Módulo Didática Geral

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FACULDADE INTEGRADA GRANDE FORTALEZA

Módulo Didática Geral
Profa. Esp. Sonia Maria Henrique Pereira da Fonseca Prof. Msc. João José Saraiva da Fonseca

FORTALEZA EDITORA FGF 2007

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401 . FONSECA.fgf@fgf.CEP.(85)3299-990/Fax. 142p.edu. Sonia Maria Henrique da Pereira.(85)3496-4384 email.João XXIII-Fortaleza/CE . João José Saraiva.Copyright ã 2007 by Editora Grande Fortaleza Esta obra ou parte dela não pode ser reproduzida por qualquer meio sem a autorização do Editor. 60510040 Tel. FONSECA. João José Saraiva da.br FONSECA. Porto Velho. Sonia Maria Henrique da Pereira. FACULDADE INTEGRADA DA GRANDE FORTALEZA Diretora Geral Renata Peluso de Oliveira Direção do Núcleo de Educação a Distância (NEAD) Marina Abifadel Barrozo Direção Acadêmica Paulo Roberto Melo de Castro Nogueira Coordenação Pedagógica do Núcleo de Educação a Distância João José Saraiva da Fonseca Sônia Maria Henrique Pereira da Fonseca Editora Responsável Renata Peluso de Oliveira Coordenação de Divulgação Acadêmica Maria das Graças Freire de Oliveira Editoração de Texto Nivea da Silva Isidio Revisão de Texto e Normalização Tarcísio Cavalcante Capa Célio Gomes Vieira EDITORA GRANDE FORTALEZA .Fortaleza: FGF. ISBN 85-99224-11-5 1. CDD: 371 Catalogação de: Biblioteca CentralProfª. 2005. Módulo Didática Geral/ Sonia Maria Henrique Pereira da Fonseca.FGF Av.FGF 4 . tonieta Cals de Oliveira . Didática Geral . João José Saraiva da Fonseca --.FONSECA. Educação a Distância 2.

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Tema 4. Currículo como construção do social. Tema 4. Estratégias de aprendizagem. Organização do ensino. Tema 5. Tema 1. Tema 2. Planejamento de ensino. Avaliação. Didática e o processo de ensinar.Sumário Unidade I Buscando significados e novos saberes. Apresentação do conteúdo programático. Unidade II (Re)significando a ciência do saber e do ensinar. Didática e o seu objeto de estudo. Tema 1. Tema 3. Didática: processos e produto. Objetivos como metas de aprendizagem. Tema 5. Tema 2. 6 . Tema 3.

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de resistência e de imaginação.traz uma discussão sobre a base conceitual que sustenta a teoria didática. Também estimula reflexões que permitem experimentar o desafio e as incertezas do cotidiano do fazer didático transformando-os em espaços de criação. O primeiro tema – Didática e seu objeto de estudo . Está direcionado aos professores da Rede Estadual do Ceará que buscam o aprofundamento de sua formação para o exercício do magistério e organizado em duas unidades desdobradas em temáticas: A unidade I .Apresenta o seguinte objetivo: Identificar a didática numa perspectiva histórica e teórica da prática docente vivenciada no cotidiano escolar e sua importância na formação do educador.analisa a didática no que se refere à formação do educador. de acatamento. evidenciando seu caráter multidimensional teórico-prático e incita o leitor a conhecer a influência da didática no processo de aprendizado da profissão docente. O segundo tema – Didática: processos e produto .Apresentação A produção deste módulo integra o material didático para as Especializações de ensino em português e suas literaturas e matemática realizadas pela Faculdade Integrada da Grande Fortaleza. O terceiro tema – Didática e o processo de ensinar – Proporciona uma leitura acerca dos pressupostos necessários para o ato de ensinar e aprender e reconhece as exigências colocadas à ação didática para atender o exercício da 8 . de luta.

tornam-se produtores/autores. Objetivos como metas de aprendizagem 2. O quinto e último tema integrante da primeira unidade refere-se a – Organização do ensino . Discute com alguns teóricos sobre o rico espaço da sala de aula e aponta pistas para as possibilidades que a escola oferece ao processo de formação docente. No entanto jamais poderá ser encarada com simplicidade voluntarista. no dizer de Nóvoa (1995) maneiras de ser e de estar na profissão. dúvidas. Planejamento de ensino 4. criam alternativas. São espaços onde docentes e discentes partilham suas experiências. Organizada através das temáticas. Estratégias de aprendizagem 9 . vão tecendo. A unidade II tem como objetivo: compreender os processos didáticos articuladores dos objetivos educacionais da educação básica. impasses e experiências múltiplas geradas no seu dia a dia. 1. O quarto tema – Currículo como construção social – caracteriza o currículo enquanto manifestação da autonomia do processo educativo na escola e na sala de aula ressaltando que a prática didática está vinculada à ação de quem a assume.e trata de identificar as concepções teóricas da organização do ensino necessárias a ação pedagógica e didática da escola além de esclarecer o caráter intencional de que estão imbuídos os conteúdos e objetivos do ensino ao problematizar situações de sala de aula. Nesse processo de idas e vindas de atalhos e bifurcações os professores vão se formando. Apresentação dos conteúdos programáticos 3.docência na atualidade. Repartem também dificuldades. seus saberes oriundos da formação.

São professores que nos trazem seus saberes tecidos no âmbito de seus ambientes de trabalho em meio a contextos sociais mais amplos.UECE 10 . LIBANEO (1994).avaliação.Portanto são reflexões que compõem uma parcela de outras que poderão ser indicadas para discussões durante o período de realização da disciplina. discorre sobre a importância destes elementos para a aprendizagem possibilitando uma reflexão a partir de estudos realizados anteriormente por teóricos da área . Maria Marina Dias Cavalcante Maria Marina Dias Cavalcante Doutora em Educação Brasileira Professora adjunto da Universidade Estadual do Cera . tais como: CANDAU (1999 e 2000). MASETTO(1997). Trata-se de um trabalho que expressa os sonhos e as utopias de seus autores e diz das marcas de suas caminhadas no percurso de suas trajetórias educacionais.5.

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Módulo Didática Geral Objetivo Consideramos que o aluno no final do módulo deve compreender que ação docente é um processo de construção nas situações didáticas e que ensinar é ter a percepção reflexiva e crítica da rotina da sala de aula e do contexto histórico e social dos alunos. 12 . além de relacionar os processos de transmissão da informação e assimilação de conhecimentos.

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estamos em cada gesto. abordar o papel do professor no contexto de ensinar e aprender e a função social da didática como estratégia para ensinar o exercício da cidadania. Procura-se.Introdução Caríssimo (a) aluno (a). Deixamos as palavras do grande mestre Paulo Freire para uma reflexão: a construção do conhecimento pelo sujeito tem por base as dimensões políticas. sociais e culturais do espaço onde ele vive. Na primeira unidade. descobrimos que educar é um processo recíproco e permanente de ensinarmos e aprendermos. no seu contexto histórico e social e ter uma compreensão crítica do processo de ensinar como processo de mediação entre o aluno e as áreas do conhecimento que compõem o currículo escolar. Desde o momento que chegamos ao portão da escola. econômicas. também. palavras e atitudes. A segunda unidade focaliza os aspectos teóricos e práticos do planejamento numa perspectiva crítica da educação. No módulo de Didática Geral. Freire reforça que a construção do conhecimento acontece em 14 . você terá oportunidade de refletir sobre diversas propostas teóricas de ensinar e aprender. Ao longo dos anos que já temos na profissão de educadores. abordamos a didática como processo dialógico histórico-social vivenciado no cotidiano escolar e sua importância na formação do educador. passando nossas crenças e valores para nossos alunos.

Especialista em Educação de Jovens e Adultos. o estético. O sujeito. etc. tais como o sensitivo. especialista. Psicopedagogia e Planejamento Educacional. Desejamos um bom estudo! João José Saraiva da Fonseca Graduado. mestre e doutorando em Educação. é Coordenador Pedagógico do Núcleo de Educação a Distância da Faculdade Integrada Grande Fortaleza. o intuitivo e o emocional. o motor.todo o momento no seio de mundo e envolve variáveis que vão além cognitivos. Professora. Sonia Fonseca Pedagoga. Especialista em Educação a Distancia. a comunidade e o "mundo" têm um papel fundamental na construção do conhecimento individual e coletivo. 15 . Experiência em Consultoria educacional Autora da Coleção Princípio do Saber (Obra didática/ Educação de Jovens e Adultos).

• Caracterizar os aspectos teóricos e práticos do planejamento numa perspectiva crítica da educação. da prática docente vivenciada no cotidiano escolar e sua importância na formação do educador. 16 .Unidade I Buscando Significados e novos saberes Objetivos • Identificar a didática numa perspectiva histórica e teórica.

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Tema 1. • ensinar e aprender. 18 . Didática e seu objeto de estudo Objetivos • Analisar a concepção da didática como Reconhecer a didática como a ciência de reflexão sistemática da pratica educativa.

. Eugênio Mussak 19 . a letra da musica de Ivan Lins. no início do estudo deste tema de Didática Geral. incertezas e quase nenhuma certeza. toquei.)” Ivan Lins e Victor Martins “A vida é um jogo que está sempre (re)começando.Como ser professor neste mundo? Alguém sempre carrega. simboliza a necessidade do professor estar atento à emergência de novos saberes: “Daquilo que eu sei Nem tudo me deu clareza Nem tudo foi permitido Nem tudo me deu certeza Daquilo que eu sei Nem tudo foi proibido Nem tudo me foi possível Nem tudo foi concebido Não fechei os olhos Não tapei os ouvidos Cheirei. provei Ah! Eu usei todos os sentidos(. Nosso papel é canalizar a energia para conquistar o melhor”. dentro de si.

envolvem uma concepção de ensino e aprendizagem que articule as dimensões. implicitamente ou explicitamente. Apenas uma parte da aprendizagem do aluno se realiza formalmente na sala de aula.O que é didática? Qual o seu objeto de estudo? Compreender adequadamente o objeto de estudo da didática passa por interiorizar que quaisquer propostas didáticas. a racionalidade e a sensibilidade. o fazer e o ser. humano-técnica e político-social e valorizam os diferentes modos de ensinar que integram o saber. O desafio da didática no contexto atual é superar a uma dimensão técnica propondo 20 . a teoria e o tecnológico que resultam em novos modos de pensar e de aprender.

Percepção instigante. (FREIRE. Vejamos o que pensa Gilberto Dimenstein sobre a prática didática na sala de aula: 21 . Paulo Freire diz que ensinar é uma forma de intervenção na sociedade que vai além da transmissão de conteúdos. 1997). Uma tomada de decisão”. p. Edgar Morin (2003. (. a didática adquire uma articulação multidimensional. porque a educação não pode apenas reproduzir a ideologia dominante ou contestá-la. Quais os caminhos na busca do significado de didática? Na perspectiva de ensinar na era planetária. O autor refere que: “Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que..107) diz que: “A missão da educação consiste em reforçar as condições que tornarão possíveis emergências de uma sociedade-mundo composta por cidadãos protagonistas..mudanças no modo de agir e pensar do professor. para os pensadores no tempo atual. necessitando de articular as diferentes dimensões da tríade: ação-reflexãoação e propor uma verdadeira contextualização para a educação. não o posso por outro lado reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos”.) Assim não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina. minha pratica exige de mim uma definição. envolvidos de forma consciente e critica na construção de uma civilização planetária”. por não poder ser neutra.

Mas sim. 99). p.). Não da indisciplina do que faz zona” (. 22 . daquele aluno que não está ouvindo o discurso do professor. 2003..) Eles estão preocupados com a indisciplina dos alunos.... daí a necessidade de uma escola que busque sentido e significados na sua pratica educativa”.”Acho importante dizer que os professores estão cada vez mais incomodados. (ALVES E DIMENSTEIN. A menor parte da aprendizagem se realiza formalmente na sala de aula. (.

É importante entender que a escola e o professor têm que trabalhar com as possibilidades. (ALVES E DIMENSTEIN. sua prática didática passa a ter significado não para si. ainda há trava do vestibular”. porque apenas ele sabe tudo. 2003). mas também para os alunos.100 ). 2003. No momento em que ele assumir que está aprendendo e ensinando. Para isso o professor precisa se tornar um aprendiz. dizendo que o professor precisa aprender a dizer não para ser livre de ter que dar a matéria. os limites e a curiosidade dos alunos. para a eterna novidade do Mundo. enquanto professor. esquecer o aprendido e ir à busca de novos saberes. p. o programa. (ALVES E DIMENSTEIN. podemos buscar a inspiração para a importância de professores e alunos se sentirem permanentemente enquanto seres nascidos a cada momento. além de fazer a ligação entre o mundo. e. ao mesmo tempo. Rubem Alves dá sua opinião sobre o que está faltando na prática educativa. Os educadores vivem hoje o pior dos mundos: nem foram para aquela educação de projeto com significado e também não saíram da educação conteudista.O que esta faltando no processo educativo? Gilberto Dimenstein afirma: ”Acho que está faltando corrente de transmissão. No poema a seguir. os significados e os sentidos desse mundo para o aluno. 23 .

. O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Alberto Caeiro. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se. Porque o vejo. Mas porque a amo.. ao nascer. em "O Guardador de Rebanhos"... tenho sentidos.. Creio no mundo como num malmequer. 8-3-1914 24 ..... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... E eu sei dar por isso muito bem. E de vez em quando olhando para trás. E a única inocência não pensar. Reparasse que nascera deveras.. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... nem o que é amar.O meu olhar O meu olhar é nítido como um girassol. Amar é a eterna inocência.. Eu não tenho filosofia.. e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama.

mas sobretudo para transformar a realidade”. levaria muito tempo. E eu sabia que aquela era uma mensagem [. e a imagem desapareceu. também com sede. apesar do medo. mas sua sede era tamanha que acabava voltando. Tão importante quando se fala na relação entre o ensinar e aprender.sua própria imagem . Olhou para o rio.Como ser professor aprendente? Encontramos no pensamento de Paulo Freire a idéia de que ensinar exige do professor a capacidade de aprender. Finalmente. Se apenas relacionasse seus nomes. e uma criança estava carregando uma vela acesa. Ela se dirigia à mesquita.e ficou com medo. quem foi seu Mestre?". vendo lá outro cachorro . simplesmente pulou na água. para lá depositar a vela. Ele respondeu: “Tive milhares deles”. não apenas para se adaptar... “Era uma vez. 1997) Nesta estória Osho nos propicia compreender o significado de aprender a aprender. Um grande mestre estava morrendo e alguém lhe perguntou: "Hasan.. Ele latia e se afastava correndo. Mas contarei sobre alguns deles.. (FREIRE.] para mim: devemos dar o salto. para beber água e um cachorro apareceu. 25 . e agora é tarde. apesar de todos nossos receios. Outro Mestre foi uma pequena criança. Um cachorro foi um dos mestres certa vez eu me dirigia a um rio. Cheguei a uma cidade.

Ele respondeu: 'Sim senhor'. Para onde ela foi? Diga-me!”. Você pode me mostrar a fonte da qual a luz veio?' "E o menino riu. assoprou a vela. E quando aprende. Com um Mestre você começa aprendendo a aprender e muito lentamente você entra em sintonia e percebe que. todos os oceanos são seus”. perguntei ao menino: 'Você mesmo acendeu a veIa?'. Não tive Mestre porque tive milhares deles . Meu discipulado foi um envolvimento maior que o seu.Apenas por brincadeira.aprendi de todas as fontes possíveis. depois houve outro em que ela se acendeu. nas árvores. Mas isso não significa que não fui discípulo . e disse: “Agora você viu a luz se indo. Ser discípulo é uma necessidade absoluta no caminho."Meu ego e todo meu conhecimento ficaram despedaçados. (texto adaptado) Então? De que modo a história de Osho pode contribuir para que possa compreender o 26 .. estar disposto a aprender. na existência como tal. Confiei nas nuvens. ser vulnerável à existência. pode entrar em sintonia com toda a existência. É verdade que não tive Mestre.. E naquele momento senti minha própria estupidez. O Mestre é uma piscina onde você pode aprender a nadar. da mesma maneira. E continuei: 'Houve um momento em que a vela esteve apagada. Desde estão abandonei toda minha erudição".aceitei toda a existência como minha Mestra. O que significa ser discípulo? Significa ser capaz de aprender.

dicionários. síntese. pois o processo de construir seu próprio saber exige análise.verdadeiro sentido de ser um aprendiz na sociedade do conhecimento? O modo como o mestre narra sua trajetória de aprendiz é a mesma que nós devemos ter em relação ao conhecimento nos dias atuais. Aprender e ensinar nesse contexto implica que o professor seja o mediador de um processo em que ambos aprendem em conjunto. Nessa realidade tanto o professor quanto o aluno precisam ter métodos e técnicas. além da experiência de vida. fatos e situações. 27 . O campo do conhecimento tem outros cenários: Informações circulando numa velocidade em que o cérebro humano não dá conta de absorver. mas será a mais importante? O professor deve assumir o papel preponderante como agente de transformação. Essa é talvez a componente por vezes mais visível da didática. existência de bibliotecas. Internet e vários outros recursos disponíveis para se buscar conhecimento. interpretação de dados.

reforçando as condições que tornarão possíveis as respostas emergentes à sociedade e aos cidadãos protagonistas dela. contribuindo para que possamos perceber que a sua prática não é neutra e que precisamos nos achar capacitados para ensinar os conteúdos que vamos trabalhar.Resumo A didática nos ajuda a experimentar o desafio e as incertezas do cotidiano do nosso fazer pedagógico. Para tanto é necessário que professor compreenda esse processo e interiorize o seu papel enquanto mediador de aprendizagens numa escola que tenha sentido e significado para a vida do aluno. 28 .

Auto-avaliação . de seus títulos.Qual a concepção de didática na sociedade atual? . O sábio convidou-o a tomar chá. .Relacione as transformações pelas quais está passando a sociedade do século XXI e quais são as exigências que essa sociedade faz ao sistema educacional em relação à didática.Já está cheia! Não cabe mais! .você está cheio de sua cultura.Leia a história de Osho abaixo: “Em algum lugar do passado. .O professor olhava desconcertado como o chá transbordava da xícara cheia e não conseguia explicar a si mesmo uma atitude que. um sábio recebeu a visita de um professor universitário que queria averiguar a que se devia o fato de aquele homem simples. sem curso de pós-graduação nem títulos especiais sem fama. .Na estória do Osho você percebeu o sentido e o significado da didática nos tempos de hoje? Exemplifique com argumentos do texto. de suas opiniões. quando estava cheia.Tal como esta xícara – disse o sábio de maneira imperturbável . Assim é impossível que eu possa ensinar-lhe algo “.Qual o objeto de estudo da didática de acordo com o texto do tema? . mais do que sabedoria demonstrava uma soberana estupidez. . serviu a xícara dele e. 29 .gritou o professor sem poder conter-se. continuou colocando chá com uma expressão serena e bondosa.

Edgar. Didática: a aula como centro. Philippe. Campinas: Editora Papirus. 2003. 1997. 2004. Paulo. COSTA. 1997 MASETTO.. Marcos. G. Cortez. Fomos Maus Alunos. São Paulo. decidir na incerteza.Bibliografia DIMENSTEIN. Lisboa: Instituto Piaget.. DIMENSTEIN. São Paulo: Editora Paulus. FREIRE. 30 . Campinas: Editora Papirus. ALVES. PIMENTA. Porto Alegre: Artmed Editora. T. São Paulo: FTD. São Paulo: Paz e Terra. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 1997. 2003. 2003 PERRENOUD. Gilberto. Antonio Pérez. Didática e formação de professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. Rubem. Selma G. ACG Escola sem sala de aula. MORIN. ESCLARÍN. Educar para a Era Planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e incerteza humana. Educar valores e o valor de educar parábolas. Ensinar : Agir na urgência. 2001. R. SEMLER.

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● Aplicar os novos saberes em situações de ensino como condição de valorização do conhecimento cientifico e da condição humana. Didática: processos e produto Objetivos ● Caracterizar a didática no que se refere à formação do educador.Tema 2. evidenciando o como caráter pressupostos fundamentais multidimensional teórico-prático. 32 .

a partir do conto: “O grande magistrado Péricles“ “O grande magistrado grego. que se conhece precisamente como Século de Péricles. ao astrônomo que perscrutava o universo para contemplar e estudar a harmonia das estrelas.Quais os níveis de responsabilidade do professor na consecução da sua proposta didática? Vamos iniciar o tema propondo uma reflexão sobre a responsabilidade política do educador e os reflexos dessa responsabilidade na consecução da sua proposta didática enquanto processo. – Não vejo em lugar algum. Mas Péricles percebeu uma ausência notável: faltavam os pedagogos. Péricles. homens muito modestos que se encarregavam de conduzir as crianças pelo caminho de sua aprendizagem. . entendeu cabalmente a missão do mestre como forjador da personalidade e da consciência dos povos. no número.Onde estão os pedagogos? – perguntou Péricles.. escultores.. Todos estavam ali: do severo matemático que apreciava.C. cuja personalidade dignificou todo o século V a. os guerreiros que defenderam a cidade. Em certa ocasião. Foram chegando os arquitetos.. engenheiros. Péricles mandou reunir todos os gênios e artistas que tinham contribuído para engrandecer Atenas. .Quando por fim chegaram os pedagogos. Vão buscá-los. o sentido helênico da exatidão e da harmonia.Péricles falou: 33 . . os filósofos que propuseram novos sentidos para a vida.

Fonte: Wikipédia Em que momento durante a leitura do conto. Eleito e reeleito várias vezes como estratego-chefe.Aqui se encontravam aqueles que.C. Vamos conversar sobre a relação entre o produto e o processo em educação! Por que a dicotomia entre produto e processo em educação? 34 . embelezam e protegem a cidade.C.. econômica e cultural em toda a sua história”.C. com seu esforço e perícia. Consagrou-se como a maior personalidade política do século V a. “Péricles (495 a. função inerente ao processo de construção do conhecimento enquanto processo. . e talvez o mais célebre.Atenas 429 a. você percebeu o valor social da didática enquanto processo na formação do cidadão? Posso ajudar? . transformam. fazendo com que Atenas alcançasse a maior projeção política. Mas faltavam vocês.Quando Péricles perguntou onde estavam os pedagogos! Ele sabia que somente o professor possui as concepções de educação e de como desenvolver estratégias de ensino. que têm a missão mais importante e elevada de todas: a de transformar e embelezar a alma dos atenienses”.) foi um dos principais líderes democráticos de Atenas. ele acumulou a chefia civil e a liderança militar da cidade. durante a Era de Ouro de Atenas.

professor. desses. 2002). O discurso da professora é de quem “investe no processo” ou de quem “espera resultados?”. (PARO. focalizada que estava nos resultados da aprendizagem ao final de um determinado período de tempo letivo. hoje temos aqui na sala de aula trinta e três estudantes. para que sejam coerentes com o nível dos resultados desejados. Na educação tradicional o aluno quando não conseguia reproduzir o comportamento desejado é punido como forma de estímulo para a mudança. somente dezesseis serão aprovados no final do ano”. Apesar da necessária atenção à produção de resultados significativos em termos de desempenho dos alunos em face do que é ensinado e que deve ser aprendido. 35 . A educação tradicional esqueceu os conhecimentos e habilidades que os estudantes deviam efetivamente adquirir. necessitamos também de estar atentos aos processos.Uma professora ao final do primeiro dia de aula do ano letivo fez o seguinte comentário: “Para o senhor ver. e ao produto como parâmetro para o dimensionamento e controle de nossos processos de atuação.

eles são construídos como um investimento no processo. falava da vida simples e feliz de uma família de suínos. (LUCKESI. Nunca. 2005). porém. Num certo 36 . diferente. 2005). O que é mesmo investir no processo e não no produto? O processo corresponde a um conjunto de procedimentos que adotamos para a obtenção do melhor resultado. (LUCKESI. O mais novo. curioso. e processos adequados produzem resultados eficazes. com um gosto quase de criança. Os resultados não aparecem do nada. provava tudo e se achava sempre à procura de algo novo. era exitoso. Investindo no produto estará a escola encarando a realidade da educação como processo de conscientização e libertação? A história contada por Paulo Freire poderá contribuir para a sua resposta: “Uma das estórias que eles me repetiram. mas críticos da ideologia que a empapava. Seus irmãos mais velhos seguiam à risca as determinações estabelecidas e tudo lhes corria bem. O casal e os três filhos. rindo. nada rotineiro.Um bom resultado será função de um processo adequado. Na educação os bons resultados são construídos com um investimento no processo. Produto significa o resultado final ao qual chegamos.

cheio de culpa. o pai o esperava e. Ao contrário do relatado na história. A educação decorre do fato de as pessoas serem incompletas e procurarem a vida toda modificar-se na busca de completar-se. mas com ar bondoso de pedagogo manso. arrependido. ajudando simultaneamente os outros a se completarem num processo de conscientização mediada pelo diálogo que possibilita a posse do conhecimento. Coragem nenhuma de sequer pensar em nova aventura. curioso novamente. volta a casa à noitinha. Mordido. foi atacado por um cachorro. O conhecimento é social e 37 . sábio. 1992). Assim que ultrapassou o primeiro espaço proibido. conseguiu salvar-se por um triz. Silencioso. 1999). O pobre quase se acaba com as picadas horríveis das abelhas endiabradas e ferozes. cabisbaixo. de céu aberto e azul. a educação deve constituir um processo de libertação que possibilite o conhecimento crítico da realidade e a transformação da mesma. Mais adiante. “cutucou o cão com vara curta” e o cão era um enxame de abelhas. Era preciso que você fizesse para aprender que não temos de sair dos trilhos que já encontramos para caminhar. como deve ter ocorrido a você hoje". De insucesso a insucesso. (SCOCUGLIA. Nada deu certo. Sisudo.domingo de outono. metido dentro dele mesmo. Qualquer tentativa de mudar nos expõe a riscos e a dores que nos custam muito. rumo à concretização de um novo modelo da sociedade. o filhote resolveu escapar do sítio em que vivia a família para dar vazão à sua curiosidade. lhe diz: "Eu sabia que você faria isso um dia. o porquinho escutava o discurso “sensato” e bemcomportado de seu pai “ (FREIRE.

da curiosidade. Sendo assim ninguém é vazio de conhecimento.resulta do agir no mundo. (GADOTTI. a alegria de criar e o prazer do risco sem o que não há criação. 1995). (FREIRE. a paixão do saber. idealizador da Escola da Ponte. o nome desta coletânea de textos. 1 38 . quero ir à Primavera”. como encarar a “contradição educadoreducando”1 “Logo após a Revolução Russa. Vygotsky visitou as zonas rurais e fazendas coletivas. 2000). estimulando o gosto da pergunta. (BARRETO. verificando diferenças entre as Subtítulo usado por Paulo Freire na obra “Pedagogia da Autonomia”. (FREIRE. Na dinâmica de trabalhar a educação como processo. 1992). em 1917. O conhecimento se produz questionando a razão de ser da realidade. 1998). “Quando eu for grande. A educação aberta e democrática visa promover a libertação do homem a partir da problematização da realidade concreta do educando. remete para a idéia de liberar os alunos para uma educação construída no processo. do educador português José Pacheco.

apresentada como algo parado. Quando convidadas a fazer perguntas aos visitantes sobre a vida além da vila.. resultado de [. estavam já se transformando em "sujeitos" da sua história. para perguntar você tem de ter conhecimento e nós só sabemos limpar os campos das ervas daninhas". (Gadotti. respondiam: "não posso imaginar sobre o que perguntar. tinham muitas perguntas: "como podemos ter uma vida melhor? Por que a vida do operário é melhor do que a vida do camponês?". 2006) A tônica da educação tradicional incide preponderantemente na narração da realidade desconectada da totalidade.] cursos de alfabetização. 39 . estático.. esvaziado de dimensão concreta... As pessoas que não tinham experiências educacionais e sociais recentes relutavam contra o diálogo e a participação em discussões como pessoas críticas. compartimentado e bemcomportado ou no dissertar sobre algo alheio à vivência dos educandos. Os camponeses que tinham participado do processo transformador da revolução. transformado em “verbosidade alienada e alienante”. Ficou impressionado com a diversidade de atitude entre os indivíduos ainda intocados pelas transformações em processo e aqueles que. começa a participar”. “Quando o povo se convence de que pode mudar sua própria realidade social e de que não está mais isolado. no entanto.comunidades que tinham passado por um processo de alfabetização e aquelas que não tinham experiências educacionais.

"Todo educador que diga ao educando que é igual ao educando. ou é ingênuo ou está mentindo ou fazendo demagogia. 40 . porque na verdade não é igual. Se ambos fossem iguais. 2002). (FREIRE. Fonte: Paulo Freire A educação assume uma visão “bancária” em que a única margem de ação oferecida aos educandos é a de receberem a doação dos que se julgam sábios de valores e conhecimentos. manifestação instrumental da ideologia da opressão e promotora da alienação em que os homens são “simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros” e se constituem “espectadores e não recriadores do mundo”. não se reconheceriam.

Proposta de Paulo Freire para a educação

A ação pedagógica transforma-se numa violência simbólica, dos grupos dominadores da formação social que instauram uma ação pedagógica de imposição e de inculcação de uma arbitrariedade cultural. (BOURDIEU, 2001). Na dimensão da “educação bancária” os educandos não são chamados a conhecer, mas a memorizar o conteúdo narrado pelo educador. A intenção é indoutrinar no sentido da acomodação ao mundo da opressão e aí o educador tem um papel fundamental: a) o educador é o que educa; os educandos, os que são educados; b) o educador é o que sabe; os educandos, os que não sabem: c) o educador é o que pensa; os educandos, os pensados; d) o educador é o que diz a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente;

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e) o educador é o que disciplina; os educandos, os disciplinados; f) o educador é o que opta e prescreve sua opção; os educandos os que seguem a prescrição; g) o educador é o que atua; os educandos os que têm a ilusão de que atuam, na atuação do educador; h) o educador escolhe o conteúdo programático; os educandos, jamais ouvidos nesta escolha, se acomodam a ele; i) o educador identifica a autoridade do saber com sua autoridade funcional, que opõe antagonicamente à liberdade dos educandos; estes devem adaptar-se às determinações daquele; j) o educador, finalmente, é o sujeito do processo: os educandos, meros objetos. (FREIRE, 1978). A libertação autêntica é a práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Só ocorre criatividade, transformação, saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, esperançosa, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. A educação problematizadora apresenta educador e educando numa relação em que os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Desta maneira, o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. (FREIRE, 1978).

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Resumo
O professor deve realizar um trabalho individual e coletivo de pesquisa permanente, para desvendar os pressupostos educacionais subjacentes ao processo ensino-aprendizagem. A didática é a ciência que o conduz a essa compreensão. A avaliação possibilita saber compreender a diferença entre processo e resultado e fará uma grande diferença na produção de resultados eficazes.

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A partir da leitura do tema. 44 . apresente propostas de ação do professor na sala de aula que possam ser eficazes no evitar da educação bancária.Auto-avaliação Relacione produto e processo no âmbito de uma educação emancipatória. Pesquise sobre processo e produto e aprofunde seus estudos trazendo outros conceitos. Destaque no tema estudado abordagens significativas para uma mudança de paradigma no trabalho do professor.

1998. Paulo. FREIRE. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. 1992. Libro 1. BOURDIEU. FREIRE. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Elementos para una teoría del sistema de enseñanza. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Arte & Ciência. Espanha: Editorial Popular. Pierre y Passeron. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2000. São Paulo: Paz e Terra. Paulo. 1996. Vera. La Reproducción. 2001. Paulo. São Paulo: Editora UNESP. Paulo Freire para educadores. Jean-Claude.Bibliografia BARRETO. FREIRE. 45 .

exercício 46 . • Caracterizar ao as novas da competências docência na necessárias atualidade. Didática e o processo de ensinar Objetivos • Reconhecer Caracterizar os as pressupostos exigências para que o são ensinar e o aprender nos dias de hoje. • colocadas à didática para atender ao trabalhar com os alunos de hoje.Tema 3.

restandolhe apenas duas alternativas: esconder a cabeça na areia fingindo que os problemas não existem ou tentar. como tantas outras instituições sociais. aumentando a relevância daquilo que ensina através de uma maior ligação à sociedade onde está inserida e fazendo um esforço para obter ganhos significativos de produtividade”. por diversas vias. A escola. tem tido dificuldade em adaptar-se a estas mudanças. publicado na Revista Professor Mestre (2006) como enquadramento para a reflexão sobre a didática enquanto processo de ensinar. Prof. mudar. “Vivemos momentos de grande inquietação resultantes de uma sociedade em profunda e rápida transformação.Como ensinar a nova geração? Propomos a leitura do texto “Como ensinar a nova geração?”. Altamiro Machado 47 . deixando de trabalhar um ensino uniforme e uniformizante. Dr.

o professor precisa aprender a pesquisar. nos dias de hoje. O crescimento da robótica. caro professor. é fundamental. ao teletrabalho e ao conhecimento generalista.numa sala de computadores -. é possível recriar realidades virtualmente. A sala de aula na sociedade tecnológica é o ponto de encontro entre saberes e conhecimentos. Hoje. minimamente. assim. mas à mescla de conhecimentos oriundos de várias regiões e disponíveis digitalmente". sons. saber de tudo um pouco ou. Da mesma forma. Para conseguir educar. enquanto um robô realiza o trabalho programado. Nesse sentido. Tudo isso faz parte da educação também. já existem cirurgias que ocorrem com o profissional distante do paciente . saber como procurar soluções para novos e desafiadores problemas. produzir filmes.Pois é. É fundamental ampliar os espaços 48 . imagine se será possível colocar um aluno no mercado de trabalho sem mostrar a ele a realidade que chega todos os dias às grandes organizações. Professores preparam alunos para um futuro mercado de trabalho com megatendências à globalização. viagens. E quando menciono essa 'globalização' não me refiro apenas à quebra de fronteiras ou divisas geográficas. descobertas no espaço. da inteligência artificial presente nos aplicativos e de jogo de papéis indicam fortemente essa tendência. sensações. cheiros. utilizando metodologia correta de pesquisa na Internet. dos games interativos em terceira dimensão.

de inserção em ambientes profissionais e informais”. O que é preciso rever numa sala de aula? José Manuel Moran (2004). equilibrada e inovadora. afirma que: “O professor. Três reconhecidos pensadores brasileiros.de ensinar e aprender. 49 . onde defendem o fim da escola compartimentada e a sua transformação em um amplo espaço de aprendizagem em que professores. Estas atividades se ampliam e complementam à distância. em qualquer curso presencial. pesquisado na área das novas tecnologias. publicaram em 2004 a obra “Escola sem sala de aula”. O primeiro espaço é o de uma nova sala de aula equipada e com atividades diferentes. Gilberto Dimenstein e Antonio Carlos Gomes da Costa. alunos e comunidade se integram numa ampla rede de aprendizagem comum. que se integra com a ida ao laboratório para desenvolver atividades de pesquisa e de domínio técnico-pedagógico. de conhecimento da realidade. nos ambientes virtuais de aprendizagem e se complementam com espaços e tempos de experimentação. Ricardo Semler. precisa hoje aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta.

diante da percepção de José Manuel Moran (2004). o que é necessário ao professor para mudar este cenário? Pode-se dizer que ele precisa adquirir a coragem de ir além da busca da competência e mudar sua postura. com acesso à Internet e projetor multimídia para além de outros recursos. mudar o foco do seu olhar.Então. No século passado. Este é um campo de possibilidades para novas propostas didáticas a que você precisa ter acesso urgente sobre pena de sua aula ser apenas uma caixinha de recordações do passado. A mesma pesquisa realizada indica que atualmente o tempo de concentração está entre cinco e sete minutos. uma pesquisa revelou o tempo em que uma criança ou um jovem prestava atenção numa aula. no tempo em que gestão da aula era apenas no espaço entre as quatro paredes de uma sala. O cenário atual exige competências para gerenciar várias atividades em espaços diferentes. que possibilitam aos professores e alunos atividades didáticas adequadas ao desejo de aprender do aluno da geração atual. se encontram no contexto do passado. que os professores ainda estão lendo na sala de aula. portanto a duração da aula ficou em torno de 45 minutos. 50 . podemos entender que “os textos”. o resultado entre 40 a 45 minutos. pois o futuro é agora. Na sua percepção. numa sala de aula equipada com computador.

Leva-se pouco em conta a realidade existente. infelizmente. A ela agrega-se muito pouco valor. Por esse fato a prática didática na sala de aula precisa assumir um novo jeito de lidar com este tempo de concentração dos alunos e com a forma como eles buscam conhecimento. a conseqüência final.“O professor canadense Kieran Egan no livro ‘A mente educada’ escreve que apesar dos enormes investimentos realizados por todos os países na procura de melhores resultados para a área educacional. de todos os investimentos realizados e de toda a teoria apresentada. continuam a freqüentar a mesma sala de aula de 50 anos atrás”. muito mais ligado ao campo transversal e interdisciplinar. 51 . ainda deixa a desejar. apesar de todo o aparato tecnológico atual. Gabriel Mário Rodrigues Semler. usando o conhecimento e a experiência dos mais famosos pensadores e pesquisadores acadêmicos. E os principais prejudicados continuam sendo os alunos que. Costa e Dimenstein (2004) afirmam que o aluno atualmente quando entra na escola e na sala de aula sai de uma realidade tridimensional para entrar num mundo unidimensional.

Perrenourd (2000) apresenta as práticas necessárias à ação do educador dos nossos dias. 8) utilizar novas tecnologias . 9) enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão . 52 . são elas: 1) organizar aprendizagem . 7) informar e envolver os pais . 6) participar da administração da escola . 2) e dirigir situações de administrar a progressão das aprendizagens . 3) conceber e fazer com que os dispositivos de diferenciação evoluam . 10) administrar a própria formação contínua. 5) trabalhar em equipe . 4) envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho .Podemos indagar até que ponto os conhecimentos que a escola transmite têm a ver com a realidade desse aluno? Entre diversos pesquisadores da área social e educacional existe quase que unanimidade sobre o fato de o conteúdo ensinado na escola não estar em articulação com a vida sócio-cultural do aluno.

Estudei numa escola do Rio de Janeiro e tive de decorar vários nomes para passar nas 53 . a escolha do código adequado para aquela disciplina e para o público em questão. A gente aprende é fazendo. reflete sobre essa questão: . O processo todo envolve principalmente comunicação. Ligar o conteúdo à realidade tem se mostrado um método bastante eficaz. de acordo com a faixa etária. como ensinar? Rubem Alves em entrevista à Revista Profissão Mestre (2006). não se prestam a essa estratégia. Alguns conteúdos.Qual é o principal objetivo da educação? . Para motivar o aluno. com as mãos. o professor tem de mostrar a beleza e o poder das idéias.O objetivo da educação não é transmitir informações. Tania Zagury Então. mas não aprendem o que eles significam. trazendo coisas interessantes para o aluno. é ensinar a pensar. as crianças aprendem nomes. Isso não significa que devam ser retirados do currículo. Na escola. no entanto. mas didática. de que apresentamos a seguir um trecho. Contudo é importante não esquecer que aulas maravilhosas não bastam para o aluno aprender.“A motivação é um processo interno do aluno e não envolve mágica. O papel do professor é iniciar esse processo. Ele deve estudar e se esforçar". ou seja.

Gostar de música. pode-se ensinar as coisas aprendidas pelas gerações passadas para que as gerações novas não tenham de partir da estaca zero. aprender a apreciar.provas. Mas há ainda um terceiro tipo de coisa que se ensina que é completamente diferente das duas primeiras e tem a ver com a sensibilidade. As primeiras coisas que citei nos dão meios para viver. Então não é preciso que os professores ensinem. mas ensinam a sentir. diminuir. o que falta nas escolas brasileiras? 54 . Por exemplo. – Que tipo de ensino o senhor acredita ser o mais importante? Por quê? – O segundo. mas somente a sensibilidade nos dá razões para viver. mas sei ensinar como ela pode descobrir. Se alguém pergunta onde fica rua tal eu não sei onde fica. ensinar a gostar da poesia. somar. O importante hoje é aprender a descobrir. o que é ensinar? – A palavra ensinar é imprecisa porque tem várias coisas que a gente tem de ensinar.. – Na sua opinião. Só que o Jardim Botânico ficava a dez quarteirões da escola e o professor nunca nos levou lá. e isso é realmente importante na vida. (. do tipo amarrar o sapato.) – Nesse sentido. E esses ensinos de sensibilidade não nos ensinam a fazer nada. e é justamente isso que é mais ausente nos nossos sistemas educacionais. Depois tem de ensinar aquilo que a gente não sabe. E está nos livros. porque o que a gente sabe fica obsoleto muito rapidamente..

– Cada um deve trabalhar no seu ritmo. a entreter a razão. Fernando Pessoa: Autopsicografia 55 . vai pensar aquilo”. da viagem na fantasia das imagens. Miriam Mermelstein Entretanto. Não as duas que ele teve. E os que lêem o que escreve. É isso que falta nas nossas escolas. da degustação de palavras combinadas. É necessário que o professor recupere o prazer da leitura poética. Mas só a que eles não têm. O professor deve romper o preconceito de que é difícil trabalhar com poesia. Esse comboio de corda Que se chama coração. propomos que leia uma conceituação de poeta proposta por Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor. Os alunos não devem ter tempos delimitados por campainha em que a professora diz: “pára de pensar isso. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E assim nas calhas de roda Gira. A poesia reclama seu espaço e sua vez nesse planeta conturbado. Na dor lida sentem bem.

por via dessas novas realidades virtuais. é preciso compreender o conhecimento. é mais do que o simples trabalho do ensino.) Não basta deter o conhecimento para o saber transmitir a alguém.) eu tenderia a valorizar duas competências: a primeira é a competência de organização. do que eu designo. de reelaborar e de transpô-lo em situação didática da sala de aula. Propomos agora a leitura das idéias expressas sobre o temática por António Nóvoa (2001) numa entrevista ao Programa Salto para Futuro: “Podíamos listar aqui um conjunto enorme de competências do ponto de vista da ação profissional dos professores.Continue a busca para encontrar resposta para a questão “Como ensinar?”.. ser capaz de reorganizar. o professor não é. (. um mero transmissor de conhecimento.. Isto é. a organização do trabalho escolar.. uma dimensão da organização das aprendizagens. 56 . (. O professor é um organizador de aprendizagens. hoje em dia. e esta organização do trabalho escolar é mais do que o simples trabalho pedagógico. é qualquer coisa que vai além destas dimensões. Há um segundo nível de competências (.) importantes também.. são as competências relacionadas com a compreensão do conhecimento.. mas também não é apenas uma pessoa que trabalha no interior de uma sala de aula. (.. portanto. e estas competências de organização são absolutamente essenciais para um professor... de aprendizagens via os novos meios informáticos.) Há aqui.

pode contribuir para aumentar a qualidade da educação. nas suas diversas dimensões.2002. que detém um determinado conhecimento e é capaz de o reelaborar no sentido da sua transposição didática.42) 57 . que visem desenvolver e incentivar o uso das novas tecnologias na educação. e do professor como alguém que compreende.Esta compreensão do conhecimento é. portanto. absolutamente. A utilização adequada das novas tecnologias da informação e comunicação. Devemos recriar o sabor do estudar e o sabor do aprender. Na escola de hoje o aluno “precisa ter a oportunidade de saborear cada conteúdo que estuda e cada experiência que vivencia. essencial nas competências práticas dos professores. a acentuá-las em dois planos: o plano do professor como um organizador do trabalho escolar. ou seja na sua capacidade de ensinar a um grupo de alunos”. desde que adequada. (WERNECK. Eu tenderia. É essencial envolver os docentes em projetos. p.

se questionem "Escola. sobretudo para aqueles que não desistem de ver a sua atividade profissional orientada por uma relação social que promova a criação dum sentido para a escola. o prazer da invenção e da compreensão de si. para quê? Artigo sem autor. o sabor do aprender para além do que se ensina ou a partir do que se ensina? Não será legítimo que também eles. 58 . os professores. 2000).Qual o lugar para o trabalho criativo dos professores. publicado no Jornal Página da Educação. onde caibam a iniciativa da descoberta.

quais os pormenores a que o professor deve atentar quando pensar na transformação da sua prática didática? 59 . Auto-avaliação A partir da leitura do tema. Esse processo obriga a que o professor permanentemente procure reorganizar as aprendizagens dos alunos e compreender o conhecimento.Resumo A educação de nossos dias enfrenta o desafio de alterar seus pressupostos didáticos para atender às características de seus alunos. bem como de alterar as propostas didáticas em que baseia seu trabalho. Desse modo ele estará em condições de alterar seu papel e o papel dos alunos no processo de ensino-aprendizagem.

COMO ENSINAR A NOVA GERAÇÃO? Revista Profissão Mestre. MORAN.com. Didática. Loyola. mídias e tecnologias na educação. José Manuel.br/SALTO/entrevistas/an tonio_novoa. Porto: Porto Editora. José C. 60 . 1991. Conhecimento local e conhecimento universal: Diversidade. 2004. 1998. In: ENCONTRO NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO.16-17. São Paulo: Cortez. NÓVOA. São Paulo. ___________. Disponível em: <http://www. Vera. NÓVOA. n. (Org. Curitiba.tvebrasil. 1986. p. 2004. O professor pesquisador e reflexivo. Antonio (Ed. A Didática em questão. Petrópolis: Vozes. Curitiba: Champagnat.htm>. 1984.253. 12. 12º Endipe. 245 . Petrópolis: Vozes.). __________. António. 01 Mai 2006. Acesso em: 13 set. Tradução de Irene Lima Mendes. São Paulo.. 2001.) Profissão Professor. Democratização da Escola Pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. Rumo a uma nova Didática. p. 1994.Bibliografia CANDAU. LIBÂNEO. .

H. o bom hospital é o que mata. 61 . A. Didática: o ensino e suas relações. 2000. Escola sem sala de aula.PERRENOUD. WERNECK. Editora DP&A. Gilberto. Antonio Carlos Gomes da. VEIGA. PERRENOUD. Ilma P. 1997. Tradução de Helena Faria et al. 2004. Philipe. Ricardo. 1999. Práticas Pedagógicas. Rio de Janeiro. Campinas: Papirus. Campinas: Editora Papirus. Dez Competências para Ensinar Porto Artmed Editora. DIMENSTEIN. Lisboa: Dom Quixote. Philippe. Profissão Docente e Formação: perspectivas sociais lógicas. Novas Alegre: SEMLER. 1996. COSTA. Se a boa escola é a que reprova.

Tema 4. Currículo como construção social Objetivos • Caracterizar o currículo enquanto manifestação da autonomia do processo educativo na dimensão da sala de aula. 62 .

um brilhante advogado. não devendo ser encarada com simplicidade voluntariosa. Sentei-me ao seu lado e perguntei: . que tinha um grande entreposto comercial. Minha mãe desejava que eu fosse a imagem de seu adorado pai. vendo que eu não era um dos médicos. Meu tio. queria que eu fosse como ele.O que você está fazendo aqui? Ele me olhou surpreso. não combinava muito com os outros internos. pois a prática didática está vinculada às decisões de quem assume a função docente e deve ser ponderada com base em múltiplas vertentes. Meu pai. Mas. por outro lado conduz a um autoexame de nosso papel enquanto influenciadores de vontades. “Eu estava andando nos jardins de um asilo de loucos quando encontrei um jovem rapaz. lendo um livro de filosofia. respondeu: . A história abaixo propõe por um lado uma reflexão sobre a necessidade de assumirmos as nossas idéias e convicções. gostaria que eu seguisse seu exemplo. Por seu jeito e pela saúde que mostrava. na responsabilidade do professor.É muito simples. Minha irmã sempre me citava o seu marido como exemplo de um homem bem sucedido. Este segundo aspecto surge no cenário da escola com grande relevância enquanto espaço de aprendizagem-ensino.Será o currículo um verdadeiro instrumento de expressão de autonomia escolar? A descentralização do currículo enquanto expressão de autonomia da escola pode corresponder ao nível de sala de aula. 63 .

voltada para questões relativas a procedimentos. então. todos estavam convencidos e determinados que eram o melhor exemplo a seguir. técnicas e métodos para incorporar elementos sociológicos. biofísicas. o tutor de inglês. políticos e epistemológicos. As barreiras da verticalização uniformizadora devem ser quebradas. Ninguém me olhava como se deve olhar um homem. étnicas. eu resolvi internar-me neste asilo. 1999. articular a metáfora do conto ao currículo! Vejamos: o currículo perdeu ao longo dos séculos a sua dimensão simplesmente técnica. E o mesmo acontecia com meus professores na escola. Vamos. 64 . Desta maneira. As diferenças que definirem a individualidade e a identidade devem ser consideradas parte integrante do currículo. Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo.Meu irmão procurava treinar-me para ser um excelente atleta como ele. cognitivas) devem ser consideradas e respeitadas de maneira a permitir a construção da identidade de cada aluno para a realização de sua autonomia. culturais. eu posso ser eu mesmo”. mas como se olha no espelho. o mestre de piano. Fonte: “Um conto de Gibran”. A escola é um espaço institucional onde as diferenças (de gênero. in COELHO. Pelo menos aqui.

a partir das vontades políticas de descentralização dos dias de hoje. A educação passou de uma escolaterritório nacional para uma escola-território local. O currículo está envolvido em relações de poder. regional e local. controlado pelo Estado. elemento não neutro de transmissão do conhecimento social. constituindo redes de interdependência com outros atores e 65 . A escola na sua origem e institucionalização. tornou-se num terreno nacional. A escola transforma-se em ator. dotada de autonomia livre para construir um projeto identitário próprio e realizar parcerias. vinculada as formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação.Tem sido encarado crescentemente com um artefato social e cultural. o seu processo histórico-social tem seu valor quando é usado no sentido de contextualização do cenário atual. começou por ser um território local. e. na Idade Média. assumindo a liberdade não só para decidir. veicula visões sociais particulares e interessadas e produz identidades individuais e sociais. Não é um elemento transcendente e atemporal .ele tem uma história. tutelado pela Igreja. Na tentativa de implementar a descentralização conduz a uma política curricular que tenta reconciliar o controle ideológico e cultural sobre o sistema com as práticas que favorecem a responsabilização dos atores. Quando se fala de evolução do currículo ao longo do tempo. A partir do século XVIII. mas também a capacidade para produzir a mudança. num território nacional.

Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo. em função do protagonismo dos atores. é relevante no desenvolvimento curricular baseado na cultura da escola. deixando como possibilidade aos alunos adequar-se a ela ou distanciar-se. relacionando-se numa lógica de solidariedade. O conhecimento transmitido nas escolas. ahistórica e estática.territórios. Nesse movimento de transformação da escola em unidade básica da mudança. valorizando a memorização e a adição de conhecimentos fragmentados e específicos por área do conhecimento. que apenas reforça o poder (saber) de uma elite que quer se manter e se preservar. desprovida de significados para educandos e educadores. torna a prática pedagógica acrítica. por meio de um currículo pautado por técnicas e conteúdos pré-selecionados. seja pela reprodução de conhecimentos ou da avaliação. na busca da qualidade. principalmente por meio do livro didático. Sua elaboração é vista como um recorte de conteúdos considerados adequados a cada ciclo ou série. integrando nas estatísticas oficiais os índices do chamado fracasso escolar. 66 . que traz ao professor o melhor modo de transmití-lo. Essa visão de currículo ampara uma prática que se pretende homogeneizadora nas salas de aula. representando o que Paulo Freire denominou de “educação bancária”.

assumindo desse modo geral o controle político do conhecimento. Contudo. como também define a forma curricular pela formulação dos objetivos. a seleção dos professores e o essencial dos recursos. bem como os objetivos de sua política. pois não só mantém um controle técnico sobre a escola e os professores. conservando a autoridade sobre os diplomas. o Estado continua centralizando aspectos importantes do currículo. Como superar esta situação? Para que o currículo deixe de constituir referência para o projeto de reprodução e produção da sociedade e cultura desejáveis. da seleção e organização dos conteúdos.Aceitar a descentralização do currículo pressupõe valorizar na escola a perspectiva cultural favorecendo as macros e micro-relações de dentro das escolas e entre as escolas. 67 . pressupõe discutir o conjunto de valores. a grande alteração pode estar tanto na criação de estruturas e processos democráticos nos quais é configurada a vida na escola. da proposta de atividades e da avaliação. de normas ou de imagens de referência em função dos quais são definidos os critérios de intervenção do Estado. favorecendo à formação de comunidades de compromisso e trabalho educacional. apesar das idéias inovadoras da descentralização. como na construção de um currículo enquanto projeto formativo com funções sociais e culturais na construção da educação para emancipação humana. Outra questão é falar de territorialização.

tradicionalmente afastados da escola. tratamento e representação da informação. O currículo integrado evita a fragmentação por áreas acadêmicas e promove a utilização de estratégias significativas que consideram o trabalho cooperativo a partir do debate de experiências de vida. que lhes possibilite explorar outros temas autonomamente. interesses. para estabelecimento de novas relações e colocação de novos questionamentos. explorar novos campos de saber. Nesse contexto a melhor maneira de ensinar passa por envolver o aluno na pesquisa e na observação e questionamento crítico de diferentes contextos sociais. 68 . contextos sociais e culturais e experiências de vida. bem como possibilitar que os alunos adquiram estratégias de busca. O currículo integrado considera a sala como um espaço onde uma ou várias cultura(s) própria(s) comunicam em complexas interações entre personalidades.Quais as tendências para o currículo na atualidade? O currículo integrado pretende organizar os conhecimentos escolares a partir de grandes temas que possibilitem pela problematização.

o professor 69 . intervém pontualmente esclarecendo dúvidas. Exemplo de “temas-problema”: .Por que os indivíduos necessitaram de sistemas simbólicos como a Álgebra para procurar regularidades ordenadas? Qual o papel do professor nesse cenário? Nesse processo os professores participam acompanhando os diferentes momentos de pesquisa do problema. objeto de pesquisa pelos alunos. ou seja. Durante a procura de resposta aos temas-problema surgem as atividades de busca. a discussão de pontos de vista. objeto de estudo. Além disso.Como e por que mudaram as representações do corpo na história do ocidente e em relação a outras culturas? . "identidade". Exemplo de "idéias-chave": "mudança".Qual é o conceito de currículo integrado? A organização do currículo integrado envolve a noção de "rede" e é centrado na exploração de "idéias-chave" que transcendem a uma disciplina e que se definiriam a partir do próprio conhecimento especializado das disciplinas. ordenação. etc. "vida". "símbolo". As idéias-chave se concretizariam numa série de “temas-problema”. interpretação da informação. facilita a busca de informação. seleção.Como a busca de leis sobre a natureza afetou as maneiras de interpretá-la? .

O professor como facilitador 70 . que seriam vinculados ao currículo da escola e analisados de acordo com critérios dos currículos do ensino básico.Projetos . As diferenças entre o currículo disciplinar e o currículo integrado são apresentadas no quadro de HERNÁNDEZ (1998): Currículo centrado nas matérias Currículo integrado .Unidades centradas em conceitos disciplinares .O conhecimento tem sentido por si mesmo .Objetivos e metas curriculares .Temas ou problemas .Estudo individual .Centrado no mundo real e na comunidade . o professor transcreve os conceitos que os alunos possam ter aprendido. pesquisa .Conhecimento estandardizado .Grupos pequenos que trabalham por projetos .Lições . transferências .Livros-texto .Unidades centradas em temas ou problemas . Uma vez explorado cada tema-problema.A avaliação mediante portfólios.Centrado na Escola .Perguntas.Fontes diversas .O conhecimento em função da pesquisa .Conhecimento construído .Conceitos disciplinares . onde todos são atores e construtores do mesmo processo na concepção de currículo integrado.Avaliação mediante provas .desempenha o papel de mediador do processo de ensinar e aprender na perspectiva da formação de redes de conhecimentos.O professor como especialista .

tendo como pressupostos os princípios do currículo integrado.Resumo A territorialização curricular é uma prática desejada no âmbito e inovação das práticas escolares visando à promoção da qualidade da educação. Para que a implantação da territorialização tenha sucesso. torna-se necessário que os atores exerçam a sua autonomia e poder no âmbito de uma proposta que esbata o nacional em função do local. Auto-avaliação Quais as dificuldades que a escola enfrenta nos dias atuais para a implantação da territorialização curricular? Quais os referenciais que estão subjacentes ao currículo integrado? 71 .

São Paulo: Editora Cortez. MASETTO. GALHARDO.Bibliografia CANDAU. São Paulo: Caras.). Vera Maria (Org. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. Um conto de Gibran. 1999.). Porto Alege: Artmed. Paulo. Ana Maria. O que você salvaria. A didática em questão. CANDAU. 2000. Luísa. Peropólis: Editora Vozes. 1999. NEVES. In: COELHO. Políticas educativas: O neoliberalismo em educação. LIBÂNIO. 1994. José Carlos. 72 . Rumo a uma nova didática. Transgressão e mudança na educação: Os projetos de trabalho. HERNÁNDEZ. 2000. Vera Maria (Org. Peropólis: Editora Vozes. José Augusto (Org. 1987. DOMINGOS. 1998. GIBRAN. 1997. Isabel Pestana. Marcos Tarciso. PACHECO. Ernando.). Porto: Porto Editora. Lisboa: Livros Horizonte. São Paulo: FTD. Didática. Didática: a aula como centro.

73 .

Organização do ensino Objetivos • Identificar do as concepções teóricas à de organização ensino as necessárias ação pedagógica e didática da escola. • ensino. Reconhecer intencionalidades imbricadas.Tema 5. que há entre conteúdo e objetivos de 74 .

A. Quem é que sabe resolver este exercício? 75 .. O professor resolve intervir. o professor propõe a seguinte questão: Um aluno é convidado a ir ao quadro para resolver a questão. destinada à aplicação dos casos de semelhança de triângulos..Estava vendo se descobria coisas sobre os lados dos triângulos. prosseguindo a aula do seguinte modo: P. começa por escrever: 1º — O lado [AB] é comum aos dois triângulos.Qual a contribuição do planejamento para alterar a prática docente? Iniciamos o estudo do tema apresentando um episódio supostamente passado numa aula de Matemática.. porque só há dados sobre os ângulos. P. Apaga o que o aluno tinha escrito.Isso não está correto! Não é assim que se faz a demonstração. Após alguma hesitação.Mas aqui é evidente que se tem de utilizar o 1º caso de semelhança que vocês estudaram..

a aquisição dos conteúdos na aula. Porque há uma relação entre planejamento. a forma como os alunos os utilizam. a construção dos conteúdos disciplinares e metodológicos. O termo “didática” cobre dois campos de referenciais: . ensino e aprendizagem que exige uma atenção nesse aspecto no sentido de contribuir para uma efetiva aprendizagem. Fonte: Marguerite Altet 76 . o conhecimento dos conteúdos a ensinar. a natureza profunda da disciplina ensinada.a matéria ensinada.Propomos neste tema que você possa articular a “teoria e a prática” para analisar o procedimento adequado que o professor de história poderia encontrar no planejamento baseado em unidades de estudo e quais os subsídios para alterar a sua prática. . se apropriam deles e a forma como os representam.

Através da ênfase no planejamento por unidades de estudo e não por aula procura repensar o significado e finalidade da educação e imprimir consistência à aprendizagem. contempla a sensibilização para a resolução de problemas sociais. não havendo o cimento para os ligar. Centra-se em um tema integrador que agrega e inter-relaciona os conceitos apreendidos. incentivadora do pensamento criador. o professor no momento de organização do ensino por unidades de estudo cuidadosamente planejadas. a organização do ensino por unidades de estudo proporcionam uma perspectiva integradora que aponta para uma aprendizagem interativa. Enquanto o exemplo da aula apresentado tinha uma tendência a compartimentar a aprendizagem e apresentava baixo potencial criativo. o ensino tradicional tem sua imagem retratada por uma parede em que os mesmos estão colocados uns sobre os outros. cuja compreensão envolve o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias ao tipo de planejamento de currículo.Portanto. Desse modo o edifício fácil e rapidamente se desmorona. 77 . Representado por um conjunto de tijolos. unificadas por um tema integrador.

78 .A educação de hoje procura nos temas integradores o cimento que liga os tijolos na parede. Planejamento por unidade de estudo O planejamento por unidade de estudo libera o professor da preocupação com o tempo de aula. Lembram-se da personagem do coelho na história de Alice no País das Maravilhas e da sua famosa frase: "Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!"? A falta de tempo é um dos desafios da escola a que o planejamento baseado em unidades de estudo pode contribuir para dar uma resposta. A construção se sustentará e perdurará por muito mais tempo. isto porque a avaliação incide sobre um todo organizado e coerente. re-significando o “processo de descoberta” pelo aluno e possibilita uma avaliação mais formativa.

Planejamento da unidade de estudo.Delimitação da unidade de estudo que engloba os levantamentos prévios de alguns problemas. atitudinais e comportamentais) e o 79 . especifica os objetivos (aspectos procedimentais. linha orientadora) e numa segunda fase. que possam despertar interesse nos alunos e verificação do modo como a disciplina pode contribuir para o seu debate e solução. A elaboração de uma listagem de conceitos relevantes envolvidos no tema e de outros que se relacionam com estes de modo a que ocorra uma ampla interligação. conceitos mais importantes. . objetivos gerais. em que primeiro define os aspectos gerais (tema integrador. esquema conceitual. Por fim. problematização da realidade.O planejamento de uma unidade de estudo envolve o professor preferencialmente em parceria com colegas e alunos num processo com momentos diferenciados: . listar as capacidades e atitudes que a unidade de estudo desenvolverá no aluno.

Sugere-se que a duração envolva de 5 e 15 aulas. 80 . consulta várias fontes de informação. Nesse processo o professor orienta o aluno a articular três coordenadas essenciais ao seu processo de aprendizagem: problema a resolver. 4. a delimitação do tempo é essencial para que não ocorra a perda da linha orientadora. 2. 2 Na definição das atividades de aprendizagem da unidade de estudo. os conceitos a atingir. avança sucessivamente para os objetivos definidos de acordo com o seu ritmo de aprendizagem. e as capacidades a desenvolver. Resumo O planejamento por unidades de estudo possibilita a abordagem dos conteúdos numa visão integrada. formula mais dúvidas e questões a resolver do que encontra conclusões definitivas. A sua concretização exige uma abrangência global do processo de ensinoaprendizagem. participa na definição do problema a resolver. Na aprendizagem planejada de acordo com os pressupostos da unidade de estudo o aluno: 1. para além de definir as atividades de aprendizagem2 e processos de avaliação.conteúdo (fatos e conceitos a aprender). 3.

Peropólis: Editora Vozes. Vera Maria (Org. São Paulo: FTD. José Carlos. Peropólis: Editora Vozes. NEVES. Bibliografia CANDAU. GALHARDO. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. 81 . A didática em questão. Vera Maria (Org. Didática. 1987. Didática: a aula como centro. Luísa.). 1999. DOMINGOS. 1994. Isabel Pestana. CANDAU. 2000. MASETTO. 1997. Lisboa: Livros Horizonte.Auto-avaliação Releia a situação do professor apresentada no início do tema e elabore uma proposta de planejamento baseado em unidades de estudo para o problema apresentado. LIBÂNIO. Ana Maria. Rumo a uma nova didática. Marcos Tarciso. São Paulo: Editora Cortez.).

Unidade II (Re)significando a ciência do saber e do ensinar Objetivo • Compreender os processos didáticos como dos objetivos educacionais na articulador educação básica. 82 .

83 .

Tema 1. 84 . Objetivos como metas de aprendizagem Objetivo • Reconhecer que os objetivos de ensino são estratégias que possibilitam a aprendizagem no contexto da sociedade atual.

ou seja. será que também tem de definir objetivo? Os professores precisam definir também objetivos. prever de início o que o aluno será capaz de fazer ao final do processo de ensino-aprendizagem. cidadão. quando encontrou uma Águia. não poderá avaliar de maneira coerente o resultado de sua atividade de ensino e será difícil selecionar e replanejar estratégias de ensino mais adequadas. reflita sobre a importância da definição de objetivos na vida e na escola. 85 . que lhe disse: "Bom amigo. Não havia andado muito. para onde vai?" "Vou em busca da fortuna". Se não definir os objetivos. A partir da leitura da fábula abaixo. respondeu o CavaloMarinho com muito orgulho. ter a certeza de para onde vai. E você.Como definir objetivos? A definição de objetivos é essencial para você. Certa vez um Cavalo-Marinho pegou suas economias e saiu em busca de fortuna. A clareza dos objetivos é um elemento importante para o sucesso na vida e na sala de aula. professor.

"Pela metade do seu dinheiro deixo que leve esta asa. "Vendo-lhe esta prancha de propulsão a jato por muito pouco dinheiro. Pagou-lhe. disse a Águia. "Que bom!". O estabelecimento dos 86 . e se lançou ao interior do Tubarão. meu bom amigo?" "Vou em busca da fortuna". que lhe disse: "Para onde vai. "ganhará muito tempo". para que chegue mais rápido". respondeu o CavaloMarinho. disse a Esponja. sendo devorado. disse o Tubarão."Está com sorte. disse o Cavalo-Marinho. eu lhe agradeço muito". para onde vai com tanta pressa?" "Vou em busca da fortuna". nunca vamos entrar na boca do tubarão. "Está com sorte. colocou a asa e saiu como um raio. Se tomar este atalho". para que possa chegar mais rápido". apontando para sua imensa boca. De repente encontrou um Tubarão. "Está com sorte. Logo encontrou uma Esponja que lhe disse: "Bom amigo. disse o Cavalo-Marinho.” A estória nos remete para uma reflexão: se definimos os objetivos tendo em vista aonde queremos chegar. Foi assim que o Cavalo-Marinho pagou o resto de seu dinheiro pela prancha e sulcou os mares com velocidade quintuplicada. "Está bem. Então vejamos! Educar significa ter em vista atingir determinados objetivos. respondeu o CavaloMarinho.

No basquetebol o atleta ao lançar a bola ao cesto. 87 . Uma vez conhecidas as grandes metas educacionais. A definição de objetivos constitui o primeiro passo para o sucesso. que correspondem ainda a uma formulação ampla. ou seja.objetivos educacionais constitui o primeiro passo a ser considerado em qualquer situação de ensino e as metas a atingir pelos alunos deverão ser definidos em termos de resultados ou produtos de aprendizagem. define uma meta a ser alcançada. a partir de um ponto de apoio. relativo às disciplinas e às unidades de estudo que devem apontar para os conceitos básicos e para as capacidades que se revelam de maior importância. apontar para o resultado da aprendizagem a ser atingido pelos alunos. cabe à escola e ao professor explicitar os objetivos.

. . A definição de objetivos visa promover a mudança. A Objetividade e clareza de intencionalidade na construção de objetivos de ensino. Como definir objetivos? É imprescindível que os objetivos sejam expressos em termos das mudanças de comportamento que se espera dos alunos durante o processo ensino e aprendizagem.o seu grau de aprendizagem anterior.as condições de trabalho. .o nível etário dos alunos. .Para isso. 88 .a característica de cada disciplina. permite ao professor uma avaliação coerente em relação aos objetivos definidos no plano de ensino. é uma tarefa interdisciplinar consciente e criteriosa e deve atender às especificidades mais relevantes e adequadas à disciplina ou unidade de estudo considerando alguns aspectos. explicitando o que você enquanto professor deseja que seu aluno aprenda. tais como: .as grandes metas educacionais. é necessário o critério de seleção dos objetivos.

Exprimem-se através de verbos como «compreender». embora possibilitem uma idéia concreta dos resultados da aprendizagem a serem atingidos. “desenvolver”. Conheça no quadro abaixo as diversas categorias de objetivos e exemplos de estratégias que o professor poderá utilizar na sala de aula para trabalhar. “construir”. «avaliar». «participar». análises. interpretações. Aulas expositivas com recursos audiovisuais. «interpretar». Estratégias Leitura de textos. fato. Visitas guiadas. Os objetivos gerais são amplos e devem ser formulados em termos de metas de ensino. “identificar”. Os objetivos específicos são expressos por verbos com um significado mais restrito e operacional.O primeiro passo na definição de objetivos consiste em elaborar uma lista dos objetivos gerais. estudos. “explicar”. hipóteses. que no seu conjunto constituem a comprovação de que o objetivo geral foi atingido. «aplicar». Aulas expositivas dialogadas. tais como: “descrever”. não indicam os comportamentos específicos que se desejam. 89 . em listas de comportamentos observáveis. teorias. que. Categoria de objetivos Aquisição de conhecimentos que se referem aos conhecimentos adquiridos pelos alunos (informações. Leitura com roteiro de questões. «cooperar». Estudos de caso. conceitos. Por isso há necessidade de elaborar objetivos específicos que se apresentam. pesquisas). indicando comportamentos que podem ser observados. Existem diversas categorias de objetivos que abrangem áreas distintas do processo de aprendizagem e têm reflexos nas estratégias do professor na sala de aula.

Debate em pequenos grupos com posições diferentes. . Aulas práticas. Visitas guiadas. a criatividade. abstrair. como por exemplo: relacionar informações. Grupos de oposição. avaliar. a capacidade crítica. p. Dramatização. Grupo de observação/grupo de verbalização.Objetivos de habilidades relacionados com tudo aquilo que o aluno vai aprender a fazer desenvolvendo suas capacidades intelectuais. psicomotoras. Pequenos grupos para formular questões. a curiosidade científica. a integração de conhecimentos. trabalhar em equipe. coordenar seus movimentos. tais como valorizar a busca de informações. importância e crença. transferir informações. 97). (1997. identificar características. descobrir. a convivência com os colegas. Desenvolvimento de atitudes visando comportamentos que indiquem valoração. questionar. A lista dos objetivos específicos deve ser suficientemente curta para se tornar praticável. Relatórios com opiniões fundamentadas. 90 . Estratégias Dramatização. criar. inferir. Fonte: Adaptação a partir de Masetto. Estudo de caso. afetivas. desempenho de papéis (representação estática ou dinâmica). fundamentar suas opiniões. Atividades em grupos. a co-responsabilidade pela aprendizagem. comparar fatos e teorias. experimentar. sociais e políticas.Categoria de objetivos . Estágios.o trabalho em equipe. ser participante. organizar trabalhos. a comunicação.

Existe a necessidade de clarificar o que se espera dos alunos com este objetivo geral.Descrever o conceito com suas próprias palavras. porém. .Resolver problemas com base no conceito. Objetivos específicos: .Identificar o conceito implícito numa dada situação.variando.Explicar afirmações com base no conceito. ou seja. de comportamentos observáveis que no seu conjunto constituam resultados significativos que demonstrem que o objetivo geral é atingido. . O que deve o aluno fazer para mostrar que compreende? Para tal será necessário elaborar uma lista de objetivos específicos. o seu número em função da necessidade de avaliar se os alunos atingiram o objetivo geral.Compreender um conceito. Objetivos específicos: . Considere o exemplo de objetivo geral «compreender conceitos»3. 91 . qualquer um que o professor deseje que o aluno aprenda. 3 Para simplificar a compreensão entendemos o “conceito” apresentado no objetivo como genérico. 2) Objetivo geral: . ou seja.Compreender um conceito. O mesmo acontecerá com outras referências a objetivos apresentadas posteriormente no texto. Apresentamos três exemplos de listas de objetivos específicos para o objetivo geral «compreender um conceito»: 1) Objetivo geral: .

Apresenta-se um exemplo equivocado da procura de desdobrar o objetivo geral “Compreender o conceito de respiração”: O professor apresentou como objetivo específico: . . Será que o objetivo específico permite verificar se o objetivo geral “compreende o conceito de respiração” foi atingido? O objetivo foi formulado erroneamente. já que ele representa apenas um fato necessário para a compreensão do conceito.Inferir com base no conceito. -Objetivos específicos: .Prever com base no conceito.Enunciar hipóteses apoiadas no conceito. . 3) Objetivo geral: . Claudino Piletti Para que os comportamentos específicos possibilitem verificar se um objetivo geral foi atingido será necessário que resultem do seu desdobramento.Compreender conceitos..Distinguir entre uma descrição correta e incorreta do conceito. 92 . O professor que não define objetivos.Estabelecer a distinção entre dois conceitos. não pode avaliar de maneira objetiva o resultado da atividade de ensino e não tem condições de escolher os procedimentos de ensino mais adequados. .Identificar se os seres vivos absorvem oxigênio.

Distinguir descrições corretas e incorretas do conceito respiração. eles têm sido vulgarmente apresentados incorretamente em termos de processo ou de atividade do professor. não conseguem orientar as ações do professor e dos alunos em aula. Marcos Masetto 93 . Apesar dos objetivos educacionais constituírem metas a atingir pelos alunos.Descrever o conceito de respiração com suas próprias palavras. . Objetivos específicos: .Exemplos corretos de formulação de objetivos específicos são apresentados abaixo: Objetivo geral: “Compreender o conceito de respiração”. Os objetivos definidos de forma ampla e genérica. com propósitos abrangentes. em vez de produtos da aprendizagem.Resolver problemas com base no conceito de respiração.Explicar afirmações com base no conceito de respiração. . .

. As taxonomias constituem uma fonte de seleção de objetivos educacionais e consistem num conjunto de categorias gerais e específicas que incluem todas as possíveis metas de 94 . pois inclui vários objetivos gerais. tais como “formular problemas”. O objetivo geral “explicar o processo científico”. Este enunciado envolve dois objetivos possíveis que podem não ser alcançados simultaneamente: “formular problemas” e “formular hipóteses”. necessitando por isso de ser subdivididos.Vejamos exemplos em que os objetivos educacionais em vez de apresentados em termos de produtos da aprendizagem são apresentados incorretamente em termos do processo: “Desenvolver a capacidade de formular hipóteses“. “formular hipóteses”. O objetivo correto seria «Formular hipóteses».descrição do comportamento do professor. na definição de objetivos. relaciona-se com os objetivos gerais formulados demasiado amplos. não pode ser diretamente desdobrado em objetivos específicos. «Demonstrar aos alunos como se executa uma experiência». O objetivo correto seria “Executar experiências”. O enunciado dos objetivos gerais não deverá incluir mais do que uma meta. não sendo aceitáveis objetivos do tipo “levantar problemas e formular hipóteses para responder a esses problemas”. por exemplo. Outro aspecto a considerar. Para cada um desses objetivos gerais seria ainda possível enumerar vários comportamentos específicos.

análise. a taxonomia de Bloom ainda hoje é utilizada para a definição de objetivos. A apesar das críticas de tecnicismo. síntese e avaliação. dividindo os objetivos pelos três domínios psicológicos: cognitivo. De acordo com a taxonomia dos objetivos educacionais de Bloom. compreensão. que lhe são feitas. Dentre as taxonomias existentes. a de Bloom é uma das mais conhecidas e vulgarizadas. afetivo e psicomotor. aplicação. o domínio cognitivo encontra-se dividido em seis categorias organizadas num gradiente em termos de complexidade dos processos mentais: recordação. Elas surgiram da necessidade de sistematizar e clarificar a atividade de estabelecer objetivos educacionais. 95 .aprendizagem que se podem atingir no ensino. O domínio cognitivo enfatiza objetivos que se referem à memória ou evocação de conhecimentos e ao desenvolvimento de habilidades e capacidades técnicas de ordem intelectual.

96 .

97 .

Manifesta-se pelo estabelecer de correspondências. representam um nível intelectual mais elevado do que os dois anteriores. a análise das relações entre estes e o reconhecimento dos princípios organizativos implícitos. previsão de conseqüências futuras e. Isto pode incluir a identificação dos componentes. conceitos. As metas de aprendizagem neste domínio requerem um nível de compreensão mais elevado que as do nível anterior. As metas de aprendizagem. Análise A análise refere-se à capacidade de desagregar o material nas suas partes constituintes para que a sua estrutura organizativa possa ser compreendida. princípios. apesar de marcar um passo em frente em relação ao nível de memorização. interpretação.Principais categoriais do domínio cognitivo da taxonomia de objetivos educacionais de Blom: Memorização A memorização é o mais baixo nível das metas de aprendizagem no domínio cognitivo. métodos. neste caso. Isto inclui a aplicação de regras. Aplicação A aplicação diz respeito à capacidade de aplicação das aprendizagens realizadas a novas e concretas situações. corresponde ao nível mais baixo da compreensão. leis e teorias. Exige somente o relembrar do que foi previamente aprendido. Apreensão A apreensão envolve a capacidade de compreender o significado do que foi aprendido. porque requerem uma 98 .

um plano de operações (um projeto de pesquisa) ou um conjunto de relações abstratas (um esquema para classificar a informação). nesta área. As metas de aprendizagem. O domínio afetivo enfatiza os objetivos de aprendizagem relacionados com valores e atitudes. com maior realce na formulação de novos padrões ou estruturas. Síntese A síntese é a capacidade de reunir os componentes de modo que se forme um novo conjunto. porque contêm não só elementos de todas as outras categorias como juízos de valor conscientes. poema. As metas de aprendizagem. baseados em critérios claramente definidos. quer do conteúdo. Estes podem ser internos (organização) e externos (relevância para o fim desejado) e o aluno pode determinar os critérios ou estes podem ser-lhe fornecidos. neste domínio.compreensão. relatório) para um determinado fim. são as mais altas na hierarquia do domínio cognitivo. impelem a comportamentos criativos. Isto pode envolver a produção de uma única comunicação (tema ou discurso). Os juízos têm de ser baseados em critérios bem definidos. 99 . O domínio psicomotor enfatiza as habilidades musculares ou motoras. quer da forma estrutural do material. Avaliação A avaliação está ligada à capacidade de julgar o valor do material (exposição. novela.

Qual a relação entre os objetivos gerais e específicos? 100 . Para que as grandes metas de ensino sejam cumpridas. Auto-avaliação .Qual a importância dos objetivos no processo de ensino? .Resumo A definição de objetivos engloba diferentes áreas do processo de aprendizagem e tem reflexos nas estratégias do professor na sala de aula. afetivo e psicomotor. é essencial que a definição de objetivos considere o aluno como um todo cognitivo.

Lisboa: Livros Horizonte. 1999. Ana Maria. MASETTO. DOMINGOS. 101 . 1987.). NEVES. Isabel Pestana. 1994. Marcos Tarciso. Luísa. Rumo a uma nova didática. José Carlos. São Paulo: Editora Cortez. 1997. Peropólis: Editora Vozes.). Vera Maria (Org. 2000. São Paulo: FTD. Vera Maria (Org. LIBÂNIO. A didática em questão. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. Peropólis: Editora Vozes. GALHARDO. CANDAU. Didática: a aula como centro. Didática.Bibliografia CANDAU.

Tema 2. 102 . Apresentação do conteúdo programático Objetivos • Identificar e aplicar o conteúdo programático numa abordagem contextualizada e significativa para o aluno.

Página 48 (pausa)..Você. fuzuê. correria. Depressa.A história da rã apresentada abaixo relata uma situação de sala de aula em que a professora trabalha com uma proposta tradicional de educação. Hoje vamos estudar os batráquios. saia e tire essa porcaria de bicho daqui. Com o dedo trêmulo aponta para Joãozinho: ..Abram o livro de Ciências Naturais (pausa). Batidas de portas. A professora sobe no estrado de madeira.. tentando apanhar uma rã que escapou ao Joãozinho. Muitíssimo.. Finalmente se faz silêncio. arruma os óculos e diz secamente: . Está irritada. Neste tema propomos que reflita sobre a importância de abandonar o ensino ligado ao conceito solto. E não traga mais animais para a sala de aula! Joãozinho sai da sala com sua rã verde dentro de um vidro. para o integrar numa ampla rede de significados que permita ao aluno construir esquemas conceituais significativos e contextualizados. Pronto? (pausa mais longa). 103 . A professora suspira. “A professora entra na classe e topa com uma algazarra fenomenal: todos correm e gritam.

Tem certeza de que em algum lugar da sua traidora memória deve estar essa maldita definição de "bratáquio" . erre.Está vendo? Se em vez de brincar com esses animais na sala de aula você prestasse atenção!. Bra.. ba-trá-quio? O rosto de Joãozinho revela uma profunda concentração. "batriais" são animais anfíbios.Um triângulo "bratáquio"? Ou será o da hipótese "Tenusa"?.. Leia.. a.Sente-se. sem respirar. . . A professora suspira aliviada. as rãs e os sapos. com delicadeza e fazendo cara de arrependido.Animal de sangue frio que tem respiração "bronquial". Não.Não. Nesse exato momento batem à porta e. sílaba por sílaba.. assim como os a-a-anuros e as pe-re-recas. sim. Grita a professora: . Be. Definição. você mesma. Maria.Sim. Batráquios são anima... Maria se levanta da carteira num sobressalto. Branquiais. Maria...Você.. .Deve ser alguma coisa de geometria ensinada ontem. . Vamos ver. . Página 49. bra.. Traz nas mãos o vidro vazio. Toma o texto e lê. isso é o que você é! 104 .Agora você sabe o que é um batráquio. como que impulsionada por uma mola. Procura recordar-se. Joãozinho! O que é um “bratáquio” quer dizer..Sim.. diga você o que é um batráquio! Distraído.Não. . "Bronquiáceos". Joãozinho entra. . . bra. "Bratráquios".

o conteúdo. A partir deste conceito poderá elaborar uma lista de outros conceitos nele envolvidos e dos fatos (ou subconceitos) que. Respira e acrescenta: . que deverá ser apresentado em termos de conceitos interligados em esquemas conceituais.Uma rã”. seguindo-se a interligação dos fatos em conceitos e destes em esquemas conceituais. Vejamos como exemplo o tema de um dado programa de ciências: “O solo como fator do ambiente”. O professor poderá dar ênfase ao esquema conceitual: “O solo é um sistema em equilíbrio do qual depende a reciclagem da matéria”. A aprendizagem do aluno parte da observação de dados e da ligação destes em fatos. Ao planejar o ensino. de modo muito concreto. Então? O que podemos compreender da estória? Que os programas das disciplinas apresentam o conteúdo sob forma de temas. você deverá selecionar os esquemas conceituais a que pretende dar ênfase em cada unidade de ensino.Com voz de definição. Maria responde: . Fonte: Francisco Caivano e Francesco Tonuci.Um batráquio é um brânquio anfíbio que esfria o sangue. interligados. Existe por isso a necessidade de definir. dão origem a cada um dos conceitos. demasiado vastos e passíveis de muitas interpretações. com base nos mesmos poderá identificar os conceitos nele envolvidos e os fatos necessários para atingir a cada um dos conceitos. 105 .

A figura ilustra a relação entre fatos. conceitos e esquemas conceituais. E na medida em que existe um determinado tipo de relação entre estes fatos (ou 106 . Um conceito por sua vez constitui um modelo mental que representa uma idéia resultante da associação de vários fatos.O fato resulta da observação sistemática de um certo número de acontecimentos. a afirmação “O cão é um mamífero” envolve o conceito de mamífero. Para fazer chegar ao mapa conceitual é necessário estabelecer uma relação que permita descortinar o que existe de comum em todos os fatos (ou subconceitos). Contudo não se observa que o cão é mamífero. No caso. mas sim que o cão tem o corpo coberto de pêlos (fato) e que se alimenta de leite materno enquanto pequeno (outro fato).

A utilização dessa ferramenta tornará o aluno mais fluente. utilizando-se os mapas mentais. A definição do conteúdo programático em função de fatos. por exemplo. Os conceitos são por sua vez conceitos quando. inter-relacionados. flexível e original e contribuirá para que o mesmo utilize todas as possibilidades de expansão e de construção globalizada do conteúdo estudado. possibilitam arquitetar os esquemas conceituais. 107 . conceitos e esquemas conceituais possibilita não só uma especificação mais clara do que se pretende quanto aos temas de conteúdo do programa. Os esquemas conceituais poderão ser trabalhados. Fonte: BUZAN. “constrói-se” finalmente o conceito. 2005.subconceitos) com outros fatos. mas ainda uma especificação na formulação dos objetivos.

o aluno atingir os esquemas conceituais. Para que o aluno construa os esquemas conceituais. entre fatos. 108 . a aprendizagem deve partir da ligação entre fatos e da interligação desses fatos em conceitos. para.Resumo O ensino deve ser orientado no sentido de o aluno compreender amplos esquemas conceituais. da relação conceitos e esquemas conceituais. por fim. Auto-avaliação Estabeleça.

109 . CANDAU. São Paulo: Editora Cultrix. Rumo a uma nova didática. NEVES. Marcos Tarciso. Vera Maria (Org. Didática: a aula como centro. A didática em questão. GALHARDO. Ana Maria. CANDAU. Luísa. Isabel Pestana. 1987.Bibliografia BUZAN. Peropólis: Editora Vozes.). DOMINGOS. MASETTO. Tony. Lisboa: Livros Horizonte. Vera Maria (Org.). José Carlos. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. São Paulo: Editora Cortez. São Paulo: FTD. Peropólis: Editora Vozes. 2000. 1999. 2005. 1994. Mapas mentais. LIBÂNIO. 1997. Didática.

Tema 3. Planejamento de ensino
Objetivos
• Reconhecer a importância de caracterizar Identificar quais são os elementos do

os aspectos essenciais para o plano de ensino; • processo de ensinar e aprender, visando à coerência do ato de ensinar.

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Propomos que inicie o estudo deste tema olhando a imagem abaixo e refletindo sobre o que ela lhe fala.

Para alguns poderá ser um simples ponto na folha branca de papel. Para outros, um buraco. E você, quantas outras coisas associam a essa imagem? (FAGALI, 2001). O planejamento de ensino parte de uma folha em branco e de um ponto de tinta. O seu desenvolvimento deve, porém, estar atento à abordagem do múltiplo e do plural mediado pelos sentidos e significados. Ao pretender planificar o ensino para um curso, uma unidade de ensino ou para um ano, várias questões se levantam ao professor. Umas relacionadas com os alunos a quem se dirige o ensino e outras de caráter mais técnico, relacionadas com o conteúdo programático a desenvolver. Para que o ensino? A quem ensino? O que ensino? Como vou ensinar? Como avaliar os resultados do ensino? São questões que se referem a múltiplos aspectos, desde a análise das grandes metas de ensino e das características psicológicas dos alunos, até à definição dos

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objetivos e dos conteúdos e à seleção das estratégias e das técnicas de avaliação. Conhecido o conteúdo programático e as finalidades propostas para o ensino, cabe ao professor elaborar um plano em que objetivos, estratégias e técnicas de avaliação estejam de tal modo relacionados que no seu conjunto formem um todo coerente e forneçam uma indicação precisa quanto à maneira de desenvolver o processo ensino-aprendizagem.
O ato de planejar é uma atividade intencional. Ele torna presentes e explícitos nossos valores, crenças, como vemos o homem; o que pensamos da educação, do mundo, da sociedade. Por isso, é um ato políticoideológico. Marcos Masetto

Uma vez selecionados e formulados os objetivos que os alunos devem atingir (englobando os domínios: cognitivo, afectivo e também psicomotor) e uma vez definidos os temas de conteúdo em que assentará o ensino, surge a necessidade de relacionar os objetivos com os temas de conteúdo. Esta relação é fundamental para o professor ter uma idéia de conjunto, que lhe permita não só pensar no tema de conteúdo mais apropriado ao desenvolvimento de determinada capacidade, como também determinar os objetivos a alcançar com vários temas do conteúdo.

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temas de conteúdo. Matriz consiste num quadro com duas dimensões (uma horizontal e outra vertical) cujo cruzamento é possível evidenciar uma relação de correspondência entre elas. surgindo a relação entre cada objetivo e cada conteúdo no cruzamento das duas dimensões. de no trabalho tabelas discuções de grupo gráficos X X X X X X X X X X X X 113 . uma dimensão diz respeito aos objetivos e a outra aos temas de conteúdo. Numa matriz de objetivos-temas de conteúdos.Um meio que se tem revelado eficiente para estabelecer aquele tipo de relação é uma matriz de objetivos . Objetivos Reconhecer Reconhecer Compreender termos fatos conceitos e comuns específicos esquemas Temas conceituais de conteúdos Fluxos de massas e energias nas cadeias alimentares Conservação de massa e da energia Fluxos de energia e organização da Ecosfera Interpretar Participar Cooperar esquemas.

pois abrange todo o conteúdo anual). Na relação objetivos-conteúdos expressa numa matriz. . Isto significa que a cada tema de conteúdo o professor pretende que os alunos atinjam 114 . deste modo evita-se que. .A relação entre os objetivos e os conteúdos pode ser assinalada numa matriz. embora possam ser de amplitudes diferentes. em princípio.Dispor de uma panorâmica geral. ao longo de um determinado período de ensino. observa-se que nem todas as «casas» da matriz podem estar assinaladas. os objetivos definidos para um curso. um ano ou uma unidade de ensino. por exemplo. Relacionar os objetivos com os conteúdos utilizando uma matriz permite ao professor: . neste ou naquele objetivo. são muitas vezes expressos da mesma forma. um X naquelas «casas» da matriz que correspondem à combinação desejada de um dado objetivo com um dado tema de conteúdo. Concebida deste modo. Só estarão preenchidas as «casas» que.Delimitar pormenorizadamente as áreas de aprendizagem. Assim. marcando. e neste caso a diferença reside no número de objetivos previstos (a lista de objetivos para um curso será necessariamente maior.Desenvolver o ensino de acordo com todos os objetivos e conteúdos previamente estabelecidos. irão servir de base ao processo de aprendizagem. se atribua maior incidência neste ou naquele conteúdo. uma matriz pode servir não só para um curso como também para um ano ou para uma unidade de ensino. que permite uma distribuição equilibrada dos objetivos e dos conteúdos.

como a temas de conteúdo. Planejar é dar sentido e vida à escola. de unidade ou anual) diz respeito ao modo como se referenciam. que cada objetivo será atingido através de alguns temas de conteúdo. o planejamento de ensino é essencial para que a escola não se transforme num espaço de simples execução de tarefas mecânicas. por outro lado. A diferença fundamental entre os três tipos de matriz (de curso. o estabelecimento dessa relação feita logo de início evita o desviar da atenção de alguns dos temas de conteúdo ou de alguns dos objetivos previstos. Os temas de conteúdos são identificados em função do programa proposto e serão mais ou menos amplos consoante o período de ensino a que se destinam. como ainda à relação prevista de objetivosconteúdos. Claudino Piletti É evidente que a matriz elaborada no início poderá vir a ser reformulada ao longo do período de tempo em que vigorar.determinados objetivos e. Como na vida. 115 . Contudo. não só no que diz respeito a objetivos. quer os objetivos (lista menor e mais pormenorizada para um período mais restrito). quer o conteúdo (mais especificado num planejamento mais restrito).

Tendo presentes os objetivos e os temas de conteúdo. terá de ser elaborado o plano de ensino. necessitando.Como planejar um curso? E como planejar um ano? O planejamento de um curso deve centrarse por um lado nos objetivos gerais que se julgam fundamentais e necessários para atingir as grandes metas de ensino e. O Planejamento de um ano tem por subsídio o programa que contém os temas de conteúdo a ser tratado e objetivos gerais a serem atingidos com o conteúdo proposto. de ser especificado o conteúdo e de definidos claramente os objetivos gerais de ensino. antes de tudo. por outro lado. Resumo A relação entre objetivos e conteúdo é essencial para o planejamento das atividades docentes. mas também alcançados os objetivos. de tal modo que no final da aprendizagem (relativa ao ano) estejam não só tratados todos os conteúdos. 116 . nos temas de conteúdos que se revelam de significado mais amplo no contexto de um determinado curso. o professor poderá depois relacionálos numa matriz. Em face de um programa deste tipo. A formulação dos objetivos e a sua inclusão numa matriz relacionando-os com os temas-conteúdo conduzem à reflexão simultânea sobre o que se propõe ensinar e sobre o que se vai ensinar.

Luísa. MASETTO. Petrópolis: Editora Vozes. 1999. CANDAU. . GALHARDO. FAGALI. São Paulo: Editoras Unidas. Vera Maria (Org. 1994. 2000. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. 2001. Marcos Tarciso. Rumo a uma nova didática. Didática: a aula como centro. A didática em questão. Lisboa: Livros Horizonte. no que diz respeito aos subsídios elementares para a sua elaboração.). NEVES. 1997. Didática. Eloísa Quadros (Org. DOMINGOS. Vera Maria (Org. Petrópolis: Editora Vozes. São Paulo: FTD. José Carlos.Qual a relevância da elaboração da matriz objetivos/conteúdo para o trabalho docente do professor? Justifique a sua afirmação.). . 1987. 117 . LIBÂNIO.).Qual a contribuição que a elaboração da matriz objetivos/conteúdo pode ter para a melhoria da qualidade do trabalho da escola. Múltiplas faces do aprender: Novos paradigmas da pósmodernidade. São Paulo: Editora Cortez. Isabel Pestana. Bibliografia CANDAU. Ana Maria.? Justifique a sua afirmação.Auto-avaliação .Relacione o planejamento de um ano e o planejamento de um curso.

Estratégias de aprendizagem Objetivo Caracterizar estratégias de aprendizagem • aula.Tema 4. considerando o ensinar e o aprender na sala de 118 .

“Era uma vez um país onde todas as pessoas.Como você pode ir contra toda a nossa tradição? Durante anos e anos todos temos andado perfeitamente com este amparo. como vai menosprezar nossa bibliotecas. Aproximou-se dele um ancião e lhe disse: . a cuidar delas. a reforçá-las conforme iam crescendo. Mas. a envernizá-las para que o barro e a chuva não as danificassem. um belo dia. todos o chamavam de louco. Desde a mais tenra infância. um cidadão inconformado começou a pensar se não seria possível prescindir de tal equipamento. seus pais. Ela nos fala sobre a necessidade de oportunizar aos sujeitos as condições para caminharem livremente. onde está concentrado todo o saber 119 . seus mestres.Vamos iniciar este tema propondo que leiam a parábola indígena a seguir. acostumaram-se a usar muletas para andar. Mas a quem teria saído este rapaz? Não percebe que sem as muletas cairá irremediavelmente? Como pôde lhe ocorrer tamanha estupidez? Porém. Além disso. seus amigos. as crianças eram ensinadas a usar devidamente suas muletas para não cair. Você se sente mais seguro e tem que fazer menos esforço com as pernas. os anciãos do lugar. Enquanto apresentava suas idéias. nosso homem continuava discutindo a questão. durante muitos anos. É uma grande invenção. Esta tarefa essencial à vida passa na escola pela definição das estratégias de aprendizagem.

foi adquirindo segurança e. você também deve usá-las. suas excentricidades me estão cansando. No planejamento. caiu repetidas vezes. uso e manutenção das muletas? Como vai ignorar nossos museus. Os músculos da sua perna estavam atrofiados. formulados os objetivos.de nossos antepassados sobre a construção. dando oportunidade para se liberarem das muletas. seu avô e seu pai usaram muletas. A participação ativa do aluno consubstancia-se primordialmente no espaço que o professor reserva para as descobertas dos alunos. Mas nosso homem continuava a cismar com a idéia. usados por nossos próceres.Olhe. Mas. corria pelos caminhos. Está criando problemas na família. onde são admirados os mais nobres exemplares. O homem da nossa parábola tinha conseguido ser ele mesmo”. 120 . porque isso é o correto. Se seu bisavô. pouco a pouco. saltava as cercas dos campos e cavalgava pelos imensos prados. conforme fora advertido. O desenvolvimento de estratégias de ensino pretende contemplar essa necessidade. De início. em poucos dias. surge a necessidade de procurar formas de atingilos. filho. nossos sábios e mentores? Então se aproximou seu pai e disse: . até que um dia decidiu pô-la em prática.

Quadro 1 – Apresentação das linhas orientadoras da estratégia de acordo com os objetivos. 2. A orientação apresentada nestes moldes constitui um fio condutor. Explica acontecimentos com base nos conceitos. Estratégia (linha orientadora) A partir de fatos (descobertos pelos alunos e/ou fornecidos pelo professor) orientar os alunos a estabelecer relações entre eles de modo a apreenderem os conceitos a que esses fatos conduzem. Objetivos Compreende conceitos: 1. Explica os conceitos com palavras próprias. etc.Antes de especificar concretamente a estratégia a desenvolver. possibilitando ao professor selecionar a estratégia específica que naturalmente irá variar de acordo com fatores como: os alunos a quem se dirige. fazer previsões. Mostra a relação entre os objetivos e as estratégias a desenvolver para os atingir. 3. Faz inferências com base nos conceitos (fornecidos ou implícitos). explicar acontecimentos com base em conceitos: fazer inferências. 4. é útil definir linhas gerais de orientação. identificar conceitos implícitos em determinadas situações. os materiais disponíveis. 121 . A análise do quadro abaixo mostra como a estratégia ainda é encarada de modo muito geral e orienta o caminho a seguir para atingir os objetivos. Identifica o conceito implícito numa dada situação. as condições existentes. Fomentar discussões que contribuam para que os alunos possam: explicar conceitos com suas próprias palavras. concretizada para o caso particular do objetivo «compreender conceitos».

Assim. 122 . ser objetivo. em evidência a relação entre meios e fins. o objetivo “executar experiências” como muitos outros tais com: formular problemas. interpretar resultados. assim. o objetivo “compreender conceitos” pode ser atingido através de uma atividade de laboratório. de uma discussão baseada em filmes. apresentação em Power-Point ou outras. como se referiu. várias estratégias permitem alcançar o mesmo objetivo. Por outro lado a mesma estratégia permite geralmente atingir mais que um objetivo. pois. Se o objetivo for “executar experiências” a estratégia terá necessariamente de envolver uma atividade laboratorial. podendo mesmo acontecer que várias estratégias possam ser utilizadas simultaneamente.A análise do quadro põe. isto é. São os objetivos que vão estabelecer as estratégias. Noutros casos a relação não é tão direta. ter curiosidade etc. a atividade laboratorial é uma estratégia que permite não só atingir. ser responsável.

Com base no tema geral da unidade de ensino basta agora que ele seja desdobrado (tendo presente o respectivo esquema conceitual) em temas de conteúdos. Marcos Masetto 123 . Temos estratégias adequadas (ou inadequadas) aos objetivos que pretendemos alcançar. No caso apresentado anteriormente. ao respectivo tema geral e. Não existem estratégias boas ou ruins. poder-se-á programar tantas unidades de ensino quantos os temas de conteúdo expressos na matriz. mas não se sabe qual ou quais conceitos. pretende-se que o aluno compreenda conceitos. o objetivo “compreender conceitos” ainda não está concretizado. ou seja. Tendo como ponto de referência os temas de conteúdos da unidade. Partindo de uma matriz esta tarefa toma-se mais fácil. Assim. o professor poderá formular os objetivos para a unidade de ensino e elaborar uma matriz. por conseguinte. na unidade de ensino. cada um dos temas de conteúdo indicado na matriz corresponderá.A linha orientadora refere-se a um objetivo ainda não concretizado em termos de um conteúdo específico.

o tipo de técnica de avaliação mais apropriado. as estratégias e o tipo de técnicas de avaliação. 124 . Por outro lado. há ainda necessidade de definir. É evidente que a concretização da estratégia variará consoante o tema de conteúdo em que se centra a aprendizagem. O quadro para uma unidade de ensino inclui todos os objetivos gerais e respectivos objetivos específicos. o professor poderá formular os objetivos e fica a partir daí com a possibilidade de programar as atividades de aprendizagem que permitam atingir não só esses conteúdos como também os objetivos propostos a esses conteúdos. correspondendo apenas a linhas gerais que irão orientar o professor na escolha das atividades específicas de aprendizagem. As estratégias não estão ainda concretizadas.Conhecidos os temas de conteúdo da unidade. Uma maneira de nos assegurarmos se os objetivos. para cada um dos objetivos. as estratégias e as técnicas de avaliação estão interrelacionados é preparar uma que inclua os três. A escola deve possibilitar aos alunos as condições para se liberarem das muletas e tenham condições para correr rumo ao sucesso.

. .Item de composição.Estabelecer a distinção entre dois conceitos. fazer previsões. . . .Descrever o conceito por suas palavras. Quadro 2 – Especificação da relação entre objetivos-estratégias-técnicas de avaliação. .Esse quadro possibilita ter uma visão geral que assegure mais facilmente definir para cada objetivo a estratégia e a técnica de avaliação adequada. princípios e esquemas conceituais.Inferir com base no conceito. * Fomentar discussões que favoreçam aos alunos a fazer inferências. . com base no conceito envolvido.Compreender conceitos.Item de composição.Resolver problemas com base no conceito. * A partir de fatos (fornecidos pelo professor ou descobertos pelos alunos) orientar os alunos a estabelecer relações entre eles de modo a aprenderem os conceitos a que esses fatos conduzem.Explicar uma situação com base no conceito. * Objetivos específicos .Item de composição. . explicar situações. Objetivos Estratégia (linha Orientadora) Técnicas de avaliação * Objetivo geral . 125 . resolver problemas.Item de composição.Item de composição curta. . servindo assim de orientação.

Os organismos macroscópicos do solo alimentam-se da manta morta. * Discussão centrada em torno dos dados recolhidos na aula de campo.O solo contém organismos.O solo é constituído por diferentes camadas. . e por matéria inorgânica proveniente da decomposição das rochas. Tempo previsto Aula 1 Recursos previstos Ficha de trabalho Aula 2 Aula 3 *Organização de relatório da aula de campo. .O solo é constituído por matéria orgânica proveniente da manta morta.Algumas partículas constituintes das camadas do solo são semelhantes aos materiais constituintes das rochas. . .relação entre os elementos vivos e não.Uma vez especificado o conteúdo “compreender conceitos”.Os organismos macroscópicos do solo removem a terra. indicando atividades concretas.A manta morta é constituída por resíduos de seres vivos. Especificação da estratégia * Aula de campo para recolher dados sobre: . .vivos. .relações entre o solo e o exterior. . O quadro abaixo procura tornar clara esta idéia. . é necessário definir a estratégia de forma mais específica.elementos vivos e não. Especificação do conteúdo * Conceito de solo Fatos: .As rochas apresentam-se mais ou menos desagregadas. . Papel madeira e pinceis atômicos 126 .vivos.

Quadro 3 – Apresentação da estratégia de acordo com um conteúdo específico. Note que, enquanto o primeiro quadro pode ser igual para qualquer conceito em qualquer unidade, este quadro é específico de um determinado conceito numa unidade.

Uma análise breve deste quadro mostra que nele já são apresentados: - Qual o conceito cuja compreensão se pretende; - Quais os principais fatos necessários que através da sua inter-relação possa surgir o conceito; - Qual a estratégia concreta que favorece o conhecimento dos fatos; - Qual a estratégia concreta que permite atingir a compreensão do conceito. Veja que a estratégia selecionada não permitiu apenas chegar à compreensão do conceito (conceito de solo). Conduziu previamente ao conhecimento dos fatos. Foi com a saída ao campo que os alunos conheceram os fatos. Foi com a discussão que inter-relacionaram esses fatos, chegando assim à compreensão do conceito (de acordo com o que havia sido definido pela linha orientadora).

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Resumo
Existe uma relação estreita entre as estratégias a se desenvolverem e os objetivos a que se propõem atingir. A escolha de estratégias adequadas possibilitará ao aluno compreender os conceitos. A seleção das estratégias depende de diversos fatores, como os materiais disponíveis, as condições de trabalho e os alunos a que se dirigem.

Auto-avaliação

- Apresente a relevância da relação entre a apresentação das linhas orientadoras da estratégia e os objetivos; - Caracterize a relação existente entre objetivosestratégias-técnicas de avaliação. - Aponte os cuidados que o professor deve ter quando seleciona as estratégias de acordo com um conteúdo específico.

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NEVES. GALHARDO.Bibliografia CANDAU. 1987. Lisboa: Livros Horizonte. José Carlos.). 1994. 2000. LIBÂNIO. Vera Maria (Org. MASETTO. 1999. DOMINGOS. Marcos Tarciso. Isabel Pestana. Petrópolis: Editora Vozes. Rumo a uma nova didática. Uma forma de estruturar o ensino e a aprendizagem. Petrópolis: Editora Vozes. 130 . Didática: a aula como centro. A didática em questão. Didática. Luísa. Vera Maria (Org.). 1997. Ana Maria. CANDAU. São Paulo: Editora Cortez. São Paulo: FTD.

131 .

132 .Tema 5. • Reconhecer a relação ética da avaliação de aprendizagem para emancipação a social. Avaliação Objetivos • Caracterizar os princípios da avaliação como um processo vinculado ao ato de ensinar e aprender.

onde o aluno recebera nota 'zero'.' A resposta do estudante foi a seguinte: 'Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele. Chegando à sala de meu colega. Por instantes vacilei quanto ao veredicto. medindo o comprimento da corda. que dizia: 'Mostrar como se pode determinar a altura de um edifício bem alto com o auxilio de um barômetro. O aluno contestava tal conceito. pois satisfazia o enunciado. Tratava-se de avaliar uma questão de Física. baixe o barômetro até a calçada e em seguida levante. alegando que merecia nota máxima pela resposta.’ Sem dúvida era uma resposta interessante. li a questão da prova. estaria caracterizada uma 133 . este comprimento será igual à altura do edifício. Professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial. “Há algum tempo recebi um convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova.Quais os versos e reversos da avaliação na sociedade do conhecimeto? Iniciamos este tema propondo que leiam a situação abaixo. se ele tirasse nota máxima. e de alguma forma correta. Ela lançará a discussão sobre a temática sobre a necessidade de uma nova postura na avaliação da aprendizagem. Recompondo-me rapidamente. Entretanto. já que havia respondido a questão completa e corretamente. disse ao estudante que ele tinha forte razão para ter nota máxima. a não ser que houvesse uma 'conspiração do sistema' contra ele. e eu fui o escolhido.

talvez inconformismo. No momento seguinte ele escreveu esta resposta: 'Vá ao alto do edifício. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não havia desistido. Segundo o acordo. Ao sair da sala lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. medindo o tempo Т de queda desde a largada até o toque com o solo. Perguntei-lhe então se desejava desistir. necessariamente. Embora 134 . apenas olhava pensativamente para o forro da sala. mas sim quando o estudante resolveu encarar aquilo que eu imaginei que lhe seria um bom desafio. incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro. isto após ter sido prevenido de que sua resposta deveria mostrar. Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse.aprovação em um curso de Física. Passados cinco minutos ele não havia escrito nada. embora sentisse nele uma expressão de descontentamento. Depois. mas a resposta não confirmava isso. algum conhecimento de Física. empregando a fórmula h = h = 1/2gt2 calcule a altura do edifício.' Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta e se concordava com a minha disposição em conferir praticamente a nota máxima à prova. e não tinha tempo a perder. pois eu tinha um compromisso logo em seguida. Na realidade tinha muitas respostas e estava justamente escolhendo a melhor. Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder a questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou. ele teria seis minutos para responder a questão. Concordou.

"há muitas maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro. existem outras respostas. tem-se dois g's. a princípio. Quando ele aparecer. Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício. aliás bastante simples e direto. usando uma simples regra de três. Contando o número de marcas ter-se-á altura do edifício em unidades barométricas. "Por exemplo: num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo." Perante a minha curiosidade e a já perplexidade de meu colega. espaçadas da altura do barômetro." "Um outro método básico de medida.'" 135 . ser calculada com base nessa diferença.disse ele . "se não for cobrada uma solução física para o problema. pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. determina-se a altura do edifício. Depois. "Ah!." . o estudante desfilou as seguintes explicações. concluiu. síndico. bem como a do edifício. não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram essas respostas. é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede." "Um método mais complexo seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balançá-lo como um pêndulo. Por exemplo. trago aqui um ótimo barômetro. me disser a altura deste edifício. o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). dizse: 'Caro Sr. se o Sr." "Finalmente".já sem tempo. e a altura do edifício pode. sim. eu lhe darei o barômetro de presente.

Ele admitiu que sabia. perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta 'esperada' para o problema. portanto. que ele resolveu contestar aquilo que considerava. principalmente. Ao iniciarmos este tema sobre os rumos e os ritmos para a prática da avaliação escolar. a história permite nos localizar num espaço de avaliação permeado de intencionalidade. visando reeditar uma ideologia e assumindo-se enquanto ato politico. uma farsa”. O professor competente no avaliar a aprendizagem sabe que a prova é um momento privilegiado de estudo e não um acerto de contas. revista Patio-fev-mar-2000. um construtor social. O proceso de avaliação deve estar vinculado à didática e ao planejamento do curriculo. como diz Alvarez Méndez (1995. Não pede ser ignorado. há 136 .in. p.12): A avaliação é. e. Vasco P Moretto A avaliação num curriculo integrado exige o ato de avaliar do processo. mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas. segundo ele. não do resultado.A esta altura.

) Através do diálogo. Então.p106). valorizando suas verdades. questionamento.. pois está alicerçado em opções filosófico-políticas. como deve ser a prática de avaliação na escola? E na sala de aula? A resposta quem nos diz é Hoffmann (1991): “A avaliação é inerente e indissociável à educação promotora da transformação. interesses e autonomia.. de ideologias e políticas? Buscamos explicação nas idéias de Luckesi. para o homem. determinantes de uma ação. Como se explicar a existência.. avaliar na perspectiva da emancipação. O autor diz ainda que o ato de avaliar não é neutro. 137 . podemos.contratos ideológicos e políticos no cerne do ato de avaliar.)”.. da libertação e da emancipação. no ato de avaliar.” Porque. refletindo juntos sobre o que sabemos e não sabemos. confundidos com os objetivos educativos. quando diz: “ O ser humano é um ser que avalia. a seguir atuar criticamente para transformar a realidade”(FREIRE. na medida em que os seres humanos se encontram para refletir sobre sua realidade tal como a fazem e refazem. (2000. Nessa dimensão estabelese o diálogo entre o educador e o educando.1986).(. implica em criar possibilidades para o aluno e compreender os seus limites na construção do conhecimento. Em todos os instantes de sua vida (. Porque a palavra é fonte de libertação. reflexão sobre a ação. Assim diz Freire: “O diálogo é uma espécie de postura necessária. quando concebida como problematização.

E. para isso é preciso tomar consciência de que novas práticas de avaliação devem adotar uma postura sustentada na ação–reflexão-ação.O professor competente no avaliar da aprendizagem elabora bem as questões. Vasco P. partindo da idéia de que a realidade da avaliação não satisfaz. como encontrar o caminho? Estamos buscando rumos. e tambem na construção de uma consciência crítica e de responsabilidade de todos os envolvidos no cotidiano da escola onde o processo ocorre. 138 . administra valores culturais ligados à avaliação. coletiva e consensual. agora. Moretto Quais as condições necessárias para se conduzir a avaliação nesse rumo? Esta construção se dá na relação professor aluno. Outro componente necessário é a construção do projeto político-pedagógico de acordo com o rumo da transformação que se quer realizar. utiliza linguagem clara e precisa para o comando das questões e cria ambiente favorável ao controle das emoções.

quando afirma que fica estipulado que a verificação do rendimento escolar deve: “Ser contínua. Moretto Você deve se questionar: como conciliar as orientações normativas e a multidimensão da avaliação? A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Vasco P. de modo que cada escola possa se organizar para alcançar os objetivos da escolarização. tornou-se um determinante também para repensar ato de avaliar. de aprendizagem e de avaliação encontra subsídios no mesmo documento. recomenda flexibilidade nos assuntos da avaliação no âmbito da escola. A flexibilidade deve ser em prol da qualidade do ensino apesar de qualquer formalidade burocrática. de 1996.O desejo de aprender e ensinar na complexidade de conhecimentos e informações que circulam no mundo global. O real sucesso acontece quando o professor atinge os objetivos de ensinar oportunizando aprendizagem significativa de conteúdos relevantes. para a dimensão social e política da avaliação. com prevalência dos aspectos 139 . O multidimensional do professor sobre a concepção de ensino.

mediante verificação do aprendizado.” Ela refere ainda que alterar normas e procedimentos não muda o caráter classifcatório da avaliação. Diante do que prevê a lei da educação no Brasil. Fornecer. O que altera é construir principos norteadores do ato de avaliar. a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos. à mudança de tais procedimentos. Aproveitar estudos concluídos com êxito.” Como a avaliação pode subsidiar novos rumos para a educação? Diante de tantas incertezas. o profissional da educação precisa compreender as tendências das práticas avaliativas. em que tudo é ligado. já que vivemos em uma época de mudanças em que os valores são ambivalentes. é levado em nova aventura. obrigatoriamente. E temos também Hoffmann. de preferência paralelos ao período letivo.84). Possibilitar avanço nos cursos e nas séries. para dar um novo rumo ao seu fazer pedagógico. Permitir a aceleração de estudos para alunos com atraso escolar.qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais. para os casos de baixo rendimento escolar.p. (2003. 140 . É preciso aprender a enfrentar a incerteza. em primeiro plano. confrontado de todos os lados às incertezas. Morin nos alerta para: “ A nova consciência começa a surgir: o homem.(2001) afirmando que “mudanças essenciais em avaliação dizem respeito à finalidade dos procedimentos avaliativos e não. estudos de recuperação.

O autor afirma: “Fazendo uma reflexão sobre a eficácia do ensino. p21): “O princípio da avaliação na visão dialética do conhecimento implica o princípio de historicidade: o conhecimento humano visa sempre ao futuro. à superação. Assim.” Qual o ponto de chegada? Perrenoud. mas para promover ações em benefício dos educandos.A aprendizagem do aluno deve se constituir de uma observação permanente das suas manifestações durante a construção de sua aprendizagem. a avaliação [. 108) chama a atenção dos educadores para não dissociar a avaliação da didática. não apenas para compreender. às escolas . Claudino Pilleti Assim diz Hoffmann (2001.. Isso 141 . de modo a otimizar as dificuldades individuais e valorizar suas possibilidades na situação de aprendente. à evolução.. (1999. A avaliação não pode ser um fim. mas um meio. p.] devia ser pensada no âmbito de uma didática. destina-se a avaliação mediadora a conhecer. às universidades.

no seu âmago. como educadores que somos. Encontramos uma compreensão para nossa reflexão que passa pelas palavras de Hadji (2001) que afirma que uma nova proposta de avaliação implica necessariamente na modificação das práticas do professor que deverá compreender que “o aluno é. estar atento à compreensão do que está oculto. queremos. expressão política e ética. mas também o de chegada. também fazer o papel de juiz não só de acusar ou libertar o professor ou alunos. compreendendo que a mesma é atividade ética. a outros o das didáticas de disciplinas. mas de promover um debate em torno de cada situação do dia-a-dia da sala de aula para que juntos em particular (sua sala) analisemos as situações de aprendizagem e de ensino com cuidado. p. não só o ponto de partida. Para Demo (2000. pois. além de compreender as manifestações externas da prática avaliativa. mas a especialização das pesquisas e das formações tende a reservar a alguns o território da avaliação. Você precisa. 142 . 9) a aprendizagem é marcada profundamente pela virtude de trabalhar “os limites em nome dos desafios e os desafios dentro dos limites” A aprendizagem é.” Nessa perspectiva cabe ao professor fazer a integração da avaliação a sua prática didática. A nossa intenção não é fechar as questões sobre avaliação. Seu progresso só pode ser percebido quando comparado com ele mesmo: Como estava? Como está? As ações desenvolvidas entre as duas questões compõem a avaliação”.parece evidente.

Cabe ao professor desafiá-lo a superar as dificuldades e continuar progredindo na construção dos conhecimentos.Nas novas propostas de avaliação. poucas certezas. qual o papel do professor no ato de avaliar.Estabeleça uma relação entre as funções assumidas pela avaliação da aprendizagem na educação tradicional e os desafios que ela enfrenta nos dias de hoje? . a avaliação deverá ser o instrumento dialético e de identificação de novos rumos. 2003) Ficamos com algumas indagações. 143 . Auto-avalição A partir da leitura do tema: . O valor da avaliação encontra-se no fato de o aluno poder tomar conhecimento de seus avanços e dificuldades. e o professor a ensinar. Para não ser autoritária e conservadora. num olhar ético. Mas o caminho a percorrer em busca do aprender é infinito! Resumo A função nuclear da avaliação é ajudar o aluno a aprender. mais informações. seus limites e possibilidades.valorizando cada ser humano como um ser único. (Moretto.

C. 1999.C. J. D. 2000. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed. André.Bibliografia HADJI. São Paulo: Cortez.ed. São Paulo: Cortez. M. 1999.. P. Porto Alegre: Artes Médicas. PERRENOUD. currículo e didática. LUCKESI. 2000. 1999. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens. 1986 MORIN. C.6. PERRENOUD. Lisboa: Instituto Piaget. 2003.E. 2001.D A pesquisa em educação: abordagens qualitativas. Campinas: Autores Associados. Porto Alegre: Artmed. Edgar. Educar para a Era Planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e incerteza humana. M. Didática. Saber escolar. 144 . LüDKE. Avaliação demistificada.São Paulo: EPU. C. LIBÂNEO. SAVIANI.Avaliação da aprendizagem escolar. P.

Este livro foi impresso na gráfica e editora FGF. 145 .