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O Fidalgo

Gil Vicente apresenta-nos o Fidalgo com toda a sua vaidade e presunção,


“fumoso”(99), ricamente vestido e seguido de um pajem que lhe soerguia a cauda do
manto e lhe transportava uma cadeira de espaldas. Habituado a gozar de privilégios
especiais, o Fidalgo nem sequer pensa que poderá ir para o Inferno. Assim, para
justificar o seu direito a entrar na barca celestial, apresenta apenas ao Anjo, como único
argumento, a sua condição social:”Sou fidalgo de solar / é bem que me recolhais” (80 –
81).
A sua altivez e jactância levam-no a exigir que todos o tratem por “Vossa
Senhoria” de acordo com os seus pergaminhos nobiliárquicos. Quando o Anjo lhe diz
uma frase que ele considerou pouco cortês (“Pera vossa fantesia / mui estreita é esta
barca.”) (86 – 87), o Fidalgo reage logo violentamente: “Pêra senhor de tal marca / não
há aqui mais cortesia?” (88 – 89). Mas o Diabo, momentos antes, tratara-o por tu nos
vv. 45-49, sem qualquer reacção da parte do Fidalgo. Porquê? Certamente porque este
ficou tão espantado com a revelação do Diabo que nem teve presença de espírito para o
meter na ordem. Aliás é o próprio Diabo quem, passado este breve momento escarninho
e zombeteiro, passa prontamente para o tratamento cerimonioso, depois de um verso de
transição: “Embarcai! Hou! Embarcai” (50). Mas, na cena seguinte, depois de ter sido
humilhado e condenado, vemos o Fidalgo tão abatido e deprimido que, quando o
Onzeneiro o trata por vossa senhoria (241), o Fidalgo já reage de modo inverso: “Dá ao
demo a cortesia!” (242). Mas, nessa altura, já não era um fidalgo mas um pobre
condenado ao Inferno; o próprio Diabo ameaça espancá-lo: “Dar-vos-ei tanta pancada /
com um remo, que renegues!” (246-247).
Ao Fidalgo parece-lhe a barca infernal um “cortiço” (31), isto é, uma barca
muito ordinária e reles para transportar um nobre tão poderoso e importante como ele.
Mas o Diabo e o Anjo formulam as suas críticas, que se podem resumir assim: que ele
vivera a seu prazer (47), isto é, que fizera tudo quanto quisera, que se entregara aos
prazeres, fora tirano e, consequentemente, desprezara os pequenos (103), ou seja, os
elementos do povo. Para demonstrar que ele vivera a seu prazer, analisa Gil Vicente a
vida sentimental do Fidalgo, repartida entre duas mulheres: a esposa e a amante. Mas o
que o Fidalgo ignora e que o dramaturgo denuncia, para caracterizar melhor a sociedade
do seu tempo, é que tanto uma como a outra lhe eram infiéis e tinha cada uma delas o
seu amante.
Mas Gil Vicente não condena só aquele aristocrata mas todos os seus
antepassados, como afirma expressamente o Diabo quando informa o Fidalgo que
passará para o Inferno assim como “passou vosso pai” (53), isto é, o autor generaliza e
condena a nobreza como classe social. O criado ou pajem que acompanha o Fidalgo não
entra em nenhuma das barcas. Porquê? Evidentemente que não representa ali um tipo,
uma alma de um defunto, mas um simples elemento caracterizador e distintivo, tratado a
nível de objecto, que o dramaturgo risca do palco assim que deixa de ser necessário.
Mas a sua função simbólica é deveras importante na medida em que representa um
elemento do povo, a principal vítima da opressão da nobreza que, manifestamente, não
poderia acompanhar o Fidalgo na sua viagem para o Inferno.
Elementos alegóricos

Analisando com atenção, o cais, as barcas, o Diabo e o Anjo são elementos


concretos mas representam realidades abstractas, isto é, simbolizam determinados
conceitos:

Cais = fim da vida

Barcas = viagem para o Céu ou para o Inferno.

Diabo / Anjo = condenação ou salvação.

Ao utilizar estes elementos, Gil Vicente constrói uma alegoria que se vai
desenvolvendo ao longo de toda a peça. É através deste recurso que o autor critica a
sociedade em que vive, apontando os seus principais erros e vícios.

Para saber
A alegoria é um recurso estilístico que consiste na representação de uma
realidade abstracta através de uma realidade concreta, por meio de analogias,
metáforas, imagens e comparações. Trata-se de uma representação simbólica.

O Fidalgo traz consigo alguns elementos cénicos, os quais têm também um


significado abstracto e possibilitam identificar a classe social a que pertence:

Pajem = tirania

Cadeira = poder

Manto = vaidade

O Fidalgo constitui assim uma personagem-tipo, pois, na realidade, representa


uma classe social – a nobreza.

Sabes o que significa fidalgo?

Semanticamente, fidalgo é um indivíduo que tem títulos de nobreza; em


sentido popular e pejorativo é um individuo que vive sem trabalhar e que anda bem
vestido. Morfologicamente, fidalgo é uma palavra composta por aglutinação – filho de
“algo”.
Para saber

Palavras simples são aquelas que possuem apenas um radical.

Palavras compostas são as que têm mais do que um radical ou palavra. Há duas
espécies de palavras compostas:

a) Compostas por Justaposição

Quando se juntam duas palavras que mantêm a sua integridade gráfica, embora o
significado da nova palavra seja diferente.

Exemplos: amor-perfeito; couve-flor; guarda-roupa; saca-rolhas; lua-de-mel.

b) Compostas por Aglutinação

Quando duas ou mais palavras perdem a sua integridade gráfica e se fundem numa
só.

Exemplos: aguardente (água ardente); girassol (gira sol); malmequer (mal me quer);
vinagre (vinho acre); planalto (plano alto).

Exercício

1. Assinala com V (verdadeiro) ou F (falsa) as seguintes afirmações:

a) O Fidalgo dá sinais de arrependimento.


b) O Fidalgo recusa-se a entrar na Barca do Inferno.
c) O Diabo humilha o Fidalgo.
d) O Pajem entra na Barca do Inferno.

Tipos de cómico
O cómico é algo que faz rir. Como Gil Vicente trabalhava para a corte,
procurando diverti-la, seguia a máxima “a rir, corrigem-se os costumes”. Assim, nas
suas obras recorre a vários tipos de cómico:

Cómico de linguagem – o discurso e o próprio vocabulário que o compõe provocam o


riso.

Exemplo: “Fid. – Que giricocins, salvanor!


Cuidam que sou eu grou?”
Cómico de situação – as circunstâncias que envolvem a personagem fazem rir.

Exemplo: “Fid. – Que leixo na outra vida


Quem reze sempre por mi.
Dia. – Quem reze sempre por ti?
Hi hi hi hi hi hi hi hi!...”

Cómico de carácter – a maneira de ser e de se apresentar da personagem causam o


riso.

Exemplo: “Fid. – Que me leixês embarcar


Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.”

Ironia

A ironia é também um recurso estilístico muito usado por Gil Vicente para
provocar o riso. Consiste em exprimir o contrário daquilo que se pensa ou sente. A
ironia é utilizada para zombar de alguém, assim como para censurar ou humilhar.

Exemplos: “Dia. – à barca, à barca, bõa gente”


Os passageiros da barca do Diabo não são boas pessoas, vão para o Inferno, se fossem
iam na barca do Anjo para o Céu.

“ Dia. – Embarqu´a a vossa doçura


Que cá nos entenderemos…”
Com toda a certeza que o Diabo não considerava o Fidalgo uma doçura, um amor de
pessoa.

Registos de Língua

Para comunicarem, oralmente ou por escrito, as pessoas usam registos de língua


diferentes consoante as circunstâncias, o receptor, etc… Há uma necessidade de
adequação do registo à situação. Nas cenas I e II do Auto da Barca do Inferno
encontramos três registos de língua:

Registo corrente

Corresponde à norma, à língua padrão, utilizado e compreendido pela


maioria dos falantes. É caracterizado pelo uso de palavras, expressões e construções
gramaticais simples.

Exemplo: “Fid. - Porém a que terra passais?


Dia – Pera o Inferno, senhor.
Fid. – Terra é bem sem-sabor.”
Registo cuidado

Raramente é utilizado na oralidade, excepto em discursos políticos, sermões,


conferências, entre outros acontecimentos solenes. Caracteriza-se pelo emprego de
um vocabulário mais rebuscado e de construções gramaticais mais complexas e
elaboradas do que as da linguagem corrente.

Exemplo: “Anjo – Vós irês mais espaçoso


Com fumosa senhoria”

Registo popular

Caracteriza-se por frequentes desvios da norma, tanto ao nível do


vocabulário como da sintaxe. O vocabulário inclui muitas vezes provérbios e
regionalismos. É utilizado pelas pessoas menos alfabetizadas.

Exemplo: “Fid. – Par Deus, aviado estou!


Cant´a isto é já pior…
Que jiricocins, salvanor!”

Fenómenos fonéticos

Ao leres o Auto da Barca do Inferno, tens algumas dificuldades em perceber


determinadas palavras, apesar de estar escrito em Língua Portuguesa. De facto, a língua
da época de Gil Vicente não é a que hoje se fala em Portugal. Isto significa que a
língua portuguesa, tal como as outras línguas, foi objecto de transformações, desde a
sua origem até ao momento actual, isto é, sofreu uma evolução.

É importante conheceres os fenómenos fonéticos que estiveram na origem da


evolução de algumas palavras, pois assim compreenderás melhor a sua ortografia e o
seu significado.

Ad sic > adsic > adsi > assi > assim

Queda de fonemas

Aférese – queda de um fonema no inicio da palavra.


Ex.: avantagem > vantagem

Síncope – queda de um fonema no meio da palavra.


Ex.: rivu >rio
Apócope – queda de um fonema no final da palavra.
Ex.: - amore >amor

Adição de fonemas

Prótese – adição de um fonema no inicio da palavra.


Ex.: lembrar > alembrar

Epêntese – adição de um fonema no meio da palavra.


Ex.: humile > humilde

Paragoge – adição de um fonema no fim da palavra.


Ex.: ante > antes

Alteração de fonemas
Metátese – permuta de um fonema dentro da sílaba ou palavra.
Ex.: semper > sempre

Assimilação – um fonema modifica-se por influência de outro, tornando-se igual a este.


Ex.: ipsu > isso

Dissimilação – dois fonemas iguais tornam-se diferentes.


Ex.: liliu > lírio

Vocalização – uma consoante transforma-se em vogal.


Ex.: nocte > noite

Sonorização – uma consoante surda torna-se sonora.


Ex.: lacu > lago

Nasalação – um som oral torna-se nasal por influência de outro.


Ex.: manu > mão

Desnasalação – um som nasal torna-se oral.


Ex.: luna > lua

Palatalização – passagem de um som ou grupo de sons não palatal a palatal.


Ex.: clamare > chamar

Contracção – duas vogais transformam-se numa só – crase – ou duas vogais


tranformam-se num ditongo – sinérese.
Ex.: pedem > pede > pee > pé (crase)
Legem > lege > lee > lei (sinérese)
Exercícios

1. explicita o estado de espírito do Fidalgo, fazendo corresponder as palavras da


coluna da esquerda aos respectivos exemplos.

Arrependimento “Quantas mentiras que lias / e tu … morto de prazer!”

Humilhação “Entremos, pois que assi é”

Resignação “Ó triste! Enquanto vivi / não cuidei que o i havia”

2. identifica a classe social que o Fidalgo representa.

a) Nobreza
b) Clero
c) Burguesia
d) Povo

3. Identifica as figuras de estilo presentes nos versos:


“Dia. – Quem reze sempre por ti! / Hi hi hi hi hi hi hi!...”

a) Metáfora
b) Ironia
c) Comparação
d) Alegoria

4. Identifica os fenómenos fonéticos que ocorrem na passagem das seguintes


palavras para o português actual:

Ventezinho > ventozinho Assimilação

I > aí Dissimilação

Fantesia > fantasia Prótese

Assi < assim vocalização

Pera > para sonorização

Focu > fogo palatalização

Multu > muito paragoge

Pluvia > chuva síncope

Panes < pães nasalação


Prof. Maria Filomena Ruivo Ferreira

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