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Dicionário

daEducação
Profissional
em
Saúde
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ

Presidente
Paulo Ernani Gadelha Vieira

ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO

Diretor
André Malhão

Vice-diretor de Desenvolvimento Institucional


Sergio Munck

Vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico


Isabel Brasil

Coordenadora do Laboratório de Trabalho e Educação Profissional em Saúde


Monica Vieira
Dicionário
daEducação
Profissional
em
Saúde
Isabel Brasil Pereira
Júlio César França Lima
Organizadores

2.ed.rev.ampl.
Todos os direitos desta edição reservados à Escola Politécnica
de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz

A primeira edição do Dicionário de Educação Profissional em Saúde foi financiada com


recursos do Ministério da Saúde, no âmbito do Plano Diretor para o biênio2004-2006 da
Rede Observatório deRecursos Humanos em Saúde, com tiragem de 1.500 exemplares.

Revisão e copidesque
Maria Cecília G. B. Moreira (1ª edição)
Itamar José de Oliveira (2ª edição)
Revisão Técnica:
Isabel Brasil Pereira
Júlio César França Lima
Projeto Gráfico, Capa
Carlota Rios
Editoração
Marcelo Paixão

Catalogação na fonte
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio
Biblioteca Emília Bustamante
P436d Pereira, Isabel Brasil
Dicionário da educação profissional em saúde / Isabel Brasil Pereira
e Júlio César França Lima. – 2.ed. rev. ampl. - Rio de Janeiro: EPSJV, 2008.

478 p.

ISBN: 978-85-987-36-6

1. Educação. 2. Dicionário. 3. Educação Profissionalizante. 4. Saúde.


I. Título. II. Lima, Júlio César França.

CDD 370.3
AUTORES

Alcindo Antônio Ferla – Médico, doutor André Silva Martins – Doutor em Edu-
em Educação pela Universidade Fede- cação pela Universidade Federal
ral do Rio Grande do Sul (UFRS), Fluminense (UFF), professor adjunto
Consultor da Hospital Nossa Senhora da Universidade Federal de Juiz de Fora
da Conceição S/A, professor visitan- (UFJF), professor do Programa de
te/colaborador da Universidade do Pós-Graduação em Educação da UFJF,
Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pro- pesquisador do Coletivo de Estudos
fessor adjunto da Universidade de sobre Política Educacional da Escola
Caxias do Sul. Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio
da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/
Ana Margarida de Mello Barreto Campello
Fiocruz) e do Núcleo Educação, Tra-
– Pedagoga, doutora em Educação pela
balho e Tecnologia da UFJF.
Universidade Federal Fluminense (UFF)
e pesquisadora do Laboratório de Tra- Angélica Ferreira Fonseca – Psicóloga-sa-
balho e Educação Profissional em Saú- nitarista, mestre em Saúde Pública pela
de da Escola Politécnica de Saúde Joa- Escola Nacional de Saúde Pública Sér-
quim Venâncio da Fundação Oswaldo gio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz
Cruz (EPSJV/Fiocruz) (Ensp/Fiocruz), professora e pesquisa-
dora da Escola Politécnica de Saúde Jo-
André Mota – Historiador, doutor em
aquim Venâncio da Fundação Oswaldo
História pela Universidade de São Pau-
Cruz (EPSJV/Fiocruz)
lo (USP) e pós-doutorando bolsista
Fapesp em História da Medicina e Saú- Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos
de Pública paulistas junto ao Depto de – Pedagoga, doutora em Educação pela
Medicina Preventiva da Faculdade de Universidade Federal do Rio de Janei-
Medicina da USP. ro (UFRJ), professora e pesquisadora
da Escola Politécnica de Saúde Joaquim
Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
(EPSJV/Fiocruz).
Arlinda Moreno – Psicóloga, doutora em Denise Elvira Pires – Enfermeira-sanita-
Saúde Coletiva pelo Instituto de Me- rista, pós-doutorado em Ciências Soci-
dicina Social da Universidade do ais pela University of Amsterdam, pro-
Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), fessora do Departamento de Enferma-
professora e pesquisadora do Labora- gem e do Programa de Pós-Graduação
tório de Educação Profissional em In- em Enfermagem, do Centro de Ciênci-
formações e Registros em Saúde da as da Saúde (CCS) da Universidade Fe-
Escola Politécnica de Saúde Joaquim deral de Santa Catarina (UFSC).
Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
Domingos Leite Lima Filho – Engenhei-
(EPSJV/Fiocruz).
ro elétrico, doutor em Educação pela
Carlos Batistella – Odontólogo, especia- Universidade Federal de Santa Catarina
lista em Educação Profissional em Saú- (UFSC) e professor do Programa de
de pela Fundação Oswaldo Cruz e pro- Pós-Graduação da Universidade
fessor-pesquisador do Laboratório de Tecnológica Federal do Paraná
Educação Profissional em Vigilância em (UTFPR).
Saúde da Escola Politécnica de Saúde
Eduardo Henrique Passos Pereira – Psicó-
Joaquim Venâncio da Fundação
logo, doutor em Psicologia pela Universi-
Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz)
dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e
Carmen Sylvia Vidigal Moraes – Psicólo- professor da Universidade Federal
ga, pós-doutorado pela Laboratoire Fluminense (UFF).
Travail et Mobilités e professora da Fa-
Eduardo Navarro Stotz – Sociólogo, dou-
culdade de Educação da Universidade de
tor em Saúde Pública, pesquisador e
São Paulo (USP).
professor da Escola Nacional de Saú-
Claudia Medina Coeli – Médica, doutora de Pública Sérgio Arouca da Funda-
em Saúde Coletiva pelo Instituto de ção Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz).
Medicina Social da Universidade do
Emerson Elias Merhy – Médico-sanitarista,
Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj),
doutor em Saúde Coletiva pela Universi-
docente do Departamento de Medici-
dade Estadual de Campinas (Unicamp) e
na Preventiva da Faculdade de Medi-
professor do Curso de Pós-Graduação
cina e do Instituto de Estudos em Saú-
em Clínica Médica da linha: Micropolítica
de Coletiva da Universidade Federal do
do Trabalho e Cuidado em Saúde.
Rio de Janeiro (Iesc/UFRJ).
Francisco Javier Uribe Rivera – Médico- Gustavo Corrêa Matta – Psicólogo, dou-
sanitarista, doutor em Saúde Pública, tor em Medicina Social pela Universi-
pesquisador titular do Departamento dade do Estado do Rio de Janeiro
de Administração e Planejamento de (Uerj), pesquisador do Laboratório de
Saúde da Escola Nacional de Saúde Educação Profissional em Atenção à
Pública Sérgio Arouca da Fundação Saúde da Escola Politécnica de Saúde
Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz). Joaquim Venâncio da Fundação
Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz)
Gastão Wagner de Sousa Campos – Médi-
co, doutor em Saúde Coletiva pela Hillegonda Maria Dutilh Novaes – Médi-
Universidade Estadual de Campinas ca pediatra, doutora em Medicina Pre-
(Unicamp), professor titular da Univer- ventiva pela Universidade de São Paulo
sidade Estadual de Campinas, membro (USP), professora do Departamento de
de corpo editorial da Trabalho, Edu- Medicina Preventiva da Faculdade de
cação e Saúde e da Revista Ciência & Medicina da USP, coordenadora do Nú-
Saúde Coletiva. cleo de Informações em Saúde/NIS do
Hospital das Clínicas da FM-USP.
Gaudêncio Frigotto – Filósofo e educador,
doutor em Ciências Humanas (Educa- Inesita Soares de Araújo – Comunicóloga,
ção) pela Pontifícia Universidade Cató- doutora em Comunicação e Cultura
lica de São Paulo, professor titular do pela Escola de Comunicação da Uni-
Programa Interdisciplinar de Pós-Gra- versidade Federal do Rio de Janeiro
duação em Políticas Públicas e Forma- (UFRJ), pesquisadora do Laboratório
ção Humana na Faculdade de Educação de Pesquisa em Comunicação e Saúde
da Universidade do Estado do Rio de do Instituto de Comunicação e Infor-
Janeiro (Uerj) e membro do Comitê mação Científica e Tecnológica em
Diretivo do Conselho Latino-America- Saúde da Fundação Oswaldo Cruz
no de Ciências Sociais (Clacso). (Icict/Fiocruz).
Grácia Maria Gondin – Arquiteta e Ur- Isabel Brasil Pereira (Coordenadora) –
banista, mestre em Saneamento Bióloga, doutora em Educação pela
Ambiental e doutoranda em Saúde Pú- Pontifícia Universidade Católica de São
blica pela Escola Nacional de Saúde Paulo (PUC-SP), vice-diretora de Pes-
Pública Sérgio Arouca da Fundação quisa e Desenvolvimento Tecnológico
Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), e pes- da Escola Politécnica de Saúde Joa-
quisadora do Laboratório de Vigilância quim Venâncio da Fundação Oswaldo
em Saúde da Escola Politécnica de Saú- Cruz (EPSJV/Fiocruz) e professora
de Joaquim Venâncio da Fundação adjunta da Universidade Estadual do
Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz). Rio de Janeiro (FEBF/Uerj).
Janine Miranda Cardoso – Cientista soci- Jussara Cruz de Brito – Engenheira, pós-
al, doutoranda em Comunicação e doutorado em Ergologia pela Université
Cultura pela Escola de Comunicação de Provence Aix Marseille I e coorde-
da Universidade Federal do Rio de Ja- nadora do Grupo de Pesquisas e Inter-
neiro (UFRJ), tecnologista do Labora- venção em Atividade de Trabalho, Saú-
tório de Pesquisa em Comunicação e de e Relações de Gênero (Pistas) do
Saúde do Instituto de Comunicação e Centro de Estudos da Saúde do Traba-
Informação Científica e Tecnológica lhador e Ecologia Humana (CESTEH/
em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz Ensp/Fiocruz).
(Icict/Fiocruz).
Justino de Souza Junior – Professor, dou-
José Rodrigues – Professor, doutor em tor em Educação pela Universidade
Educação pela Universidade Esta- Federal de Minas Gerais (UFMG), pro-
dual de Campinas (Unicamp), pro- fessor da Faculdade de Educação da
fessor adjunto da Universidade Fe- Universidade Federal de Minas Gerais
deral Fluminense (UFF), vice-coor- (FaE/UFMG).
denador do Núcleo de Estudos, Do-
Ligia Bahia – Médica-sanitarista, dou-
cumentação e Dados sobre Traba-
tora em Saúde Pública pela Fundação
lho e Educação (NEDDATE-UFF),
Oswaldo Cruz (Fiocruz), professora
membro de Conselho Editorial das
adjunta da Faculdade de Medicina e
revistas Trabalho, Educação e Saúde (da
do Núcleo de Estudos de Saúde Co-
Fundação Oswaldo Cruz) e Traba-
letiva da Universidade Federal do Rio
lho Necessário (NEDDATE-UFF) e
de Janeiro (UFRJ).
assessor da Faperj.
Lilia Blima Schraiber – Médica-sanitaris-
Júlio César França Lima (Coordenador)
ta, doutora em Medicina Preventiva
– Enfermeiro-sanitarista, mestre em
pela Universidade de São Paulo (USP)
Educação pelo Instituto de Estudos
e professora do Departamento de
Avançados em Educação da Fundação
Medicina Preventiva da Faculdade de
Getúlio Vargas (FGV), doutorando do
Medicina da USP.
Programa de Pós-Graduação em Políti-
cas Públicas e Formação Humana da Lílian de Aragão Bastos do Valle –
Universidade do Estado do Rio de Ja- Pedagoga, pós-doutorado em Educação
neiro (Uerj), pesquisador do Laborató- pela École des Hautes Etudes en
rio de Trabalho e Educação Profissional Sciences Sociales (EHESS) e coordena-
em Saúde da Escola Politécnica de Saú- dora do Programa de Pós-Graduação
de Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). em Políticas Públicas e Formação Hu-
mana (PPFH) da Faculdade de Educa-
ção da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (Uerj).
Lúcia Maria Wanderley Neves – Educa- Márcia Valéria Guimarães Morosini – Psi-
dora, doutora em Educação pela Univer- cóloga, especialista em Saúde Pública
sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pela Escola Nacional de Saúde Pública e
professora (aposentada) da Universida- pesquisadora do Laboratório de Educa-
de Federal de Pernambuco (UFPE), pro- ção Profissional em Atenção à Saúde da
fessora participante do Programa de Pós- Escola Politécnica de Saúde Joaquim
Graduação em Educação da Universida- Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
de Federal Fluminense (UFF) e pesqui- (EPSJV/Fiocruz).
sadora da Escola Politécnica de Saúde
Maria Ciavatta – Filósofa, doutora em
Joaquim Venâncio da Fundação
Educação pela Pontifícia Universida-
Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz).
de Católica do Rio de Janeiro (PUC-
Madel Therezinha Luz – Filósofa, pós- RJ), professora associada ao Progra-
doutorado em Saúde Coletiva pelo ma de Pós-graduação em Educação -
Institut National des Recherches Mestrado e Doutorado da Universida-
Médicales (Inserm), professora titular da de Federal Fluminense (UFF), e pro-
Universidade do Estado do Rio de Ja- fessora visitante na Faculdade de Ser-
neiro (Uerj), assessora do Conselho Na- viço Social da Universidade do Estado
cional de Desenvolvimento Científico e do Rio de Janeiro (Uerj).
Tecnológico (CNPq), vice-presidente da
Maria Helena Machado – Socióloga,
Associação Brasileira de Pós-Graduação
doutora em Sociologia pela Universi-
em Saúde Coletiva (Abrasco).
dade Federal de Minas Gerais
Marcela Alejandra Pronko – Professora, (UFMG), pesquisadora titular da Es-
doutora em História pela Universida- cola Nacional de Saúde Pública Sér-
de Federal Fluminense (UFF), profes- gio Arouca da Fundação Oswaldo
sora colaboradora da Universidad Na- Cruz (Ensp/Fiocruz) e diretora do
cional de Luján (Argentina), professo- Departamento de Gestão e da
ra-pesquisadora da Faculdade Latino- Regulação do Trabalho em Saúde do
Americana de Ciências Sociais Ministério da Saúde (SGTES/MS).
(FLACSO) sede acadêmica Brasil e
Maria Lúcia Frizon Rizzotto – Enfer-
bolsista da Escola Politécnica de Saú-
meira, doutora em Saúde Coletiva
de Joaquim Venâncio da Fundação
pela Universidade Estadual de Cam-
Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz).
pinas (Unicamp) e professora da
Universidade Estadual do Oeste do
Paraná (Unioeste).
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Maria Valéria Costa Correia – Assistente Saúde, do Laboratório de Trabalho e


Social, doutora em Serviço Social pela Educação Profissional em Saúde e do
Universidade Federal de Pernambuco Programa de Pós-Graduação da da Es-
(UFPE) e professora da Faculdade de cola Politécnica de Saúde Joaquim
Serviço Social da Universidade Federal Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
de Alagoas (Ufal). (EPSJV/Fiocruz).
Marina Peduzzi – Enfermeira, doutora Nadya Araújo Guimarães – Socióloga,
em Saúde Coletiva pela Universidade pós-doutorado pela Massachusetts
Estadual de Campinas (Unicamp) e pro- Institute of Technology (MIT), profes-
fessora do Departamento de Orientação sora da Universidade de São Paulo (USP)
Profissional da Escola de Enfermagem e pesquisadora do Centro Brasileiro de
da Universidade de São Paulo. Análise e Planejamento (Cebrap).
Marise Nogueira Ramos – Professora, dou- Naira Lisboa Franzoi – Professora, dou-
tora em Educação pela Universidade tora em Educação pela Universidade
Federal Fluminense (UFF), coordenado- Estadual de Campinas (Unicamp) e pro-
ra do Programa de Pós-Graduação da fessora da Universidade Federal do Rio
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Grande do Sul (UFRGS).
Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
Nayla Cristine Ferreira Ribeiro – Peda-
(EPSJV/Fiocruz) e professora adjunta da
goga, mestranda em Educação Profis-
Faculdade de Educação da Universidade
sional em Saúde pela Escola Politécni-
do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
ca de Saúde Joaquim Venâncio
Maurício Monken – Professor, doutor em (EPSJV/Fiocruz) e bolsista pró-gestão
Saúde Pública pela Escola Nacional de da Biblioteca Virtual em Saúde - Edu-
Saúde Pública Sergio Arouca da Funda- cação Profissional em Saúde (BVS-
ção Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) e EPS) da EPSJV/Fiocruz.
pesquisador do Laboratório de Educa-
Ramon de Oliveira – Professor, doutor
ção Profissional em Vigilância em Saú-
em Educação pela Universidade Fede-
de da Escola Politécnica de Saúde Joa-
ral Fluminense (UFF) e professor do
quim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).
Programa de Pós-Graduação em Edu-
Monica Vieira – Socióloga, doutora em cação da Universidade Federal de
Saúde Coletiva pelo Instituto de Me- Pernambuco (UFPE).
dicina Social (IMS/Uerj) e coordena-
dora do Observatório dos Técnicos em

10
A

Ramon Peña Castro – Economista, pós- Sarah Escorel – Médica-sanitarista, dou- C


doutorado em Economia pela tora em Sociologia pela Universidade
Universidad Autonoma de Madrid e de Brasília (UnB), pesquisadora titular D
professor colaborador (aposentado) do da Escola Nacional de Saúde Pública
PPGCSo da Universidade Federal de Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), inte- E
São Carlos, pesquisador visitante e pro- grante do Núcleo de Estudos Políti-
fessor colaborador do Programa de co-Sociais em Saúde do Departamen-
F
Pós-Graduação da Escola Politécnica to de Administração e Planejamento
de Saúde Joaquim Venâncio da Fun- em Saúde (Nupes/Daps/Ensp/
dação Oswaldo Cruz (EPSJV/ Fiocruz), coordenadora do Observa- G
Fiocruz). tório da Conjuntura de Políticas de
Saúde da Ensp. H
Regina Duarte Benevides de Barros – Psicó-
loga, pós-doutorado em Saúde Coletiva Sérgio Lessa - Doutor em Ciências Hu-
pela Universidade Estadual de Campinas manas pela Unicamp, professor do
I
(Unicamp) e professora da Universidade Departamento de Filosofia da Uni-
Federal Fluminense (UFF). versidade Federal de Alag oas N
(UFAL), membro da Editoria da Re-
Ricardo Burg Ceccim – Enfermeiro-Sani-
vista Crítica Marxista. O
tarista, doutor em Psicologia Clínica pela
Pontifícia Universidade Católica de São Sergio Munck - Estatístico, mestre em
Paulo (PUC-SP), professor do Progra- Tecnologia Educacional nas Ciências P
ma de Pós-Graduação em Educação da da Saúde pelo Núcleo de Tecnologia
Universidade Federal do Rio Grande do Educacional em Saúde da Universida- Q
Sul (UFRS). de Federal do Rio de Janeiro (Nutes/
Rosana Teresa Onocko Campos – Médica,
UFRJ), vice-diretor de Gestão e De- R
senvolvimento Institucional da Esco-
doutora em Saúde Coletiva pela Uni-
versidade Estadual de Campinas
la Politécnica de Saúde Joaquim S
Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
(Unicamp) e professora RDIDP da
(EPSJV/Fiocruz).
Universidade Estadual de Campinas T
(Unicamp). Sônia Regina de Mendonça – Historiado-
Roseni Pinheiro – Enfermeira, doutora em
ra, doutora em História Econômica U
pela Universidade de São Paulo (USP),
Saúde Coletiva pela Universidade Esta-
dual do Rio de Janeiro (Uerj) e profes-
professora do Programa da Pós-Gra- V
duação em História da Universidade
sora adjunta do Instituto de Medicina
Federal Fluminense (UFF) e pesquisa-
Social (IMS/Uerj).
dora do CNPq.
A

11
Suzana Lanna Burnier Coelho – Pedagoga, Zulmira Maria de Araújo Hartz – Pes-
doutora em Educação pela Pontifícia quisadora titular do Departamento de
Universidade Católica do Rio de Janeiro Epidemiologia da Escola Nacional de
(PUC-RJ), professora adjunta e diretora Saúde Pública Sérgio Arouca da Fun-
de Ensino da Graduação do Centro Fe- dação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz)
deral de Educação Tecnológica de Mi- (aposentada), pesquisadora visitante
nas Gerais (Cefet-MG) do Grupo de Gestão e Avaliação em
Saúde (GEAS) do Instituto de Medi-
Túlio Batista Franco – Psicólogo, doutor em
cina Integral Professor Fernando Fi-
Saúde Coletiva pela Universidade Estadu-
gueira da Fundação Oswaldo Cruz
al de Campinas (Unicamp) e professor da
(IMIP/Fiocruz), consultora do Minis-
Universidade Federal Fluminense (UFF).
tério da Saúde.
SUMÁRIO 1

TRABALHO, EDUCAÇÃO E SAÚDE: REFERÊNCIAS E CONCEITOS 17

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO 31


APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO 33

A
Atenção à Saúde 39
Atenção Primária à Saúde 44
Avaliação em Saúde 50
Avaliação por Competências 55
C
Capital Cultural 61
Capital Humano 66
Capital Intelectual 72
Capital Social 78
Certificação de Competências 83
Certificação Profissional 87
Comunicação em Saúde 94
Controle Social 104
Cuidado em Saúde 110
Currículo Integrado 114
Currículo por Competências 119
D
Divisão Social do Trabalho 125
Divisão Técnica do Trabalho em Saúde 130
Dualidade Educacional 136
E
Educação 143
Educação Corporativa 151
Educação em Saúde 155
Educação Permanente em Saúde 162
Educação Politécnica 168
Educação Profissional 175
Educação Profissional em Saúde 182
Educação Tecnológica 190
Empregabilidade 197
Eqüidade em Saúde 202
Exclusão Social 211
F
Focalização em Saúde 221
G
Gestão do Trabalho em Saúde 227
Gestão em Saúde 231
Globalização 236
H
Humanização 243
I
Informação em Saúde 249
Integralidade em Saúde 255
Interdisciplinaridade 263
Itinerários Formativos 269
N
Neoliberalismo e Saúde 275
O
Ocupação 281
Omnilateralidade 284
P
Participação Social 293
Pedagogia das Competências 299
Pedagogia de Problemas 305
Planejamento de Saúde 312
Precarização do Trabalho em Saúde 317
Processo de Trabalho em Saúde 320
Profissão 328
Q
Qualificação como Relação Social 335
R
Recursos Humanos em Saúde 343
Reestruturação Produtiva em Saúde 348
S
Saúde 353
Sistema Único de Saúde 357
Sociabilidade Neoliberal 364
Sociedade Civil 370
T
Tecnologia 377
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Tecnologias em Saúde 382


Territorialização em Saúde 392
Trabalho 399
Trabalho Abstrato e Trabalho Concreto 404
Trabalho como Princípio Educativo 408
Trabalho Complexo 415
Trabalho Concreto 419
Trabalho em Equipe 419
Trabalho em Saúde 427
Trabalho Imaterial 433
Trabalho Prescrito 440
Trabalho Produtivo e Improdutivo 445
Trabalho Real 453
Trabalho Simples 460
U
Universalidade 465
V
Vigilância em Saúde 471

16
A

C
TRABALHO, EDUCAÇÃO E SAÚDE:
referências e conceitos D

H
O ano de 2008 é particularmente significativo para o lançamento
da segunda edição do Dicionário da Educação Profissional em Saúde, I
pois neste momento se completam vinte anos da inscrição do Sistema
Único de Saúde (SUS) no texto constitucional. Uma conquista demo- N
crática capitaneada por um amplo movimento social organizado em tor-
no da Reforma Sanitária brasileira, marco do desenvolvimento de uma O
nova forma de pensar e fazer saúde no país, assim como da formação
profissional dos trabalhadores técnicos de saúde. P

O projeto da Reforma Sanitária brasileira tal qual concebido na 8a Q


Conferência Nacional de Saúde, em 1986, foi construído ao mesmo tem-
po como uma bandeira específica do setor saúde e como parte de uma R
totalidade de mudanças. Isso é, diz respeito num primeiro plano ao re-
conhecimento da dinâmica do fenômeno saúde-doença em toda a sua S
extensão por meio dos indicadores de saúde, da organização das insti-
tuições que atuam no setor, da produção de medicamentos e equipa- T
mentos, e da formação dos trabalhadores de saúde. No segundo plano,
além da dimensão ideológica, na qual se disputam concepções, valores e U
práticas, incorpora a dimensão das relações existentes entre a saúde e
economia, trabalho, educação, salário, habitação, saneamento, transpor-
V
te, terra, meio ambiente, lazer, liberdade e paz. Originalmente, portanto,
A
o projeto da Reforma Sanitária está imbricado com a perspectiva de
reforma social, com a construção de um Estado democrático, para além
A
de uma reforma setorial, ao mesmo tempo que, ao ampliar o referencial

17
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

teórico e o campo de análise das relações entre saúde e condições de


vida e trabalho, recoloca-a como prática social e não apenas como fenô-
meno biológico.

É com base nesse arcabouço conceitual que a formação profissio-


nal dos trabalhadores técnicos de saúde passa a ser entendida como
uma condição necessária, mas não suficiente, para a transformação das
relações de trabalho, da prestação de serviços à população e para a pró-
pria participação do trabalhador no planejamento e avaliação dos servi-
ços de saúde. Com vistas a superar o caráter alienado da escola e do
trabalho em saúde no que diz respeito aos determinantes sociais do
processo saúde-doença e do intenso processo de privatização no interi-
or do setor saúde, bem como do histórico movimento pendular do an-
tigo segundo grau - atual ensino médio - entre formação acadêmica e
formação profissional, propõe-se a articulação deste nível de ensino com
a formação profissional. Mais especificamente, a articulação da educa-
ção com o processo de trabalho em saúde ou o aprofundamento da
estratégia ensino-serviço, aliando a dimensão técnica e a dimensão polí-
tica no processo de formação, e a construção de um novo compromisso
ético-político dos trabalhadores de saúde pautado na questão democrá-
tica, na relação solidária com a população, na defesa do serviço público
e da dignidade humana.

Esse debate no setor saúde, particularmente no interior da Funda-


ção Oswaldo Cruz, cujo marco é a realização do Seminário Choque
Teórico, em 1987, é contemporâneo e se alimenta das discussões então
travadas no interior do setor educacional, por meio do GT Trabalho-
Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Educação (Anped), desde o início dos anos 1980, acerca da formação
profissional dos trabalhadores técnicos e da natureza do antigo ensino
de segundo grau em nossa sociedade. A perspectiva era superar a
dualidade entre cultura geral e cultura técnica com o projeto de escola
unitária, “que expressa o princípio da educação como direito de todos”
e que “pressupõe que todos tenham acesso aos conhecimentos, à cultu-

18
A

ra e às mediações necessárias para trabalhar e para produzir a existência C


e a riqueza social” (Ramos, 2007, p. 2). Esse debate introduz na histó-
ria da educação brasileira o conceito de politecnia (Saviani, 1989), D
não como o domínio de uma multiplicidade de técnicas fragmentá-
rias, mas como o domínio dos fundamentos científicos das diferen-
E
tes técnicas que presidem o processo de trabalho moderno, o que
F
recoloca as discussões acerca da relação trabalho-educação em novo
patamar, buscando sobretudo resgatar a dimensão contraditória do
G
fenômeno educativo, seu caráter mediador e sua especificidade no
processo de transformação da realidade. H
Trabalho, Educação e Saúde articulam-se, assim, no bojo dessa in- I
tensa discussão que ocorre nos marcos do processo de redemocratização
da sociedade brasileira e do processo constituinte nos anos 1980. Para N
uma parcela das forças políticas que então se reúne em torno do projeto
da Reforma Sanitária, profundamente imbricada com a perspectiva de O
uma reforma social na sua totalidade, novos desafios são colocados no
que diz respeito ao perfil do trabalhador necessário para viabilizar a P
premissa estabelecida constitucionalmente de que a saúde é um direito
de todos e dever do Estado, baseada nos princípios de universalidade, Q
eqüidade e integralidade, o que exigia, entre outros, repensar a formação
profissional dos trabalhadores da saúde. R

Em recente seminário de trabalho organizado pela Escola Politéc- S


nica de Saúde Joaquim Venâncio sobre a Reforma Sanitária brasileira e
os vinte anos do ‘SUS constitucional’ (Matta e Lima, 2008), fez-se um T
balanço desse período do qual podemos destacar dois aspectos centrais:
que a reforma sanitária no seu processo de operacionalização se reduziu U
a uma reforma administrativa da saúde e que, já no final dos anos 1980
e principalmente nos anos 1990, teve de se confrontar com outro
V
projeto em disputa na sociedade, o projeto mercantilista, para o qual a
A
saúde é uma mercadoria como outra qualquer, que pode ser comprada
no mercado para a satisfação das demandas e necessidades individuais
A
(Paim, 2008). Ele reúne em torno de si empresários da saúde, corporações

19
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

profissionais, o capital industrial investido nas indústrias farmacêuticas


e de equipamentos, o capital financeiro e grandes organismos internaci-
onais, que impõem o livre comércio - Organização Mundial do Comér-
cio (OMC) e definem políticas sociais subsidiárias e compensatórias -
Banco Mundial (BM).

Parece consensual entre os interlocutores que, na década de 1990 e


início dos anos 2000, a temática da Reforma Sanitária esteve ausente da
agenda dos principais fóruns e movimentos sociais que a alavancaram, e
que na luta ideológica ocorre um retrocesso importante em relação ao
setor saúde nesse período, na medida em que de um valor público, a
saúde passa a ser vista como um bem de consumo modulado pelo po-
der de compra. Também no setor educacional ocorrem retrocessos, pois
desde a década passada verifica-se um estreitamento da relação entre
educação e trabalho alienado tornando a escola mais imediatamente in-
teressada ou mais pragmática e, embora integre um contingente expres-
sivo da classe trabalhadora, o faz de modo a inviabilizar a construção de
uma crítica às relações sociais capitalistas.

À grande mobilização e às esperanças da década de 1980 seguiu-se,


nos anos 1990, uma reversão das expectativas marcada pela radicalização da
modernização conservadora e por políticas de reformas do Estado, com o
fim de ajustar a economia ao processo de desregulamentação, flexibilização
e privatização. Nesse cenário, verifica-se um refluxo dos movimentos soci-
ais de cunho democrático e popular, a ‘conversão mercantil-filantrópica da
militância’ em torno das organizações não-governamentais (ONGs), a
emergência do sindicalismo de resultados, novas formas de privatização na
área de saúde, a escassez de recursos, a precarização dos vínculos e de re-
muneração dos trabalhadores de saúde, e a crescente precarização das con-
dições de trabalho (Fontes, 2008; Santos, 2008).

No contexto neoliberal que se instaura na década de 1990 com o


governo Collor e se aprofunda no governo FHC, tanto na área da saúde
como na educação combina-se um discurso que reconhece a importân-

20
A

cia destas áreas com a redução dos investimentos nas mesmas e apelos à C
iniciativa privada e ONGs. O discurso neoliberal atribuiu de forma sis-
temática que uma das principais causas das desigualdades sociais era a D
incompetência e a ineficácia governamentais, buscando com isto for-
mar um consenso sobre a qualidade da iniciativa privada, com a finalida-
E
de de promover mudanças de comportamento no indivíduo e na socie-
F
dade a favor da privatização e seu corolário, o financiamento pelo Esta-
do de ações que seriam executadas pelo setor privado. Nessas condi-
G
ções, o próprio gestor público passa a agir sob a lógica da gerência pri-
vada, mudando assim a relação entre a instituição e o usuário. Ele deixa H
de ser um cidadão investido de direitos e passa a ser um cliente da insti-
tuição, o que traduz uma visão privatista da relação do cidadão com o I
Estado, ao mesmo tempo em que desqualifica a noção de serviço públi-
co coletivo e solidário. N
No outro lado do espectro político, o funcionamento da aparelhagem O
sindical também foi remodelado para adequação e conformação ao
neoliberalismo: procedimentos de ‘reengenharia’ interna; demissão de fun- P
cionários; busca de eficiência e eficácia econômica (rentabilidade);
agenciamento de serviços, como a venda de seguros diversos – contribuin- Q
do para desmantelar a luta pelos direitos universais; a oferta de cursos pa-
gos; preparação e adequação de mão-de-obra para a ‘empregabilidade’. É R
um processo que formata uma nova modalidade de subalternização dos
trabalhadores no Brasil, empreendida pelos grandes empresários com a S
difusão e apoio do ‘sindicalismo de resultados’, atado a uma dinâmica estri-
tamente corporativa e de cunho imediatista, tornando os sindicatos parcei- T
ros dos patrões na ‘gerência dos conflitos’.
U
Nesse contexto, segundo Fontes (2008), o próprio sentido do ter-
mo ‘democracia’, revestido de conteúdos socializantes na década de 1980,
V
foi ressignificado como ‘capacidade gerencial’. Isso é, toda e qualquer
A
tentativa de organização dos trabalhadores como classe social deveria
ser desmembrada e abordada de maneira segmentada: admitia-se o con-
A
flito, mas este deveria limitar-se ao razoável e ao gerenciável, devendo

21
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

seus protagonistas admitir a fragmentação de suas pautas em parcelas


‘administráveis’. Mais que isso, para a autora, o que ocorre nos anos
1990 é uma mudança do perfil da classe trabalhadora em decorrência da
intensificação do desemprego, da rotatividade de mão-de-obra e conse-
qüentemente o aumento da concorrência entre os trabalhadores; pelo
desmantelamento dos direitos associados às relações contratuais de tra-
balho; pela corrosão das organizações sindicais e pelas profundas altera-
ções no setor público, iniciadas com as demissões e privatizações.

O discurso da incompetência do setor público, ao mesmo tempo


que atendeu aos interesses privados ao propor um fictício terceiro setor
sob a designação ‘privado porém público’ composto por associações
empresariais que concorrem entre elas pelos fundos públicos, permitiu
a delegação de responsabilidades do Estado a entes privados em situa-
ções casuísticas, como Fundações Privadas de Apoio, Organizações
Sociais (OS), Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público
(Oscip) e outras, imbricando a esfera pública com a esfera mercantil.

Na área da saúde especificamente, além da delegação de responsa-


bilidades do Estado para cooperativas, ONGs e outras entidades priva-
das, a solução negociada do art. 199 da Constituição1 gerou efeitos con-
traditórios nos anos 1990, pois, de um lado, a oferta e a produção de
serviços públicos e filantrópicos se ampliaram, e a dos hospitais contra-
tados reduziram. Por outro lado, a inviabilização da mudança da nature-
za dos contratos reatualizou o padrão de compra de serviços e procedi-
mentos que se pretendia superar, reconfigurando as relações público-
privadas no âmbito do SUS por meio de políticas públicas que apoia-
ram e ainda apóiam a privatização da assistência à saúde. Para Bahia
(2008), as mudanças definidas por normas governamentais que
redefiniram a participação do setor privado no SUS, junto com a criação
de fundações privadas pelo setor público e a contratação de consultores,

1
O art. 199 da Constituição define que a assistência à saúde é livre à iniciativa privada, podendo participar de
forma complementar do SUS, segundo diretrizes deste e mediante contrato de direito público ou convênio,
tendo preferência as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos.

22
A

nutriram uma disseminada adesão às várias versões do C


empreendedorismo no sistema público de saúde. Na mesma direção, a
ampliação do mercado privado de planos e seguros de saúde, que já D
vinha ocorrendo desde os anos 1980, se intensifica nos anos 1990,
viabilizada por políticas públicas de subsídios indiretos de apoio à ex-
E
pansão da clientela.
F
No âmbito educacional, entre os anos 1980 e 1990, como aponta
G
Frigotto (2006, p. 265), “há uma travessia da ditadura civil-militar para
uma ditadura do mercado no ideário pedagógico”. A sociedade civil or- H
ganizada em torno do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública
sucessivamente vai perdendo o apoio parlamentar para a aprovação do I
primeiro projeto de LDB, de autoria do Deputado Federal Otávio Elísio
que, no que diz respeito à formação profissional sinalizava para sua N
integração à formação geral nos seus múltiplos aspectos humanísticos e
científico-tecnológicos. “Foram sendo tomadas, pelo alto e autoritaria- O
mente, diferentes medidas legais, numa reforma a conta-gotas, até apa-
recer o projeto do Senador Darcy Ribeiro que, como lembrava Florestan P
Fernandes, deu ao governo o projeto que esse não tinha” (Frigotto,
Ciavatta e Ramos, 2005, p. 13). Para os autores, com a LDB n° 9.394/ Q
96, a regressão mais profunda ocorre nos ensinos médio e técnico a
partir da aprovação do Decreto n° 2.208/97, que restabelece, em outros R
termos, o dualismo educacional neste nível de ensino, ao proibir a
integração do ensino médio com a formação profissional, além de regu- S
lamentar formas fragmentadas e aligeiradas de profissionalização em
função das necessidades do mercado, como assume o ideário pedagógi- T
co do próprio mercado com a pedagogia das competências para a
empregabilidade. U
As noções de sociedade do conhecimento e de competência pas-
sam a assumir na atualidade o mesmo protagonismo que a noção de
V
capital humano teve entre as décadas de 1950 e 1980, constituindo-se
A
no aparato ideológico justificador das desigualdades econômicas e soci-
ais entre os indivíduos e/ou das relações assimétricas de poder dentro
A
dos países e entre eles. Na área da saúde, os programas de formação

23
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

profissional vêm sendo executados, na maioria das vezes, por meio de


parcerias público-privadas, aumentando a possibilidade de adesão ao
ideário da mercantilização da saúde, da elegia do gerenciamento das ações
de saúde e da redução de conteúdos voltados para uma formação huma-
na de cunho civilizatório (Pereira, 2008).
Para Frigotto (2006), as razões para a dificuldade estrutural do avanço
da educação escolar unitária e politécnica devem ser buscadas, em pri-
meiro lugar, na opção das elites brasileiras por um capitalismo depen-
dente e subordinado que barra a generalização da necessidade da incor-
poração das tecnologias avançadas de natureza digital-molecular. Em
segundo lugar, pela conjuntura mundial na qual se verifica nesse perío-
do um aumento da expropriação do trabalho pelo capital e o crescente
monopólio da ciência e tecnologia nos centros hegemônicos do capital,
relegando aos países periféricos dominantemente o trabalho simples.

Entretanto, se essa conjuntura encontrou terreno propício para a


difusão das orientações normativas dos organismos internacionais com
a adesão das elites nacionais às teses neoliberais, ela também foi plena
de tensões e resistências ao desmonte do SUS. O balanço realizado apon-
ta, entre outros, para o aumento de cobertura pelas equipes de ‘Saúde da
Família’, principal estratégia de atenção básica do Ministério da Saúde; a
incorporação de novos modelos tecnológicos em municípios brasilei-
ros, tais como a oferta organizada, a vigilância em saúde, o trabalho
programático e o acolhimento; a integração da atenção básica com a
vigilância em saúde; a redução dos leitos psiquiátricos vis-à-vis ao au-
mento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e das residências
terapêuticas como resposta aos princípios de desospitalização e reinserção
social na área de saúde mental; o aumento da capacidade instalada e
crescimento da assistência ambulatorial do setor público, que é uma
tendência anterior ao advento do SUS, mas que se mantém nos anos
1990; a ampliação e diversificação dos postos de trabalho na área de
saúde, decorrentes do progressivo processo de descentralização e
municipalização das ações de saúde; o aumento do acesso a medica-
mentos essenciais; a ampliação do número de transplantes; a criação

24
A

do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu); a quebra de C


patentes de medicamentos; e a universalidade do atendimento aos
casos de AIDS. D

Na área de educação, mais recentemente, buscou-se restabelecer o


E
“empate” entre os princípios defendidos em 1988 pelo primeiro projeto
F
de LDB e o Decreto n° 2.208/97, com a aprovação do Decreto n° 5.154/
2004, que permite a integração do ensino médio com o ensino técnico,
G
entendido como uma condição social e historicamente necessária para a
construção do ensino médio unitário e politécnico (Frigotto, Ciavatta e H
Ramos, 2005).
I
Esses avanços em ambas as áreas são resultados de processos con-
traditórios, que expressam as lutas em torno de concepções de socieda- N
de e dessas práticas sociais, e que exigem a permanente análise do pro-
cesso histórico-social do qual emergem. A direção que a reforma sani- O
tária e a perspectiva unitária e politécnica dos ensinos médio e técnico
irão tomar vai depender das forças em disputa e da clareza do que está P
em jogo. Principalmente, no contexto atual em que se explicita cada vez
mais a continuidade e consolidação da política econômica de corte Q
neoliberal do governo Lula centrada no ajuste fiscal; de manutenção das
políticas compensatórias e focalizadas na área social, na saúde e educa- R
ção; na política de ‘fazer um pouco mais do mesmo’ no âmbito do SUS,
reproduzindo o modelo médico hegemônico centrado no hospital (Paim, S
2008); e a difusão de uma nova ‘pedagogia da hegemonia’, complementada
pela implementação de um projeto educacional de massificação da edu- T
cação, viabilizado pela implantação de sistemas diferenciados e
hieraquizados de organização educacional e pedagógica (Neves, 2008). U

Esperamos que a publicação desta segunda edição do Dicionário


V
da Educação Profissional em Saúde continue contribuindo para essa
A
análise. Ele mantém o mesmo objetivo da primeira edição, em 2006, ou
seja, de construir e explicitar conceitos e termos organizados em torno
A
de três eixos centrais: ‘trabalho’, ‘educação’ e ‘saúde’, que foram escolhi-

25
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

dos em função de dois critérios. O primeiro em razão de serem concei-


tos-chave de importância inconteste no âmbito dessas práticas sociais,
como trabalho produtivo e trabalho improdutivo, trabalho complexo e
trabalho simples, divisão social e técnica do trabalho, e tecnologia. O
segundo por serem conceitos que expressam fenômenos contemporâ-
neos, que surgiram para definir práticas atuais do mundo do trabalho
em geral e o de saúde e educação, em particular, tais como,
empregabilidade, competência, educação politécnica, humanização, uni-
versalidade e integralidade.

Para esta nova edição foi realizada uma revisão de alguns con-
ceitos e agregados 23 (vinte e três) novos. São eles: Avaliação em
Saúde, Capital Intelectual, Comunicação e Saúde, Dualidade Educa-
cional, Educação Corporativa, Educação em Saúde, Eqüidade, Ex-
clusão Social, Gestão do Trabalho em Saúde, Gestão em Saúde,
Globalização, Infor mação em Saúde, Interdisciplinaridade,
Omnilateralidade, Participação Social, Planejamento em Saúde, So-
ciabilidade Neoliberal, Sociedade Civil, Territorialização em Saúde,
Trabalho como Princípio Educativo, Trabalho Imaterial, Trabalho
Produtivo e Trabalho Improdutivo, e Universalidade.

O nosso entendimento ao elaborar esta obra é que o universo de


termos de interesse serão sempre passíveis de reatualizações, seja incor-
porando novas dimensões aos conceitos descritos, seja agregando no-
vos conceitos que emergem dos processos sociais em curso e que am-
pliem a nossa capacidade de análise desta mesma realidade. Sendo as-
sim, é um tipo de obra que deve ser considerada sempre inacabada.
Inspirado em produções científicas comprometidas com o pensamen-
to crítico que nega a adaptação ao existente e com a construção de uma
sociedade justa, democrática e igualitária, o Observatório dos Técnicos
em Saúde, vinculado ao Laboratório do Trabalho e da Educação Pro-
fissional em Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio
(EPSJV), tomou a si a iniciativa de organizar a segunda edição do Dicio-
nário da Educação Profissional em Saúde.

26
A

Como na edição anterior, contamos com a participação de profes- C


sores e pesquisadores da EPSJV, assim como de diversos especialistas
convidados para sua elaboração. Estão reunidos aqui um conjunto hete- D
rogêneo de profissionais que aceitaram o desafio de compartilhar conosco
as suas idéias, tais como, arquitetos, assistente social, biólogos,
E
comunicólogos, economistas, educadores, enfermeiros, engenheiros,
F
estatísticos, filósofos, historiadores, médicos, odontólogos, pedagogos,
psicólogos e sociólogos.
G
Para a elaboração dos verbetes, partimos da premissa de que a pro- H
dução, a circulação e a recepção dos textos e dos discursos se dão em
contextos específicos que não podem ser ignorados. Se os textos e os I
discursos se nos apresentam como neutros e naturais, objetivos e trans-
parentes, a tradição da ‘crítica da ideologia’ nos lembra que não há texto N
ou discurso que seja desinteressado, transparente e neutro. O trabalho
educativo e a construção de sentidos aqui adotados consistem em des- O
montar as ilusões ideológicas, apontando para a construção de um co-
nhecimento crítico e qualificado. Trata-se, assim, de uma compreensão P
pautada na idéia de que o pensamento crítico na Educação Profissional
em Saúde, quer realizado na escola e/ou nos serviços de saúde, é atra- Q
vessado por redes contraditórias, mensagens, textos, discursos, sinais
interessados, conflitos e lutas por visões de mundo diferenciadas. R

Nessa discussão também é central a noção de que o sentido é S


construído socialmente na vida social e histórica. Desde Marx, passan-
do por todos os ramos e abordagens da teoria crítica, sabemos que o T
mundo dos sentidos e representações sociais nunca é neutro, transpa-
rente e diretamente acessível à consciência do sujeito. Ou seja, toda re- U
presentação ou sentido social passa necessariamente pela ideologia e
pelo imaginário social, o que requer perceber que a crítica do senso
V
comum e das representações não deva caminhar, de forma exclusiva,
A
para uma teoria que se queira apenas científica, como no viés cientificista,
excluindo da experiência humana a cultura, a ética, a estética, enfim, a
A
variedade da vida social.

27
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

A partir dessas idéias convidamos os autores que compõem esta


edição – privilegiando fundamentalmente uma abordagem crítica e qua-
lificada e não uma padronização teórico-metodológica – aos quais fo-
ram feitas as seguintes orientações para a elaboração dos verbetes: a)
‘linguagem crítica’, sem o mito da neutralidade, problematizando sem-
pre que possível os contextos e articulando do particular ao geral na
relação trabalho, educação e saúde, escapando das generalidades vazias
ou discursos herméticos e desnecessariamente confusos; b) ‘historicidade
dos conceitos’, tendo como princípio que os conceitos são históricos,
portanto construções humanas e não uma verdade natural e imutável; c)
‘relações entre os ideários da sociedade e suas inflexões nas políticas de
formação dos trabalhadores técnicos de saúde’, na medida do possível;
d) ‘processo de trabalho e o cotidiano dos serviços de saúde’, relacio-
nando, sempre que possível, a formação com o cotidiano dos serviços
de modo a não levar a um conformismo com as condições existentes.

Finalmente, pensamos que a escrita e a leitura são atos ativos e


produtivos, e neste sentido esperamos que o leitor seja levado a questi-
onar e a buscar os significados oferecidos pelos verbetes, e que a divul-
gação desta nova edição continue contribuindo para a criação de cir-
cunstâncias a favor de uma formação dos trabalhadores da saúde que
tenham como horizonte a sua emancipação e o compromisso com o
pensamento crítico a favor da saúde e da educação públicas.

Isabel Brasil Pereira


Júlio César França Lima

28
A

Bibliografia: C

BAHIA, L. A Démarche do privado e público no Sistema de Atenção à Saúde no D


Brasil em tempos de democracia e ajuste fiscal, 1988-2008. In: MATTA, G. C.; LIMA,
J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em saúde: contradições e desafios em 20 E
anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p. 123-185.
FONTES, V. A Democracia Retórica: expropriação, convencimento e coerção. In: F
MATTA, G. C.; LIMA, J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em saúde:
contradições e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p. 189- G
226.
FRIGOTTO, G. Fundamentos científicos e técnicos da relação trabalho e educação H
no Brasil de hoje. In: LIMA, J. C. F.; NEVES, L. M. W. (Orgs.). Fundamentos da educação
escolar do Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2006, p. 241-288.
I
FRIGOTTO, G; CIAVATTA, M; RAMOS, M. (Orgs.). Ensino médio integrado: concepção
e contradições. São Paulo: Cortez, 2005.
N
MATTA, G. C.; LIMA, J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em saúde:
contradições e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008. O
NEVES, L. M. W. A Política Educacional Brasileira na ‘Sociedade do Conhecimento’.
In: MATTA, G. C.; LIMA, J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em P
saúde: contradições e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p.
355-391.
Q
PAIM, J. S. Reforma Sanitária Brasileira: avanços, limites e perspectivas. In: MATTA,
G. C.; LIMA, J. C .F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em saúde: contradições
e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p. 91-122. R
PEREIRA, I. B. A Educação dos Trabalhadores da Saúde sob a égide da produtividade.
In: MATTA, G. C.; LIMA, J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em
S
saúde: contradições e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p.
393-420. T
RAMOS, M. Concepção do ensino médio integrado à educação profissional. Natal, 2007 [mimeo].
U
SANTOS, N. R. dos. Democracia e Participação da Sociedade em Saúde. In: MATTA,
G. C.; LIMA, J. C. F. (Orgs.). Estado, sociedade e formação profissional em saúde: contradições
e desafios em 20 anos de SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2008, p. 227-246. V
SAVIANI, D. Sobre a concepção de politecnia. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 1989.
A

29
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

30
A

C
PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO
D

H
O Brasil possui um sistema de saúde ‘robusto’, apesar de ter pro-
blemas, como por exemplo, a questão estrutural do financiamento, o I
valor da remuneração dos serviços e procedimentos, bem como os de-
safios colocados pela responsabilidade sanitária nos diversos níveis da N
gestão. Seus profissionais necessitam de uma formação qualificada para
que possam exercer atividades a que são chamados a responder no pro- O
cesso de trabalho que desenvolvem nos serviços, principalmente a par-
tir da reorientação do modelo assistencial brasileiro. Assim, as iniciati- P
vas de cunho educacional, como este Dicionário, que contribuem para a
realização e aperfeiçoamento das ações desenvolvidas no processo de
Q
trabalho em saúde, têm contribuições imediatas e estratégicas para a
R
consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Esta publicação, organizada pela Escola Politécnica de Saúde Joa- S


quim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz), apresen-
ta verbetes que descrevem e problematizam concepções acerca de edu-
T
cação profissional em saúde, da organização do sistema de saúde brasi-
U
leiro, do processo histórico do trabalho em saúde, entre outras. Esse
conjunto de temas perfaz um documento inédito e de relevância indis-
V
cutível para gestores, docentes, pesquisadores, estudantes e trabalhado-
res do SUS que se dedicam à construção de um sistema de saúde mais A
justo, solidário e de qualidade para todos os brasileiros.
A

31
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Dicionário da Educação Profissional em Saúde representa uma experiên-


cia acumulada pela EPSJV em seus mais de vinte anos de história. Não
é fácil selecionar os verbetes em área tão complexa, nem alcançar a pre-
cisão adequada; contudo, o resultado final é muito estimulante e certa-
mente contribuirá para o aperfeiçoamento desta área vital dos recursos
humanos em saúde no Brasil.

Paulo M. Buss
Presidente da Fundação Oswaldo Cruz

32
A

C
APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO
D

H
O trabalho industrial na nossa sociedade tem experimentado mu-
danças importantes configurando socialmente o fenômeno denomina- I
do de ‘crise do trabalho assalariado’, resultado da incorporação cada vez
maior de tecnologias materiais e de novas formas de organização do N
trabalho que, ao mesmo tempo, aumenta a produtividade, exige cada
vez menos trabalhadores e, conseqüentemente, vem acompanhada do O
crescente desemprego. Desde a década de 1990, muitos estudos e pes-
quisas são unânimes em apontar que esse fenômeno está intimamente P
associado ao processo de globalização ou de mundialização do capital, o
qual se assenta, principalmente, na difusão da doutrina neoliberal e na Q
emergência de um novo paradigma produtivo denominado produção
flexível, que surge com o esgotamento do fordismo e com as novas R
formas de gestão dos processos de trabalho.
S
O trabalho em serviços também tem enfrentado mudanças, decor-
rentes da necessidade do capital financeiro em controlar e colocar os T
grandes excedentes de capital nas áreas que antes estavam nas mãos dos
Estados nacionais, e que, na área de saúde, em particular, propugnam U
pela organização de um sistema de saúde baseado em seguros médicos.
Essa ofensiva neoliberal que busca sedimentar a crença nas virtudes do V
mercado cujas ‘graças’ são alcançadas pela interferência mínima do Es-
tado, pelo controle dos gastos estatais e da inflação, pela privatização
A
das empresas estatais e pela abertura completa da economia, trata o
suposto gigantismo do Estado com sua intervenção na economia, bem
A

33
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

como os privilégios que esse tipo de atuação tinha conferido aos traba-
lhadores ao longo dos ‘trinta anos gloriosos’ (1945-1975), nos países
capitalistas centrais, como as causas maiores da crise que se observa a
partir da segunda metade dos anos 1970. Sendo assim, ao mesmo tem-
po que vai impondo derrotas às conquistas do Welfare State construído
nesses países como uma resposta histórica ao processo de vulnerabilidade
social, a ofensiva neoliberal busca recuperar os serviços sociais para as
empresas privadas, propondo a remercantilização de tais serviços. Isso
constitui um dos móveis principais da crítica que atualmente se faz ao
Estado do Bem-estar Social em todo o mundo, motivado pelo interesse
em controlar o fundo público destinado ao setor saúde.

O Brasil, assim como os países latino-americanos, apesar de não ter


experimentado as conquistas sociais verificadas nesses países, não esca-
pa dessa ofensiva neoliberal. Exemplo disso, é o recente Programa Na-
cional de Desprecarização do Trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS)
deflagrado pelo Ministério da Saúde com o objetivo de reverter o qua-
dro de precarização do trabalho no setor. Outro exemplo é a expansão
do mercado privado de planos e seguros de saúde no país, que é conse-
qüência direta do subfinanciamento do SUS observado ao longo da dé-
cada de 1990. Apesar da garantia constitucional de que a saúde é direito
de todos e dever do Estado, a sua implementação foi marcada pelo
enfrentamento de uma série de constrangimentos impostos pelo mode-
lo econômico adotado no nosso país nesse período, fortemente influ-
enciado pelo receituário neoliberal. Do ponto de vista educacional, o
processo de globalização também vem acompanhado da difusão de uma
série de noções ou conceitos, tais como, sociedade do conhecimento,
empregabilidade e competência, que atualmente definem as políticas
educacionais e se constituem no aparato ideológico justificador das de-
sigualdades sociais.

Portanto, a elaboração desse dicionário, visa à explicitação de con-


ceitos e termos organizados em torno de três eixos centrais: ‘trabalho’,
‘educação’ e ‘saúde’. Foram escolhidos em razão da sua importância

34
A

inconteste e mesmo sendo recorrentes no âmbito da Educação Profis- C


sional em Saúde são de conhecimento restrito entre os educadores, pes-
quisadores, estudantes jovens e adultos e gestores que têm interesse na
D
formação dos trabalhadores técnicos da saúde. Ao contrário, outros ter-
E
mos e conceitos foram escolhidos por terem surgido recentemente para
definir práticas e fenômenos originais do mundo do trabalho em geral e F
o de saúde, em particular.
G
Sem a pretensão de esgotar o universo de termos de interesse para
esse tema e com o entendimento de que qualquer escrito sobre a forma- H
ção humana, nas suas diversas áreas e perspectivas, deve ser sempre
considerado um projeto inacabado, o Observatório dos Técnicos em I
Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), uni-
dade técnico-científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), inspirado N
em obras científicas comprometidas com o pensamento crítico que nega
a adaptação ao existente e com a construção de uma sociedade justa, O
democrática e igualitária, tomou para si a iniciativa de organizar o pro-
cesso de construção coletiva que agora culmina com a publicação deste P
Dicionário da Educação Profissional em Saúde.
Q
Nesse processo de construção coletiva contamos com a participa-
ção de professores-pesquisadores representantes dos diversos grupos R
de trabalho da EPSJV, que conosco discutiram e indicaram os verbetes
prioritários para compor a coletânea, bem como os possíveis autores. S
Infelizmente, nem todos foram incorporados à presente edição e certa-
mente com a divulgação do dicionário muitos outros serão lembrados e
T
indicados para compor uma próxima edição.
U
Para a elaboração dos verbetes, partimos da premissa de que a pro-
dução, a circulação e a recepção dos textos e dos discursos se dão em
V
contextos específicos que não podem ser ignorados. Se os textos e os
A
discursos se nos apresentam como neutros e naturais, objetivos e trans-
parentes, a tradição da ´crítica da ideologia’ nos lembra que não há texto A
ou discurso que seja desinteressado, transparente e neutro. O trabalho

35
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

educativo e a construção de sentidos aqui adotados consistem em


desmontar as ilusões ideológicas, apontando para a construção de
um conhecimento crítico e qualificado. Trata-se assim de uma com-
preensão pautada na idéia de que o pensamento crítico na Educação
Profissional em Saúde, quer realizado na escola e/ou nos serviços
de saúde, é atravessado por redes contraditórias, mensagens, textos,
discursos, sinais interessados, conflitos e lutas por visões de mundo
diferenciadas. Nessa discussão também é central a noção de que o
sentido é construído socialmente na vida social e histórica. Desde
Marx, passando por todos os ramos e abordagens da teoria crítica,
sabemos que o mundo dos sentidos e representações sociais nunca é
neutro, transparente e diretamente acessível à consciência do sujeito.
Ou seja, toda representação ou sentido social passa necessariamente
pela ideologia e pelo imaginário social, o que requer perceber que a
crítica do senso comum e das representações não deva caminhar, de
forma exclusiva, para uma teoria que se queira apenas científica, como
no viés cientificista, excluindo da experiência humana a cultura, a
ética, a estética, enfim, a variedade da vida social.

A partir dessas idéias convidamos os autores que compõem essa


coletânea –privilegiando fundamentalmente uma abordagem crítica e
qualificada e não uma padronização teórico-metodológica – aos quais
foram feitas as seguintes orientações para a escrita dos verbetes: a)
‘linguagem crítica’, sem o mito da neutralidade, problematizando sem-
pre que possível os contextos e articulando do particular ao geral na
relação trabalho, educação e saúde, escapando das generalidades vazi-
as ou discursos herméticos e desnecessariamente confusos; b)
‘historicidade dos conceitos e termos’, tendo como princípio que os
conceitos são históricos, portanto construções humanas e não uma
verdade natural e imutável; c) ‘relações entre os ideários da sociedade
e suas inflexões nas políticas de formação dos trabalhadores técnicos
de saúde’, na medida do possível; d) ‘processo de trabalho e o cotidia-

36
A

no dos serviços da saúde’, relacionando, na medida do possível, a C


formação com o cotidiano dos serviços de modo a não levar a um
conformismo com as condições existentes.
D

Finalmente, pensamos que a escrita e a leitura são atos ativos e


E
produtivos, e nesse sentido esperamos que o leitor seja levado a questi-
F
onar e a buscar os significados oferecidos pelos verbetes, e que a divul-
gação desse dicionário contribua para a criação de circunstâncias a favor G
de uma formação dos trabalhadores da saúde que tenha como meta a
sua emancipação e o compromisso com o pensamento crítico a favor da H
saúde e da educação públicas.
I
Os Organizadores
N

37
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

38
A

C
A D

E
ATENÇÃO À SAÚDE
F

Gustavo Corrêa Matta G


Márcia Valéria Guimarães Morosini
H
Atenção à saúde designa a orga- que durante muitos anos caracterizou
nização estratégica do sistema e das as políticas de saúde no Brasil. Dessa
I
práticas de saúde em resposta às ne- forma, remete-se à histórica cisão en-
cessidades da população. É expressa tre as iniciativas de caráter individual e
N
em políticas, programas e serviços de curativo, que caracterizam a assistên-
saúde consoante os princípios e as di- cia médica, e as iniciativas de caráter O
retrizes que estruturam o Sistema Úni- coletivo e massivo, com fins preventi-
co de Saúde (SUS). vos, típicas da saúde pública. Essas P
A compreensão do termo ‘aten- duas formas de conceber e de organi-
ção à saúde’ remete-se tanto a proces- zar as ações e os serviços de saúde con- Q
sos históricos, políticos e culturais que figuraram dois modelos distintos – o
expressam disputas por projetos no modelo biomédico e o modelo R
campo da saúde quanto à própria con- campanhista/preventivista – que mar-
cepção de saúde sobre o objeto e os caram, respectivamente, a assistência S
objetivos de suas ações e serviços, isto médica e a saúde pública, faces do se-
é, o que e como devem ser as ações e tor saúde brasileiro cuja separação, há T
os serviços de saúde, assim como a muito instituída, ainda representa um
quem se dirigem, sobre o que incidem desafio para a constituição da saúde em U
e como se organizam para atingir seus um sistema integrado.
objetivos. O modelo biomédico, estru- V
Numa perspectiva histórica, a no- turado durante o século XIX, associa
ção de atenção pretende superar a clás- doença à lesão, reduzindo o processo A
sica oposição entre assistência e pre- saúde-doença à sua dimensão anato-
venção, entre indivíduo e coletividade, mofisiológica, excluindo as dimensões
A

39
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

histórico-sociais, como a cultura, a 1920 sob a influência da medicina li-


política e a economia e, conseqüente- beral e tinha o objetivo de oferecer as-
mente, localizando suas principais es- sistência médico-hospitalar a trabalha-
tratégias de intervenção no corpo dores urbanos e industriais, na forma
doente. Por outro lado, desde o final de seguro-saúde/previdência. Sua or-
do século XIX, o modelo preventivista ganização é marcada pela lógica da as-
expandiu o paradigma microbiológico sistência e da previdência social, inici-
da doença para as populações, consti- almente, restringindo-se a algumas
tuindo-se como um saber corporações de trabalhadores e, pos-
epidemiológico e sanitário, visando à teriormente, unificando-se no Institu-
organização e à higienização dos espa- to Nacional de Assistência e Previdên-
ços humanos. cia Social (INPS), em 1966, e amplian-
No Brasil, os modelos de atenção do-se progressivamente ao conjunto de
podem ser compreendidos em relação trabalhadores formalmente inseridos
às condições socioeconômicas e polí- na economia (Baptista, 2005). Esse
ticas produzidas nos diversos períodos modelo é conhecido também por seu
históricos de organização da socieda- aspecto hospitalocêntrico, uma vez
de brasileira. que, a partir da década de 1940, a rede
O modelo campanhista – influen- hospitalar passou a receber um volu-
ciado por interesses agroexpor-tadores me crescente de investimentos, e a
no início do século XX – baseou-se em ‘atenção à saúde’ foi-se tornando si-
campanhas sanitárias para combater as nônimo de assistência hospitalar. Tra-
epidemias de febre amarela, peste bubô- ta-se da maior expressão na história do
nica e varíola, implementando progra- setor saúde brasileiro da concepção
mas de vacinação obrigatória, desinfec- médico-curativa, fundada no
ção dos espaços públicos e domiciliares paradigma flexneriano, caracterizado
e outras ações de medicalização do es- por uma concepção mecanicista do
paço urbano, que atingiram, em sua mai- processo saúde-doença, pelo redu-
oria, as camadas menos favorecidas da cionismo da causalidade aos fatores
população. Esse modelo predominou no biológicos e pelo foco da atenção so-
cenário das políticas de saúde brasileiras bre a doença e o indivíduo. Tal para-
até o início da década de 1960. digma que organizou o ensino e o
O modelo previdenciário- trabalho médico foi um dos responsá-
privatista teve seu início na década de veis pela fragmentação e hierar-

40
Atenção à Saúde A

quização do processo de trabalho em nitária: “Saúde é a resultante das con- C


saúde e pela proliferação das especiali- dições de habitação, alimentação,
dades médicas. educação, renda, meio ambiente, tra- D
Nesse mesmo processo, o mode- balho, transporte, emprego, lazer, li-
lo campanhista da saúde pública, pau- berdade, acesso e posse da terra e
E
tado pelas intervenções na coletivida- acesso a serviços de saúde”.
F
de e nos espaços sociais, perde terre- A partir dessa concepção amplia-
no e prestígio no cenário político e no da do processo saúde-doença, a ‘aten-
G
orçamento público do setor saúde, que ção à saúde’ intenta conceber e orga-
passa a privilegiar a assistência médi- nizar as políticas e as ações de saúde H
co-curativa, a ponto de comprometer numa perspectiva interdisciplinar, par-
a prevenção e o controle das endemias tindo da crítica em relação aos mode- I
no território nacional. los excludentes, seja o biomédico cu-
Ao final da década de 1970, diver- rativo ou o preventivista. N
sos segmentos da sociedade civil – en- No âmbito do SUS, há três prin-
tre eles, usuários e profissionais de saú- cípios fundamentais a serem conside- O
de pública – insatisfeitos com o siste- rados em relação à organização da
ma de saúde brasileiro iniciaram um ‘atenção à saúde’. São eles: o princípio P
movimento que lutou pela ‘atenção à da universalidade, pelo qual o SUS deve
saúde’ como um direito de todos e um garantir o atendimento de toda a po- Q
dever do Estado. Este movimento fi- pulação brasileira; o princípio da
cou conhecido como Reforma Sanitá- integralidade, pelo qual a assistência é R
ria Brasileira e culminou na instituição “entendida como um conjunto articu-
do SUS por meio da Constituição de lado e contínuo das ações e serviços S
1988 e posteriormente regulamentado preventivos e curativos, individuais e
pelas Leis 8.080/90 e 8.142/90, chama- coletivos (...)” (Brasil, 1990); e o princí- T
das Leis Orgânicas da Saúde. pio da eqüidade, pelo qual esse atendi-
Em meio ao movimento de mento deve ser garantido de forma igua- U
consolidação do SUS, a noção de litária, porém, contemplando a
atenção afirma-se na tentativa de multiplicidade e a desigualdade das con-
V
produzir uma síntese que expresse a dições sócio-sanitárias da população.
A
complexidade e a extensão da con- Em relação à universalidade, o
cepção ampliada de saúde que mar- desafio posto à organização da ‘aten-
A
cou o movimento pela Reforma Sa- ção à saúde’ é o de constituir um con-

41
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

junto de ações e práticas que permi- associada a essa hierarquização é a de


tam incorporar ou reincorporar parce- uma pirâmide, em cuja base se encon-
las da população historicamente aparta- tram os serviços de menor complexi-
das dos serviços de saúde. Da mesma dade e maior freqüência, que funcio-
forma, ao pautar-se pelo princípio da nariam como a porta de entrada para
integralidade, a organização da ‘atenção o sistema. No meio da pirâmide, es-
à saúde’ implica a produção de servi- tão os serviços de complexidade mé-
ços, ações e práticas de saúde que pos- dia e alta, aos quais o acesso se dá por
sam garantir a toda a população o aten- encaminhamento e, finalmente, no
dimento mais abrangente de suas ne- topo, estão os serviços de alta com-
cessidades. Já em relação à eqüidade, a plexidade, fortemente especializados.
‘atenção à saúde’ precisa orientar os ser- Essa tentativa de organizar e
viços e as ações de saúde segundo o res- racionalizar o SUS, se, por um lado,
peito ao direito da população brasileira proporcionou um desenho e um
em geral de ter as suas necessidades de fluxo para o sistema, por outro, refor-
saúde atendidas, considerando, entretan- çou a sua fragmentação e subva-
to, as diferenças historicamente institu- lorizou a atenção primária como um
ídas e que se expressam em situações lócus de tecnologias simples, de bai-
desiguais de saúde segundo as regiões xa complexidade.
do país, os estratos sociais, etários, de Em contraposição, o modelo de
gênero entre outros. atenção pode constituir-se na resposta
Premido, de um lado, pelas ten- dos gestores, serviços e profissionais de
sões geradas por essa pauta de princí- saúde para o desenvolvimento de políti-
pios e, de outro, pela convivência com cas e a organização dos serviços, das
os paradigmas do modelo assisten- ações e do próprio trabalho em saúde,
cialista, o SUS organizou a ‘atenção à de forma a atenderem as necessidades
saúde’ de forma hierarquizada, em de saúde dos indivíduos, nas suas singu-
níveis crescentes de complexidade. laridades, e dos grupos sociais, na sua
Segundo essa lógica, os serviços de relação com suas formas de vida, suas
saúde são classificados nos níveis pri- especificidades culturais e políticas. O
mário, secundário e terciário de aten- modelo de atenção pode, enfim, buscar
ção, conforme o grau de complexida- garantir a continuidade do atendimento
de tecnológica requerida aos procedi- nos diversos momentos e contextos em
mentos realizados. A imagem que se objetiva a ‘atenção à saúde’.

42
Atenção à Saúde A

Nesse sentido, existem também de responsabilização entre os tra- C


propostas de atenção dirigidas a gru- balhadores e a população, reforçan-
pos específicos que podem ser des-
do a centralidade do trabalho da D
equipe multiprofissional. (EPSJV,
critas como políticas voltadas para 2005, p. 75)
‘atenção à saúde’ por ciclo de vida – E
‘atenção à saúde’ do idoso, à criança e Numa dimensão ético-política,
ao adolescente, ‘atenção à saúde’ do isto significa afirmar que a ‘atenção à F
adulto; a portadores de doenças es- saúde’ se constrói a partir de uma pers-
pecíficas – atenção à hipertensão ar- pectiva múltipla, interdisciplinar e, tam- G
terial, diabetes, hanseníase, DST/ bém, participativa, na qual a interven-
Aids, entre outras; e também relati- ção sobre o processo saúde-doença é H
vas a questões de gênero – saúde da resultado da interação e do prota-
gonismo dos sujeitos envolvidos: tra- I
mulher e, mais recentemente, saúde
do homem. balhadores e usuários que produzem e
conduzem as ações de saúde.
N
Essas propostas podem vir asso-
ciadas a estratégias de centralização
O
política e especialização técnica, histo-
Para saber mais:
ricamente concebidas como programas
P
de saúde que antagonizam com a lógi-
BAPTISTA, T. W. F. O direito à saúde
ca da integralidade, uma vez que favo- no Brasil: sobre como chegamos ao Q
recem a fragmentação das políticas e Sistema Único de Saúde e o que
das ações de saúde e buscam unifor- esperamos dele. In: EPSJV (Org.) Textos
de Apoio em Políticas de Saúde. Rio de
R
mizar a intervenção por meio de pro-
Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.
tocolos técnico-científicos pouco per-
BRASIL. Constituição da República.
S
meáveis às especificidades políticas,
Artigos 194, 196. Brasília: Senado
sociais e culturais.
Federal, 1988. Disponível em: < http:/ T
Ao contrário, argumenta-se que: /www.senado.gov.br/sf/legislacao/
A complexidade dos problemas de const/ > Acesso em: 29 nov. 2005. U
saúde requer para o seu enfrenta- BRASIL. Lei 8.080, de 19 de setembro
mento a utilização de múltiplos sa- de 1990. Disponível em: <http:// V
beres e práticas. O sentido da mu- www6.senado.g ov.br/legislacao/
dança do foco dos serviços e ações ListaPublicacoes.action?id=134238>
de saúde para as necessidades indi- A
Acesso em: 29 nov. 2005.
viduais e coletivas, portanto para o
cuidado, implica a produção de re- BRASIL. Lei 8.142, de 28 de dezembro A
lações de acolhimento, de vínculo e de 1990. Disponível em: <http://

43
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

www6.senado.g ov.br/le gislacao/ MENDES, E. V. Distrito Sanitário: o


ListaPublicacoes.action?id=134561> processo social de mudança das práticas
Acesso em: 29 nov. 2005. sanitárias do Sistema Único de Saúde. São
CAMARGO JR., K. R. Biomedicina, Saber Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec/
e Ciência: uma abordagem crítica. São Paulo: Abrasco, 1993.
Hucitec, 2003. ROSEN, G. Uma História da Saúde
CORBO, A. M. & MOROSINI, M. V. G. Pública. São Paulo: Hucitec/Editora
Saúde da família: história recente da da Universidade Estadual Paulista,
reorganização da atenção à saúde. In: 1994.
EPSJV (Org.) Textos de Apoio em Políticas de SILVA JUNIOR, A. G. Modelos
Saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.
Tecnoassistenciais em Saúde: o debate no
EPSJV (Org.) Projeto Político Pedagógico. campo da saúde coletiva. São Paulo:
Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. Hucitec, 1998.


ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

Gustavo Corrêa Matta


Márcia Valéria Guimarães Morosini

Internacionalmente tem-se apre- No Brasil, a APS incorpora os


sentado ‘Atenção Primária à Saúde’ princípios da Reforma Sanitária, levan-
(APS) como uma estratégia de organi- do o Sistema Único de Saúde (SUS)
zação da atenção à saúde voltada para a adotar a designação Atenção Básica
responder de forma regionalizada, con- à Saúde (ABS) para enfatizar a
tínua e sistematizada à maior parte das reorientação do modelo assistencial,
necessidades de saúde de uma popula- a partir de um sistema universal e inte-
ção, integrando ações preventivas e cu- grado de atenção à saúde.
rativas, bem como a atenção a indiví-
duos e comunidades. Esse enunciado Historicamente, a idéia de atenção
procura sintetizar as diversas concep- primária foi utilizada como forma de
ções e denominações das propostas e organização dos sistemas de saúde pela
experiências que se convencionaram primeira vez no chamado Relatório
chamar internacionalmente de APS. Dawnson, em 1920. Esse documento

44
Atenção Primária à Saúde A

do governo inglês procurou, de um Os serviços domiciliares de um dado C


lado, contrapor-se ao modelo distrito devem estar baseados num
flexineriano americano de cunho cu-
Centro de Saúde Primária – uma ins- D
tituição equipada para serviços de
rativo, fundado no reducionismo bio- medicina curativa e preventiva para
lógico e na atenção individual, e por ser conduzida por clínicos gerais E
outro, constituir-se numa referência daquele distrito, em conjunto com
um serviço de enfermagem eficien- F
para a organização do modelo de aten- te e com o apoio de consultores e
ção inglês, que começava a preocupar especialistas visitantes. Os Centros G
as autoridades daquele país, devido ao de Saúde Primários variam em seu
elevado custo, à crescente complexida- tamanho e complexidade de acordo
com as necessidades locais, e com H
de da atenção médica e à baixa sua localização na cidade ou no país.
resolutividade. Mas, a maior parte deles são forma- I
dos por clínicos gerais dos seus dis-
tritos, bem como os pacientes per-
O referido relatório organizava o
tencem aos serviços chefiados por
N
modelo de atenção em centros de saú-
médicos de sua própria região. (Mi-
de primários e secundários, serviços nistry of Health, 1920) O
domiciliares, serviços suplementares e
Esta concepção elaborada pelo
hospitais de ensino. Os centros de saú- P
de primários e os serviços domicilia- governo inglês influenciou a organiza-
res deveriam estar organizados de for- ção dos sistemas de saúde de todo o Q
ma regionalizada, onde a maior parte mundo, definindo duas características
dos problemas de saúde deveriam ser básicas da APS. A primeira seria a R
resolvidos por médicos com formação regionalização, ou seja, os serviços de
em clínica geral. Os casos que o médico saúde devem estar organizados de for- S
não tivesse condições de solucionar com ma a atender as diversas regiões nacio-
os recursos disponíveis nesse âmbito da nais, através da sua distribuição a par- T
atenção deveriam ser encaminhados para tir de bases populacionais, bem como
os centros de atenção secundária, onde devem identificar as necessidades de U
haveria especialistas das mais diversas saúde de cada região. A segunda carac-
áreas, ou então, para os hospitais, quan- terística é a integralidade, que fortale- V
do existisse indicação de internação ou ce a indissociabilidade entre ações cu-
rativas e preventivas. A
cirurgia. Essa organização caracteriza-se
pela hierarquização dos níveis de aten- Os elevados custos dos sistemas
A
ção à saúde. de saúde, o uso indiscriminado de

45
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tecnologia médica e a baixa reso- mentadas e socialmente aceitáveis,


lutividade preocupavam a sustentação colocadas ao alcance universal de
indivíduos e famílias da comunida-
econômica da saúde nos países desen- de, mediante sua plena participação
volvidos, fazendo-os pesquisar novas e a um custo que a comunidade e o
formas de organização da atenção com país possam manter em cada fase
custos menores e maior eficiência. Em de seu desenvolvimento, no espíri-
to de autoconfiança e autodetermi-
contrapartida, os países pobres e em
nação. Fazem parte integrante tan-
desenvolvimento sofriam com a iniqüi- to do sistema de saúde do país, do
dade dos seus sistemas de saúde, com qual constituem a função central e o
a falta de acesso a cuidados básicos, foco principal, quanto do desenvol-
com a mortalidade infantil e com as vimento social e econômico global
da comunidade. Representam o
precárias condições sociais, econômi-
primeiro nível de contato dos indi-
cas e sanitárias. víduos, da família e da comunidade
Em 1978 a Organização Mundial com o sistema nacional de saúde,
pelo qual os cuidados de saúde são
da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações
levados o mais proximamente pos-
Unidas para a Infância (Unicef) realiza- sível aos lugares onde pessoas vi-
ram a I Conferência Internacional sobre vem e trabalham, e constituem o
Cuidados Primários de Saúde em Alma- primeiro elemento de um continu-
ado processo de assistência à saú-
Ata, no Cazaquistão, antiga União Sovi-
de. (Opas/OMS, 1978)
ética, e propuseram um acordo e uma
meta entre seus países membros para No que diz respeito à organiza-
atingir o maior nível de saúde possível ção da APS, a declaração de Alma-Ata
até o ano 2000, através da APS. Essa propõe a instituição de serviços locais
política internacional ficou conhecida de saúde centrados nas necessidades
como “Saúde para Todos no Ano de saúde da população e fundados
2000”. A Declaração de Alma-Ata, numa perspectiva interdisciplinar en-
como foi chamado o pacto assinado volvendo médicos, enfermeiros, partei-
entre 134 países, defendia a seguinte ras, auxiliares e agentes comuni-tários,
definição de APS, aqui denominada bem como a participação social na ges-
cuidados primários de saúde: tão e controle de suas atividades. O
documento descreve as seguintes ações
Os cuidados primários de saúde são mínimas, necessárias para o desenvol-
cuidados essenciais de saúde base-
vimento da APS nos diversos países:
ados em métodos e tecnologias prá-
ticas, cientificamente bem funda- educação em saúde voltada para a pre-

46
Atenção Primária à Saúde A

venção e proteção; distribuição de ali- mente, a APS tornou-se uma referên- C


mentos e nutrição apropriada; tratamen- cia fundamental para as reformas sa-
to da água e saneamento; saúde mater- nitárias ocorridas em diversos países D
no-infantil; planejamento familiar; imu- nos anos 80 e 90 do último século.
nização; prevenção e controle de doen- Entretanto, muitos países e organismos
E
ças endêmicas; tratamento de doenças internacionais, como o Banco Mundial,
F
e lesões comuns; fornecimento de me- adotaram a APS numa perspectiva fo-
dicamentos essenciais. calizada, entendendo a atenção primá-
G
A Declaração de Alma-Ata repre- ria como um conjunto de ações de saú-
senta uma proposta num contexto de de baixa complexidade, dedicada a H
muito maior que um pacote seletivo de populações de baixa renda, no sentin-
cuidados básicos em saúde. Nesse sen- do de minimizar a exclusão social e I
tido, aponta para a necessidade de sis- econômica decorrentes da expansão do
temas de saúde universais, isto é, con- capitalismo global, distanciando-se do N
cebe a saúde como um direito huma- caráter universalista da Declaração de
no; a redução de gastos com armamen- Alma-Ata e da idéia de defesa da saú- O
tos e conflitos bélicos e o aumento de de como um direito (Mattos, 2000).
investimentos em políticas sociais para No Brasil, algumas experiências de P
o desenvolvimento das populações APS foram instituídas de for ma
excluídas; o fornecimento e até mes- incipiente desde o início do século XX, Q
mo a produção de medicamentos es- como os centros de saúde em 1924 que,
senciais para distribuição à população apesar de manterem a divisão entre R
de acordo com a suas necessidades; a ações curativas e preventivas, organi-
compreensão de que a saúde é o resul- zavam-se a partir de uma base S
tado das condições econômicas e so- populacional e trabalhavam com edu-
ciais, e das desigualdades entre os di- cação sanitária. A partir da década de T
versos países; e também estipula que 1940, foi criado o Serviço Especial de
os governos nacionais devem Saúde Pública (Sesp) que realizou ações U
protagonizar a gestão dos sistemas de curativas e preventivas, ainda que res-
saúde, estimulando o intercâmbio e o tritas às doenças infecciosas e
V
apoio tecnológico, econômico e polí- carenciais. Essa experiência inicialmen-
A
tico internacional (Matta, 2005). te limitada às áreas de relevância eco-
Apesar de as metas de Alma-Ata nômica, como as de extração de bor-
A
jamais terem sido alcançadas plena- racha, foi ampliada durante os anos 50

47
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

e 60 para outras regiões do país, mas tre estados e municípios, custeadas por
represada de um lado pela expansão recursos transferidos diretamente da
do modelo médico-privatista, e de ou- previdência social, visando à atenção in-
tro, pelas dificuldades de capilarização tegral e universal dos cidadãos.
local de um órgão do governo federal, Essas experiências somadas à
como é o caso do Sesp (Mendes, 2002). constituição do SUS (Brasil, 1988) e sua
Nos anos 70, surge o Programa regulamentação (Brasil, 1990) possibi-
de Interiorização das Ações de Saú- litaram a construção de uma política
de e Saneamento do Nordeste (Piass) de ABS que visasse à reorientação do
cujo objetivo era fazer chegar à po- modelo assistencial, tornando-se o
pulação historicamente excluída de contato prioritário da população com
qualquer acesso à saúde um conjun- o sistema de saúde. Assim, a concep-
to de ações médicas simplificadas, ca- ção da ABS desenvolveu-se a partir dos
racterizando-se como uma política princípios do SUS, principalmente a
focalizada e de baixa resolutividade, universalidade, a descentralização, a
sem capacidade para fornecer uma integralidade e a participação popular,
atenção integral à população. como pode ser visto na portaria que
institui a Política Nacional de Atenção
Com o movimento sanitário, as
Básica, definindo a ABS como:
concepções da APS foram incorpora-
das ao ideário reformista, compreen- um conjunto de ações de saúde no
dendo a necessidade de reorientação do âmbito individual e coletivo que
abrangem a promoção e proteção
modelo assistencial, rompendo com o da saúde, prevenção de agravos, di-
modelo médico-privatista vigente até o agnóstico, tratamento, reabilitação
início dos anos 80. Nesse período, du- e manutenção da saúde. É desen-
rante a crise do modelo médico- volvida através do exercício de prá-
ticas gerenciais e sanitárias demo-
previdenciário representado pela cráticas e participativas, sob forma
centralidade do Instituto Nacional de de trabalho em equipe, dirigidas a
Assistência Médica da Previdência populações de territórios bem deli-
Social (Inamps), surgiram as Ações mitados, pelas quais assume a
responsabilidade sanitária, conside-
Integradas de Saúde (AIS), que visavam
rando a dinamicidade existente no
ao fortalecimento de um sistema uni- território em que vivem essas
ficado e descentralizado de saúde vol- populações. Utiliza tecnologias de
tado para as ações integrais. Nesse sen- elevada complexidade e baixa den-
sidade, que devem resolver os
tido, as AIS surgiram de convênios en-

48
Atenção Primária à Saúde A

problemas de saúde de maior fre- de da população e à superação das ini- C


qüência e relevância em seu territó- qüidades entre as regiões do país.
rio. É o contato preferencial dos
Ressalta-se também na ABS a im- D
usuários com os sistemas de saúde.
Orienta-se pelos princípios da uni- portante participação de profissionais
versalidade, acessibilidade e coorde- de nível básico e médio em saúde, como
E
nação do cuidado, vínculo e conti- os agentes comunitários de saúde, os
nuidade, integralidade, responsabi- F
lização, humanização, equidade, e auxiliares e técnicos de enfermagem,
entre outros responsáveis por ações de
participação social. (Brasil, 2006) G
educação e vigilância em saúde.
Atualmente, a principal estratégia
de configuração da ABS no Brasil é a H
saúde da família que tem recebido im-
Para saber mais: I
portantes incentivos financeiros visan-
do à ampliação da cobertura
populacional e à reorganização da aten-
BRASIL. Constituição da República. N
Artigos 194, 196. Brasília: Senado
ção. A saúde da família aprofunda os Federal, 1988. Disponível em: < http:/
/www.senado.gov.br/sf/legislacao/ O
processos de territorialização e respon-
const/ > Acesso em: 29 nov. 2005.
sabilidade sanitária das equipes de saú-
BRASIL. Lei 8.080, de 19 de setembro
P
de, compostas basicamente por médi-
de 1990. Disponível em: <http://
co generalista, enfermeiro, auxiliares de
www6.senado.g ov.br/le gislacao/ Q
enfermagem e agentes comunitários de ListaPublicacoes.action?id=134238>
saúde, cujo trabalho é referência de Acesso em: 29 nov. 2005. R
cuidados para a população adscrita, BRASIL. Portaria n. 648, de 28 de março
com um número definido de domicíli- de 2006. Brasília: Ministério da Saúde, S
os e famílias assistidos por equipe. 2006. Disponível em: <http//
d t r 2 0 0 1 . s a u d e . g o v. b r / s a s /
Entretanto, os desafios persistem e PORTARIAS/Port2006/GM/GM- T
indicam a necessidade de articulação de 648.htm> Acesso em: 4 set. 2006.
estratégias de acesso aos demais níveis FAUSTO, M. C. R. Dos Programas de
U
de atenção à saúde (ver verbete Atenção Medicina Comunitária ao Sistema Único de
à Saúde), de forma a garantir o princípio Saúde: uma análise histórica da atenção V
primária na política de saúde brasileira, 2005.
da integralidade, assim como a necessi- Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: A
dade permanente de ajuste das ações e IMS/Uerj.
serviços locais de saúde, visando à apre- MATTA, G. C. A organização mundial A
ensão ampliada das necessidades de saú- de saúde: do controle de epidemias à luta

49
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

pela hegemonia. Trabalho Educação e 1920. Disponível em: <http://


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e tecnologia. Brasília: Unesco Brasil/
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Ministério da Saúde, 2004.
medical and allied services. London,


AVALIAÇÃO EM SAÚDE

Zulmira Maria de Araújo Hartz

Apesar de se reconhecer que exis- paz de ser traduzido em ação. Este julga-
tem inúmeras definições de Avaliação, mento pode ser o resultado da aplicação de
seus contornos no campo da saúde se critérios e normas - avaliação normativa - ou,
delimitam no âmbito das políticas e ser elaborado a partir de um procedimento
programas sociais, consistindo funda- científico - pesquisa avaliativa
mentalmente em aplicar um julgamento de (Contandriopoulos, 2006). Sendo uma
valor a uma intervenção, através de um dis- atividade formalmente utilizada na
positivo capaz de fornecer informações cienti- China há quatro mil anos para recru-
ficamente válidas e socialmente legítimas so- tar seus ‘funcionários’, no ocidente tem
bre ela ou qualquer um dos seus componen- apenas dois séculos e, do século XIX
tes, permitindo aos diferentes atores envolvi- até 1930 (1a geração), se limitava aos
dos, que podem ter campos de julgamento di- problemas de ‘medidas’ e às aplicações
ferentes, se posicionarem e construírem (indi- do método experimental (Dubois et al,
vidual ou coletivamente) um julgamento ca- 2008).

50
Avaliação em Saúde A

No domínio da saúde ela surge dessa sistematização histórica, anun- C


então, vinculada aos avanços da ciando o advento da ‘quarta geração
epidemiologia e da estatística, testan- de avaliadores’, que trataremos a seguir. D
do a utilidade de diversas intervenções, Nesse terceiro estágio predominam a
particularmente direcionadas ao con- função de ‘julgamento’, como compe-
E
trole das doenças infecciosas e ao de- tência fundamental do avaliador, a
F
senvolvimento dos primeiros sistemas institucionalização das práticas
de informação que orientassem as po- avaliativas e a emergência das iniciati-
G
líticas sanitárias nos países desenvol- vas de profissionalização, como cam-
vidos (Estados Unidos, Alemanha, In- po de conhecimento distinto, eviden- H
glaterra, França, Grã Bretanha, Suíça ciadas pelo número crescente das pu-
etc). O avaliador, nesse primeiro está- blicações específicas, a emergência das I
gio, é essencialmente um técnico que associações de avaliadores internacio-
precisa saber construir e usar os ins- nais e dos padrões de qualidade. A pas- N
trumentos para medir os fenômenos sagem da segunda à terceira geração se
estudados e, somente no estágio se- justificava, sobretudo, por duas lacu- O
guinte (até os anos cinqüenta), come- nas: apreciavam apenas os alcances dos
ça a identificar e descrever os progra- objetivos ex-post, sem questioná-los em P
mas, compreender sua estrutura, for- seu valor e relevância, não observan-
ças e fragilidades para ver se é possível do, portanto, as lacunas dos programas. Q
atingirem os resultados esperados e A quarta geração se coloca como
fazer as devidas recomendações para uma alternativa, não excludente, dos R
sua implementação. As ‘medidas’ pas- referenciais anteriores, mas a avaliação
sam a se colocar a serviço da ‘avalia- torna-se ela mesma inclusiva e S
ção’, mas conceitualmente distintas, e participativa, um processo de negoci-
os pesquisadores em ciências sociais ação entre os atores envolvidos na in- T
exercem um papel cada vez mais im- tervenção em que o pesquisador-ava-
portante na condução dos estudos liador também se coloca como parte e U
avaliatórios considerando o avanço não apenas juiz. Guba & Lincoln
metodológico de suas disciplinas. (1989), consideravam que pelo menos
V
O terceiro estágio se inicia nos três problemas comuns comprometi-
A
anos 1960 e vai até o final dos anos am as gerações precedentes, unificadas
1980, com o lançamento do livro de no paradigma positivista, no qual a pro-
A
Guba & Lincoln (1989), precursores dução de conhecimento é proprieda-

51
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

de exclusiva dos especialistas nos mé- dos participantes graças ao processo


todos científicos: 1) apesar da ‘aparen- de avaliação. Essa abordagem, como
te’ objetividade por parte dos avalia- as demais, se compromete com a
dores, a avaliação era predominante- melhoria das políticas públicas, mas
mente uma simples ferramenta também a ajudar os grupos sociais a
gerencial nas estratégias políticas; 2) os ela relacionados a melhor compreen-
julgamentos não tinham em conta o der os próprios problemas e as possi-
pluralismo de atores envolvidos, com bilidades de modificá-los a seu favor.
diferentes valores e lógicas de regulação Os autores, apoiados em uma longa
(técnica, política, democrática) dos sis- experiência da avaliação de políticas
temas de ação social, nem a influência públicas em diversos países, fundamen-
deles decorrente no desenho e uso dos tam seus argumentos concluindo que
estudos; 3) privilégio de métodos quan- as chances de utilização dos estudos
titativos e das relações direta de causa- avaliativos decorrem dessa ‘co-produ-
lidade, com desconsideração do con- ção’ dos participantes, em que o avali-
texto e outros elementos ‘não científi- ador desempenha um papel pedagógi-
cos’ na busca de se conhecer ‘a verda- co de mediador e tradutor do proces-
de’, ocultando sua contingência e rela- so analítico e seus resultados.
tividade, a moral e a ética do avaliador
porque a ciência seria livre de valores.
Breve, as interpretações e Avanços e desafios atuais da
interações de atores desempenham um avaliação em saúde
papel não somente na produção de re-
sultados e julgamentos, mas também A quarta geração da avaliação, 20
no aprendizado como conseqüência da anos depois, ainda aparece ‘emergin-
avaliação inclusive para todo corpo do’ no campo da saúde. Se a
social nela interessado. Esses pressu- racionalidade positivista, do sujeito
postos apontam para a emergência da exterior ao objeto que estuda, foi par-
quinta geração de avaliação com parti- cialmente superada, até mesmo no dis-
cipação da sociedade civil em todas as curso dos defensores da tradição cien-
etapas (Baron & Monnier, 2003). A tífica, ela está de tal forma aculturada
quinta geração (‘emancipadora’) com- que a maioria de nossos pesquisado-
binaria as anteriores, mas ela implica a res e estudiosos continua assumindo
vontade explícita de aumentar o poder esta forma do ‘ser científico’ em seus

52
Avaliação em Saúde A

protocolos e atitudes. Pior, quando se com seu objeto de trabalho. No âm- C


adota a interação do sujeito com o bito da gestão pública, estruturada em
objeto, enquanto inexorável à programas governamentais e orienta- D
contextualização do próprio objeto, da por resultados, essa dualidade se tra-
como é o caso das políticas de saúde, duz como questões de natureza
E
tem-se de pagar um certo ‘pedágio’ metodológica e política. A exigência de
F
aos cânones ditos ‘acadêmicos’ para pluralidade de abordagens e atores de-
este reconhecimento. As tentativas na- manda a obrigatoriedade de dispositi-
G
cionais de institucionalização da avali- vos institucionais, igualmente
ação (Brasil, 2005 a, b e 2007), ainda participativos, que regulamentem os H
que defasadas em relação à sua emer- estudos de avaliação garantindo a qua-
gência nas políticas dos anos 1970- lidade e utilidade do produto final. I
1980 (terceiro estágio), foram formu- A pesquisa avaliativa requer, para
ladas com as bases teóricas mais avan- a qualificação dos programas em sua N
çadas da literatura especializada, mas complexidade, a contribuição de dife-
têm dificuldade de superar os limites rentes disciplinas, rompendo O
do monitoramento de objetivos e me- paralelismos epistemológicos que pre-
tas que caracterizaram a segunda gera- cisam ser complementares na avaliação, P
ção de avaliadores. tais como: a pesquisa biomédica e
Essa nossa multiplicidade organizacional; a atenção individual e Q
concomitante de estágios nas práticas coletiva. Nos níveis regionais e locais a
avaliativas científicas e institucionais descentralização da gestão de progra- R
torna a educação profissional para ava- mas força uma ampliação do conheci-
liação em saúde, e a democratização do mento sobre a totalidade dos serviços S
campo, como grandes desafios inter- implicados na obtenção dos efeitos
relacionados a serem enfrentados. A desejados. Nesse tipo de avaliação, em T
compreensão do avaliador como um que as parcerias legitimamente diferem
profissional que analisa e julga as polí- em seus pontos de vista, surgem pro- U
ticas sociais como um conjunto de fa- blemas específicos para a mensuração
tores de proteção inserido entre os de desempenho em ‘rede’ com a ne-
V
determinantes da saúde, exige que cessária contextualização e participa-
A
ampliemos os objetivos da formação ção nas pesquisas.
acadêmica para contemplar a dualidade O interesse em construir maior
A
do pesquisador-ator comprometido capacidade em avaliação nas estrutu-

53
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

ras administrativas se coloca então Para saber mais:


como pré-requisito para uma maior
conscientização dos limites e benefíci- BARON, G. & MONNIER, E. Une
os da avaliação, nas instituições gover- approche pluraliste et participative:
coproduire l’évaluation avec la société
namentais ou não-governamentais, in-
civile. Informations Sociales, n.110:1-7,
tegrando o processo das reformas 2003.
sanitárias, e não como uma atividade
BRASIL. Ministério da Saúde.
isolada. A educação profissional em Secretaria de Atenção à Saúde.
avaliação deve ser, portanto, ‘politica- Departamento de Atenção Básica.
mente realista’, superando uma das Coordenação de Acompanhamento e
carências da formação de avaliadores: Avaliação. Avaliação da Atenção Básica em
Saúde: caminhos da institucionalização.
omitir os aspectos políticos das esco-
Brasília, DF., 2005a.
lhas teórico-metodológicas fazendo
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano
crer, também, que a uma boa avaliação
Nacional de Avaliação. Brasília: Ministério
se seguem decisões imediatas, desco- da Saúde. Secretaria de Vigilância de
nhecendo que este é apenas um dos Saúde. Programa Nacional de DST/
elementos (nem sempre o mais impor- AIDS, 2005b.
tante) da agenda governamental, ape- BRASIL. Ministério da Saúde. Política
lando para a perseverança na argumen- Nacional de Avaliação de Desempenho do
tação dos avaliadores. A avaliação em Sistema Único de Saúde. Departamento
de Apoio à Descentralização, Secretaria
saúde, como processo que favorece
Executiva, 2007.
a participação e o debate, redistribui
seu ‘acesso’aos atores que, com os CONTANDRIOPOULOS, A. P.
Avaliando a Institucionalização da
próprios meios, não têm capacidade Avaliação. Ciência & Saude Coletiva,
de avaliar os serviços públicos ou vol.11(3)p. 705-712, 2006.
contrabalançar interesses hege-
DUBOIS, C.A.; CHAMPAGNE, F.;
mônicos. Nesse enfoque, a institu- BILODEAU, H. Histoire de
cionalização da avaliação reduz a l’évaluation: un processus soutenu de
assimetria entre o poder dos grupos reconstr uction des moyens de
constituídos da sociedade e os indi- production des connaissances.In:
BROUSSELLE, A.; CHAMPAGNE,
víduos que coletivamente a constitu-
F.; CONTANDRIOPOULOS, A,P.;
em, contribuindo para a democrati- HARTZ, Z. (Eds.). Concepts et méthodes
zação tanto da vida política como d’évaluation des interventions, 2008 (no
daquela interna às instituições. Prelo).

54
Avaliação por Competências A

FURTADO, J. P. Avaliação para Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, C


conhecimento e transformação. In: v. 15, n. 2, p. 258-259, 1999.
BOSI, M. L. M. & MERCADO, F. J.
MINAYO, M. C. S.; ASSIS, S. G.; D
(Orgs.). Avaliação Qualitativa de programas
SOUZA, E. R.(Orgs.) Avaliação por
de Saúde. Enfoques Emergentes. Editora
Vozes, p.191 – 306, 2006.
triangulação de métodos. Rio de Janeiro: E
Editora Fiocruz, 2005.
GUBA, E. G.; LINCOLN, Y. S. Fourth
Generation Evaluation. Newbury Park;
V I E I R A DA S I LVA, L . M . F
Conceitos, Abordagens e Estratégias
CA; Sage Publications, Chapter 1: The p a r a a Avaliação em Saúde. I n :
Coming of Age of Evaluation, p.21- HARTZ, Z. M. A. & VIEIRA DA
G
49; Chapter 7: The Methodology of SILVA, L. M. (Orgs.). Avaliação em
Fourth Generation Evaluation, p.184- Saúde: dos modelos teóricos à prática na H
227, 1989. avaliação de pr ogramas e sistemas de
HARTZ, Z. M. A. Princípios e Padrões s a ú d e . R i o d e Ja n e i ro / S a l va d o r : I
em Meta-Avaliação: diretrizes para os Editora Fiocruz/Edufba, p. 15 –
programas de saúde. Ciência & Saúde 39, 2005.
Coletiva, vol. 11(3): p. 733-738, 2006.
N
WORTHEN, B. R.; SANDERS, J.R.;
FITZPATRICK, J. L. Avaliação de
HARTZ, Z. M. A. Evaluation in health:
Programas Sociais. 1ª ed. São Paulo:
O
regulation, research and culture in the
challenges of institutionalization. Instituto Fonte – Gente, 2004.
 P

Q
AVALIAÇÃO POR COMPETÊNCIAS
R

Marise Nogueira Ramos S

T
A ‘avaliação por competências’ é ma, normalmente, está associada a um
um processo pelo qual se compilam curso ou programa e costuma ocorrer U
evidências de desempenho e conheci- em etapas, cujos resultados compõem
mentos de um indivíduo em relação a um grau final. Neste caso, a aprovação V
competências profissionais requeridas. das pessoas ocorre com base em uma
É comum perguntar em que se escala de pontos que, por sua vez, pos- A
difere uma ‘avaliação por competên- sibilita comparações estatísticas. Quan-
cia’ da avaliação tradicional. Esta últi- to aos aspectos avaliados, normalmente
A

55
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

não se conhecem as perguntas que se- Currículos por Competências) e para a


rão feitas, e essas devem ser respondi- execução de ações de orientação
das em tempos previamente definidos. ocupacional aos trabalhadores.
Já a ‘avaliação por competências’ defi- Quando a ‘avaliação por compe-
ne-se como um processo com vários tências’ é realizada no âmbito de pro-
grandes passos, a saber: a) definição gramas de formação, existe a media-
de objetivos; b) levantamento de evi- ção pedagógica entre a norma e os pro-
dências; c) comparação das evidências cedimentos de avaliação. Nesse caso,
com os objetivos; d) julgamento (com- a avaliação visa também à regulação
petente ou não competente). Este tipo das aprendizagens. Por isto, pode ser
de avaliação centra-se nos resultados desenvolvida de forma processual e em
do desempenho profissional, realizan- paralelo ao processo de formação, de
do-se num tempo não previamente de- forma que a avaliação das aprendiza-
terminado. Os resultados individuais gens permita inferir sobre os objeti-
são comparáveis somente com os cri- vos de ensino e seus resultados (su-
térios de desempenho e não com os postamente, as competências desen-
outros avaliados. volvidas). Entretanto, quando desco-
A ‘avaliação por competências’ é lada do processo de formação, a avali-
orientada por normas, definidas como ação constitui-se numa medida da dis-
um conjunto de padrões válidos em di- tância que o indivíduo falta percorrer
ferentes ambientes produtivos, forne- ante a norma.
cendo parâmetros de referência e de Ainda que todas as formas de ava-
comparação para avaliar o que o traba- liação se refiram ao emprego de evi-
lhador é ou deve vir a ser capaz de fa- dências, cada forma pode ter um pro-
zer. Espera-se que a elaboração e a vali- pósito diferente. É o propósito que vai
dação dessas normas sejam pactuadas definir a natureza e o processo do sis-
entre os diversos sujeitos sociais inte- tema de avaliação. Assim, quando se
ressados nas competências dos traba- realiza a avaliação do trabalhador em
lhadores (governo, empregadores, processo de formação, pretende-se
gestores, trabalhadores, educadores, verificar as competências adquiridas
dentre outros). Além da avaliação, as durante o processo de aprendizagem,
normas de competências são utilizadas evidenciando a capacidade do indiví-
também para orientar a elaboração dos duo de mobilizar e articular, com au-
programas de formação (ver verbete tonomia, postura crítica e ética, seus

56
Avaliação por Competências A

recursos subjetivos, bem como os atri- objetos a serem estudados. Os instru- C


butos constituídos ao longo do pro- mentos utilizados nesse tipo de avali-
cesso de ensino-aprendizagem – co- ação, conjugados entre si ou não, po- D
nhecimentos, destrezas, qualidades dem ser: exercícios de simulação, rea-
pessoais e valores – a que se recorre lização de um microprojeto ou tarefa,
E
no enfrentamento de determinadas si- perguntas orais, exame escrito.
tuações concretas. F
A função formativa da avaliação
Para que a avaliação no processo permite identificar o nível de evolu-
G
de formação possa expressar concre- ção dos alunos no processo de ensi-
tamente as competências desenvolvi- no-aprendizagem. Para os professo- H
das pelos indivíduos, é preciso que a res, implica uma tarefa de ajuste cons-
formação e a ‘avaliação por competên- tante entre o processo de ensino e o I
cias’ sejam coerentemente planejadas de aprendizagem, para ir-se adequan-
em conjunto. Neste caso, a avaliação do à evolução dos alunos e para esta- N
cumpre com suas três funções básicas: belecer novas pautas de atuação em
diagnóstica, formativa e acreditativa relação às evidências sobre sua apren- O
(Hernández, 1998). dizagem. A análise dos trabalhos pode
A função diagnóstica inicial per- ser feita não sob a ótica de se estão P
mite detectar os atributos que os alu- bem ou mal realizados, mas levando-
nos já possuem, contribuindo para a se em conta a exigência cognitiva das Q
estruturação do processo de ensino- tarefas propostas, a detenção dos er-
aprendizagem a partir do conhecimen- ros conceituais observados e as rela- R
to de base dos mesmos. A avaliação ções não previstas, levantando-se sub-
diagnóstica inicial deve tentar recolher sídios para o professor e para o alu- S
evidências sobre as formas de apren- no, que os ajudem a progredir no pro-
der dos alunos, seus conhecimentos e cesso de apreensão dos conhecimen- T
experiências prévios, seus erros e tos, desenvolvimento e aprimoramen-
preconcepções. Caberá ao professor, to de destrezas, construção de valo- U
se possível em conjunto com o aluno, res e qualidades pessoais. Esse mo-
interpretar as evidências, percebendo mento de avaliação pode utilizar as
V
o ponto de vista do aluno, o significa- mesmas estratégias/instrumentos de
A
do de suas respostas, as possibilidades recolhimento de informação da avali-
de estabelecimentos de relações, os ní- ação diagnóstica inicial, combinados
A
veis de compreensão que possui dos ou não entre si.

57
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Por fim, a função acreditativa da local de trabalho. Os avaliadores, nes-


avaliação tem como objetivo reconhe- te caso, podem ser pessoas externas à
cer se os estudantes alcançaram os re- produção ou os próprios supervisores.
sultados esperados. Quando realizada Para realizar esse tipo de avaliação, o
como ápice de um processo formativo, avaliador deve ser hábil no uso de di-
sua legitimidade em relação às normas ferentes métodos.
de competências depende de o progra- De um modo geral, são identifi-
ma de formação ter sido planejado se- cados três princípios básicos da ‘avali-
gundo essas mesmas normas, permi- ação por competências’ (Hager,
tindo-se que se conclua a partir do re- Gonczi & Athanasou, 1994): O primei-
sultado das avaliações processuais so- ro refere-se à necessidade de selecio-
bre as condições de desempenho do nar os métodos diretamente relaciona-
indivíduo segundo as nor mas dos e mais relevantes para o tipo de
especificadas. desempenho a avaliar, dentre os quais
Esta dimensão é a que se destaca sugerem-se os seguintes: a) técnicas de
quando o processo de avaliação ocor- perguntas; b) simulações; c) provas de
re independentemente do processo de habilidades; d) observação direta; e)
formação. Quando avaliado em pro- evidências de aprendizagem prévia. O
cesso de formação, essas três dimen- segundo princípio afirma que, quanto
sões da avaliação estarão relacionadas mais estreita a base de evidência, me-
intrinsecamente, e os percursos realiza- nos generalizáveis serão os resultados
dos posteriormente pelo indivíduo para o desempenho de outras tarefas.
serão, de certa forma, conseqüências das Recomenda-se, então, utilizar uma
próprias evidências obtidas pelas avali- mescla de métodos que permitam a
ações, segundo uma orientação minima- inferência da competência. Por fim,
mente sistematizada pelo professor. Por considera-se conveniente a utilização
outro lado, se avaliado de forma inde- de integrados, visando a um maior grau
pendente à formação, o aproveitamen- de validez da avaliação. A integração
to de qualquer evidência para a cons- significa a combinação de conhecimen-
trução de percursos posteriores, seja de to, compreensão, resolução de proble-
trabalho, seja de formação, ficará a car- mas, habilidades técnicas, atitudes e
go do próprio indivíduo. ética na avaliação.
A ‘avaliação por competências’ Em todos os casos, a ‘avaliação
pode, ainda, ser realizada no próprio por competências’ baseia-se no desem-

58
Avaliação por Competências A

penho. Esta é a dimensão visível e dade, em tarefas, recaindo sobre uma C


objetivável da competência, uma vez concepção condutivista de ensino-apren-
que, na verdade, é a dimensão com- dizagem, pela qual o desempenho se con- D
plexa, subjetiva e implícita que estru- funde com a própria competência.
tura a ação. A competência, portanto,
E
ainda que estruture o desempenho, não
F
se limita a ele. Por isto, a avaliação es- Para saber mais:
tará sempre circunscrita aos elemen-
G
tos objetivos que estruturam a com- HAGER, P.; GONCZI, A. &
petência: conhecimentos e habilidades, ATHANASOU, J. General issues about
assessment of competence. Asses. Eval. H
posto que os elementos subjetivos são
High. Educ., 19(1): 3-15, 1994.
intrinsecamente relacionados às estru-
HERNÁNDEZ, F. Transgressão e
I
turas mentais e às capacidades de
Mudança na Educação: os projetos de trabalho.
enfrentamento de desafios, fortemen-
Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. N
te condicionados pela mobilização de
LLUCH, E. Metodología de
conhecimentos por essas estruturas e
investig ación y nor malización de
O
pelos contextos em que se realizam. competencias. In: Seminario
Assim, concluir acerca da competên- Subregional Formación Basada en P
cia dos trabalhadores com base exclu- Competencias: situación actual y
sivamente nos desempenhos obser- perspectivas para los paises del Q
váveis implica abstrair o conjunto de Mercosur, 1996, Buenos Aires. Anais…
Buenos Aires, 1996.
mediações que instauram, de fato, a R
competência, as quais os instrumen- VARGAS, F. Conceptos basicos de
tos de avaliação normalmente utiliza-
competencias laborales. Montevideo. S
CINTERFOR/OIT, 1999. Disponível
dos não conseguem captar. Em razão em: <http//www.ilo.org/public/index/
desta contradição, a ‘avaliação por com- spanish/region/ampro/cinterfor/
T
petências’, muitas vezes baseia-se, na ver- temas/complab/xxxx/esp/indez/ht>.
U

59
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

60
A

C
C D
CAPITAL CULTURAL E

F
Lúcia Maria Wanderley Neves
Marcela Alejandra Pronko
Sônia Regina de Mendonça
G

H
S egundo o sociólogo francês são dele desprovidos. Ademais, ao ins-
Pierre Bourdieu, pioneiro na sistemati- taurar uma cesura entre alunos de gran- I
zação do conceito, a segunda mais im- des escolas e alunos das faculdades, a
portante expressão do capital, à qual instituição escolar, geradora do ‘capi- N
precede apenas o capital econômico tal cultural’, institui fronteiras sociais
portado pelos agentes sociais. Engloba análogas às que separam o que O
prioritariamente, a variável educacional, Bourdieu denomina “nobreza” e “sim-
embora não se limite apenas a ela. ples plebeus”. Essas separações mate- P
Para o autor, a educação/’capital rializam-se, dentre outras, em
cultural’ consiste num princípio de di- diferenças de natureza marcada pelo di- Q
ferenciação quase tão poderoso como reito de os alunos portarem um nome,
o do capital econômico, uma vez que um título, numa espécie de operação R
toda uma nova lógica da luta política mágica, gerada pelo sentido simbólico
só pode ser compreendida tendo-se em inerente a semelhantes atos de classi- S
mente suas formas de distribuição e ficação. Logo, o ‘capital cultural’/sis-
evolução. Isto porque, o sistema esco- tema escolar resulta de atos de T
lar realiza a operação de seleção man- ordenação que, por um lado, institu-
tendo a ordem social preexistente, isto em uma relação de ordem – onde os U
é, separando alunos dotados de quan- ‘eleitos’ são marcados por sua traje-
tidades desiguais – ou tipos distintos – tória de vida e sua pertinência escolar
V
de ‘capital cultural’. Mediante tais ope- – e uma relação de hierarquia – onde
A
rações de seleção, o sistema escolar se- esses mesmos ‘eleitos’ transmutam-se
para, por exemplo, os detentores de em ‘nobreza de escola’ ou ‘nobreza de
A
‘capital cultural’ herdado daqueles que Estado’.

61
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

A entrega de diplomas que, medi- Entretanto, a ordem social que as-


ante cerimônias solenes comparáveis segura o modo de reprodução da com-
ao ato de sagrar ‘cavaleiros’, possui uma ponente escolar tem sofrido graus de
função técnica evidente – a de formar/ tensão consideráveis nas últimas déca-
transmitir uma competência e selecio- das do século XX com a superprodu-
nar os mais competentes tecnicamen- ção de diplomados e a conseqüente des-
te –, mascara uma função social clara: valorização dos diplomas e das própri-
a consagração dos detentores as posições universitárias, que se multi-
estatutários do direito (competência) plicaram sem a abertura de novas car-
de dirigir. Essa ‘nobreza de escola’ reiras em proporção equivalente.
comporta parte significativa dos her- O ‘capital cultural’ pode existir sob
deiros da antiga ‘nobreza de sangue’, três formas: incorporado, objetivado e
que reconverteram seus títulos institucionalizado. Na primeira moda-
nobiliários em títulos escolares, justi- lidade, o ‘capital cultural’ supõe um
ficados pela meritocracia. processo de interiorização nos marcos
A instituição escolar, assim, con- do processo de ensino e aprendizagem,
tribui para reproduzir tanto a distribui- que implica, pois, um investimento de
ção do ‘capital cultural’ quanto a do tempo. Desse modo, o ‘capital cultural
próprio espaço social. A reprodução incorporado’ constitui-se parte inte-
da estrutura da distribuição do ‘capital grante da pessoa, não podendo, justa-
cultural’ se opera na relação entre as mente por isso, ser trocado instanta-
estratégias das famílias e a lógica es- neamente, tendo em vista que está
pecífica da instituição escolar que vinculado à singularidade até mesmo
outorga, sob a forma de ‘credenciais’, biológica do indivíduo. Nesse sentido,
ao capital cultural detido pela família, está sujeito a uma transmissão heredi-
suas propriedades de posição. Do tária que se produz sempre de forma
mesmo modo, milhares de professo- quase imperceptível. Segundo Bourdieu
res aplicam a seus alunos categorias (1997, p. 86),
de percepção e de análise que serão
por eles introjetados e interferirão, fu- acumulação de capital cultural des-
turamente, em suas próprias ações de a mais tenra infância – pressu-
posto de uma apropriação rápida e
sociais. Dentre essas categorias, te- sem esforço de todo tipo de capa-
mos, por exemplo, o binômio ‘aluno cidades úteis – só ocorre sem de-
brilhante/aluno apagado’. mora ou perda de tempo, naquelas

62
Capital Cultural A

famílias possuidoras de um capital bitrárias sobre as quais se assenta se- C


cultural tão sólido que fazem com jam irreconhecíveis enquanto tais, é
que todo o período de socialização
possível afirmar que o autor fornece D
seja, ao mesmo tempo, acumulação.
Por conseqüência, a transmissão do instrumentos – articulando conceitos
capital cultural é, sem dúvida, a mais como o de ‘capital cultural’, dentre
E
dissimulada forma de transmissão outros – fundamentais para explicar a
hereditária de capital. F
especificidade e a força do poder sim-
Já o ‘capital cultural objetivado’, bólico, isto é, a capacidade que têm os
G
diversamente do anterior, é material- sistemas de sentido e significação
mente transferível a partir de um su- de proteger e reforçar as relações de H
porte físico, ficando claro tratar-se da opressão e de exploração, ocultando-
transferência de uma propriedade le- as sob o manto ora da natureza, ora da I
gal, posto estar diretamente relaciona- benevolência, ora da meritocracia. Se-
da com o capital cultural incorporado, gundo alguns autores, a sociologia de N
ou melhor, com as capacidades cultu- Bourdieu é uma “economia política da
rais que permitem o desfrute de bens violência simbólica”, desvendando os O
culturais. Logo, o ‘capital cultural’ mecanismos de imposição e inculcação
objetivado pode ser apropriado tanto dos instrumentos de conhecimento e P
materialmente (capital econômico) de construção da realidade que estão a
quanto simbolicamente (obra de arte, ela submetidos, sem assim serem per- Q
capital cultural). Por último, tem-se o cebidos.
‘capital cultural institucionalizado’ que Semelhantes categorias explica- R
alude à objetivação do ‘capital cultural tivas da vida social não possuem uma
incorporado’ sob a forma de títulos validade circunscrita apenas ao âmbi- S
que estão, simultaneamente, garantidos to dos espaços nacionais. Hoje, mais
e sancionados legalmente. Por meio do do que nunca, o imperialismo cultural T
título escolar ou acadêmico, outorga- se apóia no poder de universalizar
se reconhecimento institucio-nal ao particularismos ligados a uma tradição U
‘capital cultural’ possuído por uma de- histórica singular – estadunidense -,
terminada pessoa. sem serem assim reconhecidos. Ope-
V
Uma vez admitido, a partir de ra-se uma espécie de ‘neutralização’ da
A
Bourdieu, que nenhum tipo de domi- história, decorrente da própria circu-
nação se sustenta sem fazer-se reco- lação internacional de textos, bem
A
nhecer, conseguindo que as bases ar- como do esquecimento relativo das

63
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

conjunturas históricas nas quais eles Trata-se de importadores que produ-


mesmos foram produzidos. Essa zem, reproduzem e fazem circular uma
universalização aparente é ratificada série de falsos problemas, disso extra-
pelo trabalho de ‘teorização’, espécie indo benefícios simbólicos e mesmo
de axiomatização fictícia, destinada a materiais. Se é fato que essa tendência
criar a ilusão de uma ‘gênese pura’ e à des-historicização é um dos fatores
‘única’ mediante um receituário de de- que contribui para a desrea-lização e a
finições prévias. Assim, planetarizados falsa universalização, é também claro
no sentido estritamente geográfico e que somente uma efetiva história da
desparticularizados pelo efeito da fal- gênese das idéias sobre o mundo soci-
sa ruptura derivada da conceitua- al juntamente a uma análise dos meca-
lização, os lugares-comuns da atual nismos sociais da circulação interna-
vulgata globalitária – reforçados pela cional dessas mesmas idéias podem
mídia – chegam a fazer esquecer que equipar os cientistas sociais para
eles próprios se originaram em reali- combatê-las.
dades sociais complexas e controver- Do mesmo modo como ocorreu
sas, historicamente determinadas. com o conceito de capital social, no iní-
Por certo se está falando da cio dos anos 2000, os organismos in-
hegemonia que a produção norte-ame- ternacionais, notadamente a Organiza-
ricana exerce sobre o mercado intelec- ção das Nações Unidas para a Educa-
tual mundial e, quanto a isto, deve-se ção, a Ciência e a Cultura (Unesco),
considerar o papel daqueles que se co- ressignificaram o conceito de ‘capital
locam como ‘pontas de lança’ das es- cultural’, para incorporá-lo à sua estra-
tratégias de importação-exportação tégia de desenvolvimento social para o
conceitual, mistificações que transpor- século que se inicia. Como parte rele-
tam a parte oculta dos próprios bens vante do capital social (ver verbete Ca-
culturais que colocam em circulação. pital Social), o ‘capital cultural’ adquire
No pensamento de Bourdieu, são es- importância fundamental na redefinição
ses ‘transportadores’ que, no seio de do papel econômico e de legitimação
cada campo intelectual nacional, arvo- social do Estado contemporâneo. Na
ram-se em ‘especialistas’ supostamen- América Latina, perante a constatação
te capazes de reformular – em termos do aumento da miséria e dos conse-
alienados – questões as mais diversas, qüentes riscos à paz social na região, o
dentre elas, a dos sistemas de ensino. conceito foi introduzido pelos organis-

64
Capital Cultural A

mos internacionais e pelos governos tural’, segundo esta formulação, pode de- C
nacionais como elemento definidor das sempenhar uma função integradora, atra-
políticas sociais, com vistas a aliviar a ente e concreta para os jovens que se D
pobreza e fortalecer a coesão social. O encontram fora do mercado de trabalho
conceito de ‘capital cultural’, nessa nova e do sistema educacional.
E
versão, vem sendo difundido na região A noção de ‘capital cultural’ visa,
F
pelos trabalhos de Bernardo Kliksberg, portanto, conservar as relações sociais
assessor de diversos organismos inter- capitalistas, construindo uma nova so-
G
nacionais (ONU, OEA, BID, Unesco) ciabilidade a partir da redefinição da
e diretor do Projeto da Organização das relação entre Estado e sociedade civil, H
Nações Unidas para a América Latina apontando para uma ‘ação integrada’
de Modernização do Estado e Gerên- entre essas duas esferas. I
cia Social. Segundo seus formuladores, o ‘ca-
O ‘capital cultural’, conceito em pital cultural’ contribui, assim, para a N
construção, é o conjunto de elemen- formação da ética da responsabilidade
tos da cultura popular utilizados como coletiva, para o fortalecimento da sub- O
ingredientes da política social para for- jetividade, e consubstancia-se em uma
talecer a autoconfiança dos despos- estratégia de recomposição da cidada- P
suídos, desenvolver valores de uma nia perdida pelo aumento da desigual-
nova cultura cívica baseada na colabo- dade, a partir de práticas democráticas Q
ração de classes e na ética da respon- baseadas no voluntariado, na ajuda
sabilidade coletiva, contribuir para o mútua e na concertação social. R
desenvolvimento econômico e a coe- O desenvolvimento de políticas
são social. Desta perspectiva, a sociais na América Latina e no Brasil S
revalorização da cultura dos pobres nos anos 2000, inspiradas na utiliza-
passa a se constituir em importante ção combinada dos conceitos de capi- T
instrumento de construção de práticas tal social e de ‘capital cultural’ nessa
democráticas baseadas no associa- nova versão, vem-se configurando U
tivismo comunitário, potencializando como instrumento de apassivamento
energia social criativa. Assim, a despeito dos movimentos sociais, pela conver-
V
da pobreza material, os pobres latino- são da sociedade civil de espaço de con-
A
americanos se transmutariam em ricos fronto a espaço de colaboração. As po-
de espírito, constituindo-se em reserva- líticas sociais que têm nesses concei-
A
tório da cultura nacional. O ‘capital cul- tos sua diretriz teórica são executadas

65
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

pelos órgãos governamentais e tam- ENCREVÉ, P. & LAGRAVE, R.-M.


bém pelos variados aparelhos privados (Coords.) Trabalhar com Bourdieu. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
de hegemonia na sociedade civil,
notadamente, os empresários nacionais FONTES, V. A sociedade civil no Brasil
contemporâneo: lutas sociais e luta
e transnacionais, as igrejas e, até mes- teórica na década de 1980. In: LIMA, J.
mo, parcelas da classe trabalhadora. C. & NEVES, L. (Orgs.) Fundamentos da
Educação Escolar do Brasil Contemporâneo.
Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.
Para saber mais: GARRISON, J. W. Do Confronto à
Colaboração: relações entre a sociedade civil, o
BANCO MUNDIAL. Relatório sobre o governo e o Banco Mundial no Brasil. Brasília:
Desenvolvimento Mundial, 1997: o Estado Banco Mundial, 2000.
num mundo em transformação. Washington, KLIKSBERG, B. Falácias e Mitos do
1997. Desenvolvimento Social. São Paulo/Brasília:
BOURDIEU, P. Questões de Sociologia. Rio Cortez/Unesco, 2001.
de Janeiro: Marco Zero, 1983. WACQUANT, L. (Coord.) El Mistério del
BOURDIEU, P. Capital Cultural, Escuela Ministerio: Pierre Bourdieu y la política
y Espacio Social. México: Siglo Veinteuno, democrática. Barcelona: Gedisa, 2005.


1997.

CAPITAL HUMANO

Gaudêncio Frigotto

A forma mediante a qual o ser apreendê-la e explicitá-la (Marx, 1983,


humano busca significar ou represen- p. 218-229; Kosik, 1986, p. 9-32).
tar a realidade da qual faz parte traduz- O grau de implicação do ser hu-
se pela mediação de conceitos, catego- mano é diverso quando busca explicar
rias, noções ou simplesmente vocábu- os fenômenos da natureza ou os fenô-
los. O pensamento não cria a realida- menos sociais ou humanos – respecti-
de como entendia Hegel, mas, pelo vamente, ‘sociedade das coisas’ e ‘so-
contrário, este é o modo mediante o ciedade dos homens’, como as deno-
qual os seres humanos buscam minou Gramsci (1978). Em ambos os

66
Capital Humano A

casos, trata-se de um conhecimento da desigualdade entre as nações e en- C


histórico e, portanto, sempre relativo. tre indivíduos ou grupos sociais, sem
Todavia, a implicação dos seres huma- desvendar os fundamentos reais que D
nos no segundo caso é de natureza di- produzem esta desigualdade: a propri-
ferente por duas razões fundamentais: edade privada dos meios e instrumen-
E
em primeiro lugar porque tratam da tos de produção pela burguesia ou clas-
F
realidade por eles produzida e apare- se capitalista e a compra, numa rela-
cem, portanto, ao mesmo tempo como ção desigual, da única mercadoria que
G
sujeito e objeto e, em segundo lugar, os trabalhadores possuem para prove-
porque até o presente as sociedades rem os meios de vida seus e de seus H
humanas vêm cindidas em classes so- filhos – a venda de sua força de traba-
ciais – vale dizer, portadoras de inte- lho (Frigotto, 2006). I
resses antagônicos. Por isso, como evi- A não explicitação dos fundamen-
dencia Marx (1977), os pensamentos tos reais da desigualdade social não de- N
dominantes historicamente foram os corre de uma atitude premeditada ou
das classes dominantes. Por esta con- maquiavélica dos intelectuais da bur- O
dição histórica, os processos de conhe- guesia, mas do caráter de classe, de sua
cimento, consciente ou inconsciente- forma de analisar a realidade social. Ou P
mente, carregam a origem de classe e, seja, presos às representações capita-
enquanto tais, não são neutros (Lowy, listas, como nos assinala Marx em di- Q
1978, p. 9-34). ferentes passagens de sua obra, os eco-
A noção de ‘capital humano’, que nomistas e intelectuais burgueses per- R
se afirma na literatura econômica na cebem como se produz dentro da re-
década de 1950, e, mais tarde, nas dé- lação capitalista, mas não como se pro- S
cadas de 1960 e 1970, no campo edu- duz esta própria relação. Por isso, as
cacional, a tal ponto de se criar um abordagens, como veremos a seguir, T
campo disciplinar – economia (políti- são de caráter funcionalista, fragmen-
ca) da educação –, explicita de forma tário, pragmático e circular. U
exemplar as duas razões anteriormen- Com efeito, como explica o eco-
te expostas sobre a especificidade do nomista Theodoro Schultz (1962), a
V
conhecimento nas ciências sociais e noção ou conceito de ‘capital huma-
A
humanas. Trata-se de uma noção que no’ por ele elaborado surgiu nos anos
os intelectuais da burguesia mundial de 1956-57 no Centro de Estudos
A
produziram para explicar o fenômeno Avançados das Ciências do Compor-

67
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tamento face à sua perplexidade ante Por essa via, Schultz pretendeu ti-
os fatos de que os conceitos por ele rar da economia neoclássica o enigma
utilizados para avaliar capital e traba- que não conseguia explicar o agrava-
lho estavam se revelando inadequados mento da desigualdade entre nações e
para explicar os acréscimos que vi- entre indivíduos e grupos sociais. Es-
nham ocorrendo na produção. Em tava oferecendo, pois, aos intelectuais
contrapartida, sinaliza Schultz, perce- pesquisadores e à classe burguesa no
bia que muitas pessoas nos Estados seu conjunto, um novo ‘fator’, que,
Unidos estavam investindo fortemen- somado aos demais representaria a
te em si mesmas, que estes investimen- solução do enigma do maior ou me-
tos tinham significativa influência so- nor desenvolvimento entre nações e
bre o crescimento econômico, que o maior ou menor mobilidade social en-
investimento básico em si mesmas era tre indivíduos. A concessão do prêmio
um ‘capital humano’ e que aquilo que Nobel de Economia em 1979 pela ela-
constituía basicamente este capital era boração deste conceito, a despeito das
o investimento na educação. O outro polêmicas internas dos economistas
elemento constitutivo do ‘capital hu- burgueses, é um claro reconhecimen-
mano’ é o investimento em saúde. to de que o mesmo expressa a visão
Foi a partir dessas observações legítima de classe para explicar a desi-
que Schultz se dedicou à elaboração gualdade econômica e social entre pa-
mais sistemática deste conceito ex- íses e entre indivíduos.
pondo-a na obra cujo título é Capital O fator H (capital humano) pas-
Humano (Schultz, 1973). Partindo do sou a compor a função de produção
pressuposto de que o componente da da teoria econômica marginalista para
produção que decorre da instrução explicar os diferenciais de desenvolvi-
é um investimento em habilidades e mento entre países e entre indivíduos.
conhecimentos que aumenta as ren- Assim, a variação de desenvolvimento
das futuras semelhante a qualquer maior ou menor entre países ou a mo-
outro investimento em bens de pro- bilidade social dos indivíduos que dan-
dução, Schultz define o ‘capital hu- tes eram explicados por A (nível de
mano’ como o montante de investi- tecnologia), K (insumos de capital) e
mento que uma nação ou indivíduos L (insumos de mão-de-obra) agora re-
fazem na expectativa de retornos cebia um novo fator H como
adicionais futuros. potenciador do fator L. Países que in-

68
Capital Humano A

vestissem mais no fator H teriam a mobilidade individual ou de grupos C


chave para sair de sua condição de sub- específicos são mensurados pelas ta-
desenvolvidos para desenvolvidos, e os xas de retorno das escolhas nos tipos D
indivíduos teriam maiores rendimen- e níveis de escolaridade (Becker, 1964;
tos futuros e ascensão social. Blaug, 1972).
E
A fórmula permitia, por outro lado, tra- Quais são os elementos que nos
F
balhar dentro de técnicas quantitativas, permitem sustentar que a noção ou
elemento cr ucial, na concepção conceito de ‘capital humano’ resulta de
G
positivista e funcionalista, para que o uma representação ou limite de classe
conhecimento possa ser considerado dos economistas e intelectuais burgue- H
neutro e científico. ses que os conduzem a perceber como
A teoria marginalista é assim de- se produzem, dentro da relação capi- I
nominada porque supõe que havendo talista, as disfunções, disparidades e, até
um incremento adicional (marginal) de mesmo as desigualdades, mas não N
um dos insumos haverá um rendimen- como se produz esta própria relação, e
to e um retorno adicional futuro. O que, como conseqüência, tornam sua O
fator H - composto por habilidades, análise circular e reducionista?
conhecimentos, atitudes, valores - O primeiro e principal elemento P
constitui, para Shultz, o insumo adi- que orienta e falseia os demais é o pres-
cional gerador de um diferencial no de- suposto da concepção liberal de natu- Q
senvolvimento entre os países. Como reza e comportamento humano que
método de análise comparativa entre fundamenta a ciência econômica, soci- R
países, Schultz tomou o PIB (Produto al e política burguesa. Para o pensamen-
Interno Bruto) como medida de de- to liberal, todos os indivíduos nascem S
senvolvimento econômico e a escola- com as mesmas predisposições naturais
ridade básica como medida do capital demarcadas pela busca racional do que T
humano. As críticas internas das análi- é agradável e útil. Todos, portanto, apa-
ses macroeconômicas devido não à recem no mercado em iguais condições U
discordância de concepção, mas às di- de escolha individual. Trata-se de um
ficuldades de dados e sua consistência homem econômico racional, “filho[s]
V
conduziram muitos economistas a pre- do iluminismo e, portanto um indivi-
A
ferirem as abordagens microeco- dualista em busca do proveito próprio”
nômicas. Nestas abordagens os retor- (Hollis & Nell, 1969, p. 39). Todavia,
A
nos do investimento que permitem como todos por natureza tendem ao

69
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

mesmo, “o ótimo de cada um, racional- cultura, ou a concepção do fator eco-


mente calculado a longo prazo, consti- nômico. Trata-se da concepção de que
tui para o ótimo de longo prazo para a sociedade se constitui por um con-
todos. O cálculo é a maximização da junto de fatores cuja soma nos dá a com-
utilidade” (Hollis & Nell, 1969, p. 8). preensão da totalidade. Ora um, ora
O que esta concepção de nature- outro fator (o econômico, o político, o
za humana com igualdade e liberdade cultural, o educacional etc) é utilizado,
individual de escolha não revela, ao ad hoc, para explicar o comportamento
contrário, mascara, é o processo his- social. Daí resulta que as explicações
tórico assimétrico que produziu pro- acabam sendo circulares. Com efeito, as
prietários privados de meios e instru- análises de correlação e de taxa de re-
mentos de produção – detentores de torno permitem concluir que existe re-
capital, classe capitalista – e trabalha- lação, mas não o que determina a rela-
dores cuja mercadoria que dispõem ção. Por isso que a teoria do ‘capital
para vender ou trocar no mercado é humano’ não consegue responder à
sua força de trabalho. Da mesma for- questão: os países subdesenvolvidos e
ma, esta concepção ignora o processo os indivíduos pobres e de baixa renda
histórico desigual na constituição das assim o são porque têm pouca escolari-
diferentes nações. Uma análise, portan- dade ou têm pouca escolaridade por-
to, que não reconhece as relações de que são subdesenvolvidos e pobres? So-
poder e de dominação e violência ao mente uma análise histórica da escravi-
longo da história e se afirma no pres- dão, do colonialismo e do imperialismo,
suposto falso de uma natureza huma- por um lado, nos evidenciaria que os
na abstrata na qual cada indivíduo, in- países que têm menos escolaridade são
dependentemente de origem e classe aqueles que foram submetidos a um ou
social, faz suas escolhas em ‘iguais con- a todos estes processos. Por outro lado,
dições’. Por essa via efetiva-se, ao mes- quando examinamos quem, no Brasil,
mo tempo, um reducionismo da con- por exemplo, é analfabeto ou não atin-
cepção de ser humano, trabalho, socie- giu mais que quatro anos de escolarida-
dade, educação e história, de sínteses de, vemos que é a grande massa de tra-
complexas de relações sociais a fatores. balhadores de baixa renda.
O pressuposto epistemológico que Daí que uma análise histórica nos
sustenta esta forma de análise é o que permite afirmar exatamente ao contrá-
Kosik (1986) denominou metafísica da rio da ‘teoria do capital humano’: a

70
Capital Humano A

baixa escolaridade nos países pobres víduos, no bom credo da liberdade C


deve-se a um reiterado processo his- de escolha individual, a responsabi-
tórico de colonização, relações impe- lidade por seu desempreg o ou D
rialistas e de dependência mantidas por subemprego: “Não sou empregável
uma aliança de classe entre os países porque não escolhi um curso que de-
E
centro-hegemônicos do capital e da senvolveu as competências reconhe-
F
periferia. E o acesso desigual e a um cidas e de ‘qualidade total’’!
conhecimento desigual para os filhos A conclusão a que podemos che-
G
da classe trabalhadora, igualmente, gar, como analisa Finkel (1977) é a de
deve-se a uma desigualdade estrutural que ‘capital humano’ é um conceito ou H
de renda e de condição de classe. noção ideológica construída para man-
Por fim, fica evidenciado o ca- ter intactos os interesses da classe de- I
ráter limitado da noção ou conceito tentora do capital e esconder a explo-
de ‘capital humano’ pela necessida- ração do trabalhador. Uma noção que N
de de redefini-lo em face do fato de não só não explica, mas sobretudo
que, paradoxalmente, inversamente à mascara as determinações da desigual- O
tendência universal do aumento da dade entre nações e entre indivíduos e
escolaridade, há um recrudescimen- grupos e classes sociais. Sua crítica, P
to no desempreg o estr utural, como o das noções de qualidade total,
precarização do trabalho com perda sociedade do conhecimento, pedago- Q
de direitos e, especialmente, em paí- gia das competências e emprega-
ses dependentes como o Brasil, ofer- bilidade, se coloca como tarefa teórica R
ta de empregos que exige trabalho e ético-política imprescindível para
simples e oferece uma baixíssima re- aqueles que estão empenhados na su- S
muneração. Com o agravamento da peração das relações sociais capitalistas.
desigualdade no capitalismo contem- T
porâneo, a noção de ‘capital huma-
no’ vem sendo redefinida e
Para saber mais: U
ressignificada pelas noções de socie- BECKER, G. S. Human Capital: a
dade do conhecimento, qualidade to- theoretical and empirical analysis, with special
V
tal, pedagogia das competências e reference to education. New York: Columbia
University Press, 1964. A
empregabilidade (Frig otto &
BLAUG, M. An Introduction to the
Frigotto, 2005; Ramos, 2006). Essas
Economics of Education. New York, s.n., A
noções acabam por atribuir aos indi- 1972.

71
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

BOWLES, S. & GINTIS, H. The HOLLIS, M. & NELL, R. J. O Homem


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a marxisme critique. American Economic Editores, 1969.
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Brasileira, 1978.


CAPITAL INTELECTUAL

Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos

S urgida no contexto da o conhecimento é o principal fator de


reestruturação produtiva e do produção da era contemporânea.
neoliberalismo, a Teoria do Capital Inte- “A informação e o conhecimento
lectual caracteriza-se pela afirmação de que são as armas nucleares da nossa era”

72
Capital Intelectual A

(Stewart, 1998, p. 13). A partir desse compartilhá-lo – tornou-se a tarefa C


argumento, considera-se que o esfor- econômica mais importante dos
ço das organizações deve voltar-se para
indivíduos, das empresas e dos paí- D
ses. (...) O capital intelectual consti-
a produção e gestão desse componen- tui a matéria intelectual – conheci-
te da cadeia de valor. Uma das conse- mento, informação, propriedade E
qüências seria a legitimação da intensi- intelectual, experiência – que pode
ser utilizada para gerar riqueza (...) F
ficação do controle do capital sobre a
formação dos trabalhadores. Uma vez que o descobrimos e ex- G
Com as atuais modalidades de ploramos, somos vitoriosos. (...) A
gestão do trabalho, nomeadas de modo gerência dos ativos intelectuais se
tornou a tarefa mais importante dos H
genérico como modelo japonês,
negócios porque o conhecimento
toyotismo ou modelo de acumulação tornou-se o fator mais importante I
flexível, habilidades como facilidade da produção. (...) O capital Intelec-
tual é a soma do conhecimento de
para o trabalho em equipe e
todos em uma empresa, o que lhe
N
polivalência seriam fundamentais para
proporciona vantagem competitiva.
que o conhecimento se constituísse (Stewart, p. 11-23). O
como parte da estrutura da organiza-
Segundo esse mesmo autor, o ca-
ção. Daí representarem requisito exi- P
gido da força de trabalho no discurso pital intelectual compõe-se de: Capi-
hegemônico. tal Humano; Capital Estrutural; e Ca- Q
Autores como Nonaka e pital de Marca (também chamado ca-
Takeuchi (1997), Sveiby (2001) e pital-cliente). R
Stewart (1998), destacam a importân- Capital humano diz respeito à di-
cia do conhecimento tácito como ele- mensão individual da parcela de conhe- S
mento estratégico na composição do cimento pertencente ao trabalhador;
capital intelectual, considerado em esta dimensão não mais é considerada T
seus trabalhos como o principal ativo suficiente para assegurar a reprodução
das organizações. do capital, além de representar risco U
de depreciação, visto que permanece
O conhecimento tornou-se o prin- sob a posse do trabalhador. Ainda na
V
cipal ingrediente do que produzi- Teoria do Capital Humano, seus auto-
mos, fazemos, compramos e ven- A
demos. Resultado: administrá-lo – res manifestavam preocupação quan-
encontrar e estimular o capital in- to ao risco de se manter, sob a proprie-
telectual, armazená-lo, vendê-lo e
A
dade individual do trabalhador, um fa-

73
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tor de produção estratégico como o lização no domínio do capital estrutu-


conhecimento. Alertavam, por isso, ral, em que o conhecimento portado
para a necessidade de se cuidar para pelo indivíduo, objeto da Teoria do
que se preservasse ao máximo a vida Capital Humano, passa a pertencer à
útil do trabalhador, diminuindo sua organização, sob a forma de conheci-
taxa de depreciação. mento da equipe. Técnicas como o
Já o capital estrutural designa a kaisen (soluções de melhorias contínu-
mudança de posse do conhecimento as oferecidas pelos próprios trabalha-
da esfera individual para a esfera dores por meio de métodos de gestão
organizacional. Quando o conheci- participativos oriundos do modelo ja-
mento deixa de pertencer à esfera in- ponês) favorecem a expropriação,
dividual (propriedade, portanto, do tra- objetivação, padronização e
balhador) e passa a pertencer à esfera reapropriação, pelo capital, do conhe-
organizacional, sob a forma de conhe- cimento tácito. É o momento da pas-
cimento coletivo, da equipe ou do sagem do conhecimento como atribu-
‘time’, passa a ser designado capital to individual do trabalhador a conhe-
estrutural. Esse salto é decisivo para cimento como atributo da equipe.
facilitar, ao capital, ofensivas em dire- Como a equipe se constitui como uma
ção à precarização do trabalho e de eli- instância da organização, compondo a
minação de medidas de proteção à dimensão do capital intelectual conhe-
durabilidade da vida útil individual do cida como capital estr utural,
trabalhador. Não mais portando indi- aprofunda-se o fenômeno da
vidualmente um ‘fator produtivo’ con- subsunção do trabalho ao capital.
siderado fundamental, o conhecimen- Quanto ao terceiro elemento, o
to, não há mais necessidade de preser- capital de marca ou capital-cliente, tra-
vação de sua vida e saúde. O controle ta-se da imagem da organização na
do capital sobre a formação dos traba- sociedade, no mercado. A rede de as-
lhadores encontra na Teoria do Capi- sociações positivas entre a marca e seus
tal Intelectual mais um argumento. significados ultrapassa os atributos da
Além do conhecimento explícito, mercadoria-produto e alcança a dimen-
faz parte da composição do capital in- são da mercadoria como valor social.
telectual o conhecimento tácito. A ex- Ações de ‘responsabilidade so-
propriação do conhecimento tácito do cial’, como parte das estratégias de
trabalhador encontra sua materia- marketing, constituem o terreno para

74
Capital Intelectual A

a acumulação do chamado ‘capital de suas múltiplas faces, como a econômi- C


marca’, representando elemento ca, a política e a técnica. A partir da
contábil não somente no que diz res- segunda metade da década de 1980, D
peito a possíveis isenções fiscais, como, ainda timidamente, sob o pretexto da
sobretudo, nos ganhos de imagem. crise do fordismo e da implantação de
E
Na Teoria do Capital Intelectual, novas bases técnicas do sistema pro-
F
difundida no contexto do chamado dutivo, o ‘capital intelectual’ (ou sua
Estado mínimo neoliberal, o capital insuficiência) passa a ser nomeado res-
G
assume para si a função de dirigente ponsável pelo sucesso ou fracasso no
de projetos educacionais formais e desenvolvimento das forças produti- H
não-formais, de modo diverso do con- vas. O apelo freqüente à relação
texto gerador da Teoria do Capital determinista entre empregabilidade, I
Humano, no qual o capital ainda se eficiência e competitividade denota,
propunha a utilizar-se do Estado para nessa formação discursiva, o esforço N
a execução de seu projeto de forma- pela ocultação das outras dimensões do
ção dos trabalhadores (Schultz, 1973). processo produtivo, como a lógica de O
O deslocamento do papel do Estado acumulação e produção de excedente.
para o empresariado na direção e exe- No novo modelo, divulgado como P
cução, e não apenas na formulação i- símbolo de ruptura com o fordismo e
deológica de projetos educacionais, se toda a sua carga de ‘desumanidade’, Q
apresenta com a justificativa da mudan- faz-se necessário um ‘novo trabalha-
ça de base técnica do trabalho – subs- dor’, mais comprometido afetivamente R
tituição do modelo fordista pelo mo- com a organização e com a produtivi-
delo de acumulação flexível –, geran- dade, segundo tal formulação, mais S
do, segundo o discurso hegemônico, humanizada no neofordismo. Não se
a necessidade de um ‘novo trabalha- indaga como será distribuído social- T
dor’, formado de acordo com o ethos mente o produto de toda a produtivi-
da empresa. dade almejada, entretanto, a campanha U
A compreensão da centralidade da pelo engajamento e pela adesão ética
questão educacional no discurso do do trabalhador aos interesses da em-
V
capital nas duas últimas décadas so- presa é justificada pelo determinismo
A
mente se torna possível quando situa- tecnológico: novas bases técnicas de
da no movimento de restauração produção exigem novo perfil profissio-
A
hegemônica do bloco dominante em nal e novo modelo de educação, prefe-

75
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

rencialmente protagonizado pelo agen- mulação marcada pelo Estado de Bem-


te mais qualificado para esta tarefa, por estar, a relação do capital com o Esta-
ser o principal beneficiário: a empresa. do permitia uma aliança com o apa-
Na década de 1960, na vigência do rente protagonismo do segundo na ela-
Estado de Bem-estar Social, desenvol- boração das políticas educacionais. Já
ve-se a Teoria do Capital Humano, for- a relação entre capital e Estado no
mulada por T. Schultz (1973) e poste- neoliberalismo ressalta a campanha de
riormente desenvolvida por Gary desmoralização e desmonte do Esta-
Becker, como tentativa de explicar o va- do, o que, em parte, justifica a extrema
lor econômico da educação e seus im- ênfase dada pelo capital e seus repre-
pactos sobre a produtividade. Essa teo- sentantes, os organismos internacio-
ria dizia respeito essencialmente aos cus- nais, ao papel de sua própria classe na
tos e às taxas de retorno dos investimen- formulação e implementação de polí-
tos na educação dos trabalhadores. ticas e práticas educacionais.
Na década de 1990, quando já en- Outro fator de distinção entre a
trava em vigor o modelo neoliberal, de- Teoria do Capital Humano e a Teoria
senvolve-se a Teoria do Capital Intelec- do Capital Intelectual diz respeito ao
tual. Alega que o conhecimento é fator antigo problema da inalienabilidade do
de produtividade decisivo e central nos Capital Humano que preocupava
novos modelos de produção e de gestão Schultz e seus contemporâneos,
do trabalho. Mais do que a simples reto- que é minimizada com as novas
mada de uma elaboração teórica gerada bases técnicas do sistema produti-
em uma fase da hegemonia do capital vo, como as novas tecnologias da
em que o Estado cumpria papel mais informação e da comunicação.
relevante na execução das políticas so- Note-se que a sutil mudança de
ciais (a Teoria do Capital Humano), os terminologia, de capital humano para
apelos educacionais da classe dominan- capital intelectual representa o avanço
te no modelo neoliberal dos últimos da classe hegemônica em seus propó-
anos, no espectro da Teoria do Capital sitos de objetivação, expropriação e
Intelectual, expressam as modificações controle do conhecimento. O huma-
do próprio papel do estado social no no pode ser inalienável, mas o intelec-
neoliberalismo. tual pertence à organização. “(...) o que
Na época do surgimento da Teo- há de novo? Simplesmente o fato da
ria do Capital Humano, na fase de acu- gerência de ativos intelectuais ter se

76
Capital Intelectual
A

tornado a tarefa mais importante dos Para saber mais: C


negócios, porque o conhecimento tor-
nou-se o fator mais importante da pro- NON AKA, I.; TAKEUCHI, H . D
dução” (Stewart,1998, p. 17). Criação de Conhecimento na Empresa:
De acordo com Nonaka e como as empr esas japonesas geram a E
dinâmica da inovação. Rio de Janeiro:
Takeuchi (1997), novas formas de Campus, 1997. F
gerenciamento, que eles associam ao
SANTOS, A. F. T. dos. Teoria do
modelo oriental, adotam a exploração
capital intelectual e teoria do capital G
do conhecimento tácito e não do ex- humano: Estado, capital e trabalho na
plícito, como no modelo ‘ocidental’. É política educacional em dois H
na apropriação do saber tácito que re- momentos do processo de
acumulação. In: Associação Nacional
side o ‘segredo’ da formação e preser-
de Pós-g raduação e Pesquisa em I
vação do capital intelectual. Na últi-
Educação. Anais eletrônicos da 27 a
ma década desenvolvem-se no cam- Reunião Anual . Caxambu: Minas N
po da Economia diversas linhas de Gerais, 2004. Disponível em: http://
pesquisa (como na FGV, por exem- www.anped.org.br/reunioes/27/ O
plo) voltadas para a mensuração das gt09/t095.pdf Acesso em: 12 de fev.
2007.
taxas de retorno e da quantificação P
do impacto do investimento em SCHULTZ, T. O Capital Humano. Rio
Capital Intelectual.
de Janeiro: Zahar Editores, 1973. Q
Considerar o conhecimento como STEWART, T. A. Capital Intelectual –
fator estratégico da produção e igno- A nova vantagem competiti va das R
empr esas. 10 a ed. Rio de Janeiro:
rar sua própria mercantilização e o con-
Campus, 1998.
trole de sua produção e distribuição de S
SVEIBY, C. É . A nova riqueza das
acordo com a divisão internacional do
organizações. Rio de Janeiro: Campus,
trabalho levaria a uma concepção T
2001.
acrítica da relação capital-trabalho-
conhecimento-poder. Além de obscu- U
recer o antagonismo de classes e o pro-
blema da propriedade privada dos mei-
V
os de produção.
A

77
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

CAPITAL SOCIAL

Lúcia Maria Wanderley Neves


Marcela Alejandra Pronko
Sônia Regina de Mendonça

O conceito de ‘capital social’ conta tis, por exemplo, sem que isso impli-
com diversas acepções, segundo que desconhecer as formas culturais
filiações teórico-metodológicas distin- (capital cultural) ou sociais (capital so-
tas. A difusão do termo no meio acadê- cial) de sua aplicação.
mico é algo recente, tendo adquirido Bourdieu (1998, p. 67 – grifos do
expressão a partir da década de 1980, autor) define o ‘capital social’ como
face à sua larga utilização por parte de
sociólogos, antropólogos, economistas, o conjunto dos recursos reais ou
cientistas políticos e planejadores. Seu potenciais que estão ligados à pos-
se de uma rede durável de relações mais
destaque provém tanto de sua ou menos institucionalizadas de in-
vinculação a conceitos derivados da te- terconhecimento e de inter-reco-
oria social quanto de sua associação a nhecimento mútuos, ou, em outros
disciplinas como a economia, que tem termos, à vinculação a um grupo, como
o conjunto de agentes que não so-
como cerne a idéia de capital. mente são dotados de propriedades
Tanto ‘capital social’ como capi- comuns (passíveis de serem perce-
tal cultural devem-se imbricar ao mar- bidas pelo observador, pelos outros
co geral proposto por Pierre Bourdieu, e por eles mesmos), mas também
que são unidos por ligações perma-
sociólogo francês pioneiro na sistema-
nentes e úteis.
tização do conceito. Dentro desse mar-
co, o conceito de capital, em todas a Como ele próprio assinala, essas li-
suas manifestações, constitui a chave gações não se reduzem às relações obje-
para dar conta da estrutura, funciona- tivas de proximidade no espaço geográ-
mento e classificação do mundo soci- fico ou mesmo no espaço econômico e
al. Assim, o capital pode ser conside- social, posto serem, inseparavelmente,
rado em sua forma econômica (‘capi- fundadas em trocas materiais e simbóli-
tal econômico’) – quando o campo de cas e cuja prática supõe o reconhecimen-
sua aplicação for o das trocas mercan- to dessa proximidade.

78
Capital Social A

Neste sentido, o quantum de ‘capi- genealogia –, mas sim produto de um C


tal social’ portado por um dado agen- trabalho permanente de instauração e
te depende da extensão da rede de re- manutenção, que produz e reproduz D
lações por ele mobilizada, assim como relações duráveis capazes de assegurar
do volume de capital – econômico, ganhos materiais ou simbólicos. O ‘ca-
E
cultural ou simbólico – que é exclusi- pital social’ está necessariamente asso-
F
vo de outro agente ou grupo de agen- ciado à noção de ‘estratégias’, já que
tes ao qual se encontra vinculado. são elas que constroem a rede de liga-
G
Logo, o ‘capital social’, apesar de ser ções como investimento – consciente
irredutível ao capital econômico e ao ou não – orientado para a reprodução H
capital cultural (ver verbete Capital de relações sociais imediatamente uti-
Cultural) portado por um dado agen- lizáveis. Ou seja, as estratégias destinam- I
te, não pode jamais ser visto como in- se a transformar relações contingentes –
dependente de ambos, já que as trocas como as de vizinhança, trabalho ou mes- N
geradoras do inter-reconhecimento mo parentesco – em relações necessári-
pressupõem o reconhecimento de um as e eletivas, incluindo-se desde sentimen- O
mínimo de realidade ‘objetiva’. Isto tos de reconhecimento ou respeito até a
quer dizer que o reconhecimento das noção de direitos. E na medida em que a P
diferentes manifestações do capital não troca torna os ‘objetos’ signos desse re-
deve deixar de lado nem a capacidade conhecimento mútuo e até mesmo da Q
de transformação de cada uma delas – inclusão no grupo, acaba produzindo o
‘a mútua conversibilidade’ entre os di- próprio grupo e seus limites. Para R
ferentes tipos de capital –, nem, sobre- Bourdieu, cada membro do grupo en-
tudo, a referência última de cada uma contra-se “instituído como guardião S
delas ao capital econômico. Afinal, são dos limites do grupo”, já que a defini-
essas propriedades que permitem expli- ção dos critérios de ingresso ao grupo T
car a reprodução do ‘capital social’ ao vê-se em jogo a cada nova inclusão de
longo do tempo e com ela dar conta, um novo membro. U
em termos globais, de uma economia Assim, a reprodução do ‘capital
geral das práticas sociais. social’ é tributária de dois fatores. Por
V
Por certo essa rede de relações não um lado, ela é tributária de todas as ‘ins-
A
é um dado natural ou “socialmente tituições’ que favorecem as trocas le-
constituído de uma vez por todas e para gítimas, gerando ocasiões (cruzeiros,
A
sempre” – como no caso da família/ caçadas, saraus etc.), lugares (bairros

79
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

chiques, escolas seletas etc.) ou práti- po. Os mecanismos de delegação/


cas (jogos de sociedade, esportes chi- representação impostos como
ques etc.) que reúnem os indivíduos precondição da concentração do ‘ca-
mais homogêneos do ponto de vista pital social’ contêm, assim, o que
da pertinência ao grupo. Por outro, ela Bourdieu chama de “princípio de des-
é tributária do trabalho de sociabilida- vio do capital que eles fazem existir”.
de, por meio do qual se reafirma, in- Por certo, este tipo de capital tan-
cessantemente, o reconhecimento, to pode ser utilizado com vistas à as-
pressupondo investimento de tempo, censão social quanto com vistas à ma-
esforços e mesmo do capital econô- nutenção de uma dada posição. No
mico. O resultado desse trabalho de entanto, o ‘capital social’ acumulado
acumulação do ‘capital social’ será por meio de determinadas estratégias
maior quanto mais importante for não pode ser facilmente reconvertido
esse capital, e seu limite é representa- por meio de estratégias distintas, já que
do pelos detentores de um ‘capital a mudança destas põe em questão o
social herdado’. próprio valor do ‘capital social’. Logo,
Na medida em que o ‘capital so- além de relacionalmente construído e
cial’ não conta com instituições que percebido, o ‘capital social’ é sempre
propiciem a concentração nas mãos de ‘potencial’, uma vez que, embora sugi-
um só agente da totalidade do ‘capital ra a possibilidade de ser investido, não
social’ que funda a existência do gru- oferece a certeza da obtenção dos be-
po – através da representatividade –, nefícios almejados.
cada agente participa do capital coleti- Importa sinalizar que um dado
vamente possuído, ainda que existam elemento não pode ser definido, a priori,
assimetrias entre eles, posto existir, como capital cultural ou ‘social’, só
sempre, uma concorrência interna ao podendo ser considerado enquanto tal
grupo pela apropriação do ‘capital so- na medida em que demonstre a obten-
cial’ produzido. Para circunscrever es- ção de benefícios. Nesse sentido é que
sas concorrências – leia-se conflitos – podemos considerar as estratégias
a limites que não comprometam a acu- educativas de determinados setores
mulação do ‘capital social’ fundante como apostas na acumulação potenci-
dos vários grupos, estes regulam entre al de ‘capital social’ e cultural.
seus participantes a distribuição do Na segunda metade dos anos de
direito de instituir-se delegado do gru- 1990, os organismos internacionais

80
Capital Social A

(Banco Mundial, BID, Unesco) redes de compromisso cívico, que C


ressignificaram o conceito para constitui um pré-requisito para o de-
incorporá-lo à sua estratégia de desen- senvolvimento econômico assim D
volvimento social para os anos iniciais como para um governo efetivo. São
do século XXI. O ‘capital social’ ad- elementos básicos do ‘capital social’ a
E
quire nesse contexto importância fun- autoconfiança que gera a confiança so-
F
damental na redefinição do papel eco- cial, as normas de reciprocidade
nômico e de legitimação social do Es- (associati-vismo) e as redes de com-
G
tado contemporâneo. Na América La- promisso cívico (responsabilidade so-
tina, perante a constatação do aumen- cial). Especificamente na América La- H
to da miséria e dos conseqüentes ris- tina, o conceito de ‘capital social’ é di-
cos à paz social na região, o conceito rigido às comunidades locais e às po- I
foi introduzido pelos organismos in- pulações pobres.
ternacionais e pelos governos nacio- A noção de ‘capital social’ visa, N
nais como elemento definidor das po- portanto, a conservar as relações soci-
líticas sociais, com vistas a aliviar a ais capitalistas, construindo uma nova O
pobreza e fortalecer a coesão social. sociabilidade a partir da redefinição da
Inicialmente o conceito de ‘capital so- relação entre Estado e sociedade civil, P
cial’ nessa nova versão foi formulado apontando para uma ‘ação integrada’,
nas universidades norte-americanas baseada na colaboração, entre essas Q
através dos estudos de James Coleman duas esferas.
e Robert Putnam que datam da primei- Segundo seus formuladores, o ‘ca- R
ra metade da década de 1990. Essa for- pital social’ é, assim, um instrumento
mulação foi retomada por Anthony para formação da ética da responsabili- S
Giddens na sua proposta da “nova so- dade coletiva, de fortalecimento da sub-
cial democracia” (a terceira via) e pos- jetividade e uma estratégia de recompo- T
teriormente sistematizada, para a Amé- sição da cidadania perdida pelo aumen-
rica Latina, por intelectuais orgânicos to da desigualdade, a partir de práticas U
dos organismos internacionais como democráticas baseadas no voluntariado
Bernardo Kliksberg e Norbert Lechner. e na concertação social. O ‘capital soci-
V
Segundo esta nova formulação, al’ é, ainda, um componente intangível
A
ainda em construção, o ‘capital social’ do desenvolvimento econômico.
é o conjunto de elementos da organi- O desenvolvimento de políticas
A
zação social, encarnados em normas e sociais na América Latina e no Brasil

81
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

nos anos 2000, inspiradas na utilização NOGUEIRA, M. A. (Orgs.) Escritos de


Educação. Petrópolis: Vozes, 1998.
deste conceito, vem-se constituindo em
instrumento de apassivamento dos mo- FONTES, V. A sociedade civil no Brasil
contemporâneo: lutas sociais e luta
vimentos sociais, pela conversão da so-
teórica na década de 1980. In: LIMA, J.
ciedade civil de espaço de confronto a C. & NEVES, L. (Orgs.) Fundamentos da
espaço de colaboração. Elas são execu- Educação Escolar do Brasil Contemporâneo.
tadas diretamente pelos órgãos gover- Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.
namentais e indiretamente pelos varia- GARRISON, J. W. Do Confronto à
dos parceiros na sociedade civil, Colaboração: relações entre a sociedade civil, o
governo e o Banco Mundial no Brasil. Brasília:
notadamente, os empresários nacionais Banco Mundial, 2000.
e transnacionais, as igrejas e, até mes-
KLIKSBERG, B. Falácias e Mitos do
mo, parcelas da classe trabalhadora. Desenvolvimento Social. São Paulo/Brasília:
Cortez/Unesco, 2001.

Para saber mais: LAHIRE, B. (Dir.) El Trabajo Sociológico


de Pierre Bourdieu – deudas y críticas. Buenos
Aires: Siglo Veinteuno, 2005.
BANCO MUNDIAL. Relatório sobre o
Desenvolvimento Mundial, 1997: o Estado LECHNER, N. Desafíos de un
num mundo em transformação. Washington, desarrollo humano: individualización y
1997. capital social. In: KLIKSBERG, B. &
TOMASSINI, L. (Orgs.) Capital Social y
BOURDIEU, P. A Economia das Trocas
Cultura: claves estratégicas para el desarrollo.
Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974.
Argentina: BID e Fondo de Cultura
BOURDIEU, P. Questões de Sociologia. Rio Económica de Argentina, S. A., 2000, p.
de Janeiro: Marco Zero, 1983. 19-58.
BOURDIEU, P. O capital social – notas PINTO, L. Pierre Bourdieu e a Teoria do
provisórias. In: CATANI, A. & Mundo Social. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

82
A

C
CERTIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIAS
D
Marise Nogueira Ramos
E
A ‘certificação de competências’ com a chamada ‘empregabilidade’ pelo
é um aperfeiçoamento da certificação fato de se referir a competências de F
ocupacional, que surge como um pro- base ampla, normalizadas em sistemas
jeto do Centro Interamericano de In- que facilitem a transferibilidade dos tra-
G
vestigação e Documentação sobre For- balhadores entre diferentes contextos
mação Profissional da Organização In- ocupacionais. Admite-se, também, sob
H
ternacional do Trabalho (Cinterfor/ a égide da formação continuada e per-
I
OIT), seguido por diversas iniciativas manente, que o certificado tenha vali-
levadas a cabo em vários países, como dade limitada, de modo que o traba-
N
resultado do deslocamento do concei- lhador deva atualizá-lo permanente-
to de qualificação para a noção de com- mente em face do avanço científico- O
petência. A idéia central em ambos os tecnológico. O certificado de compe-
casos é distanciar a certificação da con- tência é expedido com base em nor- P
cepção acadêmica de creden-cial, ob- mas de competência (ver verbete Ava-
tida ao concluir estudos com êxito de- liação por Competências). Por se refe- Q
monstrado por meio de provas, e rirem a funções produtivas reais, os
aproximá-la da descrição de certificados podem abranger unidades R
capacidades profissionais reais do tra- de competências diferentes, de modo
balhador, independentemente da for- que o trabalhador acumule certificados S
ma como ele as tenha adquirido. As- de sucessivas unidades de competên-
sim, a ‘certificação de competências’ cia nas quais tenha demonstrado do- T
profissionais pode ser realizada pela mínio. Acredita-se que, assim, ele pode
instituição de formação profissional incrementar suas possibilidades de pro- U
em que se tenha cursado programas de moção e de mobilidade profissional.
formação profissional ou por um or- Dependendo da configuração do sis- V
ganismo criado especialmente para cer- tema, um conjunto de certificados que
tificar essas competências. corresponda à totalidade das unidades A
A ‘certificação de competências’ de competência, correspondente, por
passa a adquirir um valor relacionado sua vez, a uma função, pode receber A

83
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

equivalência à respectiva qualificação. das normas de competências


Um sistema de ‘certificação de estabelecidas e institucionalizadas. As
competências’ pressupõe a atuação em entidades certificadoras, por sua vez,
duas dimensões. De um lado, os com- encarregam-se de estabelecer que um
ponentes institucionais; de outro, os trabalhador aspirante à certificação é
componentes técnicos. Os primeiros ou não competente. Para isto, desen-
referem-se aos diferentes sujeitos so- volvem os instrumentos de avaliação.
ciais que cumprem papéis em diversos Nesse quadro, discute-se sobre a
níveis. Os segundos são as diferentes pertinência ou não de a instituição que
fases a se desenvolver no processo de forma também poder certificar. Algu-
certificação. mas visões entendem que isto confi-
Os componentes institucionais gura uma maior independência da ava-
dividem-se em três níveis: a direção do liação e confere à idéia de certificação
sistema, o nível executivo setorial e o uma identidade mais clara, separando-
nível operativo. O nível diretivo gera a da titulação que se pode obter ao fim
acordos necessários para estabelecer a de uma ação formativa. Por fim, seria
estrutura do sistema; isto é, é respon- coerente com o princípio segundo o
sável pela elaboração da base institu- qual a certificação pode ocorrer inde-
cional e do referencial legal. Conta com pendentemente de como e onde se
a representação dos trabalhadores e aprendeu. Outras visões, particularmen-
dos setores empresarial e governamen- te aquelas em que a competência, muito
tal. O nível setorial é de caráter execu- mais do que reconfigurar toda a base
tivo e é conformado pelos empresári- da formação profissional, atua como
os e trabalhadores de um setor uma nova linguagem entre os sujeitos
ocupacional específico. É nesse nível sociais, consideram que essa separação
que se processam a investigação das é inócua, quando não indesejável.
competências e as respectivas normas Os componentes técnicos do sis-
sobre as quais se certifica. No nível tema de certificação são os seguintes:
operativo, figuram as instituições as metodologias de investigação de
dedicadas à certificação e à formação competências (ver verbete Currículo
dos candidatos à certificação. por Competências), as normas de com-
Um sistema dessa natureza pres- petências (ver verbete Avaliação por
supõe que as instituições formadoras Competências), a formação por com-
desenvolvam seus currículos a partir petência (ver verbete Currículo por

84
Certificação de Competências A

Competências) e a avaliação das com- tação do ensino técnico quanto a equi- C


petências. Discute-se, ainda, sobre a valência entre o conjunto de certifica-
validade dos certificados e sua coerên- dos de competência e respectivas dis- D
cia com o quadro formalizado da divi- ciplinas e/ou módulos que integram
são técnica e social do trabalho, nor- uma habilitação, conferindo o diplo-
E
malmente explicitadas em termos de ma correspondente. Tal determinação
F
grades de classificação ou catálogos de teve como base o artigo 41 da Lei n.
ocupações. A implantação de um sis- 9.396/96 (LDB), que reconhece a pos-
G
tema desse tipo acaba exigindo que se sibilidade de avaliar, reconhecer e cer-
reformule e se atualize essa classifica- tificar, para prosseguimento ou conclu- H
ção. Este procedimento pode ser for- são de estudos, o conhecimento adqui-
mal e pouco perturbador ou compre- rido na educação profissional, inclusi- I
ender mudanças significativas, tanto no ve no trabalho. Sob esta ótica, a
plano operacional quanto conceitual. ‘certificação de competências’ torna- N
Neste último caso, pode vir a se mate- se-ia um instrumento a mais na estru-
rializar nos códigos das profissões e do tura da educação profissional, mas não O
exercício do trabalho. A noção de com- eliminaria ou substituiria os títulos re-
petência como ordenadora da gestão lativos às qualificações profissionais. P
do trabalho acaba se concretizando na Argumentos a favor da
medida em que consegue promover ‘certificação de competências’ são apre- Q
reconfigurações materiais também nos sentados em duas perspectivas. Sob a
processos formativos. primeira, destaca-se a importância de R
No Brasil, a instituição da valorizar a experiência profissional e o
‘certificação de competências’ foi autodidatismo dos trabalhadores, con- S
introduzida pelo Decreto n. 2.208/97, siderado como um potencial humano
com finalidades mais voltadas para o que tem permanecido oculto e que pre- T
sistema educacional do que para as re- cisa ser adequadamente identificado,
lações de trabalho. A determinação, avaliado, reconhecido, aproveitado e U
nesse sentido, exigia que os sistemas certificado (Parecer CEB/CNE, n. 17/
federal e estaduais de ensino imple- 97). Sob a segunda perspectiva, a
V
mentassem, por meio de exames, a ‘certificação de competências’ permi-
A
‘certificação de competências’, que tiria tanto um atendimento mais flexí-
possibilitaria tanto a dispensa de disci- vel e rápido das necessidades do mer-
A
plinas e módulos em cursos de habili- cado de trabalho quanto uma constante

85
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

atualização de perfis profissionais e res- este se constituir como um dispositivo


pectivas formas de avaliação de compe- não democrático, mas sim excludente
tências em face das constantes inovações para os trabalhadores. De fato, uma das
tecnológicas e organizacionais do mun- referências teórico-metodológicas de um
do do trabalho. Com base nesses argu- sistema desta natureza visa gerar novos
mentos, a ‘certificação de competências’ instrumentos técnicos com uma funci-
constituiria mais um instrumento para a onalidade voltada para resolver proble-
democratização da educação profissio- mas de competitividade, oportunidades e
nal, por abrir possibilidades de forma- hierarquias sociais, desvalorizando os tí-
ção inicial, continuada e técnica de tra- tulos profissionais em nome de compe-
balhadores, empregados ou não. A tências flexíveis e renováveis permanen-
certificação complementaria e, em deter- temente. Neste caso, a certificação não
minados casos, dispensaria, freqüência a proporcionaria o reconhecimento dos co-
cursos e programas de educação profis- nhecimentos dos trabalhadores, assegu-
sional. Por outro lado, o reconhecimen- rando-lhes o direito ao acesso ao sistema
to do saber tácito do trabalhador educacional e à negociação trabalhista a
corresponderia a um direito importante partir de seus saberes. Ao contrário, os
no âmbito da educação de jovens e adul- certificados corresponderiam a mecanis-
mos de classificação, seleção e exclusão
tos trabalhadores.
do mercado de trabalho.
A Resolução CNE/CEB n. 4, de
1999, em seu artigo 16, disciplinou que
o MEC, em conjunto aos demais órgãos
federais das áreas pertinentes, ouvido o Para saber mais:
Conselho Nacional de Educação, orga-
nizaria um sistema nacional de BRASIL. CNE/CEB. Resolução n. 04/
certificação profissional baseado em com- 99. Institui as diretrizes curriculares
nacionais para a educação profissional
petências. Previa, ainda, que desse siste-
de nível técnico. Brasília, 1999.
ma participariam representantes dos tra-
BRASIL. CNE/CEB. Parecer n. 17/97.
balhadores, dos empregadores e da co-
Dispõe sobre as diretrizes operacionais
munidade educacional. para a educação profissional de nível
técnico. Brasília, 1997.
A institucionalização de um siste- RAMOS, M. N. A Pedagogia das
ma de certificação profissional exige um Competências: autonomia ou adaptação? São
debate aprofundado sobre a ameaça de Paulo: Cortez, 2001.

86
A

C
CERTIFICAÇÃO PROFISSIONAL
D
Carmen Sylvia Vidigal Moraes
E
A reestruturação capitalista das marginalistas das teorias do ‘capital
últimas décadas introduziu mudanças humano’ passam a ser dominantes nas F
que atingiram o conjunto da vida soci- recomendações dos organismos inter-
al. As inovações tecnológicas, as nacionais e nas agendas governamen- G
novas formas de organização do tais, as quais difundem programas de
trabalho e a flexibilização levaram à formação que visam garantir
H
rede-finição das qualificações, das iden- ‘empregabilidade’, isto é, possibilitar,
I
tidades profissionais, individuais e co- a cada um, o acréscimo individual de
letivas. Ao mesmo tempo, o aumento capital humano para sua adaptação às
N
persistente do desemprego e do em- novas condições de trabalho e/ou para
prego informal, da precarização/ o sucesso da empresa. Nessas circuns-
O
informalização do trabalho aprofun- tâncias, a promoção do desenvolvi-
daram a exclusão social. mento das ‘competências’ no trabalho P
Nessa conjuntura, a educação e a e na formação, assim como sua
formação profissional constituem al- certificação, constituem elementos- Q
gumas das principais medidas destina- chave da ‘modernização’ econômica e
das, em um primeiro momento, a com- terão amplas implicações na definição R
bater as desigualdades entre empresas, e organização das políticas nacionais
produzidas pela competiti-vidade eco- de educação e formação, no reconhe- S
nômica, por meio da adaptação dos tra- cimento e certificação das atividades
balhadores às mudanças técnicas e às profissionais, na oferta dos serviços de T
condições de trabalho; e, em momen- formação.
to posterior, ao atendimento de cate- Como indicam documentos da U
gorias e grupos de trabalhadores ame- Organização Internacional do Traba-
açados pela desqualifi-cação profissio- lho (OIT), até os anos 70 do século V
nal e pelo desemprego. XX, a certificação de conhecimentos
Estratégias de ‘adequação forma- aparecia associada à formação, isto é, A
ção-emprego’, defendidas pelas abor- era expedida no final de um processo
dagens econômicas neoclássicas, de ensino sistemático, após o aluno ter A

87
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

superado com êxito as provas e exa- públicas de educação e qualificação


mes de avaliação, possuindo legitimi- profissional, e o fim dos acordos entre
dade em todo o país (Cinterfor/OIT, empregadores e empregados em ma-
2006; Pronko, 2005). Será no decorrer téria de aprendizagem. Na França, seg-
da década de 1990 que a temática da mento expressivo da representação dos
‘formação ao longo da vida’, substitu- trabalhadores deste país vem critican-
indo o conceito de ‘educação perma- do essa modalidade de validação por
nente’ (como direito de todos e obri- tentar destruir o conceito de qualifica-
gação do Estado), será introduzida no ção, reduzir os diplomas a um conglo-
debate público por algumas organiza- merado de conhecimentos elementa-
ções internacionais, como a Organiza- res, fazendo desaparecer a noção de
ção para a Cooperação e a Economia quadros de classificação construídos
(OCDE), o Banco Mundial e até a coletivamente a partir dos níveis de for-
Organização das Nações Unidas para mação profissional. Os trabalhadores
a Educação, a Ciência e a Cultura apontam o enfraquecimento dos pro-
(Unesco), abrindo espaço para a cessos de negociação, o afastamento
‘certificação de competências’. do Estado e o peso crescente dos em-
A noção de competência, que pregadores na apreciação e reconheci-
vem substituir a noção de qualifica- mento das aquisições, cuja única refe-
ção, afeita ao ‘antigo’ paradigma rência é a prática nos ramos profissio-
taylorista, apesar de imprecisa, con- nais. Enfim, condenam a ruptura da li-
verge em suas diferentes versões para gação tradicional entre validação e for-
o significado de performance, de desem- mação, assim como a quebra das re-
penho (verificável) em situação de tra- gras juridicamente definidas de corres-
balho, independente da forma de aqui- pondência entre o diploma escolar e o
sição dos conhecimentos pelo traba- título/certificado profissional, medidas
lhador. Em alguns países, como é o que, segundo eles, visam satisfazer exi-
caso da Inglaterra, sua adoção signi- gências da flexibilização econômica
ficou a passagem para um regime (Joubier, 1997; Boudet et al., 1998). Em
referenciado no mercado e a extinção resumo, esta política de certificação de
do modelo fundado sobre a ‘negocia- competências tenderia a produzir um
ção social’, isto é, de todas as instân- rompimento com o sentido
cias públicas de participação social universalista das políticas públicas de
destinadas à definição das políticas formação do trabalhador.

88
Certificação profissional A

Acompanhando os processos de pessoa (desempenho), e é omisso em C


reconversão produtiva, o discurso da relação à certificação de conhecimen-
‘competência’ foi introduzido no Bra- tos para fins de continuidade de es- D
sil e em alguns países da América Lati- tudos (Moraes et al., 2003). Tal do-
na pelos empresários e também pelos cumento foi retirado do Conselho
E
governos, estimulados pelos organis- Nacional de Educação no
F
mos multilaterais. O processo de começo do governo Lula, quando a
institucionalização da noção de com- temática, em novo encaminhamento,
G
petência em nosso país, que lhe confe- passou a ser debatida com represen-
re caráter oficial, realizou-se principal- tantes dos segmentos sociais. H
mente mediante as reformas educaci- É importante mencionar que, des-
onais promovidas pelo governo de a década de 1980, o Centro I
Fernando Henrique Cardoso na Edu- Interamericano de Investigación y
cação Básica, Profissional e Superior, Documentación sobre Formación N
e na Classificação Brasileira das Ocu- Profesional/Cinterfor/OIT realizou
pações (CBO). Coerente com a visão inúmeros estudos sobre certificação O
predominante naquele período, no fi- ocupacional visando delinear uma po-
nal de 2002, o MEC encaminhou para lítica para a América Latina a respeito P
discussão, no Conselho Nacional de da matéria. Na década de 1990, a de-
Educação (CNE), o documento “Or- nominação do tema direcionou-se para Q
ganização de um Sistema Nacional de as chamadas ‘competências laborais’
Certificação Profissional baseado em (Vargas Zúñiga, 2002). A difusão, no R
Competências”, propondo a criação de comércio internacional, das exigênci-
um Sistema Nacional de Certificação as de normas ISO, como a série ISO S
Profissional baseada em Competênci- 9000 (qualidade) e a ISO 14000
as. Apesar de originário do MEC, seu (ambiental), implicou o desenvolvi- T
propósito maior consistiu em dar co- mento de ações no sentido de vincular
bertura legal às atividades de o reconhecimento/ certificação de co- U
‘certificação profissional’ realizadas nhecimentos dos trabalhadores à
fora do âmbito do MEC. Com essa certificação de produtos e processos
V
perspectiva, propõe separar, e não ape- de trabalho. No Brasil, no âmbito das
A
nas distinguir, a certificação escolar (de políticas de qualidade e produtividade,
conhecimentos) da ‘certificação profis- a Lei Federal n. 9933, de 1999,
A
sional’, entendida como certificação da reformula as atribuições do Conselho

89
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Nacional de Metrologia Qualidade In- É possível notar, portanto, que


dustrial (Conmetro) e do Instituto Na- houve, na última década, uma ofensi-
cional de Metrologia, Normalização e va do empresariado no sentido de cri-
Qualidade Industrial (Inmetro), ar um sistema de certificação (de com-
autarquia vinculada ao Ministério do petências) que transferisse a responsa-
Desenvolvimento, Indústria e Comér- bilidade do Estado para o setor priva-
cio Exterior, criado em 1973, autorizan- do e excluísse a participação negocia-
do-os a conceder a marca de conformi- da com a representação dos trabalha-
dade a produtos, processos e serviços. dores. Como resultado, tais políticas de
De acordo com o decreto n. 4.630, certificação realizam-se hoje de forma
de 2003, que aprova a estrutura regi- isolada, desvinculadas das políticas de
mental do Inmetro como órgão exe- educação profissional e de certificação
cutivo do Sistema Nacional de de escolaridade.
Metrologia, Normalização e Qualida- Visando intervir nesse quadro
de Industrial/Sinmetro, é sua finalida- político e social complexo, em conso-
de “coordenar a certificação compul- nância com o Plano Plurianual 2004-
sória e voluntária de produtos, de pro- 2007 do Governo Lula, a “política pú-
cessos, de serviços e a certificação volun- blica de qualificação social e profissio-
tária de pessoas” (Anexo I, cap. I, inciso nal” do MTE propõe criar, no país, um
VIII). Este dispositivo delega ao marco nacional das qualificações com
Inmetro a atribuição de realizar o o objetivo de regulamentar o mercado
credenciamento de instituições para de formação e de ‘certi-ficação profis-
certificação (voluntária) de pessoal no sional’ existente. Define a ‘qualificação
âmbito das avaliações de qualidade/ profissional e social’ como direito dos
conformidade, tendo como base os trabalhadores brasileiros, cuja
critérios elaborados por organismo universalização pressupõe o atendi-
privado, a Associação Brasileira de mento dos segmentos considerados
Normas Técnicas (ABNT), o que deu mais vulneráveis econômica e social-
origem a interpretações tendenciosas mente, os que apresentam maior difi-
por parte dos defensores da organiza- culdade de inserção no mercado de tra-
ção de um sistema privado de balho, que têm sido alvo de processos
certificação profissional, os quais vi- de exclusão e discriminação sociais –
ram, no dispositivo, a oportunidade de como as de gênero e etnia, além das
constituição de tal sistema. geracionais e de pessoas portadoras de

90
Certificação profissional A

necessidades especiais (Plano Nacio- Interministerial sobre Qualificação e C


nal de Qualificação/PNQ/MTE, Educação Profissional, composta pe-
2003 -2004). los Ministérios da Educação, do Tra- D
O conceito de marco nacional das balho e Emprego, da Saúde, Ministé-
qualificações, introduzido pela Reco- rio do Desenvolvimento, Indústria e
E
mendação 195 da Conferência Inter- Comércio Exterior, do Ministério do
F
nacional do Trabalho da OIT, de 2004, Turismo e pelos Conselhos Nacionais
é de uso recente e sua adoção expressa de Educação e do Trabalho, sob a co-
G
o compromisso da realização de uma ordenação-geral, exercida alternada-
política nacional para promover o de- mente, do Ministério da Educação e do H
senvolvimento, a aplicação e o finan- Ministério do Trabalho e Emprego.
ciamento de um mecanismo transpa- A iniciativa nasce, sobretudo, se- I
rente de avaliação, certificação e re- gundo o Termo de Referência para ela-
conhecimento dos saberes profissi- boração de instrumento legal de cria- N
onais obtidos por uma pessoa via ção do Sistema Nacional de Certificação
educação f or mal ou infor mal Profissional (MTE/OIT, 2004), O
(Cinterfor/OIT, 2006).
Para suprir a ausência de uma po- da preocupação em criar um mar- P
co regulatório integrado que valide
lítica pública nacional de ‘certificação
os processos de certificação existen-
profissional’ de conhecimentos, que tes, realizados por instituições pú- Q
normatize e regule experiências, pro- blicas ou privadas, no âmbito das
postas, programas e projetos de relações de trabalho, na relação e R
equivalência com os diferentes ní-
‘certificação profissional’ vinculados veis de escolarização e das normas
aos diversos ministérios, órgãos fede- de conformidade, buscando dirimir S
rais, entidades e segmentos sociais, o sobreposições de competências e
MTE, desde 2003, vem desenvolven- dispersão de atribuições entre dife- T
rentes órgãos governamentais.
do esforços em conjunto com diver-
sos agentes governamentais e sociais, No âmbito do MTE, a qualifica- U
com vistas a organizar institucio- ção social e profissional é definida
nalmente a ‘certificação profissional’ como uma construção social e, portan- V
como atribuição do Sistema Público de to, histórica, ou seja, “como relação
social construída pela interação dos
A
Emprego e articulado aos Sistemas
Nacional de Educação. Para tanto, foi agentes sociais do trabalho em torno
A
instituída, em 2004, a Comissão da propriedade, significado e uso do

91
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

conhecimento” (Lima & Lopes, 2005). dos são exclusivamente profissionais,


Dessa maneira, o conceito ressalta a não existindo correspondência com
importância de outros contextos escolaridade, a certificação proposta
socioculturais para além dos espaços pelo MTE é considerada como par-
de trabalho, e a natureza individual e te do processo de orientação e for-
coletiva da qualificação profissional. mação profissional, e não pode “se
Trata-se de um processo de constru- opor, sobrepor ou substituir” a for-
ção/reconstrução contínua de aquisi- mação profissional.
ção de saberes, representações, proce- No campo da educação escolar,
dimentos necessários para fazer frente duas novas medidas do MEC conver-
às situações e condições de trabalho, em gem com os objetivos propostos pelo
geral suscetíveis de modificação ao lon- MTE. O decreto n. 5154, de 2004, que
go do tempo e de sociedade para socie- revogou o decreto n. 2208, de 1997,
dade. Existe, portanto, no processo de resgata as bases unitárias do ensino
construção da qualificação social e pro- médio, e, em consonância com reivin-
fissional, dimensões de ordem psico- dicações de entidades de educadores e
comportamental e sociocultural com do movimento popular, dispõe sobre
recortes de gênero, etnia, classe etc. Há a oferta da formação profissional ini-
dimensões de racionalidade e subjeti- cial e continuada (a antiga educação
vidade, elementos de construção de profissional básica) em todos os níveis
identidades (individuais e coletivas). de escolaridade, por meio de itinerári-
O Sistema Nacional de os formativos. Introduz, pela primeira
Certificação Profissional (SNCP) con- vez, a definição de itinerário formativo,
cebe a ‘certificação profissional’ como considerado como “o conjunto de eta-
“processo negociado pelas represen- pas que compõem a organização da
tações sociais e regulado pelo Estado”, educação profissional em uma deter-
por meio do qual se “identifica, avalia minada área, possibilitando o aprovei-
e valida conhecimentos, habilidades e tamento contínuo e articulado dos es-
aptidões profissionais do(a) traba- tudos” (art. 3.). Tais regulamentações
lhador(a) adquiridos na freqüência a legais foram complemen-tadas pelo
cursos ou atividades educacionais ou decreto 5.840, de 2006, que institui, no
na experiência de trabalho”. Ao con- âmbito federal, o Programa Nacional
trário do programa de certificação do de Integração da Educação Profissio-
Inmetro, em que os certificados emiti- nal com Educação Básica, na modali-

92
Certificação profissional A

dade de Educação de Jovens e Adul- Validation et de la Reconnaissance des C


tos/Proeja. Em seu artigo 7, estabele- Qualifications. Rapport Intermediaire.
ce que as instituições ofertantes pode-
Marseille: Ministère de l’Éducation D
Nationale, de l’Enseignement Supérieur et
rão “aferir, reconhecer, mediante ava- de la Recherche/Ministère des Affaires
liação individual, conhecimentos e ha- Sociales, 1998, p. 37-49.
E
bilidades obtidos em processos CINTERFOR/OIT. La Nueva F
formativos extra-escolares”. Recomendación 195 de OIT. Montevideo:
Embora esteja prevista no marco Cinterfor, 2006.
G
nacional de qualificações a elaboração INMETRO. (s. d.). Guia Prático de
negociada de uma normativa, de um Certifica-ção de Pessoas. Sistema Brasileiro
de Avaliação da Conformidade.
H
‘repertório nacional de qualificações’
Comissão Técnica de Pessoal.
como base da definição de perfis
JOUBIER, J.-M. For mation
I
ocupacionais e de construção de itine-
professionnelle: ouvrir largement le
rários formativos, isso ainda não foi
débat. Analyses & documents N
feito. A elaboração de novas Diretri- economiques. Cahiers du Centre Conféderal
zes Curriculares Nacionais para a Edu- d’Études Économiques et Sociales de la CGT, O
cação Básica e de uma nova CBO, bem 71: 4-10, mars, 1997.
como a construção do repertório na- LIMA, A. & LOPES, F. Diálogo Social e P
cional de qualificações, de acordo com Qualificação Profissional: experiências e
as atuais orientações políticas, consti- propostas. Brasília: TEM/SSPE/DEQ, Q
2005. (v.1. – Construindo diálogos
tuem as providências mais urgentes a sociais)
serem tomadas, respectivamente, pelo R
MORAES, C. S. V. & LOPES NETO,
MEC e MTE, para fazer avançar, no S. Educação, formação profissional e
país, a realização do ideal de uma polí- certificação de conhecimentos:
S
tica pública de formação e ‘certificação considerações sobre uma política pública
profissional’ democrática e de certificação profissional. In: Educação T
e Sociedade, 26(93): 1435-1469, set.-dez.,
emancipatória.
2005. U
MORAES, C. S. V. et al. Considerações
Para saber mais: sobre a organização de uma política V
nacional de certificação profissional. In:
BOUDET. A. et al. Rapport e Para discutir Certificação (Texto Subsídio
contextualisation : France. In: CEREQ ao Seminário de Educação Profissional
A
(Orgs.) Dispositif d’ Observation des Innovations MEC/Semtec/Proep, Brasília, 16 a 18
dans le Champ de la Certification, de la de junho de 2003) A

93
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

PRONKO, M. Recomendación 195 de OIT: profesional: ¿paralelismo o convergencia?


questiones históricas y actuales. Montevideo: (Documento de discussão no Seminário
Cinterfor/OIT, 2005. Internacional “Mercado de Trabalho e
Dinâmica Ocupacional”, organizado
RAINBIRD, H. La construction sociale
pelo Senai-DN em Belo Horizonte/MG,
de la qualification. In: JOBERT, A.;
junho de 2002). Disponível em: <http:/
MARRY, C. & TANGUY, L. (Orgs.)
/ w w w . c i n t e r f o r .
Éducation et Travail en Grande-Bretagne,
org.uy/public/spanish/region/ampro/
Allemagne et Italie. Paris: Armand Colin,
cinterfor/publ/sala/vargas/clasific/
1995.
index.htm>.
VARGAS ZÚÑIGA, F. Clasificaciones de
ocupaciones, competencias y formación

COMUNICAÇÃO E SAÚDE

Janine Miranda Cardoso


Inesita Soares de Araújo

Comunicação e Saúde é um ter- entre campos sociais, entendendo cam-


mo que indica uma forma específica po como um espaço estruturado de
de ver, entender, atuar e estabelecer relações, no qual forças de desigual
vínculos entre estes campos sociais. poder lutam para transformar ou man-
Distingue-se de outras designações si- ter suas posições (Bourdieu, 1989,
milares, como comunicação para a saú- 1996, 1997). Campos sociais são his-
de, comunicação em saúde e comuni- toricamente constituídos e atualizados
cação na saúde. Embora as diferenças em contextos e processos sociais es-
pareçam tão sutis que possam ser to- pecíficos que, ao mesmo tempo, en-
madas como equivalentes, tenhamos volvem e extrapolam suas fronteiras,
em mente que todo ato de nomeação mas sempre movidos por disputas por
é ideológico, implica posicionamentos, posições e capitais materiais e simbó-
expressa determinadas concepções, licos. Fronteiras porosas por onde tran-
privilegia temas e questões, propõe sitam agentes, discursos, políticas, te-
agendas e estratégias próprias. orias e expandem ou contraem rela-
Como ponto de partida, o ções, capitais, conflitos, enfim, interes-
conectivo quer acentuar a articulação ses de diferentes ordens.

94
Comunicação e Saúde A

O termo Comunicação e Saúde, a institucionalização das práticas de co- C


portanto, delimita um território de dis- municação, com a criação, em 1923, do
putas específicas, embora atravessado Serviço de Propaganda e Educação Sa- D
e composto por elementos caracterís- nitária, no interior do Departamento
ticos de um, de outro e da formação Nacional de Saúde Pública, ainda no
E
social mais ampla que os abriga. Trata- contexto do que se tornou conhecido
F
se de um campo ainda em formação, como Reforma Carlos Chagas. O ser-
mas como os demais constitui um uni- viço abriu espaço para as atividades que
G
verso multidimensional no qual agen- buscavam a adesão da população para
tes e instituições desenvolvem estraté- as medidas preconizadas pelas autori- H
gias, tecem alianças, antagonismos, dades sanitárias, voltadas principalmente
negociações. Essa concepção implica para a higiene pessoal e pública, saúde I
colocar em relevo a existência de dis- da criança e da mulher gestante. A as-
cursos concorrentes, constituídos por censão do modelo bacteriológico – com N
e constituintes de relações de saber e a descoberta de agentes patológicos es-
poder, dinâmica que inclui os diferen- pecíficos para cada doença e processos O
tes enfoques teóricos acerca da comu- de transmissão – contribuiu para a ên-
nicação, saúde e suas relações. Contra- fase crescente nas medidas individuais P
põe-se, assim, a perspectivas que redu- de higiene, enquanto as medidas mais
zem a comunicação a um conjunto de abrangentes sobre as condições socio- Q
técnicas e meios a serem utilizados de ambientais foram paulatinamente
acordo com os objetivos da área da saú- secundarizadas. À época, educar, R
de, notadamente para transmitir infor- higienizar e sanear eram as palavras de
mações de saúde para a população. ordem, profundamente articuladas ao S
intenso debate sobre o projeto nacio-
nal. Isso não significou, contudo, a eli- T
A formação do campo minação das medidas coercitivas, carac-
terísticas das campanhas sanitárias do U
O que hoje denominamos Comu- início do século XX, cujas grandes re-
sistências potencializaram vários movi-
V
nicação e Saúde resulta, então, da asso-
ciação de campos que, embora mentos, que culminaram na Revolta da
A
irredutíveis um ao outro, possuem um Vacina (Cardoso, 2001).
longo histórico comum de agencia- Desde então, atravessando dife-
A
mentos. Podemos tomar como marco rentes conjunturas sociais, políticas e

95
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

sanitárias e relacionando-se com dis- opiniões” (Lasswell apud Mattelart e


tintas formas de conceber o processo Mattelart, 1999, p. 37), foram criados
saúde-doença, a comunicação passou diferentes setores de comunicação e
a habitar as atividades de saúde, prin- educação nos ministérios, inclusive o
cipalmente relacionadas às ações de Serviço Nacional de Educação Sanitá-
prevenção, chamada a lutar contra a ‘ig- ria (SNES), em 1941, com o objetivo
norância’, espécie de vala comum que de padronizar metodologias e difun-
passou a receber toda e qualquer resis- dir maciçamente informações sobre
tência às medidas sanitárias. questões de saúde.
No entanto, as práticas de comu- Após a segunda guerra mundial,
nicação nunca representaram a utiliza- no contexto de interiorização do de-
ção de instrumentos supostamente senvolvimento econômico e de acele-
neutros, mas expressaram também a ração da urbanização, a comunicação
convergência entre determinados mo- foi chamada a desempenhar um papel
delos e concepções de ambos os cam- estratégico na arrancada desenvol-
pos. Assim, no sanitarismo vimentista: criar o ‘clima’ propício para
campanhista das primeiras décadas do a adoção dos ‘modernos’ padrões da
século XX predominaram as práticas sociedade industrial capitalista. Em ple-
de difusão de medidas de higiene, an- na guerra fria e sob os auspícios de ins-
coradas em teorias de comunicação de tituições internacionais, esse movimen-
fundo behaviorista, que estabeleciam to se deu nos países periféricos na ór-
uma relação causal e automática entre bita de influência dos EUA, privilegi-
estímulo e resposta: uma vez exposto ando as áreas da educação, saúde, agri-
a uma mensagem, o indivíduo – o ‘pú- cultura, extensão rural e serviço soci-
blico-alvo’ – reagiria de acordo com os al. No campo da saúde, duas institui-
objetivos do emissor. No período en- ções tiveram destacada atuação: o Ser-
tre guerras, com Vargas, o Brasil expe- viço Especial de Saúde Pública (SESP),
rimentou uma inédita política de co- criado em 1942, no âmbito do esforço
municação governamental, importan- aliado de guerra, e o Departamento
te na tessitura ideológica do novo regi- Nacional de Endemias Rurais
me, da nova nação e do novo homem (DNERu), criado em 1956, com o ob-
brasileiro. Estimulados pela visão mun- jetivo de estender o atendimento mé-
dial da propaganda como eficaz ferra- dico-sanitário de massa em áreas con-
menta na “gestão governamental das sideradas economicamente estraté-

96
Comunicação e Saúde A

gicas. Atuavam em regiões geográficas particularmente no quadro de uma C


distintas, com metodologias específi- concepção restrita e regulada de parti-
cas de trabalho e priorizavam diferen- cipação comunitária, potencializando D
tes grupos etários, mas ambas investi- os enfoques da saúde que privilegia-
ram na mobilização das comunidades vam os saberes biomédicos e atribuin-
E
e foram agentes da comunicação para do às instituições de saúde a exclusivi-
F
o desenvolvimento que preconizava dade da fala autorizada. Desde então,
uma relação causal e mecânica entre os várias iniciativas de mobilização comu-
G
dois termos. nitária para a agenda sanitária têm lan-
O campo da comunicação não fi- çado mão dos pressupostos desse H
cou imune, naquele momento, ao in- modelo, que fundamenta algumas ca-
tenso processo de produção científica racterísticas do perfil do agente comu- I
e tecnológica. Na saúde e em outras nitário de saúde e de seu trabalho.
áreas de intervenção social, repercutiu A década de 60 trouxe vigorosos N
amplamente o modelo comunicacional debates, tanto na saúde como na co-
inspirado na teoria dos dois fluxos de municação, em torno da mudança dos O
comunicação, que atribuía um papel modelos vigentes. Contribuíram bas-
fundamental às lideranças comunitári- tante para isso as críticas ao viés P
as, consideradas ‘elos-chave’ na busca extensionista, simultâneas à emergên-
de maior sintonia entre emissor (auto- cia das teses freireanas, que introduzi- Q
ridades) e receptor (população). Essa am uma perspectiva histórica, cultural,
foi uma inovação teórica e humanista e dialógica, tornando R
metodológica significativa na matriz irrecusável considerar relevantes os
transferencial, que conferiu relevância saberes e as percepções da população S
ao universo cultural e às relações soci- sobre sua própria realidade de saúde.
ais de uma dada comunidade, media- Mas, todo esse movimento, incluindo T
ções que tornaram o processo a forte crítica ao desenvolvimentismo,
comunicacional menos linear e auto- foi interrompido pelo golpe militar. U
mático. Não se rompeu, contudo, com Durante a ditadura, sob a égide da cen-
a unidirecionalidade e a comunicação sura, se dá o investimento concentra-
V
continuou a ser vista fundamentalmen- do na assistência médico-hospitalar,
A
te como a transmissão de informações configurando-se o modelo médico-
de um pólo emissor a um pólo recep- assistencial privatista. Nele, as ativida-
A
tor. Essa abordagem encontrou eco, des preventivas e de saúde pública –

97
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

incluindo as de educação e comunica- as coordenadorias de comunicação fi-


ção – foram relegadas a um remoto se- caram diretamente ligadas aos gestores,
gundo plano nas ações governamentais. passando a responder pela relação com
Nas telas da recém-nascida televisão, os órgãos de imprensa.
saúde passou a ser crescentemente as- O contexto de consolidação do
sociada à compra de bens e serviços modelo de saúde centrado no hospi-
oferecidos pelo mercado. Para tanto, o tal, na dimensão curativa e na
regime militar contou com a notável mercantilização da atenção é também
expansão dos meios de comunicação e o de sofisticação dos modelos da ma-
a constituição de um sistema complexo triz transferencial de comunicação e,
de informação e de cultura de massa, de forma mais abrangente, da escalada
em que a televisão passou a ser o prin- hegemônica da publicidade. De lá para
cipal meio de difusão. No contínuo e cá, em escala mundial, se deu a intensi-
progressivo investimento em propagan- ficação do desenvolvimento tecnoló-
da no Brasil, o Estado já despontava aí gico, marcadamente de informação e
como um dos maiores anunciantes. comunicação, com a penetração da te-
Nesse período, o mesmo movi- levisão e da mídia em todos os setores
mento que buscou silenciar qualquer das sociedades ocidentais, delineando
oposição ao regime militar favoreceu novos padrões de consumo. Tecnologia
a separação das práticas de comunica- aqui deve ser entendida em sentido
ção e educação nas instituições de saú- amplo e em suas diversificadas conexões
de, com a respectiva especialização de com a economia, cultura, formas de
atividades e perfis profissionais. Nos sociabilidade e temporalidades. Alguns
ministérios e instituições governamen- autores, considerando a magnitude das
tais foram criadas as coordenadorias mudanças sociais relacionadas à
de comunicação social e os serviços de informatização e expansão das redes
informação, estes últimos vinculados mundiais de comunicação, têm chama-
ao Serviço Nacional de Informações do esse processo de midiatização da socie-
(SNI). Na saúde, atendendo ao dade, que repercute cada vez mais nas
reordenamento da administração pú- instituições de saúde (Fausto Neto,
blica, segundo as normas de planeja- 2007; Sodré, 2006).
mento normativo, os setores de edu- É importante não perder de vis-
cação para a saúde ficaram vinculados ta, porém, que os modelos de comuni-
às áreas técnicas de cada programa e cação não se sucedem de forma cro-

98
Comunicação e Saúde A

nológica e linear, mas coexistem em tratégias de saúde. Amplas coordena- C


diferentes configurações, atravessados das, que estimulam a superação de vi-
por variáveis socioeconômicas e cul- sões e práticas descontextualizadas e D
turais, além daquelas mais afeitas à di- tecnicistas, de forma simultânea à cons-
nâmica do campo da saúde, como o trução de relações mais horizontais no
E
quadro epidemiológico, as concepções interior das equipes de saúde e destas
F
e estratégias de assistência, prevenção com a população.
e promoção. Por outro lado, embora a Um conceito de saúde que não
G
matriz transferencial nunca tenha sido mais se define por ausência de doen-
seriamente ameaçada no âmbito das ças, que estabelece vínculos indisso- H
instituições e programas de saúde, sem- lúveis com a democracia e com a qua-
pre esteve tensionada por disputas, lidade de vida da população, trouxe a I
oposições e propostas contra- dilatação de temas e segmentos envol-
hegemônicas, em geral inspiradas em vidos nas ações e políticas públicas. O N
Paulo Freire e nas teorias críticas de campo da comunicação e saúde não
comunicação (Fiocruz, 1998; 1999). ficou imune a esse processo. A partir O
de meados dos anos 80, a dinâmica e
as necessidades manifestas no cotidia- P
Comunicação e SUS no dos serviços, movimentos, conse-
lhos e conferências de saúde, muitas Q
O movimento de reforma sani- vezes extrapolaram os limites e possi-
tária brasileira e a construção do Siste- bilidades das tradicionais assessorias de R
ma Único de Saúde (SUS) envolveram imprensa. Ativistas e entidades envol-
e ainda envolvem a reflexão crítica so- vidos na construção do SUS passaram S
bre as multifacetadas relações entre a reivindicar, simultaneamente, acesso
saúde e sociedade. O conceito amplia- às informações oficiais, às tecnologias T
do de saúde e sua inscrição constitu- de comunicação e mais espaço na mídia
cional como direito de cidadania e de- para os temas da saúde e do SUS. Lu- U
ver do Estado estabeleceram nítida an- taram também pelo poder de fala, tra-
dicionalmente concentrado nas insti-
V
coragem do SUS em um projeto social
mais amplo e democrático, comprome- tuições e autoridades, recusando a imo-
A
tido com a superação das desigualda- bilidade de ‘públicos alvo’ ou a posi-
des sociais, com a eqüidade em saúde ção de elos privilegiados de uma cadeia
A
e participação social nas políticas e es- de transmissão unidirecional. Afirman-

99
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

do-se como detentores de uma pala- metodologicamente em relação à pers-


vra também autorizada, por um tipo pectiva desenvolvimentista, se distan-
específico de capital político que advém ciam da possibilidade de uma comuni-
da liderança e representatividade soci- cação que considere os princípios do
al, questionaram as idéias e as práticas SUS, ou mesmo as conquistas das te-
de uma participação comunitária res- ses freireanas, já remotas no tempo.
trita e regulada, própria dos discursos Assim, por essas abordagens – a do
desenvolvimentista e populista. Marketing Social na Saúde é um bom
Nesses vinte anos de SUS, com exemplo – o direito à comunicação,
muitos reveses e toda sorte de obstá- como correlato ao direito à saúde, é
culos, práticas mais democráticas de substituído pelo direito do consumi-
comunicação têm emergido, assim dor, o cidadão passa a ser tratado como
como têm sido fortalecidos o ensino e ‘cliente’ e os objetivos reeditam a ve-
a pesquisa. O enfrentamento da Aids lha fórmula persuasiva para a adoção
tem sido freqüentemente apontado de hábitos e medidas preconizados
como exemplo das potencialidades – pelas instituições de saúde.
inovadoras estratégias de mobilização Entre as diferentes concepções
e crítica, diversidade de atores e de ar- que movimentam o campo da comu-
ticulação em redes em escala planetá- nicação e saúde, destacamos aquelas
ria –, mas também dos desafios, quan- que entendem a comunicação como o
do se depara com a ‘indústria da Aids’ permanente e sempre disputado pro-
e se verifica a escalada da epidemia jun- cesso de conferir sentido aos eventos,
to aos segmentos mais vulneráveis so- fenômenos, experiências e discursos
cialmente e nas regiões do planeta com sobre o mundo e a sociedade. São
menor visibilidade e poder de pressão. muitos os desdobramentos desse pon-
Por outro lado, na maior parte das to de vista, entre os quais vale destacar
instituições governamentais e não go- a recusa de um significado pronto e
vernamentais, ganha espaço o modelo acabado em cada palavra, passível de
publicitário e suas variações, nos mol- ser transferido e compreendido pelos
des preconizados pelo neoliberalismo. ‘receptores’ tal e qual imaginado pelo
Discursos, sistemas de nomeação e ‘emissor’. Como propõe Bakthin
modelos de atuação se apresentam su- (1988, 1992), cada palavra comporta
cessivamente, propondo abordagens múltiplos sentidos, é habitada por di-
que, se avançam técnica ou ferentes vozes, configurando uma

100
Comunicação e Saúde A

polifonia ancorada na alteridade como tes naturezas, mas de igual magnitude, C


princípio ontológico, mas também na que demandam esforços teóricos po-
desigual estrutura social. Nesse enfoque, líticos e institucionais de caráter D
os diferentes contextos – histórico, eco- intersetorial, de diversos campos do
nômico, político, institucional, mas tam- saber – antropologia, sociologia, his-
E
bém o textual, intertextual, o existencial tória, semiologia, estudos culturais etc.
F
e o situacional (Araújo e Cardoso, 2007) – e de diferentes vertentes de estudos
desempenham papel decisivo nos pro- da comunicação, tais como a econo-
G
cessos comunicacionais. mia política da comunicação, estudos
Embora não se subestime as midiáticos e análise de discursos. En- H
assimetrias de toda ordem que caracteri- tre as prioridades, destacam-se: avan-
zam a desigual sociedade brasileira – na çar na produção do conhecimento so- I
saúde, na comunicação e de forma no- bre as complexas relações entre esses
tória na mídia –, isto não leva a dois campos sociais para compreender N
desconsiderar que cada indivíduo, gru- melhor, entre outros aspectos, a rela-
po ou instituição transita entre as posi- ção entre discurso e mudança social, O
ções de emissão e recepção, além de agir os processos de midiatização e os dis-
na circulação social dos discursos. Por positivos de biopoder; desenvolver, em P
essa razão, ao invés de cristalizar as po- profunda articulação com a pesquisa,
sições, tomamos os participantes de um esforços concentrados para a forma- Q
processo de comunicação como ção de profissionais com capacidade
interlocutores, conferindo destaque aos crítica e para a elaboração de estratégi- R
variados lugares que ocupam, nos dife- as e políticas públicas de comunicação
rentes contextos e relações de poder dos coerentes com os princípios do SUS; S
quais participam. Nessa perspectiva, co- estabelecer a articulação com o movi-
municação é pensada como espaço de mento pela democratização da comu- T
desigual concorrência material e simbó- nicação no Brasil, destacando a con-
lica, que compreende não só a instância quista do direito à comunicação, sem U
da produção discursiva, tão exacerbada o qual dificilmente se avançará no pro-
nas instituições de saúde, mas também jeto da reforma sanitária brasileira.
V
as suas condições sociais de circulação e Como se vê, são diferentes e mui-
A
apropriação. tas vezes antagônicos os modos de
A agenda da Comunicação e conjugar, na prática e na teoria, comu-
A
Saúde acolhe hoje desafios de diferen- nicação e saúde. Se por um lado per-

101
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

cebemos aí a resistência dos modelos BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho


hegemônicos e os obstáculos a uma Nacional de Saúde. Coletânea de
comunicação e informação em saúde para o
real mudança nas práticas comunicati- exercício do controle social. Brasília: Ed.
vas, mesmo que desejada, por outro Ministério da Saúde, 2006. 156 p.
lado temos evidências da vitalidade da ______. Ministério da Saúde. Conselho
sociedade e seus diferentes modos de Nacional de Saúde. Seminário de
produzir a realidade. comunicação, informação e informática em
saúde. Relatório. Brasília: Ed. Ministério
da Saúde, 2005. 88 p

Para saber mais: _______. Relatório da VIII Conferência


Nacional de Saúde. Brasília, 1986.

ARAÚJO, I. Mercado simbólico: interlocução, _______. Ministério da Saúde. Relatório


luta, poder – um modelo de comunicação para da 12ª Conferência Nacional de Saúde.
políticas públicas. Tese de Doutorado, Rio Brasília, 2004.
de Janeiro: Universidade Federal do Rio CARDOSO, J. M. Comunicação, saúde e
de Janeiro, 2002. discurso preventivo: reflexões a partir de uma
ARAÚJO, I. S. et al. Promoção da Saúde e leitura das campanhas nacionais de Aids
Prevenção do HIV/Aids no Município do Rio veiculadas pela TV (1987-1999).
de Janeiro: uma metodologia de avaliação para Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro:
políticas e estratégias de comunicação. Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Relatório de pesquisa. Rio de Janeiro: 2001.
Cict/Fiocruz, 2003. FAUSTO NETO, A. Saúde em uma
ARAÚJO, I. S.; CARDOSO, J. M. sociedade midiatizada. In: Revista Eco-
Comunicação e Saúde. Rio de Janeiro: Pós, v. 10, n.1, jan-jul. Rio de Janeiro:
Editora Fiocruz, 2007. E-Papers,198-205, 2007.

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da _________. Comunicação e Mídia Impressa.


linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988. Estudo sobre a Aids. São Paulo: Hacker,
1999.
___________. Os gêneros do discurso.
In: A estética da criação verbal. São Paulo: FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ.
Martins Fontes, p. 277-326, 1992. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio
Arouca. Cadernos de Saúde Pública.
BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Participação popular e controle de
Lisboa: Difel, 1989. endemias. v. 14, suplemento 2. Rio de
___________. A Economia das Trocas Janeiro: Ensp/Fiocruz, 1998.
Lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ.
___________. Razões Práticas: sobre a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio
teoria da ação. Campinas: Papirus, 1997. Arouca. Cadernos de Saúde Pública.

102
Comunicação e Saúde A

Educação em saúde: novas perspectivas. UNIVERSIDADE FEDERAL DO C


v. 15, suplemento 2. Rio de Janeiro: RIO DE JANEIRO. Escola de
Ensp/Fiocruz, 1999. Comunicação. Revista Eco-Pós. Dossiê D
Comunicação e Saúde, v. 10-1, 2007.
MATTELART, A.; MATTELART, M.
História das Teorias da Comunicação. São WOLF, M. Teorias da Comunicação. E
Paulo: Loyola, 1999. Lisboa: Presença, 1995.

NILO, A. et al. (Orgs.). Comunicaids: Links: F


políticas públicas e estratégias para o controle Conselho Nacional de Saúde (CNS) –
social. São Paulo: Ágil, 2005. <http://conselho.saude.gov.br/> –, G
onde se pode acessar textos e propostas
OLIVEIRA, V. C. Desafios e
sobre comunicação no controle social.
contradições comunicacionais nos H
Conselhos de Saúde. In: Comunicação e Grupo de Trabalho (GT) de Comu-
nicação e Saúde da Associação Brasileira
Informação em Saúde para o Exercício do
de Pós-Graduação em Saúde Coletiva -
I
Controle Social. Brasília: Ministério da
Saúde/Conselho Nacional de Saúde, Abrasco <www.abrasco.org.br /grupos/
2006.
g7.php>. N
Inter vozes – Coletivo Brasil de
PITTA, A. M. da R. (Org.). Saúde e
Comunicação Social – http:// O
Comunicação: visibilidades e silêncios. Rio de
www.intervozes.org.br/
Janeiro: Hucitec/Abrasco, 1995.
Observatório do Direito à Comunicação P
SPINK, M. J. (Org.). Práticas Discursivas – http://www.direitoacomunicacao.
e Produção de Sentido no Cotidiano:
aproximações teóricas e metodológicas. São
org.br/novo/ Q
Paulo: Cortez, 1999. Revista Interface: Comunicação, Saúde,
Educação, editada pela Universidade R
SODRÉ, M. Antropológica do espelho – uma Estadual Paulista (Unesp) e pela
teoria da comunicação linear e em rede. 2a ed. Fundação Uni/Botucatu www.interface.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2006, 268 p. org.br S

103
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

CONTROLE SOCIAL

Maria Valéria Costa Correia

A expressão ‘controle social’ tem Hobbes, Locke e Rousseau, jusnatura-


origem na sociologia. De forma geral listas cujos fundamentos estão guiados
é empregada para designar os meca- pela razão abstrata – o ponto em co-
nismos que estabelecem a ordem soci- mum é o conceito de sociedade civil
al disciplinando a sociedade e subme- como sinônimo de sociedade política
tendo os indivíduos a determinados contraposta ao estado de natureza, em
padrões sociais e princípios morais. que o Estado é a instância que preserva
Assim sendo, assegura a conformida- a organização da sociedade, a partir de
de de comportamento dos indivíduos um contrato social –, diferem quanto à
a um conjunto de regras e princípios concepção de ‘contrato social’ que fun-
prescritos e sancionados. Mannheim da o Estado.
(1971, p. 178) a define como o “con- Hobbes atribuiu ao Estado poder
junto de métodos pelos quais a socie- absoluto de controlar os membros da
dade influencia o comportamento sociedade, os quais lhe entregariam sua
humano, tendo em vista manter deter- liberdade e se tornariam voluntaria-
minada ordem”. mente seus ‘súditos’ para acabar com
Na teoria política, o significado de a guerra de todos contra todos e para
‘controle social’ é ambíguo, podendo garantir a segurança e a posse da pro-
ser concebido em sentidos diferentes priedade. Locke limitou o poder do
a partir de concepções de Estado e de Estado à garantia dos direitos naturais
sociedade civil distintas. Tanto é em- à vida, à liberdade e, principalmente, à
pregado para designar o controle do propriedade. O ‘povo’ – que, para
Estado sobre a sociedade quanto para Locke, era a sociedade dos proprietá-
designar o controle da sociedade (ou rios – mantém o controle sobre o po-
de setores organizados na sociedade) der supremo civil, que é o legislativo,
sobre as ações do Estado. no sentido de que este cumpra o dever
Nos clássicos da política, expoen- que lhe foi confiado: a defesa e a ga-
tes do contratualismo moderno, rantia da propriedade. Em toda a obra

104
Controle Social A

de Rousseau – O Contrato Social – per- A partir do referencial teórico do C


passa a idéia do poder pertencente ao marxista italiano, Gramsci, em que
povo e/ou sob seu controle. O autor não existe uma oposição entre Esta- D
defendeu o governo republicano com do e sociedade civil, mas uma relação
orgânica, pois a oposição real se dá
E
legitimidade e sob controle do povo;
considerava necessária uma grande vi- entre as classes sociais, pode-se infe-
F
gilância em relação ao executivo, por rir que o ‘controle social’ acontece na
sua tendência a agir contra a autorida- disputa entre essas classes pela
G
de soberana (povo, vontade geral). hegemonia na sociedade civil e no
Nesta perspectiva, o ‘controle social’ é Estado. Somente a devida análise da H
do povo sobre o Estado para a garan- correlação de forças entre as mesmas,
tia da soberania popular. em cada momento histórico, é que vai I
avaliar que classe obtém o ‘controle
Para algumas análises marxistas, “a social’ sobre o conjunto da socieda- N
burguesia tem no Estado, enquanto ór- de. Assim, o ‘controle social’ é con-
gão de dominação de classe por exce- traditório – ora é de uma classe, ora é O
lência, o aparato privilegiado no exercí- de outra – e está balizado pela referi-
cio do controle social” (Iamamoto & da correlação de forças. P
Carvalho, 1988, p. 108). Na economia Na perspectiva das classes subal-
capitalista, o Estado tem exercido o ‘con- ternas, o ‘controle social’ deve se dar Q
trole social’ sobre o conjunto da socie- no sentido de estas formarem cada vez
dade em favor dos interesses da classe mais consensos na sociedade civil em R
dominante para garantia do consenso em torno do seu projeto de classe, passan-
torno da aceitação da ordem do capital. do do momento ‘econômico- S
Esse controle é realizado através da in- corporativo’ ao ‘ético-político’, supe-
tervenção do Estado sobre os conflitos rando a racionalidade capitalista e tor- T
sociais imanentes da reprodução do ca- nando-se protagonista da história,
pital, implementando políticas sociais efetivando uma ‘reforma intelectual e U
para manter a atual ordem, difundindo a moral’ vinculada às transformações
econômicas. Esta classe deve ter como
V
ideologia dominante e interferindo no
“cotidiano da vida dos indivíduos, refor- estratégia o controle das ações do Es-
A
çando a internalização de normas e com- tado para que este incorpore seus in-
portamentos legitimados socialmente” teresses, na medida que tem represen-
A
(Iamamoto & Carvalho, 1988, p. 109). tado predominantemente os interesses

105
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

da classe dominante. Desta forma, o to do capitalismo na sua for ma


‘controle social’, na perspectiva das monopolista. Com o processo de de-
classes subalternas, visa à atuação de mocratização e efervescência política
setores organizados na sociedade civil e o ressurgimento dos movimentos so-
que as representam na gestão das polí- ciais contrários aos governos autoritá-
ticas públicas no sentido de controlá- rios, criou-se um contraponto entre um
las para que atendam, cada vez mais, Estado ditatorial e uma sociedade civil
às demandas e aos interesses dessas sedenta por mudanças. Este contexto
classes. Neste sentido, o ‘controle so- caracterizou uma pseudodicotomia en-
cial’ envolve a capacidade que as clas- tre Estado e sociedade civil e uma
ses subalternas, em luta na sociedade pseudo-homogeneização desta última
civil, têm para interferir na gestão pú- como se ela fosse composta unicamen-
blica, orientando as ações do Estado e te por setores progressistas, ou pelas
os gastos estatais na direção dos seus classes subalternas. A sociedade civil
interesses de classe, tendo em vista a era tratada como a condensação dos
construção de sua hegemonia. setores progressistas contra um Esta-
A expressão ‘controle social’ tem do autoritário e ditatorial, tornando-
sido alvo das discussões e práticas re- se comum falar da necessidade do con-
centes de diversos segmentos da soci- trole da sociedade civil sobre o Estado
edade como sinônimo de participação (Coutinho, 2002).
social nas políticas públicas. No período de democratização
Durante o período da ditadura do país, em uma conjuntura de
militar, o ‘controle social’ da classe do- mobilização política principalmente
minante foi exercido através do Esta- na segunda metade da década de
do autoritário sobre o conjunto da so- 1980, o debate sobre a participação
ciedade, por meio de decretos secre- social voltou à tona, com uma dimen-
tos, atos institucionais e repressão. são de controle de setores organiza-
Nesse período, a ausência de dos na sociedade civil sobre o Esta-
interlocução com os setores organiza- do. A participação social nas políti-
dos da sociedade, ou mesmo a proibi- cas públicas foi concebida na pers-
ção da organização ou expressão dos pectiva do ‘controle social’ no senti-
mesmos foi a forma que a classe do- do de os setores organizados da so-
minante encontrou para exercer o seu ciedade participarem desde as suas
domínio promovendo o fortalecimen- formulações – planos, programas e

106
Controle Social A

projetos –, acompanhamento de suas institucionalizada na Lei 8.142/90, atra- C


execuções até a definição da alocação vés das conferências que têm como
de recursos para que estas atendam objetivo avaliar e propor diretrizes para D
aos interesses da coletividade. a política de saúde nas três esferas de
A área da saúde foi pioneira neste governo e através dos conselhos – ins-
E
processo devido à efervescência polí- tâncias colegiadas de caráter perma-
F
tica que a caracterizou desde o final da nente e deliberativo, com composição
década de 1970 e à organização do paritária entre os representantes dos
G
Movimento da Reforma Sanitária que segmentos dos usuários, que congre-
congregou movimentos sociais, inte- gam setores organizados, na socieda- H
lectuais e partidos de esquerda na luta de civil e nos demais segmentos
contra a ditadura com vistas à mudan- (gestores públicos, filantrópicos e pri- I
ça do modelo ‘médico-assistencial vados e trabalhadores da saúde), e que
privatista’ (Mendes, 1994) para um sis- objetivam o ‘controle social’. N
tema nacional de saúde universal, pú- Vários autores brasileiros vêm tra-
blico, participativo, descentralizado e balhando a temática do ‘controle soci- O
de qualidade. al’ no eixo das políticas sociais. Para
A participação no Sistema Único Carvalho (1995, p. 8), “controle social P
de Saúde (SUS) na perspectiva do ‘con- é expressão de uso recente e
trole social’ foi um dos eixos dos de- corresponde a uma moderna compre- Q
bates da VIII Conferência Nacional de ensão de relação Estado-sociedade,
Saúde, realizada em 1986. Nessa con- onde a esta cabe estabelecer práticas R
ferência, a participação em saúde é de- de vigilância e controle sobre aquele”.
finida como “o conjunto de interven- Valla (1993) inscreveu o ‘controle so- S
ções que as diferentes forças sociais cial’ dos serviços de saúde em um Es-
realizam para influenciar a formulação, tado democrático que vem passando T
a execução e a avaliação das políticas por mudanças no modo de planejar e
públicas para o setor saúde” (Macha- gerenciar recursos. U
do, 1987, p. 299). O ‘controle social’ é Na mesma direção, Barros (1998)
apontado como um dos princípios trata o ‘controle social’ sobre a ação
V
alimentadores da reformulação do sis- estatal dentro da perspectiva da demo-
A
tema nacional de saúde e como via cratização dos processos decisórios
imprescindível para a sua democrati- com vistas à construção da cidadania.
A
zação. Esta participação foi Destaca que “ao longo de décadas, os

107
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

governos submeteram os objetivos de tendência neoconservadora da políti-


sua ação aos interesses particulares de ca que questiona a democracia
alguns grupos dominantes, sem qual- participativa, defendendo, apenas a
quer compromisso com o interesse da democracia representativa.
coletividade” (Barros, 1998, p. 31). Abreu (1999, p. 61) analisa, a partir
Neste sentido, é que houve a da categoria gramsciana de Estado am-
‘privatização do Estado’. Em pliado (relação orgânica entre sociedade
contraponto a esta realidade, o autor política e sociedade civil), a dimensão
afirma que a concepção de gestão pú- política dos ‘conselhos de direitos’, e tem
blica do SUS é essencialmente demo- como hipótese central que, com o for-
crática, devendo ser submetida ao con- mato atual, “se identificam muito mais
trole da sociedade. Cohn (2000) afir- com as estratégias do controle do capi-
ma que o termo ‘controle social’ vem tal do que com a luta da classe trabalha-
sendo utilizado para designar a parti- dora no sentido da transformação da
cipação da sociedade prevista na legis- correlação das forças, tendo em vista a
lação do SUS. sua emancipação econômica, política e
Bravo e Souza (2002) fazem uma social”. Correia (2002) também parte do
análise das quatro posições teóricas e conceito gramsciano de Estado e consi-
políticas que têm embasado o debate dera o campo das políticas sociais como
sobre os conselhos de saúde e o ‘con- contraditório, pois, através deste o Esta-
trole social’. A primeira, baseia-se no do controla a sociedade, ao mesmo tem-
aparato teórico de Gramsci, a segunda po em que apreende algumas de suas
na concepção de consenso de demandas. O ‘controle social’ envolve a
Habermas e dos neo-habermasianos capacidade que os movimentos sociais
que consideram os conselhos como organizados na sociedade civil têm de in-
espaço de formação de consensos, terferir na gestão pública, orientando as
através de pactuações. A terceira posi- ações do Estado e os gastos estatais na
ção teórica é influenciada pela visão direção dos interesses da maioria da po-
estruturalista althusseriana do marxis- pulação. Conseqüentemente, implica o
mo que nega a historicidade e a dimen- ‘controle social’ sobre o fundo público
são objetiva do real, analisando o Es- (Correia, 2003).
tado e as instituições como aparelhos Obser va-se que os autores
repressivos da dominação burguesa. A supracitados, apesar de utilizarem
quarta posição é a representada pela referenciais teóricos diferentes nas

108
Controle Social A

suas análises, têm em comum tratar o BARROS, M. E. D. O controle social e C


o processo de descentralização dos
‘controle social’ dentro da relação Es-
tado e sociedade civil, apresentando os
ser viços de saúde. In: Incentivo à D
Participação Popular e Controle Social no SUS:
conselhos ‘gestores’, ou ‘de gestão textos técnicos para conselheiros de saúde.
setorial’, ou ‘de direitos’, como instân- Brasília: IEC, 1998. E
cias participativas, resultado do pro- BRASIL. Lei n. 8.142 de 28 de dezembro
cesso de democratização do Estado de 1990. Dispõe sobre a participação da F
comunidade na gestão do Sistema Único
brasileiro. As três últimas autoras dei-
de Saúde - SUS e sobre as transferências G
xam clara a opção por uma análise des- interg overnamentais de recursos
ta temática a partir de uma perspecti- financeiros na área de saúde e outras
providências. Brasília: Ministério da H
va classista, problematizando o ‘con-
Saúde, 1990.
trole social’ dentro das contradições da
BRASIL. Relatório Final da XI I
sociedade de classes.
Conferência Nacional de Saúde. Brasília:
Além dos conselhos e conferênci- Ministério da Saúde, 2000. N
as de saúde, a população pode recorrer a
BRASIL. Relatório Final da XII
outros mecanismos de garantia dos di- Conferência Nacional de Saúde. Brasília: O
reitos sociais, em especial o direito à saú- Ministério da Saúde, 2003. Disponível
em: <http://conselho.saude.gov.br>.
de, por exemplo, o ministério público, a P
comissão de seguridade social e/ou da BRAVO, M. I. S. & SOUZA, R. de O.
saúde do Congresso Nacional, das as- Conselhos de saúde e serviço social: luta
política e trabalho profissional. Ser Social,
Q
sembléias legislativas e das câmaras de ve- 10: 15-27, 2002.
readores, a Promotoria dos Direitos do R
CARVALHO, A. I. de. Conselhos de Saúde
Consumidor (Procon), os conselhos pro- no Brasil: participação cidadã e controle social.
fissionais etc. A denúncia através dos mei- Rio de Janeiro: Fase/Ibam, 1995. S
os de comunicação – rádios, jornais, televi- CARVALHO, G. I. & SANTOS, L. dos.
são e internet – também é um forte instru- Das formas de controle social sobre T
mento de pressão na defesa dos direitos. ações e os serviços de saúde. Brasília:
Ministério da Saúde, 1992. v. I. U
(Cadernos da Nona)
Para saber mais: COHN, A. Cidadania e formas de V
responsabilização do poder público e
ABREU, M. M. A relação entre o Estado do setor privado pelo acesso, eqüidade,
e a sociedade civil: a questão dos qualidade e humanização na atenção à A
conselhos de direitos e a participação do saúde. Cader nos da XI Conf erência
serviço social. Serviço Social & Movimento Nacional de Saúde. Brasília: Ministério da A
Social, 1(1): 61-76, jul.-dez., 1999. Saúde, 2000.

109
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

CORREIA, M. V. C. Que controle social IAMAMOTO, M. V. & CARVALHO, R.


na política de assistência social? Serviço de. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil:
Social & Sociedade, Ano XXIII, 72: 43-60, esboço de uma inter pretação histórico-
2002. metodológica. 6.ed. São Paulo: Cortez/
Celats, 1988.
CORREIA, M. V. C. Que Controle Social?
Os conselhos de saúde como instrumento. 1a. LACERDA, E. (Org.) O SUS e o Controle
reimpressão. Rio de Janeiro: Editora Social: guia de referência para conselheiros
Fiocruz, 2003. municipais. Brasília: Ministério da Saúde,
CORREIA, M. V. C. A relação estado e 1997.
sociedade e o controle social: MACHADO, F. de A. Participação
fundamentos para o debate. Serviço Social social em saúde. Anais da VIII
& Sociedade, Ano XXIV, 77: 22-45, 2004. Conferência Nacional de Saúde. Brasília:
CORREIA, M. V. C. Desafios para o Ministério da Saúde, 1987.
Controle Social: subsídios para a capacitação MANNHEIM, K. Sociologia Sistemática:
de conselheiros. Rio de Janeiro: Editora
uma introdução ao estudo de sociologia. 2.ed.
Fiocruz, 2005.
São Paulo: Pioneira, 1971.
COUTINHO, C. N. Gramsci e a
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sociedade civil, 2002. Disponível em:
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<http//www.Gramsci.org/>. Acesso
em: 20 nov. 2003. sanitárias do Sistema Único de Saúde. 2.ed.
São Paulo: Hucitec, 1994.
GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere:
Maquiavel - notas sobre o Estado e a política. VALLA, V. V. (Org.) Participação Popular
Edição e Tradução de Carlos Nelson e os Serviços de Saúde: o controle social como
Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização exercício da cidadania. Rio de Janeiro: Pares,
Brasileira, 2000. V.3 1993.
                                         
CUIDADO EM SAÚDE

Roseni Pinheiro

Cuidado e a vida cotidiana gares e tempos distintos de sua realiza-


ção. A importância da vida cotidiana na
Cuidado é um ‘modo de fazer na produção do ‘cuidado’ está na oferta de
vida cotidiana’ que se caracteriza pela múltiplas questões específicas que cir-
‘atenção’, ‘responsabilidade’, ‘zelo’ e culam no espaço da vida social e nos
‘desvelo’ ‘com pessoas e coisas’ em lu- conteúdos históricos que carregam.

110
Cuidado em Saúde A

O cotidiano é produzido social e dade ou domínio próprio sobre um C


historicamente sob dois ângulos: pri- conjunto de conhecimentos voltados
meiro, porque se trata – como noção para o ‘outro’. D
geral e dimensão do conhecimento – O outro é o lugar do ‘cuidado’. O
do ‘vivido’, quer dizer, do repetitivo- outro tem no seu olhar o caminho para
E
singular, do conjuntural-estrutural: no construção do seu ‘cuidado’, cujo su-
F
cotidiano ‘as coisas acontecem sem- jeito que se responsabiliza por praticá-
pre’. Segundo, porque essa noção se lo tem a tarefa de garantir-lhe a auto-
G
constrói e se identifica com o dia- nomia acerca do modo de andar de sua
após-dia em que tudo é igual e tudo própria vida. H
muda – ‘nada como um dia após o
outro’ – ao menos em algumas socie- I
dades, não em todas. Prática do cuidar e os
O dia-após-dia assim concebido praticantes N
é uma dimensão da vida social singu-
lar-específica, o que significa dizer que Cuidar deriva do latim cogitare que O
ele delimita tempos, espaços, interações, significa ‘imaginar’ ‘pensar’, ‘meditar’,
ou seja, um modo de vida, cuja produ- ‘julgar’, ‘supor’, ‘tratar’, ‘aplicar’ a aten- P
ção de ‘cuidado’ se faz contextualizada ção, ‘refletir’, ‘prevenir’ e ‘ter-se’. Cui-
exercendo efeitos e repercussões na dar é o ‘cuidado’ em ato. A origem da Q
vida dos sujeitos e se transformando prática de cuidar teve seu início restri-
em ‘experiência humana’. to ao espaço doméstico, privado, par- R
O ‘cuidado’ consiste em um modo ticular. Desde a Grécia Antiga identi-
de agir que é produzido como ‘experi- fica-se que a prática do cuidar vem sen- S
ência de um modo de vida específico e do exercida no interior das famílias, e
delineado’ por aspectos políticos, so- sua realização demandava um saber T
ciais, culturais e históricos, que se tra- prático adquirido no fazer cotidiano,
duzem em ‘práticas’ de ‘espaço’ e na passando, assim, de geração a geração. U
‘ação’ de ‘cidadãos’ sobre os ‘outros’ Nesta época, a gestão do cuidado era uma
em uma dada sociedade. Daí o ‘cuida- tarefa feminina. Quem cuidava da casa
V
do como ato’ resulta na ‘prática do dos filhos, dos escravos dos doentes eram
A
cuidar’, que, ao ser exercida por um as mulheres. Aliás, uma responsabilida-
cidadão, um sujeito, reveste-se de no- de bastante repetida até os dias de hoje
A
vos sentidos imprimindo uma identi- em muito cotidianos familiares.

111
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Em um determinado momento, tudo com a contribuição do movimen-


boa parte desse saber foi concebido to feminista e sua produção de conhe-
como profissão de mulheres e para cimentos, têm contribuído de forma
mulheres, sobretudo na saúde foi a decisiva para modificá-lo. No mundo
enfermagem a profissão que mais in- contemporâneo, constata-se que a prá-
corporou a prática do cuidar como cam- tica de pesquisar é sinérgica à prática
po de domínio próprio. Não é à toa que do cuidar e vice-versa, na medida em
a prática de cuidar está histórica e cultu- que a vida cotidiana evidencia cada vez
ralmente conectada ao feminino, pois, ao mais a crescente demanda por ‘cuida-
longo dos anos, essa atividade esteve atre- do’. Mais que isso, constata-se que a
lada à trajetória desenvolvida pela mu- demanda por ‘cuidado’ vem, dia-após-
lher nas sociedades ocidentais modernas. dia, se complexificando, o que tem
Por outro lado, a prática de pesquisar, exigido cada vez mais a atuação de
ou seja, de criar novos conhecimentos, diferentes sujeitos-cidadãos-profissi-
historicamente, tem sido concebida onais, mulheres e homens, cujo ‘ou-
como prática masculina. tro’ demandante, cada vez mais re-
Vemos nesta concepção uma ex- quererá atenção, responsabilidade,
pressão da divisão social e sexual do zelo e desvelo com seus desejos, suas
trabalho, na qual a sociedade delimita aspirações e especificidades, de modo
com bastante precisão os campos em a incluí-lo na tomada de
que pode operar a mulher, da mesma decisão sobre sua vida, ou melhor di-
forma como escolhe os terrenos em zendo, sobre sua saúde.
que pode atuar o homem. Pierre
Bourdieu é um dos autores que desta-
ca que o mundo social produz nos su- Cuidado Integral de Saúde
jeitos um modo de ser e de estar no
mundo, e este é diferenciado para ho- ‘Cuidado em saúde’ não é apenas
mens e mulheres. Ou seja, a sociedade um nível de atenção do sistema de saú-
acaba por imprimir na mulher um con- de ou um procedimento técnico sim-
junto de valores que lhe confere uma plificado, mas uma ação integral que
performance específica. tem significados e sentidos voltados
Entretanto, vários movimentos para compreensão de saúde como o
reflexivos de crítica a esse modelo ‘direito de ser’. Pensar o direito de ser
societal de divisão do trabalho, sobre- na saúde é ter ‘cuidado’ com as dife-

112
Cuidado em Saúde A

renças dos sujeitos – respeitando as re- a falta de ‘cuidado’ – ou seja o descaso, C


lações de etnia, gênero e raça – que são o abandono, o desamparo – pode agra-
portadores não somente de deficiên- var o sofrimento dos pacientes e au- D
cias ou patologias, mas de necessida- mentar o isolamento social causado
des específicas. Pensar o direito de ser pelo adoecimento. O modelo
E
é garantir acesso às outras práticas biomédico que orienta o conjunto das
F
terapêuticas, permitindo ao usuário profissões em saúde, ao se apoiar nos
participar ativamente da decisão acer- meios diagnósticos para evidenciar le-
G
ca da melhor tecnologia médica a ser ões e doenças, afastou-se do sujeito
por ele utilizada. humano sofredor como totalidade viva H
‘Cuidado em saúde’ é o tratar, o e permitiu que o diagnóstico substitu-
respeitar, o acolher, o atender o ser ísse a atenção e o ‘cuidado’ integral à I
humano em seu sofrimento – em gran- saúde. Entretanto, mais do que o diag-
de medida fruto de sua fragilidade so- nóstico, os sujeitos desejam se sentir N
cial –, mas com qualidade e cuidados e acolhidos em suas deman-
resolutividade de seus problemas. O das e necessidades. O
‘cuidado em saúde’ é uma ação inte- O ‘cuidado em saúde’ é uma di-
gral fruto do ‘entre-relações’ de pes- mensão da integralidade em saúde que P
soas, ou seja, ação integral como efei- deve permear as práticas de saúde, não
tos e repercussões de interações posi- podendo se restringir apenas às com- Q
tivas entre usuários, profissionais e ins- petências e tarefas técnicas, pois o
tituições, que são traduzidas em atitu- acolhimento, os vínculos de intersub- R
des, tais como: tratamento digno e res- jetividade e a escuta dos sujeitos com-
peitoso, com qualidade, acolhimento e põem os elementos inerentes à sua S
vínculo. O cuidar em saúde é uma ati- constituição. O ‘cuidado’ é uma rela-
tude interativa que inclui o ção intersubjetiva que se desenvolve T
envolvimento e o relacionamento entre em um tempo contínuo, e que, além
as partes, compreendendo acolhimen- do saber profissional e das tecnologias U
to como escuta do sujeito, respeito pelo necessárias, abre espaço para negocia-
seu sofrimento e história de vida. ção e a inclusão do saber, dos desejos
V
Se, por um lado, o ‘cuidado em e das necessidades do outro.
A
saúde’, seja dos profissionais ou de O trabalho interdisciplinar e a
outros relacionamentos, pode diminuir ar ticulação dos pr ofissionais,
A
o impacto do adoecimento, por outro, gestores dos serviços de saúde e u-

113
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

suários em redes, de tal modo que Para saber mais:


todos participem ativamente, po-
dem ampliar o ‘cuidado’ e fortale- PINHEIRO, R. & MATTOS, R. A.
Cuidado: as fronteiras da integralidade. 3.ed.
cer a rede de apoio social. Com isso,
Hucitec/IMS/Uerj-Abrasco. 2005.
a noção de ‘cuidado’ integral per-
ANDRADE, M. M. A Vida Comum:
mite inserir, no âmbito da saúde, as
espaço, cotidiano e cidade na Atenas Clássica.
preocupações pelo bem- Rio de Janeiro: Eduff, 2002.
estar dos indivíduos – opondo-se a DAHER, D. V. et al. Cuidar e pesquisar:
uma visão meramente economicista práticas complementares ou
– e devolver a esses indivíduos o po- excludentes? Revista Latino-americana de
Enfermagem, 10(2): 145-150, mar.-abr.,
der de julgar quais são suas necessi-
2002.
dades de saúde, situando-os assim
AYRES, J. R. Sujeito, intersubjetividade
como outros sujeitos e não como e práticas de saúde. Ciência & Saúde
outros-objetos. Coletiva, 6(1): 63-72, 2001.












































CURRÍCULO INTEGRADO

Marise Nogueira Ramos

Santomé (1998) explica que a de- Bernstein (1996) sobre os processos de


nominação ‘currículo integrado’ tem compartimentação dos saberes, na qual
sido utilizada como tentativa de con- ele introduz os conceitos de classifica-
templar uma compreensão global do ção e enquadramento. A classificação
conhecimento e de promover maiores refere-se ao grau de manutenção de
parcelas de interdisciplinaridade na sua fronteiras entre os conteúdos, enquan-
construção. A integração ressaltaria a to o enquadramento, à força da frontei-
unidade que deve existir entre as dife- ra entre o que pode e o que não pode
rentes disciplinas e formas de conhe- ser transmitido numa relação pedagó-
cimento nas instituições escolares. gica. À organização do conhecimento
A idéia de integração em educação escolar que envolve alto grau de classi-
é também tributária da análise de ficação associa-se um currículo que o

114
Currículo Integrado A

autor denomina ‘código coleção’; à or- e busca definir as finalidades da edu- C


ganização que vise à redução do nível cação escolar por referência às neces-
de classificação associa-se um currículo sidades da formação humana. Com D
denominado ‘código integrado’. isto, defende que as aprendizagens
Segundo Bernstein, a integração escolares devem possibilitar à classe
E
coloca as disciplinas e cursos isolados trabalhadora a compreensão da reali-
F
numa perspectiva relacional, de tal dade para além de sua aparência e, as-
modo que o abrandamento dos sim, o desenvolvimento de condições
G
enquadramentos e das classificações do para transformá-la em benefício das
conhecimento escolar promove maior suas necessidades de classe. H
iniciativa de professores e alunos, mai- Esta proposta integra, ainda,
or integração dos saberes escolares formação geral, técnica e política, I
com os saberes cotidianos dos tendo o trabalho como princípio
alunos, combatendo, assim, a visão educativo. Desse princípio, que se N
hierárquica e dogmática do conheci- torna eixo epistemológico e ético-
mento. Em síntese, o autor aposta na político de organização curricular, O
possibilidade de os códigos integrados decorrem os outros dois eixos do
garantirem uma forma de socialização ‘currículo integrado’, a saber: a ciên- P
apropriada do conhecimento, capaz de cia e a cultura. O trabalho é o princí-
atender às mudanças em curso no pio educativo no sentido ontológico, Q
mundo do trabalho mediante o desen- pelo qual ele é compreendido como
volvimento de operações globais. Isso práxis humana e a forma pela qual o R
contribuiria para a construção de uma homem produz sua própria existên-
educação mais igualitária, visando à cia na relação com a natureza e com S
superação de problemas de so- os outros homens. Sob o princípio
cialização diante dos sistemas de do trabalho, o processo formativo T
valores próprios das sociedades indus- proporciona a compreensão da
triais avançadas. historicidade da produção científica U
Essas análises colocam a necessi- e tecnológica, como conhecimentos
dade de relacionar o âmbito escolar à desenvolvidos e apropriados social-
V
prática social concreta. A proposta de mente para a transformação das con-
A
‘currículo integrado’ na perspectiva da dições naturais da vida e a ampliação
formação politécnica e omnilateral dos das capacidades, das potencialidades
A
trabalhadores incorpora essas análises e dos sentidos humanos.

115
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

O sentido histórico do trabalho, construção de novos conhecimentos.


que no sistema capitalista se transfor- A formação profissional, por sua
ma em trabalho assalariado, também vez, é um meio pelo qual o conhecimen-
traz fundamentos e orienta finalidades to científico adquire, para o trabalhador,
da formação, na medida em que o sentido de força produtiva, traduzin-
expressa as exigências específicas para do-se em técnicas e procedimentos, a
o processo educativo, visando à par- partir da compreensão dos conceitos ci-
ticipação direta dos membros da entíficos e tecnológicos básicos.
sociedade no trabalho socialmente pro- Por fim, a concepção de cultura
dutivo. Com este sentido, conquanto que embasa a síntese entre formação
também organize a base unitária do geral e formação específica a compre-
currículo, fundamenta e justifica a for- ende como as diferentes formas de
mação específica para o exercício de criação da sociedade, de tal modo que
profissões, entendidas como uma for- o conhecimento característico de um
ma contratual socialmente reconheci- tempo histórico e de um grupo social
da do processo de compra e venda da traz a marca das razões, dos proble-
força de trabalho. Como razão da for- mas e das dúvidas que motivaram o
mação específica, o trabalho aqui se avanço do conhecimento numa socie-
configura também como um contexto dade. Esta é a base do historicismo
de formação. como método (Gramsci, 1991) que aju-
A essa concepção de trabalho as- da a superar o enciclopedismo – quan-
socia-se a concepção de ciência: conhe- do conceitos históricos são transfor-
cimentos produzidos e legitimados mados em dogmas – e o
socialmente ao longo da história como espontaneísmo – forma acrítica de
resultados de um processo empreen- apropriação dos fenômenos que não
dido pela humanidade na busca da ultrapassa o senso comum.
compreensão e transformação dos fe- No ‘currículo integrado’, conhe-
nômenos naturais e sociais. Nesse sen- cimentos de formação geral e especí-
tido, a ciência conforma conceitos e ficos para o exercício profissional tam-
métodos cuja objetividade permite a bém se integram. Um conceito especí-
transmissão para diferentes gerações, fico não é abordado de forma técnica
ao mesmo tempo em que podem ser e instr umental, mas visando a
questionados e superados historica- compreendê-lo como construção his-
mente no movimento permanente de tórico-cultural no processo de desen-

116
Currículo Integrado A

volvimento da ciência com finalidades assim como o sentido objetivo dos fa- C
produtivas. Em razão disto, no ‘currí- tos. Isto dá a direção para a definição
culo integrado’ nenhum conhecimen- de componentes curriculares. D
to é só geral, posto que estrutura O método histórico-dialético de-
objetivos de produção, nem somente fine que é a partir do conhecimento
E
específico, pois nenhum conceito apro- na sua forma mais contemporânea que
F
priado produtivamente pode ser for- se pode compreender a realidade e a
mulado ou compreendido desarticula- própria ciência na sua historicidade. Os
G
damente das ciências e das linguagens. processos de trabalho e as tecnologias
O currículo formal exige a sele- correspondem a momentos da evolu- H
ção e a organização desses conheci- ção das forças materiais de produção
mentos em componentes curriculares, e podem ser tomados como um pon- I
sejam eles em forma de disciplinas, to de partida histórico e dialético para
módulos, projetos etc., mas a o processo pedagógico. Histórico por- N
integração pressupõe o reestabeleci- que o trabalho pedagógico fecundo
mento da relação entre os conhecimen- ocupa-se em evidenciar, juntamente O
tos selecionados. Como o currículo não aos conceitos, as razões, os problemas,
pode compreender a totalidade, a sele- as necessidades e as dúvidas que cons- P
ção é orientada pela possibilidade de tituem o contexto de produção de um
proporcionar a maior aproximação do conhecimento. A apreensão de conhe- Q
real, por expressar as relações funda- cimentos na sua forma mais elaborada
mentais que definem a realidade. Se- permite compreender os fundamentos R
gundo Kosik (1978), cada fato ou con- prévios que levaram ao estágio atual de
junto de fatos, na sua essência, reflete compreensão do fenômeno estudado. S
toda a realidade com maior ou menor Dialético porque a razão de estudar um
riqueza ou completude. Por esta razão, processo de trabalho não está na sua T
é possível que um fato deponha mais estrutura formal e procedimental apa-
que um outro na explicação do real. rente, mas na tentativa de captar os U
Assim, a possibilidade de conhecer a conceitos que o fundamentam e as re-
totalidade a partir das partes é dada pela lações que o constituem. Estes podem
V
possibilidade de identificar os fatos ou estar em conflito ou ser questionados
A
conjunto de fatos que deponham mais por outros conceitos.
sobre a essência do real; e, ainda, de O ‘currículo integrado’ organiza o
A
distinguir o essencial do assessório, conhecimento e desenvolve o processo

117
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

de ensino-aprendizagem de forma que ciências sociais. In: JANTSCH, A. P. &


os conceitos sejam apreendidos como BIANCHETTI, L. (Orgs.) A
sistema de relações de uma totalidade Interdisciplinaridade: para além da filosofia do
sujeito. Petrópolis: Vozes, 1995.
concreta que se pretende explicar/
compreender. No trabalho pedagógi- FRIGOTTO, G.; CIAVATTA, M. &
co, o método de exposição deve resta- RAMOS, M. (Orgs.) Ensino Médio
belecer as relações dinâmicas e Integrado: concepção e contradições. São Paulo:
Cortez, 2005.
dialéticas entre os conceitos,
reconstituindo as relações que confi- GADOTTI, M. Concepção Dialética da
guram a totalidade concreta da qual se História. São Paulo: Cortez, 1995.
originaram, de modo que o objeto a GRAMSCI, A. Os Intelectuais e a
ser conhecido revele-se grada- Organização da Cultura. Rio de Janeiro:
tivamente em suas peculiaridades Civilização Brasileira, 1991.
próprias (Gadotti, 1995). KOSIK, K. Dialética do Concr eto.
Petrópolis: Vozes, 1978.
A interdisciplinaridade, como
método, é a reconstituição da totali- MARX, K. Introdução. In: MARX,
dade pela relação entre os conceitos K. Crítica da Filosofia do Direito de
originados a partir de distintos re- Hegel. São Paulo: s.n., 1977. (Temas
de Ciências Humanas)
cortes da realidade; isto é, dos diver-
sos campos da ciência representados MÉSZÁROS, I. Marx: a teoria da alienação.
em disciplinas. Isto tem como obje- Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
tivo possibilitar a compreensão do RAMOS, M. N. A Pedagogia das
significado dos conceitos, das razões Competências: autonomia ou adaptação? São
e dos métodos pelos quais se pode Paulo: Cortez Editora, 2001.
conhecer o real e apropriá-lo em seu RAMOS, M. N. O “novo ensino médio”
potencial para o ser humano. à luz de antigos princípios: trabalho,
ciência e cultura. Boletim Técnico do Senac,
29(2): 19-27, maio-ago., 2003.
Para saber mais:
SANTOMÉ, J. Globalização e
Interdisciplinaridade: o currículo integrado.
BERNSTEIN, B. A Estruturação do
Discurso Pedagógico: classe, código e controle. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
Petrópolis: Vozes, 1996. SAVIANI, D. Sobre a Concepção de
FRIGOTTO. G. A interdisciplinaridade Politecnia. Rio de Janeiro: EPSJV/
como necessidade e como problema nas Fiocruz, 1989.

118
A

C
CURRÍCULO POR COMPETÊNCIAS
D
Marise Nogueira Ramos
E
O ‘currículo por competências’ mente na medida das necessidades
é o meio pelo qual a pedagogia das exigidas pelo desenvolvimento dessas
F
competências se institucionaliza na es- competências.
cola, com o objetivo de promover o Do ponto de vista da hierar-
G
encontro entre formação e emprego. quização do saber, o discurso sobre as
H
O fundamento do ‘currículo por com- competências pode ser compreendido
petências’ é a redefinição do sentido como uma tentativa de substituir uma
I
dos conteúdos de ensino, de modo a representação hierárquica estabelecida
atribuir sentido prático aos saberes es- entre os saberes e as práticas, N
colares, abandonando a preeminência notadamente aquela que se estabelece
dos saberes disciplinares para se centrar entre o ‘puro’ e o ‘aplicado’, entre o O
em competências supostamente ‘teórico’ e o ‘prático’ ou entre o ‘geral’ e
verificáveis em situações e tarefas es- o ‘técnico’ por uma representação da P
pecíficas. Essas competências devem diferenciação que seria essencialmente
ser definidas com referência às situa- horizontal e não mais vertical. Q
ções que os alunos deverão ser capa- Ao discutir a elaboração de ‘cur-
zes de compreender e dominar. So- rículos por competências’ no ensino R
mente após essas definições é que se profissionalizante, Jiménez (1995)
selecionam os conteúdos de ensino. compreende que as competências de- S
Em síntese, em vez de partir de um finidas como referências para o currí-
corpo de conteúdos disciplinares culo correspondem a unidades para as T
existentes, com base no qual se efetu- quais convergiriam e se entrecruzariam
am escolhas para cobrir os conheci- um conjunto de elementos que as U
mentos considerados mais importan- estruturam (conhecimentos, habilida-
tes, a elaboração do ‘currículo por com- des e valores). Considerar a competên- V
petências’ parte da análise de cia como unidade e ponto de conver-
situações concretas e da definição de gência entre conhecimentos, habilida- A
competências requeridas por essas si- des e valores congrega a idéia de que a
tuações, recorrendo às disciplinas so- competência constitui uma unidade e
A

119
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

de que os elementos isolados perdem processos de trabalho para os quais se


esse sentido. A autora indica duas ca- pretende formar. Quando aplicados
racterísticas que se encontram implíci- aos sistemas de formação, desta análi-
tas em qualquer definição de compe- se resultam os documentos
tência: por um lado, centrar-se no de- referenciais. Na França, eles foram cha-
sempenho; por outro, recuperar con- mados de referenciais de diploma, para
dições em que este desempenho é re- a escola, e de referenciais de emprego
levante. ou de atividades profissionais, para a
O desempenho é compreendido empresa. No Brasil, foram elaboradas
como a expressão concreta dos recur- diretrizes e referenciais curriculares na-
sos que o indivíduo articula quando cionais produzidos pelo Ministério da
realiza uma atividade. Uma formação Educação.
que persiga o desenvolvimento de Para análise dos processos de tra-
competências para o desempenho balho, ainda que exista uma variedade
pressupõe selecionar conhecimentos de metodologias, estas se originam de
dos quais os estudantes necessitam três matrizes principais: a condutivista,
para aplicar em esquemas operatórios, a funcionalista e a construtivista. A
para entender o que significam e como matriz condutivista compreende a
funcionam, facilitando a ação em situ- competência, sobretudo, como uma
ações diversas. Isto implica deixar de habilidade que descreve o que a pes-
fazer a separação entre o saber e o sa- soa pode fazer. Assim definida, as com-
ber-fazer para centrar o esforço em petências são características que dife-
resultados de aprendizagem nos quais renciam um desempenho superior de
se atinge uma integração entre ambos. um desempenho médio ou pobre. Por
Incorporar condições nas quais o isto, a análise parte da pessoa que faz
desempenho é relevante remete às con- bem seu trabalho de acordo com os
dições em que se promove e se deman- resultados esperados.
da que o indivíduo ponha em jogo seus A análise funcional se origina no
recursos. Essa concepção requer que pensamento funcionalista da sociolo-
a elaboração dos currículos ocorra por gia, tendo sido acolhida pela nova
contato direto com as situações de tra- teoria dos sistemas sociais. Por essa te-
balho, o que exige que um dos proce- oria, a análise funcional não se refere
dimentos prévios à elaboração somente ao sistema em si, mas tam-
curricular pela escola seja a análise dos bém à sua relação com o em torno

120
Currículo por Competências A

(mercado, tecnologia, relações sociais tem como finalidade evidenciar as re- C


e institucionais etc.). A análise do pro- lações mútuas e as ações existentes
cesso de trabalho é feita estabelecen- entre os grupos, seu em torno, as situ- D
do-se uma relação entre problemas e ações de trabalho e as situações de
resultados. As competências são capacitação (Schwartz apud Mertens,
E
deduzidas das relações entre resultados 1996). Ou seja, as competências não
F
e habilidades, conhecimentos e atitu- são deduzidas à parte das necessida-
des dos trabalhadores. des e propostas formativas. O méto-
G
Esta foi a perspectiva adotada pelo do rechaça a defasagem entre a cons-
Ministério da Educação no Brasil para trução das competências e a H
a elaboração dos referenciais implementação de uma estratégia de
curriculares nacionais do ensino téc- capacitação. Com isto, as competênci- I
nico. Estes ficaram organizados em as não são deduzidas somente a partir
matrizes ou quadros de competências da função ocupacional, mas concedem N
por áreas profissionais, nas quais se igual importância à pessoa, aos seus
definiram funções, subfunções que objetivos e às suas possibilidades. O
caracterizam o processo de trabalho; Os referenciais curriculares
competências e habilidades (‘saber-fa- explicitam os elementos que deverão P
zer’) requeridas pelos trabalhadores; compor o currículo para se lograr o
bases instrumentais, científicas e desenvolvimento das competências Q
tecnológicas, correspondentes aos con- requeridas pelo trabalho. Tanguy &
teúdos de ensino ou ‘saberes’ necessá- Ropé (1997) descrevem a metodologia R
rios ao desenvolvimento das respecti- de construção do referencial de diplo-
vas competências e habilidades. As ma: enuncia-se a competência global S
unidades de aprendizagem, preferen- visada (em termos de ser ‘capaz de’);
cialmente autônomas, organizadas depois, as capacidades gerais implica- T
como módulos, teriam esses das nessa competência global (que se
parâmetros como base. À conclusão de exprimem geralmente por quatro verbos U
cada módulo poder-se-ia adquirir um de ação ou sinônimos: informar-se, or-
título que habilitaria o trabalhador ao ganizar, realizar, comunicar); depois, as
V
exercício de determinadas funções e/ capacidades e competências terminais
A
ou subfunções. e, enfim, os ‘saberes’ e o ‘saber-fazer’
A matriz construtivista desenvol- que à competência global são associa-
A
vida por Bertand Schwartz, na França, dos. Ao termo desse conjunto de pro-

121
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

cedimentos, os referenciais de diplo- correspondem a duas formas de ação:


mas apresentam-se, à primeira vista, a ação mental, implícita, não
sob forma de quadros que relacionam, obser vável, correspondente à
de um lado, as funções e atividades cognição; e a ação manifesta, explícita,
principais descritas no referencial do observável, correspondente à ativida-
emprego com as capacidades e com- de. Ainda que sejam mecanismos es-
petências terminais; de outro, as com- pecíficos, capacidade e atividade ou
petências terminais com os ‘saberes’ e cognição e ação formam uma unida-
‘saber-fazer’ tecnológicos associados. de. Não obstante, os referenciais
Essa codificação dos diplomas de en- curriculares cindem esta unidade. Além
sino técnico e profissio-nalizante re- disto, afirmar que alguém deve ser ‘ca-
pousa, em última instância, sobre uma paz de’ não diz nada do conteúdo des-
lista de ‘saber-fazer’. Esses saber-fazer, sa capacidade. Conforme afirma o
unidades de base desse ordenamento mesmo autor, as listas de competênci-
técnico, são eles mesmos definidos por as nas quais se tenta basear o currículo
uma seqüência de relações de encaixe. não dizem nada sobre o que devem
Como explica Tanguy (1997), com adquirir os estudantes para serem ca-
base na regulamentação educacional pazes de fazer o que se pretende que
francesa, eles são estabelecidos com eles façam. Por isto, é preciso aceitar
base na lista de tarefas e funções ela- que o desenvolvimento de competên-
borada no referencial de atividades cias é uma conseqüência e não o con-
profissionais, podendo ser apreendi- teúdo em si da formação, e que os efei-
dos com a expressão ‘ser capaz de’. tos pretendidos com a prática pedagó-
Concretamente são descritos por um gica podem se constituir no máximo
verbo de ação e pelos objetos aos como horizontes, cujos limites se alar-
quais a ação se aplica. gam permanentemente na proporção
Críticas à tamanha racionalização de novas aprendizagens. Sendo assim,
pedagógica não são raras. Malglaive o currículo mantém-se baseado em sa-
(1994), por exemplo, argumenta que os beres de referência, oriundos dos cam-
‘saber-fazer’, evidência explícita das pos das ciências e das profissões. Pe-
competências, como ações obser- las críticas apresentadas anteriormen-
váveis, são governados por outras te, o chamado ‘currículo por compe-
ações, inobserváveis: as ações mentais. tências’ dificilmente escapa da condição
Assim, capacidade e atividade de ser um construto elaborado com

122
Currículo por Competências A

base em objetivos de ensino e de apren- humana que está em jogo na sua reali- C
dizagem, diferindo muito pouco da ló- zação. Concluímos, então, que a possi-
gica que orientou sua própria gênese: a bilidade virtuosa de relacionar as ativi- D
adequação da educação aos princípios dades pedagógicas às situações de tra-
da eficiência social. balho e à prática social em geral está
E
Deluiz (2001) discute a possibili- no horizonte e, ao mesmo tempo, no
F
dade de construção de uma matriz crí- limite em que essas relações possam se
tico-emancipatória, cujos fundamentos constituir em referências para a forma-
G
teóricos estariam no pensamento crí- ção plena dos trabalhadores, orientadas
tico-dialético, pretendendo não só pela ampliação de seus conhecimentos, H
ressignificar a noção de competência, capacidades e atividades intelectuais.
atribuindo-lhe um sentido que atenda I
aos interesses dos trabalhadores, mas
também apontar princípios orienta- Para saber mais: N
dores para a investigação dos proces-
sos de trabalho. Em convergência com DELUIZ, N. O modelo das O
esta proposição, Ramos (2005) apresen- competências profissionais no mundo
do trabalho e na educação: implicações
tou como princípio epistemológico do
para o currículo. Boletim Técnico do Senac,
P
currículo a compreensão totalizante dos mar., 2001 (Número especial)
processos de trabalho, incorporando na Q
JIMÉNEZ, M. del C. El punto de vista
análise, além da dimensão científico- pedagógico. In: ARGÜELLES, A. (Org.)
tecnológica, as dimensões ético-políti- Competencia Laboral y Educación Basada en R
cas, sócio-históricas, ambientais, cultu- Normas de Competencia. México: Editorial
rais e relacionais do trabalho. Limusa, 1995. S
Ocorre, entretanto, que essa pers- MALGLAIVE, G. Competência e
pectiva, por se tratar de uma concep- engenharia de formação. In: PARLIER, T
M. & WITTE, S. (Orgs.) La Competénce:
ção teórico-metodológica e ético-polí-
tica da formação de trabalhadores, não
mythe, construction ou realité? Paris: U
L´Harmattan, 1994.
é redutível a metodologias de análises
de processo de trabalho. Ademais, a
MERTENS, L. Sistemas de Competência V
Laboral: surgimiento y modelos. México:
descrição precisa, definitiva, exaustiva, Cinterfor/OIT, 1996. (Resumo
Executivo)
A
de qualquer processo de trabalho, não
capta suas múltiplas determinações e, RAMOS, M. Possibilidades e desafios na A
menos ainda, a complexidade da ação organização do currículo integrado. In:

123
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

FRIGOTTO, G.; CIAVATTA, M. & TANGUY, L. Racionalização


RAMOS, M. (Orgs.) Ensino Médio pedagógica e legitimidade política. In:
Integrado: concepção e contradições. São Paulo: TANGUY, L. & ROPÉ, F. (Orgs.)
Cortez, 2005. Saberes e Competências: o uso de tais noções
na escola e na empresa. São Paulo: Papirus,
1997, p. 25-68.

124
A

C
D D
DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO E

F
Denise Elvira Pires
G
O termo divisão do trabalho é Divisão social do trabalho
H
encontrado em estudos oriundos de
diversas áreas do conhecimento, como A expressão ‘divisão social do tra-
I
a economia, a sociologia, a antropo- balho’ tem sido usada no sentido cu-
logia, a história, a saúde, a educação, nhado por Karl Marx (1818-1883) e N
dentre outras, e tem sido utilizado também referendada por autores como
com diversas variações. Em termos Braverman (1981) e Marglin (1980) O
genéricos refere-se às diferentes for- para designar a especialização das ati-
mas que os seres humanos, ao vive- vidades presentes em todas as socie- P
rem em sociedades históricas, produ- dades complexas, independente dos
zem e reproduzem a vida. As varia- produtos do trabalho circularem como Q
ções encontradas no termo divisão do mercadoria ou não. Designa a divisão
trabalho podem ser organizadas em do trabalho social em atividades pro- R
quatro grupos, cada uma referindo- dutivas, ou ramos de atividades neces-
se a diferentes fenômenos sociais re- sárias para a reprodução da vida. Marx, S
lativos às formas de produzir bens e em O Capital (1982), diz que a ‘divisão
serviços necessários à vida: 1) ‘divi- social do trabalho’ diz respeito ao ca- T
são social do trabalho ou divisão do ráter específico do trabalho humano.
trabalho social’; 2) ‘divisão capitalista Um animal faz coisas de acordo com U
do trabalho, ou divisão parcelar ou o padrão e necessidade da espécie a que
pormenorizada do trabalho, ou divi- pertence, enquanto a aranha é capaz V
são manufatureira do trabalho, ou di- de tecer e o urso de pescar, um indiví-
visão técnica do trabalho’; 3) ‘divisão duo da espécie humana pode ser, “si-
A
sexual do trabalho’; 4) ‘divisão inter- multaneamente, tecelão, pescador,
nacional do trabalho’. construtor e mil outras coisas combi-
A

125
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

nadas” (Braverman, 1981, p. 71). balho’ ou divisão do trabalho social.


Essa capacidade de produzir diferen- Esta forma de divisão do trabalho fi-
tes coisas e até de inventar padrões cou bem caracterizada na estrutura dos
diferentes dos animais não é possí- ofícios da Idade Média. Os artesãos
vel ser exercida individualmente, mas organizados nas guildas, ou
a espécie como um todo acha possí- corporações de artífices, constituíam
vel fazer isso, em parte pela divisão uma unidade de produção, de
do trabalho. capacitação para o ofício e de
“A divisão social do trabalho é comercialização dos produtos. Apesar
aparentemente inerente característi- de existir, entre mestres-companhei-
ca do trabalho humano tão logo ele ros-aprendizes, divisão do trabalho,
se converte em trabalho social, isto hierarquia e também atividades de co-
é, trabalho executado na sociedade e ordenação e gerenciamento do proces-
através dela” (Braverman, 1981, p. so de produção, estas eram diferentes
71-72). A produção da vida material da divisão parcelar do trabalho e da
e o aumento da população geram re- hierarquia verificada na emer-gência
lação entre os homens e divisão do das fábricas e do modo de produção
trabalho. Os vários estágios da divi- capitalista. No artesanato, os produto-
são do trabalho correspondem às res eram donos dos instrumentos ne-
formas de propriedade da matéria, cessários ao seu trabalho, tinham do-
dos instrumentos e dos produtos do mínio sobre o processo de produção,
trabalho verificados em cada socie- sobre o ritmo do trabalho e sobre o
dade, nos diversos momentos histó- produto, e também, quase certamente,
ricos (Marx, 1982). havia ascensão a companheiro e mui-
A divisão do trabalho sempre exis- to provavelmente a mestre (Marglin,
tiu. Inicialmente, dava-se ao acaso, pela 1980).
divisão sexual, de acordo com a idade
e vigor corporal. Com a complexidade
da vida em sociedade e o
aprofundamento do sistema de trocas
entre diferentes grupos e sociedades,
identifica-se a divisão do trabalho em
especialidades produtivas, designada
pela expressão ‘divisão social do tra-

126
Divisão Social do Trabalho A

Divisão parcelar ou porme- ordenar as operações, centralizar o su- C


norizada do trabalho, divi- primento de materiais, registro de cus-
tos, folha de pagamentos etc. No capi- D
são manufatureira do traba-
lho ou divisão técnica do talismo industrial manu-fatureiro, os
trabalhadores ficam especializados em
E
trabalho
parcelas (tarefas/atividades específicas)
F
do processo de produção
A ‘divisão parcelar ou pormeno-
dentro de uma mesma especialidade
rizada do trabalho, divisão manufa- G
produtiva, e o controle do processo
tureira do trabalho ou divisão técnica
passa para a gerência. H
do trabalho’ é típica do modo de pro- Essa mudança tem como conse-
dução capitalista. Refere-se à fragmen-
tação de uma especialidade produtiva
qüência para os trabalhadores a alie- I
nação e para o capitalista constitui-se
em numerosas operações limitadas, de em um problema gerencial. Esse fenô- N
modo que o produto resulta de uma meno é qualitativamente diferente da
grande quantidade de operações exe- ‘divisão social do trabalho’ na socieda- O
cutadas por trabalhadores especia- de que foi explicada, inicialmente, pela
lizados em cada tarefa. Surge em mea- clássica análise de Adam Smith (1723- P
dos do século XVIII com a manufatu- 1790), no An Inquiry into the Nature and
ra e caracteriza o sistema de fábricas. Causes of the Wealth of Nations (A Ri- Q
O capitalismo industrial começa quan- queza das Nações) a respeito do proces-
do um grande número de trabalhado- so de produção em uma fábrica de al- R
res é empregado por um capitalista finetes. A análise deste fenômeno de
(Braverman, 1981). Inicialmente, o fragmentação do processo de produ- S
processo de trabalho era igual ao exe- ção foi mais bem qualificada com os
cutado na produção feudal, no artesa- estudos de Charles Babbage (em On T
nato nas guildas (vidreiros, padeiros, the Economy of Machinery, de 1832) ao
ferreiros, marceneiros, boticários, ci- acrescentar que essa forma de divisão U
rurgiões). O domínio do processo es- do trabalho não apenas fragmenta o
tava com os trabalhadores. Ao reuni- processo permitindo um aumento da
V
los, seja nas guildas seja na oficina ca- produtividade como também
pitalista, seja no hospital, surge o pro- A
hierarquiza as atividades, atribuindo
blema da gerência. Para o próprio tra- valores diferentes a cada tarefa execu-
balho cooperativo já era necessário:
A
tada por diferentes trabalhadores ou

127
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

grupo de trabalhadores específicos. O gerente controla o trabalho dos


Assim, aumenta a produtividade outros organizando o processo de tra-
não só pelo aumento numérico dos balho com vistas a tirar o maior resul-
produtos em uma determinada uni- tado possível. Gerência, como organi-
dade de tempo como também au- zação racional do trabalho no modo
menta a produtividade diminuindo capitalista de produção, envolve o con-
o custo da força de trabalho com- trole do processo de trabalho e do tra-
prada pelo capitalista. balho alienado, isto é, da força de
A emergência da ‘divisão parce- trabalho comprada e vendida. A fun-
lar do trabalho’ que muitos autores de- ção da gerência, que no início do capi-
nominam ‘divisão técnica do trabalho’ talismo é desenvolvida pelo proprietá-
(Abercrombie, Hill & Turner, 2000) rio do capital, passa a ser exercida por
ocorre no bojo de um processo mais trabalhadores contratados, que, ao
amplo de mudanças, no qual se des- mesmo tempo, são empregados e em-
tacam: a apropriação capitalista dos pregadores de trabalho alheio, recebem
meios de produção (força de traba- melhor remuneração que os demais,
lho, objetos de trabalho e instrumen- representam e se articulam com os pro-
tos); a associação de diversos traba- prietários do capital, controlam o tra-
lhadores em um mesmo espaço físi- balho dos outros e organizam o pro-
co, onde cada um desenvolve uma ta- cesso de trabalho visando ao lucro
refa específica, e o produto só é obti- (Braverman, 1981). O principal teóri-
do como resultado do trabalho cole- co da gerência aplicada ao modo de
tivo, ou, nas palavras de Marx (1980), produção capitalista é Frederick
o produto resulta de um trabalhador Winslow Taylor (1856-1915) que for-
coletivo; a modificação do papel da mula o que chamou de ‘princípios da
gerência para o de controle do pro- gerência científica’, incluindo a sepa-
cesso e da força de trabalho; e a ex- ração entre concepção e execução do
propriação do trabalhador do produ- trabalho; a separação das tarefas entre
to do seu trabalho. Opera-se uma di- diferentes trabalhadores; e o
visão entre trabalho manual (que detalhamento da atividade de modo
transforma o objeto) e intelectual (a que a gerência possa controlar cada
consciência que o trabalhador tem so- fase do processo e seu método de exe-
bre o trabalho), separa-se concepção cução, buscando obter maior produti-
e execução. vidade do trabalho.

128
Divisão Social do Trabalho A

Divisão sexual do trabalho mulheres rercebem menor remunera- C


ção do que os homens mesmo desen-
A expressão ‘divisão sexual do tra- volvendo trabalhos iguais; determina- D
balho’ tem sido utilizada mais recente- das atividades são atribuídas ao femi-
nino, pior remuneradas e menos valo-
E
mente, especialmente no contexto dos
estudos de gênero, para expressar os rizadas socialmente do que as que são
F
diferentes papéis atribuídos a homens atribuídas aos homens.
e mulheres na sociedade e no proces- G
so produtivo. As diferenças entre ho-
mens e mulheres são freqüentemente Divisão internacional do H
abordadas com o olhar biológico des- trabalho
tacando as diferenças no papel I
reprodutivo. No entanto, este debate A expressão ‘divisão internacio-
ganha nova qualificação com as críti- nal’ do trabalho diz respeito à posição N
cas introduzidas pelas feministas à se- dos países no mercado e no processo
paração das esferas públicas e priva- produtivo global, bem como à dinâmi- O
das na sociedade capitalista, na qual ca dos padrões de acumulação de ca-
tem cabido às mulheres a esfera priva- pital no contexto planetário. No atual P
da e de cuidado dos filhos e aos ho- contexto de globalização, a expressão
mens a esfera pública, incluindo o tra- ‘nova divisão internacional do traba- Q
balho remunerado e as ativi- lho’ tem sido usada para designar as
dades de maior prestígio social mudanças no mercado, na distribuição R
(Abercrombie, Hill & Turner, 2000). de capital e das empresas, bem como
Com a urbanização, a ampliação do no fluxo da força de trabalho entre os S
acesso à educação e as conquistas dos países, especialmente a relação ‘centro-
movimentos de mulheres, houve uma periferia’. Ou seja, a relação países ca-
T
ampliação do ingresso das mulheres no pitalistas desenvolvidos, países emer-
mercado de trabalho, no entanto ain-
U
gentes e países pobres ou com pouco
da é significativa a desigualdade em ter- potencial competitivo na economia
V
mos de valorização do trabalho femi- global (Henk, 1988).
nino em relação ao masculino. Até
A
hoje, início do terceiro milênio, mes-
mo considerando as diferenças entre
A
os diversos países e culturas, muitas

129
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Para saber mais: economic change. London/New Jersey: Zed


Books, 1988.
ABERCROMBIE, N.; HILL, S. & MARGLIN, S. A. Origem e funções do
TURNER, B. The Penguin Dictionary of parcelamento das tarefas. Para que
Sociology. 4.ed. London: Penguin Books, servem os patrões? In: GORZ, A. (Org.)
2000. Crítica da Divisão do Trabalho. São Paulo:
Martins Fontes, 1980. (1.ed., 1973)
BRAVERMAN, H. Trabalho e Capital
Monopolista: a degradação do trabalho no século MARX, K. O Capital. 8.ed. São Paulo:
XX. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar,1981. Difel, 1982. Livro 1, v.1. (1.ed., 1867)
(1.ed., 1974) SMITH, A. An Inquiry into the Nature
HENK, T. The erosion of trade unions. and Causes of the Wealth of Nations. 5.ed.
In: HENK, T. (Ed.) Globalization and London: Methuen and Co./Edwin
Third World Unions: the challenge of rapid Cannan, 1904. (1.ed., 1776).

                                         
DIVISÃO TÉCNICA DO TRABALHO EM SAÚDE

Denise Elvira Pires

O uso desta expressão origina- A expressão ‘divisão técnica do


se de análises sobre o processo de trabalho em saúde’ diz respeito a ca-
trabalho em saúde, que aparecem na racterísticas da ‘divisão técnica ou di-
literatura brasileira a partir de mea- visão parcelar do trabalho’ (ver o ver-
dos de 1970. Estes estudos buscam bete Divisão Social do Trabalho) pre-
entender a organização do trabalho sente na forma de organização e pro-
em saúde, utilizando como dução do cuidado prestado por diver-
referencial análises sociológicas sos grupos profissionais a seres huma-
(Donangelo, 1975; Gonçalves, 1979; nos com carências de saúde. Refere-se
Almeida, 1986; Nogueira, 1977), e à forma de organização do trabalho
identificar semelhanças e diferenças coletivo em saúde na qual se identifi-
com o trabalho profissional típico da cam a fragmentação do processo de
produção artesanal, bem como com cuidar; a separação entre concepção e
a divisão parcelar do trabalho do execução; a padronização de tarefas
modo capitalista de produção. distribuídas entre os diversos agentes,

130
Divisão Técnica do Trabalho em Saúde A

de modo que ao cuidador cabe o cum- para a estruturação de um modelo de C


primento da tarefa, afastando-o do en- organização do trabalho que distancia
tendimento e controle do processo; a o médico do entendimento do seu D
hierarquização de atividades com atri- objeto de trabalho como seres huma-
buição de diferentes valores à remune- nos que são individualidades, biológi-
E
ração da força de trabalho. ca e subjetiva, mas também uma tota-
F
Com a mudança do papel dos lidade complexa. Esse modelo frag-
hospitais para espaço de tratamento e menta o ser humano, ao focalizar a
G
ensino na área da saúde, a partir do fi- atenção na ‘parte afetada do corpo’, e
nal do século XVIII, diferentes gru- influencia não apenas a medicina, mas H
pos profissionais, tais como, físicos o conjunto das profissões de saúde, em
(médicos clínicos), boticários, cirurgi- maior ou menor grau, bem como a I
ões (ofício independente da medicina organização do trabalho coletivo
clínica até meados do século XVIII) e institucional. A forma de organização N
práticos cuidadores, religiosos e leigos do trabalho em saúde, apesar de ter
(que fazem parte de um conjunto de especificidades, é também influencia- O
trabalhos que darão origem, pós da pelo macro contexto histórico
Florence Nightingale, ao trabalho pro- institucional de cada país e pelos mo- P
fissional de enfermagem) encontram- delos de organização e gestão presen-
se no mesmo espaço físico e colabo- tes em outras áreas da produção, bem Q
ram para cuidar da saúde de seres hu- como em outras atividades do setor
manos (Foucault, 1984; Nogueira, de serviços. R
1977; Pires, 1989). Essa organização do As normas institucionais estabe-
trabalho marca fortemente, até hoje, o lecem os papéis de cada grupo profis- S
trabalho em saúde. Neste processo, sional e a coordenação do trabalho
ocorre certa perda de autonomia pro- coletivo, a qual, ao longo da história, T
fissional frente aos constrangimentos tem cabido aos médicos. Schraiber
institucionais e gerenciais. (1993) e Peduzzi (2001) apontam que, U
O modelo da biomedicina que fi- na prática cotidiana, os profissionais de
cou bem caracterizado com o chama- saúde, como sujeitos do trabalho, exer-
V
do modelo flexneriano, baseado no cem certa autonomia técnica concebi-
A
relatório do mesmo nome e datado de da como liberdade de julgamento e
1910, orientou a organização das es- tomada de decisão frente às necessi-
A
colas médicas nos EUA e contribuiu dades de saúde dos usuários. Essa ca-

131
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

racterística ocorre de modo conco- profissionais envolvidos dominam os


mitante com as diferenças técnicas conhecimentos para o exercício das
especializadas e a desigualdade de va- atividades específicas de sua qualifica-
lor atribuído a esses distintos trabalhos. ção profissional, aproximando-se, des-
A hierarquia de trabalhos e de saberes ta forma, das características do traba-
marca as diferenças de custo da força de lho profissional.
trabalho e manifesta-se nas relações O ato assistencial em saúde, até
de trabalho resultando em tensões en- hoje, pode ser realizado de forma in-
tre os diversos agentes, com conflitos dependente/autônoma, numa relação
explícitos ou não (Peduzzi, 2001; Pi- direta profissional de saúde-cliente,
res, 1998). Ocorre certa compar- mantendo características do trabalho
timentalização de ações e perda de con- profissional e da pequena produção.
trole do processo assistencial, no en- No entanto, face à complexidade dos
tanto, a gerência da instituição não con- problemas, dos conhecimentos acumu-
segue submeter, de modo rígido, o tra- lados no campo da saúde e do instru-
balho da equipe multiprofissional, e mental envolvido na assistência, gran-
“não é possível desenhar um projeto de parte da mesma desenvolve-se em
assistencial único e definitivo antes de instituições públicas e/ou privadas, no
sua implementação” (Peduzzi, 2001, p. espaço intra ou extra-hospitalar, com
105). A gerência não consegue domi- estruturas e níveis de complexidade
nar a concepção e nem controlar rigi- diversos. Majoritariamente, o assistir/
damente os processos de execução do cuidar em saúde envolve um trabalho
trabalho, há um espaço de autonomia coletivo no qual é possível identificar
técnica (Peduzzi, 2001; Pires, 1998; duas características básicas – as da di-
Campos, 1997). visão técnica ou parcelar do trabalho e
O ato assistencial em saúde envol- as do trabalho do tipo profissional.
ve um conhecimento sobre o proces- Trabalho profissional, no sentido de
so que não é dominado pela adminis- trabalho especializado e reconhecido
tração da instituição, e nem existe uma socialmente como necessário para a
equipe de técnicos e gerentes que de- realização de determinadas atividades,
termine qual é a tecnologia assistencial entendendo profissão como uma for-
que será empregada e qual o papel de ma de trabalho portadora de caracte-
cada trabalhador, como pode ocorrer rísticas semelhantes as do ‘trabalho
nas empresas da produção material. Os artesanal’ desenvolvido na Idade Mé-

132
Divisão Técnica do Trabalho em Saúde A

dia, na Europa – aquele trabalho de- processo de trabalho de modo que têm C
senvolvido nas corporações de artífi- menos instrumental tanto para inter-
ces por produtores que tinham con- vir na concepção do trabalho quanto D
trole sobre o seu processo de traba- para intervir criativamente no agir co-
lho, controlavam o ritmo, eram pro- tidiano. Assim, distanciam-se do enten-
E
prietários dos instrumentos, tinham dimento da finalidade do seu trabalho
F
controle sobre o produto, bem como, e ficam mais submetidos às decisões
da produção e reprodução dos conhe- gerenciais. Quanto maior o controle
G
cimentos relativos ao seu trabalho sobre o processo de trabalho mais pró-
(Braverman, 1981; Marglin, 1980; ximo da divisão social do trabalho; e H
Marx, 1982; Machado, 1995). quanto menor o domínio sobre o pro-
Neste sentido, a divisão de ativi- cesso de trabalho maior aproximação I
dades entre os diferentes profissionais com a divisão técnica ou parcelar do
de saúde assemelha-se à ‘divisão social trabalho. N
do trabalho’ (ver o verbete Divisão Em algumas profissões da saúde,
Social do Trabalho), por envolver ações como, por exemplo, enfermagem, fisi- O
assistenciais realizadas por grupos de oterapia, farmácia, nutrição e, também,
trabalhadores especializados, ou seja, certas práticas da odontologia, o tra- P
que dominam os conhecimentos e téc- balho é desenvolvido por trabalhado-
nicas especiais, para assistir indivíduos res com graus diferenciados de esco- Q
ou grupos populacionais com proble- laridade. A coordenação do trabalho,
mas de saúde ou com risco de adoe- dentro do gr upo profissional, é R
cer, desenvolvendo atividades de cu- exercida pelos profissionais de nível
nho investigativo, preventivo, curativo, superior que concebem o trabalho e S
de cuidado, de conforto ou com o ob- delegam atividades parcelares aos de-
jetivo de reabilitação, quando os indi- mais participantes da equipe. Majori- T
víduos ou grupos sociais não podem tariamente, a organização do trabalho
fazer por si mesmos ou sem essa ajuda reproduz a fragmentação taylorista, U
profissional. O ‘trabalho coletivo em mas é possível encontrar diferencia-
saúde’ aproxima-se da ‘divisão técnica ções, com maior ou menor aproxima-
V
do trabalho’ quando os participantes ção com um trabalho cooperativo, mais
A
da equipe de saúde distanciam-se do criativo e menos alienado.
entendimento do seu objeto de traba- Pires, Gelbcke e Matos (2004)
A
lho, têm menor domínio sobre o seu identificam, no trabalho da enferma-

133
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

gem, algumas características da divisão to de trabalho, um trabalhador; contro-


técnica do trabalho e da sua sistemati- le de tempos e movimentos – tempo
zação realizada por Taylor, conhecida de trabalho, pausas e descanso são de-
como ‘organização científica do traba- finidos pela gerência; separação entre as
lho’ (OCT). Estas se evidenciam quan- funções de controle e de concepção das
do o mesmo é organizado com base funções de execução – “quem executa
no chamado ‘modelo funcional’, no não controla ou avalia os resultados (...)
qual o foco é a realização da tarefa dis- quem executa, não concebe, não deci-
tanciando o trabalhador do controle do de, não planeja, não programa, não or-
seu processo de trabalho e da interação ganiza, não coordena”.
com o sujeito cuidado. O trabalho é No ‘modelo dos cuidados inte-
mais repetitivo, com pouca autono- grais’, cada membro da equipe de en-
mia e pouco espaço para ações criati- fermagem presta todo o conjunto di-
vas e para participação no processo versificado de cuidados que o sujeito
decisório do cuidar. Aos enfermeiros necessita, considerando-se os cuidados
e enfermeiras cabe o gerenciamento prescritos por médicos e enfer-
da assistência de enfermagem, com meiros(as) para cada dia de trabalho.
maior aproximação e controle sobre Neste modo de organização do traba-
a concepção e o processo de cuidar; e lho, ocorre uma maior aproximação do
aos demais trabalhadores que com- trabalhador do entendimento e do con-
põem a equipe cabe a execução de ta- trole sobre o processo de cuidar, pos-
refas delegadas. sibilitando uma relação mais criativa e
Segundo Graça com base em Liu humana entre o cuidador e o sujeito
(1983), em “Les nouvelles logiques en cuidado. Há certa possi-bilidade de o
organisation du travail”, a OCT assen- trabalhador identificar mudanças no
ta-se nas seguintes idéias-chave: quadro clínico ou reações individuais
‘parcelarização’ – cada trabalhador res- do sujeito cuidado e assim intervir di-
ponsabiliza-se por uma tarefa ou um retamente, ou buscar colaboração, para
conjunto específico de tarefas simples; atender às necessidades dos doentes ou
especialização – cada trabalhador exe- pessoas com carências em relação à
cuta sempre a mesma tarefa, ligada a um saúde. E, mesmo que os enfermeiros e
determinado posto de trabalho, não há enfermeiras continuem com o papel
espaço para troca na equipe; gerencial na equipe, esse modelo afasta-
individualização – uma tarefa, um pos- se mais das características da divisão téc-

134
Divisão Técnica do Trabalho em Saúde A

nica do trabalho que o modelo dos ‘cui- MARGLIN, S. A. Origem e funções do C


dados funcionais’ (Pires, 1998; Matos & parcelamento das tarefas. Para que
Pires, 2002).
servem os patrões? In: GORZ, A. (Org.) D
Crítica da Divisão do Trabalho. São Paulo:
Martins Fontes, 1980. (1.ed., 1973)
E
Para saber mais: MARX, K. O Capital. 8.ed. São Paulo:
Difel, 1982. Livro 1, v.1. (1.ed., 1867)
F
ALMEIDA, M. C. P. de. O Saber de MATOS, E. & PIRES, D. A organização
Enfermagem e sua Dimensão Prática. São do trabalho da enfer magem na
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1979. Dissertação de Mestrado, São Paulo: professionals: a study in a Dutch hospital.
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da Faculdade de Medicina da USP. PIRES, D; GELBCKE, F; & MATOS,
LIU, M. Les nouvelles logiques en E. Organização do trabalho em U
organisation du travail. Révue Française de enfermagem: implicações no fazer e
Gestion, 41: 15-19, 1983. viver dos trabalhadores de nível médio. V
Revista Trabalho Educação e Saúde, 2(2):
MACHADO, M. H. Sociologia das 311-325, 2004.
profissões: uma contribuição ao debate A
teórico. In: MACHADO, M. H. (Org.) SCHRAIBER, L. B. O Médico e seu
Profissões de Saúde: uma abordagem sociológica. Trabalho. Limites da liberdade. São Paulo:
Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995. Hucitec, 1993. A

135
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

DUALIDADE EDUCACIONAL

Ana Margarida Campello

Em ‘Crítica ao programa de trabalhadores manuais (rede primário-


Gotha’, no qual o Partido Operário profissional ou rede PP) e a rede de for-
Alemão exige’: ‘Educação popular ge- mação dos trabalhadores intelectuais
ral e igual a cargo do Estado’, Marx (rede secundário-superior ou rede SS).
(s.d.) contra-argumenta: “Educação O dualismo da escola no modo capita-
popular igual? O que se entende por lista de produção se manifesta como re-
isto? Acredita-se que na sociedade atual sultado de mecanismos internos, peda-
... a educação pode ser igual para todas gógicos, de destinação de ‘uns e não ou-
as classes?” Refletir sobre a escola com tros’ (Souza e Silva, 2003) para os estu-
base nessas perguntas é questionar a dos longos em suas fileiras nobres como
possibilidade de, na sociedade capita- mecanismo de reprodução das classes
lista, a educação ser igual para todas as sociais. Nessa concepção, para apreen-
classes sociais. der a dualidade estrutural característica
A dualidade estrutural expressa uma da escola capitalista é necessário colo-
fragmentação da escola a partir da qual car-se do ponto de vista daqueles que
se delineiam caminhos diferenciados se- são dela excluídos. A repetência, o aban-
gundo a classe social, repartindo-se os dono, a produção do retardo escolar são
indivíduos por postos antagonistas na mecanismos de funcionamento da escola
divisão social do trabalho, quer do lado e que fazem parte de suas característi-
dos explorados, quer do lado da explo- cas. É sua função discriminar, e isto des-
ração. Baudelot e Establet (1971), entre de o início da escolarização, na própria
outros teóricos do crítico- escola primária, que também não é úni-
reprodutivismo, desvendam a ilusão ide- ca e que também divide. “Seus ‘defeitos’
ológica da unidade da escola e da exis- ou ‘fracassos’ são, em verdade, a realida-
tência de um tipo único de escolaridade. de necessária de seu funcionamento”
Para essa teoria, a escola não é única, nem (Baudelot e Establet, id., p. 269).
unificadora, mas constituída pela unida- No Brasil, essa diferenciação se
de contraditória de duas redes de concretizou pela oferta de escolas de
escolarização: a rede de formação dos formação profissional e escolas de for-

136
Dualidade Educacional A

mação acadêmica para o atendimento do sistema educativo no modo capita- C


de populações com diferentes origens lista de produção. A escola de forma-
e destinação social. Durante muito ção das elites e a escola de formação D
tempo o atual ensino médio ficou res- do proletariado. Nessa concepção está
trito àqueles que prosseguiriam seus implícita a divisão entre aqueles que
E
estudos no nível superior, enquanto a concebem e controlam o processo de
F
educação profissional era destinada aos trabalho e aqueles que o executam. A
órfãos e desvalidos, os ‘desfavorecidos educação profissional destinada àque-
G
da fortuna’. les que estão sendo preparados para
A análise do fluxo escolar, no Bra- executar o processo de trabalho, e a H
sil, neste início de século XXI, aponta educação científico-acadêmica destina-
para a expulsão da escola de uma imen- da àqueles que vão conceber e contro- I
sa parcela da população: apesar da qua- lar este processo. Essa visão que separa
se universalização do acesso a 1ª série a educação geral, propedêutica da edu- N
do Ensino Fundamental, apenas 45% cação específica e profissionalizante,
dos jovens brasileiros concluem o En- reduz a educação profissional a treina- O
sino Médio. Percebe-se claramente a mentos para preenchimento de postos
constituição de dois grupos: aqueles de trabalho. P
que permanecem no interior da escola Nas análises sobre a dualidade da
e os que dela vão sendo excluídos. escola brasileira focaliza-se principal- Q
Entre os que permanecem, uma nova mente o ensino médio:
diferenciação se produz pela desigual- R
dade das condições de escolarização e A literatura sobre o dualismo na
pela precarização dos programas pe- educação brasileira é vasta e con- S
cordante quanto ao fato de ser o
dagógicos que conduzem a uma ensino médio sua maior expressão.
certificação desqualificada, para ‘uns e ... Neste nível de ensino se revela
T
não outros’. com mais evidência a contradição
A dualidade estrutural confirma- entre o capital e o trabalho, expres- U
sa no falso dilema de sua identida-
se nos limites das classes sociais e da
dicotomia histórica entre os estudos de
de: destina-se à formação prope- V
dêutica ou à preparação para o tra-
natureza teórica e os estudos de natu- balho? (Frigotto, Ciavatta e Ramos,
2005, p. 31). A
reza prática. A ‘escola do dizer’ e a ‘es-
cola do fazer’ são, nas palavras de A história do ensino médio no A
Nosella (1995), as divisões estruturais Brasil é a história do enfrentamento da

137
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tensão entre educação geral e educa- um enfrentamento, da dualidade estru-


ção específica, em decorrência de sua tural que historicamente marca as con-
própria natureza de mediação entre a cepções e práticas educativas no Brasil
educação fundamental e a formação (Rodrigues, 2005), especialmente no
profissional stricto sensu. Sua dupla fun- que diz respeito ao Ensino Médio.
ção – preparar para a continuidade dos Essa proposta, no entanto, não
estudos e para o mundo do trabalho – conseguiu ser implantada e, no final
lhe confere ambigüidade, “uma vez que dos anos 1990, ainda no primeiro go-
esta não é uma questão apenas peda- verno Fernando Henrique Cardoso, a
gógica, mas política, determinada pe- partir da promulgação da Lei de Dire-
las mudanças nas bases materiais de trizes e Bases da Educação Brasileira
produção, a partir do que se define a (Lei no 9.394/96), por meio das refor-
cada época uma relação peculiar en- mas do Ensino Médio e da Educação
tre trabalho e educação (Kuenzer, Profissional foi proibido o desenvol-
2007, p. 9). vimento integrado do ensino médio e
Na década de 1980, o campo edu- técnico, obrigando-se a constituição de
cacional brasileiro atravessou um in- sistemas paralelos de educação básica
tenso processo de disputa em cujo cen- e educação profissional. Na análise
tro estava a reestruturação de nosso dessas reformas, evidencia-se um re-
sistema educacional profundamente torno à dualidade estrutural da educa-
reformulado durante os mais de vinte ção brasileira estabelecida pela Refor-
anos que durou a ditadura instituída ma Capanema, que, em 1942, por meio
pelo golpe militar de 1964. Difundiu- das chamadas ‘leis’ orgânicas, criou ra-
se um clima de democratização, de par- mos de ensino: de um lado, o ensino
ticipação social que levou à mobilização secundário, propedêutico, para a for-
de educadores e políticos, visando à mação de intelectuais; de outro, os ra-
elaboração de uma nova Lei de Dire- mos técnicos (agrícola, industrial, co-
trizes e Bases para a Educação Nacio- mercial e normal) para a formação de
nal. Em termos de educação profissi- trabalhadores instrumentais. Os egres-
onal, a meta era avançar na direção do sos dos ramos técnicos não tinham
ensino politécnico. A apresentação de então direito de acesso ao ensino su-
uma proposta alicerçada na concepção perior. Esse direito só lhes foi plena-
de politecnia indica a possibilidade se- mente assegurado em 1961, com a pro-
não de uma superação, ao menos de mulgação da Lei no 4.024 que estabe-

138
Dualidade Educacional A

leceu a equivalência entre o ensino se- educar de forma conjunta para as ati- C
cundário, atual ensino médio, e o ensi- vidades intelectuais e manuais, e pro-
no técnico, para fins de prosseguimen- piciar uma orientação múltipla em re- D
to dos estudos. lação às futuras atividades profissio-
Ao fazer a crítica do caráter de nais, sem predeterminar escolhas
E
classe da escola burguesa, a proposta (Manacorda, 1990).
F
escolar de Gramsci afirma a concep- É possível superar a dualidade da
ção de politecnia na construção de uma educação na sociedade capitalista, ou
G
escola unitária: a “unitariedade inscreve-se no campo
da utopia a ser construída através da H
Escola única inicial de cultura ge- superação do capitalismo”? (Kuenzer,
ral, humanista, formativa, que equi-
libre equanimente o desenvolvi-
2004, p. 90). I
mento da capacidade de trabalhar É preciso, ao reconhecer que a
manualmente (tecnicamente, indus- escola contribui para a reprodução das N
trialmente) e o desenvolvimento das classes sociais, ressaltar a contradição
capacidades de trabalho intelectu-
al. Deste tipo de escola única, atra-
como aspecto fundamental do dina- O
vés de repetidas experiências de ori- mismo histórico. Se por um lado a es-
entação profissional, passar-se-á a cola reproduz (os valores dominantes P
uma das escolas especializadas ou da exploração e do poder), por outro
ao trabalho produtivo (Gramsci, alimenta o movimento de superação do Q
1995, p. 118).
estado de coisas existente. A esse res-
Para Gramsci, o surgimento da peito, afirma Frigotto (1989, p. 24): R
escola unitária não se restringe aos li-
mites da educação escolar, mas diz res- A escola ao explorar (...) as contra- S
peito a toda a vida cultural e social. O dições inerentes à sociedade capi-
advento da escola unitária significa o
talista é ou pode ser um instrumen- T
to de mediação na negação dessas
início de novas relações entre trabalho relações sociais de produção. Mais
intelectual e trabalho manual, não ape- que isto, pode ser um instrumento
U
nas na escola, mas em toda a vida so- eficaz na formulação das condições
cial. O princípio unitário, por isso, re- concretas da superação dessas rela- V
ções sociais que determinam uma
fletir-se-á em todos os organismos de separação entre capital e trabalho, A
cultura, transformando-os e empres- trabalho manual e trabalho intelec-
tando-lhes um novo conteúdo. A es- tual, mundo da escola e mundo do
trabalho.
A
cola unitária elementar e média deve

139
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

A escola única, politécnica, ao to- GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. 2.ed.


mar o trabalho como princípio Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, v.
1. 2001.
educativo, busca a articulação ente teo-
ria e prática e a negação da separação GRAMSCI, A. Os intelectuais e a
organização da cultura. Rio de Janeiro:
entre cursos teóricos e cursos práticos,
Civilização Brasileira, 1995.
entre ensino propedêutico e ensino
KUENZER, A. Exclusão includente e
profissionalizante. Coloca-se, aqui, o
inclusão excludente: a nova forma de
conceito de escola unitária, ou de dualidade estrutural que objetiva as
unitariedade, tendo em vista o princí- novas relações entre educação e trabalho.
pio da união dos contrários e para esta- In: LOMBARDI, J. C.; SAVIANI, D.;
belecer uma relação dialética com SANFELICE, J. L. (Orgs.) Capitalismo,
trabalho e educação. 2. ed. rev. Campinas,
dualidade escolar no sentido da cons- SP: Autores Associados, HISTEDBR,
trução de uma escola que não se dife- 2004.
rencia em função das classes sociais e
KUENZER, A. Z. Ensino médio e
que, por isto, significa o início de novas profissional: as políticas do estado neoliberal.
relações entre trabalho intelectual e tra- 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
balho manual, não apenas na escola, mas MANACORDA, M. A. História da
também na vida social, no sentido da educação: da antiguidade aos nossos dias. 4.ed.
superação da sociedade de classes. São Paulo: Cortez, 1995.
MANACORDA, M. A. O princípio
educativo em Gramsci. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1990.
Para saber mais:
MARX, K. Crítica ao programa de
BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. Gotha. In: MARX, K. & ENGELS, F.
L’École capitaliste - en France. Paris: Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega,
Librairie François Maspero, 1971. s.d.

FRIGOTTO, G. A produtividade da escola NOSELLA, P. Prefácio. In: MANA-


improdutiva: um (re)exame das relações entre CORDA, M. (Org.). História da educação:
educação e estrutura econômico-social e da antiguidade aos nossos dias. 4. ed. São
capitalista. 3.ed. São Paulo: Cortez/ Paulo: Cortez, 1995.
Autores Associados, 1989. RODRIGUES, J. Ainda a educação
FRIGOTTO, G.; CIAVATTA, M. & politécnica: o novo decreto da educação
RAMOS, M. (Orgs.). Ensino médio profissional e a per manência da
integrado: concepção e contradições. São Paulo: dualidade estrutural. Trabalho, Educação
Cortez, 2005. e Saúde, 3 (2): p. 259-282, 2005.

140
Dualidade Educacional A

SAVIANI, D. O choque teórico da SOUSA e SILVA, J. Por que uns e não C


politecnia. Trabalho, Educação e Saúde, outros?: Caminhada de jovens pobres para
1(1): p. 131-152, 2003. a uni versidade. Rio de Janeir o: 7 D
Letras, 2003.
SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica:
primeiras aproximações. 9. ed. São Paulo: E
Autores Associados, 2005.
F

141
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

142
A

C
E D
EDUCAÇÃO E

F
Lílian de Aragão Bastos do Valle
G
Em sua designação mais genéri- afasta muito da simples adaptação ani-
H
ca, chama-se de ‘educação’ uma ativi- mal – com a ressalva de que, no caso
dade social tão antiga quanto a pró- humano, trata-se de conservar ‘o modo
I
pria instituição de uma sociedade mi- de ser singular’ de uma sociedade, de
nimamente organizada: assim, como forma que essa sobrevivência jamais
N
considera Werner Jaeger, “todo povo segue um cânone prees-tabelecido e
que atinge certo grau de desenvolvi- comum a todos os indivíduos da espé- O
mento inclina-se naturalmente à práti- cie, como acontece com os demais vi-
ca da educação” (Jaeger, 1995, p. 3). ventes. Por isso, mesmo nesse nível P
Como se pode, portanto, facil- mais elementar, a simples exigência de
mente perceber, nessa primeira conservação e reprodução da identida- Q
acepção – bastante corrente, sobretu- de social implica processos altamente
do no domínio da sociologia –, a ‘edu- complexos de preservação da cultura, R
cação’ corresponderia a uma ‘prática dos hábitos, valores, comportamentos
espontânea e irrefletida’ que, em reali- – enfim, do ‘mundo próprio’ que a so- S
dade, responde pelas necessidades mais ciedade criou e organizou para si, emi-
elementares de conservação e de auto- nentemente, como ‘sentido’. T
reprodução que a sociedade, tal como É claro, no entanto, que essa defi-
qualquer ser vivo, não deixa de mani- nição mais abrangente é bastante in- U
festar (Castoriadis, 1997, p. 15). E como suficiente e que se pode e se deve for-
essas necessidades referem-se, de for- necer ao conceito de ‘educação’ um sig- V
ma imediata, à produção das condições nificado mais preciso, sobretudo se o
‘materiais’ de sobrevivência físico-bi- que está interessando não é apenas essa A
ológica, estar-se-ia designando como prática muda, ainda que profunda em
‘educação’ um processo que não se sua significação ontológica e antropo-
A

143
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

lógica, mas também e sobretudo a ati- e conduzida em relação a finalidades


vidade para qual a existência da socie- coletivamente instituídas e proclamadas.
dade é, mais do que ocasião para insti- Nessa segunda acepção, a prática da
tuição de comportamentos espontâne- ‘educação’ se faz acompanhar por uma
os, objeto de um exame e de uma deli- intensa atividade investigativa, de exa-
beração explícitos que passam a visar me e reflexão, que pode, a justo título,
e a caracterizar essa instituição. ser denominada teoria educacional.
Aceitando-se essa nova condição
– que não é outra senão o projeto de-
mocrático! – dever-se-á reservar o ter- Antigüidade
mo ‘educação’ para uma atividade que
nada tem de ‘natural’, que não é tão Enfatizando o caráter intencional
somente a contrapartida tornada ne- do fenômeno educativo, uma outra
cessária pelo aparecimento do que versão da mesma tradição conservado-
Arendt denominou os “recém-chega- ra insiste em reduzi-lo à puericultura,
dos” (Arendt, 1972, p. 228) em um à ação especializada visando ao desen-
mundo velho, em um mundo marca- volvimento biológico e orgânico dos
do pelo “fechamento cognitivo” pequenos, assim como aos cuidados
(Castoriadis, 1987, p. 272) no qual ne- médico, higiênico, nutricional, psicoló-
nhuma sociedade deixa de estar mer- gico aí envolvidos. Por suas origens, no
gulhada. Pelo contrário, na medida em grego, o termo paideia está, sem dúvi-
que o exame e a deliberação que carac- da, associado à juventude, mas também
terizam a democracia supõem o está intimamente ligado à noção de
questionamento do modo de ser da so- ‘formação’ – a ser entendida como pro-
ciedade, o que tratamos, então, por cesso geral e mais amplo de
‘educação’ concerne somente a um ‘hominização’, como atividade ‘social’
‘tipo’ bastante particular de coletivida- refletida, como ‘autotransformação’ cons-
des humanas, nas quais a ruptura – ciente e contínua, ou como patri-
sempre parcial, sempre provisória – em mônio ‘cultural’ que fornece assento
relação ao fechamento social foi tor- aos três outros. Pois, se o significado
nada possível. Na acepção que a aspi- de ‘pais’ é ‘criança’, o termo não de-
ração democrática lhe concede, a ‘edu- signa, no grego, nem aquele que sim-
cação’ é, pois, prática ‘deliberada’, sub- plesmente vem à vida (para o qual o
metida a permanente questionamento termo é teknon, ‘o engendrado’), nem

144
Educação A

aquele que deve ser meramente alimen- somente nela é possível viver inteira- C
tado e cuidado (que é dito trephô), como mente segundo o lógos. Mas é preciso
qualquer animal (Cassin, 2004, p. 200- atentar para o fato de que o termo lógos, D
201): somente ao filhote de homem se correntemente traduzido por ‘razão’,
aplica a exigência de um desenvolvimen- acaba, na atualidade, por ser contami-
E
to que vai bem além dos cuidados com nado pelos sentidos que desde a
F
o bem-estar físico e com a aptidão bio- Modernidade este termo vem receben-
lógica à adaptação. do. Para os gregos, o lógos é razão
G
A paideia está sempre, portanto, discursiva (Cassin, 1999) e deliberativa
associada ao ‘artifício’ que institui a (Castoriadis, 1997), pública H
vida humana e que somente a ele é (Aristóteles, Metafísica, 4) e comum
devida: para a tradição filosófica grega (Heráclito, fragmento 2). Este é o sen- I
– para Platão tanto quanto para tido da afirmação de que o homem é
Aristóteles – a paideia é o instrumento um animal político – literalmente, um N
para a plena realização daquilo que, no ‘animal da pólis’: como a razão não se
humano, lhe é próprio e o distingue de desenvolve espontaneamente no hu- O
todos os viventes: o lógos. E isso por- mano, é na pólis democrática que, fa-
que, diz Aristóteles, “ninguém possui zendo uso de sua razão, ele pode reali- P
o lógos desde o início, totalmente e de zar a plenitude sua humanidade, vivi-
uma vez por todas”: é preciso da no seio de uma comunidade de ação Q
desenvolvê-lo, e é esse o espaço deixa- e de deliberação. Mas o lógos também
do à ação humana. No entanto, para o supõe a dimensão ética inescapável: R
filósofo, a artificialidade do lógos nada enquanto os animais, vivendo ou não
tem de antinatural, mas é, ao contrá- em ‘sociedade’, respondem de forma S
rio, a própria “finalidade da natureza” instintiva às exigências do estrato na-
humana (Aristóteles, 1997, VII, 13, tural de sua existência – às necessida- T
1334 b 15). des funcionais de sobrevivência e de
Desenvolver o lógos é arrematar o reprodução, que levam tudo o que vive U
trabalho que a natureza, por si só, não a buscar o prazer e a fugir do sofri-
é capaz de levar a cabo. Eis porque a mento –, o humano, e somente ele
V
pólis democrática deve ser dita paideusis entre os viventes, tem a capacidade de
A
– não só educadora, mas constituin- deliberar sobre o que é ‘útil ou preju-
do-se, ela própria, a educação de que dicial’. Assim, o bem e o mal são obje-
A
necessitam os cidadãos: porque nela e to, não de apreensão imediata, mas de

145
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

julgamento, e, portanto, de instituição, gral dos cidadãos; estabeleceu também


não mais se apresentando como reali- o costume de debater abertamente os
dades naturais, e sim como objetos de diferentes projetos que a nova exigên-
uma criação específica. Por isso, a ra- cia suscitou. A Modernidade não só
zão que fornece sustentação à inven- retoma o princípio dessa ‘educação’
ção da política e da ética é dita, em gre- comum, como o realiza cabalmente, ao
go, logon didonai – a capacidade de dar criar uma instituição inteiramente
conta de e de prestar contas por seus dedicada a esse fim, a escola pública
pensamentos, palavras e atos (Valle, 1997), que passa a monopolizar
(Castoriadis, 1997). iniciativas e debates acerca da forma-
É a essa prática de discernimento ção dos cidadãos.
e deliberação que a paideia democrática Formalmente, insiste-se ainda que
visa. Paidéia, pois, como formação éti- o fim da ‘educação’, tal como propu-
ca, que, no universo grego, jamais se sera Aristóteles, é desenvolver os
separa da dimensão estética. Na pólis, a ‘germens de humanidade’ que a natu-
dedicação ao lógos implica que o amor reza depositou em cada ser humano e
à beleza e à sabedoria se transformou que espontaneamente não se perfazem.
em modos de vida: a afirmação é de Tanto quanto os antigos, os modernos
Péricles, um dos maiores líderes que fazem coincidir a hominização com o
a democracia grega conheceu desenvolvimento da ‘razão’; no entan-
(Tucídides, 1999, II, 40). to, o sentido que eles atribuem ao con-
ceito se restringe consideravelmente,
distanciando-se bastante daquele que
Modernidade Aristóteles fixara. Para começar, na
Modernidade, a razão marca, não mais
Assim como a Antigüidade, a uma experiência comum, mas o prin-
Modernidade foi um período em que cípio de uma individualidade.
o enorme interesse despertado pela Com Descartes e a partir daí re-
‘educação’ conduziu a uma intensa faz-se a relação entre lógos e ser, entre
redefinição das práticas e, por isso razão e humanidade – que passam a
mesmo, dos sentidos associados ao estar inteiramente ancorados no indi-
termo. A democracia antiga havia in- víduo e em sua experiência de si, em
ventado a exigência de uma ‘educação’ uma pura auto-referência (Descartes,
comum, voltada para a formação inte- 1990). O desenvolvimento da espécie

146
Educação A

depende do fato de que cada indiví- mação pública do fórum político para C
duo possa atingir “toda a perfeição de o âmbito dos especialistas. Do ponto
que seja capaz” (Kant, 1996): são es- de vista teórico, tratava-se, segundo D
sas as bases sobre as quais se apóia o parece, de libertar a reflexão educacio-
estabelecimento de um sistema de ‘edu- nal do duvidoso terreno ‘metafísico’,
E
cação’ pública caracterizado por forte para, já sob a denominação de ‘peda-
F
diferenciação, tal como apenas Platão gogia’, confiá-la aos cuidados da ciên-
havia ousado sugerir, e relacionado ao cia nascente, supostamente autônoma
G
projeto de uma sociedade altamente e antidogmática (Cambi, 1999).
hierarquizada (Rancière, 2002). “Não Do ponto de vista prático, a insti- H
podemos, nem devemos”, diz-nos tuição da escola pública seguiu, em
Durkheim, “nos dedicar, todos, ao muitos países, como no caso do Bra- I
mesmo gênero de vida; temos, segun- sil, as características do modelo origi-
do nossas aptidões, diferentes funções nal francês: centralismo estatal, criação N
a preencher, e será preciso que nos de corpo especializado de profissionais,
coloquemos em harmonia com o tra- crescente ênfase na diferenciação dos O
balho, que nos incumbe” (Durkheim, objetivos e níveis de ensino. Essas ca-
1952, p. 29). racterísticas acabariam por implicar em P
O argumento organicista serve, uma drástica atenuação da dimensão
desse modo, a duas definições comple- política que, no projeto original da es- Q
mentares da ‘educação’. Na versão con- cola pública, fora a principal dimen-
servadora, ela é descrita como traba- são reconhecida à ‘educação’ comum. R
lho espontâneo de transmissão, de ge- Estabelecido pelo projeto de domínio
ração em geração, da cultura instituí- sobre as disposições naturais, sobre S
da; na versão ‘moderna’, mais propria- seus sentidos, psicologia e paixões, o
mente adaptada aos projetos liberais, sujeito cognoscente adquire, por força T
ela ganha porém o status de tarefa du- do culto à racionalidade, a dignidade
plamente e, cada vez mais, especializa- de conceito abstrato e, não obstante, U
da: porque visa a produzir e a legiti- de tipo antropológico central na edu-
mar as diferenciações sociais e cação: e, em que pese a aparente valo-
V
ocupacionais sob as quais o desenvol- rização do substrato empírico da inte-
A
vimento capitalista se apóia e porque, ligência humana, por parte de tantas
para fazê-lo, desloca a formulação, o teorias em voga durante os séculos XIX
A
debate e a execução das ações de for- e XX, é dessa forma que ele se impõe,

147
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

não apenas na figura do aluno a ser for- as exigências de construção das socie-
mado, mas também do professor capaz dades modernas, que levam à criação
de fazê-lo. Mas esse modelo que a da escola e à sua adoção como modelo
Modernidade legou ao campo educaci- universal da prática de ‘educação’ pú-
onal não é obra solitária de teóricos: é blica e, por outro, a sistemática racio-
produto de um mundo que não apenas nalização dos sujeitos da ação escolar,
se quer desencantado, mas inteiramen- aos poucos inteiramente reduzidos à
te voltado para o progresso material, em sua dimensão cognitiva.
nome do qual os indivíduos são cha- Em primeiro lugar, essa relação
mados a abdicar da vida pública – da pode ser justificada pelo fato de que,
‘liberdade dos antigos’. chamada para monopolizar o grosso
Arendt (1987) analisou as conse- das iniciativas educacionais modernas,
qüências do desaparecimento, no mun- a escola pública é uma das primeiras
do moderno, das esferas privada e pú- manifestações da Modernidade, fazen-
blica, anteriormente constitutivas da do-se, pois, legitimamente tributária
existência humana: o estabelecimento, das expectativas, dos projetos, dos mi-
por um lado, de uma ‘privaticidade’ tos e das obsessões que passam a mar-
esvaziada e muda e, por outro, de uma car o período. Porém, é preciso convir
prática social que, não mais permitin- que na medida em que realiza a con-
do a experiência da política da versão da complexa tarefa de forma-
pluralidade e da singularização, se re- ção humana à sua expressão objetiva e
duz a comportamento estereotipado. racionalizável, propondo os termos a
Nessa perspectiva, caberia ainda as- partir dos quais os objetivos da ‘edu-
sociar a construção do sujeito moder- cação’ finalmente podem ser, como se
no à emergência do ideal ‘político’ de diria mais tarde, opera-cionalizáveis, a
uniformização das condutas, pronta- redução cognitivista se torna a verda-
mente retraduzido em termos educa- deira conditio per quam da escola moder-
cionais na tarefa de modelagem das na. Ela é, assim, instrumento essencial
subjetividades modernas, que coube, para a legitimação da atividade dos es-
desde os primeiros tempos, a essa pecialistas, que, por meio da adminis-
outra criação da Modernidade – a es- tração racional, tanto quanto da
cola pública. teorização da ‘educação’, pretendem
Pode-se, assim, estabelecer uma legislar (de cima e de fora) sobre a prá-
relação nada casual entre, por um lado, tica escolar, convertendo-a, e aos tipos

148
Educação A

antropológicos a ela associados, em Atualidade C


objetos amplamente determináveis e
deter minados pelas disposições O recrudescimento atual do
D
normativas. cognitivismo – que corresponde ao
A perspectiva histórica talvez aju-
E
desinvestimento do caráter político da
de a compreender o renitente apego ‘educação’ pública, à renovação do
F
que a teoria pedagógica, tanto quanto mito do especialista, ao esvaziamento
o discurso oficial sobre a ‘educação’ até dos espaços de construção coletiva e, G
hoje demonstram pela redução mesmo, à valorização da iniciativa pri-
cognitivista e seus instrumentos de pre- vada como alternativa para a respon- H
dileção: os documentos legais, de ca- sabilidade pública pela ‘educação’ – não
ráter técnico-normativo e eternamen- pode ser dado como mera fatalidade I
te condenados pela contradição entre que apenas prolonga as características
as ilusões que entretêm quanto a seu desde sempre identificáveis no mode- N
poder instituinte e as evidências de sua lo original da ‘educação’ escolar. O
ineficácia, a desdobrar seus neologis- cognitivismo é ainda hoje uma cons- O
mos er uditos em uma profusão trução social: no entanto, diferente-
infindável de explicitações, comentá- mente do passado, essa construção não P
rios, estudos, manuais de aplicação; a mais se apóia em uma árdua e consis-
transposição curricular universal – pela tente elaboração antropológica, mas, Q
qual a formação ética, a construção das paradoxalmente, em sua ausência. A
subjetividades, o treinamento das ha- superficialidade das concepções de ho- R
bilidades de socialização, a aquisição de mem, de aluno e de professor que pre-
sensibilidades, afetos e gostos especí- sidem o discurso educacional acompa- S
ficos se fazem objetos de uma abstra- nha o empobrecimento da vida social e
ção destinada, inicialmente, a instruir a ‘escalada da insignificância’ em que T
o professor e, em seguida, à aplicação mergulhou a reflexão em nossas socie-
prática; as grades avaliativas, estatísti- dades. Na ‘educação’, mas não só aí, ela
U
cas e testes objetivos que, alternando- contribui para manter vivo o mito da
se à ‘subjetividade’ dos conceitos e ca-
V
atuação especializada do legislador, do
tegorias teóricos, procedem ao administrador e do teórico, em substi-
A
ordenamento de toda atividade esco- tuição às incertezas da construção polí-
lar segundo o princípio da instrução, tica, da deliberação coletiva, da iniciati-
A
que se faz, por esses meios, verificável. va empírica e singular.

149
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Para a reflexão educacional, duas CASSIN, B. Aristóteles e o Lógos: contos da


fenomenologia comum. São Paulo: Loyola,
questões são ainda hoje essenciais, pois
1999.
da capacidade social de criação de res-
CASSIN, B. “Paideia”, “cultura”,
postas satisfatórias parece depender a
“Bildung”: nature et culture. In:
própria democracia: como formar, no Vocabulaire Européen des Philosophes. Paris:
seio de uma sociedade heterônoma, o Seuil, 2004, p. 200-201.
cidadão autônomo; e como fazer para CASTORIADIS, C. A pólis grega e a
superar, ainda aqui, a irresistível tendên- criação da democracia. In:
cia que leva as sociedades a sacralizar CASTORIADIS, C. Encruzilhadas do
Labirinto II. Domínios do Homem. Rio de
alguns valores específicos, realizando e Janeiro: Paz e Terra, 1987.
legitimando a exclusão não só de ou-
CASTORIADIS, C. Encruzilhadas do
tros grupos sociais e valores, mas da Labirinto V. Feito e a ser feito. Rio de
própria autocriação da autonomia? Janeiro: DP&A, 1997, p. 15 e seg. (O
vivente existe para si. Ele cria seu mundo
próprio e nada existe para ele (a não ser
como catástrofe) que não entre neste
Para saber mais: mundo segundo a organização deste
mundo)
ANAXIMANDRO; PARMÊNIDES; DESCARTES, R. Meditações Metafísicas.
HERÁCLITO. Os Pensadores Originários. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
3.ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
DURKHEIM, É. Educação e Sociologia.
ARENDT, H. La crise de l’éducation. São Paulo: Melhoramentos, 1952.
In: ARENDT, H. La Crise de la Culture.
Paris: Gallimard, 1972. JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem
grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
ARENDT, H. A Condição Humana. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 1987. KANT, I. Sobre a Pedagogia. Piracicaba:
Unimep, 1996.
ARISTÒTELES. Metafísica 4. Ética a
Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, RANCIÉRE, J. O Mestre Ignorante: cinco
1984. lições sobre emancipação intelectual. Tradução
de Lilian do Valle. Belo Horizonte:
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Autêntica, 2002. (Série Educação,
Martins Fontes, 1997. Experiência e Sentido)
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, II, 1, TUCÍDIDES. História da Guerra do
1103, 10-17. São Paulo: Martin Claret, Peloponeso. Tradução de Mário da Gama
2000. Kury. Brasília: Editora da UnB, 1999.
CAMBI, F. História da Pedagogia. São VALLE, L. do. A Escola Imaginária. Rio
Paulo: Unesp, 1999. de Janeiro: DP&A, 1997.

150
A

C
EDUCAÇÃO CORPORATIVA
D
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos
Nayla Cristine Ferreira Ribeiro
E

F
A Educação Corporativa consis- em sistemas interligados, e de assumir
a responsabilidade no grupo de traba-
G
te em um projeto de formação desen-
volvido pelas empresas, que tem como lho” (Markert 2000, apud Quartiero e
H
objetivo “institucionalizar uma cultu- Cerny, 2005, p. 28).
ra de aprendizagem contínua, propor- A Educação Corporativa se justi-
I
cionando a aquisição de novas com- fica, segundo a literatura, pela ‘incapa-
petências vinculadas às estratégias em- cidade’ do Estado em fornecer para o N
presariais” (Quartiero e Cerny, 2005, mercado mão-de-obra adequada. Des-
p. 24). sa forma, as organizações chamam para O
Segundo Jeanne Meister (1999), a si essa responsabilidade, defendendo
Educação Corporativa é um “guarda- o deslocamento do papel do Estado P
chuva estratégico para desenvolver e para o empresariado na direção de pro-
educar funcionários, clientes, fornece- jetos educacionais – Teoria do Capital Q
dores e comunidade, a fim de cumprir Intelectual. “As empresas (...) ao invés
as estratégias da organização” (p. 35). de esperarem que as escolas tornem R
Este fenômeno em crescente ex- seus currículos mais relevantes para a
pansão tem como sustentação a cha- realidade empresarial, resolveram per- S
mada ‘sociedade do conhecimento’, correr o caminho inverso e trouxeram
“cujo paradigma é a capacidade de a escola para dentro da empresa” T
transformação (...) do indivíduo social (Meister, 1999, p. 23).
por meio do conhecimento” Esse modelo educativo oferecido U
(Managão, 2003, p. 9). Um ‘novo tra- pelas empresas abrange várias modali-
balhador’ é exigido nesse contexto, que dades de ensino, tais como: cursos téc- V
enfatiza as ‘competências’ segundo um nicos (inglês, informática, etc.), educa-
“comportamento independente na so- ção básica (ensinos fundamental e mé- A
lução de problemas, a capacidade de dio), pós-graduação lato sensu, entre
outros. Ele emerge na década de 1950
A
trabalhar em grupo, de pensar e agir

151
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

nos Estados Unidos, a partir da crítica logia da competição para o mercado


ao tradicional modelo de Treinamento globalizado. Esse modelo educacional
e Desenvolvimento (T&D) das empre- assumido pelas empresas surgiu “no
sas, considerado então obsoleto para auge do Programa Brasileiro de Quali-
os padrões do ‘novo modelo produti- dade e Produtividade – PBQP”
vo’ – a acumulação flexível: (Martins, 2004, p. 10).

(...) as características de um setor de


Treinamento e Desenvolvimento
padrão se tornaram tão desgasta-
Características da Educação
das que melhorias ou mesmo uma Corporativa
reengenharia mais forte não seriam
suficientes para adequá-lo às no- Espaço físico – Segundo Martins
vas necessidades de educação no
espaço das organizações (Quartie-
(2004), as unidades de Educação
ro e Cerny, 2005, p. 34). Corporativa têm o espaço físico mais
como um conceito do que uma reali-
Naquele momento as empresas
dade. As estratégias pedagógicas po-
investiam nessa modalidade com o
dem ocorrer por meio da educação
objetivo de ensinar aos trabalhadores
presencial, à distância ou
‘o como fazer’. As empresas inicial-
semipresencial. A modalidade à distân-
mente tinham como foco “desenvol-
cia proporciona um aprendizado por
ver qualificações isoladas, para a cria-
meio de um ambiente virtual. Há ins-
ção de uma cultura de aprendizagem
tituições que atuam apenas em espa-
contínua, em que os funcionários
ços virtuais, por intermédio da moda-
(aprendessem) uns com os outros e
lidade da Educação à Distância – EAD
(compartilhassem as) inovações e me-
– ou o e-learning – aprendizado eletrô-
lhores práticas com o objetivo de so-
nico –, propiciando maior flexibilida-
lucionar problemas empresariais”
de do treinamento, uma vez que o alu-
(Meister, 1999, p. 21).
no tem “mais liberdade para escolher
No Brasil, a Educação o local e a hora para aprender, (além
Corporativa emerge na década de 1990 de proporcionar) a redução do custo”
com a política neoliberal implementada (Blois e Melca, 2005, p. 59). Existem
no então governo Fernando Collor de instituições que contam com espaços
Mello, no quadro de abertura econô- físicos próprios, direcionados aos trei-
mica do país que impulsionou a ideo- namentos dos seus funcionários, e

152
Educação Corporativa A

eventualmente, utilizam espaços aca- tes como forma de “agregar valor à C


dêmicos ou hotéis. cadeia produtiva” (Martins, 2004,
As novas tecnologias - As no- p. 44). A utilização dos gerentes D
vas tecnologias educacionais tornaram- traz um duplo benefício ao conhe-
se um ganho para a infra-estrutura edu- cimento organizacional:
E
cacional viabilizada pelas empresas.
(...) receber gerentes (...) não ape-
F
Através da Educação à Distância a
“qualificação dos funcionários é reali- nas para ensinar os conceitos que
utilizam todos os dias na sua vida G
zada em um tempo menor e com cus-
profissional, mas também para ade-
tos reduzidos, salientando que a eco- quar esses conceitos à realidade dos H
nomia de tempo pode chegar a 50%, e [‘colaboradores’]. ... (Além), das
vantagens econômicas. Em vez de
de custo a 60%, em relação aos cursos
contratar facilitadores profissionais,
I
presenciais” (Quartiero e Cerny, 2005,
(usa-se) a própria força de trabalho
p. 37). Usando-se as ferramentas
(Meister, 1999, p. 22). N
tecnológicas, o trabalhador pode
aprender por meio de videocon- O
Certificação - A maior dificulda-
ferências, de cursos ministrados pela
de encontrada pelas empresas está na
Internet, ou até mesmo pela Intranet da P
empresa. Nesse contexto, não existe certificação dos cursos de educação
mais a necessidade do trabalhador au- formal. Somente instituições acadêmi- Q
sentar-se para fazer a capacitação, uma cas credenciadas pelo Ministério da
vez que o conhecimento ‘vai a ele’. Educação (MEC) ou secretarias de R
Público-alvo – Pretende atender educação (no caso da Educação Bási-
aos ‘colaboradores internos’ – os fun- ca) podem emitir diplomas. A estraté- S
cionários –, ‘os colaboradores exter- gia encontrada pelas empresas foi rea-
nos’ – os familiares dos funcionários, lizar parcerias com as ‘Universidades T
fornecedores, clientes e a comunidade Tradicionais’ – nomenclatura pela qual
em geral que são atendidos, principal- o mundo corporativo denomina as U
mente, por intermédio das ações de Universidades Acadêmicas. Essas par-
responsabilidade social. cerias podem ser para validar a V
Corpo docente – Cerca de 70% certificação dos cursos, como também
para formatar um curso de acordo com
A
dos docentes são os próprios gerentes
e executivos das instituições a encomenda da empresa. Existem
A
corporativas, enfatiza-se a atuação des- parcerias das empresas tanto com es-

153
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

colas e universidades públicas quanto produção: implicações para uma nova


privadas. didática na formação profissional.
Educação e Sociedade. Campinas, n.72, ago.,
Um modelo de educação profis-
p. 177-196, 2000.
sional pautado pelo mercado e tendo
como principal finalidade a dissemi- MARTINS, H. G. Estudos da Trajetória
das Universidades Brasileiras, 2004. Tese
nação da cultura organizacional e o
de Doutorado, Rio de Janeiro:
atendimento do plano estratégico da Universidade Federal do Rio de Janeiro/
empresa, não atende à necessidade so- COPPE.
cial de um projeto de formação huma-
MEISTER, J. C. Educação corporativa. São
na comprometido com a construção Paulo: Makron Books, 1999.
de justiça social e a igualdade.
QUARTIERO, E. M.; CERNY, R. Z.
Universidade Corporativa: uma nova
face da relação entre mundo do trabalho
e mundo da educação. In:
Para saber mais: QUARTIERO, E. M.; BIANCHETTI,
L. (Orgs.). Educação corporativa: mundo do
BLOIS, M.; MELCA, F. Educação trabalho e do conhecimento: aproximações. São
corporativa: novas tecnologias na gestão do Paulo: Cortez, 2005.
conhecimento. Rio de Janeiro: Edições
Consultor, 2005. RAMOS, G. S. Um novo espaço de (con)formação
profissional: a Universidade Corporativa da
EBOLI, M. Educação Corporativa no Brasil:
Companhia Vale do Rio Doce - VALER e a
Mitos e Verdades. São Paulo: Editora
legitimação da apropriação da subjetividade do
Gente, 2004.
trabalhador. Dissertação de Mestrado, Rio de
GRAMSCI, A. Os Intelectuais e a Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz/Instituto
Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Oswaldo Cruz, 2007.
Civilização Brasileira, 1991.
SANTOS, A. F. T. dos. Teoria do capital
GRAMSCI, A. Escritos Políticos. Rio de intelectual e teoria do capital humano:
Janeiro: Civilização Brasileira, v. 1. 2004.
Estado, capital e trabalho na política
MANAGÃO, K. C. Z. Universidade educacional em dois momentos do
Cor porativa: um mecanismo do aparelho processo de acumulação. In: Associação
ideológico educativo. Trabalho de Conclusão Nacional de Pós-graduação e Pesquisa
de Curso (Mestrado em Educação – em Educação. Anais eletrônicos da 27a
Universidade Católica de Petrópolis) Reunião Anual. Caxambu: Minas Gerais,
Petrópolis, 2003. 2004. Disponível em: http://
MARKERT, W. Novos paradigmas do www.anped.org.br/reunioes/27/gt09/
conhecimento e modernos conceitos de t095.pdf Acesso em: 12 de fev. 2007.

154
Educação em Saúde A

SANTOS, A. F. T. et al. Formação de C


Trabalhadores no Modelo da
Educação Corporativa. In: ESCOLA D
POLITÉC-NICA DE SAÚDE
JOAQUIM VENÂNCIO (Org.).
Estudos de politecnia e saúde. v. 2. Rio de
E
Janeiro: EPSJV, p. 67-892007 .
                                          F

EDUCAÇÃO EM SAÚDE G

H
Márcia Valéria Morosini
Angélica Ferreira Fonseca I
Isabel Brasil Pereira
N
Inicialmente, deve-se localizar a Neste verbete, educação, saúde e
O
temática da educação em saúde como trabalho são compreendidos como
um campo de disputas de projetos práticas sociais que fazem parte do P
de sociedade e visões de mundo que modo de produção da existência hu-
se atualizam nas formas de conceber mana, precisando ser abordados his- Q
e organizar os discursos e as práticas toricamente como fenômenos consti-
relativas à educação no campo da tuintes - produtores, reprodutores ou R
saúde. Como nos lembra Cardoso de transformadores - das relações sociais.
Melo (2007), para se compreender as Nas sociedades ocidentais, tem S
concepções de educação em saúde é predominado a compreensão da edu-
necessário buscar entender as con- cação como um ato normativo, no qual T
cepções de educação, saúde e socie- a prescrição e a instrumentalização são
dade a elas subjacentes. De nossa as práticas dominantes. Essa forma de U
parte, acrescentamos, também, a ne- conceber a educação, baseada numa
cessidade de se compreender essas pretensa objetividade e neutralidade do V
concepções na interface com as con- conhecimento, produzido pela razão
cepções a respeito do trabalho em cientificamente fundada, guarda cor- A
saúde e suas relações com os sujei- respondência com uma compreensão
tos do trabalho educativo. da saúde como fenômeno objetivo e A

155
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

produto de relações causais imediata- Poderíamos situar o final do séc.


mente apreensíveis pela ciência XIX e o início do século XX como um
hegemônica no campo, a biologia. momento histórico importante na
A busca por uma objetivação das construção de concepções e práticas
ações humanas, fruto de um de educação e saúde que tiveram em
racionalismo de ímpeto controlador, sua base a Higiene, enquanto um cam-
tanto na educação quanto na saúde, po de conhecimentos que se articulam,
acaba contribuindo para um processo produzindo uma forma de conceber,
de objetivação dos próprios sujeitos explicar e intervir sobre os problemas
destas ações. Assim, o professor pode de saúde. Nesse momento histórico, a
reduzir-se a um transmissor das infor- Higiene está fortemente associada à
mações, e o aluno, um seu correspon- ideologia liberal, encontrando neste
dente, um mero receptor passivo das pensamento os seus fundamentos po-
informações educativas. Por sua vez, líticos. Destarte, a Higiene centrava-se
o profissional de saúde pode tornar-se nas responsabilidades individuais na
um operador de protocolos e condu- produção da saúde e construía formas
tas, e o ‘doente’, um corpo onde se dá de intervenção caracterizadas como a
a doença e, conseqüentemente, o ato prescrição de normas, voltadas para os
médico. Em geral, homens desempe- mais diferentes âmbitos da vida social
nhando um papel pré-defindo e (casa, escola, família, trabalho), que
apassivado nas relações professor-alu- deveriam ser incorporadas pelos indi-
no e profissional de saúde-doente. víduos como meio de conservar a saú-
Outros resultados não menos im- de. Arouca (2003), ressalta que a Higi-
portantes desse processo são, no caso ene acaba por reduzir à aplicação de
da educação, a adaptação dos medidas higiênicas a solução dos pro-
educandos à realidade social apresen- blemas de saúde, que se constituem a
tada como a ordem natural das coisas, partir das condições de existência.
como única forma de existência possí- É nesse período que a filosofia da
vel e racional; assim como, no caso do educação de John Dewey, formulada
processo saúde-doença, a compreen- em estreito diálogo com a psicologia
são deste como o percurso natural do experimental e com o evolucionismo
desenvolvimento da doença, seja esta biológico, sofre grande apropriação
compreendida como um fenômeno pelo pensamento e pelas práticas de
unicausal ou multicausal. educação para a saúde. Muitos elemen-

156
Educação em Saúde A

tos merecem ser destacados do pensa- Entretanto, numa perspectiva crí- C


mento filosófico de Dewey, mas é a tica, a educação parte da análise das
ênfase que este pensador atribui à pri- realidades sociais, buscando revelar as D
mazia das características dos indivídu- suas características e as relações que
os para o desenvolvimento do proces- as condicionam e determinam. Essa
E
so educativo e o fato de tomar a cons- perspectiva pode ater-se à explicação
F
trução de hábitos como um norte para das finalidades reprodutivistas dos
a educação que são claramente processos educativos ou trabalhar no
G
identificáveis no que denominamos âmbito das suas contradições, buscan-
como educação sanitária. do transformar estas finalidades, es- H
O desenvolvimento da educação tabelecendo como meta a construção
sanitária, a partir dos EUA, deu-se de de sujeitos e de projetos societários I
forma associada à saúde pública, ten- transformadores.
do sido instrumento das ações de pre- Da mesma forma, no campo da N
venção das doenças, caracterizando-se saúde, a compreensão do processo saú-
pela transmissão de conhecimento. de-doença como expressão das condi- O
Mesmo que realizada de forma ções objetivas de vida, isto é, como
massiva, como no caso das campanhas resultante das condições de “habitação, P
sanitárias no Brasil, a perspectiva não alimentação, educação, renda, meio
contemplava a dimensão histórico-so- ambiente, trabalho, transporte, empre- Q
cial do processo saúde-doença. go, lazer, liberdade, acesso e posse da
Cardoso de Melo (1976), no bojo terra e acesso a serviços de saúde” R
do movimento pela Reforma Sanitária (Brasil, 1986, p. 04) descortina a saúde
no Brasil, fez uma crítica severa aos e a doença como produções sociais, S
efeitos do distanciamento da saúde passíveis de ação e transformação, e
pública em relação ao social, afirman- aponta também para um plano coleti- T
do que “como o social não é conside- vo e, não somente individual de inter-
rado na prática da saúde pública, se- venção. U
não em perspectiva restrita, a educa- Essa forma de conceber a saúde
ção passa a ser uma atividade paralela, tem sido caracterizada como um ‘con-
V
tendo como finalidade auxiliar a ceito ampliado’, pois não reduz a saú-
A
efetivação dos objetivos eminentemen- de à ausência de doença, promovendo
te técnicos dos programas de saúde a idéia de que uma situação de vida
A
pública” (p. 13). saudável não se resolve somente com

157
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

a garantia do acesso aos serviços de do funcionado, muitas vezes, como bra-


saúde – o que também é fundamental ços do controle estatal sobre os indiví-
–, mas depende, sobretudo, da garan- duos e as relações sociais.
tia de condições de vida dignas que, Stotz (1993), ao analisar os dife-
em conjunto, podem proporcionar a rentes enfoques no campo da educa-
situação de saúde. Nesse sentido, são ção e saúde, coloca em evidência a pre-
indissociáveis o conceito de saúde e a dominância histórica do padrão médi-
noção de direito social. co na forma de conceber e organizar
Na interface da educação e da as atividades conhecidas pelo nome de
saúde, constituída com base no pensa- educação sanitária. Esse padrão, que
mento crítico sobre a realidade, torna- chamaremos de enfoque ou modelo
se possível pensar educação em saúde biomédico, tornou-se alvo de intensas
como formas do homem reunir e dis- críticas, a partir da crise do sistema ca-
por recursos para intervir e transfor- pitalista iniciada ao final da década de
mar as condições objetivas, visando a 60. Foram denunciadas, principalmen-
alcançar a saúde como um direito so- te, a incapacidade do modelo
cialmente conquistado, a partir da atu- biomédico de responder às necessida-
ação individual e coletiva de sujeitos des de melhoria das condições de saú-
político-sociais. de da população; a medicalização dos
Quanto ao trabalho em saúde, a problemas de caráter socioeconô-
forma histórica hegemônica por ele as- micos; a iatrogenia; e o caráter cor-
sumida estruturou-se a partir da porativo da atuação dos profissionais.
biomedicina, organizando o processo O autor relaciona as críticas dirigidas
de trabalho de forma médico-centrada, ao modelo biomédico às críticas feitas
caracterizando-se pela hierarquização, aos paradigmas do cientificismo, às
reproduzindo a divisão intelectual e idéias de neutralidade e atemporalidade
social do trabalho e do saber em saúde. da ciência concebida como universal.
Dessa forma, a educação em saúde, pro- Nessa perspectiva histórica, Stotz
duzida no âmbito dos serviços de saú- localiza as mudanças ocorridas na dé-
de, esteve muito subordinada a esse cada de 70, quando o Estado capitalis-
modelo, assim como, as práticas de edu- ta incorporou parte das propostas for-
cação sanitária, dirigidas à sociedade em muladas pelos movimentos críticos na
geral e suas instituições, reproduziram área da saúde, mas o fez segundo seus
em larga escala o poder biomédico, ten- objetivos de racionalização de custos.

158
Educação em Saúde A

Esse mesmo autor, apoiado no vo, ao sujeito da ação, ao âmbito da C


trabalho de Tones (1987, apud Stotz, ação, ao princípio orientador, à estra-
1993), nos auxilia também a compre- tégia e ao pressuposto de eficácia. A D
ender as diferentes concepções que se seguir, reproduzimos o quadro no qual
constituíram, mais recentemente, nas essas concepções são sistematizadas
E
formas de abordar a educação e saú- segundo esses critérios:
F
de, definindo-as quanto ao seu objeti-

H
Quadro 1
I

S
Fonte: Stotz, 1993. T

159
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Em relação aos critérios analisa- higienismo, que ao responsabilizar o


dos, pode-se notar que o papel atribu- indivíduo pela reversão da sua dinâmi-
ído ao indivíduo e ao social varia entre ca de adoecimento, acabou por
essas concepções. Talvez seja em rela- culpabilizá-lo, esvaziando a compreen-
ção ao peso relativo atribuído a esses são da dimensão social do processo
pólos (indivíduo e sociedade) que se saúde/doença.
possa melhor discriminar os projetos No movimento constante em de-
e as ações educativas desenvolvidas fesa do Sistema Único de Saúde (SUS)
segundo essas concepções. Acrescen- como projeto de um sistema universal,
tamos também a dimensão do Estado público, equânime, integral e democráti-
e o papel a ele atribuído na solução, na co, encontra-se a necessidade de se bus-
prevenção e na recuperação dos pro- car uma concepção da relação educação
cessos de saúde-doença, assim como, e saúde que se configura como resulta-
no desenvolvimento de projetos do da ação política de indivíduos e da
educativos no campo da saúde. coletividade, com base no entendimen-
Atualmente, considerando a im- to da saúde e da educação em suas múl-
portância adquirida pelo projeto de tiplas dimensões: social, ética, política,
promoção da saúde, que busca cultural e científica.
capilarizar-se em várias dimensões da Essa construção passa necessaria-
vida social (família, escola, comunida- mente pela redefinição do processo de
de) e individual (cuidados com o cor- trabalho em saúde e das atribuições e res-
po, desenvolvimento de hábitos sau- ponsabilidades entre os trabalhadores,
dáveis), a discussão sobre as dimensões assim como, pela transformação do pa-
individuais e coletivas da saúde/doen- pel desempenhado por estes trabalhado-
ça torna-se oportuna e particularmen- res nos encontros com a população. Com-
te importante. preendendo a potencialidade educativa
O modelo da promoção, no qual dos vários atos promovidos nas ações e
a educação em saúde se apresenta nos serviços de saúde, pode-se compre-
como um dos seus eixos de sustenta- ender todos os trabalhadores da saúde
ção, vê-se diante do desafio de não re- como educadores, e estes, junto com a
produzir, a partir da incorporação ins- população atendida, sujeitos do processo
trumental da categoria de risco e da de produção dos cuidados em saúde.
ênfase na mudança de comportamen- A categoria práxis tem centralidade
to, a mesma redução operada pelo nessa perspectiva, uma vez que estabe-

160
Educação em Saúde A

lece uma relação de continuidade e Nesse sentido, não cabem relações ver- C
complementaridade entre a teoria e a ticais entre educador e educando, ou a
prática, compreendendo o conheci- transferência de conhecimentos e a
D
mento e as técnicas como uma pro- normatização de hábitos, que marca-
dução social, historicamente constitu-
E
ram o pensamento hegemônico da
ídos e implicados entre si, não-neu- educação sanitária no século passado
F
tros, isto é, orientados por um proje- e que ainda hoje estão presentes nas
to societário transformador. Nesse práticas educativas em saúde.
G
sentido, os sujeitos da ação-reflexão
não são redutíveis a objeto e não são Como campo de disputas, a edu- H
considerados senão nas suas várias di- cação em saúde é permeada por essas
mensões, como sujeitos históricos, várias concepções que se enfrentam, I
políticos, sociais. ainda hoje, nas práticas dos diversos
O potencial da educação como trabalhadores da saúde que realizam o N
processo emancipatório, na interface SUS. Em certa medida, cumpre refor-
com os movimentos sociais, tem na ca- çar que não são somente perspectivas O
tegoria de práxis social, criadora/ ou correntes educacionais ou sanitári-
transformadora da realidade, um aspec- as que se defrontam, mas formas de con- P
to central que está presente nas teses ceber os homens, a relação entre estes,
que permeiam o pensamento de Paulo as formas de organizar a sociedade e Q
Freire. Esse pensador exerceu forte in- partilhar os bens por ela produzidos.
fluência no Movimento da Educação R
Popular em Saúde, na América Latina
e, particularmente, no Brasil. S
São marcas da pedagogia freireana
a concepção de processo ensino-apren- Para saber mais: T
dizagem como uma troca, como um
processo dialógico entre educador e AROUCA, S. O Dilema Preventivista. U
Contribuição para a compreensão e crítica
educando, que se dá numa realidade
vivida. O conhecimento advém da re-
da medicina pr eventiva. São Paulo: V
Editora Unesp; Rio de Janeiro: Editora
flexão crítica sobre essa realidade, cons- Fiocruz, 2003.
A
truindo-se, ao mesmo tempo em que
BRASIL. Ministério da Saúde. Relatório
o homem vai se constituindo e se da VIII Conferência Nacional de Saúde. A
posicionando como um ser histórico. Brasília, 1986.

161
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

CANGUILHEM, G. O normal e o COSTA, J. F. Ordem Médica e Norma


patológico. Rio de Janeiro: Forense Familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
Editora, 1990.
FOUCAULT, M. A Microfísica do Poder.
CARDOSO DE MELO, J. A. Educação Rio de Janeiro: Graal, 1979.
e as Práticas de Saúde. In: ESCOLA
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia:
POLITÉCNICA DE SAÚDE
saberes necessários à prática educativa. São
JOAQUIM VENÂNCIO (Org.).
Paulo: Paz e Terra, 1996.
Trabalho, Educação e Saúde: reflexões críticas
de Joaquim Alberto Cardoso de Melo. Rio de NUNES, E.; D. GARCIA, J. C. (Orgs.).
Janeiro: EPSJV, 2007. Pensamento Social na América Latina. São
Paulo: Cortez, 1989.
CARDOSO DE MELO, J. A. Educação
Sanitária: uma visão crítica. Cadernos do STOTZ, E. N. Enfoques sobre educação
Cedes. São Paulo: Cortez Editora- e saúde. In: VALLA, V.; STOTZ, E. N.
Autores Associados, n. 4, p. 28-43, 1981. (Orgs.). Participação Popular, Educação e
Saúde: teoria e prática. Rio de Janeiro:
____________. A Prática da Saúde e a
Relume-Dumará, p.11-22, 1993.
Educação. Saúde em Debate, n. 1, p. 13-
14, out/nov. 1976.
                                         
EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE

Ricardo Burg Ceccim


Alcindo Antônio Ferla

A ‘educação permanente em saú- Como ‘prática de ensino-aprendi-


zagem’ significa a produção de conheci-
de’ precisa ser entendida, ao mesmo
mentos no cotidiano das instituições de
tempo, como uma ‘prática de ensino-
saúde, a partir da realidade vivida pelos
aprendizagem’ e como uma ‘política de
atores envolvidos, tendo os problemas
educação na saúde’. Ela se parece com enfrentados no dia-a-dia do trabalho e
muitas vertentes brasileiras da educa- as experiências desses atores como base
ção popular em saúde e compartilha de interrogação e mudança. A ‘educa-
muitos de seus conceitos, mas enquan- ção permanente em saúde’ se apóia no
to a educação popular tem em vista a conceito de ‘ensino problematizador’ (in-
cidadania, a educação permanente tem serido de maneira crítica na realidade e
em vista o trabalho. sem superioridade do educador em rela-

162
Educação Permanente em Saúde A

ção ao educando) e de ‘aprendizagem sig- saúde’ envolve a contribuição do ensi- C


nificativa’ (interessada nas experiências no à construção do Sistema Único de
anteriores e nas vivências pessoais dos Saúde (SUS). O SUS e a saúde coletiva D
alunos, desafiante do desejar aprender têm características profundamente bra-
mais), ou seja, ensino-aprendizagem sileiras, são invenções do Brasil, assim
E
embasado na produção de conhecimen- como a integralidade na condição de
F
tos que respondam a perguntas que per- diretriz do cuidado à saúde e a partici-
tencem ao universo de experiências e pação popular com papel de controle
G
vivências de quem aprende e que gerem social sobre o sistema de saúde são
novas perguntas sobre o ser e o atuar no marcadamente brasileiros. Por decor- H
mundo. É contrária ao ensino-aprendi- rência dessas particularidades, as polí-
zagem mecânico, quando os conheci- ticas de saúde e as diretrizes I
mentos são considerados em si, sem a curriculares nacionais para a formação
necessária conexão com o cotidiano, e dos profissionais da área buscam ino- N
os alunos se tornam meros escutadores var na proposição de articulações en-
e absorvedores do conhecimento do tre o ensino, o trabalho e a cidadania. O
outro. Portanto, apesar de parecer, em A ‘educação permanente em saú-
uma compreensão mais apressada, ape- de’ não expressa, portanto, uma opção P
nas um nome diferente ou uma designa- didático-pedagógica, expressa uma
ção da moda para justificar a formação opção político-pedagógica. A partir Q
contínua e o desenvolvimento continu- desse desafio político-pedagógico, a
ado dos trabalhadores, é um conceito ‘educação permanente em saúde’ foi R
forte e desafiante para pensar as ligações amplamente debatida pela sociedade
entre a educação e o trabalho em saúde, brasileira organizada em torno da S
para colocar em questão a relevância temática da saúde, tendo sido aprova-
social do ensino e as articulações da for- da na XII Conferência Nacional de T
mação com a mudança no conhecimen- Saúde e no Conselho Nacional de Saú-
to e no exercício profissional, trazendo, de (CNS) como política específica no U
junto dos saberes técnicos e científicos, interesse do sistema de saúde nacio-
as dimensões éticas da vida, do traba- nal, o que se pode constatar por meio
V
lho, do homem, da saúde, da educação da Resolução CNS n. 353/2003 e da
A
e das relações. Portaria MS/GM n. 198/2004. A ‘edu-
Como ‘política de educação na cação permanente em saúde’ tornou-
A
saúde’, a ‘educação permanente em se, dessa forma, a estratégia do SUS

163
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

para a formação e o desenvolvimento está errado, quer dizer que, para haver en-
de trabalhadores para a saúde. sino-aprendizagem, temos de entrar em
Essa política afirma: 1) a articula- um estado ativo de ‘perguntação’, cons-
ção entre ensino, trabalho e cidadania; tituindo uma espécie de tensão entre o
2) a vinculação entre formação, gestão que já se sabe e o que há por saber.
setorial, atenção à saúde e participação Uma condição indispensável para
social; 3) a construção da rede do SUS um aluno, trabalhador de saúde, gestor
como espaço de educação profissional; ou usuário do sistema de saúde mudar
4) o reconhecimento de bases ou incorporar novos elementos à sua
locorregionais como unidades políti- prática e aos seus conceitos é o des-
co-territoriais onde estruturas de en- conforto com a realidade naquilo que
sino e de serviços devem se encon- ela deixa a desejar de integralidade e
trar em ‘cooperação’ para a formula- de implicação com os usuários. A ne-
ção de estratégias para o ensino, cessidade de mudança, transformação
assim como para o crescimento da ges- ou crescimento vem da percepção de
tão setorial, a qualificação da organiza- que a maneira vigente de fazer ou de
ção da atenção em linhas de cuidado, o pensar alguma coisa está insatisfatória
fortalecimento do controle social e o in- ou insuficiente em dar conta dos desa-
vestimento na interse-torialidade. O eixo fios do trabalho em saúde. Esse des-
para formular, implementar e avaliar a conforto funciona como um
‘educação permanente em saúde’ deve ‘estranhamento’ da realidade, sentindo
ser o da integralidade e o da implicação que algo está em desacordo com as ne-
com os usuários. cessidades vividas ou percebidas pes-
Para a ‘educação permanente em soalmente, coletivamente ou
saúde’, não existe a educação de um institucionalmente.
ser que sabe para um ser que não sabe, Uma instituição se faz de pesso-
o que existe, como em qualquer edu- as, pessoas se fazem em coletivos e
cação crítica e transformadora, é a tro- ambos fazem a instituição. Todos e
ca e o intercâmbio, mas deve ocorrer cada um dos profissionais de saúde tra-
também o ‘estranhamento’ de saberes balhando no SUS, na atenção e na ges-
e a ‘desacomodação’ com os saberes e tão do sistema, têm idéias, conceitos e
as práticas que estejam vigentes em concepções acerca da saúde e da sua
cada lugar. Isto não quer dizer que produção; do sistema de saúde, de sua
aquilo que já sabemos ou já fazemos operação e do papel que cada profis-

164
Educação Permanente em Saúde A

sional e cada unidade deve cumprir na entornos de trabalho e atuação, esta- C


organização das práticas de saúde. É a belecendo tanto o contato emociona-
partir dessas concepções que cada pro- do com as informações como movi- D
fissional se integra às equipes ou agru- mentos de transformação da realida-
pamentos de profissionais em cada de. Enfatizamos novamente: será ‘edu-
E
ponto do sistema. É a partir dessas cação permanente em saúde’ o ato de
F
concepções, mediadas pela organiza- colocar o trabalho em análise, as práti-
ção dos serviços e do sistema, que cada cas cotidianas em análise, as articula-
G
profissional opera. ções formação-atenção-gestão-partici-
Para produzir mudanças de práti- pação em análise. Não é um processo H
cas de gestão e de atenção, é funda- didático-pedagógico, é um processo
mental dialogar com as práticas e con- político-pedagógico; não se trata de I
cepções vigentes, problematizá-las – conhecer mais e de maneira mais críti-
não em abstrato, mas no concreto do ca e consciente, trata-se de mudar o N
trabalho de cada equipe – e construir cotidiano do trabalho na saúde e de
novos pactos de convivência e práticas, colocar o cotidiano profissional em O
que aproximem o SUS da atenção inte- invenção viva (em equipe e com os
gral à saúde. Não bastam novas infor- usuários). P
mações, mesmo que preciosamente bem A escolha pela ‘educação perma-
comunicadas, senão para a mudança, nente em saúde’ é a escolha por novas Q
transformação ou crescimento. maneiras de realizar atividades, com
Porque queremos tanto que no- maior resolutividade, maior aceitação R
vas informações cheguem aos serviços, e muito maior compartilhamento en-
aos trabalhadores, aos usuários e aos tre os coletivos de trabalho, querendo S
gestores? Para esclarecê-los? Para a implicação profunda com os usuári-
torná-los mais cultos? Para torná-los os dos sistemas de saúde, com os co- T
mais letrados em ciência e tecnologias? letivos de formulação e implemen-
Se for assim, podemos apenas trans- tação do trabalho, e um processo de U
mitir conhecimento, mandar ler manu- desenvolvimento setorial por ‘encon-
ais e exercitar jogos de perguntas e res- tro’ com a população.
V
postas. A ‘educação permanente em É nesse sentido que, no Brasil, se
A
saúde’, entretanto, configura uma ‘pe- constituiu o conceito de ‘quadrilátero
dagogia em ato’, que deseja e opera da formação’: educação que associa o
A
pelo desenvolvimento de si e dos ensino como suas repercussões sobre

165
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

o trabalho, o sistema de saúde e a par- des não são dadas. Assim como as in-
ticipação social. É o debate e a proble- formações, as realidades são produzi-
matização que transformam a informa- das por nós mesmos, por nossa sensi-
ção em aprendizagem, e é a ‘educação bilidade diante dos dados e por nossa
permanente em saúde’ que operação com os dados de que dispo-
torna grupos de trabalho em coletivos mos ou de que vamos em busca. O
organizados de desenvolvimento de si segundo passo é organizar espaços in-
e de seus entornos de trabalho e atua- clusivos de debate e proble-matização
ção na saúde. das realidades, isto é, cotejar informa-
Para a ‘educação permanente em ções, cruzá-las, usá-las em interroga-
saúde’, a informação necessária é aque- ção umas às outras e não segregar e
la que se propõe como ocasião para excluir a priori ou ensimesmar-se em
aprendizagem, mas que também bus- territórios estreitos e inertes. O tercei-
ca ocasião de maior sensibilidade di- ro passo é organizar redes de intercâm-
ante de si, do trabalho, das pessoas, do bio para que informações nos cheguem
mundo e das realidades. Então, a me- e sejam transferidas, ou seja, estabele-
lhor informação não está no seu con- cer interface, intercessão e democracia
teúdo formal, mas naquilo de que é forte. O quarto passo é produzir as in-
portadora em potencial. Por exemplo: formações de valor local num valor
a nova informação gera inquietação, inventivo que não se furte às exigênci-
interroga a forma como estamos tra- as do trabalho em que estamos inseri-
balhando, coloca em dúvida a capaci- dos e à máxima interação afetiva com
dade de resposta coletiva da nossa uni- nossos usuários de ações de saúde.
dade de serviço? Se uma informação O ‘quadrilátero’ da ‘educação per-
nos impede de continuarmos a ser o manente em saúde’ é simples: análise e
mesmo que éramos, nos impede de ação relativa simultaneamente à forma-
deixar tudo apenas como está e ção, à atenção, à gestão e à participa-
tensiona nossas implicações com os ção para que o trabalho em saúde seja
usuários de nossas ações, ela desenca- lugar de atuação crítica, reflexiva,
deou ‘educação permanente em saúde’. propositiva, compromissada e tecnica-
A ‘educação permanente em saú- mente competente. Diferentemente
de’ pode ser um processo cada vez mais das noções programáticas de
coletivo e desafiador das realidades. O implementação de práticas previamen-
primeiro passo é aceitar que as realida- te selecionadas em que as informações

166
Educação Permanente em Saúde A

são empacotadas e despachadas por Para saber mais: C


entrega rápida às mentes racionalistas
dos alunos, trabalhadores e usuários, BRASIL/Ministério da Saúde. D
Secretaria de Gestão do Trabalho e da
as ações de ‘educação permanente’
desejam os corações pulsáteis dos alu-
Educação na Saúde. Departamento de E
Gestão da Educação na Saúde. A
nos, dos trabalhadores e dos usuários Educação Permanente Entra na Roda: pólos
F
para construir um sistema produtor de de educação permanente em saúde – conceitos
saúde (uma abrangência), e não um sis- e caminhos a percorrer. Brasília: Ministério
da Saúde, 2005. G
tema prestador de assistência (um
estreitamento). Uma política de ‘edu- CARVALHO, Y. M. & CECCIM, R. B.
For mação e educação em saúde:
H
cação permanente em saúde’ congre-
aprendizados com a saúde coletiva. In:
ga, articula e coloca em roda diferen-
CAMPOS, G. W. S. et al. (Orgs.) Tratado I
tes atores, destinando a todos um lu- de Saúde Coletiva. São Paulo/Rio de
gar de protagonismo na condução de Janeiro: Hucitec/Fiocruz, 2006. N
sistemas locais de saúde. No Brasil, essa CECCIM, R. B. Educação
é a política atual do SUS para a educa- per manente em saúde: desaf io O
ção em saúde e, portanto, a diretriz para ambicioso e necessário. Interface -
os atores que atuam na área. comunicação, saúde, educação, 9(16): 161- P
178, set. 2004-fev., 2005.
Ao colocar o trabalho na saúde sob
as lentes da ‘educação permanente em CECCIM, R. B. Educação permanente Q
saúde’, a informação científica e em saúde: descentralização e
disseminação de capacidade pedagógica
tecnológica, a informação administrati- na saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 10(4):
R
va setorial e a informação social e cul- 975-986, out.-dez., 2005a.
tural, entre outras, podem contribuir S
CECCIM, R. B. Onde se lê “recursos
para pôr em evidência os ‘encontros humanos da saúde”, leia-se “coletivos
rizomáticos’ que ocorrem entre ensino, organizados de produção da saúde”: T
trabalho, gestão e controle social em desafios para a educação. In:
saúde, carreando consigo o contato e a PINHEIRO, R.; MATTOS, R. A. de U
(Orgs.) Construção Social da Demanda:
permeabilidade às redes sociais que tor-
nam os atos de saúde mais humanos e
direito à saúde, trabalho em equipe, participação V
e espaços públicos. Rio de Janeiro: Uerj/
de promoção da cidadania. IMS/Cepesc/Abrasco, 2005b.
A

167
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

CECCIM, R. B. & FEUERWERKER, Demanda: direito à saúde, trabalho em equipe,


L. C. M. O quadrilátero da formação participação e espaços públicos. Rio de
para a área da saúde: ensino, gestão, Janeiro: Uerj/IMS/Cepesc/Abrasco,
atenção e controle social. Physis – Revista 2005.
de Saúde Coletiva, 14(1): 41-66, 2004.
HADDAD, J.; ROSCHKE, M. A. &
CECCIM, R. B. & FERLA, A. A. Notas DAVINI, M. C. (Orgs.) Educación
cartográficas sobre a escuta e a escrita: Per manente de Personal de Salud.
contribuição à educação das práticas de Washington: OPS/OMS, 1994.
saúde. In: PINHEIRO, R. & MATTOS,
MERHY, E. E. Saúde: cartografia do
R. A. (Orgs.) Construção Social da
trabalho vivo. São Paulo: Hucitec, 2002.


EDUCAÇÃO POLITÉCNICA

José Rodrigues

É consenso, entre os pesquisa- pectos específicos”, por outro lado, e


dores da área de trabalho e educação, “acima de tudo, está colocada organi-
que o conceito de ‘educação politécni- camente no contexto de uma crítica
ca’ foi esboçado inicialmente por Karl rigorosa das relações sociais”
Marx, em meados do século XIX. Em (Manacorda, 1991, p. 9).
outras palavras, ‘educação politécnica’ Dentre as obras em que Marx
pode ser vista como sinônimo de con- abordou a temática pedagógica, desta-
cepção marxista de educação. cam-se O Capital, particularmente no
Cabe esclarecer que, se é originá- capítulo XIII – A maquinaria e a indús-
ria de Marx a concepção de ‘educação tria moderna (Marx, 1994 –, A Ideolo-
politécnica’, o filósofo alemão jamais gia Alemã (Marx & Engels, 1987) e Crí-
escreveu um texto sistemático dedica- tica ao Programa de Gotha (Marx &
do especificamente à questão pedagó- Engels, s.d.).
gica. Como ensina Mario Alighiero Mas, em que consistiria a ‘educa-
Manacorda, em sua clássica obra, Marx ção politécnica’ para Marx? Sem pre-
e a Pedagogia Moderna, se, por um lado, tender esgotar a discussão, pois certa-
a “temática pedagógica é, de fato, tra- mente essa é uma questão bastante
tada de maneira ocasional em seus as- complexa, extrapolando os limites des-

168
Educação Politécnica A

te dicionário, pode-se, primeiramente, combinação de trabalho produtivo C


ilustrar o pensamento marxiano atra- pago com a educação intelectual, os
vés de uma das passagens mais conhe- exercícios corporais e a formação po- D
cidas de Karl Marx, retirada das Instru- litécnica elevará a classe operária aci-
ções aos Delegados do Conselho Central Pro- ma dos níveis das classes burguesa e E
visório da Associação Internacional dos Tra- aristocrática” (1983, p. 60).
F
balhadores, de 1868 (Marx & Engels, Nessas indicações, encontra-se o
1983, p. 60 – grifos do autor): “afirma- embrião fundamental do trabalho
como princípio educativo, que busca
G
mos que a sociedade não pode permitir que
na transformação radical da sociedade
pais e patrões empreguem, no trabalho, cri-
sua última finalidade. Nesse sentido, os
H
anças e adolescentes, a menos que se com-
principais vetores da concepção mar-
bine este trabalho produtivo com a
xista de educação são:
I
educação”.
1. Educação pública, gratuita, obriga-
E, continuando, o filósofo alemão
tória e única para todas as crianças e
N
deixa claro o que entende por educa-
jovens, de forma a romper com o
ção (1983, p. 60): monopólio por parte da burguesia da O
cultura, do conhecimento.
Por educação entendemos três coisas:
2. A combinação da educação (inclu- P
1. Educação intelectual. indo-se aí a educação intelectual,
corporal e tecnológica) com a pro- Q
2. Educação corporal, tal como a dução material com o propósito de
que se consegue com os exercícios superar o hiato historicamente pro-
de ginástica e militares. R
duzido entre trabalho manual
(execução, técnica) e trabalho inte-
3. Educação tecnológica, que reco-
lectual (concepção, ciência) e com S
lhe os princípios gerais e de caráter
isso proporcionar a todos uma com-
científico de todo o processo de
produção e, ao mesmo tempo, ini-
preensão integral do processo pro- T
dutivo.
cia as crianças e os adolescentes no
manejo de ferramentas elementares 3. A formação omnilateral (isto é, mul- U
dos diversos ramos industriais. tilateral, integral) da personalida-de
Pode-se facilmente perceber a di-
de forma a tornar o ser humano ca- V
paz de produzir e fruir ciência,
reção de uma educação multilateral pre- arte, técnica.
conizada por Karl Marx; seguindo, o A
4. A integração recíproca da escola à
autor aponta a finalidade de sua pro- sociedade com o propósito de supe-
posta de ‘educação politécnica’: “Esta rar a estranhamento entre as práti-
A

169
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

cas educativas e as demais práticas linha de trabalho que primava pela


sociais. opção de ‘ir às fontes’, buscando su-
No Brasil, essa proposta/concep- perar aquelas leituras simplificadoras,
ção de educação ficou relativamente la- típicas do marxismo vulgar. Saviani
tente até a década de 1980, quando foi entendia que estudar teoria da forma-
(re)introduzida no debate pedagógico ção humana era buscar apreender as
por Dermeval Saviani através do cur- concepções de homem, sociedade e
so de doutorado em educação na educação, em Marx e em Gramsci. Foi
Pontifícia Universidade Católica de São precisamente esse retorno ‘às fontes’,
Paulo (PUC-SP), notadamente a par- conduzido por Saviani, que propiciou
tir do estudo das concepções de Marx a base teórica fundamental ao estabe-
e de Antonio Gramsci. As obras de lecimento e posterior ampliação da dis-
Manacorda sobre o pensamento de cussão da concepção politécnica de
Marx e de Gramsci, sem dúvida, têm educação na década de 1980.
papel decisivo na apreensão da concep- Além do debate teórico, propria-
ção marxista de educação no Brasil. mente dito, cabe destacar que, em 1988‚
Primeiramente, as obras circularam em iniciou-se o então curso técnico de 2º
suas traduções espanholas, sendo mais grau da Escola Politécnica de Saúde Jo-
tarde vertidas para a língua portugue- aquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), na
sa (Manacorda, 1990, 1991). Cabe tam- perspectiva de
bém explicitar que podem ser encon- Pensar um projeto de educação ar-
tradas publicações brasileiras, anterio- ticulado com um projeto de socie-
res à década de 1980, que abordam a dade não excludente, pensar um
educação politécnica (como, por exem- ensino de segundo grau que se des-
vie da dualidade [educação prope-
plo, Lemme, 1955). Contudo, estas
dêutica X formação profissional],
obras não alcançaram maiores reper- pensar uma educação que tenha o
cussões no pensamento pedagógico ser humano como centro e não o
brasileiro. mercado [de trabalho]. (Malhão,
1990, p. 3)
Neste curso, Saviani buscava de-
senvolver uma crítica consistente ao No mesmo ano, promulgada a
especialismo, ao autoritarismo e ao Constituição em 1988, abriu-se o perí-
reprodutivismo em educação, assim odo dos debates acerca das chamadas
como ao marxismo vulgar. Desse ‘leis complementares’, que necessaria-
modo, o pesquisador desenvolveu uma mente decorreriam da nova Carta. Com

170
Educação Politécnica A

isso, a discussão em torno da Lei de ções genéricas e inconsistentes à C


Diretrizes e Bases da Educação Naci- politecnia (Saviani, 1997, 2003).
onal (LDB) irrompeu no país levando No plano específico das pesquisas D
consigo o debate da politecnia. e publicações que tratam prioritariamente
do tema politecnia, podem ser destaca-
E
Mais uma vez coube ao professor
Dermeval Saviani a iniciativa de produ- das as contribuições de Dermeval Saviani
F
zir um texto que, como ele mesmo afir- (1986, 1988a, 1988b, 1989, 2003),
mou, era ‘um início de conversa’ para a Gaudêncio Frigotto (1984, 1985, 1988,
G
formulação da nova LDB, onde se des- 1991), Acácia Kuenzer (1988, 1989, 1991,
tacam os conceitos de desenvolvimen- 1992), Lucília Machado (1989, 1990, H
to omnilateral e formação politécnica. 1991a, 1991b, 1992) e Rodrigues (1998,
Um deputado, apropriando-se do esbo- 2005, 2006). I
ço desenhado por Saviani, o transfor- Essa grande e diversificada pro-
mou no primeiro anteprojeto de LDB. dução intelectual, marcada pelo con- N
Com isso, tanto no texto “Contribui- texto e pela conjuntura brasileiros,
ção à elaboração da nova Lei de Dire- consubstanciou, sem dúvida, um de- O
trizes e Bases da Educação: um início bate específico sobre a concepção
de conversa”, de Dermeval Saviani marxista de educação. P
(1988a), quanto no anteprojeto apresen- Até hoje, existe uma polêmica que
tado pelo deputado Otávio Elísio (1988, gira em torno da denominação mais Q
p. 3), podia-se ler: adequada à concepção marxiana (e
marxista) de educação. Em vez de ‘edu- R
Art.35 A educação escolar de 2º
grau (...) tem por objetivo geral pro-
cação politécnica’, alguns autores op-
piciar aos adolescentes a formação tam pela designação educação S
politécnica necessária à compreensão tecnológica. Concordamos com a po-
teórica e prática dos fundamentos sição de Saviani (2003, p. 145-146), que T
científicos das múltiplas técnicas
assinala uma importante mudança no
utilizadas no processo produtivo.
discurso econômico e pedagógico da U
Não cabe aqui explicitar a trajetó- burguesia, no que tange à utilização dos
ria da LDB, aprovada em 1996, contu- termos ‘tecnologia’ e ‘politecnia’, sen-
V
do, é mister registrar a efetiva derrota do o primeiro definitivamente apropri-
que sofreu a proposta da concepção A
ado pelo discurso dominante: “Assim,
marxista de educação no curso dessa a concepção de politecnia foi preser-
trajetória, onde ficaram apenas men-
A
vada na tradição socialista, sendo uma

171
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

das maneiras de demarcar esta visão O segundo vetor do debate brasi-


educativa em relação àquela correspon- leiro sobre a ‘educação politécnica’ –
dente à concepção dominante” dimensão socialista – busca expor a
(Saviani, 2003, p. 146). profunda relação entre essa concepção
Em que pesem as diferentes pers- de formação humana e um projeto de
pectivas dos autores, grosso modo, a pro- construção de uma sociedade sem clas-
posta brasileira de ‘educação politéc- ses. Para autores brasileiros, no auge
nica’ pode ser caracterizada por três do debate da politecnia, seria o proje-
eixos fundamentais: dimensão infra- to socialista-revolucionário de uma
estrutural, dimensão socialista e dimen- nova sociedade que possibilitaria, por
são pedagógica. um lado, proporcionar unidade teóri-
A dimensão infra-estrutural da co-política à concepção politécnica de
concepção politécnica de educação educação e, por outro, impedir a sua
agrega os aspectos relacionados ao ‘naturalização’, isto é, impedir o equí-
mundo do trabalho, especificamente os voco de se entender que a formação
processos de trabalho sob a organiza- politécnica seria o caminho ‘natural’
ção capitalista de produção, e, conse- demandado pelo modo de produção ca-
qüentemente, a questão da qualifica- pitalista. Em outras palavras, a politecnia
ção profissional. A questão nodal era, – apoiada em sua dimensão socialista –
então, procurar esclarecer como as ino- representaria uma profunda ruptura
vações tecnológicas ‘implicariam’ a com o projeto de educação profissio-
politecnia, ou seja, em que medida as nal e, fundamentalmente, com o proje-
mudanças nos processos de trabalho to de formação humana postos pela so-
estariam contribuindo para a efetivação ciedade burguesa.
de uma formação politécnica. Enfim, Ora, como caminhar para uma
a concepção politécnica de educação progressiva explicitação do modus
propõe, através de sua dimensão infra- operandi de uma escola que se paute
estrutural, a identificação de estratégi- numa orientação politécnica, sem re-
as de formação humana, com base nos cair em proposições abstratas, isto é,
modernos processos de trabalho, que historicamente desenraizadas? Na
apontem para uma reapropriação do opinião dos autores em tela, através
domínio do trabalho, somente possí- do permanente estudo da dimensão
vel a partir das transformações infra-estrutural, além da consciência
tecnológicas. de que nenhum estudo ou pesquisa

172
Educação Politécnica A

poderá substituir a práxis educativa alismo real’ e da reestruturação capita- C


desenvolvida a partir do horizonte da lista mundial de cariz neoliberal, qual
politecnia. Ou seja, a construção de o atual lugar da concepção da ‘educa- D
uma concepção de ‘educação poli- ção politécnica’?
técnica’ precisaria, necessariamente, Ora, se concordarmos com a no-
E
estar embasada em práticas pedagó- tória formulação de Jean-Paul Sartre
F
gicas concretas que deveriam buscar – “o marxismo é a filosofia insuperá-
romper com a profissionalização es- vel do nosso tempo. Ele é insuperá-
G
treita, por um lado, e com uma edu- vel porque as circunstâncias que o en-
cação geral e propedêutica, livresca gendraram não foram superadas” –, H
e descolada do mundo do trabalho, então, somos obrigados a concluir que
por outro. enquanto houver uma educação I
Enfim, embora os autores não marcada pela divisão social do traba-
identificassem polivalência com lho, haverá inexoravelmente a neces- N
politecnia, posto que a polivalência re- sidade de uma concepção de ‘educa-
presentaria apenas um momento ne- ção politécnica’, isto é, marxista, que O
cessário à politecnia, ficava mais ou àquela se contraponha.
menos implícito que haveria margem P
para um acordo supraclassista em tor-
no do caráter ‘progressista’ da rees- Para saber mais: Q
truturação produtiva. Em poucas
ELÍSIO. O. Projeto de Lei n. 1.258 de
palavras, a superação do padrão 1988. (1a versão). p. 3.
R
taylorista-fordista de organização do
trabalho e de formação profissional
FRIGOTTO, G. A Produtividade da Escola
S
Improdutiva: um (re)exame das relações entre
interessaria tanto à burguesia (dita na- educação e estrutura econômico-social
cional) quanto à classe trabalhadora, o capitalista. São Paulo: Cortez/Autores T
que supostamente contribuiria para o Associados. 1984.
avanço da práxis educativa de caráter FRIGOTTO, G. Trabalho como U
politécnico (Rodrigues, 2006). princípio educativo: por uma superação
Resta saber: passados vinte anos
das ambigüidades. Boletim Técnico do Senac, V
Ano 11, 3: 175-192, set.-dez., 1985.
desde as primeiras publicações brasi-
FRIGOTTO, G. Formação Profissional no A
leiras sobre politecnia e da experiência 2º grau: em busca do horizonte da “educação”
acumulada pela EPSJV, após também politécnica. Rio de Janeiro: EPSJV/ A
a derrocada dos regimes do dito ‘soci- Fiocruz, 1988. (Transcrição da aula

173
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

inaugural, proferida pelo autor, do curso décadas de 20 e 30. Teoria & Educação, 3:
técnico de 2º grau da EPSJV/Fiocruz). 151-174, 1991a.
FRIGOTTO, G. Trabalho-educação e MACHADO, L. R. de S. Politecnia no
tecnologia: treinamento polivalente ou ensino de segundo grau. In: GARCIA,
for mação politécnica? Educação e W. & CUNHA, C. (Coords.) Politecnia no
Realidade, 14(1):17-26, jan.-jun., 1989. Ensino Médio. São Paulo/Brasília:
FRIGOTTO, G. Tecnologia, relações Cortez/Seneb, 1991b. (Cadernos Seneb,
sociais e educação. Revista Tempo 5)
Brasileiro, 105: 131-148, abr.-jun., 1991. MACHADO, L. R. de S. Mudanças
KUENZER, A. Z. Ensino de 2º grau: o tecnológicas e a educação da classe
trabalho como princípio educativo. São Paulo: trabalhadora. In: MACHADO, L. et al.
Cortez, 1988. (Orgs.) Trabalho e Educação. Campinas:
Papirus/ Cedes/Ande/Anped, 1992.
KUENZER, A. Z. O trabalho como
princípio educativo. Cadernos de Pesquisa, MALHÃO, A. P. Teoria e prática na
68: 21-28, 1989. construção do curso técnico de 2º grau
da Escola Politécnica de Saúde Joaquim
KUENZER, A. Z. Ensino médio: uma Venâncio/Fiocruz. Niterói: Faculdade
nova concepção unificadora de ciência, de Educação-UFF, 1990. (Mimeo.)
técnica e ensino. In: GARCIA, W. &
CUNHA, C. (Coords.) Politecnia no Ensino MANACORDA, M. A. O Princípio
Médio. São Paulo/Brasília: Cortez/ Educativo em Gramsci. Porto Alegre: Artes
Seneb, 1991. (Cadernos Seneb, 5) Médicas, 1990.
KUENZER, A. Z. A questão do ensino MANACORDA, M. A. Marx e a
médio no Brasil: a difícil superação da Pedagogia Moderna. São Paulo: Cortez/
dualidade estrutural. In: MACHADO, L. Autores Associados, 1991.
et al. (Orgs.) Trabalho e Educação. MARX, K. & MARX, K. A maquinaria
Campinas/São Paulo, Papirus/Cedes/ e a indústria moderna. O Capital: crítica
Ande/Anped, 1992. (Coletânea CBE)
da economia política. 14.ed. Rio de Janeiro:
LEMME, P. A Educação na U.R.S.S. – Bertrand Brasil, 1994. t.1, v.1.
1953. Rio de Janeiro: Vitória, 1955.
MARX, K. & ENGELS, F. Textos sobre
MACHADO, L. R. de S. Politecnia, Escola Educação e Ensino. São Paulo: Moraes,
Unitária e Trabalho. São Paulo: Cortez/ 1983.
Autores Associados, 1989.
MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia
MACHADO, L. R. de S. Em defesa da Alemã. 6.ed. São Paulo: Hucitec, 1987.
politecnia. Ciência & Movimento, Ano 1,
MARX, K. & ENGELS, F. Crítica do
1: 55-61, set., 1990.
programa de Gotha. In: MARX, K. &
MACHADO, L. R. de S. A politecnia ENGELS, F. (Orgs.) Obras Escolhidas.
nos debates pedagógicos soviéticos das São Paulo: Alfa e Ômega, s.d. v.2.

174
Educação Profissional A

NOGUEIRA, M. A. Educação, Saber, Educação: um início de conversa. In: XI C


Produção em Marx e Engels. São Paulo: Reunião Anual da Anped, 1988, Porto
Cortez/Autores Associados, 1990. Alegre, Anais... Porto Alegre, abr. 1988a. D
(Mimeo.)
RODRIGUES, J. A Educação Politécnica
no Brasil. Niterói: EdUFF, 1998. SAVIANI, D. Perspectivas de expansão E
e qualidade para o ensino de 2º grau:
RODRIGUES, J. Ainda a educação
repensando a relação trabalho-escola. In:
politécnica: o novo decreto da educação
Seminário de Ensino de 2º grau -
F
profissional e a per manência da
Perspectivas, 1988, São Paulo, Anais...
dualidade estrutural. Trabalho, Educação 1988b, p. 79-91. G
e Saúde, 3(2): 259-282, 2005.
SAVIANI, D. Sobre a Concepção de
RODRIGUES, J. Qual cidadania, qual Politecnia. Rio de Janeiro: Politécnico da H
democracia, qual educação? Trabalho, Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz, 1989.
Educação e Saúde, 4(2), 2006. (No prelo)
SAVIANI, D. A Nova Lei da Educação: I
SAVIANI, D. O nó do ensino de 2º grau. LDB – trajetória, limites e perspectivas.
Bimestre - Revista do 2º grau, 1(1): 13-15, Campinas: Autores Associados, 1997. N
out., 1986. (Entrevista)
SAVIANI, D. O choque teórico da
SAVIANI, D. Contribuição à elaboração politecnia. Trabalho, Educação e Saúde, O
da nova Lei de Diretrizes e Bases da 1(1): 131-152, 2003.
 P
EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
Q

Ana Margarida de Mello Barreto Campello R


Domingos Leite Lima Filho
S

Na Grécia antiga, quando a so- simples e reiterativas que não exigiam T


ciedade se mantinha pela utilização do a incorporação de conhecimentos sis-
trabalho escravo, e a escola era o lugar temáticos. “Quem se dedicava ao tra- U
do ócio e da prática de esportes, as fun- balho intelectual era a parcela dos in-
ções intelectuais ficavam restritas a uma telectuais, fundamentalmente concen- V
pequena parcela da sociedade. Na Ida- trada no clero. As escolas, naquele
de Média, a sociedade era sustentada momento histórico, se restringiam a A
pelo trabalho servil, pelo cultivo da essa parcela e, por isso, eram chama-
terra, desenvolvido segundo técnicas das Escolas Monacais” (Saviani, 2003, A

175
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

p. 134). Na Idade Média a transmissão bém a “passagem definitiva da instru-


dos conhecimentos profissionais esta- ção das Igrejas para os Estados”: “as
va situada fora dos estabelecimentos leis que criam a escola de Estado vêm
escolares os quais eram empregados juntas com as leis que suprimem a
apenas para o melhor desenvolvimen- aprendizagem corporativa” (Mana-cor-
to intelectual da juventude. da, 1994, p. 249). É nesse momento
À revolução industrial corres- de mudança não só do modo de pro-
pondeu uma Revolução Educacional: dução, mas também do modo de vida
aquela colocou a máquina no centro do homem, que nasce o ideal de esco-
do processo produtivo; esta erigiu a la elementar gratuita e para todos, tan-
escola em forma principal e dominan- to na América do Norte como na Fran-
te de educação (Saviani, 2006). A trans- ça revolucionária, pós-1789. O perío-
missão, via escola, de conhecimentos do revolucionário afirma o direito de
técnicos e científicos, corresponde ao todos à educação e renova seus con-
aparecimento de novas divisões e no- teúdos.
vas funções na hierarquia social do tra- A incorporação de uma cultura
balho. As primeiras escolas de enge- técnico-científica voltada para a pre-
nheiros são escolas para a formação paração profissional aos conteúdos
de quadros funcionais especializados para escolares até então essencialmente
o Estado. Essas escolas de ciências apli- especulativos e teóricos implica uma
cadas articulam os conhecimentos revolução, que para Petitat (1994) tal-
técnico-científicos e as práticas so- vez seja a mais importante desde a
ciais. A partir delas o conhecimento própria aparição da escola. Esta cul-
é difundido, mas elas são também tura, em um primeiro momento, não
locais de articulação entre o saber e o encontrou espaço nas escolas então
poder. O aparecimento dessas esco- existentes, e surgiram novas institui-
las se faz acompanhar de uma ções: academias, escolas técnicas e
redefinição dos conteúdos a serem profissionais.
transmitidos, o que, por sua vez, leva a No Brasil, a predominância de
uma reorganização dos conhecimen- uma “mentalidade jurídico-profissio-
tos exigidos. nal, voltada inteiramente para as car-
No dizer de Manacorda (1994, p. reiras liberais e para as letras, a política
246), fábrica e escola nascem juntas, e a administração” (Azevedo, 1996, p.
em um movimento que implica tam- 626) faz com que o ensino técnico-pro-

176
Educação Profissional A

fissional seja relegado a um plano se- ra de encarar o trabalho que não fosse C
cundário. De um lado, o encargo dos intelectual.
trabalhos pesados dado inicialmente No entanto, a velha concepção D
aos índios e aos escravos; de outro, a destinando esse tipo de ensino aos
espécie de educação que os jesuítas deserdados da fortuna persiste mesmo
E
ofereciam criou, no Brasil, uma men- depois da instauração da República.
F
talidade que levou ao desprezo pelo Quando Nilo Peçanha, em 1909, cria
ensino de ofícios. Essa mentalidade as escolas de aprendizes artífices (De-
G
imperou ao longo de nossa história, da creto n. 7.566/09), destina essas esco-
descoberta até quase a República. las aos ‘deserdados da fortuna’. A cri- H
Durante esse período, a aprendi- ação dessa rede de escolas é, segundo
zagem profissional era destinada aos Ciavatta (1990, p. 330), a expressão I
órfãos e desvalidos, não fazendo parte histórica, naquele momento, “da ques-
das ações desenvolvidas nas escolas; tão social manifesta no desamparo N
não era entendida como ação afeta à dos trabalhadores e de seus filhos e
instrução pública, mas como ação de na ausência de uma política efetiva de O
caridade. Mais tarde, o ensino profis- educação primária”.
sional é incluído no conjunto geral da O contexto da industrialização e P
instrução, mas entendido como neces- da revolução de 1930 destaca a relação
sariamente de grau elementar, continu- entre trabalho e educação como pro- Q
ando a ser considerado como depri- blema fundamental. A Constituição de
mente e desmoralizante. 1937, entretanto, ainda explicita clara- R
Os liceus de artes e ofícios, cria- mente o dualismo escolar e a
dos em 1858, traziam em seus progra- destinação do ensino profissional aos S
mas uma nova filosofia, uma outra menos favorecidos:
maneira de encarar o ensino técnico- T
O ensino pré-vocacional e profissi-
profissional, que deixava de ser mera- onal destinado às classes menos fa-
mente assistencial e elementar. A mul- vorecidas é, em matéria de educa- U
tiplicação de liceus de artes e ofícios ção, o primeiro dever do Estado.
em várias províncias parece indicar que
Cumpre-lhe dar execução a esse V
dever, fundando institutos de ensi-
em todo o país surgiam novas idéias no profissional e subsidiando os de A
com relação ao ensino necessário à in- iniciativa dos Estados, dos Municí-
dústria. A abolição da escravatura tam- pios e dos indivíduos ou associa-
ções particulares e profissionais.
A
bém contribuiu para uma nova manei-

177
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

O Manifesto dos Pioneiros iden- A industrialização, a partir princi-


tifica a existência, no Brasil, de dois sis- palmente dos anos 30 do último sécu-
temas paralelos e divorciados de edu- lo, modifica lentamente a sociedade
cação, fechados em compartimentos brasileira, tornando necessária uma
estanques e incomunicáveis: nova proposta de educação: faz-se ne-
cessário preparar trabalhadores para a
O sistema de ensino primário e pro-
fissional e o sistema de ensino se- indústria, dentro de uma nova ordem
cundário e superior teriam diferen- social, gerada pela acumulação do ca-
tes objetivos culturais e sociais, pital. A necessidade de preparação de
constituindo-se, por isso mesmo,
mão-de-obra para a indústria implica
em instrumentos de estratificação
social. A escola primária e a profis- uma mudança de concepção do ensi-
sional serviriam à classe popular, no profissional. De uma aprendizagem
enquanto que a escola secundária e mais próxima do ofício era necessário
a superior à burguesia. (Cunha, passar para uma aprendizagem que in-
1997, p. 13)
troduzisse o domínio das técnicas, da
Naquela época, as escolas profissi- parcelarização do trabalho e da adap-
onais da Prefeitura do Distrito Federal tação à máquina, de maneira a discipli-
exigiam, para matrícula, que os alunos nar a força de trabalho e adequá-la à
apresentassem atestado de pobreza. organização fabril. Nesse quadro, a
Embora as escolas técnicas profissionais ‘educação profissional’
continuassem destinadas aos pobres, situa-se em um contexto maior de
percebia-se nitidamente uma mudança demandas de uma nova sociedade: a
na concepção da ‘educação profissio- sociedade industrial. Além de prepa-
nal’, na medida em que essas escolas pas- rar tecnicamente para o trabalho, é pre-
savam a ser encaradas como escolas for- ciso também disciplinar os jovens para
madoras de técnicos capazes de as atividades produtivas e a divisão do
desempenhar qualquer função na indús- trabalho.
tria. “O trabalho e o assistencialismo Nos anos 30 e de novo nos anos
constituem-se fundamentos de proces- 40 reforma-se o ensino secundário. A
sos educativos associados à ‘escola do partir de 1942 são baixadas por decre-
trabalho’, segundo dois eixos fundamen- to-lei as conhecidas “leis orgânicas da
tais: a regeneração pelo trabalho e o tra- educação nacional” para o ensino se-
balho para a modernização da produção” cundário, o ensino industrial, o ensino
(Ciavatta, 1990, p. 328). comercial, o ensino primário, o ensino

178
Educação Profissional A

normal e o ensino agrícola. A Consti- ção do conhecimento e da ciência ao C


tuição de 1937, ao determinar que o processo produtivo trouxeram uma
ensino vocacional e pré-vocacional são nova concepção sobre o valor do tra- D
dever do Estado, a ser cumprido com balho e sobre o caráter teórico-prático
a colaboração das empresas e dos sin- do fazer e da técnica.
E
dicatos econômicos, propiciou a defi- No início da República, o ensino
F
nição das Leis Orgânicas do Ensino secundário, o normal e o superior, eram
Profissional e a criação de entidades competência do Ministério da Justiça
G
especializadas como o Serviço Nacio- e dos Negócios Interiores, e o ensino
nal de Aprendizagem Industrial (Senai) profissional, por sua vez, era afeto ao H
e o Serviço Nacional de Aprendizagem Ministério da Agricultura, Indústria e
Comer-cial (Senac), bem como a trans- Comércio. A junção dos dois ramos de I
formação das antigas escolas de apren- ensino, a partir da década de 1930, no
dizes artífices em escolas técnicas fe- âmbito do mesmo Ministério da Edu- N
derais. cação e Saúde Pública foi apenas for-
No conjunto das Leis Orgânicas mal, não ensejando, ainda, a necessá- O
da Educação Nacional, o ensino secun- ria e desejável ‘circulação de estudos’
dário e o ensino normal têm como entre o acadêmico e o profissional. P
objetivo “formar as elites condutoras Apenas na década de 1950 é que se
do país”, enquanto para o ensino pro- passou a permitir a equivalência entre Q
fissional define-se como objetivo ofe- os estudos acadêmicos e
recer “formação adequada aos filhos profissionalizantes. Em 1961, com a R
dos operários, aos desvalidos da sorte promulgação da Lei de Diretrizes e
e aos menos afortunados, aqueles que Bases da Educação Nacional (Lei n. S
necessitam ingressar precocemente na 4024 de 20 de dezembro de 1961) fica
força de trabalho”. A herança dualista estabelecida a completa equivalência T
perdura e é explicitada (CNE, 1999). entre os cursos técnicos e o curso se-
Aprofunda-se, na época, a ênfase cundário para efeitos de ingresso nos U
na participação da escola na formação cursos superiores. As lutas políticas em
da mão-de-obra de maneira a contri- torno da primeira Lei de Diretrizes e
V
buir para o aumento da produtividade Bases da Educação Nacional estão na
A
do trabalho e da riqueza nacional. A origem das Leis de Equivalência que
Revolução Industrial, o desenvolvi- progressivamente equiparam os estu-
A
mento do capitalismo e a incorpora- dos acadêmicos aos profissionais em

179
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

termos de prosseguimento de estudos senvolvimento de aptidões para a vida


no nível superior. produtiva”. Pela primeira vez, consta
A Lei n. 5.692/71 reformou o em uma lei geral da educação brasilei-
ensino primário e secundário. Estabe- ra um capítulo específico sobre ‘edu-
leceu compulsoriamente a profissio- cação profissional’. Em 17 de abril de
nalização como finalidade única para 1997, o governo federal baixou o De-
o ensino de 2º grau. Em decorrência creto n. 2.208, regulamentando os dis-
desta lei, a ‘educação profissional’ dei- positivos da LDB referentes à ‘educa-
xou de estar limitada a estabelecimen- ção profissional’, definindo seus obje-
tos especializados. Segundo Cunha tivos e níveis, além de estabelecer ori-
(1998), com a implantação dessa lei, as entações para a formulação dos currí-
escolas técnicas viram-se procuradas culos dos cursos técnicos. O decreto
por levas de estudantes que pouco ou especifica três níveis de ‘educação pro-
nenhum interesse tinham por seus cur- fissional’: o básico, o técnico e o
sos profissionais. Paradoxalmente, a tecnológico. A reforma dos anos 90
profissionalização compulsória do en- proíbe o desenvolvimento do ensino
sino de 2o grau trouxe como efeito o técnico integrado ao ensino médio e
reforço da função propedêu-tica das define a ‘educação profissional’ como
escolas técnicas, que se transformaram necessariamente paralela e comple-
numa alternativa de ensino público mentar à educação básica.
para estudantes que apenas pretendi- Na proibição do desenvolvimento
am se preparar para o vestibular. Onze do ensino técnico integrado ao ensino
anos depois, a Lei 7.044/82 retirou a médio evidencia-se de forma exemplar
obrigatoriedade da habilitação profis- as principais características da reforma
sional no ensino de 2o grau. Em de- da ‘educação profissional’ dos anos 90,
corrência, a ‘educação profis-sional’ no Brasil: o retorno formal ao dualismo
voltou a ficar restrita aos estabeleci- escolar, na medida em que se aparta a
mentos especializados. ‘educação profissional’ da educação re-
A Lei n. 9.394/96, atual Lei de gular; na concepção de educação que
Diretrizes e Bases (LDB), configura a embasa essa reforma – a ruptura entre o
identidade do ensino médio como uma pensar e o agir e o aligeiramento da edu-
etapa de consolidação da educação cação profissional; a subsunção da es-
básica e dispõe que “a educação pro- cola à cultura do mercado na forma-
fissional (...) conduz ao permanente de- ção do cidadão produtivo (Frigotto &

180
Educação Profissional A

Ciavatta, 2006). Essa concepção de tor, no âmbito de um projeto nacional C


educação se insere no contexto de de desenvolvimento.
hegemonia das políticas neoliberais e se D
afina à redução do papel do Estado.
Retoma-se com essa reforma uma vi- Para saber mais: E
são dualista do sistema educacional,
AZEVEDO, F. A Cultura Brasileira: F
destinando-se explicitamente a ‘educa-
introdução ao estudo da cultura do Brasil. 6.ed.
ção profissional’ ao atendimento de uma Rio de Janeiro/Brasília: Editora da G
determinada classe social. UFRJ/Editora da UnB, 1996.
O Decreto n. 5.154, de julho de CIAVATTA, M. O Trabalho como Princípio H
2004, revogou o Decreto n. 2.208/97 Educativo: uma investigação teórico-
metodológica (1930-1960), 1990. Tese de
e restituiu a possibilidade de articula-
Doutorado, Rio de Janeiro: PUC.
I
ção plena do ensino médio com a ‘edu-
CNE. Parecer n. 16/1999. Institui as
cação profissional’, mediante a oferta N
diretrizes curriculares nacionais para a
de ensino técnico integrado ao ensino
educação profissional de nível técnico.
médio. Manteve, entretanto, as alter- Documenta (456) Brasília, set. 1999. O
nativas anteriores que haviam sido
CUNHA, L. A. Educação para a
fortalecidas e ampliadas com o Decre- democracia: uma lição de política prática. P
to n. 2.208/97 e expressavam a históri- In: TEIXEIRA, A. (Orgs.) Educação para
ca dualidade estrutural da educação a Democracia: introdução à administração Q
brasileira. educacional. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora
UFRJ, 1997.
O debate em torno das concepções R
que estavam presentes nas discussões que CUNHA, L. A. Ensino médio e ensino
antecederam a Lei n. 9.394/96, no final
profissional: da fusão à exclusão. S
Tecnologia e Cultura, Ano 2, 2: 25-42, jul.-
dos anos 80, é retomado nesse início do dez., 1998.
século XXI de maneira a contemplar T
CURY, C. R. J. Políticas atuais para o
uma proposta de articulação entre ciên- ensino médio e a educação profissional
cia, cultura e trabalho, como elementos de nível técnico: problemas e U
norteadores de uma nova política edu- perspectivas. In: ZIBAS, D.; AGUIAR,
cacional. A expansão e democratização
M. & BUENO, M. S. O Ensino Médio e a V
Reforma da Educação Básica. Brasília: Plano
da ‘educação profissional’ no Brasil as- Editora, 2002.
A
sume grande relevância nesse contexto
FRIGOTTO, G. & CIAVATTA, M.
em razão das expectativas de elaboração (Orgs.) A Formação do Cidadão Produtivo: A
de uma nova política pública para o se- a cultura de mercado no ensino médio técnico.

181
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Brasília: Instituto Nacional de Estudos SAV I A N I , D. A N o v a L e i d a


e Pesquisas Educacionais Anísio Educação: trajetória, limites e
Teixeira, 2006. perspectivas. 6.ed. Campinas: Autores
Associados, 2000.
MANACORDA, M. A. História da
Educação: da Antiguidade aos nossos dias. SAVIANI, D. O choque teórico da
4.ed. São Paulo: Cortez, 1994. politecnia. Revista Trabalho, Educação
e Saúde, 1(1):131-152, mar., 2003.
PETITAT, A. Pr odução da Escola/
Produção da Sociedade: análise sócio-histórica SAVIANI, D. Trabalho e Educação:
de alguns momentos decisivos da evolução fundamentos ontológicos e históricos. In:
escolar no Ocidente. Porto Alegre: Artes 2 9 ª Re u n i ã o d a A n p e d , 2 0 0 6 ,
Médicas, 1994. Caxambu. Anais... Caxambu, 2006.

EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Isabel Brasil Pereira


Júlio César França Lima

De modo geral, o termo educa- A ‘educação profissional em saú-


ção profissional já constava como pro- de’ foi permitida legalmente, no Bra-
posta das reformas educacionais defen- sil, a partir da Lei 4.024/61. Até então,
didas pelos arautos do escolanovismo, o ensino técnico estava organizado
nas décadas de 1920 e 1930, como com base nas Leis Orgânicas de Ensi-
Fernando Azevedo (1931), principal no, promulgadas, durante o Estado
mentor da idéia de uma educação pú- Novo, pelo ministro da Educação e
blica, gratuita e laica. Ainda que com Saúde, Gustavo Capanema (Lima,
ideais liberais e de preparação para o 1996). Estas tratavam, porém, especi-
trabalho, a escola é vislumbrada naque- ficamente, da formação de quadros
le contexto como espaço privilegiado profissionais para a indústria, o comér-
para o desenvolvimento de práticas e cio, a agricultura e a formação de pro-
conteúdos de saúde visando à forma- fessores, o que não impediu que na
ção dos futuros trabalhadores, de década de 1940 fosse aprovada legis-
modo a possibilitar o aumento da sua lação educacional para a área de en-
capacidade produtiva. fermagem, que busca regular a for-

182
Educação Profissional em Saúde A

mação técnica dos práticos de enfer- Os estudos sobre economia da C


magem (Decreto-Lei n. 8.778/1946) e educação e economia da saúde, de
dos auxiliares de enfermagem (Lei n. matriz neoclássica, ofereceram o su- D
775/1949), para o então incipiente e porte conceitual e analítico necessário
pouco desenvolvido mercado de tra- para o desenvolvimento da idéia de que
E
balho hospitalar. os gastos com os setores sociais não
F
A partir dessa época, mais precisa- se limitavam a despesas com consumo,
mente no final da década de 1950, co- mas eram investimentos rentáveis que
G
meça a predominar, no discurso de es- o Estado deveria assumir como meio
tudiosos e técnicos de instituições inter- de promoção do desenvolvimento eco- H
nacionais, uma concepção de desenvol- nômico. Nesse sentido, os dispêndios
vimento que se constitui, ao mesmo tem- em programas de saúde e na melhoria I
po, em uma teoria da educação, ambas da organização sanitária significavam a
inspiradas na teoria do ‘capital humano’ promoção da saúde e, conse- N
de Theodore W. Schultz, que lhe valeu o quentemente, uma maior produtivida-
Prêmio Nobel de Economia em 1979. de do trabalho. Em contrapartida, o in- O
No primeiro caso, reorienta a estratégia vestimento em educação, por ser esta
da Comissão Econômica para a Améri- produtora de capacidade de trabalho, P
ca Latina (Cepal) que passa a preconizar significava, potencialmente, o aumento
na década de 1960 o desenvolvimento da renda e a posse de um capital. É no Q
integrado, a partir do planejamento eco- bojo dessa discussão que emerge a
nômico-social, como instrumento de noção de recursos humanos em saú- R
superação do subdesenvolvimento. No de, para designar a mão-de-obra
segundo, irá influenciar toda a políti- engajada no setor. S
ca educacional brasileira desenhada a O marco internacional para ado-
partir da segunda metade dos anos 60, ção dessa visão foi a Carta de Punta del T
especialmente a ‘educação profissio- Este, em 1961, que elaborou o Primei-
nal em saúde’, materializando-se de ro Plano Decenal de Saúde para as U
forma acabada na década de 1970, Américas, ratificado no Brasil, em 1967,
com a Lei 5.692/71, que reformula o na IV Conferência Nacional de Saúde,
V
ensino de 1° e 2° graus no país, im- cujo tema central foi recursos humanos
A
plantando compulsoriamente a para as atividades de saúde. Nesse con-
terminalidade profissional atrelada a texto, difunde-se a idéia da formação
A
este último grau de ensino. de técnicos de saúde de nível médio em

183
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

função das necessidades de um supos- apenas uma questão de modernização


to mercado de trabalho para estes pro- de alguns fatores, onde os recursos
fissionais surgidas em decorrência do humanos qualificados – ‘capital huma-
crescimento econômico acelerado no no’ – constituem o elemento funda-
tempo do ‘milagre econômico’ brasilei- mental. Em contrapartida, passa a idéia
ro (1968-1974) e da introdução de so- de que o antagonismo capital-trabalho
fisticados equipamentos médicos no pode ser superado mediante um pro-
processo de trabalho em saúde, no âm- cesso meritocrático – pelo trabalho,
bito hospitalar. especialmente pelo trabalho
De fato, os serviços de saúde fo- potenciado como educação, treina-
ram um importante pólo de criação de mento etc. No plano econômico, o
postos de trabalho nesse período, e isso conceito de ‘capital humano’ estabele-
está diretamente associado ao modelo ce, de um lado, o nivelamento entre
de saúde adotado no pós-64, de am- capital constante e capital variável (for-
pliação em larga escala da produção de ça de trabalho) na produção de valor;
serviços médicos hospitalares. Porém, coloca o trabalhador assalariado como
isso ocorreu às custas de duas catego- um duplo proprietário: da força de tra-
rias polares: os atendentes de enferma- balho – adquirida pelo capitalista – e
gem, com nível de escolaridade equi- de um capital adquirido por ele – quan-
valente às quatro primeiras séries do tidade de educação ou de ‘capital hu-
atual ensino fundamental, e os médi- mano’. Por outro lado, esse conceito
cos. Portanto, como aponta Frigotto reduz a concepção de educação e, por
(1986), no contexto da recomposição extensão, a educação profissional a
do capitalismo em sua fase mero fator técnico da produção.
monopolista, o fetiche e a mistificação Sendo assim, verificou-se, no se-
da necessidade de formação técnica tor saúde, que não só a formação de
média para um suposto mercado de técnicos de enfermagem, por exemplo,
trabalho veiculada pela teoria do ‘capi- não determinou o seu ingresso no
tal humano’ cumpriu um papel políti- mercado de trabalho – e mesmo aque-
co, ideológico e econômico específicos. les que conseguiram não se garantiu a
No plano político-ideológico, essa ocupação do cargo – como essa con-
teoria veicula a idéia de que o subde- cepção tecnicista de educação profis-
senvolvimento não diz respeito às re- sional contribuiu, entre outros, para na-
lações de poder e dominação, sendo turalizar as ações feitas pelos trabalha-

184
Educação Profissional em Saúde A

dores técnicos em saúde: reduzir a for- cação é colocada em novo patamar, C


mação profissional a meros treinamen- buscando sobretudo resgatar a dimen-
tos; conformar os trabalhadores à di- são contraditória do fenômeno D
visão técnica do trabalho em saúde; educativo, seu caráter mediador e sua
manter a hegemonia do ideário especificidade no processo de transfor-
E
cientificista e tecnicista na área; incen- mação da sociedade.
F
tivar a crença nas técnicas pedagógicas Se a escola tende a mediar os in-
como instrumento para resolver pro- teresses do capital e a adaptação ao
G
blemas da formação técnica e de saú- existente, não é da sua natureza ser
de da população; estabelecer análises capitalista. Nesse sentido, abre-se no H
lineares e imediatas entre educação e seu interior a possibilidade e a neces-
mercado de trabalho em saúde, de sidade de construir outras mediações I
modo a adequar a formação às neces- que a articulem com os interesses dos
sidades desse mercado, reduzindo o trabalhadores no processo de sua qua- N
ensino às tarefas do posto de trabalho. lificação, mediações que resgatem o
Contribuiu, em síntese, para a adapta- homem em sua tripla dimensão – O
ção e conformação dos trabalhadores individualidade, natureza e ser social
ao existente, numa perspectiva – e o saber científico-tecnológico pro- P
economicista, instrumentalista, prag- duzido historicamente por esse mes-
mática e moralizadora (Pereira, 2006). mo homem. Q
Antagônica a essa concepção de Desse último ponto de vista, o pa-
adaptação, foi sendo construída nos pel do ensino médio e da educação pro- R
anos 80, ao mesmo tempo, uma con- fissional em saúde deveria ser o de re-
cepção de educação que a recoloca no cuperar a relação entre conhecimento e S
âmbito das práticas sociais, isto é, como a prática do trabalho. Isto significaria
uma prática constituída e constituinte explicitar como a ciência se converte em T
das relações sociais e uma concepção potência material no processo de pro-
de escola, cujo eixo básico centra-se na dução de mercadorias, de maneira ge- U
questão da escola unitária, de forma- ral, e nos serviços de saúde, em parti-
ção tecnológica ou politécnica e na cular. Assim, seu horizonte deveria ser
V
necessidade de aprofundamento do o de propiciar aos alunos o domínio dos
A
sentido e dos desafios de tomar-se o fundamentos científicos das diversas
trabalho como princípio educativo. técnicas e não o mero adestramento em
A
Nesse debate, a relação trabalho-edu- técnicas produtivas. A noção de

185
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

politecnia postula uma formação que a saúde desenvolvem trabalho comple-


partir do próprio trabalho social desen- xo, na perspectiva de valor de uso e,
volva a compreensão das bases de or- portanto, precisam de formação qua-
ganização do trabalho em nossa socie- lificada; a defesa da escola e da escola-
dade. Trata-se da possibilidade de ridade como política pública e como
formar profissionais em um proces- condição para a formação dos traba-
so onde se aprende praticando, mas, lhadores técnicos em saúde; a defesa
ao praticar, se compreendem os prin- da explicitação da dimensão política e
cípios científicos que estão direta e técnica da prática educativa na saúde;
indiretamente na base desta forma a crítica ao positivismo, ao
de organizar o trabalho na socieda- cientificismo e ao tecnicismo; o traba-
de. Implica ainda que o processo de lho como princípio educativo e a idéia
trabalho desenvolva em uma unida- da qualificação como construção soci-
de indissolú-vel os aspectos manu- al (Castro, 1992; Hirata, 1994).
ais e intelectuais, pois são caracterís- As reflexões em torno do ideário
ticas do trabalho humano. A separa- da politecnia tinham como fulcro as
ção dessas funções é um produto transformações que estavam ocorren-
histórico-social e não é absoluta, mas do no mundo do trabalho com a in-
relativa (Saviani, 2003; EPSJV, 2005; trodução de novas tecnologias
Ramos, s.d.). informáticas e biotecnológicas e novas
À educação cabe, neste contexto, formas de energia que se intensificaram
contribuir para a emancipação dos tra- no decorrer dos anos 90, chegando a
balhadores em relação a uma ordem ser incorporado no projeto de Lei de
social e econômica excludente e alie- Diretrizes e Bases da Educação Nacio-
nada, que tende a transformar a saúde nal apresentado pelos setores educaci-
e a educação em uma mercadoria como onais progressistas à Câmara dos De-
outra qualquer, e conseqüentemente putados em 1988. Entretanto, esse pro-
ter como meta transformar a socieda- jeto de LDB foi derrotado pelo do
de e tornar realidade o direito univer- Senador Darcy Ribeiro, aprovado em
sal à saúde e à educação. Consideran- 20 de dezembro de 1996, com a Lei
do o trabalho e a ‘educação profissio- 9.394, que levou a diversas regulamen-
nal em saúde’, Pereira (2006) destaca tações posteriores, entre as quais, a re-
algumas premissas dessa concepção, gulamentação curricular com base na
tais como: os trabalhadores técnicos de pedagogia das competências, que se

186
Educação Profissional em Saúde A

tornou a referência fundamental para processos de trabalho, na sua comple- C


a política educacional de maneira ge- xidade, heterogeneidade e imprevi-
ral, mas em especial para a ‘educação sibilidade, essa opção pedagógica acaba D
profissional em saúde’. não contribuindo para o fortalecimento
Originária do mundo dos negóci- da relação entre o mundo da escola e do
E
os, a noção de competência, assim trabalho. Entre outros motivos, por le-
F
como a de sociedade do conhecimen- var à ‘desintegração curricular’, ao tentar
to, emerge como produto e resultado reproduzir as situações de trabalho nos
G
da crise do modelo fordista de desen- espaços formativos.
volvimento. Uma crise da acumulação, Do ponto de vista legal – a atual H
concentração e centralização de capi- Legislação Educacional, conforme pre-
tal, que implicou um novo tipo de or- vista no art. 39 da Lei 9.394 e no De- I
ganização do trabalho, baseado em creto 5.154, de 23 de julho de 2004 –,
tecnologia flexível, em contraposição a educação profissional em saúde com- N
à tecnologia rígida do sistema preende a formação inicial ou conti-
taylorista-fordista, e na formação de nuada, a formação técnica média e a O
um trabalhador também flexível, ba- formação tecnológica superior. Ela
seada na pedagogia das competências. pode ser realizada em serviços de saú- P
Na área de saúde, a noção de com- de (formação inicial ou continuada) e
petência foi difundida com a institui- em instituições de ensino (formação Q
ção do Sistema de Certificação de inicial ou continuada, formação técni-
Competências do Projeto de Profissio- ca e tecnológica). A formação técnica R
nalização dos Trabalhadores na área de compreende as formas de ensino inte-
Enfermagem do Ministério da Saúde grado, concomitante ou subseqüente S
(Profae/MS), a partir do ano 2000, e ao ensino médio. Tanto a formação
de acordo com Ramos (s.d.), apesar de técnica como a formação tecnológica T
(re)construir essa noção numa perspec- se organizam atualmente em doze
tiva contrária àquela que predomina na subáreas de formação em saúde, con- U
organização de sistemas de competên- forme os Referenciais Curriculares
cias profissionais, de corte Nacionais da área (Brasil/Ministério da
V
funcionalista e condutivista, e de Educação, 2000). São elas: biodiag-
A
relacioná-la ao desenvolvimento da au- nóstico, enfermagem, estética, farmá-
tonomia dos trabalhadores em saúde cia, hemoterapia, nutrição e dietética,
A
para enfrentar os acontecimentos dos radiologia e diagnóstico por imagem,

187
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

reabilitação, saúde bucal, saúde visual, Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz


segurança do trabalho e vigilância sa- (EPSJV/Fiocruz). Essas experiências
nitária. A área profissional saúde diz são realizadas no cenário histórico e
respeito às ações integradas referentes social do capitalismo tardio, um cená-
às necessidades individuais e coletivas, rio contraditório e complexo, em que
com base em modelo que ultrapasse a se confrontam as posições progressis-
ênfase na assistência médico-hospita- tas, que defendem e reafirmam a saú-
lar. As ações de saúde se desenvolvem de como um direito universal, e a rea-
em locais, tais como: centros de saúde, lidade da formação recente do capita-
postos de saúde, hospitais gerais e lismo em nosso país, que tende a tor-
especializados, laboratórios, domicíli- nar a saúde uma mercadoria.
os, centros comunitários, escolas e A educação profissional em saú-
outros espaços sociais. de no seu viés de transformação afir-
Portanto, a educação profissional ma a formação omnilateral e a
em saúde é um objeto de disputa e humanização do trabalhador pelo tra-
embate de projetos societários. Ape- balho. O caráter politécnico do ensi-
sar da hegemonia de idéias e práticas no, como diz Frigotto (1985, p. 4), “de-
de educação profissional que têm corre da dimensão de um desenvolvi-
como objetivo a adaptação e confor- mento total das possibilidades huma-
mação dos trabalhadores ao existente nas, onde, como afirma Marx, na Ideo-
e ao mercado de trabalho, assim como logia Alemã, os pintores serão ‘hombres
às necessidades de manutenção e trans- que además pintem’.
formação do capital, existem projetos
contra hegemônicos que lutam por
Para saber mais:
uma educação e saúde que tenham
como finalidade a construção de uma
AZEVEDO, F. Novos Caminhos e Novos
sociedade mais humana e solidária (Pe- Fins. Rio de Janeiro: Cia. Melhoramento,
reira & Ramos, 2006). São exemplos, 1931.
na ‘educação profissional em saúde’, a BRASIL/Ministério da Educação.
‘concepção ensino e serviço’, desen- Educação Profissional: referenciais curriculares
volvida pelas Escolas Técnicas do Sis- nacionais da educação profissional de nível
tema Único de Saúde (Etsus), e a ‘con- técnico. Área profissional: Saúde. Brasília:
MEC, 2000.
cepção politécnica’, desenvolvida pela
Escola Politécnica de Saúde Joaquim

188
Educação Profissional em Saúde A

CASTRO, N. Organização do trabalho, LIMA, J. C. F. Tecnologias e a C


qualificação e controle na indústria educação do trabalhador em saúde. In:
moderna. In: Coletânea CBE. EPSJV (Org.) Formação de Pessoal de D
Conferência Brasileira de Educação. Nível Médio para a Saúde: desafios e
Trabalho e Educação. Campinas: Papirus, perspectivas. Rio de Janeiro: Fiocruz,
1992. 1996.
E
EPSJV. Projeto Político Pedagógico. Rio de
Janeiro: EPSJV/ Fiocruz, 2005.
MILITÃO, M. N. Educação F
profissional, ensino profissional,
FRIGOTTO, G. Trabalho como formação profissional. In: FIDALGO,
princípio educativo: por uma superação F. & MACHADO, L. (Orgs.) Dicionário G
das ambigüidades. Boletim Técnico do Senac, da Educação Pr ofissional. Belo
11(3): 1-14, set.-dez., 1985. Horizonte: Núcleo de Estudos sobre H
Trabalho e Educação/ Faculdade de
FRIGOTTO, G. A Produtividade da Escola
Improdutiva: um (re)exame das relações entre
Educação da UFMG, 2000. I
educação e estrutura econômico-social e PEREIRA, I. B. Possibilidades da
capitalista. São Paulo: Cortez, 1986. Avaliação Produzir Conhecimento para a N
Formação em Saúde. In: Seminário de
FRIGOTTO, G. Educação e a Crise do
Avaliação de Integralidade em Saúde,
Capitalismo Real. São Paulo: Cortez, 1995.
2006, Rio de Janeiro. Anais... Rio de
O
FRIGOTTO, G. A dupla face do Janeiro, 2006.
trabalho: criação e destruição da vida.
PEREIRA, I. B. & RAMOS, M. N.
P
In: FRIGOTTO, G. & CIAVATTA, M.
Educação profissional em saúde.
(Orgs.) A Experiência do Trabalho e a
Coleção Temas de Saúde. Rio de Janeiro: Q
Educação Básica. Rio de Janeiro: DP&A,
2002. Fiocruz, 2006.
RAMOS. M. N. Referências teórico- R
HIRATA, H. Da polarização das
qualificações ao modelo de metodológicas da educação
competências. In: FERRETTI, C. et al. profissional em saúde no Brasil. In: S
(Orgs.) Novas Tecnologias, Trabalho e EPSJV (Org.) Textos de apoio em políticas
Educação: um debate multidisciplinar. de saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, v.2. T
Petrópolis: Vozes, 1994. (No prelo)

189
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

Domingos Leite Lima Filho


Ana Margarida de Mello Barreto Campello

A predominância do trabalho as- É analisando estas contradições e


salariado e a introdução da maquinaria como elemento da luta política dos tra-
na produção constituem, ao longo do balhadores, que Marx utiliza o termo
século XVIII, inicialmente na Inglater- ‘educação tecnológica’, situando-o no
ra e daí progressivamente espraiando- próprio corpo teórico de sua crítica às
se ao mundo, as bases fundamentais relações sociais capitalistas de produção.
das relações sociais capitalistas de pro- Nesse sentido, a ‘educação tecnológica’
dução. A Revolução Industrial marca teria como princípio a união da instru-
a emergência dessas relações, e a gran- ção com o trabalho material produtivo
de indústria baseada na maquinaria traz (no sentido geral de trabalho social útil),
consigo o ingresso da ciência como o que, para Marx, seria o germe da edu-
conhecimento sistematizado, no pro- cação do futuro.
cesso de produção, tornando-se ele- De acordo com Manacorda
mento material e intelectual do desen- (1991), Marx utiliza como sinônimos
volvimento das forças produtivas. No os termos ‘educação tecnológica’ e
entanto, sob a hegemonia deste modo ‘educação politécnica’. Enquanto a
de produção, a união que se dá entre denominação ‘educação tecnológica’
ciência e processo produtivo tem seu aparece no Manifesto Comunista (1848),
correspondente antagônico na separa- no texto escrito por Marx para o Pri-
ção ou divisão social do trabalho, me- meiro Congresso da Associação Inter-
diante a qual estão cindidas a concep- nacional dos Trabalhadores (1866) e
ção e a execução do trabalho, ou seja, em O Capital (1867), o termo educa-
a própria separação entre a ciência (e ção politécnica apareceria somente no
os que a dominam) e os trabalhadores texto de 1866.
diretos, ocorrendo a subordinação des- Já no Manifesto Comunista, o pensa-
tes àqueles (Magaline, 1977). dor alemão assinalava a importância,

190
Educação Tecnológica A

para a classe trabalhadora, da luta pela na e o manejo das técnicas e instru- C


educação pública e gratuita de todas as mentos dos diversos ramos da produ-
crianças, da abolição do trabalho das ção industrial, a educação profissional D
crianças nas fábricas e da combinação da trata apenas deste último e, de modo
educação com a produção material (Marx & ainda mais restrito, em um determina-
E
Engels, 1988). Por sua vez, o texto de do ramo ou especialidade, como ade-
F
1866 traria uma definição mais completa quação/reprodução prática e imediata
do autor acerca da questão educacional (Marx, 1968).
G
para os trabalhadores, entendendo-a Ao propugnar a unidade entre edu-
composta pelas dimensões intelectual, cação e trabalho, traduzida no conceito H
corporal e ‘tecnológica’, sendo esta a que de ‘educação tecnológica’, no fundo, a
trata dos “princípios gerais e de caráter concepção de Marx trata da união en- I
científico de todo o processo de pro- tre trabalho intelectual e material, cuja
dução e, ao mesmo tempo, inicia as cri- possibilidade estaria na raiz da supera- N
anças e adolescentes no manejo de fer- ção da divisão social do trabalho. E,
ramentas elementares dos diversos ra- nesse sentido, Enguita (1993) adverte O
mos industriais” (Marx, 1983, p. 60). No que é verdadeiramente impossível com-
texto d`O Capital, em uma passagem preender a insistência de Marx na com- P
marcada pelo otimismo, assinalava que binação de educação e produção se não
“a conquista inevitável do poder políti- levarmos em conta a caracterização que Q
co pela classe operária vai introduzir o o pensador alemão faz do trabalho
ensino teórico prático da tecnologia nas esco- como práxis e como elemento R
las do povo” (Marx, 1968, p. 553 – grifos constitutivo do gênero humano.
nossos). Marx considerou a existência de S
Em contrapartida, Marx destaca uma íntima conexão – vínculo históri-
o sentido redutor/estreito do ‘ensino co e indissociável – entre a produção T
profissional’ [educação profissional], material da vida e sua elaboração espi-
um conceito associado ao mero trei- ritual, ou seja, a produção de idéias, de U
namento/adestramento limitado às ta- representações e da consciência. Satis-
refas imediatas da produção capitalis- fazer as necessidades materiais da vida
V
ta. Enquanto que à educação politéc- e produzir a própria sobrevivência,
A
nica ou à ‘educação tecnológica’ ele produzir novas necessidades, reprodu-
atribui um sentido de domínio dos zir-se e estabelecer novas relações com
A
princípios gerais da produção moder- os demais e com a natureza – trans-

191
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

formando-a e transformando-se a si balho material e trabalho intelectual.


mesmo –, o que implica estabelecer Ao contrário, consideram que o desen-
novas relações de produção, de poder volvimento da base material de pro-
e de propriedade, que corres-pondem dução (forças produtivas), o desenvol-
a determinado grau ou estágio de de- vimento das relações sociais ou das for-
senvolvimento das forças produtivas. mas de organização societária e o de-
Esta dinâmica constitui o devir histó- senvolvimento da consciência social
rico, a essência ontológica do ser soci- humana estão permanentemente e in-
al. Nela, a consciência se constrói, na trinsecamente relacionados. No entan-
interpenetração de cada uma dessas to, o processo de produção capitalista
dimensões da história da humanidade. gera contradições entre estas três di-
A consciência não é, como queria mensões. Com a divisão social do tra-
Hegel, o espírito absoluto e abstrato, balho, dá-se também a distribuição
mas a consciência histórica, construída desigual do seu produto, tanto
e forjada no continuum histórico, ou, quantitativamente quanto qualitativa-
como na síntese lapidar de Marx e mente: produtos materiais e conheci-
Engels (1977), “o homem é tal como mento. Contradições reais, para as
se produz”. A consciência humana é, quais os idealistas vão buscar construir
portanto, um produto social e não in- explicações a partir da ideologia, da
dividual, externo ou abstrato, como teologia, da filosofia, da moral. Ainda
supõe o idealismo. assim, mesmo quando a consciência
É importante destacar que a aná- parece encontrar condições de eman-
lise marxiana reitera a relação de cipar-se da consciência prática e pas-
simbiose que caracteriza as ‘expressões sar à elaboração de teoria pura,
ideológicas’ do pensamento e a reali- filosofia, moral etc, não há ruptura
dade material histórica, compondo a entre representação e materialidade,
totalidade do metabolismo social. Mes- pois a representação produzida
mo com o desenvolvimento da pro- expressa as condições e contradições
dução industrial capitalista, em que se da materialidade.
acentua a divisão social e técnica do Nessa concepção de unidade en-
trabalho, Marx e Engels não admitem tre produção intelectual e produção
a possibilidade de ruptura entre essas material, entre ciência e processo pro-
duas dimensões, ainda que o processo dutivo, como podemos situar o con-
de produção apareça cindido em tra- ceito de tecnologia? A tecnologia é

192
Educação Tecnológica A

entendida como extensão das possibi- concretas de construção do socialismo, C


lidades e potencialidades humanas, da sobretudo na experiência soviética, le-
produção social. Assim, o desenvolvi- varam à adoção do termo educação D
mento científico e tecnológico é o de- politécnica em detrimento da denomi-
senvolvimento da ciência do trabalho nação ‘educação tecnológica’. De acor-
E
produtivo, isto é, processo de apropri- do com Manacorda (1989), as resolu-
F
ação contínua de saberes e práticas pelo ções relativas à educação, aprovadas no
ser social no devir histórico da huma- VIII Congresso do Partido Comunis-
G
nidade. A ciência e a tecnologia são, ta, em 1919, têm como referência ge-
portanto, construções sociais comple- ral as proposições de Marx definidas H
xas, forças intelectuais e materiais do no I Congresso da AIT, em 1866.
processo de produção e reprodução Destacam-se, entre elas “a instrução I
social. Como processo social, partici- geral e politécnica (que faz reconhe-
pam e condicionam as mediações so- cer em teoria e em prática todos N
ciais, porém não determinam por si só os ramos principais da produção)
a realidade, não são autônomas, nem ... [e a] plena realização dos princípi- O
neutras e nem somente experimentos, os da escola única do trabalho (...) que
técnicas, artefatos ou máquinas: são sa- concretize uma estreita ligação do en- P
beres, trabalhos e relações sociais sino com o trabalho socialmente pro-
objetivadas. dutivo” (Lênin apud Manacorda, Q
Nesse sentido, poderíamos afirmar 1989, p. 314-315).
que o conceito originário de ‘educação No desenvolvimento dos sistemas R
tecnológica’, diríamos, o conceito e políticas educacionais, especialmen-
marxiano, se assentaria sobre uma con- te a partir do final do século XVIII, S
cepção ampla e de formação integral e sob a égide de Estados liberais ou au-
omnilateral do ser social que se caracte- toritários, nas diversas nações, consti- T
rizaria, conforme Bastos (1998, p. 32) tuíram-se modelos de educação para
pela “integração do saber, do fazer, do os trabalhadores, com denominações U
saber fazer e do pensar e repensar o diversas, tais como escola para o tra-
saber e o fazer, enquanto objetos per- balho, educação técnica, educação pro-
V
manentes da ação e da reflexão crítica fissional ou profissionalizante, ensino
A
sobre a ação”. industrial, ensino vocacional e outras.
O desenvolvimento das lutas soci- O traço distintivo desses modelos era
A
ais dos trabalhadores e as experiências a dualidade do sistema educacional que

193
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

nada mais era que a expressão da veu-se, paralelamente, a educação re-


dualidade estrutural que caracteriza as gular, geral, escolar e superior, letrada,
sociedades capitalistas marcadas pela destinada à formação das chamadas
divisão social do trabalho. Em cada ‘elites condutoras’ da sociedade. Ao
cultura e nação essa dualidade se ex- longo do século XX, a história da edu-
pressa historicamente, em distintos cação brasileira registra lutas por con-
graus, incidindo nas políticas e nos cepções educacionais democráticas,
sistemas educacionais e definindo situando-se neste contexto as reivin-
percursos escolares distintos de acor- dicações e conquistas de inclusão de
do com a origem dos educandos e conteúdos de cultura geral e de ciência
em relação com o valor social atri- nos currículos dos cursos de educação
buído ao trabalho intelectual e ma- profissional e pela equivalência destes
nual em cada sociedade. aos cursos da educação escolar geral,
No Brasil, uma sociedade intento alcançado, apenas formalmen-
marcada pela herança colonial e te, com a Lei de Diretrizes e Bases da
escravocrata, na qual o conceito soci- Educação Nacional (LDB), em 1961.
al do trabalho e dos que trabalham é A partir daí, e nos diversos con-
fortemente desvalorizado, a educação textos de lutas sociais que marcaram a
para os trabalhadores é, inicialmente, sociedade brasileira ao longo da dita-
mera aprendizagem prática e ensino dura de meados da década de 1960 à
de ofícios, inclusive com o estigma década de 1980, e sobretudo a partir
de prática social necessária à correção das lutas pela redemocratização do
de uma suposta propensão ‘ao crime e país, é que surgem, nas discussões so-
ao vício’ que marcaria os ‘desvafo- bre a política educacional, a denomi-
recidos da fortuna’, conforme o esta- nação e os diferentes conceitos de ‘edu-
belecido no Decreto de 1909 que cria- cação tecnológica’. Nesse processo, o
va as escolas de aprendizes artífices. conceito de ‘educação tecnoló-gica’ na
Posteriormente denominado ensino educação brasileira foi parcialmente
profissionalizante, técnico ou industri- apropriado pelas formulações liberais
al, a educação para os trabalhadores e e tecnicistas de políticas educacionais
as instituições que as ofereciam foram mais recentes, especialmente a partir
concebidas e marcadas historicamen- da década de 1970, cujo momento im-
te pelo viés da segregação e da exclu- portante foi a criação dos primeiros
são. Ao lado desse sistema, desenvol- centros federais de educação

194
Educação Tecnológica A

tecnológica, em 1978. Estas institui- deiro capital e exigindo, por sua vez, C
ções, constituídas a partir da transfor- uma renovação da escola, para que
mação das escolas técnicas federais, ori-
se assuma seu papel de transforma- D
dora da realidade econômica e so-
ginárias das escolas de aprendizes artí- cial do país. (Brasil, 1991, p. 57)
fices criadas no início do século XX, e
E
De acordo com Garcia e Lima
que se tornaram referência na oferta
Filho (2004), este momento pode ser F
de educação profissional de nível mé-
considerado como um dos primeiros
dio, passaram a ofertar, além daquela
em que aparece, no âmbito das discus- G
modalidade histórica, uma formação
sões e propostas governamentais para
de nível superior em cursos de curta H
a educação brasileira, o conceito de
duração, inicialmente de engenharia de
‘educação tecnológica’.
operação, depois engenharia industri-
Este conceito, entretanto, difere, I
al e, posteriormente, os cursos supe-
na sua concepção, do conceito de
riores de tecnologia.
‘educação tecnológica’ de origem
N
No âmbito das políticas educa-
marxiano, o mesmo que foi trabalha-
cionais de caráter neoliberal que pre- O
do no debate em torno da LDB, e que,
dominaram na política educacional bra-
sinonimicamente substituiu o concei-
sileira a partir dos anos de 90, ocorre P
to de educação politécnica na propos-
um processo de ressignificação
conceitual que marcará o sentido atri-
ta da sociedade civil brasileira e no de- Q
bate parlamentar dos anos de 80-90.
buído à ‘educação tecnológica’. Em
1992, é criada a Secretaria Nacional de
Portanto, os significados atribuídos ao R
termo ‘educação tecnológica’ pela so-
Educação Tecnológica (Senete) do
Ministério da Educação, decorrente,
ciedade civil e pelo Ministério da Edu- S
cação são distintos. Por um lado, o
conforme o discurso governamental,
debate parlamentar em sua relação T
da ‘necessária’ reestruturação do apa-
com a sociedade civil, interpreta-o
relho de Estado, visando sua moder-
como uma alternativa para a educa- U
nização. Conforme a concepção do
ção politécnica, mantendo o conteú-
Ministério da Educação, V
do desta. Por outro, na proposta go-
a educação tecnológica guarda com- vernamental, ‘educação tecnológica’
promisso prioritário com o futuro, não se vincula a uma concepção pe- A
no qual o conhecimento vem se
transformando no principal recur- dagógica, mas a uma estratégia de ca-
so gerador de riquezas, seu verda- ráter econômico. A

195
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Neste conceito de ‘educação ção tecnológica’, caracterizam-se por


tecnológica’ formulado pelo Ministé- serem de duração mais curta do que
rio da Educação, ressurge, então, a ve- os tradicionais cursos de graduação de
lha retórica da educação redentora dos licenciatura e bacharelado. Esta nova
males sociais. A retórica do valor eco- configuração curricular, ‘mais focada
nômico da educação é acompanhada, e especialista’, é obtida, em geral, me-
agora em sua roupagem neoliberal, dos diante redução significativa de conteú-
paradigmas da competitividade e da mo- dos de base científica, profissional e
dernização, o que, no campo das políti- humanística, redirecionando-se os
cas educacionais, passou a orientar a currículos para a priorização de con-
aproximação das instituições do ensino teúdos técnicos aplicados e para a
técnico ao mundo empresarial, sobretu- organização e gestão da produção em-
do, pela recomendação de que tais insti- presarial. Portanto, pode-se inferir que
tuições deveriam adotar o modelo de a política em implementação da ‘edu-
gestão da iniciativa privada, dotado de cação tecnológica’ na modalidade dos
flexibilidade e operacionalidade no âm- cursos superiores de tecnologia, em
bito da lógica mercantil. curso no Brasil a partir do final dos
É por esta perspectiva teórica que anos de 90, em instituições de educa-
se orienta a formulação de educação pro- ção profissional e superior públicas e
fissional, contida no Capítulo III (arti- privadas, antes que novidade, pode
gos 39 a 42) da LDB (Lei n. 9.394/96), e reiterar a continuidade histórica de
as regulamentações posteriores, dentre uma política de dualidade ou de
elas o Decreto n. 2.208/97 que define a fragmentação educacional, median-
educação profissional em três níveis: o te a constituição de modelos alter-
básico, o técnico e o tecnoló-gico. O nativos e dirigidos a parcelas espe-
Decreto n. 5.154/04 manteve as defini- cíficas da população.
ções gerais da educação profissional con-
tidas na legislação anterior, definindo a
educação profissional tecnológica como Para saber mais:
aquela “correspondente a cursos de ní-
vel superior na área tecnológica”. BASTOS, J. A. Educação tecnológica:
Os cursos superiores de conceitos, características e perspectivas.
Tecnologia & Educação. Curitiba: Cefet-
tecnologia, que constituem a ‘educa- PR, 1998, p. 31-52.

196
Empregabilidade A

BRASIL. O Sistema Nacional de Educação MAGALINE, A. D. Luta de Classes e C


Tecnológica, Brasília, 1991. Desvalorização do Capital. Lisboa:
BRASIL. Lei n. 9.394/96, de 20 de Moraes, 1977. D
dezembro de 1996. Estabelece as MANACORDA, M. A. História da
Diretrizes e Bases da Educação Educação da Antiguidade aos Nossos Dias. E
Nacional. Brasília, 1996. São Paulo: Cortez/Autores Associados,
BRASIL. Decreto n. 2.208/97, de 17 de 1989. F
abril de 1997. Regulamenta o § 2º do art. MANACORDA, M. A. Marx e a
36 e os arts. 39 a 42 da lei n. 9.394/96. Pedagogia Moderna. São Paulo: Cortez/ G
Brasília, 1997. Autores Associados, 1991.
BRASIL. Decreto n. 5.154 de 23 de julho MARX, K. O Capital: crítica da economia H
de 2004. Regulamenta o § 2º do art. 36 e política. São Paulo: Civilização Brasileira,
os arts. 39 a 42 da lei n. 9.394/96.
Brasília, 2004.
1968. I
MARX, K. Instruções aos delegados do
ENGUITA, M. F. Trabalho, Escola e
Ideologia. Porto Alegre: Artes Médicas,
Conselho Central Provisório. In: N
MARX, K & ENGELS, F. (Orgs.) Textos
1993. sobre Educação e Ensino. São Paulo:
GARCIA, N. M. D. & LIMA FILHO, Moraes, 1983.
O
D. L. Politecnia ou Educação Tecnológica:
MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia
desafios ao ensino médio e à educação P
Alemã. São Paulo: Grijalbo, 1977.
profissional. In: XXVII Reunião Anual da
Anped, 2004, Caxambu. Anais... MARX, K. & ENGELS, F. Manifesto Q
Caxambu, 2004. Comunista. São Paulo: Global, 1988.
 R

S
EMPREGABILIDADE T

U
Ramon de Oliveira
V
Para Nassin Mehedeff, ex-secre- Henrique Cardoso, período no qual foi
tário de formação e desenvolvimento desencadeada, talvez, a maior ação pú- A
profissional do Ministério do Traba- blica brasileira de qualificação profis-
lho, durante a gestão Fernando sional, o conceito de ‘empregabilidade’ A

197
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

foi lançado por especialistas em polivalentes, expressando, na visão em-


outplacement (Mehdeff, 1996). Esta pa- presarial, a possibilidade de os indiví-
lavra de origem inglesa representa um duos ajustarem-se ao conjunto de mo-
serviço prestado por especialistas em dificações ocorridas no setor produti-
recursos humanos às empresas, vo e no setor de serviços.
objetivando melhor encaminhar o Não por acaso também, o Plano
processo de dispensas de profissionais Nacional de Formação Profissional, cuja
de nível superior, ou seja, aqueles meta era garantir a qualificação dos tra-
que ocupavam cargos executivos. balhadores em risco social, objetivava
Contudo, também passou a contribuir serem perseguidas nos momentos de
no assessoramento desses profissio- qualificação: habilidades para viver na
nais demitidos de forma a facilitar a sociedade moderna, habilidades para
sua recolocação em outros locais ocupar um posto no mercado de traba-
de trabalho. lho e habilidades de empreendimento
Embora esse conceito tenha (Brasil, MTb/Sefor, 1995).
como origem os profissionais de mai-
or nível de qualificação, passou a ser O conceito de ‘empregabilidade’
largamente utilizado ao se fazer refe- surgiu como instrumento de relati-
vização da crise do emprego, face à
rências às parcelas da população com incapacidade do setor produtivo de
menor nível de escolarização e com incorporar ou manter, no seu inte-
menor poder de disputa por uma vaga rior, o mesmo número de trabalha-
no mercado de trabalho. dores. Surgiu como justificativa para
o desemprego em massa, atribuin-
No sentido mais comum, do à má qualificação dos trabalha-
‘empregabilidade’ tem sido compreen- dores a culpa por estes não atende-
dida como a capacidade de o indivíduo rem às novas exigências do merca-
manter-se ou reinserir-se no mercado do de trabalho. Nesse cenário, tor-
na-se importante entender como o
de trabalho, denotando a necessidade
conceito de ‘empregabilidade’ pas-
de o mesmo agrupar um conjunto de sou a se relacionar diretamente com
ingredientes que o torne capaz de com- as atividades de qualificação profis-
petir com todos aqueles que disputam sional e de valorização da educação
básica.
e lutam por um emprego. Não por aca-
so surge, nesse mesmo período, a déca- No início dos anos 90, as agênci-
da de 1990, a ênfase empresarial pelo as multilaterais, tais como o Banco
requerimento de trabalhadores Mundial e a Comissão Econômica para

198
Empregabilidade A

a América Latina e o Caribe (Cepal), nuo de eliminação de postos de C


preocuparam-se com uma melhor ar- trabalho e a diminuição acentuada da
ticulação entre a educação e a melhoria intervenção estatal nos campos soci- D
da qualificação dos trabalhadores. Par- ais e econômicos, no que diz respeito
ticularmente a Cepal (1992) pressupôs à garantia da reprodução da força de
E
que essa articulação contribuiria para trabalho, deslocam para o indivíduo a
F
uma melhoria da participação dos paí- responsabilidade pela criação de estra-
ses latino-americanos no cenário eco- tégias eficientes de inserção ou perma-
G
nômico internacional. De forma seme- nência no mercado de trabalho.
lhante a esta instância ligada à Organi- Contraditoriamente à lógica H
zação das Nações Unidas (ONU), o neoliberal de comprometimento do
empresariado industrial brasileiro ex- Estado com a oferta de serviços soci- I
pressou um maior interesse pela edu- ais básicos, à educação é atribuída a res-
cação, alertando que a busca da for- ponsabilidade de não só garantir a for- N
mação de novas competências por par- mação de trabalhadores mais capazes
te das instituições tradicionais de qua- de se adequarem ao novo modelo de O
lificação profissional, através de seus produção de mercadorias e de convi-
cursos, teria uma repercussão direta no vência societal, mas também ser o prin- P
aumento das possibilidades de os tra- cipal instrumento de fortalecimento do
balhadores inserirem-se no mercado de movimento ocorrido no mercado de Q
trabalho, em contínua mudança. Nesse trabalho, de aumento da eficiência e da
período, pela primeira vez, o produtividade. Vêem-se surgir políticas R
empresariado industrial brasileiro fez estatais de qualificação de mão-de-obra,
referência ao conceito de bem como uma subsunção da escola à S
‘empregabilidade’ (Oliveira, 2005). lógica economicista, pela emergência de
A incerteza de um futuro empre- práticas organizacionais e pedagógicas T
go presente no conceito de referenciadas em conceitos próprios
‘empregabilidade’ decorre do fato do novo cenário socioeconômico, U
de o mesmo surgir num momento no tais como: excelência na educação,
qual a característica do mercado de tra- qualidade total, pedagogia das com-
V
balho, notadamente do setor petências etc.
A
de produção de mercadorias, ser a ins- O conceito de ‘empregabilidade’
tabilidade ou a impossibilidade de pro- surge, neste ínterim, como um meca-
A
jeção de futuro. O movimento contí- nismo que retira do capital e do Esta-

199
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

do a responsabilidade pela implemen- frações de classe economicamente do-


tação de medidas capazes de garantir minantes (Oliveira, 2005).
um mínimo de condições de sobrevi- As novas habilidades demandadas
vência para a população. Ao se respon- pelo mercado de trabalho e nesse caso,
sabilizar os indivíduos pelo estabeleci- não exclusivamente pelo setor indus-
mento de estratégias capazes de inse- trial, caracterizam-se por um conjuga-
ri-los no mercado, justifica-se o desem- do de competências de ordem
prego pela falta de preparação dos cognitiva que possam facilitar as inter-
mesmos para acompanharem as mu- venções dos trabalhadores nos locais
danças existentes no mundo do traba- de trabalho, numa perspectiva de au-
lho. Sob a ótica da ‘emprega-bilidade’, mento de produtividade e de maior
a necessidade de os indivíduos dispo- responsabilidade com as tarefas a se-
rem de habilidades e conhecimentos rem cumpridas.
adequados aos interesses da produção Um dos questionamentos perti-
passa a ser o primeiro elemento consi- nentes à utilização em larga escala do
derado nas discussões a respeito das conceito de ‘empregabilidade’ decorre
possibilidades de superação do desem- do fato de as possibilidades de inserção
prego existente. no mercado de trabalho, embora forte-
Especificamente para a sociedade mente relativas ao capital cultural dis-
brasileira, ainda que no nível mundial ponível do indivíduo, não se resumi-
talvez possa ser feita a mesma afirma- rem a uma avaliação de suas compe-
ção, observa-se uma diminuição da pos- tências para a ocupação de um posto.
sibilidade de intervenção política, bem O momento atual de desenvolvimento
como o esvaziamento das posições con- do capitalismo estrutura-se por um forte
trárias à hegemonia do capital, por par- movimento de eliminação dos postos
te dos setores vinculados aos trabalha- de trabalho, expressando a busca do
dores. Por outro lado, evidencia-se uma capital de tornar-se autônomo em rela-
maior presença das organizações em- ção à força de trabalho.
presariais interferindo nas políticas go- Levando-se em conta o destaca-
vernamentais, assegurando no plano do por Pochmann (2001), algumas
político e econômico a legitimação dos questões devem ser levadas em consi-
seus interesses, obscurecendo outras deração quando analisamos a possibi-
concepções de desenvolvimento con- lidade de inserção no mercado de tra-
trárias àquelas gestadas pelas classes e balho. A primeira refere-se ao fato de

200
Empregabilidade A

o capital tender a buscar novas for- justificadores das contradições na so- C


mas de gerenciamento da produção ciedade capitalista. Procura-se utilizar
como mecanismo de aumento das justificativas para desviar do campo das D
suas taxas de acumulação, e esse me- relações de conflito entre capital e tra-
canismo ressalta a diminuição da uti- balho, o motivo pelo qual milhões de
E
lização da mão-de obra. Uma segun- pessoas ficam destituídas das condi-
F
da questão diz respeito ao fato de que ções mínimas de garantia de sobrevi-
por mais que se aponte a necessidade vência. O conceito de ‘empre-
G
de o trabalhador ter mais gabilidade’ encaixa-se perfeitamente
envolvimento com o processo de pro- nesse movimento, uma vez que reto- H
dução, tal envolvimento nem sempre ma com um novo formato explicações
pressupõe uma maior qualificação. que desarticulam a existência da pobre- I
O capital dispõe de maiores con- za, da marginalidade e da desigualdade
dições para explorar os trabalhadores, social ao que está estabelecido no pla- N
para impor-lhes um maior número de no das relações econômicas capitalis-
responsabilidades, sem que isso seja tas. Estes fenômenos são tidos como O
acompanhado do aumento real de sa- conseqüências de um movimento pro-
lários. Além disso, os patrões estão duzido pelas próprias pessoas visando P
mais à vontade para estabelecer níveis à satisfação de seus interesses.
maiores de seletividade no processo de O conceito de ‘empregabilidade’ Q
contratação. Logo, o discurso corren- esvazia a idéia de um movimento
te de acúmulo de competências visan- integrador e de responsabilidade co- R
do ao aumento da ‘empregabilidade’ letiva. Não à toa sua assunção evi-
mostra-se esvaziado de coerência e de denciar-se num momento no qual S
sustentação empírica, caracterizando-se se torna mais evidente a desres-
como uma falsa explicação que procu- ponsabilização do Estado com as T
ra direcionar para os próprios indivídu- políticas sociais, bem como a mini-
os a responsabilidade pela sua condi- mização de sua atuação como U
ção de desempregado. regulador das relações entre capital
Nesse sentido, podemos dizer que e trabalho.
V
a incapacidade de criar mecanismos efi-
A
cazes para a diminuição do desempre-
go em massa obriga a implementação
A
de mecanismos ideológicos

201
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Para saber mais: OLIVEIRA, R. de. A (Des)qualificação da


Educação Profissional Brasileira. São Paulo:
Cortez, 2003.
BRASIL/MTb/SEFOR. Educação Profis-
sional: um projeto para o desenvolvimento OLIVEIRA, R. de. Empresariado
sustentado. Brasília: Sefor, 1995. Industrial e Educação Brasileira: qualificar
para competir? São Paulo: Cortez, 2005.
CEPAL/UNESCO. Educación y Conoci-
miento: eje de la transformación productiva con POCHMANN, M. O Emprego na
equidad. Santiago do Chile: s.n., 1992. Globalização: a nova divisão internacional do
trabalho e os caminhos que o Brasil escolheu.
GENTILI, P. Educar para o
São Paulo: Boitempo, 2001.
desemprego: a desinteg ração da
promessa integradora. In: FRIGOTTO, RAMOS, M. N. A Pedagogia das
G. (Org.) Educação e Crise do Trabalho: Competências: autonomia ou adaptação? São
perspectivas de final de século. Petrópolis: Paulo: Cortez, 2001.
Vozes, 2000.
MEHEDFF, N. G. A era da
empregabilidade. O Globo, Rio de Janeiro,
9 out. 1996.

EQÜIDADE EM SAÚDE

Sarah Escorel

O termo eqüidade é de uso rela- respondentes, e dá outras providênci-


tivamente recente no vocabulário da as, é “a igualdade de assistência à saú-
Reforma Sanitária brasileira. Foi incor- de, sem preconceitos ou privilégios de
porado posteriormente à promulgação qualquer espécie” que figura entre os
da Constituição de 1988 que se refere princípios reitores do Sistema Único
ao direito de todos e dever do Estado de Saúde (SUS). Nem nessa lei, nem
em assegurar o “acesso universal e igua- na 8.142/90 eqüidade em saúde é re-
litário às ações e serviços” de saúde. ferida.
Na lei 8.080/90, que dispõe sobre as O conceito de eqüidade em saú-
condições para a promoção, proteção de foi formulado por Margaret
e recuperação da saúde, a organização Whitehead incorporando o parâmetro
e o funcionamento dos serviços cor- de justiça à distribuição igualitária. “Ini-

202
Eqüidade em Saúde A

qüidades em saúde referem-se a dife- igualdade eqüitativa de oportunidades; C


renças desnecessárias e evitáveis e que e, em segundo, devem ser para o mai-
são ao mesmo tempo consideradas in- or benefício dos membros da socie- D
justas e indesejáveis. O termo iniqüi- dade que têm menos vantagens
dade tem, assim, uma dimensão ética e (Rawls, apud Sen, 2001).
E
social” (Whitehead, 1992). Kawachi, No segundo princípio de Rawls
F
Subramanian e Almeida Filho, em seu eqüidade aparece como adjetivo; qua-
Glossário das Desigualdades em Saúde lifica a igualdade de oportunidades,
G
(2002), consideram ser difícil confere uma carga valorativa. É, pois,
operacionalizar os atributos “evitável” a partir do conceito de igualdade, mas H
e “desnecessário”, restringindo à injus- dele distinguindo-se por incorporar
tiça o critério que distingue desigual- juízos de valor, que foi construída a I
dades de iniqüidades. definição de eqüidade.
A definição de Whitehead é No Dicionário de Política (1991), N
caudatária da teoria da justiça de John Oppenheim distingue três significa-
Rawls, considerada por Amartya Sen dos de igualdade tomando por base o O
(2001) “a teoria da justiça mais influ- âmbito de exercício do conceito. No
ente – e acredito que a mais impor- caso das características pessoais de P
tante – apresentada neste século, a da qualquer ordem (cor do cabelo ou dos
‘justiça como eqüidade’”. Rawls apre- olhos, por exemplo), é um conceito Q
sentou, em 1982, uma reelaboração descritivo, de comprovação empírica,
dos dois princípios propostos, em não depende de escalas de valores. R
1971, na edição em inglês de “Teoria Quando se refere às normas de dis-
da Justiça”: tribuição significa que duas pessoas S
1.Cada pessoa tem igual direito a quaisquer são tratadas iguais em rela-
um esquema plenamente adequado de ção a uma determinada regra e tam- T
liberdades básicas iguais que seja com- bém em virtude desta regra. E, como
patível com um esquema similar de li- propriedade das regras de distribui- U
berdades para todos. ção quer dizer o caráter igualitário da
2. As desigualdades sociais e eco- própria regra. Nesse último significa-
V
nômicas devem satisfazer duas con- do, que associa igualdade à justiça,
A
dições. Em primeiro lugar, devem es- surge a definição de eqüidade.
tar associadas a cargos e posições Uma segunda distinção pode ser
A
abertos a todos sob condições de feita em relação ao momento do pro-

203
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

cesso de distribuição. Igualdade pode igualitárias em relação a uma distri-


qualificar a quantidade de benefíci- buição anterior.
os ou penalidades que serão distri-
buídos ou pode indicar os resulta- Turner (1986) indica que a
dos finais da repartição. igualdade pode ser avaliada em qua-
tro dimensões:
Regras de igualdade proporcio- • Ontológica – inerente aos seres
nal distribuem partes diferentes a humanos, constituinte de princípios
pessoas diferentes, na proporção da religiosos e de correntes filosóficas;
diferença. O elemento central das
regras pode estar no mérito (“a cada • Oportunidades – princípio das
um segundo o próprio merecimen- doutrinas liberais que consideram
to”), ou em diferenças relevantes que dado um mesmo patamar de di-
para a regra em questão, como por reitos, o acesso a posições sociais
exemplo, a desigualdade de riqueza resulta da competição entre os indi-
e o pagamento de impostos. Nesse víduos que as conquistarão confor-
caso, as regras não são igualitárias já me seus méritos;
que a carga de impostos é diferente
entre as pessoas, entretanto, são re- • Condições – estabelecimento
gras justas porque a tributação está de um mesmo nível de partida, isto
relacionada com a capacidade de pa- é, nivelamento da satisfação de um
gamento de cada um, e os mais ricos mínimo de necessidades básicas
pagam mais impostos. Regras de substancialmente idênticas em todos;
igualdade proporcional envolvem • Resultados – envolve mudan-
conceitos de valor; são objetos de ças nas regras de distribuição para
avaliação subjetiva e não de verifica- transformação das desigualdades de
ção objetiva, como assinala início em igualdade de conclusão.
Oppenheim (1991). O princípio de eqüidade surge
no período contemporâneo associa-
Do ponto de vista dos resulta- do aos direitos das minorias e intro-
dos das regras de distribuição, estas duz a diferença no espaço público da
seriam igualitárias quando nivelam cidadania, espaço por excelência da
ou reduzem as diferenças. Portanto, igualdade. O reconhecimento da di-
só podem ser classificadas como ferença entra em conflito com o pen-

204
Eqüidade em Saúde A

samento jurídico clássico que perce- der às necessidades de outros, man- C


be a cidadania como sendo comum tendo as desigualdades” (Ministé-
e indiferenciada. Entretanto, dada a
rio da Saúde, 2000). D
diversidade das sociedades modernas, Lígia Vieira Silva e Naomar
Almeida Filho elaboraram uma “análi-
E
“a noção de igualdade só se com- se de série significante – distinção, di-
pleta se compartida à noção de eqüi- F
ferença, desigualdade, iniqüidade – no
dade. Não basta um padrão univer-
sentido de uma teoria social da saúde”.
sal se este não comportar o direito G
à diferença. Não se trata mais de um Nessa teoria “diferença remete ao in-
padrão homogêneo, mas de um dividual, diversidade à espécie, desi-
padrão equânime” (Sposati, 1999,
H
gualdade à justiça e distinção ao sim-
p.128).
bólico. Iniqüidade adquire sentido no I
Dessa forma, a idéia de eqüidade campo político como produto dos
foi incorporada e até mesmo substi- conflitos relacionados com a reparti- N
tuiu o conceito de igualdade. Igualda- ção da riqueza na sociedade” (2000, p.
de significaria a distribuição homogê- 4-11). Dessa forma, corrobora-se a O
nea, a cada pessoa uma mesma quanti- acepção de que há um limite das de-
dade de bens ou serviços. Eqüidade, sigualdades a partir do qual passam P
por sua vez, levaria em consideração a ser consideradas como iniqüidades,
que as pessoas são diferentes, têm ne- ou seja, “perversas, malévolas, extre- Q
cessidades diversas. Uma distribuição mamente injustas” (Buarque de
eqüitativa responde ao segundo ele- Holanda, s/d). R
mento do princípio marxista “de cada Igualdade e desigualdade são
um segundo suas capacidades, a cada conceitos mensuráveis que se referem S
um segundo suas necessidades” (Marx, a quantidades passíveis de serem me-
1875, s/d). Sendo assim, o princípio didas. Por sua vez, eqüidade e iniqüi- T
de eqüidade estabelece um parâmetro dade são conceitos políticos que ex-
de distribuição heterogênea. pressam um compromisso moral com U
a justiça social (Kawachi et al, 2002).
“Se o SUS oferecesse exatamente o A partir do momento em que de-
V
mesmo atendimento para todas as finições ou instrumentos de justiça são
pessoas, da mesma maneira, em to- A
dos os lugares, estaria provavelmen- acionados para estabelecer o conceito
te oferecendo coisas desnecessári- de eqüidade fica patente que não há
as para alguns, deixando de aten-
A
como fugir de juízos de valor. É preci-

205
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

so então perguntar “eqüidade em rela- presenta uma situação de eqüidade ver-


ção a quê?”, para compreender o seu tical (Travassos & Castro, 2008).
significado. O julgamento e a medida Eqüidade horizontal, por sua vez,
das desigualdades dependem integral- corresponde à igualdade entre iguais,
mente da escolha da variável em torno ou seja, uma regra de distribuição igua-
da qual a comparação é feita (Sen, litária entre pessoas que estão em igual-
2000). Se valores são intrínsecos às dade de condições. A eqüidade no aces-
decisões eles devem ser explicitados, so e utilização de serviços de saúde é
coletivamente assumidos e perma- abordada em relação à eqüidade hori-
nentemente avaliados e revistos, seja zontal e tem sido operacionalizada
porque os critérios selecionados não como “igualdade de utilização de ser-
se revelaram os mais adequados, seja viços de saúde entre os grupos sociais
porque depois dos critérios aplicados para necessidades de saúde iguais”.
as situações sofreram modificações Pode-se dizer que as normas que re-
e exigem novos critérios e escolhas. gem o SUS incorporam a definição de
Há, portanto, que pensar a eqüidade eqüidade horizontal, ou seja, acesso,
em saúde como um processo, perma- utilização e tratamento igual para ne-
nente, em transformação, que vai mu- cessidades iguais (Travassos & Castro,
dando seu escopo e abrangência na 2008).
medida em que certos resultados são Em geral, o princípio de eqüida-
alcançados. de tem sido operacionalizado em duas
principais dimensões: condições de
Eqüidade pode ser analisada saúde e acesso e utilização dos servi-
como vertical e como horizontal. Eqüi- ços de saúde.
dade vertical é entendida como desi- No âmbito das condições de saú-
gualdade entre desiguais, ou seja, uma de é analisada a distribuição dos riscos
regra de distribuição desigual para in- de adoecer e morrer em grupos
divíduos que estão em situações dife- populacionais. Embora variações bio-
renciadas. A noção de eqüidade verti- lógicas (sexo, idade) determinem dife-
cal é geralmente empregada em rela- renças de morbidade e mortalidade, a
ção ao financiamento. Por exemplo, a maior parte das condições de saúde é
progressividade no financiamento, isto socialmente determinada e não decor-
é, a contribuição inversamente propor- re de variações naturais, ou de livres
cional ao rendimento das pessoas re- escolhas pessoais por estilos de vida

206
Eqüidade em Saúde A

mais ou menos saudáveis. Os pobres, so aos serviços de saúde. Modifica- C


grupo social e economicamente vulne- ções nas características do sistema
rável, pagam o maior tributo em ter-
de saúde alteram diretamente as D
desigualdades sociais no acesso e no
mos de saúde acumulando a carga de uso, mas não são capazes de mudar
maior freqüência de distribuição de por si só as desigualdades sociais E
doenças, sejam estas de origem infec- nas condições de saúde entre os
grupos sociais” (Travassos & Cas- F
ciosa, sejam crônico-degenerativas, ou tro, 2008).
ainda as originadas de causas externas.
Outros âmbitos de
G
Para alguns autores, essa é a dimensão
mais importante da eqüidade em saú- operacionalização e de análise da eqüi-
H
de (Evans et al, 2002) e à sua dade são relativos ao princípio
orientador das reformas dos sistemas
mensuração dedicam-se estudiosos e I
instituições (Carr-Hill & Chalmers- de saúde e à institucionalidade do sis-
tema de saúde. No primeiro caso veri-
Dixon, 2005). N
Em relação à esfera do acesso e fica-se em que medida a eqüidade é o
utilização dos serviços de saúde ve- princípio que prepondera na definição O
rificam-se as diferentes possibilida- das políticas de saúde e nos seus des-
des de consumir serviços de saúde dobramentos em programas e ações. P
dos diversos graus de complexidade Também pode ser observado se eqüi-
por indivíduos com necessidades dade prevalece sobre, e é Q
iguais de saúde. complementada pela orientação de efi-
ciência, ou se é a ela subordinado pos- R
“As condições de saúde de uma to que, neste caso, a ordem dos fato-
população estão fortemente asso- res, em geral, altera o produto. Ainda S
ciadas ao padrão de desigualdades nesse âmbito sobressaem dois aspec-
sociais existentes na sociedade. Já
as desigualdades sociais no acesso tos: a predominância de políticas uni- T
e utilização de serviços de saúde são versais ou, ao contrário, de políticas
expressão direta das características residuais e seletivas, focalizadas; e, a U
do sistema de saúde. A disponibili- distribuição de recursos financeiros
dade de serviços e de equipamen-
que interferem diretamente na promo- V
tos diagnósticos e terapêuticos, a
sua distribuição geográfica, os me- ção da eqüidade entre grupos sociais e
canismos de financiamento dos ser- regiões geográficas. A
viços e a sua organização represen-
Em relação à institucionalidade
tam características do sistema que A
podem facilitar ou dificultar o aces- do sistema de saúde outros dois tópi-

207
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

cos de grande impacto na Quaisquer que sejam as dimen-


implementação das políticas de saúde sões adotadas, a análise das iniqüida-
podem ser analisados no que se refere des em saúde deve apoiar-se na posi-
a um padrão mais ou menos eqüitati- ção social da pessoa (que agrupa mui-
vo: o processo de descentralização real tos dos fatores de risco individuais
de poder e autonomia para o nível lo- como idade, sexo, hábitos alimentares,
cal de regulação do sistema de saúde e tabagismo e consumo de álcool, peso
sua conseqüente responsabilização e pressão arterial) e nas características
pelas condições de saúde e assistência do contexto social mais amplo (local
aos munícipes; e, o processo decisório de residência urbano ou rural, situação
analisando a presença ou ausência de ocupacional, políticas econômicas e
uma efetiva e representativa participa- sociais mais amplas). “Todo marco [de
ção social. conhecimento] deve captar a idéia de
A operacionalização das catego- que as vias finais fisiológicas que con-
rias referentes às quatro dimensões duzem às más condições de saúde in-
assinaladas esbarra em dificuldades re- dividuais estão inextricavelmente liga-
lacionadas com os sistemas de infor- das às condições sociais” (Diderichsen
mação e, também, em modelos que et al, 2002).
organizem as informações em estru- Tendo em vista essa concepção da
turas lógicas de conhecimento. Por determinação social da saúde, os auto-
exemplo, o estudo Medindo as desigual- res apresentam um modelo constituí-
dades em saúde no Brasil: uma proposta de do por quatro mecanismos que desem-
monitoramento (Viana et al., 2001) ado- penham um papel na geração das ini-
tou seis dimensões de análise. O âm- qüidades em saúde e, ao mesmo tem-
bito das condições de saúde foi des- po, constituem pontos de partida de
dobrado em situação de saúde e con- políticas para reduzir a falta de eqüida-
dições de vida. A esfera do acesso e de em saúde: estratificação social; ex-
utilização dos serviços de saúde foi posição diferencial; vulnerabilidade (ou
desmembrada em oferta (recursos hu- susceptibilidade) diferencial; e conse-
manos e capacidade instalada), acesso qüências sociais diferenciais das más
e utilização de serviços, e qualidade de condições de saúde.
atenção. A sexta dimensão adotada no
estudo diz respeito ao financiamento “A formulação de uma resposta
(despesas federal e familiar). política forte e adequada às iniqüi-

208
Eqüidade em Saúde A

dades de saúde obriga a agir numa políticas eqüitativas serão sempre im- C
ampla variedade de campos: em prescindíveis.
primeiro lugar, devem ser estabele- D
cidos os valores; a seguir, há que se
descrever e analisar as causas; de-
E
pois, devem ser erradicadas as cau- Para saber mais:
sas profundas das iniqüidades; e,
por último, devem-se reduzir as F
BARATA, R. B.; BARRETO, M. L.;
conseqüências negativas das más
ALMEIDA FILHO, N.; VERAS, R. P.
condições de saúde” (Whitehead et
Eqüidade e Saúde: contribuições da G
al, 2002).
Epidemiologia. Rio de Janeiro: Fiocruz/
Políticas eqüitativas constituem Abrasco, 1997. H
um meio para se alcançar a igualdade. BUARQUE de HOLANDA, A. Novo
Numa perspectiva relativamente utó- Dicionário Eletrônico Aurélio. Versão 5.0. I
Positivo Informática, s/d.
pica podemos pensar que ações desse
tipo integrariam uma fase intermediá- CARR-HILL, R.; CHALMERS- N
D I XO N, P. T h e P u b l i c H e a l t h
ria, transitória, visando a atingir a igual-
dade de condições, de oportunidades
Obser vatory Handbook of Health O
Inequalities Measurement. South
sociopolíticas. Ou seja, fazendo uma East Public Health Obser vator y.
Oxford, 2005. P
distribuição desigual para pessoas e
grupos sociais desiguais (mais para DIDERICHSEN, F.; EVANS, T.;
WHITEHEAD, M. Bases sociales de las Q
quem tem menos) atingiríamos (hipo-
disparidades en salud. In: EVANS, T.;
teticamente) uma situação de igualda- WHITEHEAD, M.; DIDERICHSEN, R
de, em que todos teriam acesso às mes- F.; BHUIVA, A.; WIRTH, M. (Ed.)
mas coisas, fossem elas bens e servi- Desafío a la falta de Equidad en la Salud: de S
ços ou oportunidades. Mas, uma vez la ética a la acción. Fundación Rockefeller:
Organización Panamericana de la Salud.
atingido esse patamar de igualdade de Publicación Científica y Técnica n. 585, T
condições as políticas eqüitativas ain- 2002.
da seriam necessárias, pois não se pode ESCOREL, S. Os dilemas da eqüidade U
prescindir dos critérios de justiça. E, em saúde: aspectos conceituais. http://
sobretudo no campo da saúde, em que www.opas.org.br/servico/Arquivos/ V
as necessidades são sempre diferentes, Sala3310.pdf. Acesso em: ago. 2008.
em que cada caso é um caso, a igualda- EVANS, T.; WHITEHEAD, M.; A
DIDERICHSEN, F.; BHUIVA, A.;
de de condições parece algo impossí-
vel (e indesejável) de ser atingido e
WIRTH, M. (Ed.) Desafío a la falta de A
Equidad en la Salud: de la ética a la acción.

209
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

Fundación Rockefeller: Organización no acesso e utilização dos serviços de


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210
Exclusão Social A

C
EXCLUSÃO SOCIAL
D
Sarah Escorel
E
A origem mais contemporânea sem suscitar polêmicas ou debates. Até
F
do termo exclusão social é atribuída ao então essas análises referiam-se à
título do livro de René Lenoir, Les underclass, e, posteriormente, à
G
exclus: un français sur dix (‘Os excluídos: marginalidade. A noção de underclass foi
um em cada dez franceses’), publicado utilizada para classificar moradores dos H
em 1974, ainda que o trabalho não con- guetos norte-americanos, com forte
tivesse qualquer elaboração teórica do carga preconceituosa e estigmatizante I
conceito de exclusão social. A preocu- que parecia estabelecer quase um ‘des-
pação do então Secretário de Ação tino’ de gravidez precoce, desempre- N
Social do governo gaullista de Jacques go, alcoolismo, família desestruturada
Chirac concentrava-se nos e criminalidade. Numa direção teórica O
‘inadaptados sociais’, nos pobres que oposta, com forte influência do mar-
precisavam ser amparados por ações xismo, na década de 1960, P
governamentais, representando gastos marginalidade era um conceito inte-
sociais crescentes. O título foi confe- grante da teoria que buscava entender Q
rido pelo editor baseado no sucesso a inserção marginal no processo pro-
dos trabalhos de Foucault, principal- dutivo capitalista nas economias de- R
mente em sua história sobre a loucura pendentes da América Latina.
(Didier, 1996). No momento da publi- Em 1976, na França, o processo S
cação do livro de Lenoir, quando a si- de pauperização começou a atingir não
tuação de pobreza na França parecia apenas os grupos populacionais ‘tra- T
ser residual e superável, a noção de dicionalmente marginalizados’ (imi-
exclusão estava relacionada à sua di- grantes e moradores das periferias),
U
mensão subjetiva e não à sua dimen- mas também os que até então pareci-
V
são objetiva, econômico-ocupacional. am inseridos socialmente e usufruin-
Antes de ganhar o destaque no do, mesmo que nas margens do siste-
A
título do livro, referências à exclusão e ma capitalista, dos benefícios do de-
excluídos eram utilizadas nos trabalhos senvolvimento econômico e da prote-
A
sobre pobreza e desigualdades sociais ção social. A partir de meados dos anos

211
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

80, frente a uma situação objetiva de No Brasil, na década de 1990, es-


aumento das desigualdades e de mu- tudiosos também identificam uma
dança do perfil de pobreza, a noção de nova problemática social a exigir uma
exclusão social estabeleceu-se no de- conceituação própria. No entanto, as
bate público e acadêmico e foi em solo análises tendem a considerar a emer-
francês que o tema adquiriu prepon- gência do fenômeno contemporâneo
derância e estatuto teórico, relevância como expressão de um processo com
e publicidade. raízes históricas ancestrais na socieda-
Exclusão social passou a ser usa- de brasileira, ao longo do qual ocorre-
do para denominar o fenômeno in- ram situações de exclusão que deixa-
tegrante de uma “nova questão so- ram marcas profundas em nossa so-
cial” (Rosanvallon, 1995; Castel, ciabilidade, como a escravidão. A par-
1991, 1998), problemática específi- tir dessa marca estrutural a sociedade
ca do final de século XX, cujo nú- apresentou, nos diversos períodos his-
cleo duro foi identificado na crise do tóricos, faces diferenciadas, expressões
assalariamento como mecanismo de de processos sociais presididos por
inserção social. Essa crise, por sua uma mesma ‘lógica’ econômica e/ou
vez, era oriunda de mudanças no de cidadania excludente. Na década de
processo produtivo e na dinâmica de 80, a transição do regime político e os
acumulação capitalista gerando a di- ciclos econômicos recessivos aumen-
minuição de empr eg os, taram a visibilidade da ‘questão social’.
inviabilizando essa via de constitui- Na década de 90, e não antes, surgi-
ção de solidariedades e de inserção ram os sinais evidentes de uma piora
social, constituindo os ‘inválidos pela das condições de vida. A exclusão so-
conjuntura’ e provocando fraturas na cial tornou-se visível e contundente a
coesão social. A exclusão foi então partir da população de rua e da violên-
percebida como uma marca profun- cia urbana (Nascimento, 1993).
da de disfunção societal que assume No processo de construção do
uma multiplicidade de formas. O conceito de exclusão social este tem
conceito expressa a existência de um sido contraposto e diferenciado de uma
fenômeno diferente de uma ‘nova série relativamente abrangente de ou-
pobreza’, e ao mesmo tempo, tem a tros termos e categorias, que acabam
capacidade de vocalizar a indignação por integrar o ‘vocabulário’ da exclu-
com esse mundo partido em dois. são: desvinculação, desfiliação,

212
Exclusão Social A

desqualificação, precariedade, duo posto que não consegue “adquirir C


vulnerabilidade, marginalização, discri- a cesta básica de alimentos que lhe pro-
minação e segregação social. Pelo lado porcione nutrição suficiente para uma D
positivo do fenômeno há também dis- vida ativa e produtiva” (Gershman &
tinções a fazer entre inclusão social e Irwin, 2000, p. 15).
E
justiça social, capital social, integração, A pobreza relativa, a desigualda-
F
emancipação, autonomia e de, é a falta de recursos ou de consu-
empoderamento. mo em relação a padrões usuais ou
G
A exclusão social integra o cam- aprovados pela sociedade do que é
po da pobreza e das desigualdades considerado essencial para uma vida H
embora seja diferente destes dois con- digna. As desigualdades sociais expres-
ceitos e contenha em si situações e pro- sam as modalidades e os mecanismos I
cessos que podem se desenvolver fora mediante os quais numa dada socieda-
do âmbito da pobreza e das desigual- de são distribuídos bens e recursos, N
dades sociais, como por exemplo, a atribuindo posições diferenciadas e
impossibilidade dos homossexuais relativas aos indivíduos e grupos em O
constituírem uniões estáveis e terem relação ao acesso aos bens, e também
direito à herança de seus companhei- em relação a uma escala de valores P
ros ou companheiras. Entretanto, a mediante a qual estes lugares sociais
maior parte dos processos de exclu- são avaliados. As três dimensões essen- Q
são social está relacionada e tem con- ciais do processo de estratificação são
seqüências diretas nas condições eco- a riqueza, o prestígio e o poder (Cavalli, R
nômicas dos grupos populacionais, e 1991). Nas sociedades ocidentais e
se fazem mais presentes em situações modernas, ou melhor, no modo de S
de intensa pobreza e desigualdades produção capitalista, o fato fundamen-
sociais. tal que orienta a estratificação é a pro- T
A pobreza absoluta significa não priedade dos meios de produção e a
ter acesso aos bens e serviços essenci- divisão social do trabalho, conforman- U
ais, é a impossibilidade de suprir as do um sistema de classes sociais.
necessidades básicas, alimentares e Amartya Sen (2000) aponta os li-
V
não-alimentares (Lopes, 1992). A in- mites da abordagem das desigualdades
A
digência ou miséria é o afastamento de pelo critério de renda. No seu enten-
um mínimo necessário à manutenção der, o mais importante é verificar como
A
da sobrevivência física de um indiví- a renda e outros bens e serviços con-

213
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tribuem para as capacidades das pes- mica, política, social e cultural –, e


soas de atingir seus objetivos de viver em diferentes níveis incluindo indi-
vidual, domiciliar, grupal, comuni-
uma vida digna e satisfatória. Nesse tário, nacional e global. Resulta em
sentido, outro conceito importante é um continuum de inclusão/exclusão
o de vulnerabilidade, pois permite ana- caracterizado por acessos desiguais
lisar a exposição de determinados gru- aos recursos, capacidades e direitos
que produzem iniqüidades em saú-
pos a riscos externos e avaliar suas ca- de (Popay et al, 2008, p. 36).
pacidades em responder a estes desa-
fios (Gershman e Irwin, 2000). A noção de exclusão social desig-
O conceito de exclusão social na ao mesmo tempo um processo e
amplia as dimensões de análise da po- um estado. Uma trajetória ao longo de
breza e das desigualdades. um eixo inserção/exclusão, um movi-
mento que exclui, processos potenci-
É o processo pelo qual indivíduos almente excludentes, vetores de exclu-
ou grupos são total ou parcialmen- são ou vulnerabilidades e, ao mesmo
te excluídos de participarem inte- tempo, um estado, a condição de ex-
gralmente da sociedade em que vi-
vem (European Foundation for the Im- clusão, o resultado do movimento.
provement of Living and Working Con- Nessa condição (estado) costuma-se
dition, apud Gershman e Irwin, verificar a sobreposição das situações
2000, p. 16). de exclusão num mesmo grupo social.
São processos de vulnerabilidade,
Há uma somatória, uma concentra-
fragilização ou precariedade e até ção dos critérios sociais de discrimi-
ruptura dos vínculos sociais em nação, estigmatização e exclusão em
cinco dimensões da existência hu- certos grupos a um ponto tal que a
mana em sociedade: ocupacionais
exclusão social caracteriza o contex-
e de rendimentos; familiares e so-
ciais proximais; políticas ou de ci- to de sociabilidade.
dadania; culturais; e, no mundo da
vida onde se inserem os aspectos Processos excludentes produzem
relacionados com a saúde (Esco- uma distribuição injusta de recur-
rel, 1999, p. 75). sos e acessos desiguais a capacida-
des e direitos de: criar as condições
A exclusão consiste de processos necessárias para que todas as po-
dinâmicos, multidimensionais pro- pulações tenham e possam ir além
duzidos por relações desiguais de das necessidades básicas; permitir
poder que atuam ao longo de qua- sistemas sociais participativos e co-
tro dimensões principais – econô-

214
Exclusão Social A

esos; valorizar a diversidade; garan- No campo da saúde, a exclusão C


tir a paz e os direitos humanos; e, social foi abordada em trabalho con-
sustentar sistemas ambientais (Po-
junto realizado pela Organização In- D
pay et al, 2008, p. 36).
ternacional do Trabalho (OIT) e pela
Nem todos concordam que exclu- Organização Pan-Americana da Saú-
E
são social seja uma categoria explicativa de (OPS), relativo à Extensão da
de fenômenos sociais contemporâne- F
Proteção Social em Saúde (EPSS,
os. A maior crítica que é feita ao con- 1999), posteriormente desenvolvido
ceito é que, assim como underclass e G
pela OPS (2001, 2003) com a Agên-
marginalidade, traz implícita uma visão cia Sueca para o Desenvolvimento
dicotômica, que divide o todo em duas
H
Internacional.
partes, perdendo a complexidade das A OPS define exclusão social I
relações sociais envolvidas no fenôme- como um processo estr utural,
no. Não existiria um dentro (inclusão) multidimensional, que envolve a falta N
e um fora (exclusão) da sociedade. To- de recursos e oportunidades e a falta
das as relações constituiriam uma mes- de pertencimento como um produto O
ma tessitura social, mais ou menos da ruptura dos laços sociais que per-
esgarçada, porém sempre tecida. mitem que os indivíduos integrem uma P
rede social (OPS, 2003). A exclusão em
A noção passou a ser criticada saúde, fenômeno integrante, mas in- Q
tanto pelos alegados limites em dependente da exclusão social, consti-
sua capacidade explicativa
tui a negação do direito de uma pessoa R
como em função do uso abusi-
vo do termo. (...) [Sua] contri- ou um grupo de satisfazer suas neces-
buição é mais relevante no cam- sidades em saúde e pode adotar dife- S
po da ação pública do que no rentes formas em função de fatores
da pesquisa social. Exclusão geográficos, culturais, econômicos e T
social remeteria ao enfraqueci-
sociais (OIT e OPS, 1999).
mento da participação dos in-
A exclusão em saúde tem em sua U
divíduos nas redes sociais mais
fundamentais do contexto em origem três dimensões: falta de aces-
que vivem (...) enfraquecimen- so; problemas de financiamento; e bai-
V
to, mas não descarte, abando- xa dignidade da atenção (qualidade e
no, porque o excluído pertence A
oportunidade dos serviços). Portanto,
ao sistema em relação ao qual
a proteção social em saúde (EPSS), di-
ele tende a ser colocado à mar- A
gem (Zioni, 2006, p. 24). reito dos cidadãos e dever do Estado,

215
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

deve garantir: o acesso aos serviços eli- perfil dos grupos e indivíduos vulne-
minando qualquer tipo de barreira; a ráveis a processos de exclusão nos sis-
segurança financeira dos domicílios; e a temas de saúde é, em sua maioria, de
atenção com qualidade e dignidade. pobres, idosos, mulheres, crianças,
A exclusão social em saúde tende grupos étnicos, trabalhadores infor-
a ser maior em sistemas de saúde que mais, desempregados e subemprega-
apresentam uma ou mais de quatro dos e população rural, indicando que
características: segmentação ou coexis- a exclusão em saúde reitera os pro-
tência de subsistemas com diferentes cessos excludentes que estão vigen-
arranjos de financiamento, filiação e tes na sociedade.
prestações que segmentam a popula- Um enfoque diferenciado das re-
ção segundo seu nível de renda ou ca- lações entre exclusão social e iniqüida-
pacidade de contribuição; fragmenta- des em saúde veio à luz com a consti-
ção ou existência de múltiplas entida- tuição da Comissão de Determinantes
des não integradas dentro de um mes- Sociais em Saúde da Organização
mo subsistema que aumentam a inefi- Mundial de Saúde (OMS), que estimu-
ciência dos recursos; predomínio do lou a composição de nove redes de
pagamento direto dos serviços ou um conhecimento entre as quais a Rede de
alto gasto individual; e a frágil reitoria Conhecimentos sobre Exclusão Soci-
manifesta na ausência de regras justas al. Em seu Relatório Final, o grupo de
nas relações entre usuários e pesquisadores (Popay et al, 2008) res-
prestadores (OPS, 2002 apud salta a importância da abordagem pro-
Hernández et al, 2008). cessual da exclusão social em
Pesquisas realizadas pela OPS contraposição ao que vem sendo feito
(2003) identificaram, na região das correntemente por órgãos e unidades
Américas, que a exclusão em saúde está de combate à exclusão social que con-
fortemente associada com a pobreza, centram suas preocupações e ações em
a marginalidade, a discriminação racial grupos excluídos, em situações extre-
e outras formas de exclusão relaciona- mas, desconsiderando os processos
das a: características culturais, precari- causais e, preconizando políticas foca-
edade do emprego, subemprego e de- lizadas minoram as conseqüências mas
semprego, isolamento geográfico, fal- não atingem as causas dos processos
ta de acesso aos serviços públicos e excludentes que continuam a produzir
baixo nível educacional das pessoas. O grupos de excluídos.

216
Exclusão Social A

Focando a atenção em processos res de vulnerabilidade e nas capacida- C


incrustados nas relações de poder, des de proteção, aprofundando a dife-
em questões de mediação e inter-
renciação e estratificação social (Popay D
venção (quem está sendo excluído,
por quem e como respondem?) e et al, 2008).
na natureza multidimensional e in- Embora seja pequeno o número
E
ter-relacionada das iniqüidades eco- de pesquisas adotando o conceito de
nômicas e sociais, [a categoria de] F
exclusão social provê novas com- exclusão social como alavanca analíti-
ca para compreender as causas das de-
preensões sobre os determinantes G
das desigualdades sociais em saúde sigualdades em saúde, é possível iden-
e fornece novas direções para polí- tificar tanto no plano teórico quanto
ticas e ações reparadoras (Popay et H
no empírico as relações entre exclusão
al, 2008, p. 37).
social e desigualdades em saúde. Essas I
A estratificação social produzida relações são de ordem constitucional
nas quatro dimensões – social, políti- e instrumental. Constitucional, pois a N
ca, econômica e cultural – em que in- participação restrita nas relações eco-
divíduos, grupos, comunidades ou pa- nômicas, sociais, políticas e culturais O
íses estão posicionados em situações tem impacto negativo na saúde e no
de maior ou menor inserção, experi- bem-estar. Instrumental, na medida em P
mentando processos mais ou menos que essas restrições resultam em ou-
excludentes, está relacionada com a tras privações que contribuem para o Q
exposição diferenciada a circunstânci- adoecimento e piores condições de
as prejudiciais para a saúde. E, ao mes- saúde. O modelo elaborado pela Rede R
mo tempo, essa posição social estabe- de Conhecimento sobre Exclusão So-
lece as capacidades (de ordem biológi- cial fornece um guia útil para o desen- S
ca, social, psicológica e econômica) das volvimento de políticas e ações
pessoas de se protegerem (ou não) direcionadas para reverter os proces- T
dessas circunstâncias, assim como pos- sos excludentes, e um marco de avalia-
sibilita ou restringe seu acesso aos ser- ção para examinar a adequação e o U
viços de saúde e a outros serviços es- impacto de tais políticas e ações (Popay
senciais para a proteção e promoção et al, 2008).
V
da saúde. Esses processos criam desi-
gualdades em saúde que A
retroalimentam e aumentam as iniqüi-
dades em relação à exposição de fato-
A

217
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

PARA SABER MAIS: Final del Grupo Colombia - Nodo


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219
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

220
A

C
F D
FOCALIZAÇÃO EM SAÚDE E

F
Maria Lúcia Frizon Rizzotto
G
Focalização tem sido traduzida Tais projetos teriam como objetivo
como a ação de concentrar os recur- explícito combater a pobreza, satisfa-
H
sos financeiros disponíveis em uma zendo as necessidades básicas, o que
população definida. Em última instân- deveria propiciar um mínimo de digni-
I
cia, trata-se de uma decisão orientada dade a esse segmento populacional.
N
por razões de caráter econômico. Nas Nesse sentido, a discussão da
últimas décadas do século XX, no ‘focalização’ está diretamente relaciona-
O
âmbito das políticas sociais em geral e da com a temática da pobreza.
das políticas de saúde em particular, o Pode-se afirmar que o interesse P
termo ‘focalização’ assume status de dos Organismos Internacionais pela
categoria com ampla utilização em pobreza ocorreu, de forma mais enfá- Q
documentos de Organismos Interna- tica, em dois momentos distintos. Pri-
cionais, como o Banco Mundial, o Fun- meiro, no final da década de 1960, iní- R
do Monetário Internacional (FMI), a cio da era McNamara na presidência
Organização Pan-Americana da Saú- do Banco Mundial, quando se consta- S
de (Opas), a Organização das Nações tou que o crescimento econômico
Unidas para a Educação, a Ciência e a ocorrido nos países periféricos, nas T
Cultura (Unesco), entre outros, que décadas anteriores, não resultou de
passaram a difundir a idéia de que o forma mecânica e imediata em desen- U
alívio da pobreza e a redução das enor- volvimento social, em na redução das
mes desigualdades sociais existentes desigualdades sociais existentes. O V
nos países dependentes iriam ocorrer crescimento econômico experimenta-
a partir da implementação de projetos do não melhorou a situação de vida das A
e programas sociais dirigidos às popu- pessoas marginalizadas nessas socieda-
lações pobres e grupos vulneráveis. des, ao contrário, reverteu em maior A

221
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

concentração de renda e aumento das nuidade da acumulação, ampliação e


desigualdades intra e entre países. O concentração capitalista em nível mun-
segundo momento se deu na década dial. É nesse contexto que a
de 1990, quando os níveis de pobreza ‘focalização’, como pressuposto das
assumiram dimensões planetárias, re- políticas sociais, ganha contornos mais
fletindo os danos sociais dos planos nítidos e se constitui em importante
de estabilização do FMI e dos progra- estratégia de intervenção na organiza-
mas de empréstimos de ajuste estrutu- ção da sociedade.
ral e setorial do Banco Mundial, colo- O mecanismo encontrado para
cados em prática ao longo dos anos de induzir os Estados Nacionais a ado-
80 do século XX, na tentativa de resol- tarem as medidas de ‘focalização’
ver os problemas da dívida externa dos propostas se deu, de forma mais siste-
países periféricos, resultado em grande mática, por meio da ação desses
medida da transferência da crise que os organismos que passaram a financiar
países ricos enfrentaram a partir da dé- políticas, programas e projetos de in-
cada de 1970. vestimento nos setores de educação,
Sem abandonar o entendimento saúde, nutrição, controle demográfico
de que o crescimento econômico se e saneamento, considerados como
constitui em condição a priori para a capazes de contribuírem para o bem-
solução dos problemas sociais, os diri- estar social e para uma melhor distri-
gentes desses organismos, respaldados buição de renda. Mas, ao financiarem
pelos governos dos países ricos, em os projetos e programas focalizados,
face da constatação da existência de estava implícito o objetivo de apaziguar
uma conexão entre pobreza mundial e os pobres por meio da satisfação das
as relações instáveis entre e intra as necessidades básicas ao mesmo tem-
nações, passaram a uma ação na dire- po em que pretendiam manter sob
ção de pressionar os governos nacio- controle a sua expansão.
nais dos países dependentes a coloca- A noção de ‘focalização’ traduz o
rem em prática políticas sociais entendimento de que diante do
dirigidas às parcelas pobres da popu- contingenciamento e da limitada dis-
lação, visando amenizar a situação de ponibilidade de recursos financeiros
miserabilidade em que viviam e vivem, para atender as demandas infinitas por
mantendo, assim, um mínimo de coe- serviços e benefícios sociais, inclusive
são societária necessária para a conti- estabelecendo a clássica relação custo-

222
Focalização em Saúde A

benefício, o Estado deve priorizar e Fernando Henrique Cardoso. A refor- C


direcionar a sua ação, no âmbito das ma, entre outras mudanças, deveria
políticas sociais, para as camadas mais permitir ao Estado a ‘focalização’ no D
desfavorecidas da população. Esta no- atendimento das necessidades sociais
ção se contrapõe ao princípio da uni- básicas, reduzindo a sua área de atua-
E
versalidade, inscrito na Constituição ção por meio de três mecanismos: a
F
Brasileira, diante do qual o Estado deve privatização, que consiste na venda de
garantir, para toda a população, o aces- ativos de empresas públicas; a
G
so a bens e serviços públicos como publicização, ou seja, a transformação
saúde, educação, saneamento básico, de órgãos estatais em entidades públi- H
habitação, transporte etc. Traduzem cas não-estatais; e a terceirização, que
duas concepções distintas do que seja implica a contratação de serviços pres- I
bem-estar e, conseqüentemente, de tados por terceiros.
organização e concepção de socieda- Respaldados em documentos de N
de, pois delas decorrem arranjos Organismos Internacionais que criti-
institucionais que revelam a lógica de cavam o pouco investimento em pro- O
cada projeto, indicando papéis distin- moção e prevenção da saúde e o ex-
tos para o Estado desempenhar. cesso de gastos públicos brasileiros P
Em nível nacional, no campo da com a oferta de serviços de base hos-
saúde, embora desde o início da década pitalar, especializados e em procedi- Q
de 1990 o governo brasileiro esteja cum- mentos de alta tecnologia, os governos
prindo a agenda dos organismos inter- brasileiros, a partir do início da década R
nacionais, implementando programas de 1990, assumiram como uma dire-
focalizados e seletivos, a exemplo do triz política, a ‘focalização’ dos servi- S
Programa dos Agentes Comunitários de ços públicos de saúde nas populações
Saúde (Pacs), implementado em 1991, pobres. T
e do Programa de Saúde da Família Assim, antes mesmo de terem
(PSF), implementado em 1994, a dis- sido implementados plenamente os U
cussão acerca da ‘focalização’ das polí- princípios constitucionais que confor-
ticas sociais em geral e das políticas de mam o Sistema Único de Saúde (SUS),
V
saúde em particular, ganha novas di- coloca-se para a sociedade brasileira
A
mensões com o debate sobre a refor- dilemas, como universalizar o acesso
ma do Estado Brasileiro, ocorrida a ou destinar os parcos recursos do se-
A
partir de 1995, no governo de tor para os mais pobres; manter a

223
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

gratuidade para todos ou instituir for- seletividade. Neste cenário, a difusão


mas de co-pagamento para quem pode da concepção de justiça social termi-
pagar; responsabilizar o Estado pela nal, ou seja, a que seria feita na hora da
assistência à saúde ou envolver a co- distribuição, dando a quem tem me-
munidade para que ela mesma encon- nos, oblitera a discussão da justiça so-
tre alternativas aos seus problemas; cial no início do processo, ou seja, a
obrigar o setor público a oferecer to- possibilidade de fazer justiça no mo-
dos os níveis de assistência ou apenas mento da arrecadação e da tributação
um pacote de serviços essenciais aos do que foi produzido e acumulado,
mais pobres; ofertar bens privados ou cobrando mais de quem tem mais.
apenas bens públicos e os que conte- Muitas críticas têm sido feitas às
nham grandes externalidades. políticas, programas e projetos focali-
Tais proposições, quando aborda- zados e seletivos, particularmente pe-
das fora de uma análise de totalidade los efeitos perversos que acarretam, na
da sociedade e do papel do Estado medida em que consolidam as desigual-
numa sociedade de classes, tornam-se dades já existentes, uma vez que se dão
difíceis de serem equacionadas. Dessa no marco de agudas desigualdades so-
forma, vai-se construindo o consenso ciais. Além de introduzirem uma pre-
da necessidade de reformar o SUS an- cariedade e descontinuidade, as políti-
tes mesmo de sua plena cas focalizadas são assisten-cialistas,
implementação, cuja direção aponta abrem espaço à arbitrariedade dos que
para a ‘focalização’ das ações do Esta- têm o poder de decidir sobre quem irá
do nas populações pobres. ser beneficiado pela política e qual o
Diante do aumento real da pobre- rol de necessidades a serem satisfeitas.
za, resultado da apropriação desigual Além disso, a ‘focalização’ em saú-
da riqueza e das crises cíclicas do capi- de cria uma segmentação no acesso à
talismo em escala mundial, as assistência em face da duplicidade da
dualidades apresentadas assumem con- política, em que, de um lado, estimula-
tornos de tensão, constituindo-se em se a criação e regulamentação de um
argumento político-ideológico para o sistema de saúde privado de serviços
questionamento da visão universalista de alto nível, destinados às classes so-
do SUS, vinculada à noção de direito ciais de maior renda e riqueza, em gran-
social, e em conseqüência aderindo à de medida subsidiadas pelo Estado, e,
defesa do binômio focalização- de outro, implementa-se um sistema

224
Focalização em Saúde A

estatal, com recursos insuficientes, for- Para saber mais: C


necendo serviços básicos, muitas ve-
zes de baixa qualidade, destinados aos BANCO MUNDIAL. Salud. D
mais pobres. Documento de política sectorial.
Destaca-se ainda, no processo de
Washington, D.C., 1975. E
focalização das ações de saúde nos po- BANCO MUNDIAL. Relatório sobre o
Desenvolvimento Mundial de 1993: investindo F
bres, a adoção de programas de baixo
em saúde. Rio de Janeiro: FGV, 1993.
custo e de alto impacto. Contribuiu
COHN, A. O SUS e o direito à saúde: G
para isso, por exemplo, a proposta de
universalização e focalização nas
ênfase na atenção primária à saúde, políticas de saúde: In: LIMA, N. T. et al. H
presente em declarações de eventos (Orgs.) Saúde e Democracia: história e
democracia do SUS. Rio de Janeiro: Editora
internacionais como o de Alma Ata,
Fiocruz, 2005.
I
de 1978.
MEDEIROS, M. Princípios de Justiça na
Exemplos de outros países mos-
Alocação de Recursos em Saúde. Brasília:
N
tram que a adoção da ‘focalização’
Ipea, 1999. (Texto para discussão n. 687)
como diretriz das políticas de saúde O
PAIM, J. Políticas de saúde no Brasil ou
leva a perdas para os setores médios
recusando o apartheid sanitário. Ciência &
da sociedade, os quais acabam retiran- Saúde Coletiva, 1: 18-20, 1996. P
do seu apoio a essas políticas, o que
RIZZOTTO, M. L. F. O Banco Mundial e
pode resultar, a médio e longo prazo, as Políticas de Saúde no Brasil nos Anos 90: Q
em perdas para as próprias populações um projeto de desmonte do SUS, 2000. Tese
pobres, aparentemente beneficiadas de Doutorado, Campinas: Universidade R
com a ‘focalização’. Estadual de Campinas/Faculdade de
Ciências Médicas.
A adoção dessa estratégia como S
SENNA, M. de C. M. Eqüidade e
pressuposto para a formulação e
implementação das políticas de saúde
política de saúde: algumas reflexões T
sobre o Programa Saúde da Família.
implica negar a universalidade como Cadernos de Saúde Pública, 18 (supl.): 203-
princípio doutrinário do sistema de 211, 2002. U
saúde e substituir o princípio da igual-
dade pelo da eqüidade como diretriz
V
para a tomada de decisão no âmbito
A
dos serviços.

225
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

226
A

C
G D
GESTÃO DO TRABALHO EM SAÚDE E

F
Maria Helena Machado
G
Pode-se afirmar que as décadas logia das políticas de Recursos Huma-
de 1980 e de 1990 foram décadas nos, com destaque para três momen-
H
paradigmáticas para a saúde pública do tos distintos, assim descritos.
Brasil. A criação do Sistema Único de I
Saúde (SUS) na década de 1980 repre- O primeiro (1967-1974), caracteri-
zado por incentivo à formação pro-
sentou para os gestores, trabalhadores
fissional especialmente de nível su- N
e usuários do sistema uma nova forma perior; estratégia de expansão dos
de pensar, estruturar, se desenvolver e empregos privados a partir do fi- O
produzir serviços e assistência em saú- nanciamento público; incremento
da contratação de médicos e aten-
de, uma vez que os princípios da uni-
dentes de enfermagem, reforçando
P
versalidade de acesso, da integralidade a bipolaridade ‘médico/atendentes’;
da atenção à saúde, da eqüidade, da e incentivo à hospitalização/espe- Q
participação da comunidade, da auto- cialização. O segundo momento
nomia das pessoas e da (1975-1986) se caracteriza, na pri- R
meira fase (1975-1984), pelo surgi-
descentralização tornaram a ser
mento de dispositivos institucionais
paradigmas do SUS. O sistema de saú- para reverter o quadro existente. Já S
de passou a ser, de fato, um sistema na segunda fase (1984-1986), pela
nacional com foco municipal, o que se sua implementação com resultados, T
ou seja, aumento da participação do
denomina ‘municipalização’ (Machado,
2005). A gestão do trabalho e da edu-
setor público na oferta de serviços
U
ambulatoriais e hospitalares; au-
cação, nessa perspectiva, ganhou rele- mento da formação do pessoal téc-
vância nacional e tornou-se elemento nico e sua incorporação nas equi- V
pes de saúde; e aumento do pesso-
crucial para a implementação e conso-
lidação do SUS.
al que atua na rede ambulatorial. O A
terceiro momento (de 1987 em di-
Para melhor compreender a pro- ante) é caracterizado pelas mudan-
ças estruturais rumo à Reforma Sa-
A
blemática é preciso conhecer a crono-

227
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

nitária, marcadas especialmente do toda a lógica preconizada, ou seja,


pelo processo de descentralização
de serem os trabalhadores (recursos
da assistência e, conseqüentemen-
te, dos recursos humanos que inte- humanos) peças-chave para a consoli-
gram os serviços. Inicia-se aí o pro- dação do SUS. Fato de grande relevân-
cesso que culminaria na reversão do cia nesse período foi a elaboração da
quadro de pessoal, ora concentra-
Norma Operacional Básica de Recur-
do na esfera federal ora na munici-
pal. Toda a política de Recursos sos Humanos – NOB-RH (Brasil,
Humanos passa a girar em torno da 2005), que define princípios e diretri-
proposta da Reforma Sanitária – zes para uma NOB que teve como
não só os aspectos gerenciais, mas
objetivo principal a discussão da
também os financeiros, na perspec-
tiva de atender às demandas que centralidade do trabalho, do trabalha-
impunham tal reforma. O SUS tor- dor, da valorização profissional e da
na-se uma realidade após longo de- regulação das relações de trabalho em
bate constitucional (Machado, 2005,
saúde. No entanto, poucos resultados
p. 276-277).
foram alcançados com a NOB, uma
vez que a política que imperou nesse
No entanto, com o passar do tem- período foi a antipolítica de Recursos
po e com o avanço do processo de Humanos, priorizando a privatização
consolidação do SUS, a realidade que por meio da terceirização de serviços,
se apresenta para a área de Recursos a flexibilização das relações e o laissez-
Humanos remete a mais dois momen- faire na abertura de novos cursos na
tos distintos que são caracterizados por área da saúde.
momentos de grande guinada da pro- O segundo momento de
posta da Reforma Sanitária, ou seja, o reafirmação da reforma inicia-se com
primeiro considerado de anti-reforma o novo governo, em 2003, caracteriza-
e o segundo, de reafirmação da refor- do pelo retorno aos princípios de que
ma. O momento anti-reforma refere- saúde é um bem público e os trabalha-
se a toda a década de 1990, caracteri- dores que atuam são um bem público.
zada pela adoção dos preceitos A mudança positiva nas políticas de
neoliberais em detrimento aos da re- Recursos Humanos vem acompanha-
forma sanitária. Isso transformou a da da criação, no governo Lula, da Se-
questão de Recursos Humanos, ao lon- cretaria de Gestão do Trabalho e da
go da década, em um enorme proble- Educação na Saúde, no âmbito do Mi-
ma para a reforma sanitária, inverten- nistério da Saúde, e mais, com a cria-

228
Gestão do Trabalho em Saúde A

ção de dois departamentos distintos, criatividade, co-participação, e co- C


um que trataria das questões de gestão responsabilização, de enriquecimento
da educação e outro da gestão do tra- e comprometimento mútuos. D
balho, além da imediata reinstalação da É importante destacar que a área
Mesa Nacional de Negociação Perma- de Recursos Humanos, no setor saú-
E
nente do SUS, quando a gestão do tra- de, como campo de estudos e pesqui-
F
balho passa a ser vista como política sas data das últimas décadas do século
de Estado considerando as relações de XX, com ênfase após a década de 1970.
G
trabalho e suas implicações como cen- Os primórdios desses estudos, mais
trais para a dinâmica do SUS. O que teóricos, apontavam para a reflexão no H
significa dizer que questões oriundas campo da organização social das prá-
do momento anti-reforma, tais como ticas em saúde. Já na década de 1980, a I
a precarizaçao do trabalho, a ausência vertente foi a realização de estudos
de carreiras, os baixos salários pagos desvendando as tendências macro do N
aos trabalhadores, a falta de negocia- mercado de trabalho, como por exem-
ção entre gestores e trabalhadores, a plo, o assalariamento, o prolongamen- O
total ausência de políticas regulatórias, to da jornada de trabalho, o
bem como a própria gestão do traba- multiemprego, a feminilização da for- P
lho, enquanto estr uturas ça de trabalho. Na década de 1990, sur-
organizacionais, passaram a constituir giram os estudos de cunho sociológi- Q
a agenda central do governo federal. E cos sobre mercado de trabalho, mun-
mais, gestão do trabalho passou ser do do trabalho, e a própria conforma- R
concebida com base em uma visão ção das profissões de saúde. Surgem
política na qual a participação do tra- também estudos voltados aos temas da S
balhador é fundamental para a formação e educação desvendando o
efetividade e eficiência do Sistema processo de formação e capacitação T
Único de Saúde. Dessa forma, o tra- dos profissionais de saúde de níveis
balhador é percebido como sujeito e superior e técnico. Enfim, a área de U
agente transformador de seu ambien- recursos humanos passa a contar com
te e não apenas um ‘recurso humano’ diversos estudos e análise fundamen-
V
realizador de tarefas previamente tais para a grande mudança de menta-
A
estabelecidas pela administração local. lidade, transformando o acanhado e
Nessa abordagem, o trabalho é visto reduzido mundo dos recursos huma-
A
como um processo de trocas, de nos em gestão do trabalho e da educa-

229
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

ção. Pensar e formular na área da ges- reta adequação entre as necessidades


tão passa a significar pensar e formu- da população usuária e seus objetivos
lar para um complexo e vasto mundo institucionais. Pensar em gestão do tra-
do trabalho, no qual os que produzem balho como eixo da estrutura
estes serviços e os que os gerenciam organizacional dos serviços de saúde
estão em permanente processo de significa pensar estrategicamente, uma
interação e negociação. vez que a produtividade e a qualidade
Está contido na área da gestão do dos serviços oferecidos à sociedade
trabalho um conjunto de ações que serão, em boa parte, reflexos da forma
visam a valorizar o trabalhador e o seu e das condições com que são tratados
trabalho, tais como: a implementação os que atuam profissionalmente na
das Diretrizes Nacionais para a insti- organização (Arias et al., 2006, p.119),
tuição ou reformulação de Planos de o que nos coloca da importância de se
Carreiras, Cargos e Salários no âmbito estruturar uma efetiva política para a
do SUS e o apoio às instâncias do SUS área nas três esferas de governo, en-
neste sentido; a desprecarização dos volvendo os setores público e privado
vínculos de trabalho na área da saúde; que compõem o sistema de saúde e
o apoio à implantação de Mesas de contribuindo, desta forma, para a pro-
Negociação Permanente do SUS; a cri- moção da melhoria e humanização do
ação da Câmara de Regulação do Tra- atendimento ao usuário do SUS.
balho em Saúde – para debater, em
especial, as questões relacionadas à re-
gulamentação de novas profissões na Para saber mais:
área da saúde, e a proposta de organi-
zação da gestão do trabalho e da edu- ARIAS, E. H. L. et al. Gestão do trabalho
cação na saúde nas três esferas de go- no SUS. Cadernos RH Saúde, Brasília:
3(1) p. 119-124, mar. 2006.
verno, por meio do Programa de Qua-
BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho
lificação e Estruturação da Gestão do
Nacional de Saúde. Princípios e Diretrizes
Trabalho e da Educação no SUS - para a gestão do trabalho no SUS (NOB/
ProgeSUS (Brasil, 2006), dentre outras. RH-SUS). 3 a ed. rev. atual. Série
A gestão do trabalho é, pois, uma Cadernos Técnicos CNS. Brasília:
Ministério da Saúde, 2005
questão que tem merecido, na atuali-
BRASIL. Ministério da Saúde. O SUS
dade, a devida atenção por parte de de A a Z. 2a ed. Brasília: Ministério da
todas as instituições que buscam a cor- Saúde, 2006.

230
Gestão em Saúde A

MACHADO, M. H. Trabalhadores da C
saúde e sua trajetória na Reforma
Sanitária. In: LIMA, N. T. et AL. (Orgs.). D
Saúde e democracia: histórias e perspectivas do
SUS. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
p. 257-281, 2005.
E

F
GESTÃO EM SAÚDE G

H
Gastão Wagner de Sousa Campos
Rosana Teresa Onocko Campos
I

N
Um campo aplicado de era a capacidade de fazer a gestão de-
conhecimento mocrática das cidades estado.
O
Vale a pena ressaltar essa rela-
Em vários dicionários, gestão ção entre gestão e política porque a
P
e administração aparecem como sinô- constituição da administração e da ges-
nimos. O Houaiss – Dicionário da Lín- tão, como um campo estruturado e sis- Q
gua Portuguesa – assim define esses temático de conhecimento, pretendeu,
termos: “Ato ou efeito de administrar; ação exatamente, produzir uma ruptura ou R
de governar ou gerir empresa, órgão público uma descontinuidade entre a política e
.... Exercer mando, ter poder de decisão (so- gestão. No princípio do século XX, o S
bre), dirigir, gerir” (Houaiss, 2001, grifos engenheiro norte-americano Frederick
nossos). Os termos gestão e adminis- Winslow Taylor publicou o livro ‘Prin- T
tração referem-se ao ato de governar cípios da Administração Científica’,
pessoas, organizações e instituições. considerado como marco zero de um U
Política, portanto. Gestão diz respeito novo campo de conhecimento. Taylor
à capacidade de dirigir, isto é, confun- pretendeu apresentar uma metodologia V
de-se com o exercício do poder. Em que permitisse a existência de uma ges-
sua origem, na Grécia clássica, o ter- tão técnica, com base em evidências, e A
mo ‘política’ tinha exatamente esse sig- não orientada por disputas políticas
nificado. ‘Polis’ era a cidade, e a política entre interesses e valores distintos. Tra-
A

231
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

ta-se de uma obra clássica do pensa- balho e investimento sobre o afeto das
mento administrativo. Clássica e fun- pessoas para condicioná-las aos obje-
dadora de um estilo de governar que, tivos da empresa. A Teoria de Siste-
em seus princípios gerais, não foi ain- mas, o Desenvolvimento
da superada. Ainda que o campo da Organizacional, a Qualidade Total e
gestão tenha se ampliado desde 1911, congêneres enriqueceram a visão so-
a disciplina e o controle continuam bre a organização, chegando a prome-
sendo o eixo central dos métodos de ter maior autonomia e melhor
gestão. A centralização do poder nos integração do empregado ao projeto
gestores (dirigentes) é a pedra de to- geral da empresa. Gestão matricial,
que das múltiplas variedades de méto- achatamento do organograma, delega-
dos de gestão ainda hoje existentes. ção de poder para planejar e decidir aos
Tanto o ‘segundo princípio’ da teoria trabalhadores da base. No entanto, o
taylorista (separação entre trabalho in- âmbito dessas mudanças tem sido
telectual, o momento da concepção muito restrito, admite-se liberdade tão-
daquele de execução) quanto o ‘quar- somente para que todos trabalhem
to princípio’ (centralização do poder melhor segundo o interesse e a visão
de planejar e de decidir na direção da da direção geral. Autonomia e
empresa), buscam limitar a autonomia integração para inventar novos modos
e iniciativa do trabalhador. para resolver problemas internos, sem-
Essa obsessão em retirar poder pre no sentido de aumentar a produti-
do trabalhador é um dado concreto, vidade e não no de enfrentar questões
evidenciado pelo fato das distintas es- atinentes aos próprios trabalhadores.
colas ainda não haverem elaborado No fundo, a Qualidade Total e outros
uma crítica sistemática à função con- métodos de reengenharia ou de desen-
trole. Nos anos trinta, a escola das Re- volvimento organizacional operam
lações Humanas criticou a concepção com a idéia de abrir a empresa à con-
taylorista do homem, valorizando fa- corrência, como se fosse instituído um
tores subjetivos no funcionamento micro mercado dentro dos muros da
concreto da empresa. Entretanto, essa Organização. Matar ou morrer, uma
nova percepção apenas ampliou os re- exacerbação da concorrência entre as
cursos técnicos empregados para con- equipes e as pessoas, uma nova lei.
trolar. Além do estímulo econômico Tudo isso, não favorece a democracia
direto, melhoria das condições de tra- ou a convivência solidária. Ao contrá-

232
Gestão em Saúde A

rio, exacerba a concorrência entre os mento, nasceu interdisciplinar quando C


trabalhadores e aumenta, em decorrên- esta expressão sequer fora ainda cunha-
cia, a dependência da chefia. Afinal, da. A Saúde Pública baseou-se na me- D
serão os chefes os julgadores do su- dicina, microbiologia, zoologia, geolo-
cesso ou insucesso do desempenho de gia, entre outras ciências, para pensar
E
cada um. Alguns autores contemporâ- explicações para o processo saúde e
F
neos têm se referido, inclusive, ao doença. Dessa junção, nasceria tanto a
‘gerencialismo’ como sendo uma nova administração sanitária quanto a
G
ideologia, uma doença social, que am- epidemiologia. Foi, portanto, ainda nos
pliou o controle sobre o trabalho em primórdios da Saúde Pública que ocor- H
um grau nunca antes observado. reu a constituição de um campo de
O método denominado ´atenção conhecimentos, denominado ‘adminis- I
gerenciada´ (managed care), que vem tração sanitária e de práticas em saú-
sendo proposto para os serviços de de’. Encarregava-se de pensar a admi- N
saúde, é exemplar dessa tendência. nistração de um pedaço do Estado, os
Imagina diminuir custos e aumentar nascentes departamentos, escolas e la- O
a eficácia do trabalho em saúde, reti- boratórios de saúde pública, mas, dis-
rando dos profissionais, particular- tinguia-se da Administração de Empre- P
mente dos médicos, a capacidade de sas porque procurava articular a ges-
decisão sobre o próprio trabalho clí- tão às ‘práticas’ consideradas eficazes Q
nico. Esse poder é passado aos geren- para debelar os problemas coletivos de
tes, que por meio de minuciosos pro- saúde. Tratava-se, portanto, de uma R
tocolos - padronização de condutas área que procurava compatibilizar co-
diagnósticas e terapêuticas - contro- nhecimentos sobre administração pú- S
lam e determinam o que fazer no co- blica com procedimentos sanitários
tidiano dos trabalhadores. considerados eficazes no combate a T
epidemias. A administração em saúde
na medicina de mercado apresentava U
Gestão em saúde menos especificidades; em geral, adap-
tava elementos da teoria geral a hospi-
V
A gestão em saúde é quase tão tais e clínicas.
A
antiga quanto a Saúde Pública. A Saú- A administração sanitária, em seus
de Pública sempre recorreu a várias primórdios, importou muitos concei-
A
especialidades e campos de conheci- tos e modos de operar do campo mili-

233
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

tar. Da gestão de conflitos armados e de uma rede de serviços constituída


de guerras, a Saúde Pública importou segundo o conceito de integração sa-
a idéia de considerar a doença, os ger- nitária. Essa rede pública não executa-
mes e as condições ambientais insalu- ria apenas ações de caráter preventivo
bres como inimigos. Sendo inimigos e de relevância coletiva, mas assumiria
havia de erradicá-los, controlá-los e também a atenção clínica, ou seja, a
vigiá-los. Planejamento estratégico e assistência individual em hospitais e
tático, programas sanitários e gestão outros serviços. Com essa finalidade
operacional. Da arte da guerra impor- foi cunhado o conceito de
taram-se também os conceitos de hierarquização e regionalização dos
erradicação e de controle, de risco, de serviços, inventando-se a modalidade
vigilância e de análise de informação. de rede denominada de atenção primá-
A gestão em saúde é um desdo- ria.
bramento contemporâneo dessa tradi- O antigo arcabouço de conheci-
ção. Evidente que no lugar da guerra mentos da administração sanitária era
entraram conceitos originários da Ci- claramente insuficiente para dar conta
ência Política, da Sociologia e da Teo- da complexidade dessa nova política
ria Geral da Administração. Em mea- pública. Em função disso, em vários
dos do século XX houve uma amplia- desses países houve, ao longo do sé-
ção do objeto e do campo de interven- culo XX, um esforço de investigação
ção da gestão em saúde. Nessa época, voltado para o desenvolvimento de
em alguns países europeus, inicialmen- novos arranjos organizacionais e no-
te na Grã-Bretanha, Suécia e União vos modelos de atenção à saúde. A
Soviética e, mais tarde, em inúmeras Organização Mundial de Saúde (OMS)
outras nações da Europa, América e e Organização Pan-Americana de Saú-
Oceania, foram construídos os Siste- de (OPAS) estimularam tanto a pro-
mas Nacionais e Públicos de Saúde. dução de conhecimentos nessa área
Com essa finalidade desenvolveu-se quanto trataram de sistematizar a di-
toda uma cultura sanitária voltada para fusão dessas experiências e dessa
a organização de serviços e programas tecnologia sobre organização, planeja-
de saúde segundo uma nova mento e gestão dos serviços de saúde.
racionalidade. O Estado foi responsa- Em decorrência desse fenômeno hou-
bilizado pelo financiamento e gestão ve uma aproximação entre as áreas da

234
Gestão em Saúde A

Clínica e o campo da Saúde Pública. CAMPOS, G. W. S. Um método para C


São desse período o desenvolvimento análise e co-gestão de coletivos. São Paulo:
de estudos sobre sistemas locais de
Hucitec, 2000. D
saúde, modelos de atenção, gestão de FERLIE, E.; ASBURNER, L.;
pessoal, atenção primária, planejamen-
FITZGERALD, L.; PETTIGREW, A. E
A nova administração pública em ação.
to e programação em saúde. Observa- Brasília: UnB & Enap, 1999.
F
se como um fato curioso o pequeno GUALEJAC, V. Gestão como doença social:
envolvimento da área de Gestão e Pla- ideologia, poder gerencialista e fragmentação G
nejamento, no Brasil, com hospitais, social. São Paulo: Idéias & Letras, 2007.
talvez explicado pelo afastamento his- HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da H
tórico da Saúde Pública deste pedaço Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2001. Disponível em:
dos sistemas de saúde. A formação de
www.houaiss.uol.com.br/busca.jhtm I
gestores para hospitais foi marcada por
LOURAU, R. A Análise Institucional. 2a
cursos compostos segundo a lógica
ed. revisada. Tradução de Marino N
específica das áreas de Economia e da Ferreira. Petrópolis: Vozes, 1995.
Administração de Empresas. Somente
MORGAN, G. Imagens da Organização.
O
nos últimos anos, observa-se um es- Tradução de Cecília W. Bergamini e
forço da área para recompor a forma- Roberto Coda. São Paulo: Atlas, 1998. P
ção e a pesquisa em gestão hospitalar. MOTTA, F. C. P. Teoria Geral da
Buscando superar a perspecti- Administração. São Paulo: Livraria Q
va restrita das teorias administrativas Pioneira Editora, 14a ed.,1989.
têm sido desenvolvidas análises que TAYLOR, F. W. Princípios da R
procuram ampliar e democratizar a Administração Científica. São Paulo:
gestão. Discute-se a gestão Atlas, 1960. S
participativa, o controle social dos TESTA, M. Pensar en Salud. Buenos
gestores pela sociedade civil e várias Aires: Lugar editorial, 1997. T
formas de co-gestão em saúde. TRATENBERG, M. Burocracia e ideologia.
São Paulo: Unesp, 2006. U

V
Para saber mais:

BROW, G. D. Managed Care. Springfiel:


A
Merrian-Webster Inc. 1996.
A

235
DICIONÁRIO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM SAÚDE

GLOBALIZAÇÃO

Ramón Peña Castro

O termo ‘globalização’ começou serviu para consolidar a crença na su-


a circular no final dos anos 80 para posta unificação do mundo, represen-
sugerir a idéia de unificação do mun- tada pela globalização dos mercados.
do, como resultado dos três processos A expressão mais delirante dessa idéia
que marcaram o fim do “breve século foi, sem dúvida, a tese de Francis
XX” (Hobsbawn, 1995). A vitória po- Fukuiama sobre o fim da História.
lítica do neoliberalismo, representada A origem dos termos sociedade
pela ditadura de Pinochet (1973) e pe- global e globalização é anterior ao triunfo
los governos Thatcher (1979) e Reagan político da globalização neoliberal; data de
(1980); a interrupção da ‘construção finais dos anos 1960 e deve ser credi-
nacional’ no Terceiro Mundo, esmaga- tada a MacLuhan e a Bzezinski, auto-
do pelo peso insuportável da dívida res norte-americanos de dois livros fa-
externa, imposta pelas oligarquias fi- mosos na época: Guerra e paz na aldeia
nanceiras globalizadas; a global, de Marshall MacLuhan e A revo-
autodesintegração da União Soviética. lução tecnotrônica, de Zbigniew
Esses três acontecimentos encerram as Brzezinski. MacLuhan anunciou a
três maiores mudanças históricas do emergência da ‘aldeia global’, com base
século: a Revolução Socialista Russa, numa extrapolação da agressão militar
primeira alternativa real ao capitalismo; americana contra o Vietnam (a maior
as variadas experiências de constru- derrota militar sofrida pelos EE.UU.)
ção nacional independente no Tercei- que ao ser transmitida ao vivo pelas
ro Mundo; e o refor mismo redes de TV, transformou-se na primei-
socialdemocrata, basicamente euro-