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O despertar de Mona

Lisa
Mona Lisa Awahening
Sunny

Disponibilização em Esp: não tinha créditos


Envio e Tradução: Gisa
Revisão/ Formatação: Joelma
Revisão Final: Luna
PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Desde sua infância Mona Lisa sabia que era uma menina diferente, mas não sabia o
quanto até que um homem de extraordinária beleza apareceu uma noite em que estava
de plantão na emergência. Gryphon estava ferido, ele estava sendo perseguido, e a atrai
como nenhum homem antes fez. Ele é um Monere, um dos garotos da lua, e mais, ela
também é.
Exilados da Lua há muito tempo os Monere servem e se emparelham com rainhas
déspotas que possam canalizar os raios de seu distante lar. Gryphon acredita que Mona
Lisa é uma Rainha, possivelmente a primeira de sangue mestiço, mas sua introdução ao
cortejo noturno dos Monere, repleto de intrigas, luxúria e calculada crueldade, está muito
distante de ser suave já que seus potencias poderes enfurecerão as outras rainha que são
Monere – Os filhos da Lua - 01
perseguidas por um grupo de homens sem escrúpulos que se libertaram do domínio das
mulheres.
Apesar de todas as ameaças internas e externas, Mona Lisa está decidida a descobrir
que é, e a explorar os limites de seus crescentes poderes... e de seus secretos desejos.

Violenta volta para


casa
Deliberadamente inalei, absorvendo seu perfume profundamente em
mim com um intenso e possessivo deleite. Foi isto o que esperei durante
estes longos e áridos vinte anos. Um mensageiro de meu mundo, um
iniciador em minha autêntica vida. Isto é o que sentia falta,
essencialmente, nos poucos homens que possuíram meu corpo.
Ninguém com quem tive intimidade tinha minha química, nenhum era
de minha espécie. Não sabia o que era que não funcionava com eles,
comigo, até aquele momento em que senti ao Gryphon com um
primitivo reconhecimento naquela estéril sala de urgências.
Companheiro. Agora ele estava aqui...
Minha respiração quente varreu a curva de seu pescoço, justo por cima
de onde palpitava seu débil pulso.
—Não quer que seja sua?
Estremeceu e fechou os olhos.
—Mais do que desejo viver.

Capítulo um
No ar havia enfermidade e morte; mulheres chorando, homens
amaldiçoando, corpos sujos. O fedor do sofrimento e da angústia. Um lar
que eu deliberadamente escolhi e onde decidi estar. O lar onde habitava
a necessidade desesperada, que me atraía para seu interior com seu
intenso aroma de medo e dor.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Eu era enfermeira da emergência na solitária ilha de Manhattan. A
enfermidade me chamava. Dentro de mim habitavam a escuridão e a
luz. Sempre soube, sempre pressenti... Uma força adormecida jazia
inerte junto a minha latente habilidade de curar, que ainda não tinha
despertado (para meu alívio e para meu desespero). Aguardando. Até
esse momento, sentia-me chamada pela enfermidade, que me atraía
com seus invisíveis dardos de dores e angústias.
Ao meu redor, na sala de emergências do hospital de São Vicente, no
coração de Greenwich Village, já começado a agitação e a pressas. Na
cama um, um rosto jovem de mulher se encontrava coberto de sangue,
rasgado da têmpora ao queixo; era um alto preço para uma débil
prostituta pagar por passear por escuros becos lá fora nas ruas. Presos
por correias, na cama dois, havia um cara desalinhado que fedia a álcool
e que lutava entre o delírio e a abstinência. Na cama três um menino
gritava de dor e seus gritos ressoaram em meu sensível coração. Era um
lamento que não podia ignorar.
Apressei-me para a cama três e me encontrei com o doutor Peter
Thompson que estava ali. Era um dos bons internos que acabava de
começar na emergência; era humilde e agradecia quando o ajudava,
não era como esses imbecis que sabem tudo. E o que é melhor, tinha
uma noiva e era fiel a ela, não era um desses babões.
—OH! Que bom que está aqui, Lisa — disse Peter, me lançando um
sorriso de alívio—. É maravilhosa com as crianças. Pode me ajudar com
este?
—O que temos aqui? —perguntei.
Era um jovenzinho de uns seis anos, de suave cabelo castanho e com
um montão de sardas; estava encolhido feito uma bola, com seus braços
magros agarrava seu estômago; as lágrimas empapavam seu rosto e a
camisa. Gemia de dor. Sua mãe, uma jovem morena, agarrava as barras
da maca; os nódulos de seus dedos estavam brancos e mordia seu lábio
inferior com impotência.
—Kurt estava perfeitamente bem até há uma hora, quando disse que
seu estômago doía — disse sua mãe, me examinando. Em seus olhos
castanhos brilhava a incerteza.
Conhecia esse olhar. «por que estarei contando isso a você e não ao
doutor», dizia.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Era totalmente culpa minha. Sempre pareci muito mais jovem do que
era, não aparentava os vinte e um anos que tinha. Não podia me queixar
porque a profissão médica era assim: os títulos nas paredes e as cãs1 no
cabelo sempre davam bom resultado com os pacientes. Mas uma coisa
aprendi: nunca duvide de suas convicções. Simplesmente faça o que
tem que fazer.
—Kurt — disse acariciando a testa úmida do menino—. É assim que se
chama, carinho?
Ao tocá-lo, Kurt abriu os olhos. Seus grandes olhos castanhos
estudaram os meus, mas se mostraram confiantes e me abriram, sem
saber, a janela de sua alma. Nossas almas se entrelaçaram, tinha-o. A
calma se estendeu por seu rosto e deixou de chorar.
—Pode me dizer onde dói, Kurt?
Com seus olhos fixos em mim, cheios de assombro e curiosidade, Kurt
abriu os braços e mostrou um ponto sobre seu umbigo. — Dói aqui —
disse em voz alta e clara. Toquei naquele ponto. Kurt ficou tenso, mas
não resistiu.
—Dói quando o toca — disse, com seus longos cílios empapados em
lágrimas.
—Terei muito cuidado — prometi e coloquei o centro da palma de
minha mão sobre seu abdômen.
O poder que tinha dentro despertou, saindo do mais profundo de mim,
me controlando completamente como se eu não fosse mais que o
veículo através do qual saía à superfície. Quando o menino me abriu a
janela de sua alma, foi em realidade o olhar dessa força ao que
observou através de meus olhos cristalinos e alcançou ao menino.
Apresentou-se ante a chamada da dor, não ante o desejo de minha
vontade; era um ciclo de energia que despertava de suas raízes em meu
interior, mas que só podia completar-se com o chamado de outro.
Minha mão se abrandou ao sentir a irradiação de calor crescendo
dentro de mim.
Os olhos do Kurt se abriram.
—Genial. Já não sinto dor, mamãe.
—Vou deixar você com o doutor Peter. É um doutor muito bom e se
assegurará de que sua dorzinha de barriga não volte a repetir-se. — Dei
uma piscada para Kurt e ele a devolveu.
1
Cãs = cabelos brancos (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Abri passagem até o banheiro dos empregados e me tranquei lá dentro,
para deixar repousar a cabeça sobre a porta do banheiro. Este meu
poder era uma maldição e uma bênção ao mesmo tempo. As pessoas
poderiam pensar que estar equipada com semelhante coisa dobraria, se
não triplicaria, a energia própria. Mas não, sempre me deixava
debilitada e esgotada depois. E o empregava apenas para diagnosticar
enfermidades. O poder de curar ainda não tinha chegado. Perguntava-
me se alguma vez o faria.
Minutos mais tarde, recuperada e com a calma recobrada, retornei para
aquele manicômio. Peter se deixou cair ao meu lado enquanto eu
simulava tomar algumas notas. Um leve tremor sacudiu minhas mãos.
Deixei a caneta com cuidado.
—Obrigado, Lisa — disse Peter tirando os óculos e os limpando com
uma ponta do jaleco—. Não teria podido examinar a esse pirralho sem
você. A mãe não me ajudou em nada. —Olhou-me fixamente—. O que
há nessa sua forma de tocar? Nesse instante? Senti algo. É uma dessas?
—Uma dessas? —lancei-lhe um olhar. —Uma dessas misteriosas
curadoras?
—Bem que eu gostaria. Esse instante que percebeu tem um nome.
— Qual é?
—Chama-se compaixão, doutor. Peter riu.
—Claro. Bom, vou pedir um hemograma completo, uma prova
metabólica 20, um exame de urina e um estreptococo. O que acha?
—Não se esqueça de um exame abdominal com raios x, deitado e em
pé. —Isso permitiria que ele encontrasse os vinte e cinco centímetros
obstruídos que estavam dando problemas ao pequeno Kurt.
—Sabe? Tem um instinto incrível. A semana passada se deu conta
daquela apendicite que eu quase passo por cima, e lá estava também
aquela outra coisa...
—Isso também tem um nome. Experiência.
Ele bufou2.
—Sim, onze longos meses de experiência, é tão velha... Naquele
momento um dos babões estenderia a mão para pô-la em algum dos
pontos habituais, mas ele não. —Seria uma médica maravilhosa.
Apostaria nisso.
—Está tentado livrar-se de mim?
2
Bufou - expelir com força o ar pelo nariz e/ou pela boca (Aurélio).
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Soou como se quisesse? Deveria pensar em estudar Medicina. De
verdade. —afastou-se caminhando e anotando as ordens no quadrante.
Tinha um bonito traseiro, agora que olhava bem. Pena que não
houvesse nenhum desejo em mim além de apreciar a vista.
Estudar Medicina. Bem! Não era para mim, não nesta vida. Não podia
me permitir isso. Ora dois anos estudando Enfermagem foram um
milagre; a bolsa de estudo integral e a ajuda para minha manutenção
foram uma autêntica bênção. Fizeram realidade o sonho de minha
infância, quase uma vocação, de estar perto dos doentes e dos fracos,
dos que sofriam e padeciam.
O dinheiro também me permitiu escapar de meu confinamento na casa
de acolhida, lembranças que preferia deixar para atrás, enterrados e
intactos. Todavia aquela lembrança dos primeiros embriagadores dias
de independência, livre como um passarinho recém saído do
emaranhado de seu ninho, pondo a prova suas asas, respirando ar
fresco. Uma exalação depois de uma longa, longa inalação.
Meus pensamentos sobre o passado se viram repentinamente
interrompidos por uma força tangível. Uma força que circulava pelo ar,
penetrando entre a multidão que lotava as salas, as conversas, os gritos,
o estrondo. Densa no espaço, filtrava-se através do mobiliário ordinário,
por entre as cortinas de separação brancas. Dirigia-se para mim, como
uma flecha invisível que busca sua vítima, seu objetivo.
Olhei na direção em que àquela força que se aproximava de mim abria
caminho, e vi o ar ondular-se, formando uma gigantesca onda que
ultrapassava todos os obstáculos, grandes ou pequenos, empurrando
para frente e me enterrando em sua avalanche.
Permaneci de pé, atordoada e deslumbrada pela invasão, tremendo
quando a força rastreadora me alcançou. Foi como se fosse
eletrocutada; um formigamento percorreu todo meu corpo e todo meu
pêlo ficou arrepiado. Estremeci, me sentindo débil e enjoada, e me
inclinei sobre minha escrivaninha.
Meu Deus! O que foi isso?
A opressão invisível de repente enfraqueceu levemente e meu corpo
relaxou como se tivessem tirado um peso de meu peito. Mas antes de
poder voltar a respirar, aquela força se tornou travessa. Explorou-me,
me tocando como fariam os invisíveis dedos de um amante, me
acariciando, despertando desejos e sentimentos alheios dentro de mim
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Monere – Os filhos da Lua - 01
que nunca antes havia sentido. Meu corpo relaxou, umedeci-me e minha
temperatura subiu. Comecei a estremecer e então pude cheirá-lo.
Sangue.
Meu nariz se delatou. Girei a cabeça seguindo o rastro e o vi, a fonte de
onde provinha. Cama oito.
Estava sentado sozinho na maca justamente do outro lado da
enfermaria e seus olhos azuis me olhavam fixamente. Seus cabelos
eram longos, mais escuros que a meia-noite, e caía em suaves ondas
que roçavam seus ombros. Tinha a pele de cor marfim, luminosa e pura
como a lua cheia sobre um céu negro como a tinta; e um rosto que
poderia comover ao seu criador, o fazendo chorar de alegria ou de
ciúmes. Um anjo caído do céu. Não, pensei, vendo seus olhos ávidos,
caído do céu não... expulso.
Vê-lo me deixou sem fôlego. Observei que seu nariz se delatava quando
deliberadamente encheu seus pulmões de ar e soube que certamente
igual eu cheirei seu sangue, ele aspirava meu perfume, cheirando minha
excitação. Seus cílios baixaram para elevar-se de novo como se fossem
as asas de uma mariposa, fazendo um elegante esvoaçar. A força e o
calor que transmitiam seus olhos intensificaram seu efeito acariciador
sobre mim, penetrando a superfície, dirigindo-se ao meu interior,
averiguando se minha própria força aparecia em resposta. Nossas
energias se encontraram e se enredaram. Meus mamilos ficaram duros
como rochas, minha muralha interior estremeceu e desejei ir para ele. Ir
até onde estava para atraí-lo para mim.
O ar crepitava com tal intensidade que estava segura de que os outros
podiam ver. Mas as enfermeiras estavam ocupadas com suas agulhas e
suas anotações e os médicos cuidavam diligentemente de seus
pacientes.
A atração entre nós se esticou como uma corda. Lutei
desesperadamente contra essa atração da única maneira em que
conhecia, onda contra onda, corrente contra corrente. Intensifiquei
minha força, empregando até a última gota de energia, o enfrentado.
Virtualmente saltavam faíscas no ar entre nós. E ainda requereu todo
meu controle permanecer sentada e não me aproximar dele. O suor
brilhava sobre minha pele e meu tremor se fez mais violento.
Nunca antes senti nada assim em minha vida. Era como eu? Era um de
minha raça, fosse o que fosse aquilo? Ou era um inimigo? De uma coisa,
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pensei, estava segura. Era um sacana. Entrecerrei os olhos com ira.
Como se atrevia a usar seus poderes comigo.
Fui com passo irado até onde se encontrava, estava sentado sobre uma
maca com as pernas penduradas para um lado, e fiquei a apenas
centímetros de distância.
—Pare — falei entre dentes.
Seus olhos se abriram.
—Não sou eu quem o provoca.
Sua voz, grave e melodiosa, era tão bonita quanto o resto dele. Que
injusto. —Não minta para mim — esbravejei.
—Não me atreveria.
—Apenas... apenas pare.
Deu de ombros com gesto de incredulidade, um leve movimento de
ombros e peito, um movimento singelo, mas que não tinha nada de
simples, porque tocou algo dentro de mim, como se literalmente fosse
uma carícia, fazendo que estremecesse; baixei o olhar e não pude evitar
notar o vulto que tinha crescido entre suas pernas. Seus olhos se
fecharam e mesmo assim sentia a atração, que não diminuía em
intensidade. Confusa, notei de repente a cuidadosa rigidez com que se
sustentava, os dedos brancos de agarrar-se à armação da maca, sua
testa úmida. Parecia lutar contra aquela atração tanto como eu.
—Você o sente também — disse, enrugando a testa.
—Sim. —Seus olhos azuis se abriram de repente, atravessando os meus
com súbita intensidade—. Onde estão suas escoltas? Não sinto ninguém
mais aqui além de você e de mim.
—Escoltas?
Enrugou o cenho.
—Certamente é... —Cuidadosa e lentamente, elevou uma mão para
mim, parando justo antes de me tocar, e acariciou o ar sobre a pele nua
de meu antebraço. Sua força, até invisível e sem contato, era evidente
justo acima da pele. Senti sua carícia tão claramente como se estivesse
me tocando.
—Sinto você como a uma rainha — murmurou.
Dei um passo para atrás, me perguntando se era um desses loucos que
com freqüência acabavam no São Vicente, desidratados, esfomeados e
completamente delirantes. Mas ainda assim, havia algo diferente nele.
—Do que está falando? —perguntei cortante.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Uma zeladora roliça se aproximou rapidamente; ostentava um brilhante
sorriso em um rosto maternal. Era Sally, encarregava-se de obter todos
os parâmetros vitais de cada novo paciente para aliviar assim o trabalho
das enfermeiras.
—OH, Meu deus, você não é bonito nem nada — murmurou Sally,
baixando a vista para seu formulário—. David Michaels. Justo o que
necessitava para me alegrar a noite.
Sorriu. Uma letal combinação de dentes e covinhas.
Ela correspondeu seu sorriso.
—Poderei dar todos seus parâmetros a você em um segundo, Lisa. —E
dizendo isto estendeu a mão para tomar o pulso.
Ficou claro então algo que devia ter notado imediatamente se não
estivesse aturdida por sua beleza e a reação de meu corpo a ele. O
ritmo de seus batimentos cardíacos era muito, muito lento. Não mais do
que trinta pulsações por minuto. Muito abaixo do ritmo normal humano
que são umas sessenta pulsações ou mais. Meu próprio coração se
acelerou acima de suas preguiçosas cinqüenta pulsações habituais,
chegando até sessenta quando Sally franziu o cenho e elevou a vista.
Ele prendeu seus olhos nos dela e senti então seu poder fluindo
brandamente. Merda. Realmente não o tinha usado até esse momento.
O que era então aquela atração tão estranha e tão intensa entre nós?
As rugas sobre a testa de Sally foram se apagando como ondas sobre
água imóvel.
—Seu pulso é de sessenta e sua pressão arterial é de cento e vinte com
setenta.
Anotou os números em sua folha, aparentemente sem dar-se conta de
que não chegou a usar o bracelete do tensiômetro que estava junto a
ela. Não o havia tocado.
Engoli saliva.
—Obrigado, Sally.
—De nada. É todo teu. —deu-me uma piscada e partiu apressadamente
para seu próximo paciente.
Quando Sally partiu, me virei para David Michaels ou como quer que se
chame na realidade, olhando-o com dureza.
—Acaba de controlar sua mente agora mesmo, não é mesmo? Nem
sequer mediu sua pressão.

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Reclinou-se sobre o travesseiro, com os olhos fechados; parecia ainda
mais pálido que antes, se é que isso era possível. Riu sem forças.
—Deusa, não posso acreditar que algo tão simples possa me deixar tão
exausto...
—O que é? —sussurrei, e puxei as cortinas de separação, fechando-as
completamente ao nosso redor. Elevou seus cílios negros.
—Não importa o que eu seja, quem é você? —perguntou, inclinando-se
para frente. O movimento lhe provocou uma careta de dor e colocou
uma mão sobre o ventre.
—Está ferido.
Com um leve estremecimento levantei sua camisa. Tinha um corte de
alguns centímetros de largura. Uma vermelha gota de sangue brilhava,
de maneira sedutora e irresistível, escarlate sobre sua perolada pele
branca. Ao ver seu sangue, algo fez clique e se abriu dentro de mim,
algo que não sabia que existia. Como se estivesse em um sonho, vi meu
dedo aproximar-se e recolher a tentadora pérola carmesim em sua
ponta. Vi-o estremecer ao ser tocado. Vi-o tremer de novo quando lambi
o sangue de meu dedo e o saboreei.
Era doce, muito doce, embora poluído por um estranho sabor metálico.
O que era esta criatura que tinha diante de mim? E o que o feriu?
Suavemente, cobri seu ferimento com a palma de minha mão. O centro
de minha mão tremeu e pulsou. Meus sentidos se filtraram para seu
interior, me revelando claramente o caminho aberto através de seus
tecidos.
—Apunhalaram você. Com um estilete. E sinto algo mais. Há... veneno
em seu interior.
—Veneno. —Um canto de sua exuberante boca se elevou em uma
careta de amargura—. Uma descrição precisa. Uma lâmina inundada em
prata líquida. Agora que o veneno líquido está dentro de mim irá se
espalhar lentamente. Já me debilitou muito.
—Quem o apunhalou?
—Minha rainha, Mona Sera.
—Claro, sua rainha — disse, me perguntando uma vez mais se não
estaria louco—. Veio de algum país estrangeiro de visita? E por que o
apunhalou?
—Ia abandoná-la — disse simplesmente—, e este foi seu presente de
despedida. Normalmente um ferimento como este se curaria no
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transcurso de algumas horas, mas me castigou usando uma lâmina de
prata.
—Por que é a prata é tão nociva?
—Porque as qualidades inerentes da prata atacam nossos corpos,
fazendo que nos curemos como humanos. Lentamente. Como humanos.
—Claro. Assim não é humano.
Lançou-me um olhar cheio de curiosidade.
—É obvio que não.
—Então, o que é?
—É verdade que não sabe?
—Por que deveria saber?
—Porque é igual a mim.
Engoli saliva.
—E isso é...
—Monere. Filhos da lua.
—É obvio — o tranqüilizei—. Filhos da lua. —O cara estava totalmente
desvairado.
—Não estou louco, como crê. —Franziu o cenho e esquadrinhou em
meu interior, me penetrando com seu poder de tal maneira que de novo
voltei a sentir esse calor arqueando meu corpo como antes.
—Ah, isso o explica — suspirou. Havia assombro em seus olhos—. É
mestiça.
—Mestiça?
—Sim. Uma pequena parte em você é humana.
—Uma pequena parte?
—Um quarto, acredito.
—Sou completamente humana. Uma cabeça, quatro extremidades, dois
olhos... —disse, retrocedendo.
—Não, não vá — disse elevando uma mão para mim—. Ainda há mais. É
uma rainha.
—Uma rainha. Isso é uma estupidez. Não fui nem sequer rainha da
beleza em Queens. Sou apenas uma enfermeira.
—Não, não entende. Tem aphidy, um excepcional halo de fragrância
que apenas é próprio de uma rainha. Por esta razão todos os homens
Monere se sentem atraídos por você.

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—Para que logo falem de química natural. E eu aqui pensando que era o
encanto que emanava e minha imponente beleza o que atraía os
homens para mim — disse sarcasticamente.
—Pode duvidar de tudo, mas deve acreditar que agora está em perigo.
Os homens de Mona Sera estão me procurando. Rastreiam o aroma de
meu sangue. E se me encontrarem, encontrarão a você. Tem proteção?
—O que quer dizer com proteção? Eu protejo a mim mesma.
—Não tem escoltas?
Neguei com a cabeça.
Uma genuína expressão de aflição sulcou seu rosto e descobri que meu
coração se rendia ante sua profunda preocupação. Apesar de afirmava
coisas impossíveis, uma parte de mim respondia a suas palavras.
Soavam como verdades em algum lugar muito dentro de mim. E não
podia negar seu poder atípico, como o meu. Comecei a acreditar nele.
—Conhece alguém mais... —fez um gesto com a mão como procurando
a palavra — como você?
—Não — sussurrei—. É o primeiro que conheci.
—Doce mãe Lua. —Baixou a cabeça. Seus ombros perfeitos desabaram.
Riu sem vontade—. O que vou fazer com você? —Este último sussurrou
como para si mesmo. Soava débil, derrotado, e isso me incomodou.
Muito.
—Recuperar-se-á com o tempo?
Negou com a cabeça.
—Não sem o antídoto.
—Qual é o antídoto?
—Acreditava que você pudesse me dizer isso — disse com amargo e
irônico sorriso—. Mas claro, isso seria esperar muito. Alguns asseguram
que não há antídoto, mas também há rumores de que apenas as rainhas
o possuem. Assim fugi para a dama de luz mais próxima, a rainha que
estivesse mais próxima, para suplicar clemência e procurar ajuda.
—Têm mais de uma rainha?
—Cada território é governado por uma rainha — respondeu—. E o país
está dividido em muitos territórios.
Disse que eu era uma rainha, mas não podia ser uma rainha de
verdade, porque se não seria capaz de ajudá-lo.
—Sinto muito — disse com enorme pesar em minhas palavras—. Daria o
antídoto a você se o tivesse.
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—Faria isso de verdade? —perguntou com um leve sorriso—. A um
fugitivo ferido pela mão de sua própria rainha? Que curioso. E mesmo
assim acredito que o faria.
—Por que sua rainha o envenenou? Por que você partia?
Suspirou.
—Mona Sera é uma de nossas piores rainhas. Todos aqueles a quem ela
tomou não são aceitos por nenhuma outra rainha. Passei vinte anos com
ela e estava totalmente enojado. Mas embora seja uma rainha má, é
inteligente no que se refere aos negócios e acumulou uma enorme
riqueza e poder em suas transações com os humanos. Obrigava-nos a
nos deitar com eles em troca de concessões que ela desejava em seus
negócios. Os humanos se sentem atraídos por nós pela nossa incomum
beleza, inclusive pelo menos belo dos nossos. Mas nós, em troca, não
obtemos nenhum prazer. Somos duas espécies diferentes. Nossa pele
não se enche de luz quando estamos com um deles.
—Não se enche de luz? —Perguntei-me o que seria isso da luz.
—Nossos corações ficam vazios — continuou—. Mona Sera criou uma
casta de mulheres e homens para prestarem este serviço externo.
—Foi um deles? —perguntei brandamente.
—Sim—disse. A vergonha embargava sua voz—. Era um dos homens ao
seu serviço. Na última vez enviou a minha meio-irmã, Sonia, nossa
querida parteira, como castigo por sua recente rebeldia contra esta
ocupação. Estas uniões, embora carentes de alegria e de amor, davam
fruto algumas vezes.
—Como eu.
—Sim—assentiu—. E era responsabilidade de Sonia encarregar-se
destas conseqüências. Ela ajudava no nascimento dos bebês e os
abandonava com os humanos para conservar a pureza de nossa
linhagem. Esteve fazendo isso obedientemente até que sofreu um
aborto natural, perdendo uma filha fruto de uma dessas desafortunadas
uniões com os humanos. Após isso, Sonia não pôde considerar esta
prática de abandono com a mesma objetividade e pediu à rainha que a
eximisse desta ocupação. Como castigo, Mona Sera enviou Sonia para
que se deitasse com um varão humano conhecido por seu retorcido
desfrute do sexo. Sonia voltou com marcas ensangüentadas causadas
pelo chicote e com cortes e machucados por todo seu corpo. Cacei o
filho da puta e o matei. Não podia permitir que ninguém tratasse minha
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irmã assim. O homem morto era filho de um senador multimilionário da
Luisiana, o homem de Mona Sera na capital humana de Washington D.C.
Em lugar de me castigar, Mona Sera fez que Sonia fosse violada diante
de meus olhos por um de nossos mais ferozes guerreiros, Amber. Isso
me destroçou — disse—. Sua tirania, sua crueldade, e sua malícia.
Critiquei Mona Sera diante de nossa gente e dei por acabada minha
lealdade a ela. Era algo que não se havia feito antes. Mona Sera se
enfureceu. Fez que seus guardas me amarrassem ao tronco dos açoites.
Mas em lugar de me matar rapidamente quis que sofresse uma morte
lenta e dolorosa, por isso cravou em mim uma adaga envenenada com
prata no estômago. Justamente antes do amanhecer uma das mulheres
de nossa função cortou minhas amarras e fugir.
—Qual é seu nome real?
—Meu nome é Gryphon. Qual é o seu?
—Mona Lisa — ouvi-me dizer, e o nome me soou estranho.
Inconscientemente dei a ele meu nome completo, o nome que estava
gravado no verso da cruz que tinha pendurada no pescoço quando me
encontraram ainda bebê. Minha mais apreciada posse, o único vínculo
tangível com minha mãe.
—É uma honra e um prazer conhece-la. —Gryphon se inclinou fazendo
um floreio, um gesto natural e cheio de graça, até que fez uma careta
de dor.
—Deixa-o. Se não vai piorar a ferida.
—Como desejar, Mona Lisa.
Disse isso como uma carícia, e aqueles bonitos lábios, que
pronunciavam alegremente meu nome, tocaram-me por dentro; tocaram
uma parte vazia de mim da qual não sabia nada até esse momento.
—Deve selar a ferida com algo impermeável ao ar — disse Gryphon—,
ou será muito fácil para eles continuarem me caçado graças ao aroma
do sangue.
—Um médico deveria ver...
—Não posso esperar um médico. Devo partir rapidamente. Ajude-me,
por favor.
Como desejei poder curá-lo. Nunca antes senti falta de meu talento
ainda por desenvolver tão intensamente.
—Vou buscar vendagem líquida — disse.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Uma passada do líquido, uma aplicação com o pulverizador de parafina,
e a ferida estava selada. Depois que secou apliquei um curativo adesivo
e, sobre este, coloquei uma vendagem adesiva e plástica de cor clara.
Dissipou-se o forte aroma de seu sangue. Desapareceu.
—Meus agradecimentos, senhora — disse Gryphon.
Pela primeira vez o senti vacilar.
—Não sei se estaria melhor comigo para servi-la, ou só aqui
desprotegida. Estou ferido, débil, e me perseguem, e só posso oferecer
a você uma modesta proteção. Na realidade, as probabilidades que
tenho de sobreviver são bastante desalentadoras.
—Poderá a rainha para quem foge o ajudar?
—Não sei. —Fez de novo esse gracioso encolhimento de ombros—. Não
é tão temível como Mona Sera. Não acredito que nenhum de seus
homens nunca fugiu dela. —Olhou-me cansado, débil, e claramente
dividido quanto ao que fazer. Uma pequena parte de mim estava grata
por se preocupar tanto com minha segurança quando sua situação era
tão obviamente desesperada.
Depois de pensar durante um bom tempo, levantou-se por fim. Era um
homem alto, um metro oitenta, uns dez centímetros mais alto que eu.
—O melhor para você será que a deixe agora. É provável que os
homens que estão me caçando não entrem neste lugar de cura. Um de
seus hábitos é evitar lugares públicos como este. Mas se um dia
toparem com você, agora ou no futuro, não os enfrente, não importa o
que façam. São guerreiros de sangue puro, mais fortes e rápidos que
você. Não tema, se sentirá atraída por eles da mesma maneira que se
sente atraída por mim — disse com suavidade—. Reclame em seguida o
direito de amparo do Grande Conselho e exija que a levem para
Bennington, Minnesota, onde se encontra a corte do Conselho. Não
terão outra opção que não levá-la se desejarem continuar vivos.
—Por que não posso me apresentar ante a Mona Sera?
—Isso é o que mais deve evitar — disse Gryphon categoricamente—. Se
Mona Sera detectar o aroma íntimo de seus homens sobre você,
mandará matar a todos. Assassinaria você porque aos seus olhos estaria
tentando tomar seu território e seus homens. Destruiria aos homens que
se atrevessem a tocá-la porque seria como uma traição a ela, uma
forma de rechaçá-la. E tal como pode ver — fez uma careta destacando-
se com um gesto—, a senhora não aceita bem o rechaço. Se acontecer
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Monere – Os filhos da Lua - 01
de seus homens conseguirem refrear-se, coisa pouco provável, faça
tudo o que possa para seduzir a um ou dois, todos seria o melhor, e os
faça seus. Não os permita, custe o que custar, que a levem ante a Mona
Sera. Ter que competir ou ser desafiada por outra rainha é algo que não
tolerará.
Gryphon fez uma reverência de despedida e abriu de repente a cortina
de separação.
Partia. Naquele instante senti a enfermaria esvaziar-se, senti meu
coração afundando-se com o peso da decepção. Meus sentidos, meu
poder, estavam fora de meu controle, e quis alcançá-lo.
—Espere — me escapou.
Deteve-se; a obediência a uma rainha estava muito arraigada nele.
—É imprescindível, para sua segurança e a minha, que parta
rapidamente, agora mesmo — disse em voz baixa e com pesar.
Não era necessário pensar mais. Estava decidida. Uma parte de mim
que não podia negar sabia o que queria. Procurei em meu bolso e
coloquei minhas chaves em sua mão.
—Vá para meu apartamento. Espere-me lá. Moro a dois quarteirões
daqui no 156 da Rua Onze Oeste, apartamento 7-B. Estarei lá dentro de
uma hora, quando acabar meu turno.
Olhou-me, sem compreender, aturdido pelo muito breve, mas agradável
contato de minha mão com a sua.
—Sabe o que está me oferecendo? —perguntou.
—Não. Não sei e não me importo. Quão único sei é que desejo ajudá-lo.
—Não posso arrastá-la a esta difícil situação em que me encontro. Não
é seguro...
—É meu desejo — o interrompi com voz firme—. E é uma ordem. Lutou
contra sua necessidade de obedecer. —Não é certo...
—Por favor — supliquei com os olhos; com tudo o que havia em mim.
—Ah, pequena — suspirou Gryphon derrotado e com os ombros
curvados, sucumbindo a minha súplica. Apertou com força as chaves em
seu punho—. Seus olhos lutam de maneira desleal. —Consentiu com
uma ligeira inclinação de cabeça; seus bonitos lábios se curvaram com
um sorriso, carregados de ironia—. Como minha rainha ordene.

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Capítulo dois
A escuridão me deu boas-vindas. Um vento frio lambia minha pele e me
tranqüilizava. As estrelas brilhavam e a lua crescente, já em três
quartos, irradiava benevolentemente seus tonificantes raios que
acariciavam meu rosto. Caminhei rapidamente rua abaixo, alerta,
vigilante, procurando com esse sexto sentido adicional. Não havia
ninguém. Não sentia que havia outra presença lá fora. Podiam ter
chegado e partido, ou não ter chegado ainda.
Uma vez que o perfume do sangue de Gryphon se desvaneceu, não
havia forma de saber se tinha tomado este caminho. Tinha o coração
apertado me perguntando se o teria feito. Ele passou por aqui. Ou
possivelmente mudou de idéia e fugiu. Imaginá-lo lá fora, débil e
sozinho, fez-me acelerar o passo. Entrei no edifício, uma modesta
construção de tijolo, e passei pelo elevador, ia ser muito lento. Cheguei
até a escada e subi os degraus de seis em seis com essa energia natural
que sempre me caracterizou. Em menos de um minuto subi saltando os
sete andares de escadas. Parei diante de minha porta, duvidando. Então
o ouvi, esse pulsar maravilhosamente lento.
—Sou eu — sussurrei e a porta se abriu.
Entrei. As fechaduras voltaram ruidosamente ao seu lugar no meio do
denso silêncio e Gryphon retrocedeu rapidamente, tomando cuidado
para não me tocar. A habitação estava às escuras, não havia luzes, mas
podia vê-lo claramente. Nenhum homem tinha direito de ser tão belo. O
branco alabastro de sua pele e o vermelho intenso de seus lábios
grossos eram um canto de sereia ao qual não tinha intenção de resistir.
Seus tristes olhos azuis tinham um atrativo inegável. Cheirava como a
noite; um ligeiro perfume de árvores, vento e terra. Cheirava como ao
lar.
Deliberadamente inalei, absorvendo seu perfume até o mais profundo
de mim com um intenso e possessivo deleite. Isto é o que estive
esperando durante esses longos e áridos vinte anos. Um mensageiro de
meu mundo, um iniciador em minha autêntica vida. Isto é o que,
essencialmente, senti falta nos poucos homens que possuíram meu
corpo. Ninguém com quem tive intimidade tinha minha química,
nenhum era de minha espécie. Não sabia o que era que não funcionava

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Monere – Os filhos da Lua - 01
com eles, comigo, até aquele momento em que senti Gryphon com um
primitivo reconhecimento naquela estéril sala de emergências.
Companheiros. Agora ele estava aqui, em meu apartamento, me
esperando em minha casa.
Uma estranha alteração me invadiu. Um espírito audaz e possessivo,
cuja existência desconhecia, apareceu em cena tomando o controle de
minhas ações. E sucumbi a ele porque meu corpo o queria e meu
coração o desejava.
Gryphon retrocedeu com uma mão levantada em forçada súplica
quando me aproximei.
—Não. —Negou com a cabeça conforme eu avançava, retrocedendo até
que suas costas tocou a parede—. Não seria inteligente. Mona Sera...
—Abandonaste-a.
—Sim, mas ainda pensa em mim como algo de sua propriedade, para
me castigar e para me destruir.
—Mas não é dela. —Detive-me a distância de um suspiro dele—. Não
quer ser meu?
Minha quente respiração varreu a curva de seu pescoço, justamente
acima de onde palpitava seu débil pulso.
—Não quer que seja sua?
Estremeceu e fechou os olhos.
—Mais do que desejo viver.
Meus olhos brilharam triunfantes.
—Não seria bom para você.
Separei-me dele e respirou profundamente, com alívio, até que soltei o
elástico dos cabelos, deixando que meu escuro cabelo caísse como uma
esteira3negra, deslizando-se por minhas costas, rodeando meus ombros,
as mechas da frente roçando a curva de meus seios.
Gryphon ficou gelado, tão absolutamente quieto que parecia esculpido
em mármore.
—Disse-me que seduzisse os homens e os fizessem meus. —Tirei os
sapatos com um pontapé.
Engoliu saliva, apertando os dentes.
—Para que se sentissem amarrados a você e a protegessem.

3
Esteira – porção de água revolta que uma embarcação deixa atrás de si; (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Inclinei-me para frente observando como me observava. Levantei uma
de minhas pernas para tirar a meias três-quartos. Ambos a vimos cair ao
chão.
—Não há necessidade de me seduzir. —Sua voz era gratificantemente
tensa—. Protegerei você o melhor que possa sem a reclamar.
—Sei. —Puxei a outra meia três-quartos. Olhava-me fixamente,
aparentemente fascinado com a simples visão de um pé nu.
—Já tem o benefício sem riscos. —Respirou pesadamente quando
desabotoei a calça e a deixei cair aos meus pés.
—Se me tomar, a ira de Mona Sera será terrível — disse com voz rouca,
mas havia uma selvagem contradição entre o que suas palavras diziam
e o que seus olhos evidenciavam. Desejava-me.
—Mais ou menos furiosa, quererá matar a ambos de todo jeito. Foi o
que disse. —Lentamente, lentamente de verdade, fui tirando a parte de
acima. Seus olhos ficaram presos na suavidade de meu estômago e sua
respiração ficou mais irregular.
Afastou seus olhos da desejada fenda de meu ventre e se obrigou a me
olhar nos olhos.
—Suas probabilidades de sobreviver serão maiores se nos contivermos.
Ignorei sua nobre súplica e tirei a parte de cima deixando-a cair ao
chão. Não usava sutiã. Gryphon fechou os punhos, seus olhos pareciam
irresistivelmente atraídos para meus pequenos, mas erguidos e firmes,
seios. Meus mamilos se enrijeceram, ficaram duros como pedrinhas sob
seu olhar atento. Senti como se me invadisse uma onda de triunfante
satisfação ao saber que bastava a simples visão de meu corpo para
alterar tão poderosamente a um homem, o fazendo avermelhar e
provocando o tremor de suas mãos. Foi glorioso.
—De todo modo, nossas possibilidades de sobreviver com a Mona Sera
são escassas — sussurrei—. Não quer viver completamente agora? Eu
sim. Quero tocar você. Quero que me toque. Quero saber o que é tomar
a um homem em meu corpo e desfrutar de verdade. —Fechei os olhos—.
Meu corpo se desespera por ter você. Desejo-o tanto. Nunca antes me
senti assim, nunca.
—Usa prata — disse Gryphon com surpresa.
Demorei um tempo para me dar conta do que queria dizer, tão
arrebatada estava pelo que sentia. Minha mão voou para perto da cruz
que sempre usava pendurada ao redor de meu pescoço, cobrindo-a.
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—Perdão. Faz mal a você?
—Por que teria que me machucar? Está sobre sua pele, não sobre a
minha.
—A cruz o incomoda de algum jeito? —Abri o fecho e me afastei dele.
Deixei-a cair na gaveta de uma cômoda situada contra a parede. Virei-
me depois para voltar a encará-lo. Mas com toda a extensão da sala nos
separando senti que essa estranha posse se desvanecia e que voltava a
ser a de sempre, cheia de medos e inseguranças. Veio-me à cabeça uma
vez mais a dor, não o prazer, que habitualmente colhia quando me
enredava com homens sobre os lençóis de minha cama.
—Podemos tocar e olhar as cruzes, podemos entrar impunemente nas
Igrejas. É apenas a prata que contém o que nos irrita. Não a incomoda
absolutamente o contato da prata sobre a pele?
Neguei com a cabeça e cruzei os braços sobre o peito, fiquei friamente
consciente de minha nudez e de que habitava um corpo que os homens
nunca considerariam voluptuoso. Essa consciência me empurrou a
aventurar uma conclusão:
—Possivelmente meu corpo não o agrada.
—Não — disse Gryphon gravemente—. Seu corpo me agrada muito.
Mas em meu inesperado caos emocional não era capaz de distinguir o
que havia de verdade em suas palavras. Não acreditei nele. A atração
entre nós estava presente e era intensa, mas parecia ser algo instintivo,
algo que ele não podia controlar. Sua opção consciente, sua intenção,
era clara. Não tinha se movido. Não me desejava.
—Sinto muito — ri amargamente—. Parece que não sou muito boa
seduzindo. Atraio aos homens no início, mas depois dizem que sou fria.
E o sou. Sou de gelo por dentro.
—Os humanos não nos atraem — voltou a me explicar, tranqüila e
pacientemente—. Não sentimos com eles o que sentiríamos com outro
de nossa raça.
O irônico é que não estava segura de que me incluía entre esses
humanos.
—Estou vendo. Tem razão, é obvio, sobre nós. Não deveríamos... —
Movi-me lentamente para o refúgio de meu quarto—. Não deveria tê-lo
forçado. Sinto muito.
Gryphon cruzou os três metros que nos separavam com um gigantesco
salto, movendo-se tão depressa que nem sequer se fez impreciso, mas
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sim de repente se encontrava ao meu lado, a escassos centímetros de
mim. Soltei um grito abafado.
—Mudei de idéia — disse brandamente. Era um homem perverso, isso é
o que era.
A ira me acendeu e queimou todo vestígio de insegurança com um
maravilhoso banho de calor purificante.
—Não quero sua compaixão — esbravejei, me afastando, retrocedendo
para meu quarto, amaldiçoando silenciosamente os caprichos de todos
os homens, sem importar sua raça.
—Bem. Tampouco eu desejo a sua — disse secamente, me seguindo até
que minhas curvas deram contra o colchão. Meu quarto era tão pequeno
que não havia espaço para nada mais que a cama, uma escrivaninha e
alguns poucos centímetros de espaço para poder passar.
—A última coisa que sinto por você é compaixão — disse Gryphon com
olhos doces e brilhantes. Desabotoou seus dois botões superiores e tirou
a camisa pela cabeça, deixando-a cair depois ao chão. O som estridente
do zíper pareceu intensificar-se no tenso silêncio. Tirou as calças e se
plantou diante de mim, me mostrando muito mais de seu corpo do que
eu tinha mostrado a ele. Eu ainda estava com a roupa íntima. Tudo o
que adornava seu corpo naquele instante era a vendagem branca sobre
seu flanco esquerdo, e não era que escondesse seu esplendor.
Cai na cama, sentia de repente os joelhos inertes; era maravilhosa a
revelação do quanto à forma masculina podia ser bonita. Sua roupa o
tinha escondido, tinha o disfarçado com uma forma comum. Despido
revelou sua absoluta beleza. Era divino.
Deixei minha vista vagar por todo seu corpo, livremente, de cima a
baixo, percorrendo a excessiva beleza de suas formas. Permiti que meus
olhos desfrutassem sem reserva daquele sensual festim depois de toda
uma vida passando fome. A curva de seu peito era mais musculosa do
que imaginei, mais do que aquela breve e tentadora olhada a seu
abdômen insinuou quando me ocupei de seu ferimento.
Era esbelto, poderoso, perigoso. Um elegante, mas mortal predador;
seus ombros eram amplos e ia, se estreitando até formar uns quadris
estreito; tinha coxas fortes, e grosas e musculosas panturrilhas. A única
coisa suave nele era a negra cabeleira que o cobria e caía em grosas
ondas que roçavam seus ombros. Minhas mãos coçavam, precisavam
inundar-se naquelas longas mechas e descobrir se eram tão suaves e
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sedosas ao tato como prometiam ser. Seu peito era simples perfeição,
não necessitava de nenhum outro adorno além de seus gêmeos mamilos
que eram de uma cor bronzeada e quente, como um castanho, e que
sem dúvida seriam igualmente saborosos. Insolentes mechas de cabelos
indicavam o caminho por seu ventre e se convertiam depois em uma
escura moldura de seu rígido e exuberante pênis. Este se erguia ansioso
para encontrar-se comigo, ele todo era uma elegante conjunção de
forma e função, e se roçava contra a dura linha do abdômen, inclinando-
se ligeiramente como se saudasse. Escapou-me uma risada nervosa e
cobri a boca com a mão.
—Já não me deseja, Mona Lisa? —perguntou-me brandamente com
olhos brilhantes.
Umedeci meus lábios ressecados. Seus fulgurantes olhos seguiram meu
movimento.
—Sempre o desejarei — foi minha simples e verídica resposta. Seus
olhos se fecharam com força e se abriram brilhantes como uma safira
ardendo.
—É mais do que nunca esperei encontrar, uma rainha com quem nunca
me atrevi a sonhar. Não quer pôr suas mãos sobre mim? Dará permissão
para que eu ponha minhas sobre você?
Subiu lentamente e com sinuosa elegância à cama, apoiando seus
joelhos a cada um de meus lados, afundando-se no colchão. Movia-se
lentamente, como que com medo de me assustar. Não precisava
incomodar-se. O extremo desejo que estava sentindo por ele, o
desesperado controle que mantinha para não cair ferozmente sobre ele
e devorá-lo, eram mais que suficiente para me dar um susto de morte.
Retrocedi alguns centímetros e caí sobre minhas costas quando se
situou sobre mim, inclinando-se e apoiando os braços em ambos os
lados de minha cabeça, detendo-se justo antes de nos tocar.
—Não deseja me tocar? —perguntou.
—Sim.
OH, minha mãe, posso? Sim. Respirei fundo e estendi uma mão trêmula
para pousar meus dedos sobre seu peito. Sua pele era fria e suave, seda
sobre pedra viva. Era tão aprazível a sensação que quase roçava a dor.
Ambos gememos com a emoção do contato. Retirei a mão.
Girou com flexibilidade sobre seu flanco esquerdo. Virei-me para olhá-
lo. Estendeu sua mão direita e me reconfortou ver seu ligeiro tremor.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Tocou-me levemente no mesmo lugar onde eu o toquei. Apenas acima
do coração. O prazer me fez ofegar. Nada mais, apenas um leve roce, e
o líquido do desejo escorreu por minha coxa. O aroma de minha
excitação ficou mais denso e impregnou o quarto. As fossas nasais de
Gryphon se abriram e aspirou com força, profundamente, mas não fez
nada mais. Quando já não pude resistir mais estendi a mão e apóie toda
a palma sobre seu peito. Tremeu e disse asperamente: — Sim, me dê
mais.
Acariciei-o, incapaz de parar, não querendo parar, e sua mão se moveu
seguindo o que a minha fazia. Uma leve carícia ao longo das clavículas,
outra mão para seguir a linha de seus ombros e ao longo de seu braço.
Afundei ambas as mãos na fria seda de seus cabelos e a sensação era
ainda melhor do que eu tinha imaginado, e fiz uma surpreendente
descoberta em sua nuca.
—Tem suaves e leves... plumas?
Balbuciou assentindo, absorto na sensação e distraindo-se com meu
próprio cabelo.
De repente precisava saboreá-lo. Sussurrei minha necessidade.
—Gryphon. —Levantei-me sobre os joelhos e me inclinei para tocar seus
lábios com os meus. Eram de uma suavidade acetinada. Doce frescor. E
suaves. Tão suaves. Rocei meus lábios com os seus, desfrutando do
suave deslizamento da pele sobre a pele de seda até que gemeu com a
necessidade de mais e abriu os lábios. Minha língua deslizou na
surpreendentemente cálida caverna de sua boca, lambi seus dentes,
deslizei pela curva de suas úmidas bochechas, e rocei sua áspera língua.
Gryphon gemeu de novo, deslizou minha roupa íntima pelas pernas e
me atraiu para ele. O prazer-dor da carne contra carne, o contato de
meus rígidos mamilos contra a suave dureza de seu peito, o roce de seu
quente e inchado membro contra meu ventre suave o fizeram entrar em
ação. Girou para ficar em cima de mim, seus lábios se moviam
agressivamente contra os meus, sua língua se enroscava na minha,
roçava-se, deslizava-se, entrava e saía, com um movimento de imersão
que fez que eu abrisse minhas pernas, arqueando meus quadris contra
os dele. Atraí-o para mim, querendo mais de seu delicioso peso. Deslizei
minhas mãos com frenética cobiça por suas costas, por sua esbelta
cintura, até alcançar as suculentas nádegas de seu traseiro, o
apressando a entrar em mim.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Sua cálida boca escorregou por minha face até meu pescoço, e dei um
grito de prazer quando senti seus dentes me mordendo onde meu pulso
pulsava. Encheu sua boca com minha carne, e apertou os dentes com
refreada ferocidade, gemendo com o desejo de atravessar a carne e
provar o doce sangue. Mas em lugar de me morder, chupou com força e
me soltou, lambendo-me depois com sua áspera língua, baixando para
saborear o espaço na base de meu pescoço.
—Diga que me deseja — disse bruscamente.
—Sim — exclamei.
Tomou meu mamilo em sua boca, lambendo a sensível ponta uma e
outra vez. —Por favor, Gryphon — ofeguei.
—Sim, diga meu nome. —Sua voz retumbou em meu seio com uma
prazerosa sensação—. Diga que me necessita.
—Necessito de você agora. Por favor.
Mordiscou brandamente meu mamilo e me ergui; gritei enquanto ele
puxava e chupava com violência calculada, sua outra mão amassava,
acariciava, apertava meu outro seio, seu polegar esfregando o outro
mamilo, provocando excitantes sensações que me atravessavam como
dardos.
—OH, Deus. Gryphon... Gryphon.
—Sim, sim. Diga meu nome — disse com voz rouca, sua outra mão
deslizando por meu estômago para acariciar meus cachos. Abriu meus
lábios e colocou um dedo dentro. Fiquei paralisa pela impressão que me
produziu, a maravilhosa e surpreendente sensação, tão esplêndido
prazer, e não me atrevia nem a respirar enquanto me acariciava
entrando e saindo.
—Está tão tensa... relaxe, sim. Deixe-me... —Introduziu um segundo
dedo em meu interior e tremi descontroladamente ao mesmo tempo em
que gemia com os olhos completamente abertos. Continuou me
acariciando e me relaxando com sua mão enquanto introduzia até o
segundo nódulo de seus dedos e continuava avançando.
—Sim, isso é — murmurou—. Que bonita, que doce é. Mais do que
nunca sonhei.
Abriu-me completamente com seus dedos e depois os tirou. Levantou
seu peso e meus olhos se abriram com um grito de protesto, que cessou
imediatamente quando se levantou e me puxou para frente. Colocou
meus quadris pendurado sobre a borda da cama e pôs minhas pernas
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sobre seus ombros. Suas faces estavam salpicadas de cor e seus olhos
escuros brilhavam como diamantes azuis. Com seus olhos fixos nos
meus, abriu caminho dentro de mim, me enchendo lentamente
enquanto meus olhos se abriam com a incrível sensação dele, com a
suprema agonia de que me abrisse.
—OH — ofeguei ante o imponente milagre de prazer úmido em lugar da
dor seca.
—É tão cálida... tão cálida — resfolegou —. Sim, eu gosto. Tome. Estou
machucando-a?
—Não. Seu ferimento...
—Estou bem — gemeu e empurrou até o final—. Bem. —E começou a
mover-se.
—Sim—gemi e me imobilizei por medo de piorar seu ferimento, de
machucá-lo quando ele estava me destroçando por completo com seus
profundos e medidos empurrões. Observei-o, inundei-me dele, de sua
imagem, da sensação dele. A doce agonia do prazer contraindo seu
rosto, a perfeição de seu corpo deslizando dentro do meu. Deixei-o
controlar tudo, enquanto tomava e o mantinha dentro com firmeza.
Começou a mover-se mais depressa, seus músculos estremeciam,
forçando, enquanto empurrava mais dentro, com mais força, me
destroçando, me desfazendo com um prazer aterrador. Senti que me
alargava uma vez mais, me levando para algo cuja força crescia e
crescia. E quando acreditei que não podia ser mais grosseiramente
bonito, começou a brilhar. Ambos começamos a brilhar, com uma luz
que nascia de nossa união e se estendia por todo nosso corpo, nos
enchendo de uma glória incandescente que fazia translúcida sua pele e
que cobria seu negro cabelo com um halo de luz. A terrível beleza que o
iluminava me alagou os olhos com lágrimas de agonia e de alegria.
Sim, veio-me o pensamento. Isto é para o que fomos feitos. E essa força
me varreu, alagou-me, rasgou-me, e me reconstruiu me fazendo ainda
mais forte. Convulsionei, pulsava, pulsava. Às cegas, ouvi Gryphon gritar
em cima de mim:
—Mona Lisa... é minha.
E então bombeou com veemência em meu interior, gemendo
intensamente, me enchendo com sua semente.

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Capítulo três
Os doces dedos da lua acariciavam Gryphon com amorosa ternura
enquanto jazia ao meu lado, dormido. Era uma criatura tão bonita que
tirava meu fôlego, sua preciosa perfeição era tão irreal que poderia ter
duvidado de sua verdadeira existência se não fosse porque o tocava,
porque tinha sua perna enroscada na minha. Com seu braço jogado
sobre mim encadeava-me a ele em sonhos, desejosa e ao mesmo tempo
desejada, com esse contato de pele contra pele.
Era frio ao tato, mais frio que eu, e não sabia se esse era seu estado
normal ou o resultado do veneno que tinha dentro dele. Parecia estar
melhor que no hospital, mais descansado; sua força era patente na dor
que sentia em minhas coxas, entre minhas pernas. Mas seu tremor, ao
final, tinha sido tanto fruto da paixão como do esgotamento, por isso
caiu profundamente adormecido imediatamente depois. Deixei-o dormir,
sabendo que era a melhor terapia para ele, satisfeita de estar deitada
junto a ele, segura entre seus braços, e escutando o suave sussurro de
sua respiração e o lento pulsar de seu coração.
Era espantoso. Não, era na realidade aterrador o feroz sentimento de
posse que sentia agora por ele. Necessitava desse tranqüilo momento
de solidão acompanhada para assimilar todas as mudanças e revelações
que se geraram como resultado de sua entrada em minha vida.
Moveu-se várias horas depois, passando de dormido a completamente
acordado em um abrir e fechar de seus penetrantes olhos. Seu braço se
retesou ao meu redor, e depois relaxou.
—Você não é um sonho, não é mesmo? —perguntou, puxando-me para
me aproximar.
—Não — exalei minha suave confirmação sobre seu ombro, onde minha
cabeça se aninhou; meu coração se tranqüilizou e se sentiu feliz uma
vez mais ao inalar sua essência—. Cheira muito bem.
Senti como sorria.
—A que cheiro?
—Cheira como a noite, como o vento que sopra, como os verdes prados
que sobrevoa... e as plumas. —Levantei-me para observá-lo do alto—.
Por que tem essa penugem suave na base do pescoço?
—Minha outra forma é um falcão.

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—Sua outra forma? —Saboreei a estranha frase lentamente e não fui
capaz de evitar que minha voz acabasse convertendo-se quase em um
grito—. Quer dizer que pode se transformar em pássaro?
Gryphon assentiu, Sorrindo como se eu o divertisse.
Gryphon. Gyrfalcon. Falcão. Gavião. Uma feroz ave de rapina.
Podia ver agora em alguns de seus traços, como seus olhos alertas e
penetrantes, o forte e aquilino nariz, os amplos ombros, seus longos e
esbeltos dedos. Perguntei-me se se converteriam em garras.
—Qual é sua outra forma? —perguntou.
Sacudi a cabeça, aturdida. Isso é o que era essa coisa selvagem
enjaulada em meu interior que eu tinha reprimido? —Não sei.
—Não se preocupe. É jovem. Certamente se desvelará mais tarde,
embora nem todos os Monere possuam a habilidade de transformar-se
em outra criatura. —Franziu o cenho e estendeu a mão para alisar meus
cabelos com um gesto carinhoso—. Exatamente, quantos anos tem?
—Vinte e um. Quando apareceu sua outra forma?
—Quando alcancei a puberdade, aos dezoito. Mas você é mestiça. É
parte humana. Pode chegar mais tarde para você.
—Está seguro disso? — Duvidou.
—Não. É uma nova criatura.
—Que outras formas têm os mestiços?
—Até onde eu sei, nenhum deles teve outras formas.
—Genial — disse com alívio. Não desejava ter outra forma. Não se
implicava liberar essa surpreendente e intranqüila força que desde
minha puberdade rondou em meu interior.
—É um território completamente novo, para toda nossa raça.
—O que quer dizer?
—Ora, você, que seja uma rainha é um autêntico milagre — disse
Gryphon com grave solenidade—. Nunca antes houve uma rainha
mestiça.
—Nunca?
—Nunca em toda nossa história desde o Grande Êxodo da Lua.
—A Lua?
—Há quatro mil anos um desastre aconteceu em nossa mãe Lua. Os
mares secaram, as montanhas desmoronaram. Os Monere tiveram que
abandonar lamentavelmente o moribundo planeta. Muitos vieram para

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este, construindo uma vida aqui, esperando todos que um dia a Lua
recuperasse sua antiga glória e pudéssemos retornar ao nosso lar.
—Onde vivem os de sua raça?
—Estabelecemos nossas colônias ao longo da face da Terra, nos
bosques, no meio dos desertos, em ilhas, sobre as grandes estepes. A
maioria permaneceu pura; alguns viveram entre os humanos, mas não é
fácil viver isolado entre eles, longe dos nossos.
—Só me diga, que idade você tem? —Esta era uma pergunta que
esteve rondando a cabeça desde que pela primeira vez abriu a boca e
seus lábios pronunciaram essas maravilhosamente e pitorescas palavras
e frases.
Gryphon riu com um eco oxidado que me retorceu o coração. Fez-me
querer fazê-lo sair dele uma e outra vez até que sua risada fluísse
livremente, com facilidade.
—Não sou tão velho. Tenho apenas setenta e cinco anos.
—Setenta e cinco! Mas não parece ter mais de trinta.
— O que faz? —perguntou quando me inclinei sobre ele e penteei com
meus dedos suas longas e grossas mechas.
—Procurando cãs — murmurei. Dei um saltou e gemi quando aproximou
a boca de meu seio e introduziu meu mamilo na cálida e úmida caverna
de sua boca.
—OH, não, não. Primeiro quero algumas respostas.
—Não tenho cãs — disse, dando ao meu rígido mamilo uma última e
deliciosa lambida antes de afastar-se—. Setenta e cinco é considerado
jovem entre nossa gente. Um guerreiro é considerado maduro aos cem
anos e veterano aos duzentos.
—Duzentos anos? —disse gritando como um camundongo de novo, o
que fez Gryphon sorrir mais uma vez. Seus olhos brilhavam de prazer
enquanto me observava caminhar nua até meu guarda-roupa. Coloquei
um robe e voltei para a cama para me encarapitar4 ao seu lado.
—Nosso tempo de vida médio é de trezentos anos.
—E os mestiços?
Seu sorriso se desfez e se mostrou esquivo de novo.
—Possuem a esperança de vida dos humanos. Cem anos,
provavelmente.

4
Encarapitar - pôr-se no alto. (Aurélio)
PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES
Monere – Os filhos da Lua - 01
Emoções contraditórias me embargaram mais uma vez. Sentia alegria
por ouvir que certamente viveria até os cem anos, uma idade avançada
que poucos humanos alcançavam. E senti dor porque não chegaria a
viver trezentos anos. Senti-me de algum jeito extorquida.
—Não se preocupe. Acredito que viverá mais que isso. Tem mais sangre
Monere que sangue humano circulando em você e seu coração pulsa
mais devagar que os da raça humana.
—Cinqüenta batimentos por minuto.
—Os poucos mestiços com quem me encontrei têm ritmos cardíacos de
sessenta ou mais batimentos, como os outros humanos.
—E?
—E, será que não vê? Quanto mais lento bate o coração de alguém,
durante mais tempo vive. O coração de um colibri pulsa mais de
trezentas vezes por minuto e tem uma vida breve, com sorte, vive um
ano. Uma tartaruga, ao contrário, possui um ritmo mais similar ao meu.
Não é incomum que uma tartaruga viva duzentos anos, às vezes
inclusive trezentos anos.
—Assim, quer dizer que viverei mais tempo que a maioria dos humanos.
Assentiu, seus olhos tinham um inconstante brilho de azul cristalino. —
Isso é o que acredito.
Segurei sua mão e a posei sobre minha face; meu sorriso era agridoce.
Tudo era discutível. Mais duzentos anos para viver com ele era uma
perspectiva encantadora, mas viver mais sem ele não tinha sentido. Um
isolamento amorfo5e uma solidão cinzenta eram tudo o que conheci até
esse momento. Não tinha começado a viver de verdade até que meus
olhos posaram sobre ele pela primeira vez. Perguntei-me se minha nova
vida, minha vida com ele, terminaria mais rápido que a de um colibri.
—Quanto tempo tem antes que o veneno o mate? —perguntei.
—Não mais que um ciclo completo da Lua.
Trinta dias. Merda.
—Quando o...?
—Ontem.
Só um dia e como o debilitou em tão pouco tempo.
—O que acontece? —perguntou, baixando a mão para me acariciar o
pescoço, seu polegar esfregando sobre meu pulso.

5
Amorfo = sem forma definida. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Repentinamente me senti preocupada com a alimentação e o cuidado
adequado para meu lunático — disse, me forçando a pôr um sorriso em
meus lábios.
—Pergunto-me quem serão seus pais — murmurou Gryphon.
—A única coisa que tenho deles é a cruz de prata que viu. —Voltei a
pegar a cruz e mostrei a ele a gravura feita no verso.
—Mona Lisa — leu—. Seu nome.
—Sim.
Observei-o entrecerrar os olhos. —Posso?
Assenti com a cabeça e pegou a cruz de minhas mãos, sustentando-a
pela corrente. Muito brandamente, com delicadeza, segurou a cruz e a
examinou com mais atenção. Ali na base havia outra palavra gravada
com muita meticulosidade, tão diminuta, que os olhos humanos não a
teriam detectado sem ajuda de um microscópio.
—Monere — leu. Soltou cuidadosamente a cruz e a devolveu a mim.
Distraidamente esfregou os dedos com os quais tocou a prata.
—De onde tirou isto?
—Estava pendurada em meu pescoço quando me encontraram recém-
nascida e o nome gravado no verso é o nome que me deram no
orfanato.
Ficou imóvel olhando fixamente a cruz que eu apertava em minha mão;
sua imobilidade era tão súbita e completa que não era humana.
—Sua mão — disse com estranho cuidado—. Posso vê-la?
Deixei a cruz de lado e estendi minha mão direita. Estirou minha mão.
Tocou com reverência o sinal que tinha no centro da palma. Era apenas
uma leve proeminência, como uma pérola meio enterrada na carne.
Estendeu sua outra mão e estendi minha mão esquerda para que
pegasse. Observou o leve vulto que havia ali também. Depois olhou
alternativamente de um ao outro.
—O que acontece? —perguntei.
Não falou por um tempo. Quando por fim o fez foi para perguntar.
—Que poderes possui? Dei de ombros.
—Posso ver na escuridão e escutar a quilômetros ao meu redor se
desejar. Meu sentido do olfato é apurado. Sou rápida como um gato,
forte como um leão. Esforçando-me posso controlar a mente das
pessoas com o olhar. Com minhas mãos posso detectar enfermidades no

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Monere – Os filhos da Lua - 01
corpo e em certa medida aliviar a dor, mas ainda não obtive a
habilidade de curar.
Esperei que Gryphon falasse, mas simplesmente continuou olhando as
palmas de minhas mãos. —Bem?
Beijou cada um dos sinais com cuidadosa deferência e puxou-me para
baixo até que me recostei junto a ele de novo. —Creio que leva as
marcas da deusa Lua, suas lágrimas.
—A deusa Lua?
—Sim, é uma deidade a que veneramos. A primeira de nossos
ancestrais, a mãe de todos nós.
—E por que disse que crê? Como se não tivesse certeza — murmurei
sobre o vão de seu pescoço.
—É pouco comum, minha jovem rainha. Nossas tradições e lendas do
tempo do Êxodo nos falaram da marca das lágrimas da deusa. As
poucas rainhas abençoadas com esta marca foram extraordinárias
curadoras e grandes guerreiras.
—E o que aconteceu com estas bem-aventuradas rainhas?
—Grandes dons produzem grandes perigos. Seus poderes foram tanto
uma bênção quanto uma maldição.
—Sua avaliação soa contraditória.
Meu estômago rugiu repentinamente e saltei. Gryphon soltou uma
oxidada gargalhada de novo e o recompensei com um sorriso. —Morro
de fome. Comem? Precisam beber sangue? Elevou as sobrancelhas.
—E me ofereceria seu adorável pescoço se o fizesse?
—É óbvio, se o necessitasse.
—Ah. —Suspirou, seu olhar se suavizou —. É uma rajada de vento
fresco. Não, não bebemos sangue. Nós ingerimos comida como os
humanos. Acreditava que éramos vampiros?
—Sim. —Ruborizei—. Desejei muito seu sangue carmesim a primeira
vez que o vi. Estava afogada em desejo de prová-lo. E quando o fiz meu
coração derreteu. Foi a primeira vez que senti semelhante impulso.
—Isso é porque foi a primeira vez que se encontrou com alguém de
nossa raça. A necessidade de saborear-se mutuamente surge apenas
entre amantes Monere, nunca com humanos. As marcas que deixam as
dentadas são a maior honra, prova da mais profunda paixão.
—Você não provou meu sangue. —Toquei a pele intacta de meu
pescoço onde tinha pressionado com seus dentes.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Seus olhos azuis faiscaram com crescente calor.
—Controlei-me pensando naqueles que me perseguiam. Será uma
honra e um prazer ainda maior saboreá-la e deixar em você minha
marca quando for o momento oportuno.
Ruborizei de novo.
—Assim não somos vampiros por natureza. Existem seres como os
vampiros então?
Respondeu depois uma leve vacilação.
—Não, não há tal criatura. As histórias de vampiros se originaram por
causa daqueles de nós que podem tomar a forma de ratos ou morcegos.
—E os homens lobo? São reais?
—De novo, a lenda se apóia naqueles de nós que podem tomar a forma
de lobos. Mas igual aos vampiros, há uma pequena parte de verdade e
muita desinformação que os humanos desfrutam inventando.
—Como que os objetos sagrados os fazem explodir em chamas. E as
estacas de madeira cravadas no coração ou os dentes de alho?
—São apenas mitos. Estacas cravadas no coração... isso não nos
mataria. Nosso corpo se cura e acabaria expulsando a madeira.
—Então que pontos fracos são fatais para nós?
—As coisas habituais. Tirar nosso coração. Cortar nossa cabeça. Mas as
mortes mais dolorosas e lentas são aquelas causadas pelo
envenenamento, provocado pela prata ou pelo sol.
Meus olhos se arregalaram ante os assombrosos métodos enumerados.
—O sol pode matá-lo?
—Absolutamente. Seus raios quentes nos queimam inclusive nas horas
de menos luz. Não queimam você?
—Não, não tenho semelhante problema.
—Ah — disse satisfeito, como se tivesse confirmado algo que ele já
suspeitava—. A habilidade de resistir ao sol não é incomum entre os
mestiços.
Engoli saliva.
—Tem que dormir em um ataúde ou no chão?
Beijou-me, um beijo rápido cheio de afeto.
—Não, serve-me perfeitamente uma boa cama. Somos noturnos e
dormimos durante as horas do dia. Os humanos foram feitos para o calor
do sol, mas nós somos criaturas de sangue-frio. À noite — olhou com
nostalgia pela janela — é nosso território: a escuridão, a relaxante brisa,
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Monere – Os filhos da Lua - 01
quando a serenidade envolve ao mundo, a luz nos ilumina e nossos
corpos se enchem da energia que recebemos da Lua. Você não sente
isso também? Que quando cai a noite sua alma se acordada com um
chamado que vem do céu?
—Sim, assim é como me senti desde a infância, só que então não sabia
o que era que me fazia tão diferente das outras crianças.
—Devia ser difícil para você, não saber o que era o que fazia inóspito o
dia, que quando o sol resplandecia seu corpo se sentisse fatigado. —
Acariciou meus cabelos —. Conte mais de sua infância.
—Farei isso mais tarde. Agora é seu bem-estar o que mais preocupa
meu coração. Devemos agir logo e encontrar a cura que neutralize o
veneno. Trinta dias não é muito tempo.
Sorriu e sussurrou com doçura:
—Não me importo se não viver nem mais um segundo. A única coisa
que me importa é que estou entre seus braços. Sinto-me como o camelo
que chega a um oásis depois de um longo caminho cruzando um árido
deserto. Sinto como se tivesse vivido minha vida, que poderia fechar os
olhos e cair dormindo e descansar em sua presença para sempre.
—Não feche os olhos agora. —Deu um beijo em sua testa—. É muito
jovem para morrer.
Olhou-me silenciosamente um momento.
—Poderia ficar aqui e empregar os dias que restam, por poucos que
sejam, para transmitir a você meus conhecimentos, ensinar a você
coisas sobre nossa raça, fazer que se familiarize com pessoas e nomes
que poderiam ser úteis a você como rainha — disse com delicadeza.
Jazia ali entre meus braços e de repente minha visão se tornou mais
profunda e receptiva. Pude ver o que havia no recôndito de sua alma
cansada, maltratada e esfomeada, vi com absoluta claridade qual era
sua escolha. Escolheu a morte. Queria descansar, morrer ali no consolo
de minha presença em lugar de lutar para viver. E vi com claridade que
sendo amável e suave, que suplicando a ele com doçura não ia fazer
que abandonasse o caminho que tinha escolhido. Necessitava de
dureza, precisava sentir a aguilhoada para reagir. De algum jeito, no
fundo de meu coração sabia. Um profundo conhecimento que esteve
escondido em meu interior parecia haver despertado depois de que ele
apareceu em minha vida.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Chama-me de sua rainha — disse, minha voz estalou como um látego
—, mas na realidade, não acredita nisso, de coração.
—Não... —Saltou ante meu repentino ataque e se sentou.
Sosseguei sem piedade seu grito de desconcertado protesto e continuei
com desprezo.
—Resignou-se a morrer, está inclusive agradecido de poder descansar
por fim; porque está cansado da dor e do sofrimento que supõem viver.
Menti quando me chama de sua rainha, porque você não serve a
ninguém que não seja você mesmo se rendendo tão facilmente à morte
que espera para reclamá-lo.
Gryphon ficou tenso, sob o violento açoite de minhas palavras, incapaz
de negar a dolorosa verdade.
—Justifica-se se oferecendo para me transmitir um mísero
conhecimento antes de morrer em troca do consolo e da comodidade
que dou a você. —Sorri desdenhosamente—. Não me trata melhor que a
uma puta se crê que estou suficientemente disposta e desesperada para
me conformar com tão pouco em troca.
—Não. —Asfixiado, em um angustiante rechaço, negava furiosamente
com a cabeça—. Não, minha rainha.
—Não me conformarei com trinta dias de serviço descuidado para
permitir depois me deixe sozinha e desprotegida para descansar — disse
duramente—. Se sou sua rainha de verdade, então peço e exijo a você
tudo o que um varão a meu serviço me deve.
Aproximei-me dele que me olhava como estivesse hipnotizado. Havia
algo novo em seus olhos, um toque de medo e precaução.
—É meu. Cada parte de você me pertence — disse, acariciando seu
peito justamente acima do lento e constante batimento do seu coração;
senti-o tremer e sorriu por causa de minha carícia—. Seu valente
coração de guerreiro, seu corpo envenenado, sua alma cansada. —
Soprei as palavras sobre seus lábios, afundei minha mão em seus
cabelos e assim com força em sua cabeleira—. Sua mente brilhante —
sussurrei, e levei meus lábios aos dele em um casto beijo—. Por direito,
reclamo cada parte de você ao meu serviço, e exijo e requeiro que
deseje viver com todo seu fôlego e seu ser, com todo seu coração e sua
alma. Submeto-o à tarefa de encontrar uma cura para você e não me
abandonar. Deve-me duzentos e vinte e cinco anos a mais de serviço e
não vou me deixar enganar com trinta míseros dias, entendeu?
PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES
Monere – Os filhos da Lua - 01
Gryphon se ajoelhou ante mim, silenciosas lágrimas de vergonha
rolavam por suas faces. —Sim, minha rainha — disse, cedendo em tudo
porque eu o exigia.
—Jura.
—Juro — disse com voz áspera.
—Jure por aquilo que mais quer.
Elevou seus olhos para mim.
—Juro pelo coração de minha senhora — disse inclinando a cabeça.
Acariciei com ternura os cabelos de Gryphon. Meus lábios se retorceram
em um sorriso agridoce. Tinha ganho. Por agora, tinha ganho. Tinha
visto uma arma que podia usar e a utilizei sem piedade para obter o que
queria, porque não queria ficar sozinha, porque acabava de começar a
viver de verdade e não queria deixar que essa vida morresse em fraldas.
Meu sorriso era agridoce porque não sabia se eu era melhor que essa
outra terrível rainha, Mona Sera, de calculadora crueldade, mas ainda
mais aterrador era que não me importava.
—Não poderá me abandonar tão facilmente. —Era uma terna promessa,
uma doce ameaça.
Gryphon aspirou profundamente uma baforada de ar.
—Não, minha rainha — sussurrou.

Capítulo quatro 1

Pedi licença no trabalho e apliquei todas minhas energias em procurar o


antídoto. Tinha uma percepção de mim mesma muito mais intensa,
como uma flor nova que na primavera se abre ao mundo pela primeira
vez; meu velho eu, feito farrapos, ia encolhendo com cada fôlego que
tomava.
Abandonamos logo a idéia de procurar essa outra rainha, Mona Genesa.
Gryphon tinha apenas uma vaga idéia de onde estava e uma modesta
expectativa de como seria recebido, sendo um escravo fugitivo de outra
rainha, o mais desprezado de sua raça. Caso fossemos capazes de
encontrá-la, certamente nos rechaçaria como aos cães sarnentos, nos
caçando até nos afastar. Ajudar fugitivos indesejáveis era um tabu tácito
entre as rainhas.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Assim, o que fazer então? Só havia uma opção, disse ao Gryphon,
encarar ao inimigo, e eu o ajudaria a conquistar o inconquistável. A
contra gosto, Gryphon consentiu.
Onde vivia uma rainha Monere? Em Queens, é obvio. OH, Deus que ego
tinha Mona Sera. E daquela maneira, na noite seguinte, pouco antes da
meia-noite, nos encontramos do lado de fora de um desolado armazém
em Flushing, o ponto mais ao leste de Queens, perto de um velho
depósito da ferrovia. Trilhos oxidados jaziam abandonados e sem uso
sob uma reluzente lua. Vagões de carga rodeavam ambos os lados,
vagões daqueles que se usava para transportes antes que as auto-
estradas e os caminhões os tornassem obsoletos. Estavam amontoados
uns sobre os outros em colorida formação de laranjas e cinzas
obscurecidos, formando uma torre acima do medíocre armazém.
A lua cheia flutuava sobre nós em perfeita e gloriosa plenitude. Por que
estávamos aqui? Para inspecionar as habitações de Mona Sera em busca
do antídoto enquanto todo mundo se encontrava reunido para o banho
de lua.
Gryphon me disse na noite anterior:
—É uma pena que não possamos procurar o antídoto durante a lua
cheia amanhã quando todo mundo estiver reunido para o banho de lua,
mas devemos ficar aqui e receber o banho também.
—Banho de lua? —respondi—. O que é isso?
Olhou-me alucinado.
—O banho de lua consiste em situar-se sob a lua cheia, a rainha se abre
e a lua nos banha com seus raios de luz, renovando a todos.
E assim foi como aprendi um pouco mais sobre os filhos da lua. De fato,
as rainhas são apreciadas porque apenas elas têm a habilidade de atrair
os raios da Lua e permitem que outros se banhem em sua energia. Sem
estes banhos, os Monere envelhecem mais rapidamente, como os seres
humanos. As rainhas possuem o maior poder: alongar a vida.
Desgraçadamente eu não sabia como fazer isto. Deus. Mas ao menos
tínhamos um momento perfeito para poder entrar no edifício com menos
risco de ser descobertos.

Uma rajada de ar frio sacudiu os ramos das árvores provocando uma


chuva de folhas vermelhas e douradas que dançavam e revoavam pelo
chão. Uma coruja ululou enquanto cruzávamos rapidamente e nos
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Monere – Os filhos da Lua - 01
introduzíamos entre as sombras do muro norte do edifício. Gryphon
entrou por uma das janelas do segundo andar como uma sombra
fantasmagórica e pouco depois abriu a porta principal para me deixar
entrar.
Todas as luzes estavam apagadas, mas a escuridão não era um
obstáculo. Nossos olhos estavam preparados para ver as coisas como se
a noite fosse dia. O interior estava deserto, o que não era uma surpresa;
embora a riqueza do mobiliário, sim fosse, era mais que rico, na
realidade era suntuoso. Piso de mármore rajados, tapetes persas
maravilhosamente tecidos e um magnífico lustre de cristal. Segui
Gryphon com silencioso assombro enquanto subíamos pela suntuosa e
sinuosa escada, e percorremos depois um corredor onde não havia nada
mais que uma porta no final.
Da porta me chegou uma intensa fragrância que me fez sentir um
formigamento na pele. Era um irritante perfume de mulher que me dava
a sensação de estar em um lugar onde não devia, como se estivesse
invadindo o espaço de outro. Tinha que ser o quarto de Mona Sera.
Gryphon abriu a porta e desapareceu em seu interior. Tomando ar,
segui-o e entrei em um espaçoso cômodo, que era o dormitório
principal. Estava ostentosamente mobiliado, com luxuosos tapetes e
obras de arte com pesadas molduras douradas. Uma gigantesca cama
com dossel dominava o quarto; tinha o dobro do tamanho de uma cama
king size e estava envolta em cortinados que davam a ela um glorioso ar
de decadência.
Gryphon rompeu o feitiço ao me tocar, tive que piscar para o olhar.
Fazia-me gestos para que fosse para a área contígua ao closet. Ele se
aproximou da cama e começou a busca. O closet era um espaço tão
grande quanto minha sala e muito, muito mais bem decorada, com
imagens emolduradas, tapetes e inclusive cortinas, além de um
confortável divã. Abri os armários. Os vestidos e trajes de Mona Sera
estavam alinhados em cabides, com seus sapatos colocados no espaço
inferior; podiam ser centenas. Sacudi a cabeça confusa. Olhar por onde.
Mona Sera tinha um fraco por sapatos.
Olhei cuidadosamente nas prateleiras e nas gavetas feitas sob medida,
acariciei a roupa, esquadrinhei dentro dos sapatos verificando suas
ponteiras, mas não encontrei nada. Cheguei inclusive a percorrer
paredes e piso com minhas mãos, mas não pude encontrar nenhuma
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Monere – Os filhos da Lua - 01
ranhura nem compartimentos ocultos. Voltei para penteadeira e olhei
para Gryphon. Indicou-me alguns frasquinhos que se encontravam sobre
uma cômoda de superfície envidraçada. Aproximei-me dali e levantei as
tampas, mas não cheirei nada mais que fragrâncias de perfume e
neguei com a cabeça. Rebuscamos no resto do dormitório, olhando
inclusive sob o colchão da gigantesca cama, mas não encontramos nada
à exceção de um simples frasquinho escondido em uma das gavetas
junto à cabeceira.
Antes que pudesse abrir a tampa do frasco Gryphon estava ao meu
lado, sua mão sobre a minha, negando furiosamente com a cabeça. Com
muita cautela, controlando meus movimentos com um cuidado terrível,
devolveu o frasco a seu lugar me levou até o banheiro onde me fez lavar
as mãos três vezes antes de continuar com nossa busca. Foi inútil.
A desilusão pesava em meu coração quando entramos de novo pelo
corredor e caminhamos para o andar de baixo. Tínhamos combinado de
antemão que procuraríamos somente nos aposentos privados da rainha,
que era onde com maior probabilidade estaria escondido o antídoto.
Gryphon me esperava lá baixo junto à porta principal, mas antes que
pudesse chegar até ele, parei e me virei. Algo me atraía, algo abstrato
que vinha desta ala. Em lugar de partir, virei à direita seguindo aquele
irresistível impulso por um corredor vazio.
Gryphon me deteve, sua mão me agarrava com urgência, negava com
a cabeça e me pedia para voltarmos à entrada, mas me liberei dele.
Havia algo que me chamava, empurrava-me a seguir e não podia me
negar.
Era uma força que me puxou até que me fez entrar, tropeçando, em um
elegante salão. Só então reconheci, era uma sensação de poder, de um
poder ancestral. Golpeou-me com inquietante rapidez.
Aquele enorme cômodo estava exposto à luz da lua cheia que entrava
através de uma clarabóia aberta. Um montão de homens e um punhado
de mulheres olhavam em direção contrária a mim. Todos elevavam seus
rostos para os raios que fluíam, banhando-os com uma luz pálida. Sobre
a plataforma central, uma mulher elevava os braços, dando a feliz bem-
vinda à redonda e luminosa esfera que uma vez foi seu lar. Seus cabelos
caiam por suas costas, e eram tão negros que brilhava com um reflexo
azulado sob a luz prateada. Estava nua, livre de trajes, sua pele era pura
e imaculada, seus peitos redondos se erguiam orgulhosos. Da cintura
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Monere – Os filhos da Lua - 01
para baixo, era um serpenteante conjunto de suaves e ondulantes
músculos cobertos de reluzentes escama. Não tinha pernas, em seu
lugar havia uma cauda de serpente. Olhei-a com assombro e pensei na
lamia, o nome com que os antigos gregos se referiam à criatura com
forma de serpente; pensavam que era um vampiro. Era uma criatura
pertencente à lenda e a tradição; um segundo antes eu teria assegurado
que não existia.
Sobre a mulher serpente caiu um raio de lua e cresceu a força que
inundava a habitação. Com uma explosão luminosa, pequenas
mariposas de luz choveram do céu, precipitando-se nela e entrando
depois em todos os homens e mulheres ao seu redor, que ofegavam e
retorciam as costas ao entrar e correr a luz dentro deles até que
chegavam a resplandecer com um brilho ofuscante.
E ainda assim aquela força não parecia diminuir, mas sim continuava
crescendo, intensificando-se mais e mais em meu interior até que
pensei que sem dúvida me faria explodir. E pareceu como se o tivesse
feito. Com uma nova explosão, a luz da lua se precipitou para o fundo da
sala, dirigindo-se a mim. Aquela luz fria me encontrou, tocou-me e me
banhou com intensa energia. Compartilhei esse tonificante poder, que
nos fazia ofegar e brilhar ofuscantemente, com o Gryphon. Depois se
desvaneceu o poder com uma última e amorosa carícia, nos deixando
para trás em meio a uma serena sensação de bem-estar, com todos os
olhos postos em nós e a arrepiante descoberta de que vários homens se
situaram a nossas costas e agora nos cercava.
O banho de luz da lua, quanto a mim concernia, não tinha valido a
pena.
—Bom, bom, bom. O que temos aqui? —ronronou Mona Sera.
Uma língua bífida6 se agitou no ar, nos notando. Senti uma quebra de
onda de energia. Ante meus olhos, as pupilas verticais da lamia se
arredondaram e as escamas desapareceram para dar lugar a pernas que
avançavam com sinuosa elegância para nós.
Uma mulher trouxe um vestido para Mona Sera, e ela deslizou seus
braços dentro do dele e logo a fechou, para meu imenso alívio. O fato de
que uma mulher nua se dirigisse para mim e aquilo me provocasse mais
medo que o guerreiro a minhas costas, que me mantinha prisioneira me
sustentando com mãos de aço, dizia muito sobre minhas prioridades.
6
Bífida = dividida em duas partes. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Homófoba eu? Meu Deus. Sentia-me muito mais cômoda lutando; luta de
ruas ou qualquer outro tipo de luta.
Retorci-me e fiquei livre; meu braço escapuliu pelo ponto mais fraco de
meu oponente, o lugar onde se unem o polegar e o resto dos dedos.
Agarrei meu capto pelo braço. Girei novamente e com um grunhido me
agachei, levantei-me, e aquele homem saiu voando por cima de minha
cabeça aterrissando sobre o chão com um ruído surdo. A surpresa
nublou seus olhos.
Deus, era uma besta enorme, quase alcançava os dois metros, e
apostaria que superava os cento e trinta quilogramas. Tinha um tórax
como um barril e braços e coxas tão grandes quanto minha cabeça.
Estava surpresa de ter sido capaz de lançá-lo e ainda mais surpresa ao
ver o que usava pendurado na cintura. Uma autêntica espada
embainhada em sua própria bainha, como as que se usavam nas
cruzadas.
Um dos homens que sustentavam Gryphon se arremeteu contra mim e
o esquivei. Vejamos, dois competidores diante de mim, e vinte detrás.
Para frente, definitivamente para frente, era o caminho a seguir. Com as
adagas de repente em minhas mãos, saltei e esfaqueei a um guerreiro
de cabelo branco que estava em meu caminho, dando um corte no peito
dele que saiu sangue, e saí disparada para frente o ultrapassando
enquanto Gryphon afundava seu cotovelo em seu oponente e o lançava
ao chão com um pontapé. O aroma do sangue de Gryphon encheu o ar.
Maldição, o ferimento de seu estômago se abriu outra vez.
Corremos pelo corredor até a entrada principal onde tivemos que parar
bruscamente. Dez homens formavam um semicírculo diante de nós no
exterior. Deviam ter chegado através da clarabóia. Perguntei-me por um
segundo se poderiam voar, o que me fez recordar de algo.
—Gryphon, voa — disse—. Afaste-se voando, agora. Faz.
Obedeceu-me. Seus olhos laçavam fogo. Suas roupas se rasgaram e
com uma breve onda de energia se transformou. Seu rosto mudou, sua
boca se alargou até converter-se em um afiado pico, plumas brancas
como a neve surgiram de seus braços, por toda parte, e se converteu
em uma enorme ave de rapina. Mas seus olhos, seus bonitos e
inteligentes olhos, eram ainda os mesmos e se mantinham fixos em mim
enquanto estendia suas asas para voar. Continuavam fixos em mim
enquanto aproximava suas poderosas garras para me agarrar, suas
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Monere – Os filhos da Lua - 01
garras afiadas como navalhas rodeavam minha cintura sem cravar-se
em mim. Estávamos a quase um metro do chão quando compreendi que
tentava tirar nós dois de lá voando e foi então que lançaram uma
pesada rede de corda sobre nós.
O falcão lançou um penetrante grito de raiva e cortou parte da corda
com seu pico. Possivelmente tivesse conseguido libertar-se se tivesse
usado suas garras, mas não podia as empregar sem me deixar cair e
não me soltou. Inevitavelmente a rede se enredou em suas asas e
caímos de novo ao chão. Uma nova quebra de onda e Gryphon voltou a
sua forma habitual. Era uma confusão de braços e pernas, estava nu, e
respirava com esforço debilitado pelo veneno. Gotas de sangue reluziam
sobre sua pele pálida quando retiraram a rede. Tiraram minhas adagas e
umas poderosas mãos que estava aprendendo rapidamente a
reconhecer me seguraram pelos braços mais uma vez. Uniram meus
braços nas costas e me algemaram com uma enorme algema de aço
que não me deixavam espaço de manobra.
—Aprende rápido. Que pena — murmurei. Arqueei minha cabeça com
um súbito movimento e golpeei com força o nariz do gigante. Era bom
que fosse alta para ser mulher. Rugiu de dor, mas mesmo assim me
mantinha bem presa. Puxou-me apoiando-me firmemente contra seu
enorme peito inclinando a cabeça para tê-la fora de meu alcance. A
consciência dessa intensa atração entre dois iguais, entre rainha e
varão, que esteve presente todo o tempo inflamou-se em absoluta
constatação quando senti algo que se levantava atrás de mim e me
empurrava de baixo. Podia ser a espada, mas duvidava.
Lutei ferozmente, com a energia que me proporcionava algo que tinha
um sabor parecido ao medo. Meus pés golpearam as penas do gigante.
Grunhiu, mas não se moveu. Sua tolerância à dor era impressionante,
mas não me beneficiava. Só quando me movi para cima e para baixo,
tentando chutá-lo na entreperna, levantou-me com facilidade, dando
uma rasteira, rápida e eficazmente, e me pôs no chão sem aparente
sinal de esforço ou emoção. Caiu comigo, imobilizando minhas pernas e
me prendendo sob seu enorme peso, quase me esmagando. O bom era
que não precisava respirar tanto quanto um ser humano normal, se não
teria me sufocado.
O restante dos homens, incluído aquele de cabelo branco a quem tinha
cortado antes, nos observavam a distancia sem ameaçar aproximar-se,
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Monere – Os filhos da Lua - 01
o que não me importou em nada. Tampouco fizeram nada para ajudar
em nenhum momento. Claro, parecia que o gigante não necessitava de
sua ajuda, o grande bárbaro.
Tinham algemado Gryphon, mas não com grilhões de aço e sim com
algemas de prata, mãos e pés, e o deixaram no chão. Lutou, brigando
com seus grilhões, arranhando seus pulsos e tornozelos, até deixar-los
em carne viva. Senti um brilho de energia proveniente dele, mas não
pôde transformar-se. Estávamos a vários metros um do outro, indefesos.
—Tão pouca coisa deu problemas a você, Amber — esbravejou uma
sibilante voz a minha direita. Virei a cabeça e a vi. Sim, Mona Sera, a
puta serpente. E era Amber, o da história da violação da Sonia, que
estava em cima de mim.
Mona Sera se aproximou e senti sua presença como um irritante
zumbido em meus sentidos, algo que me tirava fora de mim, e me
perguntei se seria igual à sensação da prata sobre a pele de um Monere.
Se fosse assim, entenderia a aversão que tinham ao metal.
Senti o frio tato dos laços das algemas ao redor de meus pulsos e me
perguntei se seriam de prata também. Não me incomodavam e não
podiam me reter, embora aparentemente eles pensassem que sim, por
alguma razão. Interessante. Olhei para Gryphon. Perguntei-me se sua
incapacidade de se libertar se devia a seu estado de debilidade ou ao
contato da prata que possivelmente debilitava aos Monere de algum
jeito. Possivelmente me debilitava também da mesma maneira. Dei de
ombros mentalmente. Logo o veríamos. Mas agora não era o momento
de pôr a prova meus grilhões, estávamos rodeados e nos superavam em
número e força, e Gryphon jazia ao meu lado, preso como um peru
depenado. Esperaria um momento mais oportuno, como quando o sol se
elevasse e estivesse aquecendo do alto do céu. Possivelmente enquanto
dormiam.
Viraram-me me pondo sobre as costas e vi pela primeira vez o rosto de
meu competidor, Amber, de perto. Era belo de uma maneira crua, como
o era um imponente carvalho, feito para ser forte e resistente; seu rosto,
grosseiramente esculpido, tinha traços amplos; testa e sobrancelhas
proeminentes, um nariz marcante, uma mandíbula sobressalente que
encaixava com seu gigantesco corpo, e cabelos sem volume e
castanhos, cor noz. Seus sombrios olhos azuis eram grandes e estavam
baixos. No fundo de seus olhos havia uma estranha carência de
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emoções. Não havia ira nem aborrecimento nem luxúria, só um frio
controle que não se alterou de maneira nenhuma enquanto lutávamos.
Nenhuma só emoção à exceção do breve brilho de surpresa em seus
olhos quando o lancei pelos ares.
—Amber, viola-a — ordenou Mona Sera.
Possivelmente esperar o momento adequado não fosse uma opção
depois de tudo. Tanto Amber quanto eu ficamos tensos, mas Amber não
fez nenhum movimento, apenas continuou montado sobre minhas
coxas. Tinha me perguntado por que não encadearam minhas pernas e
agora sabia. Era para que pudesse me violar. Na realidade preferia não
saber disso.
Olhamos fixamente um ao outro, ambos imóveis, a tensão entre nós
crescia. Nenhum fez o primeiro movimento para rompê-la. Algo se
moveu naquela profundidade turquesa. Reduziram-se suas pupilas, seu
ritmo cardíaco aumentou, e seus orifícios nasais se abriram como se sua
respiração tivesse acelerado. Preparei-me para seu ataque, mas tudo
que fez foi virar a cabeça para Mona Sera.
—Senhora... É uma rainha. Posso sentir — disse Amber.
—Sim, não é tão estúpido afinal. Obedeça minha ordem. Viola-a. — A
voz da Mona Sera estalou como um chicote e Amber estremeceu.
Levantou as mãos, para me agarrar, mas as deixou cair com impotência.
Olhou-me e então me dei conta do que estava vendo. Medo. Não luxúria.
Medo, que se retorcia como um animal preso em seu olhar.
—Por favor, senhora... —suplicou Amber a sua rainha.
—Por que tão tímido? —disse brandamente Mona Sera—. Foi um dos
mais ansiosos com as outras. Na realidade não parece haver nenhum
problema com a pedra âmbar. — Seu olhar dirigiu-se um pouco mais
abaixo, em sua avultada entreperna—. Por que tão indeciso?
—Senhora, é proibido violar às rainhas — disse Amber
desesperadamente; o suor empapava sua testa.
—E ainda assim, os homens o têm feito ao longo de nossa história —
disse Mona Sera com uma voz tão fria quanto o gelo, dando um golpe
mortal—. Como seu pai. Acaso não violou e depois matou a sua rainha,
rompendo nossa lei fundamental?
Olhei para Mona Sera então, olhei-a de verdade com essa nova visão
aguçada, e senti, seu segredo, seu medo. Como uma pequena semente
dentro dela que tinha crescido e florescido. E compreendi que tudo isto
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não tinha nada que ver comigo absolutamente. Era para testar e
castigar ao Amber, cujo pai cometeu o maior delito, não só violando
mais também matando uma rainha. O enorme, forte e sólido Amber, a
quem Mona Sera temia e odiava em segredo da maneira que só uma
mulher, mais fraca e menor, podia temer a um homem, inclusive sendo
uma rainha. Possivelmente especialmente sendo uma rainha.
—Não corre o desejo por suas veias? —perguntou Mona Sera, sua voz
gotejava doçura—. Venha, venha. Todos podem ver como você gostaria
de possuir esta pequena rainha. Não pode nos enganar.
Tremeu; aquela massa de enorme força, com todo seu masculino
controle, ficou reduzida a algo que não era mais que um indefeso animal
acuado. Pobre animal.
A satisfação cintilava com a dureza de um diamante nos olhos de Mona
Sera. Com minha profunda visão quase podia ler seus pensamentos. Se
me violasse confirmaria tudo o que Mona Sera temia secretamente todo
o tempo e seria sua própria sentença de morte. Se não o fazia, estava
recusando as ordens diretas de sua rainha. Estava fodido de qualquer
maneira e era evidente na confusão de seus olhos, azuis como o mar,
que sabia.
Perguntei-me durante quantos anos Mona Sera fazia Amber pagar uma
e outra vez pelos pecados de seu pai. Quantas vezes ordenou que ele
violasse alguém diante dela e viu seu mais terrível medo reproduzido
uma e outra vez, voltando para ele como as pessoas fariam com um
dente dolorido. Até que ponto estava doente e era maquiavélica Mona
Sera para pôr a prova a ambos daquela maneira.
Gryphon me contou que aqueles que se encontravam ali não tinham
outro lugar para aonde ir. Possivelmente se Amber menos alto, menos
forte, só menos, em geral. Mas com aquela enorme força e altura não
havia rainha que se sentisse completamente segura ao seu lado com a
demente história de seu pai. É que era uma insensatez matar sua
própria fonte de vida, se condenando a si mesmo, mas também ao
outros, a uma vida mais breve.
—Amber, ordenei a você que a viole. Não me ouviu? —A voz da Mona
Sera cresceu em volume e estridência.
Amber se separou de mim. Arrastou-se engatinhado para prostrar-se
diante da Mona Sera.
—Por favor, minha rainha. Rogo-lhe isso... Não desejo fazê-lo.
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—Mentira — disse, sua voz era veneno puro e melodioso—. Pode-se ver
perfeitamente que a deseja. Negou com a cabeça, com o rosto no chão.
—Atreve-se a me desobedecer? —Sua voz era um mortal grito de
advertência.
Suas mãos se elevaram em súplica para ela, caindo depois; não se
atrevia a tocá-la.
—Bom, eu, por exemplo, estaria encantado de levar a cabo as ordens
de minha rainha — disse o homem ao quem tinha cortado, jovem apesar
da brancura de seus cabelos; sua voz rompeu o encantamento atraindo
toda a atenção de novo para mim enquanto me arrastava me
aproximando de Gryphon. Genial. Simplesmente uma droga.
Lutei por me pôr de pé naquele momento e o guerreiro de cabelos
brancos fez um rápido movimento, como se saltasse, e seu corpo estava
sobre o meu em um instante, me devolvendo ao chão antes de ter tido a
oportunidade de me levantar. Com calculada intenção rasgou minha
blusa no peito, expondo minha cruz e deixando à vista um decote mais
amplo do que me fazia sentir cômoda.
Certo, não esperar mais. Flexionei e rompi facilmente a curta corrente
de prata. Empregando o pedaço das algemas que tinha no pulso golpeei
o bonito e cativante rosto que tinha em cima de mim; há estupradores
de todos os tipos, suponho. Satisfeita, vi-o afastar-se rapidamente de
mim.
—Ninguém os educou, meninos — disse com desaprovação.
Ouviram-se gritos de assombro ao meu redor. Ignorei-os e me arrastei
até Gryphon, quebrando suas algemas rapidamente, sem dificuldade, e
o pondo de pé enquanto corriam para nós alguns homens.
—Esperem — se escutou uma voz de mulher, alta e clara, que não era a
da Mona Sera. Possivelmente nada mais que pela surpresa, todo mundo
se deteve, incluído Gryphon.
—Por que se intromete, Sonia? —ralhou Mona Sera. Sonia era a meia-
irmã de Gryphon.
—Minha rainha — disse Sonia, sua voz soava com desesperada
segurança—, é sua filha.

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Capítulo cinco
Aquela afirmação me fez parar em seco. Minha mãe?
Deixei de puxar Gryphon e me virei de novo para olhar Mona Sera.
Concentrando minha visão, procurei em seu rosto. Seus olhos eram frios
e seus lábios finos e cruéis. Mas as maçãs do rosto, a forte linha de sua
mandíbula, esse cabelo negro...
OH, Meu deus, havia uma semelhança.
—Não seja ridícula — disse Mona Sera secamente, com um tom que
quase soava dolorido.
—Senhora. Usa uma cruz de prata sobre a pele e isso não a debilita —
disse Sonia. Era uma mulher amável, de olhos carinhosos e cabelos
castanhos claros, como a cor das folhas no outono depois de terem
caído das árvores—. É uma mestiça.
—Não pode ser uma mestiça. Tem nossa força e velocidade, é uma
rainha — disse Mona Sera.
Mas entrecerrou os olhos e me olhou com esse sentido extra que se
encontra além dos cinco que possuem os humanos.
—Que interessante — murmurou—. Quando nasceu?
Levantei uma sobrancelha.
—O dia que me encontraram no orfanato foi 31 de outubro, faz vinte e
um anos.
—É essa a data? —perguntou — Mona Sera a Sonia. A outra mulher
assentiu.
Entrecerrei os olhos.
—Tem que perguntar a outra pessoa quando sua filha nasceu?
—Por que deveria recordar? —foi sua arrogante resposta.
—Puta — foi a minha.
Gryphon apertou meu ombro, me advertindo, enquanto eu processava
a informação de que a cruz que eu tinha apreciado e usado sobre meu
coração durante toda minha vida não foi me dada pela minha mãe como
eu pensava. Mona Sera não reconheceu a cruz de modo algum.
Com lenta segurança voltei os olhos para a mulher que devia tê-la dado
a mim, que me deu um nome. A mulher que recordou o dia e ano em
que eu nasci. A que reconheceu a cruz.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—As palmas de suas mãos — disse Sonia em voz baixa—. Devem ter as
marcas.
—Mostre as palmas, garota — ordenou Mona Sera.
Fechei minhas mãos em respectivos punhos resistindo à ordem.
Gryphon me apertou brandamente os ombros, me persuadindo. Mas foi
a silenciosa súplica nos compassivos olhos de Sonia o que não pude
resistir.
Maldita seja, por que você não foi minha mãe em seu lugar? —
Lamentei interiormente, enquanto abria meus punhos e mostrava no
alto as palmas de minhas mãos. Todo mundo deu um grito sufocado de
assombro novamente. Estava começando a me sentir como um macaco
de feira, fazendo um truque atrás do outro.
—As lágrimas da deusa — disse Mona Sera olhando meus sinais
perolados7—. Recordo ter pensado que era um desperdício em uma
criança mestiça.
Sempre me perguntei quem seria minha mãe. Olhando o orgulhoso e
frio rosto da Mona Sera, que não refletia nenhuma gota de calor
maternal, senti a verdade desse velho dito: tome cuidado com o que
deseja.
Então meus olhos caíram sobre a trêmula forma prostrada que era
Amber, e tudo adquiriu outra cor.
Certo, assim minha mãe era uma puta doente e assassina. Ao menos
estava cordata.

Encontrei-me presa em uma masmorra pelo resto do dia. Uma


masmorra cem por cento real. Que mais podia alguém esperar encontrar
no porão de uma bela casa senhorial disfarçada em um horrível
armazém? As paredes de pedra estavam úmidas e não havia luz, mas
não a necessitava para ver. Se assim era como tratava sua filha,
perguntava-me como trataria seus inimigos. A porta era feita de prata e
não, isso não me detinha. Mas o fazia o lento batimento de um coração
detrás da porta, armado com minhas próprias adagas. Isso e o fato de
que Mona Sera ia me levar para apresentar ao Grande Conselho das
rainhas justamente na noite seguinte. Era o que Gryphon e eu
queríamos depois de tudo.

7
Perolar – da forma ou aparência de pérola.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Deixei-me cair ao chão de pedra, senti que o sol se levantava e me
preocupei com Gryphon. Tinham o levado e me abstive de perguntar a
Mona Sera por ele, instintivamente sabia que qualquer preocupação
que, de minha parte, fosse demonstrada por ele, seria vista como uma
debilidade que poderia se usada e explorada por ela. Não era uma filha
para ela. Era apenas uma ferramenta útil, como um martelo com o qual
golpear, uma novidade que podia apresentar ao Conselho e pela que
reclamar um reconhecimento. Nada importava sempre e quando nos
levasse.
Devia ter dormido. Os sons de uma chave girando e da porta abrindo
me despertaram. A luz proveniente do vão da escada caiu sobre o
cabelo de meu guarda, mostrando sua autêntica cor, um loiro tão suave
que a primeira vista parecia branco, mas o observando de perto
revelava uma ligeira tonalidade dourada. Seus olhos eram de um
atraente verde, não essa mistura entre verde e marrom que se vê
usualmente, e sim um verde esmeralda puro que fazia uma pessoa
pensar nas selvas amazônicas. Tinha o mesmo olhar alegre de quando
esteve a ponto de me violar.
—Permita que me presente: Beldar, a seu serviço.
Fez uma reverência com um elegante floreio e me deu um pacote, seus
olhos se mantinham educadamente fixos em meu rosto e não sobre meu
exposto decote. Um homem perspicaz. Era um decote que ele mesmo
deixou descoberto expondo-o à vista de todos.
—Minha rainha a convida para o desjejum com ela e pede a você que
ponha este vestido.
Peguei o pacote e o abri. Era um vestido comprido. Seda negra. —Saia e
feche a porta enquanto me troco — disse.
—Sua desconfiança me fere — replicou Beldar—. Certamente não terá
em conta nossa pequena refrega. Fui eu que saí ferido. Farejei e não
cheirei a sangue.
—Sua ferida parece haver se fechado. —Lançou-me um sorriso
encantador, o diabo arrogante. —Curamos rápido. Diga que me perdoa.
—Quando me devolverá as adagas?
—Não, até que cheguemos ao Conselho — respondeu Beldar com pesar
—. Por ordem de minha rainha.
—A porta — disse.

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Com um suspiro a fechou e me troquei rapidamente. O vestido me caía
até os pés em abundantes e amplas ondas. Seu corte se ajustava em
mim de forma quase perfeita, mas ficava folgado nos seios, confirmando
minha suspeita de que o vestido era de Mona Sera. Uma pena que não
tivesse herdado seus seios redondos. Não era o que eu queria vestir,
mas era melhor que ir por aí com uma camisa rasgada com meus seios
quase aparecendo.
—Estou pronta — disse sem me preocupar de elevar a voz, sabia que
me ouviria. A porta se abriu e os olhos de Beldar se abriram
apreciativamente. Fez um gesto para as escadas e inclinou a cabeça. —
Primeiro as damas.
—Não, você primeiro. Insisto.
—Não confia em mim a suas costas?
—Não. Não em alguém que podia ter me violado com um sorriso no
rosto.
—Teria me agradecido depois — disse de forma cativante, e não pude
conter um pequeno sorriso. Podia ser um bastardo oportunista, mas não
se podia negar que era encantador.
Sorriu-me em resposta.
—Muito bem.
Segui Beldar escada acima e este guiou o caminho até o refeitório. Era
mobiliado com austera simplicidade, as elegantes cadeiras negras
contrastavam com as paredes neutras e o piso de madeira natural. Todo
mundo se encontrava ali, sentado em torno de uma longa mesa de
solenidade com baixela de porcelana, talheres de prata polidos,
candelabros de cristal e reluzente luz de velas. Mona Sera se sentava na
cabeceira da mesa. Só quem estava presente eram os homens, não
havia outras mulheres. Nem Gryphon nem Amber estavam, percebi com
tristeza.
Beldar me sentou no outro extremo da mesa, um lugar de honra,
possivelmente, ou possivelmente porque se tratava do lugar mais
afastado de Mona Sera. Suficientemente longe para que a irritante e
abrasiva presença da outra rainha apenas se percebesse. Ter tão
próximos perto de vinte homens era por outro lado um novo golpe para
meus sentidos. Não lutei contra a percepção, deixei que flutuasse sobre
mim, agradecida de me sentar. O truque, aprendi, era absorvê-lo, e
baixar o volume como um ruído indesejado. Os homens que se
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encontravam mais perto se mantinham rígidos e me olhavam com
cautela, e me perguntei com sarcasmo se era porque temiam saltar
sobre mim ou porque temiam que eu saltasse sobre eles.
Mona Sera inclinou a cabeça, como uma elegante anfitriã.
—Alegra-me tanto que tenha podido se unir a nós, Mona Lisa.
Teve que perguntar meu nome na passada noite. Não, definitivamente
minha cruz não vinha dela.
—O prazer é meu — disse secamente, sabendo que ela se assegurou de
que me unisse fosse meu desejo ou não.
Serviram a comida e descobri onde estavam as mulheres; servindo. Sua
boba. Pelo canto do olho observei Sonia servir a Mona Sera primeiro.
Uma mulher silenciosa e submissa, embora todas as mulheres
parecessem silenciosas e submissas, pôs um prato diante de mim. Dei
uma olhada. O filé sangrava mais do que eu estava acostumada, mas
me obriguei a comer alguns poucos pedaços. Uma garota tem que
manter suas forças, especialmente entre esta gente.
—De sobremesa temos uma surpresa especial — disse Mona Sera; uma
satisfação diabólica envolvia sua voz. Tudo tinha sido
surpreendentemente tranqüilo e civilizado até aquele momento. Sabia
que não podia durar.
A porta se abriu e o aroma foi o primeiro que me golpeou: carne crua
quente. Gryphon entrou dando tropeções, servindo de apóio a um
homem apenas consciente. Ambos estavam nus da cintura para acima e
só vestiam as calças. O peito e o rosto de Gryphon estavam
avermelhados como se tivesse se queimado tomando sol, mas o outro
cara, mais alto e forte, era uma massa de carne queimada vermelha
como uma lagosta, coberta não só de bolhas mais também de pústulas;
pústulas grandes como moedas de vinte e cinco centavos que se
abertas gotejavam um exsudado8 rosado. Seus olhos estavam tão
inchados e inflamados que não podia abrir as pálpebras. Seus lábios
estavam inchados e cobertos de chagas abertas. Seu rosto estava
deformado além de todo possível reconhecimento. Apenas o tamanho
do homem e a cor castanha de seus cabelos me fizeram pensar que era
Amber a quem estava vendo.
Gryphon guiou Amber para prostrar-se ante Mona Sera. Um grosso
pedaço de pele se desprendeu do braço e flanco de Amber quando
8
Exsudado = líquido, de natureza variável, que flui de área inflamada. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Gryphon afastou seu braço que o apoiava para cair sobre seus joelhos
também.
—Amber, parece um pouco cansado depois de passar o dia tomando
sol, seu castigo por me desobedecer — disse Mona Sera soltando uma
risadinha, que terminou abruptamente—. Mas você, meu querido
Gryphon, parece não ter pego mais que um leve bronzeado.
Voltou seus olhos entrecerrados para mim.
—Deixe-me adivinhar, querida filha. Os raios do sol não a queimam. —
Não mais do que o faz à maioria dos humanos — admiti. —Querida,
querida. Transmitiu seu presente ao nosso doce Gryphon — disse Mona
Sera—. E depois de passar apenas uma noite juntos. Que interessante.
Estava começando a odiar que dissesse isso. Significava que estava
pensando e daí não podia vir nada bom.
—Foi providencial para mim que Gryphon não tenha sofrido nenhum
dano nesta terrível experiência. Eu gostaria que fosse de alguma
utilidade para mim no Conselho — respondi com sangue-frio.
Mona Sera me olhou pensativamente.
—Fala como se Gryphon fosse seu.
Dei de ombros.
—Acreditei que o tinha jogado. Em minhas circunstâncias atuais, tenho
que pegar o que encontro. Seus bens defeituosos... a não ser que não se
importe de me ceder algum de seus homens fortes e saudáveis. Como
seu precioso Beldar, por exemplo.
Sorri para Beldar, que ficou gelado, completamente imóvel, o olhar em
seus olhos não me agradecia absolutamente por colocá-lo nisto. Um
prazer, transmitiram-lhe meus olhos.
Mona Sera mostrou os dentes em um frio sorriso.
—Não, filha, não acredito, embora seja certo. Deve ter alguma proteção
no Conselho.
—Então terei que me arrumar com seus destroçados, Gryphon... e
Amber.
—Tomaria ao Amber também? —Mona Sera elevou uma sobrancelha
ante meu atrevimento—. Duvido que sobreviva, de toda forma.
—Melhor para mim se o fizer. E acaso não seria uma impressionante
declaração ante o Grande Conselho que o vissem no cinto de sua filha?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Uma declaração impressionante de verdade. Eu gosto de como
funciona sua cabeça. —Mona Sera sorriu levemente, embora seus olhos
fossem frios—. Por que deveria ser tão generosa?
Recostei-me em minha cadeira.
—A semana passada foi meu aniversário. Tomarei como um presente.
Mona Sera me olhou durante um tempo absolutamente em silencio.
Depois jogou para trás a cabeça e riu e riu até que a risada a fez chorar
e as lágrimas rolaram por suas faces perfeitamente esculpidas. E todos
seus homens riram com ela. Não porque tivessem achado nada
divertido, mas sim porque tinham medo de não rir.
—Um presente de aniversário. —Mona Sera enxugou as lágrimas, rindo
entre dentes—. Muito bem. Meu presente para você. —A risada cessou
abruptamente—. Prepare-se, saímos em uma hora.

Voltamos para baixo, na masmorra, uma vez mais. Inclusive com a


ajuda de Gryphon, chegar havia custado a Amber um monumental
esforço, suas últimas energias as foram gastas descendo as escadas
sem cair.
—Não há espaço para deitá-lo — disse, querendo ajudar, mas incapaz
de sustentar Amber em nenhum lugar sem lhe tirar mais pele queimada.
—No chão — grunhiu Gryphon.
—Está sujo.
—Não pegamos infecções.
Ri sem vontade.
—Só se envenenam com prata ou sol.
Estendi minha calça velha e minha camisa sobre o chão e Gryphon
ajudou com delicadeza Amber para que se deitasse no chão. O gigante
ferido deixou escapar um estridente grito de dor quando suas costas
destroçadas e em carne viva tocou o chão.
—Deus — suspirei olhando o horrível estado em que se encontrava—.
Seu corpo pode se curar disto?
Gryphon me olhou e negou com a cabeça. Olhou para Beldar, que
supostamente estava nos vigiando, entretanto permanecia junto à
porta.
—Beldar, poderia nos trazer água, trapos limpos e um pouco de
bálsamo?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Beldar vacilou, claramente dividido entre nos deixar sozinhos ou não.
Seu olhar voltou quase compulsivamente para Amber de novo. Ou o que
costumava ser Amber. Assentindo freneticamente, sem rastro de humor
em seu rosto, Beldar partiu me deixando preocupada.
Nesse breve momento de descuido pude vislumbrar ao homem por trás
da fachada de despreocupação de Beldar e me dei conta de que o tinha
subestimado. Não voltaria a ocorrer.
—O que podemos fazer? —perguntei a Gryphon.
—Você me transferiu sua habilidade de resistir os raios do sol — disse
Gryphon—. Possivelmente possa fazê-lo também com ele.
Olhei-o sem compreender.
—Quer que transe com ele?
Gryphon estendeu suas mãos.
—Como viu, os varões ganham poder unindo-se a uma rainha.
—Gryphon — disse com cautela—. Inclusive se eu quisesse, não
acredito que esteja em condições agora para pensar em sexo.
—Não posso pensar em nada mais que possa salvá-lo, senhora.
—As rainhas não transam com todos seus homens. Mesmo eu sei disso
— disse duramente.
—Está certa — disse Gryphon, sua voz também roçando a crueldade—.
Mas é a obrigação e a responsabilidade de uma rainha cuidar de todos
seus homens da mesma maneira que esses homens cuidam e protegem
a sua rainha.
—Possivelmente devia dizer isso a Mona Sera em lugar de a mim.
Gryphon suspirou, com um som de cansaço que saía do mais profundo
de sua alma.
—Como já disse antes, Mona Sera é uma de nossas piores rainhas.
—Sempre é agradável ouvir isso de sua mãe.
Gryphon pôs uma reconfortante mão sobre meu ombro. Atraí sua mão a
minha face e mergulhei em seus braços, procurando o consolo em seu
abraço.
—Graças a Deus que está vivo. Sinto muito, sinto tanto. É culpa minha
que nos tenha pego. Fez-me calar.
—Devia ter pensado na atração que a Lua e a cerimônia teriam sobre
você.
—Como podia saber quando eu nunca tinha experimentado isso antes?
Não tão forte. —Farejei e me afastei disso—. Mona Sera assegura não
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Monere – Os filhos da Lua - 01
ter uma cura para o envenenamento por prata. —Na realidade, havia
dito que não havia cura.
Obrigou-se a sorrir.
—Era uma esperança muito pequena desde o começo.
—Mas vamos ao Grande Conselho. Perguntaremos a outras rainhas lá.
Procuraremos curadores.
Gryphon sorriu, levou minha mão aos lábios onde posou um terno beijo.
—Meu amor — murmurou —. Se for morrer, ainda há maior razão para
tentar salvar Amber. Embora todos estes anos a serviço de Mona Sera
tenham ferido seu espírito é ainda um grande guerreiro e a serviria bem
se tão somente pudesse ajudá-lo.
Olhei-o com olhos aflitos.
—Como pode querer que me deite com ele?
—Só uma pequena parte de você é humana — disse Gryphon com
doçura—. A maior parte de você pertence à Lua. Não somos como os
humanos. É natural para uma rainha sentir-se atraída por mais de um
homem, tomar a muitos deles como amantes, tanto como o é para os
homens sentir desejo de unir-se com uma rainha. É um instinto de
sobrevivência profundamente enraizado em nós para incrementar as
possibilidades de uma união fértil.
—Poderia nem sequer ajudá-lo — disse—. Está queimado.
—Mas não fará mal a ele — respondeu Gryphon com lógica infalível—. E
percebo um intenso poder de cura escondido dentro de você. É possível
que possa transmiti-lo. Se realmente pensa em reivindicá-lo como disse,
então será sua rainha. Será nossa rainha.
Olhei para Amber. Seus olhos inchados estavam fechados, por isso não
podia nos ver. Nem sequer sabia se podia falar. Mas podia nos ouvir
ainda.
—Deseja isso, Amber? —perguntei.
Amber jazeu ali imóvel tanto tempo que pensei por um fugaz instante
que estava inconsciente. Então soprou sua respiração por seus
inflamados condutos, e seus lábios gretados e cheios de ampolas se
moveram esforçando-se por falar. Mas sua língua estava muito inchada
e sua boca estava tão seca que só saiu um confuso som. Engoliu
dolorosamente e o voltou a tentar. Uma vez mais, só emitiu um som
entrecortado, sem palavras.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Não o entendo, Amber — disse—. Simplesmente assinta ou negue
com a cabeça.
O pescoço e a boca de Amber se relaxaram. Assentiu.
Tomei ar e me inclinei para ele, a decisão estava tomada. Tentaria
salvá-lo. Estava sob meus cuidados agora. Apenas não sabia o que isso
significava quando negociei por ele.
Gryphon retirou com cuidado as calças de Amber. Não tendo sido
alcançada pelo sol, a pele de Amber abaixo de sua cintura era suave e
branca como o mármore. Imaculada. Seu enorme membro estava
flácido, encontrava-se muito atormentado pela dor para estar excitado.
Não podia fazê-lo. Parecia errado tocá-lo desta maneira enquanto
padecia em meio a sua agonia.

—Feche os olhos — sussurrou Gryphon, me beijando sobre as pálpebras


fechadas—. Apenas o toque assim—. Guiou minha mão até a coxa de
Amber. Com os olhos fechados fiz tudo o que pude para tirar da cabeça
o aroma e me concentrar no prazer de tocá-lo. Era mais peludo que
Gryphon, um pêlo longo e de cor canela cobria suas coxas e pernas.
Eram mais sedosas do que pareciam. Percorri com a mão sua perna para
baixo e senti o estremecimento de desejo fortalecendo-se, saltava faísca
entre nós.
—Sua pele é tão suave — apreciei surpreendida em um sussurro.
Deixei-me levar pela atração natural. Levei minha outra mão para cima
para acariciar Amber ao redor dos ossos do joelho e para baixo depois,
sobre a dura curva de sua panturrilha, riscando as elegantes linhas que
formavam tendões e músculos. Esfreguei minha face contra sua peluda
tíbia e cheguei a cheirar a suave fragrância de sua pele.
—Cheira a almíscar. Como um casaco de pele.
E eu gostei. Ao cheirá-lo, algo despertou dentro de mim. Subi, beijando
alguns centímetros de pele, e o acariciei com a boca detrás do joelho,
lambendo aquele vulnerável espaço. Sua perna se contraiu ao segurá-la.
—Tem sabor de sal e suor — disse, e não protestei quando Gryphon
desceu o zíper do vestido, e o tirou de mim, assim como o sutiã e a
calcinha. Deslizei meu corpo por essa potente perna, e esfreguei meus
peitos contra ele e senti seu cabelo acariciando meus mamilos. Abri a
boca e afundei meus dentes nessa robusta coxa, acariciando seus firmes
músculos com minha língua, subindo de maneira ociosa, parando aqui e
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ali para encher minha boca com essa carne musculosa, para provar sua
flexibilidade com meus dentes, para lavar e lamber até que alcancei sua
virilha. Então abri os olhos, com cuidado de olhar apenas para o tronco
inferior.
—Ah, alegro-me por vê-lo — sussurrei—. E é muito, muito grande, como
o resto de você.
Levei-o a boca, meus cabelos caindo sobre ele como uma solta cortina
de seda. Tinha que abrir a boca o máximo possível para poder
abocanhá-lo. Era uma estranha sensação tê-lo dentro da boca, mas não
era desagradável. Dava voltas com a língua em torno de sua
proeminente cabeça e senti que suas coxas se retesavam debaixo de
mim quando chupei essa sensível borda em torno de sua glande.
—Tão grosso.
Uma pequena pérola de fluido próxima ao deslizamento gotejou como
uma doce lágrima em resposta. Voltei a pôr minha boca sobre sua
ponta, o beijando ali e chupando com força. Extraí até a última gota de
fluido, que engoli, e sussurrei meu agradecimento.
—Tem o gosto melhor que um pirulito. Salgado e doce.
O aroma de nossa excitação pesava no ar enquanto o acariciava com os
lábios.
Fechando os olhos, montei sobre ele, guiei-o para mim e senti seu
grosso pênis testando minha entrada. Mas não se introduziu em mim.
Gemi de prazer e frustração. Meneei os quadris ao redor dele,
lubrificando-o com minha umidade ao mesmo tempo em que dava
prazer a mim mesma, e baixei sobre ele uma vez mais.
—OH, Deus. —Respirei—. Está tão apertado.
Coloquei-o dentro, delicioso centímetro a delicioso centímetro, sentindo
sua enorme cabeça me abrindo mais e mais. Todavia tinha apenas
alguns centímetros dentro de mim. Ergui-me e senti seu grito de
protesto, empurrei de novo para baixo sobre ele, ainda mais profundo.
Gemi com aquela libidinosa sensação de tê-lo dentro de mim, tomando,
avançando devagar e cautelosamente em meu interior. Levantei-me
então para me afundar de novo e de novo, até que se deslizou mais
brandamente, mais facilmente dentro de mim.
—Quero você todo inteiro — ofeguei, me elevando e me cravando com
mais força. Ainda não era suficiente.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
De repente suas mãos me agarraram pelos quadris, me mantendo
imóvel enquanto se lançava dentro de mim, me fazendo gritar. Retirou-
se para afundar-se de novo. Uma luz brilhava além de minhas pálpebras
fechadas e soube que emitíamos luz. Senti a onda de poder crescer e
crescer com cada golpe e eu me uni e me igualei ao seu ritmo e força.
Inclinou-me de repente para frente de tal maneira que seu pênis se
esfregava contra meu úmido e inchado clitóris e se cravava em mim
com tal força que me custava respirar, afundando-se até o final. E
pensei desesperadamente: cure... cure. E então a onda se rompeu e o
orgasmo explodiu dentro de mim.
Amber entrou e saiu dentro de mim algumas vezes mais. Então gritou e
ficou paralisado, regando profundamente meu interior, me enchendo de
sua cálida essência.
—Suas mãos estão quentes — resmungou uma voz grave.
Levei um tempo para me dar conta que Amber foi quem falou, e
entender o que isso significava. Abri os olhos e me encontrei com as
mãos apoiadas sobre seu peito e vi impressionada e surpresa que sua
pele tinha se regenerado. Assombrosamente e por completo. Não
restavam sinais nem de pústulas nem de feridas. Tudo o que restou de
sua terrível experiência foi que sua pele se escureceu como a de
Gryphon e estava levemente avermelhada. Seus lábios já não estavam
inchados e seus olhos azuis se transformaram em temíveis chamas
ambarinas, combinando com seu nome. Cintilavam para mim com
dourada claridade cristalina.
De repente o mundo se inverteu e me encontrei sobre minhas costas,
Amber se inclinava ameaçadoramente sobre mim, seus braços fortes
apoiados em cada lado de minha cabeça. Ofeguei com seu movimento e
senti como crescia e se endurecia dentro de mim, no fim de um de seus
lentos batimentos cardíacos. Moveu-se de novo, a mais leve das
carícias, crescendo ainda mais. Escapou-me um gemido e fechei os
olhos. Mas outro som, algo que se movia, fez-me abri-los outra vez.
Sob o batente da porta se encontrava Beldar, seu ávido olhar fixo em
nós; em seus braços levava uma pilha de lençóis, uma grande terrina se
balançava em cima dela, e uma jarra pendurava esquecida de uma de
suas mãos.
Encolhi-me gritando angustiada e me grudei ao peito de Amber,
vermelha de humilhação e vergonha.
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O olhar que Amber lançou a Beldar fez que o homem, menor, se
afastasse rapidamente, desviando o olhar.
Fechei firmemente os lábios, contendo outro gemido quando Amber se
deslizou para fora de mim e girou sobre seu flanco, me escondendo
detrás de seu enorme corpo.
O contato de sua gigantesca mão sobre meu rosto apaziguou minha
horrível confusão.
—Obrigado. —Era uma simples palavra, mas seus olhos... tinha
desaparecido aquele olhar vazio que Amber mantinha como escudo de
controle, revelando emoções quase brutais pela sua intensidade.
—De nada — sussurrei, angustiada pelo que tinha entrevisto.
No que se referia a mim isto tinha sido uma coisa de um dia. Tinha que
fazê-lo saber, mas as palavras se entalaram, incapazes de sair enquanto
ele estivesse me olhando assim.
Gryphon aproximou o vestido de mim e agradeci ao passá-lo pela
minha cabeça. Amber ficou em pé sem fazer caso de sua nudez, com
uma despreocupação que invejei. Tomei cuidado de desviar meus olhos
dessa parte dele ainda úmida com a mescla de nossas essências, essa
parte que se meneava e oscilava com cada um de seus movimentos, e
me dirigi com determinação para a porta.
Beldar retrocedeu quando me aproximei, como se eu fosse perigosa, e
me fez sorrir violentamente, o que o pôs ainda mais nervoso. Bom. —
Preciso tomar banho — disse —. Todos nós necessitamos.

Finalmente outros homens escoltaram Gryphon e Amber aos seus


quartos. Seus olhares assombrados passavam alternativamente do
Amber a mim. Beldar continuava ao meu lado, mas tomava cuidado de
manter uma distância de ao menos metro e meio entre nós, o que me
parecia maravilhoso. Tudo o que me importava nesse momento era
tomar uma ducha. Isso e dar de comer aos meus homens. Parece que
agora tinha dois sob minha responsabilidade.
—Amber e Gryphon precisam comer — disse, quando terminei de tomar
banho. O quarto que me destinaram era mobiliado com simplicidade, o
que contrastava intensamente com o luxo do andar principal. As toalhas
rosa com as quais me sequei eram o único toque belo e feminino no
austero cômodo.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—A cozinha fica no final do corredor à esquerda. —Beldar me indicou
que caminhasse diante dele.
—O que? Não confia em me ter a suas costas? —disse com desprezo,
caminhando para ele, me sentindo perversa; vi-o retroceder com cruel
satisfação—. Tem medo que me lance sobre você...? Ou de ser você que
pule sobre mim?
Beldar sorriu mantendo suas mãos ao alto em gesto apaziguador.
—Deliciosa como é...
Bufei.
—Não desejo fritar ao sol ou morrer de qualquer outra forma dolorosa.
E eu na realidade não deseja me colocar em mais problemas. As coisas
estavam se desenvolvendo de maneira conveniente para nós. Não
queria estragar tudo. De verdade, não queria. Deixei de importuná-lo e
me dirigi à cozinha onde estavam Sonia e outras duas mulheres lavando
pratos e fazendo o que fazem as mulheres de todo o mundo na cozinha.
Para meu alívio não senti a irritante abrasão nem o impulso de atração
em sua presença, apenas o reconfortante reconhecimento de um igual.
—Mona Lisa. —A calidez dos olhos de Sonia encolheu dolorosamente
meu coração.
—Amber e Gryphon não comeram — disse mais diretamente do que
pretendia, porque me sentia incômoda em sua presença.
—Amber se encontra bem o bastante para poder comer? —perguntou
Sonia, seus olhos mostraram surpresa e alívio. Assenti.
—Separei um pouco de comida para eles. Por sorte. Onde estão? —
perguntou Sonia.
—Em seus quartos — respondeu Beldar—. Lavando-se e fazendo as
malas para a viagem.
—Lily, Roselyn — disse Sonia às outras mulheres—. Podem levar os dois
para baixo, ao refeitório?
As mulheres partiram silenciosamente. Sonia tirou dois pratos de
comida que estavam esquentando no forno e os levou a outra sala.
Segui-a acompanhada por Beldar, que era uma sombra silenciosa a
minhas costas. Sonia não tinha marcas nem machucados. Ou estavam
escondidas sob a roupa ou tinham curado.
—Não sente nenhum ressentimento por Amber? —perguntei confusa.
Amber a violou, não é mesmo? Conhecia-o intimamente agora, sabia
quanto dano podia infligir com seu incrível tamanho.
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—Como poderia? —disse pondo os pratos de comida sobre a mesa; suas
palavras estavam cheias de tristeza—. Ele é uma vítima tanto quanto
eu. E foi tão suave quanto possível.
Havia tanto que precisava perguntar a ela, que precisava lhe dizer. Mas
a importuna presença de Beldar me obrigava a refrear-me. Ele era os
olhos e os ouvidos de Mona Sera e eu apenas me permiti observar Sonia
em um incômodo silêncio.
Ela não sentia essa limitação. Suas pequenas mãos pegaram as minhas
e as apertaram com emoção. —OH, Mona Lisa. Alegro-me tanto de que
esteja bem.
—Eu... —deixei escorregar minhas mãos entre as suas, e levei uma mão
à cruz escondida—. Obrigado. — Sonia sorriu.
—De nada, de verdade — disse doce e compreensivamente. Os guardas
acompanharam Gryphon e Amber até o refeitório e depois partiram, me
dando alguns olhares receosos e especulativos que me fizeram apertar
os dentes.
—OH, Meu deus — disse Sonia, observando assombrada a recuperação
de Amber. Baixou os olhos para suas mãos e os elevou de novo. Os
olhos de Amber se encontraram brevemente com os dela, incômodos,
agradecendo educadamente a ela. Afastou-os depois e se ocupou de
comer. Gryphon colocou igualmente mãos à obra com seu jantar; tinha
bom apetite apesar de parecer estar um pouco cansado. Na realidade
todos nós estávamos cansados.
—É uma curadora, e bastante poderosa para ser tão jovem — disse
Sonia com discreto assombro.
—Não sei se curei Amber — admiti —. Poder ser que simplesmente
adquiriu minha tolerância ao sol. Há aqui algum curador com quem
possa falar?
—Não, e essa é a razão pela qual todos acreditavam que Amber
pereceria com total segurança.
—Essa é a razão pela qual todo mundo parece tão surpreso? —
perguntei.
—Isso e o alcance de sua recuperação. —Sonia fez uma pausa e tive a
sensação de que havia algo que não me disse—. Há poucos curadores
que podem fazer o que você fez. Há alguns no Grande Conselho, que é
aonde vamos. Estou segura de que estarão tão ansiosos de conversar
com você quanto você com eles.
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Monere – Os filhos da Lua - 01

Capítulo seis
Como viajavam os lunáticos? Os ricos, claro. Voavam. Em seus aviões
privados. Não precisávamos cruzar os territórios de outras rainhas,
simplesmente passávamos por cima. Economizava um montão de
problemas.
Mona Sera se sentou na parte da frente de seu extraordinariamente
equipado avião particular. O mármore e os adornos de ouro reluziam.
Rodeada por suas oito escoltas, virou-se em seu assento reclinável e nos
estudou com expressão presunçosa e calculista, como um gato que
acabou de engolir nata coalhada. Ou ainda melhor, como uma serpente
que tivesse devorado um rato inteiro e o digerisse enquanto ainda se
retorcia vivo em seu interior. Não cabia em si de satisfação. Sentei-me
na parte de trás, separava-nos todo o espaço que tinha de comprimento
o avião, encaixada entre Gryphon e Amber, e bocejei.
—Dorme — disse Gryphon. Afastou o braço da poltrona entre nós e me
puxou para seu lado.
Ignorando Mona Sera, que nos estudava com frieza com seus olhos de
réptil, me aconcheguei entre seus braços e apoiei a cabeça sobre seu
ombro.
—Você e Amber precisam descansar também.
—Faremos turnos.
—Turnos?
—Um de nós deve permanecer alerta. Farei a guarda primeiro. —
Pisquei.
—OH. Eu farei a seguinte então. Acorde-me quando for meu turno.
Gryphon e Amber trocaram um olhar.
—Uma ocorrência que a honra — disse Gryphon—, mas não será
necessário. Basta eu e Amber.
—Homens. Sempre igual. Carregados de estúpidas idéias machistas —
sussurrei, muito cansada para discutir com eles. Minhas pálpebras se
fecharam, pesavam muito para abri-las outra vez e perdi o sorriso que
compartilharam meus homens.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Despertei três horas mais tarde quando estávamos aterrissando, minha
cabeça sobre o colo de Gryphon, que acariciava meus cabelos com a
mão. Sentei-me e retirei as mechas soltas colocando-as detrás das
orelhas.
—Descansou um pouco?
—Sim.
Virei-me para Amber. —Como se encontra?
—Melhor, senhora — respondeu educadamente, com esse frio
autocontrole de novo alerta. Supus que era sua defesa e
comportamento habitual.
Estendi a mão automaticamente para avaliá-lo, mas me detive. Duvidei,
incômoda de tocá-lo com tanta liberdade.
—Posso?
Amber assentiu, seus lábios firmes não sorriam.
Desabotoei cautelosamente um botão e deslizei minha mão sobre seu
peito nu. Senti um formigamento na mão e sorri feliz depois de examiná-
lo.
—Está bem.
Torpemente o abotoei de novo enquanto ele permanecia ali sentado e
completamente sério, deixando-me realizar meu pequeno trabalho.
Virei-me para Gryphon que levantou a camisa, sem que tivesse que
pedir. Senti um novo formigamento e uma coceira, mas minha mão não
se aqueceu quando cobri sua ferida. Não sorri para ele. O veneno se
estendia lenta e insidiosamente, e não havia absolutamente nada que
eu pudesse fazer para remediá-lo. Retirei minha mão sem olhá-lo.
—Não estar acontecendo nada — disse Gryphon com uma doçura que
me umedeceu os olhos.
Sacudi a cabeça. Acontecia sim. Claro que acontecia. Elevei o olhar
para me encontrar com os doentes olhos negros de Mona Sera. O avião
fez um ruído surdo ao aterrissar e ela virou-se girando de novo sobre
seu assento; não tinha dúvida de que sua mente calculadora e
displicente computava tudo o que tinha visto.
Aterrissamos em Bennington, Minnesota, sobre uma pista
perfeitamente sinalizada. Via-se uma generosa extensão de negro
asfalto sob as brilhantes luzes noturnas que delimitavam o campo de
aviação. Fosse quem fosse esses Moneres, não parecia lhes faltar
dinheiro.
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—Por que a Grande Corte fica aqui? —perguntei enquanto descíamos
pela escadinha—. O que é que há em Minnesota?
—Na realidade —disse Gryphon secamente— possuímos centenas de
acres de florestas aqui e o clima é fresco o ano todo. A fronteira com o
Canadá se encontra a menos de trinta e cinco quilômetros ao norte e
estamos rodeados de reservas indígenas e parques estaduais em torno
do resto do perímetro. Perfeito, não é verdade? Se a pessoa quer ficar
isolada.
Esperavam-nos três caminhonetes cinza, novas, porém normais. Dois
dos condutores eram varões de sangue puro, mas o terceiro era um
mestiço ruivo e tinha o rosto, jovem e alegre, salpicado de sardas
avermelhadas. Sabia que era mestiço porque irradiava muito menos
poder, virtualmente nada na realidade. Olhamo-nos um ao outro com
equiparável fascinação. Não havia atração entre nós, apenas um sentido
de reconhecimento, como com as mulheres, mas muito mais fraco.
—Há muitos mestiços aqui? —sussurrei para Gryphon enquanto
carregavam nossa bagagem para as caminhonetes.
—Muito poucos. São raros entre nós. Quase todos vivem entre os
humanos, sem saber de nossa existência.
—Por quê?
—Os mestiços são essencialmente humanos, mais frágeis, requerem
mais cuidados, e freqüentemente morrem se ficarem entre nós. À
maioria os abandona ao nascer em hospitais, orfanatos e instituições
similares.
Como tinham feito comigo. Inconscientemente minha mão procurou a
cruz.
Beldar se aproximou e devolveu minhas adagas e a espada a Amber.
Observei a espada de perto. Era longa, bastante grande de fato, mas
parecia quase de brinquedo embainhada no cinto de Amber.
Durante cinco longos minutos circulamos por uma estrada privada
pavimentada, a única alteração em um terreno por outro lado
completamente natural e antigo, até alcançar o extenso complexo onde
várias edificações menores ladeavam uma enorme e imponente casa
senhorial de três andares. A natureza selvagem do bosque nos rodeava
e prendia em uma agreste e pacífica serenidade. O céu começou a
iluminar-se à medida que a noite se retirava, dando passagem a um
rosado amanhecer.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Um homem impecavelmente vestido e não muito mais alto que eu se
inclinou ante Mona Sera; seus cabelos, pretos salpicados de mechas
prateadas de ambos os lados, não se despenteou.
—Bem vinda, rainha Mona Sera. Passou-se muito tempo desde a última
vez que nos honrou com sua presença.
Um pequeno exército de serventes permanecia em imóveis em seus
lugares detrás do elegante personagem.
—Obrigado, Mathias — replicou Mona Sera com um sorriso
verdadeiramente enigmático que não deixava nada em claro—. Esta é
minha filha, Mona Lisa.
Mathias fez uma leve reverência.
—Seja muito bem-vinda, jovem rainha. Alegramo-nos de que tenha
vindo. Meu cargo é o de mordomo da Grande Casa. Se necessitar de
alguma coisa ou se tiver alguma pergunta, por favor, não duvide em me
procurar. Outros membros do Conselho chegaram, mas já se retiraram
para o dia. Chegarão mais amanhã. No momento lhes mostrarei seus
aposentos e os deixarei sozinhos para que descansem.
Sob sua eficiente direção, separou-se nossa bagagem e a levou ao
andar superior. A Mona Sera e suas oito escoltas foram conduzidas
através de um corredor e, graças a Deus, me levaram por outro. Deram-
me um quarto enorme e luxuosamente preparado que estava conectado
com outras duas salas independentes. Tudo normal a não ser pelo fato
de que não havia janelas. Pensei que certamente era melhor que dormir
em ataúdes.
A porta se fechou deixando nós três sozinhos no grande quarto
repentinamente silencioso.
—Onde quer sua bagagem? —perguntou Amber; seu rosto, firme e
duro, carecia de expressão.
Engoli saliva. Bom, que diabos, possivelmente os ataúdes não tivessem
sido tão má idéia depois de tudo. Poderia ter resolvido o dilema de onde
íamos dormir cada um.
—Bom, é tudo seu não? Eu não trouxe nada.
—O baú pequeno pertence a você — disse Gryphon—. Sonia pôs um
pouco de roupa e algumas outras coisas para você.
—Bendita seja. Então podem deixar isso aí. E suas coisas Gryphon, se
quiser. —Este último acrescentei em voz baixa, como uma tímida
segunda idéia.
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Um bonito sorriso iluminou o rosto de Gryphon.
—Eu gostaria disso.
Sem uma palavra, sem mudar de expressão, Amber levantou facilmente
seu baú e o levou ao cômodo contíguo. Lancei um olhar intranqüilo para
Gryphon e segui Amber até o outro quarto, fechando a porta a minhas
costas.
—Amber?
Deixou o baú aos pés da cama. —Sim, senhora.
O rosto e a voz de Amber estavam cheios de reserva, mas eu recordava
daquela ardente chama de emoção em seus olhos.
—O que fizemos... —Mordi o lábio—. Sei que a maior parte de mim é
Monere, mas ainda continuo sendo humana, dentro de mim, minha
mente. —Suavizei a voz—. É um amante magnífico.
O azul de seus olhos se iluminou, o que fez que me precipitasse.
—Mas quero o que querem outras mulheres humanas. Um só homem. E
para mim, esse é Gryphon.
Os olhos de Amber, tão terrivelmente expressivos quando ele permitia,
olharam para o chão.
—Entendo, senhora.
—Sei que é terrivelmente injusto para você. —Respirei profundamente
para ganhar forças e exalei—. Amber, é livre para ir com outra rainha.
Há alguma em particular com quem deseje ir? Se houver, tentarei
interceder por você.
Amber levantou a cabeça bruscamente; tinha o cenho franzido e
resultava intimidante, seu rosto ficou sombrio. Negou com a cabeça.
—Passaram-se mais de vinte e três anos desde a última vez que uma
rainha me levou ao seu leito.
Minhas sobrancelhas se enrugaram. Que diabos queria dizer com isso?
Que estava disposto a renunciar ao sexo? Ou que não se importava de
esperar tanto para unir-se, como parecia que gostavam de chamá-lo,
comigo? Maldição, nunca foi boa descobrindo do que estão falando.
Continuei me esforçando.
—Há alguma rainha em particular com quem deseje... ?
—Não — respondeu bruscamente.
—Você tem encontros ou algo? —aventurei-me vacilante—. Outras
mulheres de sangue puro?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Mona Sera não permitia. —Sua voz era um fraco resmungo. Parecia
tão incômodo quanto eu com o tema.
—OH, bom. Por mim está bem — disse retrocedendo para a porta—.
Mais que bem. Se vê você com elas, sabe. Com outras mulheres. Não as
violar — disse apressadamente, para que ficasse completamente claro
—. Mas pode deitasse com elas. Praticar sexo com elas. Consentido, está
claro.
Dei-me conta de que estava balbuciando como uma idiota e fechei a
boca.
—Entendo, senhora.
—Se em qualquer momento você, isto é, mudar de ideia a respeito de ir
com outra rainha...
—Não mudarei de idéia — disse severamente.
—Bom, se o fizer... apenas me diga isso Tinha a mão sobre o trinco da
porta e já o estava girando, encontrava-me a um passo de minha feliz
fuga, quando ele falou de novo.
—Senhora?
—Sim?
—Por que me salvou — perguntou, sua voz era um profundo e suave
murmúrio—, se não desejava nem a mim nem a minha proteção?
A fuga esteve tão incrivelmente perto. Dei um suspiro e soltando o
trinco da porta me virei para Amber e para a incrivelmente incômoda
discussão que tanto desejava deixar de lado.
—Não é que não o deseje. Eu o desejo, mas não vou me deitar com
cada varão que me atraia.
—Outras rainhas o fazem.
Nenhuma outra afirmação podia ter me feito perder a paciência.
—Não sou como outras rainhas — quase gritei—. Nem desejo ser —
acrescentei um pouco mais calma—. Valorizo sua proteção, Amber. Não
me interprete mal. É mais que outros três homens juntos. Apenas queria
dar a você a opção. Quero que seja feliz.
—Por quê? —perguntou.
—Por quê? —repeti com incredulidade—. Porque todo mundo merece
ser feliz.
Parecia um conceito alheio a ele. E esse honesto desconcerto quase
quebrou meu coração.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Por que me salvou? —perguntou de novo. Passei os dedos pelos
cabelos.
—Não sei. Porque não fez nada para merecer esse castigo. Porque me
resultava difícil permanecer impassível e não tentar ao menos salvá-lo
se tinha a capacidade de fazê-lo.
Olhou-me como se eu fosse um complicado quebra-cabeça que não
podia resolver. Fazia tudo o que estava em minhas mãos com esse
discurso, salvo abrir minhas veias. Já era suficiente. —Boa noite Amber.
Está seguro...?
—Não a abandonarei, minha rainha — disse, irritado.
Por alguma perversa razão me agradava ver que Amber parecia muito
zangado comigo.
—Alegro-me. — Dei um olhar cálido e agradecido para ele; queria fazê-
lo entender que o apreciava, que me alegrava de que tivesse escolhido
ficar comigo.
Fechei com suavidade a porta que conectava os quartos detrás de mim.
Gryphon tinha desfeito nossa bagagem e tinha guardado os baús em
algum lugar. Estava sentado na cama me esperando, minha bonita
criatura da noite ferida.
—Está cansado? —perguntei.
—Deseja descansar agora?
—Depois de comer. Estou faminta. Era difícil comer com Mona Sera me
observando. Crê que terão um pouco de pizza ou espaguetes aqui? —
perguntei com pesar.
Enrugou o cenho.
—Não sei. Vamos averiguar.
Amber nos esperava lá fora no corredor, um enorme anjo da guarda de
rosto sério.
—Suponho que a porta seja apenas uma ilusão de privacidade —
queixei-me.
—Acompanharei vocês — disse Amber.
—Seria mais prudente, senhora — acrescentou Gryphon, adiantando-se
a qualquer possível queixa de minha parte.
Suspirei, deixando de lado meu aborrecimento. —Sinto muito, rapazes.
—Absolutamente — replicou Gryphon com toda solenidade—. É nossa
obrigação cuidar e prover de alimento a nossa humana. Inclusive Amber
deixou escapar um sorriso.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Certo, certo. Muito engraçado. —Mas meu estômago estava se
queixando de que não o ia saciar com piadas ruins. Um lacaio esperava
ao pé da escada
— No que posso lhes servir? — Um ouvido superior tinha sua utilidade.
—A senhora deseja comer — respondeu Gryphon—. Têm por acaso um
pouco de pizza ou espaguete?
—Nada exceto filé.
Elevou uma sobrancelha como dizendo «Que estranhos pedidos destes
humanos».
—Veremos o que se pode fazer. Por aqui, por favor.
Era uma bonita casa antiga, decorada com obras de arte e retratos
maravilhosamente antigos de homens e mulheres de aspectos solenes,
alguns deles vestidos no estilo isabelino, um usava uma cruz das
Cruzadas, outro com uma armadura de verdade e um elmo sob o braço.
O retrato de um homem magro e elegante, de cabelo negro com tintura
prateada nas têmporas, destacava-se por sua pele bronzeada que
brilhava como um cálido farol entre o resto dos rostos, todos eles
pálidos. Parecia bastante comum se não fosse por suas longas e afiadas
unhas.
O lacaio nos levou até o refeitório e nos sentou em uma das mesas
menores para depois desaparecer na cozinha. Pouco depois a porta se
abriu e o mestiço ruivo que pouco antes tinha me fascinado tanto entrou
trazendo uma bandeja de queijos, biscoitinhos salgados e fruta. Deus
abençoe sua alma parcialmente humana. Que maravilha, pensei.
—Tinha-o preparado — disse o ruivo com um sorriso que deixava ver
todos seus dentes—. Para uma eventualidade.
—OH! —exclamei com deleite e fiz gestos para que se sentasse e se
unisse a nós. Fê-lo de boa vontade, olhava-me com deleite enquanto eu
comia com gosto.
—Mmm, divino — exclamei saboreando o doce suco de uma uva em
minha boca.
Amber se inclinou, farejou o queijo, e franziu o cenho. —Cheira a podre.
—É o mofo do queijo. Prova um pouco — balbuciei com a boca cheia.
Amber respondeu com total educação, mas seus lábios se curvaram
mostrando sua repugnância. —Não, obrigado, senhora.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Tenho que envolvê-lo hermeticamente porque se não deixaria todo
mundo louco — disse aquele homem; bom, melhor dizendo aquele
menino.
—Qual é seu nome? —perguntei.
—Jamie. E o seu?
—Mona Lisa. Quantos anos tem?
—Dezenove. E você?
—Vinte e um.
—Tenho uma irmã mais velha — respondeu, e parecia como se suas
sardas estivessem dançando sobre seu expressivo rosto—. Tersa. É
cinco anos mais velha que eu.
—É também...
Jamie assentiu.
—Sim. Vou trazer Tersa e a minha mãe para que a conheçam amanhã.
—Genial. Eu adorarei.
Amber e Gryphon escutavam a torrente de palavras que trocávamos
nós dois até que Jamie e eu ficamos calados de repente, nos olhando
como idiotas um ao outro.
—Que irado — exclamei, feliz de estar por fim com alguém que era
como eu. Ainda melhor, com alguém que falava como eu.
—Irado? —murmurou Amber testando a palavra com sua voz grave e
baixa de barítono.
—Sim, irado. Como uau, Deus, genial — expliquei—. Mas, que idade
tem, Amber?
—Cento e cinco anos.
Meus olhos se abriram, ficando perfeitamente redondos. —De verdade?
Jamie assobiou. —Velho, cara.
O olhar de Amber foi para lhe fazer calar. —Já o faremos animar-se —
sussurrei. Jamie olhou dúbio para aquele homem enorme. —Tem
certeza? —respondeu-me também em um sussurro.
—Tenho certeza. Quanto maior eles são...
—... Mais dura é a queda. —Jamie e eu rimos juntos.
—E menino, não sabe como treme o chão quando este cara cai — disse
rindo.
—Como sabe?
—Porque o joguei.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Os olhos de Jamie quase saem das órbitas. —Não. Está tirando o sarro
de mim.
Levantei minha mão direita no ar. —Juro.
—De verdade? Poderia me ensinar? E a minha irmã também?
—Claro.
—Irado — soprou.
Se tivéssemos cauda, a estaríamos meneando-a.
Gryphon fez uma careta. —Já basta, crianças.
Jamie olhou para Gryphon e sussurrou.
—Outro ancião?
—Sim, setenta e cinco.
—O que acontece com você e os caras mais velhos?
—Não sei — dei de ombros—. Mas tem que admiti. São interessantes. E
dizem coisas muito bonitas.
Gryphon suspirou e Amber tinha uma expressão doída. Nós sorríamos
satisfeitos.
Empurrei para trás minha cadeira, me sentindo felizmente e satisfeita.
—De acordo, hora de ir dormir. Obrigado, Jamie. Foi maravilhoso.
—O que você gostaria para amanhã?
—Tem espaguete?
—Com almôndegas?
—Não, apenas a massa de sempre com molho de tomate.
—Feito.
Subimos as escadas.
—Crianças, não é? —disse depois, aconchegada sobre o peito de
Gryphon. Estava se convertendo rapidamente em meu lugar favorito.
—Às vezes me esqueço do quanto você é jovem — murmurou Gryphon,
me acariciando brandamente o cabelo. Parecia desfrutar brincando com
minhas longas mechas, esfregando-as entre seus dedos.
—Obrigado, acredito. Não está tão mal aqui.
—Parece ter encontrado um amigo.
—Não é genial? Estou desejando conhecer sua irmã.
Um bocejo desencaixou minha boca. Cobri a boca com a mão e ri
bobamente. Tão pouco comum em mim. Antes não ria assim, foi o
último que pensei antes que o sono me envolvesse como uma suave
colcha.
—Boa noite, Gryphon — disse, fechando os olhos.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Doces sonhos, Mona Lisa — sussurrou Gryphon, acariciando meus
cabelos enquanto eu adormecia—. Doces sonhos.

Capítulo sete
O sol era uma bola de fogo que mal se elevava sobre o horizonte,
embora faltassem horas ainda para o por do sol quando despertei
descansada, satisfeita, e desfrutando de sentir meu amante ao meu
lado, o suave batimento de seu coração, o leve sussurro de sua
respiração. Levantei a cabeça, abandonando o peito de Gryphon para
olhar seu rosto, e fiquei sem fôlego ante a dilaceradora beleza com qual
foi agraciado. Quis passar minhas mãos por entre seus negros cachos,
provar seus lábios e sentir a suavidade de sua nuca. Mas desci
lentamente daquela cama tão confortável para deixá-lo dormir e
descansar.
Escutei um momento e não senti nenhum movimento no outro quarto.
Amber ainda dormia. Abri meus sentidos ainda mais e não detectei
nenhum movimento no andar de baixo da casa. Coloquei a cruz de prata
que deixei sobre a mesinha a noite e deslizei dentro daquele vestido
preto, tão formal para meu gosto, para sair silenciosamente do quarto,
descer as escadas e corri para fora.
Era um bonito dia, frio e sereno. O inverno estava próximo, e sentia a
luz minguante do sol brandamente nos olhos. Tinha passado algum
tempo sem ver a luz do dia, desde que comecei a trabalhar no turno da
noite no São Vicente. Que distante parecia tudo aquilo agora, aquela
vida, aquele trabalho. Entretanto não tinham passado mais que dois
dias, dois breves dias, e tudo havia mudado.
O bosque me chamava e entrei em seu lenhoso abraço, respirando o
perfume da terra úmida sob um tapete de folhas, livre e a salvo sob a
luz do sol. Não eram os animais que temia e sim a outros de minha raça.
Eram, com diferenças, muito mais perigosos. Mas agora estavam
dormindo e me encontrava segura em minha solidão.
O som de uma correnteza acariciou meus ouvidos e o segui até uma
pequena clareira, feliz com meu descobrimento. Um arroio de águas
inquietas corria junto a uma árvore caída onde encontrei o galho

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Monere – Os filhos da Lua - 01
perfeito para me sentar. A erva a meu redor tinha sido esmagada pelas
criaturas que pararam ali para saciar sua sede. Ajoelhei-me e bebi da
água geada; era mais doce que qualquer outra que pudesse sair de
alguma torneira. Ri com gosto, elevando o rosto para o céu.
Não ouvi ruído algum, mas senti algo que fez eu me virar. Um homem
de pele dourada se encontrada do outro lado da clareira; seus cabelos
eram de um castanho tão escuro que eram quase negros. Seu traje,
uma ampla camisa de seda branca, resultava estranho para estar
passeando pelo bosque. Suas abotoadoras brilhavam por causa do brilho
dos diamantes. Suas unhas longas e pontudas pareciam afiadas e letais.
Tinha uma assombrosa semelhança com o homem do retrato, só que
não havia em seu cabelo nenhum sinal prateado, certamente seria um
ancestral. O mais estranho era a falta de atração entre nós. Não sentia
esse impulso irresistível. Tampouco abrasão. Apenas uma leve sensação
de reconhecimento, mas diferente do que sentir com Sonia ou inclusive
com Jamie.
—Olá — disse —. Tomei seu lugar?
Elevou uma sobrancelha com elegância.
—O lugar?
—A clareira. Segui o som da água até aqui e encontrei este bonito lugar
escondido. É seu?
—Venho aqui em algumas ocasiões, quando me encontro na corte.
—É um dos membros do Conselho?
—Meu pai ocupa um posto. Eu o represento.
Tinha uma forma estranha de falar. As palavras que usava eram
comuns, mas a forma de se expressar e um leve sotaque as fazia pouco
comuns e indicavam uma idade avançada. Seus olhos, escuros como a
noite, estudavam-me com interesse.
—Mona Lisa, suponho. A razão pela qual nos reunimos todos aqui.
Fiz uma careta.
—Parece que sim. Sinto muito se tiver transtornado seus planos.
—Que seja sempre por motivos tão bonitos e fascinantes. —Fez-me
uma reverência, um gesto cuidadoso com um movimento fluido e
elegante que lhe dava uma aparência de total naturalidade—. Príncipe
Halcyon, para servi-la. —Seu olhar recaiu sobre meu pescoço—. Usa
uma cruz.
Levei a mão até onde se encontrava a cruz sob meu vestido.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Como soube? Ah, deve ter ouvido que a prata não me incomoda. —
Inclinei a cabeça olhando-o com curiosidade—. O sol, tampouco, parece
incomodar você.
—Não — disse com reserva—. O calor não é um problema para mim.
Havia algo nesse tom, um brilho em seus olhos, e me dei conta, com
aquela estranha capacidade de percepção que adquiri, de que se
tratava de solidão, de tristeza.
—Eu também sou diferente — disse brandamente—. Em parte humana,
em parte lunática. Incompleta também.
—Lunática?
—Assim é como chamo os Monere.
Por um breve instante, seus olhos brilharam divertidos, depois a
sensação se desvaneceu. —Onde estão suas escoltas? — Suspirei.
—Por que cada varão que conheço me faz a mesma pergunta?
Olhou-me com curiosidade, mas permaneceu calado, como se soubesse
que era a melhor maneira de me obrigar a lhe dar uma resposta. E
estava no certo, maldito seja.
—Ainda estão dormindo. Precisavam descansar. —Levantei o queixo
com agressividade—. Ontem foi um dia muito duro para eles. Um deles
quase morre e o outro... o outro está doente.
Halcyon franziu os lábios, a meio caminho entre a risada e a
exasperação.
—Não acredito que eles vejam isso da mesma maneira quando
despertarem e perceberem que não está.
Fiz um gesto de desdém com a mão.
—Estou segura durante o dia e voltarei antes que despertem. — pisquei
um olho para ele, deixando-o desconcertado—. Será nosso pequeno
segredo.
—Temo que não, minha pequena rainha rebelde — disse para meu
desgosto.
—Vamos, não aconteceu nada — tentei enrolá-lo—. O que poderia fazer
você se calar?
—Provar seu sangue? —disse brandamente. De repente estava
sustentando meu pulso em sua mão. Um segundo antes nos separava a
distância da clareira, um segundo depois se encontrava junto a mim.
Não o vi mover-se, nem sequer algo impreciso.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—OH, Meu deus. É rápido — disse surpreendida, mas sem me alarmar.
Não me sentia ameaçada por ele.
Aproximou o nariz do ponto em meu pulso onde se percebia minha
pulsação e aspirou profundamente, como se inalasse uma secreta
fragrância. —O que diz, pequena?
—Não seja tolo. Sei que não bebemos sangue — ri e retorci o pulso
levemente para escapar de sua mão.
A surpresa apareceu outra vez em seus olhos, olhos da cor do chocolate
negro. Seus olhos me predispunham favoravelmente para ele. Acontece
que gosto de chocolate.
As comissuras de seus lábios se contraíram formando um sorriso que
animou seu rosto; passou de atraente a bonito.
—Não?
—Não, Gryphon me contou que os vampiros não existiam. Só está
zombando de mim. Não precisa dizer a Gryphon nem a Amber que saí
sem eles, não é mesmo?
—Amber pertence a você também? —perguntou Halcyon com enorme
assombro.
—Se está pensando no cara grande e alto, com a constituição de um
carvalho gigantesco, sim. —Meus olhos se obscureceram—. Teria sido
cruel pedir a ele que saísse à luz do sol comigo quando quase morreu
ontem por culpa do sol, não acha?
Halcyon viu a sinceridade em meus olhos e negou com a cabeça.
—É muito incomum.
Sorri. Terreno familiar.
—Isso me dizem. Eu acredito que é algo bom, não concorda? Venha,
conheço um amigo. Não direi nada se você tampouco o disser.
Divertia-se, sorria entre assombrado e confuso.
—Um amigo não? Se for isso o que deseja. Como «amigo» a
acompanharei de volta a seu quarto. Pedirei também sua palavra de
honra de que contará a seus homens nossa pequena aventura.
Não ia ceder neste tema. Rendi-me com uma elegante careta de
desgosto.
—Certo, de acordo. Prometo.
Ofereceu-me seu braço e eu o segurei mal-humorada.
—Deixe-me adivinhar—disse quando retornávamos—. Tem mais de cem
anos, não é mesmo?
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Olhou-me de uma maneira da mais peculiar.
—É correto.
—Aritmética. —Fiz um gesto com a mão—. Suas maneiras. O modo que
fala. A única pessoa que conheci até agora de minha idade é Jamie.
—Jamie?
—O mestiço ruivo.
—Ah, acredito que é o filho de uma das cozinheiras da casa.
—É genial. Fala como eu.
— Sério? Em geral as rainhas jovens não se apresentam ante a Grande
Corte a não ser que tenham algo a solicitar.
—Genial — disse resmungona—. Isso significa que todas as rainhas que
conhecerei hoje serão velhos corvos antipáticos.
Jogou a cabeça para trás e riu com vontade, sem refrear-se. Sem dúvida
minha imagem foi precisa. Fez-me feliz vê-lo rir assim. Como no caso de
Gryphon, tive a sensação de que não ria muito freqüentemente.
—Ah, Mona Lisa. Vou desfrutar vendo-a. De verdade vou desfrutar
muito.

Caminhava junto com Halcyon pela grama e nos dirigíamos ao alpendre


quando Gryphon e Amber saíram repentinamente pela porta principal.
Apenas vendo seu sisudo e sério semblante soube que ia ter problemas,
até mais sérios do que esperava. Ao ver quem me acompanhava,
ficaram pálidos. Ambos ficaram rígidos, com a mesma atitude de um
perigoso predador. Amber desembainhou sua espada.
—Olá meninos — disse alegremente, mas com os nervos a flor de pele
em meio da crescente tensão—. Já estava voltando.
Detrás de mim, Halcyon retirou seu braço de minha mão. Movia-se
muito devagar, afastando-se de mim.
—Não sofreu nenhum dano — disse tranqüilamente.
—O Príncipe Halcyon estava me escoltando na volta—disse—. Pode
afastar sua espada, Amber.
Amber manteve a reluzente espada na mão.
—OH, pelo amor de Deus. —Aproximei-me com grandes passadas
daquele gigante, inclinei para trás a cabeça e o olhei fixamente—. Afaste
a espada. Agora.
Embainhou de um golpe a espada, que penetrou na bainha com um
forte chiado, e, sem tirar seus olhos de Halcyon, Amber me levantou
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Monere – Os filhos da Lua - 01
como se fosse uma boneca para me pôr detrás dele. Odiava que me
tratassem como se fosse uma menina. Odiava que fizessem me sentir
como se tivesse feito algo errado, especialmente se sabia que o tinha
feito.
Sai de detrás de Amber e toquei no braço do enorme pedaço de imbecil.
—Pare. Halcyon é um amigo.
Os três, incluído Halcyon, que estava sorrindo com ar zombador até
aquele momento, se viraram para me olhar cheios em partes iguais de
horror e surpresa.
—O quê? — perguntei.
Todos os olhares se voltaram para Halcyon como perguntando se aquilo
era verdade. Entreabri os olhos.
—Corrija-me. Obrigou-me a voltar para casa e me fez prometer que
contaria a eles que..., isto..., que sai por um momento.
Por um tempo, todos permaneceram em silêncio, completamente
estupefatos.
—Se isso for verdade — disse lentamente Gryphon—, na verdade
estamos em dívida contigo, príncipe Halcyon.
—Absolutamente. Só fui útil à nova rainha — respondeu Halcyon,
acrescentando depois mais carinhosamente—: É jovem. Levará algum
tempo para aprender nossa forma de fazer as coisas.
—Tem nosso mais sincero agradecimento, príncipe Halcyon — disse
Gryphon fazendo uma reverência.
Halcyon assentiu com uma leve inclinação de cabeça e se retirou.
Vi-o partir profundamente entristecida, especialmente quando Gryphon
se virou para mim e me cravou com seu penetrante olhar.
—Subamos, senhora. Agora.
Não estava me pedindo isso. Agarrou-me pelo braço e me arrastou para
dentro. Subimos correndo as escadas e não paramos até que nos
encontramos de novo em nosso quarto. Amber ficou no corredor.
—Ele a tocou? —explodiu Gryphon.
—Na realidade não. Apenas no pulso.
Agarrou-me ambas as mãos obstinadamente e as examinou
atentamente.
—Estou bem, Gryphon — ri, insegura. Estava um pouco assustada por
sua retraída intensidade.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Levantou os olhos e o sombrio desconcerto que refletiam me golpeou
totalmente. Estava furioso, nunca antes o vi assim. Agarrou-me pelos
braços e me sacudiu com força.
—Jamais volte a sair sem nós. Entendeu?
Sacudiu-me de novo, e depois me rodeou com seus braços e me
espremeu com tanta força que quase me machucava.
—Doce luz, doce luz — murmurava com voz rouca; estava tremendo.
Rodeei-o com meus braços e acariciei suas costas, tranqüilizando-o.
—Sinto muito — sussurrei—. Estou bem.
Gryphon estremeceu e afundou seu rosto em meus cabelos.
—Não volte a fazer isso. Prometa-me
—Prometo — sussurrei—. Mas em nenhum momento corri perigo algum
lá fora. Afastou-se e me olhou incrédulo.
—Que não correste perigo em nenhum momento? Sabe com quem
estava?
—Claro que sei. Com o príncipe Halcyon. É diferente, como eu.
—Diferente. —Soltou uma áspera gargalhada—. É um demônio, uma
alma morta.
Olhei para Gryphon cheia de assombro.
—Essa é a razão pela qual não o ouvi. Não tinha pulsação.
—Seu pai governa o inframundo e Halcyon é seu único filho. Sabe o que
significa isso? —rugiu—. Halcyon é o grande príncipe do inferno.
—OH — foi minha sufocada resposta—. Foi um cavalheiro.
Gryphon se reclinou na cama, sua risada tinha agora um ponto de
crueldade.
—Bebem sangue? —perguntei timidamente.
Sua risada se cortou abruptamente.
—Sim. Bebeu o seu?
Tinha ambas as mãos fechadas em um punho.
—Não — o tranqüilizei, mas não pude deixar de perguntar—: Teria sido
perigoso que o fizesse? Gryphon fechou os olhos um segundo.
—Soube-se de demônios que deixaram secos seus doadores, embora
nunca ouvi dizer que Halcyon o fizesse.
—Podem controlar as pessoas?
—Não, mas a dor ou o prazer que podem fazer você sentir... muitos
seriam capazes de fazer tudo para detê-los ou para que continuassem. É
uma experiência que eu não gostaria que sofresse. Só vê-lo tocando-a...
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ver suas unhas sobre sua pele... —Elevou seus atormentados olhos para
mim—. Vi-o arrancar o coração do peito de um homem com aquelas
unhas. E você nem sequer estava assustada.
Engoli saliva, considerando a repentina e inquietante imagem que me
tinha desenhado. Era difícil imaginar aquele homem elegante e tranqüilo
que eu vi fazendo algo tão brutal e sangrento.
—Não tinha intenção de me machucar.
—Como sabe?
—Simplesmente o senti. Parecia triste. E solitário.
Gryphon estendeu as mãos e me puxou, agarrando-me por ambos os
braços. Estava tremendo.
—Mona Lisa, ele não é alguém que necessita que o salve como
podemos ser Amber ou eu. Nosso poderoso lorde guerreiro Thorane,
inclusive nossas rainhas, têm boas razões para temerem ao Halcyon.
Halcyon não está sujeito a nossas normas. A única coisa que o impede
de levar a cabo o açougue de que é capaz é seu próprio sentido de
honra. É poderoso. E perigoso. Não quero que centre sua atenção sobre
você de maneira nenhuma. Entendeu?
Assenti, mais perturbada do que queria admitir.
—Sinto muito. Apenas... estou acostumada a cuidar de mim mesma.
Recostou-se até que repousou sua face sobre meu estômago. Seus
braços me rodeavam com força.
—Sou seu, alma e coração, entregue a você completamente enquanto
me reste um sopro de vida. Mas não pode pedir que eu viva e depois pôr
descuidadamente sua própria vida em perigo da mesma maneira.
—Não — sussurrei; o remorso me carcomia.
—Como nossa rainha, tem em suas mãos nossas vidas junto à sua,
nosso bem-estar junto ao seu. Pondo-se em perigo nos põe em perigo
também.
Em um sussurro, deixei escapar:
—Sim, sim, tem razão. Tentarei fazer melhor.
—Está fazendo incrivelmente bem. Muito melhor do que ninguém teria
esperado. Apenas... deixe-nos protegê-la — concluiu impotente.
Agachei-me para segurar seu rosto entre minhas mãos.
—Sim, assim o farei — prometi e o beijei. Tocar os lábios de Gryphon
com os meus fez que seu medo, sua preocupação e sua ira se
convertessem em viva urgência sensual.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Arrancou meu vestido com frenesi, desabotoou o sutiã e tirou minha
calcinha com um rápido movimento. Tirei sua camisa da calça com a
mesma urgência, deslizei minhas mãos por debaixo procurando os tesos
músculos de suas costas, sentindo-os nas palmas de minhas mãos com
doloroso alívio enquanto plantava beijos grosseiramente sobre sua face,
sua mandíbula, descendo por seu pescoço. A camisa de Gryphon voou
até o canto mais longínquo e baixou as calças aos trancos. Então o tive,
quente, duro e vibrante, em minha mão. Acariciei-o quão longo era,
apertei-o, e observei com sombria satisfação como jogava sua cabeça
para trás, os músculos de seu pescoço tensos, e gemia enquanto a cor
salpicava suas faces.
Gryphon abriu os olhos, encontrando-se com meu cúmplice olhar e algo
ardeu intensamente naqueles profundos azuis. Virou-me, de barriga
para baixo, de tal maneira que ao me inclinar sobre a cama, meus pés
continuavam tocando o chão. A posição me fez sentir-me vulnerável e
submissa com toda sua compacta longitude curvada detrás de mim;
sobre mim, sua respiração tocava ardentemente sobre meu pescoço.
—Levante-se — resmungou asperamente; suas mãos atuavam sobre as
laterais de meus seios. Elevei-me apoiando-me sobre os cotovelos,
dando acesso a ele, gritando de prazer ao sentir que agarrava cada seio
em uma mão, seus dedos beliscavam levemente meus endurecidos
mamilos. Esfreguei minhas costas contra ele, gemi ao senti-lo palpitar
contra meu traseiro, tão perto de onde queria que estivesse. Uma de
suas mãos se deslizou para baixo, escorregando por minhas curvas para
chegar a me abrir. Dois longos dedos me penetraram e voltaram a sair.
Rodearam a área mais sensível em mim, me empapando com minha
própria umidade. Afundaram-se ainda mais profundamente. Voltaram a
sair.
—OH — gemi—. Dê-me mais.
Mordiscou meu pescoço, me deixando sentir a ponta de seus dentes e
me fazendo soluçar. Segurando meus quadris com firmeza, afundou sua
quente extremidade dentro de mim, entrou profundamente, muito
profundamente graças aquele ângulo. Começou a empurrar com força,
me movendo, sacudindo toda a cama, e vi que meus braços e minhas
mãos começaram a brilhar.
—Não — disse repentinamente, e ficou gelado, profundamente dentro
de mim, tão quieto que podia sentir seu membro palpitar uma vez, duas.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Os sedosos músculos de minha vagina estremeceram e se retesaram
respondendo incontrolavelmente enquanto seus dedos se agarravam
aos meus quadris.
—Deixe-me ver seu rosto — disse com voz áspera.
Retirou-se e eu me virei para encher meus olhos com a deslumbrante
perfeição de Gryphon, sua imponente beleza, a pura beleza de sua
forma masculina, imersas em sua própria luz. Abri meus braços e meu
corpo para ele. Com um áspero gemido voltou a me penetrar, perdendo
o controle por completo, golpeou-me uma e outra vez, selvagem e
furiosamente. Seus lábios cobriam os meus. Cravava sua língua uma e
outra vez, o cadenciando com o rápido ritmo que seguia mais embaixo.
Notei a onda crescer cada vez mais e mais dentro de mim, e ainda mais,
até que senti que sem dúvida ia me destroçar e explodir. E então, o fiz.
Com minha mão direita cobri sua ferida, suplicando em minha cabeça,
pondo tudo o que havia dentro de mim no empenho. Cura, maldição.
Cura. Gritei o nome de Gryphon e senti minha palma tremer e uma
pequena onda de calor.
Gryphon estava arrebatado por seu próprio prazer, estremeceu e
ejaculou dentro de mim. Depois caiu literalmente inconsciente sobre
mim, seu corpo livre da excessiva tensão a que o submeteu.

O contato foi tão pouco comum em minha vida... Sustentei o peso de


Gryphon sobre mim por um momento, saboreando seu contato antes de
fazê-lo girar para um lado e levantá-lo com facilidade para pô-lo sobre a
cama. O avermelhamento provocado pela terrível experiência sob o sol
tinha desaparecido, deixando a cor de uma brilhante teca 9. A ulceração
nos pulsos e tornozelos estava completamente curada. Mas tristemente
sangue emanava furiosamente de sua envenenada ferida, onde nada
tinha mudado, inclusive era possível que tivesse piorado. Estendia-se
lentamente.
Limpei o sangue, cobri Gryphon e deitei ao seu lado. E quase nem notei
as lágrimas que apareceram silenciosamente.

9
Teça - árvore verbenácea de madeira de lei. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01

Capítulo oito
O sol já tinha se posto quando o resto da casa começou a despertar. Sai
da cama, tomei banho e examinei meu triste guarda-roupa. Sonia tinha
posto um vestido azul em minha bagagem, um traje simples como os
que vestiam o restante das mulheres, e outro dos formais vestidos de
Mona Sera. Preto, é claro.
—O vestido preto — disse Gryphon aparecendo a minhas costas.
Recostei-me contra ele e ele deslizou os braços em torno de mim,
beijando minha face.
—Como se sente?
—Descansado — disse tristemente—. Fui um pouco duro com meu
corpo há pouco. —De uma maneira maravilhosa. Eu adorei ver ao me
virar que se ruborizava.
—Verei o curandeiro hoje, depois da reunião — prometi, esfregando
meus polegares contra o dorso de suas mãos, onde estas cobriam minha
cintura.
Inclinou minha cabeça e me beijou brandamente nos lábios, depois me
soltou.
—Preciso tomar banho e me vestir e estar preparado em breve.
Amber me esperava do outro lado da porta. Seus cabelos estavam
perfeitamente penteados separados ao meio e para trás, deixando à
vista as duras linhas de seu rosto. Vestia uma túnica verde escuro, com
mangas amplas e soltas, e calças pretas justas, um estilo conhecido há
um ou dois séculos. O conjunto o deixava bonito de verdade.
Gryphon escovou meus cabelos e insistiu que os usasse soltos. Disse-
me que era mais feminino. Vestidos compridos e cabelos soltos; não era
somente sua maneira de falar que era arcaica.
—Está muito bela, senhora.
As comissuras da boca de Amber se curvaram fazendo uma careta.
Levei um tempo para me dar conta de que sorria para mim.
—Obrigado Amber. Você também está, isto..., bonito.
Suas faces se ruborizaram. O que me fez sentir pena do pobre gigante.
Passei uma de minhas mãos pelo braço de Amber e a outra pelo de
Gryphon.
—Cavalheiros?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Mathias, o eficiente mordomo, esperava ao pé da escada, e encarregou
a um de seus assistentes varões que nos acompanhasse até a sala do
Conselho. O jovem estava fascinado com Amber e Gryphon, e não
deixava de olhar suas mãos. Agora me dava conta. Com seu bronzeado
pareciam demônios. Isso explicava todos os olhares cheios de surpresa
que tinham dirigido a eles desde ontem.
Esperamos durante meia hora antes que as pesadas portas se abrissem
e nos conduzissem até uma sala circular coberta com uma elevada
cúpula. Uma dúzia de sombrios assistentes se repartia sobre uma
plataforma, sentados em cadeiras distribuídas em intervalos regulares,
rodeando o perímetro da sala. Vislumbrei o sombrio rosto de Halcyon a
minha esquerda. Mais da metade dos assentos, entretanto, estava vazio.
Ao entrar me senti como um gladiador romano entrando em uma arena
cheia de famintos espectadores. Tampouco me reconfortava ver Mona
Sera no centro da sala, me gesticulando para que me situasse junto a
ela.
Gryphon e Amber ficaram perto das portas, junto com as escolta de
Mona Sera. Caminhei com grandes passadas até o centro da sala do
Conselho, mantendo vários metros de distância entre Mona Sera e eu.
Sempre cautelosa e não só por razões de comodidade.
—Estimada rainha mãe. —Mona Sera fez uma reverência ante uma
mulher de porte régio e orgulhoso, cujos cabelos eram completamente
brancos. Brancos pela idade. Não tinha visto isso antes em um Monere.
Havia rainhas, descobri, e havia rainhas. Parecia uma velha matriarca.
Velha era a palavra chave. Ou possivelmente anciã fora uma opção
melhor. De verdade, realmente anciã. E poderosa. Emanava dela um
aroma intenso que impregnava tudo. As vastas linhas que sua idade
tinha marcado em seu rosto não eram mais que camuflagem de seu
poder. E aqueles esses olhos diziam que viam tudo, era arrepiante, mas
encaixava bem. Parecia que seus olhos podiam ver dentro da própria
alma de alguém, ponderava e emitia um julgamento e não voltava
nunca a olhar para trás uma vez que esse julgamento tivesse sido
emitido. Eram olhos que davam medo. Excessivamente objetivos. Muito
ardilosos.
—Honoráveis senhoras e cavalheiros do Grande Conselho — continuou
Mona Sera com sua cálida e sedutora voz—. Quero os apresentar a Mona
Lisa, minha filha, fruto de uma relação com um mestiço.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Senti crescer a tensão na sala enquanto fazia uma reverência ante a
rainha mãe da maneira que Gryphon me ensinou: levantando minhas
saias, me ajoelhando com a cabeça inclinada, e voltando a me levantar.
Os homens me olhavam com interesse, Halcyon com um gesto divertido,
mas as duas rainhas, que se distinguiam por seus vestidos negros,
observavam-me com olhos frios: seus olhares me diziam que não era
bem-vinda. Nada que me surpreendesse. Sim, corvos repugnantes. A
Rainha mãe me estudou com distante curiosidade, como as pessoas
estudariam uma mariposa que capturou e acaba de prender com
alfinetes.
—Nunca antes houve uma rainha mestiça em nossa história —
asseverou a rainha sentada junto a Halcyon, uma loira glacial com olhos
igualmente frios.
—Exatamente, Mona Louisa — disse Mona Sera com ironia— Essa é a
razão pela qual pedi esta reunião extraordinária do Conselho. Desejo
que minha filha — ronronou ao pronunciar esta última palavra com
autêntica satisfação— seja reconhecida e admitida como a primeira
rainha mestiça ante o Grande Conselho.
—Isso é uma abominação — resmungou a outra rainha a minha direita,
cujos cabelos eram laranja como uma chama. Uma rainha do fogo tanto
em temperamento quanto em cor.
—Não — replicou Mona Sera com um sorriso insultante—. É uma rainha
e todo mundo aqui, incluído você, Mona Teresa, pode perceber e sentir.
—Pode proporcionar banhos de lua? —perguntou o homem sentado
junto à rainha mãe, imediatamente a sua direita. Era um cavalheiro
ancião cujos cabelos estavam ficando brancos e que usava um
medalhão dourado pendurado de uma corrente. Uma sensação de sólido
poder emanava dele.
Mona Sera inclinou a cabeça.
—Fui testemunha disso, lorde Thorane, na lua cheia passada. Atraiu a
luz da lua e compartilhou sua glória com sua nova escolta, Gryphon, que
antes pertenceu a minha corte.
Os membros do Conselho murmuraram entre eles. Lorde Thorane
inclinou a cabeça para a rainha mãe, e falou com ela em voz baixa. A
Rainha mãe assentiu.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Que outros dons possui sua filha, Mona Sera? —perguntou a rainha
mãe, dirigindo-se a nós pela primeira vez. Falou devagar,
cuidadosamente. Sua voz era sonora e transbordava autoridade.
—Venerável rainha mãe. —Mona Sera se inclinou cerimoniosamente
uma vez mais, e depois abriu teatralmente os braços como se estivesse
apresentado um presente. Uma autêntica comediante, minha mãe—. É
capaz de usar prata sobre sua pele e não afeta sua força nem tampouco
a detém. Tolera a luz do sol como os humanos e foi capaz de transmitir
este dom a um de seus homens, isso é certeza, mas é possível que a
ambos.
Todos os olhares se voltaram para as portas para estudar Amber e
Gryphon. Era fácil distingui-los. Suas peles escuras os faziam parecer
deuses do Sol comparados com os pálidos homens de Mona Sera.
Alguma alma valente se virou para olhar Halcyon também, como se
quisesse comparar sua cor com a dele. Halcyon sorriu com ar zombador
e rangeu brandamente suas largas e afiadas unhas. Todos afastaram os
olhos.
Os olhos escuros de Mona Sera brilharam de prazer quando se ouviu um
novo murmúrio.
—E o mais interessante — continuou, dando o golpe de misericórdia —
é que tem as lágrimas da deusa.
Todos os olhares se cravaram como facas sobre mim. Tive que me pôr
em guarda ante a intensidade de seus olhares.
—Mostre as mãos, menina — ordenou Mona Louisa, a loira pálida.
Apertei os dentes ante aquela ordem condescendente, mas disse para
mim mesma: Faça amigos. Não os afaste. Necessitava da ajuda
daquelas rainhas para o Gryphon. Inspirei profundamente para
recuperar o controle e sorri. Podia ser tão boa comediante quanto minha
mãe. Depois de uma breve e deliberada pausa, levantei as mãos e, com
uma elegante floreio, mostrei minhas mãos.
Gritos afogados e muitos murmúrios. «Antinatural», deixou escapar
Mona Teresa em voz baixa. Sentia o perspicaz e avaliador olhar da
rainha mãe e a dos dois varões que se encontravam pressentem. As
rainhas me olhavam com fria hostilidade, mas o restante das mulheres,
algumas vestidas com túnicas brancas e motivos dourados e outras
vestidas com vivos tons granadas, olhavam-me com reflexivo interesse.
Uma das mulheres vestidas de granada me fez a seguinte pergunta:
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Tem algum dom especial relacionado com suas mãos?
—Posso detectar lesões internas. Possuo também uma relativa
capacidade de aliviar a dor.
—Que idade tem, menina? —perguntou amavelmente aquela dama. De
algum jeito não me incomodou tanto quando me chamou de menina.
—Vinte e um.
Virou-se para Mona Sera.
—Deste a luz a alguma outra criança?
—Só um varão mestiço do mesmo pai — se limitou a dizer.
Sobressaltei-me, surpreendida pela resposta. Tinha um irmão?
—E onde se encontra agora esse mestiço pai de seus filhos, Mona Sera?
—perguntou lorde Thorane.
—Morreu há quinze anos — foi a devastadora resposta de Mona Sera.
Senti que meus olhos ardiam, encheram-se de lágrimas, e olhei para o
chão. Tinha me dado um e me tirado outro em uma despreocupada
exposição dos fatos. Não tinha me contado isso, maldita seja. Não tinha
me contado isso. E deveria havê-lo feito.
—É uma pena — murmurou lorde Thorane. Ergueu-se. Tinha tomado
uma decisão—. Apoio à petição de Mona Sera de que Mona Lisa seja
reconhecida e admitida como rainha ante a corte.
Realizou-se uma recontagem de votos e a maioria me foi favorável. A
rainha mãe se absteve. Ambas as rainhas estavam contra mim, grande
surpresa. Mas apesar delas, agora era, oficialmente, a primeira rainha
mestiça que existia.
—Algumas de nossas leis referentes aos mestiços deverão ser
modificadas — abordou lorde Thorane com cautela.
—Infelizmente, qualquer mudança em nossas leis deverá esperar até
nossa próxima sessão, quando estiverem pressentem ao menos dois
terços do Conselho — disse Mona Teresa com um ronrono de prazer que
se desvaneceu sob o olhar que lhe dirigiu a rainha mãe—. Temos menos
da metade dos membros do Conselho aqui hoje — terminou dizendo.
—É a lei do Conselho — a apoiou Mona Louisa.
—Assim é — reconheceu a rainha mãe pausadamente. Lorde Thorane
esclareceu garganta.
—Mona Sera, o Conselho agradece profundamente a você a
incorporação desta nova rainha a nossas filas. Mona Lisa permanecerá
aqui na Grande Corte até que o próximo Conselho se encontre de novo
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Monere – Os filhos da Lua - 01
dentro de doze dias; atribuirá então um território a ela. Suspende-se o
Conselho.
Uma vez fora do grande salão, Mona Sera se virou para mim com grata
satisfação.
—Desejo que fique bem, filha. Retorno ao meu território esta noite.
—Necessita de mais escoltas, senhora — disse Gryphon brandamente
detrás de mim.
—Tem dois de meus vestidos e dois de meus homens mais fortes. Mais?
—Mona Sera fez uma careta com os lábios—. Acho que não.
—É sua responsabilidade como proponente prover sua proteção — se
atreveu a dizer Gryphon.
—E assim o fiz. Sua proteção agora é um problema seu.
—Onde está meu irmão? —exigi.
Friamente, Mona Sera se virou para me olhar divertida.
—Foi abandonado entre os humanos ao nascer como você. Não recordo
quando e não sei onde.
—O nome de meu pai?
—Não recordo — disse, e de algum jeito soube que mentia.
Mona Sera me deu um leve sorriso.
—Faça tudo o que possa para se manter com vida.
—Isso é tudo? —disse—. Para que me trouxe aqui?
—Para que reconheçam minha fertilidade e o status que me
corresponde por ter dado a luz a uma rainha. É algo que pesará muito
em futuras concessões que deseje do Conselho. Que siga com vida ou
não é algo que não me preocupa.
Realmente falava com franqueza. Por alguma razão me fez considerá-la
em melhor, por mais maquiavélica que fosse. Olhando aquele rosto
bonito e desumano, aqueles olhos vazios, mais mortos que vivos, pensei
que possivelmente fosse realmente sua filha; dava medo pensar nisso.
—Um último conselho - disse Mona Sera, olhando alternativamente a
meus homens e a mim—. Só o mais forte sobrevive em nosso mundo.
Domina-os ou a destruirão.
Um autêntico bate-papo íntimo entre mãe e filha. E desta maneira,
partiu.

A mulher de vestido granada que no Conselho se dirigiu a mim era uma


curadora e me convidou a acompanhá-la a sua morada. Amber nos
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Monere – Os filhos da Lua - 01
acompanhou enquanto Gryphon se desculpava dizendo que desejava
descansar e me dar a oportunidade de falar com liberdade com a
curadora.
Seu nome era Janelle. Seus olhos castanhos expressavam ternura como
os da Sonia. Algumas mechas cinza salpicavam seus cabelos loiros. Vivia
em uma pequena, mas confortável casinha, separada da Grande Casa
por alguns poucos edifícios.
Livros empoeirados que cheiravam a umidade se empilhavam em
estantes que iam do chão até o teto. Alguns livros grossos estavam
abertos sobre uma grande mesa central, enterrados entre ervas e flores
diversas pulverizadas também em meio a potes e garrafas de aroma
acres e cheios de aparentemente interessantes beberagens. Disse-me
algumas de suas utilidades medicinais. Depois pegou minha mão e
esfregou o sinal com seu polegar.
—Mmm. Tem potencial, embora ainda esteja por desenvolver-se. Mas é
jovem, bastante jovem na realidade. A maioria dos curadores não
começa a desenvolver suas habilidades até seu terceiro ciclo de dez
estações. Alguns inclusive mais tarde.
—Pode me ensinar algo de sua arte de cura?
—Com enorme prazer — respondeu-me Janelle com um sorriso—.
Poderíamos começar amanhã se desejar.
Assenti com entusiasmo.
—Por favor. Há tanto que desejo aprender.
—E há muitas coisas que desejo ensinar a você. É estranho encontrar
uma rainha com o dom da cura.
—Há, entretanto uma coisa que não pode esperar. Um de meus
homens, Gryphon, foi envenenado com prata.
Janelle entrecerrou os olhos pensativamente.
—Ah. Senti que havia algo nele que não estava bem, mas desconhecia
a causa.
—Vim aqui procurando uma cura para ele. Pode o ajudar? Tem um
antídoto?
—Não conheço nenhuma cura para este envenenamento — disse
tristemente Janelle.
Merda. Estupendo. Duas pessoas me disseram o mesmo. Não era uma
boa notícia. —Acredita que outros curadores poderão ajudá-lo?
Considerou-o.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Possivelmente. Mas fui eu quem ensinou esta arte a outros. Mesmo
assim, não pode causar nenhum mal lhes perguntar.
—Ouvi dizer que só as rainhas possuem o antídoto, mas algo me diz
que as duas rainhas que se encontram aqui não desejam me ajudar.
Os olhos de Janelle brilharam divertidos.
—Temos poucas rainhas, por isso cada novo membro é um autêntico
tesouro para nossa gente. Infelizmente as outras rainhas a verão como
uma concorrente, cada nova rainha que se incorpora a suas filas pode
ser a causa de que seus territórios sejam diminuídos. A seus olhos, não
há razão para ajudá-la. Mona Rodera, que logo estará aqui para a
próxima reunião do Conselho, é a única rainha além de você que tem
um limitado talento como curadora. Os curadores são mais propensos a
compartilhar uns com os outros. Possivelmente conceda sua ajuda se for
verdade que o antídoto existe, embora nunca tenha ouvido que exista
nenhum antídoto.
—Obrigado, curadora Janelle. —Despedi-me dela.
Fiquei preocupada com tudo o que escutei, mas não tanto para não
notar a não usual tensão que tinha Amber quando me escoltou de volta.
Manteve, durante todo o tempo que durou o breve caminho, o punho de
sua espada ao alcance sua mão.
Gryphon e outros cinco homens nos esperavam no vestíbulo. Levei um
tempo para me dar conta que Gryphon tinha seu baú de madeira junto à
porta e ainda outro momento para me dar conta do que significava.
—Senhora. —Gryphon, meu belo Gryphon se ajoelhou ante mim—. Rogo
a você que me exima de seu serviço.
Suas palavras foram como uma adaga em meu peito, golpeou-me sem
que esperasse e cortou minha respiração. Era a última coisa que
esperava. E dizem que as mulheres são inconstantes.
—O quê?
Levantou-se, seus olhos azuis me olhavam fixamente.
—Senhora. Mona Louisa gentilmente me convidou a unir-me a ela. Seu
avião me espera. Prometeu-me o antídoto — explicou brandamente.
—Me... deixa-me? — perguntei, aniquilada e repentinamente perdida;
estava jogada à deriva, tinha perdido minha única amarração sólida
nesta nova vida.
—Se me eximir.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Esse novo demônio interno que me possuía gritava dentro de mim: Não,
alguma vez. Como podia deixá-lo ir? Meu Deus, como podia não deixá-lo
ir? Mona Louisa estava oferecendo a vida a ele. A grande puta.
—Se... se for seu desejo partir. —Idiota, insultava a mim mesma. Claro
que desejava ir. Estava pedindo para partir. E ainda assim, abraçou-me
com tanta intensidade, beijou-me com tanto amor e ternura... ao menos,
acreditei que era amor ou alguma emoção de similar intensidade. Mas
nunca pronunciou as palavras...
Gryphon se ajoelhou de novo e inclinou sua escura cabeça, com
elegância inclusive agora que me abandonava.
—Obrigado, senhora. Mona Louisa concedeu gentilmente o empréstimo
de quatro de suas escoltas para protegê-la até a próxima reunião do
Conselho.
Sufoquei uma risada histérica. Não acredito que fosse gentileza o que
motivava Mona Louisa absolutamente. Luxúria, possivelmente. Não
amabilidade.
Estava diante de mim e seus olhos azul céu e a rebelde mecha de
cabelo que caía sobre sua testa eram tão familiares, tão queridos. Não
vá. Não vá. As palavras se entalaram em minha garganta quando
depositou um último beijo no dorso de minha mão. Um daqueles
desconhecidos levou sem dificuldade o baú de Gryphon ao ombro.
—Desejo que fique bem, Mona Lisa.
Não vá. Não me deixe. Gryphon, amo você... Mas apertava tanto os
dentes que as palavras não conseguiam escapar. Engoli saliva e o vi
trocar um olhar com Amber. Por favor, não vá. OH, Deus. Gryphon...
Foi-se.
O som de minha áspera respiração encheu o corredor, muito rápida,
muito intensa. Tudo parecia irreal. Havia quatro novos fantoches de
escolta em frente a mim, sua nova ama operadora. Embora sua ama
acabasse de cortar suas próprias cordas.
Um atraente loiro me deu um sorriso ansioso. Na realidade eram todos
bonitos. Cada um tinha o cabelo de uma cor diferente: loiro, moreno,
negro azeviche e um deles de um colorido laranja cenoura. Outra vez
me atacou essa risada histérica.
O loiro fez uma reverência.
—Sou Miles, senhora, e estes são Gilford, Rupert e Demetrius. Estamos
ansiosos por servi-la.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Tive a sensação de que esperavam poder fazê-lo na cama, mas isso não
era algo que fosse acontecer.
Senti-me cada vez mais atordoada e agradeci a sensação. Doía muito.
Não sei se reneguei, assenti ou simplesmente passei ao lado deles. Tudo
o que sei com certeza é que de repente me encontrava subindo as
escadas. Entrei rapidamente em meu quarto, fechei a porta e me
prostrei no chão, com as costas apoiada contra a parede. Simplesmente
fiquei assim sentada, sem saber que outra coisa fazer.

Capítulo nove
Helen era o nome de minha mãe humana. Ela e seu marido Frank me
recolheram do orfanato e me levaram para sua casa. Chamava-os papai
e mamãe. Era um casal já de cinqüenta anos, sem filhos.
Helen adorava frisar meus cabelos e me pentear com duas tranças que
oscilavam e ricocheteavam quando caminhava. Adorava enfeitar meu
escuro cabelo com bonitas fitas rosa ou laços azuis. Essas eram suas
cores favoritas.
—Poderia usar qualquer dia o rosa ou o azul de sempre — costumava
dizer rindo e ao fazê-lo seu corpo gordinho e compacto tremia.
Embalava-me em seus grandes braços, me envolvendo como um suave
e enorme urso de pelúcia, me apertando contra seu generoso peito.
Ainda lembrava de seu aroma. Cheiro de talco, amor e risada.
Comprou um peixinho para mim, o chamamos de Joey, que nadava
torpemente em seu aquário e cujas grandes e gordinhas bochechas me
deixavam sempre fascinada. Com sua enorme mão guiando a minha,
deixávamos cair em seu aquário flocos de comida todas as noites antes
de me colocar na cama. Observava Joey lançar-se com seu redondo
corpo e engolir com avidez a comida enquanto Helen lia para mim um
conto antes de dormir.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Os dores de Helen começaram quando eu tinha quatro anos. Uma
pontada aguda no baixo ventre a obrigou a dobrar-se e ofegou. Pus as
mãos sobre seu intestino e minhas palmas se esquentaram e tremeram
pela primeira vez.
—Mamãe. Doente aqui.
—Sim, carinho. Tenho alguns gases muito ruins. Mas me sinto muito
melhor agora.
A dor desapareceu, mas voltou seis meses mais tarde, com tanta
intensidade que a obrigou a deitar-se no chão. E descobri que essa coisa
ruim em seu interior tinha crescido um pouquinho mais.
—Mau dentro — disse—. Mamãe vá ver um médico.
—Ah, carinho. Tem mãos milagrosas. —Beijou minhas mãos, esfregou-
as entre as suas e soprou dentro delas até que o estranho som que fazia
me fez rir—. E para que ia querer ver um médico? Só encontram coisas
ruins.
Frank era um homem tranqüilo e formal, um empregado dos correios.
Quando por fim começou a preocupar-se, eu tinha cinco anos e meio. Os
dores se tornaram cada vez piores e mais habituais. Ignorando seus
veementes protestos a arrastou até um médico, mas então já era muito
tarde. Era câncer de cólon. Estendeu-se ao fígado e aos pulmões.
Aplicaram-lhe tratamentos de quimioterapia e radiações e eu
alimentava Joey sozinha todas as noites. Não houve mais contos antes
de dormir. Retraía-se cada vez mais e ria com menos freqüência,
embora continuasse me embalando. Eu punha minhas mãos sobre ela e
ela costumava suspirar e dizer:
—Agora me sinto muito melhor, carinho.
Durou um ano, dez meses a mais do que os doutores previram. Quando
se foi, Frank se converteu em uma carapaça vazia e me afastaram do
único lar que conheci.

Alguém bateu discretamente na porta, me tirando de minhas


lembranças. —Sim.
—É hora do jantar, senhora — disse Amber através da porta.
—Vão sem mim. Não tenho fome.
Abriu a porta que ligava os quartos e vislumbrei os olhos curiosos de
Miles e seu reluzente cabelo loiro antes que voltasse a fechar a porta a
suas costas.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Por que está sentada no chão?
Sacudi a cabeça em silêncio. Como podia dar uma resposta a ele se não
podia dar isso a mim mesma? Meus olhos caíram sobre a cama em que
Gryphon e eu tínhamos deitado, me impulsionando a agir. Fiquei de pé
com dificuldade e arranquei os lençóis da cama os pondo nos enormes
braços de Amber.
—Faça, que lavem isto, por favor, — resmunguei.
—Sim, senhora.
Partiu e me baixei de novo, apoiando as costas contra a parede. Fechei
os olhos.

Tinha dez anos quando comprei um peixe para mim com o dinheiro que
ganhei arrancando ervas daninhas e limpando os jardins dos vizinhos.
Tinha faces gordinhas e nadava com arrogância, como uma pequena
imperatriz, pelo aquário que também comprei. Chamei-a Josephine em
memória a Joey. Estou segura de que Joey teria gostado de Josephine.
Deixava cair uma pitada de comida a cada noite, e a observava engolir
cada floco; limpava seu aquário e punha água limpa toda e cada uma
das semanas. Compartilhava meu quarto com outras duas garotas do
orfanato menores do que eu. O senhor e a senhora Jackson as
acolheram em troca do cheque que o governo enviava a cada primeiro
dia do mês por seu cuidado, igual ao que ocorria comigo.
A senhora Jackson era uma mulher magra que estava sempre cansada.
Tinha trabalhado duro durante toda sua vida, era evidente na maneira
encurvada de seus ombros e em seus cabelos sem volume carentes de
brilho. Olhava-nos com seus apáticos olhos azuis e via em nós, meninas,
mãos extras para ajudá-la com o trabalho a mais que havíamos trazido
junto com o cheque do governo. Tinha passado com eles vários meses e
estava contente de cuidar das outras duas meninas que eram minha
responsabilidade, dado que era a mais velha. Realizava as tarefas que
tinham me encarregado obedientemente.
As coisas mudaram, entretanto, quando meus seios apareceram e
começaram a desenvolverem-se no final daquele ano. A senhora Jackson
se negava a esbanjar dinheiro na compra de um sutiã e o senhor
Jackson começou a me olhar de maneira estranha. Começou a ter algo
mais que interesse em nós; beijava à pequena Carlotta e à tímida Nicole
e fazia cócegas nelas sobre seu regaço.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Aposto que você também tem cócegas, Lisa — costumava dizer o
senhor Jackson, e tentava me fazer cócegas também, mas eu saía
correndo para me pôr fora de seu alcance e embora risse, seus olhos
mostravam sua fúria.
Sentava às meninas em seu regaço, dava-lhe um beijo na face e ele as
recompensava com uma barra de caramelo para cada uma.

—Acaricie-me, Lisa — dizia, e me mostrava a barra de chocolate


tentadoramente. Eu negava com a cabeça porque quão único sabia é
que o sorriso nunca ocultava seu olhar malicioso.
Quando o tamanho de meus seios eram os de um pêssego pequeno,
tornou-se cada vez mais brusco e exigente. Dobraram minhas tarefas e
mal tinha tempo de poder acabar meus deveres todos os dias.
—Não tirou o lixo, Lisa — rugiu um dia ao chegar em casa de seu
trabalho na construção, suado e fedendo a cerveja.
—Ia fazer isso depois de varrer o chão da cozinha — disse, olhando-o
apreensivamente com os olhos muito abertos e agarrando a vassoura
com as mãos. A senhora Jackson cortava cansadamente as batatas e
não se incomodou nem em nos olhar.
—É uma merda que não serve para nada — disse me arrebatando a
vassoura. Agarrou-me pelos cabelos e me arrastou até a sala onde as
pequenas Carlotta e Nicole estavam vendo a televisão. Assim que viram
seu rosto avermelhado voaram para o quarto.
—Eu a ensinarei a não ser preguiçosa — disse, respirando com
dificuldade me pondo sobre seus joelhos.
Não lutei quando me bateu no traseiro com sua enorme mão uma e
outra vez. Não era a primeira vez que me batiam. Mas quando sua mão
se deteve sobre meu traseiro acariciando meu corpo dolorido e um de
seus dedos se deixou cair seguindo a costura da calça, lutei
grosseiramente, me retorcendo até escapar de seu colo e cai ao chão.
Ele se inclinou, seus olhos brilhavam, e me ameaçou:
—É melhor que se porte bem comigo, pequena, ou se arrependerá.
Chegou o natal e o senhor Jackson colocou uma barba branca. Carlotta
e Nicole se sentaram sobre o colo de Papai Noel, deram-lhe um beijo, e
ambas obtiveram sua barra de caramelo.
— Acaricie-me, Lisa — disse o falso Papai Noel. Seu fôlego, como
sempre, fedia a cerveja.
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Tirando forças, sentei-me com cautela sobre seu regaço e depositei um
rápido beijo sobre sua bochecha. Fez «Ho, Ho, Ho», e sob a aparência de
querer me dar um abraço passou uma mão pelo meu seio. Saltei de seu
regaço com a barra de caramelo na mão e vi nos olhos cansados e
resignados da senhora Jackson que ela se deu conta do que ele tinha
feito. Comprou-me um sutiã no dia seguinte durante uma oferta de
liquidação de depois do Natal.
—Não o faça se zangar — foi tudo o que me disse.
Um dia chegou em casa quando a senhora Jackson estava fora fazendo
as compras. Carlotta e Nicole estavam fazendo suas tarefas sobre a
mesa da cozinha, tinham a seus pés as mochilas do colégio, e eu as
ajudava.
—Que merda é esta? —bramou o senhor Jackson, seus olhos estavam
cheios de ofensa alcoolizada—. Não quebro minhas costas o dia todo
para chegar e encontrar este desastre em casa. —Deu um pontapé nas
mochilas, afastando-as de seu caminho e com um violento golpe varreu
os livros fazendo-os voar da mesa. As garotas saíram disparadas da
cozinha, mas me agarrou pelo braço antes que pudesse fugir.
—Limpe este lixo — gritou e me jogou contra o chão. Engatinhei,
recolhendo os livros e papéis soltos e dispersos. Não foi até que ouvi
que sua respiração se tornava mais áspera e seus batimentos cardíacos
se aceleravam que levantei os olhos do chão e o vi olhar o interior de
minha camisa, que tinha aberto ao me agachar. Meu único sutiã estava
lavado.
—Puta — soltou e fiquei geada.
Saí correndo para a porta, muito tarde. Arremeteu-se contra mim me
jogando de novo ao chão, arranhei meus cotovelos e bati a cabeça
contra o chão com força suficiente para me atordoar um pouco. Subindo
minha blusa, começou a manusear rudemente meus seios, espremendo-
os dolorosamente.
—Não. Tire as mãos de cima de mim! —gritei. Instintivamente o golpeei
com o canto da palma de minha mão no nariz, o que o fez retroceder
cambaleando.
—Puta — amaldiçoou, segurando seu nariz que sagrava—. Arrependerá-
se disto.
E cumpriu sua promessa. Josephine estava morta quando retornei no
dia seguinte da escola. Tinham derrubado o aquário e o peixinho laranja
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Monere – Os filhos da Lua - 01
jazia inerte no meio de um atoleiro de água, seu gordo estômago
imóvel, seus olhos cegos.
Nunca mais me atrevi a ter algo que chamar de meu depois daquilo,
inclusive depois que mudaram para outras casas. Tinha aprendido uma
dolorosa lição esse dia: Não ame nada. Não sinta apego a nada. Dói
muito quando o perde.

Uma jovem criada fez minha cama com lençóis limpos. Olhava-me com
curiosidade. Entrou e partiu sem que nem me desse conta. Bloqueei
meus sentidos, encerrei-me em algum lugar profundo dentro de mim
onde não sentia nada. Não pode doer o que não se pode sentir.
O tempo passou sem que nada ocorresse. E em algum momento dormi
e umas enormes e delicadas mãos me levantaram e me puseram sobre
o suave colchão, me cobrindo depois com uma manta. Continuei
dormindo e sonhando.

Capítulo dez
—Tem que comer algo, senhora — disse Amber com beligerante
persistência.
Olhei por cima dele. Através dele. Já lhe havia dito que não tinha fome
suficientes vezes nos últimos dez minutos.
—A mãe de Jamie fez espaguetes especialmente para você — disse
sedutoramente.
Só tinha uma palavra para ele.
—Vá embora.
—Não até que tenha comido algo — soltou Amber, em um tom mais
suave—. Três gafadas e a deixarei em paz — me convenceu.
Abri a boca, mastiguei e engoli o número de vezes combinado. Partiu e
me abstrai de novo.

Outro dia. Mais murmúrios dos quais me desconectei. Uma batida forte
que ignorei. Persistentes batidas na porta que não cessavam. —O que é?
—O príncipe Halcyon veio vê-la — disse Amber através da porta.
—Não.

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—Não deseja vê-lo — o ouvi dizer.
Silêncio. Então as portas se abriram e Halcyon entrou caminhando e
Amber o seguiu como se fosse sua sombra.
Halcyon se aproximou da cama e se sentou ao meu lado. Acendeu o
abajur, me fazendo piscar, deslumbrada pela repentina luz.
—Que Vitoriano — disse Halcyon deixando ver sua brilhante dentadura.
Era incrivelmente branca comparada com seu dourado semblante—. Seu
amante a abandona e você cai em triste decadência.
Olhei além dele. Não pisquei quando aquelas longas unhas passaram na
frente de meus olhos. Não estremeci quando roçaram minha pele nem
quando retiraram uma mecha de cabelo de meu rosto.
Amber grunhiu.
—Calma, menino — disse Halcyon. Parecia divertido—. Não farei
nenhum mal a ela.
Sua diversão desapareceu quando virei meu rosto deliberadamente
para essas unhas letais. Retirou rapidamente a mão. —Vá embora —
disse. Não havia calor, não havia emoção. Os olhos de Halcyon se
suavizaram.
—É duro, sim. Mas superará. É jovem e bela. Terá muitos outros
amantes.
—Não — disse com certeza.
—Sim — respondeu com a mesma segurança—. E eu serei o primeiro da
fila.
Movi-me com esforço. —Não.
—Tem medo de mim?
Neguei com a cabeça.
—Então por que não? —perguntou.
Olhei-o com olhos vazios e o deixei ver dentro de mim, minha alma que
sangrava, aberta.
—Porque poderia chegar a me importar. E não o desejo. Dói muito.
Ele inclinou a cabeça. —Ah, minha fascinante rainha. Acorda
sentimentos dentro mim que há muito tempo pensei que estavam
mortos. —Exalou profundamente e se levantou—. Darei tempo a você —
disse, e não soube a quem fazia essa promessa, se a mim ou a si
mesmo.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Os penetrantes gritos de uma mulher despedaçaram minha letargia ao
por do sol do dia seguinte. Sentei, olhei pela janela e vi sem acreditar
um homem levantar as saias de uma jovem, arrancar sua calcinha e
começar a violá-la à vista de todo mundo. As pessoas olhavam, mas
ninguém fez nenhuma ameaça de parar aquela violência brutal ou de ir
em sua ajuda.
—Pare — abri a janela, saltei ao chão de uma altura de mais de seis
metros e me pus de pé. Senti uma onda de vertigem ao me levantar.
Encontrava-me fraca e delirante depois de dias deitada na cama.
Impacientemente, com determinação, afastei aquela sensação e corri
para eles. —Pare, desgraçado.
O pálido traseiro do homem trabalhava obscenamente sobre a mulher,
empurrando uma e outra vez como um pistão enfurecido. Não fazia
nada para evitar que gritasse. De fato, parecia fomentá-lo. Só quando
ela tentou arranhá-lo com suas unhas, ele a golpeou. Seu rosto virou-se
com tanta força que pareceu que seu pescoço ia quebrar, e ficou
atordoada pelo golpe. Meu Deus, compreendi, é uma mestiça.
Separei-o dela e o joguei contra o chão a alguns metros, seu pênis
rígido estava manchado de vermelho com o sangue dela. Ficou de pé
com um sorriso, vestindo a calça com despreocupação.
—Não é um pote de mel ruim para ser uma mestiça.
A mulher gemeu e segurou torpemente a saia, tentando se cobrir. Vi
seu rosto claramente pela primeira vez. Seus cabelos eram de um
vermelho ligeiramente mais escuro, mas as sardas e o nariz arrebitado
eram exatamente iguais às de seu irmão. Era Tersa, a irmã mais velha
de Jamie. E era virgem até aquele momento.
Com um bramido, saltei em direção daquele homem, mas algo me
sustentava me impedindo de chegar.
—Deixe-me ir — resmunguei para Amber. Minhas outras quatro escoltas
estavam a suas costas e olhavam feito o restante, sem fazer nada para
ajudar. Criaturas inúteis.
—Não fez nada errado, senhora.
Olhei para Amber com assombro. —Acaba de violá-la.
—É uma mestiça. Não há lei que proíba.
A raiva me invadiu de maneira tão terrível que tremia.
—Quer dizer que não receberá um castigo.
—Não, senhora.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Então eu cuidarei disso.
As mãos de Amber me mantinham presa.
—Pense. Fizeram isso para a atingirem. — sacudiu-me levemente—. A
violação não é nada. Não há lei contra o assassinato de mestiços. E você
é uma mestiça. Não está protegida nem sequer sendo uma rainha. Até
que mudem nossas leis continuará sendo vulnerável. Entendeu?
—A pequena rainha quer vir brincar com o Sansão? — zombou o
estuprador. Agarrou o pênis e se moveu lascivamente—. Tenho o
suficiente para agradar a duas putas mestiças.
—Solte-me — disse friamente.
Amber o fez a contra gosto.
—Nossa lei proíbe que um mestiço mate a um Monere.
—Sua lei é uma merda.
—Ocorre-me uma idéia estupenda — disse o homem andando para mim
—. Possivelmente a faça engolir o Sansão.
Sorri para o pedaço de carniça que caminhava em frente a mim.
—OH, sim. Desejo brincar com o Sansão. Vem com a Dalila —
cantarolei.
Amber se movia a minhas costas.
—Senhora...
—Não se preocupe. Entendo-o. Se tenta me machucar então pode se
intrometer e defender a sua rainha. Sua lei o permite não é verdade?
Adiantei-me para me encontrar com aquele bastardo, que era muito
estúpido para estar assustado.
—A que rainha serve? —exigi.
—Mona Teresa.
A rainha de fogo. Aquilo não me surpreendia.
Uma mulher alta, de cabelo escuro, que usava um avental, saiu de
repente da casa principal e correu para Tersa soluçando. Afastei a
imagem de minha mente e me centrei no lascivo desgraçado que tinha
em frente. Levantou sua mão direita e com toda sua insolência passou a
ponta de seus dedos por meu mamilo.
Aproximei-me pressionando com suavidade meu seio contra sua mão,
meus dedos sobre os seus, e mostrei meus dentes.
—Sabe qual é seu problema? Está acostumado a violar mulheres que
não se defendem.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Puxei para cima, retorcendo seus dedos os quebrando. O estalo que
produziram seus dedos foi a mais doce das melodias.
A intensa dor o fez gritar tanto quanto a surpresa que teve.
—OH — disse com simpatia—. Dói muito, não é verdade?
Quis me esbofetear com a mão sã. Esquivei-me do golpe e atacando
suas pernas, de um golpe o fiz perder o equilíbrio e o joguei no chão.
Tinha a faca em minhas mãos. Bateu a cabeça contra o chão e se ouviu
um rangido. Estava a meus pés, pasmado e atordoado. Cortei um
pedaço sua calça deixando a vista seu órgão ainda semiereto.
—Assim, o que é mesmo que acontecia com Sansão? —meditei—. Ah,
sim. Dalila cortava seus cachos. —Agarrei seu ofensivo membro, minha
faca voou e o sangue me salpicou inteira. Seus gritos eram horríveis.
Levantei e me afastei olhando-o com um sorriso cruel enquanto ele
rolava pelo chão, agarrando a entreperna onde já não tinha pênis. A
parte que lhe faltava murchava flácida em minha mão.
—Se algo me ofender, o quebro, o corto, o destruo. — Tranqüilamente
deixei cair o pênis que cortei, que caiu ao chão com um úmido plaf, e fiz
polpa de sua dignidade esmagando-a meticulosamente sob meu
calcanhar.
Os homens que nos observavam fizeram uma careta de dor e muitos
levaram as mãos a entreperna para proteger-se.
—Voltará a crescer? —perguntei.
—Sim — disse Amber. Estava junto a mim e olhava indiferente ao
homem que sangrava, gritava e se retorcia de dor no chão.
—Uma pena. É possível que tenha que cortá-lo outra vez.
Alguém assobiou com admiração. Virei-me para me encontrar com o
bronzeado rosto do príncipe Halcyon.
—Terrivelmente brutal — declarou—. Estou apaixonado.
O castrado continuava gritando, um longo grito atrás de outro, com
olhos cheios de espanto olhava seu orgulho e alegria esmagados.
Protegia os dedos quebrados contra o peito; estavam estranhamente
dobrados e estupendamente inchados a esta altura.
Inclinei-me e enfiei a lâmina de minha faca no chão, a escassos
milímetros de seu rosto.
—Cale-se — gritei.
Os gritos cessaram abruptamente. Gemeu quando tirei a faca do chão e
limpei sua lâmina sobre sua camisa branca.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Agora volte para onde estar sua rainha e conte o que eu disse.
Arrastou-se para longe de mim, em seus olhos havia puro terror e isso
agradou algo escuro dentro de mim.
Foi então que repentinamente me chegou o aroma de sangue e carne
crua, junto com a consciência do que tinha feito. Meu estômago se
revolveu violentamente. As náuseas fizeram que eu me dobrasse, e
escutei os batimentos de meu coração diminuírem. Quase não tive
tempo de recordar o termo médico para este ato reflexo, manobra da
Valsalva. Estimula-se o nervo vago por meio das náuseas contendo a
respiração, fazendo que o coração diminua seu ritmo. Nesse momento, o
mundo começou a dar voltas e sumi na escuridão.

Capítulo onze
De volta ao meu quarto, e uma vez que me encontrei recuperada,
celebrei minha pequena vitória com uma enorme e sangrenta bisteca
que a mãe de Jamie tinha preparado para mim. Meus cinco homens não
podiam evitar fazerem caretas e encolherem-se a me ver mastigar com
prazer os robustos pedaços de carne até que deixei limpo o prato. Tinha
me descuidado e debilitado até um ponto perigoso. Não foi muito
inteligente de minha parte me encontrando como me encontrava entre
uma manada de carnívoros.
Tirei o vestido ensangüentado para tomar banho. Ensaboei-me, me
esfregando de cima abaixo três vezes. Era uma pena que não pudesse
me limpar por dentro da mesma maneira. Havia uma parte de mim,
cruel e sádica, que estava saindo à luz e que me aterrorizava.
Quando saí do banheiro o vestido sujo já não estava lá. Ainda sentia a
adrenalina correr por minhas veias e de repente o quarto ficou muito
pequeno. Tinha que sair dali. Vesti o outro vestido comprido, também
preto, e bati na porta do outro quarto. Miles abriu a porta, seus olhos
mostravam receio.
—Senhora?
—Vou dar um passeio — informei bruscamente.
—Acompanharemos você - disse Amber detrás de Miles, sobressaindo-
se por cima dele.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Não cheirava a sangue no bosque, só se percebia um limpo perfume de
pinheiro e o terroso aroma de folhas e madeira úmidas. Deveria ter-me
feito sentir melhor e, entretanto, explodir em pranto. Soluçava de forma
incontrolável, sufocava-me, tinha espasmos. Amber me rodeou com
seus enormes braços. Sentou-se sobre um tronco caído e me embalou
sobre seu peito. A sensação de consolo era tão grande que me fez
lembrar de minha mãe humana, Helen, e meu pranto se redobrou.
—Não aconteceu nada — sussurrou Amber, acariciando torpemente
minhas costas. As quatro cores, que era como chamava a minha escolta
emprestada, mantinham-se a uma prudente distancia de mim. Os
homens ou me desejavam ou me temiam; não parecia haver um meio
termo.
—Sim, sim aconteceu. Violaram-na por minha culpa.
—E você devolveu o dano dobrado ao agressor.
—Alegro-me — disse com enorme prazer—. Queria matá-lo.
—A próxima vez — foi a tranqüila resposta de Amber.
—Não quero que haja uma próxima vez — solucei e escondi meu rosto
me reclinando sobre ele—. Odeio isto. Acreditei que vindo aqui
encontraria tudo o que sempre quis. Mas aconteceu justamente o
contrário, vir me tirou tudo.
O ranger de um galho me fez consciente de que minha dor me deixou
descuidada e de que não prestei a devida atenção ao espaço que me
rodeava. Apliquei meus sentidos com maior intensidade e os escutei.
Eram sete, não, oito, fracas pulsações. Amber ficou de pé tirando sua
espada, e avançou silenciosamente, fazendo gestos as outras quatro
escoltas que me rodearam formando um círculo justamente quando os
intrusos apareceram ante nossos olhos. Eram oito, todos estavam
armados com adagas e vestiam túnicas andrajosas, cheias de remendos,
e botas desgastadas. Formavam um esfarrapado conjunto.
—Amber — disse, com um tom tenso e estranho.
Olhou para trás e ficou gelado ao ver uma lâmina de prata sobre meu
pescoço, exatamente sobre meu pulso. Miles estava detrás de mim
sustentando a faca. Outro homem, chamado Gilford, arrebatou-me todas
as adagas enquanto os outros dois me sustentavam pelos pulsos.
Superavam-nos em número, tinham nos traído.
—Corre — disse bruscamente—. Sai daqui.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Amber duvidou, seu sério semblante não deixava transparecer nada.
Em lugar de sair correndo, veio rapidamente para nós. Maldito seja. O
nobre estúpido, o grande cabeça dura, nunca me escutava.
—Eu não faria isso se fosse você — disse Miles ameaçador—, ou serei
obrigado a utilizar a prata para comprovar quão rápido é capaz de curar-
se.
A ameaça parou Amber em seco.
—Tire a espada — disse Miles. Como Amber não se movia, a lâmina me
cortou levemente, com profissionalismo, e o aroma de meu sangue se
sentiu no ar.
Amber jogou sua espada no chão.
—Muito bem — disse Miles, elogiando Amber como se fosse um cão a
quem estivesse treinando—. Agora se ajoelhe. Junte as mãos detrás da
cabeça.
Amber caiu de joelhos e um daqueles bandidos se situou rapidamente
detrás dele. Colocou algemas de prata em um de seus pulsos e
retorcendo seus braços com brutalidade, os levou às costas para
terminar de pôr as algemas nele. Tinham tudo planejado, os grandes
filhos da puta.
—Entreguem-na — disse o bandido que algemou Amber com tanta
eficiência.
—Paciência, Áquila. Terá ela como prometemos a você, mas depois que
provarmos seus encantos. É o mais ardente desejo de nossa rainha.
Deseja muito obter o dom de resistir a luz do sol.
E a maneira que iam obter esse dom ia ser, conforme parecia, fazendo
que os homens de Mona Louisa se emparelhassem comigo para
voltarem para ela dando-lhe essa capacidade.
Miles me puxou pelos cabelos para trás e com uma estocada de sua
afiada faca abriu meu vestido em dois até quase à altura dos joelhos. O
tecido do vestido cedia como manteiga ao corte da faca.
—Crê que é um artista das facas, não é mesmo? —rangi os dentes.
—OH, sim. —Outros dois rápidos movimentos e caíram a calcinha e o
sutiã —. E sou tanto ou mais artista com a outra espada.
—Vê, esse é seu problema. Dá muita importância ao seu pênis.
—Temos boas razões, logo o verá.
Eu não gostei de como soava aquilo e comecei a lutar. Miles me agarrou
pelo pescoço com um braço enquanto enroscava uma perna em torno
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Monere – Os filhos da Lua - 01
de uma das minhas. Rupert, a minha direita, agarrou a outra perna.
Tinham-me aberta, os braços e as pernas, completamente exposta. Pelo
menos, ainda estava de pé.
Rupert, o dos cabelos cor cenoura, se aproximou. Levava nas mãos um
frasquinho igual ao que eu encontrei no quarto de Mona Sera. O mesmo
pelo que, depois de havê-lo tocado, Gryphon me obrigou a lavar as
mãos três vezes. —OH, OH. Retorci-me, revolvi-me, me contorci, mas
me mantinham perfeitamente presa.
—Não — rugiu Amber investindo. Áquila puxou sua corrente sem
compaixão, o jogando no chão.
Com enorme cuidado, Rupert abriu o frasquinho. Assegurando-se de
que o líquido não o tocasse, passou a tampa pelos meus mamilos e na
fenda do sexo. Todos os homens me olhavam com ávida espera e
Amber com angústia. Engoli saliva esperando que acontecesse algo,
mas não aconteceu nada.
—Dê-lhe mais — disse Miles com voz áspera.
Rupert o olhou com os olhos arregalados.
—Eh, não tem por que. Já começo a sentir algo — menti.
—Faça — gritou Miles.
Rupert deu um pulo, derramando a metade do frasco sobre meu seio.
—Doce deusa — sussurrou Amber.
A oleosa substância, de um aroma doce, foi escorregando pouco a
pouco por meu corpo até empapar o vão entre as pernas. Durante um
maravilhoso momento não aconteceu nada, mas depois senti o calor
apoderar-se de mim como se fosse um raivoso incêndio. Surpreendeu-
me não explodir em chamas. Era como se inquietas formigas estivessem
percorrendo todo meu corpo, me picando, me comendo viva.
Respirava com dificuldade e acabei caído, a única coisa que me
sustentava em pé eram os homens que me retinham. Deixaram-me cair
um pouco até que meus joelhos tocaram no chão e se separaram de
mim.
—Limpe o resto do azeite — disse Amber com voz rouca—. Rápido.
Gilford cortou um pedaço da barra do vestido, que me parece já estava
estragado, e fazendo uma bola a usou para me limpar. Passou-a pelo
meu seio, desceu por meu estômago, e passou muito perto da área que
repentinamente concentrava todo o calor, o fogo que me queimava,

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Monere – Os filhos da Lua - 01
uma área que palpitava e gritava pedindo atenção. Gemi e
choraminguei. Gilford jogou longe o trapo rapidamente.
—Agora sim o sente, não é verdade, puta? —Miles me empurrou por
trás e me fez cair de quatro—. É uma boceta antinatural. Inclusive o
príncipe dos demônios a deseja.
Ouvi quando baixava o zíper da braguilha.
—Isso. De quatro, como a puta libidinosa que é. — Sua mão percorreu
minhas costas, a curva de minhas nádegas, e quase choro ao senti-lo
me tocar. Assentava-me tão bem, tão necessário.
—Ilumine-se para mim, puta mestiça.
Senti como me explorava com a ponta em um lugar inimaginável. E me
fazia sentir tão bem ao me abrir. O prazer roçava a dor. Meu corpo
gritava reclamando-o. Necessitava-o dentro de mim. Agora. De qualquer
forma.
Sem dúvida, o mais difícil que fiz em minha vida, rodar pelo chão, me
afastando dele, ficando de barriga para cima. Olhei aquele pênis tão
belo, tão duro, e completamente preparado, que meu corpo reclamou
desesperadamente. Chorei, por cima e por baixo, tremia de pura
necessidade.
Agarrando-me pelos cabelos, Miles me pôs de joelhos e me fez girar a
cabeça de repente para ele, que se mostrava em todo seu exuberante
esplendor.
—Abre. —Colocou aquela coisa tão dura contra minha boca—. Seja uma
boa menina e possivelmente a toque. Você gostaria disso não é
verdade?
Choraminguei, meus lábios se abriram e ele empurrou um pouco.
—Esta é minha putinha. Chupe-me.
Obtive forças, que duro foi fazê-lo, e juntei as mãos para pegar com
força seus ovos. —Desfrute disto — ofeguei caindo de lado. Miles gritou
de dor e raiva. Ficou de cócoras, protegendo-se.
—Puta. É um monstro. Puta mestiça.
Absolutamente indignado, com toda sua fúria masculina, jogou-se sobre
mim e, deixando-se levar, agarrou-me pelo pescoço com ambas as
mãos. Seu peso sobre minha pele, o roce do tecido contra meus
mamilos. Deus. Necessitava-o mais que de respirar. Se tivesse satisfeito
meu corpo teria deixado que me estrangulasse com tanto que não o
tirasse de cima. Retorci-me e me esfreguei contra ele de forma
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incontrolável, o molhando com o excesso de azeite que tinha no corpo
enquanto ele me olhava com uma cara que, se uma vez foi bonita, era
agora diabólica, retorcida, uma máscara grotesca. Apertava-me cada
vez mais, me sacudindo com uma violenta cólera.
—Miles — disse Áquila secamente.
—Não se preocupe — grunhiu Miles, com a respiração acelerada—. Não
a matarei. Só estou tirando sua vontade de resistir.
Era certo, veio-me de repente um vago pensamento. A asfixia não ia
matar a alguém de nossa raça. Mas eu não era completamente Monere.
Era parcialmente humana também. E os humanos podiam morrer por
asfixia. Podia levar algum tempo, já que eu não precisava respirar na
mesma medida, mas começava a sentir a falta de ar, uma desesperada
sensação me rasgava. Abria e fechava a boca, tentando inalar.
Sufocando-me. E todo o tempo me queimava, me queimava, me
queimava.
Essa terrível dor, essa necessidade palpitante apenas piorava, não se
aliviava, quanto mais me esfregava contra ele. Minha visão começou a
ser imprecisa. Empurrei sem energia contra seu peito, minhas forças
minguavam enquanto que a enorme necessidade de ar e a desesperada
necessidade de meu corpo de que o satisfizessem cresciam e cresciam
até ficar insuportável. Algo tinha que acontecer.
Minhas mãos tremeram, arderam e se acenderam com autêntico calor.
Toda sensação de desespero, eletrizante, latente, saiu de mim como
uma corrente de espuma através das palmas de minhas mãos.
O ar se impregnou de um aroma de tecido queimado e carne
chamuscada. Alguém gritava. De repente minha garganta estava livre e
ofeguei, inalando ar fresco tão necessário a vida.
Minha vista se esclareceu e levantei a cabeça para ver Miles rolando
como um louco pelo chão a alguns metros de mim. A vermelha
impressão de minhas mãos estava estampada sobre a pálida pele de
seu peito como uma cicatriz horrenda e macabra. O tecido de sua
camisa estava intacto a não ser pelo nítido contorno onde minhas mãos
a atravessou, queimando-a, como a marca que deixa o molde quando
corta a massa das bolachas.
—Veja quanto tempo leva se curar disso, idiota — disse com voz
entrecortada e com a pouca força que me restava. Minha cabeça
desabou para trás e meus olhos se fecharam. Voltei a sentir essa tortura
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Monere – Os filhos da Lua - 01
quente que me queimava invadia meu corpo inerte, pondo-o em tensão
uma vez mais. Queria chorar, gritar e me lançar sobre o homem que
tivesse mais perto.
Ouvi quando os outros recolhiam Miles e partiam. Seus gemidos e
maldições foram se desvanecendo.
Ao abrir os olhos, vi Áquila de pé junto a mim e aos outros sete homens
que se mantinham a uma prudente distancia. Era bonito, mas com um
ar severo e grave, maduro; seus cabelos eram escuros, curtos e
encaracolados. A bela aparência de seu fino bigode e sua suave barba
resultava estranhamente contraditória com sua esfarrapada vestimenta.
Se tivesse tentado me violar nesse momento não poderia resistir.
Francamente, daria boas-vindas a ele com as pernas abertas. Mas não
se lançou sobre mim como esperava, para meu mais profundo alívio e
desespero. Não havia luxúria em seus olhos, apenas um pequeno
vislumbre de algo próximo à compaixão.
Mostrou-me as algemas que trazia. Na realidade as tinha nas mãos todo
o tempo. Só que até esse momento não tinham me chamado à atenção,
tão decomposta estava minha concentração com o desesperado clamor
de meu corpo traiçoeiro.
—É capaz de levantar as mãos, senhora? —perguntou Áquila.
Não sabia. Podia? Gemi e levantei uma mão que, com debilidade,
balançou-se no ar. Áquila fechou o frio metal em torno de meu pulso e
eu, agradecida, deixei cair de novo o braço, lhe passando à tarefa de
sustentar a obscena e pesada carga em que se converteu meu braço
repentinamente.
—O outro — disse Áquila. A forma que articulava as palavras tinha a
meticulosidade própria de um cavalheiro, tinha um estilo sucinto. Que
demônios fazia ele entre aqueles bandidos?
Fazendo um esforço hercúleo levantei o outro braço, que oscilou por
sua vez no ar. Áquila fechou as algemas e as utilizou para me pôr de pé.
Vacilei, mas não caí. Puxou-me brandamente, mantendo metro e meio
de corrente de distância entre nós, e minhas pernas começaram a
mover-se.
Tinha perdido quase por completo o vestido, estava esfarrapado e só se
prendia aos braços. Não me importava que meus seios pendurassem
livremente e com pouca glória ou que a única coisa que me cobrisse
embaixo fosse meus escassos cachos. Custou toda minha minguada
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Monere – Os filhos da Lua - 01
força me agarrar ao pouco controle que restava para não rogar nem
suplicar que transassem comigo, para simplesmente pôr um pé detrás
do outro no que parecia uma marcha interminável.
Por fim paramos e soube qual era o som que vinha escutando há algum
tempo. Água. Estávamos junto a um pequeno arroio, um diferente
daquele onde conheci Halcyon há apenas um dia.
Permaneci de pé, me balançando, sem saber o que mais fazer.
Escutei a voz de Amber soar na distância.
—Liberem-me. Dou minha palavra de honra de que não tentarei fugir
nem resistirei quando me algemarem de novo. Só desejo poder cuidar
dela.
Um homem pequeno, com uma longa barba e amplos ombros grunhiu.
—Como se fôssemos aceitar sua palavra.
—Deseja se ocupar dela você mesmo, Greeves? —perguntou
tranqüilamente Áquila.
Greeves negou com a cabeça e ficou calado com ar anti-social. —jure
pediu Áquila a Amber.
—Minha mais solene palavra — retumbou Amber—, por minha honra
como guerreiro.
Tiraram suas correntes e ele se aproximou de mim.
—Amber — sussurrei, com uma necessidade gigante, monumental, em
meus olhos.
Esperou pacientemente que Áquila tirasse minhas algemas. Depois,
segurando meus pulsos, levou-me até o pequeno arroio. Tirou meu
vestido e arrancou um pedaço limpo que não tinha sido poluído pelo
azeite. Metodicamente, tirou os sapatos e as meias três-quartos, e
depois tirou os meus. Com o trapo na mão, introduziu-me dentro do rio
pouco profundo.
Dei um grito afogado. A fria sensação da água ardia ao correr sobre
minha pele avermelhada e acalorada; era uma sensação que mal podia
suportar. Obrigou-me a sentar e resisti durante um inútil segundo antes
de desabar, totalmente carente de forças. Sustentando-me pelos braços
me sentou cuidadosamente no rio. Frias gotas de água corriam pelo
meu corpo, fazendo cócegas naquelas áreas acaloradas, mais sensíveis
de meu corpo, lambendo-me como se fossem milhares de suaves e
cruéis línguas. Convulsionei em um orgasmo explosivo, gritando sem
poder remediar. Senti a sólida presença de Amber inclinado sobre mim a
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minhas costas, me defendendo dos olhares estranhos, e desabei sobre
ele, as lágrimas escapavam de minhas pálpebras fechadas.
Amber pôs as mãos à obra e começou a passar o trapo úmido por meus
seios. Gemi quando esfregou meus mamilos, que estavam terrivelmente
sensíveis. Lavou-me cuidadosamente enquanto eu cravava meus dedos
em seus joelhos até que meus nódulos ficaram brancos e ameaçaram
romperem-se, não queria fazer o menor som nem movimento. Pegou
água em suas mãos e a derramou sobre mim. Suportei em silêncio, mas
quando o trapo baixou para minha parte imersa na água, senti
sacudidas elétricas e não pude impedir de deixar escapar um gemido.
Reclinei-me com mais força e abri mais as pernas em uma desesperada
súplica. Parou justo antes que alcançasse meu clímax e choraminguei
sacudindo violentamente a cabeça. Não, queria suplicar, não pare.
Deixou cair o trapo na água e levou minha mão sob a água para que eu
mesma me acariciasse. Sacudi e resisti por um tempo, mas depois
deixei cair minha cabeça para trás, reclinando sobre ele em abandonada
necessidade. Deixando que ele guiasse minha outra mão também para
beliscar meu mamilo. Explodi, literalmente. Uma radiante chuva de luz
me banhou por trás das pálpebras fechadas. Com cuidado, fez que eu
introduzisse dois dedos dentro de mim enquanto ainda convulsionava,
pressionando a palma de minha mão contra meu excitado clitóris,
dolorosamente hipersensível, onde parecia haver-se juntado todos os
nervos de meu corpo. Esse leve contato, esse toque, era quase
insuportável. Minha cabeça tremeu e gozei intensamente em meu
terceiro orgasmo. Depois senti uma bendita sensação de flacidez, livre
por um momento daquela tensão terrível e atroz. Senti o sabor de
sangue e vagamente compreendi que tinha mordido os lábios.
Amber me tomou em seus braços e me depositou sobre a erva, ainda
me defendendo dos olhos dos outros. Tirou a camisa e a deslizou por
meus braços, fechando-a depois. Eu adormeci antes que terminasse;
ignorante, inconsciente, insensível quando voltou a me tomar entre seus
braços para me levar.

Capítulo doze
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Flutuava entre a consciência e a inconsciência. No inicio recuperei a
consciência pelo calor anormal que sentia em meu corpo, e depois pelos
violentos calafrios que me sacudiam de cima até em baixo. O frio
extremo fez que de algum jeito meu calor corporal se intensificasse,
tinha a sensação de que chamas azuladas lambiam minha pele; onde
mais queimava era entre as pernas, e tinha os seios excitados, sentia-os
agora incomodamente inchados e rígidos. Todo isso fazia que eu me
sacudisse, agitasse, gemesse e choramingasse.
Alguns dedos guiavam minhas mãos para aqueles lugares que com
mais desespero precisam ser estimulados. Meu corpo sofria espasmos e
voltava depois a se afundar no doce esquecimento até a seguinte
ocasião. Quando estava muito exausta, alguns dedos se afundavam
delicadamente em mim, me fazendo gritar e cair de novo na bendita
inconsciência.
Às vezes me banhavam com água fria. Outras vezes, uma colher abria
passagem entre meus lábios, e ele acariciava brandamente minha
garganta até que engolia um pouco de sopa. Ele...
—Gryphon? —sussurrei, e recebi um delicado murmúrio em resposta.
Não era Gryphon, é verdade, tinha me deixado, voltei a me lembrar e de
novo a dor me rasgou profundamente até que voltei a escapar em uma
pacífica inconsciência.
Pouco a pouco as exigências de meu corpo se reduziram, por isso cada
vez com menos freqüência voltava a ficar consciente. Sentia-me
contente de poder ficar naquela relaxante escuridão. Estava tão
cansada. Tão cansada de sofrer.
—Não deve ficar muito neste lugar, minha menina. É perigoso. —Uma
mão suave acariciou minha testa. Abri os olhos e encontrei o doce rosto
de Sonia.
—Você devia ser minha mãe — disse.
—Ah, carinho. Em meu coração sinto que é minha filha. Deve volta
comigo.
—Estou cansada Sonia. Muito cansada.
Sorriu e jogou a isca. —Seu irmão logo necessitará de você.
Inquieta, joguei minha cabeça sobre seu regaço. —Não sei como
encontrá-lo.
—Mas claro que sabe. Darei a informação a você. —E então começou a
desvanecer-se.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Não, não vá...
Mas não me fez caso e me deixou; já não podia sentir seu contato. —
Procure-me disse em voz baixa—. Encontra-o. Elevei a mão tentando
alcançá-la. Não. Não deixaria que se fosse. Era meu único consolo.
Fiquei de pé, decidida a segui-la, mas estava muito fraca. «Muito fraca»,
sussurrou uma voz. Ouvi uma voz infantil. Meu irmão?
Gemi de dor e debilidade. Requereu-me tanto esforço algo tão simples
como me pôr de pé. Mas Sonia havia dito que meu irmão necessitava de
mim. Assim suando, tremendo, lutei por levantar, por sair, passo a
passo, do profundo abismo.

Despertei e senti um irritante zumbido; vi-me dentro de uma sala


escura e sem janelas. Uma rainha, que nunca tinha visto antes, se
encolhia do outro lado da sala. Estava amarrada como eu, pensei ao
sentir os frios grilhões de metal nos pulsos. Eu estava acomodada sobre
o enorme regaço de alguém, com a cabeça apoiada sobre seu peito.
—Senhora?
—Amber — grasnei, e me surpreendi com som rouco que emiti e quão
débil parecia, apenas um sussurro.
—Graças à deusa. —Emitiu um impressionante suspiro de alívio,
inclinou-se para frente e aproximou um copo aos meus lábios. Seus
movimentos eram torpes por culpa das correntes que também prendiam
seus pulsos—. Beba. Não é mais que água.
O refrescante líquido umedeceu meus lábios e aliviou minha garganta
ressecada. Engoli dolorosamente duas vezes e depois o separei de mim.
Amber devolveu o copo ao seu lugar.
—Pode comer carne?
—Não tenho fome.
—Um pedacinho.
Quem poderia adivinhar que um cara tão grande, com uma expressão
tão severa, pudesse ser uma criatura tão encantadora—. Está muito mal
passada, como você gosta. —Aproximou a colher a minha boca e eu a
abri; mastiguei e engoli, sabendo que não se daria por vencido até que
não tivesse ingerido um pouco de alimento. Senti-me como um muro
que desmoronava.
—Você está uma lástima — disse com tom áspero.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
E era verdade, estava exausto, magro, tinha escuras olheiras
provocadas pelo cansaço e a preocupação. Amber sorriu para mim com
cansaço, tinha os cabelos despenteados e o peito nu.
—Onde está sua camisa? —perguntei.
—Está cobrindo você.
Olhei-me. Sua camisa me cobria até a altura dos joelhos. Tinha enrolado
as mangas tantas vezes que o tecido formava um volume em torno de
meus pulsos, justamente encima dos grilhões. As meias três-quartos e
os sapatos tinham um aspecto curioso em contraste com minhas pernas
nuas.
—OH, obrigado — balbuciei e fechei os olhos, estava tão terrivelmente
cansada—. O que aconteceu? —disse com dificuldade.
—Esteve doente, mas agora está se recuperando. Durma. Falaremos
mais depois que descansar.

A seguinte vez que recuperei a consciência, o sol estava alto. Amber


abriu os olhos, piscando, despertou ao sentir que me mexia sobre seu
regaço. Bebi mais água esta vez.
—Venha, coma.
—O que é isto? —perguntei, mastigando o que me punha na boca—.
Não tem sabor de vitela.
—É veado.
Veado. Nunca tinha provado antes e não gostei especialmente do
sabor, tinha um gosto forte de caça, mas engoli alguns pedaços,
sabendo que tinha que recuperar minhas forças. Exausta pelo esforço,
voltei a adormecer.
Foi uma voz infantil que me tirou da minha letargia a seguinte vez.
Olhos curiosos e estranhamente familiares me olhavam por debaixo de
um condensado matagal de cabelos castanhos que parecia nunca terem
visto um pente. Suas faces estavam sujas e também as pequenas mãos
morenas que agarravam a bandeja onde levava três terrinas de
aromática sopa. —Está acordada — sussurrou a menina.
—Sim — disse Amber, pegando duas terrinas—. Obrigado, Casio.
Palavras singelas, gestos singelos, e ainda assim não.
Meu grande homem ou pequeno gigante, de qualquer das duas formas
poderia o descrever, comportava-se estranhamente. Amber se
comportava de uma maneira que eu não tinha visto antes, e então caí
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Monere – Os filhos da Lua - 01
na conta. O estranho era a maneira de olhar à pequena selvagem, a
maneira que falava com ela, a doçura de seu tom. Era inclusive
diferente da maneira que me tratava, sem a cautelosa deferência ou a
prudente reserva que normalmente acentuavam seus gestos e palavras
a não ser que estivesse aborrecido comigo.
A pequena e tímida criatura, levou a terrina que restava à rainha, que
nos olhava com reserva do outro lado da sala. Saiu então correndo,
passando como um raio ao lado de Greeves, que se encontrava junto à
porta e nos olhava com luxúria.
—Sandoor deseja ver você e à nova rainha depois do jantar — disse a
Amber—. Possivelmente ela será nossa sobremesa. —Fechou a pesada
porta de metal rindo com maldade.
Comi metade do guisado e insisti que Amber comesse a outra metade.
Não era estranho que tivesse perdido peso. A pouca carne que havia na
terrina era apenas suficiente para alimentar uma mulher e não podia ser
suficiente para um homem do tamanho de Amber.
—Quem é Sandoor? —perguntei a ele quando terminou de comer.
—Meu pai.
Meus olhos se arregalaram de surpresa.
—Ainda está vivo? Mas eu acreditei que tinha violado e matado aquela
rainha.
—Violou-me, mas se absteve de me matar — ouviu-se uma amarga voz
proveniente do outro lado da sala, a da outra rainha.
—Não mataria a galinha dos ovos de ouro, graças a qual vê
incrementada sua vida.
Só que agora havia duas galinhas de ouro. Isso não convertia uma das
duas em dispensável?
—Fez que parecesse como se o tivesse feito e simulou que eu tinha
morrido, e ao que parecer todo mundo acreditou. Estúpidos — disse a
rainha.
—Como pôde fazer isso? —perguntei.
—Preparou dois montões de cinzas e roupas soltas — explicou Amber—
É o que costuma restar de nós ao morrer.
Olhei para a rainha. —Quanto tempo faz?
—Faz mais de dez anos — disse; seus olhos brilhavam com amarga
emoção.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Deus. Não podia nem imaginar que me mantiveram cativa todo esse
tempo e que continuasse lúcida.
As portas rangeram ao se abrirem, deixando entrar uma baforada de ar
fresco na viciada sala.
—Para fora, vocês dois — disse Greeves.
Amber me tomou em seus braços e me levou para fora, entrando na fria
noite. Dentro da sala se ouviu o frufrú de um vestido.
—Você não, Mona Carlisse — disse Greeves—. Cabe ao Balzaar vir vê-la
esta noite.
Estirei o pescoço e vi um homem alto e corpulento passar junto à
silhueta magra e enxuta de Greeves. A porta se fechou sinistramente
atrás dele. Greeves me olhou e sorriu. Vi brilhar em seus olhos uma
luxúria carregada de crueldade e os cabelos de minha nuca ficaram em
pé. Realmente era um bom incentivo para me recuperar.
Empurrei Amber enquanto caminhávamos na noite.
—Posso ficar de pé — protestei.
Seus braços me rodearam com mais força, como me advertindo,
conforme entrávamos na clareira onde nos esperavam os outros seis
homens, e ainda mais um, um homem uma cabeça mais alto que o
restante.
Observei ao pai de Amber, o pai gigante de meu pequeno gigante, fez-
me pensar que possivelmente fosse melhor parecer débil e doente. Uma
pena que estivesse certa.
—Assim por fim despertou — retumbou uma voz grave. Sandoor, o pai
de Amber, era um homem grande, embora menos corpulento e alguns
centímetros mais baixo que seu filho. Seus cabelos castanhos tinham
fios prateados e seu rosto mostrava os sinais deixados pela passagem
dos anos, anos de duras e desagradáveis experiências. Seus olhos azuis,
tão parecidos com os de seu filho, eram mais escuros, mais duros, mas
continham muito, muitíssimo mais maldade. Sentia-se poderoso.
—Está lúcida? —perguntou Sandoor em um tom que dava a entender
que não se importava se eu estivesse ou não. Amber assentiu.
—É providencial, embora não particularmente necessário. —Sandoor
posou seus olhos sobre mim e os senti como uma desagradável carícia
—. Só precisamos usar seu corpo.
Podiam ser parecidos, mas não tinha nada que ver com Amber.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Quase deixou este mundo. Necessita de mais alguns dias para se
recuperar por completo — advertiu Amber com um grave murmúrio—.
Se não possivelmente a perderá.
—Ah, sim. É uma mestiça. Mais frágil, embora bastante dotada,
conforme me disseram. —Os olhos de Sandoor me sondaram, uma
experiência especialmente desagradável—. Muito bem. Tem um dia a
mais antes que a penetre. —Seu sorriso e o que via em seus olhos,
provocaram um intenso terror em mim.
Amber se virou para partir.
—Não tão rápido. —A perversidade que continha as palavras de
Sandoor, assim como o tom, fez que Amber parasse em seco, pude
sentir como a tensão retornava e vibrava nos braços que me
sustentavam—. Não dei permissão a você para partir ainda. Fique.
Sente-a aqui. —Gesticulou em direção a um tronco que aparentemente
servia de mobiliário ali, naquele escasso e árido domínio.
Amber me depositou com cuidado no chão, me apoiando contra o
tronco de uma árvore caída. Aquela postura era muito melhor que a
posição supina10 entre aquele montão de machos selvagens e famintos.
—Com quanto cuidado a transporta, Amber — zombou seu pai—. Com
que diligência se ocupou dela estes seis dias passados.
Seis dias. A revelação me deixou aniquilada. Não era de estranhar que
me sentisse tão débil.
—E com que ternura continua cuidando dela ainda — continuou
Sandoor. Em sua voz havia um profundo e infeliz desprezo. Aproximou-
se de mim—. Essa não é a maneira que nós tratamos às mulheres aqui,
Amber. Se tiver que ficar entre nós deve aprender que não servimos às
mulheres, elas nos servem.
—Não faço nem mais nem menos do que o que ela fez por mim quando
a enfermidade se abateu sobre mim — respondeu cautelosamente
Amber, sem indício de desafio ou inflexão em suas palavras.
—E o que foi que provocou sua enfermidade, Amber?
—Mona Sera me castigou a permanecer sob os raios do sol.
—Durante quanto tempo?
—Quatro horas.
Escutou-se um murmúrio carregado de ira entre os bandidos.

10
Supina = deitada de costas, elevada. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Então não era um castigo — remarcou Sandoor com perigosa
suavidade—. Era uma execução. Premeditada. Não porque não a
servisse bem. OH, não. Sem dúvida, estupidamente, serviu-a dando o
melhor de você, como servimos todos a nossas rainhas. E como você,
fomos recompensados por nossa absolutamente estúpida lealdade,
nossos anos de serviço ingrato, com a morte. —Sandoor baixou os olhos
para mim, me olhando cheio de ódio, o que me resultou totalmente
perturbador—. Por quê? Porque indevidamente ficamos muito fortes
para nossas rainhas e seu poder pareceu ameaçado. Centenas, milhares
de nossos melhores guerreiros, os mais fortes, foram massacrados sob o
disfarce do castigo e seguirão morrendo desta desumana maneira a não
ser que arrebatemos o poder das rainhas e façamos que elas nos
sirvam.
—Mona Lisa me salvou — protestou Amber.
—Porque necessitava de você, era uma nova rainha e estava
vulnerável.
—Ela não é como as outras rainhas, pai.
Sandoor riu de seu filho com um enorme desprezo.
—É que ainda não aprendeu, filho, que todas são muito doces no inicio?
Mas esses olhos que o olham com cálida ilusão e afeto durante esses
primeiros anos fugazes, tornam-se duros, receosos e temerosos ao ver
crescer seu poder até que, no final, o expulsa de seu leito. —inclinou-se
para Amber, sussurrando em seu rosto—. E então o destrói.
Sandoor retrocedeu e varreu meu corpo com seus olhos frios e cheios
de ódio.
—Que doce deve ter sido para poder obter semelhante lealdade de meu
filho, um homem adulto que já deveria ter aprendido as duras lições que
a vida oferece. E, além disso, o mais interessante, foi capaz de salvá-lo
quando já se podia dar por morto. Mostre suas mãos, garota.
Se isso fosse tudo o que queria, com o maior prazer permitiria. As
correntes me impediam de girar as mãos para cima, me obrigando a
retrair os braços e dobrar os cotovelos para poder mostrar as palmas de
minhas mãos para frente.
—Assim tem a habilidade de curar tanto quanto a de ferir com essas
imperfeições indecorosas — murmurou Sandoor—. Possivelmente não
tenhamos que cortar suas mãos depois de tudo.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Pai nosso que estais no céu. Minhas mãos caíram sem forças de novo
sobre meu regaço e fechei os punhos, impotente, para protegê-las. O
medo secou minha garganta e mal podia engolir.
—E para seu bem esperamos que conceba melhor que a outra puta,
veja se contribui com algo melhor que outra inútil mulher — disse
Sandoor com desprezo. Um arbusto rangeu e a menina, Casio, que se
achava escondida ali, saiu correndo.
E de repente soube por que seus olhos me eram tão familiares. Eram os
olhos de Amber. E os de Sandoor também.
—É sua filha — disse ao Sandoor, atordoada pela súbita descoberta.
Dele e de Mona Carlisse. Casio, essa pequena, tímida e selvagem
criatura, era meia irmã de Amber.
—Não é nada. Não é uma rainha e não é um guerreiro, embora possa
ser de alguma utilidade para meus homens em alguns poucos anos.
Meu Deus. Queria dizer sexualmente. Seu próprio pai.
Não culpava Sandoor ou a nenhum outro de seus homens por terem
abandonado suas rainhas, por serem fugitivos. Não faziam nada mais
que tentarem sobreviver. Não era algo que me revelava Sandoor, eu
havia testemunhado com meus próprios olhos, tinha visto minha mãe
planejar cuidadosamente seus movimentos. Ela se dedicava a limpar a
casa quando matava aos mais fortes, aos que era uma ameaça. Via-o
com toda claridade. Mas responsabilizei Sandoor por suas ações naquele
momento, quando era deliberadamente e desnecessariamente cruel
sobre aqueles que eram seus prisioneiros e, além disso, desfrutava
quando agia com brutalidade sobre os que eram de sua carne e de seu
sangue.
—É um monstro — disse asperamente—. Muito pior que qualquer rainha
que poderia causar algum mal a você.
Os olhos de Sandoor se entrecerraram, ficaram perigosamente
ameaçadores.
—Sou eu que decido se deve viver ou morrer. Não se esqueça desse
dado absolutamente pertinente.
Afastou-se e cruzou até o outro extremo da clareira para sentar-se no
único assento disponível naquela rústica morada, uma tosca cadeira
feita de madeira.
—Aproxime-se do centro, Amber — exigiu do tosco trono.
Amber se levantou e caminhou até o centro da clareira.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Áquila. A senhora, por favor — disse Sandoor, e o homem de bela e
suave barba se ajoelhou junto a mim pondo uma adaga sobre minha
garganta.
Sandoor sorriu de forma desagradável quando Amber ficou tenso.
—Controle-se e a faca não a tocará.
Escutou-se na distância um profundo e forte gemido e um débil grito
feminino. Viu-se um brilho de luz aparecer por debaixo da porta do
quarto onde tínhamos ficado presos.
—Ah, bom. Logo Balzaar se unirá a nós — disse Sandoor—. Pode tirar as
correntes de Amber, Romulus.
Um loiro de constituição média, de traços bonitos, mas sérios,
caminhou até Amber e começou a tirar suas algemas. A porta se abriu e
Balzaar saiu. Greeves trancou a porta com uma pesada corrente e
ambos, ele e Balzaar, uniram-se a nós na clareira. Era impossível ignorar
o intenso e acre aroma de suor e sexo que impregnava o enorme corpo
de Balzaar.
—Foi muito cuidadoso com sua nova rainha, meu poderoso filho. Ela
não o teme — disse Sandoor em um tom cauteloso, como se refletisse—.
E aposto que é porque não conhece a razão pela qual deveria o temer,
não é verdade, Amber? A razão pela qual Mona Sera o temia. Pela qual
desejava destruí-lo. Acredito, sim, claro que sim, acredito que deveria
ilustrá-la. Expô-la. Mostre isso a todos.
O rosto de Amber se transformou em pedra.
—Vamos. Vamos. É tão tímido — disse Sandoor em um tom provocador
—. Deixe-nos ver se podemos o ajudar então. Todos os presentes são
livres para desafiar meu filho, um a um. Qualquer um que seja capaz de
derrotá-lo poderá dar a primeira estocada, se me permitem, na nova
rainha. Esta noite, durante toda a noite.
Todos os olhos se viraram para me olhar. Senti-me como um indefeso e
delicado coelhinho entre um montão de lobos famintos.
—Se for capaz de derrotar todos aqueles que desejem o desafiar,
Amber, permanecerá junto a sua rainha e a deixaremos ter o descanso
de mais uma noite que você considera que ela tanto necessita. Se for
capaz de recuperar o controle depois. —Sandoor sorriu com maldade—.
É possível que para ela seja inclusive melhor se não ganhar. Uma
pequena consideração sobre a qual pode meditar.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Tive uma sensação desagradável, a sensação de que estava perdendo
algo vital de novo. Mas era muito tarde. Balzaar estava tirando a roupa.
Amber tirou os sapatos e as calças. Senti a agitação de uma quebra de
onda de energia e de repente estavam trocando, transformando-se,
caíram de quatro, seus rostos decompostos, suas cabeças se
aplanavam, cresciam seus focinhos e apareceu uma capa de pelos.
Todos os homens retrocederam, incluído Sandoor, e formaram um
amplo círculo que seguia o perímetro da clareira. Áquila me pôs de pé,
agarrava-me com uma firmeza inquebrável, mas sem me machucar,
com essa força consciente que usam os homens fortes. Arrastou-me
para trás, quase até as árvores. Minhas pernas tremiam, mas conseguia
me manter em pé. Amaldiçoei minha debilidade.
Diante de meus olhos, Amber se converteu, com uma rápida e total
transformação, em um feroz leão de gigantesca envergadura, como uma
montanha. Sua civilizada fachada se despedaçou, seus dentes letais
eram como facas afiadas e brilhavam enquanto grunhia grosseiramente
daquela maneira arrepiante e puramente animal que só é própria de
criaturas completamente selvagens. Letais músculos se moviam por
baixo daquele lustroso casaco dourado. Até com tudo isso, seus olhos
claros como de cristal ambarino tinham o brilho de uma inteligência
surpreendentemente fria. Aqueles mesmos olhos que tinham me olhado
no calor da paixão. Olhos que pareciam perfeitos na feroz criatura em
que se converteu.
Com um rugido que gelou meu sangue, o enorme felino se equilibrou
sobre aquela torre negra que era o urso de pé sobre suas patas
traseiras. O urso bramou, abraçando ao felino com suas grosas e
poderosas extremidades, e ambos caíram rolando pelo chão. Amber
afundou seus afiados dentes no pescoço do urso.
Afiadas garras cortaram a dourada pelagem de Amber, quem começou
a sangrar escandalosamente, e com um tremendo golpe o fez cair para
trás. Os afiados dentes do leão atravessaram a pele de seu adversário,
mas seus pelo, áspero e grosso, contiveram a ferida.
Aquilo se converteu em um jogo de estratégia: eram a velocidade,
agilidade e rapidez de movimentos do gigantesco leão contra os golpes
mais lentos, porém mais poderosos do urso, sua mortal fortaleza, e sua
grossa e protetora pele. Amber arrancava e atacava, uma e outra vez,
cortando, mordendo, ocasionando feridas superficiais, mas não lesões
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Monere – Os filhos da Lua - 01
realmente graves. Balzaar se defendia e respondia atirando menos
golpes, porém mais certeiros, mais sangrentos.
Engoli os gritos que se amontoavam em meus lábios a cada novo golpe,
porque sabia que não serviriam mais que para distrair ao Amber.
Balzaar estava jogando com sua resistência, sua melhor jogada,
esperando que Amber se debilitasse. Era uma boa estratégia, ainda
mais inteligente tendo em conta que a força de Amber tinha minguado
enormemente depois de seis dias passando fome e cuidando de mim dia
e noite.
O ruído da luta invadia o silêncio da noite. Tentei me virar para olhar
para Áquila, que me deteve pressionando ameaçadoramente a lâmina
de sua adaga contra minha pele.
—Olhe para frente, senhora, e seja amável, mantenha suas mãos
baixadas — disse tranqüilamente de detrás de mim.
Claro. O que minhas mãos fizeram a Miles havia assustando tanto a
seus homens que Sandoor chegou a pensar em cortá-las.
Senti um calafrio. Tinha que sair dali. Amber lutava com seu corpo, mas
eu estava muito debilitada para lutar da mesma maneira, assim teria
que fazer de outra forma.
Não parecia haver autêntica baixeza em Áquila, não detectava nenhum
sentimento de ódio como em Sandoor. Embora este último não fosse
especialmente de meu agrado, acreditava em tudo o que havia dito.
Todos aqueles homens tinham acumulado muito poder para suas
rainhas e se uniram a Sandoor; eram párias, fugitivos, porque não
tinham outro lugar aonde ir e poder seguir com vida.
Ofereci a Áquila meu convite em um suave sussurro.
—A todos aqueles que venham para mim, com um coração honesto e
disposto, tomarei a meu serviço.
A batalha crescia em intensidade diante de mim, mas era o silêncio a
minhas costas o que me preocupava. Sabia que Áquila tinha me ouvido.
—A oferta expira em vinte e quatro horas. Diga aos outros, mas não a
Greeves nem a ninguém parecido com ele.
Que Áquila não me respondesse era suficiente resposta. Ele pensaria e
não diria ao Sandoor, ainda ao menos. Era o suficiente no momento,
tinha que ser, embora fosse muito difícil convencer a mim mesma
quando Amber, que cada vez se movia mais devagar, deu um rugindo

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Monere – Os filhos da Lua - 01
de dor. Balzaar tinha dado outro golpe, o cortando, e intuindo sua
debilidade carregou contra seu extenuado oponente.
Com repentina energia, Amber saltou sobre Balzaar e rasgou sua
desprotegida costas. Rugindo raivoso, Balzaar se virou mostrando suas
fulminantes garras. Amber se agachou, mas em lugar de afastar-se
rapidamente se lançou para frente, atacando seu ponto vulnerável, a
cara. Deixou-o cego de um olho e rasgou o tenro nariz. Rugindo de dor,
Balzaar se virou para afastar-se com grandes passadas e entrou no
bosque.
O gigantesco leão permanecia sozinho na clareira. Era um predador
ferido, seus flancos se agitavam pesadamente e o sangue emanava
lentamente das profundas feridas que tinha na parte esquerda das
costas, no ombro e sobre a parte direita do estômago. Esperava a
seguinte provocação.
Com um violento grunhido atacou seu adversário seguinte. Era um lobo
branco. Rangeram os dentes, as garras despedaçaram e brotou mais
sangue. O lobo dançava em torno do enorme gato e se lançava para
mordê-lo nos flancos. Amber respondeu com um poderoso golpe de suas
afiadas garras e lançou o lobo rodando. Este se incorporou rápido como
o raio e saltou de novo. Encontraram-se no ar, dois corpos pesados
chocando-se um contra o outro. Os dentes do lobo afundaram
profundamente na garganta de Amber. Com um rugido de fúria, o
enorme felino o sacudiu ficando livre. Por sua liberdade pagou com um
esmigalhado pedaço de carne e uma parte de sua dourada pelagem.
Emanou sangue, embora não a fervuras.
Não encontrou sua artéria, disse a meu coração, que pulsava
rapidamente, mas continuou me martelando, sem piedade, no peito,
fazendo que minha cabeça desse voltas. O chão parecia mover-se sob
meus pés. Mais que para me reter, a mão que me agarrava servia de
sustento. Apertei os dentes, tentando me manter consciente com
teimosa determinação.
Amber conseguiu agarrar ao lobo pelo pescoço em um súbito ataque, e
lançou o animal pelos ares sem gastar forças, quase com desdém. Este
voou durante certa distância, seu sangue emanou a fervuras, e
aterrissou a alguns metros dali com um grunhido de dor. Com o rabo
entre as pernas, fugiu para o bosque, deixando detrás de si um rastro de
sangue.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Não teve que esperar o seguinte ataque. Um brilho pintalgado se
lançou contra Amber. Era Greeves. A pesada parte superior de seu
corpo, sua cabeça de enormes proporções assim como seus ombros,
eram totalmente naturais em sua outra forma. Era uma enorme hiena,
seu sorriso era uma aterradora careta que se desenhava sobre um rosto
inteligente. A debilidade de suas patas traseiras se compensava com
sua grande cabeça e suas poderosas mandíbulas. Suas maneiras eram
matreiras, atacava em súbitas investidas, estalando os dentes,
retrocedendo, dando voltas, retorcendo-se e atacando de novo depois
que Amber escapava de sua mortal boca.
A maior parte das pessoas identificava às hienas como animais
carniceiros e se esqueciam freqüentemente de que estes insetos são
também destros predadores por natureza. Eu olhava fixamente aquelas
presas desumanas, aqueles lábios escuros que se retorciam em uma
careta maliciosa, e soube que nunca voltaria a esquecer daquele dado
freqüentemente evitado.
Amber se retorcia e escorregava sobre uma parte de mato ensopada de
sangue enquanto Greeves arremetia contra ele, procurando sua
garganta. Aqueles afiados dentes se fecharam como se fosse uma
mortífera armadilha de metal. Gritei e, sem me dar conta, dei um passo
para frente, mas Áquila me puxou de novo me retendo com força.
Amber se retorceu lutando. Arranhou profundamente à hiena em seu
robusto peito, mas aquelas poderosas mandíbulas seguiam firmemente
fechadas. Greeves sacudiu Amber, uma e outra vez, até que os esforços
do enorme leão por resistir foram ficando cada vez mais fracos, até ficar
inerte. Afogavam-me os soluços e as lágrimas caíam pelo meu rosto
quando os bonitos olhos de Amber se fecharam. Aquele felino, que foi
uma vez majestoso, não era agora mais que um peso morto que
arrastava à hiena para frente até que ficou sobre ele, ofegando.
—Não, não... —gemi no repentino silêncio—. Amber...
Os olhos de Amber se abriram repentinamente e quatro afiadas garras
deram um poderoso golpe no vulnerável baixo ventre da hiena,
rasgando-o com assombrosa facilidade. Emanou sangue de aroma
penetrante e abundante. Os intestinos saltaram e se incharam,
empurrando para sair. Aquela feroz e poderosa mandíbula se abriu e
deixou ir a sua presa. Afastou-se rapidamente uivando de maneira
arrepiante, dividido entre a indignação e a dor.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Amber se virou lentamente até ficar de pé. Seu precioso sangue
emanava da ferida aberta em seu pescoço, sua respiração era difícil e
trabalhosa. Ninguém se moveu.
Sandoor rompeu o silêncio.
—Seguinte?
Ninguém deu um passo à frente.
—Amber é o ganhador — declarou Sandoor com voz cheia de satisfação
e orgulho.
Movi-me querendo ir até Amber, mas Áquila me reteve e negou com a
cabeça, me advertindo.
Com uma nova quebra de onda de energia, Amber reapareceu
ajoelhado na clareira, moreno de cintura para cima, de pele
esbranquiçada embaixo, ambos os tons adornados com vermelho
sangue. Tinha o pescoço esmigalhado; seu peito, seu torso e suas
pernas receberam cortes de garras afiadas. Fazendo um esforço
cambaleou, procurando sua calça, e a pôs. Levantou os olhos, alerta,
mas cheio de cansaço, quando Romulus se aproximou para lhe pôr as
algemas.
Amber se virou para me procurar com os olhos. Lançou-me um olhar
com o qual tentava me suplicar algo desesperadamente, seus olhos
tinham ainda uma inquietante cor amarela. Desejei desesperadamente
saber o que era que ele queria que fizesse. Libertar-me? Tentar fugir?
Inclusive se pudesse fazer isso, teria sido uma tentativa inútil. Ainda
continuavam ali mais da metade dos homens e estavam descansados,
inteiros e sadios, não foram feridos.
Quando não fiz nenhum tipo de movimento, Amber levantou as mãos,
seus olhos estavam cheios de desespero quando as algemas se
fecharam sobre seus enormes pulsos. Dirigiu então um olhar suplicante
a seu pai.
—Façam-no voltar para a Mona Carlisse — ordenou Sandoor.
Romulus agarrou Amber pelo braço. Este resistiu.
—Permita-me ficar aqui fora esta noite — pediu Amber a Sandoor, sua
voz despedaçada soava levemente áspera.
—Não. —Seu pai negou com a cabeça—. Sinto muito, filho.
Como se com aquelas palavras tivessem posto em marcha um
mecanismo, Amber começou a resistir com silenciosa determinação.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Outro homem loiro se uniu a Romulus e o ajudou a controlar Amber.
Juntos o arrastaram para frente.
Áquila retirou a adaga de minha garganta.
—Pode caminhar?
—Posso sem dúvida tentar. —Sentia minhas trêmulas pernas como se
fossem de gelatina, mas fui capaz de retornar ao abrigo de pedra onde
nos prenderam. Sandoor abriu o ferrolho da grossa porta de metal e
entrei coxeando.
—Pai, por favor, não faça isto — disse Amber com voz rouca—. Suplico-
lhe isso.
A voz de Sandoor foi alarmantemente sincera.
—É por seu próprio bem, filho.
O mais terrível é que realmente acreditava.
O rugido de Amber fez que tremesse o ar.
—Não me faça isto.
Mas o empurraram dentro.
A porta se fechou com um ruído metálico detrás de Amber, encerrando-
o.

Capítulo treze
—Amber! —gritei, me movendo para ele.
—Não — disse com uma voz terrivelmente exasperada.
—Faça o que ele disse — endossou Mona Carlisse do outro lado do
cômodo—. Afaste-se lentamente dele — instruiu-me mais brandamente.
Amber se inclinou com as costas apoiada contra a porta, seus olhos
estavam cheios de medo e cólera; era uma combinação bastante
explosiva.
—Faça o que eu disse — disse com dureza.
Fui para o mesmo canto onde ele esteve cuidando de mim, mantendo-
me com vida, e me agachei sobre a manta.
—Amber. —Minha voz saiu tímida, incerta—. O que está acontecendo?
A voz de Mona Carlisse flutuou na escuridão, sua voz estava cheia de
tensão.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Ainda está recente a batalha e sua mudança de forma. Ainda pulsa
por suas veias a sede de sangue, seu corpo exige alívio.
—E o que necessita para aliviar-se? —perguntei, sabendo de antemão
que não gostaria da resposta.
—Sangue ou sexo. Normalmente se dedicam a caçar depois para
queimar toda essa grande tensão.
Mas a Amber não permitiram ir caçar. Justamente o contrário. Tinham-
no encerrado junto com duas rainhas e com a atração natural e intensa
que sentia por elas para provocar e estimular suas emoções,
suficientemente violentas por si. Só deram uma saída a ele, o sexo.
Compreendi naquele momento. Esperavam que fosse violento. Ele
também pensava que ia ser violento e tinha medo. Mona Carlisse o
temia. Seu medo era como um grito, no meio de uma atmosfera que,
por si, já estava cheia dos aromas emanados na paixão.
Amber tremeu. Seus músculos se retesaram. Braços e coxas se
avultaram com ameaçadora força. Ofegou, respirava ansioso, como se
fosse um homem que estivesse se afogando. Girando em circulo,
golpeou grosseiramente seus grilhões contra a porta, fazendo-a tremer.
O estrondo do metal contra metal soava desesperado, doentio e
zangado.
—Deixem-me sair! Deixem-me sair! —Sua cólera era terrível. Golpeou a
porta, uma e outra vez, até abrir uma fenda no metal. Voltou a girar
repentinamente, dando alguns passos para frente, e Mona Carlisse,
aterrorizada, deu um grito sufocado. Amber lançou um olhar
tremendamente amargo e carregado de ódio para ela e se jogou contra
a porta. Se seus grilhões não fossem de prata, poderia ter jogado a
porta abaixo. Inclusive apenas com a força de um ser humano podia
fazer bastante dano. Eram mais de cento e trinta quilogramas dispostos
a destroçar. Esmurrou a porta, jogou-se contra ela sem piedade, fazendo
o metal tremer e as dobradiças chiarem, cobrindo-a de sangue. Mas a
porta agüentou. Deixou-se cair ao chão, com o rosto esmagado contra a
porta.
—Amber — o chamei com voz suave e calma—. Vem para mim.
Retesou-se, sua respiração alterada era apenas um ruído áspero. Então
iniciou de novo o movimento explosivo, batendo-se contra a parede
desta vez, contra sua parte mais vulnerável, a contígua à porta. Investiu
uma e outra vez como um carneiro. Um montão de pó saiu voando, mas
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Monere – Os filhos da Lua - 01
a pedra teimosa resistiu. Apoiou todo seu peso contra a parede e
empurrou, grunhindo, esforçando-se até o limite. Os braços se
avultaram e tremiam, suas costas se curvou e todos seus músculos se
desenharam com precisão. Mas não era Sansão nem o mítico Hércules.
Derrubou-se, soluçando, incapaz de escapar, era um animal selvagem
apanhado em uma armadilha indestrutível.
Em meu interior crescia uma necessidade inegável e instintiva de
acalmar e de dar consolo, de aliviar esse terrível sofrimento. Mas
mesmo com a melhor intenção, podia perder as mãos tentando ajudar a
uma besta selvagem. Deixava-o bem presente. OH, sim. Mas estava
mais que disposta a me arriscar.
—Amber. Aproxime-se. Confie em mim.
Negou com a cabeça baixa, seus cabelos despenteados e emaranhados
caíam sobre seu rosto dando a ele um aspecto de louco. —Não! OH,
deusa, OH deusa OH deusa OH deusa...
O que seu pai estava fazendo com ele deliberadamente era muito pior
do que o que Miles me fez com o afrodisíaco. Como podia um pai fazer
isto a seu próprio filho? Como podia uma mãe abandonar o seu próprio
bebê com estranhos? Sussurrou uma débil voz dentro de mim. Deixei
meus olhos caírem sobre o lastimoso animal que sofria encolhido sobre
o chão de terra diante de mim e tive uma dessas repentinas revelações.
Possivelmente ao me abandonar, Mona Sera tivesse me feito mais bem
do que eu tinha acreditado. Pelo menos eu tive Helen e a calidez de seu
amor durante os primeiros seis anos de minha vida.
Amber levantou a cabeça lentamente. Seus selvagens olhos âmbar,
desumanos, brilhavam na escuridão e olhavam para a figura encolhida
no canto mais afastado, para Mona Carlisse. Agachado, de quatro, deu
um passo naquela direção, com seu estômago grudado ao chão, um
gato enorme espreitando sua presa.
—Não, Amber — disse.
Sua voz retumbou profundamente em seu peito, pelo esforço, como se
fosse difícil empregar palavras humanas. —Prefiro machucar a ela que a
você.
De novo, outra revelação. Sandoor sabia, deixou de propósito Mona
Carlisse sabendo que esta seria a escolha de seu filho e sabendo que
uma vez que Amber violasse uma rainha nunca retornaria, teria que
permanecer com seu bando de párias para sempre.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Uma firme resolução tomava forma em meu interior. Não perderia
Amber. Não o perderia também.
—Ver como você faz mal a ela me ferirá ainda mais — disse—. Vem
para mim.
Deteve-se, trêmulo, respirou profundamente, entre pensativo e
choroso.
—Destroçaria-me se chegasse a ver medo em seus olhos. Não seria
capaz de suportar. Não agora.
—Olhe-me nos olhos, Amber. Não verá medo. —Minha voz se fez mais
profunda, as palavras adequadas apareceram em meus lábios, vinham
de algum lugar dentro de mim—. Sou sua rainha. É meu direito ajudá-lo
e consolá-lo. Obedeça-me agora. Vem para mim.
Quase contra sua vontade, voltou-se para mim, em seus olhos de gato
havia um brilho aterrador. Abri os braços para ele que lentamente se
aproximou de mim de quatro, empregando músculos que não possuía
nenhum ser humano. Tinha uma elegância bonita e perigosa, apesar das
amarras que dificultavam seus movimentos.
Estendi as mãos para tocá-lo, queria colocá-las sobre suas terríveis
feridas para curá-lo.
—Não — gritou desesperado—. Não serei capaz de me controlar se me
tocar.
—De acordo. —Joguei-me para trás, me oferecendo livremente a ele.
—Está muito fraca.
Ri.
— Não necessito de muita energia para não fazer mais que me deitar
sobre as costas. Prometo que deixo todo o trabalho para você desta vez.
—Meus olhos brilharam ao olhá-lo.
Ouvir-me rir relaxou em parte a tensão que o dominava.
Virou seu rosto para Mona Carlisse.
—Não olhe — trovejou ameaçador.
Ela virou a cabeça para a parede e me chegou ao coração me dar conta
de que inclusive naquele momento, atormentado por uma terrível
necessidade, Amber foi capaz de recordar de meu desconforto, meu
estranho pudor.
Dei um sorriso trêmulo para ele enquanto ele avançava lentamente
para colocar-se sobre mim, com cuidado de não me tocar.
—OH, Amber. —Seu nome era um suave suspiro em meus lábios.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Agachou-se e montou sobre minhas coxas. Afundou suas mãos sob
minha blusa, entre minhas pernas. Testou primeiro com um grosso
dedo. Fechei os olhos um momento e mordi meus lábios para conter o
gemido que me veio à boca.
—Ainda não está suficientemente úmida. —Respirava com dificuldade,
um leve tremor sacudia toda sua figura.
Estava úmida, mas não o suficiente para ele, para seu tamanho. —
Estarei bem.
—Dê-me suas mãos. —Apertou os dentes, abriu a braguilha deixando a
via livre. Lambeu minhas duas mãos, as umedecendo com sua saliva,
rodeou bruscamente com elas a extensão de sua ereção, uma mão
sobre a outra e ainda havia espaço para uma terceira se a tivesse, tão
grosa que as pontas de meus dedos não se encontravam. Gemeu
asperamente, levantou-se sobre mim, apoiando os braços sobre minha
cabeça. Agarrava-o com firmeza, minhas mãos criavam uma capa entre
minhas coxas.
—Aperte com mais força! Sim! —movia-se por cima de mim, empurrava
dura, vigorosa e violentamente, sem parar, sem duvidar, nem sequer
quando minhas mãos começaram a sentir o formigamento, esse calor, e
meu poder começou a emanar. Iluminou o sombrio cômodo com luz
incandescente que brilhava dentro dele. Perfilava-se sobre mim com
uma glória brutal e selvagem.
Virei a cabeça e lambi a ferida de seu pescoço, minha língua entrou
profundamente, provocando dor, provocando prazer. Gritou e jogou-se
contra minhas mãos a parte inferior de seu corpo ainda com mais força,
mais rápido, com mais urgência, nos empurrando aos dois vários
centímetros mais acima da manta com cada palpitante golpe. Seus
músculos se retesaram e rugiu quando gozou, derramando toda sua
cálida essência entre minhas coxas.
—Está brilhando — disse com autêntica surpresa levantando a cabeça.
Seus olhos ainda estavam daquela cor âmbar animal, mas tinha
desaparecido esse fio selvagem e desesperado.
—Eu adoro que goze — disse ronronando. Vi com enorme e intensa
satisfação que sua profunda ferida tinha desaparecido, em seu lugar
voltava a cobrir seu pescoço uma pele suave e perfeita.
—Suas mãos estão quentes — sussurrou.
—E não se assusta.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Nunca me faria mal.
—OH, Amber — suspirei e esfreguei contra ele meu faminto sexo,
empapado com sua ejaculação. Estava menor, meio ereto entre minhas
mãos. Gemi e me levantei para me grudar contra ele, escorregando
sobre sua ampla ponta—. Estou suficientemente úmida agora — tentei-
o. Minhas mãos baixaram, cobrindo-o e o acariciando com seus próprios
fluídos.
Levantou a parte superior de seu corpo, liberando minhas mãos, e eu
levantei os braços acima de minha cabeça, afastando os grilhões.
Retorci-me contra ele. Abri ainda mais as pernas. Com seus bonitos e
perigosos olhos fixos nos meus empurrou lentamente, tão gradualmente
que não havia incômodo, só a maravilhosa sensação de que me abria.
Era mais fácil agora que estava menor, mas mesmo assim tinha que
abrir passagem profundamente com delicados e pequenos empurrões
que não eram suficientes. Nem de longe eram suficientes. Uma vez que
esteve completamente dentro de mim, ficou imóvel. Senti-o crescer, se
alongado e engrossando dentro de mim até estar completamente ereto,
me enchendo deliciosamente, dolorosamente completa e até mais que
completamente, até que senti que explodiria se não se movesse. Gemi e
me arqueei contra ele.
—Chsss — acalmou-me grosseiramente—. Disse que me deixaria fazer
o trabalho.
—Então o faça soltei.
Sua rude risada me chegou ao coração. Sua profunda confiança me
cortou a respiração.
—OH! —A selvagem e prazerosa sensação de desgarramento
atravessou todo meu corpo nublando meus olhos.
—Eu adoro dar prazer a você. — retumbou e empurrou mais forte, com
calma, estabelecendo um ritmo lento, mas contínuo que era quase, mas
não de tudo, delicado. Entrava com segurança, desumano, como a
maré, construindo a onda de nosso prazer até que a luz que emitíamos
era pura e cegadora. Minha onda alcançou sua crista e quebrou-se,
tremi interminavelmente. Ele perdeu o controle e se introduziu com uma
força que tirou meu fôlego, afundou-se até o final em mim, até alcançar
meu útero, e se manteve quieto, deixando que minhas fortes contrações
o espremessem até que alcançou seu ponto de glória e gozou. Gemeu
docemente e caiu sobre mim, seus braços ainda agüentavam a maior
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Monere – Os filhos da Lua - 01
parte de seu enorme peso. Saboreei o momento, a proximidade e o
triunfo. Estive muito perto de perdê-lo.
Esfreguei minha face contra a dele em um simples gesto de afeto.
—Eu adoro sua força, quão grande é.
Senti que suas faces, acaloradas pelo calor da paixão, avermelhavam
ainda mais e dei uma risada tola ao me dar conta de que me tinha
interpretado mal.
—Aí em baixo, sim. Mas também queria dizer seu tamanho, sua
estatura. Faz-me sentir segura — confessei em um sussurro.
Amber saiu de mim, o escorregão da saída me fez estremecer. Girou-
me para deitar-se de costas, de tal maneira que me encontrei jogada
sobre ele. Cobriu-me com uma manta, e esfregou seus lábios
docemente, com ternura, contra os meus.
—Você me faz sentir seguro também — disse.
Sorri feliz, cansada e relaxada, e de boa vontade me entreguei ao
deleite do sono que me chamava.

Capítulo quatorze
O sol era uma bola de fogo no alto do céu quando despertei. As
enormes mãos de Amber escorregavam por minha coluna em uma lenta
carícia, sentia como o deleitava. Levantei a cabeça e sorri para ele.
—Como se sente? —perguntou brandamente.
—Melhor — disse, depois de pensar por um momento—, e mais forte,
por estranho que pareça. —Verifiquei as amarras de meus pulsos e se
partiram sem dificuldade. Possivelmente ao curar Amber curei também
a mim mesma. Ou possivelmente me recuperei rapidamente depois
obter o descanso que tanto necessitava. Ou possivelmente Amber me
irradiou parte de sua enorme força física. Aquilo provocava novas
dúvidas. Recebiam as rainhas presentes de seus amantes ou só
funcionava na outra direção? Fosse o que fosse estava muito agradecida
por ter recuperado minha força para questionar isso naquele momento.
Arranquei também as algemas de Amber, deixando-o livre.
Ficou de pé comigo nos braços sem dificuldade e depois me deixou no
chão.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Partamos — disse.
—Leve-me com vocês. —A suave voz de Mona Carlisse, proveniente do
outro canto, assustou-me. Esteve tão calada e quieta que de verdade
me esqueci de que estava ali.
Duvidei.
—É o momento de mais calor do dia. Levantou-se.
—Não me importa. Prefiro morrer livre sob o sol que me submeter a
outro porco no cio mais um dia.
Olhei com desconfiança para Amber.
—Estarão menos predispostos a nos caçarem se ela ficar. É muito
provável que na realidade simplesmente vão para outro lugar para
esconderem-se. Se a levarmos conosco não terão outra alternativa
senão nos perseguir.
O que dizia fazia sentido, e mesmo assim... Só estive ali uma semana, e
acordada e consciente nada mais que um dia. E o que vi nesse dia era
mais que suficiente para me pôr os cabelos de pé. Ela havia estado ali, a
mercê daqueles miseráveis, durante dez longos anos.
—Quanto sol poderia suportar? —perguntei.
—Poderia suportar uma hora de luz direta do sol — respondeu Amber—.
Depois, possivelmente, poderemos tentar protegê-la com uma manta e
inclusive levá-la nas costas se for necessário.
—E você? —perguntei brandamente—. Será capaz de suportar a luz do
sol?
Amber deu de ombros.
—Logo veremos. Se não, ao menos teremos uma hora de vantagem.
Virei-me para Mona Carlisse.
—Estendi uma oferta, válida durante vinte e quatro horas, de que
receberia a qualquer homem que viesse para mim com a honesta
intenção de me servir. Não Greeves nem nenhum parecido com ele, mas
sim homens como Áquila. Não sei se algum aceitará, mas se o fizerem,
deve me prometer que não procurará castigá-los nem pessoalmente
nem através do Conselho pelo que fizeram a você aqui.
Seu rosto era inerte como o de uma máscara.
—Só no caso daqueles que você aceite — disse finalmente.
Assenti.
—De acordo — disse.
—Onde está sua filha? —perguntei.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Casio se refugia em uma cova próxima quando não dorme aqui.
—Pode nos guiar até lá?
Assentiu.
—Bom — disse—. Vamos procurá-la.
Mona Carlisse inclinou a cabeça com grande cerimônia.
—Obrigado, irmã.
Inclinei a cabeça. Dá de ombros parecia má educação. —Não é
necessário agradecer.
Não havia nada que levar conosco naquela primitiva estrutura à
exceção das duas mantas. Um delicado puxão e as correntes cederam
com um estalo que a meus ouvidos soou escandaloso, mas não foi dado
alarme nos dois barracos longínquos.
A porta se abriu e Mona Carlisse correu silenciosamente para o monte
com a manta sobre a cabeça, só uma pequena porção de seu rosto
ficava exposta. Guiou-nos até uma cova pequena e bem escondida,
engatinhou pelo pequeno orifício de entrada e retornou pouco depois
com Casio envolta da mesma maneira que ela com a outra manta.
A pequena piscou com seus grandes e bonitos olhos azuis me olhando.
Sorri para ela tranquilizadoramente. Olhou detrás de mim e jogou a
cabeça para trás para observar Amber. Ele se agachou para ficar a seu
nível e a deixou estudá-lo.
Tinham os mesmos cabelos castanhos, embora os dele estivessem
muito mais limpos, os mesmos olhos azuis celeste. Perguntei-me que
outras semelhanças poderia descobrir debaixo de toda aquela
imundície. Amber ofereceu um amável e caloroso sorriso para aquela
criancinha que compartilhava seu sangue. Casio devolveu o fugaz
sorriso, que tremeu em seus lábios um segundo e depois morreu.
Timidamente, se escapuliu de entre os braços de sua mãe para
esconder-se detrás de sua saia.
Viajamos totalmente em silêncio. Depois do primeiro quilômetro e meio
Amber acelerou o ritmo, já sem se importar nem rangidos nem
perturbadores ruídos que pudéssemos fazer enquanto atravessávamos a
densa mata e a selvagem folhagem.
Toquei-o no braço e apontei para seu peito nu.
—Estou bem — replicou tranqüilamente.
—Não dói?
Amber negou com a cabeça.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Seu aspecto era bom. Não estava avermelhado e não havia sinal de
mal-estar. Mona Carlisse e Casio, por outro lado, estavam ruborizadas,
tinham a cor vermelha da beterraba, e suavam profusamente. Seus
rostos refletiam o silencioso mal-estar, mas seguiam adiante sem uma
palavra de queixa. Casio tinha que correr às vezes, para manter-se à
altura de nossas passadas, mais longas que as suas.
Tínhamos passado a hora e estávamos próximos das duas horas de
caminhada quando Mona Carlisse e Casio alcançaram seu limite. Amber
nos fez parar junto a um pequeno arroio. Casio desabou sobre o chão,
ofegando, enquanto Mona Carlisse se arrastou até a água, tomou um
sorvo e salpicou seu rosto quente. Inundou os braços até a altura dos
cotovelos na água fria durante um momento e depois pegou Casio para
levá-la até a margem da água. Obrigou-a a beber e enquanto salpicava
de água seu pequeno rosto avermelhado.
Assim Mona Carlisse se importava com sua filha. Perguntei-me se as
outras rainhas seriam como ela ou como minha mãe.
Estava levemente sem fôlego e tinha os olhos cheios de lágrimas por
culpa do irritante brilho do sol, mas, além disso, encontrava-me bem.
Amber se manteve em guarda enquanto descansávamos, encontrava-se
cômodo sob o sol à exceção daquele radiante brilho, que fazia que
tivesse os olhos chorosos como eu.
—Esse não é como seu pai — disse Mona Carlisse em voz baixa,
olhando para Amber.
—Não — repliquei—, nem de longe.
—Serve a você com uma devoção que chega muito mais longe do que
nada que tenha visto. Poucos homens recusariam uma vida em que uma
rainha estivesse ao serviço de sua vontade.
Virou-se para Amber.
—Por que continuou preocupando-se com sua rainha quando já não
havia razão para fazê-lo? Quando, além disso, ia contra seus próprios
interesses fazê-lo.
—Sentimo-nos atraídos pelas rainhas — replicou Amber—. Está em
nossa natureza o desejo de servi-las, de protegê-las. Necessitamos de
seu calor, sua presença, na mesma medida que vocês necessitam de
nossa força. Ela é a rainha que durante toda minha vida sonhei poder
servir.
Mona Carlisse o olhou perplexa.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Por quê?
—Porque nos ama e nos aprecia tanto como nós a amamos e a
apreciamos — disse, com seus olhos fixos em mim.
Envergonhei-me um pouco quando disse «amar», mas não neguei.
Amava-os, a ambos, inclusive agora. Senti uma pontada em meu
coração ao pensar em Gryphon, uma dor débil.
—E o demonstra com seus atos, como já presenciou. A forma, como se
preocupa conosco, como põe bobamente nossas necessidades na frente
de sua própria segurança. —Disse este último com fina ironia.
—O risco valia a pena. — declarei—. Você merecia o risco.
Os olhos de Amber me acariciaram com surpreendente doçura. Sorri
para ele com ternura em resposta, consciente de que aquele laço
elementar, mas sólido entre nós já tinha se forjado.
Virou-se e se dirigiu a Mona Carlisse.
—Se segurar Casio eu poderei então levar as duas.
—Eu posso levar Casio — me ofereci.
Amber negou com a cabeça.
—Não. Se esgotar suas forças, então terei que conduzir você também.
Eu não gostei, mas sua lógica era irrebatível.
Mona Carlisse cobriu Casio completamente com a manta e tomou nos
braços. Amber pôs a manta de Mona Carlisse de maneira que a
protegesse e à menina, e então tomou ambas em seus braços e
recomeçou a marcha a um passo ainda mais rápido que antes.
Duas horas mais tarde, pôs ambas no chão, respirando pesadamente.
Olhou-me, avaliando meu estado. Meu coração pulsava um pouco mais
rápido e meus músculos começavam a protestar pelo abuso, mas ainda
podia continuar.
—O sol se põe dentro de uma hora — informou Amber a Mona Carlisse
—. As duas podem caminhar agora?
Seu aspecto não tinha melhorado a pesar do descanso, pelo contrário.
Seu coração pulsava rápido e ofegava com a boca aberta (era a maneira
em que seu corpo tentava se esfriar). Mas levantou o queixo como uma
autêntica rainha.
—É obvio.
Avançaram tenazmente, dando tropeções. Mona Carlisse recolhia Casio
cada vez que esta caía e a puxava. A pequena seguia caminhando
corajosamente enquanto o sol se punha lentamente como se com
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preguiça. Estava me perguntando quantos quilômetros restavam por
percorrer quando um pássaro gigantesco descendeu bicado e posou
perto. Era uma águia, de maior tamanho que a variante natural, com
inteligentes olhos cinza. A espada de Amber pendurava do pescoço do
pássaro junto com uma trouxa de tecido. Na distância se escutou um
lobo uivar feliz, em plena caça, tinha descoberto nosso rastro. Uma
hiena riu dando um grito arrepiante. Tiritei11.
Amber ficou na frente nos protegendo, ficando entre nós e a águia, mas
não atacou.
Um brilho de energia, de luz, e Áquila estava diante de nós. Lançou ao
Amber sua espada e tranqüilamente vestiu a roupa e os sapatos que
levava na trouxa.
Quando estava completamente vestido, ajoelhou-se dirigindo-se a mim.
—Senhora, desejo lhes servir se quiser me aceitar.
Saí de trás de Amber, me afastando de seu amparo. Senti a tensão de
Amber, mas ele não me deteve quando me aproximei do homem
ajoelhado. Delicadamente, segurei seu queixo com sua bela barba em
minhas mãos e levantei seu rosto de modo que pudesse olhá-lo
diretamente nos olhos. Ele elevou os olhos para mim resolutamente e
me permitiu mergulhar naquelas profundidades cinza que, pouco a
pouco, voltavam lentamente para sua cor habitual, entre verde e avelã.
Uma extraordinária transformação para ser contemplada.
—Só posso prometer a você que farei tudo o que possa para protegê-lo
— disse solenemente—, mas não posso dar nenhuma garantia. Se o
Conselho decidir outra coisa em relação ao que fez...
—Assim seja então. Vivi o suficiente. Seria uma boa maneira de partir,
de uma forma honrada, servindo a você.
—Então me alegro de lhe dar boas-vindas — respondi aceitando
formalmente.
Áquila respirou profundamente, exalando depois delicadamente. Beijou
brevemente minha mão e, ficando de novo de pé, fez uma profunda
reverência.
—Minha rainha.
—A que distância estão os outros? —perguntou Amber.

11
Tiritar – tremer e/ou bater os dentes de frio ou medo. (Aurélio)
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—A várias horas de distância — replicou Áquila—. Mas cortam essa
distância rapidamente uma vez que se transformam. —deteve-se e
sorriu—. Entretanto, não há nenhum outro que possa voar.
Amber se dirigiu a Mona Carlisse.
—Tem alguma outra forma, senhora?
—Não — disse Mona Carlisse com pesar.
Amber se virou para Áquila.
—Se for capaz de transportar Mona Carlisse e Casio em sua forma de
águia, eu cuidarei de Mona Lisa.
Áquila assentiu e vi o olhar de silencioso entendimento que trocavam
entre eles. Amber não confiaria minha segurança a Áquila no momento.
Sapatos e roupas foram envolvidos em mantas e pendurados ao redor
de meu pescoço e do pescoço de Mona Carlisse. Passei pelo pescoço e
um ombro a espada e o cinturão de Amber, de tal maneira que a lâmina
desta descansava sobre minhas costas. Era muito mais pesada do que
parecia nas mãos de Amber. Áquila se transformou mais uma vez em
uma majestosa águia e nos esperou pacientemente.
—Ele não sente sede de sangue? —perguntei.
—É um pássaro — respondeu Amber simplesmente—, e não é que
acabe de terminar de lutar.
Amber duvidou antes de transformar-se. —Não tenha medo de mim
quando estiver transformado. Coloquei minha mão sobre o peito de
Amber e sorri para ele. —Não o farei.
Ele depositou um terno beijo sobre minha palma e se transformou.
Selvagens olhos âmbar, perfilados por duas linhas negras, olhavam-me,
a altura de seus olhos era a dos meus estando eu de pé. Estendi a mão
e acariciei sua peluda cabeça. Piscou preguiçoso com aqueles olhos
dourados e virou a cabeça para que pudesse o acariciar detrás da
orelha, fazendo um ruído surdo e profundo, ronronando.
O enorme gato se agachou diante de mim e eu subi em suas costas,
meus braços rodearam firmemente seu pescoço. Depois de dar alguns
passos para assegurar-se de que estava bem sentada, começou a correr
com suaves e longas passadas através da densa mata, lançando-se por
entre as árvores.
Áquila levantou vôo por cima de nós. Com suas garras agarrava
cuidadosamente Mona Carlisse e Casio. A pequena levantou seu ardente

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Monere – Os filhos da Lua - 01
rosto para receber a refrescante brisa e sorriu maravilhada enquanto
voavam por cima das árvores.
Agarrei-me e afundei meu rosto na pelagem dourada de Amber,
inalando aquela fragrância de almíscar selvagem que era dele. Músculos
poderosos se contraíam e estiravam por debaixo de mim, em um ritmo
suave e contínuo. Ramos e folhas batiam rapidamente a nossa
passagem. Correu sem descanso com aquelas longas passadas, naquela
corrida por avançar em que não vacilava, não reduzia a marcha,
inclusive com a passagem das horas, quando a escuridão caiu por
completo, e sua respiração se fez cada vez mais dura e trabalhosa.
Amber fez por fim uma parada junto a uma represa de água. Deixei-me
cair, poupando-o de meu peso, e o deixei beber a lambidas a água
refrescante. Seus flancos subiam e desciam, ofegava; quando se
recostou por completo sobre o chão, seus dourados olhos piscavam
pesadamente com essa maneira preguiçosa dos felinos.
Áquila desceu e deixou cair Mona Carlisse e Casio brandamente sobre o
chão, e se deteve sobre um toco próximo.
—Como estão? —perguntei à outra rainha.
Mona Carlisse esfregou a cintura.
—Agarra-nos forte, mas com cuidado. Ao menos agradeço receber o
vento sobre o rosto. —inclinou-se e pegou um pouco de água nas mãos
para beber e depois salpicou o rosto. Observei com alívio que estava
menos alarmantemente vermelho que antes.
—Está se divertindo, Casio? —perguntei.
A menina assentiu.
—É divertido voar.
Sorri.
—Terei que prová-lo eu mesma um destes dias.
Estirei-me sobre aquele chão maravilhosamente fresco, relaxei os
músculos e fechei os olhos. Parecia que mal tinha passado um breve
instante quando um nariz frio e úmido me empurrou. Elevei a mão e
acariciei os brancos bigodes de Amber. Ao tato, a sensação era como de
finos arames, mas seu focinho era surpreendentemente suave e sedoso.
Seu ofego já não era tão intenso.
—Hora de ir, não é? —Voltei a subir em seu lombo.
Ouvimos o lobo uivar de novo, muito mais perto. Estavam cobrindo a
distância muito mais rápido que nós, não tinham cargas nem obstáculos.
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Durante quanto tempo mais, perguntei-me, teríamos que seguir
avançando? Seria uma corrida muito dura e estava determinada
exclusivamente pela distância restante.
Várias horas depois saímos do bosque e chegamos àquela clareira que
era familiar e segura. As luzes que rodeavam o complexo e as do edifício
principal nos deram uma resplandecente boas-vindas.
No bosque, detrás de nós, tão perto que me dava calafrios e fazia
acelerar meus passos, ouviam-se uivos de animais, dente rangendo de
raiva, que se elevavam e alagavam o céu.
Estávamos de volta a Grande Corte.

Capítulo quinze
O jardim estava inundado com muita gente; um número incrível de
escoltas, moças, lacaios e curadores que nos olhavam com curiosidade.
Éramos um grupo andrajoso, mas muito pior que nossos farrapos eram
nossos aspectos esgotados. Parecia que os outros membros do Conselho
tinham chegado.
Enquanto abríamos caminho em direção a Grande Casa, escutávamos
os murmúrios as pessoas em voz alta durante todo o caminho.
Imaginava o que estavam vendo: duas escoltas, um deles descamisado,
uma menina selvagem, e duas rainhas, uma delas vestida com um
vestido longo esfarrapado e a outra vestindo unicamente uma camisa de
homem. Na realidade cobria tudo o que tinha que cobrir, mas todos
aqueles olhos masculinos me fizeram completamente consciente de que
estava mostrando parte de minhas pernas nuas. A verdade, encontrava-
me muito esgotada para que aquilo me importasse. Podiam olhar desde
que não tocassem. A cintilante espada de Amber era o elemento
dissuasivo para que não o fizessem. Prestando atenção ao aviso da
espada, os homens que nos observavam se mantiveram a distância, nos
abrindo caminho até aqueles degraus, que nunca antes tinham dado
melhores boas-vindas.
Lá dentro nos encontramos com Mathias, o impecável mordomo, que
não alterou seu semblante no mais mínimo ao ver nosso mais que
irregular traje, embora seus olhos se abrissem com o sobressalto de ver
Mona Carlisse.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Mona Carlisse e sua filha Casio permanecerão conosco até que se
façam os acertos convenientes — anunciou Amber.
—Muito bem, senhor — foi a resposta do bom mordomo.
—O Conselho já se reuniu? —perguntei.
—A sessão começou há um tempo, senhora.
Suspirei interiormente. Ao menos não tinham terminado. —Durante
quanto tempo dura a reunião?
—Ainda restam várias horas.
—Bem. Temos tempo de nos assear. Mathias, faria a gentileza de
procurar alguma roupa para Mona Carlisse, Casio, e meu homem,
Áquila, e fazer que nos trouxessem isso imediatamente a nossos
aposentos?
—É obvio, senhora.
Sorri enquanto subia pelas escadas, achei graça ao notar uma nota de
ressentimento na resposta de Mathias, como se sentisse que tinha
duvidado de sua eficiência.
—Ah, e poderia fazer que nos trouxessem algo para que todos nós
pudéssemos comer também?
—Sim, senhora.
Amber ficou para trás um momento, inclinou-se para sussurrar algo no
ouvido do mordomo. Os olhos daquele homenzinho se abriram ainda
mais.
—O farei lorde Thorane saber imediatamente — soltou Mathias
fracamente.
De retorno ao meu quarto, esplêndido e comodamente mobiliado,
peguei o outro vestido preto longo do armário, embora o detestasse, e
me meti na ducha imediatamente, deixando que Amber se encarregasse
de repartir as camas. Sob o jorro da água da ducha gemi com profunda
gratidão. Tinha esquecido o quanto era maravilhoso se sentir limpa. As
pequenas gotas de água que caíam sobre mim eram uma maravilha.
Lavei-me duas vezes e esfreguei meus cabelos com xampu
cuidadosamente.
Meu pequeno grupo esperava incomodamente lá fora quando saí do
banho. Mona Carlisse estava em um canto com Casio. Amber e Áquila se
colocaram na outra parte do cômodo, mas mantinham entre eles uma
cautelosa distância. Levantei uma sobrancelha, mas me contive de dizer
nada mais que:
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—Por favor, não duvide em utilizar o banheiro agora, Mona Carlisse. Há
um robe lá dentro que pode colocar até que tragam alguma roupa. Os
homens tomarão banho depois que Casio e você o tenham feito.
Assentiu e fugiu para o banheiro sem dizer uma palavra, arrastando
Casio com ela.
Alguém bateu na porta. Amber abriu e apareceram três lacaios levando
várias bandejas de comida que cheiravam deliciosamente. Duas moças
entraram atrás deles, com os braços carregados de roupas.
A carne mal passada não tinha um gosto tão ruim, decidi pouco depois,
uma vez que enchi o estômago. Tinha comido a metade de meu filé e
passei a outra metade ao Amber, que, além disso, comeu outros três
filés. Áquila se refreou e se limitou a comer dois grandes pedaços de
carne levemente cozida.
Mona Carlisse retornou ao quarto, parecia jovem e vulnerável envolta
naquele robe felpudo. Tal era a mudança que me perguntei qual seria
sua idade real. Seus cabelos úmidos, castanho escuro, caíam até seus
quadris. Aquela longitude foi uma surpresa, não pareciam tão compridos
presos em um coque. Outra surpresa era sua imponente aparência. Dei-
me conta do quanto era bonita. Mesmo agora, excessivamente magra, e
com os estragos causados pelo cansaço e a tensão marcando seu rosto,
era uma mulher impressionante. E era forte, tinha uma enorme força de
vontade para ter sobrevivido durante estes dez anos. Quando
prenderam Amber conosco, sedento de sangue, tinha me prevenido e
tinha tentado me ajudar. Sua filha se agarrava a sua perna, envolta em
uma toalha; seus cabelos molhados, com uma cor como se fosse fio de
ouro, cobriam seu rosto. Automaticamente Mona Carlisse pôs um braço
protetor e reconfortante sobre a menina.
Era uma boa pessoa para ser uma rainha.
—Há roupa para as duas no outro quarto — disse amavelmente—.
Podem se trocar lá e depois voltar para comerem algo conosco.
Mona Carlisse duvidou por um momento, depois assentiu e
desapareceu no outro quarto, fechando a porta atrás dela.
Áquila foi o próximo a tomar banho e retornou vestindo uma calça que
era muito comprida e uma camisa folgada, que sem dúvida nos tinha
emprestado algum dos lacaios. Contudo, era roupa bela e limpa, e era
muito melhor que seu velho traje remendado.
—O serviço é todo seu — disse ao Amber.
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—Eu não preciso me lavar — respondeu Amber, seu rosto voltava a ser
uma máscara uma vez mais; imperturbavelmente sério.
Olhei para Amber com surpresa, entrecerrei os olhos ao me dar conta
do por que se mostrava reticente. Não confiava em deixar Áquila a sós
comigo.
—Vá tomar banho, Amber — disse imperativamente.
—Não há necessidade — respondeu Amber, o cenho ferozmente
franzido.
—Insisto.
Nossas vontades lutaram silenciosamente durante um tempo até que
Amber baixou os olhos. Assentiu secamente e se foi para o banheiro
com passos irados.
—Não pode culpá-lo, senhora — disse Áquila brandamente—. Eu faria o
mesmo se me encontrasse em sua situação.
—Terá que confiar em você cedo ou tarde. Preferiria que fosse cedo. —
Áquila, surpreso, soltou uma rápida gargalhada. —É verdade que não
tem medo dele.
—Não. Sei que nunca me faria mal. E sei que você tampouco me deseja
nenhum mal.
—Não, senhora, não desejo — Áquila afirmou aquilo com a maior
solenidade, em sua precisa e sucinta maneira de expressar-se.
A porta de ligação se abriu e Mona Carlisse voltou vestindo um vestido
longo, preto é obvio, com uma tímida Casio grudada como um marisco à
saia de sua mãe e com um vestido muito grande para ela. A pequena
levantou finalmente a cabeça para olhar a comida, seu pequeno e
delicado narizinho se delatou ao cheirar, e pela primeira vez pude
contemplar seus traços claramente. Era uma menina bonita, de pele
delicada e pálida. Todo o avermelhamento e aquecimento que tinham
ruborizado seu rosto tinham desaparecido; curou-se rapidamente. Tinha
os marcantes traços de Amber, o nariz imponente, a boca grande, e
aqueles bonitos olhos da cor do mar; mas eram traços mais refinados,
como os de sua mãe. Meu coração se contraiu ao vê-la. Uma menina
pequena.
A porta do banheiro se abriu e Amber saiu abruptamente, com uma
diminuta toalha envolta em torno de sua cintura que mal o cobria.
Lançou um rápido olhar a Áquila e a mim tentando me avaliar.
Fiz uma careta.
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—Menos de um minuto. A água chegou a tocá-lo? Ignorou-me e passou
junto à Mona Carlisse e Casio para o dormitório para vestir-se.
Mona Carlisse se grudou contra a parede a sua passagem. —Não
deveria atormentá-lo acautelou Mona Carlisse.
—Mas é que é tão divertido — foi minha preguiçosa resposta. Havia
medo em seus olhos.
—Não sabe o que é quando volta essa força contra você.
Recordei de meus pais do orfanato e do repugnante Miles.
—Equivoca-se. Sei o que é. — Deixei que visse em meus olhos minha
amarga experiência—. Mas Amber não é como esses homens. Nunca me
faria mal.
—Como pode confiar neles? —sussurrou Mona Carlisse e soube que era
a pergunta que estava fazendo a si mesma.
—Às vezes tem que confiar em seus instintos e se arriscar.
Rapidamente saberá se tomou a decisão adequada. —Meus olhos se
suavizaram—. Foi tudo tão ruim? Não encontrou prazer com nenhum
deles?
Mona Carlisse riu violentamente, seus olhos encheram de lágrimas.
—Tinha que encontrar prazer, é a única maneira de que eles
incrementem seu poder através de nós, não sabia? O castigo por não
brilhar... —Tremeu e seus olhos se encheram de lembranças espantosas
—. Não foi a noite de ontem a única vez que me prenderam com um
guerreiro sedento de sangue.
Era uma imagem tão, tão horrível. Separei-a de minha mente.
—Isso acabou — disse com firmeza—. Foi suficientemente forte para
sobreviver. Será suficientemente forte para superar e deixá-lo para
atrás.
Negou com a cabeça quase com violência.
—Nunca esquecerei.
—Não pedi que esquecesse. Isso seria impossível. Só peço que se dê
tempo para curar. Que não deixe que isso a perverta, que a faça
malévola. Há homens bons tanto quanto há os maus, da mesma
maneira que há rainhas boas e más. Apenas tem que dar uma
oportunidade aos bons.
Mona Carlisse inclinou a cabeça.
—Pensarei no que me disso.
Fiz um gesto para a comida.
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—Comam para que possamos nos apresentar ante o Conselho.

Capítulo dezesseis
Esta vez não tive que esperar, nos levaram imediatamente ao grande
salão. Quase todos os assentos do Conselho estavam ocupados e todos
os rostos novos eram de mulher. O príncipe dos demônios e o lorde
guerreiro Thorane eram os dois únicos homens no Conselho, conforme
observei ao entrar.
A rainha de gelo, Mona Louisa, estava lá. E Gryphon também estava.
Soube desde o momento em que entrei na sala e cheirei o purulento
fedor de sua carne decompondo-se. Estava ajoelhado aos seus pés,
exibido como um valioso mascote, com um colar adornado com pedras
preciosas em torno de seu pescoço. Mona Louisa sustentava a correia
com naturalidade entre suas mãos brancas. Tinha o peito nu, o que
permitia todo mundo ver a carne envenenada e podre da parte baixa de
seu estômago. Nervuras de drenagem, entre púrpuras e vermelhas,
estendiam-se em torno da ferida como se esta fosse uma queimadura
grave. Seu coração pulsava muito rápido e sua respiração era débil. Vi
em seus olhos que Gryphon sabia. Estava morrendo.
Mona Louisa ficou involuntariamente rígida durante um segundo
quando me viu, mas depois seu rosto relaxou e se tornou inexpressiva
como uma máscara de porcelana. Engoli minha ira. Mais tarde, prometi
a mim mesma. Faria que pagasse por sua traição.
Ouviram-se gritos abafados entre os membros do Conselho quando
Mona Carlisse entrou detrás de mim e caminhou até o centro, escoltada
por Amber e Áquila. Os únicos rostos que não demonstraram surpresa
foram os de lorde Thorane e o da rainha mãe.
—Rainha mãe. —Fiz uma profunda reverência ante ela—. Senhoras e
cavalheiros do Conselho. Eu gostaria de lhes apresentar à rainha Mona
Carlisse, a quem muitos de vocês reconhecerão. Não morreu, como
podem ver, mas Sandoor a manteve cativa durante estes dez últimos
anos.
Afastei-me para deixar passar Mona Carlisse.
A sala explodiu em um alvoroço de vozes enfurecidas.

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—Silêncio! —trovejou lorde Thorane, pondo ordem de novo na sala—.
Rainha Mona Carlisse, quer nos explicar isso, por favor.
Mona Carlisse deu um passo à frente e se dirigiu a corte. Contou como
se fingiu sua morte, o nascimento de sua filha, os anos de
encarceramento, a formação do bando de guerreiros fugitivos sob a
liderança de Sandoor e, finalmente, o resgate e fuga dali. Sua relação
dos fatos foi seca, seu relato monótono; mantinha-se erguida, com uma
dignidade que desafiava a quem queria compadecê-la.
—Rainha Mona Carlisse, sofreu muito — disse com a maior delicadeza
lorde Thorane—. Temos mais algumas perguntas a fazer a você. Peço
que seja paciente conosco. —Fez uma pausa para esclarecer a garganta
—. Segundo seu testemunho, equivoco-me se assumir que esse homem
que se encontra junto a você, Áquila, era um desses fugitivos?
—Não, assim é.
—E que a ajudou a escapar?
Mona Carlisse assentiu.
—É correto, lorde Thorane.
—Então, como quer que o castigue, senhora? Sua vida é sua por direito.
Os olhos de Mona Carlisse reluziram com uma emoção que não me
atrevi sequer a tentar interpretar. Contive a respiração.
—Peço que não o castigue — sussurrou finalmente—. Sua vida estará
dedicada ao serviço de Mona Lisa. E rogo para que a sirva bem.
A sala inteira comentava, por todos os lados se murmurava em voz
baixa.
—Obrigado, irmã — disse em voz baixa.
Lorde Thorane pediu silêncio novamente e olhou para a augusta rainha
mãe, que assentiu com um leve movimento de cabeça.
—Será como pede, senhora — pronunciou lorde Thorane.
—Mas os outros oito homens... —disse Mona Carlisse com uma voz
carregada de ódio e frieza—. Desejo que os cacem e que sejam
executados da maneira mais dolorosa possível. Sandoor
particularmente.
—Será como pede, rainha Mona Carlisse — declarou lorde Thorane.
Duvidou.
—Os homens que tinha antes...

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Sua gente será chamada para que retornem de onde quer que se
encontrem e seu território será restaurado, rainha Mona Carlisse. A corte
a proverá de escoltas até a volta de seus homens.
Inclinou-se agradecendo e retrocedeu.
Chegou meu momento. Dediquei um selvagem sorriso à traidora Mona
Louisa e me adiantei.
—Ainda tenho que explicar a corte como fui capturada pelos homens de
Sandoor.
Os membros do Conselho seguiram meu olhar até Mona Louisa. Sua
loira frieza se manteve imperturbável durante o escrutínio.
—Assim é, rainha Mona Lisa — disse lorde Thorane—. Por favor, faça.
—Mona Louisa prometeu a um de meus homens, Gryphon, que se
encontra junto a ela, o antídoto para curar seu envenenamento por
prata se ficasse com ela.
—Mentiu — respondeu Mona Louisa tranqüilamente.
Dirigi-me a meu antigo amante.
—Gryphon?
—Enganei-a premeditadamente para que me deixasse partir — disse
Gryphon, com uma voz forte e vibrante, em nada debilitada—. Não há
cura para o envenenamento por prata.
De repente, tudo ficou claro.
—Fez um acordo para que em troca de você, quatro de seus homens
me escoltassem e protegessem — disse sinceramente. —Sim. Eu morrei
de todos os modos.
E tinha feito o único negocio que podia oferecer em troca de minha
segurança, seu bonito corpo e o estranho dom que adquiriu através de
mim, o poder de caminhar sob a luz do sol.
—Foi um acordo ruim, meu amor — disse, meu coração chorava com
lágrimas amargas—. Eles me traíram e me entregaram aos homens de
Sandoor na primeira oportunidade que tiveram.
De novo cresceram os murmúrios em animada especulação.
—Mente — repetiu Mona Louisa, calma e serena.
Áquila falou pela primeira vez.
—Um guerreiro loiro, Miles, chamou nossa atenção sobre a nova rainha
e combinou de entregá-la no bosque. Ele e seus homens fizeram o que
tinham prometido, mantendo-se afastados enquanto a capturávamos.
Apenas Amber tentou ajudá-la.
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—Rainha Mona Louisa — chamou lorde Thorane depois do silêncio que
se produziu depois da declaração de Áquila—, encomendou aos seus
quatro homens a tarefa de proteger à rainha Mona Lisa?
Mona Louisa assentiu, seus olhos azuis seguiam mostrando serenidade.
—Sim. Mas me informaram que os tinham cercado, superando-os em
número, e que a tinham levado.
—Informaram-na — zombei e me dirigi a loira e escorregadia sombra
que se encontrava escondida ao fundo—. Ouviu isso, Miles? Sua rainha
vai jogar você aos lobos. Saia, venha, saia, de onde quer que esteja —
disse com voz jocosa.
—Adiante-se, guerreiro Miles, e se aproxime do Conselho — ordenou
lorde Thorane.
O restante das escolta se separaram dele, não deixando a Miles outra
alternativa que adiantar-se a contra gosto. Lorde Thorane olhou
severamente a Miles.
—Deixe-me recordá-lo que qualquer falso testemunho ante o Conselho
pode ser punido com a morte.
Todos viram que Miles engolia saliva e olhava para Mona Louisa. —
Contatou com os fugitivos em relação à rainha Mona Lisa?
—Não — disse Miles. Sua voz tremia.
—Informou à rainha Mona Louisa que eles superavam em número e de
que os cercaram, e que Mona Lisa foi raptada?
Miles não olhou para sua rainha. —Sim.
— É isso certo?
—Sim — disse Miles, com um fio de voz.
—Lorde Thorane — interrompi—. Talvez deva perguntar a ele se tentou
me violar. —Ouvi Gryphon tomar fôlego bruscamente—. Depois de
ordenar ao Rupert... Acredito que esse era seu nome, o ruivo. Depois de
ordenar a ele que me lubrificasse com o afrodisíaco líquido.
—Derramou um frasco quase completo da beberagem da bruxa sobre
ela; fez que ela perdesse a cabeça durante seis dias. É somente pela
misericórdia da deusa não abandonou esta vida — retumbou a voz de
Amber, em um tom baixo, mas ameaçador e carregado de fúria.
—Pelo fogo do inferno — resmungou Halcyon.
Miles olhou nervoso para o príncipe dos demônios, seu rosto, que uma
vez foi bonito, encontrava-se agora empapado de suor e carregado de
preocupação.
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—Guerreiro Miles, ordenou ao guerreiro Rupert aplicar a beberagem da
bruxa sobre a pessoa da rainha Mona Lisa? —perguntou lorde Thorane
com apreensão.
—Não!
—Tentou violar a rainha Mona Lisa?
—Não, lorde Thorane!
Eu me aproximei de Miles com passos tranqüilos e perguntei com voz
suave:
—Ah, era que pensava que eu queria? É por isso tentou me estrangular
quando resisti? Gryphon deixou escapar um grito de angústia.
—E tampouco disse que era o mais ardente desejo de sua rainha que
você e as outras três escoltas me provassem antes de me entregar aos
homens de Sandoor? —Sorri para ele com malícia, mostrando todos
meus dentes—. E se não tentou me violar, como explica então as
queimaduras que deixei sobre seu peito?
Estava apostando que ainda não tinha se curado completamente. É
bem sabido que as queimaduras são feridas que se curam muito
devagar. No caso dos humanos demoram meses.
—Tire a camisa, Miles — disse o príncipe dos demônios com uma voz
carregada de escuros presságios. Quase se podia cheirar o enxofre
transbordando.
Miles estava branco como giz. Virou-se para Mona Louisa, em seus
olhos havia desespero.
—Senhora.
—Faz o que ele diz — disse Mona Louisa, com voz fria e tão tranqüila
quanto seus bonitos olhos.
Com as mãos tremendo ostensivamente, Miles desabotoou a camisa e a
tirou.
Gritos abafados e murmúrios. Quão único faltou foram os aplausos.
Ali, sobre o peito de Miles, estava a impressão de minhas mãos,
profundamente marcadas, de um vermelho tão brilhante quanto o dia
em que o marquei. Não tinha se curado absolutamente.
Caminhei para perto de Miles, com minhas mãos elevadas. Miles
retrocedeu, os olhos saíam das órbitas de medo.
—Quieto! —ordenou lorde Thorane.

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Miles ficou quieto, tremendo, enquanto eu punha minhas duas mãos
sobre as queimaduras. Encaixavam perfeitamente, inclusive os entalhes
como pérolas no centro.
Deslizei minha mão até situá-la sobre sua virilha e sussurrei no ouvido
de Miles:
—Da próxima vez porei minha marca mais embaixo.
Molhou as calças.
Separei-me dele com desprezo.
—Acredito que Miles e seus homens necessitam de um interrogatório
mais a fundo... em particular — disse Halcyon—. Junto com sua rainha.
Lorde Thorane assentiu.
—O Conselho agradecerá sua valiosa ajuda nesta questão, príncipe
Halcyon.
—Agradar-me-á prestá-lo. — O demônio rangeu suas unhas com força.
Mona Louisa empalideceu.
Virei-me para a puta de gelo.
—Fez um trato falso com meu homem, Mona Louisa. Por isso é nulo e
inválido. —Levantei a mão para o homem que amava—. Gryphon, vem
comigo.
Gryphon se levantou e com um simples movimento arrancou o colar de
pedras. Seus olhos estavam cheios de dor, ira, amor e remorso. Deu um
passo para mim.
Mona Louisa se levantou por detrás dele como um pálido fantasma
vingativo, seus olhos se entrecerraram com malícia. Levantou a mão,
agarrava uma adaga de prata, seus dedos rodeavam com força o punho
de couro.
—Nunca voltará a ser seu — gritou.
O tempo pareceu estirar-se enquanto minha visão se concentrava,
limitava-se aquela lâmina descendo, depois se expandiu até que aquilo
era quão único via, de perto, até o mais ínfimo detalhe. A luz brilhou
sobre aquela radiante lâmina da cor da luz da lua. Pensei no sabor da
prata, recordei esse sabor metálico do sangue de Gryphon. Pensei na
sensação de minhas próprias facas nestas últimas semanas, como
vinham impacientes as minhas mãos cada vez que ia pegá-las.
Concentrei-me naquela reluzente lâmina de prata brilhante, em seu
singelo punho de couro, e desejei tê-la em minha própria mão.

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A mão que mantinha estendida estremeceu e vibrou, um enorme e
quente batimento de coração.
A adaga de prata voou até minha mão, seu cálido punho repousava
firmemente na palma de minha mão.
O tempo continuou passando devagar. Vi a surpresa e o medo nos olhos
de Mona Louisa. Senti uma fúria assassina pelo que se atreveu a fazer. E
tive a segurança de que podia devolver aquela adaga voando a ela e
atravessar diretamente seu coração, tão rapidamente como tinha me
apropriado dela.
Uma voz antiga pela idade e acostumada a uma inata autoridade me
alcançou. Era uma voz que não podia ignorar nem bloquear. —Mona
Lisa. Escute.
O tempo voltou ao normal, avançava veloz mais uma vez. Guardei a
adaga e olhei com os olhos nublados para aquela que me chamou, para
a augusta rainha mãe. Caí de joelhos diante dela e senti a cálida e
eletrizante presença de Gryphon ao ajoelhar-se junto a mim.
—Levantem — ordenou a rainha mãe.
Levantei-me e elevei os olhos para aquele rosto orgulhoso, para
aqueles olhos azuis que não perderam a intensidade nem em cor, nem
em inteligência nem em percepção.
—Tem grandes dons, menina — disse a rainha mãe—. Necessitará de
um enorme autocontrole para utilizá-los sabiamente. Sinta-se satisfeita
em que Gryphon seja seu pelo que lhe reste de vida.
Fiz uma reverência e olhei aqueles olhos neutros e sábios, nem frios
nem quentes.
—Não há cura para ele, rainha mãe?
—O que dizem é verdade. Não há antídoto para o envenenamento por
prata.
Meu coração chorou com aquelas palavras carregadas de certeza. Com
olhos pensativos olhou para Gryphon e para mim. —Talvez haja uma
maneira de curá-lo.
—Como? —sussurrei.
—Chamou a lâmina de prata e ela veio a sua mão, não é assim? Chame
a prata que há em seu corpo para que saia.
Minha cabeça deu voltas só de pensar e meu coração pulsava mais
depressa com a emoção daquela possibilidade. Não podia curá-lo do
envenenamento, mas podia tirar o veneno de seu corpo.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Virei-me para Gryphon, sua expressão vazia não demonstrava nem
esperança nem espera; baixei os olhos seguindo o rastro até chegar
aquele buraco aberto, da ferida inflamada em seu estômago, que tinha
ido aumentando à medida que a carne se queimava e corroia. Toquei
aquela carne podre com a palma de minha mão, pensei de novo na
prata, em seu sabor, em seu tato, em seu aroma. Pensei na prata que
havia em seu corpo. E pensei que saía para fora.
Minha mão se esquentou e tremeu e a lágrima da deusa que tinha
gravada no coração da palma de minha mão ganhou vida
repentinamente. Vibrava, puxava meus nervos, pulsava com força por
meu braço, senti que chegava ao meu coração. A lágrima incrustada em
minha palma começou a emitir uma radiação de pura luz branca. A luz
penetrou na pele de Gryphon; e infundida com aquela luz, sua pele
começou a mudar de cor, daquele cinza moribundo e putrefato passou a
recuperar a cor da vida de novo.
Naquele crítico e frágil instante, chamei para tirar de meu interior ainda
mais poder, para penetrar ainda mais nele. Com o arrasto de minha mão
saiu um enorme e escuro coágulo de sangue que aspirei tirando-o da
ferida. Gryphon deixou escapar um grito de pura dor. Agora que tinha
aberto o caminho podia ver. No interior daquele enorme buraco em sua
carne que havia um pequeno atoleiro de prata líquida.
Minha mão pulsou. Vibrou. Sacudiu-se. Uma esquiva gota tinta de
sangue emanou do buraco, crescendo e crescendo de tamanho, até que
caiu ao chão com um ruído surdo e úmido. Uma nova gota começava a
brotar, esta vez era quase prata pura. Também esta caiu rapidamente
ao chão com um ruído úmido. Duas gotas mais, gordas e preguiçosas,
saltaram para seu oportuno final. Depois a luz se desvaneceu e minhas
mãos se esfriaram. Deixei cair a mão, sentia-me seca, tremia de fadiga.
O rígido corpo de Gryphon relaxou. Seus olhos se abriram como se
despertasse de um profundo sonho, renovado. A ferida ainda estava ali,
mas as nervuras violáceas tinham desaparecido. Sentia melhor sua
presença, mais forte, e soube que agora, com o tempo, o corpo de
Gryphon curaria sozinho.
Os lábios ressecados e trêmulos de Gryphon posaram sobre os meus
com silenciosa gratidão. Eu passei os dedos amorosamente por seus
despenteados cabelos, consolando-o. Inclinei-me com profunda gratidão

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para a rainha mãe. Ela me respondeu com um amável sorriso que
suavizou seu rosto por um instante.
Lorde Thorane esclareceu a garganta.
—Rainha Mona Lisa, não pude deixar de notar que um... —Entrecerrou
os olhos, concentrando-se por um momento em Gryphon..., na
realidade, dois, agora... de seus homens..., alcançaram um nível de
poder suficiente para... —Fez uma pausa, e continuou com tenacidade—.
É seu desejo, senhora, que a corte reconheça Amber e Gryphon como
lores guerreiros?
—Lores guerreiros? —perguntei, me esforçando para prestar atenção a
suas palavras apesar de meu cansaço—. Como você, lorde Thorane?
—Correto, senhora.
—Se eles têm o poder, por que me pergunta?
—Eles só podem ser reconhecidos se sua rainha o solicita.
OH. Algum tipo de sombria emoção naqueles velhos olhos me fez lhe
perguntar:
—Quantos lores guerreiros foram reconhecidos pela corte, lorde
Thorane?
—Só eu.
Só um. Então alguma rainha o amou. E o que teria acontecido com
todos aqueles outros homens que deviam ter alcançado o mesmo nível
de poder?
—O que implica converter-se em um lorde guerreiro? —perguntei.
—Acima de tudo, significa que servindo a suas rainhas alcançaram um
poder suficiente. Isto é, através do poder que desviam nos banhos de
lua de sua rainha e, é obvio — esclareceu a garganta—, através de suas
uniões. Sim, bom, em qualquer caso, significa que alcançaram um nível
de poder físico suficiente para viver até a tranqüilizadora idade de
trezentos anos simplesmente vivendo de sua própria força. Já não
precisam depender do poder de uma rainha para manter sua viabilidade
e podem vagar livres de seu controle. Podem ser independentes, o que
nos leva a um segundo ponto. Tendo alcançado o máximo poder físico,
este incomum estado lhes permite ter o privilégio e o direito de
governar seus próprios territórios, como uma rainha, servindo
diretamente à rainha mãe.
Assim que os lores guerreiros eram tão poderosos quanto às rainhas.
«Meus homens mais fortes» havia dito minha mãe a respeito de
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Gryphon e Amber. Não era de estranhar que tivesse querido matá-los.
Não só, já não a serviria, mas, além disso, seriam adversários diretos.
Esta era a razão pela qual as rainhas massacravam a seus melhores
homens ou os afugentavam para convertê-los em páreas fugitivos como
aqueles do bosque?
Lorde Thorane estava me pedindo que os libertasse.
Devia fazê-lo? Podia fazê-lo? Mas se acabava de encontrá-los. Como
podia deixá-los ir? Devia escolher da maneira que tinham feito minha
mãe e as outras rainhas? Devia encadeá-los junto a mim para me servir
para sempre? Devia ser egoísta, tratando-os como meus escravos? Ou
devia fazer o que era correto e libertá-los para que se erguessem como
iguais entre todos nós? Meu coração quebraria?
Olhei para meu bonito Gryphon e meu forte Amber.
—Sim—disse. Saiu como um áspero sussurro—. Desejo que os
reconheça.
Lorde Thorane suspirou de alívio.
—Obrigado, senhora. É uma rainha generosa e incomum. Amber.
Gryphon. Podem se aproximar da rainha mãe?
Eu retrocedi. Amber se colocou junto ao Gryphon. Ambos se inclinaram
ante a rainha mãe. Com cuidado e lentamente, deslizou por cada uma
das duas cabeças inclinadas ante ela um medalhão de ouro com sua
correspondente corrente.
—Levantem, lorde guerreiro Gryphon, lorde guerreiro Amber — ordenou
a forte voz da rainha mãe—, e me digam qual é vosso desejo. —Fez um
gesto com sua adornada mão para um enorme mapa que se encontrava
sobre a parede a suas costas e que mostrava todos os territórios Monere
espalhados pelo continente—. Tudo é seu basta apenas pedir.
Gryphon nem sequer olhou ao tentador mapa e a promessa de ter seu
próprio feudo. Seus olhos estavam fixos em mim. Com voz clara, disse:
—O maior desejo de meu coração é continuar servindo a Mona Lisa,
reverenciada rainha mãe.
A rainha mãe levantou uma sobrancelha.
—Louvável, louvável, louvável. Que espírito tão valente. E você, lorde
guerreiro Amber? Sofreu muito e durante muito tempo. Tenho muitos
territórios lucrativos que poderia governar. Agora é o momento de que
alcance e tenha sua glória.
O rosto de Amber continuou inexpressivo, como um gigante inocente.
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—É também meu desejo continuar servindo a rainha Mona Lisa,
venerada rainha mãe.
A sala ressoou com as centenas de vozes cochichando.
—Silêncio! —ordenou lorde Thorane.
—Que absolutamente incomum — disse a rainha mãe—. É um mérito
seu que estes lores tenham feito semelhante escolha. É uma rajada de
vento fresco. Assim, rainha Mona Lisa, aceita que estes lores guerreiros
retornem ao seu serviço?
Ajoelhei-me, tonta de alívio, fraca pela alegria.
—OH, sim. OH, sim, com a maior felicidade, rainha mãe.

Capítulo dezessete
Uma ducha de água quente levou todo meu cansaço. Ao sair do banho
encontrei Gryphon sentado sobre minha cama, me esperando e me fez
recordar a complicada situação a que enfrentava. A quem devia
escolher como amante? Amber ou Gryphon? Amava aos dois. Ambos me
amavam. Qual devia ser minha decisão?
—Perdoe-me — disse Gryphon.
—Por quê?
—Por tudo que sofreu por culpa do que fiz. Porque quase morre.
—OH, Gryphon. —Ofereci uma mão que ele pegou lentamente,
sustentando-a como se fosse terrivelmente frágil. Levei sua mão ao
rosto, acariciando-a meigamente com minha face—. Sua única falta foi
confiar naquela puta traiçoeira.
—Ainda continuam interrogando Mona Louisa e seus homens. Áquila vai
a caminho do acampamento de Sandoor à frente de uma tropa de
guardas e Mona Carlisse se mudou para outros aposentos com suas
escoltas temporárias.
—Onde está Amber?
—Está no quarto contíguo. Permitiu-me estar aqui contigo.
Fechei os olhos por um breve e agonizante momento. Como ia escolher
entre eles? Soltei a mão de Gryphon e ele a retirou. Olhamos um ao
outro.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Se desejar, temos tempo de ir à feira do comércio antes que termine
esta noite — disse Gryphon, rompendo o frágil silêncio.
—Feira do comércio?
—Homens jovens maduros o suficiente para servir. Homens maduros
que foram dispensados do serviço de suas rainhas. Curadores, criados,
homens e mulheres negociando, procurando servir em novos territórios.
O conselho atribuirá a você seu território amanhã. Necessita pelo menos
de mais escolta.
—OH, será melhor que me vista — disse, odiando o súbito desconforto
que havia se interposto entre nós.
—Deixarei você então. —E desapareceu no quarto contíguo.
Abri meu armário e me entristeci ao me dar conta de que ali não se
encontrava nenhuma das roupas de Gryphon, só os dois vestidos que
me foram doados. Estava tão cansada de me vestir de preto. Peguei o
vestido azul e o vesti. Algo rígido à altura da cintura me picava.
Examinei as costuras e vi que tinham colocado algo mais que tecido ali,
na parte da frente. Um pequeno pedaço de papel dobrado.
Desdobrei o bilhete.

Thaddeus
Orfanato de Nossa Senhora da Lourdes 5 de janeiro de 1989

Era o orfanato onde tinham me abandonado. Tinham me deixado em


uma cesta na soleira. Lembrei-me de repente, mas com toda claridade,
do sonho em que Sonia tinha vindo para ver-me, quando estava perdida
em minha inconsciência, debilitada pelo afrodisíaco. Ela tinha chegado
até mim e me tirado do sonolento abismo.
«Seu irmão poderia necessitar de você logo... Dei a informação a você»,
tinha prometido Sonia.
Meu irmão.
O bilhete era a informação prometida que me guiaria até meu irmão.
Certamente teria uma cruz de prata como a minha, com seu nome
gravado. Agora tinha a maneira de encontrá-lo.
Logo, prometi. Logo encontrarei você.

A feira do comércio acontecia no jardim da frente. Era um evento


esplêndido que contava com músicos e bailarinos. Todos os Moneres
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iam com um grande espírito de celebração. As rainhas passeavam por
ali acompanhadas de seus extensos séquitos, com grande pompa de
cores e brasões. Havia animais que passeavam livremente entre nós;
havia camelos, cervos, garanhões e gatos. Enredadas entre os ramos
das árvores, sibilavam as serpentes. As pessoas não podiam dizer se
eram autênticos animais ou tão só guerreiros transformados divertindo-
se.
Levantaram tendas para resguardar aos assessores de comércio e
sobre as mesas colocadas debaixo destas tendas se espalhavam listas
de rainhas de diferentes territórios que procuravam pessoas para
trabalharem em suas respectivas cortes. A lista de Moneres,
principalmente homens, era ainda mais extensa; jovens procurando
servir a uma rainha pela primeira vez em sua vida, e homens mais
velhos, expulsos de algum reino, procurando um posto em outro. Várias
rainhas se deixavam cortejar por um grupo de moços jovens, ansiosos e
ingênuos, que as rodeavam. Outros homens mais velhos, de olhares
mais receosos, olhavam-nos com inveja.
Mona Teresa, a puta de fogo, encontrava-se ali com seu séquito de
escoltas. Seu mutilado estuprador se encontrava sugestivamente
ausente. Seus cabelos de cor vermelho fogo a fazia destacar-se
facilmente, como também o fazia a maneira possessiva com que
passava as mãos sobre o peito, ombros, traseiro e coxas de um
orgulhoso moço. O menino não protestava, muito pelo contrario, parecia
extasiado.
—Deus, parecesse que está comprando um cavalo — murmurei com
violenta repugnância.
—Melhor dizendo, um garanhão para sua cama — replicou prático
Gryphon—. As rainhas escolhem aos filhotes ansiosos normalmente
quando são muito jovens, muito virginais para terem adquirido algum
poder. Servirão na cama da rainha durante vários anos até tornarem-se
mais fortes. Quando isso ocorre se evaporam de seus lençóis e passam
a servir entre suas escoltas.
Dois homens se mantinham ligeiramente afastados, suas emanações de
poder eram mais intensas e uma silenciosa declaração de sua idade,
embora seus rostos se mostrassem perfeitos e sem rugas.
—Recomendam algum?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—O loiro que está à direita, ao fundo — disse Amber, fazendo gestos
aos dois homens que chamaram minha atenção—. Não é um mau
menino.
Uma muito boa recomendação, vinda de Amber.
Os homens nos olhavam com curiosidade. Ficaram alerta ao descobrir
as correntes dos medalhões de Amber e Gryphon, mas ficaram confusos
quando ao encontra-se suficientemente perto puderam me sentir.
Sentiam-me como a uma rainha, mas me vestia com um simples vestido
azul próprio de uma moça ou de uma criada.
Os rapazes mais jovens me desprezavam, mas o homem loiro e o outro
que se mantinham afastado me observaram com intenso interesse.
Detive-me diante do «menino» que Amber me indicou. Um homem, na
realidade, mas sem dúvida considerado um menino por alguém que
tinha uns cem anos de idade. Tinha um aspecto comum, uma
constituição média, cabelos castanhos e seus olhos eram castanho
claro; era alguns centímetros mais alto que eu. Não havia nada
extraordinário em sua pessoa à exceção do intenso poder que irradiava,
que competia inclusive com o de Áquila.
—Senhora. Grandes senhores. —inclinou-se respeitosamente.
—Qual é seu nome? —perguntei.
—Tomas, senhora. —Pronunciou de uma maneira estranha, com uma
leve inflexão na última sílaba.
— Por que está aqui, Tomas?
—Minha rainha não desejava continuar me tendo aos seus serviços —
disse Tomas, sua voz tinha um intenso sotaque sulino. Com seu suave
repudio, junto com a cor de seus cabelos, veio-me à cabeça a imagem
do sol beijando os campos de trigo.
Eu gostava de seu olhar direto. Abrindo meus sentidos, olhei mais
profundamente. Um homem simples, percebi. Um homem de coração
honesto, com um marcante aspecto de lealdade. Estava satisfeita com o
que via.
—Meu nome é Mona Lisa — disse, procurando as palavras, não muito
segura de como proceder—. Sou uma nova rainha, ainda têm que me
atribuir um território. Eu, isto..., tenho outra escolta além de lorde
Amber e lorde Gryphon, e estou procurando mais uma.
Tomas se ajoelhou diante de mim, com olhos impaciente.
—Sentiria-me muito honrado em servi-la se me adquiri, senhora.
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Duvidei e o brilho otimista desapareceu em parte de seus olhos.
—Não me unirei a você — soltei, sentindo que meu rosto se
avermelhava, mas querendo deixar esse ponto particularmente claro—.
Isso faz que mude de opinião?
Os olhos de Tomas brilharam de novo.
—Não, senhora.
—OH, bem. Um... sempre que tivermos isso claro... então, eu adoraria
que se unisse a nós.
—Obrigado, minha rainha—disse Tomas fervorosamente—. Não se
arrependerá disto. —Beijou minha mão e se levantou.
—Bem-vindo, irmão — disse Amber bruscamente.
A alegria de ser aceito iluminou o rosto de Tomas, apagando sua
aparente falta de atrativo e o fazendo parecer quase bonito. Fez um
gesto cortês e agradeceu com a cabeça a Gryphon.
Senti que outro homem se aproximava e me virei.
—Senhora. —Era o outro homem mais velho. Era mais alto e esbelto,
tinha a altura de Gryphon, mas era de uma magreza enxuta, cabelos
castanhos encaracolados e olhos azuis. Algo nele era diferente, mudo de
algum jeito. Minha impressão se confirmou quando senti que Amber e
Gryphon ficavam tensos a minhas costas.
Uma esperança dolorosa e prudente aparecia em seus olhos.
—Não pude deixar de escutá-la, senhora. Tenho muitos anos de
experiência como escolta.
Descobri que dizer que não era muito difícil quando alguém olhava para
você daquela maneira. Mas Amber e Gryphon não tinham recomendado
a ele, e pareciam conhecê-lo.
—Sinto muito... —disse.
—Se ao menos me desse uma oportunidade, senhora — advogou com
suave intensidade.
—Eu darei uma oportunidade a você, Chami — interveio uma sagaz voz
feminina.
Chami enrugou o cenho, consternado, enquanto Mona Teresa se
aproximava dele, suas escoltas e seu novo amante andavam
obedientemente atrás dela.
—Mona Rosita já não o deseja? Não se preocupe. Encontrarei outras
formas interessantes de manter você ocupado, meu querido e mortífero
amigo — ronronou Mona Teresa.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Sustentando seu olhar no meu, me lançando uma silenciosa prece,
Chami disse:
—Estou disposto a servir como mordomo, como lacaio, como jardineiro,
se não necessitar de outra escolta, senhora. Algo.
—Não pode desejar servi-la — disse Mona Teresa irada—. É um vira-
lata. Uma mestiça.
Virei-me com um olhar aflito para Tomas, meu novo homem, quando
me dei conta de que era possível que não soubesse.
—Eu esqueci de mencionar isso.
Tomas me olhou tranqüilamente.
—Era consciente disso, senhora.
Mona Teresa deu de presente a Tomas um sorriso astuto.
—Estou disposta a tomar você também ao meu serviço, Tomas.
—Obrigado por sua generosa oferta, senhora —disse Tomas
educadamente— mas já fui aceito no serviço da rainha Mona Lisa.
—Se quiser mudar de idéia... —propus.
—Não desejo mudar de idéia, minha rainha — disse Tomas com firmeza.
—Lamentará isso — soltou Mona Teresa, agressiva e de mau humor—.
Não durará muito. E quando tiver ido, virá se arrastando de quatro para
mim. —virou-se para partir—. Vem conosco, Chami.
Chami não se moveu. Suplicava-me com silenciosa paixão, rogava-me
com seus olhos azuis.
A voz da Mona Teresa faiscou de ira, advertindo.
—Eu disse: vem conosco.
—Espere. —Disse brandamente—. Gryphon? Amber? Gryphon deixou
escapar um suspiro de resignação.
—Mostre sua habilidade a ela, Chami.
Sem prévio aviso, Chami deixou cair seus escudos e o senti
completamente pela primeira vez. Era forte. Tão forte quanto era
Gryphon quando o conheci. Pelo sobressalto que levou Mona Teresa não
devia ser consciente disso. Certamente tampouco nenhuma das outras
rainhas às quais serviu tinha nem idéia de seu autêntico poder.
Chami me deu apenas um breve instante para sentir sua força total
antes que a sossegasse novamente, baixando seu volume, mais e mais,
e mais. E ante meus olhos desapareceu. Ofeguei e teria duvidado de
meus próprios sentidos se não fosse por uma débil presença que mal
podia detectar. Moveu-se e só então pude vê-lo. Um nu perfil que era
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possível distinguir pelo movimento, e inclusive então, apenas o
percebia. Não era que Chami tivesse desaparecido tinha adotado a
coloração e as formas do que o rodeava de tal maneira que se fundia
entre eles e se tornava invisível.
Depois se deteve diante de mim, visível novamente, com os olhos
baixos.
—Qual é seu nome completo? —perguntei.
—Chameleo.
Era um camaleão. O perfeito assassino. «Meu querido e mortífero
amigo» o chamou Mona Teresa. Perguntei-me a quantas rainhas teria
servido. E quantas teriam renunciado a ele não só porque fosse
poderoso, mas sim porque também era muito, muito perigoso.
—Suficiente! —gritou Mona Teresa—. Vem comigo agora ou terei que
retirar minha oferta.
As mãos de Chami se fecharam em punhos, mas não se moveu.
—Senhora?
—Olhe para mim — ordenei brandamente.
Chami levantou seus olhos e se abriu para mim, deixando cair suas
barreiras, me dando permissão para olhar no interior dele. Era um poço
de escura complexidade, sua manifestação de lealdade estava um
pouco impreciso. Só o tempo poderia dizer. E detectei também um
toque de brutalidade e crueldade. Supunha uma aposta.
—Aceitarei você se lorde Amber e lorde Gryphon o aceitarem — declarei
por fim.
Novas esperanças ondearam nos olhos de Chami, fazendo que o azul
ficasse mais intenso até ser quase violeta. Chami virou o rosto para
Gryphon e se submeteu ao penetrante olhar de Gryphon. Procurando
com seus sentidos, com seu poder, Gryphon os estudou durante um
intenso instante.
Gryphon se virou para mim.
—Viu o que eu vi nele?
—Uma imprecisa manifestação de lealdade, com uma leve tendência
para a brutalidade e a crueldade. Gryphon inclinou a cabeça.
—Sim, exatamente o que eu vi.
Sempre foi capaz de ver as características de caráter dos outros?
Recordei.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Não, é algo que adquiri recentemente. Justo depois... —foram-se
apagando minhas palavras. Justo depois da primeira vez que dormi com
Gryphon—. É possível que tenha recebido este dom de seus penetrantes
olhos de falcão? —sussurrei.
—Agrada-a que essa parte de mim seja agora parte de você? —
perguntou Gryphon brandamente.
—Agrada a uma flor a luz do sol? Sempre apreciarei seus presentes. O
que acha do Chami?
—Não é o correto, mas... o aceitarei com reservas.
—Tomarei nota — disse com um leve sorriso—. Amber, e você?
—Deixarei me guiar por seu julgamento, senhora — respondeu Amber.
Virei-me para Chami.
—Alegrará-nos que se unas a nós.
Chami caiu de joelhos, beijando minha mão com lábios trêmulos. —
Obrigado, minha rainha.
—Não! —A raiva saía a fervuras de Mona Teresa—. Puta antinatural.
Acredita que ganhou? Espero que desfrute deles. Logo verá que agarrou
mais do que pode controlar.
—Bom, é verdade que seria mais do que você poderia dirigir — disse
tranquilamente.
—É uma obscenidade — gritou Mona Teresa virtualmente jogando
veneno pela boca. Surpreendeu-me que seus dentes não se
convertessem em presas.
Pestanejei.
—Conforme-se, só está ciumenta.
Mona Teresa partiu com passos irados, fervendo de ira.
—Fez uma inimizade — advertiu Gryphon em voz baixa.
Dei de ombros sem pesar.
—Já era minha inimiga. Não mudou nada.
—Agora a teme — respondeu Gryphon—. Isso a faz mais perigosa.
Levantei uma sobrancelha. —Teme-me?
—Pela forma que marcou Miles — explicou Amber com seu profundo
som servil—. Há muito poucas feridas que um Monere não possa curar.
—Além disso, há cinco dos mais fortes guerreiros servindo a uma só
rainha... algo nunca visto —disse Gryphon pensativamente—. E
acrescente a isso seus próprios dons, incomuns e poderosos. Todas as
rainhas devem ter medo de você a esta altura.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—E não é que nos reconhecendo e nos elevando à categoria de lores
guerreiros a tenha feito a mais popular entre as senhoras da luz —
apontou Amber, me fazendo recordar algo importante.
—Estou tão contente por vocês não me deixarem — sussurrei
ferozmente.
—Não somos idiotas. Por que íamos escolher nos afastar da única coisa
boa que encontramos em mais de cem anos? —repreendeu Amber
bruscamente.
Tomas e Chami observaram nosso breve intercâmbio com os olhos
abertos, fascinados.
—Vamos — disse Gryphon, me oferecendo um cálido sorriso—. Vamos
assinar o contrato e terminemos com isto.
Chamou-se um assessor para a tarefa. Veio correndo com os contratos
na mão e anotou as novas colocações em sua grossa caderneta. Tomas
e Chami assinaram seus contratos. Eu assinei com atrevido entusiasmo,
com longos traços, fazendo um floreio e celebrando meu primeiro ato
oficial como rainha. Uma vez consumada a transação, fomos recolher
suas bagagens, dois pequenos baús.
Alguém me chamou por detrás.
—Mona Lisa.
Virei-me e vi Jamie. Acompanhavam-no duas mulheres a quem
reconheci.
—Jamie.
—Queria que conhecesse... —Fez uma careta de dor quando as duas lhe
deram uma cotovelada de cada lado—. Ai! Sinto muito. Quero dizer.
Seria uma honra, senhora, apresentar para você a minha irmã, Tersa, e
a minha mãe, Rosemary.
Tersa era ainda menor do que eu imaginava, uma diminuta e delicada
criatura, meia cabeça mais baixa que eu. Teria me sentido como uma
amazona ao seu lado de não fosse por sua mãe. Ela sim era uma
autêntica amazona, ao redor de metro e oitenta de estatura e um
enorme volume. Tinha um rosto gordinho e redondo que certamente
seria bastante simpático se não fosse por seu ar lúgubre.
—Alegro-me muito por conhecer vocês duas. —Peguei as pequenas
mãos de Tersa nas minhas. Tinha os ossos finos, como os de um
passarinho—. Como está?

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—Estou bem, senhora. A curadora Janelle me atendeu. —A voz de Tersa
era doce e suave—. Queria agradecer por me ajudar.
—Todos nós estamos gratos a você, senhora—disse Rosemary, a
amazona, com intensa emoção—. Que a deusa a abençoe por resgatar
minha filha.
Apertei as mãos de Tersa e as deixei ir.
—Sinto não ter podido fazer mais. —Sentia não ter sido capaz de
impedir a violação—. Arrependo-me de não ter matado ao filho da puta.
Foi castigado?
Jamie, cheio de ira, negou com a cabeça, fazendo voar seus
avermelhados cachos.
—Sua rainha, Mona Teresa, o repreendeu um pouco, mas, é obvio, não
o castigou. —ficou reto, levantando os ombros; um menino assumindo
as responsabilidades de um homem—. Senhora, minha mãe, minha irmã
e eu mesmo, desejamos servir a você se nos tomasse ao seu serviço.
Meus olhos se abriram de surpresa.
—Todos têm bons postos aqui na Grande Corte. Eu... eu nem sequer sei
que território vão me dar.
—Não importa aonde vá — disse Jamie com paixão—. Seguiremos você
a qualquer parte.
—Sou uma das melhores cozinheiras — afirmou Rosemary, sem
presunção, simplesmente expondo um fato—. Tersa é uma boa servente
e Jamie será para você um maravilho lacaio.
—Já tenho cinco escoltas. Não sei se posso manter mais gente. —Olhei
para Gryphon lhe pedindo conselho.
—Terá rendas provenientes de diferentes negócios e propriedades que
serão entregues a você junto com seu território — disse Gryphon.
Assimilei aquilo em silêncio, e depois falei claramente com Rosemary,
expondo a ela a verdadeira razão de minhas dúvidas.
—Estando junto de mim seus filhos serão mais um alvo.
—Estar aqui na Grande Corte não os protegeu — replicou Rosemary
com a mesma franqueza—. Nós nos arriscaremos contigo. Pelo menos
você tenta. Não haverá ninguém mais que faça nem sequer isso.
Fazer-me responsável por mais três vidas. Mas eles eram mais fracos,
não podiam se proteger e eram muito mais vulneráveis. Podia fazê-lo?
Como podia não aceitá-los? Era por minha culpa que suas vidas se
desbarataram. Tersa, uma mestiça como eu, foi violada para chamar
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Monere – Os filhos da Lua - 01
minha atenção. Se eu, uma mestiça, não protegesse aos que eram como
eu, quem o faria?
—Estão seguros? —perguntei.
—Sim! —responderam unanimemente.
Pedi a Deus que me desse a força que requeria sua confiança.
—Então me alegro de dar boas-vindas a vocês a nossa família. Prometo
que farei tudo o que possa para que estejam seguros e sejam felizes.
Ajoelharam-se e beijaram minha mão. Levantei-os e apertei as mãos de
Jamie e Tersa.
—Sempre quis um irmão e uma irmã — disse Sorrindo.

Capítulo dezoito
O príncipe Halcyon me esperava na sala da entrada quando
retornamos. Chami e Tomas estudaram ao príncipe dos demônios com
cautela enquanto que Rosemary e seus filhos o saudaram
respeitosamente, inclinando a cabeça. Amber e Gryphon ficaram comigo
enquanto o restante subia para acomodarem-se.
Sentei-me em uma poltrona coberta de pele justo em frente ao fofo sofá
onde repousava Halcyon com despreocupada elegância.
—Terminamos de interrogar Mona Louisa e a seus homens — anunciou
Halcyon—. Miles já foi executado.
—Foi você?
Duvidou um instante. Depois admitiu assentindo com a cabeça.
—Bom — disse friamente.
—Tem sede de sangue, não é verdade? —disse Halcyon em tom de
aprovação.
—Sim. E os outros homens? —perguntei.
—Serão castigados, mas continuarão com vida.
—E Mona Louisa?
—Perderá seu território por sua cumplicidade. Vão transladá-la a um
território menor e de menor importância.
—Cumplicidade? —Levantei uma sobrancelha arrogante—. Ela planejou
tudo. Deveria ter sido executada junto com Miles.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Ah, mas ela é uma rainha, muito mais valiosa para o Conselho. Nunca
executamos as nossas rainhas. Em nosso mundo são nossa linhagem e
nossas matriarcas — disse Halcyon pragmaticamente—. Outra boa
notícia é que o Conselho reformou a lei de tal maneira que agora está
proibido assassinar a uma rainha mestiça.
—Você e lorde Thorane tiveram que pressionar muito para conseguir
isso — disse tranqüilamente Gryphon.
—As rainhas eram as únicas que se opunham — disse Halcyon.
—Até parece que é surpresa — disse cruzando as pernas. Os olhos de
Halcyon seguiram meu movimento, me fazendo repentinamente
consciente de meu corpo. Quase senti uma invisível carícia sobre minha
pele, sob a saia, que me fez tomar ar rapidamente. Elevou os olhos e
voltou a me olhar nos olhos com um leve sorriso.
—Conseguiram, entretanto, incluir a condição de que outras rainhas
poderiam assassinar a uma rainha mestiça se, como qualquer outra
rainha, as ameace pessoalmente. Eu tomaria cuidado com as outras
senhoras. Não duvidarão em tentar fazer que as desafie.
—São suficientemente poderosas para me derrotar? —perguntei com
curiosidade.
—Algumas rainhas têm grandes poderes. Algumas são ainda mais
traiçoeiras — disse Halcyon sério—. Não as subestime. São muito
perigosas.
—Não o farei. E a lei que diz que os mestiços não podem matar a
nenhum lunático?
Os lábios de Halcyon se curvaram em um gesto de estranheza ao ouvir
meu pitoresco termo.
—Fez-se uma exceção em seu caso. Tenta não matar a muitos.
Pisquei com preguiça.
—Só aqueles que merecerem.
Halcyon jogou a cabeça para trás, rindo com viva avaliação.
Eu adorava ouvi-lo rir assim. Sorrindo, fui até Halcyon, inclinei-me e o
beijei levemente na face. Levantou-se, aproximando seu corpo do meu
até quase nos abraçarmos. Senti a tensão de Amber e Gryphon detrás
de mim, mas os ignorei.
—Por que isso? —perguntou Halcyon brandamente.
—Por sua preocupação e sua ajuda. É um bom amigo.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Halcyon girou minha mão direita e seguiu o contorno do sinal sobre a
palma com uma de suas afiadas unhas. Minhas mãos continuaram
relaxadas, cheias de confiança, em suas mãos.
—Amigo — disse com um meio sorriso—. Por agora. —Olhou de
esguelha para Gryphon—. Como já disse, posso esperar.
Sacudi a cabeça com divertido desespero e retrocedi.
—Precisa encontrar uma senhora demônio bonita e atrevida, Halcyon.
Seus dentes brilharam com branca intensidade sobre sua pele dourada.
—Já encontrei a minha gatinha diabólica. Não há nenhuma tão atrevida
quanto você, nem tampouco tão bonita. Ri, desfrutando de seus elogios.
—Que doce é.
—Doce. —Halcyon quase se sufocou com a palavra, com uma expressão
de causar pena no rosto.
—Se puder ajudá-la em qualquer momento, por favor, me procure —
disse brandamente.
—Fá-lo-ei, sem dúvida, fá-lo-ei. É uma promessa.

Capítulo dezenove
A desaprovação de meus homens enchia a sala como uma nuvem
negra quando Halcyon partiu. Joguei-me sobre o cômodo sofá onde
Halcyon tinha sentado, deixando que meu corpo relaxasse. Amber se
sentou em uma enorme cadeira em frente a mim. Gryphon permaneceu
de pé apoiado contra a parede; uma sombria e áspera presença.
—Venham — disse, depois que o silêncio foi suficientemente longo—.
Podem gritar comigo.
—Parece que aconteceram muitas coisas desde que parti — disse
Gryphon com uma voz cuidadosamente contida.
Amber resmungou sem indício de humor.
—Caso se refira a Halcyon, sim, fez totalmente pública sua atração e
suas intenções para com nossa rainha. —Não parecia de forma alguma
mais feliz que Gryphon a respeito disso.
—Parece que se preocupa com ela, a sua maneira — acrescentou,
relutante, Amber—. Quando desmaiou depois de castigar ao homem que
abusou de Tersa, foi ele quem a recolheu e a levou ao seu quarto. Devo

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Monere – Os filhos da Lua - 01
confessar que nunca antes tinha visto o príncipe dos demônios tratar
com tanto cuidado a nenhuma mulher.
Meu coração encolheu. Não sabia.
—Demonstrou ser um aliado inestimável — assinalou Amber. Gryphon
ficou em movimento, percorrendo toda a extensão da sala.
—Acha que não sei? —grunhiu.
—Gryphon — disse tentando acalmá-lo —. Sabe que só quero ser sua
amiga.
—Isso não o impedirá de tentar seduzi-la.
—Se isso for a única coisa que o preocupa... não conseguirá.
—Como sabe? —soltou Gryphon.
—Porque já dei meu coração a você e a Amber.
Minha tranqüila declaração fez que Gryphon parasse em seco e que os
olhos de Amber se iluminassem tornando-se de um amarelo brilhante.
Gryphon se ajoelhou diante de mim.
—OH, Mona Lisa — murmurou, repousando a cabeça sobre meu colo—.
Senti tanto a sua falta.
Acariciei seus cabelos longos e sedosos.
—Então não deveria ter partido.
Gryphon riu soluçando.
—Não, não deveria ter partido.
—Não deve mentir para mim nunca mais — disse com doce firmeza—.
Nenhum dos dois.
—Não, não o farei — disse Gryphon com voz rouca.
—Nem eu tampouco — prometeu Amber; seus bonitos olhos amarelos
brilhavam.
—E eu prometo dizer a verdade a vocês dois sempre. —Começando por
aquele instante, OH Deus. Engolindo o sentimento possessivo, cru e
egoísta, que sentia, suspirei profundamente—. Ambos são livres agora
para fazer o que desejarem. São lores com direitos próprios. Podem ir
para a cama de qualquer rainha com seus poderes e dons.
—Não desejamos estar com nenhuma outra rainha que não seja você.
—A profunda voz do Amber ressoou como um trovão.
—Escolhemos ficar contigo — disse Gryphon me agarrando pelo quadril
até quase me machucar.
—Mas já não precisam se limitar a mim — disse, assinalando o óbvio—.
Qualquer rainha daria boas-vindas a vocês agora que já não são uma
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ameaça e que não têm que preocuparem-se em controlá-los. E poderiam
chegar a ser mais poderosos com elas.
O rosto de Gryphon se contraiu de dor.
—Já não nos desejas?
—Não, desejo vocês sim.
—Então, nos deixe ficar com você — suplicou. Olhei-o com cálida
agonia.
—Amo aos dois. Não me peçam para escolher entre vocês. Vocês têm
que tomar a decisão.
A tensão congelou a sala.
— Por que tem que escolher entre nós? —perguntou Gryphon com
cautela.
Aquelas palavras penetraram em minha cabeça com a leveza de uma
pluma e só depois pude assimilar por completo seu peso e
transcendência.
—Querem que fique com os dois!
—Os humanos o fazem, não? —perguntou Amber.
—Alguns homens o fazem, mas é quando enganam, quando são infiéis
— disse—. O natural é um homem e uma mulher.
— Por que presume que esse é o estado natural? —perguntou Gryphon
mais razoavelmente—. Os homens humanos se casaram com mais de
uma mulher ao longo de sua história, e ainda continua sendo assim hoje
em dia em alguns países, não é verdade? E você é mais Monere que
humana. Nós vemos as coisas de maneira diferente.
—Vocês querem ficar comigo ao mesmo tempo? —Minha voz desafinou.
—Não se não se sentir cômoda — se apressou a dizer Gryphon.
—Não — disse com um fio de voz—. Não me sentiria cômoda.
—Então pode ficar conosco em separado. Permita-nos compartilha-la —
pediu Gryphon.
—Como? —perguntei em voz baixa, tentada apesar de mim mesma.
—Podemos fazer turnos — sugeriu Amber—. Semanas alternadas.
—E ambos considerariam isso bom? — Assentiram.
—Não significaria uma traição — declarou Gryphon.
—Será fiel a ambos — disse Amber. Por alguma absurda razão, entendi
o que queriam dizer.
—Eu... não sei. É uma idéia tão estranha — disse fracamente—. Preciso
pensar.
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—Daremos tempo a você. —As palavras de Gryphon ressoaram na sala
e nos fizeram recordar de uma declaração similar que recentemente
tinha feito outro.
Mas o tempo parecia ser sempre escasso.

A espera terminou logo. Chamaram-nos ao grande salão para ouvir o


anúncio de meu novo território. Lorde Thorane não se alongou muito.
Fez um breve discurso sobre a glória e a responsabilidade de ser uma
rainha. Um coro de jovens cantou um hino, suas vozes se elevaram
como se seus componentes fossem anjos, e com grande pompa tocaram
uns enormes chifres para o anúncio da atribuição de um novo território a
uma nova rainha.
—Depois de longa e árdua deliberação — disse lorde Thorane, depois de
agradecer com um gesto à rainha mãe—, e o sábio conselho de nossa
rainha mãe, nós, pela presente, atribuímos o magnífico território de
Nova Orleáns à rainha Mona Lisa. Esta atribuição incluirá, tal e como a
lei exige, seus atributos de ativos em empresas, propriedades imóveis,
etcétera, etcétera. Tudo está perfeitamente detalhado neste livro de
propriedades o qual agora faço a entrega. Adiante-se, rainha Mona Lisa.
Ponha suas mãos sobre este livro e jure que nunca esquecerá que a
mais importante de suas obrigações será entregar o dízimo e seus
atributos, tal e como se especifica também neste livro.
Adiantei-me e jurei com voz clara e firme. Lorde Thorane entregou o
livro de propriedades aos meus cuidados.
—Agora é o momento da coroação — anunciou lorde Thorane.
A rainha mãe ficou de pé, sustentando uma reluzente coroa em suas
mãos. Ajoelhei-me diante dela. Cuidadosamente, com grande pompa e
cerimônia, depositou a coroa sobre minha cabeça.
—Contemplem, todas vocês rainhas. Contemplem, todos vocês
Moneres. Pelo poder da Lua, nosso ancestral planeta, por este meio
confiro a Mona Lisa o título de rainha Monere de Nova Orleáns. Desde
este momento e em adiante devem a ela toda a cortesia e o respeito de
acordo com sua posição pelas leis deste Grande Conselho. —A rainha
mãe me olhou—. Que nossa mãe Lua brilhe sempre sobre você. Que sua
luz seja sempre seu guia.
Lágrimas de felicidade rolaram por minhas faces enquanto ressoavam
os clarins e o público aclamava.
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Agora sou uma rainha, pensei, como minha mãe. Que irônico. Ter
nascido em Nova Iorque para governar sobre Nova Orleáns.
Reuni-me na sala contígua com minha alvoroçada família.
—Luisiana. Vejam só — assobiou Jamie entusiasmado—. O bairro
francês, Mardi Gras, jazz e garotas quentes.
—Calor e ponto — disse sua mãe fazendo uma careta para ele.
—É verdade — disse lorde Thorane, Sorrindo—. Além disso, é um dos
territórios mais antigos e mais lucrativos, também inclui o direito a um
assento no Conselho, senhora.
—O Conselho? —repeti com leve angústia—. Não desejo ver-me
implicada em sua política.
—É agora sua também, senhora — assinalou lorde Thorane e continuou
com maior doçura—: Se necessita muito de sua presença aqui. Não
pediremos que compareça a mais da metade das sessões, se o desejar.
O Conselho se reúne cada dois ciclos lunares, no segundo fim de
semana depois da lua cheia. Mas eu pediria a você que comparecesse a
todas as sessões, senhora. —Fez uma pausa e depois acrescentou com
franqueza — Nos permitirá observar você.
Enruguei o cenho.
—Por que teria que querer isso?
Gryphon se separou da parede onde tinha permanecido apoiado.
—Quer dizer que tranqüilizaria aos respeitáveis membros do Conselho e
às outras rainhas, em particular, saber que seus homens continuam sob
seu controle.
—E não o contrário — disse Amber com um grave grunhido.
Senti-me indignada em nome de Amber.
—Nunca se converteriam em fugitivos. Especialmente agora. —Estavam
salpicando ao filho com os pecados do pai—. Como se atrevem sequer a
pensar nisso?
—Este assunto de Sandoor afetou muito a todos e seguirá fazendo-o até
que ele e seus homens sejam capturados. Poder vê-la com os próprios
olhos a cada dois ciclos lunares na Grande Corte, senhora, os
tranqüilizará muito — disse lorde Thorane. Esclareceu a garganta,
parecia que era um hábito quando tinha que abordar algum assunto
incômodo—. Precisará levantar um exército para defender seu novo
território e se assegurar de que não terá problemas para governar sua
corte. Nunca subestime seu poder. Será tão poderosa quanto o
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governador da Luisiana. Mas tenha sempre presente uma coisa, nunca
dê às outras rainhas ou ao Grande Conselho a impressão de que levanta
um exército desmesurado em proporção a sua função, de que é uma
ameaça para o equilíbrio de poder entre nós e entre seus territórios
irmãos.
—Agradeço a advertência, lorde Thorane — disse friamente, com
formalidade—. Levá-lo-ei em conta.
Lorde Thorane fez uma reverência.
—Obrigado, senhora. Lorde Gryphon. Lorde Amber. Seu novo status
também dá direito a ambos a terem um assento no Conselho. Espero vê-
los em todas e cada uma das sessões.
—De acordo, demônios — exclamou Amber. Inclusive Gryphon enrugou
o cenho.
Contraí os lábios.
—Agradecerei a companhia — murmurei. Olharam-me.
Lorde Thorane nos olhou divertido.
—Acreditem quando digo que será para o seu bem que todo mundo os
veja servir ao Conselho e à rainha mãe desta singela maneira.
—Entendemos. —Gryphon rangeu os dentes—. Uma última pergunta,
lorde Thorane. De quem era antes o território de Nova Orleáns?
—Mona Louisa.
Ah, compreendi com prazer. Este foi seu castigo por tentar de me
assassinar.
—Bem — sussurrei—, definitivamente encontro nisto uma satisfação.
—Vamos olhar o livro de propriedades — disse Jamie eufórico.
Rodearam-me impacientem enquanto abria o livro. Na primeira página
estava a escritura de uma mansão situada no bairro francês com meu
nome impresso nela. —Viu, disse isso a você. O bairro francês — se
gabou Jamie. A data original da escritura era 1768.
A segunda página era a escritura da constituição de uma empresa
chamada Elétrica da Luisiana.
—Uma empresa de serviço público. Estes são ganhos regulares —
observou Áquila.
A terceira página era um certificado de propriedade de três mil lingotes
de ouro.
—Quanto valerá isso? —perguntou Tomas.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Muito — murmurou Áquila—. Mas não a interessará negociar nunca
com eles, senhora. Esse é seu colchão de ouro. Melhor que os dólares.
—Parece saber muito de comércio, Áquila — observei.
—Antes era um homem de negócios — replicou com modéstia.
—Apresse-se, passe as páginas, Mona Lisa — pediu com urgência Jamie.
Alguém bateu na porta. Um lacaio entrou e se dirigiu diretamente a
mim.
—Um bilhete para entregar em mão, senhora.
Separei-me dos outros que continuavam ocupados lendo o livro de
propriedades e em um canto tranqüilo abri o bilhete.

Minha querida Mona Lisa,

Perdoe-me por pôr a nota de tristeza neste glorioso momento de alegria


para você, mas preciso dizer a você o que é urgente em meu coração.
Deve ter encontrado a estas alturas o bilhete pregado ao vestido que
deixe para você. Tratava-se de fato do paradeiro de seu irmão. Essa
informação vem de um diário particular que elaborei durante meus
longos anos servindo como parteira.
A noite passada, enquanto folheava suas folhas, revisando, como faço
freqüentemente, nomeie os lugares onde deixei a cada uma das
crianças que me obrigaram a abandonar aos cuidados dos humanos,
detectei um aroma estranho e persistente na anotação referente a seu
irmão. Depois de examiná-lo atentamente, meus olhos detectaram os
rastros de um intruso de origem desconhecida. Um alarme soou em meu
coração. Tive o horrível pressentimento de que alguém ia intromete-se
na vida de seu irmão. Não tenho nenhuma certeza, mas acredito que é
algo que tem que ver com sua coroação e seu novo status de rainha.
Como sabe, o poder sempre atrai aos malvados. Deve se apressar e
encontrá-lo antes que eles os façam.
Com carinho,
Sonia

—Tem três cassinos — gritou Jamie para mim, mas seu entusiasmo
esfriou ao ver minha expressão sombria—. Não aprova as apostas? —
perguntou-me.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Fechem o livro — disse—. Devemos ir para Nova Iorque
imediatamente.

Capítulo vinte
Era bom ser rainha. O Grande Conselho autorizou um avião particular
para meu uso exclusivo. Uma hora mais tarde voávamos a caminho do
aeroporto de LaGuardia. Mas meu coração não era capaz de desfrutar
do luxo, nem dos adornos dourados, nem das comidas e bebidas
gourmet, nem do enorme quarto com cama e ducha que vinham
incorporados ao avião, nem definitivamente de todos os cuidados que
correspondiam ao status de uma nova rainha. Os outros tampouco
desfrutavam. Nossa missão pesava em nossos corações e entristecia
nosso vôo.
—Necessito de sua ajuda, Chami — disse enquanto aterrissávamos —. É
capaz de penetrar em um edifício fechado com chave, sigilosamente, e
passar despercebido?
Chami assentiu, confirmando o que eu suspeitava. Todos nós podíamos
quebrar portas e janelas facilmente com muito pouco esforço, mas
Chami era sigiloso quando atuava. Matava silenciosamente.
—Bom — disse.
Os olhos azuis de Chami brilharam enigmaticamente. Soube que
acreditava que queria utilizar sua mortal destreza como assassino.
—Gryphon, Amber e Chami virão comigo — disse—. Áquila e Tomas
ficarão para cuidar do restante.
—Eu gostaria de lutar por você, senhora — disse Tomas—. Posso ir?
—Seu trabalho cuidando dos outros e de nosso livro de propriedades é
uma tarefa tão importante quanto à outra — disse a ele com delicadeza.
Tomas assentiu com tristeza.
Em LaGuardia nos esperavam duas enormes limusines com chofer,
incluindo quepe, uniforme e tudo isso. Seu aspecto era normal, mas as
aparências não importavam muito tendo em conta que podiam ser
comprados. Não podia me arriscar. Tirei um montão de notas de cem
dólares novinhas e disse aos motoristas:

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Peguem isto e dividam entre vocês. Podem ir para casa, Nós
conduziremos.
—Mas o que fazemos com as limusines? —protestou o motorista mais
alto.
—Cuidaremos bem delas.
Ambos olharam para o dinheiro, depois olharam um ao outro e sorriram.
Partiram caminhando, sem incomodarem-se sequer de dizer adeus,
ocupados em contar seu dinheiro, exatamente três mil dólares.
—Áquila, que tal é ao volante? —perguntei.
—Acredito que dirigi uma destas coisas quando tinha dezoito anos. Isso
foi há uns cem anos.
—Certo. Toma. —Passei para ele outro montão de retratos de Benjamim
Franklin e sussurrei o nome e o endereço de um hotel em seu ouvido.
—Entendido — disse Áquila.
Tomas levou Jamie, Tersa e Rosemary a uma das limusines e partiram;
incorporaram-se ao tráfico a tropicões.
Coloquei-me ao volante do outro carro e me dirigi ao túnel do centro da
cidade, no horizonte se perfilava a cidade de Nova Iorque. O East Village
estava tranqüilo e o orfanato me pareceu menor e mais velho do que eu
recordava. Era um edifício de singelo tijolo vermelho e três andares de
altura com monótonas e aborrecidas janelas. Alguns arbustos tristes se
amontoavam junto aos degraus rachados de pedra que pareciam ter
absorvido com passividade as emoções das muitas pequenas vidas que
passaram pelo orfanato. Era um momento de autêntica tranqüilidade,
aquelas escassas horas antes do amanhecer quando todos dormiam,
inclusive os delinqüentes.
Quão único tínhamos que fazer era nos esconder entre as sombras e
esperar silenciosamente enquanto Chami tirava uma caixinha de
ferramentas e lidava um momento com a fechadura da porta de trás.
Chami girou o pomo e, como se fosse magia, a porta se abriu sem fazer
ruído. Entramos e os guiei até o escritório do andar inferior. Estava
fechada também, mas Chami a abriu com igual facilidade. Dirigi-me
para os arquivos.
—O que estamos procurando? —perguntou Gryphon em voz baixa.
—Um menino cujo nome de batismo é Thaddeus e que chegou aqui pela
primeira vez em 5 de janeiro de 1989 ou ao redor dessa data.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Amber e Gryphon me ajudaram a procurar nas inumeráveis pastas
velhas. Chami, para minha surpresa, porque nunca teria imaginado nele
semelhante familiaridade com a moderna tecnologia humana, ligou o
computador. A tela iluminou a sala com um inquietante brilho azulado.
Era uma tarefa frustrante e improdutiva. Todos os arquivos de minha
pasta eram de meninos que atualmente residiam ali. Passei para a
seguinte, havia cinco no total, mas a mais antiga se referia as crianças
que passaram por ali há dez anos. Amber terminou com as três gavetas
de seu arquivo e foi para o seguinte.
Foi Chami quem por fim o encontrou.
—Senhora — me chamou brandamente, mostrando a tela do
computador. Sentei-me no assento que me cedeu e li ansiosamente a
informação.
Um menino chamado Thaddeus, de cabelo negro e olhos escuros, foi
levado ao orfanato há dezesseis anos. Usava uma cruz de prata com seu
nome gravado no verso. Meu coração palpitava com força e meus olhos
se embaçaram me fazendo ver com imprecisão. Limpei os olhos com a
manga e continuei lendo. Foi adotado três semanas depois. Memorizei
nome, endereço e número de telefone do casal que o adotou, Henry e
Pauline Schiffer.
—Bom trabalho, Chami. Obrigado.
—É um prazer servi-la, senhora.
—Há outros Monere que conhecem computadores como você?
—Não, não muitos — confessou Chami—. Mas eu achei necessário e útil
em minha linha de trabalho.
Dei-me conta de que deram ao Chami alvos humanos também. Da
mesma maneira que Mona Sera utilizou os serviços sexuais de Gryphon
e Sonia em suas transações comerciais, as rainhas utilizaram Chami em
sua letal maneira, eliminando com fria determinação qualquer obstáculo
que não pudesse ser seduzido ou atraído com dinheiro.
Quando abandonamos o orfanato a noite se esfumava. Uma luz tênue
atacava a escuridão que se retirava. Saímos um a um do edifício como
sombras escuras e silenciosas. Logo que cheguei à rua, rodeando o
edifício onde nossa limusine estava estacionava, fui arrastada com
dolorosa força até um beco.
Nada me alertou porque não houve um batimento de coração que me
avisasse da presença de nenhum intruso ao meu redor. A mão que me
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agarrou era bronzeada e tinha afiadas e familiares unhas. Mas o rosto
bestial que vi ao elevar os olhos não era o de Halcyon.
Um braço bronzeado rodeou minha cintura, me levantando e me
fazendo perder o equilíbrio, me unindo ao meu captor com terrível
facilidade, e apanhando meus braços em ambos os lados com uma força
incontestável. O demônio tinha uma força e um tamanho impossível,
media muito mais de dois metros. Estava nos esperando.
Amber e Gryphon viraram a esquina com uma rapidez que escapava da
visão. Senti que o demônio se movia bruscamente. Um rápido golpe de
sua mão e abriu em diagonal o peito de Amber, quebrando suas costelas
e cortando profundamente a carne de tal maneira que vi com intenso
horror seu coração pulsando lentamente. O cálido sangue salpicou meu
rosto enquanto Amber saía jogado para trás. Bateu contra o chão a certa
distância como uma enrugada bola. Abri a boca para gritar, mas a força
com que me agarrava tirou todo o ar de meu corpo. Outro golpe e
Gryphon saiu voando; as unhas do demônio deixaram profundas linhas
em seu estômago.
Chamei a adaga de prata para a minha mão, a mesma que arrebatei de
Mona Louisa, e retorcendo o pulso a cravei no estômago do demônio.
Gritou de dor e seu braço me apertou com mais força ainda até o ponto
de correr verdadeiro perigo de me partir em duas. Grunhindo como um
animal, arrancou a pequena adaga infratora. Tiras invisíveis envolveram
minhas mãos as grudando aos meus flancos e imobilizaram minhas
pernas para que não esperneasse. Não podia me mover nem me libertar
daquela invisível força mental com a qual me envolvia.
Os lábios do demônio se retorceram em um desumano grunhido, seus
olhos se tornaram de um vermelho abrasador, como que alagados de
sangue enfurecido, quando outra faca saiu do nada e se afundou em seu
peito. O demônio estendeu a mão e agarrou algo. Chami apareceu
repentinamente ante nossos olhos; o demônio o agarrou pelo pescoço
com uma garra e seus braços estavam grudados aos seus lados como se
forças invisíveis retivessem a ele também.
Com um selvagem grunhido e a baba pendurando, o demônio cravou
seus afiados dentes no frágil e pálido pescoço de Chami. Sangue
intensamente vermelho brotava dele, enquanto a garganta do demônio
trabalhava com força. Doce deusa. Dei-me conta, assustada e enojada,
de que o demônio estava bebendo o sangue de Chami, esvaziando-o, e
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ficando mais forte ao beber. Os olhos de Chami se fragilizaram e ficou
inerte. Não! Com toda a força que pude reunir, lutei para me libertar.
Minha mão se moveu levemente.
Grunhindo raivoso, desfez-se de Chami, jogando-o como se não fosse
mais que um brinquedo que já não o interessava. As invisíveis amarras
que me mantinham presa apertaram uma vez mais. Com um simples
movimento arrancou a adaga de seu peito jogando-a longe. O sangue
escuro emanava dos dois ferimentos do demônio.
Gryphon se levantou de novo e se lançou contra ele. O demônio deteve
a corrida de Gryphon com um simples gesto de afundar a ponta de suas
afiadas unhas em meu pescoço.
—O que quer? —exigiu Gryphon com dureza.
—Diga a Halcyon que Kadeen tem a sua estimada rainha mestiça —
grunhiu o demônio com voz gutural; seu fôlego desprendia ainda o
aroma de sangue fresco—. Façam que venha me enfrentar ou ela
morrerá.
O demônio avançou comigo pelo beco, adentrando em um muro de
névoa e entrando no meio de uma força de energia que zumbia
horrivelmente, algo que nunca tinha experimentado antes e que
esperava não voltar a experimentar nunca. Uma dor aguda e quente me
atravessou como se fossem milhares de facas cravando-se em mim sem
piedade, e a escuridão me absorveu.

Capítulo vinte e um
Despertei na semiescuridão, terrivelmente fraca, completamente nua e
encadeada ao chão; ao meu redor estava minha roupa esfarrapada. O ar
era como o árido calor do deserto. Estava do lado de fora, em algum tipo
de pátio, rodeada por um círculo de rostos com diferentes tonalidades
de bronzeado, de um leve dourado até o bronze mais intenso, que me
olhavam com hostil curiosidade de não muito longe. Levei um tempo
para me dar conta do que me incomodava, à parte, é claro, do demônio.
Não havia cores brilhantes. Não havia grama verde, não havia céu azul,
não havia folhas nem amarelas nem vermelhas. Tudo era enervado,
escuro e apagado, virtualmente não havia cores. A única coisa que
destacava ali embaixo era minha pele, intensamente branca, e o sangue
que corria em meu interior, de um vermelho vivo.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Kadeen andava para cima e para baixo ao meu lado, uma escura e
ameaçadora criatura de presas e unhas ensangüentadas. Era diferente
dos outros demônios, que pareciam uma versão bronzeada de mim
mesma. Músculos poderosos e antinaturais se sobressaíam em seu
corpo, mais parecia um animal que um homem. Seu rosto estava
estranhamente deformado como se a besta estivesse saindo de dentro.
Tinha uma testa ampla e proeminente. E aqueles olhos vermelhos que
resplandeciam com um brilho pouco corrente. Era um demônio sem
máscara.
—Suponho que devia matar você. — disse Kadeen, sua voz era áspera
como o ferro oxidado, como se fosse difícil para ele falar daquela
maneira—. Mas em lugar disso decidi utilizar você para atrair Halcyon,
meu inimigo, e o tirar de sua toca. Estive desafiando-o durante os
últimos cem anos, desde que matou meu pai em um duelo, mas nunca
se incomodou de aceitar minha provocação, considerando que estava
muito abaixo de seu nível de atenção. Mas agora Halcyon me
enfrentará. Está obcecado por você e você é minha isca para atrai-lo a
esta batalha pela supremacia.
Kadeen ficou imóvel.
—Aproxima-se. —inclinou-se sobre mim. Seus dentes ensangüentados
brilhavam e me mostrou suas ferozes presas como se fosse me morder.
Saltei e gritei sem poder remediar. As correntes me retiveram e não
pude quebrá-las embora puxasse e pressionasse até esfolar meus pulsos
e tornozelos deixando-os ensangüentados.
—Grita de novo — ordenou Kadeen espremendo rudemente meu seio
com dolorosa intensidade. Suas afiadas unhas atravessaram minha pele
como facas.
Gritei impotente, ódio e fúria. Depois gritei com horror quando os
dentes de Kadeen se cravaram em meu pescoço. A dor era insuportável.
Alimentou-se com avidez, bebendo meu sangue. Sentia um estranho
zumbido na cabeça e tudo parecia dar voltas.
—Já basta. Estou aqui. —A tranqüila voz de Halcyon atravessou a noite
afastando o demônio de mim. Kadeen enfrentou o príncipe dos
demônios com um ódio intenso e uma sombria satisfação. Meu sangue
gotejava de suas presas.
Halcyon parecia o mesmo aqui no inferno, observei com uma distante e
entorpecida indiferença. Camisa de seda branca, jaqueta negra, calça
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elegantes. O mesmo rosto bronzeado e sereno que vi pela primeira vez
no meio do bosque ao entardecer. Halcyon me olhou uma vez e afastou
os olhos.
—Desafio você — grunhiu Kadeen, fervendo de fúria, impaciente,
exaltado e poderoso graças ao sangue fresco que eu doei a ele contra
minha vontade.
—Aceito. —Tranqüilo e sem pressa, Halcyon se tirou as abotoaduras de
diamantes, desabotoou a camisa e tirou com elegância suas altas e
suaves botas de pele.
—Como soube onde encontrar Mona Lisa? —perguntou Halcyon.
—Mona Louisa me disse que ela iria ao orfanato. Queria que matasse à
nova rainha para que ela pudesse recuperar seu território.
—Mona Louisa de novo. Está se convertendo em uma autêntica
moléstia — murmurou Halcyon.
Parecia um combate impossível. Um homem esbelto e elegante
enfrentando a uma enorme besta. Então aquela imagem de Halcyon se
desmoronou no momento que sua camisa de seda caiu ao chão. Senti
uma quebra de onda de energia e Halcyon cresceu em altura e largura,
inflando-se com músculos brutais até que ficou monstruosamente
enorme, mais alto ainda que Kadeen, quase perto dos dois metros e
meio. Sua testa cresceu e se fez mais grossa, uma veia pulsava
visivelmente no centro. Suas sobrancelhas se sobressaíam. A cômoda
lassidão em que me deixei cair desapareceu. Uma neblina vermelha
cobria os olhos de Halcyon e seu rosto se contraiu em um silencioso
grunhido, mostrando suas presas, brancas como o mármore e
diabolicamente imponentes. Depois a cólera bruta se suavizou e seus
olhos voltaram a ser dessa serena cor negra como a meia-noite.
Logo investiram um contra o outro, a uma velocidade que era difícil de
seguir com os olhos, seus pesados corpos se encontraram no ar e
caíram rolando pelo chão a alguns metros, fazendo tremer o chão onde
eu jazia, sob o peso combinado de ambos. Mostraram as garras e o
sangue correu. Kadeen uivou de ira e saiu de cima de Halcyon. O
príncipe dos demônios rolou e ficou em pé com uma elegância que
contrastava estranhamente com sua aparência bestial; saltou e encarou
Kadeen com um movimento rapidíssimo. Rolaram pelo chão, afastando-
se de mim, ambos tentavam ficar em cima do outro. Kadeen dava
golpes com suas garras, grunhia e amaldiçoava. Halcyon lutava em
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silêncio, friamente, o que era ainda mais aterrador que a acalorada fúria
de Kadeen.
—Já basta — disse Halcyon repentinamente, como se estivesse cansado
de jogar.
Tudo o que pude distinguir foi um rápido e brusco movimento que
sossegou abruptamente um grunhido de Kadeen. No rosto do demônio
de menor tamanho se desenhou uma expressão de surpresa e
incompreensão que durou um longuíssimo instante. Depois a cabeça de
Kadeen caiu e rolou pelo chão. Descia um sangue de cor vermelho
escuro como vinho naquela penumbra do céu do inferno. Dei um grito
abafado, incapaz de afastar os olhos daquela cabeça, daqueles olhos.
Aqueles olhos vermelhos ardentes, Deus misericordioso, ainda estava
consciente e observava enquanto Halcyon continuava a cortar os braços
e as pernas de Kadeen com uma precisão rápida e letal.
Observavam que os membros cortados caíam ensangüentados ao chão
em grossos pedaços. Observava com os olhos abertos de medo que
Halcyon caminhava até ele e cravava suas garras em seu crânio com um
único, contundente e penetrante golpe. Por fim aqueles olhos se
fecharam quando Halcyon abriu vários centímetros do grosso osso do
crânio de Kadeen revelando seu cérebro brando e úmido de que
gotejava fluido cerebral. Justo quando suspirava de alívio, aqueles
terríveis olhos se abriram de repente uma vez mais espantosamente
conscientes.
Halcyon jogou a cabeça para trás e soltou um uivo que gelou meu
sangue. Outro uivo feroz e feliz respondeu na distância, gritos de outro
mundo que faziam que a minha pele quisesse se separar de meu corpo
para arrastar-se para longe dali e escapar do que fosse vir a seguir.
—Deem como alimento à matilha do inferno — ordenou Halcyon. Sua
voz áspera e dura era uma rouca paródia de seu tom habitual, suave e
refinado, e me fez estremecer. E esse involuntário estremecimento
derrubou a serena fachada de Halcyon, revelando as emoções que
fervilhavam dentro dele. Ardente e acalorada fúria emanava dele,
estendendo-se em turvas ondas que faziam que o próprio ar tremesse.
Seus olhos chamejantes ardiam com tanto calor que davam a sensação
de que sem dúvida podiam chamuscar a carne. O restante dos demônios
parecia acreditar nisso também. Todos se desvaneceram, exceto dois
varões que recolheram rapidamente os múltiplos pedaços de Kadeen e
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os levaram apressadamente para o bosque, como se tivessem pressa de
escapar da ira de seu príncipe.
Halcyon caminhou para mim e se ajoelhou, tão perto e tão enorme que
me senti como uma boneca, pequena e frágil ao seu lado. As correntes
que não fui capaz de quebrar pareciam ridiculamente diminutas em suas
mãos. Mãos que eram pelos menos três vezes maiores que as minhas.
Com um puxão, Halcyon partiu as correntes com facilidade e tirou
minhas algemas; suas enormes mãos realizaram a tarefa com
inesperada suavidade. Estava livre, mas não parecia poder me mover.
Seus olhos vermelhos, afundados naquele rosto bestial, percorriam
lentamente meu corpo de cima abaixo, me fazendo intensamente
consciente mais uma vez de minha nudez.
Fechei os olhos, incapaz de fazer mais nada. Pouco depois senti o tato
da seda em contato com minha pele. Abri os olhos e vi que a camisa de
Halcyon me cobria.
Sentei e me joguei sobre ele, lágrimas quentes rolavam por minha face.
—Estou farta de que os homens tirem minhas roupas e me acorrentem
— disse com ferocidade, com a cabeça afundada nos duros músculos de
seu abdômen.
Halcyon deu um profundo suspiro e estremeceu. Senti em minha pele o
formigamento da energia. Quando Halcyon se transformou, encolhendo-
se para voltar de novo ao seu tamanho normal, encontrei-me reclinada
sobre seu peito, meus olhos ao nível de seu pescoço agora. Olhei seus
olhos escuros como a meia-noite, o querido e familiar rosto de Halcyon.
Pegou-me nos braços e nunca antes foi tão consciente da força superior
de um homem.
Tirou-me daquele pátio e tive a breve impressão de entrar em uma
velha e escura fortaleza que parecia elevar-se até o céu. Vislumbrei
alguns rostos bronzeados e assustados. Seus criados sem dúvida.
Rodeando com meus braços o pescoço de Halcyon, apertei-me contra
ele; necessitava do contato, da segurança, incapaz de conter o tremor
de meu corpo.
Subindo por um lance de escadas, Halcyon me levou até um luxuoso e
confortável quarto, depositou-me sobre lençóis limpos e desapareceu
por um tempo. Quando retornou, vestia roupa limpa. O sangue que o
cobria tinha desaparecido. Tinha dois panos úmidos nas mãos. Um pôs
sobre a carne rasgada de meu pescoço. Com o outro, lenta e
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metodicamente, lavou meu rosto, limpando o sangue de Amber.
Cuidadosamente lavou meus pulsos e tornozelos, que estavam em carne
viva, inclusive o seio, com a eficiência de uma enfermeira. Quando
Halcyon terminou, vestiu em mim uma camisa de seda limpa que
cheirava levemente a ele.
—Onde estamos? —perguntei.
—Em meus aposentos privados — disse Halcyon, sentando-se na beira
da cama.
—Plantou-me diante de sua própria casa — bufei—. Sem dúvida tinha
culhões.
—Já não — disse friamente Halcyon.
Senti um calafrio ao recordar o uivo sobrenatural dos cães do inferno.
—Sinto que tenha tido que ver isso — disse brandamente Halcyon.
—Não. Tinha que dar o exemplo. Que outros vissem ao que se
arriscavam se o desafiarem. E não é que nunca tenha cortado eu
mesma algo de alguém. —Meu sorriso se quebrou e se desvaneceu—.
Embora não no mesmo minucioso grau.
—Queria dizer que sinto que tenha me visto em minha outra forma. —
Halcyon continuou desviando o olhar—. Agora me teme.
Todos nós somos monstros, pensei, e tão tremendamente frágeis... —
Seria estúpido não temer aos demônios — repliquei brandamente.
—Não me temia antes.
—Era uma insensata. Não sabia o incrivelmente forte e perigoso que
era. —Recordei o medo e a ira que tinham invadido Gryphon quando
retornei do bosque em companhia de Halcyon. Gryphon sim sabia.
O rosto de Halcyon era como uma máscara dourada esculpida,
desprovida de toda expressão de vida.
—Mas ainda acredito que não me fará mal. — Peguei a mão de Halcyon,
que não resistiu, coloquei-a sobre meu rosto e passei suas longas e
letais unhas sobre minha pele.
Halcyon deu um trêmulo suspiro. Sua mão se retesou sobre meu rosto
durante um instante, em um espasmo involuntário, e voltou a relaxar.
Algo mudou. O quarto se viu iluminado repentinamente por uma luz
trêmula e sensual. A boca de Halcyon se suavizou em um sedutor
sorriso, atraiu minha atenção como se fosse o irresistível canto de uma
sereia. Seus lábios vermelhos eram pura lascívia. Suas unhas se
deslizaram pela suave pele de meu pescoço onde não havia ferimento
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em uma sensual carícia que parecia tocar algo mais que pele, mais
profundamente, muito mais profundamente, em lugares secretos. Um
prazer incrível percorreu minha coluna, amolecendo meus joelhos.
Estremeci e me afastei cuidadosamente de seu contato.
—Entretanto, não acredito que não tentará me seduzir.
—E faz bem em não acreditar—murmurou Halcyon, sua voz aveludada e
profundamente sensual tocava todos os meus sentidos. Inclinou-se
sobre mim, aproximando aqueles eróticos lábios vermelhos.
—Não — disse brandamente. A pequena mão que pus contra seu peito
não igualava sua maior força, mas se deteve.
—Por que não? —perguntou com a mesma suavidade.
—Já entreguei meu coração.
—Ao Gryphon.
—E ao Amber — disse em voz baixa. Os lábios de Halcyon se
contraíram. —E então, por que não a mim também?
—Por... porque simplesmente não posso. Sentiria-me como se estivesse
traindo a eles.
Halcyon aproximou ainda mais aqueles tentadores lábios e sussurrou
sobre minha boca:
—Poderia fazer que não se importasse.
Não duvidei de que tivesse a habilidade de fazer realidade suas
palavras.
—Então poderia também arrancar meu pescoço — sussurrei contra seus
lábios que quase me tocavam—. Doeria menos.
Halcyon se deteve, olhou-me profundamente e viu a verdade de minhas
palavras. Afastou-se e fechou os olhos.
—Sinto muito — disse, não sabendo por que estava me desculpando,
mas sentindo que deveria fazê-lo.
Soltou uma estridente gargalhada.
—Eu também. Eu também. É minha culpa que esteja ferida. Deveria ter
escondido meu interesse por você. Minha única desculpa é que me
surpreendeu. Não estava pensando.
—Não — disse bruscamente—. Não pode se responsabilizar pelos atos
de Kadeen. —Minha voz se suavizou—. E, além disso, resgatou-me e
matou o malvado.
Elevou uma elegante sobrancelha com estranheza.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Não crê que eu, sendo um demônio, seja um dos maus? Depois de ter
visto meu outro eu?
—Não. Só expôs essa parte escura que todos temos dentro,
especialmente eu.
Halcyon estendeu a mão e me acariciou fazendo pequenos círculos com
seu polegar sobre minha mão.
—Adoro essa parte de você, minha bruxa.
—De verdade? Sinto que há um animal dentro de mim, esperando que o
deixe solto. Às vezes me dá medo. —Sorri tremulamente—. Mas me
tranqüiliza ver quão controlado tem essa parte de você mesmo. Você a
controla. Ela não o controla.
—Não, não me controla.
—A forma que adota ao se transformar não é tão diferente das formas
que adotam os Monere.
—Possivelmente porque uma vez fomos Monere. Meus olhos se abriram
ao ouvir aquilo.
—Todos vocês?
—Há alguns mestiços entre nós, mas não muitos. Poucos têm suficiente
poder psíquico para fazer a transição ao inferno.
—Que importância tem isso?
Halcyon sorriu.
—O inferno não é o lugar para os pecadores que os humanos acreditam
que é. Depois que os Monere morrem, alguns se desvanecem na
escuridão. Aqueles que ainda possuem suficiente poder psíquico vêm
para cá e vivem neste reino de eterna penumbra enquanto resta
energia.
—Eu virei?
—Sim, se sua mente não se queimar ao morrer.
Procurei em seus olhos.
—Então, por que se enfureceu quando soube que a beberagem da
bruxa quase me matou?
Halcyon depositou um suave beijo sobre minha mão, me fazendo
estremecer, e não de medo.
—Valorizo a vida. A sua especialmente, bruxinha. Foi sua risada alegre
a primeira coisa que me atraiu em você, seu deleite em meio à beleza
da natureza. Banhava-se na luz do sol e estava feliz. Cativou-me e me
atraiu ainda mais quando não demonstrou ter medo de mim. Quando
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tentou me proteger obrigando Amber a embainhar sua espada,
apaixonei-me por você.
Sua singela declaração ficou entre nós.
Elevei a mão que ele tinha beijado e risquei as delicadas linhas do
elegante rosto de Halcyon.
—Deve tentar encontrar outra pessoa a quem amar. Pelo bem de
ambos.
—Ama Gryphon e Amber só porque os encontrou primeiro. Mas me
amará por último. Eu continuarei aqui muito depois que eles se forem —
disse Halcyon com segurança.
Sorri irônica.
—Mas eu estarei?
Assentiu.
—Seu poder psíquico é muito maior que os deles.
Quando Halcyon prometeu esperar não se referia apenas a esta vida, e
sim a de depois também. Olhei-o fixamente.
—Quantos anos tem, Halcyon?
—Vivi mais de seiscentos anos neste reino.
Não era de estranhar que tivesse me olhado com tanta curiosidade
quando perguntei a ele se tinha mais de cem anos em nosso primeiro
encontro. O que será que me atraí nos caras mais velhos?
—Uma última pergunta. Posso abandonar o inferno?
O sorriso de Halcyon não chegou aos olhos cor de chocolate escuro.
—Quer dizer se deixarei você partir.
—Isso também — disse brandamente.
—Seu jovenzinho não espera seu retorno — disse Halcyon de repente.
Referia-se a Gryphon. Imagino que, do ponto de vista de Halcyon,
setenta e cinco anos era ser jovem.
—Por que não?
—Nenhuma pessoa viva, nem humana nem Monere, nunca o fez. Se a
descida não os matar, sem dúvida o faz a chegada. Seus corpos não
podem sobreviver a este calor. Morrem e se convertem em demônios ou
simplesmente se desvanecem na escuridão.
Assim possivelmente não era o sol em si mesmo que matava aos
Monere, e sim o calor.
—Mas eu continuo com vida. Meu coração pulsa.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Sim. Você pode sobreviver aqui — disse Halcyon, me olhando
pensativamente de maneira inquietante—. E não fui eu quem a trouxe.
Nem sequer o Conselho me questionaria se não retornasse.
Suas perigosas palavras fizeram que o sangue corresse mais depressa
por minhas veias.
—Não sou uma mariposa que capturou e que possa conservar, Halcyon.
Não me faça odiá-lo.
—Não poderia escolher ficar comigo? —foi seu discreto rogo.
Olhei fixamente ao homem elegante e solitário que tinha em minha
frente. Um homem que disse que me amava. Um homem que
despertava em mim sentimentos de amizade e até mais. Poderia
escolher ficar aqui com ele? Sim, se o tivesse conhecido antes. E dizer
aquilo a Halcyon seria a maior das crueldades, porque a única coisa que
não podia ser mudada era o fato de que não o conheci primeiro.
—Deve me deixar ir. Temo que meu irmão esteja em perigo. Devo
encontrá-lo. Por favor, Halcyon. —Umedeci meus lábios com nervosismo,
atraindo seu olhar para minha boca. Seus olhos posaram um pouco mais
abaixo, no ponto onde meu pulso pulsava no pescoço.
—Um beijo. Ou me deixe provar um pouco de seu sangue — disse
Halcyon por fim — é meu preço para deixá-la ir.
Senti que me maravilhava com um alívio nauseante apesar de meu
coração pulsa mais depressa de medo, recordava a forma brutal que
Kadeen me mostrou os dentes.
—Não doerá — prometeu Halcyon com doçura.
Meu breve principio de alarme se dissipou.
—Prova então — disse, pensando que um gole de meu sangue seria
muito, muito mais seguro que beijá-lo. Virando a cabeça, ofereci meu
pescoço ao príncipe dos demônios.
Halcyon se inclinou sobre mim e meu corpo ficou intensamente
consciente da proximidade do dele apesar de não me tocar. Percebi seu
fôlego sobre minha pele, e senti um involuntário formigamento no seio
quando inalou e aspirou meu perfume. O formigamento se converteu em
dor no momento que senti que afiavam seus dentes em meu pescoço,
fez-se palpitante quando me arranhou com suas presas levemente pela
pele, em uma erótica carícia que me fez duvidar do acerto de minha
escolha. Senti como se sensuais tentáculos percorressem meu corpo,
como se fossem mãos invisíveis.
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Perfurou-me com um glorioso estremecimento de dor que me fez gritar.
Cantarolando com imenso prazer, Halcyon bebeu meu sangue e senti
seu vibrante gorjeio em meus seios, baixando até o mais profundo de
mim como uma flecha, com doce ferocidade. Arqueei-me contra ele,
enquanto o prazer agonizante me queimava por dentro, me
umedecendo até que a umidade desceu por minhas coxas e o perfume
de minha própria satisfação encheu o quarto. Halcyon me deixou ir e
minha luz foi absorvida de novo pouco a pouco por meu corpo. Olhei em
seus olhos escuros, aturdida e sem forças, com a respiração acelerada.
Lambeu uma pequena gota de meu sangue que repousava como uma
formosa marca, vermelha e inocente, sobre seus lábios.
—Provou um pouquinho de mim, como eu provei de você.
—Não acredito que pudesse sobreviver a mais — disse, sem fôlego.
—Não seria glorioso ver se poderia? —sussurrou Halcyon
tentadoramente.
Ri tremendo, empurrei-o afastando-o de mim, e me sentei sobre a
cama.
—Leve-me de volta, Halcyon. Por favor. Preciso encontrar meu irmão.

Retornamos ao mesmo beco onde fui seqüestrada. Halcyon caminhou


através da parede de névoa me levando nos braços. Conseguiu me
defender de algum jeito porque mal senti um leve incômodo.
Gryphon esperava apoiado contra um muro. Seu rosto transtornado
pela tristeza e o desespero, retorcendo-o até convertê-lo em uma severa
máscara. Ergueu-se lentamente, com rigidez. A incredulidade escureceu
seus brilhantes olhos por um momento, mas logo deu passagem a
outras intensas emoções que ocuparam seu lugar lhe devolvendo seu
brilho.
Halcyon me deixou no chão e corri aos braços de Gryphon. Abraçou-me
com força sem se importar com seus próprios ferimentos.
—Amber? Chami? —perguntei.
—Estão perto daqui, em seu apartamento, descansando.
Ambos estavam com vida. Graças a Deus.
Gryphon me afastou com cuidado e caiu de joelhos diante de Halcyon.
—Muito obrigado, príncipe Halcyon, por trazer-la de volta — disse
Gryphon, com a voz enrouquecida pela gratidão.
—Não me agradeça. Foi sua escolha. Não a minha.
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—Meu mais profundo agradecimento então, especialmente por essa
razão — disse Gryphon, sustentando o olhar de Halcyon.
O príncipe dos demônios sorriu ironicamente para Gryphon de sua
altura.
—Pensou nisso também, não é verdade, menino? —Halcyon suspirou e
me olhou com ironia—. Eu teria sido a melhor escolha. Mas pensando
bem, tampouco ele é uma alternativa excessivamente ruim. Até que
voltemos a nos encontrar, senhora. —Halcyon fez uma reverência e
retornou para a névoa. O branco torvelinho foi se desvanecendo até
desaparecer atrás dele.
Gryphon ficou em pé e passeou seu olhar sobre mim em um minucioso
exame, assimilando a camisa de seda, a calça folgada amarrada
precariamente na cintura com um cinturão de homem, o lenço de
homem amarrado no pescoço.
—Pensávamos que tínhamos perdido você — sussurrou Gryphon,
soltando o lenço do pescoço e olhando as marcas de cada lado. Voltou a
amarrar o lenço sem mais comentários.
—Não. Sou difícil de matar.
—Essa era a única esperança a que me agarrava, quando me atrevia a
ter alguma.
—Qual a gravidade dos ferimentos de Amber e Chami? —Fechei os
olhos—. Uma pergunta estúpida. Vi o quanto eram graves. Mas
continuam vivos, não é mesmo?
Gryphon assentiu com feroz sorriso.
—Nós também somos difíceis de matar.
—Alegra-me. Alegra-me tanto, muitíssimo. Deixe-me ver seus
ferimentos.
Gryphon levantou a camisa. Os profundos arranhões, que já
começavam a curar-se, cruzavam furiosamente de seu quadril esquerdo
até justo por debaixo de suas costelas no lado direito. Vi que a ferida da
adaga, por fim, tinha desaparecido, embora tão somente para ser
substituída por esta outra. Minhas mãos tremeram quando as passei
sobre aqueles profundos cortes, aliviando seu mal-estar.
—Ah, agora me sinto muito melhor. —Gryphon pegou minhas mãos nas
suas e as beijou—. As feridas se curarão bastante rápido por si mesmo.
Fui o mais afortunado. Não foi mais que um golpe oblíquo.

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Tinha visto de perto e em pessoa o que aquelas garras podiam fazer e
não ia o contradizer.
—Vamos rápido para sua casa — disse Gryphon, me apertando contra
ele conforme deixávamos o beco—. Amber necessita de você.
Estava agradecida por Gryphon não senti ciúmes. Estava de verdade.
Mas ao mesmo tempo me incomodava.
—Você e Amber. São extremamente generosos um com o outro no que
a mim se refere.
Os olhos de Gryphon cintilaram intensamente.
—Não a compartilho levianamente, só com Amber. É igual a mim,
compartilha contigo sua força e ajuda a proteger você de nossos
inimigos. Pertencemos a você. —Gryphon tocou o lenço e seus dedos
infalíveis encontraram o lugar onde Halcyon tinha me mordido—.
Halcyon não pertence a você. Não é um de nós. E estar com ele não a
fortalece, e sim a põe em perigo.
—Pedi a ele que encontrasse alguém a quem amar.
—Isso seria o ideal — disse Gryphon secamente—, e faria que deixasse
de ser um alvo. Acredita que o fará?
Dei de ombros inconscientemente, fazendo que meus ferimentos de um
lado e outro se ressentissem.
—Não sei. Haverá mais demônios?
—O destino do demônio que a seqüestrou certamente servirá como
elemento dissuasivo, mas... poucos demônios têm suficiente poder para
abandonar o inferno.
Estremeci.
—Genial. O que significa que os que venham atrás de nós vão ser
realmente fortes.
O primeiro que vi ao entrar em meu apartamento foi Chami jogado no
sofá. Estava branco como um cadáver, seu rosto estava mais pálido
inclusive que o travesseiro branco sobre o qual descansava. Ao me ver,
tentou levantar-se.
—Não seja estúpido e não tente se levantar — disse, empurrando-o
para que voltasse a deitar.
—Há algo mais estúpido que tentar atacar a um demônio? —respondeu-
me Chami.
—Isso foi estúpido, é verdade. Sabia o que podia fazer?
Chami assentiu levemente.
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—Mesmo assim tinha que tentar. Ainda não encontrei uma maneira de
matar esses filhos da puta.
—Cortando sua cabeça. —Tremi ao recordar daqueles olhos horríveis e
conscientes na cabeça decepada de Kadeen. Aquela lembrança ia me
perseguir nos sonhos durante muito tempo.
—Tentarei isso em lugar de me atirar por seu coração na próxima vez.
Deveria ter me dito isso antes — queixou-se Chami.
—Antes eu não sabia.
—Foi isso que aconteceu ao gigante que a agarrou?
—Sim.
Crua satisfação coloriu os olhos azuis de Chami. —Bem. Um demônio a
menos. Pergunto-me quantos restam.
—Esperamos que não haja mais. O que ocorreu a Kadeen deveria servir
de aviso aos outros. Devia ter visto algo em meus olhos.
—Fizeram algo mais que cortar a cabeça dele, não é?
—Não quero falar disso — disse em voz baixa.
Chami se arrependeu imediatamente.
—Como se sente? —perguntei a ele.
—Seco — disse com rosto sério.
— Ah! Essa piada foi muito ruim. —Bati em seu ombro. Chami deu de
ombros e sorriu travesso. —Porém é verdade. Mas já estou muito
melhor. Somos um grupo bastante duro.
Sorri, agradecida por ouvi-lo.
—Fala como um humano, mais que os outros — disse, e fiz uma careta
ao me ouvir. Estava começando a falar como eles.
—Vem de ver muita televisão.
O leve sorriso de Chami desapareceu, deixando em seu lugar uma
tranqüila e cautelosa seriedade quando pus minha mão brandamente
sobre a carne inchada e mutilada de seu pescoço. Fez que eu me
perguntasse se o assassino seria como eu, se estaria tão pouco
acostumado quanto eu a que outros o tocassem com doçura, com
interesse.
Seu ferimento tinha começado a se fechar. Formou-se uma crosta e os
hematomas eram entre verdes e amarelados. Uma cura que demoraria
duas semanas se produziu em algumas horas. Era impressionante.
—Seu ferimento se parece com o meu — sussurrei.

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A palma de minha mão tremeu sobre o pescoço de Chami, aliviando sua
dor, e seus olhos se abriram.
—Seu ferimento. É isso o que cheiro? Sinto-me muito melhor agora —
disse Chami maravilhado quando afastei a mão.
—Bom. Descansa agora.
—Sim, minha rainha — disse despreocupadamente, mas ainda se via
seriedade em seus olhos. Dizia realmente a sério. Na verdade era sua
rainha.
—Onde está Amber? —perguntei.
—Em seu quarto. Era a única cama neste lugar. Espero que não se
importe.
—É obvio que não.
Entrei em meu quarto e fechei a porta a minhas costas. Os olhos
ambarinos brilhavam ao me verem da cama onde Amber jazia com o
lençol erguido até a cintura, deixando seu peito nu.
Ao Amber ele tinha aberto por completo, fazendo muito vulnerável
aquele coração forte e frágil. Aquela seria outra imagem recorrente em
meus pesadelos. Mas essa milagrosa habilidade de nos curar que
possuíamos tinha fechado suficientes tecidos por cima de forma que seu
coração não continuava exposto. Entretanto, a reparação não tinha
chegado de tudo até seus ossos ainda. As brancas bordas dentadas
continuavam quebradas e expostas; os pedaços separados de suas
costelas quebradas se moviam de forma desconexa com cada
respiração que levantava seu peito lentamente.
—OH, Amber — disse em voz baixa derramando lágrimas. Não podia
sequer tentar imaginar a dor que devia estar sofrendo.
—Não posso levantar os braços sem mover as costelas — sussurrou
Amber, sua voz grave se notava forçada—. Toque-me, por favor.
Ajoelhei-me junto a ele, tomei em minhas mãos aquele rosto duro e
querido e com ternura afastei seus cabelos de sua testa úmida, levando-
os para trás.
—É real — disse em voz baixa Amber ao tocá-lo, e fechou os olhos—.
Perdoe-me por falhar com você — disse.
Dei um salto para trás. —Não seja ridículo.
—Estava sob minha proteção.
—Era um demônio — disse, minha voz roçando o aborrecimento—. Foi
uma loucura de sua parte sequer tentar enfrentá-lo.
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—Sua segurança era minha obrigação. Falhei com você — insistiu
Amber.
Cálidas lágrimas rolaram por minha face. Limpei-as com ira.
—Cabeça dura estúpido. Então falhei com você também. Pertence-me
— declarei arrogante—. Sua segurança é minha obrigação.
—Chsss. Não chore.
—Então não me faça zangar-me dizendo tolices. Estamos vivos!
Continuamos vivos. Isso é tudo o que importa.
Um sorriso torceu os lábios do Amber.
—Sim, senhora.
—Senhora — o repreendi por essa maneira tão formal e distante de
dirigir-se a mim; escapava-me um sorriso dos lábios—. Agora sim está
tentando me zangar de verdade. OH, Amber. —Esfreguei meus lábios
contra os seus e senti as severas linhas de sua boca suavizarem-se ao
moverem-se contra a minha. Na realidade, dei-me conta, nunca antes
tínhamos nos beijado. Só beijos rápidos e castos. Enrolei-o para que
abrisse os lábios, e me afundei nele, provando sua doçura pela primeira
vez, e deixando que crescesse o calor entre nós lentamente.
—Não — disse Amber afastando a cabeça.
Ignorei-o e desci o lençol que o cobria até a cintura. Gemi com
aprovação ao ver o que se levantou para me saudar. Acariciei sua
ereção, uma carícia forte e possessiva.
—Por que não? —perguntei brandamente—. Estou machucando você?
—Está me matando — disse entre dentes, seus olhos ambarinos não
eram mais que um corte líquido—. Não desejo que venha para mim
desta maneira, quando estou ferido para me curar. Prometi a mim
mesmo que a próxima vez que viesse para mim seria porque me
desejava.
Sim, todos éramos monstros, pensei. E tão terrivelmente frágeis.
—A próxima vez — disse a ele com ternura.
—Haverá uma próxima vez?
—Sim — sussurrei, e a consciência do que acabava de prometer brilhou
em nossos olhos. Era a promessa de tentar o que ambos me sugeriram,
ficar com os dois ao mesmo tempo.
Fechei as pálpebras sob seu quente olhar. Era mais fácil assim beijar o
firme abdômen de Amber. Desci beijando uma e outra vez seus pêlos
desavergonhados, que descendia pelo centro de seu estômago. Rocei
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Monere – Os filhos da Lua - 01
com minha suave face seu pênis rígido e saboreei a oleosa e aveludada
textura da pele que cobria a dura pedra interna. Notei que tremia.
Com um rápido puxão soltei meu cinturão e minha calça emprestada
caiu aos meus pés.
Amber me deteve quando voltava para ele.
—Sua camisa — pediu.
Duvidando um momento, desabotoei a camisa e deixei que caísse.
Senti seu olhar posar-se sobre as marcas de meu seio esquerdo, e
depois sobre meus pulsos e tornozelos.
—Tire o lenço — ordenou brandamente Amber.
Afrouxei o lenço com os olhos baixos. O gemido carregado de ira me fez
estremecer, embora não fosse dirigido contra mim. Uma vez que Amber
viu as brutais marca que Kadeen deixou em mim, me senti vulnerável,
suja, com sentimento de culpa sendo vítima. Embora soubesse que
aquele sentimento era estúpido, não podia tirar isso de cima de mim.
Senti Amber lutar para conter sua ira, e permaneci ali nua e indecisa.
— Halcyon enviou o demônio para sua morte definitiva? —perguntou
Amber bruscamente.
—Sim.
Amber demorou um bom tempo para absorver aquilo, deixou que o
acalmasse e suavizou tudo o que pôde sua voz grave. —Ainda me
deseja?
Assenti.
—Possua-me então. Sou todo seu.
E ao dizer soube que se lembrava de como eu tinha curado a mim
mesma ao curá-lo da última vez. Engatinhando duvidosa de novo sobre
a cama e entre suas coxas, apoiei a mão sobre uma musculosa perna e
me inclinei para tomá-lo em meus lábios.
—Pode tomar-me dentro de você? —perguntou me detendo.
—Sim — respondi com um fio de voz.
—Deseja-o?
—OH, sim — suspirei.
Minha resposta fez que Amber sorrisse.
—Doerá? —perguntei.
—Doerá mais que não o faça.
Respondi a ele com um amoroso sorriso e montei sobre ele com
cuidado. Seu sexo era enorme e duro. Eu adorava senti-lo em minha
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mão, duro, quente e vibrante. Espremi-o com força e fechou os olhos.
Desci sobre ele, deixando que me penetrasse levemente antes de voltar
a me levantar para umedecer sua ponta. Esticou-se seu grosso pescoço.
—A próxima vez eu estarei em cima — murmurou Amber apertando os
dentes; seus olhos eram duas estreitas linhas douradas.
Ri.
—Não sei o que dizer a você. Possivelmente tenhamos que brigar.
Começo a gostar desta posição.
O grunhido de Amber se converteu em gemido enquanto voltava a
descer. Jogando-me para trás, esfreguei seu maravilhoso e grosso pênis
contra meus úmidos lábios, me movendo para cima e para baixo com
suavidade contra ele. Estendi a umidade pelo resto dele e lentamente
empurrei para baixo sobre seu rígido membro. Estava suficientemente
lubrificado para poder entrar em mim, pouco a pouco. Só o bastante de
cada vez para que eu pudesse sentir todas e cada uma das sensações
enquanto ele me abria; sentia cada maravilhoso roce de sua rígida ponta
ao chocar-se e empurrar para abrir caminho, com uma lentidão atroz e
assassina, em minha gulosa e escura carne. Engoli isso, centímetro a
centímetro, e me encheu de tal maneira que só então me dei conta de
quão vazia estive antes.
Suspirei com a satisfação de ter feito bem um trabalho difícil quando
esteve completamente enterrado dentro de mim. —Vem aqui —
retumbou Amber.
Firmei meus braços e me inclinei sobre ele, senti seu pênis rígido
resistir e depois inclinar-se comigo enquanto formava um ângulo sobre
ele.
—Mais perto — disse.
Inclinei-me até que meus lábios estavam a um suspiro de sua
mandíbula. Amber virou a cabeça e chupou as limpas marcas de
perfuração de Halcyon, apagando o perfume do príncipe demônio o
substituindo pelo seu. Meus músculos internos se fecharam sobre Amber
em resposta à áspera carícia de sua língua. Contraiu-se dentro de mim,
estirando a parede posterior de minha vagina e ofeguei, mordendo-me
para conter um gemido. Senti seus dentes fecharem-se sobre meu
pescoço. Senti Amber morder suficientemente forte para que doesse,
mas não o suficiente para atravessar minha pele. Senti-o chupar com
força, lavando aquele ponto com a áspera textura de sua língua,
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deixando sua própria marca sobre a de Halcyon. Meu corpo pulsou e se
agitou, gritando por dentro, brilhando, e embora sufocasse um grito de
prazer em minha garganta, tentava desesperadamente não fazer ruído.
Senti a boca de Amber mover-se com um diabólico sorriso contra meu
pescoço, me torturando tão meticulosamente quanto eu o torturei, sem
nem sequer levantar os braços.
A força cresceu e nossa incandescência iluminou o quarto. Tão perto.
Tão perto do limite. Agüentando meu peso apenas sobre minha mão
esquerda, rodeei com minha outra mão seu musculoso bíceps; precisava
me agarrar a algo.
Amber passou ao outro lado de meu pescoço, chupando com delicadeza
sobre a carne inchada e dolorida, fez-me gemer ao respirar sobre meu
ferimento aberto. Ofeguei e tremi quando tocou com sua língua
justamente ali e empurrou lentamente, ai, tão lentamente, penetrando
em minha carne aberta. Sem movimento. Simplesmente estando ali.
Uma dor deliciosa. Um prazer delicioso.
Um suave empurrão, sua língua foi ainda mais para dentro, me
enchendo, estirando a carne ferida; convulsionei e explodi por dentro,
meus músculos internos se fechavam e contraíam em torno dele,
agarrando seu enorme e grosso sexo. Meu corpo fez tudo o que pôde
para ordenhá-lo até o final enquanto eu ficava quieta, gelada sobre ele,
imóvel, incapaz de fazer nenhum movimento por medo de machucá-lo.
Amber gemeu como se eu estivesse matando-o enquanto alcançava o
clímax sem ter dado nem um empurrão. Sua imobilidade me permitiu
sentir e absorver cada fervura e cada vibrante jorro de seu prazer.
Levantei a cabeça e olhei a assombrosa integridade da pele de Amber.
Aquilo dava um sentido completamente novo ao que era bom sexo. Suas
costelas se soldaram de novo. Seus músculos e tendões já não estavam
partidos. Sua pele tinha de novo uma suavidade aveludada. Um maldito
milagre.
—Devo me desculpar — disse de repente, cerimoniosamente—. Fui
muito atrevido.
—Não importa, Amber — disse, afastando os cabelos—. Gostei que
fosse um pouco mandão. Significa que se sente suficientemente cômodo
comigo para ser você mesmo. É assim como é de verdade? — perguntei
a ele zombadora—. Arrogante e dominador?
—Não sei.
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A absoluta sinceridade de suas palavras me golpeou como se fossem
um punho, me destroçando. Baixei as pálpebras para defender minhas
emoções. OH Deus de minha vida! Mais de cento e cinco anos de vida e
não sabia como era realmente.
—Obrigado por me curar — disse Amber, me dando de presente outro
de seus estranhos e doces sorrisos—. Agora podemos ir encontrar seu
irmão.

Capítulo vinte e dois


Pelham era um bairro tranqüilo e rico situado no limite do condado de
Westchester. Os pássaros cantavam alegremente, dando boas-vindas ao
dia quando nos descemos da limusine a vários quarteirões de distância.
A grama estava cuidada com esmero e as grossas sebes foram
plantadas há tempos.
Uma estranha mescla de sentimentos me assaltou ao pensar em meu
irmão, Thaddeus, crescendo ali. Tinha a esperança de que fosse feliz e o
amassem, mas me retorcia de dor ao pensar na possibilidade de que
talvez não me necessitasse nem agradecesse minha intrusão em sua
vida. Podia ter se mudado, disse-me repetidas vezes. Mas mesmo assim,
tinha que vir vê-lo por mim mesma se por acaso não o tivessem feito.
A casa que procurava era de um imponente estilo Tudor com um
telhado de telhas escuras e grandes janelas e estava situada em uma
rua sem saída em frente a um enorme terreno arborizado. Não parecia
haver nenhum perigo naquele bairro tranqüilo e pacífico. Não havia
nenhum perfume estranho ou sinal de intrusão.
Introduzimo-nos entre as árvores e abri meus sentidos. Havia três
diferentes batimentos de coração na moradia. Dois pulsando em ritmo
humano e um mais lento. Meu coração pulsou com força,
dolorosamente. Podia escutar com claridade os sons do interior da casa.
Uma voz de mulher chamava escada acima.
—Thaddeus, fiz um sanduíche de salada de peru para você.
O resmungo em resposta de um menino.
—Ah, mamãe, não posso comprar o almoço na escola?

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—Não, carinho. Usam pão branco e muita carne gordurosa. Além disso,
não utilizam produtos orgânicos.
Pés desciam galopando pelas escadas.
—Odeio os orgânicos — ouvi-o murmurar.
—É bom para você.
—Bom dia, papai.
Uma voz de homem, mais baixa.
—Pronto para ir, filho?
—Claro.
Ouvi um rápido beijo. Sua mãe:
—Boa sorte no teste de matemática.
A presunçosa resposta: — Está no papo.
A porta da garagem se levantou e surgiu uma Mercedes sedan preto
conduzido por um homem de mais idade, com óculos e cabelo cinza que
clareava. Parecia amável e intelectual. Um menino, com a constituição
mais miúda dos jovens, sentava-se no assento do passageiro junto a ele.
Seus cabelos puramente negros brilhavam quando a luz do sol
atravessava as árvores e caía sobre ele.
Sem prévio aviso, o menino virou a cabeça para onde eu me encontrava
entre as árvores. Seu olhar pareceu cair diretamente sobre mim. Tive
um tempo muito breve para ver seus olhos escuros, leve e exoticamente
inclinados no final como os meus, antes de perdê-lo de vista ao virar
uma esquina.
Um longo silêncio se produziu a seguir.
—Parece feliz — por fim sussurrei. Estive tão segura de que precisava
de mim. Mas não é assim. Tem uma casa, uma família que o ama.
Estava a salvo. Não havia sinal de intrusos. Quão único conseguiria com
minha presença era alterar a tranqüilidade de sua vida.
Engoli a dura conclusão em minha garganta dolorosamente tensa.
—Vamos. Retornemos para junto dos outros — sussurrei.
Possivelmente algum dia me apresentasse a ele, disse-me. Algum dia,
quando fosse mais velho.

Áquila tinha pego uma suíte com quartos que se comunicavam entre si
no Pierre. Devia ser a suíte presidencial ou algo assim. Os quartos eram
enormes, maiores que todo meu apartamento. No dia seguinte liguei a
televisão e coloquei nas notícias locais como tinha por costume, as
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escutando pela metade com o volume baixo para filtrar qualquer fato
incomum que pudesse indicar o paradeiro de Sandoor. Enquanto, ouvia
também pela metade como Chami instruía a seus três guerreiros
novatos que o escutavam atentamente, totalmente encantados. Eram
Jamie, Tersa e Rosemary.
Chami estava soltando um discurso próprio de um professor
universitário sobre o modo apropriado de sustentar uma adaga quando
uma notícia mencionou um nome familiar e atraiu toda minha atenção.
O motorista de um caminhão adormeceu e este cruzou a estrada se
chocando contra um carro que circulava em sentido oposto, matando os
dois passageiros da frente. Um terceiro passageiro tinha sobrevivido
milagrosamente e se encontrava em condições estáveis hospitalizado no
centro médico do condado de Westchester. O motorista escapou e só
sofreu feridas leves.
Não era mais que outra tragédia de tráfico na alameda do rio
Hutchinson. Nada estranho exceto pelo nome das vítimas: Henry e
Pauline Schiffer. Os pais adotivos de Thaddeus. Em seguida fizeram um
comentário sobre os perigos de dirigir caminhões que atravessavam o
país e dos prazos de entrega tão próximos que com freqüência não
permitiam que os motoristas tivessem o tempo necessário para dormir.
Enumeraram acidentes e estatísticas sobre índices de mortalidade.
Não fiz som algum, mas o repentino martelar de meu coração alertou
meus homens de minha angústia.
—O que acontece? —perguntou Gryphon.
—Os pais de Thaddeus. Acredito que morreram. —Aturdida, agarrei o
telefone e disquei o número do telefone de Pelham que tinha gravado na
memória.
Cinco chamadas. Depois dez. Não havia resposta.
Desliguei e liguei para a informação para obter o número do telefone do
centro médico. Escutei a típica gravação de hospital que dizia:
«Obrigado por chamar o centro médico do condado de Westchester. Se
isto for uma emergência médica, por favor, tecle a tecla de número
quatro. Se ligar de um telefone de... ».
Teclei o número apropriado para que me passassem para a informação
de pacientes ingressados e esperei impaciente que alguém respondesse
por fim a chamada.

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—Preciso saber o número do quarto de Thaddeus Schiffer, por favor. —
Soletrei o sobrenome.
Um tempo depois desliguei o telefone e olhei para Gryphon com olhos
horrorizados.
—Está lá — sussurrei—. Seus pais morreram.

Capítulo vinte e três


Conduzir até o hospital levou intermináveis trinta e cinco minutos
durante os quais Gryphon, Amber e Chami me abandonaram ao meu
sinistro silêncio.
No grande átrio do movimentado centro hospitalar uma mulher
gordinha de uns quarenta anos nos disse com um sorriso profissional e
pesaroso que sentia muito, mas que só era permitido dois visitantes de
cada vez para ver um paciente. Seu olhar ficou preso por um momento
na atraente beleza de Gryphon e a desculpa se fez mais sincera, mas a
presença das outras duas recepcionistas junto a ela a impedia de
infringir as normas.
Amber ficou esperando no vestíbulo, com seu temível rosto e o cenho
franzido. Chami só virou uma esquina, desvaneceu-se, e nos seguiu
convertido em apenas um impreciso contorno.
Quando estávamos no andar não foi nem sequer necessário olhar os
números dos quartos. Simplesmente escutei o lento batimento do
coração e o segui por um corredor até o último quarto. Tomando ar, bati
na porta e entrei; Gryphon e Chami me seguiram.
Parecia tão jovem e tão frágil. A outra cama estava vazia e feita com
esmero. Arranhões e hematomas marcavam o rosto e os braços de
Thaddeus. Tinha um gesso novo de pastosa e branca fibra de vidro que
envolvia seu braço direito.
—Sim? —perguntou com voz baixa.
Como se apresenta a gente mesmo?
—Meu nome é Mona Lisa. Acabo de me inteirar de seu acidente e vim
vê-lo.
—Não conheço você — disse Thaddeus, seu rosto e sua voz careciam de
toda emoção—. Conhecia meus pais? —perguntou com mais suavidade.

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—Não. Eu... —Procurando sob minha camisa tirei minha cruz de prata—.
Isto significa algo para você?
O reconhecimento brilhou brevemente em seus olhos antes que
voltasse a ficar sem expressão alguma.
—Quem é?
Virei a cruz.
—No verso está meu nome e algo mais no final.
—Monere — disse Thaddeus sem expressão.
Assim era capaz de vê-lo também.
—Isso significa algo para você? —perguntei.
Olhos escuros, cheios de inteligência, varreram-me fazendo uma
cuidadosa avaliação, passando depois aos dois homens a minhas costas.
—Não.
—Esta cruz era a única identificação que tinha quando me deixaram nos
degraus do orfanato Nossa Senhora de Lourdes quando era um bebê.
Seus pais disseram a você que foi adotado? —perguntei discretamente.
—Quem é?
Sua voz tinha uma nova dureza, era um menino receoso empurrado à
maturidade, lamentavelmente diferente do menino despreocupado que
tinha vislumbrado há apenas um dia atrás.
—Sou sua irmã.
Thaddeus não pôs em dúvida nem negou a declaração. Tão só um total
e completo silêncio. Um levíssimo tremor em sua mão esquerda antes
que a fechasse com força em um punho.
—Temos a mesma mãe e acredito que o mesmo pai. Nossos olhos...
têm que vir dele. —Porque não vieram de nossa mãe.
Thaddeus não disse nada.
—Seus pais adotivos têm algum irmão, irmã, pais? —perguntei.
Thaddeus negou com a cabeça.
—Não, eram filhos únicos. Não há pais nem avós vivos. Só parentes
distantes.
—Alguém com quem ficar? Alguém com quem quer viver?
—Não — disse Thaddeus lentamente—. Ia pedir a um vizinho que se
tornasse em meu tutor legal durante os dois anos em que necessito de
um. Viver em meu próprio andar. Continuar estudando.

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Não era um plano ruim. Tinha idade suficiente para dirigir ou conseguir
um trabalho se necessitasse. Seria mais seguro do que viver comigo.
Mas, ah, como o queria junto a mim.
A intensidade daquele desejo fez minha voz tremer.
—Eu gostaria muito que viesse morar comigo. Mas se fizer isso toda sua
vida será alterada. —Reprovei imediatamente minha má escolha de
palavras. Como se sua vida não já não tivesse sido alterada por
completo—. Estou me mudando para Nova Orleans para ocupar um
posto ali. E há outro montão de complicações, além disso — concluí sem
convicção.
Algo brilhou nos olhos escuros de Thaddeus e depois desapareceu.
Maravilhei-me de semelhante controle em alguém tão jovem. E me
perguntei para que o necessitaria.
—Quem são eles? —perguntou Thaddeus, olhando alternativamente
para Chami e para Gryphon.
Como responder? Escolta. Amante.
—São amigos especiais que vivem comigo... junto com outros seis. —Fiz
uma pausa, impotente, insegura de que mais dizer—. Ainda deseja saber
mais?
—Você estava lá no outro dia. Fora de minha casa — disse Thaddeus
repentinamente.
—Isto... sim.
Ao admitir, uma intensa emoção obscureceu seus olhos... triunfo ou
alívio, talvez. Senti um breve estalo de energia que desapareceu tão
rápido que até pensei que tinha imaginado isso, a não ser pelo fato de
que Chami e Gryphon se colocaram instantaneamente junto a mim.
—É como você — disse Gryphon em voz baixa—. Ainda mais.
Outra breve fervura de energia emanou de Thaddeus.
Dei-me conta que meu irmão tinha uma incrível habilidade para
defender ou suprimir seu poder, que se rachava unicamente quando
sentia fortes emoções.
—Deixe de se controlar, Thaddeus — disse tranqüilamente—. Deixe-me
sentir você.
—Não sei do que está falando.
Procurei naqueles olhos tão parecidos com os meus e me perguntei se
dizia a verdade. Thaddeus sabia de verdade o que fazia? Seu poder o

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assustava a tal ponto que o negava? Ou era uma repressão
inconsciente?
—Há coisas em você que são diferentes das outras pessoas? —
perguntei com delicadeza—. Pode ouvir ou ver coisas que outros não
podem? Saltar mais longe, correr mais rápido? Ver melhor à noite? É
mais forte que outros?
—Como sabe? —sussurrou Thaddeus com voz trêmula.
—Porque eu sou igual, e também o são Gryphon e Chami. Thaddeus
deixou escapar um trêmulo suspiro.
—Pensei que estava enlouquecendo nos últimos meses. Que
possivelmente a loucura estivesse em meu gene. Sempre tive uma
imaginação muito ativa.
—Não, é muito real — assegurei—. A loucura não corre por nossas veias
— ao menos, esperava que não o fizesse—, mas outras coisas o fazem.
Até onde posso recordar, era um pouco mais inteligente, um pouco mais
rápida, um pouco mais forte que os outros. Pouco justo o suficiente para
que passasse por um desenvolvimento físico adiantado quando era
criança. Mas essas habilidades cresceram e floresceram mais à frente do
ponto em que podiam considerar-se normais quando alcancei a
puberdade, aos treze anos. Alcancei a puberdade mais tarde que outras
meninas.
Thaddeus não disse nada, apenas me escutava com enorme atenção.
—Sempre soube que era diferente, mas nunca soube por que até que
encontrei a outros como eu há algumas semanas. Após isso, meu mundo
mudou por completo e se converteu em algo muito mais perigoso e
mortal. Mas nunca antes fui tão feliz. —Duvidei—. Quer saber, mas saber
de verdade, o que é?
—O que? Não quem? —indagou Thaddeus tranquilamente—. Por que
estava fora de minha casa?
—Acabava de descobrir onde vivia e queria ver se estava bem.
—Por que partiu sem se apresentar?
—Estava bem, era feliz, o amavam. Não havia necessidade de
transtornar sua vida.
—Sentia-me querido, mas não estava bem. Não mentalmente — disse
Thaddeus—. E sim, eu gostaria de saber.
Assim contei para ele. Falei dos Monere, dos que eram de sangue puro
e dos mestiços.
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—Pode se transformar em um animal? —disse Thaddeus, com um
natural cepticismo que se contrapunha com um desejo de acreditar.
Sorri.
—Só alguns de nós. Eu não possuo essa habilidade, embora Gryphon
sim.
Centrando seu olhar em Gryphon, Thaddeus pediu: — Mostre-me.
—Seria mais fácil que Chami mostrasse a você seu dom — disse me
virando para o esbelto homem junto a mim—. Se não se importar,
Chami.
Chami sorriu, dando um aspecto selvagem aos seus marcantes traços.
—Absolutamente, senhora — disse e desapareceu.
—Merda — exclamou Thaddeus ficando pálido.
Chami reapareceu e fez uma reverência com muito floreio como se
fosse um ator sobre um palco.
—Obrigado, Chamaleo — disse com os lábios franzidos.
Thaddeus tomou uma repentina decisão.
—Tire-me daqui.
—Durante quanto tempo os médicos queriam que ficasse aqui? —
perguntei com precaução.
—Não tenho nada além deste braço quebrado e uma leve comoção.
Queriam que passasse aqui à noite porque não havia ninguém que
pudesse me vigiar em casa durante vinte e quatro horas. Amanhã trarão
uma assistente social — disse Thaddeus tranqüilamente.
Aquilo decidia. Seria muito mais fácil tirá-lo fora do sistema no primeiro
momento que tentar tirá-lo mais tarde.
—Terá que assinar o registro de saída contra a recomendação médica
— adverti.
—Não — corrigiu Thaddeus—. Como minha irmã e parente mais
próximo você o fará. Tem mais de vinte e um anos, não é mesmo?
—Tenho vinte e um anos.
—Suficiente — declarou Thaddeus e pressionou o botão de chamada
para que viesse uma enfermeira.
—Quer morar comigo em Nova Orleáns? —perguntei.
—Venha para minha casa—convidou Thaddeus—. Deixe-me passar os
próximos dias com você e seus outros «amigos especiais» antes que
tome uma decisão.
—Todos eles? —perguntei.
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Thaddeus assentiu.
—Sim. Eu gostaria de conhecê-los.
—De acordo — aceitei. Eu gostei de sua precaução e queria ter a
oportunidade de conhecer melhor aquele jovem inteligente.
—Amanhã será lua cheia — recordou-me Gryphon discretamente.
—Sim, sei. Mais uma razão inclusive — disse, recordando o denso
arvoredo detrás da casa de Thaddeus.
Uma jovem enfermeira entrou no quarto. —Necessita de algo? —
perguntou.
—Sim — respondi me encarregando—. Sou irmã de Thaddeus. Eu
gostaria de tirá-lo do hospital e levá-lo para casa.
—Não sabia que tinha uma irmã. —Sua testa se enrugou ao franzir o
cenho—. Terei que chamar o doutor Smith e informá-lo.
Depois que partiu disse a Thaddeus.
—Voltarei agora mesmo. Preciso chamar aos outros.
—Não é necessário — disse Thaddeus. Estendeu a mão para a gaveta
de sua mesinha e me ofereceu seu celular.
Teve que ensinar a usá-lo, nunca tinha tido um. Para quê? Nunca antes
houve alguém para quem ligar.
Áquila atendeu na segunda chamada e expliquei a ele a situação.
—Recolha tudo e saia do hotel. Nós vamos ficar na casa de meu irmão.
Dei o endereço de Thaddeus e seu número de telefone a ele, e depois
de consultar brevemente Thaddeus, dei-lhe o número de seu celular
também.
—Que idade tem os outros? —perguntou Thaddeus curioso, depois que
devolvi seu telefone.
—Áquila e Tomas são muito mais velhos que você e eu. Mas Jamie tem
dezenove e sua irmã, Tersa, tem vinte e quatro. São mestiços como nós,
mas são mais como os humanos. Nós somos três quartos Monere e só
um quarto humano. Mais tarde conhecerá a eles e a sua mãe,
Rosemary.
Um médico de cabelo grisalho entrou no quarto de forma brusca e
repentina.
—Tenho que voltar para atender a uma emergência — disse—. O que é
isso de dizer ser a irmã de meu paciente? Ele me disse claramente esta
manhã que não tinha mais família.

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O médico olhou para Gryphon e para Chami com franca suspeita e
tampouco era mais amável o olhar que me dirigiu apesar de oferecer a
ele meu sorriso mais cativante.
—Sou sua meio-irmã. Temos o mesmo pai, mas mães diferentes. É por
isso não pensou em me ligar até depois — disse, me concentrando
ferozmente em parecer confiável ao zangado médico.
—Assim, mal o conhece — disse o doutor Smith negando com a cabeça
—. Sinto muito. Não vou permitir que uma pessoa virtualmente estranha
saia com meu paciente inclusive se for quem diz ser. Pode entender-se
com a assistente social manhã.
Coloquei-me em frente a ele antes que pudesse virar-se para partir,
apanhando-o com meu olhar.
—Não vejo razão pela qual Thaddeus não possa sair sob meus cuidados
— sussurrei enquanto meu poder vibrava no ar.
—Não vejo razão pela qual Thaddeus não possa partir sob seus
cuidados — repetiu obedientemente o doutor Smith.
—Sou uma enfermeira com experiência e posso cuidar dele igualmente
bem em casa — disse.
O médico repetiu como um papagaio.
—É uma enfermeira com experiência e pode cuidar dele igualmente
bem em casa.
Minha voz era um suave e hipnótico sussurro.
—Sente-se feliz e tranqüilo ao saber que seu jovem paciente tem uma
família que cuidará dele e irá imediatamente assinar a ordem de alta.
Deixei-o ir.
O doutor Smith piscou e nos sorriu.
—Vou encarregar-me da alta agora mesmo. A enfermeira lhes dará as
instruções restantes e assinará a saída. Assegure-se de que em uma
semana veja um traumatologista para ficarem seguros de que seu braço
está curando bem. Boa sorte, jovenzinho. —Saiu dando grandes
passadas pelo quarto.
Não pude olhar para Thaddeus. Não podia fazer nada mais que deixar
que o silêncio se espessasse naquele esterilizado cômodo
—Deus — disse Thaddeus—. Poderei fazer isso algum dia?
Olhei seus entusiasmados olhos. Não havia medo nem horror. Meu
sorriso de alívio foi deslumbrante.
—Possivelmente.
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Vinte minutos mais tarde nos empilhávamos os cinco na limusine,
Thaddeus se sentou no assento do co-piloto para que não receber
nenhuma pancada no braço engessado, o restante de nós sentou na
parte de atrás.
—Um passeio genial — disse Thaddeus.
—Tomamo-la emprestada no momento — disse.
—Está ficando mais forte — murmurou Gryphon, em um tom de voz
baixo o suficiente para que Thaddeus não o escutasse.
—O que quer dizer? —sussurrei para ele.
—Não está cansada.
Dei-me conta, surpreendida de repente, de que tinha razão. Não tinha a
sensação de me sentir consumida, não sentia aquele cansaço trêmulo
que me invadia habitualmente depois. A energia que gastei não me
custou nada. Apenas me perguntei o que significaria aquilo. Estava
ficando mais forte. Mas por quê? Qual era a causa? Por essa mesma
razão, não estava completamente segura de que gostava daquilo.
Algumas pessoas podiam desejar o poder, mas eu nunca fui uma delas.
Aquela força escura em meu interior se removia, estirava-se, e me
piscava um de seus olhos reluzentes e brilhantes. Logo, prometia-me
antes de voltar de novo para seu paciente torpor.
Não, pensei com a boca seca. Eu não desejava ter poder. Eu o temia.

Thaddeus voltou a inundar-se em seu mal-humorado pessimismo


quando entramos na casa onde tinha crescido. Era ainda mais bonita por
dentro que por fora; tinha enormes janelas, teto alto e finos tapetes
orientais cobriam o chão de assoalho. A madeira de mogno lavrada da
escada para combinar com as molduras do mesmo material que
decoravam a parte superior das paredes. Havia certa desordem
acolhedora e íntima na casa: um recipiente com troco na mesinha
acessória ao lado da correspondência sem abrir, uma jaqueta
acolchoada de cor azul pendurada do final do corrimão.
—Pensei que me sentiria melhor em casa — disse Thaddeus—. Mas uma
casa são as pessoas, não apenas o lugar. Deus, não posso acreditar que
já não estejam aqui. —limpou disfarcadamente o rosto com os dedos.
—Vamos — acrescentou com voz rouca enquanto subia as escadas—.
Mostrarei para vocês o quarto de hóspede.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
O som de um carro dirigindo-se a casa nos levou de novo escada
abaixo.
—Vão e dêem uma mão com as bagagens — disse a Amber e Gryphon,
afugentando-os para fora.
—Não dá medo a você? —perguntou Thaddeus em voz baixa quando
ficamos sozinhos. Sabia a quem se referia. Ao conhecer o enorme
Amber, Thaddeus deixou escapar um breve brilho de energia. Tinha o
mitigado rapidamente, mas ao notá-lo, Amber abriu os olhos,
enormemente surpreso.
—Amber? —respondi—. É um carinhoso urso de pelúcia.
Arqueou uma sobrancelha escura com um gesto tão meu que me tirou
o fôlego. —Contigo, possivelmente—disse secamente Thaddeus—. Mas
aposto que não com os outros.
Jamie, Tersa e Rosemary entraram carregados até encima de bolsas.
Tomas e Áquila foram atrás deles conduzindo os baús da bagagem,
seguidos por Amber e Gryphon, que levavam ainda mais coisas e
acabaram por encher a salinha da entrada.
Fiz as apresentações e notei que Thaddeus dava voltas em sua cabeça
em como nos acomodar para dormir antes de sugerir:
—Tersa e Rosemary podem dormir comigo no quarto de hóspedes. O
restante dos homens pode dormir lá embaixo na biblioteca, se isso
estiver bom para você, Thaddeus.
A biblioteca refletia a imagem da elegância do século XIX, com duas
enormes e espaçosas poltronas e paredes revestidas de madeira escura.
Mas o mais importante era que a biblioteca dispunha de uma porta que
se podia fechar e de grossas cortinas. Não foi necessário mencionar o
tácito acordo de não tocar na casa de seus pais.
Thaddeus assentiu nervoso e se moveu para ajudar aos outros a se
acomodarem.
Tomas me tocou levemente para me deter, e me disse com seu suave
sotaque sulino:
—Senhora, pensei que devia comunicá-la que por um instante senti a
presença de outro Monere ao deixar o hotel. Mantive meus sentidos
abertos ao vir para cá, mas não voltei a sentir nada.
Uma fria espetada de inquietação pôs de pé os cabelos de meus braços.
Olhei para Gryphon e Áquila e vi que eles tinham ouvido. Aproximaram-
se.
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—Pôde tratar-se de um dos homens de Mona Sera? —perguntei a
Gryphon.
—Possivelmente — disse Gryphon lentamente—. Estamos em seu
território.
Olhei para Áquila
—Pôde tratar-se de Sandoor?
Áquila acariciou pensativamente sua suave barba.
—Nunca se afastou muito dos bosques do território Koochiching em
Minnesota. Mas nunca antes teve uma razão para fazê-lo.
—Há um longo caminho de Minnesota a Nova Iorque — considerei.
—É verdade — disse Áquila—. Mas é muito fácil pegar o dinheiro dos
humanos e arranjar um carro. Arrebatamos sua rainha. Assim tem que
procurar outra, preferivelmente uma rainha jovem que seja mais fácil de
controlar. Você não só é a mais jovem como também a rainha mais
recente
—Mas não sou tão fácil de controlar — disse ameaçadoramente—. Será
estúpido o bastante para tentá-lo comigo?
—Está desesperado — respondeu Áquila—. Mas como disse, Nova
Iorque está a uma considerável distancia de Minnesota. Pode ter
decidido ir para o norte, ao Canadá, e então pode ser que Tomas tenha
sentido a um dos homens de Mona Sera. Mesmo assim, sugeriria que
todo mundo, especialmente você, senhora, tomasse as precauções
adequadas e que estivéssemos em guarda e atentos.
Assenti em completo acordo e sorri com ironia para Amber e Gryphon,
que tomavam o cuidado de manterem seus rostos inexpressivos.
—Advirtam aos outros. Seguiremos as medidas de segurança que você,
lorde Amber e lorde Gryphon, considerem oportunas — disse a Áquila—.
Seria estúpido de minha parte não ter cuidado justo agora que acabo de
encontrar meu irmão.
—Bendita seja a querida mãe por isso — disse Amber entre dentes.
Fiz que não o escutei e deixei os homens fazendo seus planos.
Sentindo um delicioso e familiar aroma, deixei que meu nariz me
guiasse até a luminosa cozinha. Era decorada informalmente, com um ar
rústico, um trabalho de marcenaria de painéis e armações de cor clara,
revestimentos e chão de assoalho. Thaddeus e Jamie estavam atacando
espessos pedaços de pizza. Peguei um prato, coloquei um pedaço
quente em cima e dei uma dentada.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Mmm. Está bom — resmunguei.
—Não está mal para ser orgânica e congelada. Mamãe me fazia comer
isto em lugar de pizza fresca — disse Thaddeus em voz baixa.
—Amava muito você — comentei.
—Sim.
Mastigamos em silenciosa reflexão durante um tempo. —Terei que
arrumar algumas coisas para eles manhã — disse Thaddeus—. O funeral
e o enterro.
—Ajudarei você — ofereci-me.
Seus lábios tremeram. —Obrigado — disse bruscamente. Thaddeus se
virou para Jamie. —Viveu toda sua vida entre os Monere?
Escutou com interesse enquanto Jamie contava como tinha crescido na
Grande Corte.
— Nunca foi à escola? —perguntou Thaddeus com incredulidade. Aquilo
me surpreendeu também.
—Não. Tersa e eu tivemos um tutor, um dos doutores, para o básico,
até fazermos dezesseis anos. Leitura, escritura, matemática — disse
Jamie—. O resto aprendi dos livros e da televisão. Éramos os únicos que
tínhamos. Uma televisão, quero dizer. Tive que instalar uma antena
parabólica para poder receber algo lá encima.
—Assim nunca esteve em uma cidade antes? —disse.
—Nunca estive em nenhum lugar — disse Jamie fazendo uma careta—.
Manhattan foi incrível. Todos esses enormes edifícios arranhando o céu.
E toda essa gente por toda parte aonde fosse. Nunca soube de verdade
quantas pessoas havia — exclamou com olhos saltados de assombro,
fazendo sorrir ao Thaddeus e a mim.
—Você gostaria de ir à escola, Jamie? —perguntei.
—Não sei — disse pensativamente—. Tersa sim quereria, sei. Mas eu
não estou seguro.
—Falarei disso com Tersa então. Em que série você está, Thaddeus?
—Terminarei o segundo grau este ano — respondeu meu irmão.
—Saltou algumas séries, não é mesmo? —disse levantando uma
sobrancelha.
Os lábios de Thaddeus se franziram ironicamente. Aquilo fez ressaltar
intensamente seus traços e pude ver por um instante o bonito homem
em que se transformaria.
—Meu corpo se desenvolveu lentamente, mas não minha mente.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Assim logo irá à universidade. Tem idéia de aonde você gostaria de
ir? —perguntei.
—Já fui aceito em Harvard e Yale — disse tranqüilamente—. Mamãe e
papai estavam muito orgulhosos.
—Essa é uma oportunidade incrível — obriguei-me a dizer—. Se quiser
ir, pagarei sua matrícula. Poderia ir para Nova Orleáns nas férias ou
durante o verão.
—É muito generoso de sua parte, mas mamãe e papai já tinham
economizado o suficiente para cobrir todo o necessário para minha
educação. Ainda não decidi para onde irei. Já veremos.
Aquela noite, se algum de nós escutou algum soluço abafado, ou
alguém fungando12, ninguém disse nada.
Thaddeus se levantou meio-dia no dia seguinte, seus sigilosos
movimentos no andar de baixo me tirou da cama. Vesti-me
silenciosamente e saí do quarto, deixando Tersa e Rosemary ainda
profundamente adormecidas.
Os olhos de Thaddeus estavam avermelhados e inchados e tinham um
ar sério. Mas sua voz era firme quando ligou e fez alguns acertos para
que levassem os corpos de seus pais a uma funerária local. Combinou
uma reunião para encontrar-se com o diretor da funerária uma hora
depois e discutir sobre o funeral e os preparativos do enterro. Contatou
o advogado da família e marcou uma reunião com ele para várias horas
mais tarde. Havia outro montão de detalhes dos que preocupar-se e
dirigiu todos eles com uma segurança e maturidade muito acima de
seus anos. Reuniu informação sobre como obter cópias dos certificados
de falecimento de seus pais que necessitava do hospital. Escreveu um
balanço das vidas e conquistas de seus pais e o enviou por fax ao diretor
da funerária que por sua vez o enviaria ao periódico local, que o usaria
para escrever uma nota.
Recordando minha promessa despertei Amber e Gryphon e disse a eles
que eu e Thaddeus íamos sair. Amber nos acompanhou enquanto
Gryphon ficou com os outros.
Passamos primeiro pelo centro médico para recolher as cópias dos
certificados de falecimento e depois fomos à funerária. Thaddeus
escolheu os ataúdes e lotes mais caros e decidiu que se apresentariam
com os ataúdes fechados. O funeral e o enterro aconteceriam dois dias
12
Fungar – produzir som absorvendo ar ou muco pelo nariz. (Aurélio)
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Monere – Os filhos da Lua - 01
depois. Quando o sério diretor da funerária perguntou sobre o
pagamento, Thaddeus tirou um cartão de crédito e realizou o
pagamento completo de tudo.
—Na realidade não necessitava de mim para nada — murmurei ao
retornar ao carro.
—Ajudou-me ter você ali, assim como ao grandalhão. Basta olhar para
ele para que ninguém tente aproveitar-se de mim só porque sou um
pirralho.
Amber, impassível, ignorou o comentário de Thaddeus.
Administrou a visita ao escritório do advogado com a mesma eficiência.
O senhor Compton, um advogado especializado em planos de amparo
patrimonial, era um senhor velho, gordo e de baixa estatura. Seu
enrugado e sábio rosto era daqueles em que nós confiamos
imediatamente. Tinha uma cópia do testamento dos Schiffer. Ninguém
se surpreendeu de que deixassem tudo para Thaddeus.
Thaddeus leu e assinou vários documentos que o advogado pôs diante
dele.
—Seu pai era um homem inteligente — disse o senhor Compton, com os
dedos meticulosamente entrelaçados sobre o testamento que acabava
de ler—. Tinha seus assuntos em perfeita ordem. A casa e o carro estão
pagos e seus pais, ambos, tinham seguro de vida em vigor e prósperos
planos de aposentadoria dos quais é o único beneficiário. Apenas é
necessário que envie várias cópias dos certificados de falecimento para
que possa começar a papelada, dar acesso a você a esses recursos e
remeter as demandas às companhias dos seguros de vida e do carro.
O senhor Compton não demonstrou nenhuma surpresa quando
Thaddeus estendeu para ele em silêncio as cópias dos certificados de
falecimento de seus pais.
—Tão eficiente quanto o pai — disse bruscamente o advogado—. O
governo tirará de você uma parte substancial de sua herança com os
impostos por falecimento, mas nem de longe a quantidade que recebeu,
que seria a metade, se seu pai não houvesse previsto e planejado. Veio
me ver, sabe, quando o adotou. Você o fez..., fez a ambos muito felizes.
As lágrimas se amontoaram nos olhos de Thaddeus e só por um fio não
transbordaram.
—Obrigado, senhor.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Tem acesso a uma conta corrente comum em seu nome e no de seu
pai, não é assim? —perguntou o senhor Compton.
—Sim.
—Se necessitar de mais, faça-me saber — disse o senhor Compton—.
Levará alguns meses para validar o testamento.
—É muito amável de sua parte, senhor Compton, mas tenho mais que
suficiente para cobrir minhas necessidades por agora.
—Thaddeus.
—Senhor?
—Seu pai era um amigo além de um cliente — disse o advogado com
carinhosa sinceridade—. Se necessitar de algo, me ligue.
A Lua era redonda e completa, pendurada como um pálido globo no céu
enquanto o dia minguava e desaparecia no oeste. Os outros já estavam
em pé quando retornamos, os homens vestidos e completamente
armados.
—Santo céu — exclamou Thaddeus quando Amber retornou da
biblioteca com sua enorme espada pendurada de lado—. É isso uma
espada?
—É uma grande espada.
Não soube se Thaddeus estava mais surpreso pela arma ou pelo fato de
Amber finalmente ter lhe dirigido à palavra.
—Posso ter uma dessas? —perguntou Thaddeus.
Amber resmungou sem comprometer-se e se dirigiu a cozinha.
—Foi um sim? —perguntou-me Thaddeus.
—Acredito que era um talvez. — Disse, escondendo um sorriso.
Áquila e Amber saíram silenciosamente pela porta de atrás.
—Vão patrulhar a vizinhança e a assegurar uma boa localização para o
banho desta noite — disse Gryphon, respondendo a minha pergunta
silenciosa.
—Você e Amber se banharão agora que já não necessitam? —perguntei.
—Já não necessitamos, mas nós gostaríamos — respondeu com
suavidade Gryphon—. É uma alegria quando a luz penetra você, não é
verdade?
—Sim — respondi. Mas interiormente, a frustração e a preocupação me
carcomiam pela inadequação do momento. Era como se até os
elementos conjurassem para mostrar a Thaddeus o quanto somos
diferentes, os estranhos, os diferentes. Inclusive a Lua.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
Como reagiria Thaddeus ao banho? Com assombro ou com medo?
Sentiria-se excluído? E por essa mesma razão, como se sentiriam Tersa
e Jamie vendo uma experiência alheia, que eles nunca
experimentariam? Thaddeus possivelmente, um dia, se seu poder
crescesse, se não continuasse reprimindo-o...
Havia tanto que não tinha contado a meu irmão. Sobre nossa mãe, para
começar. Sabiamente, ele não perguntou, talvez tenha percebido que se
houvesse algo bom para contar, já teria dito. Tampouco mencionei os
demônios. Thaddeus foi testemunha de suficientes maravilhas
aterradoras em tão curto período de tempo.
—Podemos? Podemos, Mona Lisa? —perguntou Jamie me tirando de
meu sonho. Thaddeus e Tersa estavam junto dele, com seus jovens e
impacientes rostos virados para mim.
—O que? Não estava prestando atenção — disse.
—Chami concordou em ensinar a Thaddeus e ao restante de nós como
usar adequadamente uma adaga se nos der permissão — informou
Tersa. Raramente falava, e muito menos pedia coisas, odiava negar algo
a ela.
Olhei para Thaddeus.
—Odiaria aranhar o chão ou causar algum estrago na casa.
Thaddeus rechaçou com um gesto a objeção.
—Praticaremos no salão. É atapetado. E tomaremos cuidado. Parecia
tão ansioso...
—Muito bem... —fizeram um alvoroço—... se prometerem ser muito
cuidadosos.
—Não se preocupe, mãezinha — disse Chami, apoiando sua esbelta
sombra contra o batente da porta—. Terei muito cuidado com eles.
—Vigiá-los-ei para me assegurar de que tenha — respondi.
Resmunguei e segui aos entusiasmados moços.
—Não se trata apenas de cortar e perfurar, é uma arte — exortou-os
Chami quando nos juntamos em torno dele, e o fez com a mesma
seriedade que teria um professor em uma escola. Tinham persuadido
também Rosemary para que se unisse a nós, e não tinha protestado
muito. Tomas e Gryphon se jogaram indolentemente sobre o sofá ao
meu lado, como silenciosos observadores.
—Enfrentaram guerreiros que tiveram um treinamento básico com
facas, anos de experiência nas costas e que são muito mais fortes. A
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Monere – Os filhos da Lua - 01
única esperança que têm de derrotá-los é serem melhores que eles.
Têm que ir além das técnicas básicas e se converterem em mestres das
armas brancas — disse Chami a seus encantados alunos—. Felizmente,
têm um professor excepcionalmente preparado nesta arte e a sua
disposição.
Chami ignorou meu descortês bufo e começou a explicar o modo
adequado de sustentar uma adaga. Para os outros era uma revisão, mas
para Thaddeus era uma informação nova e necessária. Rosemary, Tersa
e Jamie sustentavam suas adagas na mão. Inclinei-me e peguei minha
adaga, deslizando-a para fora da bainha onde estava escondida, em
uma abertura na parte exterior de minha bota para poder pegá-la mais
facilmente. Descobri um olhar de surpresa no rosto de Thaddeus. Dei de
ombros e estendi a adaga para que ele a usasse. Não ia a nenhum lugar
desarmada.
—Sustentar a adaga corretamente é fundamental, o mais essencial —
advertiu Chami—. Para atacar de baixo devem agarrar o punho com o
dedo indicador levemente por baixo da borda, o polegar se coloca por
cima, cruzando sobre o dedo do meio. O pulso deve estar firme, mas
não tenso. Se o sustentarem corretamente sentirão que a lâmina é uma
extensão de sua mão.
Chami fez uma demonstração para que a seguir eles tentassem.
—Não a aperte tão forte — instruiu Chami a Tersa—. Muito melhor —
disse quando ela corrigiu a forma de pegá-la—. Se apertar muito forte
perde a flexibilidade, com isso na realidade reduz sua força, mas deve
estar suficientemente apertada para que seu oponente não possa tirar a
adaga de suas mãos com facilidade.
Chami ensinou a eles a forma contrária de sustentar a adaga para
atacar de cima.
—No final serão capazes de mudar a postura rapidamente — disse,
lançando a adaga no ar e pegando-a de novo com uma postura
diferente. Sorriu e piscou um dos olhos para as crianças—. Não tentem
isso ainda.
Quando Chami se sentiu por fim satisfeito e considerou que todos
sabiam como sustentar suas armas corretamente, passaram ao
exercício seguinte. Depois de uma busca cheia de criatividade,
terminaram por prender dois travesseiros na parte da frente de um
trenó que Thaddeus tirou da garagem. Envolveram com toalhas os
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Monere – Os filhos da Lua - 01
esquis metálicos do trenó e os escoraram firmemente contra a chaminé
de pedra da enorme lareira. Era menos provável que pudessem deixar
marcas sobre a pedra que sobre as paredes.
—Está seguro de que não se importa de sacrificar esses travesseiros? —
perguntou Chami a Thaddeus com uma solenidade zombadora e um
lápis na mão.
—É por uma boa causa — disse Thaddeus baixinho—. Além disso, eu
não vou usá-los — acrescentou depois, fazendo que Jamie risse baixinho
e Tersa desse uma risada de verdade.
Tendo obtido a permissão, Chami desenhou o contorno de um peito,
costelas, estômago e pescoço de um homem sobre o travesseiro.
—Onde cravaria a adaga, Rosemary?
—No coração? —respondeu duvidosa.
—Aqui? —perguntou Chami, assinalando o centro do peito.
Rosemary assentiu.
—Boa tentativa, mas não é o correto. Pode alguém me dizer por que
não?
—Há muitos ossos — disse Thaddeus—. O esterno está justo aí e, além
disso, há as costelas.
—Ah, muito bem, jovem mestre Thaddeus.
Thaddeus ruborizou, encantado com o elogio de Chami.
Chami desenhou o contorno do esterno sobre o travesseiro.
—O esterno e as costelas formam a armadura óssea do corpo que
protege seus órgãos vitais, o coração e os pulmões. Mas os pulmões não
é nosso principal objetivo. Só alcançando o coração é possível matar a
um de nós, e só com uma lâmina de prata — explicou a Thaddeus—.
Aqueles que possuem força suficiente para romper através das costelas
e alcançar o coração devem golpear sobre o flanco esquerdo, que é
onde se encontra a maior parte da massa do coração. Onde sugere que
cravemos aquela adaga nós que não temos a força suficiente,
Thaddeus?
—Justo debaixo do esterno. Para cima, para o coração — Foi a reflexiva
resposta de Thaddeus.
—Correto — disse Chami satisfeito. Desenhou o contorno do coração
sobre o esterno e marcou o ponto exato onde penetrar—. Aqui embaixo,
onde está mais desprotegido e é mole, com um ângulo de quarenta e
cinco graus para o coração, perfeito — fez uma demonstração com o
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Monere – Os filhos da Lua - 01
lápis—. E depois terá que mover a adaga rapidamente por dentro,
primeiro à esquerda e depois à direita para que, no caso de não alcançar
o coração, cortar ao menos as grandes artérias que se conectam
justamente debaixo. Com isso conseguirão deixar fora de serviço seu
oponente o tempo suficiente para, das duas uma, escapar ou matá-lo.
Chami os fez procurar o ponto exato por debaixo da borda do esterno,
primeiro em seus corpos e depois no de seu companheiro,
emparelhando às duas mulheres e Thaddeus e Jamie do outro lado.
Jamie emitiu um horrível balbucio, inclinando-se para frente quando
Thaddeus o apunhalou com um dedo. Rosemary lançou um olhar
sorridente a sua filha que dizia claramente, «Os homens... são como
meninos».
—Uma vez que deixamos claro que fazer um bom trabalho com a faca é
uma arte — prosseguiu Chami—, por razões práticas, começaremos com
o clássico golpe e corte. Com sua mão desarmada a frente, lancem um
golpe oblíquo aos olhos de seu oponente, para apunhalá-lo em seu
flanco esquerdo imediatamente com a faca que sustentam na outra
mão, ou se forem capazes, debaixo do esterno. Inclinem o corpo. Os pés
separados à distância dos ombros, dobrem os joelhos assim, sustentem
a adaga junto a seu peito, protegendo-o, para que seja difícil darem um
pontapé em vocês ou que o agarre.
Fez uma demonstração da postura.
—Nunca comecem com a mão com a qual sustentam a adaga.
Deixariam um alvo desprotegido para seu inimigo. Essa estupidez só se
vê na televisão onde queremos que os malvados, que é obvio sempre
ameaçam ao mocinho com uma faca, perca. Não, o único momento em
que estendemos a faca é quando a estamos usando. Se não,
sustentamo-la junto à parte baixa de nosso peito.
—O objetivo da mão separada e adiantada são os olhos de seu
oponente. Mas não importa tanto se chegam a bater ou não nos olhos
deles, embora seja o ideal, como que impeçam a seu oponente que veja,
da maneira que seja. Podem lançar terra nos olhos dele, uma toalha, ou
simplesmente tentar colocar os dedos nos olhos deles para que os
fechem em um ato reflexo. Pratiquem o ataque com dureza, com toda
sua força. Com a mão adiantada, golpeiem. Com a mão armada,
apunhalem. Assim.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Chami atacou o travesseiro manequim, cravando os dedos nos olhos e
afundando a outra mão com uma força selvagem no lado esquerdo do
peito, uma e outra vez.
Observaram impressionados a mortífera demonstração com os olhos
abertos. Toda sensação de brincadeira se desvaneceu ante a letal
realidade do que estavam aprendendo.
—Cravar, tirar. Cravar, tirar, tantas vezes quanto possam. Continuar
cravando até que seu oponente caia. Depois, finalizem cortando o
coração ou, muito mais fácil, cortando sua cabeça.
Não é que fosse exatamente um bonito conto para ir dormir, pensei,
sossegando deliberadamente meu sentimento de culpa. Agora
habitávamos em um mundo letal, um mundo que assustava.
Amber e Áquila retornaram de seu reconhecimento do exterior e se
sentaram no outro sofá para observarem conosco enquanto Chami
guiava aos outros naquela rotina.
—Mais forte — disse Chami a Rosemary—. Pense que é um filé
congelado que tem que atravessar — disse à cozinheira, e a fez repetir o
movimento do apunhalamento até que se sentiu satisfeito com a força
de seu golpe inicial e dos que se seguiram.
O enchimento saía dos travesseiros esfaqueados e eram rapidamente
reparados com fita adesiva, uma e outra vez. Se aquilo era uma
brincadeira, era uma brincadeira mortal e cheia de seriedade.
Quando todos se sentiram cômodos com a manobra, Chami os fez
sentarem-se e descansar enquanto continuava os exortando.
—Esse foi o enfrentamento cara a cara. Mas o ideal seria aproximar-se
pelas costas, o que seria muito melhor para vocês, senhoras. Para todos,
na realidade. É mais fácil matar alguém quando não tem que olhá-lo nos
olhos. Toda a vida se ensinou aos soldados a matarem pelas costas.
—A melhor entrada para a espinha dorsal é através da base do crânio.
Atacando por detrás, colocam sua mão livre sobre a boca ou o queixo de
seu oponente e puxem para baixo ao mesmo tempo em que cravem
nele sua adaga na base do pescoço. Não devem se preocupar pensando
que eles podem morder. Acreditem, quando sua lâmina estiver os
atravessando, morder vocês será a última coisa que pensarão.
Chami se virou para mim.
—Senhora, se pudesse me ajudar com a demonstração.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
A contra gosto me aproximei para fazer o papel de sua desejada vítima,
uma tarefa para a qual não teria me apresentado como voluntária.
Olhando para o outro lado, esperei que se movesse. Chami me atacou
com uma rapidez e uma força que eram na verdade aterradoras. Sua
mão estava de repente sobre minha boca e me puxou para trás ao
mesmo tempo em que cravava dois dedos em mim, simulando uma
adaga, na base do crânio. Merda, não teria tido nenhuma chance.
Tendo demonstrado o que queria, Chami os emparelhou de novo e
praticaram o primeiro movimento uns contra os outros utilizando os
dedos como ele. Depois, voltando para os travesseiros, desenhou um
novo alvo de costas e os fez tentarem com as adagas de verdade, tendo
um cuidado especial para que não esfaqueassem as próprias mãos.
Mais enchimento saiu voando.
—É bom com eles — murmurou Gryphon para mim.
—Porque ele também é uma criança — disse em voz baixa.
—Ouvi — disse Chami—. Não me valorizam.
—Já se valoriza o suficiente para compensar por todos nós — repliquei.
—Ferem-me, minha rainha.
Bufei.
—Depois dessa demonstração? Dificilmente. Chami decidiu por fim
terminar com a prática. —Suficiente por hoje.
—Foi genial — disse Thaddeus, devolvendo minha adaga da maneira
correta, com a lâmina virada para ele.
—Vamos, Jamie — disse Thaddeus, os dois se sentiam completamente
cômodos um com o outro—. Vamos navegar na Internet. Quero ver
quanto custa uma adaga como essa e onde posso adquirir uma.
—Está conectado a Internet? Genial — exclamou Jamie e seguiu
Thaddeus escada acima como um cachorrinho entusiasmado.
Gryphon e Tomas saíram para fazerem suas rondas no exterior
enquanto Tersa e Rosemary se dirigiam à cozinha, falando do que
tinham aprendido. Por cima de tudo aquilo, eu sentia a plenitude da Lua
nos chamando, nos atraindo. Logo estaríamos respondendo a sua
chamada.
Chami se deixou cair pesadamente junto a mim.
—Seu turno.
—Meu turno?

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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Tente chamar a suas adagas para sua mão — disse Chami
brandamente.
Levantei a contra gosto, sabendo que tinha razão. Muitas das coisas
que fiz foram no calor da batalha. Algumas, como canalizar a energia
através da mão e queimar a pele de Miles, duvidei que fosse capaz de
repetir. A não ser que me encontrasse em plena luta, o poder e o uso do
poder me faziam sentir incômoda. Mesmo assim, tinha que averiguar se
podia chamar minha adaga com segurança, como fiz com a lâmina de
Mona Louisa quando tentou apunhalar Gryphon.
Concentrei-me. A adaga de prata veio para minha mão sem dificuldade.
Nada ocorreu, entretanto, com a adaga que não era de prata.
—O que faz para chamar a adaga de prata? —perguntou Chami.
—Penso na prata. Em seu gosto, seu cheiro em como a sinto em minha
mão.
—Faça o mesmo com a outra adaga.
Levei a lâmina ao nariz e inalei o débil aroma metálico, tirei a língua e a
lambi, concentrei-me no peso da adaga, em como a sentia ao pegá-la.
Embainhei-a na parte exterior de minha bota, fiquei de joelhos com
minha mão a quase meio metro de distância e me concentrei.
Respondeu ao meu chamado.
—Muito bem — disse Chami—. Tente de pé.
Tive que me concentrar mais, mas também veio para minha mão. Senti
sua força quando abandonou minha bota esquerda.
Amber, que ficou conosco como espectador, Estendeu para mim a
grande espada que tinha mais de um metro de comprimento. Com
minha força o problema não era tanto o peso e sim me acostumar à
sensação e ao equilíbrio de uma arma muito maior. O aroma era único e
o sabor diferente dos outros metais. Tinha um sabor de antigo, de
antigas batalhas, de sangue derramado, como se fosse capaz de
absorver parte da dor e do poder de suas vítimas.
Deixei a espada sobre o vidro da mesinha de café, afastei-me e a
chamei. Voou até minha mão como um mortífero pássaro de asas
gigantescas; o punho para frente.
—Dê-me sua adaga de prata — disse Amber e se afastou até que nos
separou toda a distância da sala, quase dez metros—. Chama-a agora.
Uma descarga de energia e voou até minha mão, diretamente e sem
duvidar.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Deus! —disse Jamie das escadas, onde ele e Thaddeus observavam
fascinados. Provavelmente as pequenas descargas de energia os
atraíram.
—Nunca vi ninguém fazer isso — disse Jamie.
—Isso é porque ninguém mais pode fazê-lo — disse Chami secamente
—. Tente com minha adaga. —Lançou seu punhal de prata a Amber,
quem o pegou no ar.
Concentrando-me intensamente, chamei-o. As lâminas de prata
pareciam não me dar nenhum problema. O lancei de volta a Chami,
quem o agarrou com um singelo e rápido movimento de seu pulso e o
embainhou.
—Não está mal — disse Chami.
—Que não está mau? Foi assombroso!
—Deve se familiarizar com todas nossas adagas, senhora — disse
Chami—, para que em caso de necessidade possa chamá-las.
—É uma boa sugestão, Chami, mas em outra noite — disse
tranqüilamente e me afundei no sofá modular de cor bege.
Chami consentiu meus desejos com uma inclinação de cabeça. Parecia
ter notado meu desconforto ao ser o centro da atenção e atraiu o
interesse dos rapazes com uma impressionante demonstração de jogos
e piruetas com seu punhal.
Se Jamie e Thaddeus sentiam a exasperada inquietação, a ansiosa
espera que o restante de nós sentia enquanto se aproximava à hora
mágica da lua cheia, não o demonstravam.
Já perto da meia-noite Chami me perguntou:
—Quer que fale com seu irmão sobre esta noite?
—Por favor — disse agradecida.
Chami explicou o que consistia o banho de lua a Thaddeus de uma
maneira simples e didática, muito parecida com a forma que explicou a
ele as técnicas da luta com as adagas.
—Alguma pergunta? —perguntou a Thaddeus depois que este digeriu a
informação.
—Não. Eu gostaria de ver.
Aquilo era bom. Não precisávamos prescindir de ninguém para que
cuidasse de Thaddeus, Jamie e Tersa. Poderiam estar ali conosco, perto
o suficiente para protegê-los durante a cerimônia.

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Monere – Os filhos da Lua - 01

Capítulo vinte e quatro


Saímos e a noite nos deu boas-vindas, nos acariciando com os frios
dedos de um vento leve. O refrescante e acre perfume de pinheiro
invadiu nosso olfato enquanto entrávamos entre as árvores. Tinham
arrancado a raiz de algumas árvores e limparam um pouco a vegetação,
assegurando que nosso pequeno grupo pudesse expor-se unido à glória
redonda e pálida de nossa mãe Lua. Thaddeus, Jamie e Tersa
permaneceram um pouco afastados a nossa esquerda.
Os outros me olhavam. Era a hora.
Da outra vez que fiz isto foi como tropeçar com isso, e simplesmente
aconteceu. Agora minha estréia oficial ia acontecer diante de meu
recém encontrado irmão, que depois da morte de seus pais viu
desaparecer a segurança de seu mundo, mundo que ademais eu
coloquei pelo avesso uma vez mais com minha aparição. Estavam
também os homens dos quais me responsabilizei, cujas vidas
dependiam de mim. Vidas que seriam mais curtas se não fosse capaz de
atrair os renovadores e vibrantes raios de luz da Lua. Tomas, franco e
resolvido, cujo sorriso iluminava seu rosto. Áquila, belo e correto, que
não teria se importado de morrer depois de um último ato honorável se
o Conselho assim o decretasse. Chami, ardiloso, sagaz e terrivelmente
mortífero, que gostava de brincar e provocar, mas que era
suficientemente sensível para desviar a atenção de mim quando me
fazia sentir incômoda. Não sentia pressão. Até parece!
Deveriam ter me oferecido um curso: fundamentos do banho de Lua
101. Possivelmente o sugerisse ao Conselho na próxima vez. Claro.
Respirei fundo, me purificando; depois outra vez, me abrindo para a
noite, desdobrando meus sentidos, chegando mais e mais longe até que
esbarrei em algo que era alheio, mas mesmo assim era familiar. Algo
que era outro como nós, mas não era dos nossos. Então foi muito tarde.
Atacaram-nos. Não a mim. Não aos meus homens. Atacaram ao único
que me deteria, que deteria a nós todos: Thaddeus.
Sandoor sustentava o afiado fio de sua espada contra o frágil pescoço
de Thaddeus enquanto que outro de seus homens empurrava Jamie e

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Tersa para nós, concentrando a todos. Havia só cinco homens além de
Sandoor. Perguntei-me o que teria acontecido com os outros dois.
—Bem — sussurrou Sandoor, retumbando gravemente—, nos
encontramos de novos.
—O que quer? —exigi.
—O que crê, pequena rainha? Um banho de lua, para começar. Não
permita que interrompamos seu encontro íntimo. Faça como se não
estivéssemos aqui. —Pressionou o fio de sua espada contra a pele de
Thaddeus, fazendo-o sangrar—. Continue — ordenou com voz
ameaçadora.
Meu sangue esquentou, ao mesmo tempo em que se incrementava
minha energia, e senti que algo se removia profunda e grosseiramente
em meu interior. A besta queria sair, grunhia porque ainda a mantinha
enjaulada.
Levantei os olhos e os braços para a bendita Lua e me abri ao atraente
poder que enchia a noite, dei-lhe boas-vindas, pedi a ela que viesse e
nos enchesse. E o fez.
Suaves e leves raios de luz da lua caíram sobre mim vindos daquele
sorridente rosto lunar, uma benévola chuva de mariposas de luz que
acariciavam meu ser com um sussurro luminoso de asas antes de
desvanecerem-se em meu interior como pequenos dardos de alegria.

Vi os rostos extasiados dos homens enquanto a chuva de luz começava


a estender-se a aqueles que se encontravam mais perto de mim, os
enchendo em um brilhante renascimento. Amber, Gryphon, Chami. Vi
nos olhos extasiados de Thaddeus brilhar ao mesmo tempo o assombro
e o temor. Vi-o elevar o rosto e os braços para o céu. Senti uma
explosão de energia similar à minha, mas ainda assim diferente. Varonil.
Masculina. Poderosa e estimulante. Uma paixão maravilhosa e
envolvente.
A Lua o reconheceu e respondeu a ele.
Outro raio de luz caiu sobre Thaddeus, iluminando aquele rosto estático
voltado para o céu com um exultante brilho de adoração. Luz alada o
banhava, penetrava nele. E se estendeu para Sandoor e seus homens,
compartilhando com eles a gloriosa celebração da vida que se renovava.
Passou-se o tempo, seis, possivelmente sete segundos, depois de
absorver o último brilho de luz em nosso interior.
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—Doce noite! —exclamou Sandoor, olhando com assombro para o rapaz
que sustentava com suas mãos. E soube o que ele tinha em mente. Ia
levar apenas Thaddeus. E soube também que nunca deixaria que
Sandoor o tivesse.
Caminhei lentamente para ele.
—Veio atrás de mim, Sandoor, não é assim?
—Fique onde está! —ordenou Sandoor.
Ri e não o levei em conta, dei mais alguns passos movendo meus
quadris.
—Ou fará o quê? Cortará o pescoço de Thaddeus? Seu milagre
masculino de luz? Não acredito.
Sandoor sorriu, seus olhos se pareciam muito com os de Amber. A
diferença entre eles se encontrava em seus corações, em suas almas.
Sandoor baixou sua espada de tal maneira que pressionava sobre o
ombro de Thaddeus e respondeu a minha jogada.
—Cortar o pescoço não. Mas não me importaria de cortá-lo um pouco.
Você gostaria de ouvir seu irmão gritar como um porco, piralha?
Detive-me. Sandoor sorriu.
—Isso está melhor. Faça seus homens jogarem suas armas. — eu sorri
também.
—E deixá-los indefesos em frente a seus homens armados? Inclusive
você deveria ser mais inteligente. —Ri desagradavelmente—. Ou talvez
não. Talvez simplesmente não tenha a capacidade de alcançar o nível
que seu filho alcançou, não importa com quantas rainhas transe ou
quantas vezes se banhe com a Lua.
Vi os olhos de Sandoor recaírem sobre a corrente e o medalhão
pendurado no pescoço de Amber e abrir-se cheios de surpresa.
—E não somente seu filho. Gryphon, meu outro amante. —Voltei a atrair
a atenção dos olhos de Sandoor acariciando com um dedo meus lábios,
baixando depois para o escuro vale entre meus seios. Observei que os
olhos de Sandoor seguiam o tentador caminho. Inclinei a cabeça
pensativamente—. Ou talvez tenha transado com as rainhas
equivocadas. Pobre Sandoor. Vagando estupidamente durante mais de
uma década, lutando por uma pobre existência no bosque. Noite pós
noite tendo livre acesso a uma rainha e mesmo assim não teve aparente
resultado a mostrar depois de todos seus esforços transando com ela.
Como deve alterar seus nervos ver seu próprio filho reconhecido e
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honrado, convertido em lorde pelo Conselho, sabendo que você nunca
será.
Sandoor negou com a cabeça, cheio de fúria.
—Cessa já seu estúpido falatório, puta!
Fiz uma fria careta com a boca.
—Essa é a maneira que fala com alguém que quer que se ilumine para
você? Essa não é a melhor técnica de cortejo, querido.
—Balzaar — falou de repente Sandoor.
Balzaar, sério e de enorme constituição, adiantou-se sustentando
algumas correntes em suas mãos. Uma fria inquietação me invadiu
quando vi que não eram de prata, mas sim da escura liga metálica com
a qual me encadearam no inferno.
—Correntes do demônio — disse Sandoor com arrepiante satisfação—.
Já não há tanto falatório, não é? Vire-se e ponha ambos os braços nas
costas.
Quando hesitei, Sandoor disse astutamente:
—Você quer vir conosco, não é mesmo? Quando levar seu irmão?
Virei-me bruscamente e me rendi, mostrando minhas mãos. Os grilhões,
frios e ásperos, se fecharam com força ao redor de meus pulsos e
tornozelos. Balzaar me fez girar e tirou todas as minhas armas.
Olhei Balzaar nos olhos, olhos pequenos, negros e brilhantes.
—Não se preocupe — sussurrei—. As recuperarei muito em breve.
Balzaar puxou a corrente. Seu rosto permaneceu impassível quando caí
no chão. Apertou a corrente, enrolando-a entre os grilhões de meus
pulsos, puxando minhas pernas para trás, com os joelhos dobrados, até
que os dedos de meus pés quase tocavam minhas mãos, me
imobilizando por completo.
Balzaar pôs sua adaga sobre meu pescoço.
—Joguem suas armas no chão — ordenou Sandoor.
—Não o façam — disse a meus homens, minha voz ressoou com força.
Daquela vez me obedeceram.
—Não a matará — disse Amber.
Sandoor riu com retorcida soberba de seu oponente, seu filho.
—Está certo. É possível que me seja de alguma utilidade no futuro. Mas
não agora. Não quando tenho entre minhas mãos o futuro de todo nosso
povo. Ele é o único que importa agora. Um bonito corte no flanco,
Balzaar.
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Gritei quando Balzaar afundou a lâmina em meu flanco direito e senti
que me atravessava uma dor intensa. Ouvi algo mover-se.
—Uh, uh, uh. Um passo a mais e teremos que cravá-la outra vez —
advertiu Sandoor—. Muito bem, meninos. Deixarei sua rainha ferida aos
seus cuidados enquanto partimos. Não tentem nos seguir ou teremos
que cortar o menino como fizemos com sua irmã. Um corte por cada um
de vocês que nos siga.
Sandoor começou a retroceder, ladeado por seus homens, levando
Thaddeus com ele. Meus olhos estavam fixos no rosto pálido e
assustado de meu irmão. Seus olhos se encontraram com os meus e não
se separaram.
—Não! —gritei me revolvendo, mas as correntes de demônio me
mantiveram firmemente presa no meio da escuridão da superfície como
o fez na escuridão das profundezas.
Deixei de lutar. Totalmente. Deixei de lutar contra esse escuro poder, a
besta que rondava incansável em meu interior, que esperou durante
tanto tempo para despertar, para libertar-se. Deixei de lutar contra ela e
a aceitei, abrindo meu corpo para ela, meu coração, minha alma a essa
aterradora e horripilante parte de mim, lhe dando boas-vindas,
sussurrando que saísse. Sai e vêem jogar. Vem agora, preciso de você.
A besta se ergueu dentro de mim e com uma descarga de energia
quebrei as correntes do demônio. Apoderou-se de mim, me envolvendo
em sinuosos tendões e músculos alterados, me possuiu e cobriu com
uma grossa capa de pelagem protetora, invadiu-me com um tremendo
rugido que rasgou a noite e levou o terror aos corações de todos aqueles
que o escutaram. Grunhi fazendo um som que não havia garganta
humana capaz de reproduzir. Um som que cresceu até converter-se em
um grito longo, forte e contínuo, cheio de ira, completamente anômalo e
desumano. Um agudo lamento que bem podia provir do inferno.
Incorporei-me, me pondo de quatro. Os músculos se retesavam e
estiravam, eu me impulsionava para meu objetivo, o homem que
agarrava ao pequeno. Lancei-me pelo ar, cobrindo uns oito metros
facilmente, e bati em minha presa atirando-a ao chão.
Algo afiado me penetrou e a dor me enfureceu. Grunhindo, golpeei a
coisa que tinha me cortado lançando-a longe, cortando a carne com
minhas garras negras e longas. Farejei o quente aroma acre e doce do
sangue, e lambi a extremidade que tinha rasgado. Os fortes gritos me
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aborreciam e outra extremidade me golpeava e se movia sem parar.
Bastou-me rompê-la com um bote de minha boca, e senti com satisfação
meus dentes se afundando profundamente na carne tenra, senti a
quente corrente sanguínea alagar minha boca e penetrar em minha
garganta, e senti a voraz necessidade de engolir a carne quente.
Outros combatiam e lutavam em torno de mim, mas enquanto não me
incomodassem ou tentassem arrebatar minha presa, contentava-me
deixando-os lutar por sua conta. A criatura, minha comida, aquela coisa
que logo encheria meu estômago, continuava resistindo, para minha
irritação e os gritos que emitia, fortes e estridentes, incomodavam meus
ouvidos sensíveis. Mordi os pequenos ossos de seu pescoço e arranquei
sua garganta. Cessaram as estridências. Ainda vivia, respirava, mas
agora mal lutava. Acomodei-me, meu corpo sustentando a minha
indefesa vítima, e me preparei para me dar um festim.
Mas o pequeno, o filhotinho, deteve-me, chamava-me.
—Mona Lisa! Mona Lisa!
A voz me era familiar, supunha-se que tinha que significar algo para
mim, mas não era capaz de fazer nenhuma conexão. Não podia
compreender. Grunhi para bichinho, o advertindo que se afastasse de
minha comida.
—Mona Lisa. Por favor, não faça isso. Sou Thaddeus, seu irmão. Preciso
de você.
Suas palavras penetraram em mim. Thaddeus... Thaddeus... irmão...
Olhei nos olhos do filhotinho. Sacudi a cabeça. —Mona Lisa... por favor!
As palavras. O nome. Algo fez conexão em meu interior.
Com uma quebra de onda de energia me obriguei a trocar. Senti um
formigamento na pele, estremeci. A pelagem se movia, retrocedia,
desaparecia. Os ossos se estiravam e mudava, e já não me era natural
continuar de quatro.
Fiquei de pé e descobri sangue cobrindo minha pele nua, sangue que
ainda nesse momento me chamava. Lutei para não lambê-lo e saboreá-
lo como se fosse toffee quente e amanteigado. Observava como de uma
distância irreal a Amber, que me cobria com seu, sobretudo e o
abotoava enquanto eu me balançava de pé sobre Sandoor. Dei-me conta
com curiosa indiferença que Gryphon estava junto de Amber. De que
Rosemary abraçava Tersa e Jamie protegendo-os, e os mantinha
grudados às árvores. De que roupas vazias jaziam pelo chão junto a
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montões de cinza pulverizadas pela clareira. Só Tomas continuava
lutando contra um inimigo, o cabeçudo do Greeves. Chami e Áquila os
rodeavam evitando que pudessem escapar. Só Tomas estava ferido,
tinha um corte em seu flanco esquerdo, sobre as costelas, e era por isso
que estava demorando tanto tempo para acabar com seu oponente.
Tomas atacou repentinamente, atravessando com sua espada o
estômago do Greeves. Tirou-a, elevou-a e golpeou de novo, cortando
sua cabeça. Observei com curiosa desconexão que brilhou uma luz ao
ser liberada de seu corpo, e que a casca que ficou desintegrou em
cinzas. Suas roupas caíram no chão quando já não restou mais nada que
as sustentasse.
Uma energia, uma áspera respiração atraiu minha atenção para o que
jazia aos meus pés. Sandoor. A hemorragia estava reduzindo, sua
milagrosa habilidade para se regenerar já estava fechando as feridas
abertas. Longe de estar morto, estava se curando e soube que não
podia deixá-lo viver. Seria uma ameaça para Thaddeus enquanto lhe
restasse um fôlego.
Com um simples pensamento, chamei a espada de Amber para minha
mão. Ressoou em sua bainha e voou para que eu a agarrasse. Um golpe
preciso e Sandoor deixou de se curar. Deixou de ser.
A luz liberada se dispersou ao sair do corpo dilacerado. Vi quando
Sandoor se desintegrou até que só restaram cinzas e sua roupa vazia
jazia no chão, onde antes estava seu corpo.
Elevei o olhar para Amber, para aquele rosto que tinha uma
semelhança tão surpreendente com o do homem que acabei de
executar.
—Sinto muito.
Os olhos de Amber não me culpavam nem se obscureceram.
—Estou agradecido por não ter sido eu — disse.
Repentinamente fraca, caí de joelhos sobre minhas mãos, sentindo-me
estranha. A lâmina caiu de minha mão com uma sensação de
desconcerto, como se eu não devesse sustentar semelhante objeto nela.
Como se o que devesse sentir em seu lugar fosse à terra suave sob
minhas garras.
A chamada do sangue me fez levantar a cabeça.
—Jesus! Seus olhos — ouvi Thaddeus dizer, embora as palavras não
significassem nada para mim. Nada tinha significado algum para mim à
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exceção do sangue intenso e calidamente vermelho como vinho sobre a
carne pálida. Impelia-me. Atraía-me. Arrastei-me até ela e me elevei
sobre um corpo maravilhosamente vivo que sangrava. Tirei a língua e
lambi aquele quente vinho da vida.
Aquele corpo com vida se moveu, perturbando meu desfrute, e grunhi.
—Não se mova, Tomas — advertiu Amber—. Está voltando a ser a
besta.
—Que merda quer que faça? Que a deixe me comer? —perguntou
Tomas tremendo.
Ouvi como se acelerava o coração da criatura e saboreei uma emoção
que me dava água na boca quase tanto quanto o sangue. O medo. Um
delicioso condimento para dar sabor à carne.
—Os dentes de um tigre são ainda mais afiados que os dentes de um
humano. Se correr, disparará seu instinto caçador — disse Amber
serenamente, com uma cuidadosa calma—. Não acredito que queira que
volte a converter-se na besta.
Agarrei com os dedos a parte baixa das costas e as redondas nádegas
de minha presa. Estava surpresa por as garras não atravessarem o
suave tecido. Enterrei o rosto no ferimento aberto em suas costelas,
lambendo a doce carne que sangrava até que já não restava sangue, e
senti a criatura tremer quando afundei minha língua e mordisquei
delicadamente a carne tenra.
Um novo perfume, mais fresco, atraiu minha atenção e levantei o rosto.
Um rastro de sangue sobre uma pálida extremidade se movia
tentadoramente diante de mim oferecendo-se silenciosamente. Deixei
Tomas ir, deixei-me cair ao chão de quatro e agarrei o membro que se
oferecia, lambendo o sangue.
—Isso é muito bom, querida — cantarolou Gryphon—, olhe para mim.
O som fez que levantasse o olhar para o rosto de Gryphon. Senti o
formigamento de uma explosão de energia que me pôs o pêlo de todo o
corpo de pé. Meus lábios se contraíram em um silencioso grunhido que
foi desaparecendo ao contemplar aquela criatura bonita e sensual
diante de mim, uma criatura de beleza irresistível com sua cascata de
cabelo intensamente negro, dramaticamente negro, sobre sua pele
branca e delicada. Uma nuvem de feromônios canela e almíscar me
envolveu, e fez meu apetite mudar de direção. Olhei aquela boca
carnuda e vermelha, e repentinamente soube que aquele corpo
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maravilhoso podia me satisfazer de um modo diferente, mais agradável.
Escalei sobre o corpo de Gryphon até que pude lamber e comer daquela
boca suculenta como uma maçã caramelada. Tinha sabor de mel e
ronronei de prazer. Ronronei ainda mais forte quando suas mãos
acariciaram meu pescoço, provocando descargas, através de sensíveis
pontos de prazer, que me faziam sentir como se minha coluna
derretesse.
Um intenso ruído discordante e o brilho de luzes me fizeram perder a
atenção.
—OH, não, querida. Olhe para mim — murmurou Gryphon.
Outra explosão de doçura e canela me envolveu, me fazendo ronronar e
me esfregar contra ele. Queria esfregar meu corpo nu por ele todo e me
envolver nesse delicioso perfume e rolar por cima dele como se fosse
neve. Meus braços rodearam seu pescoço e minhas pernas o
envolveram, mantendo-o cativo. Começou a afastar-se, me levando com
ele, me sustentando com um braço, enquanto com o outro continuava
acariciando esses sensíveis pontos ao longo de meu pescoço.
—Amber, esconde as roupas e as armas — murmurou Gryphon
enquanto me beijava no sensível vão detrás da orelha, fazendo que me
retorcesse contra ele—. Desfaça-se depois da polícia. Deixem-nos a sós.
Entramos em uma casa. Uma rápida subida por um lance de escada e
depois me deixou cair sobre uma superfície elevada, grande e suave.
Gryphon nos liberou de nossas roupas e por fim pude esfregar minha
pele nua contra sua aveludada nudez que tanto tinha desejado. Era
maravilhoso. Mas então já não era suficiente.
Mãos me acariciaram descendo por meu corpo.
Sim, sim. Isso era o que necessitava. Que me tocassem ali, que
esfregasse mais forte aqui, que beliscasse por ali. Ofeguei, arqueei meu
corpo, incorporei-me em suas mãos e abri as pernas em silenciosa
exigência enquanto que onde quer que ele me tocasse provocava uma
maravilhosa dor dentro de mim. Gemi enquanto me beijava descendo
por meu corpo, grunhi quando se deteve muito tempo sobre a fenda de
meu ventre, e agarrei sua cabeça com força quando por fim alcançou
seu destino, onde a sufocante necessidade fazia meu corpo chorar com
doces lágrimas. Lambeu com delicadeza, me fazendo gemer e gritar, me
arqueando contra a leve e torturante pressão de sua sábia língua.
—Sim, abra-se mais, querida.
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E quando o fiz, recompensou-me introduzindo ainda mais aquele
versátil órgão oral, me atravessando de prazer, fazendo meu corpo
tremer e todos meus músculos se esticassem. Sons selvagens
escaparam de minha garganta enquanto sacudia e girava a cabeça. E
ainda assim, não era suficiente. Grunhi de ira e frustração, querendo
algo mais, e me deu isso.
Dois dedos deslizaram para dentro de mim, com facilidade, me
enchendo, detendo a dor por um instante. Mas voltou muito rápido
quando aqueles dedos permaneceram quietos em meu interior, imóveis.
Sacudi minha pélvis violentamente contra ele, e me deixou montar seus
dedos até que a fúria desapareceu e fui capaz de tornar meus
movimentos mais lentos, até alcançar um ritmo mais lânguido e
desfrutá-lo mais.
Recompensou-me introduzindo um terceiro dedo dentro de mim, me
abrindo ainda mais e beijando meu crespo arbusto, seus olhos escuros e
brilhantes medindo meu mal-estar e meu prazer. Ronronei com um som
profundo e surdo que saía de minha garganta enquanto desfrutava
ainda mais da sensação durante um momento longo e ditoso. Primeiro
com trancos rápidos e fortes de meus quadris, depois mais devagar,
mais profundamente, saboreando-o mais, enquanto que rapidamente ia
entendendo seu jogo. Deu-me de presente um sorriso satisfeito e
excitante e recompensou meu ritmo mais suave e sem pressa colocando
um quarto dedo. Tinha que trabalhá-lo lentamente enquanto eu
ofegava, grunhia, gemia e abria ainda mais as pernas.
Ambos jazemos respirando fortemente por vários segundos enquanto
me observava de perto, enquanto eu me ajustava e saboreava o intenso
prazer de meus tecidos se estirarem ficando mais finos até que quase
doía. Flexionei meus quadris, só levemente, e gemi, relaxei, ofeguei, e
flexionei de novo, permitindo que meus tecidos fossem se abrandando
lentamente, relaxei, expandi-me, até que meus fluidos internos
gotejaram por sua mão, facilitando o caminho. De maneira
dolorosamente lenta, empalei-me sobre ele, agitando a cabeça
enquanto o envolvia, avançando pouco a pouco, com dolorosa
satisfação, até que o enterrei em meu interior alcançando o limite de
seu polegar.
—Mais — exclamei asperamente, ofegando, gemendo em agonizante
prazer, querendo toda sua mão, com polegar e tudo, enterrada em mim.
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—A próxima vez — respirou, e lambeu a inchada protuberância que
tinha crescido entre suas mãos até tal ponto de plenitude e
sensibilidade que meu corpo se agitou com a cálida sensação que me
varreu, que era quase demasiadamente prazerosa, fazendo que sua
mão se movesse em meu interior. Sua boca rodeava meu clitóris ereto e
chupou com força enquanto tirava e colocava depois com força a mão,
cuidadosamente, mas com dureza, até que esteve quase por completo
dentro de mim.
Gritei e gozei, com todo meu corpo em convulsão, cálidas ondas de
êxtase me varriam, me invadindo, e me purificando.
As suaves mãos de Gryphon me acariciavam me trazendo de volta ao
meu ser. Não soube se fiquei inconsciente ou se adormeci ou quanto
tempo tinha passado.
Esquadrinhou meus olhos com cautela quando levantei as pálpebras.
—Seus olhos estão normais — disse com alívio.
—E como eram antes? —disse em tom áspero.
—Laranja amarelado.
—O que aconteceu? —perguntei.
—Trocou para sua outra forma.
—E qual é?
—Um tigre de Bengala.
Recordei o laranja, o negro e as listras brancas da pelagem sobre
minhas pernas; recordei a fome horrível e a necessidade de engolir
sangue fresco. Enterrei o rosto entre meus joelhos e me embalei cheia
de medo e de alívio.
—Meu Deus. —Estremeci—. Não conhecia nem a mim mesma. Era outra
mente... essa criatura me controlava. Só queria afundar os dentes e
arrancar a carne. Ia comer Sandoor.
Senti que meu estômago se revolvia e lutei desesperadamente para me
levantar da cama. Compreendendo minha urgência, Gryphon me levou
até o banheiro onde, sufocada pelas náuseas, vomitei na privada.
Depois me sustentou enquanto que lavava minha boca trêmula.
—Preciso tomar uma ducha.
Sem dizer uma palavra, Gryphon me levou com ele à ducha e abriu a
água. Lavou-me duas vezes, esfregando meu corpo todo. Depois, ainda
débil, deixou-me apoiada contra a parede enquanto ele se lavava.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Esfregou-me com uma toalha e secou meus cabelos com outra até que
quase toda a umidade desapareceu, depois me levou de novo até a
cama e me sustentou entre seus braços.
—Odeio isso — murmurei contra seu pescoço.
—É mais duro no início, mas depois melhora. Será capaz de controlar
seu animal gradualmente, de manter o controle se for o que decida
fazer. A primeira vez também foi difícil porque retornou a sua forma
humana muito rápido, antes de satisfazer sua sede de sangue.
—Você me distraiu, e converteu minha sede de sangue...
—... Em desejo sexual, sim. —Gryphon acariciou minhas costas me
reconfortando—. Substituí um apetite por outro.
—O que fez... esse é seu verdadeiro poder, não é verdade? Não só sua
capacidade de controlar a vontade dos outros ou de trocar de forma.
A mão de Gryphon se deteve uma fração de segundo, e depois
continuou suas relaxantes carícias.
—Sim, esse é meu maior poder — admitiu em voz baixa.
—Por que nunca o usou antes?
Senti como seus lábios se retorciam em um gesto irônico sobre minha
testa.
—A primeira vez que colocou seus olhos em cima de mim quase me
cospe de raiva ao pensar que tentei manipular a atração entre nós.
—É por isso que escondeu essa parte sua? Não o conhecia então como
o conheço agora.
—Não desejava me converter em seu brinquedo sexual ou que você me
visse dessa maneira.
Afastei-me para poder olhá-lo à cara.
—É meu amor, meu companheiro — declarei com voz suave e
apaixonada.
Gryphon me atraiu de novo para ele como se não pudesse suportar
meu escrutínio depois daquela dolorosa confissão.
—Você me quis inclusive quando estava muito fraco para se atar a mim
desta maneira, embora o tivesse desejado. Seu amor, que deu
livremente, é o presente mais prezado, Mona Lisa.
—Usou seu poder para me ajudar.
—Tudo que seja meu e necessite ou deseje lhe entregarei: carne,
sangue ou sexo. Embora prefira este último. —Sorriu—. É a razão pela
qual a saboreei por baixo.
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—Quer dizer que poderia ter devorado você? —exclamei cheia de
horror.
Deu de ombros eloqüentemente.
—Um tipo de apetite pode se transformar em outro facilmente.
Passei uma afiada unha por seu mamilo, o fazendo estremecer.
—Agora não quero devorar você — disse, percorrendo com beijos seu
suave e bonito peito—. Ou possivelmente sim. —Gryphon se colocou em
cima de mim, capturando minhas mãos aos lados.
—Permita-me — sussurrou—. Permita-me demonstrar a você o meu
amor.
E o permiti, deitada ali em uma doce rendição, dando a ele o que
necessitava enquanto me amava com doces beijos e reverentes carícias:
suaves suspiros e doces gemidos. Beijou-me os braços, depositando
delicadas carícias no interior de minhas mãos que eram
surpreendentemente sensíveis. Saboreei a indescritível sensação de sua
respiração movendo-se por meu ventre trêmulo, seus cabelos sedosos
caindo sobre meus joelhos, seus suaves lábios apertando-se contra meu
sensível sinal. Entreguei-me a ele, a meus sentidos, deixando-o fazer o
que quisesse.
Uniu-se a mim e fez amor comigo com uma ternura tão deliciosa e uma
beleza tal que conquistou meu coração. Meus olhos se encheram de
lágrimas que começaram a derramarem-se quando nossos silenciosos
ofegos de alívio fizeram brilhar a habitação com luzes e doce prazer.
—Não sabia que podia ser assim — sussurrei.
—Tampouco eu sabia — replicou Gryphon brandamente—. Tampouco
eu sabia.

Capítulo vinte e cinco


Quando despertei, a luz do meio-dia pressionava contra as cortinas
fechadas e o resto da casa continuava imerso em seu sono, à exceção
de uma pessoa. Vesti-me e escapuli silenciosamente escada abaixo.
Meu irmão me olhou tranqüilamente por cima de seu café da manhã de
cereais quando entrei na cozinha.
—Quer? —perguntou Thaddeus.

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Monere – Os filhos da Lua - 01
Surpreendentemente, queria sim. Servi-me de uma tigela de flocos
açucarados e a doçura do açúcar saciou um desejo que não sabia que
tinha.
—Grrran saborrr—disse, imitando ao tigre Tony.
Apareceu um sorriso em seu rosto que desapareceu rapidamente.
—Como está?
Deixei a colher de lado com cuidado. —Estou bem. E você? —Thaddeus
deu de ombros.
—Impressionado. Assustado. Agora bem, também, suponho. Não sei. —
Brincou com sua colher—. Fiz essa coisa dos olhos com a polícia.
—Essa coisa dos olhos? Quer dizer, controlou a vontade deles?
Assentiu.
—Áquila foi comigo falar com os policiais que entraram com os carros.
Um vizinho ligou para dar queixar do barulho que vinha do bosque. Não
acreditaram em minha explicação de que havia gatos selvagens
copulando e queriam dá uma olhada eles mesmos.
Obriguei-me a não reagir ante o desafortunado comentário sobre gatos
selvagens copulando; havia dito isso absolutamente sem malícia.
—Assim tentei fazer aquilo que você fez com o doutor Smith. Incrível.
Funcionou e partiram.
Parecia indeciso sobre se sentia prazer por isso ou não.
—É um dom que nem todos têm. Entre nós, apenas Gryphon, eu e
agora você possuímos.
Thaddeus sorriu, optando por sentir prazer.
—De verdade? Deixou-me completamente nocauteado depois,
literalmente. Acredito que dormi exatamente depois de que partiram.
Dei graças ao céu por aquele misericordioso dado e me senti muito
mais confortável com ele.
—Deve ter perguntas.
Olhou-me com olhos sombrios.
—O banho de lua... quando esses pequenos pedacinhos de luz entraram
em mim... foi uma sensação das mais incríveis. Indescritível.
—Sei — disse brandamente—. Como se isso fosse o que devêssemos
ser.
—Sim—sussurrou—. Criaturas lunares de luz.
—Os outros chegaram a lhe explicar quão incomum era que você fosse
capaz de fazer isso?
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—Na realidade não. Não houve tempo. Mas pesquei algo do que diziam
você e aquele cara, Sandoor. O queria me levar com ele porque eu podia
atrair a luz como você, não é verdade?
—Sim. Antes de você, apenas as rainhas eram capazes de banhar-se
com a luz da lua e compartilhar o banho com outros. Nunca os varões.
Jamais.
—Jamais? —sua jovem voz subiu uma oitava e se partiu.
—É absolutamente único.
—Um objetivo único, quer dizer, para caras como o que acabou de
matar.
Estremeci com aquela última palavra, matar. Não pude evitar. Era a
primeira vez que tirei uma vida. Mas não sentia nenhum remorso. Fiz o
que tinha que fazer para nos manter a salvo. Era só que ainda não me
sentia cômoda por completo com o fato.
—Sim — obriguei-me a dizer—. Será também um objetivo para a
maioria das rainhas que governam graças a esse poder. Não se sentirão
muito felizes vendo como uma habilidade que há tanto tempo
consideraram exclusivamente sua se transmite ao gênero masculino.
—O que faremos? —perguntou.
—Guardaremos isso em segredo.
Thaddeus o considerou, digerindo lentamente.
—Ainda pode tentar ter uma vida normal — disse brandamente. Se
desejar, eu faria tudo o que estivesse em minha mão para fazer isso
possível.
—Não acredito que isso seja possível, inclusive se eu quisesse — disse
Thaddeus com surpreendente sensatez—. E não quero. Quero aprender
mais sobre nós, o que sou. E quero estar contigo. Sinto que é o correto
permanecer junto a você e ao restante. —Sorriu—. É certamente muito
mais interessante.
Meus lábios formaram um lânguido sorriso.
—Bem, rezemos para seja menos de agora em adiante. É tudo novo
para mim também. Eu gostaria de poder recuperar o fôlego, descansar
um pouco, me adaptar.
—É verdade. É novo para você também, não é mesmo? —disse perplexo
—. Podemos nos adaptar juntos.
Estendi a mão e apertei a sua. Senti que me respondia apertando
minha mão.
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Monere – Os filhos da Lua - 01
—Eu adoraria.

Epílogo
Liguei para lorde Thorane para informá-lo do que tinha acontecido com
Sandoor e cinco de seus homens, e descobri que aos outros dois
fugitivos foram mortos em um enfrentamento em Indiana.
Quando mencionei acaloradamente que teria sido maravilhoso se
alguém tivesse nos comunicado aquilo antes, lorde Thorane me
convidou a levar o assunto ante o Conselho em sua próxima reunião. A
ineficiente e incomum comunicação entre os territórios era sua queixa
há muito tempo também, disse com monotonia, e aproveitou para me
recordar a data da próxima sessão.
Enterramos os pais de Thaddeus em uma cerimônia íntima e tranqüila.
Permaneci junto a meu irmão enquanto baixavam os ataúdes de seus
pais as suas respectivas tumbas e fiz uma silenciosa promessa a eles.
Fizeram um bom trabalho o educando. É um jovem maravilhoso. Farei o
melhor que puder em seu lugar. Farei tudo o que puder para mantê-lo
vivo.
Thaddeus combinou com o senhor Compton, que foi primeiro o
advogado de seus pais e agora era o dele, os detalhes da avaliação e
venda da casa. Empacotou suas coisas, escolheu algumas preciosas
lembranças de seus pais, e veio conosco na volta à ilha de Manhattan
onde eu fechei definitivamente meu apartamento.
Um novo avião particular nos recolheu no aeroporto de LaGuardia.
Vinha incluído com o território, informaram-me. Outros montões de
coisas viriam também incluídos em meu novo território, boas e más,
suspeitei. E talvez também Mona Louisa, a puta a quem tinha tirado dali,
deixasse-nos algumas surpresas desagradáveis. Esperava que odiasse
seu novo território e rezei para que se mantivesse muito, muito longe de
mim. Não porque me desse medo, mas sim porque temia matá-la em
nosso próximo encontro.

Por último, rezei para obter a sabedoria e o poder necessário para


proteger a todos aqueles que agora dependiam de mim. O poder, sim. Já
não se tratava apenas de mim. Já não podia me permitir me esconder de

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Monere – Os filhos da Lua - 01
minha besta, aquele poder escuro que tinha emudecido e encadeado
durante toda minha vida. Agora era uma força viva, em crescimento,
que rondava sem descanso em meu interior, ansiosa de novo para que a
deixassem livre. Possivelmente era agora mais poderosa e difícil de
controlar porque a reprimi durante muito tempo. Aceitei ao animal
selvagem dentro de mim uma vez para poder salvar a meu irmão, e
voltaria a fazer para mantê-lo a salvo. Para manter todos a salvo.
Meu Deus, rezei, pondo a mão sobre a capa dourada do livro de
propriedades, o cetro de meu poder. Por favor, me permita ser capaz de
controlar à besta. E de controlar aquela outra parte de mim ainda mais
aterradora que estava surgindo, essa parte de mim que desfrutava com
a dor dos outros, que se regozijava com ela. Essa era minha mais
fervorosa prece. Por favor, não deixe que seja como minha mãe. Deixe-
me ser eu mesma, uma nova raça de rainha Monere.
Fim

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