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-O AMOR DE FEDRA-

“PHAEDRA’S LOVE”de Sarah Kane

Tradução de Felipe Vidal -1ª Versão-

CENA 1

Num palácio Real.

HIPÓLITO está sentado num quarto na penumbra assistindo TV.


Ele está esparramado num sofá rodeado por caros brinquedos
eletrônicos, pacotes vazios de batatas fritas e balas, e meias e cuecas
espalhadas.
Está comendo um hambúrguer. Seus olhos estão fixos na luz trêmula
de um filme de Hollywood.
Ele funga.
Sente um espirro vindo e esfrega o nariz para impedi-lo.
Isso ainda o incomoda.
Ele procura algo no quarto e pega uma meia.
Examina a meia cuidadosamente e assoa o nariz nela.
Joga a meia de volta no chão e continua a comer o hambúrguer.
O filme se torna especialmente violento.
HIPÓLITO assiste impassível.
Pega outra meia examina e descarta. Cata outra a examina e decide
por ela.
Ele põe o pênis dentro da meia e se masturba até gozar sem nenhum
tremor de prazer.
Tira a meia e a joga no chão.
Começa a comer outro hambúrguer.

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CENA 2
MÉDICO – Ele está deprimido.

FEDRA - Eu sei.

M - Ele precisa mudar de dieta. Não pode viver só de hambúrguer e manteiga de


amendoim.

F - Eu sei.

M - E lavar as roupas dele de vez em quando. Ele Fede.

F - Eu sei. Já disse isso pra você.

M - O que ele faz o dia inteiro?

F - Dorme.

M - Quando acorda?

F - Assiste uns filmes e faz sexo.

M - Ele costuma sair?

F - Não ele telefona pras pessoas elas vêm fazem sexo e vão.

M - Mulheres?

F - Hipólito não tem nada de gay.

M - Ele precisa arrumar o quarto dele e fazer algum exercício.

F - Minha mãe podia me dizer isso. Eu achei que você deveria ajudar.

M - Quem tem que se ajudar é ele.

F - Quanto nós pagamos a você?

M - Clinicamente, não há nada de errado. Se ele fica na cama até as quatro da


tarde e provável que ele esteja se sentindo mal. Ele precisa de algum ‘hobby’.

F - Ele tem alguns ‘hobbies’.

M - Ele faz sexo com você?

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F - Como?

M - Ele faz sexo com você?

F - Eu sou madrasta dele. Nos somos da Família Real

M - Eu não quero parecer grosseiro, mas quem são essas pessoas com quem ele
faz sexo? Ele paga a elas?

F - Na verdade eu não sei.

M - Deve pagar.

F - Ele é muito popular.

M - Porque?

F - Ele é divertido.

M - Você está apaixonada por ele?

F - Eu sou casada com o pai dele.

M - Ele tem amigos?

F - Ele é um príncipe.

M - Mas ele tem amigos?

F - Porque você não pergunta pra ele.

M - Já perguntei. Estou perguntando a você. Ele tem amigos?

F - Claro..

M - Quem?

F - Você realmente falou com ele?

M - Ele não disse muita coisa.

F - Eu sou amiga dele. Comigo ele conversa.

M - Sobre o que?

F - Tudo.

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M - (olha para ela)

F - Nós somos muito próximos.

M - É. Eu vejo. E o que você acha disso?

F - Eu acho que meu filho está doente. Eu acho que você deve ajudar. Eu acho
que depois de seis anos estudando e trinta de experiência o médico do palácio
deve dizer alguma coisa melhor do que ele tem que perder peso.

M - Quem está tomando conta das coisas enquanto o seu marido está longe?

F - Eu. Minha filha.

M - Quando ele volta?

F - Não tenho a menor idéia.

M - Você ainda está apaixonada por ele?

F - É Claro, eu não o vejo desde que nos casamos.

M - Você deve estar se sentindo só.

F - Eu tenho meus filhos.

M - Talvez o seu “filho” esteja sentindo falta do pai.

F - Duvido.

M - Talvez esteja sentindo falta da mãe verdadeira.

F - (olha para ele)

M - Não é nenhuma crítica sobre as suas habilidades de substituta,


contudo não há sangue entre vocês.
Estou apenas especulando.

F - Demais.

M - Apesar dele já ser bem grandinho para estar se sentindo um órfão


abandonado.

F - Eu não vim aqui em busca das suas especulações, vim em busca de um


diagnóstico e de um tratamento.

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M - Ele tem motivos para estar se sentindo mal , é o aniversário dele.

F - Ele já está assim há meses.

M - O caso dele não é médico.

F - Não é médico?

M - Ele só está muito desgostoso. Sendo portanto incurável.


Sinto muito.

F - Eu não sei o que fazer.

M - Tira ele da cabeça.

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CENA 3
STROFE está trabalhando.
Entra FEDRA.

STROFE- Mãe.

FEDRA- Sai daqui vai se fuder não me toca não fala comigo fica comigo.

S - Que que houve?

F - Nada. Nada.

S - Já até sei.

F - Você já sentiu, sentiu que o seu coração vai se espatifar?

S - Não.

F - Quis poder rasgar e abrir o seu peito pra acabar com a dor?

S - Isso ia matar você.

F - Isso tá me matando.

S. Não você só sente como se tivesse.

F - Uma lança do meu lado pegando fogo.

S - Hipólito.

F - (berra)

S - Você tá completamente apaixonada por ele.

F - (ri histérica) Do que que cê tá falando?

S - Obsessão.

F - Qui... !

S - (olha pra ela)

F - Tá tão obvio assim?

S - Eu sou sua filha.

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F - Você acha ele atraente?

S - Achava.

F - Porque não acha mais?

S - Eu conheci ele melhor.

F - Você não gosta dele?

S - Não muito.

F - Você não gosta do Hipólito?

S - Não.

F - Todo mundo gosta do Hipólito.

S - Eu moro com ele.

F - A casa é espaçosa.

S - Ele é espaçoso.

F - Vocês costumavam passar tanto tempo juntos.

S - Ele me esgota.

F - Você cansou do Hipólito?

S - Ele enche meu saco.

F - Enche o seu saco?

S - É enche, torra , explode, detona.

F - Porque? Todo mundo adora ele.

S - Eu sei.

F - Eu posso te dizer em que cômodo ele tá agora.

S - Ele nunca sai do quarto dele.

F - Posso sentir ele através das paredes. Na pele. Sentir o coração dele bater há
quilômetros.

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S - Porque você não arruma um amante. Tira ele da sua cabeça.

F - Tem uma coisa que existe entre nós, uma porra que se impõe aqui dentro.
Queima. E quando eu tô junto com ele o clima que fica entre nós dois. Você não
sente?

S - Não.

F - Eu quero possuir ele. Cada centímetro do corpo. Ficar junto com ele, até a
gente virar um só-

S - É pior do que eu pensava! Ele podia ser seu filho.

F - Eu faço o que ele quiser-

S - Isso é doença.

F - Ele não é meu filho.

S - Você é mulher do pai dele.

F - O pai dele não vai voltar tão cedo. Tá muito ocupado sendo inútil por aí.

S - Mãe se alguém desconfia-

F - Não consigo negar uma coisa assim desse tamanho.

S - Ele despreza quem dorme com ele. Trata que nem merda Eu já vi ele fazer
isso.

F - Eu não posso apagar, não posso sufocar isso que eu sinto. Não posso acordar
todo dia com isso me consumindo. Acho que eu vou explodir! Eu quero tanto ele.
Tanto! Eu converso muito com ele; ele conversa comigo. Você sabe, nós, nós
conhecemos muito bem um ao outro. Ele me conta umas coisas - nós somos
muito próximos - sobre sexo e o quanto isso deprime ele. E eu sei -

S - Não pensa que você pode curar ele.

F - Mas pensa bem, se fosse uma pessoa que te amasse, te amasse de verdade.

S - Ele é veneno puro.

F - Te amasse até que isso tomasse conta dos dois, incendiasse-

S - Amam ele. Todo mundo ama ele. E ele despreza todo mundo por causa disso.
Não vai ser diferente com você.

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F - Você pode imaginar sentir tamanho prazer.

S - Mãe. Sou eu. Strofe, sua filha. Olha pra mim. Por favor esquece isso.
Por mim

F - Por você?

S - Você não fala sobre mais nada. Você não trabalha mais. ELE é a única coisa
que te importa. Mas você não vê quem ele é.

F - Eu não falo dele tanto assim.

S - Não, porque a maior parte do tempo você TÁ com ele; até quando você não
TÁ com ele você TÁ com ele. E quando, às vezes, você se lembra que pariu a
mim e não a ele, você me fala sobre o quanto ELE tá doente.

F - Eu tô preocupada com ELE.

S - Você já disse isso. Vai num médico.

F - Ele-

S - Pra você, não pra ELE.

F - Não tem nada de errado comigo. Eu não sei o que fazer.

S - Fica longe dele. Vai atrás do Teseu. Vai trepar com outro. Custe isso o que
custar.

F - Não posso.

S - Você pode Ter qualquer homem que você queira.

F - Qualquer homem que eu queira menos o homem que eu quero.

S - Você já trepou com o mesmo cara mais de uma vez?

F - Isso não vem ao caso.

S - Mãe essa família já não sai das colunas sociais, das revistas de fofoca sem ter
nenhum escândalo-

F - É. Eu sei.

S - Esses repórteres...se algum desses abutres descobre...

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F - Eu sei. Eu sei.

S - Ia ser a desculpa que tá todo mundo esperando pra gente ser xingado e
linchado no meio da rua.

F - É, é, não. Você tem razão, sim.

S - Pensa no Teseu.
Por que que você casou com ele?

F - Não lembro.

S - Então pensa no meu pai. Que que ele ia achar disso?

F - Ele-

S - É!
Você não pode fazer isso. Não pode nem pensar nisso.

F - Não.

S - Ele é a maior roubada.

F - É, eu-

S - Ninguém deve ficar sabendo disso. Ninguém deve saber.

F - Você tem razão, eu-

S - Ninguém deve saber.

F - Não.

S - Nem mesmo o Hipólito.

F - Não.

S - O que você vai fazer.

F - Vou tirar ele da cabeça.

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CENA 4
HIPÓLITO está assistindo TV com o volume bem baixo e comendo. Ele está
brincando com um carro de controle remoto que corre por todo o quarto.
Seu olhar oscila entre o corro e a TV aparente mente sem ter prazer em nenhum
dois.
Ele come doces de dentro de um saco no seu colo.
FEDRA entra carregando presentes.
Ela fica olhando para ela alguns momentos.
Ele não olha para ela.
FEDRA avança mais para dentro do quarto.
Ela põe os presentes no chão e começa a arrumar o quarto – cata as meias e
cuecas e procura algum lugar para coloca-las, não encontra, então as põe de
volta no chão organizadas numa pilha. Cata os pacotes de bala e de batatas fritas
e joga na lata do lixo.
HIPÓLITO Assiste o tempo todo TV.
FEDRA acende uma luz mais forte.

HIPÓLITO - Quando foi a última vez que você fudeu?

FEDRA - Esse não é o tipo de pergunta que você deve fazer pra sua madrasta.

H - Sem ser com o Teseu. Ou você acha que ele tá na seca por aí.

F - Eu prefiro que você chame ele de pai.

H - Tá todo mundo atrás de uma pica famosa, um caralho da família real. então.
Eu que o diga.

F - O que que você tá assistindo

H - Ou de uma buceta famosa se você preferir.

F - (Não responde)

H - Notícias. Outro estupro. Criança assassinada. Guerra em algum lugar.


Milhares de desempregados. Mas nada disso interessa por que hoje é dia dum
aniversário “Real”.

F - Você não se choca não, é?

H - Eu não ligo.
(Silêncio. HIPÓLITO brinca com o seu carro)
São pra mim? Claro que são pra mim porra.

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F - As pessoas trouxeram até o portão. Eu acho que eles queriam era te entregar
pessoalmente. Tirar fotos.

H - Eles são pobres.

F - É. Não é charmoso?

H - Não é revoltante.(ele abre um presente)


Que porra eu vou fazer com isso?
Que que é isso (sacode um presente)
Se livra dessa merda dá pra alguém. Não preciso disso.

F - Isso é uma prova do carinho deles por você.

H - Bem menos que o ano passado.

F - E como é que cê tá indo de aniversário, bem?

H - Fora umas piranhas que arranharam meu carro...

F - Você não dirige ele.

H - Agora nem posso, tá todo arranhado. Prova do desprezo deles por mim.

(silêncio. Hipólito brinca com o seu carro)

F - Quem te deu isso?

H - Eu. É a única maneira de com certeza ter o que eu quero. Embrulhado e tudo.

(silêncio. A não ser a TV e o carro)

F - E você?

H - Eu?
Quer um doce?

F - Eu-
Não obrigada.
A última vez que você-
O que você me perguntou.

H - Fudi?

F - É.

H - Sei lá. A última vez que eu sai. Quando foi?

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F - Há meses.

H - É mesmo? Então não. Alguém veio aqui. Bolota. Tinha um cheiro esquisito. E
eu trepei com um cara no jardim.

F - Um homem?

H - Acho que sim. Parecia. Mas hoje em dia nunca se sabe.

(silêncio)

Me odeia agora?

F - Claro que não.

(silêncio)

H - Então cadê o meu presente?

F - Tô guardando pra depois.

H - Depois quando, ano que vem?

F - Não eu te dou mais tarde.

H - Quando?

F - Daqui a pouco.

H - Porque não agora?

F - Daqui a pouco. Prometo. Daqui a pouco.

Olham um para o outro em silêncio. HIPÓLITO tem um olhar perdido. Funga.


Cata uma meia no chão e a examina e a cheira.

F - Eca!

H - O que?

F - Assoando o nariz na meia.

H - Não, primeiro eu vi se eu não tinha limpado a minha porra com ela. E tava
lavada antes de eu calçar.
(silêncio.
Ele bate com o carro na parede)

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Que que há com você ?

F - Que que você quer dizer com isso?

H - Eu nasci nessa merda. Você casou com essa merda.


Ele é bom de cama? Deve ser a trepada do milênio!
Todos os homens desse país babando em volta da tua buceta e você escolhe logo
o Teseu. “O Homem que vive pro povo”, que não tem um minuto extra pra te dar
de atenção. Que furada, hein?

F - Você sempre só fala comigo sobre sexo.

H - É o meu interesse principal.

F - Eu achei que você odiasse.

H - Eu odeio as pessoas.

F - Elas não te odeiam.

H - Não. Elas compram essas merdas pra mim.

F - O que eu quero dizer é que-

H - Eu sei o que você quer dizer.


Você tem razão. As mulheres me acham muito mais atraente depois que eu
engordei. Elas acham que eu devo Ter algum motivo pra isso, algum segredo.
(ele assoa o nariz na meia e a joga no chão) Eu tô gordo, eu sou nojento, eu sou
desprezível mas eu tô sempre trepando. Portanto...
(ele olha para FEDRA. Ela não corresponde.)
Vamo lá, mamãe!-

F - Não me chama assim.

H - Portanto eu devo ser muito bom nisso! Né?

F - (não responde)

H - Me odeia agora?

F - Porque você quer que eu te odeie?

H - Num quero. Mas você vai. No final.

F - Nunca.

H - Todo mundo vai.

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F - Eu não.

(eles se encaram. HIPÓLITO olha para longe)

H - Porque você não vai conversar com a Strofe? Ela que é sua filha, não eu.
Porque toda essa preocupação comigo?

F - Eu te amo.

(silêncio)

H - Porque?

F - Você é difícil, temperamental, cínico, amargo, gordo, decadente, mimado. Fica


na cama o dia inteiro depois vê televisão a noite inteira. Fica vagando em volta
dessa casa com os olhos cheios de sono e sem pensar em ninguém. Você tá
sofrendo. Eu te adoro.

H - Isso não tem a menor lógica.

F - O amor não tem.

(HIPÓLITO e FEDRA se olham em silêncio. Ele volta pro seu corro)

Você já pensou em fazer sexo comigo?

H - Eu penso em “fazer sexo” com qualquer coisa.

F - Isso te faria feliz?

H - FELIZ não é bem a palavra.

F - Não maS -
Isso te agradaria?

H - Não. Nunca me agrada.

F - Então porque você faz?

H - A vida é Looonga demais. Demoora.

F - Acho que te agradaria. Comigo.

H - Pra algumas pessoas, eu acho que agrada; ter uma vida.

F - Você tem uma vida.

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H - Não. Tô só passando tempo. Esperando.

F - Por o que?

H - Num sei. Que aconteça alguma coisa.

F - Tá acontecendo.

H - Nunca acontece nada.

F - Agora.

H - Até então preenchi com... sei lá.

F - Preenche comigo.

H - Tem pessoas assim. Elas não tão só deixando o tempo passar, elas tão
vivendo. Felizes. Com um amor. Odeio elas.

F - Porque?

H - Felizes. Com um amor.


(Um longo silêncio)
Se a gente fuder, agente nunca mais vai conversar.

F - Eu não sou assim.

H - Eu sou.

F - Eu não

H - Claro que você é.


(eles se encaram)
F - Eu tô apaixonada por você.

H - Porque?

F - Você me excita, dá um frio na espinha.


(silêncio)
Quer o seu presente agora?

H - (Olha para ela. Depois volta para a TV)


(silêncio)

F - Eu não sei o que fazer.

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H - Vai embora.

Ambos assistem fixamente a TV.


Eventualmente, FEDRA passa na frente de HIPÓLITO.
Ele não olha para ela.
Ela abre as calças dele e faz sexo oral com ele.
Ele assiste a TV e come seus doces durante todo o tempo.
Ele faz um som como se fosse gozar.
FEDRA começa a levantar a cabeça - ele a segura e goza na boca dela, sem
tirar os olhos da TV.
Ele solta a cabeça dela.
FEDRA senta e olha para a TV.
Um longo silêncio, quebrado pelo barulho do pacote de doces de HIPÓLITO.
FEDRA chora.

H - E aí. Acabou o mistério.

(silêncio)

F - Você vai Ficar com ciúmes?

H - De que?

F - Quando o seu pai voltar?

H - Que que eu tenho a ver com isso?

F - Eu nunca fui infiel antes.

H - É, isso dá pra perceber.

F - Desculpa.

H - Já tive piores.

F - Só fiz isso porque eu tô apaixonada por você.

H - Pára. Que saco!

F - Eu quero muito que isso aconteça de novo.

H - Quer nada!

F - Quero.

H - Pra que? Porque?

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F - Prazer.

H - Você gostou disso?!


(silêncio.)
Não. Você odiou isso tanto quanto você me odeia. Se você admitisse.

F - Eu queria ter visto o seu rosto quando você gozou.

H - Por que?

F - Eu queria te ver fora de si.

H - Não é uma visão nada agradável.

F - Porque, com o que você parece?

H - Com qualquer outro idiota fudendo.

F - Eu te amo.

H - Não.

F - Tanto.

H - Você nem me conhece.

F - Eu quero que você me faça gozar.

H - Olha, eu não costumo ficar de papo furado pós -coito. Nunca se tem nada pra
dizer.

F - Eu quero você-

H - Eu não tenho nada a ver com isso.

F - Eu sei.

H - Vai fuder com outro e imagina que sou eu. Não ia ser difícil, todo o mundo é
igualzinho quando goza.

F - Não quando te incendeia.

H - Ninguém me incendeia.

F - E aquela mulher?

H - Qual?

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F - Lena, vocês não eram –

(HIPÓLITO agarra FEDRA pelo pescoço)

H - Nunca mais fala dela.


Não diz o nome dela pra mim, não se refere a ela, nem mesmo pensa nela.
Entendeu? Entendeu?

F - (concorda)

H - NINGUEM me incendeia, filha da puta NENHUMA mexe comigo. Então nem


tenta. (ele solta ela. silêncio.)

F - Por que você faz sexo se odeia tanto?

H - Tédio.

F - Eu pensei que você fosse tido como bom nisso. Todo mundo é tão
decepcionante assim?

H - Não. Quando eu tento, não.

F - Quando você tenta?

H - Não tento mais.

F - Porque não?

H - Enchi o saco.

F - Você é que nem o seu pai. Sabia?

H - Sua filha também disse isso.

(um tapa, FEDRA dá uma bofetada com toda a força na cara dele.)

Ela é menos passional, mas tem muito mais prática. Sou sempre a favor da
técnica.

F - Você fez ela gozar?

H - Fiz.

F - (abre a boca pra falar mas não consegue.)

H - Morreu. Se liga. Não vai acontecer de novo.

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F - Por que não?

H - Essa estória não tem nada a ver comigo. Nunca teve.

F - Você não pode me fazer parar de amar você.

H - Posso sim.

F - Não. Você tá vivo.

H - Acorda.

F - Você me incendeia.

H - Já me teve, num foi? Vai fuder com outro.

(silêncio)

F - Vou te ver de novo?

H - Você sabe onde me encontrar.


(silêncio)
Posso ter o meu presente agora?

F - (abre a boca mas momentaneamente não encontra palavras; então)


Você é um filho da puta insensível.

H - Isso aí.

(FEDRA vai saindo)

Fedra.

F - (olha pra ele)

H - Vai num médico. Eu tô com gonorréia.

F - (abre a boca. não sai som nenhum)

H - Me odeia agora?

F - (tenta falar. longo silêncio.)


Não.
Porque você me odeia?

H - Porque você se odeia.


FEDRA sai.

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CENA 5
HIPÓLITO está de pé em frente a um espelho com a língua de fora.
Entra STROFE.

STROFE- Se esconde.

HIPÓLITO- Caralho, minha língua tá verde!

S - Se esconde.

(Hipólito vira para ela e mostra a língua)

H - É limo, porra! Tá cheio de pleurococcus na minha língua. Parece o topo de um


muro.

S - HIPÓLITO.

H - Se eu mostrar prum tronco num pântano ele vai querer trepar comigo.

S - Você já olhou lá pra fora?

H - (cheira o próprio hálito e desaprova) Humm, eca!

S - Olha.

H - Não te vejo há um tempão, como é que cê tá?

S - OLHA LÁ PRA FORA.

H - Você nunca lembra que a gente mora na mesma casa.

S - Se esconde porra.

H - Porque o que que eu fiz?

S - Minha mãe tá acusando você de estupro.

H - Ah tá .Que excitante.

S - Num tô brincando porra!

H - É, tô vendo.

S - Você fez isso?

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H - O que?

S - Você estuprou ela?

H - Num sei. O que que isso quer dizer?

S - Você FEZ SEXO com ela?

H - Ah.
Isso importa?

S - Isso importa?

H - Isso importa.

S - Importa.

H - Porque?

S - Porque?!

H - É Porque e eu gostaria muito que você não repetisse tudo que eu digo.
Porque?

S - Tamo falando da minha mãe!

H - E daí?

S - Minha mãe diz que foi estuprada.


Ela diz que você estuprou ela.
Eu quero saber se você fez sexo com a minha mãe.

H - Porque ela é sua mãe ou pelo que as pessoas vão dizer?

S - Porque ela é minha mãe.

H - Porque ela é sua mãe.

S - Você fez sexo com ela?

H - Acho que não.

S - Você teve algum contato sexual com a minha mãe?

H - CONTATO SEXUAL?!

S - Você sabe exatamente o que eu quero dizer.

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H - Num fode Strofe!

S - Ela quis fazer isso?

H - Você devia ser advogada, hein.

S - Você trepou com ela?

H - Qual é a tua?

S - Você forçou ela?

H - Eu forcei você?

S - Num interessa o que você fez comigo.

H - Então ela diz que o que rolou foi estupro.


Eu, um estuprador. As coisas tão melhorando!

S - Hipólito.

H - Até que pelo menos não é chato.

S - Vão te linchar por isso.

H - Você acha?

S - E se você fez isso eu vou ajudar eles.

H - Claro aí não é mais a minha “irmã” . Passa a ser uma de minhas vítimas.

S - Mas se você não fez, eu vou ficar do seu lado.

H - Dum estuprador?

S - Vou sofrer as conseqüências com você.

H - Porque?

S - Por causa da nossa família.

H - Ah.

S - Você é meu irmão.

H - Não. Eu não sou.

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S - Pra mim é.

H - Que estranho. A pessoa que tem menos ligação de sangue com essa família é
a que mais se preocupa com ela.

S - Eu morro por essa família.

H - É. É provável.
Eu contei pra ela sobre nós dois.

S - Você o que?

H - E eu disse também que você teve com o marido dela.

S - O que?

H - Eu não disse que você fudeu com ele na noite de núpcias deles, mas como ele
partiu no dia seguinte...

S - Mãe.

H - (começa a falar no telefone) Alo. Eu sou um estuprador, agora um estuprador!


O que? É. Melhor do que um gordo que só sabe trepar.

S - Você tá rindo?

H - Tô.

S - Você é um filho da puta insensível, sabia?

H - Já me disseram isso.

S - Culpa sua.

H - Claro.

S - Ela era minha mãe, Hipólito, minha mãe.

H - (olha para ela)

S - Ela tá morta seu filho da puta de merda.

H - Deixa de ser idiota!

S - Tá.
O que que cê fez com ela, que que cê fez porra?

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STROFE avança em cima dele.
HIPÓLITO segura os braços dela impedindo que
ela bata nele.
STROFE chora e soluça muito, ela geme descontroladamente.

S - O que foi que eu fiz. O que foi que eu fiz.

A ação de HIPÓLITO se converte num abraço.

H - Não foi você Strofe. A culpa não é sua.

S - Eu nunca nem disse que eu amava ela.

H - Ela sabia.

S - Não.

H - Ela era tua mãe.

S - Ela-

H - Ela sabia. Ela sabia, ela te amava.


Você não tem do que se culpar.

S - Você contou pra ela sobre nós.

H - Então me culpa.

S - Você contou pra ela sobre mim e o Teseu.

H - É. Me culpa.

S - Você-

H - Eu. Eu. Me culpa.

(Longo silêncio. HIPÓLITO e STROFE se abraçam)

Como foi?

S - Enforcada.

(silêncio.)

Morreu dizendo que você estuprou ela.

Longo silêncio.

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H - Ela não devia ter levado isso tão a sério.

S - Ela te amava.

H - (olha para ela) Amava?

S - Me diz que você não fez isso.

H - Ela disse que eu fiz e ela tá morta. Acredita nela.

S - O que que há de errado com você?

H - Esse é o presente dela pra mim.

S - O que?

H - Nem todo mundo tem uma chance dessas.


Não é na vida de qualquer um que acontece- aconteceu alguma coisa.
Aconteceu.

S - Nega isso. Tem gente aí fora querendo acabar com você-

H - A vida e a última coisa que me importa.

S - - incendiar o palácio. Você tem que negar.

H - Você tá louca? Ela morreu dizendo isso.


Eu fracassei. Tô perdido.

S - Nega.

H - Ferrado.

S - Por mim. Nega.

H - Não.

S - Você não é um estuprador. Eu não posso acreditar nisso.

H - Nem eu.

S - Por favor.

H - Acabou.

S - Eu ajudo você a se esconder.

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H - Ela me amava de verdade.

S - Você não fez isso.

H - Descanse em paz.

S - Você fez?

H - Não. Eu não fiz.

(ele começa a se retirar)

S - Aonde você tá indo?

H - Tô indo pra cama.

Ele sai.
STROFE senta sozinha por alguns momentos pensando.
Ela levanta e o segue.

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CENA 6
Uma cela de cadeia. HIPÓLITO sentado sozinho entra um SACERDOTE.

SACERDOTE - Meu filho.

HIPÓLITO -- Sempre suspeitei que o mundo não cheirava a tinta fresca e flores.

SC - Eu devo poder te ajudar.

H - Mijo e suor. Bem menos agradável.

SC - Filho-

H - Você não é meu pai. Ele não vai vir aqui.

SC - Há alguma coisa que você precise?

H - Uma cela individual.

SC - Eu posso te ajudar.

H - Não preciso de ajuda.

SC - Espiritualmente.

H - Eu tô acima disso tudo.

SC - Ninguém está acima da redenção.

H - Não tenho nada a confessar.

SC - Sua irmã contou para nóS -

H - Nós quem cara pálida ?

SC - Ela explicou a situação para MIM.

H - Ela não é minha irmã.


Admitir tudo bem. Agora confessar não.
Eu admito o estupro.
Eu fiz isso.

SC - Você Não sente remorsos?

H - Você vai prestar depoimento?

SC - Depende. Se você fizer uma confissão, não. Você confessa?

H - Não remorso não. Na verdade eu tô feliz.

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SC - Com a morte de sua mãe.

H - Suicídio. Ela não era minha mãe.

SC - Você se sente feliz com o suicídio de sua madrasta?

H - Não. Ela era um ser humano.

SC - Então porque você se sente feliz?

H - Aqui dentro.

SC - É difícil de acreditar nisso.

H - Pra você claro que é. Você acha que a vida só tem sentido se a gente tiver alguém pra
nos torturar.

SC - Eu não tenho ninguém pra me torturar.

H - Você tem o pior amante de todos. Ele não só ACHA que é perfeito, ele É.
Eu tô satisfeito sozinho.

SC - Satisfação pessoal é, em termos, uma contradição.

H - EU posso contar COMIGO. Eu nunca desaponto a mim mesmo.

SC - A satisfação verdadeira vem do amor.

H - E Quando o amor acaba? Toca um despertador e diz que é hora de acordar, e aí?

SC - O amor nunca morre. Ele evolui.

H - Você é PE-RI-GO-SO!

SC - Evolui dentro do respeito, consideração.


Você já levou em consideração a sua família?

H - O que é que tem ela.

SC - Não é uma família comum.

H - Não. É verdade. Nenhum de nós é parente do outro.

SC - A realeza é escolha. Por vocês serem mais privilegiados que a maioria vocês
também são mais vulneráveis a culpa. DeuS -

H - Não existe Deus. Não. Existe Deus.

SC - Talvez você descubra que existe. O que você vai fazer então? Não há
arrependimento na próxima vida. Só nessa.

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H - O que que você sugere? Uma conversão de última hora por acaso? Morrer como se
houvesse um Deus sabendo que não há? Não se existe um Deus, Eu prefiro olhar ele na
cara sabendo que eu morri como eu vivi. Em pecado consciente.

SC - Hipólito.

H - Eu tenho certeza que Deus deve ser inteligente o bastante pra enxergar além de
qualquer confissão minha de última hora.

SC - Você sabe o que é um Pecado Mortal.

H - Claro.

SC - Você está correndo o risco de cometer um.


Não é só a sua alma que está em jogo, é o futuro de sua família-

H - Ah.

SC - Seu país.

H - Porque será que eu sempre me esqueço disso?

SC - Suas indiscrições sexuais não devem ser do interesse de ninguém. Mas a


estabilidade da moral da Nação é. Você é um guardião dessa moral. Você vai responder a
Deus pela ruína do país e levar a sua família junto.

H - Pepepepeperái! Eu não sou o responsável disso não!

SC - Então NEGUE o estupro.


E CONFESSE esse pecado agora.

H - Antes de eu ter cometido?

SC - Depois, será tarde demais.

H - Ah. A natureza do pecado pressupõe a CONFISSÃO.


Eu poderia confessar se eu quisesse. Eu não quero.
ESSE é o PECADO, certo?

SC - Ainda não é tarde demais.

H - Certo.

SC - Deus é piedoso. Ele te escolheu.

H - Péssima escolha.

SC - Reze comigo. Salve-se. E o seu país também. Não cometa esse pecado.

30
H - O que que lhe incomoda mais, a destruição da minha alma ou o fim da minha família?
Eu não tô correndo o risco de cometer um Pecado Mortal. Eu já cometi.

SC - Não diga isso.

H - Foda-se Deus. Fodam -se os poderosos.

SC - Senhor ignore o que diz esse homem por vós escolhido. Perdoe o pecado que vem
da inteligência com a qual o Senhor o abençoou.

H - Eu não posso pecar contra um Deus que eu não acredito.

SC - Não.

H - Um Deus não existente não pode perdoar.

SC - Não você deve se perdoar!

H - Eu vivi na honestidade. Me deixa morre nela.

SC - Se a VERDADE é sua prioridade Você vai morrer.


Se a VIDA é a sua prioridade...

H - Eu escolhi o meu caminho.


Eu tô destruído nessa porra. Acabou.

SC - Não.

Me deixa morrer.

SC - Não. Perdoe a si mesmo.

H - (pensa profundamente) Não posso.

SC - Porque não?

H - Você acredita em Deus?

SC - (olha para ele)

H - Eu sei o que eu sou e o que eu vou ser sempre. Mas e você? Você peca sabendo que
vai confessar. Então você é perdoado. E aí você começa tudo de novo como se nada
tivesse acontecido. Como você ousa zombar do seu Deus tão poderoso, onipotente,
onisciente, se ele tudo vê porque que é preciso então confessar? A menos que você não
acredite nele de verdade.

SC - Essa confissão é sua. Não minha.

H - Então porque você tá de joelhos? Deus certamente é PIEDOSO. Se eu fosse ele eu


desprezaria você. Apagaria você da face da terra pela sua "honestidade".

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SC - Você não é Deus.

H - Não? Não. Sou um príncipe. Um deus na terra mas não Deus. Felizmente respeitado
por todos. Eu não permitiria que vocês pecassem sabendo que iam confessar e ficar
livres.

SC - O céu estaria vazio.

H - Um reino de homem honestos, pecando honestamente e a morte par aqueles que não
CONFESSAREM.

SC - O que você acha que é o perdão?

H - Isso deve ser o suficiente pra você. Mas eu não tenho a intenção de fingir, e brincar de
"confissãozinha". Se eu matei uma mulher e vou ser punido por isso, pelos HIPÓCRITAS
que eu deveria levar junto comigo. Nós todos deviamos queimar no inferno. Deus pode
ser todo poderoso, mas tem uma coisa que ele não pode fazer.

SC - Existe um tipo de pureza em você.

H - Ele não pode me tornar bom.

SC - Não.

H - Última linha de defesa para o homem honesto.


Livre arbítrio é o que nos distingue dos animais.

(ele E abre tira as calças)

Eu não tenho a intenção de me comportar como um animal de merda.

SC - (pratica sexo oral em HIPÓLITO)

H - Leva isso com você


(ele goza.
Pousa a mão no alto da cabeça do SACERDOTE)
Vai.
Confessa.
Antes que você queime.

32
CENA 7
O corpo de FEDRA jaz junto de uma pira funeral, coberto.
Entra TESEU.
Ele se aproxima do corpo.
Levanta a coberta e olha para rosto de FEDRA.
Deixa a coberta cair.
Ele se ajoelha perto do corpo de FEDRA.
Ele se esfrega nas roupas dela - rasga-as - depois a pele, depois cabelos, cada
vez mais freneticamente até ficar exausto.
Mas ele não chora.
Ele fica de pé e acende a pira funeral.
FEDRA se vai em chamas.

TESEU – Eu mato ele.

33
CENA 8
Do lado de fora da corte.

Uma multidão de homens, mulheres e crianças amontoados, inclusive TESEU e


STROFE ambos disfarçados.

TESEU- Veio de longe?

HOMEM 1- Vim.

MULHER 1- Trouxe as crianças.

CRIANÇA - E uma churrasqueira.

H 1- Ele tem que ser enforcado.

MULHER 2- Desgraçado.

H 1- Lá dentro é tudo a mesma porra . Tudo farinha do mesmo saco.

M 1- No poder só tem filho da puta.

H 1- O que que eles acham que a gente é?

M 1- Parasitas!

HOMEM 2- E a gente ainda sus tenta esse estuprador miserável.

H 1- Nunca mais.

H 2- Eles não são porra nenhuma.

M 1- Currou a própria mãe.

H 2- Ela era a única que prestava.

TESEU- Ele vai vir.

H 2- E eu vou tá esperando na porra do portão.

H 1- E não vai ser o único.

M 1- Ele ainda assumiu a culpa.

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STROFE- Isso não quer dizer nada.

M 2- Filho da puta.

T - O poder vai ficar do lado dele:


-"Desculpe sua alteza, leia a bíblia todos os dias e nunca mais faça isso;
caso encerrado. Eles não vão prender um príncipe. Pelo que quer que ele
tenha feito.

H 2- Você tá certo.

H 1- Não existe justiça nessa terra.

T - Membros da família real?


Coroa contra coroa?
Eles não são bestas.

H 1- Merda da grossa. E isso que todos eles são.

H 2- ELA era boa.

H 1- Ela tá morta.

T - Mas quem fez esse absurdo foi o príncipe. Ele é quem tem que pagar. Não
podemos culpar a família toda pelos atos desse príncipe irresponsável.

H 2- Você tá certo.

T - Eles podem ser prepotentes, arrogantes, omissos; culpados de muitas outras


coisas. Mas o único que foi capaz de uma barbaridade dessas foi o príncipe.
Nesse caso ele que é o culpado.

H 2- É isso aí, isso aí.

T - Depois nós pensamos nos outros, agora vamos nos concentrar em punir esse
sujeito que tá sujando o nome da família e da nossa terra.

H 1- Quem ele acha que é hein?

H 2- Justiça pra todos.

M 1- Ele deve morrer.

H 2- Tem que morrer.

H 1- Em consideração a gente.

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H 2- E a ela.

M 1- Ele não merece viver. Eu tenho filhos.

H 1- Todos nós temos filhos.

M 1- Você tem filhos?

T - Não tenho mais.

M 2- Ah coitado!

H 2- Mas então, mesmo assim ele sabe do que nós estamos falando.

H 1- Gentinha tem que morrer.

M 1- Lá vem ele!

M 2- Miserável.

HIPÓLITO entra escoltado por 2 policiais. Enquanto passa o povo grita, xinga,
atira pedras

M 2- Desgraçado!

H 1- Morre filho da puta!

M 1- Queima no inferno miserável!

H 2- Príncipe estuprador desgraçado!

HIPÓLITO escapa dos policiais que lhe seguram e se atira na multidão.


Ele cai nos braços de TESEU

H 1- Mata ele. Acaba com o lixo da família Real.

Hipólito olha para o rosto de TESEU.

H - Você.

TESEU hesita, então o beija nos lábios e o empurra para os braços do


HOMEM 2.

T - Matem -no.

HOMEM 2 segura HIPÓLITO.

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HOMEM 1 pega uma corda do pescoço de uma criança e põe em volta do
pescoço de HIPÓLITO, ele começa a Enforcar HIPÓLITO que é chutado pela
MULHER 1 até ficar semi-consciente.
MULHER 2 tira uma faca

S - Não! Não! Num machuquem ele! Não matem ele!

H 1- Olha só ela! Escutem!

H 2- Defendendo um desnaturado.

M 1- Que tipo de mulher é você?

T - Defendendo um estuprador.

TESEU puxa STROFE da MULHER 2 com a qual ela está atracada.


Ele a estupra.
O povo assiste e aplaude grita e torce.
Quando TESEU termina corta a garganta dela.

S - Teseu.
Hipólito.
Inocente.
Mãe. Ah Mãe.

Ela morre.
A MULHER 1 arria as calças de HIPÓLITO.
A MULHER 2 corta seus genitais fora.
Eles são atirados na churrasqueira.
As crianças comemoram.
Uma criança os tira da churrasqueira e os joga em cima de outra criança, que grita
e sai correndo.
Muitos risos.
Alguém os recupera e eles são atirados para um cachorro.
TESEU pega a faca.
Ele corta HIPÓLITO da virilha até o peito.
As tripas de HIPÓLITO são arrancadas e atiradas na churrasqueira.
Ele é chutado, apedrejado e xingado.
HIPÓLITO olha para o corpo de STROFE.

H – Strofe.

T – Strofe.

TESEU olha bem de perto para a mulher que ele estuprou e assassinou.
Ele a reconhece com horror.

37
Quando HIPÓLITO está completamente imóvel, a polícia que estava assistindo
invade a multidão, batendo neles aleatoriamente.
A multidão dispersa com exceção de TESEU.
Dois Policiais ficam de pé olhando para HIPÓLITO.

H - Pena que não vou ter mais momentos como esse.

POLICIAL 1- Pobre diabo.

POLICIAL 2 – Tá brincando?

(Ele chuta HIPÓLITO com força)

Eu tenho duas filhas.

POLICIAL 1 – Temos que tirar ele daí.

POLICIAL 2 – Deixa ele apodrecer.

POLICIAL 2 cospe em HIPÓLITO.


HIPÓLITO está imóvel.
TESEU está sentado perto do corpo de SOFIA

T – HIPÓLITO.
Filho
Eu nunca gostei de você.

(Para SOFIA)

Me desculpa.
Não sabia que era você.
Deus me perdoe, eu não sabia.
Se eu soubesse que era você eu nunca teria –

(Para HIPÓLITO.)

Você me ouviu, eu não sabia.

TESEU corta a própria garganta e sangra até morrer.


Os três corpos jazem completamente paralizados.
Eventualmente HIPÓLITO abre os olhos e olha para o céu.

H – Urubus.
(Esboça um sorriso)
Se pudessem haver mais momentos como esse.

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HIPÓLITO morre.
Um urubu pousa e começa a comer seu corpo

FIM

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