esposa, mãe e avó. Seus chine-
los vazios são um quadro ocioso, sem função. Seu batom
não mais tem lábios para contornar. Sua escova guarda
os cabelos, já mortos, relíquias a serem conservadas. Suas
roupas penduradas, inertes, também. Seus pertences, suas
joias, de uso em dedos ou colo que não mais existem, exi-
bem um brilho desnecessário, enquanto suas fotos alegres
e bonitas assumem a posição da guerreira caída.
Este artigo está escrito com a tinta que as lágrimas não
parecem possuir. O computador em que escrevia seus tra-
balhos está parado, sem dona, perplexo. Seu lugar vazio
na nossa cama parece refletir o contorno de seu corpo;
seu travesseiro mostra a forma de sua cabeça desde quan-
do saiu, numa madrugada esperançosa, para o hospital.
Ao descer as escadas, sofrendo e amparada por mim, ain-

329
O vazio

da mantinha a chama acesa de quem tinha muito a fazer.


Despediu-se do cão amigo, dos papagaios e entrou no
meu novo carro, preto, pela primeira vez, como se àquele
luto jamais voltasse.
Agora minha mão está vazia. Meus olhos mantêm a
morada da lágrima seca, meus ouvidos não conseguem
mais ouvir seus gritos de angústia. Meus beijos já não en-
contram os lábios ou as faces aos quais se possam ende-
reçar. Os meus lamentos e os de Yêda e Dinazinha, suas
filhas, e os netos Alice, Luisa, Maria e Artur, se perdem
no vazio em que se transformou o mundo. Conto com o
apoio de amigos, de meu irmão Fernando, dos filhos Sér-
gio e Patrícia, dos meus netos Rodrigo, Eduardo e Giulia
e do meu genro Anastácio. Nada é suficiente, pois o que
eu procuro é o seu olhar, suas mãos, sua voz, como quem
busca a própria vida.
O seu último suspiro, cansado, eu guardei só para
mim. Não é de ninguém, só meu. Respeitem o meu egoís-
mo. No ataúde estava mais linda do que nunca. Transmi-
tia pureza e determinação.
Lembro Garcia Lorca que colocava, na boca de Ber-
narda Alba, interpretada, na época, por minha mãe Diná,
ao lado dela, Dulcinéa, a frase:
– “Eu senti a tempestade aproximar-se, mas não pen-
sei que estalasse tão depressa...”
Que o que resta dela seja um tributo de respeito e de
amor profundo ao que tive de melhor na vida.

Diario de Pernambuco, 28 de agosto de 2007

330
Recife
Renato Carneiro Campos

Sou do Recife. (Nunca digo de Recife. Será uma bes-


teira? Não era para Aníbal Fernandes e Mário Melo. Não
é para Gilberto Freyre. Segundo eles, somente diz “de Re-
cife” quem desconhece a história e o espírito da cidade.)
Conheço os sons e os cheiros de suas ruas, os seus man-
gues, mucambos, os seus córregos, as margens escalavra-
das do Capibaribe, as rinhas de galo e de canário, as suas
gafieiras, o seu meretrício, os seus restaurantes populares,
as suas feiras e mercados, os seus bares, o seu carnaval,
os seus clubes populares e grã-finos, o “esforço heroico”
do seu incipiente society, os seus velhos sobrados, as suas
velhas e quase abandonadas igrejas, os seus subúrbios
(quintais de cantos de sabiá, de frutos, de jasmineiros, de
caramanchões, de aventuras de sexo, de repouso, de es-
colhida solidão), as suas patéticas casas de porta e janela,
as modernosas metidas a sebo, os palacetes de novos-ricos
copiados de modelos europeus ou norte-americanos, as
suas praias, os seus cais desolados. Conheço de cor, esca-
lando como se escala um time de futebol, obedecendo a
um ritmo profundamente musical, os seus legítimos he-
róis e mártires. Li e reli os poetas que procuraram captar o
seu espírito um tanto mouro, esquivo. Já mediunicamen-
te deixei-me apossar pelos seus duendes. Sofro na carne
a sua mania de contestação, o seu ânimo revolucionário,
a sua agressividade, a sua inexplicável paixão de cidade
magra e ácida, onde o açúcar está mais para o azedo do
que para o doce. Acostumei-me ao labirinto das suas intri-
Recife

gas e ingratidões. Tenho pelo Recife um amor de apache.


Amor doido e doído que não exige mais retribuições.
Jogo de dominó nas calçadas cachorros e meninos vi-
rando latas de lixo camelôs indo e voltando das ruas como
ioiôs mendigos de ponto fixo nas esquinas e nas pontes
muros gravados com sexos de homem e de mulher arma-
dos de cacos de vidro balaieiros sorveteiros subdesenvol-
vidas carrocinhas eletrolas de músicas cafonas festas de
padroeiro meses-de-maio procissões restaurantes metidos
a internacionais garçons de barba por fazer unhas sujas
camisas e paletós puídos sanitários agredindo como socos
menores superabandonados bares para a “patota de Ipa-
nema” cabocla “boites” de sádicas contas nos dias de sex-
ta-feira e sábado serestas e mais serestas uísques falsifica-
dos servidos por proprietários considerados respeitáveis
cachaça com caldinho de feijão a peixeira funcionando
depois do abandono amoroso ou da saturação da bebida
assaltos imitando São Paulo e cidades dos Estados Unidos
velhas pensões familiares “recursos” botes abandonados
na beira do rio barcaças ruas sonolentas de subúrbio com
mulheres na janela gaiolas de passarinho viveiros prous-
tianos cheiros de lança-perfume talcos serpentinas confe-
tes corso maracatus frevos marchas caboclinhos bumbas
meu boi pastoris cirandas fogueiras balões travessas de
canjica e pamonha milho assado e cozido bandeirinhas
coloridas lapinhas minuciosas folhas de canela nas salas
em dia de festa mãos de vaca sarapatéis chambaris bu-
chadas pitus peixadas de pirão gordo cozidos lombos de
molho de ferrugem sopa de feijão comidas de coco doce
japonês tapioca cuscuz na madrugada cavaquinho ado-
lescentes vestidas de luto namoros em portões lavadeiras
na beira do açude tardes de futebol regatas e corridas de
cavalo jangadas regressando sargaços velhas cômodas de
jacarandá perfumadas com alfazema e bolas de naftalina

332
Renato Carneiro Campos

defumações igrejas com burocráticas beatas benzeduras


varandas de sobrados com jarros de flor mulheres mo-
renas dançando e cantando nos xangôs os batuques es-
correndo pelos morros afundando na lama dos mangues
retratos do Cristo iluminados por pequenas lâmpadas ro-
xas lamparinas boiando no azeite velas de promessas os
banhos e passeios grã-finos de Boa Viagem candelabros
de cristal talheres de prata porcelanas remanescentes dos
velhos engenhos de esquecidos brasões misteriosos lico-
res e doces caseiros em recipientes de cristal bombons em
vidros de farmácia nas renitentes vendas quartinhas de
barro jarros pratos e canecos de ágata e flandres água de
coco caldo de cana com pão-doce “geladas” roletes tabu-
leiros de bate-entope cachorro-quente na saída das festas
pé de moleque bolo Souza Leão bolo de rolo perfumes
de mangas e cajus casquinhos de caranguejo guaiamuns
cevados fritadas de siri quartos de tabique de prostitutas
enfeitados com frascos de loções baratas adocicadas pe-
gajosas retratos de santos nas paredes cheias de remorsos
o aviso triste dos búzios nos dias de cheia baronesas ani-
mais mortos a casta dos barões do açúcar roupa de linho
branco chapéu do chile correntão de ouro o pavor da des-
moralização “cara que mamãe beijou” o machismo a falsa
aparência de fortuna a demagogia bacharelesca as revo-
luções a ocupação da cidade por contingentes de outros
estados o espírito crítico a mordacidade a superstição a
imitação europeia e norte-americana uísque com guaraná
ou coca-cola a gozação o gosto da poesia a contenção o
humor azedo a ironia agressiva o choro e os ataques histé-
ricos nos enterros o fascínio das descobertas genealógicas
a mania aristocrática o orientalismo das relações sexuais o
sexo quantitativo o sebastianismo mais camaradagens do
que amizades mais orgulhos do que humildades ódios en-
tocados que desabam de repente porres tristes e dramáti-

333
Recife

cos reportagens íntimas da vida alheia como passatempo


a intriga como arte o brio o pavor do ridículo ostentação
da hospitalidade largados rasgos quixotescos. Recife.
Entendo o amor de Balzac por Paris, o de Joyce por
Dublin, o de Lorca por Granada, o de Fernando Pessoa por
Lisboa, o de Machado pelo Rio, o de Mário de Andrade
por São Paulo, o de Guimarães Rosa por Cordisburgo, para
citar apenas alguns exemplos expressivos. Parece até que
esses escritores eram sínteses dessas cidades, de suas quali-
dades e defeitos, anjos e demônios de uma só vez, exaltan-
do e agredindo. Desconfio muito dos que gostam de uma
cidade em tom paternalista, com o ânimo gerencial de ape-
nas melhorá-la, enfeitá-la, modernizá-la, pensando que de-
senvolvimento e progresso formam uma só palavra. Muitos
esquecem que certos aspectos considerados modernos da
urbanização são inteiramente contrários ao Homem. De-
senvolver as capacidades humanas, fazer gente viver como
gente, que os sobreviventes se tornem viventes, tudo isso é
bem mais importante para qualquer cidade.
Sinto-me preso ao Recife com a resignação de um
condenado à prisão perpétua. Pés de chumbo, asas cor-
tadas. Lar e exílio ao mesmo tempo. Nunca, porém, um
Robinson Crusoé cansado da sua ilha. Sinto que há algu-
ma coisa de conquista na minha permanência. Algo assim
como quem apanhou e deu, mas que não terminou per-
dendo. Mais: compreendeu, identificou-se, misturou-se.
A coragem de ficar, de não fugir, de não procurar melho-
ras, como se possuíssemos – eu e o Recife – um mesmo
destino, independentemente dos seus dirigentes, dos seus
transitórios amores oficiais.

30 de março de 1975
Sempre aos Domingos – crônicas (org. Jaci Bezerra).
Recife, Massangana, 1984

334
Uma ruela estreita, espremida...
Robson Sampaio

A ruela é estreita, fedida e com poucas casas espremi-


das, amarelas e rosadas. Contudo, se a noite for boa, as
casas estremecem com o dobrar do burburinho da madru-
gada, das conversas banais e das promessas mentirosas.
Rosa, morena jovem e faceira, nos seus 20 anos, não viu
as mulheres chegar e outras tantas partir... O flerte já não
mais existe naquela ruela estreita, fedida e com poucas
casas espremidas, amarelas e rosadas. Para Rosa, dinheiro
na mão, calcinha no chão... Ela não conhece ainda e nem
sabe que há um drama em cada pedaço de carne exposta
naquele bazar humano, mas, apenas, a certeza do pra-
zer descompromissado. Tal qual um produto cotidiano na
prateleira da vida, onde o sexo é primeira necessidade...
Eugênia, 65 anos, a mais velha moradora daquela rue-
la estreita, fedida e com poucas casas espremidas, ama-
relas e rosadas, suspira com saudades... Recorda os anti-
gos bordéis, onde os malandros faziam a abordagem com
uma Corte de ginga, gírias e palavras doces. Sem tristezas
e com um ar sonhador, olha o quadro empoeirado no alto
da parede azul do quarto. Acaricia-se com os olhos e re-
lembra a moça cheirosa, vaidosa e cobiçada dos velhos
tempos. Era um tempo tão bom que não imaginava que
ia acabar. O recato despia-se na penumbra... Eugênia car-
rega o presente sem queixas e contempla o futuro sem
névoas. E divaga com as visões de um passado que, como
a própria expressão sugere, é nostálgico...
Uma ruela estreita, espremida...

Porém, se a noite for boa, certamente, naquela ruela


estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amare-
las e rosadas, o domingo amanhecerá mais tarde. E nessa
hora furtiva da manhã tardia, haverá mulheres a chegar
e tantas outras a partir... Tanto Rosa quanto Eugênia, di-
rão: “Enquanto houver homem e mulher, haverá sexo”.
E, seguramente, uma passagem sem volta naquela ruela
estreita, fedida e com poucas casas espremidas, amarelas
e rosadas...

336
Carta aberta a um ladrão
Ronaldo Carneiro Leão

Tem um cidadão por aí que roubou e está usando o


meu cartão de crédito. Todos eles. Tem feito uso também
do meu talão de cheques e talvez esteja espantado de até
hoje, transcorridos quase sessenta dias, os cheques conti-
nuarem sendo pagos pelo banco e os cartões ainda serem
normalmente aceitos nas lojas. Devo a esse ladrão um es-
clarecimento, pois o normal era os cartões já terem sido
cancelados, assim como o resto do talão de cheques. Nada
disso vai ser feito.
Ocorre que você, caro ladrão, tem sido mais parcimo-
nioso do que eu nos seus gastos, de modo que esse roubo
está saindo muito econômico para mim. Você comprou
uma camisa no supermercado. Custou R$ 32,00 e isso
demonstra que não é um esbanjador. Fosse eu, provavel-
mente compraria numa loja qualquer no shopping e duas
ou três camisas de uma só empreitada. Você pagou um
almoço em um restaurante chamado Rei dos Grelhados.
Nem sei onde fica. Comida barata. Espero que tenha sido
um almoço compensador para você, pois para mim foi de-
mais. Se estivesse com o meu cartão, teria ido ao Spettus­
e gasto uma nota preta. Provavelmente chamaria meus
filhos ou um amigo e a conta sairia pelo menos umas seis
vezes o preço da sua pequena refeição. Desse modo, te-
nho economizado muito por sua causa e devo-lhe agrade-
cimentos por isso.
Você tem se mostrado extremamente ponderado no
uso do talão de cheques também. O único gasto um pou-
Carta aberta a um ladrão

quinho maior foi na conta da oficina, mas justifica-se. Ser-


viço de oficina hoje em dia é sempre muito caro. Qual-
quer bobagem é uma fortuna. Pelo valor do cheque, o de
número 672112, é até possível que você tenha batido no
seu carro. Espero sinceramente que não tenha se machu-
cado. De qualquer forma, exceto por essa conta da ofici-
na, todos os outros gastos demonstram muito zelo pelo
patrimônio alheio, no caso, o meu patrimônio. Foi uma
sorte minha ter sido roubado por você. Poderia ter sido
roubado por um ladrão gastador e nem sei o que faria
nesse caso. Como você tem sido comedido em seus gastos,
liberei o banco para entregar outro talão de cheques ao
receber a requisição existente nesse. Faço isso para que
não lhe falte nada, mas quero fazer um acordo com você.
Prefiro botar o seu carro dentro do meu seguro, porque
não aguento outra conta de oficina daquela. Por favor, re-
meta os dados para que eu tome as devidas providências.
Outra conta que me preocupa são as despesas médicas.
Tenho notado que já é o segundo cheque para pagamen-
to de consulta. Isso significa que você não tem nenhum
convênio saúde e está doente. Enquanto forem consultas,
tudo bem, mas o que acontecerá caso você precise de uma
hospitalização? Melhor colocar você como dependente
do meu plano de saúde. Não só você, naturalmente, mas
toda a sua família, até porque percebi que um dos mé-
dicos consultados é um pediatra. Amigo meu, por sinal.
Ótimo médico, só que um pouco careiro. Eu nem sabia
disso, mas agora sei.
Fazendo todas as contas, do que eu teria gasto con-
tra o que você de fato gastou, percebo que estou fazendo
uma enorme economia, graças a sua ajuda. Devo, por-
tanto, agradecer. Além de tudo, sinto que dessa forma
estou contribuindo para uma melhor distribuição de ren-
da, pois apesar de ter cartão de crédito por tanto tempo,

338
Ronaldo Carneiro Leão

em nenhuma ocasião dei um pouco de lucro ao Rei dos


Grelhados ou a esse médico amigo meu. Tenho sempre,
e egoisticamente, ido aos mesmos lugares e procurado
quase sempre lugares caros. Agradeço, portanto, pela
economia. Agora mesmo, meu filho veio pedir-me para
comprar uma placa nova para o seu computador, e minha
filha queria um sapato para combinar com uma roupa
que também precisava comprar. Expliquei a ambos que
estava sem nenhum cartão de crédito e sem nenhum talão
de cheques, pois tudo havia sido roubado.
– Mas pai, isso já faz dois meses.
– Eu sei filha, mas tá tão bom assim!!!
Se você continuar dessa forma, caro ladrão, estaremos
ambos satisfeitos e sinto que estou tendo uma real opor-
tunidade de criar um sólido patrimônio.

339
E mesmo assim
continuamos escrevendo
Ronaldo Correia de Brito

É possível que de tanto repeti-la eu já tenha me apro-


priado da história de Lao Tsé e contado como se fosse
minha. Freud se refere a essas apropriações, no Livro dos
sonhos. Ele escreve que uma paciente sua relatou duran-
te uma sessão de psicanálise a história que ouvira de um
amigo e, ao narrá-la, o fez como se falasse de si mesma.
Freud escutou, elaborou, e também passou a contar a his-
tória como se fosse dele.
Dizem que o chinês Lao Tsé, que viveu no século VI
antes de Cristo, abandonou a vida na corte quando com-
pletou quarenta anos de idade. Recolheu-se à floresta até
os oitenta anos, e nesse tempo de ascese e meditação es-
creveu o Tao Te King, livro que é a base do pensamen-
to e da educação chinesa, junto com as obras do filósofo
Confúcio. Lao Tsé, fiel ao taoismo que ensina que pelo
não agir tudo é agido, entregou o seu manuscrito a um
guarda de fronteira, nada falou sobre ele, nada recomen-
dou, e foi embora. Por conta desse misterioso não fazer ou
não interferir, que tudo realiza e resolve, o livro cumpriu
seu destino, virou ensinamento para milhões de pessoas e
chegou até nós.
O contista mineiro Francisco Mendes, quando lhe
narrei a lenda, perguntou-me quem é o nosso guarda
de fronteira. A quem nós entregaremos os manuscritos
ao abandonarmos a floresta? Eis a metáfora do escritor.
Porque ninguém mais enche de silêncio o coração e con-
templa isento de desejos o incessante vaivém do mundo.
Ronaldo Correia de Brito

O escritor busca comunicar-se com seu público. Uns de


forma serena; outros, desvairados; correm atrás de quem
os leia, ou escute, ou aplauda.
Ao mesmo tempo em que precisa do exercício silencioso
da criação, de estar sozinho trabalhando, o mundo cobra
cada dia mais que ele chegue ao limite de sua resistência,
cumprindo uma maratona de conferências, entrevistas,
artigos, uma exposição do corpo e da alma para ser vis-
to, lido, cortejado. Já não existem florestas, nem guardas.
Poucos sobrevivem ao novo enigma da esfinge: preserva-te
e serás esquecido ou mostra-te e serás devorado.
O prazeroso ou atormentado exercício da escrita tem
pouco a ver com o giro pelo mundo, à cata de leitores.
Pouco a ver com a caça aos prêmios. São nuvens de pala-
vras/ meu tormento./ O peito em desejo,/ sempre aberto:/
fogo estranho que reluz/ na noite escura/ de São João da
Cruz./ Nuvens:/ rebanho de pensamentos./ Sopra do céu
um vago lamento,/ como um risco de luz,/ na noite escura/
de São João da Cruz. – Escreveu o poeta Everardo Norões
(A rua do padre inglês. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006),
que escolheu o exílio dentro da poesia.
Os artistas que não assinaram suas obras, anônimos
sem temor ao esquecimento, se ergueram às alturas sem
desejos e encheram de silêncio o coração. Talvez esses,
talvez, tenham conhecido a alegria de criar pela mesma
razão porque respiram, pulsam e amam. Criar para viver
e viver para criar. E só. E tanto. Rolar dentro de si/ como a
pedra no poço./ Do arco do corpo/ desencadear o sopro./
Avistar/ onde o olhar não alcança:/ ler os passos de Deus/
dentro da dança. – Também escreveu Everardo Norões (A
rua do padre inglês. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006), de
dentro do seu exílio.
Buscar uma medida exata do que significa a criação
na arte. Há diferenças no fazer e no criar? Ou tudo é um

341
E mesmo assim continuamos escrevendo

mesmo esquecimento de si? O artista popular Raimundo


Aniceto, da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato,
no Ceará, deu-me uma lição que nunca esqueci.
Fui visitá-lo numa véspera da festa de Santo Antônio.
Ele se arrumava para a noite que passaria sem dormir, to-
cando e dançando. A esposa cozinhava o jantar e o olhava
de vez em quando, enternecida. Eu fazia perguntas sobre
a música que ele tocava, sobre a dança, a história da ban-
da. Vasculhava lá dentro dele para descobrir as pistas de
um gênio do povo. Acredito que os meus elogios e as per-
guntas o incomodavam. Raimundo parecia indiferente à
personificação do artista que eu traçava para ele. De re-
pente, levantou-se da cadeira, me chamou, e eu acompa-
nhei-o até um quarto de porta fechada. Ele abriu a porta
e mostrou-me o interior do cômodo. Não compreendi.
Pensei que me mostraria alguns instrumentos raros, que
confeccionara e tocava. Não. Ele apontou sacos de arroz,
feijão e milho, empilhados, uns sobre os outros. Eu plan-
tei e colhi tudo isso, falou-me sorridente.
Bela lição que jamais esqueci. Todos os ofícios são sagra-
dos, e o escritor não é mais que o padeiro, nem o carpin-
teiro, nem o pintor de paredes. Deus não prefere o músico
ao pescador, como preferiu o Abel que pastorava ovelhas
ao Caim que cultivava a terra. O sábio tudo realiza, e nada
considera seu. Tudo faz, e não se apega à sua obra, escreveu
Lao Tsé. Talvez por isso tenha deixado os seus originais nas
mãos de um desconhecido, sem importar-se com o destino
que teriam. O guarda não era um editor renomado, não
programou lançamento, não traçou planos de mídia, não
inscreveu o livro em concurso literário. E mesmo assim ele
fez carreira, vive há dois mil e seiscentos anos.
Mas isso é uma lenda, e não existem guardas de fron-
teira como os antigos. O poeta busca a medida entre o ato
solitário da criação e o mundo que o ignora ou traga.

342
Ronaldo Correia de Brito

Dessoletro-me sozinho
Neste canto de sala.
O vulto vem e espreita.
Mais nada...

343
O boêmio morre de madrugada.
Com o sol. Iluminadamente
Ronildo Maia Leite

Se é boêmio convicto, o quarentão é necessariamente


avesso à bebedeira das quatro festas do ano. Nada mais
chato e triste e pegajoso e caricato do que o bêbado de
véspera de Natal e Ano Novo. Piedoso feito as filhas de
Maria, vai à Missa do Galo para se enxerir com as mo-
ças. À toa, bebe cerveja e se embriaga facilmente ouvindo
blues na radiola do bar. Declama sonetos, canta canções
antigas. E chora com saudade dos parentes, geralmente
do interior.
O de São João solta traques de sala, bebe jinjibirra com
uísque. Também chora de amor e de saudade.
O de Carnaval é lasca. Veste saia de mulher. Grita e
berra e esperneia e dá cotoveladas com a bunda. Também
termina chorando. De amor e de saudade.
Boêmio convicto jejua nas quatro festas do ano. Para
curtir as madrugadas que lhe restam. Simplesmente por-
que, filho das noites, entende o segredo das madrugadas.
Aos bêbados eventuais, eu aconselho, pois: necessá-
rio entender as madrugadas. Na proporção que expõe e
exibe, a madrugada esconde e protege o boêmio como
as grandes mães alcoviteiras. Acalenta amores. Denga os
desesperados. Constrói ambições. Destrói necessidades.
Dos insípidos, faz poetas. Dos intrinsecamente burros, fei-
to eu, o mais brilhante dos papos. Especializa equívocos.
Quantas mulheres lindas por mim já se apaixonaram. E
quantas mulheres feias amei.
Ronildo Maia Leite

A madrugada legaliza conspiradores. Inspira desafo-


ros. Ameniza desrespeitos. Suaviza provocações. Cicatriza
ventas quebradas. Escraviza o nada.
Foi na boca da noite que o cronistíssimo Renato Car-
neiro Campos encontrou coragem para desafiar o poetís-
simo João Cabral. Ô de Melo Neto, você é um poeta da
porra, mas, por favor, me diga o que pensa da agressão
americana ao Vietnã... Aqui, ó... Noutra vez, esculhambou
um general, de sobrenome Tavares que me lembre, sem
que o arrependimento nem o medo o matassem.
Foi nos bares, a escola das ruas, onde a esquerda su-
focada organizou inteligências para resistir ao arbítrio. E
onde, ainda hoje, se espreme e se esconde na mais descon-
juntada burrice.
De competente Secretário de Estado, sei de histórias
muito próprias da noite. Dele ainda hoje se conta deliran-
te madrugada nos vastos jardins de um senhor onipoten-
te, todo cercado, esses jardins, por altíssimas grades.
De pés juntos me jura, como se verdade fosse, o sacana
que me contou a história que a seguir se sabe:
Estava o já falado Secretário em meio a outros ilibados
homens públicos. Tilintintim, fazia o gelo no copo de cris-
tal. Bulumbumbum, ressoava o uísque no seu quengo. De
repente, como o sopro do terral, a visão fantástica madru-
gada adentro. A ditadura estava voltando com a gangrena.
Soldados nas ruas. O amigo gordo era um bulldozer. Ti-
nha certeza, era uma maquinona. Bonitas mulheres sen-
do presas por horríveis gendarmes. Inocentes democratas
na prisão. Inclusive ele. Desesperado, ele corre, então, e
se abraça com as grades. Que, na sua visão, não eram de
jardim nenhum, mas de um xadrez. Liberdade, liberdade,
abre o manto sobre nós, gritava de espanto. Quando acor-
dou, todo mundo sorria. E ele amargava ressacas. As do
uísque propriamente dito e as de 64.

345
O boêmio morre de madrugada. Com o sol. Iluminadamente

É isso aí. A madrugada constrói as pessoas, ainda que


ao bar frequentem também as lacraias desesperadas. Coi-
tada, irmão, da cidade que não tem os seus bares próprios.
Suas esquinas noturnas. Seus doidos. Seus fantasmas. Até
os que sofrem de fraturas de caráter. Sobretudo, a cidade
que não tem os seus boêmios.
Eu, de minha parte, confesso – sou um homem da ma-
drugada. Pois, como estou cansado de afirmar, a mesa do
jornal é como a mesa do bar – nelas, se morre todas as noi-
tes. Não vejo cronista, repórter, poeta, artista, ator, atriz,
produtor teatral e escambais que não seja um boêmio. A
mesa do jornal e a mesa do bar e a mesa dos camarins e a
mesa da criação têm lá as suas coisas em comum.
Nos camarins, também o ator se urde todas as noites
num mesmo papel. Sem se repetir. Num se morrer diário.
Se faz amor nas coxias da noite. É noturna a confecção
da crônica, do teatro, da tela, da tinta. Somos todos de
uma mesma ribalta, porque toda arte é essencialmente
boêmia.
A crônica morre ao meio-dia. Não passam da meia-
noite a fala e gesto, a recriação e o brilho da atriz.
O boêmio, todos nós, morre na barra da alvorada. To-
das as madrugadas. Fuzilados pelo nascer do sol. Ilumi-
nadamente.

A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário.


Recife, Ed. Raiz, 1990

346
Das calçadas, quintais e
jardins do Recife
Rostand Paraíso

Continuo a abrir as gavetas da minha memória e recor-


do-me, agora, da tranquilidade de nossas noites de verão.
Depois do jantar (naqueles tempos jantava-se cedo, em
torno das 17 ou 18 horas, às vezes se fazendo, mais tarde,
uma ceia), era costume que, após os momentos sagrados
da hora do Angelus e de alguns programas de rádio – na-
quela que era, então, nossa única estação, a PRA-8 –, to-
dos começassem a se distribuir pelas janelas e calçadas,
onde se ficava a conversar e a trocar ideias.
Levavam-se para lá as cadeiras de balanço, as espregui-
çadeiras de lona, alguns bancos e até toscos tamboretes,
onde as empregadas mais antigas, e que já eram conside-
radas como fazendo parte da família, se sentavam humil-
demente, de uma maneira discreta, mais ouvindo do que
falando, de preferência nos locais mais escuros. Não havia
ainda a televisão, responsável, entre outras coisas, pelo
desaparecimento da calçada como ponto de reunião das
famílias, lugar onde se conversava e eram discutidos os
problemas da comunidade e de cada um. Calçadas que se
prolongavam pela rua – naqueles tempos o movimento de
carros era diminuto, raramente se vendo algum nos arra-
baldes – e era ali, no meio da rua, que nós, crianças, ficá-
vamos, sob os olhares dos mais velhos, a brincar de pega,
de cademia, de boca de forno (o seu rei mandou dizer...), de
dono da calçada, e de tantas outras brincadeiras que, pouco
a pouco, com o progresso, iriam desaparecendo.
Das calçadas, quintais e jardins do Recife

Era ali que se reuniam os mais velhos, vizinhos, ami-


gos e parentes, famílias inteiras, toda noite ali presentes,
para alguns jogos (gamão, dominó), mas, principalmente,
para longas conversas que se estendiam noite adentro e
que versavam sobre tudo, futebol, doenças e as melhores
meizinhas para curá-las, política, revoluções (como tínha-
mos revoluções naqueles tempos...), histórias de almas e
outras crendices populares, receitas de bolos e de doces
caseiros, músicas recém-lançadas para o carnaval, namo-
ros, noivados, infidelidades conjugais, casamentos desfei-
tos etc., etc. Conversas que eram interrompidas apenas
quando nos alertávamos para a hora de dormir, em geral
ao ouvirmos os apitos dos guardas-noturnos, que começa-
vam por volta das 10 horas da noite e se repetiam regular-
mente, a cada hora, durante toda a madrugada.
A guarda-noturna, como era conhecida, era paga pelos
próprios moradores, numa espécie de segurança particu-
lar (havia umas plaquinhas que identificavam as casas dos
assinantes), e se fazia presente sempre em duplas, cada
um dos guardas armado apenas de cassetete, nunca de
armas de fogo. Os apitos, quando dados rotineiramente,
a cada hora, indicavam que tudo estava bem, mas, se os
ouvíamos de uma forma repetida, era sinal de que havia
ladrão na área e, de um modo geral, todos os morado-
res se mobilizavam e corriam para ajudar na captura do
gatuno. Os apitos dos guardas-noturnos, já ao amanhe-
cer, se confundiam com os do homem do cuscuz – aquele
inesquecível cuscuz que nos era trazido na porta, para o
nosso café da manhã – e nos davam uma extraordinária
sensação de segurança, a sensação de que alguém velava
por nós e de que não seríamos molestados pelos ladrões,
podendo dormir tranquilos a noite toda.
As calçadas do Recife antigo, gostosas calçadas do bair-
ro de São José e de Santo Antônio – Rua da Concórdia, Rua
da Palma –, e dos bairros mais afastados, desapareceriam,

348
Rostand Paraíso

destruídas pela pressa, pela insegurança, pela violência e,


acima de tudo, pela televisão, essa grande desagregadora
da família, que faz com que se isolem todos, uns dos ou-
tros, ninguém tendo mais tempo para conversar, cada um
vendo, no aparelho do quarto ou da sala, no canal preferi-
do, o seu festival particular de violência e de sexo.
Naqueles tempos, década de 1940, ninguém morava
em apartamento e as casas, principalmente, aquelas dos
subúrbios mais distantes – Casa Amarela, Casa Forte, Api-
pucos, Dois Irmãos, Várzea – tinham enormes e acolhedo-
res quintais, nem sempre muito limpos (passava-se ape-
nas o ciscador para tirar a sujeira mais grossa), mas cheios
de árvores que os sombreavam e que forneciam, com suas
frutas, as sobremesas e os sucos servidos nas principais
refeições e nos lanches dos fins de tardes.
Eram muitas as árvores que ali se encontravam, e que
nos davam abacates, cajus, mangas (ah, gostosas e bonitas
mangas, mangas-rosa, mangas-espada, mangas-de-Itama-
racá, manguitos...), sapotis, jacas, bananas, cajás, graviolas,
jenipapos, carambolas, jabuticabas, abius, pinhas, romãs,
goiabas, pitangas (parece-me que naqueles tempos as ace-
rolas ainda não haviam sido inventadas), maracujás, pitom-
bas, tantas árvores, por nós cutucadas com aquelas longas
varas que tinham um saco em sua extremidade e com as
quais tirávamos as frutas, antes que elas amadurecessem
e fossem bicadas pelos muitos pássaros que ali havia. Ár-
vores pelas quais gostávamos de subir, galho por galho, o
mais que pudéssemos, pelo simples gosto da aventura e,
também, para, lá de cima, descortinar os quintais das casas
vizinhas, invadindo as suas privacidades e descobrindo, às
vezes, em verdadeiros e inesquecíveis alumbramentos, coi-
sas com que nem sequer sonháramos...
Era, lá do alto, um verde total, onde havia vida, muita
vida, as borboletas (de cores variadas e que circulavam
em torno das flores) e os pássaros, numa variedade que

349
Das calçadas, quintais e jardins do Recife

nos deslumbrava, as lavandeiras, os sabiás-da-mata, os


sabiás-congás, as rolinhas, os caga-sebites, os canários-da-
terra, os papa-capins, alguns curiós e galos-de-campina,
os concrizes, os xexéus, os guriatãs, os pintassilgos, os bei-
ja-flores, os bem-te-vis, os sanhaçus, estes últimos, gran-
des comedores de frutas, e tantos mais (não me lembro
que naquela época houvesse pardais), pássaros que, num
verdadeiro desplante, vinham fazer, atraídos pelo calor e
fugindo das intempéries, os seus ninhos dentro de casa, às
vezes em torno de uma luminária.
E, embaixo, os animais que faziam parte da casa, os ga-
tos, os cachorros (esses nunca faltavam, e quando morriam
eram de imediato substituídos por outros), papagaios, ga-
linhas, perus (que, amarrados pelo pé, eram, o ano intei-
ro, cuidadosamente alimentados, recebendo a comida em
bolões, diretamente no bico, sendo, dessa maneira, ceva-
dos para o Natal), marrecos, patos, porcos, em uma sinfo-
nia permanente, sem fim. Às vezes eram os galos que nos
despertavam com seus cocorocós madrugadores, outras
vezes eram as galinhas, a nos anunciar os ovos que íamos
buscar para nossas omeletes, outras ainda, os papagaios, a
repetir as frases porventura aprendidas; ouvíamos, ainda,
o coaxar dos sapos e das rãs e, às vezes, o ruído que nos
fazia desconfiar da presença indesejável de um timbu ou
de uma cobra, a rastejar por entre os matos; o trinado dos
pássaros, o cri-cri dos grilos, o grunhir dos porcos, o apito
estridente das cigarras..., tudo aquilo fazendo parte do fes-
tival diário que a Natureza nos proporcionava.
Quintais, acolhedores quintais, onde jogávamos, des-
calços, nossas peladas de fins de tarde, usando bolas de
meia, as barras sendo delimitadas pelas próprias árvores
ou por montículos de areia ou pedaços de tijolo. Não sa-
tisfeitos com os nossos territórios, pulávamos os muros e
alcançávamos os quintais vizinhos, à procura de parceiros
para nossos jogos ou de uma fruta diferente, que, às vezes,

350
Rostand Paraíso

era permutada, nunca vendida, pelas nossas próprias fru-


tas. Nos galhos mais baixos e mais grossos, fabricávamos
rústicos balanços, e, nos arroubos da juventude, sentin-
do-nos verdadeiros tarzans, pendurando-nos nas cordas
como se fossem cipós, lançávamos aos ares estridentes gri-
tos que, muitas vezes, chegavam a apavorar os vizinhos.
Com as castanhas dos cajus, improvisávamos jogos e,
por fim, vencidos e vencedores, juntávamos todas elas e
íamos assá-las, num inebriante perfume que, à distância,
era percebido e que, ainda hoje, me traz, quando o sinto,
uma enorme recordação daqueles tempos.
Ah, o cheiro de castanha assada...
Não somente os quintais, as ruas do Recife eram tam-
bém cheias de árvores e, em lembranças que coincidem
com as minhas, Vamireh Chacon, no seu livro O poço do
passado, lembra algumas ruas da Boa Vista, do Espinheiro
e da Madalena, que eram verdadeiros túneis, ruas arbori-
zadas com fícus-benjamins e cujas raízes acabariam rachando e
levantando as calçadas, dando margem a piadas eróticas...
Eram ruas onde as árvores, lá em cima, se abraçavam
umas às outras, mal deixando ver as nuvens e quase não
deixando passar a luz do sol; algumas delas, verdadeiros
ninhos, caprichosamente atraindo, às suas copas e galhos,
sem que descobríssemos o porquê, pássaros e mais pás-
saros que enchiam os ares com seus trinados. Dessas ruas
ainda vemos, como exemplos últimos das muitas que en-
tão existiam, a Manoel Borba, a Malaquias, a Visconde de
Albuquerque, a Oswaldo Cruz, a Conselheiro Portela, a
Quarenta e Oito e algumas poucas mais. As árvores, sub-
metidas a uma poda exagerada e sem qualquer técnica,
ficam, às vezes, reduzidas a esqueletos, sem folhas e sem
galhos, muitas sendo derrubadas por qualquer motivo –
ou mesmo sem motivo –, e sem qualquer cuidado de repo-
sição por parte das autoridades municipais.
E os jardins?

351
Das calçadas, quintais e jardins do Recife

Era extremamente raro, na época da minha juventude,


que eles fossem gramados, a grama sendo considerada,
então, como de conservação cara e trabalhosa. Eram, em
sua grande maioria, de chão batido, adubados com ester-
co de gado, e tinham canteiros, delimitados por fileiras de
tijolos, periodicamente caiados, dentro dos quais havia as
rosas, de tantas e variadas cores, as dálias, as onze-horas
(que não podiam faltar num jardim que se prezasse), os
cravos-de-defunto, os sorrisos-de-maria, os copos-de-leite,
as angélicas, os cheirosos jasmins-de-banho, jasmins-re-
sedá e jasmins-bugaris, os amores-de-homem, os mimos-
do-céu, as hortênsias, as acácias amarelas ou róseas, as
alergênicas espirradeiras, os bambus – cujas folhas, acha-
tadas e filigranadas, se prestavam para enfeite e decora-
ção – as begônias, as trepadeiras (que, naqueles tempos,
ao se pronunciar seu nome, o jardineiro dizia: com licença
da palavra, madame) que se enrolavam pela frente da casa,
enroscando-se, às vezes, nas grades dos terraços e das ja-
nelas, as buganvílias, os dedais-de-dama, os flamboiãs, e,
como se não bastassem tantas plantas, em cestas pendu-
radas ao longo dos terraços e nos galhos das árvores, as
avencas, as samambaias e os alfinetes.
Alguns desses jardins eram verdadeiras sementeiras,
fornecedoras, por amizade, nunca por comércio, de se-
mentes e mudas para replantio. Flores que eram cultivadas
para serem doadas às igrejas do bairro, quando do mês de
maio, ou, então, presenteadas aos vizinhos nas festas de
batizado, de aniversário, de casamento ou de formatura.
Entre as plantas, nos muros, corriam as lagartixas,
vítimas habituais dos nossos bodoques, a maioria já sem
rabos, rabos que, diziam (e isso fazia com que não sen-
tíssemos qualquer remorso), cresceriam novamente. Os
caminhos que ligavam o portão da frente ao terraço e à
porta de entrada eram habitualmente ladeados pelas nu-

352
Rostand Paraíso

vens, verdadeiras cercas vivas, periodicamente podadas


para que mantivessem uma altura uniforme. E, en passant,
já que estamos descrevendo a frente das casas, havia, qua-
se sempre, ao lado do jardim, ligando o portão de serviço
à garagem (que, regra geral, ficava no fundo do quintal),
dois ou três degraus ladeados por rampas que faziam com
que os carros passassem, obrigatoriamente, pelo terraço,
permitindo, assim, que nos dias de inverno, pudessem as
pessoas ali descer, a salvo da chuva e da lama.
Havia, no Recife de antigamente, jardins famosos, alguns
de mansões de Casa Forte e de Apipucos, e Gilberto Freyre
nos fala, em várias ocasiões, daqueles que marcaram época,
como o de D. Maroquinha Tasso e o de Mário de Souza.
Eram famosas as orquídeas do professor Luiz Siqueira, nas
Ubaias; as papoulas de Fred Maia, cultivadas na sua casa
do Parnamirim, onde chegou a ter cerca de mil variedades;
as do padre jesuíta Bragança, radioamador e famoso edu-
cador do Colégio Nóbrega, figura bastante conhecida no
Recife daqueles tempos; e as do professor Rinaldo Azevedo,
este último chegando a ter, na sua casa da Rua Amapá, no
Espinheiro, e nos quintais do Hospital Oswaldo Cruz, onde
trabalhava, um enorme número de variedades de papou-
las, todas devidamente catalogadas e etiquetadas. Falava-se,
verdadeiro colírio para os olhos de quem passava, dos jar-
dins de Ramiro Costa, na Ruy Barbosa, e de Maria Peretti,
na Várzea; e das palmeiras imperiais de Suzana Maranhão,
na Avenida Caxangá, essas últimas motivo de uma curiosa
e irreverente briga entre ela e o Prefeito Augusto Lucena,
quando do alargamento daquela Avenida.
Naqueles tempos, em que havia água com fartura em
nossa cidade, as plantas eram aguadas carinhosamente,
pelos próprios donos, com regadores, nunca com man-
gueiras, todo cuidado sendo pouco para que não fossem
danificadas por um jato excessivamente forte.

353
Véspera de São João no Recife
Rubem Braga

O que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu


falarei da terra. Ora, João, tu tinhas um vestido de peles
de camelo, e uma cinta de couro em volta de teus rins; e
a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E a filha de
Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que queria
neste mundo, o rei entristeceu. Eras a voz que clama no
deserto, e clamavas na cadeia. E tua cabeça veio num pra-
to para as mãos da bailarina.
João, esta geração de homens continua a mesma da
qual disse o Senhor: “São semelhantes aos meninos que
estão assentados no terreiro, e que falam uns para os ou-
tros e dizem: nós temos cantado ao som da gaita, para
vos divertir, e vós não bailastes; temos cantado em ar de
lamentação, e vós não chorastes”.
João, ontem foi a noite de véspera de teu dia. O povo
bailava ao som de gaitas. Não bailei nem chorei. Estive em
Boa Vista, Afogados, Areias, Tejipió, na Estrada de Jaboa-
tão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive, por
que não dizer?, na zona noturna da ilha do Recife. E em
toda a parte o povo te festejava.
Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava.
E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem
chuva. Mas na terra humilde, a noite era sempre a mes-
ma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam
alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de
uma luz pobre. Nas janelas e nas portas se penduravam
as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz
Rubem Braga

fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da pa-


rede, forneciam imagens nas ruas tão escuras. As estrelas
do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para
perto da lama, para as casinhas baixas, e teu retrato, segu-
rando o menino Jesus, estava colado nelas pelos quintais
enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro
estacas com folhas de cana, bananeiras-meninas enterra-
das em volta, as fogueiras enfeitadas, de espaço a espaço,
ensanguentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos
oitões, nos mangues, nos palmares, junto das pontes, ao
longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de
fogo na noite preta.
E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem
que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando
a flor das ruas e as pontes quase se apoiam na massa líqui-
da, e, para ver a cidade, é preciso andar toda a cidade...
Os fogos pipocavam pela noite adentro. Uns tinham
estalos secos, intermitentes, esparsos; outros rebentavam
roucos; outros chiavam; outros crepitavam; outros eram
urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite, eu es-
tava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas
avançavam, negras, sobre mim, e eu as reconhecia, pe-
nosamente. Estava deitado na trincheira, fazia três abai-
xo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam
folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos
e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, esta-
va deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas
enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhado-
ras crepitavam, crepitavam.
João, eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estran-
geiras. Aquela do oeste era Hotchkiss pesada, a que estava
embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era
Zebê, e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre
o meu crânio, assobiavam apenas os fuzis Mauser dos ca-

355
Véspera de São João no Recife

çadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do


outro lado da noite, roncou um Schneider. Nas primeiras
noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quan-
do rebentavam a cinquenta metros, rebentavam dentro
do meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo,
e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia
morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer
as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição,
acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas
curvas onde as balas furavam as carrocerias, a toda a velo-
cidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e
roncando terrivelmente. Mas para mim não era mais uma
noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu
não queria matar ninguém, não me importava se alguém
me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, mur-
murando que eu era um espião. Eu era espião, João, João;
eu era um espião da vida, no meio da morte. Eu ainda
não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para
me entender depois da morte, não tomava banho há um
mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a
ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela vasta noi-
te, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam
para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava
sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A
guerra era demasiado estúpida para não me fazer sor-
rir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via
homens pobres se matando para bem dos homens ricos;
apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras.
No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que
haviam sido os comerciantes da guerra, e, entretanto, eu
não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chama-
ram de cínico, quando somei os contos de réis que custava
a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas
vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe no

356
Rubem Braga

Principessa Mafalda, só contando munição gasta. Eu não


era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do ci-
nismo dos cães de luxo; eu sempre tive o direito de ter o
cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono.
João, eu não tenho mais dezenove anos, estou na rua
e não na trincheira, mas esses estampidos na noite trans-
formam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos
bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, fo-
lhas, flores, fogueiras, abraços, olhares, amores, e outras
noites me cercam. Eu tinha treze anos e naquela noite ela
subitamente me amou. Me amou talvez apenas um minu-
to, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus ca-
belos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis,
e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou
amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço
tinha um cheiro terno e quente de cabelos castanhos, e
aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma
eu amei nem amarei mais amada com amor assim. João,
naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste
no ar escuro tinha o mesmo cheiro.
João, são muitas noites antigas que me prendem no
meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da re-
dação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes
noites sem ternura noturna.
João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há foguei-
ras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhu-
ma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que
o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres
estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos ho-
mens irão clamar nas cadeias, como tu clamavas. João,
amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará
deturpando a beleza da vida; as moças suburbanas irão
perder a beleza no trabalho escravo; as crianças continua-
rão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será

357
Véspera de São João no Recife

explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo,


as metralhadoras se viram para os peitos populares. Nin-
guém dividiu as túnicas, nem os pães, como tu mandaste,
João, inútil João.

Junho, 1935
200 Crônicas escolhidas. São Paulo, Círculo do Livro, [s.d.]

358
Maria do cais
Salma Bandeira de Mello

Maria do Cais sou eu, és tu, somos todas nós, mulhe-


res na eterna espera, esperança do viajante homem mari-
nheiro de muitas portas, e passagens.
Sentada no cais do porto, na caldeira colonial da casa
residencial ou no bureau de design moderno, não importa,
todas nós mulheres trazemos a seiva do fruto que brotará
e, para que ele atinja a plenitude da maturidade, precisa-
mos esperar.
Maria do Cais, mulher sereia, mulher água, ligada ao
primeiro elemento que a tudo vivifica e fecunda.
Mãe de muitas mortes e renascimentos, útero intumes-
cido de muito sangue. Fonte de dor, luz e prazer.
O marinheiro homem encontrou-a linda, fagueira e ra-
diante. Consumiu toda sua luz e, na partida, deixou um es-
pectro do que ela fora, apenas uma sombra que vagueia dias
e noites, horas e minutos na esperança de que ele volte.
Maria do Cais, Maria esperança; sim, porque ai dela,
ai de mim – se esperança não houvesse, seria melhor se
transformar de vez em cinzas. Sei que ela também renas-
ceria, porque Maria também é pássaro Fênix, aquela que
renasce depois de toda a consumação. Aí está a sua força,
o seu poder de tudo suportar e a tudo renascer no amor
e na esperança de que o marinheiro voltará lhe trazendo
flores vermelhas, o brilho e o champagne.
Um farol brilhou no cais. É meia-noite, a hora de todos
os mistérios, lá vem Maria no balanço dos quadris, xale
nos ombros porque a noite é fria, como fria e angustiante
Maria do cais

é toda espera. Já de manhã, o marinheiro chega como


se não a tivesse rejeitado, não a tivesse esquecido. Quiçá,
alhures as sereias de outros portos eram apenas sombras
e não Maria de verdade na dor e no amor.
Maria, aproveita, aproveita, Maria, que tempo é fugaz
e o marinheiro logo partirá, se não no navio, no pensa-
mento, porque pensamento de homem é volátil, como é
a sua natureza.
Um dia Maria morre. Pouco importa se de tiro ou de
faca peixeira. Toda mulher não morre todos os dias um
pouco pela frieza e dureza do homem? Será mesmo que
ela morreu? Eu a encontrei, ora faceira, ora ingênua, ora
valente, no rosto de muitas mulheres. Não, Maria do Cais
não morreu. Ela vagueia pelas noites em busca do mari-
nheiro amado, ela espera no lar burguês a volta do mari-
do, ou ela espera ansiosa o telefonema do amado para um
novo encontro. Ela dá à luz um novo filho, ora ela chora,
ora ri, porque ninguém é mais próxima do riso e do choro
do que a mulher.
Eu te homenageio em nome de todas as mulheres, pri-
meiro como mãe tão pobre e carente, Maria manjedoura,
que, como na canção de Chico Buarque, chamou o filho
de Menino Jesus. Depois, como Lilith ou Eva, senhora de
todos os pecados e poderes. Morta e renascida na dor do
amor, no vestido branco da pureza, no laço vermelho da
sedução, no perfume francês da madame.
Todas as mulheres, mulheres cheias de amor, de dor,
de paixão e sedução. A solução encontram em ti, Maria.

360
Personagens do Recife:
Adão Pinheiro de Carvalho
Samarone Lima

Tive o prazer de conhecê-lo há cerca de 15 dias, ali


no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente,
barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos
sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Re-
cife para um divertimento sadio, que é tomar umas cerve-
jinhas e contemplar o povo se bulindo.
O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em
sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”,
como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado
na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima des-
culpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço
demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone
da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa
e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, vol-
temos ao assunto.
Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamen-
te, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao
lado, pediu um quartinho e dois pedaços de passarinha.
Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o
motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que
ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por
detrás do Mercado, cemitério este, onde só tive oportu-
nidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo
Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu tú-
mulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha.
“O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo.
Depois de um silêncio pesaroso, completou.
Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho

“Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não


está no gibi”.
Na sequência, deu uma bicada de com força naquela
garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passari-
nha, oleosa como o quê.
Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho
(pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escri-
tório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo
as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona
isso tudo. De leão eu entendo melhor que os africanos”,
completou, com um sorriso de convencimento.
Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinhei-
ro me confessou que tinha como principal atividade, aos
sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa
Amarela. Achei esquisito, mas a espécie humana já não
me surpreende.
“Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou
ele, com uma cara meio triste e já anormal. Eu realmente
nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pen-
sei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida.
Ao final do dia, volto para casa muito mais humilde”,
completou.
Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigar-
ro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e
me disse assim em segredo.
“Professor, a vida é por um triz”.
Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério,
conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os se-
tores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos tú-
mulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos,
enfim. Sabia de muitas histórias.
“Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no al-
moço e estava envenenada. Os cinco morreram horas de-
pois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho.

362
Samarone Lima

Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma


linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse.
Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tem-
po que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas
do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com
o mundo dos mortos, ele disse que o enterro mais triste
de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado
de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que cha-
mou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro
da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra.
Nenhum parente ou amigo fora ao velório.
“A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é
morrer só, professor”.
Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu ou-
tro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome
quando lembro disso”.
Ele percebeu meu interesse e se aproximou.
“Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar
alguém. Mais de uma hora depois, ninguém”.
“E aí?”, perguntei.
“E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser en-
terrada sem um mísero olhar de compaixão?”
Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jéssica, que
morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situa-
ção, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era
um ato de solidariedade.
“Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de
desligar o telefone.
Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era
o irmão do morto. Adão não soube me explicar o moti-
vo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de
nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria
terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tem-
po de dar uma passadinha na casa da amante. Adão pediu

363
Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho

cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de


vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo soli-
tário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu).
Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela pri-
meira vez o rosto do morto e o achou triste. O que teria
feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele
rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos.
Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de
repente alguém da família morrendo, e comentou com o
coveiro:
“Ninguém merece morrer sozinho”.
“Ruim mesmo é viver sozinho, meu senhor”, respon-
deu Lalau.
Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha
e mandou ver na sua garapa. Me contou que, na época do
enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais ve-
lho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro
emprestado. “Coisas de família”, disse.
Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão.
“Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então
achei que era justo reencontrar um irmão que estava per-
dendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o
telefonema, mas também disse que vinha pensando em
fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo
ficou resolvido.
Depois de me contar sua história, Adão fez um silên-
cio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada,
longe, com aqueles olhos perdidos.
“Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece
morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, nin-
guém merece morrer sozinho”.
Então, eu escrevi.

13 de dezembro de 2009

364
Antônio Piutá entre cangaceiros
Ulysses Lins de Albuquerque

A meu neto Eduardo

Eu sou como a cascavel


Que não respeita ninguém:
Emboscada na vereda
Morde quem vai e quem vem,
E se der um bote errado
Morre de raiva que tem.
(Severino Pinto)

Naquele tempo – fins do século passado – o sertão de


Pernambuco era a terra do cangaço.
Os municípios de Lagoa de Baixo, Afogados da Inga-
zeira e Floresta (especialmente o riacho do Navio, afluen-
te do Pajeú – rio que cortava os municípios de São José do
Egito, Afogados, Flores, Serra Talhada e Floresta) eram
habitados por cangaceiros, sendo os mais afamados os do
Navio – Casimiro Honório e Ângelo Umbuzeiro; em Afo-
gados, Francisco Batista Morais, os Godês e outros; e, em
Lagoa de Baixo, os criminosos protegidos pelo velho che-
fe político tenente-coronel Manuel Inácio – como Zuza
Brás, Pedro Viana, Pau Velho, Joaquim Caetano e muitos
outros, que aquele político conservava, amparando-os,
evitando que fossem aprisionados pela polícia.
Acontecia às vezes que os cabras se matavam uns aos
outros, e, quando chegava à vila a notícia das mortes (de
uma feita entraram na vila quatro redes de defuntos), o
coronel dizia filosoficamente: – “Não tem nada, não. As
cobras é para se engolirem umas às outras...”
Antônio Piutá entre cangaceiros

Na serra de Jabitacá – umas três léguas distante da vila


– Joaquim Caetano, um dia, foi à casinhola de Pau Velho e
o matou com um tiro de bacamarte. E, sedento de sangue,
monta no cadáver e passa a apunhalá-lo! A mulher de Pau
Velho, vendo aquilo, arma-se de uma acha de lenha e trucida
o assassino do marido, desfechando-lhe repetidos golpes!
Era assim o ambiente no município, onde os crimino-
sos roubavam cavalos até dentro da vila, nos dias de feira,
deixando alguns sertanejos a pé, de volta para casa.
Foi por isso que o velho Francisco Severo, fazendeiro
residente a uma légua da vila, assim falou para um Pro-
motor que dizia sanear o município, prendendo ladrões
e assassinos, se o governo lhe fornecesse um forte con-
tingente de polícia: – “Está muito bom, seu doutô. Mas
se vossa senhoria fizé isso, aqui não fica nem quem diga
missa nem quem na oiça...”
Aquele velho era uma vítima dos cangaceiros, que
matavam reses suas pelas caatingas, banqueteando-se às
suas custas. E quando alguém lhe dizia que ele mudasse
o pasto do seu gado para um local onde não andassem
os cangaceiros, ele dizia filosoficamente: – “Ora, se eu fô
levando o gado daqui para lá e venha eles de lá pra cá,
quando nós se encontrá não resta mais nada.”
Antônio Piutá – assim chamado por morar nas pro-
ximidades de uma fazenda com esse nome – foi um dos
cangaceiros que tomaram parte no assalto ao Teixeira, na
Paraíba, nos limites com Pernambuco, levado a efeito por
Silvino Aires, inimigo da família Dantas, que o perseguia.
Era uma velha intriga, desde o tempo de um seu tio, que,
certa vez, foi refugiar-se na fazenda Jacu, de Alagoa de
Baixo, à sombra do meu bisavô Antônio de Siqueira, che-
fe do Partido Conservador no município.
Silvino foi ao município de Alagoa de Baixo – no Mo-
xotó, e ao de Afogados da Ingazeira, onde aliciou uma

366
Ulysses Lins de Albuquerque

dúzia de cangaceiros – inclusive Manuel Batista de Morais


(mais tarde Antônio Silvino), Antônio Piutá, Luiz Mansi-
dão e o irmão, Isidoro – estes do Moxotó – e com eles e
outros atacou o Teixeira, depredando uma casa comercial
dos Dantas e fazendo roubos de cavalos nas vazantes de
pessoas daquela família.
Depois, Silvino seguiu para Pernambuco, dissolvendo
o grupo em certo ponto e internando-se nas caatingas do
Moxotó, onde foi capturado por um capitão da polícia de
Pernambuco – Abílio Novais.
Luiz Mansidão voltou para o Moxotó, chefiando um
grupo de assaltantes, inclusive Manuel Batista de Morais.
Um ano depois, Luiz Mansidão era assassinado de
emboscada por um rapazinho, que chegando em casa –
andava com uma espingarda, matando passarinhos –, en-
controu a mãe chorando por ter sido espancada por uns
cangaceiros que vinham do Brejo do Prioré, município de
Buíque. Era o grupo de Luiz Mansidão.
O rapaz carregou a espingarda com uma bala e seguiu
no encalço dos cangaceiros, que haviam saído pouco tem-
po antes. Notando que eles iam por uma vereda que ele
bem conhecia, entrou pelo mato e foi emboscá-los num
serrote por onde deviam passar, numa curva da vereda.
E quando os cangaceiros iam passando, ele alvejou-os,
e a bala atingiu a Luiz Mansidão.
Dali, os cabras – depois de dispararem os bacamartes
para o lado de onde partiu o tiro – seguiram com chefe
ferido, que morreu alguns dias depois no Moxotó. Antô-
nio Silvino (Manuel Batista de Morais, que adotara esse
cognome, certamente em homenagem a Silvino Aires),
assumiu a direção do grupo.
Antônio Piutá não quis ficar no grupo. Voltou para o
seu sítio – Maniçoba – e aos sábados ia à feira, na vila,
onde a polícia não o incomodava, pois era protegido do

367
Antônio Piutá entre cangaceiros

chefe político... E, também, porque era “respeitado”, te-


mido, pois era valente e já dera umas cacetadas num sar-
gento, comandante do destacamento!
E lá um dia soube que um seu camarada havia sido
preso e levado ao tronco, no povoado de Olho d’Água dos
Bredos – hoje a cidade de Arcoverde – e entendeu de de-
sagravar o camarada. Mandou chamá-lo, convidou alguns
parentes e foi com eles ao Olho d’Água dos Bredos.
Lá chegando, dirigiu-se à casa onde funcionava a sub-
delegacia, arrombou a porta e mandou que os compa-
nheiros rebentassem o tronco!
Os cabras, cantando emboladas, espatifaram aquele
instrumento de tortura – comum naquele tempo, “para
amansar. brabo” – como se dizia.
O subdelegado não apareceu, nem as pessoas de mais
importância, no arruado...
Apenas uma pessoa apareceu, e por ela Antônio Piutá
mandou exigir cinquenta mil réis (dinheiro muito na época)
e uma garrafa de aguardente, vinda de uma bodega, para
que ele e seus companheiros “molhassem a garganta”...
Assim desagravado, saiu Antônio Piutá, cantando em-
boladas, sem que ninguém o incomodasse.
Era assim o sertão do Moxotó naquele tempo.

O boi de ouro e outras estórias. Rio de Janeiro, Ed. Cátedra, 1975

368
Miss Pernambuco 1963
Urariano Mota

Vera Lúcia Torres Bezerra é senhora com uma idade


que a educação e a gentileza não devem perguntar. Em
uma discreta graça, que a maldade chamaria coquete, de
passagem ela conta que foi Miss quando possuía apenas
16 anos. Pela implacável aritmética, 2010 – 1963 = 47.
Quarenta e sete mais dezesseis, sessenta e três. Mas isso
é segredo, ela fala com maior graça, porque mocinhas
menores de idade não poderiam participar do concurso.
Então, pelas normas legais, se ela foi Miss aos dezoito,
atravessa hoje os sessenta e cinco anos. Mas a Lei e a cruel
Aritmética de nada sabem. Entendam, não é bem que as
pessoas, as mulheres em particular, e Vera Lúcia em espe-
cial, não sintam nem sofram quarenta e sete mais dezes-
seis anos. Sentem, percebem, sofrem, se desesperam ou se
acomodam a esse inexorável. Não quero ser, nem poderia
em razão de natural deficiência, um Catão, um copiador
de procedimentos de Plutarco, a invocar ética dura e pe-
sada moral. Mas pessoas como Vera Lúcia penetram em
nossa consciência como uma antecipação do que seremos.
O que nos salva ou nos salvará quando tudo for perdido?
Ela me fala com o rosto oculto em óculos escuros, em-
bora seja noite no Recife. Enquanto fala, enquanto expõe,
ela vai desarmando, ela vai desmontando os mais severos
e sólidos preconceitos. O primeiro deles é o de que as mis-
ses devem ser ignorantes, quando não se resumem à mais
simples burrice. Ela desmonta isso não bem por um cur-
rículo exterior, de provas e títulos. Por esses documentos,
Miss Pernambuco 1963

sabemos que essa mulher é graduada em economia, com


pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas. Por eles essa
mulher conhece a língua francesa, e somente nisso ela já
ultrapassaria a marca das misses que dizem ter lido O pe-
queno príncipe, mas são incapazes de saber quem foi Exu-
péry. Mas não é por isso que a vemos inteligente. A sua
inteligência se revela em documentos não escritos, por-
que se pronuncia por um dom raro de observação, quase
diria, se isso não me fizesse mergulhar em outro precon-
ceito, ela percebe coisas dignas do olhar de um artista.
Vera Lúcia Torres foi Miss Pernambuco no mesmo ano
em que a Miss Brasil foi Ieda Maria Vargas, em 1963. Ieda
Vargas, mais adiante, conquistou o título de Miss Universo.
Mas isso ainda é currículo, o bom vem depois. Quando per-
guntada sobre a mudança do padrão de beleza da mulher,
do seu tempo até hoje, Vera Lúcia responde, melhor dizen-
do, observa: “Elas agora são mais altas, de fisionomia mais
graúda”, e explica o que é este graúda: “boca grande, olhos
grandes. No meu tempo eu notava que a beleza era angeli-
cal, mais delicada. E agora é mais a mulher graúda, magra
demais. Eu não sou a favor de gordura, mas eu acho que tem
de ter as curvas, porque se não fica igual ao corpo de um ho-
mem. Além das pernas bonitas, tem que ter, no meu concei-
to, uma cinturinha e uma curva. Isso não quer dizer um qua-
dril grande, exagerado”. E ouçam agora as medidas, no que
parece um número de ouro da beleza do Brasil em 1963: “O
busto tinha que ter a medida dos quadris. A cintura igual às
coxas... Gisele Bündchen jamais seria miss. Na minha época
se exigia muito postura. E a de Gisele deixa muito a desejar,
a maneira dela se sentar, de se dirigir, de falar. Hoje se exige
apenas que seja alta, magra. Com as pernas finas, altas, as
modelos mais parecem equilibristas...”.
– O que é a maneira de Gisele se sentar?
– Masculinizada. Perna aberta, uma lá, outra cá...

370
Urariano Mota

E vem então uma observação que se perdeu com o


tempo, mas não a seus olhos que me fitam por trás das
lentes escuras:
– Na minha época, as manequins, modelos que desfi-
lavam, não podiam rebolar, bambolear o quadril. Havia
uma exigência, uma ordem de caminhar roçando os pul-
sos no quadril, que era para não menear as cadeiras.
A esta altura, como se fizesse um só comentário, como
uma continuação que tem a ver com o modo de caminhar,
a senhora Vera Lúcia observa e traz uma notícia rara, até
hoje não escrita em qualquer imprensa:
– A Miss Universo de meu concurso, a Ieda Maria Var-
gas, não conseguia juntar... ela só tirava retrato de lado,
porque de frente não juntava as pernas.
– Por quê? As pernas dela eram muito volumosas?
– Não, porque ela tinha um joelho grosso em cima, e
aqui embaixo era um buraco. Ela só tirava foto de lado,
pode ver.
– Como assim?, eu não estou entendendo. A Miss Uni-
verso da época não tirava retrato de frente, por quê? As co-
xas dela eram muito grossas e, por isso, não ficavam juntas?
– Era uma abertura, com as pernas em arco. Era um des-
vio nas pernas, cangalha, entende? Então ela, sabida, posa-
va de lado. E maquiava, porque tinha varizes. Ela passava
uma base, um creme. A base escura disfarçava as varizes.
Está certo, são observações de mulher concorrente ao
mesmo título, poderia ser dito. Mas o que diríamos de
um pintor que observa com olhos argutos uma pintura de
outro? Ou de um escritor que percebe as fraturas da obra
de um novelista? Diríamos que são observações fruto da
inveja? Ou mais precisamente que são notações de alma
treinada naquele ofício? O mais sensato é ouvi-la, princi-
palmente quando ela fala algo como:
– A Miss Universo possuía um rosto muito bonito, a
boca, os olhos cor de mel..., mas não tinha cultura ne-

371
Miss Pernambuco 1963

nhuma. Ele chegou aqui em Pernambuco e saudou, “povo


peruano”...
– Trocou o Recife por Lima. Muito interessante. Isso
foi no rádio ou na televisão?
– Foi quando ela voltou, como Miss Universo. Ali mes-
mo no aeroporto, com todos os repórteres, fotógrafos, mi-
crofones.
Então eu lhe falo com a voz mais traiçoeira que um
entrevistador pode ter, com um tom suave, pleno de inti-
midade e blandícia:
– Na sua época, ser Miss era o mesmo que ser burra,
não era?
Vera Lúcia Torres não se engana com o tom nem se
ofende com o conteúdo. E como prova de que tal qualida-
de não se aplica a ela, responde:
– Diziam que a única leitura de Miss era O pequeno
príncipe. É claro que, como eu era muito jovem na época,
não poderia ter a cultura que adquiri depois. Mas eu já
gostava de ler. Os meus amigos eram todos universitários,
de medicina, de direito, teatro. Eu ia muito a teatro, expo-
sições, porque eu gostava.
E o entrevistador, traiçoeiro:
– Exatamente. Tem toda a razão.
– Mas a mulher do meu tempo era preparada para
esperar o príncipe encantado, e se fosse Miss, o sonho
era casar com um grande empresário, um homem rico,
porque era Miss...
– A senhora casou com um empresário?
– Não.
– Nem com um homem rico?
– Não. Em primeiro lugar tinha que existir amor.
A esta altura, a sua filha, uma jovem bonita de 24 anos,
entra na entrevista para completar a frase que a mãe não
quis dizer:

372
Urariano Mota

– Ela casou com um homem pobre e feio.


– Verdade?
E a filha:
– Era pobre, feio, horrível. E assim, cheio de homem
rico e lindo atrás de mãezinha.
Ao que explica a mãe:
– Uma das coisas que eu mais admiro no ser humano
é a inteligência. E a bondade.
– Verdade?
A esta altura o entrevistador se foi, partiu, porque dei-
xou de ter o domínio, porque foi destruído em seu ma-
quiavelismo. Deixou de conduzir para ser conduzido. Há
um capítulo não escrito, na vida dos entrevistadores, que
reza a sua conquista em razão de um comportamento
inesperado. Nesse capítulo, em uma das suas divisões, em
algum lugar se inscreve que entrevistadores feios e po-
bres são conquistados por misses que não se casam com
grandes empresários. Mesmo que essas misses não mais
sejam formosas jovens, mesmo que tenham passado pela
curva dos sessenta anos. Ou até mesmo por isso, diria até
com mais razão, por se encontrarem nessa idade. Não sei
se isso é bem perversão ou uma busca do espírito, só tu,
puro espírito. De qualquer forma, uma perversão, que
nem precisa dizer que é romântica, porque é do caráter
do romântico um semelhante desvio. O fato é que ex-mis-
ses como a senhora Vera Lúcia Torres Bezerra possuem
um travo, um amargo de ex-combatente, de quem passou
pela experiência da guerra. E, no entanto, esse travo é
bom. Imagino que isso se dá em razão de ser uma vitória
dos valores em que acreditamos, o do valor que é o valor,
o da vitória do belo nas condições mais infames. Senhori-
tas, misses, que em um mundo de corpo-mercadoria, em
um açougue de carnes, reagem e vivem como pessoa e
gente. E que se casam ao fim com indivíduos cujo maior

373
Miss Pernambuco 1963

patrimônio é a qualidade interior. Isso não é um conto de


fadas. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra está diante de mim
para tentar vender uma carta do poeta Olavo Bilac, que
guarda e guardou há muito tempo.
O entrevistador se foi. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra
nem precisava dizer que estudou Economia porque era
admiradora de Celso Furtado. Nem mesmo, em um golpe
mortal para mim, que esteve ao lado daqueles doidos e
perseguidos pela ditadura no Brasil. Derrotado, miro-lhe
então os olhos despidos das lentes escuras, e percebo-lhe
as rugas, o pescoço, o tecido mole. Mas, coisa estranha,
percebo, ainda assim, que os anos por ela passaram e não
alcançaram a sua decadência. Por que esse paradoxo? Tal-
vez porque o espírito, quando sobrevive, suporta melhor
o copo que envelhece. Não importa quantos anos se te-
nham passado, tenho gana de lhe dizer e me calo. Por isso
escrevo agora, porque os escritores somos muito valentes
no silêncio e a distância: Vera Lúcia Torres Bezerra, você
ainda é a nossa musa. O tempo passou para todos, Miss
Pernambuco 1963.

374
Eu estava lá e vi
Vandeck Santiago

E aí está o meu avô, que às vezes entra quando o


sono se esconde. Parco de gestos, mais ainda de palavras.
“Quem usa palavra à toa fica sem nenhuma na hora da
precisão”.
Ninguém ousava contrariá-lo. Não precisa falar, só olha-
va, mas seu olhar tinha tal poder de convencimento que o
atingido punha-se de imediato a fazer o que presumia fos-
se sua vontade. As mulheres da casa estavam conversando
na maior animação – ele chegava, todas emudeciam.
Eu costumava ir para a casa dele à tarde, depois da es-
cola. Ficávamos os dois na varanda, só se ouvia o reco-reco
da cadeira de balanço. Comíamos bolo de milho, quente;
toda tarde minha avó fazia. De vez em quando ele passava
a mão na minha cabeça e grunhia uma frase que eu nunca
entendia direito. Era um reconhecimento de que eu exis-
tia, merecia sua atenção.
Eu era mais poderoso que o mundo.
Só comecei a sentir medo quando ele entrou em briga
com o demônio. “O infeliz das costas ocas”, dizia. O de-
mônio queria arrancar-lhe a alma pelo espinhaço. Vivia
rondando a casa, subindo no telhado, espiando pelas ja-
nelas, escondendo-se nas frestas da porta, à espera de um
descuido.
Meu avô não tinha medo do demônio. Uma vez abriu
as portas da entrada e dos fundos da casa, eu vi tudo, de
madrugada, e ficou gritando, punhal na mão:
Eu estava lá e vi

– Vem, infeliz, vem! Deixa de ser covarde e vem pela


frente!...
Toda sexta-feira, perto das 6 da noite, ele punha roupa
branca, colocava o punhal na cintura e rumava em dire-
ção à mata.
Ia para o confronto aberto com o “infeliz”.
Se não voltasse, não queria ninguém chorando.
Eu ficava na cadeira de balanço, sem fome para o bolo
de milho, com vontade, mas sem coragem de dizer “vô,
não vá”. Ele era o mais forte dos homens, eu sabia, mas
não era qualquer um que ele ia enfrentar.
Houve uma ocasião, quando ele já se perdera mato
adentro, em que saí andando seguindo o seu rumo, com um
pedaço de pau na mão. Minha avó me pegou no meio do
caminho. Levei a maior surra, nunca mais repeti a besteira.
Ninguém perguntava o que acontecia naquelas tardes
de sexta-feira. No meio da noite ele voltava. Suado, com
a roupa suja de quem havia rolado pelo chão. “Louvado
seja o sangue do nosso senhor Jesus Cristo”, dizia minha
avó, aliviada quando o via despontar na rua. Baixinho,
para ninguém escutar, eu também agradecia ao Menino
Jesus de Praga.
Um dia foi diferente. Eu estava lá e vi. Um dos mora-
dores entrou esbaforido em casa. O chapéu nas mãos, o
olhar para baixo, uma notícia ruim para dar.
Meu avô estava morto, fora esfaqueado na mata.
Minha lembrança gravou até o cheiro do vento naque-
le dia. Não podia ser aquilo que o homem estava dizendo,
daqui a pouco seu Carlos ia chegar ali e falar que era men-
tira, que o morto não era o meu avô, era outro parecido
com ele. Era bem capaz de ser o seu Damião, tomara que
fosse, os dois eram muito parecidos, todo mundo dizia.
Ao longe avistei o cortejo – meu avô vinha carrega-
do nos ombros da multidão. Como uma cruz humana, os

376
Vandeck Santiago

braços arriados, todo ensanguentado. As roupas sujas de


barro, o cabelo assanhado. Havia sinais de ferimentos no
peito, no pescoço e no rosto.
Com cuidado o puseram no terraço, perto da cadei-
ra de balanço. Acenderam duas velas, uma de cada lado.
“Ai, meu Deus, ai, meu Deus!”, gritava minha avó, sem
parar. Eu fiquei sentado na cadeira de balanço, fazendo
reco-reco-reco, sem tirar os olhos do meu avô. Foi por isso
que ninguém viu, mas eu vi: um filete de sangue escapou
de debaixo do meu avô e veio escorregando devagarinho
em minha direção. Não saí do canto, acho que estou lá
até hoje.

P.S.: O assassino fora um ladrão que o seguira e tentara roubá-lo. Fora


preso por dois soldados que faziam a segurança do povoado. Depois de
apanhar muito na cadeia, confessou o crime.
Em nossa família, no entanto, nunca ninguém acreditou nessa história.
Todos nós sabemos que foi o demônio quem matou o meu avô.

377
Boi
Valdemar de Oliveira

Passo os olhos, de vez em quando, pelas colunas so-


ciais da nossa imprensa. Visto que não frequento os clubes
mundanos, é esse o meio mais prático de saber o que lá
vai pelos salões onde a Sociedade se diverte. Foi por essa
via providencial que me chegou ao conhecimento uma
novidade curiosa: um dos nossos mais conceituados clu-
bes vai sortear, entre os seus associados, um boi. Receoso
de confusões, o cronista repete: “um boi de verdade”. Não
há possibilidade, pois, de que se trate de um boi de barro,
como os de Vitalino, ou de um boi de Papelão, como o do
Melchior. É boi de carne e osso, no duro.
Mas um boi? O meu espanto não é menor do que o do
Eça d’As farpas ao comentar a presença de 160 bois, forma-
dos em alas, para receber, em Vila do Conde, terras de Por-
tugal, Sua Majestade dom Pedro II, das Terras do Brasil.
Acostumados já estamos em ver sortear aparelhos de rádio,
receptores de televisão, enceradeiras, ventiladores, baixe-
las, faqueiros, perfumes, colares – mas boi? É a primeira
vez que ouço falar nisso – e não dou parabéns aos donos da
ideia, porque a presença do boi na Sociedade pode tornar-
se incômoda, senão perigosa. Essa presença é imprescin-
dível, desde que o pacato ruminante participa da relação
de prêmios. E é aí que reside a primeira razão de temor: o
“Corisco” pode portar-se inconvenientemente, ignorante
como é de etiquetas e boas maneiras, mal sabendo (ou não
sabendo nada, porque nunca foi sócio de clubes munda-
nos), o que se deve fazer e o que se não deve fazer; pode
Valdemar de Oliveira

espantar-se com as luzes, a música, o movimento geral e in-


vestir, de repente, sobre as mesas, como um bonitão bêbedo
em noite de carnaval; pode pôr-se a mugir como se fosse
o “crooner” da noite ou a espanar com a cauda o nariz de
madame ou o cangote da miss mais próxima. Mesmo que
seja um boi manso (como há tantos) e educado (como não
há nenhum), poderá tornar-se alvo de comparações, não
faltando quem lhe descobrisse, logo, traços fisionômicos
semelhantes aos de alguns dos presentes.
Viria, depois, o sorteio, o que aumentaria os riscos,
sendo o primeiro deles que o robusto zebu fosse parar
às mãos de um cavalheiro que, em matéria de pontas, já
estivesse bem guarnecido. A coincidência poderia produ-
zir um impacto de gargalhadas logo que o felizardo se
levantasse, agitando no ar, muito contente, o bilhetinho
premiado. E ninguém pode calcular as reações que essas
gargalhadas, unânimes e ruidosas, produziriam em qual-
quer dos dois. Tudo me convence de que essa história de
boi, no Internacional, não dá certo. Melhor será voltar
aos refrigeradores e às joias. São menos contundentes.

20 de junho de 1961

379
Para este domingo
Waldimir Maia Leite

Para Gilberto Freyre,


o jogo de palavras desta crônica

Para este domingo quero dispor de uma planície (como


quem põe uma toalha sobre a mesa sem, entretanto, con-
viva).
Para este domingo quero todos os enverdecidos cam-
pos em florilégio, onde possa eu derramar (como chuva
em vertical) o suor do meu sofrido e caminhante rosto/
adulto; e assim germinar e aprofundar no solo raízes dos
meus olhos de fuga em busca de uma Verdade (imersa
Verdade a boiar como translúcido mineral).
Para este domingo quero sentir todos os soprares de
ventos (indo e vindo como duas mãos que buscam), o soma-
tório de indícios físicos e meteorológicos; que no amanhã
haverá um Sol hóspede meu (irmão e igual no ato de doar
luz e calor em fotossíntese às plantas) e que desperte, como
flor que abre, inesperada e úmida, as matinais pálpebras, o
rude e sobrevivente desejo – nos homens – de colheita de
fruto para a eterna fome de sua momentânea boca; e de
perene amor para o sedento e eventual coração.
Para este domingo quero todos os sons, aqueles que
marcam, como acordados sinos, o nascer e o extenuar das
adormecidas horas; e os que alertam para a fragilidade
do debruçar da noite sobre a terra onde, um dia, estarei
– imóvel e sem volição – como um arbusto decepado sem
memória de incogitáveis frutos e folhas.
Waldimir Maia Leite

Para este domingo quero selar, com pressa de correr, o


melhor e o mais ágil dos ginetes, e partir, combater – de
peito aberto – trinta ou quarenta moinhos de vento, sem
retornar o movimento dos meus olhos e deixar para trás
imagens que não mais me pertencem, nem tocam (ah!
nunca, nunca mais!) a retina que me instrui o essencial
da visão.
Para este domingo quero o silêncio de todas as pessoas
– as que me cercam e as que a eventualidade me separa
– a quebra de todas as palavras, a privação das frases não
adjetivadas.
Para este domingo quero uma ampla, interminável
planície (porção de terreno não-meu), tão ermo quanto
meu coração já despovoado e erodente.
Para este domingo quero sal sobre as rubras chagas
abertas pelas tormentas marítimas em minhas brancas e
finas mãos, lágrimas no dueto sem vozes dos meus olhos
e suor em meu rosto, bronzeado pelo Tempo, formando
o suor um rio, no leito derivado das invasoras rugas; o rio
da fadiga, muito e profundo cansaço que em mim faça
renunciar, à luz do dia, a todos os movimentos (inclusive
o oscilante ato de amar).
(E se, neste domingo, me for dada uma planície ne-
cessariamente horizontal – como uma toalha de areia in-
color sobre a mesa sem conviva – serei capaz de descer,
súbito como um hierático condor de negras asas, do alto
das minhas involuntárias ansiedades, descer do topo da
montanha das minhas angústias e ali (na planície) depo-
sitar este meu impertencido corpo: voluntário e místico
como quem frequenta o mistério de Getsemâni – gesto de
semente que (se) tardiamente renasce).

Terra molhada - crônicas. Recife, Fundação do


Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1985

381
Sábado de Zé Pereira em Caruaru
Waldenio Porto

– Quando chegava o carnaval, parece que estou ven-


do... me transporto à casa de minha avó, em Caruaru,
perto da igreja da Matriz das Dores, onde morava... Re-
torno à passada infância...
– “Que os anos não trazem mais!” – graceja Praxedes.
– É o que você pensa. O carnaval, pense bem, refaz
tudo direitinho... nos mínimos detalhes. Com as músicas,
os amigos que já se foram, mas chegam apressados, na-
moradas, os confetes e serpentinas, até o cheiro do “lan-
ça-perfume” de saudosa memória.
– Estou ouvindo seus devaneios passadiços. Prossiga.
– Zé Negrinho passava óleo de Peroba nas cadeiras
austríacas de espaldar recurvo, ângulos torneados, encos-
to e assento de palhinha, na sala de visitas. Cantarolava
despreocupado, enquanto esfregava a flanela umedecida
nos recortes dos móveis de estimação:

Viva Zé Pereira, viva Juvenal,


Viva Zé Pereira no dia de carnaval.
Eu tava dormindo, papai me acordou,
Quem não tem dinheiro não embarca no vapor!

O menino ouve e pergunta. Escuta explicações não


muito claras e fica na confusão do pouco entender. Afinal,
que se poderia esperar de Zé Negrinho, cria de casa e pau
mandado para toda obra? Espere até mais tarde! diz ele.
Aí você vai entender.
Waldenio Porto

O dia escorre para todos na expectativa da noite da-


quele sábado.
A ansiedade do menino. As mãos frias. Molhadas. Já
taludo bastante para sair só, à noite, não longe de casa,
na ainda pacata cidadezinha de Caruaru. A multidão se
ajunta e cresce a cada momento. Um riso geral clareia
os rostos, na rua quase escura, também chamada de beco
do Dr. Silva Filho. Que desce da Rua da Matriz e desem-
boca no descampado largo da estação da Great Western.
O riso, os passos rápidos, a quase pressa de todos pelo
acontecimento esperado. Transforma sisudos em gaiatos,
surpreendentemente. O falar animado e alto. O menino,
misturado no meio da gente, estranha o comportamento
galhofeiro de adultos sérios. A enxurrada dos que descem
esbarra na multidão já represada ao longo dos trilhos da
via férrea. Tropeça nos dormentes e não para de se agitar,
como se consumida pela euforia. Não encontra canto cer-
to e se move incessante.
Passam dois molecotes fantasiados, com lanternas de
armações coloridas, revestidas por celofane, alumiadas
por carbureto, espetadas em longas varas, enroladas em
papel laminado brilhante, encarnado e azul. Dirigem-se
para a plataforma da estação ferroviária. Já acesas, mos-
tram que a coisa está para começar.
Quando menos se espera, rompe, por cima do vozerio
da multidão estacionada, o som limpo e forte do trompe-
te de Joel, grito de guerra dos foliões em todos os carna-
vais. Um clamor se eleva, abafando as últimas notas da
corneta, como se o espírito da alegria precisasse apenas
daquele chamamento para se mostrar.
O apito do trem ao longe multiplica o alvoroço. Uma
girândola interminável atroa os ares. Ouve-se a batida
surda do bombo e a orquestra do maestro Cazaquinha es-
trondeia o frevo Vassourinhas, enquanto a locomotiva, de

383
Sábado de Zé Pereira em Caruaru

chaminé alta e bojuda, entra resfolegando na estação, com


seu facho imenso de luz e a posse de todas as emoções.
Apertos. Correrias. Exclamações. Todos querem che-
gar perto para ver o Rei Momo que chegou do Recife com
sua corte de ministros, no trem do subúrbio. Todos sabem
que Chico Porto, Aluísio Gata Magra e Quinzinho tinham
ido esperar o trem em Gonçalves Ferreira, última estação
antes de Caruaru. Mas todos juram que o rei da folia veio
mesmo da Capital.
O menino, apertado na multidão, pouco vê. Alguém
o protege com o corpo, livrando-o dos empurrões. Chico
Nunes não se contém, nem mais espera. Ordena ao maes­
tro Malaquias, de Motoristas, que revide o debique do ou-
tro clube com o frevo Três da tarde. Ninguém se entende
mais e os metais brigam com as requintas e os taróis pela
posse do tumulto alucinatório. O maquinista do trem, que
é, como todo o ferroviário, do Madeiras do Rosarinho, no
Recife, se contagia. E aumenta a balbúrdia com o apito
repetitivo da locomotiva. Delírio coletivo.
Com muito esforço e ajuda, o Rei Momo, primeiro e
único, é içado para o Ford 29, capota arriada e escape livre.
Cento e muitos quilos de bonomia. Chico Porto, simples,
bom, crédulo, alegre, encarna, como ninguém, a realeza
da fantasia que veste. Coroa na cabeça, cetro na mão, cum-
primenta e é aplaudido pelo povo. Ao lado, também de pé,
a figura esguia de Aluísio Gata Magra, vestido de fraque
(pois é Ministro), com uma cartola preta e alta que mais
lhe acentua a altura. Em contraste carnavalesco, Quinzi-
nho, mais baixo, completa o séquito de dignitários.
Os foguetes ainda espocam, aqui e ali, acompanhando
o cortejo, que se desloca, lentamente, em direção à Rua
da Matriz. Os carros, de escape livre, aumentam o baru-
lho ensurdecedor. E todos dançam e cantam abraçados,
como se fora a manhã do primeiro dia da criação...

384
Dados Biobibliográficos

ABDIAS Cabral de MOURA Filho, (“Os filmes de


Celso Marconi”), nasceu no Recife/PE (22.04.1930).
Diplomado em Direito (1954) e em Sociologia (1964).
Romancista, ensaísta, cronista e jornalista. Foi edito-
rialista do Jornal do Commercio, Recife. Membro da
Academia Pernambucana de Letras, da Academia de
Letras e Artes do Nordeste e da União Brasileira de
Escritores, seção de Pernambuco. A UBE-PE reuniu
num livro os Depoimentos e comentários de A a Z, sobre
Abdias Moura, no qual aparecem, entre outros, Gil-
berto Freyre, Barbosa Lima Sobrinho, Maria do Car-
mo Barreto Campello de Melo.
Bibliografia: O sumidouro do rio São Francisco: origem
dos conflitos no Brasil, 1985; Evangelho do subdesen-
volvimento, 1990; A sociedade no planeta Terra, 1997;
Memórias do século XX, 2000; As três faces do amor, 2004
(contém três romances publicados em anos diferentes
pelas Edições Tempo Brasileiro: Os desamores de Be-
nedicto, 1992, A descoberta da harpa, 1988, e O segredo
da ilha de pedra, 1995); e 12 Autores em tempos diversos,
hist. e crítica, 2007; Sexo, nação e cor – ensaio sobre o
preconceito, 2008; Como a guerra chegou à floresta ama-
zônica, Recife, 2008.

ADMALDO MATOS DE ASSIS, (“Inchação urbana”),


nasceu em Gravatá/PE (29.07.1945). Ficcionista. Di-
plomado em Direito pela UFPE. Professor de Litera-
tura Portuguesa e Brasileira e de História, no ensino
médio. Professor de Direito Tributário e Instituições
do Direito, da Universidade Católica de Pernambuco.
Auditor do Tesouro Estadual por concurso público,
exerceu os cargos de chefe de Gabinete, secretário
municipal do Recife, secretário de Habitação e pre-
sidente da Cohab/PE, secretário de Educação e Cul-
tura do Recife, secretário da Fazenda do Estado e do
município de Jaboatão dos Guararapes. Vereador do
Recife, por dois mandatos. É membro da Academia
de Letras e Artes de Gravatá e da UBE-PE.
Bibliografia: Reflexões sobre a questão habitacional, en-
saio, 1983; O poder e a comunhão, discursos, 1992;
Mágica do equilíbrio, artigos, 1995. O homem revalori-
zado, discursos, 1996; O preço da missa, contos, 1997;
Olhar sobre a Rússia, viagem, 1999; Coerência, discur-
sos, 2000; A máscara veneziana, contos, 2001; O dono
do girassol e outros contos, 2003; Astúcias da imaginação,
contos, 2005; e Sete dias na Terra Santa, 2008.

José ALBERTO Tavares DA CUNHA MELO, (“Como


envelhecer uma caçarola”), nasceu em Jaboatão/PE
(08.04.1942). Jornalista e sociólogo. Foi um dos fun-
dadores das Edições Pirata e integrante da Geração
65 de escritores pernambucanos. Criou o Prêmio Li-
terário Carlos Pena Filho em 1982, que premiou au-
tores locais (PE) e, no ano seguinte (1983), nacionais.
Diretor de Assuntos Culturais da Fundação do Patri-
mônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundar-
pe) em 1979-1980 e em l987-1989. No jornalismo,
destacou-se como editor do “Commercio Cultural”
(1982-85), no Jornal do Commercio. Foi editor da revis-
ta Pasárgada, nos anos de 1994-1995). Colaborador
(1998 a 1999) da coluna “Arte pela Arte”, do Jornal
da Tarde, SP. De dezembro de 2000 até novembro de
2007, manteve a coluna Marco Zero, na revista Con-
tinente Multicultural. A convite da Universidade de
Évora, Portugal, participou do III Seminário Inter-

386
nacional de Lusografias, em 2000), relançando o seu
livro Yacala, e como expositor do tema: “Condições
de Criação nos Países Lusófonos”. Seu livro O cão de
olhos amarelos & Outros poemas inéditos recebeu o Prê-
mio de Poesia 2007 da Academia Brasileira de Letras,
na qualidade de melhor livro de poesia publicado no
ano de 2006 no Brasil. Participou de 32 antologias,
duas delas internacionais.
Bibliografia: Círculo Cósmico, separata da revista Es-
tudos Universitários, 1966; Oração pelo poema, separata
da revista Estudos Universitários, 1969; “Publicação do
corpo”, in: Quíntuplo, 1974; A noite da longa aprendi-
zagem. Notas à margem do trabalho poético, Recife,
1978-2000, v. I, II, III, IV, V, inédito; Dez poemas polí-
ticos, 1979; Dez poemas políticos, 1979, segundo clichê;
Noticiário, 1979; Poemas à mão livre, 1981; Soma dos su-
mos, 1983; Poemas anteriores, 1989; Clau, 1992; A Rural
também ensina a semear a poesia, 1992; Folheto de cor-
del – divulgação do lançamento do livro Clau; Carne
de terceira com poemas à mão livre, 1996; Yacala, 1999;
Yacala, 2000, edição fac-similar, prefácio de Alfredo
Bosi; Meditação sob os lajedos, 2002; Dois caminhos e uma
oração, 2003; O cão de olhos amarelos & Outros poemas
inéditos, 2006; Marco Zero, crônica, 2009.

ALEX (José de Souza Alencar), (“Ouvir a voz do


tempo”), nasceu em Água Branca/AL (05.08.1926).
Passou a residir no Recife em 1948. Foi um dos fun-
dadores, em 1950, do Clube do Cinema do Recife.
Concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito
da UFPE, em 1952. Faz parte do Conselho Estadual
de Cultura de Pernambuco. É membro da Academia
Pernambucana de Letras desde 1970, ocupando a
Cadeira nº 10. Na área do jornalismo, foi crítico de
cinema e colunista social, assinando atualmente uma
coluna diária de crônicas breves e notícias variadas no
Jornal do Commercio.

387
Bibliografia: Cadeira vazia; O tempo não retorna; Alex:
70 Crônicas; Anotações do cotidiano.

ALUIZIO FALCÃO, (“Sozinho no bar”), viveu no


Recife até 1962. Jornalista. Foi um dos fundadores
do Movimento de Cultura Popular e presidiu o Sin-
dicato dos Jornalistas. Exerceu o cargo de secretário
particular do governador Miguel Arraes no mandato
interrompido pelo golpe militar. Trabalhou como re-
pórter do Diario de Pernambuco e colunista diário da
Última Hora/NE, bem como na Rádio Olinda e Rádio
Tamandaré. Em São Paulo, onde mora há 46 anos,
foi chefe de programação da Rádio Eldorado e dire-
tor das gravadoras culturais “Discos Marcus Pereira”
e “Estúdio Eldorado”. Colaborou regularmente nos
jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Aposen-
tou-se como jornalista na Universidade de São Paulo.
A crônica Sozinho no bar faz parte do livro Crônicas da
vida boêmia, lançado em 1998. Foi também publicada
no Jornal da Tarde, em São Paulo.
Bibliografia: Crônicas da vida boêmia, 1998.

ALUÍZIO FURTADO DE MENDONÇA, (“O São


João da minha infância”), nasceu em Natal/RN
(09.12.1927). Muito cedo se iniciou na Literatura, no
suplemento literário dominical de O Diário de Natal,
órgão dos Diários Associados. Foi redator por alguns
anos da Rádio Poti de Natal. Posteriormente, prestan-
do concurso público para o Ministério da Fazenda,
foi nomeado para o Porto de Areia Branca, no Rio
Grande do Norte. Em 1954, foi transferido para a
antiga Alfândega do Recife, hoje Receita Federal do
Brasil. Foi repórter do Diario de Pernambuco e depois
do Jornal do Commercio do Recife. Em 1957, ganhou o
Prêmio Literário de Ficção do IPASE, com a novela, O
velho, os gatos e a noite. Participou de várias antologias,
sempre no gênero ficção. Foi presidente da Academia

388
de Letras e Artes do Nordeste em duas gestões. Foi
presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Re-
ceita Federal do Brasil. Fundou e dirigiu as revistas:
Letras e Artes e Edições Cadernos Culturais, a primeira
durante a sua gestão à frente da Academia de Letras e
Artes do Nordeste. Divulgou vários autores através de
sua Editora, Assessoria Editorial do Nordeste (AEN).
Fundou e mantém a editoração do Jornal Ponto de En-
contro, de circulação nacional.
Bibliografia: O silêncio das horas, contos, 1952; O sol-
dado de ronda, contos, 1953; Contos inéditos, 2000; Ali,
do outro lado da maçã, nov., 2002; Quem matou Anató-
lio Brochado, nov. Participa de diversas coletâneas de
contos e poesias.

ANA MARIA Ventura de Lyra e CÉSAR, (“Uma dama


em tempos idos”), nasceu no Recife/PE (17.04.1941).
Diplomada em Direito pela Faculdade de Direito do
Recife, UFPE, e em Letras Neolatinas pela Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da Unicap. Filha do
desembargador Amaro de Lyra e César e de Áurea
Ventura de Lyra e César. Romancista, poetisa, confe-
rencista e ensaísta, iniciou sua trajetória escrevendo
sobre o próprio pai, o desembargador e poeta Amaro
de Lyra e César. Destacou-se como presidente da Aca-
demia de Letras e Artes do Nordeste, biênios 1998-
1999 e 2000-2001. Recentemente, foi eleita para a
Academia Pernambucana de Letras.
Bibliografia: Lira e César, juiz de Caruaru, ensaio biográfi-
co, 1981; Gênesis, crônicas, 1884; A bala e a mitra, ensaio/
reportagem, 1994; Prêmio Vânia Souto Carvalho, APL;
50 Anos do Senac em Pernambuco, hist., 1996; Versos volá-
teis, poesia, 1998; O tom azul, rom., 1997; Prêmio Dulce
Chacon, APL; Habemus panem, memórias de uma épo-
ca, memórias, 2001; No limiar do tempo, poesia, 2005; e
A faculdade sitiada, ensaio histórico, 2009, Prêmio Ama-
ro Quintas – História de Pernambuco, da APL.

389
ANTÔNIO Ricardo Accioly CAMPOS, (“O sol de
Pernambuco”), nasceu no Recife/PE, (25.06.1968). É
advogado militante especializado em Direito Empre-
sarial. Detentor da Comenda Dom Quixote da revista
Cidadania e Justiça. Palestrante Honorário da Esco-
la Ruy Antunes da OAB-PE, na cadeira de Direito
Eleitoral. Foi Conselheiro Titular da 1ª Câmara do
2º Conselho de Contribuintes da Receita Federal. É
membro da União Brasileira de Escritores (UBE-PE).
Autor de artigos jurídicos e literários publicados em
periódicos, revistas e jornais. Colunista semanal da
Folha de Pernambuco. Curador da Festa Literária In-
ternacional de Pernambuco – Fliporto. Membro da
Academia Pernambucana de Letras e da Academia de
Artes e Letras de Pernambuco. Presidente do Institu-
to Maximiano Campos (IMC), sociedade civil volta-
da para a valorização da cultura brasileira, especial-
mente dos valores literários, com ampla atuação em
Pernambuco e na região nordestina, cujas atividades
podem ser visualizadas no site www.imcbr.org.br.
Bibliografia: Mensagens, seleta de artigos, 2002; Pense
S.A., acerca de planejamento estratégico e melhoria
organizacional, 2002; O grande portal, seleta de arti-
gos e ensaios, 2003; Direito eleitoral – Eleições 2004,
2004; A arte de advogar, 2004; Viver é resistir, 2005;
Território da palavra, 2006; Organizador da coletânea
Pernambuco, terra da poesia (em colaboração com Cláu-
dia Cordeiro), 2007; Panorâmica do conto em Pernam-
buco (em colaboração com Cyl Gallindo), 2007; Portal
de sonhos, poesias, 2008; [Em]Canto – A voz do poema
– leitura de Antônio Campos, poesia CD; Clarice Lis-
pector: uma geografia fundadora. Palestra proferida
na APL, quando da comemoração do Dia Internacio-
nal da Mulher, 25.03.2010, 2010; A reinvenção do livro,
conferência proferida na UBE-PE, em comemoração
do Dia Internacional do Livro, 23.04.2010, 2010;
Diálogos culturais no mundo pós-moderno, realizado em

390
Estocolmo, em março de 2010, 2010; Carpe Diem: diá­
logos contemporâneos, 2010.

ANTÔNIO Leite FALCÃO, (“Os olhos sem nexo e ver-


des do mar”), nasceu em Belo Jardim/PE (15.7.1941).
É filho de Ida Leite Falcão e de Flávio Marinho Fal-
cão. Entre 1946 e 1949, morou com a família em Ri-
beirão, Zona da Mata do Estado. Seu pai era coletor
de impostos do governo estadual. De 1949 a 1955,
viveu em Caruaru. De 1956 a 1964, morou no Reci-
fe e concluiu o curso secundário. Por suas convicções
políticas e participação no governo popular de Ar-
raes, foi preso em 1964 e, uma vez solto, viajou para
São Paulo, onde aprendeu a trabalhar na empresa
privada. Foi escriturário, vendedor, revisor de textos,
gerente de empresa, jornalista e freelancer no Círculo
do Livro, da Ed. Abril. Em 1968, ingressou nos cursos
de ciências sociais, da USP, e de direito, da PUC. Ain-
da aguentou duas cadeias, ambas, de curta duração.
Viajou para a Europa, estudou planejamento e análi-
se regional e desenvolvimento urbano. Passou alguns
anos em Paris, Londres e Roma. No final de 1977,
voltou ao Brasil. No Recife, trabalhou num mestrado
universitário, foi técnico numa empresa de desenvol-
vimento empresarial, traduziu e escreveu vários pro-
jetos, tendo ainda colaborado com administrações
democráticas do Recife e do governo do Estado. Em
1985, criou uma microempresa de confecções, que
lhe rendeu dinheiro por alguns anos. Presta consul-
toria gerencial e econômica a uma porção de clientes
daqui e do exterior. Publica com regularidade crôni-
cas, contos e artigos em jornais nordestinos, em sites
nacionais e do exterior.
Bibliografia: Romeiros do absurdo – crônicas, ensaios,
contos e novela, 1991; Mil, novecentos e nós – 50 crôni-
cas selecionadas, 1995; O tango das meretrizes, crônicas
e ensaios, 1997; Um sonho em carne e osso – os 32 fora

391
de série do futebol brasileiro, 2002; e Os artistas do
futebol brasileiro – 50 minibiografias, 2006.

ANTÔNIO MARIA de Araújo Morais, (“O exercí-


cio de piano”), nasceu no Recife/PE (17.03.1921) e
faleceu no Rio de Janeiro/RJ (15.10.1964). Cronista
e compositor, locutor esportivo e radialista. No Re-
cife, iniciou sua carreira na PRA-8, Rádio Clube de
Pernambuco. Convidado por Assis Chateaubriand,
dos Diários Associados, aceitou dirigir a Rádio Clu-
be do Ceará e, já casado com a pernambucana Maria
Gonçalves Ferreira, sua primeira mulher, seguiu para
Fortaleza. Posteriormente, mudou-se para Salvador,
convidado para a direção das Emissoras Associadas
da Bahia. Antônio Maria permaneceu no Nordeste
até 1948 quando, mais uma vez, embarcou para o Rio
de Janeiro. Diretor do departamento de produção da
Rádio Tupi e já assinando uma coluna n’O Jornal, An-
tônio Maria torna-se, a 20 de janeiro de 1951, o di-
retor da primeira emissora de televisão instalada no
Brasil, a TV Tupi do Rio de Janeiro. Começa, a partir
desse mesmo ano, 1951, a compor várias canções em
parceria com Fernando Lobo, Vinicius de Moraes, Is-
mael Neto, entre outros. Teve canções interpretadas
por Dolores Duran, Luiz Bonfá e Nora Ney. Como
cronista, atuou em vários jornais e revistas, entre os
quais Diário Carioca, O Globo, Manchete e Última Hora.
Bibliografia: O Jornal de Antônio Maria, crônicas,
1968; Com vocês, Antônio Maria, crônicas, 1994;
Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Ma-
ria, 2002; O diário de Antônio Maria, 2002.

ARIADNE QUINTELLA, (“Boa tarde”), é jornalista,


formada pela Universidade Católica de Pernambuco.
Recentemente, concluiu o curso de pós-graduação em
Literatura e Arte, pela Universidade Salgado Filho
(Universo). Começou sua vida profissional no Movi-

392
mento de Cultura Popular, na mesma época em que
iniciou os estudos universitários, tendo sido professo-
ra de alfabetização de adolescentes no Grupo Escolar
Vasco da Gama. Depois de concursada, ensinou na
Escola Mínima do Alto da Favela e no Grupo Escolar
José Vilela. Também foi servidora da antiga Superin-
tendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe).
Depois de ter feito estágios no Diario de Pernambuco e
trabalhado como freelancer para vários veículos de co-
municação, como as revistas Veja e Realidade, jornais
da Semana e da Cidade, ingressou no Diario da Noite,
ainda como estagiária por um ano, onde fez carreira,
de repórter à editora e colunista por bastante tempo,
ali assinando a coluna diária “Boa Tarde”, antes assi-
nada por Silvino Lopes e depois por Andrade Lima;
migrou para o Jornal do Commercio, da mesma empre-
sa, onde ocupou várias funções, inclusive de redatora,
assinando por um bom período uma coluna femini-
na com seu nome e, posteriormente, duas páginas de
Turismo. Foram mais de trinta anos de Redação.
É sócia fundadora da Associação Brasileira de Jor-
nalistas de Turismo (Abrajet-PE), membro da União
Brasileira de Escritores (UBE-PE), detentora da Me-
dalha do Mérito da OAB de Pernambuco e do Troféu
da Imprensa conferido pela AIP em 1997; tem seu
nome nos anais da Assembleia Legislativa do Estado
e na Câmara Municipal do Recife por matérias publi-
cadas. Tem crônicas e artigos publicados em mais de
dez antologias, incluindo uma sobre o Recife, editada
pelo jornalista Ronildo Maia Leite. Foi chefe da As-
sessoria de Imprensa da Fundação Joaquim Nabuco
por um largo período de tempo. Atuou como advoga-
da na antiga Assistência Judiciária do Estado. É apo-
sentada como defensora pública.
Atualmente, trabalha como revisora das obras edita-
das pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE),
e considera a experiência fascinante.

393
ARIANO Vilar SUASSUNA, (“Homero existiu?”),
nasceu na Paraíba (hoje João Pessoa), capital da Pa-
raíba (16.06.1927). Passou a infância e parte da ado-
lescência no sertão paraibano, na cidade de Taperoá.
Mudou para o Recife em 1942, onde vive até hoje.
Poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta de reno-
me nacional e internacional, é membro da Academia
Brasileira de Letras, além de pertencer às academias
dos estados da Paraíba e de Pernambuco. Participou
do Teatro do Estudante de Pernambuco, com Hermi-
lo Borba Filho e, com ele, fundou o Teatro Popular do
Nordeste. Sua obra teatral, difundida em vários paí-
ses, é considerada um marco da dramaturgia moder-
na brasileira. É autor de um dos maiores romances
brasileiros, o Romance d’A pedra do reino, cuja primeira
edição data de 1971. Foi professor da Universidade
Federal de Pernambuco, de 1956 até aposentar-se,
em 1989. Idealizador do Movimento Armorial, lan-
çado oficialmente em 1970, ocupou cargos de rele-
vância na área da cultura, tanto no âmbito da prefei-
tura do Recife quanto no do governo do Estado de
Pernambuco. Ao longo de mais de 60 anos de vida
literária, colaborou com diversos jornais e revistas do
país, publicando artigos, ensaios e crônicas.
Bibliografia: Auto da Compadecida, 1955; O santo e a
porca, 1957; O casamento suspeitoso, 1957; A pena e a lei,
1959; Farsa da boa preguiça, 1960; Romance d’A pedra
do reino, 1971.

ARNAUD Soares MATTOSO, (“O leão adormecido


acordou com um tapa”), nasceu no Recife/PE, com
origens paternas no distrito de Nossa Senhora do Ó,
município de Ipojuca. Jornalista, escritor e composi-
tor. Agora, dedica-se a escrever contos e romances.
Bibliografia: Publicou uma trilogia poética composta
dos livros: Porto das Galinhas d’Angola; Cheiro cola, sim
senhor; e Madrigal da solidão.

394
ARTHUR Eduardo de Oliveira CARVALHO, (“Retra-
to na parede”), nascido em Salvador/BA (25.12.1935).
Filho de Carlos Koch de Carvalho e de Amália Maria
de Oliveira Carvalho. Advogado e jornalista. Colabo-
rador da Imprensa Pernambucana desde 1956. Entre
1956 e 1973, escreveu contos e ensaios literários para
os Suplementos Literários do Diario de Pernambuco e
do Jornal do Commercio. A partir de 1973, colaborou
com crônicas e artigos nas páginas de opinião dos jor-
nais Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio e Diá­rio
da Noite. Na página Opinião do Diario de Pernambuco,
colaborou durante 21 anos ininterruptamente todas
as semanas, de 1973 a 1994. Atual articulista do Jor-
nal do Commercio (artigo semanal), desde 1994. Co-
laborador da Revista Nordeste (literatura), na década
de 1950-1960. Colaborador do Suplemento Cultural
do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Ex-pre-
sidente da Associação da Imprensa de Pernambuco
(AIP), eleito no dia 15 de março de 1999, até o ano de
2004. Membro das seguintes academias, associações
e instituições: Academia Pernambucana de Letras Ju-
rídicas; Academia Olindense de Letras; Academia de
Artes e Letras de Pernambuco; Academia Recifense
de Letras; Federação Internacional dos Jornalistas e
Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), da
qual é membro fundador.
Bibliografia: Um reencontro inesperado, crônicas, 1977;
Saca-trapo, crônicas, 2ª edição, 1996; Barbosa Lima Sobri-
nho: monumento vivo, ensaio biográfico, 1997; Escritas
atemporais, coautor, 2003; Lua branca, crônicas, 2004.

CARLOS Severiano CAVALCANTI, (“No galope da


cardã), nasceu em Campina Grande/PB (31.07.1936).
Radicado no Recife há 45 anos. Bacharel em Relações
Públicas e Comunicação Social pela Escola Superior
de Relações Públicas de Pernambuco (Esurp). Poeta,
declamador, palestrante, contista. Integra instituições

395
culturais como: Instituto Histórico de Olinda; Socie-
dade dos Poetas Vivos de Olinda; Academia de Artes,
Letras e Ciências de Olinda (presidente); Academia
Olindense de Letras; Academia Recifense de Letras;
Alane, Sobrames, União Brasileira de Trovadores
(UBT) e UBE-PE. Participa das seguintes coletâne-
as de poesias e contos: Poetas vivos de Olinda; Letras
e Artes da Alane. Colabora com as revistas: Oficina de
Letras, da Sobrames, e Revista Letras e Artes, da Alane,
e tem poemas publicados em Francachela, Revista In-
ternacional de Literatura e Arte, dirigida por José E.
Kameniecki, Buenos Aires, Argentina.
Bibliografia: Caminhos da vida, 1997; Prêmio De Lyra
e César, de poesias, da Academia Pernambucana de
Letras, 2000; Reflexos de terra e sol, 2001; Sertanidade,
2004; Menção Honrosa da Academia Pernambucana
de Letras, ano 2006, e Tema de Mestrado em Língua
Portuguesa: O popular e o erudito na poesia brasileira na
UFPE; nome de mesa na Festa Literária de Paraty,
RJ, 2007. Sertanidade foi também editado em lingua-
gem Braille pelo Instituto São Manoel para estudan-
tes invisuais da cidade do Porto, Portugal, 2010. Seus
poemas foram gravados em DVD, com ilustrações
elaboradas por estudantes das Escolas Rodrigues de
Freitas, Porto, e Diogo Bernardes, de Ponta da Barca,
ambas ao Norte de Portugal. Técnicas de metrificação
poética, 2007, em parceria com Salete Rêgo Barros e
Terezinha Acioli; Na ponta da língua: guia do escritor,
2008; A gênese do tempo, poesias, Menção Honrosa do
Prêmio Edmir Domingues, da APL; Histórias sertane-
jas, contos, 2009; Tresafio: motes e glosas, em parceria
com Paulo Camelo e Rosa Lia Dinelli; Trovalizando a
redondilha, trovas; e Retrospectivas, crônicas, inéditos.
Carlos Cavalcanti, Telma Brilhante e Lourdes Nicácio
e Silva organizaram a antologia Paisagem da memória,
com trabalhos de 73 autores, lançada recentemente
no Recife pela Novo Horizonte.

396
CARLOS NEWTON de Souza Lima JÚNIOR, (“Pro-
curado”), nasceu no Recife/PE (07.09.1966). Professor
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é
formado em Arquitetura e em História, com mestra-
do e doutorado em Literatura. Sua poesia se encontra
publicada em antologias no Brasil, na Espanha (Ga-
lícia) e em Portugal. Organizou os poemas de Aria-
no Suassuna, para a editora universitária da UFPE
(Poemas, 1999), os ensaios do mesmo autor, para a
editora José Olympio (Almanaque Armorial, 2008), a
poesia reunida de Paulo de Tarso Correia de Melo,
para a editora universitária da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte (Talhe rupestre, 2008) e o ál-
bum iconográfico Portal da Memória, 2005, publicado
pelo Senado Federal por ocasião do cinquentenário
da UFRN, instituição na qual lecionou durante dezes-
sete anos. Em 2009, publicou O cangaço na poesia bra-
sileira, reunindo a produção de poetas eruditos sobre
o tema. Possui artigos, contos e crônicas publicados
em diversos jornais e revistas de circulação nacional.
Bibliografia: No campo do ensaio, publicou, entre ou-
tros, A Ilha Baratária e a Ilha Brasil, 1996; O pai, o exílio
e o reino: a poesia armorial de Ariano Suassuna, 1999;
e O quinto naipe do baralho, 2002. No campo da pro-
sa de ficção, publicou Honorato, o bom-deveras, 1998;
e Vida de Quaderna e Simão 2003. Estreou na poe­sia
em 1993, com O homem só e outros poemas, publicando
ainda Canudos: poema dos quinhentos, 1999; Nóstos,
2002; Poeta em Londres, 2005; e De mãos dadas aos ca-
boclos, 2008.

CARLOS Souto PENA FILHO, (“Lembrança do


mundo antigo”), nasceu no Recife/PE (17.05.1929) e
faleceu na mesma cidade (01.07.1960). Descendente
próximo de portugueses, aos quatro anos de idade foi
morar na casa de familiares em Portugal. Em 1941,
retornou ao Recife, onde frequentou o curso secundá-

397
rio no Colégio Nóbrega, e em seguida passou a estu-
dar Direito. Seu primeiro trabalho como poeta, o so-
neto “Marinha”, foi publicado em 1947 pelo Diario de
Pernambuco. Bacharelou-se em Direito em 1957. Foi,
também, compositor, em parceria com Capiba, com
quem compôs as canções A mesma rosa amarela, Claro
amor, Pobre canção e Manhã de tecelã, todas gravadas
em 1960, sob o título Sambas de Capiba. Na imprensa
do Recife, atuou como repórter político, mas, segun-
do seus contemporâneos, não tinha a menor vocação
para o jornalismo, sua paixão era mesmo a poesia.
Com o Livro geral, conquistou, em 1959, o Prêmio de
Poesia do Instituto Nacional do Livro. A 26 de junho
de 1960, o Jornal do Commercio, do Recife, publicou o
seu último trabalho, o poema Soneto oco.
Bibliografia: O tempo da busca, Recife: Região, 1952;
Memórias do boi Serapião, 1955; A vertigem lúcida, 1958;
Livro geral, 1959; Livro geral, 1969; Livro geral, 1973;
Livro geral (formato álbum, edição de luxo), 1977; Os
melhores poemas de Carlos Pena Filho. Seleção de Edil-
berto Coutinho, 1983; 2. ed., 1986.

CÁSSIO CAVALCANTE, (“Presente de grego”), nas-


cido em Fortaleza/CE. Administrador. Casado, radi-
cado no Recife há mais de 15 anos. Secretário-geral
da União Brasileira de Escritores – Seção Pernambu-
co (UBE-PE), membro efetivo da Academia Recifen-
se de Letras e Relator da Comissão Deliberativa do
Funcultura. Colunista do jornal Gazeta Nossa com a
coluna “Bate-papo literal”. Seu início na literatura se
deu em 2004, como contista, quando participou com
o conto “O sorriso de Lígia”, da antologia Contos de
Oficina, organizada pelo escritor Raimundo Carrero.
Tem mais de 20 contos publicados em livros, revistas,
jornais e internet. Em 2009, coordenou o programa
literário da UBE-PE: “A ficção em Pernambuco”, na
livraria Saraiva. Coordena o programa da mesma en-

398
tidade literária, “Cultura e Arte em Pernambuco”, na
livraria Cultura.
Bibliografia: Os mistérios de cada um, 2007; e Nara Leão,
a musa dos trópicos, 2009.

CELSO MARCONI, (“As três vezes que vi Che”), nas-


ceu em Pernambuco (23.08.1930). Jornalista e cineas-
ta. Sua relação com o cinema vem desde os anos 1940.
Na década de 1950, estudou na Faculdade de Filosofia
da UFPE, quando começou a escrever sobre filmes nos
jornais Folha da Manhã e Folha do Povo. Sua vida pro-
fissional no jornalismo começou na década de 1960,
como repórter no Diario de Pernambuco. Foi colunista
diário da Última Hora em 1963-1964. No Jornal do Com-
mercio, trabalhou de 1966 a 1989. Lecionou na década
de 1990 na Universidade Católica de Pernambuco.
Bibliografia: Obra jornalística de Celso Marconi, 2000;
Super 8 e outros: cinema brasileiro, 2002. Em breve,
será lançado o DVD duplo O cinema de Celso Marconi.

CELSO RODRIGUES da Silva, (“O espelho como tes-


temunha”), nasceu em Caruaru/PE (28.07.1929). Aos
11 anos de idade, começa a trabalhar nas oficinas do
jornal Vanguarda. Posteriormente, emprega-se no Jor-
nal de Caruaru. Funda e edita a Revista do Agreste. Cria,
em Campina Grande, PB, o semanário O Momento;
diretor do Treze Futebol Clube; presidente do Espor-
te Clube Campinense; gerente da Rádio Difusora de
Garanhuns; implanta a Rádio Cultura do Nordeste.
Entre 1954 e 1962, assume a presidência da Câmara
dos Vereadores de Caruaru. Candidata-se a prefeito
de Caruaru em 1963. Foi um dos fundadores do Mo-
vimento Democrático Brasileiro (MDB). Redator do
Jornal Pequeno, no Recife, e editor geral do Jornal do
Commercio. Mais recentemente, foi membro do Con-
selho de Direitos Humanos da Associação de Impren-
sa de Pernambuco (AIP).

399
Bibliografia: Amo teu amor, Juliana: homens, mulheres,
fatos e ideias do meu tempo, crônicas, ensaios, poe-
sias, biografias, homenagens, 2006.

CICERO BELMAR, (“A chuva”), pernambucano, é


escritor e jornalista. Já ganhou duas vezes o Prêmio
Literário Lucilo Varejão, da Prefeitura do Recife, nos
anos de 2000 e 2005, pelos romances Umbilina e sua
grande rival e Rossellini amou a pensão de dona Bombom.
Este último também recebeu o Prêmio de Ficção da
Academia Pernambucana de Letras, em 2005. Além
de romancista, ele é autor de outros livros de con-
tos e biografias, além de peças teatrais infantis, como
a Floresta encantada, Coração de mel, Meu reino por um
drama e A flor e o sol. Esta última foi premiada pela As-
sociação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernam-
buco (Apacepe), quando montada pela primeira vez
em 1999. Como jornalista, Cícero Belmar já exerceu
várias funções e assumiu diversos cargos na Imprensa
pernambucana. Foi editor executivo por 12 anos do
Jornal do Commercio e também trabalhou na TV Tri-
buna (Recife), na TV Manchete (Sucursal Recife), no
Diario de Pernambuco, na Agência de Publicidade Gru-
ponove e no Jornal do Brasil (Sucursal Recife). Rece-
beu duas vezes o Prêmio Cristina Tavares de Reporta-
gem, em 1993 e em 1995. Foi indicado para o Prêmio
Esso de Reportagem Regional – Nordeste.

CLARICE LISPECTOR, (“As grandes punições”), nas-


ceu em Tchetchelnik/Ucrânia, faleceu no Rio de Ja-
neiro/RJ (10.12.1925-09.12.1977). Estreou em 1944,
com o romance Perto do coração selvagem. Chegou ao
Recife ainda de berço, com a emigração de seus pais.
Cursou o Grupo Escolar João Barbalho e, em segui-
da, o Ginásio Pernambucano. A família transferiu-se
para o Rio de Janeiro em 1934, onde continuou os
estudos, até chegar à Faculdade de Direito. Casou-se

400
com o colega de turma e diplomata Mauri Gurgel Va-
lente, e passou a residir no exterior por muitos anos,
em lugares como Berna, Suíça e nos Estados Unidos,
até voltar para o Brasil e se fixar no Rio de Janeiro.
O Recife é sempre lembrado em sua obra, pelo fato
de ter vivido parte da infância na cidade e de ter ab-
sorvido a poesia de lugares, festas, pessoas e ritos da
capital pernambucana.
Bibliografia: Perto do coração selvagem, rom., 1944; O
lustre, rom., 1946; A cidade sitiada, rom., 1949; Alguns
contos, 1953; Laços de família, contos, 1960; A maçã no
escuro, rom., 1961; A legião estrangeira, contos e crôni-
cas, 1964; A paixão segundo G. H., rom., 1964; A mulher
que matou os peixes, 1968; Uma aprendizagem ou O livro
dos prazeres, rom., 1969; Felicidade clandestina, contos,
1971; A imitação da rosa, contos, 1973; Água viva, pro-
sa, 1973; Lazos de família, contos, 1973; A via-crúcis
do corpo, contos, 1974; Onde estiveste de noite?, contos,
1974; De corpo inteiro, entrevista, 1975; Visão do esplen-
dor, crônicas, 1975; Seleta, contos, rom., 1975; Contos
escolhidos, 1976; A hora da estrela, rom., 1977; Para não
esquecer, crônicas póstumas, 1978; Um sopro de vida,
prosa póstuma, 1978; A bela e a fera, contos póstumos,
1979; A descoberta do mundo, crônicas, 1984.

CRISTIANO RAMOS, (“Saramago, José, literatura”),


pernambucano de Bonito, é jornalista e crítico literá-
rio. Publicou textos nas revistas Cult e Continente, no
Jornal do Commercio, no Diario de Pernambuco, n’O Esta-
do de S. Paulo e no Rascunho. Entre 1999 e 2009, mili-
tou no jornalismo público e educativo, primeiro como
produtor e coordenador de programação da Rádio
Universitária AM e apresentador da Universitária FM,
depois como apresentador do Opinião Pernambuco,
espaço de entrevistas e Debates da TVU (Canal 11/
PE). Neste televisivo, a partir de 2004, acumulou tam-
bém a direção, e criou o segmento Sexta Cultural, que

401
contou com a presença de convidados e dos comenta-
ristas fixos Rubem Rocha Filho, Raimundo Carrero,
Jomard Muniz de Britto, Nelly Carvalho, Fernando
Monteiro, Anco Márcio Tenório Vieira, entre outros.
Atualmente, desenvolve pesquisa na pós-graduação
de Letras da UFPE, com estudo comparado sobre o
romance e o chamado livro-reportagem. Está também
como curador do Laboratório de Crítica e Literatura.

CYL GALLINDO (Cícero Amorim G.), (“50 Anos de


Brasília”), nasceu em Buíque/PE (28.05.1935). Di-
plomado em Ciências Sociais pela UFPE. É escritor,
poeta, jornalista e conferencista. Trabalhou na Asses-
soria de Comunicação do Senado Federal e de outras
repartições públicas. Foi repórter, redator, editor e
colunista de jornais de Pernambuco, Brasília e Mato
Grosso, além de correspondente do Jornal de Letras,
RJ. Produziu e apresentou o programa Síntese na TV
Universitária, Recife, e colaborou com o jornal Gazeta
do Povo, Paraná. É membro da Academia Pernambu-
cana de Letras e da Academia de Letras do Brasil, do
Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal,
da Associação Nacional dos Escritores, Brasília, DF,
e da União Brasileira de Escritores/PE. Foi membro
(fundador) do Conselho Municipal de Cultura do
Recife. Teve e tem amizade com grandes nomes da
Literatura Brasileira, como Manuel Bandeira, Carlos
Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Gil-
berto Freyre, Mauro Mota, Nélida Piñon, Anderson
Braga Horta, José Santiago Naud e muitos outros.
Atualmente, representa no Brasil a Francachela, Re-
vista Internacional de Literatura e Arte, editada na
Argentina. É diretor da Coleção Integração Cultural
Latino-Americana (CICLA) destinada à tradução e
publicação de obra de autores brasileiros contempo-
râneos, na Argentina, e faz parte do Conselho Edi-
torial da revista Encontro, do Gabinete Português de

402
Leitura/PE. A 18.11.2004 recebeu o título de Cidadão
do Recife e a Medalha José Mariano, concedidos pela
Câmara Municipal do Recife, sob proposta do verea-
dor Paulo Dantas.
Bibliografia: Agenda poética do Recife: antologia dos no-
víssimos, prefácio de Joaquim Cardozo, 1968; A conser-
vação do grito-gesto, poesia, 1971, Prêmio de Poesias da
APL; As galinhas do coronel, contos, 1974; Prêmio Re-
vista Equipe, Recife; O urbanismo na literatura: contis-
tas de Pernambuco, antologia, 1976; Um morto coberto
de razão, contos, 1985. Prêmio de Ficção da APL; Con-
tos de Pernambuco, antologia, org. Cyl Gallindo, 1988;
Livro para minha idade / O menino e o peixe, infanto-juve-
nil, em parceria com sua filha Guajassy 1989; Quanto
pesa a alma de um homem – Quanto pesa a alma de uma
mulher, contos, 1994; Os movimentos, poesia, 1996; 20
Poemas escolhidos – Por Waldemar Lopes, 1999; Cadeira
de Dinah, Discurso de posse na Academia de Letras
do Brasil, 1999; Em defesa da língua portuguesa, ensaio,
2000; Milagre no jardim da casa-grande, conto, 2003;
De como descobri que não existo, contos, 2007, traduzido
para o espanhol por Jorge Ariel Madrazo, 2007.

ESTHER STERENBERG, (“Caco de vidro”), nasceu


em João Pessoa/PB (20.02.1936). É psicóloga, poetisa,
professora e escritora. Faz parte das Academias Reci-
fense de Letras e Irajaense de Letras, RJ, da União
Brasileira de Escritores, seção de Pernambuco, do Ins-
tituto Internacional de Poesia de Porto Alegre e do
Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisa Literária de
Brasília, DF. Tem textos em diversas antologias, coletâ-
neas e enciclopédias nos planos local e internacional e
vem conquistando prêmios e condecorações literárias.
Bibliografia: Desabrochar de emoções, poemas, 1989;
Retalho de fantasias, poemas, 1990; Eis aí... aconteceu,
crônicas, 1993; Re-buscando, poemas, 1997; Pingos
d’alma, poemas, 1999; Reflexões de outono, poemas,

403
2001; Ainda sei atirar flores, poemas, 2004; Versos diver-
sos... um voo na amplidão, poemas, 2007; Décimo segun-
do, poemas, 2009;

EVERARDO NORÕES (José EVERARDO Arraes de


Alencar NORÕES), (“Um certo padre Gomes”), nas-
ceu no Crato/CE. Publicou os livros Poemas argelinos,
1981; Poemas (Prêmios Literários Cidade do Recife),
2000; Nas entrelinhas do mundo, 2002; A Rua do Padre
Inglês, 2006; Retábulo de Jerônimo Bosch, 2008; Poeiras
na réstia, 2010; e é coautor do texto das peças Auto
das portas do céu e Nascimento da bandeira. Escreve ar-
tigos e crônicas para diversos jornais e revistas e teve
seus poemas traduzidos para várias línguas, dentre as
quais francês, espanhol e italiano.

Maria de FÁTIMA de Andrade QUINTAS, (“Um


cheiro, por favor”), nasceu no Recife/PE. Diplomou-
se em Ciências Sociais pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), tendo sido pesquisadora da
Fundação Joaquim Nabuco durante 37 anos. Realizou
cursos de pós-graduação em Antropologia Cultural e
Museologia no Instituto de Ciências Sociais e Política
Ultramarina e no Museu das Janelas Verdes, respec-
tivamente. Nos dias atuais é Coordenadora do Insti-
tuto de Tropicologia da Fundação Gilberto Freyre, ar-
ticulista semanal do Jornal do Commercio (desde 1987)
e professora universitária. Publicou diversas obras de
Antropologia e vem se dedicando à Literatura com
ênfase na linguagem intimista – contista e romancis-
ta. É membro da União Brasileira de Escritores (UBE-
PE), da Academia Recifense de Letras e da Academia
Pernambucana de Letras (APL).
Bibliografia: Sexo e marginalidade: estudo sobre a sexua­
lidade feminina em camadas de baixa renda, 1987; O
cotidiano em Gilberto Freyre, org. 1992; Mulher negra:
preconceito, sexualidade e imaginário, org. 1995; O

404
negro: identidade e cidadania, org. 1995; Manifesto re-
gionalista, Gilberto Freyre, org. 1996; De névoas e bru-
mas, 1999; A obra em tempos vários, org. 1999; A mulher
e a família no final do século XX, 2000; Novo mundo nos
trópicos, org. 2001; Frevo no pé, 2001; Prece confessional,
2002; Segredos da velha arca, 2003; Evocações e interpre-
tações de Gilberto Freyre, org. 2004; O silêncio das horas,
2004; Oficina literária Clarice Lispector, org. 2005; As
melhores frases de Casa-grande & senzala: a obra-prima
de Gilberto Freyre, 2005. Opúsculos: Educação sexu-
al: um olhar adiante, 1992; Discurso de posse para a
Academia Pernambucana de Letras, 2003; A ilustre casa
dos fantasmas, rom., 2007, e mais dezenas de artigos
publicados no Jornal do Commercio.

FERNANDO Antônio de Barros MONTEIRO, (“Gre-


ta Garbo, quem diria, acabou de se sentar...”), nasceu
no Recife/PE (20.05.1949). Diplomado em Ciências
Sociais. Estudou Comunicação em Roma, Itália. Poe­
ta, escritor, cineasta e crítico de arte. Como autor de
curtas-metragens culturais, representou o Brasil em
inúmeros festivais internacionais (Guadalajara, Ber-
lim, Varsóvia etc.) e, como romancista, lançou-se em
Portugal, com o premiado Aspades, ETs Etc, 1997,
prosseguindo com obras de ficção no gênero do ro-
mance e do conto. Recentemente retornou ao verso
através de Vi uma foto de Anna Akhmátova, 2009 – um
poema longo com impacto nacional e repercussão
crítica imediata.
Bibliografia: Memória do mar sublevado, poema lon-
go, 1973; O rei póstumo, teatro, 1974. Prêmio Othon
Bezerra de Mello da Academia Pernambucana de
Letras; Leilão sem Pena, poema e roteiro cinemato-
gráfico, 1980. Prêmio de Melhor Roteiro no Festival
Nacional de Cinema de Aracaju; Ecométrica, poesia,
1983. Prêmio Nacional de Poesia UBE-Rio; Hiléiade,
poema longo; A interrogação dos dias, poesia, Edições

405
1984; Akhenaton: ascese & revolução, ensaio; e Bren-
nand, ensaio, 1987. Prêmio Funarte de Melhor Livro
de Arte brasileiro; Aspades, Ets Etc, rom., 1997; A ca-
beça no fundo do entulho, rom., 1999. Prêmio Revista
Bravo! de Literatura; T. E. Lawrence: morte num ano
de sombra, ensaio, 2000; A múmia do rosto dourado do
Rio de Janeiro, rom., 2001; O grau Graumann, rom.,
2002. Primeiro volume da Trilogia Graumann; Arma-
da América, contos, 2003; Finalista do Prêmio Portu-
gal Telecom de Literatura, 2004; As confissões de Lúcio,
rom., 2006; Segundo volume da Trilogia Graumann;
O nome de um hamster, infanto-juvenil, 2008. Vi uma
foto de Anna Akhmátova, 2009.

FERNANDO PORTELA, (“Mambo-Jambo deve mor-


rer”), nasceu em Olinda/PE. Estreou na imprensa
como contista e poeta no suplemento literário do Jor-
nal do Commercio, do Recife, no início dos anos 1960.
Aluno do Curso de Psicologia da Universidade Cató-
lica de Pernambuco, jamais seguiu a carreira. Aos 13
anos, começou a escrever ficção, sempre contos. Aos
15, entrou numa redação de jornal pela primeira vez,
como estagiário do Diário da Noite, do Recife; aos 20
anos, foi redator na sucursal nordestina da então Nor-
ton Publicidade. Em São Paulo desde 1965, trabalhou
para inúmeras publicações nacionais, como a mítica
revista Realidade, mas fez carreira no Jornal da Tarde,
do Grupo Estado, de que foi um dos fundadores; ocu-
pou os cargos de repórter, redator, pauteiro, chefe de
reportagem, editor-geral e repórter especial. E, mais
recentemente, diretor de projetos especiais. Fernan-
do Portela também trabalhou como responsável pela
imagem corporativa da Fiat do Brasil, representante
da holding italiana no País. Dirigiu a comunicação do
grupo, de 1989 a 1998. Em abril de 1998, Fernando
Portela voltou ao Jornal da Tarde, como diretor de pro-
jetos especiais. O trabalho de Fernando Portela, en-

406
tre outros profissionais do antigo Jornal da Tarde, tem
sido estudado em cursos de jornalismo pelo País; seu
nome costuma ser associado ao tratamento do texto
(o chamado new journalism) e à reportagem especial.
Sempre escrevendo ficção, o autor mantém o blog
http://fernandoportela.wordpress.com/
Bibliografia: Guerra de guerrilhas no Brasil, reportagem
sobre o movimento guerrilheiro do Araguaia, depois
transformada em livro; Fronteiras, viagem ao Brasil des-
conhecido, com o jornalista Cláudio Bojunga; Além do
normal; Drogados da vida; Amei de paixão, 1999; Allegro,
contos, 2003; O homem dentro de um cão, 2007, segun-
do volume de uma trilogia iniciada com o Allegro. O
homem dentro de um cão foi um dos finalistas do Prêmio
Jabuti, na sua categoria. Em 2008, fechou a trilogia
com o livro Memórias embriagadas.

FLÁVIO Ricardo CHAVES Gomes, (“Saudade ilumi-


nada”), nasceu em Carpina/PE (17.10.1958). Iniciou
na Literatura com o livro Digitais de um coração, poe-
sia, 1983. Idealizou e organizou, no Recife, a I Cami-
nhada Poética Brasileira, tendo continuidade com a
segunda e terceira edições. É membro das seguintes
academias: Pernambucana de Letras, Recifense de
Letras e da Maçônica de Letras. Pertence também à
Ordem dos Jornalistas do Brasil, à Sociedade de Mé-
dicos Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico
de Carpina. Na União Brasileira de Escritores (UBE-
PE), foi presidente, nos biênios 1995-1996, 1997-
1998, 1999-2000, reeleito para o biênio 2001-2002.
Bibliografia: Digitais de um coração, 1983; Ofício de exis-
tir, 1985; Vocabulário das sombras, 1990; Alvoroço do in-
visível, 1992; Aragem do subterrâneo, 1994; Território da
lembrança, 1999; todos de poesias. Tem inéditos Lua
azul, poesia, e Rosto no escuro, rom.

407
FRANCISCO de Paula Coimbra de Almeida BREN-
NAND, (“Um universo e uma escultura”), nasceu no
Recife/PE (11.6.1927). Ceramista, escultor, desenhis-
ta, pintor, tapeceiro, ilustrador, gravador. Inicia sua
formação em 1942, aprendendo a modelar com Abe-
lardo da Hora. Posteriormente, recebe orientação em
pintura de Álvaro Amorim e Murillo La Greca. No
fim dos anos 1940, pinta principalmente naturezas-
mortas, realizadas com grande simplificação formal.
Em 1947, recebe o primeiro prêmio de pintura do Sa-
lão de Arte do Museu de Pernambuco, com o quadro
de uma paisagem inspirada no Engenho São João.
Em 1949, viaja para a França, incentivado por Cícero
Dias. Frequenta cursos com André Lhote e Fernand
Léger em Paris, em 1951. Conhece obras de Pablo
Picasso e Joán Miró e descobre na cerâmica seu prin-
cipal meio de expressão. Em 1958, inaugura o mu-
ral do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no
Recife; e, entre 1961 e 1962, realiza uma das obras
mais significativas da sua carreira: Batalha dos Gua-
rarapes, para uma agência do Banco da Lavoura de
Minas Gerais, no Recife. O painel trata da expulsão
dos holandeses do Brasil. Em novembro de 1971, o
artista começou a reconstruir a velha Cerâmica São
João da Várzea, fundada pelo seu pai em 1917. Esse
conjunto, encontrado em ruínas, deu início a um co-
lossal projeto de esculturas cerâmicas que deveriam
povoar os espaços internos e externos do ambiente.
Hoje, após quase 40 anos de trabalho intenso e ob-
sessivo, confrontamo-nos com um complexo escultó-
rico, cujo significado dá relevo a um sentido cosmo-
gônico e, ao mesmo tempo, visionário de Francisco
Brennand. Em 1993, é realizada grande retrospectiva
de sua produção na Staatliche Kunsthalle, em Berlim.
É publicado o livro Brennand, pela editora Métron,
com texto de Olívio Tavares de Araújo, em 1997. Em
1998, é realizada a retrospectiva Brennand: escultu-

408
ras 1974-1998, na Pinacoteca do Estado (PESP), em
São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários
vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand:
oficina de mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão,
em 2000. Sua obra recebeu diversos prêmios, sendo
o mais importante deles o Prêmio Interamericano de
Cultura Gabriela Mistral, concedido pela Organiza-
ção dos Estados Americanos (OEA), Washington, Es-
tados Unidos, em 1993.

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO, (“A


lei de Corisco”), nasceu no Recife/PE. Possui forma-
ção em História e Direito, sendo Procurador Federal
[aposentado]. Na Fundação Joaquim Nabuco, inte-
grou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre, de 1972 a
1987, período em que se especializou, sob a orienta-
ção deste, no estudo da História Social da região Nor-
deste do Brasil, especialmente em seus aspectos de
conflito. Possui diversos prêmios literários, a exemplo
dos concedidos pela Academia Pernambucana de Le-
tras e pelo Governo do Estado de Pernambuco, atra-
vés da Fundarpe, além de distinções honoríficas civis
e militares, dentre as quais, a Medalha do Mérito da
Fundação Joaquim Nabuco, a Medalha do Pacificador
e a Ordem do Mérito Militar do Exército Brasileiro.
É membro dos Institutos Históricos de Pernambuco,
Alagoas e Rio Grande do Norte, do Instituto de Geo-
grafia e História Militar do Brasil, e da Academia de
História Militar Terrestre, tendo sido curador inter-
nacional da Fundação Bienal de São Paulo por cinco
anos, e presidente da União Brasileira de Escritores
– Seção Pernambuco. Na Academia Pernambucana de
Letras, ocupa a Cadeira nº 36 desde o ano de 1988.
Pela originalidade de seus estudos, pelo volume da
obra que produziu, e por se dedicar a aspectos de nos-
sa história considerados ásperos e de pesquisa difícil
ou penosa, tem sido considerado, sobretudo no meio

409
acadêmico paulista, o “historiador do Brasil profun-
do”, na palavra do professor Nelson Aguilar.
Bibliografia: Rota batida: escritos de lazer e de ofício,
1983; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nor-
deste do Brasil, 1985 [ora em 5ª edição pela Editora
A Girafa, de São Paulo, a partir de 2004]; Quem foi
Lampião, 1993 [ora em 3ª edição]; A guerra total de Ca-
nudos, 1997 [ora em 2ª edição pela Editora A Girafa,
de São Paulo, a partir de 2007]; Delmiro Gouveia: de-
senvolvimento com impulso de preservação ambien-
tal, 1998; Tragédia dos blindados: a Revolução de 30 no
Recife, 2007; Estrelas de couro: a estética do cangaço,
2010; conclui, também em livro, a biografia Benjamin
Abrahão: entre anjos e cangaceiros.

GENETON MORAES NETO, (“O dia em que o autor


de Morte e vida severina desabafou contra o exibicio-
nismo: “ninguém é tão interessante para falar de si
mesmo o tempo todo” (o que ele diria do festival nar-
cisista de hoje?)”), nasceu no Recife/PE (13.07.1956).
Pressentiu desde cedo que “não tinha a menor voca-
ção para exercer profissões realmente importantes”:
por esse motivo, aos treze anos, em 1970, já era um
praticante amador do jornalismo – em artigos que
tentavam clonar o estilo bombástico de David Nas-
ser, no suplemento infantil do Diario de Pernambuco.
Entre 1975 e 1980, trabalhou – primeiro, no Diario de
Pernambuco; depois, na sucursal Nordeste de O Estado
de S. Paulo – sempre como “repórter da geral”. Em
Paris, foi camareiro do Hotel Mônaco, motorista de
uma família rica e estudante de Cinema na Sorbonne.
De volta ao jornalismo, no Brasil, trabalhou na Rede
Globo Nordeste como editor e repórter. Entre idas e
vindas, trabalha na Rede Globo/Rio desde 1985. Foi
editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacio-
nal; correspondente da Globonews e do jornal O Globo
em Londres; repórter e editor-chefe do Fantástico por

410
duas vezes. Não troca por nada o exercício da repor-
tagem – “a única função realmente importante no
jornalismo”. Teve a chance de percorrer corredores
da morte em prisões de segurança máxima america-
nas, ruínas de campos de concentração na Alemanha,
além de entrevistar três astronautas que pisaram na
Lua, duas sobreviventes do naufrágio do Titanic, o
copiloto do avião que jogou a bomba atômica sobre
Hiroshima, o produtor de todos os discos dos Beatles,
o assassino do líder negro Martin Luther King, o pro-
motor britânico que comandou a condenação dos cri-
minosos nazistas no Tribunal de Nuremberg, o agen-
te secreto britânico que armou um atentado – frustra-
do – para matar Hitler, o golpista que engendrou o
célebre Assalto ao Trem Pagador inglês. Organizou,
em 2006, O livro das grandes reportagens: os bastido-
res de encontros com personagens inesquecíveis, em
2004; Joel Silveira: diário do último dinossauro. Tem
participação também nos livros Ciro Gomes no país dos
conflitos, 1994; e Grandes entrevistas do milênio, 2009.
Bibliografia: Caderno de confissões brasileiras – dez depoi-
mentos, palavra por palavra: Antônio Callado, Ariano
Suassuna, Caetano Veloso, Carlos Diegues, Fernanda
Montenegro, Ferreira Gullar, João Câmara, Joaquim
Cardozo, Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer e Fer-
nando Gabeira, 1983; Cartas ao planeta Brasil: entre-
vistas com Anthony Burgess, Arnaldo Jabor, Daniel
Cohn-Bendit, Francisco Julião, Gilberto Freyre, Gil-
berto Gil, Gregório Bezerra, Henfil, Dom Helder
Camara, João Cabral de Melo Neto, João Saldanha,
Luiz Gonzaga, Pete Best, Roberto Carlos, Caetano
Veloso, Ronald Edwards,1988; Hitler/Stalin: o pacto
maldito: tudo sobre o acordo que estarreceu o mun-
do e suas repercussões na Esquerda brasileira – em
parceria com Joel Silveira, 1990; Nitroglicerina pura
/ Documentos que passaram 50 anos escondidos em
Londres e Washington traçam um perfil devastador

411
da elite política brasileira – em parceria com Joel Sil-
veira, 1992; O dossiê Drummond: a última entrevista
do poeta..., 1994; edição revista e atualizada, 2007;
Dossiê Brasil, 1997; Dossiê 50: os onze jogadores re-
velam os segredos da maior tragédia do futebol bra-
sileiro, 2000; Dossiê Moscou: um repórter brasileiro
acompanha, em Moscou, o desfecho da mais fasci-
nante reviravolta política do século XX: o dia em que
começou a busca por uma nova utopia, 2004; Dossiê
Brasília: quatro ex-presidentes da República revelam
cenas dos bastidores do poder, 2005; Dossiê história:
um repórter encontra personagens e testemunhas de
grandes tragédias da história mundial: o 11 de se-
tembro, o atentado às Olimpíadas de Munique e o
pesadelo nazista. Capítulo extra: as lições do repórter
que derrubou um presidente, 2007; Dossiê Gabeira: o
filme que nunca foi feito, 2009.

GEÓRGIA ALVES, (“Recife inverno”), jornalista com


Especialização em Literatura Brasileira. Monografia
apresentada no curso de pós-graduação em Letras
da Universidade Federal de Pernambuco no ano de
2002, sobre o tema A felicidade em Clarice Lispector.
Premiada com o ensaio Sobre o amor, em Clarice Lispec-
tor, ParaAmarClarice, em 2007. Ainda não publicado.
Colunista da Revista Literária Interpoética. Coluna Da-
cordafelicidade. Cursos sobre a História do Cinema Do-
cumentário e Linguagem Cinematográfica. Diretora e
Roteirista do curta-metragem O triunfo. Inspirado no
primeiro conto de Clarice Lispector. Menção Honro-
sa Sindicine na Mostra Pernambuco do CinePE 2008;
1º Lugar ParaAmarClarice; 3º Lugar Mostra Compe-
titiva de Pernambuco. Também documentarista e au-
tora do blog: http://dacordafelicidade.blogspot.com/.
Outros textos publicados no Jornal de Ideias como: O
universo da literatura infantil; Trinta anos d’A hora da es-
trela; Os infantis de Clarice e Gratidão às palavras.

412
GERALDO José Marques PEREIRA, (“O Recife ilu-
minado e belo”), nasceu no Recife/PE (04.10.1944). É
médico e professor da Universidade Federal de Per-
nambuco (UFPE), de onde foi Reitor. Atualmente é
conselheiro do Conselho Estadual de Cultura. É presi-
dente da Academia Pernambucana de Medicina e per-
tence à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores; ao
Instituto Pernambucano de História da Medicina e à
Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Publicou
vários trabalhos científicos voltados para a Medicina
Tropical, numa abordagem da epidemiologia e da
ecologia, bem como numa perspectiva das ciências
sociais. Mantém um blog na internet, no qual publica
semanalmente crônicas de sua autoria <http://www.
blogdegeraldopereira.blogspot.com>. Colaborador
do Jornal do Commercio, do Recife, desde a década de
1980, publicando crônicas e artigos de opinião.
Bibliografia: Esquistossomose urbana: a propósito de
um foco; Aspectos econômicos e sociais da saúde e da nu-
trição em Pernambuco; A medida das saudades, crônicas;
Fragmentos de meu tempo, crônicas; Histórias pitorescas
de um reitor e o pitoresco de outras histórias; Bezerra Couti-
nho: um sábio pernambucano do século XX, 2010.

GILBERTO de Mello FREYRE, (“Do horrível mau


hábito de falar gritando”), nasceu no Recife/PE
(15.03.1900). Filho de Alfredo Freyre, educador, juiz
de Direito e catedrático de Economia Política na
Faculdade de Direito do Recife e de Dona Francis-
ca de Mello Freyre. Na capital pernambucana, fez o
curso primário, ministrado pelo professor inglês Mr.
Williams­, estudou francês com Madame Meunier, de-
senho com o pintor Telles Júnior e latim com seu pai.
O curso secundário foi feito no Colégio Americano
Gilreath, cuja pedagogia se baseava no incentivo à
leitura dos bons autores como base do conhecimento.
Nos Estados Unidos, tornou-se bacharel em Artes Li-

413
berais pela Universidade de Baylor (Waco, Texas). Na
Universidade de Colúmbia (Nova York), realizou es-
tudos pós-graduados de Ciências Políticas, Jurídicas e
Sociais, obtendo o grau de Mestre (M.A.) com a dis-
sertação Vida social no Brasil nos meados do século XIX.
Criador de um estilo literário em língua portuguesa,
talvez o mais notável, segundo alguns, desde Eça de
Queiroz. Fundador do Instituto Joaquim Nabuco de
Pesquisas Sociais, quando Deputado Federal pelo Es-
tado de Pernambuco, do Seminário de Tropicologia,
da Universidade Federal de Pernambuco. Considera-
do por alguns o fundador de uma ciência: Tropicolo-
gia, juntamente com uma Hispanotropicologia e uma
Lusotropicologia. Conhecido pelos seus conceitos de
tempo tríbio, morenidade e metarraça, e consagrado pela
Sorbonne como abridor de novos caminhos às Ciências
do Homem. Realizou uma vasta obra de interpretação
da cultura brasileira, muito especialmente no enten-
dimento das relações sociais nas regiões agrárias do
Brasil, nas quais o patriarcalismo rural e o paterna-
lismo senhorial são faces dominantes da realidade.
Além do estudo da própria identidade do Brasil e
do brasileiro, o conjunto da obra de Gilberto Freyre,
na sua vastidão e diversidade, retrata a terra, a vida,
as coisas, os animais, os fatos do cotidiano, a casa,
a moda. São dele, pioneiramente, os mais sérios e
aprofundados estudos sobre o Nordeste e o Trópico,
interessando-lhe, sobretudo, o homem situado nesses
espaços geográficos, considerando todas as circuns-
tâncias dessa localização e avaliando as consequências
daí decorrentes. Foi o escritor brasileiro que recebeu
as maiores distinções, o maior reconhecimento de
universidades e instituições brasileiras e estrangeiras.
Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelas Uni-
versidades de Colúmbia, Baylor, Oxford, Sorbonne­,
Munique, Salamanca e homenagens dos Estados
Unidos, da França, da Inglaterra, de Portugal, da

414
Espanha, entre outras. Foi distinguido com o título
de “Sir” Cavaleiro do Império Britânico pela Rainha
Elizabeth II da Inglaterra, recebeu o Prêmio Interna-
cional La Madoninna e o Prêmio Aspen pelo que há
de original, excepcional e de valor permanente em
sua obra. Foi eleito, por aclamação, Membro da Aca-
demia Pernambucana de Letras, ocupando a Cadeira
nº 23. Extremamente afeiçoado aos seus familiares, à
sua casa, aos seus livros, ao seu bairro, aos seus ami-
gos e a todo um mundo que foi construindo ao longo
dos seus 87 anos de vida, Gilberto Freyre passou a
maior parte da sua existência na casa conhecida como
Vivenda Santo Antônio de Apipucos, no Recife. Dali, da
colina de Apipucos, exerceu uma notável e renovado-
ra influência no campo das Ciências Humanas e na
evolução dessas ciências no Brasil.
Bibliografia: Casa-grande & senzala; Sobrados e mucam-
bos; Ordem e progresso; Nordeste; Sociologia; Novo mundo
nos trópicos; Aventura e rotina; Além do apenas moderno;
Tempo morto e outros tempos; Açúcar; entre muitos outros.

GLADSTONE VIEIRA BELO, (“Antônio Camelo: o


exercício democrático do jornalismo”), nasceu em
Bom Conselho/PE, residiu por dez anos em Gara-
nhuns, realizando nessa cidade as suas primeiras ex-
periências no campo da literatura. É vice-presidente
do Diario de Pernambuco, onde exerceu inicialmente as
funções de repórter e colunista literário, a partir de
1967. Antes dessa data ele já colaborava no seu Suple-
mento Literário, editado pelo poeta César Leal. Era
notado aí pelos seus textos de crítica literária. Com os
estímulos de César Leal, surge, nas páginas do Dia-
rio, um grupo de novíssimos escritores, base do que
Tadeu Rocha denominou de Geração 65. Gladstone
foi ativo integrante dessa Geração, convivendo com
Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo, Ângelo Mon-
teiro, Marco Polo Guimarães, Sérgio Moacir de Al-

415
buquerque, Laércio Vasconcelos, Raimundo Carrero,
Maximiano Campos, Marcus Prado, Tarcísio Meira
César, Arnaldo Tobias, Cláudio Aguiar, José Mário
Rodrigues, Marcus Accioly, José Carlos Targino, Al-
mir Castro Barros, entre outros jovens autores que
começavam a marcar presença na vida intelectual da
província. Alguns desses poetas e romancistas habitu-
almente frequentavam, para tertúlias, o extinto bar
Savoy, celebrizado por Carlos Pena Filho num poema
em que se refere, através de versos antológicos, ao ou-
trora concorrido botequim da Avenida Guararapes.
Publicou livro de poemas quando ainda morava em
Garanhuns, A face despida, com prefácio de Erasmo
Vilela. Seu nome está entre os poetas participantes
da Lírica, histórica coletânea lançada no Recife por
Eloi-Editor. Exerceu também o cargo de assessor de
imprensa do antigo Instituto Joaquim Nabuco de
Pesquisas Sociais, na época em que Mauro Mota di-
rigia aquele órgão, posteriormente transformado em
Fundação. É hoje um dos membros da diretoria da
Sociedade Eça de Queiroz, presidida pelo escritor
­Dagoberto Carvalho Júnior. Faz parte do Condomí-
nio Acionário dos Diários e Emissoras Associados,
instituído pelo jornalista Assis Chateaubriand, tendo
viajado, em missão jornalística, aos Estados Unidos,
Inglaterra, França, Venezuela e Portugal, acompa-
nhando, em várias idas a Lisboa, o desenrolar do pro-
cesso revolucionário que eclodiu em abril de 1974.

GUSTAVO KRAUSE Gonçalves Sobrinho, (“A flatu-


lência bovina”), nasceu em 1947, em Pernambuco. Ad-
vogado e político. Iniciou a carreira política em 1975,
quando foi secretário da Fazenda de Pernambuco.
Em 1979, foi escolhido pelo então governador Marco
Maciel para prefeito do Recife, cargo que ocupou até
1982. Criou o Sistema de Ação Comunitária com a
finalidade de promover a participação das comuni-

416
dades de baixa renda na discussão sobre a cidade, e
também o projeto Um por Todos, que possibilitou a
execução de numerosas obras em morros alagados,
além de ter implantado o Instituto da Cidade. Elei-
to, pelo voto direto, vice-governador de Pernambuco
na chapa de Roberto Magalhães (PFL), fica no cargo
entre 1983 e 1986, quando assume o posto de gover-
nador em decorrência do afastamento de Magalhães
para disputar a eleição de senador. Em 1988, é eleito
vereador pelo Recife. Em 1990, elege-se deputado fe-
deral. Em 1991, ocupa mais uma vez a Secretaria da
Fazenda de Pernambuco. Em 1992, torna-se ministro
da Fazenda. Em 1994, disputa e perde para Miguel
Arraes a eleição de governador de Pernambuco. Em
1995, torna-se ministro do Meio Ambiente, no gover-
no do presidente Fernando Henrique Cardoso.

HERMILO BORBA FILHO, (“Da obscenidade”),


nasceu em Palmares/PE e faleceu no Recife/PE
(08.07.1917-02.06.1976). Em 1950, forma-se em Di-
reito pela Universidade Federal de Pernambuco, mas
não exerce a profissão de advogado. Sente-se forte-
mente atraído pelo teatro, e por meio do teatro presta
a sua grande contribuição à vida cultural do país. Em
1946, assume o cargo de diretor artístico do Teatro do
Estudante de Pernambuco (TEP), grupo formado por,
entre outros, Joel Pontes, Ariano Suassuna, José Lau-
rênio de Melo, Ana Canen, Gastão de Holanda e José
Moraes Pinho. Em 1953, muda-se para São Paulo, a
fim de viver profissionalmente de teatro. Na capital
paulista, dirige a Cia. Nydia Lícia-Sérgio Cardoso, Cia.
Cacilda Becker, Cia. Dercy Gonçalves, o grupo Studio
Teatral e o Teatro Paulistano de Comédia. Paralela-
mente, exerce atividades jornalísticas que incluem
passagens pelos jornais Última Hora, Correio Paulistano
e revista Visão. Volta ao Recife em 1958, como profes-
sor de História do Teatro, do então recém-fundado

417
Curso de Arte Dramática, da Escola de Belas Artes,
vinculado à Universidade Federal de Pernambuco. Em
1960, ao lado de Ariano Suassuna, Leda Alves, José
Carlos Cavalcanti Borges, Gastão de Holanda, José
Moraes Pinho, Aldomar Conrado e Capiba, funda o
Teatro Popular do Nordeste (TPN), no qual desenvol-
ve alguns dos experimentos cênicos mais importan-
tes para o teatro da região. Na estreia, no Teatro do
Parque, dirige A pena e a lei, de Ariano Suassuna. Em
1966, o grupo inaugura sua sede própria, localizada
na avenida Conde da Boa Vista. Lá, até o ano de 1970,
o grupo apresenta 14 das 20 montagens que produz.
Além de sua atividade como diretor teatral, Hermi-
lo exerce atividades culturais em diversas instituições,
como Universidade Federal de Pernambuco, Serviço
Nacional de Teatro, Secretaria de Educação e Cultu-
ra de São Paulo, Secretaria de Educação e Cultura do
Estado de Pernambuco, Secretaria de Educação do
Recife, Movimento de Cultura Popular, Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Fede-
ral da Paraíba, Cineclube do Recife, Escolinha de Arte
do Recife, Centro de Comunicação Social do Nordeste
e Centro de Cultura Luiz Freire. Ao longo de sua car-
reira, recebeu vários prêmios, como: a Comenda da
Ordem de Nina Rodrigues, conferida pelo Conselho
da Medalha do Ministério da Educação e Cultura, Rio
de Janeiro, 1964; Chevalier de l’Ordre dês Artes El des
Lettres, diploma e medalha, outorgados pelo Governo
francês, sendo ministro da Cultura o escritor André
Malraux, Paris, 1969.
Bibliografia: Escreve mais de 20 peças de teatro, das
quais publica apenas oito: Soldados da retaguarda; Um
paroquiano inevitável; João sem terra; A barca de ouro;
Electra no circo; A donzela Joana; O auto da mula do pa-
dre; Sobrados e mocambos. Nas décadas de 1960 e 1970,
destaca-se na literatura nacional, com os romances Os
caminhos da solidão; Sol das almas; a tetralogia Um ca-

418
valheiro da segunda decadência, que inclui os volumes
Margem da lembrança, A porteira do mundo, O cavalo da
noite e Deus no pasto; e Agá. É autor também de nume-
rosos contos e de uma novela, Os ambulantes de Deus.
Escreveu livros de pesquisas sobre teatro, dentre os
quais se destacam História do teatro; Diálogo do encena-
dor; História do espetáculo; Teoria e prática do teatro.

HOMERO FONSECA, (“Os ETs eram todos comu-


nistas”), pernambucano, é jornalista e escritor. Ex-
diretor editorial (até 31.10.2008) da revista Continente
Multicultural, já foi diretor de redação da Folha de Per-
nambuco, editor-chefe do Diario de Pernambuco, repór-
ter do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, O Estado
de S. Paulo. Foi professor de Teoria da Comunicação
por um curto verão e, em priscas eras, fracassou como
vendedor de fundos de investimentos.
Bibliografia: Viagem ao planeta dos boatos, ensaio jorna-
lístico, 1996; A vida é fêmea, contos, 2000; Mário Melo
– a arte de viver teimosamente, perfil biográfico, 2001;
Pequeno teatro da vida, crônicas, 2002; Pernambucânia
– o que há nos nomes das nossas cidades, ensaio de topo-
nímia, 2006; Roliúde, rom., 2007; além dos cordéis
A catástrofe da Fonte Nova, 1981; A peleja de Maciel e
Magalhães, 1983; e O filho do Satanás no colégio eleitoral,
1984, sob o pseudônimo de Zé de Arruda.

HUGO de Moraes VAZ, José, (“A vida sexual dos ido-


sos”), nasceu no Recife/PE (04.09.1933). Bacharel em
Direito pela UFPE, jornalista, advogado, inspetor fe-
deral do Trabalho, assessor de Imprensa credenciado
como repórter da Folha da Manhã junto ao governo de
Pernambuco, redator e editor do Jornal Pequeno e da
Última Hora, do Recife; redator, copidesque e editor-
nacional do Jornal do Commercio e do vespertino Diá-
rio da Noite, Hugo tem uma extensa folha de serviços
prestados, como advogado, aprovado em concurso

419
pelo DASP, inspetor federal do Trabalho no Fórum
do Recife e de diversas capitais brasileiras, e como jor-
nalista, atividade que começou aos 14 anos de idade,
tanto no batente como credenciado junto ao Palácio
do Governo, como assessor de Imprensa da repartição
em que prestava serviços. Numa junção da sensibilida-
de com a experiência advinda das múltiplas atividades
que exerceu, resulta a sua obra literária.
Bibliografia: Da prisão do devedor civil, monog., 1968;
Do registro de jornalistas, 1976; Esboço para um projeto
de lei (Alteração e consolidação dos textos legais so-
bre a profissão de jornalista), 1978; Da regulamentação
profissional do jornalista, 1979; Bestiário da Imprensa, 4
vol., 1984/95; Resgate de Afrodite, rom., 1996; O pesa-
delo de Svetevena, rom., 1998, premiado pela UBE-PE
e Conselho Municipal de Cultura do Recife; e o livro
Memórias de um sábio, rom., recebeu Menção Honrosa
da APL, 2006.

INAH LINS de Albuquerque, (“Martini seco”), nas-


ceu no Recife/PE no dia de Finados, mas, segundo ela
própria, ama a vida. Aos onze anos de idade foi para
o Rio de Janeiro estudar, e aos dezessete publicou
dois contos na revista Presente de Natal. Formada em
Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE),
levou algum tempo para derrubar o muro do “juridi-
quês” dos seus textos. Pratica a leitura e a escrita atra-
vés de exercícios constantes no prazeroso ato de ler
desde o início de sua adolescência. Frequenta há mais
de seis anos a Oficina de Literatura do escritor Rai-
mundo Carrero, onde participa de Antologias anuais.
Escreveu ainda em diversas coletâneas e antologias
de contos e crônicas. Atualmente escreve para o jor-
nal O Vagalume em São Paulo, dirigido pela escritora
Cida Sepúlveda, e também em outros meios de comu-
nicação nacionais. Acaba de lançar o livro A solidão é
espaçosa, pela editora Calibán.

420
ITALO BIANCHI, (“De celulares, sites, e outras refle-
xões”), nasceu em Milão, Itália (09.02.1924) e faleceu
no Recife/PE (05.10.2008). Formou-se, em 1946, em
História da Arte. Chegando ao Brasil em 1949, tra-
balha inicialmente como cenógrafo na Companhia
Cinematográfica Vera Cruz, onde ficou até 1954. Em
1955, trabalhou em Buenos Aires produzindo cená-
rios para os espetáculos de balé clássico da Compa-
nhia de Dança Ana Hitelman. Volta ao Brasil em 1957
e trabalha no jornal O Estado de S. Paulo. Elaborou,
em 1956, o projeto gráfico do Suplemento Literário
do jornal O Estado de S. Paulo. De 1962 a 1967, ensi-
nou história da arte e teoria da comunicação no IAD,
fase em que também fez design de móveis. Em 1968,
montou um estúdio de comunicação visual e criação
publicitária no Recife, com trabalhos para Abaeté,
MPM, Standard, dentre outros clientes. Fundou, em
1971, a Italo Bianchi Publicitários Associados, com
Alfrízio Melo. Em 1986, volta a se dedicar às artes
plásticas, como pintor, por intermédio de mergulhos
na abstração geométrica, como exposto em suas obras
na Galeria Ranulpho, no Recife. Sua participação
acionária na Italo Bianchi foi vendida para os demais
sócios (Alfrízio Melo, Jairo Lima e Joca Souza Leão)
em 1995. A partir de então, além da pintura, três veí­
culos passaram a fazer parte da sua história: Jornal
do Commercio, Diario de Pernambuco e revista About. As
crônicas publicadas semanalmente pelos títulos de-
ram origem ao livro Nasceu uma rosa no meu jardim,
publicado em 2003. No mesmo período, ele atuou
como consultor de criação, primeiramente da Am-
pla Comunicação e, em seguida, para outros clientes,
aceitando convite, em 2004, para exercer a função de
consultor de comunicação social da Faculdade Mau-
rício de Nassau e, posteriormente, para ser membro
do Conselho Editorial da Fundação Joaquim Nabuco.
Em 2005, passa a atuar como consultor de criação da

421
agência Italo Bianchi, que já havia agregado mais um
sócio: Giuliano Bianchi, um de seus filhos.

IVANILDO SAMPAIO, (“Pedras brutas”), nasceu em


São José do Egito/PE (03.01.1943). É bacharel em jor-
nalismo pela Universidade Católica de Pernambuco,
turma de 1966. Começou sua carreira como estagiá-
rio da Sucursal da revista Manchete em Pernambuco.
Logo depois de formado foi contratado pelo Jornal do
Commercio, onde foi editor-regional e colunista diá-
rio, produzindo a coluna Nordeste Confidencial. Em
1968, voltou para a Manchete, sendo transferido para
a matriz no Rio de Janeiro. Lá, foi repórter-itinerante
durante cinco anos, escrevendo para as revistas Man-
chete, Fatos & Fotos e Tendência. No Rio, foi ainda re-
dator e produtor de programas da Rádio MEC e da
TV Educativa, produtor de jornais cinematográficos,
repórter freelance do Diario de Barcelona e da Agência
EFE, Espanha. De volta ao Recife, trabalhou no Dia-
rio de Pernambuco (editor de Economia e da Primeira
Página), foi durante cinco anos editor de telejornais
da TV Globo Nordeste, prestou assessoria e consulto-
ria de Imprensa a instituições públicas e privadas. Há
23 anos é diretor de redação do Jornal do Commercio.
É casado com a psicóloga Aldenita Macedo, pai de
Pedro Henrique, engenheiro de computação, e Mar-
cella, jornalista e professora de comunicação; avô de
Júlia e Alice, filhas de Marcella.
Bibliografia: Na condição de jornalista, produziu, em
40 anos de carreira, cerca de 10 mil páginas de jor-
nal. Fez, com Ernani Régis, Quincas Borba no folclore
político, que chegou à terceira edição; participou, com
José Paulo Cavalcanti Filho, Jânio de Freiras e Evan-
dro Lins e Silva, do livro de ensaios Informação e poder,
editado pela Record; tem crônicas publicadas no livro
Luzes da cidade, organizado por Ronildo Maia Leite
e editado pela Prefeitura do Recife. Fez dezenas de

422
palestras em Universidades, órgãos de classe, acade-
mias, instituições etc., embora nunca tenha pensado
em reuni-las em livro.

JANGUIÊ DINIZ, (“Cartografia urbana da Fundi-


ção Capunga”), nasceu em Santana dos Garrotes/PB
(21.03.1964). Era um dos oito filhos de Lourdes e de
João. Aos seis anos, sua família deixou o Sertão parai-
bano e seguiu para o centro-oeste, para o município
de Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Aos 14 anos, vem
estudar no Recife, onde procuraria um tio que nunca
vira, o advogado Nivam Bezerra da Costa. Fez vesti-
bular de Direito em 1979 e foi aprovado na UFPE.
Em 1992, Janguiê tornou-se juiz de Direito, através
de concurso. Nessa época, já havia se formado em
Letras na Unicap e ensinava na Faculdade de Direito
de Olinda. Embora tenha conquistado uma vaga de
juiz no Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região,
exerceu o cargo apenas por um ano, para poder se
dedicar a outros projetos, como a criação do Bureau­
Jurídico, curso preparatório para concursos, em
1994. No mesmo ano, começa a investir na realização
de congressos nacionais e internacionais na área jurí-
dica. Posteriormente, passou no concurso para procu-
rador do Ministério Público da União, conquistando
o 1º lugar no Norte-Nordeste. Fez pós-graduações,
além do mestrado e doutorado na UFPE. Em 1998,
funda o BJ Colégio e Curso, que atualmente ofere-
ce turmas da Educação Infantil ao Pré-Vestibular.
Em 2003, nasce no Recife a Faculdade Maurício de
Nassau. Em 2007, é fundada a Faculdade Joaquim
Nabuco, com unidades em Paulista e no Recife. No
mesmo ano, a Maurício de Nassau se expande para o
estado da Paraíba, abrindo unidades nos municípios
de João Pessoa e Campina Grande. No ano seguinte,
a instituição implanta unidades em Salvador e Lauro
de Freitas, na Bahia, e em Natal, no Rio Grande do

423
Norte, e Maceió, em Alagoas, e agora se prepara para
abrir unidades em Caruaru, no Agreste pernambu-
cano, e em Fortaleza, no Ceará. O processo de ex-
pansão é acompanhado pela chegada de uma nova
marca: o Grupo Ser Educacional que reúne todas as
instituições.

JOAQUIM CESÁRIO DE MELO, (“O homem à mar-


gem da cidade”), psicólogo, psicoterapeuta, escritor,
professor universitário e bacharel em Direito. Desde
os anos 80 tem publicado trabalhos literários e arti-
gos nos jornais Diario de Pernambuco e Jornal do Com-
mercio (onde respondia pela coluna “A Vida Crônica”
no caderno JC Cultural), bem como participado de
antologias, entre outras Ensaio V, poesia, SP; Anto-
logia Poética 50 anos AABB, PE; Poesia Viva do Recife,
PE. Internacionalmente publicou crônicas através do
Institut Pluridisciplinaire Pour Lês Etudes Sur L’Amerique
Latine, nº 75, Paris, França; e em L´Ordinaire Latino
Américain – Boletín de Novedades, nº 184, Universi-
té de Toulouse-le Mirail, França. Leciona atualmente
Psicologia na Fafire, PE.
Bibliografia: Dialética terapêutica, 2003.

JOCA SOUZA LEÃO (João Augusto Souza Leão),


(“Preto-graúna”), nasceu no Recife, em 1946. Deixou
o curso de Direito para estudar Publicidade e Marke-
ting na Inglaterra, onde viveu por quatro anos. Publi-
citário desde os 17, foi empregado e dono de agência.
Teve o mundo dos anúncios como foco de trabalho
por mais de 40 anos, tendo conquistado dezenas de
prêmios nacionais e internacionais durante a carrei-
ra, como redator e diretor de criação. Participou de
uma antologia de contistas publicitários e teve diver-
sos artigos, contos e poemas publicados em jornais,
revistas e suplementos literários. De escritor bissexto,
tornou-se cronista contumaz há quatro anos, quan-

424
do passou a escrever regularmente para o Jornal do
Commercio, a revista Algomais e o PE360graus (blog da
Rede Globo Nordeste).

JORGE ABRANTES, (“Sentimento do Recife”), nas-


ceu em São José do Egito/PE (24.03.1917) e faleceu
no Recife/PE (28.04.1961). Ingressou na Faculdade
de Direito do Recife, em 1934, bacharelando-se em
1939. Começou sua carreira jornalística, publicando
artigos no jornal A Ordem, do município de Água Pre-
ta, Pernambuco. Em 1937, trabalha como revisor e
repórter do jornal Diário do Nordeste, porta-voz local
do movimento integralista. Ao bacharelar-se, começa
a trabalhar na redação do Jornal do Commercio. Nessa
época, inicia uma campanha para criar a Associação
dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, criada
em 1941, com um grupo de jornalistas, posterior-
mente transformada em Sindicato dos Jornalistas. Em
1945, exerce o cargo de promotor público no municí-
pio pernambucano de São Bento do Una. Em 1946, a
empresa do Jornal do Commercio, dirigida por F. Pessoa
de Queiroz, publica o Diario da Noite e convida Jorge
Abrantes para ser seu principal redator. Torna-se fun-
cionário do Departamento de Documentação e Cul-
tura, da Prefeitura do Recife. Nos anos de 1948-1949
faz um curso de especialização em Biblioteconomia,
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A partir de
1950, escreve para o Diario da Noite. Em 1952, inicia
sua colaboração nos suplementos de domingo do jor-
nal Diário de Pernambuco. Em 1957, é eleito presiden-
te da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP),
sendo reeleito para o mandado seguinte, e representa
essa associação nos Estados Unidos.
Bibliografia: Em 1976, a AIP publica Prosa breve,
livro póstumo de crônicas, prefaciado e organizado
por Luiz Delgado.

425
JOSÉ CLÁUDIO da Silva, (“Crônica em três capí-
tulos – Todos três nojentos”), nasceu em Ipojuca/PE
(27.08.1932). Desenhista, pintor, gravurista, escultor,
crítico de arte, escritor. Abandonou o curso na anti-
ga Faculdade de Direito do Recife, para se dedicar às
artes plásticas. Participou, ao lado de Gilvan Samico,
Guita Charifker, Reynaldo Fonseca, entre outros, da
fundação do Atelier Coletivo da SAMR, dirigido por
Abelardo da Hora. Depois, viajou para a Bahia, onde
frequentou o ateliê de Mário Cravo, Carybé e Jenner
Augusto. Seguiu para São Paulo, trabalhou com Di
Cavalcanti e Lívio Abramo, e fez sua primeira expo-
sição individual de desenhos, em 1956. Participou do
Salão Nacional de Arte Moderna, do Salão Paulista
de Arte Moderna e de várias Bienais de São Paulo,
obtendo o Prêmio de Aquisição da IV Bienal. Ganha-
dor de uma bolsa de estudos da Academia de Belas
Artes de Roma, zarpou para a Europa onde estudou
nos anos de 1957 e 1958. Fez, também, esculturas
de granito e painéis de pedra cerâmica. De volta ao
Brasil, foi ser auxiliar de diagramação do jornal O
Estado de S. Paulo, função que continuou no Jornal do
Commercio, do Recife. Em 1962, conquistou o Prêmio
Leirner de Arte Contemporânea para desenho. Em
1969, iniciou o ciclo de grandes esculturas de granito,
em Fazenda Nova, interior pernambucano. Tais obras
formam, hoje, o Parque das Esculturas. Tem outras
peças monumentais em Petrolina, Lagoa Grande,
Aracaju e no Recife.
Bibliografia: Viagem de um jovem pintor à Bahia, 1965;
Ipojuca de Santo Cristo, 1965; Bem dentro, 1968 (obras
que formam a trilogia das suas Memórias do Norte). Os
dias de Uidá, 1995; Meu pai não viu a minha glória, crô-
nicas, 1995. Tem catálogos, artigos, contos e críticas
publicados em vários órgãos da imprensa nacional.

426
JOSÉ MÁRIO AUSTREGÉSILO da Silva Lima, (“O
aboio de um povo”), é graduado em Ciências Econô-
micas pela Universidade Católica de Pernambuco, em
1970. Mestre em Comunicação Social pela Universi-
dade Federal de Pernambuco. Tem vasta experiência
profissional na área de Comunicação, com ênfase em
rádio, TV, cinema, teatro e estudos culturais. É pro-
fessor da UPFE, atuando nos cursos de graduação de
Jornalismo, Radialismo, Publicidade e Propaganda
e nos cursos de pós-graduação (especialização) de
Comunicação e Marketing do Centro de Desenvolvi-
mento Pessoal. É também pesquisador do Núcleo de
Documentação dos Movimentos Sociais (NDMS), da
UFPE. Autor de livros e artigos na área de radiodifu-
são, cultura popular e estudos culturais. Participante
do Grupo de Pesquisa Rádio e Movimentos Sociais.
Coordenador do Laboratório de RTV da UFPE.
Bibliografia: A oralidade e imagética em Luiz Gonzaga:
uma análise de conteúdo da obra musical, 2006; Luiz
Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta, 2008.

JOSÉ MÁRIO RODRIGUES, (“Pra lá de Marrakech­”),


nasceu em Flores/PE (23.07.1947). Poeta, advogado e
jornalista. Filho do comerciante José Ben Rodrigues
e da funcionária pública Noêmia de Queiroz Rodri-
gues. Integra a Geração 65 de escritores pernambu-
canos. Criou, com outros poetas e artistas, o Grupo
de Poesia Falada do Recife, que encenava poemas
para serem apresentados em eventos. Dedicou-se
também ao ensino, ao lecionar por algum tempo na
Faculdade de Direito de Caruaru. Como jornalista,
foi diretor cultural da Associação de Imprensa de Per-
nambuco, redator do Suplemento Cultural do Jornal
do Commercio­ e colunista do Suplemento Cultural da
Companhia Editora de Pernambuco.
Bibliografia: A estação dos ventos, 1973; Os motivos,
1975; Declaração da eterna brevidade, 1979; Para exor-

427
cizar a ilusão, 1979; Respiração do absoluto ou ar da so-
lidão, 1983; O eterno de todo dia, 1987; Os motivos da
eterna brevidade, 1990; Trem de nuvens, 1997; As rédeas
da solidão, 1993; Alicerces da ventania, 2003.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO, (“Duas ou três


coisas sobre meu pai”), é advogado, especialista em
legislação de mídia e um dos principais articulistas
brasileiros. Pós-graduado pela Universidade Har-
vard, EUA. Foi presidente do Conselho Administra-
tivo de Defesa Econômica (CADE) e da extinta Em-
presa Brasileira de Notícias, além de secretário-geral
do Ministério da Justiça, em abril de 1985, quando
faleceu Tancredo Neves, eleito pelo Congresso Nacio-
nal para ocupar a Presidência da República. Foi pre-
sidente do Conselho de Comunicação Social (CCS),
órgão auxiliar do Congresso Nacional, criado pela
Lei nº 8.389, de 30.12.1991. Tem banca de advocacia
em Pernambuco. Ocupa a Cadeira nº 27 da Acade-
mia Pernambucana de Letras, substituindo Pelópidas
Soares. Começou a escrever regularmente na Folha de
S.Paulo, onde permaneceu por dez anos, escrevendo
primeiro uma, depois duas, no fim três colunas por
semana. Agora escreve nas Folhas, de Pernambuco e na
de S.Paulo. Trabalha, há vários anos, num livro sobre
a vida de Fernando Pessoa.
Bibliografia: Informação e poder (org.), 1994; O mel e o
fel, 1998; Adeus Penderama – e outros escritos, 2007.

JOSÉ TELES, (“Estão mexendo na língua”), paraiba-


no radicado no Recife/PE, é jornalista, formado em
1991, pela Unicap. É crítico de música do Jornal do
Commercio desde 1986, e já escreveu sobre o assunto
em diversas publicações pernambucanas e de outros
estados, inclusive no jornal A Bola, de Lisboa. Teve
textos publicados pel’O Pasquim, Rio; Bizz, São Pau-
lo; revista General, São Paulo; Meus Caros Amigos, São

428
Paulo; Continente Multicultural e Suplemento Cultural
Pernambuco. Para esta revista assinou três edições da
Continente Documento, com Luiz Gonzaga, Capiba e
com o Movimento Manguebeat. Colaborou com sites
como o Clique Music, RJ, editado por Tárik de Sou-
za; Jornal da Música, RJ, também editado por Tárik
de Souza; e em O Carapuceiro, SP, editado por Xico
Sá. Em 1988, ganhou, com Ronaldo Correia de Bri-
to, o prêmio de Novos Ficcionistas, promovido pela
Fundarpe. Em 2007, venceu o prêmio de ensaio dos
“100 Anos do Frevo”, promovido pela Fundação de
Cultura Cidade do Recife. O ensaio foi publicado
em livro, com o título de O frevo rumo à modernidade.
No mesmo ano, publicou, pela mesma Fundação, o
livro de ensaio O baião do mundo. Em 2000, publicou,
pela Editora 34, SP, o livro Do frevo ao manguebeat,
que virou uma referência na bibliografia da história
da música pernambucana. Como cronista dominical,
tem quatro compilações de crônicas publicadas há 15
anos na coluna Curto & Grosso. Publicou pela Edi-
ções Bagaços 17 livros infantis e infanto-juvenis. Pela
mesma Bagaço publicou o livro de viagem, Eu e meu
Ray-Ban: uma viagem, 2008; e este ano Quem goitana
foi Ellie Greenwich, uma reunião de crônicas sobre mú-
sica popular, publicadas na coluna Toques Digitais,
que mantém desde 2007, no JC online.

LEONARDO Antônio DANTAS SILVA, (“No tempo


do lança-perfume”), jornalista e escritor, nasceu no
Recife, a 10 de dezembro de 1945. Fez o seu curso se-
cundário no Colégio Salesiano, Recife, e o curso uni-
versitário na Universidade Católica de Pernambuco,
onde em 1969 recebeu o título de Bacharel em Di-
reito. Dedicou-se desde jovem ao jornalismo e à pes-
quisa histórica, exercendo diversas funções públicas:
diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de
Educação e Cultura do Estado de Pernambuco (1975-

429
1979), primeiro presidente da Fundação de Cultura
Cidade do Recife (1979-1983), diretor de Assuntos
Culturais da Fundação do Patrimônio Histórico e Ar-
tístico de Pernambuco (Fundarpe) (1983-1987). Exer-
ceu a função de diretor da Editora Massangana da
Fundação Joaquim Nabuco. A 25 novembro de 1996,
foi empossado como Membro do Comitê de Apoio da
Comissão Nacional dos Festejos do V Centenário dos
Descobrimentos do Brasil, na função de coordenador
da Área de Documentação e Publicações. É sócio cor-
respondente do Instituto Histórico e Geográfico Bra-
sileiro e efetivo do Instituto Arqueológico, Histórico
e Geográfico Pernambucano, e sócio correspondente
do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.
Suas atividades nas pesquisas históricas tiveram início
na Biblioteca Pública Estadual, ainda sob a direção do
pesquisador Olympio Costa Júnior, 1965, passando
depois a receber os ensinamentos do professor José
Antônio Gonsalves de Mello, com o qual realizou oito
viagens de pesquisas em arquivos portugueses. Exer-
ce, hoje, a função de membro efetivo do Conselho
Estadual de Cultura e Consultor do Instituto Ricardo
Brennand, Recife.
Bibliografia: Bandeira de Pernambuco, 1972; Recife:
uma história de quatro séculos, 1975; Pequeno calen-
dário histórico-cultural de Pernambuco, 1977; O frevo
pernambucano, 1990; Ritmos e danças – frevo, 1978;
Cancioneiro pernambucano, 1978; O Brasil que Nassau
conheceu (org.), 1979; O piano em Pernambuco, 1987;
Alguns documentos para a história da abolição (org.),
1988; A imprensa e a abolição (org.), 1988; A abolição em
Pernambuco (org.), 1988; Estudos sobre a escravidão ne-
gra, vol. I (org.), 1988; Estudos sobre a escravidão negra,
volume II (org.), 1988; O Recife: imagens da cidade
sereia, 1998; Carnaval do Recife, 2000; Brasil holandês:
Frans Post e os desenhos do British Museum, 2000;
Pernambuco: imagens da vida e da história, 2001; Ho-

430
landeses em Pernambuco 1630-1654, 2005; Crônicas de
uma vida. 2009.

Miguel do Sacramento LOPES GAMA, (“As pales-


tras da ponte da Boa Vista”), nasceu no Recife/PE
(29.09.1793) e faleceu na mesma cidade (09.12.1852).
Filho do médico João Lopes Cardoso Machado e de
D. Ana Bernardo do Nascimento. Entre 1805 e 1815,
desenvolve atividades religiosas, desde noviço no
mosteiro de São Bento de Olinda, até professar como
monge beneditino em Salvador. Professor de retórica
no Seminário de Olinda em 1817 e, posteriormente,
ensina no Liceu, futuro Ginásio Pernambucano. Pa-
ralelamente, trabalha como jornalista, publicando O
Conciliador Nacional e dirigindo o Diário do Governo de
Pernambuco. A partir de 1932, inicia a publicação de
O Carapuceiro. Em 1834, abandona a ordem benedi-
tina. Traduz e publica obras de autores estrangeiros
sobre religião, moral e economia. Deputado provin-
cial em 1830 e, como suplente, assume a cadeira de
deputado-geral por Pernambuco em 1840 na Corte,
passando a divulgar O Carapuceiro. Dirige os Cursos
do que seria mais tarde a Faculdade de Direito em
1835 e 1847; dirige o Liceu pela segunda vez em
1850; é nomeado diretor-geral da Instrução Pública
em Pernambuco em 1851. Escreve na Marmota Flumi-
nense em 1852, ano da sua morte.
Bibliografia: Traduz, em 1837, Memória sobre quais são
os meios de fundar a moral de um povo, de Destutt de
Tracy; Refutação completa da pestilencial doutrina do in-
teresse propalado por Hobbes, de Torombert; Princípios
gerais de economia política e industrial, de Turanne; em
1839, A religião cristã demonstrada pela conversão e apos-
tolado de São Paulo, de Lyttelton; A farpeleira, 1841,
obra individual; Código criminal da semirrepública do
Passamão na Oceania, 1841, sátira; Lições de eloquên-
cia nacional, 1846, em dois volumes, obra individual;

431
­ bservações críticas sobre o romance do sr. Eugênio Sue, “O
O
judeu errante”, 1850, ensaio; traduz, em 1850, Uma
lição acadêmica sobre a pena de morte, de Carmignani; e,
em 1852, Os deveres dos homens, de Silvio Pellico.

LOURDES Maria Mendonça SARMENTO, (“Os 45


minutos”), nasceu no Recife/PE (15.02.1944). Poeta,
escritora, pesquisadora, biógrafa, conferencista e jor-
nalista. Editada por Vericuetos, Chemins Scabreux,
em Paris, e por Editorial Francachela, em Buenos
Aires, Argentina. Faz parte do Conselho Editorial
de Francachela, Revista Internacional de Literatura
e Arte. É autora de 20 livros publicados em portu-
guês, inglês, francês e espanhol. Participação em 68
antologias nacionais e internacionais, com trabalhos
literários e jornalísticos apresentados em Washington
e Miami, USA; Lima, Peru; na Cidade do México e
em Lisboa, Portugal. Organizou a antologia Poésie du
Brésil, publicada em Paris, 1997, e o Projeto Literatu-
ra dos Trópicos, em parceria com Beatriz Alcântara,
reunindo 205 poetas do Norte e Nordeste do Brasil,
que resultou na publicação de três livros: Amor nos tró-
picos, 2000; Águas dos trópicos, 2000; e Fauna e flora nos
trópicos, 2002. Pertence à Academia de Artes e Letras
de Pernambuco; de Poesia de Petrópolis, RJ; Carioca
de Letras, RJ; Recifense de Letras; de Estudos Lite-
rários e Linguísticos, Anápolis, GO. Pertence ainda à
Associação Internacional de Escritores e Jornalistas,
México; ao Centro de Estudos Americanos de Fer-
nando Pessoa, São Paulo; à União Brasileira de Escri-
tores: UBE-PE e UBE-RJ.
Bibliografia: Poemas do despertar, poesia, 1965; Explo-
são das manhãs, poesia, 1973; Pequena história da tele-
fonia em Pernambuco, pesquisa, 1980; Primórdios da co-
municação, pesquisa, 1981; traduzido para o inglês;
Janela, crônicas, 1984; A palavra e as circunstâncias,
ensaio, 1985; Tatuagem da solidão, poesia, 1991; Se-

432
dução da arte em Vera Bastos, ensaio biográfico, 1993;
Vingt-cinq poèmes de passion, poesia, 1994; Alcides Lo-
pes: nas estações do tempo, biografia, 1994; Poésie du
Brésil – Panorama da poesia brasileira, org., Paris, 1997;
José de Souza Alencar: Alex: o artesão da palavra, bio-
grafia, 1998; Amor nos trópicos, 2000; Água nos trópicos,
2000; e Fauna e flora nos trópicos, 2002, em parceria
com Beatriz Alcântara; Olhos de tigre, poesia, 2001 –
Prêmio Dulce Chacon da APL e Prêmio Alejandro
Cabassa hors-concours da UBE-RJ; Guardiã das horas,
poesia, 2003; A poesia é eterna, em parceria, 2003; 7
Cartas e uma confissão de amor, prosa e poesia, 2004;
Rituales del deseo: rituais do desejo, edição bilíngue:
espanhol-português, 2005; 50 Poemas escolhidos pela
autora, 2009.

LUCIANO Caldas BIVAR, (“A intuição não vem do


nada”), nasceu no Recife/PE. É empresário, segura-
dor, desportista, bacharel em Direito, com pós-gra-
duação em Financial Education (Northewestern Uni-
versity, Illinois, USA) e Direito Comparado (Unicap,
Recife). Participou de inúmeros eventos nas áreas de
finanças e seguros. Deputado Federal por Pernam-
buco (1999-2003), pelo Partido Social Liberal (PSL),
do qual é presidente nacional, integrou as Comissões
Permanentes de Constituição e Justiça e de Cidada-
nia (CCJC), de Finanças e Tributação (CFT), Viação e
Transportes (CVT) e as Comissões Especiais de cria-
ção do Imposto Único Federal (IUF), da Agência Na-
cional de Aviação Civil e da Previdência Complemen-
tar. Foi um dos maiores entusiastas da implantação do
IUF, que julga ser a melhor opção para a definitiva
conquista da justiça fiscal e tributária no Brasil. Sua
atuação parlamentar caracterizou-se pela defesa de
uma reforma política que preserve o atual espectro
partidário e assegure a representação congressual de
todas as correntes políticas, inclusive as pequenas e

433
médias agremiações. Além de sua produção na Câ-
mara dos Deputados, é autor de Brasil alerta: psicoses
socialistas, Recife, 1985; Cuba: um retrato sem reto-
ques, Rio de Janeiro, 1986; e Passagem para a vida:
operação terror, Rio de Janeiro, 1989. É membro de
diversas associações de classe e programas para maior
aproximação entre os povos da América.

LUCIANO Roberto Rosas de SIQUEIRA, (“Vidas


quase cruzadas”), nasceu em Natal/RN (1942). É for-
mado em Medicina pela Universidade Federal de
Pernambuco. Começou a militância política na Ação
Popular em 1966 e ingressou no Partido Comunis-
ta do Brasil em 1972. Foi líder estudantil na década
de 1960, quando cursava medicina na Universidade
Federal de Pernambuco. No combate ao regime mi-
litar, foi cassado dos seus direitos de estudante por
três anos. De 1970 a 1974, fugindo da perseguição
policial, já militando no Partido Comunista do Brasil,
atuou na clandestinidade, sobrevivendo como ven-
dedor ambulante no interior do Nordeste. Preso e
torturado em abril de 1974, reconquistou a liberdade
em 1976, quando retornou à Faculdade de Medici-
na da Universidade Federal de Pernambuco. Como
médico, trabalhou em projetos de Saúde Comunitá-
ria e fez pós-graduação em saúde pública. Exerceu
o mandato de deputado estadual pelo PMDB, sendo
eleito em 1982. Como dirigente estadual e nacional
do PCdoB, participou de mobilizações pela Anistia,
Diretas Já, Constituinte de 88 e Fora Collor, além de
se destacar nas articulações para unir a esquerda em
Pernambuco. Vice-prefeito do Recife entre 2000 e
2008, tendo sido reeleito no pleito eleitoral de 2004.
Em 2006, foi candidato ao Senado representando o
campo progressista e obteve 33% dos votos válidos no
Recife. Foi eleito vereador do Recife para o mandato
de 2009-2012 com a segunda maior votação da his-

434
tória da cidade do Recife. Presidente da Comissão de
Desenvolvimento Econômico da Câmara Municipal
do Recife, desde 2009 vem realizando diversas audi-
ências públicas, entre elas a que discutiu a requalifica-
ção do centro do Recife e a necessidade de formação
da mão de obra para o novo ciclo de desenvolvimento
do Estado. Apresentou projetos de leis criando o Sis-
tema Municipal de Ciência e Tecnologia, a Política do
Livro e a Semana Burle Marx.

LUIZ BERTO, (“Anotações sobre um coração e uma


trombeta”), nasceu em Palmares/PE (07.08.1946).
Tem participação no International Writing Program
da Universidade de Iowa, Estados Unidos, a convi-
te do governo americano, e no International Festival
of Authors, Toronto, Canadá, representando o Bra-
sil. Recebeu o Prêmio Literário Nacional do Instituto
Nacional do Livro/MEC, categoria Obra Publicada (O
romance da Besta Fubana), São Paulo; Prêmio Guara-
rapes da União Brasileira de Escritores (O romance da
Besta Fubana), Rio de Janeiro. O seu livro O romance
da Besta Fubana: festa e utopia no interior do Nordes-
te teve dissertação apresentada pela professora Ilane
Ferreira Cavalcante ao Curso de Pós-Graduação em
Estudos da Linguagem do Departamento de Letras
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
para a obtenção do Grau de Mestre em Letras, área
de concentração em Literatura Comparada, em ju-
nho de 1996.
Bibliografia: A prisão de São Benedito, crônicas, 1982;
2. ed., 1987; 3. ed., 1991; 4. ed., 1997. O romance da
Besta Fubana, rom., 1984; 2. ed., 1994; 3. ed., 2004. A
serenata, nov., 1986; 2. ed., 2005; A guerrilha de Palma-
res, rom., 1987; 2. ed., 2007; Memorial do mundo novo,
rom., 2001; Peibufo, etc. e coisa e tal, comédia em um ato
levada ao palco, em Palmares e no Recife, PE; em Belo
Horizonte, MG; e em Brasília, DF, 1989. Histórias que

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nós gostamos de contar, crônicas, em preparo. Cem obras-
primas da poesia ruim, coletânea, em preparo.

LUIZ Cláudio ARRAES de Alencar, (“A velhinha


no Jardin du Luxembourg”), nasceu no Recife/PE
(31.01.1959). Diplomado em Medicina, doutorado
em Infectologia e pós-doutorado em Imunologia.
Especialista em doenças infecciosas. Trabalha como
médico, é professor universitário e pesquisador. Pu-
blicou seu primeiro livro de contos em 1990 e desde
então já publicou outros sete livros, além de diversos
contos em revistas e jornais e pela internet. Exceto o
primeiro e o segundo livros, que saíram respectiva-
mente pela Inojosa e pela Fundarpe, todos os demais
foram publicados pela 7Letras.
Bibliografia: Palavra por palavra, 1990; Rastejador,
1991; O desaparecido, 1997; O que faz um homem rir,
1998; Anotações para um livro de baixa ajuda, contos,
2005; Tentando entender Monterroso, contos, 2005; O re-
metente, 2005; O que faz um homem rir, contos, 2005; O
desaparecido, contos, 2005; Todo diálogo é possível: con-
versas com meu pai, Miguel Arraes.

LUIZ CARLOS Rodrigues MONTEIRO, (“Mãe & Fi-


lha”), nasceu em Sertânia/PE (24.10.1957). Em 1972,
radicou-se no Recife, onde vive até hoje. Iniciou o
curso de Engenharia de Minas em 1976 na UFPE,
interrompendo-o posteriormente. É formado em Pe-
dagogia e mestre em Teoria da Literatura pela mes-
ma universidade. Entre as décadas de 1970 e 1980,
fez parte do movimento estudantil e do movimento
dos escritores independentes de Pernambuco. De
1987 a 1992, passou a residir na Mata Sul do esta-
do, dedicando-se ao ensino médio e participando,
como militante, de movimentos políticos e sindicais
no município de Rio Formoso e circunvizinhanças.
Publicou cerca de 200 artigos e ensaios de crítica lite-

436
rária em revistas, jornais, sites e blogs de Pernambuco e
de outros estados. Seus poemas vêm aparecendo com
maior frequência em antologias e jornais alternativos.
Tem participado de eventos e encontros literários di-
versos, entre eles a Bienal do Livro de Pernambuco e
a Fliporto, e de colóquios acadêmicos na UFPE.
Bibliografia: Na solidão do néon, 1983; Vigílias, 1990;
Poemas, 1999; O impossível dizer e outros poemas, 2005;
Para ler Maximiano Campos, 2008; Prêmio Maximiano
Campos nas suas versões 2, 3 e 4 (coletânea, em cola-
boração com Antônio Campos, 2008; Musa fragmenta-
da: a poética de Carlos Pena Filho, 2009.

LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA, (“Recife: o


amor de uma cidade”), nasceu em Garanhuns/PE
(19.11.1936). Diplomada em Letras, mestra em Teo-
ria da Literatura, doutora em Estudos Literários pela
Université Paris, romancista, ensaísta, biógrafa, críti-
ca literária, professora universitária, pesquisadora de
história das mulheres em Pernambuco. Com o roman-
ce Muito além do corpo, conquistou o Prêmio Nestlé
de Literatura Brasileira, 1988; e com Humana, dema-
siadamente, humana, biogr., e Lou e Salomé conquistou
os Prêmios da FCCR e da APL; Rios turvos, Prêmio
Joaquim Nabuco da ABL. Voltar a Palermo foi classifi-
cado entre Os Dez Mais do Ano, no Prêmio Portugal
Telecom; No tempo frágil das horas, ganhou o Prêmio
Lucilo Varejão da FCCR. Através de suas pesquisas e
histórias das mulheres recebeu o título Woman of the
Year, pelo American Biographical Institute.
Bibliografia: O espaço do teu rosto, contos, 1981; O tem-
po sem remédio na farmácia, ensaio, 1982; Muito além do
corpo, rom., 1988; Dentro da vida: à margem da histó-
ria, ensaio, 1989; Em busca de Thargélia: poesia escrita
por mulheres em Pernambuco no segundo oitocentis-
mo, 1870-1920, ant. org., 1991; A fala roubada: cem
anos de imprensa feminina em Pernambuco, 1991;

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Ênio Silveira, 1992; Os rios turvos, rom., 1993; A garça
mal ferida: a história de Anna Paes d’Altro no Brasil
holandês, rom., 1995; Humana, demasiadamente, hu-
mana, biogr., e Lou Salomé, ensaios.

MANUEL Carneiro de Souza BANDEIRA Filho, (“Car-


navais de outrora”), nasceu no Recife/PE (19.04.1886)
e faleceu no Rio de Janeiro (13.10.1968). Filho de
Manuel Carneiro de Souza Bandeira e de Francelina
Ribeiro de Souza Bandeira. Entre 1890 e 1904, mora
em vários estados e cidades: Rio de Janeiro, Santos,
Recife e São Paulo. No final do ano de 1904, tendo
contraído tuberculose, passa temporadas em outras
cidades: Campanha, Teresópolis, Maranguape, Uru-
quê, Quixeramobim. A fim de se tratar no Sanatório
de Clavadel, na Suíça, embarca em junho de 1913
para a Europa. Em 1914, volta ao Brasil em outubro.
Em 1916, falece sua mãe, Francelina; em 1918, per-
de a irmã Maria Cândida de Souza Bandeira. O pai
de Bandeira, Manuel Carneiro, falece em 1920. Em
1921, conhece Mário de Andrade. Estavam presen-
tes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque
de Holanda e Osvaldo Orico. É nomeado, no ano de
1935, pelo ministro Gustavo Capanema, inspetor de
ensino secundário. Posteriormente, passa a trabalhar
como professor de literatura do Colégio Pedro II. Em
1940, é eleito para a Academia Brasileira de Letras,
tomando posse em 30 de novembro, sendo saudado
por Ribeiro Couto. Começa a fazer crítica de artes
plásticas em A Manhã, em 1941, no Rio de Janeiro.
No ano seguinte, é nomeado membro da Sociedade
Felipe de Oliveira. Nomeado professor de literatu-
ra hispano-americana da Faculdade Nacional de Fi-
losofia, em 1943, deixa o Colégio Pedro II. Recebe
o prêmio de poesia do IBEC por conjunto de obra,
em 1946. Em 1955, inicia colaboração como cronista
no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e na Folha da

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Manhã, de São Paulo. Comemora 80 anos, em 1966,
recebendo muitas homenagens. A Editora José Olym-
pio realiza em sua sede uma festa de que participam
mais de mil pessoas e lança os volumes Estrela da vida
inteira (poesias completas e traduções de poesia) e An-
dorinha, andorinha (seleção de textos em prosa, orga-
nizada por Carlos Drummond de Andrade).
Bibliografia: A cinza das horas, 1917; Carnaval, 1919;
Poesias, 1924; Libertinagem, 1930; Estrela da manhã,
1936; Poesias escolhidas, 1937; Poesias completas, 1940;
Poemas traduzidos, 1945; Mafuá do malungo, 1948; Opus
10, 1952; 50 Poemas escolhidos pelo autor, 1955; Poesia
e prosa completa, 1958; Alumbramentos, 1960; Estrela da
tarde, 1960; Estrela da vida inteira, 1966; Manuel Ban-
deira: 50 poemas escolhidos pelo autor, 2006 (todos
de poesia). Crônicas da província do Brasil, 1936; Guia
de Ouro Preto, 1938; Noções de história das literaturas,
1940; Autoria das cartas chilenas, 1940; Apresentação da
poesia brasileira, 1946; Literatura hispano-americana,
1949; Gonçalves Dias, biog., 1952; Itinerário de Pasár-
gada - Jornal de Letras, 1954; De poetas e de poesia,
1954; A flauta de papel, 1957; Itinerário de Pasárgada,
1957; Prosa, 1958; Andorinha, andorinha, 1966; Itine-
rário de Pasárgada, 1966; Colóquio unilateralmente sen-
timental, 1968.

MARCO POLO GUIMARÃES Martins, (“1968”), nas-


ceu no Recife/PE (31.03.1948). É jornalista, escritor e
compositor. Trabalhou no Diário da Noite, PE, Diario
de Pernambuco, PE, e Jornal da Tarde, SP. Foi editor de
Cultura do Jornal do Commercio, PE. Atualmente na
Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), onde
editou a revista Continente Multicultural, é superinten-
dente de Produção Editorial. Foi diretor-geral do Mu-
seu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM).
Redator e curador da área de pintura, desenho e
gravura do Catálogo do Museu do Estado de Pernambuco

439
(MEPE), que integra a coleção de catálogos de acer-
vo dos museus brasileiros. É membro da Associação
de Imprensa de Pernambuco (AIP); da Associação
Brasileira de Imprensa (ABI); da União Brasileira
de Escritores (UBE), seção Pernambuco; da Ordem
dos Músicos do Brasil (OMB), seção Pernambuco. Re-
cebeu o Diploma de Destaque do Ano no Jornalismo do
Conselho Municipal de Cultura do Recife e do Con-
selho Estadual de Cultura de Pernambuco, 1999, e o
diploma de Amigo do Livro, da Câmara Brasileira do
Livro (CBL). A convite do governo dos Estados Uni-
dos, visitou Nova York, Washington, San Francisco,
Nova Orleans, Novo México e Miami, conhecendo a
redação de jornais como o Washington Post, em inter-
câmbio com editores de Cultura.
Bibliografia: Voo subterrâneo, poesia, 1986; Narrativas,
contos, 1992; Memorial, memórias, 1996; Brilho, poe-
sia, 1996; Palavra clara, poesia, 1998; A superfície do si-
lêncio, poesia, 2002; Caligrafias, poesia, 2003; Sax áspe-
ro, antologia poética, 2007; Corpointeiro, poesia, 2008.

MARCUS Moraes ACCIOLY, (“A dor”), nasceu em


Aliança/PE (21.01.1943). Passou a adolescência divi-
dido entre o engenho Jaguaraba, em Barreiros, PE, e
o Recife. Diplomado em Direito pela Unicap, e pós-
graduado em Letras, Teoria da Literatura, pela UFPE.
Advogado, professor, conferencista, poeta. Integrou,
como apresentador e declamador, o Movimento Ar-
morial, idealizado por Ariano Suassuna. Exerceu, en-
tre outros, o cargo de diretor do Departamento de
Extensão Cultural da UFPE e do Centro de Produção
Científica e Cultural do Engenho Massangana, onde
nasceu Joaquim Nabuco, da Fundaj; foi coordenador
cultural do Nordeste/MEC (Ministério da Educação e
Cultura); chefe da 4ª Superintendência Regional da
Secretaria de Cultura da Presidência da República e
secretário executivo do MinC, tendo por diversas ve-

440
zes substituído o ministro Antônio Houaiss. Pertenceu
aos Conselhos Federal de Cultura e Nacional de Polí-
tica Cultural. É conselheiro e, atualmente, presidente
do Conselho Estadual de Cultura, PE, e do Conse-
lho Municipal de Política Cultural do Recife. Além
de Íxion, tem outros livros adaptados para o teatro.
Recebeu os seguintes Prêmios nacionais, por obras
isoladas e pelo conjunto de suas obras: Recife de Hu-
manidades, 1971; Fernando Chinaglia, 1979; Láurea
“Altamente Recomendável para o Jovem, 1980”, Lui-
za Cláudio de Souza, 1980; Mário de Andrade, 1983;
Jorge de Lima, 1983; Carlos Pena Filho, 1983; As-
sociação Paulista dos Críticos de Arte, 1985; Olavo
Bilac, 1985; Leandro Gomes de Barros, 1996.
Bibliografia: Cancioneiro, 1968; Nordestinados, 1971;
Xilografia, 1974; Sísifo, 1976; Poética: pré-manifesto
ou anteprojeto do realismo épico, 1977; Íxion, 1978;
Ó(de)Itabira, 1980; Guriatã: um cordel para menino,
1980; Narciso, 1984; Érato: 69 poemas eróticos e uma
ode ao vinho, 1990; O jogo dos bichos, 1990; Latinomé-
rica, 2001. DaguerreÓtipos, sonetos, 2008.

MARILENA DE CASTRO Carrero, (“Tamarineira,


adeus”), nasceu no Rio de Janeiro e veio para o Re-
cife, aos quatro anos, onde fez estudos preliminares
e cursou a Faculdade de Ciências Médicas de Per-
nambuco, hoje integrando a Universidade Estadu-
al de Pernambuco (UPE). É ginecologista com pós-
graduação em Homeopatia e Antroposofia. Integra
a Sociedade de Médicos Escritores (Sobrames-PE),
colabora com a revista Oficina de Letras da entidade.
Tem escrito sistematicamente, publicando contos e
poemas na revista Encontro, do Gabinete Português
de Leitura, com participações ainda na Antologia de
Contos e crônicas, do Instituto Cultural de Arte Livre;
Ábaco, Oficina da escritora Lucila Nogueira; I Anto-
logia de Poesia Nordestina, Mormaços e sargaços; Fauna

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e flora nos trópicos, Secretaria de Cultura do Estado do
Ceará. Integra, ainda, a Antologia de Poesia Contem-
porânea, Retratos, em 2005; Painel de Poesia Pernam-
bucana dos séculos XVI e XXI: Pernambuco, terra da
poesia, em 2005; Cantos e contos do Natal, 2006; Conto
feminino contemporâneo em Pernambuco, 2006, Contos de
Oficina II e III, escritos pelos integrantes da Oficina
de Criação Literária de Raimundo Carrero, 2005,
2006 e 2007. Publica poemas no suplemento cultural
Pernambuco, órgão do Diário Oficial, do governo do Es-
tado em 2008; participa da Antologia Contos e Poemas
Pimenta Rosa, em 2006; colabora na revista Eita!, pu-
blicada pela Fundação de Cultura Cidade do Recife,
2009; e na Antologia Poética do site da Interpoética. É
autora do livro A outra face, 2004.

MÁRIO SETTE, (“Não há quem dê mais?”), nasceu


e faleceu no Recife/PE (19.04.1886-25.03.1950). Pro-
fessor catedrático, funcionário público, folclorista,
romancista, contista, ensaísta. Estreou com o roman-
ce Ao clarão dos obuses. Aparecem, então, contos e en-
saios, depois novelas, romances e obras de investiga-
ção histórica, que traçam perfis singulares dos tipos
humanos mais característicos do povo e as tradições
do Recife Antigo, com suas crenças, seus hábitos e cos-
tumes. E também as paisagens canavieiras