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Y

A edição deste livro foi possível graças ao apoio financeiro de

ARGO —

INDÚSTRIA H COMÉRCIO S. A. Metalurgia em geral

CERÂMICA VAZ LTDA. Sítio do Castelo -— Chacarinha

Cia. das AGUAS MINERAIS SALUTARIS Parque das Fontes e Hotel

COMÉRCIO

DE PETRÓLEO TRIÂNGULO LTDA.

Posto São Geraldo — Barão de Angra

FÁBRICA

DE RENDAS FINAS

PARAÍBA S. A.

Primeira em seu qênero no País

VIAÇÃO SALUTARIS E TURISMO S. A. Rio de Janeiro — São Paulo — Vitória da Conquista

PREFEITURA MUNICIPAL

DE PARAÍBA DO SUL

(BA)

Veada em benefício da instituição de

pública federal que o edita

utilidade

IRMANDADE NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Asilo — Educandário — Hospital

Rua Provedor

Randolfo Penna Jr

300

Morro de Santo António,

PARAÍBA DO SUL, RJ

PEDPÒ GOMIuS DAÔÍLVA

CAPÍTULOS DE I116TÓQ1A DE

PADAIDA DO SUL

NOTAS E ESTUDO

ARNAU D PIERRE

Jfewfoitur* Municipal d* Pajsdba 4»-9«.t da Conceição .\. Ptiss«*

do Registro

N? de Acervo

PARAÍBA

DO SUL

199 1

A divulgação deste livro teve o apoio de

JORNAL DE PARAÍBA DO SUL (diário) e RÁDIO JORNAL DE PARAÍBA DO SUL FM

Silva, Pedro Gomes da

1909-1971

Capítulos de História de Paraíba do Sul

/

tudo de Arnaud Pierre. — Paraíba do Sul, RJ; Irmandade Nossa Senhora da

Pedro Gomes da Silva; notas e es-

Piedade, 1991

208 p.:

il.;

21 cm

Bibliografia

Inclui índice

:

p.

207

e

208

1.

Paraíba do Sul (RJ) — História

l.

Pierre, Arnaud /

II Título

CDD

- 981.53

EDITORA — Cia. Brasileira de Artes Gráficas

Janeiro - RJ

Rua Riachuelo, 128 - Centro

-

Rio de

Tiragem desta

edição 1 000 exemplares.

ro

0020

índice

agradecimento

 

apresentação

 

7

prefácio

9

15

o- caminho

novo

 
 

21

freguesia da santa virgem

31

fa' villa

de parahyba

'cidade de parahyba do sul

39

61

'o foro dos cearenses

   

73

Õ lavapés

e

a ponte

85

;.<ó município —

freguesias

91

são josé do rio preto

92

 

^sebolas

 

94

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encruzilhada

 

100

J'tr

bemposta

105

to município — distritos

109

 

entre-rios

110

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areal

113

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115

S cidade de veraneio

 
 

121

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os barroso pereira

127

|os pereira nunes

 

133

|os\ santos werneck os santa-justa

137

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fazendas

pioneiras

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várzea

 

governo

sebolas

três barras

mato-grosso

matozinhos

boavista

santana

fazendas

"filhote"

glória di

recato

paciência

reforma

rio-novo

cruz

santa

são

da

rosa

João

equívocos sobre paraíba apêndice 1

bibliografia

apêndice 2

apêndice 3

apêndice

145 i•

146

149

151

155

158

161

164

f

1

169 !

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189

203

205

206

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207

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J

i 1

Agradecimento

Suiparaibano de adoção, quando escolhi viver em Paraíba do Sul, há quase quarenta anos passados, já Pedro Gomes da Silva começara sua carreira pública e se estabilizara na pro- fissional definitiva, como servidor da coletoria das rendas esta- duais. De modo que não o conheci moço e em formação, na- quela época da vida que, se comparada às de mais tarde, pode-se

aceitar como de lazer e voltada a prazeres e amizades. Os afazeres profissionais e de família, dele e meus, por

fim não nos proporcionaram oportunidade de contato maior; mas

há. muitos anos, já, ouvi que escrevera sobre nossa cidade. E a oportunidade de vir a ser publicado sob os auspícios desta Irmandade a que serviu como provedor, antes de mim, me pa- rece muito feliz a quantos amam nossa Paraíba e querem a esta centenária instituição, nascida do povo, fundada que foi por gente enobrecida sob a bênção do trabalho. Como sabemos, de trabalho foi a vida do visconde do Rio Novo, da condessa sua esposa e do amigo e companheiro de lutas no início, o barão Ribeiro de Sá, que dirigiu nossa Instituição em momento difícil 6 a encaminhou à vitória e perenidade, enquanto senso de res- ponsabilidade social e fraternidade houver entre os homens. Sei que Pedro Gomes da Silva fala dos fundadores desta Irmandade quanto à vida particular, de luta diária, organizada, orientada para a estabilidade própria e da comunidade, enfim, para um objetivo que,, rnais de século passado sobre eles, os que vivemos hoje bendizemos e temos por Deus abençoado.

p É quanto basta, essa notícia dos Fundadores enquanto ho-

mens e fora de seus planos e preocupações com esta Casa, p"ara justificar a publicação desta obra sob sua responsabilidade.

Quánto mais soubermos deles e de como viveram, e de seus íjontemporâneos que nos legaram esta Paraíba, tanto mais sã-

s''à-;--

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f.

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m

beremos como trabalhar aqui e passá-las, a Cidade e esta Casa, aos que vierem depois de nós.

Gonçalves d'As-

Cumpre

agradecer ao professor Manoel

»f ; cenção a notícia que nos deu sobre o livro que publicamos. E aos amigos desta irmandade e de Paraíba do Sul, que nos aju- daram a fazê-lo : os srs. Nelson Espíndola de Aguiar e Francisco N. Mello Portela, por suas firmas; e os srs. sócios de ARGO — Indústria e Comércio S/A., Cerâmica Vaz Ltda., Fábrica de Ren-

das Finas Paraíba S/A.

Agradecemos ainda a nosso prefeito, o sr. Ronaldo de Oli- veira Santos, a quem desejo também saudar pela tão sonhada recuperação do Palacete Ribeiro de Sá, agora nossa "Casa da Cultura", onde Paraíba do Sul aprenderá a estimar-se mais, cul-

tuando os que trabalharam por ela no Passado.

e Viação Salutaris e Turismo

S/A.

Octavio Vieira

Provedor da Irmandade Nossa Senhora da Piedade

Apresentação

A publicação de sua obra foi preocupação do autor, sobre-

tudo nos últimos meses de vida. Decepcionado, Pedro Gomes da Silva viu o malogro de várias tentativas; e trabalhávamos em conjunto para o fazer quando faleceu, faz vinte anos. Seu aparecimento assim, sem qualquer mediação da família, deve e precisa ser esclarecido.

O texto nos veio das cópias que o amigo de mocidade e

compadre, Pedro Ivo de Oliveira (1905-1978), tinha em seu ar- quivo sem que nem mesmo a família soubesse. Avaliando a seu pedido o que Ivo deixara^ em dezembro de 1982 dei com a cópia dos originais que datilografara para o amigo, na costumeira paciência e cuidado. Reconheci logo o (livro que tivera em mãos de maio a julho de 1970. Começou então um período de renovadas tentativas junto • aos filhos do autor, para anotar a documentação que vira em sua casa e não registrada nas habituais notas de pé-de-página. Basicamente, é Pizarro e Basílio (ver notas ao texto), e transcri- ção da documentação forense, de que ainda encontrei com Ivo muita cópia. E jornais antigos de Paraíba, nos quais fazia eu

m também "arrastão" nas coleções da Biblioteca Nacional, para -.o cotejo com o dele, a fim de melhorarmos a informação em csua obra, já que havia em ambas as coleções muita falha. Revelando com pesquisas em nosso foro o retalhamento da ,'grande sesmaria de Garcia Rodrigues Paes nas fazendas de ; café que deram origem ao município, nosso autor escreveu his- itória autêntica, distinguindo seu trabalho da costumeira com- pilação de portarias e decretos tida por história na maioria das (Cidades do interior. Fatalmente, passou à genealogia das fa- .'mílias conquistadoras da terra, passo inicial para o ulterior es- tudo e interpretação do passado, em qualquer coletividade. A imuitos pode parecer enfadonho esse levantamento, indispensá- vel a obra inicial sobre uma história, como a que nos deixou.

mm

,

ii

10

Desde que li seu livro, percebi estar ali a pedra angular do edifício de nossa história municipal. Antes das fazendas, Pa- raíba é uma travessia de rio na serra vazia, resumindo-se nossa

x história colonial de isolamento na Serra a ponto de apoio aos '/^viandantes do caminho de Garcia; e nosso autor relata o período

' utilizando a maior autoridade no assunto, Basílio Magalhães, re- velador de toda a documentação a respeito. Volta à originali- dade na abordagem de certos aspectos sociais da vila e cidade, levantados nos jornais sulparaibanos da época. No trabalho de Pedro tive a revelação da singularidade de nossa história. E eu, que começara a pesquisar apenas para nele melhorar a conotação geográfica, após sua morte e em contato com seu colaborador, Pedro Ivo de Oliveira, prossegui nas pesquisas; e as notas ao livro refletem aonde conseguimos fevá-las, restrita sempre a exposição ao tema no texto.

passado, obscuras

Determinadas

ocorrências em

nosso

ainda ou apenas ligeiramente ali abordadas,foi preciso focalizar

com mais detença, por oportuno e necessário o esclarecimento.

Ê

comumente a dimensão adequada; e mesmo assim o desenvol- vimento do tema, ali, ainda não satisfaz a divulgação desejável

e que nossas pesquisas no ponto em que estão poderiam pro-

porcionar. Pareceu no entanto indispensável, ao publicar texto escrito há 50 anos, levar a anotação ao menos a dar ideia do que hoje se conhece sobre o abordado pelo autor. Baldadas todas as tentativas de interessar a família de Pe- dro Gomes da Silva a publicar sua obra, já então interessado RU próprio na história da cidade, continuei o levantamento do caminho de Garcia no município, que iniciara com ele no fus- quiriha azul em que vinha cedinho de Três Rios, onde morava por conveniência, para o "bate-papo" amigo no bar fronteiro à Prefeitura. Os trechos do caminho reduzidos a pasto, levan- temos depois a pé, tracando-o em mapas do IBGE orientado por fazendeiros amigos da roda no bar, entre os quais Ladislau Gue- des, o "Farelinho", nascido e criado na "Barreira"; "Jucá" Paiva, da "Cincorá"; e Alberto Paes, eufórico ao saber que a sua fa- zenda da "Itiaca", no eixo do Caminho, era ali a mais antiga e

o caso da criação do município. Com isso, a nota ultrapassa

certamente fora pisada por Garcia.

Da leitura do original

depreendi

a deficiente conotação

geográfica, normal em autodidata (e até historiadores, como se verá adiante), mas indispensável à História em Paraíba, nascida fazenda "canteiro-de-obra" da construção de um caminho. Des- se aspecto, já disse, cuidei levantando-o no terreno (já bastante obeso, Pedro não podia fazê-lo), enquanto ele focalizava os construtores na série de artigos de 1970/1 em "O Cartaz", a que chamou "Três Viaristas Fluminenses", Garcia, Proença e o

"Tiramorros".

!?v

11

Ansioso pela publicação do trabalho, confiou-me o original,

para a tentarmos pelo Instituto Nacional do Livro, que então fi-

em co-edição com firmas

comerciais. De meus tempos de jornal conhecia no l.N.L. o erudito, quanto modesto, José Galante de Sousa, secretário mantido por todos os diretores, dada a capacidade e dedicação. E fiscali- zação "feroz" das edições, concluí logo terminada a leitura do original, certo de que não deixaria passar o "anedotário his- tórico" do nosso Pedro com a chancela do Instituto. Devolvi-lhe assim o trabalho para que ele próprio o "ade- quasse" ao gabarito de uma edição do l.N.L. Mas para não per- dermos as anedotas, boas, sugeri uma seção para elas no "Me- mórias de um Garção de Hotel", o livro que anuncia no prefácio, sugerindo até o título: "À margem da história de Paraíba". Trabalhava nisso quando "fez aquela falseta aos amigos, na única vez em que não lhe acharam graça", como se despe- dindo disse um de Três Rios ante sua eça na Prefeitura. À falta de título, e parodiando o de grande livro de Capis- trano de Abreu — "Capítulos de História Colonial", e ainda •para nos colocar, o autor, a obra e a mim, com as notas, sob a égide de nosso maior historiador, denominamos "Capítulos de História de Paraíba do Sul" a esta primeira coletânea de traba- lhos cronologicamente concatenados sobre nosso passado. É •ainda homenagem à clarividência do grande estudioso, por certo •o primeiro a ver no remanso a origem de Paraíba e aonde da .serra mineira vinha ter a trilha puri, onde Garcia pôs a barca e •donde descia o ouro para o Rio, o Reino e o mundo. De outro modo não se explica o interesse de Capistrano pelo rio, na visita registrada pelo "Parahyba do Sul" em maio :de 1902, a convite do amigo e correspondente José Geraldo Bezerra de Meneses, que o hospedou. Acamado e sem poder i acompanhá-lo Zezé Bezerra, que nada deixou escrito, teve a hfeliz ideia de pedir a um vizinho, que escreveu demais, servisse

nanciava

inéditos

de valor

cultural

s guia ao sábio pela cidade. E foi assim que aos 84 anos e rememorando certa manhã dos 13, em ambas as ocasiões sem jerceber o alcance da visita de Capistrano para a história da -cidade, que Agripino Grieco em suas memórias lhe prestou o ;único serviço em toda a vida. Sem mesmo se dar conta, regis- trou o interesse do grande historiador pelo rio, ou melhor, pelo .remanso, razão de sua vinda a Paraíba. Sem esse registro distraído de Agripino, e estaria perdida ípara sempre a memória do reconhecimento do remanso pelo !*rnèstre, com o empobrecimento evidente de nossa crónica em fHIstória, já que a.nota do jornal de 1902 é apenas o,registro da fféstada/e o elogio da cidade, honrada com a visita;-v, t : : ,,;, -n

•^

12

"Percorremos trechos à beira

do Paraíba, que ele achou

suj o e sem graça " ("Memórias" ,

1.° volume, pg. 55, Rio, 1972).

Na inocênci a dos

13 anos, e de Geografi a e História

de

t^toda a vida, Agripino Grieco mal-sabia que a graça daquela via- ' gem estava exatamente no rio, a confirmar a tese do grande historiador no "Jornal do Commercio" de três anos antes (1899), "Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil", de que tais cami- nhos não passavam de trilhas indígenas aproveitadas pelo branco

em sua construção. No ensaio magistral ainda trabalhou o grande cearense vin- te-e-dois anos, até a edição de 1924, definitiva, consagradora,

e a três anos apenas da morte. Mas na inconsciência do serviço prestado a Paraíba, preo- cupado tão-somente em engrossar o magro volume de memó- rias, o velho cronista deixa escapar ainda outro momento em prol da nossa história, pois na sequência do período confirma — "não sei como" — a preocupação do mestre em ter mais ampla visão do rio, apertado e rápido, na falha tectônica que De Martonne identificaria, o que torna o remanso mais incomum em torrente viva de montanha. Do morro da Caridade (Agripino "galgando a colina") pôde ver Capistrano por onde continuavam os índios do outro lado do rio, na migração contínua atrás de caça e na coleta de frutos silvestres; por onde Garcia depois prosseguiu a caminho do Rio; e de onde quatro anos antes (1898) Paulo de Frontin chegou a

Paraíba com a sua Melhoramentos do Brasil.

É o vale aberto do ribeirão do Lucas, o "Yuca" dos índios

como ensina Pedro, cujo boqueirão na cadeia de morros

longo do rio se abre na outra margem, ao mesmo nível do morro de Santo António (Caridade) e quase em frente. "E acabamos galgando, não sei como, a colina da Casa de Caridade", continua o cicerone de Capistrano de Abreu em Pa- raíba, encerrando a visita ao morro narrando um caso, a meu ver, digno de ser recolhido por Pedro à segunda seção do "Me- mórias de um garção de hotel", dada a notabilidade de um dos

.1

ao

personagens e a gaiatice do outro. Por certo sob o centenário tamarindeiro que ainda lá está, e mais certo ainda azucrinado todo o tempo pela tagarelice ga- bola do menino, valeu-se Capistrano do pretexto de não saber de que árvore se tratava para reprímenda de desabafo. Nosso Agripino não se fez de rogado, e contou a descom- postura "ilustre" setenta anos depois, talvez para não perder vaza de gastar termo rebuscado, tão a seu mau-gosto; pois o

"descomponenda".

que levou do mestre foi para ele uma

"Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil" insere a fun- dação de nossa cidade na temática do grande historiador, "ver-

;

13

dadeira rota nova na historiografia brasileira", como escreveu o ilustre José Honório Rodrigues no prefácio à 4.' edição (Cia:

Civilização Brasileira em co-edição com o Instituto Nacional do Livro, Rio, 1975).

de Pedro expõe pela primeira vez em

nossa história a tese do remanso como determinante da traves-

sia do Paraíba e consequente localização da cidade, apertada entre morros e rio, com desenvolvimento possível graças a um

que deve à engenhosidade do vereador Júlio

Frederico Koeler (cf. nota 59). A tese é básica na confirmação de 1683 como ano de aber- tura da fazenda por Garcia, como está em Saint-Adolphe (cf. nota 3), vista em documento que compilou, ou lhe mostraram, e ainda não divulgado. (Em apêndice a estudo neste mesmo vo- lume, damos notícia de um nessas condições há 83 anos no arquivo do l.H.G.B.) Eis por que as quatro linhas de Agripino sobre Capistrano em Paraíba têm tanta importância, e nos me- receram o espaço, pois aliado do peso do mestre numa tese só louco despreza. Mas nem só por isso citamos as "memórias" do conterrâ- neo: num livro sobre nosso passado tem registro indispensá- vel a visita do mais ilustre cidadão que já pisou esta terra. Pedro Gomes da Silva já se afasta de nós uma geração. Enquanto outros prefeitos e deputados nossos se esquecem no ••passado, por um trabalho de amor e dedicação a sua terra tem

s vida perene em nossa história. E essa foi a rninha preocupação

Vi nos vinte anos transcorridos

^registrada minha admiração por seu trabalho. Não cabe aqui biografá-lo, sim, dar aos novos ideia de quem .lembrando a personalidade singular. De sua formação de

A

nota 34 ao texto

plano urbanístico

desde sua morte.

Quero deixar

lútodidata dá ideia precisa o prefácio, que ao leitor revela de jlíediato sua inteligência e objetividade. Fácil é ver-se que em

do começo, e personalidade for-

% foi um desafiador de convenções.

Ipnsequência das dificuldades

l A s notas ao prefácio procuram dar ideia d a Paraíba em que

E ele, que tanto amou a cidade, nas-

arraial do Bom Jesus de Matozinhos, a

2,1 de junho de 1909, e em nossa antiga Entre-Rios, a 21 de no- ifembro de 1971.

^ Foi o mais popular sulparaibano de sua época, mesmo sem

feargo eletivo desde 1958, quando perdeu eleição e sofreu muito,

fsegundo amigos. E dele poderia dizer-se que os criava tão

ífacilmente quanto a desafetos, pois era difícil o controle da f Irreverência. Se já se disse de alguns que sacrificam amigo |por trocadilho bem colocado, de nosso Pedro talvez se pudesse

e tinha o gosto de rir. Disso Pa-

Idizer o mesmo. Sabia fazer

;iveu, e de sua formação.

|èu e faleceu fora : no

raíba toda sabia, e muitos sofriam na pele. Mas tão interessado em tudo e em todos vivia, que estava sempre cercado de ami- jjos, cuja roda dominava com a personalidade invulgar.

dos que lidavam

Essa "humanidade" cie Pedro, conhecida só

com ele de perto, granjeou ao ferino e mordaz o maior ciclo de amizades que em nossa cidade já houve. Tanto que sua morte foi das maiores comoções em Paraíba e Três Rios, a outra ci-

dade Nesta que amou. notícia do autor penso mais nos vindouros, pois é com eles que há-de viver como personagem de nossa história. Creio ter sido a irreverência, de que já falei, o traço mais carac- terístico de sua personalidade, mas também a maneira com que o humilde, inteligente, sagaz e ambicioso, procurou um lugar ao sol num mundo de preconceitos. Nos empurrões que lhe deu,

descobriu-lhe os pés de barro.

E então se afirmou.

Foi nosso primeiro

prefeito de origem

humilde,

e

pobre;

primeiro nomeado (de abril a outubro de 1946], depois eleito, com mandato de 12 de abril de 1947 a 27 de janeiro de 1951.

E na década de 50 ainda representou na Câmara Estadual a ve-

lha terra Paraíba de barões. se manteve até aqui inconsciente de seu passado. As regiões mais desenvolvidas do País há muito cultuam tra- dição e história, e uma Parnaíba, Sorocaba ou Itu sabe perfei- tamente que uma coisa é estar em suas ruas, outra em Vali- nhos; mesmo na "Festa do Figo".

de Sebolas foi espe-

Há vinte anos, o Conjunto

Histórico

rança da tomada de consciência desse valor. Por falta de pre-

paro de dirigentes e povo, ficou iniciativa isolada. Mas temos agora a par da primeira história

cuperação do Palacete, sede de nossa "Casa da Cultura". Inau- gurada a 31 de agosto junto a escolas de 1 ° e 2.° graus, com biblioteca, salas para exposições e secretaria de apoio a toda iniciativa cultural, façamos dela para nossas crianças e adoles- centes a continuação da casa e escola. E a cidade há-de se reencontrar, por sua juventude, esquecida que anda de seu apa-

escrita a re-

nágio em história e tradição. Oue Paraíba se reconheça!

E estaremos de parabéns.

Arnaud Pierre

Bacharel em Geografia e História e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade do Brasil

Prefácio

Ninguém sabia como Paraíba do Sul nasceu, viveu e estava

f morrendo 1 .

f ' Era eu ainda garção de hotel quando meu amigo o sr. Ai- f;fredo Neves 2 , me emprestou o Dicionário Geográfico, de Milliet

5 de Saint-Adolphe

? rências a Paraíba do Sul. Apesar de nunca ter frequentado

, qualquer colégio ou academia, e de nunca ter feito exames, a leitura me apaixonava. E com os conhecimentos que obtivera em Saint-Adolphe passei a discorrer sobre a história de Paraíba do Sul. Na realidade, da história de meu município eu somente sabia aquilo que lera em Saint-Adolphe; no entanto, em terra

. Folheando-o, fiquei encantado com as refe-

,

3

i de cego quem tem um olho é rei

,,.s, 1 :' A ideia de que as cidades morriam estava em voga desde que Monteiro Jíflobato havia publicado, em 1919, Cidades Mortas, contos sobre as paulistas ||f : dõ vale do Paraíba fulminadas pelo descalabro de sua lavoura de café desde fia Abolição. Nos escritos históricos a ideia foi retomada por Afonso iJsTaunay em Nascimento, vida e morte de Vassouras, artigo no suplemento SjHde O Jornal, do Rio, comemorativo do bicentenário do café (1927). |g Para se ter ideia da decadência económica do Estado do Rio ao limiar j$ da década negra de 1920, eis o informe do seu governo ao VI Congresso sf;Brasileíro de Geografia, Belo Horizonte, em setembro de 1919: da média anual tã?,de 131572 t no quinquénio 1881-5, a exportação fluminense de café caíra

1886-90, a 75366 em 1891-5, para chegar a 35119 t em 1918,

íquando já era 1/3 da mineira e apenas 1/10 da paulista (separata do Jornal ifdo Commercio, Rio, 1919).

manter

\,à 90534 em

;

Ao curso

da crise

económica

deflagrada

em

1929, e

para

|p preço de exportação, o governo federal ao queimar café em Entre-Rios

foi a oficina da Santa Matilde,

í trouxe-o praticamente todo de Minas pela Central e Leopoldina. (A como- -. cão popular que essa queirçia provocou está nos jornais de Paraíba da época). , Praticamente, em 1932 o café remanescente no Estado se confi- > nava em Pédua e Itaperuna. 'Nada mais restava na terra dos barões. |A O carioca Alfredo Neves, trazido por Leopoldo Teixeira Leite, veio para fílossa cidade em 1915 e aqui faleceu em 1945 aos 73 anos. Homem de pfesses e praticamente aposentado, morava na chácara que fora da Tia IJfléaía, Beatriz de Melo, parteira, dona de loja-de-armador e do Parahyba fdo Sul, que circulou de 1893 a 1927.

$&:•

i de abril a julho de 1932, no campo onde

17

Mudei de profissão, passei a trabalhar como motorista de carro-de-praça. Por essa época houve em Paraíba uma grande festa para comemorar o lançamento da candidatura do dr. Ma- .•? nuel Duarte 1 à presidência do Estado, com a presença de nu- merosas pessoas gradas e o candidato. Por força da profissão, fui servir a alguns dos visitantes e, percorrendo a cidade, eu lhes ia explicando — "aqui morou fulano, lá nasceu sicrano" —, com agrado dos que me ouviam. Um deles, se a memória não. me engana o próprio dr. Ma- nuel Duarte, falou sobre a fundação de Paraíba pelo Mão-de- -Luva\ Pedindo-lhe licença, retruquei que a Paraíba 0 havia sido fundada por Garcia Rodrigues Paes, e continuei a contar- lhes o que sabia sobre a origem da cidade e do município.

:; . Publicado em Paris em 1863 por iniciativa de Pedro II, o Diccionario Geogrgphico, Histórico e Descriptivo do Império do Brazil, de J. C. R. Milliet de Saint-Adolphe, hoje raridade bibliográfica, foi traduzido do manus- crito inédito francês pelo dr. Caetano Lopes de Moura. No prólogo, datado de 30 de outubro de 1845, há sobre o autor apenas a informação de que vivou 26 anos no Brasil, viajou pelo interior e pesquisou na Biblioteca Imperial orientado por eruditos da época, como o brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos (1776-1839), polígrafo, o mais ilustre militar do tempo e, com Januário da Cunha Barbosa, fundador do Instituto Histórico e Geo- gráfico Brasileiro (1838). Ajudaram-no ainda Evaristo da Veiga, o padre Diogo António Feijó e Vieira Souto, entre outros. No que tange a Paraíba,

a informação capital é a data de 1683 como a de abertura da fazenda que

deu origem à

o

último presidente do Estado do Rio, empossado em dezembro de 1927 para

o quadriénio até 1931 mas destituído em outubro de 1930 pela revolução desse ano. Visitou a cidade em campanha eleitoral em meados de 1927, quando o autor completava 18 anos.

Henriques,

que seria maneta, usando luva para disfarçar o defeito. Perseguida por contrabando e descaminho do ouro do Registro em Paraíba, sua quadrilha se homiziou em terras do atual município de Cantagalo, originando-se de seu arraial a cidade. Bando e chefe foram capturados em 1786 e degre-

1

cidade.

de

Matos

Manuel

Duarte

Silva

(Rio Bonito,

1877 —

Rio, 1944) foi

Mão-de-Luva era

a alcunha do bandoleiro

português

Manuel

dados para a África.

".

O autor

ora usa o definido,

ora o omite,

antes

do nome

Paraíba, que

aparece pela

primeira vez em documento

também

com

essa

dualidade.

É

na carta de Garcia Rodrigues

Paes

a

8

de

julho

de

1703 ao governador

do

Rio

de Janeiro,

Álvaro da Silveira

de Albuquerque, com

informação

sobre

o Caminho

que

então concluía (Revista

l.

H.

G.

B., Tomo

84, pg.

32),

Ele

escreve:

e

q'

em Paraíba q'

lie o meyo da jornada.

Mas também, logo a

seguir:

De

 

na dita

fato,

Paraíba,

está

Paraíba

a meio

percurso

   
 

a jornada a fazer

entre

e

a atual

Barbacena, os

extremos

do

caminho

por

ele

aberto

para

as

minas

O

definido

de

ouro

no autor

recém-descobertas

ao

mar.

é ''resquício

da influência

o Rio

ligar

que sofreu, no início,

do conterrâneo Agripino Grieco, que sempre o usou. Em nossa imprensa

o artigo definido foi exclusivo até a década de 1880 — justamente quando

nascia o Agripino ,

—, aparecendo então o dualismo. Hoje predomina

a omissão, mas o autor alterna as duas formas.

Meus conhecimentos causaram admiração, achando os que me ouviam extraordinário que um motorista-de-praça tão moço pudesse esclarecê-los como eu fizera. Fiquei entusiasmadís- simo ao ouvir os elogios do futuro presidente do Estado. Tomei gosto do assunto. Apaixonei-me mesrno das coisas sulparaibanas, a ponto de prejudicar a manutenção de minha família. Fiquei com a ideia fixa na história da Paraíba e, como o pensamento é construtivo e o querer é poder, já o disse Charles Wagner 7 , perseverei no empreendimento. Ainda era garção de hotel quando se hospeda no mesmo o dr. Júlio Alves Nogueira de Oliveira*, advogado em Barra do Piraí, rapaz muito moço e independente, de ideias elevadas e francas. Tornou-se meu amigo e foi para mim uma espécie de condotiere. Achou interessante minha mania e animou-me também. Teve grande influência em minha formação, junta- mente com o capitão Sales". O dr. Júlio encorajou-me de tal forma contra meu irreverente padrasto, dono do hotel, que me animei a deixar aquele serviço. Vezes havia em que ele apa- nhava notas que me custaram enormes sacrifícios e jogava-as fora, pois era avesso a histórias; e ainda me descompunha diante dos hóspedes. O dr. Júlio dizia-me então: "Reaja! Você é um literato e historiador, como se deixa insultar por um português 1 " ignorante?" Isso valeu-me perder o medo de meu (•espeitabilíssimo padrasto, e criando coragem emancipei-me, melhorando de vida. m Comecei então a trabalhar como motorista de caminhão de transporte para o Rio. Depois das seis horas da tarde, após

É interessante observar no rapaz ern formação e autodidata a leitura

de Charles Wagner (1852-1918), francês de origem alemã que escrevia sobre

moral e a conduta na vida.

Ao tempo da mocidade do autor havia dele

pelo menos três livros traduzidos: A Vida Simples, por Eugênio de Castro ; (Lisboa, 1913), e por Otoniel Mota, em 1919, Valor (Melhoramentos) e Para pequenos e grandes, Civilização Brasileira, 1936. 8. O dr. Júlio Alves Nogueira de Oliveira advoga há 59 anos em Barra do Piraí, onde se radicou em 1932. Lembra-se do autor como "rapaz es- perto e falante". Esteve em Paraíba recém-formado e é valenciano de

'•.

Santa Isabel

do

Rio

Preto.

».

Capitão

Sales

é

Carlos

de

Alvarenga

Sales

(circa

1875-1961), nosso

maior jornalista. Volto a falar dele em estudo incluído neste volume.

i'- 1 . O referido aqui é Manuel

Ferreira Neto, que chegou a Paraíba em

1914 para trabalhar no Jardim Municipal, denominado então Parque Dr.

ao devotado presidente da Câmara fale-

cido naquele ano. Muito diligente e económico, progrediu rapidamente e teve uma das últimas vlctbrias de aluguel na praça e dos primeiros cami-

nhões-a-frete para o Rio. Por volta de 1925 adquiriu em frente à estação o Grande Hotel que, de mão-em-mão, vinha do princípio do século e se instalara no primeiro edifício construído na cidade para o seu fim. Mu-

com

Paraíba.

excelente restaurante aberto ao público.

dou-lhe o nome para Hotel Ferreira

Bernardino Franco em homenagem

e

lhe

deu

a

O hotel

sua

melhor

fase,

se chama

hoje

19

terminar minha tarefa, corria à Biblioteca Nacional e de lá só saía quando o funcionário rne dizia: "Já está na hora!"

dr. José de Castilho Sobrinho 11 disse-me: "Es-

Geraldo Bezerra de Meneses 12 , em Niterói,

que lhe informará muita coisa interessante e inédita." Bendita iniciativa! Como me animou o dr. José Geraldo! Como me indicou fontes extraordinárias! Ele não podia consultá-las mas, indicando-as, ia eu obtendo dados memoráveis. Devo em grande parte o meu trabalho a esse ilustre patrício, guia de tantas figuras do cenário nacional. Foi José Geraldo quem me animou a escrever ao dr. Afonso Taunay K; , em São Paulo. Escrevi e recebi resposta. Como é gentil e prestativo o dr. Taunay! Quantos dados preciosos me enviou! E ao mesmo tempo me animava: "Não tenha pressa em publicar o trabalho. Estude e procure documentá-lo bem." A princípio o dr. Afonso Taunay me chamava de "ilustre patrício" e doutor. Procurei desfazer esse engano e confessei

que estava colecionando dados para que fosse escrita a História de Paraíba do Sul, e que eu não era doutor. Outro grande amigo que não posso esquecer nesta hora de apresentação de meu trabalho é o dr. Sabino Souto 1 *, médico dos mais conceituados em Paraíba do Sul. Este acompanhou de perto meu trabalho, vigílias e canseiras. Colaborador pre- cioso na coleta de dados, animou-me sempre, dizendo-me:

"Você mesmo tern que escrever essa história. Ainda é muito criança, e isso é trabalho para memória igual à sua."

Um dia o

ao

dr

,* creva

José

Castilho Sobrinho nasceu em Paraíba em 1881,

mas se mudou para o Rio em 1924 para educar os filhos. (Nosso primeiro ginásio é de 1936, tendo fracassado três tentativas anteriores.) Continuou

porém com banca na cidade, hospedando-se no Ferreira, onde o autor era garção. Faleceu no Rio a 16 de março de 1949.

que por mais de 35 anos advo-

gou e fez política e jornalismo em Paraíba, o também advogado José Geraldo

Bezerra de Meneses nasceu aqui e faleceu em Niterói. Consta ter sido quem deu nome às águas Salutaris, achado feliz substituto do anterior águas-da-saúde. 'Em maio de 1902 hospedou em sua chácara — local do Cine Brasil — o nosso maior historiador, Capistrano de Abreu, seu corres- pondente e amigo. Homem de grande erudição, mas que não deixou livro,

foi chamado por Agripino Grieco "a maior cultura improdutiva do Brasil". ' :t . Afonso d'Escragnolle Taunay (1876-1958) é o grande historiador das

expressão que usava

para elogiar muito. Era neto do barão de Vassouras e, portanto, sobrinho do nosso dr. Lepoldo Teixeira Leite. Quando se correspondeu com o autor, provavelmente no início dos anos 30, já encetara a publicação dos onze

volumes da sua monumental História Geral das Bandeiras Paulistas, iniciada

cm 1924 e concluída em 1951. É com Capistrano de Abreu consulta indis-

pensável a quem pretende neste país escrever sobre História, n. O médico Manuel Sabino Silva Souto nasceu em 1879 na cidade de Alagoas (bóio Marechal Deodoro, filho também da cidade) e se formou

''•

O advogado José de

12. Filho do dr. Leandro Bezerra Monteiro,

Bandeiras, ela s e ele cie nunca assaz louvado mérito,

Não posso esquecer também de citar o bondoso Frei Esta- nislau 15 , que muito me auxiliou. Este trabalho é o resumo de muitos documentos esparsos reunidos com grande sacrifício e dificuldade. Como me lembro! Às vezes passava horas-e-horas na Biblioteca Nacional, copiando autores estrangeiros agora traduzidos, letra por letra, pois é muito difícil para quem mal sabe o vernáculo copiar escritos em língua estranha sem saber o que está copiando. No livro que estou elaborando, Memórias de um garção de hotel Mi revelarei coisas interessantes, episódios divertidos sobre a boa e a má-vontade que eu encontrei na compilação de dados para este trabalho. Meu livro é um trabalho de boa-vontade. Não encontrarão nele obra de estilo nem pureza gramatical; mesmo porque é

uma obra histórica com a finalidade de narrar fatos.

É escrito

com critério e isenção de espírito, apoiado em dados verda- deiros. Não quero defender nem atacar ninguém. Viso só à verdade dos fatos. Sei que meus conterrâneos dirão, e vou até antecipar-lhes o juízo: "Esse livro não pode valer nada, pois foi escrito pelo Pedro Cabrito!" 17 Mas a verdade é que a Paraíba é a terra dos contrastes 18 :

no Rio.

j residência

Areal, casou-se em 1910 com Nicolina

Werneck dos Passos, filha do coronel Nicolau António dos Passos, proprie- tário da fazenda Cruz das Piteiras (ver capítulo próprio). Fixou depois

prefeito,

nomeado, exercendo o cargo de 9 de outubro de 1943 a 24 de agosto de 1945. Faleceu no Rio em 1955, onde na mocidade fez também jornalismo, is. Frei Estanislau Schaette OFM complementou os estudos de Monsenhor Pizarro (José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo) sobre o povoamento da capitania do Rio de Janeiro, utilizando ambos o arquivo do bispado da sua

capital. Concentrou a pesqujsa nas freguesias do recôncavo da Guanabara

e contra-serra adjacente, justamente a zona cortada pelo Caminho de Ber-

nardo Soares de Proença, cuja personalidade definiu e com seus estudos cresceu no contexto da história fluminense. O erudito historiador fran-

ciscano orientou o autor no estudo de nossas antigas terras de Petrópolis. Sua contribuição à coleção Centenário de Petrópolis (1942), e as crónicas

e estudos de António Machado sobre as fazendas daquele município, salvam —

a volumosa

i«. É a obra que em 1970 tinha em preparo e na qual sugeri colocasse

certas passagens deste livro, mais apropriadas a uma seção que poderia

denominar A

I T . A origem da alcunha com que o autor era conhecido na

Já radicado no município,

na cidade

e

clinicou

muitos

anos.

Foi

o

nosso

18.°

obra —

margem

seis grossos

volumes

do merecido olvido.

da História de Paraíba.

cidade até

' iniciar a vitoriosa carreira política, em 1946, foi-me revelada por seu amigo e companheiro de mocidade, o almirante Vicente Castilho (1906-1986), que conheceu o velho Cabrita em Matozinhos. Do nome de família do avô ma-

que lhe deram logo chegado à cidade, apro-

terno vem, assim, o apelido

priando-o ao menino.

de Castilho Sobrinho, voltou a Paraíba e reatou a velha amizade. i*. Aí está a série de contrastes de Paraíba descobertos pelo autor, mas

primogénito do advogado José

O almirante Castilho,

20

n Cruz é metodista: o Batista é católico; o João Bonito é feio;

o Guerra é um sujeito pacífico; o Cordeiro é um homem zanga-

do; a água vem do Morro-Seco; a Rua Direita é torta; e a His-

tória da Paraíba é escrita por um cabrito. Não deixarão de ter razão os meus conterrâneos.

os doutores e os letrados não a quiseram escrever, eu então me dispus a essa tarefa, e ela aí está. É um trabalho de quinze

anos de pesquisas 1 ". Paraíba do Sul foi terra de homens ilustres, mas que pouco aplicaram sua inteligência em benefício da coletividade; leva- ram décadas em insultos recíprocos, em lutas políticas, abu-

sando da liberdade que lhes assegurava a Democracia

E para aqueles que neste trabalho encontrarem deslise, eu

me justifico com Raul Pompéía: Mau, mas meu!

Mas se

2

".

a escrita.

na outra para não magoar alguém que, no entanto, não poupava pessoa ou coisa alguma e nem a cidade em que nasceu: e a Fonle Limpa, do Páscoa!

Grieco,

sido o pai quem pompo-

A contada por ele aos amigos acabava com mais um, omitido

é a venda

mais

suja da cidade

, afirma Agripino Grieco ter

Em suas Memórias

samente (sic) batizou a loja com o nome que por certo significa capita!

limpo, honesto, ganho com suor, talvez carapuça para concorrente do ramo,

que era de fazendas finas e modas, e

armazém de secos-e-molhados. A verdade é que rastreio a Fonte Limpa no comércio de Paraíba desde quando ele, na Basilicata ainda, como escreve

o filho, "lia entre lágrimas o sentimental Edmundo de Amicis". O verda-

deiro padrinho da loja comercial que se tornou popular, pois resistiu a várias mudanças de dono e ramo de negócio, está entre -Pedro Ferreira e

o sócio, que na Duque de Caxias 22 (Tiradentes hoje) eram sucessores

com a Fonte-Limpa do Costa Barateiro (António Ferreira da Costa), que

foi abrir armarinho na Imperador 5. Em setembro de 1885 Pedro Ferreira & Cia. passou a Fonle a outro Costa e também António, mas Francisco. E

é esse António Francisco da Costa quem a passa adiante em 1887, ano

da chegada a

n Fonte seca nos anúncios de nossos jornais, enquanto o Grieco anuncia

a sua lavandaria, O Vosúvio. E seu curso só reaparece em abril de 1914,

quando o pai de nosso memorialista pretende passá-la, esgotada, i». Em meados dos anos 40 concluíra o autor esta obra. Cumprindo logo

a seguir o primeiro mandato político, daí em diante a carreira pública o

absorveu; mas não abandonou os estudos históricos, colaborando regu- larmente em jornais. Ao falecer, a 21 de novembro de 1971, estava en- cerrando exercício de dois anos como provedor da Irmandade Nossa Se- nhora da Piedade e na véspera publicara em O Cartaz, de Três Rios, estudo

sobre a nova ponte da cidade.

-".

tal-

Paraíba do Pascoal Grieco, segundo o filho. Daí em diante

acabou nas mãos do Pascoal como

Nestes

termos

com

que

encerrou

o

prefácio

se

pode

ver,

vez, uma ponta de desalento e decepção com a coisa pública que tomou Pedro Gomes da Silva nos últimos tempos. Mas só quem lidasse "com ele amiúde poderia perceber esse desalento, pois de aparência era o mesmo

Pedro, confiante e alegre. Passou, e se voltasse encontraria tudo como

dantes

social dos anos trinta e o primeiro filho do povo a ocupar a Prefeitura.

Foi em Paraíba do Sul o filho dileto dos novos tempos de abertura

capítulo 1

O Caminho Novo

Garcia Rodrigues Paes 21 ,/descendente da mais nobre es- tirpe paulistana e primogénito do famoso Caçador de EsrneráP) das, Fernão Dias Paes, depois de acompanhar e assistir ao esflí celamento e às calamidades que sofreu a grande bandeira che- fiada por seu pai, e de decepcionar-se com a falsidade das pe- dras encontradas e levar para o eterno repouso em São Paulo os restos do sertanista, teve ainda o arrojo de voltar aos sertões. "Descobrindo Garcia Rodrigues pelos fundos da serra dos -Órgãos os caminhos para as Minas Gerais, de que era guarda- 'mor e fora um dos primeiros povoadores, assentou tendas nas margens dos rios Pará-una, na linguagem indígena, e que signi- tfica na língua vernácula 'rio das águas turvas', e Pará-iba, que íSignifica 'rio das águas claras' 22 ."

IÍi 'Nascido em São Paulo em Ijjfil e falecido em Paraíba a 7. de março

13 anos quando acompanfiõlT o carneiradas no rio das Velhas, março e antes de 26 de junho

'iOje

pai ao sertão, e 20 quando

íde 1_73Jl, o fundador de nossa cidade tinha

ele faleceu de

em

1681.

Minas

Gerais, depois

[ e

ertão

na abadia de São Bento

de

27 de

Prometera ao pai inumar-lhe o corpo embalsamado à moda do

da vila

natal;

e o cumpriu.

Nem Fernão Dias Paes, nem o filho, usavam o Leme, aportuguesamento Lems do antepassado que emigrou no século XV da Flandres para Por- tugal e cujo filho foi nobilitado em 1463 por feitos guerreiros em África, não o usavam por o terem por linha materna, de uma filha (Leonor) de Bedro Leme, ilhéu do Furiçfjal que emigrou para São Vicente e ainda em 1564, na^vila de São Paulo, comprovou filiação e fidalguia. Pedro Dias Paes (1J05-1785), filho e herdeiro de Garcia, palaciano e não mateiro como o pai e o avôPFoi que, enriquecido pela herança paterna, em 1750 se lem-

brou da : fidalguia dos ancestrais e incorporou o Leme ao nome de família,

além

do

brasão-de-armas

do antepassado

flamengo

longe

nove gerações.

b-

Foi Pedr o Taques de Almeid a Paes Leme (1714-1777), na Nobiliarquia

Paulistana, quem levantou a linhagem da família; e o esclarecimento dos

nomes do Caçador de Esmera/das e seu filho devemos a Afonso Taunay.

p

b blíografia nascente

Esta

nota,

longa

mas necessária, pretende

do Fundador.

estabelecer

em nossa bi- ,

a identidade

22

PEDRO GOMES

DA

SILVA

"Empreendimento formidável esse, de rasgar uma trilha extensa através do sertão, abatendo árvores seculares, impro-

,. ' visando pontes sobre ribeirões e rios, quando os não podia vadear, até os cumes da Cordilheira do Mar; transpor esse imenso paredão em uma das suas bocainas e, em declives ora mais ou menos fortes, ora mais ou menos suaves, acompa- nhando o curso das águas vertentes, chegar à planície do Igua- çu, também cortada por numerosos rios e atingir, finalmente,

o Rio de Janeiro após centena e meia de quilômetros 2:i ".

"Garcia Rodrigues Paes mediante a licença obteve de Artur de Sá e Meneses, placitada pelo

tuguês, tendo-se estabelecido à margem do rio Paraíba, no ponto onde surgiu a hoje cidade de Paraíba do Sul, atacou imediata- mente o serviço, tanto para o hinterland aurífero quanto em demanda do Rio de Janeiro, de sorte que, em fins de 1699, já

era praticável por pedestres a picada entre a baía de Guana- bara e a Borda-do-Campo (atual Barbacena)." Assim, o governador Artur de Sá e Meneses a 15 de junho

de 1701 escreveu ao

achava a estrada que Garcia Rodrigues se propusera abrir. Mandou-lhe o monarca, por carta de 15 de novembro do mesmo ano, participasse à Metrópole tudo quanto dissesse respeito ao dito caminho, reputado mui utilíssimo. E o gover- nador Álvaro da Silveira de Albuquerque, que atendeu a essa ordem, informava a 7 de setembro de 1702que a via de comu- nicações "só admitia gente a pé, mas já estava abastecida de roças a passagem do Paraíba (onde hoje é a cidade fluminense de tal nome); e, finalmente, que Garcia Rodrigues Paes estava)

-'•*. Este é o primeiro dos muitos excertos que extrai o autor de Memórias Históricas do Rio de Janeiro (1820), de Monsenhor Pizarro, o cónego José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo (1753-1830). A época do notável histo- riógrafo pouco estava divulgado sobre o Caminho Novo e seu construtor. Daí julgar tê-lo descoberto "para as minas", quando de fato Garcia veio daquela zona por trilha indígena ao Paraíba. E ainda ter sido ele "um dos primeiros povoadores", sendo ele em toda a região pioneiro absoluto. 2:! . Começa agora o autor a utilizar os estudos de Basílio Magalhães (1874-1957) que se tornaram subsídios preciosos no esclarecimento do mo- vimento das Bandeiras. Comissionado por Washington Luís, historiador e

pouco conhe-

cido historiador mineiro pesquisou longamente no Arquivo Nacional, publi- cando grande cópia de documentos inéditos do Bandeirismo, e os comen- tando com erudição. Foram publicados na Revista do Instituto Histórico e

datados até o

que em 1698 soberano por-

rei, dando conta do estado em que se

depois presidente de São Paulo e do País (1926-1930), o então

Geográfico

do São Paulo, volume

18 (1913), os documentos

ano

gráfico Brasileiro, tomo 84 (1920). Em Basílio Magalhães se baseia toda a história do Caminho Novo aberto por Garcia. E nosso autor citou-o ex- tensivamente até o final do capítulo, no que mostrou tirocínio, pois o eru-

dito historiador mineiro praticamente esgotou o assunto.

dade, abriu e fechou aspas ao transcrevê-lo, e por fim citou-o, elogiando.

1700;

e

os

de

1701

em diante na Revista do Instituto Histórico e Geo-

Com toda a leal-

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA

DE PARAÍBA DO SUL

23

de mudança para a cidade do Rio de Janeiro, a fim de continuar mais facilmente a sua diligência, pois que o atalho não estava ainda feito, mas que, acabado que fosse, sem duvida alguã he o mais perto caminho que pode haver."~J A 14 de julho de 1703, enviava Álvaro da Silveira de Albu-

que Garcia lhe prestara

por escrito, a 8 do mesmo mês e ano. Dizia que "por lhe have- rem fugido quase todos os escravos e por sua limitação (de fortuna, subentende-se) ainda não tinha acabado o caminho que tem principiado p.* os campos geraes, e minas de ouro de Sabara bussú; que em Paraíba, que he o meyo da jornada-", pusera gente sua efetiva, com muitos mantimentos e criação; e, finalmente, que estava sustentando a dinheiro mais de cem pessoas, para poder levar por diante a diligência de que se encarregara."

querque

ao soberano as informações

Confirmando tais informações, acrescentava o governador:

"Eu particularmente acho é que Garcia Rodrigues se acha com

muito poucos cabedais e escravos para poder acabar o caminho, e se entende que se não entrar ajuda de Vossa Majestade que se não poderá conseguir coisa tão útil, e necessária." Que o ponto inicial do caminho em Minas era a Borda-do- -Campo (Barbacena), patenteia-o o memorial de 8 de julho de 1703, de Garcia Rodrigues Paes, o qual aí diz que a Paraíba era o meyo da jornada. "Logo, a atual cidade de Paraíba do Sul, cujos alicerces se devem ao filho do Caçador das Esmeraldas, dividia o Caminho Novo em duas metades; uma daí até o Rio

Que a picada (no-

de Janeiro, outra daí até a Borda-do-Campo.

te-s e bem , a picada , não o caminh o definitivo , ist o é, benfeito - rizado) estava aberta entre aqueles pontos extremos em fins * de 1699,atesta-o também, além da provisão de 2 de outubro 'de 1699,a carta do capitão-mor Pedro Taques de Almeida dirí-

.gida ao governador-geral do Estado do Brasil, em 20 de março

ide 1700, e dada a lume por Orville Derby na Revista do Instituto •^Histórico e Geográfico de São Paulo (Volume 5, 282/293), onde lê que "o capitão-mor Garcia Rodrigues Paes tem aberto uma i picada por ordem do general Artur de Sá e Meneses, do Rio :de Janeiro até a ressaca de donde começam os campos gerais". "Tendo consumido na simples abertura da picada todos os

os

{;,

: seus recursos pecuniários (quer os herdados dos pais, quer

hauridos da lavra de ouro que teve de sociedade com João Lopes de Lima, e da. qual tirou cinco arrobas, conforme o relato

2'í, A má interpretação deste trecho da carta de Garcia gerou um dos v equívocos mais absurdos de nossa história: o de que Paraíba se chamou ia princípio "meio da jornada". Jamais teve outro nome. Nosso próprio autor deu-lhe curso em escritos de jornal, influenciado por Agripino Grieco, como veremos no estudo sobre tais equívocos neste mesmo volume.

;

m

24

PEDRO GOMES

DA

SILVA

de Antonii, e havendo-ihe morrido alguns escravos e fugido mui-

tos outros durante aquela tarefa, viu-se Garcia Rodrigues Paes, por 1703 e 1704, sem meios suficientes para levar por diante a ;/' empresa colossal a que se abalançara, isto é, alargar a longa

: estrada, conservá-la limpa de matos e plantar roças de manti-

mentos às suas margens

mento dos passageiros." "Tudo isso, entretanto, lograra ele fazer entre o Rio de Janeiro e o rio Paraíba. Para o que de essencial ainda restava

' 5 , em vários pontos, para abasteci-

1

 

realizar na outra metade, foi mister que o socorresse o cunha- do, Domingos da Fonseca, o qual, como se vê na patente que

a

a

22 de outubro de 1724 (Azevedo Marques-", Apontamentos, l,

j j

27) lhe concedeu Rodrigo César de Meneses: "havendo-se en- carregado o capítão-mor Garcia Rodrigues Paes da abertura do caminho novo, não o podendo conseguir em seis anos, e achan- do-se com poucos meios, para o acabar, se apôs o suplicante

!1>

corn 18 escravos a abrir o dito caminho, o que conseguiu em

cinco meses e meio."

Rodrigues da Fonseca deve

ter-se dado em 1704, pois a obra se iniciara em 1698. "Mas nem assim ficou de todo pronto, isto é, com os requi- sitos imprescindíveis, o tão gigantesco empreendimento. Pro- pôs-se Amador Bueno da Veiga (paulista famoso na Guerra dos EmboadasJ a completar a tarefa; mas pediu em troca tantas mercês que a rainha-regente (d. Catarina, viúva de Carlos II, da Inglaterra, e irmã de Pedro II) lhe indeferiu o requerimento." "Coube ao sargento-mor Bernardo Soares de Proença, con-

forme provisão régia de 1725, a ultimação da dita via pública,

A

cooperação

de

Domingos

-•v A tarefa contratada por Garcia com o rei Pedro II através do gover- nado? do Rio de Janeiro não era, assim, apenas abrir caminho entre o Rio de Janeiro e as minas de ouro recém-descobertas. Incluía também "plantar roças de mantimentos às suas margens", como vemos neste comentário do Basílio Magalhães aos documentos sobre sua construção. E não só

f| t l

'!'

»!»

em Paraíba, mas "em vários pontos". Um desses era no alto

da serra

do Mar, vencido na garganta aproveitada na década de 1890 por

Paulo de

Fiontim com a sua Melhoramentos do Brasil, depois Linha-Auxiliar da Cen- irai, hoje Leopoidína. As rocas do Alferes foram abertas por Garcia antes de 1705, quando esse alferes estava ainda na Colónia do Sacramento, como provou Francisco Klôrs Werneck em estudo que comento adiante. Com base no trabalho, documentado, desse membro e linhagista da grande família fluminense dos Werneck, pode-se concluir pela fundação de Pati do Alferes por Garcia Rodrigues Paes. também pioneiro no vizinho município de Vassouras, que reconhece um "período patiense" em sua história como primeiro núcleo civilizado em seu território (História de Vassouras, 1935, Ignácio Raposo). -'«; Manuel Eufrásio Azevedo Marques (1825-1882) — Apontamentos histó- ricos, geográficos, biográficos e estatísticos da Província de São Paulo, desde o inicio de São Vicente até 1876. Tip. E. H. Lsemmert, 2 vol., l. H. G. B., Rio de Janeiro, 1879.

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA

DE PARAÍBA DO SUL

25

devendo-se-lhe presumivelmente a variante que terminava no

porto da Estrela, pois, conforme o referido documento, tornou

a distância quatro dias mais breve que a do trajeto anterior e livre do rigor da serra do mar 1 ' 7 ."

Em 1711, quando o Rio foi tomado pelo corsário Duguay- -Trouin, "veio da região mineira (provavelmente Vila-Rica) ao Rio de Janeiro, pela estrada aberta por Garcia Rodrigues Paes e gastando apenas 17 dias, em marcha forçada, um exército de mais de 5000 homens, com que o governador e capitão-general de São Paulo e Minas-do-Ouro, António de Albuquerque Coelho de Carvalho, tentou acudir a praça, já capitulada e saqueada." Do que era então Paraíba temos ideia pelo relato do jesuíta italiano Antonií* 8 , que por aqui passou, provavelmente, em 1708 ern viagem para as minas: "e daí se vai pousar no mato ao pé de um morro, que chamam Caburu (Cavaru). Desse mor- ro se vai ao famoso rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. Da parte daquém está uma venda de Garcia Rodrigues, e há bastante ranchos para os passageiros, e da parte d'além está

a casa do dito Garcia Rodrigues, com longuíssimas roçarias.

Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas: a primeira ,'no mato, e a segunda no porto, onde há roçarias, e venda im- portante, e ranchos para os passageiros de uma e outra parte.

; É rio menos caudaloso que o Paraíba; passa-se em

Em Paraíba, no morro entre a estação da estrada-de-ferro a praça Marquês de São João Marcos, edificou assim Garcia i"uma casa avarandada para sua residência e uma capela, dedi-

;Cando-a à Conceição da Santa Virgem 2 ", afora ranchos, roçarias

canoa."

e canoas".

O autor continua a citar os estudos de Basílio Magalhães. Cabe obser- í var que à época em que os concluiu — 1913 e 1918, os deste ano só aparecidos em 1920 na Revista do l. H. G. B. —, a personalidade de Ber- nardo Soares de Proença era ainda mal-conhecida e, consequentemente, sua obra, que lhe era então presumivelmente atribuída. Assim é que o exce- jénte historiador mineiro se enganou quanto ao trajeto e ponto de deri- vação da variante aberta por Proença, fazendo-a sair do Caminho Novo dê Garcia em Pati do Alferes, e não da nossa Encruzilhada. Frei Esta- hislau Schaette OFM foi quem precisou o trajeto e a figura do grande

'larísta, fluminense da vila de Macacu, na baixada, ao publicar o notável pstudo Os primeiros sesmeiros no território de Petrópolis na coíeção citada

Proença com a sesmaria que recebeu em

no Tamaraíi, alto da serra da Estrela, pela qual passou com o caminho para Inhomirim e o futuro porto da Estrela. «s. Pseudónimo do jesuíta italiano João António Andreoni — completo é ^•André João Antonil, quase anagrama perfeito —, cuja obra Cultura e '^Opulência do Brasil por suas drogas e minas é clássica na historiografia Abrasileira. É o primeiro da série de viajantes — cronistas que passaram : por Paraíba nos tempos coloniais. Dele é a primeira descrição do povoado. 'Infelizmente nada registra sobre a topografia local, que viu praticamente

"7/7 natura. A pobreza do enfoque geográfico permeia toda a obra, que no

fía nota 15. Entre eles figura

"A grande cópia de ouro encontrada na região do Tripuí (Ouro Preto), rio das Mortes e rio das Velhas, na primeira dé- cada do século XVIII, deu ensejo ao aumento do tráfego entre /; o hinterland mineiro e a cidade do Rio de Janeiro. Daí a neces- sidade de uma variante que facilitasse a subida e a descida da serra do Mar, tanto a pedestres quanto a cavaleiros e às tropas

e comboios. A isso satisfez a traça do sargento-mor Bernardo

Soares de Proença, que conseguiu um encurtamento de quatro dias, buscando provavelmente o porto da Estrela."

"Esses caminhos, embora não passassem de picadas ou

carreiras, facilitavam o transporte entre Minas e Rio de Janeiro,

e não tinham o risco das viagens pelo oceano; por isso os mi- neiros começavam a mandar por eles de preferência os pro-

entanto registra tudo o que é resultado da iniciante ocupação humana, e prepara a opulência: casas, roças, vendas, canoas e ranchos. Bom tam-

bém cm Antonil é a marcação das jornadas diárias, o que nos dá noção

r'a progressão da viagem e o tempo gasto, desde que relacionado à topo- grafia da região que atravtssa. Os 15 km em reta de Paraíba ao "porto" (a fazenda de Paraibuna, nascente), por exemplo, foram vencidos em duas

jornadas, já que atravessa sete serras (na opinião de um viajante europeu

então mata quase fechada. O pouso "no mato" que

registra entre os dois rios (em 1708?) possivelmente evoluiu para a situação Farinha, talvez de um dos primeiros povoadores do Sertão da Paraíba — expressão do século seguinte, como veremos —, certo Manuel Farinha casado com Eugenia Maria e cuja primeira filha, Catarina, se batizou' na capela da fazenda de Garcia em 23 de janeiro de 1715. Ao final do século

XVIII Farinha é registrada em carta como fazenda nas cabeceiras do ribeirão

do Limoeiro — zona da atual Itiaca — e também no roteiro de viagem de

João Severiano Terrabuzi, em 1814, do Rio de Janeiro à vila do Bom Su-

cesso, capitania de Minas. Pela minúcia do relato e o tempo razoável gasto em cada jornada, o que não se dá no roteiro de São Paulo, parece ter o padre percorrido mesmo o das minas de ouro, que são tema básico em seu livro. - !> . Basílio Magalhães, op. cit., como os excertos que se seguem. A de- nominação completa é freguesia da Conceição da ^afita Virgem e dos Santos

Apóstolos São Pedro e São Paulo. "A capela do morro substituiu a que a tradição localiza na ilha do Paraíba, levantada pelos primeiros ocupantes do r«manso. Data certamente da chegada da família de Garcia (ou de

iogo depois), o que se fixa entre 1705 — nascimento de Pedro na fre-

guesia de Irajá — e 1709, quando Garcia vai ao Reino defender seus direitos pela abertura do Caminho. Documentado está que foi jMarja An- tônia quem recebeu na fazenda o ouro removido do Rio ocupado pelos franceses, em 1711. A capela registra balizados desde 1J7X5, pelo menos, ancTTàrvêz de chegada do cura que Garcia mantinha na lazenda. O esta- belecimento do curato pela diocese do Rio é de 1719. Ficando a calsa-grande da fazenda na encosta "que dá para a atual rua Alexandre Abrahão, é provável que a capela fosse no mesmo cocuruto do morro em que a planta de 1830 do povoado assinala a Kjreja — então em ruínas — construída por Pedro em 1745- Por certo, junto ficava o.cémi- térjp, onde se enterraram, em 173JL Fernando, primogénito de Garcia, em 1732 Frarjçisco Fagundes, fundador dè~~S"ibolas, fylaria Antônia em 1736

do século XIX) o era

e dois

anos depois

o próprio fundador

de Paraíba.

"

CAPÍTULOS

DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL

27

dutos que anteriormente procuravam a estrada do Facão, espe- cialmente o ouro e os diamantes. O povo de Parati sofria com esse desvio graves prejuízos por causa da diminuição da renda,

e recorreu a EI-Rei insistindo pela franqueza do antigo caminho

a arbítrio dos que quisessem cultivá-lo. EI-Rei proibiu, então, em 1733, novas picadas ou caminhos para as minas descobertas ou por descobrir, que já tivessem administração regular, sem

licença prévia para tal fim. Foi de pouco proveito essa estulta proibição, porque os caminhos continuavam a ser percorridos,

e outros

Pelos numerosos serviços prestados à Coroa foi Garcia Rodrigues Paes nomeado guarda-mor gerai das minas pelo rei,

a 19 de abril de 1702. Em 14 de agosto

Régia dirigida ao governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro de Morais, na qual o rei, além de outras mercês que lhe havia feito, lhe concedeu a graça de ser donatário de uma vila que pretendeu erigir neste lugar de Paraíba do Sul 30 . Assim, em 1711, pela Carta Régia abaixo, "se mandaram passar carta de sesmaria a Garcia Rodrigues Paes e a seus doze filhos das terras de que se lhes fizera mercê, em recom- pensa dos serviços que prestara na abertura do caminho para as Minas". É do seguinte teor, atualizada apenas a grafia:

de 1711, obteve Carta

mais se foram

abrindo."

'• ;

.'

;

r,,,

.

"Mandando ver no meu Conselho Ultramarino o requerimento que me fez Garcia Rodrigues Paes sobre as mercês que lhe

3 ". A graça da donatária de uma vila na Paraíba talvez

rida no próprio Reino, quando Garcia lá esteve. Avento a hipótese de ter desistido dela desde que soube das lutas ocorridas quando de sua ausência entre os paulistas descobridores do ouro e os adventícios emboabas, rei- nóls atraídos peia riqueza nova no Império português. Tudo se dera em torno da vila novamente (recentemente) criada no rio das Mortes, e depois São João d'EI-Rei. Passou então a não interessá-lo a mais que certa con- corrência dos atraídos à passagem do Paraíba pelo aforamento do património

tenha sido reque-

;da vila. Como se lê em Antonil, ali já fixara residência e abrira comércio. -Além disso, a carta-de-dada da sesmaria — ver adiante — impedia que

que mais interessava ao Fundador era a tra-

vessia do rio, que a família guardou de unhas-e-dentes, corno se Verá, até

1786 o mais palaciano dos netos do mateiro Garcia

fosse contígua à vila. E o

1842. Por isso, em

procurou desfazer-se da já en,tão incómoda graça de erigir vila concedida avô — dada a pressão dos posseiros na serra com a chegada do café —. aproveitando para dar uma barretada ao todo-poderoso da época, o vice-rei, í&btendo para isso de D. Maria l foral para erigir vila onde a família nada -tinha a perder com o aforamento de terras, como no arraial do Campo '"Alegre (distrito da Paraíba Nova), onde nada possuía. Só que a providência ttíemorou tanto que a barrotada foi a outro vice-rei, o conde de Resende.

v

%•' : O batismo de Resende, como o de Valença, reflete o espírito do auli- ffeismo da época na mais fechada e corrupta das oligarquias, a da classe Sfldâlga, arribada ao Brasil atrás do ouro com os vice-reis e a que, irresisti- JÃfelmente, ° s ambiciosos matutos Dias Paes procuraram achegar-se. E um ffiaradigma dessa classe na Província foi esse Fernando Dias Paes Leme fda Câmara que, não satisfeito com o Leme nobre que o pai juntara ao

.

28

PEDRO GOMES

DA SILVA

havia feito do foro de Fidalgo e da vila que pretendia fazer na paragem da Paraíba e que, havendo datas de terras, fosse ele avantajado, de que se lhe passou portaria em 20 de abril de 1703, em satisfação de haver aberto o caminho do Rio de Ja-

neiro para os Campos Gerais e Minas dos Catacazes, em que assistia havia dois anos, e de novo me representar ter conti- tinuado na abertura do dito caminho desde o dito ano até o de 1709, em que veio a este Reino 1 ", e mostrar tê-lo posto na sua última perfeição, de maneira que hoje frequentavam comurnente todos os passageiros que vão para as Minas a dita passagem, com grande segurança de seus cabedais e dos reais quintos, por se livrarem das perdas que se experimentavam com as presas que os piratas continuamente faziam no transporte do ouro de Santos para essa Praça, serviço muito especial e me- recedor de grande prémio, não só pela conveniência que dele tem resultado ao bem comum, mas pela grande despesa, que

o dito Garcia Rodrigues Paes com a abertura do dito caminho,

desprezando os interesses, que podia adquirir nas Minas, com

a gente que trazia ocupada no dito trabalho se se empregasse

em minerar; pedindo-me em satisfação de tudo que lhe fizesse boa a mercê da dita vila, o a da data das terras de sesmaria paia ele e a cada um de seus 12 filhos uma data, como se costuma dar a qualquer pessoa, e campos para os gados, visto terem empregado todos em o referido serviço, em satis- fação dele: Houve por bem ffazer ao dito Garcia Rodrigues

nome em

1759,

foi

buscar

nos

avoengos

da

Madeira,

os

Gonçalves

da

Câmara

também

nobilitados

na

África,

mais

uma

pena

de

pavão.

E

do

sempre

precisado

de dinheiro

Pedro

l

a guerra da Cisplatina

come-

çara

a

família

em

1826 comprou

dois

raros

títulos

de

marquês;

um

para

o filho

de

Fernando, o de

marquês

de São João

Marcos,

outro

para

o

do

irmão

Garcia, o de marquês

de Quixeramobim.

Já iam

longe

então

na família

os tempos de abridores

de caminhos

 

:!1 . Aí está documentada a viagem de Garcia a Portuga!. Quanto a "ter

continuado" até 1709 na abertura do Caminho, entenda-se como a melhorá-lo, pois todo ele em 1704 já dava passagem. E essa melhoria comportava a

regu-

abria na

mata virgem. Para o lado do Rio de Janeiro, a primeira metade aberta a partir de Paraíba, onde Garcia estava estabelecido (cf. Basílio Magalhães),

deduz

do citado excerto do historiador mineiro (cf. nota 25), que conclui, como

entre o Rio de Janeiro

e o Paraíba."

do Pa-

raíba, tem-se que provavelmente foram abertas por Garcia antes que o tal alferes tivesse chegado como sesmeiro. Este alferes, sabe-se hoje pelos estudos de Francisco Klôrs Werneck — cf. nota 167 —, foi Francisco Ta- vares e não Leonardo Cardoso da Silva, que desde Monsenhor Pizarro (1820) vem sendo enganosamente citado como o alferes das roças por quantos

o Caminho

lares,

contratada implantação

de

roças de

mantimentos

e milho

a espaços

que

o

que

se

jornadas

para

satisfação

em

1704 já

"Tudo

isso

dos viandantes

estava

lograra

provido

ele

e bestas-de-carga, já

dessas

roças.

fazer

É

a/feres

a três

o

transcrito:

(Garcia)

do

Como Antonil

informa

estar a roça

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA

DO SUL

29

Paes a mercê de uma data de terras com a natureza de ses- maria, que compreenda o mesmo número de léguas, como se houvesse de dar repartidas a 4 pessoas, na forma de minhas ordens, as quais não serão contíguas à vila, se não na parte que não possa haver contendas, e a cada um de seus doze filhos uma data na mesma forma que tenho resoluto se dê a qualquer dos moradores do Brasil, e que assim a data do dito Garcia Rodrigues Paes, como as dos ditos 12 filhos, sejam todas no mesmo caminho, que ele abriu e prefiram nas datas a todos os mais a quem se derem sesmarias e que não sejam contíguas mas separadas na forma de minhas ordens em diferentes dis- tritos umas das outras, com condição que o dito Garcia Ro- drigues Paes será obrigado a por o caminho que o abriu capaz de irem por ele bestas com cargas para as Minas, e satisfeita esta condição vos ordeno mandeis passar cartas ao dito Garcia Rodrigues Paes e a cada um dos seus 12 filhos separadamente das datas de terras de sesmaria que lhes tenho feito mercê,

as paragens, léguas e sítios, na forma que'te-

.; nho resoluto serão obrigados a mandar confirmar ao Reino." Por uma carta de sesmaria passada a Garcia, datada de 26 ;de junho de 1727, verifica-se que o construtor do Caminho Novo, ;,além de obter terras na Borda-do-Campo, era também senhor de grande área de terras, já obtida por outra carta de sesmaria, (na "rocinha aquém do Paraibuna até além da Paraíba"-", Por uma carta do governador Pedro de Almeida ao soberano , luso, datada do Rio de Janeiro aos 9 de junho de 1717, vê-se o seguinte sobre O Caminho Novo:

assinalando-lhes

"Senhor. Logo que cheguei a esta Praça do Rio de Janeiro ;:procurei eficazmente satisfazer a ordem de V. M., sobre a cria- tção das duas tropas que é servido haja nas Minas, e antes de Ipartir para elas fiz diligência para informar-me das pessoas ipráticas daquele país e que podiam dar razão desta matéria e, [como a primeira coisa que devia procurar era uma verdadeira

lescrevem sobre Pati e Vassouras. O Hnliagista comprova, pelo nascimento Ida filha Bárbara em 1708 "no Caminho Novo" , que o alferes Tavares nesse

ffano já estava nas tais roças, que do seu posto na guarnição da fortaleza da Colónia do Sacramento tomou nome. Também Antonil, cuja edição ffrlnceps em Lisboa é de 1711, o confirma. E o recente trabalho de Klôrs RWerneck serve-nos, ainda, para datar pelo menos de 1708 as informações

italiano quanto ao roteiro

gveiculadas pelo jesuíta

para

as minas.

82. Evidentemente, trata-se aí da grande data de terras "como se houvesse de dar repartidas a 4 pessoas", já vista e outorgada a Garcia através do •governador do Rio de Janeiro. A referência a essa grande sesmaria como situada "aquém do Paraibuna" e "até a vargem aiém da Paraíba" (nossa :ídade aí já tomada como passagem ou fazenda) evidencia que a sesmaria e 1727 lhe foi concedida por via do governo da nova capitania de Minas íerais, que em 1720 se desmembrara da criada na região em 1709, São lie Paulo e Minas-do-Ouro . É po r ess a época també m qu e s e defin e a divis a

PEDRO GOMES DA SILVA

ideia do país das Minas, tenho averiguado que três caminhos são os que até agora se têm descoberto, desde as costas desta

capitania para o recôncavo das Minas. Um, a quem chamam o velho, desde Parati pelos serros de Muriquipiocaba, Vimiatinga até a borda-do-campo a que cha- mam Aparição; outro de Santos, por São Paulo, passando pela vila de Taubaté, que se junta com o caminho sobredito na vila de Guaratinguetá; o terceiro começa de Iguaçu, pela Pa-

raíba e Paraibuna até a paragem a que chamam Campos

:!:1

-

do Rio de Janeiro—Minas no Paraibuna, e que se transfere a Paraíba por carta régia de 31-08-1720 o Registo instalado em Iguaçu, na baixada. A sesmaria na Borda-do-Campo ficava na zona das grandes datas con- cedidas ao irmão de Maria Antônia (Pinheiro da Fonseca), o já referido Domingos Rodrigues da Fonseca, pioneiro e um dos fundadores de Barba-

cena.

se

Paraibuna, como

de 1822.

a do caçula

e provavelmente nascido em Paraíba deu origem à grande gleba de terras

O

cunhado

de

nota

Garcia

sobre

também

recebeu

terras

no

adiante em

o tombo da fazenda desse

filhos

de

nome,

Quanto

às sesmarias dos

Garcia — 9 moças —

dos

Paes

Leme na baixada.

Inácio

Dias

Velho

(este,

nome

de

família

do

bisavô

materno)

falecendo

sem

descendência,

sua

família

se

fez

grande

latifundiária nos futuros municípios de Iguaçu, São João Marcos e Itaguaí. :I:! . O novo governador se refere à zona de Barbacena, onde começam os

campos gerais

do planalto mineiro.

capítulo 2

Freguesia da Santa Virgem

(Arruinada a primeira capela construída na pequena ilha 31

içlo Paraíba, Pedro Dias Paes Leme, mestre-de-campo e filho de

em lugar sobran-

beiro ao rio e no morro fronteiro ao Jardim Velho. (Benzeu o novo templo o capelão curado, padre Manuel •Sonçalves Viana, a quem fora cometida essa diligência em pro- visão de 10 de novembro de 1745. Para ele foi transferida a |ède do curato que, por alvará de 2 de janeiro de 1756, foi elevado a freguesia perpétua. VTinha o templo um_5Ó, altar, com o sacrário, que apenas Jíiardava o Santíssimo Sacramento pelo tempo quadragesimal, |ois havia o receio de desacatos dos silvícolas habitantes das

íjGarcia Rodrigues Paes, erigiu outro templo

3!i

antigo

capelão

Divul-

f/ores

que não atinava por que esco-

hera Garcia ilha tão pequena para erguer a capela que, a seu ver, significou

por entre

i|eblinas pude rastrear os motivos que levaram o ilustre fundador a cons-

foi

Na verdade,'em

ííbre

Casa

está

a tradição

No

da capela

deste

e

Teófilo

ilha

que

permeia

ainda

não

todo

relato

pelo

aqui.

Paraíba.

de

princípio

padre

século

foi

Dutra,

que

depois

colhida

nasceu

Caridade,

da em escritos

'ff/ores

(1929).

em jornal

da época, foi

levada

"Nem

ao volume

sequer

"

a

(1906)

dita

O padre confessou porém

Está em

ilha

tão

[{fundação da cidade.

Lílr

uma

igreja

em

seu livro, pg. 22:

pequena."

E adiante:

ilha

|yada pelas grandes inundações

a avenida da

esti-

||à' ; a "ilha levada pelas inundações" não podia mesmo ver aquela a que

junto à

dele .no

do ano em que vamos."

e

que

era

então

f-tna própria ilha de que

falava,

ttra-rio, olhando o vazio no Paraíba em frente ao Jardim Velho onde

(Jlfno,

para

simplificar,

Ilha

da

Capela.

Esta

iírgam, de que se separava por canal estreito

era

grande

ilha

o que restava

éciiío passado

tinha de

largura

e

5

a

7 braças —

em tudo

à

de águas de Três

faz lembrar o que viu

borda-do-campo.

semelhante

é* subsiste em Cantagalo

: faz captação.

em

cujo canal o serviço

ilhas, o

rio

ali

Aliás, com várias

íla', ao desembocar

da trilha puri que o trouxe desde a

\lém

dessa

ilha

grande,

das

duas

existentes

entre

as pontes

e

da

se

foi

em

1906,

havia

pelo

menos

mais

uma

ilha, pouco

abaixo

da

í, destruída pela

Câmara

nos idos de 1870 por desviar

nas cheias as

|ͧ contra as obras de fundamento do cais em início de construção;

•t*

PEDRO GOMES DA SILVA

dilatadas campinas das margens do Paraíba até além do Parai- buna, e que costumavam invadir a estrada geral e a povoação 30 ." Foi seu primeiro proprietário o padre António Pereira de Azevedo. Abandonada por ele, ficou a paróquia sob a direção

É possível que houvesse junto à margem várias ilhas em fileira, rio-

abaixo, e entre elas canais estreitos. "Um pouco acima da passagem (na

de hoje) existe urna larga ilha, cujos canais

laterais podem ser vadeados por qualquer fraco nadador" (brigadeiro Cunha

do Registo, um "edifício

assobradado, assentado sobre grossos esteios de madeira". E por trás dele

<; antes do grande "rancho dos tropeiros, valas ou covas cheias de água

corrupta '. O brigadeiro descrevia a vala que dava esgoto a lagoa do Lavs- iripa, de que laia nosso autor adiante, apenas não a localizando bem.

o aterro para a construção da ponte, iniciada em 1836 e apoiada

na ilha. a Inuoa-canal foi cortada ao meio. Em 1855 eram duas lagoas com-

pridas de água infecta; uma das Porteiras à ponte, "donde se ajuntam as águas que vêm ao largo de Santo António" — nome do morro da Caridade - e que tinha 84 braças de comprimento por 7 de largura e 5 palmos "de

da matriz

altura" (184,8 m x 15,40 m x 1,10 m), outra da ponte aos fundos

(esquina Duque de Caxias com praça Marquês), com 49 braças (105,6 m)

c 5

epidemia de cólera, a

onde

desde

o

Câmara tratou de aterrar as lagoas fazendo o corte da aba do morro

praia de desembarque, o bosque

Matos, 1823, bibliografia).

Pouco acima, o Quartel

Com

(11,00

m)

de

largura.

Assolada a vila naquele ano de

1847 colocara o

cemitério,

o

55 por

do

terrível

Andrade

Figueira.

Aproveitou

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DE PARAÍBA DO SUL

33

de padres amovíveis, até o padre Jacinto Corrêa Nunes, em quem se verificou a segunda propriedade. A jurisdição paroquial compreendia três únicas fazendas:

Várzea, Paraíba e Paraibuna, esta sobre o rio do mesmo nome, que a separava ao norte da freguesia de Nossa Senhora da Glória, mais conhecida por Simão Pereira, já do bispado de Mariana. Pelo rumo da fazenda do Governo, a leste, confinante com a da Várzea, separava-se da freguesia de N. S. da Piedade de Anhumirirn; ao sul se encontrava com a de N. S. da Oração dá Roça do Alferes (hoje Pati do Alferes); e a oeste dilatava-se por toda a campanha e sertão ocupado pelos silvícolas coroa- dos. O número de fogos não excedia a noventa, e o total de pessoas adultas a quinhentas. Em 1758, provisão de D. José l, de 20 de junho, concedeu a Pedro Dias Paes Leme medir suas terras, o que nunca rea- lizou. Eram seis léguas em quadra, desde o morro do Cabaru

até o de Três Irmãos'

, além do rio Paraibuna e hoje em Minas.

Falecendo Pedro, essa imensa gleba em que havia apenas três fazendas (com a de Narchea, ou Várzea) foi dividida pelos filhos, quatro varões e duas mulheres, por escritura lavrada a .7 de abril de 1785 no cartório do tabelião Inácio Teixeira de Car-

17

corte para ligar

a

vila

à

ponte, que

seria

inaugurada

dois

anos

depois,

saindo de praça a praça com

a nova rua da Imperatriz.

E começou

então

.86. Antes desta igreja de Pedro, a capela da ilha dera lugar a outra no

o

paulatino

aterro

do

grande

brejo

que

se

esgotava

no canal

e drenava

o

Campo

de

Maria

Tomásia

(bairro

das

Palhas), e

do lado oposto

a área

úté a atual estação. -

Ao

ler

o padre Dutra

a primeira vez, confesso

que

ilha

e capela

en-

carei

com

ceticismo,

jogando-as no escaninho

da fantasia

e esquecido

da

. segui nos estudos de Paraíba após a morte do autor; levantei o Caminho

no município, o que principiara com ele; e a antiga trilha puri, como a

E com a identificação

da ilha anexada- por aterros à margem, acreditei em 1683 e na capela:

o

ora

Passei então a considerar com seriedade Saint-Adolphe, apesar do ceti- cismo de Taunay, que nunca soube do remanso, ao contrário de Capistrano;

e foi o mestre paulista que me levou ao x do achamenlo do tal remanso. Foi quando estranhou a demora de Garcia em voltar a São Paulo com

1681 entre-

pai

descobrira, mas só a 11 de dezembro chegou a São Paulo para exibir à Câmara as 47 pedras que levava no cinturão. Seis meses numa jornada

em que paulista algum levava mais de dois. Meu estudo 1683, em progresso, defenderá a tese de que Garcia veio

certificar-se do remanso naquele interregno de tempo, no segundo semestre de 1681, para dois anos Depois, o milénio apontado por Saint-Adolphe, deixar aqui gente guardando-o da ocupação por outrem. Para que, ao dar

o senhor Dom

ouro, ninguém

no meridiano do Rio de Janeiro", como registrou o abençoado padre Dutra.

o corpo do pai, para inumar

gara ao enviado do rei, em Minas, amostras das esmeraldas

r-m

Garcia, me levou ao rio.

Mas pros-

lição dos mestres:

tradição oral tem

laivos de documento

Descobri então o remanso.

posse;

como

o

de

beira

em

de

rio,

é

marco de

pedra

com

as

quinas

praia deserta. ,

em São Bento.

Em 26 de junho de

que

o

Pedro l!

a largada para a corrida

do Caminho,

descoberto

o'.

lograsse competir com

o seu roteiro

norte-sul direto, "tudo •

Nela havia

pia batismal, exclusiva de matriz — sede de freguesia —, mas admissível :; :> Com licenç a especia l d o bisp o n o cas o d e capel a muit o distant e d a sede ,

como Paraíba, curato filial da velha freguesia litorânea de Inhomirjm (1677). Monsenhor Pizarro, op. cit. Após a morte de Maria Antônia e Garcia, e a mudança de Pedro Dias para o Rio, a igreja caiu em. abandono, o que explica sua ruína em relativo pouco tempo. Na fazenda, com Maria Antônia houve sempre capelão curado. Em 1732, por exemplo, era o pé. António Cardoso Loureiro, que encomendou o corpo de Francisco Fagundes, o fun- dador de Sebolas. E o pé. Manuel da Costa, capelão de Paraíba, foi quem a 26 de abril de 1739 benzeu a capela então curada de Pati do Alferes. |T. A légua colonial brasileir a tinha 6,605 km, como ensina Taunay em jístória das Bandeiras Paulistas (2 vol., 1951), e as terras de Garcia seis

morro — cf. nota 29 —, onde em 1719 se instalou o curato.

corresponde

ara montante a pouco além da antiga fazenda de Santa Rosa, e a jusante

quase â boca do córrego do Matadouro, local do antigo depósito ferroviário

d,e Entre-Rio s

Quando foram concedidas as primeiras sesmarias junto à sede da ire- juesia, respeitaram-se esses limites. José Fernandes dos Santos requer em 1811 as terras que formaram a fazenda da Boavista (Vieira Cortês), e de,que já era posseiro — ver nota 192 —, "nos fundos da fazenda do guar-

r Fernando Dias Paes Leme da Câmara", primogénito e herdeiro da jzenda da Paraíba e dos títulos do avô. Em 1817, o futuro primeiro barão ; .Entre-Rios obtém a sesmaria que se tornou a fazenda de Cantagalo tam- a partir dos tais limites (capítulo Os Barroso Pereira}. Donde se tem

a sesmaria de Garcia Rodrigues Paes tinha 523,512 km-, ou na medida

quadra ds ambos

os lados

do

caminho, o que sobre o

Kingston ,

1935) .

rio

(ve r map a d o prefeit o

-r fazendas

de

café. 10728 alqueires

mineiros.

A própria

'

vastidão das terras

tornou

impraticável a medição.

Quanto

34

PEDRO GOMES

DA SILVA

valho, no Rio. Alguns excertos do texto, na ortografia atual:

"os herdeiros declaram que havendo falecido seus pais, rnestre-de-campo Pedro Dias Paes Leme, e d. Francisca Joaquina de Horta Forjaz Pereira, ambos com testamento, renunciam a fazer os respectivos inventários;" "ao herdeiro Garcia Rodrigues Paes Leme :tR , além de outros bens, coube a fazenda do Paraibuna, capela, casas e mais per- tences, servindo de divisa o córrego da Cachoeira;" "ao co-herdeiro José Pedro Francisco Leme, além de outros

bens, coube a fazenda de Narchea ;111 , cujas terras principiam no alto do Cabaru e acabam no córrego do Inhema;" "às co-herdeiras Maria Arcângela de Macedo Leme e Be- rarda Vitória Forjaz Leme coube a casa e chácara na lagoa da Sentinela, tendo por limites as ruas de Mata-Cavalos, Lavradio

o Conde da Cunha

A escritura não alude claramente à fazenda da Paraíba, a

mais extensa, e que, em ambas as margens do rio, ia do Inhema (nosso atual Inema) ao Cachoeira, afluente do Paraibuna. Coube

a fazenda de 1683 ao primogénito de Pedro e neto de Garcia, Fernando Dias Paes Leme, que acrescentou a seu nome ainda

4

", no Rio de Janeiro, e mais outros bens."

nos extremos desse mundo sobre o Caminho, o do morro do Cabaru é conhe- cido. Nele há um marco divisório com Vassouras, na estrada do Alto-do-Su- cupira e pouco aquém do velho cemitério de Cavaru, onde se enterravam tra- dicionalmente os Carvalho. Mas a precisa identificação do morro dos Três

Irmãos, talvez referência aos três filhos de Garcia (fernando, Pedro e Iná- cio), depende de um documento que dorme inédito há 83 anos no arquivo

do Instituto Histórico, como se verá em nota adiante. Demora em território

mineiro, não longe do Paraibuna, o que dava ao Fundador posse exclusiva

da passagem desse rio onde só em 1709 se fixou a divisa das capitanias

filho de Pedro. A sede da fazenda era próxima à ponte da

nova BR-040 e, a capela, a única filial da freguesia da Conceição da Santa

Virgem que continua padroeira de Paraíba sem que muitos saibarn disso.

O córrego da Cachoeira se lança no Paraibuna a pouco mais de 3 km a

montante da ponte de Serraria. Nasce no maciço do Monte-Cristo com um curso quase todo paralelo ao Paraibuna. É também chamado Santa Maria H no seu baixo vale o liarão do Piabanha abriu a famosa fazenda de Serraria. ; " Também chamada Várzea (ver capitulo próprio), a fazenda ficava entre

::s Segundo

as atuais Werneck e Cavaru. As roças desse nome abertas por Garcia e

citadas por Antonil, que lhe deram origem, datam de antes de 1704. •"'. A chácara de Pedro, chamado doutor (parece que formado em leis por Coimbra e conhecido no Rio no século XVIII como Pedro Dias), incluía o morro que tinha o seu nome (depois Senado, hoje arrasado) e casa na Ma-

tacavalos (Riachuelo). A lagoa da Sentinela ocupava a área dos cruzamen- tos Mem de Sá—Frei Caneca—Santana—Moncorvo Filho, drenando as plu- viais que recebia dos morros de Santa Teresa e Pedro Dias pelo vale em que se abriu o canal do Mangue. Conde da Cunha, vice-rei, era a atual

Visconde do Rio Branco e o prolongamento pela

Frei Caneca até a lagoa.

A riqueza em bens e títulos acumulada por Pedro Dias impressionou ao vice-rei Lavradio. Na espécie de relatório enviado a Lisboa logo que empossado, depois de citá-lo como "dos principais da capitania", conclui;

"Bom homem, mas completamente inútil."

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA

DE PARAÍBA

DO SUL

35

o Câmara de avoengos nobres. Foi mestre-de-campo como o pai. Da subdivisão das fazendas abertas por Garcia, que o filho Pedro manteve intactas, surgirão as roças de café que darão origem ao município.

fazer

pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, em setembro de 1785, registra junto a uma cruz o seguinte: Freguezia da Pa- rahyba e Caza de Pedro Dias.

A freguesia desenvolvia-se pouco a pouco, graças ao incre- mento das lavouras de subsistência e fornecimento de seus produtos aos viandantes do Caminho. Entre 1795 e 1820 os moradores de mais evidência foram

o vigário, padre Lauriano Corrêa Rabelo e Castro, o tenente

João Pacheco Lourenço e Castro e o capitão Cristóvão Rodri- gues de Andrade, tronco da grande família Andrade.

Um mapa da capitania do Rio de Janeiro mandado

t Antes de se estabelecer no Paraibuna, o capitão Cristóvão

i foi o homem dos sete instrumentos no povoado. Era quem di- rigia quase todas as transações comerciais e o consultor na ocasião, pela reconhecida idoneidade. Vê-se pelos assentos

de casamentos e balizados da freguesia que foi grandemente estimado, servindo quase sempre de padrinho nesses atos, mui-

to importantes naquela época de crença arraigada no povo. Era

o compadre dos principais moradores da Paraíba, ricos ou po- bres; além do mais, o banqueiro de todos. Possuía armazém

de géneros no Lavapés, o melhor comércio

no povoado.

Por essa época existia em Paraíba um grupo de simpati-

= v zantes do movimento da independência, em que avultava o moço '^Hilário Joaquim de Andrade, filho do capitão Cristóvão e que

l Veio a ser barão do Piabanha.

Embora jovem em 1822, gozava

^'do respeito dos compatriotas, pelo caráter bem-formado e cia- is reza nas atitudes.

Em

viagem a toque-de-caixa para a capitania de Minas Ge-

J;tais,

em março de 1822, pela primeira vez passou por nossa

•'•freguesia o príncipe Pedro, que lá foi procurar o apoio dos mi-

lheiros para sua política, e desfazer intrigas. Conta a crónica dessa viagem que, adiante da comitiva e com avanço de um dia, seguiam dois cargueiros com roupa diri- gidos por um sargento; e que o príncipe não quis levar cozi- leiro e nem regular suas pousadas; comia o que encontrasse ílo caminho e dormia em esteira, se necessário fosse. D. Pedro, com a sua conhecida impudência, nesse pouso nossa freguesia teve a'petulância de redigir uma carta ci- ada a três-por-dois e por todos que se referem a essa viagem. |s como a conta. Araújo Guimarães 41 : "Em 1822, de Paraíba Sul, escrevia urna carta ao venerando e respeitável José íõnifácio que começava por esta frase: 'Nu em pêlo, pego na

3n

PEDRO GOMES

DA

SILVA

pnna para lhe participar que vamos bem.' " (Saíra de banho.) Sabe-se por tradição que ao passar pela ferraria do Limoeiro o príncipe apeou e, segurando a pata do animal que cavalgava,

mandou o ferreiro rebater uma ferradura frouxa. Hilário Joaquim de Andrade acompanhou D. Pedro de Pa- raíba ao Paraibuna, e teve a honra de hospedá-lo na fazenda do Paraibuna, cie propriedade de sua mãe e da qual era adminis- trador. Aproveitando sua presença, pediu-lhe a melhoria do Caminho de Minas em nossa região. Aclamado imperador,

D. Pedro fez o jovem paraibano — então com 26 anos — coronel

de sua guarda de honra. A terceira estada de Pedro l em Paraíba 42 foi

Minas em janeiro de 1831, três meses antes da Abdicação. Passara a noite do Ano Novo na fazenda do padre Corrêa, che-

gando a 2 de janeiro à do Governo.

Paraíba,

Amélia e sua comitiva. "Sua Majestade ocupou-se de um miúdo exame a respeito do que era preciso providenciar-se a bem dos povos residentes nestas margens do Paraíba, e dos que transitam pela freqiien- tadíssima estrada de Minas, que muito clamam pelo seu me- lhoramento, e por maior facilidade na passagem deste rio, onde se cobram rendas nacionais 1 "." "Apenas soube Sua Majestade Imperial que a igreja matriz se achava em lamentável estado, visitou-a pessoalmente, dei- xando logo nas mãos do vigário a esmola de 100SOOO para ajuda

na viagem a

No dia

3 estavam em

o imperador,

a imperatriz

•'' . ,A Carie no Brasil, Alberto Carlos Araújo Guimarães, Ed. Globo, Porto

Alegre, •'-.

passou por Paraíba quando foi inaugurar a ponte

construída no Paraibuna pelo Capitão Tiramorros, de que restam pilares de pedra. Pedro l não foi a Minas, voltando pelo rio Preto, Valença e a fazenda do então barão de São João Marcos, Santana (no futuro município de Vas- souras), passando o rio no arraial nascente de Comércio, hoje Sebastião Lacerda. Creio ter essa viagem rio Preto acima algo a ver com a conces- são da sesmaria de Cachoeira de Santana, quatro anos depois, a seu amigo, o barão de Lajes (ver capítulo próprio), que poderia passar a testa-de-lerro se a Abdicação não sobreviesse três anos depois. Como d. João VI, o

1936.

Em 1824 o imperador

imperador

A princípio, o próprio Garcia foi incumbido delas, "cobrando-se o lucro

das passagens para a fazenda real, e isto até o ano de 1734, em que foi

era

dado

a especulação

imobiliária.

< ::

.

relevado do dito encargo'

(do texto

da Carta

Régia de 10-05-1753, vazada

nas informações de Pedro

sobre

os

serviços

do

pai

e

pela

qual

obteve

as

encargo, de que ele e família foram relevados, dava para de sua renda

esse

benesses

que

o fizeram

o homem mais

rico

da Capitania).

Mas

tirarem-se

os 5.000

cruzados

de pensão

anual, por três vidas, então conce-

dida aos

Paes Leme,

apesar de

ser de então

em diante

posto tal

encargo

;i leilão, e arrematado periodicamente; isto é, executado sem mais controle.

O Capitão Tiramorros era contratante das passagens do Paraíba e Pa-

r;iibunn pelos

anos

da

Independência.

CAPÍTULOS DE HISTORIA DE PARAÍBA DO SUL

37

da sua reedificaçao, à qual se prestam todos os paroquianos, e agora muito mais, seguindo o exemplo de seu religioso chefe, que sem limitar-se à oferta de que falamos prometeu coadjuvar quanto pudesse a reparação do templo, louvando o zelo dos paroquianos que haviam prometido esmolar para este fim na ocasião em que vinham beijar-lhe a mão." "Averiguando o estado da administração do registro, tanto por meio de informações dos seus empregados como pela ins- peção dos livros e assentos, que servem para o lançamento do que é relativo à arrecadação do rendimento das passagens; e certificado do desleixo e falta de método com que tudo ali se fazia, ordenou, além de outras coisas, um formulário para a escrituração, que mandou desde logo observar inteiramente,

enquanto pelo Tesouro Nacional se não observasse outra coisa."

, "Pela investigação que se fez conhece-se que o admi-

nistrador do Registro não só tinha empregado no serviço cinco escravos seus, mas além disto lhes abonava o jornal de 640 réis diariamente, sem aprovação, para mais de 480 réis. Ter- minou este abuso por ordem de Sua Majestade Imperial, des- pediram-se os escravos, e foram substituídos logo por homens

livres, e sem o excesso de 160 réis, que redundavam indevida- mente em proveito do administrador."

O ministro do Império baixou então a seguinte portaria:

"Manda Sua Majestade Imperial ao provedor do registro da Paraíba que, de hoje em diante, faça escrever no livro da receita do rendimento das passagens dos rios Paraíba e Parai- buna as verbas relativas, da maneira que mostra o formulário junto assinado pelo ministro e secretário de Estado dos Negó- cios do Império, enquanto outra coisa não se determinar; e mais

lhe ordena que, desempenhando os deveres do seu emprego, cumpra e faça cumprir exatamente as leis e ordens relativas

a esta arrecadação, evitados os defeitos e desmazeles, que nelas têm havido até agora, debaixo da mais restrita responsabilidade. Registro da Paraíba, 3 de janeiro de 1831. Silva Maia".

No dia 4, chegou a comitiva imperial a Paraibuna e D. Pe-

dro l encontrou abandonada a ponte que viera inaugurar em

. Ordenou a seu mi-

nistro do Império que baixasse a seguinte portaria:

1824, na sua segunda viagem a Paraíba

44

talvez

que

subsiste do Ifldo mineiro, e também do eixo do atalho contratado por D.

João VI com o Capitão Tirfimorma em 1818 — decreto de 20 de fevereiro —,

•K

Era

a

ponte

de

madeira,

Ficava

coberta,

mais

e

chamada

próxima

"do

Madureira".

Registro

nome

de morador

local.

ao quartel do

que contorna

a grande

pedra

de

Paraibuna

peio

oeste

e

sai

em

cima da

ntual Afonso

Arinos.

descendo

o

Paraibuna

meia-légua

até

a

ponte

em

cuja boca se desenvolveu Mont'Serrat (ver capítulo desse Distrito).

certifica

da queima da ponte pelos revoltosos, para dificultar a travessia de sua

Consta

que

na

Revolução

Liberal

Mineira

de

1842 Caxias

se

38

PFOnt)

GOMES

DA

SILVA

"Sua Majestade Imperial, certificado de que se não tem cuidado na conservação da ponte do rio Paraibana, na estrada de Minas Gerais, com o zelo que cumpria para assegurar a sua mais longa duração, ordena ao provedor do Registro da Paraíba, a cujo cargo está a referida ponte, empregue toda a necessária vigilância e diligência para que bem se conserve, mandando já

periodica-

mente, como convém, Paraíbuna, 4 de janeiro de 1831. José

dar-lhe a pintura de que precisa, e fazendo-a repetir

António da Silva Maia."

As

duas viagens de

D. Pedro

l

a Minas

Gerais

tiveram

grande importância na política do Brasil. A primeira despertou entusiasmo por onde passava, apoiando todos a sua posição de resistência às Cortes de Lisboa, que teimavam em recolo- nizar o Brasil. A segunda, no final de seu reinado, refletiu a decepção do povo pela inabilidade com que o seu outrora amado príncipe administrava o Império que ajudara a criar.

tropa acantonada na fazenda Cachoeira — sobre o córrego referido na nota

38 - , observando de binóculo

da

o fumo que subia por sobre

a cumeada

pedra de Paraibuna.

E

isso

da

Pedra da Tocaia,

cuja

altitude

ultrapassa

a

cota de

680 metros.

De

fato, da Tocaia vê-se o

teto

plano

de

sentido

leste-oeste do abrupto penedo, que alcança os 800 m de altitude, favorecida

a visão pelo boqueirão aberto na serra das Abóboras pelos formadores do

Cachoeira, na vertente do Paraibuna. e do Limoeiro e Recato na do Paraíba.

capitulo 3

A Villa da Parahyba

Dentro do património territorial que coube aos herdeiros do mestre-de-campo Pedro Dias Paes Leme formaram-se com

a chegada do café muitas propriedades, e seus habitantes co- meçaram a gravitar em torno da fazenda da Paraíba.

, Era onde havia comércio com os viandantes do Caminho,

que ali aguardavam a passagem na barca; no alto do morro se

levantava a modestíssima matriz da Conceição da Santa Vir-

Paulo, em que

os fregueses se reuniam para festas religiosas que a tradição portuguesa transladou para o Brasil, e também por ocasião dos casamentos, balizados e missas.

PA freguesia evoluía para povoado, sendo os habitantes em maioria oriundos das quase esgotadas minas de ouro. Havia

também muitos mestiços, primeiro dos índios da região, depois dos negros trazidos para a lavoura do café.j^ Em vista da difi- culdade de resolverem seus problemas de legalização de terras

e os demais de justiça, começaram eles a pleitear, e solicitaram em vão alguns anos, a elevação do povoado a vila, conforme fora concedido ao fundador, Garcia Rodrigues Paes, nos primei- ros anos do Caminho. Mas somente conseguiram seu objetivo em 1833, pelo decreto de 15 de janeiro, que além de criar os primeiros municípios reorganizou toda a província. Desse decreto interessa especialmente o artigo 5.°. É do

seguinte teor, acompanhado da

gem e dos Santos Apóstolos São Pedro e São

abertura e do fecho 4 *:

< B . Interessa também o G/, que de passagem e oficialmente acrescenta

ao sesquicentenário nome de Paraíba o do Sul, para distinguir da capital

da

de Cantagalo conserva os seus atuais limites, desanexando-se todavia do

da

Paraíba do Sul, na forma do artigo precedente." O decreto não tem número e contém onzs artigos, organizando toda a província em seus primeiros municípios, que são citados um-por-um com

seu termo a freguesia de São José do Hio Preto, que pertencerá à vila

Paraíba do Norte a vila criada no artigo anterior. Eis o 6.°: "A vila

•10

"A Regência, em nónio cio Imperador , o Senhor Dom Pe-

Código do

dro

Processo

Artigo 5." — A povoação da Paraíba fica ereta em Vila, com- preendendo no seu termo as freguesias da Paraíba e de São José do Rio Preto, e os curatos de Sebolas e Matozinhos. Ni- oolau Pereira de Campos Vergueiro, Ministro e Secretário d'Es- tado dos Negócios do Império, assim o tenha entendido e faça

II, tendo em

vista o disposto no artigo 3." do

Criminal, decreta:

executar, com os despachos necessários.

Palácio do Rio de Janeiro, em

15 de janeiro de

1833, dé-

cimo segundo da Independência e do Império. (assinados) Francisco de Lima e Silva, José da Costa Car-

valho, João Bráulio Muniz." Criada a vila, era para instalar-se a Câmara Municipal dias após, o que não aconteceu por ter falecido a princesa imperial

Paula Mariana Joana Carlota, a 16 de

pensos os festejos. Assim, só a 15 de abril do mesmo ano

foi instalada a nossa Câmara Municipal.

empossado

janeiro, tendo

o

sido

sus -

Veio

dar

posse

aos

nossos vereadores

presidente da câmara da vila de Vassouras 4 ", Lauriano Corrêa

e Castro, depois barão de Campo-Belo, em 15 de abril.

f.ens lermos e freguesias, agrupando-os ainda nas seis comarcas criadas por outro decreto da mesma data. Em seu nascedouro, os municípios foram ainda submetidos à organização judiciária sediada nas antigas vilas cabe- ca-de-termo, por sua vez oriunda do Código Criminal de 1830 regulamentado no do Processo de 1832. Por esse decreto, além de Paraíba, foram criadas vilas em Vassouras, Itaboraí e Iguaçu e extintas as de Pati do Alferes e

Vila Nova

de

São José de EI-Rei.

Interessante é também

registrar

o acréscimo do s na denominação do

velho

curato

do

Bom Jesus

de

Mfiiozinho.

E

a

figura

do

executante

do

que

decreta

a

Regência Trina,

o

depois

famoso

senador

Vergueiro

dos

paulistas, já aí se distinguindo na pasta do Império, que até o Ato Adicional cie 12 de agosto de 1834 administrou a província do Rio de Janeiro, como

sede que

cessor na pasta, o não menos grande, fluminense e depois visconde

Sepetiba, Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho, são os campeões da organização municipal no Brasil, realizada a partir de 1827 e intensificada de 1831 a 1834. tendo-lhe servido a província de cobaia na grande obra. Muito curiosas, e algumas até engraçadas, foram suas Decisões de instrução aos primeiros e inexperientes administradores municipais, para só acomodarem à nova ordem. Duas delas, endereçadas às câmaras de Cabo Trio e Campos, são espelho da ruptura violenta havida no Pais corn a abdicação de Pedro l. Como sintomáticas daquela época de perple-

xidade, merecem transcrição em apêndice a estudo neste mesmo volume.

também

era do governo central.

O grande Vergueiro

e

seu

su-

de

•'".

O

paraibano

Lauriano

Corrêa e

Castro, que

escrevia

o

nome

com

/

como

o

tio

e o sobrinho, veio dar posse aos vereadores de sua terra para

cumprir

o

recente

decreto

que prescrevia "a

maneira

de

se fazer efetiva

a criação de uma vila" e se insere na série de medidas tomadas na época pela Regência em preparo da organização municipal, teoricamente na legis-

lação desde a Constituição

de

1824 ,

regulamentada desde a Lei

de

1."

de

CAPíTiUOS 1)1: HISTORIA DE PARAÍBA DO

SUL

41

A primeira Câmara tinha sete vereadores, como fixava a

lei, que eram os seguintes: Hilário Joaquim de Andrade, fu- turo barão do Piabanha e senhor da fazenda de Paraibuna, que por ter sido o mais votado foi o presidente; António Barroso

Pereira, depois barão de Entre-Rios, dono da fazenda de Can- tagalo; João Gomes Ribeiro de Aveiar, mais tarde barão e vis - conde da Paraíba, senhor da fazenda da Boavista; José Inocêncio 'dê Andrade Vasconcelos, o conhecido coronel José Inocêncio,

da

sogro do conselheiro Martinho Campos, o qual herdou a sua fazenda de Matozinhos e chegou a ministro do Império; João

fazenda cia Várzea; Joaquim José dos Santos Silva , futuro

José da Silva Leitão, senhor da fazenda da Laje; e José Cândido

Fragoso, que possuía

hoje no território de Petrópolis.

as fazendas Arca-de-Noé e Benfica, ambas

o presidente

da Câmara Municipal da Vila de Vassouras, Lauriano Corrêa e Castro, e o secretário da mesma Câmara, Salustiano António ;Rodrigues, para o efeito de dar posse aos vereadores da Câ-

" Deixaram de comparecer, com

;',;.bàusa, João José da Silva Leitão' 17 e José Cândido Fragoso 18 . Os

-""'—eadores presentes, depois das formalidades de estilo, foram

de cada vez prestando o juramento de bem servir à causa

E

;

"Às

onze horas do dia,achando-se presente

"rnara da Vila da Paraíba

^outubro de 1828, mas efetivamente posta em execução depois da abdicação |Jè Pedro l, que via nas câmara s eletiva s — as provinciai s criada s pel o

ftto de 1834 — entrave à sua política absolutista.

E seriam

mesmo.

O decreto de 13-11-1832 prescrevia o comparecimento do presidente

.cémar a em cujo termo se criasse a vila para dar posse aos vereadores, jw|p : que causou delongas (caso de Barra Mansa, vila em outubro de 1832 mas

decreto de

M 1-1833, "tendo a experiência mostrado que nem sempre pode ter pronto

Então, o vereador

chiais votado e presidente da nova câmara (caso de Lauriano em Vassouras h) do sobrinho e cunhado Hilário em Paraíba) comparecia à sede da câmara

|!do antigo termo, prestava juramento e o deferia aos demais vereadores

' inst 3 ' 8 ^ 3

muito

mais

o

tarde).

Foi assim

modificado

etc. "

pelo

j|||e exato cumprimento

artigo 3." do decreto

.

lifistalando-se

mais

praticamente

a vila.

meu

|rgfitfOra de três meses

f;|«i;4

A

ver ,

exagera o autor

na instalação

o luto pela princesa ao

de nossa

câmara.

lhe

Nesse

atribuir

meio-tempo.

a

de-

|Ejlá'Uma decisão de Honório Hermeto Carneiro Leão como ministro da Jus-

íHfíjçà, a 15-02-1833, que talvez elucide isso; é quando responde à consulta da

BBfndva câmara eleita

em Vassouras —

leia-se

Lauriano

Corrêa

e Castro

-

>! **íquanto

às

responsabilidades a assumir

pela câmara da antiga

vila de Pati

dÒ"Alferes, cuja última sessão registrada foi

a

21

de

abril

de

1824 e teve

Rrtí só propósito: apoiar'o f/o/pe de dissolução da Assembleia por Pedro l. PlliG no dia 25 do mês anterior outorgara uma Constituição, para ele , "ainda

•Riflais liberal" que a então em preparo pela Constituinte dissolvida. Carneiro ^gLeãò decidiu que o de Vassouras fosse termo sucessor de Pati, resolvendo-so

pel o recent e decret o d e 1 3

impass e d a

instalaçã o d a câmar a e m

Paraíb a

MJéi novembro de1832. ip' ^ Da extinção efetiva da

|||||:>assagem ainda o estudo Equívocos, oportuno incluir neste volume.

vila

de Pati, antes da legal

em 1833,

trata de

42

PEDRO GOMES DA SILVA

pública, com a mão direita sobre um livro dos Santos Evange- lhos. Empossados, assumiu a presidência Hilário Joaquim de Andrade. Em seguida, o presidente da Câmara de Vassouras fez a seguinte fala'": "Caiu por terra esse sistema maquiavélico adotado pelo despotismo, em que o Povo numeroso se via obri- gado a mendigar a Povos vizinhos a Justiça que procurava. Se cada homem tem em si mesmo o órgão para expressar suas

cargo,

então muito importante. Sua fazenda da Laje tinha sede no Caminho a 2 km para cá de Sebolas.

1827 como

prepar o ao advent o dos município s — lei de 1." de outubr o de 1828 — ,

que se apoia de início a organização municipal no Brasil, concluída pelo Ato

Adicional à Constituição

O juiz-de-paz foi de início relzinho no seu distrito, cortando-lhe depois

os próprios legisladores as asas nas emendas legislativas de 1839/40. Mas foi quem transformou o que era antes apenas designativo de espaço geo- gráfico, território, como o tal distrito da Paraíba Nova (a serra no oeste

da província), na circunscrição político-administrativa da infra-estrutura mu- nicipal. O distrito da Paraíba Nova, que estabeleceu confusão com a nossa Paraíba entre os que pouco ou nada estudam, parece criação do geógrafo Aires de Casal (op. cif. na bibliografia).

O Código do Processo Criminal (decreto de 29 de novembro de 1832) de-

terminou para cada distrito um juiz-de-paz, com função sui-generis, um es-

crivão

quantos

fossem os quarteirões, que teriam no mínimo 75 casas habitadas. Com esse código e os juízes-de-paz, distrito no Brasil passa à categoria

de circunscrição jurídico-administrativa e, com a criação dos municípios logo

a seguir, a designar a sua subdivisão na política de administração local,

17 Eleito juiz-de-paz do curato de Sebotas, esse vereador optou pelo

É

no

juizado-de-paz,

criado pela lei

de

1824 votado

de

a

15

12 de

de

outubro

de

agosto de 1834.

e

os

oficiais

de

justiça

necessários.

E tantos

inspetores

abandonando-se

ao

mesmo

tempo

a

arcaica em

freguesias

e

curatos

da

administração

eclesiástica.

Essa,

no

entanto,

quer

na baixada

como

em

serra-acima, precedeu a jurídica. E é por isso que o pai da história flumi- nense é o admirável Monsenhor Pizarro, nas Memórias citadas, elas e ele também "de nunca assaz louvado mérito". Porque levantou minuciosamen-

te

•' s . Esse vereador foi o quínta-coluna na nossa primeira câmara. Um es- tudo na coleção Centenário de PRtrópo/is, já citada, o dá como falecido antes de tomar assento ali, o que para nossa vila foi pena não ter acontecido. Fez o que pôde para instalar a vila em São José do Rio Preto, faltava sis- tematicamente às sessões, para prejudicar o quorum nas primeiras delibe- rações, e na questão da nova matriz da vila, de construção já bem precária, votou para que fosse de taipa.

consulta de nossa câmara ao ministro do Império, a

25-02-1834, com decisão a 3 de março seguinte, nasceu dessa oposição

devem ser assinadas

por todos os vereadores presentes, ainda mesmo que algum deles tenha

sido de opinião contrária, declarando-se na ata, como cumpre, os nomes

dos que votaram pró e contra."

sistemática: "as deliberações e

a origem

de cada freguesia.

A

primeira

representações

Fragoso era sempre da segunda opção

. • <!1 . Lauriano e Hilário parece até que combinaram o tom do discurso de cada um; o tio falaria do passado: "sistema maquiavélico" — "despotis-

mo" — "injustiça manifesta" — calcar "os tropeços que ofendam a liber- dade" — "livres do despotismo que ameaça nossa religião", esta aí tomada

CAPÍTULOS DE HISTÓRIA

DE PARAÍBA DO SUL

43

previsões, era injustiça manifesta procurar longe de si mesmo o Tribunal de sua representação. Se a Câmara é o órgão que comunica a vontade, e os sentimentos do Povo, cada um de nós já o possui no seu País Natal. Este passo vantajoso para o Brasil faz respeitar a mão benfazeja que o deu. Graças imor- tais sejam dadas à Assembleia que assim promove nossa feli- cidade. A Europa já olha com respeito para nossa Legislação; vereis se este benefício é grande, se é digno da inveja das Nações Estrangeiras, mas se torna tanto maior quanto os mem- bros que compõem esta Câmara, ornados de qualidades brilhan- tes, animados de patriotismo, calcarão denodadamente todos os tropeços, que ofendam a liberdade. Princípios tão felizes anunciam resultado mais respeitável. Eu vos dou os parabéns, oh Paraibanos, eu me congratulo convosco pela sábia eleição que fizestes, a qual certamente mostrará suas vantagens em tempo oportuno. Resta, pois, que unamos nossos sentimentos patriotas, e que de mãos dadas trabalhemos na Causa da Liber- ;. dade legal, na felicidade dos Povos, e livres do despotismo que ameaça nossa religião. Clamemos cheios de um prazer patrió- tico: Viva a Religião! Viva a Constituição! Viva o sr. Dom l Pedro II! Viva a Regência! Viva a Câmara de Paraíba!"

fítiS

|np sentido lato d e crença , doutrina, fé , devoção, acatamento , respeit o etc. ;

í-O* sobrinho abordaria

|'fala três vezes.

;W

í:'Paraíba — parece, no próprio arraial — em 25-02-1790 e se balizou na matriz

íiido morro

í; de Domingos Corrêa Rabelo, nasceu em Mariana em 1746 e a 28 de outubro l-de 1774 casou-se em Paraíba com Mariana das Neves Corrêa, também ;'mineira. Citados no capítulo anterior, além do capitão Cristóvão Rodrigues | ; de Andrade, vimos como dos "moradores de mais evidência da vila" o padre S-iauriano Corrêa Rabelo e Castro, xará e provavelmente tio de Lauriano. |%'0 tenente João Pacheco Lourenço e Castro, por certo também parente.

K-*;,- O futuro barão se casou com uma sobrinha também de Paraíba, Eufrásia

'fjoaquina de Pontes, filha do capitão Cristóvão e de sua esposa, Ana Es- í méria de Pontes França, e batizada no morro a 14-08-1790. Faleceu na fa-

Era irmã de Hilário, mais

yfnoço seis anos, que assim vinha a ser sobrinho e cunhado do colega de í ! fala na sessão de instalação de nossa Câmara. f? A fazenda do Secretário, propriedade do paraibano e sobrado com 14 wjanelas na fachada, é citada obrigatoriamente sempre que se referem as ítíialores e mais belas dos barões do café. Lauriano ali faleceu a 08-01-1861. |&éu nome está perpetuado*na grande praça central de Vassouras. Quanto ao nome da fazenda, saído naturalmente do ribeirão que a banha ôga-se no Paraíba pouco a montante de Andrade Pinto, antiga Ubá), talvez |nha também do secretario do governador do Rio de Janeiro que deu Orne à fazenda no afluente do Fagurjdes e, em 1728, também especulava ilfrterras à margem do Caminho Novo, na atual divisa Paraíba—Vassouras jferií nome do governador Aires de Saldanha (cf. Fazenda do Governo].

!?

•íenda do Secretário (de Vassouras) a 13-03-1873.

o futuro (ver

nota a seguir), em que

de

município

Lauriano

Corrêa e Castro, em 1854 barão de Campo Belo, nasceu em

Seu pai, Pedro Corrêa

e Castro, filho

a 30 de março seguinte.

•M

PFDRO GOMES DA

SILVA

Falou a seguir o presidente Hilário Joaquim de Andrade, que disse o seguinte" 1 ":

"Senhores. Realizaram-se enfim os votos dos beneméri- tos cidadãos deste nosso município, a quem, sendo muito in- cómodas as viagens que eram obrigados a fazer para alcançar os recursos de que careciam, há muito anelavam pela criação de uma vila neste ponto. Graças sejam rendidas ao nosso go-

verno, que apenas se viu autorizado atendeu a nossas súplicas,

e ardentes desejos. Quando nossos concidadãos nos votavam

a sUa administração e quiseram que dependessem de nossos

desvelos seus assuntos, e prosperidade, cumprimos pois agrade- cidos concorrer de nossa parte a fim de que suas esperanças se não malogrem; menos apto ainda para sentar entre vós, eu sou chamado pela Lei ao topo desta casa, à Presidência de tão res- peitável Corporação, para que tanto fenecem meus recursos, e

são mesquinhos meus talentos, quanto sou sincero em reco- nhecer que esta cadeira seria mui bem provida quando ocupada por qualquer dos meus prezados colegas. Todavia, senhores, se em tudo o mais eu reconheço vosso mérito, e superioridade, no acrisolado desejo de servir à Pátria que me viu nascer, no amor das suas instituições eu vos concedo a preferência, por- que então me ufano de vos ser igual. Mas em verdade eu

sabe a tarefa

difícil que o espera. Mas reflete também estar bem ciente de que as novas vilas não seriam apenas sedes de administração de justiça, onde "em in- cómodas viagens" — quanto mais distantes fossem — iam "buscar os re- cursos de que careciam". Parece, o homem de que todas as notícias que chegaram até nós apresentam como muito inteligente e empreendedor, estava bem R nar da transformação política e administrativa que se empre-

endia na Regência. E não esquece o compromisso de opor "invencível barreira a essa facção desorganizadora que por desgraça nossa tem levan- tado o ca/o extremo Refere-se ao chamado na época partido português, amigos e associados de Pedro l que em torno de José Bonifácio tramavam sua volta A morte do ex-imperador no ano seguinte, 1834, trouxe desa- lento à facção desorqanizadora e desafogo aos que arqultetavam novos rurnos para o País. Hilário Joaquim de Andrade, barão (do Piabanha) também em 1854 como o lio e cunhado no aniversário do Imperador (2 de dezembro), nasceu em Paraíba em 1796 e faleceu na fazenda de Serraria em abril de 1865. Era filho do capitão Cristóvão Rodrigues de Andrade. Pela mãe, Ana Esmeria do Pontes França, parece descender de João Pontes França, já sesmeiro com rumo (confrontação] na sesmaria obtida em 1817 pelo futuro barão de Entie-Rios em Cantagalo. Esse Pontes França emigrou de Pati do Al- feres, parece, pelos fins do século XVIII, e sua sesmaria possivelmente confina com ^ de Barroso Pereira nas cabeceiras do córrego Cantagalo,

(cf. capítulo Os