Obsessão em Paris

Veronique Gris

Obsessão em Paris Trilogia Paris – Livro Um

Copyright © by Veronique Gris Todos os direitos reservados e protegidos por lei Nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem a autorização prévia por escrito do autor. Os infratores serão processados na forma da lei.

Responsabilidade pela revisão: o autor. Capa: Imagem disponibilizada no Google. Domínio Público.

G 150 d

GRIS, Veronique Obsessão em Paris/Veronique Gris Porto Alegre: Ed. Autor, 2010

Registrado no EDA Fundação Biblioteca Nacional - 2010 1. Romance Brasileiro – literatura erótica. I. Título.
CDD: C 455.5 CDU: 455.0 (51)-51
2

Obsessão em Paris

Veronique Gris

Sinopse

AMANDA ROSSI por anos alimentou a ideia de viver um conto de fadas em Paris. Aos vinte e três anos, ela enfim deixa o Brasil e parte para uma aventura na França. A cidade que lhe promete o amor também lhe proporciona perdas. Sem dinheiro para manter-se, tem de vender seu pequeno tesouro da adolescência, os discos do Queen. Cinco anos depois, ela é a assistente-executiva de JULES BRIENNE, presidente de uma grande empresa de computadores, um workholic cuja esposa encontra-se em estado de coma após acidente automobilístico. Ela torna-se seu braço-direito. Jules é um homem de olhar sério e poucas palavras. Alguém que aceita a personalidade impetuosa e explosiva da latina. Alguém que a protege e é protegido por ela. Alguém que deseja vingança. Ao lado de Jules, Amanda vive um caleidoscópio de emoções e sensações. Principalmente, quando se torna vítima do maior inimigo de seu chefe. E descobre que toda a proteção tem o seu preço. Toda a paixão tem vestígios de obsessão. Todo o prazer, insanidade. Todo o amor, medo. Ela está enlouquecida de desejo por aquele que lhe tem na palma da mão.

ELE PODE LANÇÁ-LA A UM VOO ALTO E SEGURO. ELE PODE ESMAGÁ-LA A QUALQUER MOMENTO.

ELA AMA-O LOUCAMENTE. E PAGARÁ UM ALTO PREÇO POR ISSO.

3

pediu-lhe a conta. retangulares. Sentia-se entre aliviada e feliz. quando este se aproximou elegante e solícito. teve um leve sobressalto e tentou esconder-se por detrás de uma planta frondosa. Dorian acreditava que Amanda era uma compulsiva por trabalho. Quando ela saiu do esconderijo rumo à porta de saída. para fora do tabuleiro. protegida pelo próprio espaço junto à parede. sentia-se dominada por uma péssima sensação chamada obrigatoriedade. Afinal. Não sabia como era o contador. Praticamente fora obrigada a aceitá-lo e somente o fizera para livrar-se de amolações futuras. ouviu-o falar à recepcionista para que ficasse de olho nos manobristas porque não se encontravam “Mercedes em qualquer esquina” e “que não caíam de árvores”. O máximo que Dorian havia-lhe dito era que passava dos quarenta anos. três mesas pequenas. a moça esperava por alguém. no caso de Dorian e Amanda eram verdadeiras): excesso de trabalho e falta de tempo para viver. encaminhou-se rapidamente para a rua a fim de conseguir um táxi.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo I O espelho que forrava parcialmente a parede lateral do restaurante enquadrava em seu perímetro. um bolo de um homem que jamais vira na vida. por exemplo. pois desde que Amanda aceitara a contragosto participar do encontro (ou teatrinho). Agora. podia-se ver um casal conversando quase em sussurros. que usava um relógio do tamanho de um melão. observando o ponteiro dos minutos afastar-se lentamente do horário combinado. Assim. estrategicamente disposta ao longo do teto. também. Havia levado um bolo. E esse alguém estava atrasado. ladeados por uma mesa com um grupo de executivas. Mas o plano da amiga esvaíra-se ralo abaixo. uma mulher de cabelos escuros e curtos. Ao passar pelo hall de entrada do restaurante. Ela aparentava. certa apreensão e nervosismo. ela aproveitou a deixa do destino e avançou algumas casas no tabuleiro. que era calvo e arrogante. nada melhor que um encontro às escuras com um brilhante contador que fazia o Imposto de Renda de celebridades. no maneirismo de cruzar e descruzar as mãos sobre a mesa e no gesto de mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior. Desde que fora praticamente obrigada por Dorian . Não acrescentara. fosse para limpar-lhe a barra com o tal contador e ex-namorado. De cabeça baixa e o ar preso nos pulmões. Um penteado sofisticado para alguém que aparentava pouco mais de vinte e seis anos. Debaixo da iluminação indireta. Fez um gesto discreto com a mão chamando o garçom de sua mesa e. como o seu próprio chefe. moreno e elegante. Certamente. No canto. Amanda olhou novamente para o relógio no seu pulso e constatou que já era hora de retirar-se do local. Amanda desconfiava que talvez esse encontro promovido por Dorian. com um delicado vaso de flores. cada uma. numa terceira mesa. Amanda nem quis saber a resposta da morena sofisticada que. expressos nos olhos grandes que acompanhavam a movimentação dos garçons e clientes. pelo menos. na verdade. a loira sedutora havia-o despachado há poucos meses com a desculpa de sempre (que.sua amiga e uma das duas secretárias da diretoria da empresa em que Amanda trabalhava havia cinco anos – a dar uma “chance ao destino” (como ela mesma dizia) e conhecer alguém fora do trabalho. provavelmente. revestidas por toalhas de linho e ornamentadas. E encontrar um táxi em Paris às oito horas da noite era uma 4 . fora contratada de uma agência de modelos. por mais incrível que isso parecesse.

salas e elevadores da sede das Corporações Brienne. definhando lentamente ano após ano. observou que ele era alto. E o rótulo de Jules Brienne era o de insensível. Agressivo nos negócios. Nada menos. como secretária particular de Jules Brienne. já que. talvez não contivesse uma crise de risos. tinha de acompanhá-lo nas inúmeras viagens pelas demais empresas do grupo. Trabalhar para um alto executivo não era tarefa fácil. bolas! Como se ela gostasse de homens arrogantes e prepotentes! Como se ela precisasse de um homem para viver. de gargalhar. jamais se apaixonara ao ponto de entregar-se sem medidas.80. extremamente cheiroso e irresistível: seu chefe. Havia uma equipe de médicos. Amanda jamais vira um sorriso iluminar o rosto circunspecto de Jules Brienne. de dedos longos e tépidos. realmente. enfermeiros e fisioterapeutas de plantão à sua disposição e que praticamente moravam com ela. Amanda encolheu-se dentro do casaco. o que contavam eram os rótulos e a produtividade. e. Amanda sabia que para agradar o chefe bastava apenas entregar a alma à empresa. estava bem perto de sê-lo. devido as muitas e intransferíveis viagens de negócio. Mas não foi por isso que ela sentiu as pernas moles e trêmulas. comentavam à boca pequena que ele nunca mais sorrira desde o acidente com a esposa havia cinco anos e que a tornara praticamente um vegetal. assessorar o presidente de uma grande companhia. um apartamentinho decorado com objetos comprados em várias partes do mundo. As nuvens encobriam o céu e o vento gemia por entre os galhos mais finos das árvores. era o trabalho como assistente pessoal de Jules Brienne. se aquele loiro de olhos azuis não era um anjo.Obsessão em Paris Veronique Gris façanha ainda maior do que fugir de um encontro às escuras. já de pé. O que lhe importavam na vida. bem vestido. A bem da verdade. workaholic até o último fio de cabelo. Desde a adolescência sempre fora independente e madura. Nada a faria perder o táxi que se aproximava. tomando cuidado para não se trair. Amanda perguntava-se se a vontade de monsieur Brienne não era a de jogar tudo para o alto. bonito. em seguida e de forma violenta. Esticou o braço com os olhos fixos no automóvel. era inviável a presença do marido junto ao seu leito. ele alimentava a imaginação de concorrentes e invejosos de plantão. ninguém se importava com o que se passava na vida das pessoas. Morri e estou no céu!. O homem de gelo que jamais sorria. O mais estranho e injusto de tudo era que. E de poucas palavras. porém. de fato. de enfiar as unhas no rosto maquiado de Dorian. Amanda já havia visto aquele tipo de homem. num quarto totalmente preparado para mantê-la em sua casa. viu mesmo foi o chão. presidente-executivo da Societé Brienne d’Ordinateurs – uma das maiores empresas de fabricação. Na verdade. pouco mais de 1. mas. E. Tal apelido espalhara-se rapidamente até mesmo pelos corredores. Ora. a dificuldade acentuava-se ainda mais. Sentia-se em apuros. venda e distribuição de computadores e hardwares do continente europeu – e o seu lar. mas tinha vontade de rir. Por outro lado. um corpo esguio protegido pelo casaco azul marinho que combinava com a coloração clara e suave de seus olhos. ela quase deixou escapar ao aceitar a mão estendida do desconhecido. entregar a presidência ao vice e viver ao lado da jovem esposa inconsciente. A noite estava fria e úmida. sério e introspectivo como pessoa. Aceitou tocar na palma daquela mão macia. ele tinha apenas 37 anos e todo um mundo para conquistar. se eram felizes ou se o amor de suas vidas morria em vida. o estranho acabou decifrando a charada ao dizer-lhe apontando para algo no chão: 5 . o homem de gelo. Se lhe tivesse dito isso. apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção ao meio-fio da calçada. no mundo empresarial. já que. Dava um passo em frente ao outro. No escritório. Desde a sua contratação.

. – riu-se. -A gente pode revezar as narrativas. Ninguém precisava dizer-lhe que era uma missão impossível. eu estava tão concentrada em não perder o táxi. Voltou-se desanimada para Jacques e ensaiou uma despedida: . transmitia calor. E como era uma moça educada. -Amanda Rossi. pensou debilmente. Ele é um príncipe dinamarquês. Amanda havia retirado do campo todos os zagueiros e chamado para o jogo os seus melhores atacantes. fazia charminho ou dava a deixa para ELE arriscar uma aproximação. -O táxi com passageiros? –indagou com expressão divertida. -Mas quem disse que sou aquele príncipe apatetado? Ele ficou com o sapato na mão enquanto eu. o sorriso era aberto e franco. Jamais dava a cara à tapa.. teremos que deixar o café e as histórias para outro dia. Mas o resto do corpo não. Ele estendeu-lhe novamente a mão e disse: -Jacques Rodin.Desculpa. sem cola. -brincou. Os olhos azuis brilhavam divertidos. enquanto abaixava-se para pegar o salto. -Um café e um punhado de histórias? – perguntou inclinando ligeiramente o corpo para frente. olhando para o salto quebrado. Normalmente. bem. Era a primeira vez que cantava alguém de forma tão direta. Jacques tomou-lhe nos braços levantando-a do chão. estou com a princesa nos braços. O pedaço do seu sapato era a coisa mais fascinante do universo. disse espontaneamente: -Merda de sapato! O estranho riu e dois sulcos acentuaram-se ao redor dos lábios. concluiu Amanda.... numa calçada 6 . -Acha mesmo que um simples sapato arruinará meus planos? -Monsieur Rodin. ela sentiu uma quentura forte no rosto. Naquele momento.Infelizmente. Talvez tenha sido nesse momento. pardon. quer dizer.. Havia algum defeito nesse espécime masculino? Impossível. começou sentindo a bochechas quentes. merda.. Num instante. a vida não é um conto de fadas. Jacques segurou-lhe pelo antebraço a fim de lhe dar suporte enquanto ela tentava prender novamente o salto ao sapato.. Ele era a. quando seus olhos se encontraram por vários minutos. Adorável! A palavra nascia e explodia dentro de bolhas com cheiro de morango. é tão difícil. que percebeu que estava completamente encantada por ele.Obsessão em Paris Veronique Gris -Acho que é o salto do seu sapato.. fitando o lugar onde o regente havia apontado. e eu certamente não sou Cinderela. Desistiu de grudar madeira na madeira. um sorriso amistoso e um convite implícito. ela percebeu que o seu cérebro estava girando mais devagar. aconchego. Soltou uma sonora gargalhada ao vê-la assustada. o antebraço. diante de um desconhecido com a sobrancelha alçada num gesto de surpresa.do-rá-vel! E cheirava a colônia cítrica.. quando o homem lhe interessava insinuava uma brincadeira tola. Nesse ponto. somente os craques. Era agradável tocar naquela mão e ela aproveitou novamente a chance. –disse sorrindo.. –agregou à informação um meio sorriso de congelar todos os eventos maléficos no mundo. -Oh. O problema era que Amanda somente sentia uma parte do corpo. ah. Posso pagar-lhe um café? Assim que a frase escapou-lhe dos lábios. droga.

morava em Montmartre e estava sozinho no momento. sem uma companhia masculina. sim. queria muito. sem metade de um sapato e vendo passar bem pertinho de si um contador arrogante xingando baixinho Dorian. trabalhava para algumas corporações estrangeiras na França. O cheiro típico da alvenaria antiga. monsieur. A sua liberdade e independência de mulher adulta em Paris o queria. E ela também olhou. E era incrível a sincronia da existência. durante uma visita ao Louvre. O seu corpo o queria. ele disse que era advogado. O motor do táxi chamou-lhe a atenção e ela se virou para ver Jacques guardando a carteira no bolso interno do casaco. ombros largos. dos flocos caindo-lhe sobre a roupa e o cabelo. Ela entrou seguida por ele. Sentiu uma fisgada na barriga e as mãos tremerem. que era lésbica. ela o desejava. não para o chão nem para a camada de neve que se avolumava na calçada e alcançava o meio-fio. Duas horas de sexo e conversa fiada. pois assim que tal ideia perpassou-lhe pela cabeça. Jacques alçou uma sobrancelha em desafio e sorrindo – Oui. ela foi abraçada por trás enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura. úmida e morna parecia uma benção diante do frio glacial da rua. viril. mas não sentia frio. Virou-se para o homem que estava encurvado ao lado da janela do taxista e deu uma boa olhada no seu traseiro. se quisesse. Cabelos loiros. Amanda observou o quanto ele era alto em relação a ela. dentes perfeitos. À porta. Desceu do táxi e esperou por Jacques enquanto pagava ao motorista. – ronronou com olhos de predador. Não conseguia. Voltou-se fingindo importar-se com as luzes dos apartamentos e edifícios. Eles sabiam que logo estariam nus na cama. Pelo menos. o loirinho. porém conscientes demais um do outro. Caminhavam lado a lado sem se tocarem.. pequeno. Entretanto. olhos azuis claríssimos na tez ligeiramente dourada. Apertou-se no casaco longo. estufado contra o jeans. o quanto ele era charmoso e sedutor. Ela não queria voltar. duro. Irradiava uma simpatia que transmitia confiança e acolhimento. silêncio e chá morno ressoaram-lhe na mente. Ele pedira-lhe o telefone e. Amanda rabiscou o número de uma creperia. ela não sentia frio. No café.Quero dormir com você. Não havia pressa. 7 . Uma tarde de descobertas.Obsessão em Paris Veronique Gris pública. Ela também queria. Podia desistir e inventar que era casada. já que a “mulher da sua vida” ainda lhe era apenas um sonho. forte. um sorriso frágil. para variar. ou fingia ficar sem jeito. Quando a alcançou quase próximo à entrada de seu prédio. de pálpebras relaxadas e insolentes. ele sorria mel quente – foi direto ao ponto: . Palavras como frio. mais do que fugir. Apesar da neve intensa. Amanda viajou em pensamento para o seu apartamento de solteira-sozinha-sem-muitos-romances.. Um sorriso cativante que formava sulcos ao redor dos lábios. Entre um gole e outro de café com uísque. quando conhecera um rapaz de vinte anos. os olhos baixos numa atitude de quem está pensando sobre os próximos passos. selvagens. E simplesmente imaginar aquela boca carnuda que exibia a ponta dos dentes na sua. Cônscia de seus braços fortes apertando-lhe ao redor da cintura e trazendo-a ao encontro da rigidez de seu corpo. A excitação de fazer sexo com um completo desconhecido. Sua última relação fora há dois anos. que a mãe estava hospedada em seu apartamento. Girou a chave na fechadura da porta de entrada e a empurrou. Uma fantasia antiga. Ela olhou para o volume entre as pernas do francês. Podia fugir. Principalmente porque não fazia ideia de quem era ele. fios irregulares. Não antes de subirem os degraus da escada até o andar de Amanda. que não se ajeitavam de jeito nenhum no hábito que tinha de ará-los com os dedos toda a vez que ficava sem jeito. E agora.

não era uma nacionalidade. enfiando sem rodeios. um navio no porto entre suas pernas. Francês. provocando dor para atrair o prazer. as unhas arranhando-lhe as costas. gostosa demais. um vale com tufos castanhos que emolduravam o pau grande.Tente não me matar. Ela ainda tentou desvencilhar-se a fim de oferecer-lhe um café ou convidá-lo diretamente para o seu quarto. Desabaram sobre o tapete.sem deixar de segurar-lhe um seio com a mão cheia e fechada sobre ele. acompanhadas pela boca entreaberta e voraz no seu pescoço. .. um par de coxas duras. Mas o homem não lhe dava chance alguma. Aproveitando-lhe a fraqueza. Com um chute poderoso e agarrado à Amanda. já que todos os seus sentidos despertavam-se após dois anos adormecidos. A quentura do membro entre suas pernas. meio tropeçando. modelando-se ao vaivém que o seu corpo impingia. Deslizava-o para cima e para baixo. encontrando um atalho aqui e ali. Ela puxou a alça da bolsa sobre o sofá para o chão. Esfregou o pau duro.. a boca colada a sua. Amanda espalmou as mãos contra a porta. Amanda – afirmou. Jacques fechou-os no apartamento. Desceu os beijos pelo seu corpo firme e musculoso. e eles entraram meio abraçados. Fêmea precavida que era. 8 . ela lançava gritinhos. aprisionando um mamilo entre os lábios e sugando-o como uma gatinha sedenta. contra o corpo magro e pequeno dela.. voltando-se para trás. puxando-o suavemente e o soltando. aspirando-lhe o odor cítrico misturado à delicada camada de suor que fazia sua pele brilhar. detendo-se pelo caminho. ela conseguiu destrancar a porta. como se tentasse empurrá-la para abri-la. pegando o pau na mão. Roupas arrancadas.gemeu-lhe ao ouvido numa voz abafada pelo rouco de sua respiração irregular.Obsessão em Paris Veronique Gris Impossível abrir a porta. nesse momento. era falta demais. . mas parecia implorar. um abdômen malhado com pelinhos aloirados. Dois anos sem sexo era tempo demais. guiou-o para dentro dela. No minuto em que se apossou do bico. excitou-a de tal forma que teve sua calcinha umedecida. A cada arremetida. no centro da pequena sala. a língua sugando a sua com desejo. Ela gemeu quando as mãos de Jacques. – Abra a porta. inchado dentro da calça. quando ele fez um movimento atrás dela . avançaram por debaixo do casaco e da blusa fina de lã. ele ajeitou a cabeça do pau por baixo da calcinha dela. Sentou-se sobre ele e mordiscou-lhe o tórax com a ponta dos dentes.. não se estatelar no chão. apertou-o entre dois dedos. abriu-a e retirou a embalagem com preservativo. flexionou os joelhos ao mesmo tempo em que lhe erguia a saia e enfiava entre suas coxas o pau grande e duro. senão vou gozar aqui mesmo.. outrossim. uma britadeira no asfalto quente. O contato quente e molhado traçou-lhe pelo pescoço e nuca rastros de sensações quentes que. tomando-o todo possessivamente – e em seguida. Ouviu murmurar algo indefinível. -Você é gostosa. e sim um homem com as pernas abertas sendo chupado com voracidade. – pediu. Tencionava. um animal a ser cavalgado.. que usava o cabelo curto e a nuca exposta. Depois ele puxou-a para debaixo de si e. Continuou o passeio até alcançar o lóbulo da orelha e mordiscá-lo ferindo-o levemente. Na terceira tentativa. Ele enfiou a língua na parte detrás da orelha de Amanda. e o cérebro descansava em algum compartimento secreto do organismo. descobrindo a renda suave do sutiã. pronto para disparar. com urgência. um país secreto desbravado por uma selvagem. – ela gemeu abocanhando-lhe o membro e masturbando-o com a boca.Quero muito de comer. O pênis não era dela. cortou uma ponta com os dentes e deu-o para o homem fazer a sua parte.. Principalmente. na divisão entre as nádegas. erguido para trás. Amanda sentiu-o como se um cilindro de energia e carne fosse-lhe enterrado na vagina. conectaram-se ao seu sexo. ma petit. imediatamente. observando o corpo da mulher ajustar-se ao seu.

Aiii – gritou. .. Amanda balançou a cabeça negando. parecia sossegado e bem disposto.Obsessão em Paris Veronique Gris as pernas cruzadas ao redor do quadril dele. – ameaçou-o. dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente. – respondeu estreitando olhos. a cada bombeada que alcançava até o fundo dela e voltava à borda. percebeu que era uma pergunta retórica. agressivo. Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. fazendo com que ela gemesse e lhe segurasse o pulso com força. passion? – sussurrou numa voz trêmula e cansada. . – murmurou ele.Tem lubrificante? Da próxima vez.. segundo. . Amanda sentia-se exausta e descansada. – É uma garota sensível. – soltou-lhe o cabelo e observou-lhe a feição constrita de dor. pardon. Debaixo das suas pernas. muita. ma petit. Amanda constatou três coisas: primeiro. um caleidoscópio de emoções e sensações. Num gesto brusco e inesperado. ele retirou o pau da vagina e o enfiou com tudo atrás. Temia que ele tivesse lhe ferido de fato. ardida em brasa. entretanto. gozou abraçando-se a ela com força. enigmaticamente. Havia sido estuprada por trás? . esgotamento sexual. era um homem para uma aventura erótica e nada além e. exigida a cada estocada violenta. Por um momento. ele fitou-a em dúvida. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela. sorriu-lhe de forma travessa: . ela pensava em coisas como “masculinidade”.Muita dor. porém isso só aumentou a excitação do homem que. Ela desconfiou das palavras dele. Numa fração de segundos sua expressão mudou e o sorriso bonito e acolhedor voltou-lhe à face. de cabelos molhados. Jacques era instável.Valeu a pena esperar. De repente. Capítulo II À mesa da cozinha. Jacques levantou a cabeça e a encarou. Tarde demais. por certo. percebia a musculatura do traseiro de Jacques sendo forçada. desgostoso com o tom usado por ela. – Sabe o que é uma dor de verdade? – perguntou-lhe numa respiração rápida e rouca. alçando uma sobrancelha de forma superior. terceiro. Jacques fechou a mão e puxou-lhe um punhado de cabelo. Amanda engoliu em seco.Sim. – ironizou lambendo-lhe a ponta do nariz. uma aventura erótica de curta duração. 9 . E admirando o homem à sua frente. “beleza” e “fogo”. após três ou quatro bombeadas firmes.Pardon. Mal conseguia se mexer. .Nem pense em tornar a fazê-lo. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas. tinha muita lenha ainda para consumir naquele fogo. intrigada com a mudança brusca de seu comportamento. sorriu consigo mesma. Ele piscou-lhe o olho enquanto entornava a caneca. . arrancando-lhe um grito de susto e dor ao sentir a queimação. antes acolhedor e em seguida. à entrada encharcada e ardida. você vai gostar e depois vai implorar para eu te comer por trás. como se estivesse sendo penetrada por uma lança de fogo. Tentou escapar.

porque outro felino esperava por ela... pelo menos. -Alô? -Pensei em ir à sua casa perto das oito horas. mas à sombra. o chefe estaria encaminhando-se ao escritório. como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento. a escolha das roupas a serem usadas por ele. . Annie. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e. a presa precisava imediatamente fugir. caminhava na esteira por trinta minutos.D’accord. percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante. e o dela. cobriu o espaço entre ambos.. ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. ou a organização de um jantar beneficente. No entanto.. –disse de olho no relógio da cozinha. .. Ele riu com vontade. censurou-se divertida. Ela ainda ficou por um tempo fitando o celular. venha agora. Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse.Obsessão em Paris Veronique Gris Imaginava também que naquele instante. Parecia um felino encurralando a presa. E desligou. Era de praxe que às segundasfeiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. Amanda buscou na mente motivos para tal observação. Amanda sentava-se diante da mesa de Jules. Quanto à parte pessoal. -Desculpe. três jornais durante o desjejum. monsieur Brienne. Quase gargalhou. percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo. roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. E era como se lhe dissesse: “O que?. abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. cabia a Amanda resolver. ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. – constatou num timbre de voz baixo e incisivo. acha que pode comigo?” Mas ela não 10 . Quase como um casamento. um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar. tomava uma ducha quente às 06h30min. era tudo o que mais queria na vida? Não. uma rotina a ser seguida. Usando o próprio corpo. caminhando devagar.Está atrasada.foi então que a ficha caiu!. . À porta. escolhida por Amanda.Bonjour. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. Amanda Rossi. claro que não. monsieur. E mais. o expediente na empresa começava às 9 h. Tarefas múltiplas e variadas. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta. vestia a roupa. mademoiselle. Um pensamentinho teimoso latejavalhe dentro da mente: será que lhe faltava ambição? Contentar-se em ficar à sombra de um homem poderoso. Na primeira tentativa. ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. ao longo da semana. não sabia que monsieur já estava me esperando. merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro em sua casa antes de ir à empresa. no segundo andar. mas.. sem sexo. mas ainda assim. era determinada nas reuniões de segunda-feira. Ela também queria casar e ter filhos. levantou-se lentamente e. você está regredindo anos-luz. antes de sair da cozinha. Mentira.. lia. e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. quando ressoou Killer Queen no celular. Quando viajavam a rotina era outra. Ocupavam o escritório. tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min. empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la silenciosamente. Entretanto. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos. Eram 7 horas. depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás.

alertou-se prontamente. .Obsessão em Paris Veronique Gris estava brincando ou medindo forças.Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. Desencana. Voltava agora a ser disciplinada. –concluiu. . -Oh. tenho que trocar de roupa e sair. era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada. Novamente. quando lhe fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento.. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção. não obteve sucesso. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado. Ao descer do automóvel. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. De fato. -Preciso trabalhar. dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se. divirto-me com os errados. claro. -É o que realmente quer fazer? – afastou-se para fitá-la e completou: . Amanda. desligou o motor e pegou a pasta. pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. concordava com Jacques.Bien então a gente logo se fala. podemos jantar logo mais. procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela.Ah.Não devo me intrometer na sua vida. Fez um careta quando soltou a o cós da cueca em torno da cintura. vinda de Porto Alegre. tinha outras ideias.. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil. o membro comprimido projetando-se no tecido. Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. fui muito difícil mesmo. Estacionou. A selvageria de Jacques excitava-a. Como era mesmo que sua irmã lhe dizia antes de lhe roubar o namorado e casar-se com ele? Enquanto o homem certo não chegar. – piscou-lhe o olho e brincou: – Sou muito preguiçoso. queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones. Bom. pragmática e responsável. Sentia o corpo quente. e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua. ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. no entanto. puritanismo démodé. queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. No fundo. – esperou que ela o ditasse. sim. Quer me deixar seu telefone? Ele sorriu com charme e beijou-lhe a ponta do nariz. chèri. num movimento ágil. Ouvir a voz do chefe serviu-lhe como um banho frio.Dei-me o seu. se o objetivo final era apenas: sexo.. e a obrigação profissional clamava urgência. Estranhamente. ladeada por um pequeno bosque. Soltou-se dele com um gesto brusco. – Se quiser. Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças acionasse-o pelo controle. – debochou. não estava satisfeita com o seu comportamento. .. o número correto. deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama.. Enquanto ele a penetrava. vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras. mecanicamente. Essa era ela. Jacques. como quase tudo na França. Dessa vez. até a entrada da mansão. –riu-se de forma afetada. Jacques. soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e. e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. Amanda. –murmurou. procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado: .. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo. fraco e trêmulo.. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato. Cumprimentou o rapaz ruivo. Desde que chegara a Paris.. se o seu patrão permitir. Praticamente jogara-se para cima de Jacques. 11 . – afirmou.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração. Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8 de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa. Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher! Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos. Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque – segundo ela – “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges. -Como vai tudo por aqui, Annie? Chamar-lhe diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos. - Esse frio endurece as minhas juntas. -reclamou ao lado de Amanda enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço. Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie: -Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?

12

Obsessão em Paris

Veronique Gris

Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo: -Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes. -Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto? Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim? - O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo. Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente? Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou: - Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer. Maus pressentimentos. -É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics sentem-se compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. –brincou. Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França: -Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa. Era impossível não rir. Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço. Abriu-as e atravessou o espaço, tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo. Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar-lhe a autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-

13

Obsessão em Paris

Veronique Gris

lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face. -Faça reservas para hoje à noite, em um restaurante discreto, no centro. Mesa de canto e longe de tumultos. - começou a distribuir tarefas: - Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é... - 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada? Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador. -A de sempre. Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou-lhe com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos: -Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... folheou as páginas da agenda. -Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO... - François Roche. – interrompeu-o, sorrindo. Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar: -Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi. Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia-lhe quando estava de mau humor. -Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a lhe fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar alguma amiga. No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não lhe explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques. -Non, ele levará a esposa. – respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicandolhe a cadeira à sua frente. Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu-lhe no pratinho ao lado de sua xícara. -Essa será sua única refeição até às 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. – sugeriu. Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como, por exemplo, servir-se de café à mesa do patrão, ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne. Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, através do serviço de mensagens instantâneas, no notebook. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho? Serviuse de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:

14

– afirmou taxativo. em seguida.. Santa bobagem!. Se tiver tempo. por que não vai ao médico? Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. -E faça uma tomografia. -Em vez de tomar aspirina. criado por um estilista argelino de 20 anos. Fiz reserva no Les Ombres. compre aspirina.. – mandou sem tirar os olhos do computador. levarei outra camisa para seu escritório. tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos. monsieur almoçará com. sem desviar os olhos do que escrevia na agenda. Ele fechou o notebook. Um tailleur cinza-chumbo. ele atravessou o terraço e saiu. fumante e usava o uniforme da SBO. Agora. Lembrou-se do que ouvira no Brasil. que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. Sim.. . Capítulo III Dorian possuía estatura mediana. As executivas. O jantar beneficente seria na sexta-feira e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico. -Aliás. No entanto. constantes e variados. calças de 15 . emendou de forma mais suave: . Encontramo-nos no escritório. cachecóis.monsieur Jarkko Koskinen.. muito magra. guardou dentro da pasta executiva e voltou-se curioso: -Como. – disse categórico. Menos de dez passos. sobretudo cinza ou preto e. as socialites queriam-no como presidente de honra. terno e gravata. preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos. Agora.Obsessão em Paris Veronique Gris -Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève? Um grupo de senhoras da sociedade havia-o convidado a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica.ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado. vá ter com Annie. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros. hoje.Agradeço a atenção. -Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève.D’accord. mademoiselle. Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras. que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos.. Jules enviara-lhes um cheque pessoal bastante polpudo. Era visível que a indagação o incomodara.? Até onde você pode ir com esse atrevimento?. Amanda teve de ir ao mercado fazer compras. censurou-se. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. Riu-se dos próprios pensamentos. pensou Amanda dando de ombros jocosamente Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir. . mas sendo um homem educado. Caso queira trocar-se. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. às duas horas. – completou ela com naturalidade. s'il vous plaît. e ele tentava escapar a todo o custo. saias justas até os joelhos. Os homens. valerá bem mais que a minha presença. -Aspirina e café resolvem o problema. Viu a xícara de Jules vazia. diria Robin.

mesmo anexada à de Jules Brienne. Annie vira o chupão. com sua visão periférica. que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. sofisticada. Quase gritou. proteger e preservar. possuía banheiro próprio e uma outra entrada. O que não era o caso da tez dourada de Amanda. e. Bateu com a chave do carro sobre a madeira. três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas. Doce ilusão. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin. o seu chefe? oh. lateral. Agora. discreto como era. como sua assistente pessoal... Ou seja. por isso aquele olhar estranho. estendeu à Amanda a base líquida. se você fosse uma cobra me picava. histérica. nem sequer uma piadinha). com um longo pescoço e imensos olhos verdes. nada comentaria. os seguranças da mansão de seu chefe.. Quem mais? Quem mais? Quase gritou... caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia). que. mesmo se não fosse. céus. deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros: -Preciso de base. . surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado: . o porteiro de seu prédio (que era meio míope e. quero dizer. para peles de loiras quase transparentes. sentada em frente à mesa do chefe. O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause.Qual o nome dele? Calogero? Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. graduado na Sorbonne.. monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. grande parte delas.. olha bem pra mim. com protetor solar. Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura – o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências – viu-se refletida no espelho. devia ter algum problema psicológico. daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e. vejam! A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer. tinha 44 anos. Pisou no acelerador e adentrou no subsolo. pancake! Balde de tinta também serve! A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. Ignorou a brincadeira da outra. 16 . escondia as curvas. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. -E se eu fosse o nosso VP? – questionou com a sobrancelha erguida. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara). Amanda. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição. deveria zelar. percebeu o ataque felino àquele que. de cedro. longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada. casado com uma estilista de moda. ela não seria vista entrando. mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado.. E nem teria visto a personagem alta. -Calma. Depois de muito “escavar”. mesmo discreta. A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. com a sorte que tenho seria ele mesmo. Dorian.Obsessão em Paris Veronique Gris costura reta e casaquinhos.Nem me fale!. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. Quando as portas do elevador abriram.. Ele exigia a perfeição de todos. Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que. pó compacto. onde se localizava o estacionamento da empresa. Entretanto.. Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto. e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos: -Nossa. Num minuto.

Deixou-os por um momento. Amanda observou os personagens em questão. num gesto silencioso porém bastante significativo. nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. Os lábios contraídos. 17 . mademoiselle Geneviève – disse com um sorriso profissional. tirar-lhe as calças? Entrou na ampla sala. mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. concluiu que levara vinte segundos para a operação. não. Primeiro. a qualquer momento. abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. Ajeitou-se na poltrona. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. ele não gosta de mulher fútil. ou seja. oui! . Ao voltar. A face estava relaxada. em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. etc. A outra quase pulou da cadeira ao ouvir-lhe a voz. ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. –emendou com um sorriso educado. A moça aproveitou para chamá-la até o balcão: -Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. Olhou-a de cima a baixo e. descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada. parecia aliviado com a sua entrada. –depois brincou: . Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo. com poltronas em vez de cadeiras. Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional. retraiu-se na expressão de impessoalidade. sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente. o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève. Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala. estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. no quinto andar. E fez: -Bonjour.Duvido. seriam chamados ao trabalho duro. pois precisava buscar novas xícaras no refeitório.. parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café. Amanda assentiu e ligou-a. sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!). por outro lado. sozinho. exibia a atitude de quem ouve um palestrante. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève. vir de família simples..Obsessão em Paris Veronique Gris Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente. de móveis modernos. No entanto.Merci. não aceitava apenas o polpudo cheque. era mais como se seus pensamentos estivessem brincando no playground mas. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração. sem os sulcos entre os olhos quando os mesmos revelavam tensão e reflexão.. do tamanho de uma ervilha. esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde. melhor. O chefe. sem desviar. ela não sabia que a assistente do presidente já lhe havia pego em flagrante. . dirigir um automóvel popular russo. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules. desviou para a máquina do expresso. mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. Monsieur Brienne. Ele. ter nascido no terceiro mundo. Antes de qualquer intervenção na cena. sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona. a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente. sem cronometrar. A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. para variar. as cortinas ainda estavam cerradas. ralar num emprego sem direito à liberdade condicional.Seja boazinha com ela. ah.

Além do mais. e ainda por cima era filho único.Quanto tempo tem esse centro social?. devido ao café forte e quente. parecia que tinha treze anos de idade. – encerrando o assunto. completamente órfão. mas a passeio. não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. – era Geneviève. apresentava visível prazer em sua companhia. Parece que a mãe dele apanhava do marido. era-lhe o padrasto. mãe de Jules. sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos.Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia. por sua vez. A mocinha quase bateu palmas. parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova madame Brienne. Amanda voltou à sua sala. -E a aspirina. . um final de semana na Finlândia. Aliás. mademoiselle Rossi? Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente. A bem da verdade.comentou com desdém. mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada. non? – indagou sorrindo. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária. dois ou três meses. -É. esquiei até quase acabar com meus joelhos. que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá: . O fato era que ela sorria mais e ele. mas alguém tem que dar o primeiro passo.A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitálo ainda mais. Vinte anos de diferença entre François e Jules. deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores: . aos pedaços. coitado. .No momento. que. na verdade. em seguida. amiga de Vivien Brienne. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo. Dorian. mesmo sem sorrir. agora. pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda. seria bom relaxarmos um pouco. o chefe. um macho alfa. a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. entregou a outra à Geneviève. -A Finlândia sempre me interessou.Você precisa passar. Há um rapaz de lá. 18 . Podemos combinar e irmos juntos. –disse. Jarkko Koskinen. Geneviève. . preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”. .Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se engane pelas aparências. Amanda não estava gostando do rumo da conversa. Amanda. já que a última acabava de voltar à sala segurando apenas duas folhas timbradas com o monograma da SBO. mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. algumas coisas sobre Jules Brienne. monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. Amanda. Jules sorriu polidamente. Ele é homem. -E depois dos 17. bebendo o restinho do café. – completou Amanda que sabia. e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. precisa de uma fêmea. uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. provavelmente. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar. ele precisa mesmo é de cafeína. e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe. divertida. pelo menos. pode ser. Quando voltou. Sonia e François também poderiam ir. que fará a ponte entre Paris e Helsinque.

Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele. Num minuto. numa expressão de menosprezo.Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa. -Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos. – afirmou Geneviève com a voz sumida. e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. que o faça por si mesmo. e não um menino birrento. havia ultrapassado a fronteira. O corpo não mexeu um músculo. Além disso. Ele apertou o interfone e ordenou: -Compre dez vidros de aspirinas. – rebateu com calma. quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada. Entretanto. cruzou e descruzou a pernas. ora! De repente. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade. porque o conhecia e sabia até onde podia ir. Do outro lado da mesa. o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. um misto de exasperação. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto. porque às vezes precisava polir o SEU orgulho. empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. Amanda lia tudo isso. Amanda provocava-o deliberadamente. Espero a sua visita no nosso centro social.Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral. Jules. Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. “cadê a aspirina”?. Era experiente.Há cinco anos ouço a mesma bobagem.Obsessão em Paris Veronique Gris -E por que. uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente. Resmungou algo e indicou-lhe a porta de saída. controlada. tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente. Por quê?. Dorian não compreendeu a ordem. ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar. viu? Ele apertou-lhe a mão e com um gesto de cabeça assentiu. foi um prazer. non? – insistiu. em seguida fora mal-educado 19 . culto. . os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. era uma mulher de princípios. é perigoso. . -Cinco anos com dores de cabeça. . monsieur Brienne. ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. havia neles. Ops!. desconfiado. tenso. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. como também empinou o nariz e deu dois passos para frente. – disse com estudada calma. -Jules. . fez o mesmo e estendeu-lhe a mão. em sua direção. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde. Geneviève agitou-se. Ele era um executivo. Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação. admirou a própria derrocada. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. preparado para ordenar. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e. pragmático e tinha quase quarenta. compre as aspirinas agora. ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. também. mademoiselle Cuvier. como se falasse com uma criança teimosa.Mademoiselle Rossi. Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo. Geneviève aproveitou a deixa e uma vez que Jules estava de pé. Por um segundo ou dois. sem cúmplices.

olhando para os lados. a vizinhança. Hematoma sexual? -Pardon. Dito isso.Oui. ela tinha até que ajeitar-lhe a gravata. Ora. por favor! -Fui ferida gravemente. Fogo na nuca. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o 20 . monsieur Brienne. ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó: -Retiro o meu pedido de desculpas. Le Mur Vegetal . mas isso é um ferimento causado por. -gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. – mentiu fingindo-se ofendida. mademoiselle Rossi.. Às vezes. Parecia sem jeito quando lhe indagou: -Comprou a colônia certa. a cara amarrada de sempre. Assim. Hã? Por fim. –afirmou com um leve tom de desprezo. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. bolas! Alguém ali falava grego? Ele ficou um tempo com o paletó na mão. Defendia a si mesma e os seus valores. eu posso ajudá-lo com prazer. ácido no estômago. pelo menos? . -Foi o bom senso que lhe deixou essa marca no pescoço? –apontou-lhe o pescoço. estendia para a assistente que o guardava no armário. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas. apenas isso. Ao voltar-se o encontrou ainda de pé.Obsessão em Paris Veronique Gris com Geneviève. quase jogar a mulher para fora de seu escritório. Epa!.Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina. a Torre Eiffel.. Amanda pensou. -Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face. com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo.. deixou a irritação de canto e aproximou-se: -Dê-me aqui. sem que ELE pedisse desculpas... Um buraco. Ao seu lado. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas.por. Amanda não resistiu. retirava o paletó. suspirando exasperada. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para. o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo. os lábios constritos. tem um cabide no armário para guardá-lo. Capítulo IV O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos.. Não era uma mulher covarde.concebido por Patrick Blanc. monsieur. -Pedido aceito. perdido. e tampouco uma Joana D’Arc. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã. depois. Outro atrativo localizava-se abaixo dele. garganta seca. Como ele podia saber?. monsieur. disse: . girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”.

poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. –concordou Jules. indagou: . voltouse para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. . só mudava o país. –agradeceu incluindo um sorriso. vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. estavam uma brasileira. porém. oui? 21 . Não se preocupe com as reservas no hotel. longe de tumultos (como dizia Jules). –em seguida. volta comigo para Helsinque. Fez um sinal com o dedo indicador apontado para baixo e avisou-lhe quase num murmúrio: .Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que. Jules assentiu levemente com a cabeça. nada mais que um terno cinza quase azul. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais possíveis. Faltavam os sapatos. Anos atrás. mal ouvia a conversa dos dois. Mas não naquele início de tarde. olhou ao redor à procura do garçom e disse: -Você quer sobremesa ou café. Todos degustando a badalada cozinha francesa regada por um bom vinho. e Amanda quase podia ver-lhe os pensamentos rolando dentro da mente como bolas de bilhar. tinha algo a ver com mercado. Comia como um viking. bem ou mal. monsieur Koskinen. – voltando-se para Jarkko. No momento. monsieur Brienne. Quando Jules esquecia-se de alguma informação ou detalhe. vamos! . comunicativo e inteligente. Agora. entretanto. No fundo da sua memória. O cabelo era loiro. Fica um tempo conosco. Vestia-se com discrição. um francês e um finlandês. Numa mesa próxima à parede envidraçada. a burocracia era a mesma. perguntava-lhe e ela o informava sem pestanejar. Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos. apesar de ser magro. cor de trigo. voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. -Merci. uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos.Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana. poderia ter vinte e poucos. como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências.Obsessão em Paris Veronique Gris restaurante na cobertura do museu. ainda sorrindo voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor. haveria brechas disponíveis para novos eventos. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: . bolsa de valores e impostos. a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. Pela manhã. o Jamie Oliver. ele tomou mais um gole de vinho. Jules observou os comentários de Amanda. Mas tudo estará pronto para quando chegar. mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: -Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. Mesas pequenas e quadradas. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. eu mesmo as farei. conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes.Italiano. Era um homem simpático. sendo escandinavo. Típica conversa de negócios.Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque. Por fim. começara uma empresa de criação e venda de software. mademoiselle Rossi. acaba influenciando o sueco e o russo. –Agora. devo ir. Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos.Até quando fica em Paris? -Amanhã pela manhã. -D’accord. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho. na sexta-feira.

Na verdade. o cabelo loiro bagunçado pelo vento. na outra perna. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. -Salut. não mais. de seu humor. arrumar-se e dirigir até o Marais. Comprou o sapato. -Hummm. os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. pois sempre acertara a preferência do patrão. só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. pequena.. E mesmo ele sendo lindo. uma bolsa de couro. Amanda havia esquecido aquela beleza toda. o sotaque ligeiramente arrastado. já que não retornou minha ligação. É. com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. do jeito que escolhera todos os outros. preparar algo leve e rápido. Seu corpo ainda o desejava. obviamente. já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. de lã. Diante do espelho. saindo do quarto. ela pararia de andar sobre andaimes. sugou e soltou o ar seguidas vezes. já estivesse fechada.Obsessão em Paris Veronique Gris Assentiu com a cabeça. o timbre rouco da voz. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. No entanto. Despediu-se dos homens.). pegou a bolsa e saiu do restaurante. esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos. aos pulinhos e trombadas. puxou a meia-calça rapidamente para cima. cadeiras e garçons. O proprietário sofria de transtorno bipolar. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca. a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. disse: . teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. analisando o efeito da gravidade nos seios e da comida congelada no abdômen. Num átimo e com a prática de um piloto de testes. assim. uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saíase perfeita. Estava exausta e já passava das seis. refletiu Amanda ajeitando a calcinha. sedutor e com um sorriso espetacular. 22 . Dependia. partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. ma petit brésilienne! –brincou. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel. a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. Achei que havia acontecido algo. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se. a alma. pois o tecido delicado também estava por demais gasto.. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro. passou na casa de Jules e o deixou com Annie. Tentou mesmo. abrir a loja para ele não era tarefa fácil. meias e gravatas preferidas do chefe. Apertou-se no robe de seda que nada adiantou. desviando das mesas. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite. passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados. sossegada. Às nove horas seria o jantar com os Roche.Liguei para você. em seguida. e um par de brincos de pérola. Tentou sorrir e até se encantar. Teria tempo para tomar um banho. botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse. -Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. O problema era que ela queria o sapato CERTO. retirou o robe. não podia supor que Amanda amava os homens com a profundidade de uma poça d’água. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8. o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele. Cansava-se só de pensar nessa maratona.

. pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. serviam para uma noite. Ele não ligava a mínima para Rochelle. controlada. A qualquer momento teria de sair. no máximo... capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim. Tentou impedi-lo empurrando-lhe o tórax com as mãos. . as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. porém manteve-se de pé. o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. a mínima! Obcecado pelo trabalho. Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço. deixe-me ver. Mas a empresa era dele. Para companheiros de vida. ou. isso. – balbuciou. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar-lhe a vida. -Acho que perdi meu celular. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando-lhe a expressão. a abandoná-las. de fato. Desviou o rosto dos seus lábios. – pediu em voz baixa. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la. deixara-o sobre a mesa do Les Ombres.. – Escute. quantas horas por dia você realmente vive e quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. Amanda conhecia o tipo. impondo força o suficiente para afastá-lo. Já viu um workaholic ter ereção? Claro que non. um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. o filho da puta. mordendo-lhe de forma sensual. duas. debaixo do banco do seu carro. Onde você estava. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? 23 . do carro do chefe. . não tente tapar os ouvidos! Eu sei tudo sobre aquele verme. entendi. à noite. Empurrou-o mais uma vez. como se não estivesse acostumado a ser despachado. bébé? –sorriu.. Não sabia como reagir.Por favor. virou a cabeça ostensivamente e cerrou os lábios com força. numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. Provavelmente. Me diga. Você precisa sair. profissional. E era óbvio que não estava. Rochelle era o meu amor. -E eu já sei muito sobre você.. o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente idiota que idolatra um assassino. irônico. . literalmente. Tantos lugares. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques. perto das quatro. batendo no sofá chamando-a para perto de si.Ah.O que foi. perdera-o na rua. Amanda. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres.Já lhe disse. na pior das hipóteses. pois trafegava em alta velocidade. Jacques. a gente se conhece há três dias. -NÓS temos um compromisso.. no corredor da empresa. na lavanderia. Ah. tenho um compromisso. no elevador. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? . saia da minha casa. a minha vida – riu-se. no quinto andar. o chefinho controlador. Enquanto ela pensava no celular perdido. a ferir sentimentos e autoestimas. o que dizer. vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. você é descartável. jamais. jamais fora comentado na empresa por ninguém.Ei. -Tenho um compromisso. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. moço. o que sentir. Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma. . Anotação mental: comprar imediatamente um celular. – enfatizou. jamais se atrasara a um compromisso com o chefe.Obsessão em Paris Veronique Gris -Hã. Se Jules a perseguira até tirar-lhe da pista.. como se dez.

afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade... um trabalho de networking.E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! –desferindo-lhe outra bofetada no rosto. sábado. inerte. As mãos deslizaram-lhe por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e... Teria de esperar alguns segundos. e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro.um amantezinho de quinta! –gritou com desprezo. Sentia a face ferver de dor. Um punho cerrado acertou-lhe o maxilar. do que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo. -Oui. –murmurou junto à sua orelha: . Foi então que tudo mudou. Nada de precipitação. lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação. para levantar informação e material contra Jules. -O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz. ao longo desses cinco anos. – gargalhou e emendou: . porém surpreendeu-se com a força do golpe. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si. Ele riu com vontade e abriu-lhe o cinto do robe. -Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você. -Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada. Mas eu ainda o porei entre as grades. somos amantes. pensei que fosse me ajudar. Inutilmente.. mas ele somente o faria caso a deixasse desmaiada. morro de inveja de um assassino. A recepcionista da SBO? Hummm. mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido.. Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. arrancoulhe a roupa e enfiou a mão por entre seus cabelos. Pressentiu que ele se erguia. Afastou-lhe as mãos do corpo. fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. seu psicopata? Com a mão livre. ma chérie. um pouco histérica. Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão.Além do mais. Amanda Rossi. A não ser que sua teoria estivesse errada e o objetivo do outro lhe fosse tirar a vida para respingar um pouco de sangue em Jules Brienne. non? Só não traço as mulheres da diretoria. Ele só não foi preso. esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. A única chance que tinha era fazer com que Jacques se afastasse. como lhe avisei antes... ouviu seus passos distanciando-se. Sabe sua amiga Dorian? Pois é. porque é rico.Obsessão em Paris Veronique Gris -Você tem inveja de Jules Brienne. 24 . sou preguiçoso. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. ajoelhando-se ao seu lado. entende. Empurrando-a contra a parede. Jacques puxou-lhe ainda mais os fios. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. de olhos fechados. enquanto o cérebro girava à procura do entendimento.estava me esperando. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor. Amanda gritou. deliciosa. esperei o momento certo para me aproximar. Deixou-se ficar. – disse num fiapo de voz. desprotegida. Teria de forçá-lo a bater-lhe ainda mais. Mas você me surpreendeu. precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite. com certeza. A dor havia desaparecido. -Essa sua lealdade é nojenta! -E você é um doente.

Barulhos típicos do cotidiano. criança chorando. e esvaziou o peito da dor. sua amante. Aspirava o cheiro dele e já não era mais agradável ou sedutor. Medo que a loucura o tornasse um homicida. com a fúria de uma mulher machucada. na escuridão da escadaria entre o segundo andar e o térreo. subia rapidamente a escada e entrava no apartamento. Destruir a imagem pública do homem e o seu trabalho. os espasmos do choro sacudiam-lhe os ombros. por sua vez. E talvez fosse isso mesmo que ele quisesse. Os soluços escapavam-lhe dos lábios. reclamando. uma cortina de lágrimas turvava-lhe a visão. pegou a faca de cortar pão e saiu para o corredor vazio do prédio. pelo visto. A qualquer momento. Aproveitou para chutar-lhe entre as pernas. Medo que voltasse a sua casa. Mas o mocinho não batia em mulheres . Desceu os degraus sem acender a luz. uma obstinação que a compelia a desejar viver. Uma denúncia que chamasse a atenção da mídia e. Possuía um instinto persistente. No entanto. Seduzira as funcionárias da empresa e. não precisaria usar os punhos. Acertara o desgraçado. Quando as lâmpadas do corredor acenderam-se e Jacques Rodin surgiu diante de si sem lhe dar chance de raciocinar ou piscar os olhos. captou o cheiro familiar que lhe acionou na mente palavras como segurança e proteção. atirou-se contra ele e. Amanda esperneava e tentava mordê-lo no braço. desferiu um soco acertando-lhe o queixo. Apertou o cabo da faca. ruídos de talheres e cachorros latindo. Correu para a cozinha. e encontraria Jacques. em seguida.. Tudo abafado pelas paredes. desenterrasse a história do acidente envolvendo o presidente-executivo da SBO e sua jovem esposa. Sentiu uma mão acariciando-lhe suavemente os cabelos. Ouvira-o gemer e descer alguns degraus de costas. no ar. porque Jacques. enquanto ele procurava esquivar-se de seus ataques. Desvencilhou-se das mãos que lhe apertavam os ombros e. sacudir-lhe os ombros. o vilão. no casaco úmido e gelado. Numa das investidas de seus dentes no pescoço do homem. roucos. engoliu a vontade de chorar e o medo. Era um odor de doença. agredia a assistente pessoal que poderia denunciá-lo à polícia. Jacques de fato atingiria Jules. Manipular versões a fim de transformar-se no mocinho e Jules. para querer e perder. agarrou-a pela cintura e a pôs no ombro. A fragrância amadeirada avisou-lhe que estava salva. agora. Não adiantava mais lutar. Medo de deixá-lo solto pela cidade tal qual se deixava um cão com raiva. A batalha não estava perdida. cerca de vinte degraus. gritando como nunca havia gritado na vida. fosse como fosse. televisão. 25 .Amanda pensou com os lábios cerrados de ódio e as lágrimas jorrando livremente pelo rosto – o mocinho lutava ao lado da heroína para combater o vilão. Apenas dois andares. Sentia os cílios pesados de água. tirou-lhe a faca da mão para. Não se entregaria tão fácil. numa situação extrema e violenta como a que vivia em nada adiantava ser forte. no pescoço. Deitou a cabeça em seu ombro. Desde a adolescência sabia que nascera para perder. intermitentes. segurando-se no corrimão. de obsessão em metástase. agora. mas ele foi mais rápido. o príncipe que se transformara em sapo. para admirar e não ter. abriu a primeira gaveta do balcão. num gesto rápido e preciso.. O cerco começara havia cinco anos. A agilidade do homem pegou-a de surpresa e.Obsessão em Paris Capítulo V Veronique Gris Vestiu o robe e apertou com força o cinto ao redor do corpo. enfiou a faca. logo após o coma de madame Brienne. para se defender e defender o mocinho caçava. E a heroína. na nuca.

Ela tentou sorrir. obtém informações em questão de minutos. os maxilares tesos e as rugas entre os olhos ainda mais acentuadas. a sombra de um sorriso pairou-lhe sobre os olhos: -Eu sei. quase que didaticamente. O que me intriga é chegar aqui e encontrá-la fora de si. -Monsieur não deveria estar aqui. Amanda. ao mesmo tempo em que parecia reviver a infância vendo a mãe apanhar do marido. -Tomei a liberdade de pedir a Melissa do CPD investigar de quem era o número. e depositoua sobre Amanda. -Mademoiselle Rossi. – Treze chamadas perdidas e oito mensagens de texto. mas também não precisava me dar um soco. sem nenhuma emoção na voz. pensou. o rosto escanhoado. aposentada. chefe. magro e com apenas sete anos de idade. Por um momento. foi até o quarto e voltou com uma manta de lã. mas a obsessão não é por mim. tenha sido roubado. -O que aconteceu aqui. ex-diretora de uma escola infantil. Tirou o casaco e sentou-se na ponta do sofá. Encontrava-se numa situação de desvantagem. Ele estava tenso. não deixou de perceber que Jules estava com o cabelo úmido por causa da neve. Invadi sua privacidade. hoje? –insistiu. é capaz de muito mais. Analisava-lhe o rosto. -Vim porque esqueceu o celular no restaurante e algo chamou a minha atenção. pelo visto. – retirou o aparelho do bolso do casaco e devolveu-lhe. porém. não ficava apenas vendo a mãe apanhar. Deitou-a no sofá. me desculpe. espantou-se com a preocupação estampada na face de Jules. – baixou a cabeça e fitou as próprias mãos. o suficiente para se olharem e certificarem-se de que tudo estava bem. Amanda sentia sobre si a força de seu olhar e a voz baixa e macia dizia-lhe quase o que Jacques falara-lhe. -Sim. Amanda ergueu meio corpo e tocou-lhe o braço: -Por favor.Você me dirá de quem é esse número. vestindo um minúsculo robe e acabara de acertar um soco no chefe. monsieur Brienne. machucada. o celular está registrado em nome de uma senhora de 102 anos. ainda fungando. Falei com um conhecido da polícia e foi-me dito que.Obsessão em Paris Veronique Gris Somente depois que ela conseguiu parar de chorar e tremer. alguns centímetros. Mas o que Amanda não sabia – e Jules mais tarde dissera-lhe – era que ele. Quase acertou no alvo. provavelmente. as marcas vermelhas das bofetadas e o inchaço no maxilar devido ao último soco. Num reflexo automático. jogava-se contra as pernas do padrasto. a camisa azulturquesa combinando com a gravata de seda. ferida e com uma faca na mão. o terno azul-marinho impecável. lutava até ser arremessado contra a parede. lembrou-se do jantar com os François. grossa. – disse com calma. De repente. o que lhe salvara de uma surra maior. mesmo pequeno. Acho que tem a ver com que aconteceu aqui. -O CPD não foi capaz disso? – ironizou. A neve juntava-se ao redor dos frisos da janela e os flocos faziam barulhinhos contra o vidro. – constatou. mordia-o. Sentia-se horrorosa e dolorida. mas tenho o direito de fazê-lo visto que trabalha diretamente comigo. pouco. Entretanto. –enfatizou. homens como eu. num período de duas horas. -Oui. 26 . Estudava-lhe o estado emocional. telefonara-lhe a cada cinco minutos e enviara-lhe mensagens eróticas como um amante obcecado o faria. do mesmo número. -E o que ela descobriu? . tendo descoberto antes que alguém roubara um celular. afastaram-se. Com quem está andando? -Teve uma tarde bastante produtiva.

. -Quer que eu lhe vista uma roupa? Não seria a primeira vez que vestiria uma mulher. E perdendo sua confiança. Eram quase nove horas da noite. -Imagino que sim. com certeza.Obsessão em Paris Veronique Gris -Briguei com meu namorado.Assustá-lo apenas.. – interrompeu-se. Seria muito difícil manter segredo.. que falava com a placidez de um monge e piscava os olhos como um nerd movido a café. porém riu sozinha. monsieur Brienne. Ela não pôde deixar de rir. . de óculos. é melhor que vá ao jantar com monsieur Roche e se distraia. se omitisse as ações e intenções de Jacques ou inventasse uma história qualquer. Não iria mais a um jantar. era necessário que lhe fosse observada qualquer reação nas vinte e quatro horas posterior à queda. Depois. mesmo tendo sido comprado de um balaio. ficaria bisbilhotando até ela voltar. Ajeitou os cabelos com os dedos e voltou à sala. Possivelmente. que se cercava de poucas pessoas e as mantinha na sua mira. perderia o emprego. Ignorando-a. quase impessoal:. me informará sobre nome do sujeito que lhe bateu. era mesclada de cinza. Era um homem desconfiado. Calçou um All Star. E Jacques era doido de pedra. No entanto. digitou uns números no celular e avisou François que estava resolvendo um problema com sua assistente e não compareceria ao jantar. Jules permaneceu na sala do doutor Sion Tsing Sung. Adiantou-lhes que mesmo se tudo estivesse certo com a cabeça da paciente em questão (e estava). A neve caía em flocos grossos e colava-se nos vidros embaçados. ele devia ter feito o proprietário abrir as portas. -Monsieur está brincando? Não sairei desse sofá. iria atrás tirar satisfações. Custara-lhe uma pequena fortuna. alta. Um círculo verde-arroxeado tingia-lhe o maxilar. Quais as portas que não se abriam para Jules Brienne? -Quero o resultado hoje mesmo. Não queria que Jules soubesse de Jacques.. quero dizer. a duras penas conquistada. Sim. conduziu-a até o quarto. sempre baixa e controlada. ele. com passadas largas. Durante a realização dos exames. as coisas ficaram ainda piores. –avisou-a. As marcas dos dedos de Jacques haviam desaparecido por completo. e sim fazer uma tomografia computadorizada. –murmurou. poderia até mesmo matá-lo. é provável que sim. Au revoir. e olhou-se no espelho.. um homem baixo. passou a mão pelo tecido e suspirou profundamente. preto e branco. não lhe daria folga e acabaria por deduzir outra coisa. corria o risco de perder a sua confiança. baixou a cabeça sentindo as bochechas arderem. Amanda antecipara-se a Jules informando ao médico que a batida na cabeça fora provocada por uma 27 . determinado como era.Olha. –completou com ar sério. Observou-lhe encaminhar-se até a janela e olhar para a rua deserta. olhou para o relógio de pulso e disse sem alterar a voz. deu-lhe as costas e voltou à sala. Vestiu um jeans e um blusão cinza cuja gola. Olhou para cama e viu o tubinho preto esticado feito um corpo sem carne. precisa de uma tomografia. Sion. gordinho. Todavia. Sentou-se.. -Estava fora de si. Jules levantou-se. Se contasse sobre o ex-amante de sua esposa. agendou com uma clínica radiológica uma tomografia e um raio-X da face e crânio. -Dois minutos. Pegou-a pelo antebraço e. –quase gaguejou. Pensava que se revelasse a verdade. não admitindo refutação.Troque de roupa. -Tencionava esfaqueá-lo? –indagou desconfiado. Voltou-se para ela com ar grave: -No caminho. um corpo pulverizado.

viu-o passar por ela e postar-se no meio da sala. -Adianta dizer que estou bem e que um soquinho qualquer não me derruba? -Non. como um agradecimento e um boa-noite. – Isso aqui. e tampouco uma “Amanda” para cuidar de mim. podia ouvi-lo abrindo e fechando portas e gavetas dos armários da cozinha. soltou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa. plantada as três da madrugada de domingo. – debochou. tirou o sobretudo. antes que pudesse emitir qualquer palavra. provavelmente teria barrado a entrada do seu agressor ou namoradinho agressor. o que lhe foi comunicado com naturalidade. quando fizer as compras de Annie. que seja. para que seu diagnóstico fosse o mais preciso possível. Era homem demais para pouco móvel. dando as costas e voltando à cozinha. – concluiu. ignorando os efeitos que tal narrativa exerceria no ego espezinhado da paciente/vítima. mesmo demorando a entender o que acontecia.se esse prédio tivesse pelo menos um porteiro. autoridade ou determinação. hein? Ouviu um resmungo. está novinho em folha. o paletó. esquadrinhando o ambiente e esperando-a trancar a porta. Abriu-a e. . constatando as irregularidades em seu departamento. não é comida para humanos. – dirigiu-se ao quarto enquanto completava: . Por isso como melecas congeladas. que a fez aceitar. – falava como um agente do FBI. -Deveria organizar-se melhor então. -Tem razão. Na geladeira tem macarrão caseiro que fiz hoje às cinco da manhã e molho de tomates colhidos na minha horta. sem contrariá-lo. por exemplo. Se ele queria brincar de dona-de-casa que fizesse do jeito certo.Monsieur tem sorte. Impossível. os travesseiros e o edredom. Amanda ergueu as mãos se rendendo e explicou: -Não tenho uma “Annie” para cuidar da minha casa. . e ele logo surgiu na sala. -Buscarei. Olhou para o tamanho do sofá e imaginou Jules Brienne estendido nele. Suspirou resignada. O que foi feito. num apartamento microscópico. . semana passada comprei outro edredom. consumindo ração congelada e sendo atacada dentro da própria casa.O que tem nesse micro-ondas? É algum tipo de ração para gatos? Ele estava fuçando na cozinha! Do quarto.Obsessão em Paris Veronique Gris queda. Se dependesse do outro. Voltou com o edredom com estampas infantis e dois travesseiros cujas fronhas tinham o corpo voluntarioso de Betty Boop. então. inclua as suas. . Pôs as mãos na cintura como fosse lhe ditar um texto: -Nova regra. –declarou sem rodeios ou justificativas. É inadmissível que uma funcionária do seu nível viva tão mal assim. Talvez fosse alguma coisa na postura dele. segurando a embalagem da comida congelada esquecida dentro do micro-ondas.Onde tem comida nesta casa? – perguntou-lhe à porta. como se estivesse escrito e assinado pelo doutor Sung: -Passarei a noite no sofá. mademoiselle Rossi. – Vou pôr essas imundícies no lixo.Por acaso está avacalhando a minha vida? 28 . Jules estreitou os olhos como se avaliasse a extensão do deboche. -Por que não tira seu paletó italiano antes de fazer faxina na minha cozinha. Espero que simpatize com o Patolino. Amanda estranhou quando Jules desceu do automóvel e a seguiu até a porta do apartamento. definitivamente. o doutor Sung ouviria de fato a verdade.

Só havia uma saída. sem açúcar. . -Talvez o problema todo seja que eu cuido mais da sua vida do que da minha. sou uma executiva graduada em. Claro que ele não a desejava como esposa. – declarou impassível. -Um dia vou parar de dizer ‘’oui. seu pulso foi fechado por outra mão. – disse com raiva. é normal que a sua vida fique em segundo plano. somente estou constatando o que qualquer pessoa sensata o faria. assentir e obedecer-lhe. – franziu o cenho. monsieur Brienne. de dedos longos e unhas curtíssimas. Despejou quatro comprimidos na palma da mão e. Num gesto maquinal. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça.Com todo o respeito. Já o pegara nessa mesma posição no escritório. -Como sabia sobre o serviço de entregas desse restaurante? -perguntou intrigada. Na sala.Entenda apenas que a sua função é assessorar-me para que a minha carga de trabalho e incomodações cotidianas sejam menores. –avisou-a. Vou tomar um analgésico. Esperou que ele fizesse algum comentário sarcástico ou uma crítica ao seu comportamento nada profissional. mademoiselle. -interrompeu-se ao notar que gritava com a voz esganiçada. emendou com mais calma: . voltou-se para ela e informou: -Jantaremos em vinte minutos. levou a mão à testa. você não sabe viver direito. não cederia à dor com apenas um paracetamol 750 mg. estava exausta. Conhecia o seu organismo. cansada emocionalmente e não aguentaria outra discussão.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não se ofenda. de pé. Antes que ele se voltasse. -Nem estou pedindo para que seja minha esposa. -Cartas na manga. -O quê? O quê? – quase gritou. Portanto. queria dormir a noite inteira e esquecer por algumas horas o episódio com Jacques. avaliando os objetos nas prateleiras da estante e com celular colado na orelha. maior. e sim minha esposa. para essa função tinha Geneviève e seu pescoço de ricaça culta e boazinha. ele encomendava comida de um lugar conhecido por seus preços estratosféricos.É para aliviar a dor. Foi ao banheiro e percebeu que era seguida bem de perto. mas não diante de um móvel. na mesa pela manhã? E escolhe desde a sua colônia e meias até o modelo de celular? Me diga.. Sentiu uma pontada na cabeça. – murmurou emburrada. extraforte. Depois. . ingeriu mais dois comprimidos. os olhos sérios enfiados nos dela. – respondeu sem dar muita importância. Além disso. e sim em frente à parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Paris. minha cara.. – afirmou num tom que um professor usaria para com sua aluna rebelde. – Quem deixa o seu café quente. – afirmou com uma calma que a deixou muito irritada. monsieur’’. -Oh. Entrou. Esperou em vão. imediatamente. parecia que fazia medidas e considerações mentais. abriu a portinha do armário aéreo sobre a pia e retirou um frasco de paracetamol. mas jamais seria sua esposa! –exclamou ultrajada. –replicou com impaciência. e não para se dopar. qual é o valor da conta de energia elétrica da sua casa? Qual é a operadora de tevê a cabo que o senhor assina? Onde manda lavar seu automóvel toda sexta-feira? -Não sabia que mandava lavar o meu automóvel. -Se não fosse assim. -Dor? -Um pouco. não seria minha assistente. 29 . Parado diante do móvel.

concentrado no computador. fique com minha cama.Se está errado. – disse. Se fosse um engraçadinho qualquer teria aproveitado a deixa e dito: “está oferecendo-me a sua cama?” . madame. . Então Amanda explicou ao empresário do ramo de computadores que tal máquina já existia. Lavou a louça sozinha.Isso não está certo. Esse era o estranho senso de humor do chefe. enfrentaremos um frio de trinta graus negativos e executivos mais ambiciosos que os norteamericanos. comentou num tom casual: . com ar preocupado e distante. já que Jules lia seus e-mails mais importantes e nem sabia que pratos. . relaxe diante de uma planilha do Excel. ..por que não fica mais à vontade. de que adianta passar a noite neste cubículo para ficar de olho nas suas reações. –murmurou.. e tampouco os CDs de músicas francesas comprados ainda em Porto Alegre.Obsessão em Paris Veronique Gris Postou-se ao seu lado e fitou os livros de história e ficção científica que ela costumava ler. Fez um café forte e deixou-o na cafeteira ligada. A grande questão agora é: como dormirá num sofá tão pequeno? Jules desviou o olhar de seus olhos para o sofá. Amanda sorriu. . claro. Conseguiu dormir quarenta minutos após jantar a mesma comida que era servida no melhor restaurante da cidade. parecia cansado também.. Com certeza. apontou a pasta executiva sobre a poltrona e comunicou-lhe sem muitos detalhes: -Trabalho.Preciso tomar cuidado. copos e talheres eram lavados por alguém. . comentou que seria interessante se existisse um tipo de máquina que lavasse a louça. Tenho certeza de que será como nos outros lugares. . Antes de voltar ao quarto a fim de trocar de roupa. Além do mais. mostra que está ponderando se a decisão que tomou é coerente com o que quer para a corporação ou apenas um impulso de conquistador de mercado.E o que acha? – voltou-se para ela. ajude-me com os relatórios. Num dado instante. não eram os patinhos de cerâmica. – declarou sem olhar para ela e sentando-se no sofá. pelo menos. como se fosse possível. Ele assentiu levemente e arou os cabelos com os dedos. leio com mais facilidade a sua linguagem não-verbal.Já que passará a noite aqui. . . . Tentou imaginar o que lhe despertava tamanho interesse. Pressentia o rumo dos pensamentos do chefe.Tubarão em meio aos tubarões. resoluto. se ficarei dormindo feito um inútil. -Oui. – explicou-lhe: Assim como estava. – sugeriu. -E por que não tem? 30 .Durmo sempre quatro horas por dia. está começando a ler minha mente. Preciso de você inteira.. –declarou em tom irônico. por favor. Acho que essa viagem será divertida. interessado. tire os sapatos e as meias. – disse-lhe em tom de provocação..É melhor então que não ponha seus pés na água. . -É.Abrir campo nos países escandinavos é um grande passo. Eu durmo no sofá tranquilamente. -Não pode passar a noite trabalhando. Ligou-o e mergulhou nas maravilhosas planilhas.Que já sabe a resposta para essa pergunta.Na verdade. Quero preparar algumas coisas para Helsinque. neste cubículo – enfatizou com um sorriso torto. – completou quase que para si mesmo.. Abriu a pasta e retirou o notebook. -Claro.

Olhou ao redor e o lugar parecia morbidamente desértico. adormeceu. Possivelmente. a mais chata e fofoqueira do prédio. passou a mão pelos cabelos. Sentou-se. -Non. Não vestiu um robe. Mexeu-se debaixo do edredom.E quem será que a comprou? – perguntou intrigado. que mexeu levemente a cabeça sem tirar os olhos da tela do notebook. – voltou ao trabalho e meio minuto depois perguntou: . madame Brienne.Annie tem uma máquina dessas? . as lâmpadas oscilavam pálidas. fez com que Amanda sentisse uma terrível dor no estômago. O medo singrava-lhe nas veias. Talvez tenha sido encomendada por outra assistente. E encerrou a conversa. -Antecessoras irresponsáveis que foram devidamente demitidas. -Provavelmente. pastas abertas. -É. secamente.Obsessão em Paris Veronique Gris -Não me cai os dedos lavar uma loucinha. Friccionou os braços com as mãos. escolhendo uma posição confortável para voltar a dormir. viu-o caído no corredor. tocando-lhe o rosto com delicadeza. Talvez estivesse precisando de algo ou adormecido em cima do computador. como se tivesse transformado o sangue em larvas incandescentes. Assim que deitou a cabeça no travesseiro. verificou-lhe a pulsação. -Certo. Respirou aliviada ao perceber que estava vivo. . À mesa. Mesmo por que quando se aproximou da porta aberta. – acrescentou a título de informação. mademoiselle Rossi. por impulso. Despertou mais tarde com o barulho da freada de um automóvel. sem barulho. relatórios espalhados e o notebook ligado em modo de espera. já que tal camisola era um tanto parecida com a da sua vizinha. – disse. manteve os olhos abertos. Chegou à sala e uma onda de frio tomou-a por inteiro. Tudo parecia normal se não fossem as manchas de sangue no carpete. numa fraca tentativa de aquecer-se e procurou entender por que diabos Jules havia aberto a porta de entrada. fora até o seu carro buscar algo. Havia alguém na cozinha. uma de suas antecessoras. que não ficasse presa no chão e que não gritasse para que Jules a salvasse.Desde que trabalho para o senhor. Capítulo VI começou a sentir os efeitos do analgésico. talvez. de mangas compridas e decote V nem um pouco sensual. acendeu a lâmpada do abajur e decidiu ver se o patrão ainda estava acordado. ela evitava ficar muito tempo em casa. Estranhava não se lembrar de quando a havia comprado. Respirou fundo e ordenou-se a agir.Monsieur Brienne! – chamou-o. tentando entender de onde vinha a luz que banhava o corredor de uma frágil claridade. . – disse com naturalidade. pois usava uma camisola de algodão. Agachou-se ao seu lado e. 31 Quando . Por um momento. desejou uma boa noite de trabalho ao seu hóspede. tal possibilidade. –comentou com casualidade. Era mais como a sensação de uma presença e.

. – riu com vontade. -Jacques! Jacques! Seu desgraçado covarde! Foi agarrada por tentáculos de aço que quase lhe tiraram o ar. . Nenhum efeito. Ninguém podia vê-lo prostrado no chão. -Mon. Por que Jules não relaxava um pouco.comentou debilmente. não havia dor e perda.Monsieur Brienne é um vampiro? Sentou-se na cama. empurrava-o e o chutava. arrebentando os botões e expondo-lhe o tronco nu. sentado à beira de sua cama. agora. O tecido da camisa. Afastou-se e o fitou. Sucumbia no melhor estilo. estava o único homem que significava alguma coisa para ela e jamais o deixaria. Foi então que Amanda descobriu que estava ferido.. Havia muito sangue nos ferimentos e escorria através de sua pele alcançando o piso do corredor. no chão. Emergiu do fundo de um mar tépido e denso. Jacques seguravalhe pelos ombros sem mexer um músculo. pensou..Obsessão em Paris Veronique Gris Ele não se mexeu. sem argumentos. Amanda jogou-se contra ele com raiva. Era bom sucumbir. . sangrando. . Era a sua obrigação preservar-lhe a imagem. sério. Investiu novo beijo. bloqueando-lhe a passagem... Como? – Como? Como se regenerou. As sobrancelhas juntas carregavam-lhe ainda mais a face bonita e escanhoada. mademoiselle Rossi? Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo. –constatou impaciente. Jacques surgia à porta. forçando-o abrir os 32 .sieur está bem. E. Levantou-se num átimo a fim de chamar uma ambulância.Você o entregou de bandeja para mim. para a escuridão. Mas ela queria brincar com fogo. A luz do abajur revelou a máscara circunspecta de sempre. Era bom morrer. seu corpo inteiro misturava-se à água quente que insistia em puxá-la para baixo. Mas antes de ir. Era até bom. sorriu-lhe com tamanha alegria que se surpreendeu ao vê-lo irritado com as mãos possessivamente em seus ombros. tencionava viajar para outro lugar. – declarou-lhe.. Estranhamente. um inseto inofensivo.. Ele podia estar desmaiado há horas e perdido muito sangue. vivo. tinha de respirar para sobreviver e telefonar para o hospital. Monsieur Brienne estava desmaiado até alguns minutos atrás. Recuperara-se do ferimento e estava inteiro. deixando-se levar como pluma ao vento. Jules estava pálido. Jules estava bem. sempre disciplinados.Já estaria morta. aquela seriedade sexy que às vezes a deixava sem palavras. sujeitar-se. Os primeiros botões da camisa estavam abertos e os cabelos. a cabeça girava ou o quarto girava.. Alguém o ferira. A vida era curta demais para tanta seriedade. Despencava de um abismo direto para dentro d’água. os lábios sem cor. -Quantos comprimidos. Mas não conseguia manter-se à superfície por muito tempo. . na linha do abdômen. Ela era uma formiguinha.Vinte e dois.Quantos malditos comprimidos ingeriu? Amanda abriu os olhos e fitou a expressão séria e exasperada do chefe. Ouviu-o praguejar baixinho e arar o cabelo com a mão. caíam em mechas curtas sobre a testa – ela observava-o preparada para mergulhar novamente e fugir da realidade. Precisava de ar. estava manchado de sangue. Não contava com a felicidade que sentiu ao constatar tal fato. Tinha de salvá-lo. uma nódoa disforme e vermelha. . E era tão bom!. No entanto. Aproximou seus lábios dos de Jules e os tocou devagar. agora. No minuto seguinte. Abriu-lhe a camisa num safanão. Também era bom. perder uma briga.? Somente vampiros conseguem se regenerar. para dentro. caía devagar. Sorria e balançava o celular de Jules na mão.

na altura das costas e comprimiam-na como se quisesse fundir-se a ela. que a arrastou como um surfista que perdia a prancha e afogava-se feliz no mar que acreditava idolatrar. 33 . . Em seguida. . porém. Amanda riu baixinho e enlaçou-lhe o pescoço trazendo-lhe a boca até a sua. apesar do bom senso das palavras. Ele a afastou delicadamente e havia nesse gesto a ponderação e o bom senso típicos do chefe. imponente e tépida. e sim trazê-la para si. – disse-lhe ao ouvido. no início da semana. . Ela protestou e tentou puxá-lo para perto. queria sentir-lhe o gosto. afastou as cortinas e observou o céu branco e os flocos de neve caindo. – ela fez um sinal com a mão. procurando não decepcionar o cantor. – disse calmamente e. Tinha de detê-lo. o locutor informou o horário. antes. Por isso. desde a primeira entrevista de seleção. Assobiou alegremente a canção que tocava na rádio. Amanda desceu a mão até a cintura de Jules e. pesada e acelerada. antes de mergulhar: -Você é o único que confio e lhe serei leal até o último dia da minha vida. desejou aos ouvintes um ótimo dia de trabalho e ofereceu-lhes “Prendre l’air”.Não costumo fazer sexo com mulheres dopadas. eu já volto. Ele gemeu junto ao seu ouvido e pediu numa voz sussurrante e implorativa: . a exploração passou para o queixo e pescoço. A respiração de Jules estava rouca.Espere. habilmente. Definitivamente. jogando os braços ao redor do pescoço dele que. Após os primeiros acordes do violão.Não faça isso.Sempre quis dormir com um macho alfa. Acordou com uma voz masculina próxima ao seu ouvido. os seios esmagados no tórax largo e firme.Obsessão em Paris Veronique Gris lábios para a vontade de sua língua. constatou-lhe a plena ereção. que ficava do lado de fora da janela da cozinha. a voz rouca denunciava que consciência e instinto haviam brigado ferozmente. Ansiava como uma canibal. Batman. encaminhouse até o varal. sempre o desejara. agora. Após ter chegado atrasada ao trabalho. excitada. Mordeu-lhe o inferior. 7h 15 min. Mas ela o queria. enquanto sua língua explorava-lhe a boca. mas nem se mexeu do lugar. Mas algo o fez mudar de ideia. Amanda empurrou o edredom para os pés da cama e enfiou-se debaixo da ducha. Os braços rodearam-lhe o corpo. pegando-lhe a mão ousada entre suas pernas e afastando-a de si. Ela gemia baixinho. finos e persistentes. temia que isso novamente acontecesse. transparente. precisava vencer a onda. Bonne nuit. desvencilhou-se. Apertou-se contra ele. Manteve os vidros bem fechados. numa atitude de quem estava decidido a arrancá-la do corpo.. aprisionando lábios em lábios. Abriu a janela. Abriu a gaveta da cômoda e. dizendo que o período de neve seguiria firme por toda a Europa. voltando para o lóbulo da orelha.. enquanto sua mão tentava infiltrar-se para dentro da calça de Jules. parecia estar chegando bem perto do seu limite de homem controlado. de Calogero. Saiu do banho enrolada numa toalha cor-de-rosa e felpuda. como não encontrou nenhuma calcinha. por cima da calça social. Depois. As mãos de Jules já não eram mais usadas para afastá-la. desde que entrara em seu escritório e ele a olhara com a expressão de homem-no-controle-detudo. Ele ainda segurava a alça fina da camisola de renda. Ele segurou-lhe a nuca e aprofundou ainda mais o beijo. que foi mordiscado e chupado languidamente. ajeitando-a novamente sobre o ombro de Amanda. Ainda teve tempo de dizer a Jules. parecia haver um diabinho soprando-lhe uma autocensura.

A neve estava mais branda. decidiu resolver logo uma questão e da forma mais direta possível. que Geneviève era uma forte candidata e seria muita sorte dela casar-se com Jules Brienne. Vestiu rapidamente o tailleur escuro e os sapatos. muito mais em relação a Jules Brienne. uma mulher que lhe desse carinho e sexo. tentava controlar a irritação. justamente porque ele não a via como mulher. J. a qualquer chefe e. Em princípio. .. -Minha vida afetiva está fora dos limites da empresa. lembrava-se claramente de que ele dissera que ficaria trabalhando no projeto finlandês para a expansão da sua corporação na região nórdica. Eles se beijaram? Automaticamente. que tivera na França. perfumou-se com discrição (aprendera a usar os perfumes em Paris). Paradoxo difícil de entender. o vento era forte e cortante. Dorian? – perguntou impaciente. E caso não mantivesse um bom nível de trabalho. Amanda pensava. digeria a pergunta. Ao voltar-se. no terraço da cobertura. ainda assim fora escolhida para o cargo mesmo tendo pouca experiência na área administrativa. Refletia sobre isso quase todos os dias. Amanda.B. tendo. as chaves do carro e desceu até o estacionamento do prédio. Como havia esquecido? E. nunca o vira com alguém. Jules era fiel à esposa. a esposa mantida viva através de aparelhos. era por demais discreto. seria demitida como a assistente anterior. não somente porque era seu ganha-pão. a outra apenas encarou-a sem expressão. Convidou-a para acompanhá-la ao terraço. Era-lhe tão-somente a assistente pessoal. depois que a esposa morresse. íntima. Sempre tivera o cuidado de não nutrir fantasias amorosas em relação ao chefe. como lhe dizia a irmã. Tinha plena consciência de que. mas também pela oportunidade.Você transa com Jacques Rodin? –indagou à queima-roupa. – falou ofendida. ou seja. não tem o direito de me deixar constrangida. raríssima. era mantida a distância. encontrou um bilhete sobre a mesa. Amanda apertou-se no casaco. 34 . Jules Brienne jamais a tocaria. que. assim teria certeza de que a conversa seria mantida entre as duas. Se tinha um caso. pensou com maldade.Está namorando? – insistiu. entrara em seu quarto e eles se beijaram. . Talvez até tivesse uma amante eventual. “Estou no escritório. apesar de sua competência e os cursos que fizera. -Essa falta de educação. a sua faz-tudo particular. Além do mais. Saiu do elevador e ao encontrar Dorian atrás do balcão digitando algo no computador. por causa do trabalho. Devotava-se ao trabalho como se lhe fosse a família. Amanda levou dois dedos aos lábios. Ela sentia-se perfurada por milhares de agulhas. Maquiou-se suavemente. imediatamente seu rosto transformou-se numa carranca mal-humorada. O beijo fora um sonho. Conhecia a caligrafia. pegou a pasta executiva. nos cinco anos que trabalhara para ele..Obsessão em Paris Veronique Gris Preparou a cafeteira para trabalhar enquanto vestia a calcinha no meio da cozinha. Quando a ‘ficha caiu’. Sorte de veterana.” Sim. palavras dele: “devidamente demitidas”. Dorian respirou fundo. mas. -É assim no Brasil? -O que. em algum momento da noite. com uma pontada na barriga. a duas quadras do mesmo. Sorte de principiante. Era o tipo de pessoa que somente retomaria sua vida afetiva. Jules passara a noite em seu apartamento. Levava seu emprego a sério. fêmea. No entanto. Jamais andaria por aí com uma mulher a tiracolo. debaixo do próprio teto. Isso é uma questão pessoal. Impossível.

as poderosas do 11°andar. – afirmou com naturalidade. Nunca vi esse Jacques aí. com você e a recepcionista. para que possamos abrir processo contra ele. ou seja. sentado em frente à mesa de Jules. – Nem precisa dizer. – riu-se. como eram conhecidas. designara um dos seus melhores funcionários do departamento jurídico da corporação Brienne para assessorá-la num processo criminal. Ainda mais quando dois olhos escuros. Amigo de Jules desde o início da SBO. um tanto a contragosto. olhos azuis e ar plácido.. Se quer mesmo saber. tanto a recepcionista (que sempre olhara Amanda com falsa admiração) como as executivas da diretoria.. Amanda avaliou as palavras da amiga. Ignorou-lhe a pergunta e prosseguiu: . Encaminhava-se em direção à máquina do café. Tem um sotaque bonitinho.Oui. Faltava-lhe coragem de forçar amizade ou intimidade com as demais funcionárias. Sentia-se particularmente vulnerável naquele dia. era casado há quase quarenta e pusera no mundo cinco filhos. após uma conversa tensa. . – confirmou secamente. Voltava de um terraço gelado.Que linguarudo. Um advogado das antigas. O melhor a fazer era refugiar-se nas tarefas de rotina. não faria escândalos por nada. com longas pausas avaliativas em que observava as reações de seu interlocutor antes de passar à próxima palavra. ele é gay.Jacques Rodin? – esganiçou a voz. Amanda deu um passo à frente. desconfiada. Ele dissera abertamente que o advogado da empresa a defenderia. quando Jules a interpelou: . e a primeira delas referia-se ao café do chefe.Deveria? –alçou a sobrancelha. Ele era um homem bastante discreto. experiente. Precisa registrar queixa contra o rapaz que a agrediu.Obsessão em Paris Veronique Gris Havia um bom motivo para arriscar-se a contrair uma pneumonia. culto e bastante influente politicamente. –procurou descrevê-lo. Encontrou monsieur Armand Ribery. Eram tais atitudes que a deixavam em 35 .Nossa! Onde ele está? – em seguida. loiro. olhos azuis. terrivelmente perspicazes e sérios vasculhavam-lhe a expressão. quando lhe fora apresentado por François Roche. non? Perfeito assim. . Mas não se chama Jacques. advogado da empresa. emendando um sorriso nervoso ao gesto. ela fez um gesto com a mão.Você tem alguém? . Ela não mentia. Por outro lado. meio assustada e um tanto constrangida. e tampouco Rodin. se veste bem e faz o tipo sedutor. Então Jules havia contado ao advogado da empresa que ela fora agredida? Com quê direito? Com quê direito ele se intrometia em sua vida? Sentia na pele o que Dorian havia-lhe dito. Jacques havia-lhe dito que se relacionava com várias mulheres da empresa e ela investigava a veracidade das palavras dele. divertida. . Começara por Dorian e talvez ficasse só nela. Aliás. é verdade. procurou controlar-se. o fato era que ela estava com as emoções à flor da pele. era uma mulher equilibrada. -Ele mesmo.bem. . Beirava os sessenta anos. Falava num tom baixo e regular. só pode jogar no outro time. . por quê? – Dorian indagou.Ele disse que estava tendo um caso com você. intrigada. Cumprimentou os dois homens. meu namorado é cantor e suíço. tinha cabelos grisalhos. fosse pela agressão de Jacques ou pelo estranho sonho com Jules.Armand está aqui para acompanhá-la até o distrito policial.Acho que sim. – fingiu uma careta de desolação. ele é alto.Conhece Jacques Rodin? . .

Por mais que o seu namoradinho peça desculpas e afirme o contrário. .Por que protege esse bandido? –indagou-lhe secamente. ele fará novas vítimas. ele a machucou uma vez e o fará sempre. também. justamente por isso. Acatou os argumentos de Armand. Mais tarde nos falamos. Amanda sentia-se acuada. também. e era como um puma preparando-se para o ataque.Obsessão em Paris Veronique Gris dúvida acerca da figura do patrão e do que ele realmente representava em sua vida. . Armand.. -De certa forma. seduzido-a como uma espécie de vingança maluca. Não seja inocente. irônico. Só não quero me envolver com a polícia e em nenhum tipo de processo..Precisa preservar a sua imagem.Mademoiselle Rossi. Tal gesto demonstrou o quanto ele estava satisfeito com a intervenção da moça. . – interrompeu-a. ouviu-lhe dizer num tom baixo e rascante: .. -Minha mãe também não costumava registrar queixa quando era surrada pelo meu padrasto. é melhor ainda para você e para a corporação.A bem da verdade. . fitando as pontas dos sapatos. nervosamente. a proteção irrestrita.Não é isso. Por fim. -Talvez pelo mesmo motivo que o seu. -Não vai denunciá-lo? -Parece-me desnecessário..tentou responder. – começou. a plena consciência dos olhos do advogado sobre si.Não quer denunciá-lo à polícia porque assim o caso de vocês termina. Jules levantou-se lentamente de sua cadeira.. – acentuou Amanda. No fundo... -Agradeço a atenção dos senhores. que se despediu endereçando um sorriso amigável a Amanda. e você sabe o quanto ele é sensível. .Merci. – disse enfatizando cada palavra e mostrando firmeza em sua decisão. Jules respirou fundo. mas não pretendo registrar a. um líder a sua equipe. se não processarmos esse rapaz. E sabe por quê? – fitou-a intensamente. monsieur. Havia a intromissão direta e. deve terminar. . Evitava o olhar severo do chefe. – Eu mal o conheço. – murmurou. jamais mudará. Não podia dizer a Jules que Jacques Rodin havia-a perseguido e. ainda mais agora em processo de expansão. E não podia. mademoiselle Rossi. Tenho certeza de que tudo foi resolvido. Jules? – ponderou e em seguida completou: .Quero manter minha vida calma e pacífica como sempre. registrando queixa na polícia. Apertaram-se as mãos. ela não queria que uma queixa no distrito o separasse do marido. ir à policia para denunciar o ex-amante da esposa de um homem conhecido como Jules o era. Nenhuma delas com segundas intenções.. pelo menos. No entanto e. pois. o rosto febril. mademoiselle Rossi tem razão. apenas Jules queria levar adiante o tal processo. o quanto lhe revolveram a vida e levantaram suspeitas infundadas sobre a sua pessoa. Qualquer escândalo interfere no mercado. e creio que não se repetirá. pelo visto. assustá-lo. agressão. mas foi novamente interrompida. Amanda tinha a sensação de que Jules Brienne protegia os seus aliados como um general a sua tropa. se a envolvida no caso não quer. 36 . Precisamos.Não somos namorados. visivelmente contrariado. Lembra-se da época do acidente de madame Brienne. chamará a atenção dos tablóides. . Não havia nada bom ou leve nos olhos que lançavam chispas silenciosas e nos lábios duros e contraídos. Ela é a sua assistente e. O que aconteceu foi num momento de descontrole emocional momentâneo. monsieur Brienne. de certa forma. – declarou o advogado apelando para o bom senso. .

Ele ergueu os olhos do computador e a encarou com severidade: . acredito que Jacques não seja o nome de algum monge beneditino. Vestia outra roupa. trazendo-a para si. Amanda empertigou-se se ajeitando sobre os saltos e preparando-se para mordê-lo na jugular: -Bom.Não conheço nenhum Jacques. Voltou a fitar-lhe nos olhos. sem dúvida. teria de assumi-lo. Abriu o balcão que sustentava a máquina do expresso e retirou as xícaras reservas. observava o chefe de esguelha. –ordenou com frieza. 37 ... Jules não entenderia a observação. o espancador. Jogou verde para colher maduro.. até mesmo perder o emprego. sentiria as mãos ao redor de suas costas. Se quisesse e. saiba que pode usufruí-la do convênio médico da empresa. Jacques de quê? – indagou com desprezo e. completou: . Um desejo profundo e intenso. Gritara o nome de Jacques? Grande modo de guardar um segredo! Por que não escrevia RODIN nas paredes do escritório?! . Voltou-se para as xícaras e encheu-as de café forte. Sustentou-lhe o olhar. O terno fora trocado por outro mais escuro. mas caso o beijo fora real. a camisa por uma azul-clara e a gravata. ergueu-se e chegou bem perto dela para dizer de forma mansa e incisiva: . Se fora um sonho.Como.Agora sei por que os homens perdem a cabeça por você. – disse-lhe o mais profissional possível. e o cabelo ainda estava úmido do banho. Se precisar de ajuda psicológica – enfatizou a palavra -. dolorida que começava a se aplacar através de um simples beijo. Em algum momento de seu sonho fora-lhe íntima e desejada por ele.? .Qual o sobrenome desse tal de Jacques? Amanda ficou sem ar. dado às circunstâncias violentas a que se expôs.Obsessão em Paris Veronique Gris . . Havia feito a barba.O seu protegido. que agradeceu sem tirar os olhos do e-mail enviado pelo departamento de marketing. já havia enfrentado outros piores. nos fragmentos confusos espalhados pela mente. caso o meu amante o merecesse. numa expressão de desgosto. -Sim. apesar do tom azulado do queixo e maxilares. -Você deve ter problemas com sua autoestima. assim não precisaria descer ao quinto andar e iniciar a “peregrinação das xícaras limpas”. – afirmou sem pestanejar. talvez fosse perigoso querer. – retrucou com altivez. como uma saudade antiga. poderia aspirar o cheiro morno do seu pescoço e saborear o gosto de seu hálito. bordô. . Logo lhe veio à mente a lembrança do beijo. O dia que tivesse medo de um homem teria vergonha de ser uma mulher. vendo que ela não reagia. faria qualquer coisa. Ao mesmo tempo em que punha os grãos de café e a água na máquina. – provocou.Agora pode preparar o café. Ele voltara a sentar-se atrás de sua mesa e havia soltado os botões do paletó escuro. Permaneceu diante de sua mesa à espera de alguma ordem.Com licença.Ontem gritou um nome e. Amanda fitou os lábios duros cuja comissura esquerda inclinava-se ligeiramente para baixo.. Depositou uma delas sobre a mesa do chefe. pelo menos quando quero alguém vou até o fim. Ele encostou o dorso relaxadamente na cadeira e olhou-a de cima a baixo demoradamente.. non? – alçou a sobrancelha de forma irônica. ..Imagino que para proteger o amante. Se mergulhasse ainda mais nas recordações.

então realmente houve um primeiro. -Sempre o admirei por sua integridade e caráter. Baixou a cabeça. Capítulo VII .É complicado. que ela já não sabia se havia realmente um questionamento ou um pedido. Afastou-se um pouco e o encarou: 38 . Amanda enlaçou-lhe o pescoço e puxou-o para si. ainda tocando-lhe a face. O gelo grudava e cristalizava-se formando uma segunda moldura. desafiando-o. até ser varrido por mais uma rajada de ar gélido. foi a continuação do primeiro. invadia-lhe o sutiã e endurecia-lhe os mamilos. Percebeu a tensão no rosto bonito de Jules. – confidenciou sem jeito. voltou a encará-la. entreabriu os lábios e chupou-lhe a língua com vontade. Havia um tom de pesar que não combinava com o momento e tal constatação assustou-a. Era um olhar de gavião que lhe penetrava o tecido da camisa. foi só uma manifestação doentia do meu desejo. . Dentro de si. . -Quer que eu vá até o fim.E quando sexo foi complicado? – ela retrucou com cinismo. Colaram-se os corpos. monsieur. Cinco anos. as veias nas têmporas latejando. Ele esboçou um leve sorriso enquanto ajeitava uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha. apenas ensaios. mas logo teve o lóbulo da orelha mordiscado levemente. -Seria tão fácil. Baixou a cabeça e percebeu que tremia.Ah. sério. – comentou com bom humor. As sobrancelhas estavam tão juntas que pareciam formar uma só. Ela deslizou as mãos pelas costas dele. – disse tentando sorrir. não é? – murmurou. Ele assentiu levemente. depois a curva do seu pescoço foi açoitada pelo roçar da boca de Jules. queria mais uma vez sentir a maciez daqueles lábios e o sabor morno e viciante dos seus beijos. entregando-se ao abraço como se mergulhasse num abismo perigoso e inebriante. . . Todos os homens que conhecera.Sabe mesmo ou apenas supõe? – sorriu. até que ele voltou junto à orelha e murmurou: . não de vergonha e sim de desejo.Non. – sorriu.. .Por acaso foi um beijo punitivo? O vento empurrava com força os flocos de neve contra os vidros das janelas. os maxilares tesos. quando?– alçou a sobrancelha em tom interrogativo ao falar-lhe devagar.Obsessão em Paris Veronique Gris . todos. Jules deixou-se abraçar.E se antes eu a provoquei. Estava difícil respirar. Gemeu baixinho quando ele se afastou. traçando uma longa ruga no meio da testa. sentindo o rosto corar.É mesmo. e acabou puxando-a ao encontro de seus lábios. acabavam de explodir duas granadas. Jules tocou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto para ele. Amanda.. Amanda fitou-o e tentou recompor-se: -Não. mademoiselle? A pergunta foi feita com tamanha suavidade. Se antes o provoquei foi só uma crise de ego.

independente da situação de saúde da minha mulher. é óbvio que não pedirei o divórcio. tirou o paletó e o jogou no sofazinho em frente a sua escrivaninha. profundo. – Ou podemos resolver uma coisa de cada vez..E. o fato de ser minha funcionária e o fato de eu ser casado e minha mulher estar em coma.Toda vez que você começa um caso usa esse discurso? – perguntou com ironia. Merci. s'il vous plaît. esse homem que me agrediu. apertou o interfone para falar com a secretária: .. – disse baixinho. ignorando-a deliberadamente. intermitente.Mais alguma coisa. E isso inclui respeitá-la.De pôr suas mulheres na coleira e doutriná-las de acordo com as suas regras.Sinceramente. . sendo assim.. –ponderou fitando-a gravemente.. Rochelle ainda teria uma vida normal. . então? . avise-me quando o rapaz do Le Monde chegar e mande e-mail para o diretor de marketing.Obsessão em Paris Veronique Gris . Sentou-se e. Temos de resolver muitas coisas antes de darmos qualquer passo adiante.Tem medo de que eu me apaixone e atrapalhe o seu esqueminha. . contrariando seus sentimentos. Tinha vontade de quebrar algo. não tenho intenção alguma de decidir nada sobre a sua vida. monsieur. Prometi a mim mesmo que seria leal a Rochelle enquanto vivesse. Agora. justamente por que sou casado. O rosto já adquiria o aspecto sério de sempre. Cruzou os braços em frente ao peito.Tudo.Não é só isso. o fato de você não querer registrar queixa contra esse homem. para hoje. – enfatizou. .O que é. monsieur? . . -Que esqueminha? – alçou a sobrancelha. – disse tentando controlar a incipiente irritação. sem pressa. Nesse tempo em que Rochelle está em coma. Apenas quero que compreenda a minha. .Esse cara. evitei qualquer relacionamento mais. Se eu tivesse feito isso há cinco anos. – declarou impassível. . grave. .Não quero enganá-la ou prometer o que certamente não cumprirei. digamos. – tentou explicar-se. .A gente não precisa fazer nada. – afirmou irritada. os olhos cravados nos dela.Não tenho “casos”. um pé batia no carpete. mas é sempre saudável advertir as pessoas sobre os riscos de se envolverem comigo. quero uma reunião com ele e o pessoalzinho da agência que contratou. se possível. quebrar algo na cabeça dele! 39 . . a voz firme. .Amanda. posso escolher o que EU quero para a MINHA vida ou tudo já foi determinado? Ele deu de ombros calmamente. . . .Non. Amanda assistia de camarote Jules delegar tarefas que eram suas à secretária. .. eu sou casado. confuso. não me expondo em público com outra mulher.Merci. Estava possessa e tentava controlar-se com dificuldade. – disse num tom de reprovação.Mademoiselle Cuvier.E não é? Jules suspirou contrariado. ele não significada nada para mim.murmurou..

.Quer que eu repita? O nome Jean Baptiste significava “helicóptero”. mademoiselle Rossi. 40 . Ele a trará para a reunião com os finlandeses. obedeceu à rotina de sempre. Nem pense em se atrasar. Capítulo VIII Eram onze horas da manhã. houve uma pequena mudança nos planos.Que horas devo ir? . .Seria pedir muito que controlasse esse seu temperamento latino? Depois que esfriar a cabeça. como estão as coisas por aí? . -Escute bem. – respondeu brandamente.. De repente Killer Queen ressoou pela sala e ela pôs-se a procurar pelo celular.Agora. retomando a máscara séria e fria. -Deseja mais alguma coisa. monsieur. Ao longo da manhã. mas. quero apenas que entre em contato com Jarkko e veja como anda as reservas de hotel em Helsinque. E ela descobriu que lutava contra um leão. .Eu ainda não sei o que quer de mim. já que o mesmo até àquela hora não havia dado as caras no escritório. monsieur? – indagou-lhe friamente. A feição dele suavizou-se por um momento. monsieur. ficaram apenas se olhando. Mas até mesmo executar tais tarefas. -Como? -O que acabou de ouvir.. e isso incluía ligar a máquina do expresso para que quando o chefe chegasse tivesse a sua necessidade por cafeína satisfeita. . pegue as pastas da Finlândia e encontre-se com Jean Baptiste. -Entendi. conversando atrás do balcão. que antes lhe pareciam maquinais e simplórias. Voltava um tanto frustrada e mergulhava no trabalho. abriu a porta inúmeras vezes e encontrou apenas Dorian e a outra secretária. nesse novo estado alterado de sentimento. E desligou. oui? . Assíria. pondere a respeito.Bom. Por um momento.Bonjour... Ao chegar. –disse resoluto.. então temos problemas de comunicação. –reclamou. depois completou com uma sutil arrogância: . –Agora. agora. – afirmou.Está tudo tranquilo. se nesses cinco anos não lhe dei pistas o suficiente. – imprimiu firmeza na voz. quando Amanda decidiu fechar a agenda e concentrarse apenas em responder os e-mails que chegavam para o presidente. Restou a Amanda voltar à sua sala e pôr seus sentimentos nos trilhos certos. Jules ergueu os olhos da tela do computador e viu que ela ainda estava de pé no meio da sua sala. pense sobre o que falei. – afirmou.Obsessão em Paris Veronique Gris Após exatos dez minutos. ganhavam um aspecto de sutil intimidade. Ele interrompeu-a bruscamente: -A reunião será aqui no meu chalé. . Encontrou-o na mesa da majestade que a chamava. Baixou a cabeça e concentrou-se no trabalho. o coração aos pulos. A ligação está péssima.

a agressão do reflexo da claridade da neve nos olhos. apesar da rusticidade da madeira. A arquitetura era a mesma empregada na construção de chalés nos Alpes suíços que. para uma reunião de negócios com um bando de executivos da terra do sol da meia-noite? E. Já estava agendado a viagem de ambos a Helsinque para o próximo final de semana. no auge das nevascas.Esqueci as pastas e não desliguei a cafeteira. já na entrada de um pequeno centro comercial. ela praticamente perdia o chão. ou seja. apresentava sofisticação tipicamente europeia. ela pensava que se chegasse inteira no chalé já estaria no lucro.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda permaneceu por um tempo olhando para o telefone. nas montanhas. não? – indagou-lhe divertido o piloto belga ao vê-la entrar no helicóptero. rica. por que havia transferido a tal reunião para França. e sim explanar sobre os dados pesquisados a respeito da economia e política locais e a posição da concorrência. as sacadas. Jules havia marcado uma reunião com os executivos da nova filial da SBO na Finlândia.Amanda constatou . imaginava as casas rústicas de caçadores que se via nos filmes americanos. ela refletia sobre a possibilidade de ter de passar o dia inteiro no meio dos lobos da informática. com o propósito de conhecer in loco o mercado escandinavo tão pesquisado e analisado nas tais pastas? Enquanto sobrevoavam Paris e distanciavam-se da área central da cidade. No entanto. prestava a atenção nas variações do tempo. enquanto o helicóptero descia sobre a neve compacta. Um lugar totalmente ermo. dos pinheiros ao redor da casa. O vizinho mais próximo . No entanto. Quando ele comentava algo sobre ter passado uns dias recluso nas montanhas. Sua função não seria servir café ou ser mais um acessório decorativo. no mínimo. Desde quando usava o seu chalé. Meia hora depois. por que diabos ele a antecipara dois dias? Avisou Dorian sobre a reunião no chalé e subiu até o terraço. Avisou-o antes de disparar de volta ao escritório do chefe: . isso poucas vezes ocorrera. cujo telhado estava encoberto por uma grossa camada de neve. e não a mantido na Finlândia como estava AGENDADO. por entre montanhas nevadas e pinheiros verdes e gigantescos. Jules havia marcado a reunião. uma ampla varanda aberta. estável e aberta aos empreendedores. dos flocos brancos salpicando-os nos galhos até embranquecê-los por completo e das montanhas ao redor quase que protegendo a habitação. parecia imersa dentro de uma banheira de espuma branca. nesta época do ano. o seu refúgio solitário. admirava a beleza do lugar. Portanto. observando a brancura à sua frente. uns dez quilômetros dali. Entretanto. assim. evitando. formando um cerco na solidão do chalé. De fato. improvisava uma reunião ou uma viagem que não fora agendada antecipadamente. –emendou um sorriso amarelo. o chalé de Jules. sobre o primeiro andar que. e não dele. pois ele cumpria a agenda. Observou que Jean Baptiste usava óculos Ray Ban. possivelmente era a garagem. era um lugar 41 . Diante das janelas frontais. O piloto já estava acostumado a levar o presidente da empresa para todos os lados e. A construção de três andares. tanto no céu quanto abaixo.distava. durante todo o tempo sendo-lhe a assistente pessoal. -Belo dia para voar. a responsabilidade para tal tarefa era de Amanda. procurando entender o que acabava de acontecer. com amurada de madeira sustentando uma superfície de neve. Jean Baptiste apontou o dedo indicador e indicou-lhe. de madeira rústica sobre pedras. Amanda cumprimentou-o e voltou para o chão firme. Entretanto. Ela não fazia ideia do tamanho do chalé. Quando Jules comportava-se fora do estritamente esperado. A Finlândia era um dos países mais agressivos do capitalismo contemporâneo. neste momento. Na frente.

de uva. inclinou o corpo para baixo.Obsessão em Paris Veronique Gris exclusivo para os ricaços descansarem ou esquiarem. entregando-se à exploração de sua língua com gosto de vinho. salpicavam-lhes os cabelos. Podia ouvir o próprio coração cumprindo sua função de bombear o sangue. bem acima dos grandes dramas da humanidade. de gola alta. enquanto ela se aproximava com os arquivos e a pasta executiva. não contava com a sua espessura. Ele levou o cálice aos lábios sem deixar de fitá-la. em silêncio. Amanda gemia deliciando-se em perceber que a respiração dele estava pesada e os seus braços cada vez mais procurando apertá-la junto a si. mechas da franja curta caíam-lhe sobre a testa. cada vez mais espessos e atiçados pelo vento forte. Ao descer. Apertou-se no casaco cinza. Jules manteve os olhos fixos nela. mais por impulso do que necessidade. foi tomada nos braços e uma boca macia esmagou a sua. um palmo acima dos joelhos. num beijo profundo. Agulhas de gelo fincavam-lhe a face. Durante todo o trajeto. Jules empertigou-se. sentiu uma mão pressionando-lhe a nuca e outra. de sedução. Antes que ela esboçasse qualquer reação. acabou deixando cair as pastas que segurava. com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um cálice de vinho. alcançava-lhe pouco abaixo de seus joelhos. Ao tentar afastar-se. pegou-lhe os arquivos da mão e jogou-os na neve. estava Jules e seu cabelo azeviche. e incitou novo passo para. distanciando-se deles. vestindo um suéter preto. Na tentativa de afastarse o mais rápido possível do helicóptero e suas pás assassinas. quando se ergueu. Abaixou-se para pegá-las e. Ela tentou identificar a pessoa. O ar que as hélices movimentavam era gelado e machucava-lhe a pele. Pisou o pé na neve e quase perdeu o equilíbrio. provavelmente alertado pelo barulho do helicóptero. Enlaçou o pescoço de Jules e puxou-o para si. normalmente penteado e aparado. Amanda foi a primeira a falar. sobre seu maxilar. para que ela soubesse e sentisse o tamanho de sua excitação. Amanda não ouviu o barulho do impacto de sua pasta contra o piso de madeira da varanda. já que não era suficientemente alta para ter a cabeça decepada pelas hélices do “bichinho” de Jean Baptiste. Alguém afastou a cortina. vislumbrou uma sombra por detrás do vidro da janela da frente. Subiu os degraus de pedra até a varanda e mal sentia as pernas. No minuto seguinte a porta foi aberta. mergulhar a perna na neve. e Amanda descobriu uma particularidade sobre si mesma: era capaz de parar de respirar sem perceber. justíssima. que procurava aplacar sem sucesso uma vontade reprimida havia muito tempo. O barulho do motor parecia ecoar por todo o vale. espalmada. quando Amanda incitou os primeiros passos em direção ao chalé. jeans escuro e tênis. ora mordiscava-lhe a comissura dos lábios e esfregava os próprios lábios na carne tenra dos dela. Era como se estivesse de férias. a voz ainda rouca. Os olhos pretos brilhavam de um modo que Amanda jamais vira. era ensurdecedor. de lã. mais uma vez. O helicóptero já estava no alto. O cabelo. mas estava mais preocupada em sair do pequeno buraco de neve em que se encontrava. ainda meio atrapalhada em função do volume de neve que ameaçava congelar suas pernas protegidas apenas pela meia-calça de seda 7/8. estava bagunçado. Havia uma aura de charme na casualidade de seu traje e no aspecto displicente de sua aparência. o scarpin escuro e a saia de lã. e tampouco percebeu que os flocos de neve. no seu mundinho. mantendo seu rosto preso contra a boca ávida que ora chupava-lhe a língua. Escorado junto ao batente da porta. Ficaram abraçados por um tempo. indagou com um sorriso maroto: -Onde está o cálice que segurava? 42 . Somente quando parou diante dele.

Quando a porta foi fechada atrás de si. Não pôde deixar de rir baixinho.Falta-me romantismo? Resolvo logo essa questão. abajures com lâmpadas de quarenta watts. Aproximou-se dela e segurou-lhe a nuca delicadamente. possessivamente. -Oui. Amanda teve a impressão de que entrava noutro mundo. Amanda” impaciente. O Jules dos Alpes franceses.. apenas achei que fosse um romântico que jogasse longe o trabalho para poder me beijar. monsieur Brienne. os quadros de pintura abstrata e o bar. Ele pôs o braço ao redor de seus ombros. entre a sala e o inicio da escadaria que levava ao segundo andar do chalé. . mas impõe mais respeito. esse Jules agiu de forma inesperada. pois ele parecia um moleque que acabava de contar uma travessura. Ele olhou ao redor sem muito interesse. que mentira sobre a reunião para trazê-la ao seu chalé para um encontro secreto e que a fitava com olhos febris. –debochou. mademoiselle Rossi. 43 . não sofrem colapsos. Em seguida. e apontou para o banco de neve do outro lado da varanda. iluminavam languidamente a estante com livros. passando pela parede. sentia-os de fato inchados e doloridos. jeans e tênis.agora o nome é episódio depressivo grave. num tipo de rusticidade elegante e selvagem. Uma legítima casa de campo com direito a achas de madeira crepitando na lareira. ela parou e fez menção de voltar a fim de buscar as pobres pastas atiradas na neve. abaixou a cabeça e sensualmente lambeu o filete ralo de sangue que lhe aflorava do lábio inferior. . bem. voltou-se para ela e ensaiou um sorriso: . com um empurrãozinho do pé de Jules. tomou-lhe o rosto entre as mãos e confidenciou-lhe quase num murmúrio: -Inventei uma reunião para ficar com você sem levantar suspeitas no escritório. O que dá no mesmo. –brincou. seguido de um “por favor. -Homens como eu..Acho melhor entrarmos. Do teto ao piso. -Na verdade.Que tal tirar o casaco? – sugeriu começando a desabotoá-lo sem se intimidar com os dez botões de tamanho considerável. abraçou-a com força e disse num tom de precaução: . Jules parou à porta. Acha que eu seria idiota de desperdiçar o seu trabalho? -Não. Antes de entrar. o de barba por fazer. bem típico de workaholics. tudo era composto por madeira reciclada. recuaria um passo e falaria algo sensato e racional. ainda abraçado nela. Depois. Todo o frio havia ficado do outro lado da porta. diante dos sofás com estampas em xadrez vermelho e branco. profundamente.Machuquei seus lábios. –ironizou. em madeira de pinus. Pensei que você tivesse sofrido um colapso nervoso. Mas Jules segurou-a contra si e declarou com naturalidade: .Tenho cópias aqui comigo.Sua casa é linda.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules girou o corpo. Beijou-lhe nos lábios mais uma vez. . Sem deixar de fitá-la.disse com ar sério e emendou esboçando um suave sorriso: . Amanda levou a mão à boca. decorados por mantas felpudas e almofadas de patchwork. esquadrias das janelas. mais aconchegante e cheiroso. – disse-lhe admirando a disposição dos móveis e a beleza e simplicidade de cada detalhe. aquele que ela conhecia havia cinco anos. portas e sacadas. virou-se e a encarou seriamente: . .Quer provar meu sangue? – provocou-o. O outro Jules. achei bastante incoerente tal reunião. Ao lado de cada uma das três poltronas entre os sofás.

Por fim. Ele comentou que o Rocheblon tinha uma origem interessante que datava da Idade Média. enfim. ainda era o homem equilibrado e sensato que ela conhecia.Preparei uma Tartiflette – diante do olhar interrogativo dela. ele retirou o refratário do forno e o depositou na mesa de seis lugares. Amanda observou.Não sou totalmente dependente de restaurantes ou de Annie. um queijo cremoso. Antes de entrar. em seguida. insinuadas pela saia justa e a blusa de seda. . Com o pano de prato dobrado. – comentou enquanto atravessava o ambiente para abrir uma porta que. retribuindo o duplo sentido da frase. A cozinha era arejada. o que mais lhe chamou a atenção não estava no chalé propriamente dito e. Ela estava faminta e só percebeu ao provar a primeira porção da comida. apenas tenho de comprar os ingredientes e ler as receitas. É fácil. . pelo o que Amanda verificou. ingredientes e modo de fazer. como fui alfabetizado. ele prosseguiu: . – disse Amanda. sem muito entusiasmo. Jules desceu por uma escada e voltou em seguida trazendo uma garrafa de vinho. . assegurei-me que de fato seria um refúgio. É feita com batatas e Reblochon. foi substituído por uma expressão de verdadeira preocupação. marcando o tecido delicado da roupa. .Obsessão em Paris Veronique Gris Retirou-lhe o casaco e o depositou sobre o encosto de uma das poltronas. Jules havia preparado uma salada com cogumelos. o livro aberto na página da receita do gratinado de batatas. –brincou exibindo-lhe a garrafa de vinho. Comprei um livro de receitas culinárias e. Ao entrelaçar os dedos nos de Jules. toalhas. percebeu que após cinco anos. . Quando comprei o chalé. havia planejado o encontro no chalé com antecedência. Isso sim significava uma grande mudança. Por um minuto ou dois. .O cheiro é excelente! . não estava em lugar algum. era visível que procurava controlar-se. ele suspirou profundamente. –constatou fitando-lhe diretamente e emendou com dissimulada timidez: . Por mais que agisse com mais naturalidade e ousadia. Realmente. não havia detalhe algum feminino. -Temos que comer. creme de leite. um lugar para ficar distante da minha vida parisiense. Desconfiava de que as cortinas já estivessem na casa ao ser comprada. ele não usava mais a aliança na mão esquerda. Para acompanhar o prato principal. -Deve estar com fome. As batatas cortadas em rodelas recebiam lamelas de Rocheblon. no centro da cozinha. A camada superior. Amanda observou o quanto ele se sentia à vontade e no controle de tudo. Desde quando Jules maquinava trazê-la? E por que ele tinha tanta certeza de que seus planos dariam certo? No entanto. parecia derreter dentro da boca.alçou a sobrancelha numa expressão de gracejo -. paninhos coloridos ou imãs na geladeira.Voilà. – disse baixinho. aprendi a cozinhar. Ele parou diante do fogão. nada de enfeites. Não se surpreendeu ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso que. com uma ampla janela revestida por cortinas xadrez e mobiliada com o básico.Tem serviço de entregas por aqui?. Pelo visto. levava ao porão. com toucinho e queijo Reblochon. – disse enquanto a tomava pela mão e a conduzia à cozinha. quando os senhores feudais exigiam uma parte da ordenha das vacas dos camponeses que 44 . manteve-se atento as curvas do corpo de Amanda. toucinho e alho. na verdade.Da última vez que fiz faltou sal.Aqui está o segredo de uma boa refeição. crocante. O olhar de Jules era tão intenso que ela sentia os bicos de seus seios endurecerem de desejo. abriu o forno e deu uma olhada para dentro.É uma comida típica desta região. é um lugar tão isolado! –debochou. -Você também. Numa banqueta de madeira.

-Quero que saia daquele apartamento. um executivo da área da computação faz um prato delicioso. – observou calmamente.O quanto estava lúcida àquela noite? . . Inexplicavelmente.Se vai complicar tudo. assim. Não queria ficar sem ele. Ele beijou-lhe a ponta do nariz e encheu mais uma vez o cálice dela.. . bastante interessado. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele interrompendo-o. terminando de lavar o último talher e ajeitando-o no aparador.Quero você e muito.Amanda. –murmurou. Será que só o presidente não sabia? – ironizou. – disse Amanda sorrindo. . -resmungou baixinho.Quer me embebedar? Não é você que tem uma regrinha sobre não fazer sexo com mulheres fora de si? –indagou brincando.Se não está preparada para ficar comigo.E. Ele sorriu com um um jeitinho tímido. . baixou os olhos e encarou-a novamente. colocando-as. pequeno e sem segurança. Jules beijou-lhe o dedo e olhou-a com severidade. Apenas nos beijamos. . em pleno século XXI. Como Amanda não possuía nervos de aço.O suficiente para não esquecê-la. Jean Baptiste pode levá-la de volta a Paris. Podemos parar por aqui.. sério sem censura ou ameaça. já de posse da esponja e detergente. . Amanda engoliu em seco ao receber seu olhar gelado. agora.. . .Trabalho praticamente vinte horas por dia e não tenho interesse nenhum na vida sexual dos meus funcionários. obtendo para si um leite bem gordo de onde era feito o queijo. . mas não consigo deixar de perceber seus defeitos. Um ato mecânico que lhe dava tempo para pôr os pensamentos em ordem. Percebeu que Jules a acompanhava posicionando-se em frente à pia. levantou-se e começou a juntar a louça a fim de lavá-la. não fale. copos e talheres evitando tocá-lo e fingindo importar-se com a arrumação da cozinha. Os últimos entregavam menos leite durante a inspeção e. interrogativo. não é? -Essa conversa não nos levará a lugar nenhum. . com eficiência.Estou errada? Na SBO quase todos os diretores possuem duas casas. Ao constatar que não lhe responderia continuou: . nesse almoço. sobre o aparador para secarem.Obsessão em Paris Veronique Gris pastavam nas terras deles. bancar a sua amante? –disse sem disfarçar o escárnio. é longe. depois. ela sentiu um repentino mal-estar.Não é à-toa que o chamam de homem de gelo. agora. Ajeitou os talheres ao lado do prato. -Isso nos inclui? –alçou a sobrancelha. a oficial e a do affair. -Você não luta por ninguém mesmo. encharcava-as de detergente e as enxaguava debaixo da torneira de água quente. 45 . –afirmou-lhe num de voz bastante seguro e tranquilo.deu de ombros e acrescentou:. vou entender e aceitar. Vou comprar outro maior para você e. e um deles é essa mania de distorcer o que falo. . – afirmou degustando o vinho sem desviar os olhos dos olhos dele. – pediu. Entregou-lhe os pratos.. – disse incisivo. ordenhavam novamente suas vacas. Jules recebia a louça e.Vai fazer o que boa parte dos executivos fazem. – falou. . acabou quebrando o silêncio.e isso não afetará nossa relação profissional.Os executivos e suas vagabundas.

Talvez ela tenha alguma chance e não serei eu a tirá-la. E eu tenho a melhor equipe para cuidar dela. nós. é um ser humano.Sou o responsável legal de Rochelle e só não peço o divórcio por que. e eu me peguei pensando em eutanásia e coisas desse tipo. -Não tenho como prever nada a respeito da recuperação de Rochelle e nem os médicos. Ele estava todo ali. o que acontece comigo? –indagou num fiapo de voz. Rochelle nunca esboçou comentário sobre esse assunto e eu não estaria cumprindo nenhum tipo de promessa tirando-lhe a vida. Além do mais. não tenho a coragem de Michael Schiavo e contrariar a família e uma parte da sociedade para desligarlhe os aparelhos. . mas. em algum momento desconfiou de minhas atitudes? -Não. Os flocos de neve avolumavam-se colados nos vidros das janelas da cozinha. A nevasca atingia as montanhas. Acredita mesmo nisso ou falava sob o efeito dos analgésicos? Ela abaixou a cabeça incapaz de sustentar aquele olhar tão forte. No entanto. vinte por cento dos pacientes se recuperam. Mas ele não estava para brincadeiras e insistiu sem alterar a voz. tentamos retirar o respirador. Você realmente confia em mim? Nesses anos todos. nem conseguimos trabalhar direito. . Além disso. mesmo que tenha me traído e. perto e pronto para acabar com suas dúvidas e inseguranças. escaras e subnutrição.. Jules cruzou os braços em frente ao tórax assumindo uma posição mais solene e centrada. Eles não querem a responsabilidade de ter que lidar com alguém em estado vegetativo. mas ela não reagiu por si. de acordo com a medicina. respirou fundo e encarou-a com o semblante grave: . . -Por outro lado. não existe no mundo.Rochelle é a minha obrigação.Claro.Você quer certezas e garantias. Para os homens essas questões sentimentais são melhores resolvidas. –respondeu com seriedade. Vocês mergulham no trabalho e conseguem viver. –deu de ombros num gesto de impotência. 46 . -Entendo. .E se a sua esposa voltar a si?. baixa e tranquila.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele secou as mãos num pano atoalhado. é a mulher com quem casei e.. tão perscrutador.. mas eu já me enganei outras vezes e sei que desta vez o engano pode me trazer consequências devastadoras.Olhe para mim. Há uma luta constante contra pneumonias.Por que está me dizendo isso? . a atmosfera cada vez mais densa propiciava momentos de silêncio e reflexão. dentro.. deitada no asfalto sangrando me mandado embora. sob a minha tutela mantenho afastado o homem que a deixou nesse estado. Rochelle não me amava. Foi uma experiência dolorosa e frustrante. Jules. O frio branco espraiava-se na parte externa da casa. apesar de rica. Ano passado. Olha só o meu casamento. é a minha responsabilidade por que. Jules mantinha-se afastado e sereno. Mantê-la numa cama com tubos não me parece nada com aquilo que acreditamos ser a existência humana. numa posição de espera.riu-se com amargura – mesmo assim. nem na vida.Naquela noite que passei em seu apartamento. mas amava a vida. . . . acima de tudo. você disse que somente confiava em mim. A vida não nos oferece garantia de nada. por que. a pernas separadas.. a família dela é completamente maluca e isso inclui uma mãe com mais de vinte cirurgias plásticas e um padrasto de vinte e cinco anos. .. Amanda? Isso não existe. – murmurou ela.Acha que não sei? -É diferente.

. os olhos negros como os de um predador voraz.. Deitou-a sobre a mesa e. depois. Em seguida. Ela sentiu as pernas trêmulas e segurou-se na ponta da mesa. Amanda.E. controlava a cadência das arremetidas. um tipo de desespero contido e que transparecia nas veias latejantes das têmporas. tocar na dele. Penetrou-a totalmente. . Amanda gemeu e arqueou o corpo. como se fossem um corpo só. Depois.. firmes na cintura dela. Num movimento ágil. sendo chutada para cima do fogão. o corpo esguio encurvado para si... deteve-se e admirou-lhe o corpo vestido de calcinha. cadenciados com seus gemidos e 47 .. separando-o delicadamente com o dedo indicador até encontrar a parte mais sensível. deslizou a calcinha pelas pernas dela. sem deixar de fitá-la. segurou-a pelos ombros e arremeteu fundo.Tem certeza de que essa obrigação não é amor? – sondou-lhe quase sem voz. esfregando os lábios nos lábios dela. Depois. – disse. as sobrancelhas juntas. devagar. Era assim que Jules Brienne sempre agia. Toda a feição ainda séria envolvida por uma aura. a cabeça inclinada sobre seus seios. -Eu a devorava. Ele se aproximava com o rosto circunspecto. violentos. como um legítimo macho alfa. alimentado o cérebro de respostas. olhando-a diretamente. fitando-a com a expressão tomada pelo desejo.Não faz ideia do número de vezes que tirei sua roupa no meu pensamento. umedecido pela ligeira camada de suor. . . para que ela o sentisse todo dentro de si. mantendo-o entre a língua e o palato. abriu-lhe o sutiã e. Estranhou o fato de doer-lhe formular a frase. Arqueou-se para.saber..me diz. Num gesto rápido. de renda...Entregue-se a mim. Jules. preta. o que fazia – provocou-o num sussurro rouco. puxaram-na para o encontro dele e Amanda sentiu a brutalidade e rigidez de seu pênis. com o joelho afastando as pernas dela. Ele puxou-a para si com brusquidão. penetrou-a..Obsessão em Paris Veronique Gris Era o que ela esperava dele. Jules baixou-lhe o zíper lateral da saia. detendo-se no lóbulo da orelha. de pé. as narinas dilatadas e os lábios constritos. Por um momento. As mãos. baixou o jeans e a cueca boxe. enfiou a mão por dentro de sua calcinha e acariciou-lhe o sexo.Não a amo mais. Seus olhos brilhavam de desejo e admiração... havia percorrido todos os caminhos racionais. Em seguida. Tirou-lhe do corpo a blusa e jogou-a sobre a mesa. que escorregou para o chão. detendo-se na auréola do mamilo e esfregando a palma sobre o bico intumescido. faminto. saboreando-o. Ela queria mais. Baixou-lhe uma das alças da delicada peça e beijou-lhe a pele macia do mamilo cujo bico endureceu imediatamente após o toque úmido e quente.Jules. sutiã e meia-calça 7/8. queria-o fundido em si..Quer mesmo saber? – indagou-lhe de modo desafiador. os maxilares contraídos. com movimentos mais fortes. abocanhou-lhe um mamilo. introduzindo-se em princípio com gentileza. um tormento sexual. e. . . desabotoou-lhe os botões da blusa de seda. ordenou-lhe de forma perigosamente séria e num tom baixo e hipnotizante de voz: .quero muito.o que você fazia.. apertando-lhe as nádegas com as duas mãos. de acordo com o caráter e a personalidade do homem que conhecia há anos. Afastou-se e..Quero. –afirmou sem maiores explicações. dentro e fora da empresa. por um tormento mudo. com a cintura. Aspirava o cheiro de xampu dos cabelos de Jules. enquanto sua outra mão acariciava com suavidade o outro seio. Controlou-se o máximo que pôde. ergueu-a do chão com um braço em torno de sua cintura e a beijou até deixá-la sem fôlego. expondo o sutiã branco. Amanda não conseguiu conter um gemido rouco enquanto Jules explorava seu seio com a boca. Ele ergueu a cabeça e beijou-lhe toda a extensão do pescoço. lentamente...

puxou-lhe o corpo para a borda da mesa. sobre a colcha. Observava-o vestir novamente a cueca boxe e procurar o suéter. num canto da sala. como era alto. o cabelo úmido de suor e o suéter e a camisa de mangas curtas em alguma parte da cozinha. beijando-lhe o pescoço. que foi encontrado no vão entre o fogão e o balcão de mármore. à esquerda do bar. Penetrou-a novamente e. colônia amadeirada misturada ao seu cheiro natural. Quando entraram no quarto. esfregando-lhe os ombros. congestionados em suas órbitas. nervos. no meio das montanhas brancas de neve. pétalas de rosas azuis. impregnara-se do seu cheiro na pele. naquele quarto decorado romanticamente. Foi então que Amanda percebeu o quanto havia de planejamento para aquele momento. por entre os pinheiros e pequenos arbustos. levando-a a gritar numa voz irreconhecível.brincou. Do lado de fora. para ela. Capítulo IX clima de sensualidade tornava o ambiente ainda mais aconchegante.Obsessão em Paris Veronique Gris suas respirações resfolegantes. A fricção em seu sexo orvalhou sua pele e uma sensação aguda espalhou-se pelas vértebras. E. A lenha crepitava na lareira e. Em dois minutos. analiso o que você falou. os olhos fechados. 48 O . amarelas. trouxe-o e o pôs em Amanda. Aos pés da cama. ele abriu os olhos. . Ajudou-lhe com as mangas e fechou o zíper até a altura do pescoço. Admirou-lhe a musculatura do tórax e abdômen. Depois.Queria ter podido me controlar mais. em cima da mesa da cozinha. Entretanto. e puxou-a para um longo abraço. E não era a primeira vez que a sentia em si. recebendo um sorriso terno de presente. emitia ruídos secos. agora. a gola da camisa ou ao ajudá-lo a vestir o paletó. –brincou. ajeitou uma posição do seu corpo sobre o dela. Ela pegou uma delas na mão e acariciou o rosto de Jules com ela. descansava um balde de gelo e uma garrafa de champanhe. dobrado. deitou-a sobre a cama cuja colcha de patchwork exibia o desenho bordado de margaridas miúdas. sob a janela. – desculpou-se. o chalé com sua chaminé expelindo uma trilha de fumaça. tocava-lhe a pele morna e macia do pescoço com a ponta do nariz. as rugas ao redor das pálpebras acentuadas. . Em vez de vesti-lo. ao longo dos anos. ela já estava em seus braços e era carregada até o quarto. Ao abriu os olhos. separou-lhe as pernas e as descansou sobre os seus ombros. ao ajeitar-lhe a gravata. Ele subia devagar os degraus da escada. Era para ter sido ali. fora-lhe quase como uma companhia. Amanda aspirou a fragrância peculiar de Jules. tinha todo o seu corpo possuído por ele.Quando eu conseguir pensar. brancas e azuis. Sobre uma mesa. invadido por sua presença máscula e refém de sua fragrância incomparável. um robe de seda.Empacotada para viagem. E o cheiro dele. perto da janela. ele a puxou para si e a beijou apaixonadamente. Por diversas vezes. . músculos e carne até explodir como uma bomba. . Antes de atingirem o cume do prazer. a primeira vez dos dois. Quando despencou da montanha-russa do prazer. a força dos braços. vez por outra. de modo que a cada investida seu membro esfregasse-lhe o clitóris. Mas o desejo e a tensão sexual haviam antecipado o momento de forma brusca e desesperada. Enlaçada em seu pescoço. viu Jules com os lábios entreabertos como se sofresse.

erguendo-se ligeiramente. Jules gemeu ao seu ouvido. enlaçou-lhe o pescoço e. diante do corpo dele. morno e eletrizado. Quando percebeu que ela estava pronta. enterrou as unhas na sua pele nívea. beijando-os e apertando-os até deixá-la excitada. Afastou uma mecha úmida de cabelo do rosto dela. cada um na sua vez. até o fundo. Gritou o nome de Jules. intensificou as arremetidas enfiando-se todo dentro dela. seca.. depois de mordiscar-lhe o ombro. descendo até a curva de suas ancas. arquejando e abrindo-se toda para a investida de sua língua molhada e quente. que foram sugados com força. Esfregou os seios no tórax firme dele e. encaixados. Subiu novamente pelo mesmo caminho. abertas. Depois de cobri-la de pequenos beijos e delicadas mordidas pelo corpo. que começou tomando-a aos poucos. Ela pôs as mãos sobre os ombros dele e. Juntou as mãos às costas de Amanda dando-lhe suporte e atraindo-a ainda mais para si. Ela deitou a cabeça para trás deixando-o livre para lamber-lhe os mamilos e chupar-lhe os bicos. o ventre. Do alto. Voltou-se toda para ele. Ainda sem conseguir respirar normalmente. sentindo-o avançar os lábios para entre suas pernas. sofrendo o prazer que lhe açoitava desde o sexo até a boca. segurava-se no ombro de Jules para aprofundar a penetração.. sentindo as agulhinhas de fogo percorrerem-lhe o corpo. Tremia tanto que teve de se agarrar aos ombros dele que. Ele sugou-lhe com vontade. Abriu-o de todo e admirou-lhe os seios. passou os braços por baixo de suas pernas. ergueu meio corpo e. Jules sentouse na cama e puxou-a para si.Obsessão em Paris Veronique Gris Deitada de costas. 49 . o aparelho de som que ocupava boa parte da parede lateral. em seguida. por uma boca voraz. o sexo para. Era uma estratégia para mantê-la dominada pelo prazer antes de atingir o auge. Amanda apoiou o corpo sobre o braço fincado na cama e. moviamse para frente e para trás numa cadência em princípio lenta e sensual. Sem desviar os olhos cheios de desejo dos dela. enfiou a língua e o mordiscou. num timbre de quem explodia de prazer. alternando as coxas. Prorrogou a carícia. detendo-se sobre o abdômen e deslizando a língua circularmente. A voz grave e rouca deixava-a ainda mais excitada. ao mesmo tempo em que lhe acariciava suavemente as costas. ela o encarava com um leve sorriso nos lábios enquanto o zíper do suéter era aberto lentamente. atirou-se para um mergulho no mar denso. trazendo Amanda para o seu colo. teve-os engolidos. Avançou para o umbigo. num vaivém que a fez trincar os maxilares para não gritar. de frente para ele. ela sentia os músculos dos braços dele trabalharem. Ela deixou as pernas penduradas por cima dos braços fortes de Jules. Por baixo de suas nádegas. em seguida. apossou-se do controle remoto sobre o criado-mudo. Com apenas um toque num dos botões. Num movimento ágil. ele abandonou-lhe o sexo e desviou a atenção para a parte interna de suas coxas. que a sustentaram enquanto seus quadris. Amanda sentiu um tremor na barriga e arqueou ligeiramente o corpo. com fome e paixão a tal ponto que Amanda temeu atingir o orgasmo tão rápido.. despencando no precipício de nuvens quentes e molhadas.. foi acionado. por baixo da pele. Bastaram apenas três segundos para ressoar a voz de Jacques Brel pedindo para a amante não deixálo. roçando os seios no seu tórax. Por um momento. Abaixou a cabeça e beijou-lhe sensualmente a pele sobre as costelas. aumentou o ritmo das arremetidas de seu membro e enfiou-o todo. com o outro. Ouvia-o gemer e murmurar com os lábios colados em sua orelha. Jules aproveitou para atacar-lhe os seios. Ne me quitte pas. auxiliou-o no vaivém de seus quadris.

sentia-me compelido a telefonar-lhe de madrugada.Totalmente. minha temperamental assistente. forte e sensível. . A autoconfiança que possuía como executivo também a tinha como amante. procurando uma música no playlist digital. . perguntando-lhe algo e.Sei que foi há séculos – brincou – Mas ainda lembro que. Jules virou-se para ela com a expressão intrigada. . Depois. Sou o pior chefe do mundo.Uma vez você ligou mesmo. -Era o desejo reprimido que me causava dores de cabeça. monsieur Brienne. Abriu os olhos e viu-o de olhos fechados. Amanda riu e deu-lhe um tapinha no ombro. . a respiração controlada. recostou-se nos travesseiros e buscou-a para si.Disfarçou muito bem. mordiscou-lhe o lábio inferior e a bochecha. Em suma. pragmatismo. .Eu precisava de uma assistente que fosse quase um membro do meu corpo. pensei num modo de fugir o mais rápido possível dali. aliás.Ainda me deve uma tomografia. suava e quando o vi sentado atrás da mesa..Verdade? . Roçou seu nariz no dele. .Contratei-a por mérito profissional. apertando-a num abraço possessivo. . a última etapa da seleção era com você.. Eu tremia.. alguém sensível o suficiente para lidar com o meu.. – constatou e emendou com suavidade: . após falar com o nosso diretor de Recursos Humanos. – disse calmamente num tom divertido.. impecável e bastante experiente. simplesmente.mas como era o seu casamento antes do acidente? 50 . – afirmou com naturalidade. digamos.sei que não gosta de falar sobre isso. uma combinação um tanto paradoxal... Virou-se e viu-o manejar o controle do som. Ela beijou-o levemente nos lábios e manteve-os colados por vários minutos. .Humm.. Sentia-se completamente à vontade e desinibida para indagar-lhe sobre a primeira impressão que ele tivera antes de contratá-la. -Tive sorte. – disse-lhe sorrindo. precisava do meu oposto e que ao mesmo tempo construísse uma dinâmica de equilíbrio.-provocou-a. Ela riu e espreguiçou-se erguendo os braços e empinando os seios por cima do lençol de seda. Jules. sentindo-se exausta e relaxada. -Você é muito mandona.corrigiu-se bem-humorada e emendou baixinho como se fizesse um pedido em confidência: ..Obsessão em Paris Veronique Gris Estendeu-lhe a taça de champanhe.. com a cara de poucos amigos. – E acho que piorei quando descobri que não a via apenas como minha assistente. a pele ligeiramente orvalhada de suor. sorrindo.. – constatou num murmúrio. entende? Mas você.É verdade. -Monsieur. dominador e terno: tantas características transformavam-no num mistério altamente erótico. o cenho franzido. obviamente. -terei de domála. . Não raras vezes peguei-me no escritório de casa. jamais tenha dúvidas sobre isso. – completou com um alçar de sobrancelhas. não obtendo resposta.. bem.suspirou profundamente – foi se infiltrando de tal forma que eu já não mais pensava sozinho. roubando-lhe um sorriso suave.mordeu-lhe levemente o lábio inferior. Gentil e bruto. Amanda provou a bebida e deitou a cabeça no ombro dele. . – sondou. . então poderá me devolver os vinte vidros de aspirina que Dorian lhe comprou. Admirou-lhe o tórax firme. Jules era um amante refinado. você.

revelavam os seus sentimentos. mademoiselle. Postou-se diante dele. Apenas os olhos cujo negrume parecia cobri-la de desejo incandescente. ela havia perdido a espontaneidade que as primeiras horas de intimidade haviam-lhe proporcionado. concentrado no fogo da lareira. apenas observar e. manteve-se quieta. para quê prolongar a conversa? Quando passou a primeira meia hora e ele não voltou. encaixando suas pernas ao lado das dele. Manteve-se de costas para ele. Falei besteira. até para os tipos românticos como você. de frente. -Tire a roupa. Intimidada e insegura. diante do fogo. Com um gesto lento e displicente. bebendo o vinho. Sexo e sofisticação não combinavam. – disse por fim e deu-lhe as costas. fitando-o enquanto saía da cama e do quarto. Ele abrira-lhe uma porta de sua vida. . pedirei a Jean Baptiste que me leve de volta a Paris. Mas a voz. Parecia que uma nuvem de arrependimento turvava-lhe a visão. Sentiu-se compelida a ignorá-lo e subir para o quarto. ao responder-lhe quase num sussurro: -É a primeira vez que me pede desculpas. o timbre de voz que usara. Desceu os degraus da escada com a mão sobre o corrimão e encontrou-o sentado no sofá. nua.Fui grosseiro. eram somente um macho e uma fêmea. Satisfeito na cama.Assim que amanhecer. Jules ignorou-a levando o cálice aos lábios e mantendo a atenção nas achas que ardiam em chamas. refletiam luxúria. – falou-lhe de forma a ajeitar a situação. – ironizou. Antes que pisasse no primeiro degrau da escada. Abriu as portas do guarda-roupa e retirou do cabide uma camisa social. non? É clichê demais. sem maiores explicações.. Mais do que nunca. Devido ao último confronto. uma mulher que aceitasse a sua obsessão pelo trabalho e que lhe servisse na cama. forte e primitiva. –Vamos nos poupar disso. as nádegas sobre as suas coxas firmes e musculosas. . Dera-lhe uma ordem. E Jules odiava demonstrar fraqueza. surpresa pela reação hostil dele. brutal.Obsessão em Paris Veronique Gris O efeito de suas palavras foi imediato. a mão estendida à espera da dela. O dourado intenso do fogo refletia-se no seu semblante circunspecto.O protocolo pós-sexo. confidências à meia-luz. mademoiselle. com o cálice de vinho numa mão e a cabeça virada para as chamas que reluziam na lareira à sua frente. Ele olhou-a com o rosto sério. os ossos dos maxilares. ainda nu. imóvel. Voltou-se e viu-o na mesma posição. –direto e seco. pardon. Naquele momento. -Sente-se aqui. mesmo imperativo e urgente. Vestiu-a e fechou os botões até o início dos seios. ma belle – pediu com a voz abafada. Olhos de aço desviaram-se do rosto de Amanda que. numa expressão profunda que não revelava os pensamentos nem os sentimentos. ela entendeu que Jules Brienne buscava uma amante. Amanda sentou no colo de Jules. perguntou-se Amanda ao ver que Jules afastava-se dela. O semblante fechou-se numa expressão dura e impenetrável. a ordem nada mais fosse que a manifestação de uma fraqueza. . também era sedutor e rouco. cruzados em frente ao sexo. mas a abertura era tão pequena que Amanda não podia entrar. Aquele era um assunto tabu?. o desenho irônico dos lábios e a rudeza dos olhos escuros. Os braços ao longo do corpo. salientando a face esculpida com vigor. ela resolveu ceder. ele 51 . Jules voltava a ser o chefe exigente. branca e limpa. como se já tomado novamente pelo desejo e pela necessidade de saciá-lo. em silêncio.. de preferência. ouviu-lhe dizer: . Maxilares contraídos.Não tive intenção de incomodá-lo.

Jamais havia feito sexo anal antes e fora praticamente violentada por ele. . Admirou-lhe o pau duro e grande. Deitou a cabeça para trás. Jules acompanhou-lhe o olhar para o seu pênis e depois voltou a fitá-la. -Não diga fazer amor. emoldurado pelos tufos negros. nos seus ombros.Está encharcada. diz que vai me foder. 52 .. ergueu-a levemente pelos braços por cima de si e a pôs sobre o sofá. provocando-o com o seu sexo. suavemente. ma belle. sem forçar. Sem deixar de manter os olhos fixos nos seus olhos. sugerindo. saindo da boca de Jules. Apoiou-se sobre os joelhos.. A cintura bem torneada e o traseiro bonito. sem preconceitos ou impedimentos. as pálpebras semicerradas. as costas largas de ombros proeminentes. enquanto segurava-se nele. parou de esfregar o pau por entre os lábios vaginais inchados e úmidos e afirmou fitando-a incisivo: . a respiração também alterada. observando-lhe o rosto contrair-se na sensação dolorosa do prazer. deslizou o dedo médio para o vale molhado entre suas pernas. com ossos que despontavam acima da rótula do braço. na voz de Jules. buscando o ar e era como se fosse açoitada no sexo por chicotes ígneos. um dedo corria-lhe por entre a divisão entre as nádegas. deitado para trás ao longo do abdômen firme. Num segundo. Ela se esfregava na mão dele. Ela ouvia os “erres” do seu francês e isso também a excitava. apenas a ponta do dedo... Como se seguisse a linha de seus pensamentos. a bebida deslizou em filetes vermelhos e disformes.? – indagou aturdido.Obsessão em Paris Veronique Gris virou o resto do vinho sobre os seios dela.. -Como.. Soltou-se dela com um beijo curto na ponta do nariz. como que testando o terreno e a sua aceitação para o próximo passo. Um cruzeiro de prazeres entremeado por momentos de apreensão. tinha vontade de experimentar e de se entregar totalmente a ele sem reservas. Enquanto mordiscava a ponta dura e com sabor de vinho tinto de cada seio. as narinas dilatarem-se e a respiração agitar-se. para não esmagar-lhe a mão contra suas pernas. Mas ele não tencionava permitir-lhe gozar. sentindo o dedo de Jules circular-lhe a entrada com delicadeza e sensualidade. Por outro lado. . Ouviu-o rir baixinho. Temia o ato. em seguida. Sentia-se uma boneca de pano diante da força muscular e tamanho dele. que quase ouvia as batidas do seu coração diante da velada promessa dele. afastando-os do rosto suado. as pernas ladeando as dele. que foram chupados pela boca máscula. o quadril esfregando-se no abdômen dele. – pediu quase num murmúrio. pois sabia que era sempre dolorido para a mulher. Estremeceu-se de medo. diz Jules. – gemeu Jules. beijou-lhe o queixo e enfiou a língua fundo na boca de Amanda. o corpo acima alguns centímetros do corpo dele. Imaginou-o por alguns segundos enterrando-se no seu buraco quase virgem.Toda. Nunca uma língua fora tão sexual quanto o idioma de Jules. -Vou te foder. Medo e excitação. numa carícia erótica que a fez encurvar o corpo ligeiramente para frente. ele pegou o pau e cutucou-lhe a entrada da vagina com a cabeça. ma belle. Viu-o levantar-se e caminhar em direção à pasta executiva sobre a mesa do hall de entrada. linda. num gesto instintivo. minha Amanda. vou fodê-la toda. o quadril.. Aproveitou para admirar-lhe a nudez. a selvageria de Jacques havia-lhe traumatizado. como uma pequena morte. Dito isso. O toque foi lânguido. ainda não. friccionando devagar e circularmente o clitóris. endurecendo os bicos. Amanda temia o próximo passo. torturando: . concentrado na amazona que lhe cavalgava o abdômen e refreando a vontade de enfiar-se nela sem rodeios. -Diz que vai me foder..-implorou mordendo o lábio inferior com força e enfiando as mãos nos cabelos. apenas roçando. mas ainda não farei amor com você.falou numa voz rouca e entrecortada pela respiração resfolegante. como é linda.Dieu.

fazendo-lhe um carinho no queixo. Ao fazê-lo. prendendo-os entre os dentes frontais. antecipando o que seu pau faria. Amanda contraiu-se. Amanda sentia o sangue circular mais forte nas veias e artérias e era um sangue espesso e quente. mordiscando-lhes. –declarou com ternura. Jules beijava muito bem. numa carícia mais do que tocante: íntima. Esse mesmo corpo voltava para o sofá com uma caixinha retangular na mão. vem. bem típico seu. –prometeu quase a hipnotizando com a calidez da voz e a seriedade da expressão. completamente envolvido pelo beijo. -Acredito. Amanda gemia alto. disse com meiguice: . Aos poucos. ainda mais duros.. Os dedos másculos passaram-lhe uma farta camada da substância gelada. com dois de seus dedos longos. Ele sentou-se ao seu lado e. Amanda foi se soltando e se deixando mergulhar no beijo profundo. devagar. Quase 1. um prazer para nós dois. borbulhava. .Afaste as pernas e incline-se para mim. Garganta seca. as orelhas. fervia e esquentava-lhe a nuca. balançando-a com displicência. um de cada vez.. Molhou os lábios com a língua num gesto nervoso. Ele beijou-lhe na boca e incitou movimentos de vaivém. Acredita em mim? Ela abraçou-se ainda mais nele. liso. Jules afastou-se um pouco para falar-lhe olhando-a nos olhos. os vestígios do encanto e do prazer compartilhados. a vagina molhada e os bicos dos seios. – sussurrou. e Jules beijou-lhe o ombro. A pergunta foi feita com tamanha suavidade. com cuidado.Vem aqui. temendo derreter nas labaredas que a consumiam. inebriante. que ela nem pensou em encobrir a verdade. um prazer para o nosso mundo particular. ma belle. Nó no estômago. atlético sem ser malhado e magro sem excesso.Obsessão em Paris Veronique Gris pequeno e cheio de carne. -Não pode privar-se do prazer por causa de um filho da puta. Ela confiaria a própria vida a ele. observando a embalagem do lubrificante na mão de Jules. Ele buscou-lhe a boca com vontade e chupou-lhe a língua com urgência. -Então vamos desfazer esse medo. Jules franziu o cenho e apertou-a contra si num longo abraço. Assentiu com a cabeça. Amanda ajeitou-se fundo no sofá. reconhecendo um no outro. 53 . –chamou-a para o seu colo. sustentado por um par de pernas longas e perfeitas. Ele masturbava-lhe o ânus com dois dedos. . um olhar malicioso combinando com o sorriso provocador. estendendo-lhe a mão e a abraçando de frente para si. – Apenas siga-me que eu a levarei lá. seus sexos tocando-se. Abriu os olhos e viu-o de pálpebras cerradas. Sugoulhe os bicos. teve de apoiar-se com as mãos nos ombros dele e empinar instintivamente o traseiro. assim. E quando se afastaram ofegantes. como se se vissem pela primeira vez. depois de deixá-la completamente louca de desejo. Alguém já lhe machucou dessa forma? – indagou-lhe com a sobrancelha alçada. agarrada aos ombros dele. agora. fitaram-se por alguns minutos. belle. sentindo-o afagar-lhe os cabelos e os ombros. Ela gemeu e esfregou seu maxilar no maxilar dele. longo e perturbador. eu jamais a machucaria. Amanda. – Seus olhos estão arregalados de medo. espalhando ainda mais o lubrificante e penetrando o dedo médio em seu ânus.90 distribuídos ao longo de um corpo proporcional. prestando bastante atenção no nervosismo dela. – pediu-lhe baixinho. duro.Isso. A sensação era boa.

e eu farei a sua vontade. Jules masturbava-lhe enquanto o dedo mais longo enterrava-se na vagina. a expressão séria e. que lhe escorria pelas costas e seios. as veias da testa e do pescoço dilatadas. subindo e descendo o traseiro no seu pau. Num gesto rápido e eficiente. sente-se sobre o meu pau devagar.isso. Amanda. Deitou-a sobre o tapete e. ela seguiu as suas orientações. Com o polegar. tomado pelo fogo que lhe arrebentava o pau. deixando-se ser tomado aos poucos pelo traseiro dela.. – Você fodia minha bunda na sua imaginação.. Você está no controle. Jules.. Ele pegou-lhe pelos quadris e a auxiliou no movimento de vaivém.é como eu sempre imaginei. Amanda. -Nem a metade.. relaxa que entra mais fácil. guiou-o para a sua entrada detrás. sem pressa.. abraçado a ela. -Acho que pode. – quase gritou.... ela desceu ainda mais o seu peso sobre o mastro que a penetrou a um só tempo forte e suave.. somente você. com a mão no pau de Jules.não vou machucá-la..isso. com a cabeça deitada de lado no encosto do sofá e os braços ao redor das coxas dela... . puxoua com força para cima e elevou-a quase até tirar-lhe o pau de dentro dela. um ruga funda no meio da testa.dói. isso.. 54 . que aproveitou para lamber-lhe os mamilos tesos e. Agachou-se entre as pernas dele e. ainda enterrado fundo no traseiro dela... mas. o rosto tomado por uma fina camada de suor.. Ondas elétricas atingiram-na como golpes certeiros em sua resistência e medo.Obsessão em Paris Veronique Gris -Agora. Podia-se ouvir o barulho das carnes se chocando e isso os excitava ainda mais.Tudo. Encurvou o corpo para frente até tocar os seios no rosto de Jules. jamais a machucarei. o desespero no timbre da voz. -Acho que não posso. ma belle? Se doer. sobre a ponta do pênis. mon amour. relaxa. mordia levemente com os dentes frontais o lábio inferior.. Jules. mon amour? -Fodia inteira enquanto me masturbava feito um animal. a mais linda. deixe-o deslizar aos poucos... Jules? – indagou-lhe quase sem voz. Era visível o esforço que fazia para controlar-se. encurvada e com o traseiro apontado para cima. -É bom demais. que já lhe tocava o buraco protegido pelo lubrificante. -Foi tudo. os olhos fechados. Desceu um pouco o seu peso sobre o cilindro duro feito rocha e sentiu-se dilatar. – gemeu desapontada.. -Você é mulher mais linda do mundo.. sentando-se lentamente sobre a ponta do membro. uma dor aguda. ao mesmo tempo.. Como uma aluna aplicada.. –falou posicionando-a sobre o pau. ele levou-a consigo para o chão. enfiado nela.. fitando-a com as pálpebras semicerradas e a respiração mais rápida. Amanda.. tão apertado que o machucou arrancando-lhe um gemido rouco e baixo. de queimação fê-la recuar.gemeu. Você é perfeita. pô-la de quatro. mon Dieu. Ele bem que tentou manter-se terno... Amanda. Tomada pelo prazer e encharcada de suor.. . Ela sentia-o descontrolado. apenas observava-a. – respondeu segurando-a pelo quadril e auxiliando-a a cavalgar sobre si. – retrucou com um sorriso terno e começou a massagear-lhe o clitóris. foi descendo com lentidão e segurança até senti-lo todo dentro de si. pare. esforço esse que Jacques não o fizera. mexe devagar. –Isso... como é apertada e gostosa... Amanda arrebitou a bunda para sentir ainda mais as punhaladas que lhe davam um dos maiores prazeres que jamais sentira. o cabelo úmido. a voz entrecortada pelo esforço físico de alçarse sobre ele e deslizar sobre o membro rígido e à beira da explosão.. extasiada. entrou tudo.

fê-la gozar novamente. ajeitou os cabelos arando-os com os dedos e escovou os dentes. -Vem. Ela sorriu satisfeita com tudo. Avistou um robe caído no chão. Jules virou-a de frente para si. ao lado da cama. Como ela não se mexia. exausta e saciada. – brincou. enterrando-se até o fundo da vagina. já sabia onde estava. Completamente apavorada. O seu melhor homem estava tão próximo dela. você nunca me pareceu tão baixinha quanto agora. O cabelo desgrenhado e respirando pela boca entreaberta. deslizando por entre as nádegas e a parte interna das coxas. com Jules. vou lavá-la para diminuir a ardência. Quando sentiu sua mão deslizar com lentidão e brandura pelo seu rego. Tirou todo o pau e enfiou-o mais duas. Sorriu antes mesmo de abrir os olhos e ajeitou-se debaixo do edredom. -Espero não tê-la machucado. Quando Jules gozou e seu sêmen jorrou-se dentro dela. Sentou-se. -Porra. Virou-se com um sorriso nos lábios e encontrou apenas o travesseiro vazio. pequeno e de seda.. Um amante para sempre. – disse rindo. minha lindinha. –brincou. empinando a bunda para Jules. Entretanto. agora. içou-a sobre seu corpo. do tipo inesquecível. Ainda com Amanda nos braços. Depositou-a no chão e puxou-a para um abraço apertado e longo. -Estou curada do trauma. gritando-lhe o nome e empurrando a bunda contra o tronco dele. Deitou a cabeça para trás e esfregou a nuca. docteur. nesses últimos cinco anos. Era novo. pegou-o e o admirou. encostando-a contra a parede de azulejos e ergueu-a para penetrar-lhe a vagina. Jules deu-lhe uma palmada leve na bunda em resposta. controlando os movimentos. Talvez ainda fosse madrugada. Segurou-a com um braço ao redor de sua cintura e com bombeadas fortes. a velocidade e a força. Boa parte da noite sentira o peso do braço de Jules sobre sua cintura. Haviam dormido abraçados. Abraçaram-se debaixo da ducha. Todos os outros. Por isso. antes mesmo de saboreá-lo na cama. ela deixou-se cair de bruços no tapete. Afastou o edredom e foi ao banheiro. subiu os degraus e entrou no banheiro. só se o doutor aqui fosse maluco em lhe dar alta. abriu as torneiras da ducha quente e enfiou-se debaixo do jato de água e vapor. Mas não posso receber alta. ela estava apavorada. –resmungou contrariado consigo mesmo. que não fora possível vê-lo. possessivamente. Sou um bom moço até me tornar um pervertido fora de controle. que deixava marcas no corpo e na alma. ensaios e rascunhos. -Vire-se. – disse arando com os dedos os cabelos encharcados. feminino. Jules saiu de dentro dela e sentou-se no chão com as costas descansando contra o sofá. Lavou o rosto. esfregou os olhos e percebeu que estava sozinha. três vezes até esguichar o esperma para dentro dela. ela já supunha que o chefe fosse um grande amante. As cortinas estavam fechadas e impediam a claridade de invadir o ambiente. que foda maravilhosa. beijando-lhe no tórax. 55 . Amanda concluiu que sua vida sexual começava. que a amparava e se lançava na direção contrária.. Quando acordou. pegou-a no colo.Obsessão em Paris Veronique Gris Uma das mãos de Jules passeava-lhe pelas costas enquanto a outra se mantinha firme no quadril dela. -Tranformei o meu amante sofisticado num estivador. dosando as arremetidas. inclusive com o novo vocabulário do executivo. envolvidos pela água e pelos vapores. Realmente. Sentiu-o tocar o seu clitóris até fazê-la gozar. -Estranho. -É porque estou sem as botas do Kiss. okay? -Oui. quero dar-lhe um banho. ela gemeu e encostou o rosto contra os azulejos da parede.

– afirmou com desdém. Reconheceu Jacques Rodin e. Agora. ele retirou do bolso do jeans uma fotografia e mostrou-a. em frente à cozinha. .Bonjour. sentado no banco de um parque público. tão escuro quanto as trevas. a expressão de seu rosto já não era mais a relaxada e terna de algumas horas atrás. . – Pergunto-me o que a fez acobertá-lo. Dorian havia-lhe passado a data e era próxima. Um homem loiro. tive a confirmação. ela ficou de confirmar a data de exibição daquele programa que fizeram sobre a SBO. apesar de em nenhum momento ter elevado a voz ou sido grosseiro. num gesto de ameaçadora tranquilidade. ouviu-o falando com o diretor de marketing e parecia bastante irritado. Respirou fundo e procurou controlar-se. ela não viu alternativa diferente que assentir com a cabeça. concentrado na conversa. sorria para a câmera.Obsessão em Paris Veronique Gris Jules havia pensado em tudo. agora. Pela reação de Jules. presidente-executivo da SBO. pois suspirou contrariado. No caminho. – disse-lhe. – concordou solícita. a lembrança da frustração. Não mais sorria exibindo os sulcos ao lado dos lábios.Tevê aberta? Merdè. tornava-se a megera. Amanda sentiu como se lhe socassem no estômago. seu chefe. . – em seguida. .Venha e tome seu café. a testa franzida. potes de geleias e vários tipos de queijos arrumados sobre uma tábua de madeira. mostrando a face recém barbeada. o jogo havia virado. Entretanto. enquanto distribuía xícaras e pires pela mesa arranjada com um cestinha de croissants. entre a escada e o bar. diante da sua reação ao ver a imagem do canalha. ordenou: Agora. mademoiselle Curvier. O cabelo molhado estava penteado para trás. jeans e tênis. Ela que tanto fizera para protegê-lo da obsessão de Jacques. já havia encerrado o telefonema. Amanda sentou-se num dos primeiros degraus da escada e observou-lhe até ser pega em flagrante.Sei quem é. . Quando voltou trazendo um bule de inox com café preto. Falava no celular através do fone de ouvido Bluetooth. Encontrou-o na discreta sala de jantar. Jules. Num gesto ágil. bonito.Sabe como descobri? Desconfiei quando você gritou o nome dele dormindo. 56 . desceu os últimos degraus e parou à sua frente sem sentar. mas soou como acusação. a voz de Jules tornava-se mais nítida e grave. Diante da intensidade do brilho dos olhos escuros de Jules.Quero que veja uma coisa. Movimentava-se com autoconfiança e à vontade. . Saía e voltava pela porta de correr da cozinha. Vestiu-o e encaminhou-se à escada que levava ao primeiro andar. medo e dor fizeram-na contrair os lábios.Jacques Rodin. será uma chateação dos diabos. E. Ignorou-a e voltou à cozinha. – declarou. Era como se ele estivesse no escritório e voltasse a ser quem jamais deixara de ser: Jules Brienne. encurvando o canto esquerdo dos lábios. – voltou-se para Amanda sem sorrir e cumprimentou-a com gesto de cabeça: . rasgando a foto em vários pedaços. . O que aquele homem fizera ao Jules que dormira enrodilhado ao seu corpo a noite inteira? Sem ter a resposta. agora. . À medida que descia os degraus. Pronto. imediatamente. não foi? – era uma pergunta. me transfira para o marketing.Ele a agrediu. Usava uma camisa de gola polo azul celeste. Sorriu e fez sinal com a mão para que não se incomodasse com sua presença.Claro. Seus maxilares estavam contraídos e os lábios duros e constritos. s'il vous plaît. Voltava a ser circunspecta e fechada. sério. o que se destacavam eram os sulcos na testa. Esperava um beijo ou um sorriso. Engoliu em seco.

Valorizara a aparência ao ponto de esquecer-se de seus valores. pelo menos. – interrompeu-se a olhando profundamente e emendou com ironia: .Dizem que no geral a vida não passa de um punhado de coincidências. – afirmou quase cuspindo as palavras pro entre os lábios crispados. Jules estreitou os olhos perigosamente. Então. constrangida.Em que circunstância conheceu-o? – quis saber estreitando os olhos. 57 .Ah. –declarou tentando impor firmeza à voz. non? Monsieur Rodin. . princípios e verdades. Lutava para manter-se calmo e equilibrado. e não por algum instinto de proteção! Nenhum homem presta mesmo! .Gostaria de saber por que algumas mulheres íntegras às vezes se comportam como vagabundas. . Contraiu tanto os maxilares que os ossos salientavam-se debaixo da pele escanhoada.E não posso negar que ela teve bom gosto. monsieur Brienne?”. . Eu poderia ter ido à policia e envolvido a SBO e você num escândalo bem ao gosto dos tablóides de quinta. . Jacques salvara-a de um salto quebrado. . . amigo de Dorian.Porque talvez alguns homens só mereçam isso. Amanda sentia as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. Quando se preparava para fugir de outro homem. erguendo o queixo em desafio. O contador. Sentira-se seduzida pela sua beleza e charme.completou sem dissimular o desprezo.Dê uma olhada no seu celular e encontrará. . . Fiquei quieta para que a situação não piorasse.Não sei. Ele a pegou pelos ombros e ensaiou sacudi-la. – falou baixinho. . mas apenas apertou-lhe os braços mantendo os olhos cravados nos dela.Eu não sabia que Jacques tinha sido amante de sua mulher.Foi isso que lhe ensinaram a pensar sobre os homens? – usou um tom baixo e controlado. . pena que ele seja um pouquinho psicótico. o que a motivou levar um completo estranho à sua casa? –alçou a sobrancelha.Sou a vítima. Ou seria “não sei. três ligações do mesmo número das mensagens eróticas.Jamais me dê as costas. – respondeu. Amanda baixou a cabeça. “por acaso” – enfatizou – estava à saída do restaurante de onde mademoiselle saía. Ignorou a maldade de suas palavras e fincou a espada na veia. Diga-me. porque Jacques Rodin é doido de pedra. Ele suspirou exasperado. –acusou-a.É terapeuta também? – debochou. .Na saída de um restaurante. assim como quando admirava algo belo na vitrine de uma loja.Devia tê-lo delatá-lo a mim. do encontro às escuras. . uma veia despontava latejando no meio da testa. perigosamente controlado. não me transforme na vilã!gritou. – disse com maldade e completou debochando: . embaraçada. – declarou secamente e deu-lhe as costas. interrogativo. .Para quê? Para expô-lo ainda mais à loucura de Jacques? – indagou com raiva e emendou .talvez queira retomar a dinâmica sadomasoquista de vocês. exasperada. . Surpreendera-se ao descobrir que fora usada por Jacques.Você é movido pelo seu ego estratosférico. a força do destino! – debochou e completou incisivo: .Tudo o que fiz foi para protegê-lo. Jules puxou-a pelo antebraço com força. Jules. Acho que ele não quer apenas aproveitar-se de você.Obsessão em Paris Veronique Gris . A conversa ainda não terminou. mas também se surpreendera por desejar alguém de forma tão física e completamente dissociada dos sentimentos.

os produtores haviam percebido que possuíam um interessante material em mãos. você e Rochelle atraídas por um espancador de mulheres e eu. -Deve ser algum tipo de padrão comportamental. nos braços dele. Ele não se mexeu do lugar. – pediu-lhe entregando os pontos. mesmo por que perdia todos os rounds.Esqueça-o. apontou-lhe uma cadeira e falou com mais suavidade. E sem olhá-la. a produtora que fizera o documentário sobre Jules e a sua ascensão profissional. Amanda. num fiapo de voz e sentindo as lágrimas prontas para transbordarem. -Mon Dieu. era isso que o deixava incomodado. Amanda temia que expusessem muito o acidente de Rochelle e a vida pessoal de Jules. sem mágoa: . manteve-se lhe avaliando a expressão entristecida e investigando as emoções que se revelavam através do timbre rouco e frágil da voz dela. Devolveu a crueldade. pois seria exibido num dos canais da tevê a cabo. depois de pronto. -Vamos tomar nosso café. após alguns minutos de silêncio contemplativo.. parece tão desprotegida. conseguia sacudir-lhe os alicerces. diante de si e fitando-a duramente. . –murmurou mais para si mesma do que para ele. Queria que fosse diferente. Jules. Do lado de fora havia a claridade angustiante do branco e a frialdade intensa do gelo. por poucos e eternos minutos.Tentarei não complicar mais as coisas.encarou-a sério e completou com ironia. entre todos os seis bilhões de terráqueos. à noite seria exibido o documentário realizado por uma jornalista famosa em desvendar segredos de celebridades.Obsessão em Paris Veronique Gris visto que somente Jacques Rodin. No entanto.. Por fim. Não queria mais discutir. pode parecer bobagem. . Num minuto. Aproveitou para recuperar a paz perdida. Às vezes me esqueço que está sozinha e longe de seu país. . o que dizer? por putes. provavelmente. Ele voltou a atenção para o bule de inox que enchia de café preto e fumegante as xícaras. E. por acaso se acha mais homem que Jacques? –ironizou. telefonara-o para avisá-lo sobre o que ele já sabia. Sempre vivera longe dos holofotes e protegendo-se da imprensa sensacionalista. -Gozou mais com ele na cama ou quando foi espancada? – perguntou com maldade. . conhecido por seus programas de economia e administração. . -Meu estômago está fechado. bien. respondeu como quem se livrava de um peso: . – disse simplesmente. claro. enquanto fitava os próprios pés descalços sobre o tapete espesso. e essa atmosfera também estava interiorizada nela. Todavia.A sua prepotência também é um tipo de viodência. Concordara com o documentário. Durante o café.Eu deveria mesmo considerar-me superior. Amanda suspirou resignada. mas tal situação fragiliza até mesmo os mais independentes. Ouviu-o suspirar profundamente e ouviu também o vento jogando os grossos flocos de neve contra os vidros das janelas. 58 . estava um adversário que custava a aceitar a rendição do inimigo. -Ninguém gosta de sofrer. ele abraçou-a e beijou-lhe o topo da cabeça.Minha mulher me deixou por causa dele.sussurrou. – disse dando de ombros e simulando uma tranquilidade que era visível que não sentia. – completou apertando-a contra seu tórax.

Prometo. a certeza do seu lugar no mundo. olhos verdes e aparência de fêmea fatal recém ingressa na quarta década de vida. Claro que ela esquivou-se de toda e qualquer declaração pessoal e manteve a linha neutra e distante que usava para com todos. Estava para nascer homem mais autoconfiante e sexy no planeta. A equipe não obteve autorização para filmar a casa de Jules. Diante dela. Alguém ao telefone chamou-o novamente. Olhos de lince sondavam-lhe as emoções refletidas na sua face. Por um momento. um tipo que vivia engravatado e penteado.Ou eu ou o trabalho. . Ele ergueu os olhos para o alto. devagar. porém o suficiente para que não conseguisse tocá-la. Amanda sentiu-se pressionada a revelar detalhes do chefe diante de uma jornalista bastante insistente. Você deixará muita gente apavorada se desligar-se assim da empresa. O rosto constantemente sério. Corria o risco de ser 59 . Jules deu-lhe pequenos beijos. A ruiva de cabelos lisos. Refletira consigo mesma se o que produziam era de fato um documentário ou um reality show. Pedir para que ele deixasse o trabalho de lado era o mesmo que privar uma planta da luz. Amanda replicou que fora admitida justamente pela sua eficiente discrição. desafiando-o com as sobrancelhas erguidas. Touleause. fios. dando a entender que o sigilo quanto às atividades do chefe estaria engessado numa das cláusulas contratuais entre a assistente e a SBO. Amanda teve que lidar com microfones. Por outro lado. Olhou para o celular sobre a mesa e depois para Jules. – brincou.Última ligação e desligarei o meu também. causando um verdadeiro tumulto pelos corredores dos andares da diretoria e presidência. Encaminhou-se até ele. cabos e câmeras por toda a parte. – fez uma careta desolada. .Culpa minha se os acostumei mal. abaixou a cabeça e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe ao ouvido: . levantou-se calmamente e não atendeu a mais nenhuma solicitação da ruiva.Sabe o que vou fazer? Subir e tomar um banho quente naquela banheira enorme. vestia-se de forma sóbria e insinuante. Jules era o tipo de homem que somente descansaria quando seu corpo forçasse-o.Vou precisar de alguém para esfregar minhas costas. os olhos escuros e analíticos e o corpo firme e potente. retirou o microfone da gola da blusa. cortados rente à nuca. Intercalara as gravações em vários dias. sorrindo. que caminhava com o queixo ligeiramente erguido. – afirmou. nos lábios. .. . Ela levantou-se da cadeira e soltou o cinto do robe lentamente. Fitou o próprio celular e decidiu desligá-lo.Senta no meu colo que a gente já começa por aqui.Eu sabia que você adoraria a banheira. . Sorriu consigo mesma. Terminou seu café e observou a concentração de Jules ao telefone com alguém da empresa. numa postura que sugeria arrogância mas que significava certeza. cheirando a colônia cara. – murmurou. A única pessoa que precisaria dela estava a alguns passos de si. todo o conjunto. nem mesmo a fachada ou os portões de entrada.. até arrependeu-se de se impor dessa forma. sem desviar os olhos dos dele. A jornalista não gostou de tal atitude e provocou-a. os olhos pousados nos lábios dela: . e conseguira persuadir Jules a conceder-lhe pelo menos duas horas de entrevistas.Espere um minuto.Obsessão em Paris Veronique Gris À época das filmagens. suspirou resignado e voltou a mergulhar no trabalho. . as sobrancelhas franzidas salientando a ruga no centro da testa. – virou-se para Amanda e a desafiou com a voz baixa e sensual. Jules apertou-lhe o ombro. -Não precisa fazer isso. um executivo. seguindo de perto a rotina do chefe. causava a Amanda respeito e excitação.

quietinha. Já na metade da escada. Arrancou-lhe um gemido grave e duas mãos entrelaçaram-se entre os fios 60 . dando as costas a Jules e subindo os degraus. ergueu-a no colo. ouviu a vidraça da janela ser erguida e depois abaixada.Obsessão em Paris Veronique Gris rejeitada. chutou-a levemente para o lado. desejava e admirava. Dos olhos escuros chispas ígneas pareciam tocar cada parte de sua pele à medida que deslizavam por entre a fresta do robe e o tecido da calcinha. ele tomou posse novamente do seu celular. Observou o volume considerável pressionando o jeans. encaixando-lhe as pernas em torno de sua cintura. exibindo o membro grande e duro.. Voltou-se a tempo de ver um celular ser arremessado para fora. A pele nívea ligeiramente avermelhada por causa do ar gélido e o cabelo preto úmido. ele abaixou a cabeça e beijou-lhe profundamente. sugando-lhe a língua com voracidade e sustentando-lhe a nuca para sorver-lhe totalmente a boca. Após um breve silêncio.Todos os seus contatos profissionais estão naquele telefone. ao deslizar a língua sobre o membro dele. uma menina provocadora agitava-se desejando ação e procurava inúmeras maneiras de desafiar a personalidade centrada e madura do homem que amava. aos poucos. Amanda gemia e entregava-se ao prazer. Quando chegou bem perto. Não bastava simplesmente desligá-lo?. Ele voltou de cabeça baixa. – declarou. Jules. . deslizando para dentro com confiança e força. Agarrou-se à camisa dele para trazê-lo ainda mais ao encontro de seu corpo. Mãos fortes e masculinas apossaram-se de seus seios e friccionavam os bicos às palmas macias. ironizou consigo mesma. . pensou. num tom de desolação e desejo. Havia uma luminosidade suave na feição máscula. sem se mexer. E ela não queria uma queda-de-braço com ele. sorrindo deliciada com a atitude dele. mal lhe tocando a pele. De olhos fechados.. Eficiente em tudo. deixou-se ser despido. em seguida endereçou um olhar pensativo para a janela fechada. mas. impulsividade não combina comigo.. o suficiente para que um aspirasse a respiração do outro. Amanda beijou-lhe o abdômen rijo enquanto abaixava-lhe lentamente a cueca boxe. com sede e fome. Jules desceu suas mãos através dos contornos da cintura e quadril dela.Espere-me aqui. mesmo que medisse facilmente algo em torno dos vinte centímetros.O que está fazendo comigo. Pressionada entre a parede e o homem. A autoconfiança não lhe era um traço forte na personalidade. enquanto subia os degraus da escada. numa combinação de acordo com a personalidade de Jules. Sentou-se e começou a baixar o zíper de sua calça. Após cair aos seus pés. Amanda já estava decidida a mudar os papéis. resvalou seus lábios entreabertos pela extensão do pescoço de Amanda. Um beijo tão sexual que Amanda sentiu o tecido de algodão da calcinha umedecer-se. brutal e ostensivo. fitando-a sugestivamente: . divertindo-se: . ainda de pé diante dela. depositou-o sobre a mesa e voltou-se para Amanda. sem beijá-lo. Como alguém podia ser assim?. delicadamente. Desejava-o com tanta intensidade que urgia tomar-lhe o comando. Quando Jules a deitou na cama e retirou-lhe a roupa. era também macio e gostoso. Num movimento rápido. ao encontro dela. ela pensou. Parou e constatou com um sorriso. que. Havia-o sentido todo dentro de si e. Mas dentro de si. concentrado em desligar o aparelho.Tem razão. ao mesmo tempo. Em seguida. Afastou-se alguns centímetros de seu rosto e fulminou-a com um olhar febril. posicionando-as sensualmente atrás. Talvez após meia dúzia de rejeições as pessoas ficassem assim. Amanda não conseguiu manter o sorriso superior nos lábios trêmulos. preta. apertando-lhe as nádegas. que eu já volto. ainda assim. numa carícia sutil e devastadora. Sentia-se embriagada e. ia transformando-se em ímpeto e desejo. Não acha melhor resgatá-lo? Jules deu de ombros..? – sussurrou-lhe ao ouvido. devagar.

Jules observou-lhe contorcer-se debaixo de si. empurrou-o lentamente pelos ombros até deitá-lo de costas sobre a cama ainda desfeita. mordendo o próprio lábio inferior. a saliva e o sangue misturando-se nas línguas.Deite-se! O tom rouco e autoritário de sua voz fê-lo alçar a sobrancelha. Após três ou quatro estocadas. sabia o que estava fazendo. Mas ela não queria justificar-se e. gozou. Abocanhou-o aos poucos. aceitava deixar-se dominar pela mulher que montava em seu corpo e olhava-o nos olhos enquanto se sentava sobre seu membro. suas mãos voltaram a apertar-lhe fortemente as nádegas. a fim de alcançar-lhe os lábios. Com o rosto encaixado entre as coxas de Jules. num vaivém violento. afastou-lhe as coxas e.. no sexo intumescido e. Tencionava servi-lo. em cada terminal nervoso fazendo-a atingir a plenitude do orgasmo. voltando desde o ponto de partida e arremetendo-se até quase à base. desenhando um arco com o corpo. intrigado. friccionando-lhe o clitóris com delicadeza e firmeza. Jules apertou-lhe os seios com força e mordiscou-lhe os mamilos. A ampla banheira de mármore localizava-se na parte externa do banheiro.. Ele a segurou pela cintura para ajudá-la a cavalgar sobre si. de olhos fechados e o semblante de quem sofre imensa dor. Beijaram-se como loucos. sustentando-a no ritmo cadenciado do sexo. Capítulo X No teto de vidro. quando as arremetidas tornaram ainda mais fortes e profundas. baixinho. Ela encurvou-se para baixo. Amanda não queria que mais uma vez ele a servisse. os efeitos desse ato. encaixando-se entre as mesmas. sentindo-lhe a força do sexo enfiando-se dentro dela. tornar a sentar-se devagar. independente. Experiente que era. No minuto seguinte. Admirou o sorriso charmoso nos lábios dele. Amanda não pôde conter um gritinho estridente quando uma onda de calor invadiu-lhe. gemendo e erguendo os braços. via-se os flocos de neve aterrissando sobre a superfície do telhado do chalé. e 61 . penetrou-a fundo sem poupá-la de sentir todo o seu peso sobre ela. -Não quero gozar ainda.Obsessão em Paris Veronique Gris de seus cabelos. enterrando os dedos nos cabelos de Amanda. que fazia com que seus seios balançassem pingando suor. aspirava o cheiro morno e delicioso de seu sexo e percebia-lhe os minúsculos espasmos de seus músculos. Viu-o jogar longe a cueca. contraindo a musculatura vaginal e proporcionando-o ainda mais prazer. mexendo o quadril para cima e para baixo. ganhando milímetro por milímetro. ao sentir-se penetrada. Ela se afastou olhando-o com as narinas dilatadas devido à respiração ofegante. para mostrar-lhe quem mandava agora. por que o poder de dar-lhe prazer também a excitava. deitar na cama e pôr a mão entre as coxas dela. Pôs a sua mão sobre a dele e ordenou: . Jules deitou-a sobre o lençol amarfanhado da cama. – gemeu. Inclinou o corpo para frente quase tocando os bicos na testa dele para. em seguida. primeiro. prazerosa dor. O prazer arrancava gemidos roucos e ofegantes do homem que perdia o controle sobre as sensações de seu corpo. constatava. Antes que gozassem. em seguida. apertando-lhe as nádegas a fim de firmar-lhe o rosto à cintura dele. com os olhos semicerrados. Depois. enquanto Jules erguia a cabeça para recebê-la. Incitou movimentos lentos e cadenciados. contemplado da banheira com espuma e água perfumada pelos sais de banho. toda a musculatura de Jules estremeceu-se e. Ela enfiou as unhas nos ombros proeminentes dele.

chocara-se com força contra a montanha e explodira.Obrigado pelo “bom de cama” . Amanda estreitou os olhos perscrutando-lhe a feição relaxada.. pôs os óculos escuros. Mas.que possuía brevê de piloto havia alguns anos. -Pois é. Apenas vinte e quatro horas juntos. Dito da forma como ele dissera. ela não era apenas sua assistente. quanto mais sexual.O que tinha em mente ao construir esse ambiente tão. Jules acrescentara que tais tipos de ventos eram imprevisíveis. Ele não poupara palavras sinistras ao revelar que a aeronave.disse gentilmente. Aconchego? Paz? Erotismo? Agarrou-se ainda mais a ele quando sentiu uma ponta de ciúme ao perceber que o chalé não era usado apenas como le repos du guerrier. eram amigos de longa data. Por que teria de engolir em seco a frustração? Talvez para que não brigassem pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. embaixo d’água. os fones e manteve-se concentrado na conversa e na aparelhagem à sua frente. colocava-a na posição de sempre. sentindo-se frustrada. -Comprei o chalé construído e. –deu de ombros. Pelo visto. Jean Baptiste teve a gentileza de comentar sobre o helicóptero que fora arremessado contra uma montanha. agora. sentia-se incapaz de controlar seus sentimentos e sensações que.Indecente? – provocou-a com um sorriso divertido. Ela sabia.. . Comentara casualmente a Amanda . da assistente que obedecia às determinações do chefe. Prometo ao clã dos machos alfas honrar a raça até me acabar de tanto fazer amor com você. . Mesmo assim. antes. o que influenciava no clima de camaradagem entre os dois homens. displicente.. eu mal tenho uma vida. sem explicar o porquê do regresso tão rápido e sem justificar-se.Obsessão em Paris Veronique Gris fora construída quase como um altar. empurrado pelo vento forte. Beijou-lhe o topo da cabeça e fitou-a com um sorriso charmoso quando ela afastou a cabeça de seu tórax e o encarou séria: . comentou divertido: . Precisava manter-se centrada e racional. Pena termos de voltar após o meio-dia. Ele sabia. Manipulava os instrumentos da máquina muito à vontade. iam-se estreitando. isso mesmo. Amanda não gostou do que ouviu. Estavam ajustando-se ainda aos novos papéis e isso levaria algum tempo.Mas quanto à vida sexual. No meio do caminho. num tom claro e discreto. Até onde sei esse chalé era o seu refúgio e não um ponto de encontro. puxando-lhe o rosto contra o seu e beijando-a. 62 . O idílio não duraria muito tempo e logo a realidade bateria à porta.Até parece que um homem tão bom de cama como você não tem uma vida sexual agitada. O vento não estava tão forte e a neve cedera. o antigo proprietário tinha uma vida sexual bem diferente da minha. eram adestrados e obedientes. mademoiselle Rossi. Tagarelava sobre o tempo.tão. – constatou um tanto contrariada. Depois. pois se alicerçava sobre cinco degraus que. A bem da verdade..e tal informação ela não sabia . na medida em que se subia. Jules apertou-a em seus braços e entrelaçou suas pernas nas dela. havia cinco anos. paredes de alvenaria em pátina azulada. arremetida por um vento ascendente. e não apenas patrão e empregado. . Amanda tentava imaginar que tipo de mensagem esta parte da casa transmitia. Jean Baptiste animou-se com a ideia de levar de volta a Paris o chefe e a sua assistente no mesmo voo. Jules acomodou-se ao lado do piloto. Ao redor. por mais que ultimamente lhe fosse difícil. à sua mansão com a esposa. delimitava-os cada qual em seu lado. Era normal. Haviam transposto uma fronteira que. Vinte e quatro horas! e ele já queria retornar ao trabalho. obviamente.

bem. como Alexys é bastante popular. Dorian espichou os olhos para a colega de balcão e. para o andar da presidência. era linda e majestosa.. Ela desceu da aeronave segurando a pasta executiva. – como Amanda não compreendeu o que ele quis dizer. Como sabem que tenho esse chalé? – franziu o cenho. e se Dorian sabe.O homem de gelo sobreviveu a vinte e quatro horas preso com um bando de gaviões e debaixo de uma nevasca daquelas. parecia coisa de filme. à noite.. . Ao passo que Jean Baptiste. está preocupado com o teor do programa. sorrindo alegremente. você conhece o seu chefe melhor do que eu. e. bem. Os dois alcançaram o piso acarpetado em silêncio. assobiava descontraidamente A Marselhesa. – suspirou e continuou num tom firme e. com as mãos enfiadas nos bolsos laterais do uniforme. –refletiu. A visão de Paris. sentindo o rosto corar. Jules cumprimentou polidamente as secretárias e fechou-se na sua sala. Pisamos na bola em não participarmos da edição ou assisti-lo antes de entrar no ar. o presidente da empresa virouse para trás e declarou à assistente: -Esse documentário virou um True Hollywood History.. Voltou-se e viu Jean e Jules logo atrás de si.Ele está irritado? – perguntou a outra secretária.Na verdade. Invasão de privacidade e fofocas eram coisas que ele simplesmente não tolerava de ninguém. O semblante de Jules fechou-se ainda mais. Amanda entendia os motivos de a cidade chamar tanto a atenção dos artistas. – disse Dorian sorrindo de forma falsamente inocente. Desviou os olhos da paisagem urbana e endereçou-os a Jules..Tentaram descobrir com Jean se o helicóptero também era usado para levar mulheres ao chalé. Por um momento temeu pelo emprego de Dorian e Alexys. E.. para onde Jean baptiste seguiu.? Pobre chefinho! Ainda bem que Geneviève virá buscálo para assistirem juntinhos ao documentário. . baixou o tom de voz e disse algo confidencial a Jules. intrigado.. como se estivesse chegando e partindo de verdade.Dorian. 63 . o piloto comentou que chamara os amigos para ir a sua casa. da secretária da presidência.Talvez.. um pouco.Era engraçado. a fim de assistirem ao programa sobre o chefe. Amanda considerava extrema falta de ética por parte. – em seguida. . depois. Eles pediam para eu entrar no helicóptero e depois sair. Amanda nem precisou pensar muito antes de responder: .Ele comeu e não gostou? . absorto da conversa com monsieur Koskinen. não o proteja! Soltou o ar dos pulmões e comentou: . caloroso:. principalmente. para a assistente do executivo. ao mesmo tempo. ponderando sobre cada palavra. Dorian alçou a sobrancelha como se dissesse: a-hã. ao celular. logo. Seguiram juntos até o elevador panorâmico. As portas duplas do elevador abriram-se no andar do refeitório. A questão é que menosprezamos o material humano que expussemos à imprensa. Amanda conteve a vontade de rir. – fez um trejeito com a boca. E completara.Quê? – indagou Amanda. em seguida.. mas sabia que o máximo que lhes aconteceria seria uma advertência por escrito. Ele estava sério. Meio minuto depois. Alexys da recepção também. do alto.Obsessão em Paris Veronique Gris Assim que pousaram no heliporto sobre o telhado da empresa. ainda mais vindo de funcionários. que fora treinada justamente para adequar-se a tal responsabilidade. . completou: . que a equipe de televisão filmara-o diversas vezes.

ela sim. Estocolmo e Copenhague. e Jules não gostou nada disso. na verdade. – baixou o tom de voz e completou: . A secretária-júnior matou a charada. Quantas vezes teria de ouvir sobre as investidas da socielite e resignar-se com o fato. . Além do mais. Projetavam em menos de um ano alcançar. chamou-me à sua sala e disse que não era para que ninguém da empresa soubesse da existência do imóvel.Sabe quem pisou na bola? O pessoal do jurídico. Os planos estavam cada vez mais ambiciosos. Ele. um sorriso aflorou nos seus lábios. para todos os efeitos. os produtores da tevê entrevistaram-na aqui na empresa e no centro social – revelou como se juntasse as peças numa importante investigação. algo assim. 64 . pois. se de fato houvera tal conversa com Jules . okay? . Novamente esse nome... ela jamais seria indiscreta ao ponto de revelar um segredo do patrão. Annie adorava Jules e o protegia como um filho. falava com Jarkko. ele tivera a mesma conversa com ela à época da compra do chalé – quem havia aberto a boca.Obsessão em Paris Veronique Gris .e ela acreditava que sim. mas não via nada.Amanda.Non. estava ocupado com outra ligação. antes de entrar. Por um momento. eu não falei nada sobre o chalé e vou lhe dizer por que. Por isso. Amanda tinha de preparar as pastas para entregar a cada um dos executivos e atender os telefonemas para Jules.Quando o chefinho comprou o chalé. mas você também podia fechar essa boquinha. além de Helsinque. era a cara dele desfilar regras a fim de proteger sua privacidade.replicou Assíria. ele não passava de um homem casado com Rochelle que. jamais falaria para a imprensa. Eles é que deviam ter analisado o conteúdo do programa pronto antes de entrar na grade da emissora.. mais experiente e mais fofoqueira ao indagar num tom que não aceitava mentiras: -Você falou sobre o chalé? Dorian literalmente arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se tencionasse fazer um juramento pela pátria. Como e por que ela fora ao chalé? A moça marcava em cima sem dar espaço para a concorrência. aliás. quem também sabia sobre o chalé? Annie? Não. mesmo em estado vegetativo. e acho até que já ficou por lá uns dias. já que naquela mesma região o nosso querido VP também havia adquirido outro.A jornalista sabe sobre o chalé. como se ela.. tinha direitos sobre ele. né?. Não deem mais mancadas. Sentou-se em frente ao computador. . . de pé. ficou muito irritado e desconfia de uma de vocês duas. Eles tinham pelo menos uma hora antes da reunião com a diretoria. de sua parte. Tencionava concentrar-se no trabalho apesar de sentir o estômago pegando fogo. Por quê? .Geneviève sabe sobre o chalé. A raiva que nutria por Geneviève estava guardada ali. então? Ou. – declarou Amanda. tivesse direitos sobre Jules? No entanto. melhor. Engoliu em seco ao notar o deslize e corrigiu-se antes de levantar suspeita por parte da outra – Monsieur Brienne. Amanda sabia muito bem onde estivera no último dia. Desviou o olhar da secretária-júnior e encarou diretamente a mais velha. pensou Amanda. no estômago em chamas. Que adianta serem advogados se temos de pensar por eles! É. Acreditava em Dorian. . justo a imprensa! – espalmou as mãos sobre o balcão num gesto teatral. ora. Geneviève.E eu nem sabia que monsieur tinha um chalé. de frente para a parede de vidro do escritório. O que Dorian teria deixado escapar para a jornalista com olhos de raposa? Foi para a sua sala e. Falou-me sobre privacidade e sossego. non. voltou-se para as duas que a olhavam sem piscar.

irei recebê-los. Amanda não queria estar ali ouvindo argumentações 65 . deixando o celular sobre a mesa e emborcando o café num gole só. Pôs a xícara de café sobre a mesa. A pescoçuda conseguia. Reclamou. Vou pedir a Dorian que marquem outra data para. Meia hora depois. O interfone de Jules tocou e Amanda atendeu-o. -Non. O que não era verdade. Amanda admirava o esforço do alto escalão em obedecer às determinações do presidente. mesmo por que possuía o número do celular dele. – Que tal preparar a sala de reuniões? Impressão ou não.Bleu e Rocco. normalmente. claro. escurecendo aos poucos. em vários tons de laranja e azul. A neve havia cedido há algum tempo. Marion. o vice-presidente. de mogno. fechá-la. apesar de estar dentro de um covil civilizado. então. corpanzil. diretora financeira. pois piscou o olho para Amanda indagando com severidade à diretora: . apesar de ainda não ser possível ver as estrelas. Era uma loba acostumada a andar na selva. seu grande amigo. caçar e se prover sozinha. principiou a tarefas da noite e antes mesmo de ler o material distribuído por Amanda. Merci. Nem mesmo monsieur Roche. com direito a cara feia. Ninguém marcava o que quer que fosse com Jules sem passar por ela. Não parecia nada fácil ser Jules Brienne. – Diga a Dorian para não me passar nenhuma ligação.Obsessão em Paris Veronique Gris Ele era de fato ambicioso e jamais se satisfazia com o que já possuía. Nas extremidades da mesa retangular. trocas de farpas e ironias de lado a lado. e Jules o sabia. Que tipo de pessoas eram? Pareciam gângsteres de filme americano. por que. No entanto. Seguiu em direção à sala de reuniões tentando entender quem eram os caras e os motivos de terem burlado o protocolo da empresa.Marion. As reuniões na SBO. Do outro lado da janela.. Empilhou as pastas e observou da sua sala a chegada dos homens. porque o mesmo surgiu à porta apressando-a para cumprir o que lhe havia pedido. Mais caricatos impossível. Pediu para a secretária aguardar e fez um sinal a Jules. nariz quebrado e cicatriz. não nos diz qual a taxa tributária de Helsinque? . em seguida. afirmou que não tinham dinheiro para abrir três fábricas em três países diferentes. inclusive. a noite chegava de mansinho. que as taxas tributárias dos mercados pesquisados estavam desatualizadas. mas covil. Jules. . Amanda.Agora. Não havia queda de braço que ele não vencesse. Ele literalmente expulsou-a do próprio escritório. Nem todas as cadeiras eram ocupadas haja vista que alguns diretores haviam sido transferidos para as filiais e outros estavam em férias. Não agendaram nada com você. já que abriu a porta e esperou que ela saísse para. . eram entediantes e longas. monsieur Touleause e na outra. só achava injusto quando elas abriam mão da maternidade em função de uma carreira. – ordenou com o semblante fechado. que já se despedia do finlandês. –defendeu-se. –respondeu. você não é uma síndica de prédio. ele entrava na sala onde os demais executivos já se encontravam sentados nas cadeiras ao longo da mesa para vinte lugares. Era Dorian anunciando a chegada de monsieur Bleu e monsieur Rocco. Interrompeu-se e cruzou os braços.. Amanda admirava mulheres fortes e poderosas. a cadeira de Amanda. mas Jules parecia ligeiramente tenso. Mas não teve muito tempo para analisá-los ou descobrir o que faziam na sala de Jules. No fundo. Ao seu lado.A questão é que temos de nos precaver em relação a essa expansão. Às vezes havia chispas de tensão. Lutadores de vale-tudo enfiados em ternos baratos.

. como se Jules estivesse brincando. . . jamais voltaria a lembrar. como achar mais adequado. Havia duas xícaras no escritório de Jules e Amanda calculou que teria que descer ao refeitório de qualquer jeito para a peregrinação das xícaras.Quem quer café que desça e faça o seu. . – Jules disse sem tirar os olhos do papel. Marion riu baixinho. – disse Jules fitando diretamente o vice-presidente. Desculpou-se e levantou a fim de descer até o refeitório e prepará-los.Acredito que esteja pensando que falta algo nesta sala. Assim. nada mais.. Mas. beliscava-se para prestar a atenção e anotava tudo que falavam num bloco. de pé. você sabe. baixou os olhos sem coragem de encarar os demais diretores. foi impedida de sair da sua cadeira. Com licença. –declarou com naturalidade. que você seja bonzinho com os funcionários das fábricas. Jules interveio calmamente: . impostos. Jules. quero ouvir o pessoal produtivo falar. é problema seu e da sua consciência. Afinal. . Comece.. tratando-os como iguais.Oh.Não se incomode. é só um café? – declarou o outro quase sorrindo. uma assistente era uma secretária com alguns privilégios.. Sentia no ar a tensão. Já não era a primeira vez que os dois se estranhavam. Na maior parte das vezes. No entanto. .Não vamos retardar a reunião. Cinco diretores presentes e todos se entreolharam. Jules estava próximo à janela. certamente.Sou improdutivo.. agora.Oui. por que não cala a boca e nos deixa trabalhar? Amanda começou a suar. Sinta-se à vontade. Assim. comentários foram seguidos por um silêncio profundo. Jordan. Victor descerá e fará o café para todos. monsieur Touleause. Não se esqueça de trazer também o adoçante. mas. cabelo loiro e olhos de rapina. Nunca estava no lugar certo. – resmungou e continuou: . no lugar onde deveria estar. já volto. então eu vou fazer o serviço de uma secretária? Tenha paciência.Vamos à minha sala.Então.Não vejo problema algum em você levantar o rabo da cadeira e servir-se de café ou leite com raticida. terno bege. . não é mesmo? – indagou com seu jeitinho pedante de sempre. Jules.. mas querer que eu faça o café e sirva aos subalternos é demais! – declarou ofendido. O primeiro foi de Marion: 66 .Pra quê tanto drama. . para o vice-presidente. Havia um misto de irritação e impaciência nos olhos de Jules. Touleause até tentou rir. Assim que os dois homens saíram.Obsessão em Paris Veronique Gris sobre lucro. . estava muito abaixo da diretoria. ajeitou-se na cadeira e fez menção de falar. pois. .Mademoiselle Rossi? Tentou sorrir apesar de sentir o rosto vermelho. Era incrível como a sensação de deslocamento a perseguia. de gravata borboleta vermelha. Ela olhou ao redor e percebeu que se esquecera da mesinha com os bules de café e chá. analisando o relatório do diretor de vendas. Nem Paris nem Porto Alegre. mais uma vez.. talvez tenha sido na segunda ou terceira vez que seu nome foi chamado que ela ouviu-o de fato. mademoiselle Rossi. antes que saísse algo de sua boca sem batom. Marion pigarreou. mademoiselle. oui. s'il vous plaît. custos. já que àquela hora a funcionária responsável não estaria mais na empresa. Era o VP.Eu tenho ações aqui. durante as reuniões. pode trazer o café da sala de Jules mesmo. . é isso? Há dez anos sou improdutivo para a SBO? É o que você pensa? Isso tudo é um absurdo.

– disse Marion visivelmente contrariada. E ele. perde apenas para Touleause. fulminando Amanda com um longo e gelado olhar: .Quem da diretoria não aprecia a minha assistente? – perguntou com a expressão séria encarando cada um dos executivos.Alguém aqui tem algum problema com mademoiselle Rossi? Jules estava parado à porta sorvendo uma xícara de café que. . . física e mental. estava horrível. e ainda querem acesso irrestrito a ele? Pra quê? Para sobrecarregarem-no com coisas que. Ela é centralizadora e se interpõe entre a presidência e a diretoria como um obstáculo a ser superado e não um agente facilitador.Essa discussão é completamente fora de propósito. Conseguiu transformar o presidente quase que numa figura mítica. de agendar horários para falarem com Jules. Jules assentiu levemente com a cabeça. – informou-a o diretor. Você não facilita o nosso trabalho. . de sonhar com planilhas e computadores. . mas acho que ela podia facilitar o nosso acesso ao senhor.Bom. tinham de aceitá-la.Obsessão em Paris Veronique Gris . mademoiselle. dificulta como pode. -Há cinco anos aguentamos a mesma coisa e ninguém fala nada. Agora. De certa forma era divertido. ponderando. como já dissemos a mademoiselle. Maurice. -Para falar a verdade.Oui.Acho que nosso VP vai ter a cabeça decepada. .E quem é você para decidir isso? – indagou Maurice. Agradeço os esclarecimentos. . .É mesmo? – Amanda provocou-o com um sorriso de deboche. nunca vi monsieur Brienne se estressar por tão pouco. podem resolver. .declarou Maurice com o peito estufado. aceitaria novas tarefas. digam-me apenas quem são os que se sentem impedidos de trabalhar com eficiência por culpa de mademoiselle Rossi não ser 67 . -Vocês não têm consciência de que monsieur Brienne trabalha cerca de catorze horas por dia? É capaz de trabalhar enquanto dorme. Uma emigrante do Terceiro Mundo sem título de universidade europeia ou Harvard. com certeza. Como todos se fizeram de desentendidos. pelo visto. . Amanda concluiu que era mesmo odiada pelo alto escalão.Em quê ela está dificultando? – insistiu sondando-os. . Ao que Maurice. monsieur sabe. Não.Se mademoiselle Rossi tivesse feito o seu serviço. no lugar onde você o colocou. pois ele a depositou sobre a mesa depois de fazer uma careta.Tem consciência de que você é uma das pessoas mais odiadas entre as chefias? . ela não é apreciada pela diretoria. até hoje não sei qual a sua função. do homem que fazia as coisas acontecerem e eles. – disse Jordan enfiando um cigarro apagado entre os lábios. trabalhando como braço direito e escudo protetor do presidente. temos de prestar contas de tudo para ela até mesmo quando queremos marcar uma reunião ou falarmos em particular com o senhor. sozinhos.Não tenho nada contra a sua assistente. os grandões da diretoria. diretor de vendas. .Entendo. – disse Marion.Pergunte ao dono da empresa e saberá a resposta. Ele comanda a empresa do alto. longe de todos. . . E sabia o motivo: inveja. eles não topavam Amanda Rossi. pelo contrário. completou. nada disso teria acontecido. – replicou sem se alterar. . do dono de tudo.Pega leve. – concluiu Maurice. Estou protegendo a saúde dele.É o que o alto escalão pensa? – perguntou ela olhando para cada diretor. Sinceramente.

Sonia vai preparar um fondue divino! Amanda refletia sobre a verdadeira idade mental da criatura. Caso queira me encontrar.Obsessão em Paris Veronique Gris uma. Entretanto. Jules voltou-se para os demais e comunicou-os: . ela sempre me atendeu prontamente. estava Jules Brienne e mais uma vez perguntava sobre as queixas contra a sua assistente. . e. confuso. com os nervos em frangalhos.Como? – Jules indagou-lhe.A reunião foi um desastre e está encerrada. monsieur. teremos dois novos funcionários e o cargo de vice-presidente em aberto.interrompeu-se sem desviar os olhos do grupo a sua frente: . Voltou-se para ele. contornou a mesa e sentou-se na cadeira em frente. Se Amanda não o conhecesse acreditaria que ele estava levantando motivos para demiti-la. Após a reunião. . Sempre sorridente. quem não aprecia o trabalho de mademoiselle Rossi? Dos cinco diretores. ligue para o meu celular. A noite recém começara.Fale por você. . uma. . Havia duplo significado na frase? . 68 . – disse impassível. . – disse Jules sem muito interesse. – falou Marion com franqueza. . Marion. ah. . ao entrar no escritório deu de cara com a loira. conhecia-o muito para saber exatamente onde tencionava chegar. mas uma dama.Interessante.Certo. exibindo metade dos seios siliconados. Geneviève saltou da cadeira como uma garça louca. apenas dois caíram na armadilha. Céus. . – indagou estreitando os olhos sagazes. Era uma dama..E nós? – reclamou Geneviève fazendo cara de boneca Barbie balzaquiana. atrás de si. emendou: . capacho de Maurice. virou-se para Amanda e falou sério: . – disse quase sorrindo. agente fa-ci-li-ta-do-ra. está cansadinho? – antes que ele respondesse..Preciso que assista a essa merda e anote qualquer coisa que nos deixe irritados. Mademoiselle Rossi é eficiente e sempre que precisei de qualquer coisa. que seguia ao seu lado e fitou-o de forma interrogativa. De repente. Vestida num terninho violeta. mon chéri. Algo mais? . irei para casa.Jules. Bonne nuit.Anotou os nomes. Mas tudo que recebeu foi uma expressão do tipo “o que eu posso fazer?” Entraram. Maurice com seu ego mais cego que mister Maggoo e Molina. mas Amanda sentia-se exausta.Quero nomes.. de pé e com as mãos sobre seus ombros.Sonia e Roche nos esperam para assistirmos ao programa. De qualquer forma. justíssimo e com três dos seis botões da blusa abertos.Todos. Em seguida. Maurice.Oui. Antes dela tudo era mais fácil e não nos sentíamos idiotas em ter de marcar audiências para fala-lhe. como a detestava! Ela beijou-o na bochecha com timidez ou falsa timidez. e se esse pessoalzinho da tevê fizer algo sensacionalista arcarão com as consequências. como é mesmo?.Assim que terminar umas coisas por aqui. prepare-se melhor antes de contestar os dados de minha assistente. Não sejam tímidos e levante a mão quem não. mademoiselle? .. que vitalidade tinha aquela mulher. .Como vocês falaram mesmo?. monsieur. sempre pronta para atacar. Nossos advogados também farão o sacrifício. sem vergonha na cara. ela aguardava Jules na sala dele e. surpreendentemente. sempre impecavelmente vestida. na cadeira dele. na próxima. Cheguei a comentar que deveria participar de uma de nossas seleções internas para gerência.

vagabunda!. Além do mais. – declarou sem se alterar. –Além do mais.. Se já eram amantes ou foram amantes. Havia pouco dois diretores e um vice-presidente foram degolados por sua causa. o documentário. Geneviève fitou-a desconfiada. Guardou o papel na bolsa.Por que não assiste com eles.Nosso jantar com os Roche.. Qualquer mulher sensata. não vencia todas. já lhe doía o estômago. vou acompanhar Mademoiselle Geneviève quando sair. . Jules. Talvez fosse um modo de ele lhe dizer que fazia as coisas como queria. que veio prontamente. Imagino o quanto lhe seja difícil carregar esta cruz. no seu lugar. mademoiselle Rossi. -Todo mundo sabe que sou casado. -Preciso trabalhar.Pode ir. Sentia a garanta seca e falta de ar. mademoiselle. sozinha. O melhor a fazer era manter intacta a dignidade. . . Geneviève lançou-lhe um olhar como se dissesse que não pretendia sair tão cedo. . Odiava a vaca. E. – disse ainda sério.Vamos para minha casa.. A situação começava a ficar constrangedora. –pediu ela. Por todos os deuses. – respondeu sem fitá-la. estive fora e preciso saber sobre o estado de Rochelle.Vem comigo. endereçou um olhar feroz a ela. Pois é. Jules. porém. alguém tinha de pôr essa mulherzinha nos trilhos.Que cruz? – indagou Jules sem entender. Amanda percebeu que a esposa era sempre lembrada. vai acabar tendo um enfarto antes dos quarenta. então.. havia certo divertimento nos seus olhos. segundo Assíria. Geneviève já a olhava de forma estranha. -Já lhe disse que precisa assistir àquela porcaria na tevê. Pedimos comida e relaxamos. Que tal? Chega de trabalhar. voltava para casa sem Jules e. Pegou o cartão e seus dedos roçaram-se suavemente. ficarei com Jules e depois ele me deixará em casa.. – François gosta muito de você. Ela não tinha motivos para continuar ali. odiava! . Ao passo que Jules estendia-lhe o cartão em que estava escrevendo com bastante tranquilidade. 69 . – teimou. .Eu entendo. agora. significava que também havia passado uns dias na cama de Jules. . mon chéri.A cruz do amor – interveio Amanda sem resistir ao deboche. Não. o deixava com uma. entre no seu carrinho e vá para sua casa. ignoroulhe o comentário. por outro lado.Não tem que ir embora. -Vou ficar também. praticamente se jogando para cima dele. que diferença fazia agora Amanda ficar ali ou sair? . Antes.Não. quase gritou. pegue seu casaco.. Amanda. . mas como era uma dama educada e polida. Geneviève? – ele sugeriu escrevendo com a mão esquerda num cartão em branco. devo avisar Sonia que não jantaremos lá. girou sobre os calcanhares e saiu sem se despedir. mademoiselle Rossi? . fosse qual fosse a situação. e tampouco sozinha. Impossível.Obsessão em Paris Veronique Gris .Bonne nuit. porém. porém de cara amarrada. A outra se voltou para Jules pedindo auxílio. sabia? – viu-se falando tal asneira. Só de vislumbrar a possibilidade de ele ter feito com a perua o que fizera com ela. cuidaria e protegeria seu homem desse tipo de predadora. – falou de tal forma que mais pareceu como uma ordem. Quer me irritar? Estou cansado demais para aguentar insubordinações. vadia. ainda por cima. era impossível deixar aquela mulherzinha com ele. se a francesa havia passado uns dias no chalé.Jules é casado. Não conseguia mais se controlar. . agora.

Obsessão em Paris

Veronique Gris

como ele queria, e que ela não o manipulava. Ou talvez ele fosse um cretino e quisesse revezar os dias com suas amantes.

Capítulo XI

Jogou a bolsa sobre a mesa e deixou-se cair lentamente no sofá. Definitivamente,
vivia o dia mais longo de sua vida. Ansiava por um banho e um jantar quentinho, acompanhado por um cálice de vinho e o edredom. E foi o que fez. Deu-se de presente o calor, a limpeza e o alimento. Precisava organizar seus sentimentos e sua vida, tudo estava mudando muito rápido e não queria perder-se dentro de si. E uma das coisas que não podia deixar de esquecer era a sua função de assistente pessoal de Jules. Assim, pegou o controle remoto da tevê e digitou o número do canal que apresentaria a vida e carreira de nomes importantes da área da informática. Todas as semanas eram exibidos episódios com três perfis de pessoas importantes dessa área. O programa começava após um telejornal em rede nacional, que tinha bastante audiência. Durante a semana foram feitas várias chamadas e, em todas elas, mostravam imagens de Jules de um lado a outro falando ao celular ou dirigindo seu carro, também ao celular. Numa delas, ele almoçava com um cliente e noutra, numa montagem, aparecia no alto da Torre Eiffel, ao que o locutor dizia: Ele conquistou a Europa. Em todas as cenas, Jules apresentava a mesma feição séria e nem um pouco simpática, visivelmente contrariado e, mais do que isso, mal-humorado. Amanda riu e se serviu de um punhado de pipocas. Desde o início Jules fora pressionado pelo RP da empresa para aceitar participar do documentário sobre os homens das máquinas, as tecnológicas e as de fazer dinheiro. Foram previstos os perfis de Michael Dell, Mark Hurd e Jules Brienne. Cada parte do programa era dividida por uma breve exposição das biografias, com direito a exibição dos arquivos fotográficos e filmes de infância e depoimentos de familiares e amigos. - O senhor é um homem realizado? –indagou a jornalista, sentada na cadeira em frente à escrivaninha de cedro, no escritório de Jules. Usava um tailleur cinza e um lenço bordô, largo e solto, ao redor do pescoço. O cinegrafista desviou o foco da câmera da jornalista para o empresário, captandolhe a expressão cerrada do semblante e os olhos argutos fixados nela. Após uma pequena pausa, Jules respondeu secamente: - Depende o que você entende por realização. E todas as demais respostas foram assim, curtas e evasivas. A moça até se esforçou usando todas as táticas de persuasão possíveis, mas não conseguira arrancar mais do que meia dúzia de frases dele. Entre uma pergunta longa e uma resposta curta, imagens das salas de produção da SBO, dos escritórios da empresa, de Jean Baptiste dentro do helicóptero no terraço e Touleause (no hall da empresa, fumando charuto e explanando como um guia turístico) descrevendo o início da carreira de Jules e o mercado de computadores da época. No segundo bloco do programa, após os comerciais (incluindo um da própria SBO), François Roche falou à jornalista sobre os primeiros anos da empresa e a amizade com Jules e o casamento com Rochelle Brienne. Nesse ponto, surgiu na tela imagens do acidente, o automóvel capotado, a ambulância e a fachada do hospital no qual
70

Obsessão em Paris

Veronique Gris

ela permaneceu internada por quase um ano. Os produtores optaram em não se aprofundarem no assunto, e tampouco explicaram os motivos do acidente; apenas citaram a alta velocidade e uma curva perigosa na estrada que a deixara em estado vegetativo permanente aos trinta anos. Um rosto bonito, jovem e de contornos delicados. Imagens de Rochelle entrando na igreja vestida de noiva, sorrindo para a câmera nas mãos de Roche. A câmera a seguia através do longo do corredor entre os bancos da igreja, decorados com flores brancas. Numa das últimas fileiras, estava Jacques Rodin, o rosto voltado para Rochelle, impassível. Era inacreditável que ela tivesse aceitado a presença do amante no dia do seu casamento. No altar, Jules, elegante no smoking preto, sorria como jamais sorrira nos últimos cinco anos, um sorriso leve e jovial. Finalizando o bloco, a jornalista, falando à câmera, informava sobre o estado de saúde da esposa do executivo e a sua dedicação durante todos os anos de seu coma profundo e, conforme se havia contactado com médicos especialistas, possivelmente irreversível. Antes dos comerciais, a chamada para o próximo bloco. Amanda quase se engasgou com uma pipoca ao ver-se na televisão. Eram várias cenas suas, editadas em cortes rápidos: a primeira, durante a entrevista, quando ela se irritou e arrancou o microfone da blusa; outra, ao lado de Jules cochichando-lhe junto à sua orelha e sendo ouvida atentamente; em seguida, um recorte de imagens dela saindo com ele dos restaurantes, dos aeroportos, do helicóptero, do carro da empresa, do carro de Jules e, por fim, a ruiva perguntava: Quem é a brasileira que segue Jules Brienne como um cão de guarda? E o close em Amanda com a expressão fechada e severa como a de Jules. Quando o programa terminou, ela tinha certeza sobre uma coisa, pelo menos: Amanda Rossi era uma figura tão simpática e sensual como Margareth Thatcher. Bem, se Jules queria que o relacionamento deles se mantivesse na clandestinidade, aquela imagem criada pela jornalista maquiavélica, tirava-a completamente do páreo. Diante da beleza sofisticada de Rochelle e sua trágica história de contos de fada para a mulher de corpo curvilíneo mas jeitão de sargento, não havia como despertar suspeitas. Imagem criada mesmo. Afinal, a jornalista ficara aborrecida por não arrancar qualquer informação pessoal de Jules que já não tivesse sido publicada pela imprensa. Ela queria um furo, e como não o recebera, furara então a imagem da assistente-executiva. Imaginava, nesse instante, Dorian rindo com vontade da sua cara. Aliás, a secretária estaria divertindo-se e não a pouparia das brincadeiras típicas de sua personalidade light. O conteúdo do programa chegaria aos ouvidos do chefe. Interessante - murmurou Amanda tentando tirar uma casca de pipoca entre os dentes - qual seria a reação dele? Aquele nuance de sua personalidade apresentada ao público e explorada de forma tão maldosa e, mais ainda, tendenciosa, poderia render-lhe problemas. Às seis da manhã, o despertador tocou e foi arremessado contra a parede. Ainda tinha um tempinho para se revirar na cama e curtir a preguiça matinal básica. Esticou-se debaixo do edredom e enterrou o rosto no travesseiro macio. Quando criança imaginava-se uma rainha servida por súditos fiéis e temerosos; depois, na adolescência, lera sobre a teoria da reencarnação e, aí sim, acreditava-se a encarnação de uma rainha, não importava de que lugar ou época. Na faculdade, um de seus professores havia-lhe provocado, certa vez, chamando-a de rainha. Destronada. Isso porque ela ironizara sua conveniente posição de pequeno burguês de esquerda. Rainha destronada. No entanto, o acadêmico acertara em cheio. Uma rainha com os joelhos esfolados, a coroa torta, um salto do sapato quebrado. Sentia-se sofisticada entre os comuns e comum entre os sofisticados. O nariz erguido e as costas empertigadas; por dentro, autoestima de gelatina. Crescera acreditando nas palavras

71

Obsessão em Paris

Veronique Gris

de sua criadora como se ela própria acreditasse em si mesma. Uma sucessão de erros. Pela manhã, era acordada por reclamações e xingamentos. A frase do dia, de todos os dias: Preguiçosa, sai da cama! Quando crescer só servirá para limpar mesas! A mãe era garçonete. Depois de adulta, Amanda ainda sentia-se culpada quando feliz e satisfeita. E para ser feliz era preciso tão pouco, minutos a mais debaixo das cobertas, café quente, seriados policiais, um bom livro ou simplesmente estar em paz. Descobrir a felicidade nos pequenos prazeres era uma arte. Descobrir os pequenos prazeres, um dom. Sentou-se na cama, escabelada. Olhou ao redor um tanto desorientada. Bocejou. Escutara um barulho ou fora sua imaginação? Deitou-se novamente. Um toque leve na nuca, uma carícia delicada na pele de seu pescoço. Ergueu-se novamente, levantou o travesseiro a fim de averiguar a existência de algum inseto sobre o lençol. De repente, a fragrância suave, fresca e amadeirada penetrou-lhe as narinas e fez sua pulsação disparar. Dois minutos depois, a batida na porta. Tropeçou na ponta do edredom, recompôs-se e meio dormindo meio acordada, correu em direção à porta. Vestia um pijama de algodão com estampa do Tom e Jerry. Sabia quem estava do outro lado, podia senti-lo. Correu para o banheiro, escovou rapidamente os dentes, ajeitou os cabelos e lavou o rosto. Completamente desperta, puxou todo o ar do recinto e, retendo-o nos pulmões, girou a maçaneta e abriu a porta. Não podia ser outro. Nascera para estar em Paris naquele momento e conhecê-lo. Se não fosse ele no corredor, não seria ela à porta. Rosto escanhoado, sobretudo escuro, cheiroso e bonito. -Bonjour. –pronunciou baixinho com um sorriso – Está linda, como sempre. Afastou-se da porta cedendo-lhe passagem. Jules entrou, olhou rapidamente ao redor e tornou a concentrar-se nela, um sorriso suave nos lábios. O sobretudo escuro, fechado, e um cachecol enrolado em torno do pescoço. -Conseguiu livrar-se de Geneviève? – perguntou fingindo desinteresse. Ele deu-lhe as costas enquanto abria os botões do sobretudo e o retirava devagar; depois, puxou rapidamente o cachecol e ficou segurando-o. Voltou-se para Amanda e indagou com uma sobrancelha alçada: -Posso sentar-me? -Claro, desculpe, fique à vontade. – respondeu sem jeito. Ela pegou-lhe dos braços as roupas e as depositou sobre o sofá. Jules sentou-se numa poltrona próxima à janela, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão, reflexivo: - Bonjour. – insistiu, a expressão agora séria e intrigada. Amanda sentou-se no sofá em frente a ele e tentou sorrir. -Bonjour, Brienne. Pensei que viria ontem à noite. – confessou num fiapo de voz. –O programa foi um tanto... - não conseguia encontrar as palavras certas. - Bizarro – completou olhando-a fixamente, depois emendou a título de informação: Jantei com Geneviève, ficou tarde. - Ah, estava com ela. – concluiu num tom de falsa naturalidade. - Oui, voltei para casa perto da meia-noite. Na verdade, passei em frente ao seu apartamento, e se tivesse alguma luz acesa, teria batido à sua porta. – confessou com a expressão grave e os olhos sérios cravados nos dela. - Fizeram sexo? – perguntou à queima-roupa. Ele mexeu levemente a cabeça para o lado num trejeito de quem analisava o adversário para tentar entendê-lo e decifrar suas intenções. E após uma ligeira pausa, respondeu estreitando os olhos argutos: -Pourquoi?

72

completou de forma casual: . observando-a impassível. eu procurava alguém que conhecia e que aceitava os limites desse tipo de relacionamento. Era incrível. antes que eu me esqueça..Recitou aquele discursinho ensaiado que me disse no escritório? – perguntou. . a única.. a especial. . era tão antiquada.Non. Em seguida. Levantou-se num átimo e o encarou como se o chamasse para um duelo: .Sabia que foi a sua amante quem deu a dica do seu chalé ao pessoal da tevê? As meninas do escritório não tiveram nada a ver com isso. de Geneviève e de si mesma. . não tem nada a ver com a nossa vida. parecia que ele disfarçava o divertimento que a cena de ciúme proporcionava-lhe.Acredita mesmo que dormiria com ela e depois com você? – perguntou intrigado. mas um diabinho dentro dela lhe dizia que homem algum prestava.Encontrávamo-nos eventualmente. parecessem sempre histéricas. ele retornou sem deixar de encará-la diretamente: -Namoramos há quanto tempo. pensou. Declarei o meu amor por você há quatro dias e a partir desse momento lhe fui fiel e é isso que importa.. Preferiu manter-se calada. então. Ela sabe sobre sua existência. -Veio da cama dela? Jules manteve-se recostado na cadeira e aparentemente parecia disposto a sanar qualquer dúvida sobre seu caso com a socialite.Obsessão em Paris Veronique Gris -É amante de Geneviève? –enfatizou. o queixo escorado no dorso da mão. Ah. .Isso não lhe diz respeito. debochando. As pessoas tranquilas e centradas faziam com que as outras. porque é prima do exproprietário. Jules? – insistiu. raiva de Jules. . os maxilares trincados.Bien. contendo a raiva crescente. Amanda? Ela quase riu da expressão “namoramos”.. –afirmou sem se alterar. Por um momento. Jules sorriu. . Amanda. Essa sua calma irritava-a e muito.Eventualmente. com um nó na garganta.. estreitando os olhos. –declarou com raiva. Aliás. se risse. . A loira tinha motivos para marcar em cima já que eram amantes. pensou ela quase bufando. –Tem certeza de que lhe passou isso mesmo pela cabeça? Era totalmente improvável.O tal refúgio era para os encontros com ela. parira e criara. espreguiçou-se discretamente contendo um bocejo e respondeu num tom blasé: -O que você fazia quando sentia vontade de fazer sexo? –antes que ela respondesse.Não éramos amantes. mas já nos encontramos sexualmente algumas vezes.. certo. Geneviève jamais foi ao chalé comigo. gerara. não? E eu que pensei que tinha sido a primeira. Ignorando a pergunta. E ela aceitou as regras pacificamente. permanecia sentado.Onde vocês se encontravam? 73 . – Está tudo explicado? . o diabinho que a concebera. besteira! – completou com ironia. as normais. a última coisa que tinha vontade de fazer era rir e. – disse pacientemente: . Jules não se abalava. discursando todos os dias sobre a falta de caráter inerente a todos os homens da Terra. como? – interrompeu-o com ferocidade.Oui. seria um riso amargo. . No entanto. Inacreditável!. -Você é amante dela. – ergueu-se da poltrona e endereçou um rápido olhar para suas roupas no sofá...

preparado para sair e concluiu com raiva: -Além do mais.sexuais? – elevou a voz.. Suspirou resignado. -Você é o que você sente. medrosa e insuportável.. que a olhava com seriedade. Só procure sentir certo. parado.Acha que a imagem de você com Jacques Rodin não me irrita também? – murmurou com o olhar duro. Sempre haveria Jacques. fosse apenas o chefe controlador e workaholic. de frente para ela. Olhou ao redor. basta que distribua o seu de final de semana com Jacques Rodin em quatro anos entre mim e Geneviève. –fulminou-a duramente. paranoica. . enfraquecida. -Quantas vezes. mademoiselle? Sentia-se fora dos eixos. – em seguida. Mordeu o lábio inferior num gesto típico de quem pensa: puta-merda. Jules demonstrou o primeiro sinal de impaciência ao suspirar profundamente e negar com a cabeça. -Não gosto de mim assim. sabe sobre nós. pegou o cartãozinho com a letra de Jules e leu: Minha namorada ciumenta. e não vejo mal algum.. – É claro que isso não justifica a minha explosão machista. – disse secamente. mas.Na casa dela. -Interessante. os maxilares contraídos. -Um homem tem suas necessidades. sem a mínima curiosidade. doente de ciúme. – falou. por fim. agora. Preferia a época em que aquele homem à sua frente. Cogitara inclusive matricular-se num curso de português. Eu não sou assim. deveria tornar-me casto como prova de integridade moral? Devo-lhe alguma coisa. -Oui. -Podia ter jantado comigo em vez de com ela. pisei na bola! Fez um sinal com a mão para que ele não saísse do lugar.Obsessão em Paris Veronique Gris . – comentou com maldade. Ele tencionava vestir-se e partir. mas algo em sua postura.. – Que tal? Quem é mais promíscuo...suspirou profundamente. correu até o quarto. – concluiu em tom de censura. podia ter jantado com François em vez de com ela e eu até podia ter jantado com Annie ou sozinho. Ela... À época. Ele tinha razão. – disse com desprezo. Quantos encontros. devido às constantes viagens tivera-o que cancelar. após um longo silêncio. dizia-lhe que queria ficar e esclarecer tudo entre ambos. Escrito em português parecia mais significativo ainda.Foi apenas um jantar entediante entre pessoas que não têm mais nada a dizer uma ao outra. abriu a bolsa. . insegura. pardon. eu ou você? .Não sou casada. Amanda tivera que fazer o cancelamento. É muito honesto de sua parte avisar a ex-amante sobre a atual. Já havia algum tempo que Jules demonstrava interesse em aprender português. -Quando vai realmente prestar atenção em mim? O tempo inteiro concentrada em Geneviève e tenho certeza de que nem leu o cartão que lhe dei ontem à noite.? Todos na empresa comentavam que ela seria a nova madame Brienne. devagar.. à espera. Obviamente. estava tão focada na loira pescoçuda que pegara da mão de Jules o cartão e o guardara na bolsa. . Rochelle e agora Geneviève entre ambos. completou: . Imaginá-lo com outra mulher doía-lhe tanto quanto ser acusada de promíscua. tocando-lhe o queixo. ma chérie.. O melhor a fazer era deixá-lo partir. –respondeu sem hesitar. – justificou-se chateada consigo mesma. ele dissera-lhe que possuía um especial 74 .Essa é fácil responder.

chupar o bico enquanto mantinha preso entre os dedos o outro. numa carícia erótica que a deixou atordoada e febril. que foram explorados pelos dele. objetivamente. como boa parte dos franceses o possuía. .Vai conseguir me seguir na cama também? – referindo-se às palavras da jornalista no programa sobre ele. beijou-lhe a boca com violência e pegou-a no colo. –sorrindo maliciosamente. Ele abandonou um bico e apossou-se do outro. depois. Queria-o entrando nela. e lambeu-lhe todo o contorno e ao redor do mamilo.Você realmente aprecia a cultura brasileira. A tensão sexual era tamanha que Amanda temia perder as forças. Jules riu baixinho e derrubou-a sobre os lençóis amarfanhados. –olhou-a com desejo. com uma intensidade que media forças com o seu ciúme. Entre suas pernas. Ele sorriu sem jeito e apontou para o cartão na mão dela: -Era para você ter lido isso ontem. – comentou balançando o cartão como se fosse um leque. e olhou-a com a sobrancelha alçada. Tocou-a entre as pernas.Como um dedicado cão de guarda. ele frisara. Desceu para a parte inferior do seio. Agressivamente másculo e. soltou-os todos.Obsessão em Paris Veronique Gris interesse pela cultura brasileira. duro feito pedra. trêmula. acolhedor. lentamente. ao mesmo tempo. Hoje o dia não será nem fácil nem curto. pulsava um coração de carne. Tocou no tecido de algodão do forro. Amanda sussurrou-lhe o nome. Ela levou as mãos até os primeiros botões da camisa de Jules e começou a desabotoá-los. vamos fazer amor e depois tomar café na rua. Logo. Tornou a olhar para ela e sorriu levemente. encaminhandose para o quarto. Delicadas e rápidas lambidas nas nervuras do mamilo para.Estou viciado em você. Se o tivesse feito teria me poupado desse interrogatório sem sentido. antecipando o próximo gesto. devagar. automaticamente erguia o quadril do colchão. emendou num tom quase profissional após verificar o horário no seu relógio de pulso: .. Ela sentiu um arrepio espalhando-se pela coluna e mordiscou-lhe o lábio inferior antes de responder sem hesitar: . deslizou os lábios entreabertos pelo tórax dele. bagunçando-lhe o cabelo. Ele abaixou a cabeça e seus lábios quase se encostaram aos dela ao murmurar rouco: . num gesto instintivo que traduzia a ânsia em ser possuída por ele. No caminho. encharcado do seu sumo. Imprimia-lhe pequenos beijos ao longo do pescoço. Abriu-lhe a camisa e. Ela deitou a cabeça para trás e ofereceu-lhe os lábios. ao tomar-lhe o bico do seio entre os lábios. ainda impregnado nela. envolvente. louco de desejo. Desceu a mão por baixo da calça de pijama e encontrou o cós da calcinha. por cima do pijama. com a mesma presteza e insistência sensual.Bien. Falou sem sorrir.. Amanda arquejava. – afirmou sem se alterar. Jules deixava-se ser acariciado enquanto apertava-lhe as nádegas possessivamente. as órbitas oculares congestionadas de tesão: 75 . terno e sensual. mas parou antes de tocá-la. Num dado instante. Ele aproximou-se até quase esbarrar nela. Mas Jules não tencionava satisfazê-la tão cedo. enterrando seus dedos nas mechas negras e macias. sussurrou-lhe sem descolar os lábios dos dela: . Desejava-o com brutalidade. na volta suave. em seguida. Chegou perto dela e algo no seu modo de andar e mexer o corpo lembrava-lhe um felino. A pele vibrava e arrepiava-se. Amanda não conseguiu esboçar reação alguma diante da naturalidade da deliberação. até ter a carne da boca mordiscada sensualmente. a língua brincando com ele. molhando-o com a saliva morna. fitando-a intensamente enquanto retirava o paletó e afrouxava a gravata. enquanto abria os botões da camisa do pijama. O clitóris pulsava quente.

Constatou com apenas um leve toque na calça social. num minuto. e. os fios de cabelo grudados na testa. e chupava o ponto teso e molhado levando-a à loucura. Levantou os braços para trás na cama. ele era lindo gozando. que explodia em mil fogos. enfiou dois dedos no cós da calcinha e baixou-a até a metade das coxas dela.. monsieur. as têmporas latejando.olha para mim. Seus olhos cruzaram-se numa troca de labaredas. irresistivelmente cheirosa. Quando ele alcançou o clitóris inchado e o massageou-o com dedicação. o lábio inferior sendo mordido pelos dentes frontais. era o seu terreno. sempre racional.. – Seria capaz de literalmente comê-lo.. o pau. lindo enfiado nela.. Ele não gozaria antes dela. expondo a vagina depilada formando um triângulo letalmente erótico. sua mente criou uma imagem que a paralisou e a dissociou do ato. no alto da montanha ígnea. era bom em tudo o que fazia. – Está encharcada. arfando. Ajeitou-se de modo a que em cada bombeada seu pênis esfregasse no clitóris.. sendo açoitada por ferroadas de aço por todos os terminais nervosos.. Fitou o rosto bonito contraído numa expressão de dor e sofrimento. estava no seu limite.Misteriosamente. não era mais ela que o tocava.quero ver seu rosto. – gemeu. todo aquele homem que nascera para Amanda e que deveria ter-se mantido virgem até encontrá-la. era um macho alfa entre as suas pernas. estrategicamente parou. Aspirou a fragrância de banho recente do cabelo de Jules. Amanda sentia todo o pau grande e forte entrar e sair dela sem poupá-la. -Deixe-me vê-la gozar. a boca.. arreganhava as coxas. friccionando-o.Por que está me olhando assim? – ele indagou com a voz abafada e séria. delirava a sua mente ciumenta. você é uma fêmea insaciável. com os joelhos fincados no colchão..Abra as pernas para mim. . rouco. mon amour.. em estocadas fundas e fortes. enquanto ele lhe afastava os grandes lábios com os dedos e mergulhava a língua e a boca no seu sexo. enquanto segurava-a pelos ombros e se enfiava mais e mais. suando por cada poro.. e na sua voz traduzia-se desespero sexual. Tocou-lhe no montículo quase sem pelos e escorregou o dedo médio por entre os lábios úmidos. Ouviu-lhe gemer. enterrou-se dentro dela. pau duro e pronto para agir. recebia Jules. com fome. Ele fitou-a com um sorriso de aprovação. trincava maxilares. Ela afastou ainda mais as pernas para sentir-lhe o dedo longo deslizando num vaivém lânguido por toda a extensão do sexo. Apertou as coxas contra a cabeça de Jules. aquele rosto lindo contraído de tesão e o pau enfiando-se. – ronronou. sempre analítico. baixou o zíper da calça e puxou o pau com mão. provou o gosto da sua pele no pescoço que foi chupado. golpeada pelas estocadas firmes. – assentiu num gemido abafado e aproveitou para arrancar-lhe a gravata e a camisa de seda. mantendo a mão de Jules presa entre suas coxas. 76 . Perdeu-se no devaneio.em Geneviève.. -Oui. . fundo... o rosto todo brilhando numa camada fina de suor. Louca de prazer. Excitava-o ouvi-lo gemer de tesão ao chupá-la.Obsessão em Paris Veronique Gris -Humm. todo ele.. non? –disse. – gemeu respirando forte. Mergulhou na escuridão daquele olhar sempre sério. Amanda soltou um gritinho e fechou as pernas. Amanda obedeceu-lhe e afastou as pernas. Ela o abraçou para fundir-se nele. à boca que se alimentava de seu sexo com voracidade. puxando-lhe o queixo para si. – pediu com a voz muito baixa. – Como pode ser tão linda. como se deliciasse na abertura tenra de uma fruta. Num movimento ágil. torturando-o. agora.E era a loira quem gritava.. no lóbulo da orelha. Jules percebeu e diminuiu o ritmo das estocadas. perscrustando-lhe a expressão com olhos atentos. – Jules pediu.. as mãos.. Puxou-o para si e mordeu-lhe o pescoço. Antes que ela gozasse. Deus!. completamente entregue a ele. via.

Ao passo que. talvez fosse o único vinculo entre eles. com velada dedicação. Com a expressão impassível. -Termine o que começou! . empurrou até o fundo o pau dentro dela. balançando-a com displicência. no seu caso. Agora.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda fechou os olhos. Quer saber mais alguma coisa? – alçou a sobrancelha. encaixado nela. com violência. -Está distante. pouco me importo se engravidá-la. – afirmou jovialmente. Jules ignorou-a e. . -Fazia amor com ela como faz comigo? Jules retirou o pênis de dentro dela e ela sentiu-se vazia e desamparada. Amanda. você é muito boa e a cada dia está se superando. o sexo.. virou- 77 . com a gravata na ponta do dedo. Era ele dedicado ao amar Geneviève? Assim como era com ela. levante-se e vamos comer. Ela conhece mais o seu corpo que eu? – indagou inflada de ciúme e tristeza. -Excusez-moi? – alçou a sobrancelha. Aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe as pálpebras. muito ciúme. tenho quase 40. de posse da calça e camisa e encaminhando-se para o banheiro. -Não gozou porque não quis. do mesmo modo? -Era assim que você trepava com Geneviève? Entregava-se a ela com toda essa dedicação? Beijava-a. Mas não naquele momento. continue. Quando se virou para ela tinha uma expressão irônica: -Jamais igual. de costas para ela. só penso que um dia terei de ser pai. – ao perceberlhe a decepção estampada no rosto. Enfiou mais uma vez fundo e gemeu com rouquidão. – disse baixo num tom ríspido. porque gosto muito de foder. Se ela só lhe servia como objeto sexual e. non? – ergueu-se na cama e pôs a cueca. e se a mãe do meu filho for você será ótimo para nós. –mandou. Deitou-se totalmente sobre ela. De minha parte. hoje é um dia normal de trabalho.. Jules parou por um momento.Uma precaução anticonceptiva. após três ou quatro arremetidas selvagens. Amanda não entendeu e olhou-o intrigada: -Por que? -Por nada em especial. Amanda sentiu uma dor aguda. pelo visto. -O seu objeto sexual não foi saciado. e já buscando as demais peças de roupa. Trincou os dentes de raiva ao vê-lo parar à entrada do quarto. gozou estremecendo o corpo. – antes de sair. Jules riu. ma belle. excitava-a por demais. então que fizesse o serviço completo. abraçava. de reprodução. tentando fugir daqueles olhos inquisidores. tocado. -Abra os olhos. que colada ao seu quadril. pensou ao vê-lo sentar-se na borda da cama e buscar no chão a cueca boxe. a cabeça virada para outro lado. a fim de evitar o olhar hostil dela e. avaliando a situação. com dedicação. e era beijado por ela.Vamos. Amanda. lançando seu sêmen até escorregar pela vagina alcançando a parte interna das coxas e o lençol. non. irônico. ele afastou-se um pouco e fitou-a ainda sério: -Oui. Quando sua respiração tornou-se novamente regular. sinto-me muito bem. o que foi? -Não pare. pois tenho certeza de que ela adoraria arrancar de mim um filho. Com Geneviève eu usava preservativo e com você. fingindo não entender o tom raivoso dela.gritou exasperada. continuou no mesmo tom: . arrancando um gemido de dor de Amanda. Ela encarou-o num misto de irritação e ciúme.

e não dar 78 . É o que tem a fazer. Que mistério. – reclamou e seguiu sem se alterar. charmoso e gentil. assim como é com o vinho – ele sorriu divertido e completou:. Dizem que os parisienses são os melhores. pensou. – ele fez um sinal discreto ao garçom e voltou-se para ela com a expressão grave:. – respondeu observando a xícara com café quase intocada: Alimente-se.Nós estamos juntos cinco dias na semana e praticamente o dia inteiro. A manhã avançava. Agora. Como era possível isso? Normalmente. provinha somente da degustação das table de fromages feitas por Annie nas noites de inverno em que Amanda tinha de trabalhar com Jules no escritório de casa. Nós dois não queremos que isso aconteça. . também quero cuidar de você e até onde sei. Amanda degustava seu primeiro café do dia. o semblante circunspecto e concentrado nela: . Sou seu amigo. Parecia que as crises de ciúme de Amanda provocavam-lhe bom humor.Estou falando sério.Você precisa ser apresentada aos queijos franceses. Precisamos encurtar distâncias. vento rascante e neve fraca. então.Realistas. se vista e me siga. Amanda. a bem da verdade. No Le Petit Cler. .Só quero avisar-lhe que se continuar com as comparações infantis. . -Temos de fazer o programa típico francês. eu diria. o seu melhor amigo. ao longo desses cinco anos você cuidou muito bem de mim e acho que se não fosse assim. . Amanda. sentado à sua frente e saboreando uma fatia fina de pão com um delicioso camembert. . Jules.Sei muito bem aonde você quer chegar e já lhe disse que não quero presentinho de amante. os homens surtavam com mulheres ciumentas. -Entendo. mulher. E sempre quis fazer o melhor possível e mostrar o quanto me dedicava à minha profissão. Cada região produz o seu. com características diferentes.Eu sei. da Rue Cler. eu já teria me consumido de estresse. mas por fim suspirou e acrescentou com firmeza: . Rossi. Jules estava estranhamente bem humorado. Se gostou do Brie de Melun prove esse então. – tentou argumentar.E com os homens. non? Livre-se dessa expressão de ofendida.Quero dormir todas as noites com você.Não seja boba. Esta rua tem os melhores queijos do mundo.Não estamos juntos de fato. Podemos. Que homem. -Tudo que lhe fiz fazia parte do meu trabalho. mademoiselle.comprar queijos.Obsessão em Paris Veronique Gris se e a entonação da voz já não era mais de ironia e sim de ameaça: . É cansativo para nós dois. Mas não Jules Brienne. Um conhecimento empírico.E também são os mais modestos? – indagou-lhe com um sorriso debochado. não farei mais sexo com você. –completou com um sorriso ambíguo. Quem brincava com fogo acabava se queimando. – estendeu-lhe uma fina fatia do camembert e a pôs na sua boca. . sei que o que fazia por mim não estava relacionado a algum interesse afetivo ou sexual e por isso mesmo que valorizo ainda mais. – declarou com um sorriso. O conhecimento que tinha a respeito de queijos. . e sim trabalhando. fitando a calça do pijama arriada até os joelhos.Temos de resolver a sua questão de moradia. – disse com um sorriso leve. É diferente. ele apreciava tal arriscado tempero. não tem amigos. Ele percebeu-lhe o embaraço e achou graça da sua timidez. . vinho e baguetes. consistências diferentes. não quero deixá-la anêmica de tanto esforço físico. Não havia mais vestígio algum da discussão anterior. Amanda sorriu e fitou as próprias mãos. porém incisiva.sorriu misteriosamente: . agora. nos vermos algumas noites por semana. Admirava a voracidade do apetite de Jules. . Jules.

úmido. a decoração. . Se a sua vontade de dormir comigo é menor que a preguiça o problema é seu.. Conheço um corretor que pode conseguir um ótimo imóvel para nós.Morar com você? – interrompeu-o assustada.E trabalharmos juntos e almoçarmos juntos. . – constatou como se fosse um investidor da Bolsa. oui? – disse fechando a cara: . s'il vous plaît.Sei das minhas obrigações.. – Quero resolver essa situação de uma vez por todas. .. – espicaçou-o sem elevar a voz. ainda por cima.? Logo estaremos fartos um do outro. mas foi pega pelo pulso. –exasperou-se. -Não. . Jules.alçou a sobrancelha. – disse erguendo-se da cadeira e levando a alça da bolsa ao ombro. merci. – irritou-se. Jules. – disse calmamente. – pediu com gentileza. Por que está fazendo essa cara? . -Está pondo-me contra a parede.Vida de puta de luxo... Não vou permitir que complique ainda mais a minha vida. não sou apenas a sua assistente.Obsessão em Paris Veronique Gris escapadinhas para sua cama. – constatou secamente. ligeiramente exasperado. Isso jamais acontecerá. . -Ela já está resolvida. Podíamos viver sob o mesmo teto. você gasta quase metade do salário num aluguel completamente fora da realidade. acabou. . – falou firme. não pode afastar-se da sua casa e de Rochelle.Dinheiro que poderia ser investido em algo mais útil para seu futuro. Você escolhe tudo. . E esse é outro motivo para eu preferir ficar no meu apartamento. preocupava-se exclusivamente consigo mesmo. .Não dificulte as coisas. e eu me sinto muito mal morando lá. -Tem razão. Por isso. Amanda. o imóvel.É muito cedo. -Para mim. eu ainda não acabei.. Jules. Pode guardar seu talão de cheques que não estou à venda.. Jules Brienne jamais perdia a paciência e o controle.Que por sinal é minúsculo. Ela olhou ao redor antes de tornar a sentar-se e percebeu que cada cliente.. Você é dominador. não precisa listá-las.. – ordenou baixinho.É uma solução prática.O dinheiro é meu. . nunca dá. só estou expondo a minha opinião e. 79 . Afinal. -Fale por você. -Sente-se.Sente-se e me escute. se você quiser. mesmo que seja igual a da família Adams. em sua mesa. .Nem todo mundo tem a sua grana e pode se dar ao luxo de morar numa mansão. – Além do mais. só quero dividir um lugar com você para que possamos dormir e acordar juntos. É horrível aquele casarão.Controle-se. . distante da empresa e da minha casa e.... . nada mais.. eu gasto e você assina os cheques. – enfatizou nervosa. Non. Discrição ou excesso de individualismo? Através das vidraças. nesse momento. observou um grupo de mímicos vestidos com roupas coloridas e as faces pintadas de branco com grossas lágrimas pretas escorridas. Vamos indo que não quero chegar atrasada à empresa. e não numa espelunca três por quatro. Ou trabalhamos juntos ou vivemos juntos. controlador e vai acabar me sufocando. Ameaçou afastar-se da mesa. quero um lugar nosso.Não vai dar certo. – havia uma nota de impaciência ao falar-lhe.. Eu não gosto disso – disse duramente. . e sente-se. é verdade. Eu só quero tornar o processo mais prático e fácil para nós mesmos. – respondeu devagar.

será recebida por uma excelente equipe médica. um lugar para morar e você. –Agora.Caso as coisas se tornem complicadas. e o garçom afastou-se do mesmo modo que se aproximara. pelo menos. .Se Rochelle sair do estado vegetativo. que. . os lábios contritos. Jurei que jamais me deixaria ser magoada outra vez por um homem. . Não tenho mais o que fazer por ela. –disse com o cenho franzido numa expressão que não admitia objeções:.concluiu com um trejeito nos lábios. -Sei o que faço.Veja bem. tentamos do seu jeito. No meio disso tudo. tornara-se a sua amante. sério. –declarou. Perceba a situação em que você me coloca. retirou umas cédulas e as pôs sobre a mesa. No início. Uma sugestão aos roteiristas de cinema. até mesmo Amanda acreditara que como os dois se viam durante o dia. Observou Jules sorver o café sem açúcar. Pode soar como algo feminista. discretamente. que. agradeceu e voltou-se novamente para Amanda: .Essa é a sua proposta? Não sei se me sinto bem trabalhando para o homem com quem durmo. . Virou-se para Amanda e completou calmamente: . no escritório. Tudo de uma vez só. pedindo-lhe a conta. seis meses. era o suficiente que se encontrassem 80 . Jules abriu a carteira. Fez novamente um sinal ao garçom. Ele parecia aborrecido com as últimas palavras de Amanda. mas não acho agradável misturar a relação pessoal com a profissional. digo por medo de me machucar. Só lhe peço que aceite minha proposta para que possamos resolver o mais rápido possível nossas vidas. E ela que pensava que Paris fosse a terra dos romances! Após cinco anos convivendo com a objetividade e racionalidade fria do chefe. a amante de um homem que não falava em amor. – enfatizou. vamos tentar do meu jeito por. – encarou-a com firmeza. vamos trabalhar. Ela meneou a cabeça em negativo.Obsessão em Paris Veronique Gris Capítulo XII . qualquer outra coisa está fora do meu alcance. Um pragmatismo de doer os ossos. Na primeira semana de procura. E não pense que digo isso por ser uma boa pessoa. diárias. não quero abrir mão de você como profissional e tampouco como mulher. -Isso é uma questão que terá de resolver consigo mesma. –Tenho que arranjar uma solução. Vivia sim um relacionamento pragmático entre dois executivos de Nova Iorque.Proponho-lhe uma experiência. sinceramente. O semblante estava ainda mais carregado e isso se refletia na curvatura do lábio inferior e nos sulcos na testa. eu sei. Amanda estava disposta a enfrentar Jules mais uma vez e mandá-lo conformar-se com as escapadinhas de final de tarde.Devia provar o croissant daqui. -Não quero ficar entre vocês dois. ainda não entendi qual seja. mademoiselle.E se a sua esposa voltar a si? Eu perco o emprego. corretores agitados e ansiosos para fecharem negócio. – afirmou com segurança. Seria rodado em Paris e os personagens seriam uma mulher de 28 anos sem muita paciência para a empreitada e um executivo perfeccionista. um bom título de filme seria: À procura do apartamento perfeito. O dia será longo. Estava tão imersa na conversa que quase saltou da cadeira quando o garçom aproximou-se da mesa com outra xícara de café preto e depositou-a em frente a Jules.

Na porta dos apartamentos. uma indicação peculiar. Monsieur Ferrer balançou as chaves antes de abrir a porta do único apartamento naquele andar. O combinado era que o apartamento fosse próximo ao prédio da SBO. Jules avisou-lhe que eram de plástico. . Falava rápido. E vê-lo e falar com ele em sua sala. já não bastavam mais para acalmar-lhe o coração e aplacar-lhe o desejo de estar totalmente com ele. O crânio redondo. de modo seco e brusco. ainda. sem janelas. Na maior parte dos prédios. de uma calvície melancólica e lunar. ornamentando um braço que tinha uma aliança caríssima no dedo médio. presenciar reuniões com ele andando de um lado para outro na sala. Ao que Jules comentou de forma casual. Ambos tinham consciência de que. um arquiteto daqui. vê-lo dormir com ela e acordar sentindo o corpo morno e macio ao seu lado quase sobre o seu. Os apartamentos não eram numerados como no Brasil.Pardon. um quadro. ela entrava no escritório e ele lhe dizia com um sorriso charmoso “bonjour”. dormir com ele.Nada como a funcionalidade despojada dos americanos. Monsieur Ferrer era calvo. as caixas postais possuíam várias etiquetas sobrepostas. no elevador. pequenos. observando as várias nuances de encantamento no rosto de Amanda. um desenho. mesmo trabalhando juntos. Nada mais lógico que estender o escritório ao lar. calçados num italiano com cadarços atados num lacinho.Para um casal moderno nada melhor que um loft! E completou informando-os que o imóvel era de um fotógrafo que no momento estava morando em Tóquio e tencionava desfazer-se de alguns bens deixados na França. o tronco largo vestido na gabardine bege e os pés. ao estender-lhe a caneca de café ou até mesmo quando. dialogar profissionalmente com ele.O dono da ideia. – empolgou-se o corretor. decidindo. . . menos numeração. branco quase brilhava sobre o pescoço curto. monsieur. Além de dois vasos com plantas verdes que. acrescidas de um sorriso significativo. após Amanda aspirá-las com ar sonhador.Graças a Le Corbusier. .. Entraram por um corredor comprido cujas paredes.Obsessão em Paris Veronique Gris sexualmente uma vez por semana. O prédio em questão tinha seis andares e dois elevadores de carga. – afirmou ainda sem descolar os olhos de Amanda que. em Montparnasse. observava cada detalhe do loft. continuariam a viajar e a também prolongar as horas de trabalho na empresa. o braço possessivo sobre a sua cintura. o registro dos diversos ocupantes do imóvel. como aqueles feitos pelas mães nos filhos em idade escolar. sentir o cheiro dele ao ajudá-lo a retirar o paletó. falando. nos restaurantes ou na sala de reuniões. que haviam sido reformados e forrados por um carpete escuro de quatro milímetros de espessura. com uma etiqueta com seus sobrenomes. no mesmo arrondissement. enroscado pernas nas pernas. Amanda estranhara o fato logo que chegara. hipnotizada pelo ambiente. numa ansiedade típica dos corretores de imóveis. no corredor. Por isso e tantos outros motivos que também convergiam para a necessidade de trazê-lo cada vez mais para perto de si. afirmando. parada e estupefata. . ela aceitou a sugestão de Jules de tirar algumas tardes de folga a fim de procurar um apartamento para eles o mais rápido possível – palavras de Jules.. todas as manhãs. E isso significava transformar Paris inteira em Montparnasse. Mas a situação tomou outro rumo. continham as caixas de correspondência de cada morador. Aparentava uns cinquenta anos e não era simpático. A ideia de Jules era muito simples: encurtar distâncias. – um sorrisinho de curiosidade desenhou-se nos lábios rasos do homem. francês. 81 . analisando e. na cobertura do prédio. Os olhos invariavelmente fitavam o relógio no pulso direito.

. Sem conter a alegria. captando o grau de seu contentamento. A pressa era do outro. Em princípio. e Amanda podia ler em sua mente: oui. Jules Brienne confirmou a compra do imóvel e a visita do advogado da empresa e Amanda à imobiliária no dia seguinte. pensou. Com a maior naturalidade do mundo. acenderam-se. tremendo. quem gargalhou com jovialidade. Na verdade.É o que você quer? – murmurou ao seu ouvido. – declarou-lhe em tom de brincadeira. o primeiro deles referia-se aos telefonemas. Quando chegaram ao terraço. desanimava-a ao ponto de preferir correr o risco de sofrer um novo ataque psicótico de Jacques.. denunciando a sua criança interior. nós somos os melhores! -Aqui não me perderá de vista. Ela o abraçou nem precisando dizer-lhe que aquele lugar existia para eles.U-la-la! – Jules teria de aprová-lo. Puxou-a para si e abraçou-a fingindo não ouvir o pigarrear do corretor. prateleiras de madeira com mudas de temperos.Merci Beaucoup.Obsessão em Paris Veronique Gris O outro francês sorriu amplamente. Como agradecer um presente como aquele? . Mas era o executivo workaholic que raramente sorria. apesar de ensaiar inúmeras vezes o início de tal conversa. só de imaginar-se falando novamente sobre o ex-amante de Rochelle e dela própria e encarar a expressão zangada de Jules. ela pulou no mesmo lugar.Seremos felizes aqui. cogitara contar a Jules sobre a tentativa de aproximação de Jacques. parecia-lhe exagerado supor que ele ainda 82 . que se restringiam a três palavras: Amanda. Amanda apertou o interruptor e centenas de lâmpadas pequenas e coloridas. Por pouco não repetia o gesto de Geneviève. constantes. cadeiras estofadas e uma mesa toldada pelo guardasol com as cores da bandeira francesa. Beijou-lhe a bochecha com carinho e disse docemente: . Ouviu uma risada e voltou-se para o corretor. enquanto observava todo o apartamento sem sair da parte central do primeiro andar. não naquele momento.. Um delicado jardim circundado por vasos grandes e plantas imponentes. E foi exatamente neste momento. ela teve certeza de que desejava morar ali. Capítulo XIII Passaram-se quatro meses desde que Jacques Rodin entrara em sua vida de forma violenta. oui. o piso em tábua envernizada e as paredes laterais pintadas sobre o reboco cru e as do fundo revestidas por pedras rústicas.. espalhadas como bandeirinhas num varal sobre o terraço. E ela desligava o celular. . No entanto. ça va?. Afastou-se e viu o sorriso que transformava o rosto sempre sério de Jules numa paisagem bela o suficiente para se passar a vida inteira a admirar. sorrindo.Adorável! – murmurou quase batendo palmas. ela pensou.. fazendo careta. Adiantou que tencionava mudar-se o mais rápido possível. . como quando ele sinalizava ao garçom pedindo a conta. um balanço. admirando a sala dividida em três ambientes. – previu. era o quinto imóvel apresentado pelo corretor. . Isso ela lembrava por dois motivos. criando uma atmosfera lúdica e romântica. que ela conseguiu pronunciar. não deles.

Qualquer movimento mais forte poderia desencadear um tsunami. por sua vez. Ela. Agora. um cálice com vinho tinto. À porta. preservando elementos herdados de gerações passadas. ensaiou um movimento a fim de indicar-lhes onde estavam os patrões. mesmo elegante no suéter escuro e na calça de corte caprichado. cabelo claro cor de trigo. No dia seguinte. de forma genérica. relacionava-se ao jantar. Faltava apenas que ele próprio buscasse suas roupas e demais artigos na mansão e avisasse Annie sobre o seu novo endereço. a beleza máscula da França. optando sempre pelo tradicional e acertando em cheio devido à qualidade das roupas e à elegância natural do corpo esguio e da postura de ex-bailarina. distribuída em peças raras e móveis antigos. aposentara-se após o terceiro infarto motivado pelo excesso de cigarros. ligeiramente arrebitado. baixa. deixarse levar pelas tarefas cotidianas como quem deita de braços abertos sobre as águas do mar. jamais tivera oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. ao que Jules interrompeu com um leve sorriso: . Na mão. Devolveu o carinho piscando o olho discretamente. Empertigou-se ao entrar no ambiente que cheirava a madeira e livros. Fumava demais. Havia nele algo de nostálgico. em Montparnasse. apostava todas as fichas no intelecto. qualquer museu). Juntos. Um antiquário viveria feliz naqueles trezentos metros de decoração clássica. com os Roche. túnica e saia beges. altura mediana. fosse pelo charuto entre os lábios ou o rosto exótico cujos olhos ligeiramente puxados e o nariz aquilino traduziam. Era mais alta e mais magra que o marido. atendera diversas vezes os telefonemas de François. que as separava do divã listrado e decorado por uma 83 . Jules jantara com o amigo de longa data. Sonia Roche convidara Jules e sua assistente para um jantar que fora interrompido pelo mesmo Jacques. ela era apenas a assistente pessoal de Jules e deveria conter qualquer gesto que os delatassem como amantes. Crepitava lenha na lareira imponente. Em cinco anos trabalhando para Jules Brienne. lado ao lado. Por parte de Jules tudo se encaminhava de forma natural e coerente. o sorriso era amplo e sincero ao pegar-lhes os casacos. Cadeiras estofadas distribuíam-se ao redor de uma mesa central.Imagino que estejam na biblioteca. monsieur. não combinavam. numa das noites mais frias do ano. maior que muitas quitinetes de Paris.Melhor impossível. o segundo motivo que fazia com que Amanda se lembrasse da visitinha desagradável de Jacques Rodin ao seu antigo apartamento. decorado de forma austera. Advogado por profissão e paixão. Tinha para si que. Sonia Roche personificava a mulher chique e clássica. Ao passo que François. Ele e Sonia formavam o típico casal culto e sofisticado. ainda. dando um tapinha amistoso no ombro do homem. sorriso acolhedor. -Oui. E Amanda pôde comprovar ao chegar ao apartamento mobiliado conforme diretrizes do Museu do Louvre (aliás. Assim. e era importante manter a estabilidade dos dias. uma espécie de mentor da SBO. Nariz fino. e tampouco ostentava outro acessório. Amanda vestia-se para enfim conhecer os Roche. e um fio de eletricidade percorreu-lhe toda a extensão da coluna. quem os recebeu foi o mordomo de cabelos grisalhos e terno cinza claro. Entretanto. na época. que aparentava sessenta e poucos anos. Como está.Já faz algum tempo que não nos visita. meu caro – respondeu jovialmente. Apesar de solene. exibia a masculinidade bruta dos galãs franceses da década de 60. naquele momento. sagacidade no olhar. praticamente um irmão mais velho emprestado. Óculos de armação moderna. do tipo que parecia não se importar em vestir-se na moda. atarracado. monsieur? . charmoso. Amanda recebeu um olhar significativo. Gerard. Ele. Morava com Jules. Em seguida.Obsessão em Paris Veronique Gris quisesse feri-la. Não usava joias. – assentiu com um esboço de sorriso e completou educadamente:.

Mandou fazer o que pedi. mas tem que arranjar um tempinho para ficar com os seus velhos amigos.Precisa conversar com Touleause para acertarem os ponteiros. atravessou a sala. pensou Amanda. conforme informação veiculada pelo próprio François . A ideia é que preparando sua sobremesa predileta. para eles.Claro. exibiam os cursos realizados pelos Roche e. O mordomo. Jules contraiu os maxilares e isso significava que a conversa chateava-o. Amanda aproveitou para observar os quadros na parede.Veio chorar no seu ombro? –perguntou. : .Touleause está preocupado. ele queria que eu o aconselhasse. -Na verdade. com as pernas cruzadas displicentemente.E sou.. -fez um muxoxo. fora o vice-presidente. tragou novamente o charuto e falou devagar:. figuras humanas ou monumentos históricos. ajeitando-se de modo a enfrentar corajosamente o resto da noite. mas ele insinuou que você parece outro.Por que não nos ajuda. Depois. Jules. o executivo.A parte do programa que citava Jules foi a melhor. – completou o próprio. Mas não devia tê-lo o feito. Na cadeira à sua frente. . – comentou François. completou com delicadeza: . acomodou-se François e. separadas por um abajur de pé dos anos 30 do século XX. o som de algo parecido com o acorde de um violino ou de gatos copulando.Obsessão em Paris Veronique Gris manta de aparência oriental.Sei que trabalha muito.. François começara a SBO com Jules e. Sonia indicara a Jules uma cadeira que ladeava outra. . após endereçar um longo e especulativo olhar a Amanda.uma relíquia arrecadada num leilão. Acha que você está passando por uma crise precoce de meia-idade. . ironicamente. sinceramente. diplomas enquadrados por molduras grossas. mudou de assunto e disse de forma afetada:. -Afirmou. o longo corredor e foi receber quem quer que fosse. foi a última. todos o somos. voltando-se para Amanda. encheu o amigo de perguntas sobre “como andavam as coisas na empresa”. ressoou no ambiente. -depois. . entregando-lhe um cálice de vinho. Era incrível que um homem inteligente como François e que convivia 84 . Touleause era um dos executivos mais antigos do grupo e na hora do aperto sabia muito bem para onde correr. -Merci. Amanda sentou-se no sofá e constatou que além de raro . Amanda considerou. arrumando um horário na agenda dele para visitar-nos? Quando ensaiou uma resposta espirituosa. na sua figura alta e sóbria. Sonia? – Jules mudou o rumo da conversa. dando importância ao fato. não tinha paisagens. mas. durante algum tempo. fiquei interessado em conhecê-la. – enfatizou. Revestindo boa parte da alvenaria antiga.Ainda bem que filmaram antes das demissões na diretoria. –agradeceu-lhe. ouvia com paciência a exposição do amigo a respeito da importância do VP e sugeria-lhe que enfim se acertassem. – declarou François entre uma tragada e outra do charuto. mon cheri ami. – disse François com seriedade. . . O homem está se sentindo um tanto incomodado. sorrindo tranquilamente. . – A imprensa manipula os fatos e as pessoas. venha nos visitar com mais frequência. Sei que parece idiotice essa coisa de crise. a verdadeira arte. O legítimo bonitinho mas ordinário. monsieur Roche.Claro.-comentou sem jeito. não imaginava que tivesse uma beleza tão fresca e harmônica. Após os devidos cumprimentos e apresentações. mademoiselle Rossi. – falou com ar de falsa inocência. cada dia nos renovamos. sério.confirmou Sonia sem sorrir. sentindo a força do olhar de Jules sobre si – Tentaram transformar-me num sargento. debochando. Ao lado dele.era duro e desconfortável. -Percebi a manobra tendenciosa. -Depois que a vi naquele programa de tevê sobre Jules. .

caso ela tivesse de ser substituída. estendeu-lhe a mão e tornou a sentar-se. Mas não foi Raj quem apareceu à porta. – disse contendo o riso e sentindo-se a parceira de Bond. pergunto-me.. enfatizou. endereçou um olhar em direção a Jules. Sonia virou-se para ela com olhos argutos e discursou sobre a sua própria importância na carreira de Jules: . não percebesse o seu ar de enfado e desinteresse diante de tal conversação. como empresa e não pessoas. Quais critérios ele deve ter utilizado. Jules era casado com a “nossa” Rochelle e. Jules sempre deixou ao meu critério a escolha de suas assistentes. satisfeito em compartilhar algo que não fosse somente fofocas dos bastidores da empresa. Amanda então compreendeu o significado do convite e do gesto. James Bond.ela ergueu os olhos para o mordomo que adentrava a sala discretamente e continuou: Bem. em argumentar (quase historicamente) a favor da experiência de Touleause e na precipitação ao demitir Maurice. nos últimos sete anos. Precisa estar no controle e praticamente não confia em ninguém. . 85 . ainda faz parte daquele antigo modelo administrativo completamente obsoleto.. Armada e decidida. descansando o charuto sobre o cinzeiro na mesinha de centro. como todas as noites? Rossi.. afinal? Quem voltaria para casa com Jules e faria amor com ele até esgotar-se. atravessou a biblioteca e abraçou calorosamente Sonia. -Como vai. Engoliu em seco quando ela tencionou abraçá-lo e Jules.. Até ensaiou um elogio ao chef indiano antes mesmo de saber se a Índia de fato a conquistaria pelo estômago. Mas queria. Talvez a pescoçuda não soubesse o seu nome mesmo ou talvez fosse uma cretina fingida tentando diminuí-la. – comentou como quem não quer nada. concentrando-se na capa de um disco no qual um homem usando chapéu dos anos 40. Amanda temia por sua sanidade mental caso a loira o tocasse mais do que devia. Insistia. resumindo. Mais um pouco e o NÓS pareceria algo ligado à máfia. eu estava em Atenas e foi o próprio Jules quem a realizou.... e sim um vestido de seda. na última seleção. E a escolhida está conosco já faz cinco anos! Você ganhou de um rapaz formado nos Estados Unidos e de uma senhora que dominava cinco idiomas e trabalhara por anos na DELL. a “nossa” Geneviève.. perolado.Obsessão em Paris Veronique Gris havia tanto tempo com Jules. pois Jules sobrecarregava-se demais e mal tinha tempo para a “nossa” Rochelle. afetuoso. François cumprimentou-a com outro abraço. Ele sempre teve dificuldade em delegar tarefas. Na vez de Jules. os homens levantaram-se educadamente.? –interrompeu-se. confusa. Sonia cantara a pedra. Por que não se divertir. que observava atentamente os discos de vinil que François trouxera da escrivaninha. nada melhor que sua cópia. Sorrindo e completamente à vontade. Porém. alguém mais adequada à sofisticação de um presidente cheio da nota. À sua presença. a fim de que Jules tivesse mais tempo para a “nossa” Rochelle. brilhante aluno da Sorbonne. . Uma mulher com uma missão. Amanda Rossi. o cargo de assistente pessoal do presidente fora criado por Sonia. Amanda Rossi. colocara Amanda no lugar que deveria ficar e usava o “trabalhar conosco” mostrando-lhe que pertencia unicamente à família SBO. Afinal. sem sorrir.. Quando o mordomo saiu e Sonia levantou-se com um sorriso radiante nos lábios. E acredito que ele deve ter tido algo em torno de Três ou quatro profissionais. Automaticamente. outrossim. Amanda imaginou que o jantar estava pronto e servido na sala. curto e famoso por frequentar butiques caras e que cobria o corpo esguio de uma loira chamada Geneviève.Rossi.. já que fora eu quem o convencera a ter uma.Saiba que a ideia de criar o cargo de assistente pessoal foi minha. cantava tangos. mademoiselle. Amanda pôde comprovar.

saltavam de um assunto a outro sobre pernas de pau. Atrizes no palco. E ela sentia-se perdida e deslocada. agora. canela e uvas passas. sozinha. Exótico. que englobava universidade e estilista de moda exclusivo e o da assistente pessoal. Seria ótimo tê-la conosco.. – falou Geneviève com entusiasmo.Estudei na Suíça com ela. agora. Após exclamações discretas de satisfação. Ou seria sobre desodorante? Amanda piscou os olhos. Após quatro cálices de vinho. dos alimentos transgênicos. quente e adocicado. fitando Geneviève em busca de sua aceitação como homem ainda útil. Ela conversaria com as mulheres algumas tardes. chamava-se Moglai Biriani . Na verdade. mexendo os lábios e pronunciando palavras que não eram suas. sabia? – informou François com um sorriso.Como lhe falei aquele dia. Algo o incomodava. possuía ares de desconfiança. segundo informação importantíssima de François. Ao seu lado. a iguaria indiana. ela já não mais se importava com o lugar onde sentaria desde que pudesse apreciar a conversa. Sombras no olhar sério e profundo. Seria tão bonito! -Très bien. Jules catava os grãos de arroz Basmati preparado com cordeiro que . enquanto que ela e François mantinham-se nas extremidades e Amanda. . torcendo para Gerard voltar novamente com a garrafa de vinho e encher-lhe o copo. emergindo de dentro das veias. A bebida deslizou com suavidade e foi sorvida rapidamente.. Um cheiro fantástico. emprestadas da Marie Claire francesa. Numa tigela de cerâmica. – comentou Sonia com os olhos perdidos num ponto vazio. Como a presença do chef na sala até o momento de todos provarem a comida. concentrado na comida e fingindo que ouvia a explanação de Sonia a respeito. .Oh. Do outro lado da mesa. A presença da ex-amante? Ou os motivos da talzinha ter sido convidada pelos Roche? Mais uma vez ajeitou-se no maldito sofá. Atropelavam-se em parágrafos com o mínimo de vírgulas. 86 . Amanda observou. seria interessante manter um grupo de apoio às mulheres que sofreram algum tipo de violência. as pálpebras pesadas. erguendo-se da tumba. agendas.no garfo e levava-os à boca. E era como se ela vislumbrasse a presença de outra Amanda. . o seu trabalho como psicóloga é fantástico. de frente para Geneviève. Sonia e Geneviève comentavam sobre Saint Tropez. Sonia. incluíam Amanda na conversação como quando se chamava alguém à beira do abismo. A anfitriã ponderou bastante a respeito da distribuição dos convidados à mesa e isso era percebido na intenção velada de permitir que Geneviève se sentasse ao lado de Jules.Obsessão em Paris Veronique Gris Desviou a atenção da mulher para Jules e constatou que a expressão de seu rosto. Raj retornou à cozinha. a amiga que enxertara um pedaço das nádegas nos maxilares e a onda de violência na periferia de Paris. Sondei Amèlie a respeito e ela dispõe de alguns horários. não sentia mais nem lábios nem língua. Aproveitou a chegada do mordomo e estendeu o copo. que sorte. Foi então que começaram os primeiros tremores. non. que antes tendia ao enfado. lembrando pimenta e nozes. comprada na China. Ladeada pela travessa com salada de pepino temperada por iogurte natural e folhas de hortelã e o creme de manga. e a plateia composta por apenas um homem.na Índia. Fran! Amèlie é sensacional. o delas. O álcool anestesiava problemas e aplacava tensões. visto que de seus lábios nenhuma outra palavra foi emitida. reuniões e horários restritos. os babuínos que atacaram um vilarejo. a decadência do Botox. Vez por outra. Um interesse excessivo. Meio eufóricas e um tanto sôfregas. Dois mundos e o vácuo. com louro. por nada em especial. mas também precisamos de uma advogada para esclarecer os direitos das vitimas e como proceder após a agressão do parceiro.

como. –comentou Sonia saboreando o creme de manga. encontrarão outras em novos relacionamentos e certamente repetirão o mesmo comportamento abusivo. talvez.Falo trabalho de verdade. Sonia ergueu ligeiramente o nariz arrebitado como se buscasse compreender o cheiro do que estava no ar. me parece que se não são tratados os problemas dos homens. Esqueceu-se? – tentou sorrir.Eu trabalho. apesar de estar sentado ao seu lado. –retrucou Geneviève que. incomodada pela indagação rascante do homem que. Geneviève. subir e descer escadas apontando para paredes e tentando arrancar o dinheiro das pessoas. mais como para debochar do que Jules afirmara do que pelo fato de ter achado graça em si. de preferência. sejam psicológicos ou econômicos. . poderia pô-los em ordem. -Não quero interferir no trabalho que vocês estão desenvolvendo.Na galeria do meu pai. Isso que você falou é uma atitude protecionista e. sabe o que é isso? – limpou os lábios no guardanapo de linho. adiante.Esse Jules! -Por que os homens que agridem essas mulheres também não participam do grupo de apoio? – indagou Amanda a fim de jogar água fria na fervura. na prisão. por exemplo. cortando a carne no próprio prato. parecia não lhe notar a presença.Nosso centro social é voltado somente para as mulheres que sofrem agressão. Fora politicamente incorreta. Sonia interveio em favor da amiga.Todos no centro social trabalham. jurídico. Geneviève encarou-a com ferocidade.Obsessão em Paris Veronique Gris . Nós as acolhemos e damos suporte psicológico e... rebateu num tom acusatório: . Foi como um raio que partiu a mesa em dois. A moça mexeu-se na cadeira. em seguida. mas ela está em licença maternidade. .Tínhamos uma secretária.Sua ajuda também seria fantástica. . Eles têm de procurar ajuda em outro lugar e. Jules. -É verdade. mas. . François riu.Claro que não. François estalou a língua no palato em desacordo com o comentário da funcionária da SBO. Não vejo sentido em incorporar os homens que as agridem. Caso queira auxiliar-nos. porém. Temos uma série de arquivos completamente desatualizados. além de protecionista. talvez não mais as que agridem no momento. sem olhá-la. O vinho ajudara-lhe a brincar de cabra-cega dentro do covil de cobras.Existe trabalho de mentira. Amanda terminou de mastigar seu cordeiro.Tem de ser mulher? –indagou François. -É mesmo? O que você faz? – Jules perguntou-lhe. recebendo olhares entre intrigados a reprovadores. eles tornarão a agredir as mulheres. solícito. Um longo e denso silêncio recaiu sobre todos. machista. . aquele que se faz sem saber o porquê. agora. mon ami. – declarou quase que didaticamente.Oui. voltou-se para Amanda com vivacidade: . eles têm de procurar ajuda noutro lugar. porém nenhum indício de raiva destoava-lhe no timbre fino da voz: . Jules? . olhou para Jules que a fitava com visível mau humor e disparou antes de pensar: . o do tipo simulado. Se hoje a mulher ainda apanha de homem é por culpa de 87 . -Nossa função é somente para com a mulher. ainda de boca aberta e olhando-a com espanto.

assim fica difícil sermos condescendente para com os agressores. mas sabia que seria confrontada. Amanda percebeu que a outra exalava um mórbido prazer ao vê-lo confrontar François: 88 . Porque o seu mundo não era aquele. Vamos para casa. – comentou François levando o cálice de vinho aos lábios. porque. Ele a fitava com seriedade. afastou a cadeira de Amanda e voltou-se para o amigo.É incrível que em pleno século XXI ainda existam mulheres inocentes e submissas! . o centro. naquele apartamento sofisticado e diante de estranhos. ela sentia-se mal e acuada. Jules acompanhava a discussão sem manifestar-se e sem demonstrar o mínimo interesse pelo assunto. Não havia nada de machista na sua ideia.Obsessão em Paris Veronique Gris mulheres que pensam que passando a mão na cabeça de psicopatas e sociopatas. –completou François. Amanda. -O que foi? O executivo contornou a mesa. – Geneviève fuzilou Amanda com o olhar. humilhadas.São simples e verdadeiras. . ainda somos um pouco machistas. -Isso. assassinos de mulheres e crianças. Balbuciou qualquer coisa para uma Geneviève bastante atenta às reações de seu antigo amante. Bolhas de ácido sulfúrico dentro do estômago. Mas tinha de ir embora para poder voltar a respirar ar puro. como se ele tentasse conter-se ao máximo para não causar maiores danos. Olhou para Jules e o viu através de uma cortina de água. algumas de nós sofrem. Nem todas são resgatadas pelo príncipe encantado que cheira a colônia amadeirada caríssima. os lábios apertados marcando os maxilares. – ordenou. Fran. Ali. Sonia. -Geneviève tem razão. Amanda sabia que Jules jamais perdia a calma.Que noite improdutiva. essa palhaçada. esse jantar. à mesa. lágrimas essas que jamais deslizariam por seu rosto. talvez. Fora pega de surpresa e temia perder a classe. François foi pego de surpresa e também se levantou. Enfrentara diretores interessados em derrubá-la. Queria mesmo era sumir. – tentou ponderar. Ainda mais quando sentia os olhos encherem-se de lágrimas. Jules ergueu-se tão rápido da cadeira que a deixou cair. mortas! – quase gritou. . ela mesma tinha sido vítima de um agressor. melhorarão a sociedade.E com razão. Estava prestes a explodir. Amanda. são mutiladas. Já não era mais o vinho que lhe fazia a face pegar fogo. isso é que elas significam: retrocesso. As palavras saíam-lhe com dificuldade. Sonia enfim percebeu que uma nuvem escura pairou sobre a louça cara servida à mesa. François. Amanda sentia um mal-estar danado. o olhar duro como quando reprimia a raiva e a fúria. -Não sou machista. não. -Esse assunto mexe muito com Geneviève. ela observou. As coisas não são simples assim. .Frutos de famílias disfuncionais. Estava sem munição e longe de casa.Retrocesso. só acredito que existam mais vítimas nesta história. –disse Sonia.acrescentou Sonia protegendo a amiga: . o equilíbrio. Sei que você reconhece que já suportamos demais tantos crimes tendo as mulheres como vítimas. – acusou Geneviève quase possessa. Contudo. Ei. . jamais imaginara que entraria numa arena. ao sair de casa. ah. Inconscientemente. Tal gostinho de vitória não daria àquela mulher raivosa. .

Obsessão em Paris

Veronique Gris

- Convidaram-nos para apresentar o pior tipo de comportamento que um ser humano pode ter, quando se constrange um convidado num ambiente estranho a ele... -Que é isso? Discutíamos ideias, não era nada pessoal. Você levou para o lado pessoal, Amanda? – era François tentando pôr panos quentes. -O que você está fazendo aqui? – disparou à queima-roupa em Geneviève. -Fui convidada, Jules. –murmurou já sem sorrir, nervosa. -Então sou eu o inocente e submisso? – disse com sarcasmo. – Acha que não sei desta conspiração absurda, deste circo que vocês montaram? - Respeite Rochelle, é só isso que pedimos! – enfim Sonia abriu o jogo vociferando, de pé, jogando o guardanapo com raiva na mesa. Jules estreitou os olhos perigosamente. Pôs as duas mãos sobre a mesa e inclinou o corpo como se fosse atacar o pescoço dela a qualquer momento. - Quando eu fazia sexo com Geneviève, respeitava Rochelle? – perguntou com ironia. Sonia nem piscou. Geneviève exclamou algo, ofendida. Ao passo que François, quieto, na outra extremidade da mesa, de pé, perdido na cena, avaliava a extensão do terremoto. As cortinas balançaram como se vários demônios tivessem entrado e se esborrachado contra os quadros com diplomas. Amanda viu o mordomo esboçar um sorriso estranho. Ela tremia, as pernas haviam virado dois tubos de gelatina. - Você pode ter deixado de ser um garoto pobre, Jules, mas ele ainda está dentro de você. Comportar-se de forma irresponsável e indigna para com sua esposa que, a qualquer momento voltará a si, e para com a nossa amiga, revelando intimidades que não nos caber saber, é uma total indelicadeza. –empertigou-se Sonia enfrentando-o sem esboçar emoção. - Demorou muito tempo para jogar isso na minha cara, non? – quase sorriu. -Quem você respeita, imperador? – ela debochou com arrogância. -Chega, Sonia! – pediu François. - Eu a respeito, Sonia, tenha certeza disso. – disse Jules cuspindo cada palavra: - Não é fácil aceitar que o marido tenha dormido com uma mulher como a minha mãe, vinte anos mais velha que ele, abandonada por três homens diferentes e... como vocês duas disseram?...ah, inocente e submissa. Mas ele quis esta mulher, e ela preferiu ficar sozinha. – voltou-se para François: - Você não é o meu pai. Chega de encenação. - O que está acontecendo com você? –implorou François. -É ela. – afirmou Sonia, apontando para Amanda. Jules voltou-se para Amanda e fitou-a como se fosse a primeira vez. Alguma coisa a mais estava ali, dentro daqueles olhos escuros, tristes e furiosos, alguma coisa entre doçura e impetuosidade. Se as narinas não estivessem dilatadas, numa manifestação patente de enfurecimento, ela afirmaria que até mesmo as trevas, que emergiam de dentro de Jules, eram plácidas. Mas não eram. Ele beijou-a na testa e entrelaçou seus dedos nos dela. -Não peço que aceitem Amanda, pois a aceitação de vocês ou de qualquer outra pessoa pouco me importa. – disse controlando-se novamente. - Rochelle...- começou Sonia, mas foi interrompida por Jules. - Rochelle será transferida para uma clínica. - enfatizou, firme. - Se quiserem, aqui está o número do amante dela. Avisem-no que estará disponível para visitas. E se ela acordar, deem minhas felicitações, s'il vous plaît. Tirou um de seus cartões, escreveu rapidamente o nome de Jacques Rodin e um de seus supostos celulares e jogou-o sobre a mesa. Com um gesto de cabeça, despediu-se de todos, pegou Amanda pela mão e encaminhou-se para o corredor de saída. O mordomo

89

Obsessão em Paris

Veronique Gris

alcançou-lhes os casacos e ajudou-os a vesti-los. O homem sorria com simpatia. O que será que Gerard já ouvira ser dito sobre ela e Jules?

Capítulo XIV

caminho de volta ao loft, Jules permaneceu em silêncio. O semblante circunspecto parecia uma escultura de mármore frio e rígido. Atento ao trânsito, manobrava o automóvel com precisão e sem pressa. Diante do sinal vermelho, resolveu fazer uma ligação. Amanda observou no seu relógio que eram onze horas e fitou-o curiosa. Jules piscou-lhe o olho, sem sorrir. - Armand, quero que prepare os papéis do divórcio. – determinou ao advogado. – Qualquer informação que precisar, entre em contato comigo, imediatamente, não importa o horário. Divórcio?, pensou aturdida, e, com certeza, o advogado também. - Oui, meu divórcio, claro. – acrescentou de forma incisiva. – Agilize-se, s'il vous plaît. Antes que Amanda pudesse inquiri-lo sobre o assunto, afinal ele estava levantando do chão uma das estruturas de sua vida, que era o seu casamento, Jules telefonou para outra pessoa. Parecia determinado a não deixar ninguém dormir enquanto não resolvesse certas pendências. - Christine? Oui, bien et toi?...Escute, vocês haviam-me sondado para ser presidente do centro social... Claro, eu sei, Geneviève queria muito... - Jules endereçou-lhe um olhar rápido e impaciente, depois tornou a falar com a mulher: - Vou ser direto. Aceito a função e ofereço uma de minhas propriedades como sede, no lugar daquela casinha que alugam, minha mansão, e estará desocupada até o final desta semana... -reduziu a velocidade e entrou no estacionamento do prédio onde moravam. – Posso falar, Christine? Agradeço todos os elogios, merci, o trabalho de vocês é que é excelente. Tenho de desligar. Au revoir. –finalizou apressado e sabendo que a informação sobre a desocupação da mansão, espalharse-ia feito rastilho de pólvora. Parou o automóvel na sua vaga e desligou o motor. Deitou a cabeça contra o suporte do banco e expirou todo o ar dos pulmões. Virou-se para Amanda e perguntou-lhe serenamente, dois dedos tocando-lhe o queixo carinhosamente. - Quer que eu afaste Geneviève do centro social? Você tem todo o direito de me pedir isso, ela comportou-se de forma totalmente inadequada. Ele tinha um jeito de falar que a encantava, um cuidado para com o uso das palavras e frases. E fazia o mesmo quando escolhia o vinho, a comida, as roupas que usava, as pessoas em sua vida, os negócios. Critérios sofisticados. Uma peculiaridade cuja beleza transparecia no seu modo de falar, de pensar e decidir. Se fosse outro poderia ter dito que Geneviève comportara-se como uma vaca, uma louca, uma histérica... Mas Jules optara por “comportamento inadequado”. Não pôde evitar a risada. Ele alçou a sobrancelha, intrigado. -Ela é uma vaca, Jules. – constatou Amanda, divertida. Jules sorriu e assentiu levemente com a cabeça. -Sonia também é uma vaca. – confessou ele com naturalidade. O modo como falou foi tão espontâneo, que Amanda não conseguiu conter uma sonora gargalhada.
90

No

Obsessão em Paris

Veronique Gris

-Deixe-a no centro social, ela está se dedicando bastante e tenho que separar uma coisa da outra. – deu de ombros, resignada: - Não gostei de ter sido espezinhada hoje, mas, como mulher, entendo o que Geneviève sentiu ao saber sobre nós. De certa forma, acho que ela estava investindo em você para o futuro e talvez motivada por Sonia. – considerou gravemente. -Você tem razão. Só não entendo a atitude de François, paparicando Touleause e participando dos complôs de Sonia. Não sei mais quem ele é, se é que algum dia eu o soube. – declarou numa voz cansada. - Não quero que brigue com todo mundo por minha causa. –pediu-lhe e acrescentou suavemente, mas com bastante ênfase: - O que está fazendo quanto à Rochelle, digo, a clínica e o divórcio, não é necessário. Nossa vida está ótima agora que estamos juntos, perfeita. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Como ela ainda o encarava à sua espera, Jules mordeu-lhe levemente a ponta do nariz e saiu do automóvel. Quieto na cama. Os dois braços cruzados debaixo da cabeça, fitava o teto com ar pensativo. Vestia uma calça de malha cinza e camiseta de algodão branca. Ela encontrou-o assim, no quarto, ao voltar do banheiro. Estava tão absorto em seus pensamentos, que nem percebeu a camisola de renda, cor de marfim, curtinha que Amanda usava. Nem parecia o Jules que conhecia. Desde a explosão no jantar, ele assumira uma atitude introspectiva. Durante o trajeto de volta para casa, Amanda percebera-lhe mais concentrado em si mesmo, não tenso ou irritado, e sim reflexivo. Como se pesasse toda uma existência sobre os pratos de uma balança. E tal processo, provavelmente, vinha acontecendo já havia algum tempo. Ninguém mudava (quando mudava) de um instante para o outro. Deitou na cama e virou-se para ele. Estendeu a mão e fez-lhe um carinho na testa. - Preciso de um tempo para mim. – pediu-lhe como se desculpasse. - Tudo bem. – concordou e beijou-o levemente nos lábios. –Caso queira conversar, estou aqui, do seu lado. – emendou com um sorriso. - Eu sei. – murmurou. Acordou mais tarde com frio. Tateou à procura de Jules, na cama, e não o encontrou. Da amurada do mezanino, verificou a claridade suave da televisão na sala. Desceu os degraus meio tonta, sonolenta. Deitado no sofá, com uma manta jogada sobre as pernas, Jules assistia a um programa na tevê. Ele não sofria de insônia, até o momento. Mas parecia que não dormira nem um minuto sequer naquela noite. Parou, sem saber se avançava ou aguardava que a visse. O que ele queria, ela não sabia: solidão ou companhia. Jules enfim viu-a no meio da sala, descalça, com os cabelos em desalinho e a feição preocupada. Afastou a manta e bateu levemente no sofá, convidando-a para juntar-se a ele. Não precisou de um segundo convite. -Não consegui dormir. – disse baixinho, enquanto ela ajeitava-se no sofá, abraçandoo na cintura e deitando a cabeça em seu tórax. -Devia ter me acordado... -murmurou, sentindo-se envolvida pelo calor do corpo dele. -Não tive coragem, você parecia tão feliz dormindo. –declarou sorrindo e beijandolhe a testa. -É sobre o escritor Pierre Leverne? – indagou-lhe bocejando ao ver algumas cenas do programa. - Oui, mademoiselle Rossi – brincou.

91

– pegou-lhe o queixo e afastou-a um pouco de si. Agora.além de ter rompido com uma amizade de duas décadas. os seis meses de teste. braços que a esmagavam contra o sofá. indagando com olhos sérios e perscrutativos: . não? – refletiu em voz alta. – começou.. -Se é um jogo.era um acordo.Quer falar sobre os seus riscos? Pois lhe digo. –disse-lhe num tom sério. – decidiu-se por fim no tom que usava para repassar-lhe tarefas complicadas. está no seu nome e isso já lhe vale como indenização. aquilo que me propôs no Café. -Queria saber uma coisa. pare de bancar a esposinha ofendida e pergunte logo o que quer saber? – indagou-lhe com impaciência. Este apartamento é seu..E será de fato bom para você saber a resposta? -É um risco que corro.. não dividia a decisão em relação ao futuro dos dois. já que não é da minha natureza cometer injustiças. . – comentou no mesmo tom. Jules mexeu-se e puxou-a mais para si.. Quanto ao emprego. -E o que isso tem a ver comigo? Que eu saiba não fui convocada para compartilhar de suas decisões. – O que aconteceu na casa de François foi lamentável e de mau gosto. 92 . Ela tentou levantar-se do sofá. Jules? Por não saber que era um jogo ou por que a minha aposta foi a mudança radical da minha vida? -Minha vida também mudou.. virando o rosto para encontrar o dele. -murmurou. Viviam juntos.. consigo-lhe uma ótima colocação em qualquer uma das oito subsidiárias da SBO. -Foi uma sugestão apenas. tornando-a uma coadjuvante no relacionamento. -Sempre que posso. –reclamou irritada.. não é mesmo? – perguntou-lhe com uma ponta de ironia. – disse sem rodeios. -Todos nós temos os nossos coringas. Amanda sentia-se envolvida por ondas de sentimentos que trafegavam em várias direções.. Minha opinião nem foi cogitada.Caso não dê certo entre nós. E todas elas foram decididas somente por ele. .você e sua prepotência. -Então facilitarei para você a situação. mas foi presa por duas tiras de aço ao redor de seu corpo. então? – indagou desconfiada. -Ah. você deve ter outro plano guardado na manga. mas valeu a fim de esclarecer alguns pontos. você sabe. mínimos. você fala? – retribuiu a brincadeira.. Moravam juntos. inundando a sala de uma tênue claridade..Obsessão em Paris Veronique Gris As imagens na televisão se sucediam em cores densas. – afirmou convicto.. -Você é movido por combinações e acordos. – murmurou sem desviar-lhe o olhar. As últimas decisões que ele tomara haviam rompido de vez um ciclo. -Vai pro diabo. Amanda Rossi? – perguntou-lhe num tom baixo e exasperado. . – É interessante para mim que você saiba? – brincou. Amanda? Se ainda trepo Geneviève? Se ainda amo Rochelle? Se quero matar Jacques? O que mais quer saber. diminuindo o volume da televisão através do controle. Rochelle sairá da minha casa e logo estarei divorciado.. -Humm. -Se for interessante apenas para mim. E ele não compartilhava totalmente sua vida com ela. porque me sinto em desvantagem. -Claro.Não costumo dividir decisões. o rosto colado na camiseta dele e um braço sobre a sua cintura. – disse emburrada. O que mais a preocupa. sempre foi assim. Aconchegada ao corpo tépido e cheiroso de Jules.

ela pensou. um pouco mais grosso que o superior e muito bom de provar. gritava-lhe aos ouvidos: Pegue! Pegue! Pegue! Oh. E os seus sonhos idiotas de amor. uma meia-luz suave banhava o quarto contrastando com os barulhos do cotidiano. ali. Um braço masculino ao redor de sua cintura. Ninguém deveria sentir-se obrigado a perguntar isso a outra pessoa. beijou-lhe levemente na boca. obstruindo a passagem da claridade do dia.. quando automóveis. afinal? – declarou com voz embargada pela emoção de perceber que boa parte das coisas de amor que ela conhecia eram absurdas. Ele levantou-se do sofá. Mas não lhe bastou. não era nada simples.. Importa-me saber é porque estamos juntos. desejando ainda mais. Uma mulher das cavernas. O despertador tocou. delicadamente. Simples. Querer mais do que isso era tão-somente sustentar vigas de concreto em paredes de fumaça. após passar a noite acordado. Deslizou a língua para o queixo másculo. com um homem lindo e dormindo inocentemente. mantendo o seu corpo alguns centímetros acima da cintura dele. Mordeu-lhe o lábio inferior.já saberia de antemão a resposta. E ela. pensou com malícia e essa constatação excitou-a ainda mais. os braços ao redor do corpo de Jules sustentandolhe o próprio corpo. sem tocá-lo. aceitando-lhe a mão. sim. sentindo a aspereza dos pontos da barba. ele sucumbira a um sono profundo. -Não me importo com o seu dinheiro ou com a suposta segurança que me dará ao considerar o fim do nosso. A neve encobria o telhado de vidro. Com a ponta da língua. Amanda pensou. Encarou-a intrigado. como o desejava e como ele frustrara-a na noite anterior. entrelaçando seus dedos nos dele e acompanhando-o de volta ao quarto. então não sabia nada sobre ela. esquadrinhando cada parte daquela figura alta e forte. prazer de desejar e prolongar o desejo. Jules sentou-se na ponta do sofá ao seu lado e fitando-a seriamente replicou: -Estamos juntos porque funcionamos bem juntos. da nossa relação. ela constatou todas as vezes que o fez. acendeu a luz do abajur de pé e desligou a televisão. uma tortura que impingia a si mesma por prazer.Obsessão em Paris Veronique Gris Você me ama? Que pergunta idiota. Ela queria ouvir dos lábios dele um combinado de três palavras que provavelmente não ouviria. Ergueu-lhe a camiseta até o tórax e lambeu-lhe os mamilos. do sexo oposto. da rudeza sofisticada de sua espécie. pessoas e animais domésticos jogavam-se nas ruas para movimentar a cidade. -Que seja.. jogou longe a própria camisola e esfregou 93 . Ponderou se era razoável que prolongasse uma conversa que somente daria voltas em torno de si. Num impulso. Desceu a cabeça lentamente até o pescoço dele e cheirou-o faminta e contendo a fome. E se devesse. Todas as evidências cotidianas apontavam para uma direção: Jules desejava-a sexualmente e precisava dela como sua assistente-executiva. Não.. – sussurrou resignada. Poderia fazer o que quisesse. na cama. assim. Como ela nem se mexeu e ignorou-lhe a mão estendida. Estendeu-lhe a mão e disse um tanto incomodado pela pergunta dela: -Vamos dormir. eram sete horas. Afastou-se o suficiente para constatar que. Se ele não compreendia o desânimo de sua resposta. Ficou por sobre ele. em seguida. Sentou-se com as pernas abertas. talvez a predadora da tribo. enquanto suas mãos invadiam-lhe as costas por debaixo da camiseta. Esfregou os olhos e bocejou. desenhou o contorno do seu lábio inferior. Estava quentinha debaixo do edredom. mal lhe tocando a pele. Dava a noite e a conversa por encerradas.

sentindo o corpo queimando e sendo apaziguado num só tempo. Surpresa. ao longo de toda a extensão do seu peito. quase imóvel. coberto por uma leve camada de suor e esfregou os seios numa carícia lânguida. Mais uma vez. Amanda fingiu sucumbir ao seu domínio e relaxou o corpo. 94 .percebendo-se livre e excitada com o joguinho de caçador e caça – soltou-se dele e rolou para o outro lado da cama. Antes que ela se recompusesse. sentisse a pressão. a outra. a fim de dar-lhe o prazer que também lhe dava ao vê-lo apertar as pálpebras como se nas profundezas do inconsciente tentasse compreender as ondas de fogo que o consumiam. era pressionada contra o colchão. voltava ao comando. Poderiam. tocou-lhe até encharcá-la de lavras incandescentes. Alguns minutos depois. completamente absorvido pela exaustão da noite em claro. Humm. habilmente.. livre. Jules virou-a de costas. Deliciou-se com a ideia. Como ela não era uma mulher má. Sentia-se poderosa. De repente. mentalmente. ainda sentia a força dele dentro de si. segurando-lhe no ombro e virando-a para si. Ali. inclinou-se sobre o seu tórax. assim. Enquanto tocava-o com mais intensidade e num ritmo mais acelerado. agir como duas entidades separadas? Perguntou-se. mexendo apenas o quadril. pois era isso que a deixava louca de desejo – incitou os movimentos cadenciados. teve as pernas presas entre as dele e os braços. como um guepardo divertindo-se com a presa. dominados por uma de suas mãos. ela segurou-o com força. contraiu-se. acima da cabeça e. Em seguida. após uma rápida avaliação. Mostrando em cada arremetida que o tempo inteiro ele se deixara ser tocado. agora. como era bom ser uma fêmea alfa. Mas deliciou-se ainda mais ao enfiar a mão por baixo da calça de malha e pegar no pênis duro dentro da cueca boxe. Estendendo a mão para trás. intrigada. mordiscando-lhe as costelas e descendo os lábios até o elástico da calça. dona da situação. Talvez a imigrante fosse interditada na alfândega. amenizou a força de sua mão e . Chupou-lhe os bicos dos seios sem delicadeza e gozou agarrando-se nela. talvez a brasileira conseguisse invadir a França e deixá-la de joelhos.sem deixar de observar suas reações. pensou com luxúria. num vaivém lânguido. Com apenas uma mão. até vê-la entreabrir os lábios e gritar. divertida. Imediatamente fitou o semblante adormecido de Jules. Ela parou. Voltou à carga. – disse-lhe simulando seriedade. duas mãos algemarem-lhe os pulsos como garras de aço. com uma das mãos prendeu os dois pulsos de Amanda. devagar. Num gesto rápido e inesperado.. Ele esquadrinhou-lhe a face e.. seguidas vezes. baixou um pouco o cós da calça. Nesse instante. havia uma barreira e tanto. abraçando-a com violência. mas foi contida por um braço rodeando-lhe a cintura. pelo corpo inteiro de Jules. observando a expressão do rosto dele. Uma legitima fêmea alfa. O semblante exibia uma expressão entre desafiadora e irônica. ergueulhe a coxa e a penetrou novamente. terei de puni-la severamente. -Agora. provocava e simulava desinteresse. cedeu a pressão sobre ela que . Jules mexeu-se. o nariz enfiado em seu cabelo. pegou o pênis e penetrou-a com força. E ela. Ela tentou mexerse. no entanto. ao seu lado.Obsessão em Paris Veronique Gris delicadamente os seios. A mais uma tentativa de desvencilhar-se dele. Apertou os lábios para conter o som alto e rouco de sua respiração ofegante. e ele gemeu. E parou. como se estivesse sonhando ou. a boca contra a nuca de Amanda. no próprio sono. ele a derrubou contra a cama. agora. virou a cabeça para outro lado. adorou a ideia de dar-lhe o prazer de pensar que ele estava no comando. ele brincava. com a outra. mantendo o ar nos pulmões. agarrou-a. abriu os olhos. com estocadas profundas e rápidas. De olhos abertos cujas órbitas congestionadas intensificavam o negrume do olhar. penetrou-a fundo. seduzido de forma passiva. conteve a risada. desceu para entre as pernas dela e.. As sobrancelhas franziram-se ligeiramente.

já que o cérebro mantinha-se funcionando apenas para fazê-la respirar e sentir cada toque do homem. ela compreendeu.. por um breve período. de lã. Se era o corpo que fazia amor. Vestido no terno escuro e pronto para o trabalho. numa atitude de quem diz: viu. que raras vezes cambiava para a arrogância e naturalmente era acrescida pela simpatia e gentileza. pelos poros. Limpo. pela garganta. Despiu-se totalmente no quarto. desconfiado. detendo-se nos seios. Na sala. e. houve uma mudança nos planos. cáustica e aniquiladora. Ele riu com vontade. ele sabia como deixá-la com essa expressão. enquanto fitava-a deitada e exausta. que foram apalpados e esmagados. Jules abandonou-a sozinha na cama.Obsessão em Paris Veronique Gris .. uma energia. por certo. Ele sabia reconhecer essa expressão. friccionando-o. – provocou-a. Amanda às vezes pensava se a autoconfiança era um dom herdado ou uma característica adquirida. dando-lhe as costas e exibindo sem timidez alguma a nudez. de onde provinha? Escolheu um vestido justo. E ele tocou-a ainda mais. Andou de um lado para o outro examinando o seu reflexo. chumbo derretido. verde claro e de mangas compridas. brincando com o clitóris. estava sempre faminto. O cabelo molhado e os músculos tremendo. apesar de magro. Gemidos roucos. Olhou-se mais uma vez no espelho e percebeu que alguma coisa estava errada: ou eram as botas que tornavam suas pernas grossas ou o vestido que a deixava com o traseiro grande. A pele avermelhada. recebia toda a parafernália típica de um café da manhã para pessoas com fome. os bicos lambidos. Jules. plena. Ergueu-lhe as pernas sobre seus ombros. as palavras haviam-se despido de conteúdo e significados e também estavam debaixo de Jules sendo açoitadas por sua mão. Uma bolha de fogo implodiu dentro do corpo. por que a alma transportava-se para outro mundo e quando regressava. levantando-se depois de fazê-la gozar. jorrava-se de dentro dela. matá-la devagar. Ela só pôde assentir levemente. debaixo do mezanino. pelo sexo. non? – murmurou-lhe junto ao ouvido. Algumas pessoas compravam-na na farmácia e outras nos consultórios de cirurgia plástica ou nas universidades. chupando-o. O coração acelerado. é bom. E fora ele próprio quem preparou a mesa do café. inundando de magma. Relaxado. mas plenamente satisfeita. Gritou. sem salto. mais do que isso. Sorriu fracamente e balbuciou: -Eu me vingo. E entre em contato com monsieur Koskinen. sol escaldante. – o poder. soltando-lhe os pulsos e passando as mãos por todo o seu corpo. cheiroso e saudável. deixando as roupas pelo chão. e enfiou o rosto entre suas coxas e lambeu-lhe o sexo todo. fale com Dorian para marcar uma reunião com os diretores e gerentes para às 10 horas. uma mesa de madeira rústica. Optou por uma botinha de couro. com dedicação. por exemplo. Respiração resfolegante. até que ouviu uma voz grave vindo do primeiro andar: -Amanda.É bom. lia calmamente o jornal. 95 . Morreu e voltou. Ele tencionava. olhando-o com aquela cara típica de mulher satisfeita. sequestrando-a para um mundo de sensações quentes e molhadas. Por mais que tentasse falar. novo em folha. -Vai se comportar? – indagou-lhe com uma sobrancelha alçada. Mas a natural. sentia-se ainda mais livre mesmo presa? Ela não conseguia pensar. essa. a respiração descontrolada. em movimentos circulares. masturbando-a com a língua. enquanto o passeio tomava o rumo onde o caminho bifurcava-se e foi ali que ele descansou a língua. os terminais nervosos lançando chispas em curto-circuito. a de Jules. sou eu quem manda aqui.

caso um dos dois tivesse que se ausentar do escritório. -Certo. das anotações nas reuniões. ordenou: . Sentou-se na cadeira em frente a Jules.em seguida. pertencem a Dorian e Assíria. geleias.Se você estivesse gorda e eu concordasse. agora. baixou o jornal e sorriu com charme –Essas tarefas. umas vinte manobras perigosas. -Non. – disse e. – afirmou incisiva. -Então elas cuidarão da sua roupa na lavanderia. Agora. –completou ainda sorrindo e voltando a ler a previsão do tempo. – interrompeu-a: -Não preciso desperdiçar o potencial de um profissional para esses detalhes. -Cuido sozinho disso tudo. – Sinceridade é algo legal. a lavagem de seu automóvel. Aguardou Jules em frente ao elevador. croissant e tudo que deveria evitar a partir da constatação de que não era mais uma menininha e não conseguiria perder peso com a facilidade de antes. – defendeu-se. pensativa. para variar. estou quase vendo suas costelas. Jules baixou o vidro e disse-lhe antes de descer: -Percebi.. 96 . – constatou com menosprezo. -listou exasperando-se. –confessou de forma coerente e seguro do que falava. – determinou. em que tipo de encrenca me meteria? -Então estou gorda! – quase gritou. Ao fechar a porta do automóvel. Ligue para Dorian. . Rossi. voltando a ler o jornal. fitou os pães.. queijos.. -É alguma brincadeira? – franziu as sobrancelhas. monsieur Brienne. pelo menos. a escolha da sua roupa de trabalho ao longo da semana. antes que ela reclamasse. pois.. Ela sorriu e acionou o alarme. mademoiselle. por que tenho de vir trabalhar? -Deve cumprir o contrato. estava tudo antecipadamente decidido. Sim. Sonia criou esse cargo e não me parece mais útil.. Ele não desgrudou os olhos do jornal ao responder-lhe: . Repassarei suas antigas funções às secretárias. da compra de seus sapatos italianos. então. o outro não ficaria à mercê dos táxis.. vê se come alguma coisa. -Você jamais diria que estou gorda. Teria de voltar à academia e perder alguns quilos. adentrou o estacionamento subterrâneo da SBO antes de Jules. Voltou-se para Jules que a fitava com olhar intrigado: -Acha que estou gorda? –fez uma careta. sério. Como Amanda pisava no acelerador com bastante facilidade. -Se fui demitida. e já combinamos que não falaremos sobre trabalho em casa. Capítulo XV Chegaram à empresa em carros separados. -Já lhe disse em casa. cismada.Obsessão em Paris Veronique Gris Amanda desceu os degraus da escada.Não disse isso.Ligue para Dorian e repasse tudo o que lhe falei. o Citroën estacionou ao lado. O cargo de assistente pessoal foi extinto e você foi demitida. Serviu-se de café preto e ignorou os carboidratos que tanto amava. sabia? –alfinetou-o. é diplomático demais. – Se é que ouviu alguma coisa. -Sei o que tenho de fazer. das. – afirmou.

Eu? – indagou-lhe confusa. No início do ano. ao que Amanda respondeu-lhe com um sorriso: -Não queremos incomodá-lo. desde quando vivia em Porto Alegre. Cada peça de computador ou programa que era criado nas fábricas. Nem que tivesse que buscá-los em suas salas. A paixão pelo trabalho já lhe era natural. Jules cumprimentou as secretárias discretamente e enfiou-se na sua sala. Assim. quero dizer. Ao vê-la fechando a porta. -É. interessava-a ao ponto de ela participar de palestras e workshops promovidos pelos departamentos responsáveis. você. apesar de não possuir uma formação acadêmica como engenheira da computação. produzido na fábrica de Lyon. Mas. foi até a outra porta. secretárias e o pessoal terceirizado. tal possibilidade nem lhe passara pela cabeça. Voltou-se para Dorian. Entretanto. a que dividia o seu escritório do de Jules. interessava-se particularmente pela área de produção. Marion havia-lhe sugerido que participasse de uma das seleções internas para o cargo de gerente. Assíria olhava de uma para outra. mesmo que Jules a transferisse como chefe de departamento. Ela estava tranquila quanto ao seu futuro profissional na SBO. ficavam a cargo da assistente marcar e confirmar a presença dos convocados. -Certo. Antes de segui-lo. cruzou os braços à frente do corpo e observou-lhe o rosto não muito bonito. 97 . havia tantas outras empresas que poderiam absorvê-la como executiva. As reuniões planejadas eram convocadas por Dorian. de uma forma tão charmosa. No entanto. demonstrando uma imensa vontade de saber os motivos do solene convite. Se estava preparada?. Algumas peças se juntavam. ficaria satisfeita com a oportunidade e motivada a mostrar um excelente trabalho como executiva. Sim. agora. . Mesmo por que Paris não era a SBO. as emergenciais. Jamais abriria mão de ser assistente de Jules. evitava considerar a possibilidade de deixar a empresa que a acolhera havia cinco anos e que representava uma parte muito importante na sua vida. pedaços de conversas. perguntou-se olhando o ex-chefe de esguelha. Fechou a porta atrás de si. Amanda aproximou-se do balcão onde Dorian digitava no notebook novinho. monsieur. Conhecia todos os meandros administrativos. À época. decididas em cima da hora pela presidência. procurando por respostas no carpete. mas fora ao lado de Jules que descobrira a paixão pelo lugar onde trabalhava e a vontade de conhecer tudo a respeito do produto que fabricavam. essa verdade era inegável. franziu o cenho. Após retirar o paletó. lidando com diretores. Monsieur Brienne notificou-me a respeito de algumas mudanças administrativas e disse que me seriam atribuídas algumas de suas tarefas. como um quebra-cabeça. -Monsieur Brienne quer que você convoque todos os diretores e gerentes para uma reunião às 10 horas. chefes de departamento. ela considerava a sua transferência para alguma gerência disponível.Obsessão em Paris Veronique Gris As portas duplas do elevador abriram-se e os dois entraram. Amanda apertou o botão do andar da presidência e baixou a cabeça. ele o jogara sobre uma poltrona e sentara-se à mesa a fim de preparar-se para a reunião da manhã. E agora. em seguida. concatenando todos os setores organizacionais. ao largo dos oito países europeus onde estavam as subsidiárias da Societé Brienne d’Ordinateurs. Cinco anos de intenso treinamento. Aprendia-se muito com os workaholics. – retorquiu sem rodeios. tendo sido demitida no café da manhã. Saíram do elevador. assistentes. estava. e pediu que a acompanhasse até a sua sala.

fora do escritório? Virou-se para ela e procurou agir como quem se espanta diante de um absurdo: -Quedinha por mim? –balançou a cabeça e completou: -O amor da vida dele é o trabalho. merdè!. E sem razão. viajando. chèri. 98 . já sei. percebeu um sinal de verdadeira amizade por parte de Dorian. – alertou-a. non? Virada para a janela. -Não se preocupe. –disse ainda pensativa e recuperando-se da nova situação.. mostrava você. Amanda. pensou. -Você é cega? –desferiu-lhe. –Pelo menos. -Dorian. Monsieur Brienne cresceu. Amanda sentiu o sangue subir à face. o cargo foi extinto.. E se Dorian soubesse que eles ficavam mais juntos. sei lá. literalmente. Depois lhe disse num fôlego só: . já é um homenzinho e não precisa mais ser cuidado por mim. -Mon Dieu! Se você foi demitida é porque a SBO está falindo. Dorian. Enquanto organizava a sala. Geneviève desapareceu desde a apresentação daquele programa. a reunião. non. -Quantas forem necessárias. agora. oui. muito mais juntos. mas não deixa de ser o poderoso chefão! Pela primeira vez. semana passada.. Mas você é ceguinha mesmo.-olhou para os lados à procura de terra firme. um daqueles menininhos com cabelo cheio de gel e falatório de recém-formado em Administração! Engravatados que mal saíram das fraldas.Fui demitida. me põe no olho da rua. -Será mesmo? Olha só. indagou a outra: -O que é estranho? Eu ser demitida? -De certa forma. -Não. como sempre o fizeram. interveio: -E.. –lamentavase Dorian. É.. -Que droga! Isso é tão estranho. –afirmou sem poupá-la. Dorian empalideceu.. que. Amanda não pôde evitar a risada. eu e Assíria tínhamos certeza de que o chefinho tinha uma queda por você. daria um jeito para ficarem pertinho... –Que aconteceu? Oh.. -Oui. – Acho que irá transferir-me para alguma chefia.. – tentou apaziguá-la. agora.Além disso. – disse tentando sorrir. Se ele gostasse mesmo de você... –brincou. -E quem ficará no seu lugar? Ai. Amanda! –insistiu: -Quer vê-lo com outra? Depois não diga que não lhe avisei! Os brasileiros são lentinhos como você? – brincou. nervosamente.Monsieur Brienne é paciente. uma fresca que mandará em mim como o faz com sua copeira..Obsessão em Paris Veronique Gris outras. claro. –afirmou sorrindo sem jeito. ele pediu-me uma relação de clínicas que hospedassem doentes em estado de coma e. ele me ama. –comentou com ironia.As brigas. como uma espécie de fiel escudeira de monsieur Brienne. mostrando a língua para Amanda. –Aprenda conosco. Amanda encaminhou-se até as janelas e afastou as cortinas.. Antes que Dorian concluísse sua linha de pensamento baseada em algum seriado norte-americano de investigação policial. por sinal. Comentou com naturalidade: -Bem. insubordinação. –comentou Dorian apertando os olhos como se assim enxergasse uma luz no fim do túnel. Ou pior. uma vez que Dorian fora contratada para Amanda disponibilizar mais tempo dedicando-se ao presidente. fica mais perto do refeitório. non. –Mas.. ele não é o poderoso chefão. não é mesmo? – alfinetou-a.. você passou dos limites. diante da vista panorâmica de Paris.

. -Oui. –murmurou. se ele for o Jacques.. Amanda nem precisava fitá-la. aturdido. logo que a secretária fora contratada. impaciente.. -Bom.. incompleto. –deu de ombros. encarou Amanda diretamente e o sulco na testa denunciava o seu humor: -Peça a alguém para ir à farmácia e comprar um daqueles testes instantâneos de gravidez.Obsessão em Paris Veronique Gris -Ah. são os melhores! A porta de comunicação entre as salas foi aberta. -Tem inimigos. -Não estou para brincadeiras. –Ou era mesmo o tal doido de que me falou. Os dois combinavam e. -Você gosta mesmo de artistas. Depois. Será que ele não havia percebido o deslize?. então. Amanda não se espantou ao saber que Dorian e Filipe. um dos seguranças de Jules e cantor de jazz nas horas vagas. hã.. -Pardon? – alçou a sobrancelha. – tentou disfarçar sentindo uma secura dos diabos na garganta. no máximo. E a pergunta foi-lhe feita com tamanha seriedade que ela não o entendeu. você está gorda. –constatou sorrindo. nervosa. –interrompeu com malícia. monsieur. pensou. 99 . tudo. mudou o rumo da conversa para um campo neutro. não. -Acho que perdeu a hora para sempre ou foi detido pela imigração. O decorador passou a madrugada trabalhando. -Monsieur Brienne. visivelmente encafifada. somente meus inimigos me chamam de Amanda. ignorando a outra. -Amanda. mademoiselle Rossi? – indagou com ironia. Ainda lendo o que acabara de escrever numa das folhas da agenda. Jules.. haviam tido um breve e intenso romance. Voltou-se para Dorian e depois para ela e compreendeu a atitude desesperada dela. à porta. E Amanda ouviu uma sonora exclamação da secretária. Ao ouvi-lo chamar a assistente pelo primeiro nome. Com a caneta. -No computador. -Quando menstruou pela última vez? – Jules perguntou-lhe seriamente. -Misturou. Dorian. -Cuidado. o que haviam deixado para trás. –respondeu sem pensar. –reagiu. –soltou essa e teve vontade de sumir.pois é. nos arquivos do computador. circulava alguns números do mês anterior. – afirmou secamente. o cenho franzido e a curiosidade corroendo-lhe as tripas. é? E como está o romance com o cantor suíço? Você não falou mais sobre ele. Que adianta saber? Pouco me importa. depois voltou sua atenção para o calendário na mão e escreveu algo novamente na agenda. estou noutra.. da última vez. Retomavam. e Jules encaminhou-se até Amanda tendo nas mãos uma agenda e um calendário. Dorian. que já estava com a mão na maçaneta. Jules ergueu a cabeça e olhou-a com estranheza. voltou-se. -Agora. Dorian estava adorando acompanhar o seu péssimo desempenho como atriz. -Apanhará feio de Filipe.. -Quê dizer?. Quero o resultado na minha mesa dentro de meia hora.-gaguejou. indagou a Dorian: -A sala da vice-presidência está pronta? -Oui. Acionou vários botões na mente para encobrir a falha. –Jules fitou-a. Piscou os olhos seguidas vezes e relançou um rápido olhar a secretária que quase perdia os olhos sobre eles. estavam juntos. é.

Dorian. eram poupados de cenas tensas que beiravam a discussões mais sérias. Marion e Jordan. havia cinco anos. Não estava preparada para ser mãe. Intuição masculina? Obsessão por controle? Fato: gravidez não prendia ninguém a ninguém...-antes de fechar a porta atrás de si. hein. –Isso não é certo. constatou Amanda. enquanto ajeitava-se na cadeira habitual. Conhecia. as duas solteiras. ele é terrível!... relaxados. -Não estou grávida. trocavam informações que registravam.. Antes que Jules iniciasse a reunião. portanto. porque. Quando havia sido sua última menstruação? Começou a roer as unhas e ela jamais roera as unhas. porque engravidou. ao lado do presidente. mas não gorda! Gorda é a Assíria. –Bom. disse com um sorrisinho maldoso: -Passou a perna na Geneviève. nos respectivos notebooks. – debochou. uma cadeira vazia. não pode ser! – arregalou os olhos quando as válvulas de seu cérebro. –olhou ao redor. Jules. cabelos domesticados e unhas curtíssimas.. esbarraria num olhar interrogativo: você está grávida? Como conseguira meter-se nessa situação? Desde quando ele pensava que ela poderia estar grávida? E por quê? Porque faziam sexo todos os dias.. se está tudo certo. estamos juntos. não participavam das reuniões com Jules e Touleause e. – disse sentindo-se vencida. Os executivos conversavam com controlada descontração (atuação restrita a executivos). duas solteiras. Você não está gorda! Talvez um pouco inchada. não.Obsessão em Paris Veronique Gris Saiu. -Ei. em seguida. estou com pena de você. Ternos discretos e aprumados. pois. o seu domínio. Duas mulheres eram diretoras. espertinha? Nada como aprender a arte da sedução com os franceses. Dorian.. Diretores e gerentes ao redor da mesa de cedro. Na extremidade esquerda. A atmosfera estava mais leve e agradável.. isso eu trouxe de casa! –provocou-a.. Mas ele sabia que tal estado tornar-lhe-ia mais propensa a aceitar a sua proteção e. enfim. que mal conseguia respirar: -Uau. Porque nem sempre usavam preservativos. Não queria por agora... Amanda verificou. -Não. ela trocou algumas palavras com a gerente de produção e o gerente de marketing que seria transferido para a subsidiária de Londres. Dorian enfim largou a maçaneta da porta e foi até Amanda. principalmente os gerentes. Outro padrão.ele. na direita. terei de encerrar o levante contra a empresa e marcar a reunião com os executivos. o presidente. normalmente.. Três gerentes eram mulheres. -Tudo bem. o chefe. um padrão. vocês. Era fundamental que lhe desse toda atenção. -E eu que sempre tive um fraco por machos alfas. coitada. não faz esta carinha. encontraria o presidente analisando as deliberações que ele próprio havia anotado e entre uma virada de página e outra. Falarei com as outras mulheres e faremos um levante. que inferno você passa! Como monsieur Brienne se mete na sua vida! –abraçou-a com força e depois prosseguiu tentando consolá-la: -Ei. mas logo seria contaminada pela presença insuportável do vice-presidente. caso olhasse à sua esquerda. Porque ela estava mais gorda. -E ele a demitiu. perdida. ele só falou isso porque. Ouviu atentamente o gerente dissertar sobre as diferenças entre os climas da França e da Inglaterra. Monsieur Brienne é cheio de suspeitas e um tanto controlador. promovido a diretor. que. batendo a porta atrás de si. com isso.. chamaremos as jornalistas e derrubaremos as ações da SBO! Amanda desatou a rir até sentir os olhos cheios de lágrimas. -Ah. 100 . esquentaram.Epa!. -concluiu afoitamente.

apenas para Amanda: .. Rapidamente. ouviu Jules dizer-lhe baixinho: . Era fácil e era bom. ainda mais no campo da informática. seriam preenchidas pelos gerentes. -Chamarei à minha sala os diretores que serão transferidos e os gerentes promovidos. ainda mais satisfeitos. diretores seriam transferidos para outros países. soa como uma falácia. pela manhã havia quase lhe matado de prazer para. Jules era um só. ao modo de se viver na atualidade e a inexistência de fronteiras. Se tivessem ensaiado não sairia tão perfeito. solene: -Bien. centralizador. A lealdade a Jules era recompensada. que. brincou Jules sem sorrir. Controlador. Uma personalidade complexa. em seguida. sério. o melhor time e. mas em tom de brincadeira: -o que ainda não é o suficiente porém aceitável. uma sucessão de “ohs!” reverberou pela sala inundada pela claridade branca da manhã de inverno. ele elevou um pouco a voz a fim de chamar a atenção dos executivos: -Tive sempre por política privilegiar quem já está comigo e que..após as risadas.Touleause não está mais entre nós. A primeira parte da reunião acabara. – alçou uma sobrancelha enfatizando a afirmação. o homem. E os senhores e as senhoras controlaram-se para não exclamarem “oh!” outra vez. modulava cada palavra prendendo a atenção de todos. de baixo para cima. Temos. Quem se rebelava. em nossa empresa. analisando o tom sério na voz do presidente. Fitou-o intrigada e constrangida. E Amanda sabia o quanto era fácil ceder. informou aos seus funcionários que algumas subsidiárias necessitavam de nova injeção de fôlego e. Um efeito dominó. o que lhe parecia óbvio. fitou os executivos por um minuto ou dois e continuou expondo que o dinamismo de uma organização estava diretamente relacionado às tendências do mercado. com medo de fracassar ou medo de vencer. Inclinou-se ligeiramente para frente. para isso. A voz. diante de Dorian quase lhe matar de vergonha. entregar-se e se deixar envolver por ele. haverá sim mudanças. dedica-se a SBO tanto quanto à sua vida. Em vinte minutos. Eram iguais. –baixou os olhos para o papel e riscou um dos itens de sua breve lista. não era esmagado e sim convencido. justamente por isso. Era sempre após o primeiro momento que Amanda erguia-se a fim de chamar uma das secretárias para servir as canecas de café e deixá-las ao lado de cada executivo. apenas há quase quatro meses. Ao levantar-se para seguir o protocolo. 101 . Tornou a sentar-se.Sente-se. o presidente consertou a situação: -Ele não morreu. o semblante sério transmitia confiança. Ele recebeu seu olhar com indiferença e prosseguiu falando para todos e. a máxima que diz que time bom não se mexe.. Novamente. Entretanto. umas sobre as outras. os executivos riram.. e as vagas abertas por tais diretores. mademoiselle. Manipulado. Ainda sentado e organizando suas folhas. mantida num tom brando e grave. – declarou impassível. ainda não terminei. seduzido. agora. segundo o que os senhores já devem ter ouvido comentar por meio da rádio-corredor. Jules. Expunha o discurso fitando cada um presente. agora. messieurs e mesdames. devagar. de certa forma. -olhou por cima de todos e acrescentou baixinho. a obviedade perdia efeito ao se analisar tantos homens que eram agressivos nos negócios e submissos nos relacionamentos.. ou predadores sexuais que tremiam diante de uma possível promoção.Obsessão em Paris Veronique Gris mas. autoconfiante e dominador. ainda mais desapontados. continuou. na SBO francesa. sem precisar utilizar-se de suas anotações nas folhas arranjadas à mesa. fazia. O que queria. na administração moderna.

então. Juntara uns trocados após gastar toda a indenização do último emprego na passagem aérea. pessoa de estrita confiança sua. Era uma outra vida. teve uma vida pacata e lenta. Não conseguindo resolver a equação. Anunciou séria: -Vou buscar o café. aproveitaria a oportunidade. acompanhando o sorriso de Jules. vendera sua alma no mercado de pulgas. haviam provocado a avalanche de mudanças. Aí estava a explicação para a súbita insônia de Jules. Em pouco mais de dois meses. – falou diretamente... E ela continuava a caminhar bem devagar pelo labirinto intrincado de seus pensamentos. uma lâmpada ligou.Amanda começou a sentir a testa porejar de suor frio e ondas de calor espraiavam-se desde a base de sua coluna vertebral até 102 . Entretanto. um lampejo de luz cegante fez com que ela se lembrasse do último diálogo com o vice-presidente. Dentro da cabeça de Amanda. a suspeita de que ela estivesse grávida. A transferência de Rochelle para uma clínica. Ao explodir. uma vez que o próprio presidente limpara o terreno para a sua aceitação. voltou-se para o presidente que a fitava ainda sentado. Até os seus 23 anos. a falta de cuidado ao acusá-la em frente a secretária e conhecida transmissora de informações alheias. sentava-se na poltrona diante do homem que. Jordan. O sangue correndo forte nas têmporas. Pessoas que calculavam e analisavam. e a lâmpada explodiu. Planos ambiciosos. ligou uma coisa a outra. Anos atrás. Em Paris. nomeava-a vice-presidente.. e pensaram que fosse agradecer o convite e discursar sobre a Nova Era da Vice-Presidência. permaneceu imóvel. Um minuto de silêncio. juntou dois e dois e. ela mal sabia o que lhe aconteceria em Paris. com curiosidade. tendo como companhia uma bolsa imensa.. quase outra encarnação. Era evidente que ele queria construir uma nova vida e. seguido pelos demais na sala. Antes de encerrar a reunião. A manobra de Touleause junto a François e o comportamento do último ao tentar interferir na empresa. Era aceita por aquele time. mas ela não era um gênio.Obsessão em Paris Veronique Gris -O que quero dizer é que Touleause não é mais funcionário da SBO. Voltara do jantar em silêncio. cinco anos depois. E ninguém melhor que mademoiselle Rossi.. procurando um jeito de organizar melhor o processo de enchimento de café em vinte canecas. É importante para mim que o meu vice seja alguém dedicado. que lhe desejou felicidades. como se os dias rastejassem-se desde a alvorada. no aeroporto Salgado Filho. para tanto era preciso destruir a antiga. Ressaltou que já postergara algumas vezes a viagem. guardando o pouco que sobrara para manter-se até regularizar sua situação na França.. E por causa do choque ao ouvir o próprio nome e receber dezenas de olhares. Uma velocidade que a excitava e a apavorava.. bateu palmas. ponderava Amanda. sendo substituído por mademoiselle Rossi. agora. Ergueu-se. o telefonema ao advogado a fim de iniciar o processo do divórcio. impactadas diante de uma afirmação sem sentido. Naquele dia. o presidente comunicou que viajaria à Finlândia a fim de acompanhar de perto todo o processo de implantação da nova subsidiária. um mecanismo bastante intrincado e misterioso do cérebro humano fê-la lembrar-se de que o bule de inox com o café preto não estava sobre a mesinha e fora isso que estimulara a última queda de braço entre Jules e Touleause. Faltava café na sala. os discos do Queen... Ela apertou a mão dos executivos com um sorriso que denotava autoconfiança e simpatia. Duas semanas depois.. sempre com um cigarro apagado entre os lábios. inteligente e siga a minha visão empresarial. estendendo mais uma vez a mão e apertando a de Jordan. como se matutasse alguma coisa. mas. entregara seu currículo na recepção de uma empresa que fabricava computadores. vivia intensa e profundamente.

a sugestão de presentear-lhe com um apartamento que. em cinquenta e oito andares mais o terraço. E não era qualquer um. A proposta para viverem junto e.. durante um bom tempo. Tinha consciência. ponderada entre ambos. que ela acreditara que escolhera o rumo da relação de ambos. . mais aos padrões do alto executivo. esse 103 . era fato concreto. discutida. fúria por ser jogada no novo cargo sem uma discussão prévia entre ambos e um tanto de indignação por Jules tê-la constrangido diante de Dorian sugerindo que estivesse grávida dele. fácil lembrar: os primeiros apartamentos não obtiveram a aprovação do seu financiador. Sentia raiva de ter se tornado tão fraca e submissa às vontades do amante. acabara por ceder. a Tour de Montparnasse abrigava cinquenta e dois escritórios e cinco mil pessoas. agora. e não conversada. como um homem das cavernas. Tudo girava como um caleidoscópio. sempre venerara Jules Brienne. masculina e familiar chegou-lhe aos ouvidos como um alerta de que deveria mudar a rota de navegação. Amanda fora induzida discretamente a escolher o loft. dedicara-se ao ponto de se pôr em segundo lugar. E a vice-presidência imposta. Erguida por um conjunto de vidros com vãos de bronze e alumínio. escolhera os novos móveis do loft. o prédio mais alto da França e. Amanda percebeu depois. Capítulo XVI Diante do janelão envidraçado do escritório ao lado da presidência. que ocupava várias funções na vida dele como uma máquina multifuncional da SBO. medo em aceitar a verdade do amor que sentia por ele e frustração em relação ao que ele sentia por ela.. sua antiga sala como assistente-executiva. A voz grave. Ele estava certo. Pois nem a decoração da sala da vicepresidência fora decidida por ela. e ela simplesmente o ignorara. a nova VP. Ao longo de cinco anos. Um móvel de escritório. inaugurada em 1972.Obsessão em Paris Veronique Gris alcançar a parte detrás de sua cabeça. Amava-o como jamais amara alguém. Ainda lhe restava uma migalha de dignidade? Ou apenas a pose patética de quem pensa que a possui? Novamente as palavras de Jacques Rodin em sua mente.Está no lugar errado. Uma manobra engenhosa e tão boa. Era a parte moderna. entretanto. E fora manipulada por aquele que sempre conseguia tudo o queria. a capacidade de ser duas em uma: a clássica e a contemporânea.. Objeto sexual fora da empresa. Quando apertou a mão do último executivo enfileirado para cumprimentá-la. Odiava-se por ter perdido autonomia sobre sua vida. no máximo. com extensão ao loft. mesmo tendo resistido. E agora o fantoche do presidente.. Amanda. Porque lhe era conveniente ignorar. forçado e impessoal. com os braços cruzados numa atitude absorta. profundo. seu sorriso era outro. olhava o prédio vizinho. Enfrentaria mares bravios em busca de paz.. o prédio vizinho.. Dez minutos de alheamento e a tentativa de controlar as emoções perdia terreno para sentimentos contraditórios e intensos. Construída diretamente sobre o metrô. Como fora a escolha do “presente”?. mesmo não tendo aceitado. e sim o loft. O que ela pressentira que lhe fosse acontecer um dia se confirmava de forma implacável: tornara-se uma prisioneira dentro de sua própria vida. como lhe dissera Jacques. estilosa que revelava outra faceta da cidade. o mais detestado pelos franceses. No chalé. E isso se assemelhava a uma das manifestações mais discretas porém imperativas do amor. absurdo que sentia por aquele francês. do amor louco.

Teria ele um sexto sentido? Procurou as palavras corretas e empertigou-se até estender a musculatura tensionada. digamos. se representasse algum tipo de reconhecimento ao 104 . antes delas se levantarem do chão. deixei de ser apenas uma assistente-pessoal. puxar o braço. a claridade preguiçosa resvalando ora para o rosto dele. Temia perder-se para ele. a torre de Montparnasse. Homem de gelo. –salientou e ante o arquear irônico das sobrancelhas dele. – declarou fingindo um autocontrole que se esvaía lentamente pelos poros. Parecia sentir no ar as partículas de tensão. Respirou fundo e procurou controlar-se. Levei cinco anos para perceber isso. meu julgamento sobre o potencial dos meus profissionais fica um tanto subjetivo e. -O que está acontecendo com você? Atrás de Jules. –Quem está zangada. Somos um casal agora e temos de tomar decisões em conjunto. existe um divisor de águas aqui. –interrompeu-se e perscrutou-lhe a feição antes de continuar de forma séria: -Estranha essa sua preocupação em diferenciar-se dos outros. completou: -Entretanto. non? Caso contrário.. principalmente no que se refere a minha vida. –enfatizou com ironia e prosseguiu: -Tentei avisá-lo sobre a sua intromissão na minha vida e isso já não é de hoje. entalhado na pedra. tentei avisá-lo quando me propôs os seis meses de. Não sou uma ferramenta ou uma peça da sua empresa que está sempre a sua disposição e também não sou a sua garota de programa que é presenteada por bom comportamento. nesses últimos quatro meses. Temia mais uma vez ceder a qualquer coisa que Jules ordenasse. e não por dormir com o presidente. Jules estreitou os olhos. –constatou por fim. pelo visto. -Sempre fui bastante profissional. pondo-se tão perto dela que Amanda afastou-se mecanicamente. intrigado. -Todos os executivos foram informados sobre suas transferências na reunião.Obsessão em Paris Veronique Gris paradoxo fê-la virar-se para o executivo de olhar perscrutador. pois. Tenho uma empresa para dirigir e um cargo vital em aberto. –Acreditei que entraria por esta porta e seria beijado. É assim que temos de pensar. Amanda? Decida-se. Tentou soltar-se. por que com você seria diferente? –lançou-lhe um olhar duro. ouvindo os próprios batimentos cardíacos. -Deveríamos ter discutido a respeito de minha transferência. – enfatizou. entendi. ora para o cabelo azeviche. Não quero merda nenhuma de cargo que significa tão-somente mais um de seus tentáculos controladores sobre a empresa. a profissional que se sente tratada como apenas amante ou a amante que se ressente pelo reconhecimento do trabalho da assistente? Qual delas é você agora. -Não sou apenas uma funcionária sua. -Ah. -Atingi o meu limite. aquele início de tempestade emocional que arrasa as pessoas. o céu cinzento. -Sobre o quê você está falando? –perguntou sem desviar os olhos. -É verdade. Fechou a porta entre os dois escritórios e aproximou-se com calma. -Homme de glace – murmurou. porém estava segura ao redor da algema que era a mão dele. -A sua promoção tem a ver com o fato de você ser uma das inúmeras funcionárias da SBO. já que sempre fez questão de me lembrar de que sua devoção ao trabalho é impessoal. inadequado. ora para os olhos ensombreados pela dúvida e desconfiança. –declarou com um sorriso debochado. – disse-lhe impondo um tom firme na voz. a garganta bloqueada por um nó de tensão. Temia perdê-lo. Jules.teste. pensou. –ela parou erguendo os olhos para o alto à procura do sentido e retomou: . sendo impedida por uma mão fechada em garra ao redor do seu pulso. logo. mas. – afirmou erguendo o queixo e devolvendo o desafio. mas permeado de ironia e desafio. fiz algo errado..

à medida que a mágoa e o ressentimento emergiam.. –E se eu mentisse? Poderia dizer que a amo e fazê-la mudar de ideia. Apertava-lhe ainda mais o pulso. temeu soluçar. de quê. eu seria transferida para um cargo mais modesto já que nunca. Doía vê-lo fitando-a com frieza. mas. -Seja mais objetiva. o apartamento e a minha intromissão em sua vida. s'il vous plaît. talvez a única. convenhamos. Mas o que você quer e o que você decide estão acima de qualquer um. -O que significo para você. não era uma crise de ego. mas manipulada. -Devo-lhe agradecer pela casa. impassível. reassumiu a expressão fria e pragmática: -É a pessoa que mais confio. Amanda sabia o quanto isso era importante para ele. sem vontade. Cinco anos de cegueira absoluta. Deu-lhe a entender que a resposta não agradara. Sacrificando uma eficiente relação em nome de quê. uma vez que parecia decidido a resolver a questão de forma sensata e prática como sempre. -É inegável o seu talento para distorcer as minhas ações. –desferiu num fôlego só. Amanda? Está disposta a pôr abaixo a sua nova vida. em seguida. non. comida e roupa lavada? –perguntou com raiva. sem largá-la por momento algum: -Por acaso essa é a continuação da nossa última conversa? Está me pressionando para assumir o quê? Quer ouvir palavras bonitas e melosas para se certificar de que a Terra é redonda? Pelo visto. . já que tanto eu quanto você sabemos que nada é oferecido por acaso. –parou.. balançando-a para cima e para baixo. Olha que eu poderia dizer que também fui manipulado. nunca fui chefe de coisa alguma. monsieur. ela já não conseguia mais se manter equilibrada e superior. Por um momento. Ao que ele tornou a falar. machucando-a e obrigando-a a fitá-lo. – disse ele torcendo o canto da boca com desprezo. Referia-se a si mesmo ou a ela? Ela não conseguia compreender o sentido de suas palavras. . é isso? E depois de ouvir minha declaração de amor. – Mas. aceitará a promoção. Caso lhe fosse apenas a assistente. foi justo. mas Amanda sentia-se sufocar e absorvia cada palavra como se ele proferisse uma sentença diante de um tribunal: -Cinco anos. ele fitou-a profundamente e vasculhou-lhe o rosto com um olhar circunspecto e até doce. Ele sorriu friamente. Ela queria mais. Lançou-lhe um sorriso fraco. Entretanto. non? Afinal. -respondeu insegura. houve uma troca entre ambos. mon Dieu. sente-se usada? -Não. Jacques Rodin inventou algumas mentiras e levou-a para cama com bastante facilidade. Perdia o controle. ainda está em busca de garantias. esperando uma reação dela. Procurou controlar o tom de voz de forma que ele compreendesse que falava sério. Veja o quanto isso é patético! –na última frase elevou a voz. e não a mulher que o amava. –apontou-lhe o indicador. Por um minuto ou dois. – sugeriu.Obsessão em Paris Veronique Gris meu trabalho. Estou farta de ter um chefe no trabalho e um ditador na minha vida. depois de uma breve pausa acrescentou com visível mágoa: -Minhas habilidades profissionais e sexuais pelo cargo e apartamento. sentindo o próprio queixo começar a tremer.afirmou secamente: -Por acaso. Oui. esganiçava-se e perdia a força. A voz falseava. Jules? –indagou num fiapo de voz. 105 . por que eu não usei as palavras adequadas? Quer ouvir que a amo. mademoiselle? – provocou. -Acho que sim. agradece. e ela jamais o vira naquele estado de agitação e raiva.Oui. –A minha parte que adora mentiras. e deveria sentir-se lisonjeada e satisfeita com a resposta. segurando-lhe ainda o pulso e absorvendo-lhe as palavras sem interrompê-la e sem se importar. que inclui a sua ascensão profissional.

sem sorrir. agora. Jules. –E por amá-lo dessa forma. permitindo que o mesmo não o alcançasse. aniquiladores. a mãe. non? Até o meu útero. densos. o modo como eu te amo é assustador. –Oh. Rochelle tentou amá-lo e por fim entregou-se a Jacques. Amanda. num relacionamento sexual baseado numa conveniência entre executivos. sei. perigosa. E como se isso não bastasse. é transformar o sonho de viver um relacionamento amoroso com você. Soltava-a em Paris.. –murmurou enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto livremente. -decidiu-se convicto. doía demais. Engoliu as lágrimas. de expressão séria e ligeiramente melancólica e viu um homem que seria abandonado pela terceira vez. do amor não consumado. quero dizer. Amanda abriria mão do conforto. Antecipava no peito a sensação do vazio. Não quero nada relacionado a você. Talvez ele se protegesse do amor. – debochou sem mexer um músculo. Jules soltou-lhe enfim o pulso. Abandonava-a também e rompia-se o vínculo. em princípio. mas não dá nada de si.Obsessão em Paris Veronique Gris -Então por que insiste em me transformar num cretino? –indagou-lhe com uma calma estudada. amadurecer inclusive. Amanda olhou para o rosto bonito. Todas fazendo trocas descabidas. da angústia que asfixiava. O que me dá medo. -Acabou. para todo o sempre. –Vou para casa retirar minhas coisas. Ter sido sua assistentepessoal enriqueceu meu currículo. no mundo. tão passional quanto maluco. e tal gesto era por demais significativo. E eu a amava. Acredito mesmo que deva reestruturar-se longe de mim. Você quer tudo de mim. da segurança e do homem que amava. Retomarei minha vida do ponto em que deixei. -Atirei-me nele de olhos vendados. antes de conhecê-lo. oui. -Não vejo porque prolongar essa ceninha dramática. Vivien. pavor. entre os dois. E como todo o rompimento afetivo. a expressão cansada.. – riu-se com amargor. Jules? Ele contraiu os maxilares com força. –Quer também o meu amor? Ele a olhava com tamanha intensidade que ela sentiu o ar faltar. além do mais. Uma troca sem sentido. porque eu não pronunciei as palavras mágicas. segurança e conforto. desejei que me escolhesse porque. -Esse tipo de romantismo estúpido deixou uma mulher que esperava coisas de mim em estado vegetativo. -Estou numa posição inferior a você. Isso é certo. – dando de ombros. perscrutadora. – interrompeu-se diante da expressão ainda mais cerrada dele. O que não me dá muitas vantagens. há que se ter um equilíbrio entre as partes. arou o cabelo com os dedos e demonstrou um esforço supremo em conter-se. Ficará surpresa ao descobrir que o famigerado amor é um abismo. mantendo-as na rédea curta como sempre o fazia. –interrompeu-se esfregando as têmporas. Sou capaz de amá-lo para sempre e sei que isso acontecerá.. preferindo os homens problemáticos e violentos. –completou com impaciência. então. Amanda. é o que lhe ofereço. retomando o controle das emoções. Não tenho nada meu lá. Alguns minutos se passaram. Eu te amo.... Talvez o tempo faça-a ver como as coisas realmente são. respirou fundo e continuou: -Toda essa minha dedicação não foi só profissional. não tenho medo de trabalhar. Desde que entrei na sua sala. fosse qual fosse. um desgraçado de um abismo. roupas. Surpreendeu- 106 . indiferente. Agora. -Por que você não me ama. a primeira mulher que o deixou na mão. – debochou. vou deixá-lo. Retomou o que falava devagar e racionalmente: -Aceite o chão sólido debaixo de seus pés. e para se manter qualquer que seja o relacionamento. E. mas eu não sabia. Proteção.

quase física. Não podia reprimir-se. chorou. Abriu a porta do loft e não entrou imediatamente. Bebeu todo o conteúdo da garrafa e metade de outra. o bolo no seu estômago reverteu-se num pranto convulso que lhe sacudia os ombros. de pescar o maior peixe do mundo. observou o ângulo de 360 graus que formava o mezanino no segundo andar. Tal visão de sua completa derrocada afetiva. corpo no corpo. quando ele saía do banho com o cabelo preto molhado. E tal sensação levou-a novamente às lágrimas. abriu as torneiras da banheira e sentou-se na beirada da louça. doces e infantis. Lavou o rosto com água fria e deitou a cabeça sobre o mármore da pia. do século passado. Sabia que através do choro desintoxicaria o corpo e o coração. Parou no meio da sala e. Jogou suas roupas dentro das duas malas azuis que possuía. e Jules. Levantou-se da banqueta em frente à mesa e respirou fundo controlando a vertigem. Tinha algum tempo. tornando-a refém de uma dor insuportável. Abaixou a cabeça. fitou a torrente de água descer e os primeiros vapores emergirem pelo ambiente. aos dez anos de idade. dirigindo o carrinho que tencionava vender para manter-se até o novo emprego. E chorando encaminhou-se à cozinha. fechou o nariz com a mão e mergulhou para chorar debaixo d’água. no subsolo. abraçados. Receberá um bom dinheiro com a rescisão contratual. Por um tempo. sorrindo como se tivesse 17. não se joga na frente do metrô? Gostaria de terminar bem o meu dia. E chorou. Massageou os próprios braços como se sentisse frio debaixo do robe. despertava em quem a visse uma cálida ternura e a saudade de um tempo não vivido. pegara a bolsa e a pasta executiva e entrara no elevador direto para o estacionamento. -Por que antes de ir juntar suas coisas. Apertou-se ao próprio corpo tentando conter-se. Jules ficaria até tarde no escritório para dar-lhe tempo enquanto arrumasse suas “coisas”. Após a saída de Jules. Passe no RH. mesmo porque era impossível fazê-lo. viu os efeitos nocivos da dor no inchaço das pálpebras e na ponta do nariz avermelhada. –declarou com um sarcasmo permeado de ressentimento. Depois. diante do Café de la Paix. – completou com evidente desprezo.Obsessão em Paris Veronique Gris se com o ódio refletido nos olhos dele ao afastar-se para o meio da sala. Desarrolhou o Cabernet aberto por Jules numa noite muito fria. os braços 107 . E chorou. então. você e o seu suposto amor. Sentia-se terrivelmente triste e os lábios ligeiramente anestesiados. contando histórias da infância. fechou-as e desceu a fim de deixá-las próximas ao hall de entrada. a pele cheirosa. seguros de que tudo daria certo. E desde o instante em que se sentara diante do volante e afivelara o cinto transversal ao peito. Como ele podia ser tão carinhoso e. até descansar o olhar na esteira eletrônica onde Jules exercitava-se todas as manhãs. Diante do espelho do banheiro. em que ficaram conversando após o sexo. Deitou a cabeça. mademoiselle. Chorara durante o curto trajeto de volta. a loção pós-barba exalando frescor. Debaixo do edredom. Chorou até se engasgar com o vinho. Não fora ao departamento de recursos humanos e tampouco se despedira de Dorian ou de qualquer outro colega. fêla entregar-se mais uma vez aos espasmos que pareciam desgrudar-se dos ossos e dos músculos. Foi até a porta e antes de sair deu-lhe a última ordem: -Está demitida. com uma franja sobre os olhos. Talvez conseguisse se acalmar relaxando num banho quente e perfumado por sais. sais que exalavam o odor de Jules. O desenho de uma menina morena. como que se protegendo dela. girando lentamente.. compartilhando fantasias ingênuas e pueris como a vontade que Amanda tinha de ser a Batgirl. Fitou o corredor vazio que terminava diante do elevador e os quadros nas paredes.. Então. com paisagens de uma Paris dos anos 20.

-Não é certo que você saia. –fez uma breve pausa e continuou solene: -E quanto ao emprego. -Eu disse isso? –indagou-lhe logo atrás de si. Todos os sentidos em prontidão. Ouviu o barulho da chave girando na fechadura e a porta sendo aberta devagar. como se não soubesse o que fazer diante de algo imprevisto. Os pelos da nuca eriçaram-se ao pressentirlhe a presença. – adiantou-se num murmúrio. Num estalar de dedos estará bem empregada. aguçou-lhe a atenção e fez com que esquadrinhasse todo o ambiente com olhar de lince. Jules. muito próximo. Apertava firmemente a borda do armário inferior da pia. pegou o celular e verificou o seu nome na tela. branca e dourada. Encontrou-o dentro da bolsa sobre as malas. –completou num tom melancólico. apoiando-lhe o corpo quase encurvado. raciocinava. A energia que despendera chorando voltava-lhe aos poucos para o organismo. o apartamento é seu. Não quero prejudicá-la porque se envolveu comigo. Arou os cabelos com os dedos numa atitude imprecisa. Parecia preocupado e nervoso. mas lúcida o suficiente para esgueirar-se por entre o vão da porta e observá-lo entrando no loft com os olhos fixos nas malas no hall de entrada. no seu esconderijo. Amanda afastou-se da porta. quase desfigurada. Fechou os olhos e abriu. –interrompeu-se esperando que Amanda se voltasse para ele. Parou no alto da escada com a expressão profunda e reflexiva. Podia sentir as ondas de calor do seu corpo.Obsessão em Paris Veronique Gris estendidos com as mãos espalmadas sobre a mesa. Segurava uma sacola de papel. -Vas te faire foutre. a fragrância amadeirada exalada pela sua pele e o calor de seu peito. olhou ao redor à procura do aparelho. como um porto seguro que lhe sustentava a cabeça ao dormir. Tenho conexões com diversas empresas e minha indicação será de grande ajuda para você. acrescido do seu amor. Esperava-a que já estivesse longe? Amanda cogitou. tendo consciência de que vestia apenas um pedaço de seda preso por uma faixa fina do mesmo tecido. mas manteve o paletó escuro. legalmente seu. Estava horrível. O que em bom português significava: vai te foder! 108 . depositou-a no chão. Foi até o banheiro e saiu. Sem hesitar. Viu-o descer a escada. Retirou o sobretudo e o cachecol. agarrando-se a esperança de que ele desmanchasse o equívoco e tudo voltasse a ser como antes. Killer Queen ressoou pelo apartamento. imaginou Amanda. –Vim direto para casa. continuará recebendo até encontrar outra colocação. ele largou a pasta executiva e as chaves do carro sobre o aparador. O cabelo ainda estava encharcado do banho e o rosto vermelho e inchado depois de horas de choro. – xingou-o com raiva. sentindo as lágrimas novamente lhe aflorarem aos olhos. alcançou o segundo andar e encontrou a cama vazia e o closet sem roupa alguma dela. atenta. já que Jules encaminhava-se em direção à cozinha.. No aparador de vidro estava o seu celular. Curvou o lábio inferior numa expressão de impaciência. A vergonha de ter sido fraca e chorona também. Ergueu a cabeça. Amanda. Caso não queira viver aqui posso comprá-lo de você e Armand irá assessorá-la no que for preciso. Subindo os degraus rapidamente. Estava ligeiramente zonza. porque queria encontrá-la antes que partisse. -Por quê? Por quê? – falou quase num gemido abafado. imaginava o rumo dos pensamentos da amante e os motivos de ela deixar a bagagem e partir sem nada. desejo e muito álcool no sangue. Foi então que percebeu um par de sapatos pretos atrás de si.. A constatação de que a bolsa e o celular ainda estavam no loft. -Sei que já eu devia ter ido. Desligou os dois celulares e trancou a porta do loft. pulando a cada dois degraus com agilidade. intrigado. Em seguida. tentando firmar as pernas que tremiam de ansiedade. fitando o ralo da pia e incapaz de encará-lo. medo. largo e firme. pegou-o e digitou alguns números.

Durante anos bloqueara seus sentimentos. inacessível!. Observava atentamente as pálpebras intumescidas e as órbitas oculares com delicados derrames avermelhados. -Não se dê ao trabalho. Entretanto. Ela acabara de alfinetá-lo. enganara-se e até mesmo fora hipócrita consigo mesma. e preciso falar com os empregados a respeito da mudança. Sabia que estava condenada a pagar um preço alto por tal escolha. que mal lhe tocavam. Não lhe importava o orgulho ou fosse o que fosse que haviam pregado nos distantes anos sessenta. Empinou o nariz numa atitude arrogante. Via sem disfarces o quanto ela havia sofrido. com um carinho que lembrava um roçar de seda sobre a pele machucada e beijou-lhe também as lágrimas que voltavam a deslizar em riscos imprecisos pela face. no queixo e nos maxilares. e ele perguntava-lhe sobre um corte no dedo. na ponta do nariz. ela sentiu-se encorajada a continuar: -Está no seu ambiente natural.. E rendida. Aplacava os problemas de consciência com atos de bondade e gentileza? Afastou-se sem se virar para ele e ergueu o braço para abrir a portinha do armário aéreo e pegar novo cálice. indiferente. sutiãs queimados ou medalha de honra e bravura. Isso que era: lixo puro.Frio.Obsessão em Paris Veronique Gris Lixo.. olhos cravados no rosto dela de forma avaliativa.. Automaticamente. –declarou exasperada e encarando-o severamente. Transferências. objetivo: -Cortou ao abrir a garrafa. a maciez de seus lábios e a sensualidade de sua língua penetrando-lhe a boca antes mesmo do beijo acontecer.. amava. cada uma. fique aqui enquanto vou buscar o iodo. seus contatos. O discurso de bom-moço enojava-a. -Claro. devagar. bufou. Quando ela virou os lábios 109 . recebendo o peso do olhar dele sobre sua face que. diante do silêncio que se seguiu. canibal. -ironizou e. contatos. surpreendeu-se quando teve suas pálpebras beijadas. agora. Sentiu-lhe o gosto do hálito.. O sangue fervilhava de um ódio que alcançava as raias do amor e de um amor insano. sem meio-termo ou meias-medidas. e sim perdera a batalha para os seus próprios sentimentos. Novamente a vertigem. non?. devagar. o corte de dez centímetros cuja superfície estava tingida pelo sangue vermelho-vivo. E quando amava. Mas não esperara pelo homem certo para entregar-se. alguns serão aproveitados na empresa e os outros tenho como recolocá-los no mercado. Amanda apenas fechou os olhos à espera. -Excusez-moi? -indagou-lhe num tom de voz de quem era pego de surpresa. Não será isso que me matará. O centro social ainda não se instalou por lá. Abraçou-se ao próprio corpo e esperou as ondas de frio e calor desaparecerem por completo. Dignidade feminina. Ele já saía pela porta da cozinha quando se voltou. Jules aproximou-se dela e disse de um jeito bem típico seu. parecia-se mais com a expressão de alguém que voltava de um velório. fazia-o por inteiro. Visto que ela o ignorou. decidindo vidas. continuou sem se abalar: –Vou separar algumas roupas e levar para a mansão. a sua gentileza. quando Jules abaixou o rosto em sua direção. fitou o dedo indicador da mão direita e percebeu. Deve ser uma merda ser tão racional assim.. Pequenos beijos nas bochechas. Deixou-o sobre o balcão de mármore para que Jules se servisse de vinho. -Onde cortou seu dedo? –ouviu-lhe indagar entre curioso e preocupado. non? Temos de limpar o corte. pela primeira vez. –completou com desprezo. Antecipando sensações que conhecia tão bem e tanto desejava e necessitava. tão bruto que lhe fazia quase quebrar os maxilares no esforço de manter a boca fechada a fim de não causar maiores danos. fusões. porque Amanda demonstrava todas as suas emoções.

Em vão.. Jules apontou para a pasta e comentou com calma. contra a parede. e eu não. por sua vez.. Amanda perdia o controle e sua voz elevava-se cada vez mais. só não tem coração. Odeio tudo que vem de você. -Idiota! –gritou. o homem de gelo... ela o fitou. como se fosse ele quem sofresse. Perdida.. mas ainda era uma MULHER.. metálico e abafado.. Jules! –gritou. Odiou-se por se render tão fácil.. -Claro que não. inclusive esse apartamento de esnobe descolado. –Pegou a pasta executiva pela mão e fitou-a por um momento ou dois e depois a jogou longe. Você vai embora e os levará junto. Dentro dela. inteira. isso alivia a minha consciência de workaholic autossuficiente. Jules. seguido por outro... –Mas tenho a mim. Jules. vamos ao banheiro. -Satisfeito? –havia tamanha mágoa e raiva na sua voz. que ele arqueou uma sobrancelha. –considerou numa voz abafada.. aquele que a olhava com a expressão cerrada e um olhar permeado de raiva. Ela podia ter quase se afogado na banheira de tanto chorar por causa dele. puxando a mão da sua depois que cruzaram o corredor entre a cozinha e a sala. céus!. non. Um barulho seco. verdadeira e forte...Mas..Eles são seus e eu os odeio... sereno. Possessa.ficará com você.. apenas assistia a um espetáculo que – como Amanda bem o sabia – sempre o fascinava: a explosão temperamental da assistente.. Você é uma ótima pessoa. odeio seus sapatos. -Bebeu mais do que devia. a sua empresa de merdè. Venha comigo. acho que vi um. eu não pertenço a ninguém. podemos conversar de forma sensata e coerente.. – à medida que falava.. porque sempre fui eu quem os comprou! – parou no meio da sala e olhou ao redor.. -Ele também não lhe pertence mais. como se tentasse neutralizar o que sentia. não é legal? – riu-se com amargor e virando-se para trás. talvez um loft e uma carta timbrada do presidente da SBO. o aparelho espedaçou-se no chão. . -Nunca foi a minha intenção machucá-la. Será que um loft em Montparnasse é o suficiente para quatro meses de trepadas? Ou.. Mas quando ela pegou-lhe o celular. o pragmatismo. porque eu não sou de ninguém. estranhamente calmo. 110 . -Havia um notebook ali dentro... Amanda. refugiando-se na constatação lógica: -Depois de limparmos o seu ferimento. rindo. ele fez um movimento para se levantar e contê-la. reverberou no recinto. a contabilidade emocional.hã. monsieur Brienne? Quanto eu dou para ela dar para mim. –completou chorando. sentado com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. o seu Jules Brienne. deixe-me ver. –Pare de me tratar como se eu fosse uma débil mental! Eu te odeio. Jules afastou-se delicadamente. não aceitava que ele a tratasse como uma criança birrenta e desprotegida segura pela sua mão de homem forte e no-controle-de-tudo. Gesticulava como uma atriz interpretando Jules Brienne.. oui.Obsessão em Paris Veronique Gris para beijá-lo.. intrigado. o caricato.que você nem sabe escolher. que estou dizendo?! no mundo dos negócios usa-se o cérebro.. fitou a pasta e o celular de Jules sobre o aparador: . –falou baixinho e direto. Amanda gargalhou completamente surtada. os olhos vertendo lágrimas e as palavras sendo cuspidas com raiva: -Odeio tudo que é seu porque tudo que é seu. – escarneceu. enquanto sentava-se num dos degraus da escada à espera do prosseguimento do espetáculo. uma outra Amanda horrorizava-se e procurava desesperadamente um jeito de controlar aquela locomotiva fora dos trilhos. eu ficarei. oui..

ao que ela. -Nem tente destruir isso aí. no entanto. Amanda virou-se para Jules que a fitava com a expressão perplexa e debochou: .Adieu! – exultou com um gritinho alegre. Doera-lhe desfazer-se deles no mercado de pulgas. -Entendo que se sinta magoada e. Fitava o interior da sacola. não. non? – indagou com cuidado. -Jules começou. cretino? Apanhei de Jacques para salvá-lo. europeu idiota! Dito isso. e o fizera para poder se manter por alguns dias.. Amor! Já foi amado assim. Toda a sua coleção do Queen recuperada. .. A chave foi arremessada para fora da janela e. .. francês.. tomou posse do seu próprio celular e deu-lhe o mesmo fim. todos os discos haviam sido vendidos. despejar ácido em colônias a-ma-dei-ra-das. Calculou que ele conseguiria detê-la. para que ele não o encontrasse! Eu te amo. – Non. Satisfeita.completou gritando: . retornou ao mercado de pulgas para resgatá-los e. Percebi que esses discos significavam muito para você. tomada pela fúria e com os olhos arregalados. tentando reconhecer o que deveria reconhecer desde sempre. Quando recebeu seu primeiro salário na SBO. -Agora. em seguida. -no restaurante.Não sou muito boa? Sabe em que sou boa também? – pôs uma mão na cintura e a outra. pois teria que dar uns dez ou vinte passos até onde ela estava. Quando ela voltou sua atenção para o objeto que parecia precioso demais a ele. O alarme do Citroën de Jules reverberou agudo. Dois ou três minutos de imobilidade e esquecimento. esperando pelos diretores da subsidiária de lá.. sorrindo com o olhar furioso e rasgou-a parcialmente. listou: . com os dedos. sentimentos. ideias. Ao que ouviu a voz severa e grave de Jules e parou. recordações. quando conversamos sobre viver longe de casa. -Estávamos em Roma. queimar sapatos. ouviu-se o choque da mesma contra o capô de um automóvel. eram como uma parte de sua vida que lhe fora arrancada. enviar e-mails com vírus. –Nada sairá daqui com você. Amanda. incendiar chalés.Acertei bem no alvo.Nada! – voltou-se e pegou sobre aparador a chave do Citroën. no alto da escada.Em rasgar roupas. Ela virou-se e encarou-o com os olhos vidrados de fúria. –ponderou erguendo as mãos à frente do corpo num gesto apaziguador e. voltou-se para a sacola a fim de estraçalhar o que estivesse dentro..eu. sem deixar de fitar um Jules possesso e estranhamente paralisado. sorrindo por entre as lágrimas. ao cair. não estamos num Café e eu não sou uma hipócrita “civilizada” – enfatizou a última palavra com ironia.. envenenar comidas.. sozinha... acalme-se e vamos conversar..Obsessão em Paris Veronique Gris -Acredito que sua agenda telefônica seja igual a minha. e você comentou sobre seus primeiros meses em Paris e a pior coisa que havia acontecido então. voltando a sentar-se no degrau..eu me dediquei a você todos esses anos por amor. Tocou a capa de cada disco com ternura.. no fundo da sala. seu imbecil. Ameaçou abrir a sacola e viu que Jules fez menção de atacá-la. – gritou: .. –começou tentando alcançá-la a fim de recuperar o objeto antes de ser destruído de alguma forma. Ele acompanhou-lhe o olhar em direção ao janelão aberto. –encarou-o sorrindo como se tivesse acabado de praticar uma boa ação. desde a adolescência no quarto. Respirou fundo. estendeu-lhe a mão que foi deliberadamente ignorada.. Ele ergueu-se desconfiado de que a tempestade estava apenas começando: -Amanda. -parou e fitou-a 111 . sentiu a mente esvaziar-se de tudo. ouvindo por trás da porta o pai desempregado brigando com a mãe frustrada em seus sonhos. Olhou para Jules com a expressão: agora não mais. Crispou os lábios e ajoelhouse diante da sacola.

perfumes.. sério. preocupara-se em investigar e devolver-lhe algo que lhe era tão valioso. Tudo tomava um novo rumo. fizera pilhas de acordo com o tipo de gola e cor. tirara o paletó e erguera as mangas da camisa à altura dos cotovelos. Soltara o nó da gravata. loções e a escova de dente. esse fato estava subentendido em suas ações e se ela não era capaz de entendê-lo.. Isso era amor. não? -Oui. com o seu nome escrito e o desenho de um coração sobre o “i”. de um jeito desanimado. a sua caligrafia de menina. Isso era um ato de amor. quis chegar a tempo para lhe entregar. Rompera com uma amizade de vinte anos por não aceitarem o relacionamento de ambos. Organizava-as dobradas e por ordem de tamanho.. na mesma.. Resgatara-lhe o tesouro. por que. Ele rompera laços antigos e quebrara promessas feitas a si mesmo. Esperou que ele dobrasse dentro da mala mais uma camisa e ajeitasse-a 112 . no modo de pensar de Jules. Renunciara ao que mais amava para se manter economicamente. Apostara no seu potencial como executiva e abrira mão de ter-lhe como a assessora que tanto lhe facilitava a vida. E ele jamais diria que a amava. Isso era amor. persuadi e consegui resgatar integralmente a sua coleção. Era a vontade de ser pai. No criado-mudo. Sem vínculos ou obrigações para com ele. Amanda observou-o tornar a subir os degraus. Amanda indagou sem fitá-lo: . os braços dobrados em frente ao corpo. Ele parou por um momento e esfregou os olhos. azar dela. fora prática contrariando a sua natureza passional. praticados por homem visivelmente cansado.Isso foi há um ano. além disso. através de atos e atitudes. –balbuciou num fiapo de voz. a sua. – disse.. Pelo visto. Antes que ele se levantasse em direção ao quarto. Talvez Rochelle jamais o tenha compreendido. mais uma vez. abraçou-se aos discos e chorou. como aconteceu tudo isso. – retrucou baixinho.. alçando as sobrancelhas: -Pode ver. não era controle. Investiguei. Ela parou diante da cama. Gestos precisos e. mas. -De rien. ações sólidas e reais. Mas ele não estava mais ali para confirmar se o rumo de seus pensamentos estava coerente ou era apenas a vontade do seu coração distorcendo. De nada. O apartamento que ele a obrigara aceitar como seu.. ainda envolvidos pelos braços dela: -Pensei em devolver-lhe no seu aniversário. fazia-o. passaria o resto de sua existência chorando. arrastados. Havia um ano que lhe falara sobre a venda dos discos e a sua primeira perda na França.. Ele lembrara e. Havia retirado todas as suas roupas do closet e depositado-as sobre a cama e. com um frágil sorriso nos lábios. com os seus poemas escritos em algumas capas. lentos. -afirmou de um jeito estranho. ao mesmo tempo. guardando suas roupas na mala de viagem escura e com inúmeras etiquetas de aeroportos grudadas. como se quisesse livrar-se do assunto.Obsessão em Paris Veronique Gris intensamente: -Eu sabia que outras cópias não serviriam. simplesmente. viajei. a fim de oferecer-lhe uma estrutura sólida para sua vida num país estrangeiro. Uma vez Jules dissera-lhe que ela tinha a capacidade de distorcer os fatos. são os seus discos. – enfatizou. respondeu apenas. seu barbeador. a realidade. por fim. A gravidez que ele queria que se confirmasse. Capítulo XVII Encontrou-o no quarto. mas não tencionava aceitar os louros. tinham de ser os seus. Jules não falava em amor. -Merci. –apontou-lhe para os discos sobre a sacola.

preciso lhe falar. Mas acreditava piamente nas palavras de amor que ouvia do marido. –respondeu baixinho e sem dar importância. Se não me amasse continuaria a fazer essa merda de mala e a me ignorar como um andróide workaholic. -São apenas coisas.. à espera de algum movimento por parte dela. -Amanda. Jules. somos dois solitários e carentes tentando desesperadamente sobreviver. Amanda pigarreou nervosa e continuou: -Você se importa comigo e me protege. e. Respirou fundo. no lugar da dedicação e do carinho entendi controle e domínio. que sabia e compreendia a maneira peculiar dele revelar o seu amor? Poderia estar errada. Jules sorriu de um jeito tímido. constatou Amanda. Era óbvio que não entregaria os pontos tão facilmente. –declarou convicto e olhando-a como se quisesse arrancar-lhe a roupa naquele momento. era cega quanto à dedicação do filho ao limpar-lhe os ferimentos ou quando lutava corpo-acorpo contra o padrasto. -Perdi as estribeiras. por outro lado. me revelou o quanto fui cega e parcial em relação a você. -Eu gostaria muito. ela também não sabia o quanto era amada por você. Jules deu de ombros de forma indiferente. . Misturei tudo. desculpe..? – sempre havia um mas. Amanda... Tinha o olhar entre curioso e desconfiado. procurando os discos da minha adolescência.. Jules não parecia interessado em facilitar-lhe o trabalho.. concentrado na maldita mala: . Você tinha uma mãe que amava homens perturbados e eu tenho pais que não se suportam. mas tinha a impressão de que Jules não lhe prestava a atenção. largando a roupa que segurava na cama e tocando o queixo de Amanda com ternura. mesmo apanhando e ignorando seus apelos.Jules. sem vê-lo.. não estou mais cega. você parece um menino. -Mas. confundi-me. Porém precisava arriscar: -Quando sua mãe escolheu continuar o relacionamento com seu padrasto.. – Ela subiu na cama e sentou-se sobre a mala fechada: -Vamos cuidar um do outro? –pediu-lhe com carinho e disposta a matar no peito qual fosse a resposta. Amanda começou meio vacilante e com medo de irritá-lo. E você acreditou que somente seria visível caso ganhasse muito dinheiro. Jules.. apenas olhava-o. Jules ignorava-a deliberadamente enquanto entrava e saía do closet. fechou a mala e puxou o zíper por toda a sua extensão. -Está chateado por que quebrei suas coisas? –indagou-lhe com o jeitinho de quem queria fazer as pazes. -Quero cuidar de você a minha vida inteira. Às vezes.. por exemplo. Talvez seja esse o “mas” a que você se refere. ainda fitava-a. 113 ..tentou justificarse. Ela não o via de fato. segurando um par de meias na mão. continuando a arrumar a mala. Talvez essa confusão seja consequencia dos “meus” problemas familiares. – ele fez um sinal para que ela parasse. Fingiu que não a ouviu. -Espere. muito pelo contrário.. – apontou para a mala como se apontasse para um inseto horroroso. tensa. entendo que isso é amor. mas foi interrompido. Às vezes o sangue sobe à cabeça e. E ela não sabia como resolver a parada: dizer-lhe. Por isso. como agora dobrando suas roupas com tanto cuidado para não amarrotarem..Obsessão em Paris Veronique Gris para que as tantas outras sobre a cama também coubessem. Ele parou e fitou-a.. ela bem o sabia. –respirou fundo e começou fitando-o profundamente: -O que fez. Como posso acreditar que mereço ser amada? E como você pode acreditar que mereça ser amado? A bem da verdade.

porque a amo e não é de hoje. -Jamais percebi nada. por isso procurei manter tudo numa perspectiva que não entregasse os meus sentimentos por você. A minha intenção era a de que você percebesse esse amor e que não repetisse a atitude de Rochelle que.. -É. em nome de uma carência inventada ou de um amor supostamente não correspondido. Acreditei que não me amava. Rochelle jamais compreendeu que eu a amava e que quando lhe fazia as vontades não era por uma questão de consciência ou culpa.. todo mundo percebia que eu tinha uma quedinha por você. bien. fui para o terraço. que fizessem com que ela entendesse o que ele realmente queria dizer: -bien. Eu estava realmente disposto a manter meu casamento com ela. foi apenas mais um jantar de negócios. – Mas fui punido por minha decisão. sinto os olhares sobre mim. e apoiou a cabeça no tórax dele. Amá-la em segredo foi terrível. Amanda. – sorriu com charme e prosseguiu num tom carinhoso: . inclusive François e Sonia. –fez uma pausa e continuou de forma suave: -Não queria que você sofresse ou se sentisse manipulada. Depois. não substituem as atitudes. frio e viciado em trabalho. séria. na verdade. numa veia saliente..tive de controlar-me para que você não se afastasse.. Aliás. – completou apertando-a ainda mais contra si. Quando saí da sua sala. acusando-me de insensível. mas aquela nossa conversa no restaurante. Ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o seu colo. ela dizia que eu era viciado em dinheiro.-comentou sorrindo. olhando de verdade para o seu rosto. 114 . -fez uma pausa procurando as palavras certas. sentei-me numa cadeira e imaginei minha vida sem você. não o resultado financeiro dele.. Sei que é uma atitude tola. consegui e quase a perco por isso.apertou Amanda em seus braços e continuou: -Mas ela usou as suas palavras... mudei de ideia e prometi a mim mesmo que não estragaria nossa relação profissional. mas não queria correr riscos outra vez.. para o seu corpo. – interrompeu-se bruscamente e crispou os lábios com raiva: .. Amanda. . Só que desta vez eu não a perderia para Jacques Rodin. eu sei. sofri a sua ausência por cinco horas e não gostei nem um pouco. O trabalho é a minha paixão. -Oui. Voltei para casa a fim de tentar impedi-la de me deixar. ele suspirou profundamente como se tivesse se livrado de um peso enorme. mas também com certa tristeza. Sabia que confiava em mim. – completou com seriedade.. Fitaram-se por um longo momento.. quero dizer. Parecia um tipo de déjà vu. O que é uma mentira. as meninas do escritório achavam que você tinha uma quedinha por mim. . Agora. para os seus gestos. quando me falou dos obstáculos que enfrentou no Brasil e depois aqui. Aquele estúpido jantar comprovou isso. Amanda beijou-lhe o pescoço. aceitando inclusive que voltasse para casa mesmo depois de saber sobre o amante. encostou sua testa na dela e disse-lhe numa voz grave e ligeiramente embargada: -Esperava que você não demorasse muito para perceber minhas intenções. me peguei olhando diretamente para você. E quando dormiu com Jacques.Eu precisava ter certeza de que você estava olhando para mim.Lembro-me de que não ocorreu nada de diferente. se jogou nos braços de um desequilibrado.. E passei a noite acordado tentando entender por que me sentia compelido a bater à porta do seu quarto e continuar conversando o resto da madrugada. apertando-a em seus braços e sendo envolvido no pescoço pelos braços dela. sinto-me à vontade em confessar-lhe que o meu amor por você começou durante aquele jantar em Roma.Conseguiu.. – acusou. Desde Roma tornei sua vida um inferno maior ainda. – enfatizou com uma nota de exasperação no tom melancólico. As palavras.. Jules riu e beijou-lhe o cabelo.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela enlaçou-lhe o pescoço e o beijou ternamente nos lábios. sabendo que me entende. Por fim.

Obsessão em Paris Veronique Gris Ajeitou-se em seu colo abraçando-lhe ainda mais a cintura e roçando o nariz na camisa cheirosa.Vi quando parou em frente a um Café e sentou-se no banco do passageiro.. agora. Ela não quis minha ajuda para retirá-la das ferragens. e que daria suporte para o diretor operacional de Paris agir na nova subsidiária. nós brigamos. No entanto. Jeremy Blair. -Jacques continua ligando para o meu celular. –suspirou. quando eu tinha um. como se a cabeça já rodasse em outra direção. Pelo o que averiguei depois. –respondeu-lhe automaticamente. E Jacques não está nela. na Irlanda. O que tem a me dizer sobre isso. por intermédio dos Roche. O diretor de seu setor seguiu o protocolo de conduta da empresa e demitiu-o. Jules balançou a cabeça devagar em negativa: -Há uma lista de pessoas autorizadas a visitá-la.. ela pediu-me para que não saísse. – ele parou por um momento. cedendo o volante a Jacques. Rossi? 115 . fora preso por bater em uma garota de programa. eu tinha um jantar de negócios com a minha ponte em Dublin. Não seria isso a atrapalhar-lhes a vida.Fui atrás. e. porém identificara tal sentimento com outros nomes. um tipo de queda-de-braço infantil. com a minha autorização. já que estava transtornada de raiva. discordei. sério e pensativo. já estava desacordada. -E quanto a você? – Como estariam as relações entre ele e os sogros. Jules parecia disposto a conversar a respeito. Percebeu-lhe os músculos do corpo se retesarem como se formassem uma couraça protetora ao redor de si.Jacques corria muito numa estrada estreita e com péssima iluminação. – falou-lhe de uma vez. os lábios apertados e a escuridão nos olhos que brilhavam febris fitando um ponto à frente. Naturalmente. Quando a ambulância chegou. -O que aconteceu na noite do acidente de Rochelle? – indagou-lhe interessada. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da testa e roçou-lhe os lábios nos dela antes de declarar com um sorriso significativo: -Antes de me acusar de intrometido. – acentuou num tom grave. era só uma questão de fazer-lhe um capricho. pois lhe tocou o queixo a fim de encará-la ao começar a falar sobre as últimas horas da esposa antes de perder a consciência: -Naquela noite. preciso dizer-lhe que mexi na sua bolsa para pegar o seu celular. que saíssemos mas para a casa de François e Sonia. ela gritou. Tudo aconteceu muito rápido. quero dizer. Ele fora demitido antes do meu casamento. Rochelle detestava esse tipo de jantar. num segundo eu via as lanternas traseiras do carro de Rochelle para. não esconderia mais nada de Jules. Caso ele evitasse o assunto. meio minuto depois. nomes errados. – suspirou resignado. ou melhor. acabei vendo um teste de gravidez. que o genro estava vivendo com outra mulher? -Acesso irrestrito. e por isso não mais a convidava. Mesmo observando-lhe a feição contrair-se numa expressão de fúria contida. Foi a primeira vez que o vi e. feito isso. imediatamente. as têmporas latejando: . mas eu o fiz assim mesmo. Mas. o reconheci como sendo um dos meus gerentes. – murmurou entredentes. mas teriam que conversar sobre isso mais dia menos dia.. Aproveitou o momento de confissões para não deixar nada mais passar incólume. -Talvez. ele consiga vê-la e nos esqueça de vez. não forçaria a barra. punha em ordem a sequência exata dos acontecimentos: . e ela saiu sozinha. Era um dos assuntos tabus. O resto você sabe. Olhos totalmente mergulhados na própria mente. vê-lo de rodas para o ar. naquela noite em especial. – interveio prontamente tentando amainar a raiva de Jules. após saberem. Era amada por ele.. lista esta feita pelos pais de Rochelle. os sulcos na testa profundos. com a transferência de Rochelle para uma clínica. -Isso não está certo. eu a ignorei. Sentira isso.

. Deixou-o parado no meio do quarto. bien. mas logo se adiantou em justificar-se: -Já faz algumas semanas que percebi diferenças sutis em seu corpo que. ter uma família com você e ver no que dá a mistura da minha visão objetiva e racional com a sua falta de noção. Quando o corpo dela começou a tremer ligeiramente. enfiou-se no banheiro. -Você está linda.Obsessão em Paris Veronique Gris -Como acha que me senti quando me chamou de gorda? –fingiu estar ofendida e surpreendeu-se ao vê-lo rir.. pensou sentindo múltiplas borboletinhas no estômago. não estou muito a fim de ser motivo de olhares. -Oui. -Você está grávida. quando reclamou de suas curvas. hoje pela manhã. –ponderou antecipando-se aos fatos. -É o que quer? – sondou com uma sobrancelha alçada. Voltou lendo as instruções. sabe disso. sabendo que em Paris ninguém reparava em ninguém. descendo a mão para a sua barriga. – Maintenant. com essa carinha séria como se fosse o presidente do mundo. pela primeira vez. atacar-lhe o ego para fazer com que me obedecesse. -Humm. saiu do banheiro e. Jules enterrou o nariz nos seus cabelos. é maravilhoso.. deliciosas curvas. -A ideia era essa. parece-me um pouco precipitado começar uma família. ma belle. excita-me engravidá-la de fato. com um sorriso. Alguns minutos depois. mas ela não pensava como os franceses. mon Dieu. –comentou sem graça. vamos comemorar! Ainda é cedo. concentrado. – comentou com naturalidade. olhou-o mais uma vez e suspirou apaixonada. Amanda tirou-lhe a caixa com o teste de gravidez da mão e. antes de confirmar ou não a gravidez. porque esses testes não são cem por cento confiáveis. espere aqui que buscarei o nosso oráculo.. mordendolhe a ponta do nariz e completou bem-humorado: -Você é completamente insana.. como ele é lindo. – disse-lhe fazendo-lhe um carinho na face. ficou feliz em vê-la chorar. – fitou-a com um sorriso malicioso. Amanda. afinal estamos juntos há tão pouco tempo?. respirou fundo e procurou ser pragmática: -Temos de ter calma.Meu rosto está acabado de tanto chorar. – constatou um Jules animado e pronto para vestir o paletó e sair.brincou. sorrindo. com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. quero muito tê-la engravidado. E. Antes de fechar-se no banheiro. -Excita-o pensar que me engravidou? – alfinetou-o com luxúria. -Que tal jantarmos no terraço? –sugeriu Amanda e completou ante o olhar interrogativo dele: . de pé.. por sinal. nem precisava fazer exame para saber. exibindo um sorriso que parecia ter-se colado em sua face. e acho que pegamos o Dôme aberto. – brincou. Amanda afastou-se poucos centímetros dele. -explicou-lhe ainda rindo. monsieur. 116 . – considerou fazendo careta. quero dizer. ele sorriu e. non? -Mulheres apaixonadas não batem bem da cabeça. quero ser pai dos seus filhos. ficou na ponta dos pés. mademoiselle. -Não o apavora ser pai. envolveu-lhe o pescoço com os braços e o apertou com força. depois. empolguei-me com a possibilidade de que estivesse grávida. -Então.. por debaixo do robe. descer as escadas até a sala. –disse jovialmente. arregalando os olhos: -Mas devo admitir que adoraria ter um bebê seu. –deu-lhe um tapinha na coxa e a pôs na cama para. Jules. não há nada acabado em seu rosto. mas Jules pouco se interessava por suas ponderações sensatas. –corrigiu-a. -Non.

? – indagou-lhe num fiapo de voz. porém ela sabia que Jules percebera a intenção por trás de sua afirmação. ele enfiou-se aos poucos. em cada centímetro de pele. – Escolha enquanto pode. Jules gemeu ao sentir-lhe a pressão da mão ao redor do sexo e ergueu-a por baixo das nádegas. Amanda mal sentia as pernas. – falou-lhe com o olhar sério. já que dividirá o corpo com nosso bebê. expondo-lhe a nudez. desesperada paixão: . na rua. cobriu a sua e ainda colada nela.. levando-a no colo até o outro lado da sala. O corpo de Jules pressionou-a contra a parede.. Ela atingiu o orgasmo tendo o bico do seio chupado pela boca que. a sacola com os discos no chão e a pasta executiva de ponta-cabeça. -Quer que eu saia ou entre. digamos. normalmente. haviam virado gelatina. num canto da parede.Obsessão em Paris Veronique Gris -Prefiro comer em casa. ele deslizava as mãos pelo seu corpo com a intimidade de quem muito o conhecia. Por baixo do robe. passando pelas malas no hall. Jules voltou-se para ela e a beijou. em seguida. sucumbido ao desejo que lhe queimava por dentro. e no rosto de Jules. -Trés bien. fazendo-a gritar numa voz rouca e fragilizada pelo prazer. afastando-os ainda mais. -sugeriu de um jeito meigo que. Ela segurou os próprios joelhos flexionados.... E com movimentos cadenciados. pois ele beijou-a nos lábios e vestiu-se. toda. digo. Acompanhou-o até a porta de entrada. Jules vestido e ela completamente nua. lá. sussurrou com paixão. mas um sorriso entalhado nos lábios.. Afastou as pernas para receber os dedos que lhe friccionaram o sexo. que dançavam seguras por vales e montanhas. Amanda desafivelou-lhe o cinto. no sofá. convencia Jules. a cabeça do pênis separando os lábios vaginais e abrindo passagem para o grande cilindro de carne quente e pulsante. a boca mordiscandolhe o lóbulo da orelha. persuasivamente. – torceu um canto da boca e arrematou estreitando os olhos : -Não acha que está muito frio no terraço?. Ela sentiu a aspereza do sobretudo contra sua pele sensível e macia de mulher e era uma sensação que a excitava.. cada ponto.. 117 . em torno dele. -Por acaso esqueceu-se de que sou adulta? – devolveu-lhe o sorriso sem deixar de ser firme.. numa voz rouca e abafada. Sem tirar a roupa. –gemeu-lhe ao ouvido. controlador. Captando o duplo sentido da pergunta. a excitação dele na respiração ofegante e na coreografia de suas mãos. baixou a calça até o meio das coxas e penetrou-a devagar.. – concluiu em tom de brincadeira. Num gesto eficiente e sensual. num vaivém sensual e lânguido. Antes de sair. O beijo aprofundou-se ao ponto de ela ter de segurar-se nele para não perder o equilíbrio. a brutalidade dura de seu sexo contra o seu corpo. enquanto ajeito bem bonitinho o terraço... depois de roçarem por entre os lábios e os afastarem delicadamente. fez o robe cair no chão.. dentro de si. sentindo o pênis arrebatando-a de tal forma que tinha a nuca encharcada de suor. Amanda arqueou a cintura para senti-lo todo.J’etaime. você tem de cuidar de sua saúde. fazendo com que o corpo dela absorvesse cada centímetro do pau sem machucá-la e sem ser demasiadamente gentil. deslizou o zíper da calça para baixo e pegou-lhe o pau duro e pronto. -Estou sempre com fome de você. -Entendi a mensagem e procurarei controlar meu lado. J’etaime.Amanda. Podia buscar comida pronta. planícies e cumes orvalhados. cada zona erógena que vibrava ao toque dele.. alcançando o clitóris e massageando-o. tenho de pegar a chave do carro. as têmporas latejavam. senão se importa. E convenceu. Aproveito e faço tudo de uma vez.

. podemos enchê-lo de porrada ao ponto de fazê-lo esquecer o próprio nome. Tenho mãe. – disse Jules sério. ótimo trabalho. de cabeça baixa e os braços soltos ao longo do corpo. completando o gesto do olhar. Descobrimos também que ele já espancou algumas ex-namoradas que não deram queixa e. – Se quiser. exasperado. e o Bleu tem uma filhinha. – balançou a cabeça. por sinal. -Merci. antes de entregá-lo aos meus amigos da polícia. retirando as luvas pretas de couro. Jules. inclusive. Trazia consigo uma pasta com anotações e fotografias das investigações feitas por ele e o seu parceiro durante mais de um mês.. –É crônico. com a cabeça. onde havia apenas uma mesa e uma cadeira com alguém sentado nela. registrado. lançou um olhar significativo a Bleu e. Em seguida. sofisticada e úmida de suor. ambos do escritório de investigações particulares Luna Rossa. Estava satisfeito por ter realizado o seu trabalho. messieurs – falou baixinho Jules. – afirmou Bleu lançando um olhar feroz que fazia jus às suas palavras. senão perde a graça. riscou um fósforo com a mão em concha. Virou-se para os detetives e apertou a mão de ambos. ainda atordoado após um eficiente golpe de Bleu à saída de sua casa. Mas eu cuido dele sozinho. esse tipo de verme a gente tem prazer em esmagar. Jules assentiu. Ele desceu do automóvel e aproximou-se dos homens que o aguardavam. despertando da inconsciência. -Esse prazer é todo meu. deixando-a surda do ouvido esquerdo.Obsessão em Paris Veronique Gris Ela fechou os olhos. contratado diretamente por monsieur Jules Brienne.. muito mais por isso do que pelo dinheiro que recebera. antecipando o prazer de arrebentar a cara do homem que havia espancado a mulher que ele amava e que carregava seu filho na 118 Rocco .. monsieur. -Não se acanhe. o cara não vai parar nunca. – o homem parou para analisar o efeito de suas palavras no cliente. sozinho. com lâmpadas de sessenta watts. docteur. Rocco apertou os lábios e tragou fundo o cigarro antes de entregar a pasta ao executivo. –fechou os punhos instintivamente. oscilavam no amplo galpão. eu e Bleu ficaremos felizes em ajudá-lo a completar o serviço. absorvendo na pele a fragrância que se desprendia da roupa dele. E era o mesmo que acabava de chegar. Luminárias de aço dispostas no teto. Epílogo pôs um cigarro entre os lábios. dirigindo um Renault sem placa e com vidros escuros. Encaminhando-se displicentemente até a cadeira onde Jacques Rodin começava a se mexer. monsieur Brienne. Jules estalava os dedos das mãos. fitando Jacques de longe. que comprimiu os lábios com raiva. voltando o seu olhar para Jacques Rodin. indicoulhe à saída do armazém abandonado e recentemente adquirido pelo grupo SBO. Duas passagens pela polícia por agressão. que. constatou com zombaria: -Vou esperá-lo despertar de todo. irmã. O moço bateu numa prostituta que ainda está na UTI e na própria irmã. enlaçou-lhe o pescoço com os braços e a cintura com as pernas e acompanhou-o na felicidade de se pular no abismo: -Eu também te amo. alavancaria ainda mais a situação financeira do seu escritório. sua assistente. -Está tudo aí. mulher.

seu ricaço de merdè. Tinha completa noção e controle do seu espaço de ação. Um sorriso debochado principiou-se em seus lábios ao constatar que estava sozinho com Jules. Não havia pressa nem ansiedade em seus gestos. para o seu próprio bem.. -Polícia? Está delirando. non? -alçou uma sobrancelha. –Quer foder a minha vida de novo. como vai a brasileira. aturdido. diante de um homem que verdadeiramente odiava. – prometeu com um sorriso cruel. provará um pouco do seu sangue com alguém do seu tamanho. Fez uma careta e prontamente ergueu-se. da distância entre ambos. a ironia cedendo espaço ao desprezo e a raiva. que caiu para trás levando a mão ao rosto e trazendo-a com sangue espesso. Lembra-se de mim? – a voz de Jules ressoou tranquila e insolente. -Bonsoir. 119 . Amanda concordara em prestar queixa contra Jacques. retirou o casaco longo e o paletó. – Vivo com o que ainda me sobrou e com o que sua esposinha me dava.Aliás. – acusou aos gritos. Baterá em mim.. -Agressão. – debochou. é? – gritou: -Eu era o melhor da equipe de gerentes. pronto para acabar com a pose superior e arrogante do executivo. Nunca fiz nada de errado na empresa. que desviou a cabeça. Ele era duro na queda. eu posso e você não. olhou ao redor certificando-se de onde estava. -Ninguém me contratou depois que me demitiram.. –declarou com firmeza e serenidade. ao torcer para baixo o lábio inferior.. e as outras mulheres agredidas por ele. caindo aos pés da cadeira onde estava minutos atrás.Obsessão em Paris Veronique Gris barriga. irônico. você sabia.Oui. -Ficará longe dela. – cuspiu as palavras enquanto jogava a jaqueta de couro no chão. por sinal. -Vou matá-lo. –Eu o entregarei à polícia. Jules bocejou. Já o almofadinha à sua frente. Mas antes. covarde. também foram minhas. está consciente ou você já a deixou em coma? Jules sorriu calmamente. isso sim. – gargalhou: . suas vítimas resolveram cooperar para a sua condenação por espancamento e estupro. acompanhadas por Armand. -Desgraçado! Jacques deu um passo à frente encurtando a distância entre ambos e com o braço direito estendido ao máximo. Jordan não queria me demitir. –pôs o dedo em riste. Riu-se antecipando o prazer de arrebentar o antigo chefe. Pelo contrário. Além do mais. Fora nocauteado por um selvagem de quase dois metros e acordara num lugar com pouca luz e muito silêncio. da força muscular do adversário e de sua fraqueza. ela me sustentava. se sentiu pressionado por você! Jules interrompeu-o fingindo conter um bocejo: -A diferença entre nós é básica. abrindo os braços e dando de ombros. -Não só lembro de você como também de suas mulheres que. Jacques fitou-o por um momento. refazia-se rapidamente dos golpes. também registrariam queixa. Você não tinha motivos para autorizar a minha demissão. Jacques gargalhou. foram minhas ideias que colocaram a SBO no topo. impassível: -Podemos começar quando quiser. Ficou de pé. Sabe por quê? Rochelle me amava! Jules avançou até acertar um soco no nariz de Jacques. quase alcançando o rosto do outro. sorrindo. tentou acertar o maxilar de Jules. oui. dobrou as mangas até a altura dos cotovelos e disse a mesma frase que usava ao iniciar as reuniões de trabalho. – completou. e isso é uma ordem. -Vou matá-lo com as minhas próprias mãos. –constatou quase alegre: .

d’accord? Vai dizer que não estava a fim de dar cabo no canalha?! – perguntou o ruivo com arrogância. mas nada de advogados. Jules. mudou o tom. depois. covarde! –disse entredentes. fascinado com a possibilidade de morrer espancado. em vez de proteger-se. Tinha de lutar por sua vida. Pensava apenas em voltar para casa.Obsessão em Paris Veronique Gris jogando-se contra o adversário e desferindo-lhe um gancho de esquerda na altura do queixo de Jules. fitando os homens ao seu redor. o sangue espalhando-se rapidamente no queixo e maxilares. O golpe foi tão forte que Jacques outra vez estatelou-se no chão sem evitar a colisão direta no concreto. imóvel e ainda preso pelo gigante. testando a personalidade do executivo. queria olhar no olho de cada um dos caras. Por trás de Jacques. Olhou ao redor e declarou encerrando a questão: . baixou a guarda o suficiente para tomar um socão na boca. Jacques urrou de dor. respirava alto e rouco. a boca arrebentada num corte fundo. nem a morte. Deve estar a par da moça que está na UTI. Inerte. não emitiu ação alguma.. Agora. Jules ignorou-os. Jules estava farto daquele lugar. os olhos vítreos. Este surpreendido pelo ataque. Livre os tentáculos de aço. sem perder o equilíbrio. Por um minuto. Um deles. Em seguida. afinal? -Vai nos entregar pra polícia? –indagou o ruivo ameaçadoramente. Os homens entreolharam-se e partiram para a ação. Ergueu-se e falou sério: -Acertaram ao fazer algo errado. abaixou-se e tocou-lhe no pescoço a fim de tomar-lhe a pulsação. assistindo à cena. Este teve a cabeça arremessada para trás mas. aproximou-se do corpo distendido no chão. Por um momento pensou em Amanda e que jamais a veria novamente. E com esse último pensamento. os maxilares tesos. Tentou soltar-se ao ver que Jacques avançava para acertar-lhe no estômago. Agora sim estava fodido. separassem-nos. alto e ruivo. Tinha de soltar-se do gigante que o segurava. tem família. soltou-se por fim. minha mãe me falou que está ajudando as mulheres que levaram porrada desse animal. O outro. Tentou levantar-se por duas vezes. pensou. deu uma gravata em Jacques. fracassou. Não podia permitir que ninguém.Sumam com o corpo. enfiou uma faca na barriga do homem imobilizado. não podia acreditar que havia testemunhado um assassinato. puxou os braços do homem que o prendia por trás. Oui. voltou-se com raiva para cima do loiro que. o braço forte do ruivo estrangulou-o. Jacques caiu inerte de cara no chão. levantando-o do chão.. -Sabemos quem é você. meio zonzo. mais brando: . -Quieto. Não pôde conter um suspiro de alívio. ficou fitando o teto. Não fechou os olhos. Quem ganhou. daquela gente. de pé. inclusive Jacques. Novamente. mas foi por apenas alguns segundos. cara! –xingou-lhe o desconhecido. Mas ele seria julgado e condenado por seus crimes. A coisa é feita na rua e termina na rua. pute também tem família. Então seria assim a sua morte? Jules pensou quase sorrindo. baixo e com aparência latina. -Filho da puta. já que durante toda a infância sobreviveu aos espancamentos. Até que o gigante o pegou novamente e quase lhe torceu o pescoço com o braço. –completou com raiva contida. Na terceira. Ouviu ao longe a sirene da polícia. 120 . vocês se igualaram a ele. Mas foi surpreendido por um par de garras de aço que o pegaram pelos braços. Jules observou mais dois homens. Estava de fato morto. do cheiro de sangue e morte. fechou os punhos e chamou Jules para a briga. Ele foi. é minha irmã.A gente agradece. Não podia deixá-la sozinha no mundo. – disse por fim..

blogspot. Fim Site da escritora: veroniquegris.Obsessão em Paris Veronique Gris Voltou até a cadeira enquanto os caras juntavam Jacques do chão e o carregavam para algum lugar. vestiu o paletó e o sobretudo. Desligou o gravador que registraria as confissões de Jacques para a promotoria. Passou no Dôme e pegou comida para dois.com 121 . Olhou para o amplo galpão e pensou: Jacques morreu aqui. Ajeitou as mangas da camisa. retirou a fita do gravador. O passado morreu aqui também.com Contato: vgveronique@hotmail. jogou-a no chão e a esmagou debaixo do sapato. E meio.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful