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OBSESSÃO_EM_PARIS

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  • Capítulo I
  • Capítulo II
  • Capítulo III
  • Capítulo IV
  • Capítulo V
  • Capítulo VI
  • Capítulo VII
  • Capítulo VIII
  • Capítulo IX
  • Capítulo X
  • Capítulo XI
  • Capítulo XII
  • Capítulo XIII
  • Capítulo XIV
  • Capítulo XV
  • Capítulo XVI
  • Capítulo XVII

Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

Copyright © by Veronique Gris Todos os direitos reservados e protegidos por lei Nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem a autorização prévia por escrito do autor. Os infratores serão processados na forma da lei.

Responsabilidade pela revisão: o autor. Capa: Imagem disponibilizada no Google. Domínio Público.

G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
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Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

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E esse alguém estava atrasado. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. Assim. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . Não sabia como era o contador. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. que usava um relógio do tamanho de um melão. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que. também. que era calvo e arrogante. observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. um bolo de um homem que jamais vira na vida. estrategicamente disposta ao longo do teto. Ela aparentava. três mesas pequenas. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. pediu-lhe a conta. Não acrescentara.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. Afinal. Sentia-se entre aliviada e feliz. quando este se aproximou elegante e solícito. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. Agora. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. fora contratada de uma agência de modelos. certa apreensão e nervosismo. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. No canto. Debaixo da iluminação indireta. pelo menos. para fora do tabuleiro. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. Certamente. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. na verdade. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. moreno e elegante. fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. provavelmente. numa terceira mesa. nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. a moça esperava por alguém. cada uma. retangulares. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. por exemplo. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. com um delicado vaso de flores. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. protegida pelo próprio espaço junto à parede. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa. como o seu próprio chefe. uma mulher de cabelos escuros e curtos. por mais incrível que isso parecesse. Havia levado um bolo. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi.

assessorar o presidente de uma grande companhia. viu mesmo foi o chão. porém. em seguida e de forma violenta. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. já de pé. Agressivo nos negócios. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido. mas tinha vontade de rir. já que. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. Havia uma equipe de médicos. tomando cuidado para não se trair. definhando lentamente ano após ano. já que. Se lhe tivesse dito isso. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. Na verdade. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. No escritório. Amanda encolheu-se dentro do casaco. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. O homem de gelo que jamais sorria. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação. no mundo empresarial. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. pouco mais de 1. Por outro lado. Desde a sua contratação. e. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. talvez não contivesse uma crise de risos. realmente. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe. workaholic até o último fio de cabelo. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. A noite estava fria e úmida. mas. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio. O mais estranho e injusto de tudo era que. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. o homem de gelo. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. Aceitou tocar na palma daquela mão macia. O que lhe importavam na vida. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar.80. salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. Dava um passo em frente ao outro. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. sério e introspectivo como pessoa. Morri e estou no céu!. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. bem vestido. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. Ora. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas. Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. de dedos longos e tépidos. bonito. a dificuldade acentuava-se ainda mais. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. observou que ele era alto. A bem da verdade. E de poucas palavras. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. como secretária particular de Jules Brienne. estava bem perto de sê-lo. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. de fato. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. Sentia-se em apuros. comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. de gargalhar.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . E. Nada menos. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível.

. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo. diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa. pardon. aconchego. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu. fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. quando seus olhos se encontraram por vários minutos. Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada. Talvez tenha sido nesse momento. bem. –disse sorrindo. teremos que deixar o café e as histórias para outro dia... Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. concluiu Amanda. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível. transmitia calor.. merda. o sorriso era aberto e franco. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo.. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta.. Desistiu de grudar madeira na madeira. e eu certamente não sou Cinderela.. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . Ele era a.Infelizmente. -Amanda Rossi. numa calçada 6 .. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango. a vida não é um conto de fadas. estou com a princesa nos braços. Os olhos azuis brilhavam divertidos. Num instante. ah.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica. que percebeu que estava completamente encantada por ele.. . um sorriso amistoso e um convite implícito. droga. disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios. Ele é um príncipe dinamarquês. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. enquanto abaixava-se para pegar o salto. Jamais dava a cara à tapa. – riu-se. E como era uma moça educada. fitando o lugar onde o regente havia apontado. -Oh. quer dizer. -A gente pode revezar as narrativas. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar.. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes. ela sentiu uma quentura forte no rosto. sem cola. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente. -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin. Naquele momento. Nesse ponto. Mas o resto do corpo não. somente os craques.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato. é tão difícil. O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo. pensou debilmente. olhando para o salto quebrado. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola. Normalmente. o antebraço. começou sentindo a bochechas quentes. -brincou.Desculpa.

Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. porém conscientes demais um do outro. ou fingia ficar sem jeito. Ele pedira-lhe o telefone e.. Sua última relação fora há dois anos. Pelo menos. queria muito. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. forte. Ela não queria voltar. Entretanto. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. sem uma companhia masculina. selvagens. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. morava em Montmartre e estava sozinho no momento. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos. durante uma visita ao Louvre. Ela entrou seguida por ele. À porta. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro. ela o desejava. estufado contra o jeans. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. Amanda rabiscou o número de uma creperia. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances. dentes perfeitos. mas não sentia frio. Uma fantasia antiga. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. duro. mais do que fugir. Podia desistir e inventar que era casada. sim. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. Cabelos loiros. O seu corpo o queria. fios irregulares. Caminhavam lado a lado sem se tocarem. – ronronou com olhos de predador. Uma tarde de descobertas. o loirinho. Podia fugir. ombros largos. E era incrível a sincronia da existência. de pálpebras relaxadas e insolentes. ele disse que era advogado. sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. ela não sentia frio. Não conseguia. Apertou-se no casaco longo. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada. Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. 7 . que era lésbica. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. se quisesse. ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura. viril. Palavras como frio. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. o quanto ele era charmoso e sedutor. E ela também olhou. quando conhecera um rapaz de vinte anos. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco.. um sorriso frágil. Apesar da neve intensa. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . para variar. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. No café.Quero dormir com você. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. Não havia pressa. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido. E agora. Duas horas de sexo e conversa fiada. O cheiro típico da alvenaria antiga. Entre um gole e outro de café com uísque. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios. Ela também queria. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. monsieur. pequeno.

. gostosa demais. como se tentasse empurrá-la para abri-la. Amanda – afirmou. 8 . Deslizava-o para cima e para baixo. descobrindo a renda suave do sutiã. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. puxando-o suavemente e o soltando. detendo-se pelo caminho. voltando-se para trás. meio tropeçando. mas parecia implorar. a língua sugando a sua com desejo. na divisão entre as nádegas. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. a boca colada a sua. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande. um navio no porto entre suas pernas. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço. inchado dentro da calça. enfiando sem rodeios. no centro da pequena sala.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. Desabaram sobre o tapete. Ouviu murmurar algo indefinível. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo.Quero muito de comer.. apertou-o entre dois dedos.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular. Ela gemeu quando as mãos de Jacques. O pênis não era dela. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes. Roupas arrancadas. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu. outrossim. não era uma nacionalidade. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. imediatamente. A quentura do membro entre suas pernas.Tente não me matar. conectaram-se ao seu sexo.. -Você é gostosa. Aproveitando-lhe a fraqueza. era falta demais. – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca. tomando-o todo possessivamente – e em seguida. .Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta. Francês. com urgência. um abdômen malhado com pelinhos aloirados. senão vou gozar aqui mesmo. e eles entraram meio abraçados. guiou-o para dentro dela. que usava o cabelo curto e a nuca exposta. – pediu. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. pronto para disparar... . Dois anos sem sexo era tempo demais. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte. No minuto em que se apossou do bico. pegando o pau na mão. Depois ele puxou-a para debaixo de si e. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. Na terceira tentativa. Mas o homem não lhe dava chance alguma.. contra o corpo magro e pequeno dela. Jacques fechou-os no apartamento. um animal a ser cavalgado. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina. erguido para trás. as unhas arranhando-lhe as costas. nesse momento. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. A cada arremetida. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. Esfregou o pau duro. – Abra a porta. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. encontrando um atalho aqui e ali. ela conseguiu destrancar a porta. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. provocando dor para atrair o prazer. avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã. uma britadeira no asfalto quente. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. Fêmea precavida que era. não se estatelar no chão. Tencionava.. ma petit. um par de coxas duras. um país secreto desbravado por uma selvagem. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. ela lançava gritinhos. Principalmente. Amanda espalmou as mãos contra a porta. quando ele fez um movimento atrás dela .

porém isso só aumentou a excitação do homem que. Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face.Nem pense em tornar a fazê-lo. terceiro. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. . esgotamento sexual. Debaixo das suas pernas. sorriu consigo mesma. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela. “beleza” e “fogo”. De repente. Amanda constatou três coisas: primeiro. . . Tarde demais.Muita dor. – murmurou ele. Amanda balançou a cabeça negando. arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. ele fitou-a em dúvida. Havia sido estuprada por trás? . ela pensava em coisas como “masculinidade”. pardon.Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele.. 9 .Aiii – gritou. Amanda engoliu em seco. à entrada encharcada e ardida. Tentou escapar. Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas. – respondeu estreitando olhos. agressivo. Jacques era instável. Ela desconfiou das palavras dele. – ameaçou-o. exigida a cada estocada violenta. Capítulo II À mesa da cozinha. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato. percebeu que era uma pergunta retórica. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda. – É uma garota sensível. Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo. desgostoso com o tom usado por ela. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. gozou abraçando-se a ela com força.Sim. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada. E admirando o homem à sua frente. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás. ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. antes acolhedor e em seguida. após três ou quatro bombeadas firmes. dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente. Amanda sentia-se exausta e descansada. alçando uma sobrancelha de forma superior. Jacques levantou a cabeça e a encarou. um caleidoscópio de emoções e sensações. Por um momento. enigmaticamente. segundo. . sorriu-lhe de forma travessa: . muita. intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. Mal conseguia se mexer.Pardon.Valeu a pena esperar. por certo. era um homem para uma aventura erótica e nada além e.Tem lubrificante? Da próxima vez. Num gesto brusco e inesperado. parecia sossegado e bem disposto. passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. ma petit. ardida em brasa. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca. de cabelos molhados. uma aventura erótica de curta duração.. entretanto. . – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz.

Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. era tudo o que mais queria na vida? Não. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. no segundo andar. vestia a roupa. E desligou. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e. ao longo da semana. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa.. Parecia um felino encurralando a presa. claro que não. Amanda buscou na mente motivos para tal observação. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante. . Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. Quanto à parte pessoal. Eram 7 horas. Mentira. Na primeira tentativa. mas à sombra. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. uma rotina a ser seguida. antes de sair da cozinha. Entretanto. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. cobriu o espaço entre ambos. No entanto. –disse de olho no relógio da cozinha. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. Quando viajavam a rotina era outra. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. acha que pode comigo?” Mas ela não 10 . o expediente na empresa começava às 9 h. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. caminhava na esteira por trinta minutos... levantou-se lentamente e. cabia a Amanda resolver. . a escolha das roupas a serem usadas por ele. Annie. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas. Tarefas múltiplas e variadas. Ela também queria casar e ter filhos. E mais. censurou-se divertida. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta.foi então que a ficha caiu!. porque outro felino esperava por ela. e o dela. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás. monsieur Brienne. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos.. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo.Bonjour. mas ainda assim. mas. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. pelo menos. monsieur. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar. venha agora.. sem sexo.D’accord. -Desculpe. lia. Amanda Rossi. Ocupavam o escritório. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. ou a organização de um jantar beneficente. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. tomava uma ducha quente às 06h30min. Quase como um casamento.. três jornais durante o desjejum. não sabia que monsieur já estava me esperando. caminhando devagar.. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. Quase gargalhou. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. era determinada nas reuniões de segunda-feira. Ele riu com vontade. E era como se lhe dissesse: “O que?. escolhida por Amanda. você está regredindo anos-luz. a presa precisava imediatamente fugir. À porta. . Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse. Usando o próprio corpo.Está atrasada. mademoiselle. quando ressoou Killer Queen no celular.

– afirmou. fraco e trêmulo. no entanto. tenho que trocar de roupa e sair. era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada. sim. Praticamente jogara-se para cima de Jacques. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: .Não devo me intrometer na sua vida. se o seu patrão permitir. –riu-se de forma afetada. Jacques. tinha outras ideias. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. Novamente. Estranhamente. chèri.Dei-me o seu. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. mecanicamente. Amanda. Sentia o corpo quente. e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. . dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se. se o objetivo final era apenas: sexo. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela.. Dessa vez. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: . -Preciso trabalhar. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. Jacques. De fato. ladeada por um pequeno bosque. Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura.. Estacionou. quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz. –concluiu. Essa era ela.. desligou o motor e pegou a pasta. alertou-se prontamente. podemos jantar logo mais. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones. Enquanto ele a penetrava. Soltou-se dele com um gesto brusco. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. e a obrigação profissional clamava urgência. -Oh. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras.. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso.. até a entrada da mansão. Desencana. concordava com Jacques. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. Cumprimentou o rapaz ruivo.Ah. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil. Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo.. claro. 11 . No fundo. não obteve sucesso. num movimento ágil. Voltava agora a ser disciplinada. o número correto. pragmática e responsável. . Desde que chegara a Paris. Amanda. o membro comprimido projetando-se no tecido.Bien então a gente logo se fala. . – Se quiser. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. puritanismo démodé. queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. Bom. divirto-me com os errados. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. A selvageria de Jacques excitava-a. –murmurou. fui muito difícil mesmo. como quase tudo na França. não estava satisfeita com o seu comportamento. vinda de Porto Alegre. – debochou.. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação.. Ao descer do automóvel.Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. – esperou que ela o ditasse. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

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Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

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lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

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sobretudo cinza ou preto e. -E faça uma tomografia. -Aliás. preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos. Era visível que a indagação o incomodara. Se tiver tempo. constantes e variados.. compre aspirina. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico. mademoiselle. Menos de dez passos. calças de 15 . pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. As executivas. cachecóis. s'il vous plaît. censurou-se. em seguida. e ele tentava escapar a todo o custo. Um tailleur cinza-chumbo. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. Os homens. as socialites queriam-no como presidente de honra. Viu a xícara de Jules vazia. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como. muito magra. emendou de forma mais suave: . que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. terno e gravata.Agradeço a atenção. Sim. . Agora.? Até onde você pode ir com esse atrevimento?. Lembrou-se do que ouvira no Brasil. saias justas até os joelhos. que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. Santa bobagem!. vá ter com Annie.. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras.D’accord.. – completou ela com naturalidade. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. – mandou sem tirar os olhos do computador. criado por um estilista argelino de 20 anos. Agora. hoje. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève. No entanto. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. fumante e usava o uniforme da SBO. às duas horas.. levarei outra camisa para seu escritório. mas sendo um homem educado.monsieur Jarkko Koskinen. Ele fechou o notebook. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros.. diria Robin. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. Fiz reserva no Les Ombres. monsieur almoçará com. – disse categórico. Caso queira trocar-se. -Em vez de tomar aspirina.Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. – afirmou taxativo. ele atravessou o terraço e saiu. Riu-se dos próprios pensamentos. Capítulo III Dorian possuía estatura mediana. Encontramo-nos no escritório. valerá bem mais que a minha presença. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo. . -Aspirina e café resolvem o problema.

com protetor solar. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. mesmo se não fosse. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause.. o seu chefe? oh. e. -Calma. escondia as curvas. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo. com um longo pescoço e imensos olhos verdes. nem sequer uma piadinha). Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. Agora.. Entretanto. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado. casado com uma estilista de moda. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. os seguranças da mansão de seu chefe. Ele exigia a perfeição de todos. Amanda. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. Depois de muito “escavar”. pó compacto. Annie vira o chupão.Nem me fale!. . longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada. devia ter algum problema psicológico. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. proteger e preservar. E nem teria visto a personagem alta. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que. Ou seja. mesmo discreta. que. ela não seria vista entrando. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. discreto como era. 16 .. grande parte delas. o porteiro de seu prédio (que era meio míope e. A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. Num minuto. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. sofisticada. céus. deveria zelar. graduado na Sorbonne.. se você fosse uma cobra me picava. e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa. onde se localizava o estacionamento da empresa. mesmo anexada à de Jules Brienne. surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor..Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). nada comentaria. Quem mais? Quem mais? Quase gritou. Bateu com a chave do carro sobre a madeira. como sua assistente pessoal. possuía banheiro próprio e uma outra entrada. lateral. quero dizer. com sua visão periférica. por isso aquele olhar estranho. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). estendeu à Amanda a base líquida. olha bem pra mim.. Doce ilusão. percebeu o ataque felino àquele que. vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer.. histérica. Quase gritou. Quando as portas do elevador abriram. sentada em frente à mesa do chefe. tinha 44 anos. de cedro. Dorian. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e. Ignorou a brincadeira da outra... O que não era o caso da tez dourada de Amanda. para peles de loiras quase transparentes. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília.. Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. com a sorte que tenho seria ele mesmo.

Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. não. as cortinas ainda estavam cerradas. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. . seriam chamados ao trabalho duro. –emendou com um sorriso educado. dirigir um automóvel popular russo.. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. Amanda observou os personagens em questão. oui! . parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante. sem desviar. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo. sem cronometrar. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève.Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e. A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz. num gesto silencioso porém bastante significativo. por outro lado. ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. sozinho. do tamanho de uma ervilha. vir de família simples. A face estava relaxada. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. concluiu que levara vinte segundos para a operação.Merci. tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. Monsieur Brienne. de móveis modernos. Ajeitou-se na poltrona. no quinto andar. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração. para variar. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. Os lábios contraídos. E fez: -Bonjour. mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades.Duvido. Amanda assentiu e ligou-a. com poltronas em vez de cadeiras. melhor. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. Deixou-os por um momento. ter nascido no terceiro mundo. No entanto. 17 . pois precisava buscar novas xícaras no refeitório. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. –depois brincou: . Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. parecia aliviado com a sua entrada. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. Ele. Primeiro. Ao voltar. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. O chefe.. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. ah. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. Olhou-a de cima a baixo e. etc. a qualquer momento. ou seja. ele não gosta de mulher fútil. não aceitava apenas o polpudo cheque. Antes de qualquer intervenção na cena. retraiu-se na expressão de impessoalidade. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança..Seja boazinha com ela. desviou para a máquina do expresso. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente.

uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. Parece que a mãe dele apanhava do marido. a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. Dorian. Amanda. Jarkko Koskinen. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e. -E a aspirina. . Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. pode ser. que. -É. dois ou três meses.Quanto tempo tem esse centro social?. Há um rapaz de lá. mesmo sem sorrir. –disse. aos pedaços. O fato era que ela sorria mais e ele. não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências. bebendo o restinho do café. A bem da verdade. provavelmente. divertida. . deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: . Quando voltou. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia. e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. era-lhe o padrasto. – encerrando o assunto.comentou com desdém. precisa de uma fêmea. Jules sorriu polidamente. Aliás. completamente órfão. devido ao café forte e quente. sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne. que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. Amanda voltou à sua sala. Podemos combinar e irmos juntos. Sonia e François também poderiam ir. Vinte anos de diferença entre François e Jules. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. pelo menos. na verdade. parecia que tinha treze anos de idade. e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. mas alguém tem que dar o primeiro passo. entregou a outra à Geneviève. apresentava visível prazer em sua companhia. -A Finlândia sempre me interessou. por sua vez. um macho alfa.Você precisa passar. -E depois dos 17. Ele é homem. Além do mais. coitado. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. um final de semana na Finlândia. amiga de Vivien Brienne. 18 . mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. non? – indagou sorrindo. mas a passeio. em seguida. seria bom relaxarmos um pouco. esquiei até quase acabar com meus joelhos.No momento. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. Amanda. Geneviève. – completou Amanda que sabia. . ele precisa mesmo é de cafeína. Amanda não estava gostando do rumo da conversa. e ainda por cima era filho único. agora. preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. A mocinha quase bateu palmas. algumas coisas sobre Jules Brienne. . o chefe. – era Geneviève. mãe de Jules. que fará a ponte entre Paris e Helsinque. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar.

Há cinco anos ouço a mesma bobagem. Por um segundo ou dois. foi um prazer.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral. Jules. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas. cruzou e descruzou a pernas. o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. . Além disso. ora! De repente. Amanda lia tudo isso. também. era uma mulher de princípios. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. -Cinco anos com dores de cabeça. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. como se falasse com uma criança teimosa. empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. tenso. os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. havia ultrapassado a fronteira. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. Ele era um executivo. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. um misto de exasperação. fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. admirou a própria derrocada. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. monsieur Brienne. preparado para ordenar. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. mademoiselle Cuvier. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. – afirmou Geneviève com a voz sumida. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo. em sua direção. Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. . em seguida fora mal-educado 19 . Geneviève agitou-se. Do outro lado da mesa. Dorian não compreendeu a ordem. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. é perigoso. Era experiente. “cadê a aspirina”?. non? – insistiu. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. desconfiado. e não um menino birrento. Ops!. Espero a sua visita no nosso centro social. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação.Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. numa expressão de menosprezo. -Jules. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. compre as aspirinas agora. Amanda provocava-o deliberadamente. havia neles. sem cúmplices. culto. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. Por quê?. Num minuto. que o faça por si mesmo.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. – disse com estudada calma. pragmático e tinha quase quarenta.Mademoiselle Rossi. – rebateu com calma. Entretanto. O corpo não mexeu um músculo. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. . Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. controlada. .

ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. Assim.por. Epa!. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. a vizinhança.. pelo menos? .. Amanda pensou. Como ele podia saber?. olhando para os lados. Le Mur Vegetal . Não era uma mulher covarde. Defendia a si mesma e os seus valores. disse: . depois. eu posso ajudá-lo com prazer. tem um cabide no armário para guardá-lo. –afirmou com um leve tom de desprezo. Hematoma sexual? -Pardon. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas. -Pedido aceito.. estendia para a assistente que o guardava no armário. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face. monsieur.Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. e tampouco uma Joana D’Arc. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para. Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos. Um buraco. perdido. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. a Torre Eiffel. monsieur. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. garganta seca. Dito isso. Hã? Por fim.concebido por Patrick Blanc. – mentiu fingindo-se ofendida. Outro atrativo localizava-se abaixo dele.Oui. -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês.. o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo. ácido no estômago. girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. os lábios constritos. -Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. Fogo na nuca. retirava o paletó.. Ora.. por favor! -Fui ferida gravemente. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. suspirando exasperada. mas isso é um ferimento causado por. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. apenas isso. Amanda não resistiu. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata. mademoiselle Rossi. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. monsieur Brienne. sem que ELE pedisse desculpas. a cara amarrada de sempre. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 . quase jogar a mulher para fora de seu escritório. Às vezes. Ao seu lado.

entretanto. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. Pela manhã. mademoiselle Rossi. na sexta-feira. vamos! . a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. ele tomou mais um gole de vinho. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos. –em seguida. haveria brechas disponíveis para novos eventos. um francês e um finlandês.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. estavam uma brasileira. bolsa de valores e impostos. começara uma empresa de criação e venda de software. Agora. – voltando-se para Jarkko. oui? 21 . vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. Fica um tempo conosco. comunicativo e inteligente. Jules observou os comentários de Amanda. Vestia-se com discrição. devo ir. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar.Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: . –agradeceu incluindo um sorriso. apesar de ser magro. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. . só mudava o país. acaba influenciando o sueco e o russo. No fundo da sua memória. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. O cabelo era loiro. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. longe de tumultos (como dizia Jules). perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. Mas tudo estará pronto para quando chegar. poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. Por fim.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. Anos atrás. eu mesmo as farei. poderia ter vinte e poucos. Numa mesa próxima à parede envidraçada. porém. voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. mal ouvia a conversa dos dois. bem ou mal. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. nada mais que um terno cinza quase azul. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis. Não se preocupe com as reservas no hotel. tinha algo a ver com mercado. –Agora.Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. –concordou Jules. Comia como um viking. o Jamie Oliver. volta comigo para Helsinque. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã. conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes. a burocracia era a mesma. indagou: . Mas não naquele início de tarde. -D’accord. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho. No momento. Jules assentiu levemente com a cabeça. Típica conversa de negócios. Mesas pequenas e quadradas. monsieur Brienne. monsieur Koskinen. Era um homem simpático. Faltavam os sapatos. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos. sendo escandinavo. cor de trigo. Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. -Merci.Italiano.

. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. de lã. em seguida. Às nove horas seria o jantar com os Roche. Estava exausta e já passava das seis. assim. sossegada. sedutor e com um sorriso espetacular. pois o tecido delicado também estava por demais gasto. pegou a bolsa e saiu do restaurante. retirou o robe. puxou a meia-calça rapidamente para cima. O proprietário sofria de transtorno bipolar. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. arrumar-se e dirigir até o Marais. a alma. uma bolsa de couro. obviamente. uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. pequena. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. já estivesse fechada. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. desviando das mesas. E mesmo ele sendo lindo. Teria tempo para tomar um banho. o sotaque ligeiramente arrastado. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen. 22 . não mais. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. Achei que havia acontecido algo. Despediu-se dos homens. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. e um par de brincos de pérola. -Hummm. aos pulinhos e trombadas. disse: . o timbre rouco da voz. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados. preparar algo leve e rápido. O problema era que ela queria o sapato CERTO. Dependia. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se.Liguei para você. meias e gravatas preferidas do chefe. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. Diante do espelho. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. ela pararia de andar sobre andaimes. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. Tentou sorrir e até se encantar. É. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. -Salut. pois sempre acertara a preferência do patrão. sugou e soltou o ar seguidas vezes. No entanto. Tentou mesmo. Comprou o sapato. do jeito que escolhera todos os outros. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. cadeiras e garçons. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. de seu humor.). Seu corpo ainda o desejava. Amanda havia esquecido aquela beleza toda. Cansava-se só de pensar nessa maratona. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite..Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel. já que não retornou minha ligação. Na verdade. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. saindo do quarto. ma petit brésilienne! –brincou. na outra perna. refletiu Amanda ajeitando a calcinha.

Desviou o rosto dos seus lábios. moço. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. deixe-me ver. bébé? –sorriu. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada. . o filho da puta. -NÓS temos um compromisso.. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 .. perdera-o na rua. Para companheiros de vida. Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo.Ei. Tantos lugares. como se dez. o que dizer. – Escute. à noite. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . deixara-o sobre a mesa do Les Ombres.. Jacques. quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. o chefinho controlador.Já lhe disse. entendi. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques. -Tenho um compromisso. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. . no elevador. Amanda conhecia o tipo. a minha vida – riu-se. controlada. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres. de fato.. capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força. ou. a gente se conhece há três dias. – pediu em voz baixa. Rochelle era o meu amor.O que foi. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. impondo força o suficiente para afastá-lo. saia da minha casa.. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. profissional. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. duas. porém manteve-se de pé. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida. batendo no sofá chamando-a para perto de si. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. do carro do chefe. Provavelmente. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. perto das quatro. Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non.Por favor.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã. no máximo. Onde você estava. na pior das hipóteses. na lavanderia. tenho um compromisso. Anotação mental: comprar imediatamente um celular. Empurrou-o mais uma vez. a ferir sentimentos e autoestimas.Ah. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão. Não sabia como reagir. pois trafegava em alta velocidade. você é descartável. no corredor da empresa. jamais. – enfatizou. . jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. A qualquer momento teria de sair. como se não estivesse acostumado a ser despachado. Ah. a mínima! Obcecado pelo trabalho. Você precisa sair. E era óbvio que não estava. Me diga. Ele não ligava a mínima para Rochelle. as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. no quinto andar. mordendo-lhe de forma sensual. jamais fora comentado na empresa por ninguém. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. Amanda. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. Mas a empresa era dele. literalmente.. -E eu já sei muito sobre você. -Acho que perdi meu celular. irônico. debaixo do banco do seu carro. serviam para uma noite. o que sentir. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. . Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista. Enquanto ela pensava no celular perdido. isso.. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos.. a abandoná-las. – balbuciou. não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme.

pensei que fosse me ajudar. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e. Mas eu ainda o porei entre as grades. um trabalho de networking. 24 . deliciosa. – gargalhou e emendou: . Afastou-lhe as mãos do corpo. porém surpreendeu-se com a força do golpe. Mas você me surpreendeu. – disse num fiapo de voz..estava me esperando.. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. Ele só não foi preso. desprotegida. para levantar informação e material contra Jules. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal. sábado. Sentia a face ferver de dor. Sabe sua amiga Dorian? Pois é. ao longo desses cinco anos. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha... Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você. -Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. Deixou-se ficar. Amanda Rossi. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo. de olhos fechados. ma chérie.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. –murmurou junto à sua orelha: . non? Só não traço as mulheres da diretoria. ajoelhando-se ao seu lado.Além do mais. enquanto o cérebro girava à procura do entendimento. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente. sou preguiçoso. entende. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. um pouco histérica. Pressentiu que ele se erguia. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação.. afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade.. Nada de precipitação. esperei o momento certo para me aproximar. com certeza. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si. -Oui. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. como lhe avisei antes. somos amantes. fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor.. Empurrando-a contra a parede. Foi então que tudo mudou. inerte. A recepcionista da SBO? Hummm. Teria de esperar alguns segundos. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada.. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido. Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão. porque é rico. seu psicopata? Com a mão livre. ouviu seus passos distanciando-se. Inutilmente. Amanda gritou. A dor havia desaparecido. morro de inveja de um assassino.

no ar. com a fúria de uma mulher machucada. agora. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. Jacques de fato atingiria Jules. Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. Desceu os degraus sem acender a luz. Deitou a cabeça em seu ombro. o príncipe que se transformara em sapo. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. Não se entregaria tão fácil. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. Seduzira as funcionárias da empresa e. gritando como nunca havia gritado na vida. segurando-se no corrimão. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. Apenas dois andares. tirou-lhe a faca da mão para. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. 25 . uma obstinação que a compelia a desejar viver. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. Sentia os cílios pesados de água. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. A qualquer momento. e esvaziou o peito da dor. num gesto rápido e preciso. em seguida. Era um odor de doença. No entanto. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte. engoliu a vontade de chorar e o medo. Medo que a loucura o tornasse um homicida. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. o vilão. sua amante. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. abriu a primeira gaveta do balcão. O cerco começara havia cinco anos. no pescoço. E a heroína. televisão. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço. no casaco úmido e gelado. Tudo abafado pelas paredes. por sua vez. A batalha não estava perdida. Não adiantava mais lutar. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. Possuía um instinto persistente. Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. enfiou a faca. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e. não precisaria usar os punhos. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. logo após o coma de madame Brienne. Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. para admirar e não ter. e encontraria Jacques. cerca de vinte degraus. fosse como fosse. intermitentes. porque Jacques. agora. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. de obsessão em metástase. para se defender e defender o mocinho caçava. sacudir-lhe os ombros. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. Acertara o desgraçado. para querer e perder. Medo que voltasse a sua casa. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e.. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão. Mas o mocinho não batia em mulheres . reclamando. Correu para a cozinha. ruídos de talheres e cachorros latindo. Barulhos típicos do cotidiano. roucos. Apertou o cabo da faca. mas ele foi mais rápido.Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. criança chorando. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. pelo visto.. na nuca.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. atirou-se contra ele e. desferiu um soco acertando-lhe o queixo.

lembrou-se do jantar com os François. Encontrava-se numa situação de desvantagem. mas a obsessão não é por mim. jogava-se contra as pernas do padrasto. Quase acertou no alvo. De repente. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. magro e com apenas sete anos de idade. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. Deitou-a no sofá. mordia-o. -Mademoiselle Rossi. obtém informações em questão de minutos. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. tenha sido roubado. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. Ele estava tenso. Analisava-lhe o rosto. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. quase que didaticamente. é capaz de muito mais. -E o que ela descobriu? . ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. o rosto escanhoado. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. Entretanto. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. pensou. machucada. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. provavelmente.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. o terno azul-marinho impecável. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. pelo visto. tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. do mesmo número. mas também não precisava me dar um soco. Por um momento. não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. –enfatizou. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. – disse com calma. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou. ainda fungando. lutava até ser arremessado contra a parede. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. grossa. num período de duas horas. 26 . – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. Ela tentou sorrir. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. – constatou. mesmo pequeno. -Oui. -Sim. porém. e depositoua sobre Amanda. chefe. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. afastaram-se. alguns centímetros. monsieur Brienne. me desculpe. hoje? –insistiu. Estudava-lhe o estado emocional. Num reflexo automático. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que. homens como eu. -Monsieur não deveria estar aqui. sem nenhuma emoção na voz. Sentia-se horrorosa e dolorida. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. ex-diretora de uma escola infantil. -O que aconteceu aqui. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. Invadi sua privacidade. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe. aposentada. o que lhe salvara de uma surra maior. Amanda. pouco. ferida e com uma faca na mão.Você me dirá de quem é esse número.

ficaria bisbilhotando até ela voltar. Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. porém riu sozinha. Pegou-a pelo antebraço e. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu. No entanto. A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. –murmurou. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz. alta. corria o risco de perder a sua confiança. é provável que sim. determinado como era. quero dizer. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. mesmo tendo sido comprado de um balaio. poderia até mesmo matá-lo. Durante a realização dos exames. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta.Troque de roupa. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. com passadas largas. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. Ignorando-a. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda. Pensava que se revelasse a verdade. Calçou um All Star. Todavia. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. Ela não pôde deixar de rir. Jules levantou-se. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher. –avisou-a. Sim. E Jacques era doido de pedra. Não queria que Jules soubesse de Jacques. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola.. Au revoir. Não iria mais a um jantar. Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. Eram quase nove horas da noite. um corpo pulverizado.. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa.. preto e branco. precisa de uma tomografia. deu-lhe as costas e voltou à sala. gordinho. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia. a duras penas conquistada. agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. E perdendo sua confiança. de óculos. Sentou-se. sempre baixa e controlada. Era um homem desconfiado.. e olhou-se no espelho. Possivelmente.Assustá-lo apenas. Custara-lhe uma pequena fortuna.. . ele. perderia o emprego. quase impessoal:. era mesclada de cinza. Seria muito difícil manter segredo. as coisas ficaram ainda piores. com certeza. Sion. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. -Imagino que sim. conduziu-a até o quarto. – interrompeu-se.Olha. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café.Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado. um homem baixo. –completou com ar sério. não admitindo refutação. iria atrás tirar satisfações. monsieur Brienne. Depois. -Estava fora de si. e sim fazer uma tomografia computadorizada.. -Dois minutos. –quase gaguejou.

podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. e ele logo surgiu na sala. como um agradecimento e um boa-noite.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. – falava como um agente do FBI. por exemplo. viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. Talvez fosse alguma coisa na postura dele. antes que pudesse emitir qualquer palavra.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa. tirou o sobretudo. Abriu-a e. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa. que seja. Suspirou resignada. O que foi feito. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop. – concluiu. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non. então. Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. semana passada comprei outro edredom. esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. . Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra. constatando as irregularidades em seu departamento. o que lhe foi comunicado com naturalidade. – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . está novinho em folha. os travesseiros e o edredom.Monsieur tem sorte. autoridade ou determinação. Espero que simpatize com o Patolino. que a fez aceitar. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. . segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas. não é comida para humanos. -Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha. -Buscarei. Impossível. plantada as três da madrugada de domingo. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. quando fizer as compras de Annie. para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo. inclua as suas. -Tem razão. hein? Ouviu um resmungo. -Deveria organizar-se melhor então. mesmo demorando a entender o que acontecia. o doutor Sung ouviria de fato a verdade.Obsessão em Paris Veronique Gris queda.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. definitivamente. – debochou. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. dando as costas e voltando à cozinha. sem contrariá-lo. . Se dependesse do outro. Era homem demais para pouco móvel. Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. – Isso aqui. o paletó. .O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto. num apartamento microscópico. – Vou pôr essas imundícies no lixo. –declarou sem rodeios ou justificativas. mademoiselle Rossi. Por isso como melecas congeladas.

parecia que fazia medidas e considerações mentais. ingeriu mais dois comprimidos. e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. Num gesto maquinal. -O quê? O quê? – quase gritou. você não sabe viver direito. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. e sim minha esposa. – declarou impassível. – franziu o cenho.. sou uma executiva graduada em. Além disso. somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. –replicou com impaciência. -Se não fosse assim. maior. -Cartas na manga. Na sala. seu pulso foi fechado por outra mão. -Oh. – Quem deixa o seu café quente. de dedos longos e unhas curtíssimas. mas não diante de um móvel.. levou a mão à testa. -Dor? -Um pouco. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde. de pé. – disse com raiva. voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. Só havia uma saída. mademoiselle. imediatamente. extraforte. é normal que a sua vida fique em segundo plano. para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha. . Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. minha cara. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. 29 . Sentiu uma pontada na cabeça. emendou com mais calma: . – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha. Portanto.Com todo o respeito. Antes que ele se voltasse. abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol. monsieur Brienne. Esperou em vão. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga. não seria minha assistente. assentir e obedecer-lhe. Vou tomar um analgésico. estava exausta. Parado diante do móvel. – murmurou emburrada. monsieur’’. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. Depois.É para aliviar a dor. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. e não para se dopar. qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. Claro que ele não a desejava como esposa. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada. Entrou. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. os olhos sérios enfiados nos dela. Conhecia o seu organismo. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. – respondeu sem dar muita importância. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos. sem açúcar.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. –avisou-a. . cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão.

relaxe diante de uma planilha do Excel. -É.Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. – sugeriu. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto.Se está errado. está começando a ler minha mente. . como se fosse possível. interessado. concentrado no computador. -Não pode passar a noite trabalhando. –murmurou.Durmo sempre quatro horas por dia. leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal. Quero preparar algumas coisas para Helsinque. madame. Lavou a louça sozinha.por que não fica mais à vontade. comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça. – disse-lhe em tom de provocação. .Já que passará a noite aqui.Na verdade. . . por favor. -E por que não tem? 30 . fique com minha cama.Que já sabe a resposta para essa pergunta. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” . . Amanda sorriu. se ficarei dormindo feito um inútil. pelo menos.E o que acha? – voltou-se para ela. ajude-me com os relatórios. .. resoluto. Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse. apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho.. Acho que essa viagem será divertida.Tubarão em meio aos tubarões. Abriu a pasta e retirou o notebook. Num dado instante.. A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá. comentou num tom casual: . Esse era o estranho senso de humor do chefe. Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada. – explicou-lhe: Assim como estava. . já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos. -Claro. Com certeza.. mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado. Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. parecia cansado também.Preciso tomar cuidado. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe. . – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. – completou quase que para si mesmo. Tenho certeza de que será como nos outros lugares. Eu durmo no sofá tranquilamente.Isso não está certo. Além do mais. . copos e talheres eram lavados por alguém. –declarou em tom irônico. -Oui. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas. com ar preocupado e distante. Preciso de você inteira. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. . claro. não eram os patinhos de cerâmica. – disse. Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre. tire os sapatos e as meias...Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações. Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa.É melhor então que não ponha seus pés na água.

Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. tal possibilidade. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago. Havia alguém na cozinha. Respirou fundo e ordenou-se a agir. que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. por impulso. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. Por um momento. adormeceu. Agachou-se ao seu lado e. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. Mexeu-se debaixo do edredom. -Provavelmente. Não vestiu um robe. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: .Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. passou a mão pelos cabelos.Annie tem uma máquina dessas? . viu-o caído no corredor. Assim que deitou a cabeça no travesseiro. . que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse. acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. Sentou-se. Era mais como a sensação de uma presença e. -Certo. manteve os olhos abertos. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada. À mesa.Desde que trabalho para o senhor. – acrescentou a título de informação. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. 31 Quando . O medo singrava-lhe nas veias. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir. -É. fora até o seu carro buscar algo. -Non. pois usava uma camisola de algodão. Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. mademoiselle Rossi. – disse. as lâmpadas oscilavam pálidas. verificou-lhe a pulsação. a mais chata e fofoqueira do prédio. Friccionou os braços com as mãos. uma de suas antecessoras. tocando-lhe o rosto com delicadeza. sem barulho. –comentou com casualidade. já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. talvez. ela evitava ficar muito tempo em casa. E encerrou a conversa. secamente. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade.Monsieur Brienne! – chamou-o. . Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. pastas abertas. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. – disse com naturalidade. Possivelmente. madame Brienne. Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico.

sempre disciplinados.Você o entregou de bandeja para mim. sentado à beira de sua cama.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu. no chão. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu. Jules estava pálido. Mas ela queria brincar com fogo.Já estaria morta. caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. estava manchado de sangue. . -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. empurrava-o e o chutava. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. pensou. agora... Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo. Estranhamente.. Afastou-se e o fitou. Sorria e balançava o celular de Jules na mão. A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. para a escuridão.sieur está bem. –constatou impaciente. . Tinha de salvá-lo. Era bom sucumbir. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido.. sério. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás. caía devagar. No minuto seguinte. Era bom morrer. – declarou-lhe. bloqueando-lhe a passagem. -Quantos comprimidos. Por que Jules não relaxava um pouco. Era até bom. . Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo. agora.. uma nódoa disforme e vermelha. Como? – Como? Como se regenerou.Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama. os lábios sem cor. No entanto. Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. a cabeça girava ou o quarto girava. Jacques surgia à porta. tencionava viajar para outro lugar. Também era bom. Investiu novo beijo. Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem. deixando-se levar como pluma ao vento. na linha do abdômen. vivo.. Precisava de ar.? Somente vampiros conseguem se regenerar. forçando-o abrir os 32 . seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão. Abriu-lhe a camisa num safanão. E.Vinte e dois. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar. -Mon. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância. Ela era uma formiguinha. perder uma briga.. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. A vida era curta demais para tanta seriedade. Alguém o ferira. sujeitar-se.. Nenhum efeito. Mas antes de ir. estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria. Jules estava bem. E era tão bom!. . Amanda jogou-se contra ele com raiva. sangrando. . sem argumentos. Despencava de um abismo direto para dentro d’água. não havia dor e perda.comentou debilmente. Sucumbia no melhor estilo. – riu com vontade. O tecido da camisa. para dentro. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso. um inseto inofensivo.

e sim trazê-la para si. precisava vencer a onda. eu já volto. no início da semana. voltando para o lóbulo da orelha. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente. os seios esmagados no tórax largo e firme.Espere. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. transparente.Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio. pesada e acelerada. . Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar. Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. desvencilhou-se. constatou-lhe a plena ereção. porém. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. . Ainda teve tempo de dizer a Jules. procurando não decepcionar o cantor. Batman. queria sentir-lhe o gosto. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e. na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. aprisionando lábios em lábios. Os braços rodearam-lhe o corpo. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. Ela gemia baixinho. finos e persistentes. – disse calmamente e. Mas ela o queria. 33 . Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: . agora. Abriu a janela. de Calogero. que ficava do lado de fora da janela da cozinha. por cima da calça social. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. Ansiava como uma canibal. Manteve os vidros bem fechados. antes.. parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura. Mordeu-lhe o inferior. excitada. A respiração de Jules estava rouca. Abriu a gaveta da cômoda e. – ela fez um sinal com a mão. sempre o desejara. . temia que isso novamente acontecesse. Depois. apesar do bom senso das palavras. encaminhouse até o varal. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. imponente e tépida. habilmente. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda. Mas algo o fez mudar de ideia. Após os primeiros acordes do violão. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. Bonne nuit.Não faça isso. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua.Sempre quis dormir com um macho alfa. mas nem se mexeu do lugar. Tinha de detê-lo.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido.. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado. como não encontrou nenhuma calcinha. Após ter chegado atrasada ao trabalho. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. que foi mordiscado e chupado languidamente. 7h 15 min. Apertou-se contra ele. Por isso. a exploração passou para o queixo e pescoço. Em seguida. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo. o locutor informou o horário. desde a primeira entrevista de seleção. Definitivamente. – disse-lhe ao ouvido.

-Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. nunca o vira com alguém. fêmea.. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço. tendo. – falou ofendida. por causa do trabalho. Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. era mantida a distância. Amanda levou dois dedos aos lábios.Está namorando? – insistiu.Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa. -É assim no Brasil? -O que. No entanto. Dorian respirou fundo. mas também pela oportunidade. Sorte de veterana. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. Eles se beijaram? Automaticamente. entrara em seu quarto e eles se beijaram. com uma pontada na barriga. A neve estava mais branda. Paradoxo difícil de entender. Refletia sobre isso quase todos os dias. Jules era fiel à esposa.. palavras dele: “devidamente demitidas”. justamente porque ele não a via como mulher. Em princípio. a esposa mantida viva através de aparelhos. ou seja. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. Maquiou-se suavemente. . Amanda pensava. Se tinha um caso. Conhecia a caligrafia. pegou a pasta executiva. Tinha plena consciência de que. -Essa falta de educação. nos cinco anos que trabalhara para ele. Isso é uma questão pessoal. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. Dorian? – perguntou impaciente. Impossível. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo. Amanda. a duas quadras do mesmo. que tivera na França. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). Levava seu emprego a sério. como lhe dizia a irmã. Talvez até tivesse uma amante eventual. que. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. não somente porque era seu ganha-pão. O beijo fora um sonho. era por demais discreto. Jules Brienne jamais a tocaria. Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. mas. tentava controlar a irritação. pensou com maldade. debaixo do próprio teto. a outra apenas encarou-a sem expressão. Jules passara a noite em seu apartamento. em algum momento da noite. as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio. que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne. Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas. Amanda apertou-se no casaco. Como havia esquecido? E. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada.” Sim. muito mais em relação a Jules Brienne. encontrou um bilhete sobre a mesa. Quando a ‘ficha caiu’. seria demitida como a assistente anterior. . “Estou no escritório. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. digeria a pergunta. a qualquer chefe e. Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família. Sorte de principiante.Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha. íntima. a sua faz-tudo particular. J. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Além do mais. não tem o direito de me deixar constrangida.B. depois que a esposa morresse. o vento era forte e cortante. 34 . no terraço da cobertura. apesar de sua competência e os cursos que fizera. lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. Ao voltar-se. raríssima.

Falava num tom baixo e regular.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia. – afirmou com naturalidade. . – riu-se. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 .Você tem alguém? . após uma conversa tensa. Se quer mesmo saber. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina. ele é gay. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: .Jacques Rodin? – esganiçou a voz. Por outro lado. meio assustada e um tanto constrangida. desconfiada. Um advogado das antigas. Ela não mentia. olhos azuis e ar plácido. com você e a recepcionista. Tem um sotaque bonitinho. – Nem precisa dizer. Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito. se veste bem e faz o tipo sedutor.Conhece Jacques Rodin? .Oui.Ele disse que estava tendo um caso com você.Que linguarudo. olhos azuis.. tinha cabelos grisalhos. Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. como eram conhecidas. um tanto a contragosto. . – confirmou secamente. emendando um sorriso nervoso ao gesto. meu namorado é cantor e suíço. –procurou descrevê-lo. Nunca vi esse Jacques aí. .Acho que sim. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. . loiro.bem. – fingiu uma careta de desolação. ela fez um gesto com a mão. quando Jules a interpelou: . era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos. sentado em frente à mesa de Jules. por quê? – Dorian indagou. ele é alto. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules. quando lhe fora apresentado por François Roche. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. Voltava de um terraço gelado. e a primeira delas referia-se ao café do chefe. era uma mulher equilibrada. culto e bastante influente politicamente. Amanda avaliou as palavras da amiga. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. procurou controlar-se. Ainda mais quando dois olhos escuros. Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu. intrigada. Encaminhava-se em direção à máquina do café. Aliás. . advogado da empresa. é verdade.. não faria escândalos por nada. divertida. e tampouco Rodin. Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. non? Perfeito assim. Amanda deu um passo à frente. Encontrou monsieur Armand Ribery. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal. Ele era um homem bastante discreto.Deveria? –alçou a sobrancelha. Mas não se chama Jacques. -Ele mesmo.Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial. tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria. Amigo de Jules desde o início da SBO. ou seja. Beirava os sessenta anos. só pode jogar no outro time. para que possamos abrir processo contra ele. Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. . experiente. Cumprimentou os dois homens.Nossa! Onde ele está? – em seguida. as poderosas do 11°andar. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia.

Não somos namorados.Merci. . O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo. – Eu mal o conheço. Acatou os argumentos de Armand. Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e. Armand. apenas Jules queria levar adiante o tal processo. monsieur.Não é isso. registrando queixa na polícia.Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. -De certa forma.. e creio que não se repetirá.Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. . . e era como um puma preparando-se para o ataque. . – acentuou Amanda. nervosamente. . – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne. o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa. pelo menos. -Agradeço a atenção dos senhores. justamente por isso. ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário. Mais tarde nos falamos. jamais mudará. monsieur Brienne. – começou. – murmurou. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si. Não seja inocente. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: . mas não pretendo registrar a. é melhor ainda para você e para a corporação. -Talvez pelo mesmo motivo que o seu.. pelo visto.Mademoiselle Rossi. um líder a sua equipe. que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda.A bem da verdade. Precisamos. Evitava o olhar severo do chefe. assustá-lo.. deve terminar. .. . – interrompeu-a. Jules? – ponderou e em seguida completou: . visivelmente contrariado.Precisa preservar a sua imagem. E não podia. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. e você sabe o quanto ele é sensível. de certa forma. mas foi novamente interrompida. ainda mais agora em processo de expansão. agressão. Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário. ele fará novas vítimas. Nenhuma delas com segundas intenções. pois. mademoiselle Rossi tem razão. .tentou responder. Por fim. ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. No fundo. Jules respirou fundo. se não processarmos esse rapaz. a proteção irrestrita.Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. o rosto febril. Amanda sentia-se acuada. Jules levantou-se lentamente de sua cadeira.. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. Ela é a sua assistente e. ele a machucou uma vez e o fará sempre. E sabe por quê? – fitou-a intensamente. fitando as pontas dos sapatos. Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos. – declarou o advogado apelando para o bom senso.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. também.. Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. chamará a atenção dos tablóides.. se a envolvida no caso não quer. mademoiselle Rossi. Havia a intromissão direta e. 36 . também. irônico. Apertaram-se as mãos.. Qualquer escândalo interfere no mercado. No entanto e.

. Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom. -Sim. Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo. talvez fosse perigoso querer. . Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas. nos fragmentos confusos espalhados pela mente. mas caso o beijo fora real. – provocou. pelo menos quando quero alguém vou até o fim. Jacques de quê? – indagou com desprezo e..Como. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! . como uma saudade antiga.? .Com licença. -Você deve ter problemas com sua autoestima. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe.Não conheço nenhum Jacques. faria qualquer coisa. apesar do tom azulado do queixo e maxilares. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa.. Se fora um sonho. Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem. Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente. completou: . vendo que ela não reagia. O terno fora trocado por outro mais escuro. caso o meu amante o merecesse.. e o cabelo ainda estava úmido do banho. – retrucou com altivez. Um desejo profundo e intenso. –ordenou com frieza. sem dúvida. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica. . já havia enfrentado outros piores. Se mergulhasse ainda mais nas recordações. assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”. trazendo-a para si.Agora pode preparar o café.O seu protegido.Ontem gritou um nome e. acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino. Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte. poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. Vestia outra roupa. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -.. Voltou a fitar-lhe nos olhos.Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você. – disse-lhe o mais profissional possível.Imagino que para proteger o amante. a camisa por uma azul-clara e a gravata. Havia feito a barba. Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: . 37 . até mesmo perder o emprego. observava o chefe de esguelha. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele. – afirmou sem pestanejar. Se quisesse e. dado às circunstâncias violentas a que se expôs. numa expressão de desgosto. o espancador. O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher.. sentiria as mãos ao redor de suas costas. Sustentou-lhe o olhar. teria de assumi-lo. dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. Jogou verde para colher maduro. bordô.Obsessão em Paris Veronique Gris . que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing. Jules não entenderia a observação. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina.. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: .Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar.

entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade. Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. os maxilares tesos. . . Cinco anos. Capítulo VII . depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules. as veias nas têmporas latejando. Afastou-se um pouco e o encarou: 38 . sério. Todos os homens que conhecera. desafiando-o.. Estava difícil respirar. sentindo o rosto corar. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente.Ah.Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. . Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si. . traçando uma longa ruga no meio da testa. Gemeu baixinho quando ele se afastou. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. Colaram-se os corpos. Ele assentiu levemente. Jules deixou-se abraçar. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido.É complicado.Non..E se antes eu a provoquei. Ela deslizou as mãos pelas costas dele. Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não. não é? – murmurou. Dentro de si. -Sempre o admirei por sua integridade e caráter. ainda tocando-lhe a face. – sorriu. então realmente houve um primeiro. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. Amanda. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só. – disse tentando sorrir. Baixou a cabeça e percebeu que tremia. – confidenciou sem jeito. Baixou a cabeça. Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos. foi só uma manifestação doentia do meu desejo. todos. foi a continuação do primeiro. voltou a encará-la. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a. não de vergonha e sim de desejo. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha. quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar. -Seria tão fácil. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos. Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. -Quer que eu vá até o fim. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. .É mesmo. acabavam de explodir duas granadas. monsieur. – comentou com bom humor. Se antes o provoquei foi só uma crise de ego.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu.E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo.Obsessão em Paris Veronique Gris . apenas ensaios. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante.

. . a voz firme. um pé batia no carpete.Amanda. Sentou-se e. Tinha vontade de quebrar algo. evitei qualquer relacionamento mais. Nesse tempo em que Rochelle está em coma. Se eu tivesse feito isso há cinco anos.Não tenho “casos”.. avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing.Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei. E isso inclui respeitá-la. intermitente. sem pressa. Apenas quero que compreenda a minha. – afirmou irritada..murmurou. . para hoje. . – declarou impassível. independente da situação de saúde da minha mulher. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária. ele não significada nada para mim. –ponderou fitando-a gravemente. Agora. . então? . . .Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia.E não é? Jules suspirou contrariado. . Merci. Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade. – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez. -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha. monsieur.Merci. confuso. . .. quebrar algo na cabeça dele! 39 .E.Esse cara. – disse num tom de reprovação. – disse baixinho. tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha. eu sou casado. posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente.Mais alguma coisa. o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem. os olhos cravados nos dela. se possível. mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo. monsieur? . – tentou explicar-se. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. . .Não é só isso.Non.Mademoiselle Cuvier. s'il vous plaît. contrariando seus sentimentos. esse homem que me agrediu. o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma. – enfatizou.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha.. ..Obsessão em Paris Veronique Gris .O que é. Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse. sendo assim. digamos. ignorando-a deliberadamente. Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante. Rochelle ainda teria uma vida normal. apertou o interfone para falar com a secretária: . grave. não me expondo em público com outra mulher.Sinceramente.A gente não precisa fazer nada. profundo. é óbvio que não pedirei o divórcio. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou.Tudo. justamente por que sou casado. – disse tentando controlar a incipiente irritação. . Cruzou os braços em frente ao peito..De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre. .

–reclamou. agora. Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava. -Escute bem. -Como? -O que acabou de ouvir. E desligou. retomando a máscara séria e fria. e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita.. Ao chegar. obedeceu à rotina de sempre.. – afirmou. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã. monsieur.Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias. -Entendi.Que horas devo ir? .Bonjour. . já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. A feição dele suavizou-se por um momento. –Agora. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular. – respondeu brandamente. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente. Por um momento. conversando atrás do balcão. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque.Está tudo tranquilo.Agora. houve uma pequena mudança nos planos. Mas até mesmo executar tais tarefas.. -Deseja mais alguma coisa. Nem pense em se atrasar. mas. o coração aos pulos. Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”.Eu ainda não sei o que quer de mim. Assíria. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho.. A ligação está péssima. ficaram apenas se olhando. ganhavam um aspecto de sutil intimidade.Bom. mademoiselle Rossi. Ele a trará para a reunião com os finlandeses. E ela descobriu que lutava contra um leão. – afirmou. pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste.Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça. – imprimiu firmeza na voz. monsieur? – indagou-lhe friamente. . –disse resoluto. 40 . pondere a respeito. pense sobre o que falei.. nesse novo estado alterado de sentimento. Ao longo da manhã. monsieur.. então temos problemas de comunicação. depois completou com uma sutil arrogância: . oui? . . abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. . Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. como estão as coisas por aí? . Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho.

Entretanto. Entretanto. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. ou seja. tanto no céu quanto abaixo. Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado.distava. Diante das janelas frontais. apesar da rusticidade da madeira. e não dele. –emendou um sorriso amarelo. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. Jules havia marcado a reunião. evitando. uma ampla varanda aberta. e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. as sacadas. nesta época do ano. procurando entender o que acabava de acontecer. Desde quando usava o seu chalé. isso poucas vezes ocorrera. sobre o primeiro andar que. apresentava sofisticação tipicamente europeia. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve. dos pinheiros ao redor da casa. formando um cerco na solidão do chalé. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. De fato. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe. no mínimo. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática. o chalé de Jules. -Belo dia para voar. Portanto. Um lugar totalmente ermo. No entanto. ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. admirava a beleza do lugar. observando a brancura à sua frente. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. por que havia transferido a tal reunião para França. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. pois ele cumpria a agenda. estável e aberta aos empreendedores. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. assim. nas montanhas. Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. A construção de três andares. uns dez quilômetros dali. Na frente.Amanda constatou . Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. neste momento. prestava a atenção nas variações do tempo. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. O vizinho mais próximo . não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. era um lugar 41 . rica. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. no auge das nevascas. No entanto. Meia hora depois. já na entrada de um pequeno centro comercial. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E. ela praticamente perdia o chão. de madeira rústica sobre pedras.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. possivelmente era a garagem. o seu refúgio solitário.

enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. Ficaram abraçados por um tempo. salpicavam-lhes os cabelos. Amanda foi a primeira a falar. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. em silêncio. Era como se estivesse de férias. de gola alta. Durante todo o trajeto. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. um palmo acima dos joelhos. de sedução. o scarpin escuro e a saia de lã. e tampouco percebeu que os flocos de neve. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. Escorado junto ao batente da porta. num beijo profundo. de uva. Somente quando parou diante dele. mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa. estava bagunçado. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. espalmada. não contava com a sua espessura. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. Ao tentar afastar-se. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . Ela tentou identificar a pessoa. quando se ergueu. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo. mais por impulso do que necessidade. era ensurdecedor. O helicóptero já estava no alto. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. mergulhar a perna na neve. Jules empertigou-se. mais uma vez. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. normalmente penteado e aparado. Abaixou-se para pegá-las e. inclinou o corpo para baixo. acabou deixando cair as pastas que segurava. no seu mundinho. Antes que ela esboçasse qualquer reação. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. de lã. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. Jules manteve os olhos fixos nela. estava Jules e seu cabelo azeviche. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. O cabelo. Apertou-se no casaco cinza. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. Ao descer. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. sobre seu maxilar. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. jeans escuro e tênis. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. distanciando-se deles. bem acima dos grandes dramas da humanidade. justíssima. vestindo um suéter preto. Alguém afastou a cortina. a voz ainda rouca. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face. e incitou novo passo para. No minuto seguinte a porta foi aberta.

. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório. O Jules dos Alpes franceses. O outro Jules.Machuquei seus lábios. pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. Amanda levou a mão à boca. Sem deixar de fitá-la.Acho melhor entrarmos. Amanda” impaciente. –ironizou. –brincou. bem típico de workaholics. mademoiselle Rossi. –debochou. Ele olhou ao redor sem muito interesse. aquele que ela conhecia havia cinco anos. possessivamente.Sua casa é linda. 43 . monsieur Brienne. Em seguida. diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. Ele pôs o braço ao redor de seus ombros. apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: . -Na verdade. . os quadros de pintura abstrata e o bar. o de barba por fazer. Antes de entrar. com um empurrãozinho do pé de Jules. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. em madeira de pinus.Quer provar meu sangue? – provocou-o. jeans e tênis. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta. sentia-os de fato inchados e doloridos. voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: . mais aconchegante e cheiroso. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior. tudo era composto por madeira reciclada. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda. decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork. profundamente. mas impõe mais respeito.agora o nome é episódio depressivo grave. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: .Tenho cópias aqui comigo. Depois. Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: . virou-se e a encarou seriamente: . Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. num tipo de rusticidade elegante e selvagem. Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não. -Homens como eu. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. . esse Jules agiu de forma inesperada. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve. -Oui. não sofrem colapsos.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo.Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. O que dá no mesmo. Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso. Jules parou à porta. Quando a porta foi fechada atrás de si. bem. Não pôde deixar de rir baixinho. achei bastante incoerente tal reunião. abajures com lâmpadas de quarenta watts.Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. portas e sacadas. esquadrias das janelas. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás.. . seguido de um “por favor.. que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris. Do teto ao piso. iluminavam languidamente a estante com livros. ainda abraçado nela. passando pela parede. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe.

Pelo visto. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico. Por um minuto ou dois.É uma comida típica desta região. no centro da cozinha. como fui alfabetizado. . . com toucinho e queijo Reblochon. Por fim. -Temos que comer. enfim.Tem serviço de entregas por aqui?. ele suspirou profundamente. – disse Amanda. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. nada de enfeites. ingredientes e modo de fazer. sem muito entusiasmo. É fácil. Para acompanhar o prato principal. parecia derreter dentro da boca. retribuindo o duplo sentido da frase. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. Jules havia preparado uma salada com cogumelos. havia planejado o encontro no chalé com antecedência. Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que. – disse baixinho. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. abriu o forno e deu uma olhada para dentro. um lugar para ficar distante da minha vida parisiense. um queijo cremoso. A cozinha era arejada. levava ao porão. Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida. Isso sim significava uma grande mudança. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. A camada superior. pelo o que Amanda verificou. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. na verdade.alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. paninhos coloridos ou imãs na geladeira. Com o pano de prato dobrado. Amanda observou.Voilà. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. Realmente. Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. ele não usava mais a aliança na mão esquerda. aprendi a cozinhar. marcando o tecido delicado da roupa. Comprei um livro de receitas culinárias e. percebeu que após cinco anos. -Você também. ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: . . em seguida. não estava em lugar algum. . creme de leite.Da última vez que fiz faltou sal. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho.Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda.O cheiro é excelente! . quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 . Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. crocante. Quando comprei o chalé.Aqui está o segredo de uma boa refeição. era visível que procurava controlar-se. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha. toalhas. . . -Deve estar com fome. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. assegurei-me que de fato seria um refúgio. Numa banqueta de madeira. Ele parou diante do fogão.Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. é um lugar tão isolado! –debochou. não havia detalhe algum feminino. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. É feita com batatas e Reblochon. ele prosseguiu: . Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. Antes de entrar. o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e. toucinho e alho.

Vou comprar outro maior para você e. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. vou entender e aceitar. não fale.Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas. levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la. .Amanda. – observou calmamente.Os executivos e suas vagabundas.deu de ombros e acrescentou:. agora.. e um deles é essa mania de distorcer o que falo.Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando.E. .e isso não afetará nossa relação profissional. com eficiência. – pediu. . . assim.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles. .. a oficial e a do affair. sobre o aparador para secarem. -Você não luta por ninguém mesmo. Jules recebia a louça e. Ao constatar que não lhe responderia continuou: . . em pleno século XXI. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum. Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. . Inexplicavelmente. agora. sério sem censura ou ameaça.Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. Será que só o presidente não sabia? – ironizou.Se vai complicar tudo. copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o. -Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha.Se não está preparada para ficar comigo. – disse Amanda sorrindo. 45 . -resmungou baixinho.Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. Entregou-lhe os pratos. um executivo da área da computação faz um prato delicioso. –murmurou. já de posse da esponja e detergente.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. depois. – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. interrogativo. .. Apenas nos beijamos. mas não consigo deixar de perceber seus defeitos. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem. -Quero que saia daquele apartamento. Ele sorriu com um um jeitinho tímido. colocando-as. . – disse incisivo. é longe.. nesse almoço. obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo. pequeno e sem segurança.Quero você e muito.O quanto estava lúcida àquela noite? . . ordenhavam novamente suas vacas. . baixou os olhos e encarou-a novamente. –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo. – falou. Ajeitou os talheres ao lado do prato. acabou quebrando o silêncio. Podemos parar por aqui. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio. Não queria ficar sem ele.O suficiente para não esquecê-la. Como Amanda não possuía nervos de aço. bastante interessado. Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela. . ela sentiu um repentino mal-estar. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente.

. –respondeu com seriedade. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. Além do mais. A nevasca atingia as montanhas.Claro. -Entendo. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . tão perscrutador. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não. nós. -Por outro lado. Ano passado. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças.Naquela noite que passei em seu apartamento. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. No entanto. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada. Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. deitada no asfalto sangrando me mandado embora. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos. mas. a pernas separadas.Por que está me dizendo isso? . Jules mantinha-se afastado e sereno. numa posição de espera. mas amava a vida. acima de tudo. Amanda? Isso não existe. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha. você disse que somente confiava em mim. . . de acordo com a medicina. apesar de rica.Rochelle é a minha obrigação. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa.Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte. .Acha que não sei? -É diferente. mesmo que tenha me traído e. . . escaras e subnutrição. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado. nem na vida.Você quer certezas e garantias.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. . por que. a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. Além disso. – murmurou ela.. não existe no mundo. tentamos retirar o respirador. . E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos. é a minha responsabilidade por que. Olha só o meu casamento.E se a sua esposa voltar a si?. Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida. nem conseguimos trabalhar direito. Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. 46 . dentro. Jules.Olhe para mim. baixa e tranquila. mas ela não reagiu por si. –deu de ombros num gesto de impotência. é a mulher com quem casei e. Ele estava todo ali. Foi uma experiência dolorosa e frustrante. A vida não nos oferece garantia de nada. mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras.riu-se com amargura – mesmo assim.. Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver.. Rochelle não me amava.. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana. é um ser humano.. o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. Há uma luta constante contra pneumonias.. vinte por cento dos pacientes se recuperam. não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos. Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo.

Jules. esfregando os lábios nos lábios dela.. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido. com a cintura. Depois.o que você fazia. .. mantendo-o entre a língua e o palato. para que ela o sentisse todo dentro de si. umedecido pela ligeira camada de suor. havia percorrido todos os caminhos racionais. Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. -Eu a devorava. Arqueou-se para. Em seguida. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. . Controlou-se o máximo que pôde... Amanda gemeu e arqueou o corpo. de pé. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente.. baixou o jeans e a cueca boxe. Penetrou-a totalmente. . Num gesto rápido. e. preta. introduzindo-se em princípio com gentileza.me diz. o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. Ele se aproximava com o rosto circunspecto. . – disse. abocanhou-lhe um mamilo.Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. cadenciados com seus gemidos e 47 .Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador.. alimentado o cérebro de respostas. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível. que escorregou para o chão. sutiã e meia-calça 7/8.. Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. as narinas dilatadas e os lábios constritos. olhando-a diretamente. os olhos negros como os de um predador voraz. sem deixar de fitá-la. como se fossem um corpo só. Afastou-se e. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca. ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. detendo-se no lóbulo da orelha. violentos. as sobrancelhas juntas.E. controlava a cadência das arremetidas. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo.. a cabeça inclinada sobre seus seios..Não a amo mais. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia. devagar. sendo chutada para cima do fogão. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço. Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa. Ele puxou-a para si com brusquidão.. de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos. por um tormento mudo. Depois. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos.Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele. depois.saber.quero muito. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. de renda. desabotoou-lhe os botões da blusa de seda. –afirmou sem maiores explicações. As mãos.Jules. Ela queria mais. um tormento sexual. os maxilares contraídos. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas. . penetrou-a. . Em seguida. abriu-lhe o sutiã e. queria-o fundido em si. enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo. expondo o sutiã branco. como um legítimo macho alfa. deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. firmes na cintura dela.. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: . com movimentos mais fortes. Deitou-a sobre a mesa e. saboreando-o. Era assim que Jules Brienne sempre agia.. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis.. lentamente.Entregue-se a mim. com o joelho afastando as pernas dela.. o corpo esguio encurvado para si. Amanda. tocar na dele. segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo.. Por um momento.Quero. dentro e fora da empresa. Num movimento ágil.. faminto. deslizou a calcinha pelas pernas dela.

Do lado de fora. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó. Enlaçada em seu pescoço. recebendo um sorriso terno de presente. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. a força dos braços. tinha todo o seu corpo possuído por ele. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. os olhos fechados. E o cheiro dele. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras. Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço. beijando-lhe o pescoço. vez por outra. congestionados em suas órbitas. um robe de seda.Queria ter podido me controlar mais. Entretanto. brancas e azuis. pétalas de rosas azuis. como era alto. a primeira vez dos dois. separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. –brincou. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. emitia ruídos secos. levando-a a gritar numa voz irreconhecível. Ao abriu os olhos. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. . dobrado. ao ajeitar-lhe a gravata. à esquerda do bar. Era para ter sido ali. Sobre uma mesa. Em dois minutos. E. e puxou-a para um longo abraço. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. trouxe-o e o pôs em Amanda. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. Em vez de vesti-lo. sobre a colcha. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela. sob a janela. E não era a primeira vez que a sentia em si. agora. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. Depois. colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural. . perto da janela. analiso o que você falou. – desculpou-se. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen.Quando eu conseguir pensar. impregnara-se do seu cheiro na pele. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse. puxou-lhe o corpo para a borda da mesa.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. fora-lhe quase como uma companhia. . Quando entraram no quarto. no meio das montanhas brancas de neve. em cima da mesa da cozinha. para ela. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. . Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. esfregando-lhe os ombros. Aos pés da cama. ao longo dos anos. músculos e carne até explodir como uma bomba. ele abriu os olhos. Quando despencou da montanha-russa do prazer. nervos. Penetrou-a novamente e.brincou. Por diversas vezes. num canto da sala. o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. naquele quarto decorado romanticamente. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. Ele subia devagar os degraus da escada. Antes de atingirem o cume do prazer. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas.Empacotada para viagem. A lenha crepitava na lareira e. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. 48 O . Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. amarelas.

Por um momento. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. o sexo para. que começou tomando-a aos poucos. Ne me quitte pas.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. Voltou-se toda para ele. enterrou as unhas na sua pele nívea. em seguida. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e. encaixados. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo.. descendo até a curva de suas ancas. foi acionado. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. que a sustentaram enquanto seus quadris. trazendo Amanda para o seu colo. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. Ainda sem conseguir respirar normalmente. que foram sugados com força. num timbre de quem explodia de prazer. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. morno e eletrizado. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo. até o fundo. depois de mordiscar-lhe o ombro. abertas. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. erguendo-se ligeiramente. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas. Gritou o nome de Jules. Ele sugou-lhe com vontade. Quando percebeu que ela estava pronta. de frente para ele. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo. em seguida. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. Subiu novamente pelo mesmo caminho. passou os braços por baixo de suas pernas.. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo. diante do corpo dele. teve-os engolidos. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada. cada um na sua vez. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. Esfregou os seios no tórax firme dele e. 49 . arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. Num movimento ágil. Com apenas um toque num dos botões. Jules gemeu ao seu ouvido. enlaçou-lhe o pescoço e. seca. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. enfiou a língua e o mordiscou. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela.. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. com o outro. o ventre. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido. Jules sentouse na cama e puxou-a para si. Do alto. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem. atirou-se para um mergulho no mar denso. o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas. por baixo da pele. auxiliou-o no vaivém de seus quadris. alternando as coxas. ergueu meio corpo e. Avançou para o umbigo. Prorrogou a carícia. Por baixo de suas nádegas.. por uma boca voraz. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. roçando os seios no seu tórax.

mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 .corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: . forte e sensível.Contratei-a por mérito profissional. suava e quando o vi sentado atrás da mesa.. sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada.Disfarçou muito bem. Em suma.Uma vez você ligou mesmo. obviamente. Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. Admirou-lhe o tórax firme. alguém sensível o suficiente para lidar com o meu. . simplesmente. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro. -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça. Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados.Humm. Virou-se e viu-o manejar o controle do som. – constatou e emendou com suavidade: . a pele ligeiramente orvalhada de suor.mordeu-lhe levemente o lábio inferior. a respiração controlada.-provocou-a.Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe. . -Você é muito mandona. apertando-a num abraço possessivo. – sondou. . -Monsieur.Totalmente. – completou com um alçar de sobrancelhas.Verdade? ..sei que não gosta de falar sobre isso. -terei de domála.. Jules. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali. Roçou seu nariz no dele.Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que. pragmatismo. após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos. jamais tenha dúvidas sobre isso. Sou o pior chefe do mundo. Eu tremia.Ainda me deve uma tomografia. o cenho franzido. minha temperamental assistente. . perguntando-lhe algo e. mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha. dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico.. impecável e bastante experiente. sentindo-se exausta e relaxada. recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si. – afirmou com naturalidade... procurando uma música no playlist digital. você.. uma combinação um tanto paradoxal. digamos. A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante. Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. entende? Mas você.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho. Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda. então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. . – disse calmamente num tom divertido. – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente.Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. Gentil e bruto.É verdade. – constatou num murmúrio. monsieur Brienne. . aliás. bem. Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la. com a cara de poucos amigos. Depois. . – disse-lhe sorrindo. . sorrindo.. a última etapa da seleção era com você. -Tive sorte. ... roubando-lhe um sorriso suave. . precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio. não obtendo resposta... . Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. Jules era um amante refinado.

diante do fogo. surpresa pela reação hostil dele. – disse por fim e deu-lhe as costas. Mas a voz. também era sedutor e rouco. sem maiores explicações. em silêncio. Jules voltava a ser o chefe exigente. Falei besteira.Fui grosseiro. mademoiselle.. ele 51 . –Vamos nos poupar disso. mademoiselle. –direto e seco. Mais do que nunca. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto.Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. -Sente-se aqui. o timbre de voz que usara. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. ainda nu.Não tive intenção de incomodá-lo. branca e limpa. com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. até para os tipos românticos como você. ouviu-lhe dizer: . Naquele momento. de preferência. os ossos dos maxilares. de frente. E Jules odiava demonstrar fraqueza. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. eram somente um macho e uma fêmea. Postou-se diante dele.Assim que amanhecer. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. Sexo e sofisticação não combinavam. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente. Aquele era um assunto tabu?. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. Amanda sentou no colo de Jules. Intimidada e insegura. . pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris. . Satisfeito na cama. confidências à meia-luz. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. non? É clichê demais. – ironizou. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. . cruzados em frente ao sexo. como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. Dera-lhe uma ordem.O protocolo pós-sexo. salientando a face esculpida com vigor. pardon. Maxilares contraídos. Devido ao último confronto. encaixando suas pernas ao lado das dele. ela resolveu ceder. concentrado no fogo da lareira. Os braços ao longo do corpo. refletiam luxúria. -Tire a roupa. Voltou-se e viu-o na mesma posição. bebendo o vinho. Ele olhou-a com o rosto sério. Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão. apenas observar e. para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. imóvel. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar. Com um gesto lento e displicente. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável. Manteve-se de costas para ele. nua. manteve-se quieta. ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. brutal.. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. mesmo imperativo e urgente. a mão estendida à espera da dela. ma belle – pediu com a voz abafada. revelavam os seus sentimentos. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios. forte e primitiva.

num gesto instintivo. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. friccionando devagar e circularmente o clitóris. o quadril. Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. endurecendo os bicos. na voz de Jules. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele.. em seguida.? – indagou aturdido. -Como. sugerindo. Dito isso. Apoiou-se sobre os joelhos. diz que vai me foder. parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: .. emoldurado pelos tufos negros. afastando-os do rosto suado. linda. enquanto segurava-se nele. que foram chupados pela boca máscula. concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios. -Vou te foder.Dieu. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo. torturando: . vou fodê-la toda. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão.Está encharcada. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. ma belle. as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se. sem forçar. – pediu quase num murmúrio. Num segundo. -Não diga fazer amor. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. apenas a ponta do dedo.. Admirou-lhe o pau duro e grande. Amanda temia o próximo passo. -Diz que vai me foder. – gemeu Jules. Estremeceu-se de medo. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. Medo e excitação. saindo da boca de Jules. como uma pequena morte.. Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar.. Temia o ato. beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. Deitou a cabeça para trás. Como se seguisse a linha de seus pensamentos. como é linda. Ouviu-o rir baixinho. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele. a respiração também alterada. sem preconceitos ou impedimentos. O toque foi lânguido. as pálpebras semicerradas. provocando-o com o seu sexo.. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado.. Aproveitou para admirar-lhe a nudez. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. deitado para trás ao longo do abdômen firme. minha Amanda. ainda não. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá. as costas largas de ombros proeminentes. suavemente.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante. ma belle. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava. .Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes.. apenas roçando. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. mas ainda não farei amor com você. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. Ela se esfregava na mão dele. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. com ossos que despontavam acima da rótula do braço. as pernas ladeando as dele.-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer.Toda. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. o quadril esfregando-se no abdômen dele. nos seus ombros. diz Jules. . um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. Por outro lado. A cintura bem torneada e o traseiro bonito. 52 . Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos.

prendendo-os entre os dentes frontais. liso. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus. agarrada aos ombros dele. Ele sentou-se ao seu lado e. Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. ma belle. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. com cuidado. Ela confiaria a própria vida a ele. balançando-a com displicência. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. – Seus olhos estão arregalados de medo. Amanda gemia alto. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. fervia e esquentava-lhe a nuca. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. Ao fazê-lo. . Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. reconhecendo um no outro. –declarou com ternura. -Então vamos desfazer esse medo. prestando bastante atenção no nervosismo dela. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. duro. A pergunta foi feita com tamanha suavidade.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão. Amanda ajeitou-se fundo no sofá. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. como se se vissem pela primeira vez. fitaram-se por alguns minutos. Jules beijava muito bem. eu jamais a machucaria. E quando se afastaram ofegantes. -Acredito. Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. belle. numa carícia mais do que tocante: íntima. disse com meiguice: . Aos poucos. ainda mais duros. . os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. vem. assim. –chamou-a para o seu colo. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente. fazendo-lhe um carinho no queixo. – pediu-lhe baixinho. Nó no estômago.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. depois de deixá-la completamente louca de desejo.Isso. que ela nem pensou em encobrir a verdade.Vem aqui. agora. Assentiu com a cabeça. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele.. a vagina molhada e os bicos dos seios. completamente envolvido pelo beijo. Garganta seca. Amanda contraiu-se. atlético sem ser malhado e magro sem excesso. Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. longo e perturbador. um de cada vez. seus sexos tocando-se. inebriante. e Jules beijou-lhe o ombro. Sugoulhe os bicos. Amanda.. bem típico seu. as orelhas. A sensação era boa. 53 . um prazer para nós dois. Quase 1. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. borbulhava. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. um prazer para o nosso mundo particular. devagar.Afaste as pernas e incline-se para mim. sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. com dois de seus dedos longos. – sussurrou. um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador. antecipando o que seu pau faria. mordiscando-lhes. – Apenas siga-me que eu a levarei lá.

Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar. Com o polegar. -Foi tudo. Jules? – indagou-lhe quase sem voz. extasiada. deixe-o deslizar aos poucos.Tudo.. e eu farei a sua vontade.... . Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira. a expressão séria e. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal. um ruga funda no meio da testa. pare.. Num gesto rápido e eficiente.. enfiado nela.. uma dor aguda.não vou machucá-la.. Amanda... tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. o desespero no timbre da voz. ele levou-a consigo para o chão. o cabelo úmido. 54 . mon Dieu. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão. mas. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. mon amour.isso.dói.. esforço esse que Jacques não o fizera.... Amanda.. que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e. -Acho que pode. Ele bem que tentou manter-se terno. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela.gemeu. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina. sobre a ponta do pênis. Jules. abraçado a ela. somente você. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si. Ela sentia-o descontrolado.... Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém.. com a mão no pau de Jules. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais. -É bom demais. . apenas observava-a. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris. Tomada pelo prazer e encharcada de suor. sente-se sobre o meu pau devagar.. -Nem a metade. ao mesmo tempo. Amanda. de queimação fê-la recuar. Jules. Amanda. o rosto tomado por uma fina camada de suor. pô-la de quatro.... que lhe escorria pelas costas e seios.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora. Você está no controle. -Acho que não posso. ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave.. – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si. Como uma aluna aplicada. ela seguiu as suas orientações..isso. mexe devagar.. a mais linda. puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. -Você é mulher mais linda do mundo. –Isso. ainda enterrado fundo no traseiro dela.. entrou tudo. – Você fodia minha bunda na sua imaginação. encurvada e com o traseiro apontado para cima. jamais a machucarei. relaxa. Você é perfeita. – quase gritou.. isso. Agachou-se entre as pernas dele e. Era visível o esforço que fazia para controlar-se. que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante. as veias da testa e do pescoço dilatadas. sem pressa. guiou-o para a sua entrada detrás. relaxa que entra mais fácil. como é apertada e gostosa. – gemeu desapontada. subindo e descendo o traseiro no seu pau. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior..... Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules. com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela. –falou posicionando-a sobre o pau. os olhos fechados.. Deitou-a sobre o tapete e.é como eu sempre imaginei. ma belle? Se doer. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida.

. Abraçaram-se debaixo da ducha. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. que não fora possível vê-lo. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes.. nesses últimos cinco anos. 55 . Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. do tipo inesquecível. fê-la gozar novamente. Um amante para sempre. enterrando-se até o fundo da vagina. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. ensaios e rascunhos. Haviam dormido abraçados. minha lindinha. Quando acordou. pegou-o e o admirou. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. possessivamente. ela estava apavorada. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. Completamente apavorada. inclusive com o novo vocabulário do executivo. ao lado da cama. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. Amanda concluiu que sua vida sexual começava. que foda maravilhosa. vou lavá-la para diminuir a ardência. Como ela não se mexia. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha. – disse rindo. Sentou-se. com Jules. -Estranho. Afastou o edredom e foi ao banheiro. ela deixou-se cair de bruços no tapete. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. antes mesmo de saboreá-lo na cama. pegou-a no colo. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. a velocidade e a força. Por isso. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. Talvez ainda fosse madrugada. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. -Vire-se. dosando as arremetidas. exausta e saciada. já sabia onde estava. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. que deixava marcas no corpo e na alma. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta. que a amparava e se lançava na direção contrária. pequeno e de seda. Ela sorriu satisfeita com tudo. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo. Todos os outros. Era novo. feminino. -Porra. envolvidos pela água e pelos vapores. -É porque estou sem as botas do Kiss. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. controlando os movimentos. Jules virou-a de frente para si. –resmungou contrariado consigo mesmo. içou-a sobre seu corpo. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. -Estou curada do trauma. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. O seu melhor homem estava tão próximo dela. empinando a bunda para Jules. Realmente. -Espero não tê-la machucado. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede. quero dar-lhe um banho. Mas não posso receber alta. Avistou um robe caído no chão. subiu os degraus e entrou no banheiro. – brincou. docteur. Lavou o rosto. okay? -Oui. -Vem. Ainda com Amanda nos braços. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. agora. beijando-lhe no tórax. Entretanto. –brincou.

.Claro. – declarou. a testa franzida. Num gesto ágil. Usava uma camisa de gola polo azul celeste.Venha e tome seu café. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante. num gesto de ameaçadora tranquilidade. mademoiselle Curvier.Bonjour. mostrando a face recém barbeada. Engoliu em seco. Jules. 56 .Sei quem é. seu chefe. Agora. a lembrança da frustração. pois suspirou contrariado. Saía e voltava pela porta de correr da cozinha. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. Entretanto. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. bonito. já havia encerrado o telefonema. – concordou solícita. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants.Quero que veja uma coisa. ordenou: Agora. sorria para a câmera. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave. E. Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. No caminho. Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. – em seguida. mas soou como acusação. Respirou fundo e procurou controlar-se. agora. sentado no banco de um parque público. rasgando a foto em vários pedaços. . desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques. Encontrou-o na discreta sala de jantar. – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. – disse-lhe.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. . ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. agora. Pela reação de Jules. – afirmou com desdém. Pronto. O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. me transfira para o marketing. jeans e tênis. presidente-executivo da SBO. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . À medida que descia os degraus. tão escuro quanto as trevas. sério. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar.Tevê aberta? Merdè. medo e dor fizeram-na contrair os lábios. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules.Ele a agrediu. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás. diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. . . Um homem loiro. Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença. entre a escada e o bar. Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne. . o jogo havia virado. ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo. Esperava um beijo ou um sorriso. O cabelo molhado estava penteado para trás.Jacques Rodin. tive a confirmação. s'il vous plaît. Reconheceu Jacques Rodin e. tornava-se a megera. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade. não foi? – era uma pergunta. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. . será uma chateação dos diabos. concentrado na conversa. imediatamente. Voltava a ser circunspecta e fechada. encurvando o canto esquerdo dos lábios. em frente à cozinha. ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. . Ignorou-a e voltou à cozinha. o que se destacavam eram os sulcos na testa. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth.

. pena que ele seja um pouquinho psicótico. Quando se preparava para fugir de outro homem. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía. Ou seria “não sei. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: . Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia. Jules estreitou os olhos perigosamente.completou sem dissimular o desprezo. Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta. Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores. Lutava para manter-se calmo e equilibrado. pelo menos.talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês. Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques. Jules puxou-a pelo antebraço com força. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la. erguendo o queixo em desafio. amigo de Dorian. . mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos. constrangida. . A conversa ainda não terminou.Sou a vítima. perigosamente controlado.Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja. . . Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. Diga-me.Devia tê-lo delatá-lo a mim. do encontro às escuras. interrogativo.Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você.Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências. . . Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada. embaraçada.E não posso negar que ela teve bom gosto. – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados. – declarou secamente e deu-lhe as costas.Não sei. non? Monsieur Rodin. . exasperada. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme.Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou . 57 . três ligações do mesmo número das mensagens eróticas. Ele suspirou exasperado. Jacques salvara-a de um salto quebrado. .Dê uma olhada no seu celular e encontrará. porque Jacques Rodin é doido de pedra.Porque talvez alguns homens só mereçam isso. –declarou tentando impor firmeza à voz. . não me transforme na vilã!gritou. princípios e verdades. a força do destino! – debochou e completou incisivo: .Ah. Jules. Amanda baixou a cabeça.Tudo o que fiz foi para protegê-lo. – falou baixinho.É terapeuta também? – debochou.Você é movido pelo seu ego estratosférico.Jamais me dê as costas. . uma veia despontava latejando no meio da testa. –acusou-a. monsieur Brienne?”.Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher.Na saída de um restaurante. Então. – disse com maldade e completou debochando: .Obsessão em Paris Veronique Gris . . e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! . o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha. mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela. – respondeu.Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado. O contador. . Fiquei quieta para que a situação não piorasse. .

manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. o que dizer? por putes. Não queria mais discutir. conhecido por seus programas de economia e administração. Aproveitou para recuperar a paz perdida. E. 58 .. -Meu estômago está fechado. – disse simplesmente. parece tão desprotegida. Amanda. Por fim. telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. Ele não se mexeu do lugar. provavelmente. . Queria que fosse diferente. após alguns minutos de silêncio contemplativo. num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. respondeu como quem se livrava de um peso: . diante de si e fitando-a duramente. -Ninguém gosta de sofrer. e essa atmosfera também estava interiorizada nela. – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia. Todavia. nos braços dele. Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. conseguia sacudir-lhe os alicerces. – pediu-lhe entregando os pontos. pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo.Eu deveria mesmo considerar-me superior. entre todos os seis bilhões de terráqueos. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental. estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo. Amanda suspirou resignada. sem mágoa: . por poucos e eternos minutos. Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras. -Vamos tomar nosso café. –murmurou mais para si mesma do que para ele. Concordara com o documentário. claro. Jules. você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu. Num minuto. era isso que o deixava incomodado. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. Devolveu a crueldade.Esqueça-o.sussurrou. – completou apertando-a contra seu tórax. bien.encarou-a sério e completou com ironia. pode parecer bobagem. .. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. . mesmo por que perdia todos os rounds.Tentarei não complicar mais as coisas. No entanto.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. E sem olhá-la. depois de pronto. por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. Durante o café.Minha mulher me deixou por causa dele. . -Mon Dieu. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. . ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça. Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo.A sua prepotência também é um tipo de viodência. Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas.

Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o. – virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. . Jules apertou-lhe o ombro. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente. Ele ergueu os olhos para o alto. – fez uma careta desolada. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência.Culpa minha se os acostumei mal. abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . Encaminhou-se até ele. Touleause.Espere um minuto. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. cabos e câmeras por toda a parte. . numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. . e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas.Última ligação e desligarei o meu também. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. . . retirou o microfone da gola da blusa. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules. Diante dela. Alguém ao telefone chamou-o novamente. causava a Amanda respeito e excitação. Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta. que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada. todo o conjunto. Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos. um tipo que vivia engravatado e penteado. A ruiva de cabelos lisos. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. – brincou. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a.Eu sabia que você adoraria a banheira. devagar. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa. Por outro lado.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. Prometo. Jules deu-lhe pequenos beijos. seguindo de perto a rotina do chefe. Amanda teve que lidar com microfones. vestia-se de forma sóbria e insinuante. Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa.. a certeza do seu lugar no mundo. as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. nos lábios. . Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si. um executivo. Corria o risco de ser 59 . -Não precisa fazer isso. – murmurou. Sorriu consigo mesma. até arrependeu-se de se impor dessa forma. fios. porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la.Ou eu ou o trabalho.Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. Intercalara as gravações em vários dias. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules. cheirando a colônia cara. sorrindo. Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. Por um momento. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. sem desviar os olhos dos dele. O rosto constantemente sério. os olhos pousados nos lábios dela: .. cortados rente à nuca. Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo. olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida.Senta no meu colo que a gente já começa por aqui. – afirmou.

chutou-a levemente para o lado. ainda de pé diante dela. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. sorrindo deliciada com a atitude dele. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros.. que eu já volto. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. Amanda já estava decidida a mudar os papéis.O que está fazendo comigo.Tem razão.. Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa. enquanto subia os degraus da escada. posicionando-as sensualmente atrás. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros. devagar. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . Jules. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se. Em seguida. Sentia-se embriagada e. dando as costas a Jules e subindo os degraus. Quando chegou bem perto. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. era também macio e gostoso. Amanda gemia e entregava-se ao prazer.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. sem se mexer.Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela. Num movimento rápido. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. . brutal e ostensivo. Ele voltou de cabeça baixa. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. quietinha. deslizando para dentro com confiança e força. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. ainda assim. Eficiente em tudo. exibindo o membro grande e duro. desejava e admirava. Após cair aos seus pés. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. ele tomou posse novamente do seu celular. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. divertindo-se: . Havia uma luminosidade suave na feição máscula. aos poucos. que. delicadamente. ao encontro dela. ao mesmo tempo. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada. Após um breve silêncio. Observou o volume considerável pressionando o jeans. deixou-se ser despido. ao deslizar a língua sobre o membro dele. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda.Espere-me aqui. Havia-o sentido todo dentro de si e. fitando-a sugestivamente: . Não bastava simplesmente desligá-lo?.. sem beijá-lo. ia transformando-se em ímpeto e desejo. numa carícia sutil e devastadora. impulsividade não combina comigo. – declarou. De olhos fechados. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. Já na metade da escada. Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. Pressionada entre a parede e o homem. Como alguém podia ser assim?.? – sussurrou-lhe ao ouvido. . A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. E ela não queria uma queda-de-braço com ele. mas. com sede e fome. concentrado em desligar o aparelho.. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. Parou e constatou com um sorriso. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. apertando-lhe as nádegas. ela pensou. mal lhe tocando a pele. Mas dentro de si. pensou. ironizou consigo mesma. preta. num tom de desolação e desejo. ergueu-a no colo.

– gemeu. Mas ela não queria justificar-se e. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. No minuto seguinte. A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos.. prazerosa dor. os efeitos desse ato. Tencionava servi-lo. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela. intrigado. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. ganhando milímetro por milímetro.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas.. Incitou movimentos lentos e cadenciados. afastou-lhe as coxas e. Antes que gozassem. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo. aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. primeiro. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. num vaivém violento. no sexo intumescido e. encaixando-se entre as mesmas. gemendo e erguendo os braços. e 61 . Viu-o jogar longe a cueca. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la. desenhando um arco com o corpo. constatava. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. baixinho. mordendo o próprio lábio inferior. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. em seguida. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. Experiente que era. Depois. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. Após três ou quatro estocadas. sabia o que estava fazendo. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. ao sentir-se penetrada. Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. para mostrar-lhe quem mandava agora. apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele. Beijaram-se como loucos. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. -Não quero gozar ainda. Abocanhou-o aos poucos. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. mexendo o quadril para cima e para baixo. Capítulo X No teto de vidro. Ela encurvou-se para baixo. tornar a sentar-se devagar. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. em seguida. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. gozou. Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele. independente. com os olhos semicerrados. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. a fim de alcançar-lhe os lábios.

quanto mais sexual. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . na medida em que se subia. Pena termos de voltar após o meio-dia. Haviam transposto uma fronteira que. agora. Ela sabia. Jules acomodou-se ao lado do piloto. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela.. mademoiselle Rossi. Apenas vinte e quatro horas juntos. – constatou um tanto contrariada.. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente.Obrigado pelo “bom de cama” . -Pois é. 62 .disse gentilmente. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha. sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. –deu de ombros. antes. Precisava manter-se centrada e racional. Depois. isso mesmo. paredes de alvenaria em pátina azulada. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. arremetida por um vento ascendente. colocava-a na posição de sempre. por mais que ultimamente lhe fosse difícil.Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. embaixo d’água. à sua mansão com a esposa.Mas quanto à vida sexual. comentou divertido: . . iam-se estreitando. No meio do caminho. Era normal. Mas. pôs os óculos escuros. chocara-se com força contra a montanha e explodira. Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade. eu mal tenho uma vida. o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens.e tal informação ela não sabia . Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. eram adestrados e obedientes. Comentara casualmente a Amanda . Dito da forma como ele dissera. Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia. eram amigos de longa data.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. Amanda não gostou do que ouviu.. delimitava-os cada qual em seu lado. e não apenas patrão e empregado. Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo. da assistente que obedecia às determinações do chefe. havia cinco anos. sentindo-se frustrada. empurrado pelo vento forte. ela não era apenas sua assistente. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. . Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. A bem da verdade.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. Ao redor. displicente.. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave. O vento não estava tão forte e a neve cedera. .Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada. Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você.Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido. Ele sabia. -Comprei o chalé construído e. Pelo visto. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se. obviamente. O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta. Tagarelava sobre o tempo.tão. Mesmo assim. num tom claro e discreto.

Ele estava sério. ponderando sobre cada palavra. o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History. – fez um trejeito com a boca..? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário. que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade. não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala. está preocupado com o teor do programa. logo.Talvez..Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa. Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si. da secretária da presidência. Amanda conteve a vontade de rir. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva. depois. –refletiu. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes.. a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. absorto da conversa com monsieur Koskinen. assobiava descontraidamente A Marselhesa. . 63 . E. Ao passo que Jean Baptiste. . O semblante de Jules fechou-se ainda mais. como Alexys é bastante popular. parecia coisa de filme. e se Dorian sabe. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente.Dorian. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys. Alexys da recepção também. com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. Amanda considerava extrema falta de ética por parte. E completara. – em seguida. ao celular. você conhece o seu chefe melhor do que eu. para a assistente do executivo. A visão de Paris.Ele comeu e não gostou? . Seguiram juntos até o elevador panorâmico. principalmente. Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém.... sorrindo alegremente.Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. bem. para o andar da presidência. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: . – suspirou e continuou num tom firme e. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules..Quê? – indagou Amanda. Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair. intrigado.Na verdade. ainda mais vindo de funcionários. sentindo o rosto corar. – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer. para onde Jean baptiste seguiu.Era engraçado. e. bem. do alto. . em seguida. caloroso:.. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã. .O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas. Meio minuto depois. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório. à noite. ao mesmo tempo. um pouco. era linda e majestosa. o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa. mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa. como se estivesse chegando e partindo de verdade. completou: .

. aliás. – declarou Amanda. Estocolmo e Copenhague. Não deem mais mancadas. Além do mais. no estômago em chamas.Amanda. Novamente esse nome. Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo. um sorriso aflorou nos seus lábios. ora.. O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. Geneviève. chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel.. de sua parte. 64 . mesmo em estado vegetativo. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. Por quê? . melhor. ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora. pois. Ele.Quando o chefinho comprou o chalé. okay? .A jornalista sabe sobre o chalé. Por um momento. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É. e acho até que já ficou por lá uns dias. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. né?. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência. se de fato houvera tal conversa com Jules .Geneviève sabe sobre o chalé.Obsessão em Paris Veronique Gris . . ela sim. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha. . Sentou-se em frente ao computador. Acreditava em Dorian.E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé. além de Helsinque. A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali. tinha direitos sobre ele. algo assim. .. na verdade. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca. como se ela. já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro. de pé.Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico.replicou Assíria.. justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria. Por isso. para todos os efeitos. eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que. e Jules não gostou nada disso. os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação. de frente para a parede de vidro do escritório. mas não via nada. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. A secretária-júnior matou a charada. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas.Non.e ela acreditava que sim. Projetavam em menos de um ano alcançar. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade. Annie adorava Jules e o protegia como um filho. falava com Jarkko. tivesse direitos sobre Jules? No entanto. então? Ou. – baixou o tom de voz e completou: . pensou Amanda. non. mas você também podia fechar essa boquinha. jamais falaria para a imprensa. Falou-me sobre privacidade e sossego. Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. antes de entrar. estava ocupado com outra ligação. Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne.

não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . Marion. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules. a cadeira de Amanda. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: . porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. que já se despedia do finlandês. caçar e se prover sozinha. mas Jules parecia ligeiramente tenso. mas covil. Era uma loba acostumada a andar na selva. . Amanda admirava mulheres fortes e poderosas.. O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. Reclamou. Nas extremidades da mesa retangular. claro. As reuniões na SBO. Às vezes havia chispas de tensão.Marion. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares.Agora. Não agendaram nada com você. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos. – ordenou com o semblante fechado. No entanto. –defendeu-se. diretora financeira. já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. Merci. por que. em vários tons de laranja e azul. monsieur Touleause e na outra. Não havia queda de braço que ele não vencesse. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação. apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. mesmo por que possuía o número do celular dele. inclusive. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. trocas de farpas e ironias de lado a lado. Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. eram entediantes e longas. de mogno. em seguida.Bleu e Rocco. seu grande amigo.A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. . -Non. normalmente. No fundo. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. Nem mesmo monsieur Roche. Meia hora depois. fechá-la. irei recebê-los. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não.. o vice-presidente. A neve havia cedido há algum tempo. apesar de estar dentro de um covil civilizado. Do outro lado da janela. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. escurecendo aos poucos. Ao seu lado. Pôs a xícara de café sobre a mesa. então. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. –respondeu. Amanda. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. com direito a cara feia. Interrompeu-se e cruzou os braços. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa. nariz quebrado e cicatriz. Jules. principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda. A pescoçuda conseguia. O que não era verdade. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. você não é uma síndica de prédio. a noite chegava de mansinho. e Jules o sabia. Mais caricatos impossível. corpanzil.

Assim que os dois homens saíram. já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa. mademoiselle. Nem Paris nem Porto Alegre. é problema seu e da sua consciência. mas. mademoiselle Rossi. Jules. Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras. de pé. – resmungou e continuou: . cabelo loiro e olhos de rapina. durante as reuniões. não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. terno bege. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios. pois. Marion pigarreou. Victor descerá e fará o café para todos. comentários foram seguidos por um silêncio profundo. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam. custos. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores. Nunca estava no lugar certo. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los. . Marion riu baixinho. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. Jordan. Era o VP. . agora. . . você sabe. O primeiro foi de Marion: 66 . Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam.Sou improdutivo. Não se esqueça de trazer também o adoçante. Comece. Assim. é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. de gravata borboleta vermelha.Vamos à minha sala. – Jules disse sem tirar os olhos do papel. impostos. nada mais.. estava muito abaixo da diretoria. Mas.. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência.Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro. . s'il vous plaît.Então. mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala.. Sentia no ar a tensão.Oh. antes que saísse algo de sua boca sem batom. . –declarou com naturalidade. . foi impedida de sair da sua cadeira. no lugar onde deveria estar. oui. Sinta-se à vontade. Afinal. analisando o relatório do diretor de vendas.. já volto.Não se incomode. por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar.Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida. mais uma vez. Assim. Com licença. . .Pra quê tanto drama.Eu tenho ações aqui. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules.Quem quer café que desça e faça o seu.Oui. Jules estava próximo à janela.Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. monsieur Touleause.Não vamos retardar a reunião. – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente. Jules. certamente. quero ouvir o pessoal produtivo falar.. como se Jules estivesse brincando. Touleause até tentou rir. como achar mais adequado. . .. Na maior parte das vezes. é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. Jules interveio calmamente: . Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia. tratando-os como iguais. para o vice-presidente. pode trazer o café da sala de Jules mesmo. No entanto. ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar. jamais voltaria a lembrar.

do homem que fazia as coisas acontecerem e eles. Sinceramente.Pega leve. do dono de tudo.E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que. com certeza. fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: . perde apenas para Touleause. . temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor. pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta. diretor de vendas.Entendo. Estou protegendo a saúde dele. mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada. aceitaria novas tarefas.Bom. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco. . Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. Não.Obsessão em Paris Veronique Gris . longe de todos. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios.Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos. Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão. De certa forma era divertido. até hoje não sei qual a sua função. – replicou sem se alterar. monsieur sabe. . Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador. sozinhos.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? . Agora. dificulta como pode.Não tenho nada contra a sua assistente. – disse Marion. E sabia o motivo: inveja.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. . . Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. eles não topavam Amanda Rossi. . de sonhar com planilhas e computadores. ela não é apreciada pela diretoria. – informou-a o diretor. Maurice. – concluiu Maurice. . como já dissemos a mademoiselle. estava horrível. Agradeço os esclarecimentos. digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 .Oui. de agendar horários para falarem com Jules. completou.Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta. pelo visto. – disse Marion visivelmente contrariada. Ao que Maurice.Essa discussão é completamente fora de propósito. no lugar onde você o colocou. . tinham de aceitá-la. Jules assentiu levemente com a cabeça. trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente. ponderando. física e mental. . Como todos se fizeram de desentendidos. . E ele. podem resolver.É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche. . pelo contrário. os grandões da diretoria. . . -Para falar a verdade.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. mademoiselle.É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor.declarou Maurice com o peito estufado. Você não facilita o nosso trabalho.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada. -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme. nada disso teria acontecido. . Ele comanda a empresa do alto.

ah.Obsessão em Paris Veronique Gris uma. Voltou-se para ele. emendou: .Oui. – indagou estreitando os olhos sagazes. na cadeira dele. Era uma dama. De repente. exibindo metade dos seios siliconados. Havia duplo significado na frase? .Como? – Jules indagou-lhe. está cansadinho? – antes que ele respondesse. Marion. de pé e com as mãos sobre seus ombros.Quero nomes. .A reunião foi um desastre e está encerrada.Jules. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la. estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente. – disse Jules sem muito interesse. . . . Sempre sorridente. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina. Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências. – disse quase sorrindo. surpreendentemente. capacho de Maurice. Céus. ligue para o meu celular. – disse impassível.Como vocês falaram mesmo?. prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente.Assim que terminar umas coisas por aqui.. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência. apenas dois caíram na armadilha. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores.. mas Amanda sentia-se exausta. Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: . Em seguida. Bonne nuit. mademoiselle? . ela sempre me atendeu prontamente. Maurice.Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa. Nossos advogados também farão o sacrifício. com os nervos em frangalhos.Interessante. ao entrar no escritório deu de cara com a loira. . monsieur. Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura.Certo. sempre pronta para atacar. como é mesmo?. A noite recém começara. 68 . agente fa-ci-li-ta-do-ra. sem vergonha na cara. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. . na próxima. Algo mais? . e. Não sejam tímidos e levante a mão quem não. sempre impecavelmente vestida.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: . mas uma dama.. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez. Após a reunião. Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa. que vitalidade tinha aquela mulher.Fale por você. . Vestida num terninho violeta. virou-se para Amanda e falou sério: . teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto.Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. monsieur. atrás de si. – falou Marion com franqueza. uma. conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar.Anotou os nomes. mon chéri. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente. Caso queira me encontrar. Entretanto.Todos.. ela aguardava Jules na sala dele e. . .E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos. que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa. confuso. De qualquer forma. irei para casa.

pegue seu casaco. Se já eram amantes ou foram amantes. –Além do mais. mademoiselle Rossi. 69 . Jules. – disse ainda sério. devo avisar Sonia que não jantaremos lá. Que tal? Chega de trabalhar. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem. mademoiselle Rossi? . quase gritou. no seu lugar. vagabunda!. entre no seu carrinho e vá para sua casa. Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz. se a francesa havia passado uns dias no chalé. Amanda. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. sabia? – viu-se falando tal asneira. Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco.Eu entendo. Geneviève já a olhava de forma estranha. -Preciso trabalhar. Além do mais. e tampouco sozinha. o deixava com uma. Odiava a vaca.Que cruz? – indagou Jules sem entender. – declarou sem se alterar. não vencia todas. Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. – teimou..Vem comigo. mas como era uma dama educada e polida.Nosso jantar com os Roche. – respondeu sem fitá-la. . Antes.Não. -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio.Jules é casado. Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. segundo Assíria.. A situação começava a ficar constrangedora. . cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora. Jules. Geneviève fitou-a desconfiada. Por todos os deuses. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle. ainda por cima. porém de cara amarrada. por outro lado. fosse qual fosse a situação. porém. agora. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. porém. – François gosta muito de você. .Vamos para minha casa.. O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. . . Sentia a garanta seca e falta de ar... era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . já lhe doía o estômago.Não tem que ir embora. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules. então. agora.. Não conseguia mais se controlar. ignoroulhe o comentário. E.Pode ir. praticamente se jogando para cima dele. Não. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela. que veio prontamente. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações.Bonne nuit. . Pedimos comida e relaxamos. vadia. odiava! . Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. . havia certo divertimento nos seus olhos. Qualquer mulher sensata. -Todo mundo sabe que sou casado. mademoiselle. . Ela não tinha motivos para continuar ali. mon chéri. endereçou um olhar feroz a ela. –pediu ela.A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche. sozinha. -Vou ficar também. voltava para casa sem Jules e. Impossível. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair.Por que não assiste com eles.Obsessão em Paris Veronique Gris . Guardou o papel na bolsa. o documentário. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos. Pois é. vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
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ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

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de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

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. os maxilares trincados. Jules? – insistiu. permanecia sentado.Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou.. Amanda. Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: . . a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e. Era incrível. Aliás. estreitando os olhos.Eventualmente. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira. espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse.Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado. .Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. gerara. Jules sorriu.Não éramos amantes.. –afirmou sem se alterar. Essa sua calma irritava-a e muito. . pensou. Jules não se abalava. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”.. mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava. como? – interrompeu-o com ferocidade. No entanto.. de Geneviève e de si mesma. . antes que eu me esqueça. Ignorando a pergunta. . debochando.O tal refúgio era para os encontros com ela. Por um momento. . –declarou com raiva. Ela sabe sobre sua existência. com um nó na garganta. parecessem sempre histéricas. não tem nada a ver com a nossa vida. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite. seria um riso amargo. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes. raiva de Jules.Onde vocês se encontravam? 73 . Ah.Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras. E ela aceitou as regras pacificamente. Preferiu manter-se calada. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá. porque é prima do exproprietário. . ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. – disse pacientemente: . Geneviève jamais foi ao chalé comigo.Bien. -Você é amante dela. Em seguida. . era tão antiquada. certo. pensou ela quase bufando.Isso não lhe diz respeito. A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra. completou de forma casual: . a única. parira e criara. então.Non. –Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável. a especial. as normais.Encontrávamo-nos eventualmente. o diabinho que a concebera. contendo a raiva crescente. besteira! – completou com ironia... – Está tudo explicado? . eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento.. se risse. o queixo escorado no dorso da mão. Inacreditável!. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe. observando-a impassível.Oui. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa.

enfraquecida. após um longo silêncio.. Quantos encontros. que a olhava com seriedade. medrosa e insuportável. Obviamente. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar. insegura. preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais. À época.suspirou profundamente. – comentou com maldade. – em seguida. -Oui. -Você é o que você sente.. Ele tencionava vestir-se e partir. devagar. –fulminou-a duramente. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 .Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. os maxilares contraídos. O melhor a fazer era deixá-lo partir. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. Ela. doente de ciúme.. pardon. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève. parado. – justificou-se chateada consigo mesma.Não sou casada. -Interessante. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. Escrito em português parecia mais significativo ainda. Olhou ao redor. – concluiu em tom de censura. abriu a bolsa. . deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa. Só procure sentir certo. ma chérie.Na casa dela. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista..Obsessão em Paris Veronique Gris . Ele tinha razão. – disse com desprezo. sabe sobre nós. . -Um homem tem suas necessidades. Preferia a época em que aquele homem à sua frente. eu ou você? . – falou. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. . – Que tal? Quem é mais promíscuo. mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos. Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda.. à espera. de frente para ela. paranoica. tocando-lhe o queixo. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite. –respondeu sem hesitar. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. Eu não sou assim. Cogitara inclusive matricular-se num curso de português. Suspirou resignado. Amanda tivera que fazer o cancelamento.Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra.. -Não gosto de mim assim. Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar. – disse secamente.sexuais? – elevou a voz. -Quantas vezes. É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual. completou: . estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne. mas algo em sua postura. agora.. pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. sem a mínima curiosidade..Essa é fácil responder. Rochelle e agora Geneviève entre ambos. Sempre haveria Jacques. por fim. mas... e não vejo mal algum. correu até o quarto.

A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . lentamente. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela.Como um dedicado cão de guarda. Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para. Logo. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. ao mesmo tempo. com a mesma presteza e insistência sensual. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. Agressivamente másculo e. depois. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 . molhando-o com a saliva morna. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. –sorrindo maliciosamente. Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço. Entre suas pernas. Tocou-a entre as pernas. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. e olhou-a com a sobrancelha alçada.Você realmente aprecia a cultura brasileira.. emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: . bagunçando-lhe o cabelo. deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. acolhedor. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. devagar. na volta suave. a língua brincando com ele. sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: . antecipando o próximo gesto. que foram explorados pelos dele. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. objetivamente. mas parou antes de tocá-la. louco de desejo. enquanto abria os botões da camisa do pijama. duro feito pedra. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. Amanda sussurrou-lhe o nome. Tocou no tecido de algodão do forro. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. automaticamente erguia o quadril do colchão. O clitóris pulsava quente. – comentou balançando o cartão como se fosse um leque. Abriu-lhe a camisa e. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. ainda impregnado nela. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo. Desceu para a parte inferior do seio. Queria-o entrando nela.Estou viciado em você. – afirmou sem se alterar. encharcado do seu sumo. Desejava-o com brutalidade.Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. Amanda arquejava.Bien. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino.. Num dado instante. como boa parte dos franceses o possuía. No caminho. A pele vibrava e arrepiava-se. . –olhou-a com desejo. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. envolvente. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. terno e sensual. soltou-os todos.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira. encaminhandose para o quarto. fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata. num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele. com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. pulsava um coração de carne. em seguida. ele frisara. trêmula. beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. por cima do pijama. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. Falou sem sorrir.

sempre analítico... torturando-o. agora. – Seria capaz de literalmente comê-lo. Louca de prazer. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta.. pau duro e pronto para agir. . sempre racional. era um macho alfa entre as suas pernas. era bom em tudo o que fazia. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas. Levantou os braços para trás na cama. a boca. friccionando-o. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação. Antes que ela gozasse. e na sua voz traduzia-se desespero sexual. enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela. enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais.E era a loira quem gritava. no lóbulo da orelha.olha para mim. recebia Jules. completamente entregue a ele. enterrou-se dentro dela.. monsieur. – gemeu respirando forte. arfando. todo ele. via. mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos. trincava maxilares. expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade. fundo. lindo enfiado nela. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. o rosto todo brilhando numa camada fina de suor.. as têmporas latejando. – Está encharcada. . Constatou com apenas um leve toque na calça social. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. no alto da montanha ígnea.. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. Deus!. estrategicamente parou. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. – Jules pediu.Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm.. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la. Num movimento ágil. que explodia em mil fogos. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. com fome.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules. delirava a sua mente ciumenta. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. arreganhava as coxas. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. mon amour.. -Oui.em Geneviève. Ela o abraçou para fundir-se nele. Perdeu-se no devaneio. non? –disse.. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la.. Ouviu-lhe gemer. – Como pode ser tão linda.. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério.. era o seu terreno. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado.. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris. ele era lindo gozando.. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. suando por cada poro. irresistivelmente cheirosa.Misteriosamente. rouco. você é uma fêmea insaciável. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la. o pau. – gemeu. puxando-lhe o queixo para si. – pediu com a voz muito baixa. os fios de cabelo grudados na testa. aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se. – ronronou.Abra as pernas para mim. Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento. golpeada pelas estocadas firmes. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato.. as mãos.. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. e. não era mais ela que o tocava. 76 . Ele fitou-a com um sorriso de aprovação. em estocadas fundas e fortes. com os joelhos fincados no colchão. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. num minuto.quero ver seu rosto.. Ele não gozaria antes dela. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda. estava no seu limite. -Deixe-me vê-la gozar.

-Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. com velada dedicação. com violência. talvez fosse o único vinculo entre eles. a cabeça virada para outro lado. você é muito boa e a cada dia está se superando.. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. –mandou. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme. -Não gozou porque não quis. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. porque gosto muito de foder. – disse baixo num tom ríspido. de costas para ela. tenho quase 40. Se ela só lhe servia como objeto sexual e. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. de reprodução. balançando-a com displicência. Amanda sentiu uma dor aguda. Agora. após três ou quatro arremetidas selvagens. ma belle. non. com dedicação. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. pouco me importo se engravidá-la.Uma precaução anticonceptiva. com a gravata na ponta do dedo. então que fizesse o serviço completo. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. Mas não naquele momento. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. Amanda. – afirmou jovialmente. o que foi? -Não pare.. continuou no mesmo tom: . Jules ignorou-a e. Ao passo que. -Está distante. abraçava. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca. virou- 77 . Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras. Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. só penso que um dia terei de ser pai. tentando fugir daqueles olhos inquisidores. pelo visto. Deitou-se totalmente sobre ela.Vamos. no seu caso. -Termine o que começou! . continue. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. Com a expressão impassível. – antes de sair. Com Geneviève eu usava preservativo e com você. Amanda. arrancando um gemido de dor de Amanda. . sinto-me muito bem.gritou exasperada. Jules riu. irônico. a fim de evitar o olhar hostil dela e. gozou estremecendo o corpo. tocado. Jules parou por um momento. muito ciúme. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. e era beijado por ela. o sexo. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. levante-se e vamos comer. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. e já buscando as demais peças de roupa. hoje é um dia normal de trabalho. -Abra os olhos. empurrou até o fundo o pau dentro dela. -O seu objeto sexual não foi saciado. fingindo não entender o tom raivoso dela. que colada ao seu quadril. De minha parte. avaliando a situação. encaixado nela. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. excitava-a por demais. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a. -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada.

os homens surtavam com mulheres ciumentas. Amanda degustava seu primeiro café do dia. nos vermos algumas noites por semana. Jules estava estranhamente bem humorado. A manhã avançava. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. Não havia mais vestígio algum da discussão anterior.Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. não farei mais sexo com você. vento rascante e neve fraca. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:. Cada região produz o seu. com características diferentes. agora. e não dar 78 . É diferente.Você precisa ser apresentada aos queijos franceses. . sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. non? Livre-se dessa expressão de ofendida. .Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis. . se vista e me siga. Quem brincava com fogo acabava se queimando. porém incisiva.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado. Amanda. -Entendo. Precisamos encurtar distâncias. o semblante circunspecto e concentrado nela: . Que mistério. Dizem que os parisienses são os melhores. e sim trabalhando. -Temos de fazer o programa típico francês. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se. O conhecimento que tinha a respeito de queijos. Jules. . –completou com um sorriso ambíguo. É o que tem a fazer. É cansativo para nós dois. provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez. Nós dois não queremos que isso aconteça. Jules. Como era possível isso? Normalmente. Amanda. não tem amigos. .Eu sei. . – declarou com um sorriso.E com os homens.Realistas. Esta rua tem os melhores queijos do mundo. não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico. No Le Petit Cler. fitando a calça do pijama arriada até os joelhos.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. . – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca.Não seja boba.comprar queijos. -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. a bem da verdade.Não estamos juntos de fato. – disse com um sorriso leve. então. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. Que homem. eu diria. .sorriu misteriosamente: . Um conhecimento empírico. mademoiselle. Agora. mulher. eu já teria me consumido de estresse. o seu melhor amigo. consistências diferentes. Mas não Jules Brienne. Rossi. da Rue Cler. Sou seu amigo.Temos de resolver a sua questão de moradia.Quero dormir todas as noites com você. Admirava a voracidade do apetite de Jules.Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . charmoso e gentil. pensou. mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: . ele apreciava tal arriscado tempero. Se gostou do Brie de Melun prove esse então. – tentou argumentar. vinho e baguetes. também quero cuidar de você e até onde sei. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:. Podemos. ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim.Estou falando sério. . – reclamou e seguiu sem se alterar. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor.

e sente-se. não sou apenas a sua assistente.Não dificulte as coisas. Você é dominador. Jules. não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle. Por isso.. Você escolhe tudo. . . mesmo que seja igual a da família Adams. .. controlador e vai acabar me sufocando..Não vai dar certo. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle. – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa. – Além do mais. -Tem razão. Amanda. Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda. Jules.É uma solução prática. nesse momento. úmido.Controle-se. Eu não gosto disso – disse duramente.. Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente. Podíamos viver sob o mesmo teto. – enfatizou nervosa.alçou a sobrancelha.O dinheiro é meu. . -Não.Sei das minhas obrigações. mas foi pega pelo pulso. acabou. .. – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. – disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro. 79 . s'il vous plaît. não precisa listá-las. . -Está pondo-me contra a parede. é verdade. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo..Sente-se e me escute. observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas. Isso jamais acontecerá. – falou firme. quero um lugar nosso. -Sente-se. Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós.. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. -Para mim. se você quiser. distante da empresa e da minha casa e. – espicaçou-o sem elevar a voz.. merci. só estou expondo a minha opinião e. .Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão. . ligeiramente exasperado. oui? – disse fechando a cara: . você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade. o imóvel. . eu ainda não acabei. – ordenou baixinho. Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida.Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. -Fale por você. E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento.Morar com você? – interrompeu-o assustada. – disse calmamente.Que por sinal é minúsculo. . eu gasto e você assina os cheques. .É muito cedo.. Jules... e não numa espelunca três por quatro. Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. . só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. É horrível aquele casarão. – pediu com gentileza. –exasperou-se. nunca dá.Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama. e eu me sinto muito mal morando lá. – irritou-se. nada mais.E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos.. -Ela já está resolvida..Vida de puta de luxo. – respondeu devagar. Non. ainda por cima.. a decoração.? Logo estaremos fartos um do outro. – constatou secamente. Ameaçou afastar-se da mesa. Por que está fazendo essa cara? . em sua mesa. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos. Afinal. .

Se Rochelle sair do estado vegetativo. –Tenho que arranjar uma solução. vamos tentar do meu jeito por. que. sinceramente. qualquer outra coisa está fora do meu alcance. a amante de um homem que não falava em amor. e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde.Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. Observou Jules sorver o café sem açúcar. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:. Um pragmatismo de doer os ossos. que. Jules abriu a carteira. –Agora. no escritório. sério. pelo menos. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. Não tenho mais o que fazer por ela. vamos trabalhar. No meio disso tudo. pedindo-lhe a conta. Uma sugestão aos roteiristas de cinema. .Proponho-lhe uma experiência. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa.Caso as coisas se tornem complicadas. O dia será longo. No início. -Sei o que faço. Ela meneou a cabeça em negativo. Pode soar como algo feminista. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito.Veja bem. – afirmou com segurança. tentamos do seu jeito. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. os lábios contritos. -Não quero ficar entre vocês dois. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio.concluiu com um trejeito nos lábios. . ainda não entendi qual seja. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional. Fez novamente um sinal ao garçom. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher. Tudo de uma vez só. Virou-se para Amanda e completou calmamente: . Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda. Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas. digo por medo de me machucar. Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules.Devia provar o croissant daqui. Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. Na primeira semana de procura. era o suficiente que se encontrassem 80 . – enfatizou. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia. discretamente. seis meses. – encarou-a com firmeza. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: .E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego. eu sei. E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa. retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque. mademoiselle. um lugar para morar e você. diárias.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . . será recebida por uma excelente equipe médica. Perceba a situação em que você me coloca. tornara-se a sua amante. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. –declarou. .

de uma calvície melancólica e lunar. o registro dos diversos ocupantes do imóvel. mesmo trabalhando juntos. um quadro. no elevador. Na porta dos apartamentos.. dialogar profissionalmente com ele. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar. Amanda estranhara o fato logo que chegara. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. um desenho. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala. na cobertura do prédio.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando. – afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. o braço possessivo sobre a sua cintura. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. O crânio redondo.. Na maior parte dos prédios. em Montparnasse. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. Falava rápido. dormir com ele. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. no mesmo arrondissement. acrescidas de um sorriso significativo. decidindo. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito. francês. com uma etiqueta com seus sobrenomes. no corredor. O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. Mas a situação tomou outro rumo. observava cada detalhe do loft. parada e estupefata. pequenos. de modo seco e brusco. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. . – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. Além de dois vasos com plantas verdes que.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. enroscado pernas nas pernas. calçados num italiano com cadarços atados num lacinho. branco quase brilhava sobre o pescoço curto.Pardon. 81 . ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. continham as caixas de correspondência de cada morador. Os apartamentos não eram numerados como no Brasil. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. sem janelas. monsieur.Graças a Le Corbusier. . . que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. um arquiteto daqui. Entraram por um corredor comprido cujas paredes. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio. nos restaurantes ou na sala de reuniões. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si. Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. .O dono da ideia. analisando e. sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules. ainda. uma indicação peculiar. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. E vê-lo e falar com ele em sua sala. Monsieur Ferrer era calvo. A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. . Jules avisou-lhe que eram de plástico. falando. após Amanda aspirá-las com ar sonhador. hipnotizada pelo ambiente. todas as manhãs. menos numeração. Ao que Jules comentou de forma casual. afirmando. – empolgou-se o corretor. Ambos tinham consciência de que.

Quando chegaram ao terraço. ela teve certeza de que desejava morar ali. pensou. Com a maior naturalidade do mundo. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta. ela pensou. desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques. E ela desligava o celular. No entanto. denunciando a sua criança interior.. quem gargalhou com jovialidade. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa.Adorável! – murmurou quase batendo palmas. criando uma atmosfera lúdica e romântica. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: .Seremos felizes aqui. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 ..Merci Beaucoup. que ela conseguiu pronunciar. Como agradecer um presente como aquele? . oui. sorrindo. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte. – declarou-lhe em tom de brincadeira. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista. o primeiro deles referia-se aos telefonemas.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente.. Na verdade. que se restringiam a três palavras: Amanda. – previu. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. ela pulou no mesmo lugar. só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules. como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta. Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. um balanço.U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. prateleiras de madeira com mudas de temperos. Isso ela lembrava por dois motivos. captando o grau de seu contentamento. ça va?.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. . enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar. A pressa era do outro. . tremendo. fazendo careta. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas. constantes. acenderam-se. Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. não naquele momento. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível. e Amanda podia ler em sua mente: oui. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques. não deles. cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. Mas era o executivo workaholic que raramente sorria. Em princípio. Sem conter a alegria. . era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. E foi exatamente neste momento.. admirando a sala dividida em três ambientes. .

À porta. por sua vez. com os Roche. apostava todas as fichas no intelecto. sorriso acolhedor. um cálice com vinho tinto. maior que muitas quitinetes de Paris. No dia seguinte. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: . Assim. túnica e saia beges. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:. ainda. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado.Melhor impossível. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. Em seguida. Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. baixa.Já faz algum tempo que não nos visita. distribuída em peças raras e móveis antigos. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. sagacidade no olhar. altura mediana. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. na época. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . Agora. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. cabelo claro cor de trigo. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. que aparentava sessenta e poucos anos. monsieur? . deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. Jules jantara com o amigo de longa data. Era mais alta e mais magra que o marido. qualquer museu). Ele. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. relacionava-se ao jantar. atarracado. Crepitava lenha na lareira imponente. Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. Entretanto. decorado de forma austera. atendera diversas vezes os telefonemas de François. naquele momento. Amanda recebeu um olhar significativo. em Montparnasse. Não usava joias. Na mão. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central. Óculos de armação moderna. Como está. -Oui. não combinavam. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. Fumava demais. preservando elementos herdados de gerações passadas. Nariz fino. praticamente um irmão mais velho emprestado. de forma genérica. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. Havia nele algo de nostálgico. Ela. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. uma espécie de mentor da SBO. lado ao lado. e era importante manter a estabilidade dos dias. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. ligeiramente arrebitado. Morava com Jules. Advogado por profissão e paixão. numa das noites mais frias do ano. Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. Ao passo que François. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. a beleza máscula da França. Tinha para si que. charmoso. monsieur. Juntos. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam.Imagino que estejam na biblioteca. e tampouco ostentava outro acessório. Gerard. meu caro – respondeu jovialmente. Apesar de solene.

foi a última. voltando-se para Amanda. atravessou a sala. Depois. -Merci. sério. pensou Amanda. -Na verdade. tragou novamente o charuto e falou devagar:. mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos. cada dia nos renovamos. – falou com ar de falsa inocência. a verdadeira arte. sinceramente.. mas ele insinuou que você parece outro. – enfatizou. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica.Mandou fazer o que pedi. .A parte do programa que citava Jules foi a melhor. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. -fez um muxoxo. Na cadeira à sua frente. .Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros. Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 .Veio chorar no seu ombro? –perguntou. .. O homem está se sentindo um tanto incomodado. Ao lado dele. O legítimo bonitinho mas ordinário. após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda. . debochando. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa. na sua figura alta e sóbria. Revestindo boa parte da alvenaria antiga.uma relíquia arrecadada num leilão. François começara a SBO com Jules e. figuras humanas ou monumentos históricos. venha nos visitar com mais frequência. ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite. -Percebi a manobra tendenciosa. monsieur Roche. para eles. durante algum tempo. mudou de assunto e disse de forma afetada:. todos o somos.-comentou sem jeito. mademoiselle Rossi. ele queria que eu o aconselhasse. completou com delicadeza: . -Afirmou. encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”.Sei que trabalha muito. – disse François com seriedade. ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. dando importância ao fato.era duro e desconfortável. – comentou François. . Amanda considerou. -depois.Touleause está preocupado.Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria.Claro. ironicamente. – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. . Jules. A ideia é que preparando sua sobremesa predileta.confirmou Sonia sem sorrir. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX. – completou o próprio. sorrindo tranquilamente. acomodou-se François e. –agradeceu-lhe. Amanda aproveitou para observar os quadros na parede. : . – declarou François entre uma tragada e outra do charuto. Sei que parece idiotice essa coisa de crise. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. Mas não devia tê-lo o feito. . Após os devidos cumprimentos e apresentações. não tinha paisagens. o executivo. entregando-lhe um cálice de vinho.Claro. mon cheri ami.E sou. fiquei interessado em conhecê-la. fora o vice-presidente. conforme informação veiculada pelo próprio François . sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa. O mordomo. Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. com as pernas cruzadas displicentemente.Por que não nos ajuda. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse. . Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro .Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental. ressoou no ambiente. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando. diplomas enquadrados por molduras grossas. mas. exibiam os cursos realizados pelos Roche e.

e sim um vestido de seda. mademoiselle. Afinal. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. James Bond. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto.. Mas queria. cantava tangos. como todas as noites? Rossi. alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota. François cumprimentou-a com outro abraço. não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. 85 .. a “nossa” Geneviève. Amanda Rossi. pergunto-me. afetuoso. os homens levantaram-se educadamente. outrossim. como empresa e não pessoas. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond. – comentou como quem não quer nada. À sua presença.. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL. endereçou um olhar em direção a Jules. sem sorrir. Automaticamente. Sorrindo e completamente à vontade. ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia. nos últimos sete anos. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha. na última seleção. perolado. . descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa. Uma mulher com uma missão. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules. Mas não foi Raj quem apareceu à porta... brilhante aluno da Sorbonne. Porém.. confusa. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. Amanda Rossi. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. enfatizou. Sonia cantara a pedra. concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. Por que não se divertir. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém. nada melhor que sua cópia... resumindo...ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules.? –interrompeu-se. Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia. Insistia. -Como vai. Na vez de Jules. curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève. caso ela tivesse de ser substituída. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. Amanda pôde comprovar. Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la. Quais critérios ele deve ter utilizado. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. já que fora eu quem o convencera a ter uma. Jules era casado com a “nossa” Rochelle e. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas. Armada e decidida. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO. . Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: .Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha.Rossi.

as pálpebras pesadas. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. Ao seu lado. possuía ares de desconfiança. dos alimentos transgênicos. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. Um interesse excessivo.Estudei na Suíça com ela. torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. quente e adocicado. Meio eufóricas e um tanto sôfregas. E ela sentia-se perdida e deslocada. Seria tão bonito! -Très bien. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. Após exclamações discretas de satisfação. . a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. sabia? – informou François com um sorriso. que sorte. segundo informação importantíssima de François. sozinha. fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. Atrizes no palco. que antes tendia ao enfado. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência. Vez por outra. Um cheiro fantástico. não sentia mais nem lábios nem língua. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules. a decadência do Botox. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. lembrando pimenta e nozes. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. agendas. Sonia. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro. enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. Amanda observou. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. chamava-se Moglai Biriani . mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas. Exótico. agora. emergindo de dentro das veias. Algo o incomodava. e a plateia composta por apenas um homem. saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau.Como lhe falei aquele dia. Dois mundos e o vácuo. Numa tigela de cerâmica. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. emprestadas da Marie Claire francesa. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários. Foi então que começaram os primeiros tremores. E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. 86 .na Índia.no garfo e levava-os à boca. Seria ótimo tê-la conosco. Do outro lado da mesa. concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito. Após quatro cálices de vinho. – falou Geneviève com entusiasmo. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. os babuínos que atacaram um vilarejo. canela e uvas passas. Na verdade. . non.Oh. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente. o seu trabalho como psicóloga é fantástico.. . erguendo-se da tumba. comprada na China. o delas. agora. de frente para Geneviève. Raj retornou à cozinha. Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. com louro.. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida. reuniões e horários restritos. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. Fran! Amèlie é sensacional. por nada em especial. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. Sombras no olhar sério e profundo. a iguaria indiana.

– declarou quase que didaticamente. machista. Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar.Tem de ser mulher? –indagou François. Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e. Esqueceu-se? – tentou sorrir. jurídico. eles tornarão a agredir as mulheres. eles têm de procurar ajuda noutro lugar. de preferência. . subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas. . O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras. Sonia interveio em favor da amiga. Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si. . .Na galeria do meu pai.. voltou-se para Amanda com vivacidade: . além de protecionista. cortando a carne no próprio prato.Eu trabalho.Falo trabalho de verdade. encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo. talvez. olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: . sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. sejam psicológicos ou econômicos. o do tipo simulado.Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. apesar de estar sentado ao seu lado. solícito.. incomodada pela indagação rascante do homem que. poderia pô-los em ordem.Todos no centro social trabalham. –comentou Sonia saboreando o creme de manga. como. porém.Oui. mon ami. me parece que se não são tratados os problemas dos homens. na prisão. Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . em seguida. mas. sem olhá-la. adiante. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores. .Existe trabalho de mentira. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. Caso queira auxiliar-nos.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura. aquele que se faz sem saber o porquê. -Nossa função é somente para com a mulher. François riu. Fora politicamente incorreta.Sua ajuda também seria fantástica. -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. Geneviève. por exemplo. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo. A moça mexeu-se na cadeira.Claro que não. -É verdade.Tínhamos uma secretária.Obsessão em Paris Veronique Gris . talvez não mais as que agridem no momento. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem. agora. rebateu num tom acusatório: . Geneviève encarou-a com ferocidade. –retrucou Geneviève que. Foi como um raio que partiu a mesa em dois. mas ela está em licença maternidade. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto. François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: . parecia não lhe notar a presença. Jules. Jules? .

Amanda. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. ela observou. só acredito que existam mais vítimas nesta história. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. -Geneviève tem razão. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. . o centro. Porque o seu mundo não era aquele. ah. – acusou Geneviève quase possessa. -Isso. Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . esse jantar. ela sentia-se mal e acuada. essa palhaçada. -Não sou machista. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. são mutiladas. Amanda. o equilíbrio. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. os lábios apertados marcando os maxilares. algumas de nós sofrem. porque. Amanda sentia um mal-estar danado. . Queria mesmo era sumir. François. -Esse assunto mexe muito com Geneviève. ainda somos um pouco machistas. Estava prestes a explodir. Ele a fitava com seriedade. Não havia nada de machista na sua ideia. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la. Inconscientemente. – ordenou. Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . ao sair de casa. Estava sem munição e longe de casa. jamais imaginara que entraria numa arena. –completou François. assassinos de mulheres e crianças. mas sabia que seria confrontada. talvez. As palavras saíam-lhe com dificuldade. melhorarão a sociedade. François foi pego de surpresa e também se levantou. – tentou ponderar. –disse Sonia. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. Ei. Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo. à mesa. – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. não. -O que foi? O executivo contornou a mesa. Fran. humilhadas. . Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair.acrescentou Sonia protegendo a amiga: . mortas! – quase gritou. assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores.E com razão. Contudo. lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto.Que noite improdutiva. Ali. isso é que elas significam: retrocesso. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma. ela mesma tinha sido vítima de um agressor.São simples e verdadeiras.Frutos de famílias disfuncionais.Retrocesso. Vamos para casa. Sonia. .Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas. naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos. Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto. . Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa. As coisas não são simples assim.

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- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

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alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
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-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

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-Se for interessante apenas para mim. E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. virando o rosto para encontrar o dele. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si..E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. – murmurou sem desviar-lhe o olhar.. -Claro. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções. – pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si.. Viviam juntos. -murmurou.. Ela tentou levantar-se do sofá.Não costumo dividir decisões. sempre foi assim. -Humm. – É interessante para mim que você saiba? – brincou. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto. -Ah. Este apartamento é seu. Agora. Quanto ao emprego. você sabe. mínimos. – disse emburrada. diminuindo o volume da televisão através do controle. -Então facilitarei para você a situação. -Você é movido por combinações e acordos. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas. – comentou no mesmo tom.. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado.era um acordo. você fala? – retribuiu a brincadeira. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou. -Queria saber uma coisa. Moravam juntos. aquilo que me propôs no Café... -Vai pro diabo. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura. porque me sinto em desvantagem. –reclamou irritada... As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo... tornando-a uma coadjuvante no relacionamento.. -Todos nós temos os nossos coringas. -Sempre que posso. – disse sem rodeios. O que mais a preocupa. 92 . você deve ter outro plano guardado na manga. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência. não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois. –disse-lhe num tom sério.você e sua prepotência. inundando a sala de uma tênue claridade. braços que a esmagavam contra o sofá.Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas. Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. E todas elas foram decididas somente por ele. . – afirmou convicto. . já que não é da minha natureza cometer injustiças. -Foi uma sugestão apenas. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização. então? – indagou desconfiada. indagando com olhos sérios e perscrutativos: . – começou. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. os seis meses de teste.Caso não dê certo entre nós. -Se é um jogo.além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. Minha opinião nem foi cogitada. não? – refletiu em voz alta. . não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia.

um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. então não sabia nada sobre ela. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. sentindo a aspereza dos pontos da barba. ela constatou todas as vezes que o fez. com um homem lindo e dormindo inocentemente. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. Mordeu-lhe o lábio inferior. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. Ficou por sobre ele. -Que seja. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte. Uma mulher das cavernas. da nossa relação. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa.. em seguida. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. quando automóveis. sem tocá-lo. Estava quentinha debaixo do edredom. após passar a noite acordado. Esfregou os olhos e bocejou. delicadamente. uma tortura que impingia a si mesma por prazer. eram sete horas. Um braço masculino ao redor de sua cintura. -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso. Amanda pensou. do sexo oposto. ele sucumbira a um sono profundo. Mas não lhe bastou. Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. na cama. Num impulso. E ela. Sentou-se com as pernas abertas. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão. ali. Simples. Com a ponta da língua. Afastou-se o suficiente para constatar que. Deslizou a língua para o queixo másculo. ela pensou. Encarou-a intrigado. beijou-lhe levemente na boca. mal lhe tocando a pele. obstruindo a passagem da claridade do dia. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. assim. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. Não. aceitando-lhe a mão. não era nada simples. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais. E se devesse. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior..Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota.já saberia de antemão a resposta. sim. – sussurrou resignada. Importa-me saber é porque estamos juntos. Dava a noite e a conversa por encerradas. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas.. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. desejando ainda mais. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. Ele levantou-se do sofá. da rudeza sofisticada de sua espécie. talvez a predadora da tribo. Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos. Poderia fazer o que quisesse. A neve encobria o telhado de vidro.. prazer de desejar e prolongar o desejo. E os seus sonhos idiotas de amor. desenhou o contorno do seu lábio inferior. O despertador tocou. Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos.

amenizou a força de sua mão e .sem deixar de observar suas reações. baixou um pouco o cós da calça. Humm. ao longo de toda a extensão do seu peito. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. havia uma barreira e tanto. E parou. mexendo apenas o quadril. Surpresa. quase imóvel. o nariz enfiado em seu cabelo. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos.percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. Uma legitima fêmea alfa. agora. 94 . O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica. ergueulhe a coxa e a penetrou novamente. Ali. intrigada. no entanto. Com apenas uma mão. até vê-la entreabrir os lábios e gritar. – disse-lhe simulando seriedade. e ele gemeu. ele brincava. conteve a risada. Ela tentou mexerse. devagar. assim.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios. E ela. virou a cabeça para outro lado. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. como era bom ser uma fêmea alfa. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. acima da cabeça e. sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. divertida. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando.. terei de puni-la severamente. desceu para entre as pernas dela e. ela segurou-o com força. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo. Jules mexeu-se. após uma rápida avaliação. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. Num gesto rápido e inesperado. Ela parou. seduzido de forma passiva. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se. Deliciou-se com a ideia. cedeu a pressão sobre ela que . num vaivém lânguido. com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. como se estivesse sonhando ou. com estocadas profundas e rápidas. abraçando-a com violência. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. Mais uma vez. Ele esquadrinhou-lhe a face e. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar. Alguns minutos depois. dona da situação. Antes que ela se recompusesse. pensou com luxúria. teve as pernas presas entre as dele e os braços.. penetrou-a fundo.. Nesse instante. Como ela não era uma mulher má. De repente. Jules virou-a de costas. mantendo o ar nos pulmões. contraiu-se. a outra. Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela. como um guepardo divertindo-se com a presa. -Agora. Sentia-se poderosa. Poderiam. Estendendo a mão para trás. ainda sentia a força dele dentro de si. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. mentalmente. abriu os olhos. sentisse a pressão. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. ele a derrubou contra a cama. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. pegou o pênis e penetrou-a com força. dominados por uma de suas mãos. pelo corpo inteiro de Jules. seguidas vezes. voltava ao comando. Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. livre. observando a expressão do rosto dele. inclinou-se sobre o seu tórax. agora. a boca contra a nuca de Amanda. agarrou-a. Em seguida.. com a outra. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. habilmente. era pressionada contra o colchão. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. Voltou à carga. provocava e simulava desinteresse. ao seu lado. no próprio sono.

deixando as roupas pelo chão. a de Jules. com dedicação. e. Jules abandonou-a sozinha na cama. Relaxado. por exemplo. Mas a natural. houve uma mudança nos planos. essa. levantando-se depois de fazê-la gozar. Ela só pôde assentir levemente. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. verde claro e de mangas compridas. novo em folha. Jules. sou eu quem manda aqui. Ele sabia reconhecer essa expressão. por certo. – o poder. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. 95 . de onde provinha? Escolheu um vestido justo. brincando com o clitóris. A pele avermelhada.. -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. numa atitude de quem diz: viu. Se era o corpo que fazia amor. uma energia. chupando-o. estava sempre faminto. debaixo do mezanino. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café. Limpo. Por mais que tentasse falar. mas plenamente satisfeita. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas. já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. Morreu e voltou. O coração acelerado. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. os bicos lambidos. plena.Obsessão em Paris Veronique Gris .É bom. a respiração descontrolada. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. O cabelo molhado e os músculos tremendo. ela compreendeu. Gemidos roucos. – provocou-a. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. cheiroso e saudável. masturbando-a com a língua. é bom. Gritou. pelos poros. matá-la devagar. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. sem salto. E ele tocou-a ainda mais. apesar de magro. cáustica e aniquiladora. Ele tencionava. mais do que isso. sol escaldante. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. ele sabia como deixá-la com essa expressão. desconfiado. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. pela garganta. inundando de magma. uma mesa de madeira rústica.. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. jorrava-se de dentro dela. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo. Despiu-se totalmente no quarto. Na sala. lia calmamente o jornal. chumbo derretido. friccionando-o. Ele riu com vontade. pelo sexo. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. Respiração resfolegante. Optou por uma botinha de couro. detendo-se nos seios. por um breve período. enquanto fitava-a deitada e exausta. em movimentos circulares. E entre em contato com monsieur Koskinen. de lã. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. que foram apalpados e esmagados.

Ao fechar a porta do automóvel. 96 .. das. sabia? –alfinetou-o.Se você estivesse gorda e eu concordasse.Não disse isso. é diplomático demais. estou quase vendo suas costelas. a lavagem de seu automóvel. -Você jamais diria que estou gorda. antes que ela reclamasse. O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. . umas vinte manobras perigosas.. croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes. Ligue para Dorian. mademoiselle. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. queijos. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules.em seguida. Sentou-se na cadeira em frente a Jules. para variar. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. -listou exasperando-se. da compra de seus sapatos italianos. então. Sim. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. -Non.. das anotações nas reuniões. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. cismada. pertencem a Dorian e Assíria. Aguardou Jules em frente ao elevador. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. Rossi. – disse e. -Já lhe disse em casa. fitou os pães. agora. pelo menos. – constatou com menosprezo. sério. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil. – defendeu-se. monsieur Brienne. voltando a ler o jornal. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. vê se come alguma coisa. Agora.. – afirmou. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas. – afirmou incisiva. geleias. pensativa. caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório. -Cuido sozinho disso tudo. e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi. estava tudo antecipadamente decidido. – determinou. o Citroën estacionou ao lado. – Se é que ouviu alguma coisa. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. – Sinceridade é algo legal. -Certo. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. -Se fui demitida.. o outro não ficaria à mercê dos táxis. Repassarei suas antigas funções às secretárias.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada.. pois. Ela sorriu e acionou o alarme. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei. -Sei o que tenho de fazer. ordenou: . Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade.

Conhecia todos os meandros administrativos. – retorquiu sem rodeios. foi até a outra porta. Cinco anos de intenso treinamento. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. desde quando vivia em Porto Alegre. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. estava. quero dizer. lidando com diretores. agora. assistentes. . como um quebra-cabeça. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. essa verdade era inegável. Entretanto. mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. Sim. Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. Após retirar o paletó. Aprendia-se muito com os workaholics. Mesmo por que Paris não era a SBO. Mas. Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. Saíram do elevador. Assíria olhava de uma para outra. decididas em cima da hora pela presidência. tendo sido demitida no café da manhã. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. procurando por respostas no carpete. interessava-se particularmente pela área de produção. franziu o cenho. secretárias e o pessoal terceirizado. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. em seguida. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. À época. No entanto. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. Assim. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. No início do ano. a que dividia o seu escritório do de Jules. Algumas peças se juntavam. Voltou-se para Dorian. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. E agora. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. Antes de segui-lo. as emergenciais. monsieur. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados. 97 . havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. você. ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. Fechou a porta atrás de si. concatenando todos os setores organizacionais. produzido na fábrica de Lyon. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível.Eu? – indagou-lhe confusa. Ao vê-la fechando a porta. Se estava preparada?. -É. chefes de departamento.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. -Certo. pedaços de conversas. e pediu que a acompanhasse até a sua sala. de uma forma tão charmosa.

Monsieur Brienne é paciente. – Acho que irá transferir-me para alguma chefia. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa. diante da vista panorâmica de Paris. não é mesmo? – alfinetou-a. Se ele gostasse mesmo de você. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou. Monsieur Brienne cresceu. já sei.Além disso. sei lá. Dorian empalideceu. –comentou com ironia..-olhou para os lados à procura de terra firme. semana passada. interveio: -E. -Oui.. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel. viajando. já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos. -Dorian. non. -Será mesmo? Olha só. merdè!. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação..Obsessão em Paris Veronique Gris outras. – disse tentando sorrir. – tentou apaziguá-la. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo. mostrava você... ele não é o poderoso chefão. Ou pior. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian.. Amanda não pôde evitar a risada. Amanda sentiu o sangue subir à face. um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas.As brigas. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. Enquanto organizava a sala. literalmente.. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e. –lamentavase Dorian. E sem razão. -Não.. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. claro. 98 . Mas você é ceguinha mesmo.. fica mais perto do refeitório. Depois lhe disse num fôlego só: . indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. por sinal. a reunião. você passou dos limites. non. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. –afirmou sorrindo sem jeito. -Que droga! Isso é tão estranho. oui. que. –Pelo menos. nervosamente. –Que aconteceu? Oh. non? Virada para a janela.. -E quem ficará no seu lugar? Ai. agora. -Quantas forem necessárias. Dorian. fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho. uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. -Não se preocupe. daria um jeito para ficarem pertinho. insubordinação.. Comentou com naturalidade: -Bem. Amanda. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas. mostrando a língua para Amanda. pensou.. o cargo foi extinto. –Aprenda conosco. -Você é cega? –desferiu-lhe. É. – alertou-a. me põe no olho da rua. ele me ama. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira. como sempre o fizeram. –afirmou sem poupá-la... agora.. muito mais juntos. –brincou. –Mas. chèri..Fui demitida.

nos arquivos do computador. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha. -Agora. -Pardon? – alçou a sobrancelha. -Bom. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário. -No computador. O decorador passou a madrugada trabalhando. –deu de ombros. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez. é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele.. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. Depois. estou noutra. Amanda nem precisava fitá-la. -Cuidado. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. -Apanhará feio de Filipe.. -Amanda. voltou-se. da última vez.. –interrompeu com malícia.. Dorian. -Tem inimigos. –constatou sorrindo. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. ignorando a outra. hã. nervosa. 99 . Jules. -Quê dizer?. Retomavam. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração. Dorian. –soltou essa e teve vontade de sumir. -Não estou para brincadeiras. então. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia. haviam tido um breve e intenso romance. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe. Com a caneta. depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. –reagiu. –murmurou. –Jules fitou-a.pois é. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. -Misturou. Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. se ele for o Jacques. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. visivelmente encafifada. -Oui. no máximo.. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta. estavam juntos. -Você gosta mesmo de artistas. incompleto. Os dois combinavam e. você está gorda. o que haviam deixado para trás. tudo.-gaguejou. aturdido. não. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. Que adianta saber? Pouco me importa. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. logo que a secretária fora contratada. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas.. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora. pensou. que já estava com a mão na maçaneta.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah. – afirmou secamente. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui.. somente meus inimigos me chamam de Amanda. impaciente. à porta. Será que ele não havia percebido o deslize?. -Monsieur Brienne. circulava alguns números do mês anterior.. monsieur. é. –respondeu sem pensar.

promovido a diretor. -Não. Era fundamental que lhe desse toda atenção. Não estava preparada para ser mãe. porque engravidou. não participavam das reuniões com Jules e Touleause e. Porque ela estava mais gorda. estamos juntos.. isso eu trouxe de casa! –provocou-a. não faz esta carinha. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. ele é terrível!. -Tudo bem. –olhou ao redor. Antes que Jules iniciasse a reunião. Dorian. -E ele a demitiu. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. – debochou. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. Amanda verificou.. Ternos discretos e aprumados..-antes de fechar a porta atrás de si. cabelos domesticados e unhas curtíssimas. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres. o presidente. Não queria por agora. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses.. -concluiu afoitamente. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador... A atmosfera estava mais leve e agradável. -Ah. –Isso não é certo. trocavam informações que registravam. -Não estou grávida. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias. esquentaram. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. Na extremidade esquerda. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. portanto. o chefe. que.Epa!. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. Outro padrão. batendo a porta atrás de si. 100 .. vocês. não..ele. hein. coitada.. porque. normalmente. com isso. –Bom.. perdida.. na direita. nos respectivos notebooks. caso olhasse à sua esquerda. Três gerentes eram mulheres. Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém. duas solteiras. que mal conseguia respirar: -Uau. Marion e Jordan. ao lado do presidente. o seu domínio. Dorian.. Porque nem sempre usavam preservativos. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. relaxados. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. -Ei. – disse sentindo-se vencida. mas não gorda! Gorda é a Assíria. uma cadeira vazia. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual. constatou Amanda. Duas mulheres eram diretoras. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. enfim. Conhecia. ele só falou isso porque. Jules. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos).Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu. estou com pena de você. as duas solteiras.. pois. um padrão. havia cinco anos. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas.. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada. se está tudo certo. principalmente os gerentes. em seguida.

de certa forma. continuou. ainda não terminei. com medo de fracassar ou medo de vencer. diretores seriam transferidos para outros países. a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. agora. Fitou-o intrigada e constrangida. brincou Jules sem sorrir. A primeira parte da reunião acabara. o melhor time e. em seguida. e as vagas abertas por tais diretores. em nossa empresa. solene: -Bien. Uma personalidade complexa. Inclinou-se ligeiramente para frente.. ainda mais satisfeitos. na SBO francesa. O que queria. Quem se rebelava. Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito.. haverá sim mudanças. centralizador. entregar-se e se deixar envolver por ele. dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida. apenas há quase quatro meses. Um efeito dominó.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. mantida num tom brando e grave. umas sobre as outras. o semblante sério transmitia confiança. fazia. Controlador. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. de baixo para cima. mademoiselle. Tornou a sentar-se. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. messieurs e mesdames. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. apenas para Amanda: . Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo. Expunha o discurso fitando cada um presente. justamente por isso. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que. –baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista.após as risadas. o que lhe parecia óbvio. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. Manipulado. Ainda sentado e organizando suas folhas. Rapidamente. não era esmagado e sim convencido. que. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. Ao levantar-se para seguir o protocolo. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e. ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. analisando o tom sério na voz do presidente.. Jules. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos. Entretanto. Temos. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. Novamente. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação. Jules era um só. os executivos riram. Eram iguais. sério. 101 .Sente-se. ainda mais no campo da informática. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção. A voz. na administração moderna. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. seduzido. seriam preenchidas pelos gerentes.Touleause não está mais entre nós. – declarou impassível. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. a máxima que diz que time bom não se mexe. autoconfiante e dominador. Era fácil e era bom. agora. A lealdade a Jules era recompensada. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e. Em vinte minutos. o homem. para isso.. ainda mais desapontados.. devagar. soa como uma falácia.

Um minuto de silêncio. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. Anos atrás. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. e a lâmpada explodiu. mas ela não era um gênio. impactadas diante de uma afirmação sem sentido. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules. Pessoas que calculavam e analisavam. sendo substituído por mademoiselle Rossi. nomeava-a vice-presidente. Faltava café na sala.. Era aceita por aquele time. sentava-se na poltrona diante do homem que.. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado.. Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. agora. os discos do Queen. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência. permaneceu imóvel.. com curiosidade. Anunciou séria: -Vou buscar o café. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi. vendera sua alma no mercado de pulgas. mas. Até os seus 23 anos. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França. Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia. Antes de encerrar a reunião. Entretanto. uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias. Voltara do jantar em silêncio. A transferência de Rochelle para uma clínica... sempre com um cigarro apagado entre os lábios. acompanhando o sorriso de Jules. pessoa de estrita confiança sua.. vivia intensa e profundamente. que lhe desejou felicidades. Duas semanas depois. uma lâmpada ligou. E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. como se matutasse alguma coisa. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem. ponderava Amanda.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio. quase outra encarnação. a suspeita de que ela estivesse grávida. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. Jordan. para tanto era preciso destruir a antiga. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause. tendo como companhia uma bolsa imensa.. teve uma vida pacata e lenta. Era uma outra vida. inteligente e siga a minha visão empresarial. juntou dois e dois e. no aeroporto Salgado Filho. Em pouco mais de dois meses. Uma velocidade que a excitava e a apavorava. haviam provocado a avalanche de mudanças. Planos ambiciosos.. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores. seguido pelos demais na sala. Em Paris. Ergueu-se. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. – falou diretamente. Dentro da cabeça de Amanda. ligou uma coisa a outra. bateu palmas. então. como se os dias rastejassem-se desde a alvorada.. Não conseguindo resolver a equação. O sangue correndo forte nas têmporas. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária. Naquele dia. aproveitaria a oportunidade. Ao explodir. cinco anos depois.Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 .

E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria. durante um bom tempo. forçado e impessoal.Está no lugar errado. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la. a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação. . como lhe dissera Jacques. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. e sim o loft. Amava-o como jamais amara alguém. inaugurada em 1972. com os braços cruzados numa atitude absorta. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos.. e ela simplesmente o ignorara. E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor.. A voz grave. e não conversada. E agora o fantoche do presidente.. A proposta para viverem junto e. ponderada entre ambos. em cinquenta e oito andares mais o terraço. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. E não era qualquer um. absurdo que sentia por aquele francês. o mais detestado pelos franceses. acabara por ceder. Tudo girava como um caleidoscópio. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. era fato concreto. Amanda percebeu depois. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO. agora. Enfrentaria mares bravios em busca de paz. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida. com extensão ao loft. mesmo tendo resistido. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência. E a vice-presidência imposta. Amanda. entretanto. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador. seu sorriso era outro. no máximo. Um móvel de escritório. do amor louco. profundo. escolhera os novos móveis do loft. mesmo não tendo aceitado. No chalé. estilosa que revelava outra faceta da cidade. Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. sempre venerara Jules Brienne. Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. a nova VP. Objeto sexual fora da empresa. Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente. o prédio vizinho. Ele estava certo. Como fora a escolha do “presente”?. o prédio mais alto da França e. discutida. mais aos padrões do alto executivo. olhava o prédio vizinho. Tinha consciência.. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. como um homem das cavernas. esse 103 . Era a parte moderna. Porque lhe era conveniente ignorar. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela.. Ao longo de cinco anos. Construída diretamente sobre o metrô. Uma manobra engenhosa e tão boa..Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. sua antiga sala como assistente-executiva.

completou: -Entretanto. pelo visto. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião. Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. É assim que temos de pensar. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. antes delas se levantarem do chão. Tentou soltar-se.teste. -Não sou apenas uma funcionária sua. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente. a garganta bloqueada por um nó de tensão. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento. inadequado. logo. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. e não por dormir com o presidente. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. mas. -Sempre fui bastante profissional. Temia perdê-lo. Jules. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. pensou. non? Caso contrário. – enfatizou. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. Respirou fundo e procurou controlar-se. Homem de gelo. pois. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto. puxar o braço. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. –constatou por fim. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora.. –declarou com um sorriso debochado. mas permeado de ironia e desafio. principalmente no que se refere a minha vida. existe um divisor de águas aqui. -Homme de glace – murmurou. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele. entalhado na pedra. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. ora para o cabelo azeviche. –enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . o céu cinzento. Levei cinco anos para perceber isso. sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso.Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador. Amanda? Decida-se. –Quem está zangada. digamos. fiz algo errado. Jules estreitou os olhos. a torre de Montparnasse. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . -É verdade. nesses últimos quatro meses. -Ah.. Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. Temia perder-se para ele. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. entendi. -Atingi o meu limite. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros. intrigado.

Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. monsieur. machucando-a e obrigando-a a fitá-lo. impassível. esperando uma reação dela. -É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam. – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. de quê. – sugeriu. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. Ela queria mais. não era uma crise de ego. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. mon Dieu.Oui. talvez a única.. 105 . sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. Por um minuto ou dois. Oui. Jules? –indagou num fiapo de voz. – Mas. Ele sorriu friamente. agradece. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. balançando-a para cima e para baixo. sente-se usada? -Não. s'il vous plaît. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida.afirmou secamente: -Por acaso. Cinco anos de cegueira absoluta. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida. Lançou-lhe um sorriso fraco. houve uma troca entre ambos. nunca fui chefe de coisa alguma. –apontou-lhe o indicador. Por um momento. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. Caso lhe fosse apenas a assistente. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. que inclui a sua ascensão profissional. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele. Entretanto. A voz falseava. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. convenhamos. sem vontade. Ao que ele tornou a falar. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce. Perdia o controle. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. Doía vê-lo fitando-a com frieza. –desferiu num fôlego só. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. temeu soluçar. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. ainda está em busca de garantias. aceitará a promoção. -respondeu insegura.. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. esganiçava-se e perdia a força. por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo. non. mademoiselle? – provocou. –A minha parte que adora mentiras. –parou. Apertava-lhe ainda mais o pulso. . Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. . non? Afinal. -O que significo para você. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. -Devo-lhe agradecer pela casa. sentindo o próprio queixo começar a tremer. em seguida. -Seja mais objetiva. -Acho que sim. e não a mulher que o amava. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva. mas. mas manipulada. foi justo. Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade.

perigosa. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. Amanda. O que não me dá muitas vantagens. indiferente. – debochou sem mexer um músculo.. vou deixá-lo. Uma troca sem sentido. Jules? Ele contraiu os maxilares com força. a primeira mulher que o deixou na mão. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. permitindo que o mesmo não o alcançasse. Isso é certo. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. -decidiu-se convicto. fosse qual fosse. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez. -Atirei-me nele de olhos vendados. desejei que me escolhesse porque. Amanda. Desde que entrei na sua sala. é o que lhe ofereço. non? Até o meu útero. Proteção. doía demais. Vivien. tão passional quanto maluco. O que me dá medo. E como todo o rompimento afetivo. Não quero nada relacionado a você. aniquiladores. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. E como se isso não bastasse. -Acabou. um desgraçado de um abismo. Surpreendeu- 106 . – debochou. – riu-se com amargor.. no mundo. –completou com impaciência. da segurança e do homem que amava. a expressão cansada. –interrompeu-se esfregando as têmporas. e tal gesto era por demais significativo. oui.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. pavor. a mãe.. não tenho medo de trabalhar. Antecipava no peito a sensação do vazio. Não tenho nada meu lá. Eu te amo. Jules. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. e para se manter qualquer que seja o relacionamento. entre os dois. amadurecer inclusive. densos. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são. Soltava-a em Paris. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. em princípio. Agora. –Vou para casa retirar minhas coisas. Amanda olhou para o rosto bonito. Talvez ele se protegesse do amor.. –Oh. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. roupas. segurança e conforto. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo.. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. – dando de ombros. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés. do amor não consumado. o modo como eu te amo é assustador. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. Alguns minutos se passaram. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. então. retomando o controle das emoções. há que se ter um equilíbrio entre as partes. –E por amá-lo dessa forma. Você quer tudo de mim. para todo o sempre. sem sorrir. quero dizer. E eu a amava. agora. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. além do mais. Engoliu as lágrimas. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. -Por que você não me ama. Todas fazendo trocas descabidas. perscrutadora. preferindo os homens problemáticos e violentos.. mas não dá nada de si. Amanda abriria mão do conforto. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. da angústia que asfixiava. Jules soltou-lhe enfim o pulso. -Estou numa posição inferior a você. sei. mas eu não sabia. antes de conhecê-lo. E.

aos dez anos de idade. do século passado. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. Parou no meio da sala e. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. como que se protegendo dela. Não podia reprimir-se. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. abraçados. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. com paisagens de uma Paris dos anos 20. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria. Debaixo do edredom. Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes. os braços 107 . Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. chorou. E chorando encaminhou-se à cozinha. Após a saída de Jules. O desenho de uma menina morena. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito. a loção pós-barba exalando frescor. Deitou a cabeça. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. E chorou. Chorou até se engasgar com o vinho. com uma franja sobre os olhos. de pescar o maior peixe do mundo. mesmo porque era impossível fazê-lo. Abaixou a cabeça. Passe no RH. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. Por um tempo. diante do Café de la Paix.. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. mademoiselle. E chorou. -Por que antes de ir juntar suas coisas. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs. Chorara durante o curto trajeto de volta. Diante do espelho do banheiro. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais. então. você e o seu suposto amor. dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. doces e infantis. em que ficaram conversando após o sexo. contando histórias da infância. no subsolo.Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. corpo no corpo. Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. girando lentamente. observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra. Então. – completou com evidente desprezo. Tinha algum tempo. seguros de que tudo daria certo. sais que exalavam o odor de Jules. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. sorrindo como se tivesse 17. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento.. Depois. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. quase física. e Jules. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos. tornando-a refém de uma dor insuportável. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. Como ele podia ser tão carinhoso e. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. a pele cheirosa. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe.

Retirou o sobretudo e o cachecol. Killer Queen ressoou pelo apartamento. atenta. Estava horrível. pulando a cada dois degraus com agilidade. no seu esconderijo. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. –completou num tom melancólico. branca e dourada. Amanda afastou-se da porta. acrescido do seu amor. pegou-o e digitou alguns números. Ergueu a cabeça. A vergonha de ter sido fraca e chorona também. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. Subindo os degraus rapidamente.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa. olhou ao redor à procura do aparelho. imaginou Amanda. largo e firme. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você. Segurava uma sacola de papel. – adiantou-se num murmúrio. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. Viu-o descer a escada. muito próximo. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. Fechou os olhos e abriu. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . –Vim direto para casa. Parecia preocupado e nervoso.. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. -Não é certo que você saia. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. Amanda. Foi até o banheiro e saiu. intrigado. Estava ligeiramente zonza.. desejo e muito álcool no sangue. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada. -Sei que já eu devia ter ido. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. porque queria encontrá-la antes que partisse. Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. medo. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. Todos os sentidos em prontidão. sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador. mas manteve o paletó escuro. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. -Vas te faire foutre. quase desfigurada. Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar. raciocinava. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. continuará recebendo até encontrar outra colocação. –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto. depositou-a no chão. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. – xingou-o com raiva. o apartamento é seu. legalmente seu. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. No aparador de vidro estava o seu celular. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego. Jules. Sem hesitar. Num estalar de dedos estará bem empregada. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. Em seguida.

Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. O centro social ainda não se instalou por lá. Isso que era: lixo puro. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. cada uma. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. a sua gentileza. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha. sem meio-termo ou meias-medidas. devagar. –declarou exasperada e encarando-o severamente. e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. Deve ser uma merda ser tão racional assim. objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. E rendida. canibal. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta. inacessível!.... Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. Quando ela virou os lábios 109 . que mal lhe tocavam. -Claro. devagar. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice. Ela acabara de alfinetá-lo. Entretanto. Visto que ela o ignorou.Frio. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. -Não se dê ao trabalho. Novamente a vertigem. agora. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. amava. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural. Sentiu-lhe o gosto do hálito. Dignidade feminina. Empinou o nariz numa atitude arrogante. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou. Transferências. decidindo vidas. -ironizou e. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. E quando amava. contatos. seus contatos. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma. indiferente. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer. fusões. diante do silêncio que se seguiu. Durante anos bloqueara seus sentimentos. Automaticamente. sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura. recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. –completou com desprezo. fazia-o por inteiro. non?. Não será isso que me matará. Pequenos beijos nas bochechas. O discurso de bom-moço enojava-a.. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório.. non? Temos de limpar o corte. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. na ponta do nariz. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo. bufou. fique aqui enquanto vou buscar o iodo.. pela primeira vez. no queixo e nos maxilares. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. Amanda apenas fechou os olhos à espera.

. não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo..Mas. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne. o pragmatismo. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou. como se fosse ele quem sofresse. Mas quando ela pegou-lhe o celular. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu. inclusive esse apartamento de esnobe descolado.. – à medida que falava. seguido por outro. Dentro dela. como se tentasse neutralizar o que sentia. porque eu não sou de ninguém. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor.. céus!. não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. Jules apontou para a pasta e comentou com calma. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz. metálico e abafado. que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe. eu ficarei.ficará com você. Jules. a contabilidade emocional. Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. Possessa.. Amanda. –considerou numa voz abafada... por sua vez. que ele arqueou uma sobrancelha. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. oui. o caricato. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais.. -Bebeu mais do que devia. estranhamente calmo. non.. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. verdadeira e forte... .. 110 . e eu não.Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo. –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio. Jules afastou-se delicadamente. Em vão. o seu Jules Brienne.. rindo. podemos conversar de forma sensata e coerente. o homem de gelo..Eles são seus e eu os odeio.. -Nunca foi a minha intenção machucá-la. – escarneceu.. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva.. mas ainda era uma MULHER. Amanda gargalhou completamente surtada. –Mas tenho a mim. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo.. deixe-me ver. -Ele também não lhe pertence mais. a sua empresa de merdè. Odeio tudo que vem de você. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. -Idiota! –gritou. -Havia um notebook ali dentro.. sereno. Perdida..hã.. ela o fitou. só não tem coração.. Jules. vamos ao banheiro. Odiou-se por se render tão fácil. odeio seus sapatos. –falou baixinho e direto. oui. –completou chorando.. Jules! –gritou. Um barulho seco. fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: .. eu não pertenço a ninguém..que você nem sabe escolher.. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente. ele fez um movimento para se levantar e contê-la. intrigado. -Claro que não. Venha comigo... reverberou no recinto. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. contra a parede. inteira. Você é uma ótima pessoa. Você vai embora e os levará junto. o aparelho espedaçou-se no chão. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. acho que vi um. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente.

O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo.. francês. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado. .completou gritando: .Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën. Amor! Já foi amado assim. tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. ao que ela.Em rasgar roupas..Acertei bem no alvo. – gritou: . Satisfeita. A chave foi arremessada para fora da janela e. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola. para que ele não o encontrasse! Eu te amo. listou: .Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. Amanda... -Agora.. –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. incendiar chalés. desde a adolescência no quarto. queimar sapatos. ao cair.eu. com os dedos. voltando a sentar-se no degrau. Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou. esperando pelos diretores da subsidiária de lá. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO. seu imbecil. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então. -no restaurante.. sentiu a mente esvaziar-se de tudo..Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha. Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. e o fizera para poder se manter por alguns dias. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. . Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. -parou e fitou-a 111 . Calculou que ele conseguiria detê-la.. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento. no fundo da sala. Toda a sua coleção do Queen recuperada.. sorrindo por entre as lágrimas. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. -Jules começou. Tocou a capa de cada disco com ternura. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo. -Nem tente destruir isso aí. tomada pela fúria e com os olhos arregalados. todos os discos haviam sido vendidos. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre.. Respirou fundo. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele... –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. enviar e-mails com vírus. sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente.Adieu! – exultou com um gritinho alegre. ideias. Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: . ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel. pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava. em seguida... Fitava o interior da sacola. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. acalme-se e vamos conversar. retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e. -Entendo que se sinta magoada e. sozinha. não. ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. Percebi que esses discos significavam muito para você. recordações.eu me dediquei a você todos esses anos por amor. – Non. europeu idiota! Dito isso. no alto da escada. envenenar comidas. sentimentos. -Estávamos em Roma. non? – indagou com cuidado. –Nada sairá daqui com você. quando conversamos sobre viver longe de casa. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia.. no entanto. estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada.

Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos. –balbuciou num fiapo de voz. Isso era um ato de amor. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido. com os seus poemas escritos em algumas capas... ao mesmo tempo. os braços dobrados em frente ao corpo... -De rien. A gravidez que ele queria que se confirmasse. Gestos precisos e. sério. abraçou-se aos discos e chorou. Ele parou por um momento e esfregou os olhos. por que. como aconteceu tudo isso. não era controle.Isso foi há um ano. mas não tencionava aceitar os louros. -Merci. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 . lentos. loções e a escova de dente. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. De nada. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. Jules não falava em amor. fora prática contrariando a sua natureza passional. mas. E ele jamais diria que a amava. respondeu apenas. de um jeito desanimado. passaria o resto de sua existência chorando. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro. perfumes. Isso era amor.. – disse. ações sólidas e reais. Sem vínculos ou obrigações para com ele. através de atos e atitudes. Amanda indagou sem fitá-lo: . Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. alçando as sobrancelhas: -Pode ver. Ela parou diante da cama. Soltara o nó da gravata. são os seus discos. – retrucou baixinho. fazia-o. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção. praticados por homem visivelmente cansado. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho. No criado-mudo. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. seu barbeador. por fim. quis chegar a tempo para lhe entregar. Resgatara-lhe o tesouro.Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. arrastados. -afirmou de um jeito estranho. com um frágil sorriso nos lábios. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo. mais uma vez. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. no modo de pensar de Jules. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu.. na mesma. Investiguei. tinham de ser os seus. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos.. viajei. a realidade. Era a vontade de ser pai. Pelo visto. simplesmente. além disso. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. a sua caligrafia de menina. a sua. Ele lembrara e. Tudo tomava um novo rumo.. – enfatizou. azar dela. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França. não? -Oui. Isso era amor. como se quisesse livrar-se do assunto.

procurando os discos da minha adolescência. entendo que isso é amor. 113 . você parece um menino. – ele fez um sinal para que ela parasse. -Eu gostaria muito. –respondeu baixinho e sem dar importância. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão.. à espera de algum movimento por parte dela. Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet. Ela não o via de fato... Fingiu que não a ouviu. Tinha o olhar entre curioso e desconfiado.Jules. Jules sorriu de um jeito tímido. -Perdi as estribeiras. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta. mesmo apanhando e ignorando seus apelos. era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto. tensa. concentrado na maldita mala: . confundi-me. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes. segurando um par de meias na mão.. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic. Às vezes. -Quero cuidar de você a minha vida inteira. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente. -São apenas coisas. por outro lado. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho.tentou justificarse. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura.. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. Por isso. Jules.. e. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo. Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam. que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada.. . E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe.. Respirou fundo. por exemplo. Amanda.. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver. -Amanda. ela bem o sabia. Jules. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção. preciso lhe falar. mas foi interrompido. -Espere. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. constatou Amanda. não estou mais cega.. – apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. continuando a arrumar a mala. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio.. desculpe. muito pelo contrário. Ele parou e fitou-a. Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto. -Mas. Misturei tudo. Jules deu de ombros de forma indiferente. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere. ela também não sabia o quanto era amada por você.Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem.... me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você. apenas olhava-o.? – sempre havia um mas. ainda fitava-a. sem vê-lo.

na verdade. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa. 114 . olhando de verdade para o seu rosto. para o seu corpo.. -Jamais percebi nada. – Mas fui punido por minha decisão. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido. numa veia saliente. fui para o terraço.apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras. Quando saí da sua sala. mas não queria correr riscos outra vez. Amanda beijou-lhe o pescoço.. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme.-comentou sorrindo. Aquele estúpido jantar comprovou isso. bien. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico. . Amanda. se jogou nos braços de um desequilibrado. consegui e quase a perco por isso. Sabia que confiava em mim. não o resultado financeiro dele. me peguei olhando diretamente para você. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções. Depois. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo. -É. quero dizer.. – completou com seriedade. -Oui.. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você.. Parecia um tipo de déjà vu. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar. Sei que é uma atitude tola. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma. e apoiou a cabeça no tórax dele. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien. – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: . todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você. Aliás. O que é uma mentira. acusando-me de insensível. foi apenas mais um jantar de negócios. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: .tive de controlar-me para que você não se afastasse. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. – acusou. Amanda. O trabalho é a minha paixão. – completou apertando-a ainda mais contra si. Acreditei que não me amava.Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim. mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional. sabendo que me entende.. Fitaram-se por um longo momento. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. frio e viciado em trabalho. Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. -fez uma pausa procurando as palavras certas. porque a amo e não é de hoje. mas também com certa tristeza. séria. As palavras. mas aquela nossa conversa no restaurante. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada..Conseguiu. para os seus gestos. E quando dormiu com Jacques. ela dizia que eu era viciado em dinheiro.. inclusive François e Sonia. sinto os olhares sobre mim.. Por fim. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela... Agora. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela... não substituem as atitudes. Jules riu e beijou-lhe o cabelo. sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui. eu sei.. . Amá-la em segredo foi terrível.

nomes errados. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. O resto você sabe. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. Jules parecia disposto a conversar a respeito. ela pediu-me para que não saísse. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. já que estava transtornada de raiva. naquela noite em especial. acabei vendo um teste de gravidez. quero dizer. sério e pensativo. discordei. – ele parou por um momento. vê-lo de rodas para o ar. não esconderia mais nada de Jules. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. Jeremy Blair. –respondeu-lhe automaticamente. – acentuou num tom grave. Ele fora demitido antes do meu casamento. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida.. Quando a ambulância chegou. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin.Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. e por isso não mais a convidava.Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa. Era um dos assuntos tabus. os sulcos na testa profundos. Naturalmente. Rossi? 115 . quando eu tinha um. mas eu o fiz assim mesmo.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. -Isso não está certo. Caso ele evitasse o assunto. No entanto. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. Tudo aconteceu muito rápido. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. nós brigamos. meio minuto depois. após saberem. com a minha autorização.. –suspirou.. Olhos totalmente mergulhados na própria mente. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular. agora. – falou-lhe de uma vez. Era amada por ele. num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules. o reconheci como sendo um dos meus gerentes. Mas. E Jacques não está nela. lista esta feita pelos pais de Rochelle. -Jacques continua ligando para o meu celular. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito.Fui atrás. e. – murmurou entredentes. não forçaria a barra. feito isso. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . na Irlanda. fora preso por bater em uma garota de programa. Sentira isso. ou melhor. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia. e ela saiu sozinha. um tipo de queda-de-braço infantil. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. porém identificara tal sentimento com outros nomes. com a transferência de Rochelle para uma clínica. as têmporas latejando: . imediatamente. como se a cabeça já rodasse em outra direção. ela gritou. – suspirou resignado. Rochelle detestava esse tipo de jantar.. já estava desacordada. pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. eu a ignorei. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente. cedendo o volante a Jacques. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si. Foi a primeira vez que o vi e. O que tem a me dizer sobre isso. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros. Pelo o que averiguei depois. por intermédio dos Roche. -Talvez. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida.

-É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada. vamos comemorar! Ainda é cedo. antes de confirmar ou não a gravidez. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair. Alguns minutos depois. excita-me engravidá-la de fato. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo. -Humm. 116 . ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. ficou na ponta dos pés. –disse jovialmente. parece-me um pouco precipitado começar uma família.. -Você está linda. enfiou-se no banheiro. como ele é lindo. Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. Antes de fechar-se no banheiro. – comentou com naturalidade. Jules. -Non.Meu rosto está acabado de tanto chorar. -Não o apavora ser pai. mas ela não pensava como os franceses. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma. espere aqui que buscarei o nosso oráculo. depois. concentrado. -Você está grávida. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. monsieur. por sinal. hoje pela manhã. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . Deixou-o parado no meio do quarto. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse. mon Dieu. sabe disso. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. -Então. Amanda afastou-se poucos centímetros dele. –ponderou antecipando-se aos fatos. – considerou fazendo careta. envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força. – Maintenant..Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir. –comentou sem graça. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. pela primeira vez. sorrindo. bien.. -explicou-lhe ainda rindo. mademoiselle. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. saiu do banheiro e. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. por debaixo do robe.. mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que. ficou feliz em vê-la chorar. não há nada acabado em seu rosto. de pé.. -Oui. com um sorriso. deliciosas curvas. descendo a mão para a sua barriga. –corrigiu-a.brincou. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém. ma belle. – brincou.. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. Amanda. quando reclamou de suas curvas. E. nem precisava fazer exame para saber.. -A ideia era essa. – fitou-a com um sorriso malicioso. Voltou lendo as instruções. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos. ele sorriu e. e acho que pegamos o Dôme aberto. quero ser pai dos seus filhos. é maravilhoso. porque esses testes não são cem por cento confiáveis. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. quero dizer. quero muito tê-la engravidado. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. descer as escadas até a sala.

normalmente. – falou-lhe com o olhar sério. Captando o duplo sentido da pergunta. Por baixo do robe.. tenho de pegar a chave do carro.. Amanda desafivelou-lhe o cinto. já que dividirá o corpo com nosso bebê. as têmporas latejavam.J’etaime. afastando-os ainda mais. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação.. mas um sorriso entalhado nos lábios..Amanda. passando pelas malas no hall. -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar.. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. convencia Jules. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. cada ponto.. e no rosto de Jules. fez o robe cair no chão. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas. senão se importa. ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia. -Quer que eu saia ou entre. numa voz rouca e abafada. ele enfiou-se aos poucos.Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. em cada centímetro de pele. digamos. – concluiu em tom de brincadeira. num vaivém sensual e lânguido.. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que. – Escolha enquanto pode. expondo-lhe a nudez.. Antes de sair. -sugeriu de um jeito meigo que. toda. digo. em seguida.. controlador. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede. dentro de si. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo. desesperada paixão: . Podia buscar comida pronta. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro. Jules voltou-se para ela e a beijou.. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço. -Estou sempre com fome de você.. a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante. J’etaime. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme. cada zona erógena que vibrava ao toque dele. no sofá. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça. Jules vestido e ela completamente nua. Acompanhou-o até a porta de entrada. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se. -Trés bien. haviam virado gelatina... Num gesto eficiente e sensual. depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. num canto da parede. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo. –gemeu-lhe ao ouvido. Amanda mal sentia as pernas. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?.. lá. Ela segurou os próprios joelhos flexionados. 117 . em torno dele. planícies e cumes orvalhados.? – indagou-lhe num fiapo de voz. levando-a no colo até o outro lado da sala. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. persuasivamente. que dançavam seguras por vales e montanhas. E convenceu. E com movimentos cadenciados. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo. sussurrou com paixão. cobriu a sua e ainda colada nela. Sem tirar a roupa. alcançando o clitóris e massageando-o. Aproveito e faço tudo de uma vez. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. na rua. você tem de cuidar de sua saúde.

Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês. por sinal. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. e o Bleu tem uma filhinha. sofisticada e úmida de suor. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. com a cabeça. messieurs – falou baixinho Jules. -Não se acanhe. mulher. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo. oscilavam no amplo galpão. o cara não vai parar nunca. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. sua assistente. sozinho. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. despertando da inconsciência. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele. – Se quiser. –fechou os punhos instintivamente. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa.. senão perde a graça. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. Mas eu cuido dele sozinho. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. riscou um fósforo com a mão em concha. – disse Jules sério. deixando-a surda do ouvido esquerdo. Tenho mãe. – balançou a cabeça. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. Duas passagens pela polícia por agressão.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório.. irmã. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. Jules. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. com lâmpadas de sessenta watts. ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. monsieur Brienne. completando o gesto do olhar. Jules estalava os dedos das mãos. ótimo trabalho. Jules assentiu. -Merci. docteur. retirando as luvas pretas de couro. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco . Em seguida. monsieur. inclusive. que comprimiu os lábios com raiva. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. Luminárias de aço dispostas no teto. E era o mesmo que acabava de chegar.. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. registrado. –É crônico. lançou um olhar significativo a Bleu e. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo. exasperado. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. -Está tudo aí. que.. -Esse prazer é todo meu. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne. fitando Jacques de longe.

da força muscular do adversário e de sua fraqueza. e isso é uma ordem. -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. irônico. seu ricaço de merdè. Jacques fitou-o por um momento. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. olhou ao redor certificando-se de onde estava. abrindo os braços e dando de ombros. acompanhadas por Armand. Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques. –declarou com firmeza e serenidade. por sinal. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica.Oui. -Bonsoir. isso sim. quase alcançando o rosto do outro. Já o almofadinha à sua frente. da distância entre ambos. –constatou quase alegre: . – gargalhou: . Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente. – acusou aos gritos. – debochou.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga. – prometeu com um sorriso cruel. impassível: -Podemos começar quando quiser. refazia-se rapidamente dos golpes. – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão. tentou acertar o maxilar de Jules. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava. -Ninguém me contratou depois que me demitiram. como vai a brasileira. Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão.. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. Ficou de pé. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes. que desviou a cabeça. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. oui.. dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho. Jordan não queria me demitir.. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos. -Polícia? Está delirando. Jacques gargalhou. ao torcer para baixo o lábio inferior. Mas antes. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio. covarde. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. Jules bocejou. – completou. também foram minhas.Aliás. Ele era duro na queda. você sabia. –Quer foder a minha vida de novo. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. também registrariam queixa. -Ficará longe dela. que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. eu posso e você não. sorrindo. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás. Nunca fiz nada de errado na empresa. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. non? -alçou uma sobrancelha. Pelo contrário. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. retirou o casaco longo e o paletó. aturdido. –pôs o dedo em riste. Baterá em mim. Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe.. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. -Agressão. para o seu próprio bem. e as outras mulheres agredidas por ele. 119 . -Vou matá-lo. suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro. –Eu o entregarei à polícia. diante de um homem que verdadeiramente odiava. Além do mais. ela me sustentava.

Tinha de lutar por sua vida.A gente agradece. assistindo à cena. Jules observou mais dois homens. Jules ignorou-os. Não podia permitir que ninguém. sem perder o equilíbrio. Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . Jules. os maxilares tesos. aproximou-se do corpo distendido no chão. imóvel e ainda preso pelo gigante. Este surpreendido pelo ataque. Jacques urrou de dor. de pé. d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. mais brando: . Os homens entreolharam-se e partiram para a ação. respirava alto e rouco. Não fechou os olhos. é minha irmã. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. voltou-se com raiva para cima do loiro que. testando a personalidade do executivo. Agora. daquela gente. Não podia deixá-la sozinha no mundo. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. – disse por fim. Jules estava farto daquele lugar. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. -Sabemos quem é você. mudou o tom. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. baixo e com aparência latina. fracassou. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. meio zonzo. levantando-o do chão. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes. inclusive Jacques.. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. Ouviu ao longe a sirene da polícia.. Inerte. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços. -Quieto. Por um minuto. do cheiro de sangue e morte. separassem-nos. ficou fitando o teto. Oui. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. Por trás de Jacques. Agora sim estava fodido. em vez de proteger-se. E com esse último pensamento. depois. baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. fitando os homens ao seu redor. A coisa é feita na rua e termina na rua. vocês se igualaram a ele. Quem ganhou. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente.Sumam com o corpo. a boca arrebentada num corte fundo. queria olhar no olho de cada um dos caras. deu uma gravata em Jacques. os olhos vítreos. nem a morte. Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. pute também tem família. O outro. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. Estava de fato morto. mas foi por apenas alguns segundos..Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. Ele foi. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. puxou os braços do homem que o prendia por trás. Este teve a cabeça arremessada para trás mas. -Filho da puta. o braço forte do ruivo estrangulou-o. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. Na terceira. Não pôde conter um suspiro de alívio. Deve estar a par da moça que está na UTI. 120 . pensou. covarde! –disse entredentes. Pensava apenas em voltar para casa. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. –completou com raiva contida. alto e ruivo. Livre os tentáculos de aço. Novamente. Um deles. Em seguida. tem família. mas nada de advogados. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. Jacques caiu inerte de cara no chão. não emitiu ação alguma. soltou-se por fim. cara! –xingou-lhe o desconhecido. Tentou levantar-se por duas vezes.

Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria. Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui. vestiu o paletó e o sobretudo. Fim Site da escritora: veroniquegris.com 121 . Passou no Dôme e pegou comida para dois.blogspot. retirou a fita do gravador. E meio. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato.com Contato: vgveronique@hotmail. O passado morreu aqui também. Ajeitou as mangas da camisa.

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