Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

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G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
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Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

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Havia levado um bolo. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. uma mulher de cabelos escuros e curtos. como o seu próprio chefe. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . Ela aparentava. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi. na verdade. que era calvo e arrogante. Certamente. Não sabia como era o contador. Assim. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. provavelmente. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. por mais incrível que isso parecesse. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. cada uma. que usava um relógio do tamanho de um melão. protegida pelo próprio espaço junto à parede. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. moreno e elegante. para fora do tabuleiro. pelo menos. fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . Agora. E esse alguém estava atrasado. retangulares. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. pediu-lhe a conta. com um delicado vaso de flores. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. estrategicamente disposta ao longo do teto. três mesas pequenas. Não acrescentara.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. um bolo de um homem que jamais vira na vida. por exemplo. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. No canto. a moça esperava por alguém. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. também. certa apreensão e nervosismo. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. quando este se aproximou elegante e solícito. Debaixo da iluminação indireta. fora contratada de uma agência de modelos. numa terceira mesa. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. Afinal. Sentia-se entre aliviada e feliz. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que.

Morri e estou no céu!. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. já que. Nada menos. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar. realmente. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. porém. já de pé. e. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. observou que ele era alto. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. E de poucas palavras. Agressivo nos negócios. salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. Ora. viu mesmo foi o chão. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . Aceitou tocar na palma daquela mão macia. no mundo empresarial. Na verdade. sério e introspectivo como pessoa. Havia uma equipe de médicos. O mais estranho e injusto de tudo era que. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. em seguida e de forma violenta. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. de fato. de gargalhar. o homem de gelo. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. Amanda encolheu-se dentro do casaco.80. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas. assessorar o presidente de uma grande companhia. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido. O homem de gelo que jamais sorria. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. A bem da verdade. como secretária particular de Jules Brienne. bonito. já que. mas. tomando cuidado para não se trair. a dificuldade acentuava-se ainda mais. talvez não contivesse uma crise de risos. bem vestido. pouco mais de 1. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. A noite estava fria e úmida. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio. Sentia-se em apuros. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. Dava um passo em frente ao outro. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. E. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. O que lhe importavam na vida. mas tinha vontade de rir. workaholic até o último fio de cabelo. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. Por outro lado. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo. Se lhe tivesse dito isso. de dedos longos e tépidos. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. No escritório. estava bem perto de sê-lo. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. definhando lentamente ano após ano. Desde a sua contratação.

teremos que deixar o café e as histórias para outro dia. Mas o resto do corpo não.Desculpa. um sorriso amistoso e um convite implícito. disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios. -Amanda Rossi.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato. começou sentindo a bochechas quentes. -brincou.. a vida não é um conto de fadas. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo. e eu certamente não sou Cinderela. o antebraço. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente. Ele era a. somente os craques. -Oh. estou com a princesa nos braços. O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica. quer dizer. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin. sem cola. Ele é um príncipe dinamarquês. Jamais dava a cara à tapa.. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar. concluiu Amanda. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível. E como era uma moça educada.. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola. diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa. é tão difícil. Desistiu de grudar madeira na madeira. Nesse ponto. merda. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . pardon. Num instante. Talvez tenha sido nesse momento. -A gente pode revezar as narrativas. fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. olhando para o salto quebrado. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo. Normalmente.. Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. o sorriso era aberto e franco.. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. . bem.. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Os olhos azuis brilhavam divertidos. aconchego. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu.. enquanto abaixava-se para pegar o salto. –disse sorrindo. droga. numa calçada 6 . que percebeu que estava completamente encantada por ele. pensou debilmente. -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta. Naquele momento. fitando o lugar onde o regente havia apontado.. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes.. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. – riu-se. transmitia calor. ah.Infelizmente. quando seus olhos se encontraram por vários minutos. ela sentiu uma quentura forte no rosto. Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada..

quando conhecera um rapaz de vinte anos. Ela entrou seguida por ele. ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido. se quisesse. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. sem uma companhia masculina. ou fingia ficar sem jeito. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances. Caminhavam lado a lado sem se tocarem. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. E agora. Amanda rabiscou o número de uma creperia. estufado contra o jeans.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. – ronronou com olhos de predador. Apesar da neve intensa. Palavras como frio. Entretanto. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . de pálpebras relaxadas e insolentes. ele disse que era advogado. O seu corpo o queria. sim. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. mas não sentia frio. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. Pelo menos. um sorriso frágil. Ele pedira-lhe o telefone e. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. fios irregulares. Sua última relação fora há dois anos. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. Podia fugir. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. durante uma visita ao Louvre. Apertou-se no casaco longo. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. Entre um gole e outro de café com uísque. que era lésbica. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. forte. O cheiro típico da alvenaria antiga. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada. para variar. 7 . No café. Uma fantasia antiga. Uma tarde de descobertas. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. porém conscientes demais um do outro. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco. Ela não queria voltar. mais do que fugir. Não havia pressa. Ela também queria. o quanto ele era charmoso e sedutor. viril. Não conseguia. os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos. selvagens. morava em Montmartre e estava sozinho no momento. pequeno. Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios. Duas horas de sexo e conversa fiada. dentes perfeitos. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. Cabelos loiros. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. ombros largos. Podia desistir e inventar que era casada. E era incrível a sincronia da existência. À porta. ela não sentia frio.Quero dormir com você. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. E ela também olhou. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. queria muito. ela o desejava.. o loirinho. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. monsieur. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro.. duro.

erguido para trás.. . outrossim. na divisão entre as nádegas.Tente não me matar. um par de coxas duras. imediatamente. Dois anos sem sexo era tempo demais. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. e eles entraram meio abraçados. pronto para disparar. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. Ouviu murmurar algo indefinível. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. apertou-o entre dois dedos. um animal a ser cavalgado. puxando-o suavemente e o soltando. descobrindo a renda suave do sutiã. Francês. provocando dor para atrair o prazer.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular. Desabaram sobre o tapete. Jacques fechou-os no apartamento. pegando o pau na mão. contra o corpo magro e pequeno dela. não se estatelar no chão. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu. um navio no porto entre suas pernas. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. Ela gemeu quando as mãos de Jacques. como se tentasse empurrá-la para abri-la.. avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. inchado dentro da calça. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. Principalmente. um abdômen malhado com pelinhos aloirados. a boca colada a sua. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. uma britadeira no asfalto quente.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. enfiando sem rodeios.. voltando-se para trás. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo. no centro da pequena sala. não era uma nacionalidade. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço. encontrando um atalho aqui e ali.. as unhas arranhando-lhe as costas. – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca.. O pênis não era dela. Tencionava. a língua sugando a sua com desejo. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. 8 . Mas o homem não lhe dava chance alguma. conectaram-se ao seu sexo. quando ele fez um movimento atrás dela . senão vou gozar aqui mesmo. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda. A quentura do membro entre suas pernas. com urgência. – Abra a porta.Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta. ela conseguiu destrancar a porta. detendo-se pelo caminho. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande. Aproveitando-lhe a fraqueza. Esfregou o pau duro. guiou-o para dentro dela. ma petit. No minuto em que se apossou do bico.. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes. um país secreto desbravado por uma selvagem. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. Na terceira tentativa. Fêmea precavida que era. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. Deslizava-o para cima e para baixo. que usava o cabelo curto e a nuca exposta.Quero muito de comer. mas parecia implorar. ela lançava gritinhos.. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. . nesse momento. Depois ele puxou-a para debaixo de si e. Amanda – afirmou. gostosa demais. – pediu. Roupas arrancadas. tomando-o todo possessivamente – e em seguida. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte. meio tropeçando. era falta demais. A cada arremetida. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. Amanda espalmou as mãos contra a porta. -Você é gostosa. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina.

à entrada encharcada e ardida. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás. percebeu que era uma pergunta retórica. passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. – respondeu estreitando olhos. Amanda balançou a cabeça negando. Amanda sentia-se exausta e descansada.Sim. Tarde demais. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. Num gesto brusco e inesperado. porém isso só aumentou a excitação do homem que. alçando uma sobrancelha de forma superior. . Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. – ameaçou-o. De repente. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada. Ela desconfiou das palavras dele.Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele.. após três ou quatro bombeadas firmes. 9 . E admirando o homem à sua frente. – murmurou ele. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca. uma aventura erótica de curta duração.. tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. Capítulo II À mesa da cozinha. entretanto. Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face. muita. Havia sido estuprada por trás? .Valeu a pena esperar. segundo.Aiii – gritou. Jacques era instável. ele fitou-a em dúvida. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato.Muita dor. “beleza” e “fogo”. um caleidoscópio de emoções e sensações. era um homem para uma aventura erótica e nada além e. – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz. . parecia sossegado e bem disposto. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. – É uma garota sensível. Amanda engoliu em seco. . Mal conseguia se mexer. por certo. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela. antes acolhedor e em seguida. ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo.Pardon. sorriu-lhe de forma travessa: . terceiro. Amanda constatou três coisas: primeiro. gozou abraçando-se a ela com força. Debaixo das suas pernas.Nem pense em tornar a fazê-lo. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. . ela pensava em coisas como “masculinidade”. arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. desgostoso com o tom usado por ela. Tentou escapar. Por um momento. exigida a cada estocada violenta. de cabelos molhados. agressivo. esgotamento sexual. ma petit. .Tem lubrificante? Da próxima vez. intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda. sorriu consigo mesma. ardida em brasa. dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente. enigmaticamente. Jacques levantou a cabeça e a encarou. pardon.

D’accord. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e.. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. não sabia que monsieur já estava me esperando. a presa precisava imediatamente fugir. o expediente na empresa começava às 9 h. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. levantou-se lentamente e. a escolha das roupas a serem usadas por ele. e o dela. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. E mais. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. escolhida por Amanda. no segundo andar.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante. Quanto à parte pessoal. antes de sair da cozinha. Quase como um casamento. caminhando devagar. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento.. Annie. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. lia.. Quase gargalhou. Usando o próprio corpo. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse. Tarefas múltiplas e variadas. sem sexo. Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. vestia a roupa. E desligou. era tudo o que mais queria na vida? Não. era determinada nas reuniões de segunda-feira. Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. Eram 7 horas. Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. Mentira. cobriu o espaço entre ambos.. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo. -Desculpe. você está regredindo anos-luz. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta. À porta. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás.Bonjour. . mas à sombra. Entretanto. cabia a Amanda resolver. . –disse de olho no relógio da cozinha. Parecia um felino encurralando a presa. Amanda Rossi. Quando viajavam a rotina era outra. E era como se lhe dissesse: “O que?.Está atrasada. Ele riu com vontade. claro que não. . Ocupavam o escritório. caminhava na esteira por trinta minutos. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. censurou-se divertida. No entanto. tomava uma ducha quente às 06h30min. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. mademoiselle. Na primeira tentativa. porque outro felino esperava por ela. ou a organização de um jantar beneficente. monsieur.. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. monsieur Brienne. três jornais durante o desjejum. quando ressoou Killer Queen no celular. acha que pode comigo?” Mas ela não 10 . mas. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. ao longo da semana. Ela também queria casar e ter filhos.. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. pelo menos. Amanda buscou na mente motivos para tal observação. venha agora.. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar.foi então que a ficha caiu!. mas ainda assim. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos. uma rotina a ser seguida.

Desencana.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz.. pragmática e responsável. fraco e trêmulo. claro. o membro comprimido projetando-se no tecido. podemos jantar logo mais. se o seu patrão permitir. se o objetivo final era apenas: sexo. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. –murmurou. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso. -Oh. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. Praticamente jogara-se para cima de Jacques. ladeada por um pequeno bosque. Bom. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. . Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. –concluiu. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil. – afirmou. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar. e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone..Dei-me o seu.Bien então a gente logo se fala. Desde que chegara a Paris. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. Cumprimentou o rapaz ruivo. não estava satisfeita com o seu comportamento.. tinha outras ideias. Sentia o corpo quente. De fato. e a obrigação profissional clamava urgência. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se. Essa era ela. desligou o motor e pegou a pasta. Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio. queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. Voltava agora a ser disciplinada. – esperou que ela o ditasse. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura. chèri. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. como quase tudo na França. concordava com Jacques. Novamente. – Se quiser. não obteve sucesso. no entanto. -Preciso trabalhar. Estacionou. –riu-se de forma afetada.. Ao descer do automóvel. tenho que trocar de roupa e sair. era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada.. Jacques. alertou-se prontamente. Dessa vez. divirto-me com os errados. A selvageria de Jacques excitava-a. Enquanto ele a penetrava. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. .Ah. Soltou-se dele com um gesto brusco. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: . No fundo. fui muito difícil mesmo. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo.Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças. até a entrada da mansão. puritanismo démodé.. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção. num movimento ágil. Jacques. 11 . quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento. sim. – debochou. Amanda. o número correto. mecanicamente. Estranhamente.Não devo me intrometer na sua vida. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: ... vinda de Porto Alegre. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela. Amanda. .

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

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Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

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lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

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hoje. Santa bobagem!.? Até onde você pode ir com esse atrevimento?.. Se tiver tempo. censurou-se.. as socialites queriam-no como presidente de honra. -Em vez de tomar aspirina.. fumante e usava o uniforme da SBO. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. muito magra. mademoiselle. pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. cachecóis. Um tailleur cinza-chumbo. Ele fechou o notebook. Os homens. diria Robin.D’accord. . valerá bem mais que a minha presença. -E faça uma tomografia. às duas horas. s'il vous plaît.Agradeço a atenção. constantes e variados. emendou de forma mais suave: . preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda. Caso queira trocar-se. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. Capítulo III Dorian possuía estatura mediana.Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. -Aliás. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como. levarei outra camisa para seu escritório. As executivas. Encontramo-nos no escritório. – disse categórico. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras. – completou ela com naturalidade. terno e gravata. criado por um estilista argelino de 20 anos. vá ter com Annie. Menos de dez passos. Agora. Agora. monsieur almoçará com. saias justas até os joelhos. compre aspirina.monsieur Jarkko Koskinen. – afirmou taxativo. ele atravessou o terraço e saiu.. – mandou sem tirar os olhos do computador. e ele tentava escapar a todo o custo. -Aspirina e café resolvem o problema. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos. Viu a xícara de Jules vazia. calças de 15 . mas sendo um homem educado. Riu-se dos próprios pensamentos. Fiz reserva no Les Ombres. Lembrou-se do que ouvira no Brasil. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève. Sim. que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. sobretudo cinza ou preto e. em seguida. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. No entanto. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. . Era visível que a indagação o incomodara.. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico.

surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . histérica. grande parte delas. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. Dorian. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. se você fosse uma cobra me picava. com protetor solar. Agora.. Quem mais? Quem mais? Quase gritou. Ou seja.Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo. onde se localizava o estacionamento da empresa. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. graduado na Sorbonne. estendeu à Amanda a base líquida. quero dizer. nem sequer uma piadinha).. longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada... Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que. e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa.. mesmo se não fosse. o porteiro de seu prédio (que era meio míope e. com a sorte que tenho seria ele mesmo.. pó compacto. O que não era o caso da tez dourada de Amanda. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. que. céus.. Quase gritou. ela não seria vista entrando. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. por isso aquele olhar estranho. nada comentaria. sentada em frente à mesa do chefe. Bateu com a chave do carro sobre a madeira.. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. Doce ilusão. com sua visão periférica. proteger e preservar. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. de cedro. Entretanto. mesmo anexada à de Jules Brienne. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. casado com uma estilista de moda. possuía banheiro próprio e uma outra entrada.. olha bem pra mim. e. 16 . como sua assistente pessoal. os seguranças da mansão de seu chefe. percebeu o ataque felino àquele que. escondia as curvas.Nem me fale!. Annie vira o chupão. sofisticada. lateral. com um longo pescoço e imensos olhos verdes. Num minuto. Ignorou a brincadeira da outra. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor. Quando as portas do elevador abriram. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. Depois de muito “escavar”. A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. para peles de loiras quase transparentes. deveria zelar. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause. caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). tinha 44 anos. E nem teria visto a personagem alta. Amanda. -Calma. devia ter algum problema psicológico. discreto como era. . Ele exigia a perfeição de todos. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado. o seu chefe? oh.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo.. mesmo discreta.

concluiu que levara vinte segundos para a operação. dirigir um automóvel popular russo. Olhou-a de cima a baixo e. Deixou-os por um momento. A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. por outro lado. Primeiro. mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. não. oui! .. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules. vir de família simples. com poltronas em vez de cadeiras. retraiu-se na expressão de impessoalidade. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. melhor. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. Amanda observou os personagens em questão. seriam chamados ao trabalho duro. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional. sem cronometrar. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. O chefe. . Monsieur Brienne. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz.Duvido. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. etc. desviou para a máquina do expresso. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente. ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração..Merci. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. Antes de qualquer intervenção na cena. ele não gosta de mulher fútil. as cortinas ainda estavam cerradas.Seja boazinha com ela. ah. mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. do tamanho de uma ervilha. em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. no quinto andar. tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. pois precisava buscar novas xícaras no refeitório. A face estava relaxada. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente. Ajeitou-se na poltrona.Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e.. não aceitava apenas o polpudo cheque. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. ter nascido no terceiro mundo. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo. Ao voltar. parecia aliviado com a sua entrada. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão. a qualquer momento. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante. sozinho. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. Amanda assentiu e ligou-a. de móveis modernos. Ele. para variar. ou seja. E fez: -Bonjour. –emendou com um sorriso educado. Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. num gesto silencioso porém bastante significativo. Os lábios contraídos. 17 . No entanto. parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. –depois brincou: . sem desviar. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève.

que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. seria bom relaxarmos um pouco. entregou a outra à Geneviève. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada. algumas coisas sobre Jules Brienne.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. -E a aspirina. e ainda por cima era filho único. agora. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . Podemos combinar e irmos juntos. parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia. –disse. – completou Amanda que sabia. Vinte anos de diferença entre François e Jules. Há um rapaz de lá. Amanda. Aliás. -É. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. era-lhe o padrasto. Jarkko Koskinen. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. A bem da verdade. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. – encerrando o assunto. ele precisa mesmo é de cafeína. 18 . e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. Sonia e François também poderiam ir. . na verdade. pode ser. e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores.comentou com desdém. Quando voltou.Quanto tempo tem esse centro social?. apresentava visível prazer em sua companhia. mesmo sem sorrir. Ele é homem. A mocinha quase bateu palmas. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. Além do mais. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. por sua vez. preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. devido ao café forte e quente. Amanda voltou à sua sala. -E depois dos 17. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. aos pedaços.No momento. que fará a ponte entre Paris e Helsinque. provavelmente. precisa de uma fêmea. um final de semana na Finlândia. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne. Amanda não estava gostando do rumo da conversa. divertida.Você precisa passar. mãe de Jules. o chefe. completamente órfão. Jules sorriu polidamente. em seguida. mas a passeio. Dorian. -A Finlândia sempre me interessou. um macho alfa. esquiei até quase acabar com meus joelhos. mas alguém tem que dar o primeiro passo. O fato era que ela sorria mais e ele. parecia que tinha treze anos de idade. uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. Parece que a mãe dele apanhava do marido. – era Geneviève. . . . não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente. bebendo o restinho do café. que. pelo menos. Geneviève. Amanda. dois ou três meses. amiga de Vivien Brienne. non? – indagou sorrindo. deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: .Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências. coitado.

empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. preparado para ordenar. compre as aspirinas agora. – disse com estudada calma. que o faça por si mesmo. . monsieur Brienne. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas. Era experiente. culto. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. numa expressão de menosprezo. . – rebateu com calma. um misto de exasperação. Geneviève agitou-se. Dorian não compreendeu a ordem. Do outro lado da mesa. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. é perigoso. Num minuto. Entretanto. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. – afirmou Geneviève com a voz sumida. O corpo não mexeu um músculo. admirou a própria derrocada. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. em sua direção. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo. controlada. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. pragmático e tinha quase quarenta. e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação. “cadê a aspirina”?. -Jules. o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. foi um prazer. Ops!. Amanda lia tudo isso. . Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. ora! De repente. em seguida fora mal-educado 19 . desconfiado. cruzou e descruzou a pernas. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. tenso. também. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. Por quê?. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. non? – insistiu. Além disso. sem cúmplices. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. como se falasse com uma criança teimosa. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. .Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. era uma mulher de princípios. Amanda provocava-o deliberadamente.Mademoiselle Rossi.Há cinco anos ouço a mesma bobagem. havia neles. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e. havia ultrapassado a fronteira. e não um menino birrento. Espero a sua visita no nosso centro social. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. Ele era um executivo. Jules. -Cinco anos com dores de cabeça. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. mademoiselle Cuvier. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. Por um segundo ou dois.

-Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. monsieur. Como ele podia saber?. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas. Le Mur Vegetal .. apenas isso. pelo menos? . o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo. a vizinhança. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para. girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. Não era uma mulher covarde. com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. Um buraco. os lábios constritos. Epa!. a Torre Eiffel. Assim.. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé. eu posso ajudá-lo com prazer. mademoiselle Rossi.concebido por Patrick Blanc. estendia para a assistente que o guardava no armário. perdido. Defendia a si mesma e os seus valores. monsieur Brienne. monsieur. -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. olhando para os lados. Ora.. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. Ao seu lado.Oui. tem um cabide no armário para guardá-lo. -Pedido aceito. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face.Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. Dito isso. Hã? Por fim. sem que ELE pedisse desculpas. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. depois. suspirando exasperada.. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. Fogo na nuca. quase jogar a mulher para fora de seu escritório. Hematoma sexual? -Pardon. Amanda não resistiu. e tampouco uma Joana D’Arc.. –afirmou com um leve tom de desprezo. Às vezes. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas.. mas isso é um ferimento causado por. garganta seca. a cara amarrada de sempre. ácido no estômago.por. – mentiu fingindo-se ofendida.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 . Outro atrativo localizava-se abaixo dele. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. disse: . por favor! -Fui ferida gravemente. retirava o paletó. Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata. Amanda pensou.

o Jamie Oliver. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos. Agora. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos.Italiano. Era um homem simpático. monsieur Brienne. começara uma empresa de criação e venda de software.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã. Jules observou os comentários de Amanda. mal ouvia a conversa dos dois. sendo escandinavo. cor de trigo. Mas tudo estará pronto para quando chegar. Típica conversa de negócios. poderia ter vinte e poucos. a burocracia era a mesma. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. Comia como um viking. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: . mademoiselle Rossi. No fundo da sua memória.Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café. indagou: . – voltando-se para Jarkko. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. No momento. como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. vamos! . eu mesmo as farei. –agradeceu incluindo um sorriso. a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. só mudava o país. haveria brechas disponíveis para novos eventos. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. Faltavam os sapatos. Jules assentiu levemente com a cabeça. comunicativo e inteligente. O cabelo era loiro. devo ir. –Agora. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho. bolsa de valores e impostos. tinha algo a ver com mercado. Mesas pequenas e quadradas. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar. perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. apesar de ser magro. porém. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . Fica um tempo conosco. conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. ele tomou mais um gole de vinho. Vestia-se com discrição. estavam uma brasileira. . Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. nada mais que um terno cinza quase azul. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. Mas não naquele início de tarde. –em seguida. na sexta-feira.Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. -Merci. monsieur Koskinen. um francês e um finlandês. -D’accord. longe de tumultos (como dizia Jules). Não se preocupe com as reservas no hotel. mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. entretanto. bem ou mal. volta comigo para Helsinque. Por fim. Anos atrás. Numa mesa próxima à parede envidraçada. voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. oui? 21 . Pela manhã. acaba influenciando o sueco e o russo. –concordou Jules.

com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. -Hummm. puxou a meia-calça rapidamente para cima. pois o tecido delicado também estava por demais gasto. Tentou mesmo. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se.Liguei para você. desviando das mesas. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. -Salut. não mais. Teria tempo para tomar um banho. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. É. Amanda havia esquecido aquela beleza toda.. preparar algo leve e rápido. já estivesse fechada. refletiu Amanda ajeitando a calcinha. uma bolsa de couro. Estava exausta e já passava das seis. Na verdade. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. O proprietário sofria de transtorno bipolar. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. disse: . Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. e um par de brincos de pérola. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados. o sotaque ligeiramente arrastado. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. de seu humor. arrumar-se e dirigir até o Marais. Comprou o sapato. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. a alma. saindo do quarto. 22 . uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. Despediu-se dos homens. Tentou sorrir e até se encantar. pois sempre acertara a preferência do patrão. pegou a bolsa e saiu do restaurante. E mesmo ele sendo lindo. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen.. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. Dependia. cadeiras e garçons. obviamente. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. do jeito que escolhera todos os outros. o timbre rouco da voz. pequena. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. sossegada. Cansava-se só de pensar nessa maratona. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. sedutor e com um sorriso espetacular. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite. já que não retornou minha ligação. em seguida. Diante do espelho. Seu corpo ainda o desejava. assim. meias e gravatas preferidas do chefe.). os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. ela pararia de andar sobre andaimes. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. na outra perna. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. Achei que havia acontecido algo. Às nove horas seria o jantar com os Roche. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. ma petit brésilienne! –brincou. No entanto. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. retirou o robe. de lã. O problema era que ela queria o sapato CERTO. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. aos pulinhos e trombadas.Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. sugou e soltou o ar seguidas vezes. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele.

vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. como se não estivesse acostumado a ser despachado. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . no quinto andar.. duas.. à noite. você é descartável. . Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. Tantos lugares. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida.. Amanda conhecia o tipo.. a abandoná-las. – enfatizou. entendi.Já lhe disse. como se dez. perto das quatro. no corredor da empresa. pois trafegava em alta velocidade. jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. E era óbvio que não estava. não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme. Empurrou-o mais uma vez. moço. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. saia da minha casa. na pior das hipóteses. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques. irônico. -Tenho um compromisso. Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. Rochelle era o meu amor. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. de fato. -E eu já sei muito sobre você. jamais.. A qualquer momento teria de sair. controlada. Onde você estava.Ei. tenho um compromisso. a ferir sentimentos e autoestimas. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista. impondo força o suficiente para afastá-lo.Por favor. porém manteve-se de pé. Você precisa sair. o filho da puta. . perdera-o na rua. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada. . Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. Ele não ligava a mínima para Rochelle. – Escute. -NÓS temos um compromisso. Para companheiros de vida. profissional. batendo no sofá chamando-a para perto de si. Jacques.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. Amanda. mordendo-lhe de forma sensual. Ah. jamais fora comentado na empresa por ninguém.Ah. Me diga.. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão. bébé? –sorriu. – balbuciou. isso. o que sentir. deixe-me ver. quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. . Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 . ou. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força. a mínima! Obcecado pelo trabalho. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. no máximo. do carro do chefe. Provavelmente. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos. debaixo do banco do seu carro.O que foi. Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo. Enquanto ela pensava no celular perdido. Desviou o rosto dos seus lábios. literalmente. o que dizer. deixara-o sobre a mesa do Les Ombres. a gente se conhece há três dias. capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. a minha vida – riu-se. no elevador. Mas a empresa era dele. Não sabia como reagir. -Acho que perdi meu celular. – pediu em voz baixa... Anotação mental: comprar imediatamente um celular. o chefinho controlador. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres. serviam para uma noite. na lavanderia. as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio.

ma chérie. Amanda Rossi. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. porém surpreendeu-se com a força do golpe. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. Teria de esperar alguns segundos. somos amantes. de olhos fechados.. Foi então que tudo mudou. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse. Mas eu ainda o porei entre as grades. afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade. desprotegida.. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. Sentia a face ferver de dor. inerte. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. A recepcionista da SBO? Hummm. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você. ao longo desses cinco anos.. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo. pensei que fosse me ajudar. Mas você me surpreendeu. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. um trabalho de networking.. Amanda gritou. porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação.. esperei o momento certo para me aproximar. Ele só não foi preso. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal. Afastou-lhe as mãos do corpo. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo. para levantar informação e material contra Jules. sábado. deliciosa. seu psicopata? Com a mão livre. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente. sou preguiçoso. entende. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite.estava me esperando. um pouco histérica. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. Deixou-se ficar. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si.. Inutilmente. -Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada. –murmurou junto à sua orelha: . como lhe avisei antes. non? Só não traço as mulheres da diretoria. Sabe sua amiga Dorian? Pois é.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne.. Nada de precipitação. – gargalhou e emendou: .Além do mais. -Oui. porque é rico. Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. 24 . com certeza.. A dor havia desaparecido. – disse num fiapo de voz. Pressentiu que ele se erguia. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. morro de inveja de um assassino. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada. enquanto o cérebro girava à procura do entendimento. fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. ouviu seus passos distanciando-se. Empurrando-a contra a parede. ajoelhando-se ao seu lado.

Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. no ar. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. fosse como fosse. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. logo após o coma de madame Brienne.Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. Jacques de fato atingiria Jules. Medo que a loucura o tornasse um homicida. Mas o mocinho não batia em mulheres . uma obstinação que a compelia a desejar viver. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. enfiou a faca. O cerco começara havia cinco anos. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. porque Jacques. não precisaria usar os punhos. Acertara o desgraçado.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. 25 . Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. para querer e perder. Possuía um instinto persistente. E a heroína. e esvaziou o peito da dor. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão. para se defender e defender o mocinho caçava. A batalha não estava perdida. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. atirou-se contra ele e. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia. Não adiantava mais lutar. com a fúria de uma mulher machucada. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. gritando como nunca havia gritado na vida. Barulhos típicos do cotidiano. Apenas dois andares. tirou-lhe a faca da mão para. A qualquer momento. para admirar e não ter. Apertou o cabo da faca. pelo visto. engoliu a vontade de chorar e o medo. agora. no casaco úmido e gelado. ruídos de talheres e cachorros latindo. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. cerca de vinte degraus. abriu a primeira gaveta do balcão... de obsessão em metástase. em seguida. por sua vez. Correu para a cozinha. reclamando. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e. criança chorando. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. agora. Seduzira as funcionárias da empresa e. Desceu os degraus sem acender a luz. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. na nuca. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa. televisão. e encontraria Jacques. intermitentes. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. Sentia os cílios pesados de água. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço. num gesto rápido e preciso. desferiu um soco acertando-lhe o queixo. No entanto. Não se entregaria tão fácil. Era um odor de doença. no pescoço. sacudir-lhe os ombros. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. sua amante. Medo que voltasse a sua casa. Deitou a cabeça em seu ombro. o príncipe que se transformara em sapo. segurando-se no corrimão. o vilão. roucos. mas ele foi mais rápido. Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte. Tudo abafado pelas paredes.

Ele estava tenso. ex-diretora de uma escola infantil. -O que aconteceu aqui. Analisava-lhe o rosto. monsieur Brienne. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. Sentia-se horrorosa e dolorida. lembrou-se do jantar com os François. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva. –enfatizou. ferida e com uma faca na mão. tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. é capaz de muito mais. Quase acertou no alvo. ainda fungando. Amanda. -Monsieur não deveria estar aqui. do mesmo número. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. sem nenhuma emoção na voz. pelo visto.Você me dirá de quem é esse número. jogava-se contra as pernas do padrasto. – constatou. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. Ela tentou sorrir. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. afastaram-se. obtém informações em questão de minutos. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. -Oui. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. Encontrava-se numa situação de desvantagem. o que lhe salvara de uma surra maior. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. mordia-o. -E o que ela descobriu? . machucada. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. quase que didaticamente. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. alguns centímetros. o terno azul-marinho impecável. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. Estudava-lhe o estado emocional. – disse com calma. e depositoua sobre Amanda. chefe. De repente. aposentada. tenha sido roubado. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. magro e com apenas sete anos de idade. Num reflexo automático. mas também não precisava me dar um soco. -Sim. não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. pouco. ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. lutava até ser arremessado contra a parede. homens como eu. Deitou-a no sofá. Invadi sua privacidade. 26 . Entretanto. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. mas a obsessão não é por mim. provavelmente. me desculpe. -Mademoiselle Rossi. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que. o rosto escanhoado. porém. Por um momento. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. hoje? –insistiu. pensou. mesmo pequeno. grossa. num período de duas horas.

A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. sempre baixa e controlada. Todavia. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado.. Não iria mais a um jantar. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. Custara-lhe uma pequena fortuna. um corpo pulverizado. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. as coisas ficaram ainda piores. não admitindo refutação.Troque de roupa. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem. Pensava que se revelasse a verdade. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia. quase impessoal:. alta. quero dizer. com certeza.Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado. Era um homem desconfiado. porém riu sozinha.. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu. Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá. –quase gaguejou. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). No entanto. ficaria bisbilhotando até ela voltar. -Dois minutos. de óculos.. E Jacques era doido de pedra. Durante a realização dos exames. E perdendo sua confiança. –murmurou. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café. Calçou um All Star. gordinho. –avisou-a. a duras penas conquistada. conduziu-a até o quarto. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. monsieur Brienne.. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. – interrompeu-se. -Estava fora de si.Olha. mesmo tendo sido comprado de um balaio. deu-lhe as costas e voltou à sala. e sim fazer uma tomografia computadorizada.Assustá-lo apenas.. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. Seria muito difícil manter segredo. Pegou-a pelo antebraço e. Sentou-se.. poderia até mesmo matá-lo. Ela não pôde deixar de rir. Não queria que Jules soubesse de Jacques. precisa de uma tomografia. um homem baixo. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz. Ignorando-a. corria o risco de perder a sua confiança. Sim. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. Au revoir. –completou com ar sério. era mesclada de cinza. . Depois. iria atrás tirar satisfações. Jules levantou-se. e olhou-se no espelho. determinado como era. ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher. Eram quase nove horas da noite. preto e branco. ele. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta. Sion. perderia o emprego. Possivelmente. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola. com passadas largas. Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa. é provável que sim. Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa. -Imagino que sim.

-Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha. que a fez aceitar. está novinho em folha. – falava como um agente do FBI. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. mesmo demorando a entender o que acontecia. inclua as suas. por exemplo.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. Suspirou resignada. Talvez fosse alguma coisa na postura dele. – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . o que lhe foi comunicado com naturalidade. os travesseiros e o edredom. o paletó. que seja. constatando as irregularidades em seu departamento. mademoiselle Rossi. como um agradecimento e um boa-noite. plantada as três da madrugada de domingo. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento. -Buscarei. Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. . semana passada comprei outro edredom. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. – debochou. Espero que simpatize com o Patolino.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . e ele logo surgiu na sala. antes que pudesse emitir qualquer palavra. Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. quando fizer as compras de Annie. não é comida para humanos. – Isso aqui. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. Por isso como melecas congeladas. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. – concluiu. . –declarou sem rodeios ou justificativas. então.Monsieur tem sorte. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. Impossível. -Tem razão. – Vou pôr essas imundícies no lixo. sem contrariá-lo. Se dependesse do outro. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop. consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa. . o doutor Sung ouviria de fato a verdade. -Deveria organizar-se melhor então.O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto.Obsessão em Paris Veronique Gris queda. Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. definitivamente. dando as costas e voltando à cozinha. viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. O que foi feito. Era homem demais para pouco móvel. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non. tirou o sobretudo. num apartamento microscópico. podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. hein? Ouviu um resmungo. para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível. Abriu-a e. . autoridade ou determinação. segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas.

Claro que ele não a desejava como esposa. ingeriu mais dois comprimidos. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. -Cartas na manga. extraforte. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga. mas não diante de um móvel. – Quem deixa o seu café quente. parecia que fazia medidas e considerações mentais. -Oh. Vou tomar um analgésico. voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. assentir e obedecer-lhe. os olhos sérios enfiados nos dela. . . qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. mademoiselle. -Dor? -Um pouco. Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. – disse com raiva. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. – franziu o cenho. sem açúcar. de pé. sou uma executiva graduada em.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão. monsieur’’. Num gesto maquinal. estava exausta. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. – murmurou emburrada. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. monsieur Brienne. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. –replicou com impaciência.. emendou com mais calma: . abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol. Entrou. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. você não sabe viver direito. Conhecia o seu organismo. -O quê? O quê? – quase gritou. – declarou impassível.Com todo o respeito. –avisou-a. Só havia uma saída. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. é normal que a sua vida fique em segundo plano. Sentiu uma pontada na cabeça. para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha. -Se não fosse assim. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde.. Depois. imediatamente. e sim minha esposa. 29 . -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha. Além disso. Esperou em vão. seu pulso foi fechado por outra mão. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos. – respondeu sem dar muita importância. de dedos longos e unhas curtíssimas. Portanto. levou a mão à testa. minha cara. maior. Na sala.É para aliviar a dor. e não para se dopar. não seria minha assistente. Parado diante do móvel. Antes que ele se voltasse.

relaxe diante de uma planilha do Excel. .Durmo sempre quatro horas por dia. interessado.Se está errado.por que não fica mais à vontade. – disse-lhe em tom de provocação. . Amanda sorriu. comentou num tom casual: . Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse. comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça..Já que passará a noite aqui. com ar preocupado e distante. Num dado instante.. Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa. como se fosse possível. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe. . . Quero preparar algumas coisas para Helsinque. concentrado no computador. Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. fique com minha cama. Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada. tire os sapatos e as meias. Preciso de você inteira. ajude-me com os relatórios. -Oui.. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre.E o que acha? – voltou-se para ela. não eram os patinhos de cerâmica. Acho que essa viagem será divertida. .Tubarão em meio aos tubarões. Abriu a pasta e retirou o notebook. –murmurou. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. . Tenho certeza de que será como nos outros lugares.. A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá.Na verdade. se ficarei dormindo feito um inútil.Preciso tomar cuidado. -É. mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações. .É melhor então que não ponha seus pés na água. está começando a ler minha mente..Que já sabe a resposta para essa pergunta.Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo. pelo menos. . -E por que não tem? 30 .. Esse era o estranho senso de humor do chefe.Isso não está certo. parecia cansado também. copos e talheres eram lavados por alguém. Além do mais. Eu durmo no sofá tranquilamente. apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho. claro. resoluto. por favor. – disse. . leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal. –declarou em tom irônico. Lavou a louça sozinha. . Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. -Claro. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas. -Não pode passar a noite trabalhando. já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos. – completou quase que para si mesmo. madame. – explicou-lhe: Assim como estava. Com certeza. – sugeriu. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos.Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” .

adormeceu. Respirou fundo e ordenou-se a agir. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. À mesa. que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse. tal possibilidade.Monsieur Brienne! – chamou-o. Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. – disse com naturalidade. manteve os olhos abertos. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. – disse. Havia alguém na cozinha. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. viu-o caído no corredor. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. sem barulho. talvez. – acrescentou a título de informação. Possivelmente. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade. Agachou-se ao seu lado e. já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. por impulso. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. O medo singrava-lhe nas veias. a mais chata e fofoqueira do prédio. -É. -Provavelmente. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. Friccionou os braços com as mãos. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado. 31 Quando . fora até o seu carro buscar algo. acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. Por um momento. as lâmpadas oscilavam pálidas. uma de suas antecessoras. Era mais como a sensação de uma presença e. Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico. . ela evitava ficar muito tempo em casa. –comentou com casualidade. -Certo. pastas abertas.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: .Annie tem uma máquina dessas? . . mademoiselle Rossi. E encerrou a conversa. passou a mão pelos cabelos. Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. pois usava uma camisola de algodão. -Non. madame Brienne. tocando-lhe o rosto com delicadeza. Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir.Desde que trabalho para o senhor. Mexeu-se debaixo do edredom. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago. Assim que deitou a cabeça no travesseiro. Não vestiu um robe. que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. Sentou-se. secamente. verificou-lhe a pulsação.

agora. Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo.sieur está bem. Jacques surgia à porta. E era tão bom!.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo. -Mon. Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. Despencava de um abismo direto para dentro d’água.. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar.Já estaria morta. Amanda jogou-se contra ele com raiva. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás. um inseto inofensivo. caía devagar. No minuto seguinte. uma nódoa disforme e vermelha. .. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão. Por que Jules não relaxava um pouco. Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem. Abriu-lhe a camisa num safanão. . forçando-o abrir os 32 .. deixando-se levar como pluma ao vento.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu. agora. Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso. A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada. Jules estava bem.. vivo. Tinha de salvá-lo. Sucumbia no melhor estilo. A vida era curta demais para tanta seriedade. Como? – Como? Como se regenerou. no chão. Investiu novo beijo.. sem argumentos.. Era bom morrer. . Mas antes de ir. . caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. Jules estava pálido. Sorria e balançava o celular de Jules na mão. –constatou impaciente. estava manchado de sangue. na linha do abdômen. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. sempre disciplinados. os lábios sem cor. Nenhum efeito. a cabeça girava ou o quarto girava.. -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. Era bom sucumbir. – riu com vontade. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. bloqueando-lhe a passagem. Era até bom. sujeitar-se. Também era bom. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu.Você o entregou de bandeja para mim. Estranhamente. Alguém o ferira. O tecido da camisa. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo.comentou debilmente. E. – declarou-lhe. para a escuridão. para dentro. Afastou-se e o fitou. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância. não havia dor e perda. Mas ela queria brincar com fogo. sentado à beira de sua cama. pensou. tencionava viajar para outro lugar. empurrava-o e o chutava. perder uma briga. Precisava de ar.? Somente vampiros conseguem se regenerar. estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo..Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe.Vinte e dois. -Quantos comprimidos. Ela era uma formiguinha. . sangrando. sério. No entanto.

Manteve os vidros bem fechados. desde a primeira entrevista de seleção. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. no início da semana. Ainda teve tempo de dizer a Jules. Ela gemia baixinho. finos e persistentes. de Calogero. eu já volto. . Batman.. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e.Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. 7h 15 min. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda. a exploração passou para o queixo e pescoço. Abriu a janela. Mas algo o fez mudar de ideia.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. . – disse-lhe ao ouvido. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo. Após ter chegado atrasada ao trabalho. Depois. agora.. os seios esmagados no tórax largo e firme. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda. parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura. e sim trazê-la para si. desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. Em seguida. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar.Não faça isso. Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha. antes. como não encontrou nenhuma calcinha. Mas ela o queria. Tinha de detê-lo.Sempre quis dormir com um macho alfa. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. . o locutor informou o horário. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. porém. Ansiava como uma canibal. mas nem se mexeu do lugar. apesar do bom senso das palavras. procurando não decepcionar o cantor. – disse calmamente e. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida. queria sentir-lhe o gosto. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua. Após os primeiros acordes do violão. voltando para o lóbulo da orelha. imponente e tépida. temia que isso novamente acontecesse. pesada e acelerada. precisava vencer a onda. constatou-lhe a plena ereção. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. Bonne nuit. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. desvencilhou-se. habilmente. A respiração de Jules estava rouca. aprisionando lábios em lábios. Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: . por cima da calça social. Os braços rodearam-lhe o corpo. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente.Espere. Por isso. excitada. Mordeu-lhe o inferior. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. – ela fez um sinal com a mão. transparente. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio. Definitivamente. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. que ficava do lado de fora da janela da cozinha. que foi mordiscado e chupado languidamente. 33 . Abriu a gaveta da cômoda e. encaminhouse até o varal. Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. sempre o desejara. Apertou-se contra ele.

Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. Maquiou-se suavemente. J. Se tinha um caso.B. -É assim no Brasil? -O que. a esposa mantida viva através de aparelhos.” Sim. tendo. Jules passara a noite em seu apartamento. por causa do trabalho. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas.Está namorando? – insistiu. depois que a esposa morresse. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. debaixo do próprio teto. A neve estava mais branda. ou seja. muito mais em relação a Jules Brienne. Quando a ‘ficha caiu’. Amanda apertou-se no casaco. – falou ofendida. Amanda. Além do mais. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. pegou a pasta executiva.Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha. mas. palavras dele: “devidamente demitidas”. Talvez até tivesse uma amante eventual. pensou com maldade. Como havia esquecido? E. Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. Amanda levou dois dedos aos lábios. justamente porque ele não a via como mulher. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço. Jules era fiel à esposa. Isso é uma questão pessoal. nos cinco anos que trabalhara para ele. raríssima. encontrou um bilhete sobre a mesa. seria demitida como a assistente anterior. Ao voltar-se. em algum momento da noite. com uma pontada na barriga. a qualquer chefe e. O beijo fora um sonho. Dorian respirou fundo. Paradoxo difícil de entender. o vento era forte e cortante. a sua faz-tudo particular. mas também pela oportunidade. tentava controlar a irritação. No entanto. a duas quadras do mesmo. “Estou no escritório. era mantida a distância. lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. Eles se beijaram? Automaticamente. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. . que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne. que tivera na França. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo. Amanda pensava. entrara em seu quarto e eles se beijaram. fêmea. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. Jules Brienne jamais a tocaria. Levava seu emprego a sério.. não somente porque era seu ganha-pão.. Impossível. apesar de sua competência e os cursos que fizera. . Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família. 34 . íntima. digeria a pergunta. Sorte de principiante. nunca o vira com alguém. Dorian? – perguntou impaciente. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada. a outra apenas encarou-a sem expressão. -Essa falta de educação. Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. -Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. Refletia sobre isso quase todos os dias. que. como lhe dizia a irmã. não tem o direito de me deixar constrangida. Conhecia a caligrafia. Em princípio. Tinha plena consciência de que. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio. no terraço da cobertura. era por demais discreto. Sorte de veterana.Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa.

Ele disse que estava tendo um caso com você. um tanto a contragosto. tinha cabelos grisalhos.Você tem alguém? . Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito. -Ele mesmo.Oui.Que linguarudo. após uma conversa tensa. . Amigo de Jules desde o início da SBO. para que possamos abrir processo contra ele. era uma mulher equilibrada. Nunca vi esse Jacques aí. ele é gay. .Jacques Rodin? – esganiçou a voz. Cumprimentou os dois homens. Ainda mais quando dois olhos escuros. Ele era um homem bastante discreto. –procurou descrevê-lo. quando lhe fora apresentado por François Roche. Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu. – riu-se. Tem um sotaque bonitinho. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia. Ela não mentia. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. non? Perfeito assim. Encaminhava-se em direção à máquina do café. ela fez um gesto com a mão. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules. Falava num tom baixo e regular. era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos. olhos azuis. ou seja.Deveria? –alçou a sobrancelha. Mas não se chama Jacques. . Amanda avaliou as palavras da amiga. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal.Nossa! Onde ele está? – em seguida. e tampouco Rodin. com você e a recepcionista. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 .Conhece Jacques Rodin? . só pode jogar no outro time. desconfiada. meio assustada e um tanto constrangida. e a primeira delas referia-se ao café do chefe. por quê? – Dorian indagou. intrigada. Encontrou monsieur Armand Ribery. Por outro lado. meu namorado é cantor e suíço.. as poderosas do 11°andar. Aliás. advogado da empresa. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. Amanda deu um passo à frente. Voltava de um terraço gelado. é verdade. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: . Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. . sentado em frente à mesa de Jules. ele é alto. – fingiu uma careta de desolação. emendando um sorriso nervoso ao gesto. tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria. se veste bem e faz o tipo sedutor. loiro.. Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. . Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. quando Jules a interpelou: .Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. .Acho que sim. não faria escândalos por nada. – confirmou secamente. experiente. culto e bastante influente politicamente. – Nem precisa dizer. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina. como eram conhecidas. procurou controlar-se.bem. divertida. Se quer mesmo saber. olhos azuis e ar plácido.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia. Um advogado das antigas. Beirava os sessenta anos. – afirmou com naturalidade.

jamais mudará. – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão. – acentuou Amanda. o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa.. E não podia. um líder a sua equipe.. . que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda. é melhor ainda para você e para a corporação. Apertaram-se as mãos. .. Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário.Precisa preservar a sua imagem. E sabe por quê? – fitou-a intensamente.Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. Acatou os argumentos de Armand. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si. -De certa forma.Não somos namorados. -Talvez pelo mesmo motivo que o seu. – murmurou. Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e. ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. – Eu mal o conheço. Precisamos. Mais tarde nos falamos..Merci. Amanda sentia-se acuada. monsieur Brienne. Por fim. Nenhuma delas com segundas intenções. e era como um puma preparando-se para o ataque.Mademoiselle Rossi. pelo visto. O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo. irônico. Jules levantou-se lentamente de sua cadeira. Armand. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. se a envolvida no caso não quer. . . pelo menos. mademoiselle Rossi tem razão. mademoiselle Rossi. . No fundo. de certa forma. Evitava o olhar severo do chefe. – começou. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: . No entanto e. ele fará novas vítimas. mas não pretendo registrar a. 36 .Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. e você sabe o quanto ele é sensível. Jules respirou fundo. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. pois. e creio que não se repetirá. a proteção irrestrita. – interrompeu-a.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. – declarou o advogado apelando para o bom senso. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne. Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos. monsieur.A bem da verdade. deve terminar. ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário. visivelmente contrariado. mas foi novamente interrompida.Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. apenas Jules queria levar adiante o tal processo. -Agradeço a atenção dos senhores. ainda mais agora em processo de expansão..Não é isso. Não seja inocente. nervosamente.tentou responder. ele a machucou uma vez e o fará sempre. Jules? – ponderou e em seguida completou: . também. Qualquer escândalo interfere no mercado. assustá-lo. agressão.. se não processarmos esse rapaz. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. fitando as pontas dos sapatos. registrando queixa na polícia. . Ela é a sua assistente e. . justamente por isso. chamará a atenção dos tablóides. também. Havia a intromissão direta e.. o rosto febril.. .

observava o chefe de esguelha. O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! . Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem. Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte. completou: . Jules não entenderia a observação. dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. caso o meu amante o merecesse.Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você.. sem dúvida. Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: . Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo. Sustentou-lhe o olhar. acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino. nos fragmentos confusos espalhados pela mente. faria qualquer coisa. que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing. mas caso o beijo fora real. numa expressão de desgosto. pelo menos quando quero alguém vou até o fim.. O terno fora trocado por outro mais escuro. o espancador.? . Se mergulhasse ainda mais nas recordações. Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas. sentiria as mãos ao redor de suas costas. Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente. Jogou verde para colher maduro. já havia enfrentado outros piores. a camisa por uma azul-clara e a gravata. –ordenou com frieza. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: . Voltou a fitar-lhe nos olhos. -Sim. bordô.. – provocou. . trazendo-a para si. Havia feito a barba. -Você deve ter problemas com sua autoestima. – disse-lhe o mais profissional possível.. teria de assumi-lo.O seu protegido. Se quisesse e. como uma saudade antiga. Jacques de quê? – indagou com desprezo e. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina.Imagino que para proteger o amante. Um desejo profundo e intenso.Como. – retrucou com altivez.Obsessão em Paris Veronique Gris . até mesmo perder o emprego.Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar. Vestia outra roupa. vendo que ela não reagia. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa.. e o cabelo ainda estava úmido do banho. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica. apesar do tom azulado do queixo e maxilares.Agora pode preparar o café. dado às circunstâncias violentas a que se expôs. poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. . assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”.. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe. talvez fosse perigoso querer. – afirmou sem pestanejar.Ontem gritou um nome e.Não conheço nenhum Jacques. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele.Com licença. Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom. 37 . Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. . Se fora um sonho.

apenas ensaios. . Baixou a cabeça. . .E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo.É mesmo. acabavam de explodir duas granadas. Estava difícil respirar. Dentro de si.. Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. desafiando-o. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos. Amanda. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. sério. quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar. todos. – disse tentando sorrir. Baixou a cabeça e percebeu que tremia. Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. os maxilares tesos. – sorriu. -Seria tão fácil. Gemeu baixinho quando ele se afastou. Jules deixou-se abraçar.Obsessão em Paris Veronique Gris . Ela deslizou as mãos pelas costas dele. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . Colaram-se os corpos. não de vergonha e sim de desejo. Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si. foi só uma manifestação doentia do meu desejo.. as veias nas têmporas latejando. – confidenciou sem jeito. ainda tocando-lhe a face. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente. -Quer que eu vá até o fim. Todos os homens que conhecera. As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só. traçando uma longa ruga no meio da testa. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. – comentou com bom humor. então realmente houve um primeiro. Se antes o provoquei foi só uma crise de ego. Ele assentiu levemente.Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos. .Ah.Non. Cinco anos. não é? – murmurou. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha. voltou a encará-la. . -Sempre o admirei por sua integridade e caráter. sentindo o rosto corar. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. Capítulo VII . monsieur.É complicado. Afastou-se um pouco e o encarou: 38 . Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a.E se antes eu a provoquei. depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante. entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu. Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. foi a continuação do primeiro.

Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei. – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez.E não é? Jules suspirou contrariado.De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras.Não é só isso. a voz firme. Apenas quero que compreenda a minha. tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha.E.Amanda. . posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente. Cruzou os braços em frente ao peito. eu sou casado.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha. – disse tentando controlar a incipiente irritação. monsieur? . Merci. . monsieur. ignorando-a deliberadamente. Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante. . digamos. . . o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem.. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre. contrariando seus sentimentos. para hoje. ele não significada nada para mim.. – enfatizou.murmurou. então? .. . –ponderou fitando-a gravemente. evitei qualquer relacionamento mais. . independente da situação de saúde da minha mulher. – disse baixinho. E isso inclui respeitá-la. apertou o interfone para falar com a secretária: . Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse. confuso.Non. Sentou-se e. – tentou explicar-se.Mademoiselle Cuvier.Mais alguma coisa. Nesse tempo em que Rochelle está em coma.Sinceramente. .. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária.. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. Se eu tivesse feito isso há cinco anos.Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia. . . o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma. grave. Tinha vontade de quebrar algo. os olhos cravados nos dela. um pé batia no carpete.. . esse homem que me agrediu. não me expondo em público com outra mulher. sendo assim.Tudo. intermitente. sem pressa. . s'il vous plaît. profundo. . Rochelle ainda teria uma vida normal. quebrar algo na cabeça dele! 39 . se possível. mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo.Merci. -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha.Não tenho “casos”.O que é. é óbvio que não pedirei o divórcio.Esse cara. – afirmou irritada. . justamente por que sou casado. . – disse num tom de reprovação.Obsessão em Paris Veronique Gris .A gente não precisa fazer nada. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou. avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing. – declarou impassível. Agora. Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade.

quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque. Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho. Mas até mesmo executar tais tarefas. Ao chegar. E ela descobriu que lutava contra um leão.Bom. Ele a trará para a reunião com os finlandeses. -Entendi.... pondere a respeito. Assíria.Está tudo tranquilo. –disse resoluto. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. depois completou com uma sutil arrogância: .Eu ainda não sei o que quer de mim.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”. retomando a máscara séria e fria. Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos.Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. nesse novo estado alterado de sentimento. A feição dele suavizou-se por um momento. . – respondeu brandamente. monsieur. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular. –Agora. monsieur? – indagou-lhe friamente. o coração aos pulos. -Deseja mais alguma coisa. mas. e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita. Por um momento. Ao longo da manhã. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho. – imprimiu firmeza na voz. -Como? -O que acabou de ouvir. obedeceu à rotina de sempre. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias. 40 .Agora. ganhavam um aspecto de sutil intimidade. . –reclamou.Que horas devo ir? . oui? . monsieur. . ficaram apenas se olhando.Bonjour.Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça. pense sobre o que falei. Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. como estão as coisas por aí? . mademoiselle Rossi. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã.... – afirmou. Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava. Nem pense em se atrasar. então temos problemas de comunicação. abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. E desligou. conversando atrás do balcão. agora. pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste. já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. . A ligação está péssima. – afirmou. -Escute bem. houve uma pequena mudança nos planos.

Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. –emendou um sorriso amarelo. e não dele. no auge das nevascas. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. por que havia transferido a tal reunião para França. Desde quando usava o seu chalé. A construção de três andares. durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe.Amanda constatou . ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. Um lugar totalmente ermo. observando a brancura à sua frente. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. assim. sobre o primeiro andar que. ou seja. nesta época do ano. De fato. admirava a beleza do lugar. o chalé de Jules. tanto no céu quanto abaixo.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia. Entretanto. Jules havia marcado a reunião. no mínimo. Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. O vizinho mais próximo . o seu refúgio solitário. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. uma ampla varanda aberta.distava.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. Portanto. formando um cerco na solidão do chalé. evitando. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve. ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. Na frente. pois ele cumpria a agenda. não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. estável e aberta aos empreendedores. ela praticamente perdia o chão. era um lugar 41 . Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. Entretanto. No entanto. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. -Belo dia para voar. procurando entender o que acabava de acontecer. rica. uns dez quilômetros dali. Meia hora depois. No entanto. neste momento. a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos. prestava a atenção nas variações do tempo. já na entrada de um pequeno centro comercial. isso poucas vezes ocorrera. nas montanhas. possivelmente era a garagem. dos pinheiros ao redor da casa. apresentava sofisticação tipicamente europeia. e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. Diante das janelas frontais. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. de madeira rústica sobre pedras. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. apesar da rusticidade da madeira. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. as sacadas.

normalmente penteado e aparado. acabou deixando cair as pastas que segurava. O helicóptero já estava no alto. vestindo um suéter preto. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. de uva. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. bem acima dos grandes dramas da humanidade. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. estava bagunçado. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. o scarpin escuro e a saia de lã. Era como se estivesse de férias. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. mergulhar a perna na neve. mais uma vez. Durante todo o trajeto. Ao tentar afastar-se. Alguém afastou a cortina. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. jeans escuro e tênis. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. era ensurdecedor. Antes que ela esboçasse qualquer reação. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. e incitou novo passo para. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. Jules manteve os olhos fixos nela. Escorado junto ao batente da porta. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. Abaixou-se para pegá-las e. num beijo profundo. No minuto seguinte a porta foi aberta. enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. mais por impulso do que necessidade. espalmada. Apertou-se no casaco cinza. justíssima. e tampouco percebeu que os flocos de neve. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. um palmo acima dos joelhos. O cabelo. em silêncio. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. Ao descer. sobre seu maxilar. mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem. a voz ainda rouca. Ficaram abraçados por um tempo. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. de sedução. não contava com a sua espessura. de lã. Amanda foi a primeira a falar. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. Jules empertigou-se. salpicavam-lhes os cabelos. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. inclinou o corpo para baixo. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . distanciando-se deles. no seu mundinho. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. quando se ergueu. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. estava Jules e seu cabelo azeviche. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo. Ela tentou identificar a pessoa. de gola alta. Somente quando parou diante dele. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face.

43 .. . Não pôde deixar de rir baixinho. passando pela parede. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. -Na verdade. num tipo de rusticidade elegante e selvagem. mas impõe mais respeito. Do teto ao piso. apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar.agora o nome é episódio depressivo grave. portas e sacadas. Sem deixar de fitá-la. tudo era composto por madeira reciclada. pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás. achei bastante incoerente tal reunião. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda. -Homens como eu. esse Jules agiu de forma inesperada.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo. mademoiselle Rossi.Quer provar meu sangue? – provocou-o.Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. -Oui. sentia-os de fato inchados e doloridos.Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável.Tenho cópias aqui comigo. diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório. que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris. Antes de entrar. Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não. monsieur Brienne. –debochou. possessivamente. Depois. O Jules dos Alpes franceses. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior. com um empurrãozinho do pé de Jules. iluminavam languidamente a estante com livros. em madeira de pinus. –ironizou. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: . o de barba por fazer. não sofrem colapsos.Machuquei seus lábios. Amanda” impaciente. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. mais aconchegante e cheiroso. Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso.Acho melhor entrarmos. Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. profundamente. Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: . Em seguida. Ele olhou ao redor sem muito interesse. Jules parou à porta.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: . voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: . seguido de um “por favor. Ele pôs o braço ao redor de seus ombros.. Amanda levou a mão à boca. Quando a porta foi fechada atrás de si. O outro Jules.Sua casa é linda. aquele que ela conhecia havia cinco anos. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente. O que dá no mesmo. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe. abajures com lâmpadas de quarenta watts. . os quadros de pintura abstrata e o bar. jeans e tênis. bem típico de workaholics. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. esquadrias das janelas. –brincou. . bem. ainda abraçado nela. virou-se e a encarou seriamente: . . decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve.

É fácil. Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 . Numa banqueta de madeira. Comprei um livro de receitas culinárias e. um queijo cremoso. na verdade.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. Amanda observou. havia planejado o encontro no chalé com antecedência. retribuindo o duplo sentido da frase. toucinho e alho. paninhos coloridos ou imãs na geladeira. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha. em seguida.alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. -Você também. percebeu que após cinco anos. . com toucinho e queijo Reblochon. não havia detalhe algum feminino. ele prosseguiu: . Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. abriu o forno e deu uma olhada para dentro.Tem serviço de entregas por aqui?. É feita com batatas e Reblochon. Por fim.Voilà. levava ao porão. – disse baixinho. parecia derreter dentro da boca. era visível que procurava controlar-se. aprendi a cozinhar. . . assegurei-me que de fato seria um refúgio. sem muito entusiasmo. Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo. marcando o tecido delicado da roupa. – disse Amanda. um lugar para ficar distante da minha vida parisiense. .O cheiro é excelente! . A cozinha era arejada. é um lugar tão isolado! –debochou.Aqui está o segredo de uma boa refeição. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas. Ele parou diante do fogão. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia. ingredientes e modo de fazer. ele não usava mais a aliança na mão esquerda. toalhas. creme de leite.Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. Jules havia preparado uma salada com cogumelos. Para acompanhar o prato principal. Isso sim significava uma grande mudança. crocante. Antes de entrar. Quando comprei o chalé. Por um minuto ou dois. enfim.Da última vez que fiz faltou sal. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. nada de enfeites. Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico. Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. Realmente. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. -Temos que comer. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho. Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida. A camada superior. . -Deve estar com fome. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: . .Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda. não estava em lugar algum. Com o pano de prato dobrado. ele suspirou profundamente. o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e.É uma comida típica desta região. no centro da cozinha. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. Pelo visto. pelo o que Amanda verificou. como fui alfabetizado.

Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas.Quero você e muito. .Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando. acabou quebrando o silêncio.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador. – falou. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. Entregou-lhe os pratos. bastante interessado.Os executivos e suas vagabundas. ordenhavam novamente suas vacas. 45 . baixou os olhos e encarou-a novamente. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. -Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha..E. mas não consigo deixar de perceber seus defeitos. e um deles é essa mania de distorcer o que falo. Vou comprar outro maior para você e. Ao constatar que não lhe responderia continuou: . . –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo. sério sem censura ou ameaça.O quanto estava lúcida àquela noite? . a oficial e a do affair. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. Ajeitou os talheres ao lado do prato. . – pediu. Jules recebia a louça e. .Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. . copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. Será que só o presidente não sabia? – ironizou. sobre o aparador para secarem. Como Amanda não possuía nervos de aço. vou entender e aceitar. depois.O suficiente para não esquecê-la. com eficiência. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio.. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem. agora. . em pleno século XXI. Podemos parar por aqui. não fale. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum..Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. Inexplicavelmente. . Ele sorriu com um um jeitinho tímido.deu de ombros e acrescentou:. assim.e isso não afetará nossa relação profissional. –murmurou. ela sentiu um repentino mal-estar. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o. Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. . . – observou calmamente. já de posse da esponja e detergente. – disse Amanda sorrindo. obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente. Apenas nos beijamos. -Você não luta por ninguém mesmo. interrogativo. nesse almoço. . levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la. pequeno e sem segurança. Não queria ficar sem ele. é longe.Se vai complicar tudo. agora. .Amanda. colocando-as.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem. . um executivo da área da computação faz um prato delicioso. -Quero que saia daquele apartamento. – disse incisivo. – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela. -resmungou baixinho.Se não está preparada para ficar comigo..

. Jules. mas amava a vida. deitada no asfalto sangrando me mandado embora. No entanto.Olhe para mim.. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos. vinte por cento dos pacientes se recuperam. escaras e subnutrição.Claro. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte.Por que está me dizendo isso? . Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. nem conseguimos trabalhar direito. 46 . –deu de ombros num gesto de impotência. . não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos. Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos. Olha só o meu casamento.riu-se com amargura – mesmo assim. é um ser humano. E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado. nós. a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida.E se a sua esposa voltar a si?. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não.. Além do mais. Rochelle não me amava. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada. numa posição de espera. . . . o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. acima de tudo. não existe no mundo. é a mulher com quem casei e. Há uma luta constante contra pneumonias. Jules mantinha-se afastado e sereno. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa. A vida não nos oferece garantia de nada. mas ela não reagiu por si. tentamos retirar o respirador. baixa e tranquila. é a minha responsabilidade por que. . Ele estava todo ali. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. nem na vida. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. Ano passado. mas. Foi uma experiência dolorosa e frustrante. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha. mesmo que tenha me traído e. dentro..Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que.Acha que não sei? -É diferente. Amanda? Isso não existe.. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. você disse que somente confiava em mim.Você quer certezas e garantias.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. apesar de rica. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana.. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . . –respondeu com seriedade. por que..Naquela noite que passei em seu apartamento. – murmurou ela. tão perscrutador. mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras. -Entendo. -Por outro lado. . Além disso. Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver. Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo.Rochelle é a minha obrigação. a pernas separadas. A nevasca atingia as montanhas. de acordo com a medicina.

.. abriu-lhe o sutiã e. alimentado o cérebro de respostas. de renda. Em seguida. como um legítimo macho alfa. Afastou-se e. tocar na dele. Penetrou-a totalmente. como se fossem um corpo só. –afirmou sem maiores explicações. . queria-o fundido em si. expondo o sutiã branco. -Eu a devorava. firmes na cintura dela. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: . umedecido pela ligeira camada de suor... ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. Arqueou-se para. de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos. as sobrancelhas juntas. de pé. com o joelho afastando as pernas dela. o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. Num movimento ágil..quero muito. com movimentos mais fortes. os maxilares contraídos.Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele.Entregue-se a mim. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas. Amanda gemeu e arqueou o corpo. devagar. lentamente. Jules. baixou o jeans e a cueca boxe. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos. Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível. por um tormento mudo. com a cintura. deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. penetrou-a. . Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa.. Em seguida.. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço.Não a amo mais.... enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo. cadenciados com seus gemidos e 47 . segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo. um tormento sexual. Controlou-se o máximo que pôde.o que você fazia. mantendo-o entre a língua e o palato. controlava a cadência das arremetidas. as narinas dilatadas e os lábios constritos. Por um momento. Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. .. – disse. Depois. sendo chutada para cima do fogão. havia percorrido todos os caminhos racionais. saboreando-o. esfregando os lábios nos lábios dela. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis. que escorregou para o chão. Amanda.saber.me diz. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase. detendo-se no lóbulo da orelha. abocanhou-lhe um mamilo. Ela queria mais.Jules. Ele puxou-a para si com brusquidão. violentos. Deitou-a sobre a mesa e.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. As mãos..Quero.Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. depois. Num gesto rápido.. faminto. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido. os olhos negros como os de um predador voraz. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia. e. Ele se aproximava com o rosto circunspecto.. .Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador. a cabeça inclinada sobre seus seios. o corpo esguio encurvado para si. desabotoou-lhe os botões da blusa de seda. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca. para que ela o sentisse todo dentro de si.E... preta. deslizou a calcinha pelas pernas dela. dentro e fora da empresa. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração. olhando-a diretamente. introduzindo-se em princípio com gentileza. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo. sem deixar de fitá-la. sutiã e meia-calça 7/8. Era assim que Jules Brienne sempre agia. . . Depois.

o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. E. analiso o que você falou. impregnara-se do seu cheiro na pele. Antes de atingirem o cume do prazer. ele abriu os olhos. trouxe-o e o pôs em Amanda. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras. Do lado de fora. Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. para ela. puxou-lhe o corpo para a borda da mesa. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela. Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço. . a força dos braços. . de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse. perto da janela. nervos. . sobre a colcha. em cima da mesa da cozinha. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. como era alto. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. E não era a primeira vez que a sentia em si. beijando-lhe o pescoço. Por diversas vezes. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural. agora. Entretanto.Empacotada para viagem. ao ajeitar-lhe a gravata. A lenha crepitava na lareira e. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. 48 O . Em dois minutos. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. tinha todo o seu corpo possuído por ele. Em vez de vesti-lo. um robe de seda. –brincou. Era para ter sido ali. congestionados em suas órbitas. naquele quarto decorado romanticamente. à esquerda do bar. Ao abriu os olhos. fora-lhe quase como uma companhia. Sobre uma mesa. e puxou-a para um longo abraço. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. músculos e carne até explodir como uma bomba. levando-a a gritar numa voz irreconhecível. no meio das montanhas brancas de neve. Penetrou-a novamente e. Quando entraram no quarto. vez por outra. ao longo dos anos.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. dobrado. – desculpou-se.Queria ter podido me controlar mais. E o cheiro dele.brincou. .Quando eu conseguir pensar. Ele subia devagar os degraus da escada. amarelas. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó. separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. Enlaçada em seu pescoço. Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas. esfregando-lhe os ombros. a primeira vez dos dois. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. os olhos fechados. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante. recebendo um sorriso terno de presente. Quando despencou da montanha-russa do prazer. sob a janela. num canto da sala. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen. pétalas de rosas azuis. emitia ruídos secos. Aos pés da cama. Depois. brancas e azuis.

. Gritou o nome de Jules. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. encaixados. Avançou para o umbigo. Esfregou os seios no tórax firme dele e. o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. seca. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. Do alto. que começou tomando-a aos poucos. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas.. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela. em seguida. alternando as coxas. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. cada um na sua vez. de frente para ele. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo.. Ele sugou-lhe com vontade. em seguida. Prorrogou a carícia. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. descendo até a curva de suas ancas. ergueu meio corpo e. foi acionado. o sexo para. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas. Subiu novamente pelo mesmo caminho. o ventre. que a sustentaram enquanto seus quadris. roçando os seios no seu tórax. com o outro. 49 . Por baixo de suas nádegas. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada. morno e eletrizado. Num movimento ágil. enlaçou-lhe o pescoço e. Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos. teve-os engolidos. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração. depois de mordiscar-lhe o ombro. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. num timbre de quem explodia de prazer. trazendo Amanda para o seu colo. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. abertas. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. Por um momento. erguendo-se ligeiramente. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. Jules gemeu ao seu ouvido. até o fundo. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo. enfiou a língua e o mordiscou. que foram sugados com força. auxiliou-o no vaivém de seus quadris. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo. enterrou as unhas na sua pele nívea. atirou-se para um mergulho no mar denso.. Com apenas um toque num dos botões. por baixo da pele. diante do corpo dele. Ne me quitte pas. sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. Quando percebeu que ela estava pronta. Jules sentouse na cama e puxou-a para si. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. Ainda sem conseguir respirar normalmente. passou os braços por baixo de suas pernas. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. por uma boca voraz. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido. Voltou-se toda para ele.

mordeu-lhe levemente o lábio inferior. mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha. ... alguém sensível o suficiente para lidar com o meu. . Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados. . – constatou num murmúrio. -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça. -Tive sorte. . . então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. Admirou-lhe o tórax firme. Jules... -Você é muito mandona. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro.corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: . forte e sensível.. . suava e quando o vi sentado atrás da mesa. a respiração controlada. . precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio. a pele ligeiramente orvalhada de suor. – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente. Em suma. sentindo-se exausta e relaxada. o cenho franzido.. Gentil e bruto.. impecável e bastante experiente. Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda.sei que não gosta de falar sobre isso. roubando-lhe um sorriso suave. após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos.mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 . simplesmente. Depois. .Uma vez você ligou mesmo. minha temperamental assistente. Jules era um amante refinado. digamos. Sou o pior chefe do mundo. obviamente. . A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante.É verdade.Verdade? . recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali.. não obtendo resposta. a última etapa da seleção era com você. perguntando-lhe algo e. você.Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. – afirmou com naturalidade. com a cara de poucos amigos.Humm. entende? Mas você. uma combinação um tanto paradoxal.Disfarçou muito bem. Virou-se e viu-o manejar o controle do som. – sondou..Contratei-a por mérito profissional. -Monsieur.-provocou-a.Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho.. pragmatismo. jamais tenha dúvidas sobre isso. monsieur Brienne.Totalmente. Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. . Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la. Eu tremia. – disse calmamente num tom divertido. sorrindo. apertando-a num abraço possessivo. -terei de domála. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada.Ainda me deve uma tomografia. aliás. – completou com um alçar de sobrancelhas. Roçou seu nariz no dele. Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. – constatou e emendou com suavidade: .Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe. .. sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada.. bem. – disse-lhe sorrindo. dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico. procurando uma música no playlist digital.

Ele olhou-a com o rosto sério. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. ela resolveu ceder. Dera-lhe uma ordem. – disse por fim e deu-lhe as costas. apenas observar e. Jules voltava a ser o chefe exigente. ma belle – pediu com a voz abafada. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. refletiam luxúria. Satisfeito na cama. E Jules odiava demonstrar fraqueza. non? É clichê demais. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. branca e limpa. -Tire a roupa. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris. concentrado no fogo da lareira. eram somente um macho e uma fêmea. também era sedutor e rouco. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. bebendo o vinho. Intimidada e insegura. com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. a mão estendida à espera da dela. Voltou-se e viu-o na mesma posição. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável.Assim que amanhecer. imóvel. surpresa pela reação hostil dele. – ironizou. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente.Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. Devido ao último confronto. como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. mademoiselle. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto.. sem maiores explicações. Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. Mas a voz. de frente. Amanda sentou no colo de Jules. ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. cruzados em frente ao sexo. ainda nu. Falei besteira. brutal. para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. o timbre de voz que usara. em silêncio. mesmo imperativo e urgente. pardon. Postou-se diante dele. . ouviu-lhe dizer: . diante do fogo. salientando a face esculpida com vigor. mademoiselle. encaixando suas pernas ao lado das dele. Manteve-se de costas para ele.. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão.O protocolo pós-sexo. de preferência. . -Sente-se aqui.Fui grosseiro. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. Maxilares contraídos. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. até para os tipos românticos como você. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. forte e primitiva. ele 51 . Aquele era um assunto tabu?. –Vamos nos poupar disso. Mais do que nunca.Não tive intenção de incomodá-lo. mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar. Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. nua. Os braços ao longo do corpo. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. manteve-se quieta. confidências à meia-luz. os ossos dos maxilares. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. Sexo e sofisticação não combinavam. . ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. Naquele momento. –direto e seco. Com um gesto lento e displicente. revelavam os seus sentimentos.

parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: .. Como se seguisse a linha de seus pensamentos. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. emoldurado pelos tufos negros. . a respiração também alterada. as costas largas de ombros proeminentes. -Diz que vai me foder. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão.. O toque foi lânguido. Aproveitou para admirar-lhe a nudez. concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante.. – pediu quase num murmúrio. apenas roçando. o quadril esfregando-se no abdômen dele.Toda.. apenas a ponta do dedo.Dieu. num gesto instintivo. ainda não. afastando-os do rosto suado. beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda.Está encharcada. em seguida. provocando-o com o seu sexo.. Num segundo. vou fodê-la toda. como uma pequena morte. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele. um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado. -Vou te foder.-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. sem forçar.? – indagou aturdido. linda. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes. o quadril. Amanda temia o próximo passo. deitado para trás ao longo do abdômen firme. sem preconceitos ou impedimentos. nos seus ombros. Dito isso. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. Apoiou-se sobre os joelhos..Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade. Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. enquanto segurava-se nele. diz que vai me foder. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava. com ossos que despontavam acima da rótula do braço. saindo da boca de Jules. Ouviu-o rir baixinho.. -Como. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar. minha Amanda. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. . buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. Admirou-lhe o pau duro e grande. Ela se esfregava na mão dele. Medo e excitação. 52 . A cintura bem torneada e o traseiro bonito. torturando: . Deitou a cabeça para trás. -Não diga fazer amor. as pálpebras semicerradas. suavemente. Estremeceu-se de medo. Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem. que foram chupados pela boca máscula. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se. Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá. – gemeu Jules. diz Jules. na voz de Jules. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo. ma belle.. friccionando devagar e circularmente o clitóris. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. endurecendo os bicos. Por outro lado. Temia o ato. sugerindo. mas ainda não farei amor com você. ma belle. as pernas ladeando as dele. como é linda.

Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. Aos poucos. Assentiu com a cabeça.Afaste as pernas e incline-se para mim. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. fazendo-lhe um carinho no queixo.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. . antecipando o que seu pau faria. A sensação era boa. ma belle. 53 . E quando se afastaram ofegantes. – sussurrou. liso. Amanda. agora. Ela confiaria a própria vida a ele. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. –chamou-a para o seu colo. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus. Sugoulhe os bicos.Vem aqui. balançando-a com displicência. Amanda gemia alto. -Acredito.. Ao fazê-lo. Amanda contraiu-se. – Apenas siga-me que eu a levarei lá. Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. reconhecendo um no outro. – Seus olhos estão arregalados de medo. Nó no estômago. eu jamais a machucaria. bem típico seu. a vagina molhada e os bicos dos seios. um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. inebriante. com dois de seus dedos longos. um prazer para o nosso mundo particular.. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente. vem. como se se vissem pela primeira vez. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. ainda mais duros. Ele sentou-se ao seu lado e. os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. – pediu-lhe baixinho. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão. Quase 1. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. borbulhava. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. fervia e esquentava-lhe a nuca. seus sexos tocando-se. numa carícia mais do que tocante: íntima. assim. as orelhas. . sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros. -Então vamos desfazer esse medo. Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. disse com meiguice: . fitaram-se por alguns minutos. completamente envolvido pelo beijo. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. –declarou com ternura.Isso. A pergunta foi feita com tamanha suavidade. Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. belle. um de cada vez. mordiscando-lhes. e Jules beijou-lhe o ombro. com cuidado. que ela nem pensou em encobrir a verdade. um prazer para nós dois. Jules beijava muito bem. devagar. Garganta seca. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. prestando bastante atenção no nervosismo dela. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. depois de deixá-la completamente louca de desejo. duro. longo e perturbador. agarrada aos ombros dele. prendendo-os entre os dentes frontais. Amanda ajeitou-se fundo no sofá. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. atlético sem ser malhado e magro sem excesso.

. Agachou-se entre as pernas dele e. Jules. Como uma aluna aplicada.. que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante. mon Dieu. deixe-o deslizar aos poucos. Ele bem que tentou manter-se terno. com a mão no pau de Jules.. -Acho que pode. uma dor aguda. -Foi tudo.isso. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si... com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris..Tudo. como é apertada e gostosa. de queimação fê-la recuar. puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar. que lhe escorria pelas costas e seios. Amanda. Deitou-a sobre o tapete e.. Você é perfeita. tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. Era visível o esforço que fazia para controlar-se... – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si. Ela sentia-o descontrolado.. Com o polegar.. ela seguiu as suas orientações. mexe devagar. Tomada pelo prazer e encharcada de suor. pô-la de quatro. ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave. sente-se sobre o meu pau devagar. 54 . extasiada. sobre a ponta do pênis. enfiado nela.. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. ele levou-a consigo para o chão. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém. Amanda. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais. ma belle? Se doer. somente você.. subindo e descendo o traseiro no seu pau. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida. relaxa que entra mais fácil.. – Você fodia minha bunda na sua imaginação.. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina. um ruga funda no meio da testa. a mais linda. o desespero no timbre da voz. jamais a machucarei.isso. -É bom demais.. abraçado a ela.. os olhos fechados. Jules? – indagou-lhe quase sem voz.. que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora. – gemeu desapontada.. a expressão séria e. relaxa. –falou posicionando-a sobre o pau... entrou tudo.. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão. esforço esse que Jacques não o fizera. e eu farei a sua vontade. Num gesto rápido e eficiente. sem pressa. ainda enterrado fundo no traseiro dela. mon amour. mas. o rosto tomado por uma fina camada de suor. pare.dói. guiou-o para a sua entrada detrás.. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior. – quase gritou.. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules. apenas observava-a. . o cabelo úmido...é como eu sempre imaginei.. -Acho que não posso. encurvada e com o traseiro apontado para cima. Você está no controle.. as veias da testa e do pescoço dilatadas.não vou machucá-la. Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira.. –Isso.. . -Nem a metade.. isso. ao mesmo tempo. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal...gemeu. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela. Amanda. -Você é mulher mais linda do mundo. Amanda. Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo. Jules.

ensaios e rascunhos. ela estava apavorada. -Espero não tê-la machucado. -Vem. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. nesses últimos cinco anos. Avistou um robe caído no chão. Era novo. Realmente. pequeno e de seda. Todos os outros. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. beijando-lhe no tórax. dosando as arremetidas. fê-la gozar novamente. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes. quero dar-lhe um banho. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo.. ela deixou-se cair de bruços no tapete. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta. Ainda com Amanda nos braços. Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca. -É porque estou sem as botas do Kiss. -Vire-se. Completamente apavorada.. Um amante para sempre. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. antes mesmo de saboreá-lo na cama. agora. possessivamente. – brincou. envolvidos pela água e pelos vapores. Afastou o edredom e foi ao banheiro. exausta e saciada. do tipo inesquecível. já sabia onde estava. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. Jules virou-a de frente para si. O seu melhor homem estava tão próximo dela. Entretanto. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. feminino. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. Ela sorriu satisfeita com tudo. Abraçaram-se debaixo da ducha. okay? -Oui. –brincou. empinando a bunda para Jules. Como ela não se mexia. -Estou curada do trauma. Amanda concluiu que sua vida sexual começava. Quando acordou. pegou-a no colo. inclusive com o novo vocabulário do executivo. Sentou-se. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. –resmungou contrariado consigo mesmo. -Porra. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. docteur. que deixava marcas no corpo e na alma. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. subiu os degraus e entrou no banheiro. que não fora possível vê-lo. Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. enterrando-se até o fundo da vagina. que a amparava e se lançava na direção contrária. 55 . As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. Mas não posso receber alta. a velocidade e a força. Haviam dormido abraçados. que foda maravilhosa. Talvez ainda fosse madrugada. minha lindinha. controlando os movimentos. com Jules. Por isso. -Estranho. – disse rindo. ao lado da cama. Lavou o rosto. içou-a sobre seu corpo. pegou-o e o admirou. vou lavá-la para diminuir a ardência.

a lembrança da frustração. seu chefe. – afirmou com desdém. tornava-se a megera. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. . 56 . o jogo havia virado. entre a escada e o bar. ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. encurvando o canto esquerdo dos lábios. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. – disse-lhe. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. o que se destacavam eram os sulcos na testa. presidente-executivo da SBO.Claro. a testa franzida. – concordou solícita. pois suspirou contrariado.Ele a agrediu. Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne. mas soou como acusação. Um homem loiro. Engoliu em seco. concentrado na conversa. desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. tão escuro quanto as trevas. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave.Venha e tome seu café. – declarou. – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth. num gesto de ameaçadora tranquilidade. não foi? – era uma pergunta. Esperava um beijo ou um sorriso. Agora. Pronto. agora. sorria para a câmera. diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. Reconheceu Jacques Rodin e. E. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade.Bonjour.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . medo e dor fizeram-na contrair os lábios. rasgando a foto em vários pedaços. Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques. mademoiselle Curvier.Tevê aberta? Merdè. Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença.Jacques Rodin. será uma chateação dos diabos. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. Num gesto ágil. imediatamente. Entretanto. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants. agora. . Voltava a ser circunspecta e fechada. mostrando a face recém barbeada. Saía e voltava pela porta de correr da cozinha. em frente à cozinha. Usava uma camisa de gola polo azul celeste. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás. À medida que descia os degraus. . bonito. s'il vous plaît. . . Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. Encontrou-o na discreta sala de jantar. O cabelo molhado estava penteado para trás. me transfira para o marketing. já havia encerrado o telefonema. ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. Respirou fundo e procurou controlar-se. ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO. sentado no banco de um parque público. . sério. tive a confirmação. No caminho. O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. jeans e tênis. Jules. Ignorou-a e voltou à cozinha.Quero que veja uma coisa. . Pela reação de Jules. Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. – em seguida. ordenou: Agora. .Sei quem é.

Quando se preparava para fugir de outro homem. . três ligações do mesmo número das mensagens eróticas. Lutava para manter-se calmo e equilibrado. . .Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências. interrogativo. Então. – disse com maldade e completou debochando: .talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: . – falou baixinho. perigosamente controlado. 57 . Jules puxou-a pelo antebraço com força.Devia tê-lo delatá-lo a mim.Dê uma olhada no seu celular e encontrará. princípios e verdades. . . – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados. amigo de Dorian. A conversa ainda não terminou. Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores.Você é movido pelo seu ego estratosférico.completou sem dissimular o desprezo. embaraçada. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía. Jacques salvara-a de um salto quebrado. .Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. Jules. O contador. mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela. . . e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! . a força do destino! – debochou e completou incisivo: . Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques. Ele suspirou exasperado. monsieur Brienne?”. pelo menos. . Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada. – respondeu.Tudo o que fiz foi para protegê-lo. exasperada. o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha. Amanda baixou a cabeça.E não posso negar que ela teve bom gosto.Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas. não me transforme na vilã!gritou. –acusou-a.Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher. Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta.Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou . .Não sei.É terapeuta também? – debochou. . erguendo o queixo em desafio. Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la. porque Jacques Rodin é doido de pedra.Ah. do encontro às escuras. Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você. non? Monsieur Rodin.Porque talvez alguns homens só mereçam isso. assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja. mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos. uma veia despontava latejando no meio da testa. Diga-me.Obsessão em Paris Veronique Gris . – declarou secamente e deu-lhe as costas.Jamais me dê as costas. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme. –declarou tentando impor firmeza à voz.Sou a vítima. pena que ele seja um pouquinho psicótico. . constrangida.Na saída de um restaurante.Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado. . Jules estreitou os olhos perigosamente. Ou seria “não sei. Fiquei quieta para que a situação não piorasse. .

E sem olhá-la.encarou-a sério e completou com ironia. sem mágoa: . enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça. Queria que fosse diferente. – disse simplesmente. você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu. Amanda suspirou resignada.Minha mulher me deixou por causa dele. Por fim. – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia. Durante o café. – completou apertando-a contra seu tórax. Devolveu a crueldade. e essa atmosfera também estava interiorizada nela.Tentarei não complicar mais as coisas. -Vamos tomar nosso café. num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. provavelmente.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. -Meu estômago está fechado. E. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. Concordara com o documentário. . Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo. conhecido por seus programas de economia e administração. respondeu como quem se livrava de um peso: .A sua prepotência também é um tipo de viodência. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade. estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo. bien. claro. -Mon Dieu.Eu deveria mesmo considerar-me superior. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. pode parecer bobagem. Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. Amanda. os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. parece tão desprotegida. -Ninguém gosta de sofrer. Não queria mais discutir. manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. por poucos e eternos minutos. Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas. . diante de si e fitando-a duramente.sussurrou. No entanto. – pediu-lhe entregando os pontos. conseguia sacudir-lhe os alicerces. depois de pronto. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental.. mesmo por que perdia todos os rounds. Jules. Aproveitou para recuperar a paz perdida. pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo. nos braços dele. Num minuto. –murmurou mais para si mesma do que para ele. Todavia. 58 . . telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. era isso que o deixava incomodado. após alguns minutos de silêncio contemplativo. entre todos os seis bilhões de terráqueos. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades.Esqueça-o. . o que dizer? por putes. . Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras.. Ele não se mexeu do lugar.

– virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. todo o conjunto. . Ele ergueu os olhos para o alto. as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si. Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o. Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa. a certeza do seu lugar no mundo. Touleause. Por um momento. Sorriu consigo mesma. Prometo. até arrependeu-se de se impor dessa forma.Espere um minuto. e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas. – afirmou. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. A ruiva de cabelos lisos. – brincou. causava a Amanda respeito e excitação. – murmurou. Corria o risco de ser 59 .Ou eu ou o trabalho.Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la. Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. seguindo de perto a rotina do chefe. . Por outro lado. levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO. Jules apertou-lhe o ombro. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada. vestia-se de forma sóbria e insinuante. sorrindo. cortados rente à nuca. sem desviar os olhos dos dele. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz.Última ligação e desligarei o meu também. Diante dela. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. devagar. retirou o microfone da gola da blusa.. numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente. nos lábios. um executivo.Culpa minha se os acostumei mal. Alguém ao telefone chamou-o novamente. O rosto constantemente sério. que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente. . cabos e câmeras por toda a parte.Eu sabia que você adoraria a banheira. Intercalara as gravações em vários dias. -Não precisa fazer isso. Amanda teve que lidar com microfones.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. cheirando a colônia cara. os olhos pousados nos lábios dela: . Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos. Encaminhou-se até ele. fios. – fez uma careta desolada. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. um tipo que vivia engravatado e penteado. . olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida.. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules.Senta no meu colo que a gente já começa por aqui. Jules deu-lhe pequenos beijos. abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . . . Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo.

. A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. deslizando para dentro com confiança e força.Tem razão.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. ao encontro dela. ainda assim. Após cair aos seus pés.? – sussurrou-lhe ao ouvido. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. Ele voltou de cabeça baixa. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava. ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. quietinha. – declarou. ao mesmo tempo. E ela não queria uma queda-de-braço com ele. Mas dentro de si.Espere-me aqui. impulsividade não combina comigo. que eu já volto.. ela pensou. sorrindo deliciada com a atitude dele. Eficiente em tudo. sem se mexer. apertando-lhe as nádegas. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules. exibindo o membro grande e duro. enquanto subia os degraus da escada. dando as costas a Jules e subindo os degraus. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. Jules. . ergueu-a no colo. Havia-o sentido todo dentro de si e. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. mal lhe tocando a pele. com sede e fome. brutal e ostensivo. . Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. Em seguida. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. Parou e constatou com um sorriso. Amanda já estava decidida a mudar os papéis.Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. ainda de pé diante dela. ironizou consigo mesma. aos poucos. fitando-a sugestivamente: . Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. numa carícia sutil e devastadora. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. Não bastava simplesmente desligá-lo?. ia transformando-se em ímpeto e desejo. chutou-a levemente para o lado. Pressionada entre a parede e o homem. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela. Havia uma luminosidade suave na feição máscula. pensou. mas. deixou-se ser despido.. Após um breve silêncio. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro. Observou o volume considerável pressionando o jeans. preta. Num movimento rápido. ao deslizar a língua sobre o membro dele. Já na metade da escada. concentrado em desligar o aparelho. desejava e admirava. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros. delicadamente. Quando chegou bem perto. num tom de desolação e desejo. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. posicionando-as sensualmente atrás. ele tomou posse novamente do seu celular. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . que.O que está fazendo comigo. devagar. sem beijá-lo.. De olhos fechados. Amanda gemia e entregava-se ao prazer. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. divertindo-se: . Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se. era também macio e gostoso. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. Como alguém podia ser assim?. Sentia-se embriagada e.

Beijaram-se como loucos. desenhando um arco com o corpo. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. afastou-lhe as coxas e. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. No minuto seguinte.. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. Após três ou quatro estocadas. apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. Abocanhou-o aos poucos. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. Capítulo X No teto de vidro. Viu-o jogar longe a cueca. e 61 . encaixando-se entre as mesmas. intrigado. para mostrar-lhe quem mandava agora. prazerosa dor. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. gemendo e erguendo os braços. constatava. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos. com os olhos semicerrados. Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele. Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas. independente. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. ganhando milímetro por milímetro. – gemeu. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . Tencionava servi-lo. em seguida. por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer. Mas ela não queria justificar-se e. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. mexendo o quadril para cima e para baixo. baixinho. sabia o que estava fazendo. tornar a sentar-se devagar. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la. ao sentir-se penetrada. deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. num vaivém violento. Depois. no sexo intumescido e. penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. Incitou movimentos lentos e cadenciados. Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. Experiente que era. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. em seguida. gozou. A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. os efeitos desse ato. Ela encurvou-se para baixo.. -Não quero gozar ainda. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. mordendo o próprio lábio inferior. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. Antes que gozassem. a fim de alcançar-lhe os lábios. primeiro.

o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. delimitava-os cada qual em seu lado.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. eram amigos de longa data. -Pois é. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. Mas. Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. arremetida por um vento ascendente. Ao redor. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente. Apenas vinte e quatro horas juntos. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade. isso mesmo. sentindo-se frustrada.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. Pelo visto. ela não era apenas sua assistente. Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia. Ele sabia.disse gentilmente. Dito da forma como ele dissera.Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido.Mas quanto à vida sexual. -Comprei o chalé construído e. quanto mais sexual. Pena termos de voltar após o meio-dia. Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. agora. –deu de ombros. .e tal informação ela não sabia . Comentara casualmente a Amanda . Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo. chocara-se com força contra a montanha e explodira. comentou divertido: . – constatou um tanto contrariada. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha. Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você. Mesmo assim..Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada. Era normal. mademoiselle Rossi. O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta. por mais que ultimamente lhe fosse difícil. Haviam transposto uma fronteira que. . . Tagarelava sobre o tempo. sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que. Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. Ela sabia. o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens. antes. O vento não estava tão forte e a neve cedera. No meio do caminho. pôs os óculos escuros. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. iam-se estreitando. da assistente que obedecia às determinações do chefe. displicente.tão. eu mal tenho uma vida. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . à sua mansão com a esposa. empurrado pelo vento forte.Obrigado pelo “bom de cama” .. obviamente. colocava-a na posição de sempre. eram adestrados e obedientes. na medida em que se subia. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela. havia cinco anos.. A bem da verdade. e não apenas patrão e empregado.Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. paredes de alvenaria em pátina azulada. Depois. Precisava manter-se centrada e racional. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se. Amanda não gostou do que ouviu. Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada. embaixo d’água. num tom claro e discreto. Jules acomodou-se ao lado do piloto.. 62 .

como Alexys é bastante popular. ponderando sobre cada palavra. intrigado. – suspirou e continuou num tom firme e. do alto. principalmente. em seguida. sentindo o rosto corar. sorrindo alegremente. Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém.Era engraçado.Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa. –refletiu. . que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade.. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. um pouco. Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio. logo. absorto da conversa com monsieur Koskinen. Seguiram juntos até o elevador panorâmico. parecia coisa de filme. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: . Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si. . E completara. Alexys da recepção também. e. você conhece o seu chefe melhor do que eu. para a assistente do executivo. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva. Ao passo que Jean Baptiste. ao celular. era linda e majestosa. para onde Jean baptiste seguiu. Amanda considerava extrema falta de ética por parte. o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History. O semblante de Jules fechou-se ainda mais. A visão de Paris. com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. Meio minuto depois. para o andar da presidência.. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa. assobiava descontraidamente A Marselhesa. Amanda conteve a vontade de rir. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules.. – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório. não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . caloroso:.? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário.. E. ainda mais vindo de funcionários.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária. . – em seguida. 63 .. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys. a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. e se Dorian sabe.. . como se estivesse chegando e partindo de verdade. à noite. o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa.Quê? – indagou Amanda. completou: . Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair. bem.. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e.Dorian. está preocupado com o teor do programa.Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. ao mesmo tempo. Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho. baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. depois. – fez um trejeito com a boca.Na verdade. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente. mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. da secretária da presidência. bem..Ele comeu e não gostou? . que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes.O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas. Ele estava sério.Talvez.

Por um momento. e acho até que já ficou por lá uns dias. tivesse direitos sobre Jules? No entanto. falava com Jarkko. justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. Geneviève. . antes de entrar. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora. de sua parte. – declarou Amanda. de pé. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria. Sentou-se em frente ao computador. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca. mas não via nada. né?. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. melhor. Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne. . mas você também podia fechar essa boquinha..e ela acreditava que sim. A secretária-júnior matou a charada. non. pois. ora.. A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali.E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé.Quando o chefinho comprou o chalé. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. no estômago em chamas. mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. Novamente esse nome.. . 64 . se de fato houvera tal conversa com Jules . como se ela. Projetavam em menos de um ano alcançar. .replicou Assíria. Por isso.Non. para todos os efeitos. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha. Falou-me sobre privacidade e sossego. ela sim. Annie adorava Jules e o protegia como um filho. estava ocupado com outra ligação. – baixou o tom de voz e completou: . e Jules não gostou nada disso. Estocolmo e Copenhague. jamais falaria para a imprensa. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas. pensou Amanda.Geneviève sabe sobre o chalé. os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação.Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico. chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel.A jornalista sabe sobre o chalé. Acreditava em Dorian.Amanda. Ele. okay? . Por quê? . além de Helsinque. eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que. Não deem mais mancadas. então? Ou. Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules. O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência. Além do mais. tinha direitos sobre ele.Obsessão em Paris Veronique Gris . mesmo em estado vegetativo. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo.. na verdade. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. aliás. algo assim. de frente para a parede de vidro do escritório. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. um sorriso aflorou nos seus lábios. já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro.

Às vezes havia chispas de tensão. deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. o vice-presidente. eram entediantes e longas. claro. No entanto. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. . de mogno. em seguida. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o. Era uma loba acostumada a andar na selva. –respondeu. mas Jules parecia ligeiramente tenso. No fundo. Não havia queda de braço que ele não vencesse. A pescoçuda conseguia. Não agendaram nada com você.A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: . corpanzil. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. escurecendo aos poucos. Nas extremidades da mesa retangular. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa.. trocas de farpas e ironias de lado a lado. mesmo por que possuía o número do celular dele. Ao seu lado. diretora financeira. . principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. A neve havia cedido há algum tempo. Nem mesmo monsieur Roche.Bleu e Rocco. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos. Marion. Amanda. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. Meia hora depois. fechá-la. –defendeu-se.Marion. a noite chegava de mansinho. irei recebê-los. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. Reclamou. Interrompeu-se e cruzou os braços. com direito a cara feia. Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . caçar e se prover sozinha. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação. afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. Do outro lado da janela. Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. – ordenou com o semblante fechado. porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. mas covil. inclusive. normalmente. -Non. Jules. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. As reuniões na SBO. Mais caricatos impossível. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. então.Agora. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. em vários tons de laranja e azul.. Pôs a xícara de café sobre a mesa. que já se despedia do finlandês. você não é uma síndica de prédio. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. e Jules o sabia. a cadeira de Amanda. nariz quebrado e cicatriz. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não. por que. seu grande amigo. Merci. O que não era verdade. Amanda admirava mulheres fortes e poderosas. apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. apesar de estar dentro de um covil civilizado. monsieur Touleause e na outra.

. analisando o relatório do diretor de vendas.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala. Marion riu baixinho. Victor descerá e fará o café para todos. pode trazer o café da sala de Jules mesmo.Quem quer café que desça e faça o seu. cabelo loiro e olhos de rapina. comentários foram seguidos por um silêncio profundo. No entanto. antes que saísse algo de sua boca sem batom.. Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá. Jules. Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia. Touleause até tentou rir. . jamais voltaria a lembrar. tratando-os como iguais. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores. Nunca estava no lugar certo. ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar.Pra quê tanto drama. mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido. . é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. terno bege.Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida.Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. mas. Era o VP. – resmungou e continuou: .Então. Afinal. s'il vous plaît. .. .Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro..Não se incomode.. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência. Assim que os dois homens saíram. Assim. oui. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. de gravata borboleta vermelha. Mas. certamente. – Jules disse sem tirar os olhos do papel. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios. Jordan. – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente.Oui. Sentia no ar a tensão. Na maior parte das vezes. como se Jules estivesse brincando. . por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar. você sabe. Nem Paris nem Porto Alegre. já volto. O primeiro foi de Marion: 66 . . Jules interveio calmamente: . . já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa. pois. foi impedida de sair da sua cadeira. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam. Marion pigarreou. agora.Sou improdutivo. monsieur Touleause.Não vamos retardar a reunião. de pé. Não se esqueça de trazer também o adoçante. Comece. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los. é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo. Com licença. Assim. .Vamos à minha sala. estava muito abaixo da diretoria.Oh. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras. .Eu tenho ações aqui. é problema seu e da sua consciência. mademoiselle. Sinta-se à vontade. no lugar onde deveria estar. custos.. .. para o vice-presidente. impostos. nada mais. não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. –declarou com naturalidade. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam. Jules estava próximo à janela. quero ouvir o pessoal produtivo falar. mademoiselle Rossi. como achar mais adequado. Jules. durante as reuniões. mais uma vez.

. Maurice. com certeza. tinham de aceitá-la. diretor de vendas. Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão. até hoje não sei qual a sua função. Ao que Maurice. Agora. como já dissemos a mademoiselle. perde apenas para Touleause.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada.Não tenho nada contra a sua assistente. . – disse Marion visivelmente contrariada. dificulta como pode. .É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche. sozinhos. do dono de tudo. . . . Estou protegendo a saúde dele. mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios.E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco. Agradeço os esclarecimentos. . fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: . Como todos se fizeram de desentendidos. ela não é apreciada pela diretoria. .Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos.Obsessão em Paris Veronique Gris . . ponderando.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os. de agendar horários para falarem com Jules.Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? .Bom. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada. digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 . pelo visto. Sinceramente. . podem resolver. monsieur sabe. Ele comanda a empresa do alto. física e mental.Essa discussão é completamente fora de propósito. – informou-a o diretor. Jules assentiu levemente com a cabeça. – disse Marion. E ele. do homem que fazia as coisas acontecerem e eles. . De certa forma era divertido. temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor.Pega leve. trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente.Entendo. longe de todos. -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme.declarou Maurice com o peito estufado. . Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador. Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. eles não topavam Amanda Rossi.É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor.Oui. pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta. . – concluiu Maurice. -Para falar a verdade. – replicou sem se alterar. Você não facilita o nosso trabalho. no lugar onde você o colocou. completou.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. pelo contrário. E sabia o motivo: inveja. estava horrível. de sonhar com planilhas e computadores. nada disso teria acontecido.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. aceitaria novas tarefas. Não. Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. . mademoiselle. os grandões da diretoria.

com os nervos em frangalhos. apenas dois caíram na armadilha. ligue para o meu celular. De qualquer forma. Caso queira me encontrar.E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. atrás de si.. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências. mas Amanda sentia-se exausta. Voltou-se para ele.A reunião foi um desastre e está encerrada. .Assim que terminar umas coisas por aqui. ela sempre me atendeu prontamente. . Em seguida. – disse impassível.Como vocês falaram mesmo?. surpreendentemente. . de pé e com as mãos sobre seus ombros. ela aguardava Jules na sala dele e. .Todos. Após a reunião. Nossos advogados também farão o sacrifício. teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto. . ah. Céus.Jules. – disse quase sorrindo. na próxima. na cadeira dele. monsieur. como é mesmo?. A noite recém começara.Certo. Maurice. De repente. ao entrar no escritório deu de cara com a loira. que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa. emendou: . mas uma dama.Fale por você. Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram. estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: . Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa.Interessante. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente. e. mademoiselle? . sem vergonha na cara. está cansadinho? – antes que ele respondesse. Sempre sorridente.Anotou os nomes.Quero nomes. 68 . agente fa-ci-li-ta-do-ra.Como? – Jules indagou-lhe. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência. sempre impecavelmente vestida. – disse Jules sem muito interesse. .. sempre pronta para atacar. Entretanto. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez. que vitalidade tinha aquela mulher. – indagou estreitando os olhos sagazes. Algo mais? . irei para casa.Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos. . exibindo metade dos seios siliconados. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. Bonne nuit.. – falou Marion com franqueza. .Obsessão em Paris Veronique Gris uma. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina.Oui.Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la. Vestida num terninho violeta.. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores. virou-se para Amanda e falou sério: . prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente. capacho de Maurice. uma. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca. Não sejam tímidos e levante a mão quem não. Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: . monsieur. mon chéri. Havia duplo significado na frase? . Era uma dama. Marion. conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar. . confuso.

Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle. segundo Assíria. no seu lugar. Além do mais.Não tem que ir embora. -Preciso trabalhar. – disse ainda sério.Que cruz? – indagou Jules sem entender. – François gosta muito de você. Se já eram amantes ou foram amantes.Vem comigo. o documentário. –Além do mais. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos. mas como era uma dama educada e polida. praticamente se jogando para cima dele. vadia. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. porém. Guardou o papel na bolsa.. havia certo divertimento nos seus olhos. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela.Nosso jantar com os Roche.Pode ir.Bonne nuit.Vamos para minha casa. Geneviève já a olhava de forma estranha. O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. . era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. quase gritou. Ela não tinha motivos para continuar ali. Jules. mademoiselle Rossi. Geneviève fitou-a desconfiada. Pedimos comida e relaxamos. pegue seu casaco. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. porém. fosse qual fosse a situação. mademoiselle. o deixava com uma. que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . não vencia todas.A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche.. que veio prontamente. e tampouco sozinha. Por todos os deuses.Jules é casado. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. Não conseguia mais se controlar. – declarou sem se alterar.. Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio. agora.Por que não assiste com eles. Que tal? Chega de trabalhar. . Odiava a vaca.. por outro lado. Pois é. Amanda. sozinha. .. . mademoiselle Rossi? . já lhe doía o estômago. sabia? – viu-se falando tal asneira. Qualquer mulher sensata. Sentia a garanta seca e falta de ar. Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. devo avisar Sonia que não jantaremos lá..Não. E. – respondeu sem fitá-la. – teimou. cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora. . vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta. Impossível. . porém de cara amarrada. 69 . então. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair. Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz. –pediu ela. entre no seu carrinho e vá para sua casa. vagabunda!. agora. -Vou ficar também. ignoroulhe o comentário.Obsessão em Paris Veronique Gris . Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. . Antes. se a francesa havia passado uns dias no chalé. endereçou um olhar feroz a ela. Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa. . mon chéri. odiava! . ainda por cima. -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê. -Todo mundo sabe que sou casado. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules. voltava para casa sem Jules e. Jules.Eu entendo. Não. A situação começava a ficar constrangedora.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
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ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

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de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

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As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras. gerara. . completou de forma casual: . seria um riso amargo. parira e criara. a única. então.Oui. antes que eu me esqueça. permanecia sentado. Ignorando a pergunta. Era incrível. Geneviève jamais foi ao chalé comigo. – disse pacientemente: . A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes. Amanda. com um nó na garganta. .Bien. as normais. observando-a impassível. ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá. parecessem sempre histéricas. Em seguida. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira. eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento.Non. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes.O tal refúgio era para os encontros com ela. –declarou com raiva.Eventualmente. . de Geneviève e de si mesma. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra. Jules? – insistiu. contendo a raiva crescente. porque é prima do exproprietário. . E ela aceitou as regras pacificamente. o diabinho que a concebera. estreitando os olhos. não tem nada a ver com a nossa vida. Ah. –afirmou sem se alterar.. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite. Preferiu manter-se calada. . debochando...Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. o queixo escorado no dorso da mão.Isso não lhe diz respeito.Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. Jules não se abalava.. mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava. Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: . – Está tudo explicado? . raiva de Jules.Não éramos amantes. Aliás.. certo. como? – interrompeu-o com ferocidade.. Inacreditável!. Essa sua calma irritava-a e muito. Por um momento.. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”.. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa.Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado. . No entanto. Jules sorriu. besteira! – completou com ironia. os maxilares trincados.Encontrávamo-nos eventualmente. pensou ela quase bufando. a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe. a especial. espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse. -Você é amante dela. –Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável. se risse. Ela sabe sobre sua existência. . era tão antiquada. .Onde vocês se encontravam? 73 .Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou. pensou.

É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual. Obviamente. completou: . paranoica. tocando-lhe o queixo. à espera. de frente para ela. eu ou você? . Ela.Na casa dela. Cogitara inclusive matricular-se num curso de português. -Não gosto de mim assim.Obsessão em Paris Veronique Gris .suspirou profundamente. os maxilares contraídos.. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista. – justificou-se chateada consigo mesma. mas.. pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa. Olhou ao redor. Sempre haveria Jacques. ma chérie.Não sou casada. Suspirou resignado. doente de ciúme. – Que tal? Quem é mais promíscuo... correu até o quarto. – falou. abriu a bolsa. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar. Eu não sou assim. Ele tencionava vestir-se e partir.. e não vejo mal algum. -Oui. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève. – em seguida. por fim. após um longo silêncio. insegura. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite. – disse secamente. mas algo em sua postura. enfraquecida.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne.. . Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua. agora. sem a mínima curiosidade.sexuais? – elevou a voz. -Quantas vezes. O melhor a fazer era deixá-lo partir.. pardon. . –fulminou-a duramente. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos. Rochelle e agora Geneviève entre ambos. -Interessante. Amanda tivera que fazer o cancelamento. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. –respondeu sem hesitar. Ele tinha razão. sabe sobre nós.. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. -Você é o que você sente. – comentou com maldade. mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos. Quantos encontros. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 . À época. estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa. . que a olhava com seriedade..Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra. Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda. devagar.. preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais. Preferia a época em que aquele homem à sua frente. – concluiu em tom de censura. medrosa e insuportável. Escrito em português parecia mais significativo ainda. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português. -Um homem tem suas necessidades.Essa é fácil responder. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar.Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. parado. – disse com desprezo. Só procure sentir certo.

e olhou-a com a sobrancelha alçada. deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. Amanda arquejava. por cima do pijama. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. devagar. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela. molhando-o com a saliva morna. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. encharcado do seu sumo. duro feito pedra. num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele.Estou viciado em você. pulsava um coração de carne. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. ele frisara. Desceu para a parte inferior do seio. Amanda sussurrou-lhe o nome. chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. envolvente. Desejava-o com brutalidade. bagunçando-lhe o cabelo.. A pele vibrava e arrepiava-se.Como um dedicado cão de guarda.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira. – afirmou sem se alterar. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. encaminhandose para o quarto. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. Logo. em seguida. enquanto abria os botões da camisa do pijama. Agressivamente másculo e. ao mesmo tempo. e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo. Falou sem sorrir.Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. No caminho. louco de desejo. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 .Você realmente aprecia a cultura brasileira. lentamente. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. trêmula. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: . a língua brincando com ele. com a mesma presteza e insistência sensual. terno e sensual. objetivamente. A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino. depois. com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. – comentou balançando o cartão como se fosse um leque. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. Tocou-a entre as pernas. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para. Abriu-lhe a camisa e. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. como boa parte dos franceses o possuía. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. O clitóris pulsava quente. ainda impregnado nela. fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. acolhedor. . antecipando o próximo gesto. que foram explorados pelos dele. –olhou-a com desejo. soltou-os todos. Entre suas pernas. Queria-o entrando nela. automaticamente erguia o quadril do colchão. mas parou antes de tocá-la. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: .. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. Tocou no tecido de algodão do forro. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. na volta suave.Bien. –sorrindo maliciosamente. Num dado instante. Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço.

delirava a sua mente ciumenta. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas. em estocadas fundas e fortes. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules. Deus!. e na sua voz traduzia-se desespero sexual.. . Perdeu-se no devaneio. ele era lindo gozando. 76 . Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento. Ela o abraçou para fundir-se nele. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. rouco.quero ver seu rosto. estava no seu limite. a boca.. no lóbulo da orelha. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. com os joelhos fincados no colchão. mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. non? –disse. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas. arfando. num minuto. torturando-o.... Louca de prazer. agora. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. que explodia em mil fogos. o pau.. friccionando-o. arreganhava as coxas. – Seria capaz de literalmente comê-lo.. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas. estrategicamente parou. fundo. era um macho alfa entre as suas pernas. e.. – gemeu. – gemeu respirando forte.. recebia Jules. trincava maxilares. mon amour.. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade. completamente entregue a ele.em Geneviève. Ouviu-lhe gemer. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. – ronronou. – Como pode ser tão linda. os fios de cabelo grudados na testa. Ele não gozaria antes dela.olha para mim. -Oui..E era a loira quem gritava. . lindo enfiado nela. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda.. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la.Misteriosamente. – Jules pediu.. sempre racional. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria.. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. – Está encharcada. você é uma fêmea insaciável. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos. o rosto todo brilhando numa camada fina de suor. irresistivelmente cheirosa. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta. não era mais ela que o tocava. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado. as mãos.. Ele fitou-a com um sorriso de aprovação. pau duro e pronto para agir. as têmporas latejando. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. – pediu com a voz muito baixa. -Deixe-me vê-la gozar. com fome.. suando por cada poro.Abra as pernas para mim. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério. enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais. expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. enterrou-se dentro dela. Antes que ela gozasse. no alto da montanha ígnea. sempre analítico. todo ele. Num movimento ágil. era o seu terreno. golpeada pelas estocadas firmes. Levantou os braços para trás na cama. monsieur. era bom em tudo o que fazia.. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. Constatou com apenas um leve toque na calça social. puxando-lhe o queixo para si. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação.Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm. enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela. via. aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se.

– afirmou jovialmente. Jules riu. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. Deitou-se totalmente sobre ela. levante-se e vamos comer.. Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. – disse baixo num tom ríspido. pouco me importo se engravidá-la. tenho quase 40. non. Jules parou por um momento. -Está distante. empurrou até o fundo o pau dentro dela. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. continue. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. talvez fosse o único vinculo entre eles. -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada. De minha parte. a cabeça virada para outro lado. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme. Amanda. continuou no mesmo tom: . -Termine o que começou! .gritou exasperada. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol. tentando fugir daqueles olhos inquisidores. . Jules ignorou-a e. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. -O seu objeto sexual não foi saciado. com dedicação. Amanda. de reprodução. -Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. Ao passo que. com velada dedicação. encaixado nela. Com a expressão impassível. Agora. e era beijado por ela. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. fingindo não entender o tom raivoso dela. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. com a gravata na ponta do dedo. sinto-me muito bem. –mandou. hoje é um dia normal de trabalho. o que foi? -Não pare. – antes de sair. gozou estremecendo o corpo. muito ciúme. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. avaliando a situação. só penso que um dia terei de ser pai.Uma precaução anticonceptiva. após três ou quatro arremetidas selvagens. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. de costas para ela. no seu caso. excitava-a por demais. virou- 77 . Com Geneviève eu usava preservativo e com você.. Se ela só lhe servia como objeto sexual e. ma belle. arrancando um gemido de dor de Amanda. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. a fim de evitar o olhar hostil dela e. Amanda sentiu uma dor aguda. então que fizesse o serviço completo. e já buscando as demais peças de roupa. o sexo. Mas não naquele momento. -Não gozou porque não quis. -Abra os olhos. tocado. abraçava. irônico. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca. pelo visto. você é muito boa e a cada dia está se superando. Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras. balançando-a com displicência. com violência. porque gosto muito de foder.Vamos. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. que colada ao seu quadril. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão.

Não seja boba. charmoso e gentil. No Le Petit Cler.Estou falando sério. Agora. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. eu diria. É diferente. Precisamos encurtar distâncias.Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis. os homens surtavam com mulheres ciumentas. -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. Amanda. a bem da verdade. ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim. Se gostou do Brie de Melun prove esse então.Quero dormir todas as noites com você. nos vermos algumas noites por semana. – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca. Amanda. É cansativo para nós dois. Jules. -Entendo.Não estamos juntos de fato. – disse com um sorriso leve. . não tem amigos. também quero cuidar de você e até onde sei. . Dizem que os parisienses são os melhores. non? Livre-se dessa expressão de ofendida. Admirava a voracidade do apetite de Jules. . sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. o semblante circunspecto e concentrado nela: . Quem brincava com fogo acabava se queimando.Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . vento rascante e neve fraca. e não dar 78 . . não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico. . pensou. consistências diferentes. e sim trabalhando. Como era possível isso? Normalmente. o seu melhor amigo. Rossi. provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais.Eu sei. se vista e me siga. da Rue Cler. Jules. agora. então. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:. Que homem. É o que tem a fazer. Que mistério. . Não havia mais vestígio algum da discussão anterior. com características diferentes. . mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: .Temos de resolver a sua questão de moradia. Mas não Jules Brienne. A manhã avançava.comprar queijos. ele apreciava tal arriscado tempero. Jules estava estranhamente bem humorado. mulher. vinho e baguetes. Nós dois não queremos que isso aconteça.sorriu misteriosamente: .E com os homens. mademoiselle. fitando a calça do pijama arriada até os joelhos. Podemos. Esta rua tem os melhores queijos do mundo. .Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. não farei mais sexo com você.Você precisa ser apresentada aos queijos franceses.Realistas.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado. – tentou argumentar. -Temos de fazer o programa típico francês. Um conhecimento empírico. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez. O conhecimento que tinha a respeito de queijos. – declarou com um sorriso. Amanda degustava seu primeiro café do dia. eu já teria me consumido de estresse. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. – reclamou e seguiu sem se alterar. Cada região produz o seu. –completou com um sorriso ambíguo. . porém incisiva. Sou seu amigo. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor.

É horrível aquele casarão. Jules. . não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle. úmido. você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade. -Para mim. – pediu com gentileza. – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. quero um lugar nosso. a decoração. . Jules. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa.. Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu.O dinheiro é meu..Que por sinal é minúsculo. -Ela já está resolvida.. . Por isso.Sei das minhas obrigações. -Não. – disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro. Você escolhe tudo. e não numa espelunca três por quatro. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos. s'il vous plaît. oui? – disse fechando a cara: . Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda... -Está pondo-me contra a parede. Amanda. mas foi pega pelo pulso. Podíamos viver sob o mesmo teto. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle..Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama... -Fale por você. observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas. – respondeu devagar.E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos. ainda por cima. –exasperou-se. Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. acabou. . só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. nesse momento. eu ainda não acabei. Por que está fazendo essa cara? . . controlador e vai acabar me sufocando. distante da empresa e da minha casa e.Não vai dar certo. -Tem razão.. merci.É uma solução prática.Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão. se você quiser. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós.alçou a sobrancelha. em sua mesa. – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. -Sente-se. – enfatizou nervosa.Vida de puta de luxo. .Sente-se e me escute.Morar com você? – interrompeu-o assustada.Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. 79 . o imóvel. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe. – Além do mais. só estou expondo a minha opinião e. é verdade. . – ordenou baixinho.É muito cedo. mesmo que seja igual a da família Adams. Você é dominador. Jules.Não dificulte as coisas. Eu não gosto disso – disse duramente. Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida. eu gasto e você assina os cheques. – falou firme. e sente-se.Controle-se. nada mais. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento.. Non. .? Logo estaremos fartos um do outro.. . Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente. não precisa listá-las.. não sou apenas a sua assistente. – disse calmamente. Isso jamais acontecerá.. e eu me sinto muito mal morando lá. . ligeiramente exasperado. . – espicaçou-o sem elevar a voz.. – irritou-se. . Afinal. nunca dá. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo. Ameaçou afastar-se da mesa. . – constatou secamente.

digo por medo de me machucar.Devia provar o croissant daqui. tornara-se a sua amante. Fez novamente um sinal ao garçom.concluiu com um trejeito nos lábios. – encarou-a com firmeza. E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa. Pode soar como algo feminista. Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas. Jules abriu a carteira. diárias. Ela meneou a cabeça em negativo. discretamente. pelo menos.E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego. – enfatizou. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito. era o suficiente que se encontrassem 80 . os lábios contritos. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde. pedindo-lhe a conta. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher. mademoiselle. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia. O dia será longo. Não tenho mais o que fazer por ela. -Sei o que faço. vamos trabalhar. vamos tentar do meu jeito por. Uma sugestão aos roteiristas de cinema.Veja bem. será recebida por uma excelente equipe médica. . . Observou Jules sorver o café sem açúcar. No início. –Agora. a amante de um homem que não falava em amor. . Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules. No meio disso tudo. eu sei.Proponho-lhe uma experiência. ainda não entendi qual seja. Na primeira semana de procura. Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda.Caso as coisas se tornem complicadas.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . –Tenho que arranjar uma solução. Um pragmatismo de doer os ossos. – afirmou com segurança. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio. que. tentamos do seu jeito. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque. um lugar para morar e você. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:. no escritório. seis meses. Tudo de uma vez só. qualquer outra coisa está fora do meu alcance.Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional. -Não quero ficar entre vocês dois. sinceramente.Se Rochelle sair do estado vegetativo. . Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. Virou-se para Amanda e completou calmamente: . e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara. sério. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa. –declarou. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: . Perceba a situação em que você me coloca. que.

dormir com ele. Ambos tinham consciência de que. de modo seco e brusco.. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. Os apartamentos não eram numerados como no Brasil. Monsieur Ferrer era calvo. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. . Na porta dos apartamentos. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. na cobertura do prédio. acrescidas de um sorriso significativo. Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. no mesmo arrondissement. Além de dois vasos com plantas verdes que. sem janelas. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si. monsieur. com uma etiqueta com seus sobrenomes. ainda. Ao que Jules comentou de forma casual. analisando e. dialogar profissionalmente com ele. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. Falava rápido. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando.Graças a Le Corbusier. continham as caixas de correspondência de cada morador. – empolgou-se o corretor. decidindo. . Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. o braço possessivo sobre a sua cintura. menos numeração. um desenho. ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules.Pardon. um quadro. sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. o registro dos diversos ocupantes do imóvel. nos restaurantes ou na sala de reuniões. francês. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. um arquiteto daqui. Na maior parte dos prédios. Amanda estranhara o fato logo que chegara. de uma calvície melancólica e lunar. pequenos. ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. Mas a situação tomou outro rumo. branco quase brilhava sobre o pescoço curto. calçados num italiano com cadarços atados num lacinho. 81 . parada e estupefata. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. todas as manhãs. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. uma indicação peculiar. . O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. em Montparnasse. O crânio redondo. . A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar. . no corredor. Jules avisou-lhe que eram de plástico. mesmo trabalhando juntos. enroscado pernas nas pernas.. E vê-lo e falar com ele em sua sala. falando. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. hipnotizada pelo ambiente. afirmando. – afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. após Amanda aspirá-las com ar sonhador. no elevador. Entraram por um corredor comprido cujas paredes.O dono da ideia. observava cada detalhe do loft.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França.

ela pulou no mesmo lugar. sorrindo. Mas era o executivo workaholic que raramente sorria. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta. que se restringiam a três palavras: Amanda. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. denunciando a sua criança interior.Merci Beaucoup. quem gargalhou com jovialidade. oui. Isso ela lembrava por dois motivos. não naquele momento. admirando a sala dividida em três ambientes.Adorável! – murmurou quase batendo palmas. tremendo. acenderam-se. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes.. . E ela desligava o celular.Seremos felizes aqui. No entanto. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente. Em princípio. o primeiro deles referia-se aos telefonemas. Quando chegaram ao terraço. fazendo careta. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte. Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. .U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules. criando uma atmosfera lúdica e romântica. era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. A pressa era do outro. Na verdade. ça va?. enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar.. não deles. – previu. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: .. desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques. . um balanço. apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa. Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. que ela conseguiu pronunciar. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles.. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista. pensou. ela teve certeza de que desejava morar ali. constantes. e Amanda podia ler em sua mente: oui. Sem conter a alegria. Com a maior naturalidade do mundo. – declarou-lhe em tom de brincadeira. captando o grau de seu contentamento. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 . prateleiras de madeira com mudas de temperos. Como agradecer um presente como aquele? . cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. ela pensou.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. . o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas. E foi exatamente neste momento. como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta.

Melhor impossível. Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. No dia seguinte. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . monsieur. apostava todas as fichas no intelecto. a beleza máscula da França. Jules jantara com o amigo de longa data. na época. distribuída em peças raras e móveis antigos. uma espécie de mentor da SBO. Fumava demais. Ele. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. Ela. Assim. praticamente um irmão mais velho emprestado. e tampouco ostentava outro acessório. Em seguida. altura mediana.Imagino que estejam na biblioteca. Ao passo que François. lado ao lado. atendera diversas vezes os telefonemas de François. sagacidade no olhar. que aparentava sessenta e poucos anos. charmoso. Não usava joias. Juntos. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. Apesar de solene. em Montparnasse. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. naquele momento. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. Entretanto.Já faz algum tempo que não nos visita. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Havia nele algo de nostálgico. baixa. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. ligeiramente arrebitado. sorriso acolhedor. atarracado. numa das noites mais frias do ano. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. Gerard. de forma genérica. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. Morava com Jules. meu caro – respondeu jovialmente. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. não combinavam. decorado de forma austera. deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar. túnica e saia beges. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado. Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques. Advogado por profissão e paixão. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. Óculos de armação moderna. Amanda recebeu um olhar significativo. cabelo claro cor de trigo. preservando elementos herdados de gerações passadas. qualquer museu). e era importante manter a estabilidade dos dias.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. maior que muitas quitinetes de Paris. exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. À porta. ainda. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. Na mão. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. Crepitava lenha na lareira imponente. -Oui. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: . por sua vez. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. Agora. Tinha para si que. com os Roche. relacionava-se ao jantar. Nariz fino. Era mais alta e mais magra que o marido. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. Como está. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. monsieur? . um cálice com vinho tinto.

sinceramente. . ressoou no ambiente. mon cheri ami. -Percebi a manobra tendenciosa. A ideia é que preparando sua sobremesa predileta.A parte do programa que citava Jules foi a melhor. debochando. – comentou François. encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”. acomodou-se François e. . foi a última. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa. Mas não devia tê-lo o feito. François começara a SBO com Jules e. O mordomo. – completou o próprio.E sou.era duro e desconfortável.Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros.. cada dia nos renovamos.Veio chorar no seu ombro? –perguntou. na sua figura alta e sóbria.uma relíquia arrecadada num leilão. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando.Claro. completou com delicadeza: . dando importância ao fato. Na cadeira à sua frente. tragou novamente o charuto e falou devagar:. conforme informação veiculada pelo próprio François . Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. – declarou François entre uma tragada e outra do charuto. sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento.Touleause está preocupado. -Merci. .Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental. com as pernas cruzadas displicentemente. -Na verdade. – falou com ar de falsa inocência. após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda. . Após os devidos cumprimentos e apresentações. durante algum tempo. – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. todos o somos. fora o vice-presidente. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. .-comentou sem jeito. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. pensou Amanda. . -depois. mudou de assunto e disse de forma afetada:. –agradeceu-lhe. – enfatizou. sorrindo tranquilamente. – disse François com seriedade. : . monsieur Roche. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. para eles. mas. -Afirmou. o executivo.Mandou fazer o que pedi. Sei que parece idiotice essa coisa de crise. . exibiam os cursos realizados pelos Roche e. venha nos visitar com mais frequência. ele queria que eu o aconselhasse. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. figuras humanas ou monumentos históricos. O legítimo bonitinho mas ordinário. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse. -fez um muxoxo. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX. mas ele insinuou que você parece outro. Depois. Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 . ironicamente. .Claro. mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos.Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria. Revestindo boa parte da alvenaria antiga. diplomas enquadrados por molduras grossas. Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro . ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite. voltando-se para Amanda. entregando-lhe um cálice de vinho. a verdadeira arte. arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa. mademoiselle Rossi.Por que não nos ajuda. sério. atravessou a sala. ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. Ao lado dele. Jules. não tinha paisagens.confirmou Sonia sem sorrir.Sei que trabalha muito. Amanda considerou. O homem está se sentindo um tanto incomodado.. Amanda aproveitou para observar os quadros na parede. fiquei interessado em conhecê-la.

. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. Mas queria. Uma mulher com uma missão.. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha.. endereçou um olhar em direção a Jules. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se. Afinal. Quais critérios ele deve ter utilizado.. alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota.. Armada e decidida. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia. enfatizou. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice. caso ela tivesse de ser substituída. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou. descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. afetuoso. Amanda Rossi. . – comentou como quem não quer nada. Sorrindo e completamente à vontade.. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules. Na vez de Jules. cantava tangos. Amanda pôde comprovar. Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto.. na última seleção. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO.Rossi. outrossim. Mas não foi Raj quem apareceu à porta. perolado. James Bond.. Por que não se divertir. como todas as noites? Rossi. François cumprimentou-a com outro abraço.. Porém. a “nossa” Geneviève. confusa. curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève. Amanda Rossi. já que fora eu quem o convencera a ter uma. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. e sim um vestido de seda.Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha.ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules. os homens levantaram-se educadamente. À sua presença..? –interrompeu-se. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas. Insistia. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond. 85 . Jules era casado com a “nossa” Rochelle e. nada melhor que sua cópia. resumindo. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL. -Como vai. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. sem sorrir. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios. Automaticamente. pergunto-me. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. mademoiselle. ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto. não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém. Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: . brilhante aluno da Sorbonne. Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia. como empresa e não pessoas. Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. Sonia cantara a pedra.. concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. nos últimos sete anos.

. Na verdade. fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente. dos alimentos transgênicos. Seria ótimo tê-la conosco. non. segundo informação importantíssima de François. Amanda observou. que antes tendia ao enfado. Raj retornou à cozinha. a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. possuía ares de desconfiança. Meio eufóricas e um tanto sôfregas. a decadência do Botox. Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito. sabia? – informou François com um sorriso. emprestadas da Marie Claire francesa. E ela sentia-se perdida e deslocada. Atrizes no palco. Após exclamações discretas de satisfação. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. Ao seu lado. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. Algo o incomodava. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio. . com louro. . 86 . Vez por outra. mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas. Um cheiro fantástico. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. Foi então que começaram os primeiros tremores. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. emergindo de dentro das veias. não sentia mais nem lábios nem língua. os babuínos que atacaram um vilarejo. saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau.Oh. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. Numa tigela de cerâmica. reuniões e horários restritos. que sorte. Exótico. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . lembrando pimenta e nozes. torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. agora. o delas. agora. Um interesse excessivo. Seria tão bonito! -Très bien. – falou Geneviève com entusiasmo. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules.. o seu trabalho como psicóloga é fantástico.Como lhe falei aquele dia. Sonia. por nada em especial. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. comprada na China. quente e adocicado. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. a iguaria indiana. Após quatro cálices de vinho. Do outro lado da mesa. sozinha. . E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. Dois mundos e o vácuo. Fran! Amèlie é sensacional. erguendo-se da tumba. de frente para Geneviève. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. as pálpebras pesadas.na Índia.Estudei na Suíça com ela. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. e a plateia composta por apenas um homem. Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. chamava-se Moglai Biriani . agendas. canela e uvas passas. Sombras no olhar sério e profundo.no garfo e levava-os à boca.

apesar de estar sentado ao seu lado. Caso queira auxiliar-nos. aquele que se faz sem saber o porquê. – declarou quase que didaticamente. -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. na prisão. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. machista. Fora politicamente incorreta. .Falo trabalho de verdade.Na galeria do meu pai. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si.Obsessão em Paris Veronique Gris . parecia não lhe notar a presença. solícito. Foi como um raio que partiu a mesa em dois. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto. O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras. François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO. jurídico. rebateu num tom acusatório: . subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas. agora. . –retrucou Geneviève que. Geneviève.Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. o do tipo simulado.Tínhamos uma secretária.Todos no centro social trabalham.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura. Geneviève encarou-a com ferocidade. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. talvez não mais as que agridem no momento.Existe trabalho de mentira.Sua ajuda também seria fantástica. incomodada pela indagação rascante do homem que. de preferência. Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . por exemplo. François riu. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem. eles tornarão a agredir as mulheres. mon ami. sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. cortando a carne no próprio prato. –comentou Sonia saboreando o creme de manga.Tem de ser mulher? –indagou François. Esqueceu-se? – tentou sorrir. porém. Jules. mas ela está em licença maternidade. A moça mexeu-se na cadeira. sem olhá-la. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo. sejam psicológicos ou econômicos. adiante. me parece que se não são tratados os problemas dos homens. em seguida. olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: .Oui. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. Jules? . -Nossa função é somente para com a mulher. .Eu trabalho. como. encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo. . mas. além de protecionista. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro.. . Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e. poderia pô-los em ordem. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores.. -É verdade. Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar. Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e. Sonia interveio em favor da amiga. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: .Claro que não. voltou-se para Amanda com vivacidade: . talvez. eles têm de procurar ajuda noutro lugar.

Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . As coisas não são simples assim. Amanda. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. o centro. -Geneviève tem razão. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. só acredito que existam mais vítimas nesta história. mas sabia que seria confrontada. Estava prestes a explodir. -Isso. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. Ali. Contudo. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la. . isso é que elas significam: retrocesso.acrescentou Sonia protegendo a amiga: . humilhadas. Amanda sentia um mal-estar danado. esse jantar. Vamos para casa.E com razão. Ele a fitava com seriedade. -O que foi? O executivo contornou a mesa. -Não sou machista.Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas. Amanda. Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. não. – tentou ponderar. essa palhaçada. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. ah. Ei. – acusou Geneviève quase possessa. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores. Não havia nada de machista na sua ideia. ela mesma tinha sido vítima de um agressor. o equilíbrio. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo.Frutos de famílias disfuncionais. – ordenou. mortas! – quase gritou. Porque o seu mundo não era aquele. algumas de nós sofrem. – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. porque. Fran.São simples e verdadeiras. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. -Esse assunto mexe muito com Geneviève. jamais imaginara que entraria numa arena. Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas. Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . Queria mesmo era sumir. . Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. François. melhorarão a sociedade. Estava sem munição e longe de casa. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. . talvez. ela observou. François foi pego de surpresa e também se levantou. naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos.Retrocesso. As palavras saíam-lhe com dificuldade. . . Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair. Inconscientemente. lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto. ainda somos um pouco machistas. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. –disse Sonia. à mesa. Sonia. assassinos de mulheres e crianças. os lábios apertados marcando os maxilares. –completou François. ao sair de casa. são mutiladas. ela sentia-se mal e acuada. Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa.Que noite improdutiva.

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- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

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alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
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No

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-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

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mínimos. -Você é movido por combinações e acordos.você e sua prepotência. você deve ter outro plano guardado na manga. As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo. já que não é da minha natureza cometer injustiças. braços que a esmagavam contra o sofá. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. indagando com olhos sérios e perscrutativos: . Viviam juntos. então? – indagou desconfiada. 92 . . -Vai pro diabo. aquilo que me propôs no Café. -Claro. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas. não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia. – É interessante para mim que você saiba? – brincou. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules. -Então facilitarei para você a situação.. -Ah. – afirmou convicto.Caso não dê certo entre nós.Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas. -murmurou. não? – refletiu em voz alta. -Humm.. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. tornando-a uma coadjuvante no relacionamento.era um acordo.. -Sempre que posso.. -Foi uma sugestão apenas. Agora. você sabe. virando o rosto para encontrar o dele. porque me sinto em desvantagem.. E todas elas foram decididas somente por ele. -Queria saber uma coisa. os seis meses de teste. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. O que mais a preocupa. Quanto ao emprego.. -Se é um jogo. –disse-lhe num tom sério. .além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois. Minha opinião nem foi cogitada.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. Moravam juntos. E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela. –reclamou irritada. . – pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si...Não costumo dividir decisões. Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. sempre foi assim. -Se for interessante apenas para mim. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura. – comentou no mesmo tom. -Todos nós temos os nossos coringas.. inundando a sala de uma tênue claridade. – começou.. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto.. – disse emburrada. diminuindo o volume da televisão através do controle. Este apartamento é seu. – murmurou sem desviar-lhe o olhar. – disse sem rodeios. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si. você fala? – retribuiu a brincadeira.. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou.E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro. Ela tentou levantar-se do sofá.

obstruindo a passagem da claridade do dia. -Que seja. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. mal lhe tocando a pele. Não. – sussurrou resignada. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso.Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota. com um homem lindo e dormindo inocentemente. Afastou-se o suficiente para constatar que. O despertador tocou. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. Simples. Ele levantou-se do sofá. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa. Num impulso. Um braço masculino ao redor de sua cintura. eram sete horas. após passar a noite acordado. E os seus sonhos idiotas de amor.. Amanda pensou.. da rudeza sofisticada de sua espécie. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. da nossa relação. quando automóveis. Dava a noite e a conversa por encerradas. Encarou-a intrigado. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. assim. Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. em seguida.. Poderia fazer o que quisesse. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. desenhou o contorno do seu lábio inferior. E ela. Sentou-se com as pernas abertas. E se devesse. ela pensou. Estava quentinha debaixo do edredom. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior. Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos. Mordeu-lhe o lábio inferior. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. desejando ainda mais. na cama. Deslizou a língua para o queixo másculo. delicadamente. prazer de desejar e prolongar o desejo. aceitando-lhe a mão.. Importa-me saber é porque estamos juntos. do sexo oposto. então não sabia nada sobre ela. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. uma tortura que impingia a si mesma por prazer. talvez a predadora da tribo. Uma mulher das cavernas.já saberia de antemão a resposta. Esfregou os olhos e bocejou. sim. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte. não era nada simples. ele sucumbira a um sono profundo. A neve encobria o telhado de vidro. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas. Com a ponta da língua. Ficou por sobre ele. sentindo a aspereza dos pontos da barba. beijou-lhe levemente na boca. um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. ali. Mas não lhe bastou. ela constatou todas as vezes que o fez. Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais. mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos. sem tocá-lo.

sem deixar de observar suas reações. Ali. Com apenas uma mão. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. Alguns minutos depois. quase imóvel. Humm. baixou um pouco o cós da calça. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. Uma legitima fêmea alfa. Estendendo a mão para trás. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se.. pegou o pênis e penetrou-a com força. ao seu lado. Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. ainda sentia a força dele dentro de si. Surpresa. inclinou-se sobre o seu tórax.. divertida. virou a cabeça para outro lado. agora.percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. Ele esquadrinhou-lhe a face e. Jules virou-a de costas. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. abraçando-a com violência. agarrou-a. após uma rápida avaliação. no próprio sono. Em seguida.. Poderiam. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. -Agora. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo. provocava e simulava desinteresse. contraiu-se. penetrou-a fundo. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. Nesse instante. e ele gemeu. agora. sentisse a pressão. Sentia-se poderosa. ele brincava. seduzido de forma passiva. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. como se estivesse sonhando ou.. Deliciou-se com a ideia. Ela tentou mexerse. mentalmente. amenizou a força de sua mão e . habilmente. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando. a boca contra a nuca de Amanda. pensou com luxúria. Num gesto rápido e inesperado. mantendo o ar nos pulmões. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. livre. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. ele a derrubou contra a cama. teve as pernas presas entre as dele e os braços. 94 . a outra. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. cedeu a pressão sobre ela que . como um guepardo divertindo-se com a presa. ela segurou-o com força. acima da cabeça e. abriu os olhos. observando a expressão do rosto dele. desceu para entre as pernas dela e. dona da situação. num vaivém lânguido. seguidas vezes. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. mexendo apenas o quadril. Voltou à carga. era pressionada contra o colchão. conteve a risada. sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. E parou. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. Antes que ela se recompusesse. com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. até vê-la entreabrir os lábios e gritar. no entanto. E ela. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. – disse-lhe simulando seriedade. pelo corpo inteiro de Jules. com a outra. Como ela não era uma mulher má. como era bom ser uma fêmea alfa. Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela. De repente. ergueulhe a coxa e a penetrou novamente. voltava ao comando. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar. dominados por uma de suas mãos. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. Ela parou. O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios. terei de puni-la severamente. devagar. com estocadas profundas e rápidas. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. assim. Jules mexeu-se. o nariz enfiado em seu cabelo. havia uma barreira e tanto. intrigada. ao longo de toda a extensão do seu peito. Mais uma vez.

verde claro e de mangas compridas. 95 . levantando-se depois de fazê-la gozar.. lia calmamente o jornal. Na sala. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. a respiração descontrolada. chumbo derretido. já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. – o poder. cáustica e aniquiladora. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. inundando de magma. essa. O cabelo molhado e os músculos tremendo. novo em folha. sol escaldante. Gritou.É bom. Limpo. O coração acelerado. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. debaixo do mezanino. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. pelos poros. por certo. jorrava-se de dentro dela. numa atitude de quem diz: viu. Se era o corpo que fazia amor. em movimentos circulares. os bicos lambidos. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. por exemplo. E ele tocou-a ainda mais. estava sempre faminto. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. E entre em contato com monsieur Koskinen. Relaxado. a de Jules. Por mais que tentasse falar. Gemidos roucos. e. desconfiado. Ele riu com vontade. deixando as roupas pelo chão. pelo sexo. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. plena. sem salto. ele sabia como deixá-la com essa expressão. -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades. matá-la devagar. detendo-se nos seios. ela compreendeu. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. friccionando-o. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. com dedicação. Ela só pôde assentir levemente. – provocou-a. houve uma mudança nos planos. é bom. Jules. apesar de magro. Mas a natural. cheiroso e saudável. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. enquanto fitava-a deitada e exausta. de lã. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas. que foram apalpados e esmagados.Obsessão em Paris Veronique Gris . de onde provinha? Escolheu um vestido justo. Despiu-se totalmente no quarto. chupando-o. A pele avermelhada. mais do que isso. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. sou eu quem manda aqui. olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. masturbando-a com a língua. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café.. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda. mas plenamente satisfeita. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. por um breve período. uma mesa de madeira rústica. Ele sabia reconhecer essa expressão. pela garganta. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida. Ele tencionava. Optou por uma botinha de couro. uma energia. Respiração resfolegante. Morreu e voltou. brincando com o clitóris. Jules abandonou-a sozinha na cama. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo.

-Certo. Ligue para Dorian. da compra de seus sapatos italianos. é diplomático demais. a lavagem de seu automóvel. geleias. antes que ela reclamasse. mademoiselle.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada. Sentou-se na cadeira em frente a Jules. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. Rossi.Se você estivesse gorda e eu concordasse. voltando a ler o jornal. -Cuido sozinho disso tudo. – determinou.. umas vinte manobras perigosas. fitou os pães. cismada. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. pelo menos.Não disse isso. Aguardou Jules em frente ao elevador.. Agora. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. – afirmou.. – afirmou incisiva. caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil. -Sei o que tenho de fazer. estou quase vendo suas costelas. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . – Se é que ouviu alguma coisa. -Já lhe disse em casa. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas. o Citroën estacionou ao lado. vê se come alguma coisa. – disse e. sabia? –alfinetou-o.. -listou exasperando-se.. – defendeu-se. Repassarei suas antigas funções às secretárias. monsieur Brienne. -Non. -Se fui demitida. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. pois. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou. estava tudo antecipadamente decidido. agora. Ela sorriu e acionou o alarme. 96 . O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. pertencem a Dorian e Assíria. ordenou: . -Você jamais diria que estou gorda. queijos.em seguida. – Sinceridade é algo legal. . croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes. Ao fechar a porta do automóvel. o outro não ficaria à mercê dos táxis. para variar. Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. então. das anotações nas reuniões. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas. – constatou com menosprezo. sério.. das.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei. e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. pensativa. Sim. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi.

ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível. havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. No início do ano. essa verdade era inegável. Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. em seguida. Se estava preparada?. Aprendia-se muito com os workaholics. secretárias e o pessoal terceirizado. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. -Certo. assistentes. de uma forma tão charmosa. . Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. franziu o cenho. Algumas peças se juntavam. e pediu que a acompanhasse até a sua sala. tendo sido demitida no café da manhã. as emergenciais. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. a que dividia o seu escritório do de Jules. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. agora. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. interessava-se particularmente pela área de produção. chefes de departamento. Cinco anos de intenso treinamento. Mas. lidando com diretores. decididas em cima da hora pela presidência. ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. produzido na fábrica de Lyon. Fechou a porta atrás de si. foi até a outra porta. Após retirar o paletó. Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. -É. Saíram do elevador. Ao vê-la fechando a porta. desde quando vivia em Porto Alegre. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. À época. Assíria olhava de uma para outra.Eu? – indagou-lhe confusa. E agora. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. Assim. – retorquiu sem rodeios. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. concatenando todos os setores organizacionais. você. estava. quero dizer. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. Sim. 97 . monsieur. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. No entanto. Conhecia todos os meandros administrativos. procurando por respostas no carpete. mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. Entretanto.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. pedaços de conversas. Antes de segui-lo. Voltou-se para Dorian. como um quebra-cabeça. Mesmo por que Paris não era a SBO. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados.

já sei. -E quem ficará no seu lugar? Ai.. – alertou-a. nervosamente. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. -Quantas forem necessárias.. –Mas. –comentou com ironia.. Amanda. Depois lhe disse num fôlego só: . semana passada.. como sempre o fizeram. o cargo foi extinto. Dorian empalideceu. viajando. – disse tentando sorrir. indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. muito mais juntos. –afirmou sorrindo sem jeito. non.. E sem razão.Monsieur Brienne é paciente. interveio: -E. não é mesmo? – alfinetou-a. insubordinação. -Dorian.. -Será mesmo? Olha só... pensou. agora. Monsieur Brienne cresceu. -Oui. Dorian. Amanda não pôde evitar a risada. por sinal.. sei lá. -Não se preocupe. daria um jeito para ficarem pertinho. 98 . mostrava você. diante da vista panorâmica de Paris. mostrando a língua para Amanda. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos.. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você.. – Acho que irá transferir-me para alguma chefia. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação. -Que droga! Isso é tão estranho. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou. me põe no olho da rua. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e.Obsessão em Paris Veronique Gris outras... chèri.Além disso. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. –afirmou sem poupá-la. você passou dos limites. non? Virada para a janela. – tentou apaziguá-la. É. ele não é o poderoso chefão. Se ele gostasse mesmo de você. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian.. –Aprenda conosco. Comentou com naturalidade: -Bem. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa. Enquanto organizava a sala. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas. claro. uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo. –brincou. literalmente. a reunião. Ou pior.. já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim. merdè!. que. ele me ama. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira. fica mais perto do refeitório. -Não. Mas você é ceguinha mesmo. -Você é cega? –desferiu-lhe. um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas. agora. Amanda sentiu o sangue subir à face. –Pelo menos.. –lamentavase Dorian.As brigas. non. –Que aconteceu? Oh.-olhou para os lados à procura de terra firme. oui.Fui demitida. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel.

Será que ele não havia percebido o deslize?. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. nervosa. -Pardon? – alçou a sobrancelha. -Misturou. 99 . –respondeu sem pensar. visivelmente encafifada. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. você está gorda. é. – afirmou secamente. Com a caneta.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah. -Tem inimigos. hã. que já estava com a mão na maçaneta. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe. monsieur.. O decorador passou a madrugada trabalhando.. voltou-se. incompleto.. à porta. -Apanhará feio de Filipe. –murmurou.pois é. da última vez. pensou. haviam tido um breve e intenso romance. nos arquivos do computador. circulava alguns números do mês anterior. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. -Amanda. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. logo que a secretária fora contratada. somente meus inimigos me chamam de Amanda. –Jules fitou-a.. -No computador. aturdido. não. -Oui. Os dois combinavam e. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário.. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas.. –deu de ombros. Depois. -Monsieur Brienne. no máximo. Que adianta saber? Pouco me importa. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui. estavam juntos. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez.-gaguejou. então. -Você gosta mesmo de artistas. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora. Retomavam. –constatou sorrindo. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia.. -Quê dizer?. ignorando a outra. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. impaciente. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta. depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. –interrompeu com malícia. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração. tudo. Amanda nem precisava fitá-la.. -Cuidado. é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele. Dorian. se ele for o Jacques. –soltou essa e teve vontade de sumir. Jules. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. Dorian. –reagiu. Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. estou noutra. -Agora. -Bom. -Não estou para brincadeiras. o que haviam deixado para trás. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta.

–olhou ao redor. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. ele é terrível!. -E ele a demitiu. coitada. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. que mal conseguia respirar: -Uau. um padrão. Era fundamental que lhe desse toda atenção. – disse sentindo-se vencida. -Ei. batendo a porta atrás de si. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada. caso olhasse à sua esquerda. as duas solteiras. Conhecia. estamos juntos. vocês.. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual.. mas não gorda! Gorda é a Assíria.ele... Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. -Tudo bem. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses.. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. Porque nem sempre usavam preservativos. o seu domínio. trocavam informações que registravam. Dorian. normalmente. se está tudo certo. duas solteiras. –Bom.. nos respectivos notebooks. enfim. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém. promovido a diretor.. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. Não queria por agora. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas. Na extremidade esquerda.. pois. não faz esta carinha. porque engravidou. Ternos discretos e aprumados. Três gerentes eram mulheres. o chefe. principalmente os gerentes.. Amanda verificou. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. A atmosfera estava mais leve e agradável. Outro padrão. -concluiu afoitamente. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres. – debochou. na direita. -Ah.. em seguida. hein. ao lado do presidente. 100 . perdida. –Isso não é certo. Dorian. Marion e Jordan. Duas mulheres eram diretoras. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador. -Não estou grávida. Porque ela estava mais gorda. Jules.. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. relaxados.Epa!. com isso... não participavam das reuniões com Jules e Touleause e.Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu. porque. -Não.. portanto. o presidente. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos). cabelos domesticados e unhas curtíssimas.-antes de fechar a porta atrás de si. isso eu trouxe de casa! –provocou-a. constatou Amanda. que. Antes que Jules iniciasse a reunião. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. não. estou com pena de você. ele só falou isso porque. havia cinco anos. esquentaram. uma cadeira vazia. Não estava preparada para ser mãe.

a máxima que diz que time bom não se mexe. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. Um efeito dominó. justamente por isso. Fitou-o intrigada e constrangida. Temos. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. 101 . -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. o homem. em nossa empresa. dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida.Sente-se. entregar-se e se deixar envolver por ele. apenas para Amanda: . o semblante sério transmitia confiança.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. seriam preenchidas pelos gerentes. modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. para isso. soa como uma falácia.. seduzido. Jules era um só. agora. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. Uma personalidade complexa. sério. Entretanto.após as risadas.Touleause não está mais entre nós. ainda não terminei. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. continuou. o melhor time e. os executivos riram. A voz. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação. Inclinou-se ligeiramente para frente. haverá sim mudanças. Ao levantar-se para seguir o protocolo. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. na administração moderna. Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito. – declarou impassível. messieurs e mesdames. apenas há quase quatro meses. Em vinte minutos. não era esmagado e sim convencido. A lealdade a Jules era recompensada. ainda mais satisfeitos. mademoiselle.. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e. o que lhe parecia óbvio. Ainda sentado e organizando suas folhas. a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos. Novamente. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado.. que. e as vagas abertas por tais diretores. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. Rapidamente... analisando o tom sério na voz do presidente. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha. diretores seriam transferidos para outros países. em seguida. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. centralizador. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que. Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo. A primeira parte da reunião acabara. de certa forma. Era fácil e era bom. ainda mais no campo da informática. na SBO francesa. Eram iguais. Quem se rebelava. umas sobre as outras. com medo de fracassar ou medo de vencer. devagar. fazia. mantida num tom brando e grave. ainda mais desapontados. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. solene: -Bien. –baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista. Expunha o discurso fitando cada um presente. Tornou a sentar-se. de baixo para cima. autoconfiante e dominador. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção. brincou Jules sem sorrir. O que queria. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos. Jules. agora. Controlador. ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . Manipulado.

ligou uma coisa a outra. tendo como companhia uma bolsa imensa. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause. Não conseguindo resolver a equação. Era aceita por aquele time.. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias. vendera sua alma no mercado de pulgas. como se matutasse alguma coisa.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. bateu palmas. Pessoas que calculavam e analisavam. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores. seguido pelos demais na sala. permaneceu imóvel. Em Paris. então. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. a suspeita de que ela estivesse grávida. Planos ambiciosos. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. sempre com um cigarro apagado entre os lábios. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. – falou diretamente. e a lâmpada explodiu. ponderava Amanda.. Jordan. Voltara do jantar em silêncio. Faltava café na sala. uma lâmpada ligou. aproveitaria a oportunidade. como se os dias rastejassem-se desde a alvorada. O sangue correndo forte nas têmporas. impactadas diante de uma afirmação sem sentido. vivia intensa e profundamente. Uma velocidade que a excitava e a apavorava. juntou dois e dois e.. os discos do Queen. Ao explodir.. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França. Duas semanas depois. mas ela não era um gênio. acompanhando o sorriso de Jules. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária.. cinco anos depois. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio. Anos atrás. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. sendo substituído por mademoiselle Rossi. Anunciou séria: -Vou buscar o café.. no aeroporto Salgado Filho. agora. haviam provocado a avalanche de mudanças. inteligente e siga a minha visão empresarial. que lhe desejou felicidades. Em pouco mais de dois meses. quase outra encarnação. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. Antes de encerrar a reunião. pessoa de estrita confiança sua. mas. Entretanto. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem.. Até os seus 23 anos. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência.. uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. Um minuto de silêncio. Naquele dia... teve uma vida pacata e lenta. Dentro da cabeça de Amanda. A transferência de Rochelle para uma clínica. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado. Ergueu-se. para tanto era preciso destruir a antiga. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules. Era uma outra vida.Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 . Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. sentava-se na poltrona diante do homem que. com curiosidade. nomeava-a vice-presidente.

E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria. Objeto sexual fora da empresa. escolhera os novos móveis do loft. Tudo girava como um caleidoscópio. Porque lhe era conveniente ignorar. No chalé. inaugurada em 1972. e ela simplesmente o ignorara. Tinha consciência. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida. agora. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. Construída diretamente sobre o metrô. do amor louco. Um móvel de escritório. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação.. Como fora a escolha do “presente”?. o prédio vizinho. esse 103 . com extensão ao loft. E a vice-presidência imposta..Está no lugar errado.. Amanda. Amanda percebeu depois. forçado e impessoal. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos. seu sorriso era outro. Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador. o prédio mais alto da França e. em cinquenta e oito andares mais o terraço. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência. acabara por ceder. mais aos padrões do alto executivo. Amava-o como jamais amara alguém. E agora o fantoche do presidente. Enfrentaria mares bravios em busca de paz. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO. Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. profundo. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea. olhava o prédio vizinho. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela. Era a parte moderna. como lhe dissera Jacques. era fato concreto.Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la.. durante um bom tempo. E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor.. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos. . discutida. a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. mesmo não tendo aceitado. como um homem das cavernas. A voz grave. Uma manobra engenhosa e tão boa. sua antiga sala como assistente-executiva. Ele estava certo. no máximo. a nova VP. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. e não conversada. com os braços cruzados numa atitude absorta. ponderada entre ambos. sempre venerara Jules Brienne. estilosa que revelava outra faceta da cidade. absurdo que sentia por aquele francês. entretanto. E não era qualquer um. mesmo tendo resistido. Ao longo de cinco anos. A proposta para viverem junto e. Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. o mais detestado pelos franceses.. e sim o loft.

pelo visto. antes delas se levantarem do chão. -Homme de glace – murmurou. -Ah. Amanda? Decida-se. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . –enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele. entalhado na pedra.teste. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso. -Atingi o meu limite. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules. principalmente no que se refere a minha vida. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. -Não sou apenas uma funcionária sua. mas permeado de ironia e desafio. Levei cinco anos para perceber isso. logo. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . Tentou soltar-se. puxar o braço. -Sempre fui bastante profissional. entendi. Respirou fundo e procurou controlar-se. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. – enfatizou. inadequado. Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente. mas. completou: -Entretanto. pensou. intrigado. non? Caso contrário. -É verdade. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. digamos. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. e não por dormir com o presidente. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. Temia perdê-lo. –declarou com um sorriso debochado.. É assim que temos de pensar. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. Jules estreitou os olhos. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros..Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador. existe um divisor de águas aqui. Temia perder-se para ele. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal. nesses últimos quatro meses. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. a torre de Montparnasse. –Quem está zangada. a garganta bloqueada por um nó de tensão. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. fiz algo errado. Homem de gelo. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência. o céu cinzento. ora para o cabelo azeviche. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento. Jules. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. pois. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. –constatou por fim.

-É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações. Por um minuto ou dois. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. -O que significo para você. Doía vê-lo fitando-a com frieza. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. monsieur. é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva. sente-se usada? -Não. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. A voz falseava. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar. non? Afinal. Jules? –indagou num fiapo de voz. mas. Ao que ele tornou a falar.afirmou secamente: -Por acaso. que inclui a sua ascensão profissional. Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. Caso lhe fosse apenas a assistente. em seguida. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce. e não a mulher que o amava. sem vontade. esperando uma reação dela. aceitará a promoção. . Perdia o controle. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida. Cinco anos de cegueira absoluta. –apontou-lhe o indicador. por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo. Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. impassível. não era uma crise de ego. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. Lançou-lhe um sorriso fraco. balançando-a para cima e para baixo.Oui. houve uma troca entre ambos. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade. sentindo o próprio queixo começar a tremer. -Acho que sim. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. agradece. foi justo. . mas manipulada. temeu soluçar. esganiçava-se e perdia a força. machucando-a e obrigando-a a fitá-lo. -respondeu insegura.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. Por um momento. Apertava-lhe ainda mais o pulso. mon Dieu.. Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. – Mas. sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. –desferiu num fôlego só. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. – sugeriu. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. s'il vous plaît. talvez a única. -Devo-lhe agradecer pela casa. de quê. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. 105 . mademoiselle? – provocou. Ele sorriu friamente. Ela queria mais. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. nunca fui chefe de coisa alguma. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele. non. à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. Oui. –A minha parte que adora mentiras.. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. convenhamos. – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. -Seja mais objetiva. ainda está em busca de garantias. Entretanto. –parou.

-Atirei-me nele de olhos vendados. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. Você quer tudo de mim. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés. amadurecer inclusive. no mundo. agora. Amanda abriria mão do conforto. retomando o controle das emoções.. Desde que entrei na sua sala. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. E como todo o rompimento afetivo. Agora. mas eu não sabia. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez. sem sorrir. Talvez ele se protegesse do amor. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. Surpreendeu- 106 . Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá. Não quero nada relacionado a você. Alguns minutos se passaram. desejei que me escolhesse porque.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. Não tenho nada meu lá. sei. –Vou para casa retirar minhas coisas. a primeira mulher que o deixou na mão. Eu te amo. -Estou numa posição inferior a você. – riu-se com amargor.. -Acabou. E. Jules? Ele contraiu os maxilares com força.. Amanda. Soltava-a em Paris. Todas fazendo trocas descabidas. preferindo os homens problemáticos e violentos. Amanda olhou para o rosto bonito. da segurança e do homem que amava. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. além do mais. – debochou. é o que lhe ofereço. entre os dois. Jules soltou-lhe enfim o pulso. –completou com impaciência. pavor. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. densos. -decidiu-se convicto. do amor não consumado. Antecipava no peito a sensação do vazio. da angústia que asfixiava. Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são. a expressão cansada. Proteção. roupas. Isso é certo. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. a mãe. –Oh.. –interrompeu-se esfregando as têmporas. – dando de ombros. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. um desgraçado de um abismo. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. indiferente. para todo o sempre.. doía demais. O que não me dá muitas vantagens. em princípio. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. o modo como eu te amo é assustador. e tal gesto era por demais significativo. E como se isso não bastasse. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. mas não dá nada de si. perigosa. tão passional quanto maluco. segurança e conforto. quero dizer. -Por que você não me ama. permitindo que o mesmo não o alcançasse. perscrutadora. O que me dá medo. fosse qual fosse. Amanda. Engoliu as lágrimas. antes de conhecê-lo. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. Jules. não tenho medo de trabalhar. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo. E eu a amava. Uma troca sem sentido. oui. non? Até o meu útero. aniquiladores. Vivien. – debochou sem mexer um músculo. e para se manter qualquer que seja o relacionamento. vou deixá-lo. –E por amá-lo dessa forma. então.. há que se ter um equilíbrio entre as partes.

dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. tornando-a refém de uma dor insuportável. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. como que se protegendo dela. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. mademoiselle. girando lentamente. – completou com evidente desprezo. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. E chorou. Chorara durante o curto trajeto de volta. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra. Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia.. O desenho de uma menina morena. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. Não podia reprimir-se. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais. corpo no corpo. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. mesmo porque era impossível fazê-lo. Deitou a cabeça. Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. do século passado. Tinha algum tempo. Passe no RH. a pele cheirosa. chorou. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. de pescar o maior peixe do mundo. Diante do espelho do banheiro. sais que exalavam o odor de Jules. com paisagens de uma Paris dos anos 20. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. E chorando encaminhou-se à cozinha. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. no subsolo. em que ficaram conversando após o sexo. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento. doces e infantis. você e o seu suposto amor..Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. aos dez anos de idade. contando histórias da infância. sorrindo como se tivesse 17. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. quase física. os braços 107 . E chorou. com uma franja sobre os olhos. abraçados. compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. e Jules. seguros de que tudo daria certo. Depois. Como ele podia ser tão carinhoso e. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. Abaixou a cabeça. então. -Por que antes de ir juntar suas coisas. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. Então. Debaixo do edredom. Chorou até se engasgar com o vinho. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. Por um tempo. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. Parou no meio da sala e. Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. Após a saída de Jules. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. diante do Café de la Paix. a loção pós-barba exalando frescor. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs.

alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. Retirou o sobretudo e o cachecol. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa. mas manteve o paletó escuro. – adiantou-se num murmúrio. imaginou Amanda. o apartamento é seu. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. Killer Queen ressoou pelo apartamento. -Não é certo que você saia. acrescido do seu amor. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. medo.. – xingou-o com raiva. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. Num estalar de dedos estará bem empregada. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. Parecia preocupado e nervoso. Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. muito próximo. no seu esconderijo. -Vas te faire foutre. Todos os sentidos em prontidão. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. atenta. quase desfigurada. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. Viu-o descer a escada. Ergueu a cabeça. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. depositou-a no chão. Jules. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. raciocinava. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador. branca e dourada. Estava ligeiramente zonza.. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. Amanda. Em seguida. No aparador de vidro estava o seu celular. sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos. Subindo os degraus rapidamente. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. –Vim direto para casa. intrigado. largo e firme. Segurava uma sacola de papel. pegou-o e digitou alguns números. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. legalmente seu. desejo e muito álcool no sangue. –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. -Sei que já eu devia ter ido. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si. continuará recebendo até encontrar outra colocação. Sem hesitar. Amanda afastou-se da porta. porque queria encontrá-la antes que partisse. Foi até o banheiro e saiu. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. Estava horrível. A vergonha de ter sido fraca e chorona também. –completou num tom melancólico. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. olhou ao redor à procura do aparelho. Fechou os olhos e abriu. pulando a cada dois degraus com agilidade. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar.

diante do silêncio que se seguiu. devagar. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou. -ironizou e. E rendida. objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. indiferente.. Sentiu-lhe o gosto do hálito. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. agora. a sua gentileza. sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura. fusões. Ela acabara de alfinetá-lo. O discurso de bom-moço enojava-a. -Claro. amava. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma. -Não se dê ao trabalho. Deve ser uma merda ser tão racional assim. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu. –completou com desprezo. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. Durante anos bloqueara seus sentimentos. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. E quando amava. devagar. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. Entretanto. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta. no queixo e nos maxilares. Não será isso que me matará. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice. recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. Quando ela virou os lábios 109 . cada uma. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. Dignidade feminina. Transferências.Frio.. Visto que ela o ignorou... Novamente a vertigem. non? Temos de limpar o corte. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções. –declarou exasperada e encarando-o severamente. non?. contatos. Pequenos beijos nas bochechas. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. fique aqui enquanto vou buscar o iodo. Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. O centro social ainda não se instalou por lá. fazia-o por inteiro. decidindo vidas. na ponta do nariz... e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. pela primeira vez. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. canibal. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer. Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. seus contatos. que mal lhe tocavam. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. inacessível!. bufou. Empinou o nariz numa atitude arrogante. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. Automaticamente. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha. Isso que era: lixo puro. sem meio-termo ou meias-medidas. Amanda apenas fechou os olhos à espera.

Jules.. como se fosse ele quem sofresse.Mas. rindo. Amanda. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva. – escarneceu. sereno.. Mas quando ela pegou-lhe o celular. –considerou numa voz abafada. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor. –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio. -Nunca foi a minha intenção machucá-la. oui. reverberou no recinto. intrigado.que você nem sabe escolher... Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais. -Ele também não lhe pertence mais. inteira. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo.. -Claro que não. Jules apontou para a pasta e comentou com calma.. –Mas tenho a mim.Eles são seus e eu os odeio. non. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou. o homem de gelo. o aparelho espedaçou-se no chão. mas ainda era uma MULHER. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. Jules! –gritou. 110 .. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne. Jules. eu ficarei. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. e eu não. deixe-me ver... Amanda gargalhou completamente surtada.ficará com você. contra a parede. que ele arqueou uma sobrancelha. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo. Venha comigo. seguido por outro. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. a sua empresa de merdè. Você vai embora e os levará junto. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz.. Um barulho seco. . estranhamente calmo.. céus!.... -Havia um notebook ali dentro. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu.. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. –falou baixinho e direto. Você é uma ótima pessoa. eu não pertenço a ninguém.. fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: . Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe. ela o fitou. porque eu não sou de ninguém. vamos ao banheiro. – à medida que falava. -Bebeu mais do que devia. só não tem coração.hã. verdadeira e forte. acho que vi um... que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro. odeio seus sapatos. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente. o caricato. ele fez um movimento para se levantar e contê-la.. –completou chorando. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. o pragmatismo. Dentro dela. por sua vez. como se tentasse neutralizar o que sentia. o seu Jules Brienne. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente.. a contabilidade emocional. Odeio tudo que vem de você... inclusive esse apartamento de esnobe descolado. podemos conversar de forma sensata e coerente... Odiou-se por se render tão fácil. não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. oui. Perdida. Em vão.. -Idiota! –gritou.. Jules afastou-se delicadamente... metálico e abafado.Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo. Possessa.

no alto da escada.. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo.. listou: .. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então.completou gritando: . – Non. Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou. sorrindo por entre as lágrimas. com os dedos. Calculou que ele conseguiria detê-la. voltando a sentar-se no degrau.. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. seu imbecil. -Jules começou. Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. sozinha. ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. desde a adolescência no quarto. ao que ela. -Nem tente destruir isso aí..Adieu! – exultou com um gritinho alegre. Respirou fundo. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento.Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado... non? – indagou com cuidado. voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro. Satisfeita.. sentiu a mente esvaziar-se de tudo. Tocou a capa de cada disco com ternura. envenenar comidas.... – gritou: . –Nada sairá daqui com você. acalme-se e vamos conversar. . estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada.. -no restaurante. todos os discos haviam sido vendidos.eu. Amor! Já foi amado assim. queimar sapatos. Percebi que esses discos significavam muito para você. -parou e fitou-a 111 . recordações. -Entendo que se sinta magoada e. para que ele não o encontrasse! Eu te amo. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. -Estávamos em Roma. –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo. e o fizera para poder se manter por alguns dias. esperando pelos diretores da subsidiária de lá. -Agora. ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel. no fundo da sala.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha. A chave foi arremessada para fora da janela e. não. retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia. tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre. europeu idiota! Dito isso. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola. no entanto. incendiar chalés. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das. sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente. . ideias. tomada pela fúria e com os olhos arregalados.eu me dediquei a você todos esses anos por amor.Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën. Amanda. Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: . Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. em seguida. Toda a sua coleção do Queen recuperada. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. sentimentos.Em rasgar roupas.. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. enviar e-mails com vírus.Acertei bem no alvo. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele. Fitava o interior da sacola... pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. francês. –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. ao cair. quando conversamos sobre viver longe de casa.

A gravidez que ele queria que se confirmasse. não? -Oui. lentos. a realidade. azar dela.. Gestos precisos e. fora prática contrariando a sua natureza passional. praticados por homem visivelmente cansado. ações sólidas e reais. alçando as sobrancelhas: -Pode ver. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. seu barbeador. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto. Tudo tomava um novo rumo. não era controle. como aconteceu tudo isso. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França.Isso foi há um ano. Era a vontade de ser pai. Isso era amor. de um jeito desanimado. No criado-mudo. –balbuciou num fiapo de voz. arrastados. -afirmou de um jeito estranho. Resgatara-lhe o tesouro. Investiguei. Amanda indagou sem fitá-lo: . Ele parou por um momento e esfregou os olhos. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro... quis chegar a tempo para lhe entregar. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor. com um frágil sorriso nos lábios. loções e a escova de dente. passaria o resto de sua existência chorando.. abraçou-se aos discos e chorou. – retrucou baixinho. Ele lembrara e. Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. – disse. -Merci. E ele jamais diria que a amava. Isso era um ato de amor. simplesmente.. ao mesmo tempo. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. como se quisesse livrar-se do assunto. Pelo visto. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. tinham de ser os seus.. fazia-o. através de atos e atitudes. por que. com os seus poemas escritos em algumas capas.. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 . Ela parou diante da cama. respondeu apenas. Sem vínculos ou obrigações para com ele. perfumes. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção. por fim. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. além disso. viajei. mas não tencionava aceitar os louros. são os seus discos. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. -De rien. a sua caligrafia de menina.Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. mas. mais uma vez. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. Soltara o nó da gravata. – enfatizou. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. a sua. os braços dobrados em frente ao corpo. De nada. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido.. Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário. sério. Jules não falava em amor. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo. na mesma. Isso era amor. no modo de pensar de Jules.

que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada. Jules sorriu de um jeito tímido.. Jules deu de ombros de forma indiferente. E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro. entendo que isso é amor. Ele parou e fitou-a.. e. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. Respirou fundo. por exemplo. Amanda. Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta.. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem. me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você. segurando um par de meias na mão. mesmo apanhando e ignorando seus apelos. Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto. concentrado na maldita mala: . constatou Amanda. ainda fitava-a.. desculpe. era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto. sem vê-lo. Tinha o olhar entre curioso e desconfiado. -Amanda. 113 . preciso lhe falar.. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. Às vezes. Misturei tudo. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. apenas olhava-o. confundi-me. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio. Ela não o via de fato. muito pelo contrário.Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem. Por isso.tentou justificarse. não estou mais cega.. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere.. . Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes. -Espere. -Perdi as estribeiras. –respondeu baixinho e sem dar importância. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho. mas foi interrompido.? – sempre havia um mas.. Jules.. continuando a arrumar a mala. largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura. -Quero cuidar de você a minha vida inteira. Jules. – ele fez um sinal para que ela parasse.. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido. Fingiu que não a ouviu. à espera de algum movimento por parte dela.Jules. procurando os discos da minha adolescência. você parece um menino. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic... ela bem o sabia. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe.. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. – apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. -São apenas coisas. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo. por outro lado. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção. -Eu gostaria muito. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. ela também não sabia o quanto era amada por você. -Mas.. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade. tensa.

numa veia saliente. – Mas fui punido por minha decisão. olhando de verdade para o seu rosto.Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim. Sabia que confiava em mim. Aliás... sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco. As palavras. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que. para o seu corpo.. Jules riu e beijou-lhe o cabelo.Conseguiu. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. Sei que é uma atitude tola. eu sei.. Amá-la em segredo foi terrível. – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: . -Jamais percebi nada. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente. 114 . Amanda. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien. sabendo que me entende. Acreditei que não me amava. séria.. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios. -fez uma pausa procurando as palavras certas.. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma. consegui e quase a perco por isso. inclusive François e Sonia. – completou com seriedade. O trabalho é a minha paixão. sinto os olhares sobre mim. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico.. para os seus gestos. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções.. na verdade. mas também com certa tristeza. Parecia um tipo de déjà vu. me peguei olhando diretamente para você. frio e viciado em trabalho. E quando dormiu com Jacques. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela..tive de controlar-me para que você não se afastasse.apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras.. ela dizia que eu era viciado em dinheiro. fui para o terraço. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar. mas aquela nossa conversa no restaurante. e apoiou a cabeça no tórax dele. mas não queria correr riscos outra vez. O que é uma mentira. Amanda. mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional. -Oui. acusando-me de insensível. não substituem as atitudes. todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você. . Fitaram-se por um longo momento. -É. Depois. Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui. . porque a amo e não é de hoje. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. quero dizer. foi apenas mais um jantar de negócios. Aquele estúpido jantar comprovou isso. Agora. bien. – acusou. Por fim. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim. não o resultado financeiro dele.. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você.. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: .. se jogou nos braços de um desequilibrado.-comentou sorrindo. – completou apertando-a ainda mais contra si. Amanda beijou-lhe o pescoço. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido. Quando saí da sua sala..

pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. o reconheci como sendo um dos meus gerentes. como se a cabeça já rodasse em outra direção. mas eu o fiz assim mesmo. Quando a ambulância chegou. porém identificara tal sentimento com outros nomes. O resto você sabe. naquela noite em especial. Caso ele evitasse o assunto. e ela saiu sozinha. ou melhor. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito. lista esta feita pelos pais de Rochelle. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. ela gritou. as têmporas latejando: . acabei vendo um teste de gravidez. O que tem a me dizer sobre isso.Fui atrás. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . com a minha autorização. cedendo o volante a Jacques. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. já que estava transtornada de raiva.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. imediatamente. Mas. Olhos totalmente mergulhados na própria mente.. – suspirou resignado. E Jacques não está nela. já estava desacordada. Sentira isso. -Isso não está certo. não esconderia mais nada de Jules.. Era um dos assuntos tabus. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular. sério e pensativo. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si. com a transferência de Rochelle para uma clínica. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. um tipo de queda-de-braço infantil.Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. – falou-lhe de uma vez. discordei. – ele parou por um momento. Foi a primeira vez que o vi e. –suspirou. agora. após saberem. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida. quero dizer. e por isso não mais a convidava. Ele fora demitido antes do meu casamento. meio minuto depois. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules. nós brigamos. os sulcos na testa profundos. Tudo aconteceu muito rápido. nomes errados. No entanto. ela pediu-me para que não saísse.. -Jacques continua ligando para o meu celular. na Irlanda. Pelo o que averiguei depois. Jules parecia disposto a conversar a respeito. -Talvez. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia. – acentuou num tom grave. Jeremy Blair. – murmurou entredentes. –respondeu-lhe automaticamente. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros. quando eu tinha um.Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro. não forçaria a barra. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. Naturalmente. Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la. fora preso por bater em uma garota de programa.. feito isso. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. e. eu a ignorei. Rossi? 115 . num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. Era amada por ele. Rochelle detestava esse tipo de jantar. vê-lo de rodas para o ar. por intermédio dos Roche.

é maravilhoso. Alguns minutos depois. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. -Então. ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. -Humm. quero dizer. deliciosas curvas. mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que. concentrado. mademoiselle. monsieur. ma belle.. -É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada. – fitou-a com um sorriso malicioso. antes de confirmar ou não a gravidez. e acho que pegamos o Dôme aberto. –ponderou antecipando-se aos fatos. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. saiu do banheiro e. – Maintenant. vamos comemorar! Ainda é cedo.Meu rosto está acabado de tanto chorar. enfiou-se no banheiro. -Oui. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. -Não o apavora ser pai. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Amanda. –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. quero ser pai dos seus filhos. nem precisava fazer exame para saber. descer as escadas até a sala. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma. -Você está linda. -explicou-lhe ainda rindo.Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir. Jules. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos. mas ela não pensava como os franceses. Amanda afastou-se poucos centímetros dele. – brincou. Deixou-o parado no meio do quarto. -Você está grávida. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. como ele é lindo. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. com um sorriso. – comentou com naturalidade. hoje pela manhã. -Non.. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. ele sorriu e. ficou na ponta dos pés. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. depois. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana. ficou feliz em vê-la chorar. E.. quando reclamou de suas curvas. espere aqui que buscarei o nosso oráculo. –corrigiu-a. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. –disse jovialmente. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. parece-me um pouco precipitado começar uma família. quero muito tê-la engravidado. –comentou sem graça. bien... mon Dieu. por debaixo do robe. porque esses testes não são cem por cento confiáveis. de pé. sorrindo. Antes de fechar-se no banheiro. Voltou lendo as instruções. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. – considerou fazendo careta. não há nada acabado em seu rosto. excita-me engravidá-la de fato. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . descendo a mão para a sua barriga. -A ideia era essa..brincou. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. por sinal. 116 . envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força.. sabe disso. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. pela primeira vez.

desesperada paixão: . tenho de pegar a chave do carro. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro. Amanda mal sentia as pernas. as têmporas latejavam. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação. Num gesto eficiente e sensual.. E com movimentos cadenciados. passando pelas malas no hall. E convenceu... ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia. levando-a no colo até o outro lado da sala.. fez o robe cair no chão. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme. Por baixo do robe. cada ponto.. haviam virado gelatina. toda. -Estou sempre com fome de você.. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar.Amanda.. cada zona erógena que vibrava ao toque dele.. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas. na rua. –gemeu-lhe ao ouvido. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava. dentro de si.Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. 117 . a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo. em cada centímetro de pele. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. já que dividirá o corpo com nosso bebê. lá. e no rosto de Jules. – falou-lhe com o olhar sério. controlador... senão se importa. Amanda desafivelou-lhe o cinto. sussurrou com paixão. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo. ele enfiou-se aos poucos. -Trés bien. J’etaime. -sugeriu de um jeito meigo que. Podia buscar comida pronta. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. – Escolha enquanto pode. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede. depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. em seguida. – concluiu em tom de brincadeira. Jules voltou-se para ela e a beijou. persuasivamente. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo. afastando-os ainda mais.J’etaime. Acompanhou-o até a porta de entrada..? – indagou-lhe num fiapo de voz. que dançavam seguras por vales e montanhas. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. Captando o duplo sentido da pergunta. normalmente. Jules vestido e ela completamente nua.. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. expondo-lhe a nudez. digo. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça. num canto da parede. mas um sorriso entalhado nos lábios. planícies e cumes orvalhados. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. num vaivém sensual e lânguido. Aproveito e faço tudo de uma vez. -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. você tem de cuidar de sua saúde. Antes de sair. Sem tirar a roupa.. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?. em torno dele. convencia Jules.. no sofá. Ela segurou os próprios joelhos flexionados. numa voz rouca e abafada. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. digamos. -Quer que eu saia ou entre. cobriu a sua e ainda colada nela. alcançando o clitóris e massageando-o.

senão perde a graça. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. -Esse prazer é todo meu. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. que. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo. sofisticada e úmida de suor.. com lâmpadas de sessenta watts. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. messieurs – falou baixinho Jules. o cara não vai parar nunca. ótimo trabalho. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa.. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. por sinal.. – Se quiser. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. deixando-a surda do ouvido esquerdo. com a cabeça. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco . irmã. sozinho. E era o mesmo que acabava de chegar. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios. docteur. registrado. e o Bleu tem uma filhinha. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. -Não se acanhe. Jules. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. Duas passagens pela polícia por agressão. – balançou a cabeça. Jules assentiu. -Está tudo aí. -Merci. Em seguida. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. monsieur Brienne.. mulher. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. lançou um olhar significativo a Bleu e. despertando da inconsciência. Jules estalava os dedos das mãos. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. exasperado. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. –É crônico. fitando Jacques de longe. Mas eu cuido dele sozinho. sua assistente. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. – disse Jules sério. –fechou os punhos instintivamente. inclusive. que comprimiu os lábios com raiva. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. Luminárias de aço dispostas no teto. monsieur. oscilavam no amplo galpão. retirando as luvas pretas de couro. completando o gesto do olhar. riscou um fósforo com a mão em concha. ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. Tenho mãe. Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês.

Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão. Jordan não queria me demitir. e as outras mulheres agredidas por ele. acompanhadas por Armand. – gargalhou: . que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. -Ninguém me contratou depois que me demitiram. –Eu o entregarei à polícia. – prometeu com um sorriso cruel. Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe. da força muscular do adversário e de sua fraqueza.. também foram minhas. Jacques gargalhou. irônico. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente. -Ficará longe dela. -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. 119 . – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão. Mas antes. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio.Aliás. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás. non? -alçou uma sobrancelha. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes. isso sim. retirou o casaco longo e o paletó. ela me sustentava. eu posso e você não. –Quer foder a minha vida de novo. e isso é uma ordem. Já o almofadinha à sua frente. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. Pelo contrário. Jules bocejou. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. Nunca fiz nada de errado na empresa. –constatou quase alegre: . -Polícia? Está delirando. oui. aturdido. você sabia. ao torcer para baixo o lábio inferior.. Ficou de pé. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. diante de um homem que verdadeiramente odiava. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava. Baterá em mim. -Vou matá-lo. refazia-se rapidamente dos golpes. –declarou com firmeza e serenidade. covarde.Oui. quase alcançando o rosto do outro. – acusou aos gritos. que desviou a cabeça. como vai a brasileira. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. da distância entre ambos. Jacques fitou-o por um momento. para o seu próprio bem. – completou. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. por sinal. suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro. também registrariam queixa. abrindo os braços e dando de ombros. sorrindo. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica. seu ricaço de merdè. Ele era duro na queda. Além do mais. -Bonsoir. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente.. tentou acertar o maxilar de Jules. olhou ao redor certificando-se de onde estava.. – debochou. –pôs o dedo em riste. -Agressão. Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos. impassível: -Podemos começar quando quiser. dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga.

–completou com raiva contida. Jacques urrou de dor. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. a boca arrebentada num corte fundo. em vez de proteger-se.Sumam com o corpo. fracassou. – disse por fim. Este teve a cabeça arremessada para trás mas. Não podia deixá-la sozinha no mundo. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. Livre os tentáculos de aço. Jules observou mais dois homens. ficou fitando o teto. do cheiro de sangue e morte. -Filho da puta. Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . Ele foi.. é minha irmã.Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. Não podia permitir que ninguém. mudou o tom. nem a morte. Este surpreendido pelo ataque. Agora. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. Por um minuto. Não fechou os olhos. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. mas foi por apenas alguns segundos. deu uma gravata em Jacques. sem perder o equilíbrio. Novamente. vocês se igualaram a ele. meio zonzo. Não pôde conter um suspiro de alívio. baixo e com aparência latina. Jules. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. Por trás de Jacques. Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. Deve estar a par da moça que está na UTI. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. os olhos vítreos. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. pute também tem família. baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. aproximou-se do corpo distendido no chão. mas nada de advogados. Em seguida. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. puxou os braços do homem que o prendia por trás. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. O outro. mais brando: . A coisa é feita na rua e termina na rua. Pensava apenas em voltar para casa. o braço forte do ruivo estrangulou-o. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente. Na terceira. respirava alto e rouco. -Quieto. alto e ruivo. queria olhar no olho de cada um dos caras. inclusive Jacques. Quem ganhou. Jules ignorou-os. assistindo à cena. cara! –xingou-lhe o desconhecido. de pé. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. pensou. levantando-o do chão..A gente agradece. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. tem família. testando a personalidade do executivo. Tinha de lutar por sua vida. -Sabemos quem é você. E com esse último pensamento. imóvel e ainda preso pelo gigante. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. Agora sim estava fodido. Um deles. Estava de fato morto. 120 . Tentou levantar-se por duas vezes. depois. Jules estava farto daquele lugar. d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. separassem-nos. Jacques caiu inerte de cara no chão. soltou-se por fim. daquela gente. não emitiu ação alguma. fitando os homens ao seu redor. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. covarde! –disse entredentes. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços. Oui. Ouviu ao longe a sirene da polícia. voltou-se com raiva para cima do loiro que. os maxilares tesos. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes.. Inerte. Os homens entreolharam-se e partiram para a ação.

com 121 . Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui. vestiu o paletó e o sobretudo.blogspot. Passou no Dôme e pegou comida para dois. E meio. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria. Fim Site da escritora: veroniquegris.com Contato: vgveronique@hotmail. retirou a fita do gravador.Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. O passado morreu aqui também. Ajeitou as mangas da camisa. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato.

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