Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

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G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
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Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

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três mesas pequenas. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. numa terceira mesa. como o seu próprio chefe. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. protegida pelo próprio espaço junto à parede. para fora do tabuleiro. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi. fora contratada de uma agência de modelos. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. pediu-lhe a conta. que usava um relógio do tamanho de um melão. estrategicamente disposta ao longo do teto. por exemplo. no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. certa apreensão e nervosismo. a moça esperava por alguém. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . um bolo de um homem que jamais vira na vida. por mais incrível que isso parecesse. com um delicado vaso de flores. também.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. E esse alguém estava atrasado. que era calvo e arrogante. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. Assim. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. Debaixo da iluminação indireta.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. retangulares. Sentia-se entre aliviada e feliz. Não sabia como era o contador. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. cada uma. Afinal. pelo menos. Não acrescentara. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas. Havia levado um bolo. provavelmente. No canto. fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . quando este se aproximou elegante e solícito. Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa. Certamente. Ela aparentava. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. Agora. na verdade. uma mulher de cabelos escuros e curtos. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). moreno e elegante.

comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . assessorar o presidente de uma grande companhia. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. Nada menos. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas. E de poucas palavras. definhando lentamente ano após ano. realmente. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. viu mesmo foi o chão. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. No escritório. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe. E. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. O homem de gelo que jamais sorria. Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. de dedos longos e tépidos. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. Desde a sua contratação. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. talvez não contivesse uma crise de risos. tomando cuidado para não se trair. já que. Por outro lado. o homem de gelo. bem vestido. A noite estava fria e úmida. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar. Amanda encolheu-se dentro do casaco. mas. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. de fato. Dava um passo em frente ao outro. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. no mundo empresarial. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação. Na verdade. Morri e estou no céu!. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. como secretária particular de Jules Brienne. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. workaholic até o último fio de cabelo. Se lhe tivesse dito isso. e. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. Aceitou tocar na palma daquela mão macia. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. Sentia-se em apuros.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. a dificuldade acentuava-se ainda mais. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. estava bem perto de sê-lo. de gargalhar. Ora. pouco mais de 1. já de pé. Agressivo nos negócios. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio. A bem da verdade. em seguida e de forma violenta. mas tinha vontade de rir. Havia uma equipe de médicos. porém. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. já que. O que lhe importavam na vida.80. sério e introspectivo como pessoa. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. bonito. O mais estranho e injusto de tudo era que. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. observou que ele era alto. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido.

Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . -brincou. Ele é um príncipe dinamarquês. sem cola. pardon. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo.Desculpa.. Num instante. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. um sorriso amistoso e um convite implícito. estou com a princesa nos braços. Nesse ponto. transmitia calor. fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta.. olhando para o salto quebrado. quando seus olhos se encontraram por vários minutos. bem. -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin. numa calçada 6 . e eu certamente não sou Cinderela. Mas o resto do corpo não. -Oh. quer dizer. aconchego. fitando o lugar onde o regente havia apontado. Desistiu de grudar madeira na madeira.. . diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa. somente os craques.. Ele era a. ela sentiu uma quentura forte no rosto.. – riu-se. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato.. o antebraço. teremos que deixar o café e as histórias para outro dia. enquanto abaixava-se para pegar o salto. que percebeu que estava completamente encantada por ele.. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Normalmente. Naquele momento. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato. Talvez tenha sido nesse momento. droga. –disse sorrindo. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes. o sorriso era aberto e franco. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível. Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada.Infelizmente. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango. merda. Jamais dava a cara à tapa. disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios... O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu. -Amanda Rossi. Os olhos azuis brilhavam divertidos. -A gente pode revezar as narrativas. E como era uma moça educada. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica. a vida não é um conto de fadas. começou sentindo a bochechas quentes.. concluiu Amanda. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente. é tão difícil. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo. ah. pensou debilmente.

No café. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. Podia fugir. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido. Ela não queria voltar. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. duro. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. porém conscientes demais um do outro. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. durante uma visita ao Louvre. Não havia pressa.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. Palavras como frio. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. Amanda rabiscou o número de uma creperia. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. que era lésbica. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. ou fingia ficar sem jeito. o quanto ele era charmoso e sedutor. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro. Uma tarde de descobertas. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. Pelo menos. mas não sentia frio.. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. Entretanto.Quero dormir com você. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. Apesar da neve intensa. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . Caminhavam lado a lado sem se tocarem. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. À porta. O seu corpo o queria. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. 7 . os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. Ela entrou seguida por ele. selvagens. se quisesse. ela não sentia frio. Ele pedira-lhe o telefone e. Sua última relação fora há dois anos. Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios. Podia desistir e inventar que era casada. monsieur. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. Não conseguia. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. de pálpebras relaxadas e insolentes. sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. dentes perfeitos. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances. – ronronou com olhos de predador. quando conhecera um rapaz de vinte anos. queria muito. ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura. estufado contra o jeans. E era incrível a sincronia da existência. Ela também queria. ela o desejava. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. forte. sem uma companhia masculina. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada.. o loirinho. sim. um sorriso frágil. E ela também olhou. Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. fios irregulares. ele disse que era advogado. O cheiro típico da alvenaria antiga. para variar. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. viril. ombros largos. morava em Montmartre e estava sozinho no momento. pequeno. E agora. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. mais do que fugir. Entre um gole e outro de café com uísque. Apertou-se no casaco longo. Uma fantasia antiga. Cabelos loiros. Duas horas de sexo e conversa fiada.

um abdômen malhado com pelinhos aloirados. um par de coxas duras. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. a língua sugando a sua com desejo. uma britadeira no asfalto quente. tomando-o todo possessivamente – e em seguida. não era uma nacionalidade. -Você é gostosa. . no centro da pequena sala.. avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. Na terceira tentativa. e eles entraram meio abraçados. Tencionava. meio tropeçando. erguido para trás. quando ele fez um movimento atrás dela . gostosa demais. No minuto em que se apossou do bico. Amanda – afirmou. Desabaram sobre o tapete. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte. Amanda espalmou as mãos contra a porta. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca. era falta demais. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu. Jacques fechou-os no apartamento. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. O pênis não era dela. – Abra a porta. descobrindo a renda suave do sutiã.Tente não me matar. provocando dor para atrair o prazer.. a boca colada a sua.Quero muito de comer.. voltando-se para trás. Dois anos sem sexo era tempo demais. Ela gemeu quando as mãos de Jacques. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. Ouviu murmurar algo indefinível. Principalmente. ela lançava gritinhos. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. como se tentasse empurrá-la para abri-la.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular.Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta. as unhas arranhando-lhe as costas. um navio no porto entre suas pernas. imediatamente. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina. senão vou gozar aqui mesmo.. A quentura do membro entre suas pernas. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda. guiou-o para dentro dela. ela conseguiu destrancar a porta. um país secreto desbravado por uma selvagem. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. outrossim. não se estatelar no chão. Fêmea precavida que era. . na divisão entre as nádegas. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. Francês. – pediu. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo. apertou-o entre dois dedos. pronto para disparar. 8 .. contra o corpo magro e pequeno dela. conectaram-se ao seu sexo. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. Roupas arrancadas.. Mas o homem não lhe dava chance alguma. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande. puxando-o suavemente e o soltando. Depois ele puxou-a para debaixo de si e. A cada arremetida. um animal a ser cavalgado. mas parecia implorar. Aproveitando-lhe a fraqueza. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar. encontrando um atalho aqui e ali. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. Deslizava-o para cima e para baixo. detendo-se pelo caminho. nesse momento. Esfregou o pau duro. ma petit.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. pegando o pau na mão. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes. que usava o cabelo curto e a nuca exposta. com urgência. enfiando sem rodeios. inchado dentro da calça..

.. alçando uma sobrancelha de forma superior. Amanda constatou três coisas: primeiro. . agressivo. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. Ela desconfiou das palavras dele. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca. Debaixo das suas pernas. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas.Valeu a pena esperar.Nem pense em tornar a fazê-lo. enigmaticamente. parecia sossegado e bem disposto.Aiii – gritou. à entrada encharcada e ardida. era um homem para uma aventura erótica e nada além e. – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz. Por um momento. tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. ele fitou-a em dúvida.Sim. E admirando o homem à sua frente. Capítulo II À mesa da cozinha. ardida em brasa. percebeu que era uma pergunta retórica. ma petit. Amanda engoliu em seco. pardon.Pardon. Tentou escapar. antes acolhedor e em seguida. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela. Amanda sentia-se exausta e descansada. esgotamento sexual. Num gesto brusco e inesperado. entretanto. – É uma garota sensível. um caleidoscópio de emoções e sensações. 9 . dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente..Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele. – respondeu estreitando olhos. gozou abraçando-se a ela com força. desgostoso com o tom usado por ela. – ameaçou-o. arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato. Mal conseguia se mexer. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás. sorriu consigo mesma. Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face. – murmurou ele.Tem lubrificante? Da próxima vez. “beleza” e “fogo”. terceiro. . muita. Jacques era instável. . ela pensava em coisas como “masculinidade”. ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. de cabelos molhados. Tarde demais. porém isso só aumentou a excitação do homem que. Amanda balançou a cabeça negando.Muita dor. por certo. . Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo. Jacques levantou a cabeça e a encarou. uma aventura erótica de curta duração. De repente. segundo. sorriu-lhe de forma travessa: . após três ou quatro bombeadas firmes. exigida a cada estocada violenta. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. Havia sido estuprada por trás? .

Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. Usando o próprio corpo. no segundo andar. E mais. -Desculpe. Quanto à parte pessoal. mas ainda assim. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta. À porta. vestia a roupa.. ao longo da semana. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. antes de sair da cozinha. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos. você está regredindo anos-luz. claro que não. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento. sem sexo. e o dela. Ocupavam o escritório. quando ressoou Killer Queen no celular.. Tarefas múltiplas e variadas. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas. era tudo o que mais queria na vida? Não. mas à sombra. Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. lia. Amanda Rossi. mademoiselle. Na primeira tentativa. levantou-se lentamente e. Quando viajavam a rotina era outra. pelo menos.. monsieur Brienne.Bonjour. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. mas.Está atrasada. tomava uma ducha quente às 06h30min. E desligou. a escolha das roupas a serem usadas por ele. venha agora. porque outro felino esperava por ela. censurou-se divertida. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. Eram 7 horas. Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. acha que pode comigo?” Mas ela não 10 . .D’accord. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. Ele riu com vontade. Mentira. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. Entretanto.foi então que a ficha caiu!. caminhava na esteira por trinta minutos. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e. caminhando devagar. não sabia que monsieur já estava me esperando. três jornais durante o desjejum.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante. Quase gargalhou. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. Parecia um felino encurralando a presa. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. ou a organização de um jantar beneficente. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. –disse de olho no relógio da cozinha. . E era como se lhe dissesse: “O que?.. a presa precisava imediatamente fugir. uma rotina a ser seguida. Annie. cobriu o espaço entre ambos. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar. o expediente na empresa começava às 9 h. cabia a Amanda resolver. Amanda buscou na mente motivos para tal observação.. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo. Ela também queria casar e ter filhos. Quase como um casamento. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás. No entanto.. era determinada nas reuniões de segunda-feira.. . monsieur. escolhida por Amanda.

quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento. não estava satisfeita com o seu comportamento. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. .. desligou o motor e pegou a pasta. . Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz. puritanismo démodé. Essa era ela. Sentia o corpo quente. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: . – Se quiser. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela. Amanda.. Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio. Jacques. 11 . e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. se o seu patrão permitir. pragmática e responsável. até a entrada da mansão. Jacques. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. o número correto. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: .. era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada. tenho que trocar de roupa e sair. Novamente. Desencana. não obteve sucesso. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. – debochou. Estacionou. Bom. fraco e trêmulo. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura. -Oh. e a obrigação profissional clamava urgência. Desde que chegara a Paris.. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção. Dessa vez. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. divirto-me com os errados.Não devo me intrometer na sua vida. –murmurou.Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças. Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. mecanicamente. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar. De fato.Dei-me o seu. Praticamente jogara-se para cima de Jacques. claro. chèri. -Preciso trabalhar. queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. Estranhamente. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. no entanto. –riu-se de forma afetada. se o objetivo final era apenas: sexo. num movimento ágil. – esperou que ela o ditasse.Ah. Voltava agora a ser disciplinada. dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se.. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. tinha outras ideias.. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras. Cumprimentou o rapaz ruivo. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso. . o membro comprimido projetando-se no tecido. sim. vinda de Porto Alegre. A selvageria de Jacques excitava-a. Ao descer do automóvel. concordava com Jacques. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo. alertou-se prontamente. fui muito difícil mesmo. –concluiu. Soltou-se dele com um gesto brusco.. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. Amanda. No fundo.Bien então a gente logo se fala. ladeada por um pequeno bosque.. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones. – afirmou. podemos jantar logo mais. como quase tudo na França. Enquanto ele a penetrava.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

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Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

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lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

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monsieur Jarkko Koskinen.D’accord. que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève. mas sendo um homem educado. mademoiselle. monsieur almoçará com. fumante e usava o uniforme da SBO. valerá bem mais que a minha presença. ele atravessou o terraço e saiu. que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. Era visível que a indagação o incomodara. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. Agora. .. criado por um estilista argelino de 20 anos. e ele tentava escapar a todo o custo. preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. Menos de dez passos. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo. Sim. pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. Viu a xícara de Jules vazia. em seguida. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. – afirmou taxativo. censurou-se. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros. Os homens. vá ter com Annie. – mandou sem tirar os olhos do computador. Fiz reserva no Les Ombres.. . diria Robin. – disse categórico. hoje. -E faça uma tomografia. Ele fechou o notebook. calças de 15 . Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. Se tiver tempo. levarei outra camisa para seu escritório. terno e gravata. As executivas. Agora. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos. muito magra. emendou de forma mais suave: . às duas horas. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras.. as socialites queriam-no como presidente de honra. constantes e variados. Encontramo-nos no escritório. No entanto. s'il vous plaît. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. saias justas até os joelhos.Agradeço a atenção. sobretudo cinza ou preto e.. Santa bobagem!. Caso queira trocar-se. Lembrou-se do que ouvira no Brasil.Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. -Aspirina e café resolvem o problema. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. -Em vez de tomar aspirina..? Até onde você pode ir com esse atrevimento?. cachecóis. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda. -Aliás. Capítulo III Dorian possuía estatura mediana. Um tailleur cinza-chumbo. compre aspirina. – completou ela com naturalidade. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. Riu-se dos próprios pensamentos. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como.

proteger e preservar. lateral. Quem mais? Quem mais? Quase gritou.. mesmo discreta. sofisticada.. 16 . discreto como era. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente... A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. possuía banheiro próprio e uma outra entrada. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. nem sequer uma piadinha). surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . para peles de loiras quase transparentes. ela não seria vista entrando. e. com a sorte que tenho seria ele mesmo. E nem teria visto a personagem alta. com sua visão periférica.Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos. devia ter algum problema psicológico. sentada em frente à mesa do chefe. Ignorou a brincadeira da outra. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. Quase gritou. Amanda. O que não era o caso da tez dourada de Amanda. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado.Nem me fale!. escondia as curvas.. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas. onde se localizava o estacionamento da empresa. pó compacto.. os seguranças da mansão de seu chefe. graduado na Sorbonne. Dorian. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause. o porteiro de seu prédio (que era meio míope e. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. estendeu à Amanda a base líquida. que. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. se você fosse uma cobra me picava. e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa.. Ele exigia a perfeição de todos. mesmo anexada à de Jules Brienne. histérica. . casado com uma estilista de moda. deveria zelar. Ou seja. Quando as portas do elevador abriram. de cedro. tinha 44 anos. longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). percebeu o ataque felino àquele que. por isso aquele olhar estranho. quero dizer. com um longo pescoço e imensos olhos verdes. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. nada comentaria. Doce ilusão. como sua assistente pessoal. com protetor solar. o seu chefe? oh. Depois de muito “escavar”.. grande parte delas. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que. céus. mesmo se não fosse. olha bem pra mim. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. -Calma. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo. Entretanto.. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. Num minuto. Agora. caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor.. Annie vira o chupão. Bateu com a chave do carro sobre a madeira.

no quinto andar. não. . com poltronas em vez de cadeiras. –emendou com um sorriso educado. mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo. Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. Monsieur Brienne. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. não aceitava apenas o polpudo cheque. retraiu-se na expressão de impessoalidade. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. Os lábios contraídos. as cortinas ainda estavam cerradas. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules.Merci. No entanto. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão. ter nascido no terceiro mundo. do tamanho de uma ervilha. oui! . Primeiro. O chefe. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. Amanda assentiu e ligou-a. ou seja. para variar.. Olhou-a de cima a baixo e. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional. A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz.Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e. melhor. E fez: -Bonjour. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. por outro lado. ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. num gesto silencioso porém bastante significativo.. A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. a qualquer momento.Duvido. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. sem cronometrar. seriam chamados ao trabalho duro. parecia aliviado com a sua entrada. pois precisava buscar novas xícaras no refeitório. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. A face estava relaxada. vir de família simples. Antes de qualquer intervenção na cena. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada. sozinho. ah.. Amanda observou os personagens em questão. sem desviar. Deixou-os por um momento. etc. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. concluiu que levara vinte segundos para a operação. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. de móveis modernos. 17 . tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. Ao voltar. Ele. ele não gosta de mulher fútil. Ajeitou-se na poltrona. dirigir um automóvel popular russo. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante. desviou para a máquina do expresso. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração.Seja boazinha com ela. –depois brincou: . mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento.

parecia que tinha treze anos de idade. . Dorian. bebendo o restinho do café. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. A mocinha quase bateu palmas. Há um rapaz de lá. Ele é homem. Aliás. era-lhe o padrasto. devido ao café forte e quente. por sua vez.Quanto tempo tem esse centro social?. . Parece que a mãe dele apanhava do marido. Quando voltou.No momento. . . aos pedaços. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar. non? – indagou sorrindo. sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências. Vinte anos de diferença entre François e Jules. agora. -A Finlândia sempre me interessou. e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. Jarkko Koskinen. um final de semana na Finlândia. a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. 18 . não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. Amanda. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: . um macho alfa.Você precisa passar. parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e. e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. Podemos combinar e irmos juntos. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. mesmo sem sorrir. esquiei até quase acabar com meus joelhos. Amanda. Amanda não estava gostando do rumo da conversa.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. – encerrando o assunto. O fato era que ela sorria mais e ele. o chefe. Além do mais. em seguida. Geneviève. pode ser. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . ele precisa mesmo é de cafeína. A bem da verdade. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada. provavelmente. uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. que fará a ponte entre Paris e Helsinque. precisa de uma fêmea. amiga de Vivien Brienne. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. completamente órfão. mas a passeio. e ainda por cima era filho único. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. -E a aspirina. coitado. entregou a outra à Geneviève. mas alguém tem que dar o primeiro passo. algumas coisas sobre Jules Brienne. Sonia e François também poderiam ir. – completou Amanda que sabia. – era Geneviève. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. na verdade. apresentava visível prazer em sua companhia. -É. que. -E depois dos 17. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. Amanda voltou à sua sala. que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. seria bom relaxarmos um pouco. –disse. mãe de Jules.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia. preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente.comentou com desdém. divertida. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne. pelo menos. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. dois ou três meses. Jules sorriu polidamente.

Espero a sua visita no nosso centro social. . numa expressão de menosprezo. fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. – disse com estudada calma. ora! De repente. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. como se falasse com uma criança teimosa.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral. Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele. Dorian não compreendeu a ordem. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. Geneviève agitou-se. e não um menino birrento. “cadê a aspirina”?. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. . Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. pragmático e tinha quase quarenta. – rebateu com calma. Num minuto. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e. havia ultrapassado a fronteira. havia neles. -Jules. Jules. Ele era um executivo. Por quê?. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. monsieur Brienne. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. Amanda lia tudo isso. é perigoso. os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. que o faça por si mesmo. em sua direção. Ops!. O corpo não mexeu um músculo. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. – afirmou Geneviève com a voz sumida. sem cúmplices. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. cruzou e descruzou a pernas. Entretanto. também. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. . o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. non? – insistiu. culto. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas.Mademoiselle Rossi. Além disso. controlada.Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. foi um prazer. um misto de exasperação. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. mademoiselle Cuvier. desconfiado. compre as aspirinas agora. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. admirou a própria derrocada.Há cinco anos ouço a mesma bobagem. Por um segundo ou dois. tenso. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. em seguida fora mal-educado 19 . Amanda provocava-o deliberadamente. Era experiente. preparado para ordenar. Do outro lado da mesa. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. -Cinco anos com dores de cabeça. . era uma mulher de princípios. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo.

monsieur. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata.. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas. ácido no estômago. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 .Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. perdido. garganta seca. -Pedido aceito. os lábios constritos. -Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. Não era uma mulher covarde.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas.. Amanda pensou.por. por favor! -Fui ferida gravemente. Fogo na nuca. Epa!. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. Defendia a si mesma e os seus valores. pelo menos? . com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo. disse: . a vizinhança. Hã? Por fim. girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. tem um cabide no armário para guardá-lo. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé. –afirmou com um leve tom de desprezo. a cara amarrada de sempre.Oui. sem que ELE pedisse desculpas. a Torre Eiffel. ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. suspirando exasperada. mas isso é um ferimento causado por. Dito isso. -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. depois. o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo.. Assim.. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. Como ele podia saber?. Um buraco. monsieur Brienne. eu posso ajudá-lo com prazer.. olhando para os lados.concebido por Patrick Blanc.. Ora. Amanda não resistiu. Ao seu lado. e tampouco uma Joana D’Arc. Hematoma sexual? -Pardon. mademoiselle Rossi. Outro atrativo localizava-se abaixo dele. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. estendia para a assistente que o guardava no armário. Às vezes. – mentiu fingindo-se ofendida. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. monsieur. retirava o paletó. Le Mur Vegetal . quase jogar a mulher para fora de seu escritório. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. apenas isso.

Fica um tempo conosco.Italiano. Pela manhã. apesar de ser magro. estavam uma brasileira. Comia como um viking. acaba influenciando o sueco e o russo. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café. um francês e um finlandês. vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. oui? 21 . só mudava o país. bem ou mal. nada mais que um terno cinza quase azul. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. ele tomou mais um gole de vinho. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. Não se preocupe com as reservas no hotel. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis. monsieur Koskinen. Por fim. No momento. -D’accord. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar. Jules observou os comentários de Amanda. haveria brechas disponíveis para novos eventos. vamos! . Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. eu mesmo as farei. No fundo da sua memória. Anos atrás. devo ir. –em seguida.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . Mesas pequenas e quadradas. Era um homem simpático. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos. começara uma empresa de criação e venda de software. poderia ter vinte e poucos. na sexta-feira. Jules assentiu levemente com a cabeça. Mas tudo estará pronto para quando chegar. a burocracia era a mesma. Numa mesa próxima à parede envidraçada. poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. indagou: . bolsa de valores e impostos. . Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. sendo escandinavo. Vestia-se com discrição. – voltando-se para Jarkko. Mas não naquele início de tarde. conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes. volta comigo para Helsinque.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. –agradeceu incluindo um sorriso. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: . a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. longe de tumultos (como dizia Jules). cor de trigo. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. comunicativo e inteligente.Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã. O cabelo era loiro. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos. –Agora. como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. monsieur Brienne. –concordou Jules. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho. entretanto. perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. tinha algo a ver com mercado. o Jamie Oliver. Faltavam os sapatos.Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. -Merci. Típica conversa de negócios. Agora. porém. mal ouvia a conversa dos dois. voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. mademoiselle Rossi.

Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen. Cansava-se só de pensar nessa maratona. Dependia. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel.Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. Estava exausta e já passava das seis. Na verdade. preparar algo leve e rápido. sedutor e com um sorriso espetacular. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. a alma. pois o tecido delicado também estava por demais gasto. Teria tempo para tomar um banho. Despediu-se dos homens. cadeiras e garçons. uma bolsa de couro. o sotaque ligeiramente arrastado. disse: . já estivesse fechada. Às nove horas seria o jantar com os Roche. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. em seguida. ela pararia de andar sobre andaimes. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite. de seu humor. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. pegou a bolsa e saiu do restaurante. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. Achei que havia acontecido algo. pequena. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse. o timbre rouco da voz. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. não mais. Amanda havia esquecido aquela beleza toda. Tentou mesmo. meias e gravatas preferidas do chefe. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. e um par de brincos de pérola. do jeito que escolhera todos os outros. -Salut. Seu corpo ainda o desejava. teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele. com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. O problema era que ela queria o sapato CERTO. É. obviamente. na outra perna. uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. retirou o robe. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. -Hummm. Comprou o sapato. desviando das mesas. O proprietário sofria de transtorno bipolar.Liguei para você.).. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. sossegada. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. No entanto. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. 22 . pois sempre acertara a preferência do patrão. saindo do quarto. já que não retornou minha ligação. Diante do espelho. aos pulinhos e trombadas. de lã. ma petit brésilienne! –brincou.. arrumar-se e dirigir até o Marais. puxou a meia-calça rapidamente para cima. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. E mesmo ele sendo lindo. refletiu Amanda ajeitando a calcinha. Tentou sorrir e até se encantar. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. assim. sugou e soltou o ar seguidas vezes. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados.

à noite. Enquanto ela pensava no celular perdido. as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. Empurrou-o mais uma vez... . – pediu em voz baixa. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko.Ei. quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. no corredor da empresa. como se não estivesse acostumado a ser despachado. perdera-o na rua. bébé? –sorriu.Já lhe disse. . no elevador. duas.. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. -NÓS temos um compromisso. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. você é descartável. como se dez. Amanda conhecia o tipo. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida. Amanda. impondo força o suficiente para afastá-lo. na pior das hipóteses. deixe-me ver. Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista. no quinto andar. – Escute. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . mordendo-lhe de forma sensual. Tantos lugares... a ferir sentimentos e autoestimas. -Tenho um compromisso. Onde você estava. jamais fora comentado na empresa por ninguém. porém manteve-se de pé. profissional.O que foi. a mínima! Obcecado pelo trabalho. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. a abandoná-las. jamais. tenho um compromisso. Para companheiros de vida. jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. na lavanderia. moço. serviam para uma noite. Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non.Por favor. – enfatizou. Provavelmente... Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo. Jacques. no máximo. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 . Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres. não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme. irônico. o que sentir. Mas a empresa era dele. Rochelle era o meu amor. Não sabia como reagir. -Acho que perdi meu celular. batendo no sofá chamando-a para perto de si. o que dizer. deixara-o sobre a mesa do Les Ombres. isso. vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. pois trafegava em alta velocidade. – balbuciou. o chefinho controlador. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força.. Ah. A qualquer momento teria de sair. Desviou o rosto dos seus lábios. . a gente se conhece há três dias.Ah. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão. -E eu já sei muito sobre você. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. Anotação mental: comprar imediatamente um celular. saia da minha casa. perto das quatro. Me diga. literalmente. a minha vida – riu-se. . controlada. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. debaixo do banco do seu carro. ou. do carro do chefe. o filho da puta.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã. entendi. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. E era óbvio que não estava. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. de fato. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada. Ele não ligava a mínima para Rochelle. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. Você precisa sair. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques.

ma chérie. -Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo... Sabe sua amiga Dorian? Pois é. ajoelhando-se ao seu lado.... afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada. Mas você me surpreendeu. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. Pressentiu que ele se erguia. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. Amanda gritou. 24 . – disse num fiapo de voz. inerte. ouviu seus passos distanciando-se. Sentia a face ferver de dor. non? Só não traço as mulheres da diretoria. Empurrando-a contra a parede. Teria de esperar alguns segundos.Além do mais. sábado. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. ao longo desses cinco anos. Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão. desprotegida. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. Foi então que tudo mudou. deliciosa. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite. com certeza. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação. seu psicopata? Com a mão livre. para levantar informação e material contra Jules. sou preguiçoso. Nada de precipitação. entende. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne. Mas eu ainda o porei entre as grades.. porque é rico. porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e. de olhos fechados. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. pensei que fosse me ajudar. Inutilmente. -Oui.estava me esperando. como lhe avisei antes. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse. A recepcionista da SBO? Hummm. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si. porém surpreendeu-se com a força do golpe. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. –murmurou junto à sua orelha: . um pouco histérica. – gargalhou e emendou: . fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. Deixou-se ficar. A dor havia desaparecido. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. esperei o momento certo para me aproximar. enquanto o cérebro girava à procura do entendimento. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido.. Amanda Rossi. somos amantes. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. morro de inveja de um assassino.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você. Afastou-lhe as mãos do corpo. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo.. Ele só não foi preso. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. um trabalho de networking.

no casaco úmido e gelado. Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. segurando-se no corrimão. por sua vez. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. Era um odor de doença. Jacques de fato atingiria Jules. cerca de vinte degraus. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. para se defender e defender o mocinho caçava. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte.. porque Jacques. Apenas dois andares. Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. atirou-se contra ele e. sua amante. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. Seduzira as funcionárias da empresa e. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. Medo que a loucura o tornasse um homicida. Apertou o cabo da faca. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. agora. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. uma obstinação que a compelia a desejar viver. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. roucos. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. reclamando. abriu a primeira gaveta do balcão. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. não precisaria usar os punhos. Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. ruídos de talheres e cachorros latindo. Não se entregaria tão fácil. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. televisão. de obsessão em metástase. desferiu um soco acertando-lhe o queixo. criança chorando. E a heroína. A qualquer momento. logo após o coma de madame Brienne. intermitentes. agora. e encontraria Jacques. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. engoliu a vontade de chorar e o medo. para admirar e não ter. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão. Correu para a cozinha. Desceu os degraus sem acender a luz. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. Deitou a cabeça em seu ombro. Acertara o desgraçado. Possuía um instinto persistente. 25 . Medo que voltasse a sua casa.Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. sacudir-lhe os ombros. com a fúria de uma mulher machucada. No entanto. A batalha não estava perdida. o príncipe que se transformara em sapo. O cerco começara havia cinco anos. fosse como fosse. e esvaziou o peito da dor. no ar. enfiou a faca. tirou-lhe a faca da mão para. para querer e perder. num gesto rápido e preciso. Mas o mocinho não batia em mulheres . Tudo abafado pelas paredes. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia.. no pescoço. Não adiantava mais lutar. o vilão. gritando como nunca havia gritado na vida. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. mas ele foi mais rápido. na nuca. Sentia os cílios pesados de água. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. em seguida. Barulhos típicos do cotidiano. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e. pelo visto. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa.

tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva. Amanda. mas a obsessão não é por mim. magro e com apenas sete anos de idade. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. afastaram-se. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. Estudava-lhe o estado emocional. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. o que lhe salvara de uma surra maior. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção. Analisava-lhe o rosto. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. grossa. Ela tentou sorrir. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. Por um momento. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. 26 . aposentada. o terno azul-marinho impecável. é capaz de muito mais. Num reflexo automático. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. ex-diretora de uma escola infantil. num período de duas horas. provavelmente. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. lembrou-se do jantar com os François. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. –enfatizou. do mesmo número. não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. -Monsieur não deveria estar aqui. lutava até ser arremessado contra a parede. Sentia-se horrorosa e dolorida. -O que aconteceu aqui. De repente. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. pensou. porém. ferida e com uma faca na mão. – disse com calma. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. ainda fungando. o rosto escanhoado. alguns centímetros. e depositoua sobre Amanda. monsieur Brienne. -E o que ela descobriu? . – constatou. jogava-se contra as pernas do padrasto. mas também não precisava me dar um soco. me desculpe. hoje? –insistiu. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. Quase acertou no alvo. obtém informações em questão de minutos. -Sim. Deitou-a no sofá. -Mademoiselle Rossi.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. mordia-o. Encontrava-se numa situação de desvantagem. homens como eu. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. chefe. sem nenhuma emoção na voz.Você me dirá de quem é esse número. pelo visto. ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. machucada. mesmo pequeno. quase que didaticamente. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou. tenha sido roubado. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. -Oui. pouco. – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. Ele estava tenso. Entretanto. Invadi sua privacidade.

Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem. determinado como era. Custara-lhe uma pequena fortuna. de óculos. olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola. mesmo tendo sido comprado de um balaio. a duras penas conquistada. -Dois minutos. monsieur Brienne. Calçou um All Star. Sim. Depois. Ignorando-a. No entanto. perderia o emprego. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). um corpo pulverizado. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. .. as coisas ficaram ainda piores. deu-lhe as costas e voltou à sala. Ela não pôde deixar de rir. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. Não iria mais a um jantar. é provável que sim.. -Imagino que sim. Durante a realização dos exames. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. –completou com ar sério. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. Não queria que Jules soubesse de Jacques. alta. era mesclada de cinza. poderia até mesmo matá-lo. agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. Sion. Pensava que se revelasse a verdade. sempre baixa e controlada. Pegou-a pelo antebraço e. Sentou-se. Jules levantou-se. com passadas largas. gordinho. – interrompeu-se. ficaria bisbilhotando até ela voltar. porém riu sozinha. –avisou-a. –murmurou. não admitindo refutação. e olhou-se no espelho. e sim fazer uma tomografia computadorizada. com certeza. ele.. E Jacques era doido de pedra. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café. conduziu-a até o quarto.Assustá-lo apenas..Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado.. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa. Seria muito difícil manter segredo. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda.. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa.Troque de roupa. quase impessoal:. Todavia. Era um homem desconfiado. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. um homem baixo. –quase gaguejou. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. -Estava fora de si. iria atrás tirar satisfações. precisa de uma tomografia. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. Possivelmente. digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. E perdendo sua confiança. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher.Olha. corria o risco de perder a sua confiança. A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. preto e branco. Eram quase nove horas da noite. Au revoir. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia. quero dizer. ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta.

– falava como um agente do FBI. inclua as suas. tirou o sobretudo. mesmo demorando a entender o que acontecia. então. . -Tem razão. O que foi feito. segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas. Suspirou resignada. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa. -Deveria organizar-se melhor então. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. – debochou. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. – concluiu. –declarou sem rodeios ou justificativas. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. o doutor Sung ouviria de fato a verdade. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo. está novinho em folha. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. Impossível. . Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. semana passada comprei outro edredom. Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra. Abriu-a e.O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto. que seja. por exemplo. Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. e ele logo surgiu na sala. o que lhe foi comunicado com naturalidade. mademoiselle Rossi. os travesseiros e o edredom. . dando as costas e voltando à cozinha. constatando as irregularidades em seu departamento. Se dependesse do outro. consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa. Por isso como melecas congeladas. . definitivamente. que a fez aceitar. -Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha. – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . Talvez fosse alguma coisa na postura dele. plantada as três da madrugada de domingo. ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. -Buscarei. esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. hein? Ouviu um resmungo. para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível.Monsieur tem sorte.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . o paletó. – Isso aqui. quando fizer as compras de Annie. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. não é comida para humanos. Era homem demais para pouco móvel. antes que pudesse emitir qualquer palavra. autoridade ou determinação. sem contrariá-lo.Obsessão em Paris Veronique Gris queda. Espero que simpatize com o Patolino. – Vou pôr essas imundícies no lixo. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. num apartamento microscópico. como um agradecimento e um boa-noite.

cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão. você não sabe viver direito. abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. minha cara. emendou com mais calma: .Com todo o respeito. e não para se dopar. Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. – Quem deixa o seu café quente. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. Portanto. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. seu pulso foi fechado por outra mão. Claro que ele não a desejava como esposa. e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. -Cartas na manga. Conhecia o seu organismo. Além disso. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga. Só havia uma saída. qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg. Esperou em vão.. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. -Oh. Na sala. imediatamente. monsieur Brienne. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. Num gesto maquinal. Antes que ele se voltasse. –avisou-a. é normal que a sua vida fique em segundo plano. –replicou com impaciência. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. maior. levou a mão à testa. . -Se não fosse assim. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. e sim minha esposa. 29 . somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. parecia que fazia medidas e considerações mentais. -O quê? O quê? – quase gritou. . para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha.. – murmurou emburrada. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. de pé. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha. extraforte. – disse com raiva. voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. Depois. sou uma executiva graduada em. assentir e obedecer-lhe. – declarou impassível. de dedos longos e unhas curtíssimas. mademoiselle. sem açúcar. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde. Sentiu uma pontada na cabeça. – franziu o cenho. monsieur’’. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. estava exausta. não seria minha assistente. ingeriu mais dois comprimidos. os olhos sérios enfiados nos dela.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos. -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha. Parado diante do móvel.É para aliviar a dor. Vou tomar um analgésico. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. mas não diante de um móvel. -Dor? -Um pouco. Entrou. – respondeu sem dar muita importância.

se ficarei dormindo feito um inútil..Já que passará a noite aqui.E o que acha? – voltou-se para ela. como se fosse possível. concentrado no computador. Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas.É melhor então que não ponha seus pés na água. não eram os patinhos de cerâmica. – explicou-lhe: Assim como estava. Tenho certeza de que será como nos outros lugares. Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações.Isso não está certo. Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada.Tubarão em meio aos tubarões.Que já sabe a resposta para essa pergunta. – sugeriu.por que não fica mais à vontade. Com certeza. .Preciso tomar cuidado. tire os sapatos e as meias. Acho que essa viagem será divertida. – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. . Abriu a pasta e retirou o notebook. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. está começando a ler minha mente. Num dado instante. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos.Durmo sempre quatro horas por dia.. . Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. copos e talheres eram lavados por alguém. . . . claro. – completou quase que para si mesmo. Esse era o estranho senso de humor do chefe. -Oui. Preciso de você inteira. madame. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe. -Claro.. ajude-me com os relatórios. -E por que não tem? 30 . Além do mais. leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre.Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo. resoluto. já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos. mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” . . -Não pode passar a noite trabalhando.Se está errado. . – disse-lhe em tom de provocação. –declarou em tom irônico. – disse. pelo menos. parecia cansado também.. Amanda sorriu. relaxe diante de uma planilha do Excel.. Eu durmo no sofá tranquilamente. . comentou num tom casual: . Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse. A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá.Na verdade. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto. Lavou a louça sozinha. Quero preparar algumas coisas para Helsinque. . apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho. –murmurou. fique com minha cama. -É. com ar preocupado e distante. por favor..Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. interessado. comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça.

Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade. pois usava uma camisola de algodão. – disse. Havia alguém na cozinha. passou a mão pelos cabelos. Era mais como a sensação de uma presença e. já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado. 31 Quando . mademoiselle Rossi. Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. verificou-lhe a pulsação. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. –comentou com casualidade. madame Brienne. manteve os olhos abertos. Sentou-se. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. Não vestiu um robe. -Provavelmente. – acrescentou a título de informação. que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago. Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. E encerrou a conversa. . Friccionou os braços com as mãos. -Non. tal possibilidade. -Certo. secamente. viu-o caído no corredor.Annie tem uma máquina dessas? . Assim que deitou a cabeça no travesseiro. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. Possivelmente.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. a mais chata e fofoqueira do prédio. . Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico. as lâmpadas oscilavam pálidas. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: . desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede. ela evitava ficar muito tempo em casa. -É. Por um momento. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. talvez.Desde que trabalho para o senhor. – disse com naturalidade.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. Respirou fundo e ordenou-se a agir. O medo singrava-lhe nas veias. À mesa. uma de suas antecessoras. fora até o seu carro buscar algo. sem barulho. tocando-lhe o rosto com delicadeza. Agachou-se ao seu lado e.Monsieur Brienne! – chamou-o. por impulso. que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse. acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. adormeceu. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. pastas abertas. Mexeu-se debaixo do edredom.

Tinha de salvá-lo. Precisava de ar. sentado à beira de sua cama. uma nódoa disforme e vermelha. Afastou-se e o fitou. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu.Vinte e dois.comentou debilmente. deixando-se levar como pluma ao vento. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás. -Mon. para a escuridão. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. Jules estava bem. E. . perder uma briga. sem argumentos. -Quantos comprimidos. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. A vida era curta demais para tanta seriedade. Jacques surgia à porta. Investiu novo beijo. sangrando. Era bom morrer. na linha do abdômen. agora. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. Sucumbia no melhor estilo. Amanda jogou-se contra ele com raiva. seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo.Já estaria morta. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo... . Como? – Como? Como se regenerou.Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe. a cabeça girava ou o quarto girava. A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre.Você o entregou de bandeja para mim. Alguém o ferira. Ela era uma formiguinha. Abriu-lhe a camisa num safanão. -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. tencionava viajar para outro lugar. Mas ela queria brincar com fogo. No minuto seguinte. sujeitar-se. Mas antes de ir. estava manchado de sangue. Despencava de um abismo direto para dentro d’água. Jules estava pálido. Estranhamente. Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue.. sempre disciplinados. Nenhum efeito.? Somente vampiros conseguem se regenerar. Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. os lábios sem cor.. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido. Também era bom.. . caía devagar. Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem. agora. pensou. O tecido da camisa. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. Por que Jules não relaxava um pouco. Era bom sucumbir. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar. sério. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso.. vivo. não havia dor e perda. Sorria e balançava o celular de Jules na mão. forçando-o abrir os 32 . – declarou-lhe.. para dentro. bloqueando-lhe a passagem. um inseto inofensivo. no chão. Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância. empurrava-o e o chutava. . estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama.sieur está bem. caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão. – riu com vontade. E era tão bom!. –constatou impaciente. No entanto. . arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu. Era até bom..

Espere. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e. agora. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido. no início da semana. 7h 15 min. excitada. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda..Não faça isso. Mas algo o fez mudar de ideia. habilmente. Bonne nuit. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. transparente. que foi mordiscado e chupado languidamente. Em seguida. Ansiava como uma canibal. de Calogero. Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida.Sempre quis dormir com um macho alfa. 33 . a exploração passou para o queixo e pescoço. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. . encaminhouse até o varal. Mordeu-lhe o inferior. voltando para o lóbulo da orelha. Abriu a janela. Tinha de detê-lo. e sim trazê-la para si. – disse-lhe ao ouvido.Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. desde a primeira entrevista de seleção. . o locutor informou o horário. – ela fez um sinal com a mão. eu já volto. Manteve os vidros bem fechados. Mas ela o queria. procurando não decepcionar o cantor. queria sentir-lhe o gosto. Batman. temia que isso novamente acontecesse. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar. Definitivamente. que ficava do lado de fora da janela da cozinha. desvencilhou-se. – disse calmamente e. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. apesar do bom senso das palavras. porém. Após ter chegado atrasada ao trabalho. Apertou-se contra ele. Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha. finos e persistentes. sempre o desejara. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. Os braços rodearam-lhe o corpo. A respiração de Jules estava rouca. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua. . parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura. os seios esmagados no tórax largo e firme. Ainda teve tempo de dizer a Jules. aprisionando lábios em lábios. na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. Por isso. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado. por cima da calça social.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. constatou-lhe a plena ereção. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda. Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: . precisava vencer a onda. imponente e tépida. como não encontrou nenhuma calcinha. antes. mas nem se mexeu do lugar. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio. desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”. Depois. Após os primeiros acordes do violão.. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente. Abriu a gaveta da cômoda e. pesada e acelerada. Ela gemia baixinho.

Eles se beijaram? Automaticamente. Jules Brienne jamais a tocaria.” Sim.. Amanda. por causa do trabalho. as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio. o vento era forte e cortante. ou seja. que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne. era por demais discreto. Impossível. apesar de sua competência e os cursos que fizera. Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. em algum momento da noite. -Essa falta de educação. a esposa mantida viva através de aparelhos. íntima. Talvez até tivesse uma amante eventual. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada. lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. Levava seu emprego a sério. Jules passara a noite em seu apartamento. tendo. -Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. muito mais em relação a Jules Brienne. tentava controlar a irritação. Jules era fiel à esposa. Quando a ‘ficha caiu’. não tem o direito de me deixar constrangida. . como lhe dizia a irmã. a qualquer chefe e. Tinha plena consciência de que. Sorte de veterana. digeria a pergunta.Está namorando? – insistiu. Dorian respirou fundo. Refletia sobre isso quase todos os dias. que tivera na França. palavras dele: “devidamente demitidas”. Conhecia a caligrafia. debaixo do próprio teto. nunca o vira com alguém. Amanda apertou-se no casaco. seria demitida como a assistente anterior. justamente porque ele não a via como mulher. Em princípio. era mantida a distância. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. mas também pela oportunidade. com uma pontada na barriga. . no terraço da cobertura. – falou ofendida. raríssima. pensou com maldade. Isso é uma questão pessoal. A neve estava mais branda. Amanda pensava. 34 . Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. Se tinha um caso. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo. entrara em seu quarto e eles se beijaram. Paradoxo difícil de entender. J. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. depois que a esposa morresse. a duas quadras do mesmo. a outra apenas encarou-a sem expressão. Como havia esquecido? E. Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. Ao voltar-se.. nos cinco anos que trabalhara para ele. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. -É assim no Brasil? -O que. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. não somente porque era seu ganha-pão. Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. No entanto. mas. Além do mais. Sorte de principiante. que. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço.Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha.Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa. Maquiou-se suavemente. fêmea. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Amanda levou dois dedos aos lábios. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). a sua faz-tudo particular. pegou a pasta executiva. Dorian? – perguntou impaciente. “Estou no escritório. Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família. O beijo fora um sonho. encontrou um bilhete sobre a mesa.B.

culto e bastante influente politicamente. advogado da empresa. non? Perfeito assim. Encontrou monsieur Armand Ribery. quando Jules a interpelou: . as poderosas do 11°andar. Se quer mesmo saber. é verdade.. tinha cabelos grisalhos.Acho que sim.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia.Nossa! Onde ele está? – em seguida. não faria escândalos por nada. Aliás. –procurou descrevê-lo. ela fez um gesto com a mão. só pode jogar no outro time. e a primeira delas referia-se ao café do chefe.bem. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia. como eram conhecidas. era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos. para que possamos abrir processo contra ele. Ele era um homem bastante discreto.Você tem alguém? . Cumprimentou os dois homens. olhos azuis. Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito. intrigada. Amanda deu um passo à frente. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina. por quê? – Dorian indagou. Nunca vi esse Jacques aí. um tanto a contragosto. com você e a recepcionista. experiente. procurou controlar-se. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. se veste bem e faz o tipo sedutor.Que linguarudo.Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. após uma conversa tensa. Amanda avaliou as palavras da amiga.Deveria? –alçou a sobrancelha. Ela não mentia. – confirmou secamente. Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 . Encaminhava-se em direção à máquina do café. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal. . desconfiada.Oui.. emendando um sorriso nervoso ao gesto. quando lhe fora apresentado por François Roche. Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. Beirava os sessenta anos. – afirmou com naturalidade. olhos azuis e ar plácido. . Amigo de Jules desde o início da SBO. tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria. . sentado em frente à mesa de Jules. . divertida. meio assustada e um tanto constrangida. . – Nem precisa dizer. Mas não se chama Jacques. -Ele mesmo. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: . – riu-se. Tem um sotaque bonitinho.Ele disse que estava tendo um caso com você. Falava num tom baixo e regular.Conhece Jacques Rodin? . Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu. Por outro lado. era uma mulher equilibrada. loiro. Um advogado das antigas. ele é alto. Ainda mais quando dois olhos escuros. ou seja. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. e tampouco Rodin. . Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. ele é gay.Jacques Rodin? – esganiçou a voz. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. meu namorado é cantor e suíço. – fingiu uma careta de desolação. Voltava de um terraço gelado.

Não somos namorados. agressão. Ela é a sua assistente e. Amanda sentia-se acuada. irônico.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. mas foi novamente interrompida... . o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa. se a envolvida no caso não quer. – murmurou. também. . justamente por isso. deve terminar. um líder a sua equipe. e era como um puma preparando-se para o ataque.. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo.Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. – começou. registrando queixa na polícia. E não podia. – Eu mal o conheço. monsieur. que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda. Jules? – ponderou e em seguida completou: .. – acentuou Amanda. mas não pretendo registrar a. mademoiselle Rossi tem razão. ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. -De certa forma. Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário. Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. fitando as pontas dos sapatos. . Por fim. a proteção irrestrita.Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. Acatou os argumentos de Armand. pois. monsieur Brienne. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si. . de certa forma.Merci. Nenhuma delas com segundas intenções. é melhor ainda para você e para a corporação. ele fará novas vítimas. Qualquer escândalo interfere no mercado. . – declarou o advogado apelando para o bom senso. nervosamente. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário. Mais tarde nos falamos. Havia a intromissão direta e. No entanto e. se não processarmos esse rapaz.A bem da verdade. -Talvez pelo mesmo motivo que o seu. Não seja inocente. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. Armand. pelo menos. ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. Precisamos. Jules respirou fundo. Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos.Não é isso. e creio que não se repetirá.Precisa preservar a sua imagem. pelo visto. chamará a atenção dos tablóides. e você sabe o quanto ele é sensível. apenas Jules queria levar adiante o tal processo. visivelmente contrariado. assustá-lo. jamais mudará.tentou responder. . ainda mais agora em processo de expansão.Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne.Mademoiselle Rossi. mademoiselle Rossi. ele a machucou uma vez e o fará sempre.. Apertaram-se as mãos.. – interrompeu-a. também. No fundo.. . Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e. E sabe por quê? – fitou-a intensamente. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: . -Agradeço a atenção dos senhores. – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão. Evitava o olhar severo do chefe.. . Jules levantou-se lentamente de sua cadeira. o rosto febril. 36 .

Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar. teria de assumi-lo. o espancador.Não conheço nenhum Jacques. Se mergulhasse ainda mais nas recordações. . nos fragmentos confusos espalhados pela mente. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe. observava o chefe de esguelha. assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”. a camisa por uma azul-clara e a gravata. – disse-lhe o mais profissional possível. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina. – afirmou sem pestanejar. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo. Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo. Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte..Como.Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você. Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas. completou: . poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! . Jogou verde para colher maduro. Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom. O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher. trazendo-a para si. -Você deve ter problemas com sua autoestima. e o cabelo ainda estava úmido do banho. Jacques de quê? – indagou com desprezo e. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica.Com licença.Agora pode preparar o café..? . talvez fosse perigoso querer. vendo que ela não reagia. sentiria as mãos ao redor de suas costas. numa expressão de desgosto. . Se quisesse e. Voltou a fitar-lhe nos olhos. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: . Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: .Ontem gritou um nome e. –ordenou com frieza. dado às circunstâncias violentas a que se expôs. que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing. acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino. bordô.Imagino que para proteger o amante. Um desejo profundo e intenso. Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente. Vestia outra roupa. caso o meu amante o merecesse. Se fora um sonho. O terno fora trocado por outro mais escuro. Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. Havia feito a barba.. -Sim. já havia enfrentado outros piores. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -. sem dúvida.. como uma saudade antiga. mas caso o beijo fora real. apesar do tom azulado do queixo e maxilares. dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. faria qualquer coisa.. Sustentou-lhe o olhar. 37 . pelo menos quando quero alguém vou até o fim. – provocou. até mesmo perder o emprego. – retrucou com altivez. Jules não entenderia a observação. .Obsessão em Paris Veronique Gris .O seu protegido.. Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem.

– confidenciou sem jeito. não de vergonha e sim de desejo. voltou a encará-la. – disse tentando sorrir. as veias nas têmporas latejando. monsieur. foi só uma manifestação doentia do meu desejo. então realmente houve um primeiro. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. sentindo o rosto corar. Cinco anos. Gemeu baixinho quando ele se afastou. Todos os homens que conhecera. os maxilares tesos. Amanda. Baixou a cabeça e percebeu que tremia. acabavam de explodir duas granadas.Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não. As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. . Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente. foi a continuação do primeiro.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu. Ela deslizou as mãos pelas costas dele.Ah. traçando uma longa ruga no meio da testa. Afastou-se um pouco e o encarou: 38 .Obsessão em Paris Veronique Gris . Ele assentiu levemente. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante. Jules deixou-se abraçar. todos. quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar. Baixou a cabeça. . queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos. Capítulo VII . – sorriu. -Sempre o admirei por sua integridade e caráter. sério. depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules. não é? – murmurou. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos. Se antes o provoquei foi só uma crise de ego. apenas ensaios. Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. Colaram-se os corpos. ainda tocando-lhe a face. . -Seria tão fácil. Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. -Quer que eu vá até o fim. Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si..E se antes eu a provoquei.É complicado. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a.É mesmo. desafiando-o. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . Dentro de si.E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo. Estava difícil respirar. entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade. .Non. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha.. – comentou com bom humor. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido. .

De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras. . então? . sendo assim. esse homem que me agrediu. intermitente. Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade. contrariando seus sentimentos.E. confuso.Mademoiselle Cuvier. – disse tentando controlar a incipiente irritação. Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse.Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia. independente da situação de saúde da minha mulher. quebrar algo na cabeça dele! 39 . se possível. . mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo.Tudo.Mais alguma coisa. para hoje..Não tenho “casos”.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha. .E não é? Jules suspirou contrariado. evitei qualquer relacionamento mais. . a voz firme. avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing. . . monsieur? . – enfatizou. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. Rochelle ainda teria uma vida normal. posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente. s'il vous plaît. . – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez. .O que é.Obsessão em Paris Veronique Gris . Cruzou os braços em frente ao peito. .Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei. grave. . Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante.Merci. – tentou explicar-se. tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha.murmurou. o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma. justamente por que sou casado. Agora. os olhos cravados nos dela. .Não é só isso.. . Apenas quero que compreenda a minha. .. Sentou-se e. Nesse tempo em que Rochelle está em coma. Tinha vontade de quebrar algo.A gente não precisa fazer nada. ele não significada nada para mim.. o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem.Sinceramente. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária. apertou o interfone para falar com a secretária: . profundo.Non. não me expondo em público com outra mulher. ignorando-a deliberadamente. Merci. . – disse num tom de reprovação. é óbvio que não pedirei o divórcio. monsieur. . digamos. sem pressa. -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha.. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre. – disse baixinho.Esse cara. um pé batia no carpete. – declarou impassível.Amanda. Se eu tivesse feito isso há cinco anos. – afirmou irritada. –ponderou fitando-a gravemente. eu sou casado.. E isso inclui respeitá-la.

Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. agora. Nem pense em se atrasar. conversando atrás do balcão. . -Como? -O que acabou de ouvir. 40 . pondere a respeito.. ganhavam um aspecto de sutil intimidade..Bonjour. A ligação está péssima. -Escute bem. quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque. oui? . – imprimiu firmeza na voz. mademoiselle Rossi. E ela descobriu que lutava contra um leão. mas.. pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular..Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. Assíria. -Entendi.Eu ainda não sei o que quer de mim. nesse novo estado alterado de sentimento. pense sobre o que falei. A feição dele suavizou-se por um momento. – afirmou. Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava.Está tudo tranquilo.Bom. Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho. E desligou. Ele a trará para a reunião com os finlandeses. e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita. monsieur. -Deseja mais alguma coisa. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias. Ao longo da manhã. –Agora. Ao chegar. monsieur. Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente.Agora. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. depois completou com uma sutil arrogância: . monsieur? – indagou-lhe friamente. o coração aos pulos. – afirmou. – respondeu brandamente. houve uma pequena mudança nos planos. retomando a máscara séria e fria. Por um momento. então temos problemas de comunicação. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã. Mas até mesmo executar tais tarefas.. .Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça. –disse resoluto.. . obedeceu à rotina de sempre. Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. . ficaram apenas se olhando. como estão as coisas por aí? . –reclamou.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”.Que horas devo ir? .

apresentava sofisticação tipicamente europeia. O vizinho mais próximo . evitando. observando a brancura à sua frente. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. assim. A construção de três andares. ou seja. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. admirava a beleza do lugar. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. Meia hora depois. estável e aberta aos empreendedores. imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. no mínimo. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. as sacadas. nesta época do ano. durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. uns dez quilômetros dali. prestava a atenção nas variações do tempo. Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. o chalé de Jules. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos.Amanda constatou . No entanto. neste momento.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro. Entretanto. Um lugar totalmente ermo. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado. rica.distava. pois ele cumpria a agenda. Na frente. apesar da rusticidade da madeira. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. tanto no céu quanto abaixo. ela praticamente perdia o chão. –emendou um sorriso amarelo. para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. De fato. Jules havia marcado a reunião. possivelmente era a garagem. e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. No entanto. procurando entender o que acabava de acontecer. Desde quando usava o seu chalé. e não dele. formando um cerco na solidão do chalé. dos pinheiros ao redor da casa. uma ampla varanda aberta. era um lugar 41 . Entretanto. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. -Belo dia para voar. já na entrada de um pequeno centro comercial. de madeira rústica sobre pedras. Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe. Portanto. no auge das nevascas.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. o seu refúgio solitário. nas montanhas. isso poucas vezes ocorrera. ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática. por que havia transferido a tal reunião para França. Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve. sobre o primeiro andar que. Diante das janelas frontais.

Jules empertigou-se. em silêncio. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. O cabelo. mais uma vez. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. um palmo acima dos joelhos. inclinou o corpo para baixo. Escorado junto ao batente da porta. justíssima. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. Durante todo o trajeto. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. bem acima dos grandes dramas da humanidade. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. Amanda foi a primeira a falar. espalmada. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. salpicavam-lhes os cabelos. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. e incitou novo passo para. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. distanciando-se deles. num beijo profundo. era ensurdecedor. Ficaram abraçados por um tempo. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa. Abaixou-se para pegá-las e. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. O helicóptero já estava no alto. a voz ainda rouca. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. quando se ergueu. Apertou-se no casaco cinza. Ao descer. no seu mundinho. Antes que ela esboçasse qualquer reação. de gola alta. o scarpin escuro e a saia de lã. não contava com a sua espessura. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem. acabou deixando cair as pastas que segurava. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. No minuto seguinte a porta foi aberta. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. estava bagunçado. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. de lã. estava Jules e seu cabelo azeviche. Ela tentou identificar a pessoa. de sedução. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. Alguém afastou a cortina. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. de uva. Somente quando parou diante dele. normalmente penteado e aparado. Ao tentar afastar-se. sobre seu maxilar. e tampouco percebeu que os flocos de neve. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. jeans escuro e tênis. mergulhar a perna na neve. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. vestindo um suéter preto. Jules manteve os olhos fixos nela. Era como se estivesse de férias. mais por impulso do que necessidade.

iluminavam languidamente a estante com livros. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe. . virou-se e a encarou seriamente: . diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. O Jules dos Alpes franceses. Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: . Ele pôs o braço ao redor de seus ombros. num tipo de rusticidade elegante e selvagem.. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. portas e sacadas. esquadrias das janelas. Depois.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo. em madeira de pinus. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. seguido de um “por favor. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. jeans e tênis. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior.Quer provar meu sangue? – provocou-o. –debochou. apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. 43 . Amanda” impaciente. -Oui. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda. bem.Tenho cópias aqui comigo. Em seguida. Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. mas impõe mais respeito. abajures com lâmpadas de quarenta watts. passando pela parede.Machuquei seus lábios. Quando a porta foi fechada atrás de si.Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso. . Não pôde deixar de rir baixinho. os quadros de pintura abstrata e o bar. O que dá no mesmo. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório. -Homens como eu. o de barba por fazer. Antes de entrar. mais aconchegante e cheiroso. bem típico de workaholics.Sua casa é linda. tudo era composto por madeira reciclada. -Na verdade. O outro Jules. –ironizou.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: .Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável. esse Jules agiu de forma inesperada. –brincou. voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: . sentia-os de fato inchados e doloridos. Amanda levou a mão à boca. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente.. Ele olhou ao redor sem muito interesse. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás. profundamente. pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. com um empurrãozinho do pé de Jules. Jules parou à porta. . ainda abraçado nela. monsieur Brienne. . Do teto ao piso. não sofrem colapsos. achei bastante incoerente tal reunião. aquele que ela conhecia havia cinco anos. mademoiselle Rossi. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve. decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork.agora o nome é episódio depressivo grave.Acho melhor entrarmos. Sem deixar de fitá-la. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta. Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: . possessivamente. que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris.

no centro da cozinha. Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. abriu o forno e deu uma olhada para dentro. em seguida. pelo o que Amanda verificou. ele suspirou profundamente.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. enfim. Pelo visto. sem muito entusiasmo. marcando o tecido delicado da roupa. A camada superior. É fácil. um queijo cremoso. Quando comprei o chalé. nada de enfeites. . Por um minuto ou dois. como fui alfabetizado. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho. o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e. . Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida.É uma comida típica desta região. – disse Amanda. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. Antes de entrar. havia planejado o encontro no chalé com antecedência.Voilà. É feita com batatas e Reblochon.Tem serviço de entregas por aqui?. era visível que procurava controlar-se. levava ao porão. -Deve estar com fome. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. . ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia. -Temos que comer. assegurei-me que de fato seria um refúgio. Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo. Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. ele não usava mais a aliança na mão esquerda. Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. Amanda observou. ele prosseguiu: . toucinho e alho. um lugar para ficar distante da minha vida parisiense. .Aqui está o segredo de uma boa refeição. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que.Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. creme de leite. Jules havia preparado uma salada com cogumelos.O cheiro é excelente! . Isso sim significava uma grande mudança. com toucinho e queijo Reblochon. manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. A cozinha era arejada. Numa banqueta de madeira. ingredientes e modo de fazer. Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. crocante. . Ele parou diante do fogão. quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 . aprendi a cozinhar. percebeu que após cinco anos. na verdade. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. – disse baixinho. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas. -Você também. Por fim. não havia detalhe algum feminino. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: . é um lugar tão isolado! –debochou. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. Para acompanhar o prato principal. não estava em lugar algum.Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. toalhas. Realmente. . Com o pano de prato dobrado.alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. Comprei um livro de receitas culinárias e. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. retribuindo o duplo sentido da frase. paninhos coloridos ou imãs na geladeira. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. parecia derreter dentro da boca. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha.Da última vez que fiz faltou sal.

-Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha. Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum. . Ao constatar que não lhe responderia continuou: . 45 . –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo. . mas não consigo deixar de perceber seus defeitos. é longe..O quanto estava lúcida àquela noite? . bastante interessado. – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. já de posse da esponja e detergente. . Jules recebia a louça e. copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. Ajeitou os talheres ao lado do prato. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador.deu de ombros e acrescentou:. – pediu. interrogativo.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem. Será que só o presidente não sabia? – ironizou. assim. vou entender e aceitar. Apenas nos beijamos. . Não queria ficar sem ele. a oficial e a do affair.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles.Quero você e muito.. agora. colocando-as. levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la.Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. baixou os olhos e encarou-a novamente. . Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o.Se vai complicar tudo. um executivo da área da computação faz um prato delicioso. Vou comprar outro maior para você e.Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. ela sentiu um repentino mal-estar. Podemos parar por aqui. – disse Amanda sorrindo. . nesse almoço. agora. não fale. Inexplicavelmente. -Quero que saia daquele apartamento. sério sem censura ou ameaça. Entregou-lhe os pratos. . com eficiência. .e isso não afetará nossa relação profissional.E.O suficiente para não esquecê-la.Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. ordenhavam novamente suas vacas.Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando.Os executivos e suas vagabundas. – falou. sobre o aparador para secarem. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. . obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo.. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio.Amanda. . pequeno e sem segurança. . . Ele sorriu com um um jeitinho tímido. acabou quebrando o silêncio. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. – observou calmamente. – disse incisivo. Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela. Como Amanda não possuía nervos de aço. -Você não luta por ninguém mesmo.Se não está preparada para ficar comigo.. e um deles é essa mania de distorcer o que falo. depois. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. em pleno século XXI. -resmungou baixinho. –murmurou.

dentro. Rochelle não me amava. não existe no mundo. -Entendo. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. mesmo que tenha me traído e. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. Ano passado. . Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não. escaras e subnutrição. Jules mantinha-se afastado e sereno. nem na vida. mas ela não reagiu por si. Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. Ele estava todo ali. nós.. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . Amanda? Isso não existe. de acordo com a medicina. Olha só o meu casamento. baixa e tranquila. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte. Há uma luta constante contra pneumonias.. -Por outro lado. E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. . deitada no asfalto sangrando me mandado embora. 46 . Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. é a mulher com quem casei e.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. a pernas separadas. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada.. é um ser humano. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos.. .Por que está me dizendo isso? .Claro. . você disse que somente confiava em mim. apesar de rica. – murmurou ela. .Acha que não sei? -É diferente.E se a sua esposa voltar a si?. . mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras. Além do mais.riu-se com amargura – mesmo assim. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. por que. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha. tão perscrutador. tentamos retirar o respirador.Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que. Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida.Você quer certezas e garantias. –respondeu com seriedade.. nem conseguimos trabalhar direito. vinte por cento dos pacientes se recuperam. é a minha responsabilidade por que. mas. o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças. –deu de ombros num gesto de impotência.Naquela noite que passei em seu apartamento. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa. numa posição de espera. . Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver. A nevasca atingia as montanhas.Rochelle é a minha obrigação. .Olhe para mim. mas amava a vida. No entanto. Foi uma experiência dolorosa e frustrante. acima de tudo. Jules. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos.. a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. Além disso. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana. não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos. A vida não nos oferece garantia de nada.

devagar. um tormento sexual. por um tormento mudo.o que você fazia. o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. Num gesto rápido. de renda. Em seguida. ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. depois. sendo chutada para cima do fogão. com movimentos mais fortes. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos. firmes na cintura dela. como se fossem um corpo só. Depois. enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo. Jules. . Penetrou-a totalmente. sutiã e meia-calça 7/8. introduzindo-se em princípio com gentileza.Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele. abocanhou-lhe um mamilo.. Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo. Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa.. Arqueou-se para.. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa. . deslizou a calcinha pelas pernas dela. Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. penetrou-a.. Amanda. Controlou-se o máximo que pôde. havia percorrido todos os caminhos racionais... de pé..Quero. violentos. desabotoou-lhe os botões da blusa de seda.. com o joelho afastando as pernas dela. controlava a cadência das arremetidas. as sobrancelhas juntas. umedecido pela ligeira camada de suor. –afirmou sem maiores explicações. Depois. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase. os maxilares contraídos. Amanda gemeu e arqueou o corpo.quero muito. .me diz. Ela queria mais. Ele puxou-a para si com brusquidão. . dentro e fora da empresa. preta. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível. alimentado o cérebro de respostas. detendo-se no lóbulo da orelha.Não a amo mais. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração. esfregando os lábios nos lábios dela.. expondo o sutiã branco. As mãos. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia.Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador. deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. . abriu-lhe o sutiã e. a cabeça inclinada sobre seus seios.Jules. faminto. segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo. sem deixar de fitá-la. de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos.saber. e. Era assim que Jules Brienne sempre agia. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido.E. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. Em seguida. saboreando-o. o corpo esguio encurvado para si. para que ela o sentisse todo dentro de si. – disse. -Eu a devorava. queria-o fundido em si.. Deitou-a sobre a mesa e. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: . lentamente. baixou o jeans e a cueca boxe..Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. Ele se aproximava com o rosto circunspecto. os olhos negros como os de um predador voraz. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca.. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis. tocar na dele. que escorregou para o chão.. mantendo-o entre a língua e o palato.. cadenciados com seus gemidos e 47 . como um legítimo macho alfa. as narinas dilatadas e os lábios constritos.. olhando-a diretamente. . com a cintura..Entregue-se a mim. Num movimento ágil. Por um momento. Afastou-se e.

Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen. Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. um robe de seda. sob a janela.Quando eu conseguir pensar. Entretanto. beijando-lhe o pescoço. . o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. ele abriu os olhos. . esfregando-lhe os ombros. Penetrou-a novamente e. a primeira vez dos dois. Por diversas vezes. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. Em dois minutos. amarelas. congestionados em suas órbitas. dobrado. Enlaçada em seu pescoço. músculos e carne até explodir como uma bomba. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. Aos pés da cama. Era para ter sido ali. tinha todo o seu corpo possuído por ele. – desculpou-se. brancas e azuis. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. emitia ruídos secos. para ela. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó. Ao abriu os olhos. Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. Do lado de fora. Em vez de vesti-lo. –brincou. A lenha crepitava na lareira e. Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço. Antes de atingirem o cume do prazer. no meio das montanhas brancas de neve. e puxou-a para um longo abraço. num canto da sala. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas. à esquerda do bar. Sobre uma mesa. pétalas de rosas azuis. separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. os olhos fechados. a força dos braços. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. E o cheiro dele. analiso o que você falou.Queria ter podido me controlar mais. de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. ao ajeitar-lhe a gravata.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. vez por outra. puxou-lhe o corpo para a borda da mesa. sobre a colcha. . agora.brincou. perto da janela. . fora-lhe quase como uma companhia. impregnara-se do seu cheiro na pele. como era alto. ao longo dos anos. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. nervos. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. Depois. E não era a primeira vez que a sentia em si. levando-a a gritar numa voz irreconhecível. E. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. Ele subia devagar os degraus da escada. colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural. Quando despencou da montanha-russa do prazer. 48 O . em cima da mesa da cozinha. Quando entraram no quarto.Empacotada para viagem. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. trouxe-o e o pôs em Amanda. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. naquele quarto decorado romanticamente. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. recebendo um sorriso terno de presente. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela.

. de frente para ele. que começou tomando-a aos poucos. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas. enfiou a língua e o mordiscou. roçando os seios no seu tórax. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. Subiu novamente pelo mesmo caminho. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas. em seguida. trazendo Amanda para o seu colo. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. atirou-se para um mergulho no mar denso. enlaçou-lhe o pescoço e. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido. sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. enterrou as unhas na sua pele nívea. passou os braços por baixo de suas pernas. foi acionado. em seguida. abertas. cada um na sua vez. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo. Jules gemeu ao seu ouvido. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. Jules sentouse na cama e puxou-a para si. por uma boca voraz. arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. Por um momento. que a sustentaram enquanto seus quadris.. até o fundo. com o outro. Por baixo de suas nádegas. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. Prorrogou a carícia. alternando as coxas. Ne me quitte pas. Com apenas um toque num dos botões. o sexo para. 49 . Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos. o ventre. erguendo-se ligeiramente. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. Quando percebeu que ela estava pronta. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. Gritou o nome de Jules. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. encaixados. seca. Ainda sem conseguir respirar normalmente.. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. Avançou para o umbigo. que foram sugados com força. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. teve-os engolidos. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. por baixo da pele. Do alto. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar. Ele sugou-lhe com vontade. descendo até a curva de suas ancas. ergueu meio corpo e. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. morno e eletrizado. Num movimento ágil. depois de mordiscar-lhe o ombro. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha.. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. auxiliou-o no vaivém de seus quadris. Voltou-se toda para ele. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. Esfregou os seios no tórax firme dele e. num timbre de quem explodia de prazer. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada. diante do corpo dele. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas.

. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada. então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente. a respiração controlada. Sou o pior chefe do mundo. digamos. .corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: . . Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali. . -Você é muito mandona. . Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça. sorrindo. Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha.. pragmatismo. .Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe. Jules. – disse calmamente num tom divertido. o cenho franzido. minha temperamental assistente. – sondou. .. .Contratei-a por mérito profissional. .. Depois. obviamente. Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la. apertando-a num abraço possessivo. Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados.mordeu-lhe levemente o lábio inferior. você. simplesmente. precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio. Jules era um amante refinado.Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que. monsieur Brienne.. sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada. uma combinação um tanto paradoxal.. Admirou-lhe o tórax firme. Roçou seu nariz no dele. -Tive sorte.. . procurando uma música no playlist digital. – completou com um alçar de sobrancelhas. dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico. roubando-lhe um sorriso suave. – constatou num murmúrio. -Monsieur..-provocou-a.. alguém sensível o suficiente para lidar com o meu. recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si. -terei de domála.. – afirmou com naturalidade.sei que não gosta de falar sobre isso.Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. Virou-se e viu-o manejar o controle do som. – disse-lhe sorrindo.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho.Verdade? .Humm. não obtendo resposta. perguntando-lhe algo e. forte e sensível. a última etapa da seleção era com você. Gentil e bruto. sentindo-se exausta e relaxada. Eu tremia..Totalmente. .mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 . após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos.Ainda me deve uma tomografia.Disfarçou muito bem.Uma vez você ligou mesmo. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro. bem. suava e quando o vi sentado atrás da mesa.. impecável e bastante experiente. A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante. com a cara de poucos amigos. entende? Mas você. jamais tenha dúvidas sobre isso. aliás. .É verdade. a pele ligeiramente orvalhada de suor. – constatou e emendou com suavidade: . Em suma.

como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. ma belle – pediu com a voz abafada. ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. E Jules odiava demonstrar fraqueza.Fui grosseiro.. até para os tipos românticos como você. refletiam luxúria. Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. . de frente. Devido ao último confronto. Aquele era um assunto tabu?. ouviu-lhe dizer: . -Tire a roupa. o timbre de voz que usara. -Sente-se aqui. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. ela resolveu ceder. Ele olhou-a com o rosto sério. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. Mas a voz. Falei besteira. –Vamos nos poupar disso. os ossos dos maxilares. imóvel. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. salientando a face esculpida com vigor. Amanda sentou no colo de Jules. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. Os braços ao longo do corpo. forte e primitiva. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. surpresa pela reação hostil dele. ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto.Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. Mais do que nunca. Naquele momento. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios. concentrado no fogo da lareira. de preferência.Assim que amanhecer. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável. pardon. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. non? É clichê demais. cruzados em frente ao sexo. mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente. ainda nu. Sexo e sofisticação não combinavam. manteve-se quieta. branca e limpa. também era sedutor e rouco. em silêncio. encaixando suas pernas ao lado das dele. para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. –direto e seco.O protocolo pós-sexo. brutal. Maxilares contraídos. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. bebendo o vinho. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. – ironizou. pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris.. . Voltou-se e viu-o na mesma posição. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. confidências à meia-luz. Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. apenas observar e. – disse por fim e deu-lhe as costas. revelavam os seus sentimentos. Jules voltava a ser o chefe exigente. Manteve-se de costas para ele. Satisfeito na cama. Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão. ele 51 . Dera-lhe uma ordem. com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. Intimidada e insegura. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. . sem maiores explicações. eram somente um macho e uma fêmea. a mão estendida à espera da dela. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. Com um gesto lento e displicente. mademoiselle. nua.Não tive intenção de incomodá-lo. mademoiselle. Postou-se diante dele. diante do fogo. mesmo imperativo e urgente.

Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem. diz que vai me foder. 52 . como uma pequena morte. diz Jules.. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele. Ouviu-o rir baixinho. como é linda.Está encharcada. ainda não. – gemeu Jules. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. o quadril. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão. Como se seguisse a linha de seus pensamentos. torturando: . Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. Admirou-lhe o pau duro e grande. . Por outro lado. – pediu quase num murmúrio. na voz de Jules. -Vou te foder.Toda. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. Aproveitou para admirar-lhe a nudez. Temia o ato.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante. linda. saindo da boca de Jules.. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo. A cintura bem torneada e o traseiro bonito. sem forçar. buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se.. apenas roçando. vou fodê-la toda. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. as pálpebras semicerradas. que foram chupados pela boca máscula. Apoiou-se sobre os joelhos. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado. um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. enquanto segurava-se nele. beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda. parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: . com ossos que despontavam acima da rótula do braço. concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios. -Não diga fazer amor. Estremeceu-se de medo. Amanda temia o próximo passo. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. provocando-o com o seu sexo... . nos seus ombros. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. mas ainda não farei amor com você. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. Dito isso. endurecendo os bicos. a respiração também alterada. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade.Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela. emoldurado pelos tufos negros.Dieu... Num segundo.? – indagou aturdido. O toque foi lânguido.. num gesto instintivo. suavemente. deitado para trás ao longo do abdômen firme. sem preconceitos ou impedimentos. em seguida. friccionando devagar e circularmente o clitóris. apenas a ponta do dedo. -Diz que vai me foder. minha Amanda. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes. as pernas ladeando as dele. ma belle. Medo e excitação. o quadril esfregando-se no abdômen dele. afastando-os do rosto suado. Ela se esfregava na mão dele. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer. Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. -Como. as costas largas de ombros proeminentes.-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. Deitou a cabeça para trás. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar. sugerindo. ma belle.

– pediu-lhe baixinho. as orelhas. sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. agora. Amanda. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. prestando bastante atenção no nervosismo dela. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. Ele sentou-se ao seu lado e. A pergunta foi feita com tamanha suavidade. ma belle. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. 53 . um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador. mordiscando-lhes. fervia e esquentava-lhe a nuca. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. borbulhava.Afaste as pernas e incline-se para mim. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão.Isso. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. – sussurrou. Amanda ajeitou-se fundo no sofá.Vem aqui. disse com meiguice: . Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. como se se vissem pela primeira vez. Amanda contraiu-se. completamente envolvido pelo beijo. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. antecipando o que seu pau faria. seus sexos tocando-se. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente.. A sensação era boa. liso. Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. que ela nem pensou em encobrir a verdade. ainda mais duros. Ao fazê-lo.. atlético sem ser malhado e magro sem excesso. um prazer para nós dois. Nó no estômago. Amanda gemia alto.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. balançando-a com displicência. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. a vagina molhada e os bicos dos seios. bem típico seu. prendendo-os entre os dentes frontais. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. fitaram-se por alguns minutos. com cuidado. depois de deixá-la completamente louca de desejo. devagar. e Jules beijou-lhe o ombro. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele. – Seus olhos estão arregalados de medo. belle. -Acredito. Quase 1. agarrada aos ombros dele. –declarou com ternura. Garganta seca. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus. – Apenas siga-me que eu a levarei lá. reconhecendo um no outro. . Ela confiaria a própria vida a ele. vem. duro. fazendo-lhe um carinho no queixo. um de cada vez. Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. longo e perturbador. um prazer para o nosso mundo particular. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. –chamou-a para o seu colo. Aos poucos. Assentiu com a cabeça. Jules beijava muito bem. -Então vamos desfazer esse medo. . sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. Sugoulhe os bicos. os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. numa carícia mais do que tocante: íntima. Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. inebriante. com dois de seus dedos longos. assim. E quando se afastaram ofegantes. eu jamais a machucaria.

apenas observava-a. os olhos fechados. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina. Amanda. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. esforço esse que Jacques não o fizera. Com o polegar. Tomada pelo prazer e encharcada de suor.. -Foi tudo... mon Dieu. abraçado a ela.. -É bom demais. Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira... Ele bem que tentou manter-se terno. isso. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior.. deixe-o deslizar aos poucos. como é apertada e gostosa. -Acho que não posso. -Acho que pode. -Nem a metade. jamais a machucarei. Jules. Jules? – indagou-lhe quase sem voz.não vou machucá-la... Amanda.. Deitou-a sobre o tapete e. ele levou-a consigo para o chão. sem pressa. . relaxa. Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém.. Jules. uma dor aguda. encurvada e com o traseiro apontado para cima. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si. o cabelo úmido.Tudo. Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo. . Num gesto rápido e eficiente. tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. e eu farei a sua vontade. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais. ela seguiu as suas orientações.. guiou-o para a sua entrada detrás.. sobre a ponta do pênis. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal... Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela.. a expressão séria e. ma belle? Se doer. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris. extasiada. que lhe escorria pelas costas e seios. mon amour. pô-la de quatro. Agachou-se entre as pernas dele e.isso. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules. subindo e descendo o traseiro no seu pau. ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave. as veias da testa e do pescoço dilatadas.. somente você.. mas. Você é perfeita.. o rosto tomado por uma fina camada de suor. com a mão no pau de Jules.. Amanda..gemeu... Era visível o esforço que fazia para controlar-se.. pare. ao mesmo tempo. 54 .. ainda enterrado fundo no traseiro dela. Como uma aluna aplicada. –falou posicionando-a sobre o pau.. de queimação fê-la recuar. entrou tudo. enfiado nela.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora. a mais linda.. -Você é mulher mais linda do mundo. que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e. – quase gritou. o desespero no timbre da voz.. Você está no controle. relaxa que entra mais fácil. sente-se sobre o meu pau devagar.. com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela.. um ruga funda no meio da testa. que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante.dói.é como eu sempre imaginei. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si.isso. mexe devagar. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida.. puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. –Isso.. Amanda. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão. Ela sentia-o descontrolado. – Você fodia minha bunda na sua imaginação. – gemeu desapontada..

enterrando-se até o fundo da vagina. -Porra. Realmente. que foda maravilhosa. içou-a sobre seu corpo. empinando a bunda para Jules. Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. Talvez ainda fosse madrugada. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. dosando as arremetidas. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. envolvidos pela água e pelos vapores. pegou-a no colo. Ainda com Amanda nos braços. a velocidade e a força. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. Era novo. -Vem. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. Por isso. possessivamente. agora. -Estou curada do trauma. O seu melhor homem estava tão próximo dela. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede. Entretanto. minha lindinha. Jules virou-a de frente para si. -Estranho. Como ela não se mexia. feminino. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. -É porque estou sem as botas do Kiss. do tipo inesquecível. Completamente apavorada. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta. pequeno e de seda. ela deixou-se cair de bruços no tapete. beijando-lhe no tórax. –brincou. 55 . Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca. Sentou-se. – disse rindo. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. que deixava marcas no corpo e na alma. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. Quando acordou. controlando os movimentos. ao lado da cama. subiu os degraus e entrou no banheiro. Todos os outros. -Espero não tê-la machucado. –resmungou contrariado consigo mesmo. okay? -Oui. Amanda concluiu que sua vida sexual começava. Afastou o edredom e foi ao banheiro. – brincou. que a amparava e se lançava na direção contrária. Abraçaram-se debaixo da ducha. pegou-o e o admirou.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. fê-la gozar novamente. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. Avistou um robe caído no chão. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo. Haviam dormido abraçados. exausta e saciada. nesses últimos cinco anos. Lavou o rosto. Ela sorriu satisfeita com tudo. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. docteur. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. com Jules. -Vire-se. ensaios e rascunhos. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha. As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. vou lavá-la para diminuir a ardência. antes mesmo de saboreá-lo na cama. já sabia onde estava. Mas não posso receber alta. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. inclusive com o novo vocabulário do executivo. ela estava apavorada.. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. que não fora possível vê-lo.. quero dar-lhe um banho. Um amante para sempre.

o jogo havia virado. desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. jeans e tênis. Usava uma camisa de gola polo azul celeste. mostrando a face recém barbeada. O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. tive a confirmação.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo. . ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO. ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. mademoiselle Curvier. Agora. – disse-lhe. Ignorou-a e voltou à cozinha. . Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença.Tevê aberta? Merdè. . Esperava um beijo ou um sorriso.Ele a agrediu. Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques. 56 . tão escuro quanto as trevas.Jacques Rodin. Jules. Entretanto. a testa franzida. Um homem loiro. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth. Pela reação de Jules. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás. . encurvando o canto esquerdo dos lábios. No caminho. a lembrança da frustração. Voltava a ser circunspecta e fechada. – declarou.Quero que veja uma coisa. entre a escada e o bar. sentado no banco de um parque público. Respirou fundo e procurou controlar-se. Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. rasgando a foto em vários pedaços. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. – afirmou com desdém.Venha e tome seu café.Bonjour. diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade. sorria para a câmera. agora. E. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave. O cabelo molhado estava penteado para trás. . pois suspirou contrariado. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios. Reconheceu Jacques Rodin e. o que se destacavam eram os sulcos na testa. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . concentrado na conversa. sério. já havia encerrado o telefonema. em frente à cozinha. tornava-se a megera. será uma chateação dos diabos. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar.Sei quem é. À medida que descia os degraus. Pronto. bonito. Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. medo e dor fizeram-na contrair os lábios. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. imediatamente. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules. Engoliu em seco. num gesto de ameaçadora tranquilidade. Num gesto ágil. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants. seu chefe. agora. Saía e voltava pela porta de correr da cozinha. Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne. . s'il vous plaît. presidente-executivo da SBO. não foi? – era uma pergunta.Claro. ordenou: Agora. mas soou como acusação. . Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. – em seguida. – concordou solícita. – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. Encontrou-o na discreta sala de jantar. me transfira para o marketing. .

perigosamente controlado. não me transforme na vilã!gritou. Jacques salvara-a de um salto quebrado.Tudo o que fiz foi para protegê-lo. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme. Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta. . monsieur Brienne?”.Sou a vítima. Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques. mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela. Jules puxou-a pelo antebraço com força. amigo de Dorian. . Lutava para manter-se calmo e equilibrado. – disse com maldade e completou debochando: . interrogativo. Fiquei quieta para que a situação não piorasse. o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha. – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados. três ligações do mesmo número das mensagens eróticas. a força do destino! – debochou e completou incisivo: .Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado. . . . –acusou-a.Dê uma olhada no seu celular e encontrará. mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos. . Ou seria “não sei. .Jamais me dê as costas. non? Monsieur Rodin.Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas. Amanda baixou a cabeça. 57 . . erguendo o queixo em desafio. Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto.É terapeuta também? – debochou. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía. O contador. pena que ele seja um pouquinho psicótico. princípios e verdades.Ah. .Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada. Diga-me. Quando se preparava para fugir de outro homem.Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher.completou sem dissimular o desprezo. –declarou tentando impor firmeza à voz. . Jules. – declarou secamente e deu-lhe as costas.Devia tê-lo delatá-lo a mim. exasperada. Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: . assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja. Então. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você. embaraçada.Na saída de um restaurante. – falou baixinho. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la.Você é movido pelo seu ego estratosférico. .Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências.Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou . Ele suspirou exasperado. e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! . . porque Jacques Rodin é doido de pedra.talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês. do encontro às escuras.Não sei. . constrangida. uma veia despontava latejando no meio da testa. A conversa ainda não terminou. Jules estreitou os olhos perigosamente. .E não posso negar que ela teve bom gosto.Porque talvez alguns homens só mereçam isso.Obsessão em Paris Veronique Gris . – respondeu. pelo menos. Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia.

-Meu estômago está fechado. . sem mágoa: . Concordara com o documentário. Devolveu a crueldade. por poucos e eternos minutos. Durante o café. pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo. Não queria mais discutir. telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. mesmo por que perdia todos os rounds. Num minuto. . num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade. Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. Amanda. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. – disse simplesmente. – completou apertando-a contra seu tórax. Aproveitou para recuperar a paz perdida. estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo. Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. e essa atmosfera também estava interiorizada nela.. diante de si e fitando-a duramente.Tentarei não complicar mais as coisas. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas. -Ninguém gosta de sofrer. manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. parece tão desprotegida.encarou-a sério e completou com ironia.sussurrou. Ele não se mexeu do lugar. conhecido por seus programas de economia e administração. após alguns minutos de silêncio contemplativo. respondeu como quem se livrava de um peso: . Por fim. por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. depois de pronto. – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia. No entanto. ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça. conseguia sacudir-lhe os alicerces. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. nos braços dele. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental. . – pediu-lhe entregando os pontos.Eu deveria mesmo considerar-me superior. –murmurou mais para si mesma do que para ele. o que dizer? por putes. . E.A sua prepotência também é um tipo de viodência. entre todos os seis bilhões de terráqueos. Queria que fosse diferente. E sem olhá-la.Minha mulher me deixou por causa dele. claro. . -Mon Dieu. Jules. Amanda suspirou resignada. Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. provavelmente. bien. Todavia. 58 . você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. era isso que o deixava incomodado..Esqueça-o. -Vamos tomar nosso café. pode parecer bobagem.

fios. cheirando a colônia cara. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente. todo o conjunto. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência.Ou eu ou o trabalho. Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente.Culpa minha se os acostumei mal. Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules. . – brincou.Eu sabia que você adoraria a banheira. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. Amanda teve que lidar com microfones. . numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. Sorriu consigo mesma.. Touleause. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO. – murmurou. retirou o microfone da gola da blusa. devagar. Diante dela. – virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. Corria o risco de ser 59 . Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. Jules apertou-lhe o ombro. cabos e câmeras por toda a parte. olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida. Alguém ao telefone chamou-o novamente. – afirmou.Última ligação e desligarei o meu também. O rosto constantemente sério. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa. as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. sorrindo. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas. Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo. . vestia-se de forma sóbria e insinuante. Intercalara as gravações em vários dias. a certeza do seu lugar no mundo.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. até arrependeu-se de se impor dessa forma. os olhos pousados nos lábios dela: . e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si. -Não precisa fazer isso. abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . . Encaminhou-se até ele. Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa. levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva. porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la. – fez uma careta desolada.Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. A ruiva de cabelos lisos. Por outro lado. um executivo. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a. cortados rente à nuca. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. . Ele ergueu os olhos para o alto. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules. Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta.Senta no meu colo que a gente já começa por aqui. Por um momento. Prometo.Espere um minuto. . que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. um tipo que vivia engravatado e penteado. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz. Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos.. sem desviar os olhos dos dele. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada. seguindo de perto a rotina do chefe. Jules deu-lhe pequenos beijos.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. causava a Amanda respeito e excitação. nos lábios.

E ela não queria uma queda-de-braço com ele. brutal e ostensivo. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro. quietinha. Amanda já estava decidida a mudar os papéis. ia transformando-se em ímpeto e desejo. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. Não bastava simplesmente desligá-lo?. De olhos fechados. ainda assim. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros. . mas.O que está fazendo comigo. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . ainda de pé diante dela. sem beijá-lo. ao mesmo tempo. Já na metade da escada. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada. ironizou consigo mesma. deslizando para dentro com confiança e força. Após cair aos seus pés. posicionando-as sensualmente atrás. Amanda gemia e entregava-se ao prazer. . ergueu-a no colo. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela. ao encontro dela. com sede e fome. era também macio e gostoso. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. Ele voltou de cabeça baixa. chutou-a levemente para o lado. ele tomou posse novamente do seu celular. ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. delicadamente. Parou e constatou com um sorriso. pensou. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. apertando-lhe as nádegas. numa carícia sutil e devastadora. que. Como alguém podia ser assim?. Havia-o sentido todo dentro de si e. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava.. Jules. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. dando as costas a Jules e subindo os degraus. mal lhe tocando a pele. Quando chegou bem perto. Em seguida.? – sussurrou-lhe ao ouvido. Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. preta.Espere-me aqui. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros. Num movimento rápido. que eu já volto. devagar.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. deixou-se ser despido. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. sem se mexer. – declarou. A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. Eficiente em tudo. sorrindo deliciada com a atitude dele. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. ao deslizar a língua sobre o membro dele. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. Após um breve silêncio. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. aos poucos. enquanto subia os degraus da escada. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules.. divertindo-se: . Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa. desejava e admirava. ela pensou. fitando-a sugestivamente: . Mas dentro de si. concentrado em desligar o aparelho. Observou o volume considerável pressionando o jeans. impulsividade não combina comigo.. exibindo o membro grande e duro..Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca. Havia uma luminosidade suave na feição máscula. Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se. Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. Pressionada entre a parede e o homem.Tem razão. num tom de desolação e desejo. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. Sentia-se embriagada e.

por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava. a fim de alcançar-lhe os lábios. -Não quero gozar ainda. prazerosa dor. tornar a sentar-se devagar. sabia o que estava fazendo. No minuto seguinte. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. gemendo e erguendo os braços. Viu-o jogar longe a cueca. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. os efeitos desse ato. encaixando-se entre as mesmas. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. para mostrar-lhe quem mandava agora. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. Abocanhou-o aos poucos. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas. intrigado. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. Mas ela não queria justificar-se e.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. ganhando milímetro por milímetro. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. com os olhos semicerrados. no sexo intumescido e. Ela encurvou-se para baixo. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. baixinho. Capítulo X No teto de vidro. Após três ou quatro estocadas. Incitou movimentos lentos e cadenciados. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. Beijaram-se como loucos. afastou-lhe as coxas e. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. mordendo o próprio lábio inferior. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo. Experiente que era. e 61 . Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele. ao sentir-se penetrada. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. desenhando um arco com o corpo. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela. apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele. Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. em seguida. Antes que gozassem. mexendo o quadril para cima e para baixo. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro. primeiro. independente. – gemeu. num vaivém violento. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer.. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. Depois. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. em seguida. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. gozou. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. Tencionava servi-lo.. constatava. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas.

Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido. Precisava manter-se centrada e racional. eram adestrados e obedientes. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela.. Comentara casualmente a Amanda . num tom claro e discreto. chocara-se com força contra a montanha e explodira. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se. Depois. Jules acomodou-se ao lado do piloto. Tagarelava sobre o tempo. –deu de ombros. Haviam transposto uma fronteira que. Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. Apenas vinte e quatro horas juntos. ela não era apenas sua assistente.. o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. obviamente.. – constatou um tanto contrariada. na medida em que se subia. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. . Pelo visto. sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente. . Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha. eram amigos de longa data. arremetida por um vento ascendente. Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. 62 . havia cinco anos.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta. colocava-a na posição de sempre.e tal informação ela não sabia . Amanda não gostou do que ouviu. delimitava-os cada qual em seu lado. Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. . Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia.disse gentilmente. da assistente que obedecia às determinações do chefe. Era normal. iam-se estreitando. comentou divertido: . Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada. à sua mansão com a esposa. Ele sabia. Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo. No meio do caminho.Obrigado pelo “bom de cama” . isso mesmo. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . antes.. Ao redor.Mas quanto à vida sexual. O vento não estava tão forte e a neve cedera. sentindo-se frustrada.Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada. e não apenas patrão e empregado. -Pois é. agora. o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens. Mas.Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. por mais que ultimamente lhe fosse difícil. embaixo d’água. displicente. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade. Dito da forma como ele dissera. Ela sabia.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. empurrado pelo vento forte. quanto mais sexual. -Comprei o chalé construído e.tão. pôs os óculos escuros. A bem da verdade. Pena termos de voltar após o meio-dia. eu mal tenho uma vida. mademoiselle Rossi. Mesmo assim. paredes de alvenaria em pátina azulada.

ao celular. como se estivesse chegando e partindo de verdade. bem.? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário. à noite. bem. não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . ainda mais vindo de funcionários.Ele comeu e não gostou? . – fez um trejeito com a boca..Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. para o andar da presidência. ao mesmo tempo.. em seguida.. Amanda considerava extrema falta de ética por parte.. . com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. Seguiram juntos até o elevador panorâmico. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules. o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa. Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys. parecia coisa de filme. para onde Jean baptiste seguiu. Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio.. Ao passo que Jean Baptiste. intrigado..Talvez. – suspirou e continuou num tom firme e.Era engraçado. e. para a assistente do executivo. principalmente. Alexys da recepção também. que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes. baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva.Quê? – indagou Amanda. você conhece o seu chefe melhor do que eu. era linda e majestosa. da secretária da presidência. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e. – em seguida. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: . Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém. Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si. que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade. do alto.Na verdade. caloroso:. depois. A visão de Paris. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. –refletiu. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa. . logo.Dorian. – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer. 63 . assobiava descontraidamente A Marselhesa.Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa. . o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History. O semblante de Jules fechou-se ainda mais. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. Ele estava sério. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária.O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas.. absorto da conversa com monsieur Koskinen. como Alexys é bastante popular. . mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. sentindo o rosto corar. sorrindo alegremente. completou: . ponderando sobre cada palavra.. e se Dorian sabe. um pouco. Meio minuto depois. E. Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala. está preocupado com o teor do programa. E completara. Amanda conteve a vontade de rir.

Novamente esse nome. se de fato houvera tal conversa com Jules . para todos os efeitos.Quando o chefinho comprou o chalé. Ele.. melhor. ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. Não deem mais mancadas. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. como se ela.. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência. Falou-me sobre privacidade e sossego. então? Ou. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. okay? . já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro. Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules. A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali. 64 . pois. Por isso. um sorriso aflorou nos seus lábios. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora. justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. jamais falaria para a imprensa.. . . algo assim. . e Jules não gostou nada disso. – declarou Amanda. Geneviève. Além do mais. A secretária-júnior matou a charada. . ela sim. ora. antes de entrar. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É. de sua parte. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade..Amanda. falava com Jarkko. mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. além de Helsinque.Non. Annie adorava Jules e o protegia como um filho.E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé. no estômago em chamas. de frente para a parede de vidro do escritório.e ela acreditava que sim. tivesse direitos sobre Jules? No entanto. eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que. Por um momento. non. Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne. Estocolmo e Copenhague. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo. estava ocupado com outra ligação.Geneviève sabe sobre o chalé.Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico. os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação. mas você também podia fechar essa boquinha.replicou Assíria.Obsessão em Paris Veronique Gris . chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel. mas não via nada. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha. – baixou o tom de voz e completou: . Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. pensou Amanda. e acho até que já ficou por lá uns dias. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria. né?. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. de pé. tinha direitos sobre ele. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar.A jornalista sabe sobre o chalé. mesmo em estado vegetativo. Projetavam em menos de um ano alcançar. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca. Acreditava em Dorian. aliás. Por quê? . Sentou-se em frente ao computador. na verdade.

Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos. caçar e se prover sozinha. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: . Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. Interrompeu-se e cruzou os braços. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. Amanda. A pescoçuda conseguia. escurecendo aos poucos. Reclamou. já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. No fundo. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. Jules. não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . Do outro lado da janela. –respondeu. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares. O que não era verdade. O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o. Ao seu lado. claro. -Non. a cadeira de Amanda. e Jules o sabia. porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. o vice-presidente. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules.A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. trocas de farpas e ironias de lado a lado. irei recebê-los. – ordenou com o semblante fechado. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa. Meia hora depois. Era uma loba acostumada a andar na selva.Agora. diretora financeira.. a noite chegava de mansinho. corpanzil. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. mas covil. por que. Não agendaram nada com você. de mogno. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. que já se despedia do finlandês. Nas extremidades da mesa retangular. Amanda admirava mulheres fortes e poderosas. –defendeu-se. afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. nariz quebrado e cicatriz.Bleu e Rocco. seu grande amigo. Nem mesmo monsieur Roche. deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. Não havia queda de braço que ele não vencesse. com direito a cara feia. A neve havia cedido há algum tempo. Mais caricatos impossível. fechá-la. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não. normalmente. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. em seguida. apesar de estar dentro de um covil civilizado. . As reuniões na SBO. Pôs a xícara de café sobre a mesa. . em vários tons de laranja e azul. você não é uma síndica de prédio. mas Jules parecia ligeiramente tenso. monsieur Touleause e na outra. mesmo por que possuía o número do celular dele.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. Às vezes havia chispas de tensão. Merci. eram entediantes e longas. então.. No entanto.Marion. inclusive. Marion.

Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. . Na maior parte das vezes.Não se incomode. pode trazer o café da sala de Jules mesmo.Oh. jamais voltaria a lembrar. Nem Paris nem Porto Alegre.Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro.. – Jules disse sem tirar os olhos do papel. já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa. Jules. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam.. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores.. agora. antes que saísse algo de sua boca sem batom. .Sou improdutivo. é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. Assim. analisando o relatório do diretor de vendas. s'il vous plaît. estava muito abaixo da diretoria. No entanto.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala. – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios. como achar mais adequado. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência.. nada mais. Sentia no ar a tensão. de gravata borboleta vermelha. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. Com licença. Marion pigarreou. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los. – resmungou e continuou: . mademoiselle Rossi. por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar. Comece. certamente.Pra quê tanto drama. você sabe. .Vamos à minha sala. tratando-os como iguais. Jordan. Marion riu baixinho.Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida. . custos. já volto. . Jules.Não vamos retardar a reunião. . Nunca estava no lugar certo. . –declarou com naturalidade. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. Assim que os dois homens saíram. Não se esqueça de trazer também o adoçante. como se Jules estivesse brincando. Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras. . ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar. . Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia. Jules interveio calmamente: .Eu tenho ações aqui.Oui. Mas. Era o VP.. cabelo loiro e olhos de rapina. Afinal. Touleause até tentou rir.. quero ouvir o pessoal produtivo falar.Então. terno bege. oui. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam.Quem quer café que desça e faça o seu. Victor descerá e fará o café para todos. é problema seu e da sua consciência. de pé. é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo. mas. durante as reuniões. Assim. para o vice-presidente. não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. foi impedida de sair da sua cadeira. monsieur Touleause. impostos. mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido. pois. mais uma vez. . . comentários foram seguidos por um silêncio profundo. no lugar onde deveria estar. Jules estava próximo à janela. mademoiselle. Sinta-se à vontade. O primeiro foi de Marion: 66 .

. até hoje não sei qual a sua função. mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor. mademoiselle. diretor de vendas. Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão. fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: . digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 .E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice.Não tenho nada contra a sua assistente. do dono de tudo. podem resolver. temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor. . de sonhar com planilhas e computadores. . estava horrível. – disse Marion visivelmente contrariada. pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta. .Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta. – disse Marion. . . Agora. . dificulta como pode.Bom. Como todos se fizeram de desentendidos. – informou-a o diretor. aceitaria novas tarefas. de agendar horários para falarem com Jules. De certa forma era divertido. . física e mental.Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos. Sinceramente. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que. Agradeço os esclarecimentos. Estou protegendo a saúde dele. E ele. . com certeza. longe de todos.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. ela não é apreciada pela diretoria. pelo visto. Ele comanda a empresa do alto. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada. eles não topavam Amanda Rossi. nada disso teria acontecido. Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. tinham de aceitá-la. completou. Maurice.declarou Maurice com o peito estufado. perde apenas para Touleause. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco. . Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador.Entendo. Ao que Maurice.É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche. no lugar onde você o colocou.Obsessão em Paris Veronique Gris . como já dissemos a mademoiselle. . pelo contrário.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. – concluiu Maurice. . . -Para falar a verdade.É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor. Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. Não. monsieur sabe.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? . sozinhos. -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada. E sabia o motivo: inveja. . trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente. do homem que fazia as coisas acontecerem e eles. – replicou sem se alterar. os grandões da diretoria.Pega leve.Oui.Essa discussão é completamente fora de propósito. Jules assentiu levemente com a cabeça. ponderando. Você não facilita o nosso trabalho.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os.

exibindo metade dos seios siliconados. confuso.Obsessão em Paris Veronique Gris uma. Após a reunião. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca. está cansadinho? – antes que ele respondesse.Quero nomes.Todos. ao entrar no escritório deu de cara com a loira. . conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar. A noite recém começara. sempre pronta para atacar. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. ela sempre me atendeu prontamente.. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez. ela aguardava Jules na sala dele e. e. ah. Algo mais? . ligue para o meu celular. uma. apenas dois caíram na armadilha. De qualquer forma. . Havia duplo significado na frase? ... sem vergonha na cara.Anotou os nomes. . Marion. com os nervos em frangalhos. – disse quase sorrindo.Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. monsieur. Voltou-se para ele. prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência. mademoiselle? . na cadeira dele. Maurice. Nossos advogados também farão o sacrifício. agente fa-ci-li-ta-do-ra. Bonne nuit. irei para casa. capacho de Maurice.E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. na próxima. Caso queira me encontrar. monsieur. .Como vocês falaram mesmo?.Certo.Como? – Jules indagou-lhe. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina. como é mesmo?.. – falou Marion com franqueza. – disse Jules sem muito interesse. surpreendentemente. de pé e com as mãos sobre seus ombros. sempre impecavelmente vestida. mas uma dama. Vestida num terninho violeta. mas Amanda sentia-se exausta. Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura. mon chéri.Oui.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: .Assim que terminar umas coisas por aqui. atrás de si. Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos.Interessante. . Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: . virou-se para Amanda e falou sério: . . que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa.Fale por você. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente. Não sejam tímidos e levante a mão quem não.Jules. De repente. Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores. Céus. teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto. Em seguida. . . estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente. Era uma dama. . – indagou estreitando os olhos sagazes. – disse impassível. Entretanto. que vitalidade tinha aquela mulher. emendou: .Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa.A reunião foi um desastre e está encerrada. 68 . Sempre sorridente.

Amanda. ainda por cima. Se já eram amantes ou foram amantes. A situação começava a ficar constrangedora. –Além do mais. o documentário. era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. . vadia.Não tem que ir embora. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos. Qualquer mulher sensata. Não conseguia mais se controlar. o deixava com uma.Obsessão em Paris Veronique Gris .Que cruz? – indagou Jules sem entender. -Todo mundo sabe que sou casado.. Que tal? Chega de trabalhar. voltava para casa sem Jules e. .Eu entendo. – respondeu sem fitá-la. e tampouco sozinha. Pedimos comida e relaxamos. Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações. 69 . mon chéri. E. que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . Jules. . -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê. Guardou o papel na bolsa. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. Geneviève fitou-a desconfiada. que veio prontamente. . Impossível. Não. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa.Não. . . Geneviève já a olhava de forma estranha. quase gritou. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem.Por que não assiste com eles. agora. – François gosta muito de você.. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio. Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. Odiava a vaca. Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. – disse ainda sério. sozinha. -Vou ficar também. . – teimou. ignoroulhe o comentário.Vem comigo. vagabunda!.A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche. . endereçou um olhar feroz a ela. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. mademoiselle Rossi. O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. devo avisar Sonia que não jantaremos lá. sabia? – viu-se falando tal asneira. vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta. cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora. porém.Nosso jantar com os Roche. no seu lugar. por outro lado.Bonne nuit. Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. Jules. entre no seu carrinho e vá para sua casa. havia certo divertimento nos seus olhos. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela.Vamos para minha casa. Além do mais. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules. porém. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle. mademoiselle.. então. mas como era uma dama educada e polida. agora. -Preciso trabalhar. pegue seu casaco.Pode ir. segundo Assíria. não vencia todas. – declarou sem se alterar. já lhe doía o estômago. odiava! .Jules é casado. porém de cara amarrada. Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco. Sentia a garanta seca e falta de ar. –pediu ela. Antes. mademoiselle Rossi? . Ela não tinha motivos para continuar ali.. fosse qual fosse a situação.. praticamente se jogando para cima dele. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair. se a francesa havia passado uns dias no chalé. Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz. Por todos os deuses.. Pois é.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
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ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

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de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

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–Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável. pensou ela quase bufando. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira. gerara. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”.Bien.. antes que eu me esqueça. se risse. Jules não se abalava.. Geneviève jamais foi ao chalé comigo.Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado. No entanto. A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes. parira e criara. . mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava. seria um riso amargo. Ah. estreitando os olhos. raiva de Jules.Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou. Preferiu manter-se calada. Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: . Em seguida. Ela sabe sobre sua existência. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes. Jules? – insistiu. ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. de Geneviève e de si mesma. As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras. Inacreditável!.. ... a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e.Eventualmente. debochando. . besteira! – completou com ironia. –afirmou sem se alterar.Encontrávamo-nos eventualmente. contendo a raiva crescente. – disse pacientemente: . completou de forma casual: . não tem nada a ver com a nossa vida.Onde vocês se encontravam? 73 . a única.Non. . .Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. então. –declarou com raiva. . Era incrível.Isso não lhe diz respeito. Jules sorriu. eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento.O tal refúgio era para os encontros com ela. o queixo escorado no dorso da mão. permanecia sentado. a especial. como? – interrompeu-o com ferocidade. . pensou. E ela aceitou as regras pacificamente. Ignorando a pergunta. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite.. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe. certo.Não éramos amantes.Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. Essa sua calma irritava-a e muito.. -Você é amante dela. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá. Aliás. os maxilares trincados. o diabinho que a concebera. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa. com um nó na garganta. . espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse. Amanda.Oui. as normais. era tão antiquada. porque é prima do exproprietário. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra.. parecessem sempre histéricas. Por um momento. – Está tudo explicado? . observando-a impassível.

Escrito em português parecia mais significativo ainda. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite. parado. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista.Obsessão em Paris Veronique Gris . Quantos encontros. sabe sobre nós. –respondeu sem hesitar. eu ou você? . estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. – Que tal? Quem é mais promíscuo.. enfraquecida. É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual.. . agora. -Um homem tem suas necessidades. correu até o quarto. os maxilares contraídos. mas. – justificou-se chateada consigo mesma. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. -Você é o que você sente.Não sou casada. Ele tencionava vestir-se e partir... pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais. completou: . mas algo em sua postura. Só procure sentir certo.. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar. -Interessante. . após um longo silêncio. mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos. que a olhava com seriedade. –fulminou-a duramente. insegura. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar. devagar. O melhor a fazer era deixá-lo partir. Suspirou resignado. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português.Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra. -Não gosto de mim assim. e não vejo mal algum.. abriu a bolsa. Sempre haveria Jacques. tocando-lhe o queixo. – em seguida.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne. Eu não sou assim. medrosa e insuportável. Cogitara inclusive matricular-se num curso de português. por fim. ma chérie. Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda. -Oui. – comentou com maldade. deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa. Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua..Na casa dela.Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. À época. sem a mínima curiosidade. – falou..sexuais? – elevou a voz. Ele tinha razão. pardon. – disse secamente. de frente para ela. – concluiu em tom de censura. Obviamente. . doente de ciúme. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. Amanda tivera que fazer o cancelamento. Ela. paranoica.. Olhou ao redor. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos.suspirou profundamente. – disse com desprezo. Rochelle e agora Geneviève entre ambos. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 . à espera. Preferia a época em que aquele homem à sua frente. -Quantas vezes.Essa é fácil responder..

Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço. A pele vibrava e arrepiava-se. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . trêmula. Logo. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. com a mesma presteza e insistência sensual. devagar. soltou-os todos. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. envolvente.Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. pulsava um coração de carne.Você realmente aprecia a cultura brasileira. mas parou antes de tocá-la. e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo. Num dado instante. em seguida. por cima do pijama. molhando-o com a saliva morna. encharcado do seu sumo. –olhou-a com desejo. emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: . encaminhandose para o quarto.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira. Queria-o entrando nela. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . acolhedor. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. automaticamente erguia o quadril do colchão. na volta suave. O clitóris pulsava quente. e olhou-a com a sobrancelha alçada. A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 . fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata. Amanda arquejava. duro feito pedra. que foram explorados pelos dele. chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. objetivamente.Bien. num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para. Desceu para a parte inferior do seio. ao mesmo tempo. lentamente. com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. como boa parte dos franceses o possuía.Estou viciado em você. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. terno e sensual. Agressivamente másculo e. ele frisara. Amanda sussurrou-lhe o nome. Abriu-lhe a camisa e. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. Entre suas pernas. antecipando o próximo gesto. ainda impregnado nela. depois. – afirmou sem se alterar. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: . . beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. Tocou-a entre as pernas.. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. louco de desejo. Desejava-o com brutalidade. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela. deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. a língua brincando com ele.. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. Tocou no tecido de algodão do forro. bagunçando-lhe o cabelo. enquanto abria os botões da camisa do pijama. Falou sem sorrir.Como um dedicado cão de guarda. – comentou balançando o cartão como se fosse um leque. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. –sorrindo maliciosamente. No caminho.

– ronronou. e na sua voz traduzia-se desespero sexual. em estocadas fundas e fortes. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade. . . as têmporas latejando. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. que explodia em mil fogos. era o seu terreno. enterrou-se dentro dela. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. puxando-lhe o queixo para si.. o rosto todo brilhando numa camada fina de suor. enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais. -Oui. delirava a sua mente ciumenta. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda.. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. o pau.. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério. e. no lóbulo da orelha. irresistivelmente cheirosa. não era mais ela que o tocava. no alto da montanha ígnea. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos. Antes que ela gozasse.. num minuto. ele era lindo gozando... completamente entregue a ele. pau duro e pronto para agir.. recebia Jules. Ele fitou-a com um sorriso de aprovação. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. – Está encharcada. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules. era bom em tudo o que fazia. expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico. todo ele. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas. Ouviu-lhe gemer. as mãos.. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. golpeada pelas estocadas firmes. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado.Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm. Louca de prazer. friccionando-o. Ela o abraçou para fundir-se nele. rouco. -Deixe-me vê-la gozar. você é uma fêmea insaciável.olha para mim. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas. sempre racional. Constatou com apenas um leve toque na calça social. Deus!. fundo. – pediu com a voz muito baixa. suando por cada poro. – gemeu. 76 ..Abra as pernas para mim. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. era um macho alfa entre as suas pernas. com os joelhos fincados no colchão. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la. enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela.Misteriosamente.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria. torturando-o. – Seria capaz de literalmente comê-lo. com fome. monsieur.. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la.E era a loira quem gritava. trincava maxilares. – Jules pediu. lindo enfiado nela. mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. arreganhava as coxas..em Geneviève.. sempre analítico. os fios de cabelo grudados na testa. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. a boca... mon amour. via. estava no seu limite. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta.quero ver seu rosto. estrategicamente parou. Perdeu-se no devaneio. – Como pode ser tão linda. non? –disse. agora.. Ele não gozaria antes dela. Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento. Num movimento ágil. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas... aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se. – gemeu respirando forte. arfando. Levantou os braços para trás na cama. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação.

levante-se e vamos comer.Vamos. com violência.. só penso que um dia terei de ser pai. Com a expressão impassível. com dedicação. excitava-a por demais. Jules riu. – antes de sair. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. Agora. o que foi? -Não pare. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. encaixado nela. pouco me importo se engravidá-la. balançando-a com displicência. avaliando a situação. virou- 77 . De minha parte. . tentando fugir daqueles olhos inquisidores. – afirmou jovialmente. continue. -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada. Ao passo que. arrancando um gemido de dor de Amanda. a cabeça virada para outro lado. Com Geneviève eu usava preservativo e com você. Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras.Uma precaução anticonceptiva. ma belle. porque gosto muito de foder. Deitou-se totalmente sobre ela. non. continuou no mesmo tom: . fingindo não entender o tom raivoso dela. após três ou quatro arremetidas selvagens. e já buscando as demais peças de roupa. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme. a fim de evitar o olhar hostil dela e. abraçava. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. de reprodução. Amanda. e era beijado por ela. tocado.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. -Termine o que começou! . você é muito boa e a cada dia está se superando. talvez fosse o único vinculo entre eles. -Não gozou porque não quis. – disse baixo num tom ríspido. -Abra os olhos. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão. Jules ignorou-a e. hoje é um dia normal de trabalho. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca. que colada ao seu quadril. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a. gozou estremecendo o corpo.gritou exasperada. empurrou até o fundo o pau dentro dela. o sexo. sinto-me muito bem. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. –mandou. Amanda. -Está distante. no seu caso. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. pelo visto. -O seu objeto sexual não foi saciado. -Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol. Amanda sentiu uma dor aguda. com velada dedicação. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. então que fizesse o serviço completo. Se ela só lhe servia como objeto sexual e. com a gravata na ponta do dedo. irônico. Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. Mas não naquele momento. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. de costas para ela. Jules parou por um momento.. tenho quase 40. muito ciúme.

Realistas.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor. . Amanda degustava seu primeiro café do dia. Que mistério. Agora. Jules estava estranhamente bem humorado. charmoso e gentil. mademoiselle. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. fitando a calça do pijama arriada até os joelhos. O conhecimento que tinha a respeito de queijos.Quero dormir todas as noites com você.Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . com características diferentes.Não seja boba. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se. Um conhecimento empírico. – tentou argumentar. Nós dois não queremos que isso aconteça. mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: . provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. Amanda.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. Mas não Jules Brienne.Você precisa ser apresentada aos queijos franceses. não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico. . Podemos. –completou com um sorriso ambíguo. Rossi. . da Rue Cler. – disse com um sorriso leve.Temos de resolver a sua questão de moradia. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:. Amanda. . Dizem que os parisienses são os melhores. consistências diferentes. sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais. o seu melhor amigo. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:. eu diria. Cada região produz o seu. – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca. sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. Admirava a voracidade do apetite de Jules.E com os homens. . Jules. nos vermos algumas noites por semana. pensou. também quero cuidar de você e até onde sei. – reclamou e seguiu sem se alterar. . Precisamos encurtar distâncias. . No Le Petit Cler. Se gostou do Brie de Melun prove esse então. eu já teria me consumido de estresse. vento rascante e neve fraca. É o que tem a fazer. É cansativo para nós dois. Como era possível isso? Normalmente. se vista e me siga.comprar queijos. ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim. . Jules.Estou falando sério. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. É diferente. não farei mais sexo com você. -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. porém incisiva.Eu sei. Quem brincava com fogo acabava se queimando.Não estamos juntos de fato. então. vinho e baguetes. . – declarou com um sorriso. Esta rua tem os melhores queijos do mundo. os homens surtavam com mulheres ciumentas. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez. A manhã avançava. agora. o semblante circunspecto e concentrado nela: . ele apreciava tal arriscado tempero. mulher. Que homem. e não dar 78 . -Entendo. a bem da verdade.sorriu misteriosamente: . não tem amigos. Não havia mais vestígio algum da discussão anterior. non? Livre-se dessa expressão de ofendida.Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. Sou seu amigo. -Temos de fazer o programa típico francês. e sim trabalhando.Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis.

– disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. ainda por cima. .Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão.Que por sinal é minúsculo. nada mais.Controle-se. -Não. -Tem razão. ligeiramente exasperado. mas foi pega pelo pulso. -Para mim.É uma solução prática.. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós.Não dificulte as coisas. e eu me sinto muito mal morando lá. – constatou secamente. úmido.. Jules. só estou expondo a minha opinião e. .. o imóvel. E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento. – espicaçou-o sem elevar a voz. -Fale por você. – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. .. não sou apenas a sua assistente.? Logo estaremos fartos um do outro. só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. em sua mesa. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe. -Está pondo-me contra a parede. mesmo que seja igual a da família Adams. acabou. é verdade. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa. –exasperou-se.E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos. eu gasto e você assina os cheques. – pediu com gentileza.Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama. nunca dá. oui? – disse fechando a cara: . não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle. merci. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos. Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. a decoração. se você quiser. . e sente-se.Morar com você? – interrompeu-o assustada. Amanda. Por isso. controlador e vai acabar me sufocando. . Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente. Eu não gosto disso – disse duramente. . -Sente-se. Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida. s'il vous plaît.. – falou firme. eu ainda não acabei. .Não vai dar certo. . Você escolhe tudo. observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas..O dinheiro é meu.Sente-se e me escute..Vida de puta de luxo. Jules. Você é dominador.. Non. Afinal. .. – disse calmamente. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo. . – Além do mais. . Jules. – ordenou baixinho..Sei das minhas obrigações. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle. Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu. – irritou-se.É muito cedo. É horrível aquele casarão. não precisa listá-las. Ameaçou afastar-se da mesa. 79 . . nesse momento. você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade. Isso jamais acontecerá. Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda. ...alçou a sobrancelha. Por que está fazendo essa cara? . Podíamos viver sob o mesmo teto. – respondeu devagar.. -Ela já está resolvida. distante da empresa e da minha casa e. – enfatizou nervosa. – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. e não numa espelunca três por quatro..Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. quero um lugar nosso.

sério. No meio disso tudo.concluiu com um trejeito nos lábios. O dia será longo. . sinceramente. – afirmou com segurança. Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda. Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. –Tenho que arranjar uma solução. vamos trabalhar. -Não quero ficar entre vocês dois. Pode soar como algo feminista. Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. os lábios contritos. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa. diárias. seis meses. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito. – encarou-a com firmeza. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque. digo por medo de me machucar. um lugar para morar e você.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . No início. no escritório. . – enfatizou.Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:.Caso as coisas se tornem complicadas. retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. Ela meneou a cabeça em negativo. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio. . vamos tentar do meu jeito por. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde.Devia provar o croissant daqui. mademoiselle. e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara.Proponho-lhe uma experiência. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher. -Sei o que faço. a amante de um homem que não falava em amor. . qualquer outra coisa está fora do meu alcance. Fez novamente um sinal ao garçom. discretamente.E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego. Jules abriu a carteira. Não tenho mais o que fazer por ela. pedindo-lhe a conta. –Agora. Observou Jules sorver o café sem açúcar. Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules. Virou-se para Amanda e completou calmamente: . Tudo de uma vez só.Veja bem. pelo menos. era o suficiente que se encontrassem 80 . E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa. Um pragmatismo de doer os ossos. que. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: .Se Rochelle sair do estado vegetativo. será recebida por uma excelente equipe médica. Perceba a situação em que você me coloca. Na primeira semana de procura. eu sei. tornara-se a sua amante. Uma sugestão aos roteiristas de cinema. que. tentamos do seu jeito. –declarou. ainda não entendi qual seja.

ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. monsieur. mesmo trabalhando juntos. um quadro. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. Os apartamentos não eram numerados como no Brasil. menos numeração. na cobertura do prédio. hipnotizada pelo ambiente. francês. Jules avisou-lhe que eram de plástico. dialogar profissionalmente com ele. enroscado pernas nas pernas. branco quase brilhava sobre o pescoço curto. de modo seco e brusco. Ambos tinham consciência de que. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. analisando e. o braço possessivo sobre a sua cintura.. sem janelas.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. Mas a situação tomou outro rumo. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si. falando. Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito. . O crânio redondo. Além de dois vasos com plantas verdes que. Na maior parte dos prédios. após Amanda aspirá-las com ar sonhador. decidindo. . no mesmo arrondissement. E vê-lo e falar com ele em sua sala. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala. O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO. Monsieur Ferrer era calvo. continham as caixas de correspondência de cada morador. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. ainda. sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. . – afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. Ao que Jules comentou de forma casual. observava cada detalhe do loft. em Montparnasse. – empolgou-se o corretor. um arquiteto daqui. A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias. acrescidas de um sorriso significativo. no elevador.. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. parada e estupefata. nos restaurantes ou na sala de reuniões. – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules. afirmando. Falava rápido. pequenos. Entraram por um corredor comprido cujas paredes. Amanda estranhara o fato logo que chegara. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França. . uma indicação peculiar. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. 81 . calçados num italiano com cadarços atados num lacinho. todas as manhãs. . no corredor. o registro dos diversos ocupantes do imóvel. com uma etiqueta com seus sobrenomes. dormir com ele.Pardon. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. um desenho. Na porta dos apartamentos. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. de uma calvície melancólica e lunar.O dono da ideia.Graças a Le Corbusier. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar.

ela pensou. . Como agradecer um presente como aquele? . admirando a sala dividida em três ambientes. Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. um balanço. denunciando a sua criança interior. quem gargalhou com jovialidade.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. .. Na verdade. que se restringiam a três palavras: Amanda. como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta. captando o grau de seu contentamento. . não naquele momento. não deles. ela teve certeza de que desejava morar ali. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. Em princípio. E foi exatamente neste momento. – previu. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista.U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. E ela desligava o celular.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente. Mas era o executivo workaholic que raramente sorria. prateleiras de madeira com mudas de temperos. e Amanda podia ler em sua mente: oui. sorrindo.. pensou. Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 . Quando chegaram ao terraço. ça va?. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. ela pulou no mesmo lugar.. No entanto. . oui. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes. tremendo. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível. o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas. que ela conseguiu pronunciar. apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles.Seremos felizes aqui. só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules.Merci Beaucoup. acenderam-se. Isso ela lembrava por dois motivos.. enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar. o primeiro deles referia-se aos telefonemas. fazendo careta. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta. constantes. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. criando uma atmosfera lúdica e romântica. – declarou-lhe em tom de brincadeira. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte. A pressa era do outro. Sem conter a alegria.Adorável! – murmurou quase batendo palmas. Com a maior naturalidade do mundo. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: . desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques.

Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. sorriso acolhedor. Gerard. por sua vez. qualquer museu). a beleza máscula da França. charmoso. deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar. altura mediana. Entretanto. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. distribuída em peças raras e móveis antigos. túnica e saia beges. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: . No dia seguinte. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. em Montparnasse.Imagino que estejam na biblioteca. Ela. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:. uma espécie de mentor da SBO. relacionava-se ao jantar. Apesar de solene. monsieur? . Na mão. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques. Jules jantara com o amigo de longa data. Ao passo que François. lado ao lado. Em seguida. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. numa das noites mais frias do ano. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. Havia nele algo de nostálgico.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. de forma genérica. Assim. sagacidade no olhar. Fumava demais. Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. -Oui. Era mais alta e mais magra que o marido. praticamente um irmão mais velho emprestado. Advogado por profissão e paixão. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. não combinavam. meu caro – respondeu jovialmente. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. monsieur. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. apostava todas as fichas no intelecto. Nariz fino. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. Juntos. Agora. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. na época. Óculos de armação moderna. Tinha para si que.Melhor impossível. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. naquele momento. preservando elementos herdados de gerações passadas. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. atarracado. Amanda recebeu um olhar significativo. Ele. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. atendera diversas vezes os telefonemas de François. ainda. Não usava joias. um cálice com vinho tinto. Morava com Jules.Já faz algum tempo que não nos visita. Crepitava lenha na lareira imponente. e era importante manter a estabilidade dos dias. baixa. ligeiramente arrebitado. que aparentava sessenta e poucos anos. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. Como está. e tampouco ostentava outro acessório. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. À porta. decorado de forma austera. cabelo claro cor de trigo. com os Roche. maior que muitas quitinetes de Paris.

para eles. -Na verdade. cada dia nos renovamos. – completou o próprio.Claro. François começara a SBO com Jules e.confirmou Sonia sem sorrir. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. Ao lado dele. todos o somos. ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite. com as pernas cruzadas displicentemente. . durante algum tempo. mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos. sinceramente.Veio chorar no seu ombro? –perguntou. -depois.Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros. A ideia é que preparando sua sobremesa predileta. Revestindo boa parte da alvenaria antiga. -Afirmou. sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento. -fez um muxoxo. : . O legítimo bonitinho mas ordinário. entregando-lhe um cálice de vinho. acomodou-se François e. tragou novamente o charuto e falou devagar:. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. debochando. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX. – disse François com seriedade. -Percebi a manobra tendenciosa.Por que não nos ajuda. foi a última. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa. sorrindo tranquilamente. figuras humanas ou monumentos históricos. sério. pensou Amanda. . a verdadeira arte. exibiam os cursos realizados pelos Roche e. mon cheri ami. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. . o executivo. Após os devidos cumprimentos e apresentações. voltando-se para Amanda. Jules. O homem está se sentindo um tanto incomodado. fiquei interessado em conhecê-la. . ressoou no ambiente. completou com delicadeza: .Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria. Depois. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. -Merci. dando importância ao fato.uma relíquia arrecadada num leilão. . mademoiselle Rossi. fora o vice-presidente. Amanda considerou.Claro.Sei que trabalha muito. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse.era duro e desconfortável. Na cadeira à sua frente. Mas não devia tê-lo o feito.-comentou sem jeito. ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. mas ele insinuou que você parece outro. – falou com ar de falsa inocência. . mudou de assunto e disse de forma afetada:. na sua figura alta e sóbria. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica. Amanda aproveitou para observar os quadros na parede. Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro . O mordomo. Sei que parece idiotice essa coisa de crise. . – enfatizou. conforme informação veiculada pelo próprio François . – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda..Mandou fazer o que pedi. ironicamente. monsieur Roche.A parte do programa que citava Jules foi a melhor.Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental. – comentou François. ele queria que eu o aconselhasse. Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 . encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”. arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa. mas.E sou.Touleause está preocupado. . diplomas enquadrados por molduras grossas.. venha nos visitar com mais frequência. não tinha paisagens. –agradeceu-lhe. Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. atravessou a sala. – declarou François entre uma tragada e outra do charuto.

não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. perolado. Amanda pôde comprovar. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. 85 . Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la.. Jules era casado com a “nossa” Rochelle e. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se. como todas as noites? Rossi. Mas não foi Raj quem apareceu à porta. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle.. os homens levantaram-se educadamente. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. . Quais critérios ele deve ter utilizado. Porém.. como empresa e não pessoas. resumindo. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha.Rossi. Sonia cantara a pedra. -Como vai. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia. e sim um vestido de seda. . curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève.. Automaticamente. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL... afetuoso. Afinal. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules. descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. enfatizou.. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules..? –interrompeu-se. Armada e decidida. Na vez de Jules. Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia. À sua presença. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou.ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem. confusa. sem sorrir. Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: . alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. cantava tangos. brilhante aluno da Sorbonne. mademoiselle.. nos últimos sete anos. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém.Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha. James Bond. Por que não se divertir. – comentou como quem não quer nada. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. na última seleção. nada melhor que sua cópia. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond. a “nossa” Geneviève. já que fora eu quem o convencera a ter uma. concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto. Amanda Rossi. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice. endereçou um olhar em direção a Jules. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. Sorrindo e completamente à vontade.. Uma mulher com uma missão. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto. pergunto-me. François cumprimentou-a com outro abraço. Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. Insistia. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa. caso ela tivesse de ser substituída. Mas queria. Amanda Rossi. outrossim. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas.

Foi então que começaram os primeiros tremores. a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. – falou Geneviève com entusiasmo. canela e uvas passas. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência. reuniões e horários restritos. Um interesse excessivo.na Índia. fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. de frente para Geneviève.Estudei na Suíça com ela. as pálpebras pesadas. emprestadas da Marie Claire francesa. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários. . Na verdade. enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. e a plateia composta por apenas um homem. Sombras no olhar sério e profundo. possuía ares de desconfiança. Após exclamações discretas de satisfação. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. não sentia mais nem lábios nem língua. agendas. mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. Vez por outra. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. Atrizes no palco.. .Oh. Numa tigela de cerâmica. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. emergindo de dentro das veias. que sorte. chamava-se Moglai Biriani . Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. agora. dos alimentos transgênicos. Seria tão bonito! -Très bien. com louro. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. comprada na China. Dois mundos e o vácuo. Exótico. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. Sonia. Seria ótimo tê-la conosco. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. Do outro lado da mesa. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente. Fran! Amèlie é sensacional. por nada em especial. saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau. Algo o incomodava. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules. Após quatro cálices de vinho. Ao seu lado.. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . o seu trabalho como psicóloga é fantástico. segundo informação importantíssima de François. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida. non. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro. os babuínos que atacaram um vilarejo. 86 . que antes tendia ao enfado. E ela sentia-se perdida e deslocada. a decadência do Botox. sabia? – informou François com um sorriso. sozinha. lembrando pimenta e nozes. concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito. Amanda observou. Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. Raj retornou à cozinha. quente e adocicado. erguendo-se da tumba. o delas. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio.no garfo e levava-os à boca. a iguaria indiana. E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. Meio eufóricas e um tanto sôfregas. agora. Um cheiro fantástico.Como lhe falei aquele dia. .

Tínhamos uma secretária. talvez não mais as que agridem no momento. Fora politicamente incorreta. Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e. A moça mexeu-se na cadeira. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores. Jules. . mas. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. talvez. parecia não lhe notar a presença. agora..Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. porém.. em seguida. como. -É verdade. aquele que se faz sem saber o porquê.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura. o do tipo simulado. incomodada pela indagação rascante do homem que. –retrucou Geneviève que. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro. –comentou Sonia saboreando o creme de manga. sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. mon ami. eles tornarão a agredir as mulheres.Sua ajuda também seria fantástica.Obsessão em Paris Veronique Gris . Esqueceu-se? – tentou sorrir. apesar de estar sentado ao seu lado. voltou-se para Amanda com vivacidade: . Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si.Todos no centro social trabalham. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. adiante. eles têm de procurar ajuda noutro lugar. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: . solícito. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem.Oui. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO. Geneviève encarou-a com ferocidade. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto.Falo trabalho de verdade. na prisão. . além de protecionista. Jules? . Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e. mas ela está em licença maternidade. poderia pô-los em ordem.Na galeria do meu pai. me parece que se não são tratados os problemas dos homens.Tem de ser mulher? –indagou François. cortando a carne no próprio prato. Sonia interveio em favor da amiga. -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. . encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo. sejam psicológicos ou econômicos. sem olhá-la. Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . Geneviève. subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas. de preferência. Foi como um raio que partiu a mesa em dois. machista.Existe trabalho de mentira. -Nossa função é somente para com a mulher.Eu trabalho. . olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: . – declarou quase que didaticamente. François riu.Claro que não. jurídico. O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras. . rebateu num tom acusatório: . por exemplo. Caso queira auxiliar-nos.

Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima. ah. essa palhaçada. mortas! – quase gritou. .acrescentou Sonia protegendo a amiga: . algumas de nós sofrem.Frutos de famílias disfuncionais. Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa. Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas.São simples e verdadeiras. Amanda.Retrocesso. Ele a fitava com seriedade. ainda somos um pouco machistas. só acredito que existam mais vítimas nesta história. -Esse assunto mexe muito com Geneviève. mas sabia que seria confrontada. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. As palavras saíam-lhe com dificuldade. Amanda sentia um mal-estar danado. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. humilhadas.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . Contudo. o equilíbrio. não. Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair. – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. Sonia. -Geneviève tem razão. Vamos para casa. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma. Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. -Não sou machista. As coisas não são simples assim. Estava prestes a explodir. naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos. ela sentia-se mal e acuada. . Queria mesmo era sumir. assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores. os lábios apertados marcando os maxilares. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. Ali. – acusou Geneviève quase possessa. Estava sem munição e longe de casa. . esse jantar. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. o centro. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la.Que noite improdutiva. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. . Ei. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. François. Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto.E com razão. Inconscientemente. Amanda. à mesa. -Isso. assassinos de mulheres e crianças. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. talvez. lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto. ela mesma tinha sido vítima de um agressor. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. –disse Sonia. isso é que elas significam: retrocesso. são mutiladas. – tentou ponderar.Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo. François foi pego de surpresa e também se levantou. melhorarão a sociedade. ao sair de casa. –completou François. . Fran. ela observou. – ordenou. porque. jamais imaginara que entraria numa arena. Porque o seu mundo não era aquele. -O que foi? O executivo contornou a mesa. Não havia nada de machista na sua ideia.

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- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

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alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
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-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

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aquilo que me propôs no Café. As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo. diminuindo o volume da televisão através do controle. . O que mais a preocupa. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. -Claro.. mínimos. – disse emburrada. não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia.. E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela. -Se é um jogo.Caso não dê certo entre nós. Minha opinião nem foi cogitada. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. Ela tentou levantar-se do sofá. braços que a esmagavam contra o sofá.era um acordo. inundando a sala de uma tênue claridade. -Vai pro diabo.. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. você deve ter outro plano guardado na manga. – É interessante para mim que você saiba? – brincou. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto.. -Se for interessante apenas para mim.. virando o rosto para encontrar o dele. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si. Este apartamento é seu. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas.Não costumo dividir decisões. – afirmou convicto. . -Queria saber uma coisa.. Viviam juntos. tornando-a uma coadjuvante no relacionamento. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. Agora. indagando com olhos sérios e perscrutativos: .. –disse-lhe num tom sério.E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro. não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois.além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. E todas elas foram decididas somente por ele. você sabe. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. – disse sem rodeios. -Você é movido por combinações e acordos. – pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si. Quanto ao emprego. então? – indagou desconfiada. sempre foi assim. -Então facilitarei para você a situação. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou.Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas. os seis meses de teste. já que não é da minha natureza cometer injustiças. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules. –reclamou irritada.. .. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização.. -murmurou. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado... – começou. não? – refletiu em voz alta. -Ah. -Humm. – murmurou sem desviar-lhe o olhar. -Todos nós temos os nossos coringas.você e sua prepotência. você fala? – retribuiu a brincadeira. -Sempre que posso. 92 . porque me sinto em desvantagem. -Foi uma sugestão apenas. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura. Moravam juntos.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. – comentou no mesmo tom.

. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. da rudeza sofisticada de sua espécie. em seguida. após passar a noite acordado. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. uma tortura que impingia a si mesma por prazer. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte. Deslizou a língua para o queixo másculo. Ele levantou-se do sofá.já saberia de antemão a resposta. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. – sussurrou resignada. sim. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. assim. na cama. sentindo a aspereza dos pontos da barba. -Que seja. Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos. aceitando-lhe a mão. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. Com a ponta da língua. Dava a noite e a conversa por encerradas.. A neve encobria o telhado de vidro. Não.Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas. quando automóveis. beijou-lhe levemente na boca. Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. Uma mulher das cavernas. ele sucumbira a um sono profundo. mal lhe tocando a pele. delicadamente. obstruindo a passagem da claridade do dia. Mordeu-lhe o lábio inferior. Importa-me saber é porque estamos juntos. -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. sem tocá-lo. então não sabia nada sobre ela. ela pensou. Estava quentinha debaixo do edredom. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. Um braço masculino ao redor de sua cintura. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. eram sete horas. da nossa relação. Ficou por sobre ele. ela constatou todas as vezes que o fez. prazer de desejar e prolongar o desejo. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. Encarou-a intrigado. Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta. Mas não lhe bastou. Afastou-se o suficiente para constatar que. Sentou-se com as pernas abertas. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. E os seus sonhos idiotas de amor. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão.. ali. do sexo oposto. desejando ainda mais. mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. E ela. E se devesse. Esfregou os olhos e bocejou. O despertador tocou. um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. Simples. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior. desenhou o contorno do seu lábio inferior.. Amanda pensou. Num impulso. talvez a predadora da tribo. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . não era nada simples. com um homem lindo e dormindo inocentemente. Poderia fazer o que quisesse. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça.

Ela parou. ao longo de toda a extensão do seu peito. penetrou-a fundo. Nesse instante. Ele esquadrinhou-lhe a face e. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. intrigada. Sentia-se poderosa. seduzido de forma passiva. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se.. observando a expressão do rosto dele. baixou um pouco o cós da calça. no entanto. como um guepardo divertindo-se com a presa. a outra. como se estivesse sonhando ou. livre. Como ela não era uma mulher má. Estendendo a mão para trás. Ali. De repente. até vê-la entreabrir os lábios e gritar.. agora. abriu os olhos. como era bom ser uma fêmea alfa.. ela segurou-o com força. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. o nariz enfiado em seu cabelo. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando. dona da situação. provocava e simulava desinteresse. agora. -Agora. acima da cabeça e. agarrou-a. Voltou à carga. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. desceu para entre as pernas dela e. Deliciou-se com a ideia. sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. a boca contra a nuca de Amanda. – disse-lhe simulando seriedade. habilmente. E parou. e ele gemeu. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. devagar. pegou o pênis e penetrou-a com força. conteve a risada. pensou com luxúria. Num gesto rápido e inesperado. Jules mexeu-se. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo.sem deixar de observar suas reações. teve as pernas presas entre as dele e os braços. inclinou-se sobre o seu tórax. Surpresa. Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. ao seu lado. pelo corpo inteiro de Jules. divertida. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. E ela. num vaivém lânguido. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. mantendo o ar nos pulmões. no próprio sono. havia uma barreira e tanto. abraçando-a com violência. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. com estocadas profundas e rápidas. com a outra. mexendo apenas o quadril. dominados por uma de suas mãos. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. ainda sentia a força dele dentro de si. sentisse a pressão. voltava ao comando. Humm. amenizou a força de sua mão e . com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. Jules virou-a de costas. Antes que ela se recompusesse. seguidas vezes. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. Em seguida. 94 . Mais uma vez. terei de puni-la severamente.. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. ele a derrubou contra a cama. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. cedeu a pressão sobre ela que . assim. Poderiam. Ela tentou mexerse. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. Alguns minutos depois. era pressionada contra o colchão.percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. Com apenas uma mão. após uma rápida avaliação. ele brincava. contraiu-se. ergueulhe a coxa e a penetrou novamente. quase imóvel. mentalmente. virou a cabeça para outro lado. Uma legitima fêmea alfa. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios.

A pele avermelhada. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. em movimentos circulares. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas. olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. Gemidos roucos. – provocou-a. inundando de magma. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. jorrava-se de dentro dela. numa atitude de quem diz: viu. 95 . sem salto. Na sala. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. uma mesa de madeira rústica. Ele sabia reconhecer essa expressão. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. pela garganta. Por mais que tentasse falar. sou eu quem manda aqui. enquanto fitava-a deitada e exausta. Jules abandonou-a sozinha na cama. Gritou. desconfiado. por exemplo. Jules. Ele riu com vontade. E ele tocou-a ainda mais. uma energia. essa. com dedicação. O cabelo molhado e os músculos tremendo. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. Relaxado. E entre em contato com monsieur Koskinen. estava sempre faminto. já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. cáustica e aniquiladora. apesar de magro. a de Jules. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. debaixo do mezanino. novo em folha. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda. e. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. mas plenamente satisfeita. matá-la devagar. O coração acelerado. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades. friccionando-o. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. pelos poros. sol escaldante. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo. Ele tencionava. Optou por uma botinha de couro. Despiu-se totalmente no quarto. cheiroso e saudável. detendo-se nos seios. Respiração resfolegante. mais do que isso. masturbando-a com a língua. é bom. por um breve período. plena. a respiração descontrolada.Obsessão em Paris Veronique Gris . de onde provinha? Escolheu um vestido justo. os bicos lambidos. houve uma mudança nos planos. ela compreendeu. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. ele sabia como deixá-la com essa expressão. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. pelo sexo. lia calmamente o jornal. por certo. Se era o corpo que fazia amor. deixando as roupas pelo chão. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. de lã. Limpo. que foram apalpados e esmagados. Ela só pôde assentir levemente. chupando-o. brincando com o clitóris. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. Mas a natural. levantando-se depois de fazê-la gozar.É bom... -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. Morreu e voltou. – o poder. chumbo derretido. verde claro e de mangas compridas.

. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou. geleias. – disse e. vê se come alguma coisa. voltando a ler o jornal. croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes.Se você estivesse gorda e eu concordasse.Não disse isso. Ao fechar a porta do automóvel. caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório. a lavagem de seu automóvel. – afirmou incisiva. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas. das anotações nas reuniões. das. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas. – constatou com menosprezo. da compra de seus sapatos italianos. – Sinceridade é algo legal. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa. agora. 96 . para variar.. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. sabia? –alfinetou-o. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . -Certo. antes que ela reclamasse. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. estou quase vendo suas costelas. cismada.. .Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada. Ligue para Dorian.. -listou exasperando-se. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. Sentou-se na cadeira em frente a Jules. ordenou: . -Se fui demitida. pertencem a Dorian e Assíria. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. sério. o outro não ficaria à mercê dos táxis. -Cuido sozinho disso tudo. Sim. Ela sorriu e acionou o alarme.. queijos. -Non. Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. pensativa. monsieur Brienne. -Sei o que tenho de fazer. o Citroën estacionou ao lado. pois.. – afirmou.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei.em seguida. – Se é que ouviu alguma coisa. mademoiselle. umas vinte manobras perigosas. Aguardou Jules em frente ao elevador. fitou os pães. – defendeu-se. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. Repassarei suas antigas funções às secretárias. Agora. Rossi. -Já lhe disse em casa. então. O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. pelo menos. estava tudo antecipadamente decidido. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil. é diplomático demais. -Você jamais diria que estou gorda. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. – determinou. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade.

Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. Assim. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. À época. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. No início do ano. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. essa verdade era inegável. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. Ao vê-la fechando a porta. produzido na fábrica de Lyon. No entanto. E agora. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. Cinco anos de intenso treinamento. chefes de departamento. pedaços de conversas. em seguida. Se estava preparada?. lidando com diretores. Conhecia todos os meandros administrativos. 97 . -É. Mesmo por que Paris não era a SBO. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. Sim. de uma forma tão charmosa. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. as emergenciais. concatenando todos os setores organizacionais. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. Assíria olhava de uma para outra. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível. Mas. procurando por respostas no carpete. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. – retorquiu sem rodeios.Eu? – indagou-lhe confusa. tendo sido demitida no café da manhã. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. Antes de segui-lo. Fechou a porta atrás de si. Voltou-se para Dorian. estava. monsieur. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. desde quando vivia em Porto Alegre. evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. Aprendia-se muito com os workaholics.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. interessava-se particularmente pela área de produção. assistentes. -Certo. decididas em cima da hora pela presidência. Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. secretárias e o pessoal terceirizado. a que dividia o seu escritório do de Jules. como um quebra-cabeça. Saíram do elevador. . ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. franziu o cenho. Entretanto. você. Após retirar o paletó. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. Algumas peças se juntavam. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. e pediu que a acompanhasse até a sua sala. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. quero dizer. agora. foi até a outra porta.

-Você é cega? –desferiu-lhe.. –lamentavase Dorian..Monsieur Brienne é paciente. E sem razão. – alertou-a. –brincou... -E quem ficará no seu lugar? Ai. me põe no olho da rua. viajando. você passou dos limites. non.. Se ele gostasse mesmo de você.. literalmente. oui. o cargo foi extinto. -Não se preocupe. ele não é o poderoso chefão. –afirmou sem poupá-la. semana passada. pensou. Amanda não pôde evitar a risada. já sei. –Que aconteceu? Oh. Mas você é ceguinha mesmo. -Será mesmo? Olha só. Monsieur Brienne cresceu.As brigas. -Que droga! Isso é tão estranho. fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho. non. -Dorian. diante da vista panorâmica de Paris. merdè!. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou.. não é mesmo? – alfinetou-a. fica mais perto do refeitório. agora. –Aprenda conosco. –afirmou sorrindo sem jeito. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa. ele me ama. Amanda sentiu o sangue subir à face. -Oui... É. indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação.-olhou para os lados à procura de terra firme. claro. – disse tentando sorrir. chèri. Dorian.Fui demitida. –comentou com ironia. que.. como sempre o fizeram. agora. –Pelo menos. a reunião.Além disso. nervosamente. – Acho que irá transferir-me para alguma chefia. Ou pior. -Não. mostrava você. Depois lhe disse num fôlego só: ... um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas... uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. sei lá.Obsessão em Paris Veronique Gris outras. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim. muito mais juntos. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos. insubordinação. daria um jeito para ficarem pertinho. – tentou apaziguá-la. Enquanto organizava a sala.. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você. Amanda. mostrando a língua para Amanda. –Mas. interveio: -E. por sinal. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e. 98 . Dorian empalideceu. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo. Comentou com naturalidade: -Bem. -Quantas forem necessárias. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira. non? Virada para a janela..

é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele. impaciente. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. Com a caneta. Será que ele não havia percebido o deslize?. estou noutra. -Quê dizer?. –interrompeu com malícia. pensou. – afirmou secamente. -No computador. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas. nos arquivos do computador. nervosa.. –deu de ombros. da última vez. -Misturou. O decorador passou a madrugada trabalhando.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah. –soltou essa e teve vontade de sumir. é.. –constatou sorrindo. se ele for o Jacques. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. não. circulava alguns números do mês anterior. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. o que haviam deixado para trás. Os dois combinavam e. -Você gosta mesmo de artistas. à porta. você está gorda. somente meus inimigos me chamam de Amanda.. que já estava com a mão na maçaneta. Jules. hã. -Apanhará feio de Filipe. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. voltou-se. monsieur. -Amanda. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. -Não estou para brincadeiras. –respondeu sem pensar. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha.. haviam tido um breve e intenso romance. Que adianta saber? Pouco me importa. –murmurou.. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta.. -Monsieur Brienne.. incompleto. -Bom. então.. no máximo. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. -Pardon? – alçou a sobrancelha. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe. Amanda nem precisava fitá-la. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração. Dorian. -Agora. Dorian. -Cuidado. Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia.pois é. –reagiu. ignorando a outra. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. Depois. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário. -Tem inimigos. –Jules fitou-a. aturdido. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. Retomavam. visivelmente encafifada. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui. tudo. -Oui. 99 . estavam juntos.-gaguejou. logo que a secretária fora contratada. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou.

não participavam das reuniões com Jules e Touleause e.Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu.. Porque ela estava mais gorda. Antes que Jules iniciasse a reunião. Outro padrão. o seu domínio.. trocavam informações que registravam. Não queria por agora. batendo a porta atrás de si. ele só falou isso porque. o chefe. -Ei. -Não. –Isso não é certo. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas. -concluiu afoitamente. Três gerentes eram mulheres. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador. com isso. Ternos discretos e aprumados. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada. -E ele a demitiu.. Porque nem sempre usavam preservativos. um padrão.. Jules. uma cadeira vazia. nos respectivos notebooks. perdida. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. o presidente. constatou Amanda. Não estava preparada para ser mãe. em seguida.-antes de fechar a porta atrás de si. ele é terrível!. hein. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. se está tudo certo. porque. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres. relaxados. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro.. não faz esta carinha. coitada. caso olhasse à sua esquerda.. promovido a diretor. ao lado do presidente. na direita.ele. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. Marion e Jordan. normalmente. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém. porque engravidou. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. principalmente os gerentes. – debochou. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. duas solteiras. isso eu trouxe de casa! –provocou-a. esquentaram. A atmosfera estava mais leve e agradável. Amanda verificou. –Bom.. que mal conseguia respirar: -Uau. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. que. cabelos domesticados e unhas curtíssimas. Dorian. enfim. Duas mulheres eram diretoras. estou com pena de você.Epa!. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses. havia cinco anos. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual. não... – disse sentindo-se vencida. -Ah.. -Tudo bem. –olhou ao redor.. portanto. -Não estou grávida. Na extremidade esquerda. estamos juntos.. 100 . Era fundamental que lhe desse toda atenção.. Dorian. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. Conhecia. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos). as duas solteiras. pois. mas não gorda! Gorda é a Assíria. vocês.. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias.

para isso. de certa forma. Quem se rebelava. o semblante sério transmitia confiança. A primeira parte da reunião acabara. que. o homem. continuou. ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . apenas há quase quatro meses. os executivos riram. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção. Uma personalidade complexa. A voz. apenas para Amanda: . dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e.. de baixo para cima. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. ainda mais no campo da informática. na administração moderna. umas sobre as outras. ainda não terminei.Sente-se. brincou Jules sem sorrir. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. devagar. Um efeito dominó. Manipulado. Tornou a sentar-se. Inclinou-se ligeiramente para frente. em nossa empresa. com medo de fracassar ou medo de vencer. o melhor time e. -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. Ao levantar-se para seguir o protocolo. modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. Temos. na SBO francesa. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado. Novamente. – declarou impassível. –baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista. a máxima que diz que time bom não se mexe. seduzido.após as risadas. Jules era um só. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. fazia. Ainda sentado e organizando suas folhas. Controlador. mantida num tom brando e grave. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. entregar-se e se deixar envolver por ele. não era esmagado e sim convencido. Jules. Em vinte minutos. Eram iguais. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. O que queria. sério. centralizador. Fitou-o intrigada e constrangida. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação. diretores seriam transferidos para outros países. Rapidamente. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que. messieurs e mesdames. em seguida. seriam preenchidas pelos gerentes. justamente por isso. o que lhe parecia óbvio. A lealdade a Jules era recompensada. agora. ainda mais satisfeitos. solene: -Bien..Touleause não está mais entre nós. ainda mais desapontados. e as vagas abertas por tais diretores. agora. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. Expunha o discurso fitando cada um presente.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. Entretanto.. haverá sim mudanças. Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo.. soa como uma falácia. 101 . a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos. autoconfiante e dominador. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e.. Era fácil e era bom. Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito. mademoiselle. analisando o tom sério na voz do presidente. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha.

quase outra encarnação. Não conseguindo resolver a equação. impactadas diante de uma afirmação sem sentido. que lhe desejou felicidades. no aeroporto Salgado Filho. Anunciou séria: -Vou buscar o café. ponderava Amanda. e a lâmpada explodiu.. Ergueu-se. como se os dias rastejassem-se desde a alvorada. para tanto era preciso destruir a antiga.. Planos ambiciosos. teve uma vida pacata e lenta. os discos do Queen. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio. Pessoas que calculavam e analisavam. como se matutasse alguma coisa. uma lâmpada ligou. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores. nomeava-a vice-presidente. com curiosidade. O sangue correndo forte nas têmporas. Em Paris... uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França. Naquele dia. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. pessoa de estrita confiança sua. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem. – falou diretamente. Dentro da cabeça de Amanda. Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado. inteligente e siga a minha visão empresarial. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias.. Voltara do jantar em silêncio. A transferência de Rochelle para uma clínica. mas. cinco anos depois. Era uma outra vida. E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause.. ligou uma coisa a outra. Um minuto de silêncio. permaneceu imóvel. vivia intensa e profundamente. Anos atrás. sendo substituído por mademoiselle Rossi. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. Antes de encerrar a reunião.. Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia. agora.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. sempre com um cigarro apagado entre os lábios... Até os seus 23 anos. Entretanto. Jordan. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e. Era aceita por aquele time. sentava-se na poltrona diante do homem que. bateu palmas. vendera sua alma no mercado de pulgas. Em pouco mais de dois meses. seguido pelos demais na sala. haviam provocado a avalanche de mudanças. Faltava café na sala. tendo como companhia uma bolsa imensa. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. Uma velocidade que a excitava e a apavorava..Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 . a suspeita de que ela estivesse grávida. Duas semanas depois. acompanhando o sorriso de Jules. então. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. mas ela não era um gênio. aproveitaria a oportunidade. Ao explodir. juntou dois e dois e.

com os braços cruzados numa atitude absorta. Ele estava certo. A voz grave. absurdo que sentia por aquele francês. Construída diretamente sobre o metrô. mesmo não tendo aceitado. escolhera os novos móveis do loft. E não era qualquer um. a nova VP. E a vice-presidência imposta. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. mesmo tendo resistido. no máximo. como um homem das cavernas. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. discutida. e ela simplesmente o ignorara. . Era a parte moderna. Amanda. e sim o loft. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador. Tinha consciência. inaugurada em 1972. Amava-o como jamais amara alguém.. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea. sua antiga sala como assistente-executiva. estilosa que revelava outra faceta da cidade. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos. Tudo girava como um caleidoscópio. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência. com extensão ao loft. durante um bom tempo. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la. em cinquenta e oito andares mais o terraço. Um móvel de escritório. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela.Está no lugar errado. Uma manobra engenhosa e tão boa. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO... Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. sempre venerara Jules Brienne. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. esse 103 . Amanda percebeu depois. Enfrentaria mares bravios em busca de paz.Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. o prédio vizinho. do amor louco. a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. entretanto. olhava o prédio vizinho. como lhe dissera Jacques. No chalé.. o prédio mais alto da França e. Porque lhe era conveniente ignorar. o mais detestado pelos franceses. seu sorriso era outro. E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor. E agora o fantoche do presidente. profundo. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos. Ao longo de cinco anos. E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria.. A proposta para viverem junto e. Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente. e não conversada. acabara por ceder. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. mais aos padrões do alto executivo. forçado e impessoal. Objeto sexual fora da empresa. era fato concreto. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida. Como fora a escolha do “presente”?.. agora. ponderada entre ambos. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação.

a garganta bloqueada por um nó de tensão. pois. e não por dormir com o presidente. mas. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . Temia perdê-lo. -Ah. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. a torre de Montparnasse. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. pensou. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente.Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador. existe um divisor de águas aqui. –Quem está zangada. entalhado na pedra. -Homme de glace – murmurou.teste. digamos. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto.. Temia perder-se para ele. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. – enfatizou. Respirou fundo e procurou controlar-se. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento.. puxar o braço. non? Caso contrário. -Não sou apenas uma funcionária sua. principalmente no que se refere a minha vida. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso. inadequado. fiz algo errado. ora para o cabelo azeviche. antes delas se levantarem do chão. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros. -Sempre fui bastante profissional. completou: -Entretanto. Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. Jules. É assim que temos de pensar. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules. o céu cinzento. -É verdade. mas permeado de ironia e desafio. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. nesses últimos quatro meses. Jules estreitou os olhos. –declarou com um sorriso debochado. Tentou soltar-se. Levei cinco anos para perceber isso. -Atingi o meu limite. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência. –enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. logo. Homem de gelo. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora. –constatou por fim. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . intrigado. Amanda? Decida-se. entendi. pelo visto. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele.

Caso lhe fosse apenas a assistente. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. convenhamos.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. . sente-se usada? -Não. de quê. -Acho que sim. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar.. talvez a única. –parou. Apertava-lhe ainda mais o pulso. foi justo. por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. -Seja mais objetiva. -Devo-lhe agradecer pela casa. mas. não era uma crise de ego. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. Jules? –indagou num fiapo de voz. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. non? Afinal. . -É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. Perdia o controle. Por um momento. 105 . Ao que ele tornou a falar. já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. ainda está em busca de garantias. machucando-a e obrigando-a a fitá-lo. Por um minuto ou dois. – sugeriu. mademoiselle? – provocou. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. esganiçava-se e perdia a força. – Mas. A voz falseava. temeu soluçar. sem vontade. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade. -respondeu insegura. houve uma troca entre ambos. aceitará a promoção. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. –apontou-lhe o indicador. esperando uma reação dela. –A minha parte que adora mentiras. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida. impassível. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida. sentindo o próprio queixo começar a tremer. Oui.Oui.afirmou secamente: -Por acaso. – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce. Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam. balançando-a para cima e para baixo. mas manipulada. agradece. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. –desferiu num fôlego só. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. Ela queria mais. mon Dieu. em seguida. Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. s'il vous plaît. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. Entretanto. -O que significo para você. Lançou-lhe um sorriso fraco. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva. e não a mulher que o amava. non. monsieur. sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. que inclui a sua ascensão profissional. Ele sorriu friamente.. Doía vê-lo fitando-a com frieza. nunca fui chefe de coisa alguma. Cinco anos de cegueira absoluta. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele.

segurança e conforto. pavor. -Atirei-me nele de olhos vendados. Amanda. quero dizer. Amanda olhou para o rosto bonito. –Vou para casa retirar minhas coisas. -Por que você não me ama. Amanda abriria mão do conforto. –interrompeu-se esfregando as têmporas. vou deixá-lo. -Acabou. mas eu não sabia. Todas fazendo trocas descabidas. preferindo os homens problemáticos e violentos. sei.. para todo o sempre. fosse qual fosse. é o que lhe ofereço. a expressão cansada. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. Alguns minutos se passaram. retomando o controle das emoções. Eu te amo. há que se ter um equilíbrio entre as partes. Jules? Ele contraiu os maxilares com força. –completou com impaciência. Isso é certo. em princípio. Agora. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. – debochou. Engoliu as lágrimas. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. Vivien. –E por amá-lo dessa forma. E eu a amava. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. perigosa. – dando de ombros. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. -decidiu-se convicto. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. desejei que me escolhesse porque. Não tenho nada meu lá. sem sorrir.. um desgraçado de um abismo. a mãe. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. -Estou numa posição inferior a você. Uma troca sem sentido. Surpreendeu- 106 . E como todo o rompimento afetivo. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. indiferente. da angústia que asfixiava. amadurecer inclusive. Amanda.. Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá. Você quer tudo de mim. então. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés. tão passional quanto maluco. doía demais. O que me dá medo. Talvez ele se protegesse do amor.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. no mundo.. Desde que entrei na sua sala. oui. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são. mas não dá nada de si. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. E. e para se manter qualquer que seja o relacionamento. não tenho medo de trabalhar. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. agora. Jules soltou-lhe enfim o pulso. antes de conhecê-lo. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. a primeira mulher que o deixou na mão. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. Proteção. roupas. E como se isso não bastasse. o modo como eu te amo é assustador. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. da segurança e do homem que amava. do amor não consumado. entre os dois. Não quero nada relacionado a você. Jules. – riu-se com amargor. permitindo que o mesmo não o alcançasse.. perscrutadora. e tal gesto era por demais significativo. além do mais. Antecipava no peito a sensação do vazio. aniquiladores. O que não me dá muitas vantagens. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. non? Até o meu útero. –Oh. – debochou sem mexer um músculo. Soltava-a em Paris.. densos. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez.

compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. tornando-a refém de uma dor insuportável. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. de pescar o maior peixe do mundo. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito.. mademoiselle. E chorou. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. mesmo porque era impossível fazê-lo. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe. Depois. Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia. no subsolo. corpo no corpo. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. aos dez anos de idade. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. Deitou a cabeça. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. você e o seu suposto amor. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra. Tinha algum tempo. os braços 107 . observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. quase física. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. e Jules. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. E chorou. Parou no meio da sala e. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento. chorou. diante do Café de la Paix. E chorando encaminhou-se à cozinha. a loção pós-barba exalando frescor. Por um tempo. Diante do espelho do banheiro. Chorou até se engasgar com o vinho. dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. Passe no RH. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais.Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. Não podia reprimir-se.. com paisagens de uma Paris dos anos 20. Como ele podia ser tão carinhoso e. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos. Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes. – completou com evidente desprezo. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. abraçados. girando lentamente. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. com uma franja sobre os olhos. O desenho de uma menina morena. do século passado. então. em que ficaram conversando após o sexo. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. seguros de que tudo daria certo. Chorara durante o curto trajeto de volta. Então. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. sais que exalavam o odor de Jules. a pele cheirosa. doces e infantis. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. sorrindo como se tivesse 17. Debaixo do edredom. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. como que se protegendo dela. contando histórias da infância. Abaixou a cabeça. -Por que antes de ir juntar suas coisas. Após a saída de Jules. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria.

sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos. imaginou Amanda. porque queria encontrá-la antes que partisse. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. Foi até o banheiro e saiu. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. pegou-o e digitou alguns números. muito próximo. pulando a cada dois degraus com agilidade. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto. continuará recebendo até encontrar outra colocação. Killer Queen ressoou pelo apartamento. Ergueu a cabeça. quase desfigurada. -Não é certo que você saia. raciocinava. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. desejo e muito álcool no sangue.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. – xingou-o com raiva. largo e firme. atenta. Sem hesitar. Parecia preocupado e nervoso. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você.. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. intrigado. Subindo os degraus rapidamente. No aparador de vidro estava o seu celular. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. mas manteve o paletó escuro. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. Estava ligeiramente zonza. branca e dourada. Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar. acrescido do seu amor. depositou-a no chão. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. – adiantou-se num murmúrio. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. A vergonha de ter sido fraca e chorona também. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. o apartamento é seu. –completou num tom melancólico. Num estalar de dedos estará bem empregada. Todos os sentidos em prontidão. –Vim direto para casa. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. Fechou os olhos e abriu. alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. Jules. legalmente seu. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada. -Vas te faire foutre. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. Amanda. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. Viu-o descer a escada. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego. Estava horrível. Amanda afastou-se da porta. no seu esconderijo. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha. olhou ao redor à procura do aparelho. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. Em seguida. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. medo. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo. Segurava uma sacola de papel. Retirou o sobretudo e o cachecol. -Sei que já eu devia ter ido.. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido.

Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. non?. Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu. E quando amava. fusões.Frio. Dignidade feminina. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. Sentiu-lhe o gosto do hálito. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. O discurso de bom-moço enojava-a. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. que mal lhe tocavam. devagar. contatos. O centro social ainda não se instalou por lá.. agora. Durante anos bloqueara seus sentimentos. diante do silêncio que se seguiu. sem meio-termo ou meias-medidas.. Deve ser uma merda ser tão racional assim. –completou com desprezo. Empinou o nariz numa atitude arrogante. inacessível!. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções. -Claro. fique aqui enquanto vou buscar o iodo. amava. Não será isso que me matará. Quando ela virou os lábios 109 . sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura. no queixo e nos maxilares. devagar. pela primeira vez. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma. -ironizou e. Amanda apenas fechou os olhos à espera. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha.. Transferências. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório.. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. Ela acabara de alfinetá-lo. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou... cada uma. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. Entretanto. –declarou exasperada e encarando-o severamente. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural. Visto que ela o ignorou. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. fazia-o por inteiro. na ponta do nariz. Automaticamente. Pequenos beijos nas bochechas. E rendida. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice. Isso que era: lixo puro. -Não se dê ao trabalho. a sua gentileza. decidindo vidas. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. bufou. non? Temos de limpar o corte. Novamente a vertigem. indiferente. recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. canibal. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. seus contatos.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta.

não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo...ficará com você. reverberou no recinto. Um barulho seco. ele fez um movimento para se levantar e contê-la... –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva. -Claro que não. -Havia um notebook ali dentro. intrigado.. que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro. Venha comigo. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne.. que ele arqueou uma sobrancelha.. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. o homem de gelo. como se fosse ele quem sofresse. Perdida. porque eu não sou de ninguém.. não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor. estranhamente calmo.. Jules apontou para a pasta e comentou com calma. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. –completou chorando. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz.Eles são seus e eu os odeio. Dentro dela. -Bebeu mais do que devia..hã. non. eu não pertenço a ninguém. Jules! –gritou. Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou. o seu Jules Brienne.. – escarneceu. .. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. como se tentasse neutralizar o que sentia. -Nunca foi a minha intenção machucá-la.. contra a parede. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo. –considerou numa voz abafada. Jules afastou-se delicadamente. metálico e abafado. a contabilidade emocional. 110 . deixe-me ver.Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo. rindo. sereno.. acho que vi um. odeio seus sapatos. só não tem coração... inclusive esse apartamento de esnobe descolado. Jules. mas ainda era uma MULHER. ela o fitou. Jules.. – à medida que falava. –Mas tenho a mim. -Idiota! –gritou. –falou baixinho e direto. oui. o aparelho espedaçou-se no chão. Em vão. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. podemos conversar de forma sensata e coerente.. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe. Mas quando ela pegou-lhe o celular. seguido por outro..que você nem sabe escolher. o caricato. Amanda. Amanda gargalhou completamente surtada... vamos ao banheiro.. céus!.. oui. verdadeira e forte.. Você vai embora e os levará junto. Odiou-se por se render tão fácil..Mas. inteira. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu. Odeio tudo que vem de você.... -Ele também não lhe pertence mais. Você é uma ótima pessoa. o pragmatismo. e eu não. fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: . a sua empresa de merdè. Possessa. por sua vez. eu ficarei.

no entanto. para que ele não o encontrasse! Eu te amo.. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. – Non. Satisfeita. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado. todos os discos haviam sido vendidos. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre.Acertei bem no alvo. acalme-se e vamos conversar. tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim.. Amanda..Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento.. Percebi que esses discos significavam muito para você. tomada pela fúria e com os olhos arregalados. Toda a sua coleção do Queen recuperada.. Tocou a capa de cada disco com ternura. Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou. O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo. Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. Amor! Já foi amado assim.. desde a adolescência no quarto. – gritou: . sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente. ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo. voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro. –Nada sairá daqui com você. esperando pelos diretores da subsidiária de lá. -Nem tente destruir isso aí. Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. Calculou que ele conseguiria detê-la.completou gritando: . sentimentos. Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: . -Jules começou. pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele. -no restaurante. quando conversamos sobre viver longe de casa. -Estávamos em Roma. .Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. Fitava o interior da sacola. francês. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. non? – indagou com cuidado. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então. no fundo da sala. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. listou: . e o fizera para poder se manter por alguns dias.. -Entendo que se sinta magoada e. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia. ao que ela. -Agora. europeu idiota! Dito isso. voltando a sentar-se no degrau. sentiu a mente esvaziar-se de tudo. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO.. queimar sapatos. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. . envenenar comidas. em seguida.. sorrindo por entre as lágrimas. –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. recordações.Em rasgar roupas.. ao cair. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. enviar e-mails com vírus.. sozinha.eu. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das. no alto da escada.. A chave foi arremessada para fora da janela e.. Respirou fundo. ideias. incendiar chalés..eu me dediquei a você todos esses anos por amor. retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. com os dedos. seu imbecil. -parou e fitou-a 111 . estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada..Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën.Adieu! – exultou com um gritinho alegre. não.

com os seus poemas escritos em algumas capas. simplesmente.. – enfatizou. os braços dobrados em frente ao corpo. Isso era amor. alçando as sobrancelhas: -Pode ver.. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. arrastados. Ela parou diante da cama. loções e a escova de dente. Soltara o nó da gravata. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido. respondeu apenas. azar dela. Tudo tomava um novo rumo. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. –balbuciou num fiapo de voz. mas. a sua. praticados por homem visivelmente cansado. Investiguei. Ele parou por um momento e esfregou os olhos. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto.. Resgatara-lhe o tesouro.. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor.. Pelo visto. seu barbeador.. ao mesmo tempo. Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. A gravidez que ele queria que se confirmasse. quis chegar a tempo para lhe entregar. com um frágil sorriso nos lábios. Isso era amor. a realidade. através de atos e atitudes. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França. mas não tencionava aceitar os louros. – disse. são os seus discos. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. tinham de ser os seus. E ele jamais diria que a amava. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. De nada.Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. lentos.. mais uma vez. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. Era a vontade de ser pai. Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos.Isso foi há um ano. viajei. além disso. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. não? -Oui.. não era controle. a sua caligrafia de menina. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho. fazia-o. como se quisesse livrar-se do assunto. -Merci. no modo de pensar de Jules. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. No criado-mudo. -afirmou de um jeito estranho. – retrucou baixinho. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. Gestos precisos e. passaria o resto de sua existência chorando. abraçou-se aos discos e chorou. por fim. Amanda indagou sem fitá-lo: . perfumes. -De rien. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 . sério. Jules não falava em amor. ações sólidas e reais. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. fora prática contrariando a sua natureza passional. de um jeito desanimado. na mesma. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola. Isso era um ato de amor. por que. Sem vínculos ou obrigações para com ele. como aconteceu tudo isso. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo. Ele lembrara e. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção.

Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet.. me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você.Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem. procurando os discos da minha adolescência. –respondeu baixinho e sem dar importância. que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada. 113 . Ele parou e fitou-a. -São apenas coisas. largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura. -Espere. . Jules. ela também não sabia o quanto era amada por você. Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam. continuando a arrumar a mala.. segurando um par de meias na mão. – ele fez um sinal para que ela parasse. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere. Por isso. tensa. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe. mas foi interrompido. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. mesmo apanhando e ignorando seus apelos. Respirou fundo. entendo que isso é amor.Jules. Jules sorriu de um jeito tímido. Tinha o olhar entre curioso e desconfiado. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. Misturei tudo.. – apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio. ainda fitava-a.. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes. Às vezes. Ela não o via de fato. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido.. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente. não estou mais cega. Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção..tentou justificarse... -Perdi as estribeiras. Fingiu que não a ouviu. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic... concentrado na maldita mala: . constatou Amanda..? – sempre havia um mas. por outro lado. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem. à espera de algum movimento por parte dela. você parece um menino. -Mas. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. sem vê-lo. -Quero cuidar de você a minha vida inteira. Jules deu de ombros de forma indiferente. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. -Amanda. desculpe. e.. -Eu gostaria muito. muito pelo contrário. Jules. por exemplo. era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto.. apenas olhava-o. ela bem o sabia.. preciso lhe falar. E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro. Amanda. confundi-me. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo.

Quando saí da sua sala. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma. para o seu corpo. Aliás. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa.tive de controlar-me para que você não se afastasse.. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim. Fitaram-se por um longo momento.. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo. 114 . Amanda beijou-lhe o pescoço. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: . As palavras.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios.. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela. não substituem as atitudes. sabendo que me entende.apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras. frio e viciado em trabalho. Amanda. Parecia um tipo de déjà vu. O que é uma mentira. numa veia saliente. Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. Amanda. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido.. Agora. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que. porque a amo e não é de hoje. – completou com seriedade.-comentou sorrindo.. Acreditei que não me amava. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você. Sei que é uma atitude tola. consegui e quase a perco por isso. -Jamais percebi nada. O trabalho é a minha paixão. Aquele estúpido jantar comprovou isso. acusando-me de insensível. . – Mas fui punido por minha decisão. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme. fui para o terraço. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda.Conseguiu. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada. Amá-la em segredo foi terrível. não o resultado financeiro dele. – completou apertando-a ainda mais contra si. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui.. na verdade. mas não queria correr riscos outra vez. se jogou nos braços de um desequilibrado.Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim. . ela dizia que eu era viciado em dinheiro. mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional. foi apenas mais um jantar de negócios.. sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco. mas aquela nossa conversa no restaurante.. -Oui... – acusou. E quando dormiu com Jacques. e apoiou a cabeça no tórax dele. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela. sinto os olhares sobre mim. mas também com certa tristeza. Depois. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico. me peguei olhando diretamente para você. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien.. Jules riu e beijou-lhe o cabelo. quero dizer. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar. Por fim. -fez uma pausa procurando as palavras certas.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente. olhando de verdade para o seu rosto. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você. inclusive François e Sonia.. -É. Sabia que confiava em mim... séria. para os seus gestos. bien. todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você. eu sei. – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: .

–suspirou. – falou-lhe de uma vez. com a transferência de Rochelle para uma clínica. lista esta feita pelos pais de Rochelle. -Jacques continua ligando para o meu celular..Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular. – acentuou num tom grave. Olhos totalmente mergulhados na própria mente. naquela noite em especial. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia. Tudo aconteceu muito rápido. discordei.. num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. Era amada por ele. Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la. O que tem a me dizer sobre isso. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. feito isso. ou melhor. não esconderia mais nada de Jules. acabei vendo um teste de gravidez.. Foi a primeira vez que o vi e. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente.Fui atrás. após saberem. ela pediu-me para que não saísse. agora. Era um dos assuntos tabus. pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. porém identificara tal sentimento com outros nomes. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida. os sulcos na testa profundos. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. Rochelle detestava esse tipo de jantar. as têmporas latejando: . O resto você sabe. nomes errados. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin. Jules parecia disposto a conversar a respeito. com a minha autorização. eu a ignorei. meio minuto depois. -Isso não está certo. não forçaria a barra. imediatamente. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito. ela gritou. e ela saiu sozinha. quero dizer. Mas. quando eu tinha um. por intermédio dos Roche. fora preso por bater em uma garota de programa.Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa. – ele parou por um momento. Naturalmente. Caso ele evitasse o assunto. mas eu o fiz assim mesmo. já que estava transtornada de raiva. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. nós brigamos. – murmurou entredentes. e por isso não mais a convidava. o reconheci como sendo um dos meus gerentes. No entanto. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida. como se a cabeça já rodasse em outra direção. Rossi? 115 . -Talvez. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . cedendo o volante a Jacques. na Irlanda. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. Ele fora demitido antes do meu casamento. –respondeu-lhe automaticamente. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. vê-lo de rodas para o ar.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si. sério e pensativo. Quando a ambulância chegou. Jeremy Blair. e. – suspirou resignado.. um tipo de queda-de-braço infantil. Sentira isso. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. Pelo o que averiguei depois. E Jacques não está nela. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules. já estava desacordada. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros.

-explicou-lhe ainda rindo. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. Amanda afastou-se poucos centímetros dele. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém. ficou feliz em vê-la chorar. ma belle. -Você está linda. – brincou.. mas ela não pensava como os franceses.brincou. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo. –corrigiu-a. hoje pela manhã. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. descendo a mão para a sua barriga. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. excita-me engravidá-la de fato. não há nada acabado em seu rosto. -Então. nem precisava fazer exame para saber.. quero muito tê-la engravidado. concentrado. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. -Oui. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . parece-me um pouco precipitado começar uma família. mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que.Meu rosto está acabado de tanto chorar. é maravilhoso. –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. quero dizer. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. sorrindo. Jules. – Maintenant. saiu do banheiro e. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. descer as escadas até a sala. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. -Você está grávida.. de pé. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. 116 . porque esses testes não são cem por cento confiáveis. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma. antes de confirmar ou não a gravidez. quero ser pai dos seus filhos. -Não o apavora ser pai. Deixou-o parado no meio do quarto. depois. -A ideia era essa. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. mon Dieu. Antes de fechar-se no banheiro. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. Alguns minutos depois. monsieur. por sinal. –disse jovialmente. -É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada. -Non. bien. E... Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. enfiou-se no banheiro. –comentou sem graça. – fitou-a com um sorriso malicioso. com um sorriso. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana. sabe disso. pela primeira vez. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos.. espere aqui que buscarei o nosso oráculo. -Humm. –ponderou antecipando-se aos fatos.Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir. mademoiselle. por debaixo do robe. – comentou com naturalidade. envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse. ficou na ponta dos pés. ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. Amanda.. Voltou lendo as instruções. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. ele sorriu e. e acho que pegamos o Dôme aberto. deliciosas curvas. quando reclamou de suas curvas. como ele é lindo. – considerou fazendo careta. vamos comemorar! Ainda é cedo.

Num gesto eficiente e sensual. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas.Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. toda. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava. no sofá. Antes de sair.Amanda... Aproveito e faço tudo de uma vez. já que dividirá o corpo com nosso bebê. lá. num vaivém sensual e lânguido. Ela segurou os próprios joelhos flexionados. e no rosto de Jules.? – indagou-lhe num fiapo de voz. afastando-os ainda mais. persuasivamente. -Quer que eu saia ou entre. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. na rua. E convenceu. sussurrou com paixão. cada ponto. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se. numa voz rouca e abafada. –gemeu-lhe ao ouvido... em seguida. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede. num canto da parede. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo. levando-a no colo até o outro lado da sala. as têmporas latejavam. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia.. que dançavam seguras por vales e montanhas. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. Podia buscar comida pronta. mas um sorriso entalhado nos lábios. Jules voltou-se para ela e a beijou. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação. Jules vestido e ela completamente nua. desesperada paixão: .. J’etaime. ele enfiou-se aos poucos. -Estou sempre com fome de você. – Escolha enquanto pode. tenho de pegar a chave do carro. planícies e cumes orvalhados. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro. Sem tirar a roupa. -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. expondo-lhe a nudez. haviam virado gelatina. dentro de si. -sugeriu de um jeito meigo que. Por baixo do robe.J’etaime. Amanda mal sentia as pernas. Acompanhou-o até a porta de entrada. Amanda desafivelou-lhe o cinto. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme. controlador.. você tem de cuidar de sua saúde.. senão se importa. em torno dele. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça. a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante.. fez o robe cair no chão. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço.. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo.. digamos. Captando o duplo sentido da pergunta. normalmente. E com movimentos cadenciados. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. cada zona erógena que vibrava ao toque dele. digo.. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. – concluiu em tom de brincadeira. alcançando o clitóris e massageando-o. passando pelas malas no hall. – falou-lhe com o olhar sério. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo.. cobriu a sua e ainda colada nela.. -Trés bien. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar. em cada centímetro de pele. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. 117 . convencia Jules.

ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. monsieur. -Esse prazer é todo meu. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele.. sozinho. Mas eu cuido dele sozinho. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório. messieurs – falou baixinho Jules. e o Bleu tem uma filhinha. –fechou os punhos instintivamente. oscilavam no amplo galpão. Jules. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. com a cabeça. sofisticada e úmida de suor. Duas passagens pela polícia por agressão. por sinal. irmã. deixando-a surda do ouvido esquerdo. Tenho mãe.. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo. ótimo trabalho.. senão perde a graça. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. inclusive. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. docteur. registrado. completando o gesto do olhar. – Se quiser. que comprimiu os lábios com raiva. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. -Está tudo aí. riscou um fósforo com a mão em concha. E era o mesmo que acabava de chegar. que. –É crônico. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. Jules assentiu. fitando Jacques de longe. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. o cara não vai parar nunca. lançou um olhar significativo a Bleu e. Luminárias de aço dispostas no teto. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. – disse Jules sério. -Não se acanhe. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. – balançou a cabeça. Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo. com lâmpadas de sessenta watts. exasperado. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco . sua assistente..Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. retirando as luvas pretas de couro. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. despertando da inconsciência. Jules estalava os dedos das mãos. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. -Merci. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne. Em seguida. mulher. monsieur Brienne. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios.

. – gargalhou: . -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. refazia-se rapidamente dos golpes. – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão. Além do mais. e as outras mulheres agredidas por ele.. oui. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. -Ninguém me contratou depois que me demitiram. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. –Quer foder a minha vida de novo.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga.Oui. covarde. Jules bocejou. Jordan não queria me demitir. -Agressão. suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro. non? -alçou uma sobrancelha. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes. eu posso e você não. por sinal. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. aturdido. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. Já o almofadinha à sua frente. ela me sustentava. -Polícia? Está delirando. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. sorrindo. ao torcer para baixo o lábio inferior. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás.Aliás. da força muscular do adversário e de sua fraqueza. Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe. retirou o casaco longo e o paletó. como vai a brasileira. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. Ficou de pé. Mas antes. – debochou. -Bonsoir. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. da distância entre ambos. seu ricaço de merdè. 119 . irônico. – prometeu com um sorriso cruel. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. para o seu próprio bem. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos.. também foram minhas. também registrariam queixa. –pôs o dedo em riste. você sabia. abrindo os braços e dando de ombros. – acusou aos gritos. tentou acertar o maxilar de Jules. Nunca fiz nada de errado na empresa. –Eu o entregarei à polícia. Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente.. dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho. acompanhadas por Armand. –declarou com firmeza e serenidade. -Ficará longe dela. Jacques gargalhou. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica. Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão. -Vou matá-lo. que desviou a cabeça. Pelo contrário. Baterá em mim. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. impassível: -Podemos começar quando quiser. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. Ele era duro na queda. quase alcançando o rosto do outro. Jacques fitou-o por um momento. –constatou quase alegre: . isso sim. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava. diante de um homem que verdadeiramente odiava. olhou ao redor certificando-se de onde estava. e isso é uma ordem. Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques. – completou.

levantando-o do chão.Sumam com o corpo. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços.A gente agradece. não emitiu ação alguma. Oui. fitando os homens ao seu redor. os maxilares tesos. Ouviu ao longe a sirene da polícia. Jules estava farto daquele lugar. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. a boca arrebentada num corte fundo.. nem a morte. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. Deve estar a par da moça que está na UTI. Este teve a cabeça arremessada para trás mas. Jules. Os homens entreolharam-se e partiram para a ação.. -Quieto. Agora. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. vocês se igualaram a ele. –completou com raiva contida. sem perder o equilíbrio. Por trás de Jacques. mais brando: . Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . Novamente. Livre os tentáculos de aço. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente. Um deles. em vez de proteger-se. Em seguida. do cheiro de sangue e morte. E com esse último pensamento. Jules observou mais dois homens. -Filho da puta. d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. puxou os braços do homem que o prendia por trás. Pensava apenas em voltar para casa. Jules ignorou-os. Ele foi. mas foi por apenas alguns segundos. A coisa é feita na rua e termina na rua. voltou-se com raiva para cima do loiro que. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. os olhos vítreos. Jacques caiu inerte de cara no chão. alto e ruivo. covarde! –disse entredentes. O outro. é minha irmã. baixo e com aparência latina. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. Por um minuto. Não podia permitir que ninguém. Tinha de lutar por sua vida. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. meio zonzo. Este surpreendido pelo ataque. deu uma gravata em Jacques. Tentou levantar-se por duas vezes. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. separassem-nos. de pé. aproximou-se do corpo distendido no chão. mudou o tom. soltou-se por fim. testando a personalidade do executivo. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. queria olhar no olho de cada um dos caras. Não pôde conter um suspiro de alívio. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. Inerte. Estava de fato morto. ficou fitando o teto. – disse por fim. Agora sim estava fodido. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. Não fechou os olhos. Jacques urrou de dor. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. o braço forte do ruivo estrangulou-o. assistindo à cena. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes. baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. Não podia deixá-la sozinha no mundo. Quem ganhou. tem família. mas nada de advogados. pute também tem família. -Sabemos quem é você. daquela gente. cara! –xingou-lhe o desconhecido. fracassou. respirava alto e rouco.Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. pensou. 120 . Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. depois. inclusive Jacques. imóvel e ainda preso pelo gigante. Na terceira..

Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui.Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. vestiu o paletó e o sobretudo. Ajeitou as mangas da camisa.com 121 . E meio.com Contato: vgveronique@hotmail. Passou no Dôme e pegou comida para dois.blogspot. retirou a fita do gravador. O passado morreu aqui também. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria. Fim Site da escritora: veroniquegris. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato.

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