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Os mitos

O Nascimento dos Deuses

Segundo a gênese egípcia, o mundo primordial era constituído de Água e Caos. Sobre
as águas dançava um botão de lótus que ao se abrir libertou Rá, o deus do Sol. Ele chegou para
iluminar o Caos inicial e originou seus dois filhos divinos: Shu, o deus do Ar e Tefnet, a deusa
da Umidade. Deles nasceram Geb, deus da Terra e Nut, deusa do Céu Noturno, também
conhecida como Grande Profundeza, a Abóbada Celestial, que faz nascer o Sol todas as
manhãs, para depois devorá-lo à noite. Nesse contexto, era também considerada a Mãe do Sol
que o devorava ao entardecer e que todas as manhãs nascia de seu útero, sob a forma de
Khepri; o sangue que libertava nesse momento tingia o céu de vermelho na aurora do dia.

Geb e Nut se amaram e permaneceram por longo tempo abraçados. O céu e a terra
estavam tão juntos que não havia espaço para nada crescer ou viver entre eles. Desaprovando
o incesto cometido por estes deuses, Rá, ou Sol, ou Deus Supremo, ordenou que Shu, pai
deles, os separasse. O poderoso deus do Ar pisou sobre Geb e com as mãos suspendeu Nut
acima de seu irmão. Geb debatia-se entre os pés do pai, enquanto que Nut balançava sobre
ele, mas não conseguiam chegar a se alcançar.

A Deusa ficou tão brava com seu pai, que ele acabou amaldiçoando-a, para que em
nenhum dia dos 360 dias do ano pudesse dar à luz. Foi ajudada então pelo Deus Thoth, que em
um jogo com a Lua, ganhou-lhe a sétima parte de cada uma das suas luminárias. Juntando
essas partes, que formavam ao todo cinco dias, acrescentou-as aos trezentos e sessenta dias
do ano. Dessa forma Nut pode dar à luz seus filhos. No primeiro dia nasceu Osíris; no segundo
Hórus (o velho); no terceiro Seth; no quarto Ísis; e no quinto dia, Néftis. Seth casou-se com
Néftis e Osíris com Ísis.

Os anos se passaram e Osíris se tornou rei de todo o Egito. Ele ensinou a agricultura, a
lei, e estabeleceu o culto aos Deuses. É dito que ele civilizou todo o mundo: após completar
seu feito no Egito, viajou pelo mundo, conquistando não pelas armas, mas pela persuasão,
pela poesia e pela música. De acordo com Plutarco, é por isso que os gregos associam Osíris a
Dionísio – como Ele, o Deus conquistou o mundo pela Arte.
Isis e Anubis

Quando os filhos de Nut e Geb nasceram, dois casais se formaram, Aset e Wesir, Nebt-
het e Set. Wesir era o Senhor da terra fértil de Kemet e Set o Senhor dos desertos.

Enquanto Wesir e Aset eram muito felizes, Nebt-het não se sentia feliz ao lado do
turbulento Set. Ela invejava a felicidade apaixonada de Aset e Wesir e desejava conhecer esta
felicidade, nem que fosse apenas uma vez.

Um dia, quando Aset viajou para cuidar das pessoas, Nebt-het aproveitou a
oportunidade. Ela vestiu as roupas de Aset, passou seu perfume e foi procurar Wesir. Não se
sabe ao certo se Wesir realmente foi enganado pelo estratagema ou se simplesmente
apiedou-se da irmã, o fato é que ele aceitou seus avanços e a levou para sua cama.

Como resultado deste encontro, Nebt-het viu-se grávida e em uma difícil situação.
Como explicar a seu marido estéril que ela havia concebido uma criança? Com medo do que
Set faria se soubesse do que aconteceu, Nebt-het escondeu-se em uma parte do deserto para
ter a criança. Quando o bebê nasceu, ela o entregou aos chacais para que cuidassem dele.
Ao contrário de Set, Yinepu sentiu compaixão pela humanidade e não causou estragos
na civilização. Apesar de Nebt-het querer um filho, ela rapidamente decidiu que Yinepu não
era essa criança. Ele não tinha o temperamento selvagem e a natureza caótica que a atraía tão
fortemente a Set. Colocando sua “quedinha” por Wesir de lado, ela abandonou Yinepu, que
não era causa de tristeza para Set, que, é claro, notou imediatamente como Yinepu era
diferente dele.

Quando Aset soube o que aconteceu, foi procurar a criança, decidida a criá-la como
sua. Yinepu tornou-se então o grande companheiro de Aset e depois de Wesir. Junto com Isis,
Anubis criou a arte de embalsamar.

Os olhos de Yinepu são feitos de calcita (branca) e obsidiana (preta) e são compostos
em ouro. Suas sobrancelhas também são feitas de ouro, no estilo Wedjat – o olho de Horus.
A busca de Isis por Osíris

Durante as viagens de Osíris, Isis reinou no Egito. Ela o fez tão bem que Set invejava
aquele reino. Quando Osíris voltou, Set desenvolveu um plano de conspiração. Ele, junto com
72 outros, obteve as medidas do corpo de Osíris e construiu o mais belo sarcófago.

Em um banquete em honra ao retorno do Rei, no qual Isis não estava, Set levou o
sarcófago e disse: “Aquele que couber perfeitamente neste sarcófago o levará de presente.”

Um por um, todos os presentes deitaram no sarcófago, mas ninguém cabia


perfeitamente. Então, o próprio Osíris foi persuadido a testar. Ele deitou no belo sarcófago e,
imadiatamente, os conspiradores o fecharam e selaram. Antes que alguém pudesse interferir,
eles jogaram o sarcófago no Nilo, e o sarcófago fluiu até o Grande Mar Verde.

Os espíritos dos locais selvagens foram os primeiros a ouvir sobre o trágico evento,
elevando o pânico, que eventualmente chegou aos ouvidos de Isis. Quando ela escutou o
ocorrido, sofrendo, andou pelas ruas procurando por Osíris, perguntando a todos os que
encontrava: “Você viu Osíris? Você viu meu Deus Amado?”

Ela perguntou até mesmo às crianças, que testemunharam o ocorrido e contaram a ela
que viram o sarcófago flutuando em direção ao mar.

Após três dias, o sarcófago chegou à cidade de Biblos na Fenícia e parou em uma
árvore de tamarisco. Magicamente, a árvore cresceu em volta do sarcófago que continha o
corpo do Deus, o escondendo. Um dia, o rei de Biblos, Malcathros, viu a bela árvore e a cortou
para usar como pilar em seu palácio.

Enquanto isso, seguindo as pistas que as crianças a deram, Isis chegou a Biblos.
Quando ela soube o que houve com a árvore que continha seu marido, ela sentou perto de
uma fonte e chorou.

As criadas de Astarte, rainha de Biblos, viram Isis chorando e falaram com ela,
tentando confortá-la. Por sua gentileza, Ela trançou seus cabelos e deu a elas sua fragrância. A
Rainha Astarte ficou maravilhada com a beleza dos cabelos de suas criadas e pelo cheiro
delicioso, e chamou a estranha para cuidar de seu filho mais novo. A Deusa aceitou, mesmo
que seu coração ainda chorasse.

Isis cuidou da criança com carinho, mas o amamentou com seu dedo e não com o seio.
Ela começou a dar à criança um grande presente: à noite, ela queimava as partes mortais do
seu corpo em um fogo mágico, transformando a criança em Divina, como os Deuses. A cada
noite, enquanto a criança era banhada no fogo mágico, Isis se transformada no Pássaro
sagrado e voava ao redor do pilar que continha seu marido, lamentando.

Uma noite, a Rainha Astarte passou pela câmara em que Isis cuidava de seu filho e o
viu sendo queimado. Ela gritou, mas por ter interrompido o processo, privou seu filho da
imortalidade.

Isis então se revelou em toda a glória de sua Divindade.

“Eu sou Isis”, ela disse, “Senhora e Rainha de todas as terras. Dentro daquele pilar está
o corpo do meu amado marido, Osíris. Eu lhe peço para entregar o pilar a mim.”

A rainha e o rei concordaram imediatamente e cortaram a árvore, revelando o belo


sarcófago que continha o mais belo ainda Deus. Ela embalou a árvore em linho, untou com
óleos e deu ao rei Malcathros e à rainha Astarte.

Isis se atirou sobre o sarcófago e deixou escapar um grito de dor e perda que os filhos
mais novos do rei e da rainha de Biblos morreram instantaneamente com o choque. Isis
colocou o sarcófago em um navio e saiu para o Egito pelo rio Phaedros. O rio produziu um
vento forte. Isis, nervosa, transformou o rio em um riacho com apenas um olhar.

O navio deixou Isis e seu amado em um ponto deserto. Acreditando estar sozinha, ela
abriu o sarcófago e finalmente olhou para o rosto de seu marido afogado. Abraçando-o, ela
chorou. O príncipe que havia acompanhado Isis até ali estava observando-a, curioso. Sentindo-
se violada, Isis lançou-lhe um terrível olhar e o matou instantaneamente.

Ela usou magia para reviver o corpo de seu amado a fim de conceber o seu filho e
seguiu viagem, escondendo o sarcófago em um pântano. Mas Set, que estava caçando à luz da
lua, o encontrou. Com raiva, ele cortou o corpo de Osíris em 14 pedaços e os espalhou pelo
reino.

Quando Isis descobriu, ela novamente partiu em busca de Osíris. Ela viajou em um
barco de papiro e procurou pelas partes de Osíris por todo o Egito. Peça por peça, ela e Néftis
encontraram suas partes e, a cada pedaço que elas encontravam, elevavam um templo no
local. Mas uma parte vital elas não encontraram: seu falo. Set o jogou no rio e ele foi devorado
por peixes. Com a ajuda de Anúbis, Isis e Néftis remontaram seu corpo, construíram um falo de
ouro para Osíris e o embalsamaram.

Assim, Osíris se tornou o Rei do Submundo.


O nascimento de Horus

Após a morte de Wesir, Set colocou Aset em uma casa de tecelagem. Thot foi o Deus
que ajudou-a a sair.

“Venha, Deusa Isis. Siga meu conselho e escape deste lugar. Eu A prometo que a força
de Seu filho, Horus crescerá duplicada. Ele vingará a morte do Seu pai e sentará em Seu trono,
e ele governará as duas Terras do Egito.”

Ela seguiu o seu conselho. Em uma noite, ela escapou da prisão, levando consigo seu
filho Horus e sete escorpiões como companheiras e guardiãs. Tefen e Befen atrás de Isis, à sua
direita Mestet, à sua esquerda Mestetef. À sua frente, Petet, Thetet e Maatet. Enquanto elas
viajavam, Isis falou com as escorpiões com uma voz que penetrou e reverberou dentro delas:

“Ouçam-me e obedeçam-me, pois é sábio aquele que obedece a voz de Isis. Não
conheçam ‘A Negra’ e não saúdem ‘a Vermelha’; não diferenciem a alta da humilde.
Mantenham seus rostos virados para a Terra e guiem-me para o local seguro. Tenham cuidado
para não guiarem aquele que procura por mim, até que tenhamos alcançado ‘A Casa do
Crocodilo’.”

E elas o fizeram, guiando a Deusa para a cidade das Duas Sandálias Divinas. Isis chegou
cansada e se aproximou da chefe da cidade, Lady Usert, e pediu abrigo. A mulher, vendo as
escorpiões que acompanhavam Isis, sentiu medo, e depois raiva por essa mulher, que ela não
reconheceu ser a Deusa, ousar se aproximar de sua casa com sete criaturas tão perigosas.
Então ela fechou a porta.

Naquela noite, Tefen e as outras escorpiões discutiam a rejeição, e Isis encontrou


refúgio com uma pobre mulher dos pântanos. As escorpiões decidiram se vingar de Lady Usert
e juntaram todo o seu veneno na cauda de Tefen. Ela entrou na casa da mulher por debaixo da
porta e picou o filho de Lady Usert. Ele caiu instantaneamente pelo efeito do veneno e um
fogo furioso irrompeu da casa.

Vendo o que aconteceu, Usert deixou escapar um grito de dor, chorando sobre seu
filho e pela destruição de sua casa. Ela andou pelas ruas pedindo ajuda, mas ninguém a
atendeu. Isis apiedou-se da mulher e principalmente de seu filho inocente.

“Nobre Senhora, venha a mim. Minha boca carrega vida. Eu sou uma mulher cujas
palavras têm o poder de proteger. É bem sabido em minha cidade que minhas palavras dão
vida. Traga o garoto para mim e eu eliminarei o mal.”

Isis colocou suas mãos sobre o garoto e falou as palavras que eliminariam o veneno:

“Veneno de Tefen, venha, vá para a terra, não penetre; veneno de Befen, venha, vá
para a terra. Eu sou a divina Aset, Senhora da Magia, Senhora das Palavras de Poder. Caia,
veneno de Mestet, não corra. Veneno de Mestetef, não se eleve. Veneno de Petet, Thetet e
Maatet, deixem a criança! A criança vive e o veneno morre.”

O veneno obedeceu a Deusa e a criança viveu. E a chuva caiu, extinguindo o fogo da


casa de Usert.

Isis estava contente pela criança, mas seu coração estava cheio de pesar.

“Estou sozinha. Ninguém tem mais tristeza do que eu. Eu sou como um homem velho
cujo coração não mais se alegra em ver belas mulheres. Fiéis escorpiões, voltem suas faces
mais uma vez para o chão e guiem-me para os pântanos de papiro onde eu posso me esconder
com meu filho.”

Vendo a Deusa, seu filho e as escorpiões partirem, Lady Usert ficou cheia de remorso.
Ela encheu a casa da pobre mulher que acolheu a Deusa de belos presentes, coisas de sua
própria casa. Mas ela ainda sentia muita culpa pela noite, compreendendo que foi por causa
dela que ela e seu filho sofreram.
O envenenamento de Horus

Um dia, quando Aset voltou a seu esconderijo, encontrou Horus deitado no chão, e ela
mal ouvia seu coração. Ela não sabia o que havia atingido seu filho e, quando usou sua magia,
percebeu que seu poder havia a abandonado. Ela estava sozinha, seu marido estava morto,
nenhum dos Deuses estava lá para ajudá-la. Ela pegou seu filho e correu para a vila mais
próxima. Os pescadores tentaram de tudo, mas não conseguiram curá-lo. Então, alguém
trouxe uma mulher que o examinou e disse:
“Deve ter sido Set que se disfarçou de cobra ou escorpião e o envenenou.”

Aset concordou com a mulher e a raiva tomou conta dela. Ela disse:

“Horus foi mordido! Ra! Um filho seu foi mordido! De herdeiro a herdeiro, um link
direto com o reinado de Shu, Horus foi mordido! O bebê de Chemmis, a criança da Casa do
Príncipe, Hórus foi mordido! A bela criança dourada, a criança órfã inocente, Horus foi
mordido! O filho do Ser beneficente, nascido daquele que é Cheio de Lágrimas, Horus foi
mordido! Eu o observei tão ansiosamente, pois previ que ele vingaria seu pai...”

Sua irmã Néftis veio chorando e foi ouvida por todos os lugares. Serqet disse:

“Diga, o que aconteceu com Heru, filho de Wesir? Ah, Aset, minha irmã! Peça aos céus
e o barco de Rá irá parar, e o vento cósmico irá parar de soprar para o barco de Ra enquanto
Heru está ao lado dele.”

Aset elevou sua voz de gritou para o barco de milhões de anos, tão alto que a terra
tremeu e o barco parou seu curso. Thot veio ao seu encontro, e Aset contou a ele que Set
havia envenenado Horus, e que ela desejava ter morrido com Osiris. Ela só viveu para ver Heru
crescer e se vingar da morte do pai, mas agora não havia mais razão para que ela vivesse.

Thot a consolou: “Qual o problema, Aset, você que é tão divina e talentosa, e conhece
a magia? Uma garantia da segurança dele está no barco de Ra. O sol está no local de ontem,
para que tudo fique escuro. A luz não voltará até que Heru retome sua saúde, para a alegria de
sua mãe Aset.”

Ele disse as palavras de poder: “Saia, Veneno! Você é exorcicado pelo feitiço de Rá. São
as palavras do Grande Deus que o eliminam!”

E o veneno foi eliminado do corpo de Heru, e ele retornou à vida.


O Nome Secreto de Rá

Para evitar que isso se repetisse, Isis percebeu que deveria ser ainda mais poderosa –
igual em poder e altura a Ra. Ela viu que isso poderia ser conseguido se ela descobrisse o nome
secreto de Ra, o nome que ninguém além dele próprio sabia.

Ra chegava aos céus todos os dias no barco de um milhão de anos, mas ele estava
velho e babava. Sua saliva caiu no chão. Isis, a Maga, pegou um pouco da saliva, misturou com
terra em suas mãos e criou uma serpente mortal. Em sua mão, a serpente permanecia parada,
não a machucava. Então ela enviou a serpente pelo caminho que Ra seguia todos os dias.

No dia seguinte, Ra e seus seguidores passaram pela serpente e ela o picou. Seus gritos
poderosos alcançaram os céus. Todos perguntaram o que era, mas Ra não conseguia
responder. Suas mandíbulas travaram, ele bambeou, o veneno o percorreu como o Nilo
percorre o Egito. Então Ra contou a todos que uma coisa mortal o atingira. Ele não sabia o que
o havia atacado e nem quem enviara a criatura.

Os Deuses e Deusas foram a Ra, lamentando, Então Isis chegou, trazendo Sua magia.
Em sua boca havia o Sopro da Vida; por sua fórmula, os mortos tornam à vida e o mal é
repelido.

“O que aconteceu, Pai Divino? Conte-me. Será que algo que Você criou virou-se contra
você? Minhas palavras vão eliminá-lo!”

O Deus explicou a Isis o que ocorreu e como ele sentia dor.


“Diga-me seu Grande nome, seu Nome Sagrado, pois aquele que é chamado pelo
nome viverá!”

“Eu criei os céus. Eu criei a Terra. Eu uni as montanhas. Se eu abrir meus olhos, há luz.
Se eu os fechar, há escuridão.” Ele falou por muito tempo sobre tudo o que ele criou e os
poderes que possuía.

Mas Isis disse: “O que você me disse não é Seu nome. Diga-me o Seu nome para que
eu retire o veneno de Ti. É Aquele que Revela Seu Nome que Viverá!”

O fogo do veneno queimou no Deus e a dor era insuportável, mesmo para um Deus. E
ele disse: “Eu me dou a Isis para que ela me procure e meu Nome passará de meu corpo para o
dela.” Isis também fez Ra jurar que daria seus Dois Olhos a Horus, o Sol e a Lua. Ele fez o
juramento e passou seu nome para Isis.

Então, Isis, Senhora da Magia, disse: “Eu sou Isis! Eu que trabalho, eu que faço o
veneno sair e cair no chão! Veneno, saia de Ra! Ra vive e o veneno morre! O veneno morre e
Ra vive!“

E tudo aconteceu como Isis, A Poderosa, Rainha dos Deuses, Que conhecia Ra por seu
Nome, disse.
A batalha pela Coroa

Conta-se que Horus sai de Chemmis, onde cresceu, protegido por sua mãe Aset. Heru
aparece na frente do Conselho de Deuses em Heliópolis, presidido por Atum. Lá, ele clama seu
direito ao trono do Egito, que Shu acha justo. Djehuty (Thoth), Deus da Sabedoria, concorda.

Aset diz em alegria: “Ouça, Vento Norte! Sopre! Carregue as notícias para o Outro
Mundo e para Osíris, o pai de nosso novo Rei!”

Mas Neb-er-Djer, o Senhor do Fim, não gosta e reclama da decisão rápida. Os Deuses
da Enéada de Heliópolis dizem que é inútil a discussão, pois Horus já havia tomado o Nome
Real e estava usando a Coroa Branca de Osiris.

Então Set diz: “Como Horus já tomou o que não é de Seu direito, Eu peço aos Deuses e
Deusas que o joguem para Mim. Vamos ver se ele é digno de seu trabalho. Deixem-no lutar
comigo!”

Vários argumentos se seguem. Thoth falou por Horus, Ra falou por Set. Os Deuses
defenderam suas opiniões. A discussão durou oitenta anos. Então, os Deuses decidem pedir
conselhos de Neith, a Deusa Criadora. Thoth escreve uma carta cheia de orações e uma
preocupação formal com seu filho Sobek, Deus dos Crocodilos. Ao final da carta, ele pergunta
o que todos queriam saber: A quem deve o Trono pertencer?

Sua resposta é curta e impaciente: “Dê o trono a Heru, e não cometam injustiças ou o
céu cairá sobre a Terra”. Para ser justa, ela sugere que os domínios de Set aumentem e que
Anat e Astarte, Deusas da Fenícia, sejam entregues como esposas a Set.

Os Deuses declaram que Neith estava obviamente certa, mas Neb-er-Djer inicia a
discussão novamente. Os Deuses logo voltaram a discutir, alguns concordando com Horus,
outros concordando com Set.

Nisso, Isis fica realmente furiosa. Ela se levanta, com toda a sua fúria emanando de sua
Forma Divina. Em nome de Neith e Ptah-Tanen, Senhor da Terra, ela fez um juramento. Com as
palavras da Senhora da Magia, os Deuses ficaram com medo e se afastaram, concordando que
ela estava certa e que seria como ela dissera.

Era a vez de Set ficar nervoso e ele ameaça matar todas a divindades, uma por dia.
Então ele diz que não negociará com o tribunal enquanto Aset estiver nele. Então, Ra
secretamente muda o tribunal para uma ilha no rio. Ele manda o ferreiro Nemty (Anti) impedir
a entrada de qualquer mulher que se pareça com Aset.

Aset, entretanto, descobre o plano. Ela se disfarça de uma velha mulher e engana
Nemty. Ela diz:

“Olá, ferreiro. Leve-me até o outro lado para que eu entregue esse jarro de farinha ao
garoto que está pastoreando o gado pelos últimos cinco dias. Ele deve estar com fome.”

“Não, Senhora”, ele responde. “Eu fui instruído a não levar mulher nenhuma para o
outro lado.”

A anciã riu. “Obviamente você foi instruído a não levar nenhuma mulher que se
parecesse com Isis para o outro lado. Eu pareço com Isis?”

Realmente, pensou Anti, essa velha mulher não se parecia nada com a Bela Deusa Isis.
“Ok, então, o que você me dará para que eu a leve?”

“Eu lhe darei este pão.”

Anti riu: “O que é um pão para mim? Você acha que irei contra a ordem dos Deuses
por pão?”

“Então eu lhe darei este anel de ouro”, ela disse, retirando o anel de Seu dedo.

Com este pagamento, ele a leva até a ilha. Na ilha, ela se transforma novamente, agora
em uma jovem e bela mulher. Ela se aproxima para que Set a note e então entra na floresta.
Set não podia mais comer o pão dos Deuses. Ele não podia respirar mais, a não ser que
respirasse o sopro daquela jovem. Ele deixou os Deuses e foi procurá-la.

Escondendo-se atrás de uma árvore, ele a chama: “Venha até mim, bela e adorável
garota. Sou um Deus e espero por você.”

Ela diz então, em meio a lágrimas: “Por mim, esperastes em vão, Divino Senhor. Eu era
a esposa de um pastor e lhe dei uma criança, um garoto. Então meu esposo morreu e nosso
filho se tornou pastor. Mas um estranho veio e ameaçou vencer meu filho e tomar seu gado, e
expulsá-lo. Estou perdida, meu Senhor! O que devo fazer, meu forte Deus?”

O coração de Set disparou novamente, enquanto ele imaginava a gratidão da donzela


por sua ajuda. Ele disse: “O quê! O gado ser dado a um estranho quando o filho do fazendeiro
está vivo! É um ultraje! Esse estrangeiro deveria ser apanhado e expulso e o filho deve ser
colocado no lugar de seu pai.”

Em um instante, antes que Set percebesse o que estava acontecendo, a bela donzela
se transformou no pássaro de Isis e voou como vento para o topo da árvore. “Agora é você que
deve chorar, Meu Senhor! Sua boca o condenou. Você passou julgamento sobre si mesmo.
Não há nada que possa fazer para evitar isso!”

Set percebe quem era o pássaro e sabia que estava arruinado. Com raiva, ele correu
para seu aliado, Ra, e contou tudo. Mas Ra concordou com Isis: “Verdade, passaste julgamento
sobre si mesmo, como Ela disse.”
Em sua raiva, Set fez com que o ferreiro apanhasse sobre as solas de seus pés até que
elas não mais existissem.

As Nove Deidades do Tribunal viajaram para o Delta Oeste e sentaram sobre uma
colina. Logo, receberam uma mensagem de Atum e Ra: “Como essas Deidades sentam em uma
colina e não fazem nada? Eles desejam que Horus e Set passem suas vidas inteiras ante a
Corte?” Então o comando veio de Atum: “Coloquem a Coroa de Osiris sobre a cabeça de seu
filho, Horus!”

Mais uma vez, Set reclamou: “O reinado será dado a um garoto, quando um homem
vive? Vamos ser atirados os dois à água e lá lutarei com Horus pelo trono!”

Então, Set e Horus se transformaram e hipopótamos e mergulharam no mar. Aset se


preocupa com seu filho e molda um harpão com plantas, jogando-o no local do qual eles
desapareceram. Ela erra e acerta Heru , mas pega o harpão de volta quando ele reclama. No
próximo lançamento, ela atinge Set, mas ele fala: “Isis, sou Seu irmão! Como pode fazer isso
comigo?”, e ela pega o harpão novamente, sentindo pena de Set assim como de Horus.

Desta vez, Horus fica nervoso e corta a cabeça de sua mãe. Levando a cabeça consigo,
Horus foge para as montanhas. Para se preservar, Isis se transforma em uma estátua sem
cabeça.

“O que é essa coisa sem cabeça?” pergunta Ra.

“É Isis”, responde Thoth, e explica o ocorrido. Ra convoca as nove Deidades e eles


decidem que Horus deve ser punido.

Em uma versão do mito, Thoth substitui a cabeça de Isis por uma cabeça de vaca.

A cada dia, o Tribunal fica mais cansado da luta entre Horus e Set. Finalmente, Neb-er-
Djer comanda que eles fiquem em paz, e Set convida Horus para um banquete em Sua casa.

Horus aceita o convite. Ao final do banquete, eles deitam juntos no sofá para dormir,
mas Set levanta silenciosamente e se joga sobre Horus numa tentativa de estuprá-lo – como se
Set fosse um guerreiro vitorioso estuprando aquele que ele venceu.

Set acreditava que tinha sido vitorioso ao estuprar Horus, mas Horus conseguiu
segurar a ejaculação de Set em sua mão. Ele fechou seus dedos e levou consigo até sua mãe
Isis. Ao ver aquilo, Isis imediatamente cortou a mão de Horus que levava o sêmen, jogando-a
num riacho, e criou outra em seu lugar. Logo depois, ela pegou um ungüento cheiroso e cobriu
o falo de Horus com ele. Seu falo ficou ereto e Isis colocou um vaso embaixo dele, no qual
Horus ejaculou.

Na manhã seguinte, Isis levou o vaso contendo o sêmen de Horus no jardim de Set,
onde estava o jardineiro. Ela pergunta ao jardineiro quais plantas afrodisíacas Set tem o
costume de comer todos os dias. Ele responde:

“Há apenas uma planta sob meus cuidados que meu mestre come. É o alface.”

Entã, Isis colocou o semen de Horus no alface e foi embora. Set, mais tarde, comeu o
alface, ficando imediatamente grávido de Horus, sem saber disso.

Set, sentindo-se triunfante sobre Horus, foi até ele e declarou que queria dar sua
palavra contra Horus ao tribunal uma vez mais. Horus concordou e eles foram aos Nove
Deuses da Enéada.
“Eu clamo o trono de meu irmão Osiris”, declarou Set, “porque sou vitorioso sobre
Horus. Posso provar isso. Eu fiz nele o ato de um vitorioso. Eu sentei sobre ele e o poluí1. Ele
não serve para reinar porque foi vencido!”

O Tribunal, acreditando na mentira, deu um tapa no rosto de Horus. Mas Horus riu. “O
que Set diz é mentira. Como prova, eu exijo que a semente de Set e a semente de Horus sejam
convocadas como testemunhas.”

O Tribunal concordou e Thoth ficou encarregado de convocar as testemunhas. Ele


colocou sua mão sobre Horus, chamando a semente de Set, e a semente respondeu das águas
do riacho onde Isis jogara a mão de Horus. Então, Thoth colocou a mão sobre Set, chamando a
semente de Horus. A semente perguntou: “de onde devo sair?”

E Thoth respondeu: “de Sua orelha”. A semente disse: “Eu, uma Semente Divina, devo
sair de uma orelha?”, e Thoth comandou que ela saísse da coroa de Sua cabeça. A semente de
Horus saiu de Set e ele não estava mais grávido. Set ficou envergonhado frente aos juízes.

Mas Set não desiste, e desafia Heru a fazer um navio de pedras para apostar uma
corrida com o Dele. Heru constrói um navio de pinhal e o cobre com um gesso que se
assemelha a pedra. Set constrói um navio de pedra, que imediatamente afunda. Ele fica
nervoso e se transforma em um hipopótamo novamente, e destrói o navio de Horus.

Então há uma troca de cartas entre Ra e Wesir. O Senhor do Submundo ameaça-os e


eles finalmente deixam o trono a Heru. Set ainda diz que Horus não pode ser rei porque não é
o consorte da Rainha. Então Isis faz de Horus seu consorte e ele finalmente torna-se rei.

Set torna-se prisioneiro de Aset, mas Ra ainda o favorece e diz que Ele o acompanhará
nos céus e que sua voz será ouvida no próprio trovão.
Versão Egípcia do Mito

A maior parte dos mitos descritos acima são como Plutarco descreveu no segundo
século d.C., mas não são a versão original. Abaixo, segue uma parte da versão egípcia da Busca
por Osíris, do Hino a Osíris, datado de aproximadamente 1500 a.C.:

“Sua irmã Isis agiu como protetora. Ela mandou os inimigos embora. Ela advertiu
estações de calamidade, ela recitou fórmulas com o poder mágico em sua boca, com habilidade
na língua e sem hesitar uma palavra, perfeita em comando e palavra, Isis a mágica vingou seu
irmão. Ela o procurou sem cansar. Ela voou em volta do mundo chorando, e ela não descansou
até encontrá-lo. Ela produziu luz de suas penas, ela fez o ar surgir por meio de suas duas asas,
e ela chorou a morte de seu irmão. Ela fez que seus membros inertes se elevassem, ele cujo
coração descansava. Ela tirou dele sua essência, e ela fez daí um herdeiro. Ela amamentou a
criança em solidão, e ninguém sabia onde era, e ele cresceu em força, e seu braço aumentou de
força na casa de Geb [quer dizer, na Terra].

Outra parte do mito é descrita nos Coffin Texts, de aproximadamente 2040-1640 a.C.:

“O flash de luz surge, os Deuses estão com medo, Isis acorda grávida com a semente
de seu irmão Osiris. Ela está elevada, mesmo ela, viúva, e seu coração está alegre com a
semente de seu irmão Osiris. Ela diz, ‘oh, Deuses, eu sou Isis, a irmã de Osiris, que chorou pelo

1
No arquivo de referência, a palavra é “defiled”. A tradução literal tem o sentido de sujar, mas achei que não cabia
muito bem pra frase.
pai dos Deuses, Osiris, que julgou a destruição nas Duas Terras. Sua semente está em meu
ventre, eu moldei a forma do Deus no ovo como meu filho que está na cabeça da Enéada. O que
ele deverá governar é esta terra, a herança de seu avô Geb, o que ele deverá dizer é a respeito
de seu pai, o que ele deve matar é Set, inimigo de seu pai Osiris. Venham, Deuses, protejam-no
em meu útero, pois ele é conhecido em seus corações. Ele é seu Senhor, esse Deus que está em
seu ovo, em forma de cabelos azuis, Senhor dos Deuses, e brilhantes e belas são as palhetas de
duas plumas azuis.’

‘Oh’, diz Atum, ‘guarde seu coração, mulher! Como você sabe?’

‘Ele é o Deus, Senhor e Herdeiro da Enéada, que os fez no ovo. Eu sou Isis, um espírito
a mais; o Deus está neste meu ventre e ele é a semente de Osíris.’

E Atum diz: ‘Você está grávida e escondida, garota! Você dará à luz, estando grávida
dos Deuses, vendo que ele é a semente de Osiris, que aquele vilão que matou Seu pai não
venha, não quebre o ovo em seus estágios iniciais, pois a Grande em Magia guardará contra
ele.’”

Nos Piramid Texts, é dito a Osiris:

“Sua irmã Isis veio a ti alegre por amor a ti. Ela coloca por você teu falo sobre sua
vulva. Tua semente se aproxima dela, então ela é equipada como Sothis. É Horus-Sopd quem se
aproxima de ti como Horus Que Está em Sothis.”
The Golden Ass

O livro O Asno Dourado foi escrito por Lucius Apuleius em c.155 d.C. Nele, Apuleius
descreve um encontro com Isis, em que ela diz ser todas as Deusas. Ele descreve Isis em uma
passagem:

“Em primeiro lugar, o cabelo longo e abundante, gentilmente cacheado sobre a nuca
divina, ou solto, caindo sobre os ombros suavemente. Uma coroa com muitos desenhos e tipos
de flores adornava sua majestosa cabeça; ao centro, um disco plano, posicionado acima da
testa, brilhava tão claramente como um espelho, ou como a lua, e estava envolvido por
serpentes dos lados direito e esquerdo; acima, era adornada com espigas de milho estendidas.
Sua túnica era de muitas cores, totalmente tecida em linho fino, às vezes clara como uma
cintilação branca; outras, amarela como a cor do açafrão; às vezes, vermelha como uma
chama. Porém, o que mais surpreendeu minha visão foi o manto profundamente negro,
resplandecente com um brilho negro; ele envolvia o corpo, retornando por baixo do lado
direito ao ombro esquerdo, uma parte do tecido caía como se fosse um nó; o mando ondulava
graciosamente, ornado com borlas nas extremidades mais baixas.

Ao longo das beiradas bordadas e por todo o corpo do material, estrelas brilhavam e,
no meio delas, uma meia lua respirava uma chama de fogo. Mas sempre que o magnífico manto
se movia, uma guirlanda feita com todos os tipos de flores e frutas juntava-se a ele. Ela
carregava objetos de diferentes tipos. Na mão direita, segurava um chocalho de bronze, no
meio do qual algumas barras, atravessando uma fina chapa de metal curvada como um cinto,
emitiam um tinido, quando o braço virava três vezes. Na mão esquerda, tinha uma vasilha de
ouro, em cujo cabo, na parte visível, enrolava-se uma serpente com a cabeça arqueada. Os pés
de ambrosia estavam cobertos por sandálias tecidas com folhas de palmeira. Assim era a
grande Deusa que, respirando a abençoada fragrância da Arábia, dignou-se a falar comigo.”

Outra passagem do livro mostra como Isis é todas as Deusas e todas as Deusas são Isis:

“Ouça, Lucius! Eu vim, seu choro e suas orações me moveram a socorrê-lo. Eu sou
aquela que é a mãe natural de todas as coisas, senhora e governanta de todos os elementos, a
inicial progênie dos mundos, chefe de divinos poderes, Rainha do paraíso, a principal dos
Deuses celestiais, a luz das Deusas: ao meu desejo, os planetas do ar, os ventos dos mares e os
silêncios do inferno são interrompidos. Meu nome, minha divindade é adorada por todo o
mundo em diversas maneiras, em costumes variáveis e em muitos nomes, pois os firigeus me
chamam Pessinuntica, a mãe dos Deuses; os atenienses me chamam Cecropian Artemis; Os
Ciprianos, Paphian Afrodite; os Candianos, Dictyanna; os Sicilianos, Stygian Proserpine; e os
Eleusianos me chamam Mãe do Milho. Alguns me chamam de Juno, outros de Bellona das
Batalhas, e ainda outros, Hécate. Principalmente os Etíopes que moram no oriente, e os
egípcios, são excelentes em todos os tipos de doutrina antiga, e por suas cerimônias
acostumadas a me adorarem, me chamam de Rainha Isis.”

E Isis diz também:

“Eu sou a Natureza, a Mãe Universal, Senhora de todos os elementos, a filha


primordial do tempo, Soberana de todas as coisas espirituais, Rainha dos espíritos que já se
foram, Rainha também das amadas Deidades, a manifestação de todos os Deuses e Deusas que
existem. Sob minha proteção, você será feliz e glorioso.”