Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

Copyright © by Veronique Gris Todos os direitos reservados e protegidos por lei Nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem a autorização prévia por escrito do autor. Os infratores serão processados na forma da lei.

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G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
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Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

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certa apreensão e nervosismo. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . também. retangulares. Afinal. como o seu próprio chefe. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. pediu-lhe a conta. Não sabia como era o contador. pelo menos. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. uma mulher de cabelos escuros e curtos. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. a moça esperava por alguém. Sentia-se entre aliviada e feliz. que usava um relógio do tamanho de um melão. quando este se aproximou elegante e solícito. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. Certamente. fora contratada de uma agência de modelos. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi. cada uma. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. Debaixo da iluminação indireta. Agora. observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. para fora do tabuleiro. um bolo de um homem que jamais vira na vida. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. três mesas pequenas. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. No canto. Ela aparentava. Não acrescentara. E esse alguém estava atrasado. que era calvo e arrogante. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . na verdade. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). protegida pelo próprio espaço junto à parede. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que. por mais incrível que isso parecesse. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. estrategicamente disposta ao longo do teto. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. com um delicado vaso de flores.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. moreno e elegante. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa. Havia levado um bolo. nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado. por exemplo. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. provavelmente. Assim. numa terceira mesa. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes.

bem vestido. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. A noite estava fria e úmida. assessorar o presidente de uma grande companhia. definhando lentamente ano após ano. salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. mas. mas tinha vontade de rir. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. em seguida e de forma violenta. Se lhe tivesse dito isso. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. no mundo empresarial. Dava um passo em frente ao outro. o homem de gelo. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação. já de pé. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. O que lhe importavam na vida. comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. Sentia-se em apuros. Na verdade. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas. já que. workaholic até o último fio de cabelo. de fato. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido. A bem da verdade. e. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. Morri e estou no céu!.80. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. Nada menos. Ora. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. E. Agressivo nos negócios. bonito. Aceitou tocar na palma daquela mão macia. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. estava bem perto de sê-lo. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. O homem de gelo que jamais sorria. porém. sério e introspectivo como pessoa. de gargalhar. No escritório. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. de dedos longos e tépidos. já que. como secretária particular de Jules Brienne. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. Havia uma equipe de médicos. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. Desde a sua contratação. a dificuldade acentuava-se ainda mais. Amanda encolheu-se dentro do casaco. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. O mais estranho e injusto de tudo era que. talvez não contivesse uma crise de risos. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. Por outro lado. tomando cuidado para não se trair. pouco mais de 1. observou que ele era alto. viu mesmo foi o chão. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe. realmente. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. E de poucas palavras. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio.

disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios. merda. -brincou. começou sentindo a bochechas quentes. estou com a princesa nos braços. olhando para o salto quebrado. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. Normalmente.. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada. -Amanda Rossi.. Nesse ponto. Naquele momento. . somente os craques. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes. Ele é um príncipe dinamarquês. Desistiu de grudar madeira na madeira. fitando o lugar onde o regente havia apontado. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo.. fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. concluiu Amanda. é tão difícil. -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin.. Num instante. Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. o antebraço. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo. que percebeu que estava completamente encantada por ele. sem cola. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Mas o resto do corpo não. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato. teremos que deixar o café e as histórias para outro dia. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu. numa calçada 6 . Ele era a. –disse sorrindo.. O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo.. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola.. pensou debilmente. a vida não é um conto de fadas. um sorriso amistoso e um convite implícito. Talvez tenha sido nesse momento. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta. transmitia calor. bem. enquanto abaixava-se para pegar o salto. E como era uma moça educada. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango.. quer dizer. -Oh.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica. ela sentiu uma quentura forte no rosto. ah. droga.. -A gente pode revezar as narrativas.Infelizmente. pardon.. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar. e eu certamente não sou Cinderela.Desculpa. – riu-se. o sorriso era aberto e franco. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. Jamais dava a cara à tapa. aconchego. diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin. Os olhos azuis brilhavam divertidos. quando seus olhos se encontraram por vários minutos.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível.

Pelo menos. sim. Apertou-se no casaco longo. fios irregulares. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido.Quero dormir com você. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. E ela também olhou. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. ele disse que era advogado. forte. O seu corpo o queria. mais do que fugir. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. quando conhecera um rapaz de vinte anos. ela o desejava. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. Uma tarde de descobertas. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. Não havia pressa. Sua última relação fora há dois anos. Podia desistir e inventar que era casada. queria muito. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. morava em Montmartre e estava sozinho no momento. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. pequeno. se quisesse. que era lésbica. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . 7 . para variar. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. Podia fugir. Uma fantasia antiga. Ela também queria. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. selvagens. dentes perfeitos. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. Caminhavam lado a lado sem se tocarem. sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. o loirinho. Entre um gole e outro de café com uísque. duro. – ronronou com olhos de predador. Ele pedira-lhe o telefone e. Palavras como frio. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. Amanda rabiscou o número de uma creperia. ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura.. À porta. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. de pálpebras relaxadas e insolentes. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. porém conscientes demais um do outro. ombros largos. ou fingia ficar sem jeito. sem uma companhia masculina. Ela não queria voltar. um sorriso frágil. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. mas não sentia frio.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. monsieur. E agora. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances.. No café. Apesar da neve intensa. Ela entrou seguida por ele. Não conseguia. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. Cabelos loiros. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco. Duas horas de sexo e conversa fiada. E era incrível a sincronia da existência. os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. viril. o quanto ele era charmoso e sedutor. O cheiro típico da alvenaria antiga. durante uma visita ao Louvre. ela não sentia frio. estufado contra o jeans. Entretanto.

O pênis não era dela. mas parecia implorar. A cada arremetida. ela conseguiu destrancar a porta.. Esfregou o pau duro. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar. um navio no porto entre suas pernas.. imediatamente. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. Amanda espalmou as mãos contra a porta. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. ela lançava gritinhos.. erguido para trás. na divisão entre as nádegas. Dois anos sem sexo era tempo demais.Tente não me matar. No minuto em que se apossou do bico. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. e eles entraram meio abraçados. não se estatelar no chão. um país secreto desbravado por uma selvagem. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. a língua sugando a sua com desejo. era falta demais. como se tentasse empurrá-la para abri-la. detendo-se pelo caminho.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. 8 . apertou-o entre dois dedos. . Amanda – afirmou. Ela gemeu quando as mãos de Jacques. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. – Abra a porta. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo. quando ele fez um movimento atrás dela . – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda.. ma petit. enfiando sem rodeios. Jacques fechou-os no apartamento. . Principalmente. Mas o homem não lhe dava chance alguma. um animal a ser cavalgado. voltando-se para trás. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes. Na terceira tentativa.. as unhas arranhando-lhe as costas. -Você é gostosa. com urgência. pegando o pau na mão. um par de coxas duras. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina. gostosa demais. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. Tencionava. tomando-o todo possessivamente – e em seguida. não era uma nacionalidade. contra o corpo magro e pequeno dela. Roupas arrancadas. pronto para disparar. que usava o cabelo curto e a nuca exposta. a boca colada a sua.. senão vou gozar aqui mesmo. puxando-o suavemente e o soltando. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. um abdômen malhado com pelinhos aloirados. nesse momento. conectaram-se ao seu sexo. Aproveitando-lhe a fraqueza. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. provocando dor para atrair o prazer. Francês. no centro da pequena sala. A quentura do membro entre suas pernas. Depois ele puxou-a para debaixo de si e. encontrando um atalho aqui e ali.. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu. Desabaram sobre o tapete. Ouviu murmurar algo indefinível. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. descobrindo a renda suave do sutiã. inchado dentro da calça. uma britadeira no asfalto quente. Fêmea precavida que era. guiou-o para dentro dela. meio tropeçando. avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã. Deslizava-o para cima e para baixo.Quero muito de comer. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. – pediu.Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. outrossim.

passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. uma aventura erótica de curta duração. Amanda engoliu em seco. Havia sido estuprada por trás? . tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. de cabelos molhados. Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face. ma petit. agressivo. Tentou escapar. Jacques levantou a cabeça e a encarou. Capítulo II À mesa da cozinha. Por um momento. ardida em brasa. ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. Tarde demais. desgostoso com o tom usado por ela. antes acolhedor e em seguida. era um homem para uma aventura erótica e nada além e. ele fitou-a em dúvida. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato. alçando uma sobrancelha de forma superior.Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele.Nem pense em tornar a fazê-lo. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda.. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. – ameaçou-o.. ela pensava em coisas como “masculinidade”. . E admirando o homem à sua frente. arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. Ela desconfiou das palavras dele. Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo. percebeu que era uma pergunta retórica. . Debaixo das suas pernas. Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca.Sim. – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz. Jacques era instável. sorriu-lhe de forma travessa: . Mal conseguia se mexer. De repente. muita. – murmurou ele. terceiro. gozou abraçando-se a ela com força. Amanda constatou três coisas: primeiro. por certo. . pardon. Num gesto brusco e inesperado. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás.Pardon. . após três ou quatro bombeadas firmes. – É uma garota sensível. esgotamento sexual. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela.Valeu a pena esperar. “beleza” e “fogo”. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada.Muita dor. exigida a cada estocada violenta. entretanto. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. 9 . Talvez tivessem dormido por duas ou três horas. um caleidoscópio de emoções e sensações.Aiii – gritou. porém isso só aumentou a excitação do homem que. à entrada encharcada e ardida. sorriu consigo mesma. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. Amanda sentia-se exausta e descansada. segundo. parecia sossegado e bem disposto. dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente. Amanda balançou a cabeça negando. . – respondeu estreitando olhos. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. enigmaticamente.Tem lubrificante? Da próxima vez.

no segundo andar. era determinada nas reuniões de segunda-feira. Entretanto. Parecia um felino encurralando a presa. caminhava na esteira por trinta minutos. tomava uma ducha quente às 06h30min. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. Quando viajavam a rotina era outra. antes de sair da cozinha. cobriu o espaço entre ambos. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. E era como se lhe dissesse: “O que?.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante.D’accord. vestia a roupa.. Usando o próprio corpo. Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse. Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. uma rotina a ser seguida. .. quando ressoou Killer Queen no celular. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. era tudo o que mais queria na vida? Não. três jornais durante o desjejum. Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos..Está atrasada. mas. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás. Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. Amanda buscou na mente motivos para tal observação. E desligou. monsieur. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. venha agora. porque outro felino esperava por ela. –disse de olho no relógio da cozinha. -Desculpe. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento. lia. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. Quanto à parte pessoal. Na primeira tentativa.. o expediente na empresa começava às 9 h. mas ainda assim. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar. você está regredindo anos-luz. a presa precisava imediatamente fugir.. ou a organização de um jantar beneficente. censurou-se divertida. ao longo da semana. À porta.Bonjour. Ocupavam o escritório. . Annie. a escolha das roupas a serem usadas por ele. claro que não. Amanda Rossi. Ele riu com vontade. sem sexo. Quase gargalhou. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. Ela também queria casar e ter filhos. Mentira. acha que pode comigo?” Mas ela não 10 .foi então que a ficha caiu!. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e. Eram 7 horas. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta. mas à sombra. cabia a Amanda resolver. Quase como um casamento. No entanto. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. não sabia que monsieur já estava me esperando. monsieur Brienne. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas.. e o dela. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. E mais. pelo menos. caminhando devagar. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. levantou-se lentamente e. escolhida por Amanda. Tarefas múltiplas e variadas.. . mademoiselle.

–murmurou. dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se... A selvageria de Jacques excitava-a. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. tenho que trocar de roupa e sair. claro. não estava satisfeita com o seu comportamento. Enquanto ele a penetrava. e a obrigação profissional clamava urgência. Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio. puritanismo démodé. 11 . era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada.Ah. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção. mecanicamente. vinda de Porto Alegre. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: . De fato. até a entrada da mansão. se o seu patrão permitir. – debochou. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. não obteve sucesso. Desde que chegara a Paris. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela. Praticamente jogara-se para cima de Jacques.Não devo me intrometer na sua vida. pragmática e responsável. ladeada por um pequeno bosque. -Preciso trabalhar. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo. podemos jantar logo mais. e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. Soltou-se dele com um gesto brusco. –riu-se de forma afetada. quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento.. divirto-me com os errados. Novamente. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura.. . tinha outras ideias. – Se quiser. Bom. desligou o motor e pegou a pasta. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil. o número correto.. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar.Bien então a gente logo se fala. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe.Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças. Estacionou. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados.Dei-me o seu. Dessa vez. Sentia o corpo quente. Ao descer do automóvel. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: . no entanto. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso. Estranhamente.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. Amanda. Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. – esperou que ela o ditasse. Jacques. alertou-se prontamente. Essa era ela. fui muito difícil mesmo.. Amanda. sim.. num movimento ágil. . queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. – afirmou. No fundo. chèri. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. concordava com Jacques.. . –concluiu. se o objetivo final era apenas: sexo. Cumprimentou o rapaz ruivo. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. -Oh. o membro comprimido projetando-se no tecido. fraco e trêmulo. Voltava agora a ser disciplinada. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. Jacques. Desencana. como quase tudo na França. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

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Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

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lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

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Os homens. Se tiver tempo.. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico. Riu-se dos próprios pensamentos. – completou ela com naturalidade. constantes e variados. As executivas. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros.? Até onde você pode ir com esse atrevimento?. Encontramo-nos no escritório. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como. – afirmou taxativo. que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. diria Robin. No entanto. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. . Sim.. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. . em seguida. ele atravessou o terraço e saiu. censurou-se.Agradeço a atenção. às duas horas. Ele fechou o notebook. Viu a xícara de Jules vazia. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. Fiz reserva no Les Ombres. Santa bobagem!. as socialites queriam-no como presidente de honra. fumante e usava o uniforme da SBO... Menos de dez passos. terno e gravata. criado por um estilista argelino de 20 anos. que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. s'il vous plaît. valerá bem mais que a minha presença. Caso queira trocar-se. compre aspirina. Lembrou-se do que ouvira no Brasil. – disse categórico. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. levarei outra camisa para seu escritório. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda. -Aliás. hoje. Agora. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras.monsieur Jarkko Koskinen. emendou de forma mais suave: ..Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. Um tailleur cinza-chumbo. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. -Aspirina e café resolvem o problema. pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. sobretudo cinza ou preto e.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. vá ter com Annie. -E faça uma tomografia. – mandou sem tirar os olhos do computador. e ele tentava escapar a todo o custo. cachecóis. -Em vez de tomar aspirina. Capítulo III Dorian possuía estatura mediana. saias justas até os joelhos. preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. monsieur almoçará com. mas sendo um homem educado. Agora. mademoiselle. muito magra. Era visível que a indagação o incomodara. calças de 15 .D’accord. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos.

casado com uma estilista de moda. -Calma.. Annie vira o chupão. lateral. sentada em frente à mesa do chefe. os seguranças da mansão de seu chefe. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. que. mesmo anexada à de Jules Brienne. Ou seja.Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos. de cedro. mesmo discreta. Quem mais? Quem mais? Quase gritou.. e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa. Quase gritou. Quando as portas do elevador abriram. . graduado na Sorbonne. O que não era o caso da tez dourada de Amanda. escondia as curvas. possuía banheiro próprio e uma outra entrada. com um longo pescoço e imensos olhos verdes. pó compacto. quero dizer. nada comentaria. tinha 44 anos. vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). estendeu à Amanda a base líquida. com protetor solar. Doce ilusão.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. percebeu o ataque felino àquele que. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. nem sequer uma piadinha). mesmo se não fosse. e. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas.. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. onde se localizava o estacionamento da empresa. como sua assistente pessoal.. A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. 16 . Depois de muito “escavar”. longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada. Bateu com a chave do carro sobre a madeira. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. Num minuto. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que.. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara.. para peles de loiras quase transparentes. daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor. E nem teria visto a personagem alta. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado. Agora. deveria zelar. Dorian. Amanda. com a sorte que tenho seria ele mesmo. céus. devia ter algum problema psicológico. olha bem pra mim. o seu chefe? oh. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e. Ele exigia a perfeição de todos. Ignorou a brincadeira da outra. grande parte delas. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo.Nem me fale!. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . discreto como era. o porteiro de seu prédio (que era meio míope e.... Entretanto. Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. proteger e preservar. se você fosse uma cobra me picava. caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). ela não seria vista entrando. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause. com sua visão periférica. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. sofisticada. por isso aquele olhar estranho.. histérica.

oui! . Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo.Merci. etc..Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. pois precisava buscar novas xícaras no refeitório. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. Ajeitou-se na poltrona. mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. Amanda assentiu e ligou-a. a qualquer momento. com poltronas em vez de cadeiras. A face estava relaxada. seriam chamados ao trabalho duro. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. Primeiro. retraiu-se na expressão de impessoalidade. mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. dirigir um automóvel popular russo. parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. 17 . parecia aliviado com a sua entrada. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. ter nascido no terceiro mundo. Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. ele não gosta de mulher fútil. Ao voltar. Ele. num gesto silencioso porém bastante significativo. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. Os lábios contraídos. Antes de qualquer intervenção na cena. Amanda observou os personagens em questão. . do tamanho de uma ervilha. A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia.Duvido. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. –emendou com um sorriso educado. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. para variar. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules. A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz. não aceitava apenas o polpudo cheque. melhor. no quinto andar. sem desviar. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. concluiu que levara vinte segundos para a operação. sem cronometrar. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève. não. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente.. Deixou-os por um momento. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. No entanto. por outro lado. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante.Seja boazinha com ela. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. Olhou-a de cima a baixo e. E fez: -Bonjour. desviou para a máquina do expresso. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada.. sozinho. de móveis modernos. as cortinas ainda estavam cerradas. –depois brincou: . vir de família simples. ah. ou seja. O chefe. em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. Monsieur Brienne.

. parecia que tinha treze anos de idade. que fará a ponte entre Paris e Helsinque. não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. pelo menos. Sonia e François também poderiam ir. Amanda voltou à sua sala. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. Amanda. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. Aliás. –disse. – completou Amanda que sabia. que. O fato era que ela sorria mais e ele. – encerrando o assunto. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. divertida. um macho alfa. non? – indagou sorrindo.comentou com desdém. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. Amanda. mesmo sem sorrir. – era Geneviève. coitado. Há um rapaz de lá. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e. bebendo o restinho do café. aos pedaços. Vinte anos de diferença entre François e Jules. . Jarkko Koskinen. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. . Amanda não estava gostando do rumo da conversa. ele precisa mesmo é de cafeína. deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: . sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos. . a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. mas alguém tem que dar o primeiro passo. um final de semana na Finlândia. que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. -A Finlândia sempre me interessou. em seguida.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia.No momento. na verdade.Você precisa passar.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências. -É. preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. devido ao café forte e quente. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. provavelmente.Quanto tempo tem esse centro social?. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar. o chefe. dois ou três meses. Parece que a mãe dele apanhava do marido. e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. e ainda por cima era filho único. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . agora. era-lhe o padrasto. mãe de Jules. Jules sorriu polidamente. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada. -E depois dos 17. amiga de Vivien Brienne. apresentava visível prazer em sua companhia. Ele é homem. Dorian. Quando voltou. 18 . Geneviève. mas a passeio. esquiei até quase acabar com meus joelhos. Além do mais. A mocinha quase bateu palmas. e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. Podemos combinar e irmos juntos. pode ser. uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente. entregou a outra à Geneviève. seria bom relaxarmos um pouco. por sua vez. -E a aspirina. algumas coisas sobre Jules Brienne. completamente órfão. precisa de uma fêmea. A bem da verdade.

tenso. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. em seguida fora mal-educado 19 . havia ultrapassado a fronteira. Num minuto. controlada. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. Ops!. “cadê a aspirina”?. . Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. – disse com estudada calma. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. Amanda provocava-o deliberadamente. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. Amanda lia tudo isso.Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação. . admirou a própria derrocada. Por um segundo ou dois. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. pragmático e tinha quase quarenta. – afirmou Geneviève com a voz sumida. Geneviève agitou-se. desconfiado. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. – rebateu com calma.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. e não um menino birrento. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. . O corpo não mexeu um músculo. o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. monsieur Brienne. Dorian não compreendeu a ordem. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. Além disso. non? – insistiu. que o faça por si mesmo. cruzou e descruzou a pernas. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas. culto. . era uma mulher de princípios. Ele era um executivo. Espero a sua visita no nosso centro social. Do outro lado da mesa. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. em sua direção. empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. Por quê?. preparado para ordenar. ora! De repente. Jules. mademoiselle Cuvier. um misto de exasperação. como se falasse com uma criança teimosa. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. compre as aspirinas agora. Era experiente. Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele. -Cinco anos com dores de cabeça. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo. havia neles. -Jules.Mademoiselle Rossi. numa expressão de menosprezo. é perigoso. sem cúmplices. Entretanto. foi um prazer.Há cinco anos ouço a mesma bobagem. e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. também. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e.

a Torre Eiffel. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. Dito isso.. eu posso ajudá-lo com prazer.. disse: . -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. garganta seca. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 . Um buraco. Não era uma mulher covarde. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. mademoiselle Rossi. e tampouco uma Joana D’Arc. Le Mur Vegetal . retirava o paletó. apenas isso. Hã? Por fim. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um.por. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas. mas isso é um ferimento causado por. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos. Às vezes. o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para.. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé. a cara amarrada de sempre. Assim. Ao seu lado. estendia para a assistente que o guardava no armário. Amanda pensou. por favor! -Fui ferida gravemente. Epa!. Amanda não resistiu. suspirando exasperada. -Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. – mentiu fingindo-se ofendida. Fogo na nuca. a vizinhança. –afirmou com um leve tom de desprezo.concebido por Patrick Blanc. ácido no estômago.Oui. Defendia a si mesma e os seus valores. Ora. monsieur Brienne. sem que ELE pedisse desculpas.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. perdido. depois. os lábios constritos. Hematoma sexual? -Pardon. -Pedido aceito..Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata. Como ele podia saber?. pelo menos? .. quase jogar a mulher para fora de seu escritório.. tem um cabide no armário para guardá-lo. monsieur. Outro atrativo localizava-se abaixo dele. monsieur. olhando para os lados. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas.

Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. –concordou Jules. Agora. um francês e um finlandês. No fundo da sua memória. tinha algo a ver com mercado. poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. monsieur Brienne. O cabelo era loiro. devo ir. Mas não naquele início de tarde.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. Não se preocupe com as reservas no hotel. cor de trigo. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café. a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. –agradeceu incluindo um sorriso. Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. indagou: . porém. mademoiselle Rossi. haveria brechas disponíveis para novos eventos. –Agora. . volta comigo para Helsinque. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho.Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que. ele tomou mais um gole de vinho. comunicativo e inteligente. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. poderia ter vinte e poucos. Mesas pequenas e quadradas. vamos! . Anos atrás. só mudava o país. eu mesmo as farei. o Jamie Oliver. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. Era um homem simpático. mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. bem ou mal. vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. começara uma empresa de criação e venda de software. bolsa de valores e impostos. monsieur Koskinen. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis. entretanto. mal ouvia a conversa dos dois.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. -D’accord. Jules assentiu levemente com a cabeça. Mas tudo estará pronto para quando chegar. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: . perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. -Merci. apesar de ser magro. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . oui? 21 . No momento. Vestia-se com discrição. nada mais que um terno cinza quase azul. sendo escandinavo. a burocracia era a mesma. voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. Fica um tempo conosco. na sexta-feira. Por fim. Comia como um viking. acaba influenciando o sueco e o russo. – voltando-se para Jarkko. estavam uma brasileira. Numa mesa próxima à parede envidraçada.Italiano. –em seguida. conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã. longe de tumultos (como dizia Jules). como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. Faltavam os sapatos. Pela manhã. Típica conversa de negócios. Jules observou os comentários de Amanda.

Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite. sossegada. do jeito que escolhera todos os outros. Dependia. sedutor e com um sorriso espetacular. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. disse: . Diante do espelho. preparar algo leve e rápido. Amanda havia esquecido aquela beleza toda. de lã.Liguei para você. Tentou sorrir e até se encantar. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. a alma. ma petit brésilienne! –brincou. já estivesse fechada. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele. 22 . Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto.Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. O problema era que ela queria o sapato CERTO. Seu corpo ainda o desejava. Cansava-se só de pensar nessa maratona. uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. Na verdade. Estava exausta e já passava das seis. uma bolsa de couro. o sotaque ligeiramente arrastado. -Hummm. obviamente. Despediu-se dos homens. arrumar-se e dirigir até o Marais.). Achei que havia acontecido algo. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. meias e gravatas preferidas do chefe. pequena. já que não retornou minha ligação. cadeiras e garçons. desviando das mesas. os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. -Salut. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. e um par de brincos de pérola. saindo do quarto. aos pulinhos e trombadas. com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. o timbre rouco da voz. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. sugou e soltou o ar seguidas vezes.. pegou a bolsa e saiu do restaurante. No entanto. não mais. E mesmo ele sendo lindo. na outra perna. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. refletiu Amanda ajeitando a calcinha. pois sempre acertara a preferência do patrão. ela pararia de andar sobre andaimes. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel. Teria tempo para tomar um banho. assim. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. Às nove horas seria o jantar com os Roche. pois o tecido delicado também estava por demais gasto. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados. retirou o robe. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. em seguida. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60.. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. Comprou o sapato. O proprietário sofria de transtorno bipolar. teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. Tentou mesmo. puxou a meia-calça rapidamente para cima. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. É. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. de seu humor.

o filho da puta. serviam para uma noite.. Onde você estava. – enfatizou... – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . Para companheiros de vida. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. na pior das hipóteses.O que foi. a ferir sentimentos e autoestimas.. do carro do chefe. profissional. . isso. irônico. à noite. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos. Desviou o rosto dos seus lábios. impondo força o suficiente para afastá-lo. vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã. . Empurrou-o mais uma vez. no máximo. Você precisa sair. Rochelle era o meu amor.. -NÓS temos um compromisso. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres. Ah. mordendo-lhe de forma sensual. Jacques. ou.. moço. . Ele não ligava a mínima para Rochelle. jamais fora comentado na empresa por ninguém. Mas a empresa era dele. Enquanto ela pensava no celular perdido. você é descartável. o chefinho controlador. Me diga. tenho um compromisso. a gente se conhece há três dias. quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. perto das quatro. não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme.Por favor. entendi. no quinto andar. de fato. no elevador. E era óbvio que não estava. Anotação mental: comprar imediatamente um celular. Amanda conhecia o tipo. bébé? –sorriu. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non. jamais. Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo. Provavelmente. como se não estivesse acostumado a ser despachado. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. pois trafegava em alta velocidade. duas. no corredor da empresa. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. -E eu já sei muito sobre você. o que dizer.Ei. . jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. controlada. a minha vida – riu-se. Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista. a abandoná-las. Tantos lugares. porém manteve-se de pé. a mínima! Obcecado pelo trabalho. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. A qualquer momento teria de sair. saia da minha casa. – balbuciou. – Escute. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força.. Amanda. perdera-o na rua. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques. as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada.Já lhe disse. como se dez. deixe-me ver. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida. deixara-o sobre a mesa do Les Ombres. -Tenho um compromisso. -Acho que perdi meu celular. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão.. o que sentir. na lavanderia. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 . literalmente. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. – pediu em voz baixa. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. Não sabia como reagir. debaixo do banco do seu carro. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. batendo no sofá chamando-a para perto de si.Ah.

-Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. deliciosa.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto. inerte. Ele só não foi preso. Teria de esperar alguns segundos. um trabalho de networking.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne. afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. Sabe sua amiga Dorian? Pois é. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. com certeza. –murmurou junto à sua orelha: ..estava me esperando.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo.. fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. desprotegida. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. um pouco histérica. Mas você me surpreendeu. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada. Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente. – disse num fiapo de voz. esperei o momento certo para me aproximar. sou preguiçoso. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido. de olhos fechados. -Oui. como lhe avisei antes.. Sentia a face ferver de dor. Pressentiu que ele se erguia.. 24 . Empurrando-a contra a parede. enquanto o cérebro girava à procura do entendimento. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse. para levantar informação e material contra Jules. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si.. seu psicopata? Com a mão livre.. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. sábado. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. morro de inveja de um assassino. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne. A recepcionista da SBO? Hummm. Amanda Rossi. ma chérie. Mas eu ainda o porei entre as grades. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação. Nada de precipitação. entende. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. Foi então que tudo mudou. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos. pensei que fosse me ajudar. Afastou-lhe as mãos do corpo.Além do mais. non? Só não traço as mulheres da diretoria. somos amantes.. porém surpreendeu-se com a força do golpe. Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo. ajoelhando-se ao seu lado. ouviu seus passos distanciando-se.. A dor havia desaparecido. porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e. Deixou-se ficar. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. porque é rico. – gargalhou e emendou: . Inutilmente. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você. ao longo desses cinco anos. Amanda gritou.

tirou-lhe a faca da mão para. no pescoço. Barulhos típicos do cotidiano. Possuía um instinto persistente. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. mas ele foi mais rápido. E a heroína. reclamando. logo após o coma de madame Brienne.Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. sua amante. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. Não adiantava mais lutar. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. desferiu um soco acertando-lhe o queixo. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. A qualquer momento. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. fosse como fosse. sacudir-lhe os ombros. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. Correu para a cozinha. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. 25 . por sua vez. com a fúria de uma mulher machucada. de obsessão em metástase.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. Deitou a cabeça em seu ombro. para querer e perder. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. porque Jacques. Mas o mocinho não batia em mulheres . Desceu os degraus sem acender a luz. uma obstinação que a compelia a desejar viver. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. Seduzira as funcionárias da empresa e. na nuca. Jacques de fato atingiria Jules. ruídos de talheres e cachorros latindo. roucos. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia. para admirar e não ter. não precisaria usar os punhos. para se defender e defender o mocinho caçava. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. num gesto rápido e preciso. atirou-se contra ele e. e encontraria Jacques. Não se entregaria tão fácil. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. no casaco úmido e gelado. abriu a primeira gaveta do balcão. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. Medo que voltasse a sua casa. Era um odor de doença. pelo visto. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte. Sentia os cílios pesados de água. intermitentes. No entanto. e esvaziou o peito da dor. segurando-se no corrimão. em seguida. O cerco começara havia cinco anos. engoliu a vontade de chorar e o medo.. gritando como nunca havia gritado na vida. agora.. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. A batalha não estava perdida. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. o príncipe que se transformara em sapo. Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço. Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. criança chorando. o vilão. televisão. Apenas dois andares. no ar. Tudo abafado pelas paredes. Medo que a loucura o tornasse um homicida. enfiou a faca. Acertara o desgraçado. cerca de vinte degraus. Apertou o cabo da faca. agora.

alguns centímetros. mas a obsessão não é por mim. tenha sido roubado.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou. -Monsieur não deveria estar aqui. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. pouco. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. Ele estava tenso. Encontrava-se numa situação de desvantagem. -Mademoiselle Rossi. mordia-o. Analisava-lhe o rosto.Você me dirá de quem é esse número. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. Por um momento. lembrou-se do jantar com os François. o terno azul-marinho impecável. ex-diretora de uma escola infantil. Sentia-se horrorosa e dolorida. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção. pelo visto. afastaram-se. quase que didaticamente. me desculpe. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. porém. o que lhe salvara de uma surra maior. machucada. e depositoua sobre Amanda. Entretanto. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. é capaz de muito mais. Num reflexo automático. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. -Oui. Estudava-lhe o estado emocional. De repente. lutava até ser arremessado contra a parede. Ela tentou sorrir. Amanda. ferida e com uma faca na mão. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. jogava-se contra as pernas do padrasto. -E o que ela descobriu? . pensou. – disse com calma. – constatou. sem nenhuma emoção na voz. ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. Invadi sua privacidade. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. 26 . grossa. homens como eu. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. aposentada. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. –enfatizou. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. -Sim. mesmo pequeno. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. hoje? –insistiu. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. obtém informações em questão de minutos. – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. -O que aconteceu aqui. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. ainda fungando. Deitou-a no sofá. o rosto escanhoado. num período de duas horas. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que. do mesmo número. chefe. provavelmente. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva. mas também não precisava me dar um soco. magro e com apenas sete anos de idade. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. Quase acertou no alvo. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. monsieur Brienne.

digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. ficaria bisbilhotando até ela voltar. Calçou um All Star. com certeza.Olha. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café. agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa. é provável que sim. olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz. deu-lhe as costas e voltou à sala. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta. E perdendo sua confiança. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia.Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado.. Depois. ele. precisa de uma tomografia. Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala.. preto e branco. as coisas ficaram ainda piores. –completou com ar sério. mesmo tendo sido comprado de um balaio. -Dois minutos. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado. Seria muito difícil manter segredo. Pensava que se revelasse a verdade. e sim fazer uma tomografia computadorizada. Jules levantou-se. Não iria mais a um jantar. -Imagino que sim. monsieur Brienne. Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa. -Estava fora de si. não admitindo refutação. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher. um corpo pulverizado.. . ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. Todavia. Eram quase nove horas da noite. Custara-lhe uma pequena fortuna. Pegou-a pelo antebraço e. E Jacques era doido de pedra. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . de óculos. era mesclada de cinza. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. –quase gaguejou. Sim. com passadas largas. gordinho.Assustá-lo apenas.. Sion. –avisou-a. Ela não pôde deixar de rir. Au revoir. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá. No entanto. quase impessoal:. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. sempre baixa e controlada. quero dizer. um homem baixo. Era um homem desconfiado... alta. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. –murmurou. Ignorando-a. iria atrás tirar satisfações. poderia até mesmo matá-lo. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. – interrompeu-se. porém riu sozinha. e olhou-se no espelho. Sentou-se. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda. Não queria que Jules soubesse de Jacques. determinado como era. perderia o emprego. a duras penas conquistada. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. Durante a realização dos exames. conduziu-a até o quarto. A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. Possivelmente. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). corria o risco de perder a sua confiança.Troque de roupa.

Talvez fosse alguma coisa na postura dele. hein? Ouviu um resmungo. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. O que foi feito. . ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. e ele logo surgiu na sala.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. Abriu-a e. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento. –declarou sem rodeios ou justificativas. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. como um agradecimento e um boa-noite. por exemplo. constatando as irregularidades em seu departamento. -Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha. o paletó. – falava como um agente do FBI. está novinho em folha. viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra. mademoiselle Rossi. esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. Era homem demais para pouco móvel. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo. Impossível. Por isso como melecas congeladas.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . os travesseiros e o edredom. – Vou pôr essas imundícies no lixo. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop. – Isso aqui. autoridade ou determinação. inclua as suas. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. – debochou. o doutor Sung ouviria de fato a verdade. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. plantada as três da madrugada de domingo. num apartamento microscópico. dando as costas e voltando à cozinha. definitivamente. semana passada comprei outro edredom. . – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . sem contrariá-lo. segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas. então. -Deveria organizar-se melhor então. . consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa. – concluiu. para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível. Suspirou resignada.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. não é comida para humanos. mesmo demorando a entender o que acontecia. -Tem razão. tirou o sobretudo. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non.O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa. antes que pudesse emitir qualquer palavra. que seja. que a fez aceitar.Monsieur tem sorte. Espero que simpatize com o Patolino. . Se dependesse do outro. -Buscarei.Obsessão em Paris Veronique Gris queda. o que lhe foi comunicado com naturalidade. quando fizer as compras de Annie.

você não sabe viver direito. – disse com raiva. somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. parecia que fazia medidas e considerações mentais. estava exausta. sem açúcar. Claro que ele não a desejava como esposa. Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. Só havia uma saída. – franziu o cenho. e sim minha esposa. -O quê? O quê? – quase gritou. Portanto. maior. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. levou a mão à testa. – respondeu sem dar muita importância. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. extraforte. cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha. Na sala. de dedos longos e unhas curtíssimas.É para aliviar a dor. –replicou com impaciência. Além disso. para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha.. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. – Quem deixa o seu café quente. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. minha cara. Esperou em vão. imediatamente. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Num gesto maquinal. de pé. monsieur’’. Antes que ele se voltasse. -Dor? -Um pouco. não seria minha assistente. – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. . 29 . e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. emendou com mais calma: . os olhos sérios enfiados nos dela. monsieur Brienne. –avisou-a. abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol. mademoiselle. sou uma executiva graduada em. Depois.. -Cartas na manga. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga. -Oh. – declarou impassível. -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha. Vou tomar um analgésico. seu pulso foi fechado por outra mão. e não para se dopar. mas não diante de um móvel.Com todo o respeito.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg. Sentiu uma pontada na cabeça. Entrou. – murmurou emburrada. ingeriu mais dois comprimidos. qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde. assentir e obedecer-lhe. Conhecia o seu organismo. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. . é normal que a sua vida fique em segundo plano. Parado diante do móvel. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. -Se não fosse assim.

A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá. com ar preocupado e distante..Preciso tomar cuidado. Num dado instante. Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse.Se está errado. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto. . . copos e talheres eram lavados por alguém. está começando a ler minha mente. -Claro. Acho que essa viagem será divertida. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre. tire os sapatos e as meias. madame. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” . – sugeriu. ajude-me com os relatórios. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos. Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal. – explicou-lhe: Assim como estava.. resoluto. Com certeza. Abriu a pasta e retirou o notebook.Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. se ficarei dormindo feito um inútil. –murmurou. mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado. Amanda sorriu. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe. interessado. Eu durmo no sofá tranquilamente. comentou num tom casual: .. já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos.. por favor.E o que acha? – voltou-se para ela. fique com minha cama. -E por que não tem? 30 . relaxe diante de uma planilha do Excel. . Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada. comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça. – disse-lhe em tom de provocação. . Além do mais. Preciso de você inteira. claro.. . – completou quase que para si mesmo. Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. -É. .por que não fica mais à vontade. –declarou em tom irônico. . Quero preparar algumas coisas para Helsinque.Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo. -Oui. concentrado no computador. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas.Na verdade. . Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa. . como se fosse possível. -Não pode passar a noite trabalhando. Lavou a louça sozinha.Durmo sempre quatro horas por dia. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. pelo menos. Esse era o estranho senso de humor do chefe. não eram os patinhos de cerâmica.Que já sabe a resposta para essa pergunta.Já que passará a noite aqui. – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. parecia cansado também.É melhor então que não ponha seus pés na água. Tenho certeza de que será como nos outros lugares.Isso não está certo.. – disse. .Tubarão em meio aos tubarões. apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho.

tal possibilidade. Agachou-se ao seu lado e. tocando-lhe o rosto com delicadeza. Mexeu-se debaixo do edredom. Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico. Assim que deitou a cabeça no travesseiro. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. Possivelmente. E encerrou a conversa.Desde que trabalho para o senhor. – disse. . O medo singrava-lhe nas veias. -Provavelmente. já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. 31 Quando . – disse com naturalidade. mademoiselle Rossi. uma de suas antecessoras. acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. Friccionou os braços com as mãos. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. a mais chata e fofoqueira do prédio. secamente. verificou-lhe a pulsação. madame Brienne. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada. adormeceu. Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. -Non. Por um momento. Não vestiu um robe. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: . Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. sem barulho. pastas abertas. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir. fora até o seu carro buscar algo. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado.Annie tem uma máquina dessas? . manteve os olhos abertos. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. ela evitava ficar muito tempo em casa. que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. .Monsieur Brienne! – chamou-o.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. -É. passou a mão pelos cabelos. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. pois usava uma camisola de algodão. –comentou com casualidade.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. por impulso. – acrescentou a título de informação. talvez. À mesa. Era mais como a sensação de uma presença e. Respirou fundo e ordenou-se a agir. as lâmpadas oscilavam pálidas. desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede. Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. -Certo. Sentou-se. que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse. Havia alguém na cozinha. viu-o caído no corredor.

A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre. No minuto seguinte. os lábios sem cor.. Mas ela queria brincar com fogo. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido. -Mon. um inseto inofensivo. Despencava de um abismo direto para dentro d’água. Sorria e balançava o celular de Jules na mão. . vivo. Afastou-se e o fitou. Abriu-lhe a camisa num safanão. Jules estava pálido. sem argumentos. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. Ela era uma formiguinha.Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe.Você o entregou de bandeja para mim. E. para dentro. . Precisava de ar.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama. Era bom morrer. sempre disciplinados. sangrando. O tecido da camisa. Era até bom. pensou. Também era bom. caía devagar.comentou debilmente.. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso.. E era tão bom!. tencionava viajar para outro lugar. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar. – riu com vontade. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. –constatou impaciente. Sucumbia no melhor estilo. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. deixando-se levar como pluma ao vento. Mas antes de ir. . uma nódoa disforme e vermelha. sério.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue. Estranhamente. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada. Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. Como? – Como? Como se regenerou. Tinha de salvá-lo.Já estaria morta. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. empurrava-o e o chutava. arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu. -Quantos comprimidos. Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo.sieur está bem. sentado à beira de sua cama. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo. Nenhum efeito. bloqueando-lhe a passagem.. Investiu novo beijo.Vinte e dois. a cabeça girava ou o quarto girava. No entanto.. Jacques surgia à porta. agora. forçando-o abrir os 32 . Por que Jules não relaxava um pouco. para a escuridão. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo.? Somente vampiros conseguem se regenerar. caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás.. . estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria. Era bom sucumbir.. Alguém o ferira.. na linha do abdômen. estava manchado de sangue. Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem. A vida era curta demais para tanta seriedade. não havia dor e perda. -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. agora. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão. perder uma briga. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. . – declarou-lhe. Jules estava bem. Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. no chão. sujeitar-se. Amanda jogou-se contra ele com raiva.

Mordeu-lhe o inferior. Depois. Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. Em seguida. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida. antes. por cima da calça social. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio.Espere. Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: . que foi mordiscado e chupado languidamente. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. desde a primeira entrevista de seleção. parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. Definitivamente. voltando para o lóbulo da orelha. habilmente. Os braços rodearam-lhe o corpo. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. .Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua. no início da semana. Abriu a janela. na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. Ansiava como uma canibal. excitada. temia que isso novamente acontecesse. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente. Ela gemia baixinho. de Calogero. Após ter chegado atrasada ao trabalho. 33 . Bonne nuit. . que ficava do lado de fora da janela da cozinha. imponente e tépida. porém.Não faça isso. Por isso. os seios esmagados no tórax largo e firme. – ela fez um sinal com a mão. – disse calmamente e. 7h 15 min. Batman. – disse-lhe ao ouvido. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. aprisionando lábios em lábios.. apesar do bom senso das palavras. encaminhouse até o varal. precisava vencer a onda. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e. como não encontrou nenhuma calcinha. a exploração passou para o queixo e pescoço. finos e persistentes. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda. Abriu a gaveta da cômoda e. Ainda teve tempo de dizer a Jules. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. Mas algo o fez mudar de ideia. agora. constatou-lhe a plena ereção.. eu já volto. transparente. A respiração de Jules estava rouca. desvencilhou-se. Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. Tinha de detê-lo. Mas ela o queria. e sim trazê-la para si. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar. Manteve os vidros bem fechados. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido. queria sentir-lhe o gosto. sempre o desejara. Após os primeiros acordes do violão. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. pesada e acelerada. . desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”. mas nem se mexeu do lugar. procurando não decepcionar o cantor. Apertou-se contra ele. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. o locutor informou o horário. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado.Sempre quis dormir com um macho alfa.

Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas. entrara em seu quarto e eles se beijaram. 34 . raríssima. Talvez até tivesse uma amante eventual. Impossível. “Estou no escritório. -É assim no Brasil? -O que. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Amanda pensava. Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. Conhecia a caligrafia. não tem o direito de me deixar constrangida.Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa. a outra apenas encarou-a sem expressão.” Sim. Paradoxo difícil de entender. muito mais em relação a Jules Brienne. Quando a ‘ficha caiu’. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo.B. O beijo fora um sonho. Amanda apertou-se no casaco. no terraço da cobertura. íntima. Dorian? – perguntou impaciente. seria demitida como a assistente anterior. fêmea. digeria a pergunta. mas também pela oportunidade. como lhe dizia a irmã. que tivera na França. . pegou a pasta executiva. ou seja. -Essa falta de educação. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). com uma pontada na barriga. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. Amanda levou dois dedos aos lábios. por causa do trabalho. Sorte de veterana. No entanto. a esposa mantida viva através de aparelhos. que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne.. o vento era forte e cortante. Em princípio. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. Amanda. palavras dele: “devidamente demitidas”. era mantida a distância. Ao voltar-se. Se tinha um caso. Jules passara a noite em seu apartamento. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. Jules era fiel à esposa. J.Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha. a qualquer chefe e. – falou ofendida. Isso é uma questão pessoal. era por demais discreto. Eles se beijaram? Automaticamente. debaixo do próprio teto. Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. Além do mais. nos cinco anos que trabalhara para ele. Como havia esquecido? E. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. mas. Refletia sobre isso quase todos os dias. Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. justamente porque ele não a via como mulher. Maquiou-se suavemente. pensou com maldade. tendo. tentava controlar a irritação. Sorte de principiante. em algum momento da noite. -Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. Dorian respirou fundo. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada. a duas quadras do mesmo. Levava seu emprego a sério. nunca o vira com alguém.Está namorando? – insistiu. Tinha plena consciência de que. as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio.. encontrou um bilhete sobre a mesa. Jules Brienne jamais a tocaria. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. . apesar de sua competência e os cursos que fizera. a sua faz-tudo particular. depois que a esposa morresse. que. não somente porque era seu ganha-pão. A neve estava mais branda. Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família.

olhos azuis.Oui. ou seja. meio assustada e um tanto constrangida. emendando um sorriso nervoso ao gesto. é verdade. por quê? – Dorian indagou. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia. Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. Amanda deu um passo à frente. Aliás. Mas não se chama Jacques. quando lhe fora apresentado por François Roche. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. Encontrou monsieur Armand Ribery. – riu-se. -Ele mesmo. as poderosas do 11°andar. .. Beirava os sessenta anos. e tampouco Rodin. ele é gay. só pode jogar no outro time. culto e bastante influente politicamente. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: . como eram conhecidas. Encaminhava-se em direção à máquina do café.Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial. Ainda mais quando dois olhos escuros. com você e a recepcionista. Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu. quando Jules a interpelou: . Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. Voltava de um terraço gelado.Jacques Rodin? – esganiçou a voz.Ele disse que estava tendo um caso com você. –procurou descrevê-lo. Falava num tom baixo e regular. Ela não mentia. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. Amanda avaliou as palavras da amiga. Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito.. era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos. Tem um sotaque bonitinho.bem. Amigo de Jules desde o início da SBO. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. – confirmou secamente. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules. advogado da empresa. meu namorado é cantor e suíço. . . tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 . intrigada. Cumprimentou os dois homens. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal. desconfiada. para que possamos abrir processo contra ele. . sentado em frente à mesa de Jules. – Nem precisa dizer. divertida.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia. procurou controlar-se. loiro. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina.Deveria? –alçou a sobrancelha. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. non? Perfeito assim.Acho que sim. Um advogado das antigas. olhos azuis e ar plácido. experiente.Nossa! Onde ele está? – em seguida. após uma conversa tensa. Por outro lado. ele é alto. tinha cabelos grisalhos. Se quer mesmo saber.Que linguarudo.Você tem alguém? . ela fez um gesto com a mão. – fingiu uma careta de desolação. não faria escândalos por nada. – afirmou com naturalidade. . e a primeira delas referia-se ao café do chefe. Ele era um homem bastante discreto. um tanto a contragosto. Nunca vi esse Jacques aí. se veste bem e faz o tipo sedutor. .Conhece Jacques Rodin? . Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. era uma mulher equilibrada.

e era como um puma preparando-se para o ataque. Acatou os argumentos de Armand. mademoiselle Rossi. e creio que não se repetirá. – começou. nervosamente. Amanda sentia-se acuada.tentou responder.Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e.Não é isso.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. monsieur Brienne. . apenas Jules queria levar adiante o tal processo. fitando as pontas dos sapatos. Mais tarde nos falamos. monsieur. Não seja inocente.. também.Precisa preservar a sua imagem. deve terminar. que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda. o rosto febril.Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. Precisamos. chamará a atenção dos tablóides. de certa forma. E não podia. Ela é a sua assistente e. ele fará novas vítimas. – murmurou. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário. Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne....Não somos namorados. – declarou o advogado apelando para o bom senso. Por fim. -Agradeço a atenção dos senhores. No entanto e. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. um líder a sua equipe. Apertaram-se as mãos. registrando queixa na polícia. -Talvez pelo mesmo motivo que o seu. Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário. O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo.. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: . jamais mudará. ele a machucou uma vez e o fará sempre. No fundo.. agressão. . visivelmente contrariado. Jules? – ponderou e em seguida completou: . . . -De certa forma. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo. assustá-lo. – Eu mal o conheço. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. Havia a intromissão direta e. se não processarmos esse rapaz. E sabe por quê? – fitou-a intensamente. justamente por isso. Jules levantou-se lentamente de sua cadeira. mademoiselle Rossi tem razão. . também. Jules respirou fundo. pois. a proteção irrestrita.Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si.A bem da verdade. é melhor ainda para você e para a corporação. . ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. ainda mais agora em processo de expansão. – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão..Mademoiselle Rossi. 36 . mas foi novamente interrompida. pelo menos. se a envolvida no caso não quer. Evitava o olhar severo do chefe. . . Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. Nenhuma delas com segundas intenções. irônico. ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa. pelo visto. e você sabe o quanto ele é sensível. Armand.Merci. Qualquer escândalo interfere no mercado. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. – acentuou Amanda.. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. mas não pretendo registrar a. – interrompeu-a.

O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher. Se quisesse e. numa expressão de desgosto. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe. Se mergulhasse ainda mais nas recordações. – disse-lhe o mais profissional possível. Se fora um sonho. nos fragmentos confusos espalhados pela mente. – retrucou com altivez. Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: .. dado às circunstâncias violentas a que se expôs. sem dúvida. completou: . teria de assumi-lo. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: . a camisa por uma azul-clara e a gravata. -Sim. que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing.. acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino.. Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom. Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo. pelo menos quando quero alguém vou até o fim. mas caso o beijo fora real. . apesar do tom azulado do queixo e maxilares. poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! .. . vendo que ela não reagia. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -.Não conheço nenhum Jacques. Um desejo profundo e intenso. e o cabelo ainda estava úmido do banho. caso o meu amante o merecesse.O seu protegido. . dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. Vestia outra roupa. até mesmo perder o emprego.Imagino que para proteger o amante. –ordenou com frieza. assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”.Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina. – afirmou sem pestanejar.Com licença. observava o chefe de esguelha. O terno fora trocado por outro mais escuro. já havia enfrentado outros piores.? . Sustentou-lhe o olhar. Jogou verde para colher maduro.Obsessão em Paris Veronique Gris .Como.Agora pode preparar o café. – provocou.Ontem gritou um nome e. como uma saudade antiga. trazendo-a para si. Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica. Voltou a fitar-lhe nos olhos. faria qualquer coisa. Jules não entenderia a observação. Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte. o espancador. talvez fosse perigoso querer. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele. 37 . Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente..Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você. Jacques de quê? – indagou com desprezo e. bordô. Havia feito a barba. sentiria as mãos ao redor de suas costas. Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas.. Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo. -Você deve ter problemas com sua autoestima. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa.

Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. . Jules deixou-se abraçar. depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules. acabavam de explodir duas granadas.. -Seria tão fácil. Ela deslizou as mãos pelas costas dele. apenas ensaios. . Afastou-se um pouco e o encarou: 38 . foi só uma manifestação doentia do meu desejo. entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade. Estava difícil respirar. Ele assentiu levemente. monsieur. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos.E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo.Obsessão em Paris Veronique Gris . Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não.É complicado. Se antes o provoquei foi só uma crise de ego. não de vergonha e sim de desejo. Gemeu baixinho quando ele se afastou. desafiando-o. Todos os homens que conhecera. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha.Ah. sério. voltou a encará-la. Baixou a cabeça e percebeu que tremia. – confidenciou sem jeito. Cinco anos. Capítulo VII . – sorriu. Colaram-se os corpos. Dentro de si. ainda tocando-lhe a face. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. traçando uma longa ruga no meio da testa. – comentou com bom humor. as veias nas têmporas latejando. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . então realmente houve um primeiro.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. os maxilares tesos. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só. Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si..É mesmo. . foi a continuação do primeiro. . Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. -Sempre o admirei por sua integridade e caráter.E se antes eu a provoquei. – disse tentando sorrir. Baixou a cabeça. . -Quer que eu vá até o fim. não é? – murmurou. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. sentindo o rosto corar.Non. quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar. Amanda.Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante. todos. Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos.

.O que é. contrariando seus sentimentos. – declarou impassível. independente da situação de saúde da minha mulher.Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia.Não é só isso.Non. a voz firme. digamos.Mademoiselle Cuvier. Merci. s'il vous plaît. grave.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha.Merci. –ponderou fitando-a gravemente. . então? .Não tenho “casos”. eu sou casado. . esse homem que me agrediu. o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem. – disse baixinho. . .Amanda. Apenas quero que compreenda a minha. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre.murmurou. – disse num tom de reprovação.Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei.E não é? Jules suspirou contrariado. . monsieur? . – enfatizou. . não me expondo em público com outra mulher. . ignorando-a deliberadamente. Cruzou os braços em frente ao peito... – tentou explicar-se. . – afirmou irritada. profundo. mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo. é óbvio que não pedirei o divórcio. evitei qualquer relacionamento mais.Sinceramente. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou.. sendo assim. os olhos cravados nos dela. . .. quebrar algo na cabeça dele! 39 . -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha.Obsessão em Paris Veronique Gris . Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária. Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse. o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma. . Rochelle ainda teria uma vida normal. confuso.. Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade. tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha.. apertou o interfone para falar com a secretária: . – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez.Mais alguma coisa.De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras. se possível.Esse cara. Sentou-se e. Agora. . avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing. . ele não significada nada para mim. Tinha vontade de quebrar algo. E isso inclui respeitá-la.E. justamente por que sou casado. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. .A gente não precisa fazer nada. intermitente. monsieur. – disse tentando controlar a incipiente irritação.Tudo. Nesse tempo em que Rochelle está em coma. sem pressa. posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente. um pé batia no carpete. para hoje. Se eu tivesse feito isso há cinco anos.

já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. Mas até mesmo executar tais tarefas. Por um momento. 40 .. –reclamou. mas. ganhavam um aspecto de sutil intimidade.. pondere a respeito. . quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque. . Ao chegar. -Como? -O que acabou de ouvir. -Entendi. A feição dele suavizou-se por um momento.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã.Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça. Ele a trará para a reunião com os finlandeses. Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. -Deseja mais alguma coisa.Bonjour.Bom. Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava. agora.. Nem pense em se atrasar. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular. houve uma pequena mudança nos planos.. Assíria. A ligação está péssima.Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho. Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho. pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste. o coração aos pulos. – afirmou. abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente. . obedeceu à rotina de sempre. Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos. conversando atrás do balcão. depois completou com uma sutil arrogância: . Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. monsieur? – indagou-lhe friamente. nesse novo estado alterado de sentimento. – respondeu brandamente. e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita. mademoiselle Rossi. ficaram apenas se olhando. oui? . monsieur. Ao longo da manhã. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. . –Agora. E ela descobriu que lutava contra um leão. –disse resoluto. como estão as coisas por aí? . – imprimiu firmeza na voz.. pense sobre o que falei. E desligou. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias.Eu ainda não sei o que quer de mim.Está tudo tranquilo. então temos problemas de comunicação.. monsieur. retomando a máscara séria e fria. -Escute bem.Agora. – afirmou.Que horas devo ir? .

uns dez quilômetros dali. tanto no céu quanto abaixo.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. rica. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . apesar da rusticidade da madeira. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. nas montanhas. prestava a atenção nas variações do tempo. sobre o primeiro andar que. o chalé de Jules. Portanto. e não dele. Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado. dos pinheiros ao redor da casa. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. Um lugar totalmente ermo. ela praticamente perdia o chão. de madeira rústica sobre pedras. pois ele cumpria a agenda. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. nesta época do ano. possivelmente era a garagem. Na frente. Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe. evitando. Desde quando usava o seu chalé. neste momento. as sacadas. -Belo dia para voar. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. No entanto. o seu refúgio solitário. por que havia transferido a tal reunião para França. Entretanto.distava. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. ou seja. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. Meia hora depois. assim. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. O vizinho mais próximo . Entretanto. ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro. formando um cerco na solidão do chalé. para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve.Amanda constatou . e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. isso poucas vezes ocorrera. uma ampla varanda aberta. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. A construção de três andares. não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. No entanto. Diante das janelas frontais. admirava a beleza do lugar. a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos. estável e aberta aos empreendedores. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. no mínimo. De fato. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. procurando entender o que acabava de acontecer. Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. Jules havia marcado a reunião. –emendou um sorriso amarelo. observando a brancura à sua frente. apresentava sofisticação tipicamente europeia. era um lugar 41 . ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática. já na entrada de um pequeno centro comercial. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. no auge das nevascas.

justíssima. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . a voz ainda rouca. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. Antes que ela esboçasse qualquer reação. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. espalmada. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. vestindo um suéter preto. de uva. jeans escuro e tênis. acabou deixando cair as pastas que segurava. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. num beijo profundo. salpicavam-lhes os cabelos. estava bagunçado. um palmo acima dos joelhos. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo. normalmente penteado e aparado. Jules empertigou-se. Somente quando parou diante dele. Abaixou-se para pegá-las e. distanciando-se deles. quando se ergueu. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. mais uma vez. mais por impulso do que necessidade. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. no seu mundinho. Escorado junto ao batente da porta. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. sobre seu maxilar. Amanda foi a primeira a falar. de gola alta. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. estava Jules e seu cabelo azeviche. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. Alguém afastou a cortina. mergulhar a perna na neve. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. O cabelo. não contava com a sua espessura. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa. inclinou o corpo para baixo. em silêncio. No minuto seguinte a porta foi aberta. e incitou novo passo para. bem acima dos grandes dramas da humanidade. Apertou-se no casaco cinza. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. o scarpin escuro e a saia de lã. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. O helicóptero já estava no alto. de lã. Ao descer. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. era ensurdecedor. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. Ela tentou identificar a pessoa. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. Ficaram abraçados por um tempo. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. e tampouco percebeu que os flocos de neve. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. Era como se estivesse de férias. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. Durante todo o trajeto. Ao tentar afastar-se. Jules manteve os olhos fixos nela. de sedução.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem.

decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork..Machuquei seus lábios. Sem deixar de fitá-la. esquadrias das janelas. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior. Em seguida.Quer provar meu sangue? – provocou-o.Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. esse Jules agiu de forma inesperada. com um empurrãozinho do pé de Jules. Ele pôs o braço ao redor de seus ombros.Acho melhor entrarmos. virou-se e a encarou seriamente: . possessivamente. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório. aquele que ela conhecia havia cinco anos. 43 . mas impõe mais respeito. profundamente.Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda. os quadros de pintura abstrata e o bar. iluminavam languidamente a estante com livros. Depois. o de barba por fazer. pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. Do teto ao piso. monsieur Brienne. –ironizou. tudo era composto por madeira reciclada. O outro Jules. mademoiselle Rossi. Antes de entrar. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. bem típico de workaholics. num tipo de rusticidade elegante e selvagem. mais aconchegante e cheiroso.. Ele olhou ao redor sem muito interesse. Quando a porta foi fechada atrás de si. Não pôde deixar de rir baixinho. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe. -Oui. que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris. O Jules dos Alpes franceses. Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso. . –debochou. bem.Tenho cópias aqui comigo.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo. portas e sacadas.agora o nome é episódio depressivo grave. jeans e tênis. O que dá no mesmo. -Homens como eu.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: . apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar. . . Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: . em madeira de pinus. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás. Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente. não sofrem colapsos. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve. Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não. seguido de um “por favor. Amanda” impaciente. ainda abraçado nela. diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. passando pela parede. achei bastante incoerente tal reunião. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. sentia-os de fato inchados e doloridos. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: . Jules parou à porta. abajures com lâmpadas de quarenta watts. Amanda levou a mão à boca. -Na verdade. . voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: .Sua casa é linda. –brincou.

pelo o que Amanda verificou. Antes de entrar. retribuindo o duplo sentido da frase. abriu o forno e deu uma olhada para dentro. -Temos que comer.É uma comida típica desta região. crocante. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. nada de enfeites. . parecia derreter dentro da boca. manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. ele prosseguiu: . Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. -Deve estar com fome. ele suspirou profundamente. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. um queijo cremoso. aprendi a cozinhar. toucinho e alho. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico. Com o pano de prato dobrado.Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. assegurei-me que de fato seria um refúgio. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. . Comprei um livro de receitas culinárias e. Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. não havia detalhe algum feminino. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. A camada superior. em seguida. marcando o tecido delicado da roupa. creme de leite. quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 . um lugar para ficar distante da minha vida parisiense. Ele parou diante do fogão.Voilà. com toucinho e queijo Reblochon. era visível que procurava controlar-se. ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia. enfim.Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. Quando comprei o chalé. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. É feita com batatas e Reblochon. -Você também. Amanda observou. Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida. – disse baixinho. – disse Amanda. . . . Para acompanhar o prato principal. como fui alfabetizado. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha. É fácil. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas.Aqui está o segredo de uma boa refeição. levava ao porão. percebeu que após cinco anos. havia planejado o encontro no chalé com antecedência. A cozinha era arejada. toalhas. não estava em lugar algum.Tem serviço de entregas por aqui?. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: . o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e. Isso sim significava uma grande mudança. Realmente. ingredientes e modo de fazer. Numa banqueta de madeira. Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. Pelo visto. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que. Jules havia preparado uma salada com cogumelos. Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. . no centro da cozinha. paninhos coloridos ou imãs na geladeira.Da última vez que fiz faltou sal.alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. sem muito entusiasmo. ele não usava mais a aliança na mão esquerda.O cheiro é excelente! . Por fim. é um lugar tão isolado! –debochou. Por um minuto ou dois. na verdade.

vou entender e aceitar. com eficiência.Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o.Se não está preparada para ficar comigo. acabou quebrando o silêncio. Não queria ficar sem ele. Como Amanda não possuía nervos de aço. assim.Amanda. não fale. -Você não luta por ninguém mesmo. .E. Será que só o presidente não sabia? – ironizou. a oficial e a do affair. 45 . ordenhavam novamente suas vacas.Quero você e muito. . depois. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem.Os executivos e suas vagabundas.. . . ..Se vai complicar tudo.O quanto estava lúcida àquela noite? . pequeno e sem segurança.. Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. – pediu. sobre o aparador para secarem. Jules recebia a louça e. . – disse incisivo. interrogativo. obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. Podemos parar por aqui. Ao constatar que não lhe responderia continuou: . mas não consigo deixar de perceber seus defeitos. agora. . . Entregou-lhe os pratos. -Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha. Vou comprar outro maior para você e.Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. -resmungou baixinho. agora. colocando-as. sério sem censura ou ameaça. . levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la. copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. . – observou calmamente.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles. -Quero que saia daquele apartamento. bastante interessado. – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. Apenas nos beijamos. . em pleno século XXI. Ele sorriu com um um jeitinho tímido. é longe.. Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela. nesse almoço. um executivo da área da computação faz um prato delicioso. Inexplicavelmente. Ajeitou os talheres ao lado do prato. – falou. –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo.e isso não afetará nossa relação profissional.O suficiente para não esquecê-la. – disse Amanda sorrindo. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. já de posse da esponja e detergente. ela sentiu um repentino mal-estar. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador. .Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. –murmurou.deu de ombros e acrescentou:.Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum. e um deles é essa mania de distorcer o que falo. baixou os olhos e encarou-a novamente. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem.

. Além disso. não existe no mundo. vinte por cento dos pacientes se recuperam.Naquela noite que passei em seu apartamento. baixa e tranquila. a pernas separadas. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos. Há uma luta constante contra pneumonias. Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não. . . mas ela não reagiu por si.E se a sua esposa voltar a si?.Acha que não sei? -É diferente. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida.Olhe para mim. –respondeu com seriedade. acima de tudo.. dentro. -Entendo.Por que está me dizendo isso? . é a minha responsabilidade por que. No entanto. E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana. Ele estava todo ali. Jules. .Você quer certezas e garantias. você disse que somente confiava em mim. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado. de acordo com a medicina. – murmurou ela. é um ser humano. Jules mantinha-se afastado e sereno. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . Rochelle não me amava. mas amava a vida. Olha só o meu casamento.Claro. A nevasca atingia as montanhas. nem conseguimos trabalhar direito. –deu de ombros num gesto de impotência. por que.. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha. o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver.. tão perscrutador. Foi uma experiência dolorosa e frustrante. . nem na vida. 46 . a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. Ano passado. deitada no asfalto sangrando me mandado embora. apesar de rica. -Por outro lado. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. .riu-se com amargura – mesmo assim. mesmo que tenha me traído e. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada. mas. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos. . Amanda? Isso não existe. A vida não nos oferece garantia de nada. Além do mais.. numa posição de espera..Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que. não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. . escaras e subnutrição. nós.Rochelle é a minha obrigação. Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo. é a mulher com quem casei e. tentamos retirar o respirador.. mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras.

com o joelho afastando as pernas dela.me diz. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis. um tormento sexual. dentro e fora da empresa.quero muito. sendo chutada para cima do fogão. de pé. abriu-lhe o sutiã e.. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase. enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo. que escorregou para o chão.. violentos. Afastou-se e. Depois. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca. havia percorrido todos os caminhos racionais. umedecido pela ligeira camada de suor.Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. desabotoou-lhe os botões da blusa de seda. Por um momento.. as narinas dilatadas e os lábios constritos. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa. saboreando-o. devagar. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido. penetrou-a. cadenciados com seus gemidos e 47 . baixou o jeans e a cueca boxe.... . o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. .. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. As mãos.Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador. Jules. .. controlava a cadência das arremetidas. e. ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. preta. – disse.saber. com a cintura. deslizou a calcinha pelas pernas dela. as sobrancelhas juntas. firmes na cintura dela. como se fossem um corpo só. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível.. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas... expondo o sutiã branco. para que ela o sentisse todo dentro de si. –afirmou sem maiores explicações. queria-o fundido em si. Ele se aproximava com o rosto circunspecto. . de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente. detendo-se no lóbulo da orelha. Ele puxou-a para si com brusquidão.. segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo. Amanda gemeu e arqueou o corpo. sutiã e meia-calça 7/8. tocar na dele. como um legítimo macho alfa. -Eu a devorava. Penetrou-a totalmente. esfregando os lábios nos lábios dela. Amanda. o corpo esguio encurvado para si. Deitou-a sobre a mesa e... deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. alimentado o cérebro de respostas. de renda. abocanhou-lhe um mamilo. os maxilares contraídos.E.o que você fazia. com movimentos mais fortes. Depois. Era assim que Jules Brienne sempre agia. Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa. olhando-a diretamente. Controlou-se o máximo que pôde. Num movimento ágil.. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo.. os olhos negros como os de um predador voraz. lentamente. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: . Arqueou-se para. Em seguida. . introduzindo-se em princípio com gentileza. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia. Em seguida. faminto.Jules. Ela queria mais. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. .Entregue-se a mim. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço.Quero. a cabeça inclinada sobre seus seios. Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. Num gesto rápido. mantendo-o entre a língua e o palato. sem deixar de fitá-la. depois. por um tormento mudo.Não a amo mais.Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele.

Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço. fora-lhe quase como uma companhia. a força dos braços. E não era a primeira vez que a sentia em si. . emitia ruídos secos. pétalas de rosas azuis. E. ao ajeitar-lhe a gravata. e puxou-a para um longo abraço. Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. ao longo dos anos. à esquerda do bar. Quando despencou da montanha-russa do prazer.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. sobre a colcha. Aos pés da cama. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante. de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. Enlaçada em seu pescoço. dobrado. sob a janela.brincou. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. Ao abriu os olhos.Quando eu conseguir pensar. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó. Penetrou-a novamente e. em cima da mesa da cozinha. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse. a primeira vez dos dois. . impregnara-se do seu cheiro na pele. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. Em dois minutos.Queria ter podido me controlar mais. o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. para ela. . separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. . ele abriu os olhos. vez por outra. num canto da sala. esfregando-lhe os ombros. Entretanto. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. Quando entraram no quarto. Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen. – desculpou-se. músculos e carne até explodir como uma bomba. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. perto da janela. Em vez de vesti-lo. levando-a a gritar numa voz irreconhecível. Por diversas vezes. um robe de seda. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras. agora. puxou-lhe o corpo para a borda da mesa. Depois. no meio das montanhas brancas de neve. E o cheiro dele. brancas e azuis. amarelas. nervos. trouxe-o e o pôs em Amanda. os olhos fechados. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. tinha todo o seu corpo possuído por ele. Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. Sobre uma mesa. como era alto. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas. –brincou. A lenha crepitava na lareira e. recebendo um sorriso terno de presente. 48 O . Ele subia devagar os degraus da escada. Do lado de fora. Era para ter sido ali.Empacotada para viagem. analiso o que você falou. beijando-lhe o pescoço. Antes de atingirem o cume do prazer. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. congestionados em suas órbitas. naquele quarto decorado romanticamente. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural.

enlaçou-lhe o pescoço e. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido. seca. Subiu novamente pelo mesmo caminho. o sexo para. diante do corpo dele. teve-os engolidos. de frente para ele. por baixo da pele. cada um na sua vez. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela. que a sustentaram enquanto seus quadris. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo. arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. erguendo-se ligeiramente.. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. abertas. Ele sugou-lhe com vontade. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. atirou-se para um mergulho no mar denso. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo.. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. Voltou-se toda para ele. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. com o outro. Quando percebeu que ela estava pronta. Gritou o nome de Jules. Esfregou os seios no tórax firme dele e. o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. Num movimento ágil. Avançou para o umbigo. enterrou as unhas na sua pele nívea. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada. Com apenas um toque num dos botões.. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. por uma boca voraz. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. em seguida. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela. sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. encaixados. até o fundo. descendo até a curva de suas ancas. enfiou a língua e o mordiscou. Jules sentouse na cama e puxou-a para si. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. Ne me quitte pas. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas. Por um momento. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. morno e eletrizado. depois de mordiscar-lhe o ombro. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. que foram sugados com força. Do alto. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. alternando as coxas. foi acionado. o ventre. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem. que começou tomando-a aos poucos. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. Ainda sem conseguir respirar normalmente. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. auxiliou-o no vaivém de seus quadris. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração. 49 . Jules gemeu ao seu ouvido. num timbre de quem explodia de prazer. em seguida. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e. Por baixo de suas nádegas. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos. trazendo Amanda para o seu colo. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas.. ergueu meio corpo e. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. roçando os seios no seu tórax. passou os braços por baixo de suas pernas. Prorrogou a carícia.

mordeu-lhe levemente o lábio inferior. Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados. entende? Mas você. -Você é muito mandona.. a respiração controlada. você. digamos. – constatou e emendou com suavidade: .Humm. pragmatismo.Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe. . A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante.Uma vez você ligou mesmo. . – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho.Disfarçou muito bem. – disse calmamente num tom divertido. Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la. . o cenho franzido. Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada. Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda. impecável e bastante experiente.Verdade? . não obtendo resposta.. . mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha. após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos.mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 . Eu tremia.. – disse-lhe sorrindo.. sentindo-se exausta e relaxada. – completou com um alçar de sobrancelhas. obviamente. roubando-lhe um sorriso suave. com a cara de poucos amigos. apertando-a num abraço possessivo.Contratei-a por mérito profissional. procurando uma música no playlist digital. – sondou. Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. – constatou num murmúrio. -Monsieur. Gentil e bruto. .. a última etapa da seleção era com você. sorrindo. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada. Virou-se e viu-o manejar o controle do som. dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico. simplesmente. . -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça. . uma combinação um tanto paradoxal. suava e quando o vi sentado atrás da mesa.. recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si. ... bem. Jules era um amante refinado. monsieur Brienne.É verdade. jamais tenha dúvidas sobre isso. -Tive sorte..Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que. .sei que não gosta de falar sobre isso. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro. minha temperamental assistente.. aliás. Jules. -terei de domála. Em suma.Ainda me deve uma tomografia. Roçou seu nariz no dele. – afirmou com naturalidade. perguntando-lhe algo e. então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. .-provocou-a.. precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio. Depois.corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: . . a pele ligeiramente orvalhada de suor..Totalmente. Admirou-lhe o tórax firme.Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. forte e sensível. Sou o pior chefe do mundo. alguém sensível o suficiente para lidar com o meu.

Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. ele 51 . com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. – ironizou. ouviu-lhe dizer: . Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. salientando a face esculpida com vigor. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável. Falei besteira. Jules voltava a ser o chefe exigente. ainda nu. Intimidada e insegura. Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão. bebendo o vinho. até para os tipos românticos como você.O protocolo pós-sexo. . pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris.Não tive intenção de incomodá-lo. mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar. –Vamos nos poupar disso. – disse por fim e deu-lhe as costas. forte e primitiva. Satisfeito na cama. non? É clichê demais. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto. Devido ao último confronto. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios. de frente. como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. manteve-se quieta. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. nua. em silêncio. sem maiores explicações. Aquele era um assunto tabu?. também era sedutor e rouco..Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. confidências à meia-luz. mademoiselle. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. Naquele momento. concentrado no fogo da lareira. Com um gesto lento e displicente. ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. Manteve-se de costas para ele. –direto e seco. Voltou-se e viu-o na mesma posição. Dera-lhe uma ordem.Fui grosseiro. . Maxilares contraídos.Assim que amanhecer. branca e limpa. surpresa pela reação hostil dele.. ela resolveu ceder. Sexo e sofisticação não combinavam. E Jules odiava demonstrar fraqueza. Ele olhou-a com o rosto sério. imóvel. revelavam os seus sentimentos. -Tire a roupa. eram somente um macho e uma fêmea. . ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. mademoiselle. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. a mão estendida à espera da dela. diante do fogo. refletiam luxúria. Os braços ao longo do corpo. pardon. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. -Sente-se aqui. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. apenas observar e. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. cruzados em frente ao sexo. Mas a voz. Amanda sentou no colo de Jules. os ossos dos maxilares. encaixando suas pernas ao lado das dele. Mais do que nunca. brutal. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente. o timbre de voz que usara. mesmo imperativo e urgente. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. de preferência. Postou-se diante dele. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. ma belle – pediu com a voz abafada.

as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se. as costas largas de ombros proeminentes. em seguida. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele. Admirou-lhe o pau duro e grande. sugerindo. 52 . torturando: . as pernas ladeando as dele.Está encharcada. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: . Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele.. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. -Não diga fazer amor. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. Deitou a cabeça para trás. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. as pálpebras semicerradas. com ossos que despontavam acima da rótula do braço.. linda. beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda. ainda não. O toque foi lânguido.. ma belle. concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios. Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem. Aproveitou para admirar-lhe a nudez. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. ma belle. Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. Dito isso. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. Por outro lado.Dieu. buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. que foram chupados pela boca máscula. emoldurado pelos tufos negros.. enquanto segurava-se nele. afastando-os do rosto suado. na voz de Jules. um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. diz que vai me foder. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo. Temia o ato. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. friccionando devagar e circularmente o clitóris.. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar. apenas roçando.. Num segundo. -Como.. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. suavemente. Estremeceu-se de medo. – gemeu Jules. deitado para trás ao longo do abdômen firme.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante. como é linda. Ela se esfregava na mão dele. Ouviu-o rir baixinho. apenas a ponta do dedo. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade.. endurecendo os bicos. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes. minha Amanda. a respiração também alterada. – pediu quase num murmúrio. -Diz que vai me foder. vou fodê-la toda. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão. nos seus ombros. Como se seguisse a linha de seus pensamentos. saindo da boca de Jules. Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos. o quadril. num gesto instintivo. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer. A cintura bem torneada e o traseiro bonito. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. sem forçar. como uma pequena morte. sem preconceitos ou impedimentos. . provocando-o com o seu sexo.Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela.-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. Medo e excitação. . Amanda temia o próximo passo. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava.? – indagou aturdido. Apoiou-se sobre os joelhos. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado. mas ainda não farei amor com você. diz Jules. o quadril esfregando-se no abdômen dele. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá.Toda. -Vou te foder.

como se se vissem pela primeira vez. inebriante. assim. seus sexos tocando-se. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. Jules beijava muito bem. e Jules beijou-lhe o ombro. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente. Ao fazê-lo. Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. –declarou com ternura. belle.. que ela nem pensou em encobrir a verdade. prestando bastante atenção no nervosismo dela. Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. agarrada aos ombros dele. um prazer para nós dois. fazendo-lhe um carinho no queixo. vem. com dois de seus dedos longos. –chamou-a para o seu colo.. agora. ainda mais duros.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. completamente envolvido pelo beijo. bem típico seu.Vem aqui. Amanda.Afaste as pernas e incline-se para mim. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. – Seus olhos estão arregalados de medo. – Apenas siga-me que eu a levarei lá. um prazer para o nosso mundo particular. antecipando o que seu pau faria. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. A sensação era boa. E quando se afastaram ofegantes. as orelhas. . liso. fitaram-se por alguns minutos. duro. Amanda ajeitou-se fundo no sofá. A pergunta foi feita com tamanha suavidade. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. -Então vamos desfazer esse medo. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão. disse com meiguice: . Sugoulhe os bicos. balançando-a com displicência. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus. um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador.Isso. ma belle. -Acredito. Ela confiaria a própria vida a ele. sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. mordiscando-lhes.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. fervia e esquentava-lhe a nuca. Quase 1. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. Amanda gemia alto. sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. devagar. – pediu-lhe baixinho. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. um de cada vez. Aos poucos. Amanda contraiu-se. longo e perturbador. prendendo-os entre os dentes frontais. com cuidado. depois de deixá-la completamente louca de desejo. Garganta seca. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. numa carícia mais do que tocante: íntima. borbulhava. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele. – sussurrou. reconhecendo um no outro. Nó no estômago. Ele sentou-se ao seu lado e. a vagina molhada e os bicos dos seios. Assentiu com a cabeça. 53 . atlético sem ser malhado e magro sem excesso. os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. . Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. eu jamais a machucaria.

o rosto tomado por uma fina camada de suor... relaxa que entra mais fácil.. esforço esse que Jacques não o fizera.. – quase gritou. Agachou-se entre as pernas dele e. mas. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si. –falou posicionando-a sobre o pau. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules. sente-se sobre o meu pau devagar.. apenas observava-a. mexe devagar. que lhe escorria pelas costas e seios. .. subindo e descendo o traseiro no seu pau. Jules. somente você.... ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave.gemeu.. extasiada. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal. Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém. os olhos fechados. – Você fodia minha bunda na sua imaginação... . Ele bem que tentou manter-se terno. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida. -Acho que não posso.. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais. puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. Amanda. e eu farei a sua vontade.. Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar. ao mesmo tempo. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris. -É bom demais. ela seguiu as suas orientações. deixe-o deslizar aos poucos... abraçado a ela. Ela sentia-o descontrolado. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. o desespero no timbre da voz. pô-la de quatro. enfiado nela. Deitou-a sobre o tapete e.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora.. de queimação fê-la recuar. como é apertada e gostosa. com a mão no pau de Jules. uma dor aguda.isso. pare. – gemeu desapontada. Amanda.. Jules? – indagou-lhe quase sem voz.. a expressão séria e. com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela. jamais a machucarei..... Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo. -Acho que pode.é como eu sempre imaginei. -Nem a metade. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina. entrou tudo. –Isso.. Num gesto rápido e eficiente. Amanda. Era visível o esforço que fazia para controlar-se. mon amour. ma belle? Se doer. o cabelo úmido.. encurvada e com o traseiro apontado para cima. Jules. um ruga funda no meio da testa.... Você é perfeita. sem pressa. 54 . a mais linda. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela...não vou machucá-la. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão. -Você é mulher mais linda do mundo.. sobre a ponta do pênis.. ainda enterrado fundo no traseiro dela.Tudo. ele levou-a consigo para o chão. Tomada pelo prazer e encharcada de suor. -Foi tudo..dói. que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante. Com o polegar.isso. as veias da testa e do pescoço dilatadas. – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si. Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira. Você está no controle. Como uma aluna aplicada. mon Dieu. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e. tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. guiou-o para a sua entrada detrás. isso. relaxa. Amanda. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior.

Realmente. Completamente apavorada. Mas não posso receber alta. pequeno e de seda. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. –brincou. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. – disse rindo. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. Abraçaram-se debaixo da ducha. a velocidade e a força. pegou-a no colo. docteur. -Porra. subiu os degraus e entrou no banheiro. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. O seu melhor homem estava tão próximo dela. feminino. empinando a bunda para Jules. okay? -Oui. com Jules. -Espero não tê-la machucado. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta.. dosando as arremetidas. controlando os movimentos. fê-la gozar novamente. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha. Amanda concluiu que sua vida sexual começava. ela deixou-se cair de bruços no tapete. antes mesmo de saboreá-lo na cama.. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. que deixava marcas no corpo e na alma. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. -Estou curada do trauma. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo. As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. Entretanto. –resmungou contrariado consigo mesmo. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. Todos os outros. enterrando-se até o fundo da vagina. agora. que a amparava e se lançava na direção contrária. que não fora possível vê-lo. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. Ela sorriu satisfeita com tudo. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. inclusive com o novo vocabulário do executivo. vou lavá-la para diminuir a ardência. Jules virou-a de frente para si. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. Um amante para sempre. – brincou. ela estava apavorada. -Vire-se. Haviam dormido abraçados. içou-a sobre seu corpo. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. possessivamente. Ainda com Amanda nos braços.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. beijando-lhe no tórax. Quando acordou. que foda maravilhosa. ao lado da cama. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. quero dar-lhe um banho. Avistou um robe caído no chão. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede. ensaios e rascunhos. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. -Vem. 55 . do tipo inesquecível. Afastou o edredom e foi ao banheiro. já sabia onde estava. Talvez ainda fosse madrugada. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. Era novo. envolvidos pela água e pelos vapores. exausta e saciada. Sentou-se. Como ela não se mexia. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. -É porque estou sem as botas do Kiss. Por isso. Lavou o rosto. Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. minha lindinha. -Estranho. pegou-o e o admirou. nesses últimos cinco anos.

seu chefe. mademoiselle Curvier. ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO. – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. imediatamente. À medida que descia os degraus. bonito. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . sério. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. – afirmou com desdém. . agora. Entretanto. o que se destacavam eram os sulcos na testa. . Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques. s'il vous plaît. será uma chateação dos diabos.Tevê aberta? Merdè. Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença. . Saía e voltava pela porta de correr da cozinha.Ele a agrediu. Esperava um beijo ou um sorriso. encurvando o canto esquerdo dos lábios.Quero que veja uma coisa. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar. tão escuro quanto as trevas. No caminho.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo. Agora. ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. tornava-se a megera. medo e dor fizeram-na contrair os lábios. rasgando a foto em vários pedaços. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante. mas soou como acusação. Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. tive a confirmação.Jacques Rodin. Ignorou-a e voltou à cozinha. a lembrança da frustração. mostrando a face recém barbeada. Engoliu em seco. Respirou fundo e procurou controlar-se. . ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. – em seguida. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules. entre a escada e o bar. agora. . Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. a testa franzida. . diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. O cabelo molhado estava penteado para trás. concentrado na conversa. Pronto. Pela reação de Jules. pois suspirou contrariado. Jules. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave. o jogo havia virado.Claro. Um homem loiro. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. – declarou. Reconheceu Jacques Rodin e. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants. – disse-lhe. presidente-executivo da SBO. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. 56 . Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne.Sei quem é. me transfira para o marketing. Voltava a ser circunspecta e fechada. jeans e tênis. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth.Venha e tome seu café. ordenou: Agora. sorria para a câmera. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás. já havia encerrado o telefonema. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios. não foi? – era uma pergunta. E. Usava uma camisa de gola polo azul celeste. O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. . – concordou solícita. . Num gesto ágil.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. em frente à cozinha. desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. Encontrou-o na discreta sala de jantar. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. num gesto de ameaçadora tranquilidade.Bonjour. sentado no banco de um parque público.

exasperada. Jules. e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! .Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado.Porque talvez alguns homens só mereçam isso. constrangida. Ou seria “não sei. erguendo o queixo em desafio. pelo menos. interrogativo.É terapeuta também? – debochou. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la. Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia. Então. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme. Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques. três ligações do mesmo número das mensagens eróticas. a força do destino! – debochou e completou incisivo: .Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. O contador. Diga-me. .Você é movido pelo seu ego estratosférico. assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: . monsieur Brienne?”.Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía.Ah. .Tudo o que fiz foi para protegê-lo. Amanda baixou a cabeça.Obsessão em Paris Veronique Gris .Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou .talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês. . – falou baixinho. . perigosamente controlado. pena que ele seja um pouquinho psicótico.Jamais me dê as costas. .Na saída de um restaurante. mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela.Dê uma olhada no seu celular e encontrará. Quando se preparava para fugir de outro homem. do encontro às escuras. . Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você. – disse com maldade e completou debochando: . Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores. Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta. porque Jacques Rodin é doido de pedra. – respondeu. .Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher. princípios e verdades.Devia tê-lo delatá-lo a mim.Não sei. mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos. . – declarou secamente e deu-lhe as costas. Fiquei quieta para que a situação não piorasse.Sou a vítima. –acusou-a. não me transforme na vilã!gritou. embaraçada. . . Jules puxou-a pelo antebraço com força. o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha. . A conversa ainda não terminou. 57 . –declarou tentando impor firmeza à voz. Ele suspirou exasperado. amigo de Dorian. Lutava para manter-se calmo e equilibrado. Jacques salvara-a de um salto quebrado. non? Monsieur Rodin.E não posso negar que ela teve bom gosto. . Jules estreitou os olhos perigosamente. . uma veia despontava latejando no meio da testa. – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados.completou sem dissimular o desprezo. .Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas.

Amanda suspirou resignada. diante de si e fitando-a duramente. conseguia sacudir-lhe os alicerces. num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem. estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo.. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. . Num minuto. sem mágoa: . pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo. -Mon Dieu.Esqueça-o. depois de pronto. após alguns minutos de silêncio contemplativo.A sua prepotência também é um tipo de viodência. nos braços dele. Jules. os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. -Ninguém gosta de sofrer. por poucos e eternos minutos. Todavia. –murmurou mais para si mesma do que para ele. No entanto. e essa atmosfera também estava interiorizada nela.Eu deveria mesmo considerar-me superior. pode parecer bobagem. – completou apertando-a contra seu tórax. . Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. . respondeu como quem se livrava de um peso: . por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. conhecido por seus programas de economia e administração. 58 . .Minha mulher me deixou por causa dele. manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. provavelmente.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. . Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades. era isso que o deixava incomodado. E. -Vamos tomar nosso café. Não queria mais discutir. ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça. Aproveitou para recuperar a paz perdida. o que dizer? por putes. Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo. Ele não se mexeu do lugar. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. bien. você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental.. -Meu estômago está fechado. Por fim. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. Queria que fosse diferente. entre todos os seis bilhões de terráqueos. Durante o café. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade. – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia. Devolveu a crueldade. – disse simplesmente. parece tão desprotegida. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. claro.Tentarei não complicar mais as coisas. – pediu-lhe entregando os pontos.sussurrou. mesmo por que perdia todos os rounds. Amanda. Concordara com o documentário.encarou-a sério e completou com ironia. E sem olhá-la. Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras.

– afirmou. Jules deu-lhe pequenos beijos. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules. Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si. sorrindo. cabos e câmeras por toda a parte. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas. Diante dela.Culpa minha se os acostumei mal.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. sem desviar os olhos dos dele. cheirando a colônia cara. fios. Sorriu consigo mesma.. .Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. A ruiva de cabelos lisos. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada. Amanda teve que lidar com microfones. – virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. Encaminhou-se até ele. Jules apertou-lhe o ombro. um tipo que vivia engravatado e penteado. todo o conjunto.Espere um minuto. O rosto constantemente sério. um executivo. porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la. cortados rente à nuca. Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente. – brincou. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. -Não precisa fazer isso. . Intercalara as gravações em vários dias. Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta. seguindo de perto a rotina do chefe. Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa. Corria o risco de ser 59 . levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa.Última ligação e desligarei o meu também. . abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . . vestia-se de forma sóbria e insinuante.Senta no meu colo que a gente já começa por aqui. . Alguém ao telefone chamou-o novamente. e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência. devagar. retirou o microfone da gola da blusa. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz. Prometo.. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a.Eu sabia que você adoraria a banheira. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. nos lábios.Ou eu ou o trabalho. Por outro lado. – murmurou. – fez uma careta desolada. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules. olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida. . causava a Amanda respeito e excitação. que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. Por um momento. Ele ergueu os olhos para o alto. os olhos pousados nos lábios dela: . Touleause. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO. Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. a certeza do seu lugar no mundo. as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos. até arrependeu-se de se impor dessa forma.

Ele voltou de cabeça baixa. Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa. numa carícia sutil e devastadora. ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. Havia uma luminosidade suave na feição máscula. enquanto subia os degraus da escada. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. Sentia-se embriagada e. aos poucos. ele tomou posse novamente do seu celular. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. Mas dentro de si. divertindo-se: .O que está fazendo comigo. sorrindo deliciada com a atitude dele. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca. dando as costas a Jules e subindo os degraus. Quando chegou bem perto. . concentrado em desligar o aparelho.Espere-me aqui. Pressionada entre a parede e o homem. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . Amanda gemia e entregava-se ao prazer. ia transformando-se em ímpeto e desejo.. ao deslizar a língua sobre o membro dele. sem beijá-lo. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro.Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. impulsividade não combina comigo. Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se. era também macio e gostoso. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. pensou. – declarou. . num tom de desolação e desejo. Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. E ela não queria uma queda-de-braço com ele. ao mesmo tempo.Tem razão. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. ao encontro dela. Jules. fitando-a sugestivamente: . Havia-o sentido todo dentro de si e. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela.? – sussurrou-lhe ao ouvido. Como alguém podia ser assim?. ironizou consigo mesma.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. chutou-a levemente para o lado. Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. exibindo o membro grande e duro. devagar. Parou e constatou com um sorriso. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros... deixou-se ser despido. Em seguida. ainda de pé diante dela. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. ergueu-a no colo. De olhos fechados. mal lhe tocando a pele. preta. que eu já volto.. desejava e admirava. Já na metade da escada. quietinha. que. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. mas. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava. ainda assim. Após um breve silêncio. deslizando para dentro com confiança e força. brutal e ostensivo. posicionando-as sensualmente atrás. ela pensou. Num movimento rápido. Amanda já estava decidida a mudar os papéis. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. Eficiente em tudo. sem se mexer. Não bastava simplesmente desligá-lo?. Após cair aos seus pés. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules. apertando-lhe as nádegas. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. Observou o volume considerável pressionando o jeans. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. delicadamente. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. com sede e fome.

penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. Depois.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. Mas ela não queria justificar-se e. no sexo intumescido e. Beijaram-se como loucos. independente. a fim de alcançar-lhe os lábios. Capítulo X No teto de vidro. intrigado. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. e 61 . apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. sabia o que estava fazendo. encaixando-se entre as mesmas. Incitou movimentos lentos e cadenciados. – gemeu. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la. afastou-lhe as coxas e. A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro. tornar a sentar-se devagar. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. Após três ou quatro estocadas. Tencionava servi-lo. para mostrar-lhe quem mandava agora. ao sentir-se penetrada. com os olhos semicerrados. constatava. mordendo o próprio lábio inferior. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas.. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. gozou. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. em seguida. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele. Antes que gozassem. mexendo o quadril para cima e para baixo. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . baixinho. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. ganhando milímetro por milímetro. deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. primeiro. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo. Ela encurvou-se para baixo. os efeitos desse ato. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. No minuto seguinte. gemendo e erguendo os braços. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. Abocanhou-o aos poucos. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas. desenhando um arco com o corpo.. Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. Viu-o jogar longe a cueca.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos. Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. num vaivém violento. Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. prazerosa dor. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer. -Não quero gozar ainda. Experiente que era. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. em seguida. por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava.

agora. eram amigos de longa data. chocara-se com força contra a montanha e explodira. –deu de ombros. o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. -Pois é.tão.Mas quanto à vida sexual. comentou divertido: . havia cinco anos. . Amanda não gostou do que ouviu. antes.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente. eu mal tenho uma vida.Obrigado pelo “bom de cama” . num tom claro e discreto. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha.disse gentilmente. Jules acomodou-se ao lado do piloto. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. Precisava manter-se centrada e racional. 62 . eram adestrados e obedientes.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. ela não era apenas sua assistente. por mais que ultimamente lhe fosse difícil.Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido. No meio do caminho. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave. A bem da verdade. mademoiselle Rossi. embaixo d’água. -Comprei o chalé construído e. sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que. obviamente. Comentara casualmente a Amanda . Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. empurrado pelo vento forte. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo. Depois. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . iam-se estreitando. Ele sabia. paredes de alvenaria em pátina azulada. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela. . – constatou um tanto contrariada. na medida em que se subia.... arremetida por um vento ascendente. Pelo visto. Era normal. Pena termos de voltar após o meio-dia.e tal informação ela não sabia . o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens. quanto mais sexual. sentindo-se frustrada. pôs os óculos escuros. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade. Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. da assistente que obedecia às determinações do chefe. Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia. Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você. colocava-a na posição de sempre.Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada.. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. Ao redor.Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. isso mesmo. delimitava-os cada qual em seu lado. O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada. à sua mansão com a esposa. displicente. Haviam transposto uma fronteira que. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. Dito da forma como ele dissera. O vento não estava tão forte e a neve cedera. Ela sabia. Tagarelava sobre o tempo. e não apenas patrão e empregado. . Mas. Apenas vinte e quatro horas juntos. Mesmo assim.

assobiava descontraidamente A Marselhesa. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária. era linda e majestosa. intrigado. .O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas. E. e se Dorian sabe. que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. – suspirou e continuou num tom firme e. está preocupado com o teor do programa. Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si. sentindo o rosto corar.. bem. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente. mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. Meio minuto depois. Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala. do alto. – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer.Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa. você conhece o seu chefe melhor do que eu. com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. Amanda conteve a vontade de rir. completou: . à noite.Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History. sorrindo alegremente. da secretária da presidência. e. O semblante de Jules fechou-se ainda mais. A visão de Paris. logo. como Alexys é bastante popular. Amanda considerava extrema falta de ética por parte. .. depois. – em seguida. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva. parecia coisa de filme.Dorian.. caloroso:. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa.Talvez.Quê? – indagou Amanda. em seguida.. . Ele estava sério.. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã.? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário.. ao celular. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: . ao mesmo tempo. como se estivesse chegando e partindo de verdade. um pouco. para onde Jean baptiste seguiu.. Ao passo que Jean Baptiste. . a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules.Na verdade. para a assistente do executivo.. não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio.Ele comeu e não gostou? . o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa. –refletiu. 63 . – fez um trejeito com a boca.Era engraçado. principalmente. Seguiram juntos até o elevador panorâmico. baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. para o andar da presidência. Alexys da recepção também. ainda mais vindo de funcionários. Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair. que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade. Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e. E completara. ponderando sobre cada palavra. absorto da conversa com monsieur Koskinen. bem.

– declarou Amanda. um sorriso aflorou nos seus lábios. né?.Quando o chefinho comprou o chalé. okay? . tinha direitos sobre ele.Amanda. Não deem mais mancadas. para todos os efeitos. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. Estocolmo e Copenhague.Obsessão em Paris Veronique Gris .E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo. algo assim. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência. se de fato houvera tal conversa com Jules .Geneviève sabe sobre o chalé. e acho até que já ficou por lá uns dias. Ele. os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação. Projetavam em menos de um ano alcançar. pois. no estômago em chamas. chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel. e Jules não gostou nada disso. de pé. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É. mesmo em estado vegetativo. antes de entrar.. Novamente esse nome. A secretária-júnior matou a charada. Sentou-se em frente ao computador. tivesse direitos sobre Jules? No entanto.A jornalista sabe sobre o chalé. Falou-me sobre privacidade e sossego. como se ela.. de sua parte. Annie adorava Jules e o protegia como um filho.e ela acreditava que sim. justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. non. já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. mas você também podia fechar essa boquinha.replicou Assíria. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade. jamais falaria para a imprensa. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca. Geneviève. então? Ou. além de Helsinque. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas. melhor. Por um momento. ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. – baixou o tom de voz e completou: . O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. Por quê? .. ora. na verdade. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. Além do mais. estava ocupado com outra ligação. Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. . Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules. pensou Amanda. aliás. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. . mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria.Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico. . Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne. .. 64 . mas não via nada. ela sim. eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que. A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali. Por isso. falava com Jarkko. Acreditava em Dorian. de frente para a parede de vidro do escritório. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha.Non.

em seguida. não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o. Não agendaram nada com você. Interrompeu-se e cruzou os braços. porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. apesar de estar dentro de um covil civilizado. caçar e se prover sozinha. então. Jules. No fundo.. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. por que. As reuniões na SBO. nariz quebrado e cicatriz.Marion. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. –defendeu-se. – ordenou com o semblante fechado. A neve havia cedido há algum tempo.. o vice-presidente. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos. que já se despedia do finlandês. Pôs a xícara de café sobre a mesa. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: .A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. mas Jules parecia ligeiramente tenso. irei recebê-los. normalmente. Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. -Non. a cadeira de Amanda. e Jules o sabia. principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. diretora financeira. Merci. deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. Nem mesmo monsieur Roche. . Do outro lado da janela. eram entediantes e longas. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares. inclusive.Bleu e Rocco. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. Ao seu lado. em vários tons de laranja e azul. Amanda admirava mulheres fortes e poderosas. –respondeu. escurecendo aos poucos. Meia hora depois. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. Mais caricatos impossível. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules. mesmo por que possuía o número do celular dele. afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. claro. Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . com direito a cara feia. Nas extremidades da mesa retangular. Não havia queda de braço que ele não vencesse. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não. a noite chegava de mansinho. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. Amanda. fechá-la. A pescoçuda conseguia. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. de mogno.Agora. . trocas de farpas e ironias de lado a lado. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. O que não era verdade. Marion. Era uma loba acostumada a andar na selva. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. Reclamou. você não é uma síndica de prédio. corpanzil. Às vezes havia chispas de tensão. monsieur Touleause e na outra. No entanto. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. mas covil. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação. seu grande amigo.

oui. Touleause até tentou rir. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. No entanto. Jordan. – Jules disse sem tirar os olhos do papel.Eu tenho ações aqui. . . Jules estava próximo à janela. Com licença. Afinal. certamente. Assim.Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro. . cabelo loiro e olhos de rapina. pois. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules.Quem quer café que desça e faça o seu. Jules. – resmungou e continuou: .Sou improdutivo. estava muito abaixo da diretoria. Não se esqueça de trazer também o adoçante. tratando-os como iguais. custos. Mas. mas. monsieur Touleause. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência. . Sinta-se à vontade. no lugar onde deveria estar. analisando o relatório do diretor de vendas.. . por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar. mais uma vez. Jules. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los. é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. Victor descerá e fará o café para todos. como achar mais adequado. Comece. Nem Paris nem Porto Alegre... nada mais. Jules interveio calmamente: . Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia..Não se incomode.Oui. s'il vous plaît. de gravata borboleta vermelha. não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. você sabe.Pra quê tanto drama. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam. Sentia no ar a tensão.. .Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. agora. já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa. .Então. mademoiselle. como se Jules estivesse brincando. quero ouvir o pessoal produtivo falar. durante as reuniões.. ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar. . mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido. Era o VP. mademoiselle Rossi. Marion pigarreou. foi impedida de sair da sua cadeira.Oh.Não vamos retardar a reunião. é problema seu e da sua consciência. para o vice-presidente.Vamos à minha sala. O primeiro foi de Marion: 66 .Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida. de pé. é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo. Assim. . Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras. antes que saísse algo de sua boca sem batom. impostos. já volto. . – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam. Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá. Nunca estava no lugar certo. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala. Marion riu baixinho. pode trazer o café da sala de Jules mesmo. comentários foram seguidos por um silêncio profundo. terno bege. . jamais voltaria a lembrar. –declarou com naturalidade. Assim que os dois homens saíram. Na maior parte das vezes.

podem resolver. aceitaria novas tarefas. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. Ele comanda a empresa do alto. completou. . . .Entendo. ela não é apreciada pela diretoria. Jules assentiu levemente com a cabeça. Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão. Ao que Maurice. Maurice. os grandões da diretoria. E ele. De certa forma era divertido.Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos. Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 .E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice. . de sonhar com planilhas e computadores.É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor. Como todos se fizeram de desentendidos. física e mental.Obsessão em Paris Veronique Gris . Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. tinham de aceitá-la. – disse Marion visivelmente contrariada.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os. – replicou sem se alterar. trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente. diretor de vendas. – disse Marion. pelo visto. Sinceramente. mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor. temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor. -Para falar a verdade.Essa discussão é completamente fora de propósito. até hoje não sei qual a sua função. de agendar horários para falarem com Jules. nada disso teria acontecido. Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador. . estava horrível. fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: . Estou protegendo a saúde dele.Não tenho nada contra a sua assistente. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada.Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta. monsieur sabe. perde apenas para Touleause. . eles não topavam Amanda Rossi. Não. -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme. .declarou Maurice com o peito estufado. . Agora. do homem que fazia as coisas acontecerem e eles. mademoiselle. . – concluiu Maurice.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. . pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta. no lugar onde você o colocou. . sozinhos. como já dissemos a mademoiselle. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios. E sabia o motivo: inveja. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco.Bom. do dono de tudo. dificulta como pode. . longe de todos. .Pega leve. com certeza. ponderando. pelo contrário. .Oui. Agradeço os esclarecimentos.É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche. Você não facilita o nosso trabalho. – informou-a o diretor.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? .

Vestida num terninho violeta. Voltou-se para ele. capacho de Maurice.Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: . – indagou estreitando os olhos sagazes.Jules.. Sempre sorridente.Oui. Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: . De repente. monsieur.Obsessão em Paris Veronique Gris uma. . Não sejam tímidos e levante a mão quem não. sempre impecavelmente vestida. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores. Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura. – disse impassível. Entretanto.Anotou os nomes. Havia duplo significado na frase? .Certo. Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la.. Maurice. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez. ao entrar no escritório deu de cara com a loira. surpreendentemente. Caso queira me encontrar. agente fa-ci-li-ta-do-ra. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos. Era uma dama. uma. prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente.A reunião foi um desastre e está encerrada. na cadeira dele. Marion. ela aguardava Jules na sala dele e. . . Bonne nuit.Todos.E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. apenas dois caíram na armadilha. com os nervos em frangalhos.Fale por você. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências. De qualquer forma.. ah. 68 . virou-se para Amanda e falou sério: . mon chéri. – disse quase sorrindo. que vitalidade tinha aquela mulher. de pé e com as mãos sobre seus ombros. irei para casa. e. conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar. . está cansadinho? – antes que ele respondesse. . mas Amanda sentia-se exausta. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência. estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente.Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. .. que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa. emendou: .Quero nomes. mas uma dama. teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto. mademoiselle? . ligue para o meu celular. Nossos advogados também farão o sacrifício. . A noite recém começara. . sempre pronta para atacar. na próxima. . sem vergonha na cara. Algo mais? . confuso. Após a reunião. – disse Jules sem muito interesse. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina. exibindo metade dos seios siliconados.Como vocês falaram mesmo?.Interessante. Céus. Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram.Como? – Jules indagou-lhe. monsieur. – falou Marion com franqueza. atrás de si. ela sempre me atendeu prontamente. como é mesmo?. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente.Assim que terminar umas coisas por aqui. Em seguida.

–Além do mais. A situação começava a ficar constrangedora. devo avisar Sonia que não jantaremos lá. Guardou o papel na bolsa. ignoroulhe o comentário.Por que não assiste com eles. – teimou. Que tal? Chega de trabalhar. voltava para casa sem Jules e. já lhe doía o estômago. mademoiselle. vadia. não vencia todas. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. porém.. Antes. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. sabia? – viu-se falando tal asneira. Além do mais. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela. Não conseguia mais se controlar. Amanda. Ela não tinha motivos para continuar ali. Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. fosse qual fosse a situação. – respondeu sem fitá-la. Odiava a vaca. que veio prontamente. vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta. -Todo mundo sabe que sou casado. cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora.. Por todos os deuses. era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa. então. . Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. e tampouco sozinha. Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações. mon chéri.. se a francesa havia passado uns dias no chalé. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio. no seu lugar. -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê.Obsessão em Paris Veronique Gris . Sentia a garanta seca e falta de ar. 69 . -Preciso trabalhar. Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. endereçou um olhar feroz a ela. – disse ainda sério. – François gosta muito de você. porém. . mademoiselle Rossi? . entre no seu carrinho e vá para sua casa. O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. Impossível. Pedimos comida e relaxamos..Nosso jantar com os Roche. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules. pegue seu casaco.Bonne nuit. . por outro lado. Jules. vagabunda!. praticamente se jogando para cima dele.Pode ir..Jules é casado. agora. ainda por cima.Não. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle.Vem comigo. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair. . que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . -Vou ficar também. porém de cara amarrada. Se já eram amantes ou foram amantes. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem. Não. Jules. segundo Assíria. mademoiselle Rossi. . odiava! . E. agora. . o documentário. Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz.Que cruz? – indagou Jules sem entender. .Eu entendo.. .Vamos para minha casa. quase gritou. Pois é. Geneviève já a olhava de forma estranha. Geneviève fitou-a desconfiada. Qualquer mulher sensata. –pediu ela. – declarou sem se alterar. havia certo divertimento nos seus olhos.A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche.Não tem que ir embora. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos. o deixava com uma. mas como era uma dama educada e polida. sozinha.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
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ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

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de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

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Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: . não tem nada a ver com a nossa vida.. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira.. o queixo escorado no dorso da mão. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe. ... certo. Por um momento. Aliás. Jules? – insistiu.Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa..Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. contendo a raiva crescente. a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e. com um nó na garganta. de Geneviève e de si mesma. debochando. Era incrível.Eventualmente. os maxilares trincados. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes. Preferiu manter-se calada. . observando-a impassível. Em seguida. Ela sabe sobre sua existência. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”. . seria um riso amargo. Geneviève jamais foi ao chalé comigo. A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes. . Ignorando a pergunta. a única. parira e criara. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá. Amanda. porque é prima do exproprietário.O tal refúgio era para os encontros com ela.Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse. então. –declarou com raiva. Essa sua calma irritava-a e muito. . . Jules não se abalava. besteira! – completou com ironia.. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra. como? – interrompeu-o com ferocidade. Ah.. – disse pacientemente: . pensou. as normais. pensou ela quase bufando.. -Você é amante dela. Jules sorriu.Non.Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado. – Está tudo explicado? . mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava. se risse. parecessem sempre histéricas. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite. Inacreditável!. ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. era tão antiquada. E ela aceitou as regras pacificamente.Isso não lhe diz respeito.Oui. completou de forma casual: . . As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras.Encontrávamo-nos eventualmente. eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento. estreitando os olhos. No entanto. –Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável. antes que eu me esqueça. . raiva de Jules.Não éramos amantes. permanecia sentado. o diabinho que a concebera. gerara.Bien.Onde vocês se encontravam? 73 . –afirmou sem se alterar. a especial.

Cogitara inclusive matricular-se num curso de português.Na casa dela.. preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais. os maxilares contraídos. parado.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne. sem a mínima curiosidade. Rochelle e agora Geneviève entre ambos. Quantos encontros. -Não gosto de mim assim. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos.. Escrito em português parecia mais significativo ainda. sabe sobre nós... insegura..Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra. Sempre haveria Jacques. Amanda tivera que fazer o cancelamento. É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual. – justificou-se chateada consigo mesma. abriu a bolsa. à espera.sexuais? – elevou a voz. doente de ciúme. Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda. –respondeu sem hesitar. eu ou você? . Suspirou resignado. após um longo silêncio. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève.. estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa. enfraquecida. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. Olhou ao redor. agora. tocando-lhe o queixo. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 . mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos.Não sou casada. . correu até o quarto. paranoica. Eu não sou assim.Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. que a olhava com seriedade. . –fulminou-a duramente. – comentou com maldade. – Que tal? Quem é mais promíscuo. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português. devagar. completou: . Obviamente. Ele tinha razão. de frente para ela. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. medrosa e insuportável. Preferia a época em que aquele homem à sua frente. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista. ma chérie. pardon. Só procure sentir certo. À época. Ele tencionava vestir-se e partir. mas. e não vejo mal algum. -Um homem tem suas necessidades.. Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua. – disse secamente. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. -Oui. – em seguida. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar. O melhor a fazer era deixá-lo partir. -Você é o que você sente. -Quantas vezes. . por fim. deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa.Obsessão em Paris Veronique Gris .. Ela. – disse com desprezo. mas algo em sua postura.. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar.suspirou profundamente. – falou.. pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. – concluiu em tom de censura. -Interessante.Essa é fácil responder.

antecipando o próximo gesto. .Como um dedicado cão de guarda. por cima do pijama. e olhou-a com a sobrancelha alçada. Tocou-a entre as pernas. ainda impregnado nela. soltou-os todos. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino. em seguida. – comentou balançando o cartão como se fosse um leque. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela. e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo. ele frisara. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: . encaminhandose para o quarto. acolhedor. –olhou-a com desejo. Entre suas pernas. – afirmou sem se alterar. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. Logo. No caminho. duro feito pedra. depois. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. automaticamente erguia o quadril do colchão. molhando-o com a saliva morna. –sorrindo maliciosamente. envolvente. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 . num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira..Você realmente aprecia a cultura brasileira.Bien. deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. Desejava-o com brutalidade. chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. lentamente.Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata. Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . Amanda sussurrou-lhe o nome. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. louco de desejo.Estou viciado em você. emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: . enquanto abria os botões da camisa do pijama. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. devagar. com a mesma presteza e insistência sensual. Queria-o entrando nela. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. O clitóris pulsava quente. trêmula. com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. Agressivamente másculo e. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. encharcado do seu sumo. bagunçando-lhe o cabelo. A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . objetivamente. Abriu-lhe a camisa e.. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. a língua brincando com ele. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. na volta suave. Num dado instante. Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço. mas parou antes de tocá-la. A pele vibrava e arrepiava-se. terno e sensual. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. pulsava um coração de carne. Falou sem sorrir. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. Tocou no tecido de algodão do forro. ao mesmo tempo. Desceu para a parte inferior do seio. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. Amanda arquejava. como boa parte dos franceses o possuía. que foram explorados pelos dele.

. Ela o abraçou para fundir-se nele. você é uma fêmea insaciável.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria.. completamente entregue a ele. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade.E era a loira quem gritava. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la. recebia Jules. friccionando-o. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la.quero ver seu rosto. aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se. enterrou-se dentro dela. golpeada pelas estocadas firmes. Ouviu-lhe gemer. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. a boca. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos. todo ele. Levantou os braços para trás na cama. irresistivelmente cheirosa. que explodia em mil fogos. no lóbulo da orelha. trincava maxilares. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. Num movimento ágil.. Deus!. mon amour. – gemeu. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado. lindo enfiado nela. non? –disse. – pediu com a voz muito baixa. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. as mãos. expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico.. com os joelhos fincados no colchão. arreganhava as coxas. Louca de prazer. suando por cada poro. sempre analítico. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris. Perdeu-se no devaneio. . mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas.olha para mim. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta.. com fome.. torturando-o.. – Seria capaz de literalmente comê-lo. sempre racional. 76 . monsieur.. em estocadas fundas e fortes. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas.. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. ele era lindo gozando. – gemeu respirando forte. era um macho alfa entre as suas pernas.Abra as pernas para mim. – Como pode ser tão linda. era bom em tudo o que fazia. rouco. o pau. – Está encharcada. -Deixe-me vê-la gozar.. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. Antes que ela gozasse. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. . enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela.Misteriosamente. via. Ele fitou-a com um sorriso de aprovação. e na sua voz traduzia-se desespero sexual... estrategicamente parou. -Oui. pau duro e pronto para agir. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. arfando. Ele não gozaria antes dela. enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais. os fios de cabelo grudados na testa. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules.em Geneviève. Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento. estava no seu limite. as têmporas latejando. o rosto todo brilhando numa camada fina de suor.. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério. puxando-lhe o queixo para si. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. – Jules pediu. no alto da montanha ígnea. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas.. era o seu terreno. agora. fundo. Constatou com apenas um leve toque na calça social. num minuto. e.. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. delirava a sua mente ciumenta.. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. – ronronou. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação. não era mais ela que o tocava.. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda.Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm.

de costas para ela. non. continuou no mesmo tom: . o sexo. no seu caso. empurrou até o fundo o pau dentro dela. Com a expressão impassível.. Com Geneviève eu usava preservativo e com você. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. continue. tenho quase 40. a fim de evitar o olhar hostil dela e. abraçava. gozou estremecendo o corpo. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. –mandou. que colada ao seu quadril. virou- 77 . Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. talvez fosse o único vinculo entre eles. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme.. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. balançando-a com displicência. . Mas não naquele momento.gritou exasperada. e era beijado por ela. com dedicação. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. porque gosto muito de foder. excitava-a por demais. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. fingindo não entender o tom raivoso dela. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. Amanda. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. -Termine o que começou! . muito ciúme. com violência. -Abra os olhos. -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada. de reprodução. ma belle. -O seu objeto sexual não foi saciado. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. você é muito boa e a cada dia está se superando. Deitou-se totalmente sobre ela. o que foi? -Não pare. pouco me importo se engravidá-la. tentando fugir daqueles olhos inquisidores. Agora. – antes de sair. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. arrancando um gemido de dor de Amanda. – disse baixo num tom ríspido. Jules parou por um momento. irônico. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. Jules ignorou-a e.Vamos. -Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. Jules riu. – afirmou jovialmente. com velada dedicação. Amanda. a cabeça virada para outro lado. encaixado nela. hoje é um dia normal de trabalho. Amanda sentiu uma dor aguda. -Não gozou porque não quis. avaliando a situação. De minha parte.Uma precaução anticonceptiva. Se ela só lhe servia como objeto sexual e. então que fizesse o serviço completo. após três ou quatro arremetidas selvagens. -Está distante. pelo visto. só penso que um dia terei de ser pai. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras. Ao passo que. sinto-me muito bem. levante-se e vamos comer. com a gravata na ponta do dedo. e já buscando as demais peças de roupa. tocado.

não tem amigos. não farei mais sexo com você. .Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis. O conhecimento que tinha a respeito de queijos. sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. Precisamos encurtar distâncias.Quero dormir todas as noites com você. Jules. É cansativo para nós dois. Que mistério. Amanda.Não estamos juntos de fato. Dizem que os parisienses são os melhores. e sim trabalhando. a bem da verdade. Se gostou do Brie de Melun prove esse então. Sou seu amigo. No Le Petit Cler.Eu sei.Não seja boba. vento rascante e neve fraca. consistências diferentes. – reclamou e seguiu sem se alterar. se vista e me siga. A manhã avançava. Um conhecimento empírico. Admirava a voracidade do apetite de Jules. e não dar 78 . mademoiselle. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor. Que homem. –completou com um sorriso ambíguo. eu diria. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez. Jules estava estranhamente bem humorado.E com os homens.Estou falando sério. porém incisiva. agora. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. o seu melhor amigo. Amanda degustava seu primeiro café do dia. non? Livre-se dessa expressão de ofendida. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se.Realistas. Rossi. eu já teria me consumido de estresse. . . Como era possível isso? Normalmente.sorriu misteriosamente: . – tentou argumentar. vinho e baguetes. Mas não Jules Brienne.comprar queijos. – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca.Temos de resolver a sua questão de moradia. com características diferentes. sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais. o semblante circunspecto e concentrado nela: .Você precisa ser apresentada aos queijos franceses. fitando a calça do pijama arriada até os joelhos.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado. Jules. -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. charmoso e gentil. pensou. -Temos de fazer o programa típico francês.Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. – declarou com um sorriso. Esta rua tem os melhores queijos do mundo. Quem brincava com fogo acabava se queimando. . provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. nos vermos algumas noites por semana. . então. Nós dois não queremos que isso aconteça. ele apreciava tal arriscado tempero. Amanda. os homens surtavam com mulheres ciumentas. -Entendo. Não havia mais vestígio algum da discussão anterior. mulher. É diferente. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:. . Podemos. também quero cuidar de você e até onde sei. . – disse com um sorriso leve. É o que tem a fazer. Cada região produz o seu. não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico.Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim. Agora. . mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: . da Rue Cler.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:. .

-Está pondo-me contra a parede. a decoração. . -Ela já está resolvida. nunca dá. . e eu me sinto muito mal morando lá. Por que está fazendo essa cara? . . observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas. mesmo que seja igual a da família Adams.Morar com você? – interrompeu-o assustada.. só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. .. ligeiramente exasperado. -Não. Non. não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle.Não dificulte as coisas. você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade.? Logo estaremos fartos um do outro. Podíamos viver sob o mesmo teto. -Sente-se. – Além do mais. . distante da empresa e da minha casa e. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. não precisa listá-las. – falou firme.Sente-se e me escute. Por isso. merci.Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama..Vida de puta de luxo.É uma solução prática.. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle. Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida. – enfatizou nervosa. Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. s'il vous plaît.Sei das minhas obrigações.Que por sinal é minúsculo. –exasperou-se. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo.. e não numa espelunca três por quatro. -Para mim. . oui? – disse fechando a cara: . o imóvel. – respondeu devagar.Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão.É muito cedo.. em sua mesa. – espicaçou-o sem elevar a voz. se você quiser. eu ainda não acabei. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe.O dinheiro é meu. controlador e vai acabar me sufocando. Jules. . acabou.. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós.Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos. Você escolhe tudo.alçou a sobrancelha. não sou apenas a sua assistente. Jules. . eu gasto e você assina os cheques.Controle-se. – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. – irritou-se. nada mais.. . só estou expondo a minha opinião e. Jules. Eu não gosto disso – disse duramente. – ordenou baixinho. Isso jamais acontecerá.. . -Fale por você.. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa. Afinal. E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento. 79 . quero um lugar nosso. . . Amanda. úmido. . Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu.Não vai dar certo.. Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda. – disse calmamente. – pediu com gentileza. mas foi pega pelo pulso.. Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente.E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos. é verdade.. nesse momento. É horrível aquele casarão. – disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro.. – constatou secamente. -Tem razão. ainda por cima. – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. e sente-se. Ameaçou afastar-se da mesa. Você é dominador.

tornara-se a sua amante. Uma sugestão aos roteiristas de cinema. vamos tentar do meu jeito por. a amante de um homem que não falava em amor. Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional. Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules.Caso as coisas se tornem complicadas. Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda. E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito. O dia será longo. será recebida por uma excelente equipe médica. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. era o suficiente que se encontrassem 80 . – enfatizou. Tudo de uma vez só. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:. . os lábios contritos. mademoiselle.Proponho-lhe uma experiência. . –declarou.Veja bem. que. No meio disso tudo. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa. no escritório. discretamente. um lugar para morar e você. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque. digo por medo de me machucar. sério. pelo menos. seis meses. vamos trabalhar. que. -Não quero ficar entre vocês dois. –Agora.E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego. eu sei. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio.concluiu com um trejeito nos lábios. ainda não entendi qual seja. pedindo-lhe a conta. –Tenho que arranjar uma solução. retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. Jules abriu a carteira. qualquer outra coisa está fora do meu alcance. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia.Se Rochelle sair do estado vegetativo. Um pragmatismo de doer os ossos. – afirmou com segurança. Fez novamente um sinal ao garçom.Devia provar o croissant daqui. – encarou-a com firmeza. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: . Ela meneou a cabeça em negativo. Pode soar como algo feminista. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher. -Sei o que faço. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde. diárias. Na primeira semana de procura. tentamos do seu jeito. . No início. e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara. Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas.Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. Virou-se para Amanda e completou calmamente: . Perceba a situação em que você me coloca. .Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . sinceramente. Não tenho mais o que fazer por ela. Observou Jules sorver o café sem açúcar.

ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga. após Amanda aspirá-las com ar sonhador. – empolgou-se o corretor. mesmo trabalhando juntos. . com uma etiqueta com seus sobrenomes. Falava rápido. no mesmo arrondissement. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. decidindo. de modo seco e brusco. E vê-lo e falar com ele em sua sala. afirmando. Amanda estranhara o fato logo que chegara.O dono da ideia. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. Na maior parte dos prédios. um desenho. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. de uma calvície melancólica e lunar.Graças a Le Corbusier. observava cada detalhe do loft. Entraram por um corredor comprido cujas paredes. branco quase brilhava sobre o pescoço curto. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio. dialogar profissionalmente com ele. francês. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando. monsieur. um quadro. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala. menos numeração. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar. Além de dois vasos com plantas verdes que. sem janelas. no elevador. o registro dos diversos ocupantes do imóvel.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França. Jules avisou-lhe que eram de plástico. 81 . .Pardon. Na porta dos apartamentos. ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules. – afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias.. . . sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. dormir com ele.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito. . Ao que Jules comentou de forma casual. ainda. Mas a situação tomou outro rumo. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. continham as caixas de correspondência de cada morador. uma indicação peculiar. enroscado pernas nas pernas. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si. todas as manhãs. Ambos tinham consciência de que. falando. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. parada e estupefata. calçados num italiano com cadarços atados num lacinho. hipnotizada pelo ambiente. em Montparnasse. pequenos.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. o braço possessivo sobre a sua cintura. na cobertura do prédio. Os apartamentos não eram numerados como no Brasil. que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. Monsieur Ferrer era calvo. um arquiteto daqui. O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO. O crânio redondo. analisando e. nos restaurantes ou na sala de reuniões. – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. no corredor.. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. acrescidas de um sorriso significativo.

Como agradecer um presente como aquele? . . . constantes. não naquele momento.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente.. o primeiro deles referia-se aos telefonemas. . um balanço. acenderam-se. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista. ça va?. sorrindo. que se restringiam a três palavras: Amanda. Mas era o executivo workaholic que raramente sorria. denunciando a sua criança interior. quem gargalhou com jovialidade. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques. não deles. era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa. Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. oui. ela pensou.Adorável! – murmurou quase batendo palmas. Em princípio. fazendo careta. E ela desligava o celular. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível.Seremos felizes aqui. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. A pressa era do outro. enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar. cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. No entanto. . Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: . Isso ela lembrava por dois motivos. Na verdade.. ela teve certeza de que desejava morar ali. pensou. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. tremendo. Com a maior naturalidade do mundo.Merci Beaucoup.. ela pulou no mesmo lugar. captando o grau de seu contentamento. prateleiras de madeira com mudas de temperos.U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 . como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta. – declarou-lhe em tom de brincadeira. criando uma atmosfera lúdica e romântica. Quando chegaram ao terraço. E foi exatamente neste momento. Sem conter a alegria. só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte.. que ela conseguiu pronunciar. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. e Amanda podia ler em sua mente: oui. admirando a sala dividida em três ambientes. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes. – previu. desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques.

Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. Entretanto. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Era mais alta e mais magra que o marido. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. Ele.Já faz algum tempo que não nos visita. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . Não usava joias. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: .Melhor impossível. não combinavam. altura mediana. e era importante manter a estabilidade dos dias. a beleza máscula da França. preservando elementos herdados de gerações passadas. Ela. e tampouco ostentava outro acessório. distribuída em peças raras e móveis antigos. Óculos de armação moderna. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. naquele momento. decorado de forma austera. por sua vez. Advogado por profissão e paixão. monsieur? . Nariz fino. que aparentava sessenta e poucos anos. baixa. atarracado. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. Jules jantara com o amigo de longa data. Gerard. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. relacionava-se ao jantar. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:. com os Roche. maior que muitas quitinetes de Paris. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. lado ao lado. À porta. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. Morava com Jules. atendera diversas vezes os telefonemas de François. Apesar de solene. charmoso. apostava todas as fichas no intelecto.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. Na mão. Em seguida. Tinha para si que. qualquer museu). Juntos. Amanda recebeu um olhar significativo. ainda. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. Crepitava lenha na lareira imponente. deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar. meu caro – respondeu jovialmente. cabelo claro cor de trigo. em Montparnasse. Havia nele algo de nostálgico. Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques.Imagino que estejam na biblioteca. Assim. sorriso acolhedor. ligeiramente arrebitado. sagacidade no olhar. túnica e saia beges. Como está. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. uma espécie de mentor da SBO. Ao passo que François. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. um cálice com vinho tinto. Fumava demais. praticamente um irmão mais velho emprestado. numa das noites mais frias do ano. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam. Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. de forma genérica. monsieur. No dia seguinte. Agora. -Oui. na época.

: . para eles. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. –agradeceu-lhe. Sei que parece idiotice essa coisa de crise. Amanda considerou. – falou com ar de falsa inocência. Após os devidos cumprimentos e apresentações. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. debochando.Sei que trabalha muito. mas. foi a última. mon cheri ami. ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”. o executivo.Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental.uma relíquia arrecadada num leilão.Touleause está preocupado.Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros. -Na verdade. A ideia é que preparando sua sobremesa predileta. . -Afirmou.era duro e desconfortável. mas ele insinuou que você parece outro. François começara a SBO com Jules e. dando importância ao fato.-comentou sem jeito.Claro. não tinha paisagens. exibiam os cursos realizados pelos Roche e. mademoiselle Rossi.A parte do programa que citava Jules foi a melhor. – declarou François entre uma tragada e outra do charuto. -fez um muxoxo. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa. O mordomo. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. ele queria que eu o aconselhasse.confirmou Sonia sem sorrir. . Amanda aproveitou para observar os quadros na parede. sério. ironicamente. . ressoou no ambiente.Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria. . Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 . acomodou-se François e. diplomas enquadrados por molduras grossas. ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite. – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. – enfatizou. tragou novamente o charuto e falou devagar:. entregando-lhe um cálice de vinho. venha nos visitar com mais frequência. a verdadeira arte. mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos.E sou. após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda. pensou Amanda. Mas não devia tê-lo o feito. com as pernas cruzadas displicentemente.. conforme informação veiculada pelo próprio François . -Percebi a manobra tendenciosa. arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa.Por que não nos ajuda. Na cadeira à sua frente. Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro . – disse François com seriedade. todos o somos. fiquei interessado em conhecê-la.Claro. Jules. na sua figura alta e sóbria. O legítimo bonitinho mas ordinário. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando.Mandou fazer o que pedi. fora o vice-presidente. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica. – comentou François. atravessou a sala. voltando-se para Amanda. Depois. Revestindo boa parte da alvenaria antiga. O homem está se sentindo um tanto incomodado.Veio chorar no seu ombro? –perguntou. durante algum tempo. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse. Ao lado dele. monsieur Roche. sorrindo tranquilamente. mudou de assunto e disse de forma afetada:. . completou com delicadeza: . -depois. figuras humanas ou monumentos históricos. Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento. . . cada dia nos renovamos. sinceramente.. . – completou o próprio. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. -Merci. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX.

Armada e decidida. -Como vai. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL. concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle. outrossim. mademoiselle. como empresa e não pessoas. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. resumindo.. . como todas as noites? Rossi. 85 . e sim um vestido de seda. não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém. Mas queria. – comentou como quem não quer nada. Mas não foi Raj quem apareceu à porta..? –interrompeu-se. nada melhor que sua cópia. cantava tangos. curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO. alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota. afetuoso. Jules era casado com a “nossa” Rochelle e.Rossi. pergunto-me. caso ela tivesse de ser substituída. endereçou um olhar em direção a Jules. Por que não se divertir. Quais critérios ele deve ter utilizado. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. confusa. Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: . Automaticamente. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou. Na vez de Jules. nos últimos sete anos. Uma mulher com uma missão. na última seleção. James Bond. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. Amanda Rossi. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond. Porém. a “nossa” Geneviève.. Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la. À sua presença. descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas.. François cumprimentou-a com outro abraço. sem sorrir. os homens levantaram-se educadamente. Afinal. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules.. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se.. já que fora eu quem o convencera a ter uma... brilhante aluno da Sorbonne. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. Insistia. Amanda Rossi. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha.. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa.. Sorrindo e completamente à vontade.ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia. enfatizou.Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha. Amanda pôde comprovar. Sonia cantara a pedra.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules. perolado. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios. . Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia.

. Do outro lado da mesa. Sonia. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. E ela sentia-se perdida e deslocada.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. agora. enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. agora. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. Exótico. Numa tigela de cerâmica. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau. . fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. canela e uvas passas. não sentia mais nem lábios nem língua. Na verdade. por nada em especial. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência. sozinha. de frente para Geneviève. . a decadência do Botox. Após quatro cálices de vinho. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida. . Foi então que começaram os primeiros tremores. mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas.na Índia. com louro. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . agendas. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. Um interesse excessivo. Algo o incomodava. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. comprada na China.. 86 . Amanda observou. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente. non. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. possuía ares de desconfiança. e a plateia composta por apenas um homem. Após exclamações discretas de satisfação. os babuínos que atacaram um vilarejo. dos alimentos transgênicos. reuniões e horários restritos. Vez por outra. Fran! Amèlie é sensacional. emergindo de dentro das veias.Oh. quente e adocicado. E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. chamava-se Moglai Biriani . que antes tendia ao enfado. Raj retornou à cozinha. torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. lembrando pimenta e nozes. sabia? – informou François com um sorriso. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. as pálpebras pesadas. Seria ótimo tê-la conosco.Estudei na Suíça com ela. erguendo-se da tumba. – falou Geneviève com entusiasmo. segundo informação importantíssima de François. a iguaria indiana. o delas.Como lhe falei aquele dia. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. Ao seu lado. a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. o seu trabalho como psicóloga é fantástico. emprestadas da Marie Claire francesa. Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. Sombras no olhar sério e profundo. Dois mundos e o vácuo. Atrizes no palco. Um cheiro fantástico. que sorte.no garfo e levava-os à boca. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio. concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito. Seria tão bonito! -Très bien. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. Meio eufóricas e um tanto sôfregas. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários.

na prisão. -É verdade. porém. o do tipo simulado.. sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. cortando a carne no próprio prato. Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar. encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo. parecia não lhe notar a presença. apesar de estar sentado ao seu lado. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. . mas. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores. incomodada pela indagação rascante do homem que. A moça mexeu-se na cadeira. . talvez não mais as que agridem no momento. -Nossa função é somente para com a mulher.Na galeria do meu pai. sem olhá-la. Sonia interveio em favor da amiga. –comentou Sonia saboreando o creme de manga. voltou-se para Amanda com vivacidade: . . François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO.Tem de ser mulher? –indagou François. adiante.Falo trabalho de verdade. além de protecionista.Sua ajuda também seria fantástica.. jurídico. Geneviève encarou-a com ferocidade. em seguida. eles têm de procurar ajuda noutro lugar.Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si. solícito. eles tornarão a agredir as mulheres.Existe trabalho de mentira. sejam psicológicos ou econômicos. aquele que se faz sem saber o porquê. –retrucou Geneviève que.Todos no centro social trabalham. por exemplo.Oui. Jules? .Tínhamos uma secretária.Eu trabalho. agora. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo. Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . Jules. de preferência. mas ela está em licença maternidade. poderia pô-los em ordem.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura.Obsessão em Paris Veronique Gris . – declarou quase que didaticamente. . Caso queira auxiliar-nos. como. Geneviève.Claro que não. . rebateu num tom acusatório: . talvez. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro. olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: . -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto. mon ami. me parece que se não são tratados os problemas dos homens. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem. Foi como um raio que partiu a mesa em dois. Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e. François riu. Esqueceu-se? – tentou sorrir. Fora politicamente incorreta. machista. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: . O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras. subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas.

Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. são mutiladas. Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. François. mortas! – quase gritou. Ali. lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto. Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair. Inconscientemente.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . porque. melhorarão a sociedade.Retrocesso. – ordenou. Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas. mas sabia que seria confrontada. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. Ele a fitava com seriedade. o centro. . Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . ao sair de casa. -Isso. esse jantar. As palavras saíam-lhe com dificuldade. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la. humilhadas. naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos. Sonia.E com razão. As coisas não são simples assim.Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas.Frutos de famílias disfuncionais. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma. Porque o seu mundo não era aquele. ah. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. talvez. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. essa palhaçada. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo. . -Esse assunto mexe muito com Geneviève. .Que noite improdutiva. Ei. Amanda sentia um mal-estar danado. isso é que elas significam: retrocesso. só acredito que existam mais vítimas nesta história. – acusou Geneviève quase possessa. os lábios apertados marcando os maxilares. algumas de nós sofrem. Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa. jamais imaginara que entraria numa arena. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. Amanda. Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto. François foi pego de surpresa e também se levantou. Queria mesmo era sumir. ela sentia-se mal e acuada. ela mesma tinha sido vítima de um agressor.acrescentou Sonia protegendo a amiga: . . o equilíbrio. -Geneviève tem razão. Contudo. Estava prestes a explodir. assassinos de mulheres e crianças. Vamos para casa. –disse Sonia. -O que foi? O executivo contornou a mesa. assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores. –completou François. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. Fran. não.São simples e verdadeiras. Estava sem munição e longe de casa. Amanda. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. . -Não sou machista. ainda somos um pouco machistas. – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. – tentou ponderar. Não havia nada de machista na sua ideia. ela observou. à mesa.

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- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

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alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
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-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

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Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. -Ah..você e sua prepotência. mínimos. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. -Todos nós temos os nossos coringas. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. -Então facilitarei para você a situação... E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela.E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro. você fala? – retribuiu a brincadeira. -Se for interessante apenas para mim. os seis meses de teste.. aquilo que me propôs no Café. – É interessante para mim que você saiba? – brincou.era um acordo. tornando-a uma coadjuvante no relacionamento.. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. . . indagando com olhos sérios e perscrutativos: . -Se é um jogo. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. –disse-lhe num tom sério.. Agora. sempre foi assim.. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si.. Moravam juntos. O que mais a preocupa. então? – indagou desconfiada.Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas. Minha opinião nem foi cogitada. diminuindo o volume da televisão através do controle. já que não é da minha natureza cometer injustiças. braços que a esmagavam contra o sofá. – afirmou convicto. não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia. -Sempre que posso. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura. – disse sem rodeios. – murmurou sem desviar-lhe o olhar. inundando a sala de uma tênue claridade. 92 .. – disse emburrada. -Foi uma sugestão apenas..Caso não dê certo entre nós. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização. Este apartamento é seu. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas. não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois. -Vai pro diabo. – pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si. -Humm. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções. As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules. virando o rosto para encontrar o dele. -Claro. -Queria saber uma coisa. – começou. – comentou no mesmo tom. . E todas elas foram decididas somente por ele.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. Viviam juntos.Não costumo dividir decisões. Ela tentou levantar-se do sofá. -murmurou. -Você é movido por combinações e acordos. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. você deve ter outro plano guardado na manga. –reclamou irritada. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado.. Quanto ao emprego..além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. você sabe. porque me sinto em desvantagem. não? – refletiu em voz alta.

Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos. quando automóveis. Estava quentinha debaixo do edredom. uma tortura que impingia a si mesma por prazer. Sentou-se com as pernas abertas. não era nada simples. Não. Com a ponta da língua. Dava a noite e a conversa por encerradas. – sussurrou resignada. E se devesse. sim... Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos.. Importa-me saber é porque estamos juntos. Deslizou a língua para o queixo másculo. delicadamente. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. ela pensou. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. A neve encobria o telhado de vidro. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas. Encarou-a intrigado. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. após passar a noite acordado. Um braço masculino ao redor de sua cintura. Mas não lhe bastou. Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte.Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota. da nossa relação. ali. desejando ainda mais. em seguida. sentindo a aspereza dos pontos da barba. com um homem lindo e dormindo inocentemente. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais. E os seus sonhos idiotas de amor. do sexo oposto. -Que seja. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. Num impulso. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. Poderia fazer o que quisesse. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. obstruindo a passagem da claridade do dia. aceitando-lhe a mão. eram sete horas.já saberia de antemão a resposta. na cama. beijou-lhe levemente na boca. Esfregou os olhos e bocejou. mal lhe tocando a pele. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa. Simples. Afastou-se o suficiente para constatar que. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. O despertador tocou. então não sabia nada sobre ela. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior. sem tocá-lo. assim. prazer de desejar e prolongar o desejo. Uma mulher das cavernas. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. E ela. -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso. um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. talvez a predadora da tribo. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. Mordeu-lhe o lábio inferior. da rudeza sofisticada de sua espécie.. ele sucumbira a um sono profundo. ela constatou todas as vezes que o fez. desenhou o contorno do seu lábio inferior. Ele levantou-se do sofá. Amanda pensou. Ficou por sobre ele.

ergueulhe a coxa e a penetrou novamente.sem deixar de observar suas reações. era pressionada contra o colchão. Ela tentou mexerse. sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. a outra. E parou. 94 . Estendendo a mão para trás. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo. ele brincava. Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. Ela parou. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. pelo corpo inteiro de Jules. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. dona da situação. Alguns minutos depois. De repente. Ele esquadrinhou-lhe a face e. livre. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. amenizou a força de sua mão e . Poderiam. e ele gemeu. teve as pernas presas entre as dele e os braços. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. abriu os olhos. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. pensou com luxúria. penetrou-a fundo. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando. no próprio sono. desceu para entre as pernas dela e. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. a boca contra a nuca de Amanda. sentisse a pressão. habilmente. ao longo de toda a extensão do seu peito. com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. conteve a risada. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. quase imóvel. cedeu a pressão sobre ela que . Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios. contraiu-se.percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. Nesse instante. como um guepardo divertindo-se com a presa. Antes que ela se recompusesse. ainda sentia a força dele dentro de si. num vaivém lânguido. agora. Ali. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar. o nariz enfiado em seu cabelo. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos. como se estivesse sonhando ou. com a outra. -Agora. seguidas vezes. mentalmente. seduzido de forma passiva. inclinou-se sobre o seu tórax. como era bom ser uma fêmea alfa. agarrou-a. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. Voltou à carga. Com apenas uma mão. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente. com estocadas profundas e rápidas. intrigada. abraçando-a com violência. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. Sentia-se poderosa. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. observando a expressão do rosto dele. ao seu lado. Uma legitima fêmea alfa. – disse-lhe simulando seriedade. terei de puni-la severamente. voltava ao comando. E ela. acima da cabeça e. ele a derrubou contra a cama. assim. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. Num gesto rápido e inesperado. mexendo apenas o quadril. agora. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. divertida.. ela segurou-o com força. após uma rápida avaliação. havia uma barreira e tanto. mantendo o ar nos pulmões. devagar. Deliciou-se com a ideia. Surpresa. até vê-la entreabrir os lábios e gritar. Mais uma vez. Como ela não era uma mulher má.. baixou um pouco o cós da calça. Jules virou-a de costas. provocava e simulava desinteresse. Humm.. Jules mexeu-se. dominados por uma de suas mãos.. Em seguida. O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica. no entanto. virou a cabeça para outro lado. pegou o pênis e penetrou-a com força.

já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida.. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. numa atitude de quem diz: viu. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda. Ela só pôde assentir levemente. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. apesar de magro. em movimentos circulares. uma mesa de madeira rústica. Jules. plena.É bom. lia calmamente o jornal. Por mais que tentasse falar. de onde provinha? Escolheu um vestido justo. é bom. que foram apalpados e esmagados. O coração acelerado. por exemplo. sou eu quem manda aqui. uma energia. E entre em contato com monsieur Koskinen. mais do que isso. estava sempre faminto. 95 . – o poder. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. friccionando-o. deixando as roupas pelo chão. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. O cabelo molhado e os músculos tremendo. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. Jules abandonou-a sozinha na cama. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades. chupando-o. Respiração resfolegante. de lã. por certo. sol escaldante. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. pelos poros. brincando com o clitóris. Ele riu com vontade.. Despiu-se totalmente no quarto. mas plenamente satisfeita. com dedicação. Ele sabia reconhecer essa expressão. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. detendo-se nos seios. Ele tencionava. cáustica e aniquiladora. a de Jules. cheiroso e saudável. masturbando-a com a língua. pelo sexo. chumbo derretido. Gritou. e. ele sabia como deixá-la com essa expressão. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. pela garganta. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. debaixo do mezanino. essa. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. inundando de magma. sem salto. matá-la devagar. os bicos lambidos. desconfiado. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. ela compreendeu. Gemidos roucos. levantando-se depois de fazê-la gozar. jorrava-se de dentro dela. olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. Se era o corpo que fazia amor. E ele tocou-a ainda mais.Obsessão em Paris Veronique Gris . Relaxado. a respiração descontrolada. por um breve período. houve uma mudança nos planos. – provocou-a. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. A pele avermelhada. Optou por uma botinha de couro. Limpo. verde claro e de mangas compridas. Na sala. Morreu e voltou. novo em folha. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. Mas a natural. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas. enquanto fitava-a deitada e exausta.

ordenou: . o outro não ficaria à mercê dos táxis. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. Rossi. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou. pelo menos. voltando a ler o jornal. umas vinte manobras perigosas. queijos. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. . sério. geleias. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. sabia? –alfinetou-o. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade. – afirmou incisiva.. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . a lavagem de seu automóvel. fitou os pães. cismada. – determinou. pois. -Sei o que tenho de fazer. – constatou com menosprezo.em seguida. -Cuido sozinho disso tudo. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. então. pensativa. vê se come alguma coisa. – Sinceridade é algo legal..Se você estivesse gorda e eu concordasse. – Se é que ouviu alguma coisa. caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório. -listou exasperando-se. Ao fechar a porta do automóvel. Agora. -Se fui demitida.. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi. estava tudo antecipadamente decidido. – afirmou. Repassarei suas antigas funções às secretárias. Sentou-se na cadeira em frente a Jules.. é diplomático demais. Aguardou Jules em frente ao elevador. antes que ela reclamasse. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil. agora. Ela sorriu e acionou o alarme. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas.Não disse isso. Sim. das anotações nas reuniões. estou quase vendo suas costelas. monsieur Brienne.. -Non. das.. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. -Você jamais diria que estou gorda. o Citroën estacionou ao lado. – defendeu-se.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei. -Já lhe disse em casa. -Certo. – disse e. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. da compra de seus sapatos italianos. e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa. Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. 96 . Ligue para Dorian.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada. O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. mademoiselle. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas. para variar. pertencem a Dorian e Assíria. croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes.

evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. chefes de departamento. Mas. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. Voltou-se para Dorian. Assíria olhava de uma para outra. agora. foi até a outra porta.Eu? – indagou-lhe confusa. Mesmo por que Paris não era a SBO. essa verdade era inegável. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. À época. decididas em cima da hora pela presidência. Sim. lidando com diretores. monsieur. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. No entanto. – retorquiu sem rodeios. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados. assistentes. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. E agora. interessava-se particularmente pela área de produção. em seguida. e pediu que a acompanhasse até a sua sala. ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível. -É.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. Algumas peças se juntavam. Fechou a porta atrás de si. Entretanto. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. tendo sido demitida no café da manhã. produzido na fábrica de Lyon. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. a que dividia o seu escritório do de Jules. Se estava preparada?. Após retirar o paletó. secretárias e o pessoal terceirizado. desde quando vivia em Porto Alegre. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. de uma forma tão charmosa. as emergenciais. -Certo. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. Aprendia-se muito com os workaholics. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. concatenando todos os setores organizacionais. Saíram do elevador. Antes de segui-lo. franziu o cenho. Assim. 97 . estava. Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. como um quebra-cabeça. pedaços de conversas. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. quero dizer. Cinco anos de intenso treinamento. . havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. você. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. Conhecia todos os meandros administrativos. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. procurando por respostas no carpete. No início do ano. Ao vê-la fechando a porta.

– Acho que irá transferir-me para alguma chefia.. – disse tentando sorrir. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação. oui. literalmente. sei lá. –afirmou sorrindo sem jeito. não é mesmo? – alfinetou-a. indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. –comentou com ironia. -Será mesmo? Olha só. Se ele gostasse mesmo de você. ele não é o poderoso chefão. por sinal. -Que droga! Isso é tão estranho. Amanda não pôde evitar a risada.. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos. uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. ele me ama. interveio: -E. como sempre o fizeram. –Pelo menos. pensou. –Aprenda conosco. Depois lhe disse num fôlego só: . 98 . – tentou apaziguá-la. Amanda sentiu o sangue subir à face. –lamentavase Dorian. Monsieur Brienne cresceu. chèri. Dorian empalideceu. non? Virada para a janela. Mas você é ceguinha mesmo. Ou pior. -Você é cega? –desferiu-lhe. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. semana passada. non. -Não se preocupe. -Quantas forem necessárias. É. viajando. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e. merdè!. o cargo foi extinto. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel.. nervosamente. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira. mostrava você. diante da vista panorâmica de Paris.-olhou para os lados à procura de terra firme. Dorian. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo.Obsessão em Paris Veronique Gris outras. muito mais juntos.Fui demitida. -Oui. você passou dos limites.. Amanda.. –brincou.Além disso. non. Comentou com naturalidade: -Bem. a reunião. -E quem ficará no seu lugar? Ai. daria um jeito para ficarem pertinho.. Enquanto organizava a sala.. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. -Dorian.Monsieur Brienne é paciente. um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas.. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa.. -Não..As brigas. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas. claro.. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você. fica mais perto do refeitório... insubordinação. que... – alertou-a. já sei. –afirmou sem poupá-la.. E sem razão. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian. –Que aconteceu? Oh. agora. agora. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou. já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim. mostrando a língua para Amanda. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. –Mas. fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho. me põe no olho da rua.

Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta. Que adianta saber? Pouco me importa. logo que a secretária fora contratada. -Você gosta mesmo de artistas. -Cuidado.. Dorian. –murmurou. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. hã. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas. no máximo. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui. –constatou sorrindo. Os dois combinavam e. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez.. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. você está gorda. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. –soltou essa e teve vontade de sumir. haviam tido um breve e intenso romance. é. tudo. –deu de ombros. Será que ele não havia percebido o deslize?. então. é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele. Retomavam. que já estava com a mão na maçaneta. Dorian.. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou. -Agora. -Não estou para brincadeiras. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. –respondeu sem pensar. Amanda nem precisava fitá-la. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe.. estou noutra. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta. 99 . depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. -Oui. incompleto. monsieur. somente meus inimigos me chamam de Amanda. -Amanda. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. –interrompeu com malícia. nos arquivos do computador.-gaguejou. nervosa. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. -Bom. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração. -Pardon? – alçou a sobrancelha.. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. -No computador. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. à porta. impaciente. -Monsieur Brienne. Jules.. pensou.pois é. estavam juntos. aturdido. Depois. -Quê dizer?. -Misturou. O decorador passou a madrugada trabalhando. –reagiu. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia.. se ele for o Jacques. visivelmente encafifada. o que haviam deixado para trás. não. ignorando a outra. voltou-se. Com a caneta.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah.. -Apanhará feio de Filipe. da última vez. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário. -Tem inimigos. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha. circulava alguns números do mês anterior. –Jules fitou-a. – afirmou secamente.

ele. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. perdida. Não queria por agora. -Tudo bem. ao lado do presidente. que mal conseguia respirar: -Uau. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos). – disse sentindo-se vencida. Amanda verificou... vocês. Na extremidade esquerda. Três gerentes eram mulheres. porque engravidou. na direita. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas. constatou Amanda.. – debochou. Dorian. -Ei. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. o presidente. Porque ela estava mais gorda. nos respectivos notebooks. Conhecia. Outro padrão. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. -Não estou grávida.. Jules.. não participavam das reuniões com Jules e Touleause e. estou com pena de você. -concluiu afoitamente. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses.. isso eu trouxe de casa! –provocou-a. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada.. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual. Ternos discretos e aprumados. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. principalmente os gerentes. batendo a porta atrás de si. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro. estamos juntos. normalmente. cabelos domesticados e unhas curtíssimas. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. Não estava preparada para ser mãe. o chefe. havia cinco anos. Porque nem sempre usavam preservativos. –Bom.. Era fundamental que lhe desse toda atenção. Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. A atmosfera estava mais leve e agradável.. porque.. não faz esta carinha. portanto. -Ah. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias. –olhou ao redor. Dorian.. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. coitada.-antes de fechar a porta atrás de si. enfim. se está tudo certo. ele só falou isso porque. uma cadeira vazia. promovido a diretor. duas solteiras. um padrão. -Não. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador. não. trocavam informações que registravam. hein. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres.. Antes que Jules iniciasse a reunião. que. ele é terrível!. relaxados.Epa!. em seguida. o seu domínio. as duas solteiras. Duas mulheres eram diretoras. com isso. mas não gorda! Gorda é a Assíria. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. pois. esquentaram. Marion e Jordan. caso olhasse à sua esquerda. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. –Isso não é certo. -E ele a demitiu.Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu... 100 .

–baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista. 101 . ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . mademoiselle. – declarou impassível. ainda mais no campo da informática. continuou. de certa forma. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. que. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos.. analisando o tom sério na voz do presidente. Novamente. Fitou-o intrigada e constrangida. seduzido. Um efeito dominó. na SBO francesa. Era fácil e era bom. Eram iguais. agora. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. soa como uma falácia. modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. justamente por isso. ainda não terminei. solene: -Bien. brincou Jules sem sorrir. de baixo para cima. Tornou a sentar-se. a máxima que diz que time bom não se mexe. o melhor time e. em nossa empresa.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. devagar. a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos.. o que lhe parecia óbvio. para isso. umas sobre as outras. Expunha o discurso fitando cada um presente. com medo de fracassar ou medo de vencer. Temos. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. ainda mais satisfeitos. agora. os executivos riram. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. Em vinte minutos. A lealdade a Jules era recompensada. Jules era um só. messieurs e mesdames. Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que. O que queria. haverá sim mudanças. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado. em seguida. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. Inclinou-se ligeiramente para frente. Ao levantar-se para seguir o protocolo. o homem. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. na administração moderna. ainda mais desapontados. fazia. Quem se rebelava.Touleause não está mais entre nós. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. centralizador. A voz. entregar-se e se deixar envolver por ele. e as vagas abertas por tais diretores. -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção. Manipulado. autoconfiante e dominador.. Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo. Entretanto.. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha. Controlador.. apenas para Amanda: . mantida num tom brando e grave. sério. seriam preenchidas pelos gerentes. Jules. A primeira parte da reunião acabara. apenas há quase quatro meses. dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação. Uma personalidade complexa.Sente-se. não era esmagado e sim convencido.após as risadas. o semblante sério transmitia confiança. Rapidamente. Ainda sentado e organizando suas folhas. diretores seriam transferidos para outros países.

pessoa de estrita confiança sua.. Jordan. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio.. quase outra encarnação. então. Anos atrás. Dentro da cabeça de Amanda. teve uma vida pacata e lenta. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias. Naquele dia. Em pouco mais de dois meses.. tendo como companhia uma bolsa imensa. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e... a suspeita de que ela estivesse grávida.. Ao explodir. O sangue correndo forte nas têmporas. Era aceita por aquele time.. sentava-se na poltrona diante do homem que. aproveitaria a oportunidade. cinco anos depois. os discos do Queen. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência. seguido pelos demais na sala. Anunciou séria: -Vou buscar o café. Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia. como se os dias rastejassem-se desde a alvorada. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. sempre com um cigarro apagado entre os lábios. uma lâmpada ligou. Em Paris. bateu palmas. Duas semanas depois.. A transferência de Rochelle para uma clínica.. ponderava Amanda. que lhe desejou felicidades. e a lâmpada explodiu. nomeava-a vice-presidente.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. vivia intensa e profundamente. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França. impactadas diante de uma afirmação sem sentido. inteligente e siga a minha visão empresarial. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi. mas ela não era um gênio. Pessoas que calculavam e analisavam. sendo substituído por mademoiselle Rossi. Uma velocidade que a excitava e a apavorava. no aeroporto Salgado Filho. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. agora. Voltara do jantar em silêncio. – falou diretamente. com curiosidade. Até os seus 23 anos. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem. acompanhando o sorriso de Jules. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause. juntou dois e dois e. Planos ambiciosos. ligou uma coisa a outra. Um minuto de silêncio. Entretanto. para tanto era preciso destruir a antiga. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules. E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. mas. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. como se matutasse alguma coisa. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. Ergueu-se. permaneceu imóvel. haviam provocado a avalanche de mudanças. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado. Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. Antes de encerrar a reunião..Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 . Não conseguindo resolver a equação. vendera sua alma no mercado de pulgas. uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. Era uma outra vida. Faltava café na sala.

Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente. Um móvel de escritório. Enfrentaria mares bravios em busca de paz. profundo. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. e ela simplesmente o ignorara. No chalé. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos.Está no lugar errado. E a vice-presidência imposta. o prédio vizinho. olhava o prédio vizinho. ponderada entre ambos. Uma manobra engenhosa e tão boa. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. Porque lhe era conveniente ignorar. do amor louco. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la. E não era qualquer um. Tinha consciência. E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. A proposta para viverem junto e. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação... e sim o loft. Como fora a escolha do “presente”?.Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO. o mais detestado pelos franceses. esse 103 . Tudo girava como um caleidoscópio. E agora o fantoche do presidente. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência.. Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria. em cinquenta e oito andares mais o terraço. entretanto. Objeto sexual fora da empresa. Ele estava certo. absurdo que sentia por aquele francês. a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. escolhera os novos móveis do loft. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. Amanda. mais aos padrões do alto executivo.. durante um bom tempo. o prédio mais alto da França e.. acabara por ceder. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos. agora. forçado e impessoal. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador. como um homem das cavernas. mesmo tendo resistido. no máximo. A voz grave. com os braços cruzados numa atitude absorta. Ao longo de cinco anos. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida. . estilosa que revelava outra faceta da cidade. Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. seu sorriso era outro. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela. a nova VP. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. era fato concreto. Amanda percebeu depois. e não conversada. sua antiga sala como assistente-executiva. discutida. como lhe dissera Jacques. Amava-o como jamais amara alguém. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. inaugurada em 1972.. mesmo não tendo aceitado. com extensão ao loft. sempre venerara Jules Brienne. Era a parte moderna. Construída diretamente sobre o metrô.

–enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. entendi. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. entalhado na pedra. -Homme de glace – murmurou. -Ah. É assim que temos de pensar. Temia perdê-lo. puxar o braço. completou: -Entretanto. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . -Atingi o meu limite. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules.. logo. Temia perder-se para ele. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. e não por dormir com o presidente. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal.teste. non? Caso contrário. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. a torre de Montparnasse. nesses últimos quatro meses. Homem de gelo. –declarou com um sorriso debochado. Levei cinco anos para perceber isso. Tentou soltar-se.Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento. -Sempre fui bastante profissional. digamos. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. existe um divisor de águas aqui. Jules. -É verdade. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião. mas permeado de ironia e desafio. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros. –Quem está zangada. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente. pensou. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. fiz algo errado. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. Respirou fundo e procurou controlar-se. – enfatizou. a garganta bloqueada por um nó de tensão. o céu cinzento. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto. intrigado. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . mas. Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. pelo visto. inadequado. -Não sou apenas uma funcionária sua. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. Jules estreitou os olhos. principalmente no que se refere a minha vida. antes delas se levantarem do chão. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. –constatou por fim. Amanda? Decida-se. pois.. ora para o cabelo azeviche. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência.

–apontou-lhe o indicador. Doía vê-lo fitando-a com frieza. não era uma crise de ego. . Por um momento. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. sente-se usada? -Não. Por um minuto ou dois. -respondeu insegura. Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. Ela queria mais. nunca fui chefe de coisa alguma.. em seguida. non? Afinal. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. talvez a única. balançando-a para cima e para baixo. Lançou-lhe um sorriso fraco. Caso lhe fosse apenas a assistente. por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo. temeu soluçar. sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. – sugeriu. mas manipulada. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. –A minha parte que adora mentiras. sentindo o próprio queixo começar a tremer. houve uma troca entre ambos. de quê. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade. monsieur. foi justo. ainda está em busca de garantias. mas. agradece. machucando-a e obrigando-a a fitá-lo.afirmou secamente: -Por acaso. 105 . A voz falseava. Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. -Acho que sim. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele. sem vontade. Perdia o controle.. que inclui a sua ascensão profissional. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. Oui. impassível. aceitará a promoção. Ao que ele tornou a falar. -Seja mais objetiva. Cinco anos de cegueira absoluta. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. mon Dieu. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. -É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações. non. mademoiselle? – provocou. s'il vous plaît. Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. Apertava-lhe ainda mais o pulso. é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida.Oui. e não a mulher que o amava. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. Ele sorriu friamente. Jules? –indagou num fiapo de voz. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida. –parou. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. . – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. Entretanto. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. – Mas. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam. convenhamos. –desferiu num fôlego só. esperando uma reação dela. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. -Devo-lhe agradecer pela casa. -O que significo para você. esganiçava-se e perdia a força.

E como se isso não bastasse. –E por amá-lo dessa forma. –Vou para casa retirar minhas coisas. E como todo o rompimento afetivo. roupas. o modo como eu te amo é assustador. -Por que você não me ama. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. E eu a amava. indiferente. do amor não consumado. perscrutadora. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. Amanda. Surpreendeu- 106 . e para se manter qualquer que seja o relacionamento. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. O que me dá medo. há que se ter um equilíbrio entre as partes.. oui. –interrompeu-se esfregando as têmporas. Desde que entrei na sua sala. não tenho medo de trabalhar. E. – debochou sem mexer um músculo. entre os dois. –Oh. antes de conhecê-lo. doía demais. mas eu não sabia. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez. desejei que me escolhesse porque. agora.. da segurança e do homem que amava. Vivien. vou deixá-lo. aniquiladores. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. e tal gesto era por demais significativo. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. Proteção. -Atirei-me nele de olhos vendados. Eu te amo. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. Agora. então. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. além do mais. Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. non? Até o meu útero. retomando o controle das emoções. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo. preferindo os homens problemáticos e violentos. O que não me dá muitas vantagens.. a primeira mulher que o deixou na mão. a mãe. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. Todas fazendo trocas descabidas. Talvez ele se protegesse do amor. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. -Acabou. segurança e conforto. Antecipava no peito a sensação do vazio. – debochou. densos. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. permitindo que o mesmo não o alcançasse.. Amanda olhou para o rosto bonito. é o que lhe ofereço. fosse qual fosse. – dando de ombros. da angústia que asfixiava. Isso é certo. Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá.. –completou com impaciência. quero dizer. Engoliu as lágrimas. Não tenho nada meu lá. a expressão cansada. tão passional quanto maluco. sei. Amanda abriria mão do conforto. Jules soltou-lhe enfim o pulso. Jules. amadurecer inclusive. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. -Estou numa posição inferior a você. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. em princípio. para todo o sempre. pavor. perigosa. -decidiu-se convicto. – riu-se com amargor.. Amanda. no mundo. mas não dá nada de si. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. Você quer tudo de mim. sem sorrir. um desgraçado de um abismo. Jules? Ele contraiu os maxilares com força. Soltava-a em Paris. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. Não quero nada relacionado a você. Alguns minutos se passaram. Uma troca sem sentido. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés.

Por um tempo. do século passado. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. Debaixo do edredom. Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia. diante do Café de la Paix.. doces e infantis. chorou. Então. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. E chorando encaminhou-se à cozinha. quase física. tornando-a refém de uma dor insuportável. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito. compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. Não podia reprimir-se. – completou com evidente desprezo. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. sais que exalavam o odor de Jules. girando lentamente. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. a pele cheirosa. -Por que antes de ir juntar suas coisas. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. corpo no corpo. Chorara durante o curto trajeto de volta. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. sorrindo como se tivesse 17. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria. Abaixou a cabeça. dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. como que se protegendo dela. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. E chorou. seguros de que tudo daria certo. mesmo porque era impossível fazê-lo. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra. Deitou a cabeça. os braços 107 . Chorou até se engasgar com o vinho. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. Parou no meio da sala e. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. e Jules. E chorou. a loção pós-barba exalando frescor. você e o seu suposto amor. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. Depois. então. Após a saída de Jules. com paisagens de uma Paris dos anos 20. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais.. com uma franja sobre os olhos. Como ele podia ser tão carinhoso e. contando histórias da infância. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. mademoiselle. aos dez anos de idade. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. em que ficaram conversando após o sexo. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. O desenho de uma menina morena. Tinha algum tempo.Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. no subsolo. abraçados. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe. Passe no RH. Diante do espelho do banheiro. observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. de pescar o maior peixe do mundo. Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos.

Jules. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada. Fechou os olhos e abriu. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. –completou num tom melancólico. Estava ligeiramente zonza. intrigado. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. -Não é certo que você saia. quase desfigurada. -Sei que já eu devia ter ido. mas manteve o paletó escuro. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. A vergonha de ter sido fraca e chorona também. no seu esconderijo. Parecia preocupado e nervoso. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. pegou-o e digitou alguns números. Viu-o descer a escada. No aparador de vidro estava o seu celular. Ergueu a cabeça. olhou ao redor à procura do aparelho. Num estalar de dedos estará bem empregada. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. branca e dourada. porque queria encontrá-la antes que partisse. legalmente seu. Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar. Segurava uma sacola de papel.. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos.. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. Sem hesitar. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. medo. acrescido do seu amor. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. –Vim direto para casa. alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. o apartamento é seu. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você. muito próximo. atenta. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. Todos os sentidos em prontidão. – adiantou-se num murmúrio. depositou-a no chão. Amanda. – xingou-o com raiva. Retirou o sobretudo e o cachecol. Foi até o banheiro e saiu. largo e firme. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. Estava horrível. pulando a cada dois degraus com agilidade. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. continuará recebendo até encontrar outra colocação. Em seguida. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador. -Vas te faire foutre. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. Subindo os degraus rapidamente. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. imaginou Amanda. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego. Killer Queen ressoou pelo apartamento. raciocinava. Amanda afastou-se da porta. desejo e muito álcool no sangue. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa.

objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. Sentiu-lhe o gosto do hálito. seus contatos.. Pequenos beijos nas bochechas. amava. E quando amava. –declarou exasperada e encarando-o severamente. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou. Ela acabara de alfinetá-lo. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. Entretanto. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções. pela primeira vez. Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. canibal. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. -ironizou e.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo. -Claro. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. Visto que ela o ignorou. Automaticamente. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. Transferências. non? Temos de limpar o corte. -Não se dê ao trabalho. e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural. –completou com desprezo. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. Deve ser uma merda ser tão racional assim.. Não será isso que me matará. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu. O centro social ainda não se instalou por lá. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório. devagar. Isso que era: lixo puro. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. fusões. a sua gentileza. no queixo e nos maxilares.. na ponta do nariz. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice.. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. Durante anos bloqueara seus sentimentos. non?. Quando ela virou os lábios 109 . agora. decidindo vidas. Empinou o nariz numa atitude arrogante. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa.. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer. que mal lhe tocavam. contatos. E rendida. cada uma. fique aqui enquanto vou buscar o iodo. Novamente a vertigem. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha. O discurso de bom-moço enojava-a. fazia-o por inteiro. devagar.Frio. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. Amanda apenas fechou os olhos à espera. sem meio-termo ou meias-medidas. indiferente. sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura.. Dignidade feminina. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. diante do silêncio que se seguiu. inacessível!. bufou.

inclusive esse apartamento de esnobe descolado.. o aparelho espedaçou-se no chão.. -Havia um notebook ali dentro. Odiou-se por se render tão fácil. . -Idiota! –gritou. Jules! –gritou. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz.. Amanda. e eu não... Em vão. eu ficarei. Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. –considerou numa voz abafada. –completou chorando. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu. o homem de gelo. -Nunca foi a minha intenção machucá-la. -Bebeu mais do que devia. oui. Jules. non.. Venha comigo. ele fez um movimento para se levantar e contê-la. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. eu não pertenço a ninguém. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. oui. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou... acho que vi um. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. só não tem coração. inteira. verdadeira e forte. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne. vamos ao banheiro.. como se tentasse neutralizar o que sentia.... mas ainda era uma MULHER.Mas. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor.. deixe-me ver. que ele arqueou uma sobrancelha. Dentro dela. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva.. seguido por outro. odeio seus sapatos. Amanda gargalhou completamente surtada.. Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais.. porque eu não sou de ninguém. contra a parede. ela o fitou.. -Ele também não lhe pertence mais. Você é uma ótima pessoa. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. Você vai embora e os levará junto. Odeio tudo que vem de você.. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe.. podemos conversar de forma sensata e coerente. Possessa. a contabilidade emocional.. o caricato.. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente. estranhamente calmo. céus!.Eles são seus e eu os odeio. como se fosse ele quem sofresse. – escarneceu.. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. Jules afastou-se delicadamente. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. reverberou no recinto. rindo. fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: . Um barulho seco. por sua vez. Mas quando ela pegou-lhe o celular. Perdida.. – à medida que falava.que você nem sabe escolher.. o pragmatismo.. a sua empresa de merdè. não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo. –falou baixinho e direto.. Jules apontou para a pasta e comentou com calma. sereno. metálico e abafado. -Claro que não. Jules. o seu Jules Brienne. –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio.. –Mas tenho a mim. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo. que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente. 110 .hã.Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo. não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. intrigado.ficará com você..

voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro. -no restaurante. estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada. Tocou a capa de cada disco com ternura. -parou e fitou-a 111 . ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. ao cair. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado. e o fizera para poder se manter por alguns dias.. . O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento.. queimar sapatos. Percebi que esses discos significavam muito para você..Acertei bem no alvo. Fitava o interior da sacola. sozinha. Satisfeita. não.. voltando a sentar-se no degrau. Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha.Em rasgar roupas. desde a adolescência no quarto.completou gritando: . sentimentos. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então.Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën. Calculou que ele conseguiria detê-la. sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente.Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. esperando pelos diretores da subsidiária de lá. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre.. listou: . tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim. ao que ela. europeu idiota! Dito isso. ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel. sorrindo por entre as lágrimas. A chave foi arremessada para fora da janela e. no entanto. – Non. retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e.. non? – indagou com cuidado. acalme-se e vamos conversar. em seguida.. francês. .. para que ele não o encontrasse! Eu te amo. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO. Amor! Já foi amado assim. incendiar chalés. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia. enviar e-mails com vírus. pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava.Adieu! – exultou com um gritinho alegre. no fundo da sala. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. tomada pela fúria e com os olhos arregalados. Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: . –Nada sairá daqui com você.. – gritou: . Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. seu imbecil. no alto da escada. -Estávamos em Roma... –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. -Nem tente destruir isso aí. com os dedos. Amanda. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. -Entendo que se sinta magoada e.. todos os discos haviam sido vendidos... -Jules começou.. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das.eu. Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. envenenar comidas.eu me dediquei a você todos esses anos por amor. recordações. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. -Agora. Respirou fundo. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo. Toda a sua coleção do Queen recuperada. quando conversamos sobre viver longe de casa. sentiu a mente esvaziar-se de tudo. ideias.

passaria o resto de sua existência chorando. – disse. – enfatizou. arrastados. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. quis chegar a tempo para lhe entregar. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. ações sólidas e reais. Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos. abraçou-se aos discos e chorou. a sua caligrafia de menina. a realidade. como se quisesse livrar-se do assunto. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. Investiguei. Isso era amor. – retrucou baixinho. respondeu apenas. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário.Isso foi há um ano. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo. sério.. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. No criado-mudo. ao mesmo tempo. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos. a sua. Tudo tomava um novo rumo. são os seus discos. além disso. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 . através de atos e atitudes. Isso era um ato de amor. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção. os braços dobrados em frente ao corpo. -Merci. não era controle. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto.. mas não tencionava aceitar os louros..Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. mais uma vez. tinham de ser os seus. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. alçando as sobrancelhas: -Pode ver.. Era a vontade de ser pai. De nada.. azar dela.. Isso era amor. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. Ela parou diante da cama. na mesma. de um jeito desanimado. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido. seu barbeador. com um frágil sorriso nos lábios. E ele jamais diria que a amava. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola. Gestos precisos e. Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. -De rien. por fim.. simplesmente. Ele parou por um momento e esfregou os olhos. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França. A gravidez que ele queria que se confirmasse. Pelo visto. não? -Oui. como aconteceu tudo isso. fazia-o. Sem vínculos ou obrigações para com ele. Jules não falava em amor. –balbuciou num fiapo de voz. Amanda indagou sem fitá-lo: . com os seus poemas escritos em algumas capas. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro. lentos.. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu. viajei. perfumes. Soltara o nó da gravata. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. mas. loções e a escova de dente. Ele lembrara e. por que. Resgatara-lhe o tesouro. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. no modo de pensar de Jules. praticados por homem visivelmente cansado. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor. fora prática contrariando a sua natureza passional. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. -afirmou de um jeito estranho. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho.

E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro.. que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada. confundi-me. Ela não o via de fato. tensa. mas foi interrompido.Jules. Jules. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo. 113 . Jules sorriu de um jeito tímido. largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura. Fingiu que não a ouviu. Amanda. – apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. Às vezes.. Por isso. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic. continuando a arrumar a mala. Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam. ela bem o sabia. entendo que isso é amor. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente.. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção. segurando um par de meias na mão. -São apenas coisas. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido. por outro lado. constatou Amanda.. -Amanda.tentou justificarse. ela também não sabia o quanto era amada por você. por exemplo.. apenas olhava-o.. concentrado na maldita mala: . Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto. muito pelo contrário.. desculpe. -Espere. – ele fez um sinal para que ela parasse.? – sempre havia um mas. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho. procurando os discos da minha adolescência. Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet. você parece um menino. Tinha o olhar entre curioso e desconfiado. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta. Jules. Jules deu de ombros de forma indiferente. me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. não estou mais cega. mesmo apanhando e ignorando seus apelos. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão. Misturei tudo. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes... era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto. sem vê-lo. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. Respirou fundo. -Perdi as estribeiras. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. preciso lhe falar. à espera de algum movimento por parte dela. Ele parou e fitou-a... -Quero cuidar de você a minha vida inteira. –respondeu baixinho e sem dar importância. . ainda fitava-a. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade.. -Eu gostaria muito.. -Mas.Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver. e..

inclusive François e Sonia. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda..apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras. olhando de verdade para o seu rosto. eu sei. Amanda. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma. ela dizia que eu era viciado em dinheiro. sinto os olhares sobre mim. Quando saí da sua sala. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. .Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien.. me peguei olhando diretamente para você.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios.. Fitaram-se por um longo momento. mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional. todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim. O trabalho é a minha paixão. – Mas fui punido por minha decisão. Amanda. não substituem as atitudes. numa veia saliente. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico. Aliás. O que é uma mentira. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. quero dizer. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: . na verdade. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada. Sei que é uma atitude tola. e apoiou a cabeça no tórax dele.. Parecia um tipo de déjà vu. Amanda beijou-lhe o pescoço. mas também com certa tristeza. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente.tive de controlar-me para que você não se afastasse.. -É. – acusou. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela. séria. acusando-me de insensível. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido. Acreditei que não me amava..Conseguiu. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui..-comentou sorrindo. Amá-la em segredo foi terrível. -fez uma pausa procurando as palavras certas. Por fim. não o resultado financeiro dele. Sabia que confiava em mim. sabendo que me entende. -Jamais percebi nada. As palavras. mas não queria correr riscos outra vez. foi apenas mais um jantar de negócios. . porque a amo e não é de hoje. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você.. fui para o terraço. bien. – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: . consegui e quase a perco por isso. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa.. frio e viciado em trabalho.. Aquele estúpido jantar comprovou isso. Jules riu e beijou-lhe o cabelo. mas aquela nossa conversa no restaurante. para o seu corpo.. Agora.. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que. para os seus gestos. – completou com seriedade. – completou apertando-a ainda mais contra si.. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções. E quando dormiu com Jacques. Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. Depois. 114 . se jogou nos braços de um desequilibrado. -Oui. sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você..

Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la. vê-lo de rodas para o ar.. Foi a primeira vez que o vi e.. Mas. -Jacques continua ligando para o meu celular.Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro. naquela noite em especial. já que estava transtornada de raiva. e por isso não mais a convidava.Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa. –suspirou. e.. ela pediu-me para que não saísse. Quando a ambulância chegou. Jeremy Blair. sério e pensativo. quero dizer. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente. -Isso não está certo. por intermédio dos Roche. agora. nós brigamos. Tudo aconteceu muito rápido. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. acabei vendo um teste de gravidez. porém identificara tal sentimento com outros nomes. e ela saiu sozinha. discordei. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. O que tem a me dizer sobre isso. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. – acentuou num tom grave. – suspirou resignado. cedendo o volante a Jacques. Era um dos assuntos tabus. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros. como se a cabeça já rodasse em outra direção. o reconheci como sendo um dos meus gerentes. Era amada por ele.Fui atrás. as têmporas latejando: . Rossi? 115 . num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. Rochelle detestava esse tipo de jantar. na Irlanda. E Jacques não está nela. após saberem. com a minha autorização. -Talvez. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida. com a transferência de Rochelle para uma clínica. feito isso.. – falou-lhe de uma vez. fora preso por bater em uma garota de programa. não esconderia mais nada de Jules. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. mas eu o fiz assim mesmo. eu a ignorei. meio minuto depois. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. ela gritou. imediatamente. quando eu tinha um. – ele parou por um momento. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si. um tipo de queda-de-braço infantil. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. No entanto. pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. nomes errados. Sentira isso. Naturalmente. ou melhor. já estava desacordada. lista esta feita pelos pais de Rochelle. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin. Olhos totalmente mergulhados na própria mente. –respondeu-lhe automaticamente. – murmurou entredentes. os sulcos na testa profundos. não forçaria a barra. O resto você sabe. Caso ele evitasse o assunto. Pelo o que averiguei depois. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia. Ele fora demitido antes do meu casamento. Jules parecia disposto a conversar a respeito.

–corrigiu-a. sorrindo. 116 . com um sorriso. ficou feliz em vê-la chorar. –comentou sem graça. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. -Você está grávida.. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém.. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. como ele é lindo. – considerou fazendo careta. -Então. monsieur. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana. por debaixo do robe. enfiou-se no banheiro. Alguns minutos depois. de pé. quero muito tê-la engravidado. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. Jules. Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma. -Não o apavora ser pai. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. quero dizer. ele sorriu e. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. bien. espere aqui que buscarei o nosso oráculo. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. parece-me um pouco precipitado começar uma família. é maravilhoso. saiu do banheiro e.brincou. –disse jovialmente. antes de confirmar ou não a gravidez. Antes de fechar-se no banheiro. E. Deixou-o parado no meio do quarto. mas ela não pensava como os franceses. nem precisava fazer exame para saber. depois. -É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair. -Oui. -Non. – fitou-a com um sorriso malicioso. deliciosas curvas. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. excita-me engravidá-la de fato. hoje pela manhã. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. pela primeira vez. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. Voltou lendo as instruções. por sinal. porque esses testes não são cem por cento confiáveis. quero ser pai dos seus filhos. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. ficou na ponta dos pés. descendo a mão para a sua barriga. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo.. – Maintenant. quando reclamou de suas curvas. não há nada acabado em seu rosto. vamos comemorar! Ainda é cedo. – comentou com naturalidade. Amanda. envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força. ma belle. -A ideia era essa. sabe disso. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse.. e acho que pegamos o Dôme aberto. concentrado. -Humm. -Você está linda.. ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que. Amanda afastou-se poucos centímetros dele.Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir. mademoiselle. – brincou.. -explicou-lhe ainda rindo. descer as escadas até a sala.Meu rosto está acabado de tanto chorar. –ponderou antecipando-se aos fatos.. mon Dieu.

.. normalmente. Num gesto eficiente e sensual. as têmporas latejavam... -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. – Escolha enquanto pode. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço. tenho de pegar a chave do carro. sussurrou com paixão.... Amanda mal sentia as pernas. Jules voltou-se para ela e a beijou. cada ponto. na rua. em seguida. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. digo.. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. – falou-lhe com o olhar sério.J’etaime. em torno dele. cada zona erógena que vibrava ao toque dele. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar. alcançando o clitóris e massageando-o. ele enfiou-se aos poucos.. Captando o duplo sentido da pergunta. Podia buscar comida pronta. passando pelas malas no hall. E convenceu. afastando-os ainda mais. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme. numa voz rouca e abafada. lá. persuasivamente. toda. dentro de si. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede.. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. Por baixo do robe. -Quer que eu saia ou entre. expondo-lhe a nudez. num canto da parede. Ela segurou os próprios joelhos flexionados. no sofá. digamos. haviam virado gelatina. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que.. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. convencia Jules. E com movimentos cadenciados. planícies e cumes orvalhados. -Trés bien. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça. desesperada paixão: . levando-a no colo até o outro lado da sala. mas um sorriso entalhado nos lábios. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?. e no rosto de Jules. Acompanhou-o até a porta de entrada. – concluiu em tom de brincadeira. que dançavam seguras por vales e montanhas. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. senão se importa.. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação. controlador. num vaivém sensual e lânguido. Antes de sair.? – indagou-lhe num fiapo de voz. já que dividirá o corpo com nosso bebê. cobriu a sua e ainda colada nela. -Estou sempre com fome de você. Jules vestido e ela completamente nua. fez o robe cair no chão.. depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. em cada centímetro de pele. Sem tirar a roupa.Amanda. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. Aproveito e faço tudo de uma vez. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. -sugeriu de um jeito meigo que. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro.. J’etaime. 117 .Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. você tem de cuidar de sua saúde. –gemeu-lhe ao ouvido. a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo. ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia. Amanda desafivelou-lhe o cinto.

sofisticada e úmida de suor. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. oscilavam no amplo galpão. que comprimiu os lábios com raiva. Tenho mãe. despertando da inconsciência. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. completando o gesto do olhar. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. – disse Jules sério. Jules assentiu. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. com a cabeça. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório. Mas eu cuido dele sozinho. fitando Jacques de longe. -Está tudo aí.. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. monsieur. registrado. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. messieurs – falou baixinho Jules. senão perde a graça. -Merci. Jules. e o Bleu tem uma filhinha. lançou um olhar significativo a Bleu e. sozinho. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios. deixando-a surda do ouvido esquerdo. com lâmpadas de sessenta watts. – balançou a cabeça. monsieur Brienne. –fechou os punhos instintivamente. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. Luminárias de aço dispostas no teto. ótimo trabalho. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo. docteur. – Se quiser. Jules estalava os dedos das mãos. irmã. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. –É crônico. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. o cara não vai parar nunca. Duas passagens pela polícia por agressão. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa... mulher. Em seguida. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. -Esse prazer é todo meu. que.. riscou um fósforo com a mão em concha. por sinal. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. sua assistente. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. E era o mesmo que acabava de chegar. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. retirando as luvas pretas de couro. ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. -Não se acanhe. exasperado. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco . inclusive. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês.

Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. Além do mais. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. – gargalhou: .Aliás. Jacques fitou-o por um momento. Já o almofadinha à sua frente. –declarou com firmeza e serenidade. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes. Mas antes.Oui. ao torcer para baixo o lábio inferior. -Vou matá-lo. e as outras mulheres agredidas por ele. dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho. Nunca fiz nada de errado na empresa. Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques. Jules bocejou. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava. sorrindo. e isso é uma ordem. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro.. isso sim. – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão. refazia-se rapidamente dos golpes. -Bonsoir. quase alcançando o rosto do outro. abrindo os braços e dando de ombros. –constatou quase alegre: . também foram minhas. retirou o casaco longo e o paletó. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos. acompanhadas por Armand. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. -Ninguém me contratou depois que me demitiram. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. você sabia. – completou. eu posso e você não. covarde. aturdido. ela me sustentava. também registrariam queixa. –pôs o dedo em riste. tentou acertar o maxilar de Jules. non? -alçou uma sobrancelha. -Polícia? Está delirando. -Ficará longe dela. diante de um homem que verdadeiramente odiava. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. seu ricaço de merdè. –Quer foder a minha vida de novo. que desviou a cabeça. irônico. – debochou. olhou ao redor certificando-se de onde estava.. Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. Jacques gargalhou. Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão. Jordan não queria me demitir. por sinal. 119 . para o seu próprio bem. –Eu o entregarei à polícia. -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. como vai a brasileira. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente. Baterá em mim. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás. da força muscular do adversário e de sua fraqueza. -Agressão.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga. – acusou aos gritos.. impassível: -Podemos começar quando quiser. Ficou de pé.. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. Ele era duro na queda. oui. da distância entre ambos. Pelo contrário. – prometeu com um sorriso cruel.

–completou com raiva contida..A gente agradece. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente.. – disse por fim. respirava alto e rouco. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. O outro. covarde! –disse entredentes. Agora. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. Inerte. nem a morte. de pé. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes. soltou-se por fim. Agora sim estava fodido. sem perder o equilíbrio. puxou os braços do homem que o prendia por trás. Por trás de Jacques. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. voltou-se com raiva para cima do loiro que. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. ficou fitando o teto. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. Pensava apenas em voltar para casa. depois. fitando os homens ao seu redor. os olhos vítreos. Tinha de lutar por sua vida. Tentou levantar-se por duas vezes. deu uma gravata em Jacques. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. Em seguida. aproximou-se do corpo distendido no chão. Jacques urrou de dor. Ouviu ao longe a sirene da polícia. -Sabemos quem é você. tem família. -Quieto. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços. Deve estar a par da moça que está na UTI. Por um minuto. 120 . Este surpreendido pelo ataque. assistindo à cena. a boca arrebentada num corte fundo. os maxilares tesos. Livre os tentáculos de aço. alto e ruivo. Novamente. A coisa é feita na rua e termina na rua. mas nada de advogados. mas foi por apenas alguns segundos. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. Oui. mudou o tom. Não podia deixá-la sozinha no mundo. do cheiro de sangue e morte. não emitiu ação alguma. meio zonzo. Ele foi. -Filho da puta. Jules ignorou-os. vocês se igualaram a ele. Não podia permitir que ninguém. separassem-nos. pensou. Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. inclusive Jacques.Sumam com o corpo. Este teve a cabeça arremessada para trás mas. o braço forte do ruivo estrangulou-o.Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. Não pôde conter um suspiro de alívio. fracassou. Estava de fato morto. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. mais brando: . imóvel e ainda preso pelo gigante. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. Os homens entreolharam-se e partiram para a ação. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. queria olhar no olho de cada um dos caras. baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. testando a personalidade do executivo. baixo e com aparência latina.. Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . em vez de proteger-se. E com esse último pensamento. daquela gente. levantando-o do chão. Não fechou os olhos. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. Jules. Quem ganhou. é minha irmã. Jules observou mais dois homens. Jules estava farto daquele lugar. Na terceira. cara! –xingou-lhe o desconhecido. Jacques caiu inerte de cara no chão. Um deles. d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. pute também tem família.

Passou no Dôme e pegou comida para dois. Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui.com Contato: vgveronique@hotmail. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria.blogspot. vestiu o paletó e o sobretudo.Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. Ajeitou as mangas da camisa. O passado morreu aqui também. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato.com 121 . E meio. retirou a fita do gravador. Fim Site da escritora: veroniquegris.

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