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liberdade e determinismo

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Introdução

A responsabilidade de escolha é, sem dúvida, um dos aspectos que melhor caracteriza o comportamento específico do homem. Isto significa que, ao agir, o homem não dispõe das formas de reagir próprias do animal. Enquanto o animal, desde o seu nascimento, possui instintos que lhe conferem um esquema de respostas comuns a todos os elementos da sua espécie, o homem não é mais do que um feixe de virtualidades a actualizar no decurso da vida. No dizer de Lucien Malson, no animal existe uma “natureza dada” que lhe garante uma estabilidade comportamental para sobreviver e se adaptar ao meio, enquanto no homem a natureza dada é substituída por uma “natureza adquirida”. Com esta natureza, o homem eleva-se acima da regularidade e fixidez inerentes aos seres de condição

física e biológica, acedendo a formas de comportamento que escapam àquelas determinações. Por isso, enquanto os animais e os outros seres que integram o mundo físico estão sujeitos a acontecimentos regidos pelo determinismo, o homem rege a sua acção pelo princípio da liberdade.

Determinismo

O determinismo é uma corrente filosófica segundo a qual a liberdade não tem qualquer sentido, dado a acção humana ser determinada por antecedentes próximos ou remotos, podendo ser explicada pelo mecanismo do esquema causa – efeito. O homem, autêntica marioneta, não disporia de qualquer margem de escolha, sendo a liberdade algo de ilusório. Nunca optaria verdadeiramente, antes teria que seguir uma linha condutora exteriormente orientada e que lhe fora prévia e inexoravelmente determinada. O destino, quer encarado como força abstracta quer como desígnio divino, seria o agente condutor dos fios que tecem a trama da vida, pelo que as escolhas que o homem faz seriam apenas aparentes. Podemos então definir o determinismo como uma teoria filosófica que nega a liberdade do ser humano, o qual se sujeita, tal como os demais seres da natureza, ao carácter fixo e inalterável das leis. Há várias formas assumidas pelo determinismo. Em todas elas, o

homem aparece sem vontade própria, pelo que não é o verdadeiro autor dos seus actos.

Vejamos o quadro seguinte que mostra os tipos de determinismo existentes:

Defende que todas as coisas se regem pela regularidade de leis, o que possibilita a previsão e o Determinismo Físico controlo de todos os fenómenos, inclusive os que dizem respeito ao homem. O determinismo é, neste sentido, o princípio que sustenta a possibilidade de elaborar leis científicas. Sustenta que o homem está submetido, como as demais espécies vivas, a códigos biológicos Determinismo Biológico que lhe determinam a conduta. Prisioneiro da herança genética e da sua constituição biofisiológica, o homem não teria qualquer responsabilidade nas acções que pratica. Proclama a existência de uma relação intrínseca entre a constituição psicológica de cada Determinismo Psicológico homem e os motivos que o impelem à acção. Quando o homem se decide a agir de determinada maneira, não pode deixar de querer aquilo que quer, em virtude da sua personalidade,

das suas representações mentais, Determinismo Sociológico das suas crenças, medos ou desejos. Advoga que os actos individuais são da inteira responsabilidade da sociedade a que o individuo pertence. O homem é um produto determinado pela cultura em que se desenvolve, pelo que aquilo que se pensa, sente ou faz resulta dos padrões e regras sociais que lhe são exteriormente impostos. Afirma que Deus, como criador do homem e do mundo, continua a Determinismo Religioso governá-los de acordo com a sua sabedoria infinita e de poder absoluto. Sendo assim, o querer humano é determinado pela vontade divina, o que o liberta da responsabilidade da acção.

Liberdade

Etimologicamente, o termo liberdade deriva de libertas, palavra latina que significa autonomia, independência. Neste sentido, o homem livre será aquele que não tem de servir ninguém. Vamos tomar o exemplo de duas questões colocadas a várias pessoas:

O que é ser livre?

Considera que o homem é livre?

Na primeira questão a maioria das respostas obtidas basearam-se nesta resposta: “Liberdade é a capacidade de fazermos tudo o que quisermos.” Na segunda, a resposta foi que “ o homem não é livre, porque não pode fazer tudo aquilo que quer.”

Nestas respostas, a liberdade é perspectivada como entidade abstracta e, sob este ponto de vista, o conceito apresentado é correcto na sua globalidade, pois a liberdade é, de facto, independência, não estar sujeito a ninguém nem a nada. Expressarmo-nos pela negativa, diremos que a liberdade se identifica com a ausência total de imposições e mal-estares. Para os defensores, a afirmação da liberdade como algo absoluto, a liberdade seria equivalente a uma total determinação, tendo o homem, em cada momento ou circunstância da sua vida, a possibilidade de fazer o que lhe agradasse, completamente alheio a condicionalismos de qualquer ordem. Tratar-se-ia de uma liberdade de indiferença que, a ser possível, faria da acção humana algo de gratuito, na medida em que se agiria por agir, sem haver motivos impulsionadores da acção. O indivíduo agiria voluntária e espontaneamente, como se o seu querer momentâneo não possuísse qualquer limite.

Torna-se importante referir uma pequena noção de “liberdade”, noção esta que tanto se pode definir de modo negativo, como de modo positivo. No primeiro caso, diz-se que ela é a ausência de constrangimento. No segundo, que é a capacidade de fazer tudo o que se quer. Porém, o carácter amplo e vago destas definições exige que se precisem e clarifiquem alguns dos sentidos que vulgarmente se atribuem à palavra liberdade.

A seguinte grelha mostra os distintos modelos de liberdade:

Possibilidade de dar livre curso à actividade corporal sem a presença de obstáculos ou coacções. Caminhar, nadar, passear, implicam Liberdade Física liberdade de movimentos a realizar pelo corpo. O prisioneiro, o acorrentado conhecem obstáculos externos que os privam da autonomia física de movimentos. Também carecem de liberdade os actos que, sob coacção, o condenado a trabalhos forçados é obrigado a executar. A este nível, a liberdade identificase com a saúde e o bom Liberdade Biológica funcionamento orgânico. A pessoa doente não é livre, é biologicamente limitada pela presença de obstáculos ligados ao equilíbrio interno do corpo que a impedem de fazer aquilo que deseja. A nível da consciência, a liberdade é algo de pessoal e de interior, identificando-se com a capacidade Liberdade Psicológica de escolher uma de entre as várias alternativas que se oferecem. Implicada nas decisões tomadas individualmente, esta forma de liberdade faz com que os actos praticados assumam a condição de verdadeiros actos voluntários. Num sentido social e político, a liberdade refere-se às condições que

Liberdade Sociológica

permitem a realização das liberdades básicas individuais. De modo diferente da psicológica, esta forma de liberdade é outorgada do exterior, dado que ela não depende do indivíduo, mas do modo como os grupos sociais se organizam. Significa, no sentido que Kant lhe atribuiu, determinação da acção que

Liberdade Moral

é norteada por princípios e se executa contra os desejos e inclinações sensíveis. Neste sentido, a liberdade não consiste propriamente no que se faz, mas no modo como se faz. A acção livre não é a que resulta de inclinações ou tendências, mas de boa vontade ou intenção.

Condicionantes da acção humana

Contudo existem algumas condicionantes da acção humana, ou seja, o homem concreto, identificável pelo nome e pelo rosto, vivencia situações concretas, e é nelas que sente e se apercebe de alguns obstáculos que se opõem à realização daquilo que deseja. Temos então, as condicionantes físico – biológicas: todo o homem é condicionado pela morfologia e fisiologia do seu corpo. A hereditariedade também está inserida neste grupo de condicionantes, uma vez que é por princípio uma condicionante básica das nossas possibilidades de acção. Como condicionantes histórico – culturais temos as regras da sociedade em que o indivíduo está inserido e que norteiam o seu relacionamento com os outros, fala-se aqui portanto de um processo de socialização. Bem como os padrões culturais.

Concluindo, é do conhecimento de todos que existem entraves quando, muitas vezes, pretendemos actuar. Alguns obstáculos situam-se em nós próprios, enquanto outros provêm do exterior. É que os acontecimentos, o mundo natural e biológico, o espaço físico e social, o corpo, a hereditariedade, as crenças, os hábitos e até mesmo o nosso inconsciente interferem como condicionantes da nossa actuação livre.

Conclusão
Como forma de conclusão deste trabalho, a liberdade como algo absoluto é um mito, mas isso não significa que o homem não disponha de uma margem para exercer livremente as suas actividades. E é ao nível da acção concreta, localizada num aqui e num agora, no momento em que cada homem enfrenta os problemas e tem de lhes dar saída, que faz sentido equacionar e discutir o problema da liberdade. A elaboração deste trabalho levou-me a questionar a mim própria de alguns assuntos do dia – a – dia, relacionados com estes dois conceitos, Determinismo e Liberdade. Este trabalho também foi instrumento de compreensão de algumas questões com as quais lidamos no nosso quotidiano.

Anexos

SOMOS LIVRES? DETERMINISMO E LIBERDADE
por Anselmo Borges padre e professor de Filosofia23 Fevereiro 2008 Esta é a pergunta decisiva. De facto, se não somos livres, o que se chama dignidade humana pode ser uma convenção, mas não tem fundamento real. Mas quem nunca foi assaltado pela pergunta: a minha vida teria podido ser diferente? Para sabê-lo cientificamente, seria preciso o que não é possível: repetir a vida exactamente nas mesmas circunstâncias. Só assim se verificaria se as "escolhas" se repetiam nos mesmos termos ou não. Não há dúvida de que a liberdade humana é condicionada. Mas ela existe ou é uma ilusão? Não vêm agora neurocientistas dizer que, mediante dados da tomografia de emissão de positrões e da ressonância magnética nuclear funcional, se mostra que afinal as nossas decisões são dirigidas por processos neuronais inconscientes? De qualquer modo, em 2004, destacados neurocientistas também tornaram público um "Manifesto sobre o presente e o futuro da investigação do cérebro" - cito Hans Küng, no seu Der Anfang aller Dinge (O princípio de todas as coisas) -, revelando-se prudentes no que toca às "grandes perguntas": "Como surgem a consciência e a vivência do eu? Como se entrelaçam a acção racional e a acção emocional? Que valor se deve conceder à ideia de 'livre arbítrio'? Colocar já hoje as grandes perguntas das neurociências é legítimo, mas pensar que terão resposta nos próximos dez anos é muito pouco realista." É preciso continuar as investigações, no sentido de perceber o nexo entre a mente e o cérebro. "Mas nenhum progresso terminará num triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo que alguma vez chegássemos a explicar a totalidade dos processos neuronais subjacentes à simpatia que o ser humano pode sentir pelos seus congéneres, ao seu enamoramento e à sua responsabilidade moral, a autonomia da 'perspectiva interna' permaneceria intacta. Pois também uma fuga de Bach não perde nada do seu fascínio, quando se compreende com exactidão como está construída." A liberdade não é desvinculável da experiência subjectiva, da "perspectiva interna". Essa experiência é transcendental, no sentido de que se afirma até na sua negação. De facto, se tudo se movesse no quadro do determinismo total, como surgiria o debate sobre a liberdade? Essa experiência coloca-se concretamente no campo da moral e da responsabilidade. Neste contexto, há um célebre exercício mental de Kant na Crítica da Razão Prática, que é elucidativo e obriga a pensar. Suponhamos que alguém, sob pena de morte imediata, se vê confrontado com a ordem de levantar um falso testemunho contra uma pessoa que sabe ser inocente. Nessas circunstâncias e por muito grande que seja o seu amor à vida, pensará que é possível resistir. "Talvez não se atreva a assegurar que assim faria, no caso de isso realmente acontecer; mas não terá outro remédio senão aceitar sem hesitações que tem essa possibilidade." Existem as duas possibilidades: resistir ou não. "Julga, portanto, que é capaz de fazer algo, pois é consciente de que deve moralmente fazê-lo e, desse modo, descobre em si a liberdade que, sem a lei moral, lhe teria passado despercebida."

O que confunde frequentemente o debate é a falta de esclarecimento quanto ao que é realmente a liberdade. Ela é a não submissão à necessidade coactiva, externa e interna, mas não pode, por outro lado, ser confundida com a arbitrariedade e a pura espontaneidade - não implica a espontaneidade a necessidade? A liberdade radica na experiência originária do Homem como dom para si mesmo. Paradoxalmente, é na abertura a tudo, portanto, no horizonte da totalidade do ser, que ele vem a si mesmo como eu único e senhor de si. Então, agir livremente é a capacidade de erguer-se acima dos próprios interesses, para pôr-se no lugar do outro e agir racionalmente. É preciso distinguir entre causas e razões. Quando se age sob uma causalidade constringente, não há liberdade. Ser livre é propor-se ideais, deliberar e agir segundo razões e argumentos, impondo limites aos impulsos, inclinações e desejos, o que mostra que o Homem pode ser senhor dos seus actos e, assim, responsável, isto é, responder por eles.

Bibliografia

Abrunhosa, Maria Antónia; Leitão, Miguel, 2005, Um outro olhar sobre o mundo, 2ª Edição, Lisboa.

Webgrafia

http://ocanto.esenviseu.net/lexicon/dtermins.htm http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1003140&page=2

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