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Organizadores

Antônio Campos
Cyl Gallindo

P A NO R A M I C A D O

CONTO
EM P ERNAMBUCO
2ª edição
Ampliada, revista e atualizada
de acordo com a nova ortografia.
Inclui índice onomástico.

Recife, 2010
3
Copyright dos textos© dos autores
Copyright da edição© 2010 Carpe Diem - Edições e Produções

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida, nem apropriada ou
estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da Editora.

Organização
Antônio Campos | Cyl Gallindo

Editoria e Coordenação Editorial


Antônio Campos | Norma Baracho Araújo

Assessoria Técnico-Administrativa (IMC)


Kamila Nascimento | Leila Teixeira | Veronika Zydowicz
Projeto gráfico
Patrícia Lima
Revisão de texto e elaboração do Índice Onomástico*
Norma Baracho Araújo
* Apresentação, Prefácio e Dados Biobibliográficos

Impressão
Gráfica Santa Marta

P195 Panorâmica do Conto em Pernambuco/ Orgs. Antônio Campos, Cyl


Gallindo. 2. ed., rev., atual. e ampl. de acordo com a nova
ortografia - Recife: Carpe Diem edições e Produções, 2010.
873p.;


Inclui índice onomástico.

ISBN 978-85-62648-10-6

1. Contos Brasileiros - Pernambuco. 2. Panorama de contos. I.
Campos, Antônio (org.), II. Gallindo, Cyl (org.) III. Título.

CDU 821.134.3 (81) – 34
CRB4/1544

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Carpe Diem - Edições e Produções


Rua do Chacon, 335, Casa Forte, Recife, PE
55 81 32696134 | www.editoracarpediem.com.br
Sumário

Apresentação, Antônio Campos, 9

Prefácio, Cyl Gallindo, 13

Abdias Moura, Natal com criminosos, 25


Admaldo Matos de Assis, A menina, 31
Alberto Lins Caldas, O exterminador, 37
Albuquerque Pereira, A visita da saúde, 42
Alexandre Santos, A história de Bentinho, 48
Aluízio Furtado de Mendonça, Para além dos campos semeados, 54
Amílcar Dória Matos, Prelúdio, 56
Ana Maria César, Incidente ao meio-dia, 64
Antônio Campos, O julgamento, 67
Ariano Suassuna, O casamento, 71
Arnaldo Tobias, Clarinha, 95
Ascenso Ferreira, O Engole Cobra, 97
Augusto Ferraz, Bestas piedosas, 99
Barbosa Lima Sobrinho, A supremacia feminina, 105
Bartyra Soares, Estradas do mar, 109
Beatriz Brenner, O sono, 113
Benito Araújo, O rio, 117
Carlos Newton Júnior, Regresso, 121
Carlos Cavalcanti, O teco-teco, 126
Clarice Lispector, Felicidade clandestina, 129
Cláudio Aguiar, O comedor de sonhos, 133
Cloves Marques, A dama do paço, 138
Cristovam Buarque, Os dois corações, 143
Cyl Gallindo, De como descobri que não existo, 154
Dioclécio Luz, O dançarino de bolero, 163
Djanira Silva, Teodora, 170
Edna Alcântara, Corina, 173
Eduardo Lucena, O jardim, 175
Everaldo Moreira Veras, Pião na unha ou o campeão, 184
Fátima Quintas, De profundis, 190
Fernando Monteiro, Stromboli, 194
Fernando Pessoa Ferreira, Ninguém ouve os sabiás, 200
Flávio Chaves, O sonho de Ulpiano, 211
Flávio Guerra, Rua do Encantamento, 217
Francisco Bandeira de Mello, Crônica de uma tarde de domingo, 223
Francisco Julião, As escravas, 233
Gastão de Holanda, Josias e a Imperatriz, 241
Geraldo Falcão, Osteopatia, 254
Gerusa Leal, Os brincos prateados, 261
Gilberto Freyre, Fred, o Tio Comandante, 264
Gilvan Lemos, Ex-noite, 270
Graciliano Ramos, Dois dedos, 282
Hermilo Borba Filho, O almirante, 291
Hugo Vaz, Desempregado, 293
Iran Gama, O rosário, 303
Jacques Ribemboim, Essa mosca morde, 316
Jayme Torban, João sem Pernas e Maria dos Jornais, 319
Joaquim Cardoso, Brassávola, 324
José Carlos Cavalcanti Borges, Coração de dona Iaiá, 334
José Cláudio, Lucky, mártir da Copa, 342
José Conde, O regresso, 345
José Rodrigues de Paiva, Como as nuvens que passam, 349
Juareiz Correia, O dia em que a cidade endoidou, 353
Ladjane Bandeira, Um gesto ancestral, 357
Lailson de Holanda Cavalcanti, A casa do velho Cirilo, 364
Laura Areias, Efemeridade da vida, 372
Leônidas Câmara, Franz Kafka voa de Zepelim, 375

6
Liana Ribemboim Feldman, Dela, Adina, 395
Lourdes Nicácio, Sobreviventes, 399
Lourdes Sarmento, O perdão, 402
Luce Pereira, Clóvis, 407
Lúcia Cardoso, O chapéu de Gary Cooper, 411
Lúcia Moura, A chuva de sábado à noite, 415
Luciene Freitas, Detalhes no azul, 418
Lucilo Varejão, Duquesa, 420
Lucilo Varejão Neto, Zero, zerinho, 425
Lúcio Ferreira, Joca do Boi, 428
Luís André Negrão, Ansiedade, 430
Luís Jardim, O homem que galopava, 434
Luiz Arraes, O remetente, 449
Luzilá Gonçalves Ferreira, O enterro de João, 452
Majela Colares, O fantasma de Samoa, 459
Marco Albertim, Soler, emoção e morte, 465
Marco Polo Guimarães, Valentia, 470
Marcus Accioly, Uma égua chamada Sua-Mãe, 472
Margarida Cantarelli, O retrato e as flores, 477
Maria de Lourdes Hortas, O bruxo de Santiago, 482
Maria Inêz Oludé, Tio Zambelê, 487
Maria Lúcia Chiappetta, A decisão, 498
Mário Márcio, Luna, 502
Mário Rodrigues do Nascimento, Papéis sombrios, 512
Mário Sete, Juros do coração..., 515
Maurício Melo Júnior, Amanhã eu vou, 519
Mauro Mota, O criador de passarinhos, 525
Maximiano Campos, Na estrada, 535
Medeiros e Albuquerque, As calças do Raposo, 547
Micheliny Verunschk, A menina do nome de flor, 562
Milton Lins, Os cinco reinos ganhos e o reino perdido, 566
Montez Magno, A construção do tempo, 571
Múcio Leão, A última viagem do almirante Silva, 583
Nelson Rodrigues, A dama do lotação, 589

7
Nivaldo Tenório, A reforma, 595
Olímpio Bonald Neto, Mestre João de Dão, 599
Osman Lins, Elegíada, 605
Paulo Caldas, Refresco de cajá, 610
Pelópidas Soares, A grande reta, 617
Perseu Lemos, O carro vermelho, 622
Pietro Galindo, O louco, 630
Raimundo Carrero, Aika Tharina, 633
Rosa Lia Dinelli, Madeira perfumada, 638
Rubem Rocha Filho, Desfile na Dantas Barreto, 644
Sérgio Moacir de Albuquerque, Decisão, 652
Si Cabral, Tal pai, tal filho, 656
Telma de Figueiredo Brilhante, O voo, 659
Urariano Mota, Daniel, 661
Valdecir Freire Lopes, Sanatório, 667
Valdi Coutinho, Ângelus, 671
Vanja Carneiro Campos, O bem, 675
Verônica Nery, Separação por assassinato, 681
Vital Corrêa de Araújo, Vida simples, 685
William Ferrer, Excluídos, 688
William Porto, Aconteceu no Natal, 691
Zenaide Pedrosa, Mudando a vida, 696
Zenilda Pinheiro Borges Santiago, Encanto, 699
Zuleide Duarte, Nome, 703
Zuyla Cartaxo, Revelação, 707

Dados biobibliográficos, 710

Abreviaturas e siglas, 857

Índice onomástico, 861

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Apresentação

Pernambuco em Antologias
Antônio Campos*

O Instituto Maximiano Campos surgiu da necessidade


de preservar a memória do escritor Maximiano Campos,
meu pai. Memória não apenas dele, mas também da fa-
mília, do trabalho, dos seus amigos – na quase totalidade
escritores –, do seu Estado, da sua região Nordeste, enfim
do Brasil. Para ser fiel ao seu espírito plural e coletivo, o
IMC, além de conservar, promover e divulgar a obra de
Maximiano, realiza e apoia eventos culturais, como tam-
bém concursos literários.
Entre as atividades que o IMC vem desenvolvendo,
devo destacar a publicação de livros, a exemplo desta
coleção, Pernambuco em Antologias, que revela a literatura
pernambucana em verso e prosa. As obras, organizadas
por mim em parceria com grandes amigos, são um vasto
mural da produção literária pernambucana.
O livro Pernambuco, terra da poesia, idealizado por mim
e pela ensaísta Cláudia Cordeiro, é um painel da poesia
pernambucana entre os séculos XVI e XXI. Ao reunir 161
poetas em quase 600 páginas de poemas, tivemos como
resultado um registro magnífico de várias situações, paisa-
gens e sentimentos vivenciados, tanto por parte dos auto-
res quanto pelos leitores que “viajam” ao lerem a obra. É
um registro físico da literatura nacional, desde o marco da
Literatura Brasileira, com o poema Prosopopeia, de Ben-
to Teixeira, até produções locais da famosa Geração 65,
da qual o próprio Maximiano fez parte. A toda hora, em
toda parte, encontro um poeta, agradecido por participar
da obra, ou escritores e críticos a comentá-la, citando des-
conhecer autores nela revelados. É uma forma de termos
conosco a história de Pernambuco de uma maneira mais
clara e sublime, através da Arte Poética.
Como em todos os escritos poéticos, esses trajetos não
se desenrolam de maneira uniforme. Cada poeta e cada
poema têm suas próprias características, assim como avalia-
ções, julgamentos e encantamentos singulares – reservados
aos leitores desta coletânea. Uma estética sucede-se à outra,
assim como um juízo a outro. A história da Arte Poética está
longe de formar um todo homogêneo e unânime. Assim,
acreditamos que a principal tarefa da poesia tem sido, atra-
vés dos séculos, falar das verdades que habitam em cada
homem, em cada escritor, de uma forma atemporal e que
possibilita ao próprio homem se reconhecer, independen-
temente da época. Concordo com Ferreira Gullar que diz:
“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao so-
frimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma
luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que
nasce das mãos e do espírito dos homens.”, pois a poesia é
isso. É a verdade absoluta em cada um de nós.
O sucesso de Pernambuco, terra da poesia despertou em
mim o interesse de produzir outro livro. Desta vez, volta-
do à área da ficção. O outro volume da coleção é Panorâ-
mica do conto em Pernambuco, fruto da minha parceria com
o escritor Cyl Gallindo. A obra, cuja produção demandou
a leitura detalhada de mais de 500 textos em livros, re-
vistas, internet e até mesmo em acervos pessoais cedidos
pelos próprios autores, resultou em uma síntese do que
há de melhor na literatura de contos.
Nessa coletânea de contos, tivemos prazerosas des-
cobertas, desde a inédita Margarida Cantarelli até o ex-
governador de Pernambuco Barbosa Lima Sobrinho; na
extensão do conceito de pernambucanidade, incluímos

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Graciliano Ramos, visto que morou em Buíque durante
boa parte de sua infância, assim como a ucraniana Clarice
Lispector, que se dizia recifense por ter morado no Recife
quando criança e onde realizou os estudos primários. Essas
inserções são possíveis, porque, a partir da primeira obra,
adotamos o critério de “Domicílio Literário”, que trans-
cende ao do simples registro biográfico da naturalidade.
Histórias da infância, amizades, aventuras e grandes
amores são narrados por escritores como Amílcar Dória
Matos (recém-falecido), Benito Araújo, Fátima Quintas,
Gilberto Freyre, Luzilá Gonçalves, Raimundo Carrero e
tantos outros não menos importantes que estes antes ci-
tados. Como afirmou Gallindo, “as coletâneas são como
as publicações de obras completas de autores vivos: ficam
sempre incompletas”, mas acredito piamente que fizemos
um belo trabalho.
Lançada a antologia de contos, era chegado o momento
de voltar a atenção para a publicação de uma antologia de
crônicas. Desta feita, a parceria na organização seria com
o professor Luiz Carlos Monteiro. A antologia Cronistas de
Pernambuco reflete um esforço literário de forte expressivi-
dade cultural, no sentido de trazer a lume escritores de pe-
ríodos diferenciados da vida e da história pernambucanas.
São autores de variada origem e tendência profissional e
artística, do século XIX até os dias atuais. A importância
dessa contribuição cultural evidencia-se pelo registro lite-
rário que tais autores empreenderam na forma da crôni-
ca, reunindo pequenos ou grandes acontecimentos, fatos e
eventos cotidianos que a notícia de jornal não pode expri-
mir com a poesia e a sutilidade que a crônica requer.
O mundo, cada vez mais individualista e fragmentado,
precisa unir-se, e uma antologia é uma tentativa de união.
João Cabral de Melo Neto mostra que a reunião de diver-
sos cantos é a responsável por uma grande manhã:

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“Um galo sozinho não tece uma manhã
ele precisará sempre de outros galos.
(...) para que a manhã, desde uma teia tênue
se vá tecendo, entre todos os galos.”
O sociólogo Renato Carneiro Campos, em um ensaio
intitulado Joaquim Nabuco: um agitador de ideias, afirma que,
se tivesse que escolher um Estado, na Federação, para re-
presentar D. Quixote, este Estado seria Pernambuco, pois
“Não lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto”.
Realmente, Renato tinha razão. Pernambuco, com suas
revoluções falhadas e seus movimentos libertários abafados
a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação.
Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados em
1817, quando foi proclamada a República de Pernambuco,
e em 1824, quando se desenrolou a Confederação do Equa-
dor, o território da antiga Província de Pernambuco perdeu
as Comarcas das Alagoas e a do São Francisco. Contudo, Per-
nambuco resistiu e nunca deixou de sonhar e de fazer arte.
Certa vez, Alceu Amoroso Lima disse que, quando o
Brasil está em crise, se volta para cá, para a região cortada
pelo Rio São Francisco, que é conhecido como o “Rio da
Integração Nacional”.
Que o sol de Pernambuco e a força de sua poesia e
de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações,
acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostre o
verdadeiro caminho da nação brasileira. A série Pernam-
buco em Antologias é exatamente isso. É um meio de mos-
trar ao Brasil e ao mundo o valor desta terra iluminada,
tanto pelo sol estampado em nossa bandeira, quanto no
valor histórico, cultural e intelectual do nosso povo. Além
de ser uma homenagem sincera que prestamos ao nosso
Estado e a cada um dos pernambucanos.

*Advogado, Escritor, Presidente do


Instituto Maximiano Campos (IMC).

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Prefácio
Cyl Gallindo

A segunda edição deste livro vale por um troféu, con-


quistado por Antônio Campos, presidente do Instituto Ma-
ximiano Campos, e por toda a equipe que dela participou.
Eu próprio que dei tudo de mim na sua elaboração estou
feliz. E muito especialmente se esta 2ª. edição traz a partici-
pação de Ariano Suassuna. Ariano, o épico, o modelo inspi-
rador de quantos fazem literatura neste País. Ariano e Zélia
o casal amigo de longas datas. Seu nome não havia sido
esquecido e a sua ausência doía-me como espinha de peixe
atravessada na garganta. Reparada essa falta, grito: Ariano
Suassuna participa da PANORÂMICA DO CONTO – Em
Pernambuco. Veio juntar-se aos grandes nomes que fizeram
de Pernambuco o seu domicílio cultural. E com ele veio o
jovem escritor Carlos Newton, completarem o motivo desta
2ª. edição, revista dentro das normas da nova ortografia da
língua portuguesa e ampliada. Há falhas, tenho consciência
disso, mas também sei da quase impossibilidade de incluir
todos os nomes daqueles que viveram Pernambuco.
Relendo a apresentação feita para a primeira edição,
agora nomeada de Prefácio, aceitando sugestões de outros
escritores, graças a sua ampla estrutura, por situar histo-
ricamente a obra, justificá-la e descer a detalhes estéticos,
verifico que as alterações serão poucas, mas relevantes.
Relevantes pelo que corrobora com as teses aqui expostas,
como é o caso da importância da Literatura praticada no
Nordeste brasileiro, em relação à Literatura brasileira, ou
o que se define como Literatura.
Estava fora das minhas cogitações a ideia de produzir
mais uma antologia de autores pernambucanos.
As coletâneas são como as publicações de obras comple-
tas de autores vivos: ficam sempre incompletas. No entanto,
diante do convite de Antônio Campos, presidente do Insti-
tuto Maximiano Campos (IMC), dando-me plena liberdade
na seleção dos participantes, nas Notas e na Apresentação,
não pude recusar essa tarefa. E com a evolução do trabalho,
pude ver no filho do meu amigo Maximiano Campos a fir-
meza de propósito e o grau de cidadania por ele exercida, a
confirmar a linhagem de descendência do estadista seu avô
Miguel Arraes. Todo o período de elaboração da obra, do
qual ele participou atenta e minuciosamente, transcorreu
em harmonia e entendimento.
O exemplo de uma obra de arte estava na minha mão,
como marco histórico da literatura pernambucana, quiçá
brasileira, produzida pelo próprio Antônio Campos e por
Cláudia Cordeiro: a coletânea Pernambuco, terra da poesia:
um painel da poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI –,
prefácio de Hildeberto Barbosa Filho e orelhas de Gilber-
to Mendonça Telles, IMC-PE/Escrituras – SP, 2005.
Ademais, mesmo tendo organizado a Agenda poética
do Recife: antologia dos novíssimos –, honrada com o prefá-
cio do poeta Joaquim Cardozo e notas de Audálio Alves,
Mauro Mota, Pessoa de Moraes e Aguinaldo Silva; e mais
duas outras de contos: O urbanismo na literatura e Contos
de Pernambuco, e acreditasse que minha missão estivesse
cumprida, sentia no imo da consciência que algumas ver-
dades precisavam ser ditas sobre a Literatura Brasileira e
sobre o Nordeste. A oportunidade era chegada: organizar
uma obra, com textos de outros autores, muitos deles in-
telectuais incontestáveis, como Gilberto Freyre, Joaquim
Cardozo, Osman Lins, Ariano Suassuna e o surpreenden-
temente contista Barbosa Lima Sobrinho, mais Graciliano
Ramos, Clarice Lispector, enfim, uma obra que reunisse

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do primeiro contista pernambucano Medeiros e Albuquer-
que até inéditos como Liana Ribemboim, Pietro Galindo
e Luiz André Negrão, metade do recado estaria dado.
A outra metade, tentarei transmitir com a seguinte ex-
plicação: Fala-se demais em Literatura Brasileira, em que
se apontam Machado de Assis, Olavo Bilac, Raul Pompéia,
Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Carlos Drummond
de Andrade, e uma lista imensa de grandes autores cario-
cas, paulistas, mineiros, paranaenses e gaúchos. Acontece,
porém, que a literatura de um país, de um Estado, de uma
região, por mais que se enquadre na definição do poeta
Manuel Bandeira: Literatura é arte que se exprime por meio
de palavras, não é constituída apenas da obra de um autor
isolado, por importante que seja esse autor e grandiosa
que seja a sua obra.
No conceito de Aurélio Buarque de Holanda: Litera-
tura é um conjunto de trabalhos literários dum país ou duma
época. R. W. Emerson, mesmo que omita o indispensável
termo conjunto, é um pouco mais exaltado e preceitua:
Literatura é a expressão pessoal das nacionalidades. Ajuntan-
do os dois conceitos, Antônio Cândido conclui: ...convém
principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura
propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas
por denominadores comuns.
Denominadores comuns que, no meu entendimento,
definem a Literatura como conjunto de obras profunda-
mente entrelaçadas, entre si, com conexões estabelecidas
pela palavra, com o som, a cor, o espaço, o volume, o mo-
vimento, e o senso abstrato do ser, entre todas as demais
artes, que revelem um povo, uma região, um estado, um
país, ou mesmo uma época.
Longe de mim está a pretensão de negar o valor de
qualquer um desses grandes escritores nacionais. Mas não
vejo meios de amarrar a obra de Machado de Assis à de
Simões Lopes Neto ou de Erico Verissimo, ou à de Carlos

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Drummond de Andrade, ou à de Dalton Trevisan, nem às
de centenas de outros intelectuais das demais regiões do
País, em todas as épocas. São valores indiscutíveis, mas in-
dividuais, desagregados, dissociados uns dos outros. Eles
não compõem o tal conjunto de obras, como expressão pes-
soal da nacionalidade, salvo exceções como Macunaíma,
de Mário de Andrade; Cobra Norato, de Raul Bopp; livros
de Monteiro Lobato; a pintura de Portinari, que realmen-
te são obras de identidade brasileira, grandiosas e sem frau-
de, no dizer de Oswald de Andrade saudando Cobra No-
rato. A não ser que se invoque a linha urbana explorada
pela maioria deles, desde Machado de Assis, ou mesmo
antes, mas perfeitamente identificada como produto de
importação. Especialmente porque é temerário falar de
urbanismo, neste país, ainda hoje, onde o anacrônico e o
hodierno se cruzam nas avenidas das grandes cidades de
todas as regiões, ou até mesmo no interior das residências.
J. Baptista Chabot define cidade por suas funções e por um
gênero de vida e os elementos menos visíveis, mas indispensáveis
da noção de cidade: passado histórico ou forma de civilização,
concepção e mentalidade dos seus habitantes.
O que me leva a dizer que urbanismo é mais um apu-
rado complexo de civilização científico-artístico-tecno-
crática do que simples agrupamento humano, residente
em casas ou edifícios dispostos em logradouros. Nos paí­
ses altamente civilizados, citadinos e rurícolas, até certo
ponto, formam uma sociedade única, participam de uma
mesma civilização e de um mesmo mercado econômico,
como constatei visitando o interior da Holanda.
Não se pode esconder que alguns autores, como Carlos
Heitor Cony, em Tijolo de segurança, e José Condé, em Noite
contra noite, já se lançaram com revelações de uma angústia
urbano-burguesa, mas não deixam de ser atos isolados.
Enquanto as obras produzidas pelos autores nordesti-
nos, como que perpassadas por um fio de Ariadne, desde o

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Romantismo, apresentam criações profundamente entrela­
çadas umas às outras, com reflexo de todas as demais artes
produzidas na região.
Assim sendo, podemos afirmar que o Brasil tem uma
literatura, mas a espinha dorsal dessa Literatura Brasi-
leira está no Nordeste. E de tal forma mostra-se como
expressão pessoal da nacionalidade brasileira, pois nada
produzido neste país, em termos de cinema, teatro, ar-
tes plásticas, televisão, rádio, música, dança, gastronomia,
tem intrínseco o sentido de brasilidade sem que tenha raí­
zes na cultura nordestina.
Aqui há uma forte sinergia incontestável entre o passa-
do e o presente; o rural e o urbano; o popular e o erudi-
to, Deus e o Diabo, o sofrimento e o prazer. Os melhores
exemplos dessa expressão são as obras de Graciliano Ra-
mos e as de Ariano Suassuna. Este tornou eruditos per-
sonagens como João Grilo; compôs a sua obra-prima, o
romance A pedra do reino, dividida em folhetos, criou o
Movimento Armorial, com Cussy de Almeida, seguidos
por inúmeros artistas e escritores, com vista ao aproveita-
mento erudito dos valores populares, ruralistas e telúricos
do Nordeste. Ariano nas suas conferências é um Ascenso
Ferreira declamando, com a espetaculosa dimensão dada
por Manuel Bandeira no prefácio do livro Catimbó, ao pa-
tentear: quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar,
cuspir, dançar, arrotar os seus poemas, não pode ter ideia das
virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que
lhes imprime o autor. Assim também se pode definir Aria-
no, ouvindo-o nas suas palestras, sem nenhum desmaio
das verdades que são ditas. Ele próprio as define de aulas
espetáculos. Já o mestre Graciliano, especialmente nas suas
Histórias de Alexandre, uma das mais cristalinas expressões
da cultura nordestina, continua a enfeitar as telinhas nos
programas humorísticos, sem que seu nome sequer seja
citado. É mentira, Terta?

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As razões dessa produção uníssona vêm dos tempos co-
loniais. A primeira delas foi a perda da hegemonia político-
econômica pelo Nordeste, o que resultou no isolamento, no
esquecimento e no empobrecimento da Região. Seguem-se
as adversidades climáticas, causadoras das secas e estiagens
e promotoras da fome, da desnutrição e das doenças, tão
bem demonstradas por Josué de Castro e Nelson Chaves.
Outra mais é a posição geográfica do Nordeste: exceto na
banda leste, a nos oferecer a luz do sol nascente e as águas
oceânicas, nos demais pontos cardeais, todos os nossos limi-
tes são com o próprio Brasil. Noutras regiões, cada Estado
limita-se com um ou dois países de cultura hispânica, in-
clusive na região Norte, não obstante, aí, a influência seja
quase nula, porque ainda lhe cabe a definição do paraense
Leandro Tocantins, que é: um mundo de água, um tanto de
terra e um quê de gente. Gente que já nos deu José Veríssimo,
Artur César Ferreira Reis, Thiago de Mello, Astrid Cabral,
Benedito Monteiro, e uns tantos mais jovens, todos de boa
cepa. No Centro-Sul, as fronteiras eram intestinas, delimita-
das pelos muros dos consulados e das embaixadas, algumas
das quais exercendo mais poderes sobre a nossa vontade do
que os governantes tupiniquins. Veio daí o ar cosmopolita
das suas grandes cidades, e o hábito de olhar quase que
exclusivamente para o exterior, para as nações mais desen-
volvidas, em detrimento dos reclamos das demais regiões
e dos países vizinhos. Dessa forma, as diferenças regionais
viraram fossos intransponíveis, geradores de muitos brasis,
naquilo que poderia ser uma única nação.
O cruzamento de europeus, negros e índios, segundo
Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, engendrou esse povo bra-
sileiro, de etnia singular no mundo.
No Nordeste não se formaram bolsões étnicos como
no Sul e Centro-Sul. Jamais, por aqui, o papa João Paulo
II teria uma recepção tão polonesa como a que teve em
Santa Catarina; nem o imperador Hiroito, tão japonesa

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como a que lhe foi oferecida em São Paulo. Quem se fixou
no Nordeste virou brasileiro, nesses quinhentos anos.
Dos tempos coloniais, apesar das perdas, contamos
com a presença de Maurício de Nassau, que para aqui
trouxe uma plêiade de intelectuais: pintores, como Albert
Eckhout e Frans Post, botânicos, como Georg Marcgra-
ve, e médicos como William Piso, mais arquitetos, geó-
grafos, religiosos, historiadores, cartógrafos, estes autores
do Atlas Vingboons, contrastando com a grande maioria de
mercenários e degredados enviados pelos ibéricos.
A verdade é que no Recife edificou-se a primeira Sinago-
ga das Américas, a Kahal Zur Israel; e em Igarassu, a primei-
ra Igreja Católica do Brasil, a dos Santos Cosme e Damião;
assim como existiram, por certo, muitos centros de Xangô,
ao lado dos Ouricuris, indígenas, que foram engolidos pelo
tempo. Europeus cultuavam Cristo; negros, Xangô; e indí-
genas, Tupã. A diferença não tinha importância.
Importa, porém, é frisar que pela primeira vez se viveu
uma democracia religiosa nas Américas. Tudo isso sob a
visão calvinista, intolerante nos Países Baixos, mas liberali-
zante na colônia. E na época em que predominava o Santo
Ofício, com a Inquisição, para quem índios e negros não
tinham alma e podiam ser mortos como os gados.
Pela primeira vez um governante pretendeu pagar sa-
lário ao trabalhador braçal, exatamente índios e negros.
Pela primeira vez uma cidade foi urbanizada e saneada.
Foi estabelecida a liberdade de comércio. Aqui foram es-
critos os primeiros poemas da Literatura Brasileira, por
Bento Teixeira, e pela primeira vez a nossa História foi
escrita, por Barlaeus, e tantas coisas mais que dariam
tratados, como têm dado os ensaios de Evaldo Cabral de
Mello, José Antônio Gonsalves de Mello, e alguns outros.
Para fechar o assunto, lembro que ainda hoje se fala
em Maurício de Nassau, mesmo que os seus palácios te-
nham sido varridos do mapa da cidade do Recife, e se põe

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em questão se o Nordeste sob seu governo não teria outra
feição, diferente da atual. Vale dizer sobre as influências
do século XVII, que não se perderam por completo no
tempo, pois ainda vivem na documentação que vem sen-
do estudada, no imaginário fantástico do pernambucano,
em torno dessa ocupação e nas centenas de Lendas que
corriam Brasil afora. Lendas já em grande parte reunidas
no livro O holandês imaginário – lendas do Brasil Holandês,
idealizado por Pablo Marcyl Bruyns Gallindo e produzi-
do por Ann Blokland e Judith de Jong Andrade Oliveira,
editado pela CEPE, Recife, 2007, sob patrocínio da Em-
baixada do Reino dos Países Baixos/ABN-Amro Bank.
Com o isolamento e o esquecimento impostos, o nor-
destino criou os seus próprios meios de sobrevivência ma-
terial e emocional. Temática é o que não lhe falta. Bro-
ta na própria carne. Anote-se que autor nenhum pode
arrogar-se proprietário de uma temática. Quem se pode-
ria proclamar dono do amor, das guerras, do sofrimento,
da fé, da ganância, da traição, da vingança, do encontro
e desencontro, da exploração do homem pelo homem,
com patriarcalismo, feudalismo e a mais-valia, da fome,
da miséria e de milhões de motivos que geraram e geram
as literaturas de todos os povos? Adicionem-se a esses in-
gredientes, a despeito de tantas adversidades, a alegria
de ser, a música, a dança, a luz, o calor, que terá como
resultado um Nordeste com uma forte literatura, ou um
só corpo cultural e, como diz Emerson, como expressão
da nacionalidade. Expressão esta que Euclides da Cunha
afixou na História com esta frase irretocável: O Nordeste é
o cerne da nacionalidade brasileira.
Além do legado colonial, o misticismo, nesta terra,
que atingiu seu ápice na figura de Antônio Conselheiro,
magistralmente retratado por Euclides da Cunha, em Os
sertões, criou uma quase dinastia mística, ao transmitir sua
liderança à figura do Padre Cícero Romão Batista, tam-

20
bém de atuação belicosa, ao lado de Floro Bartolomeu,
no Ceará, descrita por Rui Facó em Cangaceiros e fanáticos.
Com acentuada queda de autoridade, porém de gran-
de significado no terreno religioso/místico, permaneceu
até poucos dias Frei Damião, prometendo o fogo do infer-
no para os amancebados e para os descrentes das leis de Deus.
Os coronéis e senhores de engenho, patriarcalistas e feu-
dais, fizeram uma história particularista nas fazendas e
engenhos de cana-de-açúcar, assim como os fazendeiros
de cacau, na Bahia, e os cangaceiros, em toda a região,
souberam marcar suas presenças nos anais do Nordeste,
com o suor e o sangue das senzalas. Senzalas que também
fizeram história com seus quilombos, com reverências ao
Quilombo dos Palmares.
Todo esse caldeirão exigiu um especial tratamento da
parte dos intelectuais. Motivou uma grande criação ar-
tístico-literária e fez de cada nordestino um artesão do
próprio sentimento. E quase todos souberam dar a sua
contribuição, desde os grandes romancistas, teatrólogos,
musicólogos e poetas eruditos, até os romancistas, teatró-
logos, musicólogos e poetas populares e semianalfabetos.
Aqui, enquanto Manuel Bandeira ameaça ir embora para
Pasárgada, Manoel Camilo dos Santos relata sua Viagem a
São Saruê; Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro pon-
tuam, em Paris, ao lado de Picasso; Dila e J. Borges gra-
vam nas feiras do interior; Ariano Suassuna produz Auto
da Compadecida, João Ferreira de Lima descreve as Proezas
de João Grilo; o poemário de Ascenso Ferreira veio, quase
todo, da boca do povo; a famosa música Águas de março,
arranjada pelo maestro Tom Jobim, já era cantada pelo
meu avô, talvez sem esse título. Vem daí a reação popu-
lar à sua utilização na propaganda de um refrigerante de
uma multinacional. E não para nesses exemplos.
É quase impossível separar um autor de outro, uma
obra de outra: O fio que desponta no século XVII passa

21
por Gonçalves Dias, Castro Alves, costura Franklin Távora,
José de Alencar, Aluísio Azevedo, Augusto dos Anjos, Ma-
nuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Luís da Câmara
Cascudo, Jorge de Lima, Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre,
Hermilo Borba Filho, Jorge Amado, Rachel de Queiroz,
José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Graciliano
Ramos, Osman Lins, até escritores atuais como Ferreira
Gullar, Luiz Berto, Gilvan Lemos, Maria do Carmo Barre-
to Campello de Melo, Vamireh Chacon, Maximiano Cam-
pos, Marcus Accioly, Ângelo Monteiro, Alberto da Cunha
Melo, Raimundo Carrero e todos os nomes que compõem
esta Coletânea. Fio esse que sobe aos céus e desce aos in-
fernos, e tece, e tece, ora com a temática, ora com o voca-
bulário, ora com o ritmo e se desembesta e se mistura às
outras artes, nessa contagiante magia atemporal. Isso é a
Literatura produzida no Nordeste.
Como separar desse contexto a música do rei do baião
Luiz Gonzaga, o mestre Sivuca, Capiba, Caymmi, Nelson
Ferreira, Cussy de Almeida, Gilberto Gil, Caetano Veloso,
Alceu Valença, Lia de Itamaracá, e os cultores das nossas
centenas de ritmos? Na cerâmica, do erudito Francisco
Brennand a artesãos como o mestre Vitalino, de Caruaru,
e Ana das Carrancas, de Petrolina? Os gravuristas Dila e J.
Borges? No entalhe, do inconfundível Corbiniano Lins ao
mestre Nosa, de Juazeiro? Todos eles com sutis expressões
inseridas no trabalho pela antememória. O núcleo, ou
epicentro dessa explosão cultural, foi e é o Recife. Como
ensina Gilberto Freyre, no prefácio de Tempo dos flamengos,
de Gonsalves de Mello, Cidade que, na sua história intelectu-
al, é quase tão dos sergipanos e dos cearenses, dos paraibanos e
dos rio-grandenses-do-norte, dos maranhenses e dos paranaen-
ses, e tão do Brasil inteiro, e não apenas de um Estado ou de uma
região, como o Rio de Janeiro e a Bahia...
Razão essa que impõe a inclusão de autores nascidos
em Pernambuco e daqueles que têm formação intelectual

22
pernambucana. Para quem Lêdo Ivo receitou: Amar mu-
lheres, várias. Cidade, só uma, o Recife.
Para categorizar a força e a importância da cultura nor-
destina, cito apenas dois grandes exemplos, com trabalhos
estruturais, pela adesão a essa realidade brasileira: O pri-
meiro deles é Euclides da Cunha, natural de Cantagalo,
Rio de Janeiro, que ao tomar conhecimento de Canudos,
apontada como foco antirrepublicano, saiu do Sul para a
Bahia, defendendo o extermínio do Conselheiro e seus
jagunços. Uma vez no palco da guerra, ao fazer as suas
anotações, das quais resultou o livro Os sertões, concluiu
essa monumental obra com a declaração de que o que pre-
senciara fora um crime, e lamenta que ainda não exista um
Mauds­ley para as loucuras e os crimes das nacionalidades.
Mas a importância dessa obra não está apenas no fato
de ele reconhecer o erro do prejulgamento, como tan-
tos outros, ainda hoje, feito sem conhecimento de causa
daquela comunidade. A obra, em si própria, tornou-se,
perante o mundo, a mais importante da historiografia na-
cional, traçou um perfil exato deste país, por ter coragem
de reconhecer e comprovar que o Nordeste é o cerne da na-
cionalidade brasileira.
O segundo exemplo é Guimarães Rosa. Para falar do
autor de Sagarana, antecipo que o Brasil está dividido em
cinco regiões, o que não existe. Uma região não é defi-
nida por um grupo de geógrafos num escritório. O que
determina uma região são a fauna e a flora nela existentes
ou inexistentes. Dessa forma, no Brasil há apenas quatro
regiões: da Serra da Mantiqueira para a bacia do Prata
temos a região Sul; no lado oposto, com a bacia do São
Francisco, a região Nordeste, que se estende de Minas Ge-
rais até a metade do Maranhão. Daí em diante, começa a
bacia amazônica, que forma a região Norte. Para Oeste,
tem-se o Planalto Central, ou região Centro-Oeste. Pode
haver trechos formando sub-regiões, mas região, mesmo,

23
não há. O São Francisco é considerado o rio de integra-
ção nacional, pelo fato de que por ele descem as águas, e
navegam as embarcações levando notícias, hábitos, costu-
mes, fuxico, rezas, pragas, e mil coisas menos visíveis, mas
que vêm a redundar no cerne da nacionalidade, captado
por Euclides. Se Guimarães Rosa tivesse descido em dire-
ção à bacia do Prata, por certo teria escrito um Ulisses à
brasileira. Como desceu para o São Francisco, o resultado
foi Grande sertão: veredas.
Assim entendido, Euclides e Guimarães Rosa, ao lado
de Gilberto Freyre, com obras estruturais, constituem os
principais elementos anatômicos dessa coluna vertebral
chamada Literatura Brasileira.
Quem quiser, através da Literatura Comparada, pode
conferir, a começar pelos 116 autores, enfeixados nesta
Panorâmica do conto em Pernambuco, sem a pretensão de
reunir obras-primas, selecionada a partir da leitura de
quase 500 trabalhos, seguindo a orientação estabelecida
pelo Instituto Maximiano Campos (IMC), a exemplo do
trabalho realizado com a poesia.

Recife, 15 de maio de 2007

24
Natal com criminosos
Abdias Moura

No dia 20 de dezembro de 19..., recebi em casa uma


ligação telefônica inesperada. No outro lado da linha, o
Juiz das Execuções Criminais do Recife, meu antigo cole-
ga de Faculdade de Direito, que poucos anos depois fale-
ceu, precocemente. Sua morte foi registrada como natu-
ral, mas não deixou de ser estranha, pois era muito jovem
e parecia gozar de boa saúde. O Atestado de Óbito falava
em “parada cardíaca”, mas nunca considerei essa consta-
tação explicativa da ocorrência. Penso que ela se aplica a
qualquer tipo de morte.
Não é disso, porém, que desejo falar, mas do telefo-
nema em si. Depois de me desejar Feliz Natal, extensivo
à esposa e aos filhos, o meu amigo magistrado fez um
pedido que me pareceu muito embaraçoso, mas não tive
condições de negar. Nós dois não nos havíamos encontra-
do, na realidade, desde o dia da formatura, mas tínhamos
tido na Faculdade uma convivência muito amigável.
Como, recém-formado, me mudara para o Rio de Ja-
neiro, e nunca me correspondi com o ex-colega, havíamos
perdido o contato. Nem mesmo o procurei, quando da
volta a Pernambuco. Só não digo que ele conseguiu meu
endereço no Catálogo Telefônico, porque a natureza do
assunto requeria que estivesse bem informado sobre mi-
nha vida familiar e profissional. Ele desejava simplesmen-
te que eu recebesse em minha casa, para jantar com a fa-
mília, na noite da comemoração do nascimento do Cristo,
dois detentos da Penitenciária Agrícola de Itamaracá, que
Natal com criminosos

haviam sido autorizados a passar a noite fora das grades,


como “prêmio ao bom comportamento”, mas não tinham
família no Recife. A única recomendação era a de que não
servisse bebidas alcoólicas.
Li, depois, que o bom juiz, idealista perfeito, premiou
igualmente vários outros detentos com esse indulto de
Natal, tendo se encarregado pessoalmente de conseguir
outros voluntários para completar sua boa ação.
De minha parte, naquele ano, mandei os filhos jantar
com parentes, e recebi em casa, com certa apreensão, os
dois desconhecidos de maus antecedentes. Eles foram tra-
zidos por um carro da Polícia, pouco depois das dez horas
da noite do dia 24, e apanhados de volta nas primeiras
horas do dia 25. Este não é um conto de suspense, por isso
prefiro logo antecipar que nada aconteceu de extraordiná-
rio, ou alarmante, na reunião. Os dois prisioneiros eram
pessoas simples e não me pareceram agressivos. Um mais
tímido, o outro falante, mas os dois inteligentes. Salvo pe-
quenas gafes, como a de lamber o dedo com que segurara
uma fatia de presunto, e molhar de xixi a tampa da privada
(comportamento reprovado mais pela minha companhei-
ra), saíram-se muito bem do teste de sociabilidade.
De início, a conversa se arrastou penosamente, mas aos
poucos conseguimos deixá-los à vontade, apesar da proibi-
ção de ingerir bebidas fortes feita pelo meu amigo magis-
trado. Não exibi garrafas, mas fiz pessoalmente um pon-
che, adocicado, contendo um pouco de vinho tinto tipo Ca-
bernet e uma quantidade bem maior de suco de uva, além
de refrigerantes variados. Seja como for, os dois comeram
bem, beberam um pouco e a partir de certo momento con-
versaram animadamente, sentindo-se à vontade, como se
estivessem em casa, num ambiente familiar.
Evitei perguntas sobre o passado de cada um, mas eles
próprios fizeram questão de dizer o que os levara à con-

26
Abdias Moura

denação, ambos por crimes de morte: um “por vingança”


e o outro numa briga “sem motivo”, iniciada numa mesa
de bar. O mais moço chegara a frequentar o ginásio, em
sua cidade do interior, tendo parado os estudos por se en-
volver no assassinato. Não pedi detalhes sobre o crime,
mas parece que ele conseguiu passar alguns anos foragido
noutro Estado, antes de ser preso. Por isso, interrompeu os
estudos. O mais velho fizera apenas o curso primário, mas
disse que gostava muito de ler revistas e às vezes livros. Até
brincou: “Condenado a tantos anos de prisão, tive de virar
intelectual, e hoje sei mais do que muito doutor que conhe-
ço”. Não tomei essa declaração como ironia.
Para fugir de assuntos pessoais, fiz aos dois uma pergun-
ta que provocou muita discussão, mas em nível civilizado:
“Como será a celebração do Natal, no próximo século?”
– Completamente diferente de hoje – respondeu o que
gostava de leituras. E continuou: – O mundo vai se trans-
formar numa grande penitenciária aberta. Não precisa ter
cometido crime, cada um passará o Natal em seu peque-
no espaço parecido com os de uma prisão, com banhei-
ro privativo e uma cama tipo hospitalar. Na parede, uma
grande tela de televisão. As imagens vão se sucedendo,
coloridas, e aparecem as festas de todo os cantos da terra.
Os alimentos da ceia serão trazidos na hora, mediante um
código de escolha de cardápio, com registro automático
na conta bancária.
Devo acentuar que, na época dessa conversa, que ago-
ra relembro, a televisão no Recife se limitava às iniciativas
pioneiras de Assis Chateaubriand e F. Pessoa de Queiroz,
com a TV Tupi e a Jornal do Commercio transmitindo
apenas programas locais, em preto e branco. Também
não havia pagamento com cartão de crédito, nem movi-
mentação de contas bancárias por telefone, que só apare-
ceram anos depois.

27
Natal com criminosos

O outro visitante corrigiu, com veemência bem-educa-


da, a opinião do companheiro.
– Ora, para mim – disse ele –, o Natal será como sem-
pre foi. Jesus é o mesmo, a humanidade é a mesma. Esse
negócio de “penitenciária aberta” é fantasia. Quem esti-
ver condenado vai ver as estrelas dentro da prisão, com
aquela ceia horrorosa que fazem todos os anos. A não ser
que apareça outro juiz humano como o doutor Antônio
Luiz e deixe dois ou três jantar na casa de uma família
distinta como esta. Eu quero aproveitar para agradecer ao
casal o que estão nos oferecendo... Houve um momento
de silêncio, ficando todos a esperar o que mais iria dizer,
até que o outro retomou a palavra.
– Eu também agradeço pelo jantar. Estar aqui fora da
prisão prova que as coisas estão mudando. Lá dentro das
grades ninguém nota direito como está o mundo, mas a
verdade é que tudo está diferente cá fora. Estamos viven-
do um novo Renascimento, como aquele que acabou com
o mundo em que os padres mandavam em tudo.
Eu senti, nesse exato momento, que o outro presidiá­
rio não prestava a menor atenção ao que dizia seu compa-
nheiro (penso mesmo que percebi um brilho de lágrimas
em seus olhos). Parecia comovido. Poderia ser o efeito do
vinho, mesmo em quantidade tão pequena? Pensei em di-
zer também qualquer coisa sobre o Natal, para atrair a sua
atenção. Pessoalmente, acho que o mundo está sempre
mudando, mas devo esclarecer que na época dessa con-
versa não se falava em microcomputador muito menos na
internet, ou globalização. Falava-se, sim, em internacio-
nalismo, em trustes e cartéis, em crescimento e decadên-
cia das civilizações. Mas já estava começando a entrar na
onda a teoria do desenvolvimento econômico, como se o
bem-estar coletivo estivesse ao alcance de todos os povos,
por vias diferentes daquelas pregadas pelo cristianismo

28
Abdias Moura

ou pelo socialismo. Eu poderia talvez aproveitar a refe-


rência do presidiário à palavra renascimento, para dizer
que nossa época tinha alguma coisa em comum com o fim
da Idade Média. Mas não disse isso. Anotara, no tempo
da Faculdade, que quando a palavra renascença foi escrita
pela primeira vez na França (em 1553) pelo escritor Be-
lon, no livro Les observations de plusieurs singularités, muitos
pensaram que se estava anunciando o fim do cristianis-
mo, talvez a vinda de um novo Deus. No entanto, os pro-
testos de Lutero contra os erros da Igreja resultaram no
surgimento da Ordem de Cristo para pregar a Contrarre-
forma. O Natal continuou a ser comemorado na Europa,
e também nas terras recém-ocupadas das Américas, por
protestantes e católicos. Mas preferi me manter em silên-
cio. Os outros também continua­ram calados.
Quem salvou a reunião foi minha companheira, que
resolveu pôr na radiola um disco com cantos de Natal.
Com a magia da música, o presidiário que primeiro falara
retornou à palavra. Disse ele:
– É, tudo muda, e a comemoração do Natal também.
Lembro-me que em criança minha mãe enfeitava a sala com
bonecos que representavam a cena da Manjedoura: o Cristo
menino, José e Maria, o boi e o burro, os pastores e os reis
magos com seus presentes. Sempre achei muito lindo, e sei
onde começou isso. Era uma tradição deixada por São Fran-
cisco de Assis, trazida pelos portugueses para o Brasil.
O outro disse que preferia as comemorações com os
presentes e as árvores de Natal.
– Influência norte-americana, acentuou o seu compa­
nheiro de prisão. A Lapinha foi sendo substituída pela ár-
vore de Natal, o menino Jesus pela figura do Papai Noel,
um homem muito bondoso, que morou em um país onde
havia muita neve e muito frio. Não se pode negar que mui-
ta coisa mudou, mas eu prefiro o Natal de antigamente.

29
Natal com criminosos

Minha companheira, que pouco havia falado, disse


pensar que o hábito de dar presentes estava ligado à tra-
dição referente aos Reis Magos, que trouxeram ouro, in-
censo e mirra para o menino da Manjedoura.
– Muito conveniente para o comércio – advertiu o que
falara por último.
– E, sobretudo, injusto para os muitos pobres. Quan-
do eu era garoto, acordava cedo no dia 25 de dezembro,
para ver o que havia sobre o meu sapato deixado junto da
cama. Minha mãe era professora e eu já dormia sabendo
o que iria encontrar: um livro de histórias (de Anderson,
de Grimm, de Monteiro Lobato). É por isso que eu gosto
tanto de livros...
Cada um contou então os tipos de presentes que re-
cebia na infância. E a conversa continuou assim, ingê-
nua e simples até a hora em que o camburão da Polícia
Judiciária chegou para apanhar de volta os prisioneiros.
Quem não reparasse nesse pormenor, poderia pensar que
se tratava de uma Ceia de Natal comum, celebrada entre
parentes e amigos. Para mim, tornou-se inesquecível, so-
bretudo depois que a morte prematura levou para outras
paragens o meu ex-colega de Faculdade, Juiz Corregedor
Antônio Luiz Lins de Barros. Penso que, desde então, ele
comemora o Natal ao lado de Cristo, tendo à mesa o bom
ladrão da cena do Calvário e, quem sabe, alguns homens
que cumpriram pena em prisões brasileiras.

30
A menina
Admaldo Matos de Assis

O quarto tinha paredes altas e brancas. A porta, tam-


bém alta, de madeira maciça, pintada de azul e encimada
por uma abertura a que chamam de bandeira.
Estava na cama, em decúbito dorsal, olhando o telha-
do escuro. Tentava conciliar o sono, olhando o telhado
muito alto e escuro, onde uma telha de vidro projetava
facho de luz sobre a parede, pois era noite de lua cheia.
Não sou dado a perder o sono. Pelo contrário, durmo
pesada e continuamente, não havendo pancada, chamado
e barulho comum que me despertem. Dizem que ronco e o
meu roncar incomoda não só quem divide comigo o quar-
to, mas os que dormem na mesma casa. Naquela noite, per-
dera o sono sem motivo: alimentara-me frugalmente, não
tivera contrariedade ou excitação alguma, sequer dormira
a sesta. Salvo um pouco de calor, no quarto de paredes altas
e brancas, desprovido de ventilador e de ar-condicionado,
nenhuma outra justificativa havia para a insônia.
Não sei durante quanto tempo, enquanto todos dor-
miam e o silêncio era sepulcral, fiquei na cama, olhando
o telhado, a réstia de luar, tentando pacientemente ador-
mecer.
Como tenho prazer da reflexão, aproveitei o espaço
aberto pela insônia para ocupá-lo como voos longínquos,
alçados deliberadamente, na expectativa de que o sono,
como uma aranha, de forma imperceptível, me acolhesse
em sua teia suave.
A menina

Pensava na finitude ou infinitude do espaço, na eter-


nidade ou não do tempo, no sentido da vida, no vazio da
morte... Refletia sobre todas essas questões que as ciências
exatas não demonstram, a Filosofia não esclarece, a Teolo-
gia, ao explicar, não convence. Sempre que penso na mor-
te, não como fenômeno físico ou circunstância natural, mas
como o vazio antagônico do meu ser, o adeus definitivo à
vida, meu racionalismo cartesiano cede lugar a temor orgâ-
nico, verdadeiro pavor animal. Naquela noite, sucumbido
pela insônia, pensei na morte e senti calafrio de medo.
Só tardiamente compreendi que o exercício do pensar
e o ato de dormir são inconciliáveis. Mas, quando me ad-
verti, as asas do pensamento tinham voado longe demais,
durante um lapso de tempo não medido, que poderia ter
a duração de um minuto ou a de uma noite inteira.
Embora fosse noite alta, não estava imerso na escuri-
dão, mas na penumbra do quarto de paredes altas e bran-
cas, porque, além do luar coado pela telha de vidro, havia
uma réstia de luz vinda do corredor fronteiriço.
Não foi difícil vê-la, pequenina, com seu passinho cur-
to, entrar no quarto, arrastando um lençol branco, sem
saber ao certo para onde ia.
– Minha filha, venha cá – disse-lhe baixinho. – Filhi-
nha, venha cá – repeti, supondo que não me ouvira.
Não eram aqueles olhos – grandes e negros – mas o
olhar que vinha deles que me transmitia medo, como se
a menina estivesse em perigo, me pedindo socorro, na
solidão do quarto de paredes altas e brancas.
Aqueles olhos, grandes e negros – mas o olhar, que me
transmitia medo, como se a menina estivesse em perigo,
me pedindo socorro, na solidão do quarto de paredes al-
tas e brancas.
– Filha, me dê um abraço – disse-lhe baixinho, quase
sussurrando, na suposição de que, desperta em meio a
um pesadelo, estivesse amedrontada.

32
Admaldo Matos de Assis

Ela se aproximou e percebi que estava fria, cheirando


mal, cheia de urina dos pés à cabeça, inclusive o lençol,
que arrastara do seu quarto até o meu.
– Estou com frio – foi tudo que ela me disse, não sei se
com a voz de choro ou se apenas com os olhos – grandes
e negros – que insistiam em me lembrar os de alguém que
eu não conseguia identificar.
Rapidamente a despi da calcinha, da fralda, da cami-
sola fina; afastei o lençol preso em uma de suas mãos;
enfim, a livrei de todos os panos frios, encharcados de uri-
na, e a abracei com o meu pijama de algodão de mangas
longas, para desumidificar e aquecer seu corpinho frágil.
Com ela nos braços, fui ao seu quarto, depositei as ves-
tes e o lençol molhados na cesta de vime destinada à rou-
pa suja, peguei na cômoda branca calcinha, fralda e cami-
sola enxutas, além de uma toalha felpuda, para lavar-lhe
o corpo pegajoso e livrá-la do cheiro acre do xixi.
O banheiro era enorme, revestido de azulejos bran-
cos e encardidos, lavatório, bacia sanitária e bidê de louça
igualmente branca, e, no alto, um velho chuveiro de me-
tal, de onde pendia mangueira transparente, com a qual
dei um banho morno na menina, enxugando-a e vestin-
do-a rapidamente.
Durante esse tempo, continuou a me olhar com seus
olhos – grandes e negros – que me davam a impressão de
estar em perigo e suplicar proteção.
Foi tentando decifrar a mensagem do seu olhar pro-
fundo que acordei sobressaltado. Durante algum tem-
po, após despertar, ainda tinha dúvidas se atravessara a
fronteira do sonho à realidade ou o contrário. Quando
tive certeza de que estivera sonhando (o sonho mais real
de toda minha vida), fui tomado pelo terrível pressenti-
mento de que alguém em casa ou, talvez, um parente, um
amigo estivesse em perigo. Verifiquei que minha mulher,
ao lado, dormia sono calmo. Intranquilo, fui ao quarto

33
A menina

das minhas filhas, ambas moças feitas, onde não constatei


qualquer anormalidade. Ainda temeroso, percorri todo o
apartamento e observei estar tudo na mais perfeita or-
dem. Um pouco aliviado, mas ainda preso do mau pres-
sentimento, voltei ao leito e assisti, de olhos abertos, ao
amanhecer. No dia seguinte, não me chegou notícia de
morte, acidente ou fato desagradável envolvendo pessoa
de minha amizade. Finalmente – pensei – havia me im-
pressionado demais e sem motivo com mero sonho, sem
maiores consequências.
Ocorre que, na noite seguinte e nas semanas subsequen-
tes, o mesmo sonho se repetiu com pequenas variações.
Agora, tão logo a menina entrava no quarto de paredes
brancas e altas, eu já tinha coragem de chamá-la, e nem era
preciso, porque ela se dirigia a mim, com passo miúdo, os
mesmos olhos – grandes e negros – e o mesmíssimo olhar
de quem pedia socorro. O pior – e para mim incompreen-
sível – é que, no decorrer de cada sonho, me lembrava do
anterior, como se a cada vez não estivesse sonhando.
Os parentes e amigos me consideravam homem de co-
ração duro e extremamente racional. Apesar de toda essa
dureza e racionalidade, a repetição daquele sonho trans-
tornou-me a vida. O quarto de paredes altas e brancas, a
porta, encimada por uma bandeira, e a réstia de luar me
envolviam numa atmosfera asfixiante. Os olhos – grandes
e negros – da menina (lembrando os de alguém que eu não
conseguia identificar) e o olhar suplicando-me proteção me
causaram tão forte piedade e angústia que, a cada dia, to-
dos facilmente percebiam que eu dormira mal e amanhece-
ra tenso. Sempre achei que o sonho espelha, com maior ou
menor nitidez, imagens ou impressões do cotidiano recen-
te ou antigo; por isso, nunca me pareceu razoável sonhar
com o desconhecido, o nunca visto. Assim supondo, passei
a investigar, no curso de minha vida, que fato, imagem ou

34
Admaldo Matos de Assis

experiência teria ensejado o sonho dramático e repetido,


que me vinha transformando a vida num inferno.
Inicialmente, vasculhei a memória como se procu-
ra agulha num palheiro, buscando rosto de alguém, fo-
tografia, pintura que lembrasse aqueles olhos – grandes
e negros – que me pediam atenção, proteção, ou ainda
alguma construção (casa, igreja, escola, hotel, hospital)
que me tivesse inoculado no subconsciente a imagem do
quarto de paredes altas e brancas e daquela porta azul,
de madeira maciça, encimada por uma bandeira. A pro-
cura rigorosa nos escaninhos da lembrança resultou em
vão. Obstinado em resolver o mistério, consultei minha
mulher, com quem era casado há mais de vinte anos, e
meus pais, então vivos e lúcidos, se, em alguma época ou
lugar havíamos conhecido alguém que nos tivesse pedido
socorro (eu descrevia, com riqueza de detalhes, os olhos
e o olhar que vira em sonho). Ninguém recordava de ter
visto algo parecido com a minha descrição. Também lhes
indaguei se em alguma circunstância, próxima ou remota,
conhecêramos prédio que tivesse paredes altas e brancas
e a porta azul, encimada pela bandeira, que se repetia no
meu sonho. Quanto a isso, não me conseguiram ajudar.
Recorri aos álbuns de família, aos livros em que estuda-
ra e que ainda guardo comigo, visitei museus e galerias de
arte, dei-me até ao trabalho de percorrer, pacientemente,
os cemitérios onde algum dia estivera, à procura de uma
imagem, por simples que fosse, que servisse de chave para
esclarecer o segredo. Todo esforço resultou inútil.
Conversei sobre o sonho com um psicólogo renomado,
com o padre que me casou e batizou minhas filhas e com
um velho tio, espírita, que lera e relera as obras completas
de Allan Kardec. O que me disseram ou insinuaram, não
me pareceu convincente.
O sentimento de impotência que me afligia por não
socorrer aquela menina que, em sonho, repetia insistente-

35
A menina

mente o pedido de proteção, criou-me uma sensação tão


permanente e opressiva que comecei a retardar a ida para
a cama (lendo, escrevendo, assistindo à televisão madru-
gada adentro), evitando dormir, pelo medo de sonhar.
Esse sofrimento me consumiu durante meses, até o dia
(ou melhor, noite) em que o sonho se repetiu de forma
dife­rente. O quarto, as paredes, a porta e a réstia eram
os mesmos. Eu estava dormindo. A menina, a mesma me-
nina, acordava-me e passava a pentear os meus cabelos
suavemente, deliciosamente. Suas roupas estavam secas e
a sua camisola cheirava a alfazema. Os olhos – grandes e
negros – não mais expressavam medo; seu olhar já não
pedia socorro, mas me cobria de afeto.
Acordei. Mas continuei de olhos fechados, na vã tenta-
tiva de reatar o fio do sonho desfeito.
Nunca mais voltei a ter o sonho feliz, embora já se te-
nham passado quase dez anos. Dele ficou-me a sensação
de que me separei de uma filha querida, que me penteava
os cabelos com carinho e, felizmente, já não corria perigo
e nem me pedia proteção. Na minha vida, a angústia foi
substituída pela saudade.
Minhas filhas casaram e já chegaram netos. O aparta­
mento onde vivo cresceu, à medida que diminuíram seus
moradores. Agora, quando vou dormir, no meu coração
duro de homem extremamente racional, a cada noite, re-
nasce a esperança de que a menina – de olhos grandes e
negros – voltará para mim.

36
O exterminador
Alberto Lins Caldas

Sou um homem velho e cansado. Trabalho neste lugar


há muito tempo. Se me aposento, morro de fome. Por isso
ainda permaneço nesta mesa. Quando arrasto os pés pe-
los corredores, posso sentir nos moços o medo da velhice
e a intranquilidade provocada pela minha insignificante
figura. Quando tusso um pouco mais, percebo que todos
param apreensivos com o trabalho que dará minha prová-
vel morte. Um estorvo definitivo. Por isso fico tanto tempo
nesta mesa. Minha perna tem doído terrivelmente. Não
chega exatamente a ser uma dor, mas um mal-estar pesa-
do puxando os tendões, querendo explodir maldosamen-
te os músculos, como se minha perna existisse mais do que
a mim próprio. De tanto pensar e olhar para ela e alisá-la
como se fosse um cachorro, tenho esquecido o edifício, a
sala, os corredores e principalmente a mim mesmo. Mas
isso não é justo. Depois de tantos anos de trabalho, ficar
reduzido a cuidar de uma perna é mais que terrível. É
como se fosse o espelho da minha vida: uma perna que
não para de doer existindo mais que o dono. Por isso, é
bem mesmo talvez por isso, que me pus a escrever. Mas
não tenho sobre o que escrever. Minha vida é este edifí-
cio, estas salas, minha mesa e os papéis. Não vivi e isso
não dói mais do que a perna. Comecei agora a escrever
porque a perna dói insuportavelmente e já não tenho tra-
balho suficiente para esquecer a perna, os papéis, a sala,
o edifício. Se não fosse por isso, não me poria inutilmente
a gastar o papel e o lápis da repartição. Algum inquérito
O exterminador

poderia me aposentar ou mesmo me pôr na rua. Aí, sim,


teria de enfrentar miseravelmente a morte, a miséria e a
dor por dentro dos ossos da perna sem mais o conforto
da mesa conhecida, a cadeira com a marca do meu corpo,
a pintura gasta da sala, os corredores e o velho conhecido
edifício. Mas ninguém se importa mais com o que faço.
Temem os atropelos que a minha morte causaria. Por isso
mesmo não perguntam mais nada. É bem verdade que
não teria muito a responder. Com as modificações no ser-
viço, não conheço as novas exigências. Antes eram o lápis,
o papel, alguns carimbos, uns números conhecidos e tudo
fluía sem mistério. Esquecíamos o que estávamos fazendo
e podíamos sonhar. Só não podíamos fazer cara de sonho,
mas podía­mos sonhar. As máquinas de hoje não permitem
sonhos. Mas não quero continuar o assunto. É melhor es-
quecer. Esta sala é simples. Conheço até as pequenas ba-
ratas que nascem no verão. Acho que é no verão. Depois
de muito lutar, escondem-se nas rachaduras da madeira
velha. Às vezes tenho orgulho de ser um homem bom e
medo por ser bom. Medo porque eles podem querer me
devorar por uma simples folha de papel gasta por enfa-
do. Medo também da soberba. A bondade deve ser uma
virtude inconsciente. Tão inconsciente que poderíamos
flutuar ou mesmo correr sobre as águas sem afundar. Mas
eu sou de uma bondade dolorosa e triste. Não caminho
sobre as águas, é certo, mas em toda a minha vida não
fiz mal a ninguém. Somente a mim mesmo por não ter
fugido. Mas isso contribui ainda mais para minha bonda-
de. Mas bondade não é virtude que se encontre em muita
gente. Chegam mesmo a afiar a faca. Não ligo, não. Ve-
lho demais para sofrer com certos olhares que machucam
e risos que nos fazem chorar por dentro. Não ligo mais
nada, não. Parece que a velhice nos entorpece a alma com
tanta memória vã que não mais distingo esta sala desta

38
Alberto Lins Caldas

mesa ou esta perna deste lápis. Fica tudo sendo partes de


nós mesmos. Ainda por cima, a questão da bondade. Mas
eles não se importam com isso. Serpenteiam descarada-
mente de sala em sala. Não querem saber se estamos num
mesmo buraco. Fazem sofrer e eu sofro ou não sofro tanto
quanto sofria. Não sei se a bondade, a velhice ou a dor na
perna têm-me feito relevar as maldades. De qualquer ma-
neira não é nada importante. É apenas um homem que
vai apodrecendo em paz e sonha ser um homem bom e fe-
liz. Mesmo que jamais eu tenha sido feliz ou tenha vivido
em paz. Não importa. Queira deus tudo seja breve. Escre-
vendo esqueço a dor na perna, a sala, os papéis, onde as
letras se unem misteriosamente. Ainda não sei como leio
ou escrevo. Parece fácil. Mas eu não sei como acontece.
Como a imagem que é um mistério e mesmo o nada es-
curo de dentro se transformam em tão poucas letras que
se juntam em palavras que nascem de mim. Logo de mim
que não tenho história. Já pensei muito nisso. Não tenho
história e ponto final. Parece que não vivi. Olho para trás
e todos os segundos estão vazios. Dentro deles não existe
sequer uma saudade, um verso, um pôr do sol, uma coisi-
nha besta qualquer que valha a pena. Olho para frente e
os poucos segundos que me restam em nada diferem dos
segundos mortos. A minha vida foi um nada e não pude
ousar o contrário. O futuro somente agravará o puro es-
quecimento que foi a minha vida. Conheço esta mesa
como nenhum homem no mundo. Sei o conteúdo exato
das gavetas. Me conheço como as conheço. Meu tempo
se escoa como se fosse uma borra de café jogada pelo es-
goto. Sou dispensável, mas não guardo mágoa. Não sou
um homem mau. Sei que não fui nada porque nada dese-
jei, nada quis, por nada lutei. Então chorar por quê? Por
que tamanho desatino? Sou simplesmente um homem.
Um homem bom. Não consigo esmagar nem mesmo as

39
O exterminador

pequenas baratas que nascem dentro das gavetas. Nem


mesmo o ruído dos carros na rua nem mesmo o pouco
oxigênio desta sala me entristecem. O mundo sempre foi
para mim absolutamente estranho. Aqui dentro, não. Co-
nheço todo mundo e eles de uma maneira ou de outra me
conhecem. Somos todos uns vermes. Mas eles não sabem
disso. Isso nos distingue. Mas todos eles sem exceção de-
pois de quarenta anos de trabalho se olham no espelho e
descobrem que jamais foram humanos. Descobrem que
sempre foram vermes. Ninguém escapa. Comigo foi dife-
rente. Sempre soube que era um verme. Sou um homem
do meu tempo: não tenho história: estou fora da história:
não creio na história. Depois o nascimento das baratas.
Dediquei-me a elas quando escassearam os papéis. Sou
alguém que se perdeu num lugar conhecido. A morte já
não permite qualquer gesto além da rotina. Sou um ho-
mem bom: faço nascer as baratinhas que não conseguem
vir naturalmente ao mundo. Com um estilete apresso-lhes
o nascimento. As baratinhas estão nascendo. É bom vê-las
lutar pela vida, estender as patas e correr para um lugar
seguro, secar as asas, endurecer o corpo. Uma delas não
consegue sair do casulo. Ajudo-a. Faço-a sair. Acaricio-a
como a um pequeno filho. Recordo de mim. A peque-
na barata titubeia se deve procurar abrigo ou ceder ao
cansaço e à morte. Por um momento eu sou o minúsculo
inseto. Sinto frio. O mundo é infinito e terrível. O horror
dentro do horror. Lá em cima um monstro se move e eu
sinto medo. Um inseto, meu deus, é a mesma coisa que
um homem. Retorno a mim e choro por tudo o que é vivo
e ama e sofre. Sou definitivamente um homem bom. Com
o estilete decepo a cabeça da barata. É o primeiro crime
da minha vida. Sinto-me triste e pesado. Fui um tolo. É
impossível sair deste labirinto de salas e gritar que somos
os vermes mais terríveis do Universo. Fui um homem pro-

40
Alberto Lins Caldas

fundamente bom. A barata já não estremece. Minha per-


na explode. Meu deus, tenha piedade de tudo que é vivo
e nos aniquile com um gesto. Inútil. Como sempre, eu
sobreviverei. Eu sobrevivo a tudo.

41
A visita da saúde
Albuquerque Pereira

Começava por Mui Amada e bem-nascida, a delirante


saudação de Herval Moreno, declamada pelo autor junto
ao berço natal daquela que seria sua única descendente.
Segundo ele mesmo, o tempo mostrou o lado oracular
do seu arrebatamento poético. A menina lhe parecia cada
vez mais digna da homenagem. A ponto de fazê-lo pen-
sar que nem o afeto reunido de mil outros rebentos, se os
tivesse, chegaria perto do ascendente desvelo de Amada.
Quanto maior em estatura e entendimento, mais alta a
gratidão da filha por aqueles versos:

Mui Amada e bem-nascida,


tu me fazes transportado
do terráqueo desta vida
à sidérea dimensão.
Acordada, és real sonho
das alvíssaras e festas
de um futuro mui risonho;
dormitando me despertas
para aquilo que eu suponho
muito além de adoração
ante a qual frágil me faço
pois abalaste de assalto
(batimento em descompasso,
entre o baixo e o mais alto)
meu paterno coração.
Albuquerque Pereira

De fato, Amada dedicou-se, anos a fio, à retribuição de


tão derramada benquerença. Em tudo se esforçava para
honrar a redondilha maior daquele autor que ela consi-
derava antes de tudo um injustiçado. Porque ninguém lhe
reconhecia o valor, para ela digno de todos os louvores. Por
isso, sempre que podia, referia-se publicamente a Herval
como poeta superdotado, lia em voz alta suas últimas pro-
duções, repetia-lhe as tiradas literárias originalmente es-
critas em cadernos de papel pautado. Delas também fazia
cópias que exibia a indiferentes leitores e ouvintes tomados
ao acaso. Assediava inclusive críticos literários. O motivo
por que nenhum deles acusava o recebimento nem comen-
tava o material enviado era para ela um mistério. Extravio
do Correio? Insensibilidade ao belo? Inveja? Burrice? Ten-
tou editar os poemas reunidos e uma coletânea de pen-
samentos de Herval. Mas nenhuma editora se interessou,
nenhum financiador quis investir nos seus projetos. Assim,
o pai continuava inédito e, em consequência, injustiça das
injustiças, não poderia pensar na Academia, instituição que
decerto honraria com seu talento.
Nenhum contratempo, entretanto, a impedia de supe-
restimá-lo. E chegou às raias do exagero, sonhando com
um memorial, tão logo percebeu o progressivo enfraque-
cimento físico do poeta. Na verdade Amada compreen-
deu que, longe de qualquer mau agouro, Herval poderia
morrer de uma hora para outra, velhinho e doente como
estava. “Todos nós murchamos como a folha, e as nossas
iniquidades, como um vento, nos arrebatam”, lera na sur-
rada Bíblia dele, em destaque a lápis vermelho no livro de
Isaías, 64.6. Premonição do poeta?
Pois ele era digno de um sodalício, como gostava de
chamar. Os invejosos e indiferentes podiam negar-lhe
essa honraria, mas bem que merecia um museu, um tem-
plo onde beletristas e pesquisadores pudessem beber

43
A visita da saúde

principalmente do seu romantismo. Um bardo dos áure-


os tempos, menestrel plural. Clássico na poesia e popu-
lar nos costumes, os mais simples, do dia a dia. Para as
abluções matinais, rotineiras lavagens corporais de todas as
manhãs, Herval servia-se de jarra e bacia de porcelana,
heranças de estimação. Para ele, água encanada e pia não
passavam de inovações sem maior significado. A propó-
sito, entre seus objetos queridos incluía-se um urinol de
ágate, de comprovada resistência ao efeito corrosivo da
mais oxidante excreção. Era peça de uso noturno cons-
tante, inclusive porque (“maldita próstata!”) evitava-lhe
infindáveis idas, e voltas, ao banheiro, situado no fim do
corredor da casinha onde nasceu e ainda morava.
Erudito na escrita, mas dado, no colóquio, ao portu-
guês singelo, Herval dizia mesmo mijar e preferencial-
mente em penico, em vez de urinol ou vaso. Nada contra
penico, aliás sinônimo também de região pluviosa, penico
do céu como dizia o povo e o poeta aprovava, lembrando
a expressão pedir o penico, própria de quem se acovarda.
Amada, na sua admiração cega, enxergava também nessa
simplicidade mais uma faceta do valor do pai.
Mas, realidade inelutável, a doença de Herval era ir-
reversível, segundo os médicos. Amada, é claro, rejeitou
esse diagnóstico, fez jejum, promessa e (na hora do deses-
pero tudo vale!) até a oração forte recorreu. Mas o pai só
piorava.
Conformada, enfim, com a ideia da perda iminente,
Amada agarrou-se na esperança (a última que morre...) de
uma visita da saúde, antes que Herval se finasse. Ela jamais
presenciara essa visita, que a tradição popular dizia portado-
ra da falsa melhora de doente em estado grave, momentos
antes de sua morte. Mas nessas ocasiões, soubera, os visita-
dos aparentavam repentino restabelecimento, mostravam-
se lúcidos e até rememoravam a infância. Soubera, ainda,

44
Albuquerque Pereira

que alguns pediam e comiam, com apetite voraz, seu prato


preferido, embora falecessem logo após a refeição.
Fosse como fosse, a expectativa da visita da saúde vi-
rou sustento de Amada. O pai entrara em estado terminal
sem pronunciar uma palavra. Isso não era comum em in-
telectuais. Nas horas pré-agônicas eles costumavam falar.
Até lera últimas palavras atribuídas a poetas famosos an-
tes do último suspiro. Tobias Barreto, por exemplo, teria
dito: “Até a morte tem sua lógica”. E Olavo Bilac, o gênio
da Via-Láctea: “Amanhece… Deem-me café. Quero escre-
ver”. Francamente, não gostara da expressão satírica do
boêmio Emílio de Menezes: “Estou morrendo à presta-
ção”. Se verdadeira, tal frase não ficava bem na boca de
um parnasiano cultor das rimas raras. Quanto ao que te-
ria dito Casimiro de Abreu, menos mal: “Pois a morte é só
isso?” Magníficas, porém, as palavras do grande Milton,
autor do imortal Paraíso Perdido: “Agora vejo brilhar a
minha aurora”. Sem esquecer a incomparável grandeza
de Goethe naquela oração tão curta quanto irradiante:
“Luz, mais luz…”
Certamente Herval, de volta a si, diria algo que ela
cuidaria de publicar e inscrever na memória intelectual
brasileira do século. E então se faria, finalmente, justiça
ao grande poeta. A visita da saúde lhe daria uma der-
radeira cintilação de consciência, um último relâmpago
mental, um rebrilho dos muitos que, na fantasia de Ama-
da, afamariam Herval se editado... As esperadas derra-
deiras palavras do pai, a encomendação do padre e um
soneto, o primeiro da autoria de Amada, comporiam a
parte oral dos funerais: Meu Pai, era o título da rebuscada
obra. O estilo, imitando o clássico, arremedando o épico,
espelhava a procura da autora por um vocábulo finalmen-
te definidor de Herval, figura humana e literária que ela,
no seu delírio hereditário, na verdade julgava incabível

45
A visita da saúde

numa única expressão, mesmo a mais rica, daí sua tentati-


va de retratá-lo através de seguidas aproximações:

Poetastro, afamado epigramista,


soneteiro, cantor melodioso,
menestrel e rapsodo, um aforista,
trovador bem ritmado, harmonioso,

Foi das Musas um filho laureado,


um aedo, sem par versejador,
musical Helicon alevantado,
sobremodo um exímio rimador.
Redivivo Camões, grão beletrista,
divo, bardo, de Apolo iluminado,
do Parnaso sublime cancionista
por Homero e Calíope tutelado,
da existência se fez alado hinista
pelos ares ruflando sublimado.

Deus haveria de dar-lhe serenidade e voz firme para,


ao lado do ataúde, declamar seus versos, nascidos do que
considerava um impulso mágico e irresistível do qual ela
somente se apercebera depois de burilar o terceto final.
Nunca se julgara capaz de tamanha grandiloquência. Mas
produzira, com certeza, um soneto admirável na rima, na
métrica e, por que não dizer, na erudição. Tal pai, tal fi-
lha... e, modéstia à parte, de estatura poética superior à
do próprio Herval, que ele perdoasse a ousadia!
Nessa altura uma acompanhante do enfermo interrom­
peu o desvario vaidoso de Amada: – “Chegou a visita da
saúde!”.
Correram as duas para o quarto de Herval. Amada viu
no pai, sentado na cama e de olhos bem abertos, aquela
expressão iluminada de quando falava como seu pensa-
dor favorito. Então, maravilhada, ela quase gritou:

46
Albuquerque Pereira

“Depressa! Lápis e papel! Meu pai vai proferir suas


últimas palavras!”
Num fiozinho de voz, Herval disse apenas:
– Amada, dá-me o penico.
A sábia frase tão esperada limitou-se a essas palavras.
E como a visita da saúde tinha pressa, antes que Amanda
atendesse o pai, ele morreu.

47
A história de Bentinho
Alexandre Santos

Bentinho, como era conhecido Bento Antônio Trajano


Mendes Apolinário Neto, olhou para os lados e, sem remor-
so, puxou o gatilho, abatendo sua 12ª vítima. O ribombar
do disparo já não lhe causava nenhuma emoção. Os olhos
não piscavam. As mãos não tremiam. O coração não aperta-
va. A carreira de matador começara seis meses antes, quan-
do teve liberado o demônio que morava dentro de si.
Até os dez anos, Bentinho, a irmã e o irmão tiveram
infâncias felizes. Sem deixar que a pobreza interferisse na
estrutura familiar, o pai de Bentinho, o soldado de polícia
Natanael Bento, impunha rígida disciplina em casa. Ao
estilo do marido, além de acordá-los bem cedinho para
estudar e ajudar nas tarefas caseiras, a mãe obrigava os
filhos a receber o pai no retorno do trabalho todos os dias
no portão da casa.
Esta rotina foi quebrada bruscamente num dia de Na-
tal, quando, em vez do pai, a família recebeu a visita de
um sargento que, com a voz baixa, informou sobre a mor-
te de Natanael Bento num tiroteio com bandidos.
Desde então a vida de Bentinho se transformou. Sem
condições de sustentar a família, logo sua mãe se casou
com o dono da mercearia da esquina – um português com
quase o dobro da idade dela. As novas obrigações conju-
gais afastaram-na dos filhos, que, repentinamente, viram
abertas as portas do mundo. A irmã, não tardou, envere-
dou por uma trilha de festas e namorados. Ainda nova,
deixou a casa e partiu para a noite. O irmão meteu-se
Alexandre Santos

com companhias estranhas e, em poucos meses, depois


de curta vida de turbulências e tempestades, foi encontrar
o pai, igualmente morto com o corpo crivado de balas.
Estarrecido com tudo aquilo, Bentinho, mal saído da
infância, foi forçado a amadurecer. Amadureceu no car-
bureto. Ainda sem compreender a morte do irmão e o
desaparecimento da irmã, prometeu-se vencer na vida e
honrar o nome do pai. Mergulhou fundo na mercearia.
Acordava com os passarinhos e, ainda ruminando o café
da manhã, se colocava atrás do balcão para atender os
clientes e cumprir as ordens rosnadas pelo homem casado
com sua mãe. No início da tarde, interrompia a faina e
corria até a escola, onde ouvia coisas que já sabia. Pouco
ligava para as surras que o padrasto lhe aplicava. Queria
vencer na vida e tinha consciência de que ainda não esta-
va em condições de deixar o único lar que conhecia.
Um ano mais tarde foi forçado a abandonar a escola
e o trabalho aumentou. Passou, então, a trabalhar doze
horas por dia. Os gritos e safanões que recebia do velho
padrasto não arrefeciam a vontade. Pelo contrário. O me-
nino superou as humilhações e, em vez de cultivar perso-
nalidade fraca, curtido no fogo e no breu, Bentinho de-
senvolveu espírito forte. De qualquer forma, com o passar
dos anos, as surras foram ficando cada vez mais esparsas
até desaparecerem por completo. Bentinho nunca soube
se a alforria deveu-se ao fato de ter crescido, tendo ficado
mais alto que o velho, ou de ter assumido, de fato, a con-
dução do negócio do padrasto.
Tudo ia bem até que, belo dia, sem mais nem menos, a
pequena mercearia foi assaltada por três homens. Assus-
tado, Bentinho viu quando, sem necessidade ou aviso, o
padrasto foi alvejado com cinco balaços. O velho fora jul-
gado, condenado e executado pelos bandidos. Seu único
crime fora lamentar a coronhada que recebeu no rosto e

49
A história de Bentinho

reclamar da vida enquanto a caixa registradora era esva-


ziada. Sem encarar os bandidos, Bentinho viu a aranha
tatuada no braço do carrasco. Uma imagem que nunca
esqueceu.
Os funerais foram tristes. A polícia decepcionara, pois,
em greve por melhores salários, além de demorar a libe-
rar o corpo, não tomara nenhuma providência para elu-
cidar o crime.
A morte perseguia Bentinho. Primeiro, o pai. Depois,
o irmão. Agora, o padrasto. Mas, obstinado, mantinha a
promessa de subir na vida e honrar a memória do pai.
Deu a volta por cima. Convenceu a mãe, ainda jovem
e já viú­va pela segunda vez, a experimentar novos ares.
Vendeu a pequena mercearia, a casa miúda e mudou-se
com o que restava da família. Nova casa, nova vizinhança,
muitos planos, novo negócio. Não foi preciso muito esfor-
ço para convencer a dona do galpão abandonado e, incri-
velmente situado no melhor ponto do bairro, a alugá-lo.
Uma pechincha. Contrato longo. Aluguel barato. Só de-
pois Bentinho soube da chacina que, junto com o marido
e quatro amigos, arrasara os sonhos de felicidade daquela
mulher. Habituado com a morte, Bentinho desdenhou os
maus presságios e, embalado por muito suor e poucas ho-
ras de sono, transformou o lugar num mercadinho. Com
sua experiência e a ajuda da mãe, pensava Bentinho, o
negócio prosperaria.
Dito e feito. Já nos primeiros meses, o mercadinho se
consolidou como o preferido da vizinhança. E, de tostão
em tostão, Bentinho subiu na vida.
Disposto a contrariar a “regra” tão condenada pelo
pai, Bentinho não deixou que a prosperidade lhe subisse
à cabeça ou que mudasse a boa alma que sabia ter. Pelo
contrário. Passou a ajudar a comunidade, da qual retirava
o sustento e a riqueza. Empréstimos aos velhos. Crédito

50
Alexandre Santos

para os necessitados. Remédio para os doentes. Ajuda à


escola. Criou um time de futebol e passou a intermediar
os pedidos da comunidade perante a prefeitura.
O nome Bento Antônio Trajano Mendes Apolinário
Neto passou a figurar nas conversas do bairro. Para uns, ele
queria ser vereador. Para outros, queria apenas fazer o bem.
Todos, no entanto, concordavam que a ação de Bentinho
ajudava a comunidade, mantendo as crianças e os adoles-
centes ocupados, longe dos maus caminhos. Sem saber das
conversas, o benemérito Bentinho continuava a trabalhar
duro, enriquecendo e ajudando os mais necessitados.
Belo dia, ao chegar ao mercadinho, Bentinho encon-
trou o lugar aberto. A porta tinha sido forçada com um
pé de cabra. Pensou no pior. Mas, ao entrar, uma surpre-
sa. Nada havia sido tocado. Prateleiras arrumadas, cofre
intacto, caixa registradora incólume. Apenas um cartaz
escrito em tinta vermelha denunciava a visita intrusa. Na
folha de cartolina, garranchos ordenavam a imediata sus-
pensão das caridades. A assinatura, o desenho mal rabis-
cado de uma caveira indicava a seriedade da mensagem.
Com um frio na espinha, Bentinho resolveu acatar a inti-
mação e, bruscamente, interrompeu sua carreira de bom
samaritano. Ao tempo em que a assistência social do bair-
ro voltava para a exclusividade dos mentores do tráfico,
Bentinho caía nos malquereres dos antigos protegidos.
Coincidência ou não, o fato é que, em três semanas, o
mercado foi assaltado duas vezes. Assaltos baratos, pró-
prios de iniciantes e descontentes. Num primeiro mo-
mento, Bentinho endureceu e resolveu se armar – com-
prou uma escopeta cuja existência logo foi conhecida por
todos. O tiro, no entanto, saiu pela culatra, pois, em com-
portamento que depois foi associado a uma espécie de
implicância, os ladrões não recuaram e os assaltos ficaram
mais frequentes.

51
A história de Bentinho

Um dia, o mercadinho foi mais uma vez invadido. Cin­


co mascarados que logo anunciaram o assalto. Aquele seria
apenas mais um assalto na atribulada rotina que se estabe-
lecera havia algum tempo, se não fosse a inesperada che-
gada de uma vizinha. Ao ver os homens armados, a mulher
exasperou-se e gritou a todo pulmão. Foi o bastante para o
início da fuzilaria. Ao todo foram disparados 18 tiros, cinco
dos quais acertaram a mãe de Bentinho, matando-a ime-
diatamente. Bentinho foi alvejado quatro vezes.
Ao despertar, dois dias mais tarde, no leito de um hos-
pital, depois de uma cirurgia que lhe salvou a vida, Ben-
tinho quis morrer. Perdera a última referência que ainda
preservava. Desiludido, percebeu que, injustamente, es-
tava vivendo num inferno. Demônios impunes já haviam
levado o pai, a irmã, o irmão, o padrasto e agora a mãe.
Quem seria o próximo?
Ainda preso ao leito do hospital, Bentinho repensou
a vida e os compromissos que tinha consigo mesmo. Ain-
da não completara 21 anos e, embora procurasse dar o
melhor de si, nunca sentira o gostinho do céu. De que
adiantava trabalhar honestamente, pensou ele, se a vida
sempre lhe roubava os tesouros mais preciosos que tinha?
E, num estalo de dedos, o Bentinho que todos conheciam
desapareceu, dando lugar a um outro. Repentinamen-
te Bentinho endureceu o coração. O lado bom de Ben-
tinho não foi forte o suficiente para conter o demônio
que emergiu do lado sombrio que sequer sabia possuir.
Soube-se depois que a morte da mãe foi demais para a
estrutura que todos imaginavam forte. Bentinho saiu do
hospital transformado. Não era mais aquele homem pa-
cato e confiante, que queria subir na vida pelo trabalho,
honrando a memória do pai, o soldado Natanael Bento,
morto em serviço, em combate contra bandidos. O novo
Bentinho era um homem disposto a fazer justiça pelas
próprias mãos.

52
Alexandre Santos

Como se nada tivesse acontecido, Bentinho reabriu


o mercadinho tão logo chegou em casa após uma rápida
visita ao túmulo da mãe, ainda no dia em que recebeu
alta do hospital. E, sem que ninguém soubesse, Bentinho
se preparou e torceu pelo próximo assalto, que sabia não
demoraria. De fato, não tardou. Ainda naquela semana,
o mercadinho foi invadido por dois rapazes recém-saídos
da Febem. Coitados. Mal tiveram tempo para sacar as ar-
mas e anunciar o assalto. Tombaram mortos pelos tiros
certeiros desfechados por Bentinho, que com um sorriso
estranho segurava a escopeta jamais usada até então. As
formalidades com a polícia foram mais simples do que
Bentinho imaginava. Na realidade, o novo Bentinho não
deixou de sentir uma certa simpatia pelos policiais en-
carregados pelo levantamento dos corpos. Como se es-
tivessem aliviados pela súbita morte dos dois aprendizes
de bandido, os policiais foram extremamente suaves no
relatório, omitindo, inclusive, a participação de Bentinho
no sangrento episódio.
Quinze dias mais tarde, o novo Bentinho voltou a agir,
despachando mais duas pessoas para o mundo do além.
Desta vez, ao puxar o gatilho, Bentinho sentiu uma es-
tranha sensação de prazer. Um prazer que nunca expe-
rimentara. Ainda extasiado pela sensação, Bentinho se
deu conta que, aos 21 anos, era virgem. Já matara quatro
pessoas, mas nunca tivera uma mulher. Era melhor assim,
pensou ele, pois, sem ter a quem gostar, não corria o ris-
co de sofrer como sofrera com a morte do pai, do irmão,
do padrasto e da mãe. Respirou fundo, lembrou a aranha
tatuada no braço do carrasco de seu padrasto e, sem re-
morso, voltou à caçada convencido de que era sua a tarefa
de banir o mal.

53
Para além dos campos semeados
Aluízio Furtado de Mendonça

A tarde cai morna sobre os campos semeados.


É uma tarde de sol que avança sobre as terras até as
partes mais altas, na linha do horizonte. Fui criado nesses
mundos enormes, de matas fechadas, de ruídos estranhos
à noite, que nos despertam curiosas emoções: você ouve
os estalidos, percebe que seres ágeis fogem na sombra e
você começa a imaginar coisas que só a memória do ho-
mem do campo pode compreender.
Sim, é uma tarde de sol que se espraia devagar, atinge a
cabeceira da mata virgem, vai avançando em jornadas de luz
que vão terminar no alto das serras; a perder de vista. Quan-
do eu era menino, ficava horas inteiras olhando o horizon-
te azulado, imaginando coisas. Via-me devassando aquele
mundo de mistério, de sonho, de esperança de felicidade,
algo que vinha assim de dentro, que avassalava a alma, que
incitava o instinto ao êxtase, um estado de espírito sensual,
de apaziguada fascinação, um desejo de posse irresistível. Só
o homem nascido no interior pode compreender isso.
Chego à janela da casa-grande.
Estou inquieto.
Espero Gabriela como quem espera uma notícia de fe-
licidade. Ela é, aqui, neste mundo enorme e cultivado,
como o rio descendo as encostas em busca do vale, lá em-
baixo, as vacas pastando no pasto de capim alto, como
uma coisa de Deus, que eu não mereço.
Gabriela é meu amor da idade madura. Ela tem vinte
e oito anos, é esbelta, é bela, é sensual. Ela me chegou
Aluízio Furtado de Mendonça

numa época difícil, em que eu tinha conseguido estabili-


dade econômica, mas não tinha amor. A propriedade dava
lucro. Os negócios iam bem. Tudo o que eu fazia dava cer-
to, era um sucesso. Mas minha alma era fria. Eu estava só.
Sentia a solidão dos dias entrando pela minha alma, como
se uma noite de chuva ameaçasse a minha paz noturna.
Gabriela chegou. Deu-me calor. Deu-me vida. Desper-
tou-me daquela letargia dos negócios. Quando a noite
chega, ela vem com o seu corpo ardente, com os seus lá-
bios enxutos e sensuais e, na cama, entre os lençóis acon-
chegantes, me dá o incêndio de seu corpo de mulher jo-
vem em êxtase:
– Me aperta, me consome com teu amor! Me liberta
desse desejo! – ela me diz naquela sua linguagem incen-
diária.
E eu me transformo nesse homem de hoje que sente a
tarde cair mansamente sobre os campos arados, como se
meu próprio corpo exigisse a semente que haverá, mais
tarde, de povoar os celeiros de grãos, à espera da vida e
da reprodução.
O carro de Gabriela surge na estrada, avançando para
a casa-grande. Ela volta das compras na cidade e eu sinto
o perfume de seu corpo, o calor de sua carne, a volúpia
de seu sexo, pedindo-me amor. É uma coisa louca essa
mulher na minha vida!
– Ei, Nonô! Vem me buscar! – ela grita, lá da estrada.
E eu vou ao seu encontro, para trazê-la nos braços,
direto para a cama, onde o nosso amor se renova a cada
encontro, num múltiplo e iluminado campo de paixões
incontroláveis, semeantes.

55
Prelúdio
Amílcar Dória Matos

Ainda ressoa, nos ouvidos da minha alma, o alarido


de ontem, quando da celebração do meu aniversário de
sessenta anos, que coincide com o penúltimo dia do ca-
lendário.
Neste mesmo apartamento – impregnado da nostalgia
e da saudade da companheira que, já se vão mais de dois
anos, me antecedeu na viagem à outra margem –, nossos
descendentes cumpriram, durante toda a noite, o ritual
da benevolência.
Era como se me dissessem “veja bem, a vida prosse-
gue em sua misteriosa plenitude, você continua firme e
magnífico, dando sentido às nossas existências como ela
também o fez. Depois, esses traços melancólicos no seu
rosto emprestam-lhe ainda maior brilho aos olhos. E seus
sessenta anos simbolizam apenas o prelúdio, a centelha
do sol que sempre iluminará seus caminhos, enriquecidos
por uma lembrança benfazeja e vigorosa”.
Houve insinuações de que, embora se sabendo ser ela
insubstituível, o mundo é isso, um constante acréscimo,
uma continuidade, um continuum que não prescinde da
substância anterior. Não se trata de traição ao passado.
Trata-se de honrar sua herança. E prosseguir.
Tais palavras conotavam a subliminar sugestão de que
a este apartamento se incorporasse a figura de outra com-
panheira, o que seria, “com certeza”, o desejo da que hoje
me olha da região a que todos somos inapelavelmente
destinados.
Amílcar Dória Matos

Eu os ouvia, aos queridos filhos e netos – eles próprios


envolvidos nos nichos que já haviam construído –, com a
paciência típica dos maduros e com a resignada gratidão
dos que se sabem alvo de cuidados.
Do que eles não desconfiavam, na dissimulação dos
seus sentimentos contrários à reclusão solitária pela qual
eu optara, é que estou bem, sim, e me basto, e me prepa-
ro. Para mim, é suficiente saber que posso com eles contar
quando da entrada em cena da Guardiã que me conduzi-
rá às instâncias de outro plano.
Agora, terminada a festa das minhas seis décadas, res-
tituído à minha quietude, cercado destas paredes que tes-
temunham a glória do meu amadurecimento, apresto-me
para a chegada do ano-novo.

Eu nunca podia imaginar que, neste 31 de dezembro,


teria o pressentimento da minha morte. No momento em
que faço o presente registro, acredito saber, com alguma
precisão, como ela se dará.
Não importa, ainda, presumidamente, me restam mui-
tos anos de vida. Nunca se sabe, porém.
Conquanto recentemente haja adquirido o direito de
ser apelidado de sessentão, me é permitido imaginar que
tenho um bom pedaço de janeiros pela frente. Nenhuma
das doenças chamadas malignas parece andar corroendo
meu organismo. Avesso aos hábitos dos glutões, boêmios,
frouxos sedentários ou sistemáticos prevaricadores, sou
razoável candidato à longevidade, sem considerar, é cla-
ro, os acidentes e incidentes de percurso. Ademais, tenho
a meu favor a proteção dos deuses da sadia saudade.
Mas nunca se sabe, graças a Deus, aliás.
Assim, o que importa, para o fiel teor desta narrativa,
não é o quando, mas o como. O tal prenúncio poderia

57
Prelúdio

sugerir um iminente colapso da minha sanidade mental,


um sinal de que – para mim – a Intrusa Amiga já estivesse
a afiar sua ceifadeira. Não deve ser o caso, pelos menos no
meu nível consciente. A curiosidade é tão natural quanto
a inescapável visita da Arrebatadora Senhora.

Deu-se que dois episódios que passo a narrar simples-


mente aconteceram, separados por um tênue fio tempo-
ral, mas nunca desconectados entre si. Ambos os suces-
sos marcaram a presença no último dia do ano, como já
mencionado. Dois também foram os cenários: o quarto de
dormir e o parque urbano, distantes um do outro, para
efeito contábil, dois quilômetros e duas horas.
O primeiro anúncio me ocorreu após a sesta, aí pelas
duas horas da tarde. Estava eu deitado ao comprido na
cama, o ventilador ao lado a ronronar sua música rotativa,
mesmo que eu pudesse dispensá-lo para debelar o calor: a
janela aberta no décimo sétimo andar do prédio permitia
a entrada do ventinho gostoso lá de fora. Mas me habituei
ao som das pás do apetrecho, que me ajuda a adormecer
com sua monocórdia. É o meu sonífero.
Quando despertei, resolvi deixar-me estar um pouco
na modorra. Era um momento de paz. A lâmpada pendu-
rada no teto, bem à altura do meu umbigo, pode ter con-
tribuído para a deflagração do processo. Pois a imaginei a
emitir sinais elétricos, se bem que apagada, para o núcleo
fundamental do meu corpo, para o seu centro fulcral de
energia. Daí que passei a concentrar-me em mim mesmo,
no meu arcabouço de carne e fibras e fluidos, em exercício
que se diria de auto-hipnose.
Eu há muito andara lendo, de forma um tanto assiste-
mática, a respeito de exercícios de concentração e medita-

58
Amílcar Dória Matos

ção. Não obstante dispersiva a leitura, eu já me aventura-


ra até a tentativas de pré-levitação, que viriam a ser aban-
donadas pelo pavor que me acometeu no dia em que me
imaginei contemplando aquela forma humana ali deitada
– a minha forma humana. Era como se meu espírito – ou
minha mente projetada – se tivesse libertado do pedante-
mente apelidado invólucro carnal, como dizem acontecer
no instante definitivo da morte.
Eu não era, assim, exatamente um jejuno nessas artes,
digamos, transcendentais. Apenas abandonei a experiên-
cia por arrepiante. Minha covardia vergonhosa, como se
vê, deve ter-me sonegado o que poderia ter sido a aquisi-
ção de valiosos ensinamentos. Observar o próprio corpo
sem a recorrência a espelhos, que, aliás, sempre distor-
cem o objeto reproduzido por exatos que se pretendam,
é acontecimento promissor, mesmo que possa decorrer
também de distorções psiquicamente doentias.
Agora, porém, de algo diferente e inédito se tratava.
Ao invés de sair do corpo, nele mergulhei com inusitado
senso de aprofundamento. Talvez mergulhar não seja a
metáfora correta: fui como que penetrando, confundin-
do-me com meu ser interior, visitando-lhe as galerias mais
obscuras, os esconderijos mais ariscos da minha carnali-
dade interna e invisível. Misturei-me às células e glându-
las e tecidos e órgãos e avenidas e ruas e ruelas que com-
põem este labirinto borbulhante de impulsos e descargas,
de fluxos e refluxos, de ritmos e espasmos. Mais impor-
tante: senti a pulsação de toda essa máquina estranha e
tão familiar, tão minha e tão mesma, como se eu assim
fosse conseguindo – finalmente! – dialogar com a verdade
essencial da minha química, desta estrutura que provoca e
reage aos meus pensamentos, emoções e gestos.
Pareceu-me que, pela primeira vez nas minhas seis déca-
das de autoignorância, eu dirigia a luz da lanterna mental

59
Prelúdio

para os mais fundos recantos destas cavernas que me habi-


tam. E foi aí que veio a revelação, antes apenas eventual-
mente sugerida, de minha integral individualidade. Percebi
que ninguém, em todo o Universo, podia sentir o que eu
estava sentindo, com a agudeza de quem se sabe criatura e
criador, de quem se horroriza e extasia com o fato de que se
é único e singular, intransitivo, intransferível. Isso porque,
cada pequena pulsação agora tiquetaqueada era o resultado
de uma sequência inesgotável de vivências tão somente por
mim sofridas e assimiladas ao longo da correnteza da exis-
tência, em meio ao turbilhão de ações e reações por mim
acondicionadas de maneira ímpar e incompreensível para
todos os demais seres humanos, por mais íntimos, por mais
amados e empáticos, por mais vizinhos e afins, por mais gê-
meos univitelinos de mim, por mais siameses de mim.
Então eu ali fiquei, atento e expectante, deixando que
as lágrimas fossem imitando, no meu rosto, o fluir da ca-
dência dentro do meu corpo. Lágrimas que ninguém ha-
via chorado nem haveria de chorar, porque feitas do sal
deste bichinho tão igual e tão desigual aos seus semelhan-
tes, esta fera indomada e imprevisível, este compósito de
metabolismos inconfundíveis, de medos e angústias, de
prazeres e assombros. Lágrimas que nem sequer a mu-
lher querida, com a qual eu havia repartido os momentos
supremos da espécie na perdição da entrega, teria sido
capaz de entender, e secar, e estancar, pois feitas de luz
própria e bastante.
Foi nesse momento que me ocorreu a antecipação da
minha morte: com a suspensão da consciência do estado
cotidiano, a cessação dessa labareda e a interrupção desse
fluxo, viria a contemplação do meu corpo a partir da ja-
nela exterior sem carne e, portanto, sem lágrimas.
O tempo de duração desses eventos, eu não sei decla-
rar. No caso, o tempo pareceu desvencilhar-se das coorde-

60
Amílcar Dória Matos

nadas que nos aprisionam. O que sei é que, de tão atônito


e sonâmbulo, fui dar por mim, horas mais tarde, no par-
que. Onde ocorreria o segundo episódio da revelação, ou
da insanidade.

Sabe-se, era o dia derradeiro do ano. E, nesse final


de tarde, a maioria dos frequentadores do descampado
incrustado na selva de cimento, aço e estresses citadinos,
já o abandonara para os preparativos da data, deixando-o
assim um tanto escasso de gentes. Com esse abandono,
ganhava predominância na paisagem o frescor vegetal e o
ruído de aves e insetos.
À medida que o crepúsculo entornava seu óleo cin-
zento sobre a paisagem, um outro tom de cinza foi-me
tomando posse da alma. Percebi que estava ficando quase
sozinho, a cumprir passadas de moderno andarilho, sem
os obstáculos humanos comuns às ruas bulhentas de bu-
zinas, antevendo a noitada triunfal de logo mais, quando
ultrapassada a faixa do ano velho; triunfal de embriaguez
e esperanças, inventários e projetos.
Quanto a mim. Eu ia ficando a sós comigo, não mais
no quarto de algumas horas atrás, e sim no espaço instan-
taneamente enorme e temerário que se desfalcava de gen-
tes. Onde os atletas? Onde os corpos suados da juventude
vigorosa de músculos? Onde os iludidos velhotes, peles
já a ressecar e descamar na carcaça antiga, em busca de
um oxigênio que eles sabem exauridos em seus pulmões
fatigados? Onde os casais despudoradamente atracados
sobre bancos e relvados, a permutar soluços e salivas? De-
certo tinham corrido à procura dos rituais de fim de ano,
deixando-me abandonado nesta imensidão de temores e
armadilhas da solidão.

61
Prelúdio

De súbito voltou a tal notícia da minha morte anuncia-


da. Seria desse modo que ela aconteceria, quando todas
as pessoas com quem intercambio viços e sufocos, mesmo
as mais telepáticas de mim, nada poderiam fazer.
Eu era agora, como seria na tal ocasião do traspasse,
o que sempre fora, desde que gerado por conta de gestos
amorosos e alucinados que vão perdendo o furor na velhi-
ce e na deterioração corporal; eu era sozinho, perdido no
descampado do parque.
Sombras adensando-se ao meu derredor espichavam
dedos e línguas por entre árvores e arbustos. Num repente,
na curva da pista tão percorrida por seres distintos e in-
transitivos, apagaram-se as luzes. Deveria ser assim o curto-
circuito da minha existência: a verdade solitária e escura
que me empolgará como a noite, estancando-me o sangue,
exaurindo-me a vitalidade, apagando-me o sopro.
Obedecendo ao compasso do pânico, acelerei em di-
reção à área do parque não atingida pelo blecaute, onde
dois vigilantes conversavam, alheios ao meu desequilí-
brio. Busquei um banco de cimento sobre o qual se de-
bruçavam galhos de uma jaqueira. Nele me sentei para a
retomada do fôlego. Cruzei as pernas e assumi a posição
assemelhada à de um iogue. Baixei a cabeça para receber
o impacto da lâmina afiada da Arrebatadora. Em segun-
dos – se é que o tempo existia –, repassei toda uma vida
agora agonizante. Veio-me o arrependimento de não tê-
la cumprido com a finalidade exclusiva de preparar-me
para este instante final, o único insubornável, o único in-
contornável por meio de negaças, simulações e dissimula-
ções. Pedi perdão a Deus por ter sido tão ateu. E sofri pela
pranteada mulher, a quem eu pensara satisfazer a cada
intercâmbio de humores e ardores, e a quem já fora reser-
vada esta sufocação de que vivente algum é poupado.
Agora morro, pensei. Adeus.

62
Amílcar Dória Matos

Ora, ei-lo de volta, o insólito. Aquele trecho escuro da


pista me atraiu à maneira de uma fêmea despida e irre-
sistivelmente ansiosa. Fui ao seu encontro. Confundi-me
com as sombras, qual fizera no quarto com as entranhas
do meu corpo. Sorvi o gosto agridoce da tentação. In-
corporei-me àquela luz de breu, indiferente aos olhares
curiosos e intrigados dos vigilantes. Vi passar, arrastando
os pés inchados na pista bifurcada por linha divisória a in-
dicar “marcha lenta” e “marcha veloz”, um homem velho,
gordo e baboso. Numa rajada de vento, vi disparar em seu
encalço, quebrando a morosidade da cena, um garoto de
cabelo espesso, a gritar “vamos, vovô, mais rápido!”
Compreendi tudo, do fundo da escuridão: era eu mes-
mo que passava ali, saindo de uma faixa para outra, desfa-
zendo-me das cascas esclerosadas do meu corpo envelhe-
cido, para fazer dela emergir uma carne sólida e fresca,
em pleno processo de afirmação promissora.
Ganhei as ruas a um tempo escleróticas e vivazes.
Ao deitar-me de novo na cama, devolvido à semilevi­
tação, derramei lágrimas vindouras...

63
Incidente ao meio-dia
Ana Maria César

Luciano liga o rádio do carro. A voz de Milton Nas-


cimento preenche os espaços do veículo e se lança pela
janela no congestionado trânsito do meio-dia. Dirige au-
tomaticamente, mãos ao volante, pés distribuídos entre o
acelerador, a embreagem e o freio, naquela marcha pró-
pria das horas de rush. O carro conhece as ruas, os sinais,
até os buracos no asfalto.
O percurso diário renova a satisfação de rever as mes-
mas árvores, podaram o fícus-benjamim, mas que mal-
dade, só deixaram o tronco. Em farda de colégio, duas
meninas seguem pela calçada, sobraçando livros e cader-
nos. O longo cabelo da lourinha chega-lhe à cintura. A
morena está tomando corpo, as formas arredondadas a
sobressaírem na roupa colegial. Não faz ainda muito tem-
po e eram duas crianças. A mais velha segurando a mão
da menor, pela mesma calçada, à saída das aulas.
Mais adiante, sua atenção se volta para o muro carco-
mido de uma casa abandonada, onde um mamoeiro, nas-
cido entre o cimento e o tijolo, ganha altura e folhagem.
Luciano acompanha o crescimento da árvore e a imagina
frutificando.
Desvia de um buraco e lembra o dia em que, debaixo
de pesada chuva, atolou uma roda naquele local. No se-
máforo, pardais fizeram ninho e desde a semana anterior
percebe, toda vez que o surpreende o sinal vermelho, a
barulhenta ninhada que se esconde por trás do luminoso.
Ana Maria César

O trânsito escoa um pouco mais rápido. Luciano ace-


lera, passa uma segunda e de repente o carro a sua frente
breca. Automaticamente pressiona o freio, os pneus chiam
no asfalto, o veículo dança na pista e se choca contra a lâ-
mina de aço do fusca azul. Desce do carro e vai até a fren-
te do veículo. Examina a batida, não foi nada, apenas um
encontrão, e então escuta a voz do outro motorista que
lhe chega por trás.
– Qual é o galho, ó chapa?
A voz. A voz daquela noite. Tinha certeza. A mesma
inflexão. Qual é o galho? O camarada não quer colabo-
rar. Deixa comigo, ó chapa, ó chapa, ó chapa... Luciano
crispa os dedos, sente a boca seca, um suor frio começa a
porejar. Virou-se lentamente, tentando encarar seu inter-
locutor, mas estava escuro, a luz vinha da sala ao lado. A
silhueta do recém-chegado desenhava-se no portal. Joga-
do ao chão como um amontoado de ossos, ouvia apenas a
voz e repetia, nada a declarar, nada a declarar.
O homem aproxima-se, vai até a traseira do carro,
examina meticulosamente o para-choque, corre os dedos
pela lâmina de aço. Tudo perfeito. Insiste ainda na averi-
guação, o desejo incontido de flagrar alguma mossa na la-
taria do seu carro. Anda pra lá e pra cá, os passos pesados,
arrastados, o som das botas no cimento áspero do porão,
o corpo doído, machucado, a ânsia de vômito, a zoeira
nos ouvidos. Preso para averiguação. Nada a declarar.
– Parece que está tudo bem – diz Luciano, voz engas­
gada.
– Calma, rapaz, nessas coisas é preciso calma.
A noite fria e longa. Despido, a umidade lhe atraves-
sava a pele, os músculos, atingia os ossos, provocando-
lhe tremores espasmódicos. As têmporas latejavam, sentia
ainda o arco de metal a lhe comprimir o cérebro, não ti-
nha nada a dizer, nada a declarar.

65
Incidente ao meio-dia

– Estamos perdendo tempo. Ele não tem nenhuma in-


formação que nos interesse.
– Calma, rapaz, nessas coisas é preciso calma.
Os passageiros do meio-dia retomam sua marcha, o
trânsito congestionado se refaz, apenas os olhos enfastia-
dos dos que viajam nos ônibus ainda se detêm na colisão.
O homem parece frustrado, nada a declarar, ora porra,
tempo perdido, podia já ter chegado em casa, dia quen-
te aquele, precisa tomar uma pinga pra refrescar. Anda
nervoso em torno do veículo, para, coça de leve a barba
cerrada e finalmente, num gesto brusco, chuta uma pedra
solta no asfalto e se vai.
O grito de Luciano rasgou as pesadas paredes e ecoou
na noite densa. A perna esquerda parecia morta, não con-
seguia movê-la. Faíscas de aço atravessavam sua rótula
despedaçada e uma imensa dor o engoliu.
Lentamente, arrastando a perna imóvel, entra no caro
e dá partida. Como ficará o fícus-benjamim quando a fo-
lhagem renascer? O mamoeiro crescerá a ponto de dar
frutos? E o cabelo da lourinha? Ela o cortará no próximo
semestre ou o prenderá no alto da cabeça? Voltariam os
pardais a fazer ninho no semáforo?...

66
O julgamento
Antônio Campos

O velho escritor começou a ler o manuscrito de uma


estória que acabara de concluir. Era um conto sobre um
suicida, um homem que perdendo a hora ou julgando tê-
la perdido renunciara à vida. Na sua estória havia alguma
verossimilhança com certos acontecimentos e pessoas da
vida real. Já escrevera quase cem pequenas estórias e sua
capacidade de criação ia diminuindo a cada conto concluí-
do. Julgava que lhe restavam poucos contos a escrever. Não
lhe agradou esse que concluíra, achava-o muito próximo
da vida real, os acontecimentos tiravam-lhe possibilidades
da imaginação. Considerava que, para os bons escritores,
não havia grandes ou pequenos temas, tudo dependia da
mestria das palavras se harmonizando para a revelação
de verdades insuspeitadas, verdades adormecidas, demô-
nios exorcizados pelo verbo escondido, compreensões no-
vas de velhos temas e sepultados esquecimentos. Pensou:
“somos cemitérios de nós mesmos, de sonhos, infância,
juventude, instantes de felicidade, heroísmos, covardias.
O corpo humano é um grande cemitério individual”.
Olhou ao seu redor, estava em uma pequena sala que
lhe servia de gabinete, onde existiam apenas duas estan-
tes de livros, um sofá com a fazenda azul que o recobria já
rota em alguns lugares, e sua mesa de trabalho. De repente,
surgiu-lhe o desafio de escrever outro conto imediatamente
após o que acabara há pouco de concluir. Convocou a ima-
ginação, preparou papel e lápis. Não gostava de escrever à
máquina, achava que as palavras manuscritas tinham uma
O julgamento

maior magia, alguma coisa de arquitetura pessoal e intrans-


ferível aumentando o poder criador, ou melhor: facilitando
esse poder. Mas os personagens não apareciam. Resolveu
que o cenário da ação seria aquele seu gabinete, decisão
sem maiores motivações, tentativa só de aumentar o desa-
fio, testar a sua capacidade de erguer estórias. Distraído de
tudo que não fosse a estória que estava para surgir, foi escre-
vendo, criando uma atmosfera, um clima que propiciasse o
surgimento do seu personagem. Este atendeu à convoca-
ção, foi se erguendo das palavras. Só então percebeu que
se tratava de um narcisista que já havia aparecido em mais
de dez das suas estórias. Procurou modificar-lhe algumas
características, foi em frente, parou um pouco para ver o
rumo da estória. O personagem que julgara novo já estava
parecido com outro. Irritado, rasgou o manuscrito, tentou
recomeçar. Queria experimentar outro caminho, uma estó-
ria de tal maneira inverossímil, fantástica, que não pudesse
ser repetição de realidade da vida e da arte.
E no seu gabinete começaram a surgir animais estra-
nhos, feras em toda sua capacidade de enfurecimento, um
tempo resolvido, passado adiante de futuro, presente se
antecipando ao passado. Mas a sala foi descrita com preci-
são minuciosa. Num sofá, um fantasma filosofava sobre a
desnecessidade da vida, conversando com um corvo, que
em vez de repetir exaustivamente: “nunca mais”, falava
mal da razão e dos racionais.
No meio da sala, em cima do tapete indiano, colocou
um tigre numa jaula. Em seguida, retirou-se dela, obrigou
o domador a substituir a fera naquela prisão que come-
çou, num repente, a falar em saudades dos seus descam-
pos e a ameaçar o domador.
Imaginou uma bela mulher e a colocou na sala como
uma bailarina russa. O som da música encheu o recinto,
uma música forte, com aquela alegria se avizinhando da

68
Antônio Campos

angústia existente nas músicas das estepes russas. Ao escre-


ver a palavra estepes, lembrou-se do romance de Herman
Hesse. Por uma sucessão de títulos que lhe iam surgindo na
memória, recordou-se de vários livros nacionais e latino-
americanos, e também de alguns romances russos. Decidiu
afastá-los da memória e fez com que o fantasma convences-
se o corvo de que viver é inteiramente dispensável.
O tigre comoveu-se com as palavras do fantasma e co-
meçou a chorar, pensando nos descampos da Índia, no seu
exílio forçado. O corvo argumentou com ele que tudo aqui-
lo devia ser uma grande impressão, fantasmas não falam,
alguém deveria estar querendo zombar deles, pobres ani-
mais. O tigre agradeceu em palavras muito polidas a deli-
cadeza do corvo. A bailarina russa começou a olhar para o
homem enjaulado e de tão triste com a situação dele, parou
de dançar. Pediu ao tigre as chaves da jaula e, soltando o
domador humilhado, confessou-lhe uma paixão repentina.
O tigre tentou convencer os presentes de que quem deveria
estar naquela jaula era o fantasma.
O fantasma, calado, assistia a tudo com absoluta tran-
quilidade. Estava sendo julgado sumariamente. Assistia
ao julgamento, não se defendia e parecia indiferente ao
resultado. Mas foi o domador quem sugeriu a forma-
ção de um corpo de jurados, um juiz, um promotor, um
advogado de defesa. A proposta foi derrotada. O corvo
defendia pura e simplesmente a morte para o fantasma.
O domador achava mais justo prisão perpétua. O tigre,
heroico, desafiou o fantasma para um duelo. O fantasma
teve vontade de perguntar por que os ofendera e os ma-
goara tanto. Mas resolveu permanecer reclinado no sofá,
esperando para ver no que ia terminar aquilo tudo.
O velho escritor já estava prestes a colocar o fantasma
na jaula, devidamente julgado e condenado, quando o viu
desaparecer não do sofá, o que seria fácil de resolver, mas

69
O julgamento

da sua estória. E parecendo escutar um riso irônico, pa-


rou de escrever. Ao olhar para um retrato de Tchekov na
parede, por cima da sua mesa de trabalho, imaginou ver
no rosto do contista um riso de galhofa. Rasgou o manus-
crito, e deu por encerrado mais um dia de trabalho. Ao se
deitar para repousar no sofá da sala, surpreendeu-se ao
perceber que estava no mesmo lugar do fantasma que ia
ser julgado, teve medo. Olhou com raiva para o retrato,
desta vez o rosto coberto de barbas estava sisudo.

70
O casamento
Ariano Suassuna

No tempo em que o Exmo. Sr. Dr. Gratuliano de Brito


era Interventor1 em nosso Estado da Paraíba, viveu aqui,
em Taperoá, um meu amigo e compadre, Seu Corsino de
Almeida Tejo, homem nobre mas de posses curtas em re-
lação à sua qualidade. Era casado com uma grande dama,
Dona Perpétua, da família Corrêa de Queiroz, que, como
se sabe, ainda vem a ser aparentada comigo e é uma das
linhagens mais ilustres da fidalga Vila Real de São João do
Cariri, deste nosso Sertão da Paraíba.
Seu Corsino Tejo tinha duas filhas, Mercedes e Aliana,
das quais a primeira, mais velha e menos bonita, era mi-
nha afilhada. Ambas estavam noivas e já para casar. Mer-
cedes, que tinha ido passar uma temporada na Vila de São
José do Egito, Sertão do Pajeú, em Pemambuco, voltara
de lá noiva de um rapaz pajeuzeiro de boas posses, um
jovem e disposto boiadeiro, chamado Quintino Estrela.
Aliana noivara com um primo, originário da Vila de Ca-
baceiras, mas, já há uma boa porção de tempo morador
na nossa, onde exercia a digna profissão de caixeiro da
loja de tecidos de Seu Antônio Fragoso.
Como sabem todos os bons genealogistas brasileiros,
a grande família sertaneja dos Almeidas é espalhada por
todo Cariri, subdividindo-se em dois ramos principais,
os Almeida-Tejos e os Almeida-Pebas. O noivo de Aliana,
Laércio, era do segundo ramo, sendo por isso, seu nome
completo, Laércio de Almeida Peba. De fato, Laércio era
1
Foi interventor de 1932 a 1935.
O casamento

filho de um primo legítimo de Seu Corsino; mas seguindo


o velho costume sertanejo, chamava meu compadre de
Tio Corsino.
Tinha-se combinado que o casamento das duas moças
seria realizado no mesmo dia, 22 de março de 1933. Como
Laércio Peba morava em nossa Vila, o jovem boiadeiro
Quintino Estrela deveria viajar do Pajeú para cá no dia 21,
hospedando-se no nosso conceituado Vesúvio Hotel.
Como de fato: lá no dia 2l de março, mais ou menos às
dez horas da manhã, pela estrada que nos liga à Vila do
Teixeira, entravam em Taperoá cinco Cavaleiros. Na fren-
te, isolado, vinha Quintino Estrela, noivo de Mercedes.
Os dois que o seguiam imediatamente vinham escoltando
o jovem boiadeiro, à guisa de padrinhos do casamento
e escudeiros da viagem. Por isso, viajavam juntos e uns
dois passos atrás do noivo. Eram, como soubemos depois,
Seu Aristides Chicó, homem de certa idade, fazendeiro e
respeitável apostador; e o Cigano Pereira, cavalariano e
famoso trocador de cavalos2, que diziam ser descendente
bastardo do célebre fidalgo sertanejo Dom Andrelino Pe-
reira, Barão do Pajeú.
Todos três estadeavam elegância cavaleirosa e viagei-
ra, no melhor estilo sertanejo: calça e paletó cáquis, botas,
cartucheira com revólver e punhal, rebenque, esporas,
arreios dos cavalos enfeitados com moedas e estrelas de
metal. Montavam em belos animais que, como soubemos
depois, tinham sido vendidos a Quintino Estrela pelo Ci-
gano Pereira, especialmente para aquela viagem.
Quanto aos outros dois que faziam parte da comitiva
de Quintino, não se podia dizer que fossem, mesmo, Ca-
valeiros: eram dois almocreves3, montados na garupa dos
2
Notar como no estilo hábil do Autor apenas duas indicações rápidas prenunciam
todo o desenrolar do conto: o fazendeiro era “respeitável apostador”, e o cigano famo-
so “trocador de cavalos”: a aposta e a troca de noivas. Logo em seguida as circunstân-
cias misteriosas que cercam o depósito do documento completam o quadro.
3
Homem cujo ofício é conduzir bestas de carga.

72
Ariano Suassuna

burros que conduziam, em bruacas de couro, as roupas e


matalotagens dos viajantes principais.
Como era de esperar, a entrada deles em Taperoá cau-
sou não pequena sensação. Os cinco, depois de indagar
onde ficava o Vesúvio Hotel, para lá se dirigiram: apearam-
se, banharam-se, e logo Quintino, o Cigano e Seu Aristi-
des Chicó se encaminharam para a casa do meu Compa-
dre Corsino Tejo, onde todo mundo os aguardava. E seria
então que ocorreriam os incidentes que terminaram me
obrigando a me envolver na orientação do casamento das
duas moças, de um modo muito mais empenhado do que
a mera qualidade de padrinho de Mercedes fazia esperar.
Eu não tinha visto os cinco Cavaleiros, quando de sua
entrada em nossa Vila. Encontrava-me na pequena casa
de porta e janela onde mantenho o meu “Consultório
Sentimental e Astrológico” e redijo o meu relativamen-
te famoso e já conceituado Almanarque do Cariri. Naquela
hora, estava atarefadíssimo, tirando horóscopo a uma viú-
va da Burguesia urbana local, e predizendo-Ihe o destino
através do Taro Adivinhatício4, livro que, com seu baralho,
como todo mundo sabe, contém todos os segredos zodia-
cais e numerológicos do velho Egito.
Fui interrompido então, de repente, pela chegada de
Seu Paulo Pisadinha, meu escrevente, o qual me deu no-
tícia da chegada dos forasteiros e da ida de Seu Aristides;
Chicó e do Cigano Pereira a meu cartório. Os dois que-
riam “registrar um documento em segredo de justiça”,
com recomendação de guardá-lo no cofre, sob sete chaves,
até o dia 23 pela manhã, passadas as festas do casamen-
to. Seu Paulo Pisadinha estava meio cismado com aque-
la encomenda pouco comum, e vinha receber instruções.
Expliquei-lhe como agir e voltei à minha consulta.

4
Conjunto das cartas usadas em cartomancia. O baralho é composto de setenta e
oito cartas.

73
O casamento

Mal Seu Paulo se afastara, porém, ouvi de novo bate-


rem à porta. Corri para lá e dei de cara com minha afilha-
da Mercedes. Mas uma Mercedes tão transtornada, que vi
logo que alguma coisa de muito desagradável estava lhe
acontecendo.
– Mercedes! O que é que há? – perguntei, solícito.
– O que é que há, meu Padrinho? O que há é uma
coisa horrorosa, e vim procurar o senhor porque só você
pode dar jeito nisso tudo!
Fiz-lhe sinal de silêncio, porque a viúva poderia ouvir.
Mandei Mercedes entrar e sentar-se na sala de espera, vol-
tei ao gabinete das consultas, despachei a viúva como pude,
pedindo-lhe que saísse pela porta dos fundos, pois não que-
ria que ela visse a moça. Então, voltei para junto da minha
afilhada e roguei-lhe que me contasse o que lhe acontecera.
– O que há, meu Padrinho, é que aquele desgraçado
me fez a maior desfeita que você possa imaginar!
– Quem? Que desgraçado?
– Meu noivo, aquele peste de Quintino Estrela, que o
Diabo leve para as profundas do Inferno!
– Que é isso, Mercedes, meu bem? Não diga uma coisa
dessas de seu noivo! – disse eu, um pouco hipocritamente,
e passando o braço pelos ombros dela, porque sempre fui
um Padrinho muito carinhoso.
E insisti:
– O que é que seu noivo pode ter lhe feito de mal se,
pelo que eu soube, não faz nem uma hora que ele che-
gou?
– Faz uma hora que ele chegou, mas já teve tempo de
me fazer a maior desfeita que se pode fazer a uma noiva
neste mundo! O senhor sabe que ele me conheceu lá, no
Pajeú, não sabe?
– Sei!
– Foi só ele me conhecer e ficar doido de apaixonado,
dizendo que, ou casava comigo ou morria! A gente noivou

74
Ariano Suassuna

logo, e eu vim me embora pra cá! A paixão de Quintino con-


tinuava cada vez maior, era carta em cima de carta, cada carta
bonita que fazia gosto! Meu Padrinho sabe disso muito bem,
porque era do senhor que eu me valia para responder!
Suspirei, melancólico:
– É verdade! E só Deus sabe como me ficava o coração
para escrever aquelas cartas suas para ele, Mercedes!
– Meu Padrinho sempre brincalhão! Pois bem, meu
Padrinho: com essa paixão toda, foi só Quintino chegar
hoje, aqui, e botar os olhos em cima de minha irmã Alia-
na, para dizer que ela é muito mais bonita, e que, agora,
ele não se casa mais comigo não, só casa se for com ela!
– Mas Aliana não vai casar com Laércio Peba? – inda-
guei, espantado.
– Foi o que meu Pai lembrou a Quintino! Mas ele está
renitente, e diz que não cede, de jeito nenhum! Ou casa
com Aliana, ou não casa com ninguém!
– Isso foi uma ruindade de seu noivo, minha afilhada!
Como é que se troca uma moça viva como você por aquela
cabra-morta de sua irmã?
– Você diz isso porque é meu Padrinho e gosta de mim,
mas Aliana é muito mais bonita do que eu!
– É nada! – menti.
– A prova é que Quintino não quer mais casar comigo
e me largou por causa dela!
– Bem, eu é que não queria essa troca! Mas gosto não se
discute e coração não se governa! Vamos até sua casa! Vou
falar com seu Pai e seu noivo: você vai ver como ajeito tudo
e como você termina casando é com Quintino, mesmo!
– Mas acontece que agora eu é que não quero me casar
mais com aquele peste! Depois de uma ofensa como a que
ele me fez?
– Então, se você está com essa raiva toda dele, deixe
Quintino casar com Aliana, como ele quer!

75
O casamento

– Eu? Eu não! Fico desmoralizada! Sou mais velha do


que Aliana: vou lá deixar que ela case, antes de mim, com
um noivo que foi meu!
– Calma, meu bem! Vamos ver o que é que se faz! Va-
mos lá!
– Não, eu vou sozinha, na frente, e meu Padrinho vai
depois! Não quero que aquele peste de Quintino tenha
a impressão de que estou lutando para que ele volte pra
mim, não!
Indignada, Mercedes ia batendo violentamente a por-
ta e saindo pela frente. Observei-lhe que seria menos no-
tada saindo pela porta dos fundos, como a viúva. Ela se-
guiu meu conselho. Dei-lhe uns dez minutos de dianteira
e então saí também, trancando o “Consultório”.
Fui, primeiro, ao Vesúvio Hotel, pois fui logo infor-
mado, na rua, de que os viajantes já tinham voltado para
lá, depois de terem causado na casa do meu Compadre
Corsino Tejo o rebuliço que já conhecemos.
Encontrei os três forasteiros importantes na sala da
frente do Hotel, sentados em cadeiras de assento de sola,
com um ar meio soturno e obstinado que me revelou,
logo de entrada, que minha missão seria mais dura do
que eu julgara. Quintino era um mocetão alto, robusto,
vermelho, de cabelos pretíssimos, com um ar meio tau-
rino, astuto e lerdo ao mesmo tempo, o que, aliás, ficava
muito bem a um boiadeiro como ele.
Apresentei-me como Padrinho, que era, de sua noi-
va Mercedes. Disse que ele me desculpasse a intromissão,
mas a moça era minha afilhada e eu não podia entender
que um casamento tão bem iniciado fosse de água abaixo,
em condições tão incompreensíveis.
Perguntei-lhe, afinal:
– Você não estava tão apaixonado? Não estava tão conten-
te com Mercedes, tão entusiasmado com o casamento?

76
Ariano Suassuna

Com aquela fala meio arrastada e cantante do pessoal


do Pajeú – fala que provavelmente era de grande serven-
tia a ele em suas discussões sobre preço e trocas de gado
– Quintino respondeu:
– Estava, eu estava muito satisfeito com o casamento
com Dona Mercedes! Mas era porque não conhecia a outra
moça, Dona Aliana! Depois que vi Dona Aliana, achei que
ela é muito mais bonita do que Dona Mercedes, e que, ca-
sando com a irmã da minha noiva, eu faço muito melhor
negócio do que casando com minha noiva, mesmo!
Ao dizer isso, olhou para seus dois amigos, como que
pedindo um reforço, uma confirmação. O Cigano Perei-
ra, voltando-se para mim, falou de lá, com sua voz meio
rouca:
– O senhor compreende que seria uma desmoraliza-
ção, para um boiadeiro vivo e esperto como Quintino, ca-
sar com a mais velha e mais feia, deixando que, no mesmo
dia, um idiota, da qualidade desse Laércio Peba, case com
a mais moça e mais bonita!
Quintino, com ar vitorioso mas lento, olhou para mim:
– O senhor está entendendo, agora? Tenho razão ou
não tenho? Seria uma desmoralização, um mau negócio,
e, desmoralizado em negócio, um boiadeiro como eu não
pode ficar!
Vi logo que, por ali, não encontraria saída. Uma vez
que era “questão de honra de boiadeiro em negócio”, não
adiantava nem sequer tentar aquele caminho. Falei:
– Bem, se vocês encaram a história como questão de
honra, não posso mais me intrometer por esse lado! Mas
vocês entendam, também, minha posição! A moça é mi-
nha afilhada, de modo que ninguém estranhe que eu, por
meu lado, tome minhas providências para ajeitar a vida
dela, que vai ficar meio desmantelada com esse casamen-
to desmanchado assim, em cima da hora!

77
O casamento

– Está no seu direito! – concordou gravemente o Ciga-


no Pereira. – Desde que não seja para desmoralizar meu
amigo Quintino com um mau negócio, o senhor tem toda
liberdade para ajeitar a vida de sua afilhada!
Passei, então, pela loja de Seu Antônio Fragoso, onde
fui encontrar Laércio Peba, com ar meio enfarruscado.
Laércio era meio parvo, meio inocente. Não chegava a
ser “um idiota”, como dissera o Cigano Pereira: era ape-
nas um rapaz sem malícia e sem maldade, ambicioso mas
limitado, com uma ambição miúda e rasteira, aliás muito
de esperar num caixeiro como ele.
Aproximei-me e pedi para lhe falar particularmente.
Pousou o metro de madeira, fez-me um sinal, e segui com ele
para o interior da loja, onde nos sentamos em tamboretes.
– Laércio – falei para começar –, é verdade o que me
contaram?
– Conforme! – respondeu ele, meio desconfiado. – O
que foi que contaram ao senhor?
– Mercedes foi me procurar, furiosa, porque esse noivo
dela, Quitino Estrela, disse que agora, depois que viu sua
noiva, não casa mais com a dele, não, só casa se for com a
sua! É verdade?
– É, parece que ele disse isso lá, na minha frente!
– Na sua frente? – disse eu, fingindo-me de mais es-
candalizado do que realmente estava.
– Bem, na minha frente, mesmo, não! – falou Laércio,
desculpando-se. – Ele pegou Tio Corsino por um braço,
chamou assim para um canto da sala e disse tudo a ele,
baixo!
– Baixo? E como foi que você ouviu?
– Eles começaram a discutir, Quintino levantou a voz,
e aí todo mundo terminou ouvindo ele dizer aquilo: que,
agora, não casa mais com Mercedes, não, só casa se for
com Aliana, que é a mais bonita!

78
Ariano Suassuna

– E você está de acordo, homem?


– Eu? Eu, não!
– E por que não reagiu logo, ali na hora?
– Reagir como? – perguntou Laércio, meio aparvalhado.
– Você devia, pelo menos, ter ameaçado de dar umas
tapas naquele atrevido!
– Umas tapas? – falou Laércio, com uma cara que me
confirmou logo a impressão que eu tinha, há tempo, de
que ele não era capaz de dar tapa na cara de ninguém. E
acrescentou, meio sem jeito:
– É, eu devia, talvez, ter dado umas tapas nele: Mas
Quintino estava armado, e eu, não! – disse afinal, satisfei-
to de ter, para alegar, um motivo de sua passividade.
– Era exatamente o que eu queria. Sugeri, então, logo,
outro motivo:
– É verdade! Além disso, Quintino estava acompanha-
do pelo Cigano Pereira, que, como todo mundo sabe, é
homem criminoso e de maus bofes!
– É isso mesmo! – concordou Laércio. – Foi por isso
que não reagi!
– Quer dizer que vai deixar correr tudo como Quinti-
no quer?
– Eu? Eu, não! Fiquei calado na hora, mas, quando
ele saiu, eu disse a Tio Corsino que não estava de acordo,
nem que ele se danasse comigo! Agora, quero ver como é
que esse casamento se faz!
– E Compadre Corsino? – perguntei, com ar casual. –
Está a seu favor, ou a favor de Quintino Estrela?
– A meu favor, é claro!
– Ele lhe garantiu isso? Deu a palavra dele?
– Não! Mas como é que Tio Corsino pode ficar do lado
desse sujeito, que ele conheceu hoje, pra ficar contra mim,
que sou sobrinho dele?

79
O casamento

– É mesmo! – falei, pensativo, enquanto ruminava


ideias para a ação. – Olhe, Laércio, Mercedes pediu que
eu tentasse resolver esse caso, e é o que eu vou fazer!
– Ah, Seu Quaderna, se o senhor resolver essa história,
me faz, também, um grande favor, uma obra de caridade!
– Pois fique aqui! Fique, que eu vou falar com seu tio e
sondar como anda tudo! Depois, volto para lhe dar ciên-
cia do que está acontecendo!
Saí, então, para a casa do meu Compadre Corsino
Tejo, onde fui encontrar toda a família em grande cons-
ternação. Toda, aliás, é exagero meu: Aliana achava-se na
calma imperturbável em que vivia sempre mergulhada.
Uns diziam que essa calma vinha de serenidade interior
e da segurança que sua beleza lhe dava, mas eu tinha mi-
nhas desconfianças de que ela era assim, serena e calada,
simplesmente porque nunca lhe ocorria coisa nenhuma.
Já Mercedes, minha afilhada, sendo menos bonita, era
mais atirada, mais ardente e, na minha opinião, mais en-
cantadora do que a irmã.
Agora, ali, Mercedes estava uma fúria, arrumando,
sem necessidade, todos os objetos que ia encontrando e
que ela trocava de Iugar, dando grandes pancadas, com
eles, na mesa e nos outros móveis da sala.
Quando entrei, fui saudado por meu Compadre Cor-
sino como um salvador:
– Ah, Compadre Quaderna, você chega na hora! Já
soube da desgraça que nos aconteceu?
– Soube, assim por alto! Quando vinha para cá, passei
na loja de Antônio Fragoso e falei com Laércio, que me
contou, mais ou menos, a história!
– E Laércio? O que foi que ele disse? Qual é a opinião
dele? – indagou Comadre Perpétua com o ar esgazeado
que lhe era natural e que, no momento, estava mais esga-
zeado ainda, pela ansiedade.
Houve um silêncio e eu falei:

80
Ariano Suassuna

– Laércio diz que já estava tudo combinado, de modo


que, por sua inclinação, ele casava, mesmo, era aqui, com
Dona Aliana!
– É o diabo! É danado! – falou Compadre Corsino,
com desgosto. – E acontecer uma história dessas na vés-
pera do casamento!
– Qual é sua opinião sobre tudo isso, Compadre? –
perguntei.
– E eu sei lá, meu Compadre Quaderna da minh’alma!
Estava tudo tão bem combinado, e agora esse rapaz do
Pajeú sai-se com uma doidice dessa qualidade!
Dona Perpétua reforçou:
– Um rapaz como Quintino, tão agradável, tão bem
apessoado! E rico! O homem compra e vende bois por
aqueles mundos todos, dizem que ganha um dinheirão!
E a gente perder esse genro, na situação difícil em que
estamos, é danado!
Mercedes encrespou-se:
– Mamãe, quem ouve você falar, vê logo que você está
do lado de Quintino e de Aliana, contra mim!
– Minha filha, que do Iado de Quintino que nada! –
defendeu-se, chorosa, Comadre Perpétua. – Estou é do
Iado de vocês todos! Mas, se Quintino tem esse gosto, se
está com essa teimosia, acho que não custava nada ceder
um pouco ao que ele quer!
– Ceder? – protestou Compadre Corsino. – Ceder coi-
sa nenhuma, mulher! Se a gente cede Aliana a ele, assim
sem mais nem menos, Mercedes fica sem casar!
Antes que nova explosão de cólera de Mercedes inter-
rompesse as conversações, tive uma inspiração e disse:
– Um momento! Compadre Corsino, eu queria que
você saísse, com Comadre Perpétua e Aliana, e me deixas-
se ter, aqui, um particular com minha afilhada Mercedes!
Vocês poderiam sair um pouco, lá para a outra sala?

81
O casamento

– Podemos, Compadre, por que não? Vamos, Aliana!


Vamos, Perpétua! Eu não dizia a vocês que Compadre
Quaderna era o único homem capaz de resolver essa com-
plicação?
Os três saíram e eu fiquei, de novo, só com Mercedes.
Falei, persuasivo:
– Mercedes, minha querida, por que você mesma não
resolve essa história?
– Eu, meu Padrinho? Como?
– Ceda Quintino a Aliana e case com Laércio!
– Eu? Para ficar desmoralizada, aceitando aquele idio-
ta, “sobejo” de Aliana?
– “Sobejo”, não! Laércio só seria “resto” de Aliana se
ela já tivesse acabado o casamento com ele! Mas ela não
acabou não, ainda é noiva dele, de modo que você é quem
vai tomar o noivo dela!
– Mas aí ela vai tomar o meu!
– Aliana não vai tomar coisa nenhuma sua, porque,
quando ela noivar, você já terá deixado Quintino por
Laér­cio! Ela é quem vai ficar com seu “resto”, com Quin-
tino, com o “sobejo” que você vai deixar!
Os olhos de Mercedes brilharam, mas logo se apaga-
ram de novo, desanimados. Ela insistiu na teima:
– Mas Laércio é um abestalhado!
– Melhor para nós, Mercedes! Melhor para mim, que
gosto tanto da minha afilhada e que, assim, vou poder fi-
car com ela, aqui em Taperoá! Se você casasse com Quin-
tino Estrela, ia-se embora para o Pajeú e nunca mais eu
botava os olhos em cima de você! Depois, mesmo que
você casasse com ele e viesse cá de vez em quando, aque-
le boiadeiro tem cara de sujeito ciumento e desconfiado!
Nunca mais ele ia deixar que você fosse ao meu “Consul-
tório Astrológico”, para eu lhe deitar cartas, ler sua mão e
tirar seu horóscopo!

82
Ariano Suassuna

Mercedes, ouvindo minhas palavras, suspirou:


– Ah, se meu Padrinho quisesse, eu bem que sabia com
quem era que havia de casar!
– Eu também, Mercedes! Mas você sabe que padrinho
não pode casar com afilhada, nem comadre com compa-
dre! Com os que desrespeitam esta lei, todo mundo sabe
o que é que acontece: vão para o lnferno e são obrigados,
toda noite, a dormir com o Diabo na cama dele! Mas, veja
bem: esse é mais um motivo para você ver que seu casa-
mento com Laércio é que vai resolver nossa situação, a sua
e a minha! Laércio é rapaz bom, sem maldade, incapaz de
desconfiar de ninguém! Casando com ele, você fique cer-
ta de que vou poder continuar orientando sua vida pelas
cartas! Você irá, de vez em quando, lá, ao “Consultório
Astrológico”, e eu garanto que não será por falta de ca-
rinho e de assistência moral que você vai sofrer, com o
abandono de Quintino e a leseira de Laércio!
Os olhos dela brilharam de novo, de prazer e vingança:
– Sabe que meu Padrinho parece que tem razão? En-
tão é assim? Um me larga, o outro é um besta, Meu Pai e
minha Mãe me desprestigiam, só meu Padrinho é quem
pensa em mim? Pois eu topo! Topo a troca de Quintino
por Laércio!
– Pois Deus recompense seu bom gênio, minha queri-
da Mercedes! Você é um anjo! Nem Quintino nem Laércio
merecem você! Sua bondade é que vai dar jeito a tudo, e
fazer a felicidade de todo mundo!
Gritei, então, para dentro, chamando os outros, de
volta. Vinham mortos de curiosidade e resolvi satisfazê-
los logo:
– Olhe, Compadre Corsino, me ocorreu, aqui, uma
ideia que eu acho que pode resolver tudo!
– Resolver, como? – indagou Comadre Perpétua, cau-
telosa mas esperançosa.

83
O casamento

– Trocam-se os noivos: Mercedes casa com Laércio e


Aliana com Quintino!
– Oxente, eu pensei que era alguma novidade! – disse
Compadre Corsino, decepcionado. – Nisso, nós já tínha-
mos pensado! Foi o que Quintino propôs, mas Laércio e
Mercedes não quiseram! Mercedes está de acordo, agora?
– Mercedes, com o gênio de santa que tem, não faz
objeções! Mas, com uma condição! – expliquei, disposto
a defender os brios da minha protegida. – Mercedes con-
corda com a troca, com a condição de ser ela a primeira
a acabar o noivado, oficialmente! Só depois disso é que
Quintino pede Dona Aliana em casamento! Dona Aliana
concorda?
Aliana, olhando pela janela a terra sertaneja, que se
perdia, parda, na distância, falou, sem me olhar:
– Ora, era o que faltava eu ligar para essas besteiras de
homem sim, homem não, homem este, homem aquele!
Pra mim, tanto faz Quintino como Laércio, tanto faz ca-
sar como não! Caso com qualquer um dos dois, e também
posso até deixar de casar de uma vez! Pra mim, tanto faz!
Troquei um olhar de inteligência com Mercedes, como
dizendo: “Está vendo, que cabra-morta?” Depois falei:
– Estão vendo? É a solução!
– Mas será que Laércio concorda? – perguntou Coma-
dre Perpétua, aboticando os olhos.
– Deixem comigo! – respondi, já começando a me en-
tusiasmar com o rumo que as coisas iam tomando. – Vou
falar com Laércio, e volto já, para dar a notícia a vocês!
Voltei à loja de Seu Antônio Fragoso e disse a Laércio:
– Olhe, Laércio, estive em casa de sua noiva e o negó-
cio parece que está meio empancado para o seu lado! Co-
madre Perpétua acha que você, sendo da família, poderia
ter mais boa-vontade e ceder um pouco para que tudo se
resolvesse!

84
Ariano Suassuna

– Mas ceder um pouco, como? Resolver tudo, como?


Dando minha noiva a Quintino?
– Não, dando sua noiva não, trocando sua noiva pela
de Quintino! Ele casa com Aliana, como está querendo, e
você casa com Mercedes!
– Mas Aliana é mais bonita! – protestou Laércio.
– Que tolice, Laércio! Todas duas são bonitas, todas
duas são boas moças, todas duas são suas primas! Para
você, não faz diferença nenhuma!
– Pois se não faz diferença, é melhor que eu me case,
mesmo, com Aliana! Eu já era noivo dela, me acostumei
com essa ideia, de modo que caso é com ela, mesmo!
– Laércio, eu, se fosse você, pensaria um pouco mais no
assunto! Não é por Aliana, nem por Mercedes, nem por
você: é, mais, por sua Tia Perpétua e por seu Tio Corsino!
Você sabe que, com a seca, nossa situação aqui anda ruim.
Quintino tem muito mais recursos do que você! É claro que
seus tios não me falaram nada, mas eu entendi perfeita-
mente, da nossa conversa, que eles não estão, absolutamen-
te, em condições de perder aquele genro boiadeiro e rico!
Acho que, em último caso, eles vão ter que fazer somente o
casamento de Aliana com Quintino! E aí, vai ser pior para
você: todo mundo vai ficar mangando e rindo de você, por-
que tomaram sua noiva e não lhe deram nada em troca!
Laércio me olhou, espantado. Pela primeira vez, a
questão lhe era apresentada por aquele prisma. Conti-
nuei, para reforçar:
– Agora, veja como a coisa muda de figura se você casa
com Mercedes! Primeiro, ninguém pode dizer, mais, que
você ficou sem nada, porque você terá ganho outra noi-
va, em troca da que perdeu. Em segundo lugar, como eu
disse, lá na casa do seu sogro, por enquanto, está tudo
no mesmo pé: oficialmente, você ainda é noivo de Alia-
na, e Quintino é noivo de Mercedes. Já combinei tudo

85
O casamento

com as moças: caso a gente faça o acordo, Mercedes vai a


Quintino e acaba o casamento dela. Aí, você vai a Aliana e
acaba o seu. Depois, você vai a Mercedes e noiva com ela.
Só depois disso tudo é que Quintino pede Aliana! Assim,
ninguém pode dizer que Quintino tomou sua noiva: você
é quem vai tomar a noiva dele, porque vai noivar com ela
antes dele noivar com aquela que tinha sido sua, mas não
será mais! E, nisso tudo, você ainda pode lucrar, tendo
uma boa compensação no negócio, Laércio!
– Lucrar uma compensação? Que compensação? – fa-
lou Laércio, começando a melhorar a cara, mas ainda in-
terrogativo.
– Aqui no Sertão, quando a gente troca uma novilha
por outra melhor, não paga um dinheiro ao dono da boa,
como volta? Pois, mal comparando, se você trocar Aliana
por Mercedes, você pode conseguir uma volta no negó-
cio! Seu Tio Corsino ficará tão contente por casar as duas
filhas, de novo, que bem pode dar alguma coisa a você,
em troca de sua boa-vontade!
A cara de Laércio estava, sem dúvida, cada vez melhor:
– O senhor acha que Tio Corsino poderia me dar algu-
ma coisa, mesmo, Seu Quaderna?
– Acho! Você quer que eu fale com ele sobre isso?
– Quero, quero! Fale, Seu Quadema! Se Tio Corsino
der uma volta, uma volta boa, mesmo, eu topo a troca
e o casamento com Mercedes! Agora estou vendo que o
senhor tem toda razão: todas duas são bonitas, todas duas
são minhas primas, e qualquer uma das duas me serve!
– Então, ótimo! Vou falar com meu Compadre Corsino
e volto já.
Cheguei à casa do meu Compadre e pedi para falar
com ele, em particular. Desta vez, Mercedes saiu, com
Aliana e Comadre Perpétua. Fiquei só, com o pai dela, e
fui logo dando a boa notícia:

86
Ariano Suassuna

– Compadre, falei com Laércio! No começo, ele ficou


contra; mas eu discuti e terminamos chegando a um acor-
do: ele concorda em ceder Aliana a Quintino, se, em tro-
ca, você der, a ele, Mercedes e uma volta!
– Pois está certo! – concordou Compadre Corsino. – Eu
dou a volta, pra ninguém dizer que não tive boa-vontade!
O que é que Laércio quer, de volta?
– Ele não me disse não, mas eu pensei no seguinte:
você sabe, Compadre, que Laércio tem um pedaço de ter-
ra que ele comprou com as economias que trouxe de Ca-
baceiras. O ordenado de caixeiro, dele, é pequeno. Se ele
conseguisse fazer a terra dar uma rendazinha, a situação
seria outra, principalmente agora, que ele vai casar! Eu
soube que Laércio andou querendo comprar uma junta
de bois, para trabalhar na terra, e não pôde fazer o negó-
cio por falta de dinheiro! Por que você não dá a Laércio
uma junta de bois de carro?
– Ah, não! Uma junta, é demais! Dou um boi!
– Mas Compadre, ele vai ceder a noiva! Veja que não é
coisa pouca não! Dê a junta!
– Dou um boi e já é demais! Não discuta isso não, Com-
padre! Quem sabe das minhas posses sou eu, de modo
que, quem sabe o que eu posso dar ou não, sou eu! Dou o
boi: se ele quiser, o casamento de Mercedes com ele se faz!
Se não, não se faz, e acabou-se!
– Está bem, vou ver se ele aceita a troca somente com
um boi, de volta! Qual é o boi que você vai dar? Me diga,
para eu dizer a Laércio, caso ele pergunte!
– É o boi “Bordado”! Desmancho a junta que ele faz
com “Bem-Feito”, e dou “Bordado” a Laércio!
– Está certo, Compadre, vou levar a proposta a Laér-
cio! Mas tem uma coisa: você não fale dessa história da
volta a Mercedes de jeito nenhum! Ela pode se ofender,
e aí o negócio volta todo à estaca zero! Diga somente que

87
O casamento

Laércio concorda, em princípio, e que eu estou ultimando


os termos do acordo!
Voltei a Laércio:
– Laércio, meus parabéns! Está tudo resolvido! Você
cede Aliana a Quitino, casa com Mercedes, e seu sogro lhe
dá, como volta, um boi de carro que ele tem, “Bordado”!
Laércio deu um pulo do tamborete:
– Ah, não! Um boi, só? Até a junta é pouco! ... Pra
que desfazer a junta que “Bordado” faz com “Bem-Feito”?
Meu tio, então, acha que ceder minha noiva àquele boia-
deiro safado é pouca coisa? Não, assim não cedo, não!
Diga a Tio Corsino que ele me dê a junta completa e mais
dois contos de reis, que aí eu cedo!
– Mas, Laércio, que exagero! A diferença de Mercedes
para Aliana também não é tão grande assim, não!
– Seu Quaderna, isso não discuta não, porque eu sei
o que estou fazendo! Quem vai ceder a noiva sou eu, de
modo que quem determina a volta sou eu!
– Está bem, Laércio! – falei, cordato. – Já que você,
nisso, está irredutível, vou ver se consigo a volta que você
quer!
– Viera-me uma ideia que talvez fosse a solução. En-
quanto Laércio esbravejava, tinha se referido a Quintino
Estrela como “aquele boiadeiro safado”. Eu me recordara,
então, de que Quintino era boiadeiro e que bem podia
então, no caso, resolver aquela parte, uma vez que havia
gado pelo meio.
Fui procurá-lo, de novo, no Vesúvio Hotel. O Cigano
Pereira não estava, o que me deixou mais animado, por-
que, do grupo de pajeuzeiros, ele me parecia o mais astuto
e obstinado. Encontrei Quintino e Seu Aristides Chicó no
mesmo lugar em que os deixara. Dirigi-me ao primeiro:
– Quintino, vim aqui procurá-lo, porque o negócio do
seu casamento parece que vai se resolver. Falei com Laér-

88
Ariano Suassuna

cio Peba: ele concorda em ceder Aliana a você, casando


ele, em troca, com Mercedes!
Quintino falou lento, de lá, sem surpresa:
– E não foi o que e propus desde o começo? Por que
aquele besta não cedeu logo?
– Bem, você sabe que não é fácil uma pessoa se conven-
cer assim, logo, de que deve ceder a noiva a outro e casar
com a irmã dela! Mas agora Laércio viu que, para ele que é
primo, tanto faz casar com Mercedes como com Aliana!
– Então, ótimo! Amanhã, o padre faz os dois casamen-
tos e o senhor está convidado!
– Espere, homem! Existe ainda uma dificuldade a ven-
cer! Laércio concorda na troca das noivas, mas exige uma
volta, pelo fato de Aliana ser mais bonita do que Mercedes
– o que, aliás, você foi o primeiro a dizer! Fui procurar seu
futuro sogro, e ele mandou oferecer a Laércio um boi de
carro, como volta. Mas Laércio só fica satisfeito com dois
bois e mais dois contos de réis, para começar a vida numa
terrinha que ele tem! Lembrei-me, então, de que você, sen-
do boiadeiro e homem rico, pode dar a parte da volta que
está faltando, isto é, um boi e mais dois contos!
Quintino me olhou, pesando a proposta. Depois, fa-
lou:
– Olhe aí, Seu Quaderna, essa volta está grande de-
mais! Se a coisa vai nesse pé, daqui a pouco termino fazen-
do mau negócio, de novo! Diga a esse tal de Laércio que o
que eu posso fazer é dar o outro boi, para ele completar a
junta! Os dois contos, eu não dou, de jeito nenhum! Não
acha, Aristides Chicó?
– Acho, Quintino! – concordou Seu Aristides. – Assim,
mau negócio por mau negócio, era melhor não ter nem
começado a trocar as noivas!
– Tem razão, Aristides! – falou Quintino. – Diga a Laér­
cio, Seu Quaderna, que minha última palavra é essa! Dou
o boi: ele junta com o outro que Seu Corsino dá, completa

89
O casamento

a junta e começa a vida na terra dele, com isso! Se ele qui-


ser, está resolvido! Se não, pela cara que Dona Perpétua
anda fazendo, sei que termino me casando com a noiva
dele e ele sem noiva nenhuma!
– Está bem! – concordei com minha proverbial paciên-
cia. – Vamos ver o que se pode fazer!
Quando cheguei à calçada da rua, notei que, lá da es-
quina, o Cigano Pereira estava me espreitando, com ar de
conspirador. Ele me fez um aceno e eu me cheguei para
o lado de lá.
Perguntou-me o que havia. Em poucas palavras, eu o
coloquei a par da situação. Terminei dizendo, aflito:
– De modo que, apesar de todos os meus esforços, ago-
ra é capaz do negócio encrencar todinho de novo, só por
causa desses dois contos!
– Mas pode ser que o tal do Laércio concorde na troca
somente pela junta de bois!
– Acho que não, Seu Pereira! Pela cara dele, o homem
não cede, nisso, nem a pau! Em todo caso, como não te-
nho outro caminho, é o que vou tentar!
– O senhor acha que eu podia ir, também conversar
com Laércio?
– Acho que sim! Por que pergunta?
– Porque, se o senhor não vê mal nisso, eu tenho um
certo jeito para tratar desses assuntos de troca e volta, de
modo que acredito que posso ajudar!
– Pois então, vamos nós dois!
Pela quarta vez naquela manhã, cheguei à loja de Seu
Antônio Fragoso, desta vez acompanhado pelo Cigano
Pereira. Vi-me, porém, desta vez, diante de um Laércio de
pedra. Fiz todos os apelos possíveis para que ele abrisse
mão dos dois contos, e nada! Terminou dizendo:
– Seu Quaderna, eu tive a maior das boas-vontades!
Abri mão da minha noiva para outro, somente para não
causar problemas e ver todo mundo feliz! Agora, também

90
Ariano Suassuna

espero boa-vontade das outras partes, porque, abrir mão


de Aliana, eu ainda abri, mas desses dois contos, não tem
quem me faça! Nessas coisas de princípios, eu sou duro!
Desanimei:
– Então, acho que vai voltar tudo para o mesmo pé,
porque esses dois contos, eu não vejo de onde tirar! Con-
segui a junta de bois que você exigiu, mas quem iria en-
trar com esses dois contos?
Foi aí que sucedeu um lance que eu não teria coragem
de contar se não tivesse visto acontecer. E foi que, ouvindo
aquela pergunta sobre quem iria pagar aqueles dois con-
tos, o Cigano Pereira rouquejou de lá:
– Eu! Eu pago esses dois contos!
Fiquei, durante alguns momentos, olhando embasba­
cado para ele, porque nunca se ouviu contar que um ci-
gano desse dois contos, assim, a ninguém, fosse por que
motivo fosse. O Cigano Pereira, aliás, parece que sentiu
nossa estranheza, porque resolveu explicar:
– Você sabe, Laércio, que eu sou amigo de Quintino,
amigo pra rir e pra chorar! O pessoal diz, por aí, que
cigano é gente incapaz de gastar dinheiro, mesmo com
um amigo... É verdade que, de fato, eu já ganhei dinheiro
com o casamento de Quintino, na venda dos animais em
que viemos, e que os dois contos serão tirados do lucro
que tive nessa venda. Mas, mesmo assim, a verdade é que
o lucro já estava no meu bolso. Assim, d’agora por diante,
vocês já podem dizer a todo mundo que viram um cigano
gastar dinheiro grosso, só por causa da amizade que tem
a uma pessoa. Você dá sua palavra de que, com esses dois
contos, não aparece mais dificuldade nenhuma e o casa-
mento se faz, Laércio?
– Dou!
– Pois então, tome! Você recebe os dois contos é agora!
Vamos comunicar a boa notícia a todos, Seu Quaderna! E
vamos almoçar, que já é tarde e a gente bem merece!

91
O casamento

Naquele mesmo dia, à tarde, quando tudo já estava


combinado e encaminhado, Mercedes apareceu no meu
“Consultório Sentimental e Astrológico” para me agra-
decer. Conforme se resolvera, ela tinha ido ao Vesúvio
Hotel, comunicar “oficialmente” a Quintino Estrela que
lhe devolvia a palavra de noivo. Recebeu a aliança dele,
atirou-lhe a dela na cara e saiu, furiosa. Depois disso, La-
ércio foi à casa do tio e acabou seu noivado com Aliana,
pedindo, logo em seguida, Mercedes em casamento. Fina-
mente, depois dessas cenas, Quintino foi à casa de Aliana
e noivou com ela.
De modo que, no dia seguinte, 22 de março de 1933,
o duplo casamento se fez, com boa festa e grande con-
tentamento de todos, casando-se Laércio com Mercedes
e Quintino com Aliana. Eu me sentia orgulhoso com a
brilhante atuação que tivera, movendo-me calmo, lúcido
e obstinado em todas as peripécias daquele caso. Tudo eu
planejara, tudo ajeitara, tudo decifrara, com as astúcias
do Tabelião, Astrólogo e Decifrador que sou.
Um só fato ainda me deixava intrigado: eram os dois
contos do Cigano Pereira. Esse fora o único pormenor
com o qual eu não contara, que me deixara surpreendido,
pois, com a experiência de vida que tenho, no Cartório e
no Consultório, ainda me parecia inacreditável.
A explicação dele só me chegaria no dia seguinte ao
do casamento. Na casa do meu Compadre Corsino Tejo
faziam-se os preparativos para a viagem de Aliana, que
ia, de automóvel alugado, para o Pajeú, com seu marido,
Quintino Estrela. O Cigano Pereira e Seu Aristides Chicó
iam voltar como tinham vindo, a cavalo, e levando, pela
rédea, a esplêndida montaria do boiadeiro.
Eu estava no Cartório, quando esses dois pajeuzeiros
me entraram de sala adentro, reclamando o documento
que tinham deixado no cofre, dois dias antes, em segredo

92
Ariano Suassuna

de justiça. Abri o cofre, recebi as custas do registro e ia en-


tregar o documento, quando o Cigano Pereira, fosse por
ter encontrado e admirado em mim alguma habilidade,
fosse por orgulho profissional de trocador e negociante,
me autorizou a ler o papel.
Passei uma vista rápida e curiosa por ele e as escamas5
caíram de meus olhos. Estavam ali, registrados e assina-
dos pelos dois, os termos de uma aposta firmada entre
o Cigano e Seu Aristides Chicó. O Cigano Pereira tinha
se obrigado, na aposta, a, no prazo de um dia, conven-
cer Quintino Estrela a acabar seu casamento com a noiva
Mercedes e a casar com a irmã dela. Se conseguisse isso,
ganharia cinco contos de réis de Seu Aristides Chicó, pa-
gando-lhe a mesma quantia em caso contrário. Como sua
tarefa era a mais difícil, estipulava-se, no contrato, que o
Cigano poderia “tomar iniciativas”, coisa vedada a Seu
Aristides Chicó.
Rindo, o Cigano Pereira me disse que, graças a mim,
porém, ele só tivera que tomar duas iniciativas: a primei-
ra, quando insinuara a Quintino Estrela, na hora da che-
gada, que a noiva de Laércio era muito mais bonita e que
ele faria um mau negócio casando-se com a sua – coisa
insuportável para o senso de honra de um boiadeiro e tro-
cador de sua estirpe. A outra iniciativa fora a de oferecer
a Laércio os dois contos de réis da volta. O Cigano fazia
questão de me mostrar como, mesmo aí, fizera bom ne-
gócio: gastara dois contos, no dia anterior, mas receberia,
agora, os cinco da aposta. É verdade que, com a despesa
da volta, seu lucro ficara reduzido a três contos. Mas três
contos, dois contos, um conto, qualquer dinheiro que lhe
aparecesse pela aposta seria lucro – e esse fora o motivo
de ter ele se oferecido tão facilmente para completar a
volta de Laércio.
5
No sentido de descobrir a verdade.

93
O casamento

Agora, sim, estava tudo claro e perfeito: eu matara a


charada e decifrara o enigma. De modo que posso concluir
dizendo que, talvez sem muita relação entre as leis da vida
e as leis do Código, a história do casamento de Mercedes e
Aliana é dessas raras, em que tudo termina bem, com todo
mundo lucrando e todo mundo satisfeito. Compadre Cor-
sino e Comadre Perpétua livraram-se de duas filhas soltei-
ras e dispendiosas e ganharam dois genros, como sonha-
vam. Aliana ganhou um marido mais rico do que o noivo
que possuía, e Quintino Estrela uma mulher mais bonita
do que a noiva que lhe estava destinada. Laércio – a quem,
segundo ele, eu fizera “uma obra de caridade” – ganhou
uma junta de bois e mais dois contos. Mercedes ganhou
um marido e o direito de continuar tirando horóscopos
em meu consultório. Eu ganhei o direito de continuar a
conviver com ela, dando assistência moral e conforto con-
tínuo a uma afilhada ardorosa e muito querida. O Cigano
Pereira teve o lucro da venda dos cavalos e os três contos
que sobraram do dinheiro da aposta. E até Seu Aristides
Chicó – que perdeu os cinco contos – ganhou uma via-
gem de recreio a Taperoá, com todas as despesas pagas
por Quintino, e a lição de que ninguém deve nunca, em
hipótese nunhuma, fazer aposta com cigano.

94
Clarinha
Arnaldo Tobias

Capítulo 1
Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu
quintal eu assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos.
A anágua azul e a calcinha de rendas e flores bordando
setembro e a primavera. Do seu quintal ela olhando para
mim com a indiferença de ontem. A Menina crescendo
não sabia que eu escrevia poemas para ela e os guardava
dentro de livros com pétalas de rosas vermelhas.

Capítulo 2
A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espaço do
corpo. A blusinha curta mostrando o umbigo vertical com
a covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A saiinha
ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha já tinha
abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo pretensa-
mente o vértice dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha
que me invadiu o peito.
Fui convidado de palavra para o seu aniversário de
quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que me subiu
um calor no rosto e ela deve ter notado a minha emoção
tímida. Prometi ir à festa e fui comprar uma camisa de
cetim e um sapato social. Na festa (sem champanhe e de
poucas pessoas) Clarinha confessou sua paixão por mim
desde os nove anos. A paixão cegava os sonhos e desejos
perturbáveis. O pecado consentido. Disse: Mas Clarinha
Clarinha

eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco mais da


sua idade. Disse-lhe: Para mim você é jovem e tão latente
como o sol nascente. Respondeu-me com metáfora.

Capítulo 3
Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinal-
da) a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos.
Clarinha não acompanhou minha idade avançando. De-
pois de quinze anos, ela ficou a balzaquiana mais bela do
mundo e eu sessentão acometido de fortes dores na ure-
tra. Tive de um dia submeter-me a uma inadiável cirurgia
(que me impediu de fazer um filho em Clarinha) na im-
potencialidade sexual. Então o urologista arrancou-me a
castanha da próstata deixando lá no fundo um câncer me
matando de sofrimentos. Clarinha escusando-se dos meus
tratos e asseios. Esquecendo o meu remédio na farmácia.
Hoje a acompanho com resignação e tristeza vendo-a ter
filhos com o jardineiro. Pago muito bem ao rapaz para ele
trazer rosas vermelhas e fazer Clarinha feliz. Satisfeita.

96
O Engole Cobra
Ascenso Ferreira

O coronel não gostava de apelido. Assim, por volta das


seis horas da tarde, ele estava sentado no terraço da casa-
grande, passeando pra lá e pra cá, quando aparece um
sujeitinho...
– Boa-noite, seu coroné.
– Boa-noite.
– Coroné, não tem um servicim por aí pra mim, não?
– Talvez se arrume, talvez se arrume... Como é que
você se chama?
– Eu me chamo Engole Cobra.
– Engole Cobra?! Ô, Maria!... Maria!... Anda ver o ho-
mem que engole cobra! – chamou a mulher que estava lá
dentro.
A mulher apareceu. Ele fez a apresentação e disse:
– Engole Cobra, meu nego, você vai morar ali naquele
ranchinho…
Passou sexta, sábado, no domingo o sujeito veio recla-
mar:
– Coroné, não tem um servicim pra mim, não?
– Que é que o senhor tá reclamando? Não recebeu as
suas férias?
– Recebi, sim senhor.
– Não se incomode que logo aparece... logo aparece...
Lá para o meio da outra semana, descobriram uma
surucucu que não tinha mais pra onde crescer.
– Não bole com ela não, vai chamar ali seu Engole
Cobra.
O Engole Cobra

O Engole Cobra veio nas carreiras. Disse:


– Engole Cobra, meu nego, está aí um servicim pra
você. É só essa besteirinha pra você engolir.
– Tá doido, seu coroné. Eu nunca engoli cobra! Isso é
apelido!
– Aaaahhh! é apelido!... Vigia, ô vigia! Dá uma surra
nesse homem, vigia!

98
Bestas piedosas
Augusto Ferraz

Há dez anos pede esmolas naquela esquina. Um cruza­


mento de ruas num recanto qualquer de uma cidade gran-
de. A perna esquerda, atrofiada pela pólio, à mostra, que
era para as pessoas se compadecerem. Lembrava-se do dia
em que, quando criança, a perna resolvera deixar de cres-
cer, tornara-se essa coisa disforme, curta, de pele e osso, a
acompanhar a direita que se desenvolvera normal­mente.
Só de birra, ela acompanhava a outra, e isso o machucava.
Odiava a perna, dependurada no seu corpo. O pé, tron-
cho, parecia querer dar-lhe rasteiras a todo momento. Para
nada lhe servia, aquela perna. Só para pedir esmolas. Uma
bengala branca, de madeira, ajudava a manter o equilíbrio
de quem fora driblado pela própria perna. A bengala, fur-
tara de um cego, no momento em que o pobre caíra, quase
atropelado e morto a dois quarteirões dali. O cego não
perdera a vida, mas ficara sem a bengala. Chegava cedo ao
local e atravessava o dia. Era difícil andar entre os carros,
com aquela perna quase morta. Ela, muito mais o arrasta-
va. A mão estendida, era duro. As pessoas invariavelmente
lhe diziam não, muitas nem o olhavam, ele tinha certeza
de que era a bosta da perna, e ficava com raiva das pessoas
e da perna. Mas, no instante seguinte, que fazer?, a raiva
passava, outra coisa não lhe restava a não ser carregar a
perna e obrigar a todos a vê-la, mesmo que não quisessem.
Era a sua vingança contra os sãos. Era o que o mantinha
vivo. Estava recostado no pé de oiti, na beira da calçada,
quando teve um pressentimento. Uma voz sussurrou-lhe
Bestas piedosas

ao ouvido uma mensagem. Coisa estranha! A mensagem


cravou-se-lhe nos miolos, tal um oiti que amadurecera
dentro deles. Ergueu-se, preocupado, olhava para os lados
e para mais além, para a rua a perder de vista, do outro
lado do cruzamento. Ficou espiando. Um amontoado de
gente e de carros. Uma agonia. Ele, a espiar, a andar, na
calçada, de um lado para o outro, a puxar aquela perna
maldita, esquecera-se até de pedir esmola. Bem distante,
na calçada da rua do outro lado, uma sombra manquitola-
va e aproximava-se da esquina. O semáforo aceso: verde,
amarelo, vermelho, amarelo, verde... O semáforo nunca
saía do vermelho. Mas a sombra avançava. Viu tratar-se de
um homem imenso, cor parda, como a dele, desprovido
da perna direita. O homem caminhava com a ajuda de
uma muleta. Aquela muleta no sovaco devia incomodar
um bocado. Vestia uma camisa de manga curta e uma ber-
muda, que era para as pessoas admirarem-lhe a ausência
da perna, na presença daquela musculosa, mas que não
lhe valia pela outra, a que lhe faltava. A que lhe faltava,
dera-lhe um chute na bunda e fora embora. O homem,
descalço. Sem perna, e ainda descalço. O mendigo olhou
o homem com um olhar de superioridade. Entronchou o
canto da boca, numa expressão de asco. Esse não presta,
resmungou. O homem sem perna sorriu e pôs-se imedia-
tamente a pedir esmolas, na esquina, do outro lado do
cruzamento. Só me faltava essa... Um concorrente, depois
de dez anos! Estava rindo do quê, o carinha?! Desconfiou,
o homem rira da sua perna atrofiada. Uma neblina des-
prendeu-se de dentro do mendigo e tomou a calçada. A
neblina flutuou feito uma poça de lama engolindo suas
pernas. Nesses momentos, ele sentia uma vertigem, sob os
seus pés um buraco abriu-se e ele foi tragado para o fundo
do buraco. Sua fisionomia mudou. A cabeça a ponto de
explodir. Ouvia vozes, um mato fechado cresceu em torno

100
Augusto Ferraz

de si. O coração disparou. Ele, no fundo do buraco, a per-


na mastigada pela pólio, enterrada na lama. Não conse-
guia respirar, nem retirar a perna da lama. Tossiu. A nebli-
na a desprender-se, negra e venenosa, escancarava-lhe
uma portinhola no coração. Era por ela que o guará se
esquivava e aparecia do fundo da mata que havia dentro
dele, nessas horas em que não enxergava nada dentro do
buraco. Apareceu. Um bicho esguio. Cara pequena, olhos
desconfiados, pernas e focinho compridos, a pelagem,
vermelho-clara, grossa, as orelhas enormes de saber-lhe os
segredos mais ocultos..., e os pés pretos, sujos de lama. O
ódio nunca confessado que o fizera viver em aperreio e em
aperreio fizera-lhe do coração brotar aquele guará que o
perseguia pelos cantos, a sombra do seu ódio. O animal
pôs-se a dar voltas e mais voltas em torno do mendigo,
não o perdia de vista. Temia ser despedaçado pelo animal.
Sabia-se prisioneiro dele, mas, não sabia, o animal era ele.
Detestava quando o bicho, de um momento para o outro,
urinava-lhe na perna atrofiada para, logo depois, afastar-
se e ficar, a uma certa distância, a encará-lo interrogativo.
Coisa boa não está para acontecer, farejou. O resto do dia,
intranquilo. Aflito, nos seguintes. A sombra atlética do
mendigo manco atravessava a rua e vinha assombrar-lhe o
corpo mirrado. Ameaçava-o de decepar-lhe a perna atro-
fiada com um chute da perna que não havia. Era peremp-
tório. O homem zurrava: sua perna estava lá. Ele a sentia
caminhar. Toda vez que escorava o corpanzil na muleta era
sobre o pé da perna inexistente que o raio da muleta cal-
cava. É um veado, repetia o mendigo, morto de despeito
por ver, o manco conseguia mais trocados. O guará lá, sen-
tado, encoberto pela neblina, fingindo-se distraído, po-
rém, pronto para dar o bote. O bicho nunca mais saíra da
cola dele, desde que o manco chegara e se aboletara na-
quele canto. Será, estou do lado errado? Matutou, e sentiu

101
Bestas piedosas

uma raiva danada de si, só de pensar, permanecera dez


anos a pedir esmolas no local errado. O manco invejava as
pernas do rival. Achava-as lindas! Aquela perninha depen-
durada, então, um mimo. Que lhe adiantava ganhar mais
moedas, se o mendigo, do outro lado, tinha pernas, e a ele
faltava uma? Era um homem torturado pela perna que o
ônibus esmigalhara. No dia do acidente, lembrava-se ain-
da, perdera a perna, e o juízo se fora depois de ver-se sem
o precioso membro, deitado no leito. Quem foi o filho da
puta que arrancou a minha perna?, vociferou, o hospital
em polvorosa com a imensidade daquele grito medonho.
Jamais esquecera, estava com a perna quando chegara ao
hospital. Foi num piscar de olhos. A vida, um martírio,
desde o dia em que, ao levantar da cama, precisou se esco-
rar numa muleta para caminhar. Nunca mais fora o mes-
mo. Tornara-se um desconhecido de si mesmo. Um ho-
mem soturno. Não. Um homem, não. Uma sombra sinis-
tra a apoiar-se numa muleta e a caminhar com uma perna
que não mais existia. Não existia para os outros. Para ele,
ela estava ali, coçava todo santo dia, e o incomodava em
sua invisibilidade irritante. Sem a perna, perdera o cami-
nho e, no descaminho, fora descobrir, restavam-lhe duas
mãos para recuperar a dignidade nas moedas que outros
pudessem lhe dar. Não demorou para ele enxergar o gua-
rá escondido na perna carcomida do mendigo. Aquilo
pensa que é esperto, grunhiu, e se fechou nas dobras da
sua inveja. Pois sim... Tenho medo de cara feia, não. O
homem só faltava comer a muleta. A inveja goteja dos seus
olhos. Gotejava. Os olhos do cão selvagem a espiá-lo dos
olhos do mendigo. O gotejar da inveja foi dando corpo a
sua sombra. Uma sombra esquisita, amarrada a uma única
perna, a sombra a rastejar de quatro. Uma sombra incha-
da pelo corpo da perna que não havia no homem. Bicho
perigoso, aquele homem sem perna, aquela sombra engo-

102
Augusto Ferraz

lindo o homem, o homem a rastejar no chão, devorado


pela inveja, agora uma sombra. A sombra, um homem es-
quisito. Não. Um homem, não. Um bicho. Que bicho? O
bicho esticou-se pelo tronco do oitizeiro, talvez atraído
pelo aroma intenso das drupas, no alto. Uma suçua­rana. A
fera esgueirou-se nos galhos da árvore, voava silenciosa na
mata de folhas pequenas, estendida no céu, indo de um pé
de oiti a outro, a suçuarana, com seu pelo baço, armava a
tarde morna, a boca da noite na da suçuarana a engolir a
cidade. O guará, nem aí. À presa se achegou sorrateira,
escondida atrás das folhagens da árvore, bem no alto, os
olhos cinzentos focavam o dia indo embora na figura do
mendigo. Foi só o pobre dar dois passos, e na calçada um
abismo abriu-se. A mais negra escuridão despencou do pé
de oiti e desceu rasgando as costas do homem a unhadas.
O mendigo não sabia o que estava acontecendo. Teve cons-
ciência apenas quando uma boca voraz mordeu-lhe o qua-
dril e pôs-se a decepar-lhe a perna boa a dentadas. Larga
minha perna, urrou apavorado o guará, com o rabo entre
as pernas. Aquilo não podia ser. Olhou para o outro lado,
e não viu o mendigo sem perna, só uma perna sem o men-
digo. Ficou mais apavorado. Podia ser, sim, e era, uma su-
çuarana a atacá-lo do pé de oiti, acontecimento banal na
vida de uma cidade grande. Num segundo, não passava de
um guará estropiado, estendido no canto do muro, o san-
gue pobre a vazar-lhe do corpo e a escorrer pela calçada
como uma perna, na qual ele tinha nojo de pegar. Minha
perna, cadê minha perna? O homem, aos berros. Mas não
havia berros, nem homem. O homem se fora, nos berros.
E a neblina escura desvanecera para desencobrir-lhe a rai-
va. Na calçada, estrebuchava. Um corpo moribundo.
Olhou, mais adiante, e viu o mendigo, de muleta, atraves-
sar a rua, carregando uma perna sobre os ombros. Ele ria,
sarcástico. Acompanhou aquela figura terrível largar sua

103
Bestas piedosas

carga macabra no chão e só então percebeu, aquela perna,


em pé, que vira sobre a calçada, na outra esquina, era a sua
e não do manco. Olhou para a que lhe restara e choramin-
gou: agora, nem muleta nem nada. Sentiu-se um guará,
humano, de verdade. Volveu o olhar para o rival, que ódio!,
e viu o sacana a afastar-se, capengando com a sua perna,
no lugar da que lhe faltava, feliz da vida. Lembrou do dia
em que surrupiara a bengala do cego.

104
A supremacia feminina
Barbosa Lima Sobrinho

Naquela noite, a falta de assuntos excedera as propor­ções


habituais. Debalde remexia as velhas coleções de jornais;
debalde esquadrinhava as gazetas do dia. Arrumava diante
de mim as laudas de papel, molhava a pena no tinteiro... e
o assunto zombava desses preparativos metódicos...
Eis senão quando entra pela sala e atravessa a correr os
espaços entre as bancas um senhor de meia-idade, agitado,
nervoso e que não parava de firmar, no seu nariz adunco, as
suas lunetas de aros de prata. Estacou junto à mesa do secre-
tário, disse algumas palavras e o secretário apontou a minha
direção. Sorri, na esperança de que com o visitante me viesse
também o assunto arredio. Prazenteiro lhe perguntei:
– Que deseja o senhor?
Fechando os sobrolhos, ele respondeu com aspereza:
– Venho fazer uma reclamação.
Anuviou-se-me o ar prazenteiro. Tinha, por certo, al-
guma história trivial, as impertinências de um mau vizi-
nho, voltas desnecessárias de chauffeur esperto, excessos
de poder de policial suburbano. Desconsoladamente fui
ajeitando as laudas de papel:
– Pode começar.
O sujeito firmou as suas lunetas de aros de prata, de-
trás das quais fuzilava um olhar austero:
– Ouça primeiro. Não se trata de uma história comum.
Estou aqui em missão cívica, como presidente da “Liga
dos bons costumes”, em defesa de interesses coletivos e
do pundonor geral.
A supremacia feminina

Disse, a gesticular, irritado, vermelho. Pedi que se acal-


masse e me dispus a ouvir.
– Não preciso lembrar que estamos no carnaval. Os cor-
dões há dias que movimentam a cidade, com as passeatas,
a alegria dos cantos e das músicas aliciadoras. A “Liga dos
bons costumes” me encarregou de fiscalizar as festas de
Momo, porque eu sou, na diretoria, o mais resistente.
Curvei-me na reverência espontânea que me desper-
tam os homens resistentes, os que podem fugir à delicio-
sa provocação do pecado. Superior também à admiração,
ele continuou despercebido de meu cumprimento.
– Antes, era fácil o meu trabalho. Corriam os festejos
tão bem, que só me cumpria elogiar a população, pela sua
atitude superior nas saturnais permitidas. E um dia, com o
prestígio de minha posição, fiz distribuir circulares, aconse-
lhando às famílias os folguedos carnavalescos. Aproximan-
do os sexos, e favorecendo a multiplicação da espécie, eles
concorriam para manter, no continente, a hegemonia de
nossa população, atuando como fator saliente na política
sul-americana. Ah! Tudo se transformou! Os inimigos do
Brasil desnaturaram as festas de Momo, roubaram-lhe a efi-
ciência, por meio de um fenômeno anormal, que exige a
atenção imediata dos poderes públicos: a efeminação cole-
tiva, desgraça e opróbrio do País. Quase todos os cordões de
ontem levavam homens seminus, ostentando decotes enor-
mes e saiotes de dançarinas, com que exibir braços desnu-
dos e pernas metidas em meias de cor. Não está direito! O
seu jornal deve protestar contra a deserção indecente!
Ele já falava tão alto que, na sala enorme, todos o con-
sideravam com espanto. Tentei diminuir-lhe a cólera:
– O cavalheiro nos desculpe, mas não nos cabe pro-
priamente a função de censurar os costumes. Quem se
fantasia tem o direito de escolher o disfarce. Assim decidi-
ram as cartas de direitos elaboradas ao calor de revoluções
cruentas. Junto do direito de locomoção e do direito de

106
Barbosa Lima Sobrinho

pensar veio, na preamar de conquistas liberais, o direito


de fantasia.
Não sei descrever o tumulto que o reclamante promo-
veu:
– É por isso que eles desertam! Há quem os defenda,
escutando-os com a Constituição Federal, com a Declara-
ção dos Direitos dos Homens e até com as revoluções! Pois
se assim pensa, ouça!
Que havia de fazer? Tornei-me todo atenção:
– Eu estava parado diante da Galeria Cruzeiro quando
passou, num cordão, um grupo de moças encantadoras.
Lembraram-me as carnavalescas de outrora, promotoras
da hegemonia do Brasil no continente. Considerei-as,
por isso, cuidadosamente e descobri, entre elas, uma que
era toda feita de graciosidade e sedução. Resolvi acom-
panhá-la, no desejo de verificar se merecia, da “Liga dos
bons costumes”, a medalha de honra, prêmio de beneme-
rência excepcional. Juro que era formosa e tinha a pele
fina, olhos lânguidos e sorriso diabólico, um sorriso que
descobria dentes alvíssimos e uma ânsia enorme de pe-
cado. Movia-se o corpo flexuosamente; os braços tinham
contornos de que se adivinhava a suavidade; o colo fa-
zia pensar em vertigens ardentes... acompanhei-a duas
horas, marchando sobre asfalto e paralelepípedo, sobre
calçada e areia. Em toda a minha vida, nunca tinha visto
jogo mais harmonioso de quadris! Quando lhe indaguei
o nome, para a inscrição no livro de beneméritos a que a
“Liga dos bons costumes” deve homenagens... Ah!, Água!
Água! Que eu morro!
Pulei de meu posto, dei-lhe a água que ele pedia nesse
transe mortal. No intervalo de dois goles, impressionante­
mente pálido, o presidente da “Liga dos bons costumes”
mal pôde dizer aquelas sílabas quase fatais:
– Joãozinho La Garçonne!

107
A supremacia feminina

Procurei despertar no seu espírito os sentimentos da


paz, adormecidos pela ira:
– Honra ao nosso tempo e à geração a que pertence-
mos!
Tendo diante de si abertas todas as atividades, a mu-
lher ainda assim detém algumas de suas antigas prerro-
gativas e, por mais que se desprestigie a galanteria, mais
facilmente cederemos às damas o nosso lugar nos bon-
des. Não deixemos sem reparo que talvez se deva o ocaso
da galanteria à sua significação de espécie de deferência,
mais ou menos desdenhosa, com que o antigo sexo forte
ostentava a sua supremacia diante do antigo sexo fraco.
Honremos a época em que as mulheres adquirem o do-
mínio aparente do mundo, depois de por muitos séculos
terem tido apenas o domínio real. A influência das novas
dominadoras não perturbará os sonhos de nossa hegemo-
nia continental. Militaristas e belicosas, presas eternas do
fetichismo dos fardamentos, elas saberão manter as tro-
pas guerreiras, destacando para o serviço das vanguardas
os pelotões de sogras bravias. Eis porque nos cabe louvar
esses moços que vestem saiotes curtos e saem pelas ruas
baloiçando os seus quadris redondo. Eles procuram res-
pingar as migalhas do domínio do mundo...
Sob a força desses argumentos, o presidente da “Liga
dos bons costumes” capitulou, com uma pequena reserva
que me expôs gravemente:
– Tem razão. Vou agora mesmo para casa vestir um
saiote de bailarina. Mas o amigo acha que poderei usar,
com essa nova roupa, as minhas lunetas de aros de prata?

108
Estradas do mar
Bartyra Soares

– Clementino, o sol já foi embora. Coa o teu café.


Projetado nas reentrâncias da parede de taipa do velho
casebre, o seu vulto falava-lhe usando uma voz sem tim-
bre, saída de uma boca invisível. Uma voz remota, lerda
como o arrastar-se de um rio na planície. Triste como os
olhos súplices de um cão escorraçado pela fúria nervosa
de seu próprio dono. Insistente como um eco:
– Coa o teu café. Coa o teu café.
Quieto, sentado num banco de três pernas, Clemen-
tino aquecia as mãos na boca acesa do quase desmonta-
do fogão de lenha, enquanto, ainda uma vez, escancarou
para si a porta que dava acesso ao seu passado. Ressurgi-
ram as cores diante de seus olhos semiapagados, realizan-
do um suave bailado. Suas mãos entrevadas mexeram-se
impacientes, sacudidas pelo ritmo da saudade. Um gesto
agudo manifestou-se na parede.
– Coa o teu café.
Indiferente ao apelo, Clementino buscou as trilhas
da infância, indo chapinhar pelos mangues à cata de ca-
ranguejos e siris, e os seus passos de menino, outra vez,
foram-se imprimindo à flor das águas.
Por vezes, ele era aquele riozinho incerto que se des-
fiava correnteza abaixo, lavando o areal que dava para
o mar. Outras vezes, era aquele peixe miúdo que nunca
deixara de levar nas costas um fragmento do sol, que nem
mesmo as águas turvas do inverno conseguiram apagar.
Estradas do mar

Deitado na areia branca atapetada de sargaços, no-


vamente sentiu na pele escura o grito ansioso do sol do
verão, a aspereza do sal invadindo a intimidade de seu
corpo, a cantilena soturna do vento revelando-lhe os se-
gredos do mar, sua dor, seu existir sem memória e tudo
sempre marcado por um pranto azul.
– O teu café. O teu café.
Reviu a jangada pequena dos primeiros anos da sua
adolescência, a rede de traçado estreito confundindo-se
com as suas esperanças e as pescarias que nunca se atre-
veram a ir além dos arrecifes. A sua sombra unida às som-
bras dos coqueiros sempre traçou no chão uma dança pi-
toresca de coreografia assimétrica.
– O teu café.
O vulto agitou-se, traçando estranhos arabescos na pa-
rede. O fogo começava a minguar, oscilando nas chamas
débeis.
À medida que se foi tornando adulto, ampliaram-se
também os seus espaços.
A jangada cresceu, cresceram os sonhos, as ambições,
os desafios. Clementino conhecera as longas pescarias, os
pernoites no alto-mar. Enfrentara a sanha dos ventos ro-
dopiantes, as tempestades.
A sua jangada, sempre no encalço do horizonte, explo-
rara cada vez mais as infindáveis estradas do mar, que se
cruzavam azuis, pelo tempo afora...
E aos poucos tudo se foi tornando tão da sua intimi-
dade, como as veredas das suas mãos. Por elas também
caminharam tantas luas e tantos sóis, sempre guiados
pelo fogo faiscante de estrelas cadentes. Por elas, a vida
desdobrara-se, andando com seus passos de silêncio.
Aquelas mãos com familiaridade haviam abrigado
aves, que confiantes vinham dos galhos dos cajueiros,
mangueiras e touceiras de guajirus para a tepidez daque-

110
Bartyra Soares

le regaço. Mas também guardaram a chuva, a neblina e o


sol. Como as estradas do mar, os caminhos das suas mãos
cruzavam-se azuis.
– Teu café. Teu café.
O vulto movimentou-se mansamente, assumindo uma
postura inclinada.
Lá fora, o mar continha-se aquiescente nos limites re-
cuados da maré vazante. Era como se naquele instante
guardasse só para si a dor, que incessantemente o fazia
chorar. Talvez chorasse, por aquelas mãos entrevadas, de
caminhos tão semelhantes aos seus, mas que se consumi-
ram no traçado das linhas de longas redes.
Talvez fosse por aqueles olhos quase apagados, que de
há muito perdera o roteiro de suas estradas.
– Teu café.
O fogo agonizava nas brasas. O vulto agora era uma
tênue mancha, um leve palpitar, indefinido, fugaz.
Não tivera mulher. Sua vida havia sido marcada por
encontros fortuitos, que nunca ultrapassaram o prazer de
uma noite. Fora homem das águas, dos caminhos absur-
dos, que afoitos se lançavam horizonte adentro e se per-
diam no mistério do infinito.
Por onde passaram os seus passos, não existiam pega-
das que pudessem ser de filhos. Sempre temera a incer-
teza das águas. Não quisera deixar em terra firme filhos
presos ao estigma da orfandade.
Agora, ali estava ele só, atado ao companheirismo do
seu próprio vulto, comendo do que lhe concedia a cari-
dade pública e do que lhe davam alguns parentes afasta-
dos, que uma vez ou outra ainda se lembravam de que ele
existia.
– Café.
A voz inaudível resvalou pela sala, agonizando triste-
mente. Seria aquilo existir? Clementino baixou a cabeça.

111
Estradas do mar

Os cabelos brancos encaracolaram-se na barba acinzen-


tada, que lhe descia até o peito. A barriga enorme espa-
lhava-se dolente pelas coxas frágeis. O fogo extinguira-se
completamente.
Permaneceu naquela posição por alguns minutos ou
por um tempo sem fim? Para ele, o tempo era um pulsar
de lembranças, um permanente correr para o passado.
Não se via desembocando no futuro. As suas mãos sem
o alento das chamas quedaram-se frias ao longo do corpo.
Não ousou erguer a cabeça. Sabia que diante dele nada
mais restava de seu vulto, que exausto se guardara no si-
lêncio das sombras definitivas.
Agora estava realmente só. O bater das asas de um mor-
cego retirou-o da solidão. Levantou-se com dificuldade,
arrastando-se até a porta e escancarou-a para a noite, que
o envolveu com os seus braços adereçados de estrelas.
A vida desceu-lhe exangue pelas costas curvas, trope-
çando-lhe nas pernas inseguras. Mesmo assim não he-
sitou: soprava o terral e, com a sua ajuda, uma imensa
gaivota lentamente alçou voo em direção a novas e desco-
nhecidas estradas do mar.

112
O sono
Beatriz Brenner

Achou as botas embaixo da cômoda. Sempre malchei­


rosas que tanto lhe pedia para deixar fora de casa, depois
que chegasse da caça. Ou mesmo quando retornasse da
mata onde ia colher a lenha que estocava para o inverno.
Nunca atendeu aos seus pedidos. Nelas, ficaram as con-
trariedades. Vê-las significava humilhação e fraqueza. A
raiva guardada a fez jogá-las contra a parede do fundo do
quarto. Pedaços de lama seca do solado se espalharam por
todos os lados. Não se importava com quem estivesse por
perto. Ou fazia aquilo ou mais uma vez estaria à mercê de
vontade alheias. Mais uma vez. Não poderia admitir isso.
No canto da gaveta achou um pente e várias facas. Gos-
tava de colecionar facas de todos os tamanhos. De todos os
estilos e cores. Não sabia para quê. Nunca soube, nem ousou
perguntar. Entulho. Colocou-as sem interesse em cima do
sofá azul. Essas serão para o vizinho caçador. Decidiu dar fim
às facas que, de todo jeito, breve, estariam enferrujadas.
E continuava cavando mais e mais, freneticamente.
Havia sonhado com aquele dia. Livre dele e das suas coi-
sas. O último filho, não pensou em tê-lo. Estava certa de
que ele havia sido resultado de uma noite de amor rápido,
só para satisfazer o desejo carnal do marido. Talvez por
isso sentisse raiva. Sentisse ódio. Cada coisa jogada para
o ar significava ir junto situações mal resolvidas, ou mes-
mo as que nunca se resolveram e nem iriam, como nunca
chegaram a ser. Estava casada havia anos. Mais tempo do
que o tempo que passou sem ele.
O sono

Já nem sabia quem era. Fora enterrada embaixo dos


vários desejos não satisfeitos. E assim, a cada dia se dis-
tanciou ainda mais dela. Até estava em dúvida se a en-
contraria novamente. Será possível haver um reencontro
comigo mesma? Chegou a perguntar.
Em meio aos pensamentos achou um rolo de cordão
grosso com o qual ele amarrava a lenha para não se sol-
tar pela grama afora. Tinha ciúme daquele rolo de cor-
dão... mais do que de um filho. Mais do que da mulher.
Ninguém poderia tocá-lo. Que vá para o inferno. A lenha
também. Todos ali estranhavam. Alguns chegaram a ter a
coragem de falar uma palavra ou outra sobre o que viam.
Não sabem o quanto cada objeto desse me trouxe dor e
agonia. Apego demais o fez se distanciar da gente. Nos
tornou ainda mais sós.
Na casa havia um vaivém intenso. O corpo na sala de
espera à espera do padre. Uma lágrima sequer rolava de
seus olhos. Secaram. Passou a vida chorando calada. Não
por ele, mas pelo que foi e o que isso provocara na famí-
lia. – Não sei se vou ter chance de recuperar a sensação da
liberdade que sonhei ter. Quem quiser que chore pra lá.
Sinta o que quiser sentir. A minha realidade é outra.
Continuou cavando até o chão da gaveta funda da cô-
moda. Encontrava mais objetos que a fizeram lembrar das
crises sem grandes motivos. Cada qual com uma história
diferente, de começo, meio. E fim? Encontrou fotos do
casal que os filhos teimavam em tirar. Ilusão, murmurou,
coisa só para compor o álbum da família, mais nada. Cada
momento registrado por aquelas imagens, ou mesmo pelos
objetos e para o resto da vida, em seu coração, tudo o que
não quis que acontecesse. A presença deles, sobretudo.
O padre chegou. Disseram-lhe aos gritos para que ou-
visse no quarto. Já que tinha fama de mouca, aproveitou.
Ficou lá onde estava, sem arredar o pé. Gostou de ter de-

114
Beatriz Brenner

cidido assim. Havia tempo que não fazia o que queria. E


baixinho... Deixa o padre esperar. Deixa o povo esperar.
Deixa o corpo esperar. Não mais tinha pressa. Achava que
pressa era coisa do passado. E deliciou-se com a sensação.
Quando tentava identificar o que havia dentro de um
pequeno embrulho, a filha surgiu na porta do quarto. –
Mãe, o padre chegou. Está na sala aguardando somente
por você. Ela ficou sem saída. Afinal o defunto tinha que
tomar o seu rumo e já era hora. Sentia-se obrigada mais
uma vez a fazer o que não queria. Não queria ter de ir
até a sala. Sua vontade era ficar no quarto. Num relan-
ce temeu que a vida continuasse a lhe exigir coisas que
não desejava fazer. Achou que tinha que tomar todas as
precauções para se defender de tudo e de todos que con-
tribuíssem com essa possibilidade. Sei que estou velha, o
que não significa que terei de ser subjugada. Serei forte
para reagir.
A filha segurou-a na mão e seguiram em direção à sala.
O padre e logo as pessoas se levantaram. O caixão não a
comoveu. Muito menos o corpo inerte e gelado que se en-
contrava dentro dele. Ouviu uns choramingados na sala.
Quem poderia ser? se perguntou surpresa. Quem poderia
estar sentindo a falta desse…
Tentou se concentrar nas palavras do padre. Sim, era
melhor ouvi-las. Mesmo que soassem falsas ou vazias.
Qualquer coisa que dissesse não teria sentido, de todo
jeito. Pelo menos ali havia um padre para as pessoas se
distraírem e deixá-la em paz. Depois do sermão de corpo
presente sabia que muita mão teria que apertar e mui-
ta coisa que não queria ouvir, ouvir. Muita coisa que não
queria dizer, dizer.
Fecharam o caixão.
Acho melhor ela ficar em casa, não ir ao cemitério,
ouviu alguém dizer no corredor... e como gostou naquele

115
O sono

exato momento de ser velha carcomida. Além do mais vai


ser muito forte para ela. Vê-lo ser enterrado a sete pal-
mos, disse a vizinha, dona Eugênia, coitada. Sorriu por
dentro. Aproveitou as emoções, pediu licença e voltou ao
quarto. Tirou os sapatos fechados, pretos. As meias cinzas
de náilon. Afrouxou o cinto e o sutiã. Livrou-se das mar-
rafas que lhe prendiam os cabelos. Movimentou os dedos
dos pés para felizmente livrá-los do aperto em que se en-
contravam. Sentiu alívio. Muito alívio.
O silêncio da casa a fez se deitar. Preferiu deixar as
pernas dobradas para fora da cama, a fim de evitar que
dormisse. Queria estar alerta para gozar a sensação da
mais nova experiência. A experiência de não tê-lo mais
perto dizendo o que teria ou não que fazer. O prazer de
desfrutar do espaço todo da cama.
Sentiu-se desnorteada. Teve medo de não saber con-
trolar a sensação e aí perder tempo. O tempo que, por ser
velha, achava valioso. Foi assim que caiu no sono, mesmo
sem querer. Dormiu.
Um sono profundo.

116
O rio
Benito Araújo

Já idoso, Albali não tardaria em atravessar o rio. Em


algum momento no futuro – a face velada do tempo –
emboscava-se a hora da travessia. Seguir naquela direção
e cruzar as suas águas, era o destino de todos. “Ninguém
permanece neste lado, para sempre” – refletira.
Tentava imaginar o seu estado de espírito nessa oca-
sião: estando consciente e lúcido – o que não desejava –
acovardar-se-ia ou se portaria com destemor? Tinha me­
do de ter medo.
Às vezes, sereno como um lago; de outras, um mar
vergastado pela tormenta, o rio constituía um enigma, um
mistério.
Muitos de sua geração e, por último, Lindu, já o ha-
viam transposto. De um certo modo, invejava-os: tinham
passado pela temida travessia.
Como se emergissem das profundezas de seu leito,
rostos afloravam-lhe à memória. Indistintos quando sub-
mersos, à superfície tornavam-se nítidos. Uma tarde, ao
pôr do sol, parecera-lhe ouvir Lindu, postada na outra
margem:
– Venha, meu velho. (Tratava-o assim, com meiguice,
desde os tempos de namoro.) Aqui há resposta para as
indagações que julgamos essenciais.
– Que indagações?
– Por exemplo, o que nos espera no lado de cá. Além
disso, teremos um ao outro. Não é maravilhoso?
O rio

Nos cinquenta anos de convívio com Lindu, muitos ti-


nham sido os momentos luminosos, apesar dos desafios
impostos pela acidentada margem.
– Só um problema não tem solução: é quando nos en-
tregamos ao rio. Já não há como sair dele. A propósito,
você teme a passagem, não é, meu velho?
– Sempre a temi. E você sabe disso.
– Sim, eu sei. Mas não vejo razão para ter medo. Acre-
dito na verdade da outra margem para onde o rio nos
levará um dia.
– Infelizmente, não tenho essa convicção. Gostaria de
acreditar em muitas outras coisas.
– Como assim, meu velho?
– Por exemplo, no ser humano. As pessoas decepcio-
nam por tão pouco! Em Sua onisciência, Deus devia saber
da natureza falível do homem. Contudo o criou.
– Entendo o seu desapontamento. “Fraternidade” é
uma palavra que os pretensos amigos trazem nos lábios,
mas que não vem do coração. Felizmente, nem todas as
pessoas são assim. Mesmo imperfeitas, há aquelas pro-
pensas à amizade, à consideração, ao reconhecimento, à
solidariedade. E você tem a prova disso.
– É possível.
– Quanto à nossa imperfeição, inúmeros espíritos são
ainda elementares. Têm muito que apanhar e aprender.
Essa é a lei, meu velho: inflexível, justa.
– Então não devemos cogitar de um Deus misericor-
dioso. Seria uma contradição.
– Sua misericórdia consiste exatamente em ser justo.
Onde não há a verdadeira justiça, é a iniquidade, a tirania.
Fizera uma pausa. Quando voltara a falar, mais uma
vez se referira ao rio:
– A verdade é que, chegada a hora, teremos de atraves-
sá-lo. E naturalmente serei a primeira. Sou alguns anos
mais velha do que você.

118
Benito Araújo

– Não tenha essa certeza. A idade é relativa.


Mas se de fato o antecedesse, ele não gostaria de que-
dar-se ali na margem, vendo-a transpor o rio. Preferiria
acompanhá-la, ela sempre lhe dera segurança. Depois de
cinco décadas de união e companheirismo, penosa não
seria a sua falta e a solidão?
Uma noite, como Lindu previra, a hora da travessia a
ela anunciara-se. Rendera-se então ao remanso das águas
cálidas e calmas. Inanimada e emudecida, atingira enfim
o outro lado.
Durante um longo tempo contemplou-a, o rosto vi-
sivelmente marcado pelos anos, os cabelos encanecidos
denunciando-se (por economia, espaçara as vezes em que
os pintava). Estranho determinismo: ao idoso, frágil e ca-
rente, era tirado o que lhe fora concedido no vigor da
juventude.
Numa panorâmica, vieram as recordações: o namoro
numa festa de formatura, a primeira dança.
– Você é um pé de ouro!
– É uma das minhas habilidades – admitira ele, em
tom de gracejo.
Ante essa lembrança, sorriu interiormente, pesaroso.
A seguir, o noivado, a noite de núpcias, as bodas, as
viagens, as fotos, seu sorriso e fotogenia: na Europa, ten-
do como pano de fundo o Coliseu em Roma, os canais de
Veneza, os Alpes austríacos e suíços, o Palácio das Nin-
fas em Munique, os moinhos em Amsterdã, o “Manneken
pis” em Bruxelas, os Jardins de Versailles e a Torre Eiffel
em Paris. Em Buenos Aires, o Parque de Palermo, o Jar-
dim Japonês, o Delta do Tigre.
Todavia, por pudor e orgulho, em nenhum momento
ousara confessar o quanto estava ligado a ela.
– Você nunca disse que me ama!
– Meus gestos e atitudes sempre disseram isso. Ade-
mais, as palavras são enganosas.

119
O rio

Declarações como “Eu te amo”, as novelas e os filmes


de mau gosto tinham se encarregado de vulgarizá-las.
Havia em seu repouso o vazio de uma ausência defini-
tiva. Com a saudade a pungir-lhe a alma, sentiu o que sig-
nificava perdê-la. Ela fora como uma casa sempre cheia,
onde soava a música e a alegria. Agora desocupada, era o
silêncio, a desolação. Compadecido, dominou-o um pran-
to repentino e convulso. A acariciar-lhe a fronte lívida,
encontrou-se a balbuciar, com infinita amargura: “Eu amo
você. Sempre a amei. Desculpe, querida, se isso não lhe
confessei, quando você mais gostaria de ter ouvido”.
Um dia, viu-se diante de Lindu, cheia de vida e júbi-
lo. Sentiu, de uma maneira inequívoca, sua presença, seu
perfume, sua ternura. Quando se abraçaram e se beija-
ram, foi um momento de intensa emoção.
Albali acabara de cruzar o rio.

120
Regresso
Carlos Newton Júnior

O senhor está vendo aquela ilha, à nossa direita? É Íta-


ca, famosa por uma história inverossímil que certo aedo
criou há muitos anos e que os rapsodos de então se encar-
regaram de espalhar por todo o continente. É uma terra
áspera e pedregosa, cheia de penhascos, imprópria para
a criação de cavalos e o tráfego de carros. O solo, po-
rém, não é ruim. Em algumas regiões o trigo é abundante
e crescem parreiras. A chuva não falta. É uma terra boa
para a criação de cabras e de gado bovino. Há boas matas
para se retirar madeira e para caçar, sobretudo naquele
monte mais alto, o monte Nérito, inteiramente coberto
por uma densa selva ondulante. Ali, por trás daquela en-
seada, está o porto de Fórcis, capaz de abrigar um bom
número de navios.
Anos atrás, quantos eu não poderia precisar, um velho
louco aportou àquelas praias. Dizia-se, imagine o senhor,
o antigo rei da ilha, desaparecido há mais de vinte anos
e cuja fama chegava aos céus. Ao que tudo indica, esse
rei, após uma longa guerra no Helesponto e várias faça-
nhas sem conta, perdera-se no caminho de volta e acabara
morrendo no mar com todos os seus companheiros, ví-
tima que fora, talvez, da ira de Poseidon, a quem ele me-
nosprezava, o insensato, não lhe oferecendo os devidos
holocaustos antes de uma viagem.
O velho louco, de olhar fixo e fala mansa, de corpo
ainda rijo, apesar da idade, vestido de andrajos, de longa
barba e com os cabelos brancos desgrenhados, uma vez
Regresso

na ilha, convenceu dois servos do antigo rei de que era


o senhor deles quem estava ali de volta, em carne e osso,
para reivindicar o trono e expulsar, do seu palácio, os pre-
tendentes que há três anos disputavam a mão de sua es-
posa. A audácia dos pretendentes, que não arredavam os
pés do belo solar e dissipavam os bens da propriedade,
comendo e bebendo do bom e do melhor, era por demais
conhecida nas ilhas vizinhas, desde Dulíquio, aquela por
onde passamos, até Same e Zacinto, mais próximas do
continente. Fora em uma delas, decerto, que o velho men-
digo ficara sabendo de toda a história, tendo se decidido,
então, a fazer-se passar pelo soberano, fosse por alguma
doença do espírito, como querem alguns, fosse por pura
cobiça, como insiste a maioria.
Os servos do rei eram dois pobres néscios, um porca-
riço e um vaqueiro. Ambos se recusavam a acreditar que
o amo, a quem nunca se dirigiram diretamente, mas que
sempre se revelara tão bom senhor, tivesse de fato morri-
do, e ainda acalentavam a esperança de revê-lo. Naturais
de Ítaca, nenhum dos dois jamais colocara os pés em ou-
tra terra. Não foi difícil para o velho, portanto, convencê-
los de que a longa espera chegara a bom termo. Bastou-
lhe narrar com convicção dois ou três fatos relacionados
à vida do ausente, amplamente conhecidos fora da ilha,
para que os dois logo prosternassem os corpos, reverentes,
agradecendo aos deuses aquele regresso tão almejado.
Tendo convencido os dois serviçais, e extraindo deles,
com a sua fala habilidosa, o maior número de informações
que podia, o velho convenceu, depois, o próprio filho do
rei. O príncipe era um belo rapaz de vinte anos, forte de
corpo, mas fraco de ideias. Era ele, coitado, quem mais
sentia saudades do pai que nunca conhecera, o pai ausen-
te que partira para a guerra quando ele era ainda um me-
nino recém-nascido. Durante anos, por amor a esse pai,

122
Carlos Newton Júnior

ele su­por­tara angústias no coração e toda sorte de dis-


sabores em sua própria casa. Impotente para lutar, sozi-
nho, contra os arrogantes pretendentes, o jovem príncipe
resignava-se diante da violência dos varões e esperava um
sinal divino que lhe orientasse sobre a melhor maneira de
sair daquela terrível situação.
Dizem que o jovem príncipe verteu copiosas lágrimas
quando o velho, na cabana do porcariço, disse-lhe que era
o seu pai. Ali estava o seu pai, o pai único e amado, aquele
pai há muito esperado e que, passados vinte anos, após
sofrer tribulações sem conta e vaguear por muitos lugares,
regressava à terra pátria. Entre soluços, o jovem abraçou o
velho, cobrindo-o de beijos como a um escapo da morte.
Então, acompanhado do jovem príncipe e dos dois
servos, o velho se dirigiu ao palácio, para ir ter com os
pretendentes e reaver os seus direitos. Mísero forasteiro!
Que sentimentos dominavam seu espírito desvairado?
Que deus incutiu na sua mente tão torpes pensamentos?
Acreditaria, de fato, que era o verdadeiro rei e que os in-
desejáveis pretendentes, reconhecendo-o, abandonariam
o solar e desistiriam da mão da rainha? Achava ele, por
acaso, que os pretendentes, homens de escol, acredita-
riam nas patranhas de um facinoroso vagamundo queren-
do passar por varão irrepreensível?
Tão logo chegou à propriedade real, o velho, insaciá-
vel de enganos, ainda aprontou mais uma das suas. Ocor-
re que jazia ali, diante das portas que davam para o jardim
do belo solar, um velho cão, deitado em meio ao esterco
e cheio de carrapatos. Era o cão de caça do rei, posto à
margem pela ausência do dono e cuja vida já estava por
um fio. O cão, certamente reconhecendo o príncipe, so-
ergueu a cabeça e abanou a cauda, fazendo uma pequena
festa com as forças que lhe restavam. O velho logo to-
mou a dianteira para acariciar a cabeça do débil animal e

123
Regresso

sussurrar-lhe algumas palavras incompreensíveis, dando


a entender aos que o acompanhavam que a festa do cão
fora dirigida a ele.
Ora: o final dessa história não poderia ser diferente.
Tão logo o velho entrou no palácio e começou a gritar im-
propérios, ameaçando de morte terrível todos os que ali
banqueteavam, um dos pretendentes, incomparavelmente
o mais nobre dos jovens de Ítaca, deitou-o por terra, com
um só golpe do seu poderoso punho. Seu pique reforçado
completou o serviço, transpassando, com facilidade, um
corpo já desgastado pelos anos. Foi esse jovem, aliás, que
a rainha acabou tomando para marido e é a descendên-
cia do casal que ainda hoje governa a ilha. Os fiéis servos
do pretenso rei tiveram destino semelhante: foram ambos
enforcados e seus corpos passaram três dias pendurados
junto ao cais do porto, pálidos e frouxos, como exemplo
para aqueles de inferior condição que ainda ousassem des-
respeitar os nobres. Quanto ao jovem príncipe, humilhado
em público, abandonou a ilha e foi morar no estrangeiro,
sendo muito bem acolhido em Pilos areenta, onde passou
o resto dos seus dias. O rei de Pilos fora grande amigo do
seu pai e lutara na mesma guerra da qual o infeliz jamais
regressara. Além disso, ele tinha um filho da mesma idade
do príncipe, a quem este, depois, passou a auxiliar, ocu-
pando um alto cargo na administração do país.
Bem sei que não é esse o final que o senhor provavel­
mente conhece. Ocorre que, no solar, em meio ao ban-
quete, havia o tal aedo, que a todos agradava com a sua
lira melodiosa. Apesar de cego, ele dedilhava o sonoro
instrumento com rara habilidade e cantava com perfei-
ção, inspirado pelas Musas ou pelo próprio Apolo. Sua
voz, áspera e rouca, era capaz de fazer eriçar a pele do
mais insensível dos varões. Tomado de simpatia pelo ve-
lho louco e seus seguidores, por um motivo que ninguém

124
Carlos Newton Júnior

saberia, ao certo, precisar, esse aedo resolveu forjar um


destino melhor para tão desditosos personagens. Não o
censuro por isso. Afinal de contas, talvez seja essa, mes-
mo, a missão dos poetas: transfigurar o real na criação de
verdades que jamais aconteceram.

125
O teco-teco
Carlos Cavalcanti

João Coragem, filho de fazendeiro, comprador de al-


godão e dono de imóveis em Currais Novos, com brevê ti-
rado no Encanta Moça do Recife, comprara um teco-teco
seminovo, para transporte de passageiros entre as cidades
próximas da região. Rapaz jovem, um tipo avantajado,
espadaúdo, com seus noventa quilos de peso, no auge dos
quarenta anos de idade e duas toneladas de ignorância.
Sovina e trabalhador, fazia do vaivém do avião uma ma-
neira de ganhar dinheiro e de se divertir, pois voar era o
seu esporte preferido (daí o apelido de João Coragem).
Na hora do voo, não aceitava sugestões nem dava explica-
ções a passageiros.
Coronel da Guarda Nacional, o velho Coronel Jovino,
da Serra Negra, homem beirando os oitenta anos, respei-
táveis bigodes retorcidos, entonado no linho branco, botas
de couro de veado e chapéu Prada de abas curtas, pensou
em alugar o avião de João Coragem, para uma viagem de
Caicó a Natal com pernoite no Hotel dos Três Reis Magos.
Tinha necessidade de comprar sementes de algodão Seri-
dó para novas plantações na fazenda, além de visitar ami-
gos. Pessoalmente, não conhecia o dono do avião.
Acostumado a mandar, no campo e na cidade, seguro
no dinheiro, imperioso e ranzinza, procurou João Cora-
gem a fim de contratar o avião para a viagem pretendida
e, quem sabe, tomar-lhe a freguesia, comprando a safra
daquela região. Chegando à cidade, apresentaram-lhe o
aviador.
Carlos Cavalcanti

– É a primeira vez que venho à feira de Currais Novos –


disse o Coronel. – Queria comprar, na folha, o algodão des-
ta redondeza e também fazer outro negócio, mas já vi que
o senhor comprou a safra toda. Sou o Coronel Jovino, da
Serra Negra, e moro na cidade de Caicó. O senhor, como já
me disseram, é o João Coragem, moço rico e sabido deste
lugar e que manda até no céu voando no seu avião.
– Que sou moço, lá isso é verdade. Rico e sabido é o se-
nhor, Coronel Jovino, da Serra Negra, o maior plantador
e comprador de algodão do Rio Grande do Norte.
Depois da troca de amabilidades e de muito regatear,
acertaram a viagem, tomaram a saideira na bodega de
Seu Odilon e seguiram em rumos diferentes.
Dia seguinte, após o almoço na fazenda, o Coronel to-
mou o jeep Willys e foi a Currais Novos para o devido
embarque.
No campo de pouso, João Coragem, raivoso e cansado
de tanto esperar, aborrecido, sem nem ouvir o boa-tarde
do Coronel, dedo em riste:
– O senhor devia ter chegado mais cedo, já são quase
duas horas e não podemos viajar à noite.
– Se não quer fazer a viagem diga logo que eu volto
agora mesmo para a fazenda. Não gosto de reclamação
nem tenho medo de cara feia.
Puxando a aba do boné para os olhos, cigarro apagado
no canto da boca e através do Ray-Ban, fitou por alguns
segundos a cara do Coronel desaforado. Rumou para o
avião apontando a escada:
– Vamos viajar.
O Coronel, testa franzida, benzeu-se duas vezes, tem-
perou a garganta e subiu sentando-se ao lado do aviador.
Mal começou o voo, o Coronel, irrequieto e nervoso,
não se conteve:
– Espere aí, desse jeito você vai parar no Maranhão,
dobre à direita e vamos para Natal, rapaz.

127
O teco-teco

O piloto obedeceu em silêncio enquanto olhava, sem


pestanejar, o rosto afogueado do Coronel.
O Sol declinava no horizonte e a quarto minguante já
invadia meio céu.
À tardinha o teco-teco aterrissava aos solavancos. O
Coronel desorientado e sisudo desceu seguindo os pas-
sos de João Coragem e, batendo no ombro esquerdo do
aviador:
– Isso aqui já é Natal?
– Não. É Campina Grande, e eu termino aqui a via-
gem. O senhor não me deve nada. Mas no meu avião
quem manda sou eu. E estamos conversados.
– Você não pode fazer isso comigo, contratei a viagem
para Natal. Sou um Coronel e não admito essa desfeita.
– Admita, ou não admita, tenho seis balas novas aqui
no meu trinta e oito e descarrego tudinho nos seus dentes
agora mesmo se se meter a besta.
O Coronel arregalou os olhos. Pediu desculpas…
O avião levantou voo de volta para Currais Novos.
O velho Jovino seguiu a pé para o hangar em busca
de conseguir um táxi que o levasse à cidade serrana, até
à Pensão Boa Vista. No dia seguinte pegou o trem maria-
fumaça e foi para Natal.
João Coragem, revoltado com a intenção da concor-
rência desleal na compra do algodão em folha, ao che-
gar em Currais Novos boatou em toda a redondeza e na
região de Caicó, a desfeita que fizera ao famoso Coronel
Jovino, da Serra Negra.
Uma semana depois, um estrondo abalou Currais No-
vos. Pensava-se em bomba atômica ou bombardeio de fo-
guete. A tarde escureceu e mais negra ficou a serra com a
fumaça do teco-teco incendiado no campo de aviação.

128
Felicidade clandestina
Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessiva­


mente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme,
enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não
bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto,
com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora
de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para ani-
versário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela
nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai.
Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde
morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás es-
crevia com letra bordadíssima palavras como “data nata-
lícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era
pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa
menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavel-
mente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Co-
migo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na
minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que
ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados
os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exer-
cer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente,
informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de
Mon­teiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se fi-
car vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E comple-
Felicidade clandestina

tamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passas-


se pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria es-
perança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num
mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo.
Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.
Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos,
disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e
que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaber-
ta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me to-
mava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que
era o meu modo estranho de andar pelas ruas do Recife.
Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia
seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a mi-
nha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei
pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da
filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia
seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso
e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro
ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia
seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da
vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com
meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia
que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse
todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que
ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adi-
vinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me
fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem fal-
tar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve
comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de

130
Clarice Lispector

modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era


dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus
olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa,
ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua
mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diá-
ria daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações
a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada
de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez
mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que
essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enor-
me surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de
casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que
acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que
tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perver-
sidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé
à porta, exausta, ao vento das ruas do Recife. Foi então
que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a
filha: “Você vai emprestar o livro agora mesmo”. E para
mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser”.
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo
que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pe-
quena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e
assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada.
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí an-
dando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com
as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto
tempo levei até chegar em casa, também pouco importa.
Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não
o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui

131
Felicidade clandestina

passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com
manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, acha-
va-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas difi-
culdades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.
A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece
que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia
orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede balançando-me com o li-
vro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mu-
lher com o seu amante.

132
O comedor de sonhos
Cláudio Aguiar

O mais triste da velhice é carecer de amanhã.


Santiago Ramón y Cajal

Exemplo do que o esperava estava na rua.


Logo cedo, Dino Silas olhou pela janela frontal de sua
casa e viu o doido andando sobre os mesmos passos, numa
autêntica caminhada estacionária. Durante vários anos a
mania daquele homem não ganhava nenhuma variante.
Seu comportamento desatinado podia até causar indife-
rença nas demais pessoas, mas, para Silas, que havia anos
também vivia no seu quarto abafado e sem apetência para
nada, era prenúncio do que lhe reservava o futuro não
muito distante. E o pior: os passos dados pelo doido dian-
te de sua calçada assemelhavam-se com a sua forma de
andar nos poucos metros quadrados de seu quarto. O uni-
verso de ambos se restringia a poucos metros quadrados,
embora livres, soltos, como o mundo que pulsava diante
deles. Por isso, Silas achava-se cada vez mais parecido com
o doido de sua rua e recusava-se a sair do seu tugúrio a
fim de não se transformar num ser capaz de provocar tris-
teza aos adultos e uma incontrolável alegria às crianças,
circunstância que nos leva a pensar que nem sempre elas
são inocentes como se costuma dizer.
Dino Silas já perdera a conta das vezes em que pro-
metera a si mesmo nunca mais olhar com piedade para
aquele doido. No entanto, mal começava o dia, seus olhos
pousavam sobre a figura sumida e nervosa do homem
O comedor de sonhos

sem juízo a caminhar sobre os mesmos passos, indo e vol-


tando, estonteante, inclinado para frente, quase a cair,
porém, equilibrando-se a todo instante e, apesar de tudo,
armando um sorriso consolador para quem observasse
seus gestos sem nenhum sentido lógico. De repente, disse
a si mesmo que, em muitas coisas, diferia daquele doido:
“Ele fora funcionário público, e eu, um atleta”.
Em muitos aspectos, sua vida, porém, não poderia ser
tomada como um rosário de fracassos. Um dia, recordava,
passou a ser a estrela número um do ginásio onde pratica-
va educação física. Para surpresa de todos, ultrapassou os
padrões de normalidade previstos nos manuais de haltero-
filia: altura, dimensões de músculos, eficiência no levanta-
mento de pesos e halteres etc. O sonho de ser “Maciste do
Universo”, finalmente, aproximou-se da realidade, porque
conseguira o título de Maciste de seu país. Seu nome pas-
sou a ser cogitado para disputar o título universal.
De tanto divagar, sentiu os olhos invadidos por sombras
e réstias fulgurantes. Confortavelmente sentado, embalara-
se num sonho inevitável. Quase não distinguia na parede o
poster amarrotado pela ação do tempo, onde ele aparecia
em pose viril de autêntico halterofilista: destacavam-se os
músculos à mostra, sorriso jovial e transbordante e osten-
tava uma convincente demonstração de força a saltar por
todas as partes de seu excepcional corpo.
Dino Silas girou mais uma vez a cadeira e não se con-
formou em contemplar apenas os quadros e as fotografias
expostas em molduras vistosas pelas paredes. Sua vista, de
leve, deslizou por algumas mesas tomadas por objetos es-
maecidos pela ação do tempo e cobertos de poeira. Tudo
refletia um certo desprezo pela falta de limpeza e zelo do
ambiente. Sentiu, de imediato, que algo não lhe ia bem.
A vista começava a turvar-se, os objetos a andar de um
lugar para outro, como se mãos invisíveis e poderosas os

134
Cláudio Aguiar

afastassem de seus lugares. Até a parede se deslocava para


lá e para cá toda vez que ele piscava os olhos. Na altura da
porta, entre o vazio e a madeira da grade cuidadosamente
pintada de branco gelo, notou que fervilhavam coisinhas
pequenas, irreconhecíveis. O limite entre o nada e a ma-
téria atingia seus olhos como algo vivo, vibrante, indo e
voltando, ora se inclinando, ora ficando ereto. Ele obser-
vou que aquilo poderia ser ilusão de ótica e até sorriu,
fazendo-se forte. Fechou os olhos e novamente os abriu
com certa cautela, olhando de novo para os objetos do
ambiente. E, para seu assombro, a dança dos objetos, in-
clusive dos quadros e fotos na parede, continuava do mes-
mo jeito. Será por causa da cadeira giratória? Então, ficou
completamente parado. A seguir, desconfiado de sua co-
modidade, achou melhor sentar numa simples cadeira de
encosto. Com dificuldade, levantou-se e colocou a cadei-
ra firme contra a parede. Testou-a e sentou-se, respirou
fundo, confortavelmente acomodado, admitiu que nada
mais tremeria nem mudaria de lugar. Abriu os olhos em
direção dos objetos pousados sobre a mesa e, com pouco
tempo, os viu outra vez se movendo, agora com maior ni-
tidez. De repente, a antiga fotografia em que ele aparecia
com os meninos na grama da praça moveu-se de tal sorte,
que, após cair espetacularmente sobre o assoalho e parar
próximo a seus pés, obrigou-o a abrir mais os olhos e a
inclinar-se para o chão, a fim de apanhá-la. E, censuran-
do a si mesmo, questionou suas atitudes: “Estou ficando
maluco ou será a vista que começa a apagar-se de uma
vez?” Fechou bem os olhos e, pela segunda vez, os abriu
devagar e tentou apanhar a fotografia... Não havia nada
próximo a seus pés. O assoalho permanecia limpo. Subiu
o rosto e viu que a foto continuava no antigo lugar. Deu
um forte muxoxo: “Ah, que merda!”. E lamentou que a
velhice fosse capaz de pregar tantas lições desagradáveis.

135
O comedor de sonhos

Então, levantou-se decidido a testar umas tantas coi-


sas. Encostou-se na parede do quarto e pressentiu que ela
não estava firme. Afastou-se um pouco e a empurrou com
a mão. Teve a nítida sensação de que não só a parede
se movia, mas também tudo ao seu redor ameaçava ruir.
Resolveu fazer outra experiência. Pisou, então, forte, com
raiva, contra o chão e viu que o assoalho, antes rijo, imó-
vel, duríssimo por ser concreto armado, também se mo-
via, ou melhor, afundava com facilidade. Juntou as pernas
e, com o peso do corpo, forçou-as contra a terra, que pa-
recia mover-se. Tudo, portanto, estava ameaçado.
E pensou numas tantas lições de física e astronomia
que tomara no colégio, quando jovem. Então, dizia a si
mesmo em voz alta: “Ora, que tolice, se a própria Terra,
com efeito, anda solta no espaço, descrevendo suas conhe-
cidas rotas, nada é firme ou imóvel no Universo. Logo,
por que não posso sentir tais sensações?” Foi mais além:
andou em direção à sua mesa de trabalho e, de posse de
lápis, papel e régua, riscou, numa folha em branco, uma
linha reta, junto da qual, afastada cerca de quatro ou cin-
co centímetros, fez outra reta rigorosamente paralela e do
mesmo tamanho. As duas retas distanciavam-se pelo cen-
tro do papel até uma razoável distância. Dino Silas, dei-
xando correr um sorriso pelo rosto, que, até então, esti-
vera imerso numa rigidez de homem taciturno e inquieto,
inscreveu, entre as linhas paralelas, um ponto. Dali, com
esmero e atenção, ainda que tremessem suas mãos, riscou
vários traços para cima, para baixo, para os lados. As no-
vas linhas funcionavam como raios a romper o paralelismo
das retas primitivas. À medida que os traços se sucediam,
no seu rosto se armava um riso com sabor de vitória, por-
que as retas, retíssimas no paralelismo extraordinário do
papel branco, logo ficavam, a seus olhos, completamente
tortas. “Espetacular!”, gritou. Elas já não lembravam, nem

136
Cláudio Aguiar

de longe, as retas antes traçadas com a régua. Eram e não


eram as mesmas. Ressurgiam tortas ou quebradas.
Temendo continuar a experiência, soltou o papel so-
bre a mesa e deu uma forte gargalhada, enquanto dizia a
si mesmo: “Não há nada real. Tudo é ilusão. Ou, ao revés,
não há nenhuma ilusão. Só a realidade existe...” Eufóri-
co, gritou mais alto: “Eu não estou aqui Eu não vivo Eu
já morri e no entanto respiro e vejo tenho fome e devoro
os alimentos para poder continuar a sonhar As retas não
existem mas eu as tracei sobre o papel Toda reta pode
ser uma curva na ilusão do olhar ou na materialidade do
papel riscado A luz do dia embora se projete na densa es-
curidão esta indiscutivelmente continua sendo escuridão
O mesmo acontece com a noite e o dia Estou de cabeça
para baixo e para cima ao mesmo tempo A terra gira e
temos a sensação de que ela permanece parada imóvel
intocável Minhas paredes são fixas e balizadas com ferro
cimento pedra ou cal e no entanto se movem e cairão
com o simples peso do meu corpo O ontem poderá ser o
amanhã porém nunca saio deste hoje Eis o ritmo da vida
o ilógico a assumir as razões da lógica a estabelecer regras
infalíveis E por isso concluo que o velho louco não é louco
Eu também sou velho e não estou louco isto é posso estar
louco Já fui uma fortaleza e agora não passo de um frágil
Eu Nós sonho...”
Cansado do tremendo esforço mental despendido,
Dino Silas, ofegante, voltou a cair sobre a cadeira girató-
ria e, com o pé, deu, pela última vez, um frágil impulso
contra o assoalho... Sentiu o mundo rodar com tanta ra-
pidez, que perdeu os sentidos e o sonho foi servido como
alimento para que ele resistisse, mais um dia e uma noite,
em sua vida. Até quando?

137
A dama do paço
Cloves Marques

Há ansiedade no seu caminhar. Ainda longe, uma ba-


tida ritmada aos poucos vem se chegando. Tambores, cai-
xas, instrumentos de percussão. O coração acelera, pois
não quer perder a oportunidade. Encontro com um pou-
co da sua história. “Quando o sangue ferve, a identidade
acontece” – pensa ele. Máquina fotográfica em punho.
Coração com emoção e olhos atentos a cada detalhe. Já
próximo, uma parada dos instrumentos. Uma voz mascu-
lina destaca-se em estilo dolente e cadenciado:

Nós viemos da mãe África,


Somos presas da saudade.
Só amor em abundância
É que nos dá liberdade.

E o coro do cortejo se faz ecoar:

Só amor em abundância
É que nos dá liberdade.

Carlos aproxima-se. Um espetáculo de cores, bailado e


encantamento quase hipnótico.

Nosso rei já tem coroa,


A rainha que primor.
Quem quiser felicidade,
Vá buscar o seu amor.
Cloves Marques

Quem quiser felicidade,


Vá buscar o seu amor.

Mal começara a tirar as primeiras fotos é surpreendi-


do: um beijo roubado. Coisas do carnaval pernambucano.
Ousadia das ladeiras de Olinda.
– Meu príncipe, tira minha foto e tira minha solidão!
Ele fica meio atônito. Recobra um pouco do fôlego e,
em tom jocoso e de continuidade, responde:
– O que a aflige, minha princesa? Tem imagem bonita,
companhias formosas e uma dança encantadora. Eu é que
peço socorro. A surpresa do seu carinho dá até susto de
amor.
Lídia, uma morena nascida de um amor-folguedo,
desses que só Momo sabe fazer, traz nas mãos uma boneca
coroada. No corpo moreno, um vestido de cetim azul com
miçangas prateadas, que no reflexo do sol acentuam o seu
gingado. O rosto é adornado por expressivos olhos negros
e um sorriso, que fala no requebro de palavras dengosas.
– Tudo isso, mas um coração vazio, meu príncipe – diz
e prossegue. – Minha calunga protetora e guardiã dos se-
gredos, dona Isabel, mandou-me lhe dar um beijo.
Carlos, um mulato bem postado, era assaltado por dois
calores, embora uma brisa em fuga com cheiro de maresia
corresse por ali. O ritmo do batuque aquecia o cortejo com a
percussão de tambores, alfaias, agogôs e caixas. A multidão
aspergia gotas de energia no suor que molhava os calçamen-
tos de Olinda. Ao mesmo tempo, um folguedo particular
fazia ferver as entranhas de Carlos que, nos seus 30 anos,
tinha saúde para muito mais. Uma calunga e um tambor,
marcas maiores do maracatu, lhe assaltavam, enquanto as
idades da certidão e do coração davam as cartas.
– Num brinca comigo, menina. Deixa tirar minhas
fotos. Faz uma pose, vai. Abraça a calunga, pra eu saber
quem é mais boneca...”

139
A dama do paço

– Nem fala assim, moço. Dona Isabel é a protetora de


nós todos e de você também. O espírito da África e dos
nossos antepassados lhe acompanham. Mãe me falou
tudo isso antes de morrer.
Os músicos retomam o seu ofício toque de louvação,
enquanto os brincantes parecem flutuar em evoluções
em torno do rei, da rainha e da Dama do Paço, que vol-
tara ao cortejo. À percepção e à objetiva de Carlos não
escapam os trejeitos ameaçadores do caboclo de lança –
representação de um guerreiro das divindades africanas
–, que desferia olhares de ódio para Lídia.
Mais um silvo de apito e o mestre condutor do fol-
guedo para o desfile, entoando nova loa:

Cuidado, moça bonita,


Tudo tem encanto e dor.
O ciúme faz o amante
Ser o risco do amor.

O eco fatalista do cortejo fazia o refrão:

O ciúme faz o amante


Ser o risco do amor.

Aquele caboclo de lança era certamente diferente,


principalmente, para Lídia. Fora amante de sua mãe.
Parece que a estava ouvindo dizer, “Quando a gente
ama, expõe o que está mais guardado na gente”, em res-
posta às censuras que fazia. A menina não tinha dúvida.
A mãe havia caído na arapuca do coração: amor por
mendicância de amor. Ainda martelavam doidamente
as palavras balbuciadas, quando sua mãe definhava:
“Quem mata por amor é piedoso”. Com tão pouca ida-
de, aprendera que deveria se arriscar a devol­ver a do-

140
Cloves Marques

minação ou a liberdade na mesma medida como proce-


dessem com ela. As investidas do caboclo de lança não
lhe punham medo. Ela sabia o que queria.
Enquanto isso, os componentes daquela nação maraca-
tu, ainda agitados pelo último bater dos tambores, escutam
o mestre que não tira o olho do caboclo de lança, que só
tem gestos de raiva para Lídia, e solta mais uma loa:

Homem feio só dá susto,


Muito mais, se é odioso.
Só se salva quando for
Educado e carinhoso.
Só se salva quando for
Educado e carinhoso.

Lídia rindo volta ao seu assédio:


– Eu sou a Dama do Paço e meu destino é pedir. Quero
uma paga pro meu beijo, meu príncipe.
Disse Carlos, não se contendo:
– O seu jeitinho sensual de falar acrescenta tragédia ao
meu desejo. E completou:
– Minha Dama, quantos aninhos?
Quando ela disse dezessete, prosseguiu:
– Você quer muitas bonecas de cabelos ondulados, ves-
tidinhos coloridos de seda da China, enfeitados com ren-
da de Angola?
Assistindo o brilho de alegria nos olhos de Lídia, pro-
meteu:
– Terá minha proteção e todas as bonecas. Basta ser
dama só minha e largar os encantos da Nação Maracatu.
Uma fadiga de decepção lhe tomara a face, quando
recobra a imagem que traz encalhada na memória: sua
mãe se destruindo na fatalidade do amor prisão.
– Quem vê um homem declarando amor por uma mu-
lher, já viu todos, não é, dona Isabel?

141
A dama do paço

A calunga silente deixa que as loas do mestre façam


malabarismo na lógica da convivência dos amantes:

Aí se enganado quem pensa


Homem sempre é igual!
Aprender tudo outra vez
Dá prazer, nunca faz mal.

Enquanto Carlos gira a objetiva para mais uma foto, a


Dama do Paço, com sonhos de donzela enfeitiçada, volta
ao cortejo, repetindo em uníssono:

Aprender tudo outra vez


Dá prazer, nunca faz mal.

E Carlos prosseguia tirando fotos. Imagens aprisio­


nadas, que lhe restariam como propriedade.

142
Os dois corações
Cristovam Buarque

As grandes ideias mudam a realidade do mundo, reorien-


tam o rumo das coisas e o fluxo do conhecimento. Quando
uma delas chega, arrepia quem pensa. Os grandes cientistas
sentem, os artistas também. Gente comum também.
O senhor que naquela noite, em um quarto de hos-
pital, assistia ao noticiário da televisão, sentiu o arrepio
atravessar o seu corpo. Como se a ideia fosse uma descarga
elétrica. E olhou para a cama ao lado, onde um jovem es-
tava deitado, acordado, ligado a aparelhos, com tubos de
oxigênio nas narinas. Assistindo também ao noticiário.
Quando passou o curto arrepio que o surpreendeu
junto com a ideia enlouquecida, o senhor falou para o
jovem deitado.
– Você viu a notícia, filho?
– Sim. Que vida desperdiçada.
– O crime que ele cometeu justifica a pena.
– Nenhum crime justifica a pena de morte, meu pai.
– Você não prestou atenção à notícia? Três mortes, in-
clusive uma menina de seis anos.
– Meu pai, ele vai mofar na cadeia contando os dias
para a morte marcada.
Nenhum crime justifica essa penalidade.
O senhor olhou com carinho para o jovem. Pensou
contar a ideia de minutos antes.
– Meu filho, enquanto ele mofa saudável na cadeia,
você fica condenado nesta cama até o dia em que conse-
guirmos a doação. É injusto.
Os dois corações

Fez um silêncio. O jovem olhava curioso, cabeça virada


sobre o travesseiro, movendo mais os olhos.
– Quando ouvi a notícia e vi o tipo daquele criminoso,
imaginei que o coração dele poderia servir para você.
Fez outro silêncio, olhando para o filho, com ternura
e um pouco de esperança. O jovem nada disse, fez um
ligeiro sorriso. Fechou os olhos e tentou dormir. O pai
continuou acordado por muito tempo. A ideia que lhe
havia dado arrepios começava a se transformar em proje-
to. Quando nada mais há a fazer, os lúcidos se permitem
pensar o impossível. Nada disse ao filho.
No outro dia, foi até o presídio. Pediu para falar com o
preso que na véspera havia sido condenado à morte.
Sete anos antes, um jovem de 18 anos entrara na casa
de um rico empresário. Queria roubar, apenas roubar. O
alarme disparou e a polícia chegou. Armado, ele man-
teve a polícia no lado de fora por tempo suficiente para
cometer o crime de um desesperado. Assassinou os três
moradores que estavam na casa. Depois foi capturado.
Demorou, mas terminou condenado, tinha 25 anos. A
mesma idade do jovem também condenado, no hospital.
E a mesma estatura. Altos, fortes.
Depois de se apresentar ao diretor da prisão, que já o
esperava, e de curtos comentários sobre o amigo comum
que intermediara o encontro, o pai foi levado a uma sala
de visitas. O condenado entrou pouco depois. Quando
percebeu a entrada, o senhor levantou, como se estivesse
diante da pessoa que poderia mudar o seu futuro. Senta-
ram no mesmo instante. Fizeram silêncio. O condenado
foi quem primeiro falou. Parecia calmo. Acostumado à
própria prisão.
– O senhor pediu para me ver. O que deseja?
– Tenho um filho de sua idade. Muito parecido no cor-
po com você.

144
Cristovam Buarque

O jovem preso ficou calado, como que aborrecido.


– Ele vai morrer.
– Quem vai morrer?
– Meu filho.
– Por quê?
– Ele tem uma doença rara. Uma cardiopatia.
– O que é isto?
– Uma doença no coração. O coração cresce. Já não
tem forças. Fica sempre deitado, com oxigênio todo o
tempo.
– E não tem remédio?
– Tem. Um transplante.
Fez-se silêncio. O preso pensava o que tinha ele a ver
com aquela visita.
– O senhor pode dizer por que veio me ver?
– Vim pedir seu coração.
O preso deu um salto para cima e para trás. Derrubou a
cadeira. Saiu em direção à porta, arrastando os pés amar-
rados. Bateu para que abrissem. O homem correu para ele.
Tentou abraçá-lo e puxá-lo, por trás. O preso o empurrou
com a força de jovem sobre o corpo de um homem madu-
ro. A porta abriu rápido, os policiais entraram, subjugaram
o preso. Olhando o jovem preso, no chão, debaixo de três
guardas, o homem disse-lhe rapidamente, enquanto o via
ser arrastado para fora da sala.
– Meu filho é de sua idade. Um jovem com futuro, pai
de duas filhinhas, vai morrer por falta de um coração,
enquanto você vai morrer dentro de meses, de qualquer
forma, preso, sozinho, até o último dia. Por que você não
doa seu coração fazendo uma caridade em troca de tanto
mal que fez ao mundo com suas mãos assassinas e ainda
deixa dinheiro para seus pais ou para quem você quiser?
Quando concluiu seu discurso inútil, já estava falando
sozinho. De longe viu os olhos esbugalhados do preso se

145
Os dois corações

afastando arrastado pelo corredor de volta à cela onde


passaria o resto de sua vida. Sentou ali mesmo, ao lado da
porta, encostado na parede. Puxou as pernas para junto
do corpo, colocou a cabeça sobre os joelhos. Chorou sem
exagero.
Ao sair da cadeia, o homem sentia-se abatido, desmora­
li­­zado, pela falta de esperança para salvar o filho e pelo
ridículo ao fazer um pedido absurdo. Estava chorando
quando entrou no carro. Um choro leve, que muitas vezes
é o mais pesado. Como se os olhos e a alma não combi-
nassem.
Dias depois decidiu dar um passo adiante. Era uma ideia
absurda sob todos os aspectos, menos no que lhe interessava:
salvar a vida do filho. Ia tentar tudo. Sabia da impossibili-
dade de seu gesto, mas não ia deixar de tentar. Quando um
dia, talvez próximo, tivesse de levar o corpo de seu filho, iria
poder dizer para si próprio que tinha tentado. “Eu tentei!”
É o que pensaria quando nada mais fosse possível.
Não contou à mulher. Naquela manhã ela tinha ficado
no hospital. Ele foi ao prédio do Congresso. Tinha uma
audiência com um Deputado. O seu Deputado, como ele
pensava. Não o conhecia, mas tinha votado nele, nas últi-
mas eleições. Entrou no gabinete no momento em que o
Deputado se levantava para recebê-lo. Sentaram de frente
à mesa de trabalho entre os dois. Havia uma pessoa por
perto, parecia assessor ou secretário. Olhou para o Depu-
tado como pedindo para ficarem a sós. O Deputado en-
tendeu. Fez um gesto com a cabeça. Depois que a pessoa
saiu, disse ao visitante.
– Peço desculpa pelo pouco tempo que tenho. Haverá
uma reunião daqui a meia hora e não posso atrasar. O
senhor insistiu em me ver.
– É verdade. Votei no senhor nas últimas eleições. Vou
votar outra vez. – O Deputado riu, contente.

146
Cristovam Buarque

– Na minha casa foram três votos. Mas na próxima


eleição serão apenas dois. – O Deputado aproximou-se
da mesa.
– O que eu fiz de errado? Quem não vai votar em mim,
em sua casa?
– Meu filho. Meu único filho.
– Por quê?
– Porque estará morto.
Houve um silêncio. O Deputado pensando o que aque-
le homem respeitável, muito bem-vestido, ia lhe pedir.
– O que acontece com seu filho?
– Tem uma grave doença no coração.
– Não tem cura?
– Só um transplante. Mas ele é muito grande. É pouco
provável que consiga um coração. Há uma longa fila de
espera. E poucos compatíveis.
O Deputado esqueceu o voto que perderia. Por sensi-
bilidade, por ser pai e porque nenhum voto sozinho faria
diferença nas eleições. Perguntou, compungido.
– Posso fazer alguma coisa?
O homem olhou nos olhos do Deputado. Pensou se po-
deria confiar. Se não estava indo longe demais. Fez pausa
de quem está na beira de um abismo, sabe que depois não
terá volta. Às vezes, a única saída é saltar o abismo. Do
outro lado estava a vida de seu filho. Nenhuma reputação
merece ser preservada na luta para salvar a vida de uma
pessoa, ainda menos um filho doente do coração.
– O senhor pode apresentar uma lei que obrigue a
doa­ção dos órgãos de condenados.
Houve um silêncio.
– Uma lei de doação?
– Sim.
O Deputado pensou rapidamente. Não era absurdo.
Ele próprio defendia que a doação deveria ser obrigató-

147
Os dois corações

ria. Mas depois de uma morte natural, decidida por Deus.


Nunca morte antecipada, com data marcada. Apesar dis-
so, não era absurdo que na morte de um preso os órgãos
fossem doados.
– O perigo é que isso induza assassinatos dentro da
cadeia. Os presos vão matar uns aos outros em troca de
dinheiro dos que vão comprar os órgãos.
– É apenas para os condenados à morte. Sem apressar
a data. No dia da execução.
Houve um silêncio.
– O que o senhor deseja de mim?
– Que apresente uma lei transformando a pena de
morte em pena de doação.
No lugar de condenar a morrer, condenar a salvar. A
pena de salvação de uma vida, depois do assassino ter ti-
rado a vida de outro. Espiritualmente, o bandido vai ficar
com a virtude de doar sua vida para salvar outra. É o mí-
nimo que ele pode fazer.
Foi nesse momento que o Deputado começou a pensar
como político. Fez um quadro de como essa ideia iria re-
percutir, quantos beneficiados potenciais gostariam, quan-
tos defensores da ordem e da lei veriam como medida po-
sitiva. As cadeias superlotadas, a sociedade reclamando da
proximidade dos mais periculosos. O alto custo de manter
os bandidos presos. Um criminoso custando dez vezes mais
que um aluno. A pena de doação deveria ser aplicada a to-
dos os condenados. Todos os condenados com pena supe-
rior a 30 anos. Valer para todos. Ia pensar um pouco mais.
Levantou, estirou a mão e disse que ia pensar.
Realmente pensou. Conversou com outras pessoas. In-
clusive sua mulher e seus filhos adultos. Chegou à conclu-
são de que valia a pena.
Em duas semanas ligou para o homem dizendo que
iria apresentar a lei, mas queria refletir com ele, porque

148
Cristovam Buarque

tinha algumas dúvidas. Marcaram uma conversa. Desta


vez foi o Deputado quem começou.
– Estou pronto para apresentar a lei de doação. Mas
tenho um problema. Sabemos o doador, mas como vamos
escolher quem recebe o órgão? São raros os presos conde-
nados à morte. E só um coração em cada um...
– São oito órgãos. Coração, dois pulmões, fígado, duas
córneas, dois rins. Em breve outros órgãos também pode-
rão ser transplantados. Até os testículos poderão também.
O Deputado riu. Só ele. Insistiu na sua pergunta.
– Mas como escolher o receptor?
– Os receptores. Para cada preso, haverá oito benefi-
ciados. E o resto do corpo pode ir para a Faculdade de
Medicina. Muitos se beneficiam. A própria família do pre-
so pode receber uma indenização, uma percentagem da
venda.
– Qual venda?
– A venda do corpo.
– Vender?
– É a maneira mais democrática. Não podemos deixar
ao governo o direito de escolher. Vai virar politicagem.
Vão atender aos pedidos de deputados, senadores, gover-
nadores. A pressão vai ser muito grande.
O Deputado estava perplexo com a lógica. Fria, mas
perfeita. Ainda não sabia porém como resolver seu pro-
blema.
– Mas como transferir os órgãos: como escolher os be-
neficiados?
– Leilão. Fazemos um leilão do corpo. Depois um lei-
lão para cada órgão. O Deputado pareceu ausente, até os
olhos pareciam em silêncio. O homem continuou.
– Fazemos o leilão do corpo e o leilão para cada órgão,
depois o corpo é enviado a um hospital. O condenado é
anestesiado, como para uma cirurgia. Seus órgãos são re-

149
Os dois corações

tirados e distribuídos para os hospitais onde os receptores


já estarão esperando. Acaba o desespero da pressa de car-
regar os órgãos, cirurgias nas carreiras. Sabendo a hora da
morte do condenado, pode-se planejar cada cirurgia.
– E quem vai fazer a venda? O Ministério da Saúde ou
o da Justiça?
– Nenhum dos dois. Criamos empresas encarregadas
de comprar o corpo e vender os órgãos. Como uma Bolsa
de Corpos e Órgãos.
O Deputado estava perplexo. Achou que estava se me-
tendo em um tema muito arriscado. Mas sem risco não há
política. Valeria a pena.
Começou a trabalhar na ideia. Menos de um mês depois
deu entrada no projeto de lei. Conseguiu regime de urgên-
cia. Doentes de todo o País e suas famílias pressionaram
pela aprovação. Jornais do Exterior se pronunciaram. Pou-
cos contra, muitos considerando uma política lúcida, mo-
derna, contemporânea com o avanço técnico da Medicina.
A Igreja Católica se pronunciou duramente em contrário,
o Vaticano chegou a convocar o Embaixador do Brasil. As
outras religiões se dividiram. As ONGs contra a pena de
morte fizeram forte pressão contrária. Mas a opinião públi-
ca ficou deliciada com a ideia. Um editorial propôs que a
lei se aplicasse a todos os condenados a mais de trinta anos
de prisão, outros defenderam que o Código Civil fosse sim-
plificado, vinculando a pena de certos crimes diretamente
com a doação de algum órgão. As penas menores poderiam
ser pagas em doação de órgãos não fatais, como córnea, ou
rim. Depois da doação o condenado seria solto.
O pai estava no plenário no dia da aprovação da lei. O
Presidente da República logo a sancionou.
Um mês depois fez-se o primeiro leilão. O preso que
tinha motivado a ideia escapou com o argumento de que
a lei não pode ter efeito retroativo. Outro assassino con-

150
Cristovam Buarque

denado logo depois da sanção tinha o corpo compatível


com a estatura do filho. O pai tinha esperança de conse-
guir pagar aquele coração. Tinha dinheiro, tinha posses,
venderia tudo. Não era apenas salvar a vida do filho, era
também se beneficiar da lei que ele inspirara, construíra
junto com o Deputado. Seu Deputado.
No dia do leilão do corpo ele estava presente. Queria
assistir. Mesmo que o leilão do coração ficasse para alguns
dias depois.
O juiz abriu o leilão. Explicou as regras e esperou o
primeiro lance.
– Meritíssimo, minha empresa oferece R$ 30 mil.
– R$ 45 mil.
– R$ 50 mil.
Rapidamente os lances chegaram a R$ 200 mil. Equi-
valeria a mais de R$ 30 mil por órgão, em média. Um
valor elevado. Levando em conta a diferença entre o valor
de um coração e o valor de uma córnea, o coração não
custaria menos de R$ 60 mil, talvez R$ 100 mil. O pai da
ideia e do doente começou a se preocupar.
A partir daí o custo foi subindo mais devagar. Até R$
280.725,00.
O leilão durara cinco horas.
O juiz, cansado, perguntou para que hospital o corpo
deveria ser levado. O comprador, também cansado, mas
com um imenso riso de vencedor, disse.
– Para hospital nenhum, Meritíssimo. Eu represento
uma ONG holandesa contrária à pena de morte. Com-
pramos o corpo para que ele continue vivo.
Houve protesto das outras empresas. Alguns correto-
res disseram que a lei era de doação, não de perdão; ou-
tro que era imperialismo com dinheiro do exterior pagar
para manter a vida de um bandido nacional; outro falou
na injustiça, pessoas morrendo e um condenado à morte

151
Os dois corações

sendo salvo pelo investimento de quase R$ 300 mil. O


advogado da ONG falou.
– A lei diz que a doação é para o transplante. Para o
corpo de quem pagar mais. Estamos apenas transplan-
tando para o próprio dono do corpo. É um direito nosso.
Vamos entrar em todos os leilões daqui para frente. Te-
mos dinheiro para comprar todos os condenados à morte
deste país.
O juiz, mesmo contrafeito, bateu o martelo e disse:
– Está vendido. Quem quiser recorra à Justiça. Até lá a
empresa terá que pagar os custos de manutenção do preso.
– De acordo.
O juiz levantou, mas o pai que desejava salvar o filho
não levantou. Colocou a cabeça sobre as mãos e chorou.
Chorou profundamente como diante da morte do filho e
de um sonho. O sonho de salvar a vida do próprio filho,
jovem de 25 anos, com um futuro adiante, pai de duas
pequenas meninas. Chorou como quem perde o que esta-
va ao alcance das mãos depois de ter parecido impossível
pouco tempo antes.
Até que não teve mais alternativa e foi cabisbaixo deva-
gar até o hospital, sem saber como contar ao filho o fim da
esperança de salvar a vida dele. A esposa não tinha querido
assistir ao leilão, nem a nora. Sozinho teria que dar a notí-
cia. Estavam todos no hospital, esperando por ele.
Chegou derrotado. Sentou na cadeira. Todos enten-
deram que algo havia passado. Não sabiam como, mas ti-
nham perdido o coração. Acharam que alguém teria pago
mais. Não era possível, porque o leilão individualizado
dos órgãos seria alguns dias depois.
A mãe perguntou.
– Ficou muito caro? Não teremos dinheiro?
– Não haverá doação.
– Como não haverá?

152
Cristovam Buarque

– Uma ONG contra a pena de morte comprou o corpo


para que continuasse VIVO.
Houve um silêncio.
Sentado, o pai disse.
– Não entendo como é possível. A ciência evoluiu a
ponto de permitir salvar a vida de pessoas decentes com
órgãos de bandidos. E a ética continua prisioneira dos ve-
lhos tempos, quando esta troca não era possível. Estamos
no tempo errado, da indecisão. Trinta anos atrás, esta hi-
pótese não existia, daqui a 20 anos não haverá mais dú-
vida. A ética vai se submeter à técnica. Estamos em um
tempo errado. Bastariam mais poucos anos. Poucos.
Foi quando o filho falou. Estava cansado. Falava pausa-
do, sentindo a falta de ar.
– Meu pai. Não sabemos se teríamos o dinheiro para
comprar o coração desse homem. E se tivéssemos, toma-
ríamos de alguém que não poderia pagar. Além disso, eu
morrerei assistindo deslumbrado estes tempos de tanta
perplexidade. Sinto não receber um coração sadio, mas
com este meu doente estou assistindo aos espetáculos de
nossos tempos.
O pai abraçou a mãe. A esposa alisava a cabeça do jo-
vem marido, passando os dedos entre os cabelos negros
que tinha sobre o travesseiro. Foi o pai quem disse.
– Sou eu quem precisa de um novo coração, como o seu.

153
De como descobri que não existo
Cyl Gallindo

E quando se dispõe a usar as


duas poderosas armas infalíveis,
a feminilidade e o pudor, vira ser­pente.
É um jogo armado pela espécie,
do qual o homem não se livra.

Descobri que não existo.


Desesperei-me com a descoberta.
Ao entrar em casa, encontrei a mulher na sala, assis-
tindo à televisão.
Dirijo-lhe a palavra, faço comentários sobre o dia de
trabalho, o tempo, o programa. Simples pretexto para
entabular conversação, já que não houve sequer um boa-
noite formal.
Nenhuma resposta. Nem um olhar.
Inquieto-me.
Vou à cozinha. Abro a geladeira e pergunto “quer
água?”.
Calada estava, calada ficou.
Sabia que estava com raiva. Brigamos pela manhã. Aguar-
do ela dizer “morro de trabalhar nesta casa” e eu responder
“para você mesma”. “Para mim você não faz nada. Saio pela
manhã e volto à noite. Como as sobras das suas refeições.
Se você almoça carne, peixe, sopa, papa, panquecas, isso
eu janto”. Nada feito com aquele “especialmente para você,
meu bem”, como fora no início do casamento.
Casamento!?
Cyl Gallindo

Dá calafrios pensar. Organizado exclusivamente para


a mulher. Festa, bolo, presentes, fotografias, filmagens,
padrinhos, convidados... Tudo gira em torno dela e para
ela. Entrei na igreja como se fosse sacristão, ninguém sou-
be, ninguém viu. Para ela, as luzes acenderam, a música
tocou, a multidão voltou-se encantada.
A partir daí, virei escravo de sua vontade, de seus de-
sejos, da sua fome e sono, do seu estado de espírito. Com
um agravante: há uma encenação de tal forma que parece
que sou eu quem manda, a minha vontade é a que pre-
valece. Eu mesmo cheguei a acreditar nisso. E declara-
va “Quem manda na minha casa é minha mulher. Quem
manda na minha mulher sou eu”. O motivo é simples: o
homem manda mandando. Sobressai a imposição. A mu-
lher manda pedindo e, quando a coisa é meio complica-
da, manda implorando. Envolve cinicamente outras pes-
soas. Quando o homem menos espera estão pais, irmãos,
vizinhos, defendendo a causa dela, e ele cede. Só tem vez,
quando ela decide. Até mesmo numa comida, caso eu ma-
nifeste minha preferência, ela diz com desdém: que tire
da geladeira e prepare.
Estando ela com raiva, como agora, aí é que não há
oportunidade mesmo.
O homem é uniforme, imutável, incolor, inodoro.
Com o mínimo de inteligência e insinuação da mulher,
torna-se manipulável, um bonequinho de marionete, um
robozinho.
A mulher a cada dia é uma pessoa diferente. Nunca se
sabe onde nem como está. Se ela amanhece preocupada
com a aparência pessoal, sorri, fala, canta. Faz um café es-
pecial. Come saboreando. Forra a cama. Arruma a casa. Te-
mos pela frente uma fêmea, compreensiva, dócil, cordata.
Esse estado de espírito dura uma semana. Daí em diante
declina. Há uma metamorfose, com imprevisíveis transfor-
mações, até chegar a isto que tenho diante de mim. Não

155
De como descobri que não existo

suporta nem meu olhar. Levanta-se a contragosto. Recla-


ma. Briga. Perde o interesse por ela própria, pela vida.
Medusa: expele serpentes pelos cabelos.
E ainda se declara normalíssima. O homem é que não
presta. A sociedade é uma desgraça. A vida não merece o
sacrifício de ser vivida.
Cheguei a imaginar “ela não gosta mais de mim”.
Nunca fui o homem ideal. Está arrependida de ter casa-
do. Tem outro homem.
Engano!
Gosta do mesmo jeito. Soma-se ao amor o hábito que
adquiriu do marido, do companheiro, do amigo. Repul-
sa ao macho. Qualquer que seja. Está no fundo do poço,
onde não comporta ninguém. Quando essa condição a
submerge, posso estar rasgando a roupa de tesão, não
chego nem perto. Isso também não lhe agrada. Acode-
lhe a sensação de desprezo, “no momento em que mais
necessita de compreensão”. Mas que fazer?
Hoje é um desses dias odientos. Uma tola discussão.
Ela dramatiza, amplia, odeia. Exatamente por isso fiquei
pela rua.
Se estivesse para falar, comentaria “chega uma hora
dessa e nem dá satisfação”. “Bebendo com amiguinhos e
amiguinhas. Divertindo-se! A besta aqui, esperando”.
Seguia-se um rosário de alegações de falta de respon-
sabilidade, liberdade para fazer o que bem quer, com
quem quer. Ela não fala com ninguém, não vê ninguém.
Não tem direito nem de sair de casa.
Um disco, tocado sistematicamente a cada mês. “Rou-
pinha lavada…”, comenta irônica. “Na máquina!”, res-
pondo no mesmo tom. “Tudo pronto, a tempo e a hora…
dinheiro no bolso…”
E continua, indefinidamente, como se estivesse a falar
sozinha.

156
Cyl Gallindo

Se o humor está em ascensão, termina por me abraçar,


dizendo, “mas eu gosto de você mesmo assim”. “Você sabe
que sou sua mulherzinha, que lhe adoro.” Se estiver em bai-
xa, passa quatro, cinco, oito dias sem uma única palavra.
Paro e penso: “dois adultos brigando”. Por quê?
Como, porém, impor razão onde impera a emoção?
Parodiando Fernando Pessoa: Todas as atitudes de
amor são ridículas e não seriam de amor se não fossem
ridículas.
Dominado pela ridicularia (ou infantilidade?), fiquei
mais uma vez perambulando. Saí do trabalho e me deixei
ficar. Não estava disposto a ouvir reclamações, achinca-
lhes. Não havia conjeturado que hoje é dia de silêncio.
Está a própria Helen Keller. Cega, surda e muda.
Ah! Santo casamento!
Ah! Senhor amor eterno!
A química do amor perdendo efeito.
O homem americano diz “numa família, em primeiro
lugar está a mulher; em segundo, os filhos; em terceiro, os
parentes; em quarto, o cachorro; por fim, o homem”.
Tenho ciência disso, mas confesso ao mundo “adoro
minha mulher. Adoro minha casa.” Aqui está a desembo-
cadura de toda a minha razão de ser. Somente consegui
adquirir leito, quando edifiquei a minha própria foz. Até
então, fui enxurradas.
Ela foi os diques, confinando sabores e dissabores. E,
quando se dispõe a usar as duas poderosas armas infalíveis,
a feminilidade e o pudor, vira serpente. É um jogo armado
pela espécie, do qual o homem não se livra. Engrandece.
Pois apenas a mulher pode revelar-se frágil, delicada, sub-
missa, cordata. Unicamente ela, estando nua, pode fechar-
se com malícia, cruzar as mãos a cobrir o ventre, ou os seios,
deitar a cabeça sobre os ombros como quem pede miseri-
córdia. Dizer não com significado de sim. E o homem vai

157
De como descobri que não existo

como fera, como quem estupra, rasga, possui. É o que agra-


da. Pois, se agir igual a ela, desfaz o jogo, elimina o prazer.
Por isso, às vezes, digo, declamo, grito: ah! Santa di-
ferença! Instala-se nos palácios e nos mocambos. Como o
tempo. Tem quatro estações durante um mês. Encontrar a
mulher primavera, cheirosa, dengosa, alegre, é desbravar
caminhos para a eternidade. Mesmo que para isso se pas-
se pelo purgatório do verão; o limbo do outono e o infer-
no do inverno. Ela se insinua e nos desequilibra. Podemos
beliscá-la na bunda, puxar-lhe os cabelos, morder-lhe o
pescoço. Flácida, derreia sobre nosso peito e balbucia “ca-
chorro, à noite você me paga!” Botânica, oferece flores e
pomos à vida.
Fora dessa época, os frutos são verdes, amargos; as flo-
res, em botões ou murchas. Gracejos, carinhos, intimida-
des, em vez de agradarem, arranham, ferem, ofendem. É
melhor deixar de lado. Esquecer. Exatamente como estou
fazendo agora.
Toca a campainha.
Por estar mais perto da porta, ela projeta-se e atende.
Não me movimentei. Imaginei: “é a chata da vizinha”.
Vem bisbilhotar a vida alheia, contar e ouvir intimidades.
Conversa de mulher, definem. Falam com a maior natu-
ralidade do mundo. Cada uma morre negando a verdade
para o marido. Censuram as amigas, mas procedem do
mesmo modo. Juntas, dizem, “ah! fulana, ontem ele estava
indócil”. “Pegou-me…,” descrevem tudo o que foi prati-
cado entre as quatro paredes, com o marido ou o amante,
só que dizem o marido. Homem nenhum faria uma coisa
dessas. Como dizer ao vizinho, ao colega de trabalho, ou
a qualquer um conhecido, que fiz isto e aquilo com minha
mulher? Quando o homem conta é inventando lugares,
personagens. Parece mentira. Histórias falsas, sem graça,
sem alma. As narrativas delas têm ação, realidade, perso-

158
Cyl Gallindo

nagens vivas. Têm nervos, músculos, secreção, tomados


de sensualismo.
Pouca gente sabe: a única situação de desvantagem da
mulher para o homem, no ato sexual, está no êxtase. O
homem penetrou, goza. A mulher, nem sempre. Ela dis-
farça. Mente. Conforma-se. Algumas até desconhecem o
ápice do prazer. Aquele que transborda o corpo de júbilo
e desmorona as necessidades. Dizem alcançá-lo por eta-
pas. Não pode! O êxtase é um relâmpago, avaliado pelo
trovão a estremecer o corpo. Jamais acontece em cirros
ou estratos. Zeus sabe do que falo. Mas eu não a contesto,
pois não é ela. É a natureza do gênero.
Exatamente como imaginei, é a vizinha. Está com ou-
tras. Disseram-lhe qualquer coisa, que não entendi. A mu-
lher fechou a porta e acompanhou-as. Asseguro, “vão me
retalhar”. Prefiro fingir que não estou vendo nem ouvin-
do nada.
Só fingimento, pois na verdade estou ouvindo muito
barulho e pressentindo grande movimentação no aparta-
mento ao lado. Como não me chamaram, continuo fazen-
do que não estou percebendo coisa alguma. Quando ela
voltar, que relate o que houve. Pode ser a oportunidade
de quebrar o gelo.
Creio que há alguém doente. Sem dúvida vou ser cha-
mado para levá-lo ao hospital. É sempre assim. Para isso
sou o marido, bonzinho, amigo. O que não faz questão de
nada. Honestamente não posso negar a curiosidade. Mas
continuo indiferente.
Disse indiferente?
Acabo de lembrar a maior arma humana: a indiferen-
ça. Não chego ao nível da mulher. A indiferença nela é
natural, é apatia, aversão. Em mim é disciplina. Dá uma
certa independência, senão viro cachorrinho de madame.
Sei que esta é a única arma do homem, proporcional ao

159
De como descobri que não existo

seu caráter. A mulher perde terreno exatamente porque é


competitiva. Pode não ter o menor interesse por um ho-
mem, mas se ele estiver sendo assediado por outras mu-
lheres, ela passa também a se interessar por ele, e pode
até transar, só para não se sentir inferior às demais. O
homem interessado por uma mulher, no momento em
que observa que ela está ligada a outro homem, sai da
raia. No jogo da conquista, quem decide é a mulher, por-
tanto, na disputa vence quem mais se insinua, e segura,
prende, aquela que souber manter renovada a insinuação.
Quando uma mulher não se interessa por um homem,
com um simples olhar o desarma, e, quando se interessa,
sai da frente, dificilmente ele escapa. A mulher é o FMI
do homem, ao qual estamos irremediavelmente presos,
somos eternamente devedores. E, para elas, cada caso é
um caso.
Agora, aqui na sala, fiz todos os esforços possíveis para
que me dirigisse a palavra, cheguei a bater propositalmen-
te nos seus pés, quando fui à cozinha, ela permaneceu es-
tátua. Movimentou-se, toda espertinha e alegre, quando
a outra a chamou.
Eu devia ter ficado na rua. Só voltaria quando ela já esti-
vesse deitada. Tomaria banho e me deitaria sutilmente. Ela,
virada para o outro lado, fingiria dormir. Amanhã, depen-
dendo da estação, as coisas tomariam o rumo definido.
Continuo indiferente à sua indiferença. Só que a indi-
ferença golpeia fundo. Atinge o espírito. Machuca a dig-
nidade. Torna-nos insignificantes. Na verdade, depois de
andar ao léu, entrei no bar.
Epa! Tenho a impressão de que não paguei a conta.
Que absurdo! O garçom deve estar puto da vida. Lem-
brando bem, pedi um uísque e um prato de salgadinhos.
Outro uísque. Deitei a cabeça no braço sobre a mesa para
ouvir músicas. Hoje em dia, ninguém ouve mais música

160
Cyl Gallindo

boa, num bar nem numa estação de rádio. Música com


melodia, ritmo, harmonia. Só tocam rock. Rock. Rock. Já
imaginou se todas as rádios só tocassem samba ou valsa
ou tango? Seria loucura. Só que essa loucura está aí, só
se ouve rock. Um jovem excitadíssimo definiu para um
repórter um festival de rock: “É barulho, porra! Ba-ru-
lho!!”. Às vezes necessitamos fugir.
Precisava de lições de harmonia.
Só que parece que cochilei. É, dormi. Acordei meio
atordoado, com dor de cabeça. Não bebi nem comi mais.
Saí sem dar satisfações nem ao garçom. A rua não agra-
dou, o bar estava ruim, aqui está péssimo.
O problema sou eu mesmo que não consigo assentar
dentro de mim, por causa dela. Como diz Garcia Lorca:
“compadre, eu não sou eu, nem minha casa é minha casa”.
A casa é a mulher. Do substantivo comum, singular,
concreto, feminino, nasceu o verbo casar. O homem é
apenas o adjunto adverbial de lugar, ou de companhia.
Estranho. A movimentação na casa da vizinha aumen-
tou.
Vou continuar indiferente.
Como?
A vizinha e outras duas mulheres embocaram porta
adentro, nesse instante. Sequer deram boa-noite, ou pe-
diram licença. Parece que nem estão me vendo. Sei que
têm toda intimidade aqui, principalmente quando não
estou. Na minha presença se fazem mais comedidas. Sem
mim, olham panelas, reviram gavetas, falam dos maridos
e ouvem narrativas a meu respeito. Devem estar de pac-
to com a mulher, querem desconhecer que sou o dono
desta merda. Vou permanecer calado e parado para ver
até onde querem chegar. Principalmente a puta da minha
vizinha. Ela é a que mais induz a minha mulher a ser dura
e exigente comigo. Pensa que não sei?

161
De como descobri que não existo

Como uma boneca elétrica, começou arrumando coi-


sas, fechando janelas e apagando luzes.
Já estava para explodir, quando chega outra vizinha,
do apartamento da frente, membro da confraria, inda-
gando:
– O que foi que houve, mulher? Conta, pelo amor de
Deus!
– O proprietário do bar ligou dizendo que ele sentou,
pediu uísque e um prato de salgadinhos. Repetiu a dose,
mas nem terminou. Deitou a cabeça sobre o braço em cima
da mesa e morreu sem que ninguém se apercebesse. Não
deu um gemido nem fez um gesto. Chamaram a polícia e
ligaram lá para casa para não darem a notícia de supetão
a ela. Estamos indo lá para reconhecer o corpo.
– Colapso?
– Fulminante!
Desligaram a televisão, apagaram a última luz da sala
e fecharam a porta.

162
O dançarino de bolero
Dioclécio Luz

No espelho era ele. Já levava vantagem nisso. Ele. Se


olhando nos olhos. Não. Nas grotas. Onde havia dois
olhos moravam onças, dizia-se. Onde tinha a boca, era
sabido, vivia um rebanho de cascavéis, crotalus, raça pura,
serpentes arianas. E ele ali. A noite o pegou no colo, de-
licada, suave, diante do espelho que refletia as luzes mar-
rons da cidade e seu corpo perfumado depois do banho.
Finalmente, ainda nu, vestido apenas com a sombra clara
das luzes do poste lá fora, disse, convicto:
– É bom a gente ser a gente.
Suspirou. Sorriu. Viu seus dentes amarelos refletindo
sua angústia e seus medos de homem e acrescentou, feliz:
– Melhor que isso só quando eu me acho morando
dentro de mim.
Era o seu jeito de estar ali. Era domingo, com seus
cansaços, suas dores no peito, suas saudades de algo que
não sabia o que era. Era um bicho, um algo azul que mo-
rava dentro dele, mas ocultado dentro de alguma tripa,
algum pulmão, algum fígado.
– Todo dia deveria ser segunda-feira, ou terça. Não
precisa dos outros dias da semana. Um só é o bastante.
Pra que fragmentar o que é completo? – pensou herético,
ontem.
Agora são 18 horas. Nem mais nem menos. Anote
aí...
Tem ele e os espelhos. Cada fatia sua, cada lasca de sua
alma herbívora, cada pá de areia com que foi construído
O dançarino de bolero

seu corpo branco e pintoso, pedaços, todos, estão ali, são


espelhos. Fora dele há o destino:
– Destino é chuva – falou, sério. Mas não agora. Isso
foi outro dia. Um dia que nem mais existe.
Porque agora são 18h30min, o que há é ele se vendo
no espelho. E confirmando que o tempo não passa.
Finalmente inicia…
Pisca para ele, para eles – eus, espalhados no espelho.
Mas ele pisca como se fosse só um. E se acha um, o puro
de espírito. Seus olhos abrem e fecham, venezianos. “Ja-
nela de mim, cale-se!” – pensou certa vez. Não hoje. Não
agora. Agora ele é somente higiênico. Se pudesse lavaria
os olhos com sabão em pó e água sanitária. Nada de re-
mela, nada de líquidos, umidades. Detesta umidades. “Eu
deveria morar no deserto, ou no bucho do sol”, pensou,
blasfemo, agora há pouco. É o pavor de umidades. Não é
homem de chorar, portanto. Mas o diabo é que ele chora
muito. Não gosta, mas chora. Certa vez achou que pa-
rando de beber água não choraria mais. Parou de beber.
Descobriu depois, científico, seco, que sem líquidos seu
corpo não conseguiria sobreviver. E desistiu do experi-
mento. E as águas continuaram correndo dos seus olhos.
Pobre. Triste. Uma cachoeira. Chora com novela, chora
com criança na rua, chora quando o presidente anuncia
um novo plano econômico, chora quando seu time ganha
e também quando perde, chora até pela tristeza dos torce-
dores dos outros times, chora com cinema, chora quando
sente saudades, de ódio e por amor...
Com o lenço enxuga os olhos que, de pensar nisso de
chorar, já se transbordam, rompendo a barragem. Limpa
por dentro e por fora. Se pudesse, toda manhã botaria
os olhos no forno de micro-ondas até que se tornassem
como devem ser os olhos que a gente carrega na face: se-
cos. Pensar inútil. Ele no espelho olha para ele e indaga:

164
Dioclécio Luz

“talvez não consiga secar o mar, o mar florestal, mas faço


a minha parte. Não tenho águas voláteis”. Pensou assim,
biodegradável, inocente, sem saber que o mais volátil no
mundo era aquele seu pensamento.
O pensar. Não aquele ele.
Pelo menos na sua credulidade sovina, sibilosa:
– Eu não. Eu sou um homem pregado ao mundo. Sou
granito e magma. Ou um poste de madeira. Nem um ter-
remoto, nem maremoto, nem ventomoto me tira daqui
– declarou, inocente das palavras, mas cioso de que bus-
cava algo no espelho além dos olhos. Até, por fim, achar
e concluir, feliz: “agora sim, tenho os meus olhos limpos,
porque é isto meu espírito”.
Na sua opinião, sua alma era “leve e solta e bela como
uma aeromoça”. E mais ainda agora, depois da assepsia.
Piscou para si, sim, feliz por estar se vendo. Arriscou pen-
sar: “fazia tempo que a gente não se via, não é, minha
bela; você aí, eu cá, de fora, te vendo, feliz, minha doce
meretriz”. Então calou seu pensamento profano, temero-
so: “E se minha alma ler meus pensamentos?”…
Então o tempo permanecia ali, quieto, mudo, olhan-
do para ele. O tempo era um poste de cimento. E são
19h5min.
Seus cabelos estavam ali. Muitos. Era um homem feliz
por isso. Não os tivesse, certamente teria já praticado o
haraquiri. “É pelos cabelos que um homem mostra sua
honra”, disse anteontem, repetindo o que já havia dito no
mês passado. Pegou o pente no bolso e olhou-o, detetives-
co, microdetetívico, em busca de evidências de alguma ca-
tástrofe. Sorriu. Feliz. Não havia nem um, unzinho fio de
cabelo. Estava bom. “O mundo é bom por causa dos deta-
lhes”, pensou, rico, filosófico, como se fosse personagem
de um best-seller. Então passou o pente sobre o cabelo,
levezinho, docemente, carinhosamente, delicadamente,

165
O dançarino de bolero

gostosamente. Até que parou e se olhou no espelho mais


uma vez, cismado.
– Será que alisar cabelo de homem, assim, com tanto
carinho, mesmo sendo o da gente, não é coisa de veado?
A cabeleira negra é seu orgulho. Os cabelos brancos
foram pintados, enegrecidos para afastar o tempo que in-
siste em nevar sobre eles. “Se eu fosse careca seria um
homem morto”, pensou mais uma vez. E aí teve medo.
E aí lembrou que quando se tem medo os cabelos caem.
Então, branco, velado, apavorado, olhou-se no espelho e
sorriu e disse bem alto para que todas as suas bactérias e
suas tripas e seus ossos escutassem: “eu sou um homem
feliz e por ser feliz sou sempre feliz”.
É cedo ainda, 19h45min, mas o relógio dorme dian-
te do tempo. Nada passa ali. O tempo é um museu de
nada.
Agora ele vê os dentes. Não gosta deles. Gosta por
obrigação. “Dente é parente”, ouviu certa vez num pro-
grama de televisão. “Dos meus dentes quero distância”,
falou certa vez, sem querer, no elevador, e todos olharam
para ele, e ele disse ainda: “sou eu que crio, é problema
meu, vocês não têm nada a ver com isso”, disse, antes de
descer no quinto andar.
Mas agora eles estão ali, carentes, buscando carinho,
carinhos. Fedem. Então ele asperge um vento sabor de
hortelã. Depois canela. Achou que não era o bastante e
fumegou almíscar na boca. Já não pensava nos dentes,
pensava nas mulheres: “elas sendo diferentes, faço seus
gostos, aqui tem três alvos, pelo menos”.
Ainda estava nu. Ou melhor, estava, mas não se acha-
va. Já tinha algum cheiro. Faltava o que faltava. Perfumar-
se era sua epifania. Olhou-se no espelho e consultou com
o especialista ali, um macho feito ele, ele mesmo, qual o
odor mais adequado para aquela noite. E ele, o do espe-

166
Dioclécio Luz

lho, disse: “aquele”. E ele, “o de cá”, pegou o vidrinho cor


de bosta, derramou uma gota no pulso esquerdo e outra
no pulso direito. “Basta?” – perguntou. “Não, seu bosta”
– não se conteve o de lá – “também aquele outro é bom,
presta-se a um homem feito tu”. E o de cá obedeceu e der-
ramou duas gotinhas atrás de cada orelhinha. Via-se, por
seu rosto sereno, sempre reto, sem desgostos para não criar
rugas, que a escolha não era o bastante. Mais cinco ou dez
vidrinhos ele abriu e colocou as gotas na face, no pescoço,
nas axilas, no umbigo (“nunca se sabe o que nos reserva o
futuro”, pensou, pensando em mulheres ousadas).
Ele no espelho olhando no espelho. Muitos e eram um
só. Só não era um só o tempo. O tempo estava morto ali,
do lado de cá, marcando, fúnebre, 21h5min.
Foi ao guarda-roupa e pegou o terno preto. Gostava
dele. Tanto que todas as noites o colocava. Colocava-se
dentro dele. Era mudar de pele. Mas, sabia bem, era a
mesma pele.
– Pra que mudar de roupa se, por dentro, é sempre o
mesmo corpo e a mesma alma feita de nuvem e poeira?
Vestiu a cueca azul com bolinhas amarelas. E reprimiu
um riso. Achou que eram ridículas, mas era moda, pelo
menos foi o que lhe disseram na loja de roupas para ho-
mem. E ele, ele, ele, “sou um homem contemporâneo,
carne e osso nos dias de hoje”, pensava assim quase todos
os dias. Então vestiu a calça. A camisa branca. E pegou a
gravata amarela e colocou no pescoço...
Aí ele se olhou. Olhou. Olhou. Desconfiou: “o mundo
está troncho ou é esta minha gravata?” No da sua frente,
viu, antes de ser o mundo torto, era a gravata mesmo.
Queria zangar-se e não podia – as rugas, as rugas, as ru-
gas, não permitiam. Atrás dele existia uma reta, um armá-
rio, eixo do mundo, seu guia. Por esta reta tão cartesiana
guiou-se no alinhamento da gravata. Era torta, era redon-

167
O dançarino de bolero

da, ficou reta, aprumada. Então, feliz, proferiu a máxima


do dia: – “o que vale é o que gente faz com amor e lou-
vor” – aprendida no livro de máximas e provérbios de um
escritor esotérico que, usando de magia, faz sucesso até
na França.
O tempo permanece lá, fedendo a defunto. Agora são
21h30min e ele, o tempo, nem está aí pro mundo. Os
mortos não se preocupam com as vaidades, têm lá as de-
les para cuidar.
O homem apanha as meias. Experimenta as brancas...
Não prestam. O branco não está na moda, lembra. Bota
as azuis... Não servem, não estão na moda. Coloca, então,
as marrons... Mas não combinam com a gravata... Roxo,
amarelo, lilás,... Nada parece servir. Até que, nada haven-
do a fazer, a não ser viver com elas, coloca um par de
meias beges. Por garantia, considerando a probabilidade
de o tempo e a circunstância social assim o permitirem,
guarda um par de meias vermelhas no bolso do paletó.
“Só de garantia, um homem sem garantia é um homem
morto”, ponderou, cansado.
O tempo se mexe, ele nota. Não morreu. O tempo
agora marca 21h45min. E ele ainda dá uma volta para se
olhar no espelho. A última olhada. Não, a penúltima. A
antepenúltima. E transúltima, e a ante, ante, ante, ante,...
Gira e gira diante do espelho. Confere se está tudo nos
seus lugares. Nenhum fio sobrando, nenhuma ponta apa-
recendo, nada troncho, nada torto, nada fora do lugar.
Tem pressa. Está atrasado, mas esta última verificação é
fundamental. É o ritual último de quem vai à celebração
da vida, ao rito de glória, ao pódio dos vencedores.
– Positivo – diz, finalmente.
Agora são exatamente 22 horas. Ele olha para o reló-
gio e sorri, feliz de sua pontualidade. Então espalha as sa-
patilhas sobre o carpete do apartamento, liga o disco com

168
Dioclécio Luz

o curso de dança de salão, e começa a bailar um bolero


com a dama imaginária, são dois pra lá, dois pra cá, não ace-
lere, dois pra lá, dois pra cá, determine o ritmo da dama, assim,
ótimo, você é grande, você é demais...
Sorri. Ele é um homem feliz.

169
Teodora
Djanira Silva

Se Teodora tivesse se atrasado pelo menos um minuto,


um minuto apenas, ao fechar a porta, ou mesmo ajeitan-
do os cabelos no espelho da sala, ou atando os cordões
dos sapatos; se tivesse esperado, pelo menos um minuto,
um só, quando eu lhe disse: “não vá”.
Voluntariosa, quando dizia “vou”, já estava indo. Nun-
ca desistia. Quando me avisou que ia sair, ainda tentei
detê-la: “por que a pressa”, eu disse, “estou com um mau
pressentimento”. Ria dos meus medos. Ironizava: “Joel, o
profeta – sabe que não acredito em pressentimentos”.
Às vezes, eu me zangava quando ela me chamava de
profeta, mas a suavidade da sua voz, o sorriso nos olhos
anulavam qualquer ressentimento.
Só acreditava no momento, no destino, no que tinha
de ser “Nem pense em me modificar, serei sempre assim,
importante é o momento presente. O que sabemos do que
há de vir? O que passou, passou”.
Ao abrir o portão, o rangido carinhoso me avisava da
sua chegada. Os passos leves, ritmados, o perfume de la-
vanda, a voz alegre me chamando.
Nunca usava de rodeios para falar nem agir. Decidida
dizia: “vou nadar”. “Com este frio?”. “Sim, com este frio.”
O quarto onde dormia comunicava-se com o meu por
uma pequena passagem onde ela colocara vasos com ro-
sas e uma folhagem verde exuberante.
Ter cada um seu quarto fora uma exigência que fizera
quando nos casamos. Não abriria mão da sua privacida-
Djanira Silva

de. “Cama de casal, nunca”. “Fechar uma porta é criar


mistérios”, dizia com um sorriso nos olhos. A malícia de
sempre, “preciso fechar minhas portas”.
A princípio relutei. Com o tempo entendi, tudo aquilo
fazia parte de um jogo.
Quartos separados, ligados apenas pelo pequeno jar-
dim, quando à noite ela surgia na porta, coberta apenas
por uma túnica negra, ou vermelha, branca ou de qual-
quer cor, nem precisava falar.
Se naquela tarde Teodora tivesse se detido por um
momento apenas…
A porta bateu e eu a imaginei voltando. Ficava sempre
à espera: “Você gosta de se enganar”, dissera-me várias
vezes, tinha razão, era isto que eu estava fazendo naquele
momento. Fiquei parado por muito tempo, embora sa-
bendo que não adiantava o engano das esperas.
“Não vá, Teodora, não vá”. Sentia que ela não deveria
ir. A dor de uma certeza estranha doía-me no corpo e na
alma. Embaçava-me a visão, dava-me uma tristeza, uma
vontade de chorar. “Não vá, Teodora, não vá”, eu insistia.
Sua imagem surgia em fachos de luz como um relâm-
pago ou a luz de um fósforo riscado na escuridão alu-
miando o olhar sorridente, os gestos leves.
O som crescia, surdo a princípio, estridente em segui-
da. A voz de um desespero perdido, de uma dor que aos
poucos ia desbotando e eu sabia que também estava indo,
na imagem da mulher que há poucos instantes passara
por mim, acariciara meus cabelos e dissera: “Vou cami-
nhar”, “Agora não, Teodora, espere um pouco”. “Por que,
Joel?”. “Por que não esperar um minuto, apenas um mi-
nuto para anular o pressentimento?” Ela riu mais uma
vez. Não pude ver o riso nos seus olhos.
O portão bateu de leve. Ficara nos meus ouvidos, a sua
voz: “já vou”.

171
Teodora

O barulho, o som estridente de um freio brusco, o gri-


to, o silêncio.
Se Teodora tivesse esperado pelo menos um minuto,
um minuto apenas…

172
Corina
Edna Alcântara

Quando Corina entrou em casa, as sombras se esguei­


raram para detrás dos móveis. O pássaro despertou na
gaiola. Ela fechou a porta, a penumbra voltou e as pare-
des recolheram os últimos ecos das buzinas. O olhar acos-
tumado da mulher percorreu o ambiente. “O pássaro... é
preciso alimentá-lo” – pensou. Trouxera alpiste, maxixe e
jiló. “Tinha mesmo que conservá-lo preso?” Disseram-lhe
que seria bom um daqueles dentro de casa, se quisesse
ficar boa da asma.
As pernas lhe doíam. O corpo todo doía. Sentou-se
deixando as sacolas no chão, ao lado da cadeira. Cada
vez que ia às compras, o supermercado ficava mais longe.
“Bote uma empregada, Corina, uma mulher na sua idade
morando sozinha”. Talvez os vizinhos tivessem razão. Até
que seria bom, uma pessoa agora para limpar a casa, ser-
vir uma xícara de chá. Não, não queria saber de estranhos
remexendo nos objetos guardados.
Os parentes há muito vinham insistindo para morar
com ela. O que eles queriam mesmo era meter as mãos nas
baixelas de prata, nas porcelanas de Limoges, nos cristais,
no relógio de carrilhão. “Mulher avarenta, mesquinha”.
Pois sim, eles que a esperassem fechar os olhos. Não pre-
cisava de ninguém para cuidar do que lhe pertencia.
Depois não se sentia só. Tudo ali permanecera do jeito
que sempre fora: o marquesão, as cadeiras, os móveis da
sala de jantar. Ainda podia ouvir a voz da mãe na cozinha,
ralhando com as criadas, as pisadas do pai, o cheiro do
Corina

fumo do cachimbo dele incensando a casa, o pigarro que


puxava lá de dentro da garganta. Nunca mudara nada.
Do lado de fora chegavam sons abafados de conversa.
Onde hoje era calçada, havia sido o jardim da casa. Rosas,
hortênsias, papoulas, o muro coberto de hera destruído
para alargar a avenida. Tinha também o caramanchão,
noite de lua todos iam dormir e ela ficava até tarde apre-
ciando as estrelas. “Corina, bote o xale, ou você pega um
resfriado, minha filha”.
De onde vinha aquele frio repentino, aquele cansaço,
a tontura? Recostou-se mais na cadeira, fechou os olhos.
Tanto o que fazer, precisava se pegar em alguma coisa.
Ah, as batidas do carrilhão: uma, duas, três, quatro. “Co-
rina, beba o chá, filha, quer o agasalho? Maria, ó, Maria,
anda logo com esse xale, o xale da menina, sua tonta, e vê
se abre as janelas que ninguém mais aguenta este cheiro
de cachimbo.” Oito, nove, dez. A dormência tomando o
corpo, a respiração que não passava da garganta.
Abriu os olhos e ainda pôde ver o pássaro se debaten-
do na gaiola.

174
O jardim
Eduardo Lucena

Era uma quadrilha muito mais ridícula e gigantesca:


mas eu sempre volto, muito mais jovem e ridente por so-
bre a epiderme; mais velha e cansada na carne...
E lá vem ele, com seu rubro narigão, seu chapeuzinho
listrado, entrando de volta no mundo que há.
Era um pássaro que fugiu. Eu também vi os porões do
palácio da Gaiola: o califa estava lá, tinha dois vizires enfei-
tados com perlas e alvos turbantes, as traças comiam tudo,
devorando estruturas e blocos de barro: por isso estavam tão
buchudas, elas roíam os documentos todos, farfalhavam, eu
as vi farfalhar!, enquanto o califa escutava o canto do pás-
saro que fugiu. Cantava bonito, o dono do pássaro sofreu
muito e chorou, ele era o rei, era o califa, mas ele achou um
menino de doze anos que cantava do mesmo modo que o
pássaro, igual ao pássaro. Aí, o rei mandou chamar o meni-
no e ele imitava o pássaro todos os dias, para diverti-lo. Um
dia, muito lindo e claro, azul, sol, foi, foi naquele dia que
o rei mandou chamar o menino e decretou que ele fosse
decapitado, mas depois o Grão-Vizir disse para o rei dizer
o motivo. O rei, então, levantou o olhar na direção da ca-
beça ensanguentada daquele que sabia trinar, e disse, bem
lentamente: – “Você canta como o pássaro, mas você não
é o pássaro!”, e ficou sorrindo e dizendo “piu, piu, piu…”
havia também uma cruz, uma nítida cruz fixada nos olhos,
no centro dos olhos fitos em nada, coisa alguma além da
cruz, o crucifixo marcando a encruzilhada e, bem no meio –
nem para lá nem para cá –, de pé, esbelto espectro imóvel,
O jardim

de jaquetão e chapéu-coco, o senhor Tocotas a comandar


seus aviões, sua imensa frota de navios – e eram todos car-
gueiros, aliás: levavam imagens, ilusões; traziam nos bojos
tintos de azul sonhos, antigas esperanças, paixões duma in-
fância remota e comum, a ganhar novas dimensões dentro
da cruz, no olhar inerte dos olhos do senhor Tocotas, do
satânico senhor Tocotas vestido de bizarro e negro e trazia
nas mãos uma pistola carregada de horror, destruição, mor-
te intencional, fixa, pré-moldada morte, porque o senhor
Tocotas era muito mau, era um monstro dotado de incrí-
vel crueldade, dum poder de devastar além das imagina-
ções e suas naves flutuam no ar, atacam, matam, morrem,
se destruindo mutuamente, há um imenso troar de canho-
neiras, um pavoroso combate!, mas não há tréguas: estão
a se destruir ternamente (num sorriso do senhor Tocotas,
horrorosamente calmo, tranquilidade absoluta pairando
nos lábios), se devoram com violência, com amor e sangue
dentro do ar, dos olhos, da alma cor de cinza, cor de solidão
e dor completa, hermética, tanta dor que já nem doía mais
– hum... era prazer; um infinito, constante gozar dentro da
dor, a dor total, rubra, crível, palpável porque era uma bo-
lacha gostosa; – ei-lo de novo!
Tocotas engastado no meu medo, mínima pérola ene-
grecida, coberta da fuligem de tantos combates, batalhas
navais, corpos estilhaçados, tudo!, tudo!, marcado no corpo,
pendurado nos olhos, revolvido – TERRA – na memória: a
criança espia, solitária e triste, por trás de algum postigo
velho – há teias de aranha nos olhos, mas Deus me livre
de envelhecer feito um pau fofo, um destroço desdentado;
porque as velhas são todas umas nojentas: obram nas calças,
gritam com as pessoas, passam a vida a dizer coisas sem
nexo (mamãe! Mamãe!), intermináveis bobagens... e, ainda
por cima, só conseguem falar balbu­ciando, arquejantes, os
beiços trêmulos para cá, para lá, para cá, para lá, moles, flá-
cidos... cachorro vai cachorro vem cachorro vem cachorro

176
Eduardo Lucena

vai cachorro vem, foi no piano, que piano! Mamãe obrigava


a tocar todo dia o professor gordinho... cachorro vai cachor-
ro vem. Tocotas, o meu senhor Tocotas, só ele é que me en-
tendia. Mas o professor gordinho parecia um porco: de tan-
to pensar, tinha ficado velho e caducava firme, a todo vapor,
num infértil vale donde nada havia: só os senis, trêmulos
arbustos a balouçar lentamente, lá está: a criança, enternece
e alucina, apavora e atrai, cria e desmancha, comove mas
destrói, violenta – é uma grande máquina desfilando den-
tro do sono, em cima do jeito de olhar, os ouvidos ouvem
mais que o nariz e a boca ressequida também sente – que
sede, meu Deus! – mas tudo vai nos olhos, veja os poros di-
latados, a mente doendo de calma e exaltação...
Te amo e te odeio, te venero e te devoro inteiro com a
boca – meus dentes rubros de teu sangue matam minha
sede, esgotam meu cansaço, ai, que perco as forças de te
ver porque te quero ver mais ainda, te decantar – eis!:
– Tu és minha banana, meu amor!
Te quero por inteiro para te comer e destruir, pois só
assim refulgirás dentro de mim, dos olhos, da calma... vem,
aperta minhas mãos, meu Ser está todo nas mãos, são gar-
ras de chumbo, asas de pássaro, as mãos acima de tudo, os
dedos claros, macios, as unhas são Lagos e neles se reflete
minha imagem, meu rostinho encantador, Feliz, Criança –
e Sancho está por detrás de meu rosto reflexo nas unhas:
consigo ver as mãos de Sancho Pança, os dedos redondos,
dentro das unhas rechonchudas, lá, por trás do rosto...
Há um Lago nelas também! – e sabes o que há dentro
das unhas de Sancho, Escudeiro do meu Gesto?
– Não, não sabes, não sabes de nada, Caretão!
Tem uma cruz, uma cruz feita de sangue: bem no cen-
tro desta dolorosa encruzilhada, inerte, frio como aço, jaz
o Senhor Tocotas, sim, ele mesmo por trás do rostinho,
inerte nas unhas, nos lagos dos dedos – mas não dos meus
– nos lagos de Sancho, dentro de mim.

177
O jardim

Ele veste negro, é esmagador, parece uma coronhada no


escuro, um tiro na cara, dor fria em minha testa: consciência
que se foi. Outro dia, quando eu estava sozinha, ele me cha-
mou e disse, bem baixinho e devagar, para não doer, porque
ele estava em pé, dentro da minha orelha, que ele morava na
gaveta do criado-mudo do quarto de mamãe; que o criado-
mudo era seu Castelo – a gaveta, quer dizer –; e aí, eu pensei
cá comigo: “– mulher, você está é ficando louca, criado-mudo
não é casa de ninguém, criado-mudo é só criado-mudo...” aí,
o senhor Tocotas, que ele adivinha os pensamentos, sonda
as consciências e jamais crê na doçura de um olhar, o senhor
Tocotas respondeu, em pé, na orelha:
“– Tu estás enganada. Criado-mudo é escravo e escra-
vo é Castelo e mesmo que não fosse eu moro lá, vem co-
migo.”
Aí eu fui. Quando entrei na gavetinha, vi que ele tinha
razão: lá estava o Castelo, quatro torres muito altas, mura-
lhas majestosas, bandeiras tremulando ao vento. O senhor
Tocotas me levava pela mão, eu era criança de novo, a
ponte levadiça foi baixando devagarinho e, enquanto nós
passávamos, eu vi que no fosso os crocodilos me fitavam
com ar sombrio. Paramos no meio da ponte. O senhor
Tocotas virou pra mim e disse:
– Sabe que eu podia sacudir você aí dentro? Sabe que
posso lhe matar e que ninguém vai saber disso porque
estamos no criado-mudo, dentro da gaveta?
Olhei para ele, aflita. Se era castelo, como podia ser
mesa de cabeceira?
– Sei que o senhor pode fazer comigo o que quiser e
bem entender, mas sei também que o senhor jamais fará
isso – respondi, num tom firme, decidido, nunca pensei
que pudesse falar assim com ninguém, principalmente
com o senhor Tocotas.
– E por que não posso? – perguntou, suave, gélido in-
seto.

178
Eduardo Lucena

– Porque o senhor não vive sem mim. Para a sua vida é


necessário a minha vida, pois o senhor sou eu, na medida
em que sou o senhor.
Parece que os crocodilos entenderam o que havíamos
falado em cima da ponte: os seus olhares decepcionados
demonstravam-no claramente. O senhor Tocotas não dis-
se mais nada. Continuou a andar e me conduzia pela mão
como se eu fosse um anjo, sua amante belle époque, coisa
que urge conservar, por prazer, por sobrevivência.
Quando entramos no Castelo... foi um negócio dana-
do! Lá estavam elas, as naves, os tanques – todo o arsenal
do senhor Tocotas –, as metralhadoras, as desilusões, a
aflição gemia, no canto do muro, as mãos trêmulas, e um
denso desespero pairava nas coisas. Senti tanta vontade
de chorar! E quis retroceder, sair da Gaveta, mas Tocotas
não deixou, segurou minha mão com força e me arrastou
mais para dentro do Castelo:
A preguiça, estirada no meio do pátio, um pouco à
esquerda de quem entra, nem abria os olhos para me ver;
e como ela era feia!, e ossuda, a barba encaracolada no
queixo, o ódio, trepado num castanheiro, feroz, quase me
arranca o braço com uma patada.
Era tão grande o meu medo! Mas o senhor Tocotas foi
logo dizendo:
– Não tenha medo. Ele não pode matar você. É mes-
mo do jeito que conversamos na ponte. Está lembrada?
Ele é você, e você é ele. Por isso não se matam. Somente
se machucam um pouco; que é para sobreviver – e fez um
gesto largo, do tamanho do mundo – nada mais natural
do que isso. Não vivem um sem o outro.
E foi aí que vi o amor que se acariciava no meio da-
quele girassol amarelo que era eu ao contrário, meio pelo
avesso, a ternura. Tocotas apontou-me a beleza, que ace-
nava dum balcão do castelo, como ela era linda! A violên-
cia dando bofetadas por todos os lados, o ódio urrando

179
O jardim

no galho do Castanheiro antipático, o amor no centro da


planta, o senhor Tocotas sorrindo para mim. Sua roupa
negra parecia reluzir naquela atmosfera parada.
– Vamos. Lá atrás, no jardim – e apontou mais para
dentro ainda.
Engraçado, eu não sentia mais medo. Sei lá! É como se
eu já estivesse acostumada.
Havia, em meu ser, como que leves palpitações de feli-
cidade, ternura, amor, entremeadas de horror, de medo e
pânico; não era um jardim de Trevas, nem leve, nem Har-
mônico, mas tudo. Eu era mais que um jardim: dentro do
útero, fibra por fibra, quantos homens, quantas mulheres,
quantos monstros, quanto gozo não havia?
Eu, amarrada ao senhor Tocotas, atada pelas mãos, fui
atravessando debilmente o pátio do Castelo, e perpassei-
lhe as reentrâncias como louca e em desamparo, a alma se
desfazendo para, mais adiante, recompor-me toda num
segundo e tornar a morrer e, seguidamente, de deses-
pero em desespero, fazer de mim mesma a minha vida,
de minhas sensações meu ser, da dúvida (ah, a dúvida!;
normalmente, a importância está em que eles, os que vão
pelo lado de cá, nada veem: de manhã, de tarde, de noite,
e está tudo arranjadinho no mundo: somos a raça posi-
cionada, indiscutível, construída com a calma das pílulas,
com o sono do aparelho elétrico, com o pitiatismo dos
múltiplos voos em frígidas naves de oiro e broquéis e a
cama de molinhas!...) o horror que há em mim de existir;
mas isso tudo, por meu corpo, anda misturado à maravi-
lhosa sensação de ser feliz, pois serei eu amada, acariciada
– ai, que arrepio! –, pura, serei eu ansiosamente aguarda-
da nalgum cais olvidado por todos os demais – e isto –,
somente enquanto viva eu estiver.
Logo após o Corpo Principal do Castelo – uma ala em
que a torre do centro servia como que de denominador

180
Eduardo Lucena

comum aos demais aposentos do edifício –, avistei um


obscuro quintal, imenso terreno de risos e pavor, como
floresta interviva e, ali, o senhor Tocotas me mostrou –
ah, e como as vi! – aquelas belíssimas crianças, impávi-
das, hirtas, estúpidas flores humanas, em canteiros bem-
dispostas, entravadas por suas próprias raízes, estranhas
e rubras rosas cuja maneira de sugar o alimento é muito
ódio e medo (gravames que persistem!), muito horror e
ternura:
– Quanta altivez e quantos mortos há no olhar duma
criança!
Seriam bebês recém-natos, tênues, belos, terríveis!
Tocotas, então, olhou para mim, como se visse um
Anjo:
– Há monstros onde eu vivo, cá nesta gaveta, neste
Castelo e mundo. Eles são imóveis e lépidos; são escar-
lates, azuis, alguns trazem uma longa e dolorosa cauda,
que arrastam – como esteira que fosse largada ao mar por
maldita Nau Errante – atrás do corpo enlouquecido. Al-
guns há que ostentam longos pelos escorrendo por sobre
a sua dor – aqui, Tocotas fez uma pausa, tocou levemente
no meu ombro, e foi com os olhos a brilhar que disse: – E
eles são colhidos, mínimos, detalhados, por inteiro; e são
pausadamente enterrados nos teus ventres, ó Fêmea de
todo o Universo!; ser inútil, ser exausto e exangue, a ti são
eles depostos, a teus pés, por lindas, puríssimas e obscu-
ras Bruxas de Metal.
Foi aí que as vi pelo ar! Eram tantas e esvoantes que
quase cheguei ao pavor, a um louco frenesi de beira de
abismo, porta de precipício inevitável. Mas Tocotas, sem-
pre ao meu lado, com o olhar, como que relembrou nossa
conversa: elas são eu: não há por que temer...
E elas vão e vêm, feito bailarina a servir-nos, em bande-
jas de prata, a eles – que estão à outra margem do Grande

181
O jardim

Rio da Inconsciência –, os monstrinhos e o amor que os


constitui.
As flores eram bebês: maquinismos anteprojetados
mas peludos ao ar leve, tépido, musical.
Um Lindo Jardim, povoado de tédio, medo e amor.
Mais ao fundo, avistei uma jaula onde estava encerra-
da a mais divina das Criaturas. Um louco.
Ah, ser um louco totalmente aterrador!, sentir a loucura
em cada poro, i-n-f-i-n-i-t-a-m-e-n-t-e total e incompreen-
dida! Queria ser como vós, que sentis pouco, que comeis
pouco, que fornicais somente um pouco e por hábito e até
por modelos!, e isto só porque sois pouco, sois somente
quase-nada, ínfima partícula transponível, igual, verificá-
vel, (como) frasco de pimenta sem sabor: ... e não trazeis
ternura alguma em vosso olhar; nem o ódio podeis senti-lo
em todo o seu horror. Oh, como sois felizes e palpáveis,
cercados pelos corpos, pelas carnes e pelas coisas: móveis,
imundos catres, suja realidade do ser exterior, estéril, todo
ele muito pleno em sua total oquidão.
Mas os loucos (ah, os loucos!), imersos em toda a sua
opacidade, intransponível idiotia, eles é que são verdadei-
ramente!
... ser um louco arrasador, nos olhos que fulguram, na
carne que sucumbe, na alma que não há.
Dois olhos, plenos de mundos, aclaram a escuridade.
Amar loucamente, lança em punho, dama ausente em
sua terna presença, coração pleno a transbordar, alma in-
cansável, calma partida, destroçado modo de ser.
Roxo! Está tudo ficando roxo ao meu redor, berrando
contra mim, apertando-me o rosto e a comprimir-me o
desgastado, raquítico, neurótico anteprojeto de alma que
há por mim dentro.
Rosaly Dantas de Araújo sentia-se mal, dor de cabeça
constante, de vez em quando latejava. O estômago vazio
doía de fome. Não tinha nem forças para levantar.

182
Eduardo Lucena

Deitada – mais que deitada –, caía no chão do banhei-


ro, a latrina do lado direito apoiava o rosto vazio, exausto,
mais que morto.
Devagar, hesitante, ela se apalpa: está nuazinha da sil-
va. Vai até o espelho grande, por trás da porta do banhei-
ro e se olha, toda nua, diante de si, trapo humano por
tantas viagens surrado.
“Ah, esta inútil barriguinha burguesa!”, pensa, com
indizível amargura, enquanto rodopia sobre si, ante o es-
pelho.
A boca do estômago é um abismo de dor. Agonia e
medo ao mesmo tempo que nada. “Agora entenda! Que é
que estou fazendo aqui, meu Deus?”
Em pé, cambaleia até o quarto, a cama, lá, aquele ar de
século dezenove e mofo pairando sobre as coisas.
Sorri, triste, para o criado-mudo: vai até lá, abre a ga-
vetinha, prepara a seringa hipodérmica, um tiquinho de
álcool no branco do braço todo picado, totalmente despi-
da, em abandono, e se injeta um novo passaporte. Preci-
sava de viajar, rápido, antes que voltasse a pensar naquilo
de novo, quarto, mamãe, esperança é a última que morre,
“uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo
e sob o mesmo aspecto” (mas claro que pode!): corre à
cozinha, antes que o trem comece a correr, espavorido,
come duas salsichas frias com a banha e da lata e tudo, ai,
como queria devorar também a lata!
Então, Rosaly vai para a cama. Deitada, ela sabe:
O senhor Tocotas a espera, lá, do outro lado, no centro
da Cruz Escarlate, no interior da gaveta.

183
Pião na unha ou o campeão
Everaldo Moreira Véras

Não sabíamos o nome dele direito, apenas que se cha-


mava Teleu. E só. Ninguém desconfiava de onde tinha
vindo, onde morava, nem nada.
Apareceu, um dia, na barreira, sempre nos reuníamos
lá para brincar, a turma toda. (O nosso ponto de encontro
certo, não tinha um só menino do bairro que não compa-
recesse, domingo de tarde.)
Foi quando chegou o tal sujeito.
Não parecia morar naquelas bandas, isso percebemos
de imediato, porque a cara dele era diferente, coradona,
o jeito de forasteiro. Meio gordinho mas do nosso tama-
nho, não tinha nem dez anos. Parou, encostou-se, como
quem não quer nada, mas querendo. Pensamos: É peru,
baixou por aqui faz pouco tempo. Coube a mim, o chefe,
perguntar,
– Ei, bicho, você quem é?
Respondeu,
– Eu? Sou de longe.
Esclareceu apenas assim, não explicou muito. Acoco-
rou-se no chão e ficou de olho pregado na brincadeira.
– Tá legal – eu disse. – Tudo bem.
Era pacífico, não queria encrenca. Se fosse valentão,
rápido entrava na porrada, a turma não era mole. Novato
não tinha vez.
– Sou Teleu – completou – queria somente ver o jogo
de pião. Posso?
– Pode, mas não aborreça – ordenei.
Everaldo Moreira Véras

Os moleques só esperavam minha decisão.


– Ele fica, não é?
– É, deixe ele aí, mas só peruando – o pessoal concor-
dou.
– Certo – o menino acrescentou.
Então continuamos na disputa, no jogo duro de pião.
O tempo era de campeonato. Eu, Zé Carlos e Chicão fa-
zíamos o time do terror, ninguém aguentava. Gabriel, Al-
finete e Caneta, os adversários, tão somente serviam para
apanhar.
Já entrávamos no terceiro rodeio, nós sempre na fren-
te, e eles, nada. Coitados! Reclamavam – e se referiam a
mim – “Você é bom demais, passa o dia treinando”. “Qual
o quê”, eu respondia, “vocês é que são moles, não sabem
jogar pião. Reparem:” e mandava a maior banca, fazia o
que queria com o meu pião amarelo, que papai me dera
no dia de Natal.
“Puxa!”, a turma suspirava. “É o máximo!”
Até os da seleção do outro lado invejavam,
– Você é muito bom!
E era. Melhor do que eu não tinha, ali, não. Nasci para
rodar pião, foi o que mais aprendi na vida. Admirava-me
com a sorte, pois pontaria não valia, a arte já ultrapassava
os limites. Todo tipo de jogada eu dava. No ponto-ficão,
era perfeito. No ponto-camarão, muito mais. Nunca per-
dia uma única lapada. Por isso, a turma, ou melhor, a mi-
nha turma, jamais apanhava, terminava todo ano como
campeã invicta do torneio da barreira.
No verão passado, o escore mostrou verdadeira lava-
gem, esqueci a conta das partidas ganhas, de cinco a zero.
Zé Carlos e Chicão, bem-dizer, só vinham para compor,
porque a estrela mesmo era eu. Lá uma vezinha ou outra,
davam dentro, então os meninos debochavam,
“Assim até nós, não tem graça!”

185
Pião na unha ou o campeão

No primeiro dia de peruada, Teleu não soltou, de fato,


uma palavra. Recuou-se na humildade e incompetência
dele, somente olhava, porque não devia falar, senão a
gente não o aceitava nem para peruar. Peru dorme ca-
lado, foi a ordem de Chicão. (Chicão não tinha conversa
fiada, resolvia na marra, e para arrebentar o freguês. Um
cavalo batizado. O elemento era ignorante, bruto.)
No domingo seguinte, apareceu de novo, a mesma
cara vermelha, o mesmo corpo gordinho que nem uma
manga-rosa. Quedou-se por ali, corubijando, como quem
não quer nada, mas querendo, de olho duro no campeo-
nato. E torcia, na maior alegria, mas calado, um pio não
soltava. Parecia o companheiro legal. Não prejudicava,
um torcedor assim, pacato, boa-praça, a participar da
brincadeira, nenhum palpite, sem se meter.
Aí, na minha vez, eu caprichava, justo por causa da
torcida de fora que me aplaudia, o moleque estranho,
sentado quieto lá no canto dele. Eu pegava o pião com a
classe de campeão, alisava-lhe o corpo macio, carinhoso,
enquanto enrolava a fieira. (A fieira azul, brilhante, eu
passava cera de vela, para deixá-la na pedida, bem ajeita-
da e firme.) Depois, o pião já enrolado, dava o saque de
mestre, fazia-o cair no centro do círculo de giz marcado
no chão, e ali o bichinho dormia, zunindo o maior tempo
possível. A glória, e ninguém conseguia me derrubar. Os
outros babavam, abismados,
“Puxa! Jogar assim é demais!”
E eu ria, satisfeito, o campeão tem um riso orgulhoso,
somente nós sabemos o segredo. Para completar, vinham
Zé Carlos e Chicão, do meu lado, davam a jogada deles,
um de cada vez, somávamos o tempo (marcado no meu
relógio, apenas eu tinha relógio). No fim, ganhávamos,
os adversários não atingiam nosso recorde, aliás nunca
batido.

186
Everaldo Moreira Véras

E Teleu, o peru, torcia. Torcia para mim, o único que


sabia jogar, o herói. Ria ao acompanhar a minha classe,
o entusiasmo estampado na cara vermelha dele mostrava
que me admirava. E foi com isso que me conquistou, me
ganhou, porque vibrava, então caí na conversa. A conversa
mansa, que veio devagar, sem pressa, maneirosa. Insinuou,
– Olhe, eu também sei jogar um pouquinho... Sabe?
Garantiu, – Sei.
Eu quase cedia, quando Chicão se intrometeu,
– Ninguém perguntou! Você não tem vez!
Mas, no quarto ou talvez quinto domingo (nem me
lembro direito), abrimos a retaguarda. O acordo foi que-
brado. Teleu conquistou minha simpatia, e também a de
Zé Carlos e até mesmo a do estúpido Chicão. Permitimos
que entrasse no outro time, só para experimentar. “Não
faz mal”, pensei. “Afinal, os palhaços não são de nada, vão
perder de qualquer jeito, então o peru pode tentar. É bom
que aprenda logo a apanhar igual aos outros”, concluí.
Foi aí que me estrepei.
Teleu, de besta, só tinha a cara. Rodava pião como o
diabo. Já no começo, desmoralizou no ponto-ficão, que
é uma jogada dificílima, justo acertar no olho do pião-
zunindo do adversário, para o bico lascar o brinquedo.
Uma tacada de mestre, apenas eu fazia aquilo com classe
e, veja bem, em determinadas ocasiões errava.
Mas ele, não.
De saída, aplicou, certeiro, um bruto ponto-ficão no
Zé Carlos, rachou o pião de banda em banda. Veio o do
Chicão, mandou um ponto-camarão, que é também su-
perdifícil, porque expulsa o inimigo da arena num em-
purrão vergonhoso, humilhante.
Eu começava a suar frio. O mau-caráter não era fra-
co, não. Na minha hora, teria de dar duro no safado e
mostrar que eu não dormia de touca. Afinal, me sentia

187
Pião na unha ou o campeão

responsável pelo desastre. “Por que deixei o peru jogar,


meu Deus? Por quê?”
Chegou a vez. A expectativa era grande, os compa­
nheiros estavam todos comigo, isto é, aqueles do meu
time, porque os demais já balançavam para o lado de Te-
leu. Saquei a jogada clássica (os dedos tremiam), acertei
bem no centro do círculo de giz, o pião zuniu, e dormiu,
e dormiu durante uns três minutos.
A plateia me aplaudiu. Enquanto o pião dormia, o
inimigo preparou o dele, para dar a jogada regulamen-
tar. Uma das duas coisas faria: o ponto-ficão ou o ponto-
camarão, imaginei, apavorado. Santo Deus, que fosse o
ponto-camarão! O ponto-ficão era desmoralizante. (Bom
mesmo era que errasse, tanto um quanto o outro.)
Que errar coisa nenhuma! Teleu, com a pontaria de
um craque, aplicou o ponto-ficão, desses de alto nível,
que esfacelou meu pião amarelo de estimação. Puxa! O
miserável riu. A molecada bateu palmas.
– É, mas você não sabe agarrar na unha – retruquei.
A esperança era salvar minha reputação, nessas alturas
perigosamente abalada. Não zombou, respondeu,
– Sei, vamos apostar?
Ora, pegar pião na unha também fora meu forte. Nun-
ca errei uma tacada, chega a unha do dedão polegar da
mão esquerda (eu pegava com a esquerda, porque o saque
fazia com a direita) já estar calejada. Ah, isso não, ele não
toparia, eu era imbatível.
Saíamos para a luta, os amigos reparavam no desafio,
solidários comigo. Dei novo saque de mestre, quase er-
rava, porque não estava com o pião amarelo, tomei em-
prestado o de outro companheiro, o sujeito irresponsável
não tinha arrebentado o meu? E quando a gente troca de
pião, sente a diferença, é preciso ser bom para manter a
classe. Dei sorte, segurei o bichinho na unha do polegar

188
Everaldo Moreira Véras

da mão esquerda, ajeitei-o para dormir até o fim. (Graças


a Deus!) Já considerava ganha a parada, jamais alguém
faria igual. Impossível.
Nisso, o moleque ordinário arremessou o saque. Foi
um espetáculo maravilhoso: o sem-vergonha era o cão
chupando manga. Pegou o pião na unha com incrível fa-
cilidade, e mais: passava-o de uma unha para outra, tanto
da mão direita quanto da mão esquerda. Por fim, deixou-o
dormir na unha do dedo mínimo da mão direita, o bico
de ferro comeu o canto da unha, e ele nem ligava, somen-
te olhava para mim, a cara vermelha, os olhos brilhavam,
a boca ria debochada...
Nesse exato instante, Chicão me arremessou um olhar
de touro. Zé Carlos, também. Para minha surpresa, pois já
não contava com a força do lado de lá, os três, Gabriel, Al-
finete e Caneta, me transmitiram a senha, afinal, éramos
vizinhos fazia anos, desde que nascemos. Imediatamente
adivinhei: Este cara vai ver o que é bom pra tosse!
Não combinamos estratégia alguma, mas pareceu que
combinado foi: juntos, os seis de uma vez, demos em cima
do vagabundo, do maldito Teleu. E foi murro, e foi chute,
e foi joelhada, e foi pedrada, e foi a maior surra do mun-
do. Um massacre.
Ai, Nossa Senhora! o covarde gritava sem reagir, inde-
feso, quase morto.
– Toma, mentiroso! Toma, bandido! – berrava Chicão,
o potro selvagem, justo quem mais batia no penetra mas-
carado.
A maior alegria da vida foi quando Teleu safou-se, e,
derrotado, ganhou a reta da frente. Para onde, não sabía-
mos. Do jeito que apareceu, foi embora, correndo, nunca
mais pintou para perturbar nosso campeonato.
E voltei a ser campeão.

189
De profundis
Fátima Quintas

Dez horas.
Benedita fecha a tampa do relógio de carrilhão. Cum-
prira o seu dever.
A vela acesa, o santuário, a devoção de sempre. O
menino Deus sobre a manjedoura, a chama ardendo em
eterno rogo, o manto vermelho a acomodar as imagens.
A cabeça baixa. As emoções em feridas abertas. A leitura
da Bíblia – “Das profundezas clamo a ti, Iahweh: Senhor
ouve o meu grito! Que teus ouvidos estejam atentos ao
meu pedido por graça!”.
De profundis.
O ritual se repete na casa da velha senhora. As rugas
acentuadas sulcam-lhe a pele, conferindo-lhe um ar abati-
do; nada esmorece a fé inabalável. Após a liturgia, com es-
forço, agasalha-se no canto da desolação. As miragens do
Senhor conduzem-na a paraísos idílicos, onde os amores
não vividos ressuscitam em desejos libidinosos – prêmio
por flagelos e sublimações. O ascetismo lhe suga a menor
das vontades; a carne decompõe-se, vítima de cilícios e
disciplinas; a virtude arranca-lhe os gozos últimos.
Faz calor, o que não impede que o xale envolva o cor-
po esquálido, exposto às agressões da exterioridade. Reza
em voz baixa, sentada na cadeira de balanço, gesto que a
acompanha ao longo da sua história. Noventa anos. Não
se queixa das dores no joelho, menos ainda de qualquer
infortúnio que a maltrate. Gosta de viver, mas pressente
a morte, próxima como o instante que se acerca. E a cada
Fátima Quintas

dia, o hino de agradecimento, a louvação aos santos, a


gratidão por ainda ser, ela, corpo e alma. Cuida-se pouco
em uma quase imolação voluntária.
Mora sozinha; o quintal, em abandono; a casa se es-
gueirando no silêncio dos aposentos – vence o cansaço
miúdo de quem se despede do santuário e do relógio. Du-
rante o dia, Benedita prepara o frugal almoço, cozinha
uma rodela de inhame, acondiciona torradas no depósito
de vidro, coa o café, aproveita os legumes já utilizados,
passa-os no liquidificador; o creme está pronto para a ceia.
Forra a mesa da sala, ajeita os castiçais, acomoda os pratos,
os talheres, a xícara... Despede-se à tardinha com um “até
amanhã”, imediatamente respondido “se Deus quiser”. O
ruído da cadeira de balanço representa o eco vivente, o
som mais uniforme que ali se escuta, compasso de vigílias.
Reza. E despreza o corpo. E o espírito levita antes do tem-
po. E a morte se avizinha na quietude escolhida.
O toque do relógio a desperta do êxtase das preces.
O tempo corre, martelando-a. Agrada-lhe fiscalizá-lo sem
medo. Assim, não se engana nem se deixa por ele enga-
nar. Ambos em plena cumplicidade, avisos prévios, pactos
selados.
O santuário, ao fundo do corredor, fortalece-a. Com difi-
culdade, levanta-se, a bengala à mão, o amparo. Os chinelos
arrastam-na. A luz votiva serve de claridade ao escuro da
noite. A velha senhora compraz-se com a penumbra. A ora-
ção lhe basta, não precisa de artifícios para aumentar a fé,
os santos a zelam, sabe-se protegida por fantasmas seráficos.
E o olhar suplica por paz, nada mais. “Eu espero, Iahweh, e
minha alma espera, confiando na tua palavra; minha alma
aguarda o Senhor mais que os guardas pela aurora.”
Entre o santuário e a cadeira de balanço, a vida. O re-
lógio ao meio, estrondando os quinze minutos.
Ninguém a visita. As irmãs morreram. Não casou. A
Deus, doou-se.

191
De profundis

O chiado da cadeira repercute, os lábios balbuciam


Ave-Marias e Pai-Nossos; no ar, a gravidade da solidão.
Nem percebe que o mundo efervesce lá fora. O copo
d’água sobre a cômoda, dele bebe pequenos e pálidos go-
les. Satisfaz-se em inspirar e expirar, suspiro derradeiro
de uma lâmina em precária existência. Sorri. É feliz.
A igreja repica os sinos da missa crepuscular. A velha
senhora senta-se à mesa, deglute a sopa, devagar, muito
devagar, a colher trêmula, a dificuldade do movimento.
Com o guardanapo asseia a boca e pensa... Tem o cos-
tume de pensar quando não reza. Então fecha os olhos,
reabilita a memória. De nada esqueceu, os anos não em-
baçaram as recordações, as preferidas. Renasce em nome
do evocar e habitam tantas certezas nesse passado que
dele jamais desconfia. Resíduos do inconsciente. Sobejos
de alguma alegoria. Lembranças e frustrações... Nem ca-
rece de mais. O novelo se desenleia, os fios entrelaçam-se,
o bordado se define qual pintura que não sofreu a erosão
dos ventos nem das tempestades. Tão inteira, ela, a velha
senhora, no propósito de reatar as rasuras da tecelagem
concluída!
O prato. Os talheres. O inhame – divide a pequena ro-
dela em partes iguais, a delicadeza em ingerir cada pedaço,
como se um dependesse do outro, ou a sequência obedeces-
se a uma determinada hierarquia. Por fim, dois sorvos de
café em xícara de porcelana inglesa. Com o sinal da cruz,
finaliza a refeição. Lentamente, chinelos rentes ao chão,
retorna à cadeira de balanço. Resigna-se com o estado de
acídia. Renuncia ao pensamento. Abdica da ipseidade.
Reza. Reza. Reza… “Senhor, quem poderá se manter?
Mas contigo está o perdão.”
O relógio de carrilhão badala os quartos de hora. Nes-
se átimo de instante, a soada contínua e perseverante
da cadeira permite a passagem do tempo. Agrada-lhe a

192
Fátima Quintas

sensação de vivente, o relógio assegura-lhe a consistên-


cia ontológica. Benedita não relaxa a renovação da corda.
Todos os dias atentamente – com a chave própria – roda
o mecanismo dos ponteiros. Então ressurge a declinante
energia da velha senhora. Às dez horas da manhã, a cena
se reproduz com uma regularidade inviolável.
E a noite transcorre sob a ode do relógio e sob o monó-
tono alarido da cadeira. Cochila e reza. Não se deita. Dói-
lhe a coluna, e o tempo parado, anúncio da pré-morte, já
a descansa o suficiente. A chama da vela não se mexe, o
vento retrai-se contra a pesada madeira das portas. Portas
trancadas, todas, a aguardarem a chegada de Benedita.
A velha senhora desperta de um cochilo mais longo. O
silêncio se solidifica em estátuas de mármore, lisas e bran-
cas, a esboçarem nuvens no teto alto da sala. Tenta rezar.
Estremece num frio de lápide sepulcral.
Alguém bate à porta.
Curva e debilitada, precipita-se no vestido comprido,
a saia a roçar-lhe as magras coxas, a bainha desfeita, o
linho puído... Os músculos, tênues e atrofiados, se es-
forçam para alcançar os dois cadeados que defendem o
austero frontispício. Os dedos torcem e retorcem a chave
na fechadura, porém a ferrugem, decorrente de estáticas
antiguidades, bloqueia a ação circular da lingueta. Insiste.
Insiste ainda. O corpo reclama. A alma também. Aspira
ao sossego quase tumular. Desiste.
Longa noite de espera… O tempo a congelar-se na
imobilidade.
O ruído da cadeira se esvai.
O relógio emudece.
As portas se abrem.
Dez horas da manhã seguinte.
De profundis. “Pois com Iahweh está o amor, e redenção
em abundância.”

193
Stromboli
Fernando Monteiro

O avião, primeiro é um ronco, um som longínquo en-


rolado nas nuvens.
Se à noite houvesse conseguido dormir, seu ronco se-
ria um ronco assim – mas à noite não dorme, o meni-
no não dorme, ninguém aqui dorme até ir o aeroplano
vago, o avião-ronco se tornando uma coisa mais sonora e
maior, porque sua forma bojuda rompe os cúmulos e vem
na nossa direção, cresce um dragão metálico irritado e se
prepara para pousar quando já estamos lá fora.
Antes de sairmos, a mulher ou eu, na estação das chu-
vas, sempre olharemos para a mesa de mariposas, por um
motivo qualquer, relacionado com o avião e com a noite,
e por superstição que, talvez, não precise de tantas expli-
cações. E aqui devo voltar a mencionar o menino e seus
muitos talentos desenvolvidos na escuridão, um menino
cego que não pode ver os aviões, mas é o primeiro a escu-
tar a sua aproximação.
O menino pode estar atento ao outro voo – o dos inse-
tos antes da morte – mas é sempre ele que ouve o ronronar
(o ronco antes do ronco), levantando a cabeça como um
sinal para nós (porque logo depois se ouvirá claramente
o som cortando as nuvens de sombra, pesadas sobre a pe-
nínsula).
Uma única vez ele deixou de escutar: eu lhe mostrava
uma lebre negra e um lobo faminto, com os dedos das
duas mãos contra a luz da lâmpada assassina dos insetos,
e o seu ouvido foi para dentro das sombras que não po-
Fernando Monteiro

dia ver projetadas na parede. Buscava os sons, quem sabe,


que eu não sabia fazer com o meu lábio leporino feio de
se ver produzindo os sopros de deformação das palavras
sibilantes como “sassânida”, “assassino”, “sussurro”, “silí-
cio” e “açafrão”. Seja como for, ficamos ali, com receio de
que ele estivesse se retardando demais na sua sombra, não
escutando o avião da noite, fazia frio e nossa esperança
era que a noite ficasse como um borrão sem nada de avião
surgindo da irrealidade do ronco que crescia ao encontro
do hangar sem nome, que não figurava nos mapas: nós.
“Aqui estamos, menino: esse nada somos você, eu, sua
mãe e toda a sucata, todos os pedaços de coisas que estão
atrás da casa: hélices quebradas, manches, partes de asas
partidas como um coração de piloto abandonado.” Fazia
frio, eu já disse, e voltamos – porém o menino continuava
sentado como se pudesse ver a parede onde as minhas
mãos haviam animado o contorno do predador e da ví-
tima que não escapa, o animalzinho sem socorro (que a
mão desfaz na boca do lobo).
Como escapar? Como fugir do fogo antiaéreo que der-
ruba os caças e as altas esperanças dos jovens pilotos? O
que há de estranho sobre a juventude eterna dos rapazes
que pousam o capacete de couro como uma couraça dos
dançarinos do touro corcoveando entre as nuvens? Tive
vontade de perguntar ao menino silencioso, mas a falta
do avião, a parede sem manchas, tudo que era branco e
silencioso também me calou naquele instante e deixamos
que o menino saísse lentamente do seu sonho imóvel para
a imobilidade do sono.
Nem sempre é o mesmo avião. Mas o ronco é sempre
o mesmo (o ronronar, só o menino escuta). E há sempre as
mariposas mortas sobre a mesa, quando nos levantamos
para fazer os sinais com a lanterna (menos o menino, que
“vê” tudo pela janela). Ele poderia se ferir com as hélices,

195
Stromboli

topar numa pedra, ver mais do que nós, na nossa noite de


sombras se esquivando.
Lá fora, o vento enfuna o vestido da mulher, às vezes
mostra as suas meias grossas – porque a luz é voltada para
a terra, formando círculos ao redor das pernas (seríamos
alvos fáceis, se o avião fosse hostil, e não o aliado que aca-
ba de atravessar as linhas de fogo inimigo).
Uma vez eu fiquei doente e a mulher, durante uma se-
mana, fez tudo sozinha – ou quase sozinha, porque o me-
nino veio para fora nas noites dessa semana e esteve tão
perto do avião, todas as vezes, que passou semanas imerso
naqueles seus sonhos da parede, tardes inteiras, de novo
próximo do metal suado das alturas, do combustível que
forma um capote de cheiro grosso e forte em torno da-
quela coisa que atravessa a noite e que a noite também
atravessa, como uma sombra entra pela mancha da outra,
nas minhas manipulações nunca mais feitas contra a pa-
rede branca, o lobo faminto não mais devorando a lebre
trêmula que não pode escapar do fatal encanto...
Um avião de perto é tão diferente de um avião voando,
roncando, sumido no frio das nuvens rosadas por um sol
carinhoso. O menino não consegue entender, parece, que
o sol quente possa ser terno na sua luz ingênua, de alegria
pelas coisas. Nunca vi o sol contente nos olhos opacos do
menino que, no entanto, refletem a grandeza gelada das
naves e a morte das mariposas contra a lâmpada. Há rela-
ção? A fuselagem riscada, as pequenas luzes vermelhas, a
graxa em excesso, o combustível (que um aeroplano bebe
de pleno direito), o voo cego com os instrumentos de na-
vegação abandonados a si mesmos.
O menino disse – depois de eu muito perguntar, como
um professor de aldeia exigindo definições – que os a­vi­ões­
eram tristes. Os aviões, segundo ele, não eram tristes como
os insetos indecisos, ainda à volta da luz, decidindo se que-

196
Fernando Monteiro

rem ou não morrer contra o céu falso do bojo ocultando os


filamentos da luz elétrica acesa como um mortal engano
para eles. Triste, realmente triste, segundo ele, era um úni-
co inseto morto em que se podia tocar com o dedo, empur-
rando o pequeno corpo inerte da mesa limpa para o chão
sujo de farelos e folhas secas, lixo das asas queimadas e uma
ou outra pena de ave abatida pelas hélices (riscos de sangue
na fuselagem davam sinal dos choques frequentes).
“Nem o piloto está mais dentro” – foi o que ele quis
dizer, riscando na areia da praia, com seus olhos feridos,
um avião vazio que não tinha, quase, a forma dos aviões
descidos do céu, porque tudo pode se tornar desmedido
nos desenhos riscados por um cego. Não o ajudei, na-
quele dia. Dei-lhe o melhor graveto, no máximo, e com
ele o menino sulcou na areia fina, ficou ouvindo o mar
para imaginar a fortaleza voadora que ainda ficou visível
debaixo da língua espumosa da água indo e vindo sobre
o avião triste da sua cabeça de menino morto (aquela ca-
beça grande, que não espera pelo corpo para crescer) de
medo dos gafanhotos vivos quando eu os ponho na mão
dele, dizendo que são os aviões verdes da natureza, que
ele poderia esmagar com os dedos, se quisesse.
Há muitos gafanhotos neste extremo da península (o
que é estranho, considerando-se o vento e a ausência de
plantações atrativas). Não chegam a ser uma praga, nada
como no Egito, porém não são agradáveis de se ver nos
seus bandos metálicos e aguerridos, enquanto um inseto,
sozinho na sua paz de patas inamovíveis, fincadas como
um hidroavião em terra firme... isso eu tento que o meni-
no compreenda com a mão, mas ele solta o ser tranquilo,
não dá tempo que se forme a impressão no oco da palma
sensível. Também não tive muito sucesso com uma borbo-
leta na parede – exatamente onde estivera um quadro de
formato redondo, talvez um retrato solitário na casa que

197
Stromboli

nunca mais foi caiada sobre aquele carimbo de poeira e


proteção da luz... o que não me incomoda em nada, nem
à sua mãe, nem creio que deva incomodar aos pilotos que
descem como se não existíssemos, nós e o Ícaro do único
livro aqui existente (um livro de mitologia antiga, com a
bela imagem de Ícaro caindo, derrotado, a sua sombra
sobre a massa de água que o espera).
E o que esperamos, todos? A sombra dos aviões “tris-
tes”, chegando e partindo, como sombras? As sombras,
sempre apressadas, dos pilotos atrás das máscaras que não
nos olham como pessoas reais, já disse, os aviadores com
os polegares levantados, os acenos de rotina, feitos com a
elegância de aeronautas acostumados às despedidas?
Eu já disse que eles, os modernos argonautas sobre
mares de chumbo, não se incomodam conosco? Com es-
tarmos, ou não, cansados, ao menos a mulher ser frágil,
o menino deficiente (além de triste como os aviões cujo
ronco ele adivinha entre as quatro paredes apagadas da
sua noite de menino cego)?
Se o menino tivesse a visão e os pilotos fossem menos
apressados, eu lhes pediria para trazerem algum almana-
que em braile, alguma obra de generalidades menos difí-
cil do que o livro comum de mitologia que já li de cabo a
rabo, muitas vezes sem entender as confusões dos deuses
antigos, promíscuos e mais ou menos indecentes. Não seria
bom para ler, em voz alta, para um menino dado a imagi-
nações na sua solidão povoada de roncos de aviões e nossos
silêncios não de marido e de mulher – silêncio a dois –, mas
de medo dos pensamentos e das ações que a mesma soli-
dão inspire a adultos com muitas horas desocupadas para
a acídia, a preguiça do desespero. Assim, um almanaque
de qualquer tipo poderia encher horas duplas, minhas e
do menino a ser ensinado sobre outros mundos e outros
insetos, outros mares e outros vulcões marinhos e terres-

198
Fernando Monteiro

tres, evitados pelas aves que migram das geleiras para as


zonas quentes, dos invernos para as praias aprazíveis, as
cidades brancas diante de um mar de turquesa onde se pes-
ca com vara, redes e as mãos nuas nos remansos da água
de grutas azuis, cheias de ecos. Tudo maravilhas descritas
em obras geográficas de grande encanto e interesse, com
gravuras remotas e fotografias nítidas como a do vulcão
Stromboli visto por trás de um terraço de flores cinzentas:
“Le volcan de Stromboli fait partie de cet archipel auquel
on donne le nom d’îles Lipari et aussi d’îles Éoliennes ou
Vulcaniennes. C’est un groupe de petites îles, situées dans
la portion de la Méditerranée que les anciens appelaient
mer Tyrrhénienne­, comprise entre la côte occidentale de
l’Italie, la Sicile, la Corse e la Sardaigne”…
Eu pensava nisso tudo (o vulcão Stromboli fez parte da
minha infância, mesmo que pelo meio indireto de solenes
descrições lidas na solidão do quarto do castigo), quando
percebi que o menino chorava. Pensava em como seria
agradável tomar-lhe lições sobre esses e outros vulcões do
mundo, adormecidos ou ativos, quando suas lágrimas me
surpreenderam, no fim da tarde – talvez porque estivesse
cansado da solidão do lugar e da falta de lições verdadeiras,
numa escola de janelas longe do mar, dos aviões e de um
quase desconhecido, com meu lábio leporino estropiando
o belo som da palavra Stromboli, cheia de sal e cinza.
Só mais tarde – e pela boca silenciosa da sua mãe – é
que fiquei sabendo que ele chorava porque ela lhe havia
dito, no promontório onde sentamos sobre as pedras, que
todos os pilotos estavam mortos havia muito tempo, voan-
do nos aviões fantasmas que faziam aquele ronco sobre as
nossas cabeças, mas, na verdade, pousavam sem o auxílio
das lâmpadas que hoje já não levamos para fora da casa
onde, afinal, deveremos viver sozinhos para sempre.

199
Ninguém ouve os sabiás
Fernando Pessoa Ferreira

Em outubro, os sabiás estão apaixonados. Parecem


imunes a todas as formas de poluição que assolam a cida-
de e partilham sem conflito as ruas e as árvores. Os felinos
machos urinam para delimitar seus territórios. Os sabiás
machos cantam. Pode-se ouvi-los antes mesmo de o dia
amanhecer. Seus trinados são o mais confiável prenúncio
da aurora. E prosseguem incansavelmente até o cair da
noite. Mas quase ninguém lhes dá atenção.
Parei na calçada e apontei a copa de uma sibipiruna. Em
algum galho, entre a folhagem e os cachos de flores amare-
las, um sabiá-laranjeira entoava o seu canto de amor.
– Está ouvindo?
– Ouvindo o quê?
Raquel exibia uma sincera cara de espanto.
– O sabiá. Nesta época ele está em lua de mel. Ali, na-
quela árvore...
– Ah, estou descobrindo que você é meio poeta.
Meio babaca, é o que ela pensou. Mas como ainda es-
tava interessada em mim, permitiu-se uma certa ternura.
Ou então, pode ter achado que eu tentava me mostrar
romântico para impressioná-la. Não tentava. Aliás, Ra-
quel tinha menos importância para mim do que qualquer
sabiá. Nem sequer estou certo de que o nome dela era
mesmo Raquel. Acho que tinha algo a ver com o Velho
Testamento. Mas poderia ser Judith, ou Esther. Com to-
dos os agás a que tivesse direito.
Só me lembro dela quando ouço um sabiá.
Fernando Pessoa Ferreira

Às 12h13min de uma segunda-feira, Zacarias Men­


donça Carneiro, tenente-coronel reformado da Polícia
Militar, estacionou seu alquebrado Monza junto à calça-
da do Batalhão de Choque Tobias de Aguiar, na Avenida
Tiradentes. É óbvio que ali, perímetro da temida Rota, é
proibido estacionar, mas o velho oficial não se deu conta
desse detalhe. Ou fez de propósito. Mas a afronta maior
ainda estava por vir.
Dentro do carro, Zacarias, gestos calmos mas resolutos,
desfez-se do paletó de pijama, da camiseta regata, do ber-
mudão, dos tênis, das meias e até da cueca samba-canção.
Enfim, de todas as peças de sua indumentária de aposen-
tado. Arrumou tudo direitinho sobre o banco traseiro. Em
seguida, pegou um espadim, relíquia de sua formatura
como aspirante a oficial da PM, que estava no assento do
carona, zelosamente protegido por uma bainha de flane-
la. Então saiu do carro, sem se preocupar em tirar a chave
do painel e travar a porta. Espadim em punho, com garbo
de mosqueteiro do rei, dirigiu-se em largas passadas para
o portão do quartel, cujo nome homenageia a memória
do ilustre militar que fundou aquela instituição, a serviço
da qual Zacarias havia dedicado trinta e oito dos seus ses-
senta e sete anos de vida.
Foi detido antes de chegar ao portão, cujas sentinelas
certamente não o deixariam passar, pelado daquele jei-
to. Materializada não se sabe de onde, uma guarnição da
Rota, formada por um sargento, um cabo e três soldados,
interrompeu o trajeto do tenente-coronel, subjugando-o
sem dificuldade e arrastando-o com maus modos para a
traseira de um camburão que também surgira do nada.
Foi uma operação eficiente e rápida, consumada em pou-
cos segundos e facilitada pelo fato de Zacarias Carneiro,
além de velho, ser um homem pequeno e franzino.

201
Ninguém ouve os sabiás

Assim, embora a avenida, em pleno rush do meio-dia,


estivesse sempre movimentada, não foram muitas as pes-
soas que testemunharam o estranho agravo. Além do que,
a maioria delas estava impedida de divulgar o acontecido,
por força do rigoroso regulamento da corporação.
O camburão, com seu inusitado prisioneiro, embicou
pelo portão do quartel e instantes depois Zacarias foi con-
duzido, algemado, para a enfermaria. Pouco depois, sua
carteira com documentos foi encontrada entre as roupas
no banco traseiro do Monza e seus captores descobriram
que o espadachim pelado era um oficial de alta patente,
ainda que reformado. Passaram então a tratá-lo com mais
consideração, embora o conservassem algemado à cabe-
ceira de ferro de uma cama. Até esse momento e também
depois, Zacarias manteve-se calado. De sua boca saíram
apenas, ao ser dominado, alguns sopros e grunhidos.
Agora, porém, mantinha-se dignamente mudo. Mas logo
o oficial médico de plantão conseguiu entrar em contato
telefônico com sua família, a fim de discutirem o destino
que se poderia dar a ele.
Dois dias depois, quarta-feira, por volta das onze da
noite, três casais dividiam uma mesa num restaurante caro
nos Jardins. Comemoravam o retorno de uma das senho-
ras, após longa temporada de férias na Europa. Ela e o ma-
rido eram juristas muito considerados: ele desembargador
e ela advogada tributária. Os outros dois casais pertenciam
a elites equivalentes. Um cirurgião plástico e a mulher,
irmã da advogada homenageada; e um economista, ex-
deputado e agora sócio de um banco de investimentos. A
sua jovem e bonita esposa dedicava-se a obras filantrópicas
e aparecia com frequência nas colunas sociais.
Terminado o jantar, as senhoras se levantaram e foram
juntas ao toalete, onde se dedicaram à inadiável tarefa
de retocar a maquiagem. Demoraram alguns minutos e,

202
Fernando Pessoa Ferreira

depois, só duas delas voltaram à companhia dos maridos.


A terceira, a apetitosa mulher do banqueiro, Iolanda Ca-
margo Fachinardi, disse às amigas que voltaria em segui-
da. Quando o fez, estava magnificamente pelada. Tinha
seios ainda altivos e belíssimas coxas, apesar de alguns
vestígios de celulite, localizados pelas mulheres que ob-
servaram de perto a sua performance.
O marido de Iolanda, após um momento de choque,
apressou-se em tirar o paletó e envolver com ele o corpo
da mulher. Mas o tamanho do paletó era insuficiente para
esconder tudo: os seios, empinados e firmes, continuaram
de fora, conforme confidenciou mais tarde um privilegia-
do membro da plateia.
Por conta do adiantado da hora, a imprensa escrita e
falada não pôde noticiar o fato no dia seguinte. Porém,
na sexta-feira, as páginas de mexericos de alto nível dos
dois maiores jornais contaram a aventura em detalhes,
omitindo apenas os nomes da protagonista e respectivos
acompanhantes. A esta altura, porém, todos os comuni-
cadores bem informados da cidade conheciam a história
completa, acrescida, inclusive, de alguns detalhes pican-
tes, produto de suas imaginações.
A pobre Iolanda não dispunha, como o tenente-coro-
nel Zacarias, de um manto corporativo que a protegesse
das más-línguas. Mas, por sorte sua, a repercussão de seu
infortúnio foi diluída por uma sucessão de novos aconte-
cimentos. Melhor dizendo: de novos episódios de nudez
pública.
Na tarde da mesma sexta-feira em que os colunistas
contaram a história do seu strip no restaurante, uma ce-
rimônia fúnebre no crematório de Vila Alpina foi inter-
rompida quando um dos presentes, enteado do morto,
desnudou-se subitamente, sem abandonar o ar compun-
gido, apropriado àquela circunstância.

203
Ninguém ouve os sabiás

A muitos quilômetros dali, do outro lado da cidade, no


modesto bairro de Pirituba, um farmacêutico de 55 anos,
que os conhecidos tinham como homem sisudo, quase foi
linchado ao tentar aviar uma receita para duas mulheres,
mãe e filha, sem qualquer pano a lhe cobrir as vergonhas.
Acudindo aos gritos das duas, uma multidão de vizinhos e
passantes avançou sobre o coitado, que só se salvou graças
à providencial aparição de uma viatura policial, na qual
foi conduzido à delegacia mais próxima, a fim de ser au-
tuado por desacato ao pudor. Frustrados, os linchadores
aproveitaram para saquear a farmácia.
No sábado, os peladões pipocaram em toda a região
metropolitana. Somente em São Bernardo do Campo
foram registrados oito casos. O mais chocante foi, sem
dúvida, o do pastor evangélico Donizete Barreto, que in-
terrompeu a prédica, abandonou o púlpito por alguns
instantes e em seguida retornou completamente nu. Ao
tentar atravessar a massa de fiéis que lotava o templo, foi
surrado sem piedade, para que Satanás o libertasse.
– Trata-se de um caso de possessão diabólica. Os Evan-
gelhos registram vários fatos semelhantes –, sentenciou
o bispo Darcy Damasceno, superior imediato do pastor
possuído, cuja transferência para outra cidade, bem longe
dali, já estava sendo providenciada.
No domingo, a epidemia de nudez que assolava São
Paulo já se tornara notícia nacional e até internacional. A
mídia externa tratava o assunto com bom humor e outra
atitude não se poderia esperar. Mas os cariocas (sobretudo
os humoristas cariocas) exageravam no deboche. Porém,
justiça seja feita, foram seguidos nesse desrespeito pela
imprensa de diversos países.
Com a virtuosa proteção de uma tarja preta, jornais es-
portivos e televisões do mundo inteiro divulgaram a foto
do juiz de futebol que se despiu em pleno calor de uma

204
Fernando Pessoa Ferreira

partida, logo após apitar um pênalti contra o time visi-


tante. Sua Senhoria livrou-se do uniforme preto com de-
bruns cor de abóbora, da cueca, das chuteiras e das meias,
mas conservou na boca o apito, símbolo de sua autorida-
de. Esse detalhe aparecia bem nítido na fotografia que se
tornaria histórica.
A peste da nudez pública também teve efeitos positivos.
Num shopping da zona leste, um sequestro relâmpago foi
frustrado quando um dos bandidos, ao tentar sacar dinhei-
ro de um caixa-eletrônico com o cartão da vítima, repenti-
namente interrompeu sua atividade criminosa para se des-
pojar da roupa e do revólver 38 que trazia escondido. Foi
logo imobilizado pelos seguranças do shopping, que também
conseguiram prender um dos seus comparsas, atarantado
pelo surpreendente comportamento do colega.
A esse tempo, especialistas de diversos matizes e auto-
ridades de variados calibres inventavam teorias e palpites
sobre a causa do curioso surto. Uma professora doutora
em Psicologia Social atribuiu o fenômeno ao desejo repri-
mido de obter fama e sucesso. Desejo esse que também
atormenta em muitos outros lugares, mas só aqui resultou
em tamanho rebuliço. Isso ela não tentou explicar, nem
esclareceu também como pessoas tão diferentes entre si,
em termos de educação, posição social e conta bancária,
sucumbiam do mesmo modo ao vírus da nudez. Sim, pois
a coisa poderia ser provocada por um vírus, como muitos
outros desenvolvido por macacas africanas no cio, confor-
me admitiu um respeitável epidemiologista, num arroubo
de delírio.
Nas redações dos meios de comunicação, os repórteres
investigativos que foram pautados sobre o assunto deba-
tiam-se com uma dificuldade aparentemente intransponí-
vel: as vítimas do “Mal da Roupa Louca” (o apelido de
mau gosto foi inventado por um deles) já se aproximavam

205
Ninguém ouve os sabiás

de uma centena, mas todas tinham em comum o fato de


que não se lembravam do ocorrido. Não se lembravam de
absolutamente nada. Algumas até se mostraram ofendidas
ao serem interrogadas sobre o assunto. Outras achavam
que estavam sendo vítimas de uma brincadeira, só o que
variava entre elas era a duração da pane. Os repórteres
logo descobriram que isso tornava quase inútil o esforço
de entrevistá-las, numa tentativa de esclarecer o mistério.
Iolanda, por exemplo, lembrava-se de ter ido ao toa-
lete com as amigas no fim do jantar. Depois, deu-lhe um
branco, até que, novamente vestida com a ajuda delas e
de uma funcionária do restaurante, recobrou a consciên-
cia sentindo uma leve sensação de vertigem. Já o tenente-
coronel Zacarias Carneiro, conforme depoimento a seus
familiares, lembrava-se de ter tirado o carro da garagem
do prédio onde morava e depois pluf! O seu período de
amnésia foi prolongado pela injeção de tranquilizante
que lhe aplicaram na enfermaria da Rota.
O pastor Donizete, por sua vez, faturou muitos pontos
com o bispo Gonçalves ao declarar, diante das câmeras de
TV, estar convencido de que de fato havia incorporado o
Maligno:
– Quando recuperei a razão – afirmou –, sentia ainda
um calafrio me descendo pelo pescoço e a espinha. Só
podia ser o dedo de Satanás.
A maioria das pessoas ouvidas pelos institutos de pes-
quisa achava haver uma boa dose de exibicionismo naquilo
tudo. A cronista mais irônica e venenosa da imprensa local
decretou que “essa onda é macaquice de colonizados. Tirar
a roupa em público é mania de inglês”.
Várias outras explicações surgiram, destacando-se en-
tre elas:
A epidemia era provocada pelo aquecimento global.
A culpa era do FMI, ou da CIA, ou dos grupos finan-
ceiros internacionais. Ou de todos eles juntos.

206
Fernando Pessoa Ferreira

Era tudo coisa de comunista.


Era provocada pelos alimentos transgênicos.
Era consequência de uma mutação genética, acirrada
pela emissão de gases venenosos pelo escapamento dos
carros desregulados que enchiam as ruas da cidade.
Raios cósmicos provenientes de um ponto remoto da
galáxia afetavam os cérebros de pessoas mais antenadas
e danificavam as suas moleiras, foi o diagnóstico de uma
associação de ufólogos.
Os culpados eram os telefones celulares. “O uso abusi-
vo deles intoxica a mente e danifica a moleira”, pontificou
o dirigente de uma ONG conservacionista. Como justifi-
car então que o mal tivesse acometido também numerosas
pessoas que não usavam e nunca tinham usado telefones
celulares? O tenente-coronel Zacarias, por exemplo. A
principal vantagem dos teóricos idiotas é não precisar ex-
plicar suas teorias.
A mais interessante delas foi elaborada por um psica-
nalista paulista, estabelecido em Ipanema, no Rio. Segun-
do ele, tratava-se de uma reação inconsciente, mas com-
pulsiva, à carência de mar na Pauliceia:
– O subconsciente desse pessoal de repente se trans­
porta para o Arpoador, ou mesmo para Ubatuba ou outra
praia qualquer, provocando o impulso irresistível de tirar a
roupa. Ninguém vai querer nadar vestido, não é verdade?
A síndrome da falta de mar foi uma tese bem recebida
pela mídia. Impressionou sobretudo um vereador de São
Paulo que logo propôs a criação de uma comissão de alto
nível para estudar a revitalização de um projeto muito dis-
cutido em fins do século dezenove: trazer o mar serra acima,
até a capital paulista, através de um engenhoso sistema de
comportas. A proposta de criar tal comissão foi rejeitada na
Câmara Municipal por estreita margem de votos.

207
Ninguém ouve os sabiás

Por falta de mar, de belas montanhas e rios aprazí-


veis, os parcos encantos naturais da região se refugiaram
em pequenos nichos, que, em geral, ficam despercebidos.
Quando a paisagem salta aos olhos e envolve a gente num
impacto brutal, como no Rio de Janeiro e em outras raras
cidades aquinhoadas pela sorte, as pessoas não precisam
ser atentas para perceber e saborear sua beleza.
Aqui, a paisagem sobrevive nos detalhes. Sobrevive,
por exemplo, nas pitangueiras carregadas de frutinhas
avermelhadas, da safra que começa em setembro e se es-
tende até o fim de outubro, proporcionando farta refeição
para os pássaros silvestres. Elas se espalham por toda a ci-
dade, brotando em qualquer nesga de terra, mas são mais
abundantes nas encostas das vias expressas e nos cantei-
ros centrais das avenidas bem arborizadas, como a Brasil.
Mas entre os transeuntes que passam por ali, ou esperam
nos pontos de ônibus, ou ocupam os automóveis a cami-
nho do escritório ou da ponte aérea, quase ninguém tem
olhos para a discreta beleza da safra de pitangas.
Nem ouvidos para os sabiás.

Segunda-feira, uma semana após a investida do tenen-


te-coronel Zacarias contra a sede da Rota, o surto de nu-
dez pública deu sinais de arrefecer. Depois de 56 novos
casos registrados no sábado e 42 no domingo, a segunda-
feira contabilizou apenas 23, reduzidos a míseros 11 no
dia seguinte.
O enfraquecimento da crise deu lugar à nova enxurra-
da de interpretações e palpites:
Os raios cósmicos estão perdendo força, observou a
associação de ufólogos.
O FMI, a CIA e os grupos financeiros internacionais de-
ram-se por satisfeitos com o número de cobaias que conse-

208
Fernando Pessoa Ferreira

guiram colher. Mas logo farão novos experimentos, ainda


mais danosos para a nossa independência econômica.
Os comunistas, como sempre, estão mudando de táti-
ca para iludir os inocentes úteis.
A falta de mar continua angustiando a população pau-
listana. Mas só provoca reações radicais (como a de tirar a
roupa em público) numa minoria mais sensível. Minoria
que começa a se esgotar.
Sem que nenhuma dessas teorias e outras tantas ainda
mais estapafúrdias pudessem ser comprovadas, a epide-
mia de nudez se exauriu por completo em mais duas se-
manas. Um caso isolado ocorrido dias depois se revelou
uma fraude. Um homem invadiu a festinha de formatura
de um curso de corte e costura na Mooca, vestido apenas
com uma camiseta do Corinthians. Mas era só um exi-
bicionista, que já havia sido preso duas vezes antes, por
atentados semelhantes.
Logo em seguida as atenções da mídia se voltaram em
peso para um novo acontecimento: um crime bárbaro en-
volvendo uma família de classe média alta no rico bairro
do Morumbi. Ninguém mais escrevia ou lia sobre os nu-
distas compulsivos, simplesmente porque haviam desapa-
recido por completo. Até mesmo o grotesco apelido “Mal
da Roupa Louca” caiu no esquecimento, pelo desuso.
No carnaval paulistano houve ainda um breve recru-
descimento de interesse pelo assunto. Uma escola de sam-
ba incluiu uma ala de mulheres peladas em seu desfile. A
audácia pecou por falta de originalidade e a tal escola
acabou rebaixada.
É bem possível que, mais cedo ou mais tarde, algum
pesquisador mergulhe fundo na busca de novas pistas que
levem ao esclarecimento de tão esquizofrênico mistério.
Duvido que consiga.

209
Ninguém ouve os sabiás

Por minha vez, também tenho uma explicação para


aquele fenômeno, tão absurda como qualquer outra. A
esta altura, minha explicação é previsível. Acredito since-
ramente que a epidemia de nudez na Grande São Paulo
foi uma consequência da indiferença da população para
com os lampejos de puro encantamento que se escondem
nas feias dobras desta metrópole. Como, por exemplo, os
sabiás e as pitangueiras.
Estudei com cuidado o noticiário dos jornais, durante
as três semanas que durou a calamidade e mapeei a inci-
dência dos casos em todas as cidades da região. Em duas
delas, não aconteceu nenhum: Salesópolis e Santana do
Parnaíba. Não por acaso elas são oásis de sossego. Na pri-
meira, rodeada pelo verde da Mata Atlântica nas encostas
da Serra do Mar, nasce o Rio Tietê, ainda puro e transpa-
rente. Já a outra é quase uma relíquia colonial e preserva
sua memória com zelo e competência.
Não posso assegurar, mas acho que em Salesópolis e
Santana do Parnaíba as pessoas ouvem os sabiás quando
eles estão apaixonados. E notam a safra das pitangas.

210
O sonho de Ulpiano
Flávio Chaves

Nasceu impulsionado para a aventura. Gestos desassos­


se­gados, como quem procura achar o mundo. Seu andar era
uma pulsação de tigre. Soldado exemplar, integrava a guar-
da pretoriana, com muito orgulho. O sonho era tornar-se
centurião. Comandar uma milícia romana. Pertencia a uma
casta – a dos militares do Império – que detinha amplo po-
der e era aquinhoada pela admiração popular, distinguida
com privilégios e, mesmo, prestígio político.
Como era jovem, sensual, seguro, de personalidade
forte e grande amante, possuindo mulheres, tanto em
Roma quanto nos lindes dos vastos domínios romanos,
preferindo, antes de qualquer troféu ou despojo de guer-
ra, o corpo ardente e trêmulo de uma ninfeta bárbara, Jô-
nathas Célio Ulpiano desfrutava de carisma incomparável
e mesmo da admiração dos seus pares. Era um cancionei-
ro. Recitava, encantando a todos à sua volta. Trazia loas
de ternura dentro do peito.
De Célio, a colina de que herdou o nome, tinha a ma-
jestade circunspecta e a firmeza indócil. Sua vida cruza­
ria dinastias ibéricas, impérios monarquistas erguidos so-
bre mortos, alicerçados na cinza das guerras civis, e se
imiscuiria na apoteose do mal calígula: seu legado para a
história seria a dor ou o encanto vivo, a ressurreição das
pessoas no seio do amor? É a pergunta que o narrador se
atreve a jogar para o futuro deleite do leitor, cujo xadrez
de estrelas apenas começa a iluminar a trajetória do he-
rói, mártir do amor.
O sonho de Ulpiano

Íris Sépia, filha favorita do Imperador, bonita e provoca­


tiva, nos seus 16 anos frutuosos, abalava os corações dos
súditos, dos nobres, dos generais e dos senadores. Era ob-
jeto de desejo – sexual – não político de centuriões.
Era Íris um acepipe raro, rico, uma visão carnal dotada
do espírito imperial, com sangue de césares correndo ve-
locissimamente em suas veias ardentes, quase galopando
de tanto viço e beleza a derramar-se pelas vias romanas.
Ela era inquieta, curiosa, destemida, viajava deslocan-
do-se de um lugar a outro em curtas viagens ditadas pelo
cio e pelo prazer de viver. Tinha um grande mistério: ar
sagrado do silêncio.
Ulpiano, designado para compor a guarda pessoal da
filha do Imperador, em substituição ao titular que adoe-
cera, viajou com a comitiva, e vitimou-se do mais perigoso
dos males, da doença espiritual mais impactante para o
seu coração simples de soldado, egresso do povo: a pai-
xão cálida, o mal de amor, de amar a mais desejada moça
da poderosa Roma.
E começou seu doce martírio, seu sofrer solidário teve
início sem fim. Os momentos mais esperados de sua vida
eram o encontro de olhares com Íris e a troca espontânea
de lampejos, os dela, ingênuos, os dele, sedutores.
E Ulpiano vagava nas ruas solitárias da urbe noturna
procurando nas estrelas os olhos de sua amada, buscava no
silêncio da noite amuralhada pasto para seus pensamentos,
distração para o desejo e, nas linhas dos frisos magistrais
dos edifícios, os traços do resto que perdera, a imagem fu-
gida do único ápice de uma vida, seu signo e razão de viver:
Íris, a filha de Roma, da poderosa cidade que Cícero coroa
com o título de rainha das cidades, adorno do Universo.
Começou uma fase perene de sua vida em que o valor
primeiro era permanecer na guarda pessoal da filha do
Imperador em suas peregrinações por Roma e arredo-

212
Flávio Chaves

res, assegurando a seus olhos, próximos, a visão suprema,


sempre.
Usava todos os recursos, amizade, prestígio, favo-
res para não deixar de seguir a amada e isso começou a
desgastá-lo. Ficava tão óbvio seu empenho em integrar a
guarda da filha do Imperador, que os apuros apareceram
e as dificuldades em viajar, acompanhando-a, tornaram-se
excessivas, o que, exigindo pressões cada vez mais crescen-
tes e o uso de influência pessoal e militar, terminou por
tornar aparente e inevitável o desgaste, aumentando os
riscos que sua ação apaixonada criava progressivamente.
Se cresciam, os riscos maiores eram os momentos de
volúpia que uma migalha do olhar de Íris, um brilho de
sua pupila, um pêndulo de sua pálpebra, provocavam em
Ulpiano, tonto da aura de beleza e dos relâmpagos de de-
sejo. Inconscientemente bebia a estonteante mulher num
imaginoso viço e em delírio via sangrar a donzela de tanta
força e gozo abraçado a seu corpo de potranca.
Um dia, quando designado para uma missão militar –
que o beneficiaria com uma promoção e o crescimento de
sua carreira – recusou asperamente e insistiu em voltar a
compor a guarda da filha favorita do Império.
A crise gerada findou com sua prisão, por indisciplina,
desacato, suspeição por excessiva devoção ao serviço jun-
to à bela Íris. Indisciplina e ciúme derrubaram Ulpiano,
que, trancafiado, viu de sua janela presidiária a comitiva
da sua amada desaparecer no horizonte, em mais uma
viagem de recreio e alumbramento, sem que seus olhos
acompanhassem literalmente a amada. Mas o seu coração
foi moído pelas rodas da carruagem que levava a ninfeta.
O amor, a paixão, especialmente quando unilaterais,
geram uma força insuspeitável, um misto de revolta e so-
nho, de inconformação e coragem; cria um véu sobre a
razão e libera instintos primários de soberba, disposição

213
O sonho de Ulpiano

para luta, necessidade de não aceitar os dados de destino


tão ingrato que distanciava os amantes, que interrompia
o encanto e separava suas almas.
Reformaram sua sentença, triplicaram os dias de pri-
são, como resultado de sua não conformação aos fatos, de
sua insistente rebeldia ditada pelo coração.
A solidão, a cela, o silêncio, a névoa que dissipava o
rosto da amada, tudo aumentava o martírio, fazia crescer
o sofrimento, decuplicava a ânsia por Íris.
Ela voltava desse e de outros passeios, e Ulpiano sentia
crescer sua paixão, presa dos terríveis obstáculos de sua
detenção por amar e não se conformar com o desfavor
da sina.
Seus cálculos apontavam, como justo o seu ato, razoá-
vel sua ação em evitar a separação, mas a justiça e a razão
estavam contra ele e sua mágoa só não superava o amor
que sentia por Íris, mas empanava sua percepção das coi-
sas mundanas.
Vieram à memória torrentes de recordações dos dias
prisioneiros da Íris dos seus desejos, quando, junto ao seu
coche, fitava a sombra, a névoa por trás das persianas, o
traço fulgurante do rosto do seu amor ilimitado e difícil.
E lembrou-se da tarde já perdida nos desvãos do infor-
túnio em que dera a Íris de presente uma lua azul, ícone
grato a Ulpiano, fetiche, signo de seu lirismo avassalador.
Próximo à sua liberdade, já ciente de sua transferência
para distante província romana, nos limites setentrionais
do Império, Ulpiano teve uma visão esplendorosa, e du-
pla, uma no sono outra na vigília, da amante.
O sonho de Ulpiano foi róseo como o leito, sob dos-
sel de estrelas e aromas em que amava Íris – e os atos de
amor superavam qualquer outro que marcaram sua vida,
dentro e fora do sonho.
Eram transportes oníricos, arrebatamentos que só o
devaneio concede. Inflamada pelo sonho, a volúpia era

214
Flávio Chaves

como cavalos selvagens disparados ao amanhecer ou pás-


saros em revoada para guardar a noite.
A outra e decisiva visão, a manhã concedeu o cenário e
o sol dourou os decisivos acontecimentos matinais.
Íris Sépia, voluptuosa sempre, vagarosamente, em pe-
queno carro, espécie de biga, acionada por dois belíssi-
mos cavalos, transportava-se, junto aos muros da prisão,
rente à pequena janela onde Ulpiano bebia os primeiros
raios de sol.
O resoluto olhar de Íris cruzou, movido por acaso e
destino, com o faminto e frágil olhar de Ulpiano: por áti-
mos de segundos casaram-se os olhares; um, desatento,
rápido, curioso; o outro, fotográfico, minucioso, volup­
tuoso, eterno.
A visão de Íris logo se perdeu, a de Ulpiano tornou-se
suprema, pétrea, indissolúvel elo do rosto amado com seu
coração, presa de tão grandes encantos e sonhos.
Quando, por acaso, Íris soube que um membro de sua
guarda pessoal estava detido, sua curiosidade levou-a, no
começo da noite, quando retornava, a passar sob a janela
em que Ulpiano, agora, bebia o luar azul, enchendo os
olhos amorosos com a segunda lua cheia do mês, a lua
azul e estranha, e bela como Íris.
E supremo bem, divino momento, instante eterno fo-
ram-lhe concedidos, quando se repetiu a mais esplendo-
rosa de todas as encruzilhadas, o cruzamento, agora mais
sentido, do divo olhar de Íris com o extasiado de Ulpiano,
sob a lua azul acasalados.
Cruz que ele protegeria em seu peito, em cada instan-
te da sua vida desamparada, em cada martírio pelo amor
que sofrera. Aquele olhar doce e travesso para Ulpiano
seria o néctar e pássaro, liberdade e doçura.
Tirando proveito da intervenção do eu do narrador,
interponho uma reflexão, não minha, mas de Stendhal,
que se referindo à cidade eterna, onde viveu, disse: nada

215
O sonho de Ulpiano

na Terra pode comparar-se a Roma. E é essa Roma, no


apogeu do seu brilho político, artístico e urbanístico, no
azimute da fama, no auge do apogeu imperial, que serve
de cenário para os sofrimentos de Ulpiano.
Trinta e dois anos depois, na mais inóspita região do
Império, às margens do Ponto Euxino (Mar Negro), Ul-
piano morreu, desencantado, desprezado, exilado, afoga-
do por todas as mágoas do mundo, mas apaixonado como
um jovem, como o jovem que fora, e amando mais ainda a
mesma moça, a mesma jovem de sempre, a bela e distante
Íris, filha do Imperador, hoje, cercada de filhos, um deles
novo Imperador de Roma.
No exílio longínquo, Ulpiano conviveu por meses com
o poeta Ovídio, também revoltado, sozinho, que ele viu
morrer, 31 anos atrás, em leito tristíssimo.
Ulpiano morreu com os olhos brilhando mais do que
todas as estrelas juntas, com um sorriso fincado em sua
boca antiga, rodeado por aura intensa de felicidade: Ul-
piano morreu junto ao crepúsculo, sob o olhar azul da lua
e, em sua retina, estampado ou esculpido, o perene olhar
de Íris, que ele guardou eternamente, único momento fe-
liz de sua vida; como adorno, prêmio e lenitivo.

216
Rua do Encantamento
Flávio Guerra

O frei José da Aparição foi lamentavelmente um frade


vadio.
Viveu naqueles instantes ainda confusos do Recife de
fins de século XVII, quando a preocupação máxima das
ordens religiosas aqui era a catequese e o aproveitamen-
to da igreja em terra estranha, ainda sem preparo social
e moral.
Por isso, conta a doce lenda, que o frei José da Apa-
rição era um frade bem vadio, diferente dos mais, pois
gostava de passear altas horas da noite devidamente dis-
farçado, pelas ruas ainda imprecisas do velho Recife, à
procura de aventuras, divagações, novidades...
O velho bairro, na sua confusa distribuição de traves-
sas e ruas tortas e desiguais, sem calçamento e escuras,
tinha um aspecto quase selvagem, a provocar mesmo
medo e sobressaltos. A Rua da Cadeia, sua artéria mais
importante, “torcia-se toda e estreitava-se desde o Arco
da Conceição até os fundos da Igreja do Corpo Santo” e
terminava em dois becos, que abraçavam a velha igreja;
o beco da esquerda, que se alargava para o lado da Rua
dos Judeus, e o da direita, que numa curva acentuada,
desembocava no Largo do Corpo Santo, depois de abra-
çar uma rua, paralela com a Rua do Vigário.
Naquela noite, frei José disfarçara-se cuidadosamente,
como de costume, e fora dar o seu passeio. Saíra do con-
vento, na praia de Santo Antônio, tomara a ponte de ma-
deira, seguindo em direção ao outro lado da povoação. Ca-
Rua do Encantamento

minhava vagaroso, talvez absorto e vago, pensando, quem


sabe, no pecado que cometia, mas que para ele tinha, en-
tretanto, o gosto da aventura, o sabor da novidade...
Mas o que era aquilo? Que elegante e tão distinta mu-
lher, de traje tão insinuante, um pouco longe, toda que de
repente, sem que ele até aquele momento tivesse notado,
estava ali caminhando na sua frente?
Apressou os passos. O trânsito na velha ponte era qua-
se nenhum. E frei José, bem moço e vigoroso, andou mais
rápido: deu mesmo uma pequena carreira e conseguiu
aproximar-se da estranha caminhante. Passou à frente,
virando-se para olhá-la.
Oh, céus! Que bela e jovem mulher! E que delicioso
convite à aventura. Ela deixara cair discretamente o véu,
mostrando um lindo rosto e um encantador sorriso vela-
do, enquanto uma bela cabeleira negra, bem arrumada,
emoldurava-lhe a cabeça.
Depois, delicadamente virou o rosto, puxou o véu e
seguiu em direção ao bairro do Recife.
O frade diminuiu os passos e deixou-a passar. Depois
a seguiu discretamente. Empolgava-o a tentação fácil da-
quela mulher. Segui-la-ia até o infinito e saberia do seu
mistério. Conquistá-la-ia de qualquer modo...
Desceram pela Rua da Cadeia; depois tomaram a Rua
da Senzala Velha, entraram no beco dos Tanceiros e, de
lá, cruzaram novamente a Rua da Cadeia, indo atingir a
Rua do Vigário.
Compreendeu o frade que a bela mulher queria des-
pistá-lo. Mas ele estava persistente e decidido. A curiosi-
dade já o obcecava pela presença estranha daquela criatu-
ra tão distinta, sozinha, altas horas da noite, naqueles er-
mos, sem se decidir por quaisquer daqueles sobradinhos
coevos da Fernandes Vieira ou Henrique Dias, “baixos,
exíguos, de varandinhas de ferro e guarda-mãos de pau

218
Flávio Guerra

amarelo”, em frente dos quais muitas vezes diminuía os


passos, parecendo que ia entrar.
A certa altura, enfim, já perto da ponte outra vez, tomou
ela à esquerda, enveredando pela rua então conhecida como
“aquela que vai por detrás da cadeia para a ponte”. Ao che-
gar em frente a um sobrado, esguio e de dois andares, subiu
as escadas, abrindo a porta do primeiro pavimento, pene-
trando numa sala completamente às escuras.
Frei José não mais se conteve. De três em três degraus,
subiu também a escada, alcançando a bela mulher antes
que pudesse fechar a porta. Interpelou-a:
– Permite, bela e misteriosa dama, que eu entre tam-
bém?
A mulher de preto deixou cair completamente o véu,
que encobria o belo rosto e a linda cabeleira bem arruma-
da, sorriu com graça respondendo com uma voz maviosa:
– Pois não. Tenha bondade e vamos entrar...
E puxando uma cadeira de um canto ofereceu-a, en-
quanto se sentava junto.
O frade agarrou-lhe as mãos. Sentiu-as frias e trêmulas.
Beijou-as carinhosamente, interrogando-a apaixonado.
– Quem és, bela mulher? Como te chamas? Moras
aqui?
– Nada me perguntes. Aqui estou para cumprir um
destino. Não tentes passar além daquilo que a prudên-
cia manda. Recatai um pouco o entusiasmo e não pre-
cipites o que está acontecendo...
Aquilo era quase uma advertência, um aviso, ao qual,
entretanto, o outro não fez caso. Cada palavra daquela
criatura era para ele um convite, uma tentação. O perfu-
me de mulher jovem e bem tratada; o aroma que vinha
daquela cabeleira sedosa, tudo isso embriagava os senti-
dos. Não tinha mais noção do que estava acontecendo,
bem do que poderia advir.

219
Rua do Encantamento

Somente admitia que desejava loucamente aquela mis-


teriosa criatura.
– É impossível. És bela demais para se recusar o convite
dos teus lábios trêmulos, palpitantes e sequiosos, o tremor
de tuas mimosas mãozinhas, o anseio de tua sedução...
E, ato contínuo, puxou-a para junto de si, abraçando-a
desesperadamente. Seus lábios encontraram-se e um lon-
go beijo selou aquele encontro.
Frei José jamais sentira tamanho sabor, igual a tenta-
ção e desejo. Perturbou-se, inteiramente estático, embria-
gado, não podendo evitar que a desconhecida fugisse dos
seus braços.
De repente, porém, antes que pudesse se refazer da
doce emoção daquele beijo, uma coisa extraordinária
aconteceu.
A sala, misteriosa e repentinamente, ficou toda ilumi­
nada pela luz de quatro grandes tocheiros, que apareceram
ninguém sabe de onde, com os círios acesos, em volta de um
esquife, colocado bem no meio; nenhum outro móvel mais
havia, afora as duas cadeiras nas quais estiveram sentados.
Não havia mais ninguém e as portas, com exceção daquela
por onde haviam entrado, estavam todas fechadas.
Refeito do susto, concentrou sua atenção no ataúde.
Dentro dele havia o corpo de uma mulher. Aproximou-se
mais e sentiu as pernas trêmulas, a cabeça a rodar.
Morta, de lábios já roxos, pálida, de olhos semicerra-
dos e a bela cabeleira agora solta, estava ali a linda desco-
nhecida, que segundos antes beijara e de quem recebera
aquela tão estranha sensação de amor e volúpia. Trajava o
mesmo vestido preto e suas mãos, cruzadas sobre o peito,
seguravam o mesmo véu que faceiramente, por duas ve-
zes, soubera arriar do rosto.
Frei José não sentiu pavor diante da morte, mas se
abalou com o imprevisto e o horror do que estava acon-
tecendo.

220
Flávio Guerra

Foi, entretanto, seguro. Ajoelhou-se, rezando uma ora-


ção. Depois tirou do pescoço o seu relicário e pendurou-o
em um prego que viu na parede. Fechou em seguida a por-
ta lentamente, descendo as escadas. Na rua observou bem
o sobrado e, após, com passos apressados, seguiu para o
outro lado da ponte, a fim de recolher-se no convento.
Estava moralmente confundido; dos seus lábios, dos
seus sentidos, da sua imaginação não se afastava a lem-
brança daqueles trágicos instantes; a visão daquela bela
mulher, o seu sorriso encantador, aquele beijo volutuoso
e quente e, por fim, a tragédia do esquife com ela morta
dentro.
No convento não pôde mais suportar; soluçante, cheio
de horror e arrependimento, procurou mesmo à noite o
seu superior, confessando a falta cometida e sua angústia.
O velho frade-mestre escutou-o com carinho e pieda-
de, aconselhando-o:
– Vai, meu filho, faze durante o resto da noite tua pe-
nitência e pede misericórdia e perdão a Deus. Tudo não
deve ter passado de uma tentação de Satanás, através de
um sonho mau, uma visão irreal.
– Não, pai, não foi sonho, nem visão. Eu vi mesmo
aquela mulher viva. Beijei-a e depois a vi morta. Tanto
isso foi verdade que pus na sala, em um prego, o meu reli-
cário, para identificar o local. Vê, não o tenho no pescoço;
não foi, pois, um sonho...
O superior mandou-o se recolher à clausura, pois no
dia seguinte iriam pessoalmente visitar o local e verificar
o que havia.
Pela manhã, logo após as missas, frei José, seu superior
e outro irmão franciscano foram à rua indicada. Já havia
ali bastante movimento, com negros carregando açúcar,
comerciantes atarefados às portas dos seus passos, maríti-
mos e soldados em grande atividade no bairro.

221
Rua do Encantamento

Chegaram ao sobrado, indagando de um bodegueiro


estabelecido em frente, sobre quem morava ali.
– Ninguém, bom frade. Faz mais ou menos dois meses
que morreu no primeiro andar a esposa do intendente
Fagundes. Ele, desgostoso, embarcou para o Reino. De lá
pra cá, não se alugou mais o sobrado, pois o dizem mal-
assombrado.
Subiram a escada. Frei José, desta vez pálido e trê-
mulo, apontou para a porta entreaberta. Seus compa-
nheiros empurraram-na e entraram. Lá, dentro de uma
vasta sala, agora inteiramente vazia, triste e recordando
a própria morte, somente estava pendurado na parede
o relicário, posto na noite anterior, como uma testemu-
nha sagrada de sua palavra, do que acontecera. Todos
ficaram emudecidos e preocupados, entre assombrados
e até medrosos. Frei José, depois e uns instantes, sorriu
baixo, depois mais alto e por fim, gargalhou, gritando:
– Eu a vi, sim. Ela estava ali. Olhem, eu ainda a estou
vendo sorrindo pra mim, deitada dentro daquele caixão.
Misericórdia, meu Deus. Perdão. Vai-te, Satanás... Vai.
Deixa-me em paz...
Perdera a razão. A lembrança daquele trágico instan-
te não podia afastar mais do seu pensamento.
A partir daquele dia, aquela rua passou a ser conheci-
da no Velho Recife como Rua do Encantamento.

222
Crônica de uma tarde de domingo
Francisco Bandeira de Mello

Passou Glostora. Ajeitou a trunfa do cabelo e pôs a


gravata – dessas que têm um elástico e atacam atrás do
pescoço. Era vermelha com flores azuis.
Olhou-se uma vez mais no espelho. Ficou satisfeito.
Apesar das espinhas e marcas de espinhas. Apesar dos
óculos de grau.
O cabelo liso e lustroso, as sobrancelhas agressivas, o
nariz afilado, os lábios vermelhos. (“Você tem as sobrance-
lhas grossas e os lábios lindos”, dizia Anunciata, sua tia.)
Sapatos novos, calça comprida, gravata, lenço colorido
no bolso do paletó, camisa de seda, perfume, óleo no ca-
belo. Faltavam uns óculos Ray-Ban.
Pediu dinheiro.
A mãe sorriu-lhe um beijo na testa.
Ele teve certa vontade de abraçá-la, mas conteve o ges-
to infantil.
– Até!
Os sapatos rangiam um pouco e estavam apertando
nos calcanhares e nos dedos. Os calos que gritassem den-
tro dos sapatos! Sapatos lindos: tipo bateau-mouche.
Na rua, uma tarde de domingo. Ah! se as vizinhas o
vissem... Passou em frente à casa das Meireles e tocou na
campainha da casa de Jatir.
(Mas ele sentia uma cabulosa frieza na espinha; um
mal-estar, uma intensidade no estômago: seria bom que
elas o vissem e também que elas não o vissem.)
– Quebrou a panela!
Crônica de uma tarde de domingo

Era Albino, Nariz de Tucano. Ia (com Doutorzinho)


para o jogo Náutico e América. Hoje: a estreia de Manu e
Salustiano, que vieram do ABC de Natal.
– E o América vai jogar sem Vavá!
(Todo mundo, quando via Albino, brincava: – “Ora
viva, eis quem deu o vice-campeonato infantil ao Sport!...
Se não tivesse jogado, o Sport teria sido campeão”... Albi-
no estirava o dedo num gesto imoral. Mas hoje não quis
chatear com Albino nem este lhe chamou de cunhado.)
Quanto a Jatir, como sempre, ainda não estava pronto.
– “Vamos logo. É para ir a jato, Jatir.” E, enquanto
aguardava, ficou olhando o viveiro e (esperançosamente)
a janela do quarto de Margot.
Porém a irmã de Jatir já tinha saído. Ela era meio gor-
dinha e não era feia, e vivia lendo revistas do tipo Dois
Corações, Amor Jovem, Grande Hotel etc. Ele também
gostava de ler essas revistas, que Margot antigamente lhe
emprestava, mas depois passou a recusar porque o pes­
soal dizia que isso era negócio de mulher. Mas também
não era muito de ler as estórias em quadrinhos masculi-
nas – as aventuras do Príncipe Namor, Mister Flag, Capi-
tão Marvell. Nunca faria como Bino: que, de noite, toma-
va Pevertin ou outro estimulante para ler gibi. Limitava-se
a passar a vista numa ou noutra ao acaso. Ele até gostava
de Margot (uma vez a vira de combinação), mas nunca
pensara em namorá-la. Mais do que encabulado, ficava
impaciente quando, para chatear, diziam que os dois esta-
vam de namoro fixo (“Quando é o casório?”) ou quando
perguntavam coisas claramente maliciosas (“O que é que
vocês estavam fazendo no quintal?”). E até ficara cheio de
dedos quando Margot lhe mandou um bilhete propondo
namoro (“Mirinho, por que você não decide logo? Eu já
estou decidida. Amo-o”). Passara quase um mês sem ir à
casa de Jatir e nunca dera qualquer resposta.

224
Francisco Bandeira de Mello

Quando Jatir finalmente ficou pronto – chaveiro pen-


durado na algibeira e lenço branco no bolso do paletó
– pediu dinheiro a seu Antero, que esbravejou um pouco
(como sempre), mas lhe deu duas cédulas.
– Vinte pratas.
Dona Lina recomendou muito cuidado. E que, depois
do cinema, viessem direto para casa. Embora ressalvasse,
enquanto lhes obrigava a tomar um copo de leite malta-
do: – “Quando Jatir anda com você, Belmiro, eu posso fi-
car descansada”. (Seu Antero disse, francamente, que não
ia nessa conversa e gritou por sua tesourinha: – “Eu não
posso ter nada nesta casa! Aqui tudo se encanta!”.)
Saíram à rua. Era realmente uma tarde de domingo.
A rua, o rio, os jardins sorrindo; o sol vaidosamente se es-
tendia por cima dos telhados. O mês era setembro. Uma
tarde suburbana do Recife.
Evitaram pisar na areia para não sujar os sapatos. To-
caram, como sempre, na campainha da casa de Be­roaldo
(e foram embora); chatearam com a empregada velha do
casarão azul; derrubaram o lixo da casa de dona Alexan-
drina; passaram em frente à casa das Meireles; e foram
esperar o ônibus na Rua Real Bandeira.
No poste de ônibus, entre poeira e sol, vizinhos, vi-
zinhas, um ou outro desconhecido. Outras pessoas para
outros cinemas. Todo mundo em traje domingueiro: rou-
pas de tropical, gabardine, linho, tubarão; vestidos de or-
gandi bordado, cássia, algodão da Bangu. Óculos escuros.
(Mães com suas filhas, tias, primos, casais.)
Vanda e Lenita aceitaram o bigu de umas amigas que
passavam numa baratinha Ford de duas cores. Despedi-
ram-se sorrindo: – “Ciao, pobreza”.
(Jatir vira os agarrados de Vanda com Manfredo e de
Lenita com Fernando. Estes, na rede do terraço. Ele até
se deitara por cima dela! Vira pelo postigo da janela do

225
Crônica de uma tarde de domingo

apartamento, mas Manfredo mesmo contara tudo, na es-


quina, à turma toda.)
– “Macaca Prenha!”, gritou Advíncula, de uma cami-
nhonete verde international que passou caindo aos pedaços.
Ia provavelmente para Goiana, como fazia todos os domin-
gos. E Jatir ficou morto de vergonha (principalmente de
seu Vito) e disfarçou que não era com ele. Mas seu Vito
estava com a mulher e a filha Vitória, ambas de cor-de-rosa,
de toda maneira lhe fuzilou com o olhar.
Estavam em cima da hora. O suor tropical começava
a escorrer na testa, nas costas, nos braços, molhando as
camisas de jérsei, as roupas de casimira. Belmiro estava
impaciente. Consultou várias vezes o relógio de pulso que
trazia na algibeira. Dois ônibus haviam passado muito
cheios. Excepcional seria pegar um táxi: – Ritz! Chega-
rem logo. De costas para o cinema fazer o pagamento,
com um certo ar de displicência. A carteira de crocodilo.
As cédulas de dez cruzeiros novas. (Nove cruzeiros... Dar
dez: – Fique com o troco. Virar-se e ousadamente cami-
nhar para a bilheteria meio à multidão alegre e colorida
da calçada resplendente de domingo.)
Nove cruzeiros... Tomaram o ônibus. Pegaram um lu-
gar bem atrás do motorista, sentados de costa para a rua.
Defronte: ela! Era uma menina quase bonita. Linda! Cheia
de vida. De vestido quadriculado e meião. De sardas e
tranças. Olhos negros, irrequietos, maliciosos. Ombros à
mostra. Nos braços, pulseira cheia de balagandãs.
Belmiro meteu os olhos. Os olhos. Fixou tímida mas
persistentemente aquele rosto insinuante e puro. Tendo
cuidado, toda vez que ela virava o olhar para o seu lado,
de desviar o seu para não ser surpreendido. Mas às vezes
não sobrava tempo. Deixava, um fiapo de instante, que
ela surpreendesse os seus olhos meio maravilhados.
Ele estava nervoso (e uma certa vergonha de andar de
ônibus). Um cabuloso mal-estar lhe beijando a espinha. O

226
Francisco Bandeira de Mello

coração intenso, as calças fazendo vinco, os sapatos mo-


dernos. As meias de náilon. Os seus olhos medrosos e ou-
sados. As mãos cheias de silêncio e gestos.
– Tem troco pra dez? (Ela está olhando, as mulheres
são menos tímidas.) Tira a cédula da carteira de crocodilo,
reclame (brinde de Natal) de Menezes & Cia. O dinheiro
trocado põe, elegante e displicentemente, na carteira de
níquel. Pagou a sua e a de Jatir.
Ela agora o pegou em cheio. Estava olhando meio
maravilhado para ela – e, por alguns instantes, aguentou
o olhar. Ela, ao que parece, sorriu. Pura, maliciosa, lon-
ginquamente. Ele foi quem desconcertou. E odiou aquele
sangue que (um pouco) lhe subiu às faces. (“Vai achar que
sou algum maricas.”) Resolveu não olhar mais.
Belmiro só agora resolvera encará-la mais claramente.
Era, aliás, a primeira vez que mostrava um interesse direto,
de frente, por uma menina. Havia cinco meses que vinha
sonhando com aquela. Quase todo domingo a encontrava
– no ônibus, no cinema, na sorveteria. Já sabia onde ela
morava: lá para os lados da fábrica. Na Praça Dom Afonso.
Raramente, no entanto, passava por lá, seja a pé ou de bici-
cleta, pois não queria que os amigos desconfiassem de nada.
Mas, quando podia, dava uma fugida por aquelas bandas, a
pretexto de ir à feira ou ao mercado de passarinhos.
Um dia a vira na saída do colégio. A sua farda, azul e
branca, superengomada; as tranças tranquilas, negras; o
brilho tênue das sardas; a pele alva; os olhos sorrindo; o
sorriso franco e malicioso; os gestos meio discretos, meio
derramados. Sempre feminina. Quando ela o viu, olhou
com um rabo de olho e exagerou a animação da conversa
com as amigas e com os dois lambretistas de óculos Ray-
Ban. Belmiro, nesse dia, fingiu um grande desinteresse
(“com lambretistas!”) e passou ao largo, também exage-
rando, com os colegas, suas risadas e gestos. De noite foi
à casa de Margot.

227
Crônica de uma tarde de domingo

Mas nunca a tivera, como hoje, tão perto tanto tempo;


vendo até o azul de suas veias sob a pele alvíssima, suas unhas
róseas, seu trancelim, seus cílios precocemente pintados.
Ficou um pouco vexado quando Jatir, para se mostrar,
começou a falar alto, tirar brincadeiras com a cobradora,
a dizer piadas sem graça: – Aceita cheque? Tem troco para
dois morabitinos?... E com o motorista: – Nessa velocida-
de vamos chegar no fim do mês!... Pode dar uma entradi-
nha aí na casa de minha avó?...
Ficou meio desapontado quando Jatir, na saída, disse
algo indiretamente para ela (“nós vamos ao Ritz”) e ela
sorriu.
Desceram. Belmiro não teve coragem de propor (nem
achou oportuno) uma mudança de programa a Jatir,
quando viu que ela não ia descer ali do ônibus, indo pro-
vavelmente ao Plaza ou ao Art Palácio.
(Jatir, na calçada, ficou olhando e rindo ostensivamen-
te para ela, com ar conquistador, e ainda lhe deu um adeus
muito florido. Para Belmiro: – Viu a bola que ela me deu?)
Não entraram logo no cinema. Belmiro foi à esquina,
comprou chocolates e chicletes. Na verdade, relutou – fa-
ria mal à sua pele e, por outro lado, talvez comprar essas
coisas não fosse próprio de sua idade. Viu uma linda me-
nina de cor-de-rosa: Madalena. Não olhou – para ela não
pensar que ele tinha algum interesse. Era amiga de suas
primas e irmãs. Mal a cumprimentou, depois, no hall do
cinema, enquanto falava distraidamente com Jatir e Mau-
ro sobre os jogos de futebol do Rio de Janeiro.
Aliás, assim é que tratava quase todas as meninas, às
vezes muito mais velhas do que ele, para esconder o que
quase todas lhe despertavam: um vago, indeciso, começo
de paixão. Era tenuamente apaixonado por quase todas
as moças que conhecia (inclusive Madalena, inclusive Le-
nita, Voleide, Suzana, inclusive Isaura, Vera e Elza). A me-

228
Francisco Bandeira de Mello

nina do ônibus, no entanto, havia muito era a sua paixão


central, pois vivia pensando nela, imaginando coisas, mu-
dando itinerários, embora hoje estivesse meio desaponta-
do/chateado por ela ter flertado com Jatir.
Entraram no cinema.
Belmiro subiu, desceu, cumprimentou. Finalmente pôs-
se bem perto de uma conhecida. Mas a certa distância. De
costas. Que ela o visse (impecável) e também notasse o seu
alheamento. Olhou o relógio de pulso (tirou do bolso). Deu
corda. Pegou a caneta Parker 51, anotou algo imaginário
na caixa de chicletes. Foi até a primeira fila, voltou, foi de
novo. Escolheu a cadeira já escolhida e se sentou. Olhou
para trás como se estivesse procurando alguém. (– “Preciso
começar a fumar.”) Achou graça quando Jatir disse “ago-
ra estou nas nuvens”, no momento em que Zezé sentou,
fazendo um fru-fru medonho com seu vestido de organza
branco, todo rodado, e ela, voltando-se rápido, respondeu
“cuidado para não cair” e perguntou como ia Margot.
Envergonhou-se um pouco com as risadas irreprimi-
das que desperdiçou durante o desenho de Walt Disney e
num short meio pateta (“Menino e Moço”) estrelado por
Ted Roney. Depois foi a fita de caubói, mas sentia dever
resistir a todas as tentações de torcer pelo mocinho. Assis-
tiu calado como gente grande. E, vez ou outra, reprovan-
do com um pchii as piadas do amigo.
Terminada a sessão, levantou-se alheadamente. Olhou
para todos os lados e deixou que todo mundo saísse: é
que Jatir gostava de repassar as filas de cadeiras vazias
para ver se alguém esquecera alguma coisa. Nada.
Lá fora, já as primeiras sombras da saudade do fim do
domingo. Novos abraços e cumprimentos, sorrisos, pulhas,
despedidas e convites. Novos chocolates, sorvetes, ônibus,
bigus. Encontros marcados para de noite e outros dias.

229
Crônica de uma tarde de domingo

Mirinho (Belmiro!) sentia-se um general perdido em


meio a uma batalha. Quase não conversou com seus anti-
gos amigos. Despediu-se até de Jatir, que arranjara uma
carona no Pakard de Suzana, e atravessou a ponte. Reso-
lutamente. Nem deu bolas para o último páreo da regata
que o Sport ia perdendo. O vento nos seus cabelos louros,
lustrosos, penteados com Glostora. Os sapatos rangendo
e brilhando. Os calos gritando um pouco. A camisa de
seda. Uma ligeira nostalgia.
(Encontrara-a pela primeira vez na quermesse do Co-
légio Regina Coeli. Era uma pessoa diferente. De sardas
e tranças, sorriso feminino. Passara a persegui-la em so-
nhos e, mais ou menos, nas tardes de domingo. Nas ma-
tinês de cinema. Ou entre as flores e fontes do Parque
13 de Maio. Agora vinha Jatir e, sem mais nem menos,
anunciava: – Está no papo, vou esperá-la amanhã na saída
do colégio!)
Na Avenida Brasil, bem na descida da Ponte Nova,
uma caminhonete tonitroava propaganda política. Dizia
que “chegou a hora da verdade” e que “o doutor Madeira
não promete, cumpre”.
(– Quanto a mim, pensou Belmiro, sou apenas uma
pessoa que ela conhece de vista. E realmente deu bola
para Jatir. Se ele chegar primeiro, certamente vai namo-
rar com ela. Pois é sempre bem-sucedido. Mas talvez ele
prefira Selma. Ou Suzana. Ou alguma das suas amigas do
Náutico. Ele vai viajar para o Maranhão?)
Estava meio chateado com Jatir – que, muito saliente,
dá em cima de todo mundo. Nem se incomoda de levar
um fora. (“Pior para ela”, diz.) Quer sempre se mostrar.
Tirar vantagem. Levar toda vez a melhor. Dentro do seu
coração, Belmiro guardava “um direito”: reivindicava tê-la
descoberto, tê-la visto primeiro. E pensar constantemente
nela. Mas quem ela preferiria? (“Certamente Jatir.”) Uma

230
Francisco Bandeira de Mello

vez a vira escolhendo maçãs e tomates na feira e ela quase


lhe sorrira; outra vez no camarote do circo Buglione; na
porta da Sloper; na Festa da Torre (saindo do Palácio dos
Espelhos); assistindo ao trote da Escola de Engenharia.
Sábado retrasado a vira, ela jogando voleibol, com as suas
pernas lindamente mariscadas. Jogava bem. Agora se ar-
rependia redondamente de ter, para se gabar, confessado
a Jatir tudo que sabia sobre ela: sua casa de varandas na
esquina da Rua Santo Aleixo com a Praça Dom Afonso, o
colégio, a missa, o voleibol e a feirinha.
Dobrou na Praça do Riachuelo. Resolutamente. Em-
bora não soubesse propriamente que tipo de resolução to-
mara, pois o fato é que seus planos reais se limitavam em
vê-la, em olhá-la fixamente, talvez sem rodeios, em sorrir
talvez, mas é claro que não pretendia abordá-la sem mais
nem menos no meio da rua. Nem noutro lugar. A não ser
que por acaso se sentassem juntos no ônibus ou na missa
ou no cinema ou se enturmassem numa festa... Quando?
Hoje, menos comedido, deixaria transparecer claramente
alguns sinais. Guardando, porém, uma porta aberta para
qualquer recuo, se necessário. (“Talvez ela tivesse dado
bola a Jatir para mostrar simpatia pelos meus amigos ou
até para me fazer ciúme”, pensou.) Agora teria de marcar
uma posição que vinha adiando havia meses. Hoje, agora,
neste instante. (Teria?)
Procurou-a, contudo, na saída do Plaza; procurou-a na
sorveteria – ela não estava. Foi apressado ao terminal do
ônibus circular Torre-Madalena para vê-la na fila. Mas não
viu. Esperou a saída de três ônibus e nada. Desde o princí-
pio, aliás, sabendo tudo inútil. (Seis e meia!) Ajeitou outra
vez a trunfa do cabelo. Resolveu ir jantar na casa dos avós.
Foi. (Suas primas Anelise e Eliane estavam lá.) À avó, para
o aniversário, pediu umas luvas de boxe. Ao invés do vio-
lino e do livro de música que ela queria lhe dar. (Ao pai,

231
Crônica de uma tarde de domingo

quem sabe, uma bicicleta nova, de pneu balão, para pas-


sar em frente da casa dela, pois Jatir não tinha bicicleta.)
Lá sua tia Anunciata, como sempre, elogiou os seus “belos
olhos”. No que foi alegremente acompanhada pelas pri-
mas. (Bom, pediria também ao motorista do seu pai para
passarem em frente à saída do colégio dela, no seu carro
velho, mas ainda bonito. “Ao passarmos, lhe darei um sim-
pático adeus e até poderei oferecer uma carona, a ela com
as irmãs.”) Em todo caso, se ela não estiver namorando
com Jatir, esperarei pelo próximo domingo.

232
As escravas1
Francisco Julião

Chica Beque não ia. Ali, na porta da venda, fazia finca-


pé. Alguém, condoído, não dela, mas de ver o filho, Ro-
mão, um molecaço de pés de espalha-brasa, a chamá-la,
com voz humilhada, vinha ajudá-lo.
– Vai timbora, Chica. Vai curtir em casa essa danada!
Chica tinha sempre um palavrão cabeludo que provo-
cava risos. Teimava, ciscava o chão com as unhas, num ar-
rastado mole, dava um tombo, tornava a equilibrar-se, sem
apoiar-se em nada, não se sabe como. A mandureba es-
canchava-se-lhe no cangote e zombava de tudo. Chica era
assim: sisuda e calada quando não bebia, mas se molhava
a goela, ficava importuna e malcriada como os seiscentos
diabos. Os olhinhos cinzentos e inexpressivos perdiam-se
sob as pálpebras empapuçadas, e mal se notava o piscar. A
carapinha, que ela enrolava num pano encardido e esmo-
lambado, à maneira de turbante, era um ninho de piolhos.
Chica gostava dos bichinhos, das suas dentadas no casco.
Entubibada de cana, a piolhada aquietava-se, adormecia,
gozando, deliciosamente, as emanações que subiam à ca-
beça de Chica e se destilavam no suor. A cara de Chica, de
um preto cinzento e sem brilho, amarfanhada, como uma
fazenda que desbotou ao sol, abriu-se num sorriso de den-
tes agudos, sujos, de gengivas cor de chocolate. Toda ela

1
Título original: As escravas e filhas de escravas que, à semelhan­ça do
milagre bíblico, transformaram cachaça em leite, para alimentar os seus se-
nhores.
As escravas

era uma máscara que não exprimia dor nem cinismo, mas
antes indiferença e desprezo. Magra, de cotovelos agudos,
sem vestígios dos seios, as canelas secas, duras, as mãos
calosas e grandes, os pés zambetas, Chica ia arrastando o
seu fardo, sem queixa. A vida, para ela, resumia-se num
copinho de “suor de cana torta”, desde que acertou com
a venda e se deixou arrastar, seduzida, sem forças, pelo
primeiro trago. Essa paixão pela “sinhazinha”, como cha-
mava ela, com ternura, começou na mesma noite em que
perdeu Neco Beque. Chica ainda estava taluda, cheia de
corpo, de peitaria robusta, capaz de tirar uma “conta” no
cabo da enxada, de uma vez, sem arriar.
Quando Neco trouxe Chica pelo braço da matriz de
Queimadas, onde o reverendo Serafim os unira, com a ne-
gralhada a segui-los e a dar vivas, ninguém pensaria que a
pobre por dentro vinha chorando. O remorso, como um
cupim, roía o seu coração desde o momento em que os dois
se levantaram do altar. Que iria acontecer quando Neco
soubesse de tudo? Matá-la, não mataria. O negro era man-
so, sem bravata. Mas poderia entregá-la aos pais, encher o
eito, o mundo todo: “Ela me enganou. Não tava inteira”.
Seria o diabo. Os pais não a receberiam mais, os irmãos
também. Ela teria de deixar aquela terra, de arranjar um
homem, de ficar conhecida... Chica tinha-se deixado levar
por um mulato de sorriso dengoso, de voz quieta, de gestos
lentos, preguiçosos. Fora um feitiço, uma zelação que lhe
passou na vista. Ela viu o caiana, ficou presa como passa-
rinho no visgo, seguiu-o fascinada, deixou-se envolver nos
seus braços, ficou embriagada com o seu cheiro. Agora,
quando Chica se lembrava dele, tinha uns laivos de tristeza
na voz, no pergaminho do rosto, uma nesga de saudade.
– Como era ele, Chica?
Ela sorria e repetia sempre a mesma coisa.
– Ele era assim cuma aguardente de cabeça. Tinha o
cheiro da “virge” quando sai do alambique.

234
Francisco Julião

O mulato era violeiro. Não tinha pouso. Dentro daque-


la viola ele carregava o coração de quanta negrinha, quanta
mulata sarará e uma ou outra branca, de cabelo estirado,
cruzassem sem querer o seu caminho. Ela também foi na
enxurrada... Foi contente, feliz, até o dia em que viu partir
o safado com as cordas da sua viola ainda úmidas das suas
lágrimas. E Chica despertou, quis segui-lo, perdeu a cora-
gem, tomou-se de medo de ficar perdida. E ficou... Ficou
mesmo sem ir atrás daquele demônio. Não mais o viu, não
mais teve notícias dele. Era preciso machucar aquela sauda-
de, apagar aquela chama. Era preciso esquecer. E danou-se
a sambar. De retraída que fora, surgiu de repente de pés
irre­quietos, de ancas buliçosas, um cravo no cabelo, jogan-
do umbigadas, despertando as energias em toda a sua bru-
talidade, gozando e sofrendo. Foi numa dessas umbigadas
que ela viu os olhos gulosos com que Neco Beque a devo-
rava. Aceitou o desafio, por desabafo, por vingança, como
se assim pudesse desforrar-se do outro que se fora. Enga-
nou a si mesma, pondo um emplastro por cima das feridas,
numa tentativa inútil de estrangular o bicho que fizera nela
a sua toca... De noite, queimada pela febre, com falta de ar,
sentindo o cheiro ativo das próprias carnes, esgueirava-se,
silenciosa, até a porta do copiar, abria-a sem fazer baru-
lho e ia refrescar-se com o hálito que vinha dos canaviais.
Aquele murmurejo tinha qualquer coisa de parecido com
os soluços da viola do seu ingrato. Aquelas estrelas tão dis-
tantes fascinavam-na como se fossem os olhos dele. A noite
mal iluminada, com um resto de lua se acabando por trás
dos pindaís da serra, até a noite parecia o diogo do mulato,
macio, dengoso, chorando de mentira perto dela. E quan-
do dava fé, Chica ia vagando ao léu, falando baixinho para
uma sombra que ela sentia no seu pé.
Foi assim que foi pedida. Foi assim que se casou.
E quando se viu a sós com Beque, tendo de aceitar os
seus carinhos, tendo de justificar-se depois que ele notas-

235
As escravas

se tudo, deu-lhe uma veneta, uma vontade de maltratá-lo,


desse no que desse.
– Nego besta, você não sabia que eu estava desgraça-
da?
Beque não sabia de nada. O diabo é que ele experi-
mentava uma alegria secreta com os modos bruscos com
que Chica o tratava. Foi-se habituando aos seus maus-tra-
tos, às suas respostas. Fora-se deixando vencer por ela, a
ponto de temê-la, de adorá-la.
– Eu sabia…
Neco Beque relaxou-se.
– Pois é... Tou desgraçada. Se quiser, é desse jeito...
Ele pensou que ela pudesse abandoná-lo.
– Ora, Chica, eu te quero assim mesmo…
Foi pior para Chica. O remorso que lhe roía o peito
transformou-se em raiva. Ela esperava uma cena violenta.
Ela queria o escândalo. Quem a desgraçou? Todos que-
riam saber. Chica gostaria de dizer, contristada, mas, no
íntimo, banhada de orgulho, que fora o mulato violeiro.
Os homens invejariam o violeiro porque ela era enxuta e
nova. As pareceiras invejariam Chica. Falariam dela…
Mas tudo findou como findou. Neco Beque virou um
molambo nas mãos dela. Sua raiva por ele foi-se afogan-
do, com o tempo, na indiferença. Houve filhos. Mas, en-
quanto se mostrava contente, Chica vivia oca...
Tratou, ela mesma, de espalhar a sua desgraça. Neco
Beque, no começo, não sentiu aquilo, mas depois que o
povo começou a dar com a língua o negro foi perdendo o
gosto da vida. E deu para tomar uns tragos... Chica che-
gou a ameaçá-lo de abandono, mas ele não deixou a tro-
aca. Também não durou muito a paixão de Beque. Num
dia de domingo, de tardezinha, entubibou-se na porta da
venda junto com dois companheiros. Zé Grosso, um de-
les, com fama de valentão, cochichou qualquer coisa no
ouvido do negro. Beque ainda perguntou:

236
Francisco Julião

– É sério ou é conversa de bebo?


Zé Grosso bateu no balcão.
– Bebo, não! Quem tá bebo é você.
– Pois tá certo. É nói doi... seu cuia.
– Se eu sou cuia, você é gaiudo…
Beque ia replicar quando ouviu uma gargalhada explo­
dindo de todas as bocas. Ainda pôde pensar consigo: “Tô
perdido”. Avançou pra Zé Grosso, atracaram-se os dois.
Houve uma estupefação ante o seu gesto. Neco era man-
so. Quiseram apartar.
– Bobage! Briga de bebo. Não tem o que vê...
Mas luziu uma quicé. Não. Era um punhal. Os dois
tinham rolado de calçada abaixo. Neco agarrou no pulso
de Zé Grosso. Quis tomar-lhe o ferro. Sentiu que lhe falta-
vam as forças. Zé Grosso ia furá-lo. Neco gritou:
– Zé Grosso, me fura!
Um terceiro acudiu, tomou o punhal de Zé Grosso,
apartou os dois. Todos agora queriam conciliar. Alguém
recomendou:
– Bota essa gente no caminho.
Um sujeito mais jeitoso quis juntá-los. Neco entregou-
se, aceitou o convite, quase chorando, amolecido. Chegou
a comentar: “Zé Grosso é do peito”. O outro embirrou,
mas cedeu, e, agitado como um galo de raça, pediu fosse
selado o ajuste com um trago. Travou-se uma porfia.
– Venha de lá...
– Você, primeiro...
Tá certo. Eu bebo, mas sou é home...
Tomou o trago de uma vez, bateu com o copo no bal-
cão, fez uma careta, cusparou no chão, aos pés do outro.
O demônio estava nele. Gritou pra Neco:
– Conheça, nego...
Neco não chegou a emborcar o copo. Tornou a par-
tir. Agora podiam brigar. Não tinham armas. Rolaram de
novo.

237
As escravas

– Aqueta, gente!
– Manda chamar o inspetor.
– Deixe os “meninos” brincar; pediu um velhote cabe-
ludo que mal se mexia de seu canto.
Sem que ninguém pudesse acreditar, viu-se, num re-
pente, Zé Grosso desembaraçar-se de Neco e empinar de
rampa abaixo. Neco seguiu-lhe atrás a gritar-lhe “Cuia,
caco…”, quando o outro se agachou, deu de garra de
uma pedra e descarregou-a com toda a força na cabeça
de Neco. O negro deu um urro, andou dois passos e caiu
como um molambo velho. Zé Grosso avançou outra vez
para a pedra, mas antes que pudesse esmigalhar o negro,
foi desarmado e preso. Zé Grosso começou a chorar como
um menino quando espiou e viu Neco estrebuchando com
a cara lavada de sangue. Quiseram destampar a cabeça de
Zé Grosso com um tiro. Houve interferência de todo lado.
Zé Grosso foi pendurado pelos braços numa gameleira, e
quando o inspetor chegou, já estava de munhecas incha-
das e sem forças para pedir misericórdia.
Neco seguiu num banguê pra casa. A pedra destambo-
cou a cabeça de Beque, do miolo aparecer, espumando no
sangue. Não deu mais sinal de vida. Juntou gente pra re-
zar na casa do turuna. Chica não sentiu grande dor. Neco
guardava na camarinha um cabaço cheiinho de mandure-
ba para as eventualidades.
Chica distribuiu a droga com os presentes. Todos fi-
caram tocados. Ela encheu-se também para afogar a má-
goa. Pelas tantas, quando estava aos tombos, abraçou-se
chorando ao cadáver de Neco, arrependida de tudo o que
fizera com ele.
A madrugada veio encontrar toda aquela gente entu-
bibada de cana, rouca de berrar rezas macabras, terríveis,
por entre goles e mais goles de truaca. Quando a rede
saiu, Chica não viu. Dormia como um tronco. Mas os mo-

238
Francisco Julião

leques, de olhos espantados, espiavam para aquilo tudo,


ainda mal desfeitos.
– Pronde vão levar pai?
Uma negra velha, de braços cansados de pegar nos
meninos dos outros, enrolou os negrinhos na saia e disse
apontando para o céu onde ainda havia uma estrela se
apagando:
– Ele vai praquele canto.
Chica só guardou de toda aquela tragédia uma grata
recordação: a cachaça. Neco tinha razão: não era tão má
a mulatinha. Sabia fazer cócegas de goela abaixo: tinha
umas carícias quentes, batia no bucho, tornava a subir e
ficava o tempo todo na cabeça. Chica precisava esquecer.
Não era Neco. Não era o outro. Não era nada. Foram-
lhe perdoando as carraspanas. Ela tinha precisão daquilo.
Depois voltaria ao que era. Mas não voltou. Chica tomou-
se de uns amores por sinhazinha, e todo o tempo em que
podia era pra amá-la.
– Deixa disso, Chica.
– Tou puigando os pecado…
Neco deixara algumas economias. Ela reduziu tudo
a cana. Fez-se sujeita do destilador do engenho só para
afogar o vício. Todos os dias, o velhote, que não tocava
naquela perdição, levava, com a boquinha da noite, uma
garrafinha cheia pelo gogó. O destilador era um artis-
ta que já sabia calcular pelo cheiro o grau da pechincha.
Apostava e ganhava sempre. O homem tinha um faro de
cachorro. Chica só queria dele a preciosa. Em troca, dava-
lhe os seus afagos violentos, alucinados. Mas descobriram
o segredo daquela união. O destilador recebeu as contas e
não quis levar Chica consigo. Sumiu. Chica chorou aquela
perda como se fosse um fim de mundo.
Esperou pelo outro destilador, mas perdeu o tempo
dela. Por fim, no auge do desespero, deu pra furtar, pra

239
As escravas

pedir. Mendigou pelos caminhos, enamorada da mais re-


pelente criatura que levasse debaixo do braço uma gar-
rafa cheia de imaculada. Os moleques foram crescendo,
foram tomando conta da casa. Davam a sujeição no eito,
garantiam a morada. Tinham pena da negra, mas não se
opunham a que ela se embriagasse. Da primeira vez que
o fizeram, Chica teve um ataque que a pôs como louca, de
olhos esbugalhados, de boca espumosa, com a saliva gros-
sa. Viram-na correr doida, praguejando, aos gritos, por
um trago. Deixaram-na de mão. Chica deu pra vagabun-
da. Ia às feiras, goderava nas portas das vendas, deixava-se
escravizar até por um mendigo que lhe garantisse o copo
de cada dia, fazia as tarefas mais repugnantes, contanto
que matasse a sede que lhe consumia o corpo todo...
Um dia, ela não voltou da feira. Esperaram pelo outro
dia. Ela não veio. Os moleques, alarmados, deram uma
busca. Ninguém soube dar seu paradeiro. Voltaram tristes.
Não teriam mais com quem lidar pelas portas das ven-
das, pelos botequins das novenas, pelos caminhos, quando
havia luar, ou mesmo em noites escuras como breu, com
o céu desmanchando-se em água, com a lama escorrega-
dia e pegajosa onde Chica se esparramava e de onde, feliz
como uma porca, não queria mais sair. Houve ainda quem
desse dela uma outra notícia vaga, incerta, distante. Tinha
sido vista esmolando na feira do Surubim. Andava para os
lados das Vertentes. Descera num caminhão, de mãos ata-
das, furiosa como um cão danado, de carapinha desgre-
nhada, de sorriso idiota, aos berros, para o asilo. Sumira
para sempre. Ninguém soube mais dar notícia de Chica.

240
Josias e a Imperatriz
Gastão de Holanda

Josias plantou-se à beira da calçada, ao lado de uma


negra que se benzia a toda hora, e de cujas mãos pendia
um rosário de contas negras. Aguardavam ansiosamente
que a procissão despontasse como um caudal. A multidão
estava inquieta e os sinos repicavam festivamente. Falava-
se, gritava-se, enquanto os inspetores, de apito na boca,
acabavam de desviar o tráfego, com gestos apocalípticos,
como se quisessem transformar a rua comercial numa es-
trada evangélica. Todo o mundo se acotovelava à beira
das calçadas, rezando, gritando, rindo, sem a compostura
que exigia o santo feriado.
Josias esperava encontrar a Imperatriz, identificá-la
na multidão dos fiéis. O sino gigantesco tinia nos seus ou-
vidos tão sensíveis às melodias apaziguadoras da noite. O
sino largava o balado bem na cabeça de Josias, que olhou
para a torre da igreja e viu quando o bicho apareceu do-
brando, desapareceu em seguida, para inundar o espaço
vespertino com o ribombar de um trovão. Era um sino do
tamanho daquela porta imensa, pesadona, que daria pau
para construir um armazém. De vez em quando Josias re-
cebia uma cotovelada da velha rezadora. As mulatinhas
que lhe chegavam aos calcanhares, cheirando a brilhan-
tina empurravam Josias docemente, até que ele perdia o
equilíbrio e descia a calçada. O calor subia, o suor empa-
pava a camisa preta, de listras amarelas e brilhantes. A
procissão ainda não havia aparecido na ponta da rua e já
gritavam lá detrás, como se Josias estivesse num cinema:
Josias e a Imperatriz

– Tira o chapéu, quizila!


Ele amarfanhou o chapéu de abas largas. Tudo iria
bem se ele descobrisse a Imperatriz naquele mundo de
gente maluca. As mulatinhas xingavam as pessoas que
disputavam um lugar melhor na rua santificada. O cheiro
de cravo, forte, persistente, misturado à catinga do suor,
vinha não se sabe de onde, enjoava Josias, já atordoado
com as cotoveladas e o ribombar do sino.
A sirena das motocicletas silenciou a multidão que se
comprimia nas calçadas. Logo depois, surgiu o estandarte
purpúreo da altura de um sobrado, que tapou a entrada
da rua, quase atingindo a fiação elétrica. A seta dourada
do mastro parecia querer atingir as nuvens e o puríssimo
azul. Um homem alto e pálido como um sírio, transporta-
va a preciosa bandeira com a afobação de um predestina-
do. Quando repousava, tirava de sob a bata púrpura um
lenço branco, enxugava a testa enrugada pelo orgulho e
consultava os quatro irmãos que estavam ligados à ban-
deira por um cordel dourado.
Josias murmurou:
– Só pode ser um veado.
Ele sabia que as porretadas cantavam como se sua ca-
beça fosse o bronze de um sino. Mas a Imperatriz não tar-
daria a aparecer. Surgiram as Irmandades, cada qual com
o seu hábito, a sua contrição e o seu hino piedoso. Tudo
olhando para frente ou para o céu. As vozes delicadas e
juvenis misturavam-se aos guinchos das velhas. Entre os
dois cordões, marchava um bando de anjos sorridentes,
o azul e o branco do céu nas asas, uma festa de plumas
e lantejoulas. O céu desfilava na frente de Josias, que só
tinha olhos para o ideal de sua mulata. Ela disse que gos-
taria de desfilar com uma fantasia daquelas, só por farra.
Pelo visto, não conseguiu. O desfile prosseguia... Se não
conseguiu a roupa de anjo, pelo menos viria acompanha-
do de promessa, aquela extravagância.

242
Gastão de Holanda

Passou o andor, carregado pelas autoridades munici-


pais e líderes católicos, que gemiam sob o peso da ima-
gem. Mal se via a escultura cambaleante do Cristo, sufo-
cado pela floresta de lírios brancos e orquídeas roxas. Do
gigantesco ramalhete confeccionado por mãos piedosas,
só emergia a sofrida cabeça coroada de espinhos e o sa-
grado lenho que apontava o céu como uma advertência.
Até que o pálio também dobrou a esquina. O incen-
so inundou o ar viciado da rua e Josias tossiu de raiva,
porque a multidão que se acumulara atrás do sobrecéu
eliminaria qualquer possibilidade de encontro com a Im-
peratriz. A multidão roncava abafando os compassos mu-
sicais da banda militar. Aproximou-se como uma torrente
esmagadora, indomável.
O padre, todo dourado e circunspecto, carregava a sua
custódia, indiferente ao furor da crença popular. Entre
recreio e fé, um homem alto, que cobria o peito com o
chapéu, foi identificado como sendo o governador. Josias
parecia boiar entre ondas de humana consistência.
– Ajoelha, peste!
Neste momento, Josias distinguiu a cabeça da Impera-
triz, logo atrás da orquestra. Então sentiu dois braços de
mulher que o cingiram pela cintura.
– Me larga, peste!
– Se eu não te agarro, eles me atropelam – disse a mu-
latinha.
Josias deu um safanão na mulatinha, que não caiu por-
que não havia espaço livre. Ele gritou, mas foi arrastado,
misteriosamente ajoelhado, como quem afunda, voltou à
tona num esforço tremendo, vislumbrou novamente a ca-
beleira familiar que se afastava e outra vez foi envolvido
pela impetuosa torrente. Deixou no ar um grito rouco e um
gesto desesperado, que não atingiram o objetivo. Quando
emergiu, a onda tinha passado, carregado a Imperatriz e
a rua esvaziou-se por encanto. Procurou a mulatinha para

243
Josias e a Imperatriz

lhe dar um pontapé na ilharga, mas até ela se havia escoa-


do, com o povo que se comprimia nas calçadas.
Josias encontrou-se desolado, arrimado a uma árvo-
re, o sino baixando o balado na sua cabeça descoberta e
úmida, o chapéu amassado entre os dedos. Era a imagem
da desolação e da descrença. Por algum tempo cultivou o
seu ódio, praguejou, acendeu um cigarro amarrotado. Ele
ficava no remanso, enquanto se ia a Imperatriz levada por
aquele mundo de incenso e música de enterro, sorrindo,
apalpada pelos beatos, com o mesmo estado de espírito
com que se acompanhava uma troça carnavalesca.
– Peste! – exclamou.
Passada aquela espécie de naufrágio, que o fez perder
a mulher, descansou num bar até que a noite chegou. As
pensões do bairro começaram a escancarar as janelas e da
rua se viam as bandeirinhas cortadas em M, que enfeita-
vam os tetos. Passou na Gruta do Pitu, já noite profunda.
Subiu também, ali, pela escadinha de degraus corroídos.
– Tem alguém no salão?
– Tem sim, meu filho.
A luz espantou a mulher que dormitava sobre a única
mesa da acanhada peça.
– Pensando na vida, minha filha?
A mulher não respondeu e saiu ofuscada pela clarida-
de. A paisagem exterior, torres de igrejas e uma infinidade
de pequenos telhados, onde o musgo e os detritos compu-
nham uma cor indefinida, entristeceu Josias. Ao alcance
da vista, só os telhadinhos remendados e as cumeeiras.
Canos, respiradores, antenas, surgiam e mal se sustenta-
vam nas vigas carcomidas ou na alegria das mulheres. Por
detrás dos telhados estava o mar. Josias sentiu o cheiro da
salmoura. Na brisa suave procurou descobrir o paradeiro
da Imperatriz. “Mato-a” – exclamou.
Entravam os primeiros fregueses.

244
Gastão de Holanda

– Como é que você se chama?


– Sônia Pereira de Carvalho
Toma uma cervejinha aqui com a gente.
– Você usa saia demais.
– Menos a verdade. Veja isto!
Foi quando Josias não suportou mais o pantim daque-
las mulheres e desceu. Os amigos convidaram-no para
jantar. Não aceitou logo.
– Não tenho apetite.
– A mulher te mata, Josias. Alimenta essa caveira.
– Ora, você não me compreende.
– Mas venha sempre.
– Volto já.
Ainda perambulou por algumas horas. Cruzou alguns
jardins, onde as canas-da-índia floriam nas várias tonali-
dades do vermelho. Marginou o rio, atravessou as pontes
sem perturbar o sono dos vagabundos. Lembrou-se da
mãe costurando em Brasília Teimosa e apanhando maris-
co na lama do Capibaribe, com as suas vizinhas armadas
de latas e uma multidão de crianças. E pelo amor penava.
Voltou ao bairro. Nas portas dos armazéns de miudezas,
os rapazes haviam deixado para os turcos a cerveja des-
tilada. A escura mancha de urina descia a porta, calçada
abaixo. Um ou outro guarda-noturno cruzava a rua, sem
dar ouvido ao discurso dos bêbedos.
Aí Josias lembrou-se do primeiro dia. Dia terno, outo-
nal. As cigarras não cantavam mais quando ele viu a Impe-
ratriz pela primeira vez. Os oitizeiros do arrabalde come-
çavam a perder a velha folhagem. A Imperatriz tinha ido
visitar a sua mãe. Ele se lembra da camada de lodo avelu-
dado, um verde luminoso da árvore, que manchou o ves-
tido da amante. A Imperatriz vinha ressuscitar a própria
natureza, com um passe de mágica que Josias ainda não o
conhecia. Pegaram na conversa na parada do ônibus.

245
Josias e a Imperatriz

– Ora, você não me compreende – disse ela, depois de


algum tempo.
Resolveram ir andando na tarde outonal, margeando
a várzea do crespo Capibaribe. O vento atapetava as ruas
com folhas mortas. Passaram pelo museu quando a intimi-
dade ia adiantada. Nunca havia entrado num museu.
– Vamos ver o que é isso – pediu ela.
– Velharias.
– Vamos ver assim mesmo. Não tenho pressa.
Entraram sob o olhar suspeitoso do guarda. E come-
çaram a circular entre os cristais do Império, entre paisa-
gens de pintores mortos. O guarda abandonou-os. Eles
subiram. Aí já estavam de mãos dadas. Josias recorda. De-
ram com um quadro da altura de uma parede.
– Quem é aquela?
– Deve ser a Imperatriz. Você tem o mesmo penteado.
Ela sorriu vaidosa. O silêncio tomava conta do museu.
Nem sombra do guarda ou inquisidor funcionário. Josias
tomou-a pela mão e, levantando o cordel que defendia a
mobília imperial, sentou-se com ela no sofá.
– Esse sofá não aguenta. E além do mais parece o sofá
do Imperador.
Mas obedeceu, trêmula. Abraçaram-se.
– Nem te conheço direito...
O vento passava entre os prismas de cristal que pen-
diam do teto e uma doce música espalhava-se pela sala
reluzente. As fisionomias carrancudas dos retratos eram
um protesto contra a profanação da história. Dois desa-
justados atracados sob as bochechas de dom João VI. O
sofá estalava nas suas perninhas finas. O estofo dourado
cedia ao movimento dos jovens amantes. Depois voltaram
a ouvir a música dos cristais.
Ainda deram uma volta pelo jardim, pisando os grave-
tos e as folhas secas.

246
Gastão de Holanda

– Agora me leva ao cilembra.


Josias entendeu que a Imperatriz gostava de cinema.
E até hoje não larga a mulher. Faz sua ronda, visita os
mesmos lugares noturnos, janta com os amigos e retoma
a noite nas mãos...
O pátio de São Pedro, antiga sesmaria recifense, dian-
te de Josias e dos seus amigos, parece uma velha horta de
pedra. O lajedo baço é o jardim dos sobradinhos de vidra-
ça batida, que parecem acanhados com a autoridade da
igreja barroca. Josias continua de mau humor. Pensa em
derrubar todo aquele pátio noturno, de silenciosos covis,
sem saber que desvendará a velha Irmandade de hábito
púrpura, que deliberava no tempo dos vice-reis, que cons-
truía os templos, e hoje lidera as procissões. Tantos anos
se passaram para que o tempo nascesse aos poucos, ma-
jestosa gameleira que extinguiu um século para construir
a sua sombra. De uma antiga horta plantada na Rua das
Águas Verdes. Gameleira de pedra, que cresceu augusta
e lenta, até projetar o seu campanário ao sul do pátio,
diante de uma horta de pequenos sobrados enrugados.
Cornijas desgastadas pelo tempo, miúdo comércio, irre-
verente boemia.
O moço blasfema como se quisesse atingir a Irman-
dade sepultada sob as lajes do templo. Sente a carne de
sol roncando no estômago, ronco de boi seco, secando
espetado nas varas de Araripina. Pensa na sua Imperatriz.
A mulher caprichosa que vive a escamotear-se entre os
homens do bairro e a paisagem do Recife.
– Isso é a melhor brincadeira do mundo, não é, meu
filho? Agora me leva ao cilembra.
Quando ela desaparece, como agora, a vida de Josias
é um langor de séculos e o seu desejo voa para a Rua das
Águas Verdes, ou beco, estreita e equilibrada por milagre.
O desejo voa, Josias atrás dele, para as margens relva-

247
Josias e a Imperatriz

das do Capibaribe, onde a Imperatriz costuma passear de


braço dado com suas amigas. A predileção até aí é uma
norma. Entre os anúncios luminosos, se escolhe, se mede
o corpo que desfila à margem do rio, aí se encontra o
sorriso do adolescente e a oferta. Aí o amor é disponível,
oferta e procura, entre os bancos de pedra e o apaziguar
da corrente iluminada, o mel da noite.
No pátio, um hálito quente se eleva das pedras. Diante
dos três rapazes, os copos de cerveja esperam, murchan-
do a espuma.
– Como fez calor na rua – disse Laudelino, descorti-
nando a sua dentadura panorâmica. Um sorriso que é o
abrir de um pano, um cenário.
– Cheguei em casa fedendo a queimado – falou o ama-
relo Gumercindo, autor do samba “Véu e capela”.
– Afinal, vocês vão ficar bochornando? – perguntou
Josias. – Eu não sou boneco de exposição. Dou o fora.
– Acaba pelo menos a cerveja.
– Vocês não me compreendem.
Josias só pensava na Imperatriz. Depois da procissão,
devia estar acuada em algum canto da cidade, olhando o
tempo com os seus olhos noturnos e os homens cercando.
A mulher tinha de um tudo em seu mistério, mas valia a
pena, pois se destacava das outras em corpo e linhagem.
Gumercindo cantarolou:
“Lalá casou de véu e capela,/ Como qualquer moça sol-
teira”.
– Vocês ficam? – perguntou Josias.
– Fica-se pensando numa saída, sem briga. Não pinga
nada?
– Ora, vocês não me compreendem.
Farejou a Academia da Rua das Hortas. Não paravam
nunca, as mulheres da Academia. Uma contradança atrás
de outra contradança. Encontrou-se com Narciso, o ve-

248
Gastão de Holanda

lho que bailava horas a fio e que gastava o salário inteiro


de mestre de obras, dançando. Quando Narciso vinha à
mesa para refrescar-se no lenço perfumado ou no copo de
cerveja, de costas para o ventilador, continuava a marcar
o passo com os seus passos e com os ombros musculosos.
Solfejava frequentemente.
– Construo casa de dia e danço de noite. Aceita uma
cervejinha?
– Com prazer. Viu por acaso a Imperatriz?
– Nem sombra até aqui – disse o velho, tomando o seu
gole.
Para não pensar em se matar, depois de matar a Im-
peratriz, Josias tomou uma dama nos braços e arrastou-se
com algum estilo.
– A que horas vai ser, filhinha?
– Somente às três. Seu Aníbal não deixa a gente sair
antes. Você sabe.
– Também essa orquestra nunca para. Chega dá um
zumbido no ouvido da gente. Ainda estou zonzo com o
sino da procissão.
– Você é católico?
– Sou.
– Acredita em inferno?
– Acredito. Mas vamos conversar sentados.
– Seu Aníbal não quer. Só quando morre uma da gen-
te, ele manda fazer cinco minutos de silêncio. Depois, a
orquestra toca para frente.
– Quer dizer que não adianta lágrima?
– Um homem desse é que merece o inferno.
– Acredito.
Josias tomou cerveja nas costas do velho Narciso e saiu
com a nova amiga pela mão. Lancharam num boteco, ele
pagou as despesas. Desceram a Rua Direita. Subiram as
escadas de um pardieiro que fedia a mijo, no Pátio do

249
Josias e a Imperatriz

Terço. Sentado num corredor estreito, ele teve de esperar


que a mulher ajeitasse o quarto de tabique. Outras dan-
çarinas moravam no mesmo cortiço e tinham para ele um
olhar de mel e simpatia. Algumas lhe dirigiram a palavra,
contaram-lhe mágoas.
– O senhor sabe, mulher deve ter vergonha. Por mim,
eu só recebo no meu quarto o homem que eu gosto.
Ouvia-se também uma conversa baixa, renitente, den-
tro do quartinho de tabique, onde desaparecera a dama
de Josias. Mais tarde, uma velha apareceu esfregando os
olhos, para melhor enxergar o fantasma que ia dormir
com a filha. Tinha uma aparência infeliz e desapareceu
com dificuldade no fundo do corredor. A dançarina rea-
pareceu. – Venha, meu filho, o quarto está pronto.
Entrou como se entrasse num caixote. Ao lado da cama
de casal, que ocupava quase todo o quarto, havia um berço
e dentro do berço uma criança pálida, de poucos meses.
Seus olhinhos espantados cravaram-se em Josias.
– Tem quatro meses a bichinha. É por isso que estou
com os peitos tão carregados de leite – disse a mulher,
despindo-se.
O rapaz forçou uma carícia, amaldiçoando a Impera-
triz. A mão dele, vacilante, estendeu-se sobre a cabeça da
criança. Ela sacudiu os braços e as pernas, livrando-se do
cobertor listrado de azul. Um cheiro morno, ácido, de fe-
zes, espalhou-se pelo quarto.
– Ela está sujinha – disse a mulher. – Tenha paciência,
meu filho. Deixe-me primeiro limpar a bichinha.
A menina continuava a olhar para Josias, como se es-
tivesse reconhecendo nele um pai. Sorriu. Brilharam os
seus olhos negros, enquanto a mãe despejava água no ba-
nheiro pegado ao quarto e dissimulado por uma cortina
de estopa. Josias abriu a porta procurando não fazer ruí-
do e fugiu, levando consigo o sorriso da criança.

250
Gastão de Holanda

A noite lá fora doeu-lhe no coração. Estava imensa,


profunda, entre as cornijas dos sobrados. As águas-furta-
das pareciam querer soterrá-lo junto com a lembrança da
amante, enquanto uma luz se apagava no sótão inclina-
do para o beco e um choro de criança, como um miado,
anunciava a sutil aproximação da aurora.
Quer dizer que a jornada de Josias estava terminan-
do. Ele se lembrou que a Imperatriz costumava dar umas
voltas pela pensão que fica atrás do mercado. Pensão que
toca os seus discos prediletos. Onde o fartum de galinha
ultrapassa as grades do mercado, quando os garajaus se
acumulam na escuridão dos corredores. “Se ela está na
orgia, eu mato.”
Os galos cantavam lá dentro. Uma única lâmpada
como estrela solitária e prisioneira das grades, iluminava
o comprido e imundo corredor. Josias se pergunta por
que a noite o transforma numa espécie de vampiro. Dor-
me de dia e o dia, com sua claridade, afugenta os pensa-
mentos. A noite os multiplica até que das sombras surja a
ideia absurda da morte. Não há tristeza mais profunda do
que a tristeza que nasce do amor. E Josias a sente em toda
a sua intensidade.
A música do sobrado havia-se extinguido. Só os galos
cantavam espaçadamente. Um canto que exigia o espaço
infinito de uma planície. Josias consultou as estrelas, com
um olhar de esperança. Elas brilhavam entre a folhagem
dos fícus.
Mais adiante, um vulto sentado à beira da calçada que-
brada pelas raízes. Um vulto diáfano, quase imóvel. Era
a Imperatriz e sua solidão. Josias quase gritou de alegria.
Conteve-se, porque não se deve dar tanta asa a mulher.
Sentiu ainda os braços da mulatinha, que o detivera na
procissão. Mal se aproximou, contendo uma exclamação
de amor, a Imperatriz puxou-o delicadamente pelo braço

251
Josias e a Imperatriz

e forçou-o a sentar-se ao seu lado. Tinha os olhos fixos na


calçada oposta. A noite tomou a forma de um arco e Josias
encontrou-se em um dos seus extremos.
– Olha. Repara como eles são engraçados.
A fala quente de mulher varou a noite adelgaçada. Jo-
sias não viu nada.
– Repara – disse a Imperatriz graciosamente.
Jogou para a calçada oposta um pedaço de pão. Logo
os ratos se movimentaram com extrema rapidez. Vinham
de todos os lados, como acontecia em dia claro com os
homens que frequentavam o mercado. Do esgoto, do
meio-fio, das raízes, da escuridão. Apareciam vorazes,
atiravam-se sobre o pão e brigavam, estraçalhavam-se,
enormes, negros como a calçada negra e a noite negra.
Mas só eram vistos quando riscavam o chão, aos pulos,
ridículos e asquerosos. Josias fez uma careta, repugnado
com a convivência dos bichos. Tinha a impressão de estar
entrando num esgoto.
– Como os ratos me divertem. Olha.
Jogava outro pedaço de pão. Josias acompanhava a
trajetória da migalha, que descrevia uma parábola sobre
as pedras da rua, caía, rolava, os ratos negros com ela,
estraçalhando-a, aos guinchos e pulos. Pareciam nascer
da laje fosca e negra como eles, como se fossem de pedra
e lixo. O amor venceu a repugnância e passou a divertir o
homem também.
– Me dá um pedaço de pão – disse Josias.
Jogou-o. A brincadeira começava a interessá-lo, a ali-
viar o coração debilitado por tantas horas de incômoda
expectativa. Os galos cantavam dentro do mercado, anun-
ciando a indecisa madrugada. O mundo era belo para Jo-
sias. O galo, os ratos, a sua amante, os alvores do reencon-
tro. O mundo era belo para a Imperatriz: a rua deserta,
o pão, os seus ratos, a ausência dos homens e, depois de
tudo, o alvéolo do sonho.

252
Gastão de Holanda

– Ninguém te compreende – disse Josias, abraçando-a.


Ela recusou a mão que lhe afagava o seio e jogou outra
migalha. Os ratos avançaram, enquanto o céu ia clarean-
do sobre o Recife, a cidade agonizante.

253
Osteopatia
Geraldo Falcão

Tristeza, revolta, causava-lhe flagrar-se num espelho.


Por que nascera assim, estigmatizado pela deformidade?
Os que não riam da sua figura olhavam-no com curiosida-
de ou se apiedavam. Rodeavam-no com aquele detestável
ar de comiseração. No desenrolar da doença, que assina-
lou a sua estada no hospital, todos os dias de visita, lá es-
tavam os religiosos. Leituras pias, cânticos de louvor a um
Deus que o havia desprezado, convites a orientar o sofri-
mento transformando-o em precioso combustível. Cristo
também sofrera muito. A cama hospitalar era a cruz onde
ele – como o Homem-Deus – estava pregado.
Por delicadeza tinha que suportar todas aquelas ba-
boseiras. Desprezava aqueles rostos em que a bondade
aflorava como peça de prótese. Récua de mentirosos.
Abo­minava-os. Percebia-os competindo entre si. Cada um
deles parecia afirmar: “Eu sou o melhor, o mais carido-
so, o mais amorável para com os doentes. Deles eu sou
o preferido. Quando chego, eles exultam”. Receava um
dia estourar, dizer o que verdadeiramente sentia por eles.
Repugnavam-lhe os modos melífluos como lhe falavam:
os carinhos e cuidados de um instante. Onde estavam nos
restantes dias da semana?
Médicos, enfermeiras, serventes passavam como bóli-
dos por ele:
– E então, como vai o nosso doente?
Sorria com polidez. Consentia nos afagos, recebia pre-
sentes esboçando riso. Por dentro a vontade de mandá-los
Geraldo Falcão

para o inferno. Via os médicos discutindo entre si, diver-


gindo ou concordando sobre as mazelas deste ou daquele
doente. Curandeiros todos. De nada sabiam. Os ossos, por
sob as carnes, desenvolviam-se desarmoniosamente e eles
afirmavam que só restava esperar. Esperar até que o cres-
cimento físico fosse cumprido. Uma perna mais longa que
a outra. A face esquerda retraindo-se em decorrência de o
malar direito se haver projetado em demasia. O occipital
avolumou-se tanto que mal podia deitar-se em decúbito
dorsal sem se sentir incomodado.
A enfermeira destinada aos pacientes com osteopatias
e fraturas graves causava-lhe repugnância. O mau cheiro
exalado das chagas abafadas pelo gesso, os doentes sujos
e mesmo a precariedade das instalações estressavam-no.
Angústia. Maldizia os pais que, ainda criança, o trouxe-
ram para ali e desapareceram. Ficaram, sem dúvida, hor-
rorizados com as deformações que se iam instalando. Ali,
aprendera com as freiras a ler, a escrever e o desmedido
gosto pelos livros. Através deles sonhava, visitava lugares
que nunca imaginara existir. Tivera notícia de princesas
que se apaixonavam por grotescos animais. Bastava um
beijo e o monstro se metamorfoseava em belo príncipe.
Chegara, uma vez, a perguntar a uma das religiosas:
– Irmã, se a princesa me beijar eu vou me transformar
num príncipe muito bonito?
A freira desiludiu-o. Impossível. Deus o fizera assim.
Assim teria que morrer. Não se conformou. E por que
Deus fez as outras pessoas normais? Quantos eram tão
bonitos!... E ele daquele jeito. Enraiveceu-se quando ela
finalizou lapidarmente:
– Não devemos discutir os desígnios divinos. Só Ele os
conhece.
Passou a odiar aquele Deus e os seus representantes.
Cheio de preferências. Tão ruim que provocou até a morte

255
Osteopatia

do filho da maneira terrível como era contada. Começou


então a eleger os livros que procediam do mundo exte-
rior, trazidos por outros visitantes. Esqueceu a divindade
monstruosa. Passou mesmo a descrer nela e a hostilizar
as religiosas que dele se aproximavam, Suas representan-
tes. Se os seus companheiros de pavilhão solicitavam dos
visitantes doces, roupas ou dinheiro, ele recusava tais coi-
sas. Queria este ou aquele livro e material para escrever.
Tinha fome de conhecimento. Descobrira um universo
particular dentro dele próprio. Ali se escondia, sonhava e
realizava-se. Daquele ponto foi, pouco a pouco, partindo
para objetivos situados além daquele mundo estreito. Ao
seu redor: sujeira, pederastia, enfermeiras mal-humora-
das, médicos apressados. Ele, como os outros, era apenas
uma peça. Seus exames constavam de uma rotina cumpri-
da com enfado. Acrescentavam notas, riscavam gráficos e
partiam em desabalada carreira. Os doutores justificavam
a pressa dizendo que os seus vencimentos eram insignifi-
cantes. Tinham que atuar em vários hospitais, além dos
consultórios, para sobreviverem.
Sabia que na verdade eles todos desprezavam o aleijão
em que se vinha transformando. Na cadeira de rodas os
doen­tes mais aptos fisicamente levavam-no para tomar sol
no pátio da casa de saúde. Grupos conversavam pelos corre-
dores. Silenciavam por instantes à sua passagem. Olhavam-
no. Uns, querendo destacar-se dos demais, demonstrar
despreconceito, bondade mesmo, saudavam-no. Depois, os
comentários sussurrados, olhando-o de través.
Os companheiros de enfermaria ironizavam o seu gos-
to pela leitura. Achavam-no tão ignorante quanto eles.
Mas chamavam-no fungando, rindo, de professor. E pas-
saram a estranhar quando o novo diretor começou a ma-
nifestar interesse por ele. Iniciou tomando informações.
Quem era, o que sentia, como ia. Depois as conversas

256
Geraldo Falcão

foram se tornando mais longas. O dirigente chegava-se,


sentava-se em uma cadeira e conversava longamente. Ar-
ranjou estante para colocar os livros do professor. E, pes-
soalmente, vinha buscá-lo na cadeira de rodas e ficava em
sua companhia por muito tempo, no próprio gabinete.
Os companheiros murmuravam. Como preferir um ma-
luco daqueles, que se julgava superior a todos ali? Alguns
passaram a hostilizá-lo mesmo.
Até fora das horas do expediente o diretor aparecia,
com um livro debaixo do braço para entregar ao doente.
Sentava-se na cadeira ou mesmo na beira da cama e ficava
um tempão. Às vezes a enfermeira surgia anunciando que
a sua esposa telefonara. Não esquecesse o compromisso
que tinham a cumprir. O diretor levantava-se visivelmen-
te contrariado e saía.
O professor sentia prazer em refutar as ideias do amigo
e protetor. E essa tendência crescia, à medida que o tem-
po passava. Pulverizava as teorias postuladas pelo médico.
Cada vez mais se convencia de que era intelectualmente
superdotado. Explicava a si mesmo que o doutor, como
as demais pessoas, invadiam o terreno do conhecimento
de forma acidental, descomprometidos. Não postulavam
conceitos próprios. Emitiam opiniões formuladas por
outros e, naquele instante, em moda. Desprezava-os. Era
desgracioso, feio mesmo, de acordo com os padrões ge-
rais. Pairava, contudo, acima de todos. Era cerebralmente
forte, superior, soberano. E por que não?
Belo como um príncipe de estórias infantis. Fora beija-
do pela princesa Cultura.
Os ossos completaram o ciclo de crescimento. O di-
retor tratou-o como a um filho. Comprou-lhe botas orto-
pédicas, o que, através de treinamento, possibilitou-lhe
andar pelas ruas. Vestiu-o, deu-lhe um modesto emprego
na administração do hospital. E, pessoalmente, levou-o,

257
Osteopatia

até que adquirisse independência na rua, ao curso que o


habilitaria, em dois anos, a ingressar na universidade.
E o professor demonstrou ser excepcionalmente apa-
ratado de inteligência. Três anos depois estava cursando
Medicina. O diretor alojou-o em pequeno apartamento
por sobre a garagem de sua casa. E o neocandidato a mé-
dico estudava obsessivamente. Nas horas vagas ministrava
aulas de Física, Química, Biologia e Matemática. Dormia
pouco, sempre lendo. Assombrava pelos seus conhecimen-
tos. Mas assustava pela agressividade. Não tolerava que o
contradissessem. Chamava a todos de estúpidos, ineptos.
Já no último ano de Medicina o ex-interno, após longo
estágio no hospital, terminou por ser assimilado pelo seu
corpo médico. Ainda doutorando, a sua opinião pesava
nos juízos formulados pelos terapeutas. Formado, tomou
lugar ao lado do seu protetor. Este, apesar de se orgu-
lhar do seu protegido, temia-o. Evitava polemizar com
ele a propósito de qualquer coisa. Sentira-se, por diversas
vezes, atingido pelo quase-filho. Isso doía-lhe. Atribuía
aquela exaltação à deformidade física, ao descontenta-
mento com a própria figura.
Algum tempo depois que o professor fora admitido
como médico na casa de saúde, ali chegou estagiária es-
trangeira que desejava especializar-se em determinado
tipo de osteopatia, decorrente principalmente da subnu-
trição. Alourada, de excepcional beleza, chamou a atenção
da comunidade médica masculina jovem. O tutelado do
diretor olhava-a com discrição. Era realmente impressio-
nante a beleza da moça. Além disso, estudiosa e versada
em sua especialidade. Ao protetor dizia o jovem médico
que à beleza física estava sempre atrelada a burrice.
Mas o diretor sabia haver certa dose de despeito na
afirmativa que lhe fazia o filho adotivo. Observava-o ou-
vindo a jovem alourada sem antepor objeções aos seus

258
Geraldo Falcão

discursos. Arrastava, em torno dela, desajeitadamente,


as botas de imensos solados, discorrendo sobre a matéria
que parecia interessá-la. Não usava o seu costumeiro tom
polêmico. Calava e seguia ouvindo, atento.
Vezes havia em que a doutora olhava-o com doçura,
enquanto ele dissertava. Aí o pai adotivo observava-o con-
fuso, pregando os olhos no chão, gesticulando muito, o
riso grotesco puxando-lhe o lábio apenas para a direita. E
o velho vinha assinalando um toque de ternura no olhar
da estudante. Mas não ousava comentar com ele. Temia a
sua reação.
A jovem, realmente, impressionara-se com o seu ins-
trutor. Jamais, em toda a sua vida, vira cérebro tão ágil:
um poço profundo de conhecimentos. A princípio foi mo-
vida pela curiosidade. Ouvia-o perplexa discorrer sobre os
mais diversos ramos do saber com tanta fluência. Estava
informada, pelo diretor, de que família muito pobre, re-
sidente em distante localidade, deixara-o ali. Nunca mais
viera reclamá-lo. Narrou também como ficara preso ao
rapaz e como ele, em tão pouco tempo, se fizera médico-
cientista: eis o termo, pois grande parte do dia passava
enfurnado nos laboratórios, pesquisando.
E o agora realmente professor, jamais se sentira tão
perturbado. Sentimento novo aflorava-lhe ao espírito. Por
que aquela moça o deixava assim? Passou a perder o sono.
Adorável. Desejável. Mas como poderia interessar-se por
ele? Na certa, como o diretor, que se travestia de seu pai,
teria unicamente piedade pelo aleijado que era. Se trocas-
sem as posições, fosse ele a moça e a moça ele, o monstro,
na certa o repudiaria. Ela queria – como todos – parasitar
os seus conhecimentos. Certo que, em sua presença, ele se
sentia magnetizado. Enchia-se de torpor diferente. Aque-
le perfume, o calor que exalava da pele quase transparen-
te. As coxas entrevistas na justeza das calças jeans.

259
Osteopatia

E se ela, realmente atraída pelos seus dotes intelec-


tuais, estivesse iludida e quisesse unir-se a ele? Logo na
primeira vez seria execrado. Tão logo ele se despisse.
Deformações na cabeça, no rosto, nas costas, nas pernas.
Não devia, não podia mergulhar naquele universo menti-
roso, falso. Não sofreria o ataque da besta, investiria para
esmagá-la. Devia atacar antes, como sempre o fazia.
Olhava uma lâmina, através do microscópio, quando ela
se foi chegando. Ele afastou os olhos, como se fosse ceder-
lhe as oculares à observação. Ela sorriu-lhe, afagou-lhe a
nuca. Com o sotaque arrevesado de estrangeira, falou:
– Eu o amo tanto…
Sentiu-se impactado por um instante. Se estivesse
em pé cambalearia. Recompôs-se. A raiva subiu-lhe ao
rosto que avermelhou. A fisionomia tomou um aspecto
feroz. Estava deitado outra vez em seu leito hospitalar.
Aquela gente mentirosa, babosa, rodea­va-o. Todos men-
tirosos. Falsa piedade – comiseração. Não continuariam
olhando-o de cima para baixo. Antigamente dependia
dos outros. Agora, era independente, não tinha que aba-
far o menosprezo. Intelectualmente acima de todos. O
diretor mesmo era um inepto. Ele e toda a sua equipe de
“normais”, desfilando em batas de linho para cima e para
baixo. Mostraria a eles o quanto eram incapazes. Era im-
prescindível para que o hospital mantivesse o nível a que
tinha chegado. O eixo. Falsa meiguice. Aqueles lábios en-
treabertos, pronunciando palavras falsamente carinhosas,
tornaram-no ainda mais exasperado.
Ergueu-se fitando furiosamente a jovem, que retroce-
deu. Os olhos do jovem médico tinham um brilho sinis-
tro. Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa. O
seu punho caiu forte sobre a mesa, virou-se, saiu rápido,
capengando, e bateu de rijo a porta às suas costas.

260
Os brincos prateados
Gerusa Leal

Arrumava os cabelos com as mãos onde quer que esti-


vesse, sem precisar de espelho. Fizera isso vezes sem con-
ta. A vida não contribuía para amenizar os traços.
Tivesse o cuidado de não dar moleza desde o início,
não estava passando por tanta decepção. Sim, pode-se
perder o controle do lance, ser trapaceada e levar uma
rasteira. Dava lá as escorregadas dele, ela sabia, sempre
tinha uma explicação, você é que é meu amor, ela preci-
sava que a convencesse. Não era mais menina, ralando
daquele jeito, chegando em casa à noite no bagaço. Em
vez de chorar, devia era soltar foguete.
Retocou o batom, também sem espelho, contornando
os lábios com precisão.
Calma. Tenho que ter calma. Adianta me descabelar?
Por que não escutei a voz da razão? Teria percebido que
era sorte demais para ser verdade. Tem cabimento acredi-
tar que um rapagão daqueles ficasse com ela muito tem-
po? Uma tonta, é o que foi. Ainda por cima deixar de se
cuidar para vestir ele com roupa de marca, fazer presta-
ção para financiar o carro usado que tanto queria e botar
no nome dele, onde já se viu? A amiga alertou, e daí? E
daí que, para seu azar, apaixonou-se. Toda a sensatez foi
parar na lata de lixo. Na lata de lixo.
Enxugava as mãos no vestido, suadas feito quando era
adolescente.
Isso pode acontecer com qualquer uma.
Os brincos prateados

Andava de um lado para o outro na sala. Na imagina-


ção o rosto do amante, cara lisa, barba feita, no meio do
mundo.
Sabia quando estava chegando pelo barulho do ele-
vador, ficava de pé olhando a porta, aguardando que ele
abrisse. Entrava, pegava pela cintura, virava de costas,
empurrava para o sofá e ali mesmo a possuía, ela de qua-
tro. Como uma cadela.
Escurecia lá fora, o ar frio do inverno entrando pelo
apartamento.
O cordão dourado com a letra M, que usava sempre,
era fantasia, imitação barata. Único presente que lhe dera
em três anos; bem mais vagabundo que o par de brin-
cos prateados com pedrinhas brilhantes que encontrara
na gaveta de cuecas e meias, por baixo de tudo, bem lá
no fundo, comprado com o dinheiro dela para a outra:
sacudiu na cara dele, aos gritos, como se isso resolvesse
alguma coisa.
Ele negou, era surpresa, para comemorar a data em
que se mudou para a casa dela, mas não faz mal, e adulou,
e fez carinho, levou para cama, e ela se acalmou. Colocou
os brincos.
Dia seguinte fazia quatro anos, um sábado. Culpada
por haver desconfiado dele, comprou dois metros de vis-
cose a prestação, abriu a máquina de costura, pegou a
tesoura grande para cortar a camisa. Com sorte estaria
pronta antes que ele voltasse da pelada com os amigos.
Cedo ainda, nem prestou atenção no barulho do eleva-
dor abrindo. Tocaram a campainha, não podia ser ele. Deu
de cara com a ninfeta dizendo para ela passar os brincos,
que não engolia essa de ter paciência e abrir mão para uma
velha enrugada, pelancuda, só porque ele tinha pena.
Bateu a porta, sentada na sala não escutava nada, nem
os berros da outra de isso não vai ficar assim, até que tudo

262
Gerusa Leal

ficou silêncio, olhou ao redor, a máquina aberta, o tecido


na mesa, devia ser intriga da garota, ele não ia dizer uma
coisa dessas dela, de que jeito a outra sabia dos brincos?,
não era nada daquilo, haveria explicação, sempre tinha
uma, a visão dele abraçado com a ninfeta, a voz dentro da
cabeça sussurrando no ouvido da outra você que é meu
amor, imagina se tem comparação com aquela velha en-
rugada, pelancuda, é que ela é tão sozinha, tenho dó, pa-
ciência que vou dar um jeito.
Dar um jeito.
Na delegacia, arrumava os cabelos com as mãos, reto-
cou o batom, se deixou conduzir para a cela. Com a roupa
do corpo, de chinelos, usando os brincos prateados.

263
Fred, o Tio Comandante
Gilberto Freyre

“Não me esqueço da figura do estranho que eu vi, en-


cantada, há um bocado de anos, com olhos de menina.
Ficou na minha lembrança como Tio Fred. Tio Fred, o Tio
Comandante. Vi-o pela primeira vez numa bonita tarde
de sol na nossa casa da Torre.” Quem assim me falava era
dona Maria Isabel. Sinhá muito recifense. Viúva. Morado-
ra na Rua da Aurora.
Como era esse Tio Fred? “Alto, moreno claro, olhos e
cabelos castanhos, um bigode diferente do de meu Pai,
maior, mas torcido, um sorriso que mostrava uns dentes
maravilhosos e era constante, umas mãos muito bonitas.
Vestia um dólmã branco como os de ingleses daquela épo-
ca. Imaculadamente branco.” E a voz? “Uma voz muito de
homem e que, ao mesmo tempo, parecia fazer festa nos
ouvidos da gente. Creio que sobretudo aos ouvidos das
moças e das meninas.” Foi o que logo me respondeu dona
Maria Isabel.
E explicando: “digo das moças, porque minha Tia, Car-
mem, que estava chegando aos trinta anos, idade, naqueles
dias, já de solteirona, foi quem mais encantada ficou pelo
tal estranho. E ele, ao que todos notaram, muito caído por
Tia Carmem. Por Tia Carmem e por mim, que andava en-
tão pelos meus nove anos. Como me acariciou! Como falava
comigo como se eu fosse pessoa importante! Me chamava
de Isabelita com sotaque um tanto espanhol. Dizia que era
neto de espanhola, chamada também Carmem. E que se
parecia com a avó. Os mesmos olhos grandões.”
Gilberto Freyre

“Todo o seu lar”, acrescentava dona Isabel, “era de


pessoa mais do que importante. Trazia charutos para meu
Pai, flores para minha Mãe, ora leques, ora mantilhas, ora
livros, para Tia Carmem. Bombons para mim.”
“Vinha do Rio. Falava na gente ilustre do Rio e de São
Paulo que lhe recomendara visitar meu Pai. Visitar nossa
casa que era na Torre, depois de ter sido maior, na Ma-
dalena. Que visitasse os Fiusa. Meu Pai como médico, na
época, notável, era de origem cearense, casado no Recife
com uma Wanderley de engenho do Rio Formoso. Ultima-
mente, com a vaga dos dois Marques, a do doutor Simões,
a do doutor Gouveia, perdera um pouco como clínico de
gente bem. Mas continuava doutor de prestígio. Podia ser
útil ao ‘Comandante’, pois como ‘Comandante’ foi como
o estranho se apresentou.”
Não fora preciso carta de apresentação. A ele, Frede-
rico Burgos – era o seu nome – haviam dito amigos cario-
cas, admiradores de doutor Fiusa, que explicasse de viva
voz ao doutor a que vinha aos Estados do Norte. Missão
muito discreta. Reservada, mesmo. Quase secreta.
Apresentou-se ao doutor Fiusa como Comandante da
Marinha Mercante. Afilhado, “quase filho”, acentuava ao
apresentar-se ao Almirante Alexandrino. Fora incumbido
de inspecionar as agências do Loide sem que ninguém
desse por isso. Que só o soubessem uns poucos. O Sal-
gado, do Recife Hotel, onde ele se instalara e que muito
simpaticamente lhe dissera que não era hóspede do Ho-
tel mas, sem que se soubesse, particularmente convidado
dele, Salgado. O Agra, do mesmo modo, pusera até car-
ro – uma vitória, com cocheiro de cartola à sua disposi-
ção, sussurrando-se entre a gente que frequentava a Casa
Agra, à Rua do Imperador, que ele, Burgos, era um gran-
de na Maçonaria no Rio de Janeiro. Sabia-se pelo aperto
de mão. Talvez grau 39. Também na Lafaiete, o Moreira,

265
Fred, o Tio Comandante

logo que soube reservadamente da missão do logo cha-


mado pelos iniciados no segredo, de “Comandante”, não
só o encheu de charutos brasileiros dos mais finos como
o recomendou ao Maniva, alfaiate, como se Burgos fos-
se seu amigo particular, porventura recomendado a ele,
Moreira, pelo próprio conde do Agrolongo, do truste ca-
rioca de cigarros. Como o conde, o “Comandante”, era
para ele, Moreira, homem de recursos e segundo ouvira
do próprio Burgos, às vésperas de receber alta comenda
do Governo Português.
Tudo, no Recife que Burgos, por vezes, retórico, gosta-
va de exaltar como “Veneza Americana, boiando sobre as
águas” vinha correndo da melhor forma para esse homem-
sereia. Sereia de bigodes frisados. Encantador e quase poé­
tico no falar. Para Burgos, os pernambucanos eram ainda
mais hospitaleiros que os baianos. E como as pernambu-
canas eram belas! Que moças bonitas se viam indo à missa
na Igreja do Espírito Santo ou fazendo compras na Rua
Nova: no Louvre, na Rosa dos Alpes, na Viúva Guilherme,
na Brack, na Júlia! Já estivera nessas lojas todas. Já adquiri-
ra umas coisinhas para, segundo dizia, sua Mãe: era soltei-
ro. Coisinhas de que enchera seu quarto no Recife-Hotel.
E às coisas assim adquiridas se vinham juntando, naquele
quarto de príncipe, presentes que vinha recebendo, alguns
do próprio Salgado, outros de Moreira, uns tantos de Jovi-
no, vários de comissários, exportadores de açúcar. E mais:
perfumes franceses, charutos de Havana, vinha pedindo,
rogando até, a todos os bons recifenses, seus amigos, que
fossem discretos sobre sua missão no Norte. Mas repetia ao
doutor Fiusa o que vinha dizendo muito em segredo aos
outros: que de agora em diante podiam dispor dele no Rio,
no Loide, e junto ao Alexandrino.
“Tudo isso” – recordou-me dona Maria Isabel – “eu fui
sabendo aos poucos, como menina que ouvia muito o que

266
Gilberto Freyre

a gente grande conversava”. Não tardara a receber do Co­


man­dante uma linda boneca francesa que dizia “maman”.
Nem outros presentes. Chocolates suíços. Isabelita, meni-
na de nove anos, era muito mimada pela família. Estava
sempre junto da tia solteira. Burgos passou a dispensar
atenções especiais à pequena, enchendo-a de bombons,
de biscoitos finos, de doces. Até aquela boneca francesa,
loura e cor-de-rosa, que dizia “maman”.
Na família Fiusa todos passaram a chamar Burgos “Co-
mandante”: “o Comandante”. A tia, porém, convencera
Isabelita – como Burgos a chamava – a chamá-lo “Tio”:
“Tio Fred”. Ou “Tio Comandante”.
Aos seus ouvidos de menina, isso de “Tio Comandan-
te” soava de um modo que a envaidecia. Que importan-
te, que belo homem, que príncipe encantado, aquele seu
novo “tio” como que caído do céu ou saído do mar!
A propósito do que dona Maria Isabel, recordando-
se das festas que lhe fazia o Tio Comandante, filosofava:
“Como as mulheres começam ainda meninas a ser vai-
dosas!”. E especificava: “Vaidosas não apenas sobre sua
aparência, sua boniteza, seus olhos, seus cabelos, suas
mãos, seus vestidos, seus sapatos, seus pés quando elogia-
dos. Vaidosas também quanto à sua importância. Quanto
à importância de seus pais. Quanto à sua casa. Quanto aos
móveis de sua casa. Quanto a seus parentes. E tudo isso
Tio Fred elogiava, ao mesmo tempo em que me agrada-
va”, recordava dona Maria Isabel.
Na verdade, aquilo de “Tio Comandante”, embora
para consumo só da família, envaidecia a menina. Que
tio! Gostaria de poder falar no colégio desse seu tio um
tanto príncipe – Comandante! – vindo do Rio: e tão bo-
nito, tão elegante, tão atraente. Já começara a pedir a
Deus, nas suas preces, que não tardasse o Tio Fred em
se tornar noivo de Tia Carmem. Que não tardasse o ca-

267
Fred, o Tio Comandante

samento. Nem a viagem de todos os Fiusas ao Rio – isso


era segredo de que não se falava – naqueles camarotes de
luxo de vapor do Loide que Burgos dizia estarem sempre
à disposição. Eram deles, Fiusas, sempre à sua espera com
damascos, quadros a óleo, tapetes, jarros de porcelana.
Mas que guardassem reserva. Não era coisa de se falar ou
de se propalar.
Isabelita sabia que a todos os Fiusas encantava a pers-
pectiva dessa viagem, desse casamento, dessa bênção do
céu sobre a família que caprichava em receber o “Tio Co-
mandante” com seus melhores jantares, seus mais apeti-
tosos guisados, seus mais aromáticos assados, seus doces
mais segredos de família. Afinal a já quase trintona Car-
mem – bonita, bem-educada, tocando piano, sabendo seu
francês – encontrara um esposo ideal. No santuário da
casa, ardia noite e dia uma vela de agradecimento a Santo
Antônio: gratidão ao bom do santo em que se antecipava a
Tia Carmem. E pelo que contava o “Tio Comandante” não
lhe vinham faltando outros jantares finos e até festivos no
Recife. Era um herói secreto para não poucos recifenses.
Compreende-se assim que Isabelita nunca conseguisse
se conformar com o fato de o “Tio Comandante”, quase de
repente, ter deixado de ser seu “tio” e de ser “O Coman-
dante”. Pois foi o que aconteceu. Incrível, mas aconteceu.
Lembrava-se dona Isabel de ele aos poucos ter começado
a se ausentar da casa da quase noiva. Recordava-se da in-
quietação da Tia Carmem. Da vela a Santo Antônio ter
passado de uma a três. E um dia, a notícia brutal: Burgos
fugira do Recife! Enganara Salgado. Iludira Agra. Enga-
nara gente da melhor. Burgos não era Comandante coisa
nenhuma. Burgos nada tinha a ver com o Loide! Nem com
o Almirante Alexandrino! E o doutor Fiusa comentando:
“Um perfeito charlatão!”. Mas dizendo baixinho: “Mas
que homem fino! Que gentleman! Que cavalheiro!”. E dona

268
Gilberto Freyre

Antônia Fiusa atalhando: “Mas que simpático! Nunca vi


carioca tão encantador!”. E Carmem chorando. Chorando
como uma desesperada. Não acreditando. As velas a Santo
Antônio se apagando. Flores murchando por toda a casa.
Caixas de bombons já meio vazias deixando de alegrar os
olhos de menina da Isabelita.

269
Ex-noite
Gilvan Lemos

– Tenho a impressão de que ela sabe que vai morrer,


Nice. Hem, você não acha?
– Oh, meu Deus! No princípio conseguimos enganá-
la, julgo que conseguimos. “É uma simples cirurgia”, di-
zíamos. Depois da operação, ela: “Simples cirurgia! E por
que fizeram esse estrago todo no meu corpo?”. “Para pre-
venir, mamãe, só para prevenir”, dizíamos.
– Lembro que ainda voltou ao trabalho, readquiriu as
cores. Nós mesmas na repartição pensávamos que estava
curada.
– Nunca se referiu à operação, jamais falou no seio extir-
pado. Nem comigo, acredita, Lala? Ainda hoje, quando vou
tratar dela, esconde o local, faz mil manobras para que eu
não veja o que não existe mais. Uma vez seu Leitão entrou
no quarto enquanto ela trocava de roupa, ouvi-a protestar,
aborrecida. Seu Leitão: “Besteira, mulher. Que diferença
faz? Inda tem uma sobra”. Sei que disse isso de brincadeira,
talvez para reanimá-la, mas mamãe não gostou, passou o
resto do dia emburrada. Acho que foi a partir do momento
em que lhe tiraram o seio que ela começou a morrer.
– Sempre foi muito vaidosa. Que trauma para a pobre-
zinha. Qual é realmente sua idade, Nice?
– Fez sessenta o mês passado.
– Era o que eu calculava. Dizia que tinha... Agora não
interessa. Podia viver tanto ainda. A gente nota que já não
tem ânimo para coisa alguma. Ausente, desinteressada,
como que ressentida. Por isso acho que sabe.
Gilvan Lemos

– Quando veio a metástase, com aquelas dores enor-


mes que sentia na perna, conseguimos por muito tempo
fazer com que acreditasse que se tratava de reumatismo.
Com a continuação, ah! desconfiou: “E por que me apo-
sentaram por invalidez?”.
– Exato, Lucinda já compreendeu. E ele? Ali, tão sos-
segado. Não estará ouvindo nossa conversa? Parece ser
um homem calmo. Que tanto ele lê, Nice?
– Novelas policiais. É uma boa pessoa, não incomoda
ninguém, não tenho o que dizer de seu Leitão.
– Conservado no físico. Já se aposentou?
– Sim, pelo Instituto. É cinco anos mais velho que ma-
mãe. Passa o dia em casa, não sai para canto nenhum, a
não ser para as compras. Quando chego do grupo já tem
varrido, espanado. Atende mamãe com uma paciência!
Você sabe que essa doença deixa as pessoas irritadas, neu-
rastênicas, por isso mamãe implica muito com ele. Mas,
apesar de ser um homem meio rude, não se aborrece, tem
a maior paciência.
– Quanto a isso não tenho dúvida, Lucinda sempre o
elogiou. Sabe, Nice, ele mudou pouco, e olhe que o conhe-
ço desde o tempo em que trabalhava no bar onde lanchá-
vamos. Era caixa. A gente notava que ele dava toda atenção
a Lucinda. Brincávamos com ela, a gente não podia ima-
ginar. Não que eu ache nada demais, você compreende,
não é? Tolice da gente. Pensávamos que Lucinda não era
para ele. Essas ideias preconceituosas. Afinal, quem éra-
mos, quem somos nós? Gente pobre também, funcionaria-
zinhas. Só que Lucinda tinha mais cultura que ele. Cultura!
Isso lá interessa? Sua mãe, viúva, nova ainda. Se você tem
sessenta, naquele tempo estaria pegando os quarenta.
– Exatamente, casou a segunda vez com quarenta. Mi-
nha idade hoje. Pensa que me incomodo, Lala? Nunca
neguei.

271
Ex-noite

– Mas então? Apenas Lucinda dizia que estava com


trinta e dois, mas isso não vem ao caso. Ora, ele viúvo
também, e sem filhos. Atraente, sabe? Talvez um pouco
baixo, meio gordo. Mas ele de vez em quando deixa a
leitura, fica a nos observar.
– Impressão sua, é assim mesmo, tranquilo, chega a
ser tolo, de tão discreto.
– E como fica a situação quando sua mão morrer? Já
pensou nisso?
– Não, Lala, ainda não pensamos, não pensei. Estou tão
habituada. Por mim... São vinte anos, não é, Lala? Vinte anos
de convivência. Seu Leitão podia ser meu pai, não era?
Delicado, atencioso com Nice. Desde o início, prova­vel­
mente sem intenções de conquistá-la, obter-lhe a aprovação
do seu ingresso na família. Devia ser dessas pessoas que não
se escandalizam, acham tudo natural. Apenas, para o gosto
de Nice, permitia-se liberdades que ela reprovava: andar pela
casa de torso nu, só com a calça do pijama; bater na porta
do banheiro em ocasiões em que estava ocupado; espalhar
cinzas de cigarro pelo chão. Talvez fizesse isso sem ter cons-
ciência de que estava sendo inconveniente. A primeira vez
que o viu à vontade, a calça do pijama escorrendo-lhe pela
barriga, o peito volumoso, cabeludo, veio-lhe, como numa
espécie de ansioso sobressalto, antiga imagem: Papai!
Com o passar do tempo ocorreram-lhe outras coin­
cidên­cias que mais o aproximaram do pai: a maneira de
correr as portas e as janelas antes de deitar-se; o modo
como dava corda ao relógio da sala de jantar; o jeito de
fumar, pensativo, diante da janela. Até, às vezes, o pigar-
ro. E o cheiro, o cheiro do seu corpo antes do banho. De-
pois de algum serviço caseiro, tampouco perfume. Des-
prendia-se dele uma exalação morna, paternal, como se
o envolvesse um halo de ternura, proteção (como muitas
vezes eu pressentia em papai).

272
Gilvan Lemos

Em suma, as liberdades eram dessas que um pai toma


com os filhos, decorrentes de toda intimidade, permis-
síveis afinal entre pai e filha, filha moça. Assim Nice as
entendia, Lucinda também. Comum, Nice levar-lhe a
toalha (que ele sempre esquecia) no banheiro, estando a
mãe ocupada na cozinha; obter permissão para entrar no
quarto do casal, quando preciso. A própria Lucinda au-
torizava: “É dinheiro para o ônibus, minha filha? A bolsa
está em cima do bidê, vá tirar. Leitão está dormindo, vá,
pode ir, ele não se incomoda”. Enquanto remexia na bol-
sa, olhava-o de soslaio, demorando-se na busca (ele dor-
me como papai, de costas, as mãos fechadas sobre o peito,
o lençol preso nas coxas). Se acontecia Leitão despertar,
sorria, sonolento, virava-se para o lado. Uma vez o lençol
escapou-lhe por trás e Nice viu: Dorme nu como papai!
E um incidente quase esquecido, de anos, voltou-lhe,
obsessivo, persistente, com uma força que a sufocava,
acarretando-lhe outras lembranças, revivendo-lhe a es-
pécie de amor que, muito em segredo, dedicava ao pai.
(Acho que eu tinha seis anos, pois ainda não estava na
escola, e foi com sete que fui para a escola.)
– E você, Nice, não tem um pretendente? Um caso secre-
to? Me conte isso direito, menina. Hoje é tão comum. Não
que eu esteja aconselhando, Deus me livre. Também não
reprovo. Quem reprovaria? Basta! nas melhores famílias...
– Que ideia, Lala. Na minha idade?
– Esta anciã, agora. Não foi na sua idade que Lucinda
casou pela segunda vez?
– Porque era viúva. A moça solteira nessa idade... Não,
deixa pra lá, interessa não.
– Tolice, menina, você ainda tem muito que aproveitar.
Já pensou quando Lucinda... Sim, não é segredo, Lucinda,
coitada, breve vai morrer, muito breve. Então, como você
fica? Sozinha ou com esse velho duma banda, aborrecen-

273
Ex-noite

do, chateando? Você não sabe o que é ter um velho nas


costas, minha filha. Eu sim, tenho experiência própria.
– Oh! Lala, não me aperreie, deixe, deixe. Não quero
pensar nisso, agora não.
– Não compreendo por que você não quis casar.
– Não quis?
– Claro, você nunca quis. Tanto rapaz interessado em
você. Não, não me venha com desculpas, sei de tudo, Lu-
cinda me contava. Você, minha filha, jogou fora todas as
oportunidades, boas oportunidades, ótimas até. Sei de
um...
– Ih! Lala, vamos mudar de assunto.
– É para seu bem que falo, tenho idade de ser sua mãe,
conheço o mundo melhor que você. Vai ficar desprotegi-
da quando Lucinda partir. Pensa que esse aí vai lhe dar
proteção? Coitado, pegando os setenta. Você é que vai fi-
car com a carga.
– Lala, por favor!
– Pensa que isso não preocupava Lucinda? E muito.
Dizia não saber o que se passava com sua cabeça, gostaria
de fazer com que você consultasse um psiquiatra, mas não
tinha coragem de sugerir, podia você se ofender.
A casa era pequena, conjugada. Da cozinha, último
cômodo, partia beirando o muro do vizinho, uma calça-
da estreita que se alongava até o sanitário, nos fundos do
quintal. Toda noite, ao carregar para o quarto o urinol,
a mãe protestava contra essa inconveniência, dispensável
se existisse um sanitário dentro de casa. Nice dormia com
os pais, num berço que então media o tamanho exato do
seu corpo e que ainda conservava as grades protetoras.
Recolhia-se primeiro, raras vezes em que estava acordada
quando o pai vinha dormir. Ele então beliscava o queixo:
“Ainda espertada, moleca?”. Colocava um lençol sobre o
espelho da cama de casal, isolando-a da visão de Nice;

274
Gilvan Lemos

apagava a luz, deitava-se. Nice não atinava com a razão do


lençol e, ouvindo-o despir-se, não compreendia por que
ele preferia fazê-lo no escuro.
Tinha a casa de bonecas arrumada ao lado da cama
grande. Toda manhã simulava varrê-la, espaná-la, em se-
guida comprazia-se em botar seus ocupantes para viver.
O boneco tomava café, fumava, ia ler o jornal; a boneca,
após o café, ganhava a cozinha. Depois disso teriam uma
folga, extensiva a Nice, que somente à tarde tornaria a
ocupar-se deles. Certa manhã de domingo, o pai ainda
deitado, a mãe na missa, Nice tomou café, o seu, de verda-
de, tratou de dá-lo também à família de bonecas. (Eu era
tão pequena que, abaixada no brinquedo, provavelmente
fui encoberta pela cama de casal. Papai levantou-se e não
me viu. Mas eu o vi por inteiro, despido de roupas, ves-
tido numa inconcebível vastidão de cabelos. Ah, dormia
nu, por isso apagava a luz para deitar-se. Deduzi que não
era correto vê-lo assim, agachei-me o mais que pude, fi-
quei debaixo da cama, numa posição em que dificilmente
seria notada.) O pai acocorou-se, puxou o urinol e, de
frente para Nice, utilizou-o. Depois o pai vestiu a calça
do pijama, deixou o quarto. Nice aguardou que ele fosse
lavar o rosto. Ao ouvir a água caindo na pia, saiu também,
foi à porta da frente e voltou, como se lá tivesse estado
durante todo aquele momento.
O resto do dia passou-o fascinada pelo pai. Só queria
estar ao seu lado, tocando-o, sentindo-lhe o calor da pele,
sabendo-se possuidor daquela coisa que conservara em se-
gredo. Que outros segredos haveria de possuir? Descobriu
mais um, dias depois, e este fez com que ela adoecesse e
transferisse para o estado febril de que fora acometida a
responsabilidade do ato confuso que presenciara, relutan-
do em aceitá-lo como real. (Durante muito tempo julguei
que o que tinha visto fora apenas um delírio por causa da

275
Ex-noite

febre.) O dia já havia clareado, Nice despertou com cer-


tos rumores na cama dos pais. O berço, onde dormia, tão
próximo: bastou a Nice estirar o braço e erguer a ponta
do lençol que guarnecia a cama de casal. Já haviam ini-
ciado, ambos despidos. (Por mais que tentasse evitar, não
resisti, fiquei olhando, vendo até o fim. Não tinha inteira
consciência do que estavam fazendo, um conceito instin-
tivo, porém, me convencia de que não era coisa decen-
te, própria de gente grande. Para minha compreensão,
a gente grande – que dava ordens, que tudo sabia, tudo
determinava – obrigava-se a ser perfeita em suas atitudes,
mesmo as mais elementares. E aquilo, aquilo... Parecia-
me sobretudo nojento, anti-higiênico. Mamãe não proibia
simplesmente de botar a mão na boca?)
– Sentimos a falta de Lucinda na repartição. Uma pes-
soa divertida, sempre animada nas brincadeiras de ani-
versário, nas festinhas de fim de ano. Veja como esta vida
é traiçoeira: Lucinda sempre dizia, “tenho tanta vontade
de me aposentar que nesse dia é capaz de me acontecer
uma desgraça”. Mal sabia ela que nem chegaria a comple-
tar o tempo de serviço.
– Dizia que ao se aposentar ia aproveitar o máximo. O
sonho dela era viajar, conhecer a Europa.
– Dizia, “detesto a repartição, a obrigação do expe­
diente, a chatice do serviço, mas adoro a convivência com
vocês”. Conosco. Por isso, mesmo contrariada na repar-
tição, era cordata, alegre. “A gente tem de aproveitar o
momento que vive”, dizia.
– Olhando de fora, penso que mamãe não teve lá mui-
tos bons momentos. Casou a primeira vez com um homem
pobre, ao seu lado teve de fazer muitos sacrifícios. Depois
ele morreu, passamos aperturas, verdadeiras aperturas.
Mamãe trabalhava feito escrava pra me manter no estu-
do. Melhoramos quando ela começou na repartição e eu,
formada, passei a ganhar também.

276
Gilvan Lemos

– Você diz bem, Nice, olhando de fora. A gente costu-


ma julgar a felicidade alheia sob o prisma do nosso pró-
prio ponto de vista. Pra você, por exemplo, sua mãe pode
não ter sido feliz, mas, quem sabe? Quem sabe se a preo-
cupação dela não era você, hem, minha filha?
– Eu? Por que se preocuparia comigo?
– Achava você esquisita.
– Porque não casei?
– Porque não quis casar.
– Ninguém quer ou não casar, Lala. O casamento acon-
tece. Tanta moça que passa a vida desejando casar e não
casa. Outras nem se interessam, os príncipes encantados
vão tirá-las da toca, casam-se bem-dizer a pulso. Não acho
justo dizer que eu não quis casar. Apenas não casei, foi
isso o que aconteceu... ou não aconteceu.
– Mas você omitiu a fase em que sua mãe casou pela se-
gunda vez. Então, Lucinda não foi feliz com o segundo ma-
rido? Quem pode dizer que não? Só fazia dele as melhores
referências. Como esposo... Ela nos confidenciava. Não vou
entrar em detalhes. Tenho muita experiência, Nice. Um
homem assim como esse Leitão... Um homem robusto, que
não frequentava bares, não gosta de futebol, não gosta de
rua, assim caseiro. Você me compreende. Lucinda mesma
dizia que nesse ponto era felicíssima. Pra você ver.
Em sua porta batia, tarde da noite: “Sua mãe”. Acompa­
nhava Nice, mas não entrava no quarto da doente. Nice
a atendia, às vezes levava horas mudando-lhe os panos,
acalmando-a. Ao deixá-la, dava com Leitão na sala de jan-
tar, cabisbaixo, fumando. Tresnoitado, a barba despontan-
do, olhos vermelhos, sorria, tímido, desculpando-se: “Não
quer que me aproxime. De minhas mãos o remédio não
faz efeito. Parece que está me odiando”.
Nice foi obrigada a licenciar-se do grupo onde lecio-
nava. Quando não estava com a mãe era topando no cor-
redor, na cozinha, no banheiro (seria de propósito que ele

277
Ex-noite

não fechava a porta?). Preparava-lhe o café separadamen-


te, bem forte, como ele gostava. Estalava a língua: “está no
ponto!”. À mesa, surpreendia-o a fitá-la de modo inusita-
do (ele também não me surpreendia com idêntico olhar?).
Nos momentos de maior aflição, entrava no quarto para
ajudá-la, ajudar a ambas. No espaço exíguo fatalmente te-
riam de se tocar. Nice sentia no braço a aspereza do pelo de
suas costas (até nas costas tinha cabelos), do peito, do ven-
tre; assim como, de sua pele, uma mornidão suave, iman-
tada tepidez que cada vez mais a perturbava. Com a trégua
que lhes dava a doente, iam para a sala de jantar, exaustos,
evitando olharem-se, certos de que se o fizessem sucum-
biriam. “Quer que lhe coe um cafezinho?”, gemia Nice,
muito baixo (temendo acordar a mãe ou acordar-se? Ou
acordá-lo?). Ele assentia com ar bondoso (paternal!): “Está
ficando perita em café”. Nice o fitou essa vez. Ele ficou sé-
rio de repente, tremeram-lhe as comissuras da boca, o osso
do maxilar tornou-se-lhe visível, como se ele, contendo-se,
apertasse os dentes. E antes que Nice apanhasse as xícaras
para levá-las à cozinha: “Sua mãe era assim quando me
casei. Você está ficando igualzinha a ela”.
Com o agravamento da doença de Lucinda, Leitão ficara
dormindo no sofá, enquanto não se lhe providenciava uma
cama. Tinha noite que ferrava no sono, não ouvia o ape-
lo desesperado da doente. Nice, sim, de seu quarto, para
isso costumava deixar a porta aberta. Ao passar pela sala da
frente, sem necessidade acendia a luz, só para vê-lo naquela
postura tão conhecida: de costas, pernas entreabertas, os pu-
nhos sobre o peito. Havia ocasiões em que se dava o contrá-
rio: despertava com Leitão, em pé, junto à cama: “Sua mãe”.
Mas Nice tinha quase certeza de que ele não a havia chama-
do antes, teria ficado ali durante algum tempo, olhando-a,
sentindo talvez o que ela sentia vendo-o na mesma situação.
Numa noite em que a mãe mais sofrera, Nice, ao vê-la
enfim sossegada, deixou-a, no intuito de apenas descan-

278
Gilvan Lemos

sar. Amanhecia. Só então se lembrou de que Leitão se au-


sentara. Não o encontrou no sofá. Estava na sala, as mãos
no rosto, curvado sobre a mesa. Mas não dormia. Voltou-
se ao dar pela presença de Nice. Tinha a face brilhante,
resto de lágrimas a escorrer-lhe pelo queixo: “Como ficou
ela?”. Levantou-se, ansioso: “Pensei que fosse morrer”.
Inesperadamente abraçou-se com Nice, baixou a cabeça,
soluçou em seu colo; participava da dor comum a ambos,
era evidente. Sua voz ecoava no peito de Nice, o signifi-
cado de suas palavras perdia-se, abafado. Solidária, Nice
afagou-lhe a cabeça, descansou em seu ombro. Mas houve
em seguida uma espécie de silêncio, silêncio íntimo, sú-
bito e inexplicável. Nice percebeu que ele a beijava nos
seios, no pescoço, e que de seu corpo, do dele, emanava
um tepor crescente, envolvente, e que, enorme, áspero
em alguma parte, ele a subjugava. A expressão do seu ros-
to se modificara. Não demonstrava arrependimento ou
surpresa, mas um propósito firme, uma vontade inaba-
lável, certo ar de cumplicidade. Botou o dedo nos lábios,
afastou-se rápido. Em suspenso, como que esvaziada, Nice
permaneceu no mesmo lugar: esperava. Ele voltou, pisan-
do com maciez, ciciou: “Está dormindo, vamos no quarto,
na sua cama”. A Nice soou afável, adoravelmente meiga
aquela instância (de experiência feita, como a do pai que
interfere para que o filho ingira um remédio salutar).
– Santo Deus, como é tarde, Nice! Preciso ir, minha
filha, tenho tanto que fazer.
– É cedo, Lala, fique mais um pouco, pode ser que
mamãe se reanime, vocês conversam.
– Não, não acredito que ela se reanime. Fica para ou-
tra ocasião. Coitada da Lucinda, não creio que haja outra
ocasião. Desculpe, Nice, mas é necessário que você esteja
prevenida, você não deve ter ilusões.
– Sei, Lala, estou conformada.
– Pobrezinha! Paciência, querida, isso é da vida.

279
Ex-noite

– Sei, sei.
– Bom… Seu padrasto? Pensei que estivesse aqui.
– Deve estar lá para os fundos.
– Recomende-me a ele. E não esqueça de nos avisar.
Qualquer coisa, já sabe. Não passe esse momento sozinha,
querida, chame-nos, qualquer uma de nós, é só telefonar
para a repartição.
– Sei que conto com as colegas de mamãe, principal­
mente com você, Lala. Muito obrigada.
– Está aberta a porta? Não precisa ir comigo até o por-
tão. Até a próxima vez, querida. Mas espere, Nice, minha
filha, não sei como dizer...
– Que é, Lala?
– Esse homem…
– Seu Leitão? Que tem ele?
– Minha filha, não repare, falo em confiança, afinal
tenho idade de ser sua mãe.
– Que é, Lala? Pode falar.
– Esse seu Leitão! Você disse que ele estava lendo, mas
reparei: não retirava os olhos de você.
– Tolice, Lala, pode ir em paz. Quanto a isso não tenha
receio, não há perigo, pode ficar tranquila.
– Bem, adeus, esqueça o que eu disse. Olhe, estamos
prontas para ajudá-la a qualquer hora do dia ou da noite.
Três dias depois, Lucinda morreu. Enquanto Leitão
providenciava o necessário junto à casa funerária, Nice
vestiu-a – tendo o cuidado de manter no lugar próprio
o enchimento que lhe servia de peito –, penteou-lhe o
cabelo, botou a dentadura em sua boca. Quando o cai-
xão chegou e foi colocado na sala sobre duas cadeiras,
transportou-a para ali, com a ajuda do padrasto. Só então
telefonou para as colegas, amigos e parentes.
Nesse mesmo dia, à noite, logo que a casa ficou deso-
cupada de todas as pessoas solidárias e de suas respectivas

280
Gilvan Lemos

condolências, Nice transferiu para o quarto da mãe seus


objetos de uso íntimo, virou o colchão, mudou os lençóis e
foi tomar banho. Leitão, livre já do fato solene e em calça
de pijama, acompanhava no televisor os últimos telegra-
mas do noticiário.
Ao sair do banheiro, Nice verificou que Leitão estava
cochilando, com um dos seus romances policiais prestes a
escapar-lhe da mão. Nice recolheu-se ao novo aposento.
Pouco depois ouviu que Leitão corria os trincos das por-
tas, ia apagando uma a uma das lâmpadas que ficaram
acesas. Na penumbra, viu-o penetrar no quarto, escorar a
porta levemente. E despir a calça do pijama.

281
Dois dedos
Graciliano Ramos

Doutor Silveira atravessou a antecâmara e aproximou-


se do reposteiro. O contínuo velho barrou-lhe a passa-
gem, quis exigir cartão de visita, mas vendo-lhe o rosto, a
mão que se agitava como afastando uma coisa importuna,
curvou-se, entreabriu o pano verde e foi encolher-se num
vão de janela:
– Deve ser troço na política.
Doutor Silveira entrou no gabinete do governador.
Entrou de coração leve, como se pisasse em terreno co-
nhecido, os braços alongados para um abraço. Um abraço,
perfeitamente. O homem que ali estava fora vizinho dele,
colega de escola primária, colega de liceu, amigo íntimo,
unha com carne. A mulher de doutor Silveira tinha dito:
– Visita sem jeito. Esqueça-se disso. Política! E ele res-
pondera:
– Que política! Eu me importo com política? É que
fomos criados juntos. Assim, olhe.
Juntava o médio e o indicador da mão direita, de modo
que se conservassem em posição horizontal, movia-os li-
geiramente. Nenhum dos dedos ultrapassava o outro.
– Assim.
Estirava o indicador e contraía o médio, para que ficas-
sem do mesmo tamanho. Infelizmente não tinham ficado.
Um deles estudara Direito, entrara em combinações, tre-
para, saíra Governador; o outro, mais curto, era médico
de arrabalde, com diminuta clientela e sem automóvel. Por
isso a mulher dissera:
Graciliano Ramos

– Não gosto de misturas. Visita sem jeito. Cada macaco


no seu galho.
– Que galho! – retrucara doutor Silveira. Éramos dois
irmãos. Estudávamos juntos, vivíamos juntos. Vou. Se não
fosse, o homem havia de reparar. Um irmão.
Escovara e vestira a roupa menos batida. Isso de roupa
era tolice, mas afinal fazia uma eternidade que não via o
amigo, o irmão, unha com carne.
– Assim.
Tomara um automóvel. Chegara ao Palácio, onde nun-
ca havia posto os pés, atravessara o hall, hesitando. O ga-
binete do Governador seria à direita ou à esquerda? Per-
guntas cochichadas a funcionários carrancudos.
O amigo, o irmão, havia sido reprovado em química
vinte anos antes, enganchara-se no átomo. Agora domi-
nava aquilo tudo, e o átomo era inútil.
Informado por um guarda, doutor Silveira transpuse-
ra uns metros de corredor sombrio, entrara na antecâma-
ra, chegara-se ao reposteiro, afastara o contínuo velho,
que se encolhera num vão de janela:
– Deve ser troço.
Bem, doutor Silveira estava no gabinete, livre de in­cer­
tezas e das informações daquelas caras antipáticas. Avan-
çou dois passos, os braços estirados como para abraçar
alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soa­
lho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que
escorregar era inconveniente. Não devia escorregar. Pi-
sando no paralelepípedo, caminhava direito. Mas ali, na
madeira envernizada, a segurança desaparecia. Cócegas
nas solas dos pés, suor nas solas dos pés. Um escorrego –
confissão de inferioridade.
Aprumou-se, estendeu os olhos em redor, e foi aí que
notou o lugar onde se achava. No salão, fechado, o que lhe
provocou a atenção foi a mesa de tamanho absurdo, entre

283
Dois dedos

cadeiras de altura absurda. Teve a impressão extravagante


de que a mesa era maior que o salão. Nunca havia entrado
em gabinetes, mas acostumara-se a julgá-los pequenos. E o
salão era enorme, cercado de vidros por um lado, de livros
pelo outro. Aquilo tinha aparência de biblioteca pública.
De relance percebeu uma fileira de volumes taludos,
bem encadernados, e entristeceu. Devia ser um dicionário
monstruoso, uma enciclopédia, qualquer coisa assim, para
contos de réis. Engano: era simplesmente uma coleção do
Diário Oficial. Mas isso produzia efeito extraordinário, e
doutor Silveira imaginou ali grande soma de ciência. Deu
um passo tímido no soalho, temendo escorregar de novo.
Nenhuma segurança. Os braços, que se arqueavam para
um abraço, caíram desajeitados ao longo do corpo meio
corcunda.
Desviando-se das prateleiras onde se enfileiravam as
dezenas de volumes grossos, os olhos pregaram-se no chão
e assustaram-se com o brilho excessivo das tábuas. Insen-
satez fazer o pavimento das casas assim lustroso e escor-
regadio. Arriscou algumas passadas, convencido de que o
observavam e censuravam. Certamente havia ali pessoas,
talvez pessoas conhecidas, que ele se esquecera de cumpri-
mentar. Notara apenas a mesa enorme, as cadeiras altas
demais, as vidraças e os livros, especialmente a coleção en-
cadernada a couro, com letras douradas nos lombos. Teve
raiva da timidez que o amarrava, ergueu a cabeça e quis
pisar firme. Uma criança, um matuto, encabulado.
Examinou a sala. Na extremidade da mesa, um homen­
zinho escrevendo. No momento em que doutor Silveira
se certificava disto, a personagem soltou a pena, mostrou
uns olhos empapuçados e deixou escapar um gesto de
repugnância. Contrariado, sem dúvida, interrompido no
trabalho maçador.
Doutor Silveira arrependeu-se de não ter ouvido o
conselho da mulher. Que entendia ele de política? Devia

284
Graciliano Ramos

ter ido visitar os doentes do arrabalde. Estupidez aproxi-


mar-se de figurões.
O movimento de repugnância do homem que escrevia
na cabeça da mesa durara um segundo, transformara-se
num sorriso de resignação. O antigo camarada tinha aque-
le sorriso, mas não tinha o gesto de aborrecimento nem os
olhos empapuçados. Que mudança! E em pouco tempo.
Na verdade fazia pouco tempo que eles estudavam
juntos no quintal de Silveira pai, debaixo das manguei-
ras, deitados nas folhas secas. As meninas dançavam e
cantavam. Uma tia do outro vinha vigiá-los, com óculos e
um romance. Não vigiava nada, mas a presença dela, dos
óculos e do romance era um hábito necessário. Parecia
que aquilo tinha sido na véspera. A tia idosa, com o nariz
em cima do livro; as meninas dançando e cantando; eles
deitados nas folhas secas, decorando os pontos.
O companheiro fora reprovado em química. Rapaz
inteligente, mas perturbara-se, atrapalhara-se no átomo.
Chorara, jurara vingar-se do doutor Guedes, inimigo do
pai dele. Injustiça, não valia a pena estudar. Perseguição
a um excelente aluno, bem comportado, avesso a bader-
nas. Doutor Guedes tinha feito canalhice. Para que servia
o átomo a quem ia ser bacharel? Vinte anos. Em vinte
anos o mundo dá muitas voltas, mas realmente parecia
que aquilo acontecera na véspera.
– Como a gente muda depressa!
O antigo colega não tinha os olhos empapuçados nem
o gesto de aborrecimento. Era um menino amável e riso-
nho. Por isso ele o animara, consolara, citara exemplos de
homens importantes que haviam sido reprovados. Tolice
amofinar-se por causa de uma safadeza do doutor Guedes.
Vinte anos. Agora tudo era diferente. O salão enorme,
a mesa enorme. Doutor Silveira estava numa extremida-
de da mesa e via na outra os olhos empapuçados que se
fixavam nele, tranquilos. O gesto de impaciência desapa-

285
Dois dedos

recera, o sorriso desaparecera. O que havia eram os olhos


cansados que não o reconheciam. Estaria transformado a
ponto de não ser reconhecido? Devia estar. A calva, a cor-
cunda, a palidez. Era outro, certamente. Moço ainda. Mas
aquela vida agarrado aos defuntos e aos doentes inutili-
zava um homem. Velho. Ambos velhos. A calva, a corcun-
da, a palidez; os olhos empapuçados, frios, indiferentes.
Se encontrasse o amigo na rua, passaria distraído, com o
pensamento no hospital, no necrotério, na mesa de ope-
rações. Passaria distraído, lembrando-se de uma artéria
que havia sido cortada. Essas coisas tinham grande im-
portância para ele e nada significavam para o homem que
escrevia, ali a alguns metros. Que estaria escrevendo? Te-
legrama ao Ministro do Interior, ao Ministro da Agricultu-
ra. Doutor Silveira não saberia redigir telegramas a esses
ministros. Podia ser que aquilo fosse apenas um cartão a
chefe político da roça. Doutor Silveira não seria capaz de
redigir sequer um desses cartões vagabundos.
Avançou um passo para contornar a mesa e chegar-se
ao homem pelo lado direito; recuou, avançou pelo lado
esquerdo – e permaneceu no mesmo lugar. Indecisão es-
túpida. Suor nas palmas das mãos, suor nas solas dos pés.
Felizmente a mesa estava sobre um tapete e não havia o
receio de escorregar. Podia aproximar-se andando com
segurança, mas os olhos empapuçados, a mão esmorecida
no papel, uma interrogação no rosto parado, davam-lhe
vergonha e tremuras. Quis retroceder, abandonar a sala
triste e silenciosa; olhou para trás, encontrou os volumes
do Diário Oficial, terríveis, com letras douradas nos lom-
bos de couro. Não conseguiria adquirir uma coleção assim
rica, mesmo a prestações. Que fazia num salão que tinha
livros tão ricos? Queria voltar, atravessar o espaço que o
separava da porta, levantar o reposteiro, fugir do contí-
nuo, do guarda, alcançar a rua. Mas ninguém entra numa

286
Graciliano Ramos

sala para sair correndo como doido. Difícil escapulir-se,


deixar os olhos empapuçados que tentavam reconhecê-lo.
Estava cheio de constrangimento e notava que produzia
constrangimento a um desconhecido perturbado no seu
trabalho: telegrama ou cartão, a ministro ou a prefeito do
interior. Esse trabalho estranho confundia-o. Difícil escre-
ver o cartão ao prefeito.
Compreendeu que havia procedido mal não dando o
cartão de visita ao contínuo. Cultivavam ali uma etique-
ta, costumes bestas que ele ignorava e não procurara co-
nhecer, porque do outro lado do reposteiro se achava um
homem que fora para ele unha com carne. Dois dedos,
assim, juntos, movendo-se no mesmo nível e quase do
mesmo comprimento. A mulher não acreditara na histó-
ria dos dedos e aconselhara-o a ficar em casa de pijama,
lendo revistas de Medicina. Revistas, naturalmente: im-
possível obter volumes grossos como aqueles encaderna-
dos a couro, com letras douradas nos dorsos.
Criatura inferior. Sem dúvida, inferior. Não avançava
nem recuava. Iria aproximar-se pela direita ou pela es-
querda?
Os pontos do liceu eram cacetes. À noite Silveira pai
interrogava-os em Geografia e História, queria saber se
eles aproveitavam o tempo. As meninas dançavam e can-
tavam, fazendo rodas. Onde estariam elas? Longe, casa-
das, mortas, diferentes, outras criaturas que não dança-
vam nem cantavam.
O antigo companheiro também era outro, um dedo
amputado. Doutor Silveira desejava apenas aproximar-se,
dizer algumas palavras. As palavras, estudadas, sumiam-
se. Como se chegaria? Pela direita ou pela esquerda? Era
melhor fugir, sair do tapete, pisar no soalho lustroso, ar-
riscar-se a escorregar novamente. Suava. Impossível evi-
tar os olhos que não o reconheciam.

287
Dois dedos

Agora tinha medo de que o homem supusesse que ele


ia chorar, pedir emprego. Não ia. Imaginava fazer o gesto
de virar os bolsos pelo avesso, mostrar que não precisava
mendigar os cobres mesquinhos do imposto. Vivia satis-
feito. Visitava doentes pobres, trabalhava no hospital, as-
sinava as revistas indispensáveis. Tranquilo. Não ia pedir.
Nenhuma ambição, poucas necessidades. Queria abraçar
o amigo, felicitá-lo, conversar uns minutos, lembrar os
tempos velhos, os pontos decorados sob as mangueiras,
as meninas, a senhora idosa. Não ia pedir. A roupa estava
realmente safada, os sapatos cambavam. E a corcunda, a
palidez, a magreza, o modo encolhido. Mas tinha os doen­
tes do arrabalde, que só acreditavam nele, o hospital, que
dava ordenado magro e trabalho excessivo, a mulher eco-
nômica. Sentiria se o privassem do hospital. Muitos casos
interessantes.
Uma visita de cortesia. A roupa era de mendigo. Não ti-
nha pensado na roupa ao sair de casa. A gola suja, a gravata
enrolada como corda. Desleixado. Nunca prestava atenção
à mulher, que o importunava diariamente: “Feche esse pa-
letó”. Não fechava. E arrependia-se, ali na ponta da mesa,
mostrando a camisa, que entufava na barriga.
O homem dos olhos empapuçados julgava-o um pulha,
um pedinte de emprego, uma dessas criaturas que apare-
cem nas audiências públicas e levam cartas de recomenda-
ção. Por isso estava com o rosto parado, pronto a murmurar
uma recusa seca, defendendo o osso roído. Doutor Silveira
não precisava do osso. Queria conversar uns minutos, lem-
brar o tempo de liceu, a senhora velha que lia o romance,
as meninas, os pontos, o átomo, as amolações de Silveira
pai. Impossível falar sobre essas coisas. Tinham sido dois
dedos, assim, mas estavam separados. Como vencer a se-
paração, a mesa enorme que se interpunha entre eles, ro-
deada de cadeiras altas? Iria pela direita ou pela esquerda?

288
Graciliano Ramos

Doutor Silveira afastava-se para um lado, afastava-se para


outro lado, e permanecia no mesmo lugar. O homem dos
olhos empapuçados não o reconhecia. Reconhecia-o. Tal-
vez não o reconhecesse. Um antigo condiscípulo, um su-
jeito encontrado em qualquer parte. Amigo, certamente,
desses que a gente saúda com indiferença: “Olá! Como
vai?” Procurava lembrar-se do nome de doutor Silveira.
Colega de escola primária, de liceu ou de academia. Ten-
tava recordar-se, a pena suspensa, o telegrama interrom-
pido. Visita importuna, tempo perdido.
– Esses tipos têm as horas contadas, tantos minutos
para isto, tantos para aquilo. Não se ocupam em conver-
sas fiadas.
Negócios sérios, públicos. Doutor Silveira sentia-se
amarrado, preso ao tapete, junto a uma cadeira alta que
tinha uma águia sobre o espaldar. As encadernações não
lhe saíam da cabeça. Muitos livros, aparência de bibliote-
ca. Volumes grossos, com letras douradas nos lombos.
Recordações tão minguadas! A senhora velha folhean-
do o romance, as crianças dançando e cantando, as man-
gueiras, os dois ouvindo as explicações de Silveira pai.
Ele e aquele indivíduo que se aborrecia a alguns metros
de distância, a pena suspensa, o telegrama interrompi-
do, uma interrogação vaga nos olhos empapuçados: “Olá!
Como vai?”
Estupidez lembrar-se do passado inútil. A mulher ti-
nha razão. Acabar depressa com aquilo, voltar ao subúr-
bio, vestir pijama, calçar chinelos, ler as revistas indispen-
sáveis.
Avançou. Não sabia se avançava pela direita ou pela
esquerda. Completamente atordoado. Acabar depressa
com aquilo. A mulher tinha razão.
– Olá! Como vai? – perguntou o homem de olhos em-
papuçados.

289
Dois dedos

Doutor Silveira sentou-se numa das cadeiras altas de-


mais, começou a gaguejar. Cadeiras tão altas! Esfregou as
mãos. E pediu o emprego. Uma sinecura, um gancho na
Saúde Pública. Não se referiu aos acontecimentos antigos.
Necessidade, pobreza, tempos duros. Esfregava as mãos
encabulado, mostrando a esmeralda. Um emprego na
Saúde Pública.
– Está bem, disse lentamente o homem de olhos em-
papuçados. Vamos ver. Apareça.
E encostou a pena no papel, manifestou a intenção de
continuar o telegrama.

290
O almirante
Hermilo Borba Filho

Era raro mas acontecia: a neblina. A claridade ainda


muito difusa que vinha da barra do horizonte abria, na
cerração, um semicírculo de olho direito a olho esquerdo, a
cabeça firme, em linha reta, movida para cá e para lá, o se-
micírculo de cada lado interrompido por edifícios, coquei-
rais, cajueiros, mangueiras. Ele gostava da névoa e tentava
agarrar os fiapos brancos, esgarçados, sabia que haveria
de chegar atrasado ao mercado, mas não conseguia fugir
ao encantamento, a féria do dia seria insignificante, os ca-
ranguejos, nas latas, faziam um barulho rascante e metáli-
co, outros concorrentes já teriam vendido os bichos, para
ele pouca coisa haveria de sobrar. Raras vezes no ano havia
neblina e era bom aproveitá-la, para nada, pelo prazer de
permanecer com as pernas musculosas atoladas na lama,
respirando de boca aberta, vendo como tudo era leitoso.
Somente o primeiro lampejo do sol despertava-o de vez:
a obrigação; tratava, apressadamente, de fazer as rodilhas
de caranguejos, nessas vezes bem chochas, saía do mangue
no chape-chape, lavava os pés na primeira água corrente
esfregando-os um contra o outro, punha-se a andar, em
quinze minutos vencia a distância que o separava do mer-
cado, postava-se atrás do balcão dos caranguejos, os outros
já haviam vendido e ido embora, armava-se de paciência
para esperar um hipotético freguês, mas nem por isto per-
dia o riso claro, aberto, de dentes largos.
Almirante Siri era figura musculosa de um metro e
noventa, ria a propósito de tudo, tinha as mulheres que
queria, sabia ser valente quando era preciso e amigo nos
O almirante

momentos incertos. Durante as manhãs vendia carangue-


jos, brincava e contava piadas; almoçava com uma pinga,
uma só, procurava um caminhão estacionado e metia-se
embaixo dele para a sesta, abrigado do sol. Quando acor-
dava, pelas quatro, encontrava um parceiro para jogar firo
até que a noite descesse; ia à procura de mulheres, sem-
pre encontrava uma, com ela dormia ou não, quando não,
deixava-se arriar na rede do seu mocambo para acordar
noite ainda e sair atrás dos caranguejos; o dia se repetia.
Somente aos sábados à noite (o domingo não contava: era
todo ele uma diversão só) saía dessa rotina para se dedi-
car, com toda a seriedade, à grande paixão de sua vida:
Almirante Siri era Capitão-General de Fandango e ensaia-
va durante todos os sábados do ano todo para o Ciclo do
Natal. Não admitia brincadeiras no seu folguedo. Nada de
esculhambação, berrava, quando os marinheiros, nas jorna-
das, atrasavam a dança ou desafinavam ou riam de uma
bobagem qualquer. O Ração e o Vassoura improvisassem,
menos na sua cena: Fostes à Casa do Contramestre? Destes
o dinheiro da ração? Que compraste para a gente da Aba-
riação? Comprei tanta coisa que o Contramestre não sabe.
Então diz lá. Eu comprei dez réis de fígado, um vintém
de tripa fina com tripa grossa, comprei dez réis de bofe.
Quando cai na caldeira faz pufu. Compolhos e repolhos,
comprei um vintém de alface misturado com presunto para
mim mais Vassoura, que gosto muito. Comprei um mocotó
tal e qual, comprei uma coisa para a frigideira do senhor
Capitão-General que ainda não comeu, já está lambendo
o beiço. Então diz lá. Digo se me der alguma gorjeta para
mim mais Vassoura. Senhor Capitão-General já foi à caban-
ga? Não viste? Quando as fateiras estão tratando os fatos,
tripas. Viste? Quando elas cortam a tripa em cima e cortam
embaixo aquilo que sai de dentro como se chama, senhor
Capitão-General? Maniçoba. Pois foi isto que comprei para
a frigideira do senhor Capitão-General.

292
Desempregado
Hugo Vaz

Quando o automóvel dobrou na esquina, vindo em di-


reção ao prédio de apartamentos, os faróis iluminaram o
muro do edifício e a luz bateu de chapa no rosto de Gena-
ro. Há mais de uma hora estava ali, à espera, no aguardo
do primo Henrique. Depois de sete anos sem emprego,
sofrendo as piores vicissitudes, finalmente acreditava ter
arranjado colocação, e agora, definitivamente, poderia
descansar sossegado, a consciência tranquila, ciente da se-
gurança futura que não faltaria aos oito filhos e à mulher.
Nunca mais choraria quando descrevesse aos conhecidos
toda sorte de misérias por que tinha passado. A extensão
de sua infelicidade não caberia, daquele dia em diante,
na quietação que o novo emprego lhe asseguraria. Agora,
teria trabalho certo, classificado, documentado, com ga-
rantia de direitos que a legislação trabalhista outorgava.
Ficaria na memória, apenas, lembrança de empregos an-
teriormente ocupados, sem carteira profissional assinada,
sem direito a férias, sem gratificação natalina, sem vale-
transporte, sem tíquete-refeição, sem nada, sujeito à de-
missão e sumária, numa visita inoportuna de auditores do
Ministério do Trabalho. Temia que chegasse à empresa,
de um momento para o outro, aquele tal Moreira, um dos
poucos auditores do Ministério que não “comiam bola”
dos empregadores? Estaria perdido o emprego. Com a
colocação certa que agora lhe arranjaram, tornaria a vi-
ver o bom tempo de ontem, sete anos atrás, o espírito
tranquilizado pela certeza de quinzenas pagas a cada mês.
Desempregado

Aos sábados, a padaria da esquina de novo voltaria a des-


pachar-lhe pacotões de pão – o pão melhorado de massa
pura – biscoitos doces e salgados, bolinhos de queijada,
que os meninos adoravam no café dos domingos. Poderia
até voltar a ir ao cinema com a mulher e os três filhos
mais velhos. Levaria a patroa e os meninos à sessão pas-
satempo das matinais domingueiras no centro da cidade.
Aos domingos de tarde, o Horto de Dois Irmãos e o Jar-
dim Zoológico voltariam a maravilhar os olhos extasiados
da criançada. Ao meio-dia, o cozido ferveria na panela à
espera deles, suculento, enquanto a meninada lancharia
às dez, bananas e doces. Ah! quanto tempo faz que os oito
meninos não sabem o que é um pedacinho de doce! Desde
que demitido do último emprego, nunca mais entrou em
sua despensa uma lata sequer de doce de goiaba! Há sete
anos, precisamente! Desde então, Genaro foi perseguido
por sorte madrasta. Enterraram caveira de burro nos ras-
tros do seu caminho... Tentara todos os meios em busca
de nova colocação. Parentes, amigos, conhecidos, até po-
líticos ele procurou – “o recurso infalível”, disseram-lhe.
Tudo falhou. Nas eleições passadas, comprometeu-se, ci-
nicamente, com cinco vereadores, prometendo-lhes votos
seguros seu, de sua mulher e de parentes. Todos promete-
ram emprego de servente na Câmara Municipal, no caso
de serem eleitos. Acreditou em todos e não votou em ne-
nhum. Dois foram realmente eleitos por grande maioria
de votos. Todavia, divergências partidárias que influen-
ciaram a Mesa Diretora da Câmara Municipal não permi-
tiram contratar mais um servente, além dos vinte e nove
que já se acotovelavam nos corredores e dependências
da edilidade. Continuou tentando, ora o balcão de lojas,
ora tarefas de office-boy, ora o trabalho braçal de emprei-
teiras que a Municipalidade contratava para serviços nas
vias públicas. Nada e nada. Nenhum dos dois vereado-

294
Hugo Vaz

res pôde ajudá-lo. Alegavam ser novos no cargo, em pri-


meiro mandato, e não dispor de prestígio suficiente para
contratá-lo. Foram-se sete anos de aperreios, de fome, de
doença e desespero. Sete anos de provação terrível, que
Genaro enfrentou com serenidade oriental. Os meninos
enfraqueceram, quase mortos de inanição. Males os mais
variados foram minando o organismo das crianças, debi-
litando por alimentação ordinária, insuficiente. Não fora
a caridade de parentes e amigos estaria hoje amargando
a saudade d’algum filho morto. A esposa, fraquejando,
adoecera também, perigosamente. Seus parentes se co-
tizaram para salvá-la. Ao fim de cada semana, o menino
mais velho, o Bartolomeu, ia à casa da avó, no bairro de
Campo Grande, apanhar modesta feira. Pacotes de feijão,
de arroz, de farinha e de açúcar, alguns quilos de café
e fubá. A velha sogra também, às vezes, mandava algum
dinheirinho. Poucas notas que economizava serviam-lhe
para comprar, raras vezes, um pedaço de carne verde,
com a qual, junto com metade de um jerimum, ele fazia
refeição mais nutritiva para a mulher adoentada. Quan-
do o menino chegava da casa da avó, Genaro tomava-lhe
das mãos os pacotes, olhava um a um cada produto. Ia
calculando, pensando para quantos dias chegaria a redu-
zida feira. Depois, de súbito, inexplicavelmente voltava-
se para a criança. O olhar parado de louco, sob as vistas
da mulher boquiaberta, esbordoava o filho sem piedade,
odiosamente. Muitas vezes fora preciso a intervenção dos
vizinhos, que vinham arrancar o menino das mãos do pai
alucinado, do “desalmado vagabundo…” Seu Antônio, o
quitandeiro, que morava na casa à direita da de Genaro,
certa vez perdera a paciência, ficara queimado, arretara-
se com Genaro, e desabafara com ele. Aquilo que o pai
fazia com o filho era um absurdo, uma miséria de que a
polícia deveria tomar conhecimento. Era preciso prender

295
Desempregado

aquele monstro! Seu Antônio estava revoltado, disse-lhe


tudo na cara. Que ele não trabalhava, que vivia filando o
pirão da sogra, que lhe pagava até o aluguel da casa; ain-
da por cima, como se não tivesse nada a fazer, espancava
o filho inocente, impiedosamente, como se batesse num
jumento. Antônio ameaçou: – Que parasse com aquilo, do
contrário ele mesmo tomaria as providências; não supor-
taria ver tanta miséria de um pai em relação ao filho me-
nor, não toleraria tamanha desumanidade. Genaro não
reagiu. Tampouco deixou de bater nos meninos.
Naquela tarde, Genaro retirou-se para o fundo do
quintal; foi matutar, sentado num banco de tábuas velhas,
por trás do mocambo onde morava, debaixo de frondoso
cajueiro. Tentava compreender por que razão espancava o
menino toda vez que ele voltava da casa da avó, trazendo
a humilde feira semanal. Que diabo de ódio sem sentido
lhe assanhava, como se tivesse virado bicho desalmado,
ele que, na maioria das vezes, era tão terno com os filhos.
Filhos que ele considerava tudo o quanto lhe restava da
onda de misérias que varrera sua vida. Seu único e maior
patrimônio! Julgava, por um instante, que os meninos
eram exclusivos responsáveis pela desgraça que se abatera
sobre eles. Lembrava-se agora dos conselhos de um amigo
prudente, antes de casar-se, de que deveria evitar filhos.
Havia tantos e tão eficientes métodos! Camisinha, tabela
de fertilidade de Ogino, saltar do bonde em movimento...
Métodos seguros e fáceis de serem adotados. Era só querer
e combinar com a mulher. “Filhos arruínam tudo” – ad-
vertia-lhe o amigo – “botam azar no casamento.” Genaro
não entendia, não queria se convencer da culpabilidade
dos meninos. Algo imponderável se ocultava por detrás do
seu destino infeliz. Continuou a bater nos meninos, espe-
cialmente no mais velho, o Bartolomeu, toda vez que ele
retornava da casa da avó com a feira de toda semana. Sua

296
Hugo Vaz

ferocidade se ampliava a cada surra que dava. Os vizinhos


até que se foram acostumando, seu Antônio já não mais
ameaçava chamar a polícia, concluíra que não havia mais
jeito. Um ano, dois, três, quatro, cinco, seis, sete anos e
Genaro na mesma vida miserável. Desempregado, depen-
dendo de parentes e de amigos, engolindo a farinha seca
que a sogra lhe mandava todos os sábados. Coisa que os
vizinhos não entendiam eram a ternura e o carinho de
Genaro com os meninos, quando à noite, depois do magro
café, se sentavam ele e a mulher na frente do mocambo
para contar histórias de Trancoso e contos das Mil e uma
noites. Eram oito os meninos, o mais novo com poucos me-
ses de nascido e o mais velho beirando os treze anos. O no-
vinho ficava no colo da mãe, enquanto o resto se espalhava
em torno. Sentados no chão, sem camisa, com a mesma
roupa usada e suja com que se levantavam e se deitavam
todos os dias; alguns montados nas pernas do pai.
Não havia água encanada nem luz elétrica no mocam-
bo de Genaro. O telhado baixo de zinco absorvia a luz do
sol durante o dia e de noite filtrava para o interior um ca-
lor infernal, que escarmentava as crianças semidespidas,
dentro da tapera sem divisões. Um velho lenço de lã todo
esburacado servia de tabique entre a cama de Genaro e
a dos meninos. Bartolomeu, o mais velho de todos, pe-
gara o costume de olhar o pai pelos buracos do cobertor
quando ele se deitava com sua mãe. Genaro tinha medo
de dormir no escuro, por isso não dispensava um cande-
eiro de querosene aceso durante toda a noite. Era difícil
para ele adormecer, quando, na falta de querosene que a
sogra fornecia, tinha de se deitar e dormir na escuridão.
Sonhava sonhos horrorosos, visões e alucinações terríveis.
Preferia ficar de vigília, decifrando cada ruído no telha-
do de zinco, cada baque de fruta no fundo do quintal.
Nessas noites, sem a luz do candeeiro, Bartolomeu ador-

297
Desempregado

mecia aperreado... Quando, todavia, estava aceso o pavio


da lanterna de gás e a luz bruxuleante projetava sombras
esquisitas, espalhadas na parede suja do casebre, o meni-
no se levantava da cama sorrateiro, cuidadoso para não
acordar os irmãos, e ficava espiando os movimentos do
pai, deitado sobre sua mãe, as sombras grotescas e curio-
sas dançando na parede sem reboco. Já sabia de tudo...
Descobrira como era... Uma noite, Genaro o pegou de
surpresa, brechando-o pelo orifício do lençol esburacado.
A surra que dera no filho não lhe fizera tanto mal, não lhe
calou tão fundo, como a ameaça aterradora que fizera ao
menino: “Doutra vez, lhe mando para o Juizado de Me-
nores, seu sem-vergonha!”
Eram dificuldades de um homem sem emprego, do
“vagabundo cruel” que os vizinhos não cansavam de cha-
cotear. Mas agora, finalmente, Genaro arranjara novo
emprego, com carteira profissional assinada e tudo mais.
Estava ali, no portão do primo Henrique, esperando por
ele para contar a novidade, os seus sucessos. Pedir-lhe-
ia, pela última vez, derradeiras finezas de que necessitava
para pôr ordem em sua malfadada vida.
O automóvel parou bem defronte do apartamento, bu-
zinando alto, chamando Marília, que veio correndo acenar
da varanda ao marido recém-chegado. Desta vez, a incô-
moda sensação de vergonha que o acompanhava quando
ia pedir favores ao primo Henrique não seguira com ele.
Tão convicto estava da nova situação, pelo emprego que
passaria a ocupar no dia seguinte, que chegara a esquecer
ser um pobretão, a calça rasgada nos fundos e nos joelhos
e a camisa suja que exalava odor malcheiroso. Esquecera
até a vida privilegiada do primo Henrique, o automóvel,
a roupa de tropical bem passada, a gravata de seda visto-
sa, o luxo quase exagerado do apartamento em que resi-
diam ele e a mulher, Marília. Foi logo subindo as escadas,

298
Hugo Vaz

abraçado ao primo. Alegria besta de menino satisfeito se


derramava de sua fala e dos seus gestos. Para Henrique,
era esta a mais desagradável das visitas a que era obrigado
a receber. Sempre que Genaro aparecia no apartamento,
fosse para que fosse, Henrique passava a noite intranqui-
lo, a cabeça doía-lhe, as ideias embaralhavam-se na busca
de uma explicação para a inquietação que a presença do
primo lhe causava. Não era vergonha nem nojo da situa-
ção de Genaro. Isso nunca! O desemprego era até natu-
ral, qualquer um poderia sofrer o mesmo. Também não
acreditava fosse repugnância às roupas sujas do primo,
à barba por fazer havia dias, os cabelos enormes, sujos e
fedorentos. Seria a distância social entre ambos? Seria o
mocambo de um e o apartamento do outro? Henrique he-
sitava. Enquanto subiam os últimos degraus da escada, o
braço do primo sobre seus ombros, Henrique examinava
furtivamente as unhas crescidas e enegrecidas do primo
arrasado. Esta seria mais uma noite de inquietações, noite
angustiosa que sofreria, meditando na busca de explica-
ções. Que jeito poderia dar na vida de Genaro? – conjec-
turava. O problema do primo era de âmbito muito vasto.
Atingia as raias do terreno político, além do puramente
social. Seria resultante da instabilidade econômica que o
País atravessava? Ou seria mero fruto da indolência do
próprio indivíduo? Seria uma crise social, coletiva, ou
seria a crise de um homem só? Não poderia dar jeito à
sua vida, esta era a verdade mais próxima. Não adiantava
querer compreender um problema que não era seu e do
qual não lhe cabiam culpas. Ou deveria insistir, ajudar? –
Mateus, primeiro os teus... pensou, egoisticamente.
Marília chamou-os para o jantar posto à mesa. Genaro
recusou o convite. Tinha muita pressa, precisava ainda de ir
a Campo Grande, à casa de um cunhado, pedir emprestado
um par de sapatos. Por isso o desculpassem, noutro dia acei-

299
Desempregado

taria o convite. Quando estivesse traba­lhando e o emprego


lhe rendesse o primeiro salário, viria com a mulher visitá-
los demoradamente. Bastaria já o incômodo que dera, pe-
dindo emprestada um terno completo e uma camisa social
de Henrique. Quis dizer mais qualquer coisa, dizer que la-
mentava sinceramente ser obrigado àquilo, estar pedindo o
que era dos outros, mas... Henrique o interrompeu:
– Tolice, Genaro. Vai com Deus e se agarre com fé,
desta vez, com muita vontade, ao seu trabalho. Um dia
também poderão precisar de você, de suas roupas, dos
seus sapatos. A vida é mesmo assim.
Um conselho tolo dado em frase oca. Foi tudo quanto
Henrique soube dizer ao primo, quando este se despediu.
Fora só mesmo o que lhe veio à mente na circunstância
cabulosa da retirada humilhante. Disse até logo ao primo
e deu boa-noite a Marília, que, sem querer, tinha uma lá-
grima pendida dos olhos. Ficou-lhe na retina a imagem
do homem pobre, fundos e joelhos rotos, roupa suja e
cabelos fétidos. Foram jantar. Henrique acabrunhado. A
esposa, silenciosa, indagava de si para si o porquê da mi-
séria do primo do marido. Nunca lhes faltou sequer um
refrigerante na geladeira. Possuía joias, vestidos moder-
nos e caros, automóvel na garagem, móveis funcionais e
completa aparelhagem eletrodoméstica. Tudo adquirido
pelo mais alto preço. Muita comodidade e facilidade em
sua vida, que se constituía, na verdade, um nada fazer
ocioso. O marido, não obstante não ter diploma universi-
tário, estava colocado numa grande empresa multinacio-
nal, privilegiadamente, da qual auferia ótimo salário, su-
ficiente para a manutenção do conforto do apartamento
e do qual ainda lhe restava razoável saldo para poupança
bancária. Não tinham problemas nem filhos. Eram ape-
nas os dois, a vida corria placidamente. Enquanto jantava,
Marília recompunha a situação do seu lar, juntando deta-

300
Hugo Vaz

lhes, comparando-os depois às vicissitudes que o primo


de Henrique sofria. Incompreensível aquele estado de
coisas. Mas agora, felizmente, não teria mais do que se
lamentar. Genaro estava empregado, depois de sete anos
de vagabundagem compulsória, coitado! Os oito meninos
teriam alimentação adequada, o primo do marido não o
viria mais incomodar com pedidos constantes. Não pelo
valor material do pedido, mas pelo sentido de esmola a
ele condicionado. Genaro teria, então, meios de comprar,
talvez – quem sabe? – uma máquina de costura para sua
esposa. Ela até que poderia ir ajudando com costura para
fora, melhorando aos poucos o padrão de nova vida que
agora iniciariam, o marido de novo empregado.

Na noite do dia seguinte, quase à mesma hora do dia


anterior, quando o carro de Henrique dobrou na esquina
e os faróis iluminaram o muro do prédio do apartamen-
to, um homem surgiu à claridade. Henrique saltou sem
buzinar para a mulher. Era Genaro que o esperava. Foi ao
seu encontro:
– Que tal o novo emprego? – perguntou Henrique,
pondo a mão no ombro do primo. – Satisfeito? – deteve-
se, no entanto, e parou à frente do primo Genaro. O ho-
mem chorava, soluçando baixinho, talvez para que estra-
nhos não escutassem o pranto. Falou, a voz entrecortada
por nervoso choro:
– Vim trazer sua roupa e sua camisa. Muito obrigado.
Já devolvi os sapatos ao cunhado.
– Mas o que houve? Não ficou no emprego?
– Não fiquei. O amigo que me arranjou a colocação es-
queceu de informar a minha idade. Com quarenta e cinco
anos, nunca mais me empregarão...

301
Desempregado

O motor do automóvel trabalhava ruidosamente, parado


no meio-fio. A porta entreaberta, escancarada, a luz acesa
no interior clareando o couro vermelho dos assentos luxuo­
sos. Henrique voltou ao veículo, desligou a ignição, bateu
a porta devagar e recebeu o pacote de roupas das mãos do
primo. Subiram as escadas do apartamento, abraçados.
Genaro continuaria desempregado.

302
O rosário
Iran Gama

A fome, a fome diuturna, é guardiã do desespero e da


morte. Então vieram os passamentos, que se alimentavam
apenas com água, na perambulação iniciada. A casa do
parente, jamais encontrada. Sós... A prece, fuga, refúgio,
solução...

... assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendi-
do, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do
mal. Amém, que mais um se foi, minha santa mãe!
A conta de biurá partiu-se sob a pressão dos dentes...

O urubu veio planando, suavemente, até que, abrupto,


tocou os pés no chão, fechando as asas de permanente
luto. Achegou-se à disputa pela carniça, cadáver de um
cachorro, deitada no monturo.
Fora assim, naquele tempo da fuga da seca. Os urubus
devorando tudo que cheirasse a morte. Lembrava. Era
menino pequeno. Mas lembrava. O pai sempre preocupa-
do com a estiagem. Estiagem? Não há estiagem no sertão.
Ali, só a seca. A fome, a desolação. Lembrava, sim. Como
não haveria de lembrar? Garranchos, seixos, formando
serrotes e currais, onde pastoreava brincadeiras. O gado
eram ossos, de muitos animais. Assim também os automó-
O rosário

veis e caminhões, nos postos de gasolina que inventava.


Tempo bom, o da chuva, da invernada. Cabras gordas,
bom leite. Poucas vezes viu. Lembrava, sim. As longas ca-
minhadas, de dias e dias, cortando a caatinga, fugindo
da seca, sem destino nem pouso certo. Navegação difícil,
sacrificosa. Um dia, sem que soubesse como, quando nem
por quê, que o pai nada falava, chegaram na cidade gran-
de. Aí foi só humilhação. Até que a gente se acostumasse,
houve o que padecer de humilhação. Tanta, capaz de ca-
lejar a fé de qualquer cristão. E a fé era tudo pra gente,
era só o que a gente possuía. Especialmente no Padim
Ciço e nas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Escondido sob a moita de mangue, ficou olhando os


urubus devorarem a carniça. O mau cheiro era quase in-
suportável. Mas tinha que aguentar. Havia jurado que
um dia balearia um urubu bem na cabeça. Acocorou-se,
achegou-se mais um pouco, tomando a melhor posição na
tocaia. Algumas formigas começaram a subir pelos seus
pés. Formigas pretas, brabas. Mexeu-se para a direita,
para melhorar o ângulo do tiro. As formigas assanharam-
se. Tomou do bodoque e escolheu no bolso um seixo a
capricho. Lembrou do pai, na espera da asa-branca. A es-
colha do local, direção do vento, teto coberto, vegetação
certinha, combinando com o mato da bebida, o silêncio.
Silêncio. A asa-branca chegando, voando ao redor da bebi-
da, cabeça investigando as cercanias, o pouso no mulungu
mais alto que dominasse todo o terreiro. Bicho esperto.
E arisco. Pousado, olhava em derredor, catava pixilinga.
Finalmente, saltava à margem da bebida, onde por algum
tempo ficava andando em zigue-zague, de cabeça erguida,
ainda na tentativa de surpreender algum inimigo natural.

304
Iran Gama

Certo de não haver nenhum perigo, aproximava-se da


água e baixava a cabeça para beber. Se o tiro saísse, ficaria
ali mesmo ou cairia mais adiante, dependendo do ponto
atingido. Caso não fosse o tiro detonado, enfiava o bico
na água durante brevíssimos segundos, levantava-o para
sorvê-la e, incontinente, batia asas, sem tardança, rumo ao
horizonte. O pai jamais errava o tiro.

As formigas começaram a ferroar, ferozmente. Impa-


cientou-se, sem se mexer do local. Que ferroassem. Em-
punhou o bodoque, seixo no couro, esticou-o, fez mira e
disparou. A revoada foi geral. O urubu visado foi atingido
na cabeça, em cheio. Rodopiou, tonto, as pernas cedendo
ao peso do corpo. Susteve a queda com a asa esquerda to-
cando o solo, depois a direita. Derreou, cambaleou como
bêbado, cangalha, parou, aprumou-se, bateu as asas, cor-
rendo, e alçou voo. Tentou. Ainda tonto, o voo saiu pesa-
do e baixo, fazendo-o chocar-se contra uma touceira de
mangue-branco. Enredou-se na ramagem, deslizou pela
galharia, foi ao chão. Saiu capengando, pernas arquea-
das. Parou. Tomou tento. Novamente decolou. Subiu.
O menino pulou fora do formigueiro. Desgraçadas,
pestes, miseráveis. Esfregou as pernas desesperadamen-
te, esmagando as formigas. As pernas ficaram todas fer-
roadas, marcadas com calombos vermelhos. Ardendo que
só.
Colocou o bodoque no bolso traseiro da calça curta
de zuarte e voltou para a favela, as pernas latejando, feliz
por ter cumprido o que prometera a si mesmo, acertando
o urubu.
... agora e na hora da nossa morte. Amém, que mais
um se foi, minha santa mãe!

305
O rosário

Mal entrou no beco viu o que não entendeu. Um mon-


te de gente na porta do barraco. Correu, assustado. Mãe?!
Pai?! Amedrontado, enfiou-se pelo meio do povo. Arre-
da, arreda, gente. Arreda, que eu quero passar. O choque.
A mãe, em prantos, cabelos desalinhados, expressão de
horror nos mínimos detalhes do rosto. O pai no chão, os
olhos desgraçadamente abertos, a dor da morte tatuada
entre as rugas do rosto. Cerrou os punhos e desferiu enor-
me soco contra a tábua do barraco. Urrou, ferido. Depois,
silenciou. A vizinha acarinhou-lhe os cabelos lisos. Ficou
no passado, olhando o filhote da cadela chorando. A mãe
fora à caça. Uma urutu botara-lhe no focinho. Morte hor-
rível. O filhote, já abertos os olhos, farejando por toda
a casa, grunhindo, chorando, procurando-a. Dolorosa e
sem sucesso, a procura. Grunhiu horas e horas, dia-noite-
adentrando, dando dó. Ele, menino, só olhando, acom-
panhando o cachorrinho no choro sem fim.
Foi ao enterro. Olhar frio, vendo o caixão preto ser co-
berto pela areia, na cova rasa. Rezou o rosário com a mãe
e os vizinhos que acompanharam o sepultamento. Coisa
feia, via, o enterro. A face lívida, uma inexplicável dureza
na voz ainda infantil, enquanto orava.
... agora e na hora da nossa morte. Amém, que mais
um se foi, minha santa mãe!

Madrugada na favela. Do barraco podia-se ouvir o som


de uma vitrola caça-níquel, de cambulhada com um vo-
zerio. Sexta-feira. Uma agitação festiva percorre as entra-
nhas da favela. Ainda luzes acesas, música, goles de cacha-
ça, cerveja gelada, conversas sendo jogadas fora, discussão

306
Iran Gama

acerca do campeonato de futebol. As mulheres casadas se


recolhendo com os maridos. As descasadas e solteiras par-
ticipando dos jogos na noitada, no barracão da cruzada
social. Noite quente, o suor escorrendo pelo pescoço. Bar-
racos fechados, no escuro. O cheiro forte da lama podre do
mangue recende. Lua de quarto minguante. Maré vazan-
te. O guincho dos ratos invade as paredes dos mocambos.
Nauseabundo, paira o desagradável odor de excrementos
em decomposição, jogados na lama, do mangue, sujo ain-
da por força da maré morta. Só maré grande, de lua, é
que limpava a lama. Quinze dias de limpeza, quinze de
sujeira completa. De forma intercalada – lua cheia, quarto
minguante, lua nova, quarto crescente. Favelamento. Ro-
lam a cachaça e a cerveja, copo a copo, gargalo a gargalo,
boca a boca. E a noite prossegue, erma, morna, magra,
faminta. Nordestina. A fome habita os casebres e palafitas.
A barriga grande engorda parasitas. Outra fome. O piado
da coruja sobrevoa o magro casario.
Dorme o homem adulto filho, ao lado da mãe, nas
esteiras de piripiri. Uma luz tênue invade as frestas do
barraco. O piado da coruja lembra o sertão, onde não
se viam ratos. Maré não havia. Nem dessas coisas outras
que conheceram na cidade grande. Agora era o bulício, o
corpo a corpo pela sobrevivência. Piorara tudo, desde que
o pai morrera, pensava o filho adulto, acordado pelo ba-
rulho da farra, próximo da sua morada. O ganho pouco,
grana curta, outro jargão, que alvoroço de cidade grande
muda os costumes da gente. Levantou o braço esquerdo.
A mão tocou no rosário, jogando-o contra o caneco de
lata, derrubando-o. A mãe acordou. Que foi? Nada não,
descanse, mãe.
Subitamente, a noite é invadida pelo espoucar de
balas. Tiros. Gritos. Correria. Levantam-se. Que diacho
será? Sei não. Sei que é bala muita. Deve ser a polícia. Pa-

307
O rosário

rece que é pelas bandas da boca de fumo. O tropel de co-


turnos se aproxima. Três tiros soam bem próximos. A mãe
se agacha. O filho chama-a para junto de si, apertando-a
contra o peito. Se aperreie não, mãe, que estou aqui. A
gente não deve nada. Eu sei, filho, mas essas balas doidas
não enxergam coisa com coisa. Aonde vão, furam. Outros
tiros. Correria. Nos barracos mais próximos apenas o si-
lêncio respondia ao matraquear dos revólveres.
Foi por ali que eles se meteram. O informante disse
que é num desses barracos daqui. Como a gente vai saber
qual é? Não pode. A academia não ensina a gente a adi-
vinhar. Aliás, nem os oficiais aprendem a fazer isso. Tem
que ser mesmo na base da marra. A gente bate na porta.
E se vier bala de dentro? Não quero servir de alvo pra
ninguém. A conversa, aos gritos. Acordando todo mundo.
Barracos fechados. Mete os pés, sô! A porta foi derribada.
A mãe deu um salto, instinto materno protegendo a cria.
O tiro reboou toda a violência do calibre trinta e oito.
... o pão nosso, de cada dia, nos dai hoje, e perdoai as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem
ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-
nos do mal. Amém, que mais um se foi, minha santa mãe!

A mãe fora ao copiá. Precisava de um pedaço de carne


seca. A porta da casa rangeu à sua passagem. Foi e voltou.
O cachorrinho chorava, procurando a cadela enterrada. Na
passagem, de volta, a mãe chutou o cachorrinho. Teve pena,
fez carinhos. Devolveu-o ao chão, que a obrigação da casa
chamava. Pela porta, entreaberta, o cachorrinho saiu. A mãe
observou. Saísse o menino no encalço do fugitivo, que podia
também ser picado de cobra. Lá fora, o chorão entalara-se
numa moita de unha-de-gato. Aprisionara-se, ferido.

308
Iran Gama

O filho adulto amanheceu na cadeia. O corpo man-


chado do sangue que saíra da ferida no peito da mãe.
Agarrara-se a ela. Preso. Deixe-me socorrer minha mãe. A
gente faz isso, malandro. Tapa, chutes, cacetadas, murros.
O mundo rodando, giro doido num eixo de ódio. O mun-
do desabando, sob o efeito de uma coronhada.
Manhã. Bolor nauseabundo. Impossível mover qual-
quer articulação. Dores. Dores. Um papo atrás da cabeça.
Sem conversa. Sofrer o resultado do espancamento. Dure-
za. E a mãe, onde andava? Como estaria? Precisava saber,
precisava ver, precisava ajudar, precisava confortá-la. Ne-
nhuma informação. Prisão. Cadeia. Grades. Animal. Ódio.
Um bicho feio, enorme, crescendo dentro do peito. Policial
safado, nojento. Nova surra... Por quê? Porraaaaaaa!!!...
Nova estação de trevas.
... Amém, que mais um se foi, minha santa mãe!

A gente até que podia ser feliz aqui, minha velha. O


filho ficou ouvindo. Achou bonita aquela conversa do pai
com a mãe. Era pequeno, ainda. Mas não tão pequeno.
Já crescera muito. Curioso, fez-se escondido, amoitado.
Namoravam, pai e mãe. O pai perdera o monossilabismo.
A cidade grande exigia falação. Noite nova, mal iniciada
a escuridão. A gente e o nosso filho, mercê de Nosso Se-
nhor Jesus Cristo e do Santo Padim Ciço, pode ser feliz
em qualquer lugar. É querer de Deus. Que mal fizemos,
para não merecermos a felicidade? O pai pareceu desnor-
teado, mas encontrado. É, você tem razão. A gente sem-
pre cumpriu a vontade de Deus. A mãe puxou a cabeça
do pai, colocando-a no colo. Deus sempre foi bom com a

309
O rosário

gente. Se a gente sofreu algumas vezes foi por culpa dos


nossos pecados. É preciso purgar os pecados. A gente so-
fre, mas depura o espírito. Alisava a cabeça do pai. Houve
silêncio. Apenas o mangue falava os arruídos naturais, de
caranguejos, aratus, apuás, sururus, o safrejado da ara-
gem sobre as flores brancas. Passou-lhe os dedos entre os
cabelos, sobre a ponta das orelhas, fez-se carícias.
O filho encolheu-se na moita. Lembrou a mãe alisan-
do os seus próprios cabelos. Amor.
Saiu silenciosamente, pisando no baixio do mangue-
zal, como um felino à procura da caça, farejando qualquer
passo em falso.
Acordou. A cadeia comprimia. A vida girava, na pri-
são, sobre o eixo do ódio.

Teve pena. Fazia pena. Sempre fizera pena. O novilho


peiado, futuro reprodutor. Desnecessário. Já havia o cam-
peão, pai do lote, bom de mantença, melhor de cruza. Ca-
pão. Doía. Alguns passavam de novilho a touro. Outros, a
maioria, direto a bois, capados.
A madrugada da seca sempre terrível. Vermelho e
preto. Poente preto, nascente vermelho, peito e pernas
de concriz. Acauã, predição de tempo ruim. Madrugada
rubro-negra, sangue-luto, consumação.

Era outro o lavradouro. Carregar tijolos, telhas, lajo-


tas, azulejos, cobogós, areia, saibro, cimento, o que há de
material de construção. Ajudante de pedreiro. Preparar a
massa, carregá-la, erguê-la para o piso superior. Um duro
danado. Sábado também. Melhorar o ganho, com troca-
dos extras, virando domingos e feriados.

310
Iran Gama

As grades, prisão. Ódio. A mãe, que é feito da mãe?


Adulto. De que lhe servia ser, se não podia, se não servia
sequer para ajudar a própria mãe? Peão de construção. O
que era pior? Ser adulto, sem importância alguma para
coisa nenhuma, ou ser ajudante de pedreiro, sem impor-
tância nenhuma para coisa alguma? Era tudo o mesmo
mané luiz. Nem eira, nem beira. Ao menos para uma coi-
sa lhe servira a profissão. Aprendera todos os caminhos
da cidade, praças, ruas, avenidas, becos, vielas, prédios,
favelas, palafitários, mangue, morro, asfalto.
Preso. Nem menino, nem adulto, nem nada. Boi, en-
caretado. A mãe, onde andava a mãe?

A passeata vinha pelo meio da avenida. De cima do pré-


dio em construção podia-se ver com perfeição a multidão,
as faixas, os cartazes. Estudantes. Gritavam qualquer coisa
sobre refeitório. Protestavam contra os aumentos de preços
no restaurante universitário e os recentes aumentos no pre-
ço das passagens de ônibus. Falava-se em suprimir os passes
estudantis. A estudantada estava furiosa. Gritava palavras de
ordem, esbravejava contra a situação que se pretendia criar
para eles. Do meio da multidão de estudantes partiu uma
pedra, que esfacelou a vidraça de uma loja. A polícia surgiu
na avenida, vindo em sentido contrário ao dos estudantes. A
batalha começou. Pedras contra os policiais. Estes, protegi-
dos pelos capacetes e escudos, avançam continuadamente,
tentando se aproximar da turba estudantil para dispersá-la.
Várias granadas de gás lacrimogêneo foram atiradas. Pedras.
A praça de guerra estava completa. A falange policial arre-
meteu definitivamente contra o núcleo da passeata. A de-
bandada foi geral. Alguns, mais afoitos, gritavam as palavras
de ordem e vociferavam o direito que tinham, de expor suas
mazelas, que eram mazelas da sociedade como um todo.

311
O rosário

De cima do andaime ele viu. Três policiais pegaram


um estudante. Aliás, somente dois pegaram, um em cada
braço. O terceiro o que fez foi espancar o rapaz. Golpes
de cassetete e chutes. Ficou de cima, vendo a cena. A co-
vardia do ato causou-lhe náuseas. Covardes. Vai ver que
sozinho não aguenta um sopapo. Cresceu dentro dele o
bicho ruim da revolta, uma semente de ódio. Então era
pra isso que o governo pagava a polícia?

... santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso


reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no
céu. O pão nosso de cada dia dai-nos hoje, e perdoai as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos
têm ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas
livrai-nos de todo o mal. Amém, que mais um se foi, mi-
nha santa mãe!

Noite. A cidade começa a adormecer. Segunda-feira,


início de jornada. Um mormaço atravessa as ruas da cida-
de, paira sobre as habitações e adensa a temperatura. O
soldado desce do ônibus e toma o caminho de casa. Atrás
de si o ônibus dá partida, deixando a parada deserta de
tudo. Afora os ruídos normais da cidade, há um silêncio
enorme na rua. O soldado, sem pressa, caminha, vez por
outra olhando para os lados, como se temesse algo. Os
acontecimentos dos últimos meses justificam todo o seu
temor. Foram cento e sessenta e quatro militares, policiais,
mortos. Todos vitimados por arma branca. Nenhuma tes-
temunha conseguira descrever o criminoso ou criminosos.
Coisa esquisita. A polícia vítima de tamanho desatino. A

312
Iran Gama

cidade está inquieta. A polícia está inquieta. Dos assassi-


nados, a maioria era de soldados. Mas foram igualmente
vitimados alguns cabos, cinco sargentos e até um major.
O governo inteiro estava assustado. Seria a máfia? Que
tipo de criminosos organizados estavam praticando se-
melhante desatino? O governo estadual passava por uma
crise sem precedentes na sua história republicana. Na sua
história inteira, desde as capitanias. Crise de credibilida-
de, crise de responsabilidade, crise moral, crise política.
Como era possível um fato tão assombroso acontecer,
mantendo a própria polícia manietada, ela, a responsável
pela integridade dos cidadãos, e o governo sem respostas
perante a comunidade? No noticiário do País inteiro não
era outro o assunto das manchetes. Mais um caso de cras-
sa incompetência, diziam uns. Puro imobilismo, diziam
outros. Quem poderá proteger a sociedade e os pobres
policiais da sanha desses criminosos? Indagavam outros.
O soldado dobrou a esquina, pisando na rua sem asfal-
to. Rua deserta, mal iluminada. Com medo, desabotoou o
coldre, quase empunhando o revólver. Não cessava de olhar
para os lados, para trás, para frente, tentando enxergar na
escuridão os possíveis vultos que se avizinhassem. Nada via.
Apenas escuridão. Sob o peso do passo com o coturno, a
areia rangia. Enervava-se com o ruído, mas não havia como
mudar. Uma poça de lama, desviou. O suor escorria pelo
queixo. Lembrava os companheiros mortos. Furadas segu-
ras. Às vezes uma só, certeira, no coração. Vinte e cinco deles
foram colegas da mesma turma, na academia. Outros eram
mais novos, alguns mais antigos. Até o dunga do pelotão,
cabra valente, bom de capoeira, sabedor de golpes de cara-
tê, esperto que só, tinha ido. Quem tinha segurança, quem
estava livre de se encontrar com esse assassino louco? E se eu
o encontrasse e o matasse? Seria condecorado, promovido a
cabo, tenho certeza. Apertou mais a coronha do revólver.

313
O rosário

Boa-noite, seu guarda. Assustou-se, o coração dispa-


rado, doidinho da silva, aterrorizado. Como é que esse
aleijado apareceu aqui, tão de repente, de onde veio que
não vi? Deve de ter parte com o capeta. A mão doeu, do
aperto que deu na coronha da arma. Que é que você quer?
Não quero nada não senhor. Então desafasta, arreda! O
homem magro, esmolambado, com uma perna só, duas
muletas, desculpou-se, deu as costas. O soldado voltou-se,
retomando a caminhada.
Vuup! O soldado caiu, surpreendido pela pancada des-
ferida com a muleta. Uma faca brilhou sob os reflexos de
uma distante lâmpada. Um rosto lívido, enrugado, ma-
gro, fez-se todo decisão, sob o olhar duro, no momento
em que a faca seguiu o seu itinerário de morte.

Liberto. Dois dias de cadeia. Nenhuma explicação


para a prisão, nem outra para a soltura. Coisa sem valor,
o que se soltava. Voltou correndo para casa. Ansiedade
enorme dominando o corpo. Queria ter asas, para chegar
mais depressa. Impacientava-se, angustiava-se. Precisava
saber da mãe, como estava. Na prisão não obtivera qual-
quer notícia, não ouvira o mínimo comentário. A angús-
tia deixava-o deprimido, sufocado. Ônibus cheio. Cabeça
cheia. Impaciência. A favela. As ruelas, o beco, o baixio
do mangue. Os vizinhos olhando para ele, comiseração
estampada nas faces. Minha mãe? Quem me diz?
Está morta!
Crispou mãos, trincou dentes, sufocou lágrimas. En-
terrada? Sim. Me leva até ela? Vamos.
Seguiram. Conheceu a cova rasa. Agradeceu. Deus que
pagasse o favor.
Queria ficar só. O corpo magro ajoelhou-se.

314
Iran Gama

Pegou o rosário, começando as orações.


Prometo, minha mãe, pelas chagas de Nosso Senhor
Jesus Cristo, que para cada uma conta deste rosário dei-
xarei um policial morto. Eu juro.

... rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa


morte. Amém, que o último se foi, minha santa mãe!
As palavras soaram suavizadas, sob o timbre de voz
grave e seca. Magro, rosto enrugado, o filho adulto orava
sobre a sepultura da mãe. Nenhuma compunção nas li-
nhas do rosto.
Levou à boca a última conta do rosário que perma-
necia inteira, partindo-a. Guardou-o no bolso traseiro da
calça de zuarte e saiu, deixando para trás o eco das suas
orações.

315
Essa mosca morde
Jacques Ribemboim

Em meio ao jantar, a mosca pousou na mesa. Era enor-


me, parecia um monstro, um tanque de guerra, um coura-
çado. O casal parou de comer. A mulher, aflita, murmurou
alguma coisa óbvia e o marido deparou-se perplexo. “Que
mosca enorme!”, foi o que pensaram a um só tempo, sem
tirar a vista do inseto.
A mosca, cada vez mais ameaçadora, agitava as pati-
nhas da frente umas nas outras, como se estivesse prepa-
rando o bote final. “Vou comê-los. Vou comêêê-los!” – emi-
tia com voz cavernosa, que ressoava na plateia atônita. Os
olhinhos eram radares antenados, faiscando para todos os
lados. Ali, de pé sobre a toalha de linho branco, erguia-
se a mais potente das armas atômicas, capaz de destruir,
num piscar, milhões de casais como aquele.
Terminado o primeiro ato do dramalhão, o homem
vaticinou solene: “Essa mosca morde!”. Foi o bastante. A
frase teve efeito devastador sobre a esposa, que já não se
controlava mais e gritava sem parar, olhos aboticados no
monstruoso inseto. “Mata…, mata…, mata!” Estava com-
pletamente histérica e balançava as mãos, tentando es-
pantar a drosófila.
O homem, ainda atordoado, passara agora a apreciar
o cenário. Não tinham filhos, não tinham amigos (a es-
posa detestava seus colegas de escritório), não tinha ele
mais sossego, sempre precisando comprar frivolidades
no supermercado, na padaria, no shopping center... Tentou
manter a fleuma das refeições, quando praticamente não
Jacques Ribemboim

se falavam e ouvia-se apenas o tilintar dos talheres. Pôs


um pouco de purê na boca e mastigou-o devagar entre as
bochechas.
Por fim, decidiu reagir: “Calma, calma! Esta mosca só
morde quando está com fome ou medo. E quanto mais
você agitar as mãos, mais risco irá correr”. Com ousadia,
pôs-se à frente da esposa, procurando defendê-la, surpre-
endendo a si próprio, pois, no íntimo, não era o que que-
ria. “Eu a protejo, amor.” Mas que diabos! – conjecturou
– por que se meter entre o criador e a criatura se de nada
adiantaria, se a sua sorte já estava selada?
E a mulher continuava agitando as mãos ridiculamen-
te: – “Mata…, mata o bicho!”.
Num salto, o homem partiu para a cozinha onde apa-
nhou o frasco de inseticida que guardava no armário. De
arma em punho, volta-se contra o inseto. “Vai, vai, dispa-
ra, está esperando o quê? Atira... atira! Mata!” O homem
hesitou por alguns momentos e depois, como em câmera
lenta num filme de caubói, foi movendo o polegar, pres-
sionando o gatilho.
De súbito, a mosca deu um salto e voou para o cabelo
da patroa, como um kamikaze que decide morrer levando
consigo o inimigo. A mulher, então, mudou diametral-
mente o tom do discurso: “Não atira! Não dispara, espe-
ra..., acabei de fazer o cabelo no salão!”. Mas, a esta altura,
o marido estava resoluto. “Esborrifo só um pouquinho, fi-
que parada, não vai doer, não vai lhe causar nenhum mal.
Uma borrifada e... puf..., fim da estória!”.
No cabelo da mulher, a mosca já não parecia feroz
nem ameaçadora. Era um bichinho frágil, um ser inútil
em busca de diversão esporádica. O polegar do homem
é que havia se transformado em nova ameaça. Sentiu-se
poderoso, arma em punho, e esboçou um sorriso sutil,
quase imperceptível. Uma mosca na cabeça da mulher,

317
Essa mosca morde

um crime na cabeça do homem. Despejaria todo o veneno


na esposa e depois jogaria a culpa na mosca. Lembrou-se
que, na véspera, ela havia reclamado do horário em que
chegara a casa após uns drinques solitários.
Cresceu a vontade de pulverizá-la, pensando nas hu-
milhações que havia sofrido no dia em que visitaram os
Silva, e os Jardim, e os Dourado. A mulher costumava di-
zer que o marido não tinha jeito para ganhar dinheiro,
talvez nem mesmo para trabalhar. Por que repetia aquilo,
por quê? Acuava-o num beco sem saída. Por causa de sua
indiscrição mentirosa, ela o transformaria num assassino
maluco, Baygon na mão, pondo a culpa em um inseto.
Apontou o orifício da garrafa direto para o nariz da
mulher. Já nem via mais onde estava a mosca, o monstro
terrível de há pouco. Mas continuou baixando o pulve-
rizador e já não ameaçava a mulher, nem a mosca, nem
mais nada, e foi baixando também o corpo até ficar de
joelhos, braços largados, apenas segurando o frasco de
veneno com uma das mãos.
“Vou matar-me” – pensou. Seria manchete nos jornais.
De forma inédita, um homem apontaria um jato de inse-
ticida caseiro contra seu próprio rosto e o acionaria. Em
segundos, estaria morto e livre de tudo, da mulher, das
moscas, dos Silva, dos Jardim e dos Dourado.
Suspirou fundo, apertou o polegar. O jato foi fulmi-
nante. Num átimo, a mosca se debatia no assoalho em es-
piral de estertor. Havia matado a mosca que mordia. Sem
entender por quê, começou a soluçar, procurando conter
o choro, e com a voz embargada, murmurou baixinho e
uma vez mais. “Essa mosca morde.”
Em seguida, desabou de vez em um pranto incontrolá-
vel, para espanto da mulher.

318
João sem Pernas e Maria dos Jornais
Jayme Torban

Nascido sem as duas pernas e de um ventre de mãe


solteira e pobre, a opção da genitora, nos primeiros dias,
foi abandoná-lo sob a marquise de um banco, à noitinha,
onde ela nutria a esperança de que, ao abrir-se o estabele-
cimento para o público, algum funcionário ou quem quer
que fosse se apiedasse do bebê deformado e o protegesse.
Acontece que ali era o abrigo noturno da pedinte conhe-
cida como Maria dos Jornais.
Quando a parda gorda, já quarentona, chegou para
recolher-se em seu canto, o umbral, que havia muito era
sua casa e seu refúgio, deparou-se com o bebê agitado a
chorar de fome e que não tinha pernas.
Assombrada e assustada, tomou a criança no colo e de-
pois, mais calma, partiu em busca de uma prostituta co-
nhecida que amamentou o desamparado. Voltando para
seu lugar, depois de não muito pensar, decidiu que iria
criá-lo.
Amparado pelos seios da prostituta e pelo calor e ca-
rinho de sua nova mãe, o bebê conseguiu sobreviver e se
tornou um menino forte, esperto, alegre.
Fazendo ponto em uma esquina sinalizada, deslizava
entre os carros parados no sinal, mão estendida e com um
sorriso simpático e transparente conseguia ao fim do dia
boa soma de recursos para que nem a ele nem a Maria
dos Jornais faltasse comida. Verdade que sua madrinha,
como ele a chamava, conseguia sempre menos que seu
afilhado.
João sem Pernas e Maria dos Jornais

Quando criança, em seu carrinho, constantemente


abandonava seus afazeres e concorria com outros me-
ninos normais e filhos de burgueses, em seus carrinhos
montados sobre rodas de madeira, feitos por encomenda
em serrarias. Nas competições pelas ruas em declive, ele
sempre vencia, não só porque seu carro era montado em
rolimãs, como também pela força de seus braços em im-
pulsionar o veículo. Foi proibido de disputar, afastado por
concorrência desleal.
Magoou-se, mas não perdeu o sorriso. Com a idade
avançando, dedicou-se a tentar ver nas moças, favorecido
por sua posição baixa, suas coxas, a calcinha, para depois,
isolado, masturbar-se.
Profundamente desiguais em pensamentos, necessi­
dades, emoções, convivendo num mesmo limitado vão,
entre uma porta e uma platibanda, Maria dos Jornais, co-
nhecida por esse nome por carregar sempre uma pilha
de velhos jornais, que à noite eram transformados em seu
colchão e travesseiro para acomodar melhor as dores do
seu corpo, pesado e cansado, e João sem Pernas, com seu
carrinho, tinham entre si profunda comunicação, unidos
por um grande amor, embora os diálogos entre ambos
fossem pouquíssimos. Gestos, olhares, união muda, prati-
camente banida de sons.
Enquanto o jovem se tornava homem, a mulher enve-
lhecia. Dores, incômodos, gemidos, reclamações sussur-
radas, deu para acender vez por outra uma vela e esbo-
çar uma prece, um pedido de ajuda. Gestos mais lentos,
passos vacilantes, mais inchada, dificuldade para deitar e
levantar.
Mas a vida ia sendo vivida normalmente por eles, até
porque, para quem não se adapta às suas circunstâncias, o
resultado é a extinção.
No início de uma madrugada, ainda estrelas pálidas e
lua enfraquecida, João acordou com os gemidos e choro

320
Jayme Torban

de sua madrinha, que ao seu lado o despertou preocupa-


do. Ela tinha muita febre e calafrios. Cobriu-a com todas
as folhas de jornal disponíveis.
Quando a madrinha ainda era uma tenra menina, um
dia refugiou-se, porque chovia, na porta de uma casa onde
foi percebida por um senhor alto, de cabelos brancos, que
a levou para dentro. Com uma pilha de jornais, forrou-
lhe as costas, depois o seu peito magro, protegeu-lhe as
sandálias e fez um chapéu de almirante para lhe amparar
a cabeça. Explicou que as folhas de jornal a protegeriam
do frio e da umidade. Uma garoa caía do céu cinzento.
Ela foi para casa e nunca mais esqueceu a lição do velho
professor Matos, de música e canto orfeônico.
Ela delirava. Fala com voz entrecortada de um amplo
campo coberto de cinzas, sob um céu descolorido. Nes-
se campo havia vultos que se arrastavam. Ela pedia para
voltar para a casa de onde nunca deveria ter saído. Que
casa seria? Não entendia como havia chegado a este lugar
estranho.
As visões se lhe misturavam e ela revia habitações onde
nunca havia penetrado, ruas que nunca percorrera, cida-
des onde nunca havia morado. Mas se dava conta de que
além de não ter dinheiro, também não havia condução
que a transportasse para sua casa, amigos conhecidos, a
sua família.
Pessoas disformes arrastavam-se entre a camada de
cinza. Figuras aterradoras. Ela se via com as nádegas ar-
rastando-se no chão, nádegas em que ela se apoiava mais
do que nos próprios pés. Pessoas, troncos que se arrasta-
vam, outros cujos braços pareciam tentáculos de polvos.
Pescoços compridos que não suportavam o peso da cabe-
ça, mulheres de seios feridentos, murchos, desabando pela
barriga; orelhas, narizes, olhos, ouvidos, peitos, genitais,
tudo deformado em um pesadelo jamais por ela imagina-
do. Tudo como se a gravidade a houvesse inexoravelmente

321
João sem Pernas e Maria dos Jornais

puxado para baixo, ignorando qualquer possibilidade de


se integrar a um plano superior que não fosse o arrastar-se
na camada de cinzas, suave como seda.
Entre as suas palavras balbuciadas, mal compreendi-
das entre as monstruosidades que a estavam apavorando,
descobriu ao caos uma figura alta e esguia, que sobre a
bruma tocava um violino.
Sua cabeça debruçada sobre o instrumento qual aman-
te agradecido, seus dedos pressionando as cordas e seu
arco, impulsionado ao comando do seu ouvido, dos seus
sentimentos, a tudo sobrepujou, dando uma nova espe-
rança para quem a buscasse. Maria dos Jornais, admirada
e surpresa, encantada, procurou aproximar-se dele, afas-
tando quem obstruísse seu caminho. João sem Pernas viu
seus olhos abertos perderem o brilho, a boca entreabrir-
se, mostrando dentes irregulares e falhos, totalmente en-
volvida pelo som apenas por ela percebido, aquietar-se na
imobilidade total.
Embora tendo consciência de que a sua madrinha ha-
via falecido, durante algum tempo ainda a sacudiu suave-
mente, conversou tentando dar-lhe forças, mas, rendido
às evidências, catou nos pertences um toco de vela que
acendeu ao seu lado. Sofrendo, mas incapaz de chorar,
pensava como deveria agir e qual seria o destino do corpo
da Maria dos Jornais.
Enquanto velava o corpo da querida madrinha, sol
nascendo como todo dia, chegou o caminhão do lixo, ve-
lho conhecido. Os funcionários tomaram conhecimento,
desejaram pêsames, lamentaram, e para resolver a situa-
ção, em comum acordo, colocaram o corpo no caminhão,
o levaram para o cemitério do subúrbio e lá encontraram
o Fotógrafo, como era conhecido, que junto com os vigias,
coveiros, floristas, trabalhava no lugar há alguns anos e
especializara-se justamente em fotografar uma última
imagem dos mortos para seus familiares.

322
Jayme Torban

Ele prontificou-se a resolver tudo, ajudar no que fosse


preciso, pois conhecia todos os meandros antiburocráticos
daquele campo santo, mas antes insistiu em tirar uma fo-
tografia da morta, pendurada no caminhão do lixo, com
um monte de jornais e lixeiros sorridentes, e por falha de
fotografia, apenas a cabeça triste de João sem Pernas.
O fotógrafo conseguiu de seus amigos que cuidavam
do cemitério, enterrá-la rápido em cova rasa. Sem data ou
identidade, como se nunca houvesse vivido, nunca toma-
do parte da humanidade, ali desapareceu para sempre.
Igual ao final de todos, que mais cedo ou tarde, são total-
mente ignorados.
A fotografia foi entregue ao afilhado que a guarda até
hoje, enquanto também não for para o lixo ou para um
arquivo barato de um antiquário curioso.

323
Brassávola
Joaquim Cardozo

Uma das ruas em que morei, por algum tempo, no


Recife, tinha o nome de 24 de Maio; era uma rua que há
vários anos foi aberta sobre o Cemitério do Convento dos
Carmelitas, por isso se chamou, primeiramente, Rua dos
Ossos; a razão deste nome provinha de terem sido revol-
vidos, por ocasião dos trabalhos com a sua construção, vá-
rios túmulos e valas comuns, exumando-se os esqueletos
de muitos que ali foram sepultados.
A atual Rua 24 de Maio foi, assim, traçada sobre terra
ocupada por gente morta há muito tempo, e de quem não
mais se tinha qualquer lembrança dos parentes e amigos.
Nas catacumbas demolidas, nos túmulos desmoronados, fo-
ram, em dias muito remotos, encerrados os corpos de fra-
des do convento; irmãos membros da Ordem Terceira, das
irmandades e confrarias: homens, mulheres e crianças que
teriam morado naquele bairro ou nas suas proximidades;
como era de hábito, naquele então teriam sido inumados.
As pequenas casas daquela rua, quase todas de porta e
janela, tinham dependências mal distribuídas, e de dimen-
sões exíguas; faziam lembrar, essas pequenas casas, verda-
deiros mausoléus para gente viva, ou talvez, quem sabe,
para darem acolhimento às almas dos que morreram, e
ali ficaram como defuntos, as almas que depois de tanto
tempo muita gente ainda acreditava que visitassem aquele
local, e se comprazessem em vagar pelas vizinhanças.
Era uma rua estreita e triste indicando pelo seu aspec-
to a sua origem lúgubre e funérea; naquele mesmo lugar
Joaquim Cardozo

muita gente chorou; em épocas já muito antigas, diversas


famílias rezaram diante dos cadáveres dos seus parentes
mais íntimos, e cobriram de flores, e acenderam velas, e
rezaram terços; nos dias de Finados voltavam, todos os
anos, para repetir as mesmas cerimônias que foram aos
poucos desaparecendo, pois se desfizeram com o tempo,
as próprias famílias. Apagaram-se os nomes das pedras
nas sepulturas, apagaram-se, nas memórias, as recorda-
ções. E toda a saudade se perdeu no meio daqueles ossos
revolvidos, ossos que teriam sido sementes plantadas, das
quais nada cresceu; semeadura que nada produziu.
Era uma rua estreita e triste, que, apesar de tudo, esta-
va impregnada de uma lembrança vaga e incerta, desco-
nhecida ou indeterminada; impregnada de uma saudade
imperceptível e mutilada, de uma nostalgia secreta e lon-
gínqua. Era uma rua estreita e triste!
Eu morava sozinho numa das casas da Rua 24 de Maio;
ocupava dessa casa apenas a sala da frente e o quarto que
dava para essa mesma sala. Nela estavam a minha espre-
guiçadeira, os meus livros, os meus desenhos; nessa cadei-
ra lia todas as tardes, antes de sair para jantar, lia todas as
noites antes de dormir.
No quarto estava a cama em que dormia, deixando
inteiramente abandonado o restante da casa: o longo cor-
redor, a sala de jantar e o quarto que, com ela, se comu-
nicava. A cozinha ficou inteiramente sem uso; sem uso o
seu fogão de vários borralhos e com forno de assar bolos
e pernis; fogão todo de tijolo de barro, ao jeito antigo das
velhas casas. Na sala de jantar pus, entretanto, uma larga
mesa de madeira tosca, onde fazia e tomava o meu café
pela manhã.
E o corredor? O corredor somente usava pela manhã
para alcançar o banheiro e o sanitário, localizados no ex-
tremo da casa, depois de um pequeno quintal.

325
Brassávola

Naquele tempo eu vivia sempre na rua; trabalhava


numa repartição pública, almoçava sempre em restauran-
tes e somente voltava para casa à tarde, depois dos servi-
ços prestados na repartição. Das quatro e meia da tarde
às seis horas ficava lendo, na espreguiçadeira, à espera da
hora do jantar, para o que também usava os restaurantes
Gambrino ou 32.
Logo após o jantar, ia à procura de um grupo de ami-
gos que se reuniam todas as noites no Café Continental,
sito à Rua do Imperador; em companhia desses amigos,
ficava eu conversando até tarde da noite. Como a maior
parte desses amigos voltava cedo para casa, costumava eu,
quase sempre, em companhia dos mais retardatários, ou
atravessar a ponte para o Recife Velho, aonde íamos beber
num bar da Rua da Guia, ou procurávamos o bar alemão,
que existia ao lado do Diario de Pernambuco, onde ceáva-
mos, onde bebíamos chope e comíamos frios sortidos. Às
vezes, andávamos até um outro bar, o Pergentino, à Rua
de Santo Amaro, onde também ceávamos; depois visitá-
vamos as pensões de mulheres: Pensão Bohemia, Pensão
Monte Carlo, ou Pensão Mimi; não era, entretanto, todos
os dias que me demorava por tanto tempo nessas excur-
sões notívagas; muitos dias da semana voltava também
cedo para casa, onde, na minha espreguiçadeira, ficava
lendo até tarde da noite.
Dessa casa em que morei, na Rua 24 de Maio, o que
mais impressionava era o corredor; não sei por que desco-
bria, na sua escura e larga e longa penetração até à sala de
jantar, qualquer coisa de esquisito e fantástico, sobretudo
porque sabia que ele era uma comunicação quase mutila-
da para o resto da casa, sobretudo para a cozinha e o ou-
tro quarto. O que mais me impressionava era o corredor.
Quando levantava os olhos da leitura que estava fazendo
era sempre do corredor que me vinha uma sensação de

326
Joaquim Cardozo

tristeza e isolamento. Ao longo das suas duas paredes sem


aberturas para os dois quartos da casa reinava sempre um
silêncio, dentro de uma escuridão mais espessa quando,
com as chuvas, mais cedo anoitecia; e quando procurava
ir ao banheiro durante a noite era uma aflição que me
vinha ao penetrar naquele túnel, pois representava para
mim uma aventura percorrê-lo. De qualquer modo, aque-
le corredor era uma passagem forçada para alcançar a
sala de jantar e o banheiro; habituei-me, portanto, ao seu
mistério e à sua realidade.
Entre os amigos com quem costumava conversar, sen-
tado tranquilamente numa das pequenas mesas do Café
Continental; mesas que estavam todas as noites espalha-
das nas largas calçadas da Rua do Imperador; entre esses
amigos estava, todas as noites, um descendente de um
funcionário do London Bank. Era filho de um engenheiro
que veio da sua terra trabalhar na Great Western, com-
panhia inglesa de estrada de ferro. Chamava-se Walter
William Cox, mas, camaradamente, todos nós, lhe cha-
mávamos de “o velho Cox”; morava na Estrada de Dois
Irmãos, num grande sítio, muito arborizado, numa velha
e grande casa, no subúrbio de Casa Forte. O “velho Cox”
era um dos primeiros a deixar a tertúlia, preocupado com
a entrada no banco onde trabalhava, no dia seguinte pela
manhã muito cedo.
No sítio onde morava, junto à grande arborização que
conservava, Cox cultivava orquídeas; cultivar esse tipo de
flores era o seu hobby, nas conversas que tínhamos fala-
va-se, às vezes, de orquídeas raras, do hibridismo que se
usava, procurando obter novas espécies não existentes na
natureza que importam em quase 20 mil espécies.
Dessas conversas que mantínhamos sobre as orquídeas,
resultou que nos meses que floriam essas plantas epífitas –
quase sempre nos meses de março e abril –, Cox começou

327
Brassávola

a nos trazer, e nos oferecer o que o seu orquidário pro-


duzia; eram Oncidius (os regnere e lencianus) eram Catleias
e Lélias, eram Wandas e Dendróbios, eram Miltônias e
Epidendreas, todas de belos coloridos, todas de labelos
de formas diversas, algumas em cachos de flores amarelas
ou vermelhas.
Nos dias em que recebíamos os presentes das orquíde-
as, depois que todos nós as contemplávamos, costumava
levá-las para casa, onde as colocava na sala de jantar, em
cima da mesa, dentro de um copo com água; voltava, nes-
ses dias, mais cedo para casa com o fim de guardá-las e
conservá-las por mais tempo.
Na manhã seguinte, quando passava para o banheiro
ou me sentava à mesa para tomar café, elas sempre me sur-
preendiam; sempre chamavam a minha atenção, essas belas
flores. Contemplava-as então à luz do dia, observando-lhes
o seu encanto. Assim fui conhecendo, aos poucos, grande
parte do orquidário do meu amigo Walter Cox, e fiquei
familiarizado com essa família de plantas de tanta rique-
za formal e tão caprichosas linhas, e admiráveis contornos.
Essas mesmas plantas que muitos anos depois voltei a apre-
ciar no orquidário de um outro amigo, o notável escritor
carioca Gastão Cruls, também descendente de estrangeiro,
e que possuía uma casa no Alto da Boa Vista, onde passava
o verão e, às vezes, me recebia, a mim e a Rodrigo M. F. de
Andrade para com ele jantarmos; gostava nessas ocasiões
de olhar as suas orquídeas, naqueles dias de verão carioca,
áspero e quente, e do qual ficávamos abrigados pelo bom
clima do Alto da Boa Vista; olhava a coleção das suas flores
e lembrava-me das do velho Cox; Gastão era também apai-
xonado por esse tipo de flor. Hoje, Gastão e Rodrigo vivem
ainda na lembrança dos seus parentes e amigos; portanto,
também na minha recordação.
Da influência que em mim exerceram as orquídeas de
Cox basta contar o seguinte episódio. Uma noite o meu

328
Joaquim Cardozo

amigo trouxe-nos uma pequena flor sem o brilho das


Catleias­ou das Lélias ou das Oncidius e tantas outras que
eram belas, brilhantes, com suas pétalas acetinadas; era,
sim, uma pequena orquídea de cor branca e medíocre,
que o nosso amigo designou como uma Brassávola; quase
sem graça e sem valor para ser vista, mas tinha uma pro-
priedade que as outras não possuíam: aquela Brassávola
era perfumada, emitia um cheiro bom, forte e agradável
a partir das primeiras horas da tarde; a flor com o seu
perfume anunciava a noite; o crepúsculo tinha o dom cós-
mico, universal, de comunicar ao mundo terrestre, à natu-
reza da vida vegetal que o sol distante desaparecera; havia
entre a flor e a luz solar uma espécie de simbiose ou de
despedida qualquer, que justificava o seu perfume como
uma manifestação de vida vegetal, caracterizada pela clo-
rofila; o seu perfume era uma parte do crepúsculo, era a
transformação da luz em sombra.
Quando me entregou esse exemplar do seu orquidário
já era quase oito horas da noite e a flor não tinha mais
perfume, pelo que não acreditei no que disse o meu ami-
go, pois nunca tinha visto uma orquídea com hábito tão
raro na sua vida de flor.
Cox costumava ir cedo para casa, e dentro de pouco tem-
po se despediu e foi embora no seu bonde de Dois Irmãos.
Fiquei com a Brassávola, e resolvi voltar também para
casa; demorei-me apesar disso, bastante tempo para que,
ainda com a flor na mão, fosse, aos poucos, esquecendo
o seu sortilégio; na minha hora quase habitual de ir para
casa levei comigo a orquídea, já esquecido das suas virtu-
des quase milagrosas: cheguei em casa e lá, na sala de jan-
tar, fiz o gesto quase automático de outros dias: coloquei,
num copo com água a Brassávola.
Voltei à sala da frente já quase esquecido da sua exis-
tência e, como todos os dias, comecei a ler na minha es-
preguiçadeira.

329
Brassávola

No dia seguinte, pela manhã, como todos os dias,


passei pela sala de jantar para o banheiro, depois sentei-
me à mesa para fazer o café e, logo após, tomei-o com o
pão trazido pela velha empregada que chegava cedo; não
prestei a mínima atenção à Brassávola, orquídea pequena
e sem brilho ali esquecida, abandonada para murchar.
Sem mais me lembrar dela, vesti-me, e saí para o horá-
rio da manhã na repartição a que pertencia; às onze e meia
deixei a repartição para almoçar, o que fiz no Gambrino
como usualmente fazia, dei depois uma aula na Escola de
Engenharia, e voltei ao trabalho no horário da tarde.
Da repartição saí às quatro horas e regressei à casa
onde, como era meu costume, estendi-me na velha cadei-
ra e continuei a ler o romance de Aléxis Tolstoi: Dietsvo
Hikita – A infância de Nikita –, primeiro livro que li em
língua russa, aliás, com muita dificuldade; devia sair logo
mais às sete horas, para jantar, e depois dirigir-me ao
Continental para a conversinha costumeira.
Estava assim a ler, me valendo do auxílio de uma gra-
mática e um dicionário russos, aquela história de uma
infância, empenhado em bem compreender como Niki-
ta conseguira deslizar na neve, montado num escabelo
transformado em trenó, quando comecei a sentir que es-
curecia, e, com a escuridão, um cheiro intenso e agradável
invadia a sala onde me achava. Era esquisito aquele chei-
ro intenso que vinha, pareceu-me, da boca do corredor já
escuro; era como se alguém estivesse àquela hora, viven-
do, ocupando o resto da casa e, talvez, se preparasse para
sair, usando um perfume; talvez na sala de trás uma em-
pregada preparando a mesa para o jantar, ou na cozinha
uma cozinheira ativando aquele morto fogão de tijolo que
nunca utilizei para coisa alguma; era como se uma gente
inesperada, ou escondida naquele resto de casa, estivesse
ressurgindo das cinzas para viver ali; para aparecer, sobre-

330
Joaquim Cardozo

tudo, na personagem de uma mulher bonita e perfumada


que estivesse se preparando para vir ao meu encontro na
sala da frente.
Nesse ponto senti um calafrio, um pânico me invadiu,
lembrando os mortos que, no lugar daquela casa onde
morava, tinham sido, há muito tempo, sepultados. O fan-
tasma de uma mulher formosa e perfumada, talvez agora
vindo me ver, me espiar; talvez estivesse mesmo, na som-
bra do corredor, me espreitando, procurando saber como
eu era; o fantasma de uma bela moça e formosa mulher
naquele lugar enterrada há muitos anos. Cheguei a ter
a sensação de passos no corredor, e uma certa ilusão de
ouvir sorrisos abafados.
Fiquei sem saber o que fazer. Era o corredor, aquele
fantástico corredor que voltava a assumir a sua condição
de mágica influência sobre mim, como há meses passa-
dos; transido de medo pensei em me esgueirar pela porta
da rua, mas me veio ao pensamento que alguém iria pôr a
mão no meu ombro; meio alucinado, supus até que algum
desconhecido estava diante de mim.
Tomado pelo medo, comecei a me arrepender de vir
morar em semelhante rua, construída sobre o terreno de
um cemitério, e cemitério de convento, com muitos anos
de existência e onde, sucessivamente, muitas pessoas fo-
ram inumadas.
Por fim, com um esforço inesperado, procurei voltar
à realidade: levantei-me e acendi a lâmpada da sala; o
aroma que vinha pelo corredor era cada vez mais forte;
animado por essa decisão resoluta, quis me aproximar da
abertura do corredor de onde vinha aquele perfume fan-
tástico, recuei; havia como um tremor, no ar daquela pas-
sagem larga e comprida que se prolongava até a sala de
jantar, e não tinha contato com os quartos da casa; como
se fosse um túnel.

331
Brassávola

Quando ergui os olhos da leitura, sentido o perfume


que inundava a sala, inteiramente fechada, tive a impres-
são de ver: vi, na abertura do corredor, uma figura esvae-
cida, estrangulada que desapareceu de repente.
Vi depois, mais devagar, passar uma mão muito branca
de dedos crispados, ao longo da ombreira da passagem
para a sala de jantar.
Apesar dessas visões que me frequentavam, fui me ha-
bituando ao cheiro agradável que invadiu a sala, procurei
me refazer de todas aquelas suposições e tomei uma de-
liberação definitiva: iria atravessar o corredor até à outra
sala.
Eram, aproximadamente, seis e meia, todas as pertur-
bações que senti me amorteceram, apesar de não com-
preender, e não poder explicar de onde vinha aquele per-
fume, me expliquei como possibilidade longínqua, que
viria da casa vizinha; de qualquer modo fiquei um pouco
tranquilo e abatido.
Resolvi penetrar pelo corredor até o fim do mesmo.
Angustiadamente atravessando o escuro corredor che-
guei à sala de jantar onde também acendi a lâmpada;
olhei em torno da sala, estendi a vista pela porta aberta
da cozinha; não havia sinal nenhum de ter por ali andado
alguém. Até então não tinha ainda percebido a Brassávo-
la, que ali pusera na véspera, dentro de um copo cheio
d’água, em cima da mesa.
Aproximei-me mais da mesa e vi... vi então a pequena
orquídea! Estava ali: medíocre, alvacenta, desbotada, que
à simples vista era quase nada e... de repente lembrei-me
que ela emitia perfume às seis horas da tarde. Cheguei-
me mais para perto.
Aproximei-me então da orquídea; tomei o copo de
cima da mesa; era ela, era a orquídea que intensamente
perfumava o ambiente àquela hora da tarde.

332
Joaquim Cardozo

Era o aroma da Brassávola que começa às seis horas;


hora da antiga Ave-Maria das igrejas do Recife que ain-
da hoje soa e ninguém mais ouve, ninguém mais escuta,
ninguém mesmo a conta como fazendo parte do folclore;
e os serviços de cultura nunca incluíram a sua música à
tradição nacional.
Era o perfume da Brassávola e, ao mesmo tempo, o
perfume da tarde, da luz vibrando no metal da tarde.
Perfume da luz crepuscular se transformando em noite
pura.

333
Coração de dona Iaiá
José Carlos Cavalcanti Borges

“Meu filho:

Teu pai melhorou da cabeça. Seu Quincas, o farmacêu­


tico novo da botica da feira, disse que podia ser albumina.
Você o que acha?
Uma pessoa me disse que você tem uma namorada.
Que não era coisa de bobagem. Parecia uma coisa séria.
Meu filho, penso que é muito cedo para você tomar
um compromisso. Seu pai conversou comigo e também
pensa da mesma maneira. Você ainda nem se formou.
Mesmo depois de formado a vida hoje está muito difícil.
Enfim, não acreditei muito. Mas não se zangue com os
meus conselhos.
Bernardinho tem estudado mais; a professora diz que
ele está tomando gosto. (Mas eu acho que ele é doido de-
mais pela música, não perde um ensaio da Euterpina.)
Você acha que seu pai ficaria melhor fazendo um exa-
me aí no Recife?
Tenha muito juízo, meu filho.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

*
José Carlos Cavalcanti Borges

“Meu filho:

Fiquei mais descansada com a sua carta. A gripe aqui


tem pegado todo mundo. Felizmente seu pai vai com a
cabeça naquilo mesmo. A gripe dele foi mais de nariz.
A pessoa que me falou da sua namorada não foi para
mentir, não. É uma senhora da minha confiança, irmã de
outra senhora que mora perto de você e lhe conhece mui-
to. Ela não quis me dizer o nome da moça, mas disse que
ela era minha conhecida e que se eu soubesse de tudo não
havia de gostar.
Agora estou mais contente. Sei que não é verdade e
que não passa de namorozinho tolo.
Tenha cuidado, meu filho. Você é pobre, seu pai está
velho na vida e a maior alegria dele é ver você formado e
bem empregado. E minha também.
Na semana passada Bernardinho tirou dez em geogra-
fia (o mapa foi Ceminha quem fez, mas a lição ele estu-
dou).
Seu Quincas se ofereceu para ser o portador e eu apro-
veitei para mandar esta carne de sol. Foi comprada no
sábado. Seu pai escolheu da que você gosta.
Já ia me esquecendo da novidade. O prefeito disse que
vai abrir uma escola e prometeu nomear Ceminha profes-
sora. Ela está muito contente. E nós também.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“Meu filho:

Faz quinze dias que não lhe escrevo. Ceminha esteve


gripada. Bernardinho teve muito catarro, de uma chuva

335
Coração de dona Iaiá

que apanhou quando saía, de noite, da Euterpina. Seu pai


já proibiu ele de ir tão cedo aos ensaios.
Você me mandou dizer que não tinha importância,
mas estou achando a coisa muito séria. Então, meu filho,
você se sentando no cinema junto com Lelé, filha de dona
Palmira? Passeando com ela na praia de Olinda como se
fosse noivo?
É capaz de você já estar querendo muito bem a ela.
Meu filho, eu lhe digo porque sou mãe. Você não sabe
como dona Palmira é falada aqui e no Recife mesmo? Tan-
ta moça que existe e você foi logo escolher Lelé. Você não
sabe que dona Palmira vive quase separada do marido?
Só não se separam de vez porque ela tem dinheiro. Uma
mulher que tem dado escândalos. A filha pode ser muito
boa, eu sei, mas vive com ela, foi criada por ela, tem do
aprender os costumes da mãe. Agora a moça pode gostar
de você, ser muito boa, mas depois pode dar para ruim.
Eu lhe falo com toda franqueza.
Seu pai garante que o negócio da escola de Ceminha
está certo. Eu não sei porque desconfio dessa gente de
política.
Pense bem no que lhe digo. Você quer se juntar com
gente de dona Palmira?
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“Meu filho:

Tenho chorado muito. Seu pai já anda até desconfiado.


Você escreve umas coisas e faz outras. Você pensa que aqui
não se sabe direitinho o que se passa no Recife? Está mui-
to enganado. Você tem tomado banho de mar com Lelé.

336
José Carlos Cavalcanti Borges

Você anda na Rua Nova emparelhado com ela e dona Pal-


mira, como se fosse noivo oficial. Só falta a aliança. Meu
filho, você quer se perder? Você não está vendo que esse
namoro não serve para você? Fiz uma promessa ao Bom
Jesus dos Passos, tenho fé que ele salvará você.
Amanhã ou depois, a irmã do agente do correio vai
passar uns dias aí. Vou aproveitar para lhe mandar uns
bolinhos de goma, se chegarem moles, você peça para bo-
tarem a lata no calor do fogão, que ficam torradinhos.
Por que você não estuda muito aquela matéria que está
com nota baixa?
Meu filho, escrevo-lhe chorando, com pena da tua sor-
te. Não queira mais saber daquela moça. É a sua desgraça,
meu filho.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“Meu filho:

Seu pai melhorou, tem saído, tem trabalhado. Às ve-


zes, na força do sol do meio-dia é que a cabeça aperta.
Mas vai dando. Seu Quincas diz que se ele for aí os médi-
cos vão dizer que é albumina.
Meu filho, você ainda não se convenceu de que aquela
moça não lhe serve? Não sei o que é que você tem no juí-
zo. Se eu acreditasse no espiritismo estava pensando que
fosse coisa feita. Uma filha de dona Palmira, meu filho?
Fico muito tempo pensando, me dá uma tristeza. Deus
não me deixará sem ajuda. Ele não ressuscitou Lázaro?
O mestre da música pediu a seu pai para Bernardinho
aprender a arte. Ele diz que o menino tem muita cadência.
Ele pode aprender de dia, nas horas que não tiver escola.
Seu pai ficou de dar a resposta depois. Você o que acha?

337
Coração de dona Iaiá

Ceminha está esperando o emprego dela. O prefeito


já alugou uma casa para a escola, na rua da matriz. É uma
casa boazinha. Lembra-se onde morou dona Francisqui-
nha? Pois é lá.
Eu não queria dizer, meu filho, mas eu sei que você
continua. Uma pessoa daqui viu você num café toman-
do bebidas com aquela moça e dona Palmira. Você já se
encontrou alguma vez com o marido dela? A pessoa dis-
se que vocês beberam uma porção de tempo, ela saiu do
café e vocês ainda ficaram. Você não avalia como eu senti
com esta notícia. Pensei, eu não tinha motivo para pen-
sar, mas pensei que as suas amizades com Lelé estivessem
mais acabadas. Você tomando bebidas, meu filho? Você
não sabe como as bebidas fazem mal? Seu pai com dois
dedos de vinho fica com a cabeça sem ter onde botar.
Nunca pensei que tivesse tanto desgosto por causa da-
quela moça. Você nunca me fez uma ingratidão, meu fi-
lho. Se contassem a seu pai, nem sei o que acontecia. Para
mim ele já desconfia de alguma coisa.
Deus te abençoe,
Iaiá”

“Sinhana manda perguntar se você não sabe um remé-


dio bom para reumatismo. É nos pés”.
Iaiá.”

“Meu filho:

Quando recebo sua carta fico mais calma. Conheço


que você ainda não se esqueceu da gente. Mas vejo logo
que você não fala daquelas coisas que mandei dizer. Se

338
José Carlos Cavalcanti Borges

não fala é porque é verdade, porque não deixou de na-


morar com aquela sapeca. (Ouvi dizer que o marido de
dona Palmira embarcou para o Rio de Janeiro. Não sei
se foi mesmo.) Por que razão você não me escreve sobre o
seu namoro?
Siga os conselhos de sua mãe, meu filho. Eu só quero
o seu bem. A coisa que eu mais desejo é ver você feliz e
muito satisfeito.
Ontem eu tive uma vergonha horrível. Dona Maria Pia
veio me perguntar na novena se você estava para casar
com a filha de dona Palmira. Tinham dito a ela. Eu fiquei
sem saber o que dizer. Passei a novena toda e o resto da
noite com uns soluços me aperreando. Conto para você
saber o que eu sofro.
Você não pense que eu e seu pai não queremos que
você goste de uma moça e se case, não. Mas acho que
um rapaz como você deve procurar uma mocinha direita,
de bons costumes. Então eu não conheço o seu coração?
Depois ainda é muito cedo para você tratar de casamen-
to. Não fique noivo daquela moça, meu filho. É para seu
bem.
Bernardinho pede para você comprar a arte da mú-
sica, para ele estudar. Tem nas livrarias. Seu pai diz que
manda o dinheiro pelo primeiro portador.
Bom Jesus dos Passos que te proteja, meu filho.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“Meu filho:

Faz três dias que seu pai não dorme com o aperto da
cabeça. Seu Quincas não quer que ele tome mais aspiri-
na. Seu pai não tem comido quase nada, a Coletoria ele

339
Coração de dona Iaiá

nem sabe como vai. Bernardinho é que aparece por lá,


fala com o escrivão e vem dar notícia.
Tem sido um aperreio muito grande. Não sei como
posso lhe escrever.
Então agora descobri que seu pai sabe de tudo. Ele vi-
nha sofrendo calado há muito tempo, sem me dizer nada.
Ontem, quando a sua carta chegou, ele me pediu para ler,
ele não pode apurar a vista, com a enxaqueca. Quando eu
acabei, ele disse: quase que eu fiquei bom, Iaiá, uma coisa
estava me dizendo que nessa carta Joãozinho mandava
dizer que tinha se esquecido daquela sirigaita.
Coitado. Tive tanta pena de seu pai. Não falei nestas
coisas para ver se ele melhorava.
Ceminha tem ajudado muito em casa. Ela vinha estu-
dando para começar a ensinar, mas estes dias não abriu
um livro.
Você não conhece um remédio que sirva para a doença
de seu pai? Injeção ele não toma. Seu Quincas tem boa
vontade, mas a farmácia dele está pior do que no tempo
de seu Lobo.
Estou doida que cheguem as férias, meu filho.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“Meu filho:

Aqui todos ficamos muito contentes com a notícia de


que você vem no princípio de dezembro. Foi uma alegria
enorme.
Será mesmo, meu filho, que não tem importância a
sua amizade com Lelé e dona Palmira? Bom Jesus dos
Passos que lhe ouça. E Santa Terezinha.

340
José Carlos Cavalcanti Borges

O prefeito hoje de manhã esteve na Coletoria e falou


a seu pai cheio de rodeios. Era porque ele não ia nomear
Ceminha para a escola nova. Tinha um pedido do juiz mu-
nicipal, para a escola nova. Tinha um pedido do juiz muni-
cipal, para a cunhada dele. Você não conhece, ela chegou
aqui no mês passado. O juiz tem um primo que foi deputa-
do. O prefeito prometeu arranjar Ceminha noutra escola,
que ele vai abrir no ano que vem, perto do matadouro.
Bernardinho já está acompanhando dobrado na trom-
pa. Seu pai faz que não gosta, mas tem ido olhar da porta
quase toda noite os ensaios da Euterpina.
Não tem importância mesmo não, meu filho?
Estude muito a matéria que você sabe menos.
Aqui me disseram que estão usando gravata de uma
cor só. Eu tinha guardado um retalho de seda azul, muito
bonita. Tirei o forro de uma gravata velha de seu pai e vou
fazer outra para você.
Deus te abençoe,
Iaiá.”

“A carta já estava no envelope, felizmente eu não tinha


fechado. Agora de noite, quando seu pai voltou da Euter-
pina encontrou Ceminha conversando com um rapaz. Ele
não disse nada a ela. Mas parece que não gostou muito e
me disse que vai saber quem é o rapaz. Amanhã é que vou
conversar com ela.
Iaiá.”

341
Lucky, mártir da Copa
José Cláudio

Outra história de cachorro. Não sei se quando for pu-


blicada o Brasil ainda estará na Copa: escrevo sempre com
grande antecedência, maio no caso. Se fosse eu, botava o
nome dele de Xaréu ou Tubarão ou outro nome de peixe
para evitar doença, como fazem com nome de cachorro.
Mas se chamava Lucky e sua história começou, a que nós
conhecemos, numa manhã de sábado, março de 2000.
Meu genro Marconi abriu a porta da casa para pegar o
jornal e vem esse cachorrinho muito amigável, fazendo
aí sua aparição. Tinha coleira. Pensando que caminhava
com alguém, Marconi mandou-o continuar. Quando abriu
a porta, ele disparou para dentro de casa. Chamou Maria,
minha filha, sua mulher. “Um cachorro acabou de entrar!”
O futuro Lucky, ainda sem nome àquela altura, correu pela
casa todinha. Conseguiram pegá-lo no quintal. Limpinho,
bem tratado, não trazia identificação na coleira: geralmen-
te vêm com identificação numa medalhinha na coleira, lá
em Houston, Texas, onde o caso aconteceu.
Esperaram um pouco para ver se alguém aparecia pro-
curando um cachorro. Não apareceu ninguém. “A gente
pegou ele, levou no braço passeando pelo quarteirão, para
ver se via alguém procurando cachorro.” Nada. Voltaram
para casa, passando antes no mercado para comprar um
saco de ração. Fizeram cartazes, no computador, para pre-
gar nos postes da vizinhança: “Achamos um cachorro pe-
queno de três cores” e o telefone. Ninguém apareceu. Bo-
taram anúncio no jornal Houston Chronicle com os mesmos
José Cláudio

dizeres. Receberam dois telefonemas, mas não se tratava


do mesmo cão.
Levaram ele no veterinário, deram todas as vacinas, e
foi adotado oficialmente com o nome de Lucky, sugestão
de minha neta Juliana, então com 11 anos; Lucky, feliz,
em inglês, afortunado, sortudo, botado tanto pela boa
acolhida que ele teve na nova casa como por homenagem
ao padroeiro da Irlanda, festejado no mês de março, São
Patrício, cujo símbolo é o trevo-de-quatro-folhas, dador
de sorte: nos Estados Unidos acreditam que irlandês tem
uma sorte sobrenatural, “the luck of the irish”, a sorte do
irlandês.
A ironia é que na época estavam justamente decididos
a comprar um cachorro. Depois de muito estudo, optaram
por um recém-nascido, de uma raça que não soltasse pelo,
e fêmea, chegando até a encomendá-la num canil. Lucky
era adulto, mais ou menos uns quatro anos de idade pela
estimativa do veterinário, macho, e da raça Beagle, que
soltava pelos em três cores: preto, branco e marrom.
Seis meses depois, descobriram que sofria do cora-
ção, infectado por um parasita, ocorrendo a hipótese de
ter sido abandonado por essa causa. Os novos donos, ao
descobrirem, através de exames, o tal parasita, em inglês
heart­worm, verme do coração, já era tarde.
Lucky ficou dois anos e meio com a nova família. Mor-
reu também num sábado, dia de Finados, 2/11/2002, de-
pois de complicações com o coração provavelmente agra-
vados durante o jogo Brasil × Inglaterra. A família toda
assistia ao jogo pela televisão. O Brasil começou perdendo
de 1 x 0. Foi no gol de empate, de Rivaldo, pelo que, em
nome de todos pernambucanos, se me dão licença, peço
a Lucky mil perdões. O segundo gol foi de Ronaldinho,
de falta, que o goleiro inglês pensava que não ia entrar e
depois do jogo disse que sabia que aquele gol ia persegui-
lo para sempre. Ganhamos de virada, 2 x 1.

343
Lucky, mártir da Copa

Mas foi no gol de Rivaldo. Todos gritaram ao mesmo


tempo “Gol!” e começaram a se abraçar. Lucky, dormin-
do, acordou sobressaltado. Desceu correndo do sofá, subiu
noutro, subiu de novo no primeiro sofá e ficou todo arma-
do para o quintal, latindo, olhando pela vidraça como se a
casa estivesse sendo assaltada. Todos pararam e tentaram
acalmá-lo. O segundo gol, por isso, foi menos festejado,
ou menos ruidosamente, em respeito ao coração de Lucky.
Mas talvez já tenha sido tarde. O gol de Rivaldo, funda-
mental para tirar a Inglaterra da Copa, matou Lucky. Não
se recuperou. Demorou uns quatro meses para morrer.
Em agosto, notaram que começava a engordar. Na rea-
lidade estava simplesmente retendo água. Letárgico, per-
dera a disposição costumeira. A respiração ficou pesada,
barulhenta, agonizante. Passou a noite no pronto-socorro
veterinário onde recebeu tratamento diurético e voltou
para casa bem. Mas o veterinário avisou: o coração estava
fraco. Dois meses depois, a mesma coisa. Tomava remé-
dio diariamente mas não adiantou. Nessa segunda, vez
passou a noite na clínica, mas não voltaria para casa. Não
havia nada mais a fazer senão abreviar-lhe o sofrimento.
Botar ele pra dormir, como dizem lá, “put to sleep”. Ma-
ria ficou com ele até o fim. “Eu não aguentei, não.”

344
O regresso
José Condé

Vinte anos me separavam daquele mundo – vinte anos


me separavam de Catarina. Que fizera durante esse tem-
po? Vagara de cidade em cidade, um dia aqui, outro acolá,
como um fugitivo. Agora, porém, retornava e não podia
impedir que a lembrança do passado me seguisse, embo-
ra não desejasse recuperá-lo.
A lua acabara de aparecer sobre a estrada velha de
Santa Rita, um pássaro noturno flechou à minha frente.
E sob o silêncio cortado apenas pelo trote do cavalo, eu
revia a paisagem antiga: conservava-se a mesma, embora
vinte anos mais houvessem transformado minha angústia
em indiferença, meu sofrimento em serenidade. Estranha
vida! Ao fim de tudo, apenas um homem só; um homem
que pode recordar sem ficar triste.
De repente, porém, vi a casa-grande. Recuada da es-
trada, em campo aberto, como sempre a tinha visto nou-
tros tempos. Havia luz no alpendre. Se não me engano,
ouvi mesmo um piano que tocava, vozes e risos. Freei o
animal e fiquei olhando: não me atemorizava a presença
da casa; não despertava em mim nenhum sentimento de
tristeza. Pensei, então: “é preciso que eles saibam disso; é
preciso que ela saiba disso... Ouçam: sou o mesmo, apesar
de mais envelhecido, sou o mesmo, apesar do passado”.
– Que fez durante esses anos?
Então, comecei a falar. Era como se durante aquele
tempo todo houvesse vivido à espera dessa oportunidade
O regresso

e agora quisesse gozá-la vagarosamente, com o prazer de


quem pode ferir com cada palavra que pronuncia.
– Que fiz durante esse tempo? Ora, coronel, vivi, vivi
muito. Ganhei dinheiro. Conheci o mundo, mas estive
sempre só, fruindo o prazer de não me sentir preso a coi-
sa alguma. Talvez até tenha sido feliz, coronel.
Minhas palavras não o perturbaram. Prossegui:
– E o senhor, coronel, e a fazenda? Como se viu com os
negros após a abolição da escravatura?
Sem me encarar, olhando os campos adormecidos,
talvez falando mais para a noite do que para mim, disse-
me:
– As lavouras crescem, os negros trabalham e Deus
protege as minhas terras. Os cafezais florescem e perfu-
mam as estradas. Você não o sente agora?
Baixei a cabeça, confundindo-me, porém continuou
falando e suas palavras eram somente para aquelas ter-
ras.
Ali nascera. Ali também tinham nascido seu pai e o
pai do seu pai, as filhas – Elisa, Malvina e Catarina. – Ali
casara-se. Ali...
Interrompi-o quase bruscamente:
– E Catarina?
Não respondeu. Continuou fitando a noite.

A lua começava a descer. Então me dispus a partir:


– Vou indo. Está ficando tarde.
– Não. Durma aqui. Siga viagem amanhã de manhã,
pois está muito escuro.
Há quanto tempo conversávamos? Talvez uma hora,
talvez duas ou três. Mas as suas palavras já não me interes-
savam, tampouco me interessava o que eu pudesse dizer

346
José Condé

ainda. O meu desejo naquele instante se resumia em ver


Catarina. Após vinte anos de ausência, como seria ela?
Queria vê-la mais envelhecida, com rugas, talvez, mais
triste, só para vingar-me com a minha presença: ou a de-
sejaria como nos outros tempos: bonita, com os cabelos
soltos pelos ombros, o sorriso, e a voz?
– Durma aqui – continuou o coronel – durma aqui.
Atravessamos a sala onde tudo era como antigamente: os
móveis de jacarandá, o espelho de cristal, os quadros.
Depois, o quarto:
– Boa-noite – disse-me.
– Fechei a porta, deitei-me, mas não adormeci logo.
A verdade é que não devia ter aceito o convite. Viera
para vingar-me. No entanto, aquela casa prendia-me, su-
focando-me a vontade e a resistência. Tudo saíra ao con-
trário do que havia planejado. Estava vencido, e o mundo
antigo retomava.
Cerrei os olhos e me virei para o outro lado. Depois
foi o vento. A princípio, uma simples brisa soprando pelas
frestas da janela, para tornar-se, depois, ventania forte,
uivante, varrendo os campos e chicoteando as árvores. Su-
bitamente, a chuva chegou, violenta, caindo lá fora.
Creio que adormeci, porque, quando dei acordo de
mim, estava amanhecendo e a primeira claridade do dia
se projetava através da janela. Chovia ainda, embora o
aguaceiro se houvesse transformado em chuvisco. “E o ca-
valo?” – pensei. Com os diabos! O animal passara toda a
noite ao relento, levando chuva. Ergui-me, rápido, e deci-
di ir em seu socorro. Embora ainda estivesse escuro, era-
me possível ver as coisas em redor. E a minha primeira
sensação de estranheza veio com a desordem do quarto:
um monte de coisas velhas estava depositado ao pé da
porta. Saí para o corredor e... Que se passava? Gritei:
– Coronel! Coronel!

347
O regresso

Caminhei apressado até à sala. Não havia sala, meu


Deus! Não havia móveis, nem quadros: havia apenas ruínas
e um piano despedaçado a um canto. Corri toda a casa, e
somente via paredes esburacadas, teias de aranha, um rato
que, ao avistar-me, enfiou-se no primeiro esconderijo.
– Coronel! Coronel!
Entrei em todos os quartos, e ninguém... Voltei ao al-
pendre: não havia teto, nem rede, nem a cadeira de pa-
lhinha. E o pátio mais adiante era somente mato e pedras,
por onde a chuva escorria lentamente, como se caísse so-
bre túmulos.

348
Como as nuvens que passam
José Rodrigues de Paiva

E eis que regressas, enfim, por esta tarde cinzenta de


inverno. Retornas com as chuvas de um tempo opaco como
essa velhice que se vai prenunciando nos teus olhos, no gri-
salho triste do teu cabelo, em cada marca do teu rosto, em
certa flacidez que se adivinha nessa gordura insidiosa que
te avoluma o corpo. Regressas, finalmente, trazido não se
sabe por que apelo. Vens para ficar, é o que parece e o que
dizes. Ficarás realmente? Quando partiste, era o verão que
levavas, mesmo que daqui tenhas saído pelo inverno. Ve-
rão de juventude e de sonho, de desejo de vencer, de rea­
lizar, de alçar voo definitivo para o imprevisto do que está
por vir. Sabias bem de ti, mais do que sabias do mundo. O
mundo era para ser descoberto, conquistado, costumavas
dizer, e citavas um dos teus poetas mais amados:

O mundo é para quem nasce para o conquistar


E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que
tenha razão.

Porque cresceste, estreitos demais ficaram estes nossos


pobres horizontes. Olhavas para longe, perdido em pensa-
mentos, lias notícias de jornais estranhos que trazias às ve-
zes da cidade, contemplavas nos mapas o traçado do mun-
do, ouvias encantado, no velho rádio da casa, a linguagem
mágica de outros povos. O mundo era vasto e era preciso
percorrê-lo. Por isso decidiste partir. Muito cedo sabias que
partirias, e sempre te preparaste para isso. Tua mãe dizia-
Como as nuvens que passam

te: “Não vás”. Teu pai, calado e pensativo, só com os olhos


te dizia: “Fica…”. Mas tu partiste, levando na mala muitos
sonhos, alguns livros e, em pastas e envelopes, folhas e fo-
lhas de papel em que escreveste horas e horas ao longo das
noites de tantos dias ou de tantos anos. Todos ficaram tris-
tes quando te foste. Todos te abraçaram quase em silêncio,
com uma espécie de temor ou de respeito. Para os outros,
ficar é que era o certo, o racional, o lógico. Ninguém, até
então, tinha partido assim, em definitivo, para o incerto,
o longe, talvez para o nunca mais. Mas para ti, o partir é
que estava em consonância com a vida. Um pássaro não
fica no seu ninho a vida toda: cresce, empluma-se e ganha
o espaço, em voo alçado para a liberdade. Por isso partiste,
levando contigo um sonho para a vida.
Correu depressa o tempo, como as nuvens que pas-
sam. De longe em longe escrevias aos teus. Algumas das
tuas cartas vi-as nas mãos de teu pai. Ele falava, às vezes,
dos teus estudos, dos teus trabalhos, dos teus planos... De
coisas que escrevias para jornais e revistas, do que dizias
em palestras e coisas assim... Falava disso tudo com muita
admiração e com certo espanto. Sabíamos pouco de ti, e
alguma coisa fantasiamos em torno da tua pessoa. Na rea­
lidade, nada sabíamos além daqueles pequenos farrapos
de notícias que aqui chegavam só de vez em quando. E
o tempo continuou a passar, como a água que corre. Os
dias nada mais são do que nuvens fugidas para o infinito.
O passado é só um acúmulo de lembranças e o futuro é,
quando muito, a expectativa do que está por vir. Todos en-
velhecemos. Teus pais principalmente. Escassearam ain-
da mais as notícias. Cheguei a ver alguns cartões postais
que enviaste do estrangeiro. Estavas afinal conquistando
o mundo conforme desejaste quando jovem. Da babel
moderna dominavas três ou quatro línguas, com certeza,
daquelas que outrora te maravilhavam os ouvidos junto
ao rádio. Eras, enfim, o escritor que desejaste ser. Homem

350
José Rodrigues de Paiva

famoso, sempre solicitado para conferências, congressos e


coisas semelhantes que as universidades fazem por toda a
parte. Cargos, honrarias, recepções, vida agitada, notícias
nos jornais, tudo isso que te dizia respeito nos vinha de
muito longe, diluindo-se nas distâncias que nos separam
do mundo. Queríamos saber mais, e então imaginávamos,
todos nós, os que sempre decidimos ficar nestas lonjuras
da vida, admirando, secretamente, a tua coragem de par-
tir, a tua vocação para a diáspora. Um homem é como um
pássaro, dizias, não pode ficar a vida toda no ninho...
Mas eis que enfim, regressas, por esta tarde úmida de
inverno. Não há ninguém para te receber. Só eu. Teus pais,
muito velhinhos, cansados de esperar a tua volta, partiram
para sempre desta vida. Os outros, igualmente se foram
dispersando. Mortos os velhos, os novos ganharam os ca-
minhos. Influenciaste uma geração de emigrantes. Todos
se espelharam em ti para a partida. Foste o modelo seguido
pela juventude. Todos se foram daqui, guiados pela tua co-
ragem, todos voltados para o teu exemplo. Partir era a es-
perança, o apelo ao futuro, a busca de um mundo novo. Fi-
car seria a morte antecipada, a desertificação do corpo e do
espírito, a cristalização no nada. “Uma geração vai, e outra
geração vem, mas a terra para sempre permanece” – gos-
tavas de recitar do Eclesiastes. Daqui já todas as gerações se
foram. Só a terra permanece, e estou eu, só, nesta vila mor-
ta. Mas eis que regressas agora tu, um homem famoso, um
mito para os que ficaram quando partiste, e destes ermos e
lonjuras puderam, entre grandes espaços de silêncio, seguir
o brilho da tua trajetória. Ninguém mais te esperava, mas
eis que regressas, com grandes bagagens. Vens, pois, para
ficar, é o que imagino pelas coisas que trazes. Vários caixo-
tes cheios de livros, alguns com o teu nome impresso nas
capas, uma radiola, muitos discos, quadros com pinturas,
outros com diplomas... alguns móveis chegaram depois,
noutro transporte. Ocupaste a casa de antigamente, onde

351
Como as nuvens que passam

nasceste e que deixaste depois, para ires à conquista do


mundo. A casa tem um amplo terraço de onde se avista, ao
longe, uma encosta de monte coberta de arvoredo. Era aí
que gostavas de ler quando eras jovem. Foi aí, nesse terra-
ço, olhando a cor da paisagem, que leste e releste um livro
chamado Como era verde meu vale, que é também uma histó-
ria de partidas e regressos. Todos se foram, agora voltaste.
Merecias que a vila te oferecesse uma recepção, uma gran-
de festa com banda de música e tudo, afinal, és a honra da
terra, um nome, um mito, uma figura quase irreal que não
se acredita ter partido daqui, deste nada, para aquilo em
que te transformaste e que és agora. Merecias uma recep-
ção. A vila deve-te uma grande festa, mas não há ninguém
aqui para a fazer. Jamais terás a estátua que poderias ter na
nossa praça. Não há crianças para haver uma escola com
o teu nome... todos se foram, seguindo o teu exemplo. As
casas estão vazias, a vila deserta, o mundo desabitado. Só
eu fiquei, e agora eis que regressas, com teus livros e discos,
quadros, móveis... Sozinho retomaste a velha casa de onde
se avista o vale. Como era verde... Refazes o jardim, em silên-
cio, onde já começam a florescer algumas rosas vermelhas.
Tua mãe amava as rosas. Gostava de as cultivar, sobretudo
as vermelhas. Enfeitava com elas o oratório da Imaculada
Conceição e dispunha algumas outras flores em jarras pela
casa. Cultivas agora tu as roseiras, relês os livros que trou-
xeste, escreves para reinventar a vida e o teu sonho, olhas
do teu terraço a amplidão solitária dos espaços enquanto
ouves, pairando na noite, as músicas que mais te falam ao
espírito. Deixaste muito longe a agitação do mundo. Não
há carteiro que venha a esta vila. Relembras, não esqueces.
Escreverás, por certo, um livro de memórias, enquanto o
tempo foge para o infinito, como a água que corre, como
as nuvens que passam...

352
O dia em que a cidade endoidou
Juareiz Correya

A gente gostava de dar as coisas a Incoloca somente


pra ouvi-lo dizer com uma voz de bicho – “Incoloca aqui”,
abrindo as mãozonas dele, grandes e sujas, com os dedos
grossos e as unhas grandes, negras, carregadas de todo
grude. Mãe dizia que ele era doido. Todo mundo dizia
que ele era doido. A gente não chegava muito perto dele,
não, com medo, porque ele era doido, e porque ele assus-
tava mesmo a gente. Ele tinha uma barba grande, bem
preta, que, ao mesmo tempo que aumentava mais ainda o
medo que a gente tinha dele, mais fazia a gente ter von-
tade de chegar mais perto dele pra puxá-la, pra puxá-la e
até balançar nela, como se fosse folha de bananeira.
O que a gente sabia era que Incoloca nunca tinha cor-
tado a barba dele, ninguém da cidade tinha visto a cara
de Incoloca direito, e mãe mesmo – quando falava ligeiro
nele, porque ela não gostava de falar nele, só falava por-
que a gente insistia – mãe mesmo dizia que aquilo era
por causa da demência dele. “Homem quando fica doido
esquece do mundo”, ela dizia assim, para mostrar que In-
coloca tinha esquecido até dele mesmo.
Os meninos da rua da gente se divertiam feito a gente
quando Incoloca passava. Nem todos os meninos se apro-
ximavam dele, é claro, a maioria tinha um medo danado.
Lá de casa, somente Aluísio, que era o mais atilado, é que
ia pra perto dele, quando a gente queria lhe dar alguma
coisa. E quando Incoloca via que era esmola pra ele, ia
logo estendendo as mãozonas e dizendo: “Incoloca aqui”.
O dia em que a cidade endoidou

Depois que ele se virava pra ir embora pela rua abaixo, a


gente ficava gritando atrás dele: “Incoloca! Incoloca! In-
coloca!”
Todos os dias Incoloca passava pela rua da gente. Ele
andava pelas ruas todas de Catingueira, como se fosse o
dono delas, conferindo as coisas pra ver se tudo estava
em seu lugar. Não tinha dia que a gente não visse Incolo-
ca com aquela barbona dele, andando pela rua como se
fosse um soldado bem importante, porque ele não andava
como as pessoas andam, ele marchava, parecia que tinha
uma banda de música tocando atrás dele pra ele andar
daquele jeito.
Seu Tonho Meira era farmacêutico de Catingueira e
era a única pessoa que brincava de perto com Incoloca.
Ninguém queria saber de brincadeira com Incoloca – só
os meninos que, depois de dar as coisas pra ele, saíam
correndo pelas ruas, gritando, “Incoloca! Incoloca!”. Mas
gente grande, feito seu Tonho Meira, da farmácia, ne-
nhum deles brincava com Incoloca.
Certo que seu Tonho Meira brincava com todo mun-
do. Mas assim mesmo, brincar como ele brincava com In-
coloca, não era coisa de brincadeira só, não. Incoloca não
ligava, não gritava nem mordia, feito mãe dizia que ele
fazia com a gente se a gente brincasse com ele. Mãe até di-
zia que seu Tonho Meira era tão doido quanto ele. “Quem
brinca com doido, só sendo doido também.”
Incoloca estava dormindo numa banca, que ficava
atrás do mercado, onde vendiam cereais. Ali era o local
mais limpo do mercado e Incoloca dormia toda noite lá.
Seu Tonho Meira resolveu fazer a brincadeira mais séria
que uma pessoa podia fazer nesse mundo: cortar a barba
de Incoloca. Disseram que ele fez de tudo pra Incoloca
dormir do jeito que dormiu naquela noite. Teve gente
que jurou que ele deu uns remédios pra Incoloca dormir

354
Juareiz Correya

feito um condenado. E não deu outra, não. Incoloca dor-


miu a noite toda, passou pela manhã, espichado ali no
banco da feira, atrás do mercado, virando troça de todo
mundo que estava por ali naquelas horas. Quando ele se
acordou eram três horas da tarde, com um solão na cara
queimando ele. Incoloca se levantou assustado. As pesso-
as que estavam ali perto parece que correram logo, sem
nem ver a reação de Incoloca, que na hora não percebeu
de imediato o que seu Tonho Meira tinha feito com ele.
Quando ele percebeu que estava sem barba, dizem que
ele deu um esturro que foi ouvido pra lá de Patos do Espi-
nhara. A cidade toda ouviu o berrão de Incoloca, que saiu
gritando feito doido mesmo pelo mercado, espantando
todo mundo. E todo mundo que estava ali correu. E todo
mundo que estava nas ruas correu.
A gente se escondeu com mãe na cozinha, as portas
e as janelas todas fechadas. De repente, todas as casas
fecharam suas portas e janelas e as ruas de Catingueira
ficaram desertas. Só se ouvia passar nas ruas o doido do
Incoloca gritando feito um bicho cavernoso. Ninguém sa-
bia o que ele dizia, só se ouviam aqueles esturros que não
pareciam ser coisa de gente, aquele berreiro sem fim, e
aquela agonia de fora da rua pra dentro de casa, como se
o mundo fosse se acabar com a gente ali na cozinha, em
volta de mãe, tremendo e sem dizer uma palavra.
Não se sabe quando aquilo acabou. Mãe mesmo não
gosta de se lembrar disso. Ela nunca fala disso. Ninguém
em Catingueira gosta de falar disso, e ninguém sabe
quando aquilo acabou. O que se sabe é que, mais tarde
– ninguém sabe direito – mais tarde, depois de tanto tem-
po da cidade inteira com portas e janelas fechadas, sem
ninguém na rua, somente Incoloca gritando pela barba
dele feito um demônio desesperado, quando as pessoas
tiveram coragem de sair às ruas, os homens e mulheres

355
O dia em que a cidade endoidou

de Catingueira, as pessoas grandes de Catingueira saíram


acompanhando Incoloca pelas ruas, numa gritaria sem
fim, berrando feito ele, urrando feito ele, todo mundo
doido feito ele, numa gritaria infernal, numa loucura que
durou dias e noites, até que a barba de Incoloca começou
a crescer de novo e ele se acalmou.

356
Um gesto ancestral
Ladjane Bandeira

I
Quando eu era pequena e olhava para o meu avô, ele
não me parecia, absolutamente, fantástico. Não tanto an-
tes quanto depois que essa ideia de fantasticidade se en-
casquetou na minha cabeça.
Ele era estranho. Sim, o que tem isso? Eu sabia o que
era ser estranho?
Era soturno, mal-humorado em sua situação de novo-
pobre. Pois sim, e o que tinha isso? Eu distinguia valores
financeiros? Se havia duas palavras que nada me diziam
essas eram: “pobre” e “rico”.
E se havia coisas que nem ao menos existiam, essas coi-
sas eram as classes sociais. Chegassem a mim e dissessem:
– “Aquele safado daquele varredor de rua”.
Pois sim, e daí? Era possível que o “safado” me impres-
sionasse muito mais – e “safado” não distingue classe – do
que o pretendido insulto de “varredor de rua”.
Era por isso que meu avô não me parecia fantástico
absolutamente em nada. Olhava para ele muito calado
dentro de sua moldura de novo-pobre – moldura também
deslustrada – e não me dizia nem fazia coisa alguma do
fantástico. Talvez porque eu tinha os olhos vagos, a cabeça
grande para o corpo e o corpo mole dentro das mãos dos
outros. Mas nem eu também era fantástica por ter cabeça
grande senão na medida em que o são todas as crianças
recém-nascidas.
Um gesto ancestral

E era por isso que eu não achava que meu avô fosse
fantástico e nem mesmo sabia que a palavra existia. Mas a
verdade é que ele era fantástico e rabugento. E o pessoal na
cidade se encarregava de propagar o que ele fizesse e dis-
sesse, e, possivelmente, o que nem fizesse e nem dissesse.
Um dia ele chamou minha avó e disse:
– Ô, Nana, traz aí o martelo e a caixa de pregos.
Minha avó lhos entregou sem perguntar para que os
queria, como teria perguntado qualquer mulher que não
fosse ela. Mas o povo se pôs a dizer, antes mesmo que ele
batesse o primeiro prego:
– É hoje! Vai fazer o caixão.
E era certo. Só então, depois que todos já haviam fala-
do e tornado a falar foi que ele disse:
– Vou fazer minha arca, Nana, recebi aviso.
O rosto de minha avó quase dissolveu de ternura e
compaixão. Tremeu como os pudins que ela fazia, mas
não disse nada. Chorou em silêncio e longe da presença
do marido sentiu que o céu talvez não fosse perto.
Quase todos os processos utilizados por Utnapishtim
e por Noé no feitio de sua arca ele usou recitando em voz
alta:
“– Junte madeira, com tantos côvados de largura por
tantos de altura e faça o seu caixão. Forre-o bem por den-
tro, fazendo-o acolchoado para ser confortável durante o
dilúvio que Eu vou mandar sobre você. Quando o dilú-
vio passar, sua arca já não terá mais préstimos, nem seu
corpo. Tenha cuidado para pôr quatro alças pelo lado de
fora e um travesseiro para a cabeça pelo lado de dentro.
Faça-o todo negro e de veludo. Pode acrescentar-lhes en-
feites prateados sobre o veludo, inclusive cabeças de anjos
gorduchos, festões e tudo o que lhe der na cabeça que
também isso perderá o seu valor quando o dilúvio houver
passado. Acrescente-lhe uma cruz para que se pense que

358
Ladjane Bandeira

você levou consigo as últimas atribuições e não as deixou


para ninguém como uma herança incômoda. Faça de tudo
de modo a combinar com os enfeites da Igreja para onde
o mandarei em breve estágio.
Pronto o caixão, não se esqueça de entrar nele e se
manter decentemente tranquilo, imóvel e sem fazer care-
tas ou distorções musculares, nem revirar os olhos. Cruze
as mãos sobre o peito, puxe a tampa sobre você e o dilúvio
o apanhará e o conduzirá para a minha eternidade.”
Era doloroso para a minha avó escutar aquelas palavras
acompanhadas pelas batidas do martelo, mas já conhecidas
do marido há quarenta anos consecutivos e simplesmente
pensava: “Meu pobre velho”. E suas mãos pareciam na-
dar dentro de rios de lágrimas enquanto amassava a goma
para os bolos que teria de fazer por amor ao seu ofício.
Todo o dia ele esteve ocupado, todo o dia recitou suas
orações no mesmo gênero. Então, de repente, minha avó
escutou que ele cantava. Era uma voz estranha, dolorosa,
muito baixa e trêmula. E ela retornou ao seu pensamento
favorito: “Oh, meu Deus, meu pobre velho”.

II
Dez dias depois o caixão ainda estava no mesmo lugar
e meu avô o rondava meio fascinado recitando orações
estranhas e excitando a imaginação do povo que manti-
nha suas antenas de pé para captar as mais insignificantes
notícias sobre os feitos.
Chamaram um padre dizendo: “Ele precisa”, e minha
avó, protestando, reclamou: “Não é tempo ainda, ele sa-
berá”.
E então começaram a pensar que ele havia enfeitiçado
minha avó e ninguém o percebera. Puseram as mãos na
cabeça e se lastimaram de terem sido enganados durante
tanto tempo e se sentiram como anjos. Eram todos tão

359
Um gesto ancestral

bons, tão prestativos, minha avó e meu avô – monstros! –


não sabiam sequer reconhecer.
“Vamos arrastar o padre aqui de qualquer maneira.”
O padre olhou aquilo, fez o sinal da cruz e começou: –
“Meu filho” – e meu avô era mais velho do que ele – “aceite
resignado o que Deus lhe enviar. É um pecado revoltar-se
contra a vontade d’Ele. Estamos na terra para isso mesmo”
– apontou o caixão – “e não vale a pena tentar fugir dos
desígnios de Deus. Aceite a morte como aceitaria um pre-
sente inestimável e tudo parecerá mais fácil...”
Meu avô sem se dignar olhá-lo falou com inesperada
mansidão:
– Ô, Nana, que está fazendo esse urubu aqui?
– Credo em cruz! – gritaram horrorizados. Retiraram-
se para as suas casas para gozar a liberdade de comentar
com mais detalhe o fato. – É um herege! O que ele fez!...
Depois disso o caixão desapareceu da sala e apareceu
no sótão. Ali ninguém o via e assim o esqueceram. Até
mesmo minha avó deslembrou-se dele e continuou fazen-
do seus bolos de estimação.
As crianças os adoravam. Esse inconsciente elogio to-
cava o seu coração como toca o coração de um artista ver
o povo admirar a sua obra e desejar tê-la.
Meu avô ia sempre para a sede de sua banda preferi-
da, tocava o saxofone, ou fazia que o tocava. Não era bom
músico, embora o desejasse ardentemente. Já ninguém
pensava mais no incidente do caixão acreditando mesmo
que ele fora vendido, ou destruído, ou sabiam lá o quê!
Meu avô passou a frequentar com mais assiduidade a
sede da banda musical mantendo os olhos vagos, distan-
tes, e vez por outra murmurava qualquer coisa como: “Mi-
nha grande arca! Quando chegar meu dilúvio...”.
Mas como àquele tempo havia uma arca em cada casa,
isto é, um baú grande incrustado de percevejos ornamen-
tais de metal, ninguém se preocupou de averiguar o assun-

360
Ladjane Bandeira

to. Todavia, minha avó achava que meu avô estava cada vez
mais casmurro e distante e pensando nele meneava a cabe-
ça e falava sua frase ternamente: “Pobre do meu velho”.

III
Seis meses, um ano e as antenas do povo não tiveram
mais o que captar em relação à arca do meu avô. Mas de
quando em vez ele subia ao sótão, entrava no caixão, experi-
mentando-o, tentando sentir a sensação da morte sobre seus
braços e pernas, sobre seu coração já seriamente abalado.
Quando minha avó não o via dentro de casa olhava
para cima, como se fosse para o céu – o sótão – e ba-
lançava a cabeça desaprovativamente sem contudo ousar
repreendê-lo.
Ele mal falava, talvez treinando, consciencioso para o
grande silêncio que lhe parecia muito próximo.
Detestava qualquer ruído, especialmente se fosse feito
pelos outros. Mas nada o deixava tão irritado quanto ou-
vir alguém assobiar.
Um dia, ao voltar da sede da banda de música, já de
longe estava ouvindo uma coisa inacreditável! Sim, al-
guém estava assobiando dentro da sua casa.
Entrou, olhou o sujeito trepado numa escada pincelan-
do as paredes num ritmo lento de valsa vienense, mediu-o
de alto a baixo e passou bufando.
Lá dentro chamou minha avó:
– Ô, Nana, bota esse apanhador de capim para fora.
Manda ele embora.
– Mas meu velho, ele está caiando a casa.
– Nana! Não ouviu o que eu disse? – Usou sua melhor
ênfase.
Desde então a casa permaneceu metade caiada meta-
de não, o que intrigava a gente da cidade, sempre pronta
a cuidar do que não lhe dizia respeito.

361
Um gesto ancestral

Aborrecido com o incidente do caiador, meu avô sentiu


à noite necessidade de recorrer à sua arca para apaziguar-
se consigo próprio e com os seus “semelhantes”.
Subiu vagarosamente as escadas para não se cansar de-
masiado, levando na mão um candeeiro, porque no sótão
não tinha luz.
As sombras dançavam cada vez mais que a luz do can-
deeiro vacilava. Galgado o último degrau, olhou enter-
necido para o seu velho companheiro, aquele que seria
também o último e seu coração quase lhe saltou da boca
na disparada, sufocando-o.
Arregalou os olhos mas, dominando-se, convenceu-se
de que não acreditava em espíritos e se aproximou, reso-
luto.
A tampa do caixão estremecia e um ruído surdo vinha
lá de dentro. Lembrou-se de ter deixado o caixão aberto
da última vez e sabendo que ninguém subia ali, estreme-
ceu. Voltou a dominar-se. Chegou mais perto e deu um
salto, sem querer, quando um angustiado “miau!” saiu de
dentro, arrepiando-lhes os cabelos.
Súbito ele ergueu a tampa do caixão e o gato preto da
minha avó saiu louco de medo, saltando pelas pernas do
meu avô que ficaram a tremer a despeito do seu pretendi-
do autodomínio: “Ah, miserável, estragando minha arca!
Não recebi ordens de levar animais”.
Espanando o caixão para tirar os pelos e as possíveis
pulgas, deitou-se dentro e ficou pensando até cansar-se e
adormecer.

IV
Quando souberam que meu avô havia morrido, já
dentro do caixão, lamentaram que minha avó insistisse
para vesti-lo com a farda da Guarda Nacional porque as-
sim – diziam – não valeu a pena ele ter morrido ali dentro

362
Ladjane Bandeira

uma vez que sempre ia dar trabalho. Até mais: retirá-lo e


pô-lo novamente lá.
Antes ele tivesse morrido mesmo na cama. Não daria
trabalho descer com ele e o caixão, as escadas do sótão.
Falavam sem sequer respeitar a dor da minha avó, tal-
vez o fazendo de propósito para castigá-la por ter aguen-
tado um sujeito tão esquisito e tão fantástico durante tan-
tos anos sem o abandonar.
Mas minha avó não se alterava com isso. Apenas es-
queceu seus bolos e seus doces àquele dia – só por alguns
momentos –, porque depois vendo o marido aparamen-
tado com a farda da Guarda Nacional, um riso beatífico
assomou-lhe aos lábios e ela saiu de mansinho para a co-
zinha onde apanhou os melhores e colocou-os nas mãos
do meu avô, falando com simplicidade.
– É para você não se esquecer do gosto, meu velho. A
viagem vai ser longa. Enquanto eu não chego lá você vá
se divertindo com esses. E quando o povo, chegando, via
o caixão do meu avô cheio de bolos e doces, em lugar de
flores dizia, meneando a cabeça – “Coitada da velha!”.

363
A casa do velho Cirilo
Lailson de Holanda Cavalcanti

Ali ficava a casa onde pousavam os discos voadores.


Bem ali, onde hoje está aquele edifício de pastilhas
vermelhas, janelas de alumínio e vidros esverdeados.
Em outros tempos, ali era a casa do velho Cirilo, que
vivia sozinho no meio dos seus gatos e das suas quinqui-
lharias, restos de um outro tempo onde existiam discos de
vinil, agulhas de diamante, rádios com válvulas, fitas de
gravação e televisores em preto e branco.
Naquele lado, onde agora tem aquele canteiro, era a
entrada da grande garagem onde ele trabalhava. Se bem
que a casa toda era meio que sua oficina, com pedaços de
tudo um pouco espalhados pelos cômodos empoeirados,
pois parecia que ninguém nunca vinha limpar nada, ali.
A garagem, apesar de também estar cheia de ferra-
mentas e caixas, tinha sempre seu espaço central desocu-
pado, como se o velho esperasse estacionar ali um auto-
móvel que não possuía.
As lendas que as outras crianças inventavam sobre o
velho Cirilo eram fantásticas. Diziam que ele fazia malda-
des terríveis para os que ousavam invadir a sua privacida-
de e que fantasmas e duendes dividiam com ele o espaço
que sobrava entre gatos e fios.
Mas Zeca e eu gostávamos dele.
Ele sempre nos dava válvulas velhas, potenciômetros
quebrados e magnetos, para os quais não tinha uso, como
presentes, e nós os usávamos para criar toda sorte de brin-
cadeiras.
Acho que, além dos gatos que não tinham mais quem
lhes desse de comer, fomos os únicos a sentir sua falta,
quando ele sumiu.
Os bombeiros que forçaram a entrada na casa, uma se-
mana depois que sua ausência foi notada, chamados pela
vizinha do lado, não encontraram nada fora do lugar,
nem corpo, nem bilhete, nem nada.
O velho Cirilo simplesmente desapareceu.
A casa ficou fechada desde então, enquanto se espera-
va que aparecesse algum parente distante para dizer que
ele havia morrido e reclamar seus haveres, vir morar na
casa ou vendê-la para alguém.
Mas parece que o velho Cirilo não tinha parentes nes-
te mundo, ninguém que viesse buscar alguma coisa que
lhe pertencera ou derramar uma única lágrima pela sua
ausência.
Portanto, numa reunião no quintal da minha casa,
quando estava completando um ano da sua desaparição,
Zeca e eu nos declaramos seus únicos e legítimos herdei-
ros universais, pois se alguém tinha direito a qualquer coi-
sa que estivesse dentro daquela casa, esse alguém éramos
nós, os únicos amigos – além dos gatos – daquele que fora
proprietário daquela casa agora abandonada.
E se os gatos já haviam partido em busca de novas ti-
gelas de ração, nós estávamos bem ali, prontos para ex-
plorar a extensão do nosso legado.
Naquela noite arrancamos sem fazer barulho a tábua
solta da porta da garagem e, depois de nos certificarmos
de que ninguém nos vira, penetramos no interior da es-
cura oficina.
Zeca estava com a lanterna do seu pai e sob a sua luz
começamos a explorar o que ele insistia em chamar de “o
tesouro do velho Cirilo”.
Não lembro bem quem descobriu o ovo de cristal pri-
meiro, se fui eu ou foi o Zeca, talvez a luz tenha batido na

365
A casa do velho Cirilo

caixa onde ele estava guardado e o reflexo chamado nossa


atenção ao mesmo tempo.
Depois que o retiramos da caixa, porém, era impossí-
vel tirar os olhos dele.
Sua consistência era a de um cristal azulado, porém,
leitoso, co­mo se fosse ao mesmo tempo sólido e líquido
ou maciço e oco e cheio de líquido, tudo ao mesmo tem-
po, difícil descrever.
Com um respeitoso espanto, aproximamos nossos ros-
tos do cristal deixando que a luz incidisse bem em cima
dele, para ter certeza de que nunca tínhamos visto nada
como aquilo antes.
A princípio pensamos que devia fazer parte de algum
daqueles aparelhos esquisitos que o velho montava e des-
montava, mas devíamos ter visto logo que aquilo não po-
dia fazer parte de qualquer engenhoca inventada no sé-
culo passado.
Ficamos ali ajoelhados como devotos de algum anti-
go ritual, a luz da lanterna no chão alongando a sombra
de todas as coisas e pouco a pouco percebemos que uma
luminosidade se escoava do cristal, provocada talvez pelo
calor das nossas mãos.
Zeca segurava o ovo que principiou a adquirir uma
aparência imaterial e a luminosidade foi crescendo e for-
mando um círculo. Mas parava, incompreensivelmente,
ao se aproximar da barra da porta.
Não acredito que qualquer pessoa, passando do lado de
fora, fosse capaz de ver qualquer réstia daquela luz azul.
Desligamos a lanterna e deixamos que aquele azul en-
volvesse a nós dois como um casulo e não percebemos o
instante exato em que o disco se materializou dentro da
garagem.
Materializou-se sim, disso tenho certeza, pois das ou-
tras vezes eu prestei atenção e era como se o próprio ar
tremesse e se dobrasse em torno de si mesmo e pequenas

366
Lailson de Holanda Cavalcanti

partículas de luz, vindas de todas as direções, fossem su-


gadas para formar um objeto sólido.
Um objeto brilhante que ficava parado a poucos centí-
metros do solo, vibrando de uma maneira que não ouvía-
mos nada, mas que sentíamos na pele, na eletricidade dos
cabelos, no cheiro do ar.
Era o nosso disco voador. Foi assim que chamamos o
objeto desde o início.
Andamos ao seu redor procurando uma abertura, uma
porta, uma fresta, mas ele era todo uniforme, liso, brilhan-
te. Até que Zeca sem querer encostou o cristal nele.
Foi como se uma chave encontrasse sua fechadura e
uma porta deslizou na parede do disco revelando seu in-
terior iluminado.
Com a temeridade das crianças colocamos primeiro as
cabeças dentro dele e depois as mãos, por fim as pernas e
ficamos de pé, mudos diante da infinidade de mostrado-
res, luzes e painéis brilhando ao nosso redor.
Passado o primeiro momento de espanto, porém, co-
meçamos a rir e a conjeturar como o velho Cirilo fize-
ra aquilo e como ele tinha sido esperto em não contar
para ninguém sobre aquele seu maravilhoso brinquedo.
E como nós éramos dois garotos de sorte por sermos os
únicos donos dele agora!
Levados pela emoção da brincadeira, transformamo-
nos em aventureiros e piratas espaciais, prontos para des-
bravar todos os mistérios das galáxias e Zeca, empolgado
com seu novo papel, gritou bem alto:
“Vamos para o próximo planeta habitável!”
Imediatamente a porta desapareceu, as luzes passaram
a seguir uma nova dança de cores e as paredes assumiram
a aparência do cristal azulado, permitindo que víssemos
tudo à nossa volta enquanto nós e os mostradores parecía­
mos flutuar no nada.

367
A casa do velho Cirilo

Uma vibração diferente tomou conta de tudo e vimos o


mundo se desfazer num turbilhão de estrelas que acelera-
vam como se fossem cadentes, num vertiginoso turbilhão
que não conseguíamos entender até que as paredes volta-
ram à sua condição opaca e a porta começou a reaparecer.
Se a viagem não tivesse demorado mais que um ou dois
minutos, eu talvez tivesse chorado de medo, mas logo de-
pois que a porta se abriu, qualquer medo que tivéssemos
foi substituído por silenciosa estupefação.
A garagem onde esperávamos estar não estava mais
ali. Em seu lugar havia uma outra paisagem, um outro
céu, não com uma, mas sim, com oito luas! Um desfile
que cruzava um crepúsculo saturado de tons de púrpura
com um imenso sol alaranjado que se punha.
O ar era diferente, mas agradável. Odores de flores
que nunca tínhamos visto antes e pequenos animais que
nos olhavam sem surpresa, ocupados em encontrar suas
tocas ou seus ninhos no final do dia.
Se fôssemos adultos, creio que teríamos acreditado es-
tarmos loucos ou sob o efeito de alguma droga poderosa,
mas as crianças têm uma capacidade diferente de lidar
com o inusitado. Para nós era apenas a realidade de um
sonho que se tornara verdade.
“Vamos voltar para onde estávamos!”, gritou Zeca.
E o turbilhão retornou com seus milhares de estrelas e
quando a porta voltou a se abrir estávamos outra vez no
espaço central da garagem do velho Cirilo.
Com todo cuidado colocamos o cristal no lugar onde
estava e vimos o disco voador ir desaparecendo como se
fosse absorvido pelo ar, enquanto a luminosidade azul ia
pouco a pouco desaparecendo.
Jurando não contar a ninguém nada do que se passa-
ra, fomos cada um para sua casa prometendo um novo
encontro, na mesma hora, para a próxima noite.

368
Lailson de Holanda Cavalcanti

Ah, fizemos muitas viagens nas semanas seguintes, sim!


Encontramos lugares onde criaturas de pescoço com-
prido e múltiplas pernas nos procuraram para trocar coi-
sas que nunca havíamos visto por qualquer coisa que ti-
véssemos em nossos bolsos.
Visitamos planetas onde o povo vivia em casas flutuan-
tes num imenso oceano.
Encontramos criaturas de variados graus de inteligên­
cia, de várias aparências e formas, que procuravam se co-
municar conosco ou que não nos davam a menor atenção,
que demonstravam curiosidade e às vezes receio, descon-
fiança ou aversão.
É claro que não saíamos do disco em todos eles, pois
parecia haver um mecanismo de defesa que impedia que
descêssemos em ambientes hostis ou onde a gravidade ou
a atmosfera nos fosse adversa.
Nesses, as paredes permaneciam translúcidas e podía­
mos ver tudo o que se passava lá fora, mas elas não se
tornavam opacas e nem a porta aparecia.
O fato de não sabermos mexer nos painéis nos levava a
improvisar sempre uma frase diferente para ir a um novo
planeta e isso nem sempre funcionava bem.
Zeca, então, resolveu assumir o controle da situação e
desvendar os segredos do ovo de cristal.
Já que ele era a fonte de criação do disco, parecia lógi-
co que nele estivesse o controle total da sua programação.
Talvez houvesse um painel dentro dele, ou uma sequência
de números, ou qualquer coisa que nos indicasse como
controlar melhor aquele veículo.
A ideia agora parece absurda, mas pela lógica infantil
seria muito mais fácil abrir o cristal oval, ver o que tinha
dentro dele e como aquilo tudo funcionava.
Depois de tentar com uma chave de fenda e com um
pedaço de arame, Zeca pegou um martelo e disse que

369
A casa do velho Cirilo

talvez batendo ao redor dele descobríssemos onde tinha


uma abertura.
Fagulhas saltavam quando o martelo resvalava na su-
perfície do ovo, mas Zeca não desistia.
Pediu que eu martelasse também um pouco, talvez ti-
vesse mais sorte em abrir a casca que aprisionava o segre-
do da viagem pelo Universo.
Foi então que sentimos a presença.
Veio crescendo como a sombra da noite que desce cor-
rendo pelos lados do vale, como o vento que sopra na hora
do medo, trazendo odores de vácuo e de desertos vazios.
A sombra invisível cresceu até ocupar toda a garagem,
transbordando aquele pequeno interior para todo o es-
paço infinito, cresceu para fora e para dentro das nossas
almas, nos fez sentir pequenos e mesquinhos.
No silêncio das nossas cabeças ouvimos as palavras
que não eram palavras e que nos desprezavam pela nossa
ignorância, pela pequenez dos nossos espíritos, pela mal-
dade intrínseca da nossa espécie.
As palavras que não eram palavras negaram-nos para
sempre o direito de percorrer os caminhos do cosmos, da
mesma maneira que éramos incapazes de trilhar os cami-
nhos do bom senso e da razão.
O mundo veio abaixo e a escuridão se fez completa.
Acordei todo engessado no hospital, com Zeca em
iguais ou piores condições na cama ao lado, tubos saindo
da sua boca e do seu nariz e um monte de fios enfiados
em seu braço através de uma agulha.
Disseram-me que estávamos brincando na casa aban-
donada quando alguma viga deve ter cedido e a garagem,
com a casa inteira, ruiu e desabou sobre nós.
Era um milagre termos sido encontrados com vida,
pois quase nenhum dos nossos ossos tinha sido poupado
de algum estrago.

370
Lailson de Holanda Cavalcanti

Não dissemos nada, mas nós sabíamos que a presença


seria incapaz de um ato tão mesquinho quanto tirar a vida
de duas criaturas inferiores.
Ela já havia nos tirado o direito de viajar entre as estre-
las e isso já era o pior castigo que poderíamos receber.
Depois que saímos do hospital, a família do Zeca se
mudou para outra parte da cidade e nunca mais nos fa-
lamos.
Sabíamos que um era a razão do castigo do outro e
mesmo depois que crescemos, casamos, tivemos filhos e
netos, nunca mais voltamos a nos falar.
Ele, como eu, de vez em quando, vem aqui e fica olhan-
do para o lugar onde era a casa do velho Cirilo.
Mas quando quer que um perceba a presença do outro,
quem chegou primeiro vai embora e deixa que o recém-
chegado admire o lugar onde sua estupidez está enterra-
da.
Muitos anos depois que a casa ruiu fizeram este prédio
e se for uma noite sem lua, dá até para perceber uma leve
luminosidade azul filtrando-se por baixo do concreto.
Mas os discos voadores…
Ah! aqui eles não pousam jamais.

371
Efemeridade da vida
Laura Areias

O vento. A tempestade. O céu escuro. A chuva forte


repentina atemorizava os moradores da praia. As casas
próximas ao mar desprendiam seus telhados como folhas
levadas por brisa forte. Inverno, frio, desconhecido. Os
moradores amedrontados corriam para longe da terra.
Um pavor para banhistas que se deliciavam com o ven-
to marítimo transformado num monstro marinho, veloz,
atemorizador dos circulantes na areia. Assim, uma manhã
de dezembro, com procura de mar, em ilhas tropicais.
Os namorados, casais, homens e mulheres só gozavam
o descanso, imposto ao duro trabalho de um ano estres-
sante. Uns estreavam a visita às ilhas. Outros, comumen-
te, as frequentavam, por serem o sanar de seu cansaço.
Há no dia controvérsias não esperadas, nem sequer
imaginadas, existentes no decorrer dos tempos, sem ra-
zão clara da existência. São essas que destroem sonhos,
emoções e até vidas. Irreparáveis suas atitudes, aniqui-
ladoras de bens, amealhados através de anos. Os hotéis,
conforto de turistas, não resistiram à avalanche das ondas
que os tragou. A força do oceano destemperou-se, cres-
ceu em volume e dissolveu-se num líquido que tudo levou
pela terra adentro.
Casais com crianças faziam covas e estatuetas na areia,
belas estas, mostrando arte e imaginação. Adão e João
sonharam, em princípios de namoro, quando formassem
um lar e tivessem dois filhos, com os mesmos nomes dos
pais, iriam à ilha, imaginada por eles como o éden ter-
Laura Areias

restre, numa viagem bíblica de Adão e Eva e seus filhos,


em pensamento, não seriam Abel e Caim, mas Abel e Set.
Caim cometeu o primeiro pecado na terra, a inveja, e que
proliferou com tal intensidade que se tornou até hoje o
terrível mal dos homens. Diz a Bíblia que Adão durou
novecentos e trinta anos. João e Ada pediam a Deus lon-
gevidade, para verem os filhos no caminho da ciência e
do bem. Idealismos de pais que ao conceber um filho lhe
atribuem qualidades e profissões irrealizáveis, por ele um
dia conceder-se ao dom do livre-arbítrio e escolher o seu
caminho. Ideais do depois. No momento das águas revol-
tas permaneciam na quente areia, construindo a Arca de
Noé. Ideia de Ada, qual Eva, sempre inventiva e sedutora.
Acabado o transporte dos casais humanos e bichos, apare-
ceu uma menina gritando: – “Corram, corram para terra,
as águas aproximam-se, vejo um vão no mar, prenúncio
de ondas gigantes”.
A voz da menina foi pouco ouvida, traduzida em ima-
ginação infantil, espontânea em revelações.
Ada, porém, imediatamente, como fosse um anúncio
divino, pegou nos filhos e correu atrás das poucas pessoas
que seguiam o aviso anunciativo da fuga. João, não com-
preendendo a atitude, para ele, louca da mulher, seguiu-a
e foram para um lugar, bem acima da vasta praia.
O mar cresceu como bola de sabão em assopro de
criança e varreu os muitos turistas e nativos, dando im-
pressão de um dragão, lido nos contos, que engolia cida-
des e gentes.
Quando tudo amainou – o mar demolindo constru-
ções, árvores derrubando-se por elas próprias como se as
raízes fossem inconsistentes para suportarem tão pesado
tronco – o aspecto era desolador. O mar fora o monstro
devorador, engolidor de vidas, algumas delas, jogadas na
areia, sem anseios, sem ilusões.

373
Efemeridade da vida

A calma chegou, desconhecedora do terrível flagelo,


silenciosa, trazendo o sol à fria manhã de dezembro.
Ada e João, com os filhos ao colo, com caras de terror e
espanto, olharam o mundo novo em que se transformara
a praia. Um exemplo de insegurança que em tudo existe,
desde cidades, aldeias e vilas cujas intempéries poderão
jogá-las fora do mapa.
Todos quatro de mãos dadas, olhos fixos no céu, re-
zaram juntamente com os poucos restantes que os acom-
panharam a oração que Cristo ensinou: “Pai Nosso que
estais no céu...”.
Um sol forte desprendeu seus raios, aquecendo almas
e corpos como a dizer: – VIVEI, PRIVILEGIADOS DE
DEUS.

374
Franz Kafka voa de Zepelim
Leônidas Câmara

In memoriam: Pedro, o carpinteiro.


Nassira, a egípcia, ergueu os grandes olhos negros
para mim, sorriu, o que era raro, e disse:
– Cássio, pode me emprestar o seu caderno azul de
notas, pois faltei às duas últimas aulas?
A colega, no seu lado direito, comentou:
– Um milagre, Nassira riu, tem dentes lindos!
Um rapaz observou, com maldade:
– E as pernas, também...
Houve um riso geral. A egípcia baixou a cabeça, som-
bria.
– Claro que posso emprestar o meu bloco, mas são
apenas anotações de leitura, esquemas de possíveis aulas.
Do fundo da sala, um aluno perguntou:
– Cássio, está lembrado de falar sobre os aeroplanos
de Bréscia?
– É um texto um tanto negligenciado, recuado – res-
pondi. – Veremos, adiante.
Era uma turma pequena, cerca de doze alunos, rapa-
zes e moças. Prossegui:
– Pretendia conversar com vocês sobre a sentença sê
justo, que a máquina da Colônia Penal inscreve com letras
de sangue no corpo do supliciado.
O grupo de jovens sentava-se em semicírculo numa
pequena sala. Era uma aula noturna de um curso livre,
reunindo alunos que trabalhavam durante o dia, no co-
mércio, nas fábricas, nos escritórios. Ao todo, no começo,
Franz Kafka voa de Zepelim

eram doze, agora apenas dez, pois um casal não se en-


contrava mais entre nós. Rumores davam conta de que
o rapaz e a moça fugiram para uma grande aventura de
amor, outros falavam de prisão. Era um jovem silencioso,
moreno, de óculos escuros, atlético; a garota era franzina,
clara, como ele, também quieta.
Observo Nassira, a egípcia, nascida em Assuan, aqui
chegando com os pais aos dez anos de idade. Não deve
ter mais de vinte e dois ou vinte e três. Silenciosa, segu-
ra o meu caderno azul com as mãos morenas de dedos
longos, escutando com atenção as minhas palavras. O
detalhe mais evidente do seu rosto são os grandes olhos
negros, sombrios como se fossem misteriosas falenas da
noite. Terminada a aula, todos nos dispersamos para um
reencontro na semana seguinte. Prometo ao rapaz que me
questionou, que não vou me esquecer da narrativa sobre
Os Aeroplanos em Bréscia. Só no caminho de casa é que
me lembro que o caderno de notas será inútil para Nassi-
ra, pois é possível que ela não saiba alemão e nada ali está
escrito em português.
Moro num quarto de pensão no centro velho da cida-
de. Antes, vivi num quartinho de fundos da paróquia de
São João, por caridade. Não tenho mulher nem filhos.
Acabei de completar trinta anos e perdi o meu pai faz três
anos, minha mãe se encontra num asilo particular para
idosos enfermos, agora pago orgulhosamente por mim.
Vivo de aulas em cursos noturnos e faço traduções, ocasio-
nalmente escrevo para jornais sobre autores, resenhas de
livros, coisas assim. O meu quarto é pequeno, mas arejado
e com uma boa vista da avenida. Estou no cômodo faz
pouco tempo. Sinto-me bem entre essas quatro paredes
nuas, pintadas por mim de branco. Aqui recebo os raros
amigos e os agentes das editoras que me trazem textos
em alemão para traduzir, publicidade de lançamentos.

376
Leônidas Câmara

Ensinou-me o idioma o pároco da minha cidade natal,


um alegre alsaciano da Lorena de nome Friedrich Irmen,
quando eu contava doze anos de idade. Foi ele, também,
quem me tirou da indigência, recomendando-me a um
sacerdote seu amigo, da diocese da capital, quando me vi
sem pai e com a mãe doente. Dou raras aulas particulares
de alemão, mas não faço preço para o jovem terceiranis-
ta de Filosofia, quase imberbe, Tito Lívio, que serve de
mensageiro das editoras. No centro da parede dos fun-
dos, pendurei uma reprodução da Mulher no espelho, algo
assim, de Picasso. Com o tempo, a estampa me enfastia.
Devo mudá-la. Tenho, ainda, uma gravura da Virgem,
que conservo desde a infância, mesmo sem ser católico. A
dona da pensão Mourisca, dona Inês, fica satisfeita de ver
um seu hóspede tão piedoso da sua santa protetora. Falta-
me um canário para me despertar, pela manhã, com o seu
canto, como acontecia na minha infância. Não se pode ter
tudo, mas o que possuo já me deixa feliz, não que a minha
vida seja venturosa, pois é um tanto solitária, mas pelo
menos ela não é cruel, e até, sob certos aspectos, é agradá-
vel. Os hóspedes, em geral, não me apreciam, desconfiam
do meu jeito misantropo de ser, mas foi a pobreza que me
fez assim recluso. Ouço música numa velha radiola alemã,
herança paterna, tenho discos em variações do Noturno,
de Chopin, e várias sonatas de Mozart. Assim, posso dizer
que sou um homem feliz. Acendo um cigarro, tomo um
café forte e fico a olhar o incessante movimento de carros
no asfalto. Gosto de ouvir os gritos dos vendedores ambu-
lantes, a buzina dos veículos, ver os anúncios luminosos,
o colorido vibrante das luzes de néon, enfim, detesto o
silêncio, a solidão. Não foi fácil alugar este aposento sem
ter um emprego fixo. Agora, com as aulas nos cursos no-
turnos financiados por uma instituição do comércio e da
indústria, consegui pagar a vaga no coração da cidade ve-

377
Franz Kafka voa de Zepelim

lha. Comprei uma linda mesa de cedro, uma extravagân-


cia que me tirou até mesmo o sono, onde escrevo e onde
arrumo com esmero os meus livros. Pretendia colocar cor-
tinas brancas nas duas janelas, um luxo ao qual renunciei
com pesar. O abajur japonês foi um golpe de sorte. Estava
com uma rachadura insignificante no pedestal e o anti-
quário me cedeu pela metade do preço. No fundo, lê-se
Made in Japan – 1880. Legítimo, tenho certeza, com uma
bela cúpula de seda finíssima, azul com arabescos doura-
dos, e a base de porcelana pérola, delicada, translúcida.
Possuo, ainda, uma estatueta de bronze, o busto do poeta
Goethe, presente de despedida do padre Irmen. Na cabe-
ça do grande homem, vejam, coloquei o inseparável cha-
péu Panamá do meu falecido pai! Gosto de tecer fantasias
sobre a origem do meu abajur, penso na pequenina mão
da gueixa que ligava a sua luz violeta no ato de bailar para
algum potentado, seu amante. Esses objetos são a minha
fortuna nesta terra, e me bastam, sem falar na luxuosa e
complicada cafeteira que somente eu sei manejar, um caro
artefato sueco que recebi de presente. Não conheço ricos
e poderosos, sequer de vista. Certo dia, logo que aqui me
instalei, o diretor da minha instituição pediu para que eu
recebesse um seu sobrinho, pois ele precisava de alguém
que traduzisse uma carta do alemão. Tratava-se de um jo-
vem comerciante de vinhos, que recebera uma correspon-
dência de Munique, sobre negócios. O rapaz vem ao meu
quarto, na pensão Mourisca, com a sua noiva. Prometo
entregar o trabalho no fim da tarde seguinte. Vem a moça,
no seu lugar, na hora marcada. Olha ao redor, sorri. Ela,
com certeza, é rica. Usa um costume azul, muito simples
e leve, parece que de voile, que lembra um vestido, da
mesma cor suave, que minha mãe usava no auge da sua
beleza e juventude. Carla é o nome da moça. Pede-me
um cigarro. Está de costas para a janela e o sol do fim

378
Leônidas Câmara

da tarde bate nos seus longos cabelos louros. Ela parece


fazer parte, assim iluminada, de uma cena convencional,
lida em algum romance romântico ou vista num antigo
filme norte-americano qualquer. Dou o cigarro e acendo
um também para mim. Ela diz, séria, sem sorrir:
– Não deve fumar, é tão magro. Perdão!
Aquilo não me humilha, apenas me entristece. Ela,
por sua vez, é magra, esguia, mas parece vender saúde e
felicidade; logo, pode fumar.
– Não tem café? – pergunta, agora sorrindo.
– Não, não tenho café. Posso ir comprar, lá fora. – Ela
me diz que não tem importância. Deixa a janela e vai fo-
lhear os livros na mesinha, enquanto organizo os papéis
da tradução. Olha para a estampa, divertida:
– Veja, você tem um Picasso, rapaz afortunado! – sorri
ao encontrar alguns volumes de Kafka, mas em alemão.
Confessa que gosta de ler, um pouco, mas não sabe quem
é Franz Kafka, ou finge que não sabe. Nada explico. Fumo
em silêncio, com a tradução já enfiada num envelope.
Carla fica calada, fitando a fumaça. Tem olhos azuis, cer-
ca de vinte anos. Imagino o que faz nesta vida, mas nada
pergunto. Contudo, ela adivinha o meu pensamento e
se diz aluna de Arquitetura. Volta-se para o meu abajur
oriental e fica uns instantes admirada, talvez por encon-
trar tão rico e lindo objeto num quarto pobre de pensão.
Liga a luz azul, extasia-se, sorri. Comenta que aquilo é
uma verdadeira raridade e quer saber se é uma relíquia
de família. Anoitece, enfim, e ela se vai, deixando o che-
que pelo meu trabalho sobre a mesinha de cedro. Aperta
a minha mão com força. O seu perfume enche o quarto
inteiro e a sua beleza vai me perseguir por muitas noites.
Na saída, diz com um sorriso:
– Um dia vou voltar, assim como agora, num fim de
tarde, e então tomaremos um bom café! Quem sabe me

379
Franz Kafka voa de Zepelim

fará o favor de algumas aulas de alemão? Uma semana


depois desse encontro, um mensageiro vem me entregar
na pensão Mourisca a bela cafeteira sueca. Cartão algum,
mensagem alguma. Durante um tempo, espero a visita
de Carla, em vão e sem um motivo razoável. Ouço uma
batida na porta do meu quarto. Digo para mim mesmo:
“Enfim, é Carla!”. Mas é o zelador que me anuncia visitas.
Três sujeitos olham para a minha cara, desde o umbral.
O mais velho, um mulato magro, de óculos escuros, de
chapéu de feltro cinza, pergunta:
– Professor Cássio da Silveira?
– Sim.
– Venha conosco.
O camarada mais moço e corpulento segura o meu
braço com desmedida força. O terceiro, na penumbra do
corredor, não se apresenta, é uma figura comprida, esqui-
va. Diz, apenas:
– Sem perguntas.
Não tenho tempo para desligar a luz do abajur, nem
sequer fechar a porta. O velho zelador olha para mim,
espantado. Estacionado no meio fio, vejo um tintureiro
negro. O homem esquivo abre a porta traseira, para o
alto, e os outros dois sujeitos me jogam lá dentro, sob a
vista dos curiosos. A escuridão é completa no interior do
carro, sinto o rude atrito de metais nas costas e na cabeça,
fico um pouco tonto, vacilo, quando uma mão firme me
segura e me apruma, acomoda meu corpo naquilo que eu
julguei ser um assento de ferro. Digo:
– Obrigado.
– Nota-se que é a sua primeira vez, não é?
– Sim. Fui apanhado de surpresa, respondo, ouvindo
uma voz grave e um riso ao meu lado.
– Eu já estou acostumado desde os anos trinta, desde
os tempos do carroção. Sou um velho.

380
Leônidas Câmara

Ficamos em silêncio, ouvindo o ronco do carro em boa


velocidade. Pergunto, enfim:
– Quem é o senhor?
– Pedro, Pedro carpinteiro, assim me chamam. Estou
tão acostumado com isso, que minha mulher já tem uma
maletinha pronta com roupa de muda.
– Para onde vão nos levar, Pedro?
– Para uma guarnição militar qualquer. A mim já não
fazem mal, no passado sim. Não valho mais grande coisa.
Prendem-me pelo hábito. Como é mesmo o seu nome? O
que faz na vida?
– Cássio da Silveira. Dou aulas.
– Onde atua? Não me lembro do seu nome. Codino-
me?
– Não tenho. Apenas dou aulas de Literatura, faço tra-
duções.
– Quase sempre cometem enganos. Nunca pedem des-
culpas. Falou mal do regime?
– Eu? Não cuido de política.
– Vá ver, logo estará livre.
– Há mais alguém conosco, Pedro? Ouço ruídos.
– Não pude ver os rostos, Cássio, mas no subúrbio dois
jovens foram capturados. Apanharam muito, sobretudo o
rapaz, a moça, pelo menos, não gemeu como ele. Entre-
tanto, não querem falar comigo.
Penso no casal que desapareceu misteriosamente das
minhas aulas. Tolices! Pergunto a Pedro:
– Você é comunista?
Ouvi um riso no escuro:
– Que importância pode ter isso, meu Deus!
Os meus sapatos patinhavam no chão úmido do tintu-
reiro. Comentei:
– O piso está molhado. Para minha surpresa, ouvi uma
voz sumida responder:

381
Franz Kafka voa de Zepelim

– É que eu urinei. Acho que urinei sangue. Não sei.


Pedro disse:
– Bateram muito nele.
– Isto vai passar, rapaz! Jesus sofreu muito mais, por
nada…
Pedro começou a cantarolar, baixinho, mas logo subiu
o tom grave da sua voz. Acho que eram uns versos de
“Noches de ronda…”
De novo, o silêncio na pesada escuridão. Súbito, o car-
ro parou com um forte tranco. A porta traseira foi aberta
e um homem gritou:
– Pedro, pode descer!
O carpinteiro roçou o meu joelho com algo agudo, que
devia ser a sua maletinha, e disse:
– Boa-noite. Boa sorte para todos. Até mais ver.
Sem a leniente e breve companhia de Pedro, cujo rosto
sequer eu vi, o meu desamparo aumentava. Era uma es-
pécie de pátio escuro. Uma chuva fina e persistente cria-
va poças, aqui e ali, onde atolávamos os sapatos. Ao meu
lado, dois homens do carro; à frente, o sujeito esquivo,
um rapaz manquejando e uma moça alta, caminhando a
passos largos. Não conseguia ver os seus rostos e a minha
curiosidade me irritava.
O corredor mal iluminado parecia não ter fim. O resto
do grupo sumiu da minha vista. Eu seguia com dois solda-
dos. Afinal, abriram uma porta pesada, com uma vigia no
centro, e me empurraram para o interior da cela. Havia
um catre sem cobertores, uma cadeira sem braços, uma
latrina, no alto uma janelinha de grade de ferro. A ilu-
minação fraquinha escoava do longo corredor. Na pressa
com que me prenderam, fiquei sem os cigarros. Paciência.
Não pretendia deixar o vício? Com certeza, pela manhã
vão ver que prenderam o homem errado e estarei livre
para voltar ao meu quarto. Pouco dormi. Acordei com o

382
Leônidas Câmara

chilrear alegre e repetido de um pássaro. Julguei que era


um canário da terra. Conheço o canto. Padre Irmen me
dava aulas de alemão ao som do canarinho engaiolado na
janela. Arrastei a cadeira para junto da parede e consegui
ver um trecho de pátio batido pela luz do sol nascente.
De fato, numa gaiola pendurada numa aroeira havia um
canário da terra. Senti-me menos infeliz. Trouxeram-me
pão sem manteiga e café. Ao meio-dia, feijão e farinha,
sem carne. À noite, café e de novo pão sem manteiga.
Noite e dia a mesma coisa, quanto tempo? Eu sempre
julguei que nos presídios a vida era plena de atividades
diversas: futebol pela manhã, oficina depois do esporte,
biblioteca à tarde, à noite, palestras evangélicas, católicas
ou espíritas, aos domingos visitas e encontros conjugais...
Uma certa manhã, afinal, fui levado pelo longo corre-
dor para uma sala pequena, bem iluminada e limpa até
mesmo com cortinas brancas nas duas janelas, do modo
como eu queria fazer no meu quarto. Havia ali uma escri-
vaninha com uma cadeira e à sua frente um banco tosco.
Os meus dois condutores se foram. Fiquei só, de pé, um
pouco tonto e leve, olhando as paredes alvas. Um quarto
de hora se passou antes que um oficial entrasse na sala
e se sentasse à mesa, com gestos lentos, suaves, como se
estivesse representando uma pantomima num palco. Re-
tirou o quepe devagar, colocando-o sobre a escrivaninha,
alisou longamente os cabelos louros e compridos, levan-
tou a vista, olhou para mim com grandes olhos azuis de
criança e sorriu. Não era nada marcial o capitão da arma
de cavalaria. Disse, com voz suave, pausada:
– Sou o capitão Márcio Rodrigues Stein, da cavalaria.
Qual o seu nome?
– Cássio da Silveira.
– Ocupação?
– Dou aulas?

383
Franz Kafka voa de Zepelim

– Sobre?
– Literatura.
– Ah, sim. Já sabemos. Faz mais alguma coisa?
– Traduções do alemão. Aulas particulares, poucas.
– Ah, sim. Por parte de minha mãe descendo de ale-
mães. E o senhor?
– Pais brasileiros.
– Ah, sim. Como aprendeu o alemão?
– Com um padre amigo do meu pai, acho que o início
foi aos doze anos.
O capitão levantou-se e começou a percorrer a sala,
aos círculos, sentido horário, agitando no ar uma espécie
de relho.
– Quer o senhor caminhar, também? É bom para pen-
sar.
O oficial se deteve às minhas costas. Não me virei. Ele
bateu, de leve, com o relho no meu ombro direito. Sen-
tou-se e perguntou:
– Sabe por qual motivo se encontra aqui?
– Não, senhor. Não faço ideia.
– Como em Kafka, não é?
Surpreendi-me e sorri, respondendo:
– Exatamente, como em Kafka.
– O processo, não é?
– Exatamente, senhor!
Sorrimos. Ele acionou uma estridente sineta e logo
veio um ordenança:
– Lucas, quero café forte e quente e biscoitos de maise-
na. Sorriu, comentou:
– O pretinho Lucas, coitado, nada tem em comum
com o evangelista das gravuras ilustradas do meu velho
catecismo!
Houve um breve silêncio até a chegada do café com
biscoitos. O capitão serviu-se, com gosto:

384
Leônidas Câmara

– Adoro biscoitos de maisena, desde criança.


Comia os biscoitos lentamente, sorvia o café sem pres-
sa, olhando o teto. Disse:
– Não vai se servir? Não faça cerimônia.
Eu estava louco por um café de boa qualidade. En-
quanto eu bebia, o capitão me fitava, agora acendendo
um longo cigarro de papel azulado, com ponta dourada,
que eu apenas vira nos filmes americanos dos anos qua-
renta. É preciso dizer que ele usava luvas brancas de pe-
lica, retirando a da mão direita para fumar com estudada
elegância. Afinal, deu-me um cigarro azul, gentilmente
aceso. Fiquei um pouco tonto, mas logo me acostumei
com as longas tragadas. Então ele falou:
– Está aqui, meu amigo, por causa do caderninho azul.
Não sabia disso?
Fiquei deveras surpreso. O bloco de notas que Nassira
pedira emprestado? Meu Deus! Esboços de aulas, impres-
sões de leitura!
– Desculpe-me, senhor capitão, mas não entendi.
– Dizem que você é um sujeito importante, mas se faz
de modesto professor. Querem de você nomes e endere-
ços. O caderno azul não está em código? Por qual razão
emprestou um caderno escrito em alemão a uma moça
egípcia?
Sorri e expliquei:
– Deve haver um engano, senhor. O caderno azul ser-
via para as anotações das minhas aulas. Ao emprestá-lo a
Nassira, não me dei conta, com certeza, de que lhe seria
inútil. Creio que ela não sabe o idioma alemão.
O capitão ficou pensativo, alisando os longos cabelos
louros. Pareceu-me triste, decepcionado. Disse:
– Há enganos, é verdade, neste tipo de coisas. Informa-
ções equivocadas. Agentes confusos ou ignorantes. Nada
posso lhe dizer por conta do segredo de ofício. Alguém,

385
Franz Kafka voa de Zepelim

no entanto, foi feito prisioneiro algum tempo antes que o


senhor, alguém que sabemos, agora sem erro, pertencer a
uma perigosa organização.
– E então?
– Então, meu caro, ficamos sabendo do caderno azul
em código, mas ainda não o encontramos. Uma coisa tão
simples!
– Meu Deus!
– Tem razão em clamar pelo nome de Deus. Pessoas
inocentes correm perigo.
– Adiante algo mais, capitão, por favor.
– Vamos fumar, vamos controlar as coisas, rapaz. Vou
lhe revelar algo sem importância aparente, que vai lhe
provocar risos. Faz pouco tempo prenderam um casal de
guerrilheiros urbanos, eram seus alunos, um moço de
óculos escuros, sujeito sombrio, e uma garota magrinha.
Há quem use métodos arcaicos, contra os meus moder-
nos princípios científicos, é verdade, mas com resultados
eficazes e breves, pois logo o moço falou do caderno azul
com nomes, endereços e planos, em seu poder.
– Uma grande mentira, capitão!
– Pode até ser, não duvido, mas essa gente, quando em
situação limite, inventa qualquer saída para ganhar tem-
po, para obter algum alívio ou desafogo. Contudo, devo
admitir que eu mesmo não acredito que o senhor seja um
simples mestre-escola interessado em literatura e coisas
assim tão tolas ou inofensivas. Hóspedes da sua pensão o
olhavam com certa suspeita, pois disseram que o senhor
vivia o tempo todo metido no seu quarto, recebendo visi-
tas estranhas.
– Sou um misantropo, capitão. As visitas eram raras.
Empregados dos jornais, das agências de notícias ou das
editoras. Traziam material de trabalho.
– Tudo muito suspeito, enfim!

386
Leônidas Câmara

– Enfim?
– Entre essas suas visitas havia a de um jovem imberbe
extremamente perigoso, um estudante de Filosofia cha-
mado Tito Lívio. Tive o prazer de entrevistá-lo, faz algum
tempo, mas ele já foi transferido daqui. Usei a palavra
prazer por se tratar de um moço pobre, porém de boa
educação, muito ilustrado para a idade. Até mesmo joga-
mos umas partidas de xadrez.
– Não sabia do seu credo, capitão, ele apenas me leva-
va textos para traduzir.
– Credo? Material subversivo, explosivo e internacio-
nal. Por acaso, traduz sem ter consciência do que está es-
crito?
– Eu apenas traduzia propagandas de edições, cartas
comerciais, coisas assim.
– Nada disso. Tudo em código, meu rapaz.
– Como saber?
– Está metido numa grande encrenca. Pessoalmente,
lamento. Estou sendo transferido para outra unidade,
não me acham útil nesta guarnição. Dou ao amigo um
conselho: Cante os nomes, diga tudo o que sabe.
Ergueu o alto corpo com lentidão, aprumou o que-
pe na cabeça, empertigou-se, cumprimentou-me com um
aceno de mão, apenas um elegante gesto aéreo, e se foi,
julguei que para sempre da minha vida.
Não consegui conciliar o sono durante a noite. Pensa-
va em Nassira, a egípcia. Estaria presa, torturada, jogada
às feras por causa de um simples caderno de notas?
Pela manhã, ainda cedo, mesmo antes do café, logo ao
primeiro trinado do canário, já me encontrava numa sala
destinada à prática de ginástica. Sujeitos encapuzados
começaram um longo, doloroso e infrutífero interrogató-
rio. Não sei precisar a quantas sessões eu fui submetido.
A imagem de Nassira não saía do meu pensamento. Um

387
Franz Kafka voa de Zepelim

dia, quando eu era arrastado pelo longo corredor, cruzei


com um velho entroncado, de compridos cabelos brancos,
cabeça erguida, ladeado por dois esbirros. Vendo-me na-
quele triste estado, gritou:
– Coragem, companheiro, isso vai passar um dia!
Do fundo da minha fraqueza julguei já ter ouvido an-
tes aquela voz grave, mas não me recordava daquele rosto
vigoroso, dos grandes olhos azuis e da dignidade daquela
figura de ancião. Passado algum tempo, houve uma pe-
quena mudança na rotina da casa. Permitiu o seu coman-
dante, figura que jamais eu vi, que pela manhã, durante
uma hora, quando não houvesse sessão na sala de ginás-
tica, tomássemos, sem formação de grupos, em silêncio
absoluto, um pouco de sol e ar. No primeiro momento,
tonto pela luz, sobretudo pela fome e pela insônia que
me perseguiam, quase desabo no piso cimentado, quando
senti uma mão forte me erguendo pelo braço direito, logo
a voz grave:
– Levante-se homem, fique de pé!
Era uma voz duas vezes ouvida. Ergui-me e perguntei:
– Já nos conhecemos?
– Não que eu me lembre.
– Foi no tintureiro. O senhor não é Pedro, Pedro o car-
pinteiro?
O velho sorriu. Disse:
– Posso esquecer uma voz, estou velho, meio surdo,
mas um nome jamais esqueço. Cássio da Silveira?
– Pois sim! O senhor cantarolava “Noches de Ron-
da…”
Veio um cabra, com um cassetete erguido, afastando-
nos aos berros:
– Calem-se, cachorros!
Nos dias seguintes, não vi mais a figura do velho. Ar-
risquei perguntar ao soldado caboclo que nos custodiava:

388
Leônidas Câmara

– Por favor, o que é feito de Pedro, um velho a quem


chamam o carpinteiro?
O sujeito olhou para mim, logo nada dizendo. Em se-
guida, falou:
– Não converso com detentos. Mas o tal Pedro ou bai-
xou à enfermaria, ou foi transferido ou solto ou morreu...
O mais certo é que tenha morrido, o velho.
Afastou-se de mim, rindo com gosto. No dia seguinte,
não houve banho de sol, suspenso por tempo indetermina-
do. Também não me levaram à sala de ginástica. Fui conduzi-
do à saleta bem iluminada, com cortinas brancas, logo cedo,
e vi sobre a mesa uma bandeja com biscoitos e uma garrafa
térmica. Um ordenança postava-se ao lado. Não falou comi-
go, não me mandou sentar no banco tosco que usei da outra
vez. Um perfume de lavanda inglesa espalhou-se pela sala e
logo vi a figura esguia do elegante capitão Stein assomar sob
o umbral. O seu uniforme, novinho em folha, era impecá-
vel e agora ostentava no peito duas vistosas condecorações.
Sentou-se, cruzando as pernas com cuidado para não des-
manchar o vinco das calças novas. Logo não se dignou a me
olhar. Colocou o quepe sobre a mesa, com esmero, como se
depositasse ali uma taça de cristal. Examinou os biscoitos na
bandeja, as xícaras de porcelana branca, a garrafa de café.
Gritou, então, para o ordenança com uma voz de comando
que eu não ouvira antes, forte, até mesmo irada:
– Soldado Lucas, a bandeja não tem guardanapo, e
guardanapo branco! Não tomo café em garrafas térmicas,
mesmo no quartel. Vá no meu alojamento e traga o bule
de metal. As xícaras eu aprovo. Os biscoitos são de mai-
sena?
– Sim, senhor capitão!
O ordenança partiu e o oficial, afogueado, afinal le-
vantou os olhos para mim. Disse:
– Sente-se, homem!

389
Franz Kafka voa de Zepelim

Sentei-me, devagar, como ele o fez. O capitão olhou


detidamente para mim, balançou a cabeça penalizado:
– O que fizeram com você, rapaz? Métodos arcaicos,
cediços... Andei me informando a seu respeito. Cada vez
mais complicado com a justiça, isto é, com a justiça cas-
trense.
Sorria. Fez uma longa pausa, parecendo meditar, se-
riamente. Os seus belos olhos azuis alsacianos, tão pa-
recidos com os do meu velho protetor, padre Friedrich
Irmen, vagavam pela sala até que se detiveram no meu
rosto. Seria ele, por acaso, filho bastardo do padre Irmen?
Meu Deus! A sua melancolia era visível. Tive vontade de
lhe perguntar a razão da sua tristeza, como se fosse ele um
noivo apaixonado que tem rompida a sua aliança. Calei-
me. Exclamou, exultante, já sem abatimento:
– Eis o café, afinal! Uma estrela dos meus galões por
um bom café e um cigarro! Pode ir, Lucas. Serviu-se e ser-
viu-me. Tomando o café, disse:
– Temos, afinal, o seu caderninho azul, Cássio. Não é
esse o seu nome?
Surpreendi-me. Tanto tempo preso por nada. Pergun-
tei, receoso:
– Onde estava o meu bloco, capitão?
– Vamos fumar. Aceita um cigarro? É uma marca turca.
Não se recorda de Greta Garbo, deslumbrante num fil-
me preto e branco, fumando um longo cigarro azul numa
cena inesquecível de uma fita cujo nome não me lembro?
O filme era preto e branco, eu sei, mas o comprido cigar-
ro era azul com uma ponta dourada, tenho certeza. O que
vale é a sugestão da lembrança! – Sorriu. Acendeu o seu
cigarro e o meu já me entregou aceso, com um gesto qua-
se lânguido, não fora apenas uma impressão provocada
pela minha fraqueza. Então, falou:
– Pois é, o caderno de notas. Foi encontrado, graças a
Deus!

390
Leônidas Câmara

Pensei, de novo: tanto tempo perdido, tanta dor, por


nada. Receoso, perguntei:
– E onde ele estava, capitão?
– Eu não devia lhe dizer, mas não é segredo de Estado.
Logo foi encontrado com uma moça, estrangeira, acho,
não tenho certeza.
Interrompeu bruscamente o assunto e gritou com voz
de comando para Lucas, o ordenança:
– Lucas, deu você alpiste ao meu canário-da-terra, na
aroeira, mudou a água?
– Sim, senhor capitão, já fiz isso.
– Voltemos ao bloco de notas. Não é que a moça, a sua
aluna oriental, levou o seu caderno e desapareceu com
ele? Tudo por causa de uma pneumonia, viajou para um
lugar qualquer do interior com os pais, o que dificultou a
busca por algum tempo. Ei-lo:
– Retirou do bolso do dólmã meu velho caderno, agi-
tando-o como um troféu no ar. Disse:
– Ao analisar os seus manuscritos, logo vi que se trata-
va de um código, pois não sou eu um criptógrafo polígra-
fo, o único na região militar? O melhor! A chave estaria
na lista final, onde se encontram os títulos do seu adorado
Franz Kafka e a grande bibliografia anotada pelo amigo
com tanto carinho.
– Mas é uma bibliografia, sim, capitão.
– Não discordo, mas é também uma chave para o texto.
– Os nomes estão escritos em alemão.
– Eu sei e eu sei alemão, rapaz, como você. Não me
convocaram, de volta para ter o prazer de interrogá-lo?
Queremos as conexões internacionais.
– E a moça, capitão? O seu nome é Nassira, é egípcia.
– Soube que é bela, tem lindos olhos negros, lindas
pernas... Não a vi, não sei mais nada a seu respeito, se sol-
ta, se viva, se morta. Quanto ao senhor, nada mais posso
fazer, desde que não colabora espontaneamente. Lamen-

391
Franz Kafka voa de Zepelim

to lhe dizer, meu caro, mas sua mãe foi despedida da casa
de repouso que o senhor deixou de pagar e morreu num
asilo público, faz um mês. É só. Meus sinceros pêsames.
Não deixei que dissessem a ela que o senhor se encontra
aqui, entre nós...
Ficamos em silêncio. O capitão levantou-se, com ele-
gância cumprimentou-me, juntando os pés, apertando
a minha mão com suavidade, com suas luvas brancas de
pelica, dando-me um maço inteiro do cigarro azul cine-
matográfico, e se foi, a passos lentos, compungido, como
num grande plano de um filme dramático.
Noite e dia torturava-me a suspeita de saber Nassira sub-
metida a terríveis castigos corporais, quem sabe até mesmo
no limite da sua curta vida por causa de um simplório cader-
no de notas. Entristecia-me saber que a minha mãe morreu
com a grande mágoa por seu único filho tê-la abandonado.
Adoeci, não resisti aos interrogatórios, levaram-me para a
enfermaria. No meu delírio volto à infância, revejo a minha
mãe no seu vestido de voile, o capitão Stein numa grande
tela, travestido em Greta Garbo com seu longo cigarro azul
de ponta dourada, os aeroplanos de Bréscia volteando no
céu de estio, e na minha carne a sentença – Sê justo! Não
sei quantas noites e dias tenho atravessado, perco a noção
de tempo e espaço. Pioro muito. Decifro o código, do alto
de um pedestal na sala de ginástica e delato, por fim e ao
acaso, os nomes pelos quais tanto me fizeram sofrer: – Ed-
gar Allan Poe, Joseph Conrad, Arthur Rimbaud, Frédéric
Chopin, Federico García Lorca, Milena Jesenská, Joaquim
Maria Machado de Assis, Friedrich Nietzsche, Jorge Luis
Borges, Juan Rulfo, Ernesto Nazaré, Madame Satã... Omito
o nome de Franz Kafka. Pessoas encapuzadas concordam,
balançam a cabeça, assentindo com satisfação. O capitão
Stein grita com uma surpreendente voz viril aos seus subor-
dinados enfileirados no pátio:

392
Leônidas Câmara

– “Considerai isto:
– Estou inocente do sangue desse justo”. E ao orde-
nança Lucas, o evangelista:
– “Solte o homem que nele não vejo culpa alguma,
não quero manchar as minhas mãos com o sangue desse
inocente. Nem as mãos nem as luvas!”
Olho para o céu tão claro naquela manhã de dezembro,
sentindo a proximidade das festas de Natal. Vejo um ponto
cinzento entre as poucas nuvens, um ponto que se movi-
menta e que se amplia. Não, não é mais dia, é noite, uma
sombra comprida vem se deitar no quintal da minha casa.
Há uma guerra lá fora. Devo ter sete, oito anos. O gigan-
tesco balão, que ora me amedrontava, ora me fascinava, re-
gressa nesta justa estação difícil da minha vida. Agora, sim,
eu o vejo distintamente. Maravilhoso, todo iluminado. Vai
baixando, lentamente, e pousa sem ruído, com suavidade,
como uma grande nuvem de luz. Não sinto mais medo al-
gum. Só encantamento. Um jovem elegante e esbelto, ma-
gro e pálido, vestido com uma casaca negra, alvo colarinho
alto, chapéu negro, vem ao meu encontro. Sorri para mim,
vejo que é um tímido. Não diz nada, apenas segura com
leveza o meu braço direito e me conduz para o interior da
nave. Foi com grande alegria que pude ver no seu bojo,
ricamente iluminado, os objetos do meu antigo quarto da
pensão Mourisca: – meus livros bem arrumados na mesi-
nha de cedro, o abajur japonês com sua cúpula celeste e
a base de translúcida pérola, Made in Japan – 1880, minha
cafeteira sueca, meus cigarros, meus Noturnos, Goethe em
bronze, minha estampa de Picasso, a gravura da Virgem,
minha segurança anterior e meu caderninho azul. Olhei
em volta e vi que estavam reunidos, à minha espera, o meu
pai, ainda moço, com o seu terno branco de brim diagonal
e o seu inseparável chapéu Panamá; a minha mãe, no auge
da juventude e da beleza, com seu inesquecível costume

393
Franz Kafka voa de Zepelim

azul; Carla, sempre sorrindo, rica, perfumada e feliz com


o seu vestido celeste de voile idêntico ao de minha mãe; Pe-
dro, o carpinteiro, forte e digno com seus cabelos brancos
e sua voz grave de “Noches de Ronda”; Nassira, a egípcia,
com suas longas pernas, como sempre esplêndida como
uma falena da noite. O Zepelim começa a subir. Foi com
surpresa que vi no pátio, olhando para cima, solitário e com
ar melancólico, uma figura que me pareceu ser a imagem
esmaecida da artista Greta Garbo, com seu longo cigarro
azul. Gritei: “Venha, venha conosco, ainda é tempo!”. Mas
o balão já alcançava as primeiras nuvens e o capitão Stein
desapareceu para sempre da minha vida. Tudo ficou dis-
tante e sem significação, a terra deixava de me oprimir, e
eu era, simultaneamente, o mesmo e um novo ser, comple-
tamente livre, gerado no espaço infinito do céu.

394
Dela, Adina
Liana Ribemboim Feldman

Houve um grito na loja. Vinha do estoque; eram vozes


femininas, eram sons de alegria. Um grito tão entusias-
mado! Várias moças juntas, confraternizando, mas nada
conseguiam dizer além do barulho no sorriso. Foi engra-
çado, tudo tão rápido, sem tempo de questionar os moti-
vos, logo uma delas desceu e disse que deu positivo.
Adina se emocionou. Seus olhos brilharam e seus de-
dos cobriram as maçãs do rosto. Ela nem sabia para onde
olhar, só ficou feliz com a graça alheia. Uma colega estava
grávida e vibrando com a confirmação; as outras se abra-
çaram e esqueceram a polidez de um estabelecimento co-
mercial, pudera, parecia que um rei estava para nascer.
Sim, em tempos de dificuldades, quando uma mãe recebe
um filho assim, com tanto ouro em vida, é coisa de rei.
É uma pena que tamanha alegria cause surpresa e
estranheza. É triste notar que os gritos são atípicos e as
lágrimas de amizade são somente ideias. Ainda mais na
cabeça de Adina, moça humilde, sem muito trato nos sen-
timentos; saiu antes de cumprimentar a colega, quis an-
dar para ver se os pensamentos da cabeça se espalhavam
pelo corpo, até chegarem ao pé que lhe sustentava. E na
rua pôde enxergar melhor com os olhos cheios...
Saiu sem rumo nem hora, não pensava em voltar à
loja, tampouco à sua casa. Morava com seus pais e seus
irmãos num apartamento pequeno, porém organizado, só
que lá não havia espaço para sensibilidade sem lamentos
ou frescor de uma tarde sem vento. Isso ela só poderia
Dela, Adina

fazer sozinha, por aí, no lugar de ser qualquer coisa que


era parte dela, mas não muito.
Viu as outras vitrines, os cartazes, a poeira, o excesso.
Precisou olhar em partes, para não atacar ainda mais a
cabeça embaraçada, e foi selecionando. Parecia uma espe-
cialista em escolher visões, via apenas o que lhe interes-
sava com o detalhismo de um profissional. Soube receber
os estímulos de modo a aproveitá-los em sua síntese, que
deveria ser concluída até o anoitecer, pois retornaria ao
lar já segura de si.
Não ocorreu. Não dava para juntar tudo em um bal-
de, mexer, e tirar as frases limpas e enxutas. Impossível.
Adina voltou na hora do jantar com um meio sorriso tão
seco que sua mãe nem teve coragem de perguntar qual
era o motivo. Comer em silêncio não parecia comum, mas
ocorreu sem objeções.
Depois de dormir, acordou na beleza do sábado. Pensou
em dar uma volta enquanto o sol se mostrava discreto, e
foi. Para sua surpresa, era o início dos festejos de carnaval.
Em que mundo estava vivendo, se não sabia disso? Ima-
ginava que a data estava próxima, pois as ruas do centro
foram decoradas e o comércio ficou mais agitado, só não
articulou que estava acordada no dia do esperado dia.
Adina nunca havia brincado o carnaval. Sim, se diz
brincado, porque ela já tinha passado por alguns carna-
vais, mas sem tanta alegria. E nesse dito sábado resolveu
pensar a respeito, mesmo ainda chorosa de horas atrás.
Viu um mascarado passando com uma criança ao lado,
fantasiada de palhaço. Um mimo, uma graça de ver. Aos
poucos o dia foi se colorindo de tantas fantasias e confetes
pelas calçadas, gente comemorando a folga do trabalho
e o descanso dos dias que estavam por vir. Era uma festa
para todos, até as senhoras idosas tinham enfeites nos ca-
belos presos, até o brilho da purpurina estava mais nítido

396
Liana Ribemboim Feldman

que um cristal no sol. Eram vários pontos de cristais, cada


um com seus adereços fazendo risos pela rua.
Ela ouviu as músicas das pequenas bandas que passa-
vam, e conseguiu cantar algumas com um entusiasmo dis-
creto. Sentiu também uma dúvida, pois não entendia como
sabia as melodias e as letras se não brincava carnaval. Por
um momento esqueceu de pensar e dançou sozinha entre
os outros tantos sozinhos da rua, sem se preocupar com a
origem de todas as coisas desse mundo. No fundo, Adina
sabia que tudo de sua vizinhança era parte dela também, e
morando ali desde pequena, não tinha como ignorar tan-
tas músicas divertidas. Até mesmo em casa, sabia do resto
após a janela, e não planejava mais esconder.
Quando ficou cansada e com suor escorrendo no rosto
quente, resolveu entrar. Seus pais não entenderam como
ela pôde voltar naquele estado, quase uma foliã nata em
fim de festa, porém não fizeram comentários. Ali cada
qual tinha sua vida, e um não se metia na do outro, a me-
nos que alguém fosse pelo mau caminho. Não era o caso,
os valores da família eram firmes, e os caminhos alterna-
tivos aos modelos eram apenas divergentes no modo de
rea­lização, não no conteúdo. Um jeito de pensar diferente
não significa uma moral deturpada. Isso era confortável
para Adina, ela sabia de sua pequena liberdade para ser
outra pessoa que não uma sósia de seus pais.
Já no domingo, com a boca cheia de vontade de can-
tar, foi procurar uma das bandas. No caminho sentiu não
ter comprado ou preparado adereços para se enfeitar. Viu
todo tipo de gente, todo modo de fantasias, e quis a sua,
só não dava tempo. Cantaria sem nada mesmo, inclusive
sem a vergonha de sempre, que era o principal e mais
inútil ornamento.
Passou pipoqueiro, algodão-doce, vendedor de picolé.
E já perto da banda, passou também um rapaz com um
painel cheio de máscaras e enfeites diversos à venda. Foi

397
Dela, Adina

a alegria de Adina. Ela comprou a mais bonita, de papel


machê com pintura vermelha e azul, e penas de pavão
nas laterais. Um charme, parecia uma dama da sociedade
dançando com discrição entre os anônimos.
Viu vários blocos bailando na rua da sua casa. Adina
ficou encantada com todos eles, dançou e cantou as me-
lodias até cansar. Tudo isso sozinha, como tinha que ser.
Parece que aquele tempo era preciso para ela, estar sozi-
nha, ela e ela, foi bom. Estava entendendo sobre lazer e
sorrisos, coisa pouco comum até então.
Chegou cansada, mas ainda assim ela bordou uma blu-
sa para usar no dia seguinte. Escolheu as mesmas cores da
máscara, do bloco mais animado, das fantasias mais boni-
tas. Adina se sentia linda, cheia de lantejoulas na roupa e
brilho na maquiagem. Ficou enfeitada como as moças da
sua idade, cheirosa de lavanda e com cabelos na trança,
recheados com presilhas de contas coloridas.
Ela se divertiu como nunca, e percebeu que não preci-
sou de muito para isso, só dela mesma. Conseguiu alguns
grupinhos para se juntar e fazer amizade, mas o objetivo
de verdade era estar só. É difícil de entender isso, mas
Adina precisava saber se ela se aguentava contente, ou
se sua pouca felicidade vinha dos outros. Este foi um dos
questionamentos de sua caminhada após a notícia do rei
prestes a nascer: como poderia, um dia, ter filhos? Tinha
que entender que alegria é essa de uma pessoa que gera
outra, mas só conseguiria imaginar um pedaço disso se
ela se gerasse sozinha antes. Adina se viu inerte, depois
se viu suficiente. Sim, a colega merece aplausos, além do
barulho. E Adina por enquanto merece ela mesma, até se
cansar de ser tão pouco que se é nos dias correntes. Até
querer fazer um pedaço dela com o de outro, que se trans-
forma em mais além da parte de dois, o três, uma poesia
de viver ainda maior que as canções dos carnavais, e mais
e mais de tudo o que se sabe.

398
Sobreviventes
Lourdes Nicácio

Dezembro. O calor era intenso, mesmo àquela hora da


tarde, em que o sol estava quase desaparecendo. Algumas
crianças de rua tomavam banho no Rio Capibaribe, junto
da Ponte Princesa Isabel.
De repente, dois meninos afastaram-se do grupo:
– Tá na hora, bicho – disse um deles, coçando os olhos
avermelhados.
– Tô esquecido, não, veio. Vamos lá! – respondeu outro.
Nadaram ambos em direção à ponte. Ao atingi-la,
prepararam-se para o ataque. Estavam mascarados com
a lama negra do rio. Homens e mulheres assustaram-se.
Caminhavam apressados. Protegiam as bolsas e as sacolas
com as compras do final de ano. Olhos fixos nos meninos
que, em seguida, arrancaram uma carteira do bolso do
próprio guarda daquela área.
O pobre homem de botas, um tanto desgastadas pelo
trabalho diário, considerava-se a última pessoa a ser per-
seguida daquela forma. Na verdade, quem poderia ima-
ginar que pivetes como aqueles iriam atacá-lo? O povo
começou a agredir o guarda:
– Pega ladrão, molenga! Corre, incompetente, corre!
Entretanto ele não se movia. Estava surpreso. Humilha-
do. Observava os pequenos correndo, com sua carteira, ga-
nhando distância. Desapareceram. Deixaram apenas mar-
cas de pés enodoados pelas águas poluídas do rio.
Chegou, por completo, a noite. Havia lua cheia no céu
e lâmpadas acesas nos postes circunvizinhos. Mas não con-
Sobreviventes

seguiram iluminar aquele negro manto estendido: o rio, o


mangue e os meninos envoltos em névoas de fuligens.
Todos se foram. O guarda também, desertando a pon-
te. Um professor assistia à cena no calçadão da Rua da
Aurora, que ficava ali perto. Dos outros garotos que aca-
bavam de deixar a natação e ganhavam as ruas do centro
da cidade, um se aproximou:
– Me dá isso! – arrancou-lhe das mãos uma mochila.
Quando viu que se tratava apenas de livros, jogou-a
com tanta força nas águas, que se formou um grande cír-
culo de maretas ou ondas turvas.
– Paulinho, meu filho! – exclamou ao afastar a lama
daquele rosto adolescente, com os dedos, tentando defen­
der-se.
– Meu Deus, foi mal! – falou, reconhecendo seu profes­
sor de Matemática que, de olhos arregalados e queixo ca-
ído, imaginava-se diante do irreal.
Todavia o seu aluno estava ali. Fazia muitos dias que
não assistia às aulas. Deixou-se sentar na calçada. Na ver-
dade, deixou-se jogar como um saco de coisas quaisquer.
Não observava nem as alças da sua mochila jeans sinali-
zando despedida rumo à parte mais profunda do Capi-
baribe.
Cabisbaixo, o menino deu meia-volta. “Como pôde
acontecer isso? O professor não merecia... Vive ralando
tanto pra sobreviver... Foi mal... Agora que não volto mais
pra escola, pra ver a cara dele...” – pensava, afastando-se,
rapidamente, sem olhar para trás.
O professor levantou-se – o seu ônibus chegara na pa-
rada, ao lado, com a freada estridente de sempre. Subiu.
Tirou do bolso da camisa um vale-transporte. Entregou-o
ao cobrador, sem aquele costumeiro “oi” ao passar pela
borboleta. Sentou-se. Era um homem cansado. Desceu no
bairro de Águas Compridas, onde residia.

400
Lourdes Nicácio

Dormiu muito tarde naquela noite. Conversou com a


mulher, checou a vida escolar dos filhos. Orou em silên-
cio. Refletiu.
No outro dia, na sala de aula, o professor pediu que guar-
dassem os cadernos de Matemática durante alguns minutos.
Falou sobre direitos e deveres de todo cidadão; sobre a im-
portância do Rio Capibaribe para a cidade do Recife. Estava
preocupado. Falou com tanta emoção, que a turma o aplau-
diu de pé. Antes de sair, apertou a mão de Paulinho que o
ouvia atentamente, sentado na primeira fila.

401
O perdão
Lourdes Sarmento

Na Rua Florida, Nádia olhava uma figura distinta: um


homem-estátua com asas grandes e cinza assim como a sua
máscara, dentro da qual se moviam dois olhos negros.
Depois de algum tempo, a estátua transformava-se, e
os braços pintados de cinza, segurando uma vara de luz,
apontavam uma pessoa do grupo, da sua plateia organi-
zada.
Recebia moedas deixadas no seu bem cuidado chapéu
de cetim preto.
Nádia observava a plasticidade daquela figura imensa,
sobre um largo quadrado, colocado na calçada.
As pessoas iam chegando. Ele, em silêncio, olhava to-
dos como anjo ou demônio, às cinco da tarde, no vaivém
de transeuntes.
A vara de luz indicou um rosto de pele morena, cabe-
los negros, corpo franzino. Era ele, o marroquino que a
marcou com ferro em brasa à luz do dia.
Nádia baixou seu olhar para a mão esquerda com uma
enorme cicatriz. Segurou-a como se desejasse poupá-la
daquele demônio. Trêmula, sentiu medo dos persona-
gens do passado.
Ele não poderia reconhecê-la. Tinha vinte e oito anos
quando o viu pela última vez. Hoje, era uma senhora de
cinquenta e seis anos, embora com jovialidade no rosto,
desafiando o tempo e as tempestades vividas.
Não era uma mulher amarga – pensou.
Lourdes Sarmento

Lembrou-se do novembro, quando a cidade vestia-se


de trajes do Natal. As cores vibrantes dos enfeites, as luzes
iluminando ruas e praças anunciavam novas esperanças.
Para ela, entretanto, tudo fora indiferente, o momento
era de pânico e solidão.
Constatou que o marroquino havia desaparecido do
duplo círculo de curiosos, das pessoas que ocupavam as
horas, como ela.
“O que faria aquele homem em Buenos Aires, longe
do Brasil?” – indagou-se.
Em quase total silêncio, viveu toda sua vida, transfor-
mando dores em sucessos. Tinha a cicatriz na mão esquer-
da e na alma, porém era vitoriosa.
Escritora premiada em Nova York com um romance
que a distinguiu em vários concursos literários, não seria
neste outono argentino que temeria um senhor de setenta
e oito anos.
Não pensou sequer na possibilidade de arrependi-
mento daquele marroquino que, sem a menor piedade,
marcou-a como alerta.
Recebeu ameaças e na mão o revólver, instrumento do
poder. O poder de calar sua boca para sempre.
“Ou o silêncio ou a vida”. Nádia escolheu a vida.
Nasceu em Goiás. Filha única de pais holandeses, tinha
a graça da mulher brasileira e a suavidade de uma pele
branca e macia. Era uma mulher alta de tamanho e ideias.
Havia vencido profissionalmente e como mãe de família.
Amava os dois filhos pelo coração, uma escolha perfei-
ta. Filhos de pais desconhecidos, ambos ficaram parecidos
com ela, no físico e nos sentimentos.
A personalidade lógica de Daniel com 22 anos e os
sonhos de Henriqueta aos 18 anos.
Henriqueta é poetisa, estudante de Filosofia; Daniel,
economista.

403
O perdão

Possuía tudo para ser feliz, pensou alto, caminhando


pela Rua Esmeralda. Nesse março de 2006, havia concluí­
do um trabalho de pesquisas realizado na Universidade
de Buenos Aires.
Os filhos estudavam no Rio de Janeiro, local onde ha-
bitavam desde a morte repentina do marido. Numa tarde
de sábado, dormindo ao seu lado, partiu para o Infinito.
Daniel pai era biólogo, um estudioso e um chefe de fa-
mília extremoso. Deixou-a dentro do sono, machucando
os sonhos, exatamente num mês de novembro.
Era um casamento perfeito, se conseguimos achar que a
convivência conjugal permite uma chama acesa anos segui-
dos. Nádia lembrava o companheirismo de Daniel, o apoio e
a coragem do marido em todos os momentos difíceis.
Entrou no hotel, abriu seu quarto. As luzes foram ace-
sas e o leito era sempre vazio, nesses quatro anos.
Preparou-se rapidamente para ir ao espetáculo de tango,
na Casa Carlos Gardel. De negro, com um casaco vermelho,
desceu para esperar o guia de um grupo de turistas.
O tango arrancou-a das atividades culturais e nas mãos
da música entregou-se aos seus desejos e bailou. Bailou no
pensamento.
Da Casa de Tango à cama do seu quarto do hotel, per-
maneceu quieta, voltou ao passado, um interminável re-
gresso.
Na sala do advogado marroquino, conheceu o terror.
O estupro e a dor da ausência de afeto eram algo anor-
mal. A pele daquele homem suado, competente e maldito
que a esbofeteou várias vezes para saciar sua fúria sexual,
rasgava-lhe os sonhos impiedosamente.
Ele preparou tudo nos menores detalhes: absorventes
higiênicos nas gavetas e toalhas pequeninas. Ela sangrava
muito e saiu do escritório sem destino.
A boca seca, a dor na vagina, o sangue que deveria já ter
ensopado os dois absorventes, pararam seu pensamento.

404
Lourdes Sarmento

Sentou-se num banco do jardim e sentiu-se perdida.


Perdida e sozinha.
Não tinha com quem conversar, os pais eram conser-
vadores e não admitiam a liberdade sexual da década de
1970.
Humilhada e em silêncio, segurou fortemente a bolsa
com os seus documentos de identidade. Abraçou-a como
se fora a única coisa que teria sobrevivido.
Pensou: “não perdi a virgindade. Não perdi com aque-
le maldito!”. A sociedade humana havia colocado a virgin-
dade num lugar errado. O importante era todo o ritual
amoroso que havia ocorrido com o noivo gaúcho, sempre
parando na hora exata e deliciosamente vivido durante
muito tempo. O noivo era o primeiro homem da sua vida,
respirou.
Foi a um médico da família, para os curativos que se
faziam necessários. Estava muito machucada e sangrava.
O profissional foi insistente. Indagou-a o nome e a pro-
fissão do homem que a molestou. Nádia confessou tudo,
tendo certeza do sigilo profissional. O que não aconteceu.
Constatou após o telefonema que recebera do agressor,
obrigando-a a ir ao seu escritório. O cano do revólver era
uma ameaça quase todos os dias, até que Daniel a conhe-
ceu, soube de tudo o que ocorrera e começou a cuidar
dela até a morte.
Eram quatro anos sem Daniel, não saberia o que fazer
– pensou.
Quem sabe se não era outra pessoa na Rua Florida,
poderia ter sido um engano, mas nesses anos acompanha-
va o sucesso profissional do marroquino, através de notas
sociais e fotos nos jornais.
Apavorada, orou. Como se o anjo do bem descesse ao
seu leito, o Senhor foi apaziguando suas mágoas, seu ódio.
Estava liberta do ódio e vislumbrou o perdão pleno.
Retirou de si algo pesado, cinza como o homem-estátua.

405
O perdão

Adormeceu com o perdão nas mãos. Adormeceu sua-


vemente.
Na manhã seguinte, desceu para o pequeno almoço e
pegou o jornal El Clarín.
Estampada na primeira página estava a foto de um
homem morto.
Era um marroquino de 78 anos, com residência no Bra-
sil, assassinado na calçada do seu hotel, poderia ter sido
vingança pois os seus pertences não foram roubados.
Ali estava seu nome: Ramón Miguel, advogado, em
passagem de negócios na capital da Argentina.
A chuva caiu como cristais, na Rua Esmeralda.

406
Clóvis
Luce Pereira

Eu pensava que gato servia apenas para a gente se sentir


dona de alguma coisa, para reclamar, a cada espirro, de pe-
los espalhados pela casa inteira ou para destoar das amigas
que preferem cachorros. Até o dia em que Dolores apareceu
em minha vida, como se tivesse nascido e crescido ali, dian-
te dos meus olhos. Eu que nunca acreditei nessa história de
cara-metade estava na frente de uma, e disposta a esque-
cer de vez o significado da palavra separação. Não sei bem
como tudo aconteceu – porque paixão faz a gente perder as
medidas – mas entramos naquele mundo de algodão-doce
na boca e algodão branco sob os pés, que leva os casais a
buscar formas e formas de pôr cimento na relação. Cimen-
to que eu digo são coisas capazes de deixar as duas pessoas
mais presas uma à outra. Então Dolores sugeriu um gato.
Um gato? Aquilo não estava nos meus planos. Imaginei
logo o bicho se esgueirando pela casa inteira, acariciando
quantas pernas houvesse, com a mesma cara de Monalisa e
jeito de pidão. Abomino olhares que eu não sei decifrar e,
em se tratando de gato, tanto pior porque ele jamais se dig-
naria a explicá-los. Ponderei que mais tarde o bicho pode-
ria limitar nossa liberdade, tão preciosa naquele momento.
Ela então me fez jurar antecipando o nome que teria nosso
gato: Clóvis. Persa ou siamês, seria Clóvis, estava acertado.
Dormi pouco naquela noite. Já imaginando Clóvis entre a
gente, enchendo fronhas e lençóis com pelos, fazendo xixi
na minha poltrona predileta ou, acometido de incômodos
intestinais, nos levando a disparar para o veterinário às três
Clóvis

da manhã. Mesmo antes de comprar Clóvis, já era um ter-


ror admitir que gatos têm funções mais nobres, como man-
ter a chama das paixões acesa. E chegar à conclusão de que
um deles, mesmo antes de existir, já funcionava na cabeça
de Dolores como promessa de felicidade futura, me inquie-
tava. Seria ciúme? Ora, mas se a expectativa é de que o gato
fosse nos unir mais, como é que aquele já se anunciava como
uma ameaça? Tive pesadelos. Num deles, Clóvis estraçalha-
va, com olhar cínico, o livro que reunia as telas de Gauguin.
Enquanto eu me desesperava, paralisada diante da cena, ele
fazia cocô na cabeça de uma mulher do Taiti. Lembro que
enquanto o chamava de filho da puta seguidas vezes Dolo-
res descascava um dicionário inteiro de impropérios con-
tra mim, afirmando que em minha estrema brutalidade eu
não percebia o óbvio: gatos nunca foram bons apreciadores
de obras de arte. Acordei suando, como se tivesse passado
a noite no purgatório, e juro que cheguei a ouvir miados.
Não eram dele, eram dela, que, muito manhosa, pedia café
na cama. Eu sempre fazia aquilo com uma certa dedicação,
porque cafés na cama pesam na hora em que bate uma lou-
cura qualquer e a relação corre perigo. Duvido que alguém,
ao lembrar da mais perfeita tradução de aconchego – a me-
sinha posta sobre os lençóis – não pense duas vezes antes
de decidir arrumar as tralhas e bater as asas. Ainda mais os
nossos, aos quais se seguiam sempre deliciosas conversas e
um amor sem hora para acabar. Mas naquele dia fui até a
cozinha ainda sob impacto da noite de horrores. O que faria
com Clóvis se ele inventasse de lamber o croissant a caminho
de sua boca? Se, descuidado ou perverso, derramasse o café
sobre as nossas pernas? E se, carente, competisse com os
nossos gemidos, miando mais alto? Aquele foi o primeiro
café na cama monótono das nossas vidas. Só Dolores não
viu a imagem de Clóvis estampada no meu humor avariado
– pensava que era TPM. Muda, sem poder revelar a minha

408
Luce Pereira

inquietação para não criar desastres descabidos, eu só pe-


dia que o tempo passasse e ele passou, indiferente ao meu
pedido. Da primeira vez que briguei com Dolores havia um
motivo concreto, que eu não lembro exatamente; na segun-
da, o motivo era aparente e esse eu lembro menos ainda;
na oitava – ou décima? Não sei – acho que inventamos uma
razão qualquer para a briga fazer algum sentido. Como o
que inventamos não foi suficiente, ela ressuscitou Clóvis.
Sim, a culpa toda era minha, que, insensível, jamais cumpri
a promessa feita há dois anos. Naquela hora, fiquei pen-
sando como teria sido nossa vida se Clóvis morasse dentro
dela desde aquela época. Talvez gostássemos de levá-lo para
passear no calçadão e assim bebêssemos a água de coco que
adiamos tantas vezes por pura preguiça de nos agradar; tal-
vez ele ficasse quietinho, me vendo folhear junto com ela
o livro que tem as telas de Gauguin; ou talvez, por ter uma
alma feminina, passasse as sete vidas escondendo os sinais
do “cio”, só para não parecer inconveniente. Sim, talvez eu
não quisesse mais ficar perdendo Dolores por adiar Clóvis.
Será que ele, em algum lugar da cidade, me perdoaria por
ter subestimado tanto sua capacidade de unir? Não, agora a
missão já era outra, muito mais séria: resgatar. Quem diria
que gatos fossem responsáveis por atribuições tão nobres!
Constatando isso, soa até como ignorância tratá-los com
ração ou restos de boa comida, mereciam no mínimo filé
mignon ao ponto, feito por chef francês. Fomos ao pet. Àque-
la altura, não poderia mais reconhecer Clóvis facilmente.
Os três já éramos outros. Ele uma época fora vilão e tinha
virado salvador da pátria; Dolores já não recebia flores e
eu havia deixado de achar graça no livro das telas, embora
ainda sentisse uma vontade enorme de voltar aos cafés na
cama. Se conseguisse isso, depois pouco importaria aquela
situação incômoda que bate sempre que duas mulheres en-
tram numa loja de animais – todo mundo encara como se

409
Clóvis

dissesse “olha lá o casal querendo salvar o casamento!”. Dá


vontade de berrar que sapatão é o cacete. Dolores passou
os olhos devagar sobre as gaiolas e descobriu Clóvis, que
não era nem persa nem siamês, mas parecia os dois juntos.
Ainda tive dúvidas se não seria um filhote de lince, com
aquele tamanho descomunal, mas o rapaz da loja informou
que se tratava apenas de um Maine Coon. Pelo preço e pelo
porte, avaliei que a “operação resgate” tinha mais chance
de dar certo. Levamos Clóvis e todos os apetrechos compra-
dos para deixá-lo confortável em sua nova casa. A princípio
nos tratamos com uma certa cerimônia, porque a elegância
dele desconcertava. Supus logo que, fino daquele jeito, se-
ria uma boa companhia para ouvir as minhas óperas predi-
letas. Desconfiado, mal chegou e foi se aninhando perto de
umas revistas sobre filósofos do século. Um gato culto, por-
tanto. Só faltou pedir champanhe. Mas ao longo do tem-
po fui notando que os investimentos em Clóvis, com aque-
la intenção, não surtiram o efeito imaginado. É que ainda
não ensinaram aos gatos a reconstituir coisas idas. Eles não
devolvem cheiro de café, não podem reescrever cartões de
amor, não se importam se falta vontade de mandar flores,
não reclamam da ausência de conversas ao pé de ouvido.
Querem apenas o que lhes cabe como gatos. Tentamos, du-
rante um longo tempo, não entender que, quando Clóvis
chegou, já havíamos partido. E enquanto essa compreen-
são podia ser adiada, transformávamos o gato no último
fio a nos prender. Aí enchíamos o pobre de um carinho tão
exagerado que ele às vezes corria para baixo da estante de
imbuia, onde ficava horas a fio.
No instante em que Dolores afivelou a última mala, Cló-
vis se traiu e me lançou um olhar que não era de gato, mas
de cúmplice. E quando a porta bateu, simplesmente miou,
sem culpa, me pedindo seu prato predileto.

410
O chapéu de Gary Cooper
Lúcia Cardoso

– Scarlett O’Hara já reconquistou o Rhett Butler?


A pergunta feita pela velhinha miúda, escondida atrás
de óculos redondos e de um saco de pipocas, surpreendeu
o funcionário do cinema.
– O quê? Não conheço esses estrangeiros. Por favor,
acompanhe-me. A última sessão já terminou.
– Mulherzinha linda e danada, essa Scarlett: luta por
Tara, sua terra, e por tudo o que quer, mesmo em meio à
sangrenta guerra entre o Sul e o Norte. Grande Margareth­
Mitchel, escreveu só um livro que vale por cem! Grande
Clark Gable em um filme que o vento jamais levará!
– Senhora, o filme que acabou de assistir chama-se
“Central do Brasil”. É a história do encontro de um me-
nino pobre com uma professora que escrevia cartas por
encomenda.
– Nunca assisti a um filme com título que lembrasse
trens!
– Essa, não! Vejo-a sempre, nessa primeira fila. Hoje,
durante horas, ficou aqui sentada. Como pode dizer que
não assistiu ao filme?
Ela justificou-se:
– Meu rapaz, estou aqui somente esperando o chapéu
do Gary Cooper. Romeu disse que nos reencontraríamos
quando ele, o famoso caubói, me desse seu chapéu.
Aquele funcionário aprendera a ser paciente. Tinha
em casa uma complicada avó de 88 anos.
O chapéu de Gary Cooper

– Dona, meu expediente acabou. O cinema está fecha-


do. É tarde, preciso voltar para casa. Acompanhe-me, por
favor!
Como se nada tivesse ouvido, ela continuou a prosa:
– Você nem perguntou quem é Romeu... pois eu digo
mesmo assim: é o meu amante! Tudo começou num mês
de agosto, dia 20, 1953, Teatro de Santa Isabel, Rodolfo
Mayer estreia da peça As mãos de Eurídice. Ah, as mãos de
Romeu! Depois ele partiu. Para encontrá-lo, disse-me, te-
ria que lhe entregar o chapéu de Gary Cooper.
O homem perguntou, desinteressado:
– E para onde foi esse Romeu?
– E eu sei? Se soubesse, já teria ido ao seu encontro,
com ou sem chapéu. Pensa que é fácil para uma mulher
bonita como eu viver assim sozinha?
O homem não pôde conter o riso.
Ela agastou-se. Fez-se ereta na poltrona. Elevou a voz:
– Está rindo? Pois saiba que sou muito assediada. O
Cornel Wilde, quando fazia o filme À noite sonhamos, que
é a vida de Chopin, deixou a Merle Oberon sozinha, na
encantadora Palma de Majorca, e durante toda uma noite
tocou só pra mim! Também o Gregory Peck, o jornalista
plebeu, abandonou a princesa Audrey Hepburn para pas-
sear comigo, em Roma (ou foi Paris?). Não acredita?
– Acredito, acredito. Acompanhe-me até a saída, por
favor!
– Espere um pouco, ainda tem mais: O Burt Lancaster,
no filme A um passo da eternidade, o ganhador do Oscar em
1953 (ou foi 1954?), depois daquele beijo escandaloso com
a Débora Kerr, naquela praia deserta, veio refugiar-se em
meus braços, e contou-me tudo nos mínimos detalhes!
Com diplomacia, o homem comentou:
– A senhora tem mais vivência do que eu, mas agora
me dê a sua mão e vamos sair daqui bem devagar. Tem
alguém lhe esperando?

412
Lúcia Cardoso

– Claro! O Mel Ferrer! Por mim, esqueceu no palco a


pequena Leslie Caron. Certamente dançaremos até mi-
nha casa, cantando: Hi-Lili, Hi-Lili, Hi-lo...
O funcionário ajudou-a a levantar-se, ofereceu-lhe o
braço e se encaminharam para a saída.
Aliviado por ver-se, enfim, livre da vovozinha, galante,
beijou-lhe a mão. Comovida, ela acariciou a mão beijada.
– Você parece o Louis Jourdan beijando a mão da Grace
Kelly, no filme O cisne. Ele havia sido contratado para ser
professor da princesa, mas acabaram se apaixonando e…
– Boa-noite, senhora!
– Boa-noite, Louis…
Desapareceram nas malhas dos seus caminhos.
Na semana seguinte, era outro o filme em cartaz na-
quele cinema. O público, muito bom. Uma grande e desi-
nibida família – pais, crianças, moças, rapazes – sentou-se
na segunda fila. Imitando os seus ídolos, os seus moços
usavam os conhecidos chapéus das duplas sertanejas, os
quais, no emocionante final do filme, certamente, acaba-
riam sendo jogados para o alto.
O funcionário do cinema avistou a namorada do Ro-
meu. Falou-lhe gentil:
– Ainda há lugar na primeira fila. Então, veio assistir a
Os dois filhos de Francisco?
Reconhecendo-o, ela respondeu, firme:
– Não! Não estou interessada nos filhos de quem nem
conheço. Vim me encontrar com o Cary Grant. A Deborah
Kerr, muito parecida comigo, vai sofrer um acidente e não
chegará a tempo no Empire State Building (ou será Empire
Building State?), local que haviam combinado desde aquela
viagem de navio, há seis meses. Eu farei a cena em Tarde de-
mais para esquecer, com aquela música linda e tudo o mais.
O homem nada entendeu. Insistiu:
– Mas, depois, vai prestigiar o filme brasileiro, não vai?

413
O chapéu de Gary Cooper

– Não! Depois, vou esperar que termine o duelo a tiros


em Matar ou morrer, que o Gary Cooper saia da tela, passe
por mim e me dê o seu chapéu. Assim, afinal, poderei
junto com o meu amor entregá-lo a Romeu.
Terminada a última sessão, o funcionário foi fazer a
vistoria no auditório, recolhendo objetos esquecidos. Viu
a velhinha na primeira fila, quieta. Aproximou-se. Não
perguntara o seu nome, mas bem podia adivinhá-lo.
– Dona Julieta, o cinema já fechou. Por hoje, as sessões
terminaram. Vou levá-la para a saída.
Ela não respondeu. Cabeça inclinada, parecia profun­
da­­mente adormecida. Para despertá-la sem susto, ele
curvou-se e apenas tocou-lhe o ombro. Recuou, imedia-
tamente! Sobre o colo, pipocas espalhadas e, apertado ao
peito, seguro com ambas as mãos, um chapéu igualzinho
ao que o tal caubói famoso deveria usar...

414
A chuva de sábado à noite
Lúcia Moura

Era um sábado, quase dez da noite, quando, passando


de carro pela Navegantes, avistei Alex.
Poças de água denunciavam que havia chovido o dia
inteiro. O vento batendo forte, não deixava dúvidas. O
tempo não ia melhorar. Apenas uma trégua. Dei um to-
que na buzina: ele olhou.
– Ufa! Levei um susto…
– Desculpe, não foi por querer. Vou para o centro, quer
uma carona?
– Aceito, Seu Rui, moro perto da Rua da Conceição.
Destravei a porta e ele entrou. No meio do caminho,
aproveitando que estava distraído, dei uma olhada em
suas roupas, de combinações sempre interessantes. Desta
vez, não era diferente: calça colante preta, camiseta regata
vermelha, superjusta, com uma papoula bordada em pae-
tês. A sapatilha, também vermelha, gritava aos olhos. Bai-
xando a vista e olhando de lado notei uma pulseira presa
ao tornozelo, e dela pendia um coração de porcelana.
– Gostou da pulseirinha, seu Rui?
– Quem bola suas roupas?
– Eu mesma. Pego um monte de ideia folheando Caras
e Contigo. Essa bolsinha mesmo, eu copiei de uma soçaite.
E novela? Menino, é tanta novidade. Tenho uma echarpe
igual à de dona Haydê, da novela América. Aliás, essa no-
vela tem tudo de bom. Dona Irene, meu Deus do céu, é o
dez. Murilo Rosas também. Quando ele aparece, perco o
fôlego. Do outro Murilo eu não sou fã. Não suporto peão
A chuva de sábado à noite

de calça frouxa. Inda mais jeans. Um horror. Reparou?


Pois daqui pra frente preste mais atenção.
– Alex, cá pra nós, acho tudo muito espalhafatoso.
– O senhor já foi pro baile dos artistas? Ah! Precisa ver
minhas criações. Este ano me fantasiei de Gata Borralhei-
ra. Arrasei. O senhor pode até tá pensando: Não é meio
sem graça? Uma roupinha pobre, amarfanhada... Mas,
Santa! E a imaginação, não conta? Fiz uma gatinha bor-
dada de paetês coloridos com uma calda de ráfia. Todo
mundo pensava que era angorá. Coloquei botas de cano
alto. Sabe aquela cantora da Jovem Guarda?
– Wanderléa?
– A própria. E os adereços de mão? Pense na fofura – um
rodo e uma vassoura lilás com paetês prata e o balde pink,
cheio de flores de crepom colorido. Foi dona Regina quem
produziu. Dois anéis bem grandes, um em cada mão e no
pescocito, a coleira com o nome do bofe, que nem Luma de
Oliveira, minha deusa. Se eu pudesse, noutra encarnação,
nascia igual a ela sem medo de arrependimento.
– Você se inscreveu no desfile?
– Sim. E tem mais: ganhei um prêmio.
– De consolação?
– Não. De incentivo. No ano que vem, vou me fanta-
siar de deslumbrada.
– Essa aí é bem mais fácil. Basta...
– Stop. Detesto palpites quando estou criando. Puxa
vida, não para de cair água. Lá na rua onde moro não
deve ter uma alma penada...
– Você tem medo?
– Claro, mas não posso fazer nada. Meu santo é forte.
Olha lá, a estação do metrô.
– Onde é que você mora mesmo?
– Não precisa de se incomodar. Nada de mudar o ro-
teiro.

416
Lúcia Moura

– Deixe de besteira e vá dizendo logo pra não compli-


car.
– Dobre ali na Rua do Hospício. Isso. Siga em frente;
pronto, pode parar. Aqui está ótimo. O senhor faz o retor-
no logo mais adiante.
– Aquele ali não é o hotel São Domingos?
– Sim, criatura. Eu vou entrar na rua que fica ao lado,
depois caminho mais um pouco e dobro num bequinho.
É lá que eu moro. Um pulo daqui.
– Não tem perigo?
– Claro que não. Beijos.
Saiu correndo. Ao redor da praça não havia ninguém,
e muito menos na rua. Engatei a primeira, arrisquei um
último olhar em direção ao hotel: vi um homem. Mas
como? O desconhecido olhou em minha direção. Passei
uma segunda. Voltei a olhar. Não vi ninguém. No dia se-
guinte, saí para minha caminhada. A rua, um pouco en-
charcada, denunciava a chuva intermitente da noite pas-
sada. Parei na banca de revista como de costume.
– Bom-dia, seu Mário.
– Bom-dia! Viu o jornal, seu Rui?
– Ainda não. O que foi de tão importante?
Peguei o jornal. Engoli as letras que iam e vinham feito
lente de zoom. Reli: Faxineiro assassinado brutalmente.
Uma gota de suor escorreu pela minha testa.
– Seu Rui?
Enrijeci. Arregalei os olhos. O estômago revirou. Virei
o rosto para o lado e vomitei. Senti um arrepio. Passei a
mão na testa molhada de suor.
– Seu Rui, acorde. Já são sete horas. Pelo visto hoje o
senhor não vai caminhar. Também com essa ressaca.
– Nalva, feche a cortina e me traz um chá.

417
Detalhes no azul
Luciene Freitas

O azul tem sobre o


olhar um efeito estranho,
ele é a energia feito cor.
Johann Wolfgang von Goethe
(1749-1832)

Com o pensamento longe, Jaime desfrutava do frescor


da noite deitado no sofá. Chuviscava. As plantas orvalha-
das simulavam olhos atentos vigiando a casa. A luz forte,
do terraço, realçava o tom azul sombreado por silhuetas
de árvores.
Um vento frio o fez estremecer e virar-se para admi-
rar um estranho redemoinho. Tecidos finos voavam numa
dança incomum, numa versão que Boticelli não pintou,
nascia uma nova Vênus. Com uma das mãos segurava um
manto, com a outra desprendia feixes de luz. Por vezes
parecia que uma película muito delicada a isolava, fazen-
do-a criatura de um outro mundo.
Levemente como apareceu, a figura deslizava na pai-
sagem com intimidade. Aproximou-se do tronco da man-
gueira e confundiu-se com ele. Nas folhagens participava
de um bailado deslumbrante.
Perdida ou visitante? Pensava Jaime.
– Nasci aqui, cresci com o cajueiro e as outras plantas.
Desabrochei junto com as flores, fui fruto, fui semente, fui
sombra amiga onde viajores recobraram as energias.
O tempo nos empurra com a sequência das estações.
Agora me entristeço, a insensatez do homem não o permite
Luciene Freitas

ver que destrói a Natureza. Árvores magníficas são violenta-


das. As queimadas e derrubadas se tornam constantes. Faz-
se necessário um basta para que a vida não seja extinta.
Por tantas vezes o calor do fogo ressecou-me as folhas,
o caule, gemeu do sofrimento. As raízes, ansiosas por
vida, rasgaram as profundezas da terra na busca dos mi-
nerais necessários à cura. O vento me socorreu arrastando
a folhagem ressequida. As nuvens, cúmplices, mandaram
a chuva.
Diante da confissão e do pranto que rolava, Jaime sen-
tia a mesma dor. Estava vivo e, como racional que era,
podia bradar sua indignação. Ainda tonto, com a vista di-
fusa, não percebeu a visão confundir-se no éter. Os pingos
de chuva soavam feito melodia divina.
O tempo correu com as estações, a aparição não lhe
saía da lembrança. Com robustez a velha mangueira re-
nasceu. Novas folhas deram abrigo aos pássaros, as abe-
lhas deliciaram-se com o néctar das flores, a fome foi ali-
viada com os saborosos frutos. A vida se renovava, o riso
voltou à casa azul.
A alma da planta, essa fina transparência de cada ser
vivo, manifestara-se. Qualquer um poderia ver, bastava
decodificar os enrugados troncos cheios de preciosas his-
tórias. Bastava apreciar o encanto da Natureza para en-
tender a silenciosa comunicação dos seres da terra.

Recife, 14.03.2001

419
Duquesa
Lucilo Varejão

Trouxeram-na para a casa, pequena e frágil, tão pe-


quena e tão frágil que se tornou necessário aleitá-la à
mamadeira, como as criancinhas privadas da assistência
materna.
Arranjaram-lhe uma cama fofa, de panos quentes e
aconchegantes, mas apesar disso grunhia sem parar, lem-
brada que estava do regaço morno e cheiroso da mãezi-
nha de que a haviam tão insolitamente separado.
Dessa mãe sobretudo causava-lhe falta aquela língua
áspera que em incansada diligência a procurava, livran-
do-a dos bichos sugadores, envolvendo-a na sua proteção
e no seu afago.
Todavia o tempo, com a sua mão de seda, foi desar­
restando-a de tal constrangimento, soprando-lhe a possi­
bi­lidade de não saboreados confortos e prazeres.
Havia no lar quatro meninos que cedo se lhe afeiçoa­
ram e passaram a enchê-la de dengos e de manhas, in-
duzindo-a a esquecer um tanto sua árdua e irrecorrível
con­dição de órfã.
Com três meses apareceram-lhe a agilidade e a com-
preensão, de sorte que corria atrás das donas e atendia-
lhes os mandos, erguendo as orelhas e inclinando para
o lado a cabecinha, como a melhor entender o nome de
Duquesa, que lhe haviam posto.
Seu dono absoluto surgiu enfim no quintal, a examiná-
la.
Acompanhava-se da mulher que parecia uma alma
simples e terna.
– É bem bonita nossa cadela! – ponderou-lhe o marido.
E a senhora interveio com mansidão:
– Devias ter arranjado um cão. Com ele não haveria o
estorvo dos filhos.
– As cadelas são mais amorosas, criatura. Repara em
como anda atrás das meninas, intentando desempenhar
o que elas lhe pedem.
E a mulher achou prudente não intercalar nova adver-
tência.
Decorreu um pedaço de tempo.
O dono mandou construir uma casinhola bonita, pro-
veu-a de um colchão para os frios do inverno, e deu-se
por satisfeito.
E Duquesa crescia, entrava na adolescência.
Resolveram então prendê-la durante o dia, para dei-
xarem-na solta à noite.
Duquesa estava a esse tempo encantadora e no entan-
to não se presumia venturosa.
A idade trouxera-lhe, em concorrência, o feio vício da
reflexão, e ela levava perdido tempo com a cabecinha en-
tre as patas, a lucubrar: viera decerto à vida sob mau sig-
no, e que a privaria dos bens mais queridos.
Haviam-na, ao nascer, tirado da mãe que a rodeava de
tão derramados mimos, e agora subtraíam-na sem com-
paixão às meninas às quais tanto se apegava.
E contudo sabia-se pojada de amor, de nobre e desin-
teressado amor.
Foi quando uma noite notou que algum camarada,
com farejos e bufidos, teimava em empurrar o portão.
Apresentou-se a ver quem era e se encontrou com um
cão do seu porte, mas feio e preto, no desalinho desses
cães que à noite se empregam, por fome, a visitar os de-
pósitos de lixo.

421
Duquesa

Compensadamente esse cão, apesar de malcuidado,


tinha um olhar tão suasivo, que Duquesa a esse olhar se
rendeu.
E dimanaram daí seus ajustamentos com o novel e tão
prosaico amiguinho.
Tempos além aprendeu ele a pular o muro que não
era alto.
E provieram desse momento horas deliciosas para Du-
quesa.
Ele chegava alta noite e enchia-a de blandícias, lam-
bendo-a em igual zelo ao da mãezinha perdida.
E segredava-lhe carícias que ela nem supunha existirem.
Mas teria fatalmente de cumprir-se o que se vem cum-
prindo, desde que o mundo é mundo.
Duquesa percebeu que ia ser mãe, e ele, como também
sucede desde a origem das cousas, desapareceu para não
voltar.
Instalaram-se então na infortunada as agonias do novo
estado, os enjoos e as dores lancinantes da primeira ma-
ternidade.
O dono se apresentou desta vez irritado, sempre com
a companheira de banda. E decidiu:
– Vou mandar jogar esses cachorros no rio. São gozos.
A mulher, tímida, contraveio:
– A atirar n’água os inocentes, talvez fosse melhor sa-
ber de alguém que os quisesse criar...
Mas o homem, que era de poucas palavras, retroveio:
– Não e não.
E a mulher, consoante seu comum, nada de resistente
ofereceu.
Duquesa, por si, nem atinava em como as nuvens esta-
vam ficando pretas para o seu lado.
Nem na sua limitada percepção compreendia a que
ponto, pelos seus mesquinhos interesses e vaidades, po-
dem os homens ser tão impiedosos.

422
Lucilo Varejão

Gostava dos seus pequenos, catava-lhe as pulgas tal


outrora lhe fizera a mãezinha, deixava-os descansar à
vontade no seu tépido ventre.
Novamente porém tornou o senhor com um saco e nele
meteu os pobrezinhos, entregando-os a um portador.
E lá se foram, homens e bichos. Como estivesse escra-
va da sua compulsória corrente, não pôde Duquesa pene-
trar onde e a que iam.
E só à noite, quando a soltara, iniciou a procura de sua
prole.
Sentia-lhe a falta em tamanho assolamento que não
admitia a vida sem a recuperação dos seus pequenos.
Pesquisou-os primeiro nos cantos mais esconsos do
quintal, e não sendo possível reavê-los, galgou o muro, a
buscá-los lá fora.
Essa fadigosa investigação não lhe trouxe porém a ob­
ten­ção desejada.
Para onde – perguntava-se atarantada – teriam trans-
ferido os seus filhotes.
Tomou-a a suspeição de que os homens os houvessem
levado para muito longe.
E guiando-se pelo faro inútil, lá se foi estrada afora.
Quase corria, querendo com ânsia seus cobiçados bi-
chinhos.
Embora consumida, teimava na andada, aos tropeções
pelas pedras da estrada.
O sol começante subia, e o calor aumentava, forçan-
do-a a abrir a boca e deixar pender a língua.
A cauda por igual perdera a mobilidade e a conservava
para baixo, quase escondida entre as pernas.
Não obstante, Duquesa vencia com ativação a distân-
cia, bem que não reachasse seus rebentos.
Num trecho do avanço, desaconselhada pelo cansaço,
veio-lhe a instigação de voltar.

423
Duquesa

Mas afastou-a, antevendo não mais poder executá-la.


Depois, de que lhe serviria aquilo?
E prosseguiu sem fôlego, fariscando aqui e ali, paran-
do ao ladrido próximo ou distante de qualquer cão.
Estava desesperada, cambaleante, sedenta.
Foi quando, ao desembocar numa praça, entendeu al-
guém que bradava.
E esse brado era apenas:
– Cão danado!
Então, deu-se um excedido e alarmante batido de por-
tas e janelas, e de enfiada o aparecimento de homens de
toda idade que vinham à rua empunhando pedras e paus
e até armas de fogo.
Duquesa tinha medo, e esforçava-se por fugir a quanto
lhe permitiam as pernas.
Mas perseguiam-na sem comutação.
E de repente um tiro espocou e outros tiros se lhe se-
guiram, tão repetidos como pelo São João ela escutava e
de tantos medos a enchiam.
Até que uma bala a atingiu.
Caiu sobre si mesma, sem gritar, segura de que iria
ficar ali para sempre.
E só uma certeza – talvez para mais bem conformá-la
à morte – tomou-a: a de que, se permanecesse viva, nunca
mais teria seus adorados miudinhos.

424
Zero, zerinho
Lucilo Varejão Neto

Seu Alonso era um homem modesto e muito bem-aceito


pela vizinhança. Embora aposentado com pequena renda,
esta não alterou seu nível de vida, pois fora com ela que
criara os filhos e vivera sempre com a mesma mulher.
Às cinco da tarde lá estava ele na calçada, sentado
em uma cadeira de balanço, ao lado de Dolores, vendo o
vaivém­da rua. Não conversava muito, mas prestava aten-
ção e procurava ouvir todos os mexericos que as vizinhas
vinham trazer. Às vezes era até engraçado vê-lo antes do
escurecer, já de pijama, olhos fechados e os pés sobre um
banco. Fora desse hábito, seu Alonso só era visto ao nas-
cer do sol, regando seu jardim e podando alguns galhos
esparsos que por acaso surgissem.
Como tudo é possível, algo aconteceu e mudou por
completo a vida de seu Alonso. Seu bilhete de loteria lhe
rendeu alguns poucos milhares. Vale ressaltar que deram
para realizar um sonho que ele jamais confessara. Um au-
tomóvel zero. Zerinho.
E era engraçado ver, todas as manhãs, seu Alonso sair
com um instrutor em um carro de autoescola. Passados
dois meses, ele já dominava a estrada e, ao receber sua
habilitação, correu a uma revenda próxima de sua casa e
adquiriu um carro novo em folha.
Os vizinhos, alguns exultavam. Outros, talvez invejosos,
faziam nada perceber. E seu Alonso caíra na rotina da rua.
Esta manhã, porém, havia uma vozearia na calça-
da do seu Alonso. Ele estava indignado. Seu automóvel,
Zero, zerinho

com apenas três meses de uso, já apresentava vazamen-


to d’água na mala. Um de seus filhos, embora já casado,
com aspecto responsável, era ainda jovem, mas também
lá estava explicando que isso é normal. Poderia ser uma
falha da borracha ou algo mais insignificante. Seu Alonso
irredutível esbravejava. Sentia-se lesado. Basta dizer que
em seu primeiro automóvel ninguém encostava. Esse foi
seu sonho e ninguém poderia pegar nele. Nem os filhos.
Que andassem de ônibus como ele fizera toda a vida. Não
poderia arriscar um acidente.
Na calçada alguns vizinhos mais íntimos participavam
da cólera do novo proprietário. E nenhum argumento jus-
tificava o vazamento. Então, surge seu Alonso com um bal-
de com água. Lança-o sobre o carro, abre a mala e mostra,
revoltado, o molhado. Não é possível. Surgem justificati-
vas para minimizar o problema. Nada. Surge outro balde
com água. Seu Alonso pede ao filho que entre na mala. O
filho, após atendê-lo, diz ser impossível localizar a área do
vazamento. Seu Alonso esbraveja. Nem isso o filho era ca-
paz de detectar. E ainda pedia o carro para dar uma volta.
Imagine. Solicita então mais um balde com água, e agora
é ele mesmo quem vai observar. Um carro tão novo e tão
caro com tão grande problema. Seu Alonso entra na mala.
É jogada a água. Ouve-se a voz de seu Alonso:
– Podem abrir.
E agora? Onde estão as chaves? Seu Alonso sempre
conservou até a cópia no chaveiro. E com elas no bolso
entrou na mala do carro. Ouve-se novamente:
– Abram a mala.
– Calma.
– As chaves estão no seu bolso, papai?
– Sim.
Criou-se grande confusão. Chamar os bombeiros po-
deria ser muito tarde, pois seu Alonso já tinha idade avan-

426
Lucilo Varejão Neto

çada, e a demora... Arrombar a mala com um machado?


O que diria seu Alonso ao sair de lá e ver o seu “zero” todo
arrebentado?
Alguém teve a ideia de indicar a seu Alonso um buraco
existente sob o pneu de suporte. Escuta-se então a retira-
da do mesmo e a voz sumida do prisioneiro:
– Pronto.
Seguindo as instruções exteriores, ele tenta passar a
chave pelo orifício, mas é muito estreito. Por baixo do car-
ro alguém tenta com um alicate retirar a chave. Nada. A
solução é quebrar a cabeça plástica da chave para que ela
caia sob o carro. Feito isso, seu Alonso sai da mala. Tão
ensopado de suor que parece que os baldes com água fo-
ram lançados sobre ele. E a partir de então, não mais se
discutiu o vazamento da mala...

427
Joca do Boi
Lúcio Ferreira

Quem não gosta de ver os passos repenicados do balé


do boi-bumbá? Bailado maneiro, bem marcado pelo bre-
jeiro da toada. Martelo vadiado e miúdo. Quase a librar,
de tão leve.
Mas foi só Zé Fulo chegar pra tomar o privilégio da ge-
ral atenção. Dançarino de quaisquer folguedos, capoei­rista
dos bons, era a alegria do Brejo. Todos queriam apertar-
lhe a mão, bater-lhe nas costas, mostrar amizade.
A manhã acesa quase meava o dia. Sol tremulando até
onde o horizonte erguia os braços para roçar o azul de
ferro do verão.
Aí, a música parou. O boi pareceu hesitar, sem ritmo,
talvez à toa se visse. E tomou o rumo da mangueira do
quintal.
Pouco tempo depois, no terraço, a cachaça foi servi-
da, com animação. Faziam brinde a Zé Fulo, que ria todo
configurado.
Uma tigela de sarapós fritos corria de mão em mão.
Outra de farinha seca. Outra de cundunga no óleo.
O zum-zum era denso, alvoroçado.
Foi aí que se perguntou por Joca do Boi. Logo ele tão
chegado, assim arredio do calor da festa?
A pergunta correu olímpica os quatro cantos da casa.
E nada. A voz continuava insistente e coletiva. Vinda da
sala. Do corredor. Queriam o bumba. A música ergueu o
chamado, com os mesmos chocalhos, pífanos, zabumba,
pandeiro. Tudo reclamava a presença do boi.
Lúcio Ferreira

Então alguém se lembrou da mangueira, lá na entrada


da horta. E correu para o quintal. Zé Fulo seguiu-lhe os
passos.
O boi continuava agachado, preso a sua quietude de
papel machê. A chita da saia derramada no chão.
Zé Fulo adiantou-se rápido. Procurou levantar a folcló-
rica majestade, que pretendia assumir.
O espanto foi geral. E o grito:
– Virgem Maria! É o Joca!
– Jooocaaaa!
– Meu Deus! O boi morreu!

429
Ansiedade
Luís André Negrão

E foi quando os trovões ressonaram nos céus da cida-


de e reverberaram nas vidraças do escritório, que Flávio
olhou as horas no relógio de pulso dourado e de pulseira
de couro, presente dado pelo avô, pela enésima vez na-
quela tarde.
A água da chuva fazia sinistros desenhos momentâ­
neos realçados pela luz dos postes que se acenderam por
causa da escuridão provocada pela intensidade do nublar
do tempo e projetavam sua claridade nas pálidas cortinas
da pequena sala. As paredes acinzentadas denunciavam
a idade da construção e tornavam o ambiente ainda mais
antiquado. A velha alcatifa esburacada em pontos onde
era mais pisoteada causava a impressão de que tudo ao
redor era velho demais. E as coisas se tornavam mais si-
nistras por conta da palidez que a arandela de vidro da
luminária do teto projetava na sala.
Flávio chegara mais cedo do que combinara e como de
costume subornara o porteiro do prédio comercial do ve-
lho edifício que ficava incrustado no centro do antigo bair-
ro comercial da metrópole. Não era permitido o acesso de
ninguém naquele prédio nos dias de domingo, mas, pelo
conhecimento que tinha com o porteiro e uns trocados para
a cerveja, ele sempre conseguia ter acesso. Era assim que
ele se encontrava com ela, era assim que ela gostava. Depois
dos encontros e do sexo feito cheio de fantasias profissio-
nais, os dois iam a um cinema e em seguida terminavam a
noite num bar dançante de mesas de madeira, onde pou-
Luís André Negrão

cos casais se arriscavam a terminar a semana ouvindo um


cantor que subtonava em quase todas as músicas, mas sabia
dedilhar perfeitamente o violão de cordas de aço.
Chegou na parte da manhã, pouco antes do horário
do almoço, trazendo uma sacola com refrigerantes, cer-
vejas em lata e camarões sem cabeça como ela insistia em
pedir e ele sempre a atendera. Depois de varrer e arru-
mar todo o seu escritório de contabilidade, ele acendeu
incensos e tomou um banho no microscópico banheiro de
pouco mais de um metro de largura e uma janela mínima
no alto da parede que dava para a rua, deixando um for-
te e agradável cheiro de sabonete de erva-doce mesclado
com o desinfetante floral que ele despejara no ralo do
banheiro e no vaso sanitário.
Depois de trocar de roupas, ele sentou-se em sua ca-
deira e começou a pensar nela e em todos os fatos que a
mantiveram afastada dele nesses últimos dois meses, pen-
sara na frase que ela dissera marcando-o defini­tivamente
e que ainda ecoava em seus pensamentos: “Paulo não sig-
nifica nada, mas eu gosto de ficar ao lado dele, ele me
faz rir”. Então esse era o seu defeito, ele não era um cara
engraçado, ele não a fazia rir e isso foi o motivo de tanta
briga, de tantos desencontros e talvez tenha sido o moti-
vo para que ela mantivesse o telefone desligado nos dois
últimos domingos.
Ele imaginava sempre o pior, imaginava-a rindo com
Paulo num quarto de motel com os bicos de seus fartos e
rosados seios enrijecidos pelo frio do ar condicionado e
na felicidade e nos risos que ela poderia dar ao ser possuí­
da por aquele homem “engraçado”.
Depois de quase três horas de conversa ao telefone na
última sexta-feira em que ela o chamou de idiota, de tolo,
de egoísta e ciumento, eles combinaram de se encontrar
naquele domingo de chuva e que agora se tornava moro-
so devido ao arrastar das horas. A espera o fazia sentir um

431
Ansiedade

embrulho no estômago, onde ela estaria? Já estava quase


duas horas atrasada. Com certeza num maldito quarto de
motel com os mamilos duros de frio e um sorriso de pra-
zer no rosto. Por conta dessa angústia e do arrastar das
horas, ele não aguentou mais esperar, resolveu acabar de
vez com a incerteza e a dúvida. Apagou o cigarro no velho
cinzeiro de metal e abriu a gaveta encontrando a solução
para a sua angústia.
Auryane estava nervosa por causa do atraso, mas seu
celular havia quebrado numa queda que sofrera quando
correu para subir no ônibus. Tivera um dia difícil devido
aos cuidados em demasia com a mãe doente que deixara
em casa. Por isso não telefonara, além do mais tinha o
dinheiro contado para a passagem de ônibus.
Ela tinha uma vida difícil. Depois que sua mãe caíra
doente, vivia para o emprego, a mãe e para Flávio, o que
era na verdade seu único e real prazer em todos os sen-
tidos. As suas contas se amontoavam, o telefone de casa
bloqueado, o celular sem crédito, a dispensa vazia e a con-
ta astronômica da farmácia a faziam perder o sono e sor-
rir cada vez menos. Mas mesmo assim ela tinha a alegria
no final de semana de encontrar com o seu homem.
Aquele domingo fora atípico. Vários fatores contri­
buíram para o seu atraso. Logo pela manhã tivera de ir ao
supermercado comprar todos os itens que o dinheiro parco
lhe permitisse e que lhe faltavam em casa. Ela sempre fazia
isso na sexta, mas, em virtude da enxaqueca que tivera na
sexta e no sábado, não conseguiu livrar-se desse compro-
misso, sem falar que aos domingos o pequeno mercadinho
do subúrbio onde morava sempre se encontrava cheio, por
conta das cervejadas e churrascadas domingueiras. Ade-
mais, encontrar alguém além de Isa­dora, sua fiel vizinha,
para passar a tarde com sua mãe, foi impossível, o jeito foi
esperar que a amiga voltasse da praia com os sobrinhos

432
Luís André Negrão

para tomar conta da velha, que ela mesma se policiava,


quando a achava um estorvo em sua vida. Isso por conta
da velhice e dos problemas de saúde.
Ela saiu de casa às pressas e ao tentar subir no ônibus,
seu celular despencou do bolso raso de seu casaco. Agora,
mesmo se quisesse avisar a Flávio de sua demora e tentar
tranquilizá-lo, pois sabia bem como ele ficava quando ela
atrasava, seria impossível, ao menos poderia ligar a co-
brar para o seu celular. Flávio só atendia ligações a cobrar
dela e de mais ninguém.
Auryane desceu no terminal do ônibus com suas co-
xas nuas em uma minissaia jeans e sua calcinha de renda.
Seu casaco de couro sem a blusa por baixo – era assim
que ele gostava, era assim que ela fazia – deixavam seus
mamilos duros de frio por causa da chuva. Em sua mente,
as palavras duras de Flávio, que a magoara quando dis-
cutiram pela última vez, ainda ecoavam pela sua cabeça,
e a lembrança de desligar o celular para não falar com
ele a perturbava. Pensava consigo mesma que deveria ser
um pouco mais tolerante com ele. Passara rapidamente
pelo porteiro, que a cumprimentou com um sorriso ma-
licioso, e entrou no elevador chegando ao terceiro andar,
pensando que agora as coisas poderiam se ajustar e enfim
ela poderia dizer e provar a ele que Paulo nada era e que
sorrisos nunca foram sinais de amor. Na porta da sala,
respirou fundo e girou a maçaneta pensando em pular no
seu pescoço e desalinhar toda a sua mesa de trabalho com
o sexo louco que lhe passava pela cabeça e que poderia
colocar tudo em ordem novamente.
Seu grito ecoara por todo o prédio silencioso. Flávio
manchara de sangue a parede cinzenta atrás de si com um
tiro na cabeça.
– Meu amor, se você fosse menos ansioso... – ela disse-
lhe em lágrimas.

433
O homem que galopava
Luís Jardim

Do lado de dentro da venda, João Borrego disse a Ci-


priano:
– Lá vem o tal fulano!
– Ah! É aquele? Monta bem, e o cavalo tem boa pinta –
respondeu Cipriano, olhando o homem com curiosidade.
João Borrego insistiu baixinho:
– Repara bem os modos dele. Se não é ladrão de ca-
valo, eu me soverta! E se sair da casa de ladrão, cai na de
criminoso fugido. Lá isso eu juro!
O homem que galopava amarrou o cavalo castanho no
esteio defronte da venda de João Borrego, depois afrou-
xou a cilha, tirou o freio para descansar o animal.
Dentro de casa, nesse meio tempo, o vendeiro insistia,
sem despegar os olhos de cima do cavaleiro:
– É ladrão, Cipra! Você já viu gente esquisita sem enco­
brir marmota? Homem que não dá roteiro da vida que leva
é porque esconde alguma coisa. E quando esconde, como
você sabe, ou a coisa é muito boa ou então não presta pra
nada. Que mulher viva de melancolia, vá lá, é de saia. Mas
homem embezerrado fique certo que é coisa. Isso eu juro!
– Lá vem ele, homem, muda de conversa! – aconse-
lhou Cipriano.
João Borrego emendou a frase com jeito de mulher
enredeira:
– Fique certo que é coisa. Feira grande é coisa: ou sinal
de chuva ou de seca.
Luís Jardim

O homem que galopava ouviu-lhe o parecer, aproxi-


mou-se do balcão e deu um palpite, sem alterar o seu ar
tristonho:
– Feira grande, me desculpe o intrometimento, é sinal
de que não há dinheiro. Fartura só dá dum lado só.
Os outros matutos riram-se, alguns apoiaram o tino do
estranho, e João Borrego encafifou, sem resposta pronta
para o assunto imprevisto. Para não se dar inteiramente
por vencido, ponderou, quase gaguejando:
– É. Pode ser. Pode ser que assim seja. Mas...
– Por falar em cocoró-carne de porco, seu João, bote aí
uma bicada, pediu-lhe o homem, interrompendo-o.
João Borrego deu graças a Deus que o assunto se des-
viasse. Atendeu ao pedido, e, para animar a conversa, mas
noutro sentido, indagou:
– Pura ou concentrada?
– Que mistura é? – indagou o cavaleiro.
E João Borrego informou em carretilha, encarecendo
a cana com nomes de gosto:
– Fava-de-cheiro, angico e canela. Tem também da
axaropada. Mas se não quiser lambedor, se quiser da boa,
esquentante, queima-goela, uma que vale pólvora, espe-
cial pra cabra-macho, eu aconselho esta aqui: espevitada!
O que tem dentro é só isso: pimenta e gengibre. Embica?
– Homem, gabar eu não me gabo, mas pra embicar, fora
chumbo derretido, tudo serve. Bote a conta de sempre.
João Borrego encheu o copinho e o homem que galo-
pava ofereceu aos mais próximos:
– Quem é servido?
Cipriano aceitou:
– Vamos ver a fama da bichinha.
Bebeu, fez careta, retemperou a goela e declarou, as
palavras atrapalhadas saindo entre o fôlego sufocado:
– Só não é fogo porque derrama.

435
O homem que galopava

– Então redobre a dose pra mim, seu João, pediu o


pagante.
João Borrego encheu um copo maior, entregou-o ao
cavaleiro, elogiando-lhe a coragem:
– Gosto de ver uma disposição assim. Esse é dos
meus!
O homem que galopava bebeu, fez a careta de sempre,
cuspiu de banda e disse de pronto:
– Acho que foi engano. Essa não é concentrada. Rali-
nha que nem água de pote.
João Borrego protestou, achando que aquilo era exa-
gero. Todos falavam daquela concentrada. Um azougue.
Até diziam que a bichinha era chicote de tripa. E repetiu
a frase, rindo:
– Chicote de tripa é bem dito. Rasga a bicha por dentro.
Depois fechou um olho, pensou um instante, e falou
para o matuto, encarando-o:
– Aposto que onde o senhor mora não tem dessa! De
que bandas é o senhor?
– Quando andar três léguas pra lá do fim do mundo,
na primeira porta que encontrar pode bater que é a mi-
nha, respondeu o outro.
A risada estalou, o homem que galopava saiu, e João
Borrego virou-se depressa para Cipriano, exclamando:
– Não lhe disse! É um mistério dos seiscentos diabos!
Toda vez que pergunto é isto: moro na tábua lascada, sou
do oco do mundo, venho da terra onde feijão dá na raiz.
Não há quem me tire da cabeça, Cipra, esse bicho tem
coisa! Isso eu juro!
Caetano, negro velho conhecedor das redondezas, deu
a sua opinião:
– Por perto ele não mora. Do nome dele ninguém
sabe. Qualquer coisa há. Será bicho, pra viver enlocado,
escondido?
– Ora se há – confirmou João Borrego, indignado.

436
Luís Jardim

Cipriano indagou se já haviam perguntado o nome


dele, e João Borrego antecipou-se a Caetano que ia abrir
a boca para responder:
– Diz sempre do nome as coisas à toa que diz da mo-