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O promotor
“pianeiro”
A índole diligente de Antonio Xavier levou-o à promotoria de
Justiça, mas seu ofício primeiro sempre foi o de “pianar”

O promotor de Justiça Antonio Joaquim piano aqui de casa, só a deixo treinar as es-
Ferreira Xavier toca piano desde os sete calas, aulas são com o professor dela”.
anos de idade. O hábito continua frequen-
Carreira
te até hoje, aos 61: “Acabei de tocar agora,
o piano está até aberto”, disse no início Aos 15 anos, Xavier mudou-se com a fa-
da entrevista concedida à MDP Dialógico. mília para Taubaté, no Vale do Paraíba, a
Seu carro-chefe é a composição de jazz 130 quilômetros de São Paulo, onde cur-
“Misty”, do pianista norte-americano Errol sou a faculdade de Serviço Social, de 1967
Garner, a quem Xavier muito admira. “Errol a 1970, por influência do pai que, segun-
era autoditada, não lia uma nota musical, do o promotor, tinha uma visão avançada
quando compunha chamava um notista ou sobre a assistência social, acreditava que
copista”, conta. Garner era famoso pelo era preciso criar condições de trabalho e
seu jeito singular de tocar o piano, tinha não apenas suprir as necessidades básicas
um domínio incomum da mão esquerda. dos indivíduos.

Apesar de se identificar com o jazzista, De 1971 a 1974, cursou Direito. Em 1982,


Xavier não se considera um pianista, mas ingressou no Ministério Público do Estado
sim um “pianeiro”, porque não terminou os de São Paulo. “Só prestei concurso para pro-
Foto: arquivo pessoal

nove anos do curso regular de piano. “Não motor de Justiça por causa da minha índole.
sou um concertista”, afirma. Estudou o Tenho para mim que não posso ficar quieto
instrumento – parte em conservatório, par- diante de algumas situações”, explica. “E
te em aulas particulares – até os 14 anos, procurei algo onde pudesse ser um sujeito
na cidade natal de Catanduva, interior de agente”. Aposentou-se em 1997.
São Paulo (360 quilômetros da capital, re-
Atualmente, Xavier é consultor jurídico do
gião noroeste).
Oficial de Registro de Imóveis da Comarca
A música é parte da tradição da família: de Taubaté, local onde seu pai também tra-
quase todos os irmãos têm alguma intimi- balhou. “Acredito que estou voltando para
dade com o piano; uma das irmãs chegou o que é da família”, diz. Em setembro de
inclusive a completar o curso regular, en- 2008, o promotor aposentado recebeu o
quanto outra aprendeu a tocar violino. Um título de cidadão taubateano: “Fiquei sur-
dos filhos de Xavier é professor de violão, e preso e muito feliz. Vejo isso como um co-
a neta, de 11 anos, está aprendendo a tocar roamento do esforço do meu pai, da minha
Xavier no escritório de sua casa: mais de 50 anos de
experiência no piano. o instrumento tão apreciado pelo avô: “No mãe e de toda minha família”.

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