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Cult 16, Stephane Mallarme, Nov de 1998

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REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

03 Notas 04 Entrevistafala de Vik Muniz
Lalo de Almeida/Folha Imagem

34 Fortuna Crítica 5 Quinto ensaio da série
Stéphane Mallarmé em montagem a partir de ilustração de Cárcamo

discute o desconstrutivismo

seus ilusionismos da representação

38 TurismodaLiterário berço A região Provença,
do trovadorismo francês

14

Crítica

Nos 50 anos de Israel, J. Guinsburg analisa a literatura hebraica contemporânea

43 Capa/Dossiê Cem anos sem Stéphane

Mallarmé, homenageado por Manuel Bandeira em texto de 1942

21

Criação

Conto de Lizete Mercadante Machado

64 Do Leitore e-mails Cartas, fax
leitores da CULT

dos

O artista plástico Vik Muniz

de João Alexandre Barbosa sobre Conhecimento proibido, do crítico Roger Shattuck

10 13

Biblioteca Imaginária

Lista das melhores obras em língua inglesa abre debate sobre o cânone do século

30 Leituras CULT os Os destaques entre
lançamentos de livros

Na ponta da língua
As inquietantes e polêmicas flexões do infinitivo verbal

31

Memória em Revista

Excertos de O Brasil continua..., livro de Álvaro Moreira publicado em 1933

O poeta Manuel Bandeira em foto da década de 40
novembro/98 - CULT 1

Reprodução

24 Ensaio parte do texto A segunda

Uma série de coincidências norteia o Dossiê desta edição da
REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA NÚMERO 16 - NOVEMBRO DE 1998

CULT. Ou talvez seja mais apropriado falar em acaso para dar conta das efemérides aqui reunidas: há cem anos, em setembro de 1898, morria Stéphane Mallarmé; há trinta, em outubro de 1968, perdíamos Manuel Bandeira. Os dois poetas, é claro, nunca se conheceram, mas a prosa envolvente de Bandeira dedicou a Mallarmé uma homenagem em forma de conferência, proferida em 1942, ano do centenário de nascimento do poeta francês. É esse texto que a CULT publica no Dossiê, unindo as pontas dos dois centenários mallarmaicos. A trajetória de Mallarmé é uma das mais singulares da história da literatura. Começa pelos primeiros sonetos parnasianos, passa pela fase simbolista e culmina na dilaceração da “visão horrível da obra pura”. A busca do Absoluto, da “obra pura” como uma espécie de religiosidade secular, levou Mallarmé ao que já foi considerado um fracasso de realização poética, Un coup de dés, e aos inúmeros textos inacabados (dentre os quais está Épouser la notion, que a CULT publica nesta edição, com tradução inédita de Júlio Castañon Guimarães). O “fracasso” do Lance de dados, porém, revelou-se profético com relação aos rumos da criação não só literária, mas artística como um todo, no século XX. Mallarmé encarnou (e antecipou) dilemas e novas possibilidades hoje tão próximos: crise do discurso e do alcance da linguagem, conjugação entre palavra e imagem, deslocamento do contexto, interferência dos meios e conseqüente incorporação do acaso e do processo no fazer artístico, dissolução dos limites de gênero – o que se afigurava como uma crise, ou como fim das possibilidades criativas, ainda nos surpreende pela infinidade de caminhos que engendra. Reler Mallarmé ensina que o novo – o que perpetua e reinventa a história – é um imperativo da criação artística.

Diretor Paulo Lemos Gerente-geral Silvana De Angelo Editor e jornalista responsável Manuel da Costa Pinto – MTB 27445 Editor de arte Maurício Domingues Editor-assitente Bruno Zeni Diagramação e arte Rogério Richard José Henrique Fontelles Adriano Montanholi Yuri Fernandes Eduardo Martim do Nascimento Produção editorial Danielle Biancardini Revisão Nilma Guimarães Claudia Padovani Colunistas Cláudio Giordano João Alexandre Barbosa Pasquale Cipro Neto Colaboradores Heitor Ferraz Iury Bueno Ivan Teixeira J. Guinsburg Júlio Castañon Guimarães Len Berg Lizete Mercadante Machado Mônica Cristina Corrêa Rosie Mehoudar Capa Ilustração de Cárcamo Produção gráfica José Vicente De Angelo Fotolitos Unigraph Circulação e assinaturas Rosangela Santorsola Arias Camilla Aparecida Lemme Adilson Roberto Strutsel Dept. comercial/São Paulo Idelcio D. Patricio (diretor) Valéria Silva Elieuza P. Campos Dept. comercial/Rio de Janeiro Milla de Souza (Triunvirato Comunicação, rua México, 31-D, Gr. 1403, tel. 021/533-3121) Distribuição em bancas FERNANDO CHINAGLIA Distrib. S/A Rua Teodoro da Silva, 907 - Rio de Janeiro - RJ CEP 20563-900- Tel/fax (021) 575 7766/6363 e-mail: Contfc@chinaglia.com.br Distribuidor exclusivo para todo o Brasil. Assinaturas e números atrasados Tel. 0800 177899 Departamento financeiro Regiane Mandarino ISSN 1414-7076 CULT – Revista Brasileira de Literatura é uma publicação mensal da Lemos Editorial e Gráficos Ltda. – Rua Rui Barbosa, 70, Bela Vista – São Paulo, SP, CEP 01326-010 tel./fax: (011) 251-4300 e-mail: lemospl@netpoint.com.br

AO LEITOR
B r u n o Z e n i

2

CULT - novembro/98

Kiko Ferrite/Revista Azougue

Filosofia, literatura e psicanálise

Mito e poesia 1

A psicóloga e poeta Maria Rita Kehl

O Centro de Estudos da Cultura, vinculado ao programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP, promove este mês um ciclo de palestras sobre o tema Filosofia, literatura e psicanálise. As relações de interdisciplinaridade entre esses campos serão discutidas nos dias 7 e 21 de novembro na PUC-SP por Bento Prado Júnior, Berta Waldman, Leda Tenório da Motta, Arthur Nestrovski, Cleusa Rios Passos e Maria Rita Kehl, entre outros. Os debates serão encerrados com a leitura de dois textos inéditos de Modesto Carone. Informações sobre a programação com Márcio Seligmann-Silva, pelo tel. 011/813-4531.
Bienal de Poesia

A Secretaria de Cultura de Belo Horizonte promove de 3 a 13 de novembro a I Bienal Internacional de Poesia, que vai discutir as correntes poéticas deste século. Com debates, leituras e espetáculos multimídia em diversos pontos da cidade, participam os poetas brasileiros Décio Pignatari, Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite e Antonio Risério, os franceses Claude Royet-Jounod e Emmanuel Hocquard, e o ensaísta italiano Alfonso Berardinelli. Informações sobre programação e locais dos eventos pelos tels. 031/277-4261, 2774870 e 277-4873.
Confraria dos Bibliófilos

N O T A S

O IEA (Instituto de Estudos Avançados da USP) promove nos dias 4 e 5 de novembro, das 9h às 13h, no Centro de Estudos Japoneses, o encontro “Mitopoéticas: Da Rússia às Américas”, com conferências e debates sobre a importância dos mitos e das narrativas arquetípicas para o pensamento e para a literatura contemporâneos. A primeira parte do programa (dia 4) vai homenagear o lingüista russo Eleazar Meletínski, que completa 80 anos em 1998. Sua obra será analisada por Serguei Nekhliudov (“Novas tendências das ciências humanas na Rússia”), Jerusa Pires Ferreira (“Meletínski e as poéticas da oralidade”), Aurora F. Bernardini (“Meletínski, Campbell e a universalidade dos mitos”), Paulo Bezerra (“Meletínski uma poética histórica da narrativa), Arlete Cavaliere e Homero de Andrade (“Os arquétipos literários”) e Boris Scnaiderman (“O contexto cultural de Meletínski”), entre outros.
Mito e poesia 2

Paulo Couto

Ilustração para Juca mulato, na edição da Confraria dos Bibliófilos do Brasil

A Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB) está lançando edições artesanais de clássicos da literatura brasileira em tiragens limitadas. Dois livros já foram lançados: O quinze, de Rachel de Queiroz, e o conto A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, com gravuras de Poty Lazzarotto. O próximo lançamento é o poema Juca mulato, de Menotti Del Picchia, com gravuras de Paulo Couto. A CBB prepara também obras de Herman Lima e Câmara Cascudo. Para se filiar à Confraria é necessário adquirir as obras editadas, que custam R$ 130,00. Informações com o presidente da CBB, José Salles Neto, Caixa Postal 8631, CEP 70312-970, Brasília, DF, tel. 061/368-1792.

A segunda parte do encontro (dia 5) será dedicada às mitopoéticas das Américas, com participação de Gordon Brotherson, Carlos Serrano, Lúcia Santaella, Betty Mindlin e Sérgio Medeiros, entre outros. Após o encerramento das atividades acadêmicas, acontece às 14h o lançamento do livro Arquétipos literários, de Meletínski (Ateliê Editorial), e às 15h o espetáculo teatral Ka, baseado em obra homônima de Khlébnikov, com direção de Renato Cohen. Informações sobre o encontro “Mitopoéticas” podem ser obtidas no IEA (tels. 011/818-4442 e 818-3919).
Lançamento

A escritora paulista Vera Albers, autora do romance Deformação (editora Perspectiva), está lançando o livro de contos Surtos urbanos, pela editora 34. Faz parte de Surtos urbanos, segundo livro da autora, o conto “Parque Dom Pedro” (seção Criação, CULT nº 12). O lançamento acontece no próximo dia 19 de novembro, a partir das 18h30 na Livraria Cultura, av. Paulista, 2073, São Paulo, SP, tel. 011/285-4033.
novembro/98 3

ASSINATURAS

CULT DISQUE CULT 0800.177899

novembro/98 Lalo de Almeida/Folha Imagem entrevista V I K M U N I Z .4 CULT .

realiza uma prospecção en abîme dos ilusionismos da representação. LEN BERG novembro/98 . cujos trabalhos estão expostos no núcleo de Arte Contemporânea Brasileira da XXIV Bienal de São Paulo. suas lacunas – e corresponde às ambivalências do trabalho de Vik.CULT 5 . um artista que. Tal desconstrução do modelo pictórico e fotográfico possui não apenas implicações estéticas. Prefiro trabalhar no espaço que separa uma definição de outra. A frase é ambígua. É esse espaço que lhes dá forma” – diz o artista plástico Vik Muniz. recém-lançado nos EUA (leia texto na página 9 ). mas também um forte significado político – como pode ser visto nas obras expostas na Bienal. e na entrevista com Vik publicada a seguir. que vai até o dia 13 de dezembro.“Nunca fui muito chegado a definições. no livro Seeing is believing. ao fotografar desenhos feitos sobre fotografias. pois indica como o artista aguça e conforma o olhar crítico justamente ao trabalhar com suas fraturas.

mesmo sendo uma cópia separada da vida. em 1990. Existe um hermetismo no meu trabalho que faz com que eu sempre procure estar entre essas duas coisas. É essa separação da imagem que nos põe em contato com os mecanismos da construção da realidade. CULT Seu trabalho não é apenas fotografia. encontra sua força maior quando se altera. A função do elemento ilusório na arte passa a ser a de uma reflexão sobre a visão. as próprias definições que separam a vida de suas cópias. essa tautologia já está implícita.Fotos/Galeria Camargo Vilaça CULT No San Francisco Examiner. não é escultura mas depende dela. Diante de uma janela. Nunca fui muito chegado a definições. Prefiro trabalhar no espaço que separa uma definição de outra. na percepção do espectador. É uma instalação? V . D. não é mais desenho. Em mais de uma mostra estavam os pedestais vazios. sinto que vejo uma paisagem. obra do artista plástico Vik Muniz 6 CULT . Bonetti já observava que quase todos os seus trabalhos questionam a arte enquanto uma entidade separada da vida. Diante da pintura de uma janela. Você pode comentar? Vik Muniz Trabalho com a idéia de representação. vejo a paisagem. CULT Sugar children é um novo caminho? Ou apenas uma variante dos trabalhos anteriores? Elas podem ser vistas como um comentário sobre a condição humana. É a profana união dessas duas coisas que dá ao meu trabalho um caráter contemporâneo. Sem título de 1998. É esse espaço que lhes dá forma. Eu me vejo como um artista plástico supertradicionalista e um fotógrafo ainda mais. M .novembro/98 . O que importa frisar é que a arte representativa.

obra realizada por Vik Muniz em 1995 novembro/98 . O cubo de Necker ou o vaso de Rubin. por exemplo. Um comentário se torna político por força de sua intepretação. chegando ao extremo de até poder escolher entre um e outro através de uma mudança de atenção. Meu trabalho tenta devolver ambigüidade à fotografia por meio de um duplo negativo ilusionístico. A fotografia parece escapar dessa ambigüidade em função de sua fina sintaxe e precisão.M.V. A relação entre a câmera e o objeto fotografado continua fiel aos modelos estabelecidos nas séries anteriores: existe uma relação extremamente intuitiva e pessoal na escolha e no tratamento dos temas. Meu principal interesse nessa série foi dar uma identidade material à sintaxe da fotografia.M. nos indicam que existem formas em que vários significados podem coexistir. Esses curto-circuitos oferecem a ele uma oportunidade Balanço. mas também que somos capazes de computar um significado de cada vez. Um dos grandes desenvolvimentos em psicologia da percepção e lingüística foi a criação do conceito de formas ambíguas pela Gestalt. trocando cada pontinho de retícula por um grão de açúcar. ou teoria da forma. CULT Como se dá esse processo perceptivo – a ilusão da fotografia – que você chamou de “curto-circuito semântico”? V. O que fez de Sugar children um trabalho político tem mais a ver com os clichês sobre a maneira como crianças do Terceiro Mundo são representadas do que com minhas próprias intenções em relação às crianças.CULT 7 . quando na realidade ele vê uma foto de um desenho de uma foto. O espectador pensa que vê uma foto. Ela se torna transparente e nessa transparência é que esconde sua estrutura como artifício.

que se você decidir trocar a letra pela teoria da relatividade de Einstein. Esses artistas dirigem seus trabalhos ao intelecto no sentido amplo. Sempre admirei artistas cuja obra tivesse appeal não somente sobre determinado grupo de amantes da arte. de 1995. Existem mensagens e também a condição formal. por força de receber sempre o mesmo tipo de sinais. 6000 yards (light house). imagine nas artes plásticas. mas também a pessoas que nunca tiveram uma educação artística. está saturada de vícios e maneirismos. Eleven eggs. Len Berg jornalista e crítico de arte 8 CULT .Na imagem da esquerda. Essas idéias podem ser interpretadas do ponto de vista filosófico ou de puro entretenimento. seja também respeitada pelos mais sofisticados críticos? Isso acontece porque ela tem uma estrutura formal completamente voltada ao prazer dos sentidos. Há um outro samba de João Gilberto. Meu trabalho quer estimular idéias em todo aquele que tiver um olho. Não é lindo que a música popular brasileira. embora sendo “popular”. de atualizar sua atitude em relação à realidade. Mas é também capaz de transmitir uma profundidade intelectual muito grande. A música brasileira vive ensinando coisas. Oba-lá-lá. continuará bom e a teoria melhor ainda.M. V. que fala da madame que não gosta de samba. Se isso acontece na música. de 1997. que por sua vez se transforma continuamente. ou depende de uma percepção mais “treinada”? V. não a uma faixa especializada da cultura.novembro/98 . que.M. CULT Mas a arte contemporânea continua divorciada do espectador comum. Muito dela existe em função dessa separação. CULT O espectador percebe o curto-circuito. gravado por João Gilberto. À direita. cristalizar e reduzir. Há até aquele samba irônico. que dá a essas mensagens os seus significados. Elitismo só serve para separar. Apreciar o prazer formal da teoria é privilégio de alguns. para gostar de samba é só ter ouvidos.

assinalavam sua ausência – atentavam na realidade para o fato de que a ele interessa mais o registro fotográfico de suas peças. que começou em Nova York e terminou em São Paulo. sobre fotos “originais”. em meio a fax e ligações telefônicas. ou Crianças de acúcar. varredura de rua. Brotaram de uma série anterior. xarope em lugar de tinta. ou Conseqüências. acrescentando que “a escultura. the fastest (1996.Jogos semânticos com humor e inteligência As cinco enormes fotos de crianças abandonadas. instintos e sensações.” Diz mais. em Nova York. Goya – ou desenhos sobre areia – como fez Joseph Beuys um dia – existem mais. na abertura de sua exposição no International Center for Photography. . Sugar children. (LEN BERG) novembro/98 . na revista Artforum. citando Vik: “Os retratos com chocolate começaram com o material e evoluíram para uma busca de temas apropriados. os “desenhos” foram destruídos. e fotografados depois de meticulosamente cobertos por açúcar granulado. que entrevista longamente o fotógrafo. As fotos realçam os traços corporais. instantâneos sacados em férias na ilha de Saint Kitts. Sigmund não é apenas uma fascinante tradução de procedimentos e materiais – alfinete em lugar de caneta. no Caribe. uma descoberta que marcou este século. sobre uma mesa de luz. que vêm sendo realizadas por Vik nesta década. “A destruição dos modelos após a fotografia justifica a essência do ato fotográfico em sua relação com o tempo e enfatiza o caráter performático do meu trabalho”. Uma vez clicados. Nem Conseqüências nem Crianças de açúcar sobreviveram após o ato fotográfico. tel. disse Vik à CULT nesta entrevista. e podem ser apreciados também com o lançamento do livro Seeing is believing (“Ver é crer”). à maneira de Marcel Duchamp. fotos que “tomam como ponto de partida um interesse sobre a estrutura de imagens ‘políticas’”. mas é difícil explicar porque se gosta do sabor de alguma coisa. inaugurada em setembro. Nem suas esculturas em arame ou as imagens urdidas com fios de costura – nelas ele copiou pinturas de Corot. curador da mostra no ICP. – US$ 80 À venda na Galeria Camargo Vilaça (São Paulo). Elas integram o que Vik. reservados aos objetos fotografados mas destruídos. Aí Vik fotografou o “desenho”. denominou Aftermath. pois eles “falam mais sobre a natureza da representação”. “coletado depois de um baile de carnaval”. fax 210-7390. que Vik lambeu depois de fotografar): “Por certo. A psicanálise foi criada para lidar com problemas dessa natureza. Foi o crítico Andy Grundberg que publicou. disse Vik em entrevista à CULT. 011/813-5594. então. Ele comenta sobre Sigmund (retrato de Freud em grandes dimensões. uma das boas incursões pelo trabalho de Vik na imprensa americana. na XXIV Bienal de Arte de São Paulo. Valentina. até que se esboçassem rostos de negros caribenhos. com direito a manipulação de lixo. cujo rosto inconfundível é não só prontamente identificado mas traz à tona de imediato a história da psicanálise. em poses clássicas. Todo mundo que conheço gosta de chocolate. um comentário erutido sobre o vocabulário da pintura renascentista do século XVIII. desenhado com xarope de chocolate sobre uma superfície plástica. perfeccionisticamente removido até devolver a imagem das crianças. Suas mostras de fotografias – em que pedestais vazios. Seeing is believing traz textos de Charles Stainback. e Mark Alice Durand. plástico em lugar de papel – mas também o retrato do pai da psicanálise. dando ao espectador a possibilidade de compreender como uma determinada obra se relaciona ao resto do trabalho como um todo”. como em séries anteriores. aliados a citações bem sacadas da história da arte – são elementos constitutivos da produção de Vik Muniz. foi. Parte desse rescaldo urbano. série “Sugar children”) e Baudelaire (1998) Seeing is believing Charles Stainback e outros Arena Books (EUA) 180 págs.CULT 9 De cima para baixo: Sigmund (1997. são o resultado de uma performance. “Este livro traça uma linha que conecta a confusa diversidade da minha produção. radicado em Nova York desde 1983. do artista plástico paulistano Vik Muniz.” Diluição de fronteiras entre técnicas distintas. para dar ‘sentido’ a emoções. Freud tinha tudo a ver porque a peça lidava obviamente com desejo e representação. o desenho e as peças representam e sempre vão representar a armação estrutural onde o meu trabalho fotográfico se desenvolve”. da série “Pictures of chocolate”). o espectador a participar do ato criador. lenta. jogos semânticos em que humor e inteligência desafiam.

International focus. Italo Svevo.novembro/98 House. Jorge Luis Borges e Konstantinos Kaváfis.H. preparada por um grupo de escritores reunidos sob a égide da Modern Library. que. para o leitor de hoje. pelo menos em língua inglesa. a partir de agora. Wyndham Lewis. Lolita. James Joyce. a tradição moderna por excelência. com que a livraria virtual Amazon. Um exemplo disso é a lista dos cem melhores romances em língua inglesa do século XX. assim como de dois volumes antológicos para a Oxford University Press (The Oxford book of aphorisms e The Oxford book of essays). especializada em publicar clássicos da literatura daquela língua desde 1917. Robert Musil. pelo menos. (Diga-se. Farrell. trata de Marianne Moore. The heart of Italo Svevo Ezra Pound the matter. hoje parte da poderosa Random House. a segunda. uma lista crítica e serve antes como orientação para um leitor médio que é visado pela Random 10 CULT . de Vladimir Nabokov. na literatura do século XX. coleta textos sobre W. Scott Fitzgerald. Lawrence. cujo primeiro capítulo é um rico texto sobre o nascimento da resenha crítica em jornais e revistas (“The rise of the reviewer”). para completar o número redondo dos cem. . entre parênteses. de Aldous Huxley. Ezra Pound. de James Joyce. este volume contém aquilo que de mais importante foi publicado no suplemento londrino. de From here to eternity. sem coerência que tenha sido o New York Times o primeiro jornal a publicá-la. Marcel Proust. por isso. em 1902 (uma carta de W. vistos de hoje. Não é. Retrato do artista quando jovem. por assim dizer. Rainer Maria Rilke e Franz Kafka.H. Como todas as listas desse tipo. quando se traduziu o romance de Graham Greene. Yeats). A própria estrutura do livro já indica este sentido de escolha operada pelo tempo: são quatro partes. Wallace Stevens.B. com ela. buscando. De fato. como nos autores que são objeto das resenhas e que. De qualquer modo. sejam textos completos ou excertos de ensaios. por exemplo. sobre a literatura a que se pode chamar de moderna na área angloamericana ou mesmo mais largamente européia e com repercussão nos países de língua inglesa. por outro lado. A study of the idiosyncratic and the humane in modern literature (The Macmillan Company). Anna Akhmatova. intitulado The rise and fall of the man of letters. de F. Invisible man. Virginia Woolf. não são muitas as literaturas nacionais que podem oferecer um conjunto de obras tão significativas dentro da literatura do século XX. esta é muito discutível e o leitor pode ficar se perguntando. comecem a aparecer os vários resumos daquilo que o século XX foi capaz de oferecer à tradição literária. aparece em sexto lugar. e por onde se nota que o Ulisses. Refiro-me a The modern movement: A TLS companion (The University of Chicago Press) – que reúne textos publicados no Times Literary Supplement desde a sua criação.com logo abrisse um site especializado nas cem obras listadas. há um livro que reputo essencial. está muito perto disso o número das obras já traduzidas no Brasil e uma. está apenas em décimo nono na lista. ou o lacrimoso James Jones. além de ter sido o editor do próprio Times Literary Supplement entre 1974 e 1981 –. figura em primeiro lugar e que os outros quatro primeiros são O grande Gatsby. fazendo. ainda que. ou mesmo o notável e dostoievskiano romance de Ralph Ellison. em que a primeira. intitulada Twelve writers reviewed.S. constituem. certamente. se não chega aos cem por cento. T.B. do mesmo Joyce. retomar as vendagens espantosas da Modern Library. por que o grande livro de William Faulkner. editado e introduzido por John Gross – que é autor de um importante e curioso volume de ensaios. de The Studs Lonigan trilogy. Auden. que é o quadragésimo da lista.O cânone do século João Alexandre Barbosa É possível que. D. W. Thomas Mann. Yeats. Eliot. está não apenas nos próprios textos ou nos excertos publicados. E o maior interesse. e não é. com um título estapafúrdio. e Admirável mundo novo. tenha que incluir o inexpressivo e enxundioso James T. The sound and the fury. até 1989 (um poema de Seamus Heaney). por O coração da matéria!) Mas se o leitor desejar uma orientação crítica por entre aquilo que se fez.

a tarefa do escritor é moldar a língua a novos propósitos. são. Fraser. diz Clutton-Brock: “Existe uma forte superstição entre nós de que uma tradução deve sempre parecer Inglês. aponta para aquilo que será parte da herança crítica sobre o poeta: o peso concedido seja à língua de que se traduz. de línguas francesa e alemã. e. W. Wyndham Lewis. O que não significa. contudo. Woolf. aqueles que constituem o cerne do modernismo angloamericano e a abertura com Yeats faz justiça à sua enorme influência sobre aqueles que vieram depois. uma ou outra observação para a leitura dele. Não são textos de grande densidade crítica. por exemplo. T. Se convidamos um estranho de gênio para nosso meio.H. T. Auden. os onze textos sobre Ezra Pound. Yeats.S. desde já.S. Eliot and Virginia Woolf review…. uma tradução literal de algo estranho e bom pode surpreender nossa língua com novas belezas. Deste modo. ou mesmo Auden. resenhas fragmentárias que apenas indiciam a recepção inicial. ao escrever. Pound e Eliot. de 1953. é tarefa do leitor não ficar aborrecido ou surpreso com um uso estranho da língua se é um uso próprio ao sentido. sobretudo a partir dos anos 20. desde aquele de 1912 que trata de Ripostes até o escrito por Christine Brooke-Rose. sobre The translations of Ezra Pound. de fato. com exceção do texto de G.” novembro/98 . Rilke e Kafka aparecerem na primeira parte e não na segunda. passando por resenhas sobre The tower.inglesa do século XX reacende a discussão sobre as principais obras de nosso tempo. E quem se interessa pelo poeta e pela poesia certamente vai encontrar matéria para reflexão nos textos coletados. está precisamente em Marcel Proust W. onde seria mais normal que estivessem. sem dúvida.S. sugestivamente intitulado Yeats in youth and maturity. Wallace Stevens.CULT 11 Xilogravura de João Leite Lista dos cem melhores romances de língua . com proveito. é um conjunto. num texto de síntese da evolução do poeta. que aponta nomes como Proust. Desse modo. recentemente traduzido de modo quase inacreditável por Augusto de Campos para o português. cujo maior interesse. (A razão de Proust.B. Reveries over childhood and youth. do poeta. As palavras são Inglês e dão-nos o sentido. mas resenhas curtas. Yeats é matéria de oito textos que abordam desde o remoto Responsabilities and other poems. Hugh Walpole. o que parece óbvio. organizado por John Gross.B. de 1928 e 1934. todavia.S. concorrendo mesmo com os autores fundadores do modernismo angloamericano) Com exceção de Auden. até The variorum edition of the poems of W. Eliot. sobretudo. mais freqüentemente tiveram resenhas nas páginas do Suplemento. em 1915. e a última parte. quando. É o caso. respectivamente. Além disso. não será absolutamente uma tradução se parecer Inglês. por Joseph Hone. de 1960. Flint. como herdeiros de um projeto de pesquisa no universo da língua inglesa de que o grande irlandês foi. sobre Cathay: Translations by Ezra Pound. De maneira semelhante. cuja fortuna crítica é representada. Yeats. sobre Pavannes and divagations. e sobre The collected poems of W. de cinco e três resenhas dos dois autores. Joyce e Rilke a terceira. Pound escolheu o método correto para essas traduções e não nos incomodamos que elas. A TLS treasury. Gavin Ewart e Seamus Heaney. pensamos que Mr. Entretanto. não dizer algo novo tal como seus predecessores disseram algo velho. os autores de língua inglesa reunidos na primeira parte são. que não se possa extrair. ‘não sejam Inglês’. Yeats apontar para os inícios de uma fortuna crítica que não parou de crescer. em geral perplexa. além disso. Assim. teremos mais prazer com ele e aprenderemos mais dele se ele for ele mesmo. com freqüência. respectivamente. um dos pioneiros. intitulado The poet as translator. tema do livroThe modern movement. Mann. Thrones: 96-109 de los cantares. não queremos fazê-lo se comportar apenas como nós mesmos. fragmentos de resenhas mais abrangentes. das sumárias observações feitas por Arthur Clutton-Brock. se explica pelo fato de que aqueles quatro autores foram sempre os que. de 1916.B.B. traz resenhas ou poemas de W. mas Joyce. e não apenas os poetas. seja à língua para a qual se traduz. por textos publicados nos anos 30. F. quando é feita de uma literatura muito diversa em método e pensamento. Lewis e Lawrence. de 1958. Yeats. quando começa a publicar os seus poemas. Ezra Pound.

estão Clive Bell. Roy Fuller. conforme aconselham ou sugerem os sentimentos de fim de século. de 1913. é a grande e inestimável contribuição de todo o volume. Joseph Conrad. International focus. João Alexandre assina mensalmente esta seção da CULT.S. o crítico lançará a coletânea de ensaios Entre livros. acrescentando: “O sentimento comum a muitos de seus leitores é o de que. no Brasil? Ou a obra de Borges. à repercussão internacional de alguns autores. afirmase a extraodinária importância da obra proustiana e o próprio título da resenha indicia o futuro discurso crítico a seu respeito: “Art or life?”. John Bayley.” Por outro lado. de um Carlos Drummond de Andrade ou de um João Cabral). escritos por Thom Gunn. às vezes. já traduzidos. cuja tradução para o inglês já nos anos 60 é objeto do texto incluído? Se o leitor acrescentar a todos esses autores um ou outro de sua preferência que não tenha comparecido (e se ele não esquecer a literatura brasileira. 30 e 40. entretanto. e que trata do aparecimento do primeiro volume de Em busca do tempo perdido. em 1923. seja aquela escrita. talvez. do próprio Randall e de R. Rilke ou Kafka. o fundamento para o XXI. Pound serão finalmente valorizadas. foi diretor da Faculdade de Filosofia. sua obra marca uma época. Desde o primeiro texto coletado. Edwin Muir e Anthony Powell sobre Kafka. talvez. No que diz respeito. a Thomas Mann. Lytton Strachey. Que biblioteca do século XX estará aproximadamente completa se não incluir Um homem sem qualidades. Na verdade. desde as primeiras traduções para o inglês de suas obras. Professor titular de teoria literária e literatura comparada. Italo Svevo. sobressaindo textos como os de Erich Heller ou Michael Hamburger sobre o primeiro. é notável a recepção imediata que foi dada. Eliot e James Joyce (e neste último caso. onde há uma curiosa nota de comparação literária quando a autora lembra Henry James para pensar na presença da infância na literatura. Anna Akhmatova. o melhor juízo acerca do trabalho de tradução de Pound: “É como uma adição durável e uma influência sobre a poesia original na língua inglesa deste século que as traduções de Mr.S. Fraser que se encontra. “Proust and the modern consciousness”. ou ainda os poemas de Kaváfis e a obra de Borges? Clóvis Ferreira/AE João Alexandre Barbosa é um dos maiores críticos literários do país. sem dúvida. Arnold Bennet. A biblioteca imaginária (Ateliê Editorial). de Mary Duclaux. ou mesmo estudados. por John Middleton Murry.D. Anthony Burgess. Mais interessante. que é precedido por um “Tribute to Marcel Proust” assinado por numerosos escritores ingleses quando da morte do grande escritor (dentre os mais conhecidos. cujo nome foi inspirado no título de seu mais recente livro. dos anos 20. Ainda este ano. Aldous Huxley. A consciência de Zeno. Wallace Stevens. não plágios. As ilusões da modernidade (pela Perspectiva). de Italo Svevo. que será. de Robert Musil. o texto de Murry é precioso na medida em que não apenas medita sobre a própria construção da obra de Proust.Mas é na resenha citada de G. autor de A metáfora crítica. de Svevo? Para não falar nos poemas de Akhmatova ou de Kaváfis. Ernst Kaiser. também podem ser fisgados nos textos que concernem aos demais escritores de língua inglesa que compõem a primeira parte do livro. ali estão textos integrais sobre Marianne Moore. dos mesmos anos. será obrigatória a presença de um Guimarães Rosa. perdendo apenas por uma!).novembro/98 figuras da literatura moderna”. da mesma maneira. mas insiste em seu modo de recepção pelo público leitor inglês que. Letras e Ciências Humanas da USP. ou A consciência de Zeno.” São exemplos que. A imitação da forma. com competência. ainda maior. Charques. sobre Rilke e. de alguma forma. de Musil. ao mesmo tempo em que ratifica o seu lugar numa biblioteca do século XX. John Sturrock e Henry Gifford. no entanto. também pela Ateliê. não obstante o que há de fragmentário nos textos das resenhas incluídas. presidente da Edusp e Pró-reitor de Cultura da mesma universidade. Que biblioteca do século XX estará completa se não incluir Um homem sem qualidades. logo percebeu em Proust “uma das grandes 12 CULT . ou os de Alec Randall. .M. Roger Fry. a leitura da segunda parte do livro. já pode ir organizando a sua biblioteca para o século XX. São poemas. Opus 60 (Livraria Duas Cidades) e A leitura do intervalo (Iluminuras). Jorge Luis Borges e Konstantinos Kaváfis. Forster. A maior singularidade dessa primeira parte está. com competência. segundo Murry. Arthur Waley e Virgina Woolf). E. Na verdade. Robert Musil. acentuando o modo pelo qual o narrador deixa passar ao leitor o sentido das apreensões da consciência bem de acordo com teorias até então recentes acerca do espaço e do tempo. nas resenhas que dizem respeito aos quatro escritores estrangeiros e chega a ser espantoso que Marcel Proust tenha um número de resenhas somente menor àquele dedicado a T.

nesses casos. Na verdade. às vezes se torna necessária. como fez Vinicius de Moraes num belo poema que termina justamente com algo parecido com “. Como se vê. Mesmo assim. é meramente gramatical. Também se diz “verbo no infinito”... No entanto. Quando se diz “Os jogadores correram para ouvir as instruções do técnico”. Quando se flexiona. Lembro-me também de um grande supermercado de São Paulo. não parece haver nenhuma razão estilística que torne ultranecessário enfatizar que eram os jogadores – e não sabe Deus quem – que queriam ouvir as instruções do treinador. Dizia o mestre que. é o emprego do verbo no infinitivo. Até a próxima. a flexão do infinitivo não é necessária.CULT 13 . quando se diz “Os deputados fizeram o possível para comparecer”.. Caetano se vale justamente do infinitivo pessoal substantivado (“o quereres”. no caso. Lembro-me de um ex-jogador de futebol. sou coqueiro (. “o estares”. a apresentar o infinitivo pessoal (para eu fazer. já se flexiona o verbo principal. em textos literários é comum a flexão do infinitivo que participa de locuções quando muito distante do auxiliar. Gramáticos e gramáticos já trataram do assunto. diz: “O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual faz-me querer-te bem. quando não se flexiona o infinitivo. para nós fazermos. a flexão do infinitivo é obrigatória. em que de cinco em cinco minutos se ouvia algo como “Queiram. no antológico poema “O quereres”. Não é preciso muito esforço para entender o porquê disso. Já em textos jornalísticos. várias situações podem justificar essa necessidade. Às vezes..”. o teu modo de querer e o de estar) para. hoje treinador.. é pouco provável que isso ocorra.. Pasquale Cipro Neto professor do Sistema Anglo de Ensino.) e. Infinitivamente pessoal. comparecerem ao local. e eu querendo querer-te sem ter fim. já que seu sujeito (“deputados”) é diferente do sujeito do verbo da oração anterior (“presidente” – sujeito de “fez”). às vezes. Não pretendo aqui fechar a questão ou ditar normas cabais a respeito. A flexão (“ouvirem”) seria mais do que inútil. Será errado flexionar o infinitivo nesses casos? O professor Celso Cunha tinha uma ótima explicação para isso. manifestar o pensamento de quem fala no poema. para eles fazerem). por clareza. Paulo. Caetano mostra as contradições do comportamento humano (“Onde queres revólver. por gentileza. Numa frase como “O presidente fez o possível para os deputados aceitarem a proposta”. ou seja. se enfatiza a ação – a de comparecer. numa demonstração de pleno domínio do instrumento lingüístico. Em textos literários. Um forte abraço. já que seu sujeito (“os deputados”) é o mesmo do verbo anterior (“fizeram”).” No final do poema. Pretendo apenas clarear o que pode ser clareado. A flexão. sem dúvida. No texto. misturando elementos gramaticais com os da personalidade humana. E ainda faz brincadeira com a língua ao dizer “infinitivamente pessoal”. no caso.. o infinitivo não deve ser flexionado – afinal. Melhor não lhe revelar o nome. ou seja. Dizem que o português é a única língua – ou uma das poucas – a flexionar o infinitivo. eu sou obus. Bem a ti: mal ao quereres assim. enfatiza-se o agente – “os deputados”. onde queres coqueiro.. que continua mais aberto do que nunca. novembro/98 . querer-te mal. manifestou bela visão do problema. da TV Cultura. autor da coluna Ao pé da letra. Também não era o caso do futebolista. do Diário do Grande ABC e de O Globo.INFINITIVAMENTE PESSOAL Pasquale Cipro Neto Uma das questões mais polêmicas da língua portuguesa. que não perdoava um infinitivo: “Precisamos lutarmos para podermos vencermos os jogos que vamos disputarmos para conseguirmos nos classificarmos”. idealizador e apresentador do programa Nossa língua portuguesa. a decisão sobre o infinitivo é mesmo pessoal. É óbvio que. Agora vamos ao que conta.”. consultor e colunista da Folha de S. é preciso que haja um motivo muito particular para que seja necessário enfatizar o agente.e conjugar o verbo no infinito”. o teu querer e o teu estar. Certamente não era essa a situação do locutor do supermercado: auxiliar (“queiram”) e infinitivo (“comparecerem”) estavam muito próximos. em locuções verbais. Caetano Veloso.

a sua literatura. que faz eco ao salmista de “Junto aos rios da Babilônia.novembro/98 J. Mas. em quase todas as fases de sua atribulada trajetória. sem dúvida. como todo o problema de uma literatura 14 CULT . o ensaísta J. Israel moderno é. da nostalgia do passado e da idéia de redenção. Guinsburg A que. jamais conseguiu desfazer-se. em essência. do sentimento de exílio e da nostalgia de um passado que era a própria condição de subsistência e o único penhor de futura redenção.”.. Essa frase. Guinsburg escreve sobre uma literatura que jamais conseguiu desfazer-se do sentimento de exílio. a realização dessa busca e desse sonho. sob o . Como a planta que brota da decomposição de suas sementes. resolvendo o angustioso dilema que levara Iehudá Halevi a exclamar: “Meu coração está no Oriente enquanto eu resido no extremo Ocidente!”. Desde a destruição do Segundo Templo.A LITER ATUR A HEBR AICA NO ESTADO DE ISR AEL No ano em que o Estado de Israel completa 50 anos. lançado entre a lembrança histórica e a esperança escatológica. manteve-se apegada a esse passado-futuro. a literatura hebraica retornou à sua terra de origem. respondendo aos desafios do presente com uma arte que representa o caráter vertiginoso e multifacetado da modernidade pós uma peregrinação de dois milênios. a criação literária hebraica em Sion espalmou-se em direção própria. de modo nenhum se tornou um mero reflexo daquelas raízes. Era o chão de acesso à fonte de onde derivava uma parte fundamental de suas forças vitais e onde contava beber um dia o elixir da juventude.. que hoje cresce com todo o vigor de uma existência normalizada. consubstancia não só os anseios pessoais da mais alta expressão da musa hebraica na Espanha moura. mas que em sua existência israelense realizou a aspiração milenar de retorno às raízes históricas. acompanhando o povo judeu pelos quatro cantos do mundo.

em nomear as duas das três gerações de autores nascidos em solo israelense como sendo a da Terra e a do Estado. no Ocidente. pode-se imaginar que o hebraico está entre aqueles idiomas que. que é a de nosso tempo. que colhe os seus critérios nos procedimentos. corrente. coincidem.Ilustrações de Iury Bueno influxo da realidade do solo em que se baseia. e a de uma luz. uma terceira. um forte veio narrativo e estilos epicizados de linguagem que. que aliás não definem nenhuma novidade especial. Natan Alterman. um traço de suas afinidades com o mundo leste-europeu. e na especial popularidade que a poesia goza entre os israelenses. se se quiser. no plano da história. para não mencionar Haim Nachman Bialik (1873-1934) e Saul Tchernikhovski (1875-1943). Gershon Shaked e Dan Miron. fazem apelo à literatura poética. Tampouco foi possível encontrar na bibliografia específica uma nomeação mais expressiva para a leva de escritores que se apresenta a partir dos novembro/98 . como este o é. como foram Iossef Haim Brenner. nem por isso se pode deixar de notar a abundância. que se poderia chamar a dos Pais e que incorpora algumas das figuras seminais das letras neo-hebraicas na Terra Prometida. sem contar a literatura dramática. Se se tomar por base. mesmo porque. principalmente. aqueles espécimes que a indústria cultural e as mídias oferecem às massas em forma de livros. Haim Hazaz. assim como analistas filiados à primeira postura. Uma. de um modo particular. se recusam a tal sujeição.CULT 15 . Uri Tzvi Greenberg. Há quem veja neste fenômeno. homens de todos os dias e de todos os países em seu país. nesse pequeno país. Pode-se falar. Eu diria que dois dos principais expoentes da crítica israelense mais recente. sem dúvida. os ressemantiza com os sentidos da vivência atual. aqui como lá. inclusive qualitativa. violenta e inovadora. na fala de seus interlocutores israelenses. Sem pretender analisar o quanto ambas são responsáveis por este fenômeno. que é a de uma nação e uma sociedade com características sem par em seu passado. Lea Goldberg. apesar de suas notórias divergências de concepção. ter-se-á. Sob este ângulo. Schmuel Iossef Agnon. certa simplificação didática que pode eventualmente corresponder a um ou outro e até a vários traços pertinentes a algum tipo de comunhão literária. o qual. resultou numa produção narrativa no conto e no romance que diz da vida e do espírito de Israel atual. escola. que seriam neste caso a dos Avós – é um conjunto que foge ao nosso foco do momento. um índice dos mais elevados. ambos. que trabalha na intersecção de estrutura e sociedade. Mas não vou analisar aqui a natureza de suas colocações. Ionatan Ratosch. tratados nos cadinhos da moderna estética literária e. na prosa e na poesia. de caráter histórico e sociologizante. No caso de Israel. sem exagero. por exemplo. outra. Mais do que em outras formas de expressão artística. De outro lado. no curso de suas andanças históricas. da sociedade. semelhante empreendimento constitui sempre uma redução a conceitos e denominações cujos objetos. onda. e. Dvora Baron. há sempre uma arbitrariedade ou. como. poder-se-ia falar de três tendências básicas da exegese. em que ecos muito antigos ressoam no discurso da contemporaneidade. mas para situá-las mediante um dado pragmático de referência no tempo. Mas cumpre não esquecer o poderoso impulso que o leitor israelense recebe da tradição literária hebraica e da própria língua bíblica. por suas formas de estruturação e pelas cargas semânticas que neles se depositaram ao longo do tempo. é preciso naturalmente recorrer a conceituações e divisões de que se valem as abordagens críticas em suas tentativas de enfeixá-las e distribuí-las na diacronia e na sincronia. na invenção poética. também pelos parâmetros do chamado primeiro mundo. * Para dar ao leitor uma idéia algo mais particularizada do que seja esta produção literária do gênio hebreu na Terra da Promissão e quais os desdobramentos de sua criação ficcional. pertencem às duas últimas correntes. na moderna literatura israelense articulam-se as representações mais significativas dessa nova experiência judaica. É claro que se incluem aí. da psicologia. A anterior. de sua escritura na ficção romanesca mais ambiciosa e. por sua vez. nos estilos e nas estratégias poéticas da linguagem criativa. Avram Schlonski. da cultura ou da mentalidade de grupos de escritores tidos como representativos e designados como tendência. é certo que o estro hebreu desenvolveu também. não para conceituá-las. numa rica produção israelense no campo das letras. de um modo geral. estética e/ou cultural segundo feitios determinantes. que em todos os domínios se lhe apresentam. Mas. Mas. entre outras substantivações caracterizadoras. igualmente. Cito-os apenas para aduzir que. Não há por que rejeitar in limine esse parentesco. por este ou aquele lado. geração. o gosto pela arte do verso tem ficado cada vez mais restrito a grupos especializados. provavelmente. não só em termos da região. os números da população e os das obras impressas.

Hilel e Amir Guilboa. Ao contrário. Isto não significa. A. não de sua mensagem. Benjamin Tamuz e Iehudá Aezrakhi que fazem soar notas onde se podem captar ecos de Schnitzler e até do surrealismo. em escritura original. Summus Editorial). E. sobretudo. Guinsburg. 1978). E o fato é tão marcante que no correr dos anos. Mosché Schamir. No conjunto. em particular nas duas últimas décadas. um dos comandantes do gueto de Vilno. a partir dos anos 40. ainda hoje. mas certamente de suas sugestões de leitura e do universo de valores que propõem – positivos. S. Izahar (nome literário de Izahar Smilanski). Pretendeu-se que a geração da Terra trazia estampada. marcantes e abarcantes de sua produção e de seus perfis literários. Aharon Appelfeld.. e de Dan Pagis. 1952) e de duas coletâneas mais abrangentes. Izahar não deixa de transparecer esta atração pela interioridade. na forma de uma vinculação simbiótica com as modalidades peculiares assumidas pelo esforço de construção nacional. Amós Oz. Quanto à “Nova Onda”. dos grupos de companheiros. da Haganá. se apresenta com viés impressionista e lírico. até certo ponto. Foi em seu contexto que o nosso leitor teve acesso a narradores como A.novembro/98 Aron Megued Para o público brasileiro. Fato que talvez tenha a ver com o caráter inteiramente individualizado ou irredutível a denominadores comuns. pode-se apelar para o hoje tão abusado “pós-moderno”. A eles cabe acrescentar os nomes de Aba Kovner. diferenciando-se de tudo o que os precedera por uma objetividade e um despojamento que. independentemente do efeito que tais procedimentos possam ter nos universos ficcionais constituídos e do que 16 CULT . em que pese o fato de serem articuladas preferencialmente em pauta lírica ou mesmo intimista. começam a publicar seus poemas. uma amostragem significativa de sua produção. porém. de Rifka Berezin. Guinsburg. de uma pequena recolha Primavera em fogo (seleção de J. uma publicada em 1967 sob o título de Nova e velha pátria (org. Símbolo. Como os prosadores. parecem carregar. Igal Mossinsohn. Mas não só neles. nesta mesma plêiade encontrar-se-á um outro segmento que. o fluxo do verso hebraico não esmoreceu. este timbre. É o caso de Itzhak Oren. de fato. se não totalmente desconhecidos. se a busca é de algum cabide denominativo para pendurar nele a nossa desorientação. que se expressa também com técnicas do fluxo de consciência.Fotos/Divulgação Mosché Schamir anos 80 deste século. embora a arte de cada um seja bastante singularizada. com a do homem moderno em sua projeção universal. desde logo. Entretanto.. Hanokh Bartov. de J. Ed. quando despontam. do Palmach. desloca do primeiro plano a poesia. outra das designações correntes da geração do Estado. por Rifka Berezin e seu grupo da FFLCH da USP. Natan Schakham. temas e modos narrativos. este cepo de criação sobretudo romanesca vem se poderia chamar. as vozes do “nós”. na medida em que nos seus relatos a problemática específica de seu universo humano no espaço de sua identidade nacional e cultural cruza-se. onde. do auto-sacrifício e da luta pela independência. Benjamin Galai. com O novo conto israelense (Ed. envolvendo-se num “eu” que guarda nas dobras de seus versos as representações do nacional e coletivo. Amália Kahana Carmon e outros mais. nesse grupo. repudiam a retórica altissonante da “sionistada” e heroificam as suas personagens e os motivos de suas ações a partir de um foco interior. o sabra. sua dicção desce dos cimos românticos e se desfaz da impostação e das simbolizações altiloqüentes. Vale assinalar que este é também o momento em que a prosa de ficção ganha maior relevo junto ao público leitor israelense e. de uma subjetividade que não se pretende ideológica. que anteriormente ocupava grande parte do cenário das letras e projetava-se como a sua expressão mais inspirada. ficcionistas de têmpera com uma abordagem e uma linguagem que lhes recorta um perfil próprio para além das letras hebraicas. ocasionalmente veiculada em português na imprensa judaica local. pela saga das renúncias pessoais na vida coletiva. veio a ser apresentada pela primeira vez em livro. mesmo se se levar em conta que vários expoentes do ciclo aqui indicado como inaugural foram objeto de traduções esparsas em revistas de pouca circulação. embora não abandonem a luta pelos ideais da reimplantação no solo pátrio e da criação de um novo tipo de homem judeu. Aron Megued. . É então que Haim Guri. de maneira indelével. B. identificados com uma certa idealidade da terra e do homem. com o nome de A geração da Terra (org. Ioschua. ao menos pouco familiares. que tenha havido agora uma solução de continuidade criativa e uma incompatibilidade estética no que tange à produção poética. a marca do realismo. Perspectiva) e outra em 1983. um pouco mais velho. Schakham e. continuam sendo. do discurso livre indireto. porque mesmo em Schamir. tanto quanto antes. pode-se dizer que predominam. os nomes e as obras que compõem tanto a primeira geração de escritores propriamente israelenses quanto a que a sucede nos anos 60. em sua linguagem. Isto. entre outros.

transferese do social e coletivo para o existencial e pessoal. o processo iniciado anteriormente faz-se mais sensível: um real deslocamento de eixos. bem para trás nos longes da Diáspora e da trajetória judaica. mas permanece como uma espécie de fonte viva da epicidade e do substrato traumático de experiência vivida. A opção pela individuação passa pelo emprego das técnicas que. Izahar atraindo a atenção de editores no Brasil e as obras de Ioram Kaniuk. segundo alguns.S. por fragmentação e colagem. algumas das técnicas preferenciais do poetar moderno. a paródia e o absurdo vasam em linguagem coloquial. e encarece um temário profano e corriqueiro. resulta inclusive da conjugação de um certo prosaísmo coloquial carregado de elementos verbais da atualidade tecnólogica e comunicacional com um certo fundo clássico. agora. pois não só as imagens são descoladas de sua capa familiar e deixam entrever o seu corte irônico. Na verdade. Natan Schakham Contudo. à paisana. alemã e francesa. de outra parte. quando vê nessa divisão mero jargão jornalístico. das opiniões consagradas e das gloriolas militares. neo-simbolistas. se se pode falar de um projeto poético desta ou nesta geração. Por limitada que possa ser tal comunicação. retrocedendo da proximidade temporal de eventos como a Guerra da Inde- Benjamin Tamuz pendência ou a dos Seis Dias. com o amor e a guerra. despolarizam figuras. paisagens e situações. seja expresso em teoria do poema. Entretanto. é em Natan Zach que se há de encontrá-lo. seja em novembro/98 . I. Ao mesmo tempo. A ênfase. para o Holocausto e. ao mesmo passo que tenta libertar seu ego das limitações do tempo e do espaço. Ioschua. que falam do despoetizado quotidiano na sua relação com a vida e a morte. Todavia. um dos nomes exponenciais do segundo. a poesia de Iehuda Amichai se apresenta desde o princípio em tom menor. pois não há como deixar de concordar com Dan Miron. nos anos 60. não há como distinguir por um caráter inconfundível esta segunda “Onda”. nem por isso se desfaz o laço narrativo com a memória histórica. como vimos. sem se propor a abri-las. mesmo porque alguns dos partícipes do novo ciclo começaram a publicar já na década de 50 e se muitos dos poetas do primeiro grupo jamais pertenceram à Palmach. com a nova leva de criadores. seja em nível político. mas essa clave não subsiste tão logo o ato de recepção se completa. É verdade que esta é recuada. que refuga o verso ritual e épico das grandes questões nacionais e públicas e se exprime na preferência pelo poema curto. B. numa dinâmica que é de ambas. Não se pretende. foi membro dessa tropa de elite e lutou em várias de suas mais duras batalhas na Guerra da Independência. assume também a clara feição de uma mudança na esfera das atrações eletivas e das afinidades de gosto que se fixam. Na poesia. de situações circunscritas e personalizadas. onde o lirismo. o uso da métrica e das rimas acentuadas permitem-lhe desenvolver uma escritura epigramática e também analítica que permeia as suas frases de ironia e reflexão e que lhe dão a fluência da língua falada com a musicalidade de versos simbolistas ou. quanto uma modificação de estado de ânimo.CULT 17 . Assim. a marcação pelo ritmo e. Do ponto de vista dos recursos de construção e da economia formal. ao contrário. qual elocução corriqueira do homem comum a comentar coisas pouco dramáticas. A. os problemas da vida e do espírito do homem moderno. acentua-se nos seus autores e nas suas obras a estreita desvinculação ideológica ou programática. mesmo. ele já figurava. seja em nível estilístico. que por certo está aí presente. fazendo-as girar satírica ou grotescamente em torno dos espectros de sua unidade ou inteireza – de sua organicidade perdida. se o traço de sensibilização líricoimpressionista das personagens e dos cenários se acentua em seu âmbito. quando não. David Avidan. como as palavras aparentemente banais. é certo. alguns de seus integrantes evoluíram nitidamente em tal direção. em rima livre ou verso branco. o que pesa aqui não é tanto uma reorientação de linhas de influência. chega às portas do transcendente. contrapor aqui criticamente a geração do Estado à da Terra ou do Palmach. na geração da Terra ou. mais na dicção poética inglesa e americana do que na russa. O estranho. convertem-se sem gestos maiores em estranhos e pungentes desmascaramentos poéticos dos chavões institucionais. mas que vai desembocar e se espraiar no terceiro grupo. antes privilegiadas. não obstante o estranhamento imagístico assim suscitado e seu efetivo descompromisso mimético com eventuais modelos no mundo real. O toque surreal. Schabtai e notadamente a de Amós Oz (a maior parte das quais em versão de Nancy Rozenchan) são divulgadas cada vez mais em vernáculo. é que. dos anos 80. como a aliteração. nos padrões culturais e nos parâmetros literários. quando seu estro enérgico e cheio de fé em si mesmo leva ao extremo. porém. pois. ela evidencia que se trata de um conjunto de romancistas dotado de poder de ressonância intrínseco e não meramente de um efeito gerado pelo montante prestígio internacional do autor de Meu Michel. pelo absurdo e pela paródia existenciais. uma poesia em essência do viver humano.

Comprovam esta abundância os 35 textos de prosa dignos de nota. numa espécie de terceira onda de sua literatura – um vagalhão com muita água da primeira e da segunda. [. Na opinião de Menakhem Peri.. escritores e críticos militantes que.. para que se pudesse ter um elenco minimamente representativo do segundo grupo na ordem cronológica.. seria preciso somar vários outros. [. o âmbito. se possa encarar como uma quarta tendência que se incorpora aos três estilos clássicos da prosa.. na década de 80. Orli Castel-Bloom. sem nenhuma demarcação. reivindica uma poesia da imediatidade concreta e existencial. Iona Walach. Itzhak Orpaz.”. como Dahlia Ravikovitch ou Pinkhas Sadeh. iniciada pela meditação apolítica acerca do banal na condição humana. aos três poetas acima invocados. a assim apelidada geração do Estado. Nurit Govrin... 80.. – tentou-se fazer ecoar aqui algumas das vozes e das posturas neste confronto. sobretudo. Em sua agenda criativa. Gabriel Moked. fora do âmbito literário. “a tentativa de recortar. o que corresponde à década de 80 é um intento alucinado. [. Mas a fim de não deixar no vazio. as tendências contraditórias de realismo e fantasia levaram a uma perda da pauta do que é conto e do que é romance e qual deve ser a relação com a realidade”. Lea Aialon apenas serão 18 CULT . o caos é absoluto. assinala que “a comercialização e as relações públicas substituíram. Trata-se de uma produção variada e pluralista. transformou sua perplexidade em politizada militância literária em prol da esquerda em Israel. discerniram-se interessantes tendências dentro da prosa que não mais eram fruto de um determinado interesse público. declara: “Marca a década de 80 o surpreendente volume quantitativo da literatura hebraica em todos os gêneros. desalento e descrença que se tecem como sombras projetadas..] Mas o signo característico dos anos 80 é o desenvolvimento de tendências e não uma coleção de escritores. 1959.” Para Ortzion Bartaná. não tanto por um exame de consciência na meia-luz de um confessionário da subjetividade. a problemática e as características que o debate crítico.] A narrativa jovem sofreu na década de 80 a influência de uma corrente pós-modernista que. registra-se uma lírica perpassada de tensão. por exemplo. Mas. o debate comedido sobre os problemas da literatura.]. não há um modelo de escritura prevalente. no presente contexto. na qual todas as guardas continuam ativas e fecundas.] Na poesia. vem atribuindo ao que se constituiria. Verifica-se também o abandono dos grandes temas sempre em voga na prosa aqui enumerados como citação para um eventual futuro encontro com o leitor brasileiro. do verso bem-feito e do efeito cerimonial. Elas são de professores universitários. Savion Liebrecht. Obras superficiais e banais concitam a atenção pública. obras de 30 autores de todas as idades no começo da década e os 65 volumes de prosa produzidos por 60 autores ao final da mesma década [. detecta-se o estabelecimento de uma igualdade quantitativa entre ambos os sexos de autores. em Israel. Seu ataque polêmico contra Alterman. “a literatura israelense da década de 80 vai sendo criada dentro de uma confusão que encobre um total desmoronamento dos sistemas. numa enquete promovida pelo jornal israelense Iediot Aharonot. tanto na linguagem como nas idéias.. nos vemos impossibilitados de fazê-lo no tocante aos escritores dos anos 70 e. talvez. da reticência sensibilista e da ênfase exclamativa. Pela primeira vez. é visto como o marco histórico e o manifesto estético da nova contra a velha poeticidade. escrita com a inflexão áspera e incisiva do hebraico israelense. Ao contrário. do mesmo modo que. tendências que talvez venham a moldar a narrativa dos anos 90.. durante todo o curso dos anos 80. É evidente que. dentro da continuidade da literatura.novembro/98 Ioram Kaniuk indica a ausência de grupos seletos na narrativa ou um congelamento interno. e poetas como Meir Wiseltier.. Iair Hurvitz. a obra de Natan Zach deu relevo a uma produção poética que. Rejeitando os valores da “bela arte” e da arte bela. não haveria como encompridar o nosso rol em chamadas individuais. Maia Bejerano.. algo como procurar interromper a corrente de um rio. por igual razão. na qual se registra uma troca de guarda geracional. Narradores como Iaakov Schabtai. se pronunciaram a respeito das propensões e das perspectivas atuais da produção literária da nação hebraica. Com esse enfoque. Iehudit Katzir. por seu turno. obras revolucionárias não a obtêm e seus autores se vêem impossibilitados de salientar sua originalidade. quanto por uma lúcida operação crítica a incidir ironicamente sobre a razão de ser. tendo ela perdido o seu papel de guia espiritual que desempenhou na primeira metade de nosso século.Amália Kahana Carmon texto de poesia. Mas isso não ... tomaram o lugar da avaliação da qualidade intrínseca da obra. na ordenação ora adotada. O signo dominante deste decênio é a ausência de uma linha uniforme. Na prosa. A idéia de best seller popular e a repercussão nos meios de difusão.

Guinsburg e.. se desenvolve uma literatura que alcança essa dimensão pelo aferrar-se ao aqui-agora.. em grande parte ao valor que o novo contexto atribui a tal atividade. que origina o grotesco artístico na literatura que. da crítica. ele encontra nas obras narrativas e poéticas. por sua vez. fenômeno devido ao acesso a influentes literaturas estrangeiras (Faulkner. A que atribuir esse resultado? Sem dúvida. [. não tenha perdido vigor e tenha ganho inclusive variedade e transcendência. Sem ajuizar a qualidade dos escritores de ofício e novatos. a saber. a era do grotesco. que predominou anteriormente. Isto não significa que a linha dos anos 60 e 70. Esse império é sintetizado pelo crítico. ao ver desta crítica.]. ainda que o materialismo abstrato. bastante ridícula. “a década se caracterizou pela ousadia da experimentação.” * Como se vê.” Hilel Barzel entende que “a literatura hebraica da década de 80 deva ser lembrada como a da época na qual se registrou uma mudança significativa: a passagem do estilo abstrato-simbolista e extremamente imaginário para uma variante que vai em busca da realidade revelada [.. mas “a linha grotesca é dominante”. mais recentemente. Merece destaque ainda o trabalho que Haroldo de Campos vem realizando nesse terreno. a literatura hebraica não só prosseguiu no seu intento de reimplantar-se no habitat de suas raízes históricas. novembro/98 . no outro. escrevendo sobre a década de 70. a edição de Poesia moderna de Israel em Poesia sempre (1997). Gershon Shaked. somou-se Quatro mil anos de poesia (1969).] e. Em sua visão. e o constante ocupar-se do próprio processo de escrever: literatura sobre literatura. García Márquez. da sociedade que o constrói e da cultura do povo de Israel. de uma escritura predominantemente religiosa à laicidade crítico-beletrística da Hascalá (“Ilustração”). nos seguintes termos: “Em suma. a literatura fantástica cuja essência está na dimensão trascendente [. velho. organizada por Dan Miron e vertida por vários tradutores. organizada e traduzida por Cecília Meireles. J. em livros como Bereshit: A cena da origem (1990) e Qohelet/Oque-sabe (1993). tenham deixado de marcar presença.CULT 19 . do Iluminismo aos padrões artísticos da literatura européia do séculos XIX e XX – em responder aos desafios da atualidade com uma arte correspondente ao seu caráter vertiginoso Iaakov Schabtai e multifacetado. dá lugar a uma postura grotesca. que não obriga à crença em Deus. Porém. que reflete o domínio do grotesto em nossa vida”. Guinsburg crítico literário.Amós Oz israelense. Natan Zach a vitalização da dimensão política. funcionário ou prostituta. com transcriações quer do legado poético bíblico. de modo que. uma “chave comum. cuja seqüela é o crescente temor apocalíptico. embora o legado de Agnon continue exercendo forte impacto. entre outros ISRAEL EM TRADUÇÃO A produção poética israelense foi transposta para o português esporadicamente. de Zulmira Ribeiro Tavares e J. como o que a levou. Em um extremo.” Segundo Ruth Carton Blum. mas também se empenhou – em um novo salto.. e depois. professor de estética teatral da ECAUSP e autor de Aventuras de uma língua errante – Ensaios de literatura e teatro ídiche (Perspectiva). com isso. conforme a relação do transcendente metafísico com a dimensão real-física. edificando. nos cinqüenta anos de sua existência israelense. como Nancy Rozenchan. como era a sua aspiração milenar. a abordagem é cada vez mais a do homem na sua qualidade de homem e menos a de atalaia da Casa de Israel”. distinguem-se na década “duas tendências cardiais.. Rifka Berezin etc. editor. cabe considerá-la como um fruto não só legítimo mas profundamente representativo do Estado hebreu.. uma vertente destacada da criação literária contemporânea nas diferentes feições de sua modernidade estética. Corrupção grotesca na vida. na “tradição expressionista-simbolista”. pelo colorido de vozes. Bruno Schultz) que penetraram na consciência dos escritores hebreus através de excelentes traduções”. psiquiatra ou soldado. pais e filhos. A uma primeira coletânea Poesia em Israel (1962). O idioma vertical que luta por ater-se às fontes clássicas é substituído pelo idioma horizontal que emula o modo de falar e expressar-se das diversas vozes.] Dois movimentos aparentemente contraditórios penetram nas diversas tendências. nesse sentido. quer de poemas esparsos de alguns dos mais representativos criadores do novo espírito da invenção poética hebraica em Israel moderno. Aí se perfila uma tendência para inverter as normas do materialismo agônico que compreende também a substituição de seus elementos religiosos por uma postura metafísica geral. a resumiu como sendo a da vivência “em gris”. nos fins do século XVIII. enquanto a de 80 lhe parece ser a do “surgimento e desenvolvimento do grotesco”. criança. e mesmo na dramaturgia.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Lizete Mercadante Machado MULHERES CONTO novembro/98 .CULT 21 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ .

E começa a chorar. lá no Mappin. escova-a mais do que necessário. nenhum movimento. – Daqui a pouco melhora – tenta consolar. Melhor rodear o Hilton. pensa. É a Ritinha de novo. Empresários a negócios. Ritinha. os originais impressos devem obrigatoriamente ser acompanhados pelo texto em disquete. A Ritinha fica com o olhar parado. as outras nem vieram. Parece cilada. depois a sombra. aliás. Anda. Tive de dar fingindo que era criança. Pronto. eu no colo dele que nem bebê. contos e textos literários inéditos. que sou viúva. meu bem. ousada. – Ninguém até agora? – pergunta para quebrar o silêncio que já vai pesando. Ritinha ri. Fragmentos de música. – Continua andando ao lado. – Você não tem família? – pergunta. sonhei que era do Roberto Carlos. – Quantos anos tem seu filho? – Sete. coitada. Quase meia-noite. – Meu filho chama Roberto. Vira-se. Vai até a janela. acende umas luzinhas. pensa. Burra.. S ã o P a u l o . O ponto está deserto. o batom. A luz ilumina todos os poros do rosto ainda sem maquiagem. Arruma-se. Miudinha. quando encarna. Esses vêm. E não consigo me livrar dessa putinha! Ela sempre gruda desse jeito. A Ritinha conseguiu. Achou que ia ser até bom. – Jesus. Os originais – contendo no máximo 150 linhas de 70 caracteres – serão avaliados e selecionados pela equipe da revista CULT. meu irmão vai usar agora pra fazer o Natal dos meninos. – Pra sua casa pra quê? – assusta-se. Enquanto espera o troco olha para as duas. Movimento hoje só com os gringos. Como deve ser. – Se descobrisse. Mas acabou indo pagar a fiança. sai. – Tou aqui mas a cabeça tá em casa – continua a Ritinha. Belíssima. – Não. O saco vai ser ouvir a ladainha. Pega a bolsinha de strass. A Ritinha já destampou de novo: – Passar o Natal longe da família é foda. Natallonge-de-casa-os-filhos-uma-data-como-essa-ea-puta-que-pariu. Continuam andando. se vê. C E P 0 1 3 2 6 . acende um cigarro. Minha mãe pensa que eu trabalho em casa de família. Querem esquecer e vêm. Pode ver nas salas em frente grupos conversando. vai aproximar-se. nasci da terra. pensa. – Outro conhaque – pede. Burra que é. – Ri. – É. O endereço da revista C U LT é R u a R u i B a r b o s a . tá? – diz irritado. Transpassa. c o m . A fenda na altura da coxa. Um bêbado roncando no canto do balcão. – Teu ponto não é lá na Consolação? – Já desisti. desmentindo a dura.Acende a lâmpada sobre o espelho do banheiro. mesmo. Valoriza. – Ninguém. na expectativa. lá em cima: – Cadê Papai Noeeeelllll? Passos. dei em árvore – responde mal-humorado. Fica bonitinha quando ri. Não dói? Pára um segundo. – Diana – ela pergunta de repente. O frio na barriga. Cara de quem chorou ou dormiu demais. Mais ninguém. fazendo pose. Caminha junto. Queria só ver a cara do meu filho. Conseguiu me estragar a noite. sempre dá encrenca. o rímel. – Vamos pra minha casa? – pergunta Ritinha de repente. pondo uma nota no balcão. levantando bem o joelho. A mulher do hollywood recolhe o troco. Droga. – O mau humor começa a voltar. Saco. É só a Ritinha. Não ia agüentar aquelas quatro paredes. 7 0 . aquela sensação de peso apertando-lhe a cabeça. Como ele mesmo. Chegam bêbados. sabe? Tenho um filho lá. Dói. Entra uma mulher. Não é de michê. Quando fiquei grávida. Mulher é foda! Aí franze a testa. Comprei um robô pra ele. – Não tem mais bar aberto nesta merda – resmunga. fala. depois mandei pra Minas. presos num quarto de hotel. Ritinha nem liga. Por causa do Roberto Carlos. Pelancuda e despencada estou fodida. Antes de sair lança um último olhar ao espelho. Preciso cuidar da pele. – Como é seu nome de verdade? – Francisco. Bela. a mesa posta da ceia. A Solange queria que eu fosse com ela num baile da Moóca. • Como previa. Ajusta-a e afasta-se do espelho. Tira a peruca da cabeça de pau. – Não é triste estar sozinho no Natal? A Ritinha não se manca! – Desgruda um pouco. b r 22 CULT . Começa a sentir uma desesperada vontade de beber. – Não enche. sabe. Lembra a vez que o rapa levou a Ritinha. Liga o rádio. vai arrancando um a um os pêlos que apontam. tentando decidir que roupa usar. Acende outro cigarro. Decide pôr a mini de cetim negro. – Meu filho – Ritinha repete. Os trabalhos e os dados biográficos do autor (incluindo endereço e telefone para contato) podem ser enviados via e-mail ou pelo correio (neste caso. – Lá tem um bar aberto – aponta a Ritinha. Vou andar. Fez sete agora em dezembro.. Pagam bem. Suspira. tá? Sai para o meio da rua e vai descendo. A revista CULT publica mensalmente a seção CRIAÇÃO – um espaço destinado a poemas. Um bêbado põe a cara na janela. mora com a minha mãe. Espalha a base. A Ritinha se cala. Um carro diminui a marcha no semáforo. tem de admitir. – É – responde. jingolbelllll – acompanha com o falsete bem acentuado. Não tem movimento hoje. – Olha.. Ela é tão péfrio. bebendo aos poucos. Não vou conseguir escapar. – Lá pelas duas. Pega a pinça. – Tá uma merda – ela vem dizendo. três. – Jingolbel. percebe que é uma mulher. Passos. e . O ano passado ganhei a maior grana de um doutor. Mas o olhar é de vidro. exagera no rebolado. Deve ser sozinha.m a i l : l e m o s p l @ n e t p o i n t . acho que me matava. Lá vem fossa. – Dois conhaques – pede. né? Saí hoje mais pra andar. Vou tomar um conhaque e ir embora. – Quando você era pequeno tua mãe te chamava como? De Chico? Merda! Mas a Ritinha.. Acelera os movimentos.0 1 0 . – Natal. Já nem dói mais. mal lhe chega ao ombro. Vestiu-se de Papai Noel e tive de aturar minha filhinha daqui minha filhinha dali. o gesto cortado ao meio. olhando-se de todos os ângulos. gravado no formato Word). Encosta-se no poste. Ritinha comenta: – Essa daí tá na maior fossa. pensa. Foram. tá Ritinha? Ritinha nem ouve. Às vezes a dor volta inteira. pinheiros. Procurar os gringos.novembro/98 . – Merda – resmunga. S P. Merda. – Um hollywood – pede a mulher. Ou de dar uma porrada na Ritinha. É demais. mulher! Você não dá folga não? – Mas tem algo morno na voz. mas detesto sair com a Solange. essa puta. – Lá em Minas. olha os prédios iluminados. Lá em Bom Repouso o pessoal pensa que o pai dele morreu. Me deixou a roupa. a pinça no ar.

. não vê? Ritinha ri.. senta ao lado dela. Quis um gesto de tocar-lhe a cabeça. ô múmia? – Teus olhos – diz a Ritinha. Cruza as mãos sob a cabeça. os soluços ainda soando na sala. mesmo. não acredita. Agora já é efeito do conhaque. – Ah. a droga do filho. mulher. Lá pelas três a gente sai de novo.. como os outros? – ela pergunta. Você acha que eu tenho o peito caído? – Abre a blusa. Ritinha. – Saco! Porra! Pára com isso. antes de rasgar a última máscara. – Ia ficar melhor que eu. meio estrábico. baixando a cabeça.com. – Não sei. que até que não fica feio. Ritinha vai passando o pincel. Força o falsete.. Bota o copo na mesinha. Devia era dar uma porrada nessa cara de sonsa. a Ritinha tirando o sapato e abrindo a janela. não é bater perna na calçada. Silêncio. pára. A luz fraca do banheiro vai sumindo. Interrompe a pintura. o quê? Pára de repente. tira a peruca. todos cheirozinhos. sem entrar no jogo. • Quando se vê na sala. Vamos pra rua. Você olha igual o Roberto. – Ouvi o dia inteiro. – Pára! – corta. Acho que não tava a fim de encheção. – Não. – Você tem seios lindos. dando as costas a Ritinha. – Não. – Ela se estica na almofada. – E sorri. – Tá bem. conversa. esses. – Sou muito magra. mas está mal pra caralho. que desaba na almofada. – O quê? – pergunta a Ritinha. o conto “Mulheres”. O menino. – Mas não quero! – berra. Indecifrável. Ritinha! Pára com essa conversa mole! Vamos trabalhar. sua puta! Odeio essa fungação de meu-filho-Bom-Repouso-minhamãe-pensa. sem nenhum falsete na voz. e não vai vê-lo? Há quanto tempo não vai? – Dois anos – responde a Ritinha. Faz um muxoxo.. A Ritinha paga o táxi. me diz? Qual? Essa e as outras noites. – Odeio você. Você.. enchendo o copo. engravatadinhos. Natal? Saco! Qual a diferença. esses. nota. estendendo a mão. puxando de novo aquele pulso frágil. E começa a chorar de novo. Inventar. Conhece bem essa história. A blusa ainda aberta. – Deixa assim – repete. percebendo a força que fazia. o corpo começa a tremer. Retorna à maquilagem. da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. vai dar a maior ressaca. Vamos. nem se mexe. – Ele tem esse jeito de encarar. – Não te entendo. Sirenes. piora. – Deixa – diz. anda! Ritinha nem se abala. – Você é tão boa – diz a Ritinha. Ritinha olha bem dentro dos seus olhos. arrancar grana desses porcos. segurando o pulso da outra. sabe? Putinha! Merda de putinha! De novo. o filho. pensa. Vai mulher. – Tá olhando o quê. me deixa – Ritinha choraminga. mostra os seios. – Você me machucou – reclama ela. Freada brusca na rua. esfregando o ombro. publicado nestas páginas. voando. – Pára. mulher! Você está hor-ro-roo-sa com esse rímel escorrendo! A Ritinha continua olhando. a sirene. Bonitinha. em 1986. seu trabalho literário pode ser visto na Internet. eu. a maquilagem borrando dois seios pequenos como os de um rapaz. Fica aí toda nhemnhemnhem porque o filho. contar mundos e fundos da minha ‘patroa’ aqui de São Paulo. Ritinha encolhe os ombros.. – Diana. músculos retesados. – Não – consola. vai ao banheiro. porque lembro o Robertinho lá em Bom Repouso.. erguendo os olhos. – Por que você não põe silicone no busto. – Como uma irmã pra mim. Obedece. Amanhã mudo de ponto. se quisesse – diz ela. Quase como um rapaz. Larga meu pulso. aproximandose. como querendo e não podendo. Cada vez que ouço. – Você mija em pé? – Não. pensa. trabalha há 12 anos como editora e é autora do livro de poemas Anjos clandestinos. Levanta. me faz cócegas. Merda. Pega os cosméticos. – Por que não bota uma lâmpada fosforescente nesta droga de banheiro? – grita. Pelo menos a gente não cansa de tanto rodar calçada.abordo. Diana! Tem conhaque. Desde os cinco anos que não vê a mãe. A sensação na boca do estômago. – A voz sai mais mansa. mas impediu-se a tempo. Sabe que está berrando. publicado em 1982. O Roberto.. indeciso. pensativa. – O que você tem. – Pára. Só pode. novembro/98 . A Ritinha na porta. Relaxa. – Ritinha. recebeu menção honrosa no concurso Mulheres entre Linhas. Ouve foguetes. – Você até que fica bonitinha quando ri – ouve-se falando. Claro que é. levanta mais o joelho. Conhaque vagabundo. mas nem tenta parar. todo esse lixo. descobrindo uma coxa morena. lisinha. Ritinha! – Você tá mal da cabeça. Larga a Ritinha. Caralho! Que vim fazer aqui? Ritinha já vai colocando o CD do Roberto. – Está aí dando uma de durona. E a mãe é essa Ritinha. – Está agarrando Ritinha.– Vamos. Rios pretos de rímel. as perguntas. anda! Vai retocar essa cara. – Você seria um homem bonito. Sacode a outra pelos ombros. É o conhaque. – Por que não foi passar o Natal lá? – interrompe. Resolve urinar. mexendo na bolsa. depois de um silêncio abafado. estou acostumada.. aproximando-se. vá! Não vai dar movimento nenhum. meu filho. Essa daí.. meio triste. é melhor. Enfrentar a mãe. me deixa. mas em vez disso topa. – Vem cá – murmura. inventar. Pequenos. chega! Pára com essa merda de uma vez! – Sente escorrer algo pela face. não tá? – Ritinha implacável. Mas a Ritinha já está com o blush na mão. Mas o frio na barriga é outra coisa. Levanta-se e fica em silêncio. Ritinha. Nenhuma resposta. O som dos foguetes. Lizete Mercadante Machado nasceu em São José dos Campos (SP). – Anda. rindo. Ritinha de novo com aquele olhar longe. Amanhã vou pro Morumbi. Ritinha. Calcinha vermelha.br/ocaixote). saco! Ritinha soluça mais alto. Porra. – Não adianta esquentar. compenetrada.. decide. – Senta aqui no bidê. olhando. A saia sobe. né? – Não estou! – Está berrando. – Teus olhos. choro. Acho que é medo. Ritinha começa a abotoar a blusa. a gente bebe. tá um lixo. – O Roberto Carlos? Credo! Isola! – Levanta a mão traçando um longo vôo que vai terminar alisando o cetim negro. – Quer que ajude? – pergunta a Ritinha. pega outro cigarro. Porcaria de luz.CULT 23 . Igual falar com pedra. – Tá bem. no site “O caixote” (www.

compreendendo os dois. em Montaigne. como termo de descrição. até o ponto em que a renúncia ao conhecimento. Melville e Camus. N 24 CULT . explorando suas contradições nas obras de Emily Dickinson. está presente nos mitos de Prometeu. Duarte Companhia das Letras 376 págs.novembro/98 . apontando os equívocos da reabilitação de Sade e abordando as implicações éticas de experiências nas áreas da energia nuclear e da biologia Conhecimento proibido Roger Shattuck Tradução de S. o termo utilizado é o de sublimação: ambos os exemplos “não falam de sobrepujar limites e restrições no que diz respeito à experiência. João Alexandre Barbosa mostrou que a noção de “conhecimento proibido”. o conceito de ascetismo. de Mme. em Pascal e na releitura da Bíblia por Milton. ele fala de esteticismo de Emily Dickinson. Pandora. Adão e Eva – nos quais a ambição humana de conquistar um saber absoluto do mundo é punida pelos deuses. de La Fayette (no século XVII) e da poeta Emily Dickinson – a partir da qual o ensaísta continua sua análise do livro de Shattuck. de La Fayette – que tem por eixo narrativo a resistência da jovem Princesa aos sentimentos experimentados em relação a um homem fora de seu casamento – Shattuck usa também. João Alexandre Barbosa analisa a forma como Roger Shattuck discute os mitos literários e científicos que tematizam a noção de limite do saber humano. mas de acolhê-los e tirar partido deles”. E. • Para o caso do romance La Princesse de Clèves. formulada por Roger Shattuck.00 a primeira parte deste ensaio (publicada na CULT nº 15). como no caso da escritora Mme. – R$ 31.Oslimitesdacuriosidade João Alexandre Barbosa Ensaio Segunda Parte Patricia Lambert/Divulgação Na segunda parte de seu ensaio sobre o livro Conhecimento proibido. Para o outro exemplo de positividade das limitações. aos sentimentos e à experiência se transforme num valor positivo. O tema dos limites de nossa curiosidade reaparece em Dante.

Ou ainda. como queria a poeta. às vezes grandiloqüentes e enviesados. mas de significados. a sua relação com a experiência do mundo fosse sempre uma renovada forma de inquietação pessoal e solitária. a abstinência de Emily Dickinson é de ordem estética. é precisamente daquilo que é dito de modo oblíquo e enviesado que o poema extrai a sua extraordinária força de sentido. Ou seja: entre não levantar o véu (The Lady dare not lift her Veil) e posicionar-se de tal modo que seja anulado o desejo (Lest Interview – annul a want). ou poética. Nem mesmo a recusa. que. ao fazer a sua leitura a partir de uma tradução literal de cada uma das palavras utilizadas no texto (ficando. do casamento proposto pelo Juiz da Suprema Corte de Massachusetts. Emily Dickinson convivendo com os rigores de uma educação puritana para a qual a leitura que transcendesse os limites das continuadas interpretações bíblicas era vista. de fato. a meu ver. corre o risco de desencaminhar o leitor. a realização maior cabe à própria instauração da imagem que é o poema (That Image – satisfies –). como ainda transformando o lirismo subjetivo em agudos momentos de reflexão objetiva. ou melhor. um elemento que distancia ainda mais as duas escritoras e que. curiosamente. ou não. porque ela implica precisamente não buscar ir além daquilo que foi possível dizer nos limites da linguagem do poema. Emily Dickinson é incluída por Shattuck nos prazeres da abstinência. sem comentário uma em cada uma das estrofes: os verbos lift. na segunda. o campo de atuação da norte-americana era muito mais estreito: a sua poesia só seria admissível se deixasse passar. na verdade. Há. Nesse sentido.CULT 25 . de La Fayette existindo num ambiente cortesão em que a literatura era parte de uma educação de requinte. Como se vivendo de e para a fabricação de seus curtos textos. Na verdade. mas na correspondência trocada com poucos amigos –. de La Fayette: se na romancista ela decorre de uma escolha pessoal e pensada de recusa de uma experiência contrária às bienséances da época. é uma história que compete ao leitor elucidar trazendo para o jogo da linguagem dickinsoniana a sua própria experiência. entretanto. como quer Shattuck. a recusa é antes uma maneira de conservar intocável a esfera pessoal da realização poética que ela pressentia ameaçada se baixasse a guarda de sua intimidade. sobretudo. não foi suficientemente abordado por Shattuck. o rigor e a discrição com que cercou a sua existência pessoal fez de Emily Dickinson um caso exemplar de entrega total à poesia. a poeta consegue comunicar os mais sutis jogos que vão articulando os sentidos e a inteligibilidade deles pelo poema. como aventura arriscada de formação espiritual. Sendo assim. Roger Shattuck. novembro/98 . dizendo de outro modo. e annul. é a imagem: tradução sempre aproximativa da experiência pessoal que se traduziu em literatura. criando ecos não apenas de significantes. Embora haja. na verdade. ainda que a sua intenção parafrástica fosse exatamente o contrário. na primeira. no caso da poeta trata-se. autora do poema A Charm Pela leitura miúda e detalhada do poema A Charm1 e por algumas observações acerca de sua correspondência. não apenas propiciando um modo muito particular de escrita – que está não somente nos poemas. O que fica. a meu ver. é diversa da de Mme.Emily Dickinson. a sua leitura inicial inclina-se demasiadamente para o lado da clareza do texto. de Emerson. iguala as abstinências das duas. Que a experiência que fica do texto seja também de autolimitação é outra história. mencionada pelo crítico. em parte. possui algo de semelhante com relação ao assédio do Duque de Namours no caso da Princesa de Clèves. para usar o termo adotado por Shattuck. quando. algo daquela tensão intelectual e meditativa que a própria poeta lia nos textos. Nesse sentido. uma recuperação no último item do capítulo. quando entre levantar e anular parece estar a tensão primordial do texto!). de uma eleição estética. Otis Lord. de limitações. sobretudo em se tratando de uma mulher. por sob o lirismo pessoal. No caso de Emily Dickinson. intitulado “Um epicurista em O banquete da temperança”. conseguida pela paráfrase. A leitura efetuada por Shattuck do poema A Charm termina apontando para este difícil equilíbrio em que se parece manter o texto dickinsoniano: cutucando com vara curta os mais escondidos valores semânticos da língua inglesa. Refiro-me à formação em meios sociais inteiramente distintos das duas: Mme. a sua abstinência.

de 1942. agride o acusador e termina por matá-lo. trata-se do julgamento e da condenação de um marinheiro. instaura-se um campo de dúvidas. quando de sua morte em 1891. segundo Shattuck. A cena do crime combina os crescendos de um ato gratuito e uma epifania. marinheiro (Uma narrativa interior). não há certeza quanto à culpabilidade de Billy ou à pureza de Claggart. a escrita de Camus. a este cabendo tão somente a aplicação de seu resultado. como se entre a representação que ocorre na obra e sua recepção pelo leitor não estivesse precisamente todo o trabalho de sua construção. o que. protegendo Meursault de possíveis acusações de cinismo e de indiferença pelo assassínio do árabe. faz sentido com relação aos propósitos básicos do ensaio. como . O leitor tem de decidir entre o relato interior de Meursault. Visto contra este panorama monótono. artificialmente natural. os valores do bem e do mal sendo permanentemente trocados pelo que. Quer dizer: por ser “interior”. Entre os rigores da lei marcial e as motivações subjetivas. embora coerente.” Mas se na narrativa de Melville. Trata-se de uma enorme diferença. é vincular essa neutralidade ao próprio estilo do romance. o subtítulo da narrativa de Melville cabe “como uma luva” no texto camusiano. dedicado à leitura de Melville e Camus. sem que tivesse nenhuma culpa. indecisões e incertezas que transformam a sentença de morte naquilo que o próprio Shattuck chama de “ale26 CULT . entretanto. Shattuck opera um desvio de leitura tão danoso quanto qualquer outro de uma interpretação mecanicista ou ingenuamente biográfica. Para o Capitão Vere. atente para que um homicídio foi cometido e confessado. sem que. mas pelo leitor. o que me parece ainda mais estranho. É o que parece ocorrer também no capítulo seguinte. e a narração divagante e por vezes odiosamente íntegra do promotor sobre o comportamento criminoso de Meursault”. outra coisa é fazer.” Agora. num determinado trecho da obra. num rompante de raiva ao se ver acusado de motim por outro. na presença do Capitão Vere. porque jamais temos um relato completo do que aconteceu após o crime ou das circunstâncias em que ele foi preso. dando razão ao subtítulo do livro: uma narrativa interior. chama de “mistério da iniqüidade”. aparentemente sincero. E. como o faz Shattuck. No primeiro texto. Billy Budd. no caso da narrativa de Camus.O americano Herman Melville Por enfatizar em excesso a experiência como motivação poética. Diz Roger Shattuck: “Camus criou para a maior parte de seus episódios um estilo frio. Ao apreender aquele momento. ainda segundo Shattuck. Diz Shattuck: “O fato de Billy Budd penetrar em estados de espírito que não são expressos pode muito bem ser o que Melville quis designar com o enigmático subtítulo que escreveu a lápis na margem do manuscrito: ‘Uma narrativa interior’. à diferença daquilo que ocorria na leitura de Emily Dickinson. condenando-se Billy ao enforcamento. e O estrangeiro. entretanto. e somente publicado em 1924. no demais. Por isso. em nenhum momento.novembro/98 goria realista”. que. problema a ser indefinidamente discutido a partir do romance. texto de um manuscrito deixado inédito por Melville. Meursault claramente perde a consciência e a memória. para Shattuck. nem sequer refletindo sobre a existência de uma outra vida humana que foi destruída por seu ato. “o lugar do Capitão Vere é ocupado não por uma personagem. parece ser o julgamento do personagem. muitos eventos importantes permanecem ocultos até mesmo para o narrador desconhecido. Suas atitudes e comportamento posteriores permanecem misteriosos. uma confusão de ordem moral e estética. uma gloriosa explosão de intensidade lírica. Uma coisa. chão. recorrendo à Bíblia. Claggart. o assassinato semiritualístico que ocorre na praia suscita em Meursault. induz o leitor a absolvê-lo. o leitor tem a possibilidade de julgar a partir do veredito a que chega o tribunal instalado pelo Capitão Vere. que presidiu o julgamento e a condenação de acordo com as leis marciais. sobre como os terríveis acontecimentos ocorreram. não pelos três juízes e pelo júri. condenando o escritor e sua obra por não se posicionarem quanto à culpabilidade do personagem. sem a qual o mesmo leitor não chegaria àquela. através do exame das obras Billy Budd. Segue-se o julgamento e a sentença de morte é proferida. O termo não se refere a nenhuma forma de onisciência narrativa.

Diz ela: “Num sentido primário […] os físicos conheceram o pecado”. um dos responsáveis pelo chamado The Human Genome Project. o livro não pudesse acrescentar. tomando por eixo de reflexão. considerações práticas. é indicadora da euforia com que foi. mesmo sem querer. A lição moral – a de que não pode ser chamada humana uma existência que não assuma um mínimo de responsabilidade por si mesma. mas uma derivada: a experiência do leitor que. e. apontam para formas perigosas de transgressão nos limites da proibição do conhecimento.” Não só as estórias anteriores: os Casos concretos. é um belo exemplo da habilidade de Shattuck em realizar sínteses significativas e esclarecedoras. Sendo assim. de J. esse traço torna-se ainda mais claro no pequeno capítulo final desta primeira parte do livro. o que parece muito mais grave. deixa passar aquele ranço moralista sobre o qual se montava a minha desconfiança desde o início de sua leitura e que se confirma pela releitura da obra. tendo sido publicado alguns meses antes. New Mexico. o princípio de conhecimento aberto e a livre circulação de idéias se estabeleceram tão firmemente no Ocidente que qualquer reserva a esse respeito é em geral considerada política ou intelectualmente reacionária. uma peça literária com uma didática sutil. Aliás. pois os cinco casos de limites estudados por Shattuck. não é apenas a experiência do criador que é enfatizada. isto é. os vários momentos de pesquisa e utilização da energia nuclear. intitulado “Interlúdio: Recapitulação”. as histórias examinadas nos capítulos precedentes demonstram de diversas formas que o princípio de conhecimento aberto nem sempre suplantou o princípio do conhecimento proibido. ao fim e ao cabo. prudentes. fugindo à pecha de “política e intelectualmente reacionário”. em que resume a sua posição no que se refere aos conceitos de conhecimento proibido e conhecimento aberto. cujo conhecimento resultou das pesquisas do DNA. seja no caso das pesquisas e aplicações nas áreas científicas e tecnológicas. por suas ações e pelos outros – é esquecida com demasiada facilidade. As duas epígrafes utilizadas para o capítulo dão bem conta desta oscilação: a primeira. por um lado.O argelino Albert Camus ficou assinalado. Mas a narrativa interior sutilmente seduz muitos leitores.CULT 27 . o principal articulador do Projeto Manhattan. é expressão do momento de dúvida e inquietação. a segunda. É pena que. por louvar o modo de sua expressão. que. seja na leitura que Shattuck realiza da obra do Marquês de Sade. Diz ele: “Hoje. é a recuperação de seus valores propriamente estético-estruturais. buscando marcar a sua eqüidistância e. morais e mistas. aos cinco casos de limites à pesquisa científica explorados por Shattuck. cujo sentido vai se revelando aos poucos aos que lêem com cuidado. e com isso a parábola sai pela culatra. são e ainda serão muito discutidas quer pela comunidade científica. Robert Oppenheimer. do qual resultou a explosão da primeira bomba em Alamogordo. intitulado “A explosão do conhecimento: ciência e tecnologia”. portanto. legais. por outro. o da clonagem da ovelha Dolly.” Por não reconhecer o intervalo que está entre a representação da obra e sua apreensão pelo leitor. cujas conseqüências éticas e morais foram. e ainda é. buscando assinalar os momentos de inquietação e de dúvida e também de euforia que marcaram essas mesmas fases. ao que parece menos evidente do que no caso de Melville. caindo na armadilha do autor. terminando não apenas por compreender e perdoar o assassinato por ele cometido como. percorrendo as várias fases que vão da ciência pura à aplicada. o primeiro capítulo desta segunda parte. E. o crítico. por intermédio do que Shattuck chama de empatia. o seu julgamento final da obra é decepcionante: “É impossível não considerar essa novela em miniatura como uma parábola. vista a possibilidade que se abre para o conhecimento a partir de tais pesquisas: “[O Projeto Genoma] é o graal da genética humana […] a resposta final ao mandamento: Conhece-te a ti mesmo”. embora o crítico conceda em ver o romance de Camus como uma parábola. No entanto. quer pela sociedade de modo geral. que passam a sentir empatia por um criminoso. novembro/98 . da segunda parte do livro. isto é. de Walter Gilbert. pelo mapeamento do código genético humano. ultrapassa os limites da moral e compactua com o personagem. as experiências nas áreas da biologia molecular e da engenharia genética.

Nesta era de libertação e permissibilidade. todo o processo de releitura a que foi submetida a sua obra. por assim dizer. nos Estados Unidos. discute as teses de inclusão ou exclusão da obra do Marquês do cânone da cultura e da literatura (“Devemos queimar Sade?”) e. confirmada por sua edição na prestigiosa coleção Pléiade.Ilustração computadorizada de uma cadeia de ácido desoxirribonucléico (DNA) J. Camus. Portanto. E os últimos parágrafos do capítulo são. é bem possível que um juramento criterioso por parte dos cientistas ajude a impedir que nos comportemos como o Aprendiz de Feiticeiro. é ainda a mesma: o que fazer com Sade? Que ele fazia parte dos “infernos” das bibliotecas é fato corriqueiro. em seguida. no sexto item. a atenção do possível leitor. Bataille. “em nove séculos de literatura. somente um autor merece dois verbetes completos: o Marquês de Sade”. as implicações morais de uma obra. . a pergunta. De fato. Apesar da história de Ulisses e as sereias. a meu ver desnecessária. através dos quais vai marcando. no último item. os equívocos da reabilitação do autor (“Um passeio com Sade”). temos necessidade de inspecionar esse crescimento desproporcionado. finalmente. mas uma prova de fogo para a sua habilidade em discutir. sobretudo. e dos casos concretos bastante diversos do Lebensborn de Himmler e do Projeto Manhattan. Porque. como lembra o próprio Shattuck. aquela organizada por Dennis Hollier e publicada em 1989 pela Harvard University Press. por assim dizer. acentuando a sua estranheza – para a qual parecem convergir as linhas essenciais de discussão sobre o conhecimento proibido. na verdade. não podemos nos esquecer da história de Ícaro e da ‘Esfinge’ de Bacon. trata-se de escolher uma maneira adequada de situar o autor no universo de nossas experiências culturais. narrando aspectos decisivos de sua vida e de sua obra. “O divino Marquês”. ao mesmo tempo. Paulhan. no âmbito da criação literária. até a consagração atual nas referidas edição e história literária (“Reabilitação de um profeta”). Oppenheimer abrangem. a ‘pesquisa pura’ é um mito moderno. o texto de Shattuck é não apenas uma excelente introdução a Sade. de fato. Enquanto pensamos nessas questões dilacerantes. Foucault. à medida que a ciência explode em certos campos. de assassínios perpetrados sob a aparente ou comprovada inspiração das obras do Marquês (“O caso dos assassinos nos pântanos” e “O sermão de Ted Bundy”). o processo de sua recepção. depois de mais de dois séculos de sua existência. passando por Klossowski. tendo anteriormente recusado quer a sua consagração. sociais e políticas de sua existência (“O caso Sade”). O planejamento estatal nem sempre trouxe mais vantagens. sem exclusão daqueles mais explicitamente perversos – o que ocasiona mais uma advertência. um reconhecimento do que há de irreversível nas descobertas científicas e uma meditação sobre suas aplicabilidades: “O conhecimento daquilo que nossas muitas ciências descobrem não é proibido em si mesmo e por si mesmo. com a qual iniciou o processo de reabilitação do escritor. quer a sua rasura radical que ocorreria caso a questão de Beauvoir recebesse uma resposta positiva.” Mas é para o sétimo capítulo – aquele mesmo ao qual se dirige a advertência de 28 CULT . pelo fato de que. e fazendo. o quinto item é o centro da leitura de Shattuck: uma análise minuciosa de alguns textos da obra de Sade. Barthes. algumas notas biográficas com as circunstâncias históricas. retomando a famosa questão proposta por Simone de Beauvoir.novembro/98 Shattuck e para o qual chamei.2 Os sete itens do capítulo “O divino Marquês” são de uma organização exemplar: em primeiro lugar.R. o espectro de inquietações eufóricas e disfóricas motivadas pelas pesquisas científicas e tecnológicas. O livremercado pode não ser o melhor guia para o desenvolvimento do conhecimento. que dá título ao item. da Gallimard. aos pudibundos leitores. na mais recente e revisionista história da literatura francesa. os dois capítulos seguintes são. usando como título do capítulo a mesma frase que Apollinaire utilizou para nomear o seu ensaio introdutório à antologia das obras do Marquês de Sade de 1909. Mas os agentes humanos que buscam esse conhecimento jamais foram capazes de afastar-se de sua aplicação a nossas vidas ou de controlá-la. provas da realidade pela narração de dois casos famosos. tornando-se uma empresa impulsionada tanto pelo comércio e preocupações bélicas como pela curiosidade. desde o citado Apollinaire. Que hoje se tenha que usar o pretérito imperfeito é a novidade. logo de início. ou.

Os seus excessos são também parte de uma condição que. enfim. A necessidade de ler o autor do século XVIII parece.CULT 29 . Procura reviver a Lei de Talião. o modo pelo qual desenvolve os seus argumentos. Sade visualiza uma rejeição completa das leis e profecia hebraicas. devemos rotular suas obras cuidadosamente: veneno potencial. de argumentos já desenvolvidos. resultar precisamente do conhecimento que se obtém de um extremo de ilimitação e não é por acaso que. Mas nos parecerá menos admirável se o lermos por inteiro e juntarmos suas idéias niilistas sobre egoísmo e poder com as cenas sinistras das quais gotejam sangue e fezes. e de todos os princípios de justiça e democracia equânimes. da filosofia grega com sua visão trágica. como disse. Diz ele: “Em Nietzsche. ou mesmo redundâncias. parece dizer Shattuck: deve-se ler o Marquês como a qualquer outro autor extremado. Não obstante. o que é terrivelmente difícil de aceitar. a leitura e a releitura terminaram impondo a primeira. que nos faça admirá-lo. Em todas as suas principais obras. De la littérature française. Talvez haja alguma ‘grandeza’ na absoluta atrocidade da obra de Sade. Ele sabia como eram ‘importantes essas imagens para o desenvolvimento da alma’ e como ‘agarrar sem medo o coração humano e representar imensas divagações (Justine)’.” Não se deve queimar Sade. alguma monumental aberração e lição objetiva. por outro lado. Mais do que isso. da caridade e missão cristãs. oferecendo ao leitor elementos de sobra para uma reflexão de bom tamanho. “Os escritos de Sade fazem-nos enfrentar a tentativa extrema da cultura ocidental de arrancar as restrições da civilização a fim de regressar à barbárie. Mas são generosos. o filósofo do Super-homem oferece um produto modificado que atrai a muitos: Sade sem orgasmo. no entanto. a leitura de Sade é também uma prova de fogo para toda a sua discussão anterior acerca do conhecimento proibido. transformando-se em um atraente Valhala da filosofia lírica. a erudição precisa e adequada com que cerca o seu objeto e.” Poderia ser o capítulo final do livro. já nos últimos parágrafos do item quinto. novembro/98 . Conseqüentemente. quer se queira ou não. como que acentuando a presença do Marquês num aspecto fundamental de nossa cultura. os juízos serenos e objetivos com que lê a tradição crítica já existente sobre Sade. poluidor de nosso ambiente moral e intelectual. ocorre a lembrança de Nietzsche. E essa condição. Entre a admiração e a desconfiança do início. Sade sempre foi o professor e o evangelista. é exemplar: “O divino marquês representa um conhecimento proibido que não podemos proibir. o olho por olho e a máxima de que poder é justiça. ainda nos limites. continuamos chamando de humana. pois os demais são expli- citações.O Marquês de Sade Georges Bataille É um capítulo decisivo para o julgamento dessa obra de Shattuck: a sua organização. Notas: 1 Eis o texto do poema lido por Shattuck: A Charm invests a face Imperfectly beheld – The Lady dare not lift her Veil For fear it be dispelled – But peers beyond her mesh – And wishes – and denies – Lest Interview – annul a want – That Image –satisfies – (Encanto veste um rosto/ Não mais do que entrevisto –/ Erguer o véu não ousa a dama/ Por medo que lhe fuja –// Mas olha além da trama –/ Deseja – e logo nega –/ Teme que a vista anule a falta –/Que a imagem satisfaz) 2 A edição francesa da obra de Hollier é de quatro anos depois. Paris. e que poderia ser a do livro. a ética da transgressão perdeu as cenas de tortura e destruição sexual explícitas. dão prova de sua iluminadora perspicácia em repropor o exame de uma obra tão polêmica quanto a do Marquês. inclui a curiosidade e. os seus limites. na perseguição inquisitorial. para ele. A conclusão de Shattuck para este capítulo. Não temos indícios de que Nietzsche tenha lido alguma vez o divino marquês. sem cair na idolatria nem. Bordas.

O livro especula sobre as razões de sua gagueira. POESIA MEMÓRIA ROMANCE SOCIOLOGIA : : : : : Espaços da memória Joaquim Alves de Aguiar Edusp 220 págs. agrupa textos publicados na imprensa de Florianópolis e de outros estados. R$ 30. R$ 11. sua mania de ordem e sua suposta preferência sexual por menininhas. texto clássico de Freud que segundo Bauman é um marco na análise sociológica da modernidade.00 : Diário íntimo : José Vieira Couto de Magalhães : Cia. retoma criticamente a tradicional dicotomia afeto/cognição. da escola. : R$ 18. R$ 22. Os poetas do grupo. escritores como Juan Rulfo. Mais novo romance de Mario Benedetti. A descoberta e a organização deste Diário íntimo. cujo verdadeiro nome era Charles Luttwidge Dodgson). na década de 70.novembro/98 : Autor : Tradutor : Editora : Número de páginas : Preço . a liberdade pessoal ainda é o valor supremo. elaborando a mais completa biografia de Carroll já publicada. como Reinaldo Jardim e Mauro Gama. desenraizado e andarilho do eu poético do escritor mineiro. duas manifestações coincidentes no início da formação mental. lavra (1962) e A linguagem virtual (1976). Novo livro de poemas de Mário Chamie. a literatura e a astronomia. surgida de uma dissidência do movimento concretista. era representado pela busca de ordem. R$18. O general José Vieira Couto de Magalhães foi uma das figuras públicas mais atuantes do Brasil da segunda metade do século passado.00 : A borra do café : Mario Benedetti : Ari Roitman e Paulina Wacht : Record : 192 págs. acerca do papel das editoras universitárias e de sua trajetória como autor e editor. palestras proferidas no Brasil e no exterior. T. pessoas e imagens que marcaram sua infância e formaram sua poética. O biógrafo Morton N. R$ 60. a cargo da historiadora Maria Helena P. Mário Chamie é autor de Espaço inaugural (1955). O título remete ao O mal-estar na civilização. diários e documentos deixados por Lewis Carroll. professor da Universidade de Nova York. Para ele. teve acesso aos arquivos da família Dogdson (a quem pertence o espólio de Carroll. mas agora travestido de espontaneidade. A autora morou durante alguns anos no Brasil. transformando as palavras em “elementos vivos”. Esta biografia do autor de Alice no País das Maravilhas é resultado de mais de 30 anos de pesquisa em cartas. depois de 65 anos da publicação do texto freudiano. O estudo de Kathrin Sartingen avalia em que medida as encenações de Brecht influenciaram diretores e grupos brasileiros. Benedetti transfere seus momentos líricos de memória para o protagonista Claudio. Espaços da memória. Afeto e representação. Coletânea de ensaios e escritos do jornalista e roteirista de cinema catarinense Salim Miguel. Para uma psicanálise dos processos cognitivos. De acordo com Bauman. Em A borra do café. a juventude e a maturidade.00 BIOGRAFIA PSICOLOGIA : : : : : : Brecht no teatro brasileiro Kathrin Sartingen José Pedro Antunes Hucitec 338 págs. dividindo-o em quatro espaços de realização: da casa. como o autor prefere chamar a coletânea. Apontando a impossibilidade de haver afeto sem sentido cognitivo e vice-versa. que passou 20 anos exilado em Madri depois do golpe que instaurou uma ditadura militar em seu país. construindo um retrato itinerante. revelam uma personalidade complexa. Segundo a tese de Joaquim Alves de Aguiar. cujo principal valor. Brecht no teatro brasileiro analisa a recepção do teatro do dramaturgo alemão em terras brasileiras. a liberdade pessoal. a adolescência. a esses espaços corresponderiam quatro fases da vida do escritor: a infância. : R$ 18. apropriando-se de termos e conceitos semiológicos. reunido na década de 60 em torno da revista de mesmo nome. Um estudo sobre Pedro Nava examina o discurso memorialista do autor mineiro. faziam oposição ao “apriorismo mecanicista”.00 : : : : : : : : : : : Afeto e representação Antonio Imbasciati Neide Luzia de Rezende Editora 34 224 págs. Imbasciati questiona princípios sagrados da psicanálise e de sua dissociação com a psicologia. do trabalho e da rua. Cohen. R$ 15. Ancorado na narrativa poética cara ao escritor. O autor analisa as relações entre verossimilhança e veracidade no discurso do narrador memorialista de Nava. das Letras : 246 págs.00 Lewis Carrol Raffaela de Filippis Record 672 pág. tendo contribuído com áreas tão diversas como a política.00 ENSAIO : : : : : Variações sobre o livro Salim Miguel Editora da UFSCar 112 págs. desejo e esforço individual. professor das Universidades de Leeds e Varsóvia. sobre a permanência do livro e novas tendências literárias. afeto e representação são a forma do ser configurar uma experiência. o romance constrói o reencontro de Benedetti com lugares.50 : : : : : Caravana contrária Mário Chamie Geração Editorial 204 págs.00 Estudo do sociólogo de origem polonesa Zygmunt Bauman.00 TEATRO : Título 30 CULT . e outros estudos sobre poetas como Cruz e Sousa. poeta e ensaísta uruguaio. um dos fundadores e principal teórico do grupo Praxis.: O mal-estar da pósmodernidade : Zygmunt Bauman : Mauro e Cláudia Gama : Jorge Zahar : 272 págs. Machado. que participara da Guerra do Paraguai. um garoto que percorre com a família os bairros da Montevidéu dos anos 40. mantinha relações com grandes capitalistas e negociantes do império e anotava seus sonhos e aspirações cifradamente em tupi. beleza e limpeza. estabelecendo uma leitura cognitiva da psicanálise. tendo estagiado no Instituto Goethe de São Paulo e lecionado Literatura Comparada na Universidade Estadual de Campinas. romancista. : R$ 26 . do psicólogo e psicanalista italiano Antonio Imbasciati. interpreta peças brasileiras dos anos 60 e 70 e discute a idéia de aceitação de uma cultura “estranha” na literatura deste século. Variações sobre o livro (e temas correlatos). Lavra. Originalmente uma tese de doutoramento apresentada na Alemanha.

. Dele lembramos aqui o livro O Brasil continua. Fon-Fon.CULT 31 . A Ilustração Brasileira.). 3ª ed. Justamente (embora com parcas informações) incluído no Pequeno novembro/98 . 1987.dicionário de literatura brasileira (Cultrix. poeta simbolista e modernista e ativo colaborador de nossas revistas da primeira metade do século – O Malho... etc. além de agitador cultural. Para-Todo. poucos se lembrarão hoje do acadêmico Álvaro da Silva Moreira (1888-1969). –. editado em 1933.

proposto por Stephen Greemblatt no início dos anos oitenta. assumindo diferentes matizes conforme o autor que se inspire nos fundamentos de Derrida.F O R T U N A C R Í T I C A Ivan Teixeira 5 DESCONSTRUTIVISMO filósofo francês Jacques Derrida. co-autor do material didático do Anglo Vestibulares de São Paulo (onde lecionou literatura brasileira durante mais de 20 anos) e autor de Apresentação de Machado de Assis (Martins Fontes) e Mecenato pombalino e poesia neoclássica (a sair pela Edusp). O primeiro. abordou a retórica de Aristóteles e Quintiliano. explica-se por sua condição coordenadora. dentre as quais se contam também as formulações de Michel Foucault e as do new historicism. Derrida é ao mesmo tempo herdeiro e crítico do estruturalismo. o segundo texto (agosto) foi sobre o formalismo russo. criticar e desenvolver os pressupostos do filósofo francês. em diferentes graus. Assim se explicam alguns trabalhos dos integrantes da Escola de Yale. O centro não é uma . Para o filósofo. explica-se por não participar do jogo e dos riscos do movimento inerente à idéia de estrutura. A desconstrução passou a tomar corpo como movimento crítico depois da célebre conferência proferida por Derrida na Johns Hopkins University. o terceiro (setembro) estudou o new criticism. Hillis Miller. o centro encontra-se ao mesmo tempo dentro e fora da estrutura. centro é tudo o que preside a ordenação dos elementos de um sistema. será analisado o new historicism. o centro é uma entidade metafísica. Enquanto elemento interno. Como toda verdade metafísica. Começa por questionar a noção de centro no conceito de estrutura. o quarto (outubro) apresentou o estruturalismo. Ivan Teixeira é professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. enquanto elemento externo. comentar. as Obras poéticas de Basílio da Gama (Edusp) e Poesias de Olavo Bilac (Martins Fontes) – e dirige a coleção “Clássicos para o vestibular”. publicado no número 12 da CULT (julho). representado sobretudo pelo filósofo francês Jacques Derrida. a noção de centro deve ser posta em questão. o signo e o jogo no discurso das ciências humanas”. Tem-se dedicado a edições comentadas de clássicos – entre eles. deve ser desprezada na análise da estrutura de que participa. é apenas uma das diversas tendências do pensamento crítico do chamado pós-estruturalismo. em 1966.novembro/98 Reprodução Desenvolvida a partir das formulações do O lingüista e filósofo Jacques Derrida O movimento da desconstrução. a desconstrução atribui aos significados a condição de construções culturais. J. mas que não participa da mobilidade das unidades que coordena. questionando a concepção metafísica de centros unificadores do mundo Série destaca as principais tendências da crítica literária “Fortuna Crítica” é uma série de seis artigos de Ivan Teixeira sobre as principais correntes da crítica literária. de Paul de Man. a desconstrução tem encontrado muita ressonância nos Estados Unidos. como é o caso. que hoje integra o volume A escritura e a diferença. Na próxima edição. Nesse sentido. pois possui valor absoluto e independe das contingências do todo. Geoffrey Hartman e Harold Bloom. da Ateliê Editorial. 34 CULT . quando o filósofo leu o ensaio “A estrutura. Desde então. preocupada em divulgar. Em rigor.

assim como o significante vaca se torna perceptível apenas por contrastar com faca. eu. característica básica do pensamento metafísico. Outra desconstrução importante operada pelo pensamento de Derrida consiste no questionamento da ascendência da fala sobre a escrita. Lévi-Strauss estaria. Fala-se aqui em teoria geométrica do conhecimento. em Nietzsche. um dos maiores críticos literários dos Estados Unidos. que o filósofo pretende desconsnovembro/98 . O analista deve desconstruir esse construto. determinado pela idéia de presença. fala/escrita. Freud e Heidegger. mas uma construção do pensamento ocidental. Derrida privilegia a etnologia na formação do discurso das ciências humanas. inteligível/sensível etc. como também por ser considerada a matriz da escrita. não só por pressupor a presença do falante. Para ele. pode-se supor também que a percepção de uma montanha só se torna possível por contrastar com a idéia de planície ou de depressão. consciência. cuja tradição se origina. que acaba por implicar a superioridade do presente sobre o passado. a oposição fala/escrita gera outra dualidade supostamente verdadeira: presença/ ausência. de origem.CULT 35 . A Europa era tomada como cultura de referência por princípio. Os estudos de Lévi-Strauss provocaram um deslocamento desse foco de atenção: o interesse das pesquisas desviou-se da Europa para culturas consideradas primitivas. transcendência. Na prática. Além disso. escolhendo um enfoque que aborde a estrutura por um ângulo até então secundário na ordem geral das coisas. porque já Luís Antônio Verney divulgava. homem. Eis o que Derrida chama a “metafísica da presença”. o valor do centro é sempre afirmado pelo não-valor de seu oposto: Deus/diabo. Aplica a todos os significados a condição de construções culturais. o filósofo julga que só se conhece Deus por se tratar de um construto diferente de diabo. Assim. concebida exclusivamente com base no etnocentrismo europeu. essa ciência tomava exclusivamente a Europa como origem para qualquer generalização acerca do homem. e não como construtos de ordem cultural. e assim por diante. Nega qualquer verdade transcendental. país em que a desconstrução encontra ressonância assumindo diferentes matizes conforme o autor que se inspire em seus fundamentos da Ilustração portuguesa. entendendo-a como um aspecto do logocentrismo. na época João Carlos Volatão/Folha Imagem Harold Bloom. O pensamento metafísico sempre considerou a fala como elemento mais importante desse par. ao desconstruir a noção de etnocentrismo. Da mesma forma. O filósofo denomina essa hierarquia de “fonocentrismo”. em que se fundamenta quase toda a filosofia européia. Derrida coloca-se contra a concepção logocêntrica do pensamento metafísico.realidade. Por essa perspectiva. espírito/corpo. natureza/ cultura. antes de LéviStrauss. Derrida não reconhece significado essencial nos elementos desses pares. homem/mulher. como Deus. A noção de centro preside o próprio conceito do ser. Observa que. A história do Ocidente seria uma sucessão de centros inquestionáveis. sobretudo a partir da análise de mitos sulamericanos. realçando a necessidade de uma linguagem crítica no discurso das ciências humanas. as verdades do etnocentrismo apresentavam-se como dados da natureza. o princípio de que o conhecimento das formas corpóreas depende da percepção da superfície das coisas. verdade – noções responsáveis pela idéia de centro unificador do mundo. que foi interpretada desde sempre como mera reprodução artificiosa do ato natural da fala. Tal descentramento estabeleceu uma crise na história da metafísica. Antes disso. Todavia. A esse pensamento essencialista e transcendental Derrida chama de “logocentrismo”. O pensamento metafísico atribui valor intrínseco aos elementos que compõem essas dualidades. Foi a partir do homem europeu que se formularam todas as conclusões universalizantes (metafísicas) sobre o que se entende por cultura ocidental. Derrida é responsável pelo esboço de uma espécie de teoria geométrica do conhecimento. a natureza só é percebida por se distinguir da cultura. pela ruptura com os significados universais. da natureza sobre a cultura. Isto é. de essência. entendendo-as a partir do relativismo da função distintiva do conceito saussuriano de fonema. de que trata a geometria. Toda a filosofia ocidental partilha da idéia de centro. de finalidade. essencialmente vinculada ao princípio de valor e de significado absoluto. isso contribuía para a hegemonia do pensamento metafísico. responsável pela noção da superioridade da Europa sobre os demais continentes. Como se vê. por questionar a noção de totalidade do humano. segundo Derrida.

Trata-se de um código matricial abstrato. e não de essências isoladas: é sintagmático. também constituída por elementos contrastivos. Ao contrário. Por causa de sua condição positiva. representada pelos textos de João Adolfo Hansen (acima). e não ao domínio das entidades naturais. pois o signo se explica pela configuração de seu contrário. que tanto pode significar diferenciar quanto adiar. A maior conseqüência dessa desconstrução é a ratificação de uma idéia consagrada pela lingüística estrutural. A noção do mal vem em segundo lugar e completa a plenitude de Deus. que ele denomina “arquiescritura”. como também – e principalmente – revelaria 36 CULT . Esclarece que. não só representaria um estágio agudo do exercício crítico no discurso das ciências humanas. e não exclusiva. Este decorre de relações. processo também designado de suplementaridade do signo. afirmando que a propriedade positiva do primeiro decorre da condição negativa do segundo. Marx e LéviStrauss. Essa perspectiva não admite um centro exterior responsável pela geração dos significados a serem captados pelo espírito humano e “depois” veiculados pela linguagem. a fala obedece a um código preestabelecido. do qual nascem as diferenças geradoras do sentido. Não só para se contrapor ao termo francês différence como também para complementá-lo. Observem-se os fonemas /b/ e /p/: ambos são bilabiais explosivos. Esse princípio não só implica a inversão dos elementos que constituem as relações binárias. Fundam-se principalmente em análises de pensadores como Platão. Derrida considera essa conclusão uma construção metafísica. a origem total do ser. o filósofo deteve-se também em textos ou concepções artísticas. Sabe-se que decorre de Deus. que se confunde com a noção de linguagem. Diferenciar pressupõe a geometria dos corpos. Husserl. os sistematizadores da nova teoria estabeleceram alguns passos para a abordagem desconstrucionista do texto literário. A diferença essencial entre eles é que o primeiro se caracteriza por uma propriedade positiva: é sonoro. e não propriamente para obras literárias.truir. Trata-se de um trocadilho grafo-sonoro. a lingüística tradicional tende a atribuir ao fonema /b/ o privilégio do centro. o conceito de verdade. o homem estaria forjando a própria consciência. ao criar Milton Michida/AE Há uma nova espécie de desconstrução em andamento no ensaísmo brasileiro. Pertencem à ordem dos signos. O neologismo do filósofo deriva de différer. resultante de uma interpretação radical da lingüística de Saussure. jamais paradigmático. por depender do de mentira. elaborada a partir de sugestões de Charles E. Evidentemente. porque essas palavras possuem grafias distintas e uma só pronúncia. tanto quanto a escrita. por uma propriedade negativa: é surdo. mas também permite conceber esses elementos numa dimensão de antítese inclusiva. a linha de força do pensamento derridiano consiste na teoria da diferença.novembro/98 a natureza da consciência humana. Freud. O vocábulo différance foi inventado para caracterizar esse processo de geração do sentido. Mas qual a vantagem desse tipo de desconstrução para a filosofia da linguagem? Pela perspectiva de Derrida. Nesse sentido. As práticas de Derrida orientaram-se sobretudo para sistemas de interpretação. ao mesmo tempo que suplementa e contamina a idéia de bem: pois. assim como o sentido de Deus depende da noção de diabo. que consiste no pressuposto de que os termos dos pares do pensamento metafísico se complementam mutuamente. Desenvolvendo criticamente a teoria do signo saussuriano. caso não houvesse o princípio da Queda. ao passo que o segundo. Observe-se a idéia do bem. espacialidade. como é o caso de seus estudos sobre Antonin Artaud e Mallarmé. A partir daí. que utiliza fundamentos do historicismo de Michel Foucault os significados e o respectivo sistema de signos. em que um significado continuamente se refere a outro significado e a toda a rede de significados da língua. Bressler e Jonathan Culler: (1) descobrir as . contém necessariamente um pouco de seu oposto. Vem daí que as antíteses conceituais do pensamento metafísico não passam de construtos culturais. Nietzsche. pois o signo também retarda continuamente a idéia de presença. como a seguinte. invertendo a hierarquia desses pares antitéticos. tanto na língua falada quanto na escrita. segundo a qual não existe origem absoluta para o significado. Como se vê. O princípio de que o significado decorre de relações possibilita ao teórico a formulação da idéia de suplementaridade. Rousseau. adiar implica temporalidade. Derrida criou o vocábulo différance. seria impensável o conceito de bem.

múltiplo e ilimitado. supondo-se o princípio de que o significado é sempre móvel. • On deconstruction: theory and criticism after structuralism. elaborado por alunos da PUCRJ. Foucault entende por episteme o padrão que unifica a diversidade de discursos de uma época. Desta vez. (2) comentar os valores. os fundamentos já não decorrem de Derrida. com o propósito de rever alguns aspectos da teoria formulada por Antonio Candido na Formação da literatura brasileira. 1996. de Jacques Derrida. • Fifty key contemporary thinkers: From structuralism to postmodernity. a produção de um autor passou a ser entendida como a apropriação singular dos discursos coletivos de seu tempo. London/New York. Tal estudo pressupõe o conceito de história literária como a contínua reapropriação dos diversos discursos do homem. Haroldo de Campos aplicou princípios do filósofo francês em seu O seqüestro do barroco na literatura brasileira: O caso Gregório de Matos. New Jersey. Paralelamente. 1993. por exemplo. Registre-se. São Paulo. Perspectiva. Tradução de Miriam Schnaiderman e Renato Janine Ribeiro.B I B L I O G R A F I A operações binárias que estruturam o texto. Uma possível alternativa contra essas supostas formas anacrônicas de leitura tem sido o estudo das poéticas. que conduz ao abandono de certas generalizações que procuram unificar a diversidade da história a partir de categorias do presente. Tradução de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. 1997. de Charles E. Bressler. mas do historicismo de Michel Foucault. No Brasil. admitir a hipótese de uma terceira saída e de outros níveis de significação. sob a supervisão de Silviano Santiago. de Jonathan Culler. Luciana Whitaker/Folha Imagem • A escritura e a diferença. A partir daí. Englewood Cliffs. recusa-se a leitura sincrônica das formas literárias. em franco progresso em outros setores da produção cultural brasileira. (4) desconstruir as concepções implícitas no texto. Boa parte dos chamados estilos de época não passam de discursos atuais voltados para a anulação da diversidade de práticas do passado. • Literary criticism: An introduction to theory and practice. por fim. de Jonathan Culler. os conceitos e as idéias que subjazem a essas operações. Em função disso. Derrida foi muito bemrecebido a partir dos anos 70. • Glossário de Derrida. com o conceito de escola literária. Harvester Wheatsheaf. para quem cada época possui uma episteme específica e intransferível. organizado por Silviano Santiago (ao lado). o útil Glossário de Derrida.CULT 37 Nota-se que as idéias de Derrida foram bem-recebidas no Brasil pelo aparecimento do Glossário de Derrida. London. e (6) deixar em aberto a interpretação do texto. 1997. 1973. 1994. representada sobretudo pelos textos de João Adolfo Hansen. São Paulo. Routledge. de Jacques Derrida. New York/London. o presente é que se apropria do passado como forma de legitimação do ponto de vista segundo o qual se emitem os juízos. Rio de Janeiro. como deixa ver. de Keith Green e Jill Lebihan. (3) subverter as operações binárias existentes no texto. Ithaca. (5) a partir das novas relações binárias. Cornell University Press. • Literary theory: a very short introduction. New York. por exemplo. reinaugura-se o esforço pela reconstrução das formas mentais do passado: redesenha-se o espaço da arqueologia. supervisão de Silviano Santiago. que há uma nova espécie de desconstrução em andamento no ensaísmo brasileiro. novembro/98 . • Gramatologia. de John Lechte. 1971. Francisco Alves. Oxford/New York. 1992. o passado não atua sobre o presente. Perspectiva. Oxford University Press. Nesse sentido. e pela aplicação de princípios desconstrutivistas por Haroldo de Campos . • A reader’s guide to contemporary literary theory. • Critical theory & practice: A coursebook. Prentice Hall. de Raman Selden e Peter Widdowson. 1976. É o que se observa. que faculta a apreensão da diversidade sem desconsiderar a unidade específica de cada período.

de Daudet 3 8 CULT .novembro/98 .Fotos/Reprodução O moinho que deu origem às narrativas de Les lettres de mon moulin.

de 1337 a 1353 em Fontaine de Vaucluse. se opôs ao francien ou langue d’oïl (contração de hoc e il do latim hoc ille). especialmente no que se refere à língua e à literatura. durante séculos. onde se instalara uma poderosa família feudal no século X. Por ali passou o trovador Fouquet de Marselha (1180-1231). Hoje. porém. no ano de 1909 ergueu-se uma estátua a Frédéric Mistral. que guardou durante séculos uma tradição consideravelmente diferente daquela do norte do país. muitos deles reunidos e protegidos em Les Baux-de-Provence. Terra de trovadores. o sul da França foi marcado pelos domínios da langue d’oc (do latim hoc como “sim”) que. Frédéric Mistral. que em 1205 foi eleito bispo inquisidor e passou a semear o terror na região. outro poeta italiano teria sido influenciado – desta vez. no território compreendido pelo que é hoje a França. o mundo do Midi. pela mágica paisagem provençal. Marcel Pagnol e Jean Giono Mônica Cristina Corrêa o sudeste da França. dedicando-se a destruir a sociedade que o acolhera. com intervalos. homenagem e reconhecimento de seu imenso trabalho na conservação de um mundo que estaria fadado ao esquecimento e à destruição pela violência da industrialização e pela invasão de imigrantes. as quais se confundem com a formação rochosa (baux. em Arles. as fronteiras com seus arredores. desde a época merovíngea. e desde então sofreu contínuas modificações históricas. Petrarca viveu. a Provença mantém uma singularidade cultural e lingüística dentro do território francês. eternizada na obra de escritores como Alphonse Daudet.CULT 3 9 . Com efeito. ou seja. pode-se visitar ali as ruínas do castelo medieval. apesar da notável produção artística medieval – pois a Provença foi o grande berço do Trovadorismo –. Limitada ao sul pelo Mediterrâneo. que encontrara a jovem Laura na cidade de Avignon em 1327. as línguas derivadas do occitan (langue d’oc) perderam terreno para o francien que.Berço do trovadorismo. homem de letras. aos poucos. falado inicialmente apenas na Île de France (região de Paris). Mas a vida de Baux terminou com a demolição do castelo e da cidade. a região provençal não tem claras. se impôs. ao contrário. Tão particular se tornou essa paisagem que há até uma lenda contando que Dante Alighieri teria se inspirado em seu exotismo para escrever os círculos do Inferno. Jean Giono Fotos/Reprodução N Frédéric Mistral Alphonse Daudet Marcel Pagnol novembro/98 . a Provença registra grande número de poetas desse gênero (mais de cem). que se acreditava descendente de um dos reis magos. do ponto de vista da tradição. a 280 metros de altitude. comandada pelo rei Luís XIII – preocupado com sua insubmissão. que era a língua da corte. Convidado por seu amigo Philippe de Cabassol. veridicamente –. Ao longo dos séculos. A Provença foi uma das primeiras regiões a ser romanizada na Gália. bauxita) do local. Petrarca. apaixonou-se por toda a vida. Esse mundo – imortalizado na obra poética de Mistral – é o provençal. repleta de germanismos. Baltazar. ao norte de maneira um pouco incerta e contígua a Côte d’Azur. Aliás. falada no norte do país.

As terras meridionais francesas são.. e aglomerados em ruas estreitas nas cidades. a unificação lingüística acabou por fazer com que quase desaparecessem as línguas derivadas do occitan. Dentre os estrangeiros. que viveu certo tempo em Arles. da Félibrige. isto é.. sempre castigados pelo mistral. levando-o à expressão literária em sua língua. ruínas do castelo de Philippe de Cabassol.. Bom número de pintores captou essa luz. com intervalos. Na região. Foi. o poema mais importante é Mireille. cuja claridade se prolonga até dez horas da noite. nascido e criado na vida rústica dos campos do sul. Todavia. há especialmente Paul Cézanne. Fredéric Mistral (1830-1914). que o poeta teria buscado refúgio para escrever sua obra lírica dedicada à amada Laura. A essa paisagem somam-se ruínas de monumentos romanos. a grande marca ficou por conta de Van Gogh. sofreu grande humilhação por causa de seu falar provençal. quando enviado à escola. o museu oferece ao visitante uma bela amostra da história dos costumes regionais. Um de seus feitos mais importantes – que colaborou para a indicação ao Nobel – foi a fundação. cobertas de telhas caneladas. Provavelmente aconselhado por seu amigo. As chuvas. amigo de Petrarca. sacudidas por alguns fenômenos naturais que tiveram no homem uma resposta artística condizente com a variedade e o colorido local. E em suas telas estão pintados os cantos 4 0 CULT . Com objetivos de assegurar o progresso. a produção literária nas línguas derivadas do occitan padeceu de sérios prejuízos quando da imposição do francês como língua nacional (século XIX). fazem alternar inundações com períodos de seca. iluminados por um sol ardente na primavera e no verão. da belíssima fonte da Sorgue. o Museu Arlaten. a grande “ação lingüística” de Mistral que lhe valeu o Prêmio Nobel de 1904 e o prestígio internacional. em cujas telas se apresenta uma Provença agrícola e rupestre. Apesar da inspiração que tantos encontraram nos domínios da langue d’oc. vento típico que forçou a construção de casas campestres (“mas”) com paredes cegas na fachada norte. por exemplo. que ali morou. Foi em torno desse deslumbrante fenômeno natural – o término de um imenso rio subterrâneo cujo percurso permanece misterioso –. Situado num antigo palácio do século XVI (sobre os vestígios de um templo romano). onde reinam as oliveiras. originário de Aix-en-Provence. Fontaine de Vaucluse. à dir. Acima. à beira de “le chiare. ou seja. incontestavelmente. o preconceito fez fortalecer seu patriotismo e seu gênio. entre 1337 e 1353. uma escola literária com objetivo de promover um renascimento da cultura provençal. E com os recursos adquiridos pela premiação. vertido para o português pelo poeta Manuel Bandeira com o nome de Miréia e publicado em livro pela Editora Delta em 1962. Mistral decidiu-se a criar o seu “último poema” (como definiu). com casas altas e fechadas. Van Gogh teria ido a Arles ao encontro do sol. fresche e dolci acque.”.Acima. em 1854. De sua vasta obra. mais violentas do que abundantes.novembro/98 . porém. paisagem que inspirou o poeta italiano Petrarca. dedicado às tradições e artes de sua terra. o também pintor Toulouse Lautrec.

há dois mil anos. É nesses vales aromáticos. ainda popular em toda a região. É em Montmajour1 que dormem.Vales aromáticos e claustros Os dois primeiros parágrafos do primeiro capítulo das Memórias de Mistral resumem com precisão e beleza a paisagem da Provença: “Desde que me lembre. É na inclinação dessa costa que se encontram os destroços do grande aqueduto romano que levava as águas de Vaucluse para dentro das Arenas de Arles: conduto que a gente da terra denominava Ouide di Sarrasin (via dos Sarracenos). dourados pelo sol. novembro/98 . um tesouro muito secreto. Caio Mário. em SaintRémy sur les Antiques são. um verdadeiro belvedere de glória e de lendas. romanas ou feudais. declives. nossos velhos reis arlesianos. ” Frédéric Mistral tradução de Mônica Cristina Corrêa As Arenas de Arles A Abadia de Montmajour 1 Grande abadia do século X. esperou os bárbaros. vejo diante de meus olhos. em altas vagas.CULT 4 1 setembro/98 . que erram ainda nossas fadas. É a cadeia dos Alpilles. falésias e vales A cadeia dos Alpilles azulavam. 2 Trata-se de uma figura das lendas provençais. lá embaixo. Foi ao pé dessa muralha que o benfeitor de Roma. Romanin e Roque-Martine. de manhã à tarde. em Baux. e seus troféus triunfais. mais ou menos claro ou escuro. que tratavam das questões amorosas as belas castelãs do tempo dos trovadores. de Cordes. pois é por ali que os mouros de Espanha adentraram em Arles. É sobre as rochas escarpadas dessas colinas que os príncipes de Baux tinham o seu castelo. debaixo das lajes do claustro. próxima a Arles. É nessas grutas do Vale do Inferno. que é uma espécie de Graal. ou seja. É sob todas essas ruínas. uma barreira de montanhas cujos outeiros. que jaz a Cabra de Ouro2. atrás das paredes de seu campo. no sul.

da cidade nas cores das quatro estações. Sempre irascível, o renomado pintor teve de tratar-se, durante suas crises de loucura, no hospital que hoje é um centro cultural em sua homenagem: L’ Espace Van Gogh. Além da pintura, observa-se que a paisagem e a luminosidade mediterrâneas imprimem um efeito pictórico na obra dos escritores que ali se inspiraram ou nasceram, marcando a literatura da Provença. Alphonse Daudet (1840-1897), por exemplo, após uma infância feliz no Midi, foi forçado a mudar-se devido à ruína de seus pais. Mas deixou aos franceses suas célebres Lettres de mon moulin (1866), narrando aventuras provençais em contos que unem humor e poesia. Bastaria hoje ir a Fontvieille – pequeno distrito próximo a Arles – para conhecer o moinho que deu origem às narrativas de Daudet, para imaginar seus passeios pela região e suas conversas com o moleiro. Enfim, em terra de tantas belezas e tantas proezas, a arte ultrapassou o terreno do pictórico e do literário, cultivando também o cinema. Vários foram os diretores que ali filmaram. Claude Berri adaptou para a tela Jean de Florette e A vingança de Manon, da obra de Marcel Pagnol (1895-1974), escritor pertencente à Academia Francesa desde 1946, que nessa seqüência aponta os problemas de uma sociedade ainda basicamente rural no começo deste século. Da trilogia das memórias de Pagnol, Yves Robert adaptou ainda A glória de meu pai e O castelo de minha mãe, que são o relato despretensioso porém sensível das descobertas do menino Marcel, durante sua infância na Provença. E foi o próprio Marcel Pagnol, que além de escritor se tornou dramaturgo e posteriormente cineasta, a verter para a tela a obra de Daudet (Les lettres de mon moulin) e de outro escritor provençal, Jean Giono (Angèle, Regain, la femme du boulanger). Também pertencente à Academia Francesa, Giono (1895-1970) é um escritor de origem franco-piemontesa, ou seja, da chamada “Haute-Provence” (Alta Provença). Não fossem, pois, tantos artistas a retratar a Provença, pouco restaria de seu mundo, que, se não é à parte, tem características próprias. Desde a Revolução Industrial, a região passou por uma profunda modificação em sua paisagem original – fato que a despersonalizou tanto no que diz respeito à terra quanto às tradições. Mas graças à produção artística, os domínios da langue d’oc são ainda hoje uma invitation au voyage, que podem proporcionar mesmo ao mais desavisado uma síntese da longa vida romana na Europa, e do Medievo à Idade Contemporânea. Trata-se de uma terra peculiar, eternizada na arte e cujo passado se projeta de forma tentacular aos olhos dos transeuntes.
Mônica Cristina Corrêa
mestranda em tradução em língua e literatura francesa na USP

À esq., as ruínas do castelo de Baux-de-Provence, região em que Dante teria se inspirado para escrever os círculos do Inferno. Acima, o Museu Arlaten, “último poema” de Mistral.

4 2 CULT - novembro/98

100 ANOS

sem Mallarmé

Montagem de José Henrique Fontelles sobre ilustração de Cárcamo
novembro/98 - CULT 43

O CENTENÁRIO DE

STÉPHANE
44 CULT - novembro/98

MALLARMÉ

Há cem anos morria Stéphane Mallarmé, poeta que buscou a “obra pura”, incorporou a colaboração do acaso e encarnou o drama da impotência criadora. Leia a seguir a conferência proferida por Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras em 1942, ano do centenário de nascimento do poeta francês.

para só citar dois críticos que são dois grandes poetas. en habits de voyageuse. une longue robe terne de couleur de la poussière des routes.CULT 45 . Como fazê-lo? A homenagem mais cara do mestre seria esculpir em soneto um túmulo à maneira dos que ele próprio levantou. Relembrar-lhe a vida exemplar? “Ordonner. se quisesse. julguei-me autorizado à ce genre de méfait.. Onde. nevoeiros monumentais “qui emmitoufflent nos cervelles et ont. Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras. à memória de Poe. porque a esposa não pudera acompanhá-lo e visitava-o de raro em raro. Mas já que o fez a propósito de Rimbaud. Mallarmé fotografado por Nadar. mas também para aprender a falar o inglês e ensiná-lo num curso. de universal convulsão. em que o seu papel não deveria ser outro senão trabalhar com mistério en vue de plus tard ou jamais. qui me faisait vivre! J’ai revu par les fenêtres ces arbres malades du square désert – j’ai vu le large. a funda ternura existente nesse homem que poderia. no seu altivo sonho de absoluto. A poesia foi o seu culto. de Baudelaire e de Verlaine. considerando a época em que viveu. em 1966. aos que só conhecem Mallarmé pela sua fama de hermetismo. pois exprimir pela humana linguagem. Mallarmé amava os nevoeiros londrinos.”. en fragments intelligibles et probables. Essa página em que ele revive os seus dias na Inglaterra é das mais simples e das mais comovidas que escreveu: “Mon tabac sentait une chambre sombre aux meubles de cuir saupoudrés par la poussière du charbon sur lesquels se roulait le maigre chat noir. Temi o desastre numa tentativa de interpretação das palavras magistrais de Valéry e Claudel. un de ces chapeaux de paille sans plume et presque sans rubans. que les riches dames jettent en arrivant.Ao lado. em qualquer literatura. Na página oposta. les grands feux! et la bonne aux bras rouges versant les charbons. Cito o trecho para mostrar.. para falar de um homem que no seu tempo deu resolutamente as costas à vida. Singular momento este. quand ils pénètrent sous la croisée”. pour la traduire. le matin – alors que le facteur frappait le double coup solennel. em versos imperecíveis. Trabalhar em quê? Na interpretação do universo. ter conquistado o grande público. est tout juste impertinent”. sem outro ganhapão obrigado. tant ils son déchiquetés par l’air de la mer et les pauvres bien-aimées regarnissent pour bien des saisons encore. Mal saído do liceu de Sens. no sentido secreto das aparências do mundo era para ele a única tarefa que autenticava a existência terrestre do verdadeiro artista. um interregno de efervescência preparatória. un manteau qui colait humide à ses épaules froides. que recebi do presidente desta casa o encargo de celebrar a passagem do centenário de Mallarmé. une odeur à eux. onde terminou os estudos. e dois meses depois era nomeado professor no colégio de Tournon. recon- Não foi sem grandes perplexidades duzida ao seu ritmo essencial. a fim de fugir principalmente (toda a sua vida e obra foi sobretudo uma evasão do “vomissement impur de la bêtise”). Um ano depois de regressar à França. com novembro/98 . là-bas. muito só. como um interregno para o poeta. e a sua iniciação literária na adolescência assumiu o aspecto de uma clausura religiosa. mas preferiu isolar-se. partiu para a Inglaterra. grelottant sur le pont du steamer mouillé de bruine et noirci de fumée – avec ma pauvre bien-aimée errante. conquistando assim a independência literária. Os versos de Mallarmé são daqueles que nos introduzem de golpe na cidadela mesma da poesia. et le bruit de ces charbons tombant du seau de tôle dans la corbeille de fer. quase inacessível. Seria para mim demasiada ambição: le pietre serait châtié. la vie d’autrui. alguma coisa mais tocante que esse triste chapéu batido “que les pauvres bien-aimées regarnissent pour bien des saisons encore”? Em setembro de 63 obtinha Mallarmé o certificado de habilitação ao ensino. inseparáveis da cidade. disse ele. evocava ao calor de seu cachimbo a Londres onde viveu pobremente de lições de francês. si souvent traversé cet hierlà. e tendo aprendido o inglês para ler Poe no original. por volta de 1882. Tinha então vinte anos e já havia se casado.

Trinta anos depois a vitória do herói criança – le hasard vaincu mot par mot – se converte na catás- trofe do velho náufrago: non. Mas ele não nascera senão para tentar o desastre obscuro. com o acaso. – publicados em L ’artiste ou no primeiro Parnasse começavam a despertar a atenção e a estima das rodas literárias parisienses. O primeiro processo. Un automne jonché de taches de rousseur. cometeu o pecado “de ver o Sonho em sua nudez ideal”. em retardos liberados pelo eco. ou o inverso: atestar um estado de espírito em certo ponto por um sussurro de dúvidas para que delas saia um esplendor definitivo simples. A poesia foi o seu culto. os seus primeiros poemas – “Les fenêtres”. un coup de dés. sur l’eau morte où la fauve agonie Des feuilles erre au vent et creuse un froid [sillon. a que devemos os quatorze versos de “Don du poème” com o seu maravilhoso alexandrino inicial: Je t’apporte l’enfant d’une nuit d’Idumée! Já aqui vemos aplicado o conceito orquestral de poesia desenvolvido em prosa nas Divagations: através dos véus da ficção. Eram versos onde se traía ainda a influência absorvente de Baudelaire. o extenuamento aussitôt que s’allume la lampe du soir. e sua iniciação literária assumiu o aspecto de uma clausura religiosa. Começa então seu martírio. Fidèle. como disse Valéry. o drama da impotência criadora. Idées Tout en moi s’exaltait devoir La famille des iridées Surgir à ce nouveau devoir Em 65. “o mais belo. Assim em “Soupir”. mas aqui e ali já repontavam as “deliciosas. as manhãs e as tardes perdidas no ofício insulso e fatigante. o mais comovente produzido no século XIX”. mas a que preço! o ramerrão de classes em face de alunos desatentos que o chamavam le bonhomme Mallarmé e chegaram muitas vezes ao desplante dos apupos e das pedradas. desprender o assunto de sua estagnação acumulada ou dissolvida com arte – começar por uma afirmação como um pórtico de acordes convidando a que se componha. quand bien même lancé dans des circonstances éternelles n’abolira le hasard. ô calme [soeur. o . para realizar o Livro a que converge toda a vida. “Azur”. Se traîner le soleil jaune d’un long rayon. Et vers le ciel errant de ton oeil angélique Monte. Dessa noite de vigília. Todavia a visão da obra pura apontou ao poeta o seu caminho. o que de fato era – o primeiro poeta de seu tempo. comme dans un jardin [mélancolique. a surpresa. “Les fleurs”. ô derision! Entretanto. nascimento de sua filha Geneviève.700 francos anuais.novembro/98 Qui mire aux grands bassins sa langueur [infinie Et laisse. je les veux perpétuer!). que Claudel classifica como um drama. dessa iluminação fulminante e dolorosa resultou Igitur. Foi em Tournon. jamais. “Brise marine”. empregado em Don du poème como em L ’après-midi d’un faune (Ces nymphes. que Mallarmé só leu para alguns raros amigos e nunca publicou. Charles Baudelaire. aos 24 anos. da ação consciente do artista – o lance de dados – em luta com o acidental. un blanc jet d’eau soupire vers [l’Azur! – Vers l’Azur attendri d’Octobre pâle et [pur 46 CULT . a única tarefa que autenticava a existência do verdadeiro artista era trabalhar na interpretação do universo e exprimi-lo pela humana linguagem. que Mallarmé teve o que chamou “a visão horrível de uma obra pura”. e desde aquela noite de Tournon ele poderia dizer que o exprimirá mais tarde na Prose pour des esseintes: Glorie du long désir. jogo d’água com a sua parábola perfeita e aquele sortilégio de dissolver em imagens os elementos esparsos da beleza para reordená-los em seus valores essenciais: Mon âme vers ton front où rêve. para escrever a versão condensada e definitiva do único assunto: l’antagonisme du rêve chez l’homme avec les fatalités à son existence départies par le malheur. Bastaria a Mallarmé persistir a meio de sua personalidade para se revelar. pudicas metáforas” mallarmeanas.Para Mallarmé. fotografado por Nadar 1. Era a independência literária que desejara.

filho do funcionário público Numa Florent Joseph Mallarmé e de Élisabeth Félicie Desmolins. senão a demissão. pudicas metáforas mallarmeanas.. capa azul-turquesa. rematados por um verso que se diria organizar todo o poema numa constelação de que ele fica sendo a estrela alfa: Ainsi qu’une joyeuse et tutélaire torche. Roumanille... era da própria mão de Mallarmé. As descrições dos vestidos na Dernière Mode têm o sabor de poemas compostos especialmente para lisonjear a imaginação feminina.. Roumieux.CULT 47 . froncé à deux fils avec têtes étroites de chaque côté.. desde o título até os anúncios. mobiliário e até espetáculos e “menus” de jantares. onde a vida se lhe tornou ainda mais dura. vinhetas desenhadas por Morin. A revistazinha definia-se como uma gazeta do mundo e da família.. em Paris. Oito páginas de pequeno formato in-folio. segundo mais freqüente. Gras. ao menos a remoção do funcionário para Besançon. e houve um momento mesmo que aquele Hamletprofessor. je l’ai vue rose. 1852 Estuda no pensionato dos padres das Écoles Chrétiennes de Passy. longe de seus caros felibres. Mallarmé despendeu em benefício de suas caras leitoras desconhecidas. Mallarmé em 1896 Vida e obra 1842 Nascimento de Étienne Mallarmé – nome verdadeiro do poeta Stéphane Mallarmé – no dia 18 de março. Em 66 as manobras. um ou dois grandes exemplos dessa literatura de modas introduzida no domínio da grande arte de um grande poeta: Toilette de dîner (en cachemire. jóias. A vinda para a capital encheu-o de grandes esperanças. As senhoras aqui presentes gostarão de ouvir. lançando uma revista – La Dernière Mode. com o exame dos menores detalhes: “toilettes”. No mês de outubro. Mistral. graças ao historiador Seignobos. em Paris. mas aqui e ali já repontavam as deliciosas. Mallarmé obtém a nomeação para o liceu Fontanes. de dar nome Mallarmé. de ses très vraies chères abonnées. depois Condorcet. onde se promulgavam as leis e verdadeiros princípios da vida estética. 1854 Escreve seus primeiros poemas. Aubanel. 1853 Seu pai é transferido para a cidade de Sens.. junto à administração. em vários sonetos. salvo algumas colaborações literárias. estou certo. na qual. Une rose dans les ténèbres. 1847 Morte de sua mãe. 1858 Depois de terminar o curso secundário. Eram versos onde se traía ainda a influência absorvente de Baudelaire. de alguns pais de alunos escandalizados com os versos do professor-poeta conseguem. seu ex-aluno de Tournon. comme vous pouvez la voir bleue): le tablier de la première jupe est garni de maint bouillon horizontal. Felizmente um ano depois volta ele ao sul e até 72 assiste em Avignon. tudo. por ele mesmo novembro/98 . que aliás o considerava uma espécie de degenerado inofensivo. 1856 Estuda no liceu de Sens como aluno interno. teve a ilusão de poder evadir-se do ingrato ofício de ensinar inglês em liceus. aqui e ali. e no texto. De scintillations sitôt le septuor.Seus primeiros poemas cedo despertaram a atenção e a estima das rodas literárias parisienses. os tesouros de suas delicadezas de poeta. estuda retórica e lógica no mesmo liceu.. Durante nove números. como lhe chamou Remy de Gourmont. Continua a descrição e acaba estas palavras que esclarecem a origem do costume atual dos Worth e das Schiapparelli.

Mas ele não nascera senão para realizar o Livro a que converge toda a vida. Não tardou a se desfazer a ilusão do cronista estético: Mallarmé foi roubado de sua iniciativa e do seu trabalho. avistavase freqüentemente com Banville. antes com uma discrição que deixava encantados os que dele recebiam uma palavra ou uma linha de louvor. Nunca disse mal de ninguém nem jamais revidou a campanha de ridículo que lhe moviam na imprensa os que não lhe compreendiam a poesia. o qual. a gazeta caiu nas mãos de uma mulher que fez dela uma revista banal. Paul Valéry. à beira do Sena e à vista da floresta de Fontainebleau. A sua vida era a mais discreta possível: não ia a parte alguma. não possível no teatro. não dava colaboração literária senão às pequenas revistas de novos e 48 CULT . de que podemos colher quase toda a teoria nas páginas de prosa das Divagations. pois o poeta imaginara-o absolutamente cênico.. exercido em derramamentos. De fato.Mallarmé foi. de volta do liceu. qui la prèmiere portera cette toilette. acquis la célébrité et le prestige! Outro vestido. A este último aspecto é a sua poesia de natureza platônica. uma casinha onde passava as férias. Em 75 estava concluído “L’après-midi d’un faune”. dans le monde.. que gostava de o chamar. Foi nesse mesmo ano de 74 que Mallarmé se instalou no famoso apartamento da rue de Rome e alugou em Valvins. Aos 24 anos Mallarmé teve “a visão horrível de uma obra pura”. da humana paixão que chora (porque não se assoa também? perguntou de uma feita). grande voz da tradição. queria. par son port. uma espécie de jeu courant pianoté autour. este bleu-rêve. mas ao lado do órgão venerável queria ele também a maliciosa siringe. e mesmo da mera realidade dos materiais naturais. para escrever a versão condensada e definitiva do único assunto: o drama da impotência criadora. beliscando-lhe afetuosamente a orelha. O poema deveria ser dito por Coquelin aîné. ao pintor Manet. Certo purificou-a o poeta de todo elemento estranho ao sentido poético essencial. na falta do grande Livro sonhado na memorável noite de Tournon. tinham a preferência entre todos os confrades que admirava. qui enguirlande quelquefois les nuages argentés. Não que Mallarmé aborrecesse o alexandrino clássico. Não assim a sua estética e a sua técnica. O alexandrino de L’après-midi marca o rompimento com a técnica oficial parnasiana. distinguindo prontamente em cada um o que era digno de apreço e assinalando-o com tato impecável. lui a. e Mallarmé. Je ne sais au juste entre les mains de qui va tomber cette feuille. que com Villiers de l’Isle Adam. Muitos são os poemas de Mallarmé de interpretação difícil senão impossível. no esforço . representa a sua realização mais perfeita. como disse Valéry. pour se figurer une longe jupe à traîne de reps de soie. não obstante os seus pontos de vista e gosto tão requintadamente pessoais. de que Igitur permaneceu esboço e Un coup de dés um capítulo que a ele próprio deixava em estado vertiginoso. datant de quelques jours (a revista é de 74) veut qu’une robe se nomme de la femme qui. salvo os concertos dominicais e a visita diária. possuía o raro dom generoso da admiração. instrumento das fugas. que costumava visitar Mallarmé nos últimos anos de vida do poeta aos vestidos-modelos: À celle d’entre vous. como um acompanhamento musical feito pelo próprio poeta e não permitindo ao verso oficial comparecer senão nas grandes ocasiões. à reflets d’opale. é assim descrito: On n’a qu’à le vouloir. “mon cher poète impressioniste”. du bleu le plus idéal. e daquilo a que chamou o dom elocutório.novembro/98 gratuitamente. ao lado do alexandrino bem ortodoxo na sua cesura regular. l’honneur de l’appeler. ce bleu si pâle. o primeiro poeta de seu tempo. Ia algumas vezes à casa de Hugo. Não me parece a poesia mallarmeana tão pura quanto se tem afigurado aos seus críticos. à des mariages et à d’autres combinaisons. Mesdames. mais tout me fait croire qu’elle va servir à de vagues chantages. cara a quem não aceitava o banimento de nada que tivesse sido belo no passado. car un joli usage. o alexandrino en grande tenue. mas exigindo o teatro. charme et distinction. Teve verdadeiramente o gênio da amizade.

lançando uma revista – La Dernière Mode. uma arte de rematar a transposição para o livro da sinfonia ou simplesmente retomar-lhe o que nos pertence: pois não é das sonoridades elementares dos metais. as palavras se iluminam de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias... de subir dos acidentes à noção pura. obra por excelência do poeta. próximos da instrumentação. não poderá sentir a beleza do alexandrino Hilare or de cimbale à des poings irrité. A divina transposição. filha do poeta novembro/98 . mas no sentido definido por Boris de Schloezer. não se pode falar de pureza em Mallarmé. com o seu caráter espiritual. Neste sentido diz o crítico russo. no que consuma. como o conjunto das relações em tudo existentes. e musicais. que é autoridade em música. 1864 Começa a escrever o drama poético Hérodiade. 1861 Corteja a governanta alemã Maria Gerhard. Seus versos geram protestos dos pais dos alunos de Tournon e Mallarmé é transferido para o liceu de Besançon. Alguns fragmentos: A Poesia não é senão a expressão musical. Françoise Geneviève Stéphanie Mallarmé.CULT 49 . com alusão a O corvo. a nuit timbre claro. devia ir do fato ao ideal. não poderá compreendê-la. Mas na infinidade dos idiomas nem sempre o timbre da palavra corresponde à imagem por ela evocada: Mallarmé confessou a sua decepção em face da perversidade que confere a jour timbre escuro. na imanência do conteúdo com a forma. porque a sua poesia está refeita de elementos plásticos. Água-forte de Gauguin. a Música. e nisto ela é ainda bem parnasiana. Toda vez que define a poesia. complemento superior de cada uma delas na falta do Geneviève Mallarmé. 1863 Morte de seu pai. por exemplo. na qual tudo saía de sua própria mão. diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados. Musical não no sentido puramente sonoro ou melodioso. e só verá nela a ousadia insólita da imagem. Mallarmé se reporta à música. Precisamente para remediar essas contradições das línguas existe o verso. Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra. espécie de metafísica poética em que a flor. resultar. e a esse ângulo a música nos parece como o limite da poesia. o simbolismo. 1865 Escreve a primeira versão L’après midi d’un faune. Trabalha como funcionário de um cartório em Sens. Poderia prolongar as citações. ou seja. buscar. com quem vai para Londres. e o alexandrino foi principalmente para ele uma combinação de doze timbres. um texto pode ser musical apesar de duro aos ouvidos. na poesia de Mallarmé. Casa-se com Maria Gerhard e volta para a França como professor de inglês no liceu de Tournon. superaguda. que deve com plenitude e evidência. de um estado de alma. Nasce sua filha. 1866 Publicação de dez poemas no Parnasse contemporain (série de antologias da poesia francesa do século XIX).Teve a ilusão de poder evadirse do ingrato ofício de ensinar inglês em liceus. de Edgar Allan Poe 1860 Traduz Poe. se transcendentaliza em l’absente de tous bouquets. A poesia mallarmeana é essencialmente musical. Mas se o conceito de poesia pura exige a autonomia dela em relação às outras artes. uma gazeta do mundo e da família. Quem não percebe a face orquestral. Mallarmé foi sobretudo sensível ao lado orquestral da música. mas essas bastam. das cordas e das madeiras inegavelmente mas da intelectual palavra em seu apogeu. emo- cionante. ele mesmo o declarou. A sua técnica de poeta é uma orquestração da linguagem.

onde o leitor mal dotado de instinto poético se perde na incompreensão do poeta. E aqui entramos em outro domínio. l’auteur est indigne et les vers sont des plus mauvais qu’on ait vus. Essa incomparável jóia de poesia está cheia de imagens audaciosas em sua extrema delicadeza. ce l’est. Não ia a parte alguma. uma força de sugestão.. Tenhoas até demais”. A Poesia é que dá o verdadeiro timbre às coisas por meio das imagens. a poesia confunde-se com a linguagem. Mallarmé se instalou no apartamento da rue de Rome. Assim ampliar o vaivem do leque no gesto de aproximar e recuar o horizonte. junto à fulgurante console. Degas. e aquele perpétuo desígnio de transmudar a realidade em sonho. A sentença de France: Non. Victor Hugo. incluído depois em Sagesse. O voto de France foi secundado por Coppée e venceu. Por isso Thibaudet classificou-o na obra do poeta como le morceau des connaisseurs. salvo os concertos dominicais e a visita diária ao pintor Manet. gozo que nasce da felicidade de adivinhar. transparente em seu tema e tão límpida de forma.. leur faiblesse et ces mains pâles. essa obra-prima. “No entanto”. ponderou France. 50 CULT . pour que je plonge Au pur délice sans chemin. cuja incompreensão se assemelha à de certos maus alunos de literatura. A poesia é um sortilégio. Cabe lembrar aqui a dife- . Ce blanc vol fermé que tu poses Contre le feu d’un bracelet. E sabeis quem era esse leitor? Anatole France. se puseram a murmurar perplexos: “Duro é este discurso: quem o pode ouvir?” Conta Valéry que certa vez o pintor Degas se queixou a Mallarmé de ter perdido o dia na vã tentativa de escrever um soneto. Nomear o objeto seria a seu ver suprimir três quartas partes do gozo do poema. motivo de todos os seus devaneios. não é com idéias que se fazem versos: é com palavras”.Em 1874.novembro/98 Sens-tu le paradis farouche Ainsi qu’un rire enseveli Se couler du coin de ta bouche Au fond de l’unanime pli! Le sceptre des rivages roses Stagnants sur les soirs d’or. foi recusada pelo leitor de Lemerre para o terceiro fascículo do Parnasse Contemporain. Ne peut jaillir ni s’apaiser... par un subtil mensonge. Une fraîcheur de crépuscule Te viente à chaque battement. ouvindo-o dizer: “Eu sou o pão que desceu do céu”. Mallarmé jogava com as analogias numa espécie de contraponto. ou nas noites de vigília no gabinete da rue de Rome. on se moquerait de nous! O mesmo júri condenou um soneto de Verlaine. – Non. idioma supremo em que as palavras figurassem materialmente a verdade. Todos esses aspectos. A mesma incompreensão dos discípulos de Jesus que. Para Mallarmé. Sache. À dir.. que gostava de o chamar “mon cher poète impressioniste”. No poema feito para sua filha Geneviève a palavra “leque” só aparece no título e seria dispensável: O revêuse. instituía entre as imagens (e raramente exprimia o primeiro termo delas) uma certa relação donde se destacava um terceiro aspecto fusível e encantatório apresentado à adivinhação. adolescentes mal iniciados à verdade superior da poesia e que riem quando lhes cito a comparação do Cântico dos Cânticos: “O teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gilead”. Ao que o mestre respondeu: “Mas. retrato de Mallarmé. acrescentou “não são as idéias que me faltam. como explicou Valéry. e. Ia às vezes à casa de Victor Hugo. Garder mon aile dans ta main. que começa pelo verso famoso: Beauté des femmes. Ao lado. fotografado por Nadar. em que renovou magistralmente o gênero antigo da égloga. Que soneto? Aquele. ou em suas horas solitárias na iole de Valvins. pontos capitais da técnica de Mallarmé. Pois bem. fou de naître pour personne. Imagens que repugnam a tantos. estão presentes nesse poema do fauno. Dont le coup prisonnier recule L’horizon délicatement Vertige! voici que frissonne L’espace comme un grand baiser Qui. como para todo verdadeiro poeta. pintado por Manet. apesar do protesto de Banville. é linguagem em estado nascente.

O poeta. Anatole Mallarmé. 1871 Retorna a Sens. Já ouvistes falar nesses nomes? Não. em 84. Se a compreensão não chegou. Nascimento de seu filho. 1876 A versão definitiva de L’après midi d’un faune é publicada com ilustrações de Manet. porque os amigos e admiradores do poeta se limitavam a lançar-lhe alguma deixa para ouvi-lo discorrer. viveu desconhecido e solitário até que o retrato entusiástico de Verlaine em Les poètes maudits e as páginas de Huysmans em À rebours vieram revelá-lo ao grande público. inteiramente redigido por Mallarmé. cuja libertinagem de autor e de homem todos nós conhecemos. Marrot. 1872 Encontro com Rimbaud. Dujolier. um desenho de Manet representando Hamlet. tinha Mallarmé 48 anos. Só então começava a conversação. com ilustrações de Manet. uma água-forte de Whistler. O mestre recebia-os às terças-feiras. onde tiveram entrada D’Artois. ninfa nua agarrada por um fauno. mas parecia mais velho.CULT 51 . Mallarmé e Verlaine foram excluídos do Parnasse. compreendendo fraternalmente a atitude do homem e até exaltando-a como a única numa época em que o poeta está fora da lei: a de aceitar todas as dores e todas as misérias com uma tão soberba crânerie. Mallarmé começa a sentir em torno de si a veneração de um grupo de moços que o afeiçoam como um ídolo. silenciosa e sorridente. Então moquons-nous d’Anatole France. mais tema de luminosos sonetos do que de evasão na sensualidade. Ilustração de Manet para O corvo. sobre o guarda-louça um gesso de Rodin. Geneviève. trazendo o grog para os visitantes. 1883 Verlaine publica o terceiro artigo da série Poètes maudits. tão puro em sua arte e na sua vida. de certo. 1879 Morte do filho Anatole. Estatura mediana. Marc. alguns móveis de nogueira e ao centro uma mesa onde pousava um vaso da China cheio de tabaco. e se retirava logo. ou antes o monólogo. tão atormentado na sua ingrata labuta de professor que todas as tardes ao voltar do liceu nunca atravessava a ponte sem que o assaltasse a vontade de acabar com a vida atirando-se ao Sena. Delthil. O próprio Mallarmé vinha abrir a porta aos visitantes e introduzia-os num aposento que era ao mesmo tempo salão e sala de jantar: um fogão de faiança a um canto. France. de Poe. e uma esculturazinha em madeira de Gauguin. tendo por tema a obra de Mallarmé. 1875 Publica a tradução do poema O corvo. grande. uma aquarela de Berthe Morissot e um pastel de flores pintado por Odilon Redon. Mallarmé. Grandmoujin. nas paredes uma paisagem de rio de Monet. Quando Mauclair principiou a freqüentar as terças-feiras do mestre. a partir de então.1867 Leciona no liceu de Avignon. 1873 Publica Toast funèbre. salvo o leve pecadilho com Méry Laurent. puritaníssimo diante dos erros de seu desgraçado confrade. Quem quiser sentir o encanto dessas noites de intimidade intelectual com o poeta não tem mais que ler as páginas de Camille Mauclair no seu livro Mallarmé chez lui. traduzido por Mallarmé novembro/98 . todavia. o retrato de Mallarmé por Manet. Capa de edição de La Dernière Mode rença de tratamento dispensada a Verlaine por France e por Mallarmé. a filha do poeta. Pigeon e Popelin. 1874 Lançamento do jornal La dernière mode. entrava. Às 10 horas.

porque era muito friorento.. de escolha. Pierre Louÿs. “Mallarmé”. directe. superbe. Foi essa mocidade que.. un caractère immédiat. suranné. Escrever para ele era mobilizar toda a sorte de sugestões fugitivas em torno da idéia e nessa mobilização a sua disposição habitual era refugar a solução imediata com a sua luz crua. Imaginara-o absolutamente cênico. Às obscuridades naturais resultantes de seu conceito de poesia. o que provocou um petit-bleu do malicioso Whistler com a recomendação cautelosa ao 52 CULT . Serrez l’argenterie”. comprada pronta. Na atitude em que o representa o famoso retrato de Whistler. Sorriso de extraordinário encanto. talvez já sintoma da moléstia de laringe que o vitimaria. Mas fazia melhor do que isso: pelo encanto de sua palavra e de sua pessoa punha cada um de nós em estado de poesia”. em 97.. Despojavase por elipse o mais possível dos termos da relação. n’attendez la Chambre représentative. vago com a morte de Verlaine. preferia retorquir que a maioria dos contemporâneos não sabe ler senão os jornais. Gide. que Remy de Gourmont conta ter visto corar ao receber o primeiro discreto elogio de Mallarmé. a solução vulgar. E outros. Albert Mockel. de organização de um sistema de incidentes em torno de uma idéia e tendendo não à cadência redonda. ironicamente satisfeito de afastar de sua obra os espíritos superficiais. Às vezes apareciam estrangeiros de passagem por Paris: o inglês Symonds. grave. Este curto período resume todo o processo mallarmeano de composição. plutôt que tendre le nuage. . Nada. Oscar Wilde anunciou-se uma noite. du pays si une autre dure que tarder à nommer paraît irrespectuex. tão inabitual na prosa francesa desde a reforma de Guez de Balzac. com súbitas notas agudas. Caricatura de uma edição do poema L’après-midi d’un faune barba e cabelos grisalhos. Quem eram os visitantes? Henri de Régnier. olhos penetrantes.. l’Académie. estava concluído L’après-midi d’un faune. o adjetivo qualificativo ou uma simples vírgula como para marcar entre os dois um instante de reflexão. conta Mauclair. Stuart Merrill. que confessou ter sentido diante da obra e da figura do mestre “a progressão fulminante de uma conquista espiritual definitiva”. mas o próprio pensar em sua origem e evolução dialética.novembro/98 mestre: “Wilde viendra chez vous. o alemão Stefan George. Falando da Academia Francesa. um plaid. pois vulgaire l’est es à quoi on decérne. É verdade que o poeta por seu lado nada fazia para desarmá-la.Em 1875.. A análise do segredo é aliás fácil: um substantivo. é freqüentíssimo em Mallarmé. “não nos ensinava. É sua realização mais perfeita. avec le rien de mystère. Diante da agressão de inteligibilidade. Viélé Griffin. poema que marca sua ruptura formal com o parnasianismo. Ainsi. fecundo em incidentes atentos em se organizar num sistema indeformável à balancement prévu d’inversions. juntou as de uma sintaxe própria. l’autre dimanche. le pauvre trumeau. substancial e concentrada como uma fórmula algébrica. encostava-se ao fogão e ficava em pé todo o tempo. lavallière preta e nos ombros. indispensable. pas plus. cada vez se envolvia em névoas mais densas. Edouard Dujardin. voz melodiosa. Valéry. mas exigindo o teatro. par ce midi. Gostava de separar. não possível no teatro. Odilon Redon. précieux. às vezes. Este último processo. começou com estas palavras: La plus haute institution puisque la royauté finie et les empires. o dinamarquês Brandes. Eis um bom exemplo da sua sintaxe. rituelle est. encantados de ver num escrito que nada lhes concerne à primeira vista. que acabara de publicar Les cahiers d’André Walter. bigode espesso. que depois veio a casar com Geneviève. André Fointainas. muito afastados. Vestia sempre roupa preta. porém. elevou Mallarmé ao posto de Príncipe dos Poetas. Ao contrário. mas a um remate agudo com o bico da pena pingando o ponto final. prezada tão alto que o ato de a nivelar às outras classes do Instituto lhe parecia de mão política e sacrílega. desarmava a incompreensão. orelhas de fauno. automnal. o médico Edouard Bonniot. O que ele escrevia não parece produto do pensamento. de um timbre raro.. fumando o seu inseparável cachimbo.

um leque. Méry Laurent. Sua técnica de poeta é uma orquestração da linguagem. mas na imanência do conteúdo com a forma. de uma ou duas sílabas. Mallarmé fazia-o sempre acompanhar de alguns versos onde punha a dupla delicadeza do seu afeto e da sua arte. 1889 Mantém um relacionamento amoroso com Méry Laurent.. Sofre uma crise respiratória e morre em Valvins no dia 9 de setembro. Poe. um livro. amante do poeta 1884 É nomeado professor de inglês no liceu Janson-deSailly. baseado na obra de Mallarmé. Um copo de água lhe suscita este cristal do mais puro brilho mallarmeano: Ta lèvre contre le cristal Gorgée à gorgée y compose Le souvenir pourpre et vital De la moins éphémère rose. 1894 Primeira audição do Prélude à L’après midi d’un faune. e infelizmente banidas da linguagem escrita em nome de uma clareza tão empobrecedora do mistério poético da palavra. O austero conceito de arte a que o poeta sacrificou materialmente a sua vida. Nesses momentos de détente no seu árduo esforço para o livre ideal. Dans cette main qu’on aime à tendre Je dépose le fruit permis. Todos esses traços pessoais de sintaxe dificultam a leitura de Mallarmé. 1898 Retoma o trabalho da Hérodiade.. aos quais correspondiam nos séculos anteriores outras tantas formas de construção. Afinal a sintaxe é um hábito. Mallarmé e Manet visitam Monet em Giverny. Comme il sied entre vieux amis. um retrato. Mallarmé reaparece com uma nova graça nesta quadra: Jadis frôlant avec émoi Ton dos de licorne ou de fée. recebe a visita de Paul Valéry. Ces vers qui se ressembleront! Prêtez-leur la voix spontanée De dire. mas essa espécie de obscuridade se dissipa com alguma prática do autor. Algumas dessas quadras são madrigais de uma sutileza jamais excedida: Avec mon souhait le plus tendre. moins que votre front. ou simplement littéraire dans le vieux sens du mot. não no sentido puramente sonoro ou melodioso. ovos de Páscoa. separado de sua regência por uma longa incidência. donne-moi L’horizon dans une bouffée. hélas! comme un pays dans un pays). Le mensonge de toute année. A imagem do horizonte no leque de mlle. termina bruscamente o período: À côté de l’Amérique que vous et moi portons haut dans notre estime (il est. do compositor Claude Debussy. 1897 Publicação de Un coup de dés. à la rampe. A casa do poeta em Valvins novembro/98 . e o alexandrino foi para ele uma combinação de doze timbres. para enviar um presente – flores ou frutas. o poeta se permite até o sorriso de um trocadilho: 1891 No auge da glória literária. Outro exemplo: Constater que la notation de vérités ou de sentiments pratiquée avec une justesse presque abstraite. Aile ancienne. j’en sais une à jamais offusquée par cet état trop vif.CULT 53 . trouve. não admitiu nunca outra diversão senão aquelas deliciosas bagatelas por ele chamadas vers de circonstance: para cele- brar festas e aniversários.A poesia mallarmeana é essencialmente musical. que permanecerá inacabada. e como condenar por ininteligíveis as singularidades do poeta em nome de uma sintaxe oficial que admite o anacoluto? A sintaxe de Mallarmé reagiu contra a sintaxe corrente do século XIX para acentuar os mil cambiantes do ato de pensar. ricas de expressividade. la vie.

por quem o coração do poeta ardeu numa chama.novembro/98 Que rêve mon ami Verlaine Ru’ Didot. feitos para pintores queridos. foi o professor de inglês transferido para o Collège Rollin. Às vezes lhe bastam apenas dois versos de oito sílabas para captar o infinito da aurora ou de um rosto feminino: Tends-nous aujourd’hui comme joue Cette rose où l’aube se joue. por puro sentimento estético. Até aqui temos apenas o jogo verbal. O seu pedido de aposentadoria é um docu- . douze. tanto quanto em vários sonetos. avenue Bugeaud. Mas os dois endereços seguintes. 11. O que ele escrevia não parece produto do pensamento. para honra dos Correios de França. que não exclui o balancement d’inventions habitual na sua grande arte. onde permaneceu até à sua jubilação em 93. por mais mallarmeano que fosse o endereço. un des Quarante. qui vit loin des profanes Dans sa maisonnette very Select du 9 Boulevard Lannes. há sempre nelas aquela intenção que Mallarmé pôs em seus poemas mais ambiciosos. demandez Afin qu’il foule ma pelouse Monsieur Francois Coppée. si tu ne vas où c’est 54 CULT . e o poema tipográfico do Coup de dés. Auto-retrato de Auguste Renoir. a quem Mallarmé costumava mandar seus envelopes póeticos Ici même l’humble greffier Atteste la mélancolie Qui le prend d’ortographier Julie autrement que Jolie. Je te lance mon pied vers l’aine. Estes últimos endereços não levavam o nome da destinatária. a sua locatária. E convém que se diga.Diante da agressão de inteligibilidade. e excetuados o soneto do Cisne e o que começa pelo verso Quand l’ombre menaça de la fatale loi. les facteurs. ma pensée. Au cinquante-cinq. Alguns exemplos: Courez. près l’Avenue De Clichy. Um dia a relação evidente entre o formato dos envelopes e a disposição de uma quadra levou Mallarmé. À la seule entre les maisons. mais j’y reste pris. Por mais óbvio que seja nessas bagatelas o desejo de brincar. ailles Seule rue. a escrever em versos os endereços das cartas que mandava aos amigos. Em 85. só escrito num impessoal e irônico: Paris. fulgurantes e sibilinos. E enviando uma redezinha de pesca: Je vous rends. que nenhuma deixou de chegar ao destinatário. em que no fundo ele como que descansava da sua eterna meditação sobre o grande tema único. mas o próprio pensar em sua origem e evolução dialética. rue Oudinot. peint Monsieur Renoir Qui devant une épaule nue Broie autre chose que du noir. Il faut que toi. ce gracieux Helleu Peint d’une couleur inconnue Entre le délice et le bleu. L ’âge aidant à m’appensantir. Pois não é confidência dizer: Facteur qui de l’état émanes C’est au neuf que nous nous plaisons De te lancer. Leur rire avec la même gamme Sonnera si tu te rendis Chez Monsieur Whistler et Madame. isto é. já são autênticos poemas: Ville des Arts. Facteur. Mallarmé preferia retorquir que os contemporâneos não sabem ler senão os jornais. de isolar para os olhos um sinal da esparsa beleza geral. toda a obra poética de Mallarmé são versos de circunstância. chez Madame Méry Laurent. Rue antique du Bac 110. Le filet. de Traktir. A casa nº 9 do Boulevard Lannes ficou imortalizada em várias quadras. Hôpital Broussais. o que sem dúvida deve ter consolado um pouco o poeta da agressão de obscuridade. Boulevard Lannes. a de traduzir o fugaz e o súbito em idéia. depois de passar pelo liceu Janson-de-Sailly. Chez l’aimable Monsieur Séailles. de que fez confidente a administração dos Correios. Pode-se dizer que depois de Hérodiade e de L ’après-midi d’un faune. Claire de Paris.

Un coup de dés. org. l969. par H. O poeta representa.G. perguntou-lhe depois: – Est-ce que cela ne vous parâit tout à fait insensé? N’est-ce pas un acte de démence? É de fato um ato de demência mas o amigo poderia responder-lhe com as palavras de Novalis: “O poeta é verdadeiramente insensato. pousar. •Correspondance. Annablume. Monaco. O poeta foge de Paris e se recolhe à solidão da casinha de Valvins. Genève. 1978. arrêté dans mes fonctions et incapable de continuer. de Jacques Derrida. Bibliothèque de la Pléiade. de Maurice Blanchot. misteriosa e eterna no céu da mais alta poesia. •L’entretien infini. Droz. 1991. Corti. e é por isso que tudo acontece realmente nele.. Mas de toda essa aplicação não pude tirar senão o conforto de viver durante algumas semanas na sombra do morto inesquecível. 33e édition. •O espelho interior. Gallimard. de ter ouvido o mestre dizer através das fumaças do seu cachimbo as palavras que nos confirmam na dignidade do labor poético. lendo-o para um amigo. 1974. Ed. Ed. Reli o mestre muitas vezes. mas deixando à posteridade uma obra da natureza daquelas que lhe mereciam. organizée par Henri Mondor et L. Nova Fronteira. •Prosas de Mallarmé. Gallimard. Un coup de dés. Droz.” Mas o cansaço de Mallarmé não o incapacitava tão-somente para o ensino: incapacitava-o também para a obra sonhada na vigília de Tournon. Nizet. sobre todas. •Le “Livre” de Mallarmé. Noulet. •La révolution du langage poétique. de Deborah Amelia Kirk Aish. O mito solar nos Contos indianos de Mallarmé. Seuil. Gallimard. 1967. E vejo mais claro do que antes aquela plumazinha que se salvou da catástrofe do Coup de dés. a simpatia: obra restrita e perfeita. •Contos indianos. Guardo a impressão de ter freqüentado um pouco o salãozinho da rue de Rome. •Poesia-Experiência. Paris.. 1941. Paris. Ed. Gallimard. de Robert Greer Cohn. Seuil. traduções e ensaio de Mário Faustino. onde há uma arte que encanta par une fidélité à tout ce qui fut une simple et superbe tradition et ni gêne ni ne masque l’avenir. Colléction Idées. Austin. Nizet. dom obscuro à glória do grande artista de França. •L’oeuvre de Mallarmé. de Julia Kristeva. o ilustre Presidente desta casa. fiou demais da minha qualidade de poeta. Ed. A. Paris. •Brinde fúnebre e prosa. Mondor. Ed. 1972. Paris. Paris. sinto que o meu caro amigo. Éd. Minhas senhoras e meus senhores. tão estranho a todos os aspectos que o próprio Mallarmé. 1988.A relação entre o formato dos envelopes e a disposição de uma quadra o levou a escrever em versos os endereços das cartas que mandava aos amigos. no sentido próprio da palavra. de Bertrand Marchal. organização e tradução de José Lino Grünewald. Sette Letras. Paraula. Gallimard. •Vues sur Mallarmé. Paris. •Vie de Mallarmé. Obras de Mallarmé na França •Oeuvres complètes. de E. de Robert Greer Cohn. pluma certamente caída da gorra de Hamlet. nenhuma deixou de chegar ao destinatário. No dia 9 de setembro de 98 o Mestre morria quase subitamente num espasmo da laringe. Perspectiva. Mallarmé no Brasil •Mallarmé. •Poemas. tradução de Yolanda Steidl de Toledo. •La religion de Mallarmé. Paris. 1938. 1977. traduções e ensaios de Augusto de Campos.J. que reúne textos de Manuel Bandeira organizados por Júlio Castañon Guimarães Livros sobre Mallarmé fora do Brasil •La métaphore dans l’oeuvre de Stéphane Mallarmé. de Paul Valéry. 1961. •Grammaire de Mallarmé. je me trouve à cause d’un état maladif que détermine la fatigue de l’enseignement. por mais mallarmeano que fosse o endereço. •Vingt poèmes de Stéphane Mallarmé. o sujeito-objeto: a alma deste mundo”. 1951. Decio Pignatari e Haroldo de Campos. frémissement vers l’idée. de Henri Mondor. mento comovente em sua digna simplicidade: “Après trente ans de service. quoique je n’aie que cinquante et un ans et demi d’âge. Para honra dos correios da França. •L ’univers imaginaire de Mallarmé. Rocher. Ed Experimento. Ed. Morria sem realizar o sonho da juventude. Perspectiva. Paris. Copyright © Antonio Manuel Bandeira Cardoso Este ensaio foi publicado recentemente na antologia Seleta de prosa (editora Nova Fronteira). Paris. de Jacques Scherer. tradução de Dorothée de Bruchard. Paris. Foi lá que concluiu. em 97. •Variété 1 et 2. novembro/98 . li tudo o que pude achar sobre ele. Paris. de Lucia Fabrini de Almeida. tradução e anotações de Júlio Castañon Guimarães.CULT 55 . de Jean Pierre Richard. Gallimard. Paris. Les Lettres. •Propos sur la poésie. •La dissémination. Éditions du Seuil. Paris. Paris. chegando ao fim destas pobres palavras.

Guimarães Nova Fronteira 596 pág. que a CULT publica neste número). ainda preparada pelo próprio poeta. tendo uma “sobrevida” invejável – hoje em dia algo quase impensável até mesmo para quem não fuma. por causa da turberculose. E também pode-se dizer que a velha boemia carioca com seus estranhos personagens. a melhor crônica. Os assíduos de Bandeira tinham contato com sua crônica através da velha edição da Editora José Aguilar.Um café com reunir. O livro aparece como uma homenagem aos 30 anos de morte do poeta. década de 60 Como homenagem aos 30 anos da morte de Manuel Bandeira. incluindo conferência sobre Mallarmé Heitor Ferraz Seleta de prosa Manuel Bandeira org. a crônica. no dia 13 de outubro de 1968. porém. na organização feita por Carlos Drummond de Andrade em Andorinha. Mais que na hora. A obra de fato saiu no ano passado com o carimbinho do MEC. A trinca do Curvelo voltou a se Bandeira no Rio de Janeiro. aos 82 anos (para quem acreditava que não passaria dos 19. de Manuel Bandeira. agora. pois a prosa de Bandeira. ela é sem dúvida uma dessas obras que reaparecem para se tornar. somente das partes. Bandeira morreu na sua adorada Rio de Janeiro.80 56 CULT . em um só volume. como não incluir um índice das crônicas. apesar de alguns deslizes de editoração. é sempre saborosa (basta ler o ensaio “O centenário de Stéphane Mallarmé”. Seleta de prosa reúne crônicas e ensaios do poeta brasileiro. além de iluminar muito de sua poesia. Essa nova edição. andorinha.novembro/98 . na edição posterior. com alguns de seus ensaios e a íntegra de Itinerário de Pasárgada surgem no livro Seleta de prosa. onde muito texto acabou sendo descartado. como o místico Jayme Ovalle. de 1958. e do acabamento editorial deixar a desejar. Depois de muitos anos longe das livrarias. por fim. organizado pelo crítico Júlio Castañon Guimarães e publicado pela Nova Fronteira. chega às livrarias. Júlio C. está novamente ao alcance de qualquer leitor. Bandeira acabou sendo um desses premiados do céu. – R$ 34. não bebe e tem a saúde de um atleta). e.

Ele havia sido pronunciado pelo poeta na Academia Brasileira de Letras (Bandeira foi eleito para a cadeira 24. Em “Crônicas da província do Brasil”. a ser publicada em breve pela Edusp. pelo seu aprendizado do verso livre e até pelas formas das cantigas trovadorescas. o texto foi incluído no volume “De poetas e de poesia”. ela é ocupada pelo crítico de teatro Sábato Magaldi). sempre vazado por seu estilo de conversa-inteligente. Na crônica “Carlos Drummond de Andrade”. Um caso raro dentro da poesia brasileira. senão mortal”. em que puderam falar livremente sobre as poéticas em andamento. que havia sido suprimido pelo próprio poeta quando reuniu sua obra para a Editora José Aguilar. Itinerário é daqueles livros que não só falam sobre a vida do próprio poeta. Ao contar sobre a composição de seus poemas. de Augusto Frederico Schmidt e Poemas. Bandeira comenta. Bandeira faz um caminho muito parecido. Uma das grandes novidades de Seleta de prosa é o texto de Bandeira sobre Drummond. leitura obrigatória para qualquer poeta ou escritor. E ao falar sobre isso. Coisa que o próprio Bandeira foi um dos mestres na literatura brasileira com o seu Mafuá de Malungo. Um texto que durante anos circulava pelas universidades em cópias xerocadas. Bandeira foi um dos grandes mestres da crônica brasileira. Nessa frase. esse era seu ganha-pão. Nesse ensaio. já que os dois mantiveram uma correspondência intensa e franca.” Esse profundo conhecimento do verso também lhe serviu para escrever o brilhante verbete “A versificação em língua portuguesa”. que fiquei com a cabeça cheia de ‘velidas’ e ‘mha senhor’ e ‘nula ren’. sobre o seu aprendizado da poesia. Pássaro cego. numa deliciosa prosa de café. No caso de Mário e Bandeira é bastante evidente.Bandeira novamente. de Bandeira. Curiosamente. “A poesia de 1930”. de isolar para os olhos um sinal de esparsa beleza geral”. passando pelo soneto. mais do que sobre Mallarmé. de conversa entre amigos. “Li tanto e tão seguidamente aquelas deliciosas cantigas. Depois. com capa concebida e realizada por Carlos Drummond de Andrade. Bandeira. em 1940. Será preciso dizer mais? Heitor Ferraz jornalista e poeta. deliciando-se mesmo ao comentar os versos de circunstância do poeta francês. Ele já observa a atuação corrosiva do humor de Drummond. contrabalançando com alguma ternura: “De ordinário ironia e ternura agem na poesia de Carlos Drummond de Andrade como um jogo automático de alavancas de estabilização. já que era nas crônicas que ele repassava suas leituras. de Murilo Mendes. há sempre nelas aquela intenção que Mallarmé pôs em seus poemas mais ambiciosos. Schmidt e o próprio Mário de Remate de males. Mário de Andrade analisava o surgimento de quatro livros importantes: Alguma poesia. de 1937. Não há manobra falsa nesse aparelho admirável de lirismo”. de Drummond. a de traduzir o fugaz e o súbito em idéia. Mas um ganha-pão bastante prazeroso. autor de Resumo do dia (Ateliê Editorial) e A mesma noite (Sette Letras) novembro/98 . Bandeira vai abrindo seu rico baú de ritmos. Libertinagem. traçava o quadro da ebulição e das discussões modernistas chegando até o concretismo. acaba falando de sua própria visão poética: “Por mais óbvio que seja nessas bagatelas o desejo de brincar. incluído nesse novo livro. Num de seus ensaios mais famosos. como ele mais de uma vez confidenciou aos seus amigos. Sobre os modernistas. Hoje. Só esse exemplo já caracteriza a importância do livro preparado por Castañon Guimarães. Outra obra fundamental de Bandeira que pode ser encontrada em Seleta de prosa é o livro autobiográfico Itinerário de Pasárgada. Para o poeta. acabava escrevendo sobre sua relação amorosa e livre com a poesia.CULT 57 . os mesmos poetas que chamaram a atenção do francês Roger Bastide. “um livro que ficará como um dos mais puros da nossa poesia”. fazendo um recorte do que era realmente importante na poesia nacional. ou seja. Acaba havendo um verdadeiro diálogo de eleição e descarte entre esses textos. encontra-se o estilo franco de Bandeira. o surgimento de Alguma poesia. E havia até mesmo quem cobrasse boa e alta quantia pelo volume da enciclopédia no qual constava esse texto. publicado em 1960. uma reflexão de um poeta importante sobre sua formação literária e sobre as correntes poéticas que agiam dentro da poesia brasileira. que perpassa cada página desse livro. E continua: “Não fosse esse senso de humor e a poesia deste livro seria de uma melancolia intolerável. seus comentários sobre o cotidiano. O ensaio “O centenário de Stéphane Mallarmé” que a CULT está publicando também consta nessa nova edição da prosa bandeiriana. também comentando Drummond. é interessante notar como as escolhas de uma época foram marcantes e determinantes para a história da poesia brasileira. publicado originalmente em 1954. publicado pelo MEC em 1954. sonhava com as ondas do mar de Vigo e com as romarias de San Servando. mas é mesmo um verdadeiro manual sobre poesia. assim como foram Rubem Braga e Otto Lara Resende. na enciclopédia Delta Larousse e que agora aparece incluído nessa Seleta. isto é.

à l’infini. léxico etc. a agudeza com que penetrou em si mesmo e nas operações do pensamento. quando lemos a sua obra e biografia (alicerçada em boa parte na rica correspondência). Mallarmé pelo pintor impressionista J.novembro/98 mpressiona em Mallarmé. o que é reiteradamente criado pelo estilo (pontuação. M. escrevia o poeta. e no próprio Un coup de dés ou no esboço do Livre. à semelhança do que vemos nos contos de Guimarães Rosa. por necessidade imperativa de descobrir e exercer um desejo essencial. tornam a sua acurada filosofia menos reconhecível do que pareceria justo? Há um abismo. variations sur un sujet. Ao lado. resultando em textos que conjugam poesia e filosofia Rosie Mehoudar 58 CULT . pourvu qu’un plaisir s’y réitère. por exemplo. Que leis são essas que inauguram a dissolução da fronteira entre a prosa e a poesia.” Assim. entre Mallarmé. Se a prosa mallarmaica não deixa de ser poesia é porque pesquisa e opera leis do funcionamento da linguagem que atendem a esse desejo e o reevocam (vale lembrar das palavras sobre o verso livre em seu texto “Crise de vers”: “Et envisageons la dissolution maintenant du nombre officiel. Foi tanto poeta quanto filósofo. Whistler.) aparece conceitualizado ora nos brilhantes “tratados” de. um texto narrativo como Les contes indiens. ora em aforismos que pontuam. “Crayonné au théâtre. sintaxe. a partir de Igitur. propriamente. la musique et les lettres”. com quem o poeta se correspondia. “Il y a des lois!”. e. O T O D O P O É T I C O A obra em prosa de Mallarmé – que inclui estudos. e a I . tratados.A busca do absoluto é tema recorrente de suas correspondências. por outro lado. os Contos indianos e sua correspondência – opera leis do funcionamento da linguagem que acarretam a dissolução dos limites de gênero. en ce qu’on veut.

je suis parfaitement mort. mon être a souffert. et le moteur”. et la région la plus impure où mon Esprit puisse s’aventurer est l’Eternité. seguidas pelo ofício diurno de professor de inglês gozado pelos alunos e de poucos recursos. em 1864.. texto já de 1894. por ângulos diversos. nous avons droit. la clarté montre le désir d’une évasion. mais heuresement. sinalizam as soluções que serão desenvolvidas pela seqüência de sua obra: “Ce simple fait qu’il peut causer l’ombre en soufflant sur la lumière”. Porém. niant le plaisir que nous voulons prendre: car cet au-delà en est l’agent. Um percurso leva o autor à sua “morte” e descoberta da Idéia pura: “Je viens de passer une année effrayante: ma pensée s’est pensée et est arrivée à une Conception pure. (. en des fêtes à volonté et solitaires. ce semble que l’épars frémissement d’une page ne veuille sinon surseoir ou palpite d’impatience.Mallarmé por Edvard Munch literatura que se apóia no espelho.) A l’égal de créer: la notion d’un objet. certes. um obstáculo à criação. o absoluto antes atribuído a um Deus externo. et le moteur dirais-je si je ne répugnais à opérer. n’est que ce qui est. on projette. lemos “car cet au-delà en est l’agent. O nada congrega assim o sentido de continente imaginário cristalino.” Nessa reflexão sobre o desejo. com suas descobertas e impasses – noites sem dormir.) j’entends les pulsations de mon propre coeur. j’aimerais rentrer en mon Ombre incréée et antérieure”. reflete Bertrand Marchal.. sous un prétexte. de 1868.CULT 59 . en public. Ora o vazio se fragmenta em centros focais à semelhança de um sentido.//Je n’aime pas ce bruit: cette perfection de ma certitude me gêne: tout est trop clair.. um nada. da natureza também da “coisa”: observe-se o texto acima. cidade em que morou logo que se casou e onde iniciava. accuserait notre inconséquence. é um dos vários escritos que formulam.” Essa carta a Cazalis testemunha um primeiro desfecho da crise de Tournon. o absoluto torna-se paralisante.. Dieu” – e críticos como Charles Mauron vêem nessa metáfora um eco do autoritarismo do pai. à la possibilité d’autre chose. à quelque élévation défendue et de foudre! le conscient manque chez nous de ce qui là-haut éclate. que n’obscurcit plus même le reflet du Temps. agonia e sensação de enlouquecimento.. terrassée. échappant. e este logo graciosamente nos surpreende como sendo. ou “(. Porém. le tirant de nous par de l’ennui à l’égard des choses si elles s’établissaient solides et prépondérantes – éperdument les détache jusqu’à s’en remplir et aussi les douer de resplendissement. mas à sua como que inclusão num fluxo temporal criador. como o tinteiro – novembro/98 . à travers l’espace vacant. En vue qu’une attirance supérieure comme d’un vide. Na mesma carta. o poeta evoca sua “lutte terrible avec ce vieux et méchant plumage. mon Esprit. reunida em vários volumes. Passagens de Igitur... par contrecoup. que contêm passagens de pura filosofia e poesia. ora – numa reversão repentina – ele é um grande recipiente (espace vacant) para esses signos. Incontinent écarter cependant. e o tema do desafio da Impotência será recorrente na obra do autor e na sua correspondência. le démontage impie de la fiction et conséquemment du mécanisme littéraire. je vénère comment. captifs d’une formule absolue que. qui fait défaut. mesmo no próprio sujeito contemplado. ce solitaire habituel de sa propre Pureté. na reflexão de si concebido como que fora do fluxo de linguagem e que se põe de anteparo entre o sujeito e o mundo. Nous savons. ou forma/ vazio: “Autre chose. heuresement. Tout ce que. o funcionamento harmônico do paradoxo absoluto/devir. tout est trop luisant. Mallarmé descobre na impessoalidade do pensar e da Idéia.. Mais. le leurre. Quant à moi. agrega o crítico. pour étaler la pièce principale ou rien. par une supercherie. Um trajeto leva-o então não exatamente à derrocada do absoluto. A quoi sert cela A un jeu. pendant cette longue agonie est inénarrable. a escrita do poema Hérodiade. pontualmente perceptível na sucessão dos signos. je ne demande pas moins à l’écriture et vais prouver ce postulat. Uma passagem de “La musique et les lettres”.

Nem um mês antes de sua morte. numa súbita desmaterialização. cristal comme une conscience.” A vírgula depois de sourcil instaura um momento de suspensão. au fond. que é sua razão de ser e sua morte ao mesmo tempo. Desenho de Henri Mondor sobre foto de Mallarmé. je le publie. sous le nom d’expérience. Em seu livro L’oeuvre de Mallarmé. mas essa convergência é assintótica.” Como pólo de atração (en vue qu’une attirance supérieure comme d’un vide).” Num tempo em que a pressão do imediato e o perigo de sermos suas presas alienadas não parecem menores que na época de Mallarmé. Mallarmé apreende o desejo do personagem de conservar a propagação da ventura. écarte la lampe” (repare-se um eco aqui do apagar a vela de Igitur). a captação do desejo do reiamante dá-se mediante o aproveitamento das potencialidades de significação das palavras anteriores.. em busca do essencial. Je n’aimais pas. plutôt. No silêncio ou vazio marcado pela vírgula. comparável ao Éden (ou absoluto): “A última estrela da constelação. A convergência de duas dimensões seria alcançada imediata e simultaneamente pela criação desse ponto mesmo. Um sema metonímico – a linha descendente da sobrancelha franzida e paralisada. à quelque point dernier qui le sacre (precedido de avant de s’arreter). Summer correspondente é mais curto: “Ne froncez pas le sourcil. reiteradamente é tirado de “nós” e se dissemina pela prosa mallarmaica. fazendo-a cair numa abstração – da felicidade. seja na sua concedida transmutação no corpo de cada significante . avec sa goutte. do plano físico ao ideal. je ne l’aimais pas. Segue uma passagem dos Contos indianos. de ma native illumination. um repouso. Mallarmé respondia a uma pesquisa sobre o “Ideal aos 20 anos”..) O ponto supremo (sacre) do ato cinético. em direção ao qual se dirige a constelação como toda a realidade (. o poeta com essa idade. é ainda um outro motor da linguagem. em 1862. comentado por Greer Cohn. consiste quotidiennement à épousseter. É do ponto de vista do bonheur (qui est muet.. Num recuo. Veremos logo mais um pouco de como isso se dá. numa quebra surpreendente de registro. Greer Cohn aponta para a origem etimológica de rien: rem. pour que mon humble vie gardât un sens.novembro/98 Éden. Tchandra Rajah. il en tomberait dans notre bonheur. infinitamente diferida e cumprida. em outra passagem) que emana a fala.Um mês antes de sua morte. O rei reassegura à amada apreensiva e com ciúme: “Ne froncez pas ce sourcil. Porque o vazio reiteradamente aparece como 60 CULT . e o pequenino cil contido em sourcil – fazem eco na metáfora une minute noire. naquela transmutada. que significa “coisa” em latim. A unidade de fora atrai a de dentro. l’apport hasardeux extérieur. Lakhsmi e o leitor “olham” como as coisas do espírito funcionam. À esq. o vazio (cet au-delà) não é tão diferente do ponto edênico. além de seu sentido de dissolução. de ténèbres relative à ce que quelque chose soit: puis. je me fus fidèle. habitual do cabelo indiano. Cohn assim comenta o penúltimo verso do poema. consoante a uma retração no espírito – parece inspirar a metáfora tomberait dans notre bonheur. O esvaziamento do autor manifestase seja no silêncio-escuta. Un coup de dés. une minute noire: Lakshmi. Heureuse ou vaine. e o de “coisa”. Em carta para René Ghil. ma volonté des vingt ans survit intacte. que no texto de Mallarmé se presta à captação do motor central da fala – existindo como latência no primeiro segmento. indiciado pela vírgula. qu’on recueille. Mallarmé respondia à pesquisa de Le Figaro sobre o “Ideal aos 20 anos”: “Suffisamment.” O trecho de M. Le moyen. é precioso seguir o desembaraçamento ou depuração que a sua escrita faz desse imediato. Lakshmi. Outros semas metonímicos – a cor negra. Uma contemplação se abre. je refusai avec dédain. em todos os planos. o ponto final do pensamento. Tomberait aproveita-se do plano físico da sobrancelha. o imediatismo concreto se aquieta um pouco. reescritura mallarmaica da versão francesa de Mary Summer de histórias clássicas da Índia. Mallarmé escrevera: “On ne peut se passer d’Éden”. por volta de 1873 “L’ encrier. je refusai avec dédain.

par les ans. de son individualité en le vers. depuis qu’étonna le phénomène poétique. E é o que o Verso poético.. e atualizadas em formas cujas ambigüidades reproduzem a mensagem ao infinito) não se trans- formarem em sistema. que vai Verso. sur quelque transparence comme d’éther) les milles éléments de beauté pressés d’accourir et de s’ordonner dans leur valeur essentielle.. musical ou essencial cumpre. mais sache. Je n’ai fait. para que o central ou virgem continue a emanar. ao qual seremos sempre filiados. car rajeuni dans le sens admirable par quoi l’enfant est plus près de rien et limpide. às vezes. nos Contos indianos. par le heurt de leur inégalité mobilisés. ostensiblement.. apesar dos paradoxos engraçados). daí seus achados filosóficos. sua propagação. avec ses paroles inutiles mais dont chacune importe. no devir velado pela “lei misteriosa da Rima”. verso pode significar “contrário”. que perde apenas o caráter absoluto. ir em direção a. defendeu tese sobre Mallarmé novembro/98 . depois de dar instruções minuciosas sobre um ritual. remplaçant la respiration perceptible en l’ancien souffle lyrique ou la direction personnelle enthousiaste de la phrase.Os achados filosóficos de Mallarmé lembram conceitos desenvolvidos posteriormente por autores como Jacques Lacan (ao lado) desejado e desejante que então acorre – “transforma-se o amador na cousa amada” (Camões).. O nada – ou “une âme ou bien notre idée (à savoir la divinité présent à l’esprit de l’homme)” – constitui uma alteridade fundamental em relação a qualquer significado. Oupahara diz à rainha: “Je ne t’ai rien dit. e corte latente fundamental no processo da racionalidade. autre chose d’abord que l’enthousiame le lève à des ascensions continues (. suffisante à nos plus beaux rêves.) “Ainsi lancé de soi le principe qui n’est que le Vers! attire non moins que dégage pour son épanouissement (l’instant qu’ils y brillent et meurent dans une fleur rapide.CULT 61 . no poeta.. Théodore de Banville et l’épuration. ou em muitos.)” “Ainsi lancé de soi le principe qui n’est que le Vers!” – quantas ambigüidades aqui! O “princípio” é compreensível também no sentido de o que é.. supérieur et buvant tout seul à une source occulte et éternelle.. Aquilo em direção ao qual se vai já está contido no Verso poético (que le Vers!) – festeja conclusiva e simples a exclamação! E o texto logo dirá que os versos só vão de dois em dois. o originário: vazio-fonte de todo sujeito (l’enfant est plus près de rien et limpide). o “ponto sempre cumprido e diferido” ao qual se refere Greer Cohn. explication de l’homme.” Surpreendem-nos. na semelhança com o que veremos depois em Lacan e numa filosofia que desajola o real como substância última furtável ao devir e promulga a ficção. “L’oeuvre pure implique la disparition élocutoire du poète. Não se trata de abolir a referência. un Livre. qui cède l’initiative aux mots. Assim. Preferem a dimensão de ato do teatro – “Dont les représentations seront le vrai culte moderne. ils s’allument de reflets réciproques comme une virtuelle traînée de feux sur des pierreries.” (“Crise de vers”) Depura-se em Verso o poeta homenageado nesta passagem de “Crayonné au theâtre”: “Personne. que baiser l’air qui te contient. fonte. pour qu’il s’émeuve doucement autour de toi!” Rosie Mehoudar mestre em teoria literária pela USP onde . Le principe qui n’est – que le Vers!: além de “em direção a”. momento em que todo significado anterior pode se desvanecer (sem abolir-se na memória ou contradizer-se. O modo de a escritura em Mallarmé contemplar cada fenômeno e a obra da natureza (“Je crois tout cela écrit dans la nature”) preserva o espaço não-verbal. ne le résume avec audacieuse candeur que peut-être cet esprit immédiat ou originel. O verso do princípio é o fim: lembrando o Éden. O princípio (em outra acepção) que sai de dentro de nós é tão-somente o da difusão de nosso princípio-origem. le désigne aujourd’hui un être à part. (. mistério ou céu. por coerência às próprias leis que descobre (muitas mais que os pontos aqui tocados. que evita que “um usurpe”..

criait-il je veux elle seule peut satisfaire les vastes élans – en vain le retenait-on. tous les autres qu’il la voulait vierge – plus que tous les autres vierge à lui seul pas le droit non – à Personne 3. et. pour ne pas se faire prendre par le juge. il ne lui faut pas moins qu’épouser la notion il veut tout épouser. contendo igual número de esboços de estrofes. que considera impossível estabelecer uma data para o manuscrito. en vain lui faisait-on entendre qu’elle n’existe que si vierge. Je veux épouser la notion. 5. o conjunto das anotações de Mallarmé feitas sob o impacto da morte de 1. A situação desse texto pode ser comparada à do manuscrito de Pour un tombeau d’Anatole. qui guette toujours – (c’est moi + toi soi il criait plus fort que 2.novembro/98 . Foi editado por Jean-Pierre Richard. Comment? disait-il Comment? 62 CULT . Este se compõe de dezesseis folhas. lui – faute d’une dame à sa taille 4.Poema de Stéphane Mallarmé Épouser la notion O texto de Stéphane Mallarmé Épouser la notion consiste num esboço de provável poema que permaneceu inacabado.

desposar tudo – por falta de mulher a sua altura 4. Como? dizia ele Como? novembro/98 . só o que lhe falta é desposar a noção quer.seu filho e que não chegaram a constituir um texto concluído. todos os outros que a queria virgem – mais que todos os outros virgem dele só sem o direito não – de Ninguém 3. segundo Jean-Pierre Richard. As estrofes iniciais aqui apresentadas fazem parte da tradução a ser publicada em breve pela Editora Sette Letras. e. dizia ele quero só ela pode satisfazer os vastos impulsos – em vão o detinham 5. JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES 1. em vão se fazia com que entendesse que ela só existe se virgem. ao mesmo tempo filosófica e amorosa”. para não se deixar pegar pelo juiz. Quero desposar a noção. constitui “o roteiro de uma espécie de fábula. ele. Épouser la notion.CULT 63 Tradução de Júlio Castañon Guimarães Desposar a noção . que espreita sempre – (é mim + ti si gritava mais alto que 2.

mas registramos seu interesse e pretendemos tratar do tema numa edição futura. Ronaldo Bressane por e-mail Mario Quintana Valéry Li recentemente no caderno “Mais!”. Continuem assim! Grande abraço. agradecemos a sugestão de pauta. matéria que reportava um programa da TV-PUC. gostaria de parabenizar a revista pelo dossiê Albert Camus da CULT nº 13. ao que parece. no meio das “velhacas velharias” que nos fartam as vistas. Luiz Araújo Siqueira Aracaju. do qual participavam dois colaboradores da CULT: os professores Pasquale Cipro Neto e João Alexandre Barbosa. Biblioteca Imaginária. Só mesmo a providência dos deuses Iorubá e Guarani para presentear o leitor/pesquisador com esse operador da “agoridade”. O especial sobre literatura argentina (CULT nº 14) está fantástico. Como pesquisadora de mitos indígenas. Artigos vigorosos. quanto injustiçado. Este último. “Diálogos impertinentes”. Benigno número 13 da CULT. citada por Haroldo de Campos na entrevista. Deveria ter nomeado Carlito Azevedo. a cada edição mais bonita e instigante. Wylka Vidal por e-mail Tem razão o leitor Antonio Fernandes na crítica que me faz na seção Do Leitor do número 15 de CULT. Peço que continuem firmes e “em posição de lótus”. de Zulmira Ribeiro Tavares. O leitor pode comprar fitas de vídeo dos programas. conforme sentenciou nosso querido Haroldo de Campos. 011/251-4300 e. Mensagens via fax podem ser transmitidas pelo tel. Gostaria ainda de sugerir uma seção Dossiê com o tão extraordinário. Obrigada pela grande matéria! Sou estudante de jornalismo da PUC-SP e estou fazendo uma crítica literária do livro Jóias de família. aproveito a ocasião para solicitar maiores informações sobre o trabalho da professora Josely Viana Batista. João Alexandre Barbosa São Paulo. tudo emoldurado por um acabamento gráfico digno das “loas” do Elomar. Haroldo de Campos Parabéns a José Guilherme Rodrigues Ferreira e Manuel da Costa Pinto pela epifânica entrevista-ensaio com o poeta Haroldo de Campos. Priscila Maranho por e-mail Resposta da redação Ainda não tivemos a oportunidade de publicar matéria sobre essa importante escritora. Júlio Castañon Guimarães ou Carlos Ávila como exemplos de que. Luiz Carlos Vieira Indaiatuba. Quanto a Valéry. PE cação da revista algo sobre a vida e obra desta autora. via correio eletrônico.novembro/98 Zulmira Ribeiro Tavares Antes de mais nada. CULT nº 11). informações pertinentes.outubro/98 4 CULT . já que 6 4 6CULT . Preciso saber se há em alguma publi- É com muita alegria que vejo surgir mais uma revista que aborda a literatura. SE Biblioteca Imaginária Parabenizo pela excelente qualidade gráfica e editorial da revista e aproveito para sugerir uma reportagem com o escritor indiano Rohinton Mistry. Paulo – aos quais pertencem os direitos de utilização do material veiculado. Rui Barbosa. da Folha de S. CEP 01326-010). 011/864-6816). poeta gaúcho Mario Quintana. citou frase do poeta Paul Valéry sobre o fazer poético. São Paulo.Cartas para a revista CULT devem ser enviadas para a Lemos Editorial (r. Cláudia RoquettePinto. Paulo. SP . para o e-mail “lemospl@netpoint. autor que não conheço e acho que muitos leitores no Brasil também desconhecem. Congratulações também a Juan Esteves pelo conjunto de fotos harmoniosas do nosso poeta pós-utópico. Rohinton Mistry Haroldo de Campos fotografado por Juan Esteves os dois são seus colunistas? Sugiro ainda matéria sobre Valéry. 70.com. à venda na TVPUC (tel. Saudações literárias. “quatro ou cinco poetas mais jovens dão prova de que a poesia é rara mas possível” (“A raridade da poesia”. Por que a CULT não publica a íntegra do debate. Maria das Graças Ferreira Recife.br”. autor do belíssimo romance Um delicado equilíbrio (editora Objetiva). como afirmava no texto criticado pelo leitor. SP Literatura argentina Resposta da redação “Diálogos impertinentes” é uma série de programas mensais promovidos em convênio pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pela Folha de S. Aproveito para dar os parabéns pela CULT. Josely Vianna Baptista.

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