Você está na página 1de 4

“António de Andrade e as Cartas do

Tibete”

A História têm tendência a perder-se na memória dos povos. Quando tal


acontece e nem mesmo os mais eruditos se lembram, perdidos na teia de Clio, caberá
aos aprendizes do ofício zelar para que a História perdure e não seja obliterada.
Vem isto a propósito de António de Andrade e seu «Novo descobrimento do
Gran Cathayo ou Reynos de Tibet» . Frade jesuíta nascido em Oleiros, corria o ano de
1580, ingressou na dita ordem em 1596.
Vinte anos, jovem imberbe, partiu em
1600 para a Índia, na armada do vice-rei
Aires de Saldanha, juntamente com
dezanove companheiros: doze deles
portugueses, outros sete da Itália. Termina
em Goa a sua formação religiosa, onde
chega a ser reitor do colégio de S. Paulo e
mestre de noviços. Posteriormente é
enviado como superior e visitador à
Missão do Grão-Mogol. Exercendo essas
funções em Agra, no mês de Maio de
1624, com o objectivo de averiguar as
notícias, havia anos espalhadas, acerca do
Tibete, decide encetar a jornada em forma
de aventura ao dito território. Cabe-lhe,
pasmem-se, a glória de ter sido o primeiro
europeu a atravessar o Himalaia, bem
como a descobrir o ramo principal das Padre António de Andrade
nascentes do Ganges. É Andrade que nos Academia de Ciências de Lisboa
descreve, pela sua pena, a jornada:
«caminhando até ao alto de todas as serras donde nasce o rio Ganges de um grande
lago, do qual também nasce outro rio que rega as terras de Tibet». Em Agosto, do dito
ano, havia atingido o reino de Guge e será precisamente em Chaparangue
(Tsanparang), a capital, onde com a devida autorização do rei estabelece a primeira
missão cristã no Tibete.
Ainda nesse mesmo ano regressa a Agra. Daí envia uma carta ao seu superior
com o sugestivo título de «Novo descobrimento do Gran Cathayo ou Reinos de Tibet,
pelo padre António de Andrade da Companhia de Jesu, Portuguez, no anno de 1624».
Na época a carta seria entusiasticamente recebida no velho continente, tendo sido
publicada precisamente em Lisboa, em 1626. Nos anos seguintes aparecem novas
edições espanholas em Madrid e a carta foi rapidamente sido traduzida para francês,
italiano, alemão, latim e polaco.
No ano seguinte, encontramos de novo António de Andrade na corte do rei de
Guge, expandindo a fé cristã. É discutível que o rei e a sua corte se tenham ou não
baptizado e adoptado o credo do padre jesuíta. Certeza temos, contudo, que a acontecer
tal conversão se teria processado apenas nesta segunda viagem do missionário. Livre,
no entanto, para pregar a sua fé, o frade jesuíta lança as bases duma missão que
03/02/2002 - Santarém

subsistiria à sua morte e constituiu um dos principais focos de cristianismo no interior


da Ásia Central. Chamado para o cargo de provincial da ordem de Jesus, no ano de
1629, é assim forçado a regressar a Goa, onde se mantêm nessas funções durante três
anos. Lamentavelmente, quando se preparava para regressar ao reino de Guge, foi
assassinado, segundo alguns, pelos judeus de Goa, corria o ano de 1634. Isto porque
Andrade era também deputado do Santo Ofício. Curiosamente no dia da sua morte iria
presidir a um auto-de-fé.
Apesar de na época em que viveu as suas descobertas terem tido eco no velho
mundo, hoje em dia estão praticamente votadas ao esquecimento quer as viagens, quer
as cartas de António de Andrade. A ele foi lhe dada a conhecer uma sociedade única
perdida por detrás “das mais altas serras
que parece haver no mundo”, que cedo se
modificaria, transformando-se no Tibete
dos lamas, com a fundação de Lhasa pelo
quinto Dai-Lai-Lama em 1640. Foram
três as cartas de António de Andrade
escritas à cerca da sua jornada através do
Himalaia e até ao coração da Ásia
Central. No entanto, lacuna por demais
evidente respeita aos estudos históricos
sobre a vida do frade jesuíta e, como é
óbvio, à reedição das suas cartas.
Surgem, primeiramente, na obra padre
António Franco, “Imagem da Virtude do
Noviciado da Ordem de Jesus de Lisboa
e Évora”, onde são transcritas as cartas
de Andrade, publicado em Coimbra, mas
que remonta a 1717. Posteriormente
encontrá-las-emos, de novo, num estudo
de Francisco Maria Esteves Pereira,
publicado em 1921 pela Academia de
Ciências de Lisboa, também em Coimbra.
Mulher nómada do Tibete ocidental
Mais recentemente, as cartas de Andrade
© Inge Bollen
surgiram num pequeno volume, com
introdução de Neves Águas, publicado pela
Europa-América em 1988 e, também, no oitavo volume da colecção “Biblioteca da
Expansão Portuguesa”, dirigida por Luís de Albuquerque. De salientar como referência
bibliográfica C. Wessels, “Early Jesuits Travellers in Central Asia (1603 – 1721)”, o
capítulo sobre António de Andrade teve uma tradução portuguesa da Sociedade de
Geografia de Lisboa, em 1912. Estas edições que não preenchem lacunas
bibliográficas, nem tornam, por já praticamente esgotadas, acessíveis, à generalidade do
público, as cartas de António de Andrade. Urge, portanto, uma reedição das mesmas,
acompanhada de um estudo histórico que se centre na repercussão da viagem de
Andrade e da introdução do cristianismo no actual Tibete. Não fosse somente o
compromisso que temos para com a memória dos povos, a pertinência desse estudo é
reforçada pela situação política que actualmente se vive nas terras “ do Gran Chatayo
ou reynos de Tibet”.

© José Miguel Raimundo Noras,


aluno de História, FLUC

II
03/02/2002 - Santarém

Itinerário da 1ª viagem de António de


Andrade in “Andrade, António”, por P.ª Acácio
Casimiro in Enciclopédia luso-brasileira de
Cultura, 1980

Fontes:
Obras que incluem as cartas de Andrade

ÁGUAS, Neves – introdução e notas a «Viagens na Ásia Central em demanda do Cataio: Bento
de Goes e António de Andrade», pp. 67 a 127, col. “Aventura Portugues” Publicações Europa América,
Mem Martins, 1988

«Notícias da China e do Tibete», dir. de Luís de Albuquerque, transcrição .em português actual
Rui Loureiro e Maria da Graça Pericão .- Alfa, col. Biblioteca da Expansão Portuguesa, nº . - Contém:
cartas dos cativos de Cantão: Cristóvão Vieira e Vasco Calvo(1524). O descobrimento do Tibete/ pelo
Padre António de Andrade

PEREIRA, Francisco Maria Esteves – «O Descobrimento do Tibet pelo P. António de Andrade


Da Companhia de Jesus, em 1624, Narrado em duas cartas do mesmo religioso», Academia das Ciências
de Lisboa, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1921

Bibliografia

«Andrade, António de» in “O Grande Livro dos Portugueses”, pp. 45, coordenação Manuel
Alves de Oliveira, Círculo de Leitores, Lisboa, 1992

BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti “História da Expansão Portuguesa”, “Os


limites da expansão asiática – O interior do continente”, vol. 2, pp. 23, 417, 476, Círculo de Leitores,
1998

III
03/02/2002 - Santarém

CASIMIRO, P.ª Acácio – «Andrade, António de», in Enciclopédia luso-brasileira de Cultura,


vol. 2, pp. 190 a 191, Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 1980

MACHADO, José Pedro - «Por mares nunca dantes navegados» in “Ensaios Histórico-
linguísticos”, pp. 150, Editorial Notícias, Lisboa, 1996

PEREIRA, Francisco Maria Esteves – «O Descobrimento do Tibet pelo P. António de Andrade


Da Companhia de Jesus, em 1624, Narrado em duas cartas do mesmo religioso – Estudo Histórico»,
Academia das Ciências de Lisboa, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1921

RIBEIRO, Aquilino – «O Padre António de Andrade, escalador do Himalaia e descobridor do


Tibete» in “Portugueses das Sete Partidas - (viajantes, aventureiros, troca-tintas)”, pp. 249 a 290,
Livraria Bertrand, Lisboa, 1969, (6ª edição, 1992)

TAYLOR, Chris - «Tibet – a Lonely Planet travel survival kit», Lonely Planet
Publications, 3rd edition, Hong Kong, 1995

WESSELS, C. - «Antonio de Andrade: S.J. viajante no Himalaia e no Tibete (1624-1630)


traduzido do hollandez original por A.R. Gonçalves Viana» - Sociedade Geográfica de Lisboa, Typ.
Cesar Piloto, Lisboa 1912

WESSELS, C. s. j. - «Early Jesuit travellers in central Asia (1603 1721)», chapter II “Antonio
de Andrade” pp. 43 a 68; chapter III “The Tsaparang Mission” pp. 69 a 91, Haia, 1924

IV