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Y

PEDPÒ GOMIuS DAÔÍLVA


A edição deste livro foi possível graças ao apoio financeiro de

ARGO — INDÚSTRIA H COMÉRCIO S. A.


Metalurgia em geral

CERÂMICA VAZ LTDA.


Sítio do Castelo -— Chacarinha
CAPÍTULOS DE I116TÓQ1A DE
Cia. das AGUAS MINERAIS SALUTARIS
Parque das Fontes e Hotel
PADAIDA DO SUL
COMÉRCIO DE PETRÓLEO TRIÂNGULO LTDA.
Posto São Geraldo — Barão de Angra

FÁBRICA DE RENDAS FINAS PARAÍBA S. A.


Primeira em seu qênero no País

VIAÇÃO SALUTARIS E TURISMO S. A.


Rio de Janeiro — São Paulo — Vitória da Conquista (BA) NOTAS E ESTUDO
ARNAUD PIERRE
PREFEITURA MUNICIPAL DE PARAÍBA DO SUL

Jfewfoitur* Municipal d* Pajsdba 4»-9«.t


da Conceição .\. Ptiss«*
Veada em benefício da instituição de
utilidade pública federal que o edita
N? de Acervo
IRMANDADE NOSSA SENHORA DA PIEDADE
do Registro
Asilo — Educandário — Hospital
Rua Provedor Randolfo Penna Jr.. 300
Morro de Santo António, PARAÍBA DO SUL, RJ
PARAÍBA DO SUL
1991
A divulgação deste livro teve o apoio de
JORNAL DE PARAÍBA DO SUL (diário) e
RÁDIO JORNAL DE PARAÍBA DO SUL FM

índice •
Silva, Pedro Gomes da 1909-1971

Capítulos de História de Paraíba do Sul
/ Pedro Gomes da Silva; notas e es-
tudo de Arnaud Pierre. — Paraíba do
agradecimento
m
7
Sul, RJ; Irmandade Nossa Senhora da apresentação
9
Piedade, 1991 prefácio
15
208 p.: il.; 21 cm o- caminho novo
21
freguesia da santa virgem
Bibliografia : p. 207 e 208 31
Inclui índice fa' villa de parahyba
39
'cidade de parahyba do sul
1. Paraíba do Sul (RJ) — História 61
'o foro dos cearenses
73
l. Pierre, Arnaud / II Título Õ lavapés e a ponte
85
CDD - 981.53 ;.< ó município — freguesias
91
são josé do rio preto
92
^sebolas
94
$£•'• encruzilhada
100
J'tr bemposta
105
EDITORA — Cia. Brasileira de Artes Gráficas
to município — distritos
109 .-:
Rua Riachuelo, 128 - Centro - Rio de Janeiro - RJ entre-rios • ;!
110 "V
•••;. areal
113
Tiragem desta edição 1 000 exemplares. ;,; monfserrat
115
S cidade de veraneio
121
| os barroso pereira
127
|os pereira nunes
ro 0020 |os\ santos werneck
133
137
os santa-justa
v
1 45 i•
fazendas pioneiras . .
secretário
várzea
governo
146
149
151
155
f
sebolas
três barras
mato-grosso
158
161
1
164
matozinhos
169 !
boavista
173 \ Agradecimento
santana
t
fazendas "filhote" . . . .
glória di
177
178 1
recato
paciência
179
181 fi

Suiparaibano de adoção, quando escolhi viver em Paraíba
do Sul, há quase quarenta anos passados, já Pedro Gomes da
reforma
rio-novo
182
184
185
Ii
i

l
Silva começara sua carreira pública e se estabilizara na pro-
fissional definitiva, como servidor da coletoria das rendas esta-
duais. De modo que não o conheci moço e em formação, na-
quela época da vida que, se comparada às de mais tarde, pode-se
l
f.
m
cruz da
186 \v,* aceitar como de lazer e voltada a prazeres e amizades.
santa rosa
188 l i Os afazeres profissionais e de família, dele e meus, por
fim não nos proporcionaram oportunidade de contato maior; mas
são João
equívocos sobre paraíba
189 í
;
i há. muitos anos, já, ouvi que escrevera sobre nossa cidade. E
a oportunidade de vir a ser publicado sob os auspícios desta
203 Irmandade a que serviu como provedor, antes de mim, me pa-
apêndice 1
205 1 rece muito feliz a quantos amam nossa Paraíba e querem a esta
apêndice 2
apêndice 3
206 1 i1 centenária instituição, nascida do povo, fundada que foi por
gente enobrecida sob a bênção do trabalho. Como sabemos,
........ 206 1 de trabalho foi a vida do visconde do Rio Novo, da condessa
apêndice
207 J sua esposa e do amigo e companheiro de lutas no início, o barão
bibliografia Ribeiro de Sá, que dirigiu nossa Instituição em momento difícil
6 a encaminhou à vitória e perenidade, enquanto senso de res-
ponsabilidade social e fraternidade houver entre os homens.
Sei que Pedro Gomes da Silva fala dos fundadores desta
Irmandade quanto à vida particular, de luta diária, organizada,
orientada para a estabilidade própria e da comunidade, enfim,
para um objetivo que,, rnais de século passado sobre eles, os
que vivemos hoje bendizemos e temos por Deus abençoado.
p É quanto basta, essa notícia dos Fundadores enquanto ho-
mens e fora de seus planos e preocupações com esta Casa,
p"ara justificar a publicação desta obra sob sua responsabilidade.
Quánto mais soubermos deles e de como viveram, e de seus
íjontemporâneos
s''à-;-- ' • ,' "
que nos legaram esta Paraíba, tanto mais sã-
beremos como trabalhar aqui e passá-las, a Cidade e esta Casa, mm
,
aos que vierem depois de nós.
Cumpre agradecer ao professor Manoel Gonçalves d'As-
»f;cenção a notícia que nos deu sobre o livro que publicamos. E
aos amigos desta irmandade e de Paraíba do Sul, que nos aju-
daram a fazê-lo : os srs. Nelson Espíndola de Aguiar e Francisco ii
N. Mello Portela, por suas firmas; e os srs. sócios de ARGO —
Indústria e Comércio S/A., Cerâmica Vaz Ltda., Fábrica de Ren-
das Finas Paraíba S/A. e Viação Salutaris e Turismo S/A.
Agradecemos ainda a nosso prefeito, o sr. Ronaldo de Oli- Apresentação
veira Santos, a quem desejo também saudar pela tão sonhada
recuperação do Palacete Ribeiro de Sá, agora nossa "Casa da
Cultura", onde Paraíba do Sul aprenderá a estimar-se mais, cul-
tuando os que trabalharam por ela no Passado. A publicação de sua obra foi preocupação do autor, sobre-
tudo nos últimos meses de vida. Decepcionado, Pedro Gomes
Octavio Vieira da Silva viu o malogro de várias tentativas; e trabalhávamos
Provedor da Irmandade em conjunto para o fazer quando faleceu, faz vinte anos. Seu
Nossa Senhora da Piedade
aparecimento assim, sem qualquer mediação da família, deve
e precisa ser esclarecido.
O texto nos veio das cópias que o amigo de mocidade e
compadre, Pedro Ivo de Oliveira (1905-1978), tinha em seu ar-
quivo sem que nem mesmo a família soubesse.
Avaliando a seu pedido o que Ivo deixara^ em dezembro
de 1982 dei com a cópia dos originais que datilografara para o
amigo, na costumeira paciência e cuidado. Reconheci logo o
(livro que tivera em mãos de maio a julho de 1970.
Começou então um período de renovadas tentativas junto
• aos filhos do autor, para anotar a documentação que vira em
sua casa e não registrada nas habituais notas de pé-de-página.
Basicamente, é Pizarro e Basílio (ver notas ao texto), e transcri-
ção da documentação forense, de que ainda encontrei com Ivo
muita cópia. E jornais antigos de Paraíba, nos quais fazia eu
m também "arrastão" nas coleções da Biblioteca Nacional, para
-.o cotejo com o dele, a fim de melhorarmos a informação em
csua obra, já que havia em ambas as coleções muita falha.
Revelando com pesquisas em nosso foro o retalhamento da
,'grande sesmaria de Garcia Rodrigues Paes nas fazendas de
; café que deram origem ao município, nosso autor escreveu his-
itória autêntica, distinguindo seu trabalho da costumeira com-
pilação de portarias e decretos tida por história na maioria das
(Cidades do interior. Fatalmente, passou à genealogia das fa-
.'mílias conquistadoras da terra, passo inicial para o ulterior es-
tudo e interpretação do passado, em qualquer coletividade. A
imuitos pode parecer enfadonho esse levantamento, indispensá-
vel a obra inicial sobre uma história, como a que nos deixou.
10 11
Desde que li seu livro, percebi estar ali a pedra angular do
edifício de nossa história municipal. Antes das fazendas, Pa- Ansioso pela publicação do trabalho, confiou-me o original,
raíba é uma travessia de rio na serra vazia, resumindo-se nossa para a tentarmos pelo Instituto Nacional do Livro, que então fi-
x história colonial de isolamento na Serra a ponto de apoio aos nanciava inéditos de valor cultural em co-edição com firmas
'/^viandantes do caminho de Garcia; e nosso autor relata o período comerciais.
' utilizando a maior autoridade no assunto, Basílio Magalhães, re- De meus tempos de jornal conhecia no l.N.L. o erudito,
velador de toda a documentação a respeito. Volta à originali- quanto modesto, José Galante de Sousa, secretário mantido por
dade na abordagem de certos aspectos sociais da vila e cidade, todos os diretores, dada a capacidade e dedicação. E fiscali-
levantados nos jornais sulparaibanos da época. zação "feroz" das edições, concluí logo terminada a leitura do
No trabalho de Pedro tive a revelação da singularidade de original, certo de que não deixaria passar o "anedotário his-
nossa história. E eu, que começara a pesquisar apenas para tórico" do nosso Pedro com a chancela do Instituto.
nele melhorar a conotação geográfica, após sua morte e em Devolvi-lhe assim o trabalho para que ele próprio o "ade-
contato com seu colaborador, Pedro Ivo de Oliveira, prossegui quasse" ao gabarito de uma edição do l.N.L. Mas para não per-
nas pesquisas; e as notas ao livro refletem aonde conseguimos dermos as anedotas, boas, sugeri uma seção para elas no "Me-
fevá-las, restrita sempre a exposição ao tema no texto. mórias de um Garção de Hotel", o livro que anuncia no prefácio,
Determinadas ocorrências em nosso passado, obscuras sugerindo até o título: "À margem da história de Paraíba".
ainda ou apenas ligeiramente ali abordadas, foi preciso focalizar Trabalhava nisso quando "fez aquela falseta aos amigos,
com mais detença, por oportuno e necessário o esclarecimento. na única vez em que não lhe acharam graça", como se despe-
Ê o caso da criação do município. Com isso, a nota ultrapassa dindo disse um de Três Rios ante sua eça na Prefeitura.
comumente a dimensão adequada; e mesmo assim o desenvol- À falta de título, e parodiando o de grande livro de Capis-
vimento do tema, ali, ainda não satisfaz a divulgação desejável trano de Abreu — "Capítulos de História Colonial", e ainda
e que nossas pesquisas no ponto em que estão poderiam pro- •para nos colocar, o autor, a obra e a mim, com as notas, sob a
porcionar. Pareceu no entanto indispensável, ao publicar texto égide de nosso maior historiador, denominamos "Capítulos de
escrito há 50 anos, levar a anotação ao menos a dar ideia do História de Paraíba do Sul" a esta primeira coletânea de traba-
que hoje se conhece sobre o abordado pelo autor. lhos cronologicamente concatenados sobre nosso passado. É
Baldadas todas as tentativas de interessar a família de Pe- •ainda homenagem à clarividência do grande estudioso, por certo
dro Gomes da Silva a publicar sua obra, já então interessado •o primeiro a ver no remanso a origem de Paraíba e aonde da
RU próprio na história da cidade, continuei o levantamento do .serra mineira vinha ter a trilha puri, onde Garcia pôs a barca e
caminho de Garcia no município, que iniciara com ele no fus- • donde descia o ouro para o Rio, o Reino e o mundo.
quiriha azul em que vinha cedinho de Três Rios, onde morava De outro modo não se explica o interesse de Capistrano
por conveniência, para o "bate-papo" amigo no bar fronteiro à pelo rio, na visita registrada pelo "Parahyba do Sul" em maio
Prefeitura. Os trechos do caminho reduzidos a pasto, levan- :de 1902, a convite do amigo e correspondente José Geraldo
temos depois a pé, tracando-o em mapas do IBGE orientado por Bezerra de Meneses, que o hospedou. Acamado e sem poder
fazendeiros amigos da roda no bar, entre os quais Ladislau Gue- i acompanhá-lo Zezé Bezerra, que nada deixou escrito, teve a
des, o "Farelinho", nascido e criado na "Barreira"; "Jucá" Paiva, hfeliz ideia de pedir a um vizinho, que escreveu demais, servisse
s
da "Cincorá"; e Alberto Paes, eufórico ao saber que a sua fa- guia ao sábio pela cidade. E foi assim que aos 84 anos e
zenda da "Itiaca", no eixo do Caminho, era ali a mais antiga e rememorando certa manhã dos 13, em ambas as ocasiões sem
certamente fora pisada por Garcia. jerceber o alcance da visita de Capistrano para a história da
Da leitura do original depreendi a deficiente conotação -cidade, que Agripino Grieco em suas memórias lhe prestou o
geográfica, normal em autodidata (e até historiadores, como se ;único serviço em toda a vida. Sem mesmo se dar conta, regis-
verá adiante), mas indispensável à História em Paraíba, nascida trou o interesse do grande historiador pelo rio, ou melhor, pelo
fazenda "canteiro-de-obra" da construção de um caminho. Des- .remanso, razão de sua vinda a Paraíba.
se aspecto, já disse, cuidei levantando-o no terreno (já bastante Sem esse registro distraído de Agripino, e estaria perdida
obeso, Pedro não podia fazê-lo), enquanto ele focalizava os ípara sempre a memória do reconhecimento do remanso pelo
construtores na série de artigos de 1970/1 em "O Cartaz", a !*rnèstre, com o empobrecimento evidente de nossa crónica em
que chamou "Três Viaristas Fluminenses", Garcia, Proença e o fHIstória, já que a.nota do jornal de 1902 é apenas o,registro da
"Tiramorros". !?v fféstada/e o elogio da cidade, honrada com a visita;-v, t:: ,,;, -n
12 ; 13

"Percorremos trechos à beira do Paraíba, que ele achou dadeira rota nova na historiografia brasileira", como escreveu o
sujo e sem graça" ("Memórias", 1.° volume, pg. 55, Rio, 1972). ilustre José Honório Rodrigues no prefácio à 4.' edição (Cia:
•^ Na inocência dos 13 anos, e de Geografia e História de Civilização Brasileira em co-edição com o Instituto Nacional do
t^toda a vida, Agripino Grieco mal-sabia que a graça daquela via- Livro, Rio, 1975).
' gem estava exatamente no rio, a confirmar a tese do grande A nota 34 ao texto de Pedro expõe pela primeira vez em
historiador no "Jornal do Commercio" de três anos antes (1899), nossa história a tese do remanso como determinante da traves-
"Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil", de que tais cami- sia do Paraíba e consequente localização da cidade, apertada
nhos não passavam de trilhas indígenas aproveitadas pelo branco entre morros e rio, com desenvolvimento possível graças a um
em sua construção. plano urbanístico que deve à engenhosidade do vereador Júlio
No ensaio magistral ainda trabalhou o grande cearense vin- Frederico Koeler (cf. nota 59).
te-e-dois anos, até a edição de 1924, definitiva, consagradora, A tese é básica na confirmação de 1683 como ano de aber-
e a três anos apenas da morte. tura da fazenda por Garcia, como está em Saint-Adolphe (cf.
Mas na inconsciência do serviço prestado a Paraíba, preo- nota 3), vista em documento que compilou, ou lhe mostraram, e
cupado tão-somente em engrossar o magro volume de memó- ainda não divulgado. (Em apêndice a estudo neste mesmo vo-
rias, o velho cronista deixa escapar ainda outro momento em lume, damos notícia de um nessas condições há 83 anos no
prol da nossa história, pois na sequência do período confirma arquivo do l.H.G.B.) Eis por que as quatro linhas de Agripino
— "não sei como" — a preocupação do mestre em ter mais sobre Capistrano em Paraíba têm tanta importância, e nos me-
ampla visão do rio, apertado e rápido, na falha tectônica que De receram o espaço, pois aliado do peso do mestre numa tese só
Martonne identificaria, o que torna o remanso mais incomum em louco despreza.
torrente viva de montanha. Mas nem só por isso citamos as "memórias" do conterrâ-
Do morro da Caridade (Agripino "galgando a colina") pôde neo: num livro sobre nosso passado tem registro indispensá-
ver Capistrano por onde continuavam os índios do outro lado do vel a visita do mais ilustre cidadão que já pisou esta terra.
rio, na migração contínua atrás de caça e na coleta de frutos Pedro Gomes da Silva já se afasta de nós uma geração.
silvestres; por onde Garcia depois prosseguiu a caminho do Rio; Enquanto outros prefeitos e deputados nossos se esquecem no
e de onde quatro anos antes (1898) Paulo de Frontin chegou a ••passado, por um trabalho de amor e dedicação a sua terra tem
Paraíba com a sua Melhoramentos do Brasil. .1 s vida perene em nossa história. E essa foi a rninha preocupação
É o vale aberto do ribeirão do Lucas, o "Yuca" dos índios Vi nos vinte anos transcorridos desde sua morte. Quero deixar
como ensina Pedro, cujo boqueirão na cadeia de morros ao ^registrada minha admiração por seu trabalho.
longo do rio se abre na outra margem, ao mesmo nível do morro Não cabe aqui biografá-lo, sim, dar aos novos ideia de quem
de Santo António (Caridade) e quase em frente. .lembrando a personalidade singular. De sua formação de
"E acabamos galgando, não sei como, a colina da Casa de lútodidata dá ideia precisa o prefácio, que ao leitor revela de
Caridade", continua o cicerone de Capistrano de Abreu em Pa- jlíediato sua inteligência e objetividade. Fácil é ver-se que em
raíba, encerrando a visita ao morro narrando um caso, a meu Ipnsequência das dificuldades do começo, e personalidade for-
ver, digno de ser recolhido por Pedro à segunda seção do "Me- % foi um desafiador de convenções.
mórias de um garção de hotel", dada a notabilidade de um dos l As notas ao prefácio procuram dar ideia da Paraíba em que
personagens e a gaiatice do outro. ;iveu, e de sua formação. E ele, que tanto amou a cidade, nas-
Por certo sob o centenário tamarindeiro que ainda lá está, |èu e faleceu fora: no arraial do Bom Jesus de Matozinhos, a
e mais certo ainda azucrinado todo o tempo pela tagarelice ga- 2,1 de junho de 1909, e em nossa antiga Entre-Rios, a 21 de no-
bola do menino, valeu-se Capistrano do pretexto de não saber ifembro de 1971.
de que árvore se tratava para reprímenda de desabafo. ^ Foi o mais popular sulparaibano de sua época, mesmo sem
Nosso Agripino não se fez de rogado, e contou a descom- feargo eletivo desde 1958, quando perdeu eleição e sofreu muito,
postura "ilustre" setenta anos depois, talvez para não perder fsegundo amigos. E dele poderia dizer-se que os criava tão
vaza de gastar termo rebuscado, tão a seu mau-gosto; pois o ífacilmente quanto a desafetos, pois era difícil o controle da
que levou do mestre foi para ele uma . . . "descomponenda". f Irreverência. Se já se disse de alguns que sacrificam amigo
"Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil" insere a fun- |por trocadilho bem colocado, de nosso Pedro talvez se pudesse
dação de nossa cidade na temática do grande historiador, "ver- Idizer o mesmo. Sabia fazer e tinha o gosto de rir. Disso Pa-
raíba toda sabia, e muitos sofriam na pele. Mas tão interessado
em tudo e em todos vivia, que estava sempre cercado de ami-
jjos, cuja roda dominava com a personalidade invulgar.
Essa "humanidade" cie Pedro, conhecida só dos que lidavam
com ele de perto, granjeou ao ferino e mordaz o maior ciclo de
amizades que em nossa cidade já houve. Tanto que sua morte
foi das maiores comoções em Paraíba e Três Rios, a outra ci-
dade que amou.
Nesta notícia do autor penso mais nos vindouros, pois é
Prefácio
com eles que há-de viver como personagem de nossa história.
Creio ter sido a irreverência, de que já falei, o traço mais carac-
terístico de sua personalidade, mas também a maneira com que
o humilde, inteligente, sagaz e ambicioso, procurou um lugar ao , Ninguém sabia como Paraíba do Sul nasceu, viveu e estava
sol num mundo de preconceitos. Nos empurrões que lhe deu, f morrendo1.
descobriu-lhe os pés de barro. E então se afirmou. f ' Era eu ainda garção de hotel quando meu amigo o sr. Ai-
Foi nosso primeiro prefeito de origem humilde, e pobre; f;fredo Neves2, me emprestou o Dicionário Geográfico, de Milliet
primeiro nomeado (de abril a outubro de 1946], depois eleito, 5 de Saint-Adolphe3. Folheando-o, fiquei encantado com as refe-
com mandato de 12 de abril de 1947 a 27 de janeiro de 1951. ?
rências a Paraíba do Sul. Apesar de nunca ter frequentado
E na década de 50 ainda representou na Câmara Estadual a ve- , qualquer colégio ou academia, e de nunca ter feito exames, a
lha terra de barões. leitura me apaixonava. E com os conhecimentos que obtivera
Paraíba se manteve até aqui inconsciente de seu passado. em Saint-Adolphe passei a discorrer sobre a história de Paraíba
As regiões mais desenvolvidas do País há muito cultuam tra- do Sul. Na realidade, da história de meu município eu somente
dição e história, e uma Parnaíba, Sorocaba ou Itu sabe perfei- sabia aquilo que lera em Saint-Adolphe; no entanto, em terra
tamente que uma coisa é estar em suas ruas, outra em Vali- i de cego quem tem um olho é rei ...
nhos; mesmo na "Festa do Figo".
Há vinte anos, o Conjunto Histórico de Sebolas foi espe- ,,.s,1:' A ideia de que as cidades morriam estava em voga desde que Monteiro
rança da tomada de consciência desse valor. Por falta de pre- Jíflobato havia publicado, em 1919, Cidades Mortas, contos sobre as paulistas
||f:dõ vale do Paraíba fulminadas pelo descalabro de sua lavoura de café desde
paro de dirigentes e povo, ficou iniciativa isolada. fia Abolição. Nos escritos históricos a ideia foi retomada por Afonso
Mas temos agora a par da primeira história escrita a re- iJsTaunay em Nascimento, vida e morte de Vassouras, artigo no suplemento
cuperação do Palacete, sede de nossa "Casa da Cultura". Inau- SjHde O Jornal, do Rio, comemorativo do bicentenário do café (1927).
gurada a 31 de agosto junto a escolas de 1 ° e 2.° graus, com |g Para se ter ideia da decadência económica do Estado do Rio ao limiar
biblioteca, salas para exposições e secretaria de apoio a toda j$ da década negra de 1920, eis o informe do seu governo ao VI Congresso
sf;Brasileíro de Geografia, Belo Horizonte, em setembro de 1919: da média anual
iniciativa cultural, façamos dela para nossas crianças e adoles- tã?,de 131 572 t no quinquénio 1881-5, a exportação fluminense de café caíra
centes a continuação da casa e escola. E a cidade há-de se \,à 90534 em 1886-90, a 75366 em 1891-5, para chegar a 35119 t em 1918,
reencontrar, por sua juventude, esquecida que anda de seu apa- íquando já era 1/3 da mineira e apenas 1/10 da paulista (separata do Jornal
ifdo Commercio, Rio, 1919).
nágio em história e tradição. ; • Ao curso da crise económica deflagrada em 1929, e para manter
Oue Paraíba se reconheça! E estaremos de parabéns.
|p preço de exportação, o governo federal ao queimar café em Entre-Rios
i de abril a julho de 1932, no campo onde foi a oficina da Santa Matilde,
í trouxe-o praticamente todo de Minas pela Central e Leopoldina. (A como-
Arnaud Pierre -. cão popular que essa queirçia provocou está nos jornais de Paraíba da
Bacharel em Geografia e História e em Ciências época). , Praticamente, em 1932 o café remanescente no Estado se confi-
Jurídicas e Sociais pela Universidade do Brasil > nava em Pédua e Itaperuna. 'Nada mais restava na terra dos barões.
|A O carioca Alfredo Neves, trazido por Leopoldo Teixeira Leite, veio para
fílossa cidade em 1915 e aqui faleceu em 1945 aos 73 anos. Homem de
pfesses e praticamente aposentado, morava na chácara que fora da Tia
IJfléaía, Beatriz de Melo, parteira, dona de loja-de-armador e do Parahyba
fdo Sul, que circulou de 1893 a 1927.
$&:•
17

Mudei de profissão, passei a trabalhar como motorista de Meus conhecimentos causaram admiração, achando os que
carro-de-praça. Por essa época houve em Paraíba uma grande me ouviam extraordinário que um motorista-de-praça tão moço
festa para comemorar o lançamento da candidatura do dr. Ma- pudesse esclarecê-los como eu fizera. Fiquei entusiasmadís-
.•? nuel Duarte 1 à presidência do Estado, com a presença de nu- simo ao ouvir os elogios do futuro presidente do Estado.
merosas pessoas gradas e o candidato. Por força da profissão, Tomei gosto do assunto. Apaixonei-me mesrno das coisas
fui servir a alguns dos visitantes e, percorrendo a cidade, eu sulparaibanas, a ponto de prejudicar a manutenção de minha
lhes ia explicando — "aqui morou fulano, lá nasceu sicrano" —, família. Fiquei com a ideia fixa na história da Paraíba e, como
o pensamento é construtivo e o querer é poder, já o disse
com agrado dos que me ouviam. Charles Wagner 7 , perseverei no empreendimento.
Um deles, se a memória não. me engana o próprio dr. Ma-
nuel Duarte, falou sobre a fundação de Paraíba pelo Mão-de- Ainda era garção de hotel quando se hospeda no mesmo o
-Luva\ Pedindo-lhe licença, retruquei que a Paraíba 0 havia dr. Júlio Alves Nogueira de Oliveira*, advogado em Barra do
sido fundada por Garcia Rodrigues Paes, e continuei a contar- Piraí, rapaz muito moço e independente, de ideias elevadas e
lhes o que sabia sobre a origem da cidade e do município. francas. Tornou-se meu amigo e foi para mim uma espécie de
condotiere. Achou interessante minha mania e animou-me
:;
. Publicado em Paris em 1863 por iniciativa de Pedro II, o Diccionario também. Teve grande influência em minha formação, junta-
Geogrgphico, Histórico e Descriptivo do Império do Brazil, de J. C. R. mente com o capitão Sales". O dr. Júlio encorajou-me de tal
Milliet de Saint-Adolphe, hoje raridade bibliográfica, foi traduzido do manus- forma contra meu irreverente padrasto, dono do hotel, que me
crito inédito francês pelo dr. Caetano Lopes de Moura. No prólogo, datado
de 30 de outubro de 1845, há sobre o autor apenas a informação de que
animei a deixar aquele serviço. Vezes havia em que ele apa-
vivou 26 anos no Brasil, viajou pelo interior e pesquisou na Biblioteca nhava notas que me custaram enormes sacrifícios e jogava-as
Imperial orientado por eruditos da época, como o brigadeiro Raimundo José fora, pois era avesso a histórias; e ainda me descompunha
da Cunha Matos (1776-1839), polígrafo, o mais ilustre militar do tempo e, diante dos hóspedes. O dr. Júlio dizia-me então: "Reaja!
com Januário da Cunha Barbosa, fundador do Instituto Histórico e Geo- Você é um literato e historiador, como se deixa insultar por um
gráfico Brasileiro (1838). Ajudaram-no ainda Evaristo da Veiga, o padre
Diogo António Feijó e Vieira Souto, entre outros. No que tange a Paraíba,
português1" ignorante?" Isso valeu-me perder o medo de meu
a informação capital é a data de 1683 como a de abertura da fazenda que (•espeitabilíssimo padrasto, e criando coragem emancipei-me,
deu
1 origem à cidade. melhorando de vida.
Manuel de Matos Duarte Silva (Rio Bonito, 1877 — Rio, 1944) foi o Comecei então a trabalhar como motorista de caminhão de
último presidente do Estado do Rio, empossado em dezembro de 1927 para m transporte para o Rio. Depois das seis horas da tarde, após
o quadriénio até 1931 mas destituído em outubro de 1930 pela revolução
desse ano. Visitou a cidade em campanha eleitoral em meados de 1927, '•. É interessante observar no rapaz ern formação e autodidata a leitura
quando o autor completava 18 anos. de Charles Wagner (1852-1918), francês de origem alemã que escrevia sobre
Mão-de-Luva era a alcunha do bandoleiro português Manuel Henriques,
moral e a conduta na vida. Ao tempo da mocidade do autor havia dele
que seria maneta, usando luva para disfarçar o defeito. Perseguida por
pelo menos três livros traduzidos: A Vida Simples, por Eugênio de Castro
contrabando e descaminho do ouro do Registro em Paraíba, sua quadrilha
; (Lisboa, 1913), e por Otoniel Mota, em 1919, Valor (Melhoramentos) e Para
se homiziou em terras do atual município de Cantagalo, originando-se de
pequenos e grandes, Civilização Brasileira, 1936.
seu arraial a cidade. Bando e chefe foram capturados em 1786 e degre- 8. O dr. Júlio Alves Nogueira de Oliveira advoga há 59 anos em Barra
dados para a África. do Piraí, onde se radicou em 1932. Lembra-se do autor como "rapaz es-
". O autor ora usa o definido, ora o omite, antes do nome Paraíba, que
perto e falante". Esteve em Paraíba recém-formado e é valenciano de
aparece pela primeira vez em documento também com essa dualidade. É
Santa Isabel do Rio Preto.
na carta de Garcia Rodrigues Paes a 8 de julho de 1703 ao governador do ». Capitão Sales é Carlos de Alvarenga Sales (circa 1875-1961), nosso
Rio de Janeiro, Álvaro da Silveira de Albuquerque, com informação sobre maior jornalista. Volto a falar dele em estudo incluído neste volume.
o Caminho que então concluía (Revista l. H. G. B., Tomo 84, pg. 32), Ele i'-1. O referido aqui é Manuel Ferreira Neto, que chegou a Paraíba em
escreve: e q' em Paraíba q' lie o meyo da jornada. Mas também, logo a 1914 para trabalhar no Jardim Municipal, denominado então Parque Dr.
seguir: na dita Paraíba, Bernardino Franco em homenagem ao devotado presidente da Câmara fale-
De fato, Paraíba está a meio percurso — a jornada a fazer — entre cido naquele ano. Muito diligente e económico, progrediu rapidamente e
o Rio e a atual Barbacena, os extremos do caminho por ele aberto para teve uma das últimas vlctbrias de aluguel na praça e dos primeiros cami-
ligar as minas de ouro recém-descobertas ao mar. nhões-a-frete para o Rio. Por volta de 1925 adquiriu em frente à estação
O definido no autor é ''resquício da influência que sofreu, no início, o Grande Hotel que, de mão-em-mão, vinha do princípio do século e se
do conterrâneo Agripino Grieco, que sempre o usou. Em nossa imprensa instalara no primeiro edifício construído na cidade para o seu fim. Mu-
o artigo definido foi exclusivo até a década de 1880 — justamente quando dou-lhe o nome para Hotel Ferreira e lhe deu a sua melhor fase, com
nascia o Agripino , . . —, aparecendo então o dualismo. Hoje predomina excelente restaurante aberto ao público. O hotel se chama hoje Paraíba.
a omissão, mas o autor alterna as duas formas.
19

terminar minha tarefa, corria à Biblioteca Nacional e de lá só Não posso esquecer também de citar o bondoso Frei Esta-
saía quando o funcionário rne dizia: "Já está na hora!" nislau15, que muito me auxiliou.
Um dia o dr. José de Castilho Sobrinho 11 disse-me: "Es- Este trabalho é o resumo de muitos documentos esparsos
,* creva ao dr José Geraldo Bezerra de Meneses 12 , em Niterói, reunidos com grande sacrifício e dificuldade. Como me lembro!
que lhe informará muita coisa interessante e inédita." Às vezes passava horas-e-horas na Biblioteca Nacional, copiando
Bendita iniciativa! Como me animou o dr. José Geraldo! autores estrangeiros agora traduzidos, letra por letra, pois é
Como me indicou fontes extraordinárias! muito difícil para quem mal sabe o vernáculo copiar escritos em
Ele não podia consultá-las mas, indicando-as, ia eu obtendo língua estranha sem saber o que está copiando.
dados memoráveis. Devo em grande parte o meu trabalho a No livro que estou elaborando, Memórias de um garção de
esse ilustre patrício, guia de tantas figuras do cenário nacional. hotelMi revelarei coisas interessantes, episódios divertidos sobre
Foi José Geraldo quem me animou a escrever ao dr. Afonso a boa e a má-vontade que eu encontrei na compilação de dados
TaunayK;, em São Paulo. Escrevi e recebi resposta. Como é para este trabalho.
gentil e prestativo o dr. Taunay! Quantos dados preciosos me Meu livro é um trabalho de boa-vontade. Não encontrarão
enviou! E ao mesmo tempo me animava: "Não tenha pressa nele obra de estilo nem pureza gramatical; mesmo porque é
em publicar o trabalho. Estude e procure documentá-lo bem." uma obra histórica com a finalidade de narrar fatos. É escrito
A princípio o dr. Afonso Taunay me chamava de "ilustre com critério e isenção de espírito, apoiado em dados verda-
patrício" e doutor. Procurei desfazer esse engano e confessei deiros. Não quero defender nem atacar ninguém. Viso só à
que estava colecionando dados para que fosse escrita a História verdade dos fatos.
de Paraíba do Sul, e que eu não era doutor. Sei que meus conterrâneos dirão, e vou até antecipar-lhes
Outro grande amigo que não posso esquecer nesta hora o juízo: "Esse livro não pode valer nada, pois foi escrito pelo
de apresentação de meu trabalho é o dr. Sabino Souto1*, médico Pedro Cabrito!"17
dos mais conceituados em Paraíba do Sul. Este acompanhou Mas a verdade é que a Paraíba é a terra dos contrastes18:
de perto meu trabalho, vigílias e canseiras. Colaborador pre-
no Rio. Já radicado no município, Areal, casou-se em 1910 com Nicolina
cioso na coleta de dados, animou-me sempre, dizendo-me:
Werneck dos Passos, filha do coronel Nicolau António dos Passos, proprie-
"Você mesmo tern que escrever essa história. Ainda é muito tário da fazenda Cruz das Piteiras (ver capítulo próprio). Fixou depois
criança, e isso é trabalho para memória igual à sua." j residência na cidade e clinicou muitos anos. Foi o nosso 18.° prefeito,
nomeado, exercendo o cargo de 9 de outubro de 1943 a 24 de agosto de
''• O advogado José de Castilho Sobrinho nasceu em Paraíba em 1881, 1945. Faleceu no Rio em 1955, onde na mocidade fez também jornalismo,
mas se mudou para o Rio em 1924 para educar os filhos. (Nosso primeiro is. Frei Estanislau Schaette OFM complementou os estudos de Monsenhor
ginásio é de 1936, tendo fracassado três tentativas anteriores.) Continuou Pizarro (José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo) sobre o povoamento da
porém com banca na cidade, hospedando-se no Ferreira, onde o autor era capitania do Rio de Janeiro, utilizando ambos o arquivo do bispado da sua
garção. Faleceu no Rio a 16 de março de 1949. capital. Concentrou a pesqujsa nas freguesias do recôncavo da Guanabara
12. Filho do dr. Leandro Bezerra Monteiro, que por mais de 35 anos advo- e contra-serra adjacente, justamente a zona cortada pelo Caminho de Ber-
gou e fez política e jornalismo em Paraíba, o também advogado José Geraldo nardo Soares de Proença, cuja personalidade definiu e com seus estudos
Bezerra de Meneses nasceu aqui e faleceu em Niterói. Consta ter sido cresceu no contexto da história fluminense. O erudito historiador fran-
quem deu nome às águas Salutaris, achado feliz substituto do anterior ciscano orientou o autor no estudo de nossas antigas terras de Petrópolis.
águas-da-saúde. 'Em maio de 1902 hospedou em sua chácara — local do Sua contribuição à coleção Centenário de Petrópolis (1942), e as crónicas
Cine Brasil — o nosso maior historiador, Capistrano de Abreu, seu corres- e estudos de António Machado sobre as fazendas daquele município, salvam
pondente e amigo. Homem de grande erudição, mas que não deixou livro, a volumosa obra — seis grossos volumes — do merecido olvido.
foi chamado por Agripino Grieco "a maior cultura improdutiva do Brasil". i«. É a obra que em 1970 tinha em preparo e na qual sugeri colocasse
' :t . Afonso d'Escragnolle Taunay (1876-1958) é o grande historiador das certas passagens deste livro, mais apropriadas a uma seção que poderia
Bandeiras, elas e ele cie nunca assaz louvado mérito, expressão que usava denominar A margem da História de Paraíba.
para elogiar muito. Era neto do barão de Vassouras e, portanto, sobrinho IT. A origem da alcunha com que o autor era conhecido na cidade até
do nosso dr. Lepoldo Teixeira Leite. Quando se correspondeu com o autor, ' iniciar a vitoriosa carreira política, em 1946, foi-me revelada por seu amigo
provavelmente no início dos anos 30, já encetara a publicação dos onze e companheiro de mocidade, o almirante Vicente Castilho (1906-1986), que
volumes da sua monumental História Geral das Bandeiras Paulistas, iniciada conheceu o velho Cabrita em Matozinhos. Do nome de família do avô ma-
cm 1924 e concluída em 1951. É com Capistrano de Abreu consulta indis- terno vem, assim, o apelido que lhe deram logo chegado à cidade, apro-
pensável a quem pretende neste país escrever sobre História, priando-o ao menino. O almirante Castilho, primogénito do advogado José
n. O médico Manuel Sabino Silva Souto nasceu em 1879 na cidade de de Castilho Sobrinho, voltou a Paraíba e reatou a velha amizade.
Alagoas (bóio Marechal Deodoro, filho também da cidade) e se formou i*. Aí está a série de contrastes de Paraíba descobertos pelo autor, mas
20

n Cruz é metodista: o Batista é católico; o João Bonito é feio;


o Guerra é um sujeito pacífico; o Cordeiro é um homem zanga-
do; a água vem do Morro-Seco; a Rua Direita é torta; e a His-
tória da Paraíba é escrita por um cabrito.
Não deixarão de ter razão os meus conterrâneos. Mas se
os doutores e os letrados não a quiseram escrever, eu então
me dispus a essa tarefa, e ela aí está. É um trabalho de quinze
anos de pesquisas 1 ". capítulo 1
Paraíba do Sul foi terra de homens ilustres, mas que pouco
aplicaram sua inteligência em benefício da coletividade; leva-
ram décadas em insultos recíprocos, em lutas políticas, abu-
sando da liberdade que lhes assegurava a Democracia 2 ".
O Caminho Novo
E para aqueles que neste trabalho encontrarem deslise, eu
me justifico com Raul Pompéía: Mau, mas meu!
a escrita. A contada por ele aos amigos acabava com mais um, omitido Garcia Rodrigues Paes 21 ,/descendente da mais nobre es-
na outra para não magoar alguém que, no entanto, não poupava pessoa ou
coisa alguma e nem a cidade em que nasceu: e a Fonle Limpa, do Páscoa! tirpe paulistana e primogénito do famoso Caçador de EsrneráP)
Grieco, é a venda mais suja da cidade .., das, Fernão Dias Paes, depois de acompanhar e assistir ao esflí
Em suas Memórias afirma Agripino Grieco ter sido o pai quem pompo- celamento e às calamidades que sofreu a grande bandeira che-
samente (sic) batizou a loja com o nome que por certo significa capita! fiada por seu pai, e de decepcionar-se com a falsidade das pe-
limpo, honesto, ganho com suor, talvez carapuça para concorrente do ramo,
que era de fazendas finas e modas, e acabou nas mãos do Pascoal como
dras encontradas e levar para o eterno repouso em São Paulo os
armazém de secos-e-molhados. A verdade é que rastreio a Fonte Limpa no restos do sertanista, teve ainda o arrojo de voltar aos sertões.
comércio de Paraíba desde quando ele, na Basilicata ainda, como escreve "Descobrindo Garcia Rodrigues pelos fundos da serra dos
o filho, "lia entre lágrimas o sentimental Edmundo de Amicis". O verda- -Órgãos os caminhos para as Minas Gerais, de que era guarda-
deiro padrinho da loja comercial que se tornou popular, pois resistiu a 'mor e fora um dos primeiros povoadores, assentou tendas nas
várias mudanças de dono e ramo de negócio, está entre -Pedro Ferreira e
o sócio, que na Duque de Caxias 22 (Tiradentes hoje) eram sucessores margens dos rios Pará-una, na linguagem indígena, e que signi-
com a Fonte-Limpa do Costa Barateiro (António Ferreira da Costa), que tfica na língua vernácula 'rio das águas turvas', e Pará-iba, que
foi abrir armarinho na Imperador 5. Em setembro de 1885 Pedro Ferreira & íSignifica 'rio das águas claras' 22 ."
Cia. passou a Fonle a outro Costa e também António, mas Francisco. E
é esse António Francisco da Costa quem a passa adiante em 1887, ano IÍi 'Nascido em São Paulo em Ijjfil e falecido em Paraíba a 7. de março
da chegada a Paraíba do Pascoal Grieco, segundo o filho. Daí em diante íde 1_73Jl, o fundador de nossa cidade tinha 13 anos quando acompanfiõlT o
n Fonte seca nos anúncios de nossos jornais, enquanto o Grieco anuncia pai ao sertão, e 20 quando ele faleceu de carneiradas no rio das Velhas,
a sua lavandaria, O Vosúvio. E seu curso só reaparece em abril de 1914, 'iOje em Minas Gerais, depois de 27 de março e antes de 26 de junho
[
quando o pai de nosso memorialista pretende passá-la, esgotada, e 1681. Prometera ao pai inumar-lhe o corpo embalsamado à moda do
i». Em meados dos anos 40 concluíra o autor esta obra. Cumprindo logo ertão na abadia de São Bento da vila natal; e o cumpriu.
a seguir o primeiro mandato político, daí em diante a carreira pública o Nem Fernão Dias Paes, nem o filho, usavam o Leme, aportuguesamento
absorveu; mas não abandonou os estudos históricos, colaborando regu- Lems do antepassado que emigrou no século XV da Flandres para Por-
larmente em jornais. Ao falecer, a 21 de novembro de 1971, estava en- tugal e cujo filho foi nobilitado em 1463 por feitos guerreiros em África,
cerrando exercício de dois anos como provedor da Irmandade Nossa Se- não o usavam por o terem por linha materna, de uma filha (Leonor) de
nhora da Piedade e na véspera publicara em O Cartaz, de Três Rios, estudo Bedro Leme, ilhéu do Furiçfjal que emigrou para São Vicente e ainda em
sobre a nova ponte da cidade. 1564, na^vila de São Paulo, comprovou filiação e fidalguia. Pedro Dias
-". Nestes termos com que encerrou o prefácio já se pode ver, tal- Paes (1J05-1785), filho e herdeiro de Garcia, palaciano e não mateiro como
vez, uma ponta de desalento e decepção com a coisa pública que tomou o pai e o avôPFoi que, enriquecido pela herança paterna, em 1750 se lem-
Pedro Gomes da Silva nos últimos tempos. Mas só quem lidasse "com ele brou da: fidalguia dos ancestrais e incorporou o Leme ao nome de família,
amiúde poderia perceber esse desalento, pois de aparência era o mesmo além do brasão-de-armas do antepassado flamengo longe nove gerações.
Pedro, confiante e alegre. Passou, e se voltasse encontraria tudo como b- Foi Pedro Taques de Almeida Paes Leme (1714-1777), na Nobiliarquia
dantes ... Foi em Paraíba do Sul o filho dileto dos novos tempos de abertura Paulistana, quem levantou a linhagem da família; e o esclarecimento dos
social dos anos trinta e o primeiro filho do povo a ocupar a Prefeitura. nomes do Caçador de Esmera/das e seu filho devemos a Afonso Taunay.
p Esta nota, longa mas necessária, pretende estabelecer em nossa bi-
bblíografia nascente a identidade do Fundador. ,
;
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 23
22 PEDRO GOMES DA SILVA
de mudança para a cidade do Rio de Janeiro, a fim de continuar
"Empreendimento formidável esse, de rasgar uma trilha mais facilmente a sua diligência, pois que o atalho não estava
extensa através do sertão, abatendo árvores seculares, impro- ainda feito, mas que, acabado que fosse, sem duvida alguã he
,.' visando pontes sobre ribeirões e rios, quando os não podia o mais perto caminho que pode haver."~J
vadear, até os cumes da Cordilheira do Mar; transpor esse A 14 de julho de 1703, enviava Álvaro da Silveira de Albu-
imenso paredão em uma das suas bocainas e, em declives ora querque ao soberano as informações que Garcia lhe prestara
mais ou menos fortes, ora mais ou menos suaves, acompa- por escrito, a 8 do mesmo mês e ano. Dizia que "por lhe have-
nhando o curso das águas vertentes, chegar à planície do Igua- rem fugido quase todos os escravos e por sua limitação (de
çu, também cortada por numerosos rios e atingir, finalmente, fortuna, subentende-se) ainda não tinha acabado o caminho
o Rio de Janeiro após centena e meia de quilômetros 2:i ". que tem principiado p.* os campos geraes, e minas de ouro de
"Garcia Rodrigues Paes mediante a licença que em 1698 Sabara bussú; que em Paraíba, que he o meyo da jornada-",
obteve de Artur de Sá e Meneses, placitada pelo soberano por- pusera gente sua efetiva, com muitos mantimentos e criação;
tuguês, tendo-se estabelecido à margem do rio Paraíba, no ponto e, finalmente, que estava sustentando a dinheiro mais de cem
onde surgiu a hoje cidade de Paraíba do Sul, atacou imediata- pessoas, para poder levar por diante a diligência de que se
mente o serviço, tanto para o hinterland aurífero quanto em encarregara."
demanda do Rio de Janeiro, de sorte que, em fins de 1699, já Confirmando tais informações, acrescentava o governador:
era praticável por pedestres a picada entre a baía de Guana- "Eu particularmente acho é que Garcia Rodrigues se acha com
bara e a Borda-do-Campo (atual Barbacena)." muito poucos cabedais e escravos para poder acabar o caminho,
Assim, o governador Artur de Sá e Meneses a 15 de junho
e se entende que se não entrar ajuda de Vossa Majestade que
de 1701 escreveu ao rei, dando conta do estado em que se se não poderá conseguir coisa tão útil, e necessária."
achava a estrada que Garcia Rodrigues se propusera abrir. Que o ponto inicial do caminho em Minas era a Borda-do-
Mandou-lhe o monarca, por carta de 15 de novembro do -Campo (Barbacena), patenteia-o o memorial de 8 de julho de
mesmo ano, participasse à Metrópole tudo quanto dissesse 1703, de Garcia Rodrigues Paes, o qual aí diz que a Paraíba era
respeito ao dito caminho, reputado mui utilíssimo. E o gover- o meyo da jornada. "Logo, a atual cidade de Paraíba do Sul,
nador Álvaro da Silveira de Albuquerque, que atendeu a essa cujos alicerces se devem ao filho do Caçador das Esmeraldas,
ordem, informava a 7 de setembro de 1702 que a via de comu- dividia o Caminho Novo em duas metades; uma daí até o Rio
nicações "só admitia gente a pé, mas já estava abastecida de de Janeiro, outra daí até a Borda-do-Campo. Que a picada (no-
roças a passagem do Paraíba (onde hoje é a cidade fluminense {;, te-se bem, a picada, não o caminho definitivo, isto é, benfeito-
de tal nome); e, finalmente, que Garcia Rodrigues Paes estava) rizado) estava aberta entre aqueles pontos extremos em fins
-'•*. Este é o primeiro dos muitos excertos que extrai o autor de Memórias * de 1699, atesta-o também, além da provisão de 2 de outubro
Históricas do Rio de Janeiro (1820), de Monsenhor Pizarro, o cónego José 'de 1699, a carta do capitão-mor Pedro Taques de Almeida dirí-
de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo (1753-1830). A época do notável histo- .gida ao governador-geral do Estado do Brasil, em 20 de março
riógrafo pouco estava divulgado sobre o Caminho Novo e seu construtor. ide 1700, e dada a lume por Orville Derby na Revista do Instituto
Daí julgar tê-lo descoberto "para as minas", quando de fato Garcia veio
daquela zona por trilha indígena ao Paraíba. E ainda ter sido ele "um
•^Histórico e Geográfico de São Paulo (Volume 5, 282/293), onde
dos primeiros povoadores", sendo ele em toda a região pioneiro absoluto. lê que "o capitão-mor Garcia Rodrigues Paes tem aberto uma
2:!
. Começa agora o autor a utilizar os estudos de Basílio Magalhães i picada por ordem do general Artur de Sá e Meneses, do Rio
(1874-1957) que se tornaram subsídios preciosos no esclarecimento do mo- :de Janeiro até a ressaca de donde começam os campos gerais".
vimento das Bandeiras. Comissionado por Washington Luís, historiador e "Tendo consumido na simples abertura da picada todos os
depois presidente de São Paulo e do País (1926-1930), o então pouco conhe- :
cido historiador mineiro pesquisou longamente no Arquivo Nacional, publi- seus recursos pecuniários (quer os herdados dos pais, quer os
cando grande cópia de documentos inéditos do Bandeirismo, e os comen- hauridos da lavra de ouro que teve de sociedade com João
tando com erudição. Foram publicados na Revista do Instituto Histórico e Lopes de Lima, e da. qual tirou cinco arrobas, conforme o relato
Geográfico do São Paulo, volume 18 (1913), os documentos datados até o
ano 1700; e os de 1701 em diante na Revista do Instituto Histórico e Geo- 2'í, A má interpretação deste trecho da carta de Garcia gerou um dos
gráfico Brasileiro, tomo 84 (1920). Em Basílio Magalhães se baseia toda v equívocos mais absurdos de nossa história: o de que Paraíba se chamou
a história do Caminho Novo aberto por Garcia. E nosso autor citou-o ex- ia princípio "meio da jornada". Jamais teve outro nome. Nosso próprio
tensivamente até o final do capítulo, no que mostrou tirocínio, pois o eru- autor deu-lhe curso em escritos de jornal, influenciado por Agripino Grieco,
dito historiador mineiro praticamente esgotou o assunto. Com toda a leal- como veremos no estudo sobre tais equívocos neste mesmo volume.
dade, abriu e fechou aspas ao transcrevê-lo, e por fim citou-o, elogiando.
m 24 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 25

de Antonii, e havendo-ihe morrido alguns escravos e fugido mui- devendo-se-lhe presumivelmente a variante que terminava no
tos outros durante aquela tarefa, viu-se Garcia Rodrigues Paes, porto da Estrela, pois, conforme o referido documento, tornou
por 1703 e 1704, sem meios suficientes para levar por diante a a distância quatro dias mais breve que a do trajeto anterior e
;/' empresa colossal a que se abalançara, isto é, alargar a longa livre do rigor da serra do mar1'7."
:
estrada, conservá-la limpa de matos e plantar roças de manti- Em 1711, quando o Rio foi tomado pelo corsário Duguay-
mentos às suas margens1'5, em vários pontos, para abasteci- -Trouin, "veio da região mineira (provavelmente Vila-Rica) ao
mento dos passageiros." Rio de Janeiro, pela estrada aberta por Garcia Rodrigues Paes
"Tudo isso, entretanto, lograra ele fazer entre o Rio de e gastando apenas 17 dias, em marcha forçada, um exército de
Janeiro e o rio Paraíba. Para o que de essencial ainda restava mais de 5000 homens, com que o governador e capitão-general
a realizar na outra metade, foi mister que o socorresse o cunha- de São Paulo e Minas-do-Ouro, António de Albuquerque Coelho
do, Domingos da Fonseca, o qual, como se vê na patente que de Carvalho, tentou acudir a praça, já capitulada e saqueada."
a 22 de outubro de 1724 (Azevedo Marques-", Apontamentos, l, Do que era então Paraíba temos ideia pelo relato do jesuíta
27) lhe concedeu Rodrigo César de Meneses: "havendo-se en- italiano Antonií*8, que por aqui passou, provavelmente, em
carregado o capítão-mor Garcia Rodrigues Paes da abertura do 1708 ern viagem para as minas: "e daí se vai pousar no mato
caminho novo, não o podendo conseguir em seis anos, e achan- ao pé de um morro, que chamam Caburu (Cavaru). Desse mor-
jj do-se com poucos meios, para o acabar, se apôs o suplicante ro se vai ao famoso rio Paraíba, cuja passagem é em canoas.
!1> corn 18 escravos a abrir o dito caminho, o que conseguiu em Da parte daquém está uma venda de Garcia Rodrigues, e há
cinco meses e meio." bastante ranchos para os passageiros, e da parte d'além está
A cooperação de Domingos Rodrigues da Fonseca deve a casa do dito Garcia Rodrigues, com longuíssimas roçarias.
ter-se dado em 1704, pois a obra se iniciara em 1698. Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas: a primeira
"Mas nem assim ficou de todo pronto, isto é, com os requi- ,'no mato, e a segunda no porto, onde há roçarias, e venda im-
sitos imprescindíveis, o tão gigantesco empreendimento. Pro- portante, e ranchos para os passageiros de uma e outra parte.
pôs-se Amador Bueno da Veiga (paulista famoso na Guerra dos ; É rio menos caudaloso que o Paraíba; passa-se em canoa."
EmboadasJ a completar a tarefa; mas pediu em troca tantas Em Paraíba, no morro entre a estação da estrada-de-ferro
mercês que a rainha-regente (d. Catarina, viúva de Carlos II, da a praça Marquês de São João Marcos, edificou assim Garcia
Inglaterra, e irmã de Pedro II) lhe indeferiu o requerimento." i"uma casa avarandada para sua residência e uma capela, dedi-
"Coube ao sargento-mor Bernardo Soares de Proença, con- ;Cando-a à Conceição da Santa Virgem 2 ", afora ranchos, roçarias
forme provisão régia de 1725, a ultimação da dita via pública, e canoas".
- • v A tarefa contratada por Garcia com o rei Pedro II através do gover- O autor continua a citar os estudos de Basílio Magalhães. Cabe obser-
nado? do Rio de Janeiro não era, assim, apenas abrir caminho entre o Rio í var que à época em que os concluiu — 1913 e 1918, os deste ano só
de Janeiro e as minas de ouro recém-descobertas. Incluía também "plantar aparecidos em 1920 na Revista do l. H. G. B. —, a personalidade de Ber-
roças de mantimentos às suas margens", como vemos neste comentário nardo Soares de Proença era ainda mal-conhecida e, consequentemente, sua
do Basílio Magalhães aos documentos sobre sua construção. E não só obra, que lhe era então presumivelmente atribuída. Assim é que o exce-
em Paraíba, mas "em vários pontos". Um desses era no alto da serra jénte historiador mineiro se enganou quanto ao trajeto e ponto de deri-
f| do Mar, vencido na garganta aproveitada na década de 1890 por Paulo de vação da variante aberta por Proença, fazendo-a sair do Caminho Novo
t l Fiontim com a sua Melhoramentos do Brasil, depois Linha-Auxiliar da Cen- dê Garcia em Pati do Alferes, e não da nossa Encruzilhada. Frei Esta-
'!' irai, hoje Leopoidína. hislau Schaette OFM foi quem precisou o trajeto e a figura do grande
»!» As rocas do Alferes foram abertas por Garcia antes de 1705, quando 'larísta, fluminense da vila de Macacu, na baixada, ao publicar o notável
esse alferes estava ainda na Colónia do Sacramento, como provou Francisco pstudo Os primeiros sesmeiros no território de Petrópolis na coíeção citada
Klôrs Werneck em estudo que comento adiante. Com base no trabalho, fía nota 15. Entre eles figura Proença com a sesmaria que recebeu em
documentado, desse membro e linhagista da grande família fluminense dos no Tamaraíi, alto da serra da Estrela, pela qual passou com o caminho
Werneck, pode-se concluir pela fundação de Pati do Alferes por Garcia para Inhomirim e o futuro porto da Estrela.
Rodrigues Paes. também pioneiro no vizinho município de Vassouras, que «s. Pseudónimo do jesuíta italiano João António Andreoni — completo é
reconhece um "período patiense" em sua história como primeiro núcleo ^•André João Antonil, quase anagrama perfeito —, cuja obra Cultura e
civilizado em seu território (História de Vassouras, 1935, Ignácio Raposo). '^Opulência do Brasil por suas drogas e minas é clássica na historiografia
-'«; Manuel Eufrásio Azevedo Marques (1825-1882) — Apontamentos histó- Abrasileira. É o primeiro da série de viajantes — cronistas que passaram
:
ricos, geográficos, biográficos e estatísticos da Província de São Paulo, por Paraíba nos tempos coloniais. Dele é a primeira descrição do povoado.
desde o inicio de São Vicente até 1876. Tip. E. H. Lsemmert, 2 vol., 'Infelizmente nada registra sobre a topografia local, que viu praticamente
l. H. G. B., Rio de Janeiro, 1879. "7/7 natura. A pobreza do enfoque geográfico permeia toda a obra, que no
'•; ;
CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 27
.' r,,,
"A grande cópia de ouro encontrada na região do Tripuí dutos que anteriormente procuravam a estrada do Facão, espe- .

(Ouro Preto), rio das Mortes e rio das Velhas, na primeira dé- cialmente o ouro e os diamantes. O povo de Parati sofria com
cada do século XVIII, deu ensejo ao aumento do tráfego entre esse desvio graves prejuízos por causa da diminuição da renda,
/; o hinterland mineiro e a cidade do Rio de Janeiro. Daí a neces- e recorreu a EI-Rei insistindo pela franqueza do antigo caminho
sidade de uma variante que facilitasse a subida e a descida da a arbítrio dos que quisessem cultivá-lo. EI-Rei proibiu, então,
serra do Mar, tanto a pedestres quanto a cavaleiros e às tropas em 1733, novas picadas ou caminhos para as minas descobertas
e comboios. A isso satisfez a traça do sargento-mor Bernardo ou por descobrir, que já tivessem administração regular, sem
Soares de Proença, que conseguiu um encurtamento de quatro licença prévia para tal fim. Foi de pouco proveito essa estulta
dias, buscando provavelmente o porto da Estrela." proibição, porque os caminhos continuavam a ser percorridos,
"Esses caminhos, embora não passassem de picadas ou e outros mais se foram abrindo."
carreiras, facilitavam o transporte entre Minas e Rio de Janeiro, Pelos numerosos serviços prestados à Coroa foi Garcia
e não tinham o risco das viagens pelo oceano; por isso os mi- Rodrigues Paes nomeado guarda-mor gerai das minas pelo rei,
neiros começavam a mandar por eles de preferência os pro- a 19 de abril de 1702. Em 14 de agosto de 1711, obteve Carta
Régia dirigida ao governador do Rio de Janeiro, Francisco de
entanto registra tudo o que é resultado da iniciante ocupação humana, e
prepara a opulência: casas, roças, vendas, canoas e ranchos. Bom tam-
Castro de Morais, na qual o rei, além de outras mercês que
bém cm Antonil é a marcação das jornadas diárias, o que nos dá noção lhe havia feito, lhe concedeu a graça de ser donatário de uma
r'a progressão da viagem e o tempo gasto, desde que relacionado à topo- vila que pretendeu erigir neste lugar de Paraíba do Sul 30 .
grafia da região que atravtssa. Os 15 km em reta de Paraíba ao "porto" Assim, em 1711, pela Carta Régia abaixo, "se mandaram
(a fazenda de Paraibuna, nascente), por exemplo, foram vencidos em duas passar carta de sesmaria a Garcia Rodrigues Paes e a seus
jornadas, já que atravessa sete serras (na opinião de um viajante europeu
do século XIX) o era então mata quase fechada. O pouso "no mato" que
doze filhos das terras de que se lhes fizera mercê, em recom-
registra entre os dois rios (em 1708?) possivelmente evoluiu para a situação pensa dos serviços que prestara na abertura do caminho para
Farinha, talvez de um dos primeiros povoadores do Sertão da Paraíba — as Minas". É do seguinte teor, atualizada apenas a grafia:
expressão do século seguinte, como veremos —, certo Manuel Farinha "Mandando ver no meu Conselho Ultramarino o requerimento
casado com Eugenia Maria e cuja primeira filha, Catarina, se batizou' na que me fez Garcia Rodrigues Paes sobre as mercês que lhe
capela da fazenda de Garcia em 23 de janeiro de 1715. Ao final do século
XVIII Farinha é registrada em carta como fazenda nas cabeceiras do ribeirão 3
". A graça da donatária de uma vila na Paraíba talvez tenha sido reque-
do Limoeiro — zona da atual Itiaca — e também no roteiro de viagem de rida no próprio Reino, quando Garcia lá esteve. Avento a hipótese de ter
João Severiano Terrabuzi, em 1814, do Rio de Janeiro à vila do Bom Su- desistido dela desde que soube das lutas ocorridas quando de sua ausência
cesso, capitania de Minas. entre os paulistas descobridores do ouro e os adventícios emboabas, rei-
Pela minúcia do relato e o tempo razoável gasto em cada jornada, nóls atraídos peia riqueza nova no Império português. Tudo se dera em
o que não se dá no roteiro de São Paulo, parece ter o padre percorrido torno da vila novamente (recentemente) criada no rio das Mortes, e depois
mesmo o das minas de ouro, que são tema básico em seu livro. São João d'EI-Rei. Passou então a não interessá-lo a mais que certa con-
- ! > . Basílio Magalhães, op. cit., como os excertos que se seguem. A de- corrência dos atraídos à passagem do Paraíba pelo aforamento do património
nominação completa é freguesia da Conceição da ^afita Virgem e dos Santos ;da vila. Como se lê em Antonil, ali já fixara residência e abrira comércio.
Apóstolos São Pedro e São Paulo. "A capela do morro substituiu a que a -Além disso, a carta-de-dada da sesmaria — ver adiante — impedia que
tradição localiza na ilha do Paraíba, levantada pelos primeiros ocupantes fosse contígua à vila. E o que mais interessava ao Fundador era a tra-
do r«manso. Data certamente da chegada da família de Garcia (ou de vessia do rio, que a família guardou de unhas-e-dentes, corno se Verá, até
iogo depois), o que se fixa entre 1705 — nascimento de Pedro na fre- 1842. Por isso, em 1786 o mais palaciano dos netos do mateiro Garcia
guesia de Irajá — e 1709, quando Garcia vai ao Reino defender seus procurou desfazer-se da já en,tão incómoda graça de erigir vila concedida
direitos pela abertura do Caminho. Documentado está que foi jMarja An- avô — dada a pressão dos posseiros na serra com a chegada do café —.
tônia quem recebeu na fazenda o ouro removido do Rio ocupado pelos aproveitando para dar uma barretada ao todo-poderoso da época, o vice-rei,
franceses, em 1711. A capela registra balizados desde 1J7X5, pelo menos, í&btendo para isso de D. Maria l foral para erigir vila onde a família nada
ancTTàrvêz de chegada do cura que Garcia mantinha na lazenda. O esta- -tinha a perder com o aforamento de terras, como no arraial do Campo
belecimento do curato pela diocese do Rio é de 1719. '"Alegre (distrito da Paraíba Nova), onde nada possuía. Só que a providência
Ficando a calsa-grande da fazenda na encosta "que dá para a atual rua ttíemorou tanto que a barrotada foi a outro vice-rei, o conde de Resende. v
Alexandre Abrahão, é provável que a capela fosse no mesmo cocuruto do %•' : O batismo de Resende, como o de Valença, reflete o espírito do auli- .
morro em que a planta de 1830 do povoado assinala a Kjreja — então em ffeismo da época na mais fechada e corrupta das oligarquias, a da classe
ruínas — construída por Pedro em 1745- Por certo, junto ficava o.cémi- Sfldâlga, arribada ao Brasil atrás do ouro com os vice-reis e a que, irresisti-
térjp, onde se enterraram, em 173JL Fernando, primogénito de Garcia, em JÃfelmente, °s ambiciosos matutos Dias Paes procuraram achegar-se. E um
1732 Frarjçisco Fagundes, fundador dè~~S"ibolas, fylaria Antônia em 1736 ffiaradigma dessa classe na Província foi esse Fernando Dias Paes Leme
e dois anos depois o próprio fundador de Paraíba. " fda Câmara que, não satisfeito com o Leme nobre que o pai juntara ao
28 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 29

havia feito do foro de Fidalgo e da vila que pretendia fazer na Paes a mercê de uma data de terras com a natureza de ses-
paragem da Paraíba e que, havendo datas de terras, fosse ele maria, que compreenda o mesmo número de léguas, como se
avantajado, de que se lhe passou portaria em 20 de abril de houvesse de dar repartidas a 4 pessoas, na forma de minhas
1703, em satisfação de haver aberto o caminho do Rio de Ja- ordens, as quais não serão contíguas à vila, se não na parte
neiro para os Campos Gerais e Minas dos Catacazes, em que que não possa haver contendas, e a cada um de seus doze
assistia havia dois anos, e de novo me representar ter conti- filhos uma data na mesma forma que tenho resoluto se dê a
tinuado na abertura do dito caminho desde o dito ano até o de qualquer dos moradores do Brasil, e que assim a data do dito
1709, em que veio a este Reino 1 ", e mostrar tê-lo posto na sua Garcia Rodrigues Paes, como as dos ditos 12 filhos, sejam todas
última perfeição, de maneira que hoje frequentavam comurnente no mesmo caminho, que ele abriu e prefiram nas datas a todos
todos os passageiros que vão para as Minas a dita passagem, os mais a quem se derem sesmarias e que não sejam contíguas
com grande segurança de seus cabedais e dos reais quintos, mas separadas na forma de minhas ordens em diferentes dis-
por se livrarem das perdas que se experimentavam com as tritos umas das outras, com condição que o dito Garcia Ro-
presas que os piratas continuamente faziam no transporte do drigues Paes será obrigado a por o caminho que o abriu capaz
ouro de Santos para essa Praça, serviço muito especial e me- de irem por ele bestas com cargas para as Minas, e satisfeita
recedor de grande prémio, não só pela conveniência que dele esta condição vos ordeno mandeis passar cartas ao dito Garcia
tem resultado ao bem comum, mas pela grande despesa, que Rodrigues Paes e a cada um dos seus 12 filhos separadamente
o dito Garcia Rodrigues Paes com a abertura do dito caminho, das datas de terras de sesmaria que lhes tenho feito mercê,
desprezando os interesses, que podia adquirir nas Minas, com ..assinalando-lhes as paragens, léguas e sítios, na forma que'te-
a gente que trazia ocupada no dito trabalho se se empregasse .; nho resoluto serão obrigados a mandar confirmar ao Reino."
em minerar; pedindo-me em satisfação de tudo que lhe fizesse Por uma carta de sesmaria passada a Garcia, datada de 26
boa a mercê da dita vila, o a da data das terras de sesmaria ;de junho de 1727, verifica-se que o construtor do Caminho Novo,
paia ele e a cada um de seus 12 filhos uma data, como se ;,além de obter terras na Borda-do-Campo, era também senhor
costuma dar a qualquer pessoa, e campos para os gados, de grande área de terras, já obtida por outra carta de sesmaria,
visto terem empregado todos em o referido serviço, em satis- (na "rocinha aquém do Paraibuna até além da Paraíba"-",
fação dele: Houve por bem ffazer ao dito Garcia Rodrigues Por uma carta do governador Pedro de Almeida ao soberano
, luso, datada do Rio de Janeiro aos 9 de junho de 1717, vê-se o
nome em 1759, foi buscar nos avoengos da Madeira, os Gonçalves da seguinte sobre O Caminho Novo:
Câmara também nobilitados na África, mais uma pena de pavão. E do "Senhor. Logo que cheguei a esta Praça do Rio de Janeiro
sempre precisado de dinheiro Pedro l — a guerra da Cisplatina já come-
çara — a família em 1826 comprou dois raros títulos de marquês; um ;:procurei eficazmente satisfazer a ordem de V. M., sobre a cria-
para o filho de Fernando, o de marquês de São João Marcos, outro para tção das duas tropas que é servido haja nas Minas, e antes de
o do irmão Garcia, o de marquês de Quixeramobim. Já iam longe então Ipartir para elas fiz diligência para informar-me das pessoas
na família os tempos de abridores de caminhos . .. ipráticas daquele país e que podiam dar razão desta matéria e,
:!1
. Aí está documentada a viagem de Garcia a Portuga!. Quanto a "ter
continuado" até 1709 na abertura do Caminho, entenda-se como a melhorá-lo,
[como a primeira coisa que devia procurar era uma verdadeira
pois todo ele em 1704 já dava passagem. E essa melhoria comportava a
lescrevem sobre Pati e Vassouras. O Hnliagista comprova, pelo nascimento
contratada implantação de roças de mantimentos e milho a espaços regu-
Ida filha Bárbara em 1708 "no Caminho Novo", que o alferes Tavares nesse
lares, para satisfação dos viandantes e bestas-de-carga, já que o abria na
ffano já estava nas tais roças, que do seu posto na guarnição da fortaleza
mata virgem. Para o lado do Rio de Janeiro, a primeira metade aberta a
partir de Paraíba, onde Garcia estava estabelecido (cf. Basílio Magalhães), da Colónia do Sacramento tomou nome. Também Antonil, cuja edição
o Caminho em 1704 já estava provido dessas roças. É o que se deduz ffrlnceps em Lisboa é de 1711, o confirma. E o recente trabalho de Klôrs
do citado excerto do historiador mineiro (cf. nota 25), que conclui, como RWerneck serve-nos, ainda, para datar pelo menos de 1708 as informações
transcrito: "Tudo isso lograra ele (Garcia) fazer entre o Rio de Janeiro gveiculadas pelo jesuíta italiano quanto ao roteiro para as minas.
82. Evidentemente, trata-se aí da grande data de terras "como se houvesse
e o Paraíba."
Como Antonil informa estar a roça do a/feres a três jornadas do Pa- de dar repartidas a 4 pessoas", já vista e outorgada a Garcia através do
raíba, tem-se que provavelmente foram abertas por Garcia antes que o tal •governador do Rio de Janeiro. A referência a essa grande sesmaria como
alferes tivesse chegado como sesmeiro. Este alferes, sabe-se hoje pelos situada "aquém do Paraibuna" e "até a vargem aiém da Paraíba" (nossa
estudos de Francisco Klôrs Werneck — cf. nota 167 —, foi Francisco Ta- :ídade aí já tomada como passagem ou fazenda) evidencia que a sesmaria
vares e não Leonardo Cardoso da Silva, que desde Monsenhor Pizarro (1820) e 1727 lhe foi concedida por via do governo da nova capitania de Minas
vem sendo enganosamente citado como o alferes das roças por quantos íerais, que em 1720 se desmembrara da criada na região em 1709, São
lie Paulo e Minas-do-Ouro. É por essa época também que se define a divisa
PEDRO GOMES DA SILVA

ideia do país das Minas, tenho averiguado que três caminhos


são os que até agora se têm descoberto, desde as costas desta
capitania para o recôncavo das Minas.
Um, a quem chamam o velho, desde Parati pelos serros
de Muriquipiocaba, Vimiatinga até a borda-do-campo a que cha-
mam Aparição; outro de Santos, por São Paulo, passando pela
vila de Taubaté, que se junta com o caminho sobredito na capítulo 2
vila de Guaratinguetá; o terceiro começa de Iguaçu, pela Pa-
raíba e Paraibuna até a paragem a que chamam Campos:!:1-
do Rio de Janeiro—Minas no Paraibuna, e que se transfere a Paraíba por
Freguesia da Santa Virgem
carta régia de 31-08-1720 o Registo instalado em Iguaçu, na baixada.
A sesmaria na Borda-do-Campo ficava na zona das grandes datas con-
cedidas ao irmão de Maria Antônia (Pinheiro da Fonseca), o já referido
Domingos Rodrigues da Fonseca, pioneiro e um dos fundadores de Barba-
cena. O cunhado de Garcia também recebeu terras no Paraibuna, como (Arruinada a primeira capela construída na pequena ilha 31
se vê adiante em nota sobre o tombo da fazenda desse nome, de 1822.
Quanto às sesmarias dos filhos de Garcia — 9 moças — a do caçula
içlo Paraíba, Pedro Dias Paes Leme, mestre-de-campo e filho de
e provavelmente nascido em Paraíba deu origem à grande gleba de terras íjGarcia Rodrigues Paes, erigiu outro templo3!i em lugar sobran-
dos Paes Leme na baixada. Inácio Dias Velho (este, nome de família do beiro ao rio e no morro fronteiro ao Jardim Velho.
bisavô materno) falecendo sem descendência, sua família se fez grande (Benzeu o novo templo o capelão curado, padre Manuel
latifundiária nos futuros municípios de Iguaçu, São João Marcos e Itaguaí. •Sonçalves Viana, a quem fora cometida essa diligência em pro-
:I:!
. O novo governador se refere à zona de Barbacena, onde começam os
campos gerais do planalto mineiro. visão de 10 de novembro de 1745. Para ele foi transferida a
|ède do curato que, por alvará de 2 de janeiro de 1756, foi
elevado a freguesia perpétua.
VTinha o templo um_5Ó, altar, com o sacrário, que apenas
Jíiardava o Santíssimo Sacramento pelo tempo quadragesimal,
|ois havia o receio de desacatos dos silvícolas habitantes das
Aí está a tradição da capela e ilha que permeia todo relato antigo
ííbre Paraíba. No princípio deste século foi ainda colhida pelo capelão
Casa de Caridade, padre Teófilo Dutra, que não nasceu aqui. Divul-
da em escritos em jornal da época, foi depois levada ao volume f/ores
'ff/ores (1929). O padre confessou porém que não atinava por que esco-
hera Garcia ilha tão pequena para erguer a capela que, a seu ver, significou
[{fundação da cidade. Está em seu livro, pg. 22: "Nem sequer por entre
i|eblinas pude rastrear os motivos que levaram o ilustre fundador a cons-
Lílr uma igreja em ilha tão pequena." E adiante: " . . . a dita ilha foi
|yada pelas grandes inundações do ano em que vamos." Na verdade,'em
f-tna própria ilha de que falava, e que era então (1906) a avenida da
ttra-rio, olhando o vazio no Paraíba em frente ao Jardim Velho onde esti-
||à';a "ilha levada pelas inundações" não podia mesmo ver aquela a que
(Jlfno, para simplificar, Ilha da Capela. Esta era grande ilha junto à
iírgam, de que se separava por canal estreito — o que restava dele .no
éciiío passado tinha de largura 5 a 7 braças — em tudo semelhante à
é* subsiste em Cantagalo e em cujo canal o serviço de águas de Três
: faz captação. Aliás, com várias ilhas, o rio ali faz lembrar o que viu
íla', ao desembocar da trilha puri que o trouxe desde a borda-do-campo.
\lém dessa ilha grande, das duas existentes entre as pontes e da
se foi em 1906, havia pelo menos mais uma ilha, pouco abaixo da
í, destruída pela Câmara nos idos de 1870 por desviar nas cheias as
|ͧ contra as obras de fundamento do cais em início de construção;
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 33

dilatadas campinas das margens do Paraíba até além do Parai- de padres amovíveis, até o padre Jacinto Corrêa Nunes, em
buna, e que costumavam invadir a estrada geral e a povoação 30 ." quem se verificou a segunda propriedade.
Foi seu primeiro proprietário o padre António Pereira de A jurisdição paroquial compreendia três únicas fazendas:
Azevedo. Abandonada por ele, ficou a paróquia sob a direção Várzea, Paraíba e Paraibuna, esta sobre o rio do mesmo nome,
•t*
que a separava ao norte da freguesia de Nossa Senhora da
É possível que houvesse junto à margem várias ilhas em fileira, rio-
abaixo, e entre elas canais estreitos. "Um pouco acima da passagem (na Glória, mais conhecida por Simão Pereira, já do bispado de
praia de desembarque, o bosque de hoje) existe urna larga ilha, cujos canais Mariana. Pelo rumo da fazenda do Governo, a leste, confinante
laterais podem ser vadeados por qualquer fraco nadador" (brigadeiro Cunha com a da Várzea, separava-se da freguesia de N. S. da Piedade
Matos, 1823, bibliografia). Pouco acima, o Quartel do Registo, um "edifício de Anhumirirn; ao sul se encontrava com a de N. S. da Oração
assobradado, assentado sobre grossos esteios de madeira". E por trás dele
<; antes do grande "rancho dos tropeiros, valas ou covas cheias de água
dá Roça do Alferes (hoje Pati do Alferes); e a oeste dilatava-se
corrupta '. O brigadeiro descrevia a vala que dava esgoto a lagoa do Lavs- por toda a campanha e sertão ocupado pelos silvícolas coroa-
iripa, de que laia nosso autor adiante, apenas não a localizando bem. dos. O número de fogos não excedia a noventa, e o total de
Com o aterro para a construção da ponte, iniciada em 1836 e apoiada pessoas adultas a quinhentas.
na ilha. a Inuoa-canal foi cortada ao meio. Em 1855 eram duas lagoas com- Em 1758, provisão de D. José l, de 20 de junho, concedeu
pridas de água infecta; uma das Porteiras à ponte, "donde se ajuntam as
águas que vêm ao largo de Santo António" — nome do morro da Caridade
a Pedro Dias Paes Leme medir suas terras, o que nunca rea-
- e que tinha 84 braças de comprimento por 7 de largura e 5 palmos "de lizou. Eram seis léguas em quadra, desde o morro do Cabaru
altura" (184,8 m x 15,40 m x 1,10 m), outra da ponte aos fundos da matriz até o de Três Irmãos'17, além do rio Paraibuna e hoje em Minas.
(esquina Duque de Caxias com praça Marquês), com 49 braças (105,6 m) Falecendo Pedro, essa imensa gleba em que havia apenas
c 5 (11,00 m) de largura. três fazendas (com a de Narchea, ou Várzea) foi dividida pelos
Assolada a vila naquele ano de 55 por terrível epidemia de cólera, a
Câmara tratou de aterrar as lagoas fazendo o corte da aba do morro onde filhos, quatro varões e duas mulheres, por escritura lavrada a
desde 1847 colocara o cemitério, o do Andrade Figueira. Aproveitou o .7 de abril de 1785 no cartório do tabelião Inácio Teixeira de Car-
corte para ligar a vila à ponte, que seria inaugurada dois anos depois,
saindo de praça a praça com a nova rua da Imperatriz. E começou então .86. Antes desta igreja de Pedro, a capela da ilha dera lugar a outra no
o paulatino aterro do grande brejo que se esgotava no canal e drenava morro — cf. nota 29 —, onde em 1719 se instalou o curato. Nela havia
o Campo de Maria Tomásia (bairro das Palhas), e do lado oposto a área pia batismal, exclusiva de matriz — sede de freguesia —, mas admissível
úté a atual estação. :;:>Com licença especial do bispo no caso de capela muito distante da sede,
- Ao ler o padre Dutra a primeira vez, confesso que ilha e capela en- como Paraíba, curato filial da velha freguesia litorânea de Inhomirjm (1677).
carei com ceticismo, jogando-as no escaninho da fantasia e esquecido da Monsenhor Pizarro, op. cit. Após a morte de Maria Antônia e Garcia,
lição dos mestres: tradição oral tem laivos de documento . . . Mas pros- e a mudança de Pedro Dias para o Rio, a igreja caiu em. abandono, o que
segui nos estudos de Paraíba após a morte do autor; levantei o Caminho explica sua ruína em relativo pouco tempo. Na fazenda, com Maria Antônia
no município, o que principiara com ele; e a antiga trilha puri, como a houve sempre capelão curado. Em 1732, por exemplo, era o pé. António
Garcia, me levou ao rio. Descobri então o remanso. E com a identificação Cardoso Loureiro, que encomendou o corpo de Francisco Fagundes, o fun-
da ilha anexada- por aterros à margem, acreditei em 1683 e na capela: dador de Sebolas. E o pé. Manuel da Costa, capelão de Paraíba, foi quem
r-m beira de rio, é marco de posse; como o de pedra com as quinas o a 26 de abril de 1739 benzeu a capela então curada de Pati do Alferes.
ora em praia deserta. , |T. A légua colonial brasileira tinha 6,605 km, como ensina Taunay em
Passei então a considerar com seriedade Saint-Adolphe, apesar do ceti- jístória das Bandeiras Paulistas (2 vol., 1951), e as terras de Garcia seis
cismo de Taunay, que nunca soube do remanso, ao contrário de Capistrano; quadra ds ambos os lados do caminho, o que sobre o rio corresponde
e foi o mestre paulista que me levou ao x do achamenlo do tal remanso. ara montante a pouco além da antiga fazenda de Santa Rosa, e a jusante
Foi quando estranhou a demora de Garcia em voltar a São Paulo com quase â boca do córrego do Matadouro, local do antigo depósito ferroviário
o corpo do pai, para inumar em São Bento. Em 26 de junho de 1681 entre- d,e Entre-Rios (ver mapa do prefeito Kingston, 1935).
gara ao enviado do rei, em Minas, amostras das esmeraldas que o pai Quando foram concedidas as primeiras sesmarias junto à sede da ire-
descobrira, mas só a 11 de dezembro chegou a São Paulo para exibir à juesia, respeitaram-se esses limites. José Fernandes dos Santos requer
Câmara as 47 pedras que levava no cinturão. Seis meses numa jornada em 1811 as terras que formaram a fazenda da Boavista (Vieira Cortês), e
em que paulista algum levava mais de dois. de,que já era posseiro — ver nota 192 —, "nos fundos da fazenda do guar-
Meu estudo 1683, em progresso, defenderá a tese de que Garcia veio r Fernando Dias Paes Leme da Câmara", primogénito e herdeiro da
certificar-se do remanso naquele interregno de tempo, no segundo semestre jzenda da Paraíba e dos títulos do avô. Em 1817, o futuro primeiro barão
de 1681, para dois anos Depois, o milénio apontado por Saint-Adolphe, ; .Entre-Rios obtém a sesmaria que se tornou a fazenda de Cantagalo tam-
deixar aqui gente guardando-o da ocupação por outrem. Para que, ao dar a partir dos tais limites (capítulo Os Barroso Pereira}. Donde se tem
o senhor Dom Pedro l! a largada para a corrida do Caminho, descoberto o ' . a sesmaria de Garcia Rodrigues Paes tinha 523,512 km-, ou na medida
ouro, ninguém lograsse competir com o seu roteiro norte-sul direto, "tudo • -r fazendas de café. 10728 alqueires mineiros.
no meridiano do Rio de Janeiro", como registrou o abençoado padre Dutra. A própria vastidão das terras tornou impraticável a medição. Quanto
'
34 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 35

valho, no Rio. Alguns excertos do texto, na ortografia atual: o Câmara de avoengos nobres. Foi mestre-de-campo como o pai.
"os herdeiros declaram que havendo falecido seus pais, Da subdivisão das fazendas abertas por Garcia, que o filho
rnestre-de-campo Pedro Dias Paes Leme, e d. Francisca Joaquina Pedro manteve intactas, surgirão as roças de café que darão
de Horta Forjaz Pereira, ambos com testamento, renunciam a origem ao município.
fazer os respectivos inventários;" Um mapa da capitania do Rio de Janeiro mandado fazer
"ao herdeiro Garcia Rodrigues Paes Leme :tR , além de outros pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, em setembro de
bens, coube a fazenda do Paraibuna, capela, casas e mais per- 1785, registra junto a uma cruz o seguinte: Freguezia da Pa-
tences, servindo de divisa o córrego da Cachoeira;" rahyba e Caza de Pedro Dias.
"ao co-herdeiro José Pedro Francisco Leme, além de outros A freguesia desenvolvia-se pouco a pouco, graças ao incre-
bens, coube a fazenda de Narchea;111, cujas terras principiam no mento das lavouras de subsistência e fornecimento de seus
alto do Cabaru e acabam no córrego do Inhema;" produtos aos viandantes do Caminho.
"às co-herdeiras Maria Arcângela de Macedo Leme e Be- Entre 1795 e 1820 os moradores de mais evidência foram
rarda Vitória Forjaz Leme coube a casa e chácara na lagoa da o vigário, padre Lauriano Corrêa Rabelo e Castro, o tenente
Sentinela, tendo por limites as ruas de Mata-Cavalos, Lavradio João Pacheco Lourenço e Castro e o capitão Cristóvão Rodri-
o Conde da Cunha 4 ", no Rio de Janeiro, e mais outros bens." gues de Andrade, tronco da grande família Andrade.
A escritura não alude claramente à fazenda da Paraíba, a t Antes de se estabelecer no Paraibuna, o capitão Cristóvão
mais extensa, e que, em ambas as margens do rio, ia do Inhema i foi o homem dos sete instrumentos no povoado. Era quem di-
(nosso atual Inema) ao Cachoeira, afluente do Paraibuna. Coube rigia quase todas as transações comerciais e o consultor na
a fazenda de 1683 ao primogénito de Pedro e neto de Garcia, ocasião, pela reconhecida idoneidade. Vê-se pelos assentos
Fernando Dias Paes Leme, que acrescentou a seu nome ainda de casamentos e balizados da freguesia que foi grandemente
nos extremos desse mundo sobre o Caminho, o do morro do Cabaru é conhe- estimado, servindo quase sempre de padrinho nesses atos, mui-
cido. Nele há um marco divisório com Vassouras, na estrada do Alto-do-Su- to importantes naquela época de crença arraigada no povo. Era
cupira e pouco aquém do velho cemitério de Cavaru, onde se enterravam tra- o compadre dos principais moradores da Paraíba, ricos ou po-
dicionalmente os Carvalho. Mas a precisa identificação do morro dos Três bres; além do mais, o banqueiro de todos. Possuía armazém
Irmãos, talvez referência aos três filhos de Garcia (fernando, Pedro e Iná-
cio), depende de um documento que dorme inédito há 83 anos no arquivo
de géneros no Lavapés, o melhor comércio no povoado.
do Instituto Histórico, como se verá em nota adiante. Demora em território Por essa época existia em Paraíba um grupo de simpati-
mineiro, não longe do Paraibuna, o que dava ao Fundador posse exclusiva =v zantes do movimento da independência, em que avultava o moço
da passagem desse rio onde só em 1709 se fixou a divisa das capitanias
::s
'^Hilário Joaquim de Andrade, filho do capitão Cristóvão e que
Segundo filho de Pedro. A sede da fazenda era próxima à ponte da l Veio a ser barão do Piabanha. Embora jovem em 1822, gozava
nova BR-040 e, a capela, a única filial da freguesia da Conceição da Santa
Virgem que continua padroeira de Paraíba sem que muitos saibarn disso.
^'do respeito dos compatriotas, pelo caráter bem-formado e cia-
O córrego da Cachoeira se lança no Paraibuna a pouco mais de 3 km a is reza nas atitudes.
montante da ponte de Serraria. Nasce no maciço do Monte-Cristo com um • Em viagem a toque-de-caixa para a capitania de Minas Ge-
curso quase todo paralelo ao Paraibuna. É também chamado Santa Maria J;tais, em março de 1822, pela primeira vez passou por nossa
H no seu baixo vale o liarão do Piabanha abriu a famosa fazenda de Serraria. •'•freguesia o príncipe Pedro, que lá foi procurar o apoio dos mi-
;
" Também chamada Várzea (ver capitulo próprio), a fazenda ficava entre
as atuais Werneck e Cavaru. As roças desse nome abertas por Garcia e lheiros para sua política, e desfazer intrigas.
citadas por Antonil, que lhe deram origem, datam de antes de 1704. Conta a crónica dessa viagem que, adiante da comitiva e
•"'. A chácara de Pedro, chamado doutor (parece que formado em leis por com avanço de um dia, seguiam dois cargueiros com roupa diri-
Coimbra e conhecido no Rio no século XVIII como Pedro Dias), incluía o gidos por um sargento; e que o príncipe não quis levar cozi-
morro que tinha o seu nome (depois Senado, hoje arrasado) e casa na Ma-
tacavalos (Riachuelo). A lagoa da Sentinela ocupava a área dos cruzamen-
leiro e nem regular suas pousadas; comia o que encontrasse
tos Mem de Sá—Frei Caneca—Santana—Moncorvo Filho, drenando as plu- ílo caminho e dormia em esteira, se necessário fosse.
viais que recebia dos morros de Santa Teresa e Pedro Dias pelo vale em D. Pedro, com a sua conhecida impudência, nesse pouso
que se abriu o canal do Mangue. Conde da Cunha, vice-rei, era a atual nossa freguesia teve a'petulância de redigir uma carta ci-
Visconde do Rio Branco e o prolongamento pela Frei Caneca até a lagoa. ada a três-por-dois e por todos que se referem a essa viagem.
A riqueza em bens e títulos acumulada por Pedro Dias impressionou
ao vice-rei Lavradio. Na espécie de relatório enviado a Lisboa logo que |s como a conta. Araújo Guimarães 41 : "Em 1822, de Paraíba
empossado, depois de citá-lo como "dos principais da capitania", conclui; Sul, escrevia urna carta ao venerando e respeitável José
"Bom homem, mas completamente inútil." íõnifácio que começava por esta frase: 'Nu em pêlo, pego na
3n PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 37

da sua reedificaçao, à qual se prestam todos os paroquianos,


pnna para lhe participar que vamos bem.' " (Saíra de banho.) e agora muito mais, seguindo o exemplo de seu religioso chefe,
Sabe-se por tradição que ao passar pela ferraria do Limoeiro que sem limitar-se à oferta de que falamos prometeu coadjuvar
o príncipe apeou e, segurando a pata do animal que cavalgava, quanto pudesse a reparação do templo, louvando o zelo dos
mandou o ferreiro rebater uma ferradura frouxa. paroquianos que haviam prometido esmolar para este fim na
Hilário Joaquim de Andrade acompanhou D. Pedro de Pa- ocasião em que vinham beijar-lhe a mão."
raíba ao Paraibuna, e teve a honra de hospedá-lo na fazenda do "Averiguando o estado da administração do registro, tanto
Paraibuna, cie propriedade de sua mãe e da qual era adminis- por meio de informações dos seus empregados como pela ins-
trador. Aproveitando sua presença, pediu-lhe a melhoria do peção dos livros e assentos, que servem para o lançamento do
Caminho de Minas em nossa região. Aclamado imperador, que é relativo à arrecadação do rendimento das passagens; e
D. Pedro fez o jovem paraibano — então com 26 anos — coronel certificado do desleixo e falta de método com que tudo ali se
de sua guarda de honra. fazia, ordenou, além de outras coisas, um formulário para a
A terceira estada de Pedro l em Paraíba 42 foi na viagem a escrituração, que mandou desde logo observar inteiramente,
Minas em janeiro de 1831, três meses antes da Abdicação. enquanto pelo Tesouro Nacional se não observasse outra coisa."
Passara a noite do Ano Novo na fazenda do padre Corrêa, che- , "Pela investigação que se fez conhece-se que o admi-
gando a 2 de janeiro à do Governo. nistrador do Registro não só tinha empregado no serviço cinco
No dia 3 estavam em Paraíba, o imperador, a imperatriz escravos seus, mas além disto lhes abonava o jornal de 640
Amélia e sua comitiva. réis diariamente, sem aprovação, para mais de 480 réis. Ter-
"Sua Majestade ocupou-se de um miúdo exame a respeito minou este abuso por ordem de Sua Majestade Imperial, des-
do que era preciso providenciar-se a bem dos povos residentes pediram-se os escravos, e foram substituídos logo por homens
nestas margens do Paraíba, e dos que transitam pela freqiien- livres, e sem o excesso de 160 réis, que redundavam indevida-
tadíssima estrada de Minas, que muito clamam pelo seu me- mente em proveito do administrador."
lhoramento, e por maior facilidade na passagem deste rio, onde O ministro do Império baixou então a seguinte portaria:
se cobram rendas nacionais 1 "." "Manda Sua Majestade Imperial ao provedor do registro
"Apenas soube Sua Majestade Imperial que a igreja matriz da Paraíba que, de hoje em diante, faça escrever no livro da
se achava em lamentável estado, visitou-a pessoalmente, dei- receita do rendimento das passagens dos rios Paraíba e Parai-
xando logo nas mãos do vigário a esmola de 100SOOO para ajuda buna as verbas relativas, da maneira que mostra o formulário
•''. ,A Carie no Brasil, Alberto Carlos Araújo Guimarães, Ed. Globo, Porto
junto assinado pelo ministro e secretário de Estado dos Negó-
cios do Império, enquanto outra coisa não se determinar; e mais
Alegre, 1936.
•'-. Em 1824 o imperador passou por Paraíba quando foi inaugurar a ponte lhe ordena que, desempenhando os deveres do seu emprego,
construída no Paraibuna pelo Capitão Tiramorros, de que restam pilares de cumpra e faça cumprir exatamente as leis e ordens relativas
pedra. Pedro l não foi a Minas, voltando pelo rio Preto, Valença e a fazenda a esta arrecadação, evitados os defeitos e desmazeles, que nelas
do então barão de São João Marcos, Santana (no futuro município de Vas-
souras), passando o rio no arraial nascente de Comércio, hoje Sebastião têm havido até agora, debaixo da mais restrita responsabilidade.
Lacerda. Creio ter essa viagem rio Preto acima algo a ver com a conces- Registro da Paraíba, 3 de janeiro de 1831. Silva Maia".
são da sesmaria de Cachoeira de Santana, quatro anos depois, a seu amigo, No dia 4, chegou a comitiva imperial a Paraibuna e D. Pe-
o barão de Lajes (ver capítulo próprio), que poderia passar a testa-de-lerro dro l encontrou abandonada a ponte que viera inaugurar em
se a Abdicação não sobreviesse três anos depois. Como d. João VI, o 1824, na sua segunda viagem a Paraíba 44 . Ordenou a seu mi-
imperador era dado a especulação imobiliária.
< : : . A princípio, o próprio Garcia foi incumbido delas, "cobrando-se o lucro nistro do Império que baixasse a seguinte portaria:
das passagens para a fazenda real, e isto até o ano de 1734, em que foi
relevado do dito encargo' (do texto da Carta Régia de 10-05-1753, vazada •K Era a ponte de madeira, coberta, e chamada "do Madureira". talvez
nas informações de Pedro sobre os serviços do pai e pela qual obteve nome de morador local. Ficava mais próxima ao quartel do Registro que
as benesses que o fizeram o homem mais rico da Capitania). Mas esse subsiste do Ifldo mineiro, e também do eixo do atalho contratado por D.
encargo, de que ele e família foram relevados, dava para de sua renda João VI com o Capitão Tirfimorma em 1818 — decreto de 20 de fevereiro —,
tirarem-se os 5.000 cruzados de pensão anual, por três vidas, então conce- que contorna a grande pedra de Paraibuna peio oeste e sai em cima da
dida aos Paes Leme, apesar de ser de então em diante posto tal encargo ntual Afonso Arinos. descendo o Paraibuna meia-légua até a ponte em
;i leilão, e arrematado periodicamente; isto é, executado sem mais controle. cuja boca se desenvolveu Mont'Serrat (ver capítulo desse Distrito).
O Capitão Tiramorros era contratante das passagens do Paraíba e Pa- Consta que na Revolução Liberal Mineira de 1842 Caxias se certifica
r;iibunn pelos anos da Independência. da queima da ponte pelos revoltosos, para dificultar a travessia de sua
38 PFOnt) GOMES DA SILVA

"Sua Majestade Imperial, certificado de que se não tem


cuidado na conservação da ponte do rio Paraibana, na estrada
de Minas Gerais, com o zelo que cumpria para assegurar a sua
mais longa duração, ordena ao provedor do Registro da Paraíba,
a cujo cargo está a referida ponte, empregue toda a necessária
vigilância e diligência para que bem se conserve, mandando já capitulo 3
dar-lhe a pintura de que precisa, e fazendo-a repetir periodica-
mente, como convém, Paraíbuna, 4 de janeiro de 1831. José
António da Silva Maia."
As duas viagens de D. Pedro l a Minas Gerais tiveram A Villa da Parahyba
grande importância na política do Brasil. A primeira despertou
entusiasmo por onde passava, apoiando todos a sua posição
de resistência às Cortes de Lisboa, que teimavam em recolo-
nizar o Brasil. A segunda, no final de seu reinado, refletiu
a decepção do povo pela inabilidade com que o seu outrora Dentro do património territorial que coube aos herdeiros
amado príncipe administrava o Império que ajudara a criar. do mestre-de-campo Pedro Dias Paes Leme formaram-se com
a chegada do café muitas propriedades, e seus habitantes co-
tropa acantonada na fazenda Cachoeira — sobre o córrego referido na nota meçaram a gravitar em torno da fazenda da Paraíba.
38 - , observando de binóculo o fumo que subia por sobre a cumeada da
pedra de Paraibuna. E isso da Pedra da Tocaia, cuja altitude ultrapassa , Era onde havia comércio com os viandantes do Caminho,
a cota de 680 metros. De fato, da Tocaia vê-se o teto plano de sentido que ali aguardavam a passagem na barca; no alto do morro se
leste-oeste do abrupto penedo, que alcança os 800 m de altitude, favorecida levantava a modestíssima matriz da Conceição da Santa Vir-
a visão pelo boqueirão aberto na serra das Abóboras pelos formadores do gem e dos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, em que
Cachoeira, na vertente do Paraibuna. e do Limoeiro e Recato na do Paraíba. os fregueses se reuniam para festas religiosas que a tradição
portuguesa transladou para o Brasil, e também por ocasião dos
casamentos, balizados e missas.
PA freguesia evoluía para povoado, sendo os habitantes em
maioria oriundos das quase esgotadas minas de ouro. Havia
também muitos mestiços, primeiro dos índios da região, depois
dos negros trazidos para a lavoura do café.j^ Em vista da difi-
culdade de resolverem seus problemas de legalização de terras
e os demais de justiça, começaram eles a pleitear, e solicitaram
em vão alguns anos, a elevação do povoado a vila, conforme
fora concedido ao fundador, Garcia Rodrigues Paes, nos primei-
ros anos do Caminho. Mas somente conseguiram seu objetivo
em 1833, pelo decreto de 15 de janeiro, que além de criar os
primeiros municípios reorganizou toda a província.
Desse decreto interessa especialmente o artigo 5.°. É do
seguinte teor, acompanhado da abertura e do fecho 4 *:
< B . Interessa também o G/, que de passagem e oficialmente acrescenta
ao sesquicentenário nome de Paraíba o do Sul, para distinguir da capital
da Paraíba do Norte a vila criada no artigo anterior. Eis o 6.°: "A vila
de Cantagalo conserva os seus atuais limites, desanexando-se todavia do
seu termo a freguesia de São José do Hio Preto, que pertencerá à vila da
Paraíba do Sul, na forma do artigo precedente."
O decreto não tem número e contém onzs artigos, organizando toda
a província em seus primeiros municípios, que são citados um-por-um com
C A P í T i U O S 1)1: HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 41
•10

"A Regência, em nónio cio Imperador, o Senhor Dom Pe- A primeira Câmara tinha sete vereadores, como fixava a
lei, que eram os seguintes: Hilário Joaquim de Andrade, fu-
dro II, tendo em vista o disposto no artigo 3." do Código do
turo barão do Piabanha e senhor da fazenda de Paraibuna, que
Processo Criminal, decreta: por ter sido o mais votado foi o presidente; António Barroso
Artigo 5." — A povoação da Paraíba fica ereta em Vila, com-
Pereira, depois barão de Entre-Rios, dono da fazenda de Can-
preendendo no seu termo as freguesias da Paraíba e de São
tagalo; João Gomes Ribeiro de Aveiar, mais tarde barão e vis-
José do Rio Preto, e os curatos de Sebolas e Matozinhos. Ni-
conde da Paraíba, senhor da fazenda da Boavista; José Inocêncio
oolau Pereira de Campos Vergueiro, Ministro e Secretário d'Es-
'dê Andrade Vasconcelos, o conhecido coronel José Inocêncio,
tado dos Negócios do Império, assim o tenha entendido e faça
da fazenda cia Várzea; Joaquim José dos Santos Silva, futuro
executar, com os despachos necessários. sogro do conselheiro Martinho Campos, o qual herdou a sua
Palácio do Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de 1833, dé-
fazenda de Matozinhos e chegou a ministro do Império; João
cimo segundo da Independência e do Império. José da Silva Leitão, senhor da fazenda da Laje; e José Cândido
(assinados) Francisco de Lima e Silva, José da Costa Car-
Fragoso, que possuía as fazendas Arca-de-Noé e Benfica, ambas
valho, João Bráulio Muniz." hoje no território de Petrópolis.
Criada a vila, era para instalar-se a Câmara Municipal dias
"Às onze horas do dia, achando-se presente o presidente
após, o que não aconteceu por ter falecido a princesa imperial
da Câmara Municipal da Vila de Vassouras, Lauriano Corrêa
Paula Mariana Joana Carlota, a 16 de janeiro, tendo sido sus-
e Castro, e o secretário da mesma Câmara, Salustiano António
pensos os festejos. Assim, só a 15 de abril do mesmo ano
;Rodrigues, para o efeito de dar posse aos vereadores da Câ-
foi instalada a nossa Câmara Municipal. "rnara da Vila da Paraíba . .." Deixaram de comparecer, com
Veio dar posse aos nossos vereadores o já empossado
;',;.bàusa, João José da Silva Leitão'17 e José Cândido Fragoso 18 . Os
presidente da câmara da vila de Vassouras 4 ", Lauriano Corrêa ;
-""'—eadores presentes, depois das formalidades de estilo, foram
e Castro, depois barão de Campo-Belo, em 15 de abril.
f.ens lermos e freguesias, agrupando-os ainda nas seis comarcas criadas
por outro decreto da mesma data. Em seu nascedouro, os municípios foram
E de cada vez prestando o juramento de bem servir à causa
^outubro de 1828, mas efetivamente posta em execução depois da abdicação
ainda submetidos à organização judiciária sediada nas antigas vilas cabe- |Jè Pedro l, que via nas câmaras eletivas — as provinciais criadas pelo
ca-de-termo, por sua vez oriunda do Código Criminal de 1830 regulamentado ftto de 1834 — entrave à sua política absolutista. E seriam mesmo.
no do Processo de 1832. Por esse decreto, além de Paraíba, foram criadas O decreto de 13-11-1832 prescrevia o comparecimento do presidente
vilas em Vassouras, Itaboraí e Iguaçu e extintas as de Pati do Alferes e . c é m a r a em cujo termo se criasse a vila para dar posse aos vereadores,
:
jw|p que causou delongas (caso de Barra Mansa, vila em outubro de 1832 mas
Vila Nova de São José de EI-Rei. ' inst3'8^3 muito mais tarde). Foi assim modificado pelo decreto de
Interessante é também registrar o acréscimo do s na denominação do
velho curato do Bom Jesus de Mfiiozinho. E a figura do executante do M 1-1833, "tendo a experiência mostrado que nem sempre pode ter pronto
que decreta a Regência Trina, o depois famoso senador Vergueiro dos j|||e exato cumprimento o artigo 3." do d e c r e t o . . . etc." Então, o vereador
paulistas, já aí se distinguindo na pasta do Império, que até o Ato Adicional chiais votado e presidente da nova câmara (caso de Lauriano em Vassouras
cie 12 de agosto de 1834 administrou a província do Rio de Janeiro, como h) do sobrinho e cunhado Hilário em Paraíba) comparecia à sede da câmara
sede que também era do governo central. O grande Vergueiro e seu su- |!do antigo termo, prestava juramento e o deferia aos demais vereadores
cessor na pasta, o não menos grande, fluminense e depois visconde de lifistalando-se mais praticamente a vila.
Sepetiba, Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho, são os campeões da f;|«i;4 • A meu ver, exagera o autor o luto pela princesa ao lhe atribuir a de-
organização municipal no Brasil, realizada a partir de 1827 e intensificada |rgfitfOra de três meses na instalação de nossa câmara. Nesse meio-tempo.
de 1831 a 1834. tendo-lhe servido a província de cobaia na grande obra. |Ejlá'Uma decisão de Honório Hermeto Carneiro Leão como ministro da Jus-
Muito curiosas, e algumas até engraçadas, foram suas Decisões de íHfíjçà, a 15-02-1833, que talvez elucide isso; é quando responde à consulta da
instrução aos primeiros e inexperientes administradores municipais, para BBfndva câmara eleita em Vassouras — leia-se Lauriano Corrêa e Castro -
>!
só acomodarem à nova ordem. Duas delas, endereçadas às câmaras de **íquanto às responsabilidades a assumir pela câmara da antiga vila de Pati
Cabo Trio e Campos, são espelho da ruptura violenta havida no Pais dÒ"Alferes, cuja última sessão registrada foi a 21 de abril de 1824 e teve
corn a abdicação de Pedro l. Como sintomáticas daquela época de perple- Rrtí só propósito: apoiar'o f/o/pe de dissolução da Assembleia por Pedro l.
xidade, merecem transcrição em apêndice a estudo neste mesmo volume. PlliG no dia 25 do mês anterior outorgara uma Constituição, para ele, "ainda
•'". O paraibano Lauriano Corrêa e Castro, que escrevia o nome com / •Riflais liberal" que a então em preparo pela Constituinte dissolvida. Carneiro
como o tio e o sobrinho, veio dar posse aos vereadores de sua terra para ^gLeãò decidiu que o de Vassouras fosse termo sucessor de Pati, resolvendo-so
cumprir o recente decreto que prescrevia "a maneira de se fazer efetiva Wò impasse da instalação da câmara em Paraíba pelo recente decreto de 13
a criação de uma vila" e se insere na série de medidas tomadas na época MJéi novembro de 1832.
pela Regência em preparo da organização municipal, teoricamente na legis- i p ' ^ Da extinção efetiva da vila de Pati, antes da legal em 1833, trata de
lação desde a Constituição de 1824, regulamentada desde a Lei de 1." de |||||:>assagem ainda o estudo Equívocos, oportuno incluir neste volume.
42 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 43

pública, com a mão direita sobre um livro dos Santos Evange- previsões, era injustiça manifesta procurar longe de si mesmo
lhos. Empossados, assumiu a presidência Hilário Joaquim de o Tribunal de sua representação. Se a Câmara é o órgão que
Andrade. comunica a vontade, e os sentimentos do Povo, cada um de
Em seguida, o presidente da Câmara de Vassouras fez a nós já o possui no seu País Natal. Este passo vantajoso para
seguinte fala'": "Caiu por terra esse sistema maquiavélico o Brasil faz respeitar a mão benfazeja que o deu. Graças imor-
adotado pelo despotismo, em que o Povo numeroso se via obri- tais sejam dadas à Assembleia que assim promove nossa feli-
gado a mendigar a Povos vizinhos a Justiça que procurava. Se cidade. A Europa já olha com respeito para nossa Legislação;
cada homem tem em si mesmo o órgão para expressar suas vereis se este benefício é grande, se é digno da inveja das
17
Eleito juiz-de-paz do curato de Sebotas, esse vereador optou pelo cargo,
Nações Estrangeiras, mas se torna tanto maior quanto os mem-
então muito importante. Sua fazenda da Laje tinha sede no Caminho a 2 km bros que compõem esta Câmara, ornados de qualidades brilhan-
para cá de Sebolas. tes, animados de patriotismo, calcarão denodadamente todos
É no juizado-de-paz, criado pela lei de 15 de outubro de 1827 como os tropeços, que ofendam a liberdade. Princípios tão felizes
preparo ao advento dos municípios — lei de 1." de outubro de 1828 —, anunciam resultado mais respeitável. Eu vos dou os parabéns,
que se apoia de início a organização municipal no Brasil, concluída pelo Ato
Adicional à Constituição de 1824 votado a 12 de agosto de 1834. oh Paraibanos, eu me congratulo convosco pela sábia eleição
O juiz-de-paz foi de início relzinho no seu distrito, cortando-lhe depois que fizestes, a qual certamente mostrará suas vantagens em
os próprios legisladores as asas nas emendas legislativas de 1839/40. Mas tempo oportuno. Resta, pois, que unamos nossos sentimentos
foi quem transformou o que era antes apenas designativo de espaço geo- patriotas, e que de mãos dadas trabalhemos na Causa da Liber-
gráfico, território, como o tal distrito da Paraíba Nova (a serra no oeste ;. dade legal, na felicidade dos Povos, e livres do despotismo que
da província), na circunscrição político-administrativa da infra-estrutura mu-
nicipal. O distrito da Paraíba Nova, que estabeleceu confusão com a nossa ameaça nossa religião. Clamemos cheios de um prazer patrió-
Paraíba entre os que pouco ou nada estudam, parece criação do geógrafo tico: Viva a Religião! Viva a Constituição! Viva o sr. Dom
Aires de Casal (op. cif. na bibliografia). l Pedro II! Viva a Regência! Viva a Câmara de Paraíba!"
O Código do Processo Criminal (decreto de 29 de novembro de 1832) de- fítiS
terminou para cada distrito um juiz-de-paz, com função sui-generis, um es- |np sentido lato de crença, doutrina, fé, devoção, acatamento, respeito etc.;
crivão e os oficiais de justiça necessários. E tantos inspetores quantos í-O* sobrinho abordaria o futuro (ver nota a seguir), em que só de município
fossem os quarteirões, que teriam no mínimo 75 casas habitadas. |'fala três vezes.
Com esse código e os juízes-de-paz, distrito no Brasil passa à categoria ;W Lauriano Corrêa e Castro, em 1854 barão de Campo Belo, nasceu em
de circunscrição jurídico-administrativa e, com a criação dos municípios logo í:'Paraíba — parece, no próprio arraial — em 25-02-1790 e se balizou na matriz
a seguir, a designar a sua subdivisão na política de administração local, íiido morro a 30 de março seguinte. Seu pai, Pedro Corrêa e Castro, filho
abandonando-se ao mesmo tempo a arcaica em freguesias e curatos da í; de Domingos Corrêa Rabelo, nasceu em Mariana em 1746 e a 28 de outubro
administração eclesiástica. Essa, no entanto, quer na baixada como em l-de 1774 casou-se em Paraíba com Mariana das Neves Corrêa, também
serra-acima, precedeu a jurídica. E é por isso que o pai da história flumi- ;'mineira. Citados no capítulo anterior, além do capitão Cristóvão Rodrigues
nense é o admirável Monsenhor Pizarro, nas Memórias citadas, elas e ele |;de Andrade, vimos como dos "moradores de mais evidência da vila" o padre
também "de nunca assaz louvado mérito". Porque levantou minuciosamen- S-iauriano Corrêa Rabelo e Castro, xará e provavelmente tio de Lauriano.
te a origem de cada freguesia. |%'0 tenente João Pacheco Lourenço e Castro, por certo também parente.
•' s . Esse vereador foi o quínta-coluna na nossa primeira câmara. Um es- K-*;,- O futuro barão se casou com uma sobrinha também de Paraíba, Eufrásia
tudo na coleção Centenário de PRtrópo/is, já citada, o dá como falecido antes 'fjoaquina de Pontes, filha do capitão Cristóvão e de sua esposa, Ana Es-
de tomar assento ali, o que para nossa vila foi pena não ter acontecido. í méria de Pontes França, e batizada no morro a 14-08-1790. Faleceu na fa-
Fez o que pôde para instalar a vila em São José do Rio Preto, faltava sis- •íenda do Secretário (de Vassouras) a 13-03-1873. Era irmã de Hilário, mais
tematicamente às sessões, para prejudicar o quorum nas primeiras delibe- yfnoço seis anos, que assim vinha a ser sobrinho e cunhado do colega de
rações, e na questão da nova matriz da vila, de construção já bem precária, í!fala na sessão de instalação de nossa Câmara.
votou para que fosse de taipa. f? A fazenda do Secretário, propriedade do paraibano e sobrado com 14
A primeira consulta de nossa câmara ao ministro do Império, a wjanelas na fachada, é citada obrigatoriamente sempre que se referem as
!?
25-02-1834, com decisão a 3 de março seguinte, nasceu dessa oposição ítíialores e mais belas dos barões do café. Lauriano ali faleceu a 08-01-1861.
sistemática: "as deliberações e representações . .. devem ser assinadas |&éu nome está perpetuado*na grande praça central de Vassouras.
por todos os vereadores presentes, ainda mesmo que algum deles tenha Quanto ao nome da fazenda, saído naturalmente do ribeirão que a banha
sido de opinião contrária, declarando-se na ata, como cumpre, os nomes ôga-se no Paraíba pouco a montante de Andrade Pinto, antiga Ubá), talvez
dos que votaram pró e contra." Fragoso era sempre da segunda o p ç ã o . . . |nha também do secretario do governador do Rio de Janeiro que deu
• <!1 . Lauriano e Hilário parece até que combinaram o tom do discurso de Orne à fazenda no afluente do Fagurjdes e, em 1728, também especulava
cada um; o tio falaria do passado: "sistema maquiavélico" — "despotis- ilfrterras à margem do Caminho Novo, na atual divisa Paraíba—Vassouras
mo" — "injustiça manifesta" — calcar "os tropeços que ofendam a liber- jferií nome do governador Aires de Saldanha (cf. Fazenda do Governo].
dade" — "livres do despotismo que ameaça nossa religião", esta aí tomada
•M PFDRO GOMES DA S I L V A

Falou a seguir o presidente Hilário Joaquim de Andrade,


que disse o seguinte" 1 ":
"Senhores. Realizaram-se enfim os votos dos beneméri-
tos cidadãos deste nosso município, a quem, sendo muito in-
cómodas as viagens que eram obrigados a fazer para alcançar
os recursos de que careciam, há muito anelavam pela criação
de uma vila neste ponto. Graças sejam rendidas ao nosso go-
verno, que apenas se viu autorizado atendeu a nossas súplicas,
e ardentes desejos. Quando nossos concidadãos nos votavam
a sUa administração e quiseram que dependessem de nossos
desvelos seus assuntos, e prosperidade, cumprimos pois agrade-
cidos concorrer de nossa parte a fim de que suas esperanças se
não malogrem; menos apto ainda para sentar entre vós, eu sou
chamado pela Lei ao topo desta casa, à Presidência de tão res-
peitável Corporação, para que tanto fenecem meus recursos, e
são mesquinhos meus talentos, quanto sou sincero em reco-
nhecer que esta cadeira seria mui bem provida quando ocupada
por qualquer dos meus prezados colegas. Todavia, senhores,
se em tudo o mais eu reconheço vosso mérito, e superioridade,
no acrisolado desejo de servir à Pátria que me viu nascer, no
amor das suas instituições eu vos concedo a preferência, por-
que então me ufano de vos ser igual. Mas em verdade eu
• Vl . A fala de Hilário é cheia de projetos de administrador, que sabe a tarefa
difícil que o espera. Mas reflete também estar bem ciente de que as novas
vilas não seriam apenas sedes de administração de justiça, onde "em in-
cómodas viagens" — quanto mais distantes fossem — iam "buscar os re-
cursos de que careciam". Parece, o homem de que todas as notícias que
chegaram até nós apresentam como muito inteligente e empreendedor,
estava bem R nar da transformação política e administrativa que se empre-
endia na Regência. E não esquece o compromisso de opor "invencível
barreira a essa facção desorganizadora que por desgraça nossa tem levan-
tado o ca/o extremo Refere-se ao chamado na época partido português,
amigos e associados de Pedro l que em torno de José Bonifácio tramavam
sua volta A morte do ex-imperador no ano seguinte, 1834, trouxe desa-
lento à facção desorqanizadora e desafogo aos que arqultetavam novos
rurnos para o País.
Hilário Joaquim de Andrade, barão (do Piabanha) também em 1854 como
o lio e cunhado no aniversário do Imperador (2 de dezembro), nasceu em
Paraíba em 1796 e faleceu na fazenda de Serraria em abril de 1865. Era
filho do capitão Cristóvão Rodrigues de Andrade. Pela mãe, Ana Esmeria
do Pontes França, parece descender de João Pontes França, já sesmeiro
com rumo (confrontação] na sesmaria obtida em 1817 pelo futuro barão
de Entie-Rios em Cantagalo. Esse Pontes França emigrou de Pati do Al-
feres, parece, pelos fins do século XVIII, e sua sesmaria possivelmente
confina com ^ de Barroso Pereira nas cabeceiras do córrego Cantagalo,
onde o filho deste abriu a bela fazenda de São Lourenço (cf. capítulo Os
Barroso Pereira}. Nas terras de Pontes França, vertente do Paraibuna, o
genro Cristóvão e o neto Hilário abriram uma rede de fazendas até a grande
curva desse rio. entrando ainda pela província de Minas (município de Mar
de Espanha). Andrades e Pontes Franca são pioneiros do nosso.
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 47

pasmo quando encaro a pesada tarefa que sobre nós pesa. A


Educação primária deve ser promovida, sem o que não podem
medrar os princípios constitucionais; as estradas, cumpre que
sejam melhoradas, para que possa avantajar-se o comércio de
nosso município, que é todo agrícola; a passagem do majes-
toso Paraíba deve ser facilitada, para se aumentarem as nossas
relações com as províncias do interior; a nossa vila apenas
nascente carece dos mais essenciais edifícios. Enfim, senho-
res, tudo temos a fazer, e com bem poucos meios; não desmaie-
mos, porém, senhores. Grandíssimas empresas se tem, e tudo
A VILA EM 1858 com pequeníssimos recursos; e com constância e boa vontade
se vencem os maiores obstáculos.
Na vista tirada do Jatobá vê-se por trás da rampa da ponte Eia! Comecemos a nossa tarefa, que a cooperação do go-
o grande armazém de café em construção e adquirido dois verno e dos nossos concidadãos coroará os nossos esforços,
anos depois pela Câmara, que levantou o sobrado e para ele e em recompensa teremos a satisfação de termos cumprido
se mudou em 1870. Acima e no morro do Grupo está o segundo os nossos deveres, e merecermos a gratidão dos habitantes
cemitério, de 1847, cercado de grades de ferro sobre baldrames
de alvenaria. No mesmo ângulo do pegão da ponte a segunda deste município.
matriz e, no morro, indicio da ruína da primeira, abandonada Desnecessário é recomendar-vos, meus dignos colegas,
em 1834. Dando impressão de no mesmo morro, adiante está que a união e a boa-fé presidam sempre às nossas deliberações,
o Rosário ainda sem a torre, concluída em 1860, e sobressaindo e que somente a Lei seja a guia de nossas ações, diante da
do casario um sobrado na atual rua Quinze n.° 61, mantido só
nos fundos até os anos 1950, e a lateral do ainda de pé na
qual somente nos devemos curvar; esqueçamos de nossas ações
rirnclcntes n." 91, o da esquerda do conjunto de três. particulares, quando se tratar dos interesses do nosso caro
Os coqueiros deram o primeiro nome à rua entre a ponte Brasil e, firmes no juramento que havemos prestado, cuidemos
c o rossio da vila, alagado pelo rio alto mas não em cheia, onde no bem-ser do nosso município, esforçando-nos para que, uni-
já não existe o casarão de madeira sobre esteios do Registo dos em um feixe todos os brasileiros amigos da Ordem, se
e Quartel, 25 anos antes também escola e cadeia quando se
instalou a vila e dormiu Pedro l nas viagens de 1822 e 1824.
oponham invencíveis barreiras a essa facção desorganizadora
Com a liberdade de artista e para não prejudicar o destaque que por desgraça nossa tem levantado o calo extremo, preten-
da ponte recém-inaugurada, a grande "vedette" na foto de dendo fazer-nos retrogradar, e empecer que este país caminhe
Victor Frond sobre que trabalhou, o litografo Jaime eliminou a o afortunado porvir que o Onipotente nos destina. Invoquemos,
ilha destruída logo abaixo da ponte nos anos 1870, e só deixou meus senhores, a proteção do Supremo Árbitro de todas as coi-
a ponta da levada pela enchente de 1906. E ainda caprichou no
rendilhado de ferro das peças, que se amarram em "coroa" ao sas, e encetemos nossos trabalhos."
centro de cada vão e sustém o passadiço, originalmente pran- A primeira ordem do dia da assembleia foi a nomeação dos
chões de madeira. No do meio gravou a silhueta de um casal empregados e posse.
seguido de um cão, a senhora à frente, de anquinhas, bem à Terminada a cerimónia os representantes do povo foram,
moda do tempo. Sobre o pegão, na Grama, a casa da Barreira. incorporados, dar uma volta pela paupérrima vila, que era com-
posta apenas do Lavapés, rua Formosa e rua Direita51, dis-
cutindo e apontando as necessidades de melhoramento.
No dia 16 de abril, às 11 horas, sob a presidência de Hilário
Joaquim de Andrade, reuniu-se pela segunda vez a câmara de
Paraíba. Deixaram de comparecer, com causa, os vereadores
José Cândido Fragoso, por estar doente, conforme ofício lido
"acompanhado de um atestado do Professor de Saúde", que di-
zia não poder comparecer para tomar posse, e João José da
"'. Era a saída do Cominho Novo para Minas, bem junto à falda do morro,
como são essas ruas, para as mulas pesadas de carga não se atolarem
na beirada do córrego (Limoeiro). '
PEDRO COMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 49

Silva Leitão, que endereçou à Câmara um requerimento "no cava a Estrada Real, aprisionando bandidos do célebre grupo de
qual se excusa de tomar posse do dito emprego, para ser jiiiz- Cândido António Guimarães, que ameaçava com assaltos todos
•de-paz suplente do curato de Sebolas". quantos passavam pela nossa região.
Nessa sessão foram lidas diversas portarias da Secretaria Sabe-se que Cândido Fragoso olhava com simpatia a eleva-
de Estado dos Negócios do Império' 2 , em que se determinavam ção de São José do Rio Preto a vila, mas não se apurou com
inúmeras medidas e davam conhecimento de decretos e procla- certeza se chegou a trabalhar contra os interesses paraibanos.
mações. Uma das portarias estava "acompanhada de uma re- Uma comissão da qual fizeram parte os vereadores João
presentação assinada pelos moradores do arraial do Sumidouro Gomes Ribeiro de Avelar, António Barroso Pereira e José Ino-
e distrito da Aparecida, na qual pedem que se mude esta vila cêncio de Andrade Vasconcelos foi à Corte levar a solidariedade
para a freguesia de São José do Rio Preto, ou tornarem a per- sulparaibana à Câmara dos Deputados, assegurando "não pac-
tencer ao distrito da vila de Cantagalo, mandando que a Câ- tuar com partido algum que não seja o defensor do governo
mara informe circunstanciadamente 1 ""' 1 ". legalmente estabelecido", e felicitar e agradecer à Regência a
Foram nomeadas e tomaram posse dos cargos as seguintes criação do município. Aproveitaram a visita para desfazerem o
pessoas: António Rodrigues de Andrade, juiz-de-paz da fre- abaixo-assinado contra a criação da vila em Paraíba, e o regente
guesia da Paraíba; Joaquim Paulo Pinto Ribeiro, escrivão do juiz; Francisco de Lima e Silva, que era casado com uma sulparai-
Clarimundo Mariano da Silva, secretário da Câmara; e Bento bana, assegurou-lhes que estava definitivamente estabelecida a
José Moreira, porteiro. , organização municipal aqui.
A grande oposição dos moradores dos arraiais do Sumi- Nossa primeira câmara lutou com grandes dificuldades para
douro e Aparecida, que organizaram abaixo-assinado em que organizar o município, empresa formidável para seus recursos
pediam a mudança da vila para São José do Rio Preto, alegando na época. Em 1833, o casario da vila não tinha alinhamento,
que lá havia "mais povo e mais vida", deu enorme trabalho pertencendo suas casas a fazendeiros das redondezas e comer-
aos nossos primeiros representantes municipais. Os morado- ciantes que viviam da troca de mercadorias com os viajantes
res de São José do Rio Preto tinham como simpatizante da que atravessavam o Paraíba, e que tinham suas casas em arren-
causa o vereador José Cândido Fragoso, o qual gozava de gran- damento com o marquês de São João Marcos.
de prestígio junto ao governo, exercia o cargo de juiz-de-paz A vila era situada em terreno pantanoso, sem escoamento
em São José do Rio Preto e combatera o banditismo que amea- de águas, o que ocasionava de quando em quando surtos epi-
•"'-. Como já vimos, a que dirigia os municípios até a criação da Assem- dêmicos de febres. Para diminuir os efeitos desses surtos,
bleia Provincial pelo Ato Adicional. Substituíra também logo de início, no a Câmara Municipal nomeou uma Junta de Saúde para trata-
controle das antigas vilas coloniais, os velhos e retrógrados Tribunais das mento dos impaludados, evitando que o mal se alastrasse, o
Mesas do Desembargo do Paço e Consciência e Ordens, extintos pela lei que veio melhorar as condições de vida e trazer grande número
de 22 de setembro de 1828, oito dias antes da Lei dos Municípios, justa- de habitantes para a zona.
mente para não mais criarem "tropeços que ofendam a liberdade" e se
abrir espaço à nova ordem administrativa que, a contragosto do imperador, Nesse primeiro período de nossa história política muito
a Assembleia Geral vinho votando para constitucionalizar o País e moder- trabalhou como presidente Hilário, na organização das leis
nizar ;i administração, municipais e o saneamento da vila; João Gomes Ribeiro de
•"••"•. Hilário nem sabia desse distrito (território) e curato da Aparecida, e Avelar, cuidando dos transportes e da escolha das primeiras
na sessão da Câmara em que se apreciou o pedido dos moradores deliberou
apurar onda era. Era, e é, ern linha reta a 54 km de Paraíba, e esse Sumi-
autoridades judiciárias; e António Barroso Pereira, estudando e
douro da petição, hoje a cidade e município desse nome, a 64. (Pelas cuidando da situação dos arrendatários das terras do marquês
estradas do tempo, no triplo ou quádruplo de distância.) É que havia então de São João Marcos5'1. Procuravam assim transformar o pe-
entre Paraíba e Cantagalo, o povcado mais próximo a leste, o branco na ;queno povoado numa comunidade organizada.
carta da capitania em que o sargento-mor Manuel Vieira Leão em 1801
escreveu: Sertão ocupado porvariss naçoens dos Índios bravos. Os . A tese defendida pelo vereador na sessão legislativa de 1836 quanto
criadores dos municípios em janeiro de 1833, estenderam por esse sertão cobrança de foros na área da vila pelo arrendatário da fazenda da Pa-
o nosso, que nasceu vastíssimo para leste e sul, já que relativamente perto 'áíba, em nome do marquês de São João Marcos, é a de que, sendo a
estavam a oeste as vilas e municípios de Vassouras e Valença, ambos 'avessia do rio utilidade pública, onde se cobravam "direitos reais de
nascidos no "Sertão da Paraíba . Mas sem dúvida também esteve ali o 'àssagem" com apoio tanto nas Ordenações Afonsinas quanto Filipinas,
dedo amigo do vereador Fragoso, na ideia de levar a vila para o rio Preto. :ambém de uso público forçosamente haveria de ser a terra ribeirinha.
se estribava numa das condições que a Real Ordem de 15 de junho de
50 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 51

Tudo se encontrava então em completo abandono e, em Em 1835 a vila compunha-se dos seguintes logradouros;
1834, achando-se em ruínas o templozinho que o mestre-de- largo do Lavapés, que era o bairro das famílias mais abastadas;
-campo Pedro Dias Paes Leme construíra no morro, foram trans- rua Buarque de Macedo, antiga Formosa e hoje Floriano Peixoto;
" feridos o Santíssimo Sacramento e as imagens dos padroeiros rua Direita, agora Tiradentes; e rua dos Mineiros, hoje Visconde
para um oratório da antiga casa de residência de Garcia Ro- do Rio Novo, na qual estava situada a maioria dos estabeleci-
drigues-"'' 1 (hoje fundos da casa n.° 39 da praça Marquês), e aí mentos comerciais, como lojas e hospedarias.
se celebraram os atos religiosos até 1848, quando se inaugurou Era o marquês de São João Marcos proprietário de toda
a capela que serviu de matriz na praca r>li , sendo conservado o a área que compunha a vila da Paraíba, recebendo foros pelo
cemitério no adro da velha matriz do morro, então chamado da seu arrendamento. Morando em sua fazenda no município de
Casa-Grande (de Garcia). Vassouras, deixara como encarregado de seus negócios um tal
Pela brilhante atuação rapidamente se distinguiram na co- Inácio, que por sua vez passava-os adiante, causando problema
munidade nascente Hilário Joaquim de Andrade e João Gomes aos foreiros. Surgiu assim a questão do foro, que foi entregue
Ribeiro de Avelar, os quais foram escolhidos deputados provin- ao vereador António Barroso Pereira.
ciais na primeira legislatura fluminense, em 1835. Na Paraíba Na sessão de 27 de janeiro de 1836 Barroso Pereira, depois
do Sul foram chefes políticos cerca de meio século, chefiando de uma apreciação histórica de como Garcia Rodrigues Paes
Hilário o Partido Conservador, e Avelar o Liberal. recebera as terras em que se assentava a vila, e das vantagens
e encargos que assumira e não havia cumprido -— mandar medir,
1711 estabelecera para a concessão de sesmarias no Brasil: "que des- demarcar as terras e confirmá-las em Lisboa —, provou a pres-
cobrindo-se naquela data — ou seja, na sesmaria concedida — rio cauda-
loso, que necessitava (s/c) de barca para se atravessar, que ficaria reser- crição de todas as graças e vantagens obtidas por ele e trans-
vado de uma das margens dele meia légua de terra em quadra para a mitidas aos herdeiros. Terminou assim nosso bravo vereador:
comodidade pública". "É como vemos neste lugar e no século XIX, arvorando-se uns
Argumentava ainda o futuro barão de Entre-Rios estar prescrito o direito monopolistas ambiciosos, com o título de fazendeiros, ou de
dos Paes Leme sobre a sesmaria, por nunca a terem demarcado, o que era arrendatários do Marquês, extorquindo o suor de miseráveis
também exigência para a concessão. Suplicou então pela Câmara à As-
sembleia Provincial a imediata cessão de meia-légua em quadra sobre o famílias agrícolas, forçando-as a onerosos arrendamentos e a
rio para património da vila. penhora executiva por foros ou arrendamentos que nunca fize-
O interesse do marquês na Câmara era defendido pelo vereador Silva, ram. A humanidade geme o suor do pobre, que cultiva a terra
arrendatário da fazenda da Paraíba e proprietário de Matozinhos (ver capí- com suas próprias mãos para criar os seus tenros filhos, e
1'ilo sobre essa fazenda), que não compareceu à sessão em que Barroso isso é extorquido indevidamente para saciar a cobiça de ambi-
ataca os monopolistas da terra, como se lerá na peroração de sua fala
nesse dia (27 de janeiro de 1836) transcrita pelo autor adiante. ciosos parasitas que desfrutam, e na paz do céu, o suor e san-
O vereador Silva foi assassinado a caminho da Câmara em julho de gue de tantos miseráveis, talvez por mais de um século. E,
1839, perto da Encruzilhada (cf. nota 186). meus senhores, seremos surdos aos gemidos da humanidade?
Em 1835 no que restava da casa-grande da fazenda de Garcia, no Acaso não juramos, neste recinto, sustentar a felicidade públi-
morro, estavam instaladas a Câmara, a coletoria, o oratório-matriz da fre-
guesia e morava o administrador das passagens do Paraíba e Paraibuna.
ca? Como não trataremos com ardor de promover os interes-
Albino Caetano da Silva, empossado pela Câmara em 17-09-1833. Creio ses desta Câmara, que se acha exaurida de rendas, e o bem-es-
ser o primeiro a substituir os antigos arrematantes do serviço das barcas tar dos nossos compatriotas, e a prosperidade desta vila? Se-
nos dois rios, que foi extinto com os Registos pela lei que criou as barreiras nhores, tem chegado o arrojo desses ambiciosos, que se dizem
no ano anterior. No antigo Registo e Quartel, na barranca do rio, se insta- arrendatários do marquês, a ponto de terem pretendido extor-
lara a escola de primeiras letras; e a cadeia. Nos baixos do grande edifício,
entre os esteios que o sustentavam, se matavajO gado para a carne verde. quir foros dos habitantes desta mesma vila, achando-se ela si-
E o que restava da função corria para a vala observada por trás do Registo tuada à margem de rio .caudaloso, que tem barcas, e havendo
pelo brigadeiro Cunha Matos em 1823, o resto de canal abandonado que o sido este terreno concedido com a natureza de sesmaria."
povo apelidou lagoa do Lava-Tripa. No decurso do ano de 1838 estava o comércio da vila em
••''•. Ficava de fundos para o resto de canal transformado em lagoa, érea franco desenvolvimento e a população crescia. Os governantes
do correi de construções até o Fórum, e de frente para a praça Marquês,
então o rossio da vila. Tinha pequena torre centrai, que aparece sobres- municipais pediam melhoramentos diversos ao governo provin-
saindo do casario na foto de Victor Frond (1858). Funcionou corno matriz cial. Nessa época, diariamente faziam pouso em Paraíba mais
até a inauguração da definitiva, em 9 de abril de 1882. sFoi então demolida, de 330 bestas carregadas.
aproveitando-s-5 algum material seu na capela do novo cemitério. Do relatório do visconde do Uruguai como presidente da
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 53
52

província, em 1839, consta o seguinte sobre o caminho aberto Serviu de matriz por muitos anos. Antes da cerimónia, houve
por Garcia: Te Deum na casa que serviu de residência a Garcia, que fun-
,• "É, na segunda seção desta província, a estrada que do cionava provisoriamente como matriz, no quarto que fora ora-
'• porto da Estrela se dirige a Minas Gerais aquela a que a Dire- tório da fazenda.
toria das Obras Públicas dá a preferência, e julga mais impor- Nas cerimónias de instalação da Câmara em novo prédio
tante. Esse parecer não sofre contestação alguma, se obser- e colocação da pedra fundamental da capela discursaram os
varmos que por ela passaram durante o ano findo, segundo vereadores Vasconcelos e Sousa, João Gomes Ribeiro de Avelar
informa o chefe da mesma seção, 120938 animais de carga; e Hilário Joaquim de Andrade, este o tesoureiro das obras.
portanto, mais 10000 do que no ano antecedente." Compareceram a essas cerimónias o juiz de paz, o pároco,
Em 1840 o governo provincial, por deliberação de 29 de o juiz municipal, o de órfãos, o promotor público e os oficiais
outubro e atendendo ao que representou a Câmara, resolveu da Guarda Nacional do município, que formaram diante do pré-
criar um Colégio Eleitoral na Vila, ficando "cabeça de distrito dio. Esteve também presente, e fardado, o major Júlio Frede-
para as eleições de senadores e deputados à Assembleia Geral rico Koeler, vereador suplente da Câmara na legislatura de
Legislativa e da Província". 1841 a 1844 e que chegou a tomar assento em sessões. O
Nesse ano, tinha o município de Paraíba do Sul 15 700 habi- major Koeler foi quem fez a planta definitiva da vila511.
tantes, assim distribuídos: freguesia de São Pedro e São Pau- Às sete horas da noite outra girândola de foguetes anun-
lo, 5 8 5 1 ; freguesia de São José do Rio Preto, 4141; freguesia ciou o início da iluminação da vila, que a Câmara mandara fazer,
de Sebolas, 2 024; curato de Aparecida, 2 020; curato de Mato- pedindo-se a todos os moradores que também iluminassem a
fachada de suas casas. As oito teve início o baile de gala no
zinhos, 1 664.
Por lei de 21 de agosto do mesmo ano criou o governo pro- edifício da Câmara, o qual foi aberto pelo presidente João Go-
vincial duas escolas de primeiras letras na vila, sendo a remu- mes Ribeiro de Avelar ao descerrar ao som do hino da Coroação
neração de cada professor de 520SOOO anuais. a cortina que vedava o retrato do jovem imperador, que com-
Na sessão da Câmara de 18 de novembro de 1841, "tendo pletava 16 anos.
a Câmara resolvido festejar a expensas dos seus membros com Em 1842 teve afinal solução o problema do património da
brilhantismo o dia 2 de dezembro, aniversário natalício de S. M. vila, que se arrastava desde sua criação, nove anos antes. Tra-
o Imperador", o vereador João Rebelo de Vasconcelos e Sousa tava da questão o vereador Vasconcelos e Sousa, pleiteando
propôs o programa seguinte: "que uma girândola de foguetes junto ao chefe da família Paes Leme, proprietária da fazenda da
anunciasse aos habitantes desta vila que raiou a aurora desse Paraíba, a pura e simples doação do terreno.
grande dia tão caro aos Brasileiros 57 ." Formou-se na Câmara, composta pelos vereadores Clari-
O programa foi aceito e comemorado o 2 de dezembro com mundo Mariano da Silva, Rebelo, e Hilário Joaquim de Andrade,
toda a pompa. A vila foi despertada com uma salva de foguetes a comissão que foi tratar da questão com o marquês, sabendo
e uma banda de música percorreu as poucas ruas. À uma hora então que eram vinte e quatro os proprietários da fazenda, tan-
da tarde reuniu-se a Câmara em sessão extraordinária na sua tos eram os herdeiros do património de seu pai, Fernando Paes
nova casa™, onde foi inaugurado o retraio do imperador, dan- Leme da Câmara. O marquês, assim, seria o representante He
do-se no ato os Vivas Nacionais e tocando a banda o hino da nn
. O novo alinhamento da vila foi feito por Koeler ern 1844, aproveitando
Independência. Armou-se uma girândola de foguetes no rossio com habilidade a topografia e traçando as ruas entre os morros, como fez
da vila (atual Jardim Velho) que atraiu a atenção geral. mais tarde no plano de Petrópolis. A maior e mais reta das ruas, a São
Em seguida, os membros da Câmara dirigiram-se ao lugar Pedro e São Paulo, foi cortada quando ainda em projeto, em 1867, pela
destinado à edificação da capela que às expensas públicas iria construção da estação ferroviária em seu eixo. resultando desse corte nos
extremos a avenida Bento Gonçalves Pereira, nas Palhas, e o trecho inicia!
construir-se, e aí assistiram à colocação da pedra fundamental. da Marechal Deodoro. Koeler só conseguiu um quartefrão em retângulo
57 perfeito: o Jardim Velho—Rosário—Direita—Beira-Rio com 80 x 60 m
Esta é a primeira festa realizada em Paraíba. Nem mesmo na insta- aproximadamente. O projeto anterior, encomendado pela Câmara em 1833,
lação da vila, em abril de 1833, houve alguma, tendo-se aplicado a verba foi inexequível. O primeiro arruador, António Moreira Castilho, tentou
arrecadada para os festejos no começo da nova matriz. mas nada conseguiu com o tabuleiro de xadrez em Paraíba (cf. nota 196),
rR
' . Na rua do Imperador (15 de novembro). Era de propriedade do verea- ,, Koeler, alemão de Mogúncia, faleceu em acidente de tiro em sua fa-
dor Avelar, depois visconde da Paraíba. No inventário da esposa, falecida zenda da Julioca, no Piabanha, em 21 de novembro de 1847.
em 1363, foi avaliada em 3:OOOSOOO.
: d*

•<•<•
'• PEDRO
..,..-, GOMES
íibl - CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 55

Era o nome Lava-tripa conhecido em toda parte, porque os


todos eles no trato com as autoridades municipais, que em tropeiros que aqui pernoitavam vinham sempre com receio de
24 de junho de 1841 receberam a resposta da família Paes Leme, contrair febres, ao armar suas bar-racas perto da lagoa, morada
aquiescendo em doar o terreno para o património da vila. habitual de jacarés que, às vezes, saíam a passear pelas ruas.
Na sessão da Câmara de 17 de dezembro do mesmo ano, Em 1843 o presidente da província divulgou a seguinte re-
entre outras homenagens ao marquês, foi aprovado que se solução sobre a lagoa: "João Caldas Viana, presidente da
colocasse na sala de reuniões o seu retrato. E que a praça Província do Rio de Janeiro, tendo em atenção a que é suma-
da vila recebesse como nome o apelido da família Paes Leme. mente prejudicial à salubridade de seus habitantes a existência
Essa praça por morte do marquês de São João Marcos, vinte de um pântano no centro da vila da Paraíba do Sul, e que a
e seis anos chpois, recebeu o seu nome. higiene pública demanda que ela seja quanto antes dessecada,
A escritura pública de doação dos terrenos foi passada a 28 o que não pouco concorre para desviar a edificação da mesma
de janeiro de 1842. Da escritura, entre outras condições, consta vila, tem deliberado destruir esse tropeço de seu futuro engran-
que, se algum dia a vila por algum motivo se desfizesse, todas decimento, fazendo-o aterrar; e para esse fim cria uma comis-
as terras voltariam à propriedade dos Paes Leme. são encarregada de agenciar uma subscrição, em quantias em
Feita a doação, a Câmara mandou efetuar o tombarnento
dinheiro, ou em escravos, ou mesmo em serviços de qualquer
pelo piloto Carlos Eduardo Kregh e o ajudante-de-corda Bernar-
natureza, para o fim de aterrá-lo, por forma que se preste à
dino da Silva Baracho, que fixaram nos ângulos do quadrilátero
edificação; e logo que a subscrição chegue a um conto de réis,
de terras os marcos de pedra com a inscrição CMPS 1842.
o mesmo presidente tem resolvido destinar para o mesmo fim,
Desses marcos restam três; o das Porteiras, o do Pau-Ferro (o
pelos cofres provinciais, a quantia de quatrocentos mil réis,
alto Lavapés) e o da serra da Covanca, onde só agora está
que sairão da competente rubrica, para dar-se começo à obra,
chegando a urbanização. O da Ponte-do-Lixo, hoje a parte final
que será dirigida pela mesma comissão sob a direção científica
da avenida Castelo Branco na beira do rio, está perdido sob o suprema do chefe da seção. Essa comissão será composta
aterro ali feito ou foi levado pelo rio. O quadrilátero tinha so-
dos cidadãos Hilário Joaquim de Andrade, João Gomes Ribeiro
bre o rio seiscentas braças de frente (2,20 m cada), e de fundos de Avelar e João Rebelo de Vasconcelos e Sousa, de cujo pa-
quatrocentas braças Nessa área a Câmara Municipal aforou triotismo o presidente da Província espera o bom resultado
os seus primeiros prazos. r>:l-u, tíKa-4 Jatj fj-wc «U OwiMa/ví! desta incumbência. Palácio do Governo da Província, em 28
O marquês de São João Marcos nasceu em 1772 e faleceu
de julho de 1843. João Caldas Viana."
em sua fazenda de Sant'Ana, município de Vassouras, em 15 de Nos terrenos onde existiu a lagoa do Lava-tripa estão hoje
dezembro de 1868, na avançada idade de 96 anos. Chamava-se o Jardim Novo, o Riachuelo Esporte Clube e a matriz da cidade' ; ".
Pedro Dias Paes Leme da Câmara {este último apelido adotado Os principais cargos administrativos no município eram de
por seu pai, como o Leme fora adotado por seu avô). Foi o nomeação do presidente da província. Foram os seguintes:
quarto alcaide-mor da Bahia, o quarto guarda-mor geral das delegado de polícia do termo, coletor das rendas provinciais,
Minas, senhor da vila de São João Marcos, terceiro Morgado coletor das rendas gerais, cobrador das taxas de passagem
de Belém, gentil-homem da Imperial Câmara, reposteiro-mor,
na barca, e professores. l
grã-cruz da Ordem de Cristo. Muitos desses títulos eram me- Nos primeiros anos da vila todos os serviços funcionavam m
ramente honoríficos, mas refletem o prestígio social que a num dos próprios nacionais, o Quartel, grande construção de
família Paes Leme, que chegou a Paraíba pobre, adquiriu com madeira junto ao rio e sobre estacas, localizado onde hoje está
as vantagens pecuniárias advindas com a exploração da posição o Jardim Velho, assim como o Registo. Este, parece, ocupou
sobre o rio e venda de suas terras quando da chegada do café. também a antiga sede da fazenda da Paraíba, na falda do morro
Foi ainda o longevo marquês agraciado com esjse títujp por
que dá para a atual rua Alexandre Abrahão.
Pedro l, em 1826, tendo sido, parece, o primeiro barão feito por Eis aqui relação suscinta das primeiras nomeações de auto
Dom João Vf no Brasil, ao coroar-se rei em fevereiro de 1818. ridades provinciais no município: coletor das rendas gerais.
No perímetro da vila existia extenso pântano, foco de mos-
quitos e bichos venenosos, verdadeira incubadora de impalu- (1
". Parece-me engano do autor, pois se tratava de lagoa no centro da vila.
dismo e febres perniciosas. Tinha o pitoresco título de lagoa ficando aquela área alagadiça então fora de seu perímetro. A nota 55
do Lava-tripa, talvez porque os bois abatidos na vila para o con- localiza com justeza a Lava-Tripa, creio.

sumo público fossem limpos ao pé dessa lagoa.


5fi PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 57

João António Pereira (31-08-1838); Clarimundo Mariano da Silva de pedra e gradii de ferro, no morro ocupado desde 1935 pelo
(03-09-1846), que também o foi das provinciais; João José da Grupo Escolar Andrade Figueira.
Rocha (29-04-1848); e José Gomes Coelho de Albuquerque (21 Paraíba progredia e com a inauguração da ponte, em de-
de junho de 1850); delegado de polícia do termo, bacharel Joa- zembro de 1857, formou-se a grande praça fronteira a ela, que
quim António Pereira da Cunha (18-03-1843); bacharel Manuel recebeu o nome de Presidentes, em homenagem aos dirigentes
de Macedo Campos Pessoa (13-04-1844); bacharel Benjamim da Província que doaram verbas para sua construção, e isso
Franklin de Barros Torreão (09-06-1854); bacharel Aprígio Fer- por sugestão do vereador Simão Dias cios Reis, depois o barão
reira Gomes (18-03-1857); administrador do Registo (cobrador de Simão Dias.
dos direitos da barca), maior reformado Francisco António da Por aquela época a vila já tinha melhor aspecto, tendo
Silveira (06-06-1844), que substituiu o vereador João Rebelo de muito contribuído para isso a ponte e a praça. Por sugestão
Vasconce'os e Sousa. daquele vereador foi também localizada a nova matriz, cuja
O primeiro professor da cadeira de ensino, nomeado por pedra fundamental se lançou em 1860 nos aterrados ganhos com
concurso, foi José da Costa Ferreira (27-06-1839), que instalou o ressecamento da zona alagadiça.
a primeira classe também no prédio do Registo; e em 10-03-1848 Na praça nova da vila também se localizaram hotéis, e o
o vigário da freguesia, padre José Carlos de Mesquita, que foi colégio do Barão de Pfuhl, João Guilherme Bogislau, de nacio-
nomeado inspetor das escolas municipais. nalidade prussiana, grande professor de línguas e música. Seu
No setor de saúde o primeiro nome é o de João José Mo- colégio tinha mais de duzentos alunos, muitos internos. De-
reira Guia, que em 21-11-1848 foi nomeado vacinador. pois do conde de Lajes, foi o barão quem pregou ideias maçó-
Aliás, a condição sanitária em Paraíba correu perigo quando nicas em Paraíba, onde se naturalizou no dia 24 de agosto de
do abandono em que caíram a igreja e o cemitério de seu adro, 1857, e também seu conterrâneo e sócio, José Bauch Bruttin-
no morro que era no século passado conhecido por morro da gensis, em 16 de novembro de 1859.
igreja velha. Achava-se o cemitério aberto, o que facilitava a No período de 1853 a 1860 a Câmara Municipal, com os
que porcos e cães escavassem as sepulturas. minguados orçamentos e algum auxílio da Província, conseguiu
Em 1847 os vereadores de então — Avelar, Francisco das calçar à portuguesa as ruas D. Isabel (Saldanha Marinho atual),
Chagas Werneck, João José Alves, Vasconcelos, Martinho Alva- Formosa (Floriano Peixoto), Duque de Caxias (Tiradentes), Ar-
res da Silva Campos'" e António Alves Filho"2 — mandaram tistas (trecho final da Floriano para o rio), Sacramento, assim
à sua custa construir outro cemitério cercado com baldrames chamada por ter existido ali a capela da Irmandade do Santíssi-
mo Sacramento (Quintino Bocaiuva), Mineiros (Visconde do Rio
|;I
. O depois conselheiro e ministro do Estado iniciava então sua vito- Novo), Imperador (15 de Novembro), e parte da praça de Paes
riosa carreira política no Partido Liberal. No capítulo Fazenda de Matozinhos Leme (Marquês), onde funcionava então a casa da Câmaran:i.
está sua história em Paraíba, onde se casou ern 1840 e viveu até morrer, As demais ruas da vila ficaram em terra, e eram a São Pedro
em 1887. Nasceu em 1816 na cidade mineira de Martinho Campos, a qual
adotou seu nome em 1938 ao emancipar-se da histórica Pitangui. Quando e São Paulo (Rangei Pestana e agora Bento Gonçalves Pereira),
Martinho ali nasceu era o arraial de Nossa Senhora da Abadia de Pitangui. Dom Pedro l (Marechal Deodoro), Imperatriz (Treze de Maio e
Poi médico mas, a paixão, a Política (cf. notas 187 e 189). agora Duque de Caxias), São Sebastião (depois Rebelo e atual-
''••-'. Este é o famoso tabelião que Rodrigo Otávio só viu morto, sobre a mente Alexandre Abrahão), e a Santo António (Porteiras, Co-
mesa de sua casa de solteirão e quando, ao saber do passamento ali queiros, Marquês do Herval e agora Barão do Piabanha).
compareceu com guardas para vigiar a porta como medida de acautela-
mento. Era juiz municipal recém-chegado e se impressionara com a fama "3. Era sobrado comprido no local dos atuais n." 11 e 21. A câmara esteve
de "manipulador da alquimia jurídica da Paraíba" que cercava o velho na aí até 1870, tendo sido depois ocupado pelo "Anjo da Meia-Noite". Pelo início
cidade; esta lhe imputava o sumiço de processos. dos anos 20 mudou-se para ele a viúva de Pedro de Araújo, o chefe militar
No capítulo O Foro está a passagem de Coração Aberto, livro de remi-
da Revolução de 1891. Chamava-se Hermínia, e a filha mais velha Petrina,
niscências, em que o jovem de 24 anos chegado do posto sonolento de
"mas conhecida como Pedrina na cidade inteira. Pianista, como as quatro
Iguaçu conta a dura experiência "no .foro mais movimentado" do interior.
filhas, os bailes aos domingos no sobrado da d. Pedrina se tornaram fa-
Ainda no hotel Anjo da Meia-Noite foi atropelado por um pedido de arresto
mosos e duraram bem-entrados os 30, pois na decadência da vida social
do dr. Macário, que o atrapalhou de início e de que se safou com a ajuda
com a derrocada do café se acabaram as sociedades dançantes do fim do
de Dias da Rocha, colega em São Paulo. Império, com sede própria e sócios contribuintes. O velho sobrado no
Alves Filho, como era conhecido, dosde 1843 pelo menos foi escrivão álbum de fotos de Victor Frond está encoberto pela torre da matriz. Foi de-
em Paraíba. Faleceu no início de 1890. molido por volta de 1960, seguramente com mais de cem anos.
53 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 59
A cadeia funcionava nos baixos do pequeno sobrado da
rua Tiradentes, quase na esquina de Floriano, servindo para beira-rio. Aí era muito o consumo de certa cerveja estrangeira
alojamento das praças o andar superior (il( . A zona hoje do de grande reputação, marca Bass.
bairro das Palhas era então denominada Campo de Maria Tomá- Na vila funcionavam então dois teatros, em que se apre-
/sia, mulher idosa que ali vivia de uma fábrica de louça de barro. sentavam companhias da Corte. O do Lavapés era o Clube
Em 1867, com a inauguração da Estrada de Ferro Dom Pe- Dramático Paraibano, e o da rua dos Artistas o Teatro Dona
dro II, aumentou o movimento da vila e seu progresso se ace- Isabel. Aí também se apresentavam os grupos dramáticos de
lerou. Nessa época, Paraíba começou a desfrutar de fama amadores muito comuns na época. O ponto de uma companhia
pouco recomendável, exatamente pela presença de forasteiros, visitante, Benedito Gonçalves, encontrou ambiente tão favorável
que vinham aqui comerciar e entabplar negócios com os fazen- à sua arte que se fixou na vila, formando aqui grande família
deiros. Visitavam as fazendas de dia, e pernoitavam natural- e chegando a ser até agente do Correio.
mente nos hotéis e pensões da vila. Com isso, suscitaram o A rua dos Mineiros, o lado da beira-rio, era a continuação
aparecimento de uma zona alegre, que sempre existiu na beira- natural do comércio da Direita. Aí se destacavam os comis-
-rio, mesmo nos tempos coloniais, quando então servia aos tro- sários de café Felisberto Carlos Duarte (o pai) e João Cordeiro
peiros. Só que a nova zona era mais sofisticada, refletindo a ri- do Couto, um armazém de secos e molhados de José Campos
queza rápida que a terra adquirira. Certos armazéns da vila, & Irmão e o Hotel Pacheco & Filho. Esses comerciantes grossos
como o que navia na lmperador <ir ', importavam produtos estran- foram os que encabeçaram as contribuições do comércio para a
geiros caríssimos, como queijos e vinhos. Era o grande forne- abertura da parte da rua dos Mineiros que dá para a Marechal
cedor das fazendas abastadas e, naturalmente, das casas da Deodoro, logo depois que junto a ela foi construída a estação,
inaugurada a 11 de agosto de 1867 com a presença do impe-
«•'. De fachada estreila e duas janelas sobre sacada com gradil de ferro
batido, tinha o n." 221 ao ser demolido em fins de 1990. Estava entre as
rador Pedro II.
mais antigas construções da cidade com os três sobradões da mesma rua; Na esquina da Imperador com Mineiros funcionava a socie-
um deles, o do fiasco com Silva Jardim. dade de danças Comercial e Artistas, fundada por José da
"•"'. Ficava no casarão de n." 9 da rua, hoje a casa de n." 45 da 15 de Cunha Carneiro, no mesmo casarão em que até a década de
Novembro, que assim como o seu prolongamento, a Tiradentes, para o
povo desde antes da urbanização da vila (1844) é Rua Direita.
50 foi a agência dos Correios e Telégrafos. Em frente, onde o
Os anúncios de queijos e vinhos europeus do Armazém Central em último comércio foi a Casa Pantola (a loja foi posteriormente
1885 fariam sorrir o leitor das Memórias (1972) de Agripino Grieco, para ocupada por escritórios), nos tempos da vila tinha consultório
quem o pai em sua Fonte Limpa (ver nota 18) foi o introdutor dessas igua- o dr. António José de Melo, especialista em doenças sifilíticas,
rias em Paraíba. Naquele ano Pascoal Grieco, como escreve o filho, aju- que eram o terror da mocidade da época.
dava a construir a Estrada de Ferro Valenciana. E no anúncio de página
inteira do ano em qua Páscoa' aqui chegou, 1887, o Central só incluía de O Hotel Garibaldi transferiu-se da praça de Paes Leme para
artigo nosso farinha de Suruy (vila na baixada), pela companhia em que a Pedro l. logo depois da chegada do trem, e aí manteve ótimo
estava no tal anúncio, por certo, a especial para se fazer o que o povo restaurante- A divisa da casa era: "Atividade, asseio e bara-
chama papa-fina. teza — Mesa-Redonda — Falam-se francês, inglês e alemão."
Sobre a 15 de novembro, a antiga Imperador, curioso é anotar que Ao lado do hotel na nova rua funcionou grande armazém
trocou e alternou o sentido da numeração três vezes, e por isso é quebra-
cabeça de pesquisador. Começou muito bem. vindo do rossio da vila — de café de Pivatelli & Cordeiro, nos baixos do sobrado em que
Jardim Velho —, seu nascedouro e marco zero lógico. Como quinto prazo residia o médico belga Jean Neave, operador e parteiro.
à esquerda, o casarão do Centra! era o n." 9. o mesmo do Colégio São O hotel, fundado por Florêncio Laje da Cruz Garibaldi, vol-
Pedro, do professor Júlio Adolfo Riedel, ali aberto em janeiro de 1883, e tou depois à Praça de Paes Leme, esquina da rua do Silva (com
da redação e oficinas do Provinciano, que na década de 1870 ocupava o
salão da esquerda, enquanto na sala da direita funcionava o Fórum
Beira-Rio) onde hoje está a Sociedade Musical Três de Maio.
Talvez com a mudança de nome ocorrida com a República também Ao lado ficavam então a Coletoria das Rendas Provinciais e o
tenha mudado o sentido da numeração, ficando o casarão do lado par, e escritório dos bacharéis Canuto Malheiros e Marinho da Cunha,
como n." 8, que guardou até ser adotada a numeração pela metragem da este um adventício'que fez carreira brilhante /ia política.
rua, passando então a 44. Isso. no início dos anos 30. O casarão foi No hotel Anjb-da-Meia-Noit« que ocupou d sobrado da pra-
demolido em 1957.
Finalmente, a lógica na numeração da rua prevaleceu e a Prefeitura ça Marquês (Paes Leme antiga? depois que a Câmara se mudou
por volta de 1970 voltou a adotar como marco zero o nascedouro da cidade, para sua sede definitiva, se exibiu certa vez um conjunto de
a praia da barca. Por isso. o Armazém Central estaria hoje à disposição campanolos escoceses, mandado vir da Corte por seu proprie-
dos ricos na 15 de Novembro, 45. tário, que fez grande sucesso na vila, apresentando óperas,
só PEDRO GOMES DA SILVA

polcas, valsas e hinos Os anúncios do Anjo eram pomposos:


"Profusão e presteza --- A variedade e o bom-gosto, de mãos
dadas, disputam a preferência — Os senhores que frequenta-
rem este hotel terão à sua disposição um belo jardim para re-
creio, onde é agradável tomar café e respirar o perfume das
flores — Cocheira para animais, onde serão tratados com boas
rações e ferrados, se preciso,"
Na rua dos Coqueiros {Barão do Piabanha) funcionava uma capítulo 4
pensão familiar muito frequentada por artistas"", que trabalha-
vam na construção da Pedro II.
Depois do Lavapés a rua de maior comércio era a Direita,
onde se encontravam a relojoaria do suíço Emile Juvet com "va-
Cidade de Parahyba do Sul
riadíssimo sortimento de relógios ingleses e suíços, cronôme-
tros e meios ditos, de ouro e prata, e jóias para senhores". Na
praça dos Presidentes ficava o Hotel Universal, de João José
da Rocha Júnior, que viera do rossio da vila acompanhando o O decreto provincial 1 653, de 20 de dezembro de 1871,
movimento de bestas de carga e viandantes que se transladou elevou a vila de Paraíba do Sul à categoria de cidade, porém
para a boca-da-ponte depois de sua inauguração. Também nes- isso em nada influiu em seu progresso e nenhuma repercussão
sa praça havia semanalmente uma feira à moda do Norte, idea- teve na vida local"8, sendo, como era, título simplesmente hono-
lizada pelo dr. Bezerra Monteiro, advogado cearense. rífico que se concedia às localidades.
Por volta de 1870 houve na vila um grande surto de febre Em 1870 a Casa da Câmara foi transferida do sobrado da
amarela, trazida, segundo dizem, pelos vagões da Pedro II, que praça Marquês para o prédio adquirido ao futuro barão de Si-
transportavam os estegomias infetados. Esse surto de febre mão Dias, que ainda estava em construção e nele tencionava
causou grande mal à vila. afugentando os viajantes e preju- instalar a residência, a casa bancária e o armazém de café.
dicando o comércio algum tempo. Adquirindo-o, a Câmara levantou o andar superior.
Nessa época já existiam ótimos prédios, como os cons- Em 1878, no dia 7 de setembro, sendo presidente Leandro
truídos pelo visconde de Queluz, Luís Peixoto de Lacerda Wer- Bezerra Monteiro, foi inaugurada a iluminação pública a gás.
neck, os de Nicomedes Rodrigues Soares Meireles, Francisco No prédio da Câmara reuniu-se numeroso povo, com a partici-
Manco Rodrigues Chabregas, José Inocêncio de Andrade Vas- pação das duas bandas de música, Comercial e Artistas e Duas
concelos, Bonifácio José de Sousa Queiroz, Aleixo Ferreira Ta- Coroas. À tardinha, depois de acesos os 68 lampiões as ban-
vares de Carvalho, Cândido Mendes de Almeida, Carlos Augus- das executaram o hino do dia, o da Independência.
to de Abreu e Silva, Frederico João Ormerod, Ladislau Acrísio De 1880 a 85 a Paraíba esteve no apogeu, com toda a Pro-
de Almeida Fortuna, Joaquim António de Macedo Tupinambás, víncia. Era o tempo em que o café conquistara o mercado
o barão da Paraíba e Isidoro Rodrigues de Andrade. Este últi- mundial como regente de tudo, a palavra de ordem na vida eco-
mo possuía também a propriedade agrícola Farinha"7, na serra nómica e um dos principais produtos de exportação.
dos Pirineus, e sua casa de residência na vila servia ainda de Havia então em Paraíba uma sociedade que refletia esse
casa comercial. bem-estar financeiro das fazendas. As famílias se visitavam e
comemoravam festas próprias e de igreja. Nessas festas so-
" (! . O termo não era usado para designar qualquer trabalhador braçal, mas
os que possuíssem ofício, como carpinteiros, marceneiros, gráficos, pedrei- bressaiu-se entre nós na música o maestro Guerra da Costa69,
ros etc. Hoje chamam oficial, juntando a sua especialidade. A sociedade até hoje o nosso maior músico. Na Câmara se instalara por
musical e de dança Comercial e Artistas, que então existia em Paraíba, con- determinação da Provírvcia uma Biblioteca Municipal, onde os
gregava caixeiros do comércio e esses oficiais. que gostavam de ler podiam educar-se. Era a época dos moços
!1
~ Já vimos que foi a primeira a formar-jse no Caminho entre o Paraíba
e o Paraibuna. O nome subsiste numa situação perto da fazenda Itiaca. *8. A nota do Parahybano não podia ser mais lacónica: "Esta vila foi
no último dia 20 elevada a cidade."
«». Aos 14 anos António Guerra da Costa (1860-1916) já era membro da
Sociedade Musical Restauração das Duas Coroas. Aos 15, seu secretário;
62 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 63

cultos, da poesia e da arte. Nesse particular, os cursos jurí- e dependências sanitárias para o público. A sociedade foi le-
dicos tiveram muita influência, sendo vários de nossos conter galmente organizada, com estatutos a 16 de agosto de 1885.
rímeos de então alunos da famosa Academia em São Paulo. Sua primeira diretoria foi a seguinte: presidente, dr. Deo-
Nessa época de abastança o município era classificado em cleciano Alfes de Sousa; vice-presidente, Pedro António de
quarto lugar na Província, com receita anual de 41:875$538, Araújo e Silva 7 "; tesoureiro, major Damião José de Sousa Gui-
tendo acima apenas Niterói, Campos e Valenca, os dois últimos marães; 1.° secretário, Conrado Ferreira de Sousa Jacarandá;
com área muito maior do que a sua. 2.° secretário, Cristiano Aurélio da Costa Cabral; e conselhei-
Além dos advogados de que Falaremos no capítulo O Foro, ros, o capitão Joaquim Pereira de Lima, José Lino Ribeiro de
destacavam-se na vida social de Paraíba os médicos António Sá, João Ferreira de Araújo, José Gomes Vieira da Cruz, An-
Gomes Guacury, Balduíno Joaquim de Meneses (barão de Me- tónio Luís Maria de Brito, Manuel de Sousa e José Guimarães.
neses), Cândido José de Carvalho Lima, Deocleciano Alves de Mas diante de todas essas demonstrações de cultura e
Sousa (que fez política municipal vitoriosa no início da Repú- progresso vivia uma sociedade que as sustentava: os caixeiros
blica), Firmino Rodrigues Silva, Geraldo Barbosa Lima, Ja- de loja da rua Direita, os artistas (os que tinham ofício manual)
cinto Alvares Ferreira da Silva, Jorge Rodrigues Moreira da e, matriculados no município, mais de 22000 escravos.
Cunha e Luís Gomes Ribeiro de Avelar, afora o dr. Francisco Em 14 de novembro de 1885, sendo presidente da Câmara
Joaquim de Oliveira Santos, vacinador e médico da Câmara e o dr. José Gonçalves Viriato de Medeiros, foi celebrado con-
da colónia de Cantagalo. Esse médico era conhecido como trato com Gustavo Adolpho Wurffbaum para canalização da
dr. Xixi. Era considerado o médico da pobreza, coração mag- água do abastecimento da cidade. Para financiar as obras con-
nânimo e homem de forte caráter. traiu a Câmara um empréstimo popular de 100:000$000.
Havia boas farmácias, como a Imperial Pharmacia Normal, Com esse serviço melhorou consideravelmente nossa hi-
na rua do Imperador, onde à tarde se reuniam as principais fi- giene pública, podendo a população abandonar o costume de
guras da cidade para conversar. Era Paraíba uma cidade que apanhar água no rio e depositá-la em talhas, para melhorar de
tinha gente culta e que gostava de arte, naturalmente pouca, sabor. Havia residências que tinham em seus porões até 30
a que servia aos barões do café em seus escritórios de advo- talhas, numeradas de um a trinta para controlar o seu consumo.
cacia, gabinetes médicos e oficinas tipográficas de jornal. Viriato de Medeiros foi ótimo administrador e muito fez
Na estação da estrada de ferro faziam ponto 26 victorias, pelo município. Melhorou as estradas, a instrução pública e
o táxi da época. conseguiu da Província a construção de um cais em frente à
Boas joalherias faziam negócio com os fazendeiros, pois
"°. Pedro de Araújo (1852-1899) foi na parte militar o principal esteio em
as jóias eram o adereço mais usual naqueles tempos. Os anún- Paraíba da Revolução de 1891, que derrubou o governador Portela. Isso
cios dos ourives nos jornais paraibanos antigos são comuns. porque chefiou o armamento dos revoltosos, que se mobilizavam a cavalo,
Em 1885 foi inaugurado um campo para corridas de cavalos, utilizando a própria fazenda (Rio-Novo) e a de correligionários — como
com prémios aos vencedores "com o fito de animar o melhora- C/7/co do Sossego — para depósito de armas e munição.
mento da raça cavalar na zona". Constituído em sociedade Era enteado do barão de Ribeiro de Sá, que se casou com sua mãe
quando ele tinha 10 anos e teve muita influência em sua formação. Dele
anónima, denominava-se Prado Paraibano, valendo cada ação se dizia que era chefe inato, despertando amizades e inimizades apaixo
100SOOO. Foi construído em terrenos que hoje estão ocupa- nadas; e muito afeiçoado ao barão.
dos pelo campo de futebol do Cerâmica, e tinha arquibancadas Eleito vereador à Câmara de 1883 a 86 pelo partido Conservador, exerceu
ainda, pouco tempo, o cargo de juiz-de-paz do distrito do Espírito-Santo do
e aos 22 maestro. Todas as referências a ele são rnuito elogiosas, e a habi- Jatobá (março de 1891). 'Era dado à equitação e "andava sempre a galope".
lidade em vários instrumentos, decantada. Tanto fazia nas bandas, como "De estatura regular, magro, fino de corpo, claro, nervoso. E sempre
em conjuntos instrumentais e solo. Formou um conjunto em sua casa, de fraque, mesmo que a fazenda fosse brim." (Lucas Ribeiro, filho do
esquina de Benjamim Constant com Floriano -Peixoto, a qual tinha grande C/7/co do Sossego, depoimento em 1971 aos 90 anos.)
e incomum varanda embutida na frente para a primeira rua, onde praticava A sua ocupação do tabelionato do 1.° ofício por morte de Alves Filho,
sua arte, entre outros com o irmão José, o popular "Seu" Gasosa, e o filho em abril de 1890, com outro já nomeado, é história até hoje pouco escla-
Protásío, flautista. Ern 1904 fundou a Sociedade Musical Três-de-Maio. recida, como certos episódios que antecederam e se seguiram à Revolução
Era a figura central dos saraus musicais nos salões da cidade, os principais de 1891. Quando administrador da Colónia de Cantagalo, dominou pronta-
o do palacete Werneck (do cel. Quirino da Rocha Werneck, genro e her- mente a sublevação dos colonos, insuflados por especuladores dos prazos
deiro do visconde da Paraíba) e o do dr. Bernardes. Compunha também dê terra dos ex-escravos, contra a Irmandade Nossa Senhora da Piedade.
valsas e polcas. Faleceu a 1." de agosto de 1916. Faleceu de febre amarela na Vila Jatobá, a 21 de março de 1899.
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 65
64
Ainda do relatório do grande administrador: "O intuito da
rua dos Artistas. Nessa rua, esquina da rua cio Silva (Beira- Câmara era fazer o aterro de toda essa baixada (entenda-se,
-Rio), funcionou longos anos uma cervejaria com café-cantante, o alagadiço que cercava a nossa matriz), e tanto que despendeu
centro de mulherio, e na parte da frente mesa para bilhar e cerca de seis contos de réis para aterrar a parte compreendida
' outros jogos, dando grande trabalho à polícia. entre o pátio da estação, a linha férrea e a rua Campos Sales 7 1 .
Em 1 r de setembro de 1891 foi inaugurado o Banco Re- Deixou de prosseguir nesse serviço por ter cedido o restante
qional da Paraíba do Sul, Felisberto Carlos Duarte à frente. desse terreno à Empresa Industrial de Melhoramentos do Brasil,
De 1892 a 1895, embora com pequenos orçamentos, enor- para serem aí construídas as oficinas da E. F. Vassouras —
me foi o progresso da cidade sob a benemérita administração Pati do Alferes — Petrópolis."
de Leopoldo Teixeira Leite. A esse cidadão deve a Paraíba "Grande aterro também foi feito na praça Quatro de De-
grandes melhoramentos em todos os setores. E ainda não res- zembro, tendo as despesas orçado em 4:000$ÒOO. Pelo centro
gatou essa divida, pois até hoje nenhuma homenagem pública dessa praça fez-se larga avenida arborizada, a partir da ladeira
lhe foi prestada. Até dar seu nome à ponte da Linha Auxiliar da ponte até a matriz, tendo-se conseguido para esse fim do
(da antiga Melhoramentos) foi obra de Paulo de Frontin e não diretor da Central a mudança da passagem de nível 7 -."
do povo paraibano. Ao tempo do dr. Leopoldo, o principal problema da cidade
Leopoldo Teixeira Leite foi dos mais eficientes administra- era a falta de água para o abastecimento da população, que
dores que teve Paraíba do Sul, bastando citar-se o que fez pela • crescera rapidamente depois de 1880. A rede original, dos
instrução pública: manteve o Liceu Paraibano, sob a direção anos 70, entrava no perímetro urbano pelo Pau-Ferro e Lavapés,
de Almeida Paim; obteve do governo estadual escolas nas sedes seguindo o eixo da Floriano—Tiradentes—15 de Novembro até
dos distritos de Brás-da-Ponte (bairro da Grama), Entre-Rios, a Câmara. No centro da praça Marquês, ainda não ajardinada,
Serraria e Mont'Serrat; promoveu a doação ao Estado do prédio havia um chafariz de ferro para fornecimento de água aos mo-
onde funcionava o clube Henrique de Mesquita, em Entre-Rios, radores de ruas ainda não ligadas à rede como as da beira-rio.
para a escola do sexo masculino; construiu prédio para escola Com a construção do Jardim em 1908, esse chafariz deu lugar
no lugar Laje, no mesmo distrito; adquiriu livros, carteiras e ao coreto, passando ele ao centro da praça Quatro de Dezembro,
material escolar, e dotou a Municipalidade de um regulamento no eixo da boca-da-ponte.
para instrução pública. Voltemos ao relatório do dr. Teixeira Leite: "Para poder
Quanto à saúde pública, foi também notável sua atuação. executar a rede de esgotos, a Câmara trouxe o engenheiro Fre-
Com o dr Vahia Durão, melhorou o combate à febre amarela, derico Heudtman, da City Improvements, do Rio de Janeiro e
que nos anos de 1892 e 93 grassou em Paraíba ao mesmo tempo que, pela quantia de 3:000$000, levantou a planta das obras e
que a varíola. Promoveu socorro aos doentes e baixou um organizou o orçamento das despesas a fazer."
regulamento sanitário. Não tendo a Câmara recursos para a execução do projeto
O dr. Teixeira Leite canalizou a água no Jatobá para lavagem de esgotos, solicitou ao governo do Estado autorização para
dos esgotos da Grama. E no atual bairro das Palhas construiu levantar o empréstimo dos 300:000$000 necessários, o que não
um coletor de esgotos de grande extensão. Mandou fazer conseguiu, dada a situação financeira cada vez mais difícil da
uma barragem no córrego do Limoeiro, que atravessa o bairro outrora próspera província fluminense. Aquela verba incluía a
do Lavapés, de modo que fossem descarregadas as águas de implantação de esgotos na vila de Entre-Rios.
12 em 12 horas para lavagem do respectivo leito, que servia Graças à intervenção do dr. Leopoldo, o Telégrafo Nacional
de esgoto. E iniciou o estudo sanitário de Entre-Rios e Serraria. inaugurou em 1892 uma estação em Paraíba, sendo primeiro
Vale a pena citar alguns trechos de seu relatório como telegrafista António lldefonso de Carvalho Almada. Até então,
presidente da Câmara no início da República: "Durante a epi- recebiam-se telegramas pelo serviço da Central.
demia de 1892, os médicos consideraram como uma das causas Ainda por interferência do operoso político, o governo es-
do aparecimento da febre amarela o grande pântano existente tadual instalou em 1894 nas cercanias da cidade uma Estação
em torno da matriz. Com o fim de dissecá-lo, a Câmara man- Agronómica. O primeiro diretor foi o agrónomo Henrique
dou construir dois grandes bueiros coletores, a partir da linha
7!
férrea, indo um até o rio. Além desses construiu outros para . É hoje o trecho inicial da Bento Gonçalves Pereira.
72
o encaminhamento das águas no bairro das Palhas, e dos mon- . A travessia voltou assim ao locai primitivo, tendo ficado no eixo da
aléia de oitis de meados dos anos 1890 até por volta de 1920.
tes que o cercam, levando-as ao coletor que as conduz ao rio."
fifi PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAfBA DO SUL 67

Braune. Localizava-se a sede junto à queda dágua em que o tivemos, Romeu de Albuquerque. Em outros papéis da peça
ribeirão do Lucas se lança no Paraíba, aproveitada em 1910 encenada pelos jovens amadores do Clube Dramático Familiar,
,para instalação da usina elçtrica de iluminação da cidade. nossos conterrâneos mais velhos recordarão representantes
•K A cadeia, já transferida para o local onde se encontra, foi de famílias tradicionais da cidade, como Joaquim e Felisberto
Veformada também na administração Teixeira Leite. E foi ainda Carlos Duarte, depois os populares e ricos comerciantes Quin-
esse administrador, como Paraíba jamais teve, quem doou ao cas e Nica Duarte, este urn dos fundadores do Cine íris, que se
Estado o terreno para a construção do Fórum, que é de 1898. instalou por volta de 1914 no prédio do teatro. E ainda Sal-
Com isso, retirou-se da Câmara o serviço de Justiça. vador Ciodaro, Mário Cabral e Artur Melo Filho.
A estação telefónica de Paraíba começou a funcionar com Em fevereiro de 1898 inaugurou-se nas Palhas outro diverti-
50 aparelhos, dentro e fora da cidade, sendo seu proprietário mento interessante para â época, o Velódromo, na chácara de
Artur Brás da Costa Melo. Os aparelhos e a estação foram Francisco Ferreira Ribeiro, o Chico do Sossego.
generosa oferta do dr. Leopoldo à Câmara, que os cedeu a ter- Era uma Paraíba ainda sem futebol e cinema, e tudo que
ceiros. Esse serviço foi encampado pela Companhia Telefó- importasse em desafio e apostas atraía o povo nas tardes de
nica Brasileira. domingo. Fora disso, eram os bailes em casas de família, ou
Muitos outros benefícios devemos à administração Teixeira as quermesses, festas de igreja com leilões de prendas nos
Leite: intercedeu junto ao Estado para conserto das pontes do adros da matriz e Santo António, em junho* e no largo de
Paraibuna, Serraria, Boca-de-Fogo (Hermogêneo Silva) e da ci- Santana, só ajardinado em 1938, em julho; e em outubro no
dade; melhorou as estradas Presidente Macedo e União e In- Rosário, onde desde a construção da igreja há um pavilhão per-
dústria, e conseguiu agência de correio para a ponte de San- manente para os leilões e a banda e que, nos tempos normais,
tana (Alberto Torres); construiu grande paredão de arrimo no sobretudo logo após a Abolição, servia de abrigo,a muito es-
cemitério da cidade, cercando-o com grade de ferro, obra im- cravo doente abandonado e corrido das fazendas. Eles então
portante contratada por 40:515$000, ficando assim assente se transformavam em mendigos e aos sábados percorriam a
numa bela colina e fora da cidade. cidade, esmolando. Os vinténs, moedas de 20 e 40 réis do
O cemitério havia sido transferido para o local em 1880, Império e de cobre azinhavrado, acabaram em .suas mãos, já
por causa das febres de mau-caráter que apareciam periodica- avançada a República em 30 e 40 anos. E por tradição o co-
mente e eram atribuídas à contiguidade do antigo, que o cres- mércio de Paraíba só os recebia deles, os pretos mendigos.
cimento da vila deixara em seu centro. , Juntando vários vinténs se somava um tostão (100 réis). E
Por Entre-Rios também muito fez Leopoldo Teixeira Leite, por tanto se comprava um;pão.
que previu o desenvolvimento dessa localidade. Ihcalculáyeié > i Na estreia do'Velódromo ocorreu o desafio dos melhores
foram os serviços prestados ao município pelo yassourénsé ciclistas da cidade, Tiràdentes e Aquidaban. O fiscal 'de pista
Leopoldo Teixeira Leite. A leitura de seu relatófid,tapresep: foi :SeU M i lote, animado em tudo que fazia. E fazia de um tudo,
'tado à Câmara a 7 de abril de 1895 será proveitosa à^tpddjéui- desde que entrasse!,o congraçamento de pessoas e organização.
paraibano, para poder aquilatar sua obra. Recebeu em vida o Presidia a sociedade do Velódromo o,gaúcho José Teixeira
título de Cidadão Sulparaibano, mas isso não paga nossa dívida Palhares, que por essa época adquiriu as Fontes da Saúde e irá
para com ele. Um busto à entrada do edifício dal municipali- mudar seu nome para Salutaris78. Da diretoria eram aifida-o
dade seria homenagem modestíssima . . . '"'' médico vassourense radicado aqui, Tiago Còstàí* político é jor-
A 12 de outubro de 1892 — quarto centenário da.Desco- nalista; Emídio Gruhn, sócio do Palhares nas águas; e José Joa-
berta da América — deu-se a esperada inauguração do-Thèãtro quim da Cunha, genro do dono da chácara^ o Òhíco do Sossego,
Gymnastico Parahybano com a peça Ghigi, tendo O jpvfernVJÊmí- apelidado assim porquê nascera e fora muitos'anos feitor na
lio de Freitas Brandão no papel-título. Seu Milote foi ^de^tíll*b fazenda desse nome. A . •'"'"'•''--'$?
maior animador do teatro em Paraíba, sua terra de ádoÇãÕ!-—•
?A .Embora anúncio de março de 1895 dê as Aguas Miner&es da'Pprãhyba
era também de Vassouras —, e aqui exerceu os mais "'.Variados do Sul — Fonte da Saúde como "engarrafadas junto à fòrité",'pa|è,c|;,flue
cargos, sempre no maior entusiasmo. só em 1901 de fato o foram, com Palhares, Gruhn & Cia.,,(a partir da', 30,
O ensaiador da peça inaugural do novo teatro foi o antigo de março), que teriam adquirido as fontes de Aurélio Dias. ít,CÍ3V:;Â:riiafáà
ponto de companhia de fora que se radicou entre nós, Benedito Sa/ufar/s aparece (até agora) pela primeira vez no Parghybá dó Si// dS; 12
Gonçalves, e o cenógrafo o mais famoso artista boémio que de dezembro de 1901. • .''.'', :V - • : / - • -
68 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 69
A 3 de maio de 1904 funda-se a sociedade musical, que re-
nós; e sua fabricação exige cuidados especiais. Consta que,
cebeu s denominação daquela data, então muito comemorada,
entusiasmada pela habilidade do maestro no instrumento, a ba-
pois lembrava a Descoberta do Brasil e a festa da Santa Cruz,
ronesa de São Roque — casada com um dos mais ilustres «a
íjrprimeiro nome do país. A Três de Maio e o Riachuelo74, clube
barões paraibanos — encomendou na França .um ofclide para
' t esportivo fundado dez anos depois, são as nossas mais antigas
lhe dar de presente, tendo gravado o nome do-maestro.
sociedades. Em 1909 atravessava Paraíba do Sul e todo o Estado do
A velha banda tem atravessado períodos difíceis, rnas nos
Rio uma era de desânimo e paralisação em seu desenvolvimen-
maestros Guerra da Costa e Revermar de Oliveira, e nos mú-
to. A maioria das casas estava desalugada. Administrava en-
sicos da família Miranda Bastos, encontrou no passado os seus
tão o município o mineiro Bernardino Franco76, um dos grandes
baluartes. Foi fundada pelos irmãos músicos António, e José
amigos da cidade. Abandonou sua clínica médica em bene-
Guerra da Costa, e a primeira diretoria se compôs de Augusto
fício da causa pública, e no fim da vida passou dificuldades
Batista, José de Castilho Sobrinho, Américo de Azevedo e Silva, pelo amor que dedicou à terra.
Artur Melo e João Marques de Almeida.
António Guerra da Costa foi nossb maior músico. , Tprnpu- Devemos-lhe inúmeros melhoramentos. Construiu o Jardim
Velho, que muito justamente hoje se chama Parque Dr. Bernar-
-se amigo de Carlos Gomes, e possivelmente a seu convite foi
dino Franco, com coreto para retretas, repuxos, bancos, lagos
certa vez a Campinas participar de apresentações musicais
e um bosque. Para a realização dessa obra Bernardino Franco
numa Semana Santa. Conhecia e tocava bem vários instru-
angariou donativos de porta em porta. As estátuas de mármore
mentos, tendo formado em família com o irmão, filhos e amigos
que lá estão, conseguiu-as por doação de Frederico D'0lne, pro-
pequena orquestra. Era no Brasil um dos poucos executantes
do ofclide75, instrumento raramente tocado, pelo menos entre prietário da fazenda São Lóurenço; decoravam o pátio fronteiro
à fachada da bela sede da fazenda do viscondejde Entre-Rios.
™ A introdução do futebol em Paraíba se deve a Renato Mafra, que nas Dotou o município de diversas estradas de;rodagem, melho-
férias de meio-de-ano de 1911 trouxe do Granbery a primeira bóia e a pôs rou o manancial de água potável da cidade, arborizou ruas e
na praça da matriz, então Ouatro-de-Dezembro. O primeiro clube já existia construiu muitas calçadas de cimento.
em setembro de 1912 — Parahyba F. C. — e o segundo — SalutaHs F. C. —
Por seus esforços e ajuda do coronel Randolfo Pena Júnior,
nasceu em novembro de 1913. ' , :,; :.
A foto mais antiga do futebol em Paraíba é a do clube desse' nome foi construída a usina hidrelétrica do ribeirão do Lucas77, que
— tirada em março de 1913 —, do fotógrafo amador Angelo Pierrè, que BR
DM)
forneceu luz e energia à cidade e cuja inauguração se deu a
é com Cândido de tal (presidente do Parahyba F. C.), Raimundo !Tavàres e 6 de novembro de 1910. Eis a notícia no Parahyba do Sul:
Joaquim Lopes Filho dos primeiros dirigentes, como Renato Mafra, Jaime
Santos e Raul de Castro Filho, entre outros, dos primeiros cracks do smarí a ser usado nas bandas e. conjuntos instrumentais, como os dos chorões."
sporf. Raul foi o primeiro referee e do Riachuelo, fundado em sua. resi- ,Este termo foi criado pelos estudiosos de música para designar os tipica-
dência, o primeiro captain. mente nossos conjuntos musícaisido passado, como o que reunia o maestro
O primeiro stadium foi inaugurado em 26 de julho de 1915,* nas'Palhas, WS,«1
• Guerra em sua varanda, com o indefectível copinho ao,lado, no chão.
num Riachuelo 2 x Juparanense 1 que acabou numa briga. Tinha arqui- 78. Bernardino; Torres da Costa r franco (26-05-1869) se radicou em Paraíba
bancada de madeira, atraía a fina flor e está documentado em foto do dia, em fevereiro de 1898. Era médico da Câmara quando da primeira atuação
em que aparece ao lado de Angelo Pierrè, presidente do Riachuelo, o jovem de destaque registrada:; na violenta epidemia de varíola em 1904 no Campo
'Raul de Castro Filho, carioca que pouco viveu em nossa cidade,mas deixou ^da Grama -(Hermogêneo Silva), com 40 vítimas.
no seu entusiasmo pelo futebol o nome em sua história esportiva. ' Pa-, Sb .Eleito presidente da Câmara para o triénio 1907-ÍO, reelegeu-se .no
rece, é a única foto que nos ficou dele, que faleceu no Rio em 19271 érri jtóègulnte; f e desde 1907 foi nosso representante na Assembleia Estadual,
torno d o s trinta anos. > < í • • ; i'til l a; a,qual também sé reelegeu. E vice-presldente dó Estado.
75. O nome estranho desse instrumento barítono de sopro, inventado np Administrou o município numa das épocas mais conturbadas,,do Es- g
século passado e logo em desuso, substituído pela tuba com válvulas(!vem . o ) sobressaltado continuamente pela gangorra política ,e assoberbado 'dê;;,
da aparência de cobra enroscada do tubo junto à corneta de chaves. TJr dividas pelo contínuo vermelho nos orçamentos. Parece,, a doença sérja^
rou-o o inventor (há briga entre francês e alemão) do grego ophls, cobrai rnlnou seu organismo desde 1911, amíudando-se daí ,as visitas, :áò/,piò; " e - 4
e k/eides, chave. Tinha de 9 a 12 chaves, o corps em U, o bocal em forma ; afinal nos roubou com apenas 45 anos esse mineiro préstónté^òu)^ ^mi> ~
de xícara, e substituiu nas orquestras de igreja e bandas militares o velho lstraçãoi/honesta deixou saudade. Faleceu a. 31. de .qMtiibYp^,H0iJâf:4j<i;-
serpentão, em geral desafinado e fanhoso, Teyè vida breve, mas reprej 'Tt s ,Para.organizar e dirigir.essa:usina e a do Paraibiinii s ; sjra
sentou grande progresso. E sua utilização por ouerra da Costa é Indicio ''S;, onde constituiu famtlla, o engenheiro italiano^Lin
seguro de quanto levava a sério sua arte, procurando sempre aperfêlçòá-láí || e,.construiu na 15 de'Novembro — atual n.° 31 —
A música foi a sua vida. E este informe especializado (veja" bibliografia) *« ";tío conjunto oitocentista da velha Imperador,
confirma a raridade e utilização breve do instrumento: "NO Brasil, chègoUí tíâ}:tInovações do:seu espírito prático e
' :
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i.....
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA, DO SUL 71
70 PEDRO GOMES DA SILVA
raíba do Sul, de que Felisberto — Nica Duarte — era presidente,
"Às 19 horas, presentes inúmeras pessoas de destaque Randolfo de Matos tesoureiro e Seu Milote, o ator principal da
social e as autoridades civis e eclesiásticas do municípiOi o peça teatral de 1892, o gerente80.
.^coronel Pena Júnior, dando movimento à alavanca de transmis- De fato, a sociedade conseguiu algum sucesso e novos
' j são, atirou aos cabos condutores a poderosa corrente elétncaj empregos foram criados em Paraíba, como uma fábrica de pa-
que fez jorrar, imediatamente, sobre todos os cantos da cidade, rafusos que, embora não indo adiante, deixou seu pavilhão para
ondas de luz intensa, clara e forte, substituindo definitivamente ser aproveitado pela Fábrica de Rendas Paraíba, uma indústria
dali em diante os antiquados combustores a petróleo." , íiljl especializada e em seu género a primeira no Brasil.
Os construtores da usina foram Spino & Cia., pôr um con- ~
O sócio Spino da Promotora de Melhoramentos é Pascoal
trato celebrado com a Câmara. i ui ; de Gregório Spino, que começou como, pequeno comerciante
Em 6 de fevereiro de 1912, Paraíba do Sul viu pelá-prirnèira em nossa vila de Entre-Rios, passou à cidade e de 1924 a 1927
vez o novo veículo, o automóvel 78 , de propriedade de João Fran- foi prefeito do município, iniciando nele uma política rodoviária
cisco de Araújo, industrial e cidadão progressista;que itihhá a que teve seguimento pelo sucessor, Josjí Inácio da Rocha Wer-
maior e mais antiga serralheria da cidade, no Lavapés. ' neck, preparando a terra para o advento da,era do automóvel
Em maio de 1912, em prédio da Marechal Deodpro'fron- Pascoal Spino e um irmão, Alexandre, fundaram a Cia. In-
teiro à ladeira da rua Saturnino Braga — o popular Morro do dustrial de Eletricidade, que aos poucos se incumbe da ilumi-
Broôotó —, começou a funcionar um cinema70 com aparelho nação de várias localidades no município e veio até o final da
acionado por pilha elétrica e de propriedade do padre 'João[Xa- década de 20, quando a Light and Power chega à região e en-
vier. Mais tarde o vigário admitiu um sócio que era maçom; campa as pequenas usinas locais do Lucas e Paraibuna. Em
então, quando o pequeno poeira tinha boa-casa, isto é, pécjáva nosso município, em 1908, a Cia. Brasileira de Eletricidade cons-
enchente, padre e sócio arranjavam cadeiras complementares trói na Ponte de Santana (Alberto Torres) a que era na ocasião
em suas respectivas casas. E lá iam parar os bancos daílgreja — 1908 — a maior usina hidrelétrica do país, no Piabanha.
e as cadeiras da maçonaria, lado a lado, esquecidas5 as incotn-
patibilidades . . . Negócio é negócio! , >;:-,;:•( cinematográfica francesa — exibia como grande atração, na praça Ouatro-
Em outubro de 1914 Spino & Cia. (Felisberto Carlos .Duar- -de-Dezembro, "cinematographo iluminado a luz eletrica1'.
te Jr., o ator na peça de estreia do teatro) montam no edifício Em setembro de 1911 o Arealense noticiava sessões aos domingos no
Cinematographo Parahayba, na Marechal Deodoro. Os primeiros filmes
o Cinema íris, com a renda do qual pensam financiar uma socie- eram naturais, o que depois se chamou /orna/, e a exibição naquele ano de um
dade que promovesse o progresso da terra, entabulando negó- natural da final do campeonato de 1910, entre Fluminense e Botafogo, noti-
cios. Foi a Companhia Promotora de Melhoramentos de Pa- ciado no Jornal do padre, O Imparcial (que não o era coisa alguma), ajudou
a divulgar o esporte que em Paraíba começava também naquele ano.
também seu o primeiro rádio de Paraíba, pouco depois de Roquetté Pinto O padre João Xavier Pinto de Carvalho, dono do cinema e adiante ; ci-
inaugurar no Rio em 1923 a Rádio Sociedade, que ouvia de fone no ouvido. tado, substituiu na poróquia em 1902 ao falecido cónego Sales, vindo de
Quando a Light encampou as usinas locais, concentrou os serviços"'na Sebolas, onde era pároco desde 1886. Em 1909 fundou O Imparcial. Inte-
região em Barra do Piraí, para onde se transferiu o dr. Uno' ;èm 1929 e ligente e empreendedor, foi cura arejado para o tempo. Passava as tardes
faleceu em 4 de agosto de 1944, com 67 anos. ;" de domingo pescando na ponte, de linha, mas às quintas-feiras soltava um
7
«. O primeiro mesmo foi o caminhão da Salutaris, que o progressista t e jornal de política católica dura. Saiu de Paraíba em 1917 para seryir na
diligente Palhares trouxe para transportar os engradados da água pára a catedral de Niterói, onde em 1927, já monsenhor (1925), passou'ã gover-
estação. Olho Vivo, o jornal satírico de que era alma, creio, Romeu de nador do Bispado. Nasceu em 3 de dezembro de 1853 em Angra dos Reis,
Albuquerque, nos dá essa certeza indiretamente numa de sups hòtâs de •', "o mais velho de dez Irmãos pobres". Faleceu em Niterói no Natal de 1931.
chiste, em dezembro de 1911, quando ainda não se introduzirá : p" termo só. A companhia favoreceu as iniciativas progressistas, apoiada pela Câ-
caminhão (primeiro foi camião}'. '. mara, que ao isentar as construções temporariamente de impostos conse-
"O automóvel Salutaris, há pouco chegado a esta cidade* já fez'Uma guiu a renovação imobiliária parcial da cidade, principalmente na Deodoro,
vítima e esta foi o Rodrigo Carapinaque; tentando fazer bonito, sUblii'ao apressando sua consplidação como centro de comércio junto à npva.es-
costado do auto-reumático, para logo depois precipitar-se de espinhaço sobre l|tação, inaugurada en> 1913. Essas medidas, possivelmente, levaram à íris-
tófâl.ação da Prefeitura em Paraíba (em 1916, com Eurico Teixeira Leite e filho
o solo ... Livra!"
Carapinaque era por certo Diguinho Albergaria, filho do 'velho rCòrner-i gtíòt;dr, Leopoldo como primeiro prefeito). É que financiamentofí ;èníprés-
ciante homónimo da rua da Estação (bilhares), e o "reumático" parece: jftímos,e outros compromissos das câmaras com &éu£nàtà8o.£Jjffi^rfyi$r'
revelar que o carro fosse de segunda-mão, o que não podia escapar*ao 2 p;,;Sa3ojr|peld Governo; do Estado para implantar admínístraèão|;IÍ3çf5Sn|rpÍe
olho vivo do Romeu. " "'•• : w ~ - ' ' " ' ' " • ^P jlfjml^fefetivò nos municípios, através de prefeitpsr.o^qlue^^lfia^^lijlfflliífi:^
f». A cidade assistiu a cinema peia primeira vez, parece;•èhV janelro^de;- SÉÍritnTffiprescente
!
' -,':<'&e>.' • • i"--»-*""'''-.
no início do século. Os de Niteróiè ~"''*'''"''**""'^"-•"*•-'-•
1910, quando o Circo Pathé — nome por certo copiado da pioneira Indústria,
III
72 PEDRO GOMES DA SILVA

O prefeito Spino construiu nas estradas municipais as pri-


meiras pontes de cimento armado, e calçou a paralelepípedos
S'é a Alexandre Abrahão a rua Marechal Deodoro, que pelos
os 15-20 já roubara da Direita o melhor comércio da cidade,
vido à vizinhança da estação 81 . De 1927 a 30, José Inácio na
Prefeitura intensificou a construção de pontes de cimento';e
concluiu o calçamento da Marechal. Na sua extremidade, com- e
pletando setenta anos desde que aberta, a grande praça da capítulo 5
ponte, Prefeitura e matriz ganha o logo chamado Jardim Novo
em 1928, de estilo francês, com canteiros simétricos, pequenas
árvores podadas e farta iluminação"2.
José Inácio fez ainda grandes aterros em Entre-Rios, me-
O Foro dos Cearenses
lhorando as condições de desenvolvimento da povoação.
António Visconti assumiu em janeiro de 1930 a adminis-
tração do município, como seu último prefeito eleito na cha-
mada República Velha. A revolução de outubro daquele afio Ó decreto da Regência que reorganizou a Província do Rio
o apeou do poder, como a todos os outros prefeitos' douRafs. de Janeiro e criou seus primeiros municípios também a dividiu
No curto período de sua administração Visconti, que era indus- pm '.seis comarcas, sediando uma na vila de f Cantagalo83. A
trial, levantou a planta para a melhoria do abastecimento dágua essa ;} comarca pertenceu de início o termo da Paraíba.
da cidade, reformou seu cemitério e concluiu pontes e estradas .A constituição dq termo teve lugar a 5 de junho de 1833,
iniciadas pelo antecessor. n > > com a nomeação Vdas primeiras autoridades judiciais aponta-
M1
das à Regência peja Gamara Municipal. Foram o capitão-mor
. Nosso centro comercial já fez a seguinte peregrinação: Lavapés — 'José Agostinho de Abreu Castelo Branco como juiz municipal;
Rua Direita — Estação — Rodoviária, seguindo o ponto da mula, barca,
j José Leocádio do Vale, juiz-de-órfãos; e padre António Marcos
trem
R
e õnibus de Abreu Castelo Branco, promotor.
'-'. A praça nascida depois do plano Koeler e aberta com 70 m de largura
por quase 300 de comprimento, por administradores de visão como o;vis- De início, o termo foi fraquíssimo, pois a população do
conde da Paraíba, o barão de Simão Dias e o dr. Leopoldo, veio depois-dos cmunicípio em formação era diminuta. Mas com a chegada do
anos 30 a ser atulhada por prefeitos em tudo diferentes daqueles presi- café, e o progresso geral foi-se rapidamente animando.
dentes da Câmara. "Paraíba é a única cidade onde se afora i logradouro
público", ouvi de um funcionário municipal que vem acompanhando esses '.'; Em 13 de abril de 1835 nosso termo se desliga de Cahta-
atentados ao bom-gosto e urbanismo há muito tempo. :
" -i, '"• ' galb e passa à comarca criada então em Vassouras, bem mais
próxima. Sendo porém as comunicações mais fáceis com a
vila da Estrela, pela Estrada Geral de Minas — o velho Caminho
»•''. Essa vila criada em 1814 foi das que teve desenvolvimento mais lento
e difícil, por se terem esgotado logo depois os veios auríferos que -lhe
deram origem e povoamento rápido. Sobreveio a decadência è o despo-
Ypamento do distrito,, tanto que, pela decisão n." 34, de 4 de setembro de
,.,1817, foram extintos os cargos de "tesoureiro, escrivão e meirinho da arre-
éadação do real quinto do rio das minas de Cantagalo". Passou mesmo
;!rnuito tempo sem condições de construir a "casa da camará" e a cadela,
exigências ao povo da vila para sua ereção. .. itj v
iúí Aísede de comarcç na vila deveu-se à sua posição geográfica na pró-
^víncia,, tendo-se procurado em 1833 a equidistâncía entre elas, de ; modo a r
jiue^cada qual ficasse no centro de determinada área , em tqrrnós, /tahto;»
'tríáis 'duas : comarcas dá , serra (Resende e Cantagalo)' 'como1 f rfás' trêsvdo
S' litoral (Angra dos Reis, Itabòraí > e Campos), exoetuandó-se^aícorrtaTcaitlo''
s filo pelo volume de seus processos. >.—~-^ILi,, >•;'' II
Siff í Nada 'tem a ver, assim, a sede do juizado de cdlr
pvtmentdptèÈido >sido Cantagalo sempre das menores í

•''•
. ,*,,• W*)
74 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPfTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 75
do Proença —, o termo a 25 de outubro de 1854 se liga à co- Aristides e Demóstenes da Silveira Lobo, republicanos
marca criada naquela vila litorânea. Em 30 de novembro de históricos, advogaram em Paraíba do Sul, e Martinho César da
1871 se anexa à instalada em Petrópolis, de foro muito menos Silveira Garcez, sergipano e homem de grande cultura, cons-
movimentado que o de Paraíba mas cidade de posição mais tituiu família aqui. Além de grande jurisconsulto, brilhante
7-.
í central na Província, o que facilita a constante comunicação jornalista e sobretudo eloquentíssimo orador, foi deputado pro-
com os termos, tanto quanto possível circunvizinhos. Final- vincial por Sergipe em 1874 e senador federal de 1900 a 1908. •
mente, o movimento do foro justifica a criação de comarca em Governou seu Estado em 1896, numa fase política agitadíssima.
Paraíba, apesar de sua posição quase limítrofe na província, a Na campanha abolicionista, foi Martinho Garcez quem por
apenas 15 quilómetros em reta da divisa com Minas. O decre- meio do verbo eloquente fez abolir a pena de açoites. Foi
to 2 125, de 29 de novembro de 1875, cria a comarca, ou seja, redator de diversos jornais e publicou obras de Direito que me-
sede de juiz de direito, anexando-lhe o termo de Sapucaia. Seu receram elogios de Rui Barbosa, Clóvis Bevilacqua e outros
primeiro juiz foi o dr. Manuel Rodrigues Jardim Goiano, insta- mestres, que o tinham no melhor conceito. Foi diretor da Fa-
lando-se a 23 de dezembro de 1876. culdade de Direito de Niterói desde a fundação.
Uma relação suscinta dos primeiros serventuários de jus- Martinho de Freitas Vieira de Melo, primo de Martinho
tiça nomeados para nosso termo pelo presidente da Província Garcez, sergipano também, depois de juiz municipal em Valen-
começa corn José da Costa Quadros para solicitador de resí- ça veio advogar em Paraíba do Sul. Foi figura notável; repre-
duos-e-capela (7-5-1835), e João José da Rocha para serventuá- sentou Sergipe na Câmara dos Deputados de 1872 a 1875. Jor-
rio vitalício desse ofício (25-7-1837), nalista, bateu-se pela imprensa em prol da Abolição. Sócio
No final do Império o foro de Paraíba do Sul era conheci- honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, por
díssimo na Corte pelos importantes inventários processados. cuja história muito se interessou como descendente de bandei-
Já aqui residia o conselheiro Martinho Campos, que no parla- rantes que era, faleceu no Rio em 1897 subdiretor do Correio.
mento convidava seus colegas a virem instalar banca em Pa-
raíba, atraindo muitos deles, principalmente filhos do Ceará, rahybano de 22 de setembro de 1869 noticiou o aparecimento da 14." edição
chegando mesmo a haver em Paraíba uma colónia de cearenses. das Ordenações, publicadas peio advogado, professor, geógrafo, historiador,
político e senador desde 1871 pela província de Maranhão, que já em 1861,
Entre os advogados que passaram pelo nosso foro convém pelo menos, residia na Coqueiros n." 13-(Porteiras) e tinha banca de advo-
salientar Emídio Westphalen, Honório Rodrigues de Faria Cas- gado na Mineiros n.° 12.
tro, José Maria Melo de Albuquerque, João Gonçalves Gomes Na sua biografia pelo bisneto (bibliografia) se acrescenta àquelas ativida-
de Sousa, Bernardo da Gama e Sousa Franco, José Ayres do des, que já fariam do bisavô intelectual consumado, esta sobremaneira simpá
Nascimento, Carlos Canuto Malheiros, Aleixo Ferreira de Car- tica: gráfico. Lá está: "Tipógrafo, não só escrevia seus livros, mas também
os imprimia." E mais além: "Fundou o Instituto Filomático. Das máquinas
valho, Gervásio Mancebo, que serviu como promotor do termo, desse estabelecimento de artes gráficas, que funcionava a princípio no
e o advogado Manuel José Marinho da Cunha, que foi gover- porão de sua casa, saíram não só a maioria de suas obras, mas também
nador do Rio Grande do Norte e, como deputado provincial flu- a parte litográfica do Atlas que, apesar das dificuldades existentes, con-
minense, muito fez pela Paraíba do Sul, onde se radicou. seguiu constituir uma maravilha de impressão."
Dos mais brilhantes advogados aqui foi o dr. Francisco Cândido Mendes de Almeida (1818-1881), ainda académico em Olinda,
lecionava geografia, uma paixão. Desde 1843 deputado pelo partido Con-
Januário da Gama Cerqueira, que foi juiz municipal do termo, servador, até a morte só não esteve no Parlamento de 1864 a 68, no famoso
conselheiro do Império e deputado-geral pela sua província de gabinete liberal de Zacarias de Góes e Vasconcelos, quando residia em
Minas Gerais. Radicado também em Paraíba, em 1876 ocupou Paraíba, onde nasceu o filho homónimo, Cândido (1866-1939), advogado cri-
a pasta do Império no gabinete Caxias. Uma sua filha casou-se minalista, escritor e criador de nosso primeiro curso de economia.
É possível que tenha vindo morar em Paraíba em 1860, quando se
com Pedro de Toledo, ilustre político paulista e governador re- aposentou na Secretaria de Justiça, trazido por colegas no Parlamento que
volucionário de São Paulo em 1932. viviam aqui. Não se 'sabe se alugou do Chabregas (Francisco Manco Ro-
O dr. Cândido Mendes de Almeida, maranhense ilustre, foi drigues Chabregas) ou lhe vendeu o sobrado em cujo porão instalou a
senador do império e instalou, além jda banca de advogado, oficina gráfica que lhe deu fama também como editor. (Em 1845 fundou
uma moderna tipografia, imprimindo obras notáveis em Paraíba, seu primeiro jornal em Caxias, no Maranhão.) O fato é que em 1867,
quando a Pedro II cortou os fundos da chácara para ali passar com a fer-
em seu sobrado elegante nas Porteiras, de frente para o rio8'1. rovia, muito do encanto e bucolismo daquele recanto, aristocrático na Pa
R4 raíba de então, se esvaneceu.
. "Parece-nos que o começo dessa obra teve lugar nesta vila, quando Talvez a perda da quietude em sua chácara na beira-rio tenha apressado
o dr. Cândido Mendes aqui esteve exercendo a advocacia." Assim o Pa-
a saída desse intelectual e trabalhador incansável de Paraíba.
76 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 77

Dos advogados Filhos de Paraíba do Sul, os que mais se


destacaram foram: Martinho Alvares da Silva Campos Filho, Dentre os advogados que compunham a colónia cearense,
José Geraldo Bezerra de Meneses e Caio Cordeiro dos Campos destacou-se a personalidade forte do dr. Jerônimo Macário Fi-
Valadares, conhecedor profundo de Direito. E ainda Francisco gueira de Melo, a sua figura mais original, célebre pela irreve-
Bastos de Oliveira Matos, formado por Coimbra, onde foi primus rência e desassombro com que enfrentava os adversários no
inter pares como aluno, uma grande glória de Paraíba; José de foro. Sarcasta impenitente, chicanista temível, no júri eletri-
Castilho Sobrinho, que se revelou ótimo advogado, e José Iná- zava a assistência, e vinha gente de toda parte para assistir
cio da Rocha Werneck, político que exerceu diversos cargos às suas preleções, pois conhecia retórica a fundo, aliada à His-
públicos no Estado, além de ter sido prefeito municipal. tória; e tinha piadas que fulminavam os adversários.
Foi o conselheiro Martinho Campos quem tomou a inicia- Em um processo que moveu contra o cónego Sales por
tiva de convidar Leandro de Melo Chaves Ratisbona a instalar este tentar agredi-lo a chicote, na acusação o dr. Macário apre-
banca de advogado em Paraíba do Sul. Vindo, Ratisbona gos- sentou aos jurados uma cenografia que mostrava Cristo empu-
tou dos resultados da mudança e convidou a acompanhá-lo seu nhando chicote e expulsando os vendilhões do Templo; e berrou
primo, Leandro Bezerra Monteiro". Em 1864 ambos instalaram em voz alta: "Leiam a História Sagrada! Só aqui foi admitido
de sociedade um escritório de advocacia na rua dos Mineiros. o chicote! Foi a única vez em que o Nazareno se exasperou, para
Já residia ern Paraíba desde 1856 o advogado Jerônimo banir os salafrários do Templo! Como é que um representante
Macário Figueira de Melo s(1 , que fora promotor e juiz municipal de Jesus na terra quer agredir a chicote um homem de bem?"
ern Piraí, onde sustentou tremenda luta com a família Breves. Quando o dr. Horácio Magalhães foi nomeado promotor em
Ratisbona e Bezerra Monteiro não foram egoístas pois, Paraíba e falou pela primeira vez no júri, teve grande altercação
vendo que aqui havia trabalho para mais advogados, convidaram com o dr. Macário e esse, para ridicularizá-lo, pilheriou: "Em
colegas e amigos, todos cearenses e aparentados. França, senhores jurados, dão-se as promotorias a homens ido-
sos, de barbas e de bigodes, calejados pela profissão. Em
s
'. Consta que o dr. Bezerra .substituiu o Meneses pelo Monteiro, de outro Paraíba a promotoria é dada a rapazinhos de pince-nez e bigodi-
ramo da família, para não assinar como o primo fundador da Federação nhos louros! Está tudo errado!" E repetia uma célebre frase
Espírita Brasileira. Sua vinda e a presença de Cândido Mendes na vila
de sua autoria, a que de quando em quando voltava: "Dai a
devem ter influído na fundação em 1864 de nosso primeiro jornal, Parahy-
bano, do partido Conservador. Eram correligionários políticos e católicos este país Justiça reta, circunspecta e pronta, e vereis como
intransigentes. dessa rocha miraculosa jorrará a grandeza que há-de fazer a
O dr. Bezerra abriu polémica em 1882 com o barão de Ribeiro de Sá felicidade da Nação Brasileira!"
quando, depois do falecimento dos doadores de verbas para a fundação de Nos a pedidos da imprensa carioca, o dr. Macário era autor
asilo e hospital de caridade, e como presidente da câmara municipal e
provedor da irmandade criada para executar o projeto, quis aplicá-las na
constante. Seus artiguetes, cáusticos, eram diatribes violen-
construção de estabelecimento de ensino. Essa polémica ressurgiu na tíssimas contra colegas de foro, juizes e até partes adversárias.
imprensa entre seus descentes 60 anos depois (cf. nota 211) e teve reper- Não temia ninguém, do pé-rapado ao barão.
cussão na retirada do nome do barão de uma rua de Três Rios (cf. nota 212). Morava o temível advogado na praça Marquês87 e tinha o
O dr. Bezerra faleceu em Niterói em 1911, com 85 anos. hábito de trabalhar até alta noite. Seu escritório dava para a
«". A mais forte personalidade de homem público entre nós. Desprezava
convenções e não aceitava qualquer peia a ação responsável. De qualquer frente da casa, de porão alto e respiradouros sob o assoalho.
ato seu ressuma seriedade. E tinha o gosto da polémica, o que lhe gran- Certa noite, um desafeto — tinha-os às dúzias . . . — colocou
jeou infinidade de adversários. Prato predileto de Agripino Grieco na Pa- pelo respiradouro dinamite sob o escritório, mas quis a Provi-
raíba caricata que criou e perseguiu toda a vida, sai o dr. Macário de seus dência que o atentado falhasse, pois a bomba explodiu quando
escritos corno figura anedótica e quase ridícula. No entanto, escritores
se ausentara da mesa de trabalho. Foi tudo pelos ares, mas
responsáveis como Silva Jardim e Rodrigo Otávio só têm elogios à retidão
do caráter, o que nosso conterrâneo não viu. talvez por falta de acuidade. o dr. Macário saiu ileso.
A questão aí citada com os Breves, é bom deixá-la de quarentena, pare-
cendo mais coisa do Agripino, que no prinsípio influiu muito sobre o autor «". Era o n." 7 da praça, hoje 61. Nele morou ainda o juiz- Cornélio,
e teve nas excentricidades do comendador Breves outro prato suculento assassinado na rua Rebelo (hoje Alexandre Abrahão) em 1903, tendo sido
para alimentar suas estórias. depois ocupado pelo padre Xavier (cf. nota 79), que tomou a fachada
O dr. Macário nasceu em 1830 e faleceu em 1895. Em sua pedra tu- adiante descrita como sacrilégio e a mandou demolir. Parece, o padre não
mular há relação dos cargos públicos que exerceu. E no final o filho, juiz concordou foi com o complemento da inscrição ali colocada pelo dr. Ma-
de direito, gravou no mármore muito bem: "Como advogado neste foro, cário, omitido no relato pelo autor: "Homenagem a Jesus de Nazareth."
soube cumprir o s RU dever." Padre Xavier não gostou da familiaridade. E derrubou tudo.
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARA(BA»DO SUL 79 "B&fsÉI
78

Como reconhecimento pele milagre — e um pouco de pi- . O dr. Pergentino foi professor do grande;Glóvis Bevilacqua
cardia para com os inimigos —, mandou erigir na fachada der- no Ateneu Cearense. Era natural de Aracati.iondei exerceu, as
^ruída o que lembrava uma torre, encimada de cruz, com a ins- funções de promotor, como também em Sobral. Com ;VÍrgílio
Augusto de Morais, redigiu a Gazeta Forense de Fortaleza. 'Foi
jèrição: Só Deus é grande.
O dr. Macário veio solteiro, casou-se, enviuvou e casou de ainda diretor da Instrução Pública do Ceará. -í
novo com Carlota de Almeida. Teve desse consórcio oito filhos, ! Escreveu Clóvis Bevilacqua sobre o dr. Pergentino na His-
dentre eles o desembargador Adolfo Macário Figueira de Melo. tória da Faculdade do Recife, Vol. l, pg. 157: "Advogado de me^-
Possuía a fazenda São Romão, ao sul de Cavaru, e foi deputado- recimento, latinista, homem de cultura clássica."
Alguns dos solicitadores de nosso foro ficaram famosos,
geral pelo Ceará.
Outro advogado notável da colónia foi Leandro de Chaves destacando-se entre eles Joaquim José Fernandes de Araújo,
Melo Ratisbona, que se instalou em Paraíba em 1861. Repre- José Inácio Vieira Machado, João José da Rocha, Francisco Fur-
sentou sua província na Câmara dos Deputados em várias legis- tado de Mendonça e Bernardino Pacheco89.
laturas. Seu primo e companheiro de banca, Leandro Bezerra O capitão Bernardino Pacheco conhecia intimamente os se-
Monteiro, foi várias vezes retirado de sua advocacia em Paraíba
para ocupar o cargo de deputado por Sergipe e Ceará. '
gredos da advocacia e teve uma das melhores bancas de Pa-
raíba do Sul. Quando lhe perguntavam por que não adquiria
11
Foi em 1872 que a ação do preclaro paraibano por adoção pergaminho, respondia com toda a simplicidade; "O necessá-
se fez mais sentir, como deputado geral, na legislatura errTqúé rio é ter causas, e isso eu tenho mais do que os advogados."
se agitou a Questão Religiosa motivada pela perseguição aos E era a pura verdade. O escritório do solicitador vivia
bispos do Pará e de Olinda, D. António de Macedo Costa e Frei cheio de bacharéis iniciantes, que utilizavam sua experiência.
Vital, pela oposição aberta que faziam à ação da maçonaria rio Foi combatente no Paraguai, jornalista e escreveu trabalhos
Brasil. Leandro Bezerra, fervoroso católico, fez-se advogado dos V:
literários. Teve apenas curso primário na escola pública da
bispos no Pariamento. Os anais da Câmara em 1874 é a1 im-
1

cidade, de onde saiu para caixeiro do pai. Homem de caráter


prensa da época consagraram seus discursos notáveis e a intre- •Í; firme, foi sem dúvida o rábula mais notável de nosso foro,
pidez e dedicação à causa, conforme se verifica nos escritos tendo tido a honra-de ser biografado pelo poeta Jarbas Loreti.
dos padres Sena Freitas e Júlio Maria. Outro rábula de nome no município foi José Cláudio da
José Gonçalves Viriato de Medeiros, criatura de boa saúde Silveira, que se deixou seduzir pela política e teve grande pres-
moral e cultura jurídica incomum, humanista de grande mérito, tígio. Foi também músico.
destacou-se como notável advogado e administrador érn nosso í Solicitador notável foi também Carlos de Alvarenga Sales,
município. Foi deputado federal na Constituinte de 1891. jornalista e professor, orador fluente, de vastíssima cultura, crí-
Rufino Furtado de Mendonça, político fogoso, hábil sofista, tico que julgava no primeiro relance.
portador de uma soberba cultura latina, era ao final do Império Outro rábula, ranzinza, uma espécie de zangão, foi Álvaro
o chefe do Partido Liberal no município. Foi o último viçe-prè- Costa. Inteligente, vivo, fazia frente a advogados: e sempre
sidente da Província e na manhã do 15 de Novembro tentou em achava a porta de saída em qualquer labirinto...
vão opor-se ao golpe de Deodoro. Em janeiro de 1891 elegeu-se Entre os escrivães e tabeliães que mais se destacaram está
deputado à primeira constituinte do Estado do Rio. Cearense o tenente Francisco Leite Alvares de Oliveira, que se embre-
também, o dr. Rufino casou-se em Paraíba com uma cunhada,do nhando em política sofreu enorme campanha dos advogados.
dr. Macário. Era sua a Vila Jatobá, no bairro desse nome*8. Outro escrivão a deixar memória foi António Alves Filho,
Ladislau Acrísio de Almeida Fortuna, outro cearense, foi que figurou numa obra de Rodrigo Otávio90, Coração Aberto;
advogado, político, e deputado à Assembleia Fluminense. Vale a pena transcrever o que registrou o académico sobre o
Pergentino da Costa Lobo, que morreu com quase 90 anos, s». Escrevia em profusão e num estilo horroroso; mas foi. homem, diligente
da colónia de cearenses da Paraíba era o benjamim. Boníssima e que veio de baixo. Nasceu e faleceu em Paraíba, em 1848 e 1905. Como
criatura e preclaro jurista, sobreviveu por longos anos aos co- solicitador trabalhou de Início com o dr. Rufino. Na década, de '(1880 fpj
legas de tribo. Veio após ser juiz municipal em Ubá, Minas. redator-chefe do Parahyba, só ultrapassado em ruindade érri nossa'Imprensa
pelo Paraíba do Sul (1947) de Érico de Bacelar e Sousa.
8R
. Figurante de papel não muito esclarecido na Revolução de 1891 e prin- 9». As circunstâncias que levaram à crónica que se-vai ler-constam'da
cipal vítima na perseguição política que se seguiu. Faleceu no Rio de nota 62. Rodrigo Otávio Langaard de Meneses (Campinas, 1866?*^ -RtOj
1944) chegou a Paraíba no dia 2 de dezembro de 188$^- "o! primeiro -não
Janeiro a 13 de agosto de 1903.
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 81

mais famoso escrivão de nosso foro, para muito contemporâneo Paraíba 9 '. Era amante das artes, recebendo visitantes famo-
seu, personagem sinistra: sos como o maestro Carlos Gomes.
"Viva ainda encontrei ní a tradição do escrivão Alves Filho, Possuía o tabelião um cozinheiro chinês, e ele mesmo
que durante dezenas de anos fora o manipulador de toda a ditava o cardápio. Entrou na política por influência do con-
alquimia forense da Paraíba. cunhado, Rufino Furtado de Mendonça. Era ótimo amigo da
Era evidentemente um homem forte; senhor de todos os Paraíba e só se retirou daqui após os sérios acontecimentos
segredos e de todas as molas, dominava a situação e se fazia no governo de Francisco Portela, do qual foi sincero adepto.
temido. Mas houve um juiz de direito que teve a coragem de Outros tabeliães notáveis foram o coronel Raimundo do
suspender o escrivão potentado, e no dia seguinte a situação Espírito-Santo Fontenele5'2, veterano da guerra do Paraguai, e
estava mudada. A fortaleza ruíra como um castelo de cartas, Miguel Inácio Vieira Machado, zeloso, honestíssimo e inteligen-
e os juizes que foram vindo mantiveram e renovaram a sus- te. Educou todos os filhos na tradição paterna. Tabelião mais
pensão, de sorte que o afastamento do escrivão da efetividade de 25 anos, deixou arquivo que atesta sua capacidade.
forense foi definitivo. Agora, nos nossos tempos, o tabelião António Garcia Fi-
Ouando cheguei a Paraíba, ele vivia, mas, muito idoso e lho"''1 é figura de respeito no antigo cartório Fontenele, e Jarbas
achacado, não mais saía, e eu só o vi morto. Certa noite,
logo após a minha chegada vieram prevenir-me de que Alves '". É ainda a casa n.° 5 da praça Francisco Glicério, na Grama. O major
Filho havia morrido, e como não tinha família eram precisas Damião era de tora mas desde 1880, pelo menos, escrivão de cartório em
Paraíba. Perseguido após a Revolução de 91, trocou o 2." ofício com o ta-
providências imediatas de acautelamento. Dirigi-me logo à belião de Vassouras, Raimundo do Espírito-Santo Fontenele, a quem conhecia
casa mortuária e vi, então, na imobilidade da morte, envolto num desde o Paraguai.
lençol branco, deitado sobre uma grande mesa na antiga sala <>-. Fontenele se retirou de Paraíba em fins de 1913, aposentando-se logo;
de jantar, o corpo bronzeado e a cabeça calva do velho escrivão, mas antes ajudou o amigo de Itaperuna, António Garcia Filho, casado com
paraibana que desejava voltar. Simularam troca de cartórios. O velho ta-
a cujos manejos, por longos anos, se criaram e entretiveram belião se mudou para São Paulo, onde a esposa faleceu em março de 1914,
inimizades e ódios, alianças de adversários da véspera, e diver- e ele no Rio três anos depois.
gências de família que, não raro, acabavam em sangue. O Vieira Machado referido era titular do 3." oficio na mesma época.
Na arrecadação do que deixara, entretanto, não se encon- E as patentes de coronel aí e abaixo gritadas, dos tabeliães Fontenele e
traram, como era crença de muita gente, processos e testa- Werneck (último presidente da câmara e nos anos 20 vice-presidente do
Estado), são para lembrar serem também da Guarda Nacional, como aliás to-
mentos cujo desaparecimento, em seu tempo, havia revolucio- das as citadas. E nesse época eram das últimas, pois a República vendeu
nado a Comarca. tantas, e a qualquer um — foram-se os tempos da Junta de Qualificação —,
Não podendo nessa ocasião tomar providências, que só que o povo apelidou a Guarda, de tão efetiva atuação na época caótica da
poderiam ser feitas em horas úteis, requisitei praça e oficiais implantação do Constitucionalismo (1831-1835), de Guarda-Não-Sou-Nada.
Com Isso, acabou com ela.
para guardar a casa e retirei-me ruminando, pela frescura da
"". O muito popular seu Garcia faleceu em abril de 1977 em seu bonito
noite, na transitoriedade do poder dos homens." chalé da beira-rio, a cinco meses de completar 100 anos. Pouco antes,
Simpático e enérgico era o major Damião José de Sousa também sua esposa; aos 97.
Guimarães, tabelião, veterano do ParagfjãT~lT15õmêrtà^(5F7 O Foi muito tempo provedor da Irmandade Nossa Senhora da Piedade
major Damião era de uma independência única, nunca se sub- e viveu tranquilamente 64 anos num dos cantos mais pitorescos da cidade,
quando de sua comprida varanda ainda se via o rio: e diante do bosque,
jugando a qualquer advogado ou juiz. Vivia jogando as cristas então silente e frondoso, criado pelo dr. Bernardino em 1908 com a su-
com eles, provocando-os quando andavam errados, pois conhe- pervisão de seu Milote.
cia leis tão bem como juizes e promotores. No mesmo quarteirão do Fórum, o simpático chalé teve quatro pro-
Sempre que os juizes se ausentavam da comarca, ele ime- prietários, todos ligados às "lides forenses". Construído no final do Império
diatamente comunicava aos poderes competentes, saindo às pelo tabelião do 3." ofício, José. António da Gama; nele falecido em 1890,
foi comprado peio jovem advogado petropolitano João Augusto de Oliveira
vezes brigas por causa de sua vigilância pelo bem do Foro. Belo, vitimado também ali pela febre amarela, em 1891. De sua viúva o
Casou-se com uma filha do fazendeiro do Inema, João Ja- comprou em 1892 o recém-chegado tabelião Fontenele, que ao se aposentar
cinto de Almeida, e sua residência era a casa mais alegre da teve a boa ideia de vendê-lo ao seu Garcia, em 1913. Agora, porém, do
supermercado ali já não se vê o rio. E o bosque está virando praça.
feriado em muitos anos" —, aniversário de Pedro II, e aqui foi juiz muni- A demolição do chalé do seu Garcia em meados da década passada
cipal até fevereiro de 1891, quando volta ao Rio para trabalhar na pro- levantou celeuma na cidade. Parece, já não se cometem aqui atentados
curadoria da República. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. desse tipo sem causar protestos. Salve (ou salvem?) Paraíba!
S2 PEDRO GOMES DA SILVA

Alves de Sousa no do 1." Ofício, onde substituiu o coronel João


Maria da Rocha Werneck.
Os promotores públicos de nosso Foro que mais destaque
'obtiveram em sua carreira foram o já mencionado Rufino Fur-
tado de Mendonça, que exerceu o cargo em 1867, Joaquim Fran-
cisco de Oliveira Santos e Benedito Cordeiro dos Campos Va-
ladares, que de cordeiro não tinha coisa alguma . . .
Valadares, mineiro de Pitangui, jurista e habilíssimo polí-
tico, formou-se por São Paulo e foi deputado provincial e federal
diversas vezes. Quatro anos promotor em Paraíba, de 1876 a
1880, abandonado o cargo ficou advogando aqui e constituiu
família. Fez-se fazendeiro e político de grande prestígio no mu-
mcipiO' 1 Foi ainda diretor geral da Instrução Pública do Dis-
trito Federal e lente de Direito Civil na Faculdade Livre de Di-
reito do Rio de Janeiro, da qual foi um dos fundadores.
Terminemos esta relação dos grandes do foro paraibano
lembrando que também nosso maior administrador, Leopoldo
Teixeira Leite"-"1, começou aqui como promotor a vitoriosa car-
reira pública.
'". A fazenda é a da Paciência, zona de Matozinhos, e lhe veio por casa-
mento na família do proprietário, um parente. Benedito Valadares era o
presidente do Conselho de Intendência (Câmara Municipal no início da Re-
pública), quando da cisão do Partido Republicano no município (outubro de
1890) que levou à Revolução de dezembro de 1891. Ficou na facção Por-
tela e em março de 1891, com Rufino Furtado de Mendonça, elegeu-se
q primeira Constituinte do Estado. Caiu com o governador na Revolução.
No início do século, o dr. Valadares ainda advogava em Paraíba, tendo
hanca na Tiradentes com o filho Caio. O assassínio do juiz Cornélio, a
mando de Caio (julgado e absolvido), abalou o prestígio da família no mu-
nicípio. Caio foi para o Acre, então incorporado ao País, e o dr. Benedito
aos poucos abandonou a carreira, pelos fins da década, com cerca de 60
anos (nascera em 1848).
!ir
'. Ao substituir na promotoria a Benedito Valadares, em março de 1882,
o jovem filho do barão de Vassouras iniciava a brilhante carreira política.
centrada em Paraíba. Ainda não tinha 23 anos, pois nascera em Vassouras
a 3 de novembro de 1859. E no mesmo 82, em agosto, lança aqui seu
primeiro jornal com Soares de Sousa Jr., A República, deixando a promotoria
para advogar. Em fins da década já construíra na chácara que se estendia
da 13 de maio (Duque de Caxias) à beira-rio. E sua casa, em cuja porta
foi baleado por Angelino Moreira em 1." de setembro de 1907, foi daí em
diante o centro nervoso da política municipal até retirar-se em definitivo
para Niterói, fins dos anos 20, onde faleceu a 13 de março de 1932, quando
completava exatos 50 anos de vida pública.
A política foi o' móvel de toda a vida desde que, recém-chegado, funda
em junho de 1882 o Partido Republicano em Paraíba. Em maio de 90 al-
cança a presidência da Intendência, na Revolução de 91 a vice-presídêncla
do Estado. De 92 a 95 faz a grande administração reportada por nosso
autor. Depois se sucedem os mandatos de vereador, deputado estadual
e presidente da Assembleia várias vezes; e deputado federal pelo Estado.
E ainda funda e dirige a Faculdade de Direito de Niterói.
A PRIMEIRA ESTAÇÃO

Ao ser inaugurado em 1867 e/a ficava fora da vila e pro-


vocou a construção da primeira rua de acesso ao vale por trás
c/o morro da igreja velha. Foi a Pedro l, trecho final da Deo-
capítulo 6
cloro aberto em rampa a partir da praça da ponte e onde, em
tempo de chuva, se atolavam as pesados carroças de café
como s do pai do maestro Guerra da Costa. Exato na divisória
das bacias do Limoeiro e do córrego das Palhas, o pátio da
O Lavapés e a Ponte
estação permitia ao trem parar no plano, descansando da rampa
forte em que chegava da margem do rio. Em pouco tempo a
rua se estendeu ao outro extremo da vila, ligando a estação
ao Lavapés e compondo o anel urbano em torno do morro da
casa-grande de Garcia. E logo para ela se mudaram os arma- Lavapés e Ponte tiveram o mesmo papel no desenvolvi-
zéns de café da Mineiros e Direita, e hotéis do rossio da vila. mento da cidade: puxaram o povoamento do núcleo inicial, nos
Por 1910 a Rua da Estação já era o centro comercial.
O primeiro nome ligado ao trem em Paraiba é o de José ranchos de tropeiro da praia da barca. O bairro, a partir do
Manuel Ratton, em dezembro de 1868 homenageado pelo comér- começo do século XVIII; a ponte, cem anos depois e na insta-
cio. Parece, era o agente, mas o Parahyhano só o chama "em lação da vila, quando eram ambos seus extremos.
pregado da estação". O mais famoso e de mais longo tempo Lavapés é topónimo tradicional em Paraíba do Sul. Tinha
de serviço nesse prédio foi o "velho" Bibiano, que em 1902
ainda voltou de licença mas faleceu pouco depois. Bibiano de essa denominação o trecho do Caminho na entrada do povoado
Avelar Diniz foi agente cerca de 30 anos e no auge do café. colonial onde viandantes e bestas atravessavam a-vau o córre-
Na foto a rua está em escavação, talvez para ampliar a go, que hoje chamamos Limoeiro, e que está canalizado sob o
tubulação de agua, e separada da via férrea pe/a grade de popular largo de Santana. Aí, todos eram forçados a molhar
trilhos usados que só nos anos 50 deu lugar ã de cimento va- os pés. Daí ficar o local conhecido como Lavapés.
zado. O chalé fronteiro à estação, que no rumo do interior
ficava a 200 metros da atua! (de 1913), foi dos primeiros hotéis A primeira ocupação do local foi com ranchos para abrigo
da rua e no ramo acabou com o nome de "Salutaris". Subsiste de tropas e viajantes, que os preferiam aos existentes ao pé
de pequenas lojas e quartos de aluguel. Entre as árvores da da passagem da barca. A razão disso talvez fosse a boa água
rua arborizada de 1892 a 95 pelo dr. Leopoldo se vê o asilo da do córrego, que desce das montanhas.
Caridade, de 1882 e perdido no incêndio de 1955 (hoje estaria
Pouco a pouco foi o Lavapés crescendo, chegando mesmo
encoberto pela igreja, que é de 1923). A plataforma junto è
rua, talvez posterior à estação, parece coberta de telhas sobre a ser o local mais povoado de Paraíba no período colonial, corn
armação de ferro. E ao fundo a matriz ainda tem sacristia baixa. o agrupamento dos primeiros negociantes 00 .
A estação está embandeirada. Há três arcos de ramos Em 1858 foi construída no largo a igreja de Santana, por
entre as plataformas e uma girândola de fogos queima num iniciativa dos comerciantes locais e com auxílio de subscrições
poste alto. Espera-se evidentemente um figurão. Pelo desen-
volvimento das árvores na rua e o das palmeiras no jardim da públicas. Muitas festas eram realizadas em louvor da padroei-
estação, que data da época (ou do ano seguinte, como as do ra, com leilões de prendas que alcançavam grandes quantias;
Jardim Velho], a foto parece de 1904, e de 5 de junho, data da pregavam em seu púlpito os melhores oradores sacros 97 .
primeira visita "oficial" de Nilo Peçanha como presidente do
Estado. E, se não tomada por ele, era pelo menos vendida por "s. É possível que.esse comércio longe da praia da barca tenha sido to-
Vicente Bertone na sua loja de jornais em frente à estação. lerado pelos proprietários da fazenda depois que passaram a arrendá-la.
Pelo batismo dos primeiros filhos de Pedro na capela do curato, no morro,
sabemos que morava aqui com a mulher portuguesa. Com a sua mudança
definitiva para a chácara de Matacavalos, a ocupação do Lavapés se inten-
sificou, por cerío, nascendo ali verdadeiro arraial.
97
. O orador sacro fez época no mundo de livros raros de outrora; e o
último radicado em Paraíba fez na igreja de Santana a conferência de que
transcrevemos excerto, numa noite aziaga do princípio do século que passou
CAPÍTULOS 01- HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 87

RO PEDRO GOMES DA SILVA


Em casa dos Soares de Sousa 08 , no largo e em frente à
O primeiro teatro de Paraíba do Sul foi construído no largo igreja, realizavam-se amiúde reuniões literárias.
de Santana, em 1866, com a denominação de Sociedade Dramá- O Lavapés chegou a ser um pedaço da Itália em Paraíba
tfca. Por muitos anos foi o único divertimento da população, do Sul. Aí residiram quase todos os italianos que vieram para
vindo do Rio excelentes artistas para representar em seu palco. a cidade e onde exerceram os mais variados ofícios: alfaiates,
O Theatro Gymnastico Parahybano foi também fundado no sapateiros, funileiros, chapeleiros etc. Homens trabalhadores,
Lavapés, ganhando em 1892 o palco oficial no prédio construído muito concorreram para o progresso da cidade, beneficiando sua
economia particular e constituindo família. Grande número de
na Marechal Deodoro.
Em 1865 foi fundada no bairro a Sociedade Dançante Co- sulparaibanos são filhos desses italianos.
mercia! e Artistas, possivelmente a primeira da vila. Hoje o Lavapés não é mais o extremo norte da cidade, com
Existiu também ali a agência consular de Portugal em Pa- vida própria comercial, como ao tempo do velho José Rodrigues
raíba do Sul, e o Colégio Maximiano, fundado no ano de 1869, Tigre, os Soares de Sousa, ou João de Araújo, que muito fize-
o qual tinha internato e externato. ram pelo engrandecimento do bairro, onde foi construído nosso
primeiro palacete"" que ainda está lá.
a nossa hislória. Cita-se nela João do Araújo, ferreiro e figura marcante A colónia italiana do Lavapés comemorava sempre com
no Lavapés, como era também o comerciante Soares de Sousa. A confe- grandes festas as datas santas da igreja, e cívicas da Itália,
rência foi publicada com estudos sobre Paraíba em Flores e Flores (1929),
editado por amigos três anos antes do falecimento do autor.
dançando e tocando a tarantela napolitana acompanhada do to-
Tudo o que ii sobre o padre Teófilo Bento Salgado (1860 - 1932), como que labania.
autor Teófilo Dutra, ressuma certo inconformismo com o mundo em que Antes dos comerciantes portugueses que levantaram a
viveu. Parece, foi posto de lado pelo bispo, e daqui jogado para outro igreja, e dos imigrantes italianos, foi comerciante grosso no
bispado do interior de Minas, onde nascera e morreu. Intelectual, inde-
Lavapés ao final do século XVIII o pai do barão do Piabanha,
pendente, com ideias próprias e pesquisador — seu estudo o Cemitério
Cristão é muito interessante —, daqui foi para o definitivo ostracismo, en- primeiro presidente de nossa Câmara e que ali nasceu em 1796.
iiunnlo outros para cúrias metropolitanas cingidos da faixa carmezim de !)
». O português António José Soares de Sousa, apesar da idade, talvez
monsenhor.
Talvez se sentisse padre Dutra mais à vontade nessa Igreja que aí tenha assistido ao "caso estranho" da nota anterior, pois com o ferreiro
está, questionando o mundo. Em 1907 vivia em Paraíba "passante de seis vizinho de sua padaria foi a mão-forte em 1860 na conclusão da Igreja, e
anos": e o padre Carlos Gerchsheiner em 1909 (a 1912) já era o capelão sempre esteve à frente da irmandade de Santana e todas as sociedades que
da Casa de Caridade. Padre Dutra passou, mas tem lugar seguro em nossa se fundaram — e foram muitas — no outrora vivo e abastado Lavapés.
história. Seu livro, centrado na Igreja, é inteligente e original, Faleceu aos 80, em 25 de novembro de 1904, pobre, as casas já em mau-es-
O excerto — pg. 36 — mostra a independência do autor, que no livro taslo e desalugadas numa Paraíba que minguava sem o café: e amargurado
critica várias vezes a Paraíba do ternpo, já minguante e pobre, não mais a pela perda de quase todos os filhos, levados pela tuberculose que minou
r/o/rf/vfma e gastadeira, afreguesada do armazém Central dos idos de 1880. sua família. Como o primogénito e homónimo, António José Soares de
E é bem pouco católico, nos dois sentidos, canónico e figurado: Sousa Júnior (17-04-1851 - 07-07-1893), o maior talento literário já nascido
"Ajeita-se aqui a coincidência que passo a relatar, e que a muitos im- em Paraíba; prosador, poeta, teatrólogo, jornalista aqui e no Rio, vereador
de ideias inovadoras, republicano da primeira hora e só conhecido (?)
piossionou grandemente.
Era o dia 5 de março de 1903, e o homem obscuro que traça estes como autor dos versos do hino de nosso Estado.
gaiafunhos fazia em Sant'Ana uma conferência sobre a liberdade humana. Com 21 anos editou o melhor jornal até hoje em Paraíba, O Agricultor.
Ia a conferência em meio, às 7,20 da noite, quando todos os bicos de gás Deixou exposto em jornais o mais que comprovado talento, esse homem
só apagaram: acesos segunda e terceira vez, apagaram-se duas e três vezes cuja memória Paraíba não pode deixar perecer. Até sua sepultura, em que
se gravara o preito de admiração de amigos, foi desfigurada por um so-
a pequenos prazos de acendidos. brinho, nascido três anos após sua morte, que sobre a lápide colocou fotos
Então os srs. João de Araújo e João Maia Brasil puseram-se a acender
um candelabro no meio da igreja, e para isso queimaram quase uma cai- gravadas de todos os parentes que têm direito ao túmulo. E naturalmente
xinha de fósforos. Caso estranho! Um vento impn*isado soprou todas a de si próprio, coisa de que o País inteiro soube através dessa televisão.
as velas, e eu tive que concluir a conferência com ®; ténues e frouxas Não sabe é que homem ali está sepultado. Paraíba do Sul também não.
"n. Se não contarmos o de 1860 e desfigurado sobradão do visconde da
luzesEm
do saindo
altar. o povo da igreja, soube-se que naquela hora fora assassinado Paraíba, depois grupo escolar, hotel e agora de apartamentos, o palacete do
tím uma rua deserta o juiz municipal, dr. Cornélio de Magalhães Moraes. Lavapés é o mais antigo da cidade, pois em 1886, ano de inauguração do
Na seguinte noite de conferência o gazômetro funcionou perfeitamente, Ribeiro de Sá (hoje nossa Casa da Cultura], já estava ocupado. Seu cons-
nãn atinando até hoje o sr. João de Araújo o motivo por que negou luz trutor foi o fazendeiro da Capoaba, o capitão Joaquim Pereira de Lima, dos
primeiros no município a utilizar o braço imigrante. Em 1902 se retirou
naquela noite
Narro calamitosa.
o fato sem outra pretensão que referir uma coincidência admi- com a família para o Rio, onde a 29 de janeiro seguinte se suicidou.
rável. Há cousas e casos neste m u n d o ! . . . "
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 89
PO PEDRO GOMES DA SILVA
O engenheiro Eugênio Augusto Jeanne, que firmara com a
O capitão Cristóvão Rodrigues de Andrade, lusitano de Vi- Província contrato em 13 de dezembro de 1849 para acabamento
zeu, comerciou no Lavapés logo que emigrou das minas. Co- da ponte pelo sistema pênsil, em vez da ponte de madeira pre-
nhecem-se assentos de igreja dos primeiros anos do século vista no primeiro projeto, requereu em 1j>jJe novembro de 1852
XIX em que aparece seu nome como padrinho de batismo e sua anulação alegando a impossibilidade de executá-lo. O con-
trato foi anulado, encampando as obras a Província, que se pro-
casamento.
Em 1805 adquiriu aos herdeiros de Garcia a fazenda do Pa- pôs a terminar a obra.
rafbuna, que seu filho iria desdobrar em várias, no norte do Na construção da grande ponte de início servira como di-
município. Em 1822 o capitão já era falecido 100 . retor científico o engenheiro alemão Júlio Frederico Koeler 10 -,
Se de fato foi o Lavapés no século XVIII o povoado da Pa- nomeado por ato de 1.° de setembro de 1843.
raíba, como centro de residência das famílias dos comerciantes Por contrato de 27 de abril de 1854 celebrado entre o go-
e caixeiros que trabalhavam nas vendas e lojas do largo junto verno provincial e o então barão de Mauá, Irineu Evangelista de
à praia da barca, onde se levantavam os ranchos para viajantes Sousa, obrigou-se este a concluir os pegões, fazer a ponte de
e tropeiros, a partir de sua inauguração passou a ponte a atrair ferro e dar os trabalhos concluídos em prazo certo. Porém o
o povoamento para o extremo oposto. Primeiro pela beira-rio, barão, desejando construir com toda perfeição e solidez a obra,
depois pela atual Duque de Caxias (a Imperatriz ao tempo do julgou conveniente ouvir sobre o novo sistema que nela pre-
Império], fez-se a ligação com a sua boca na então aberta praça tendia adotar não só os profissionais do país, mas também en-
dos Presidentes (da Província). genheiros que, na Inglaterra, se dedicavam exclusivamente a
Junto ao rio nasceu a rua dos Coqueiros (onde havia vários construções daquele novo tipo de ponte. Isso deu lugar a não
deles), e mais além e rumo à fazenda da Boavista a das Portei- ficarem concluídas as obras no prazo contratado, o que levou a
ras, enquanto para o charco aterrado com a construção da ma- requerer prorrogação até 2 de dezembro de 1856 (aniversário do
triz começaram a surgir as primeiras casas das Palhas, nome imperador). E o acabamento exigiu mais um ano, pois só foi
que lembra as taboas ali existentes à margem da zona alagadiça. entregue ao povo em dezembro de 1857.
Praticamente, duplicou-se a área urbana da vila, aceleran- Além da pequena dimensão das peças, há uma particula-
do-se também o povoamento além do rio, na Grama e Jatobá. ridade deveras interessante na construção da nossa ponte:
Em 1836 iniciou-se a cerca de 300 m a montante do remanso todas elas foram fundidas nas oficinas metalúrgicas da Ponta-
atravessado pela barca a construção da ponte sobre o rio Pa- -da-Areia, em Niterói, de propriedade do barão de Mauá, sob
raíba do Sul, em frente à vila 1 " 1 . Satisfazia assim o governo da a direção do engenheiro inglês Thomas Butler Dodgson, o inven-
Província aos insistentes pedidos e abaixo-assinados do povo tor do sistema de construção, que recebeu seu nome.
de Paraíba, chefiado pelo ilustre Hjlário Joaquim de Andrade Essas peças foram transportadas a Paraíba em lombo de
e depois barão do Piabanha, por uma ponte em substituição burro, ocupando a condução de tão grande quantidade de ferro
à antiquada barca dos tempos de Garcia. Era a barca insufi- centenas de tropas de mulas e dez carros próprios. A dificuldade
ciente para atender ao grande número de viajantes e bestas de de transporte foi uma das causas do atraso no acabamento
carga do Caminho de Minas. dessa monumental obra (para a época), a mais importante en-
Os construtores tiraram toda a pedra necessária da mar- tão da província fluminense. As peças foram fundidas de modo
gem direita do rio e no mesmo local levantaram vastíssimo a que seu transporte pudesse ser feito em cargueiros, motivo
barracão destinado à guarda das ferramentas e morada dos tra- por que nenhuma excede a três metros de comprimento, nem
balhadores escravos de propriedade dos empreiteiros. Esse tem peso além do que um animal pode suportar.
barracão, terminada a obra, foi dividido em pequenas casas que No dia 13_de dezembro de 1857 o barão do Piabanha en-
serviram a residência de operários. E o local passou a ser tregou-a ao trânsito público, tendo custado à província mais
conhecido como rua de baixo, no atual bairro da Grama. 401:051 $745, perfazendo o total de 577:220$503, como consta
Em 1850 ainda não estavam concluídos os pegões, impor- do relatório apresentado a 1 ° de agosto de 1858 por Mauá.
tando já então a despesa em 176:168$758. i" 2 . Chegado ao Brasil em 1828. parece ter integrado um dos batalhões de
10
°. Cf. apêndice sobre a fazenda de Paraibuna no estudo Equívocos. estrangeiros então criados. Recebeu a incumbência de melhorar a Estrada
t" 1 . Foi plotada pelo Capitão Tiramorros. Planta do povoado em 1830 já a de Minas entre o porto da Estrela e Paraíba, em 1837. Como vereador em
Paraíba, demarcou a divisa cem Valença e fez o plano da vila (cf. nota 59).
inclui no local.
PEDRO GOMES DA SILVA
90
Na inauguração houve grande festa na vila, comparecendo
todas as autoridades" 11 '. Benzeu a ponte o padre Aureliano de
Carvalho, e o primeiro cidadão a atravessá-la foi o popular Re-
ginaldo Silva, que o fez a cavalo, em disparada, antes das via-
turas alinhadas na nova praça da vila à espera de inaugurá-la. capítulo 7
Ficou assim substituída a antiquada barca que fazia a pas-
sagem fluvial e o barão do Piabanha, que tanto trabalhara e
tanto amava a Paraíba, viu concretizado mais esse melhora-
mento, que toi passo gigantesco no progresso da vila. Era
O Município-freguesias
mais uma vez o presidente da Câmara.
Baseada em lei de 10 de maio de 1841, estabeleceu a Pro-
víncia as seguintes taxas para a barreira da ponte: cavaleiro,
$100; gado vacum (por cabeça) $060; animais muares com car- Ao ser criado pela Regência, o município foi a última "de-
ga ou sem ela. $080; animal cerdum, ovelhum ou cabrum (sic) mão" na estrutura administrativa do País e o instituto com que
$ 040; carros de eixo fixo, carregado ou descarregado, não levou a organização social às novas áreas incorporadas à co-
excedente de duas parelhas, 1$000; carro de eixo móvel, car-
munidade pela economia.
regado ou descarregado, não excedente a três parelhas, 1$500; Num pequeno estudo que foi preciso incluir neste volume,
por parelha de animais em carro acima designado, mais $160 vimos que Portugal ocupou a terra a partir do seu palmo de ci-
Um dos últimos cobradores na barreira da ponte foi o co- vilização, primeiro litorâneo, depois, e à medida que possível,
nhecido Brás Ribeiro da Silva, o Brás-da-Ponte, chefe de nume- estendido ao interior. E sempre apoiado na organização ecle-
rosa família domiciliada em Santo António da Encruzilhada 104 . siástica tradicional e civilizadora. Foi o que aconteceu desde
O atual lastro de cimento armado que a pavimenta, em São Paulo (1560), nossa "terra mater" e primeira vila interio-
substituição aos antigos e perigosos pranchões de madeira, foi rana, e em Paraíba 159 anos depois, na criação do curato (1719).
lançado em 1921 pelo engenheiro Margarino Torres e custeado Por ocasião do município, já estava munida a administração de
pelo Estado. Sua inauguração foi a 22 de janeiro de 1922. um instrumento novo em que apoiou toda a nova organização;
A ponte de Paraíba constitui hoje monumento histórico na-
cional, e como ta! merece ser carinhosamente preservado105. o juizado de paz.
Votado pela Assembleia Geral em outubro de 1827, esse
1
r-,,-.;..,-,-, rin RJQ c/e Janeí juizado é a pedra angular do sistema de administração munici-
pal, ultimado pela criação das assembleias provinciais no Ato
21-12-1857. Chovia, mas ainda assim !,,„,„ „ _
inauguração. Nesse dia Luís da Barca perdeu o empicyu. .- -.. Adicional de agosto de 1834.
ainda vivia, pois na ponte a 14 de maio foi atacado ipor um cão danado. Como instrumento de transição entre o governo local distri-
lo)
. Em 1950 quando prefeito levantou o autor coluna com placa em sua buidor de justiça sediado nas vilas coloniais e o novo, que con-
homenagem
llir na praça de Santo António. tinua aquele e mais de efetiva administração regional, o juiz de
>. O autor já não assistiu ao acidente que interrompeu o tráfego, e à
recuperação em 1978. A ponte porém não dá mais passagem a carretas e paz na nota 47 é chamado "reizinho" em sua circunscrição, o
caminhões pesados; e o tráfego local e da RJ-131 já é muito intenso. Nova distrito de paz; e de fato o era, pelo regimento inicial que lhe
ponte na Chacarinha, separada da curva do L/to apenas por uma lombada deram, completado no Código do Processo Criminal em 1832.
com quebrada de ambos os lados, retiraria todo o tráfego da Encruzilhada, Essa curiosa autoridade do tempo, que na prática "efeti-
ponte e cidade, ligando na Grota-Funda, direto, a RJ-131 à BR-393.
vou" o município, tinha funções de todo tipo e o poder de exe-
cutar o que decidia, através dos seus "inspetores de quartei-
rão". Ditava sentenças pela infração das posturas municipais,
e prendia como polícia.
Martins Pena (1815-1848) não resistiu à excentricidade des-
sa figura, singular mesmo para os padrões da época, e a retra-
tou na peça "O Juiz de Paz na roça" (1838), das mais populares
do criador da comédia nacional. AP
92 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 93

FREGUESIA DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO Aparecida, a zona sul e montanhosa da Sapucaia de hoje, foi
a primeira cisão sofrida por nosso território.
Ao ser anexada à nossa em 1833, a freguesia ereta em Mesmo desfalcada de suas terras do nascente, a freguesia
1815 no arraia! do Rio Preto trouxe ao então criado município do rio Preto continuava muito extensa para o sul, razão por que
de Paraíba do Sul todo o território hoje pertencente a Petrópolis, foi dividida a 29 de março de 1844 em dois distritos-de-paz. E
Sapucaia e Três Rios, além de Sebolas e Matozinhos. esse segundo distrito deu ainda nascimento a um terceiro, cria-
Era vastíssima a freguesia de João José da Serra (do Su- do a 30 de outubro de 1845 com sede na capela de São Pedro
midouro), depois São José do Rio Preto, estendendo-se da serra de Alcântara de Petrópolis, elevada na ocasião a curato e que
dos Órgãos (Estrela) ao rio Paraíba. A sede era um povoado fora construída na antiga fazenda do Córrego-Seco, adquirida
então maior que o nosso, em população e produção agrícola. em 1830 por Pedro l e incorporada aos bens da família impe-
"Contendo a freguesia de Nossa Senhora da Piedade de rial. Nasceu assim aquela cidade, bafejada desde então pela
Anhum-Mirim numeroso povo em seu distrito sobre a serra dos sorte e proteção do imperador.
Órgãos, onde se acham diferentes fazendas bem estabelecidas, Adensando-se a população em torno da fazenda do Cór-
e assaz cultivadas, cuja paroquiação era difícil ao pároco, e rego-Seco, onde Pedro II construiu residência de veraneio e
igualmente sensível a sua falta aos paroquianos, que por não encomendou a nosso antigo vereador Koeler o traçado de novo
poderem recorrer à matriz, sem trabalho e muitos incómodos, povoado, o curato de Petrópolis, por ter mais comunicação
se valiam dos socorros espirituais administrados nas dispersas com o mar e o Rio de Janeiro, foi desmembrado de nosso mu
capelas do continente, das quais viviam mui distantes os novos nicípio e incorporado ao então criado no velho porto da Estrela,
colonos domiciliados no território do rio Preto, foi necessário que centralizou a administração das terras das antigas e deca-
providenciar esses inconvenientes em benefício de tantas al- dentes freguesias de Inhomirim, Pilar e Guia de Pacobaíba.
mas, como providenciou o atual ordinário em visita de 20 de A criação do município na vila da Estrela, destinado a curta
setembro de 1813, a requerimento dos moradores da serra do duração, deu-se pela lei provincial 397, de 20 de maio de 1846.
Sumidouro, a que ajuntou parte das de Magefe, para criar no Foi essa a segunda cisão sofrida pelo território de Paraíba,
distrito do rio Preto um curato. Dele foi encarregado o padre passando nossa divisa com a Estrela a correr pelo rio Santo
Manuel Moreira de Sousa Firmo, cujo sacerdote principiou a António, afluente do Piabanha pela direita com foz a montante
exercer as funções paroquiais em um oratório aí levantado, por de Itatiaia, e as serras da Maria-Comprida e Santa Catarina.
não haver capela alguma no mesmo sítio, e serem' as quatro Foram esses nossos limites com Petrópolis, quando seu
subsistentes no termo acima da sobredita serra mui remotos, município foi criado em 1857. Então nosso arraial mais ao sul
e situadas em lugares não só menos aptos, porém afastados do passou a ser Pedro-do-Rio (Itaipava ainda não se formara), onde
centro do curato, que por imediata Resolução de 25 de novem- a Câmara de Paraíba foi incorporada aguardar o imperador a
bro de 1815 foi elevado à categoria de paróquia, confirmada 18 de março de 1858 na inauguração do primeiro trecho da
com o título de São José da Serra"1"." União e Indústria.
Por decreto de 3 de setembro de 1832, estabeleceu-se um Com a emancipação de Sapucaia pela lei provincial 2 068,
colégio eleitoral nessa freguesia, a qual já estava bastante po-
de 7 de dezembro de 1874, a freguesia de São José do Rio
voada. Os habitantes cultivavam, "segundo a qualidade e dis-
Preto foi desmembrada de Paraíba e a ele anexada. Foi essa
posição das terras, arroz, feijão e mandioca para seu consumo;
a terceira cisão havida no território de nosso município.
e para exportação milho, café, marmelos, pêssegos e maçãs".
Já se denominava São José do Rio Preto a freguesia da O arraial de Santo António da Sapucaia, então no muni-
serra incorporada a Paraíba na criação do município. Dada po- cípio de Magé, começou a tomar vulto por volta de 1856, cen-
rém sua extensão, a leí provincial 262 de 26 de abril de 1842 jtralizando o comércio de café na região.
A estrada União e Indústria, inaugurada até Juiz de Fora
desmembrou do nosso município seu curato de Nossa Senhora
em 1861, não teve«piraja região nem para a cidade mineira
da Aparecida elevando-o a freguesia e o incorporando a Nova
a importância que dela se esperava. Nascia então a era das
Friburgo, juntamente com as terras do atual município de Su-
ferrovias e logo a muito apregoada e elogiada estrada maca-
midouro, que pertenciam então àquele curato. A perda de
damizada entrou em decadência. A Companhia União e Indús-
Monsenhor Pizarro, op. cit. tria foi à falência e as reclamações dos serventuários dela eram
>EDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 95

constantes, repercutindo até o mau estado em que caiu na Câ- As zonas por onde passava a variante construída por Ber-
mara de Paraíba. nardo Soares de Proença depressa se povoaram, e nas margens
Se a estrada pouco serviu à região -— em vários trechos do caminho foram-se formando inúmeras propriedades, que se
seu leito foi aproveitado pela estrada de ferro Príncipe do Grão- chamaram Secretário, Fagundes, Sebolas, Pedro Moreira e Go-
-Pará, que já eslava em Areal em maio e São José do Rio Preto verno. Em torno da primitiva e em mau-estado capela de Se-
em novembro de 1886 —, serviu ã expansão da influência eco- bolas reunindo-se os proprietários mais abastados da zona,
nómica de Petrópolis pelo vale do Piabanha abaixo. Com isso resolveram eles pedir ao bispo do Rio de Janeiro licença para
tirou São José do Rio Preto de Sapucaia e no mesmo ano de construírem uma nova, para não se verem obrigados a ir ao
1892 de Paraíba as terras além do Fagundes. Secretário, onde havia a capela de Nossa Senhora da Lapa,
Foi essa a quarta e última cisão do território de nosso particular da fazenda local e distante duas léguas.
município no século passado. Da antiga e enorme freguesia Iniciaram então os moradores locais à mesma devoção de
de São José da Serra do Sumidouro, restou-nos os distritos da Santana e para sediar o curato criado a construção de uma
Bemposta, Areal e Sebolas, como veremos adiante. capela "no sítio de Sebolas, com provisão de 1." de setembro
de 1769, a requerimento de Caetano Borges da Costa, Francisco
FREGUESIA DE SEBOLAS (INCONFIDÊNCIA) Gonçalves Teixeira, Domingos Costa e outros, que levantaram
o primeiro esteio para sua construção no dia 21 de fevereiro
Depois de aberto por Garcia Rodrigues Paes o Caminho de 1770, e o último no dia 5 de março seguinte, substituindo
Novo, Bernardo Soares de Proença construiu um mais curto com essa nova obra a primitiva, reduzida a ruínas. Distante
para ir-se das Minas Gerais à cidade do Rio de Janeiro, o qual doze léguas da paróquia (que era a de Nossa Senhora da Pie-
começou a ser percorrido em data que não se pode precisar, dade de Anhurn-Mirim), necessitou também do uso da pia ba-
tendo sido os trabalhos iniciados em 1722. Começava esse tismal em benefício do povo circunvizinho, a rogo de quem lhe
grande atalho no lugar Encruzilhada do Lucas, hoje Santo An- facilitou o visitador Manuel Henrique Mayrink essa graça, no
tónio da Encruzilhada, e ia ter ao porto da Estrela. ano de 1784, e a de ter sacrário durante o tempo quadragesimal
Como essa variante se tomou a menos ruim, menos pe- ou desobriga" 108 .
rigosa e mais curta, imediatamente começaram a percorrê-la Tendo sido criada em 1815 a freguesia de São José da
as bestas de carga que iam, pesadas, com produtos das Minas Serra (do Sumidouro), hoje São José do Rio Preto, ficou a ca-
para voltarem com as mercadorias que elas não produziam. pela de Sebolas subordinada a ela, desmembrando-se da de
Aberta essa variante foram logo levantados de distância Anhum-Mirim (Inhornirim).
em distância os ranchos que serviam de pouso aos viandantes. A lavoura de cana, mandioca, feijão, milho, arroz, vinhas,
A três boas léguas ao sul da passagem do Paraíba existia uma fumo e a criação de gado, por último o café, desenvolveu-se
t o s c a e humílima capela, sem portas, com paredes laterais de extensivamente na região e, com o movimento extraordinário
cerca de taquara e coberta com sapé, construção grosseira a de tropeiros que passavam por Sebolas, dando muita vida ao
machado feita pelos abridores do atalho e que abrigava das lugar, nasceu e cresceu o comércio local, formando-se o arraial.
desigualdades do tempo a imagem de Santana, pois a esposa Em 1839 o governo da Província pelo decreto 153, de 7
de São Joaquim era a santa de devoção do dono da roça onde de maio, elevou a freguesia a capela curada de Santana de
se achava a rústica capela. Sebolas, anexando-lhe como capela filial a do curato do Senhor
Perto da paupérrima e desprezada capelinha havia um des- do Bom Jesus de Matozinhos que, "fundada no sítio do Sardoal
guarnecido rancho no qual, certa vez, pousou por alguns dias por Pedro da Costa Lima, com provisão de 28 de julho de
um aventureiro que, achando o local verdadeiro eldorado de 1773, foi benzida a 22'de junho de 1776 e principiou a ter exer-
fartura e beleza passou a chamá-lo Sipolas, designação de uma cício por outra provisão, a de 19 de dezembro de 1777. Seu
espécie de país legendário e famoso n-a Idade Média pela abun- património se constituiu em 250 braças de terras de testada.
dância e felicidade do povo 1 " 7 - foi questão de tempo e gosto. O gosto em Paraíba é porém tê-lo de volta
-á-co/pma/: Sebo/as. E por isso já o adotamos aqui.
> " • E de Sipo/ns a Sil:io!(is e por fim ao ma!-grafado Cebo/ss, estropiando-se
. Monsenhor Pizarro, op. cit.
ainda mais o topónimo com c em lugar de s e adotando o do condimento.
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 97
PEDRO GOMES DA SILVA
9fi
tônio
/
Bfffbosa
BWbc Teixeira, o Tiramorros, casado com Mariana Ja-
Foi elevada a curato com subordinação à nova freguesia de
cinta de Macedo e padrasto do primeiro barão de Entre-Rios;
São José do Sumidouro, igualmente que o novo curato esta-
o alferes Dâmaso José de Carvalho; José António Antunes; o
• belecido no sítio denominado Fagundes, onde havia apenas um coronel José António da Costa Barbosa; Caiixto Cândido Gon-
•'oratório. O único cura que administrou o curato eclesiástico
çalves, que abriu a região chamada Sertão do Calixto.
do Senhor do Bom Jesus de Matozinhos foi o padre Domingos
Em 21 de novembro de 1831 foi fundada, obedecendo a
Dias de Brito, o qual faleceu em 1786, e dessa data até a
todos os requisitos do artigo 14 da lei de 18 de agosto do
anexação desse curato à nova freguesia de Sebolas esteve
mesmo ano, a Guarda Nacional do Curato de Sebolas, com a
vago, e apenas celebravam missas diversos capelães" 1 "".
instalação do Conselho de Qualificação para proceder ao alis-
Sebolas é o distrito de mais gloriosas tradições do muni-
tamento dos cidadãos que a deveriam compor. O Conselho foi
cípio de Paraíba do Sul, pois aí se formou um núcleo de des-
formado por eleitores do curato, sendo presidente o capitão
bravadores e povoadores dos sertões que residiam na vizi-
João Manuel Rodrigues Caldas e membros o padre Joaquim
nhança e que frequentavam amiúde o arraial, trabalhando para
José do Amorim e Luís António Lima.
seu desenvolvimento e tendo-o como centro de suas reuniões,
Sebolas foi berço de sacerdotes distintos, como o có-
quer para comerciar, quer para festas ou pasto espiritual-
nego Luís de Freitas, cura da freguesia do Santíssimo Sacra-
A primitiva capela de que se originou o arraial de Sebolas
mento, na Corte; o cónego António José Barbosa França, cura
parece ter sido erigida na sesmaria de Francisco Fagundes
da mesma freguesia; o vigário Joaquim José do Amorim, orador
do Amaral, que é assim o seu fundador e deu nome ao rio
sacro e que, convidado a candidatar-se à Assembleia Consti-
que divide nosso município com o de Petrópolis. Era cunhado
tuinte, rejeitou o convite dos amigos; o vigário Aureliano José
do construtor do atalho para o mar, o sargento-mor Bernardo
de Carvalho e Andrade; o padre António Vieira da Silva, que
Soares de Proença, que faleceu em Suruí, na baixada, a 9 de
veio a falecer na África; o padre Augusto Ferreira de Lacerda;
julho de 1735, três anos depois de Fagundes. o padre Manuel Rodrigues Pereira; o padre João Ouintela Rocoli.
"Águeda Gomes de Proença, irmã do sargento-mor, con-
A freguesia de Santana de Sebolas possui três capelas
traiu núpcias com Francisco Fagundes do Amaral, que em 2 de
filiais: a do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, reedificada
maio de 1723 obteve a sua sesmaria nos lados do rio que levou
em 1862 pelo conselheiro Martinho Campos e cuja imagem do
o nome de Fagundes; Francisco Fagundes do Amaral faleceu da
Senhor, consta, seria obra do Aleijadinho; a capela de Santo
viria presente a 10 de setembro de 1732, sendo sepultado na
António do Rio Manso ereta em 1872 por Joaquim Pinto de
igreja cie Paraíba"". Em idade avançada, Águeda morreu a 27
Lima; e a capela do mártir São Sebastião, na fazenda do Sertão
'i'3 agosto de 1740; é a primeira sepultada na primitiva capela
do Calixto, construída em 1874 por Ana Joaquina da Conceição.
HP Sanlana de Sebolas." Na freguesia de Sebolas havia um núcleo de políticos re-
Outro destacado povoador de Sebolas foi Francisco Gon-
beldes e as eleições ou diligências do juiz de paz sempre ter-
çalves Teixeira, casado com Mariana Barbosa de Matos. Este
minavam em famoso tempo quente. Os elementos mais des-
casal é o tronco das importantes famílias Barbosa, Teixeira e
tacados da política foram o capitão João José da Silva Lei-
Gonçalves do município de Paraíba do Sul.
tão 111 , o capitão João Manoel Rodrigues Caldas, o cura Joaquim
Outros moradores de Sebolas, da mesma época, foram o
José do Amorim, o major José António Barroso de Carvalho,
mestre-de-campo Bartolorneu Vahia; o capitão Luís Alves de
futuro visconde do Rio Novo, Paulo Ribeiro Caula, Manuel Fran-
Freitas Belo e sua mulher, Ana Ouitéria Joaquina de Oliveira,
avós maternos do duque de Caxias; Leandro Barbosa de Matos, cisco dos Reis, Francisco António Barbosa, o major Luís An-
que se casou com Ana Maria de Proença, filha de Francisco tónio de Lima, o coronel Bernardo Ferraz de Abreu, futuro
Fagundes do Amaral, fundador de Sebolas; Nicolau Viegas de visconde de São Bernardo, e por último o grande e prestimoso
Proença, irmão do sargento-mor Bernardo Soares de Proença, conselheiro Martinho Campos, expoente de eloquência no par-
que abriu o caminho dali para a baixada; o coronel José An- lamento imperial.
* A freguesia tem quriosa tradição aeronáutica, pois já no
'"". Monsenhor Pizarro, op. cit. século passado o vigário de Sebolas, padre Joaquim Ribeiro,
i"'. O excerto é ainda de Monsenhor Pizarro. Eis aí o grande historiador
a nos dar certeza de igreja no morro antes de 1745, esta a de Pedro Dias. í"tii. o vereador de 1833 que preferiu o juizado-de-paz (cf. nota 47).
Já vimos em nota o enterramento do fundador de Seboias em Paraíba. íH
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL . 99
m PFDRO GOMES DA SILVA

vivia obsecaclo pela ideia de voar, realizando ali tentativas. enormes lavouras de café trabalhadas pelo braço escravo.
O padre Ribeiro aprofundou seus estudos de Física, dedi- Chegou a ter ótimo comércio, com bons armazéns e até joa-
cando-se de preferência à mecânica, e depois de ordenado pres- Iheria. A decadência veio na derrocada da lavoura do café.
Diminuindo o movimento comercial, desocupando-se as
bítero não se deteve. Nomeado vigário de Sebolas, aí pros-
seguiu em suas experiências por vários anos ao lado de um casas, em breve estavam elas em ruína. E surgiu assim um
movimento para transferir a sede da freguesia para outro local. ••••
sobrinho, também grande estudioso do assunto, e muitos anos
Estando a capela de Santana também em adiantado estado de
antes de Santos Durnont realizar sua primeira proeza.
No município de Paraíba do Sul outros também foram apai- abandono, empenharam-se os fregueses pela construção de
xonados da aeronáutica, e Leopoldo Corrêa da Silva foi o pre- nova matriz. Para esse fim Miguel José Rodrigues Pereira e
cursor brasileiro dos zepelins e construtor dos dirigíveis Cru- sua mulher fizeram doação ao Estado de um alqueire de terras,
no lugar denominado Rumo-da-Laje, à pequena distância da
zeiro do Sul e Vinte e Um de Abril.
O invento de Leopoldo, para garantia de seus direitos, foi antiga capela. Aí se construiu a nova matriz (1894), à custa
dos cofres estaduais, tendo sido cedidas à Câmara Municipal
também patenteado no exterior, depois de o ser no Brasil. Por
as terras em volta para arruamento. Assim nasceu a vila.
exemplo, na Alemanha, em 5 de julho de 1890 sob o n.° 77
As edificações do antigo arraial de Sebolas foram aos
na categoria de esporte, tendo a carta patente n." 55495. Foi poucos desaparecendo, existindo hoje apenas vestígios das
também patenteado na França, Inglaterra e Estados Unidos.
ruínas a cerca de 600 metros da sede atual.
Leopoldo Corrêa da Silva, acometido de febre amarela no O governo do Estado pelo decreto 1-A, de 3 de junho de
Rio de Janeiro, lá morreu quase anónimo, sendo sepultado no 1892, desmembrou do distrito de Sebolas grande parte, ane-
cemitério de São João Batista e deixando o balão Cruzeiro do xando-a ao município de Petrópolis, o que motivou grandes
Sul abandonado no Rio, o outro em Paraíba do Sul. protestos, até na Assembleia, de parte do povo sulparaibano113,
Outro apaixonado da aviação, este na prática, foi o também A lei 299, de 3 de dezembro de 1896, mudou o nome do
sulparaibano Nílton Braga, nascido no Rio Abaixo, que parti- distrito de Sebolas para Santana de Tiradentes, em homenagem
cipou do audacioso voo da Itália ao Brasil, no Jahu, em 1927112. ao mártir de nossa Independência que ali comprovadamente,
Com o desvio da estrada de Minas para o vale do Pia- na denúncia de Joaquim Silvério dos Reis, pregou a indepen-
banha (1861) diminuiu o trânsito por Sebolas, prejudicando a dência e, por mandado na sentença que o condenou à morte,
região, mas o arraial não deixou de ser importante graças às teve um quarto do corpo exposto como escarmento do povo
"2. Marília Torres de Castro Oliveira apresentou ao 1." Fórum de História — a fazendeira d. Ana Mariana Barbosa em primeiro lugar —
(dezembro de 1989} excelente monografia sobre Nílton Braga. diante da fazenda e capela, "até que o tempo o consuma"114.
O mais velho de nove irmãos, nasceu a 7 de março de 1882. Na sua Pelo decreto estadual 641, de 15 de dezembro de 1938, de
infância e adolescência, residiam os Braga na rua de Baixo (Grama). Em novo o topónimo foi alterado, para Inconfidência. Mas o povo
1902 concluiu o curso da Escola Preparatória e Tática do Realengo, frequen-
tando depois a Politécnica e as Escolas Militares do Realengo e Rio Grande
só conhece por Sebolas a gloriosa vila que desde 18 de janeiro
do Sul. Começa a carreira militar servindo em Corumbá (MS), Manaus e de 1944 pelo decreto 1 063 é o nosso terceiro distrito.
Acre. Em 1917 é 1." colocado em curso para a Escola do Estado Maior do
Exército,. recebendo prémio de viagem à Europa. Daí em diante, sempre ii-i. Na visita de José Tomás da Porciúncula a Paraíba logo depois de
com distintos lugares, vai galgando todos os postos até o de Brigadeiro-do-Ar érnpossado presidente do Estado, a que fora levado pela Revolução de
com a criação do ministério da Aeronáutica em 1941. 1891, o vereador José da Costa Ferreira Filho — sessão da câmara de
A especialidade na aviação veio em 1919 na então criada Escola de 8-2-1893 — critica em sua presença o favorecimento a Petrópolis, logo
Aviação Militar, com brevet em 1921, primeira turma formada no Brasil. depois feita capital do Estado (até 1903). Ele se defende, alegando ter
No reid Gênova-Santos em 1926 foi o navegador, a convite do piloto sido a decisão sobre as terras de Sebolas da alçada da Assembleia Esta-
João de Barros. E entre os vários livros que deixou, Asas ao Vento (1951) dual, que teria atendido a moradores da região.
conta a epopeia do Jahu. • In Sentença da Alçada de 18 de abril de 1792: "e que depois de morto
Intelectual e sempre atualizado, falava cinco idiomas estrangeiros. •J)ie seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica, aonde em o logar mais
"Era liomern elegante, amável e de fino* trato. Muito alto. Formou sem- ^publico delia será pregada em hum poste alto até que o tempo a consuma,
pre, em volta de si roda de amigos." E gostava de pintar quadros. o seu corpo será devidido em quatro quartos, e pregados em postes pello
A grande tristeza da vida foi a morte do filho único ainda cadete-do-ar
em voo de instrução nos Afonsos, a 6 de julho de 1942.
t aminfio de Minas, no sitio da Varginha e das Sebollas, aonda o Reo teve
ia,3uas infames praticas, e os mais nos sítios de Maiores povoaçoens até
Nílton Braga faleceu a 16 de agosto de 1959. i |ue o tempo tãobem as consuma."
;AIMTUIOS DR HISTÓRIA DE PARAÍBA DO sui 101

FREGUESIA DA ENCRUZILHADA de varíola, sondo a orimeira vítima uma pobre criança. Não
havendo cemitério no povoado, trouxeram seus moradores o
Meia légua (3,3 km) ao sul do remanso no Paraíba saía pequenino corpo para sepultá-lo no da vila de Paraíba. No mo-
cio caminho de Garcia Rodrigues Paes uma trilha de penetração mento, porém, em que o enterro ia atravessar o rio na barca
dos primeiros povoadores da zona do atual distrito de Sebolas. de passagem os moradores da vila opuseram-se a isso, ale-
O ponto de bifurcação passou a ser conhecido por Encruzilhada gando o perigoso alastramento da epidemia entre sua popu-
do Lucas, do nome do ribeirão vizinho. Em 1723 Bernardo Soa- lação, que então crescia rapidamente.
res de Proença. comissionado pelo rei em vista da negativa de Resolveram os acompanhantes do enterro, depois de mui
Garcia em realizar a obra — alegou a idade e os seus acha- tos protestos, seguir para a fazenda do Governo, então de pro-
ques — , abriu a partir do Fagundes atual a trilha que levou priedade de Dão Linhares. Aí, também, o proprietário pela
até a baixada, descendo d serra da Estrela. Estava aberto o mesma razão não permitiu o sepultamento no cemitério da fa-
Caminho do Proença, que logo no' ano seguinte deu passo às zenda. Rumavam os acompanhantes então para o cemitério
primeiras tropas que foram ter ao porto da Piedade de Anhum- da fazenda da Várzea quando em caminho, no lugar ondo é hoje
-Mirim. depois vila da Estrela. E naquela bifurcação nasceu a o cemitério da Encruzilhada, António Rodrigues de Andrade
nossa vila de Santo António da Encruzilhada este o segundo França, cavalheiro culto, disse aos do cortejo que já tinham
mais antigo topónimo na terra" 1 . ido a dois cemitérios sem conseguirem o enterramento; esta-
Lucas não quer dizer nome de qualquer morador, mas a vam arriscados a ter a rnesma decepção na Várzea. Propunha
denominação do córrego que banha o lugar e mais adiante o assim que a criança fosse enterrada naquele lugar, erigindo-se
bairro da Ponte do Lucas. Junta-se o córrego ao Inema, ou aí uma capela com cemitério dedicado a Santo António dos
Inhema, e ambos vão precipitar-se em cachoeira no rio Paraíba. Pobres, por chamar-se António o menino morto Prometeu,
inema significa "rio cheio de voltas, sinuoso, tortuoso", mais, a doação do terreno para a construção. Os presentes
como o célebre Meandro da Ásia Menor comprometeram-se a coadjuvar na obra; assim, o pequenino
Lucas é derivado da inicial tupi Y (água, ribeirão, córrego) corpo foi sepultado do lado de baixo da estrada, em frente ao
e ruc ou ruça (ruidoso, rumoroso, murmurante), que o é de atual cemitério. Mas seu enterramento ali provocou a ereção
fato o Lucas na cascata em que se despenha no Paraíba. de cemitério na Encruzilhada, pois António Rodrigues de An-
Compreende-se facilmente na linguagem do povo a aférese drade França obteve logo permissão para iniciar a obra. Sur-
o'o Y, como a mudança do r (brando) por l e, bem assim, por giram porém desavenças sobre o local, querendo uns que fosse
confusão com o nome próprio de pessoa, o acréscimo do s final. onde se sepultara o pequenino António, outros no lugar cha-
Donde: Yruca, Luca, Lucas. Ev;a é sem dúvida a etimologia do mado Pau-d'Alho' '•'.
Lucas paraibano' 1 " Aborrecido, Andrade França desamparou a iniciativa, trans-
O primeiro dono do rancho do Lucas foi Joaquim José de feríndo-a a José Inocêncio de Andrade Vasconcelos, então ve-
Andrade (e sua mulher, Francisca de Paula) que aí, além de reador em nossa primeira Câmara, que reuniu os devotos no
explorar rancho, fabricava ferraduras para animais, negócio sábado de Aleluia, ano de 1837, e fincaram os quatro esteios
muito rendoso na época porque, passado b rio Paraíba e para iniciais. E nada mais se fez na ocasião pelo cemitério; mas,
os lados das Minas Gerais, por causa dos elevados direitos quando se pensou na Encruzilhada em construir-se capela no
cobrados era proibitivo o preço de ferraduras. povoado, a lembrança do pequeno morto a que fora negada
A propriedade do rancho passou de Joaquim José de An- sepultura em campo santo vingou, o padroeiro escolhido foi
drade a seu sobrinho e genro, António Rodrigues de Andrade Santo António dos Pobres. E o lugar ficou para sempre Santo
França, casado com Bárbara Carolina. António da Encruzilhada"-".
Em 1836 o povoado estava bem adiantado, existindo vá-
rios ranchos. Por essa época foi assolado por uma epidemia "T. Perdeu-se de todo, creio, a possibilidade de localização desse topó-
nimo próximo à Encruzilhada.
"•'. ( do.s primeiros anos do Caminho, Início do século XVIII. Ver ca- nx. Há 48 anos denominada oficialmente Salutaris, o que confunde com o
ptttilo Farenda do Secretário e nota 170 bairro onde estão as águas minerais, o povo jamais tomou conhecimento
"". Foi Zeze" Bezerra (José Geraldo Be?erra de Meneses) quem forneceu a dessa designação. A ideia infeliz da mudança, em 1943, foi de um advo-
etimologia de nossos topónimos tupis f c f . nota 12). gado do Rio amigo da família Miranda, que então editava A Voz do Povo
[JÁ

Só no ano d r: 1843 João de Fanas Nazaré, com subscri- da Soledade, do dr. Jerônimo Macário Fiqucira de M e l o ' - 1 .
ções, principiou a capela, realizando-se n primeira festa em Essas três belas imagens da Encruzilhada se tornaram
1847. Era porém muito pequena e outras subscrições foram tradicionais presenças nas cerimónias da Semana Santa na
feitas para -seu aumento. João de Oliveira, fazendeiro na Vár- cidade, quando a procissão do enterro atraía de todo o muni-
/ea"", ofereceu todo o madeiramento, posto no lugar, e colo- cípio e de fora multidão de fiéis calculada em mais de 5 000
nos alemães chegados a Petrópolis em 1845 executaram os pessoas, lendo Paraíba em torno de 3 000 habitantes então.
serviços de pedreiro e carpinteiro. Foi a construção terminada A igreja de Santo António foi das mais ricas da Província,
em 1852, faltando apenas forrar e assoalhar. não só em metais preciosos como pela pompa das cerimónias
O barão de Diamantina 1 '-"', a suas expensas, mandou forrar religiosas. De toda parte, até da Corte, vinham pessoas assis-
e assoalhar a igreja, fazendo também doação de terreno para tir às f e s t a s e devoções. No coro esplêndido tomavam parte
património da capela os melhores músicos do Rio de Janeiro, c oradores sacros de
Narciso José Soares por meio de subscrições mandou fazer fama faziam as práticas.
o altar de Nossa Senhora da Conceição e José Inocêncio de O mais difícil de uma obra não é só a construção, mas
Andrade Vasconcelos doou a imagem de São José: e fez o a sua guarda e conservação. Nisso foram felizes os paro-
altar para a imagem. quianos de Santo António, que tiveram quem conservasse sua
Peia 'lei provinda! n.' 830, de 25 de outubro de 1855. foi grandiosa igreja, por muitos anos, nn pessoa do vigário, padre
criada a freguesia com o pomposo título de Freguesia do Glo- Bernardino de Jorge 12 -.
rioso Santo António dos Pobres da Encruzilhada do Lucas, sendo Depois da saída do vigário Bernardino, tudo ficou abando
o território desmembrado das freguesias de São Pedro e São nado e, aos poucos, o rico património da Irmandade foi desa-
Paulo da Paraíba e Santana de Sebolas. O primeiro vigário da parecendo não se sabe como. O pouco que ainda resta deve-se
Encruzilhada foi o padre Aureliano José de Carvalho. aos cuidados de d. Maria Vieira Alves de Sousa'-' 1 .
A nova freguesia cresceu rapidamente c seus fazendeiros Com a inauguração da estrada União-e-lndústria também
resolveram aumentar a igreja, angariando novos donativos, não os habitantes de Santo António da Encruzilhada sofreram con-
só no município de Paraíba do Sul como nos vizinhos e até na sideravelmente, porque grande parte dos viajantes abandonaram
CorU1 Transformaram assim a pequenina capela em uma gran- o Caminho passando a aviar seus trens pela nova rodovia.
de igreja, bem ornamentada e confortável Novos altares fo- Em meados do século passado os fazendeiros das imedia-
ram construídos à medida em que novas imagens eram doadas. ções viviam na maior opulência, graças ao braço escravo. Então
São as da Encruzilhada as mais belas imagens em Paraíba. o chie era construírem casa de residência no arraial, a fim de
Esse empreendimento de ampliação começou em 1857, gas- aí ficarem durante as eleições e alojar a família por ocasião
tando-se avultada quantia, além de vinte contos-de-réis doados das festas religiosas Dentro de pouco tempo estava a sede
peies cofres provinciais, graças ao esforço do deputado Mari- da freguesia transformada em pequena cidade com ótimo co-
nho da Cunha légio público e particular, três mestres de música, agência do
As obras de ampliação terminaram em 18 de agosto de 1861, Correio, quatro médicos, retratista, hospedaria, açougue, três
sendo nesse dia entronizada a imagem do Senhor Crucificado, i-' 1 . O contemporâneo do autor na época descrita no próximo parágrafo
oferecida pelo barão do Piabanha. A imagem do Senhor dos ncão estranhará sua minúcia quanto às imagens.
Passos foi oferta de Maria Joaquina Vieira e a Nossa Senhora '-"-'. Italiano de Potenza, extremo sul da cordilheira dos Apeninos. padre
Bernardino de Jorge (1833-1906) trouxe para o Brasil pais e irmãos, estes
D lhe deu a riireção do jornal, muito ruim e logo desaparecido. Nele n radicados na zona de Cantagalo. De grande personalidade, foi muito ope-
jornalista, cujo nome não vale a pena recordar, chegou a propor a mudança roso vigário de 1868 ao fim do século, o período de esplendor da freguesia.
pars o das águas do nome da própria cidade Já casada com António Visconli (falecido antes de 1902) e radicada em
A volta oficial de Encruzilhada, assim como de Sebolas. Boavista (a Paraíba em 1889. a sobrinha Mariãngela Jorge, com a mesma personalidade
Vieira Cortês da Central) e Galeão (Barão-de-Angra). se impõe; e logo. do tio. continuou com o armazém do marido e criou os quatro filhos que aqui
""-. A zona entre a atual Werneck (a estação é de 1898) e Cavam, que é lhe nasceram, o mais velho nosso prefeito em 1929. Madama Visconti
colonial e disputa com a Encruzilhada o segundo lugar de topónimo mais faleceu em 1934 em Paraíba, e steu tio-vigário em Itaocara.
::
antigo no município (cf. notes 39 e 174). '- . Esta senhora vivia quando a ela se refere o autor. Era viúva do me
r ft
.' . Francisco José de Vasconcelos Lessa Htular mineiro que teve pro- díco Deocleciano Alves dn Sousa, e residia em chácara no então caminho
priedade no município. da Encruzilhada de frente para o do Inema. hoje o Parque de Exposições.
10-1 PEDRO GOMES DA 3ILVA CAPÍTULOS DE HIS1ÓHIA D f. PARAÍBA DO SUL 10.1

padarias, charutaria, seis m a s c a t e s 1 - 1 , quatro a l f a i a t e s , dois Jatobá — foi consagrado pelo povo e o bairro vizinho à Grama
sapateiros, seleiro, dois armadores, rnestres-carpinteiros, pe- desde então é Jatobá.
dreiros, serralheiros, cocheiras, tipografia etc. IL ' r ' A lei 971, de 10 de novembro de 1910, extinguiu o distrito
Existiam então na Encrn?i!hada quatro sociedades de mú- de Brás-cla-Ponte, anexando-o novamente ao de Santo António. S:
is;
sica e dança: a Dezenove de Abril, a Recreio da Cruz, a Socie- Hoje a sede do distrito da Encruzilhada, que é sem dúvida
dade de Dança Famíiíar e a União e Progresso da Encruzilhada. o melhor do município na parte agrícola, está em abandono. A
Mas festas carnavalescas o.s foliões da Encruzilhada apresen- esse distrito pertence a localidade Werneck, grande centro de
tavam os mais lindos carros no carnaval de Paraíba. pequena lavoura do Estado. Felizmente, a pecuária ainda não
Por deliberação de 7 de março de 1891 foi desmembrada passou pela Encruzilhada12* . . .
grande parte do território da Encruzilhada para formar o dis-
trito do Espírito-Santo-do-Jatobá, posteriormente Brás-da-Ponte,
com sede no velho bairro ribeirinho da Grania, cuja origem se FREGUESIA DA BEMPOSTA
prende à venda de ranchos de propriedade de Garcia citados
por Antonil' 2 ", que por aqui passou em 1711. O território da Bemposta foi um dos últimos a ser desbra-
Jatobá era o nome do lugar onde nascera no município de vado. Por lá passava o caminho de tropas denominado Caminho
Sobrai, Ceará, o dr. Rufino Furtado de Mendonça, político in- do Mar d'Espanha- Os moradores da região sudeste das Minas
fluente da época. Com a viradeira após a queda do governo de Gerais atravessavam o rio Paraíba no Porto-Novo-do-Cunha, ou
Francisco Portela (1889-1891), perdendo o dr. Rufino sua in- no Porto Velho 1 -", e pegavam o caminho que passava por Bem
fluência política, seus inimigos, em acinte à sua pessoa, con- posta a fim de alcançar a Estrada Real e chegar à Estrela.
seguiram com o decreto l-A de 3 $e junho de 1892, mudar A vasta extensão da zona que ia até o curato da Aparecida
o nome de Jatobá para o de Brás-da-Ponte, alegando que esse foi adquirida pelo alferes Francisco António de Carvalho. Gran-
gesto era "em memória do legendário ato de justiça popular de parte das terras desse alferes passaram a José António
ali infringida ao insolente que. apoiado em duas dezenas de Barbosa Teixeira, o célebre Capitão Tiramorros, de Sebolas, o
rifles policiais, ousara pretender conculcar os direitos políticos qual desde 1805 recebera sesmaria até o Marco da Vila de Anta,
rio eleitorado na memorável eleição de 20 de março de 1891 " 12? . inclusive a área da sede do distrito da Bemposta. Fundou aí
Brás-da-Ponte era homenagem a Brás Ribeiro da Silva, uma fazenda com engenhos, monjolos, senzalas e escravaria,
político daquele distrito contrário ao dr. Rufino, ficando dessa começando a criação e lavoura de cana. A fazenda levou o
maneira vingada a célebre vitória de dezembro de 1891. Mas nome Bemposta, que passou ao lugar, em homenagem à me-
o nome dado pelo dr. Rufino ao chalé que ali construíra — Vila mória de seu pai, Francisco Gonçalves Teixeira, que fora criado
no lugar chamado Campo da Bemposta, em Portugal.
1
" ' . Não quer dizer que trabalhassem no arraial; aí moravam D percorriam José António Barbosa Teixeira em sua mocidade visitara
as fazendas da freguesia com as miudezas de seu comércio, típico da época Portugal, passara tempos no Campo da Bemposta e, achando
'-"' Se o comércio ambulante dos cometas ia às fazendas, o mais espe- o local onde fundou sua fazenda parecido topografioamente
cializado — serviços — se concentrava no povoado, à disposição dos fa-
zendeiros F tanto liberais — médicos, advogados, dentistas, agrimensores com aquele, tanto pela salubridade dos ares quanto pelas ale-
, como o dos chamados artistas, o manual especializado. A fazenda de gres vistas que então ali se gozavam, resolveu denominar Bem-
café podia restringir-se à casa-grande e cilindrado de senzalas, com pátios, posta às terras marginais ao Caminho do Mar d'Espanha. Esse
tulhas e, mais tarde, engenho de beneficiar café. Já não precisava ser 0 motivo para a transplantação a nosso município do nome por-
aquela cidade em miniatura dos bandeirantes que descreve Taunay.
'-'". Já vimos que a passagem do jesuíta, ou de quem lhe deu a infor- tuguês. O Capitão Tiramorros é assim o fundador da vila.
mação minuciosa sobre o roteiro das minas, se presume de 1703. Curioso
é que houvesse em Paraíba venda só na Grama, o que talvez seja indício '-'» Segundo o autor, a pecuária seria n razão do relativo nlraso ccanõ-
de já estarem aqui Maria Antônia e os filhos. A casa-grandn no morro já mico do 1." d i s t r i t o uni relação nos demais do município.
1
fors construída. "'•'. A penetração na atual zona da mata mineira limítrofe do município,
'*' Desconheço a origem do texto, evidente proclamação política. A olei- parte cio chamado (até cerca do 1830) Snrlno da Faraibn, parece de Início
ção para a primeira constituinte do Estado foi uma vitória do por t e! l s mo, lor-sn dado por o u t r a via, a passagem dos Froixeiras. talvez nome dos pos-
quando entre os quarenta eleitos o dr, Rufino foi o G." mais votado, r. seiros do local, zona ribeirinha do Paraíba onde surgiu a fazenda das Três
Benedito Valadares, presidente de nossa Intendência (Câmara), o 21.". A Barrns (ver capítulo próprio). O Caminho do Mar d'Espanha está descrito
época é de grande complexidade na política. rtó capítulo Distrito c/e Areal.
CAPÍTULOS DE HISTORIA DL: PARAÍBA DO SUL 107
Os principais desbravadores das terras virgens da Bem- riam diariamente esse ramal, conduzindo passageiros, corres-
posta foram os Barbosa, os Barroso Pereira e os Werneck. Aos pondência, café e cereais, pois existiam na freguesia para mais
poucos as matas foram cedendo terreno aos grandes cafezais de cem propriedades agrícolas, e todos os seus proprietários
e, no prazo de poucos anos, graças ao braço escravo, estava trabalhavam na lavoura cafeeira, a principal da região.
formada a opulência agrícola da zona. O arraial era rico e movimentadíssimo, com inúmeras casas
"Formou-se um grande núcleo de fazendeiros e moradores de negócio, hotel, bilhares, padaria, açougue, alfaiate, sapa-
que se viam forçados a grandes caminhadas para receberem teiro e casa bancária pertencente aos irmãos Miranda Jordão" 2 .
alimentação espiritual da Santa Igreja Católica; tinham que ir À família Miranda Jordão muito deve não só Bemposta
a São José do Rio Preto ou a Sebolas." Reuniram-se então as como também o município de Paraíba do Sul. A freguesia che-
pessoas do lugar e resolveram pleitear a criação de uma fre- gou a ter cinco médicos, todos com grande clientela.
guesia sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, ini- Tristíssimos foram os acontecimentos verificados ali em
ciando-se a construção de uma pequenina capela à custa do 1880, quando a freguesia serviu de "teatro em um período de
povo; e se promoveu um abaixo-assinado em que se demons- poucas horas a cenas lamentáveis e indescritíveis", conforme
trava o que desejavam, para conveniência e comodidade do um jornal paraibano da época 13 ".
povo, quer quanto à paróquia, quer a escolas públicas etc. Na manhã de 9 de dezembro daquele ano voltava de uma
Pelo decreto provincial 811, de 6 de outubro de 1855, sa- festa, celebrada no dia anterior na sede da freguesia, José
tisfez o governo à pretensão do povo da Bemposta, criando a Melquíades do Vale, para a fazenda de seu pai, Valeriano José
freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Bemposta, tendo do Vale, da qual era administrador. Ao chegar à lavoura para
seu território constituído com parte da freguesia de São José fiscalizar o serviço foi assaltado por quatro escravos, que o
do Rio Preto. Seus limites foram fixados pela portaria de 5 assassinaram a facadas e cortaram-lhe a orelha esquerda.
de novembro de 1855. E obteve duas escolas públicas de ins- A vítima era um jovem de vinte e poucos anos e gozava
trução primária, criadas em 1855 e 1869. de simpatia no arraial. Seu pai, uma figura respeitável e bem
A freguesia foi instalada em janeiro de 1856 e teve como relacionada, não havendo na Bemposta quem não considerasse
primeiro vigário encomendado o padre João Jorge Bruzi, que o bom velho Valeriano, como o chamavam todos.
foi substituído pelo padre Guilherme de Miranda. O assassínio impressionou enormemente a gente bem-
A igreja nunca chegou a ser uma casa confortável, apesar postense, que viu naquele crime um monstruoso mau exemplo.
de a Irmandade1-'1" ser rica. composta dos melhores elementos As autoridades locais procederam a corpo-de-delito e mandaram
locais, que rnuito trabalhavam e tinham mesmo zelo e gosto imediatamente perseguir os criminosos, que foram presos em
pelas festas da padroeira, realizando ricos leilões de prendas Entre-Rios e conduzidos à cadeia da Bemposta, a fim de ins-
no largo profusamente iluminado. O orador sacro tradicional taurar-se o inquérito policial.
era o padre-mestre José Maria da Trindade. No dia seguinte, antes do enterro do rapaz achavam-se
Numa estatística feita em 1867 peio subdelegado local, reunidas no largo da matriz mais de 300 pessoas e, entre elas,
capitão José Francisco de Sousa Werneck, a população cons- grande parte das mais gradas da freguesia. O ambiente es-
tava de 5255 almas, sendo livres 2700 e cativas 2555; peio tava conturbado. Os fazendeiros não se conformavam com o
recenseamento de 1877 o número total subira a 7225.
As eleições da Bemposta no Império foram sempre muito panhia ao se constituir, em 1856. O trem em 1867 (e logo o fracasso da
renhidas e, às vezes, redundavam em sérias lutas entre Li- empresa de Mariano Procópio) prejudicou a abertura da estrada para a ci-
dade. A de Santa Teresa se abriu em 1868 e por seu leito construiu-se s
berais e Conservadores, o que exigia a presença da Polícia. de trem em 1893.
lr!2
Durante muitos anos funcionou um ramal entre Bemposta . Augusto César de Miranda Jordão foi vereador no triénio 1864-67
e a atuai estação de Moura Brasil, da estrada União-e-lndús- pelo partido Liberai. Na'Guarda Nacional do município era capitão. Nessa
t r í a , pavimentado a macadame, por onde se fazia o transporte época tinha na vila armazém de café, com a firma Miranda Jordão & Cia.
Em 1882, ainda, um Miranda Jordão (possivelmente ele) assinava petição
de todos os produtos da zona i: ". Diversas diligências percor- contra o plano do dr. Bezerra de substituir por colégio a Casa de Caridade.
A falência da casa bancária dos Miranda Jordão em Bemposta deu baque Et;:
13()
. Deduz-se que seja s-da Conceição da Bemposta.
1itl sério
1!n
na lavoura local. l
. Essa estrada, a Paraibuna — Rio das Flores, e a Entre-Rios — Paraíba . A narração a seguir é baseada no jornal citado. O Provinciano tam-

J
eram as subsidiárias de ligação à União e Indústria previstas por essa com- bém noticiou o fato, longamente.
108 PtDRO GOMES DA SILVA

bárbaro crime, a indignação era geral, e começaram as apre-


ensões. O subdelegado de polícia local, Augusto Jacundino de .? .-'<•£'.

Alvarenga Mafra, expediu um expresso ao delegado de polícia


em nossa cidade, Francisco Furtado de Mendonça, pedindo-lhe
auxílio de força pública. capítulo 8
Mas era tarde. Às três horas da madrugada o delegada
em Paraíba recebeu o seguinte ofício do seu subordinado em
Bemposta: "limo. Sr. Participo a V. S. que os meus receios
se realizaram. Apesar de todos os esforços empregados por
O Município-distritos
mim e pelo escrivão desta subdelegada para manter a ordem
pública, nada pudemos conseguir pois, não tendo força, não
pudemos conter a mais de cem pessoas que, indignadas contra ;p
os assassinos de José Melquíades do Vale, invadiram a cadeia, i-- As subdivisões do município no Brasil passaram a ser de- >è;
arrombando-a, e mataram os quatro criminosos. A cena foi ; signadas "distritos" com a separação de Estado e Igreja nas
medonha, e peço providências. Estou procedendo a corpo-de-
í
ifunções administrativas, consumada com a República. Parece,
delito nos cadáveres. Em meu ofício de hoje de manhã pedi |àjtransição foi gradual, usando-se aos poucos "distrito de paz".
força, porém, já não é necessária, visto que estão aplacados fe Assim como os núcleos de povoamento que evoluíram para
os ânimos. Deus Guarde a V. S. limo. Sr. Delegado de Polícia ?a freguesia colonial se originaram ao longo dos caminhos de
da Paraíba do Sul. Bemposta, 10 de dezembro de 1880. Augus- ^tropas de mula, nossos distritos, mesmo já existentes como po-
to Jacundino de Alvarenga Mafra." fyoacão, se desenvolveram com as estações de trem: Entre-
A cena foi de fato deplorável pois, arrombada a cadeia IfypSctÍ867) e MonfSerrat (1876), na estrada de ferro Pedro II;
do largo, os quatro negros foram mortos a machado, e em e.Areal (1886) na Príncipe do Grão-Pará. No caso de Mont'Ser-
seguida picados aos pedaços como carne para açougue. . rat, o bafejo de progresso do trem veio pela ponte que a separa
O jornal O Eleitor, de Paraíba do Sul. no seu número de da estação de Paraibuna, na margem mineira do rio.
12 de dezembro daquele ano comentou: "Aí fica consignado Obedecendo à exposição dos capítulos ordenada pelo autor,
triste e deplorável exemplo: um crime em vingança de outro!" vimos a série que poderia ser subordinada ao título geral "a co-
A fazenda da Bemposta foi famosa e teve proprietários munidade", iniciada pelos que tratam do desenvolvimento da
ilustres que muito fizeram pela sede da freguesia, salientando- sede do município. Mas ao vermos agora a criação dos últimos
-se entre eles Augusto César de Miranda Jordão, político, distritos, numa estrutura administrativa estável por mais de
homem honrado e chefe da respeitada família dos Miranda quarenta anos, e para mais ciara compreensão da evolução de
Jordão, a que pertencem o clr. Machado de Melo, engenheiro Entre-Rios, Areal e até da Bemposta, cabe chamar a atenção pa-
da Oeste-de-Minas, coronel Frederico Carlos Oberland, chefe ra os capítulos vindouros, de números 11 (Os Barroso Pereira)
político, e o coronel Agostinho Mediei, também político local. e 13 (Os Santos Werneck), que tratam das famílias que desen-
A opulência da freguesia da Bemposta durou até a decre- volveram o território oriental em que se estendem.
tação da Lei-Áurea, advindo a decadência com as terras des- Última observação cabe aqui sobre o além-Piabanha: me-
valorizadas, chegando mesmo a ficar toda a zona adormecida tendo-se este rio por uma garganta rochosa (possivelmente o
por muitos anos, como aliás todo o Estado do Rio. "sumidouro" dos antigos que deu nome à serra local) entre o
Bemposta vive hoje cie novo, depois que o dr. Arnaldo povoado Barra Mansa e o da Posse, impedindo a passagem,
Guinle adquiriu a histórica fazenda, transformando a zona ao toda a penetração na zona leste se fez de Paraíba, rio-abaixo,
dotá-la de luz elétrica, cinemas, escolas, pecuária organizada, ou de Sebolas, pelo "Caminho do Mar de Espanha", referido
embelezando até seus recantos pitorescos. adiante e que da Areal de hoje chegava a recuar para o norte
em busca da saída por Sebolas.
A garganta foi aberta pela União & Indústria entre 1857 e
186t num corte de 450 metros na rocha viva, dando passagem
por ali para Juiz de Fora. AP
110 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 111

Í31STRITQ DE ENTRE-RiOS (fazenda de Serraria) e de Entre-Rios. E o trajeto Koeler foi


aceito, deliberando ainda a União-e-lndústria construir ramais
Antes do 1800 os terrenos onde até 1938 esteve situada rodoviários de ligação à via principal; um para a cidade de
í) sede do distrito de Entre-Rios eram apenas colónia da fa- Paraíba do Sul a partir da estação de muda-de-cavalos a ser
zenda de Cantagalo, de propriedade de~Antônio Barroso Pereira, aberta na várzea da fazenda de Cantagalo, outro para a vila da
primeiro barão de Entre-Rios, agraciado com o título em 1852. Bemposta, saindo do sítio em que mais tarde se desenvolveu
O lugar tinha a denominação de Encruzilhada do Major Car- a povoação nascida em torno da estação Moura Brasil.
valhinho. segundo depoimento cio coronel Randolfo Pena Júnior, Para a estação de mudas, denominada logo Entre-Rios em
pois aí se bifurcava o caminho que da fazenda de Cantagalo sua homenagem, o barão vendeu à Companhia União-e-lndústria
\f< às da Boa-União, Rua-Direita. Piracema e Cachoeira, todas em 10 de agosto de 1860 área de 81 480 braças quadradas. Além
de propriedade do barão de Entre-Rios. da estação de passageiros, longo pavilhão com plataforma co-
Nessa encruzilhada existiu um grande cruzeiro, erigido em berta para a proteção dos passageiros em dias de chuva, inau- ÍIP
memória de um escravo que ali morreu esmagado por grossa gurada por Pedro II a 23 de junho de 1861, construiu a Compa-
tora de madeira numa derrubada, rezando-se junto a ele ladai- nhia ha área adquirida um hotel, hospedaria, armazéns e 30
nhas. É que as pretas da fazenda diziam que o escravo mor- casas para os empregados nos serviços prestados ali.
rera sem nada sentir, visto que até o último suspiro ria em A União-e-lndústria, que já em 1867 ao chegar o trem à
vez de dobrar-se em dores, atribuindo elas o fato a um mi- região entrou em dificuldades, utilizou até 1881 as instalações
lagre de São Sebastião. O preto chamara pelo santo na hora na área que lhe fora cedida, quando revendeu tudo à então m «í
proprietária da fazenda de Cantagalo, a condessa do Rio-Novo. II
em que foi esmagado.
Já estava falida a empresa de Mariano Procópio, e em
I
O major Carvalhinho que deu nome à encruzilhada da vár-
zea do Paraíba era sobrinho e genro do barão de Entre-Rios liquidação. A 15 de abril de 1882, procurador da condessa —
e. como o tio, oriundo de Sebolas. Chamava-se José António Bar- então em Londres, onde em junho faleceu — arrendou algumas
roso de Carvalho, em 1867 feito visconde do Rio-Novo. Re instalações em Entre-Rios a William Morett, associado do arre-
sidia na fazenda Boa-União e era quem desenvolvia as lavouras matante da conservação e tráfego da companhia, em liquidação.
da qrande fazenda de Cantagalo. Apesar do fracasso da União-e-lndústria, a povoação co-
Criando Mariano Procópio em 1857 a Companhia União-e- meçou a crescer com a chegada do trem. Acreditavam nela
Indústria para abrir moderna rodovia macadamizada de Petró- o irmão da falecida condessa e toda a família Barroso Pereira.
polis a Juiz de Fora, apresentou-lhe o engenheiro José Koe- (O primeiro barão de Entre-Rios faleceu em 1862.) António
pler1" projeto de traçado pelo vale do Piabanha, para evitar Barroso Pereira Jr., em 1883 elevado a visconde de Entre-
as alturas de Sebolas e da serra das Abóboras, já que a Com- Rios, tudo fez para facilitar o crescimento do florescente po-
panhia utilizaria diligências para passageiros, além de carros voado nascido nas terras que herdara da irmã. Ainda em
de carga. O Paraíba seria atravessado pouco a montante da tempo da Companhia havia construído ali 13 casas para resi-
velha fazenda das Três Barras, que tomara o nome pela proxi- dências e negócios.
midade às duas barras, do Paraibuna e Piabanha. naquele rio. A liquidação da União-e-lndústria se havia acelerado em
Mariano Procópio' ::r> obteve no município de Paraíba do Sul i
1869, dois anos apenas após a chegada dos trens, quando se
todo o apoio, adquirindo grande número de ações de sua com- viu na contingência de assinar contrato com o Governo Im-
panhia os fazendeiros da zona a ser percorrida pela estrada, perial, que por certo a socorria nas dificuldades crescentes.
dos quais os mais importantes eram os barões do Piabanha O item primeiro desse contrato era do seguinte teor: "A
Companhia União-e-lndústria obriga-se a passar à Estrada de
Ilí4
. Era fiího do engenheiro e major Júlio Frederico Koeler, e na morte Ferro D. Pedro II todo o seu tráfego de carga, tanto o que
do pai, em 1847, estudante na Alemanha. O projeto que apresentou lhe receber nas estações além Parahybai:i" até Juiz de Fora como
interessava bastante, pois levou a estrada a passar diante da sua fazenda
da Julioca, que herdou do pai e erri 1871 estava à venda (cf. nota 142). ; i3o. Paraíba aí é o rio. Assim, a União-e-lndústria aceitou passar à es-
'"•", Mariano Procópio ferreira Laje Armond nasceu em Barbacena, Minas, trada de ferro a carga que carreasse em dois-terços de seu percurso, ficando
em 1821, B faleceu em 1872, quando já negociara a companhia União-e-ln- só com a que recebesse de Posse e Petrópolis, praticamente nenhuma.
dústria, então em grande dificuldade. A inauguração da estrada, em 23 de
junho de 1861, foi no seu 40." aniversário.
113
tTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL
CAPt"
112 PEDRO GOMES DA SILVA
'ramento da área doada à Irmandade no testamento da con-
até a Posse, convergindo todo esse tráfego para a estação [essa do Rio-Novo a dividiu em 368 prazos.
de Entre-Rios na dita Estrada de Ferro." Muito fez por Entre-Rios nos primeiros anos do Distrito
Entre-Rios rapidamente prosperou, pois era centro ope- 'q seu primeiro vereador distrital — inovação da Constituição
rário e mesmo local privilegiado, pelo entroncamento de es- 'do Estado —, Nelson Viana, justamente homenageado em rua
trada de ferro e rodagem. Logo depois se instala o depósito. no bairro do Portão Vermelho.
Pelo decreto 114, de 13 de agosto de 1890, foi criado Gomes Porto e António Pereira Mendes também multo
0 distrito-de-paz, facilitando à população local o contato com trabalharam e fizeram para o desenvolvimento de Entre-Rios,
autoridades e cartórios. E passou a vila. o último executando grande aterro na zona central ao tempo
Na década de 1890 se acelera o progresso da localidade da administração Rocha Werneck (1927-1930).
que, para se expandir, necessitava de grandes drainagens (do A população de Entre-Rios há muitos anos com justo
relatório de 1895 de Leopoldo Teixeira Leite). É que a ex- desejo vinha pleiteando sua emancipação, o que conseguiu
tensa e piaria várzea se alagava facilmente nas cheias do Pa- afinal com o decreto 634, de 14 de dezembro de 1938, que
raíba. Isso tornava a zona insalubre, mormente na chamada criou o município formando-o com os distritos da vila (2.°),
estação calmosa, o verão, exatamente a do rio alto. Bemposta (5.°) e Areal (7.°) do município de Paraíba do Sul.
O grande administrador da época 1 " 7 procurava valer-se Em 31 de dezembro de 1943, peio decreto-lei 1 056, o
tanto quanto possível da Central do Brasil, que ali ocupava interventor federal no Estado, Augusto do Amaral Peixoto,
grande área com depósito e oficinas, além de casas para os anexou a Entre-Rios 139 (pelo mesmo decreto denominada Três
empregados; mas pouca ajuda obtinha. Um bueiro da es- Rios) a mais desenvolvida porção do antigo 3.° distrito de Pa-
trada sobre o córrego do Matadouro, retificado pela Câmara 'raíba do Sul, o de MonfSerrat (Paraibuna), incluindo a vila
em 1893. teve que ser rebaixado por ela própria, pois retinha desse nome e os povoados de Serraria e Afonso Arinos, este
as águas pluviais e alagava extensa área. Além disso, o de- na ocasião elevado a vila e feito 2." distrito de Três Rios, pas-
sasseio completo de todas as dependências da Central em sando Bemposta a 3.° e Areal a quarto.
Entre-Rios, estações, oficinas e depósito, foi uma das causas ,rt'
atribuídas pelo médico Vahia Durão, da Diretoria de Assis-
tência Pública do Estado, ao aparecimento da febre amarela DISTRITO DE AREAL
ali com dois casos, no verão de 1893-94.
Reclamava também Leopoldo Teixeira Leite a ajuda da Na passagem Porto Velho 14 " os viajantes da região sudeste
Irmandade Nossa Senhora da Piedade, que arruara a locali- de Minas, conhecida depois por zona-da-mata, atravessavam
dade em 1886 e ali recebia foros i:!S . O plano inicial de afo- o Paraíba em demanda do Rio de Janeiro, desde os fins do sé-
culo XVIII. Passando a zona onde mais tarde surgiu a fazenda
1
'"" O dr. Leopoldo só encontra emulo em nossa administração municipal da Bemposta, subiam ao lugar até hoje denominado Portões
no dr. Bernardino Franco, que dirigiu porém a Câmara em época muito pior,
com o Estado e os municípios do café mergulhados de todo na crise finan-
(terras então de Tomé Correia de Sales) e, faceando grande
ceira crónica que se prolongou até os anos trinta. sesmaria do sargento-mor José Vieira Afonso141 (fazenda de
l:ls
. A execução do plano com o apoio da Câmara foi encomendada pelo
barão de Ribeiro de Sá, como provedor da Irmandade, ao engenheiro Nico- mente omissa, quanto à fundação de uma irmandade do porte da que te-
medes Dié, que viveu em Paraíba até 1902. Com a medida, salvou o legado mos
I;!n
no município; e na de Entre-Rios.
da condessa do Rio-Novo a seus libertos de cair em mãos dos especula- . Ao prefeito de Paraíba do Sul foi explicado em gabinete (era na dita-
dores de terra, que pululavarr em torno da estação ferroviária de Entre-Rios dura do Estado-Novo, sem assembleia de espécie alguma) que a perda do
do tipo Emídio Rispoli, arrendatário da fazenda de Cantagalo que acabou território seria provisória, enquanto não houvesse estrada (boa) direta en-
com ela, e até de parente chegado à condessa. tre a cidade e a sede do distrito.
Essa doação de terras a ex-escravos não foi única no município. Foi, n". Fica a 3 km a montante da vila de Anta, município de Sapucaia.
14
sim. a única proveitosa, e graças ao barão, que de uma só vez assegurou à ' . Os pais do major José Vieira Afonso (Sardoal, c/rca 1770/75 — fa-
irmandade meios para subsistir e à povoação os de progredir. Porque do zenda de São Silvestre, 27-01-1852) seriam os fundadores do Sardoal. Ele.
aforamento das terras de Cantagalo data a vida efetiva da atual Três Rios. da Ilha de São Miguel, ela de Suruí, Manuel Vieira Afonso e Catarina Josefa
Não cabe aqui estender-rne sobre o partidarismo do autor na questão de Jesus compraram em torno de 1760 terras "na quadra do Secretário
entre o barão e o dr. Bezerra sobre o destino a dar ao legado da condessa, (ver essa fazenda) para os lados do Poente", de José Pinto da Rocha. E ali
que passou aos descendentes de ambos com muita acrimônía. Mas por abriram a fazenda dos Vieiras. Compraram a seguir sobre o Caminho do
lealdade não posso silenciar que sua obra é falha, e parece intencional-
114 PEDRO GOMES DA SILVA
«t

São Silvestre), desciam até à barra do rio Preto onde hoje é


Areal. O caminho descia então o Piabanha, que atravessava em
ponte fronteira a fazenda Julioca, e pela esquerda do rio descia CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 115
até Ponte-de-Santana, hoje Alberto Torres, onde tem barra o rio
Fagundes. Subia então este rio, atravessando-o para, no ar- banha grandes bancos de areia e, com a abertura da estrada
raial de Sebolas, pegar a Esteada Geral de Minas, o velho Ca- União-e-lndústria, toda a areia para a construção das obras-de-
minho do Proença. arte foi tirada do rio, saindo daí o nome da localidade, Areal.
Do Paraíba a Sebofas essa via de penetração no sudeste O povoado nasceu com a abertura daquela estrada, insta-
mineiro era conhecida por Caminho do Mar d'Espanha. lando-se no atual bairro da Barateza casas para operários, ar-
Os primeiros povoadores da zona de Areal foram o major mazéns, estação, cocheiras etc. O comércio e o povoado ti-
José Vieira Afonso, casado com Rita Maria de Jesus e falecido veram logo rápido incremento, pois os artistas que trabalharam
a 27 de janeiro de 1852, e o major Júlio Frederico Koeler 14 -, na grande obra de Mariano Procópio, se muito ganhavam, tam-
bém sabiam gastar em suas horas de folga.
o qual comprou a José Fernandes dos Santos e outros a ses-
maria Piabanha, na barra do rio Preto no Piabanha, terras que Com a inauguração da Estrada de Ferro Grão-Pará muito
lindavam com as sesmarias Passa-Tempo e São Lourenço melhorou o comércio local, verificando-se grande progresso em
Nessas terras já existiam casas, moinhos, monjolos, roda Areal com a instalação de hotel, hospedaria etc.
de mandioca, engenhoca e cafezais, fundando o major Koeler À rnoda da Europa, corria uma diligência de Areal a Entre-
a grande fazenda Julioca, título derivado de seu nome, Júlio. Rios, a qual transportava passageiros e cargas, dando comu-
Aí, com o casamento do major com Maria do Carmo Rebelo nicação com a Estrada de Ferro Grão-Pará aos passageiros que
de Lamare, teve origem o tronco da família Delamare-Koeler. vinham de Minas para o Rio de Janeiro. Esse tráfego por
Outra figura também notável e que muito fez, não só por diligências foi substituído, mais tarde, pela Estrada de Ferro
Areal mas pelo município de Paraíba do Sul, foi a do enge- Leopoldina Railway, que obteve do governo permissão para es-
nheiro Guilherme Benjamim Weinschenck, alemão nascido no tender seus trilhos ao lado da União-e-lndústria, medida essa
Hannover, que veio para o Brasil antes de 1830, contratado muito aplaudida na época por todos os moradores da zona,
para serviços profissionais. Tornou-se agricultor adquirindo a desejosos de aproveitar os benefícios do trem-a-vapor, e nada
satisfeitos com a abandonada e esburacada rodovia.
fazenda da Engenhoca, onde nasceram todos os seus filhos.
O velho Weinschenck tinha grande amor ao Brasil, dedican- Graças aos esforços de José Francisco de Almeida. João
do sua existência a coisas úteis aos concidadãos; naturali- Bernardo Wickers, Hercuianc Benjamin Weinschenck, Augusto
zou-se brasileiro em 4 de fevereiro de 1840, em Paraíba do Sul. da Silva e outros o povoado foi elevado a distrito-de-paz. Pela
adotando a nacionalidade brasileira espontaneamente e não lei 217 de 17 de dezembro de 1895 formou-se o Distrito de
Areal, com parte do território de Sebolas e Bemposta.
forçado por leis sociais. Tentou o engenheiro a exploração de
minério de ferro no solo de nosso município, chegando mesmo Areal está fadado a ser grande centro de turismo, não só
pelo ótimo clima como facilidade de acesso ao Rio.
a fazer experiências e mantendo correspondência com o im-
perador Pedro II, como se verifica de uma petição de 6 de Será um centro de próspera atividade, no futuro, caso as
grandes propriedades sejam retalhadas para possibilitar nu-
outubro de 1844, pertencente ao arquivo da Casa Imperial do
merosas construções, principalmente em sua área urbana.
Brasil no Castelo d'Eu, na França. Weinschenk faleceu ern sua
fazenda, parece, em 1879.
DÍSTRÍTO DE MONT'SERRAT
No lugar Baixa-do-Rio Preto formavam-se no leito do Pia-
Proença o sítio do Córrego Seco, que o filho José vendeu a Pedro i em 6 O registro do Paraibuna foi muito falado no Brasil-Coiônia,
de fevereiro de 1830 e onde o segundo imperador fundou Petrópolis. e no ano de 1818 transferido 143 da sede da fazenda do Parai-
Do latifúndio do major José Vieira Afonso no distrito de Areal saíram buna, fundada no início do século XVIII por Garcia Rodrigues
as fazendas de São Joaquim, São Roque, Conceição e Morro Grande. E a Paes no atual quilómetro 86 da estrada União-e-!ndústria, para
original, São Silvestre, passou a ser conhecida como "fazenda velha".
O testamento, de 1839, abriu-se em Paraíba a 9 de fevereiro de 1852. a sede do distrito de Mont'Serrat, que então se formou também
14
?. A fazenda Julioca tinha sede na esquerda do Piabanha aproximada- com o nome de Paraibuna, adotando depois o que lembra a
mente a 3,5 Km d,a ponte na vila s a jusante de Areal (cf. nota 134). velha devoção espanhola de Nossa Senhora do Mont'Serrat, a
'*'!. Desse ano é o decreto de D. João VI que contrata o T/Vamorros para a
melhoria do caminho, e de 1824 a ponte. O registo se transferiu por certo
nfiRRP írttai-»-^r<"" ~'~
116 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 117

que era apegado o fundador da fazenda, Garcia. Ocasionou a rém, ficou esse ramal rodoviário abandonado. O médico Bal-
mudança a necessidade de local mais apropriado à construção duíno de Meneses, barão de Meneses, organizou então a Com-
da ponte. O lugar foi escolhido pelo administrador da pas- panhia Ferro-Carril Rio Preto para substituí-la, mas era de tra-
sagem do rio, José António Barbosa Teixeira, o Tiramorros. ção animal. Trafegava diariamente, de duas em duas horas,
A princípio os moradores cultivavam a mandioca, o milho um bonde puxado por mulas, transportando passageiros e
e legumes para seu sustento e comércio com os viandantes carga geral. A partir de Paraibuna a próxima era Santa Ma-
da estrada geral. Os fazendeiros da zona exploravam também falda, e daí para diante havia outras estações. Os empregados
em grande escala a cultura da mamona, para extrair o azeite dos bondes eram corteses e vestidos à moda da Corte.
com que sustentar luzes em todas as casas de serra acima. O presidente da Companhia, o barão de Meneses, no dia
Construída aí a célebre Imperial Ponte do Madureira, foi em que viajava mandava colocar parelhas de cavalos brancos
também instalada no morro da Formiga, que lhe fica junto, a e nédios, e todos os que embarcavam seguiam obsequiosamen-
Recebedoria do Paraibuna, com ótimo quartel para destaca- te. Velho e cansado, não podendo mais dirigir a empresa, o
mento de soldados144, cofre de ferro na parede, balança etc. barão colocou em seu lugar um engenheiro estrangeiro. Este,
Em 17 de janeiro de 1846 o presidente da Província, Aure- querendo aumentar as rendas da empresa, começou a fazer
liano de Sousa e Oliveira Coutinho, nomeou Pedro de Alcântara exigências absurdas, e o resultado foi que alguns fazendeiros
Filho para o lugar de administrador do registro do Paraibuna. não mandaram mais seus produtos a Paraibuna, mas à estação
Por ato de 6 de maio de 1847 foi substituído por Francisco de de Comércio, na Estrada de Ferro Rio das Flores.
Paula Nogueira da Gama, o qual assumiu imediatamente o posto, Iniciou essa represália a baronesa de Santa-Justa, depois
que era na época cargo muito elevado. viscondessa. Outros remetiam seus cafés a Paraibuna, mas
Com a chegada da estrada União-e-lndústria, o local de- por carros-de-boi.
senvolveu-se grandemente. Estando em ruínas a capela da an- Só a fazenda de Santa-Justa exportava anualmente 50000
tiga fazenda do Paraibuna, o barão de Santa-Justa e pessoas da arrobas de café, havendo outros que ficavam entre doze e quin-
região transportaram as imagens para o novo povoado e aí ze mil. O prejuízo da companhia foi avultadíssimo e já em
construíram a atual igreja, que foi dedicada à mesma Nossa situação precária foi vendida à Estrada de Ferro Rio das Flores,
Senhora do Mont'Serrat, santa também da devoção de Pedro que substituiu a tração animal pelo vapor.
Dias Paes Leme, filho e sucessor de Garcia na fazenda. Nessa ocasião houve grande campanha dos moradores,
Em 1857 estava o povoado em franco progresso, pois já pleiteando que a estrada-de-ferro fosse até Paraibuna, o que
havia as instalações da Recebedoria, quartel, grande armazém não conseguiram, pois chegou somente até Barra-Longa, hoje
do sr. Bastos, armazéns da União-e-índústria, e desde 1861 es- Afonso Arinos, o que provocou a decadência daquele lugar.
paçosa estação de muda-de-cavalos para as diligências140. E A antiga localidade de Paraibuna chegou a ser um centro
ainda grande balança no largo, cocheiras, largo da igreja bem desenvolvido com boa sociedade familiar, hotel e a Sociedade
cercado e limpo, destacando-se na paisagem sempre a colossal Musical Mont'Serrat.
pedra de Paraibuna, um paredão imenso de granito cujo lado As pessoas que mais fizeram pelo lugar foram Hilário Joa-
norte, vertical, eleva-se de um só lance a mais de 400 metros quim de Andrade, Jorge Moreira da Cunha e José Procópio de
de altura, tão admirada por todos que por ali passam e que Assunção, homens benquistos, trabalhadores, que movimenta-
caracteriza o local. vam a política local.
Construída a União-e-lndústria, os fazendeiros da zona do A igreja de Nossa Senhora de MonfSerrat foi elevada a
rio Preto fizeram a suas expensas um ramal, a macadame, para paróquia em 24 de setembro de 1884, pela lei provincial 2698,
transportar seus produtos. Com a decadência da estrada, po- ato esse durante longos anos pleiteado pelos moradores.
- O nome da localidade foi substituído para MonfSerrat por
144
. A recebedoria pode ter sido nesse morro, fluminense e junto a Mont' conveniência do Correio, pois existiam no Brasil muitas com
Serrat; mas o quartel é dos anos 1780 e mineiro. Tiradentes o conheceu.
145
o nome Paraibuna14". O distrito-de-paz foi criado a 7-10-1885.
. O autor encontrou motivação para publicar seus últimos artigos sobre
os três viaristas (Garcia, Proença e o Tiramorros) quando nessa estação i-»». Parece incrível, mas ainda em 1943 centenas de localidades nossas
se instalou o museu rodoviário, em 1971, ano de sua rnorte. O que tem a receberam "do Norte, do Sul etc.", para não as confundirem o Correio
construção de interessante tem o museu de fraco. com homónimas, quando no mundo o código postal já solvera a questão.
Hoje, Mont'Serrat está despovoado, não tendo mais aque-
las lindas lavouras trabalhadas pelo braço escravo. A pecuá-
ria, mal organizada, transforma o distrito em carrascais.
Conta no entanto duas localidades prósperas: Afonso Ari-
nos e Serraria. Esta última foi muito importante ao tempo do
entroncamento ali da Leopoldina com a Central do Brasil 1 ' 47 .
.V 7 - A» conexão com a Pedro II foi aí feita em 1884 pela Estrada de Ferro
União Mineira, incorporada em 1876 por um descendente de Garcia o en-
genheiro e seu diretor técnico Pedro Betim Paes Leme, e durou ate 1904
quando a Leopoldina Railway, que já tinha conexão com a Central em En-
tre-Rios, suprimiu o ramal Silveira Lobo-Serraria, depois de adquirir todas as
pequenas ferrovias da região. *
A estação era no lado mineiro, em frente a Serraria, ao qual se liqava
por uma ponte de madeira (construída pela União-e-lndústria), substituída
em 1897 pelos dois Estados por outra de metal, com 93 m e 3,60 de largura
O RIO E SEU CHÃO

Eis o Paraíba no Jardim Velho numa das grandes cheias


cíclicas do verão de cada vinte anos, \á conhecida dos antigos.
Esta é a de 1926, em 13 de dezembro. (Em 4 de março de
1947 subiu mais 25 centímetros.) Ele só retoma o que foi seu,
pois Garcia chegou à busca do rio e remanso a vencer com
o Caminho quando a margem era aí, nessa rua alagada. E en-
controu o remanso atravessando o canal e do lado de fora da
capítulo 9
ilha fronteira, onde deixou gente o guardando e levantou como
marco de posse a capela da tradição.
Por trás dos sobrados e à altura do segundo, hoje o novo
39, ficava à meia-encosta no morro a casa-grande da fazenda da
Cidade de Veraneio
Paraíba, de 1708 pelo menos, enquanto jardim, bosque (sombra
ao fundo à direita) e os quarteirões ribeirinhos por trás eram
então as ilhas aterradas para se abrir área à "comodidade" de
viajantes e tropeiros, ranchos para o pernoite em rede, mais
abrigo de bruacas, selas, arreios, cargas, e as vendas onde se Paraíba do Sul na antiga Província Fluminense, de tão glo-
reabastecerem de mantimentos de boca e milho para as mulas. riosa tradição, era cidade frequentada por figuras notáveis no
Praia da barca ou rossio da vila, até a inauguração da ponte
esse espelho dágua foi 150 anos chão explorado por estranhos,
cenário nacional. O município tinha a economia apoiada na
como posto-de-serviço. Até que os moradores fundaram a vila lavoura cafeeira, que no Segundo Reinado foi o berço da aris-
revolucionária e fizeram-na o lar, o chão sagrado de seus filhos. tocracia rural. Dela saíram personalidades de raro valor e foi,
Tudo em Paraíba começou ai. Até a primeira obra muni- essa aristocracia, o mais forte esteio do passado regime. Pa-
cipal, a rampa que a Câmara mandou logo abrir para acesso
à sua sede, a casa-grande de Garcia e no ano seguinte (1834)
raíba foi foco do mais irradiante prestígio no tempo.
também matriz, pelo necessário abandono da então em ruína Nossa cidade era então perfeita estação de repouso148,
no alto do morro. Começava a rampa onde está o primeiro principalmente em suas ricas e, para o tempo, confortáveis fa-
sobrado e levantou logo protestos, por devassar os fundos das zendas. Possuía muitos hotéis. Entre eles por algum tempo
casas na rua que se esboçava no eixo da atual Alexandre se destacou o Garibaldi, que anunciava falarem-se ali francês,
Abrahão. Esse sobrado depois abrigou a Câmara, a redação e
oficinas do Provinciano e ainda o Anjo-da-Meia-Noite. Dele só inglês e alemão. Mesa redonda com doze pratos variados, no
vemos um terço e já como "sobrado da Dona Pedrina", última mínimo. No Hotel Anjo-da-Meia-Noite, à disposição sempre
moradora até a demolição. Sua história é a nota 63 (pág. 57). bons petiscos preparados com asseio e prontidão", e onde o
No segundo sobrado se instalou em 1917 o Gymnasio Pa- lustroso preto hoteleiro149 comunicava pomposamente: "o
rahybano, nossa segunda tentativa de curso secundário e co-
nhecido por "Colégio do Babau", apelido do proprietário, Vir- asseio e a fartura é o lema da casa; os senhores hóspedes en-
gílio de Carvalho. E nele morou muitos anos o dr. Agnel Ma- contrarão neste hotel um belo jardim para recreio, boa orquestra
fra, médico. Foi demolido como "Pensão Santa Rita'". O ca- de guizos tocada por professores escoceses, cocheira etc."
sarão pegado foi o do atentado a bomba aos drs. Macário e Existiam victorias de praça puxadas a cavalo, carro pró-
Cornéllo, e o último a distinguir-se, de beiral, o do jornalista
Bernardino Pacheco, rábula de mais causas que os advogados. prio para enterro, e bom teatro de companhias líricas.
Ao fundo, a 15-de-novembro (Direita, Imperador, hoje toda 14
renovada) è distância não mostra o conjunto homogéneo oito- «. A proximidade ao Rio e o clima ameno das montanhas contribuíram
centista que ainda guardava em 1926, e à direita o coreto (de para isso. No Império, até políticos mineiros tiveram residência entre nós,
1908 como o jardim), no centro da cruz-de-malta de palmeiras como o barão de Diamantina e o conselheiro Francisco Januário da Gama
imperiais (de 1868), evoca as retretes ao tempo do Parque Mu- Cerqueira, ministro da Justiça no gabinete Caxias. E escritores e jornalis-
nicipal. Õ conjunto todo, história viva da cidade, está amea- tas do tempo visitavam com frequência a vila e fazendas.
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çado pelo comércio na área; salvação viria por trás de grades. . Se ele próprio abriu o hotel, ou de início foi empregado e depois
ficou na direção, não está esclarecido. Certo é que o infeliz Joaquim Ra-
mos Pacheco de Lima, em cuja vida imprevidência e extravagância parece
se terem aliado para o destruir, acabou na miséria e morando de favor em
pequeno casebre num terreno da rua Rebelo (Alexandre Abrahão), onde
morreu no princípio do século. De meados dos anos 60 até avançados os
90. o Anjo (também alcunha do preto na cidade) esteve presente nos jornais
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PEDRO GOMES DA SILVA
hoje tivemos, António Guerra da Costa152, que a seu convite
E por falar em teatro, lembre-se de passagem que o grande exibiu-se em Campinas, cidade natal do ilustre visitante.
artista Leopoldo Fróes, acompanhado de toda sua companhia, Consta que foi no alto do morro do Vintém15'' que Carlos
passou uma noite no pavilhão do adro da Igreja do Rosário, Gomes teve a inspiração para a partitura a que chamou Céu
enquanto não entrava na renda do espetáculo dado na cidade. de Paraíba, da ópera O Escravo.
A vida social era intensa e cordial, havia constantes reu- Mais acima da Grama, no Jatobá, ficava a casa do dr.
niões cívicas e comemorativas, e a biblioteca da Prefeitura António Luís dos Santos Werneck, onde foi elaborado o cé-
muito frequentada150.
lebre manifesto do Partido Republicano Sulparaibano publicado
Foram visitantes frequentes Luís Nicolau Fagundes Varela, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, e aqui no Parahy-
poeta que colaborou fartamente na imprensa local; o general bano, apressando a ruptura dos próceres republicanos que pro-
Tibúrcio Ferreira, que certa vez realizou conferência sobre as- vocou, em todo o Estado, o movimento que resultou na revo-
pectos da guerra do Paraguai em casa do dr. Leandro Bezerra; lução de 4 de dezembro de 1891 em Paraíba.
o botânico francês Glaziou; o lente da Politécnica, conselheiro Outro artista enamorado de nossas paragens foi o parai-
José Saldanha da Gama, que aqui fez ótimas amizades, como bano de adoção — chegou aos 9 anos e aqui morreu, aos 33
o dr. Joaquim Pereira da Cunha, da fazenda do Governo. — Joaquim Dias da Rocha Filho 1 -" 4 . Ele as cantou assim no
O senador do Império Cândido Mendes de Almeida por soneto À Paraíba do Sul:
muitos anos residiu em Paraíba do Sul, onde instalou sua banca Amo estas altas, brancas penedias,
de advogado e uma ótima tipografia e litografia, em que im-
Que erguem no espaço o lombo esverdeado,
primiu o seu Atlas do Império do Brasil, obra que obteve me-
Este céu sempre limpo e constelado
dalha de ouro na Exposição Universal de Viena, em 1878. E
De turbilhões de estrelas luzidias.
mais: O Auxiliar Jurídico, O Direito Eclesiástico Brasileiro,
História do Comércio e da Indústria, O Visconde de Cairu, Da minha infância os descuidados dias
História do Estado do Maranhão, quando este no século XVII Aqui passei, contente e sossegado.
compreendia também o. Ceará, Piauí, Pará e Amazonas; Direito Quero dormir, quando tombar gelado,
Mercantil, de Silva Lisboa; e preciosa edição do Código Fili- Ao pé daquelas árvores sombrias.
pino (1603), suma das ordenações afonsinas, manuelinas e es-
panholas anteriores. J»2. A biografia está na nota 69. A visita à terra de Carlos Gomes teria
sido numa Semana Santa, quando tocou com a orquestra da catedral regida
Essas oficinas tipográficas do senador Cândido Mendes pelo amigo ilustre.
foram instaladas na Chácara do Chabregas, nas Porteiras151, e 163
. Ultrapassa a cota de 580 m de altitude, tendo sobre a cidade assim
aí lhe nasceu um filho, o conde Cândido Mendes de Almeida. 300 metros. A paisagem do rio, não longe, que se descortina dele abrange
Guimarães Passos, Luís Murat e Olavo Bilac vinham tam- cerca de 20 Km, para cima e rio-abaixo, sendo mesmo deslumbrante em
dia de sol. O morro tem as encostas mais extensas paralelas ao rio, como
bém com frequência a Paraíba, e o último consagrado visitante as cadeias de montanha da região (em geologia, as sinclinais); sendo o
evoca a chácara do dr. Martinho Garcez numa linda poesia que topo um cone regular, se destaca logo dos vizinhos, o que talvez tenha
começa: "Vejo o rio Paraíba coberto de ninfas, à moda grega." feito do Vintém (a etimologia tupi está adiante) um marco do remanso, em-
baixo, no rio, para os viandantes que chegassem da atual Minas Gerais
Na Grama está a casa que até o início da República foi pela trilha puri, depois o Caminho de Garcia. E o fato de que é o único
do major Damião de Sousa Guimarães, farta e hospitaleira. batizado pelos índios junto ao rio já indica que para eles o morro tinha
Ali foi hóspede habitual o maestro Carlos Gomes, o qual em significado especial.
nossa cidade muito apreciou a arte do maior músico que até O belo morro que domina a cidade, passeio predileto de um artista, hoje
está prosaicamente a serviço de repetidora de televisão.
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com aqueles anúncios excêntricos e compridos que não ficavam nada ba- . Nasceu em Curitiba mas é nosso desde menino esse poeta consagrado
rato, mas embalavam a vaidade do Pacheco. ainda moço na academia de São Paulo, e o maior de Paraíba. Ao escrever
150. Criada pela província em 1871 nas suas principais cidades. Em 1874 o com 18 anos os versos gravados em sua tumba, atingira já o nível a que só
horário para o público era das 7 às 22 horas. Funcionava na câmara. chega o talento invulgar. Joaquim Dias da Rocha Filho estudou no Colégio
J
5i. Fachada de pedra lavrada e sacadas sobre o rio, o elegante sobrado Abílio, famoso no Rio então, formou-se em advocacia em 1886 e no ano
no térreo tinha pé-direito mais alto que o comum. (A nota 84 esclarece a seguinte era promotor em Paraíba. Teve banca com o dr. Bezerra, seu
utilização que lhe foi dada pelo senador.) A escada ao andar superior, na sogro, e logo depois de casado morava no chalé das Palhas que depois foi
estrutura arruinada, foi a parte que mais resistiu ao prolongado abandono. do dr. Bernardino, hoje o jardim de infância conhecido.tt Nasceu a 18 de
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CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 125
Certamente pelo panorama que dali se descortina, o pas-
Produzirei da pútrida matéria seio predileto de Carlos Gomes em Paraíba era o Morro do
Por noites de luar a sombra etérea Vintém, em cuja encosta leste se acham as fontes da Água
Dum lírio branco, virginal, franzino. Salutaris. Vintém é corruptela do nome indígena Ibiti.
Talvez antes de Manuel Marques Letra encontrar a de iní-
E hão-me vir, nos ecos repetidos, cio chamada Água da Saúde, no Arraial-dos-Saposir>T, por lá já
Uns merencórios, pálidos gemidos, andasse Carlos Gomes, pois o maestro em cartas a amigos de
— os versos que cantei, quando menino. Paraíba prometia voltar a passar temporada na cidade, em casa
do compadre Damião, para uso da água que tão bem lhe fez-
O segundo quarteto está gravado na lápide da abando- O major Damião era epicurista. Tinha em casa um cozi-
nada sepultura do poeta no cemitério da Encruzilhada11"'". nheiro chinês, que estava sempre inventando novidades culi-
O maestro Carlos Gomes frequentava Paraíba numa nárias para o amo, senhor também de adega bem provida.
época em que se trabalhava ativa e resolutamente em bene- A Água da Saúde mais tarde, por sugestão de José Geraldo
fício da Abolição. Muitos eram os partidários dela em nosso Bezerra de Meneses, passou a chamar-se Salutaris. Era en-
município, salientando-se o vigário Inácio Félix de Alvarenga garrafada segundo os métodos existentes então, que não a
conservavam, chegando aos mercados de consumo em mau
Sales, que com seu espírito adiantado de homem independente
estado. Foi quando nos princípios do século veio ter a Paraíba
aconselhava os cativos, por ocasião de missas havidas nas
o gaúcho Palhares, que se dispunha a fazer no parque da Salu-
capelas das fazendas, a fugirem para a cidade e refugiarem-se
taris uma grande estância hidromineral, e dizia para provocar
no Porto do Vigário. Tal porto era nos fundos da residência
que "a Salutaris em Paraíba é como diamante no focinho de
dele, vigário, que dava para o Paraíba100. Muitas vezes,che- um porco", e que haveriam de ver como ele a iria transformar.
gavam à chácara do cónego Sales negros ainda com as vexantes Infelizmente a morte impediu tão bons propósitos108.
argolas de ferro nos pés e no pescoço, sendo necessário que Passaram-se os tempos. Novos senhores exploraram a
o bondoso vigário,e seus servos limassem aqueles ferros, que fonte milagrosa em proveito próprio, esquecendo-se da terra.
amarguravam e torturavam os pobres cativos. Esses escravos Em 1942 a empresa foi adquirida por nova sociedade, do
eram entregues à Loja Maçónica Amor-ao-Próximo, e esta se dr. Cílio da Gama Cruz. Sob sua direção já aparecem os frutos
encarregava de transportar os infelizes negros para outras da sábia administração: ajardinamento dos terrenos que cir-
cidades, fazendo assim a abolição secreta e dando aos senhores cundam as fontes, que foram canalizadas para elegante pavilhão
grande prejuízo, com a perda de valor em material humano. no centro do parque, tornando-o mais atrativo e cómoda a uti-
Carlos Gomes a convite do cónego Sales regeu a orquestra lização das águas in natura. Felizmente, vão longe os tempos
da nossa igreja matriz, sempre acompanhado pelos maestros dos sacrifícios de um conde para bebê-las, o que conto já,
Guerra da Costa, executor e compositor dedicado, e Alfredo pois se fez sondagem de novos veios e captação eficiente.
Mariano de Azevedo e Silva, musicista e professor que fez
brilhante curso no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, 157. o lado esquerdo da antiga estrada para a Encruzilhada, antes do ca-
onde foi aluno dileto do célebre flautista Colado. minho do Catete. A penetração dos primeiros aquáticos — como chamava
O Parahyba em 1887 aos usuários das águas — deve ter-se feito por ca-
agosto de 1862 e faleceu a 1.° de fevereiro de 1895 na Encruzilhada, casa minho hoje no eixo da rua Bernardino Franco, que do Jatobá segue entre
dos pais. Seu nome é lembrado na rua de Copacabana. o morro da estação da CEDAE e a falda do Vintém.
O pai era médico, e em Paraíba fez jornalismo, política — deputado 158. José Teixeira Palhares e Emídio Griihn adquiriram as fontes minerais
provincial e geral — e exerceu vários cargos ligados à profissão, logo depois de aqui radicados, em torno de 1898. Em 1903 Palhares abriu
ns». É fácil identificá-la junto à pequena capela à direita, no centro do fábrica de ferraduras nas Palhas, com gerência do Mironga (Francisco An-
cemitério. O centenário de morte ocorre dentro de três anos. Mais que tónio Pereira). Foi presidente interino da Câmara em 1908 e em 12 seu
oportuno recuperá-la, colocando cartaz para a indicar ao visitante. secretário. Alugou o palacete Ribeiro de Sá, onde vivia com a esposa, uma
15
e. A casa era no atual n.° 32 da Tiradentes, com fundos no 537 da av. senhora preta, e pelo apuro da indumentária era tido na cidade corno em
Castelo Branco. Que o fato tenha ocorrido, é possível; mas a continuidade muito boa situação. A morte trágica sobreveio na noite de 4 para 5 de
dele, muito pouco provável. Parece mais idealizada versão paraibana da fevereiro de 1913, quando foi assassinado no palacete e o corpo lançado
underground railway dos americanos, essa real, o "trem subterrâneo" que, ao rio; e só achado no dia 6.
de estação em estação (cada fazenda de abolicionista, geralmente pastor Foram detidos e interrogados vários suspeitos. No Rio, houve reper-
protestante), levava para o Canadá e a liberdade os escravos foragidos às cussão na imprensa — Gazeta de Notícias —, mas nunca foi esclarecida sua
plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. morte. A mulher pouco depois deixou a cidade.
126 PEDRO GOMES DA SILVA

É um caso dos meus tempos de garção de hotel, não tão


longínquos, em meados dos anos vinte. Ainda me lembro
bem. Maria Rita era e é água de enormes propriedades.
Quando trabalhava no Hotel Ferreira, veio hospedar-se nele o
conde Pereira Carneiro159. Chegou com a fisionomia abatida,
palidez cadavérica, acompanhado de verdadeira farmácia de re-
capítulo 10
médios que pareciam mingau de polvilho. O conde viera fazer
uso da Maria Rita a conselho de um amigo. A água dessa
fonte ainda não estava canalizada e o mato era abundante em Os Barroso Pereira
volta. Para apanhá-la o conde separava o mato e, com uma
canequinha, tomava a bicarbonatada. Ao cabo de 15 dias me-
lhorara consideravelmente, passando a comer de tudo à mesa
do hotel, tornando-se mesmo um bom-garfo, tipo que não agra-
dava ao velho Ferreira . .. O sargento-mor António Barroso Pereira, morador no curato
Com tal potencial de atração a forasteiros, de que é exem- de Sebolas, fazenda da Bemposta, de propriedade de sua mãe,
plo a Salutaris, pela proximidade ao Rio e cuidando mais de Mariana Jacinta de Macedo, casando-se com Claudina Venância
si própria — ruas limpas, jardim preservado e incentivo a ho- de Jesus, filha de Manuel Jesus Cerqueira e Mariana Eufrásia de
téis e pensões —, nossa cidade pode desenvolver, a par de Paiva, resolveu instalar perto do povoado de Paraíba do Sul
outras atividades económicas1"", o filão do turismo. (Antiga- sua propriedade e, para isso, obteve por requerimento de 16
mente o chamávamos aqui veraneio, e a tipos assim do conde, de setembro de 1817 "terras de sesmaria no sertão entre os
veranistas.) Há cidades que vivem dele. rios Paraíba e Paraibuna rumando com João Pontes França".
Sou da teoria do Eca: O progresso é um carro sem travão. António Barroso Pereira que era enteado do Capitão Tira-
Não adianta ficarmos chorando as passadas glórias de Paraíba morros instalou a sede da fazenda que denominou Cantagalo
e da Província, o requinte dos solares — ora em ruínas — dos no lugar hoje conhecido por esse nome, 1.° distrito do município
barões do café. Muita imprevidência e política vesga presi- de Entre-Rios e antigo 2° do de Paraíba do Sul.
diram no passado decisões importantes tomadas por dirigentes Ativo e trabalhador, dentro de poucos anos já tinha des-
em nome do povo. No dia em que este realmente decidir do bravado as matas virgens e cultivado suas terras, tornando-se
seu destino, quem sabe prosperidade e vida tranquila sejam grande industrial naquela época, instalando em sua fazenda
menos efémeras? importante serraria e fornecendo madeiras a todas as constru-
De qualquer modo, todo progresso — que não tem travão ções das zonas vizinhas.
— monta no carro do trabalho, e esse foi sempre o quinhão Com a morte de sua mãe, herdou António Barroso Pereira
do povo. Para o ter, ele não precisa, pois, de barão nem rei. inúmeras datas de terras, que em 1837 vendeu ao sargento-
Esperamos que sob a ajuda de Deus volte nossa Paraíba -mor José Vieira Afonso e ao tenente António Luís dos Santos
do Sul, por outros caminhos, menos precários, aos bons tem- Werneck, estas na Bemposta, e a Tomé Corrêa de Sales no
pos da Província. De imorredoura saudade, mas passados. lugar Portões, freguesia de São José do Rio Preto.
Em 1840 mandou construir nova sede para sua fazenda,
!•">». Proprietário do Jornal do Brasil. no centro de lindo parque, uma vivenda de luxuoso gosto ar-
100. A vocação de Paraíba, como de todas as cidades na calha do rio, é a quitetural, obra de hábeis artistas portugueses. O chão da
indústria. E num plano que já tarda deve em ambas as margens reservar sala principal era feito de pequenos mosaicos que formavam
área para seu pólo industrial. O ideal é entre a Chacarinha e Boavista.
lindíssimos desenhos das armas coloniais. Esse assoálha-
mento era sempre bem encerado e, por isso, escorregadiço,
servindo assim de divertimento aos servos da casa, que go-
zavam às escondidas as derrapagens e tombos dos visitantes,
desatentos e desabituados a andar sobre lisos.
128 PEDRO GOMES DA SILVA 129
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL

Construiu uma grande ceva para porcos, toda de pedra Aos domingos e dias santificados celebravam-se missas,
lavrada a buril, a qual entrava pelo rio Paraíba, e que foi muito acompanhadas de cânticos sacros pelos escravos. A baronesa,
admirada por todos na época. Desenvolveu enorme criação além de obter ordem especial do Papa para ter o Santíssimo,
de suínos, fazendo troca de toucinho salgado por mercadorias mantinha capelão só para o serviço de sua fazenda. Essa
com os tropeiros que passavam em viagem. Suas lavouras igreja guarda os restos dessa benfeitora de nossa terra.
eram as mais bem tratadas e zeladas da região, e das cen- A baronesa de Entre-Rios foi verdadeira mãe de seus es-
tenas de escravos muitos tratados como pessoas da família. cravos, protegendo também os que para lá fugiam da tirania
Adquiriu muitas outras terras, chegando a ter mais de dos proprietários vizinhos. Com a sua morte, em 1876, a fa-
um milhar de alqueires. Dentro de seu património territorial zenda de Cantagalo passou à filha, a viscondessa do Rio-Novo,
fundou quatro importantes fazendas: Boa-União, Rua-Direita, viúva do visconde do mesmo título.
Piracema e Cachoeira. Da fazenda da Cachoeira uma parte A viscondessa depois de viúva foi agraciada por Pedro II
passou a constituir a fazenda de São Lourenço, onde mais tarde com o título de condessa, por decreto de 16 de outubro de
viveu seu filho, de igual nome e título. 1880; e tais eram os atos de filantropia que lhe ia ser conce-
Além de abastado fazendeiro, foi António Barroso Pereira dido o de marquesa quando morreu no dia 5 de junho de 1882,
cidadão prestante, vereador da primeira Câmara Municipal de em Londres, após operação cirúrgica. Deixou por testamento
Paraíba do Sul, oficial da Imperial Ordem da Rosa e, pelos re- libertos todos os seus escravos, que eram mais de duzentos,
levantes serviços prestados ao município, agraciado com o ficando para eles metade de sua fazenda de Cantagalo, a outra
título de barão de Entre-Rios. metade para a Casa de Caridade de Paraíba do Sul, justamente
De seu casamento nasceram dois filhos; o primeiro cha- o terreno que compõe a atual cidade de Entre-Rios, cujos foros,
mou-se António Barroso Pereira Júnior, depois 2.° barão de devidos à Irmandade, foram assim prevenidos pela condessa
Entre-Rios e, mais tarde, visconde; o segundo foi Mariana
para sua manutenção.
Claudina Pereira, que se casou com seu primo-irmão, José An- Hoje, do grande prédio da fazenda de Cantagalo restam
tónio Barroso de Carvalho, depois visconde do Rio-Novo. apenas os alicerces, em cujo centro foi erguido um monumento
Foi o barão de Entre-Rios chefe de conhecida e importante de pedra, perpetuando a memória da bondosa condessa101. Se
família que tem prestado os mais relevantes serviços de assis- não houvessem sacrilegamente demolido o prédio da fazenda
tência pública em nosso município, continuando seus descen- de Cantagalo, seria em nossos dias autêntico minumento a ser
dentes a mesma diretriz. Morreu em Petrópolis, em 12 de incorporado ao Património Artístico e Histórico Nacional, tal
dezembro de 1862, deixando ótimas fazendas e bens: 407 es- era a pureza de suas linhas arquitetônicas, de uma técnica co-
cravos, grande prédio de residência particular na rua do Impe- lonial perfeita na mais alta expressão.
rador 52, em Petrópolis; mais dois prédios na mesma rua; no Mariana Claudina Pereira, filha do 1.° barão de Entre-Rios,
Rio de Janeiro um prédio de dois andares na rua Direita 95, foi criada juntamente com seu primo-irmão, José António Bar-
avaliado na época em 70:000$000, e outro na rua de São Pedro roso de Carvalho, com quem mais tarde veio a casar-se. O
avaliado em 20:000$000 (número 93); em Entre-Rios, à margem barão de Entre-Rios reservou para eles uma de suas fazendas,
da estrada União-e-lndústria, um correr de casas; diversos pré- a que chamou Boa-União, nome significativo do desejo que
dios na vila de Paraíba do Sul e em São João d'EI-Rei. Deixou tinha da felicidade conjugal dos dois. Antes de casar-se José
mais diversos títulos para receber, no valor de 200:000$000; António já era rico, pois trabalhara muito na freguesia de Se-
no Banco do Brasil, em depósito, 224:5131000, e em diversas bolas e também herdara. Casando-se, foi residir na Boa-União,
casas bancárias mais de 100:000$000. O total dos bens dei- tornando-se conhecido por Major Carvalhinho.
xados foi avaliado na época em 1.569:303$468. Foi uma das Era homem de ideias avançadas, tendo concorrido eficien-
grandes fortunas de Paraíba em meados do século passado. temente para a construção da estrada União-e-lndústria, que
Com a morte do barão de Entre-Rios a fazenda de Can-
tagalo passou a sua mulher, a baronesa de Entre-Rios, a qual ifli. O arrendatário da fazenda, Emídio Rispoli, em 1897 já estava em de-
mandou construir em sua propriedade capela dedicada a Nossa manda com a Irmandade, que custou a desalojá-lo da propriedade que es-
Senhora da Piedade. Da porta da fazenda começava uma ala- poliara totalmente. A sede se assentava onde está o trevo de Cantagalo.
Em seu último trabalho para jornal, publicado na véspera do falecimento
meda de acácias "que terminava no adro da capela, situada em em O Cartaz, de Três Rios, o autor se referiu ao desaparecimento desse e
uma colina em frente, e sobranceira ao rio. outros marcos de pedra durante trabalho de terraplanagem no local, i ;
130 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 131

atravessou os terrenos de sua propriedade e não lhe opondo e ocupou cargos no município. Faleceu em Paraíba em 1915.
o menor obstáculo, como muitos de seus vizinhos, tornando-se Dos seus onze filhos destacaram-se Randolfo Pena Júnior,
grande acionista da empresa.
que exerceu diversos cargos públicos, como o de presidente da
Com a morte de seu tio e sogro, o barão de Entre-Rios, o Câmara e mais de trinta anos provedor da Casa de Caridade;
major Carvalhinho herdou duas importantes fazendas: Rua-Di- e Salvador Pena, escritor, poeta, músico, poliglota e tradutor
reita e Piracema. Enquanto viveu, sempre orientou os negó-
de clássicos latinos.
cios de sua sogra na fazenda de Cantagalo, facilitando muito Outro filho seu, Cristiano Pena, também presidiu a Câmara
também a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II, o que e foi membro do Conselho Consultivo Municipal criado em
lhe valeu ser elevado por decreto de 27 de março de 1867
1930; e a filha Maria Augusta, grande benfeitora da Casa de
a visconde do Rio-Novo, com grandeza. Era barão desde 1856. Caridade, e que em 1923 construiu a suas expensas a capela
O visconde durante a guerra do Paraguai deu para as "ur- de Nossa Senhora da Piedade, que se destaca pela esguia es-
gências do Estado" trinta e tantos contos de réis. Já era uma trutura em linha gótica no topo do morro de Santo António.
grande fortuna no País quando lhe veio às mãos a herança do De Randolfo Pena passou a fazenda da Boa-União ao genro,
barão de Entre-Rios.
João da Costa Ribas, o qual melhorou grandemente tanto as
Ocupou diversos cargos públicos em Paraíba; foi vereador lavouras como as instalações. O major Ribas foi fundador da
da Câmara Municipal em várias legislaturas, membro do Partido Folha da Lavoura, órgão de defesa agrícola, e vereador à Câ-
Conservador nos bons e maus tempos, e contribuiu para o pro- mara Municipal. Agindo sempre com desassombro e lealdade,
gresso de Paraíba, Petrópolis, Barbacena e São João d'EI-Rei, aborreceu-se com as misérias da política e abandonou a vida
cidades onde tinha negócios. Foi também presidente da Câ- pública, tornando-se banqueiro em Entre-Rios. E vendeu a tra-
mara Municipal de Petrópolis.
dicional fazenda da Boa-União a Urbano Carlos de Almeida.
O visconde nasceu na freguesia de Sebolas em 1816 e fa- António Barroso Pereira Júnior, barão e visconde de Entre-
leceu a 17 de outubro de 1869, na Corte, com 53 anos, deixando Rios, casou-se com Mariana Cândida Pereira Belo, a qual faleceu
libertos todos os seus escravos, cujos nomes enumerou, e bem a 8 de janeiro de 1875, antes de o marido ser titular. Era pri-
assim os que herdara do seu falecido pai. E a cada um deles ma-irmã do duque de Caxias, pelo lado paterno, e sobrinha do
doou dois alqueires de terra para plantação, ou 50$000 aos que
barão do Piabanha pelo materno.
não quisessem viver da lavoura. Deixou muitas verbas de ca- Em 1877 foi António Barroso Pereira agraciado com o título
ridade, especialmente 10:000$000 para uma Casa de Caridade de barão, herdado do pai; construiu a fazenda de São Lourenço
que se edificasse em Paraíba do Sul. em terras pertencentes à da Cachoeira, e em 1883 foi elevado
Irmão do visconde do Rio-Novo, e portanto Barroso Pereira ao título de visconde.
também, era o tenente-coronel Dâmaso José Barroso (Júnior), Era a fazenda de São Lourenço uma das moradas mais pito-
15 anos mais moço e que se tornou grande proprietário de ter- rescas do município. Lindo prédio cercado de estátuas de már-
ras. A história desse ramo dos Barroso Pereira (Carvalho) está more. Num patamar amplo que dominava a paisagem, tinha ri-
no capítulo Fazenda Mato-Grosso. quíssima capela com muita prataria. Na casa-grande havia sa-
A viscondessa, viúva, passou a fazenda da Boa-União a seu lões decorados e, na sala-de-jantar, pinturas, atribuídas ao espa-
irmão, António Barroso Pereira Júnior, indo residir com a mãe
na fazenda de Cantagalo. nhol José Maria Vilaronga.
Com a morte do visconde, em 1906, os herdeiros venderam
O 2.° barão de Entre-Rios não ficou muito tempo na fazenda a fazenda de São Lourenço a Frederico d'Olne162, de nacionali-
Boa-União, transferindo-a a seu genro, o médico Randolfo Augus- dade belga, um dos fundadores da fábrica de casemira Aurora,
to de Oliveira Pena que, procedente de Minas e parente do mar- no Rio de Janeiro. Por sua morte a fazenda passou ao filho,
quês do Paraná, cunhado de Afonso Pena e irmão do senador
Edmundo Gustavo d'Olne.
Feliciano Pena e do visconde de Carandaí, muito aumentou o Pertenceram também à grei dos Barroso Pereira as fazen-
seu pecúlio em plagas paraibanas. das Santarém, Calçado, Cataguá, Constância, Retiro, Mundo-
Randolfo Pena veio residir em Paraíba do Sul a convite da
condessa, então ainda baronesa do Rio-Novo, com quem fizera !o2. Foi o doador das quatro estátuas ao parque construído pelo dr. Ber-
conhecimento em Minas. Exerceu a medicina por alguns anos nardino Franco, em 1908, que encarregou de buscá-las a seu Milote. Pediu
em Paraíba. Além da Boa-União, adquiriu outras propriedades ao prefeito, em troca, a melhoria da estrada para sua fazenda.
132 PEDRO GOMES DA SILVA

Novo, Aliança e Harmonia, no distrito da Bemposta; e Mato-


Grosso, Santa Engrácia, Sebolas e Governo nos distritos de
Sebolas e Santo António da Encruzilhada.
Das quatro famílias que se destacaram no município como
proprietárias de terras, foram os Barroso Pereira não só os pri-
meiros a chegar mas também os mais bem-sucedidos. Ocupa- capítulo 11
ram as excelentes terras de entre Matozinhos e Sebolas a partir
do núcleo inicial da fazenda Mato-Grosso, que é de meados dos
anos 1770, e por casamento se associaram com os vizinhos
Barbosa e Teixeira, pioneiros em Sebolas que tinham no Capitão
Os Pereira Nunes
Tiramorros um chefe inato.
Além dessa associação feliz, o primeiro António Barroso
Pereira (no período abrangido por nossa história são três) che-
gou das minas com dinheiro para aplicar em terras e, parece, Inácio Pereira Nunes, filho de António Nunes da Silva e
tinha melhor nível intelectual que a média dos primeiros povoa- Ana Pereira Nunes, natural do Rio de Janeiro e batizado na fre-
dores da época; tanto que preparou o filho para ser um dos guesia de Inhaúma, instalou-se no Inema, onde se tornou fa-
principais vereadores da primeira câmara, onde lhe coube de- zendeiro e proprietário de uma fábrica de tijolos para constru-
fender os direitos da vila ao património de terras para afora- ção. Aos poucos foi adquirindo terras na serra das Abóboras.
mento na questão de nove anos com os Paes Leme. Comprou primeiro à viúva de José Fernandes dos Santos
Esse maior preparo intelectual levou não só os Barroso os sítios Água-Limpa e Serra. Obteve outras propriedades na-
Pereira ao bom sucesso financeiro como ao interesse pela coisa quela serra por execução hipotecária pois, tendo emprestado
pública, no manejo da qual foram prestimosos e humanitários. muito dinheiro e não podendo os devedores efetuar o pagamento
Ao visconde do Rio-Novo devemos a ideia do hospital, asilo de nos prazos estabelecidos, se indenizou ocupando as terras
órfãs e educandário que sua prima e viúva, a condessa, com seu dadas em garantia. Tornou-se senhor de vasta zona.
testamento tornou realidade. E o visconde de Entre-Rios, em- Inácio Pereira Nunes nas suas terras da serra das Abóbo-
bora infenso à política, sempre que se impunha o apoio à mo- ras, vertentes do rio Paraíba do Sul, instalou as seguintes fa-
ralidade de sua prática, em benefício da coisa pública, não se zendas: Cachoeira, Caxambu, Santa Teresa, Sossego, Retiro,
omitia. Tinha o hábito de opinar em declaração aos jornais. Fortaleza, Independência, Água-Limpa, Santo André, Serra, Santo
Elias, Santa Vitória, Bonsucesso, Santa Clara e Barreira.
Dentro do património territorial de Inácio ficavam os dois
pontos mais elevados da serra, as pedras Menina e Monte-Cris-
to. O dr. Metizinger, engenheiro alemão, calculou ser de mil
metros a altitude da Menina, e de 850 Monte-Cristo163. Na
primeira existe na base uma depressão retangular, exatamente
como se fosse praticada por um bom canteiro, e que se parece
com o vão de grande porta. Isso excitou a imaginação popular,
surgindo entre os escravos das fazendas locais a lenda da porta
de entrada de um templo subterrâneo, em que os índios de
outrora adoravam seus ídolos e guardavam fabuloso tesouro.
Inácio Pereira Nunes tornou-se homem de vastíssimos re-
cursos, possuidor de extensa área de matas virgens e mais de
mil escravos. Tinha quase 300 bestas-de-carga, que faziam o
percurso de suas fazendas ao porto da Estrela levando géneros
i»». A carta fotogramétrica do IBGE, folha Paraíba do Sul na escala 1:5Ó 000,
dá para Santo Cristo 985 metros. É o ponto culminante do município, •
134 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 135
de toda espécie, toucinho e café. Na volta vinham com sal, Foi muito esmoler. Ofereceu elevada quantia à Santa Casa de
sabão e petrechos necessários à lavoura. Ele reservou para Misericórdia de São João d'EI-Rei, dez contos-de-réis à Casa de
tratamento dos animais-de-carga uma fazenda inteira, a do Sos- Caridade de Paraíba do Sul. Fez importantes doações ao Asilo
sego, nas imediações do Monte-Cristo. de Nossa Senhora do Amparo, em Petrópolis, e ao Colégio dos
Quando da revolução em Minas Gerais no ano de 1842 Padres de Dom Bosco, em Niterói.
prestou em sua fazenda da Cachoeira grande auxílio a tropa Carlos Pereira Nunes, deixando a fazenda do Inema na
legal de Caxias, ali baseada antes da tomada de Paraibuna, margem direita do Paraíba e que o pai guardara dos seus co-
sendo por esse motivo condecorado pelo imperador Pedro II meços — o velho Inácio não vendia palmo de terra —, abriu
com a Comenda- da Ordem de Cristo. Dessa data em diante uma grande lavoura na fazenda de Santo André. Aí se casou
passou a ser conhecido por comendador Inácio Pereira Nunes. com Florinda do Couto em 1842, nascendo deles dez filhos.
Foi casado duas vezes. A primeira com Luísa, que faleceu Carlos Pereira Nunes e sua mulher, com o auxílio do braço
em 1816 deixando vivos os seguintes filhos: Reginaldó, Ana, escravo, conseguiram grande pecúlio. Não se distinguiram em
Maria, José Inácio, Balbina, Carlos e António Luís. Em segun- artes ou ciências, mas sobrelevaram com financistas. Foi agra-
das núpcias com Leocádia, filha de Bento Borges de Araújo, ciado com o título de barão de São Carlos em 28 de agosto de
com a qual teve os filhos Mariana, Jacinto, Brás, Vitorio, Te- 1877, e fez doações à Casa de Caridade de Paraíba do Sul e à
resa, Clara, Emídio e Inocência. Em sua história, essa grande Sociedade de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, cus-
relação é básica, pois a cada um dos filhos deixou uma fa- teando as despesas do hospital dois meses. Sua sepultura, em
zenda. E as fazendas Pereira Nunes eram todas a vertente do frente à capela, é a mais suntuosa do cemitério de Paraíba.
Paraíba na serra das Abóboras a oeste do caminho de Minas, Faleceu em março de 1894.
isto é, de uma linha norte-sul entre Paraíba e Paraibuna. Por morte do barão de São Carlos a fazenda passou à ba-
Dentre os filhos do comendador Inácio aquele que mais se ronesa, que a legou ao filho Cristóvão Pereira Nunes, médico
distinguiu nos estudos foi Brás Pereira Nunes, que se formou e vereador em nossa Câmara. A fazenda de Santo André pos-
em Ciências Políticas em São Paulo e inventariou os bens do suía ótima casa de residência, extensos terreiros de pedra
pai. A cada um dos 15 herdeiros coube uma fazenda com 100 para a secagem de café e maquinismo completo de seu bene-
alqueires de matas e lavoura de café, gado e escravos. Brás ficiamento. Da qualidade do café que produzia tirou o barão
herdou a fazenda Bonsucesso e foi mais tarde agraciado com de São Carlos a fortuna que acumulou.
o título de barão pelo estadista José António Saraiva. Ana Pereira Nunes herdou a fazenda do Sossego. Por sua
O barão do Rio-do-Ouro gostava imensamente de caçadas morte libertou todos os escravos, deixando a fazenda ao barão
e teve a vida divertida. Exerceu diversos cargos públicos em de Santo António, seu cunhado. Este passou a propriedade a
Paraíba do Sul, mas sem muita convicção. Morreu solteiro de Francisco Ferreira Ribeiro, o Chico do Sossego105, seu exce-
febre amarela, deixando filhos164. lente capataz, mas por dez anos, findos os quais passaria a
Balbina Pereira Nunes herdou a fazenda de Santo Elias. fazenda aos ex-escravos que ficassem com ele no trato da terra.
Casou-se com António Pinto de Oliveira, homem trabalhador e A fazenda do Sossego pertenceu posteriormente a António
amador da medicina homeopática, que exercia nos arredores da Silva Tamanqueira, depois a Agostinho Mediei, e ainda a
de sua propriedade. Foi agraciado por decreto de 15 de abril Virgílio Augusto Fortes.
de 1882 com o título de barão de Santo António. Fez doações Também coube a Ana Pereira Nunes a propriedade Recreio
importantes à Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro. Es- de Santo Elias, hoje denominada Colónia.
teve em Paris, onde se submeteu a operação de catarata pro- Clara Pereira Nunes herdou as fazendas Santa Clara e Bar-
veniente de diabetes; operação aliás inútil, continuando seu so- rejra. Casou-se com o coronel João José Vieira, que adquiriu
frimento até a morte, em 1884. No testamento, juntamente grande riqueza no cultivo de suas terras. Entre os filhos des-
com a mulher, fez doações a seus escravos. tacou-se João José Vieira Filho, juiz municipal em Juiz de Fora.
Maria Pereira Nunes herdou a fazenda da Serra, de onde
ltir
tirou excelente pecúlio, o qual desapareceu com sua morte. '. Nasceu no Sossego. Quando veio morar na cidade, em chácara nas
Palhas, a habilidade e expediente fizeram dele pau-para-toda-obra. Foi quem
™*. Feito barão por interferência do colega na academia de São Paulo, construiu o coreto do Jardim Velho,.com ferragem do Augusto Batista Fer-
o conselheiro Saraiva, em 24 de março de 1881. Faleceu a 8 de junho do reira, assim como o da praça de Entre-Rios. Passou ao filho Lucas Fer-
mesmo ano, deixando alforriados e com terras todos os seus escravos. reira Ribeiro muito do seu tirocínio em obras, que ele aproveitou como
136 PEDRO GOMES DA SILVA

Emídio Pereira Nunes foi o herdeiro da fazenda Caxambu.


Em 1868 possuía máquina a vapor para fabricação de açúcar.
Adoeceu pouco depois e não mais se restabeleceu. Caxambu
era famosa pelos seus candomblés e pelos jongos e cateretês.
Há quem afirme ter existido em suas imediações um quilombo
numeroso, chefiado por genuíno príncipe africano, de indumen-
tária e jóias faustosas186.
Inocência Pereira Nunes, herdeira da fazenda do Retiro, capítulo 12
casou-se com Gomides Xavier Rebelo, que faleceu em ,8 de
dezembro de 1867 em sua fazenda vítima de apoplexia fulmi-
nante. O dr. Gomides, que estabelecera de início clínica na
vila, granjeou simpatia geral pelos sentimentos de caridade de
Os Santos Werneck
que sempre deu provas. Embora deixando a medicina para
dedicar-se à lavoura do café, utilizava seus conhecimentos mé-
dicos em benefício de escravos e pobres. Faleceu moço.
António Luís Nunes herdou a fazenda Santa Vitória. Era Os Werneck que passaram de Vassouras a Paraíba do Sul
um gigante fisicamente. Quase não podia andar, de tão gordo, foram na maioria do ramo Santos Werneck. Esse ramo formou-
e para fazer uma viagem de dois quilómetros eram necessários se do casamento de Luísa Maria Angélica Werneck, filha do
dois cavalos para revezamento no caminho. Na fazenda já sargento-mor reformado das Ordenanças da Corte, Inácio de
existiam maquinismos para café e aguardente. Legou sua fa- Sousa Werneck, fundador da cidade de Valença e depois padre,
zenda aos filhos Elias e Inocência. Mais tarde Santa Vitória com o capitão António Luís dos Santos, de Sacra-Família.
passou a propriedade do dr. Bernardo Alves Pereira, médico Os primeiros dos Santos Werneck, naturalmente, fo-
casado com Inocência. ram seus sete filhos, Fernando Luís, Francisca, António Luís,
O depois popular dr. Bernardo em moço se aperfeiçoou na Ana, Luís,. Maria Luísa e Francisco Luís. Suas fazendas em
Europa e foi professor na Faculdade de Medicina do Rio de Massambará, município de Vassouras, levaram os nomes de
Janeiro. Vendendo a fazenda, veio residir em Paraíba, onde São Francisco do Massambará, São Fernando do Massambará,
clinicava, lecionando também francês e piano. Era médico da Santo António do Massambará etc.
Casa de Caridade. Faleceu em 1925. Em 14 de agosto de 1837 o tenente António Luís dos Santos
Famosos na Paraíba da virada-do-século eram os saraus Werneck adquiriu terras^em mato virgem para abrir lavouras
que o doutor Bernardo regularmente promovia em seu grande em lugar que hoje pertence ao distrito da Bemposta, em nosso
salão da casa da beira-rio — quarteirão Rosário — Jardim Ve- município, e assim os Werneck entram em nossa história.
lho—, quando reunia amigos e suas senhoras, e ainda músicos A escritura da nova gleba foi do teor seguinte: "O sargen-
da cidade, para apresentações de piano, canto e solos instru- to-mor António Barroso Pereira e sua mulher vendem ao tenente
mentais. Casara-se pela segunda vez em Viena e sua esposa, António Luís dos Santos Werneck uma data de terras, que lhes
prendada em arte como ele próprio, se apresentava também. tocou entre outras por legítima herança de sua falecida mãe
Madama Bernardes, ou depois simplesmente Madama, como e sogra, d. Mariana Jacinta de Macedo, na fazenda da Bemposta,
era conhecida, sobreviveu ao marido cerca de 20 anos e faleceu no curato de Sebolas, deste termo, a qual data tem de testada
bem idosa. E vivia de livro na mão. 1 500 braças de terras com 1 562 ditas de fundo, cuja terra
confronta pela testada com terras dos herdeiros de José An-
empreiteiro da Prefeitura em vários governos (anos 20 e 30); deste é o tunes Barbosa e sua mulher e, por um lado, com o tenente-
mais rico depoimento pessoal que já colhi em Paraíba (1971), aos 90 anos.
io6. Fica registrado aqui o folclore negro em nossa terra. O nome da fa-
coronel José Joaquim dos Santos e pelo outro lado com terras
zenda é naturalmente inspirador e cenário adequado aos ritos africanos. que eles outorgantes venderam a José Vieira Afonso, e pelos
Até os anos 30, o caxambu era de tradição no encerramento de toda festa fundos com terras que eles mesmos outorgantes também ven-
de igreja, junto à fogueira e tarde da noite. Talvez dos últimos, se não o deram ao outorgado comprador desta, cuja data de terra; assim
último, foi o grande caxambu comemorativo do cinquentenário da Abolição, confrontada tinham vendido ao outorgado tenente António Luís
a 13 de maio de 1938, no largo de Santana (Lavapés).
dos Santos Werneck.
138 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 139

Essa data de terras na Bemposta foi comprada pelo preço crenças conservadoras, chefe de numerosa família e de nobre
de 7:000$000. Aumentando ainda mais seu património ali, por caráter. Faleceu comendador em 21 de outubro de 1872.
escritura de 18 de novembro de 1837 o tenente António Luís 2. Isabel Leopoldina Werneck, casada com Mariano José
dos Santos Werneck adquiriu do mesmo sargento-mor António Barroso de Carvalho; ficou com a fazenda Santarém. Viúva,
Barroso Pereira outras terras. Dentro de pouco tempo era se- casou-se com o cunhado António José Barroso de Carvalho.
nhor absoluto de grande património territorial, desde o Cas- 3. Inácio Barbosa Santos Werneck, casado com sua prima
telo até Santarém. . Luísa Amélia de Oliveira Werneck, filha de seu tio Fernando
Mais ou menos na mesma época veio instalar-se na fre- Luís dos Santos Werneck, ficou com a fazenda Boa-União, que
guesia de São José do Rio Preto, da qual então fazia pgrte a era a sede ao tempo de seu pai com o nome de Boa-Vista. Foi
Bemposta, um cunhado, primo e compadre do tenente, de nome figura de destaque na política do município e agraciado por
João de Souza Werneck. Posteriormente, em 1839, estabele- decreto de 1.° de maio de 1867 com o título, com grandeza, de
ceu-se na mesma freguesia outro parente, José Pinheiro de barão da Bemposta. Em 1868 vendeu sua fazenda ao capitão
Souza Werneck. Assim, três Wernecks se estabeleceram em Sousa Nunes e adquiriu a grande e bela fazenda do Calçado no
Paraíba pouco depois da criação do município. alto rio desse nome, nossa freguesia de São José do Rio Preto.
O tenente Santos Werneck era neto do depois padre Inácio Nasceram na Bemposta os seus filhos Inácio, médico, e
de Sousa Werneck, e veio de Vassouras acompanhado de sua Américo, engenheiro civil; e em São José do Rio Preto o filho
mulher, Maria de Assunção, e filhos. Escolheu para construir Napoleão, engenheiro-agrônomo, antigo funcionário do Ministé-
sua fazenda um lugar à margem do caminho de tropa, perto do rio da Agricultura e pai de Francisco Klórs Werneck 187 , linha-
sítio onde seria mais tarde a sede da freguesia da Bemposta, gista e conhecedor profundo da genealogia da família Werneck.
e deu-lhe o nome de Boa-Vista; atualmente se chama Boa-União Esse intelectual é, assim, do ramo sulparaibano dos Werneck.
(não confundir com a do mesmo nome e que foi do visconde 4. Fernando Luís dos Santos Werneck, casado com Gal-
do Rio-Novo, perto de Entre-Rios). dina do Carmo; ficou com a fazenda Cataguá, hoje de proprie-
Em pouco ternpo o tenente transformou os matos virgens dade dos irmãos Nonato de Araújo. Desse casamento nasceu
da Bemposta em grandiosas lavouras de café, e a ele se deve António Luís dos Santos Werneck, republicano histórico168.
o povoamento da zona, sendo um verdadeiro iniciador do pro- ifi". Com suas comunicações ao Instituto Genealógico Brasileiro, de que
gresso local, incentivando o plantio do café na zona leste do era sócio conselheiro, Francisco Klôrs Werneck (1905-1986), niteroiense do
município de Paraíba do Sul. ramo Santos Werneck da Bemposta, enriqueceu a história da serra flumi-
O tenente António Luís dos Santos Werneck demarcou em nense, e particularmente de Vassouras, com elementos novos baseados em
vida sua grande fazenda, de acordo com seus dez filhos, para farta documentação. Francisco Tavares, o verdadeiro alferes da roça do
alferes e Os primeiros povoadores de Vassouras e seus descendentes são
evitar que por sua morte surgissem demandas entre os irmãos, trabalhos de exaustiva pesquisa e que alteram e enriquecem tudo o que
o que de fato se deu. Não teve ele o prazer de ver os resul- foi publicado sobre a origem daquele município.
tados de suas lavouras, que tanta fortuna deram aos descen- Nosso autor se correspondeu com Klôrs Werneck, que o orientou no
dentes e tanto progresso e civilização trouxe àquela zona do levantamento da linhagem em Paraíba dos Rocha Werneck, da zona limítrofe
nosso município. Em 7 de junho de 1848 faleceu esse grande com Vassouras, e Santos Werneck, da Bemposta.
168. Figura saliente e pouco conhecida da rivalidade política entre repu-
desbravador, deixando os filhos seguintes: blicanos e monarquistas, que se exasperou com a República e eclodiu na
1. José Francisco de Sousa Werneck, casado com Fran- Revolução de 1891. Sua candidatura a deputado geral pelo partido Repu-
cisca Amélia de Oliveira, que ficou com a fazenda Castelo; blicano no 9.° Distrito Eleitoral, sediado em Paraíba desde 1885, agrupou às
esta depois passou ao genro, Lázaro do Couto, e posteriormente pressas num partido Monarquista adversários de cinquenta anos na política
do Império. Reunidos em 21 de junho de 1888 em Paraíba, conservadores e
ao médico Sinfrônio Fortunato Della-Cella, casado com Carolina liberais formaram o bloco político de apoio ao candidato monarquista, o
de Miranda Carvalho. Atualmente essa fazenda está unida à conservador Cândido Drummond Furtado de Mendonça, que era de fora.
da Bemposta, de propriedade de Arnaldo Guinle. Os republicanos, com António Luís dos Santos Werneck, ganharam em
" • " .Foi dos Santos Werneck o que mais se destacou em Bem- Paraíba e Sapucaia, mas perderam a eleição pelo resultado dos outros mu-
posta. Exerceu no município os cargos de vereador, juiz-de- nicípios do Distrito Eleitoral: Petrópolis, Estrela, Mago e Iguaçu.
A vitória de Drummond foi comemorada pelos conservadores em Pa-
"pãz", delegado dê Polícia, inspetor municipal de escolas etc. Era raíba ruidosamente, no 6 de julho seguinte, com grande manifestação no
-fazendeiro laborioso, cidadão prestante, político sincero de Palacete ao barão de Ribeiro de Sá, chefe do partido Conservador no mu-
140 PEDRO GOMES DA SILVA

5. Luísa Maria Assunção Werneck, casada com Francisco


Inácio dos Santos Werneck; ficou com a fazenda do Recreio.
Nasceram desse casal os seguintes filhos: a) José Inácio San-
tos Werneck; b) Virgílio Santos Werneck; c) Maria Assunção
Werneck; d) Francisca de Assunção Werneck; e) Luísa de As-
sunção Werneck, casada com Altivo de Sousa Vieira.
A fazenda do Recreio esteve sempre na posse da família
Werneck. Sua única proprietária atualmente, Luísa de Assun- capítulo 13
ção Werneck Vieira, distribuiu-a a seus filhos Altivo Werneck
Vieira, Nair Werneck Silveira e Maria Luísa Werneck Geoffroy.
6. João Vieira das Chagas Werneck, que ficou com a fa-
zenda Santa Rosa. Os Santa - Justa
7. Leopoldina Chagas Werneck, casada com José Vieira
dos Santos Werneck ficou com a fazenda Olaria. Essa fazenda
passou ao genro, José Werneck, advogado em Mar de Espanha,
e deste ao dr. Barros Franco, pertencendo atualmente ao dr.
Kallemback Cardoso. Jacinto Alves Barbosa, filho do português José Francisco
8. Carolina das Chagas Werneck, casada com José Carlos Rodrigues Alves Barbosa, depois de tropeiro no Caminho de
de Araújo Franco; ficou com a fazenda Paciência. Minas com o salário de 720 réis diários, resolveu adquirir terras
9. Geraldina das Chagas Werneck, casada com Manuel e abrir lavouras nas margens do rio Preto. Em 1840 já era
Luís dos Santos Werneck; ficou com a fazenda Retiro. Manuel senhor da fazenda de São Fidélis, tendo desenvolvido enorme
Luís construiu no Retiro, em 1869, um magnífico prédio, e aí plantação de café. Muito honesto e trabalhador, foi adquirindo
hospedou o imperador Pedro II. Transmitiu a propriedade a terras e em pouco tempo era o senhor absoluto da encosta
norte da serra das Abóboras, vertentes do rio Preto, que divide
seu genro, Mário Galvão, que a vendeu ao comendador José
Francisco Moreira. Hoje é de José Moreira da Rocha Macedo. nosso município com o estado de Minas Gerais.
Adquirindo do conde de Lajes a fazenda de Cachoeira-Alta-
10. Josefina das Chagas Werneck, casada com Miguel
Silva; ficou com a fazenda Santa Juliana. de-Santana, plantou lavoura de 200 000 pés de café na falda do
Monte-Cristo, que a dividia das terras dos Pereira Nunes.
Do que acima escrevemos verifica-se que os Santos Wer-
Dentre as fazendas que Jacinto Alves Barbosa foi mais ali
neck muito fizeram pelo município de Paraíba do Sul, e que os
adquirindo destacava-se a de Santa-Justa, hoje em território per-
descendentes do tenente António Luís dos Santos Werneck, o
tencente ao município de Santa Teresa de Valença (Rio-das-Fio-
pioneiro da família no município e neto do fundador de Valença
res), que fora propriedade de Brás de Carneiro Bellens e onde,
e primeiro Werneck na Província, casaram-se quase todos com
em 1852, empregaram-se 115 famílias da província de Holstein,
primos-irmãos, coisa comum entre os abastados de outrora e
norte da Prússia. E em suas terras abriu mais as fazendas de
forma prática e segura de manterem fortuna e prestígio.
Santana, São Lourenço, Serra e São Miguel.
nicrpio ao final do Império. Do saco-de-gatos político que foi Paraíba e a Jacinto Alves Barbosa foi casado com Tomásia da Silveira,
província daí por diante, durante três anos e meio, vai sair a Revolução de da qual teve onze filhos. Tornando-se grande proprietário e
1891, cem anos depois ainda confusa e rebarbativa pelo emaranhado dos opulento fazendeiro, um dos maiores cafezistas do Brasil, era
gatos, mesmo já fora do saco.
conhecido do imperador certamente pela sua fama de homem
Em casa desse Santos Werneck no Jatobá, como vimos, foi redigido
em outubro de 1890 o manifesto de ruptura dos republicanos, que tornaram honesto e empreendedor. Foi agraciado com o título de bariío
pública a oposição do bloco a Francisco Portela com menos de um ano de de Santa-Justa por decreto de 30 de novembro de 1866, e de
sua posse no governo do Estado. barão com grandeza em 30 de janeiro de 1867.
Excessivamente modesto, interrogado corln voz polo impo-
rador sobre quanto café colhia, respondeu: "Algum, majesta-
de." Colhia algum café o homem que tinha porto do 2 000 en-
cravos. Era conhecido como tão bom sonhor quo constituiu
motivo de satisfação aos infelizes trabalharem suas fazondas.
142 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 143

As terras do barão de Santa-Justa eram fertilíssimas, e Contam-se muitas lendas sobre a nossa amazona, que sus-
nelas ainda viviam selvagens em 1860, os quais se alimenta- tentava grande luxo em suas propriedades. Em Paraíba do Sul,
vam de caça e pesca. Permaneciam aí porque a caça, pesca, o nome da baronesa de Santa-Justa encabeçava sempre a re-
frutas, cocos e palmitos eram abundantes. lação dos festeiros. De uma feita ofereceu para um leilão da
O barão de Santa-Justa era magro, trazia o rosto e bigode igreja de Santana dois negros escravos, trajando indumentária
raspados, tinha os olhos azuis e era quase louro. Era cidadão esquisita, o que foi uma das prendas de maior preço da época.
de boa palestra e gostava de dar aos amigos lições de finanças, Com a mesma facilidade com que obtinha dinheiro, gastava-o
dizendo-lhes: "Por mais barato que seja um objeto, você não com prodigalidades.
o deve comprar; mas quando você precisar de qualquer cousa, Como vimos na relação dos herdeiros, dois filhos de Ja-
não regateie o preço." cinto Alves Barbosa foram barões do mesmo título. A terceira
Faleceu o barão de Santa-Justa em 20 de dezembro de 1872, baronesa de Santa-Justa foi agraciada depois de viúva, por de-
deixando os seguintes filhos: creto de 9 de fevereiro de 1889, com o título de viscondessa,
1. Jacinto Alves Barbosa Júnior, o mais velho, por força obteve-o de forma interessante: foi ao imperador e pediu que
de seus interesses tornou-se comerciante e comissário de café fosse retirado o título de seu cunhado, que fora também agra-
no Rio de Janeiro mas, não prestando atenção aos negócios, foi ciado como barão de Santa-Justa, o que trazia confusão, pare-
surpreendido com a falência; tendo proposto aos credores pagar cendo ser ela mulher dele, o que não repercutia bem. Pedro II
80%, o que foi aceito, soube depois que o pai tinha ido ao Rio então, gentilmente, resolveu a questão de modo conciliatório,
e pago o restante, perto de 600 contos. retrucando: "Vá sossegada, senhora viscondessa, que eu re-
2. Maria, que se casou com Balduíno de Meneses, médico; solverei o seu caso."
foram os barões de Meneses, herdando a fazenda São Fidélis. E no dia seguinte era a baronesa agraciada com o título.
3. Leopoldina, casada com o barão de Santa-Fé, herdou a João Batista dos Santos, visconde de Ibituruna, deixou
fazenda São Lourenço. nome em nosso município, pois era médico notável e de enor-
4. Clara foi casada com João Batista dos Santos, mais me clientela. Já vimos na relação dos herdeiros os títulos que
tarde visconde de Ibituruna, figura de grande projeção no Im- possuía e os cargos que mais tarde exerceu. Cobrava de ho-
pério, médico do Paço, professor da Escola de Medicina do Rio norários aos clientes 2055000 a légua percorrida para atendê-los.
de Janeiro e presidente da província de Minas Gerais no último Um dia chegou ele à venda de um português de nome Coim-
governo do Império. bra, nas margens do rio Preto e, observando que o vendeiro
5. Francisco Alves Barbosa foi o segundo barão de San- estava anêmico e magro, disse-lhe: "Sr. Coimbra, o senhor
ta-Justa por decreto de 28 de junho de 1876. está ficando diabético; é preciso tratar-se."
6. António Alves Barbosa faleceu moço, tendo sido ca- O vendeiro, apesar de analfabeto, era esperto e falante, e
sado com uma filha do capitão Marcelino Gonçalves da Costa lhe disse: "Doutor, enquanto eu tiber as mãos quentes, testa
Lima; deixou uma filha, esposa do deputado Tavares Bastos. fresca e clara as urinas, faço aquilo para a bossa medicina."
7. José Alves da Silveira Barbosa, terceiro barão de San- Longe de zangar-se, o dr. João Batista gostou da piada do
ta-Justa por decreto de 11 de abril de 1886, foi também coronel português e, sempre que possível, a contava aos amigos109.
da Guarda Nacional. Sobre o terceiro barão de Santa-Justa contam-se muitos
8. Zeferina foi casada com João Batista de Oliveira Belo, fatos interessantes. Um deles é o de uma visita que fez ao
herdando a fazenda São Miguel. Rio, indo almoçar em casa de um atacadista português, como
9. Carolina se casou com Lucas Alves Barbosa e herdou era costume na época. Era o modo de agraciar os fregueses
a fazenda Santana. do interior; servir-lhes bom almoço e bons vinhos, para depois
As filhas Tomásia e Bernardina não deixaram geração. escrever os pedidos. À sobremesa, foi servido creme de goia-
Francisco Alves Barbosa, segundo barão de Santa-Justa, ba com queijo gruyère. Terminado o almoço, o negociante inda-
casou-se com Bernardina Alves Barbosa, sua prima e mulher gou: "Então, senhor barão, vamos fazer nosso pedidozinho?"
singular. Vestia-se de homem e andava sempre armada, caval-
gando os melhores cavalos. Depois da morte do marido aumen- u»». Amostra do que se poderá ter na segunda parte do livro Memórias
de um garção de hotel, conforme sugeri. (Ver Apresentação.) Os originais
tou enormemente sua riqueza, dirigindo com proveito vastas estão de posse da família do autor.
fazendas e chegando a colher cem mil arrobas de café.
144 PEDRO GOMES DA SILVA

O barão, para retribuir a gentileza, declarou que não tinha


ido fazer compras, mas em todo o caso que despachassem uma
dúzia daquele queijo que acabara de comer.
Dias depois mandou um empregado buscar "uns queijos
que estavam na estação", em Três Ilhas. Passadas horas, vol-
tou o empregado dizendo que para trazer os queijos era preciso
o carro-de-bois.
capítulo 14
O barão ficou calado, não querendo dar a perceber que
não conhecia os queijos . . . Mandou o carro, que trouxe doze
gruyère do tamanho de uma roda; e cada um com uns 30 quilos. Fazendas Pioneiras
Quando apareceram as campainhas elétricas de pilhas, o
barão mandou instalar uma, ficando o botão na entrada e a cam-
painha na varanda. Certa vez estava na varanda, lendo, quando
batem palmas e gritam, chamando por ele. O termo "pioneiras" é aplicado às fazendas oriundas de
Embora tivesse ouvido, continuou lendo, sem atender a sesmarias, ou desmembradas das três originais de Garcia. Na-
quem insistentemente continuava a chamar até que, revoltado, turalmente, foram as devassadoras da mata; das citadas no ca-
gritou: "Não está vendo a campainha? Se não tocar não atendo!" pítulo a última a se estabelecer foi a de Santana, em 1828, de
A família Alves Barbosa era aparentada com grande número um figurão do Primeiro Reinado amigo de Pedro l.
de titulares do Império. Seus parentes achavam-se localizados Estão incluídas algumas propriedades das quatro famílias
desde Mendes até Juiz de Fora. Os barões de Bemposta, Ca- mais destacadas entre nossos fazendeiros. Delas, só os Bar-
pivari, Guaribu, Massambará, Ribeirão, e os viscondes de Cana- roso Pereira se estenderam por todo o município, inclusive ao
néia e Paraíba, estavam entre eles. norte e sul do rio; o autor cita deles 19 sedes.
As outras greis de fazendeiros se concentraram numa só
região; os Santos Werneck ao oriente do município, com 11
sedes na zona da Bemposta e São José do Rio Preto. Os Santa
Justa (7 sedes) dividem com os Pereira Nunes (16) as verten-
tes da serra das Abóboras; estes na do Paraíba, também mais
extensa, aqueles na do rio Preto que nos separa de Minas.
Não está no capítulo a fazenda do Paraibuna (cf. nota 38),
várias vezes referida no texto e focalizada com minúcia em
apêndice a estudo no final do volume. Fundada por Garcia so-
bre aquele rio, foi vendida pelos Paes Leme em 1805 aos An-
drade. Dela se originou a de Serraria, de nosso primeiro presi-
dente da câmara, que ali faleceu em abril de 1865 e está se-
pultado em Paraíba. Pelo Natal de 1864 Hilário Joaquim de An-
drade dividira entre os filhos cinco fazendas no Paraibuna.
A outra fazenda de Garcia, ao sul do Paraíba, é focalizada
pelo autor a partir da venda da sede em 1832. Mas o seu des-
dobramento começou muito antes, possivelmente logo após a
morte de Pedro Dias Paes Leme no Rio, em 1785.
Não consideradas as fazendas de Garcia, nascidas com o
Caminho, a ordem cronológica das "pioneiras" citadas no capí-
tulo é aproximadamente a seguinte: Secretário, 1703; Gover-
no, 1723; Sebolas, 1723 (talvez de pouco antes); Três Barras,
1762; Mato-Grosso, 1775; Matozinhos, 1805/10?; Boavista, 1811;
e Santana, 1828. AP
146 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 147

FAZENDA DO SECRETÁRIO ao nome o de sua cidade, era homem inteligente e de bons tra-
José Ferreira da Fonte, secretário do governador do Rio de tos. Tinha ótimas relações com as autoridades do tempo.
Janeiro, obteve a 7 de maio de 1703 as primeiras terras não Quem dirigia o serviço doméstico no Secretário era uma
concedidas a Garcia Rodrigues Paes no território em que se afilhada que ele criara, Mariana Rosa de Jesus. Vendo-a cres-
formou nosso município. A fazenda que ali surgiu no Alto do cida e casadoura, mandou vir de Portugal o filho de um amigo
Pegado, do nome de seu filho e sucessor, António Pegado de para casar-se com ela, João Manuel Rodrigues Caldas.
Carvalho, fica no divisor de águas entre o Piabanha em Pedro- João Manuel ficou administrador do Secretário, porém não
do-Rio e a atual vila de Secretário, sobre o ribeirão desse nome, tinha tino administrativo e era mau para os escravos, o que
afluente do Fagundes. As futuras Pedro-do-Rio e Secretário muito aborrecia o velho padre e sua afilhada, desacostumados
foram ligadas por caminho quando por aí se desviou o que vi- desses modos.
nha da baixada pela falda da Maria Comprida. Como administrador João Manuel foi logo chamado de ca-
Em 28 de agosto de 1734 o secretário obteve outra ses- pitão. E por andar com uma palmatória enfiada na cinta, a
maria de légua em quadra contígua à primeira no vale do ribei- que apelidou candelária, passou a ser conhecido, até pelos vi-
rão, concedida por Gomes Freire de Andrade, recém-nomeado zinhos, como Capitão Candelária. Com a palmatória esquen-
governador. Essa zona onde se abriu a grande fazenda estava tava de quando-em-quando os negros, não perdoando falta .. .
ligada ao fundo da baía de Guanabara desde 1724 pelo Caminho A negócio da fazenda do Secretário viajava amiúde ao Rio
do Proença, e a Paraíba pelo menos desde 1721170. e certa vez, arrematando escravos para a fazenda no cais do
Do filho do secretário as terras passaram a certo Manuel Valongo, entrou em contato com um rapazelho muito vivo que
da Costa Guimarães e deste ao padre português António Leal o quis acompanhar e viera fugido de Portugal, brigado com o
Penafiel, muito tempo radicado no Rio e que, doente de fraqueza pai. O Capitão Candelária trouxe o garoto para o Secretário e
pulmonar, procurou na propriedade os bons ares da serra. E criou-o como filho, tornando-o homem trabalhador e de bons
aí viveu até 1824. Parece, adquiriu a fazenda em hasta pública costumes. Chamava-se Bernardo Ferraz de Abreu e casou-se
e a desenvolveu bastante, construindo ampla e confortável sede com sua filha, Mariana Rosa, de nome igual ao da mãe. Desse
em sobrado e abrindo na grande gleba vários sítios, núcleos consórcio nascerá ilustre geração no Secretário.
de seu desenvolvimento agrícola. Falecendo o padre Penafiel em 4 de julho de 1824, deixou
A um dos sítios deu o nome de Pampulha, homenagem ao por testamento a seus irmãos em Portugal os prédios que pos-
seminário em que estudara em Portugal, que assim se chamava. suía em Penafiel e inúmeras verbas para as capelas dos arre-
Na subida do caminho para Sebolas, logo passada a ponte do dores e daquela localidade. E instituiu seus herdeiros os fi-
Fagundes, o pequeno arraial da Pampulha é citado em várias lhos da afilhada com o Capitão.
crónicas de viajantes estrangeiros, que elogiam a salubridade No ano em que se encerrou o inventário — só em 1847! —
do clima e beleza da paisagem. Fica em nosso município. os herdeiros eram dez, quatro mulheres e seis homens. Des-
Natural de Penafiel — como nosso barão Ribeiro de Sá, ses, vale registrar António José Rodrigues Caldas, médico,
dali emigrado um século depois —, o padre, que acrescentaria então com 30 anos e que teve papel saliente na organização da
Guarda Nacional em Sebolas, onde ocupou o cargo de juiz-de-
17
°. A penetração de posseiros a partir do caminho de Garcia foi rápida, paz; Maria Adelaide, em segundas núpcias casada com o co-
mas para além dos limites dos Paes Leme (de Paraibuna a Cavaru, légua mendador Joaquim António dos Passos, depois fazendeiro im-
em quadra de ambos os lados), e especialmente no do Proença, livres as portante no município; e Mariana Rosa, a filha do Capitão que
terras aí desde logo. Frei Estanislau (cf. nota 15) registra: "Ò vigário de
Inhomirim, pé. Veríssimo de Sá, deixou relatório de 30-07-1736 deste teor:
se casara com o menino emigrante do Valongo, já então morta
"Certifico que vendo o rol dos confessados desta freguesia deste presente mas que deixou um filho, na ocasião de 12 anos, que iria pro-
ano de 1736, nele achei, desde Engenhoca exclusiva até o distrito da Pa- jetar-se na vida pública.
raíba, ter 22 moradores e pessoas 343, entre brancos e negros." Carlos Ferraz de Abreu foi juiz de direito em Valença, chefe-
"Moradores" ou fogos, é sítio ou fazenda, povoador estabelecido com de-polícia no Paraná e presidente de Santa Catarina. Adquirin-
família e agregados. E "negros" são de fato índios, ou o caboclo, também
chamado curiboca, aí os primeiros mestiços de branco e índio na serra do a fazenda da Julioca, pouco a jusante de Areal sobre o Piaba-
fluminense. Na época, toda peça da África, ou gentio da Guiné, era muito nha e aberta pelo major Júlio Frederico Koeler, ali faleceu.
cara e não parava no Caminho, levada direto às minas para logo pagar seu O padre Penafiel, acostumado a bons ambientes e conforto,
preço em ouro. O café é que vai trazer a Paraíba e a todo o vale o negro. construíra no Secretário uma sede imponente, hospedando todas
f

148
PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 149

as autoridades que passavam peio Caminho em viagem entre A fazenda do Alto do Pegado, que confina com a da Ca-
Minas e o Rio. Era geralmente o pernoite que antecedia ao choeira, fez parte também do Secretário e foi desmembrada
da fazenda do Governo, este, o último antes do rio e Paraíba. por partilha, passando ao comendador Joaquim António dos
Na noite de 1.° para 2 de janeiro de 1831 ali se hospedou Passos e seus filhos. Pertence atualmente ao capitão Jarbas
Pedro l. Ele e a comitiva haviam passado a noite do Ano-Novo Cabral Werneck de Carvalho, que a herdou de seu pai, o co-
na fazenda de Correias. ronel Guilherme José Werneck de Carvalho.
No Secretário desde o início do povoamento se levantara a Parte da fazenda Fagundes, à qual pertencia a situação
capela de Nossa Senhora da Lapa, uma das quatro de serra-aci- chamada Pampulha, também era terra do Secretário.
ma pertencente à extensa freguesia de Anhum-Mirim, na bai- Ainda eram parte da grande sesmaria do século XVIII as
xada, antes da criação em 1815 da freguesia de São José do fazendas de São José, do coronel António José Teixeira, e Rio-
Rio Preto. Essa capela, que se incendiara, foi reedificada por Pequeno, do capitão Ernesto José da Silva Leal.
João Manuel Rodrigues Caldas, o Capitão Candelária, em 1837, O dr. José de Barros Franco Neto, proprietário da fazenda
com novo cemitério. Secretário, sempre dividiu sua atividade entre os municípios de
Contraindo febre amarela em viagem ao Rio e falecendo, Paraíba do Sul e Petrópolis, não descuidando da cultura em
o Capitão foi substituído, talvez até com vantagem para a fa- suas terras ubérrimas de cereais, café e criação de gado.
zenda, pela viúva, D. Mariana Rosa de Jesus, sob cuja direção A tradicional Secretário se localiza na última fração de
o Secretário atingiu o seu apogeu económico. Faleceu a ma- nosso município perdida para Petrópolis que, apertada entre
trona bem entrada em anos, em 1870. Na sacristia da capela montanhas, se expandiu Piabanha abaixo e chegou ao Fagundes.
de Nossa Senhora da Lapa há retrato seu a óleo. Está enter-
rada no cemitério do adro.
Com sua morte o co-herdeiro Bernardo Ferraz de Abreu, FAZENDA DA VÁRZEA
seu neto e homónimo do avô, comprou a parte dos demais her-
deiros e ficou senhor único do Secretário. Já possuía duas A fazenda da Várzea, que primitivamente foi conhecida por
mais, as fazendas da Cachoeira e Oriente, e foi feito coronel Narchea, compunha-se de uma área de quatro sesmarias per-
da Guarda Nacional e visconde de São Bernardo. Residia em tencentes ao bandeirante Garcia Rodrigues Paes, o Fundador.
bela chácara em Petrópolis, onde foi presidente da Câmara. Com a morte de Garcia, em 1738, seu património passou
Por morte do visconde dividiu-se a fazenda entre a filha ao filho Pedro, que incorporou ao nome o apelido Leme. Aberto
Carlota Ferraz Caldas, viúva de João Rodrigues Caldas, e seus o testamento de Pedro Dias Paes Leme no Rio de Janeiro, em
netos Carlos Caldas e Adelaide. Esta se casou com Gustavo 1785, a grande fazenda da Várzea coube ao filho José Pedro
Bittencourt Cotrim, que tomou parte na revolução contra o go- Francisco Leme, que a transmitiu à filha Joaquina Francisca da
vernador Portela, iniciada em Paraíba em 1891. Posteriormen- Costa Leme. Esta a vendeu ao coronel José Inocêncio de An-
te, aderindo no Paraná à causa dos revolucionários contra o drade Vasconcelos em 14 de agosto de 1832. Adquirindo par-
marechal Floriano Peixoto, foi comandante do último ataque à tes de outros herdeiros, fez da Várzea o coronel magnífica pro-
cidade da Lapa, defendida pelo general Carneiro171. Ferido priedade, imperando fina aristocracia mais tarde ali.
nesse combate veio a falecer em Curitiba, para onde fora trans- Quando José Inocêncio comprou a sede da Várzea, já parte
portado moribundo.
da grande fazenda do século XVIII fora adquirida pelo sargento-
A fazenda do Secretário ainda se compõe de todo o terri- -mor Manuel Borges de Carvalho, senhor das grandes áreas
tório de que foi senhor o visconde de São Bernardo, por terem conhecidas por Engenho do Cavam17-. Era homem de atividade
sido as partes de outros herdeiros adquiridas pela filha Carlota singular e grande patriota. Em setembro de 1824 hospedou em
e um genro, o dr. José de Barros Franco Neto. sua fazenda durante quatro dias grande número de soldados da
Companhia de Cavalaria da 2.' Linha da província de Minas Ge-
i". Episódio da Revolução Federalista Riograndense, de 1893. Gumercindo
Saraiva cruzou Santa Catarina à frente de uma coluna e atacou a cidade da i"-'.: Já vimos que as roças do Cavaru são das primeiras do Caminho e
Lapa, sul do Paraná, defendida até o fim pelos legalistas sob o comando do abertas por Garcia. E o Carvalho citado, talvez p pioneiro na compra'de
general António Ernesto Gomes Carneiro. Lapa capitulou a 11 de fevereiro terras aos Paes Leme, é tronco da grande família desse nome na divisa Pa-
de 1894, dois dias após a morte do general. O ultitnatum para a capitula- raíba-Vassouras, a que pertencia Rubens Soeiro de Carvalho (1901-1977],
ção foi enviado aos defensores pelo general Laurentino Pinto Filho. jornalista e professor (e ótimo center-half do RiachueFo na mocidade!.
150 PEDRO GOMES DA SILVA

rais, expedicionária à Corte para apoiar Pedro l, que passava a


í CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL

céu de febre amarela em 27 de abril de 1878, deixando os se-


151

impor sua política à força. guintes filhos: Joaquim Inocêncio de Andrade, Emídio, Maria
O coronel José inocêncio de Andrade Vasconcelos era Angélica, Manuel, Carolina Eufrásia (casada com João Garcia
natural de Taubaté e se casou com Inocência de Carvalho e Pinta), Carolina Francisca (casada na família Gomes Pereira),
Sousa, filha do sargento-mor Manuel Borges de Carvalho, em Mariana Rita (casada com Manuel Pedro), Mariana Augusta e
20 de março de 1820, constituindo assim os habitantes da Vár- Antônia Eufrásia, casada com José Cândido de Carvalho, esse,
zea uma só família. Eram muito unidos e de bom trato, for- figura de destaque mais tarde no município.
mando uma sociedade de escol que vem sendo mantida até Não mais existe a sede da famosa fazenda da Várzea 174 .
hoje pelos descendentes.
Na Várzea havia festas alegres e pomposas, onde imperava
aprimorado gosto e duravam dias, com o dono da casa de so- FAZENDA DO GOVERNO
brecasaca, assim como todos os convidados. Era exímio mar-
cador de quadrilha e gostava da boa música. Foi cavaleiro de Jorge Pedroso de Sousa, coronel de um regimento de Or-
prestígio no município, exercendo diversos cargos públicos, denança da vila de Parati, requereu uma sesmaria "onde aca-
como membro da primeira Câmara, em 1833. bam as terras da sesmaria de José Borges Raimundo no sertão
Era a Várzea zona bastante povoada e em 1836 seus prin- da serra do Frade e da Tocaia Grande na vargem do rio Paraíba,
cipais moradores, entre si aparentados, eram Calixto Cândido correndo por detrás da rocinha da vargem do capitão-mor Gar-
Gonçalves, fundador do Sertão do Calixto, localidade na serra cia Rodrigues Paes até o mesmo rio Paraíba, uma légua em
ao sul de Cavaru; capitão João José Alves, casado com Ana quadra". E obteve a sesmaria em 30 de dezembro de 1725,
Vital de Carvalho; capitão Bento Borges de Carvalho, casado pagando 400 réis de novos direitos, passando-a menos de cinco
com Maria Salomé e filho do senhor da fazenda do Cavaru; anos depois ao capitão José da Costa Almada por escritura de
António da Silva Pereira de Azevedo, casado com Maria Rita de 14 de agosto de 1728 no tabelião Manuel de Vasconcelos Velho.
Jesus Carvalho; Felisberto Borges de Carvalho, casado com Almada e sua mulher, Maria Ribeiro, passaram logo a ses-
Maria Cândida de Carvalho; José Esteves Pereira, casado com maria ao governador Aires de Saldanha, em 16 de agosto de
Cândida Rita de Carvalho; Manuel Joaquim Carvalho, casado 1728, na pessoa do procurador José Ferreira da Fonte, o mesmo
com Maria José de Carvalho; Paulo Fernandes de Carvalho, ca- que em 1703 recebera a sesmaria que denominou Secretário175.
sado com Carolina Cândida de Carvalho; José Borges de Carva- Tendo o governador Aires de Saldanha e Albuquerque Cou-
lho, casado com Francisca Joaquina Borges de Carvalho; e llde- tinho Matos e Noronha adquirido a sesmaria, esta levou por
fonso Borges de Carvalho. muito tempo o nome de Sesmaria do Governo, doando ele me-
Por volta de 1865 a Várzea estava no seu apogeu. No tade à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, que ven-
palco da fazenda representavam artistas da Corte, especial- deu sua parte a Manuel Corrêa Vasques, a quem ficou depois
mente contratados. Nessa época esteve por lá, reabilitando-se pertencendo toda a sesmaria, como declara a escritura no tabe-
do fracasso sofrido na vila da Paraíba, onde quase faliu e per- lião Francisco Xavier da Silva em 11 de junho de 1741. No
deu algumas de suas feras, mortas por falta de alimentação, o
i?*. Ver nota 39. Chamam hoje Vargem a fazenda existente no local.
acrobata Pedro Adams e Zoológico e Companhia Equestre. 175. É evidente que esse secretário do governo do Rio de Janeiro (serviu
Outra figura notável da Várzea foi o médico José Alexandre sob vários governadores) fazia especulação com terras, o que se vai inten-
Soeiro Faria, cavaleiro sempre bem-humorado, que se aliou à sificar entre os áulicos das cortes dos vice-reis, do rei e do primeiro impe-
importante família casando-se com Francisca Elisa de Carvalho, rador, alguns, testas-de-ferro dos próprios.
neta de Manuel Borges de Carvalho, do Cavaru. Adiante se verá o filho e herdeiro de Garcia fazendo o mesmo, ao
adquirir em 1741 essa fazenda do Governo, que da sua Narchea (Várzea)
O coronel José Inocêncio de Andrade Vasconcelos173 fale- ficava na sobre-quadra, parece, expressão usada para indicar nos fundos.
passando-se sobre a quadra de alguém a contar da testada, geralmente num
!". Foi vereador muito operoso, mas se afastou da política. Por ser de caminho, para atingir-se determinada terra.
fora e ligado ao marquês, Hilário e Barroso, paraibanos e de fato os pro- No nascedouro da fazenda das Três Barras, adiante, em 1762 esse
motores da vila, lhe passaram os contatos que solucionaram a questão do mesmo Caetano Borges da Costa que em 1750 adquire do Paes Leme o
património municipal. Os dois maiores na fundação da vila estavam quei- Governo, requer como procurador para outrem, na sobre-quadra da sua a
mados para essa negociação, dada a longa luta de nove anos na Câmara sesmaria que dará origem à tal fazenda. Começou a fazer negócio também
com os procuradores que ali conseguiu infiltrar a ambiciosa família. com terras, o Caetano?
152 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL t53

mesmo ano Pedro Dias Paes Leme tornou-se dono dela por dista, mercadejando ferro para feitura de ferraduras para ani-
compra, a 21 de setembro. mais. Burlava as leis, não pagando os direitos sobre o ferro
Pedro, filho e sucessor de Garcia Rodrigues Paes, vendeu cobrados na divisa com Minas Gerais. E de volta atravessava
a propriedade a Caetano Borges da Costa em 7 de abrii de 1750, diamantes, escondendo-os nas bestas-de-carga. Nos surrões
cuja viúva se casou com Manuel José Dias e passou sua parte onde carregava ouro enchia o fundo de cera, para que pepitas
aos genros, sargento-mor António José da Cunha e capitão An- ficassem presas na pesagem para cobrança dos direitos.
tónio José da Costa Barbosa; isso em 5 de dezembro de 1792. Nesse criminoso comércio foi que conseguiu riqueza. Como
O capitão Costa Barbosa tornou-se dono de toda a fazenda fazendeiro foi o maior tirano conhecido no município, martiri-
do Governo, adquirindo o quinhão dos outros herdeiros e re- zando escravos, marcados a ferrete como se fossem gado.
cebeu em 19 de junho de 1799 sesmaria de terras contíguas às Dom Linhares impedia de-quando-em-quando o trânsito pela
que já possuía, com requerimento do seguinte teor: "António estrada pública que atravessava suas terras, o que obrigava
José da Costa Barbosa, proprietário do Governo, onde tem um constante intervenção das autoridades para atender às recla-
engenho de açúcar e está levantando outro, pede terras no mações da vizinhança e viajantes. Quando implicava com um
fundo da fazenda do Governo, sertão para a parte do Sardoal, vizinho, mandava à noite seus escravos sangrarem os animais
onde há sobejos de terras que os seus antepassados sempre do desafeto. E não era bom marido. Tanto que mesmo na-
as estimaram por suas, e ermida de Nosso Senhor do Mato- quela época Policena Augusta conseguiu separar-se legalmente
zinhos, partindo por um lado com terras do mestre-de-campo dele. Fez partilha amigável de todos os bens do casal por sen-
Fernando Dias Paes Leme e José Pedro Francisco Leme, e por tença de divórcio perpétuo proferida contra o marido na cidade
outro com terras do rev. padre Manuel Barbosa." da Bahia, por acórdão de 5 de julho de 1835.
Já tenente-coronel, António José da Costa Barbosa manteve Mesmo depois do divórcio dom Linhares não abandonou a
questão judicial com os vizinhos por causa das suas divisas. fazenda do Governo Velho, sendo a ex-esposa obrigada a ven-
Foi casado com Luísa de Santana, que teve as filhas Francisca der o que lhe restava. A 27 de setembro de 1839 vendeu "os
Cândida, Policena.Augusta, Henriqueta Amélia e Adelaide. ranchos na paragem João Grande 176 e a sexta parte da fazenda
Em suas terras abriu em seu tempo Costa Barbosa a pro- Engenho do Governo, com gado vacum, cavalar, muar e ove-
priedade Bela-Vista, que se dividiu na Cascatinha, e comprou Ihum; e escravos, safra de plantações e móveis por 12:000$000
as Três Barras a mais antiga no baixo Piabanha. ao dr. João Crisóstomo Pinto Fonseca".
Por sua morte o património passou às filhas na seguinte Muito ao contrário de dom Linhares era o dr. Luís Nicolau
partilha: a Henriqueta Amélia, casada com o coronel José Favre, que levantou em sua parte da fazenda do Governo novas
Joaquim dos Santos, coube a fazenda Três-Barras; a Adelaide, instalações e modernos engenhos de açúcar, despachando o
casada com o capitão Francisco António da Costa Barradas, a produto para o porto da Estrela em caixas por suas tropas de
fazenda Bela-Vista, que ia até a Tocaia. bestas. Fez na fazenda hospital e senzalas higiénicas. Tinha
Essas terras das herdeiras mais moças eram a terça parte também lavoura de café.
da fazenda do Governo original. As filhas mais velhas divi- Faleceu o dr. Favre em 29 de março de 1847, sem filhos.
diram entre si os terços restantes. Policena Augusta, casada Ficando viúva, casou-se Francisca Cândida a 4 de outubro
com dom José António Linhares, recebeu também a velha sede, de 1847 com o dr. Joaquim António Pereira da Cunha, advogado
que mais tarde passou a chamar-se Governo Velho. do espólio, o qual se tornou assim o décimo proprietário da
Francisca Cândida, esposa do dr. Luís Nicolau Favre, mé- fazenda do Governo. Resolveu casar-so com ele "por ser um
dico, construiu para sua residência o prédio da atual fazenda rapaz pobre" e para ajudá-lo.
Eremitório, com suntuosa capela interior em que se celebravam Durante o tempo em que a fazenda do Govnrno pertenceu
missas a que assistiam os escravos e vizinhos. O dr. Favre ao advogado Pereira da Cunha foi visiladii por ilustres viajan-
era de origem suíça. tes, entre eles Charles Ribeyrollos, oxpulso da França com
Dom Linhares em nada melhorou sua fazenda, o Governo Victor Hugo; o dr. Glaziou, botânico IrnncoM; o o comiolheiro
Velho. Passou a maior parte da vida a questionar com vizinhos,
i"«. Essa paragem é citada por variem r.mnlntim nnirinuinli'"n VA-Ho a!
mantendo rivalidades e ódios acesos. que era sítio do Governo sobre o caminho, r.om ninclum paru tropeiros o
Esse espanhol de pouca educação, que arrogava parantesco viajantes. Creio, ficava na grande várznu diminuiu liojn Mm.ilijo».
com a rainha Carlota Joaquina, iniciou a vida como contraban- Desconheço o citado entre aspas; ponslviiltnmiin, « proprln «nnrlturn.
154 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 155

dr. José Saldanha da Gama, catedrático da Escola Politécnica. turais da Polónia, Samuel Levy, Bina Salomon, nascida Jub-
A princípio ele viveu em perfeita harmonia com a mulher, luscki e viúva de David Salomon, Ester Zuse Cook e seu marido,
melhorando sempre a fazenda. Mais tarde, porém, meteu-se Aaron Cook, residentes em São Francisco da Califórnia; e Zyse
em tamanha jogatina que perdeu quantias enormes. Envolven- Gouzion, residente na Polónia russa.
do-se também na política, foi vereador em várias legislaturas, Os sobrinhos do comendador foram os duodécimos proprie-
gastando dinheiro em catadupas. Em pouco tempo veio-lhe a tários da fazenda do Governo e estiveram dois anos na posse
ruína inexorável, obrigando-o a vender a tradicional fazenda para dela, de 1878 a 1880.
pagar dívida hipotecária aos herdeiros do barão de Diamantina. O advogado José Gonçalves Viriato de Medeiros foi o dé-
Sem filhos, Francisca Cândida faleceu em 22 de agosto de cimo-terceiro proprietário da fazenda do Governo, de 1880 a
1863, sendo enterrada na Igreja de Matozinhos e deixando por 1896. Era de cultura jurídica incomum. Casou-se com Sarah
testamento a sua afilhada Eulália, filha do dr. José Saldanha da Blackall, natural de Londres e viúva do industrial italiano Del
Gama, a quantia de 5:000$000, Vecchio que, metido em conspirações políticas na Itália, teve
Matias Bernardino Alexandre foi o undécimo proprietário de fugir para a Inglaterra em companhia de Mazzini. O dr. Vi-
da fazenda do Governo. riato mudou o nome da fazenda para o da cidade em que nas-
Pessoa curiosa, polaco de nascimento, chegando ao Rio de cera, no Ceará, Sobral.
Janeiro sem recomendação de espécie alguma, a polícia jul- Foi na época o mais notável e hábil advogado do foro de
gou-o vagabundo e prendeu-o. Ele porém explicou-se: "queria Paraíba do Sul. Exerceu por várias vezes o cargo de vereador
trabalhar e, se a polícia lhe fornecesse meios para ganhar a e presidente da Câmara, prestando sempre bons serviços à
vida, haveria de dar provas disso". Como se arranjou com a causa pública. Era irmão do senador João Ernesto Viriato de
polícia, não sabemos . . . Medeiros, engenheiro militar e representante da província do
Homem muito inteligente e ativo, em pouco tempo conse- Ceará; e de Trajano Viriato de Medeiros, desembargador da
guiu pequeno capital, tornando-se logo mascate. Afreguesan- Relação da província do Rio Grande do Sul. Com louvável bri-
do-se numa fazenda em Pati do Alferes, conseguiu casar-se com lhantismo, José Gonçalves Viriato de Medeiros representou o
sua proprietária, que era viúva. Aumentou consideravelmente Estado do Rio de Janeiro na primeira Constituinte Republicana.
a riqueza da esposa e cuidou das legítimas dos enteados, os D. Sarah era uma senhora extremamente bondosa. De seu
quais se tornaram seus amigos. primeiro matrimónio com José dei Vecchio teve três filhos:
Como proprietário do Governo desenvolveu grande ativi- Adolfo, formado em engenharia, Júlia e Alfredo. Do segundo
dade, conseguindo aumentar assombrosamente seu pecúlio e nasceram Eugenia, que se casou com António José de Miranda
tornando-se protetor de todos os vizinhos. Isso lhe valeu gozar Carvalho, Armando e Ester.
na zona grande renome, e foi em 1873 agraciado com a comenda O atual proprietário, décimo-quarto em ordem cronológica
da Ordem de Cristo, em atenção aos serviços prestados à ins- do antigo bom-Governo, é o dr. António José de Miranda Carva-
trução pública da sua freguesia. lho, médico ilustre descendente de velha família sulparaibana
No Rio de Janeiro frequentou a melhor sociedade e hospe- de origem mineira há mais de um século domiciliada no muni-
dava-se no Hotel dos Estrangeiros, o da moda na época. Fez-se cípio. Foi presidente da Câmara Municipal, mas acabou dei-
banqueiro e perdeu grandes somas no trust brasileiro do café. xando a política por achá-la "contrária aos interesses públicos".
Matias Bernardino Alexandre era bom-garfo e tinha um Com a vitória da Revolução de 1930 foi convidado a presidir
ventre enorme. Quando se sentava a mesa precisava comida o Conselho Consultivo do município, órgão então criado a que
para três. Depois de comer uma feijoada na Encruzilhada, serviu com ardor e patriotismo. Demitiu-se em 1935, tal a di-
teve congestão cerebral e foi transportado em estado de coma vergência de ideias e princípios com o prefeito da época.
para sua fazenda. Mas se disse que havia sido envenenado.
O comendador não tinha crença religiosa, usando a tradi-
cional capela da fazenda como depósito de arreios para animais. FAZENDA DE SEBOLAS
E por ocasião da Guerra do Paraguai mandou ao Governo Impe-
rial a importância de 10:000$000> destinada a quem conseguisse Francisco Gonçalves Teixeira, português natural de Santana
prender o ditador Só lano López, de Seráficos, arcebispado de Braga, e a mulher Ana Mariana
Com a morte dele a fazenda passou a seus sobrinhos na- Barbosa de Matos177, nascida no local "Santana do Caminho
156 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 157
de Minas, filha legítima de Leandro Barbosa de Matos, natural
de São João de Meriti, e Ana Maria de Assunção, natural de como tal, protegia tanto quanto possível o movimento que fez
São Nicolau de Suruí, foram os abridores de uma grande roça de Tiradentes um mártir. Por diversas vezes hospedou Tira-
que levou o nome de sítio de Sebolas no Caminho de Minas" 178 . dentes e era admiradora do credo que ele pregava, juntamente
Trabalhadores incansáveis, dentro em pouco transformaram com seu irmão, o padre Paulo Manuel Barbosa, que foi cura em
suas terras em ótima propriedade, escolhendo para local da Santana de Sebolas por muitos anos.
sede da fazenda um sítio defronte à capela de Santana' 70 , cons- O padre Paulo era também fazendeiro, pois em 6 de dezem-
trunindo aí engenhos, senzala, currais e prédio assobradado, bro de 1794 comprou dos herdeiros de Manuel Lopes de Figuei-
à margem da Estrada Real de Minas para o Rio de Janeiro. redo, por 12.000 cruzados, a fazenda Ribeirão dos Cavalos, no
Do casal Francisco Gonçalves Teixeira e Ana Mariana Bar- Caminho de Minas. Era uma figura conhecidíssima no Cami-
bosa de Matos nasceram os filhos seguintes: nho, não pelos grandes haveres mas pela exótica personalidade.
1. José António Barbosa Teixeira, mais tarde o conhecido Era gordo, tinha um grande papo e, para manter-se de pé e
Capitão Tiramorros; 2. Leandro Barbosa Teixeira de Matos, que andar, era preciso firmar-se em grossa bengala. Usava um
se casou com Ana Maria de Assunção Proença, filha de Fran- enorme e artístico crucifixo de ouro pendurado ao peito, e
cisco Fagundes do Amaral e Águeda Gomes de Proença, nas- quando se zangava dizia: "Se este falhar (era o crucifixo),
cendo desse casal os filhos seguintes: a) Francisco António este não falhará!" E mostrava um respeitável bacamarte que
Barbosa; b) Ana Cândida Barbosa; c) Mariana Cândida Barbosa; trazia à cinta.
d) Maria Perpétua do Rosário; e) Clara Maria Barbosa; f) Felici- Existe ainda em Sebolas um córrego que traz o seu nome:
dade Perpétua Barbosa; g) Leandro Barbosa. ribeirão do padre Paulo. Por certo, residiu por ali.
3. Maria Feliciana Barbosa, que se casou com o sargento- Já era a fazenda de Sebolas magnífica propriedade quando
-mor Luís António Lima, mais tarde proprietário da fazenda Fa- faleceram Francisco Gonçalves Teixeira e Ana Mariana Barbosa,
gundes e da situação Ingá.
sendo a fazenda partilhada entre seus filhos.
4. Bernardino Barbosa. 5. Paula Barbosa de Matos, ca- De uma grande parte fez o guarda-mor Leandro Barbosa Tei-
sada com Domingos Marques, morador na fazenda do Governo. xeira uma boa propriedade, ficando a sede da fazenda de Sebo-
Francisco Gonçalves Teixeira tinha ainda uma filha nascida las com o irmão José António Barbosa Teixeira, que era o guia
em Meriti, de nome Salomé, que se casou com Manuel Luís da família. Ele aí viveu muitos anos e, "por fragilidade humana"
Pereira, furriel do Regimento de Artilharia do Rio de Janeiro. nasceram-lhe de Maria Joaquina da Encarnação dois filhos:
Ana Mariana Barbosa de Matos foi uma mulher singular; António e Mariana, os quais o capitão José António, por escri-
educou todos os filhos e ela mesma tratava de os colocar. Era tura pública, reconheceu como seus universais herdeiros.
mulher revolucionária, fervorosa partidária das ideias liberais e, António foi o cónego António José Barbosa e França, cura
J
TT. A tradição fez dessa fazendeira a grande entusiasta das ideias da
da freguesia do Santíssimo Sacramento da Corte. Mariana ca-
Inconfidência em Sebolas, onde sem dúvida (nota 114) o alferes teve suas sou-se em primeiras núpcias com José Antunes Barbosa, com
"infames práticas", expressão da sentença do Tiradentes baseada na de- fazenda em terras que hoje pertencem ao distrito da Bemposta,
núncia de Silvério dos Reis, que disse tê-lo ouvido pregar a revolta ali.
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de cujo matrimónio nasceram dois filhos: Leopoldina Barbosa,
. A prioridade em Sebolas de Francisco Fagundes do Amaral (nota 110) casada com Manuel Jacinto Ferreira, e José Antunes Barbosa.
está assentada. Gonçalves Teixeira chegou depois de sua morte em 1732,
t'". Resta da sede da fazenda de Sebolas do tempo de d. Ana Mariana
Mariana casou-se em segundas núpcias com António Lopes
e do Tiradentes, parece, um único documento: o quadro que em 1886 man- Ribeiro de Matos, não havendo filhos desse consórcio.
dou pintar seu proprietário, José Laureano Mendes, e que seu neto Leão O capitão José António Barbosa Teixeira era homem de
Mendes Leão cedeu ã família de Luís Carlos Tavares Coelho, nascido na atividade pouco vulgar. Derrubou matos para abrir lavoura e,
vila e dedicado à sua história. A reprodução fotográfica desse quadro apa- como haviam feito na Mantiqueira, abriu em toda a zona de
receu no opúsculo Tiradentes em Paraíba do Sul (1972), distribuído na inau-
guração do Conjunto Histórico Tiradentes em Sebolas por Nelson Aguiar. Sebolas inúmeras estradas, cortando morros e substituindo
Hoje resta da fazenda apenas o lance de escadas de pedra de acesso assim as tradicionais picadas que coleavam pelas encostas.
ao pequeno alpendre de entrada, avarandado e com vidraças no quadro do Chegou a ser um grande empreiteiro de obras em toda a Es-
Leão, mas que ao tempo devia ser treliça de madeira, a gelosia colonial. trada Real de Minas, razão pela qual foi por Dom João VI, que
Curioso no quadro, ainda, é o socavão sob a pequena varanda, de onde o muito o protegia e admirava, cognominado Capitão Tiramorros,
delator afirmou ter ouvido a fala do alferes (cf. nota 177).
apelido que acrescentou ao nome, passando a assinar: José
António Barbosa Teixeira Tiramorros.
158 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 159

O capitão era respeitadíssimo em toda parte, não só pela a fazenda coube em herança à filha Henriqueta Amélia, casada
bravura pessoal como pela estima que gozava do Poder Régio. com o coronel José Joaquim dos Santos. A posse é de 1819.
Certa vez, indo à missa em Sebolas, no adro da igreja re- O coronel José Joaquim teve grande demanda com José
cebeu o coice de um cavalo. Arrancando da espada, que não Agostinho de Abreu Castelo Branco 1 * 1 , proprietário da fazenda
o desamparava nunca como a farda, cortou a perna do animal. dos Embargos, que limitava com a sua, por ter ele feito em
O dono, respeitosamente, ainda lhe foi pedir desculpas. 1834 no córrego das Garças uma derrubada, aí levantando um
Na fazenda de Sebolas fez o capitão grande cultura de ca- rancho de pau-a-pique e plantado milho e café.
na-de-açúcar, instalando engenhos. Já era rico fazendeiro quan- O coronel José Joaquim e sua mulher requereram judicial-
do se casou com Mariana Jacinta de Macedo, viúva e sua vizi- mente em 12 de março de 1837 remedição da fazenda, aviven-
nha, proprietária de grande extensão de terras. Nessa época tação dos rumos e tombamento da das Três-Barras. Dada a
o Capitão já havia sido promovido e era conhecido por coronel. provisão judicial pelo juiz municipal da vila de Paraíba do Sul,
Na fazenda de Sebolas se formou o tronco das grandes fa- Francisco José Leite Guimarães, e pagos os direitos novos e
mílias Barbosa e Teixeira, que desde então foram-se entrela- velhos (que foram de 540 réis), foi nomeado para fazer o tom-
çando com as demais do Caminho de Minas. bamento o piloto José Ferreira Leal Vieira, tendo como auxiliar
Manuel António Barbosa.
Demarcada as Três-Barras e antes de julgada por sentença,
FAZENDA DAS TRÊS-BARRAS José Agostinho de Abreu Castelo Branco, não concordando com
a demarcação, pediu vista dos autos para opor embargos. O
"António Cordeiro da Silva, português, morador na fregue- juiz Leite Guimarães, que funcionou no processo de medição,
sia de Suruí e possuidor de muitos escravos, porém sem terras deferiu esse requerimento, mandando dar vista em auto apar-
próprias, tendo notícia de que nos sertões das sobre-quadras tado, baseando-se na Resolução de 16 de outubro de 1834.
das terras da fazenda de Caetano Borges da Costa do caminho Não concordou Agostinho de Abreu com esse despacho,
que vai do Rio de Janeiro por Inhomirim para as Minas-Gerais", alegando que a vista em auto apartado só tinha lugar quando
se achavam tais terras devolutas, de matas incultas, requereu há mais de um embargante, o que não havia no caso, porque
que se lhe desse de sesmaria "uma légua em quadra, na pas- somente ele era oponente. Afinal o juiz mandou juntar o reque-
sagem chamada dos Freixeiras, para a parte do Nascente, con- rimento aos autos e fazê-los conclusos a ele, em 19 de setembro
frontando para a parte do Poente com as terras de Caetano de 1837. Agostinho de Abreu constituiu advogado e em 13 de
Borges da Costa, seguindo o rumo do Nordeste". março de 1838 o juiz de direito da Comarca julgou por sentença
António Cordeiro da Silva passou procuração a Caetano a demarcação feita pelo piloto José Ferreira Leal Vieira. Com
Borges da Costa e este em seu nome tomou posse judicial da a medição da fazenda das Três-Barras foram citados seus con-
sesmaria em 22 de setembro de 1762, que tinha nessa ocasião frontantes, que eram:
como confinantes apenas Caetano Borges da Costa e Domingos 1. capitão Luís António da Silva Braga, por si e como
da Costa Almeida180. A confirmação da sesmaria pela Metró- tutor de seus irmãos Agostinho Correia Braga, Maximiano An-
pole é de 10 de março de 1764.
tónio de Sousa Braga, Maria Leocádia de Jesus, Francisca An-
O segundo proprietário da fazenda das Três-Barras foi An- gélica de Jesus, Ana Rosa de Queiroz e Inocêncio Gonçalves
tónio José da Costa Barbosa, que já possuía a do Governo. Em Braga, os quais eram senhores da fazenda de Mar de Espanha
1802 requereu judicialmente a demarcação da fazenda, feita do Paraíba;
pelo piloto João Cardoso de Lemos, o qual marcou os limites 2. José Caetano Machado e sua mulher, Mariana Jacinta
"com cruzes e picos nos paus". Foi julgada por sentença de de Jesus, de Mar de Espanha;
12 de março de 1804 essa demarcação.
3. António Barroso Pereira, sua mulher e filhos menores,
A sesmaria tomou o nome Três-Barras por ser a sede perto dos quais era tutor na fazenda da Bemposta;
das barras dos rios Paraibuna e Piabanha no Paraíba.
181
Por falecimento do capitão António José da Costa Barbosa . Primeiro juiz municipal da vila, foi assassinado no caminho de sua
fazenda do Recato (capítulo Fazendas — Filhote). Sempre que se fala nele,
is». Ambos pediram a ereção da capela de Sebolas, em 1769. São dos está em questão, o que dá a pensar ter sido homem difícil. O nome dessa
mais antigos povoadores do Sertão da Paraíba, e Caetano rastreado aí desde fazenda no baixo Piabanha — dos Embargos — parece meio cabuloso. Ou
1750. A nota 175 o aponta como especulador. Em 1792 já era falecido. picardia do ex-juiz em cima dos vizinhos?
160 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 161

4. Manuel Pinto da Siiva e Castro e mulher; tinha grande estima por essa propriedade. Notável oculista,
5. capitão Francisco António da Costa Barradas e mulher; fundador da Policlínica Geral do Rio de Janeiro e por quarenta
6. viúva de José Pinto de Sousa, Antônia Maria Pereira, anos seu diretor, fez parte de todas as associações médicas
meeira da fazenda de Santa Maria; de seu tempo, tendo sido ainda presidente da Sociedade Na-
7. Luís Simões da Rocha, por cabeça de sua mulher meei- cional de Agricultura.
ra da fazenda de Santa Maria; Na fazenda das Três-Barras dava consultas gratuitas sema-
3. Felício José Pereira, por cabeça de sua mulher, Inocên- nalmente aos necessitados e gastou enorme fortuna para bene-
cia Maria Santana, meeira da fazenda Bom-Jardim; ficiá-la. Mais tarde adquiriu a São João do Barreiro, contígua.
9. Leocádia Maria de Jesus, viúva de Roque Barbosa/meei- Por morte do dr. Moura Brasil os herdeiros venderam a
ra da fazenda Bom-Jardim; fazenda ao coronel Urbano de Andrade Reis, o oitavo proprie-
10. Joaquim Soares Bernardes, por cabeça de sua mulher, tário, compreendendo a sede e 138 alqueires de terra. O atual
Feliciana da Conceição; é o dr. Arnaldo Guinle, nono senhor das Três-Barras.
11. Severino Pinto de Sousa, fazenda de Santa Maria;
12. António Manuel Pinto de Sousa, fazenda de Santa
Maria; FAZENDA MATO-GROSSO
13. José Ferreira Leal Vieira, por cabeça de sua mulher,
Francisca Angélica de Jesus Leal. Na segunda metade do século XVIII vieram de São João
Por morte do coronel José Joaquim dos Santos a fazenda d'EI-Rei e se instalaram com roças na variante do Caminho
das Três-Barras passou a José lldefonso de Sousa Ramos, advo- Novo, José Rabelo de Macedo e sua mulher Maria de Carvalho
gado, casado com sua filha Henriqueta. Era filho de Baependi, Duarte, trazendo uma filha de nome Mariana Jacinta de Macedo
em Minas; advogou primeiro em Valença e foi político de pres- casada de novo com António Barroso Pereira. Abriram lavou-
tígio no Império. Presidiu a província do Piauí, onde o elege- ras perto da capela de Santana de Sebolas, em terras que ru-
ram deputado gerai. Presidiu também as províncias de Minas mavam com as do alferes Francisco António de Carvalho, seu
e Pernambuco. Em 1853 foi escolhido senador por Minas Ge- parente, e de outros conhecidos de Minas Gerais que aí vieram
rais, sendo três vezes ministro da Justiça do Império. Com- instalar-se quando as minas de ouro praticamente se esgotaram.
bateu no senado a construção da Estrada de Ferro Pedro II, che- A propriedade aberta por José Rabelo de Macedo tomou o
gando a dizer ali em discurso que não podia "conceber como nome de Mato-Grosso por existirem no local árvores de gros-
duas paralelas de aço pudessem levar o progresso ao interior". sura fora do comum.
Foi agraciado com o título de barão das Três-Barras em Por morte do fundador, a nova fazenda passou ao genro,
1867. Nomeado conselheiro de Estado Extraordinário, em 1871, António Barroso Pereira, um verdadeiro apóstolo do trabalho.
e Ordinário em 1876, era 1.° visconde de Jaguari desde 1872. Com recursos que trouxe foi ele comprando outras terras e
O visconde pouco tratava da fazenda, que esteve alguns anexando-as à fazenda do Mato-Grosso, tornando-se grande pro-
anos sem lavouras, pois sua vocação era a Política. Passava prietário na zona, não sabendo mesmo ao certo onde findavam
a maior parte de seu tempo no Rio de Janeiro e morreu nas suas terras. Deixou dois filhos, António e Madalena.
Três-Barras em 1883, deixando-a à esposa, que não tinha capa- Ficando viúva, Mariana Jacinta de Macedo continuou a di-
cidade para dirigi-la. rigir sua enorme fazenda, até que resolveu casar-se com o vizi-
Por algum tempo tomou a direção da fazenda o compadre nho solteirão, o coronel José António Barbosa Teixeira, o depois
e vizinho Firmino Paula de Almeida, barão de Guaraciaba, que conhecido Capitão Tiramorros, indo residir na fazenda de Sebo-
morava do outro lado do Paraíba na fazenda de Santa-Fé, muni- las de propriedade do novo marido. Tornou-se assim o capitão
cípio de Mar de Espanha, e acabou a adquirindo, desenvolvendo co-proprietário das vastas áreas que pertenciam à esposa e se
rapidamente lavouras e criações e instalando moderna apare- estendiam por Bemposta, Santana de Sebolas e São José do
lhagem para beneficiar café. Mas pouco depois faleceu a ba- Rio Preto. Ligando as novas terras às que já possuía por con-
ronesa de Guaraciaba ali de febre amarela e o barão, desgos- cessão régia de 9 de setembro de 1805, e que iam até "em
toso, nunca mais voltou às Três-Barras, vendendo-a ao médico frente ao marco da vila de Anta", fez-se o capitão senhor da
José Cardoso de Moura Brasil a 19 de abril de 1890. zona desde Sebolas a Anta, ou seja, de todo o leste do terri-
O dr. Moura Brasil, sétimo proprietário das Três-Barras, tório sulparaibano.
162 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 163

O coronel José António Barbosa Teixeira abriu nessas ter- ato público, de homem ativo e empreendedor, pois faleceu em
ras à margem do Caminho do Mar de Espanha a fazenda a que outubro do mesmo ano.
deu o nome de Bemposta para instalar o enteado António Bar- O alferes Dâmaso José de Carvalho, marido de Madalena,
roso Pereira, mais tarde primeiro barão de Entre-Rios, o qual falecera em 2 de setembro de 1832. Coube à mulher cuidar da
fez grandes lavouras e melhoramentos na propriedade que lhe educação dos filhos, ainda muito jovens:
foi confiada. Deixando a Bemposta, estabeleceu-se depois em 1. José, com dezesseis anos de idade, mais tarde barão
Cantagalo, onde fundou grande fazenda por volta de 1817. e depois visconde do Rio-Novo, grande proprietário das fazen-
Com a saída do enteado da Bemposta passaram a residir ali das Boa-União, Cantagalo e Piracema, e de prédios em São João
o coronel Teixeira e sua mulher, deixando a fazenda do Mato- d'El-Rei, Rio de Janeiro e Paraíba;
-Grosso para a filha do primeiro casamento de D. Mariana — 2. Carolina, de treze anos de idade, depois proprietária
Madalena —, casada com o alferes Dâmaso José de Carvalho. da famosa fazenda do Calçado, distrito da Bemposta, casada
Faleceu este ainda moço em 1832, um ano antes da sogra, e com o negociante abastado da praça do Rio de Janeiro, Fran-
do coronel, que se findou a 18 de outubro de 1834 já comen- cisco Inácio Pinto;
dador da Ordem de Cristo. 3. Mariano, idade nove anos, mais tarde proprietário da
Não havendo filhos do casal, da reunião de seu património importante fazenda Santarém, distrito da Bemposta. casado com
se formou entre as futuras vilas de Sebolas e Bemposta grande Isabel Werneck Barroso de Carvalho;
latifúndio de terras férteis nas bem-instaladas fazendas do Ma- 4. Maria José, idade três anoslíí::. "Inscreveu-lhe o des-
to-Grosso, Sebolas, São Lourenço e Bemposta, todas com ex- tino no livro supremo a vida matinal das rosas, banhadas pelo
tensa lavoura de café, milho e cana-de-açúcar. além de gado orvalho perfumado, pela luz vitoriosa, pelo calor radiante do
e bestas-de-carga para o transporte até o porto da Estrela. E sol; durou quanto dura a beleza peregrina: faleceu inda menina".
paióis, engenhos, senzalas e sedes confortáveis. A da Bem- As terras que couberam a Maria José por morte de seu
posta era enorme sobrado no centro de novos cafezais com pai foram posteriormente, pelo grande coração de sua mãe,
50 000 cafeeiros novos. doadas à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro para
Foram herdeiros desse grande espólio por parte de d. Ma- "socorrer a pobreza enferma que carrega a um tempo duas cru-
riana os filhos Madalena, viúva do alferes Dâmaso José de Car- zes pesadas: a da doença e a da indigência". Essas terras
valho, e o sargento-mor António Barroso Pereira, já instalado são ainda ocupadas por muitas fazendas que pagam foro à Santa
em Cantagalo182; e por parte do coronel Barbosa o filho natural, Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.
António José Barbosa e França, e José Antunes Barbosa por 5. António, idade dois anos; por morte de seu irmão Ma-
cabeça-de-casal de sua mulher, Mariana Barbosa, filha também riano, proprietário da fazenda Santarém, casou-se com a cunha-
natural do Capitão Tiramorros.
da, Isabel Werneck;
Quando em 1833 faleceu d. Mariana, o coronel promoveu 6. Dâmaso, idade um ano, mais tarde o tenente-coronel
ruidoso processo contra o primeiro juiz municipal da vila de Dâmaso José Barroso de Carvalho Jr., proprietário das fazendas
Paraíba do Sul, José Agostinho de Abreu Castelo Branco, o Estiva, município de Juiz de Fora, Piracema, distrito de Entre-
sobrinho dele e 1.° tabelião, Joaquim Paulo Pinto Ribeiro, e o
2.° tabelião, António Teixeira Chaves, "pelo furto de folhas dos !8:í. Inspirando-se na comoção entre os escravos da fazenda Mato-Grosso
autos de inventário de minha falecida mulher, d. Mariana Ja- pela morte dessa menina, mudando porém a época dos anos 30 para fins
dos 60 (identificada ao citar a ponta dos trilhos em Entre-Rios), e passando
cinta de Macedo". Motivo por que foram pronunciados a prisão a ação para o impressionante cenário do quadrado de senzalas da fazenda
e livramento. do Calçado, o escritor Cornélio Pena (1896-1958), com A Menina Morta (J.
O processo foi julgado na Corte pelo juiz de direito Lou- Olympio, Rio, 1954), escreveu um dos maiores romances de nossa literatura.
renço José Ribeiro. O coronel Barbosa mandou publicar a cer- Mestre do romance dito psicológico, descreve o fim repentino de grande
tidão de todo o caso no jornal Correspondência, do Rio de Ja- fazenda de café a partir da consternação das senzalas pela morte da sinha-
zinha querida e para os negros santa. O desfecho do romance num clima
neiro, em 1834. Esse jornal era impresso na tipografia de l. F. doloroso deprime o leitor; revela porém a mão de mestre com que o es-
Torres, rua da Cadeia n.° 95. Pode-se dizer que foi seu último critor mineiro, homem religioso, mostra a precariedade da vida brilhante
nas fazendas de café e o efeito deletério do dinheiro na alma humana.
i8-. Sesmaria ganha em 1317. É o vereador que em 1836 ataca os Paes Desconheço a autoria do excerto aspeado pelo autor após o nome da
Leme, defendendo o direito público. Feito barão de Entre-Rios em 1852 e menina morta. Parece a pista encontrada por Cornélio Pena para chegar
um dos pais do município.
à sua grande obra.
164 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 165
Rios, Calçado e Água-Fria, distrito da Bemposta, e Mato-Grosso,
berço da família, em condomínio com seus irmãos. Rico pro- põem a cidade da Paraíba do Sul185. Teve grande prestígio na
prietário no Rio de Janeiro e em Paraíba do Sul, foi pai do dr. política do município, sendo vereador à Câmara Municipal.
António José de Miranda Carvalho e Saint-Clair de Miranda Gostava de "negócios de grandes vantagens", sustentando por
Carvalho. isso muitas demandas, para as quais tinha advogado de partido,
Madalena Maria Pereira, ficando viúva, não quis saber de por ano, fazendo terríveis inimizades.
novo casamento. Continuou educando os filhos e desenvolveu Esteve afastado de suas funções na Câmara Municipal em
em sua fazenda do Mato-Grosso a plantação de algodão, obten- 1835, por se ter envolvido em processos-crimes.
do grandes colheitas. Possuía muitos teares para tecer fios Em 1839, quando vinha de Matozinho para uma sessão da
com que produzir pano. Câmara, nas proximidades da Encruzilhada foi alvejado a tiros
Nos teares trabalhavam as escravas durante a gravidez. por pessoa emboscada. Atingido mortalmente faleceu ali186,
Corno possuísse muitos escravos, desenvolveu uma primitiva e o filho menor que o acompanhava, de nome António, teve
indústria de pano, chegando a fornecer tecido de sua fabricação morto o cavalo mas escapou ileso.
aos vizinhos. Tecido grosso, apenas para roupa da escravaria. Do casamento do tenente Santos Silva com Joaquina Rçsa
Aumentou muito sua riqueza depois de viúva, tendo arru- nasceram cinco filhos: Virgínia, António, José, Maria e Luísa.
mado ainda em vida todos os filhos, que seguiram a tradição Maria e Virgínia casaram-se com os primos de Pitangui,
da honrada família. Minas Gerais, Martinho da Silva Campos187 e António Álvares
Madalena gostava de andar a cavalo, correndo suas la- de Abreu e Silva.
vouras com arma-de-fogo presa à cabeça da montaria. E fazia Martinho se enamorara de Maria nas paradas em Matozinho
tenaz combate à saúva. Por ocasião dos enxames mandava os quando em viagem nos tempos de estudante de medicina na
moleques catarem tanajuras, pois lá todos trabalhavam. Corte. Deixava então a Estrada Geral de Minas — o velho Ca-
Faleceu em 1870 com a idade de 81 anos, deixando por minho do Proença — na Encruzilhada e pela Várzea — Werneck
testamento 4:000$000 para serem distribuídos aos pobres da de hoje — atingia a fazenda do tio Joaquim.
freguesia de Sebolas no dia do seu enterro. Em 1840 casaram-se os casais de primos e no mesmo ano
Martinho e Maria se apossaram de Matozinho, herdando-a do
velho Silva assassinado no ano anterior. Foi o casal António
FAZENDA DE MATOZINHOS e Virgínia para as terras então adquiridas no vizinho município
de Mar de Espanha, onde em 1842 abriu as fazendas Santo An-
O tenente Joaquim José dos Santos Silva, natural de Pi- tónio da Cachoeira, homenagem ao novo fazendeiro homónimo
tangui, Minas Gerais, adquirindo terras desmembradas da gran- do santo, e São Martinho, homenagem ao primo de Paraíba.
de fazenda da Várzea, dos herdeiros de Teresa Forjaz de Ma- De Virgínia nasceram António Álvares de Abreu e Silva
cedo Leme e Isabel Horta Paes Leme, descendentes do coronel Júnior e o barão de São Geraldo, Joaquim José Álvares dos
José Pedro Francisco Leme184, fundou uma grande fazenda a Santos Silva, que, à-espanhola, teve o nome de família da mãe
que deu o nome de Engenho do Matozinho do Sardoal- Mais posto ao fim, para ficar quase homónimo do avô assassinado.
tarde aumentou seus domínios, adquirindo outras áreas, tam- Entretanto, o filho do tenente Joaquim José dos Santos
bém da fazenda da Várzea, pertencentes aos herdeiros de Inácio
Dias Paes Leme e Martim da Câmara Leme, tornando-a magní- iss. o vereador Silva era arrendatário da fazenda da Paraíba quando da
fica propriedade. criação da vila. Em nossa primeira câmara fez a política da família Paes
Leme, tendo sido eleito, evidentemente, com o voto dos proprietários de
O tenente Joaquim José dos Santos Silva era casado com terra ligados a ela. (Não esquecer que então se exigia determinada renda
Joaquina Rosa, filha de Luís Gomes Ribeiro e irmã de três titu- para ser eleitor.)
ls
lares: visconde da Paraíba, barão de Guaribu e barão de S. Luís. «.' A última sessão da câmara a que assistiu o Silva foi a de 28 de julho
Era também, além de grande proprietário, procurador de de 1839. Estava-se naquele mês em sessão legislativa, e disso deve ter-se
aproveitado o assassino para tocaiá-lo na estrada para a vila, prevendo a
seus parentes Paes Leme, senhores das terras que hoje com- saída de sua fazenda. Era então presidente da câmara, na licença de Bar-
roso, e público que a próxima sessão estava marcada para 30 de julho.
184. Filho de Pedro Leme e neto de Garcia. A fazenda é a antiga Narchea, Nada há nas atas da Câmara sobre a morte do Silva. Presume-se que
que não resiste ao recém-chegado café e se subdivide no começo do sé- tenha sido bem cedo naquele 30 de julho de 1839, pois as se.ssões come-
culo passado (cf. nota 39).
çavam às 9 horas.
187
. Cf. nota 61.
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 167
166 PEDRO GOMES DA SILVA

Silva que o acompanhava por ocasião do crime. António, ado- Martinho Álvares da Silva Campos, o conhecido conse-
tou o nome de família da mãe, assinando-se António Ribeiro lheiro Martinho Campos, foi o segundo proprietário de Matozi-
de Avelar; e foi o fundador da fazenda Santa-Fé, origem da nhos. Mineiro radicado na freguesia de Sebolas, foi por isso
estação ferroviária desse nome no município de Mar de Es- cognominado pelo O Caricaturista, jornal de oposição a seu
panha e próxima à margem do Paraíba. Partido Liberal, e pejorativamente, Martinho das Cebolas, quan-
Ficando viúvo, casou-se o dr. Martinho com a cunhada Luísa, do nossa vila histórica de Sebolas nada tem a ver com o condi-
e falecendo esta passou a terceiras núpcias com a tia das duas mento indispensável a todo bom prato.
irmãs, Felisberta Balbina, viúva do coronel de Milícias Fran O conselheiro Martinho Campos foi uma figura notável no
cisco Ribeiro de Avelar, também aparentado. Mas durou pouco Império e desde moço tinha pendor para a vida pública, embora
também esse casamento, pois no ano seguinte ao dar à luz médico. Era ainda académico e já lidava nos comícios eleito-
faleceu d. Felisberta, sendo enterrada na igreja de Matozinho. rais, pertencendo à associação política estudantil de seu tempo,
Martinho Álvares da Silva Campos Filho foi também senhor da "Defensora da Liberdade e Independência Nacional".
grande fazenda e político no município ao findar o Império. Dedicou-se francamente à carreira política. Por diversas
Dos primeiros casamentos do dr. Martinho nasceram filhas vezes foi eleito deputado pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais,
que morreram solteiras, vindo a ser herdeiro delas o irmão. sua província natal. Em 1882 foi escolhido senador e, ao mes-
Por morte da terceira esposa não houve inventário, talvez mo tempo, encarregado da organização do ministério de 21 de
por achar-se a fazenda onerada de muitas dívidas e não querer janeiro, de que fez parte como ministro da Fazenda. Presidiu
o dr. Martinho valer-se da meação a que tinha direito nos bens a província do Rio de Janeiro e teve tempo ainda de escrever
de d. Felisberta. A política, forçando a sua ausência da dire- sobre medicina e política.
ção da propriedade, ocasionou a desordem em sua vida finan- Em sua fazenda foram discutidos e resolvidos assuntos
ceira. Em 1874 já a fazenda estava hipotecada ao Banco do políticos relevantes para o Brasil, pois em Matozinhos recebia
Brasil, hipoteca várias vezes reformada e resgatada somente destacadas figuras do Império, como Cesário Alvim, Silveira
em 1916 pelo proprietário de então, Fernando de Barros Franco. Martins, Cotegipe18" e outros. Frequentador assíduo era o ta-
Em 1874 o dr. Martinho vendeu meia sesmaria da grande lentoso Eunápio Deiró, jornalista e político baiano que por mo-
gleba de Matozinho a seu irmão Inácio Álvares da Silva Cam- tivo de saúde chegou a permanecer quase um ano na fazenda,
pos, para ali abrir a fazenda da Paciência; a outra meia-ses- de excelente clima de montanha.
maria a Vicente António de Carvalho, que a desdobrou em Silveira Martins, quando vinha do Rio Grande para as ses-
três lotes e formou as fazendas Jataí, Boa-Esperança e Laran- sões da Câmara, passava sempre uma temporada na fazenda
jeiras, pertencentes depois respectivamente a Guilherme An- de Martinho, correligionário político e amigo. Conta-se que
tónio de Carvalho, Vicente e Manuel Afra de Carvalho. de uma feita em sessão da Câmara, quando Silveira Martins
Matozinhos, como já então se popularizara o nome, com s discursava criticando o imperador foi aparteado pelo amigo
— estava reduzida a 315 alqueires quando em 1900 José de Martinho Campos, que lhe disse: "Essas acusações não são
Barros Franco Jr.188 a comprou de Martinho Filho. de coração, pois V. Excia. tanto admira o imperador que, em
Inicialmente foi explorada na fazenda a cana-de-açúcar, todos os seus escritos, assina Gaspar de Sua Majestade.
O conselheiro Martinho Campos fazia pilhéria, pois Silveira
antes do café a grande riqueza da província e de nosso muni-
cípio. Passando à cultura do café, a melhor produção da fa Martins assinava-se Gaspar de S. M., por "Silveira Martins".
zenda foi no período até 1915, sendo de 1901 a maior safra, Mas lhe retrucou de imediato o grande tribuno gaúcho: "Não,
de 32 500 arrobas. senhor! Não é Gaspar de Sua Majestade! É Gaspar de São
Em pouco mais de um século a fazenda Matozinhos teve Martinho!"
cinco proprietários, todos pessoas ilustres. O primeiro, tenen- '.8!>. Os citados foram chefes do partido Liberal, como o próprio Martinho.
Í! te Joaquim José dos Santos Silva, descendente da importante José Cesário de Faria Alvim (1839-1903), ainda ministro dos Negócios Inte-
família dos Álvares de Pitangui e vereador na primeira câmara riores em novembro de 1890, Gaspar da Silveira Martins (1835-1901), o
de Paraíba do Sul que, em lembrança de sua morte trágica maior tribuno no final do Império, e João Maurício Wanderley, mais conhe-
cido pelo título (barão de Cotegipe), sobreviveram ao amigo mais velho
quando no exercício do cargo, chamou rua do Silva à beira-rio, e viram a República. Martinho faleceu em 1887 quando fazia estacão-de-
sua primejra denominação.
águas em Caxambu.
188
. Reduzida, a fazenda ainda ocupava mais de 15 km-, ou 1.537 ha.
168 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 169

O conselheiro Martinho Campos foi bom senhor de seus cia os problemas agrícolas do Estado e o representou no Con-
escravos, como homem esclarecido que era. Na política de selho Nacional do Café.
Paraíba do Su! foi vereador da Câmara diversas vezes e andou
sempre de acordo com o visconde da Paraíba, irmão de sua FAZENDA DA BOAVISTA
sogra e enquanto viveu chefe do Partido Liberal no município.
O bom Martinho faleceu em 1887, tendo vivido sempre em A fazenda da Boavista, cuja sede sobre o rio e a 9 km
dificuldade financeira. a montante da cidade é uma das últimas no município contem-
Com a morte do conselheiro Martinho Campos a fazenda porâneas da chegada do café — é de 1834 —, formou-se da
de Matozinhos passou a seu filho, Martinho Campos Filho, o reunião de duas sesmarias concedidas em 1811, a da Cachoeira
qual conseguiu dos credores um acordo que lhe permitiu con- da Boavista e a do Surubiquara. Seu mais famoso proprietário
tinuar a administrar a fazenda. Com a Abolição melhorou mui- foi o visconde da Paraíba, homem que se distinguia pelo gosto
to a situação do dr. Martinho Filho, pois seu tino administrativo, do imponente e grandioso101.
maneiras afáveis e reconhecida probidade atraíram os libertos A sesmaria da Cachoeira da Boavista foi concedida a quem
das vizinhanças, aumentando muito suas lavouras de café. a requereu nos termos seguintes através de um procurador:
Contava com as grandes colheitas futuras para solver seus com- "Diz José Fernandes dos Santos, morador na freguesia de São
promissos, o que não pôde realizar por motivo de saúde, tendo Pedro e São Paulo da Paraíba, que ele suplicante tem culti-
de permanecer em repouso até falecer em 1915. vado uma quadra de terra devoluta nos fundos da fazenda do
Em 1900 achava-se em condição financeira embaraçosa, já guarda-mor Fernando Dias Paes Leme da Câmara, e porque o
com a fazenda hipotecada. Além da amortização da dívida, a suplicante já se acha ali estabelecido com casa e plantações1'-12,
cujo pagamento se obrigara, precisava de recursos para custear e não podendo permanecer nas mesmas sem título, por isso
as colheitas. Como solução resolveu vendê-la, e já vimos, a pede a Vossa Alteza Real se digne mandar-lhe dar por sesmaria
seu companheiro na Câmara Federal, José de Barros Franco Jr. as ditas terras onde já se acha, principiando onde findarem as
Foi o dr. Martrnho Filho deputado federal, vereador da Câ- do dito guarda-mor conforme o estilo. Espera receber a Mercê.,
mara de Paraíba do Sul e político de prestígio. Incompatibili- Como procurador, Joaquim José Rocha."
zou-se com o povo do município pela exploração que seus adver- A sesmaria foi concedida a 27 de maio de 1811.
sários políticos fizeram de uma frase dita em sessão da Câ- A segunda sesmaria foi a de Manuel José da Silva de Ma-
mara e mal-interpretada: "Paraíba não vale um cais!" Dis- cedo que, estando sem terras para cultivar "para manutenção
cutia-se então, em meados da década 1880-90, o prolongamento de sua mulher e criar seus filhos" resolveu pedir terras, ale-
do cais de proteção da cidade no ímpeto das cheias do rio. gando: "achava-se trabalhando em terras alheias sitas na fre-
José de Barros Franco Jr., quarto proprietário de Matozi- guesia de Nossa Senhora da Conceição do Alferes193 sem que
nhos, exerceu inúmeros cargos públicos no município de Pa- possa cultivar, achando-se assim na contingência de se ver
raíba do Sul e no de Petrópolis. Aqui foi intendente190 e eleito privado disso por se achar sujeito ao despótico arbítrio do pro-
deputado estadual, como republicano histórico. 191
. Pelas dimensões dos três edifícios que levantou, é fácil essa conclu-
Fernando de Barros Franco sucedeu ao pai na posse de são. Foram tanto quanto possível, ao tempo, imponentes: a sede da
Matozinhos em abril de 1907 como seu quinto proprietário. Ve- fazenda (1834), o palecete na vila (1860) e a matriz da cidade (1860-1882),
reador da Câmara Municipal, em 1930 foi nomeado membro do cuja inauguração não viu. Faleceu em janeiro de 1879.
1!
Conselho Consultivo do prefeito, órgão então criado. Conhe- >-. A fazenda é a Paraíba da época, só o arraial no Lavapés, o Registo
na praia do remanso e a barca. O requerente já era posseiro, o que mostra
ini>. Era a designação dos vereadores na câmara — Conselho de Inten- a pressão deles sobre os limites do latifúndio dos Paes Leme nesse início
dência no início da República —, quando na administração, tão criticada do século XIX. A lavoura do estabelecimento na terra ainda era a da cana-
pelos republicanos no Império, as coisas só mudaram de nome. E até esse -deraçúcar, mormente na várzea ribeirinha ao Paraíba, como aí.
voltou. José de Barros Franco Jr. se projeta na política em Paraíba na Re- 103. Caso típico de pressão do latifundiário em cima do posseiro, com a
volução de dezembro de 1891, quando ajuda a derrubar o governador Fran- valorização da terra. A abertura das estradas da Policia, para o distrito
cisco Portela. A 31 de janeiro de 1892 foi eleito deputado estadual como da Paraíba Nova, e Comércio, para a barranca do Paraíba no atual município
7." mais votado, entre 40. Na década de 10 disputa com o dr. Leopoldo a de Vassouras, suscitou a corrida para as terras serranas entre os áulicos
situação política no município, elegendo-se em 1905 pelo nosso distrito, da corte de D. João VI. Um dos maiores aproveitadores da época foi o
então o 3.°, deputado federal. Intendente Geral de Polícia, Paulo Fernandes Viana, espécie de eminência
parda no tempo do rei.
170 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL 171

prietário, e porque na mesma freguesia na paragem denominada


Com esse comércio obteve o capitão Azevedo grande ri-
o Sertão do Gentio se acham terras devolutas, e o suplicante
queza, estabelecendo-se na Corte e onde foi destacado membro
tem meios proporcionados para as poder cultivar, recorre por
da colónia portuguesa, tendo recebido o título de comendador
isso à Santa Piedade de Vossa Alteza Real para que se digne
conferir-lhe por sesmaria meia-légua das ditas terras, fazendo e rejeitado o de barão.
Manuel Joaquim de Azevedo era casado com Rosa Luísa
testada no rio Paraíba e junto do ribeirão fronteiro à ilha do
Surubiquara""". e do seu consórcio nasceu uma única filha, de nome Carolina,
que se casou em 15 de novembro de 1831 com João Gomes
Manuel José da Silva Macedo obteve despacho favorável
Ribeiro de Avelar, futuro barão e depois visconde da Paraíba.
por doação régia em 7 de junho de 1811. Essa sesmaria, que
Falecendo o comendador Azevedo, ficou a fazenda para sua
tomou o nome de Surubiquara, rumava com terras do comen-
mulher e filha, que era ainda noiva de João Gomes Ribeiro de
dador João Rodrigues Pereira de Almeida, futuro barão de Ubá.
Avelar, membro de importante família vassourense. Casando-
José Fernandes dos Santos vendeu ao capitão Manuel Joa-
se, Avelar veio residir na fazenda da Boavista e, tomando o
quim de Azevedo pelo preço de 800SOOO a sesmaria da Ca-
governo da propriedade, fez grandes lavouras de café e outras
choeira da Boavista com todas as benfeitorias, e este logo ini-
culturas. Construiu também o atual prédio da fazenda, inaugu-
ciou onde é hoje a sede da fazenda da Boavista a instalação
rado três anos depois de seu casamento. A sogra Rosa Luísa
de grande engenho para açúcar 10 -"'. Em 26 de setembro de
faleceu a 9 de maio de 1857, deixando sua fazenda ao genro.
1819 adquiriu de Manuel José da Silva de Macedo, por 450JOOO,
João Gomes Ribeiro de Avelar foi um grande amigo de
a sesmaria do Surubiquara, com "casa, monjolos, cafés e árvo-
Paraíba, quer como fazendeiro, quer como político ou homem
res de espinhos". Foram testemunhas dessa compra José
de bem. Desde 1831, antes de ser criada a vila cabeça de
Gomes da Cruz, João Paulo da Costa, Simeão Moreira de Cas-
município, começou a receber desse prestante brasileiro seus
tilho 111 ", António Gomes da Cruz e José Porcínio Pereira.
serviços na organização da legião paraibana da Guarda Nacional,
Unindo as duas sesmarias o capitão Manuel Joaquim de
criada em agosto daquele ano e da qual era um dos chefes.
Azevedo fez uma só fazenda com o nome de Boavista. Insta- Presidente da Câmara e vereador desde a primeira legislatura
lou possantes engenhos para açúcar e fez grandes culturas de
em 1833, exerceu todos os cargos públicos em Paraíba. Quan-
cana, iniciando ativo comércio, tanto no Caminho de Minas,
do em 1855 o flagelo do cólera assolou a vila, auxiliou enorme-
que cruzava o rio na Paraíba, quanto no que por aquela época
mente os infelizes, promovendo subscrições para ampará-los.
já cortara o rio no Paty-de-Ubá, nome colonial desfigurado pela
Pelos grandes serviços que prestrou à Pátria foi agraciado com
Central como estação de Andrade Pinto.
muitos títulos, tendo sido Grande do Império, dignitário e co-
Todo o açúcar produzido na Boavista era transportado em
mendador da Imperial Ordem da Rosa, comendador da Ordem
tropa da fazenda ao porto da Estrela, e daí para o exterior, pois
de Cristo, comandante da Guarda Nacional da Paraíba do Sul
o capitão Azevedo possuía algumas embarcações que navega-
e Petrópolis, barão e depois visconde da Paraíba com grandeza.
vam para as fndias, África e Portugal. Entre essas embarca- Tinha em sua fazenda centenas de escravos, que eram tra-
ções estavam a nau Carolina e o bergantim Vasco da Gama, que
tados com benignidade e higiene. Em 1860 mandou construir
levavam açúcar à África e traziam negros escravizados1'-'7.
na vila um palacete para sua residência, o primeiro ali, no qual
194. Possivelmente a grande ilha na divisa com Vassouras, atravessada pela recebeu e hospedou as figuras mais eminentes do Império, prin-
Central nas chamadas Três-Pontes.
1!lr
cipalmente os correligionários do Partido Liberal.
>. Era o grande produto na região antes da chegada do café. Prestigiou a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II,
I!l(i
. Esse Simeão foi o primeiro armador da vila, empossado a 17 de abril tendo por esse motivo recebido o nome de Avelar a estação
de 1834 com a gratificação de "uma pataca por braça das casas que se
edificarem''. Foi quem informou à câmara ser impraticável o "mapa do situada em frente à sua fazenda. Essa estação ostenta hoje
alinhamento da vila", por "não ter o piloto atendido à superfície local do ò inexpressivo nome, para os paraibanos, de Vieira Cortês.
terreno", procurando só "as quadraturas perfeitas d'agulha".. Era em de- Era cidadão de grande firmeza de carater e discreto. Em
zembro de 1836. O vereador Barroso, homem prático, propôs logo que 1842 Teófilo Otoni viajava incógnito a fim de aliar-se aos com-
fosse abandonado o "projeto do geômetra" Luís Abrahão Junot. Em 1844
Koeler fez o plano definitivo de Paraíba (cf. nota 59).
panheiros revoltosos, e pernoitou na fazenda da Boavista. João
i»7. Temos aí em Paraíba a figura do negreiro, o traficante de escravos, Gomes Ribeiro de Avelar reconheceu-o. Embora não partici-
que se costuma tachar de sinistra. Informa adiante o autor que recusou o pando da revolta em Minas, que aprofundou a cisão política
título de barão. Claro, de Pedro l, que não perdia vaza na venda de títulos. dos partidos do Império, tratou-o com a costumeira cordialidade,
172
PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 173

fornecendo-lhe na manhã seguinte animal descansado para que e Vasconcelos e os padres missionários na inauguração da ma-
pudesse continuar viagem até o Paraibuna.
triz em 1882, cuja construção tivera no sogro incentivador.
Nas terras das antigas sesmarias, Avelar abriu as fazendas O segundo filho do visconde da Paraíba, Joaquim de Aze-
Madalena, Conceição, Feliz-Consórcio e Santa Teresa, algumas vedo Avelar, formado em Direito e adido de legação na Europa,
em território de nossa divisa com o atual de Rio das Flores198. herdou a sede da fazenda da Boavista e a vendeu ao Governo
Quando a vida política se estabilizou no Império, formando- Imperial para ser instalada uma hospedaria de imigrantes, o
-se os dois partidos que detiveram a representação parlamentar, que só se realizou na República; morreu solteiro.
o futuro visconde optou pelo Liberal e o chefiou.
João Gomes Ribeiro de Avelar, homónimo do pai, foi o ter-
Com a morte do visconde da Paraíba, ocorrida a 13 de ceiro filho do visconde; formado em Direito e comissário de
janeiro de 1879, suas terras passaram aos cinco filhos. Ve- café no Rio de Janeiro, casou-se com Emerenciana Calvet e
jamos o que coube a cada um e a quem passou depois o pa- herdou a fazenda do Guaribu, no município de Vassouras, hoje
trimónio herdado: a filha Rosa, casada com Francisco Quirino de propriedade da filha Leocádia, casada com Quirino Simões.
da Rocha Werneck 10 ", recebeu a fazenda Madalena, mais tarde Associando-se a Cândido Gaffré, Eduardo Guinle e outros cons-
aumentada com a da Conceição, que foi do tenente-coronel Luís tituiu uma sociedade que fundou a Companhia Docas de Santos,
Carlos; e também a fazenda Feliz-Consórcio, que coubera à mu- obtendo concessão para explorar o porto. Faleceu antes de
lher dele por herança.
ver o desenvolvimento do porto de Santos.
Do consórcio Francisco Quirino e Rosa nasceram também Carolina, casada com o primo-irmão, tenente-coronel de
cinco filhos: Rosa, casada com o engenheiro italiano Carlos engenharia do Exército Luís Carlos Maximiano e Silva, foi a
Rossi, construtor da Casa de Caridade de Paraíba do Sul200; quarta herdeira e ficou com as terras da Conceição. Do seu
Francisco Maria da Rocha Werneck, sempre lavrador e ainda casamento nasceu um único filho; o tenente-coronel e a mu-
hoje proprietário de parte das terras que foram do avô; José lher faleceram no mesmo dia, e seu filho pouco depois, extin-
Inácio, engenheiro e capitão do Exército defensor de Floriano guindo-se assim esse ramo da família. A fazenda da Concei-
Peixoto por ocasião da Revolta da Armada de 1893, construtor ção passou então à propriedade do cunhado, Francisco Quirino
da avenida Beira-Mar no Rio de Janeiro, da Estrada de Ferro da Rocha Werneck, como vimos.
do Rio Grande do Norte, do ramal da Central do Brasil Sabará— O quinto filho do visconde da Paraíba foi Luís Gomes Ri-
Sete Lagoas, foi pai de José Inácio da Rocha Werneck, que beiro de Avelar, formado em Medicina e casado com Rosa de
ocupou os cargos de prefeito do município, deputado à Assem- Castilho, filha do barão de São Roque. Herdou a fazenda de
bleia Estadual e secretário de Finanças do Estado; João Maria Santa Teresa, onde passou a residir.
da Rocha Werneck, vereador e presidente da Câmara de Pa-
raíba do Sul, deputado estadual e vice-presidente do Estado do
Rio de Janeiro nos anos vinte; Caetano Lourenço, lavrador. FAZENDA DE SANTANA
Francisco Quirino da Rocha Werneck instalou na fazenda
Feliz-Consórcio ótimos maquinismos para café, que ainda exis- Em 1828 o marechal João Vieira de Carvalho, barão de
tem, e do sogro ficou também com o palacete em Paraíba do Lajes, obteve nas margens fertilíssimas do rio Preto três ses-
Sul, onde hospedou o Conde d'Eu por ocasião da inauguração marias com as denominações de Santa Isabel, Cachoeira e São
do Asilo Santa Isabel em Juparanã; o dr. José Leandro de Godói Miguel, onde instalou a fazenda de Santana. Fez lavouras e
i»8. Emancipado de Valença a 17 de março de 1890. Seu território foi montou máquinas movidas a água e puxadas por animal. Suas
devassado no final do século XVIII. A partir de 1799 o proprietário da terras rumavam com as de Jacinto Alves Barbosa, já grande
fazenda Pau Grande, próximo a Avelar, iniciou a pacificação dos coroados senhor no Rio Preto, Manuel Joaquim de Oliveira, Jaime Jere-
da região conhecida então por Sertão da Paraíba, de que resultou em 1801 mias Aires e Inácio Pereira Nunes, com este pela cumeada da
a fundação de Valença. Deve-se também a José Rodrigues da Cruz a fun-
dação de Pati de Ubá (Andrade Pinto), em cuja fazenda por um mês Auguste
serra das Abóboras, pois era dele a vertente do Paraíba inteira.
de Saint-Hilaire estudou a flora da nossa região, em 1816. Na fazenda trabalhavam mais de 200 escravos e graças
100. Ver a fazenda Glória do Mundo (capítulo Fazendas-Filhote). à fertilidade das terras na vertente do rio Preto, sem dúvida das
'soo.- O edifício foi inaugurado a 8 de dezembro de 1882, tendo sido a pedra melhores da província, rapidamente cresceu e povoou-se a zona.
fundamental lançada a 19 de setembro de 1871. Foi totalmente perdido O marechal Vieira de Carvalho construiu em sua fazenda
no grande incêndio de 1955.
ótimo sobrado para residência, com grande capela e muitas
174 PEDRO GOMES DA SILVA

benfeitorias, esperando receber um dia o imperador Pedro l, de


quem era partidário fiel. E por isso mandou vir louças e mó-
veis diretamente da índia, tudo de primeira qualidade.
Além da sede da fazenda Santana fez construir um prédio
no sítio chamado Santo-Cristo, encravado na serra densamente
florestada da falda do pico Monte-Cristo, onde fazia retiro es-
piritual dirigido por um padre português de nome Manuel.
O marechal Vieira de Carvalho teve destaque nos primeiro
e segundo reinados. Nasceu em Portugal e se formou na Aca-
demia Militar de Lisboa. Já oficial quando Junot em 1807 in-
vadiu o país e D. João VI emigrou, conseguiu vir para o Brasil
e aqui permaneceu com Pedro l. Faleceu já marquês, em 1847.
Sua fazenda passou ao filho Alexandre Manuel Vieira de
Carvalho, segundo conde de Lajes e bacharel-em-letras por Bru-
xelas, onde foi adido de legação.
Nas suas terras de Santana teve como administrador o
tenente Leopoldo Henrique Botelho Magalhães, pai de Benjamin
Constant, o teórico da República que, menino, viveu na fazenda.
O segundo conde de Lajes era casado com Maria Caetana
de Almeida Torres, filha da viscondessa de Macaé, com a qual
teve os filhos Alexandre, José Carlos, Maria-de-Santana, Luís-
Gastão e Sebastião, dos quais nasceram em nosso município
Alexandre, José Carlos e Sebastião.
Em 16 de junho de 1863 o conde de Lajes vendeu por
240:000$000 a Jacinto Alves Barbosa, futuro primeiro barão de
Santa-Justa, a fazenda Cachoeira Alta de Santana, que então
confinava com os herdeiros de Manuel Joaquim de Oliveira,
Inácio Pereira Nunes (pela cumeada da serra das Abóboras,
sendo deste toda a vertente do Paraíba) e o próprio comprador,
Jacinto, já senhor da fazenda Santo-Cristo. Os Santa-Justa já
em 1863 chegavam assim com suas terras às imediações da
atual Afonso Arinos 201 , e desde as nossas lindes com Rio das
Flores, dominando a vertente do rio Preto.
A sede da velha fazenda de Santana ficava no local onde
é ,hoje a estação ferroviária202 de Engenheiro Carvalhaes, junto
ao rio. João Xavier Filho é o proprietário atual.
-°1. Chamava-se Barra Longa. A nova denominação é de 1916, em home-
nagem ao contista mineiro Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916).
-°2. A estação foi inaugurada a 26 de fevereiro de 1912 e o nome é home-
nagem a José de Barros Carvalhaes, engenheiro da Melhoramentos do Brasil
e depois chefe de distrito da Central. O sub-ramal de Afonso Arinos foi
extinto na década de 1950.
A ILHA DA CAPELA

Quando na grande cheia de 1926 tomou da ponte as Por-


teiras, o fotógrafo Mathias nunca poderia supor estar do-
cumentando o terreno que Garcia ocupou em 1683 para garantir
a posse do remanso. As águas mostram nitidamente a ponta
de cima da i/ha em cuja parte de baixo, na praia formada pelos
aluviões do remanso (o bosque atua/), teria levantado como capítulo 15
marco de posse a capela da tradição. £ gente sua aí deixou
assegurando a paragem quase 15 anos, até que o rei orde-
nasse a abertura do Caminho das minas ao fíio de Janeiro.
O canal da ilha começava nas imediações da ponte ferro- Fazendas «Filhote»
viária e corria ao pé do morro da Casa de Caridade (prédio nó
alto à direita), por trás das casas na foto, cujo terreno cai
para os fundos. Enquanto o sobrado de Cândido Mendes (último
à esquerda) já foi invadido pelas águas, o casarão do dr. Abel
Pinto (centro) só tem água na frente e o pavilhão da fábrica
de rendas está quase em seco. O próprio Mathias chegou de O termo "filhote" é estranho para fazenda, mas expressa
pés enxutos à ponte, pois foi apoiada na parte mais alta da ilha. com fidelidade e sinteticamente a ideia que se quer dar: "saí-
O centro da vila ocupava a área de duas ilhas compridas, da de outra", sem que seja subalterna ou secundária. Seria o
separadas da margem por canal estreito (cf. nota 34). A de resultado das pioneiras desdobradas pelo desenvolvimento de
cima é essa das Porteiras ao Jardim Velho. Começando por sua lavoura cafeeira, que na província e município atingiu o apo-
trás dela no jardim (área da foto na pg. 119) havia outra ilha
até as imediações do beco do Sacramento, cujo canal de sepa- geu em torno de 1880.
ração da margem descia entre a 15 de Novembro—Tiradentes e A origem da "filhote" é geralmente um sítio em que vivem
a Castelo Branco (beira-rio antiga). Todas as casas dessas ruas os agregados a lavoura mais próxima. Ganhando sede, resi-
tinham o terreno dos fundos mais baixos que na frente, des- dência do adquirente do lote, ganha também foros de fazenda.
cendo-se ao quintal por degraus, pois ainda em 1844 Koeler
evitou traçar as ruas dentro do socavão do antigo canal, já des-
Entre as estudadas no capítulo há famosas no município
secado, correndo com a 15 e Tiradentes pela antiga margem pela grande lavoura e riqueza, como a "Glória do Mundo", saída
do rio, junto ao morro, e a rua do Silva (beira-rio) pela ilha. da Várzea; ou pela eminência do proprietário na vida municipal,
Como na rua das Porteiras e na Coqueiros (entre a ponte e o como a "Rio-Novo", do barão Ribeiro de Sá e também conhecida
jardim), também as casas na do Silva tinham os fundos mais pela graça da sede. Nasceu da fazenda da Paraíba em 1845.
baixos que a frente. Só que davam para o canal da ilha de
baixo, pois as duas se separavam na zona do atual meio do O fazendeiro típico e pioneiro na serra fluminense parece
jardim por um canal que deu origem à tal lagoa do Lava-tripa, ter sido o mineiro que refluiu sobre o Caminho, no esgotamento
observada em 1823 pelo brigadeiro Cunha Matos por trás do das minas. O mesmo fenómeno se verificou para as bandas de
Registo (ilha de cima) e na frente dos ranchos de tropeiros, São Paulo. Bragança, por exemplo, nos formadores do Atibaia
área da ilha de baixo talvez desde Garcia incorporada à margem. e a poucos quilómetros da divisa, teve seus fundamentos em
É possível ter Garcia também fechado o canal nas Por-
teiras, facilitando o acesso da casa-grande à barca e o deixando 1763; mas tanto ela quanto a vizinha Atibaia viram passar a fa-
apenas como dreno do córrego das Palhas. (Isso deve ter mosa bandeira das esmeraldas de Fernão Dias em 1674.
agravado o "alagadiço da matriz".) Ainda no começo da vila No sul de Minas, Aiuruoca viveu o mesmo. Parece, foi
havia ponte na área de cima do jardim, por certo sobre o canal. pouso de Fernão Dias, mas povoado quando o ouro acabou.
A topografia da vila sofreu transformação rápida em 1855
(nota citada) e com a chegada do trem, em 1867, que cortou
O café, adensando a população na serra pela multiplicação
a aba do morro da Caridade, atulhou o canal próximo e fez das "filhotes", ativando relações comerciais e exigindo a me-
aterro de acesso à estação em plena praça, causando problema. lhoria dos caminhos, preparou o campo para o município. Mas
Mathias Cezar da Roza, que morava no Rosário bem no alto, quando chegou a Paraíba, do segundo ao terceiro decénio do
ainda estava em Paraíba em 1932. Depois cedeu lugar a Pom- XIX, as "pioneiras" já estavam em mãos dos mineiros.
pílio Lega, italiano que chegara em 1927, viveu até 1970 e se
tornou muito popular na cidade. Mas com as fotos do rio em Nossos Barroso Pereira, por exemplo, emigraram das catas
26 Mathias ficou para nós o que é o Malta para o fíio de 1910. de São João d'EI Rei, como os Teixeira Leite de Vassouras e os
Nogueira da Gama de Valença. E de Mariana vieram os Corrêa
e Castro, via Paraíba, para Vassouras também. AP.
178 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 179

FAZENDA GLÓRIA DO MUNDO agraciado com o título de segundo barão de Palmeiras por de-
creto de 13 de setembro de 1882.
Essa fazenda foi fundada pelo capitão Inácio José de Sousa O barão nasceu na freguesia do Pati do Alferes e passou
Werneck em terras desmembradas da grande fazenda da Vár- a mocidade no município de Valença, sendo aí um dos funda-
zea. Passou depois a Manuel Gomes Ribeiro Leitão, casado dores e diretor da Estrada de Ferro Rio das Flores, a qual partia
com Cláudia Joaquina da Conceição, irmã do visconde da Pa- da estação de Comércio e ia até a vila de Santa Teresa de Va-
raíba e que, ficando viúva, vendeu-a ao tenente-coronel Luís lença. Veio para nosso município com a idade de 35 anos.
Quirino da Rocha em 29 de outubro de 1851 por 34:000$000. Era casado com Carolina Peregrino, filha do visconde de
Este fez das terras da Glória do Mundo uma das ótimas proprie- Ipiabas, e deixou dois filhos: o coronel João Quirino Wer-
dades da zona, com grandes plantações de café e cana, além neck da Rocha, coletor estadual em Paraíba do Sul e pai de
da criação de gado, trabalhando na fazenda mais de 250 es- Osvaldo Werneck, engenheiro da Companhia Navegação Cos-
cravos. E abriu diversos sítios anexos. teira; e André Quirino Werneck da Rocha.
O tenente-coronel Quirino era filho de José Quirino da Possuía patente de coronel comandante da Guarda Nacio-
Rocha, primeiro barão de Palmeiras, e casado em primeiras nal do município de Paraíba do Sul. Por muitos anos foi pre-
núpcias com Francisca das Chagas Werneck, filha do comen- sidente da Câmara Municipal e em duas legislaturas seu repre-
dador Chagas Werneck, formando-se desse casamento assim sentante na Assembleia Estadual. Militou na política do mu-
o tronco da família Rocha Werneck, estabelecida principalmente nicípio da Monarquia ao último governo de Nilo Peçanha.
no município de Paraíba do Sul. O barão de Palmeiras facilitou muito a construção da Es-
Foi Luís Quirino da Rocha membro prestimoso do Partido trada de Ferro da Companhia Melhoramentos, hoje Linha Auxi-
Conservador e exerceu inúmeros cargos públicos na freguesia liar da Central do Brasil, que cortava as terras da Glória do
de Santo António da Encruzilhada, desde inspetor-de-porteiras Mundo. Em reconhecimento disso Paulo de Frontin, construtor
até o mais alto, que era o de juiz-de-paz. Do seu casamento da ferrovia e presidente da companhia, denominou Werneck a
com Francisca das -Chagas Werneck nasceram assim os pri- estação situada em frente à sua fazenda.
meiros Rocha Werneck, que foram: Francisco Quirino da Ro- Faleceu em Paraíba do Sul a 1.° de setembro de 1924.
cha Werneck, bacharel em Direito e fidalgo da Casa Imperial, A fazenda Glória do Mundo, já então em situação financeira
mais tarde dono de três fazendas desmembradas da grande delicada, passou à família Oliveira Pena — o médico e seu che-
gleba da Boavista por seu casamento com Rosa Ribeiro de fe Randolfo Pena falecera em 1915 —, cabendo a Judith Pena,
Avelar; José Quirino da Rocha Werneck, também bacharel em casada com o advogado Caio Valadares.
Direito e barão de Werneck por decreto de 24 de agosto de Atualmente a Glória do Mundo é das melhores proprieda-
1882, foi dono da fazenda das Graças e casado em primeiras des agrícolas do município, e de Vizeu & Irmão, que centralizam
núpcias com Maria do Nascimento Avelar, filha do barão do em torno da vila de Werneck uma das zonas de mais expres-
Ribeirão, e em segundas núpcias com Maria Diniz Cordeiro, siva produção da chamada pequena lavoura em todo o Estado.
irmã do conde Diniz Cordeiro; Luís Quirino da Rocha, casado
com Cândida de Avelar Rocha; Francisca Augusta, casada com
o médico Leopoldo Nóbrega, de cujo consórcio nasceu o co- FAZENDA DO RECATO
ronel Martinho Nóbrega, deputado à Assembleia Estadual; João
Quirino da Rocha Werneck, de quem falaremos adiante; e Inácio Em 1833 era senhor da fazenda do Recato o capitão-mor
Quirino da Rocha Werneck, que morreu sem descendência. José Agostinho de Abreu Castelo Branco, natural de Pitangui,
De um segundo casamento teve o tenente-coronel Luís Minas Gerais, e irmão do padre António Marcos de Abreu Cas-
Quirino da Rocha os filhos seguintes: Laurindo, casado com telo Branco. Foi figura de destaque no município, onde ocupou
Belmira de Sousa Werneck e dono da fazenda Aquidaban; Maria diversos cargos públicos, e também associado a uma institui-
Henriqueta; Elisa, casada com José da Rocha Machado; Caro- ção bancária no Rio de Janeiro. Morreu assassinado203 nas
lina, casada com António Joaquim Gonçalves; Emília, casada
com Fernando de Sousa Werneck; e Florindo, que morreu moço. ao:;, já vimos que o assassinado foi o primeiro juiz municipal da vila e
que em 1834 teve questão judicial com o Capitão Tiramorros por causa do
Por morte do tenente-coronel Luís Quirino a fazenda Glória testamento da mulher. Questionou também com vizinhos na justiça em
do Mundo passou ao filho João Quirino da Rocha Werneck, 1837 por questão de terras na zona da atual ponte das Garças, onde tinha
180 PEDRO GOMES DA SILVA
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 181
imediações do lugar chamado Volta d'Água, no caminho da vila
FAZENDA DA PACIÊNCIA
ao Recato, passando a terra à viúva, Teresa Maria de Jesus.
A fazenda do Recato foi das mais lindas do município de
Paraíba do Sul, com ótimo pomar e grande criação de perus Da meia sesmaria de terras desmembradas de Matozinhos
que merecia cuidados especiais. e vendida ao irmão e também médico Inácio Álvares da Silva
Em frente à sede existia um soberbo açude cheio de lendas, Campos pelo conselheiro Martinho originou-se em meados do
pois corria entre os escravos que nele havia milhares de ca- século passado a fazenda da Paciência, uma das melhores pro-
veiras de negros vítimas de ururaus (jacarés) centenários. priedades do município.
Teresa Maria de Jesus, senhora muito trabalhadeira e hon- O dr. Inácio, coração magnânimo, era o médico da pobreza
rada, governou pouco tempo a fazenda, pois se casou em se- em toda a região de Sebolas e foi o tronco de importante e
gundas núpcias com o português Joaquim Lúcio de Figueiredo tradicional família daquela freguesia. Casou-se com Luísa Ca-
Lima, o qual exercera a profissão de enfermeiro no Rio de Ja- rolina Álvares Ferreira da Silva, nascendo desse consórcio dez
neiro. Assumindo a direção da fazenda, Joaquim Lúcio cuidou filhos: capitão Martinho Álvares Ferreira da Silva; Jacinto Ál-
logo de fazer grandes melhoramentos. Era uma figura impo- vares Ferreira da Silva, médico; Inácio Álvares da Silva Cam-
nente, cavalheiro de muita pose e muito prestativo. Ocupou pos, médico; Francisco Álvares da Silva Campos, advogado;
vários cargos públicos no município e foi agraciado com a co- José Luís Álvares da Silva Campos, advogado e magistrado; An-
menda da Ordem da Rosa, passando por esse motivo a ser cha- tónio Álvares da Silva Campos, escrivão da Coletoria Federal
mado comendador Joaquim Lúcio. Teve enorme clientela nas em Paraíba do Sul; Maria Luísa, que se casou com Benedito
redondezas, prático que era em medicina, sendo combatido Cordeiro dos Campos Valadares, advogado; Isabel, casada com
pelos médicos da vila por exercê-la ilegalmente, os quais o o capitão José António dos Passos; Luísa Álvares da Silva, pro-
chamavam de curandeiro charlatão. Todas as suas receitas, fessora catedrática no Distrito Federal; e Ana Álvares da Silva.
porém, eram dadas sob esta condição: "Se ficar bom, paga." Do casamento de Benedito Valadares""-" 1 com Maria Luísa,
Teresa Maria de Jesus faleceu em 28 de janeiro de 1868. a d. Mariquita Valadares, de respeitável memória pelos serviços
Enviuvando, casou de novo o comendador Lúcio no Rio de Ja- à pobreza, nasceram o advogado Francisco Valadares, jornalista
neiro com Leonor Augusta de Morais, professora, nascendo -"». O último sucesso de Benedito Valadares na vida pública foi a absol-
desse consórcio três filhos: Joaquim, Maria Leonor e Maria vição do filho Caio como mandante do assassinato do juiz municipal Cor-
Firmina. Esta última casou-se com o célebre advogado Mar- nélio de Magalhães Moraes. O júri se realizou a 24 de outubro de 1903
tinho César da Silveira Garcez e deixou dois filhos, hoje tam- com grande aparato policial na cidade dirigido pelo novo chefe de polícia
do Estado, Azevedo Cruz. Presidente do tribunal do júri, o dr. Tavares
bém advogados no Rio de Janeiro, Umberto e César Garcez. Bastos, juiz municipal de Santa Teresa; promotor público, o dr. Eugênio de
Ficando viúvo pela segunda vez, casou-se o comendador Moraes; advogados de defesa o conselheiro Cândido de Oliveira e os drs.
com Virgínia, irmã do médico Deocleciano Alves de Sousa204. Benedito (pai do réu), Francisco Valadares (tio) e Horácio de Magalhães
Deste casamento nasceram Jarbas e Júlio-Lúcio de Figueiredo Gomes, que atacou o ex-chefe de polícia do Estado, Álvaro de Tefé (cf.
Lima. Este foi secretário da Câmara de Paraíba do Sul e exer- nota 206), e Quintino Bocaiuva, cujo mandato na presidência do Estado fina-
lizaria a 31-12-1903. Testemunhas de acusação, o velho tabelião Raimundo
ceu outros cargos públicos. Fontenele (acompanhava o juiz quando assassinado), o filho dele, Virgílio, e
Com a morte do comendador Joaquim Lúcio originou-se uma João Francisco de Araújo (cf. nota 97), o velho ferreiro do Lavapés, acusados
demanda pela posse da fazenda do Recato, da qual saiu ven- pelo dr. Benedito de se prestarem a testemunha por serem indignos e inve-
cedor Ulisses Brandão, advogado pernambucano e autor de uma josos. O jurado Francisco Furtado de Mendonça foi expulso do Fórum "a
bem da ordem dos trabalhos".
história da Confederação do Equador, a tentativa de república A absolvição foi unânime. Dois dias após, a 26 de outubro, os drs.
no Nordeste ao tempo da Independência. Melo Viana e Francisco Valadares defendem Manuel Barbosa da mesma
acusação. O advogado Melo Viana foi depois famoso político em Minas.
a tal fazenda dos Embargos (cf. nota 181). Quanto ao irmão citado, padre Esse sucesso talvez tenha consolado o velho advogado Valadares de
António Marcos d'Abreu Castelo Branco, além de primeiro promotor do um revés de pouco antes, após grande luta na justiça e que comprometeu
termo em fevereiro de 1834 era também professor de primeiras letras na sua honorabilidade: em 29 de agosto de 1902, acórdão da Relação decla-
vila, dando "classe" no prédio do Registo, junto à praia da barca. rava ilegítima e extinta a mesa da Casa de Caridade de que era provedor
204. Residia na Encruzilhada, onde clinicou muitos anos. Seu filho Asdrubal (cf. nota 94). É possível que a questão com o juiz Cornélio se origine
Alves de Sousa, formado também em medicina, em 1913, faleceu dois anos nessa ação.
depois em Dacar, na África, como médico de bordo de navio do Lóide No Parahyba do Sul de 29 de outubro de 1903 o dr. Alexandre Abrahão
Brasileiro. O dr. Deocleciano faleceu em 1923. assinou o artigo Absolvição Iníqua.
182 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 183

em Juiz de Fora, deputado federal e chefe de Polícia do Distrito popular, quer nos de nomeação do governo, como veremos já.
Federal, que se casou com Constância Vidal Leite e se bateu Celebrizou-se em toda a zona por ocasião da construção
na Assembleia pela revogação do decreto que bania a Família da Estrada de Ferro Pedro II, pois quando chegaram as obras
Imperial; e Caio Valadares-"", advogado que exerceu inúmeros em 1867 a Entre-Rios originaram-se ali grandes desordens, que
cargos em Paraíba e foi depois deputado no Estado do Ama- terminavam em morticínios.
zonas, sendo pai de Caio Valadares Júnior, juiz de direito no Nessa época era o capitão Simão Dias delegado de Polícia
norte do País; e ainda Benedita e Inácio Campos Valadares. e resolveu acabar com as arruaças, provocadas quase sempre
A fazenda da Paciência passou ao advogado Benedito Va- por uns portuguesinhos de Serraria. Esses se uniam a pretos
ladares, que ali residia e fez política no município desde os capoeiras e divertiam-se provocando para briga os trabalhadores
fins do século passado. Tinha também residência na cidade, da estrada, fato que repercutia em jornais da Corte. Com boas
rua Tiradentes 42, e banca de advogado com o filho Caio! maneiras, procurou o delegado resolver a situação, o que não
conseguiu. Acompanhado então de boa escolta seguiu para
FAZENDA DA REFORMA Entre-Rios e deu ordem de não ser permitida a entrada dos de-
sordeiros na povoação, mas eles não se intimidaram e tentaram
Essa fazenda foi do capitão Simão Dias dos Reis-" 7 , um passar pelos soldados. Diante disso o delegado deu ordem
dos mais inteligentes lavradores do município de Paraíba do de fogo e cinco malfeitores caíram mortos, cessando dessa data
Sul. Tinha ótimas instalações e máquinas de sua invenção, em diante todas as ocorrências de polícia em Entre-Rios.
além de outros melhoramentos introduzidos na cultura da terra. O capitão Simão Dias dos Reis foi mais tarde agraciado
O capitão Simão Dias dos Reis era filho da província de com o título de barão pelos serviços prestados ao município
Minas e aparentado do Tiradentes. Sem nunca ter frequentado de Paraíba do Sul e em 1883 ter libertado 63 escravos, desis-
qualquer curso, era homem de verdadeira ilustração, tendo-se tindo também do serviço de 33 ingénuos. Muitas foram as fe-
feito por si, em seu gabinete. Foi sempre considerado o pai licitações que recebeu, e entre elas a do dr. Francisco Leopol-
de seus escravos. Nunca deixou de concorrer para obras de dino de Gusmão Lobo, deputado pela província de Pernambuco
caridade e de servir a seu país, quer nos cargos de eleição e diretor-geral da Secretaria de Agricultura, o qual lhe enviou
206
este telegrama por intermédio do poeta Dias da Rocha: "Meu
. Era genro do médico Randolfo Pena, proprietário da fazenda Boa-União, caro Rocha, recebi o teu telegrama acerca das manumissões
apontada pela imprensa na época como valhacouto dos bandidos utilizados
por ele para o assassínio do juiz. O principal acusador de Caio Valadares
generosamente dadas pelo sr. Simão Dias e sua mulher. Se
nos jornais foi o visconde de Entre-Rios, sogro do dr. Randolfo (cf. capítulo os conheceres, beija-lhes por mim as dadivosas mãos, que ja-
Os Barroso Pereira), com quem rompera publicamente muitos anos atrás. mais as houve mais puras e mais dignas. Nobres e grandes
O juiz Cornélio de Magalhães Moraes era da Paraíba do Norte, tinha corações! Todo teu. G. Lobo. 24-11-83."
26 anos e dois filhos. Viera em 1901 de Araruama, onde também fora juiz O barão de Simão Dias foi casado em primeiras núpcias
municipal. Sua casa, no 7 da praça Marquês, a mesma do atentado ao
dr. Macário, foi assaltada duas vezes, em outubro e 12 de novembro de
com Teodora da Silva, e teve os filhos seguintes: Matilde, que
1902, tendo os bandidos deixado na segunda sobre o peitoril da janela uma se casou com Eduardo Ernesto da Gama Cerqueira, advogado
bomba de dinamite. Como a polícia de Paraíba nada apurasse, Quintino e irmão do conselheiro Gama Cerqueira, e Carlota, que se casou
Bocaiuva enviou à cidade o chefe de polícia estadual, Álvaro de Tefé com o dr. Jerônimo Máximo Vessiani e Castro.
(em 25-11-1902), que abriu inquérito e ouviu dez pessoas. Ficando viúvo, casou-se em segundas núpcias com sua
O processo de Caio Valadares é de registro indispensável na história
de Paraíba. Mostra a que ponto chegaram os desmandos e a impunidade cunhada Maria Rosa, não havendo filhos desse consórcio.
na vida política, às vésperas de assumir Nilo Peçanha (1.° de janeiro de À fazenda da Reforma, que tinha 100 alqueires de terras,
1904), que atingiu os mais altos cargos da República. Nessa onda de pertenciam os sítios Grota-Funda e Santa-Cruz.
imoralidade muitos anos se afogou o Estado do Rio de Janeiro na chamada Faleceu o barão de Simão Dias em 1886 em nossa cidade
República Velha, e está enterrado no cemitério local no mais profundo e desuma-
2
°T. Foi desse fazendeiro uma das mais argutas observações- sobre a in-
capacidade dos libertos de se autodeterminarem, dada a dependência total no dos esquecimentos. Seu túmulo se distingue facilmente
dos brancos em que viviam, caso a Abolição ocorresse abruptamente, como dos demais, por ser uma coluna terminada em pirâmide, _do
ocorreu e ele não viu, pois faleceu dois anos antes do descalabro da la- melhor mármore, e das poucas que ostentam a coroa de barão.
voura e nascimento das favelas. Foi a conclusão lógica a que chegou, ao Na década de 1920 a fazenda da Reforma, das mais próxi-
observar o que ocorrera a seus escravos quando das manumissões repor- mas à cidade, pertencia a Manuel Cerneira Quintas.
tadas adiante. Não há em nossa vida púbtica outro de tanta lucidez.
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 185
184 PEDRO GOMES DA SILVA

conhecimento com a viúva Maria da Trindade, da fazenda do


FAZENDA DO RIO-NOVO Rio-Novo, com quem veio a casar-se.
Ribeiro de Sá foi uma das maiores figuras do progresso de
Em 23 de junho de 1845 Ana Rosa de Jesus e seu filho Paraíba do Sul. Exerceu todos os cargos públicos no município,
António de Araújo e Silva adquiriram do marquês de São João sendo vereador e presidente da Câmara diversas vezes, e che-
Marcos e demais vinte-e-três proprietários uma porção de ter- fiou o partido Conservador. Dividiu sua atividade entre a fa-
ras no lugar denominado Rio-Novo, na fazenda da Paraíba, por zenda e a cidade, onde foi presidente da Sociedade Amantes
4:400$000. E aí construíram casa e fizeram plantações, levando da Instrução; concorreu muito para a edificação do Theatro
essa situação o nome do riacho que banha os terrenos da pro- Gymnastico Parahybano e, em tudo quanto se prendia ao pro-
priedade, o rio Novo. gresso de Paraíba, era sempre dos primeiros. Construiu na
João António de Araújo e Silva casou-se com Maria da rua das Flores um magnífico palacete para sua residência, em
Trindade. Teve muitos filhos, mas apenas um homem, de nome 1886-'". Doou à Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro o
Pedro António de Araújo e Silva, que se tornou conhecidíssimo necessário para "fazer as despesas de mordomo do mês de
em toda a redondeza pela sua bravura e desassombro de agir, agosto de 1876".
sendo um destemido amigo dos humildes-08. Por decreto de 15 de abril de 1882 foi Miguel Ribeiro de
Morrendo João António de Araújo e Silva, ficou o destino Sá agraciado com o título de barão de Ribeiro de Sá.
da fazenda entregue à viúva com os filhos menores. A situa- Do seu casamento com Maria da Trindade — baronesa de
ção financeira da propriedade era péssima, com uma dívida Ribeiro de Sá — nasceu um único filho, que foi o tenente
hipotecária superior a cem contos-de-réis, quantia enorme na José Lino Ribeiro de Sá, pai de António-" e Dagoberto Ribeiro
época. Maria da Trindade casou-se, então, com Miguel Ribeiro de Sá, advogados em Juiz de Fora; Rubens, farmacêutico na
de Sá, o qual, assumindo a direção de todos os negócios da mesma cidade; e José tino-*-, médico.
fazenda com sua incomum capacidade de trabalho, transformou Com a morte do barão Ribeiro de Sá, em 1904, a fazenda
a propriedade, organizando grandes lavouras; dentro de poucos do Rio-Novo passou a seu filho, e deste a Paulo Landsberg, que
anos estava a Rio-Novo livre de todas as dívidas. a transferiu a seu irmão, Gilberto Landsberg, atual proprietário.
Miguel Ribeiro de Sá era português e começou a vida no
município de Paraíba do Sul como empregado da casa-de-negó-
cio do Major Carvalhinho, depois visconde do Rio-Novo, perto
FAZENDA CRUZ DAS PITEIRAS
da fazenda Boa-União no futuro distrito de Entre-Rios; passa-
dos alguns anos resolveu ser mascate, e começou a percorrer
Nicolau António dos Passos é o mais antigo proprietário
o município com suas três ou quatro azêmolas conduzidas pelo
da fazenda Cruz das Piteiras que conseguimos identificar-13.
recoveiro Roberto, seu escravo, o primeiro que possuiu e o aju-
Foi uma grande figura do progresso de Paraíba do Sul. Exerceu
dou a vencer na vida209.
sempre seu direito de voto, mas nunca tomou parte na política,
Muito ganhou Ribeiro de Sá nessas suas viagens, não só
financeiramente mas, principalmente, em relações e boas ami- nem quis ocupar cargos públicos.
Em sua fazenda trabalhavam centenas de pessoas e du-
zades, que conquistou pela probidade e maneiras gentis.
rante cinquenta anos agiu exclusivamente no distrito da En-
Foi durante essas viagens que o jovem mascate travou
210. É desde 31 de agosto último nossa Casa da Cultura, que enche de
-°8. Esse traço da personalidade dele ficou patente no depoimento a que
esperança os que lutam pela elevação de seu nível na cidade.
já me referi, de Lucas Ferreira Ribeiro (cf. nota 70), que foi seu vizinho 211. Autor de dois livros — consulte a bibliografia — básicos para o es-
na Grama, tinha 18 anos quando ele morreu e 72 passados falava dele clarecimento da fundação de nossa Casa de Caridade. Um deles, também,
com admiração. No terceiro aniversário da morte, o Parahyba do Sul o muito útil ao esclarecimento da Revolução de 1891 vista de Paraíba.
lembrou como "o inesquecível Pedro de Araújo". 21
2. Com uma carta ao prefeito de Entre-Rios, em 1942, deu ensejo à
-"'•>. O autor usa os termos correntes em Portugal para besta-de-carga e o
condutor, também almocreve, sendo mais recoveiro quem usa a recova, tra- publicação
213
das obras referidas na nota anterior.
. A sede da fazenda não mais existe. Creio ser o sítio designado por
vessão sobre os ombros para o transporte de fardos comum no Brasil Cruz pelos viajantes do início do século passado. Possível ter havido mes-
entre peixeiros de rua. Foram certamente os termos de início usados por mo ali uma, pois era encruzilhada, vindo o caminho do Proença tradicional
esse imigrante inteligente e ativo, chegado aos> 15 anos a nossa terra para a sede da fazenda do Governo, e outro (hoje a estrada de Sebolas)'
para ser — no termo caro ao autor — cidadão prestante como poucos. para o Rancho-Queimado e o Queima-Sangue, que ainda não existiam.
186 PEDRO GOMES DA SILVA CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL 187

cruzilhada. Foi exemplo perfeito de operosidade, honradez e Era Lino Manuel da Costa capitão da Guarda Nacional e
justiça para seus subordinados. foi vereador àa Câmara, ocupando também outros cargos pú-
Grande parte de sua riqueza empregou na própria fazenda, blicos no município, como o de delegado. Sobranceira ao rio,
a qual era um modelo de comodidade e higiene, zelando tam- a sede era conhecida por causa da estrada de Ubá que pas-
bém pelo conforto de seus empregados. Utilizava máquinas sava em frente. Tinha grande número de escravos e muita
para o preparo das terras, beneficiando-as enormemente. lavoura. Por essa época a fazenda tinha o nome de Boa-
Em idade avançada retirou-se para a cidade onde passou a União-1"', mudado para Santa Rosa pelos herdeiros. E foi esse
residir até a morte, aos 85 anos. o nome que ficou.
Era o coronel Passos filho do comendador Joaquim António O capitão Lino Manuel da Costa foi assassinado a tiros
dos Passos, proprietário da fazenda Alto do Pegado, no último por um escravo de nome Ismael na noite de 1° de abril de
território que perdemos para Petrópolis em 1892. Homem mui- 1868. O crime causou grande impressão entre os fazendeiros
to honesto e trabalhador, faleceu aos 93 anos, muito rico. no município-1". A abertura do processo foi o último trabalho
O comendador, que do primeiro matrimónio tinha uma filha, realizado em nosso foro pelo promotor Miguel Calmon du Pin
casou-se depois com Maria Adelaide, viúva de José Francisco e Almeida. O jovem advogado baiano estreou na magistratura
dos Reis e filha de Mariana Rosa de Jesus Rodrigues Caldas, em nossa cidade, onde chegou em 1866, com 23 anos e se ca-
senhora da fazenda do Secretário. Do consórcio do comendador sou. Fez depois brilhante carreira política.
Passos com Maria Adelaide nasceram os seguintes filhos: O proprietário a seguir foi Leandro Bezerra Monteiro, advo-
1. Joaquina; 2. Nicolau, fazendeiro de quem já falamos gado cearense e parlamentar do Império. Como fazendeiro foi
e que se casou com Madalena Werneck de Carvalho, nascendo figura apagada. Conhecia pouco o segredo de trabalhar a terra
desse consórcio os filhos Irineu, que foi vereador em nosso e o seu bom coração não o deixava acumular riquezas-17.
município e se casou com Floriza da Silva Dias, filha de Joa- Quando da seca do Ceará em 1877, a sua fazenda se tor-
quim Bernardes Dias, médico, fazendeiro, coletor das Rendas nou hospedaria para os retirantes, que em grande número ali
Estaduais em Paraíba do Sul e deputado federal; Elvira; António acolheu e procurou colocar em outros lugares da província.
Werneck dos Passos; Maria; Ernani Werneck dos Passos, mé- Eram conhecidíssimos os pomares de Santa Rosa, cujas
dico; Nicolina, casada com Manuel Sabino Silva Souto214, médico jaboticabeiras se alinhavam à beira-rio e ficaram famosas na
e prefeito em nosso município; 3. Luciano, que morreu soltei- cidade pelos seus frutos que ali se vendiam.
ro; 4. Joaquim, que se casou com Ana Werneck de Carvalho; O dr. Leandro deixou dois filhos notáveis: João Bezerra
5. José, o conhecido Capitão Jucá Passos, casado com Ma- de Meneses, médico, e José Geraldo Bezerra de Meneses,
riana de Santana, de cujo enlace nasceu d. Marianinha Passos, advogado. Era cearense do Grato e compadre diversas vezes
que se casando com Josino António Werneck de Carvalho teve do padre Cícero. Sendo deputado geral, deu-se a célebre
os filhos Wagner, engenheiro eletricista formado na Bélgica, questão epíscopo-maçônica, na qual tomou decididamente a de-
José, odontologista por Ouro Preto, e Walter, fazendeiro. fesa dos bispos presos.
Maria, a filha do primeiro casamento do comendador Joa- Hoje a fazenda de Santa Rosa pertence ao coronel Fran-
quim António dos Passos, casou-se com o capitão António Cal- cisco Quirino Pinheiro, que foi vereador em nossa Câmara218.
das, deixando os filhos Mário, Marieta e Adelaide. 21B
. Houve três fazendas com esse nome no município; junto a Entre-Rios,
de citação degradante na nota 206, na Bemposta e esta, hoje pasto de boi.
-is. Foi secretário da Câmara Municipal em 1835, em substituição ao pri-
FAZENDA DE SANTA ROSA meiro, Clarimundo Mariano da Silva, que se demitiu a 25 de agosto daquele
ano por causa do insuficiente ordenado (ainda não vencimento) de 250SOOO
por ano. Mas ficou só até dezembro. Na sessão de 9 desse mês cedeu
A fazenda de Santa Rosa, na margem direita do Paraíba o lugar a Felizardo Gonçalves Rocha que, parece, não devia sentir-se tanto
à montante da cidade 6 km, foi do capitão Lino Manuel da Costa, com aquele ordenado, que a própria Câmara achava ruim mas era imposto
que sempre trabalhou para o progresso de Paraíba do Sul e pelo artigo 1." da Lei de Orçamento Municipal, que era provincial.
2iT. Quem muito escreveu sobre esse advogado foi Agripino Grieco, que
empregou todos os esforços para que a Estrada de Ferro Pe- se diz nas Memórias afilhado do filho José Geraldo, citado a seguir.
dro II instalasse aqui suas oficinas quando da construção. 218. Parece, foi o último proprietário. Para essa fazenda, que está à belra-
-rio no distrito da Encruzilhada, o boi do 1." distrito atravessou o Paraíba;
214 É o amigo do autor de que trata a nota 14. o que temia o autor, aconteceu. E a fazenda acabou.
188 PEDRO GOMES DA SILVA

FAZENDA SÃO JOÃO DO BARREIRO

A fazenda São João do Barreiro é de meados do século


passado. Foi fundada pelo tenente-coronel João Gomes de
Aguiar, chefe da importante família Gomes de Aguiar, senhora
da fazenda do Piabanha e outras.
Fica a fazenda do Barreiro situada à margem do rio Pia-
banha em local de grande beleza. Teve enormes plantações
de café e muita escravaria.
O segundo proprietário do Barreiro, como é popularmente
conhecida, foi o conselheiro Carlos Afonso de Assis Figueiredo,
professor de Direito, publicista, notável parlamentar, advogado
de grande valor. Foi deputado provincial e geral por Minas
Equívocos sobre Paraíba
Gerais, ministro da Guerra, presidente da província do Rio de
Janeiro e presidente das sessões preparatórias da última câ-
mara do Império. Sua fazenda era frequentada por seu irmão, "Um historiador que pensa que seu ofí-
o visconde de Ouro-Preto-1", e por outros vultos notáveis da cio consiste em descobrir fatos poderia da
época, o fim da Monarquia. mesma maneira colecionar borboletas, selos
O conselheiro Carlos Afonso tomou parte em partidos polí- ou caixas de fósforos."
ticos em Paraíba do Sul e colaborou na imprensa local. Li- IMoses l. Finley, em entrevista a Lê Monde. Citado
por Marcos Alvito Pereira de Sousa, professor de His-
bertou todos os escravos antes da lei de 13 de maio, sendo tória Antiga da Universidade Federal Fluminense, em
nesse ato assistido por seu sobrinho, o futuro conde de Afonso O Passado Desmistificado, Jornal do Brasil, 10-3-1991.)
Celso, filho do visconde de Ouro-Preto.
O médico Moura Brasil foi o terceiro proprietário do Bar-
reiro que, por sua morte, passou ao filho Francisco de Moura Na mais geral de todas as análises, o equívoco em História talvez possa
Brasil. Já então a fazenda estava reincorporada à mais antiga ser classificado, como glosa, em objetivo ou subjetivo, conforme venha da
da região, a das Três-Barras, que principiou em meados do carência ou falsidade do objeto que o causa, o documento, ou da incapaci-
século XVIII. Em suas terras surgiu o povoado que levou o dade do sujeito que o interpreta, o falto de preparo que se mete a escrever
nome do célebre oculista, o doutor Moura Brasil, oriundo da iludido pela aparente facilidade do tema. Ao primeiro tipo estão expostos
os maiores historiadores, apesar da costumeira cautela, e sua eliminação
estação ali aberta em 1900 pela Leopoldina. é o ideal de todo pesquisador; enquanto a perenidade do segundo parece
assegurada, onde não haja vigilância e encontrem espaço ignorância e audá-
Afonso Celso de Assis Figueiredo (1836-1912). cia, como se sabe, companheiras quase inseparáveis.
Aceita essa premissa e lembrando que até agora não tínhamos publi-
cado nossa história mais-ou-menos concatenada, a consequência lógica é a
responsabilidade em Paraíba pelo surgimento de muitos desses equívocos,
fáceis de inventar como difíceis de remover.
A demora com que se publica a primeira história da cidade, um tanto
sistematizada, é evidente. Enquanto Resende, Valença e Vassouras, 70, 120
e 150 anos mais recentes têm há muito a origem divulgada, só agora foi
possível editar os estudos de Pedro Gomes da Silva, escritos como já
vimos há quase cinquenta anos. Tivéssemos dado ao autor, quando ainda
o Pftdro Cabrito do prefácio, a atenção que merecia, e por certo teríamos
salvo nossa história, singular, de pelo menos alguns desses equívocos e da
mesmice costumeira dos registros históricos nas publicações oficiais, tipo
Sinopse dos Municípios (1948), e a ainda pior Enciclopédia dos Municípios
Brasileiros (1959), ambos do IBGE. E certamente das contribuições no ano
passado dos professores Ipanema, despreparados a escrever sobre Paraíba.
Podemos aqui porém lembrar o francês, embora não pareça, o sujeito
mais otimista do mundo: "A quelque chose malheur est bon." E isso
190 ARNAUD PIERRE EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 191

porque, se para alguma coisa serve a infelicidade, a contribuição infeliz autêntico. E nas suas águas repete isso em 1944 o neto do barão de
desses professores encheu Paraíba de brios; e o Pedro se desencantou. Ribeiro de Sá, António Ribeiro de Sá, em Paraíba do Sul e Entre.Rios.
Agora ai está, com suas limitações e tropeços, mas já um escudo em A ignorância de Agripino Grieco em História provocou o equívoco meyo
que esbarrar qualquer incursão aventureira em nossa história. da jornada como primeiro nome de Paraíba. Aí está com y, mesmo, para
Antes do alinharmos essas incursões desastradas, que estropiam nossa lembrar que vem da carta de Garcia de 1703, em que localiza sua fazenda
incipiente bibliografia, vale registrar quanto é pequena e até agora pouco a meio-caminho entre o Rio e a borda dos campos gerais, hoje Barbacena.
significativa. E foi justamente isso que permitiu tais equívocos. Evidentemente, o tal meyo chegou ao conhecimento de Agripino em
O primeiro registro na imprensa paraibana sobre história parece um citação de outrem, não no texto da própria carta de Garcia, ou no estudo
artigo no Provinciano de 14 de setembro de 1878 — Estabelecimento da de Basílio Magalhães em que é transcrita.
Freguesia —, calcado em Monsenhor Pizarro (cf. nota 22). No mesmo jor- Quem tiver, pouco que seja, o hábito de ler História percebe logo que
nal, em dezembro de 1885 se. anuncia a publicação de Monographia do Mu* Agripino Grieco não lhe dava qualquer atenção, servindo-se apenas de suas
nicipio de Parahyba do Sul, de José Maria Vaz Pinto Coelho, advogado e passagens pitorescas em palestras de entretenimento e artigos de rodapé
jornalista. E no Parahyba em março de 1889 o tema volta, numa Monogra- de jornal. Sabido, porém, certo de suas limitações, saiu pela tangente. E
phia da Parahyba do Sul de Júlio Rocha, irmão do editor do jornal republi- colocou antes de meyo da jornada, um cauteloso reputado. Se não fosse
cano, Irineu Rocha, e do poeta e seu colaborador, Dias da Rocha Filho. isso, ao menos o leitor lhe atribuiria argúcia e cautela em ter duvidado . . .
Se esses trabalhos chegaram a ser publicados, perderam-se totalmente, Levantando dúvida sobre o que era mais que certo, nosso ilustre con-
pois não constam do catálogo de qualquer biblioteca. terrâneo deu azo a que um mais ignorante ainda tomasse o "reputado"
Na 2." parte do tomo 67 da Revista do I.H.G.B. apareceu O Município por "incontestado", ou coisa que o valha. Lógico que isso foi logo achado
c/a Parahyba do Sul em 1904, em que se descrevem os distritos (oito, então) pelos redatores do IBGE! E até a Secretaria de Cultura do Estado passa
e se dá breve resenha da criação de cada um. O enfoque geográfico e adiante, em sua "notícia histórica" sobre a cidade.
económico é mais minucioso, o que se explica no ter sido a notícia vazada Acredito que nosso autor, em 1927 aos 18 anos e nos primeiros passos
na Chorographia Fluminense, de António José Caetano da Silva (1896). em História e redação, tenha sua parcela de culpa na propalação do idio-
E vêm a seguir — e é só! — os livros aparecidos em consequência tismo (no sentido próprio, não gramatical) em alguns escritos no péssimo
da controvérsia sobre a fundação da Irmandade Nossa Senhora da Piedade, jornal do professor Bacelar, pelos anos 47 a 50. Em seus primeiros tra-
entre descendentes do advogado Leandro Bezerra Monteiro (cf. nota 85) balhos tomou como a uma bíblia, modelo a ser imitado, aquele estapafúrdio
e barão de Ribeiro de Sá (cf. nota 138). Isso porque Flores e Flores do padre Paraíba do Sul, do fastígio agrícola à estagnação dos burocratas, o tal ar-
Teófilo Dutra (cf. nota 97) é ainda reação dos Ribeiro de Sá (cf. notas 211 tigo em O Jornal em que aos mais experientes se revela a ignorância de
e 212) aos ataques de Agripino Grieco ao avô deles num artigo em O Jornal, Agripino Grieco em Geografia, História, Economia, e a consequente inca-
a 15 de outubro de 1927, verdadeiro ninho de cobras de equívocos e malen- pacidade de compreender o drama que no momento vivia a Velha Província
tendidos sobre Paraíba e sua gente. em que nascera, nas últimas com a derrocada de sua lavoura de café.
A diferença entre Agripino Grieco e a cidade em que nasceu é caso Até os cacoetes da redação rococó, de que Agripino nunca se livrou,
para psicólogo; e isso não sou. foram pelo jovem Pedro imitados. Ele juntava um adjetivo estrambólico a
Usavam os antigos aquele termo, diferença, e ainda o adjetivo diferente, tudo e, como o mestre, variando apenas a posição, antes ou depois do
para expressar antagonismo, incompatibilidade profunda, o que é patente no substantivo. Pois no tal artigo de Agripino em 1927, como nas Memórias
escritor sempre que se refere a Paraíba; e particularmente a Carlos Sales de 45 anos depois, toda barba já é argêntea, ou bíblica; todo senhor de
(cf. nota 9), de quem no entanto já era amigo e discípulo pelo menos aparência respeitável, no fundo, um frascário; e todo meirinho, voraz.
desde setembro de 1902, a um mês de completar 14 anos, quando seu Cabe aqui lembrar mais um autor que sofreu a perniciosa influência
nome consta numa homenagem ao nosso maior jornalista da época. Se- desse artigo, em que Agripino lança a moda da exploração das extravagân-
tenta anos passados, Carlos Sales morto havia onze e ele próprio, Agripino, cias e liberalidades dos enriquecidos barões do café. Foi Brasil Gerson,
a um apenas de morrer, dedica-lhe artigo cruel em suas memórias. Talvez pseudónimo de Brasil Gorensen (1905-1981), que explora as mesmas ve-
a razão disso esteja no que era corrente na Paraíba da minha infância: redas pitorescas do mestre e, por uma incrível distração, exumou velho
que nos jornais cariocas Carlos Sales, que também poetava, descobrira ter equívoco de história já enterrado, provocando na imprensa da vizinha Três
Agripino publicado como seus poemas de Soares de Sousa Jr. e Dias da Rios dois artigos totalmente fantasiosos sobre o caminho de Garcia.
Rocha, mortos quando tinha apenas 5 e 7 anos e de quem recolhera a Em louvor à inteligência e perspicácia de Pedro Gomes da Silva, seja
obra, esparsa em jornais da cidade, na Biblioteca Nacional. dito que se livrou da influência de Agripino Grieco, reconhecendo mais
Verídico ou não, o fato é que a veia poética dele secou. Dos 26 vo- tarde sua cultura livresca e desatualizada.
lumes publicados, a maioria ferina crítica literária, só o primeiro é de Seja também dito de Brasil Gerson que foi pesquisador incessante, mas
poemas, Ânforas (Rio, 1910). sem qualquer método. Parecia autodidata. Parece, sofreu perseguição po-
No artigo de Agripino Grieco no Suplemento Comemorativo do Bicen- lítica e viveu exilado no Uruguai. Mas infelizmente foi tão confuso e ata-
tenário do Café (1927), de O Jornal, começa a fazer carreira um dos equí- balhoadb em suas pesquisas que acabou realizando o que antes dele seria
vocos mais idiotas sobre nossa história, e justamente por sua falta de inacreditável: num texto em que se transcrevia um equívoco só para ser
competência no assunto. Os mais correntes até então, como Leme no refutado, copiou-o como válido. E nem viu a refutação. Parece brincadeira,
nome do Fundador e do pai, Fernão Dias, eram devido à falta da documen- mas está lá, página 18 do seu O Ouro, o café e o rio (1970). Com isso,
tação só publicada no início do século por Taunay e Basílio Magalhães, ressuscitou o equívoco corrigido havia 50 anos, e só no trirriense O Cartaz
Padre Dutra ainda confunde a personalidade de Garcia com a do bis- o passaram adiante pelo menos duas vezes: a 23 de dezembro de 1978
neto, dando-lhe o título de marquês de São João Marcos, a ele mateiro e 5 de maio de 1979.

.
192 ARNAUD P1ERRE
T EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 193

É longo o relato da trapalhada que reviveu; ligando-se porém a fato Aires de Casal (1754-1821?) em sua Relação Histórica e Geographica do
básico em nosa história, tentemos esclarecê-lo. fíeyno do Brazil, ou Chorographia Brazilica, Imprensa Régia, Rio, 1817.
Em 1904, em sua História Antiga das Minas Gerais o historiador mineiro Dividiu o geógrafo a província do Rio de Janeiro (pg. 185 a 208) pela
Diogo de Vasconcelos (1843-1927), se deixando levar por uma interpretação serra dos Órgãos em dois territórios: Beira-Mar e Serra-Acima, o primeiro
desastrada — na verdade, reveladora de sua carência de conhecimento com quatro distritos e o segundo, dois.
geográfico —, descreveu como trajeto do Caminho ao chegar à nossa Os distritos de Beira-Mar (ou Meridional) eram Ilha Grande, com duas
divisa com Minas, em vez da reta de 2,5 léguas que faziam as mulas e vilas; o do Rio de Janeiro, uma cidade e quatro vilas; Cabo Frio, uma cidade
tropeiros até Paraíba, a grande curva da Central do Brasil para leste, via e uma vila; e Goitacases, duas vilas. Todas cabeças de termo, circuns-
Serraria e Entre-Rios pelo Paraibuna abaixo, e daí outra curva de 90 km crição judicial.
para oeste, margeando o Paraíba até Barra do Piraí e dali pela serra do Serra-Acima (ou Setentrional) foi dividido em dois distritos por uma
Mar ao Rio; ou seja, o trecho ferroviário construído pela Pedro II de 1856 reta que o geógrafo traçou, norte-sul, da fortaleza da Laje, na barra da
a 1876, exatos 160 anos depois do caminho de Garcia. Guanabara, à nascente do Piabanha, e por esse rio abaixo à foz no Paraíba.
Esse absurdo fica ainda mais incompreensível sabendo-se que o histo- Ao distrito oriental chamou pelo nome de sua única vila, Cantagalo, e ao
riador utilizava diariamente sua mula, conhecida de toda Ouro Preto e citada ocidental Paraíba Nova, com as vilas de Resende e São João Marcos.
na crónica local, para ir de casa no arrabalde das Cabeças à grande praça A divisão geográfica nesses distritos teve vida efémera, pois com a
central da cidade, onde a sentença de Tiradentes, hoje patrono da praça, criação dos municípios pela Regência na reorganização da província a deno-
mandou espetar sua cabeça diante do palácio do governador e da cadeia. minação da nova unidade político-administrativa rapidamente se divulgou.
Como prefeito, ou ainda presidente da Câmara, era seu trajeto diário; No território ocidental fluminense, de oeste para leste, foram criados os
e o homem nunca viu o ajuizado animal se aventurar pela margem do Tripuí, municípios de Resende, Barra Mansa, São João Marcos, Vassouras, Valença
onde poderia atolar-se, mas levá-lo pela meia-encosta em que se abriram, e Paraíba do Sul, sendo o nosso jogado para oriente sobre o sertão dos ín-
para ele e os seus, iodos os caminhos antigos e iodas as ruas de Vila Rica, dios brabos (cf. nota 53), território dos atuais municípios de Três Rios, São
pátria do historiador. José do Vale do Rio Preto, Sapucaia e Sumidouro, e para o sul os de Itai-
Como se deduz, Diogo de Vasconcelos foi historiador de gabinete, pava e Petrópolis.
alheio ao cenário onde se passaram os fatos que narrava. E caiu do cavalo A geografia de Aires de Casal, pouco conhecida e oportuno divulgar,
— no caso, da mula —, apesar de cultuado pelos mineiros como o maior apresenta ainda de interessante para nós a denominação de Três Rios para
historiador das Minas Gerais. E é. Mas aí fica a lição, que poucos ouvem: a zona de confluência do Paraibuna, Piabanha e Paraíba; e a informação
historiador de gabinete, nriais cedo ou mais tarde, dá com os burros nágua. de nosso arraial em 1817:
Tivesse Diogo de Vasconcelos ficado nesse equívoco da página 158 "Sobre a margem setentrional do Paraíba, na passagem para o Parai-
e talvez restasse ignorado entre as centenas mais que escreveu. Caiu buna, está o considerável e frequentado arraial de Nossa Senhora da Con-
porém em outro pior: tentou contestar a precedência dos paulistas no pla- ceição, povoado de gente branca."
nalto de Minas, em favor dos baianos, que ali já estariam e teriam esten- O terceiro e último volume da pequena bibliografia de nossa história
dido a mão aos bandeirantes com os "votos de boas-vindas". Aí mexeu em foi impresso em off-set ano passado em Paraíba, de autoria de Cibele e
casa de marimbondo (cf. nota 23). Marcelo de Ipanema, diplomados em Geografia e História pela Universidade
A documentação arrasadora de Basílio Magalhães, refutação completa do Brasil. As "contribuições históricas", subtítulo do livro que tem o nome
— Revista do IHGB Tomo 84 pg. 13 a 27 —, aponta ainda no historiador da cidade, ocupam 72 páginas no total de 231; e das 72, de 40 a 50, no mí-
outra embrulhada com o nome de Garcia. Parodiando os antigos latinos, nimo, são da história do Brasil. O que sobra para a de Paraíba contém
que distinguiam parentes homónimos com Sénior e Júnior pospostos ao mais equívocos que os aparecidos até agora.
nome, tomou o "Velho", nome de família materno de Garcia Rodrigues Como fizemos até aqui com os autores citados, quando remetemos o
Velho, tio do nosso Garcia, por Sénior. E se achou autorizado a escrever leitor a notas elucidativas, é preciso informar sobre os Ipanema além do
que se tratava do mesmo quando idoso, chamado "Velho" para distinguir-se que há no currículo (pg. 5), mormente sendo forasteiros. Mais porém do
de homónimo. Com isso confundiu tio e sobrinho, atribuindo cargo a um que dizem ali e na apresentação da obra (pg. 11), fala deles o capítulo
exercido pelo outro e armando na história da época, antes de Basílio Ma- inicial, Paraíba do Sul — Informações Atuais.
galhães, grande confusão. Eles explicam que têm cinco especialidades, entre as quais a de comu-
O caso Diogo x Basílio teve para nós em Paraíba desfecho feliz: nicadores. E nesta superam toda expectativa: seu guia de Paraíba, le-
apressou o surgimento da documentação sobre o Caminho, e definiu a per- vantado em pouco tempo, suplanta o de qualquer Quatro-Rodas. Cobriram
sonalidade do Fundador. É outro caso em que se poderia repetir com os tudo! Até à página 47, onde acaba, já estão citadas de Paraíba 88 pes-
franceses: "À quelque chose..." soas, e 30 de fora. Total: 118. E ainda há o 119.°, único morto num livro
Outro equívoco sobre Paraíba, veiculado pelo menos desde Inácio Ra- de história, Carlos Lacerda, cuja presença se explica: foi pai de editor^bem
poso em História de Vassouras [1935), e ainda mais pelos redatores do vivo, citado. E alguns aparecem várias vezes, como o prefeito, sempre "ope-
IBGE de 1948 e 1959, é chamá-la Paraíba Nova, denominação dá serra no roso". E o "conhecido político", presidente da Câmara. Desta, as funcio-
oeste do Estado evidentemente criada para distinguir aquele distrito (ter- nárias são "zelosas", como também os motoristas da Salutaris.
ritório) do nosso Sertão da Paraíba. Monsenhor Pizarro, em 1820, chega Tanto adjetivo, e bem colocado, faz lembrar o Agripino. E este, se de
mesmo a se referir a nós como Paraíba Velha. um pesquisador incansável como Taunay disse que não deixou cova de
Talvez o termo tenha nascido espontaneamente, quando a zona limítrofe bandeirante sem cruz, que diria desses professores em Paraíba? No míni-
com São Paulo se povoou na chegada do café, que dali se espalhou pelo mo, que não deixaram cadeira vazia.
vale, acima e abaixo. Mas foi por certo oficializado pelo padre Manuel Os professores Ipanema, cuja especialidade abrange "as áreas de His-
194 ARNAUD PIERRE EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 195
tória, Comunicação, Património Cultural, Documentação e Meio Ambiente'' nome assim curto, para o povo de fato o usar. E a adoção seria rápida,
(pg. 3), criaram um tipo de redação esteriotipada num esquema de títulos, desde que os ônibus urbanos viessem dos bairros com a nova denominação
subtítulos, itens, alíneas e quantas subgradações mais necessárias à adap- no cartaz, em vez do atual "Rodoviária".
tação de seus trabalhos a qualquer peculiaridade do lugar em que operem. Mas ficamos nisso.
Na fase da operação Paraíba, graças ao estereótipo, realizaram a proeza Seu livro nos termos em que apareceu foi uma surpresa.
em oito meses, pois vieram para o Fórum de História (9 de dezembro de O nível do trabalho dos professores Ipanema não condiz com os títulos
1989), "integrando-se à comunidade" (pg. 8), e publicaram as contribuições que apresentam. Sei que diploma não confere qualidade de produção a
em agosto de 1990. ninguém; mas responsabilidade, sim. É apenas atestado de que se recebeu
Como o esquema desses professores é inusitado em trabalhos histó- orientação superior na ciência que se elegeu. O desenvolvimento da capa-
ricos, ideia só se pode dar com um exemplo de como o aplicaram num cidade é de cada um, na pesquisa e leituras paralelas, que História exige
capítulo sobre a história de Paraíba (pg. 55 a 62): sem cessar, abrangente como é, coroa dos conhecimentos humanos.
Absorvidos porém em sua coleção de normas e decretos, de que é
"3. OS PORTUGUESES E SEUS PROCEDIMENTOS (1502-1733) espelho o que deixaram em Paraíba ano passado e nos dois trabalhos
deste ano em Angra dos Reis, parece, não a desenvolveram; e em Geo-
3.1 O Rio de Janeiro entre 1502 e 1565 grafia e História de Paraíba, pelo menos, nada têm a dizer.
3.2 A Governadoria do Rio (1565-1733) Vejamos amostra do que está na 3." parte do seu livro e trouxeram
3.3 Troca de culturas do Rio para "interiorização da cultura", expondo-a no Fórum de História
3.4 A ação produtiva e eliminadora da cobertura vegetal para que foram convidados: a carta de Pedro l, nu, escrita no Registo,
3.5 Mão-de-obra possivelmente após um banho de rio. (Mas só Agripino e Brasil Gerson
3.6 Moradas e lazer falaram dela umas dez vezes!) Um bilhete maf-redigido por Pedro II.
3.7 Ermidas e igrejas (Acharam que fosse contribuição à nossa história porque escrito na Boa-
3.8 Instrução e cultura vista.) O apedrejamento de Silva Jardim (1860-1891) no sobradão da Di-
reita, já contado demais, para nosso desgosto, e coisa de que não nos
E por aí vão em nossa história ... deixa esquecer gente como a citada e eles; e há 100 anos, pois tantos faz
Ainda na Explicação — pg. 11 a 15 — ficamos sabendo que operam que no Vesúvio pereceu nossa vítima. E para concluir, o batismo do Ga-
através da SIEC (Sociedade Ipanema de Educação e Cultura), "criada no leão por um vice-almirante, o barão de Angra, celebrado a 1." de outubro
Rio de Janeiro em 1989 com o objetivo de interiorizar, essencialmente, a de 1912 na abertura da estação. E, o contando, lhes escapou a sutileza
educação e a cultura" (pg'. 7), e "a obstinação de conquistar ensino su- da Central, adequando ao lugar tal padrinho.
perior para o Vale do Paraíba fluminense" (pg. 11), "e, neste, elegeu a Mas quase 80 anos dessa adequação, já chega! Em nome de nossas
cidade de Paraíba do Sul para sua sede e foro" (pg. 7). tradições, queremos Galeão de volta. E o barão que volte para sua Angra,
E, de fato, na mesma página 7 dão seu registro no cartório de nosso onde aliás já o precederam os professores Ipanema.
1." ofício (Livro C-1, f l. 37 v, n." 14). Na 8 está a notícia de sua utilidade Tentativa de sumário do seu trajeto chamaram ao que pensam ter sido
pública municipal conferida pela Câmara na Lei 1459, de 17 de maio de 1990. o de Paraíba. Longe de expressar modéstia, tentativa é adequado reco-
A linha-mestra dos trabalhos dos autores, de resultados tão rápidos e nhecimento da falta de preparo no que se propuseram fazer, mesmo su-
satisfatórios, é a inserção da comunidade "nos iodos que a contiveram em mário. E, sumário, ainda o enquadram no estereótipo de exposição que
vários momentos" (pg. 52), ou seja, em nosso caso, Estado do Rio e Brasil criaram. Os trabalhos anteriores ao de Paraíba, três, se conformam no
em várias fases de sua história. E distinguem 14 momentos (o termo é esquema, assim como os dois publicados até setembro, este ano, o de
deles, ainda na 52), sendo 8 do Brasil (nisso o iodo Estado não entra) Angra dos Reis em dois opúsculos de 50 páginas.
e 6 nossos, em Paraíba desde o "Segundo Reinado" (1840-1889)" ao "Retorno Ordenamento jurídico e administrativo no espaço fluminense/carioca, a
ao Civilismo (1985-...)"; assim mesmo, com as reticências de mau-agouro. outra produção de 1991 e livreto de 15 x 11 cm com 78 páginas, é relação
Mas ainda não se dão por satisfeitos com a inserção de Paraíba só esquemática, como sempre, de todas as constituições do País e fluminenses,
no Estado e Brasil: "Lamentamos que no curso (compreenda-se, do livro) com as respectivas emendas e decretos que nos "regimes de exceção"
pouco a tenhamos ligado com a Europa, a África e o resto do planeta" fizeram as suas vezes. Foi editado pela Livraria e Editora Marcello de
(pg. 52 ainda). Ipanema, fundada no Rio este ano, e não mais pela SIEC, de Paraíba,
Aí já me parece exagero, confiança demais dos professores no tal editora da produção que examinamos.
volume esquemático. Acho que precisariam no mínimo mais um, ou dois, Quanto a Angra dos Reis no Segundo Reinado, título que sugere es-
talvez três — quem sabe? —, para inserir Paraíba nos fodos negligenciados tudo, é apenas reprodução facsimilar do momento 1844/48 daquela cidade
no 1.° volume. no Almarjak Laemmert daqueles anos.
Bom, aí estão os autores. Vejamos agora o livro e alguns equívocos, Nesses momentos, criação dos professores fácil de adaptar à apresen-
razão por que é focalizado aqui. tação esquemática, e extraídos dos almanaques Laemmert, nossa cidade
Mas antes se impõe o relato de um encontro com o professor Marcelo foi também facsimilada três vezes (1854, 1876 e 1929), ainda em laemmert,
(que aonheci em Paraíba) no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do o almanaque do Segundo Reinado protótipo dos atuais guias de cidade que
qual é sócio. Na biblioteca lhe mostrei e pedi que intercedesse pela pu- mostraram aqui fazer tão rápido, e bem.
blicação do Tombo da Fazenda do Paraibuna, de 1822. Na apresentação do livreto de Angra informa-se que também colecionam
Pedi-lhe também que me ajudasse a conscientizar Paraíba do seu pas- esses almanaques, "hoje raridade bibliográfica", além de normas, decretos
sado, cooperando na campanha pela Praça Garcia, o primeiro passo. O e fatos do tipo dos trazidos ao Fórum.
EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 197
196 ARNAUD PIERRE
as condições apareçam para desenvolver, nos ciclos económicos da caça-
É válido a meu ver o exame do momento 1991 dos professores em ao-índio, do ouro e do café a civilização que semeara cujo ponto-de-partida,
Angra, e a seguir o dos ordenamentos no Rio, para esclarecer a verdadeira como no mundo antigo, há-de ser a organização judiciária, sem a qual vida
motivação do momento 1989/90 SIEC — Paraíba, que é só o que nos inte- comunitária não existe.
ressa e se afigura inusitado em seu currículo, à luz do exame que vimos A vila colonial é assim a lei, foco de civilização, não município ou o
fazendo ern suas produções, aníes e depois. que seja com uma administração sertão a-dentro até a linha Belém-Laguna
Sim, pois se até aqui chegarem se haviam limitado às coleções de traçada em Tordesilhas. Da costa, o sertão era guardado como Portugal
normas, decretos, fatos e almanaques, por que essa tentativa de escrever pudesse pelo governo de seus capitães; daí a capitania.
história em Paraíba? Gregos, romanos e portugueses não seriam loucos de organizar adminis-
A legislação normativa de que dão notícia no guia deste ano no Rio, tração para o vazio, mas local e na sede da justiça real para a "vida conver-
comunicadores excelentes como provaram aqui, "ordenada jurídica e admi- sável" (convívio social, vizinhança), conforme crónica colonial. (Monsenhor
nistrativamente", tem o fim utilitário de indicar ao estudioso de leis onde Pizarro dá para a enorme freguesia da Paraíba uns 500 moradores em 1820,
achar o que procura. Vale, ao estudante de Direito, como aquele cartaz ao baseado nos "fogos" relatados pelos curas.)
motorista no trevo aberto no patamar onde se assentava a sede da fazenda No fim do período colonial, sobretudo, criando vilas a pedido "dos
de Cantagalo, cuja perda foi tão chorada por nosso Pedro: "Paraíba do povos", o rei concedia terras para seu património, a ser aforado, mas
Sul, 9 km." E a seta a indicar o rumo. exigia a ereção da casa-da-câmara e cadeia à custa dos moradores bene-
Vendo-o, como o casal Ipanema em 1989 pela primeira vez, ele pode ficiados pela proximidade da justiça.
vir até cá e conhecer a cidade; mas para escrever sobre ela, naturalmente, Parece, na controvérsia sobre quem deveria fornecer área para ereção
terá que estudar, abrir livro, pesquisar com paciência, como o estudante da vila começaram os problemas de Pati do Alferes, que nunca teve câmara,
que comprar o guia Ipanema irá procurar as leis que precisa estudar. cadeia e fracassou (cf. nota 46) antes do advento dos municípios. Nada
Assim, como o cartaz de Cantagalo, o livrete do casal este ano no se sabe dela desde 1826/27, não tendo participado do diálogo intenso
Rio, baseado na coleção de normas e decretos, é coisa útil. l entre as câmaras e a secretaria do Império, troca de dúvidas por decisões,
Não nos julgue o leitor em digressão ao examinarmos a produção 91 quando do surgimento da legislação inovadora que criou municípios e as-
dos professores. Continuamos fiéis a equívocos, e na pista do maior dos í
*l sembleias provinciais. Na coleção Leis do Império do Brasil, que abrange
três sobre história cometidos aqui no momento 89-90 SIEC; pois os outros, as Decisões, a mudez da câmara da vila que não vingou é total; e desde
muitos, em nada afetam Paraíba, comprovando apenas a nenhuma pesquisa. 1820, quando foi criada.
Assim, no meu tema, e ainda examinando o guia Ordenamento, regis- Pati não tinha na época mais de 4 casas; e muito curioso é o comen-
tremos para memória duas passagens de recuo significativo sobre o que tário de Saint-Hilaire a respeito de sua criação, embora nunca se imiscuísse
escreveram na Tentativa de 90 aqui, Serra-Acima. em coisas nossas, estrangeiro e preocupado com sua ciência apenas. Pas-
Na página mais fantasiosa que já li, a 86, tentaram a criação de mu- sara porém por Pati em 1816; voltando em 1822, e sabendo-a vila do rei,
nicípios no Brasil antes da lei de 1828, julgando-a talvez no âmbito res- comenta em seu diário; "Para satisfazer à vaidade, o último governo (D.
trito de uma publicação em off-set, "pequena na tiragem e número de pá- João VI) multiplicou as vilas e criou cidades" (cf. bibliografia).
ginas" (pg. 11). Todavia, este ano no Rio se desdizem e na página 53 Fazemos referência a Pati porque toda a embrulhada armada pelos
transcrevem ipsis-litterís a mesma relação de "municípios" de Serra-Acima, autores em Paraíba sobre a criação do município visava a "provar" (em
mas já como de "cidades (Rio e Cabo Frio) e vilas fluminenses". "n" passagens diferentes) que saiu da pequena vila extinta. E tomando
Mas são tão inábeis no recuo, ao darem o que chama o vulgo desculpa parte na controvérsia em torno de uma placa. Volto à estória adiante, para
esfarrapada, que ainda mais o realçam; e trinta-e-duas páginas antes, ten- não perder aqui o fio-da-meada.
tando uma justificação descabida e só reveladora de falta de argúcia; é Não acredito terem eles qualquer estudo da instituição municipium em
quando escrevem na pg. 21 e no único comentário, desastrado, do pequeno Roma, de que o nosso no Brasil só tem o nome. Confusão com a nossa
guia de leis: instituição, sim, é quase certo, por terem lido aqui e ali referência a câ-
"Da descoberta (do Brasil) até 1828, contudo, quando os municípios maras de vilas antigas como "municipais", por autores que confundem a
eram designados vilas". E logo a seguir: "vilas também era designação sua função administrativa, local, com a exclusivamente jurídica e local
usada no Império", admitindo ali mesmo, na 21, a "gestão municipal pela do municipium romano. E isso talvez por ser a vila colonial cabeça de
lei de 1." de outubro de 1828." termo jurídico, e ter ainda o governo local de seus próprios (imóveis) e os
Nessa altura, há-de pensar o leitor: se existiam antes os municípios, foros e laudêmios do terreno aforado, fonte de renda para se manter.
embora "designados" vilas, para que a Lei dos Municípios (1.° de outubro Municipium na Roma antiga era a regalia de conservarem suas leis
de 1828)? E conclui, lógico: ou, ao contrário, as vilas até 1828 foram desig- dada a certas cidades conquistadas, que podiam ainda nomear magistrados
nadas municípios por dois professores equivocados; ou melhor, dois autores e onde era aberto aos cidadãos o exercício de cargos públicos em compe-
agora desarvorados? tição com o patrício, o cidadão romano. Naturalmente, instituição para ci-
Antes de prosseguir, o leitor permita uma pequena incursão no pas- dades que tivessem legislação compatível com o desenvolvimento da ro-
sado. Não há erudição alguma aqui, é o b-a-bá no curso superior de Geo- mana, e cuja manutenção só poderia contribuir para a estabilidade das re-
grafia e História, mais que sabido pelos que procuram fazê-Io bem. lações entre conquistador e vencido.
Tanto aos autores quanto a mim, o catedrático de História Geral, Ere- Os historiadores apontam o municipium como das mais inteligentes
mildo Viana, falou da po7/s grega e da urbs romana, centro irradiador de instituições romanas.
uma civilização que conquistou o mundo. Portugal, diante da tarefa de Como criado no Brasil pela Regência, o município é a micro-admlnis-
colonizar o Brasil, toma pé na costa com os engenhos de açúcar em torno tração regional, que ainda se exerce em área menor, o distrito-de-paz (cf.
do núcleo que por tradição chamava de vila; e ali ficou à espera de que
ARNAUD PIERflE EQUIVOCOS SOBRE PARAÍBA 199
198
nação com as manobras das Cortes do Reino, na tentativa de recolonizar
nota 47). Neles se subdivide a província, a cuja assembleia se liga, intima- o Brasil, e ansiosa pela sorte da Causa em seu ardor patriótico.
mente. Assembleia e município já foram chamados irmãos-germanos. Mas vamos lhes dar a palavra. Afinal, é gente sua:
Curioso é que o Ato Adicional (12-8-1834), coroa do processo de cons-
"O povoado tomou conhecimento da Revolução Liberal do Porto (1820),
titucionalização do País sustentado em luta com Pedro l até o Sete de abril que entrou em linha de colisão com o Brasil. O entusiasmo inicial (en-
de 1831, ainda nomeie o município no artigo 1." como distrito, por certo pela tenda-se, pela "Marcha-Batida-para-a-lndependência") deu lugar à realidade"
forte conotação do termo com território, que ele é. "Distrito" depois (pg. 79). Isso, no item 7.1; porém, no 7.4...
substituiu o "freguesia" da nomenclatura eclesiástica colonial. "a Paraíba do Sul sobravam razões para comemorar a Independência!
O Ato criou e designou "município neutro" o da capital do Império. Seu solo guardava, orgulhoso, parte do corpo de um grande sonhador do
É possível ter a designação influído na sua adoção para os demais da Feito: Joaquim José da Silva... etc." (pg. 81).
província, embora os mais afinados com os novos tempos, como Hilário, O leitor compreende o corte abrupto. Como deixar o Homem nessa
nosso primeiro presidente (cf. nota 49), já o utilizassem desde 1833. brincadeira?
Para concluir a explanação, longa mas indispensável, nada melhor que A falta de lógica dessa abordagem aborrece ao mais distraído, mas
dar a palavra a um especialista do Municipalismo no Brasil, Aureliano de nos tranquiliza e assegura da inocuidade de equívocos assim. No fundo,
Sousa e Oliveira Coutinho (cf. nota 45). mostra que os autores não levam História a sério; ou a de Paraíba.
Estão em apêndice as decisões que tomou como ministro do Império Volta agora a desagradável tarefa de examinar mais equívocos — o
e da Justiça em consultas das câmaras de Cabo Frio e Campos, cidade e tema ingrato que Paraíba nos impõe — mas, paradoxalmente, começamos
vila antigas cujos vereadores se enrolavam nas malhas da legislação muni- por um que nada tem a ver conosco, como o jornalista Gonçalves Ledo
cipal, nova. A de Cabo Frio levou um pito por querer derrubar o pelou- também não. Mas que tem ele de, numa história de Paraíba, escapar da
rinho com as gloriosas quinas portuguesas; a de Campos, por recusar-se polícia de José Bonifácio "foragido na Argentina"? (pg. 81). E como pôde,
a passar título e tomar juramento aos oficiais de justiça, sob o pretexto naquele ano de 1823?
de "ser corporação administrativa, e não judiciária". Esse equívoco dos malogrados cronistas (conhecido em didática de
Essa velha função da vila colonial, como cabeça de termo judiciário, História por anacronismo), o de dar tal nome ao país 30 anos antes de
o município algum tempo ainda exerceu. adotado em 1853 pelas Províncias Unidas do Rio da Prata, é tolerável em
Continuemos porém estudando a origem de equívocos sobre Paraíba, autodidata, mas imperdoável em licenciado em História. Revela não só
na intenção de lhes obstar a carreira. E nisso, uma contribuição como a desconhecimento de História da América (do currículo na Faculdade), como
de Cibele e Marcelo de Ipanema, que os triplica, é de desanimar qualquer um. falta da já referida leitura paralela; e na didática, de história comparada,
E foi essa a primeira impressão. Uma segunda leitura, no entanto, ou seja, a contemporânea nos demais países.
revelou que o inverossírriel do relato não escapa ao mais ingénuo leitor. O Esse equívoco é invocado não para desdouro dos autores, mas para
descrédito dos autores, consequência lógica, anula o efeito pernicioso que lançar mais luz sobre o outro, já examinado, o da criação do município,
pudesse ter, essa contribuição, no necessário esclarecimento do passado mostrando não passar também de anacronismo.
de nossa cidade. Já disse não acreditar conheçam eles a natureza do municipium ro-
Mas o que estamos dizendo será mais bem julgado pelo leitor no pe- mano, instituto de Direito que nada tem a ver com circunscrição, mesmo
queno trecho que adiante extraímos do relato. Antes, uma palavra sobre jurídica como a vila colonial, e muito menos administrativa, qual nosso
a "classificação" de equívocos, inventada, com que iniciei este assunto, município. Donde se conclui: tivesse sido dada ao município outra de-
abordado com desgosto mas pelo interesse de Paraíba. É evidente que signação que não a da instituição romana, e não o confundiriam com a
o tal equívoco subjetivo tem endereço certo. vila só por ter sido a câmara colonial, indevidamente, denominada "muni-
Vejamos porém de que maneira balizam os autores o trajeto que ten- cipal" por desavisados antigos.
tam "sumarizar" como o de nossos antepassados na Independência. Mas se o casal endossa o equívoco antigo, gente estudiosa e pes-
Não é gratuita a escolha da época; antes se prende a ideia bastante quisadora, não; e tanto em História quanto Geografia, como vimos na in-
precisa do que seria o povoado logo depois da Independência. E a deve- cursão que de-propósito fizemos em Aires de Casal. Em sua Brazilica
mos ao brigadeiro Cunha Matos, autor da mais arguta descrição de Paraíba de 1817, como o admirável Monsenhor Pizarro nas Memórias de 1820, uma
ao tempo da barca. Passou para Goiás e o Norte em abril de 1823. e outra publicadas sob os auspícios do "vaidoso" criador das vilas reais,
Afora os doze do destacamento de veteranos aquartelado no Registo estas aparecem como tal.
(comando de tenente, com sargento, cabo e nove praças), os moradores Donde, e pela segunda vez, se conclui e em definitivo: o equívoco dos
do povoado seriam os barqueiros e demais empregados do Capitão Tira- autores sobre a criação do município é o típico anacronismo, interpretação
morros, que explorava a passagem na barca, cuja capacidade era de 20 de uma época pela ótica de outra (instituições, costumes, ideias etc.), sin-
bestas carregadas; e caixeiros das tavernas, vendas e algumas lojas de tomático da carência daquilo que fica depois que se esquece tudo o que
fazenda, isso já para a ponta-de-rua que era o Lavapés, onde moravam as se aprendeu.
famílias, apartadas do bulício no rossio fronteiro à barca. No centro dele, •A deixa da referência à Geografia de Casal faz-nos antecipar ao se-
os ranchos para os viandantes e tropeiros. Rio-abaixo pastavam as mulas gundo, quanto à nocividade a nossa história, o terceiro equívoco do casal,
e moravam as cunhas, sempre presentes no pouso movimentado de per- e sem trocadilho, pois ligado àquela ciência em que também está auto-
noite, mas por recato ausentes do relato do brigadeiro, que se refere apenas rizado a lecionar pela Nacional de Filosofia. Foi também o mais difícil de
às cafuas delas à beira-rio, cobertas de sapé. descobrir a origem, esse em Geografia.
Pois essa gente, na aparência tão simples, os autores já encontraram Pela citação de Monsenhor Pizarro na "linha" desse equívoco, julguei-o
surpreendentemente afinada com o que ia pelo mundo, vibrando de indig- consultado, admirado de haver o casal pesquisado o historiador na edição
200 ARNAUD PIERRE EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 201

disponível, a 2.a e do l. N. L., coleção de onze volumes da dimensão do seu Bandeira) desde 1928, talvez reacão do prefeito José Inácio às provocações
guia de leis deste ano, mas de 600 a 700 páginas, pequeno tijolo difícil até de Agripino Grieco no artigo do ano anterior, a data foi de novo gravada
de manter aberto. em bronze no obelisco do Centenário do Município (que na pg. 41 os Ipa-
Diante da trapalhada que armaram com a freguesia de São José do Rio nema julgam ser da cidade), por iniciativa de Herbert Abrahão |1901-1968).
Preto (pg. 156), mas lembrando da "serra das Abóboras" em Fernandes Pi- Os demais equívocos no livro em nada podem desvirtuar o levanta-
nheiro, numa se/a aproveitada pela Central apenas a 47 m sobre o nivel-de- tamento da história de Paraíba, rematando apenas a falta de discernimento
base no Paraíba em Três Rios, (pg. 176) localizada na "Folhinha Laemmert e estudo. Mas como a eles me referi, tenho por obrigação citar alguns.
para o ano de 1862" (pg. 177), imaginei que os conhecimentos geográficos Que os petropolitanos, por exemplo, protestem pelo fundador que lhes
dos autores bem os pudessem ter feito inferir em Pizarro aquele "São José inventaram (pg. 35 e 116), o major Júlio Frederico Koeler, administrador
da Serra do Sumidouro" (que é o nosso e está no volume 5.°, pg. 269), da fazenda do Córrego Seco e depois delineador do plano da cidade para
consultado o mapa, como Sumidouro no Paquequer, muito ao oriente e, por Pedro II. Ouvindo porém "algo" sobre o plano, na avenida Koeler, dedu-
isso, relegado com um "não vem ao caso ..." ziram o fundador com a costumeira segurança. Mas o conhecem tão bem
Pois nem isso fizeram. Desanimados de antemão pela espessura do que na pg. 176 o põem em 1857 "na implantação da estrada (a União e
volume e longos períodos de Monsenhor — vazados no latim, absoluta- Indústria), engenheiro que era", exatos dez anos depois de morto (cf. nota
mente corretos, meridianamente claros, e cheios de erudição de toda or- 59) e o confundindo com o filho, José Koeler, de quem naturalmente nunca
dem —, limitaram-se a citá-lo via o excelente Alberto Ribeiro Lamego, geó- ouviram falar.
grafo que não precisava ater-se à origem das freguesias, apenas ao geo- Isso de fazer história por placa de rua parece costume: sabendo aqui
gráfico e económico, que também se encontram em Monsenhor. Mas esse ' de José Miranda dono de jornal, e vendo a rua nas Palhas, deduziram o
não era o caso dos consulentes, que lançam mão de geógrafo, embora de "ativo jornalista" (pg. 233), o que não foi nem pretendeu; sim o músico
cultura invulgar, para escrever sobre história. De modo que, ignorando mantenedor da Sociedade Três de Maio depois da morte do maestro Guerra,
a origem de São José do Rio Preto, criam sobre ela enorme confusão, com os três filhos, o maestro Revermar de Oliveira e o amigo Juvêncio
divulgando equívocos "em série", e numa só página, a desastrada 156. Santana, entre outros. A rua o homenageia, e justamente, por esse serviço
É também a mais engraçada página dos autores, depois das descritivas à cidade; música também é cultura.
das emoções de nossos antepassados em várias passagens da história do Pela cidade, ainda se equivocam ao instalarem a câmara no pequeno
'Brasil. Além de equivocados, alertam os leitores para que não se equi- sobrado da Tiradentes (pg. 36), apenas a segunda cadeia em substituição
voquem, escrevendo sobre a freguesia de São José da Serra, paraibana à primeira, nos baixos do Registo, sobre o qual também se equivocam
de 1833 a 1874, sapucaíense até 1892, daí a 1987 petropolitana, e desde (pg. 80), deduzindo-o "protegido pelo quartel" quando eram a mesma cons-
então a emancipada cidade de São José do Vale do Rio Preto: trução. E ainda deduziram "a justiça distante" (pg. 87), julgando-a exclu-
"Não confundir o citado São José do Rio Preto — que é na atual Sa- siva de comarca por não saberem o que seja termo judiciário.
pucaia — com o de Petrópolis, tornado (1987) município de São José do Ainda na mesma página 87 confundem o Código Criminal com o do
Vale do Rio Preto" (pg. 156). Processo e, para os autores e encerrar, em 1834 "a província" (do Rio de
E linhas abaixo, escrevendo sobre a perda de área para Sapucaia: Janeiro) "acontece", ou seja, é criada pelo Ato Adicional. Mas o que fosse
"Em 1874, a primeira amputação: a freguesia de São José do Rio até então não explicam. Nem lhes foi perguntado.
Preto é desmembrada etc." Quanto à tentativa de trajeto pretendido pelos Ipanema em Paraíba,
Como se lê em Pedro Gomes da Silva, precedida de cisões em 1842 liga-se às suas intenções qualquer juízo final, a que se expuseram com o
(Sumidouro e Aparecida) e 1846 (sul de Petrópolis), foi a terceira cisão livro. É já agora esperado pelo leitor, sei, como sulparaibano talvez até
em nosso território. Assim, parece aí confirmar-se a velha observação sobre o exigindo de mim. Me excuso porém de fazê-lo, passando dados extra-
audácia: que necessidade tinham os autores de proclamar a própria, na livro para que julgue por si.
peremptória afirmativa "primeira amputação"? Mas dou opinião: boas as intenções, o que parecia certo até o livreto
O terceiro equívoco a examinar, já que levanta dúvida quanto à origem deste ano no Rio, claro que apesar dos equívocos absolvidos, pois "o sol
da cidade, a muitos passa despercebido, mas é o que mais revela falta nasce para todos", verdade que conheci na parede do armazém do "seu"
de perspicácia, não sei se inata ou por naturalmente pouco exercitada, na Zé-Maria, pai do Nilo. E isso eles vieram invocar sob nosso sol, "no
faina habitual da coleta de dados para as coleções. campus em que se efetivará" (ou efetivaria) "o projeto integralizador da
É falta de perspicácia admitir uma data — no caso, 1683 — como SIEC, com hortos botânico e zoológico e espelhos dágua, havendo espaço
tradição oral, ideia coletiva sobre fato ocorrido, ou de visu conhecido, para diversão e lazer para todas as faixas etárias" (pg. 7), concluídos "es-
passado de geração a outra e sempre registrado, como tal, pelo histo- tudo e planejamento" por dois especialistas, de quem citam o nome, "que
riador ou cronista perspicaz, que o respeita. Pois os autores cometeram em 11 de maio estiveram em Paraíba do Sul, visitando a área" (pg. 11).
em Paraíba a proeza de tomar por tradição uma data, registro cuja origem Trata-se de terreno de propriedade do município, soube na Prefeitura,
se pressupõe intelectual, evidentemente, ainda se equívoco, e no caso do de 250 000 m'2 e na periferia da cidade, zona do Morro Seco, o mesmo
Dicionário de Saint-Adolphe (cf. nota 3), o que de melhor temos catalogado que já entrou na dança dos contrastes do Pedro (cf. nota 18) e agora, ainda
sobre o País até o momento 1845, para citar criação deles e tão do uso e em sua pureza original, vemos sob ameaça de nela entrar de novo.
agrado. E tacitamente confessam o desconhecimento da obra, o que já Que o livro dos Ipanema revelasse a própria incapacidade de realizarem
nessa altura não causa surpresa, quando na pg. 64 escrevem: aqui o que se propunham, "ensino superior para o Vale Fluminense" (pg.
"É corrente no município que o assentamento inicial de Garcia teria 11), foi problema que para si criaram. O nosso é procurar neste final es
ocorrido em 1683," clarecer um capítulo, parece de última hora e estrategicamente inserido
Registrada em pequeno marco e placa no largo de Santana (praça da na parte III do livro, a dos fatos pitorescos trazidos ao Fórum de 89.
202 ARNAUD PIERRE EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 203

Nesse capítulo, em "n" passagens como dito, procuraram "tirar" o APÊNDICE 1


município de outro, por eles criado em Serra-Acima e renegado em Beira-
Mar, este ano, no livreto já examinado. Com isso, se envolveram na po- Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1989. limo. sr. Professor Américo
lémica em torno de uma placa de bronze sobre a história de Paraíba, Jacobina Lacombe, dd. presidente do l. H. G. B. Ilustre Professor.
restrita há três anos aos bastidores da Prefeitura e Câmara mas agora
oportuno divulgar. Esse Instituto há 81 anos é depositário do Tombo da Fazenda do Parai-
Em janeiro de 1988, o prefeito da época afixou na fachada do edifício, buna — Arquivo 1. 3. 6. — conforme ata da sessão de 29 de agosto de
que já servia 118 anos ao governo do município, uma grande placa de bronze, 1908. Trata-se de traslado de autos de ação judicial julgada em 1822 sobre
comemorando o aniversário de criação. Desastradamente, porém, sem a posse da fazenda. Pela simples leitura do índice dos assuntos neles
saber de quem, de onde ou quando — verificou-se isso depois —, "eman- ventilados, em boa-hora organizado pelo doador e apenso logo após a pá-
ciparam" o município, utilizando termo próprio ao direito de família, muito gina-de-rosto, pode-se aquilatar a importância da doação para nossa História,
conhecido, desnecessário explicar e utilizado, apropriada e figuradamente, já que parece conter a transcrição de documentos talvez desconhecidos
em todos os municípios que cercam Paraíba ou Vassouras, por exemplo. sobre o desbravamento da zona limítrofe das antigas capitanias do Rio de
Mas por simples ignorância da história do município (e aí vemos como Janeiro e Minas Gerais. Se assim for, sua leitura paleográfica, que ora
tardou esfe Pedro), não com a intenção de baixar a crista de Paraíba, o seu solicitamos, e publicação na Revista do Instituto, ao preparo da qual gra-
"panache". ciosamente nos propomos, podem significar a divulgação de mais uma página
Mas assim não entendeu um vereador, justamente o mais jovem na inédita da gloriosa saga bandeirante.
câmara passada. Mal-começou a legislatura do ano, Carlos Domingos de
Aguiar requereu a retirada da placa (requerimento em apêndice). E ela caiu. O VOLUME: folha-de-rosto e estado.
O moço e os colegas de requerimento agiram em sigilo de modo que, Em excelente estado de conservação, o volume contém 1268 folhas
em março, gabinete e secretaria do prefeito foram pegados de surpresa. tamanho-ofício, cuja transcrição datilográfica não exceda, talvez, a 100,
Antes da retirada da placa, tentou-se preservá-la de qualquer modo: houve dadas as largas margens de ambos os lados do manuscrito e a caligrafia
consultas, suposições, procura de onde tirar o município, como salvação. aberta do notário.
Um momento de esperança esteve no século XVI e capitania hereditária
da Paraíba do Sul, de que ninguém mais se lembrava, desde o "Grupo". A folha-de-rosto reza o seguinte:
Não se encontrou saída para fazer o município sair de outro: até o "Rio de Janeiro
Fórum de 89, quando conheceram a cidade os Ipanema, licenciados em Sentença Civil de Apelação passada a favor de
História pela Nacional de Filosofia. d. Anna Esmeria de Pontes
E aqui se acaba a estória da placa, pois do resto o leitor já sabe. viuva do Cap.m Christovão Rodrigues de Andrade,
Em meu tempo de estudante, o último ato do universitário era o braço apelante
estendido, no Municipal. Vivi o momento duas vezes. A infração a um Contra
deles sei chamar-se chicana', ao outro, felizmente, é tão rara que o povo Marcelino Pinto Ribeiro
até agora pelo menos não se preocupou em arranjar designação. José de Cerqueira Leite
Marianna Rita de Oliveira,
apelados.
Anno de 1822.
Arnaud Pierre Em outra caligrafia:
"Pertencem estes autos ao Coronel António José Barbosa de An-
drade (filho do Barão do Piabanha)."
À margem, ainda em outra caligrafia:
"O Barão do Piabanha (Hilário Joaquim de Andrade) filho do Cap.m
Mor Christovão Rodrigues de Andrade e de D. Anna Esmeria de Pontes
mandou encadernar no anno de 1859. Fazenda da Serraria 1860."

A FAZENDA DO PARAIBUNA — Geografia.


Na margem direita do rio do mesmo nome, a fluminense, e a cerca
de 3 km a jusante da atual vila de MonfSerrat, cujo nome lembra a devoção
de Garcia à Madona e a igreja guarda a imagem levada de sua fazenda,
foi uma das três abertas por Garcia Rodrigues Paes (São Paulo, 1661 —
Paraíba, 07-03-1738) na enorme sesmaria recebida de Pedro II pela abertura
do Caminho Novo de 1698 a 1703. É dessa época e ocupava seu extremo
norte. Ao sul do Paraíba o bandeirante abriu a fazenda de Narchea, e sobre
o rio a da Paraíba (1683), origem da mais antiga cidade fluminense de serra-
acima, Paraíba do Sul.
204 ARNAUD PIERRE
EQUÍVOCOS SOBRE PARAÍBA 205
Os limites dessa imensa gleba sobre o Caminho estariam no morro
do Cabaru ao sul, e ao norte no dos Três Irmãos, cujo "reconhecimento", N.° 5 — carta de Pedro Dias Paes Leme a Hipólito Gonçalves — 17G5
de 1818 e assunto do item 16 do índice, folha 292, será dos mais interes- fl. 139;
santes esclarecimentos da leitura do Tombo. N." 7 — carta de sesmaria de Matias Barbosa da Silva (trata-se do
O morro dos Três Irmãos parece demorar em terras hoje mineiras, e fundador da cidade mineira desse nome) — 1709 — fl. 169;
não à margem do Paraibuna, como supunha Pedro Gomes da Silva (1909-1971), N." 8 — carta de sesmaria de Tomé Corrêa Vasques — 1780 — fl. 180;
autor de uma inédita História de Paraíba do Sul para a qual, com o apoio N." 9 — carta de sesmaria do tenente-general Manuel de Borba Gato
do I. H. G. B. e l. N. L., esperamos chamar a atenção dos editores. (famoso bandeirante da época de pesquisa do ouro, genro de Fernão Dias
Da nunca realizada demarcação das terras de Garcia parece tratar-se Paes e cunhado de Garcia Rodrigues Paes, fundador de Paraíba do Sul) —
o item 3 do índice, fl. 18 — "Provisão de D. José l, 1758". 1707 — fl. 191;
N.° 13 — carta de sesmaria do coronel Domingos Rodrigues da Fon-
A FAZENDA DO PARAIBUNA — História seca (cunhado de Garcia, um dos fundadores de Barbacena e que, depois
Segundo filho varão e único herdeiro de Garcia Rodrigues Paes, Pedro de 1703, ajudou na conclusão do Caminho na região serrana da futura Minas
Dias Paes Leme (Rio 1705-1785), rico de terras e cumulado de títulos' e Gerais) — 1713 — fl. 246;
pensões valiosas, lembrou-se de juntar ao nome o Lems flamengo, distante N." 23 — carta de sesmaria do Ten. Gen. Manuel de Borba Gato —
9 gerações em Portugal e na capitania de São Vicente mas nobilitado no 1707 — fl. 323;
século XV por Afonso V por façanhas na África. Por sua morte, a fazenda N.° 27 — carta de sesmaria do Cap.m João Ferreira da Cunha — 1783
passou ao também segundo filho, Garcia Rodrigues Paes Leme, na partilha — fl. 639;
de seus bens pelo tabelião Inácio Félix de Carvalho, no Rio, a 7 de abril N." 28 — Tiradentes como procurador de Cunha, e fiador — 1783 —
de 1785. Foi de sua viúva que comprou a fazenda em 1805 o capitão Cris- f l. 640;
tóvão Rodrigues de Andrade, avô do doador do Tombo. N.° 29 — procuração de Tiradentes — 1783 — fl. 649;
Quem seria o capitão? Um dos mineiros desiludidos com o esgota- N.° 39 — carta de sesmaria de Inácio Dias Velho (trata-se do filho mais
mento do ouro, que refluíram sobre o Caminho e o povoaram, desde fins moço de Garcia Rodrigues Paes) — 1743 — fl. 1141.
do século XVIII, e foram pais dos barões do café? A identidade e origem Na expectativa da boa acolhida a este pedido, desde já agradecido e
do capitão Cristóvão taivez sejam reveladas pela leitura do item n." 4 do
índice, fl. 74, que trata da compra-e-venda da fazenda em 1805. Muito Atenciosamente,
Segundo Pedro Gomes da Silva, o capitão teria sido comerciante grosso
na Paraíba, antes de fazendeiro. Provado temos que foi aí testemunha de (a) Arnaud Pierre.
casamento em 1803, por assinatura em livro de assentamento da paróquia,
aberto em 9 de junho de 1795 por Monsenhor Pizarro.
A sede do Paraibuna já em 1867, pelo menos, fora alienada pelos An-
drade, pois então já estava à venda por Cândida Carolina Carvalho. Dos APÊNDICE 2
Andrade à época era a fazenda de Serraria, com nova e grande sede sobre
o Paraibuna, mais a jusante sobre o rio e próximo à vila daquele nome. DECISÃO N. 345 — IMPÉRIO — EM 28 DE JUNHO DE 1833
Finalmente, Serraria foi vendida em 1902 ao major Francisco da Rocha
Vaz e seu filho, Libânio de Sousa Vaz, de Sousa Aguiar e sobre o Paraibuna Declara á Camará Municipal da Cidade de Cabo Frio que não pôde ser
no lado mineiro. A sede da fazenda hoje está em ruínas. demolido o Pelourinho existente na mesma cidade, sem deliberação do
O DOADOR DO TOMBO Poder Legislativo.
Ao fim do índice que organizou para orientar a leitura, o coronel Lau- Sendo presente á Regência o officio da Camará Municipal da Cidade
riano Rodrigues de Andrade, terceiro filho varão do barão do Piabanha de Cabo Frio na data de 7 de Maio próximo passado, acompanhando a pro-
(1796-1865), declara que "organizou este resumido índice e lançou as notas posta de um dos seus membros para se demolir o Pelourinho da dita cidade,
ã margem em tinta vermelha". Data a declaração do Rio, a 23 de agosto por ser a sua conservação contraria ao actual systema de Governo adoptado
de 1908. Parece, era então o sobrevivente dos irmãos Andrade que, em- neste Império, e só própria dos costumes bárbaros, hoje inteiramente abo-
bora se afastando da política, dominaram a vida social e económica do lidos: Manda a mesma Regência, em Nome do Imperador, pela Secretaria
norte do município de Paraíba do Sul até o fim do século XIX. Eram de Estado dos Negócios do Império, declarar á referida Camará, que deve
todos da Guarda Nacional e, quando da morte do pai, tanto Hilário, o mais conservar o dito Pelourinho, enquanto por alguma deliberação do Poder
velho, como António José, o segundo, tenentes-coronéis. Legislativo se não mandarem destruir todos os que existirem no Império:
O ÍNDICE — resumo cumprindo que abandone a idéa de terror, e de escândalo, que pretendeu
incutir á mencionada proposta a respeito desse monumento, que já desde
O coronel Lauriano assinalou e numerou nos autos 41 passagens de mui remotas épocas não tem outro destino mais, do que indicar ser a po-
interesse, por nós transcritas apenas as que, ã primeira leitura, parecem voação, em que está collocado, revestida do caracter de Cidade ou Villa,
conter maior novidade. Destacou de cada uma o ano a que se refere e cabeça de um Termo, sede principal das autoridades judiciaes, encarregadas
a folha do Tombo em que se encontra. de administrar nelle justiça.
N.° 2 — provisão do Desembargo do Paço com referência às conces-
sões a Garcia Rodrigues Paes — ano de 1817 — f l. 08; Palácio do Rio de Janeiro, em 28 de Junho de 1833. — Aureliano de
Souza e Oliveira Coutinho.
206 ARNAUD PIERRE

APÊNDICE 3
BIBLIOGRAFIA
DECISÃO N. 630 — JUSTIÇA — EM 22 DE OUTUBRO DE 1833

Ordena que a Camará Municipal da Villa de Campos cumpra o disposto


1. ANTON1L. André João (João António Andreoni, SJ) — Cultura e Opulência do Brasil pó,-
no artigo 50 do Código do Processo Criminal. suas drogas e minas, Lisboa, 1711 (São Paulo, 1923).
O artigo 50 do Código do Processo Criminal incumbe ás Camarás Mu- 2. AREALENSE — Areal, 1901.
nicipaes dar os títulos e o juramento aos officiaes de Justiça nomeados pelos 3. BEVILACQUA, Clóvis — História da Faculdade de Direito do Recife (1927); I.N.L., 1977.
Juizes Municipaes, e tendo o da Villa de São Salvador dos Campos repre- 4. BORBA. Tomás e Fernando Lopes Graça — Dicionário de Música, Lisboa, 1958.
sentado que a Camará da mesma Villa recusara passar os ditos Títulos 5. CANABRAVA BARREIROS, Eduardo — D. Pedro — Jornada a Minas Gerais em 1822,
com o pretexto de ser corporação administrativa e não judiciaria; Manda J. Olympio, Rio, 1973.
a Regência, em Nome do Imperador, pela Secretaria de Estado dos Negócios 6. CAPISTRANO DE ABREU, João — Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil, Rio, 1899.
da Justiça, que a sobredita Camará cumpra o disposto no mencionado artigo. 7. CAPISTRANO DE ABREU, João — Capítulos de História Colonial, Rio, 1906.
8. CARTA RÉGIA de 10-05-1753 — Revista IHGB, vol. 6, 1844.
Palácio do Rio de Janeiro, em 23 de Outubro de 1833. — Aureliano de 9. CASAL, Manuel Aires de — Corografia Brasílica ou Relação Histórica e Geoaráfica do
Souza e Oliveira Coutinho. Reino do Brasil, 1817; Ed. Itatiaia e USP, Belo Horizonte, 1976.
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11. CUNHA MATOS, Raimundo José da — Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão
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12. D'ARAÚJO GUIMARÃES, A. C. — A Corte no Brasil, Ed. Globo, Porto Alegre, 1936.
13. DERBY, Orville A. — Os primeiros descobrimentos de ouro. São Paulo, RevisM IHG, 139S.
EXMO. SR. PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE PARAÍBA DO SUL.
14. DIÁRIO FLUMINENSE (1831), Rio de Janeiro, Revista IHGB, tomos 60 e 64.
15. DIÁRIO DO GOVERNO (1824), Rio de Janeiro.
INDICAÇÃO N.° 02/88 16. DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 1857.
17. DICIONÁRIO DE MÚSICA, Londres, 1982. Trad. Zahar Editores, Rio, 1985.
Nos termos regimentais, após aprovado, os vereadores que esta subs- 18. DUTRA, Teófilo (padre) — Flores e Flores, 1929.
crevem solicitam e fazem ver ao Sr. Prefeito Municipal a necessidade de 19. ENCICLOPÉDIA dos Municípios Brasileiros, IBGE, 1959.
corrigir a placa afixada na parte externa do prédio desta Prefeitura, cuja 20. ESCRITURA de ajuste de obras entre o Comendador Hilário Joaquim de Andrade e
inauguração teve efeito no dia 15 de janeiro, comemorando o 155° Aniver- António da Silva Pereira de Azevedo (segunda matriz da vila), Cartório de Joyo José
sário do Município. da Rocha, Paraíba do Sul, 30-09-1841.
Em virtude da falta de conhecimento histórico e dos princípios de 21. FUNDAÇÃO DA CASA DE CARIDADE de Paraíba do Sul (opúsculo), 1989.
criação do Município de Paraíba do Sul, encontra-se de forma incorreta, ali 22. GERSON, BRASIL (Brasil Gorensen) — História das ruas do Rio de Janeiro, Livraria
devendo constar da seguinte: Brasiliana Ed., 4.' edição, Rio. 1965.
1) Palácio Tiradentes 23. GERSON, BRASIL (Brasil Gorensen) — O ouro. o café e o rio, Brasiliana, Rio, 1970.
2) Sede da Câmara Municipal e 24. GRIECO, Agripino — Paraíba do Sul, do fastígio agrícola à estagnação dos burocratas.
Prefeitura Municipal de Paraíba do Sul Suplemento do Bicentenário do Café, O Jornal, Rio, 15-10-1927.
3) Criação do Município: 15 de janeiro de 1833 25. GRIECO, Agripino — Memórias, 1.» vol., Conquista, Rio, 1972.
26. INVENTARIO do espólio da baronesa da Paraíba, Cart. Alves Filho, Paraíba do Sul, 1864.
Enaltecemos a intenção de dotar a frente deste prédio de uma placa, 27. JORNAL, O — Rio de Janeiro, 1927.
identificando as funções nele exercidas, mas ao autor dos dados inseridos, 28. JORNAL DO BRASIL — Rio de Janeiro, 1991.
por falta de maiores conhecimentos e no afã de inaugurá-la, passaram des- 29. JORNAL DO COMMERC1O — Rio de Janeiro, 1919.
percebidos fatos importantes e verdadeiros da identidade do Município. 30. LAMEGO, Alberto Ribeiro — O Homem e a Guanabara, IBGE, 2.= edição, 1964.
Desnecessário aqui reportar aos dados que deram denominação ao pré- 31. LAMEGO, Alberto Ribeiro -— O Homem e a Serra, IBGE, 1950.
dio e da criação do Município, por ser do conhecimento de quantos se 32. LEÃO, Manuel Vieira, Sgto.-Mor — Carta Geográfica da Capitania do Rio de Janeiro, 1801.
interessam pela história de nossa cidade. 33. LEIS DO IMPÉRIO DO BRASIL, coleção — Imprensa Nacional, 3.' edição, Rio, 1908.
Contamos com a compreensão e as providências que por certo dis- 34. LEME, Luís Gonzaga da Silva — Genealogia Paulistana, São Paulo, 1903/05.
pensará ao acima denunciado. 35. LEME, Pedro Taques de Almeida Paes — Nobiliarquia Paulistana, Lisboa.
,Sala das Sessões, 3 de março de 1988. 36. LIVRO DE ASSENTOS da Paróquia de N. S. da Conceição da Paraíba, 1795.
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WERNECK. Francisco Klbrs — Os primeiros povoadores de Vassouras e seus descen-
porvir de Paraíba do Sul
84. rumo ao 4.° centenário.
dentes (Idem).

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