Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

Copyright © by Veronique Gris Todos os direitos reservados e protegidos por lei Nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem a autorização prévia por escrito do autor. Os infratores serão processados na forma da lei.

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G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
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Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

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Assim. três mesas pequenas. para fora do tabuleiro. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado. fora contratada de uma agência de modelos. Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. Debaixo da iluminação indireta. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. Não sabia como era o contador. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. quando este se aproximou elegante e solícito.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. Afinal. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. na verdade. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. Sentia-se entre aliviada e feliz. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. certa apreensão e nervosismo. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. retangulares. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . um bolo de um homem que jamais vira na vida. E esse alguém estava atrasado. cada uma. que usava um relógio do tamanho de um melão. numa terceira mesa. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. pediu-lhe a conta. com um delicado vaso de flores. como o seu próprio chefe. Não acrescentara. uma mulher de cabelos escuros e curtos. provavelmente. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas. Havia levado um bolo. a moça esperava por alguém. Certamente. observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. pelo menos. que era calvo e arrogante. protegida pelo próprio espaço junto à parede. No canto.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. também. por mais incrível que isso parecesse. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. Ela aparentava. por exemplo. estrategicamente disposta ao longo do teto. moreno e elegante. Agora.

realmente. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido. tomando cuidado para não se trair. O homem de gelo que jamais sorria. Desde a sua contratação. Na verdade. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. Dava um passo em frente ao outro. o homem de gelo. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. workaholic até o último fio de cabelo. Amanda encolheu-se dentro do casaco. como secretária particular de Jules Brienne. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. no mundo empresarial. Morri e estou no céu!. A noite estava fria e úmida. assessorar o presidente de uma grande companhia. observou que ele era alto. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. bonito. Havia uma equipe de médicos. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. Se lhe tivesse dito isso. já que. pouco mais de 1. porém.80. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. O mais estranho e injusto de tudo era que. viu mesmo foi o chão. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. talvez não contivesse uma crise de risos. já que. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . sério e introspectivo como pessoa. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. Sentia-se em apuros. mas. Ora. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. a dificuldade acentuava-se ainda mais. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. estava bem perto de sê-lo. E. de dedos longos e tépidos. A bem da verdade. mas tinha vontade de rir. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. de gargalhar. No escritório. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. Por outro lado. de fato. Nada menos. salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. E de poucas palavras. bem vestido. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. Agressivo nos negócios. já de pé. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. Aceitou tocar na palma daquela mão macia. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. em seguida e de forma violenta. O que lhe importavam na vida. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. definhando lentamente ano após ano. e. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe.

-brincou. bem.. concluiu Amanda. começou sentindo a bochechas quentes.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato. Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada. diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa. numa calçada 6 .Infelizmente. estou com a princesa nos braços.. Nesse ponto. transmitia calor. Num instante. é tão difícil.. e eu certamente não sou Cinderela. aconchego. olhando para o salto quebrado. o antebraço. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta.. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica. um sorriso amistoso e um convite implícito. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. a vida não é um conto de fadas.. somente os craques. E como era uma moça educada. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Naquele momento. Talvez tenha sido nesse momento. Os olhos azuis brilhavam divertidos... o sorriso era aberto e franco. sem cola. Desistiu de grudar madeira na madeira. pensou debilmente. -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango. –disse sorrindo. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin.. que percebeu que estava completamente encantada por ele. fitando o lugar onde o regente havia apontado. quando seus olhos se encontraram por vários minutos. disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios. enquanto abaixava-se para pegar o salto.. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo. droga. – riu-se. Jamais dava a cara à tapa. Mas o resto do corpo não. -Amanda Rossi. O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. -A gente pode revezar as narrativas. . fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato. Ele era a. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente.Desculpa. -Oh. ela sentiu uma quentura forte no rosto. pardon. quer dizer. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . ah.. Normalmente. teremos que deixar o café e as histórias para outro dia. Ele é um príncipe dinamarquês. merda.

ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura. 7 . sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. pequeno. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. selvagens. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. Ele pedira-lhe o telefone e. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. durante uma visita ao Louvre. para variar. mais do que fugir. Apesar da neve intensa.. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido. Sua última relação fora há dois anos. quando conhecera um rapaz de vinte anos. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco. sem uma companhia masculina. Não conseguia. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. duro. Uma tarde de descobertas. o loirinho. Apertou-se no casaco longo. dentes perfeitos. Ela não queria voltar. que era lésbica. se quisesse. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances. queria muito. Entretanto. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. Amanda rabiscou o número de uma creperia. os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. No café. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. forte. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. Palavras como frio. estufado contra o jeans. Ela também queria. ela não sentia frio. Duas horas de sexo e conversa fiada. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios.Quero dormir com você. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro. Podia fugir. Ela entrou seguida por ele. E ela também olhou. mas não sentia frio. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. Entre um gole e outro de café com uísque. morava em Montmartre e estava sozinho no momento.. porém conscientes demais um do outro. Cabelos loiros. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. um sorriso frágil. ombros largos. o quanto ele era charmoso e sedutor. ela o desejava. sim. E agora. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. viril. Caminhavam lado a lado sem se tocarem. – ronronou com olhos de predador. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. Podia desistir e inventar que era casada. fios irregulares. Pelo menos. ele disse que era advogado. Uma fantasia antiga. monsieur. E era incrível a sincronia da existência. O seu corpo o queria. ou fingia ficar sem jeito. de pálpebras relaxadas e insolentes. O cheiro típico da alvenaria antiga. À porta. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. Não havia pressa.

tomando-o todo possessivamente – e em seguida. que usava o cabelo curto e a nuca exposta. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. e eles entraram meio abraçados. a boca colada a sua.Quero muito de comer. ela lançava gritinhos. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo. enfiando sem rodeios. com urgência. inchado dentro da calça. um navio no porto entre suas pernas. Ouviu murmurar algo indefinível. puxando-o suavemente e o soltando. um par de coxas duras. Jacques fechou-os no apartamento. um animal a ser cavalgado. – pediu. voltando-se para trás. mas parecia implorar. as unhas arranhando-lhe as costas. Amanda – afirmou. erguido para trás. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular. 8 . detendo-se pelo caminho. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. Na terceira tentativa. Mas o homem não lhe dava chance alguma. gostosa demais. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina. a língua sugando a sua com desejo. Deslizava-o para cima e para baixo. na divisão entre as nádegas. pegando o pau na mão. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte. . meio tropeçando.. -Você é gostosa. apertou-o entre dois dedos. quando ele fez um movimento atrás dela . uma britadeira no asfalto quente. – Abra a porta. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. imediatamente. ela conseguiu destrancar a porta. avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã.. Esfregou o pau duro. Principalmente.Tente não me matar. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. senão vou gozar aqui mesmo... contra o corpo magro e pequeno dela. Tencionava. nesse momento. . Roupas arrancadas. Francês. Desabaram sobre o tapete. guiou-o para dentro dela. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. Aproveitando-lhe a fraqueza. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. era falta demais. pronto para disparar. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. um abdômen malhado com pelinhos aloirados. não se estatelar no chão. como se tentasse empurrá-la para abri-la. Dois anos sem sexo era tempo demais. O pênis não era dela. provocando dor para atrair o prazer. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. conectaram-se ao seu sexo. No minuto em que se apossou do bico. não era uma nacionalidade. um país secreto desbravado por uma selvagem... Ela gemeu quando as mãos de Jacques.. encontrando um atalho aqui e ali. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. A quentura do membro entre suas pernas. outrossim. ma petit. Amanda espalmou as mãos contra a porta. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. no centro da pequena sala. Fêmea precavida que era. descobrindo a renda suave do sutiã. A cada arremetida. – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu. Depois ele puxou-a para debaixo de si e.Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta.

pardon. Num gesto brusco e inesperado. Tentou escapar. Havia sido estuprada por trás? .. muita. desgostoso com o tom usado por ela. – É uma garota sensível. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda. sorriu consigo mesma. sorriu-lhe de forma travessa: . Ela desconfiou das palavras dele. tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. esgotamento sexual. Mal conseguia se mexer. gozou abraçando-se a ela com força. era um homem para uma aventura erótica e nada além e. uma aventura erótica de curta duração. Amanda balançou a cabeça negando. enigmaticamente. antes acolhedor e em seguida. agressivo. Amanda constatou três coisas: primeiro. 9 . intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. “beleza” e “fogo”. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela. Debaixo das suas pernas. . ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. . – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz. .Aiii – gritou. Capítulo II À mesa da cozinha. arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada. parecia sossegado e bem disposto. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. ardida em brasa. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. porém isso só aumentou a excitação do homem que.Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele. dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente. por certo. ele fitou-a em dúvida. . Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face. entretanto. De repente. Amanda engoliu em seco. Por um momento. à entrada encharcada e ardida. – ameaçou-o. segundo. Tarde demais. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato. ela pensava em coisas como “masculinidade”. exigida a cada estocada violenta. Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. – murmurou ele. Jacques era instável.Pardon. . ma petit. após três ou quatro bombeadas firmes. E admirando o homem à sua frente. Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo.Valeu a pena esperar.Nem pense em tornar a fazê-lo. terceiro. percebeu que era uma pergunta retórica. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás.. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. um caleidoscópio de emoções e sensações. Amanda sentia-se exausta e descansada. de cabelos molhados.Muita dor.Sim. alçando uma sobrancelha de forma superior. – respondeu estreitando olhos.Tem lubrificante? Da próxima vez. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. Jacques levantou a cabeça e a encarou.

Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse. cabia a Amanda resolver.. Quase como um casamento. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. antes de sair da cozinha. mademoiselle. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar.Está atrasada. E desligou. Entretanto. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. era tudo o que mais queria na vida? Não. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. Ela também queria casar e ter filhos. não sabia que monsieur já estava me esperando.. e o dela. venha agora. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. Ele riu com vontade. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas. cobriu o espaço entre ambos.foi então que a ficha caiu!. monsieur Brienne. . Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas.D’accord. Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. caminhava na esteira por trinta minutos. levantou-se lentamente e. escolhida por Amanda. Quanto à parte pessoal. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. claro que não.. monsieur. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. E era como se lhe dissesse: “O que?.. Annie. –disse de olho no relógio da cozinha. a escolha das roupas a serem usadas por ele. lia. -Desculpe. Amanda Rossi. Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. À porta.Bonjour. Mentira.. Parecia um felino encurralando a presa. No entanto. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. você está regredindo anos-luz. caminhando devagar. E mais. censurou-se divertida. Quando viajavam a rotina era outra. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. sem sexo. pelo menos. vestia a roupa. Ocupavam o escritório. ou a organização de um jantar beneficente. era determinada nas reuniões de segunda-feira. Tarefas múltiplas e variadas. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás. no segundo andar. Amanda buscou na mente motivos para tal observação.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e. . acha que pode comigo?” Mas ela não 10 . quando ressoou Killer Queen no celular. a presa precisava imediatamente fugir.. o expediente na empresa começava às 9 h. Eram 7 horas. três jornais durante o desjejum. Usando o próprio corpo. tomava uma ducha quente às 06h30min. . mas à sombra. Quase gargalhou. ao longo da semana. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. mas.. porque outro felino esperava por ela. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. mas ainda assim. uma rotina a ser seguida. Na primeira tentativa.

divirto-me com os errados. como quase tudo na França. ladeada por um pequeno bosque. Enquanto ele a penetrava. Ao descer do automóvel. até a entrada da mansão. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso.. Sentia o corpo quente. – debochou. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. Amanda. sim. tenho que trocar de roupa e sair. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil.Dei-me o seu. Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. Essa era ela. No fundo. Dessa vez. podemos jantar logo mais. e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. . . Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se. –riu-se de forma afetada. não obteve sucesso. era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo. concordava com Jacques. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. mecanicamente. Desencana. Cumprimentou o rapaz ruivo.. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: . Jacques. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. no entanto. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. puritanismo démodé. o membro comprimido projetando-se no tecido. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela. desligou o motor e pegou a pasta. 11 . Voltava agora a ser disciplinada.Não devo me intrometer na sua vida.. fui muito difícil mesmo. . Novamente. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. Praticamente jogara-se para cima de Jacques.Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças. Bom. fraco e trêmulo. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura. Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. – esperou que ela o ditasse. num movimento ágil. queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. não estava satisfeita com o seu comportamento. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. A selvageria de Jacques excitava-a.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar.. Amanda. se o seu patrão permitir. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção.Ah. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. -Oh.. Soltou-se dele com um gesto brusco. Jacques. – Se quiser.. –murmurou.. se o objetivo final era apenas: sexo. – afirmou. tinha outras ideias. -Preciso trabalhar.Bien então a gente logo se fala. claro. Desde que chegara a Paris. quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar. Estacionou. vinda de Porto Alegre. pragmática e responsável. De fato. alertou-se prontamente. –concluiu. Estranhamente. chèri. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: .. e a obrigação profissional clamava urgência. o número correto.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

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Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

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lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

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levarei outra camisa para seu escritório. . fumante e usava o uniforme da SBO. as socialites queriam-no como presidente de honra. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como. Ele fechou o notebook. calças de 15 . que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. criado por um estilista argelino de 20 anos.D’accord. ..? Até onde você pode ir com esse atrevimento?. Santa bobagem!. pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. Menos de dez passos. Caso queira trocar-se. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos. compre aspirina. – mandou sem tirar os olhos do computador. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico. e ele tentava escapar a todo o custo. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. saias justas até os joelhos. ele atravessou o terraço e saiu. – completou ela com naturalidade. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda. monsieur almoçará com. Agora. preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. Era visível que a indagação o incomodara. muito magra. -Em vez de tomar aspirina. constantes e variados.Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. Riu-se dos próprios pensamentos. – afirmou taxativo. Capítulo III Dorian possuía estatura mediana. às duas horas. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros. hoje.. Se tiver tempo... – disse categórico. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo.. mademoiselle. Lembrou-se do que ouvira no Brasil. sobretudo cinza ou preto e. -Aspirina e café resolvem o problema. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. mas sendo um homem educado. vá ter com Annie. Os homens. em seguida. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. emendou de forma mais suave: . Encontramo-nos no escritório. s'il vous plaît. Um tailleur cinza-chumbo. que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève. Fiz reserva no Les Ombres. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. censurou-se. Agora. valerá bem mais que a minha presença.monsieur Jarkko Koskinen. diria Robin. As executivas. -Aliás. cachecóis. No entanto. Sim. Viu a xícara de Jules vazia. terno e gravata.Agradeço a atenção. -E faça uma tomografia.

Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. se você fosse uma cobra me picava. Entretanto. Quase gritou. Dorian. onde se localizava o estacionamento da empresa. mesmo discreta. longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada. mesmo anexada à de Jules Brienne. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause. de cedro. grande parte delas. sentada em frente à mesa do chefe. E nem teria visto a personagem alta. Depois de muito “escavar”. Ele exigia a perfeição de todos. que. possuía banheiro próprio e uma outra entrada. -Calma. tinha 44 anos. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. proteger e preservar. com sua visão periférica. como sua assistente pessoal. escondia as curvas. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo. casado com uma estilista de moda. quero dizer. Agora... Annie vira o chupão... Ignorou a brincadeira da outra. ela não seria vista entrando. Quando as portas do elevador abriram. céus.. daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. os seguranças da mansão de seu chefe. nada comentaria. 16 . percebeu o ataque felino àquele que. graduado na Sorbonne. Bateu com a chave do carro sobre a madeira. vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. lateral. discreto como era. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas. mesmo se não fosse. nem sequer uma piadinha). Quem mais? Quem mais? Quase gritou. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne.. . caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). Doce ilusão.Nem me fale!. o seu chefe? oh.Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos. o porteiro de seu prédio (que era meio míope e.. olha bem pra mim. Amanda. com protetor solar. devia ter algum problema psicológico. histérica. Num minuto. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que.. deveria zelar. por isso aquele olhar estranho. sofisticada.. para peles de loiras quase transparentes. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. estendeu à Amanda a base líquida.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho.. com um longo pescoço e imensos olhos verdes. pó compacto. Ou seja. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. com a sorte que tenho seria ele mesmo. e. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e. O que não era o caso da tez dourada de Amanda.

pois precisava buscar novas xícaras no refeitório. Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. No entanto. O chefe. tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente. Amanda observou os personagens em questão. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente.Duvido. ter nascido no terceiro mundo. ele não gosta de mulher fútil. Ele. melhor. Monsieur Brienne. Deixou-os por um momento. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. não. Primeiro. A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz. dirigir um automóvel popular russo.. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. A face estava relaxada.Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo. –depois brincou: .. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. E fez: -Bonjour. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). Os lábios contraídos. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração. 17 . A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. não aceitava apenas o polpudo cheque.Merci. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. Amanda assentiu e ligou-a. mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. retraiu-se na expressão de impessoalidade. com poltronas em vez de cadeiras. para variar.Seja boazinha com ela. . oui! . vir de família simples. sem desviar. –emendou com um sorriso educado. parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. sozinho. ah. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante. parecia aliviado com a sua entrada. ou seja. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão.. em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. no quinto andar. num gesto silencioso porém bastante significativo. concluiu que levara vinte segundos para a operação. a qualquer momento. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. do tamanho de uma ervilha. Ajeitou-se na poltrona. as cortinas ainda estavam cerradas. etc. mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. de móveis modernos. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules. desviou para a máquina do expresso. Ao voltar. Antes de qualquer intervenção na cena. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. sem cronometrar. por outro lado. Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. seriam chamados ao trabalho duro. Olhou-a de cima a baixo e.

Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. aos pedaços. sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos. coitado. entregou a outra à Geneviève. ele precisa mesmo é de cafeína. Amanda. mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente. parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. A bem da verdade. que fará a ponte entre Paris e Helsinque. um macho alfa. pelo menos. Jarkko Koskinen. amiga de Vivien Brienne. Amanda voltou à sua sala. um final de semana na Finlândia.comentou com desdém. divertida. Amanda não estava gostando do rumo da conversa. -E depois dos 17.Quanto tempo tem esse centro social?. o chefe. esquiei até quase acabar com meus joelhos. Quando voltou. – completou Amanda que sabia. mas alguém tem que dar o primeiro passo. e ainda por cima era filho único. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. – era Geneviève. A mocinha quase bateu palmas. Dorian. Ele é homem. algumas coisas sobre Jules Brienne. devido ao café forte e quente. –disse. Podemos combinar e irmos juntos. não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. -E a aspirina. Geneviève. . apresentava visível prazer em sua companhia. -É. e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. . e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. Sonia e François também poderiam ir. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne. Além do mais. Jules sorriu polidamente. pode ser.No momento. . seria bom relaxarmos um pouco. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . provavelmente.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: . 18 . parecia que tinha treze anos de idade. era-lhe o padrasto. completamente órfão. non? – indagou sorrindo. dois ou três meses. Parece que a mãe dele apanhava do marido. precisa de uma fêmea. mas a passeio. na verdade. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar. bebendo o restinho do café. mesmo sem sorrir. Vinte anos de diferença entre François e Jules. O fato era que ela sorria mais e ele. Há um rapaz de lá. -A Finlândia sempre me interessou.Você precisa passar. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada. agora. Aliás. preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. em seguida. por sua vez. . mãe de Jules. Amanda. – encerrando o assunto. que.

em sua direção. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. -Jules. numa expressão de menosprezo.Há cinco anos ouço a mesma bobagem. Por um segundo ou dois. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. Num minuto. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação. Era experiente. era uma mulher de princípios. “cadê a aspirina”?. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral. é perigoso.Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. non? – insistiu. – afirmou Geneviève com a voz sumida. Entretanto. ora! De repente. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. cruzou e descruzou a pernas. . Ele era um executivo. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. compre as aspirinas agora. foi um prazer. -Cinco anos com dores de cabeça. fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. um misto de exasperação. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. . Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. Além disso. os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. mademoiselle Cuvier. monsieur Brienne. pragmático e tinha quase quarenta. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. havia ultrapassado a fronteira. . e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. Dorian não compreendeu a ordem. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. . Do outro lado da mesa. Por quê?. desconfiado. Amanda provocava-o deliberadamente. havia neles. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. Amanda lia tudo isso.Mademoiselle Rossi. – disse com estudada calma. culto. que o faça por si mesmo. também. Geneviève agitou-se. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. Espero a sua visita no nosso centro social.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. em seguida fora mal-educado 19 . Jules. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. O corpo não mexeu um músculo. preparado para ordenar. o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. – rebateu com calma. como se falasse com uma criança teimosa. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. e não um menino birrento. Ops!. controlada. admirou a própria derrocada. sem cúmplices. tenso.

Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos. Hã? Por fim. perdido. mademoiselle Rossi. retirava o paletó. com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face.. Não era uma mulher covarde. Como ele podia saber?. Dito isso. monsieur Brienne. Epa!. – mentiu fingindo-se ofendida. suspirando exasperada.por. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. Outro atrativo localizava-se abaixo dele. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata. mas isso é um ferimento causado por. apenas isso. a cara amarrada de sempre. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas. Ao seu lado. olhando para os lados. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. por favor! -Fui ferida gravemente.. monsieur.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. Hematoma sexual? -Pardon. monsieur. quase jogar a mulher para fora de seu escritório. -Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. pelo menos? . depois. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas. a vizinhança. eu posso ajudá-lo com prazer.Oui. Le Mur Vegetal ..concebido por Patrick Blanc. -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 . sem que ELE pedisse desculpas. Assim. os lábios constritos. garganta seca.Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. e tampouco uma Joana D’Arc. ácido no estômago. disse: . Ora. tem um cabide no armário para guardá-lo.. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para. ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé. Amanda pensou.. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. estendia para a assistente que o guardava no armário. Fogo na nuca. -Pedido aceito. Às vezes. Um buraco.. Defendia a si mesma e os seus valores. Amanda não resistiu. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. a Torre Eiffel. –afirmou com um leve tom de desprezo. o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo. girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala.

poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã.Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que. perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. monsieur Brienne. – voltando-se para Jarkko. estavam uma brasileira. entretanto. Faltavam os sapatos. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: . Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis. tinha algo a ver com mercado. . O cabelo era loiro. como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho. oui? 21 . conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes. eu mesmo as farei. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. Era um homem simpático. –em seguida. -D’accord. bolsa de valores e impostos. -Merci. vamos! . apesar de ser magro. –agradeceu incluindo um sorriso. comunicativo e inteligente. mademoiselle Rossi. No momento. volta comigo para Helsinque. Mesas pequenas e quadradas. haveria brechas disponíveis para novos eventos. cor de trigo. voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. Por fim.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. –concordou Jules. sendo escandinavo. nada mais que um terno cinza quase azul. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. porém. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. longe de tumultos (como dizia Jules). Jules assentiu levemente com a cabeça. um francês e um finlandês. Não se preocupe com as reservas no hotel. o Jamie Oliver. começara uma empresa de criação e venda de software. No fundo da sua memória. só mudava o país. indagou: . poderia ter vinte e poucos. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café. vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. bem ou mal. Anos atrás. –Agora. Numa mesa próxima à parede envidraçada. Pela manhã. Mas tudo estará pronto para quando chegar. devo ir.Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. Agora. Jules observou os comentários de Amanda. Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. a burocracia era a mesma. monsieur Koskinen. a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos. Típica conversa de negócios.Italiano. Fica um tempo conosco. mal ouvia a conversa dos dois. Mas não naquele início de tarde. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. acaba influenciando o sueco e o russo. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos. ele tomou mais um gole de vinho. Comia como um viking.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. Vestia-se com discrição. na sexta-feira.

Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. Teria tempo para tomar um banho. refletiu Amanda ajeitando a calcinha. saindo do quarto. preparar algo leve e rápido. O problema era que ela queria o sapato CERTO. ma petit brésilienne! –brincou. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados.). disse: . pois o tecido delicado também estava por demais gasto. na outra perna. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. pequena. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen. do jeito que escolhera todos os outros. os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. O proprietário sofria de transtorno bipolar. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. já que não retornou minha ligação. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. a alma. Tentou mesmo. -Hummm.. assim. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. Achei que havia acontecido algo. Dependia.Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. ela pararia de andar sobre andaimes. o sotaque ligeiramente arrastado. cadeiras e garçons. meias e gravatas preferidas do chefe. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. sugou e soltou o ar seguidas vezes. não mais. Tentou sorrir e até se encantar. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. uma bolsa de couro. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. em seguida. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel. desviando das mesas. Despediu-se dos homens. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. sedutor e com um sorriso espetacular. Às nove horas seria o jantar com os Roche. Seu corpo ainda o desejava. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. No entanto. já estivesse fechada. Amanda havia esquecido aquela beleza toda. com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. arrumar-se e dirigir até o Marais. aos pulinhos e trombadas.Liguei para você. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. Na verdade. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se. E mesmo ele sendo lindo. o timbre rouco da voz. 22 . e um par de brincos de pérola. de seu humor. É. pegou a bolsa e saiu do restaurante. puxou a meia-calça rapidamente para cima. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. Comprou o sapato. Cansava-se só de pensar nessa maratona. Estava exausta e já passava das seis. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. obviamente. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. pois sempre acertara a preferência do patrão. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. -Salut. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse.. de lã. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. Diante do espelho. sossegada. retirou o robe. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele.

no elevador.Ah.O que foi. jamais. serviam para uma noite. duas. ou. Enquanto ela pensava no celular perdido. a gente se conhece há três dias. Jacques. Amanda. moço. controlada. perdera-o na rua. – pediu em voz baixa.Já lhe disse. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. a minha vida – riu-se. mordendo-lhe de forma sensual. E era óbvio que não estava. o que dizer. Para companheiros de vida.. Provavelmente. Desviou o rosto dos seus lábios. – enfatizou. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres. A qualquer momento teria de sair. isso. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. Não sabia como reagir. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. na pior das hipóteses. batendo no sofá chamando-a para perto de si. saia da minha casa. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. literalmente. Me diga. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos. à noite. tenho um compromisso. como se não estivesse acostumado a ser despachado. vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. Você precisa sair. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques. capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. Ele não ligava a mínima para Rochelle. Rochelle era o meu amor. perto das quatro. Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo. Ah.Ei. de fato. a ferir sentimentos e autoestimas. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. . Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non. Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força. porém manteve-se de pé. .. .Por favor. a mínima! Obcecado pelo trabalho.. as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. pois trafegava em alta velocidade. deixara-o sobre a mesa do Les Ombres. a abandoná-las. jamais fora comentado na empresa por ninguém.. Onde você estava. o filho da puta. o que sentir.. no corredor da empresa.. Amanda conhecia o tipo... profissional. no quinto andar. do carro do chefe. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. – Escute. Empurrou-o mais uma vez. Mas a empresa era dele. – balbuciou. Tantos lugares. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. . quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 . impondo força o suficiente para afastá-lo. como se dez. na lavanderia. bébé? –sorriu. -Acho que perdi meu celular. deixe-me ver. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . o chefinho controlador. entendi. você é descartável. irônico. Anotação mental: comprar imediatamente um celular. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada. -E eu já sei muito sobre você. debaixo do banco do seu carro. no máximo. não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme. -NÓS temos um compromisso. -Tenho um compromisso.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã.

enquanto o cérebro girava à procura do entendimento. Empurrando-a contra a parede. pensei que fosse me ajudar. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente. Teria de esperar alguns segundos. um trabalho de networking. Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. Amanda gritou. esperei o momento certo para me aproximar. – disse num fiapo de voz.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne... Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão. 24 . deliciosa. A recepcionista da SBO? Hummm. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. -Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada. ajoelhando-se ao seu lado. fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos. -Oui. non? Só não traço as mulheres da diretoria. um pouco histérica.. porque é rico. para levantar informação e material contra Jules. Deixou-se ficar. Inutilmente. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. Mas eu ainda o porei entre as grades.Além do mais. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo. desprotegida. entende.. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. somos amantes. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você.estava me esperando. seu psicopata? Com a mão livre. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. –murmurou junto à sua orelha: . porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e. ao longo desses cinco anos. Amanda Rossi. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. com certeza. Mas você me surpreendeu. porém surpreendeu-se com a força do golpe. inerte. Ele só não foi preso. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite... Afastou-lhe as mãos do corpo. – gargalhou e emendou: . de olhos fechados. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido. Pressentiu que ele se erguia. Nada de precipitação. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. morro de inveja de um assassino. Sabe sua amiga Dorian? Pois é. A dor havia desaparecido.. sábado. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal.. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. como lhe avisei antes. Foi então que tudo mudou. Sentia a face ferver de dor.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto. sou preguiçoso. ma chérie. ouviu seus passos distanciando-se. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto.

Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. O cerco começara havia cinco anos. fosse como fosse. Era um odor de doença. Medo que a loucura o tornasse um homicida. No entanto.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. 25 . cerca de vinte degraus. e encontraria Jacques. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte. num gesto rápido e preciso. no casaco úmido e gelado. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. abriu a primeira gaveta do balcão. Correu para a cozinha. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. A qualquer momento. atirou-se contra ele e. no ar. em seguida. sacudir-lhe os ombros. ruídos de talheres e cachorros latindo. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. na nuca. Deitou a cabeça em seu ombro.. o príncipe que se transformara em sapo. engoliu a vontade de chorar e o medo. pelo visto. tirou-lhe a faca da mão para. uma obstinação que a compelia a desejar viver. com a fúria de uma mulher machucada. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. A batalha não estava perdida. enfiou a faca. no pescoço. Não se entregaria tão fácil. mas ele foi mais rápido. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. desferiu um soco acertando-lhe o queixo. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. E a heroína. criança chorando. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e. Possuía um instinto persistente. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão.Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. intermitentes. Apenas dois andares. roucos. e esvaziou o peito da dor. Não adiantava mais lutar. Desceu os degraus sem acender a luz. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. Tudo abafado pelas paredes. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e. para querer e perder. Seduzira as funcionárias da empresa e. não precisaria usar os punhos. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. porque Jacques. Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. para se defender e defender o mocinho caçava. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. reclamando. logo após o coma de madame Brienne. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. Medo que voltasse a sua casa. Apertou o cabo da faca. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. Mas o mocinho não batia em mulheres . Acertara o desgraçado. televisão. agora. Sentia os cílios pesados de água. para admirar e não ter. segurando-se no corrimão. gritando como nunca havia gritado na vida. agora. Jacques de fato atingiria Jules. Barulhos típicos do cotidiano. sua amante. o vilão. de obsessão em metástase. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. por sua vez..

não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. jogava-se contra as pernas do padrasto. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. Por um momento. num período de duas horas. o terno azul-marinho impecável. obtém informações em questão de minutos. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção. Ela tentou sorrir. -O que aconteceu aqui. –enfatizou. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. monsieur Brienne. Estudava-lhe o estado emocional. Entretanto. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. pouco. o que lhe salvara de uma surra maior. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. do mesmo número. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que. ainda fungando. Quase acertou no alvo. mesmo pequeno. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. grossa. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor. -E o que ela descobriu? . ex-diretora de uma escola infantil. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. lutava até ser arremessado contra a parede. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. chefe. lembrou-se do jantar com os François. ferida e com uma faca na mão. – disse com calma. -Oui. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. Num reflexo automático. machucada. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. porém. o rosto escanhoado. -Monsieur não deveria estar aqui. – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. Sentia-se horrorosa e dolorida. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. tenha sido roubado. 26 .Você me dirá de quem é esse número. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. Amanda. provavelmente. Invadi sua privacidade. – constatou. e depositoua sobre Amanda. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. mordia-o. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. mas a obsessão não é por mim. sem nenhuma emoção na voz. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. aposentada. é capaz de muito mais. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. quase que didaticamente. -Sim. hoje? –insistiu. Encontrava-se numa situação de desvantagem. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva. afastaram-se. alguns centímetros. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. Ele estava tenso. magro e com apenas sete anos de idade. Deitou-a no sofá. homens como eu. Analisava-lhe o rosto. me desculpe. pelo visto. pensou. tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. mas também não precisava me dar um soco. -Mademoiselle Rossi. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. De repente. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou.

Olha. -Imagino que sim. monsieur Brienne. Ignorando-a. E perdendo sua confiança. era mesclada de cinza. Au revoir. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado. determinado como era. Calçou um All Star. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. Possivelmente. com certeza. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . e sim fazer uma tomografia computadorizada. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. não admitindo refutação. – interrompeu-se. –murmurou. Não queria que Jules soubesse de Jacques. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem..Troque de roupa. com passadas largas. poderia até mesmo matá-lo. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola. iria atrás tirar satisfações.Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado. –completou com ar sério. ele. Jules levantou-se. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda. No entanto... agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. corria o risco de perder a sua confiança. conduziu-a até o quarto. Pegou-a pelo antebraço e. deu-lhe as costas e voltou à sala. -Dois minutos. a duras penas conquistada. de óculos. sempre baixa e controlada. Custara-lhe uma pequena fortuna. Todavia. ficaria bisbilhotando até ela voltar. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu.. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta. um homem baixo. Eram quase nove horas da noite. é provável que sim. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia. E Jacques era doido de pedra. . Depois. –avisou-a. precisa de uma tomografia. e olhou-se no espelho. digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. Sentou-se. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café. Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. alta. preto e branco. Ela não pôde deixar de rir. porém riu sozinha. um corpo pulverizado. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz.. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. gordinho. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. –quase gaguejou. Sion. Era um homem desconfiado. Não iria mais a um jantar. as coisas ficaram ainda piores. -Estava fora de si. Seria muito difícil manter segredo. quero dizer. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá.Assustá-lo apenas. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. quase impessoal:. perderia o emprego. Sim.. Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala. mesmo tendo sido comprado de um balaio. Durante a realização dos exames. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). Pensava que se revelasse a verdade.

Por isso como melecas congeladas. -Tem razão. inclua as suas. então. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non. mademoiselle Rossi. dando as costas e voltando à cozinha. não é comida para humanos. semana passada comprei outro edredom. podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa. . Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. Espero que simpatize com o Patolino. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. –declarou sem rodeios ou justificativas. -Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . Abriu-a e. viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. que seja. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. que a fez aceitar. – concluiu. -Buscarei. – debochou. Era homem demais para pouco móvel. antes que pudesse emitir qualquer palavra. . – Isso aqui. o paletó. – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível. segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas. quando fizer as compras de Annie. o que lhe foi comunicado com naturalidade. ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. como um agradecimento e um boa-noite. Impossível.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. mesmo demorando a entender o que acontecia. Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra. Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. constatando as irregularidades em seu departamento. hein? Ouviu um resmungo. Suspirou resignada. O que foi feito. tirou o sobretudo. Se dependesse do outro. -Deveria organizar-se melhor então. . o doutor Sung ouviria de fato a verdade. autoridade ou determinação. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. os travesseiros e o edredom.O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto. plantada as três da madrugada de domingo. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo. definitivamente. . esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento. está novinho em folha. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa.Obsessão em Paris Veronique Gris queda. por exemplo. num apartamento microscópico. Talvez fosse alguma coisa na postura dele. – Vou pôr essas imundícies no lixo. sem contrariá-lo. – falava como um agente do FBI. e ele logo surgiu na sala.Monsieur tem sorte.

você não sabe viver direito. Vou tomar um analgésico. – disse com raiva. Sentiu uma pontada na cabeça. Num gesto maquinal. e sim minha esposa. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. – murmurou emburrada.. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos. Conhecia o seu organismo. Parado diante do móvel. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada. – declarou impassível. – franziu o cenho.Com todo o respeito. . abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol. é normal que a sua vida fique em segundo plano. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. emendou com mais calma: . – respondeu sem dar muita importância.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. levou a mão à testa. sem açúcar. Só havia uma saída. – Quem deixa o seu café quente. Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. –avisou-a. de pé. voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. e não para se dopar. -Dor? -Um pouco. mademoiselle. de dedos longos e unhas curtíssimas. estava exausta. assentir e obedecer-lhe. Na sala. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. imediatamente. e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. monsieur Brienne. Além disso. sou uma executiva graduada em. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. . Depois. maior. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg. Esperou em vão. Entrou. os olhos sérios enfiados nos dela.É para aliviar a dor. extraforte. -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha.. minha cara. ingeriu mais dois comprimidos. –replicou com impaciência. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. monsieur’’. Antes que ele se voltasse. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha. para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha. Claro que ele não a desejava como esposa. mas não diante de um móvel. -Oh. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga. -O quê? O quê? – quase gritou. -Cartas na manga. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde. não seria minha assistente. 29 . Portanto. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. parecia que fazia medidas e considerações mentais.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. -Se não fosse assim. cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão. seu pulso foi fechado por outra mão.

por que não fica mais à vontade.Na verdade.E o que acha? – voltou-se para ela.. tire os sapatos e as meias. -Claro. -Não pode passar a noite trabalhando. comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas. por favor. já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos. Acho que essa viagem será divertida. pelo menos. se ficarei dormindo feito um inútil.. . A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá. Num dado instante. -É. –murmurou.Preciso tomar cuidado. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos. Esse era o estranho senso de humor do chefe. madame..É melhor então que não ponha seus pés na água. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. como se fosse possível. Quero preparar algumas coisas para Helsinque. Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse. Amanda sorriu. .. – explicou-lhe: Assim como estava. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” . mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado. relaxe diante de uma planilha do Excel. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações.Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. – disse-lhe em tom de provocação. –declarou em tom irônico.Se está errado. ajude-me com os relatórios.. – sugeriu. Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa. apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho. concentrado no computador. . – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. . Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. . Abriu a pasta e retirou o notebook. – completou quase que para si mesmo. está começando a ler minha mente. -E por que não tem? 30 . não eram os patinhos de cerâmica. . Com certeza. fique com minha cama. Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada.Já que passará a noite aqui. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre.Durmo sempre quatro horas por dia.Que já sabe a resposta para essa pergunta. Lavou a louça sozinha.. . -Oui. . parecia cansado também. Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. interessado. comentou num tom casual: . Além do mais. Preciso de você inteira. claro. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe. . leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal. – disse. copos e talheres eram lavados por alguém. Eu durmo no sofá tranquilamente. . resoluto.Isso não está certo. com ar preocupado e distante. Tenho certeza de que será como nos outros lugares.Tubarão em meio aos tubarões.Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo.

acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. ela evitava ficar muito tempo em casa. pois usava uma camisola de algodão. secamente. Por um momento. À mesa. adormeceu. . mademoiselle Rossi. que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. Possivelmente. Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. a mais chata e fofoqueira do prédio. -Provavelmente. – disse. sem barulho. – acrescentou a título de informação.Annie tem uma máquina dessas? . que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada. Assim que deitou a cabeça no travesseiro. passou a mão pelos cabelos. 31 Quando . tal possibilidade.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. Era mais como a sensação de uma presença e. Friccionou os braços com as mãos. Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. fora até o seu carro buscar algo. Respirou fundo e ordenou-se a agir. Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. O medo singrava-lhe nas veias. pastas abertas. as lâmpadas oscilavam pálidas. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago.Desde que trabalho para o senhor.Monsieur Brienne! – chamou-o. desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. verificou-lhe a pulsação. por impulso. uma de suas antecessoras. Mexeu-se debaixo do edredom. . já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. -Non. talvez. Agachou-se ao seu lado e. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: . madame Brienne. Havia alguém na cozinha. – disse com naturalidade. tocando-lhe o rosto com delicadeza. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. -É. Não vestiu um robe. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. -Certo. –comentou com casualidade. E encerrou a conversa. Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico. manteve os olhos abertos. viu-o caído no corredor. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. Sentou-se. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade.

–constatou impaciente. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso.comentou debilmente. seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo. Afastou-se e o fitou. E. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar. caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. O tecido da camisa. sempre disciplinados. Jules estava bem. sangrando. A vida era curta demais para tanta seriedade.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama.. caía devagar. uma nódoa disforme e vermelha. Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. Precisava de ar. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. . pensou. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada.Já estaria morta. Tinha de salvá-lo. . sentado à beira de sua cama.sieur está bem. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue. sujeitar-se. estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido. perder uma briga. – declarou-lhe. -Quantos comprimidos. Mas antes de ir. agora. Sorria e balançava o celular de Jules na mão.Você o entregou de bandeja para mim. arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. forçando-o abrir os 32 . No entanto. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. E era tão bom!. Sucumbia no melhor estilo.. não havia dor e perda. Estranhamente. deixando-se levar como pluma ao vento. Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem.. Por que Jules não relaxava um pouco. a cabeça girava ou o quarto girava. estava manchado de sangue. .Vinte e dois. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância. Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo. Jules estava pálido. No minuto seguinte. A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre. Era bom morrer.? Somente vampiros conseguem se regenerar. para a escuridão. tencionava viajar para outro lugar. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão... um inseto inofensivo. Nenhum efeito. Era bom sucumbir. para dentro. . sério.Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe.. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo. empurrava-o e o chutava. Alguém o ferira. os lábios sem cor. Também era bom.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu. -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. Mas ela queria brincar com fogo. – riu com vontade. -Mon.. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. Abriu-lhe a camisa num safanão. no chão. Despencava de um abismo direto para dentro d’água. Amanda jogou-se contra ele com raiva. . Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. agora. bloqueando-lhe a passagem. Ela era uma formiguinha. na linha do abdômen. Jacques surgia à porta. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. sem argumentos. Era até bom. vivo. Investiu novo beijo. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás.. Como? – Como? Como se regenerou.

. antes. apesar do bom senso das palavras. transparente. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. 7h 15 min. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido. procurando não decepcionar o cantor. que foi mordiscado e chupado languidamente. porém. Bonne nuit. no início da semana. voltando para o lóbulo da orelha. Ela gemia baixinho. os seios esmagados no tórax largo e firme. mas nem se mexeu do lugar. finos e persistentes.Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida. Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: .Sempre quis dormir com um macho alfa. Os braços rodearam-lhe o corpo. Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha.Não faça isso. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo.. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente. Mas algo o fez mudar de ideia. precisava vencer a onda.Espere. habilmente. Ainda teve tempo de dizer a Jules. queria sentir-lhe o gosto. A respiração de Jules estava rouca. que ficava do lado de fora da janela da cozinha. Manteve os vidros bem fechados. . Após os primeiros acordes do violão. Abriu a janela. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. aprisionando lábios em lábios. o locutor informou o horário. encaminhouse até o varal. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado. parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura. Por isso. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e. excitada. Ansiava como uma canibal. a exploração passou para o queixo e pescoço. 33 . agora. . Em seguida. Mordeu-lhe o inferior. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio. temia que isso novamente acontecesse. – disse-lhe ao ouvido. eu já volto. sempre o desejara. desvencilhou-se. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda. Após ter chegado atrasada ao trabalho. Batman.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar. Tinha de detê-lo. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. e sim trazê-la para si. constatou-lhe a plena ereção. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. Apertou-se contra ele. Depois. pesada e acelerada. Definitivamente. como não encontrou nenhuma calcinha. por cima da calça social. Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. de Calogero. desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”. Mas ela o queria. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda. – ela fez um sinal com a mão. imponente e tépida. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. desde a primeira entrevista de seleção. – disse calmamente e. Abriu a gaveta da cômoda e..

Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. a qualquer chefe e. No entanto. -Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. pegou a pasta executiva. fêmea. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. Paradoxo difícil de entender.. Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas. era por demais discreto. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. – falou ofendida. com uma pontada na barriga. encontrou um bilhete sobre a mesa. seria demitida como a assistente anterior. . Sorte de veterana. Tinha plena consciência de que. tendo. debaixo do próprio teto. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). que tivera na França. Isso é uma questão pessoal. Em princípio. a sua faz-tudo particular. Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família. Quando a ‘ficha caiu’. entrara em seu quarto e eles se beijaram. . lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. -É assim no Brasil? -O que. a duas quadras do mesmo. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada. Ao voltar-se. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Amanda levou dois dedos aos lábios. -Essa falta de educação. A neve estava mais branda. que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne. Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. muito mais em relação a Jules Brienne. Maquiou-se suavemente. Jules passara a noite em seu apartamento. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio. justamente porque ele não a via como mulher. Jules era fiel à esposa. mas. Talvez até tivesse uma amante eventual. O beijo fora um sonho. digeria a pergunta. Amanda pensava. tentava controlar a irritação. como lhe dizia a irmã. era mantida a distância. ou seja. mas também pela oportunidade. Refletia sobre isso quase todos os dias. J. Sorte de principiante. a esposa mantida viva através de aparelhos. depois que a esposa morresse. Eles se beijaram? Automaticamente. apesar de sua competência e os cursos que fizera. raríssima. Além do mais. que. Impossível. Dorian respirou fundo. 34 . Se tinha um caso. a outra apenas encarou-a sem expressão. Amanda apertou-se no casaco.Está namorando? – insistiu. não somente porque era seu ganha-pão. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. Como havia esquecido? E.” Sim. Amanda. Conhecia a caligrafia. no terraço da cobertura. Jules Brienne jamais a tocaria. por causa do trabalho. Levava seu emprego a sério..Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa. nos cinco anos que trabalhara para ele. Dorian? – perguntou impaciente. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. “Estou no escritório. pensou com maldade.Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço.B. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. em algum momento da noite. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo. não tem o direito de me deixar constrangida. nunca o vira com alguém. íntima. o vento era forte e cortante. palavras dele: “devidamente demitidas”.

Amanda deu um passo à frente. Falava num tom baixo e regular. e a primeira delas referia-se ao café do chefe. as poderosas do 11°andar. Nunca vi esse Jacques aí. desconfiada. – fingiu uma careta de desolação.. ou seja. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina. um tanto a contragosto. Aliás. culto e bastante influente politicamente. experiente.Ele disse que estava tendo um caso com você. olhos azuis e ar plácido. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules. após uma conversa tensa. Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. Cumprimentou os dois homens. – afirmou com naturalidade. Ele era um homem bastante discreto. quando Jules a interpelou: . intrigada. Amanda avaliou as palavras da amiga. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. como eram conhecidas. ele é gay. . Amigo de Jules desde o início da SBO. ela fez um gesto com a mão. Encontrou monsieur Armand Ribery. advogado da empresa. Por outro lado. Se quer mesmo saber. para que possamos abrir processo contra ele. era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos.Conhece Jacques Rodin? . só pode jogar no outro time.Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial. . . era uma mulher equilibrada. Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia. Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria. é verdade. Voltava de um terraço gelado.Acho que sim. –procurou descrevê-lo. . loiro. procurou controlar-se. non? Perfeito assim. ele é alto. se veste bem e faz o tipo sedutor.Deveria? –alçou a sobrancelha. tinha cabelos grisalhos. . Tem um sotaque bonitinho. sentado em frente à mesa de Jules. Um advogado das antigas. Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. Beirava os sessenta anos. – confirmou secamente.. meio assustada e um tanto constrangida.bem.Você tem alguém? .Que linguarudo. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal.Oui. divertida. e tampouco Rodin. por quê? – Dorian indagou. Ela não mentia.Jacques Rodin? – esganiçou a voz.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia.Nossa! Onde ele está? – em seguida. . – Nem precisa dizer. Ainda mais quando dois olhos escuros. Mas não se chama Jacques. -Ele mesmo. meu namorado é cantor e suíço. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 . Encaminhava-se em direção à máquina do café. não faria escândalos por nada. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: . olhos azuis. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito. quando lhe fora apresentado por François Roche. – riu-se. emendando um sorriso nervoso ao gesto. com você e a recepcionista.

se não processarmos esse rapaz.Precisa preservar a sua imagem. Por fim.. ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: . justamente por isso. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. Havia a intromissão direta e. Armand. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne. nervosamente. e era como um puma preparando-se para o ataque.Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. mas não pretendo registrar a. pelo menos. que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda. .. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão.Não somos namorados. assustá-lo.Merci. – declarou o advogado apelando para o bom senso. Amanda sentia-se acuada. também. chamará a atenção dos tablóides. Acatou os argumentos de Armand. Nenhuma delas com segundas intenções. Jules? – ponderou e em seguida completou: .Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. . -Talvez pelo mesmo motivo que o seu. e você sabe o quanto ele é sensível. .tentou responder. registrando queixa na polícia.. o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa. pelo visto. Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos. Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e. Precisamos. ele fará novas vítimas. -De certa forma.. monsieur.. e creio que não se repetirá. ainda mais agora em processo de expansão. visivelmente contrariado. mademoiselle Rossi tem razão. Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário. mademoiselle Rossi.Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo.Mademoiselle Rossi.A bem da verdade. . ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. monsieur Brienne. Apertaram-se as mãos. Jules levantou-se lentamente de sua cadeira. Ela é a sua assistente e.Não é isso. 36 . E não podia. E sabe por quê? – fitou-a intensamente. – começou. um líder a sua equipe. – acentuou Amanda. Evitava o olhar severo do chefe. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. No fundo. mas foi novamente interrompida. Mais tarde nos falamos. Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. No entanto e. . jamais mudará.. o rosto febril. irônico. fitando as pontas dos sapatos. . Qualquer escândalo interfere no mercado. de certa forma. . ele a machucou uma vez e o fará sempre. se a envolvida no caso não quer. . Não seja inocente. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário. – interrompeu-a. -Agradeço a atenção dos senhores. é melhor ainda para você e para a corporação. Jules respirou fundo. – Eu mal o conheço.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. a proteção irrestrita. O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo. – murmurou.. apenas Jules queria levar adiante o tal processo.. deve terminar. também. agressão. pois.

Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente. Jogou verde para colher maduro. Um desejo profundo e intenso.. – afirmou sem pestanejar. .Como.Não conheço nenhum Jacques. Jacques de quê? – indagou com desprezo e. trazendo-a para si. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele. numa expressão de desgosto.? . Vestia outra roupa. sentiria as mãos ao redor de suas costas. observava o chefe de esguelha. dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. . Se mergulhasse ainda mais nas recordações. – provocou. faria qualquer coisa. poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. Voltou a fitar-lhe nos olhos. o espancador. Se quisesse e.Ontem gritou um nome e. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica. Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: . – disse-lhe o mais profissional possível. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -. Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa. -Sim. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! . que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: .Imagino que para proteger o amante. -Você deve ter problemas com sua autoestima. Havia feito a barba. dado às circunstâncias violentas a que se expôs. como uma saudade antiga. teria de assumi-lo. caso o meu amante o merecesse.Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar. Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem.. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo. até mesmo perder o emprego. – retrucou com altivez. vendo que ela não reagia.. Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina.Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você. a camisa por uma azul-clara e a gravata. talvez fosse perigoso querer. mas caso o beijo fora real. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe.O seu protegido. sem dúvida. pelo menos quando quero alguém vou até o fim. Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas.. Se fora um sonho.Com licença. apesar do tom azulado do queixo e maxilares. –ordenou com frieza. O terno fora trocado por outro mais escuro. acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino. nos fragmentos confusos espalhados pela mente. 37 .. Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo.Obsessão em Paris Veronique Gris . Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom. e o cabelo ainda estava úmido do banho. bordô.Agora pode preparar o café. Jules não entenderia a observação. O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher. .. já havia enfrentado outros piores. completou: . Sustentou-lhe o olhar. assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”.

entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade.. . . quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar. então realmente houve um primeiro. -Quer que eu vá até o fim. Todos os homens que conhecera. Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. todos. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. sério. não de vergonha e sim de desejo. acabavam de explodir duas granadas.E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo. Dentro de si. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha. sentindo o rosto corar. . Gemeu baixinho quando ele se afastou.É complicado. . depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules.Obsessão em Paris Veronique Gris .E se antes eu a provoquei. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido. os maxilares tesos. – disse tentando sorrir. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . Colaram-se os corpos.É mesmo.Ah. queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos. Estava difícil respirar. não é? – murmurou. Ela deslizou as mãos pelas costas dele. Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. Baixou a cabeça. . as veias nas têmporas latejando. apenas ensaios. Ele assentiu levemente. foi a continuação do primeiro. ainda tocando-lhe a face. -Sempre o admirei por sua integridade e caráter. Afastou-se um pouco e o encarou: 38 . Se antes o provoquei foi só uma crise de ego. Amanda. Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não. foi só uma manifestação doentia do meu desejo. -Seria tão fácil. Jules deixou-se abraçar. voltou a encará-la. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos.Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. monsieur. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente. – comentou com bom humor. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. Cinco anos. – confidenciou sem jeito..Non. Capítulo VII . traçando uma longa ruga no meio da testa. Baixou a cabeça e percebeu que tremia. – sorriu.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu. desafiando-o. Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si. As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só.

. grave. . Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade. o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem. ignorando-a deliberadamente. –ponderou fitando-a gravemente.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha.Mademoiselle Cuvier.E. .Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia.Não é só isso. – disse baixinho..Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei. . avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing. confuso. para hoje. .A gente não precisa fazer nada. Nesse tempo em que Rochelle está em coma.E não é? Jules suspirou contrariado. independente da situação de saúde da minha mulher. – disse tentando controlar a incipiente irritação. . Tinha vontade de quebrar algo. -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha.Esse cara. – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez. evitei qualquer relacionamento mais. Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou. – afirmou irritada. Cruzou os braços em frente ao peito. posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente.De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras. . então? . esse homem que me agrediu..Mais alguma coisa.. monsieur. os olhos cravados nos dela. – disse num tom de reprovação.Sinceramente. – tentou explicar-se. justamente por que sou casado. ele não significada nada para mim. um pé batia no carpete.Obsessão em Paris Veronique Gris .. . tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha. digamos.Tudo. sendo assim. . – declarou impassível. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre. . profundo.O que é. . o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma. Sentou-se e. se possível. . . mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo. . Agora. sem pressa. quebrar algo na cabeça dele! 39 .murmurou. contrariando seus sentimentos. s'il vous plaît. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária. monsieur? . Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse. eu sou casado.. – enfatizou. a voz firme. é óbvio que não pedirei o divórcio.Non.Não tenho “casos”. Apenas quero que compreenda a minha. . intermitente. apertou o interfone para falar com a secretária: . Merci. não me expondo em público com outra mulher.Amanda. E isso inclui respeitá-la..Merci. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. Rochelle ainda teria uma vida normal. Se eu tivesse feito isso há cinco anos.

quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque. -Entendi. . e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. pense sobre o que falei. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular. o coração aos pulos.. -Deseja mais alguma coisa.Eu ainda não sei o que quer de mim. já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. – imprimiu firmeza na voz..Está tudo tranquilo. .Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. -Escute bem. A ligação está péssima. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias. -Como? -O que acabou de ouvir. então temos problemas de comunicação. Ao longo da manhã.Que horas devo ir? . mademoiselle Rossi.. Por um momento.Bonjour..Bom. como estão as coisas por aí? . Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos. – respondeu brandamente. obedeceu à rotina de sempre. monsieur.. pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste. Assíria. Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava. conversando atrás do balcão. monsieur? – indagou-lhe friamente. agora. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente. E desligou.Agora. pondere a respeito. 40 . ficaram apenas se olhando. depois completou com uma sutil arrogância: . Mas até mesmo executar tais tarefas. – afirmou. Nem pense em se atrasar. –reclamou. E ela descobriu que lutava contra um leão. –disse resoluto. Ao chegar.Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”. monsieur. –Agora. Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho. Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. ganhavam um aspecto de sutil intimidade. . nesse novo estado alterado de sentimento. oui? . Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã. abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. . retomando a máscara séria e fria. houve uma pequena mudança nos planos. mas. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho. – afirmou.. A feição dele suavizou-se por um momento. Ele a trará para a reunião com os finlandeses.

dos pinheiros ao redor da casa. neste momento. Entretanto. apesar da rusticidade da madeira. imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . Entretanto. Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. No entanto. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. De fato. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. sobre o primeiro andar que. Meia hora depois. rica. ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado. o chalé de Jules. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. de madeira rústica sobre pedras.distava. ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro. uma ampla varanda aberta. possivelmente era a garagem. Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. já na entrada de um pequeno centro comercial.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia. Jules havia marcado a reunião. as sacadas. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. prestava a atenção nas variações do tempo. o seu refúgio solitário. e não dele. estável e aberta aos empreendedores. no mínimo. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. procurando entender o que acabava de acontecer. durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. admirava a beleza do lugar. uns dez quilômetros dali. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. por que havia transferido a tal reunião para França. -Belo dia para voar. Um lugar totalmente ermo.Amanda constatou . para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E. observando a brancura à sua frente. assim. Desde quando usava o seu chalé. Portanto. no auge das nevascas. nas montanhas. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. nesta época do ano. era um lugar 41 . ou seja. A construção de três andares. formando um cerco na solidão do chalé. tanto no céu quanto abaixo. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve. ela praticamente perdia o chão. pois ele cumpria a agenda. a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. –emendou um sorriso amarelo. apresentava sofisticação tipicamente europeia. e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. Na frente. Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. evitando. isso poucas vezes ocorrera. No entanto. Diante das janelas frontais. O vizinho mais próximo .

espalmada. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face. Ao descer. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. era ensurdecedor. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. vestindo um suéter preto. jeans escuro e tênis. sobre seu maxilar. de sedução. num beijo profundo. Antes que ela esboçasse qualquer reação. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. O helicóptero já estava no alto. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. O cabelo. Abaixou-se para pegá-las e. estava Jules e seu cabelo azeviche. Escorado junto ao batente da porta. Jules manteve os olhos fixos nela. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. mais por impulso do que necessidade. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. mais uma vez. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue. justíssima. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . o scarpin escuro e a saia de lã. não contava com a sua espessura. no seu mundinho. de gola alta. Ficaram abraçados por um tempo. e tampouco percebeu que os flocos de neve. No minuto seguinte a porta foi aberta. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. estava bagunçado. em silêncio. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. e incitou novo passo para. a voz ainda rouca. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. inclinou o corpo para baixo.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem. Apertou-se no casaco cinza. Ela tentou identificar a pessoa. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. Amanda foi a primeira a falar. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. mergulhar a perna na neve. de uva. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. um palmo acima dos joelhos. Durante todo o trajeto. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. Somente quando parou diante dele. distanciando-se deles. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. normalmente penteado e aparado. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. quando se ergueu. bem acima dos grandes dramas da humanidade. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. salpicavam-lhes os cabelos. acabou deixando cair as pastas que segurava. de lã. Era como se estivesse de férias. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. Jules empertigou-se. Ao tentar afastar-se. Alguém afastou a cortina.

pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. aquele que ela conhecia havia cinco anos. seguido de um “por favor. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente. –ironizou. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve. Amanda” impaciente. num tipo de rusticidade elegante e selvagem. sentia-os de fato inchados e doloridos. Ele olhou ao redor sem muito interesse. -Na verdade.. .Quer provar meu sangue? – provocou-o. o de barba por fazer. voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: . jeans e tênis. bem. abajures com lâmpadas de quarenta watts. . O outro Jules. –brincou. bem típico de workaholics. mademoiselle Rossi. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. O que dá no mesmo.Acho melhor entrarmos. 43 .Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. iluminavam languidamente a estante com livros. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta..Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar. possessivamente. profundamente.Sua casa é linda. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás. Amanda levou a mão à boca. Sem deixar de fitá-la.agora o nome é episódio depressivo grave. os quadros de pintura abstrata e o bar.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: . . Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não.Machuquei seus lábios. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda.Tenho cópias aqui comigo. –debochou. em madeira de pinus. com um empurrãozinho do pé de Jules. mas impõe mais respeito. O Jules dos Alpes franceses. Depois.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo. Jules parou à porta. portas e sacadas. monsieur Brienne. Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior. Em seguida. ainda abraçado nela. decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork. tudo era composto por madeira reciclada. Ele pôs o braço ao redor de seus ombros. Antes de entrar. -Oui. mais aconchegante e cheiroso. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. achei bastante incoerente tal reunião. esquadrias das janelas. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: . virou-se e a encarou seriamente: . que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris. esse Jules agiu de forma inesperada. Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: . diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. Do teto ao piso. -Homens como eu. passando pela parede. não sofrem colapsos. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. Quando a porta foi fechada atrás de si. Não pôde deixar de rir baixinho. . Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório.

Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. Com o pano de prato dobrado. Numa banqueta de madeira. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico. . – disse Amanda. -Temos que comer. no centro da cozinha.O cheiro é excelente! . Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. . o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e. Isso sim significava uma grande mudança. com toucinho e queijo Reblochon. um queijo cremoso. marcando o tecido delicado da roupa. manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. ele não usava mais a aliança na mão esquerda. assegurei-me que de fato seria um refúgio. parecia derreter dentro da boca. . aprendi a cozinhar. -Você também. abriu o forno e deu uma olhada para dentro. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho. creme de leite. levava ao porão. Amanda observou. – disse baixinho.É uma comida típica desta região. percebeu que após cinco anos.Voilà. paninhos coloridos ou imãs na geladeira. não havia detalhe algum feminino.Aqui está o segredo de uma boa refeição. Quando comprei o chalé. em seguida. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. nada de enfeites. Comprei um livro de receitas culinárias e.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. crocante. não estava em lugar algum. Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida. . Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. Por um minuto ou dois. Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo. um lugar para ficar distante da minha vida parisiense.Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. toalhas. enfim. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que. . retribuindo o duplo sentido da frase. Realmente.Da última vez que fiz faltou sal. Pelo visto. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. pelo o que Amanda verificou. Por fim. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha. Antes de entrar. A cozinha era arejada.Tem serviço de entregas por aqui?. É fácil. era visível que procurava controlar-se. ele prosseguiu: . é um lugar tão isolado! –debochou. É feita com batatas e Reblochon. A camada superior. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. . Para acompanhar o prato principal. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. como fui alfabetizado. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. toucinho e alho. quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 .alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. ele suspirou profundamente. sem muito entusiasmo. -Deve estar com fome. Jules havia preparado uma salada com cogumelos. na verdade. ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia. Ele parou diante do fogão. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. ingredientes e modo de fazer. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. havia planejado o encontro no chalé com antecedência. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: .

vou entender e aceitar. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. depois. sobre o aparador para secarem. um executivo da área da computação faz um prato delicioso.Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas.O quanto estava lúcida àquela noite? . – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. Jules recebia a louça e.Quero você e muito. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador. agora. baixou os olhos e encarou-a novamente. pequeno e sem segurança. já de posse da esponja e detergente.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles.O suficiente para não esquecê-la.Se não está preparada para ficar comigo. . Ele sorriu com um um jeitinho tímido. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. . Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. . Inexplicavelmente. é longe.. –murmurou. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio.Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando. assim.. .Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. Não queria ficar sem ele.Se vai complicar tudo. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. . ordenhavam novamente suas vacas. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem. . Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela. sério sem censura ou ameaça. bastante interessado. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. ela sentiu um repentino mal-estar. -Você não luta por ninguém mesmo. levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la. e um deles é essa mania de distorcer o que falo. mas não consigo deixar de perceber seus defeitos.deu de ombros e acrescentou:.Os executivos e suas vagabundas. . a oficial e a do affair. agora. com eficiência. Ajeitou os talheres ao lado do prato. -Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha. – disse Amanda sorrindo.e isso não afetará nossa relação profissional. .Amanda. Como Amanda não possuía nervos de aço. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum. –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo. Vou comprar outro maior para você e. acabou quebrando o silêncio. 45 . -Quero que saia daquele apartamento. Entregou-lhe os pratos. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o. – observou calmamente. . . . Apenas nos beijamos. interrogativo. Podemos parar por aqui.. – pediu. nesse almoço. colocando-as. Será que só o presidente não sabia? – ironizou. não fale.Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo. .. copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. – falou.E. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente. -resmungou baixinho. Ao constatar que não lhe responderia continuou: . – disse incisivo. em pleno século XXI.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem.

tão perscrutador. E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. dentro. numa posição de espera. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa. Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. – murmurou ela. deitada no asfalto sangrando me mandado embora. Ele estava todo ali. . Além do mais. Além disso. . Ano passado. No entanto. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. vinte por cento dos pacientes se recuperam. mas. nem na vida. não existe no mundo.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. .Claro. mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras. mesmo que tenha me traído e. -Por outro lado. a pernas separadas. o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. . Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. baixa e tranquila. Olha só o meu casamento. Jules mantinha-se afastado e sereno. Jules. é a mulher com quem casei e. escaras e subnutrição. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana.Acha que não sei? -É diferente.. apesar de rica. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . . é um ser humano. Rochelle não me amava.E se a sua esposa voltar a si?. nem conseguimos trabalhar direito. mas ela não reagiu por si. Foi uma experiência dolorosa e frustrante.. por que. –deu de ombros num gesto de impotência.. -Entendo. . de acordo com a medicina. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada. você disse que somente confiava em mim.Rochelle é a minha obrigação. tentamos retirar o respirador. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não. . Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida.riu-se com amargura – mesmo assim. Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver.Olhe para mim. 46 .. Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo. –respondeu com seriedade. .Por que está me dizendo isso? . a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças. A vida não nos oferece garantia de nada. é a minha responsabilidade por que. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos.. Há uma luta constante contra pneumonias.Naquela noite que passei em seu apartamento. A nevasca atingia as montanhas. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte. acima de tudo. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. nós. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado.Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que. Amanda? Isso não existe. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos. mas amava a vida.. não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos.Você quer certezas e garantias. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha.

Por um momento. umedecido pela ligeira camada de suor. para que ela o sentisse todo dentro de si. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço. abocanhou-lhe um mamilo. penetrou-a.Entregue-se a mim. controlava a cadência das arremetidas. e.o que você fazia. de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos... Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. Era assim que Jules Brienne sempre agia. abriu-lhe o sutiã e. depois. mantendo-o entre a língua e o palato. – disse.saber. deslizou a calcinha pelas pernas dela. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas.Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador. saboreando-o.. -Eu a devorava.Jules. Em seguida. sem deixar de fitá-la. Em seguida.me diz. com movimentos mais fortes. com a cintura. alimentado o cérebro de respostas. detendo-se no lóbulo da orelha.. enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo. segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo. Arqueou-se para. Penetrou-a totalmente.. introduzindo-se em princípio com gentileza. por um tormento mudo. de renda.. . .Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. os olhos negros como os de um predador voraz. as narinas dilatadas e os lábios constritos. a cabeça inclinada sobre seus seios. como se fossem um corpo só.. devagar. Depois. expondo o sutiã branco. que escorregou para o chão. firmes na cintura dela... Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente. dentro e fora da empresa. tocar na dele.quero muito. Ele puxou-a para si com brusquidão... deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. Amanda gemeu e arqueou o corpo. queria-o fundido em si.Quero. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis.. Controlou-se o máximo que pôde.. preta. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia. As mãos. Jules. o corpo esguio encurvado para si. Amanda. . Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa.Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. sendo chutada para cima do fogão. Deitou-a sobre a mesa e. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca. o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. Num gesto rápido. ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. . sutiã e meia-calça 7/8. os maxilares contraídos. com o joelho afastando as pernas dela. as sobrancelhas juntas.. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível. –afirmou sem maiores explicações. cadenciados com seus gemidos e 47 . como um legítimo macho alfa. um tormento sexual. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração.Não a amo mais.E. lentamente. baixou o jeans e a cueca boxe. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase.. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo. esfregando os lábios nos lábios dela. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido. de pé. violentos. .. Depois. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. Num movimento ágil. faminto. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos. Ele se aproximava com o rosto circunspecto. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: . olhando-a diretamente. Ela queria mais. . desabotoou-lhe os botões da blusa de seda. havia percorrido todos os caminhos racionais. Afastou-se e.

.Queria ter podido me controlar mais. Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço.brincou. – desculpou-se. dobrado. a primeira vez dos dois. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. Era para ter sido ali. pétalas de rosas azuis. no meio das montanhas brancas de neve. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. sob a janela. Ao abriu os olhos. e puxou-a para um longo abraço. A lenha crepitava na lareira e. . como era alto. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. Por diversas vezes. puxou-lhe o corpo para a borda da mesa. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. –brincou.Quando eu conseguir pensar. o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. perto da janela. impregnara-se do seu cheiro na pele. levando-a a gritar numa voz irreconhecível. brancas e azuis. Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante. Enlaçada em seu pescoço. à esquerda do bar. Quando despencou da montanha-russa do prazer. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse. Antes de atingirem o cume do prazer. amarelas. E o cheiro dele. Depois. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. Entretanto. Em dois minutos. agora. em cima da mesa da cozinha. Em vez de vesti-lo. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela. os olhos fechados. . Quando entraram no quarto. Penetrou-a novamente e. nervos. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. vez por outra. separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. congestionados em suas órbitas. Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. . colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural. Sobre uma mesa. tinha todo o seu corpo possuído por ele. de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. Ele subia devagar os degraus da escada. Do lado de fora. 48 O . ao ajeitar-lhe a gravata. beijando-lhe o pescoço. para ela. ao longo dos anos. trouxe-o e o pôs em Amanda. recebendo um sorriso terno de presente. esfregando-lhe os ombros. analiso o que você falou. a força dos braços. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras.Empacotada para viagem. E. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. Aos pés da cama. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. fora-lhe quase como uma companhia.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. num canto da sala. sobre a colcha. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas. músculos e carne até explodir como uma bomba. emitia ruídos secos. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. ele abriu os olhos. naquele quarto decorado romanticamente. E não era a primeira vez que a sentia em si. um robe de seda. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó.

Ele sugou-lhe com vontade. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido. com o outro. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo.. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. enlaçou-lhe o pescoço e. ergueu meio corpo e. trazendo Amanda para o seu colo. que foram sugados com força. num timbre de quem explodia de prazer. arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. passou os braços por baixo de suas pernas. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. Ainda sem conseguir respirar normalmente. Subiu novamente pelo mesmo caminho. Por baixo de suas nádegas. roçando os seios no seu tórax. atirou-se para um mergulho no mar denso. Gritou o nome de Jules. Num movimento ágil. auxiliou-o no vaivém de seus quadris. Do alto. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela. depois de mordiscar-lhe o ombro. que começou tomando-a aos poucos. Ne me quitte pas. que a sustentaram enquanto seus quadris. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. alternando as coxas. Por um momento. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. enfiou a língua e o mordiscou. Prorrogou a carícia. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. descendo até a curva de suas ancas. Com apenas um toque num dos botões. Avançou para o umbigo. erguendo-se ligeiramente. foi acionado. por baixo da pele. cada um na sua vez. de frente para ele. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. Voltou-se toda para ele. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha. 49 . sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. Jules gemeu ao seu ouvido. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. em seguida. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos.. o ventre. em seguida. o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar. encaixados. enterrou as unhas na sua pele nívea. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada.. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo. o sexo para. seca. por uma boca voraz. teve-os engolidos. diante do corpo dele. morno e eletrizado. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo.. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. Quando percebeu que ela estava pronta.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. até o fundo. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. abertas. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração. Esfregou os seios no tórax firme dele e. Jules sentouse na cama e puxou-a para si. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e.

. perguntando-lhe algo e. -Monsieur. forte e sensível... sentindo-se exausta e relaxada. jamais tenha dúvidas sobre isso.. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali. obviamente. sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada. o cenho franzido. Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la.mordeu-lhe levemente o lábio inferior.. – disse calmamente num tom divertido. Eu tremia. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada. Roçou seu nariz no dele.. impecável e bastante experiente. .Contratei-a por mérito profissional. . sorrindo. -Você é muito mandona. . Admirou-lhe o tórax firme. entende? Mas você.. Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda. Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. simplesmente. – afirmou com naturalidade.corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: . monsieur Brienne. Em suma.Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. .Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe. Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si.-provocou-a. após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos.Uma vez você ligou mesmo. – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente. bem. .sei que não gosta de falar sobre isso. Sou o pior chefe do mundo. Jules.mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 . Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados. Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. a pele ligeiramente orvalhada de suor. Virou-se e viu-o manejar o controle do som. apertando-a num abraço possessivo. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro. você. – completou com um alçar de sobrancelhas. procurando uma música no playlist digital.Humm. aliás. – sondou. A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante. não obtendo resposta.. Depois. . – constatou e emendou com suavidade: .. a respiração controlada. -terei de domála. . – constatou num murmúrio.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho. . uma combinação um tanto paradoxal.Verdade? . digamos. . dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico. Jules era um amante refinado. a última etapa da seleção era com você. precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio. . -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça.Ainda me deve uma tomografia. Gentil e bruto. mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha.Disfarçou muito bem. .Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que.Totalmente. alguém sensível o suficiente para lidar com o meu.É verdade. pragmatismo. – disse-lhe sorrindo. -Tive sorte. com a cara de poucos amigos.... então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. roubando-lhe um sorriso suave. minha temperamental assistente. suava e quando o vi sentado atrás da mesa.

Naquele momento. salientando a face esculpida com vigor. forte e primitiva. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios.Assim que amanhecer. de preferência. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. mesmo imperativo e urgente. Voltou-se e viu-o na mesma posição. apenas observar e.. manteve-se quieta. também era sedutor e rouco. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris.Não tive intenção de incomodá-lo. ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. ouviu-lhe dizer: . mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar.Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. –direto e seco. eram somente um macho e uma fêmea. bebendo o vinho. cruzados em frente ao sexo. Aquele era um assunto tabu?. de frente. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. – disse por fim e deu-lhe as costas. ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. . Falei besteira. até para os tipos românticos como você. ela resolveu ceder. ele 51 . Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. Jules voltava a ser o chefe exigente. – ironizou. com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. Dera-lhe uma ordem. non? É clichê demais. pardon. Maxilares contraídos. a mão estendida à espera da dela. –Vamos nos poupar disso. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. revelavam os seus sentimentos. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. refletiam luxúria. . ainda nu. Satisfeito na cama. como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. -Sente-se aqui. Ele olhou-a com o rosto sério. Mais do que nunca. Os braços ao longo do corpo. nua. imóvel. o timbre de voz que usara.O protocolo pós-sexo. ma belle – pediu com a voz abafada. brutal. confidências à meia-luz. . para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. Sexo e sofisticação não combinavam. Postou-se diante dele. surpresa pela reação hostil dele. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. em silêncio.Fui grosseiro. Com um gesto lento e displicente. concentrado no fogo da lareira. Amanda sentou no colo de Jules. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. sem maiores explicações. Devido ao último confronto. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente.. mademoiselle. os ossos dos maxilares. E Jules odiava demonstrar fraqueza. branca e limpa. Intimidada e insegura. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. -Tire a roupa. Manteve-se de costas para ele. Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. diante do fogo. encaixando suas pernas ao lado das dele. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. Mas a voz. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. mademoiselle.

buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. afastando-os do rosto suado.Toda. as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. Num segundo. Medo e excitação. Amanda temia o próximo passo. -Vou te foder. sem preconceitos ou impedimentos. Temia o ato. . deitado para trás ao longo do abdômen firme. Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem. – gemeu Jules. diz Jules. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. Admirou-lhe o pau duro e grande. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. mas ainda não farei amor com você. as costas largas de ombros proeminentes. ma belle... Deitou a cabeça para trás. as pálpebras semicerradas. Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. O toque foi lânguido. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão. provocando-o com o seu sexo. num gesto instintivo. ainda não.Está encharcada. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. como é linda. parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: . 52 . Aproveitou para admirar-lhe a nudez. Dito isso. sugerindo. Por outro lado. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade. diz que vai me foder. saindo da boca de Jules. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado.-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. sem forçar.Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela.. linda. que foram chupados pela boca máscula. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá.Dieu. Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos. como uma pequena morte. minha Amanda. torturando: . as pernas ladeando as dele. A cintura bem torneada e o traseiro bonito. Estremeceu-se de medo. na voz de Jules. apenas a ponta do dedo. o quadril esfregando-se no abdômen dele. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo.. Ela se esfregava na mão dele. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes. endurecendo os bicos. Como se seguisse a linha de seus pensamentos. -Não diga fazer amor. vou fodê-la toda. friccionando devagar e circularmente o clitóris. um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. o quadril... beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. -Diz que vai me foder. com ossos que despontavam acima da rótula do braço. apenas roçando. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. Ouviu-o rir baixinho. -Como. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. ma belle. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer. concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios.. nos seus ombros.. suavemente. enquanto segurava-se nele. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. – pediu quase num murmúrio. Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele. em seguida. a respiração também alterada. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele.? – indagou aturdido. . Apoiou-se sobre os joelhos.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. emoldurado pelos tufos negros.

–chamou-a para o seu colo. Amanda. – sussurrou. – Seus olhos estão arregalados de medo. . belle. Ao fazê-lo. bem típico seu. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. Quase 1. as orelhas. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. antecipando o que seu pau faria.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. um de cada vez. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. Garganta seca. -Acredito. A sensação era boa. liso. balançando-a com displicência. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. numa carícia mais do que tocante: íntima. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente. com dois de seus dedos longos. ma belle. ainda mais duros.. e Jules beijou-lhe o ombro. completamente envolvido pelo beijo. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. eu jamais a machucaria. fitaram-se por alguns minutos. depois de deixá-la completamente louca de desejo. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. -Então vamos desfazer esse medo. longo e perturbador. reconhecendo um no outro. . – Apenas siga-me que eu a levarei lá. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. Amanda ajeitou-se fundo no sofá. Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. um prazer para o nosso mundo particular. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. fazendo-lhe um carinho no queixo. vem. disse com meiguice: . Nó no estômago. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. Jules beijava muito bem. –declarou com ternura.Isso. Amanda gemia alto. Sugoulhe os bicos. sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. agarrada aos ombros dele. com cuidado. Aos poucos. um prazer para nós dois.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. Ele sentou-se ao seu lado e. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele. a vagina molhada e os bicos dos seios. E quando se afastaram ofegantes. duro. 53 . prestando bastante atenção no nervosismo dela. Assentiu com a cabeça. borbulhava. que ela nem pensou em encobrir a verdade. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão. Ela confiaria a própria vida a ele.. fervia e esquentava-lhe a nuca. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros. agora. assim. devagar. seus sexos tocando-se. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. mordiscando-lhes. Amanda contraiu-se. – pediu-lhe baixinho. Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. como se se vissem pela primeira vez. Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus. inebriante. um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador. atlético sem ser malhado e magro sem excesso.Afaste as pernas e incline-se para mim.Vem aqui. A pergunta foi feita com tamanha suavidade. prendendo-os entre os dentes frontais.

Era visível o esforço que fazia para controlar-se.. Deitou-a sobre o tapete e. sente-se sobre o meu pau devagar. Com o polegar... e eu farei a sua vontade. Amanda. Tomada pelo prazer e encharcada de suor..... que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante. o desespero no timbre da voz.. encurvada e com o traseiro apontado para cima. ela seguiu as suas orientações. Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira. Agachou-se entre as pernas dele e. que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e.. Amanda.dói. mas. – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si. a expressão séria e. -Foi tudo. sem pressa. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais. de queimação fê-la recuar.. os olhos fechados.isso. ma belle? Se doer. entrou tudo. a mais linda. sobre a ponta do pênis. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal. – gemeu desapontada.. Amanda.. Você é perfeita... somente você. as veias da testa e do pescoço dilatadas.isso. uma dor aguda. Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém.é como eu sempre imaginei. – quase gritou.. abraçado a ela. Ele bem que tentou manter-se terno. Amanda. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior.. isso. um ruga funda no meio da testa. . Como uma aluna aplicada. Ela sentia-o descontrolado. Você está no controle. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. -Acho que não posso. ao mesmo tempo. –Isso.. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão. apenas observava-a. o cabelo úmido.. puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. 54 . jamais a machucarei.não vou machucá-la.. Num gesto rápido e eficiente. deixe-o deslizar aos poucos. ele levou-a consigo para o chão. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris. Jules? – indagou-lhe quase sem voz. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora. . mon Dieu. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida.. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. esforço esse que Jacques não o fizera. ainda enterrado fundo no traseiro dela.... -Nem a metade. pô-la de quatro. guiou-o para a sua entrada detrás... – Você fodia minha bunda na sua imaginação. mexe devagar.. relaxa que entra mais fácil.. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela. -Acho que pode.. –falou posicionando-a sobre o pau. enfiado nela. o rosto tomado por uma fina camada de suor.. pare. tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. subindo e descendo o traseiro no seu pau.Tudo. com a mão no pau de Jules.gemeu.. -Você é mulher mais linda do mundo. extasiada. Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo. Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar... que lhe escorria pelas costas e seios. mon amour.. Jules. Jules. com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela. ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave. como é apertada e gostosa. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si. relaxa. -É bom demais. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina.

As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. que não fora possível vê-lo. – brincou. Abraçaram-se debaixo da ducha. Realmente. -Vire-se. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. exausta e saciada. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. ensaios e rascunhos. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. agora. –resmungou contrariado consigo mesmo. 55 . okay? -Oui. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta. com Jules. Talvez ainda fosse madrugada.. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. -Porra. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. subiu os degraus e entrou no banheiro. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. pequeno e de seda. feminino. que deixava marcas no corpo e na alma. quero dar-lhe um banho. minha lindinha. do tipo inesquecível. docteur. fê-la gozar novamente. Haviam dormido abraçados. -Espero não tê-la machucado. Entretanto. envolvidos pela água e pelos vapores. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. Todos os outros. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. O seu melhor homem estava tão próximo dela. Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. já sabia onde estava. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. ao lado da cama. Avistou um robe caído no chão. que foda maravilhosa. ela estava apavorada. Mas não posso receber alta. dosando as arremetidas. Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. Por isso. – disse rindo. Era novo. Um amante para sempre. -Estranho. -É porque estou sem as botas do Kiss. empinando a bunda para Jules. antes mesmo de saboreá-lo na cama. Completamente apavorada.. que a amparava e se lançava na direção contrária. ela deixou-se cair de bruços no tapete. pegou-o e o admirou. beijando-lhe no tórax. enterrando-se até o fundo da vagina. Quando acordou. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. possessivamente. Ela sorriu satisfeita com tudo. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo. Jules virou-a de frente para si. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. Lavou o rosto. inclusive com o novo vocabulário do executivo. Como ela não se mexia. pegou-a no colo. vou lavá-la para diminuir a ardência. –brincou. -Estou curada do trauma. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. Afastou o edredom e foi ao banheiro. Sentou-se. -Vem. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. Ainda com Amanda nos braços. nesses últimos cinco anos. a velocidade e a força. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. içou-a sobre seu corpo. Amanda concluiu que sua vida sexual começava. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. controlando os movimentos.

o jogo havia virado. seu chefe. O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante. Ignorou-a e voltou à cozinha. já havia encerrado o telefonema. . concentrado na conversa. 56 . Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. – declarou. Usava uma camisa de gola polo azul celeste. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. – afirmou com desdém. Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. s'il vous plaît. desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth. Reconheceu Jacques Rodin e. será uma chateação dos diabos. jeans e tênis. presidente-executivo da SBO. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. Engoliu em seco. Agora. Jules. Respirou fundo e procurou controlar-se.Bonjour. tornava-se a megera. em frente à cozinha. Pronto. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás.Jacques Rodin. Pela reação de Jules. O cabelo molhado estava penteado para trás. pois suspirou contrariado. Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo.Tevê aberta? Merdè. mostrando a face recém barbeada.Sei quem é. mas soou como acusação. imediatamente.Ele a agrediu. diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. agora.Venha e tome seu café. agora. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. . sério. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios. tão escuro quanto as trevas. Encontrou-o na discreta sala de jantar. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . o que se destacavam eram os sulcos na testa. ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. medo e dor fizeram-na contrair os lábios. . rasgando a foto em vários pedaços. Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne. bonito. encurvando o canto esquerdo dos lábios. . – disse-lhe. Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules. . Saía e voltava pela porta de correr da cozinha. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade. a testa franzida. sentado no banco de um parque público. Entretanto. entre a escada e o bar. sorria para a câmera. Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença. ordenou: Agora. No caminho. não foi? – era uma pergunta. Esperava um beijo ou um sorriso.Claro. tive a confirmação. a lembrança da frustração. . ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. – em seguida. – concordou solícita. me transfira para o marketing. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. Num gesto ágil. . mademoiselle Curvier. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO. num gesto de ameaçadora tranquilidade. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave. E. Voltava a ser circunspecta e fechada. . Um homem loiro. À medida que descia os degraus.Quero que veja uma coisa.

Na saída de um restaurante. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você.Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas. mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos. . pena que ele seja um pouquinho psicótico. Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme.Jamais me dê as costas. uma veia despontava latejando no meio da testa.Dê uma olhada no seu celular e encontrará.Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher. Jacques salvara-a de um salto quebrado. Lutava para manter-se calmo e equilibrado.Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências.Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou . erguendo o queixo em desafio. Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta. .Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado. exasperada.Não sei. . Ele suspirou exasperado. Jules. – declarou secamente e deu-lhe as costas. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía. mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela. . – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados. . Amanda baixou a cabeça. . embaraçada. e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! . non? Monsieur Rodin. Diga-me. Jules puxou-a pelo antebraço com força.completou sem dissimular o desprezo. Então. interrogativo. . Ou seria “não sei. amigo de Dorian. Jules estreitou os olhos perigosamente. .Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. . constrangida. –acusou-a.Você é movido pelo seu ego estratosférico. –declarou tentando impor firmeza à voz. – respondeu. . Quando se preparava para fugir de outro homem. Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja.Devia tê-lo delatá-lo a mim. O contador. três ligações do mesmo número das mensagens eróticas. monsieur Brienne?”.Tudo o que fiz foi para protegê-lo. princípios e verdades. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la. Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques. Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada. . Fiquei quieta para que a situação não piorasse. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: .Porque talvez alguns homens só mereçam isso.E não posso negar que ela teve bom gosto. porque Jacques Rodin é doido de pedra.talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês.Obsessão em Paris Veronique Gris . não me transforme na vilã!gritou. Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia. . a força do destino! – debochou e completou incisivo: . perigosamente controlado. .Ah. A conversa ainda não terminou. pelo menos. . do encontro às escuras. 57 . – falou baixinho. o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha.É terapeuta também? – debochou. – disse com maldade e completou debochando: .Sou a vítima.

conseguia sacudir-lhe os alicerces. . . – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia.Tentarei não complicar mais as coisas. . –murmurou mais para si mesma do que para ele. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. E sem olhá-la. -Ninguém gosta de sofrer. Jules. E. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. Aproveitou para recuperar a paz perdida. Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras. os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. Amanda. nos braços dele.Esqueça-o. – completou apertando-a contra seu tórax. Ele não se mexeu do lugar. por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. Amanda suspirou resignada. . bien. você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu. e essa atmosfera também estava interiorizada nela.. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. Durante o café. pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo. Queria que fosse diferente. num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem.sussurrou.A sua prepotência também é um tipo de viodência. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. – pediu-lhe entregando os pontos. Num minuto. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. era isso que o deixava incomodado. claro. No entanto. – disse simplesmente. depois de pronto. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental. respondeu como quem se livrava de um peso: . pode parecer bobagem. entre todos os seis bilhões de terráqueos. após alguns minutos de silêncio contemplativo. Não queria mais discutir. 58 . -Vamos tomar nosso café. estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo. -Meu estômago está fechado. ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça. provavelmente. Devolveu a crueldade. . Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades. Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo. enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. -Mon Dieu.Eu deveria mesmo considerar-me superior. parece tão desprotegida.. conhecido por seus programas de economia e administração. o que dizer? por putes. Por fim. por poucos e eternos minutos. mesmo por que perdia todos os rounds.Minha mulher me deixou por causa dele. Concordara com o documentário.encarou-a sério e completou com ironia. sem mágoa: . Todavia.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. diante de si e fitando-a duramente. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade.

porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a.. .Espere um minuto. e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas. – murmurou. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa. devagar. todo o conjunto. Intercalara as gravações em vários dias. os olhos pousados nos lábios dela: . Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa. Diante dela. cabos e câmeras por toda a parte. .Senta no meu colo que a gente já começa por aqui. – fez uma careta desolada. até arrependeu-se de se impor dessa forma. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz. Encaminhou-se até ele. Ele ergueu os olhos para o alto. cortados rente à nuca. nos lábios. Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules.Última ligação e desligarei o meu também.. retirou o microfone da gola da blusa. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO. O rosto constantemente sério. . Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos. um executivo. Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules.Ou eu ou o trabalho. -Não precisa fazer isso. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas. – afirmou. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência. Corria o risco de ser 59 . Alguém ao telefone chamou-o novamente. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. – brincou. abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta. Jules apertou-lhe o ombro. a certeza do seu lugar no mundo. . um tipo que vivia engravatado e penteado. que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. Sorriu consigo mesma. Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o. . numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. Prometo. vestia-se de forma sóbria e insinuante. . olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida. A ruiva de cabelos lisos. Por um momento. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si.Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. sorrindo. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. sem desviar os olhos dos dele.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva.Eu sabia que você adoraria a banheira. causava a Amanda respeito e excitação. Jules deu-lhe pequenos beijos. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente.Culpa minha se os acostumei mal. Por outro lado. Amanda teve que lidar com microfones. seguindo de perto a rotina do chefe. Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente. – virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. cheirando a colônia cara. fios. Touleause.

Tem razão. sem se mexer. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. enquanto subia os degraus da escada. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada. que. impulsividade não combina comigo. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules. Num movimento rápido. preta. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros. Havia uma luminosidade suave na feição máscula. Não bastava simplesmente desligá-lo?. devagar.Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. Pressionada entre a parede e o homem. A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. deslizando para dentro com confiança e força. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. Observou o volume considerável pressionando o jeans. Ele voltou de cabeça baixa. De olhos fechados. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. chutou-a levemente para o lado. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. dando as costas a Jules e subindo os degraus. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela. delicadamente. Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa.. ergueu-a no colo. E ela não queria uma queda-de-braço com ele. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. Sentia-se embriagada e. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. sorrindo deliciada com a atitude dele. que eu já volto. posicionando-as sensualmente atrás. divertindo-se: . Após um breve silêncio. Parou e constatou com um sorriso. Eficiente em tudo. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. Em seguida.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. apertando-lhe as nádegas. ele tomou posse novamente do seu celular.O que está fazendo comigo. num tom de desolação e desejo. ao deslizar a língua sobre o membro dele. – declarou. Amanda já estava decidida a mudar os papéis.. era também macio e gostoso. ia transformando-se em ímpeto e desejo. ainda assim. Amanda gemia e entregava-se ao prazer. ironizou consigo mesma. ao mesmo tempo. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros. pensou. exibindo o membro grande e duro. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. Jules. mas. deixou-se ser despido. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. ainda de pé diante dela. ao encontro dela. mal lhe tocando a pele. com sede e fome. Como alguém podia ser assim?. Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se.. Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. . Quando chegou bem perto.? – sussurrou-lhe ao ouvido. fitando-a sugestivamente: .Espere-me aqui.. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava. sem beijá-lo. Já na metade da escada. quietinha. . numa carícia sutil e devastadora. Mas dentro de si. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. concentrado em desligar o aparelho. aos poucos. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. desejava e admirava. ela pensou. Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. Havia-o sentido todo dentro de si e. brutal e ostensivo. Após cair aos seus pés. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca.

A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro. penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. independente. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. para mostrar-lhe quem mandava agora. No minuto seguinte. primeiro. tornar a sentar-se devagar. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer. constatava. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. Antes que gozassem. ao sentir-se penetrada. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. Experiente que era. Mas ela não queria justificar-se e. Beijaram-se como loucos. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . gemendo e erguendo os braços. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. Ela encurvou-se para baixo.. Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. Tencionava servi-lo. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. desenhando um arco com o corpo. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. Depois. afastou-lhe as coxas e. prazerosa dor. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. Abocanhou-o aos poucos. com os olhos semicerrados. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas. mordendo o próprio lábio inferior. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. Viu-o jogar longe a cueca. Incitou movimentos lentos e cadenciados. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. em seguida. – gemeu. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. gozou. -Não quero gozar ainda.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos. a fim de alcançar-lhe os lábios. ganhando milímetro por milímetro.. Capítulo X No teto de vidro. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele. sabia o que estava fazendo. Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. os efeitos desse ato. Após três ou quatro estocadas. aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo. em seguida. intrigado. baixinho. mexendo o quadril para cima e para baixo. encaixando-se entre as mesmas. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. num vaivém violento. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele. por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava. no sexo intumescido e. e 61 . deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele.

. . sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que.disse gentilmente. Era normal. Mesmo assim. mademoiselle Rossi. empurrado pelo vento forte. iam-se estreitando. Dito da forma como ele dissera. Apenas vinte e quatro horas juntos. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente..Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta. – constatou um tanto contrariada. –deu de ombros. por mais que ultimamente lhe fosse difícil. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave. Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. colocava-a na posição de sempre. Ele sabia. Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo. eram adestrados e obedientes. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. Tagarelava sobre o tempo.tão. Ao redor. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. Depois. 62 . displicente. quanto mais sexual..e tal informação ela não sabia .Mas quanto à vida sexual. chocara-se com força contra a montanha e explodira. da assistente que obedecia às determinações do chefe.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. Amanda não gostou do que ouviu. agora. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . havia cinco anos. delimitava-os cada qual em seu lado. Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. Comentara casualmente a Amanda . Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. isso mesmo. Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você. Haviam transposto uma fronteira que. Mas. embaixo d’água.Obrigado pelo “bom de cama” . Ela sabia. paredes de alvenaria em pátina azulada. A bem da verdade. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade.. -Comprei o chalé construído e. Pelo visto. na medida em que se subia. . num tom claro e discreto. Precisava manter-se centrada e racional. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. obviamente. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se. eu mal tenho uma vida. No meio do caminho. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia. o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens. antes. comentou divertido: .Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada. ela não era apenas sua assistente. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada. -Pois é. Pena termos de voltar após o meio-dia. arremetida por um vento ascendente. e não apenas patrão e empregado. eram amigos de longa data. . Jules acomodou-se ao lado do piloto. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. pôs os óculos escuros. sentindo-se frustrada. à sua mansão com a esposa.Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido. O vento não estava tão forte e a neve cedera.

não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . Ele estava sério. que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade.Quê? – indagou Amanda.. completou: .Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa.O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas.Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva. principalmente. Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio. está preocupado com o teor do programa. para o andar da presidência. com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. 63 . baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. bem. . como Alexys é bastante popular. e. em seguida. . Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair.? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário. caloroso:. da secretária da presidência. era linda e majestosa. como se estivesse chegando e partindo de verdade. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária. Alexys da recepção também.Dorian. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã. o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa. intrigado.Talvez. a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. O semblante de Jules fechou-se ainda mais. para onde Jean baptiste seguiu. Amanda conteve a vontade de rir. Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala.. sorrindo alegremente. – suspirou e continuou num tom firme e. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho. . – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer.Ele comeu e não gostou? . mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. ao celular. que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes. –refletiu. logo.Na verdade. depois. e se Dorian sabe. Seguiram juntos até o elevador panorâmico. ao mesmo tempo. o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History.. – fez um trejeito com a boca.. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. Amanda considerava extrema falta de ética por parte. – em seguida.. E completara.. sentindo o rosto corar. Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém. ponderando sobre cada palavra. .. E. parecia coisa de filme. ainda mais vindo de funcionários. absorto da conversa com monsieur Koskinen. Meio minuto depois. você conhece o seu chefe melhor do que eu. Ao passo que Jean Baptiste. bem. um pouco. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e. do alto. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules.. A visão de Paris. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. à noite.Era engraçado. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: . para a assistente do executivo. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente. Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si. assobiava descontraidamente A Marselhesa.

estava ocupado com outra ligação. . – declarou Amanda. pensou Amanda.Non.A jornalista sabe sobre o chalé. . pois. Ele. então? Ou. melhor. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar.Geneviève sabe sobre o chalé. mas você também podia fechar essa boquinha. Estocolmo e Copenhague. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. tivesse direitos sobre Jules? No entanto. na verdade. – baixou o tom de voz e completou: . A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali. Além do mais.. justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha. mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. mas não via nada. O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. Geneviève. né?. de frente para a parede de vidro do escritório. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência.Quando o chefinho comprou o chalé. Falou-me sobre privacidade e sossego. algo assim. Annie adorava Jules e o protegia como um filho. Por um momento. um sorriso aflorou nos seus lábios. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. no estômago em chamas. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É.replicou Assíria. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo.. chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel. Sentou-se em frente ao computador. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. Projetavam em menos de um ano alcançar. se de fato houvera tal conversa com Jules . os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação. non. ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. e Jules não gostou nada disso. okay? . aliás. mesmo em estado vegetativo. Não deem mais mancadas. falava com Jarkko. Novamente esse nome.. A secretária-júnior matou a charada. de sua parte. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. jamais falaria para a imprensa..E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé. Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne. para todos os efeitos. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria. 64 . eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que.Obsessão em Paris Veronique Gris . já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro.e ela acreditava que sim. .Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico. e acho até que já ficou por lá uns dias. antes de entrar. Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules.Amanda. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora. . ela sim. Por quê? . Acreditava em Dorian. Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. como se ela. tinha direitos sobre ele. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca. ora. além de Helsinque. de pé. Por isso.

e Jules o sabia. Nas extremidades da mesa retangular. trocas de farpas e ironias de lado a lado. de mogno. Nem mesmo monsieur Roche. eram entediantes e longas. A pescoçuda conseguia. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. Do outro lado da janela. que já se despedia do finlandês. diretora financeira. mesmo por que possuía o número do celular dele. Às vezes havia chispas de tensão.Bleu e Rocco. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. Ao seu lado. . -Non.A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. apesar de estar dentro de um covil civilizado. – ordenou com o semblante fechado. . monsieur Touleause e na outra. Mais caricatos impossível. apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o. Merci. escurecendo aos poucos. mas Jules parecia ligeiramente tenso. Reclamou. em vários tons de laranja e azul. você não é uma síndica de prédio.. inclusive. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. No entanto. Era uma loba acostumada a andar na selva. afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. Amanda. Meia hora depois. a noite chegava de mansinho. No fundo. Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . com direito a cara feia. claro. o vice-presidente. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. em seguida. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. Marion. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não. principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda..Agora. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: . Jules. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. Amanda admirava mulheres fortes e poderosas. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. Interrompeu-se e cruzou os braços. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação. então. não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . Não agendaram nada com você. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares. irei recebê-los.Marion. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos. seu grande amigo. –defendeu-se. As reuniões na SBO. Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. –respondeu.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. A neve havia cedido há algum tempo. por que. normalmente. Não havia queda de braço que ele não vencesse. a cadeira de Amanda. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa. O que não era verdade. fechá-la. mas covil. caçar e se prover sozinha. nariz quebrado e cicatriz. corpanzil. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. Pôs a xícara de café sobre a mesa.

Afinal. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules. – resmungou e continuou: . Não se esqueça de trazer também o adoçante. Marion riu baixinho. tratando-os como iguais. como se Jules estivesse brincando. cabelo loiro e olhos de rapina.Sou improdutivo. Na maior parte das vezes. Jules interveio calmamente: . como achar mais adequado.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala. já volto. Marion pigarreou. mademoiselle Rossi.Não se incomode... Jules.. Assim. O primeiro foi de Marion: 66 . –declarou com naturalidade.Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida.Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro. ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar. Assim. de gravata borboleta vermelha. . s'il vous plaît. já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa.Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. Era o VP. é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo. . pois. no lugar onde deveria estar.Então. não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. mas. ..Quem quer café que desça e faça o seu. Mas. Nem Paris nem Porto Alegre. Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia. custos.Eu tenho ações aqui. jamais voltaria a lembrar. . Victor descerá e fará o café para todos. .Oui. Sinta-se à vontade. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios. para o vice-presidente. Jules estava próximo à janela. de pé. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los. você sabe. durante as reuniões. Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras. quero ouvir o pessoal produtivo falar. agora. terno bege.. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam. por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar. Jordan. analisando o relatório do diretor de vendas.Pra quê tanto drama. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. estava muito abaixo da diretoria. mais uma vez. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência. Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá.. . Com licença. . Sentia no ar a tensão. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam. antes que saísse algo de sua boca sem batom. foi impedida de sair da sua cadeira. certamente.Oh. é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. é problema seu e da sua consciência. monsieur Touleause. No entanto. Touleause até tentou rir. nada mais. Comece. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores.Vamos à minha sala. Assim que os dois homens saíram. Nunca estava no lugar certo. .Não vamos retardar a reunião. comentários foram seguidos por um silêncio profundo. mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido. oui. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. pode trazer o café da sala de Jules mesmo. mademoiselle. – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. Jules. . . . impostos. – Jules disse sem tirar os olhos do papel.

. . Agora. . Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta. Você não facilita o nosso trabalho. Ao que Maurice. como já dissemos a mademoiselle. De certa forma era divertido. Jules assentiu levemente com a cabeça.declarou Maurice com o peito estufado.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada. Como todos se fizeram de desentendidos. física e mental. trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente. até hoje não sei qual a sua função. . . de sonhar com planilhas e computadores. pelo visto. sozinhos. os grandões da diretoria.É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche.Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos.Bom. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco.Obsessão em Paris Veronique Gris . monsieur sabe. pelo contrário. completou. . estava horrível. mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor. digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 . dificulta como pode. eles não topavam Amanda Rossi.Não tenho nada contra a sua assistente.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? . E sabia o motivo: inveja. Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador. . do homem que fazia as coisas acontecerem e eles.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. no lugar onde você o colocou. diretor de vendas.Entendo. Maurice. aceitaria novas tarefas. -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme. Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão. mademoiselle.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada.E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice. .É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor. – concluiu Maurice. . . Não. temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor. ela não é apreciada pela diretoria. – informou-a o diretor. . longe de todos. – disse Marion. nada disso teria acontecido. fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: . tinham de aceitá-la. ponderando. de agendar horários para falarem com Jules. Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. – disse Marion visivelmente contrariada. Agradeço os esclarecimentos.Oui. . . do dono de tudo. podem resolver.Pega leve.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios. Ele comanda a empresa do alto.Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta. – replicou sem se alterar. Estou protegendo a saúde dele. E ele. perde apenas para Touleause. -Para falar a verdade.Essa discussão é completamente fora de propósito. . Sinceramente. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que. com certeza.

. e. . De repente. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências.Certo. . uma. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores. mon chéri. prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente. Maurice. . Havia duplo significado na frase? .Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa. Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura. Algo mais? .Fale por você. Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: .Como vocês falaram mesmo?. irei para casa. De qualquer forma. Voltou-se para ele. 68 . na cadeira dele. . com os nervos em frangalhos. de pé e com as mãos sobre seus ombros. monsieur. que vitalidade tinha aquela mulher.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: . na próxima. sem vergonha na cara. Não sejam tímidos e levante a mão quem não. Era uma dama. Entretanto. teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto. agente fa-ci-li-ta-do-ra. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente. Nossos advogados também farão o sacrifício. – disse Jules sem muito interesse. Em seguida. A noite recém começara. ligue para o meu celular.A reunião foi um desastre e está encerrada. Vestida num terninho violeta.Jules. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la. . como é mesmo?. – disse quase sorrindo. que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos.Quero nomes. monsieur. está cansadinho? – antes que ele respondesse. Céus. Sempre sorridente.. mas uma dama. Marion. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. Bonne nuit. ela aguardava Jules na sala dele e. sempre pronta para atacar. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina. .Anotou os nomes. atrás de si. apenas dois caíram na armadilha. . surpreendentemente.E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. mademoiselle? . Caso queira me encontrar. Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa.Obsessão em Paris Veronique Gris uma. ah. capacho de Maurice. sempre impecavelmente vestida.Interessante. .. mas Amanda sentia-se exausta. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca.Oui. – falou Marion com franqueza. confuso. – indagou estreitando os olhos sagazes.Assim que terminar umas coisas por aqui. virou-se para Amanda e falou sério: . Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez.Todos. ela sempre me atendeu prontamente.Como? – Jules indagou-lhe. Após a reunião. ao entrar no escritório deu de cara com a loira. estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente. – disse impassível. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência.Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. . exibindo metade dos seios siliconados. conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar. emendou: ..

era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. odiava! . Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações. ainda por cima. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. Jules. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. -Todo mundo sabe que sou casado. – declarou sem se alterar. Além do mais. cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora. devo avisar Sonia que não jantaremos lá. Guardou o papel na bolsa. Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa. Geneviève fitou-a desconfiada. o documentário. Não.. praticamente se jogando para cima dele. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. sozinha. – François gosta muito de você. . . Por todos os deuses. mademoiselle Rossi? .Eu entendo. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules.Vem comigo.Nosso jantar com os Roche. -Preciso trabalhar.Não tem que ir embora. entre no seu carrinho e vá para sua casa. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem. . quase gritou. -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê. o deixava com uma.Pode ir. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair.. Jules. Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. – disse ainda sério.Vamos para minha casa. pegue seu casaco. Ela não tinha motivos para continuar ali. havia certo divertimento nos seus olhos.. . Se já eram amantes ou foram amantes.. fosse qual fosse a situação. segundo Assíria. mas como era uma dama educada e polida. Pois é. voltava para casa sem Jules e. que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . mon chéri. Não conseguia mais se controlar. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle. mademoiselle. vagabunda!.Bonne nuit. porém.Obsessão em Paris Veronique Gris .Que cruz? – indagou Jules sem entender. . já lhe doía o estômago. que veio prontamente. –pediu ela. se a francesa havia passado uns dias no chalé. mademoiselle Rossi. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos. vadia. Amanda.. 69 . O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. . Antes. agora. – teimou. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela. Sentia a garanta seca e falta de ar.. -Vou ficar também.Jules é casado. Que tal? Chega de trabalhar. Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. Pedimos comida e relaxamos. então. Odiava a vaca. sabia? – viu-se falando tal asneira. Geneviève já a olhava de forma estranha. Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio. no seu lugar. por outro lado. Qualquer mulher sensata. endereçou um olhar feroz a ela. porém de cara amarrada. vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta.Por que não assiste com eles. Impossível. A situação começava a ficar constrangedora. porém. E. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco.Não. –Além do mais. . Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz. .A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche. e tampouco sozinha. ignoroulhe o comentário. não vencia todas. agora. – respondeu sem fitá-la.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
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ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

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de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

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Oui. certo. pensou. besteira! – completou com ironia. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira. completou de forma casual: . – disse pacientemente: . Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: . então.. contendo a raiva crescente.. com um nó na garganta. Preferiu manter-se calada. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá. se risse. Aliás.. – Está tudo explicado? .Isso não lhe diz respeito. como? – interrompeu-o com ferocidade.. espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse. -Você é amante dela. porque é prima do exproprietário. Geneviève jamais foi ao chalé comigo. era tão antiquada. Ah. parecessem sempre histéricas. antes que eu me esqueça. Jules sorriu. .Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado... . Ela sabe sobre sua existência. Jules não se abalava.Eventualmente. E ela aceitou as regras pacificamente. permanecia sentado.Onde vocês se encontravam? 73 . Essa sua calma irritava-a e muito. Por um momento. ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. Jules? – insistiu.Não éramos amantes.O tal refúgio era para os encontros com ela.Encontrávamo-nos eventualmente. . . o diabinho que a concebera. a única.. gerara. estreitando os olhos. As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras. Amanda.Non. a especial.Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. Ignorando a pergunta. de Geneviève e de si mesma. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe. eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento. parira e criara.. raiva de Jules. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite. A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes.Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. o queixo escorado no dorso da mão.Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou. . debochando. seria um riso amargo. . Em seguida. . pensou ela quase bufando. as normais. –Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável. observando-a impassível. Era incrível. Inacreditável!. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”. a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa. –afirmou sem se alterar. –declarou com raiva.Bien. os maxilares trincados. não tem nada a ver com a nossa vida. . No entanto. mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava.

Eu não sou assim. por fim. medrosa e insuportável.Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. enfraquecida. doente de ciúme. paranoica. O melhor a fazer era deixá-lo partir. tocando-lhe o queixo.. abriu a bolsa. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève.. mas algo em sua postura. agora. . Ele tinha razão. mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos. –fulminou-a duramente. . -Quantas vezes.suspirou profundamente. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. Só procure sentir certo.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne. Amanda tivera que fazer o cancelamento.Obsessão em Paris Veronique Gris .Na casa dela. Cogitara inclusive matricular-se num curso de português. – concluiu em tom de censura. sabe sobre nós. insegura. – justificou-se chateada consigo mesma. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. – disse com desprezo.Essa é fácil responder.sexuais? – elevou a voz. -Oui.. completou: . Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda. – Que tal? Quem é mais promíscuo. -Você é o que você sente. –respondeu sem hesitar. -Interessante.. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar. Sempre haveria Jacques. – em seguida.. À época...Não sou casada. ma chérie. e não vejo mal algum. -Não gosto de mim assim. à espera.. Ela. Quantos encontros. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. após um longo silêncio. preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais. parado. devagar. Ele tencionava vestir-se e partir. -Um homem tem suas necessidades. É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar. Suspirou resignado. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos. correu até o quarto. Escrito em português parecia mais significativo ainda. . Olhou ao redor. – falou.. Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite. que a olhava com seriedade. – comentou com maldade. – disse secamente. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português.Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra. de frente para ela. pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. mas. deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa. sem a mínima curiosidade.. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 . os maxilares contraídos. Obviamente. Rochelle e agora Geneviève entre ambos. eu ou você? . Preferia a época em que aquele homem à sua frente. pardon. estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa.

– comentou balançando o cartão como se fosse um leque. emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: . deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. . sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: . com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. Abriu-lhe a camisa e. duro feito pedra. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela. pulsava um coração de carne. enquanto abria os botões da camisa do pijama. depois. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. com a mesma presteza e insistência sensual. beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. O clitóris pulsava quente.Bien. Desceu para a parte inferior do seio. A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. No caminho. ainda impregnado nela.Você realmente aprecia a cultura brasileira. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . Queria-o entrando nela. A pele vibrava e arrepiava-se. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele. Tocou-a entre as pernas. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. antecipando o próximo gesto. Num dado instante. acolhedor. – afirmou sem se alterar. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. mas parou antes de tocá-la. envolvente. Amanda arquejava. Falou sem sorrir. objetivamente. fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata.Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. como boa parte dos franceses o possuía. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para. que foram explorados pelos dele. ao mesmo tempo. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino. molhando-o com a saliva morna. na volta suave. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. lentamente. chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. em seguida. louco de desejo. Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço. Tocou no tecido de algodão do forro. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. encaminhandose para o quarto.. Desejava-o com brutalidade. terno e sensual. soltou-os todos. –sorrindo maliciosamente. e olhou-a com a sobrancelha alçada.Como um dedicado cão de guarda. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. Amanda sussurrou-lhe o nome. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. automaticamente erguia o quadril do colchão. –olhou-a com desejo. bagunçando-lhe o cabelo. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . Agressivamente másculo e.Estou viciado em você. por cima do pijama. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 . trêmula. devagar. Logo.. ele frisara.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira. e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. a língua brincando com ele. Entre suas pernas. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. encharcado do seu sumo.

.. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas. Deus!. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade. as têmporas latejando. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules.. com fome. – Jules pediu. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris. todo ele. Ouviu-lhe gemer. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la. estava no seu limite. arfando. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério..Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação. – gemeu respirando forte. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. pau duro e pronto para agir.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria. era um macho alfa entre as suas pernas. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. via.Abra as pernas para mim. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. – ronronou. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. – Está encharcada. lindo enfiado nela. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. irresistivelmente cheirosa. a boca.Misteriosamente. delirava a sua mente ciumenta.. com os joelhos fincados no colchão. era o seu terreno. puxando-lhe o queixo para si.. -Oui. friccionando-o.E era a loira quem gritava. Constatou com apenas um leve toque na calça social. trincava maxilares... rouco.. Antes que ela gozasse. não era mais ela que o tocava. arreganhava as coxas. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda. num minuto. que explodia em mil fogos. fundo. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos. completamente entregue a ele. e. e na sua voz traduzia-se desespero sexual. – Seria capaz de literalmente comê-lo. Perdeu-se no devaneio. enterrou-se dentro dela. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas.em Geneviève. Ela o abraçou para fundir-se nele... Num movimento ágil. em estocadas fundas e fortes.. 76 .quero ver seu rosto. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la.olha para mim. sempre analítico. – Como pode ser tão linda.. Ele fitou-a com um sorriso de aprovação.. o rosto todo brilhando numa camada fina de suor. . enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. as mãos. Louca de prazer. Levantou os braços para trás na cama. no lóbulo da orelha. torturando-o. suando por cada poro. – pediu com a voz muito baixa. recebia Jules. estrategicamente parou. non? –disse. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado.. os fios de cabelo grudados na testa. no alto da montanha ígnea. era bom em tudo o que fazia. aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se. -Deixe-me vê-la gozar. monsieur. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la. mon amour. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta. ele era lindo gozando. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento... expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico. Ele não gozaria antes dela. . você é uma fêmea insaciável. sempre racional. – gemeu. o pau. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. golpeada pelas estocadas firmes. enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela. agora.

após três ou quatro arremetidas selvagens. no seu caso.Vamos. Ao passo que. pelo visto. Amanda. Amanda. balançando-a com displicência. hoje é um dia normal de trabalho. continue. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. e era beijado por ela. arrancando um gemido de dor de Amanda. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. Jules riu. Com a expressão impassível. muito ciúme. abraçava. Jules ignorou-a e. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. irônico. o sexo. só penso que um dia terei de ser pai. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol. ma belle. com velada dedicação.. De minha parte. Se ela só lhe servia como objeto sexual e.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. Jules parou por um momento. com a gravata na ponta do dedo. e já buscando as demais peças de roupa. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada. Deitou-se totalmente sobre ela. gozou estremecendo o corpo.. -O seu objeto sexual não foi saciado. a cabeça virada para outro lado. Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. levante-se e vamos comer. – disse baixo num tom ríspido. o que foi? -Não pare. a fim de evitar o olhar hostil dela e.gritou exasperada. -Abra os olhos. Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras. com violência. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. – antes de sair. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. encaixado nela. então que fizesse o serviço completo. porque gosto muito de foder. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. fingindo não entender o tom raivoso dela. Mas não naquele momento. Amanda sentiu uma dor aguda. tentando fugir daqueles olhos inquisidores. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. de costas para ela. com dedicação. -Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. de reprodução. -Não gozou porque não quis. pouco me importo se engravidá-la. Agora. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. –mandou. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. non. tocado. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. tenho quase 40. Com Geneviève eu usava preservativo e com você. – afirmou jovialmente. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a. que colada ao seu quadril. excitava-a por demais. virou- 77 . continuou no mesmo tom: . -Está distante. . você é muito boa e a cada dia está se superando. empurrou até o fundo o pau dentro dela. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca.Uma precaução anticonceptiva. talvez fosse o único vinculo entre eles. -Termine o que começou! . avaliando a situação. sinto-me muito bem.

Agora. – reclamou e seguiu sem se alterar. – tentou argumentar. Amanda. e sim trabalhando. Podemos. . . -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. se vista e me siga. Jules. Quem brincava com fogo acabava se queimando.Não seja boba. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor. eu diria. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez.Você precisa ser apresentada aos queijos franceses. vento rascante e neve fraca. -Entendo. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. –completou com um sorriso ambíguo. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:. ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim. porém incisiva. mademoiselle. Jules. . vinho e baguetes. Como era possível isso? Normalmente. Nós dois não queremos que isso aconteça. O conhecimento que tinha a respeito de queijos. . não tem amigos. Mas não Jules Brienne. eu já teria me consumido de estresse. Não havia mais vestígio algum da discussão anterior.Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis. da Rue Cler. Dizem que os parisienses são os melhores. .Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . então.sorriu misteriosamente: . No Le Petit Cler. Admirava a voracidade do apetite de Jules. a bem da verdade.comprar queijos. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. não farei mais sexo com você.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. consistências diferentes. Precisamos encurtar distâncias. Que mistério. Se gostou do Brie de Melun prove esse então. É cansativo para nós dois.Temos de resolver a sua questão de moradia. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se. agora. Rossi. Amanda degustava seu primeiro café do dia. Sou seu amigo. . provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais. Amanda. – disse com um sorriso leve. . o semblante circunspecto e concentrado nela: . fitando a calça do pijama arriada até os joelhos. os homens surtavam com mulheres ciumentas.Realistas. pensou. -Temos de fazer o programa típico francês. non? Livre-se dessa expressão de ofendida. mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: . . ele apreciava tal arriscado tempero. É diferente. charmoso e gentil. – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca.Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. também quero cuidar de você e até onde sei. Que homem. Um conhecimento empírico.Eu sei. mulher.E com os homens. com características diferentes. Esta rua tem os melhores queijos do mundo. o seu melhor amigo. e não dar 78 . Cada região produz o seu. nos vermos algumas noites por semana. . – declarou com um sorriso.Não estamos juntos de fato.Quero dormir todas as noites com você. sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico. Jules estava estranhamente bem humorado. A manhã avançava.Estou falando sério. É o que tem a fazer. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:.

Você é dominador. você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade.... Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. controlador e vai acabar me sufocando.Vida de puta de luxo.. – Além do mais. . – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. Isso jamais acontecerá. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe. se você quiser. não sou apenas a sua assistente. -Para mim.. Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida. . -Está pondo-me contra a parede. Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente. – pediu com gentileza. Por isso. – disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro. acabou. a decoração. só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. . eu gasto e você assina os cheques. – falou firme. Ameaçou afastar-se da mesa. quero um lugar nosso.Sei das minhas obrigações. E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento. . distante da empresa e da minha casa e.. só estou expondo a minha opinião e. – constatou secamente.O dinheiro é meu. Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu. – irritou-se. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. . e sente-se.. Eu não gosto disso – disse duramente. . – ordenou baixinho. . e não numa espelunca três por quatro. o imóvel. – espicaçou-o sem elevar a voz. em sua mesa. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle.? Logo estaremos fartos um do outro. mesmo que seja igual a da família Adams. . nada mais..alçou a sobrancelha. Podíamos viver sob o mesmo teto..Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama. ligeiramente exasperado. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa. -Sente-se.. . -Não. Por que está fazendo essa cara? .É uma solução prática. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo. Non.Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão. -Ela já está resolvida. mas foi pega pelo pulso. nesse momento.Sente-se e me escute. Jules. – respondeu devagar.Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. úmido. Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda..Controle-se. . eu ainda não acabei. – disse calmamente. e eu me sinto muito mal morando lá. oui? – disse fechando a cara: ..Não vai dar certo.Não dificulte as coisas. s'il vous plaît.. – enfatizou nervosa. Jules. não precisa listá-las.É muito cedo. 79 . -Tem razão. merci. observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas. . –exasperou-se. -Fale por você.Que por sinal é minúsculo. Afinal. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós. . não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle.Morar com você? – interrompeu-o assustada..E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos. Jules. é verdade. . Amanda. Você escolhe tudo. nunca dá. É horrível aquele casarão. ainda por cima. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos.

–Agora. que. Observou Jules sorver o café sem açúcar. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia. Na primeira semana de procura. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque. Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. Jules abriu a carteira. vamos tentar do meu jeito por. Fez novamente um sinal ao garçom. -Não quero ficar entre vocês dois. e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara. Perceba a situação em que você me coloca. será recebida por uma excelente equipe médica. qualquer outra coisa está fora do meu alcance. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. Virou-se para Amanda e completou calmamente: . No início. Tudo de uma vez só. -Sei o que faço. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde. discretamente. vamos trabalhar. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa. um lugar para morar e você.Se Rochelle sair do estado vegetativo. tornara-se a sua amante. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional.Proponho-lhe uma experiência. . tentamos do seu jeito. ainda não entendi qual seja.Devia provar o croissant daqui. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. no escritório. Ela meneou a cabeça em negativo. – afirmou com segurança. . –declarou. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: . mademoiselle. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:. digo por medo de me machucar. Pode soar como algo feminista. – encarou-a com firmeza.Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. sério. a amante de um homem que não falava em amor.concluiu com um trejeito nos lábios. pedindo-lhe a conta. Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito. seis meses. O dia será longo. . eu sei. diárias. pelo menos. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher.E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas. que. Um pragmatismo de doer os ossos.Veja bem. E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa.Caso as coisas se tornem complicadas. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio. No meio disso tudo. os lábios contritos. – enfatizou. –Tenho que arranjar uma solução. . sinceramente. Uma sugestão aos roteiristas de cinema. era o suficiente que se encontrassem 80 . retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. Não tenho mais o que fazer por ela.

– afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. dialogar profissionalmente com ele. A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias. pequenos. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. ainda. Ao que Jules comentou de forma casual. Além de dois vasos com plantas verdes que. ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. Monsieur Ferrer era calvo. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando. Jules avisou-lhe que eram de plástico. calçados num italiano com cadarços atados num lacinho. um quadro. Ambos tinham consciência de que. sem janelas. no elevador. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. um arquiteto daqui. E vê-lo e falar com ele em sua sala. branco quase brilhava sobre o pescoço curto. afirmando. O crânio redondo. – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO. . nos restaurantes ou na sala de reuniões. com uma etiqueta com seus sobrenomes. . na cobertura do prédio. uma indicação peculiar. . um desenho. todas as manhãs. no corredor. francês.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França. enroscado pernas nas pernas. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga. dormir com ele. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. Na porta dos apartamentos. de uma calvície melancólica e lunar. Na maior parte dos prédios.. no mesmo arrondissement.O dono da ideia. analisando e. acrescidas de um sorriso significativo. de modo seco e brusco.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. observava cada detalhe do loft.Graças a Le Corbusier. Falava rápido. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. após Amanda aspirá-las com ar sonhador. decidindo. parada e estupefata. falando. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio. 81 . mesmo trabalhando juntos. em Montparnasse. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. o braço possessivo sobre a sua cintura. continham as caixas de correspondência de cada morador. que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. – empolgou-se o corretor. Amanda estranhara o fato logo que chegara. . Os apartamentos não eram numerados como no Brasil.Pardon. hipnotizada pelo ambiente. monsieur. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala. menos numeração. ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules. Mas a situação tomou outro rumo. Entraram por um corredor comprido cujas paredes. . Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. o registro dos diversos ocupantes do imóvel..

não naquele momento. acenderam-se. prateleiras de madeira com mudas de temperos. e Amanda podia ler em sua mente: oui. Na verdade. ela pulou no mesmo lugar. Como agradecer um presente como aquele? . apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa. tremendo. – previu. oui. ela teve certeza de que desejava morar ali. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista. fazendo careta. admirando a sala dividida em três ambientes. . só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules. Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. sorrindo. Em princípio. Com a maior naturalidade do mundo. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: . Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. criando uma atmosfera lúdica e romântica. que se restringiam a três palavras: Amanda. desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques. como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta. cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques..U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. que ela conseguiu pronunciar. Sem conter a alegria. o primeiro deles referia-se aos telefonemas.Seremos felizes aqui. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 . . Isso ela lembrava por dois motivos. enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte. – declarou-lhe em tom de brincadeira. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. constantes. não deles. era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta. E ela desligava o celular.. ça va?. quem gargalhou com jovialidade.. ela pensou. Quando chegaram ao terraço. Mas era o executivo workaholic que raramente sorria.. . captando o grau de seu contentamento. pensou. E foi exatamente neste momento. A pressa era do outro.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. denunciando a sua criança interior.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente.Merci Beaucoup. o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles. . um balanço. Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. No entanto.Adorável! – murmurou quase batendo palmas.

sagacidade no olhar. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques. exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. Ao passo que François. uma espécie de mentor da SBO. decorado de forma austera. Assim. monsieur? . Em seguida. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. Crepitava lenha na lareira imponente. Não usava joias. deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar. monsieur. a beleza máscula da França. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. Entretanto. Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. distribuída em peças raras e móveis antigos. lado ao lado. preservando elementos herdados de gerações passadas. relacionava-se ao jantar. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. ainda. maior que muitas quitinetes de Paris. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. No dia seguinte.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. que aparentava sessenta e poucos anos. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: . atarracado. Agora. qualquer museu). baixa. numa das noites mais frias do ano. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. Ele. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. e tampouco ostentava outro acessório. um cálice com vinho tinto. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. À porta. Como está.Imagino que estejam na biblioteca. cabelo claro cor de trigo. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. e era importante manter a estabilidade dos dias. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:. Juntos. de forma genérica. não combinavam. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. na época. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam. meu caro – respondeu jovialmente. ligeiramente arrebitado. praticamente um irmão mais velho emprestado. apostava todas as fichas no intelecto. -Oui. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Fumava demais. em Montparnasse. Na mão. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central. Apesar de solene. Advogado por profissão e paixão. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. Amanda recebeu um olhar significativo. Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. altura mediana. com os Roche. Nariz fino. Ela. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. sorriso acolhedor.Melhor impossível. Óculos de armação moderna. por sua vez. naquele momento. Era mais alta e mais magra que o marido.Já faz algum tempo que não nos visita. Jules jantara com o amigo de longa data. Havia nele algo de nostálgico. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. atendera diversas vezes os telefonemas de François. Morava com Jules. Gerard. túnica e saia beges. Tinha para si que. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. charmoso.

. diplomas enquadrados por molduras grossas.Por que não nos ajuda. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse. -Percebi a manobra tendenciosa.confirmou Sonia sem sorrir. – falou com ar de falsa inocência. sinceramente. .Veio chorar no seu ombro? –perguntou. Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. Amanda aproveitou para observar os quadros na parede. todos o somos. Ao lado dele. ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite.E sou. – declarou François entre uma tragada e outra do charuto.Claro. – comentou François. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. dando importância ao fato. mademoiselle Rossi.. ironicamente. – completou o próprio. -Na verdade. . a verdadeira arte. para eles. Depois. – enfatizou. monsieur Roche.-comentou sem jeito. venha nos visitar com mais frequência. . mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos. – disse François com seriedade. voltando-se para Amanda. -depois. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando. Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro . arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa. foi a última. Mas não devia tê-lo o feito. O legítimo bonitinho mas ordinário. . ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. completou com delicadeza: . mas. sorrindo tranquilamente. -fez um muxoxo.Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria.A parte do programa que citava Jules foi a melhor.Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental. cada dia nos renovamos. . ressoou no ambiente. . Jules.Claro. O homem está se sentindo um tanto incomodado. mon cheri ami. Revestindo boa parte da alvenaria antiga. Amanda considerou. exibiam os cursos realizados pelos Roche e.era duro e desconfortável. François começara a SBO com Jules e. fora o vice-presidente. Sei que parece idiotice essa coisa de crise.Mandou fazer o que pedi.Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros. -Afirmou. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa.Touleause está preocupado. tragou novamente o charuto e falou devagar:. o executivo. ele queria que eu o aconselhasse. não tinha paisagens. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. com as pernas cruzadas displicentemente. . A ideia é que preparando sua sobremesa predileta. mudou de assunto e disse de forma afetada:. –agradeceu-lhe. debochando. após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda. O mordomo. : . Após os devidos cumprimentos e apresentações. figuras humanas ou monumentos históricos. . acomodou-se François e. sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento. entregando-lhe um cálice de vinho. pensou Amanda.Sei que trabalha muito. na sua figura alta e sóbria. fiquei interessado em conhecê-la. Na cadeira à sua frente. atravessou a sala.uma relíquia arrecadada num leilão. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica. durante algum tempo. -Merci. sério. – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. mas ele insinuou que você parece outro. conforme informação veiculada pelo próprio François . encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 .

Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. a “nossa” Geneviève. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond.. Mas queria. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto. nos últimos sete anos. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle. . não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia.. Amanda Rossi. ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto. Sonia cantara a pedra. Afinal. e sim um vestido de seda. endereçou um olhar em direção a Jules. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice.ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem.Rossi. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa. Por que não se divertir. – comentou como quem não quer nada. alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios. James Bond. Amanda Rossi. confusa. afetuoso. Amanda pôde comprovar. já que fora eu quem o convencera a ter uma. Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la. descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. pergunto-me.. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. -Como vai. Insistia... nada melhor que sua cópia.. Porém.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém. À sua presença.. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO. Sorrindo e completamente à vontade. enfatizou.. mademoiselle. outrossim. Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia. caso ela tivesse de ser substituída. François cumprimentou-a com outro abraço. Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: . Uma mulher com uma missão. como todas as noites? Rossi. sem sorrir. Armada e decidida. brilhante aluno da Sorbonne. os homens levantaram-se educadamente. 85 . Na vez de Jules.Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha. perolado. como empresa e não pessoas.. Jules era casado com a “nossa” Rochelle e..? –interrompeu-se. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. . concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se. Quais critérios ele deve ter utilizado. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL. curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève. cantava tangos. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. na última seleção. resumindo. Mas não foi Raj quem apareceu à porta. Automaticamente.

que sorte. Sombras no olhar sério e profundo. Sonia. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. com louro. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente. Numa tigela de cerâmica. Dois mundos e o vácuo. emergindo de dentro das veias. que antes tendia ao enfado. agora. Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas. agora. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. . Meio eufóricas e um tanto sôfregas. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. Um cheiro fantástico. a iguaria indiana. – falou Geneviève com entusiasmo. Vez por outra. não sentia mais nem lábios nem língua. a decadência do Botox. Seria ótimo tê-la conosco.Estudei na Suíça com ela. enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. Algo o incomodava.Oh. erguendo-se da tumba. Do outro lado da mesa. as pálpebras pesadas.no garfo e levava-os à boca. comprada na China. torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. Raj retornou à cozinha. Após exclamações discretas de satisfação. . Atrizes no palco. Exótico. e a plateia composta por apenas um homem. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. possuía ares de desconfiança. E ela sentia-se perdida e deslocada. Um interesse excessivo. o delas.Como lhe falei aquele dia. o seu trabalho como psicóloga é fantástico. chamava-se Moglai Biriani . non. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio. sabia? – informou François com um sorriso. lembrando pimenta e nozes. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência. Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. Ao seu lado. Seria tão bonito! -Très bien. segundo informação importantíssima de François. Fran! Amèlie é sensacional. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. de frente para Geneviève. Amanda observou. a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. . emprestadas da Marie Claire francesa. dos alimentos transgênicos. Na verdade. reuniões e horários restritos. saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau. agendas. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. sozinha. fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. por nada em especial. 86 . quente e adocicado. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. Após quatro cálices de vinho. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida...na Índia. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules. canela e uvas passas. os babuínos que atacaram um vilarejo. Foi então que começaram os primeiros tremores. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito.

na prisão. aquele que se faz sem saber o porquê. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si. incomodada pela indagação rascante do homem que. jurídico. o do tipo simulado. . –retrucou Geneviève que. agora.Tem de ser mulher? –indagou François. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura. eles têm de procurar ajuda noutro lugar. Jules.Claro que não.Todos no centro social trabalham. -Nossa função é somente para com a mulher. me parece que se não são tratados os problemas dos homens. poderia pô-los em ordem. -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro. parecia não lhe notar a presença. -É verdade. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem. . voltou-se para Amanda com vivacidade: . como. talvez não mais as que agridem no momento. sejam psicológicos ou econômicos. por exemplo. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. solícito.Sua ajuda também seria fantástica.Oui. Sonia interveio em favor da amiga. machista. encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo.Existe trabalho de mentira. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo. eles tornarão a agredir as mulheres.Obsessão em Paris Veronique Gris . . O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras. sem olhá-la. olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: . subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas. – declarou quase que didaticamente. rebateu num tom acusatório: . sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. Jules? . Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar.Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. adiante.Tínhamos uma secretária. Geneviève encarou-a com ferocidade. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. A moça mexeu-se na cadeira. –comentou Sonia saboreando o creme de manga. de preferência. Esqueceu-se? – tentou sorrir. Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e. mas ela está em licença maternidade. Fora politicamente incorreta. . Foi como um raio que partiu a mesa em dois.. mon ami. . além de protecionista. em seguida. Caso queira auxiliar-nos. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: . Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . François riu.Na galeria do meu pai. porém. apesar de estar sentado ao seu lado. cortando a carne no próprio prato.Falo trabalho de verdade. mas. François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO. Geneviève. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. talvez.Eu trabalho. Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e..

François. mortas! – quase gritou. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma. não. .Frutos de famílias disfuncionais. ah. assassinos de mulheres e crianças. . naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos. jamais imaginara que entraria numa arena. Não havia nada de machista na sua ideia. . . – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. Amanda. essa palhaçada.São simples e verdadeiras. Ele a fitava com seriedade. o equilíbrio. As coisas não são simples assim. François foi pego de surpresa e também se levantou. Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. ela observou. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la. melhorarão a sociedade. -Isso. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. só acredito que existam mais vítimas nesta história. –completou François. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. Amanda. ao sair de casa. Inconscientemente. os lábios apertados marcando os maxilares. Ali. Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto. – tentou ponderar.Que noite improdutiva. Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto.Retrocesso. são mutiladas. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. Amanda sentia um mal-estar danado. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. Contudo. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. -O que foi? O executivo contornou a mesa. Fran. Vamos para casa. – ordenou. à mesa.Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . Sonia. Porque o seu mundo não era aquele. porque. Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas. Ei. mas sabia que seria confrontada. Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa. assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores. o centro. esse jantar. ela sentia-se mal e acuada. talvez. ela mesma tinha sido vítima de um agressor.acrescentou Sonia protegendo a amiga: . As palavras saíam-lhe com dificuldade. isso é que elas significam: retrocesso. Estava prestes a explodir. . humilhadas. -Esse assunto mexe muito com Geneviève. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. Estava sem munição e longe de casa.E com razão. Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair. algumas de nós sofrem. -Geneviève tem razão. –disse Sonia. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. ainda somos um pouco machistas. -Não sou machista. Queria mesmo era sumir. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. – acusou Geneviève quase possessa. Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima.

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- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

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alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
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-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

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não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois. então? – indagou desconfiada. -Todos nós temos os nossos coringas. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência.... -Queria saber uma coisa. Quanto ao emprego.. As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo. você sabe. -Ah. já que não é da minha natureza cometer injustiças. -Se é um jogo. inundando a sala de uma tênue claridade. você deve ter outro plano guardado na manga.. porque me sinto em desvantagem.. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. – disse sem rodeios. –disse-lhe num tom sério. – comentou no mesmo tom. braços que a esmagavam contra o sofá. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto. diminuindo o volume da televisão através do controle.Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas.. Este apartamento é seu. -Foi uma sugestão apenas. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura.além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. –reclamou irritada.. você fala? – retribuiu a brincadeira.era um acordo. – disse emburrada. -Se for interessante apenas para mim. – pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções. tornando-a uma coadjuvante no relacionamento. Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. aquilo que me propôs no Café. -Sempre que posso.Não costumo dividir decisões. indagando com olhos sérios e perscrutativos: .. virando o rosto para encontrar o dele. não? – refletiu em voz alta. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. O que mais a preocupa.Caso não dê certo entre nós. . sempre foi assim. -Claro. – murmurou sem desviar-lhe o olhar. os seis meses de teste. 92 .. -Você é movido por combinações e acordos. -Humm.. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules. não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. – começou. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si. -Então facilitarei para você a situação. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado. Agora. Minha opinião nem foi cogitada. E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela.. – afirmou convicto.E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro. . -Vai pro diabo. Moravam juntos. – É interessante para mim que você saiba? – brincou.você e sua prepotência. -murmurou. . mínimos. Viviam juntos. Ela tentou levantar-se do sofá. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. E todas elas foram decididas somente por ele. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas.

A neve encobria o telhado de vidro. talvez a predadora da tribo. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior. Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos.. desejando ainda mais. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. E se devesse.. ela constatou todas as vezes que o fez. Mas não lhe bastou. não era nada simples. da rudeza sofisticada de sua espécie. desenhou o contorno do seu lábio inferior.. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. ele sucumbira a um sono profundo. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. E os seus sonhos idiotas de amor. Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. Amanda pensou. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão. da nossa relação.já saberia de antemão a resposta. Com a ponta da língua. E ela. Esfregou os olhos e bocejou. Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta.Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota. -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. Ficou por sobre ele. com um homem lindo e dormindo inocentemente. Num impulso. uma tortura que impingia a si mesma por prazer. em seguida. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. Uma mulher das cavernas. Um braço masculino ao redor de sua cintura. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. Estava quentinha debaixo do edredom. após passar a noite acordado. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte. do sexo oposto. eram sete horas. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais.. Encarou-a intrigado. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. beijou-lhe levemente na boca. mal lhe tocando a pele. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. quando automóveis. prazer de desejar e prolongar o desejo. Deslizou a língua para o queixo másculo. sem tocá-lo. ela pensou. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. delicadamente. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça. ali. Não. Ele levantou-se do sofá. – sussurrou resignada. Mordeu-lhe o lábio inferior. assim. Sentou-se com as pernas abertas. Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos. O despertador tocou. Simples. Dava a noite e a conversa por encerradas. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. Importa-me saber é porque estamos juntos. então não sabia nada sobre ela. na cama. Poderia fazer o que quisesse. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . sentindo a aspereza dos pontos da barba. aceitando-lhe a mão. sim. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. Afastou-se o suficiente para constatar que. -Que seja. obstruindo a passagem da claridade do dia.

Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. abriu os olhos. agarrou-a. agora. seguidas vezes. virou a cabeça para outro lado. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. divertida. Alguns minutos depois. Jules mexeu-se. Poderiam. no próprio sono.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios. teve as pernas presas entre as dele e os braços. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando. livre.sem deixar de observar suas reações. Jules virou-a de costas. com a outra. baixou um pouco o cós da calça. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. Nesse instante. Ali. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. penetrou-a fundo. Humm. Mais uma vez. seduzido de forma passiva. cedeu a pressão sobre ela que . Ela tentou mexerse. pensou com luxúria. Antes que ela se recompusesse. inclinou-se sobre o seu tórax.. ele brincava. agora. Ela parou. De repente.. sentisse a pressão. abraçando-a com violência. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. Ele esquadrinhou-lhe a face e. conteve a risada. Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela. como se estivesse sonhando ou. num vaivém lânguido. pegou o pênis e penetrou-a com força. dona da situação. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. pelo corpo inteiro de Jules. Como ela não era uma mulher má. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. a outra. Estendendo a mão para trás. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. o nariz enfiado em seu cabelo. Uma legitima fêmea alfa. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. ergueulhe a coxa e a penetrou novamente. acima da cabeça e.. ao seu lado. com estocadas profundas e rápidas. mantendo o ar nos pulmões. terei de puni-la severamente. no entanto. dominados por uma de suas mãos. ainda sentia a força dele dentro de si. contraiu-se. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se. ele a derrubou contra a cama. Sentia-se poderosa. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. Voltou à carga. assim. O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar.percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. devagar. como um guepardo divertindo-se com a presa. ao longo de toda a extensão do seu peito. desceu para entre as pernas dela e. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. Num gesto rápido e inesperado. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos. provocava e simulava desinteresse. voltava ao comando. e ele gemeu. como era bom ser uma fêmea alfa. a boca contra a nuca de Amanda. Em seguida. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. E ela. habilmente. Com apenas uma mão. observando a expressão do rosto dele. Surpresa. Deliciou-se com a ideia. -Agora. com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. após uma rápida avaliação. ela segurou-o com força. mexendo apenas o quadril. era pressionada contra o colchão.. havia uma barreira e tanto. – disse-lhe simulando seriedade. quase imóvel. intrigada. 94 . mentalmente. até vê-la entreabrir os lábios e gritar. E parou. sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. amenizou a força de sua mão e .

olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. – o poder. Gritou. ele sabia como deixá-la com essa expressão. debaixo do mezanino. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café. mas plenamente satisfeita. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. levantando-se depois de fazê-la gozar. friccionando-o. por exemplo. Relaxado. matá-la devagar. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. Ela só pôde assentir levemente. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda. é bom. estava sempre faminto. chumbo derretido. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. Gemidos roucos. a respiração descontrolada. mais do que isso. Morreu e voltou. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. por certo.Obsessão em Paris Veronique Gris . que foram apalpados e esmagados. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. Se era o corpo que fazia amor. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. sem salto. houve uma mudança nos planos. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. essa. jorrava-se de dentro dela. a de Jules. sou eu quem manda aqui. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas.. em movimentos circulares. Na sala. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo. detendo-se nos seios. – provocou-a. de lã. com dedicação. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida. O cabelo molhado e os músculos tremendo. de onde provinha? Escolheu um vestido justo. Ele riu com vontade. enquanto fitava-a deitada e exausta. Jules. desconfiado. brincando com o clitóris. Optou por uma botinha de couro. novo em folha. E entre em contato com monsieur Koskinen. 95 . A pele avermelhada. pelo sexo. masturbando-a com a língua. por um breve período. Despiu-se totalmente no quarto. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. Por mais que tentasse falar. E ele tocou-a ainda mais. cheiroso e saudável. uma energia. Mas a natural. inundando de magma. Ele tencionava. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. cáustica e aniquiladora. Jules abandonou-a sozinha na cama. chupando-o. deixando as roupas pelo chão. apesar de magro. Respiração resfolegante. sol escaldante. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. plena. ela compreendeu.. O coração acelerado.É bom. pelos poros. lia calmamente o jornal. e. verde claro e de mangas compridas. Limpo. os bicos lambidos. -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. Ele sabia reconhecer essa expressão. pela garganta. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. uma mesa de madeira rústica. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. numa atitude de quem diz: viu. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades.

é diplomático demais. -Certo.. -Cuido sozinho disso tudo.. agora. -Sei o que tenho de fazer. o Citroën estacionou ao lado. ordenou: . -Você jamais diria que estou gorda. a lavagem de seu automóvel.Não disse isso. voltando a ler o jornal. croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes.. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei. – determinou. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi. Ela sorriu e acionou o alarme. Agora. Repassarei suas antigas funções às secretárias. – defendeu-se. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas.em seguida. da compra de seus sapatos italianos.. então. umas vinte manobras perigosas. – Sinceridade é algo legal. sabia? –alfinetou-o. pelo menos.. -Já lhe disse em casa. antes que ela reclamasse. das anotações nas reuniões. O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. – Se é que ouviu alguma coisa. estava tudo antecipadamente decidido. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. Sentou-se na cadeira em frente a Jules. pertencem a Dorian e Assíria. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. -listou exasperando-se. Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . mademoiselle. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. vê se come alguma coisa. – afirmou incisiva. cismada. Ao fechar a porta do automóvel. estou quase vendo suas costelas. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas. caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. Aguardou Jules em frente ao elevador. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. Rossi. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil. Sim. queijos. o outro não ficaria à mercê dos táxis. – constatou com menosprezo. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. sério. Ligue para Dorian. . e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa.. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade. – afirmou. – disse e. -Se fui demitida.Se você estivesse gorda e eu concordasse. 96 . pois. fitou os pães. -Non. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules. geleias. Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. pensativa. para variar. das. monsieur Brienne.

Saíram do elevador. chefes de departamento. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. . Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. as emergenciais. estava. Sim. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados. tendo sido demitida no café da manhã. Entretanto. E agora. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. Antes de segui-lo. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. pedaços de conversas. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. No entanto. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. Após retirar o paletó. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. monsieur. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. assistentes. Assíria olhava de uma para outra. a que dividia o seu escritório do de Jules. você. em seguida.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. Fechou a porta atrás de si. secretárias e o pessoal terceirizado. como um quebra-cabeça. 97 . mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. Conhecia todos os meandros administrativos. interessava-se particularmente pela área de produção. – retorquiu sem rodeios. decididas em cima da hora pela presidência. e pediu que a acompanhasse até a sua sala. franziu o cenho. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. Se estava preparada?.Eu? – indagou-lhe confusa. ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. lidando com diretores. concatenando todos os setores organizacionais. produzido na fábrica de Lyon. Algumas peças se juntavam. Mas. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. agora. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. Ao vê-la fechando a porta. Voltou-se para Dorian. procurando por respostas no carpete. Cinco anos de intenso treinamento. -Certo. de uma forma tão charmosa. No início do ano. À época. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. quero dizer. havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. -É. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. essa verdade era inegável. Mesmo por que Paris não era a SBO. evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. foi até a outra porta. desde quando vivia em Porto Alegre. ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. Aprendia-se muito com os workaholics. Assim.

você passou dos limites. –Mas. merdè!. indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. mostrava você. Amanda sentiu o sangue subir à face. muito mais juntos. claro..Obsessão em Paris Veronique Gris outras. uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. daria um jeito para ficarem pertinho. agora. – tentou apaziguá-la. -Que droga! Isso é tão estranho. chèri. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou. Mas você é ceguinha mesmo. fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho.. –Que aconteceu? Oh. semana passada.Além disso. a reunião.. E sem razão. não é mesmo? – alfinetou-a. Enquanto organizava a sala. É.. Se ele gostasse mesmo de você.. por sinal. -Dorian.... oui. –afirmou sorrindo sem jeito. –Aprenda conosco. fica mais perto do refeitório. Dorian. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você. non? Virada para a janela. diante da vista panorâmica de Paris. Comentou com naturalidade: -Bem. – Acho que irá transferir-me para alguma chefia. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa. ele me ama. pensou. Ou pior.. –lamentavase Dorian.As brigas. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos. -Quantas forem necessárias. Monsieur Brienne cresceu. -Oui. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira. -E quem ficará no seu lugar? Ai. como sempre o fizeram. –Pelo menos. 98 . non. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian. já sei. non. agora. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e. –comentou com ironia. que. – alertou-a. Amanda não pôde evitar a risada. –brincou. nervosamente.Monsieur Brienne é paciente. -Não. ele não é o poderoso chefão. Dorian empalideceu.. interveio: -E. um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas... literalmente. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo.. insubordinação. viajando. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação.. Amanda. mostrando a língua para Amanda.. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel. -Será mesmo? Olha só. -Não se preocupe. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim.Fui demitida. Depois lhe disse num fôlego só: .-olhou para os lados à procura de terra firme. o cargo foi extinto. sei lá.. -Você é cega? –desferiu-lhe. –afirmou sem poupá-la. me põe no olho da rua. – disse tentando sorrir.

99 . –reagiu. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. –Jules fitou-a. voltou-se. -Monsieur Brienne. da última vez. -Oui. estou noutra. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. Amanda nem precisava fitá-la. O decorador passou a madrugada trabalhando. visivelmente encafifada. –constatou sorrindo. Os dois combinavam e. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. no máximo. você está gorda. que já estava com a mão na maçaneta. –respondeu sem pensar. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui. Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. Com a caneta. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora. não. estavam juntos. Será que ele não havia percebido o deslize?.pois é. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta. se ele for o Jacques.. -Bom. -Agora. incompleto. à porta. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez. –soltou essa e teve vontade de sumir.. Retomavam. aturdido. logo que a secretária fora contratada...-gaguejou. -Não estou para brincadeiras. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas. -Você gosta mesmo de artistas.. -Apanhará feio de Filipe. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe. -No computador. -Pardon? – alçou a sobrancelha. então. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou. somente meus inimigos me chamam de Amanda. pensou. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. nos arquivos do computador. impaciente. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. -Tem inimigos.. Dorian. haviam tido um breve e intenso romance. Depois.. o que haviam deixado para trás. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia. -Amanda. hã. –interrompeu com malícia.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah. ignorando a outra. monsieur. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta. Dorian. – afirmou secamente. nervosa. -Quê dizer?. Jules. –deu de ombros. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração.. circulava alguns números do mês anterior. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. tudo. é. é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele. –murmurou. Que adianta saber? Pouco me importa. -Cuidado. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. -Misturou.

. porque. mas não gorda! Gorda é a Assíria.-antes de fechar a porta atrás de si. Não queria por agora. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. cabelos domesticados e unhas curtíssimas. um padrão.. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. estamos juntos. perdida. Na extremidade esquerda. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. havia cinco anos. –Bom. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. nos respectivos notebooks.. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. -Tudo bem. isso eu trouxe de casa! –provocou-a. Dorian. Marion e Jordan. portanto. duas solteiras. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres. Conhecia. batendo a porta atrás de si.. estou com pena de você. que mal conseguia respirar: -Uau.. –olhou ao redor. Antes que Jules iniciasse a reunião. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador. Não estava preparada para ser mãe... Três gerentes eram mulheres. as duas solteiras. normalmente. constatou Amanda. ele só falou isso porque. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas. em seguida. -E ele a demitiu. principalmente os gerentes. -Ei. 100 . o seu domínio.. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém. vocês. Outro padrão..Epa!. pois. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. trocavam informações que registravam. se está tudo certo. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual. Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. caso olhasse à sua esquerda. na direita. que. não. Porque nem sempre usavam preservativos. Jules. coitada. promovido a diretor. uma cadeira vazia.Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu. não participavam das reuniões com Jules e Touleause e. Dorian. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. esquentaram. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. não faz esta carinha. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. o chefe. hein. Ternos discretos e aprumados. Amanda verificou. ao lado do presidente. Era fundamental que lhe desse toda atenção. Duas mulheres eram diretoras.ele. -Ah. relaxados.. -Não. ele é terrível!. porque engravidou. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. –Isso não é certo. -concluiu afoitamente. o presidente.. A atmosfera estava mais leve e agradável.. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias. enfim. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos). – debochou.. com isso. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses.. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. Porque ela estava mais gorda. – disse sentindo-se vencida. -Não estou grávida.

ainda mais satisfeitos. a máxima que diz que time bom não se mexe. de baixo para cima. em seguida. Rapidamente. o melhor time e. Um efeito dominó. Jules era um só. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação.Sente-se. com medo de fracassar ou medo de vencer. 101 . solene: -Bien. Em vinte minutos. agora. que. A voz. ainda mais no campo da informática. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e. entregar-se e se deixar envolver por ele. centralizador.. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha. mantida num tom brando e grave. agora. Quem se rebelava. apenas para Amanda: . A lealdade a Jules era recompensada. Ainda sentado e organizando suas folhas.. em nossa empresa. seduzido. Novamente. messieurs e mesdames. Manipulado. haverá sim mudanças. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. analisando o tom sério na voz do presidente. Tornou a sentar-se. ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito. Inclinou-se ligeiramente para frente. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que. os executivos riram. Era fácil e era bom.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. ainda mais desapontados. soa como uma falácia. ainda não terminei. Eram iguais. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. – declarou impassível. apenas há quase quatro meses. modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. na administração moderna. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção. Expunha o discurso fitando cada um presente. A primeira parte da reunião acabara. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. –baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista. Fitou-o intrigada e constrangida.. autoconfiante e dominador. brincou Jules sem sorrir. O que queria.após as risadas. Controlador. umas sobre as outras. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. para isso. continuou. o que lhe parecia óbvio. na SBO francesa. mademoiselle. de certa forma. o homem. diretores seriam transferidos para outros países. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos. Entretanto... justamente por isso. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. fazia. e as vagas abertas por tais diretores. o semblante sério transmitia confiança. Jules. seriam preenchidas pelos gerentes. dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida. sério. -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo. não era esmagado e sim convencido.Touleause não está mais entre nós. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. Ao levantar-se para seguir o protocolo. a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos. Uma personalidade complexa. Temos. devagar. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e.

Em pouco mais de dois meses. mas ela não era um gênio.Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 . como se os dias rastejassem-se desde a alvorada. E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. inteligente e siga a minha visão empresarial. acompanhando o sorriso de Jules. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. quase outra encarnação.. os discos do Queen. Ao explodir. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio. teve uma vida pacata e lenta. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem. A transferência de Rochelle para uma clínica.. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. a suspeita de que ela estivesse grávida. Ergueu-se. vendera sua alma no mercado de pulgas. – falou diretamente.. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência. sempre com um cigarro apagado entre os lábios. haviam provocado a avalanche de mudanças. vivia intensa e profundamente. Duas semanas depois. uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. Naquele dia.. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias. Anos atrás. juntou dois e dois e. Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia.. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi. impactadas diante de uma afirmação sem sentido.. O sangue correndo forte nas têmporas. pessoa de estrita confiança sua. bateu palmas. para tanto era preciso destruir a antiga.. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. uma lâmpada ligou. ligou uma coisa a outra. como se matutasse alguma coisa. Até os seus 23 anos. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado. Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária. Um minuto de silêncio. Anunciou séria: -Vou buscar o café. Jordan. então. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. Em Paris. sendo substituído por mademoiselle Rossi. aproveitaria a oportunidade. Pessoas que calculavam e analisavam. com curiosidade. sentava-se na poltrona diante do homem que. ponderava Amanda.. cinco anos depois. e a lâmpada explodiu. Faltava café na sala. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França. nomeava-a vice-presidente. Era uma outra vida. Entretanto.. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules.. Voltara do jantar em silêncio. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. Era aceita por aquele time. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e. tendo como companhia uma bolsa imensa. Planos ambiciosos. Antes de encerrar a reunião. no aeroporto Salgado Filho. mas. Uma velocidade que a excitava e a apavorava. Não conseguindo resolver a equação. agora. Dentro da cabeça de Amanda. que lhe desejou felicidades. permaneceu imóvel. seguido pelos demais na sala. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause.

. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador.Está no lugar errado. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. mais aos padrões do alto executivo. E a vice-presidência imposta. era fato concreto. absurdo que sentia por aquele francês.Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. Tinha consciência. durante um bom tempo. Era a parte moderna.. Como fora a escolha do “presente”?. mesmo tendo resistido. discutida. E agora o fantoche do presidente. Uma manobra engenhosa e tão boa. esse 103 . E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor. Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente. em cinquenta e oito andares mais o terraço. . Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. o prédio mais alto da França e. sua antiga sala como assistente-executiva. a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. o mais detestado pelos franceses. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida.. Objeto sexual fora da empresa. mesmo não tendo aceitado. e ela simplesmente o ignorara. como lhe dissera Jacques. inaugurada em 1972. profundo. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. E não era qualquer um. estilosa que revelava outra faceta da cidade. Um móvel de escritório. Ele estava certo. do amor louco. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea... Amanda. E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria. Porque lhe era conveniente ignorar. seu sorriso era outro. No chalé. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. com os braços cruzados numa atitude absorta. Construída diretamente sobre o metrô. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação. A proposta para viverem junto e. Amanda percebeu depois. forçado e impessoal. A voz grave. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência. Amava-o como jamais amara alguém. olhava o prédio vizinho. Enfrentaria mares bravios em busca de paz.. agora. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO. o prédio vizinho. e sim o loft. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela. Tudo girava como um caleidoscópio. entretanto. ponderada entre ambos. com extensão ao loft. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. Ao longo de cinco anos. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos. como um homem das cavernas. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. a nova VP. sempre venerara Jules Brienne. acabara por ceder. no máximo. escolhera os novos móveis do loft. e não conversada.

É assim que temos de pensar. sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . Levei cinco anos para perceber isso. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. mas. Jules estreitou os olhos. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente. Jules. Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. Tentou soltar-se. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. Temia perder-se para ele. -Não sou apenas uma funcionária sua.. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. antes delas se levantarem do chão. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. o céu cinzento. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. completou: -Entretanto. nesses últimos quatro meses. –constatou por fim. inadequado.teste. pois. e não por dormir com o presidente. a garganta bloqueada por um nó de tensão. –declarou com um sorriso debochado. existe um divisor de águas aqui.. entalhado na pedra. – enfatizou. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. puxar o braço. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto. digamos. -Ah. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. ora para o cabelo azeviche. -Homme de glace – murmurou. mas permeado de ironia e desafio. a torre de Montparnasse. Respirou fundo e procurou controlar-se. principalmente no que se refere a minha vida. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros. Amanda? Decida-se. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. pensou. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. -É verdade. intrigado. Temia perdê-lo. non? Caso contrário. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal. -Sempre fui bastante profissional. –Quem está zangada. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento. Homem de gelo. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. logo. entendi. pelo visto. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules. -Atingi o meu limite. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. –enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora. fiz algo errado. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião.Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador.

-Seja mais objetiva. foi justo. -respondeu insegura. mas manipulada. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade. -É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações. . sente-se usada? -Não. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar. Cinco anos de cegueira absoluta. de quê. monsieur. esganiçava-se e perdia a força.. sentindo o próprio queixo começar a tremer. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida. Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. –desferiu num fôlego só. mon Dieu. non? Afinal. esperando uma reação dela. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. -Devo-lhe agradecer pela casa. Entretanto. – Mas. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. –A minha parte que adora mentiras. – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. agradece. não era uma crise de ego.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. . Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. e não a mulher que o amava. Perdia o controle. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. – sugeriu. non.. que inclui a sua ascensão profissional. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele. houve uma troca entre ambos. -O que significo para você. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. Ele sorriu friamente. Por um minuto ou dois. sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. aceitará a promoção. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida. nunca fui chefe de coisa alguma. -Acho que sim. Por um momento. Jules? –indagou num fiapo de voz. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. balançando-a para cima e para baixo. já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. Doía vê-lo fitando-a com frieza. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. convenhamos. ainda está em busca de garantias. Caso lhe fosse apenas a assistente. mademoiselle? – provocou. Oui. Lançou-lhe um sorriso fraco. temeu soluçar. –apontou-lhe o indicador. s'il vous plaît.afirmou secamente: -Por acaso. Ela queria mais. em seguida. mas. 105 . machucando-a e obrigando-a a fitá-lo. por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo.Oui. impassível. sem vontade. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam. Ao que ele tornou a falar. Apertava-lhe ainda mais o pulso. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. A voz falseava. Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. –parou. talvez a única.

o modo como eu te amo é assustador.. não tenho medo de trabalhar. – dando de ombros. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. –E por amá-lo dessa forma. um desgraçado de um abismo. Amanda abriria mão do conforto. perscrutadora.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. sei. – debochou. Alguns minutos se passaram. vou deixá-lo. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. O que me dá medo. Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são. Amanda. além do mais. –Vou para casa retirar minhas coisas. Jules? Ele contraiu os maxilares com força. entre os dois. e para se manter qualquer que seja o relacionamento. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. – riu-se com amargor. Talvez ele se protegesse do amor. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. amadurecer inclusive. Não quero nada relacionado a você. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. sem sorrir. aniquiladores. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. Soltava-a em Paris. em princípio. Proteção. Vivien. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. -Atirei-me nele de olhos vendados. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. segurança e conforto. Desde que entrei na sua sala. então. -Acabou. E como se isso não bastasse. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. E. e tal gesto era por demais significativo. Você quer tudo de mim. Não tenho nada meu lá. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés. para todo o sempre. fosse qual fosse. doía demais. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. tão passional quanto maluco. da angústia que asfixiava.. indiferente. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. roupas. pavor. a primeira mulher que o deixou na mão.. Jules. Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá. do amor não consumado. permitindo que o mesmo não o alcançasse. da segurança e do homem que amava.. O que não me dá muitas vantagens. antes de conhecê-lo. mas não dá nada de si. mas eu não sabia. desejei que me escolhesse porque. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. preferindo os homens problemáticos e violentos. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez. –interrompeu-se esfregando as têmporas. densos. quero dizer. Uma troca sem sentido. E eu a amava. Amanda. Isso é certo. – debochou sem mexer um músculo. Todas fazendo trocas descabidas. Engoliu as lágrimas. non? Até o meu útero. oui. –completou com impaciência. agora. Eu te amo. perigosa. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. Agora. E como todo o rompimento afetivo. –Oh. há que se ter um equilíbrio entre as partes. Antecipava no peito a sensação do vazio. a expressão cansada.. retomando o controle das emoções. no mundo. Amanda olhou para o rosto bonito. a mãe. Jules soltou-lhe enfim o pulso. -Estou numa posição inferior a você. Surpreendeu- 106 . -Por que você não me ama.. é o que lhe ofereço. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo. -decidiu-se convicto.

Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe. Debaixo do edredom. observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. os braços 107 . Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. Chorara durante o curto trajeto de volta. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. tornando-a refém de uma dor insuportável. com uma franja sobre os olhos. no subsolo. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. Então. Parou no meio da sala e. E chorou. então. aos dez anos de idade. Abaixou a cabeça. com paisagens de uma Paris dos anos 20. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra.Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. de pescar o maior peixe do mundo. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. você e o seu suposto amor. Tinha algum tempo. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. Deitou a cabeça. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. sorrindo como se tivesse 17. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento. a loção pós-barba exalando frescor. Chorou até se engasgar com o vinho. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. quase física. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. diante do Café de la Paix. e Jules. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. abraçados. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. do século passado. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais. E chorou. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. Passe no RH. dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito. Como ele podia ser tão carinhoso e. O desenho de uma menina morena. a pele cheirosa. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. Não podia reprimir-se. doces e infantis. – completou com evidente desprezo. Depois. -Por que antes de ir juntar suas coisas. Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia. Diante do espelho do banheiro. Após a saída de Jules. seguros de que tudo daria certo. chorou. mesmo porque era impossível fazê-lo.. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. Por um tempo. mademoiselle. girando lentamente. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. contando histórias da infância. em que ficaram conversando após o sexo. sais que exalavam o odor de Jules. como que se protegendo dela. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega.. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. E chorando encaminhou-se à cozinha. corpo no corpo.

Em seguida. Parecia preocupado e nervoso. -Vas te faire foutre. Todos os sentidos em prontidão. No aparador de vidro estava o seu celular. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . A vergonha de ter sido fraca e chorona também. Viu-o descer a escada. medo. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. muito próximo. Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. legalmente seu. largo e firme. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você. -Não é certo que você saia. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. –completou num tom melancólico. olhou ao redor à procura do aparelho. Jules. Estava horrível. imaginou Amanda. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar. Foi até o banheiro e saiu. Estava ligeiramente zonza. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. Num estalar de dedos estará bem empregada. pulando a cada dois degraus com agilidade. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. mas manteve o paletó escuro. depositou-a no chão. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. o apartamento é seu. sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos. Sem hesitar. –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. intrigado. continuará recebendo até encontrar outra colocação. branca e dourada. – xingou-o com raiva. Subindo os degraus rapidamente. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. desejo e muito álcool no sangue. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. pegou-o e digitou alguns números. Amanda afastou-se da porta. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. -Sei que já eu devia ter ido. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. no seu esconderijo. porque queria encontrá-la antes que partisse. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. quase desfigurada. –Vim direto para casa. Amanda.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa. Segurava uma sacola de papel. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido. Fechou os olhos e abriu. Retirou o sobretudo e o cachecol. raciocinava. acrescido do seu amor. atenta. Ergueu a cabeça. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego.. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha. – adiantou-se num murmúrio. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador.. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo. Killer Queen ressoou pelo apartamento.

-Não se dê ao trabalho. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma.. –completou com desprezo. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu. Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. pela primeira vez. non? Temos de limpar o corte. devagar.. bufou. non?. no queixo e nos maxilares. Sentiu-lhe o gosto do hálito. O centro social ainda não se instalou por lá. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer. E quando amava. indiferente. Quando ela virou os lábios 109 . na ponta do nariz. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. E rendida. inacessível!. seus contatos. Transferências.Frio. diante do silêncio que se seguiu. e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. Visto que ela o ignorou. contatos. Amanda apenas fechou os olhos à espera. devagar. cada uma. objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo. Dignidade feminina. O discurso de bom-moço enojava-a. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. sem meio-termo ou meias-medidas. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório.. Deve ser uma merda ser tão racional assim. a sua gentileza. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. -Claro. fusões. Ela acabara de alfinetá-lo.. amava. decidindo vidas. fazia-o por inteiro. Empinou o nariz numa atitude arrogante. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. agora. que mal lhe tocavam. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. Novamente a vertigem. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice.. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura. Não será isso que me matará. -ironizou e. –declarou exasperada e encarando-o severamente.. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. canibal. recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. Automaticamente. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural. Entretanto. fique aqui enquanto vou buscar o iodo. Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. Durante anos bloqueara seus sentimentos. Pequenos beijos nas bochechas. Isso que era: lixo puro.

oui. -Ele também não lhe pertence mais. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu. Perdida... não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais. Amanda gargalhou completamente surtada.Mas. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente.. verdadeira e forte.... -Bebeu mais do que devia.... – escarneceu. eu ficarei. mas ainda era uma MULHER. o aparelho espedaçou-se no chão... podemos conversar de forma sensata e coerente. Você é uma ótima pessoa. Em vão.. inteira... ela o fitou. contra a parede. a contabilidade emocional. –falou baixinho e direto. -Havia um notebook ali dentro. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou.que você nem sabe escolher. que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne. Dentro dela. metálico e abafado. o seu Jules Brienne.. deixe-me ver.. Jules apontou para a pasta e comentou com calma.. por sua vez. o homem de gelo. Possessa. porque eu não sou de ninguém. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz. Jules. Jules! –gritou. -Nunca foi a minha intenção machucá-la.. Jules. céus!.. odeio seus sapatos. -Claro que não..Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo.. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo. Jules afastou-se delicadamente.. – à medida que falava. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente. intrigado. o caricato.ficará com você. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor. 110 . fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: . como se tentasse neutralizar o que sentia. e eu não.. –completou chorando. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. oui. Odeio tudo que vem de você. como se fosse ele quem sofresse. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. inclusive esse apartamento de esnobe descolado. Um barulho seco. que ele arqueou uma sobrancelha. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe. Você vai embora e os levará junto. reverberou no recinto.. rindo. -Idiota! –gritou. seguido por outro. acho que vi um. eu não pertenço a ninguém. –Mas tenho a mim.... a sua empresa de merdè. não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo. Venha comigo.hã.. o pragmatismo. sereno. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. Amanda. –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio. . Odiou-se por se render tão fácil. só não tem coração. Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. –considerou numa voz abafada. vamos ao banheiro. non. estranhamente calmo. ele fez um movimento para se levantar e contê-la. Mas quando ela pegou-lhe o celular.Eles são seus e eu os odeio.

Respirou fundo. sentimentos. acalme-se e vamos conversar. Amor! Já foi amado assim. recordações. Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. Tocou a capa de cada disco com ternura. . e o fizera para poder se manter por alguns dias. -Nem tente destruir isso aí.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre. para que ele não o encontrasse! Eu te amo.. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele.eu. Calculou que ele conseguiria detê-la. no fundo da sala. Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. A chave foi arremessada para fora da janela e. .. não. no alto da escada.. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO. sorrindo por entre as lágrimas. voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro.. no entanto. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado. incendiar chalés. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das. Percebi que esses discos significavam muito para você. francês. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. enviar e-mails com vírus. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia. ideias. Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou.. europeu idiota! Dito isso.Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. em seguida. O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo.... seu imbecil.Adieu! – exultou com um gritinho alegre. -parou e fitou-a 111 . Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: .. ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. envenenar comidas. esperando pelos diretores da subsidiária de lá. Satisfeita. queimar sapatos. Amanda..eu me dediquei a você todos esses anos por amor.. –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. -Agora. Toda a sua coleção do Queen recuperada. – Non.. voltando a sentar-se no degrau. desde a adolescência no quarto. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola.Em rasgar roupas. –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. -Estávamos em Roma. sozinha. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento. tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente. Fitava o interior da sacola. non? – indagou com cuidado. – gritou: . retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e.. ao cair. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo. ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel.completou gritando: . –Nada sairá daqui com você. quando conversamos sobre viver longe de casa. com os dedos. sentiu a mente esvaziar-se de tudo. ao que ela..Acertei bem no alvo. pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava. -no restaurante. todos os discos haviam sido vendidos. -Jules começou. listou: . tomada pela fúria e com os olhos arregalados. estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada.Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën.. -Entendo que se sinta magoada e.

fora prática contrariando a sua natureza passional.. fazia-o. Tudo tomava um novo rumo. lentos. Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. abraçou-se aos discos e chorou. Ela parou diante da cama. Era a vontade de ser pai. com os seus poemas escritos em algumas capas. tinham de ser os seus. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto. -Merci. a sua caligrafia de menina. a sua. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 .Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. seu barbeador. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário.. a realidade.. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. alçando as sobrancelhas: -Pode ver. – enfatizou. Isso era amor. ações sólidas e reais. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu. De nada. arrastados. não era controle. quis chegar a tempo para lhe entregar. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. no modo de pensar de Jules. como se quisesse livrar-se do assunto. Gestos precisos e. respondeu apenas. -afirmou de um jeito estranho. Sem vínculos ou obrigações para com ele. Jules não falava em amor. – disse. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção. A gravidez que ele queria que se confirmasse. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França. com um frágil sorriso nos lábios. E ele jamais diria que a amava.Isso foi há um ano. Amanda indagou sem fitá-lo: . ao mesmo tempo. Isso era um ato de amor. mas.. – retrucou baixinho. não? -Oui. –balbuciou num fiapo de voz. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola. Soltara o nó da gravata. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos. passaria o resto de sua existência chorando. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor. como aconteceu tudo isso. mas não tencionava aceitar os louros. viajei. Ele lembrara e.. Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos. Investiguei. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo.. de um jeito desanimado. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido.. azar dela. sério. Resgatara-lhe o tesouro. Ele parou por um momento e esfregou os olhos. simplesmente. perfumes. os braços dobrados em frente ao corpo. na mesma.. Pelo visto. Isso era amor. por fim. -De rien. através de atos e atitudes. mais uma vez. loções e a escova de dente. além disso. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. são os seus discos. por que. praticados por homem visivelmente cansado. No criado-mudo.

– apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. procurando os discos da minha adolescência. E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro. desculpe. sem vê-lo. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere. muito pelo contrário. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão.... largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura... . Por isso. Jules sorriu de um jeito tímido. mesmo apanhando e ignorando seus apelos. confundi-me. ela bem o sabia. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente. apenas olhava-o. você parece um menino. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem. -Quero cuidar de você a minha vida inteira. Respirou fundo. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido. concentrado na maldita mala: . continuando a arrumar a mala. -São apenas coisas. me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe. Fingiu que não a ouviu. Misturei tudo. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho. -Perdi as estribeiras. Ele parou e fitou-a. Jules deu de ombros de forma indiferente. -Amanda... -Mas. Jules. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver.. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta. ainda fitava-a. e. Tinha o olhar entre curioso e desconfiado. Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade. Ela não o via de fato. segurando um par de meias na mão. que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada. Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção.. mas foi interrompido. Amanda. 113 . –respondeu baixinho e sem dar importância. -Eu gostaria muito. constatou Amanda. entendo que isso é amor.. por exemplo. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. não estou mais cega. – ele fez um sinal para que ela parasse.. Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam..Jules..Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem. Às vezes. tensa.? – sempre havia um mas. era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto. à espera de algum movimento por parte dela..tentou justificarse. preciso lhe falar. -Espere. Jules. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. por outro lado. ela também não sabia o quanto era amada por você.

O que é uma mentira.. na verdade.. – completou com seriedade. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você.Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim. séria.. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma. numa veia saliente. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido. Amá-la em segredo foi terrível. -Oui. – acusou. -Jamais percebi nada.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios..apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras. E quando dormiu com Jacques. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo. Parecia um tipo de déjà vu. Amanda. Jules riu e beijou-lhe o cabelo. sabendo que me entende. olhando de verdade para o seu rosto. e apoiou a cabeça no tórax dele. Depois.. consegui e quase a perco por isso. quero dizer. 114 . Amanda. frio e viciado em trabalho. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. mas aquela nossa conversa no restaurante. se jogou nos braços de um desequilibrado. Aquele estúpido jantar comprovou isso. . . As palavras. eu sei. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada. mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional.tive de controlar-me para que você não se afastasse. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções. Sabia que confiava em mim. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela. Quando saí da sua sala. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim. todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você.. Agora. Sei que é uma atitude tola.. para os seus gestos. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: . sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco.. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela. – Mas fui punido por minha decisão. acusando-me de insensível.. inclusive François e Sonia. porque a amo e não é de hoje. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico.-comentou sorrindo. bien. foi apenas mais um jantar de negócios. mas não queria correr riscos outra vez. não substituem as atitudes. sinto os olhares sobre mim.Conseguiu.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente. Por fim. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que. -fez uma pausa procurando as palavras certas. Fitaram-se por um longo momento. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. não o resultado financeiro dele. Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. O trabalho é a minha paixão. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você.. ela dizia que eu era viciado em dinheiro. me peguei olhando diretamente para você. Aliás. Amanda beijou-lhe o pescoço. para o seu corpo.. mas também com certa tristeza. Acreditei que não me amava. fui para o terraço.. -É. – completou apertando-a ainda mais contra si... – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: .

por intermédio dos Roche. com a transferência de Rochelle para uma clínica. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si. ela gritou. -Jacques continua ligando para o meu celular.Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa. – murmurou entredentes. meio minuto depois. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules.. Era amada por ele.. as têmporas latejando: . imediatamente. como se a cabeça já rodasse em outra direção.Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida. quero dizer. vê-lo de rodas para o ar.. não esconderia mais nada de Jules. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. com a minha autorização. num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. Pelo o que averiguei depois. – ele parou por um momento. –suspirou. Tudo aconteceu muito rápido. já estava desacordada. agora. Caso ele evitasse o assunto. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. Rochelle detestava esse tipo de jantar. fora preso por bater em uma garota de programa. e. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia. naquela noite em especial. após saberem. mas eu o fiz assim mesmo. Olhos totalmente mergulhados na própria mente. discordei. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. Naturalmente. e por isso não mais a convidava. quando eu tinha um. Mas. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros. – acentuou num tom grave. cedendo o volante a Jacques. –respondeu-lhe automaticamente. ou melhor. os sulcos na testa profundos. O resto você sabe. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. ela pediu-me para que não saísse. já que estava transtornada de raiva. Ele fora demitido antes do meu casamento. lista esta feita pelos pais de Rochelle. feito isso. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito. um tipo de queda-de-braço infantil.. – falou-lhe de uma vez. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. Sentira isso. nós brigamos. nomes errados. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular. porém identificara tal sentimento com outros nomes.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin. Jules parecia disposto a conversar a respeito. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida. acabei vendo um teste de gravidez. pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. e ela saiu sozinha. Rossi? 115 . E Jacques não está nela. não forçaria a barra. -Isso não está certo. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la. Jeremy Blair. sério e pensativo.Fui atrás. O que tem a me dizer sobre isso. eu a ignorei. No entanto. -Talvez. na Irlanda. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . o reconheci como sendo um dos meus gerentes. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. Foi a primeira vez que o vi e. Quando a ambulância chegou. – suspirou resignado. Era um dos assuntos tabus.

mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que. e acho que pegamos o Dôme aberto. -explicou-lhe ainda rindo.. Voltou lendo as instruções. como ele é lindo.. mas ela não pensava como os franceses. sorrindo.. –ponderou antecipando-se aos fatos. bien. ma belle. -Você está grávida. -Non. mademoiselle. ele sorriu e. Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. E. Alguns minutos depois. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. -Humm. – brincou. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . é maravilhoso. -Não o apavora ser pai. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. deliciosas curvas. –corrigiu-a. por debaixo do robe. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. excita-me engravidá-la de fato. com um sorriso.. espere aqui que buscarei o nosso oráculo. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. 116 . concentrado.. ficou na ponta dos pés. -Então. porque esses testes não são cem por cento confiáveis. Antes de fechar-se no banheiro. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. descendo a mão para a sua barriga. – Maintenant. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma. Deixou-o parado no meio do quarto. -Oui. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. – considerou fazendo careta. nem precisava fazer exame para saber.Meu rosto está acabado de tanto chorar. ficou feliz em vê-la chorar.brincou.Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir. não há nada acabado em seu rosto. mon Dieu. -Você está linda. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. -É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada.. Jules. parece-me um pouco precipitado começar uma família. quando reclamou de suas curvas. por sinal. depois. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. saiu do banheiro e. -A ideia era essa. –disse jovialmente. Amanda. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair. quero ser pai dos seus filhos. Amanda afastou-se poucos centímetros dele. ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. vamos comemorar! Ainda é cedo. quero dizer. quero muito tê-la engravidado. descer as escadas até a sala. monsieur. –comentou sem graça. enfiou-se no banheiro. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse. – comentou com naturalidade. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo. hoje pela manhã. – fitou-a com um sorriso malicioso. de pé. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos. antes de confirmar ou não a gravidez.. sabe disso. pela primeira vez.

a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. cada zona erógena que vibrava ao toque dele.. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar. em seguida.. 117 . –gemeu-lhe ao ouvido. convencia Jules. as têmporas latejavam. Captando o duplo sentido da pergunta. sussurrou com paixão. em cada centímetro de pele. J’etaime. já que dividirá o corpo com nosso bebê. Amanda mal sentia as pernas. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede. digo. que dançavam seguras por vales e montanhas.Amanda. -Trés bien. haviam virado gelatina. E com movimentos cadenciados. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação. – concluiu em tom de brincadeira. você tem de cuidar de sua saúde. planícies e cumes orvalhados. senão se importa. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. Num gesto eficiente e sensual. Acompanhou-o até a porta de entrada. -sugeriu de um jeito meigo que. e no rosto de Jules. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo. expondo-lhe a nudez. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas. Aproveito e faço tudo de uma vez.. normalmente. cobriu a sua e ainda colada nela. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro. toda. Ela segurou os próprios joelhos flexionados. – Escolha enquanto pode. -Estou sempre com fome de você. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme. Antes de sair. lá. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se.. tenho de pegar a chave do carro. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava. levando-a no colo até o outro lado da sala.J’etaime. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que.. afastando-os ainda mais. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. persuasivamente. digamos. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça.Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. em torno dele.? – indagou-lhe num fiapo de voz. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?. ele enfiou-se aos poucos. fez o robe cair no chão. na rua.. mas um sorriso entalhado nos lábios. controlador. Jules vestido e ela completamente nua. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. Sem tirar a roupa. no sofá. cada ponto... Por baixo do robe.. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. dentro de si. Podia buscar comida pronta. passando pelas malas no hall.. – falou-lhe com o olhar sério.. ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. alcançando o clitóris e massageando-o. -Quer que eu saia ou entre. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo. numa voz rouca e abafada. E convenceu. -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço.. num vaivém sensual e lânguido. num canto da parede. desesperada paixão: . Amanda desafivelou-lhe o cinto.. Jules voltou-se para ela e a beijou. depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo..

fitando Jacques de longe. e o Bleu tem uma filhinha. -Merci. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo.. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. sofisticada e úmida de suor. exasperado. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco . com lâmpadas de sessenta watts. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa. completando o gesto do olhar. monsieur.. por sinal. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele. sozinho. – Se quiser. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. oscilavam no amplo galpão. -Esse prazer é todo meu. com a cabeça. inclusive. registrado. -Está tudo aí. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. que comprimiu os lábios com raiva. despertando da inconsciência. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. que. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. o cara não vai parar nunca.. Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. mulher. riscou um fósforo com a mão em concha. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios. docteur. retirando as luvas pretas de couro. – balançou a cabeça. messieurs – falou baixinho Jules. –fechou os punhos instintivamente. Duas passagens pela polícia por agressão. Jules. E era o mesmo que acabava de chegar. sua assistente.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. –É crônico. ótimo trabalho. Luminárias de aço dispostas no teto. -Não se acanhe. Em seguida. Mas eu cuido dele sozinho. lançou um olhar significativo a Bleu e. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo. deixando-a surda do ouvido esquerdo. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. Tenho mãe. monsieur Brienne. irmã. – disse Jules sério. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne. senão perde a graça. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. Jules estalava os dedos das mãos. Jules assentiu..

Nunca fiz nada de errado na empresa. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. – completou.. Além do mais. para o seu próprio bem. -Ninguém me contratou depois que me demitiram. Pelo contrário. -Bonsoir. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. impassível: -Podemos começar quando quiser. Jacques fitou-o por um momento. irônico. –pôs o dedo em riste. e isso é uma ordem. -Ficará longe dela. também registrariam queixa. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. – acusou aos gritos. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. olhou ao redor certificando-se de onde estava. Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques.. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio. isso sim. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. aturdido. ao torcer para baixo o lábio inferior. refazia-se rapidamente dos golpes. oui. acompanhadas por Armand. –constatou quase alegre: . Jacques gargalhou. -Vou matá-lo. – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão.Aliás.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga. – debochou. eu posso e você não. 119 . – prometeu com um sorriso cruel. covarde. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás. Mas antes. Ele era duro na queda. Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente. seu ricaço de merdè. Baterá em mim. da força muscular do adversário e de sua fraqueza. Já o almofadinha à sua frente. quase alcançando o rosto do outro. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. retirou o casaco longo e o paletó. Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão. –Eu o entregarei à polícia. tentou acertar o maxilar de Jules. -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. como vai a brasileira. –declarou com firmeza e serenidade. Jordan não queria me demitir. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. -Polícia? Está delirando. da distância entre ambos. Jules bocejou. -Agressão. e as outras mulheres agredidas por ele. sorrindo. Ficou de pé.Oui. Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes.. ela me sustentava. que desviou a cabeça. também foram minhas. por sinal. – gargalhou: . dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho. abrindo os braços e dando de ombros. que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. diante de um homem que verdadeiramente odiava. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica. suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro. você sabia. –Quer foder a minha vida de novo. non? -alçou uma sobrancelha..

E com esse último pensamento. nem a morte. soltou-se por fim. mais brando: .Sumam com o corpo. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. Por trás de Jacques. fracassou. Por um minuto. baixo e com aparência latina. O outro. de pé. Tentou levantar-se por duas vezes. Tinha de lutar por sua vida. Quem ganhou. ficou fitando o teto. Jacques urrou de dor. 120 . Não podia permitir que ninguém. levantando-o do chão. puxou os braços do homem que o prendia por trás. a boca arrebentada num corte fundo. separassem-nos.. cara! –xingou-lhe o desconhecido. alto e ruivo. Jules. A coisa é feita na rua e termina na rua.A gente agradece. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. sem perder o equilíbrio. mudou o tom. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. os olhos vítreos. baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. imóvel e ainda preso pelo gigante. meio zonzo. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. Novamente. é minha irmã. Deve estar a par da moça que está na UTI. Jacques caiu inerte de cara no chão. covarde! –disse entredentes. Agora. Este surpreendido pelo ataque. mas nada de advogados. tem família. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente. Ele foi. daquela gente. o braço forte do ruivo estrangulou-o. pensou. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. Em seguida. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. Não pôde conter um suspiro de alívio. em vez de proteger-se. Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . Este teve a cabeça arremessada para trás mas. testando a personalidade do executivo. não emitiu ação alguma. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. Na terceira. do cheiro de sangue e morte. vocês se igualaram a ele. queria olhar no olho de cada um dos caras. Jules observou mais dois homens. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. aproximou-se do corpo distendido no chão. Um deles. – disse por fim. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. Jules estava farto daquele lugar. depois.. Não podia deixá-la sozinha no mundo.. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. Oui. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes. -Sabemos quem é você. voltou-se com raiva para cima do loiro que. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços. pute também tem família. Não fechou os olhos. Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. Agora sim estava fodido. Ouviu ao longe a sirene da polícia. Livre os tentáculos de aço. deu uma gravata em Jacques. inclusive Jacques. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. Estava de fato morto. -Quieto.Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. os maxilares tesos. –completou com raiva contida. Inerte. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. mas foi por apenas alguns segundos. Os homens entreolharam-se e partiram para a ação. Pensava apenas em voltar para casa. fitando os homens ao seu redor. assistindo à cena. -Filho da puta. Jules ignorou-os. respirava alto e rouco.

E meio. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria.blogspot.com Contato: vgveronique@hotmail.com 121 . Fim Site da escritora: veroniquegris. Passou no Dôme e pegou comida para dois. O passado morreu aqui também. Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui. vestiu o paletó e o sobretudo.Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. Ajeitou as mangas da camisa. retirou a fita do gravador.