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Chama Eterna

(A história de Damen)
- um conto exclusivo –
Eternal Flame

Alyson Noël

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St. Martin’s Press
ESTE É UMA OBRA DE FICÇÃO. TODOS OS
PERSONAGENS, ORGANIZAÇÕES, E EVENTOS
MOSTRADOS NESTA HISTÓRIA SÃO PRODUTOS
DA IMAGINAÇÃO DA AUTORA OU SÃO USADOS
DE FORMA FICTÍCIA.
“Eternal Flame”
Copyright © 2010 by Alyson Noel.
Todos os direitos reservados. Para mais informações, endereço:
St. Martin's Press, 175 Fifth Avenue, New York, NY 10010.
175 Fifth Avenue, New York, NY 10010

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“No minuto que ouvi minha primeira historia de amor que eu comecei a olhar para você, não sabendo o

quão cego eu era. Os amantes não se encontram finalmente em algum lugar. Eles encontram-se cada

um em seu tempo.” – Rumi.

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Paris, França.

8 de Agosto de 1608

Eu fecho meus olhos e encosto-me contra o encosto de veludo almofadado e fecho os olhos aos

sons dos cascos batendo com força contra o paralelepípedo. O som dos cascos trotando mantêm uma

perfeita harmonia com o som das rodas da charrete, proporcionando o som mais doce do que qualquer

sinfonia que eu já ouvi.

É um som de escape.

É um som de adeus.

Um som que sempre serviu para acalmar-me no passado, dando-me a garantia necessária de que

investigações não desejadas e suspeitas de novos conhecimentos alertados logo desapareceriam –

permitindo uma breve pausa em um novo local, antes que eu tenha que me mudar novamente.

Eu sou um cigano.

Um nômade.

Um vagabundo.

Um errante.

Eu sou aquele que vagueia incessantemente – embora nem sempre por escolha.

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As coisas que outros tomam como garantia – um endereço permanente, uma família, um grupo

de amigos próximos e confiáveis – não são coisas para a minha espécie.

Eu cometi esse erro antes, aprendi minha lição da maneira mais difícil. Tentando convencer a

mim mesmo que estava tudo bem, ficar em um só lugar, relaxar – somente para ser acordado no meio

da noite pelo fogo das tochas, a multidão armada com espadas, e a histeria crescendo como o som de

um motor.

Um erro que eu não cometerei mais.

Eu recolho as bordas de ouro da cortina para o lado, espiando pela janela a pequena praça e olho

para cima para a manta do céu tão escuro, tão deslumbrante, tão cheio de um aglomerado de estrelas

brilhantes que me fez lembrar da caixa de jóias da Drina – enorme, forrada de seda com um monstruoso

aglomerado de jóias sortidas somente as melhores que o dinheiro pode comprar.

Minha mente se enche do pensamento dela – seu cabelo vermelho fogo, sua pele branca e

macia, o surpreendente verde esmeralda de seus olhos e o sorrio frio e selvagem – fazendo uma beleza

tão incrível, tão sedutora, que durante anos, séculos na verdade, parecia suficiente.

Mas não mais.

Agora minha única esperança é me livrar de todos os últimos vestígios dela.

Reduzir aquela menina com quem passei a maior parte da minha vida a uma pequena, distante

memória que preferiria apagar.

Mas, com toda a justiça, não foi Drina que mudou. Ao longo dos anos que passaram, ela

continuou exatamente a mesma – nada diferente da menina que eu resgatei de um orfanato séculos

atrás.

Avarenta.

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Consumista.

Egoísta.

Consumida por um conjunto de necessidades e demandas tão profundas que parece não ter fim

– mantendo a parte mais voraz de seu apetite reservado apenas para mim.

E Embora seja verdade que eu a desejei também, nestes dias, já não posso encontrar isso em

mim.

Minha carruagem vira para a direita, mas a paisagem não muda – ela permanece constante e

eterna, como eu.

O sol nascendo e se pondo fielmente, enquanto a lua e as estrelas seguem tão brilhantes quanto

fizeram no dia do meu nascimento há um pouco mais de duzentos anos atrás. Uma exibição da natureza

que eu admito, nunca ter parado por tempo suficiente para apreciar o constante e verdadeiro milagre

disso.

Um lapso da minha parte que espero remediar, assim que eu estiver livre desse lugar.

Meu motorista diminui o ritmo, um sinal que estamos chegando, e não posso evitar em me

pergunto se algum dos convidados da festa de hoje, algum dos meus “ditos” amigos, irá perceber o

quanto eu mudei – que eu não sou mais o mesmo, reconhecidamente uma pessoa vaidosa e superficial

que eles costumavam conhecer.

Algo mudou – algo que eu não consigo definir. É como se a velha maneira de fazer as coisas – a

velha maneira de ver as coisas – a velha maneira de ser – não funcionasse mais. Deixando-me sem

escolha se não ir em frente, na direção de uma coisa que eu quero descobrir – seja lá o que for.

A única coisa, indescritível, indefinível que detém uma importância muito maior do que

qualquer coisa que eu já tenha conhecido.

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Como o brilho da doca que acena para um marinheiro à porta, é isso que me faz seguir em

frente – me mantém agarrado à esperança.

****

Meus cavalos relincham e batem seus cascos com força contra a calçada – um rápido aceno

através da cortina, uma rápida passada de mão sobre os cabelos e colete, coloco dentro do meu bolso um

pequeno pacote que eu trouxe para a minha anfitriã, aceno para o meu motorista, e seguo em direção a

entrada, ensaio silenciosamente:

Adeus.

Arrivederci.

Au revoir.

Auf Wiedersehen 1 .

Palavras que já disse tantas vezes, em tantas línguas, que você pensaria que elas estariam mais

fluentes agora.

E apesar de eu não ter ficado em Paris o tempo suficiente para levantar suspeitas indevidas sobre

a origem da minha fortuna, ou por nunca ter mudado de aparência, ou envelhecido – os dois inquéritos

inevitáveis que sempre abasteceram a minha fuga – estes dias me encontro inquieto, entediado, ansioso

para mover-me em direção a esse destino incalculável que certamente nos aguarda.

Um empregado uniformizado abre a porta e me conduz para dentro de uma casa de tão grande

escala e opulência que poderia abrigar facilmente mil nobres confortavelmente. E pouco antes de

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Em todas essas línguas, ele esta dizendo “adeus,” “tchau.”

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atravessar uma extensão de piso de mármore brilhante, onde eu vou sem problemas me misturar à dança

dos acenos, sorrisos e beijos dupla face, dando o tipo de saudações facilmente esquecíveis que são

sempre necessárias em situações como esta, eu faço uma pausa por um momento, para absorver a

energia. Sintonizando na cacofonia de cada indivíduo, escutando seus pensamentos mais íntimos –

desligando-me deles antes em favor da minha anfitriã do outro lado da sala.

Um extravagante vestido longo, rudemente julgadora com uma propensão para o excesso de

vinho tinto e um gosto pela fofoca do tipo mais mal-intencionada – no momento em que eu olho para

ela, no momento em que ouço as palavras rancorosas que soam em sua cabeça, eu não consigo entender

por que eu pensei que ela fosse minha amiga.

Eu acredito que a pequena caixa de veludo seja de seu agrado, curvo-me diante dela com o braço

esticado, sabendo que ela lança um olhar sagaz para a jóia caríssima aninhada na caixa, enquanto o meu

novo estado sozinho não passou despercebido.

Nada que uma rápida mudança no mapa de acentos não possa ser remediada, ela pensa, dirigindo um

rápido e calculado sorriso para mim. Vendo a mesma coisa que ela sempre vê quando olha em direção a

mim – uma fonte inesgotável de charme, riqueza e boa aparência que ela esta determinada a usar a seu

favor. Tendo ouvido os rumores sobre o meu carinho por coisas bonitas e jovens – ela me coloca ao lado

de Daphne na mesa – uma morena bonita, com lindos olhos escuros um sorriso de flerte que teria sido

o suficiente para me divertir em qualquer outra noite – mas não nessa noite.

Não importa quão perfeita e desejável uma mulher jovem e solteira pode ser, não há uma entre

elas que possa prender a minha atenção.

Ainda assim, eu liberto minha mente da minha anfitriã e me foco em Daphne, prosseguindo

com os acenos e sorrisos e sincronizando as minhas espirituosas respostas, assim como um bom ator

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com um bom roteiro. Divertindo-me em contar o número de vezes que sua mão faz carinho no meu

braço (trinta e sete até o momento), contando cada prato de comida elaborado que eu simplesmente

empurro caminho adentro (ate agora já foram quatro – incluindo a sopa). Sabendo que a cada prato

servido e limpo eu estou mais perto do adeus – que é a verdadeira razão do por que estou aqui.

“Monsieur?”

A voz passa através dos meus pensamentos – o som é tão luminoso, tão melódico, tão lírico, faz

com que os pelos do meu pescoço fiquem completamente arrepiados.

“Monsieur?” Ela repete, mas a minha resposta fica presa na minha língua. Nunca antes na

minha vida eu vi olhos tão azuis, cabelos tão dourados, pele tão suave, macia e convidativa que eu daria

qualquer coisa para me pressionar contra ela.

Nunca na minha vida eu vi algo tão extraordinário quanto ela.

“Pardon.” Ela se curva, as bochechas ficando com um tom rosa mais lindo que eu já vi e ela se

afasta do meu lugar. Confundindo o meu silencio com presunção, arrogância e vaidade – dando um

olhar para o corte das minhas roupas, o brilho dos meus botões, a escala completa da minha ridícula

ornamentação opulenta, e julgando-me o tipo de pessoa de alta posição que nunca pode se esperar que

fale com pessoas tão simples quanto ela.

“Pardon, moi,” eu digo, o meu Francês, não sendo a minha língua nativa, saindo forçado da

minha boca. Segurando a sua mão, sentindo a pele dela tão quente, tão – elétrica – enquanto a seguro

contra a minha, estou tentado a me prolongar e nunca deixá-la ir. Incapaz de controlar e murmurar

“Quem é você?” então, observando o jeito que ela olha para a nossa anfitriã, ela fica mais corada quando

abaixa a cabeça devagar. Sabendo que estou lhe causando embaraço, e possivelmente um problema

também, me arrependo de ter falado.

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“Eu sou Evangeline, senhor.” Ela encontra o meu olhar timidamente, enquanto tenta livrar-se

do meu aperto em sua mão. “Posso tirar o seu prato, por favor?” Ela levanta o queixo, olhando para

mim de uma maneira que faz com que um fluxo de calor tranqüilo passe por mim. Mas mesmo que eu

tenha tentado, eu não consigo desviar o olhar, parece que não consigo abandonar a sensação da sua pele.

“Damen, por favor.” Daphne se intromete, cutucando a minha manga com a ponta de sua unha

pontuda como uma adaga. Propondo-me a deixar aquela mão inesquecível – me tirando do transe

fazendo com que meu mundo cai na escuridão. “O que Drina diria se visse você cortejando uma

servente assim?” Seus olhos me fitam, cruéis, brilhantes, tendo convenientemente esquecido Drina

apenas um momento atrás, quando foi ela quem procurou a minha atenção, mas todos ficam muito

felizes por recordarem agora, em uma tentativa de colocar essa garota – essa linda e extraordinária

garota – em seu lugar.

“Drina está na Hungria,” eu digo, tentando forçar meu olhar a sair daqueles olhos azuis claros e

os cachos dourados que se esconderam nos confins de seu gorro. Cuidadosamente tomando nota de

cada detalhe de seu rosto, sua estatura, suas maneiras, as inflexões na voz, para que eu possa gravá-los

na memória e nunca mais ter que viver mais um segundo sem eles. “Nós tomamos caminhos separados,”

eu adiciono, sabendo que essa informação será um grande escândalo, mas falou mesmo assim, já não me

importando com isso.

Eu não disse para eles – eu disse para a garota.

Evangeline.

O nome mais perfeitamente poético que eu já ouvi.

Meu olhar segue o seu caminhar ao redor da mesa. Ela abaixa o olhar para suas calejadas mãos

dizendo-me que ela cresceu utilizando-as para satisfazer as ordens dos meus supostos amigos – embora

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a inclinação de seu queixo e testa mostrem uma pitada de inteligência e força que todos eles escolheram

não ver.

Incapazes de verem por debaixo do uniforme de empregada, que pouco a favorece e que foi

forçada a usar, o gorro branco que pouco serve para esconder o que eu sei que é um volumoso cabelo

loiro dourado – eles estão impressionados com as coisas frívolas da vida – status, dinheiro, classe social

– as mesmas coisas que eu possuo em abundância – a única razão pela qual fui convidado a vir aqui.

Falhando ao enxergarem o que eu vejo – incapazes de ver além do exterior desse pensamento

glorioso – eles permanecem frustradamente cegos para as coisas que para mim brilha tão claramente:

Está garota – está empregada – está Evangeline – é a personificação de tudo o que eu tenho

procurado.

Ela é o meu destino.

Minha razão de ser.

E agora que eu a encontrei, eu não tenho mais razão para partir. Não quando tudo o que eu

procurei – tudo o que eu preciso – esta bem aqui.

Eu volto a sentar-me na minha cadeira, me sentido mais em casa do que nunca me senti na

vida. Recuperando rapidamente o papel como convidado encantador de um jantar, que faz com que a

minha anfitriã sorria e acene com aprovação, e Daphne incline-se para mim e segure o meu braço mais

uma vez.

Existem repercussões por confraternizar fora da própria classe – e agora que eu pretendo ficar

por aqui, não terei escolha a não ser jogar contra essas regras.

Ou pelo menos por agora de qualquer jeito.

Mas amanhã eu irei encontrá-la.

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Amanhã e eu Evangeline vamos acidentalmente nos encontrar.

E de novo no dia seguinte.

E então no outro.

As coincidências iram se repetir até que eu tivesse a chance de conhecê-la melhor – para ganhar a

confiança necessária para oferecer-lhe a única coisa que eu não ofereci a mais ninguém, por tempo

muito:

O elixir da vida eterna.

Meus olhos se atrevem a encontrar os dela mais uma vez, e eu tomo um breve momento para

deslizar para dentro de sua cabeça. Precisando da garantia que não sou só eu – que ela também se sente

assim – que ela também sente esse maravilhoso formigamento e calor e a linda promessa que nos

prende. Um fenômeno que não temos maneira de explicar é tão diferente de qualquer coisa que

nenhum de nós já experimentou antes.

E então, tão rapidamente, eu estou fora – evitando o meu olhar e voltando para a festa. Risadas,

bebidas, fingindo fazer parte juntamente com o restante deles – ao mesmo tempo profundamente

consciente de que minha vida mudou para sempre, irreversivelmente alterada.

Que a partir desse momento – nada – nada mesmo – jamais será o mesmo.

Fim

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Créditos:

Tradução por Mari Pires

Disponibilizada na Comunidade do Orkut

“Tradução de Livros”

Revisado por

@carlatunes

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