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Polícia para quem precisa de polícia; o dependente de drogas precisa de

medicina, de psicologia. Simples assim, mas foi com esse novo enfoque que a
ONU suavizou o caráter repressivo de sua política antidrogas. Como
consequência, vários países mudaram suas legislações descriminalizando ou
despenalizando o usuário, mas não existe fundamentação científica para
afirmar ou negar se isso provocou diminuição no consumo. Os relatórios do
UNODC, escritório das nações unidas contra a droga e o crime, nada
esclarecem; apenas apontaram queda na produção de cocaína na Colômbia e na
Bolívia, e da maconha no Paraguai. O problema é que os mesmos papéis têm
registrado aumento na produção das drogas chamadas sintéticas, como LSD,
ecstasy, ice e anfetaminas.

Qual foi, então, a vantagem dessas mudanças? Esfriar a chapa quente da


guerra contra a droga. Explico melhor: tráfico está presente em todos os
países do mundo, inclusive com seus associados, como o tráfico de armas,
corrupção de políticos, juízes e policiais, lavagem de dinheiro, nem o Banco
do Vaticano escapou. Porém o choque violento, a guerra urbana, opondo as
forças do Estado aos bandidos, ficou em países como o Brasil e o México,
onde as autoridades ainda resistem a entrar nos novos tempos até porque,
como disse o Dicró num de seus apimentados sambas, o bandido garante emprego
de 5 pessoas: o policial pra prender, o promotor pra fazer a caveira, o
advogado pra defender, o juiz pra condenar e o carcereiro pra trancafiar.
Pior de tudo, é que pessoas inocentes, como os moradores da favela,
continuam reféns de quadrilhas, tombando vítimas tanto da violência dos
narcovarejistas, como também da truculência daqueles que pagamos para
defender a lei. E ninguém está livre de cair nesse confronto: cor,
profissão, classe social, nada protege.

A mudança de paradigma na definição do crime da droga não só faz encolher o


raio de ação das polícias, mas pode levar também a ações mais inteligentes,
sem uso da força desnecessária, transferindo a repressão à lavagem de
dinheiro. Aí, sim, serão pegos os verdadeiros empresários do narcotráfico, e
não os miseráveis camelôs, seus linhas-de-frente, que se escondem nos
morros.

Se até na Colômbia dos cartéis de Cáli e Medellin o número de homicídios


regrediu, é possível que o mesmo aconteça no Rio de Janeiro e em São Paulo.
A legalização do consumo, por isso, é que vai nos trazer a paz nas cidades,
com ressalvas: combate à praga do crack e defesa das crianças e
adolescentes.

Paulo Cezar Martins, 64 anos, sociólogo, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia, professor da
UESB