antónio nóvoa

Para uma análise das instituições escolares

António Nóvoa Para uma análise das instituições escolares
Depois de uma perspectiva tradicional que privilegiava ora o nível micro da sala de aula, ora o nível macro do sistema educativo, emergiu uma sociologia das organizações escolares que se propõe optar por um nível mezzo de compreensão e de intervenção. Depois de uma perspectiva da tradicional que privilegiava ora o nível micro da sala de aula, ora o nível macro do sistema educativo, emergiu uma sociologia das organizações escolares que se propõe optar por um nível mezzo de compreensão e de intervenção. Os processos de mudança e de inovação e educacional passam pela compreensão das instituições escolares em toda a sua complexidade técnica, científica e humana.

A Escola como objecto de estudo das Ciências da Educação Trata-se de um domínio do saber que ainda se encontra em fase de estruturação e que corresponde, em sentido lato, a uma "pedagogia centrada na Escola" A modernização do sistema educativo passa pela sua descentralização e por um investimento das escolas como lugares de formação. As escolas têm de adquirir uma grande mobilidade e flexibilidade, incompatível com a inércia burocrática e administrativa que as tem caracterizado. Trata-se de erigir as escolas (e os agrupamentos de escolas) como espaços de autonomia pedagógica, curricular e profissional, o que implica um esforço de compreensão do papel dos estabelecimentos de ensino como o organizações, funcionando numa tensão dinâmica entre a produção e a reprodução, entre a liberdade e a responsabilidade.

Evolução das ideias sobre educação ao longo das últimas décadas: Até aos anos 50 a componente central da intervenção educativa era o indivíduo-aluno na sua tripla dimensão (cognitiva, afectiva e motora). O discurso pedagógico concedia uma atenção privilegiada às metodologias de ensino. Acentua-se a importância das interacções no processo educativo, conduzindo às pedagogias não directivas. Valorizam-se as vivências escolares em detrimento dos saberes escolares. O que interessa aprender numa escola é a comunicação, a partilha, o diálogo, o trabalho em comum, a cooperação. Dá-se grande relevo às técnicas de animação e de expressão. Irrompe a crítica às instituições escolares existentes, a pedagogia projecta-se para fora dos muros da escola, os papeis dos professores diversificam-se. É a fase da pedagogia institucional claramente centrada no sistema educativo, com o recurso a metodologias de análise política e de intervenção social.

Anos 50/60

Anos 60/70

alexandre ventura - 1999

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etc. As instituições escolares: um novo objecto científico? A evolução do movimento das escolas eficazes. alexandre ventura . Modelos simbólicos De modos diversos. investigaçãoformação. que não se limita a reproduzir as normas e os valores do macro-sistema. como um território intermédio de decisão no domínio educativo.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares Anos 70/80 Incremento das correntes pedagógicas preocupadas com a racionalização e a eficácia do ensino. avaliação) e de políticas de investigação mais próximas dos processos de mudança nas escolas (investigação-acção. Anos 80/90 A escola é encarada como uma instituição dotada de uma autonomia relativa. CARACTERÍSTICAS ORGANIZACIONAIS E CULTURA DE ESCOLA A sociologia das organizações escolares tem-se aberto crescentemente aos modelos políticos e simbólicos. Esforço de construção de uma pedagogia centrada na escola-organização. alunos. mas que também não pode ser exclusivamente investida como um micro-universo dependente do jogo dos actores sociais em presença. pais. é determinante para o reconhecimento do estabelecimento de ensino como um novo objecto científico. estes dois tipos de modelos devolveram aos actores educativos o papel de protagonistas que os modelos anteriores (racionais. conflito. Modelos políticos introduziram novos conceitos (poder. nomeadamente entre grupos com interesses distintos. sistémicos.1999 Página 2 de 8 . colocaram a tónica no significado que os diversos actores dão aos acontecimentos e no carácter incerto e imprevisível dos processos organizacionais mais decisivos. Um dos maiores contributos do esforço de criação de escolas eficazes é a co-responsabilização dos diferentes actores educativos (professores. etc. regulação) que enriqueceram a análise das organizações escolares. controlo. Importância acrescida de metodologias ligadas ao domínio organizacional (gestão.). Características organizacionais das escolas O funcionamento de uma organização escolar é fruto de um compromisso entre a estrutura formal e as interacções que se produzem no seu seio. recursos humanos. comunidades). auditoria. disputa ideológica. interesses. A investigação educacional desenvolve a análise do processo ensino-aprendizagem no quadro do paradigma conhecido por “processo-produto”.) lhes tinham procurado retirar. incentivando os espaços de participação e os dispositivos de partenariado ao nível local. O enfoque pedagógico volta a centrar-se na turma-sala de aula. desde o final dos anos 60.

respeitando os ritmos próprios de cada indivíduo. !" aproxima o centro de decisão da realidade escolar. !" contribui para a criação de uma identidade da escola. pessoal docente.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares Os estudos centrados nas características organizacionais das escolas tendem a construir-se com base em três grandes áreas: A estrutura física da escola A estrutura administrativa da escola Dimensão da escola. Relação entre alunos. Articulação curricular !" exige uma boa planificação curricular e uma adequada coordenação dos planos de estudos. etc. !" implica a responsabilização dos actores sociais e profissionais. democracia interna. pessoal auxiliar. número de turmas.1999 Página 3 de 8 Estabilidade profissional . tomada de decisão. !" formação-acção e investigação-acção que dêem um contributo alexandre ventura . participação das comunidades. Formação de pessoal !" articulada com o projecto educativo da escola. relação com as autoridades centrais e locais. professores e funcionários. etc. !" conjugado com margens de mobilidade como factor de incentivo e inovação. Optimização do tempo !" privilegia a optimização do tempo disponível. Liderança organizacional !" factor de promoção de estratégias concertadas de actuação em projectos de trabalho. cultura organizacional da escola. etc. recursos materiais. controlo. de um ethos específico e diferenciador que facilite a adesão dos diversos actores e a elaboração de um projecto próprio. !" defende a opção por modalidades de avaliação formativa. responsabilização e participação dos pais. organização dos espaços. !" clima de segurança e de continuidade. !" implica participação colegial que envolva a comunidade educativa. clima social. Gestão. edifício escolar. A estrutura social da escola Retrato de uma escola eficaz Autonomia da escola !" significa a dotação das escolas com meios para responderem de forma útil e atempada aos desafios quotidianos. inspecção. direcção.

Participação dos pais !" grupo interveniente no processo educativo através de apoio activo e participação em decisões. que não pode ser confundida com um controlo normativo e prescritivo (a priori). !" as autoridades podem disponibilizar recursos humanos qualificados que ajudem a desenvolver uma avaliação-regulação (a posteriori) das escolas. que interferem na definição da sua própria identidade. ainda que estejam integradas num contexto cultural mais amplo.1999 Página 4 de 8 . !" ao nível material e económico e também na perspectiva de aconselhamento/consultoria.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares efectivo para a melhoria das escolas. associando-se aos esforços dos profissionais de ensino. produzem uma cultura interna que lhes é própria e que exprime os valores e as crenças que os membros da organização partilham” (Brunet. Conceito de cultura: !" “Sistema de integração. Apoio das autoridades A cultura organizacional da escola O conceito de cultura organizacional foi transposta para a área da educação na década de 70. Cultura externa Elementos da cultura organizacional Bases conceptuais e pressupostos invisíveis !" valores !" crenças !" ideologias alexandre ventura . 1988). de diferenciação e de referência que organiza e dá um sentido à actividade dos seus membros” (Burke. !" “As organizações escolares. Cultura interna Conjunto de significados e de quadros de referência partilhados pelos membros de uma organização. Reconhecimento público !" cada membro da escola deve procurar a identificação com um conjunto de valores comuns que edificam a identidade da organização escolar. !" individualmente os pais podem ajudar a motivar e a estimular os seus filhos. Variáveis culturais existentes no contexto da organização. 1987).

às interacções didácticas e à gestão curricular. A intervenção dos pais e das comunidades na esfera educativa sempre foi encarada como uma espécie de intromissão. permitindo mobilizar o conjunto dos actores sociais e dos grupos profissionais em torno de um projecto comum. etc. refere-se fundamentalmente à relação educativa professor-aluno.) !" comportamentais (cerimónias. da carreira docente e da organização técnica dos serviços. que foram marginalizadas. a necessidade de criar dispositivos de avaliação das escolas.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares Manifestações !" verbais e conceptuais (objectivas. o aparelho escolar edificou-se contra as famílias e as comunidades. Para tal é preciso realizar um esforço de demarcação dos espaços próprios de acção. são uma forma de “obrigar” a um esforço de produção de consensos dinâmicos em torno de objectivos partilhados. ora com o argumento político (a legitimidade do Estado para decidir em matéria educativa). etc.) !" visuais e simbólicas (arquitectura. Pedagógica Profissional A escola tem de ser encarada como uma comunidade educativa. Na verdade. metáforas. é igualmente inadmissível sustentar ambiguidades que ponham em causa a autonomia científica e a dignidade profissional do corpo docente. Onde se situam as questões do desenvolvimento profissional. alexandre ventura . de facto. regulamentos. etc. Projecto de escola: actores educativos e avaliação institucional Num certo sentido. Áreas de intervenção Escolar Encarada numa perspectiva organizacional. A acção das autoridades limitava-se a um controlo administrativo. Devido ao funcionamento burocrático e centralizado do sistema educativo nunca se sentiu. Os projectos educativos.1999 Página 5 de 8 . representa um espaço de autonomia relativa do professorado. sem esquecer os interesses e valores de que os diversos grupos são portadores. diz respeito ao conjunto das decisões ligadas ao estabelecimento de ensino e ao seu projecto educativo. No sentido estrito do termo. Ora é fundamental que as famílias tenham capacidade de decisão (e poder) no seio das escolas. se é inadmissível defender a exclusão das comunidades da vida escolar. lemas. baseado no cumprimento das directivas estatais. ora com o argumento profissional (a competência especializada dos professores em matéria educativa). divisas.) A totalidade dos elementos da cultura organizacional têm de ser equacionados na sua “interioridade” e nas inter-relações com a comunidade envolvente. pois só na clarificação destes limites se pode alicerçar uma colaboração efectiva.

Categorias da avaliação institucional Avaliação interna Tem como motivação principal o acompanhamento dos projectos de escola.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares A participação dos pais e das comunidades na vida escolar encontra toda a sua legitimidade numa dimensão social e política. (Auto) análise e avaliação das escolas “A primeira característica chocante no funcionamento actual das escolas é o seu carácter cego. privilegiandose. rejeitam-se os modelos de avaliação-samção ou de avaliação-julgamento. as dinâmicas de avaliação participativa e de avaliação-regulação. reflectindo colectivamente em instâncias qualificadas sobre o seu funcionamento. A avaliação das escolas só tem sentido no quadro de uma mudança e/ou aperfeiçoamento da escola. no quadro de uma dinâmica de desenvolvimento organizacional. A actividade dos professores e dos outros profissionais deve basear-se numa legitimidade técnica e científica. numa perspectiva próxima da investigação-acção. numa dinâmica de re-invenção da profissão de professor. Esta prática é desconhecida nos estabelecimentos de ensino. que já nem sequer damos por ele!” Antoine Prost As tendências actuais de descentralização do ensino trazem para a ribalta a questão da avaliação das escolas e dos seus projectos educativos. Avaliação externa Avaliação Interna Produção de conhecimentos Quem? Professores/outros técnicos Como? Formação contínua ou investigação Quem? Direcção ou grupos de gestão Como? Dispositivos de regulação e inovação ou acompanhamento de projecto do estabelecimento de ensino Quem? Investigadores científicos (olhar exterior) Como? Projectos de investigação Quem? Administração regional ou central Como? No âmbito de acções de inspecção ou Página 6 de 8 Práticas institucionais Externa Produção de conhecimentos Práticas institucionais alexandre ventura . Os professores são crescentemente chamados a desempenhar um conjunto alargado de papeis. Neste sentido. E estamos de tal modo habituados a este funcionamento “às cegas”. É normalmente decidida por razões de ordem institucional que se prendem com necessidades de controlo organizacional ao nível do sistema de ensino. As outras instituições interrogam-se periodicamente sobre elas próprias.1999 .

através do diálogo e da tomada de consciência individual e colectiva. de coerência. Criando as condições para uma aprendizagem mútua entre os actores educativos. etc.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares de controlo. que permitam uma regulação no decurso dos projectos. Portugal. É frequente a aplicação descontextualizada de processos e de instrumentos de avaliação conduzindo a dissonâncias de diversa ordem. dos espaços e das formas directamente escolares. constata que os problemas educativos actuais não encontrarão resposta nos limites dos tempos. e não apenas no final. É necessário que cada um tenha consciência que esta postura exige um processo de permanente reelaboração e de auto-renovação. É importante aproveitar as tendências que apontam no sentido da construção de projectos educativos para criar hábitos de avaliação institucional nas escolas. Depois de a inovação educacional ter oscilado entre o nível macro do sistema educativo e o nível micro da sala de aula. Neste sentido.1999 Página 7 de 8 . e ao mesmo tempo consegue dispor-se a intervir. e não apenas um balanço posterior. Associando o conjunto dos actores às práticas de avaliação. revestindo-se de uma importância estratégica para o aperfeiçoamento das escolas. Funcionando ao longo do desenvolvimento do projecto de escola. hoje. de eficácia. de forma a facilitar a devolução dos resultados aos actores e a permitir a confrontação entre grupos com interesses distintos. “Quem se situa na escola como área profissional. […] Vai ter que imiscuir-se no real envolvente e vai parar a alexandre ventura . Nos sistemas educativos de tradição centralizadora (Espanha. levando à prática o conceito de autonomia relativa do estabelecimento de ensino. França. é importante que a avaliação respeite critérios de pertinência. o que implica a montagem de dispositivos simples e eficazes de acompanhamento e regulação. é justamente no contexto da organização escolar que as inovações educacionais podem implantar-se e desenvolver-se. Trata-se sobretudo de criar condições para que os profissionais do ensino se sintam motivados e gratificados por participarem em dinâmicas de mudança. de eficiência e de oportunidade.) os projectos de escola podem ser uma estratégia adequada para impor as mudanças necessárias no campo educativo. Permanente Participativa Formativa A avaliação das escolas deve basear-se em dispositivos simples e exequíveis. com a intenção de proceder às práticas institucionais e das eventuais mudanças a introduzir Funções e critérios de avaliação É importante que os dispositivos de avaliação respondam eficazmente a quatro funções: Operatória Orientada para a acção e a tomada de decisões.

1999 Página 8 de 8 . porque é aqui que os desafios começam e importa agarrá-los com utopia e realismo. alexandre ventura . Hoje não se pode passar ao lado de uma reflexão estratégica. centrada nos estabelecimentos de ensino e nos seus projectos.antónio nóvoa Para uma análise das instituições escolares outros espaços sociais e a outras áreas de actividade com outros actores” (Ana Benavente e Orlando Garcia. 1992).

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